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Numero do processo: 10435.721112/2010-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 1402-002.671
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, Por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir o coobrigado Armando Rodrigues de Almeida do polo passivo da relação jurídico tributária. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa que votou por negar provimento integralmente ao recurso.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio César Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Leonardo Luís Gonçalves Pagano, Lizandro Rodrigues de Sousa, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei.
Nome do relator: LUCAS BEVILACQUA CABIANCA VIEIRA
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DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Recorrente COMERCIAL OESTE LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2006 OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. NÃO COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. Caracterizamse como omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. RESPONSABILIDADE PASSIVA SOLIDÁRIA. O mero inadimplemento de tributo não caracteriza fraude à lei suficiente para promover a responsabilidade passiva solidária do sóciogerente Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir o coobrigado Armando Rodrigues de Almeida do polo passivo da relação jurídico tributária. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa que votou por negar provimento integralmente ao recurso. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente. (assinado digitalmente) Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 43 5. 72 11 12 /2 01 0- 21 Fl. 1530DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio César Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Leonardo Luís Gonçalves Pagano, Lizandro Rodrigues de Sousa, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei. Relatório Fl. 1531DF CARF MF Processo nº 10435.721112/201021 Acórdão n.º 1402002.671 S1C4T2 Fl. 1.112 3 Trata o presente feito de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela DRJ de Recife de improcedência de impugnação da contribuinte para manter integralmente o credito e a caracterização da responsabilidade solidária, referente a suposta omissão de receitas apurada no anocalendário 2006. Tratase de auto de infração lavrado nos autos do Procedimento Fiscal n. 2.009/00074 em face de Comercial Oeste LTDA. Requisitados documentos e sem a entrega integral, segundo o que se abstrai dos documentos juntados aos autos, a Fiscalização solicitou informações aos estabelecimentos bancários em que a contribuinte detinha contas. Ante as informações prestadas, concluise que haveria omissão de receitas. Segundo relatório da DRJ, seguiuse apresentação da impugnação em que o contribuinte alegou: 3.1 o lançamento seria arbitrário e inconsistente, porquanto diversos créditos havidos nas contas bancárias, considerados como omissão, não representariam faturamento da empresa; 3.2 não seria possível a caracterização de omissão de receita corn suporte apenas no art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996, dispositivo que macularia os princípios da legalidade, da segurança jurídica e da razoabilidade; 3.2 a multa aplicada teria caráter confiscatório e os juros seriam ilegais; 3.3 seria equivocado concluir que os sócios ou administradores podem ser responsabilizados sempre que a pessoa jurídica deixar de pagar os seus débitos. Contra o inadimplemento puro e simples, as normas tributarias já estipulariam as respectivas sanções, de modo que não se poderia erigilo "como razão para aplicação da transferência da responsabilização tributária ao administrador". A aplicação do art. 135 do CTN não prescindiria da apuração da conduta dolosa de quem se pretende responsabilizar, em prévio processo, com garantia 5 ampla defesa e ao contraditório. 4. Requereuse, por fim, revisão do lançamento e realização de prova pericial, apresentandose quesitos e indicandose assistente técnico. A r. DRJ por maioria de votos manifestouse por considerar improcedente a impugnação em Acórdão assim ementado: INCONSTITUCIONALIDADE DE LEL INCOMPETÊNCIA PARA APRECIAÇÃO. As autoridades administrativas são incompetentes para apreciar arguições de inconstitucionalidade de lei, tarefa privativa do Poder Judiciário. PEDIDO DE PERÍCIA. PRESONDIBILIDADE. Negase o pedido de perícia quando os elementos coligidos nos autos são suficientes para o julgamento da lide. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. NÃO COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. Caracterizamse como omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Fl. 1532DF CARF MF 4 RESPONSABILIDADE PASSIVA SOLIDARIA. INFRAÇÃO À LEI. SÓCIO GERENTE. CARACITRIZAÇÃO. O sócio gerente é pessoalmente responsável pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com infração A lei. Na caracterização da sujeição passiva, por meio da lavratura de termo próprio, é prescindível a apuração de dolo. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, Cofins e CSLL. A decisão prolatada no lançamento matriz estendese aos lançamentos decorrentes, em razão da intima relação de causa e efeito que os vincula. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O Julgador a quo Charles Mayer de Castro Souza apresentou declaração de voto em que defendeu a necessidade de diligência em razão da "possibilidade de que valores incluídos no calculo da omissão possam ter como origem a própria conta da impugnante (empréstimos, fundos de investimento etc.)." Os contribuintes apresentam então o presente Recurso Voluntário em que sustentam que muitos dos valores lançados por presunção (tabela 1), que chegam ao montante de R$ 10.566.315,23 (dez milhões, quinhentos e sessenta e seis mil, trezentos e quinze reais e vinte e três centavos), teriam sua origem externa ao faturamento. Que muitos valores que representam movimentação financeira não representam receita., exemplificam essas situações conforme a tabela 2 abaixo: Fl. 1533DF CARF MF Processo nº 10435.721112/201021 Acórdão n.º 1402002.671 S1C4T2 Fl. 1.113 5 Em relação ao item “a” afirma existirem valores decorrentes de limites de crédito que a empresa mantinha junto ao banco Bradesco. Que no dia em que o limite era aproveitado entrava na conta um crédito Redução do Saldo devedor, sendo debitado no dia da quitação com a mesma descrição (redução do Saldo Devedor). Assim, não se tratando de novos ingressos, não seria receita tributável. Em relação ao item “b”, afirma trataremse de aplicações financeiras da empresa, que foram acrescentadas a base de cálculo dos impostos sem que representassem receita nova. Quanto ao idem C da tabela, afirma que se trata de valores recebidos à título de devolução de mercadorias que apresentaram eventuais avarias e/ou incentivos promocionais. Quanto ao item “d”, afirma se tratarem de transferência de recursos entre contas pertencentes à recorrente. Não se tratando, portanto, de receita tributável. Por fim, em relação ao item “e” (troco do cheque), a Recorrente afirma que se trata de prática comum receber cheques com valores superiores ao da transação, e que, quando estes cheques emitidos por terceiros são sacados, deve dar a diferença entre o cheque apresentado e o valor da operação. Que em suas atividades é muito comum receber cheques sem fundo, o que acarretaria na multiplicidade de movimentações financeiras que efetivamente ocorra o ingresso de novas receitas. Afirma que os depósitos bancários foram tomados como um indício de omissão, que deveriam de outras provas que o consubstanciassem. Que a utilização de provas indiciárias e a presunção prevista no art. 42 da Lei. 9.430/1996 ofenderiam os princípios da legalidade, razoabilidade e segurança jurídica. Aponta ainda que segundo a Súmula 182 do extinto TFR, seria incabível o lançamento com base única e exclusivamente com base em extratos ou depósitos bancários. Fl. 1534DF CARF MF 6 Sustenta ainda a abusividade dos juros, que ofenderia o art. 3º da Lei, 8.620/1993, e a confiscatoridade da multa de 75%. Afirma ainda que é a utilização de presunção feririam o princípio de não confisco e do Estado de Direito. Por fim, sustenta que não se configura a responsabilidade solidária prevista no art. 135, requerendo ao fim a revisão da autuação, bem como perícia contábil, alertando que eventual inscrição e execução fiscal do débito aqui discutido seriam nulos. É o relatório. Fl. 1535DF CARF MF Processo nº 10435.721112/201021 Acórdão n.º 1402002.671 S1C4T2 Fl. 1.114 7 Voto Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator 1. DA ADMISSIBILIDADE: O Recurso Voluntário é tempestivo e assinado por patrono competente. 2. DO MÉRITO 2.1. Da omissão de receita depósitos bancários de origem não comprovada (art.42, Lei n.9.430): Em sede de RV sustenta a recorrente que os depósitos bancários foram tomados como um indício de omissão, que deveriam estar aliados a outras provas que o consubstanciassem. Que a utilização de provas indiciárias e a presunção prevista no art. 42 da Lei. 9.430/1996 ofenderiam os princípios da legalidade, razoabilidade e segurança jurídica. A contribuinte lança inúmeros argumentos de ordem constitucional para que afastemos a autuação: (i) contrários a aplicação da presunção prevista no art.42 da Lei n. 9.430/96 sustenta ofensa a legalidade, razoabilidade, segurança jurídica, Estado de Direito, não confisco; (ii) contra a multa de 75%, sustenta ofensa ao não confisco. Inicio minha manifestação por esses pontos, por sua pertinência temática e para esclarecer que a presente decisão é proferida dentro dos limites de competência deste Conselho e em consonância com o Sistema Tributário Nacional. Nessa toada, estabelece o Decreto 70.235/72, em seu art. 26A: Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009): § 6º O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – que fundamente crédito tributário objeto de: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no 10.522, de 19 de julho de 2002; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Fl. 1536DF CARF MF 8 b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Referido dispositivo foi recepcionado no art. 62 do Regimento Interno do CARF, conforme abaixo reproduzo: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002; d) Parecer do AdvogadoGeral da União aprovado pelo Presidente da República, nos termos dos arts. 40 e 41 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993; e e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos do art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1973. § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Nessa linha deixo de conhecer quaisquer argumentos de ordem constitucional e principiológica que tenham sido utilizados pelo contribuinte para afastar a aplicação de dispositivos legais que não tenham sido expelidos do sistema jurídico por atuação expressa dos tribunais superiores, do poder legislativo ou executivo no exercício regular de sua competência. Fl. 1537DF CARF MF Processo nº 10435.721112/201021 Acórdão n.º 1402002.671 S1C4T2 Fl. 1.115 9 Passo à análise da presunção de omissão de receitas com fulcro no art. 42 da Lei. 9.430/96, sem adentrar, como já afirmado, em discussões quanto a validade e recepção no ordenamento jurídico do referido dispositivo que assim se apresenta em sua literalidade: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Referido artigo veicula presunção relativa, que pode, portanto, ser afastada pelo contribuinte, desde que apresente um conjunto probatório suficiente em consonância com a tese sustentada. Essa análise só pode ser feita à luz do caso concreto. Importante notar que neste caso específico, o contribuinte insiste desde a impugnação na necessidade de uma perícia contábil, sem, contudo, apresentar quaisquer documentos que reforçassem os argumentos lançados. Oras, caso os valores se tratassem de "trococheque", não teria o contribuinte apresentado a documentação probante desde a fiscalização, quando intimada a fazêlo? Em relação a devolução de mercadorias, entendemos que a base de cálculo já foi expurgada de tais valores durante a fiscalização, do que desnecessária a diligência para apurar eventuais erros no quantum de receita entendida como omissa. Embora, a argumentação da contribuinte possua concatenação lógica, vem desprovida de qualquer documentação que lhe suporte minimamente. Nessa toada, entendo que o contribuinte não se desincumbiu minimamente do ônus da prova, nem mesmo para suscitar a dúvida quanto à necessidade de diligência. Pelo exposto, voto pela manutenção da decisão proferida pela r. DRJ quanto à omissão de receita e à desnecessidade de diligência, haja vista a contribuinte não ter se desincumbido do ônus da prova. 2.2 Dos juros aplicáveis: No que tange aos argumentos da impugnante de que a taxa SELIC seria inaplicável no presente lançamento, cabe observar que a sua utilização está expressamente prevista no artigo 13 da Lei n° 9.065/95, abaixo reproduzido: Art. 13. A partir de 1º de abri! de 1995, os juros de que tratam a alinea c do parágrafo único do art. 14 da Lei n” 8.847, de 28 de janeiro de 1994, com a redação dada pelo art. 6 “da Lei n°8. 85 0, de 28 de janeiro de 1994, e pelo art, 90 da Lei n°8.981, de 1995, 0 art. 84, inciso 1, e 0 art. 91, parágrafo único, alinea a2, da Lei n” 8.981, de 1995, serão equivalentes ri taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC para titulos federais, act:/ttttlada mensalmente. A autoridade administrativa, por força de sua vinculação ao texto da norma legal e ao entendimento que a ele dá o Poder Executivo, deve se limitar a aplicála, sem emitir qualquer juízo de valor acerca da sua constitucionalidade ou outros aspectos de sua validade. Fl. 1538DF CARF MF 10 A corroborar o que foi exposto, trazse à colação a Súmula consolidada pela Portaria CARF n° 52 de 21/12/2010: Súmula CARF n° 4. A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no periodo de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidaçao e Custódia SELIC para titulos federais. Portanto, deve ser mantida a exigência dos juros moratórios calculados com base na taxa SELIC. 2.3 Da responsabilidade do sócio: A r. DRJ manteve o sócio gestor no polo passivo da obrigação tributária com base em interpretação do art. 135, do CTN sugerida pela Nota GT Responsabilidade Tributária n° 1, de 17 de dezembro de 2010, expedida pelo grupo de trabalho criado pela Portaria Conjunta PGFN/RFB n° 8/2010: 51. A Fiscalização deve incluir no lançamento de oficio todos os responsáveis, nos termos do art. 135 do CTN, de que tiver condições de comprovar o vínculo, pois o Parecer PGFN CRJ/CAT n° 55/2009 não refuta esse entendimento, tendo em vista que corresponde a uma orientação adotada pela PGFN no sentido da tese utilizada nos Tribunais. 52. Quanto à natureza dessa responsabilidade, nos termos do Parecer acima citado e da jurisprudência do STI, não há dúvida tratarse de responsabilidade solidária. 53. No que diz respeito ao elemento subjetivo, o item 59 do Parecer afirma que a jurisprudência maciça do STI caminha no sentido de que é o dolo gênero, e não dolo espécie. Logo, envolve dolo ou culpa. Os precedentes que ensejaram a Súmula 435 do STJ afirmam que compete ao sóciogerente demonstrar que não agiu com dolo, culpa, fraude ou excesso de poderes. Em razão desses argumentos, a Fiscalização pode enquadrar os sujeitos passivos nas hipóteses tratadas pelo artigo ainda que não consiga demonstrar o dolo. A meu ver não merece guarida tal entendimento. Entendo que o art. 135 do CTN estabelece responsabilidade pessoal, em que pese entendimento jurisprudencial e doutrinário que apontem ser responsabilidade solidária, mas ainda que de responsabilidade solidária se tratasse, o art. 135 somente poderia ser utilizado como fundamento legal nos casos em que se comprovem "atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos." Percebam que, embora não possamos afastar dispositivos legais por argumentos de ordem constitucional, devemos aplicar os institutos jurídicos previstos, conforme os ditames constitucionais. Nessa linha, não podemos nos esquecer que em nosso ordenamento vige em favor de réus e acusados a presunção de inocência prevista no artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal, que preceitua que "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Assim, não poderá ter o sócio gerente seu patrimônio constrangido, a menos que estejam devidamente comprovados nos autos que este tenha agido com excesso de poderes ou em infração a lei, contrato social ou estatutos. Fl. 1539DF CARF MF Processo nº 10435.721112/201021 Acórdão n.º 1402002.671 S1C4T2 Fl. 1.116 11 Vejam que o mero não pagamento de tributo não enseja a responsabilidade nos termos da Súmula 430 do STJ, e em que pese nosso posicionamento contrário, haja vista a presunção de inocência acima apontada, há entendimento jurisprudencial consolidado e vinculante para este órgão que reconhece que em casos em que se verifique a dissolução irregular, há presunção de excesso de poderes, infração a lei, contrato social ou estatutos, e portanto, de responsabilidade, nos ditames da Súmula 435 do STJ. O que, entretanto, não ocorreu no caso concreto, ou, ao menos, não consta nos autos. O posicionamento da PGFN exarado na Nota GT Responsabilidade Tributária n° 1, de 17 de dezembro de 2010 visa, a meu ver, a criação de nova hipótese de presunção de responsabilidade, sem guarida, entretanto, em nosso sistema tributário. Entendimento que deve ser afastado, sob o risco de ofensa a ideia de presunção de inocência e ao próprio ônus da prova, que neste caso incumbiria ao Fisco provar a ocorrência de uma das hipóteses previstas no art. 135 do CTN. Por essa razão voto pela exclusão do sócio gerente do polo passivo. É como voto. Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator Fl. 1540DF CARF MF
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Numero do processo: 10410.721615/2014-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Sep 13 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012
RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVO.
Não se conhece de recurso voluntário interposto fora do prazo de 30 (trinta) dias previsto no artigo 33, do Decreto 70.235/72.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 3302-004.703
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Walker Araujo - Relator.
EDITADO EM: 11/09/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo.
Nome do relator: WALKER ARAUJO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente. (assinado digitalmente) Walker Araujo - Relator. EDITADO EM: 11/09/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo.
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INTEMPESTIVO. Não se conhece de recurso voluntário interposto fora do prazo de 30 (trinta) dias previsto no artigo 33, do Decreto 70.235/72. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Walker Araujo Relator. EDITADO EM: 11/09/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 41 0. 72 16 15 /2 01 4- 17 Fl. 49665DF CARF MF 2 Relatório Por retratar a realidade dos fatos, adoto e transcrevo o relatório da decisão de piso de fls. 49.48449.503: Com fulcro no Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados (RIPI/2002), aprovado pelo Decreto nº 4.544, de 26 de dezembro de 2002, e no RIPI/2010, aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010; consoante capitulação legal consignada à fl. 18, foi lavrado o auto de infração em 11/04/2014, para exigir R$ 421.853,43 de multa exigida isoladamente, correspondente ao IPI não lançado com cobertura de crédito. Consoante a descrição dos fatos, às fls. 05/11, que remete ao termo de informação fiscal às fls. 31/41, foi constatado o seguinte: a) Falta ou insuficiência de lançamento do imposto nas saídas de produtos industrializados, em abril de 2011 e de outubro a dezembro de 2012 (demonstrativo de IPI lançado a menor às fls. 83/135); b) Imposto lançado nas notas fiscais, mas transcrito a menor para Livro Registro de Apuração do IPI, no mês de novembro de 2009 (demonstrativo de diferença entre o IPI lançado e o IPI escriturado, às fls. 136/2.105); c) Aproveitamento indevido de créditos relativos a notas fiscais de transferências para comércio recebidas de outros estabelecimentos da CBA, sendo o caso de produtos para os quais há incidência única do imposto, de janeiro de 2009 a dezembro de 2012 (glosas de crédito conforme “dados apurados pela fiscalização”, do demonstrativo de reconstituição da escrita fiscal, às fls. 49.155 e 49.156); d) Aproveitamento de créditos calculados com base em alíquota maior que a prevista na TIPI, no que concerne a aquisições de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus, de outubro a dezembro de 2012 (demonstrativo de crédito calculado a maior, às fls. 49.153/49.154). A Companhia Maranhense de Refrigerantes, CNPJ 06.272.199/001408, é sucessora da CBA Cia. de Bebidas e Alimentos do São Francisco, CNPJ 08.965.289/000861, em virtude de cisão ocorrida em 2009 e posterior incorporação de 2013. Em virtude da existência de saldos credores na escrita fiscal, mesmo depois da reconstituição desta, foi exigida somente a multa sobre o imposto não lançado com cobertura de créditos. A empresa tomou ciência da exação em 17/06/2014, por via postal, conforme o aviso de recebimento (AR) à fl. 49. Insubmissa, a contribuinte apresentou em 17/07/2014 a impugnação às fls. 49.179/49.204, subscrita pelo patrono da pessoa jurídica, qualificado no instrumento legal à fl. 49.207, em que protesta, em síntese, que: a. 1) As saídas referentes a abril de 2011, conforme cópias de notas fiscais (fls. 49.247/49.337), consistem em transferências entre filiais da mesma empresa, para as quais há previsão de suspensão (RIPI/2010, art. 43, X); apesar do regime especial regido pelo art. 58 N da Lei 10.833, de 2003, ante a omissão do dispositivo legal quanto à operação específica, a regra geral do art. 43, X, do RIPI é aplicável, devendo ser levado em conta o item 6 da Instrução Normativa SRF nº 87, de 21 de agosto de 1989, em plena vigência, pois é citada em ato normativo de 2012; a. 2) No tocante às saídas de outubro a dezembro de 2012, houve erro de cálculo em relação a todas as notas fiscais, pois o valor de IPI por litro de produto indicado como correto é o mesmo que aquele adotado pela contribuinte; portanto, o valor do IPI devido Fl. 49666DF CARF MF Processo nº 10410.721615/201417 Acórdão n.º 3302004.703 S3C3T2 Fl. 3 3 jamais poderia ser diferente do valor efetivamente lançado; não há explicação lógica e, assim sendo, houve prejuízo para a defesa da impugnante, devendo ser considerado nulo o auto de infração em razão do disposto no art. 59 do PAF; b) A divergência entre IPI lançado e IPI escriturado no Livro Registro de Apuração do IPI não é explicada, com um demonstrativo de 1.970 páginas em 3 partes, sendo caracterizado o cerceamento do direito de defesa, o que implica a nulidade do art. 59, II, do PAF, além de violação do art. 2º da Lei nº 9.784, de 1999; c. 1) Nos créditos glosados pela autoridade fiscal há devoluções de mercadorias (CFOPs: 1918, 2918, 2411 e 2208) sem que tenha havido a transferência de titularidade entre a impugnante e os clientes (na maior parte dos casos, grandes supermercados), conforme notas fiscais juntadas (fls. 49.338/49.389); c. 2) quanto à outra parte dos créditos, ainda que se trate de produtos adquiridos de outras filiais industriais ou de terceiros e depois revendidos, o respectivo aproveitamento se deve à regra geral de nãocumulatividade do IPI, sob pena de dupla incidência do IPI monofásico; o sistema de tributação monofásica se aplica quando a indústria vende para atacadista ou varejista, mas há exceção quando o estabelecimento revendedor pertencer à mesma firma do estabelecimento fabricante (Parecer Normativo nº 13, de 2013); a autoridade fiscal apenas estornou débitos dentro do mesmo período das entradas, ignorando débitos de períodos posteriores; d) A multa de 75% foi aplicada sem ser considerado que há argumentos razoáveis para a falta de recolhimento do tributo, uma vez que há “dúvida razoável, de forma que a situação não pode ser comparada àquela em que se deixa de recolher tributo por deixar, sem qualquer motivo para tanto”; para a aplicação da pena devem ser observados os princípios da proporcionalidade e da isonomia, ou equidade: “o que se quer é a aplicação conjunta daquele dispositivo [art. 80 da Lei 4.502/64] com os arts. 108, V, e 112, ambos do CTN c/c art. 5º, XLVI [sic], da Constituição Federal”; tratase de contribuinte idôneo que não merece a “taxação” (sic) de sonegador. Por fim, requer que seja declarada a improcedência do lançamento fiscal em relação à falta de lançamento e à glosa de créditos referentes a devoluções e à regra geral do IPI; que seja, ainda, decretada a nulidade por cerceamento do direito de defesa no que tange à transcrição a menor de débito da Livro Registro de Apuração do IPI; alternativamente, que seja excluída ou reduzida a multa de 75%; caso necessário, que seja feita a juntada posterior de documentação probatória; em caso de dúvida, que a norma jurídica seja interpretada da maneira mais favorável à impugnante (CTN, art. 112) e que seja determinada, em caso de dúvida, a realização de diligência ou perícia. Em 18/12/2014, foi baixada a Resolução DRJ/RPO nº 14003.232, por esta Turma de Julgamento, com o respectivo voto com o seguinte teor: “A manifestação de inconformidade, apresentada tempestivamente, cumpre os pressupostos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235 (PAF), de 6 de março de 1972, e alterações posteriores, e, portanto, dela tomo conhecimento. No que concerne à infração “0001” da descrição dos fatos (falta de lançamento especificamente nos meses de outubro a dezembro de 2012), conforme aventado pela impugnante, no demonstrativo de saídas com IPI lançado a menor (fls. 83/129) há produtos para os quais o valor do IPI por litro utilizado é igual ao valor correto e, ainda assim, há diferença entre o IPI lançado e o IPI devido (por exemplo: nota fiscal nº 11.551, de 01/10/2012, fl. 83, e em todos os outros casos que o valor do IPI por litro é de 0,1033). Fl. 49667DF CARF MF 4 Não há esclarecimentos a respeito disso no termo de informação fiscal. A autoridade fiscal deve justificar as discrepâncias ou efetuar a revisão dos valores consignados no demonstrativo de saídas com IPI lançado a menor.Por todo o exposto, a fim de que sejam dirimidas as dúvidas que representam obstáculo à apreciação da lide, voto, com fulcro no Decreto nº 70.235, de 1972, art. 18, para que o processo seja restituído à unidade de origem e que sejam realizadas as verificações e prestados os esclarecimentos indispensáveis, com as correções (de valores e de planilhas) porventura resultantes. Encerrada a instrução processual, o sujeito passivo deverá ser intimado a emitir manifestação a respeito do relatório fiscal de diligência e de documentação eventualmente juntada aos autos, no prazo de 30 (trinta) dias (Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011, art. 35, § único)”. Em resposta à conversão do julgamento em diligência, a autoridade fiscal elaborou o seguinte relatório fiscal (termo de informação fiscal – diligência, de 14/01/2015, fls 49.449/49.452): “Cuidase de pedido de diligência da 12ª Turma da DRJ/RPO que, ao apreciar a impugnação ao Auto de Infração do IPI, tombado sob o nº 10410.721615/2014 17, resolveu baixar o processo em diligencia para as providências elencadas abaixo: “No que concerne à infração “0001” da descrição dos fatos (falta de lançamento especificamente nos meses de outubro a dezembro de 2012), conforme aventado pela impugnante, no demonstrativo de saídas com IPI lançado a menor (fls. 83/129) há produtos para os quais o valor do IPI por litro utilizado é igual ao valor correto e, ainda assim, há diferença entre o IPI lançado e o IPI devido (por exemplo: nota fiscal nº 11.551, de 01/10/2012, fl. 83, e em todos os outros casos que o valor do IPI por litro é de 0,1033). Não há esclarecimentos a respeito disso no termo de informação fiscal. A autoridade fiscal deve justificar as discrepâncias ou efetuar a revisão dos valores consignados no demonstrativo de saídas com IPI lançado a menor. Por todo o exposto, a fim de que sejam dirimidas as dúvidas que representam obstáculo à apreciação da lide, voto, com fulcro no Decreto nº 70.235, de 1972, art. 18, para que o processo seja restituído à unidade de origem e que sejam realizadas as verificações e prestados os esclarecimentos indispensáveis, com as correções (de valores e de planilhas) porventura resultantes.” Assim, nos termos solicitados, limitarnosemos a esclarecer a infração “0001”, da descrição dos fatos, especificamente no que se refere a falha observada no demonstrativo “SAÍDAS COM IPI LANÇADO A MENOR”, fls. 83 a 129, que compreende o período de apuração de outubro a dezembro de 2012. Quanto aos valores do IPI apurados pela fiscalização, adiantese, não há qualquer reparo a ser feito no auto de infração, como veremos. A peça impugnatória aduz, conforme resumido pela autoridade julgadora, que “no tocante às saídas de outubro a dezembro de 2012, houve erro de cálculo em relação a todas as notas fiscais, pois o valor de IPI por litro de produto indicado como correto é o mesmo que aquele adotado pela contribuinte”. Enganase o Impugnante no que tange a eventual erro de cálculo. Os cálculos estão corretos. É bem verdade que houve uma falha nos valores indicados na coluna “valor IPI por litro/Correto” do demonstrativo “SAÍDAS COM IPI LANÇADO A MENOR”, fls. 83 a 129. Fl. 49668DF CARF MF Processo nº 10410.721615/201417 Acórdão n.º 3302004.703 S3C3T2 Fl. 4 5 De fato, quando da construção daquele demonstrativo, os valores informados na coluna “valor IPI por litro/Correto” foram informados incorretamente. Todavia, embora a fiscalização tenha indicado o valor por litro erroneamente, utilizou nos cálculos os valores corretos, quais sejam, os valores por litro preconizados no Decreto nº 7.742, de 30 de maio de 2012 (tabela do Decreto em anexo), que passaram viger a partir de 1º de outubro de 2012. Corrigindo aquela informação, constante do demonstrativo de fls 83 a 129, elaboramos o ‘DEMONSTRATIVO DE SAÍDAS COM IPI LANÇADO A MENOR”, ora acostado, onde se verifica que os valores apurados como “devido” (coluna IPI/Devido) são exatamente os mesmos da planilha anteriormente juntada. Segue abaixo, exemplificativamente, excerto dos referidos demonstrativos, onde se pode observar, com clareza, que, não obstante a alteração dos valores informados na coluna “valor IPI por litro/Correto”, o valor “devido” (coluna IPI/Devido) é exatamente o mesmo”.(destaques do original) Demonstrativos às fls. 49.450 e 49.451. “Salientese que o Impugnante compreendeu com facilidade a infração apontada ao afirmar que (fl. 49188): “o cálculo é simples e pode ser facilmente demonstrado da seguinte forma: quantidade em litros X o valor IPI por litro. Assim, tomando como exemplo o item 3 da primeira nota do demonstrativo, nº 11551, temos o seguinte cálculo: 1680 embalagens com 6 Coca Colas de 1 Litro X 0,1033, que é o valor por litro tanto utilizado pela Impugnante, quanto apontado como correto pelo Fiscal, temos, 10080 Litros X 0,1033, chegandose ao IPI de R$ 1041,26 que foi efetivamente lançado. Como então aponta como valor devido R$ 1.147,10, se se utiliza o mesmo valor por litro?” Como visto, o Impugnante compreendeu perfeitamente como se dá o cálculo, mas não quis atentar para o fato de que o “valor por litro” correto não é o que ele utilizou, mas o do Decreto nº 7.742, de 30 de maio de 2012 (tabela do decreto em anexo). Assim, bastaria fazer as contas utilizando os valores daquele Decreto para que o contribuinte chegasse ao valor devido e apontado pela fiscalização. Utilizando o próprio exemplo do Impugnante, a conta seria: o item 3 da primeira nota do demonstrativo, nº 11551(acima transcrito) corresponde a 1680 embalagens com 6 Coca Colas de 1 Litro X 0,1033, que é o valor por litro tanto utilizado pela Impugnante, quanto apontado como correto pelo Fiscal, temos, 10080 Litros X 0,1138, chegase ao IPI de R$ 1.147,10. Ou seja: exatamente o valor apresentado pela fiscalização. Em síntese: os valores das diferenças de IPI devidos, apurados pela fiscalização, no período de outubro a dezembro de 2012, devido a não observância do Decreto nº 7.742, de 30 de maio de 2012, por parte do sujeito passivo, encontramse corretos, não cabendo reforma. Isto posto, encaminhamos o presente “Termo de Informação Fiscal – Diligência” para ciência do Impugnante, juntamente com a Resolução nº 14 003.232, da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, bem como dos demais demonstrativos e documentos citados neste Termo, para que, em querendo, apresente o que entender cabível, no prazo de 30 (trinta) dias, contados da ciência”. Fl. 49669DF CARF MF 6 Foi anexada tabela do Decreto nº 7.742, de 30 de maio de 2012, com os valores de IPI por unidade de produto (fls. 49.400 e 49.401), e foi elaborado “demonstrativo de saídas com IPI lançado a menor” com a retificação da coluna “valor IPI por litro/Correto” (fls. 49.402/49.448). Cientificado do relatório fiscal de diligência em 15/01/2015 (termo de ciência por abertura de mensagem, fl. 49.454), o sujeito passivo apresentou em 19/02/2015, a manifestação às fls. 49.457/49.459, subscrita pelo patrono (procuração à fl. 49.461), pela qual argúi que teria sido inviabilizada a defesa em relação à “infração 001” em virtude das discrepâncias no demonstrativo de apuração; houve prejuízo para a defesa com o vício que é insanável, sendo que a reabertura de prazo para impugnação é prevista para lançamento complementar (PAF, art. 18, § 3º). Finalmente, reitera o pedido para que o auto de infração, nesse ponto, seja considerado nulo (PAF, art. 59). Em que pese os argumentos apresentados pela Recorrente, a 12ª Turma da DRJ/RPO, julgou improcedente a impugnação e manteve o crédito tributário nos termos da ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012 BEBIDAS. REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO. No regime especial de tributação a tributação é monofásica, com a incidência única do imposto na saída do estabelecimento industrial. FALTA DE LANÇAMENTO DO IMPOSTO. SAÍDAS PARA ESTABELECIMENTOS FILIAIS. REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO. INAPLICABILIDADE DE SUSPENSÃO. Cobrase o imposto não lançado em notas fiscais nas saídas da produção própria do estabelecimento industrial para outros estabelecimentos filiais, sendo que no âmbito de regime especial de tributação inexiste previsão legal para suspensão do imposto nas transferências entre estabelecimentos industriais de uma mesma firma. LANÇAMENTO A MENOR DO IMPOSTO. SAÍDAS PARA ESTABELECIMENTOS FILIAIS. REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE ALÍQUOTA “AD REM” INCORRETA. Cobrase o imposto lançado a menor nas notas fiscais de transferência da produção própria para outros estabelecimentos da mesma firma com a aplicação de alíquota ad rem (valor do imposto por unidade de produto) incorreta FALTA DE RECOLHIMENTO DO IMPOSTO LANÇADO NAS NOTAS FISCAIS MAS NÃO ESCRITURADO NO LIVRO REGISTRO DE APURAÇÃO DO IPI. Cobrase o imposto destacado nas notas fiscais de saída mas não escriturado no Livro Registro de Apuração do IPI e, portanto, não recolhido. GLOSA DE CRÉDITOS. REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO. RECEBIMENTOS POR TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS POR TERCEIROS. ESTORNO DE DÉBITOS REFERENTES ÀS SAÍDAS ANTERIORES. Glosamse os créditos alusivos a recebimentos por transferência de produtos industrializados por terceiros, pois, sob a égide de regime especial de tributação, os produtos são tributados uma única vez nas saídas dos estabelecimentos industriais, sendo necessário também o estorno dos débitos indevidos nas revendas anteriores às referidas saídas. MULTA DE OFÍCIO. PREVISÃO LEGAL. Sendo configurado o ato ilícito tributário, aplicase a respectiva sanção que é a multa de ofício prevista em lei. Fl. 49670DF CARF MF Processo nº 10410.721615/201417 Acórdão n.º 3302004.703 S3C3T2 Fl. 5 7 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. A matéria não especificamente impugnada é incontroversa, sendo insuscetível de invocação posterior no âmbito de órgão de julgamento administrativo ad quem. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Inexiste nulidade por cerceamento do direito de defesa se o auto de infração ostentar os requisitos legais e a fundamentação do feito for suficiente em todos os aspectos. NULIDADE. INCORREÇÕES. INEXISTÊNCIA DE INFLUÊNCIA NA SOLUÇÃO DO LITÍGIO. SANEAMENTO. As incorreções existentes em peça impositiva são passíveis de saneamento, sem dar azo a nulidade, mesmo que causem prejuízo à defesa do sujeito passivo mas que não tenham influência na resolução da lide. REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIA. REABERTURA DO TRINTÍDIO LEGAL. Encetadas verificações fiscais em sede de diligência, o relatório fiscal resultante deve ser cientificado ao sujeito passivo para manifestação no prazo de trinta dias, conforme previsão legal, ainda que não seja hipótese de agravamento da exigência tributária mediante lançamento complementar. IMPUGNAÇÃO. PROVAS ADICIONAIS. PRECLUSÃO TEMPORAL. Tendo em vista a superveniência da preclusão temporal, é rejeitado o pedido de apresentação de provas suplementares, pois o momento propício para a defesa cabal é o da oferta da peça impugnatória. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. Indeferese o pedido de perícia que não apresente os motivos e não contenha a formulação de quesitos e a indicação do perito. Inconformada com a decisão de piso, a Recorrente, intimada em 29.04.2015 (fls. 49.508), interpôs recurso voluntário em 05.06.2015 (fls.49.51049.543), reproduzindo, em síntese, os argumentos apresentados em sede impugnatória. É o relatório. Voto Conselheiro Walker Araujo Relator. Conforme relatado anteriormente, o recurso voluntário interposto pela Recorrente foi protocolado em 05.06.2015 (fls. 49.51049.543). Contudo, o prazo final para interposição do recurso voluntário era 29.05.2015, sextafeira, considerando que o contribuinte foi cientificado da decisão de piso em 29.04.2015, quartafeira, conforme demonstra o Aviso de Recebimento de fl. 49.508: Fl. 49671DF CARF MF 8 A planilha abaixo demonstra a cronologia dos atos procedimentais ocorridos nos autos: Intimação Início do prazo Término do Prazo 30 dias Protocolo Recurso 29.04.2015 (quartafeira) 30.04.2015 (quintafeira) 29.05.2015 (sextafeira) 05.06.2015 (sextafeira) Com relação ao prazo para apresentar recurso voluntário, dispõe o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72, a saber: Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. A contagem do prazo previsto no dispositivo anteriormente citado, deve observar as determinações contidas no artigo 5º do mesmo diploma legal, "in verbis": Art. 5º Os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. Parágrafo único. Os prazos só se iniciam ou vencem no dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato. Deste modo, considerando que a Recorrente foi cientificada da decisão de primeira instância em 29.04.2015, e somente apresentou recurso voluntário em 05.06.2015, depois de ultrapassado o prazo de 30 (trinta) dias contados da ciência, concluise pela intempestividade do referido recurso. Ante o exposto, voto em conhecer do recurso voluntário em parte e, na parte conhecida negolhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Walker Araujo Relator. Fl. 49672DF CARF MF Processo nº 10410.721615/201417 Acórdão n.º 3302004.703 S3C3T2 Fl. 6 9 Fl. 49673DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10630.000579/2005-61
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 28 00:00:00 UTC 2011
Ementa: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES
Ano-calendário: 2004
OPÇÃO PELO SIMPLES. VEDAÇÃO. SERVIÇOS PROFISSIONAIS DE CONTADOR
Não pode optar pelo SIMPLES a pessoa jurídica que preste serviços de contador, ou assemelhados, e de qualquer outra profissão cujo exercício dependa de habilitação profissional legalmente exigida.
INÍCIO DOS EFEITOS DA EXCLUSÃO DE OFÍCIO DO SIMPLES
A opção pela sistemática do Simples é ato do contribuinte sujeito a condições e passível de fiscalização posterior. A exclusão com efeitos retroativos, quando verificado que o contribuinte incluiu-se indevidamente no sistema, é determinada pela legislação.
Numero da decisão: 1801-000.627
Decisão: Acordam, os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. Ausente, momentaneamente, o Conselheiro Marcos Vinicius Barros Ottoni.
Matéria: Simples- proc. que não versem s/exigências cred.tributario
Nome do relator: Maria de Lourdes Ramirez
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ementa_s : SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Ano-calendário: 2004 OPÇÃO PELO SIMPLES. VEDAÇÃO. SERVIÇOS PROFISSIONAIS DE CONTADOR Não pode optar pelo SIMPLES a pessoa jurídica que preste serviços de contador, ou assemelhados, e de qualquer outra profissão cujo exercício dependa de habilitação profissional legalmente exigida. INÍCIO DOS EFEITOS DA EXCLUSÃO DE OFÍCIO DO SIMPLES A opção pela sistemática do Simples é ato do contribuinte sujeito a condições e passível de fiscalização posterior. A exclusão com efeitos retroativos, quando verificado que o contribuinte incluiu-se indevidamente no sistema, é determinada pela legislação.
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VEDAÇÃO. SERVIÇOS PROFISSIONAIS DE CONTADOR Não pode optar pelo SIMPLES a pessoa jurídica que preste serviços de contador, ou assemelhados, e de qualquer outra profissão cujo exercício dependa de habilitação profissional legalmente exigida. INÍCIO DOS EFEITOS DA EXCLUSÃO DE OFÍCIO DO SIMPLES A opção pela sistemática do Simples é ato do contribuinte sujeito a condições e passível de fiscalização posterior. A exclusão com efeitos retroativos, quando verificado que o contribuinte incluiuse indevidamente no sistema, é determinada pela legislação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam, os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. Ausente, momentaneamente, o Conselheiro Marcos Vinicius Barros Ottoni. (assinado digitalmente) ______________________________________ Ana de Barros Fernandes – Presidente (assinado digitalmente) ______________________________________ Fl. 61DF CARF MF Emitido em 06/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ Assinado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ, 05/07/2011 por ANA DE BARROS FERNA NDES 2 Maria de Lourdes Ramirez – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Maria de Lourdes Ramirez, Magda Azario Kanaan Polanczyk, Marcos Vinicius Barros Ottoni e Ana de Barros Fernandes. Relatório Trata o presente processo de exclusão da firma Vailton Rodrigues de Oliveira do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples, com efeitos a partir de junho de 2004. A partir de Representação Administrativa da Secretaria da Receita Previdenciária acostada às fls. 03/05, instruída com os documentos que a acompanham, foi formalizado o presente processo, para exclusão da interessada do Simples em razão do exercício de atividade econômica vedada, a saber, prestação de serviços de contabilidade. Nessa representação o auditorfiscal da Previdência Social informa que a empresa presta serviços para a contratante Sofia Industrial Exportadora Ltda., que informou que grande parte dos serviços contratados são executados em sua sede. Também foi informado que a empresa representada possui nome de fantasia SERCON SERVIÇOS CONTÁBEIS e que o objeto social seria cadastro e cobrança. Recibos de honorários indicariam o nome de fantasia no cabeçalho e logo abaixo da assinatura. Tais recibos informam que os pagamentos decorreriam de prestação de serviços contábeis. Documentos anexados denotam que a empresa prestaria serviços de: Escritas: comerciais, industriais e rurais; Declarações: Imposto de Renda (Pessoa física e jurídica); Organização de Firmas: Contratos e Distratos. Documentos para a instrução do processo às fls. 05/24. Com fundamento em tais fatos a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Governador Valadares/MG, por meio do Ato Declaratório Executivo n° 22, de 27 de junho de 2005, excluiu a empresa da sistemática simplificada a partir de 01/06/2004, por exercício de atividade econômica vedada para o citado regime tributário, nos termos do art. 9o., inciso XIII, da Lei n o. 9.317, de 1996. Cientificada da exclusão (fl. 17), a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade (fls. 18/19). Em seus argumentos de defesa, depois de reproduzir o comando do artigo 9o., inciso XIII, da Lei n o. 9.317, de 1996, questiona se estaria nele inserida a atividade de cobrança e cadastro como impeditiva de ingresso e permanência na sistemática. A Delegacia de Julgamento em Juiz de Fora/MG, apreciando o litígio, proferiu o Acórdão 0921.622 indeferindo a solicitação ao argumento de que, muito embora o CNPJ da empresa e a Declaração de Firma Mercantil Individual informem a atividade como sendo de prestação de serviços de cadastro e cobrança, os documentos de fls. 08 a 10, anexados na Representação Administrativa da Secretaria da Receita Previdenciária, demonstrariam claramente que a autuada prestaria serviços contábeis e tal atividade seria vedada para o Simples nos termos do dispositivo legal mencionado. Fl. 62DF CARF MF Emitido em 06/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ Assinado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ, 05/07/2011 por ANA DE BARROS FERNA NDES Processo nº 10630.000579/200561 Acórdão n.º 180100.627 S1TE01 Fl. 56 3 Cientificada, em 01/12/2008, do indeferimento de sua solicitação, como comprova o Aviso de Recebimento de fl. 41 apresentou, a contribuinte, em 30/12/2008, o recurso voluntário de fls. 43/51, reafirmando não encontrar justificativa para sua exclusão do Simples e que o Fisco teria presumido, a partir da simples qualificação do profissional liberal que a gerencia, que as atividades praticadas pela empresa estariam inseridas no rol de vedações da Lei. Afirma ter atendido todos os requisitos para ingresso no sistema o que teria sido, inclusive, acatado pela própria Receita Federal, que admitiu a sua inscrição. Acrescenta que, ainda que fosse possível a exclusão os efeitos somente poderiam se dar a partir do mês seguinte ao da situação excludente, sendo ilegal a sua retroação. Discorre a respeito da interpretação e integração da legislação tributária, princípios da legalidade e irretroatividade da lei, para concluir que deve ser aplicado ao caso o quanto dispõe o artigo 112 do CTN. Ao final pede pelo provimento do recurso. É o relatório. Voto Conselheira Maria de Lourdes Ramirez, Relatora O Recurso é tempestivo e dotado dos pressupostos para sua admissibilidade, pelo que dele tomo conhecimento. A Delegacia da Receita Previdenciária em Governador Valadares/MG formalizou representação administrativa enviada à DRF em Governador Valadares/MG pois, em procedimento de auditoria, teria sido constatado que a empresa recorrente, a Vailton Rodrigues de Oliveira, em tese, praticaria atividade vedada para opção e permanência no sistema simplificado de pagamento de impostos e contribuições federais – Simples Federal. A representação foi instruída com os documentos de fls. 05 a 24. Com base nesses elementos a autoridade administrativa da Delegacia da Receita Federal em Governador Valadares, ao verificar que o titular da empresa se declara técnico em contabilidade, que o objeto da firma é cadastro e cobrança e que as cópias dos recibos juntados descrevem “serviços de recibo de honorários contábeis”, excluiu a empresa do Simples. De fato, a cópia da “Declaração de Firma Mercantil Individual” à fl. 3, datada de 22/07/2002, indica que o titular da empresa, Sr. Vailton Rodrigues de Oliveira descrevese como “técnico em contabilidade” e que o nome fantasia da empresa é Sercon Serviços Contábeis. Da mesma forma, as cópias dos recibos de honorários – fls. 08/09 – indicam que a Fl. 63DF CARF MF Emitido em 06/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ Assinado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ, 05/07/2011 por ANA DE BARROS FERNA NDES 4 empresa auferiu rendimentos a título de “honorários contábeis”, enquanto que o papel com timbre da empresa traz a seguinte informação: “SERCON Serviços Contábeis Sua empresa – nossa prioridade. Vailton Rodrigues de Oliveira – CRC – 41.989 Escritas: Comerciais, Industriais e Rurais Declarações: Imposto de Renda (Pessoa Física e Jurídica) Organização de Firmas: Contratos e Distratos.” Verificase, pois, pelos elementos constantes dos autos, que a empresa excluída não limita as suas atividades a prestação de serviços de cadastro e cobrança. São oferecidos serviços de organização de firmas, como contratos e distratos sociais, “escritas comerciais, industriais ou rurais”, o que significa a confecção de registros contábeis, além de serviços de declaração de imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas. Da mesma forma os recibos de pagamento tem por fundamento a prestação de serviços contábeis. Dessa forma, a autoridade administrativa não presumiu que a empresa pratica atividades vedadas. Há farta documentação nos autos que comprovam a prática de atividade não permitida para ingresso e permanência na sistemática simplificada de pagamento de impostos e contribuições. As empresas optantes pelo SIMPLES FEDERAL, na vigência da Lei nº. 9.317, de 1996, deveriam observar e cumprir as exigências estabelecidas dentre elas o disposto no comando do art. 9º : Art. 9º Não poderá optar pelo SIMPLES a pessoa jurídica: ... XIII que preste serviços profissionais de corretor, representante comercial, despachante, ator, empresário, diretor ou produtor de espetáculos, cantor, músico, dançarino, médico, dentista, enfermeiro, veterinário, engenheiro, arquiteto, físico, químico, economista, contador, auditor, consultor, estatístico, administrador, programador, analista de sistema, advogado, psicólogo, professor, jornalista, publicitário, fisicultor, ou assemelhados, e de qualquer outra profissão cujo exercício dependa de habil i tação profissional legalmente exigida; (destaques acrescidos) In casu, a contribuinte, na vigência da Lei nº. 9.317, de 1996, descumpriu as exigências estabelecidas nesse comando normativo, para usufruir do benefício da apuração e pagamento simplificado de impostos e contribuições, pois as atividades que pratica estão literalmente previstas nas vedações impostas pela Lei. E com base nesse mesmo comando normativo foi excluída da sistemática pela qual optou de forma indevida. A empresa, ao dedicarse à prestação de serviços contábeis, praticou atos de contador, profissão legalmente habilitada e regulamentada por lei. Nesse contexto, o Simples Federal se trata de uma sistemática benéfica de pagamento de impostos e contribuições federais, destinada a propiciar economia tributária, à título de incentivo fiscal, às microempresas e empresas de pequeno porte, para que tenham Fl. 64DF CARF MF Emitido em 06/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ Assinado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ, 05/07/2011 por ANA DE BARROS FERNA NDES Processo nº 10630.000579/200561 Acórdão n.º 180100.627 S1TE01 Fl. 57 5 condições de adentrar e permanecer no mercado econômico com mínimas condições de competição. Nessas condições, para que a empresa possa usufruir de tais benefícios, é necessário que sejam rigorosamente observadas todos os requisitos e condições impostos pela legislação para sua fruição. Não é o caso da empresa recorrente, por tudo o que restou analisado e constatado nestes autos. Quanto aos efeitos da exclusão foram rigorosamente observadas as determinações da Lei n nº. 9.317, de 1996, e alterações posteriores, que prevê: Art. 12. A exclusão do SIMPLES será feita mediante comunicação pela pessoa jurídica ou de ofício. Art. 13. A exclusão mediante comunicação da pessoa jurídica darseá: ... II obrigatoriamente, quando: a) incorrer em qualquer das situações excludentes constantes do art. 9º; ... Art. 14. A exclusão darseá de ofício quando a pessoa jurídica incorrer em quaisquer das seguintes hipóteses: I exclusão obrigatória, nas formas do inciso II e § 2º do artigo anterior, quando não realizada por comunicação da pessoa jurídica; ... Art. 15. A exclusão do SIMPLES nas condições de que tratam os arts. 13 e 14 surtirá efeito: II a partir do mês subseqüente ao que for incorrida a situação excludente, nas hipóteses de que tratam os incisos III a XIV e XVII a XIX do caput do art. 9º desta Lei; Verificouse a prática da situação excludente se deu em maio de 2004, época da emissão dos recibos de honorários que indicam a prática de serviços contábeis. Assim, a exclusão a partir de junho de 2004 está inteiramente de acordo com os preceitos legais. Por todo o exposto voto no sentido de negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) ______________________________________ Maria de Lourdes Ramirez – Relatora Fl. 65DF CARF MF Emitido em 06/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ Assinado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ, 05/07/2011 por ANA DE BARROS FERNA NDES 6 Fl. 66DF CARF MF Emitido em 06/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ Assinado digitalmente em 05/07/2011 por MARIA DE LOURDES RAMIREZ, 05/07/2011 por ANA DE BARROS FERNA NDES
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Numero do processo: 13116.001044/2007-86
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 9202-000.095
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem para que seja juntado, por apensação, o processo que trata do lançamento das contribuições previdenciárias por sub-rogação, relacionadas aos fatos objeto da discussão da multa em análise no presente processo, com retorno ao CARF para prosseguimento.
(Assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Fábio Piovesan Bozza.
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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(Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Fábio Piovesan Bozza. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 31 16 .0 01 04 4/ 20 07 -8 6 Fl. 420DF CARF MF Processo nº 13116.001044/200786 Resolução nº 9202000.095 CSRFT2 Fl. 215 2 Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2301002.494, proferido pela 1ª Turma Ordinária / 3ª Câmara / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de auto de infração, em virtude do descumprimento do disposto no artigo 32, inciso IV, § 5º, da Lei 8.212/91, com redação dada pela Lei 9.528/97 e artigo 284, inciso II do Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto 3.048/99, por não ter declarado os valores da receita bruta proveniente da comercialização da produção rural adquirida de terceiros, entre 08/2004 e 07/2006, e também, parte das remunerações pagas/creditadas aos seus segurados empregados no período de 09/2004 a 04/2005, na Guia de Recolhimento do FGTS e Informações a Previdência Social – GFIP no valor de R$ 28.637,86 (vinte e oito mil seiscentos e trinta e sete reais e oitenta e seis centavos). Tendo a SRP constatado que havia a formação de grupo econômico entre a BV COM. DE CARNES LTDA, TANGARA EMPREENDIMENTOS LTDA e BOA VISTA ALIMENTOS LTDA, lançou o débito em nome da primeira e colocou as demais como responsáveis solidárias, baseandose na Lei 8.212/91, nos termos do Relatório Fiscal de fls. 8/9. Inconformada, a ora Recorrente ofereceu Impugnação de fls. 30/39, tendo sido proferido acórdão de fls. 199/212, que julgou procedente a autuação. A BV COMÉRCIO DE CARNES LTDA apresentou Recurso Voluntário de fls. 226/241, alegando, em síntese que: a) o MPF padece de nulidade absoluta por ausência de intimação, visto que esta foi feita a contador da empresa recorrente, não tendo este poderes para representala, e por estarem ausentes elementos essenciais ao MPF: sua natureza/finalidade, se de Fiscalização ou se de Diligência, e a indicação do tributo objeto do procedimento fiscal; b) a autuação é nula, visto que inexistente o Termo de Início de Ação Fiscal (TIAF); c) o recolhimento da contribuição do produtor rural pessoa física é inconstitucional, inexistindo, portanto a obrigação acessória de declarar valores relativos a esta contribuição; d) inexiste grupo econômico entre as empresas mencionadas não podendo haver solidariedade entre as mesmas e não há solidariedade natural em decorrência do interesse comum no fato gerador da obrigação principal, pois não há interesse imediato e comum dos membros das empresas nos resultados do fato gerador. Ademais, a TANGARÁ EMPREENDIMENTOS LTDA cientificada da autuação, como integrante do grupo econômico e responsável solidária pelo débito em questão, também ofereceu Recurso Voluntário de fls. 326/342, alegando, em síntese, o mesmo que a BV Fl. 421DF CARF MF Processo nº 13116.001044/200786 Resolução nº 9202000.095 CSRFT2 Fl. 216 3 COMÉRCIO DE CARNES LTDA, acrescentando apenas que não foi intimada para apresentar impugnação, padecendo a autuação, portanto, de nulidade absoluta. A 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 368/383, DEU PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Ordinário. A ementa do acórdão recorrido assim dispôs: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/08/2004 a 30/07/2006 MPF. RECEBIMENTO PELO CONTADOR. VALIDADE. Em acordo com a Teoria da Aparência, não há nulidade do MPF diante da intimação do contador da empresa ao invés de seu representante legal, se aquele se coloca como investido de autorização para recebela, bem como conhece os fatos a serem examinados pela fiscalização (art. 23 do Decreto n° 70.235/72). TIAF. INEXIGIBILIDADE. O TIAF é inexigível desde 18 de dezembro de 2003, com o advento da Instrução Normativa INSS/DC n°. 100. Não há necessidade de expedição de dois instrumentos, o TIAF e o MPF, quando ambos têm o mesmo objetivo, de informar ao contribuinte que se encontram sob auditoria fiscal. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. VALIDADE DE INTIMAÇÃO. Inexiste cerceamento ao direito de defesa da empresa apontada como responsável solidária pelo débito, se devidamente intimada para se manifestar acerca da autuação contra ela lavrada. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA DO PRODUTOR RURAL. INCIDÊNCIA SOBRE A RECEITA BRUTA DA COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO. OBRIGAÇÃO DO ADQUIRENTE DE RETER E RECOLHER A CONTRIBUIÇÃO. INCONSTITUCIONALIDADE RECONHECIDA PELO STF. Reconhecida por decisão do plenário do STF, transitada em julgado, a inconstitucionalidade da contribuição devida pelo produtor rural e segurado especial sobre a receita bruta da comercialização da sua produção, bem como a obrigação do adquirente de efetuar a retenção e o recolhimento, pode o CARF aplicala, afastando as obrigações com fulcro na referida contribuição. GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE. Constatada a existência de grupo econômico de fato, não há como ser afastada a solidariedade imposta pelo artigo 30, IX da Lei nº 8.212/1991. NÃO DECLARAÇÃO EM GFIP DE FATOS GERADORES DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. APLICAÇÃO DE Fl. 422DF CARF MF Processo nº 13116.001044/200786 Resolução nº 9202000.095 CSRFT2 Fl. 217 4 PENALIDADE MAIS BENÉFICA AO CONTRIBUINTE. POSSIBILIDADE. A apresentação de GFIP com dados não correspondentes a todos os fatos geradores das contribuições previdenciárias, constituía, à época da infração, violação ao art. 32, IV, §3º da Lei 8.212/91, ensejando a aplicação da multa prevista no art. 32, §5º da mesma Lei. A penalidade prevista no art. 32A, inciso I, da Lei 8.212/91, incluído pela Lei nº 11.941/2009, pode retroagir para beneficiar o contribuinte, sendolhe mais benéfica. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Às fls. 385/400, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de Divergência, alegando divergência jurisprudencial em relação a duas matérias: a primeira divergência arguida referese à discussão a respeito da constitucionalidade das contribuições sociais destinadas ao custeio da Seguridade Social, incidentes sobre a receita bruta da comercialização da produção rural. Contudo, enquanto na decisão hostilizada concluiuse pela sua inconstitucionalidade, nos acórdãos paradigmas, refutouse tal argumentação, mantendose o lançamento, com base na Lei nº 10.256/2001, editada sob o manto constitucional aberto pela Emenda Constitucional nº 20/98. Como se vê, os acórdãos paradigmas acima transcritos, ao tratarem de casos idênticos ao dos autos, adotaram entendimento diametralmente oposto ao firmado no acórdão recorrido. Nessas condições, demonstrada a divergência jurisprudencial diante das ementas reproduzidas na forma do art. 67, §9º do RICARF, afiguramse presentes os requisitos de admissibilidade do Recurso Especial. Quanto à segunda divergência arguida, relacionase à regra aplicável à multa na aferição da retroatividade benigna, afirmando serem análogas as hipóteses em análise porque, o que se encontrava em julgamento era exatamente o auto de infração, por descumprimento de obrigação acessória, em que também se lavrou NFLD em decorrência da mesma ação fiscal. Explicou que, naquela ocorrência, consignouse que o dispositivo legal a ser aplicado passou a ser o art. 35A da Lei 8.212/91, que nos remete ao art. 44, I da Lei 9.430/96, e não o art. 32A da Lei 8.212/91, conforme entendeu a Turma a a quo, haja vista que este preceito normativo somente se aplica às situações em que somente tenha havido descumprimento de obrigação acessória relacionada à GFIP. Havendo lançamento de tributo, a multa passa a ser aplicada nos termos do art. 35A da Lei 8.212/91, sob pena de bis in idem. Às fls. 403/408, a 3ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento realizou o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, DANDO SEGUIMENTO ao recurso em relação as duas matérias de divergência: constitucionalidade da contribuição previdenciária sobre comercialização da produção rural e cálculo da multa. Os Contribuintes foram cientificados às fls. 413/414, à exceção da empresa TANGARÁ EMPREENDIMENTOS, para o a cientificação não foi entregue, conforme fls. 415/418. Sem a apresentação de contrarrazões, vieram os autos conclusos para julgamento. É o relatório. Fl. 423DF CARF MF Processo nº 13116.001044/200786 Resolução nº 9202000.095 CSRFT2 Fl. 218 5 Voto Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Trata o presente auto de infração em desfavor do recorrente, por ter deixado de recolher contribuições previdenciárias devidas pela empresa à Seguridade Social e a Terceiros, incidentes sobre remuneração paga a título de prêmios, mediante a utilização de sistema, que consistia no fornecimento de bônus que poderiam ser trocados por produtos ou serviços em rede de fornecedores oferecidos pela empresa administradora do sistema, assim como parte patronal e terceiros concernentes a valores pagos a empregados irregularmente contratados como estagiários, não incluídos em folhas de pagamento/GFIP, no período compreendido entre 01/2007 a 12/2007. O Acórdão recorrido deu parcial provimento ao Recurso Ordinário. O Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise as divergências jurisprudenciais no tocante à divergência: constitucionalidade da contribuição previdenciária sobre comercialização da produção rural e cálculo da multa. Contudo, observo que o presente processo se encontra com irregularidades processuais a serem sanadas, e por esta razão converto o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que seja juntado, por apensação, o processo que trata do lançamento das contribuições previdenciárias por subrogação, relacionadas aos fatos objeto da discussão da multa em análise no presente processo, com retorno ao CARF para prosseguimento. É como voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Fl. 424DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.901910/2008-38
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/06/2003 a 30/06/2003
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ENFRENTAMENTO DA FUNDAMENTAÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. CONHECIMENTO.
O recurso especial de divergência que combate a fundamentação do acórdão recorrido, demonstrando a comprovação do dissenso jurisprudencial, deve ser conhecido, consoante art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Além disso, mesmo após complementada a decisão ora recorrida com relação à ocorrência da preclusão para a produção de provas, pela via dos embargos de declaração, não se caracterizou a hipótese de fundamentos autônomos suficientes, cada um por si só, para manutenção do julgado, estando correta a insurgência pela via especial enfrentando o argumento da possibilidade de apresentação e análise de documentos novos em sede recursal.
PROVAS DOCUMENTAIS NÃO CONHECIDAS. REVERSÃO DA DECISÃO NA INSTÂNCIA SUPERIOR. RETORNO DOS AUTOS PARA APRECIAÇÃO E PROLAÇÃO DE NOVA DECISÃO.
Considerado equivocado o acórdão recorrido ao entender pelo não conhecimento de provas documentais somente carreadas aos autos após o prazo para apresentação da impugnação, estes devem retornar à instância inferior para a sua apreciação e prolação de novo acórdão.
Recurso Especial do Contribuinte Provido.
Numero da decisão: 9303-005.072
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Charles Mayer de Castro Souza e Júlio César Alves Ramos, que não conheceram do recurso. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem para análise dos novos documentos juntados pelo sujeito passivo.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício), Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Érika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. Recorrente AUTOTRAC COMÉRCIO E TELECOMUNICAÇOES S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/06/2003 a 30/06/2003 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ENFRENTAMENTO DA FUNDAMENTAÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. CONHECIMENTO. O recurso especial de divergência que combate a fundamentação do acórdão recorrido, demonstrando a comprovação do dissenso jurisprudencial, deve ser conhecido, consoante art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Além disso, mesmo após complementada a decisão ora recorrida com relação à ocorrência da preclusão para a produção de provas, pela via dos embargos de declaração, não se caracterizou a hipótese de fundamentos autônomos suficientes, cada um por si só, para manutenção do julgado, estando correta a insurgência pela via especial enfrentando o argumento da possibilidade de apresentação e análise de documentos novos em sede recursal. PROVAS DOCUMENTAIS NÃO CONHECIDAS. REVERSÃO DA DECISÃO NA INSTÂNCIA SUPERIOR. RETORNO DOS AUTOS PARA APRECIAÇÃO E PROLAÇÃO DE NOVA DECISÃO. Considerado equivocado o acórdão recorrido ao entender pelo não conhecimento de provas documentais somente carreadas aos autos após o prazo para apresentação da impugnação, estes devem retornar à instância inferior para a sua apreciação e prolação de novo acórdão. Recurso Especial do Contribuinte Provido. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 90 19 10 /2 00 8- 38 Fl. 649DF CARF MF Processo nº 10166.901910/200838 Acórdão n.º 9303005.072 CSRFT3 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Charles Mayer de Castro Souza e Júlio César Alves Ramos, que não conheceram do recurso. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem para análise dos novos documentos juntados pelo sujeito passivo. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício), Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Érika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 3803000.952, de 28/10/2008, proferido pela 3ª Turma Especial da Terceira Seção do CARF, assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL (...) PROVA AUSÊNCIA DA ESCRITURAÇÃO A ausência nos autos de material comprobatório consistente na escrituração contábil e fiscal que justifique a redução da base de cálculo da contribuição na DCTF retificadora, impede formar convicção sobre as alegações de existência de crédito. Contra a decisão, a contribuinte apresentou embargos de declaração, que, acolhidos, mas sem modificação do julgamento, resultou em acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL (...) EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. REDISCUSSÃO DA MATÉRIA JULGADA. IMPOSSIBILIDADE. Os Embargos de Declaração são modalidade recursal de integração e objetivam, tão somente, sanar obscuridade, contradição ou omissão, de maneira a permitir o exato conhecimento do teor do julgado. ALEGAÇÕES E PROVAS APRESENTADAS SOMENTE NO RECURSO. PRECLUSÃO. Consideramse precluídos, não se tomando conhecimento, os argumentos e provas não submetidos ao julgamento de primeira instância, apresentados somente na fase recursal. Embargos Acolhidos Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 650DF CARF MF Processo nº 10166.901910/200838 Acórdão n.º 9303005.072 CSRFT3 Fl. 4 3 A contribuinte, então, apresentou novos embargos, aos quais, todavia, foi negado seguimento. No Recurso Especial, por meio do qual pleiteou, ao final, a reforma do decisum, a Recorrente suscita divergência quanto à inadmissibilidade da prova apresentada pela Recorrente, apenas no recurso voluntário, tendo sido aplicado ao caso o princípio da preclusão, à luz do que reza o art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/72. Alega divergência de entendimento em relação ao que decidido no Acórdão nº 902001.634. Mediante Despacho do Presidente da Terceira Câmara da Terceira Seção do CARF, foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pela contribuinte. Cientificada, a Procuradoria apresentou contrarrazões ao recurso especial. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.065, de 16/05/2017, proferido no julgamento do processo 10166.900706/200808, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão, quanto à admissibilidade do recurso e quanto ao mérito (Acórdão 9303005.065): Da Admissibilidade "Com a devida vênia ao bem fundamento voto do Ilustre Conselheiro Relator, a maioria dos membros do Colegiado divergiu do seu entendimento quanto à admissibilidade do recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte, prevalecendo o entendimento pelo prosseguimento do apelo especial. O presente processo administrativo originouse de pedido de compensação transmitido pela Contribuinte, em 11/03/2004, de créditos de COFINS decorrentes de pagamento indevido ou a maior, para liquidação de débitos próprios. Sobreveio despacho decisório não homologando o pedido de compensação, sob o fundamento de inexistência de crédito disponível para compensação com os débitos informados. Fl. 651DF CARF MF Processo nº 10166.901910/200838 Acórdão n.º 9303005.072 CSRFT3 Fl. 5 4 Tendose insurgido a Contribuinte por meio de manifestação de inconformidade, a DRJ entendeu por manter a não homologação da compensação em razão do saldo insuficiente para compensar e, ainda, acrescentou os seguintes argumentos: a Contribuinte não trouxe aos autos elemento de prova de erro material no preenchimento da DCTF; e a simples apresentação das cópias da DIPJ e da DCTF, bem como de planilha elaborada pelo Sujeito Passivo, sem a devida escrituração, não são suficientes para comprovar as suas alegações. Em sede de julgamento de recurso voluntário, sobreveio o acórdão nº 380300.949, ora recorrido, que lhe negou provimento em razão da ausência de provas nos autos, consistente na escrituração contábil e fiscal da empresa, que justificassem a redução da base de cálculo da contribuição na DCTF retificadora, conforme trecho destacado acima pelo nobre Relator, in verbis: [...] No entanto, a contribuinte não trouxe aos Autos material probatório que comprovasse o erro cometido no preenchimento da DCTF, o que demonstraria a existência do crédito alegado referente ao DARF recolhido, bem como a possibilidade de utilizálo para quitar os débitos apurados em outros períodos. Apresentar apenas cópias da DIPJ, da DCTF e da planilha elaborada pela própria contribuinte, sem a devida escrituração, não é suficiente para comprovar as alegações da contribuinte, não sendo, portanto, capaz de "desconstituir o que foi constituído". [...] Opostos embargos de declaração pela Contribuinte, a decisão de negativa de provimento ao recurso voluntário foi complementada, nos termos do acórdão nº xxx, para acrescentar considerações quanto aos documentos e esclarecimentos trazidos aos autos sobre o equívoco das informações prestadas em DCTF, in verbis: [...] Compulsando o voto condutor da decisão embargada, há que se dar razão à Embargante, já que, aparentemente, o relator limitou se a refutar o poder probante das provas acostadas aos autos até o momento processual da Manifestação de Inconformidade, sem nada acrescentar quanto aos documentos e esclarecimentos trazidos aos autos no recurso voluntário, no sentido de evidenciar o erro cometido nas informações prestadas em DCTF. [...] Talvez tal omissão expliquese pela preclusão temporal que se operou. É que, de acordo com as normas processuais, é na manifestação de inconformidade que a lide é demarcada e o processo administrativo propriamente dito tem início, com a instauração do litígio, não se permitindo, a partir daí, a abertura de novas teses de defesa ou a apresentação de novas provas, a não ser nas situações legalmente excepcionadas. A este respeito, Marcos Vinícius Neder de Lima e Maria Tereza Martínez López asseveram que “a inicial e a impugnação fixam os limites da controvérsia, integrando o objeto da defesa as afirmações contidas na petição inicial e na documentação que a acompanha”. Fl. 652DF CARF MF Processo nº 10166.901910/200838 Acórdão n.º 9303005.072 CSRFT3 Fl. 6 5 As alegações de defesa são faculdades do demandado, mas constituemse em verdadeiro ônus processual, porquanto, embora o ato seja instituído em seu favor, não sendo praticado no tempo certo, surgem para a parte conseqüências gravosas, dentre elas a perda do direito de fazêlo posteriormente, pois operase, nesta hipótese, o fenômeno da preclusão, isto porque o processo é um caminhar para a frente, não se admitindo, em regra, ressuscitar questões já ultrapassadas em fases anteriores. [...] Este colegiado já teve oportunidade de manifestarse nesse sentido, por meio do Acórdão nº 380302.042, de 6 de outubro de 2011: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2003, 2004 ALEGAÇÕES E PROVAS APRESENTADAS SOMENTE NO RECURSO. PRECLUSÃO. Consideramse precluídos, não se tomando conhecimento, os argumentos e provas não submetidos ao julgamento de primeira instância, apresentados somente na fase recursal. Ainda que, por liberalidade injustificada, se conhecesse dos documentos aportados aos autos intempestivamente, o recorrente o recorrente não se preocupou em identificar, inequivocamente, a ocorrência do fato gerador, a base de cálculo sujeita à tributação e o correspondente tributo devido, limitandose a apresentar planilha de demonstração do valor recolhido a maior de cálculo e demonstrativos outros, sem resguardo de qualquer formalidade e, principalmente, sem o necessário lastro na sua escrita contábil e em documentação idônea e hábil para atestar a liquidez e a certeza do crédito oposto na compensação declarada. [...] Conforme se depreende da fundamentação do acórdão que acolheu os embargos de declaração, não houve alteração do resultado do julgamento do recurso voluntário, nem mesmo acréscimo de argumentos à decisão, mas sim restou esmiuçado e detalhado o entendimento de que a não apresentação das provas do crédito tributário em momento oportuno implica na preclusão de o contribuinte fazêlo. Além disso, no acórdão de embargos de declaração não houve a apreciação dos documentos juntados com o recurso voluntário, conforme pretendia o Recorrente, mas simplesmente foram listados e concluiu o julgador, nos mesmos termos do acórdão então embargado, ser imprescindível a juntada de escrita fiscal e contábil para comprovação da certeza e liquidez do crédito tributário pretendido compensar. A Contribuinte interpôs, ainda, novos embargos de declaração por entender que permanecia a omissão no julgado quanto à documentação apresentada, e a existência de contradição e obscuridade, tendo sido os mesmos rejeitados consoante despacho nº 3803000.154, de 21/09/2012 (fls. 581 a 584), de cujo inteiro teor extraise que: Fl. 653DF CARF MF Processo nº 10166.901910/200838 Acórdão n.º 9303005.072 CSRFT3 Fl. 7 6 [...] Inexiste no acórdão embargado qualquer omissão a reclamar o acolhimento dos presentes embargos, pois tanto os fatos quanto os fundamentos da decisão foram expostos de forma clara, concisa e nítida. Digno de nota, a decisão recorrida enfrentou expressamente a questão, ao declinar que os documentos apresentados na manifestação de inconformidade não eram hábeis e suficientes para atestar a liquidez e certeza dos créditos opostos em compensação e que a documentação aportada aos autos juntamente com o recurso voluntário, ainda insuficiente para o mesmo fim, não seria conhecida em razão de sua intempestividade. Inexiste vício a sanar na decisão embargada. [...] Portanto, com a devida vênia ao entendimento contrário, um único fundamento prevaleceu para negar provimento ao recurso voluntário: a não apresentação de documentos hábeis a comprovar a pretensão compensatória da empresa quando da apresentação da manifestação de inconformidade, nesses compreendidos a escrita fiscal e contábil, acarreta a preclusão e impede o julgador de formar convicção quanto ao direito creditório. Não há de se falar, assim, em fundamentos autônomos e suficientes, cada um por si só, para manutenção da decisão recorrida. O recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte face à negativa de provimento ao recurso voluntário, atende aos pressupostos de admissibilidade constantes no art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 256/2009 e reproduzido na Portaria MF nº 343/2015, devendo ter prosseguimento. Ao invocar a existência de dissenso jurisprudencial quanto à "inadmissibilidade da prova apresentada pela Recorrente, apenas no recurso voluntário, tendo sido aplicado ao caso o princípio da preclusão", colacionou o acórdão paradigma nº 902001.634, comprovando a divergência de entendimentos, conforme se extrai da ementa do julgado paradigmático: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Exercício: 1999 APRESENTAÇÃO DE PROVAS APÓS A IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO PROCESSUAL E PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. Nos processos de determinação e exigência de crédito tributário, a impugnação fixará os limites da controvérsia, sendo considerada como não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Fl. 654DF CARF MF Processo nº 10166.901910/200838 Acórdão n.º 9303005.072 CSRFT3 Fl. 8 7 No entanto, a noção de preclusão não pode ser levada às últimas conseqüências, devendo o julgador ponderar sua aplicação no caso concreto à luz dos elementos constantes dos autos e que conduzem à identificação plena da matéria tributável, em homenagem ao princípio da verdade material. Recurso especial negado. O recurso especial de divergência que combate a fundamentação do acórdão recorrido, demonstrando a comprovação do dissenso jurisprudencial, deve ser conhecido, consoante art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Além disso, mesmo após complementada a decisão ora recorrida com relação à ocorrência da preclusão para a produção de provas, pela via dos embargos de declaração, não se caracterizou a hipótese de fundamentos autônomos suficientes, cada um por si só, para manutenção do julgado, estando correta a insurgência pela via especial enfrentando o argumento da possibilidade de apresentação e análise de documentos novos em sede recursal. Diante do exposto, entendeu a maioria do Colegiado por conhecer do recurso especial da Contribuinte, nos termos do voto que me coube redigir apenas quanto à admissibilidade do recurso." Do Mérito (...) Todavia, como este não foi o entendimento da Turma, aderimos à tese prevalecente quanto ao mérito do litígio, uma vez que, no caso, a Recorrente sequer foi intimada a apresentar provas do direito que alegava seu antes de proferido o Despacho Decisório, em desconformidade com o que preceitua o art. 3º, III, da Lei nº 9.784, de 1999. Donde o necessário envio dos autos à Câmara baixa para apreciação das provas carreadas aos autos, ainda que em sede de recurso voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial do Contribuinte e, no mérito, doulhe provimento, determinando o envio dos autos à Câmara baixa para apreciação das provas carreadas aos autos, ainda que em sede de recurso voluntário. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 655DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720181/2015-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Data do fato gerador: 22/10/2010
PARCELA CONTINGENTE RETIDA. PAGAMENTO SOB CONDIÇÃO SUSPENSIVA. IMPOSSIBILIDADE DE ADIÇÃO AO PREÇO PAGO.
Não se pode impor o regime de competência a uma parcela de pagamento futuro, se submetida a uma condição suspensiva que poderia não se realizar.
CUSTO DE AQUISIÇÃO PARA CÁLCULO DE GANHO DE CAPITAL. VALOR INFORMADO EM DIPJ DO ANO ANTERIOR. INEXISTÊNCIA DE PROVA EM CONTRÁRIO DO CONTRIBUINTE.
Considera-se como base para a formação do custo do investimento e posterior cálculo de ganho de capital o valor declarado em DIPJ, mormente quando a contribuinte não explicou nem demonstrou o motivo de eventual aumento.
Numero da decisão: 1301-002.583
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício e ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Eduardo Dornelas Souza - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felicia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA
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PAGAMENTO SOB CONDIÇÃO SUSPENSIVA. IMPOSSIBILIDADE DE ADIÇÃO AO PREÇO PAGO. Não se pode impor o regime de competência a uma parcela de pagamento futuro, se submetida a uma condição suspensiva que poderia não se realizar. CUSTO DE AQUISIÇÃO PARA CÁLCULO DE GANHO DE CAPITAL. VALOR INFORMADO EM DIPJ DO ANO ANTERIOR. INEXISTÊNCIA DE PROVA EM CONTRÁRIO DO CONTRIBUINTE. Considerase como base para a formação do custo do investimento e posterior cálculo de ganho de capital o valor declarado em DIPJ, mormente quando a contribuinte não explicou nem demonstrou o motivo de eventual aumento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício e ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 81 /2 01 5- 63 Fl. 1345DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.346 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felicia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório Tratamse de Recurso de Ofício e Recurso Voluntário contra o acórdão nº 14 62.742, proferido pela 1ª Turma da DRJ/RPO, que, por unanimidade de votos, entendeu julgar procedente em parte a impugnação apresentada, mantendo o crédito tributário exigido de IRPJ no valor de R$ 80.981.408,15 e de CSLL no valor de R$ 29.164.829,11, incluídos apenas imposto/contribuição e multas, conforme cálculos constantes doVoto. Por bem descrever o ocorrido, valhome do relatório elaborado por ocasião do julgamento do processo em primeira instância, a seguir transcrito: Conforme descrito no Termo de Verificação Fiscal, parte integrante do auto de infração lavrado em 14/12/2015 (fls. 648 a 656), o contribuinte acima identificado foi fiscalizado em relação ao IRPJ e CSLL que abrangeu o ano calendário de 2010. Afirma a autoridade fiscal que o auto de infração se refere a lançamento do IRPJ e da CSLL sobre o ganho de capital pela alienação da participação societária na sociedade Rodovias Integradas do Oeste S.A. (SP Vias), da empresa Planova Planejamento e Construções S.A. (Planova) para a Companhia de Participações em Concessões (CPC). Conforme relato, em dezembro de 2009 a CPC, por intermédio da CCR, sua acionista majoritária, enviou aos acionistas da SP Vias, uma "oferta para aquisição das ações da Rodovia Integradas do Oeste S/A ("SP Vias Concessionária" ou "Companhia") e subrogação do objeto dos contratos de seus consórcios". Em 03 de agosto de 2010 foi assinado o Contrato de Compra e Venda de Ações e Quotas e outras Avenças e respectivos anexos, onde constava como comprador a CPC e dentre os vendedores a Planova, com preço fixado de R$ 1.289.548.372,00 referente à aquisição de 100% da SP Vias, cujo fechamento somente de dará quando 100% das ações da SP Vias for adquirida pela CPC. Dentre as cláusulas, destaca as seguintes: o valor da SP Vias será corrigido "pro rata die" em 100% do CDI, a partir de 18/03/2010; os vendedores se comprometem a assinar os termos de transferências de ações, pelo qual a Planova cederá e transferirá todas as ações Planova ao Comprador e o Comprador receberá da Planova todas as ações Planova. Para a autoridade fiscal, a alienação de sua participação societária na SP Vias deveria ser seguida de apuração do ganho de capital e respectivos lançamentos na contabilidade da Planova, procedimento este que não foi realizado. Intimada a justificar a não inclusão na linha 58 das fichas 06A e 07A da DIPJ 2011/Ano calendário 2010, a Planova alegou ter declarado na linha 25 das respectivas fichas da referida DIPJ o valor líquido da operação (valor da alienação diminuído do custo de Fl. 1346DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.347 3 aquisição do investimento) sem, contudo, demonstrar esse custo. Limitouse a transcrever um breve histórico de lançamentos que não espelham a realidade do fato questionado. Em decorrência de diligência, o custo foi informado pela compradora CPC. Considerou o fiscal que a alienação foi realizada totalmente no anocalendário de 2010 (regime de competência), apesar de apenas parte do preço ter sido pago em 2010, pois o contribuinte não utilizouse da faculdade prevista no art. 421 do RIR/99. Para apurar o ganho de capital a ser tributado, o Auditor partiu do valor total da transação de R$ 1.289.548.372,00, corrigido por 100% do CDI até a efetivação do negócio, apurando o valor de R$ 1.335.847.194,35, que coincide com o valor informado pela adquirente CPC em resposta à intimação. Como a Planova detinha 18,562171% das ações da SP Vias, conclui que o valor do preço de venda que lhe coube foi de R$ 247.962.240,51. Os ajustes do contrato que cabem à Planova perfazem R$ 3.862.111,86 que, somado ao custo total de aquisição de R$ 20.956.700,42 (custo de aquisição + PL), resultarão no valor total a ser subtraído do preço de venda de R$ 247.962.240,51. Com isso, o ganho de capital calculado pela autoridade fiscal equivale a R$ 223.143.428,23. O auto de infração foi lavrado sobre o ganho de capital apurado, resultando em um crédito tributário de R$ 169.983.969,31 (IRPJ, CSLL, juros de mora e multa de 75%) (fls. 668), cuja ciência foi dada ao contribuinte em 16/12/2015. Inconformada, a Planova Planejamento e Construções Ltda. apresentou impugnação em 14/01/2016 (fls. 676 a 698) e juntou documentos (fls. 699 a 860). Inicia com o histórico das operações, relatando que em 2010 vendeu sua parcela de ações à Companhia de Participações em Concessões (CPC), por Contrato de Compra e Venda de Ações e Quotas e Outras Avenças, firmado em 3 de agosto de 2010. Tal contrato estabelecia que a Impugnante deveria transferir à CPC a totalidade de suas 14.846.801 ações da SP Vias, representativas de 18,56% do capital social, desde que cumpridas determinadas condições. O custo histórico era de R$ 180.326.393,81 (cento e oitenta milhões, trezentos e vinte e seis mil, trezentos e noventa e três reais e oitenta e um centavos). Após o cumprimento das condições determinadas, dentre elas a aprovação da ARTESP e saída dos membros indicados por ela para a administração da Companhia, em 22 de outubro de 2010, as partes formalizaram o Termo de Fechamento, com a efetiva transferência das ações à CPC e pagamento de parte do valor ajustado, remanescendo parcelas com pagamento condicionado a eventos futuros. Ao defender seu direito, alega que os cálculos utilizados pela autoridade fiscal prejudicaram a Impugnante, sendo que o preço de venda das ações, o qual denomina de “preço de compra alocado”, equivale a R$ 243.885.683,51. Além disso, foi desconsiderada a retenção da parcela contingente do preço equivalente a R$ 177 milhões, que “somente seria paga, em 5 (cinco) parcelas, até o 20º (vigésimo) Dia Útil posterior ao encerramento de cada ano do Contrato somente se implementadas as condições dispostas nas Cláusulas ...”. Na proporção da Impugnante, esta quantia equivale a R$ 34.034.641,53. Com isso, defende que o resultado em razão do contrato seria de R$ 209.851.041,98. Fl. 1347DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.348 4 Defende ainda que o custo do seu investimento na SP Vias era de R$ 180.326.393,81 (e não o informado pela adquirente das ações, que apresentou um número em 21/10/2010), já que Impugnante detém participação na SP Vias desde 1999, culminando na formação desse custo histórico demonstrado em livros e registros contábeis. Ao alegar a violação ao art. 142 do CTN, afirma que não houve motivação de forma adequada e específica a suposta ausência de tributação, não foi demonstrada a existência de indícios de irregularidades nos lançamentos contábeis efetuados pela impugnante, partiu de premissas inconsistentes e incoerentes, errou no critério jurídico de apuração dos tributos e não aprofundou o trabalho fiscal, que se fundou em mera presunção simples. Na defesa de aplicação do art. 426 do RIR/99, justifica que deve ser utilizado o valor do custo do investimento registrado em sua contabilidade, que equivale a R$ 180.326.393,81. Com isso, o ganho de capital seria de R$ 29.524.648,17, sendo que a empresa ofereceu à tributação valor de R$ 30.420.262,74, superior ao devido em razão do contrato. Assevera que “a Impugnante não foi beneficiada pelos valores retidos na conta gráfica, uma vez que referidos montantes não se incorporaram ao seu patrimônio em razão da não implementação das condições previamente determinadas para sua liberação”. A Impugnante argumenta que a autoridade admite que apenas parte do valor acordado no contrato foi efetivamente recebido em 2010, e que os demais valores recebidos nos anoscalendário subsequentes são meras parcelas do montante avençado, o que supostamente impediria a Impugnante de optar pela forma de tributação prevista no artigo 421 do RIR. Defende que rendimentos sob condição suspensiva não possuem reflexos tributários enquanto não implementada tal condição, conforme jurisprudência do CARF colacionada. Ademais, afirma que houve mero erro no preenchimento da DIPJ, cujo resultado de alienação foi informado em outra linha (Linha 25 das fichas 6 A e 7A). Por fim, protesta pela posterior juntada de documentos e realização de diligências que justifiquem o cancelamento do auto de infração, requerendo ao final o cancelamento do auto de infração ou, ao menos, a consideração dos R$ 30.420.262,74 já oferecidos à tributação. É o relatório, no essencial ao julgamento da lide. Na seqüência, foi proferido o Acórdão nº 1462.742, pela 1ª Turma da DRJ/RPO, julgando procedente em parte a impugnação apresentada, com o seguinte ementário: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 22/10/2010 PARCELA CONTINGENTE RETIDA. PAGAMENTO SOB CONDIÇÃO SUSPENSIVA. IMPOSSIBILIDADE DE ADIÇÃO AO PREÇO PAGO. Não se pode impor o regime de competência a uma parcela de pagamento futuro, se submetida a uma condição suspensiva que poderia não se realizar. Fl. 1348DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.349 5 CUSTO DE AQUISIÇÃO PARA CÁLCULO DE GANHO DE CAPITAL. VALOR INFORMADO EM DIPJ DO ANO ANTERIOR. INEXISTÊNCIA DE PROVA EM CONTRÁRIO DO CONTRIBUINTE. Considerase como base para a formação do custo do investimento e posterior cálculo de ganho de capital o valor declarado em DIPJ, mormente quando a contribuinte não explicou nem demonstrou o motivo de eventual aumento. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Ciente do acórdão recorrido, e com ele inconformado, a recorrente apresenta, tempestivamente, recurso voluntário, através de patrono legitimamente constituído, pugnando por provimento, onde apresenta argumentos que serão a seguir analisados. É o Relatório. Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, Relator. Conforme se viu no relatório, tratase de lançamento de ofício que exige o pagamento de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) sobre ganho de capital pela alienação da participação societária na sociedade Rodovias Integradas do Oeste S.A (SP Vias), tendo como alienante a empresa Planova Planejamento e Construções S.A (Planova) e adquirente a Companhia de Participações e Concessões (CPC). Segundo a fiscalização, houve falta de contabilização de ganho de capital apurado na alienação de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, gerando, em conseqüência, redução indevido do lucro sujeito à tributação, conforme relatório fiscal anexo. Assim, exigiuse pagamentos de IRPJ no valor de R$ 124.988.212,72 e da CSLL no valor de R$ 44.995.756,59, acrescidos de juros de mora e de multa de 75%. RECURSO DE OFÍCIO. Quanto à admissibilidade do recurso de ofício, devese ressaltar que a Portaria MF nº 63, de 2017 estabeleceu novo limite para interposição de recurso de ofício pelas Turmas de Julgamento das Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ). Confirase: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). No caso em tela, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Ribeirão Preto/SP julgou procedente em parte a defesa apresentada, reduzindo o valor do IRPJ para R$ 80.98.408,15 e de CSLL para R$ 29.164.829,11, incluídos imposto/contribuição e multas. Somandose os valores exonerados em primeira instância (fls. 12651266), verifico que Fl. 1349DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.350 6 superam o limite de dois milhões e quinhentos mil reais, estabelecido pela norma em referência. Portanto, conheço do recurso de ofício. Quanto ao mérito, verifico que da análise das razões aduzidas pela então impugnante, a DRJ entendeu que o valor da venda das ações (denominado pelo contrato "preço de compra alocado) seria de R$ 244.026.971,97, ao invés dos R$ 247.962.240,51 calculados pela Autoridade Lançadora. Chegouse a este valor aplicando a fórmula prevista no contrato de compra e venda, "PC=(VCVA) x PII, onde VC ("Valor da Companhia") significa R$ 1.289.548.372,00, corrigido na forma da Cláusula 3.1.1 (variação pro rata die de 100% do CDI), proporcionalizado à participação da recorrente na SP Vias (18,562171%). Entendeuse ainda procedente a alegação da impugnante de que o disposto na Clausula 4.3 parte contingente do preço e ajuste por perdas incorridas , configura valor sujeito a condição suspensiva, de modo que à luz do art. 116 do CTN não teria havido fato gerador em relação a tais parcelas no anocalendário 2010. Não há reparos a fazer a este entendimento. No cálculo do valor da vendas das ações, de fato, há sim um erro da autoridade fiscal no cálculo do ajuste (VA) quando utilizouse equivocadamente a participação de 18,2171%, ao invés de 18,562171 % (item 23 do relatório fiscal, fl. 653). Por conseqüência, o valor do ajuste equivale a R$ 28.863.819,85 x 73,45% x 18,562171% = R$ 3.935.268,55, ao invés dos R$ 3.862.111,86 apontados pela autoridade fiscal. Com referência à desconsideração da parcela contingente retida no valor proporcional de R$ 34.034.641,53, entendo que agiu acertadamente a DRJ. A decisão recorrida tratou do tema da seguinte forma: Isto significa dizer que, na condição suspensiva o fato gerador só ocorre quando a pessoa tornarse titular de um direito que depende de um evento futuro e incerto, ou seja, enquanto não ocorrer tal evento, a pessoa tem mera expectativa de direito. Sendo assim, inexiste fato gerador enquanto a pessoa não for titular deste direito. Somente quando implementadas as várias condições suspensivas previstas em contrato é que se poderia considerar ocorrido o fato gerador do imposto de renda. Assim, não há razão à autoridade fiscal para impor o regime de competência a uma parcela de pagamento futuro, visto que submetida a uma condição suspensiva que poderia não se realizar, conforme se pode concluir pela leitura da cláusula 4.3, combinada com a cláusula 10.8 do Contrato de Compra e Venda. Na verdade, o fato gerador só será considerado ocorrido quando implementada a condição contratualmente prevista. Com isso, o valor devido à Impugnante em razão do contrato passa a ser de R$ 244.026.971,97, diminuído do valor sujeito a condição suspensiva corretamente calculada pelo Impugnante de R$ 34.034.641,53, perfazendo o valor de R$ 209.992.330,44. De fato, pelo que se observa nos autos, alguns valores constantes do preço de aquisição dependiam que condições contratualmente acordadas para que sua implementação viesse a ocorrer, conforme cláusula 4.3, combinada com a cláusula 10.8 do Contrato de Fl. 1350DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.351 7 Compra e Venda.. Desta forma, o pagamento dessas parcelas do preço de aquisição estava condicionado a eventos futuros e incertos, que poderiam a ocorrer ou não. Nesses termos, como acertadamente posto na decisão recorrida, não há disponibilidade econômica ou jurídica do montante total dos recursos. Ao contrário, há uma identificação clara no negócio contratado do recebimento de parcelas do preço e uma expectativa de direito a um crédito exigível, cuja efetivação sujeitase a condições suspensivas consistentes na materialização, ou não, de determinadas contingências. Com efeito, parcela contingente foi descontada da recorrente, e retida em conta gráfica e, somente será paga após serem implementadas as condições previamente pactuadas. Tratandose de parcela cujo pagamento encontrase sob condição suspensiva, impõese reconhecer inexigível o oferecimento à tributação desse valor, pois as condições podem nunca serem implementadas e, conseqüentemente, o valor não se incorporar ao patrimônio da recorrente. Assim, deve ser mantida a decisão de primeira instância que exonerou o imposto e a multa do ganho de capital referente a tais valores. Desta forma, voto por NEGAR provimento ao recurso de ofício. DA ANÁLISE DO RECURSO VOLUNTÁRIO O presente recurso é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/1972. Portanto, dele conheço. Os argumentos serão apreciados na ordem em que apresentados na peça recursal. Da Verdade Material Do Cerceamento de Defesa Necessidade de Diligências Alega a recorrente nulidade da decisão recorrida, por ofensa ao princípio da verdade material e por cerceamento de defesa, em função do indeferimento de pedido de perícia. Da análise dos termos da decisão recorrida, não há que se falar em nulidade ou omissão na apreciação de provas juntadas aos autos. Pelo contrário, na referida decisão, vê se que a decisão recorrida faz referência expressa aos documentos apontados pela recorrente, entendendo que os mesmos não comprovam a formação do custo contábil do bem. Confirase: Compulsandose os autos, verifico que houve a informação (sem demonstração) de que a conta “Investimentos Sp Vias” foi creditada no valor de R$ 180.326.393,81 em 02/10/2010, além do Resultado em Participação Societária de R$ 30.420.262,74, após Termo de Intimação Fiscal nº 04 (fls. 338 a 356). Porém, o Termo de Intimação Fiscal nº 08 (fls. 366 a 367) detalhou que a empresa havia declarado na DIPJ 2010, ficha 62, a participação em coligadas/controladas (18,56% da SP Vias) no valor de R$ 20.227.775,86, com resultado de equivalência patrimonial de R$ 5.014.540,01. Solicitou, em seguida, a justificativa para “a não Fl. 1351DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.352 8 inclusão na linha 58 das fichas 06A e 07A da DIPJ 2011/Anocalendário 2010, do valor recebido pela alienação”. Parece óbvio que a justificativa solicitada pela autoridade fiscal levava em consideração o valor base para a formação do custo, ou seja, os R$ 20.227.775,86 declarados em DIPJ 2010. Caso contrário, sequer teria mencionado o valor declarado na DIPJ 2010. Veja que, em sua resposta (fls. 369 373), a contribuinte não explicou nem demonstrou o motivo de ter em sua DIPJ 2010 esse valor declarado, ao mesmo tempo em que informou o histórico de crédito de R$ 180.326.393,81 em 02/10/2010, além do Resultado em Participação Societária de R$ 30.420.262,74. Além de tal valor não ter sido “apresentado e demonstrado inúmeras vezes”, a simples alegação por parte da Impugnante de que a autoridade fiscal ignorou que a contribuinte detém participação da Sp Vias desde 1999, o que “culminou na formação do custo histórico da SP Vias em R$ 180.326.393,81”, sem qualquer apresentação de elementos probatórios condizentes com esses números, não pode ser considerada como suficiente para a formação do custo contábil do bem. (...) Para a autoridade fiscal, este é o valor a ser considerado no cálculo de ganho de capital na venda desse ativo, valor que considero correto, já que não provado pela Impugnante que o custo contábil era superior. Ora, não é tarefa do julgador realizar provas para quaisquer das partes. Quando o artigo 18 do Decreto 70.235/72 diz que a autoridade julgadora determinará, de ofício ou a requerimento, a realização de diligências, quando entendêlas necessárias, não significa, que ele julgador substitua as partes, quanto ao dever de produzir provas para sustentar suas alegações. O julgador é livre no exame de tais provas, como também é livre em determinar ou não as diligências que entender necessárias, desde que o faça motivadamente, como de fato ocorreu. No caso em análise, vêse que a autoridade julgadora entendeu que na ausência de prova de que os valores declarados pelo contribuinte em DIPJ não correspondiam ao custo real do investimento, não havia razão para solicitar diligência. Do exame dos autos, verificase que o contribuinte, desde à fiscalização, teve várias oportunidades de se manifestar pela juntada de documentos, mas permaneceu inerte, insistindo em alegações genéricas e sem comprovação. Assim, não há vício a ser sanado, devendo ser rejeitada sua alegação de nulidade. Do mérito Com referência ao mérito, pontua a recorrente que a fiscalização não logrou demonstrar existir qualquer irregularidade nos lançamentos contábeis efetuados por ela, assim como na composição do custo do seu investimento na SP Vias, adotando, em sua ótica, equivocadamente, o valor do custo informado por terceiros. Aduz que não houve omissão de documentos ou informações que prejudicassem a conclusão dos trabalhos fiscais; que admite ter ocorrido erro de preenchimento de DIPJ, porém isso não compromete a apuração dos fatos elencados; que em 2005, o contribuinte realizou um registro contábil de ágio decorrente de Fl. 1352DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.353 9 investimento em empresas controladas e após a incorporação da sua controlada, voltou a ter participação direta na empresa SP Vias; e que o ágio apurado foi fundamentado na capacidade de geração de lucros futuros frente a potencialidade do seu patrimônio. Registrese, desde logo, o fato da recorrente trazer argumento inaugural em sede de recurso voluntário, ao aduzir que a divergência entre o valor contábil apurado pelo fiscal (R$ 20.956.700,42) e o valor alegado pela recorrente (R$ 180.326.393,81) decorreria de ágio por rentabilidade futura pago em 2005, na aquisição do investimento pela Planova. Este argumento não foi suscitado pela recorrente em sua impugnação, trazendoo apenas agora, para dizer que o valor do custo considerado por ela para apurar o ganho de capital decorre de ágio supostamente pago na aquisição do investimento. Porém, sua novel alegação encontrase desacompanhada de provas. Com efeito, a única prova trazida pelo contribuinte em seu recurso voluntário foi um balancete contábil referente ao anocalendário 2010. Este documento por si só não prova o custo de aquisição, pois encontrase desacompanhado do contrato de aquisição e da comprovação do valor pago. Assim, não conheço de tal argumento. Com relação ao cálculo de ganho de capital, vale o seguinte registro: durante procedimento fiscal, o contribuinte foi questionado sobre o valor recebido pela alienação e o valor contábil declarado na DIPJ, bem como da não inclusão na linha 58 das fichas 06A e 07A do valor total recebido pela alienação. Presumese que a justificativa solicitada pela autoridade fiscal levava em consideração o valor base para a formação do custo, ou seja, os R$ 20.227.775,86 declarados em DIPJ 2010. Caso contrário, sequer teria mencionado o valor declarado na DIPJ 2010. Em resposta (fls. 369 a 373), a recorrente apenas afirma que fez o lançamento na DIPJ pelo valor líquido da operação de alienação e que creditou a conta investimentos em R$ 180.326.393,81, sem, no entanto, fazer qualquer demonstração de como chegou a este custo de investimento, divergente do declarado em DIPJ, no valor de R$ 20.227.775,86. Em sua impugnação, o contribuinte se limita a dizer que teria "demonstrado inúmeras vezes ao fiscal" que o custo do investimento era de R$ 180.326.393,81 e não de R$ 20.227.775,86, com alegações genéricas de que os "os documentos necessários para tanto foram disponibilizados à fiscalização, além dos livros diário, razão e lalur e demais registros contábeis", sem contudo apontálos ou especificálos (pag. 11 da impugnação). Assim, impõese que o motivo da utilização do valor entregue pela compradora de R$ 20.956.700,42 (PL + Lucro Acumulado), em 21/10/2010 data da venda, não devidamente contestado pela recorrente, advém do disposto nos art. 426 e 427 do RIR/99, que assim dispõe: “Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): Fl. 1353DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.354 10 I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. Art. 427. A baixa de investimento relevante e influente em sociedade coligada ou controlada deve ser precedida de avaliação pelo valor do patrimônio líquido, com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada, levantado na data da alienação ou liquidação ou até trinta dias, no máximo, antes dessa data (Lei nº 7.799, de 1989, art. 27, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 4º).” Para a autoridade fiscal, este é o valor a ser considerado no cálculo de ganho de capital na venda desse ativo. Entendo que agiu acertadamente, pois não provado pela recorrente que o custo contábil seria superior. Por fim, quanto a suposta violação ao artigo 142 do Código Tribunal Nacional, pontua a recorrente que as premissas adotadas pela autoridade administrativa são inconsistentes e descabidas, comprometendo material substancialmente os lançamentos tributário, de forma a violar o artigo 142 do Código Tributário Nacional, o que importa, em sua ótica, em cancelamento em definitivo dos autos de infração em comento. Não entendo dessa forma. Conforme se verifica, não há violação alguma ao artigo 142 do CTN, pois restou evidenciado que a vendedora, ora recorrente, não levou em conta os valores efetivamente auferido como ganho de capital, oferecendoo à tributação em momento oportuno. Penso que restou demonstrado que a fiscalização descreveu de forma minuciosa os procedimentos realizados, motivando com fatos e fundamentos jurídicos a infração praticada pelo contribuinte. Além do que, não há que se falar em presunção quanto todos os documentos que deram suporte aos lançamentos foram apresentados ao contribuinte, dandolhe ampla oportunidade de defesa. CONCLUSÃO Assim, diante do exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso de ofício e ao voluntário, mantendose incólume a decisão recorrida. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 1354DF CARF MF Processo nº 16561.720181/201563 Acórdão n.º 1301002.583 S1C3T1 Fl. 1.355 11 Fl. 1355DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.912079/2012-46
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 27/10/2011
RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO.
Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009.
Recurso Voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-003.793
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DO COUTO CHAGAS
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Ausência de certeza e liquidez do crédito pleiteado. Recorrente FUNDAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA UNICAMP FUNCAMP Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 27/10/2011 RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO. Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Recurso Voluntário negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas. Relatório Tratase de manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório eletrônico que indeferiu Pedido de Restituição Eletrônico PER referente a alegado crédito de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 91 20 79 /2 01 2- 46 Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 3 2 pagamento indevido ou a maior efetuado por meio do DARF, código de receita 8301 (PIS – Folha de Pagamento). Segundo o Despacho Decisório, o DARF informado no PER foi integralmente utilizado na quitação do respectivo débito, não restando crédito disponível para restituição. Em sua manifestação de inconformidade a interessada argumentou, em resumo, que o pagamento indevido decorre de sua condição de imune às contribuições sociais, nos termos dos art. 150, inciso VI, alínea “c”, art. 195, § 7º, c/c art. 205, art. 6º, art. 203, inciso III, art. 145, § 1º, art. 146, II, todos da Constituição Federal, e do art. 14 do CTN. Discorre sobre sua condição de imune. Requer que seja declarada como Entidade Beneficente de Assistência Social. Ao analisar o caso, a DRJ em Juiz de Fora (MG), entendeu por julgar improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão 09051.820, com base primordialmente nos seguintes fundamentos: (i) a imunidade das contribuições sociais está sujeita às exigências estabelecidas pela Lei 12.101/2009; (ii) a Recorrente não possui CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social); (iii) o PIS não está abrangido pela imunidade estabelecida no art. 195, § 7º da Constituição Federal; e (iv) a Recorrente está sujeita ao PIS sobre a Folha de Salários e não sobre o Faturamento. Intimado da decisão e insatisfeito com o seu conteúdo, o contribuinte interpôs, tempestivamente, Recurso Voluntário através do qual alegou, resumidamente: (i) que o STF já teria pacificado seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, que teve repercussão geral reconhecida; (ii) que a Recorrente atende a todos os requisitos da Lei 12.101/2009 para fins de usufruto da imunidade, conforme comprovado no pedido de emissão do CEBAS protocolizado (trata sobre cada um dos requisitos); (iii) que a emissão do CEBAS é um ato administrativo vinculado, constituindo obrigação legal uma vez constatado o atendimento dos requisitos legais para gozo da imunidade; (iv) que a emissão do CEBAS tem caráter declaratório, sendolhe conferidos efeitos retroativos. Requer, ao final, que seja dado provimento ao seu recurso, para fins de deferir o pedido de restituição, por se tratar de instituição imune às contribuições previdenciárias. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301003.674, de 27 de junho de 2017, proferido no julgamento do processo 10830.900254/201333, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301003.674): Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 4 3 "O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Consoante acima narrado, tratase de Pedido de Restituição Eletrônico PER nº 23871.62072.130912.1.2.040241 referente a alegado crédito de pagamento indevido ou a maior da contribuição previdenciária sobre a folha de salários a cargo do empregador, efetuado por meio do DARF no valor original de R$ 42.011,75. Como é cediço, para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez, cuja comprovação deve ser efetuada pelo contribuinte. No caso concreto ora analisado, portanto, há de se verificar se o crédito tributário alegado pelo contribuinte encontrase revestido de tais características, sem as quais o pleito não pode ser deferido. Alega o contribuinte que o seu pleito decorre do seu direito seria líquido e certo ao gozo da imunidade. A DRJ, por seu turno, entendeu de forma diversa, conforme se extrai da passagem do voto a seguir transcrita: A imunidade relativa às pessoas jurídicas que prestam assistência social está prevista nos seguintes dispositivos constitucionais: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] VI instituir impostos sobre:(Vide Emenda Constitucional nº 3, de 1993) a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. [...] Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: [...] § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. A imunidade prevista no artigo 150 acima transcrito é especifica para impostos não abrangendo às contribuições sociais. Portanto, não alcança o PIS/PASEP –Folha de Salários. A imunidade prevista no artigo 195, § 7º, é específica para contribuições para seguridade social e depende da caracterização da entidade como beneficente Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 5 4 de assistência social que atenda às exigências estabelecidas em lei, entre elas a certificação de que trata a Lei 12.101/2009, conforme dispositivos transcritos a seguir: Art. 1o A certificação das entidades beneficentes de assistência social e a isenção de contribuições para a seguridade social serão concedidas às pessoas III do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, quanto às entidades de assistência social. (...) Art. 29. A entidade beneficente certificada na forma do Capítulo II fará jus à isenção do pagamento das contribuições de que tratam os arts. 22 e 23 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, desde que atenda, cumulativamente, aos seguintes requisitos (grifo não original) Com base nos atos acima transcritos, que vinculam este colegiado de 1ª instância administrativa, a contribuinte, por não ser detentora do certificado de entidade beneficente de assistência social, não faz jus à imunidade prevista no artigo 195, § 7º, da CF/88, por descumprir exigência contida em lei. Com lastro no artigo 21 supra, não compete à RFB decidir sobre a concessão de certificados de entidade beneficente de assistência social, não tendo força vinculante as decisões judiciais e o posicionamento da doutrina mencionados pela defesa. De modo que, o pedido, para que seja declarada como Entidade Beneficente da Assistência Social, com força substitutiva do registro e da certificação de que trata o art. 21 da Lei nº 12.101/2009, não pode ser atendido no âmbito desse colegiado. A contribuinte impetrou o mandado de segurança nº 2007.61.05.0129681, junto à 2ª Vara Federal de Campinas, que atualmente tramita no TRF 3º Região, com sentença proferida reconhecendo o direito à imunidade prevista no art. 195, 7º, da CF/88, no tocante à Cofins, desde que cumpridos os requisitos do art. 14 do CTN e os deveres instrumentais acessórios estabelecidos pela legislação fiscal. Portanto, mantida a exigência do certificado de entidade beneficente de assistência social para gozo da imunidade prevista no artigo 195, 7º, da CF/88. Concordo com a conclusão a que chegou a DRJ no trecho acima, por entender que não restou comprovada a certeza e liquidez do crédito pleiteado pelo contribuinte. Embora a Recorrente tenha protocolizado pedido de emissão do CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social) desde 18/12/2013, é certo que este pedido ainda não foi deferido, encontrandose atualmente na situação de "encaminhado". E sendo esta emissão um requisito essencial ao gozo da imunidade pleiteada, nos termos do que determina a Lei nº 12.101/2009, não há como se entender que o crédito tributário objeto da presente demanda seja líquido e certo. Notese que o art. 29 da referida lei dispõe que fará jus à isenção a entidade beneficente certificada. Ademais, como bem destacou a DRJ em sua decisão, a análise quanto ao atendimento dos requisitos dispostos na Lei n. 12.101/2009 e a consequente concessão do Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 6 5 CEBAS não é de competência da Receita Federal do Brasil, ou mesmo deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Nesse contexto, ainda que o ato administrativo de concessão do CEBAS seja plenamente vinculado, e que os seus efeitos sejam declaratórios, conferindolhe aplicação retroativa, tais fatores não afastam a necessidade de que haja a análise quanto a tal pleito por parte da autoridade competente. Sendo assim, não há como se deferir o pleito do contribuinte de restituição apresentado, por faltarlhe certeza e liquidez. De outro norte, importante ainda que se analise o segundo fundamento da decisão recorrida, que assim dispôs: Ainda que a contribuinte fosse detentora de tal certificado, o entendimento da administração tributária é que o PIS/PASEP não está abrangido pelo artigo 195 da Carta Magna, sendo devido o seu recolhimento na forma da lei. No caso vertente, o crédito pretendido decorre de pagamento de PIS/PASEP – Folha de Salários. Cabe, então, observar o disposto no art. 13 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001: Art. 13. A contribuição para o PIS/PASEP será determinada com base na folha de salários, à alíquota de um por cento, pelas seguintes entidades: I templos de qualquer culto; II partidos políticos; III instituições de educação e de assistência social a que se refere o art. 12 da Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, a que se refere o art. 15 da Lei no 9.532, de 1997; V sindicatos, federações e confederações; VI serviços sociais autônomos, criados ou autorizados por lei; VII conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas; jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, reconhecidas como entidades beneficentes de assistência social com a finalidade de prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação, e que atendam ao disposto nesta Lei. (...) Art. 21. A análise e decisão dos requerimentos de concessão ou de renovação dos certificados das entidades beneficentes de assistência social serão apreciadas no âmbito dos seguintes Ministérios: I da Saúde, quanto às entidades da área de saúde; II da Educação, quanto às entidades educacionais; e VIII fundações de direito privado e fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público; IX condomínios de proprietários de imóveis residenciais ou comerciais; e Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 7 6 X a Organização das Cooperativas Brasileiras OCB e as Organizações Estaduais de Cooperativas previstas no art. 105 e seu § 1o da Lei no 5.764, de 16 de dezembro de 1971. [...].” [Grifei]. Por sua vez, os mencionados arts. 12 e 15 da Lei nº 9.532, de 1997, assim dispõem1: Art. 12. Para efeito do disposto no art. 150, inciso VI, alínea "c", da Constituição, considerase imune a instituição de educação ou de assistência social que preste os serviços para os quais houver sido instituída e os coloque à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem fins lucrativos. (Vide artigos 1º e 2º da Mpv 2.18949, de 2001) (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º Não estão abrangidos pela imunidade os rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável. § 2º Para o gozo da imunidade, as instituições a que se refere este artigo, estão obrigadas a atender aos seguintes requisitos: [...] Art. 15. Consideramse isentas as instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos. (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º A isenção a que se refere este artigo aplicase, exclusivamente, em relação ao imposto de renda da pessoa jurídica e à contribuição social sobre o lucro líquido, observado o disposto no parágrafo subseqüente. [...] § 3º Às instituições isentas aplicamse as disposições do art. 12, § 2°, alíneas "a" a "e" e § 3° e dos arts. 13 e 14. Nesse sentido, o Decreto nº 4.527, de 17 de dezembro de 2002, ao regulamentar a Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado em geral, assim dispõe: Art. 9º São contribuintes do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários as seguintes entidades (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13): [...] III instituições de educação e de assistência social que preencham as condições e requisitos do art. 12 da Lei nº 9.532, de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, que preencham as condições e requisitos do art. 15 da Lei nº 9.532, de 1997; [...] Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 8 7 Art. 46. As entidades relacionadas no art. 9º deste Decreto (Constituição Federal, art. 195, § 7º , e Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13, art. 14, inciso X, e art. 17): I não contribuem para o PIS/Pasep incidente sobre o faturamento; e [...] Art. 50. A base de cálculo do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários mensal, das entidades relacionadas no art. 9º, corresponde à remuneração paga, devida ou creditada a empregados. [...].” [Grifei]. Portanto, considerando as normas legais supracitadas e que a contribuinte se declara imune em razão da atividade por ela exercida (atividades de apoio à educação – exceto caixas escolares), não há incidência da contribuição para o PIS/Pasep sobre o faturamento. Entretanto, é devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88. Assim, diante da ausência de certeza do crédito pleiteado, voto por considerar improcedente a manifestação de inconformidade, ratificando o Despacho Decisório que indeferiu a restituição pretendida. Sobre este ponto, o contribuinte alegou em seu recurso voluntário que o STF já pacificou seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, publicado em 04/04/2014, que teve repercussão geral reconhecida. Da análise do referido julgado, extraise que o STF chegou à seguinte conclusão: A pessoa jurídica para fazer jus à imunidade do art. 195, § 7º, CF/88, com relação às contribuições sociais, deve atender aos requisitos previstos nos artigos 9º e 14, do CTN, bem como no art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98 e Lei nº 12.101/2009, nos pontos onde não tiveram sua vigência suspensa liminarmente pelo STF nos autos da ADIN 2.2085. As entidades beneficentes de assistência social, como consequência, não se submetem ao regime tributário disposto no art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e no art. 13, IV, da MP nº 2.15835/2001, aplicáveis somente àquelas outras entidades (instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos) que não preencherem os requisitos do art. 55, da Lei nº 8.212/91, ou da legislação superveniente sobre a matéria, posto não abarcadas pela imunidade constitucional. A inaplicabilidade do art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e do art. 13, IV, da MP º 2.15835/2001, às entidades que preenchem os requisitos do art. 55 da Lei nº 8.212/91, e legislação superveniente, não decorre do vício da inconstitucionalidade desses dispositivos legais, mas da imunidade em relação à contribuição ao PIS como técnica de interpretação conforme à Constituição. Fl. 197DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 9 8 Ou seja, o STF concluiu que as entidades beneficentes de assistência social não se submetem ao regime tributário disposto no art. 13, IV da MP n. 2.15835/2001, por fazerem jus à imunidade do art. 150, § 7º, da CF/88. E como restou conferida à tese ali assentada repercussão geral e eficácia erga omnes e ex tunc, tal entendimento deverá ser observado por este Conselho, por força do que dispõe o Regimento Interno deste Conselho, in verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) (...). § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverãoser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Com base no entendimento do STF expresso no RE 636.941/RS, há de se reconhecer, portanto, a insubsistência da conclusão constante da decisão recorrida no sentido de seria "devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88". Contudo, para que se possa concluir pela aplicação do julgado do STF ao caso vertente, seria necessário verificar se a Recorrente se enquadra como entidade beneficente de assistência social e se atende os requisitos legais dispostos na legislação pertinente. Ocorre que, consoante anteriormente apontado, o pedido de concessão da CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social), um dos requisitos para o gozo da imunidade, ainda não foi deferido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, a Fl. 198DF CARF MF Processo nº 10830.912079/201246 Acórdão n.º 3301003.793 S3C3T1 Fl. 10 9 quem compete analisar o atendimento dos requisitos dispostos na legislação pertinente (art. 14 do CTN, art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98, e Lei nº 12.101/2009). É válido destacar, inclusive, que o STF, ao julgar o RE 636.941/RS tratou expressamente desta certificação, concluindo que "a definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade". É o que se infere da passagem a seguir transcrita, extraída do voto do Ministro Luiz Fux, relator do mencionado RE: Pela análise da legislação, percebese que se tem consagrado requisitos específicos mais rígidos para o reconhecimento da imunidade das entidades de assistência social (art. 195, § 7º, CF/88), se comparados com os critérios para a fruição da imunidade dos impostos (art. 150, VI, c, CF/88). Ilustrativamente, menciono aqueles exigidos para a emissão do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social – CEBAS, veiculados originariamente pelo art. 55 da Lei nº 8.212/91, ora regulados pela Lei nº 12. 101/2009. A definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, não implicando significativa restrição do alcance do dispositivo interpretado, qual seja, o conceito de imunidade, e de redução das garantias dos contribuintes. Com efeito, a jurisprudência da Suprema Corte indicia a possibilidade de lei ordinária regulamentar os requisitos e normas sobre a constituição e o funcionamento das entidades de educação ou assistência (aspectos subjetivos ou formais). Diante do acima exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Fl. 199DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16682.722461/2015-30
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 25 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011
DECISÃO DE PISO. NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO.
É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972.
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA.
O valor tributável mínimo - VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes.
A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação).
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA".
O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídico-tributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de um signo jurídico em matéria tributária deve socorrer-se da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitando-se ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido.
Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante.
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO.
Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter provado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3402-004.341
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Relator, Jorge Olmiro Lock Freire e Pedro Souza Bispo. Designado redator para o voto vencedor o Conselheiro Diego Diniz Ribeiro.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Relator.
(assinado digitalmente)
Diego Diniz Ribeiro - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Proferiu sustentação oral pela Recorrente o Dr. Luis Felipe Krieger Moura Bueno, OAB nº 117.908 (RJ), e pela Fazenda Nacional o Procurador DR. Pedro Augusto Junger Cestari.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 DECISÃO DE PISO. NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO. É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA. O valor tributável mínimo - VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA". O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídico-tributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de um signo jurídico em matéria tributária deve socorrer-se da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitando-se ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido. Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter provado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela. Recurso Voluntário Provido.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 59; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2219; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T2 Fl. 3.587 1 3.586 S3C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16682.722461/201530 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3402004.341 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 29 de agosto de 2017 Matéria AUTO DE INFRAÇÃO IPI Recorrente PROCOSA PRODUTOS DE BELEZA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 DECISÃO DE PISO. NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO. É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA. O valor tributável mínimo VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA". O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídicotributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 24 61 /2 01 5- 30 Fl. 3587DF CARF MF 2 um signo jurídico em matéria tributária deve socorrerse da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitandose ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido. Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter provado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Relator, Jorge Olmiro Lock Freire e Pedro Souza Bispo. Designado redator para o voto vencedor o Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Proferiu sustentação oral pela Recorrente o Dr. Luis Felipe Krieger Moura Bueno, OAB nº 117.908 (RJ), e pela Fazenda Nacional o Procurador DR. Pedro Augusto Junger Cestari. Relatório Fl. 3588DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.588 3 Trata o presente processo de Auto de Infração (fls. 3.111/3.117), lavrado contra a empresa PROCOSA PRODUTOS DE BELEZA LTDA. (doravante denominada de PROCOSA), com exigência do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), referente ao ano calendário de 2011, no montante de R$ 251.115.632,99, acrescido de multa de ofício proporcional no valor de R$ 188.336.724,77 e de juros de mora no valor de R$ 105.980.939,38, totalizando o crédito tributário em R$ 545.433.297,14, motivado em razão da insuficiência no recolhimento daquele tributo, gerado por conta da inobservância das regras relativas ao valor tributável mínimo (VTM) nas saídas de produtos industrializados pela Recorrente para estabelecimento comercial interdependente. O fundamento do lançamento foi a violação aos arts. 195 e 196 do RIPI/2010, vigente à época dos fatos geradores, que determinavam que o VTM deveria corresponder ao preço praticado no mercado atacadista da praça do remetente sempre que o produto fosse destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma interdependente e que estabeleciam, ainda, que o VTM deveria ser calculado com base na média ponderada dos preços de cada produtos, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente. Por trazer uma clara síntese do processo até o julgamento da Impugnação Administrativa, peço vênia para transcrever o relatório do Acórdão 0133.151, da 3ª Turma da DRJ em Belém (PA), ora recorrido (fls. 3.447/3.473): "(...) Na descrição dos fatos e enquadramento legal (fl. 3.112 dos autos), a Fiscalização assim fundamentou a lavratura do auto de infração: “PRODUTO SAÍDO DO ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL OU EQUIPARADO A INDUSTRIAL COM EMISSÃO DE NOTA FISCAL INFRAÇÃO: SAÍDA DE PRODUTOS SEM LANÇAMENTO DO IPI – INOBSERVÂNCIA DO VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO Falta de lançamento de imposto por ter o estabelecimento industrial ou equiparado a industrial promovido a saída de produto(s) tributado(s), com imposto lançado a menor, por não observar o valor tributável mínimo conforme demonstrado no Termo de Verificação Fiscal em anexo.” O enquadramento legal da infração consta da fl. 3112, valendo destacar o art. 195, inciso I, art. 196, do Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010 (RIPI/2010). Para a multa de ofício e os juros de mora incidentes, os enquadramentos constam da fl. 3117. No termo de verificação fiscal (TVF) de fls. 3093/3109 foram detalhados os procedimentos, critérios e conclusões fiscais que ensejaram a autuação, citados sinteticamente abaixo: A PROCOSA PRODUTOS DE BELEZA LTDA., doravante denominada PROCOSA, possui 99.650.907 (noventa e nove milhões, seiscentas e cinquenta mil, novecentas e sete) quotas de L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA, cnpj nº 30.278.428/000161, em um total de 99.657.219 (noventa e nove milhões, seiscentas e cinquenta e sete mil, duzentas e Fl. 3589DF CARF MF 4 dezenove) quotas que compõem o capital social da sociedade, ou seja, mais de 99,99% do total desta empresa, para a qual vende, no mercado interno, todos os seus produtos; “no ano de 2011, todas as vendas no mercado interno atacadista de produtos fabricados ou importados pela PROCOSA (...) foram destinadas para o estabelecimento da L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA, CNPJ 30.278.428/000595, por meio de notas fiscais em que o IPI foi destacado (...). Este estabelecimento operava como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço de todo o país, sendo considerado atacadista conforme conceito definido no artigo 14, inciso I, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 26/12/2010 – RIPI/2010)”; “O estabelecimento FISCALIZADO, constituído em 1984 no município do Rio de Janeiro, está localizado no bairro da Pavuna, enquanto o estabelecimento de CNPJ 30.278.428/0005 95 da L’OREAL BRASIL, constituído em 09/08/2004, doravante denominado ATACADISTA, está situado no município de Duque de Caxias, em área limítrofe à cidade do Rio de Janeiro”; “Como as empresas em questão [PROCOSA e a L’OREAL BRASIL] fazem parte de um mesmo grupo econômico – uma detém 99,99% do capital da outra e ainda fornecelhe produtos com exclusividade –, considerase que o remetente (FISCALIZADO) e o destinatário (ATACADISTA) mantêm relação de interdependência, nos termos do artigo 612, incisos I e IV, do RIPI/2010)”; “Com base nos dados das notas fiscais de saída de mercadorias emitidas pelo FISCALIZADO e pelo ATACADISTA, efetuouse a comparação entre os preços unitários de cada produto comercializado pelos dois estabelecimentos. A maioria dos códigos utilizados para identificação das mercadorias era o mesmo em ambos os estabelecimentos, porém havia algumas divergências. Nesta análise, verificouse que os preços unitários das mercadorias registradas nas notas fiscais de saída do ATACADISTA – emitidas sem destaque do IPI, tendo em vista que esse estabelecimento não se equiparou a industrial nestas operações – foram significativamente superiores aos registrados nas notas fiscais de saídas com destaque de IPI emitidas pelo estabelecimento FISCALIZADO”; para a autuada, o termo “praça” designava o território de um município ao ter informado que “Mercado atacadista, segundo o PN/CST n° 44/81 e do ADN/CST n° 5/82, significa o conjunto (i) das vendas efetuadas por um estabelecimento industrial, ou equiparado, a estabelecimentos comerciais atacadistas localizados no mesmo município e (ii) das revendas de mercadorias idênticas efetuadas por estabelecimentos atacadistas a outros estabelecimentos atacadistas e varejistas, mas também localizados naquele município”; “Em verdade, inexiste na legislação limitação espacial ao conceito de praça (ou mesmo de localidade) à área de um município (...)”; “Embora possa se admitir que praça e localidade sejam termos similares, certo é que hodiernamente Fl. 3590DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.589 5 essas áreas não estão limitadas à circunscrição de um município. Historicamente já até representaram uma área menor do que a de uma cidade a atual praça XV situada no Rio de Janeiro, por exemplo, já foi a praça comercial daquela cidade no séc XIX sendo que atualmente podem chegar a alcançar a área de uma megalópole (junção de duas ou mais metrópoles) ou mesmo nacional. Esse fenômeno decorre da evolução dos conceitos em função da realidade social que está em permanente transformação. Não foi por outro motivo que se tornou mais importante para fins econômicos o agrupamento de municípios em regiões metropolitanas, normalmente em razão das similitudes que as envolvem”; “Adequandose a essa realidade, alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA, apurados com base nos preços correntes de determinada área, hoje são calculados com base no mercado consumidor em determinada região metropolitana (...)”. Nessa mesma linha acerca do significado da expressão “mesma localidade” era a atual jurisprudência trabalhista, “consubstanciada na súmula 06, X, no que tange à caracterização da equiparação salarial em estabelecimentos distintos para fins do alcance ao art. 461 da CLT”. (...). Por sua vez, para o direito antitruste a praça do remetente pode significar o mercado relevante geográfico, que, para vários produtos do ramo de cosméticos, considerase de abrangência nacional conforme jurisprudência do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) ao analisar atos de concentração (....)”; “Em relação aos fatos em questão, temse que os estabelecimentos remetente (FISCALIZADO) e destinatário (ATACADISTA) estão localizados nos municípios do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, ambos pertencentes à região metropolitana do Rio de Janeiro, Essa região, também conhecida como Grande Rio (...) é constituída por 19 municípios (...). Como se vê, o mapa acima revela que os municípios de Duque de Caxias e do Rio de Janeiro são limítrofes (...), ao passo que os mapas abaixo denunciam que ambos os estabelecimentos se situam na fronteira entre essas cidades, de forma que, mais do que vizinhos, eles se encontram bem mais próximos entre si do que em relação às suas sedes administrativas que se situam no mesmo ponto do centro da cidade do Rio de Janeiro (...) Assim, considerandose a ótica levantada pelo FISCALIZADO sobre a sua localização em praça diversa da do estabelecimento ATACADISTA, pelo simples fato de se situarem em municípios diversos, podese afirmar que, no caso em questão, esses estabelecimentos situamse na mesma localidade, não somente por pertencerem à mesma região metropolitana (do Rio de Janeiro), mas, sobretudo, em face da grande proximidade entre estabelecimentos, maior até do que entre muitos bairros do município do Rio de Janeiro (...). Note se que o ATACADISTA, situado em Duque de Caxias, é vizinho à cabeceira da pista do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de janeiro, com distância de apenas 9,8 km do FISCALIZADO. Por outro lado, no que tange à ótica Fl. 3591DF CARF MF 6 econômica de mercado, conceito que abarca não somente os vendedores, mas também os compradores, podese considerar que, ante a existência de apenas um remetente industrial (FISCALIZADO) e de um destinatário interdependente (ATACADISTA) que revende os produtos a consumidores atacadistas de todo o país, em relação ao universo das vendas realizadas a que alude Parecer Normativo CST n° 44, de 1981, a praça do remetente possui abrangência nacional. Não é outra a conclusão que chega a Solução de Consulta Interna nº 8 Cosit, de 13 de junho de 2012 (...) quando dispôs em sua ementa que ‘O valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial fabricante, e que tenha na sua praça um único estabelecimento distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto’ ”; “Em verdade, a norma, em sua correta interpretação, busca considerar, ao determinar que o valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, preços de venda de produtos que em sua formação não foram afetados por custos diferenciados em razão de realidades geográficas distintas, já que fatores como mão de obra, energia, serviços de transporte e de comunicações, dentre outros, podem elevar consideravelmente o preço final de venda. Portanto, a legitimidade dessa sistemática consiste em alcançar uma base de cálculo composta por uma média de preços praticados por agentes atacadistas (no caso, há apenas um atacadista: L’OREAL BRASIL) circunscritos à mesma realidade de mercado do estabelecimento remetente, ou, no dizer da norma, à mesma praça comercial. Resta, contudo, esclarecer a existência de mercado atacadista na região considerada, uma vez que há apenas um único estabelecimento atacadista”; “O Parecer Normativo CST n° 44, de 1981, dispôs em determinado trecho que ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada’. (grifouse). Em uma primeira leitura superficial desse conteúdo, poderseia entender que não existe, no presente caso mercado atacadista na praça do remetente para fins de apuração do preço corrente a que alude o artigo 136 do RIPI/2002 (art. 195 do RIPI/2010). Ocorre que em uma leitura mais atenta percebese que o ponto que o Parecer Normativo CST 44/81 pretendeu esclarecer, (...), foi simplesmente que existindo diversos estabelecimentos atuantes em operações de compra e venda por atacado quanto um mesmo produto, todos devem ser considerados na determinação do valor tributável mínimo e não apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Não foi outra a conclusão a que chegou a Administração Tributária por meio da Solução de Consulta Interna n° 8 Cosit, de 13 de junho de 2012, (...)”; “(...) de todas as informações levantadas no curso do procedimento fiscal, a fiscalização apurou o preço corrente do mercado atacadista com base somente nas vendas efetuadas ao interdependente do remetente (ATACADISTA) porque o Fl. 3592DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.590 7 fabricante/importador não efetuou vendas diretas para destinatários atacadistas com as quais não tinha relação de interdependência, e não existiam outros remetentes a considerar. Por óbvio, não foram consideradas as vendas efetuadas pelo estabelecimento FISCALIZADO para o ATACADISTA no cálculo da média ponderada, uma vez que tais preços, subfaturados, representam os valores que se pretende corrigir, não podendo, ao mesmo tempo, constituirse em base de cálculo, pois geraria um círculo vicioso, já que o novo valor ajustado tornaria a recompor aquela base”; “Com base nos arquivos digitais, por meio dos dados das notas fiscais de saída emitidas pelo ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595), esta fiscalização elaborou demonstrativo de apuração da média ponderada mensal dos preços unitários dos produtos que este atacadista recebeu do remetente (FISCALIZADO) e comercializou por meio de notas fiscais emitidas com os CFOP (Código Fiscal de Operações e prestações) 5102. 6102. 6403 e 6110, uma vez que esses códigos evidenciam as operações efetuadas na condição de atacadista, conforme disposto no artigo 14 do RIPI/2010. Ficaram foram do escopo apurado, portanto, produtos vendidos pelo ATACADISTA na condição de varejista”; “Observese que o critério adotado assegura a justiça da apuração, pois ninguém melhor que o próprio grupo econômico para determinar o preço a ser cobrado de seus clientes cujo montante é suficiente para cobrir todos os custos, inclusive financeiros, administrativos, de venda e publicidade, c ainda garantir a margem de lucro normalmente pretendida pelos sócios”. Cientificada do lançamento de ofício em 04/12/2015 (fl. 3148) por meio de procurador constituído à fl. 3134, a autuada, também por meio de procuradores constituídos às fls. 3205/3206, apresentou a impugnação de fls. 3151/3203, datada de 04/01/2015, com os argumentos e intitulações sintetizados abaixo. “II.1 A IMPERTINÊNCIA DOS COMENTÁRIOS INTRODUTÓRIOS DO TVF” repudiava uma parte introdutória do TVF (subitem 7.1) que a acusava (a impugnante), no seu entender, de ter praticado subfaturamento; reconhecia que ela (impugnante) e a L’ORÉAL (comercial interdependente) integravam o conglomerado econômico controlado pela francesa L’ORÉAL S.A., mas aduziu que cada qual desempenhava função exclusiva, como “conseqüência natural da boa técnica gerencial, pois permite atingir níveis elevados de eficiência”: a da impugnante ligavase à industrialização e importação; a da comercial interdependente correspondia à “distribuição desses produtos no atacado por todo o território nacional, incumbindose da estocagem, do transporte, do marketing, da publicidade”, dentre outras. Isso implicava, que, normalmente, os preços praticados pela Fl. 3593DF CARF MF 8 comercial interdependente na revenda a terceiros dos produtos adquiridos pela impugnante fossem superiores aos custos de aquisição desses produtos, assim como que o total dos custos operacionais da comercial interdependente fossem maiores do que o total dos custos e despesas da impugnante. Nesse sentido, aduziu que Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 7ª Região Fiscal havia publicado a solução de consulta nº 169, de 2007 em situação análoga à presente; a transferência do único estabelecimento distribuidor atacadista da L’ORÉAL para a cidade de Duque de Caxias a partir de 2006 ocorrera por exclusivas razões econômicas e de eficiência/logística empresarial e não de planejamento tributário, como acusava o TVF; “II.2 – DEMAIS RAZÕES DE DEFESA 3. O Conceito de Praça do Remetente. O Critério Originalmente Utilizado pela IMPUGNANTE para Calcular o Valor Tributável Mínimo pelo IPI nas Vendas à L'ORÉAL.” “(...) originalmente, a L’ORÉAL [a comercial interdependente] estava estabelecida apenas no Município do Rio de Janeiro, na Auto Estrada Rio D’Ouro n° 800, Pavuna, no qual concentrava a distribuição de produtos para todo o território nacional. Dessa maneira, nas saídas de produtos da sua industrialização [da impugnante] com destino àquele estabelecimento distribuidor, como ambos estavam localizados na mesma praça, isto é, no município do Rio de Janeiro, a IMPUGNANTE cumpria os comandos legais hoje consolidados no inciso I do artigo 195 e no caput do artigo196 RIPI/2010, considerando como valor tributável mínimo pelo IPI a média ponderada dos preços de cada produto em vigor no mês precedente, ou na sua falta, no mês imediatamente anterior, (i) nas vendas do seu estabelecimento industrial com destino ao estabelecimento da L’OREAL e (ii) nas vendas efetuadas no atacado pela L’ORÉAL para estabelecimentos igualmente localizados no município do Rio de Janeiro, conforme, aliás, tinha orientado a SRRF da 7ª RF ao decidir a consulta que havia formalizado no Processo Administrativo nº 13709001.891/8595, proferindo decisão de seguinte ementa, confirmada pelo Parecer CST/SIPE n° 76/86, da CST”; Transcreveu ementa. “O Critério de Apuração do Valor Tributável Mínimo Adotado pela IMPUGNANTE no AnoCalendário de 2011 Afigurase Consentâneo com a Legislação que Regula a Matéria.” “Com a reunião das atividades dos estabelecimentos comerciais atacadista da L’ORÉAL [a comercial interdependente] no seu único estabelecimento instalado no (..) município de Duque de Caxias, a IMPUGNANTE, entendendo, como ainda entende, inclusive com arrimo na decisão proferida pela SRRF da 7ª RF, evocada (...) e no Parecer Normativo (PN) CST n° 44/81, que não mais existia mercado atacadista no município do Rio de Janeiro, passou a adotar, como base de cálculo mínima do IPI nas saídas de produtos destinados ao novo estabelecimento da L’ORÉAL, o custo de fabricação, Fl. 3594DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.591 9 acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, de acordo com o parágrafo único do artigo 195 do RIPI/2010, combinado com o seu caput e com o artigo 196 do mesmo regulamento, em vigor quando da ocorrência dos fatos geradores abrangidos pela ação fiscal (...). Não obstante o termo praça, empregado no inciso I do artigo 196 do RIPI/2010, não possuía definição na lei fiscal. A própria administração tributária, no entanto, perfilhando a linha de pensamento assente no âmbito do Direito Bancário e do Direito Comercial, sempre compreendeu como praça, ao aplicar os critérios de apuração do valor tributável mínimo previstos na legislação reguladora do IPI, os limites territoriais de um município, ou cidade, também chamados de localidade, como sobressai dos seguintes trechos do acima invocado PN CST n° 44/81 (...) ”; O PN n° 44/81 foi complementado pelo ADN n° 5/82, da própria CST, declarando, em caráter normativo, que: “(...) b) do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5o do artigo 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o artigo 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser considerados as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. (grifos nossos). Essa a definição uniforme e reiteradamente observada (...) pelas autoridades da RFB (...), bem como pela jurisprudência do extinto Conselho de Contribuintes e do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais cristalizando critério jurídico adotado no exercício do lançamento, tutelado pelo artigo 146 do CTN, (tema ao qual retornaremos no item 5 e seus subitens desta Impugnação), como será assinalado abaixo, os seguintes arestos: (...). Dos votos condutores desses acórdãos merecem transcrição os seguintes excertos, ressaltando que o Acórdão nº 340100.768 recusou o conceito de praça como sinônimo de região metropolitana, ou território nacional, ao afirmar que os municípios de Osasco e de São Paulo (que pertencem à mesma região metropolitana desde a edição da Lei Complementar Federal nº 14/73), não estão na mesma praça, para fins da legislação do IPI: (...)”; “Nesse ponto, vale destacar que a Solução de Consulta Interna COSIT n° 8/2012, invocada (...) como fundamento para o cálculo das diferenças exigidas no lançamento fiscal, não modificou a definição do termo praça dada pelo PN/CST n° 44/81, tanto que, no seu item 8, reproduziu ipsis literis o subitem 6.1 daquele Parecer Normativo (...)”; “O Autuante Mostrouse Pouco Afeito aos Princípios e Garantias Constitucionais que Regem o Sistema Tributário Nacional, Notadamente o da Legalidade.” alheio às orientações de mais de três décadas acima, o autuante havia criado de modo pessoal e impreciso, com arrimo em interpretações da lei trabalhista e da lei antitruste, um novo Fl. 3595DF CARF MF 10 conceito de praça, afeto ao de região metropolitana, para os efeitos da legislação reguladora do IPI, afrontando tanto a amplitude do conceito de legislação tributária dada pelo art. 96 c/c o art. 100, inciso I, ambos do CTN, que englobava os Pareceres Normativos expedidos pela CST, atual COSIT, quanto a restrição dada pelo § 1º e inciso I do art. 108, também do CTN, ao uso da analogia na interpretação de norma tributária como fito de exigir tributo; “A limitação territorial de praça, portanto, não pode ficar ao sabor da legislação estadual, nem do humor ou devaneio de cada auditorfiscal da RFB, mas precisa se pautar por critério objetivo, respeitador do princípio da segurança jurídica inscrito no preâmbulo e no caput do artigo 5º da Constituição Federal”; “4. Não Há Mercado Atacadista na Praça do Remetente Quando, no Município em que Estiver Localizado o Estabelecimento Industrial, Somente Ele Efetuar Vendas no Atacado.” A Inexistência de Mercado Atacadista na Praça da IMPUGNANTE e o Critério Adotado para o Cálculo do Valor Tributável Mínimo.” “Estando os estabelecimentos da IMPUGNANTE e da L’ORÉAL, únicos que comercializam os produtos em questão no atacado, localizados em municípios diferentes (Rio de Janeiro e Duque de Caxias), não há mercado atacadista da praça do remetente (Rio de Janeiro). Inexistindo mercado atacadista, o valor tributável mínimo utilizado pela IMPUGNANTE não poderá ser inferior ao custo de fabricação dos seus produtos, acrescido dos custos financeiros, dos de venda, administração e publicidade e de margem de lucro normal, nos termos do parágrafo único do artigo 196 do RIPI/2010, (...)”; “A Solução de Consulta Interna COSIT nº 8/2012. A Ilegalidade da Solução de Consulta Interna COSIT nº 8/2012. Ato Administrativo Não Publicado, Não Entra em Vigor. A Impossibilidade de Aplicar Nova Interpretação Retroativamente.” era inaplicável o entendimento contido na Solução de Consulta Interna nº 8, de 2012, ao caso em debate, uma vez que: i) afrontava o preceito legal dado pelo inciso I do art. 15 da lei nº 4.502, de 1964; ii) trazia conceituações divergentes das consagradas na legislação tributária e na jurisprudência administrativa, representando uma modificação de critérios jurídicos que não poderia ser aplicada ao ano de 2011 por violar o art. 146 do CTN e o inciso XIII do art. 2º da Lei 9.784, de 1999. Além isso, “estarseia afastando a aplicação ao caso do PN/COSIT n° 44/81 e do ADN/CST n° 5/82, assim como das práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas, demandando excluir do auto de infração a imposição de multa e de acréscimos moratórios, ex vi do prescrito no parágrafo único do novamente evocado artigo 100 do CTN”; iii) não se caracterizava como ato normativo, não integrando a legislação tributária, porquanto não revestida de publicidade; Fl. 3596DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.592 11 ainda que as conceituações preconizadas pela Solução de Consulta Interna nº 8, de 2012, pudessem prosperar, isso representaria modificação de critérios jurídicos cuja aplicação estaria vedada ao ano de 2011, pois, caso contrário, “implicaria violação ao art. 146 do CTN e ao inciso XIII do art. 2º da Lei nº 9.784/99”; “Mesmo que assim não fosse, e que o auto de infração não padecesse de nenhum outro defeito, o que mais uma vez se admite aqui apenas para argumentar, estarseia afastando a aplicação ao caso do PN/COSIT n° 44/81 e do ADN/CST n° 5/82, assim como das práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas, demandando excluir do auto de infração a imposição de multa e de acréscimos moratórios, ex vi do prescrito no parágrafo único do novamente evocado artigo 100 do CTN”; “Ainda que Praça Pudesse Ser Entendido como Região Metropolitana e que o Valor Tributável Mínimo pelo IPI Fosse Calculado com Base Apenas nos Preços de Vendas dos Produtos em Comento Efetuadas pela L’ORÉAL o Auto de Infração Precisaria Ser Revisto, Porque os Cálculos Efetuados pela Fiscalização Computaram as Vendas Efetuadas no Varejo para o Município do Rio de Janeiro e Não Deduziram os Descontos Incondicionais”; “A Fiscalização Considerou, na Determinação da Base de Cálculo do Imposto, Vendas Efetuadas a Consumidores e Vendas Efetuadas para Atacadistas de outras Cidades.” “Ora, mesmo que legalidade houvesse nas suas pretensões (da Fiscalização) de vislumbrar a existência de mercado atacadista na praça da IMPUGNANTE e considerar como valor tributável mínimo para fins de IPI os preços da L’ORÉAL, esse cálculo conteria 2 dois erros que requereriam todo o seu refazimento. O primeiro, seria ter incluído na relação de notas fiscais emitidas com o CFOP 5102 aquelas cujas as mercadorias se destinavam a não contribuintes do ICMS, isto é, a consumidores, cujo campo referente ao número da inscrição estadual do destinatário está a informação “isento” ou ‘Não contribuinte’ (doc. 11). O segundo erro foi deliberado, e residiu na inclusão, no mesmo demonstrativo e para a mesma finalidade, de vendas efetuadas pela L’ORÉAL para estabelecimentos fora da praça. Todavia, ressalvada a hipótese de o autuante estar considerando como praça todo o território nacional, como ele chegou a admitir, o cálculo da média ponderada dos valores das vendas realizadas em determinado mercado inclui unicamente aquelas cujas mercadorias sejam adquiridas por destinatários localizados na praça do remetente, conforme há muito pacificado no âmbito da RFB, a teor da decisão exarada pela SRRF da 7ª RF, ao decidir a consulta formalizada pela IMPUGNANTE no Processo Administrativo nº 13709001.891/8595, ratificada pelo Parecer CST/SIPE nº 76/86 (...). Assim, não podem ser computadas no cálculo do valor tributável mínimo efetuado pela fiscalização, as saídas de mercadorias para estabelecimentos fora da praça do Fl. 3597DF CARF MF 12 remetente, bem como as vendas classificadas nos CFOP 5102, 6102, 6403 e 6110, pois defluem de interpretação equivocada, ou, quando menos, mais uma vez inédita, modificadora da consagrada pela administração tributária.”; “A Ilegitimidade da Adição dos Descontos Incondicionais Concedidos pela IMPUGNANTE à Base de Cálculo do IPI.” “(...) a adição feita pela fiscalização, aos valores de venda por ela levantados para determinar as bases de cálculo do IPI, dos descontos que a L’ORÉAL concedeu incondicionalmente aos seus clientes. (...) ofende a Constituição Federal e o CTN, conforme declarado reiteradamente pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça (...). Vale dizer, se legalidade houvesse em considerar como valor tributável mínimo pelo IPI nas vendas efetuadas pela IMPUGNANTE para a L’ORÉAL a média ponderada dos preços das vendas efetuadas pela própria L’ORÉAL no mês anterior, inevitável seria considerar como preços dessas vendas os efetivamente praticados, sem neles computar os descontos concedidos nas notas fiscais, não sujeitos a condição, o que não foi feito pelo autuante que, diferentemente, adicionou tais descontos àqueles preços”; A Fiscalização Invoca a Aplicação dos Arts. 195 e 196 do RIPI/2010, Mas Não Calcula Média Ponderada Alguma. “Recordese mais uma vez, sem receio de ser tautológico, que, apesar de invocar a aplicação ao auto de infração dos comandos insertos no artigo 195, combinado com o artigo 196 do RIPI/2010, na verdade, fiscalização se afastou por completo do critério neles traçados de determinar o VTM com base na média ponderada dos preços correntes do mercado atacadista da praça do remetente, pois, ainda que possase admitir como praça a região metropolitana, inevitável seria considerar como preços praticados nesse mercado, não apenas o do distribuidor, mas, também, o do remetente, no caso, a IMPUGNANTE, conforme há muito reconhecido pela RFB, a exemplo da decisão exarada pela SRRF da 7ª RF, ao decidir a consulta formalizada pela IMPUGNANTE no Processo Administrativo nº 13709 001.891/8595 ratificada pelo Parecer CST/SIPE nº 76/86, cujas conclusões, reproduzidas nos seus detalhes no subitem 3.1.1, item “ii”, acima, são de clareza meridiana.” “O Pedido de Diligência” “(...) evocando a impossibilidade de anexar a esta petição as milhares de notas fiscais emitidas no ano de 2011 pela L’ORÉAL relativas a vendas a consumidores, a vendas para destinatários localizados fora da praça da IMPUGNANTE, seja qual for o conceito de praça que se adote, e a vendas com descontos incondicionais concedidos, até porque são documentos pertencentes a outra pessoa jurídica, requer, com fulcro no artigo 16, inciso IV, do Decreto nº 70.235/72, seja realizada diligência nos arquivos magnéticos fornecidos pela citada empresa à fiscalização, identificandose naqueles arquivos as notas fiscais em que estão presentes essas situações, ou, caso assim o prefiram, seja requerido daquela pessoa jurídica Fl. 3598DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.593 13 arquivos magnéticos que permitam esses levantamentos, para que os cálculos efetuados pela fiscalização sejam refeitos (...)”; “III O PEDIDO” “À vista de todo o exposto, demonstrada à saciedade a impossibilidade jurídica de prosperar o procedimento fiscal ora guerreado, a IMPUGNANTE, protestando pela juntada posterior de elementos que venham a se revelar úteis para reforçar a comprovação do que alega, requer seja julgada procedente esta Impugnação, exonerandoa inteiramente da exigência tributária dele decorrente”. É o relatório. Os argumentos aduzidos pelo Sujeito Passivo, no entanto, foram parcialmente acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão abaixo transcrito: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 OPERAÇÕES COM INTERDEPENDENTE. A relação de interdependência com comerciante atacadista exclusivo enseja a observância pelo sujeito passivo do valor tributável mínimo previsto no Regulamento do IPI. COMPOSIÇÃO DO MERCADO ATACADISTA. Provada a participação do estabelecimento interdependente no mercado atacadista da praça do remetente, seus preços devem servir de parâmetro para a definição do valor tributável mínimo, previsto no Art. 195, I, RIPI/2010. DESCONTOS INCONDICIONAIS. A teor do disposto no § 3º do art. 190 do RIPI/2010, é expressamente vedada a dedução dos descontos incondicionais na base de cálculo do IPI. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. As arguições que, direta ou indiretamente, versem sobre matéria de inconstitucionalidade ou de ilegalidade de normatização tributária não se submetem à competência de julgamento da autoridade administrativa, sendo exclusiva do Poder Judiciário. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 DILIGÊNCIA/PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. Indeferemse os pedidos de diligência considerados no julgamento como prescindíveis ao desfecho da lide. Impugnação Improcedente Fl. 3599DF CARF MF 14 Crédito Tributário Mantido A empresa PROCOSA tomou ciência do Acórdão em 05/07/2016, através de sua Caixa Postal (DTE), Módulo eCAC no Site da RFB, conforme consta do documento de fl. 3.480. Em 03/08/2016, apresentou Recurso Voluntário de fls. 3.482/3.565, alegando, de forma resumida que, preliminarmente: a) requer a nulidade da decisão da DRJ, que teria alterado os fundamentos da autuação ao alegar que o conceito de "praça" seria irrelevante para a solução do litígio e, ainda, por violar normas da própria RFB, que consideram o termo “praça” como sinônimo de cidade ou “município”; b) repudia a acusação de ter praticado subfaturamento; contesta a acusação lançada no subitem 7.1 do TVF de que as vendas efetuadas para a L’ORÉAL eram subfaturadas, alegando que não há evidência nos autos, ou mesmo indício de que tenha emitido nota fiscal fatura com preço inferior ao efetivamente recebido da L’ORÉAL; c) expõe sobre a legalidade da estrutura empresarial adotada, projetada com fundamento em razões econômicas e logísticas, que conferiu mais eficiência às atividades do Grupo econômico do qual a fiscalizada e a Comercial Atacadista interdependente fazem parte, não havendo que se falar em planejamento tributário para este caso; d) em decorrência da divisão de tarefas entre a Industrial e a Comercial, os preços praticados por esta, na revenda a terceiros dos produtos adquiridos da autuada eram superiores aos custos de aquisição destas mercadorias, assim como o total dos custos operacionais da Comercial eram maiores do que os da Industrial; alega a prática de boa técnica gerencial e investimentos na formação dos operários especializados; e) que o entendimento da fiscalização ofende a jurisprudência consagrada no CARF e, ainda, Pareceres Normativos emitidos pela própria RFB, violando, assim, o art. 100 do CTN; que a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/2012 é ilegal, representa violação ao art. 146 do CTN, por trazer novo critério jurídico e por isso não pode ser aplicada retroativamente a fatos geradores ocorridos em 2011; f) que os Custos e Despesas incorridos pela RECORRENTE e pela L’ORÉAL são condizentes com suas respectivas especializações. À luz dessa narrativa, deduz se que a perplexidade do autuante diante das comparações entre os números que pinçou das DIPJ da RECORRENTE e da L’ORÉAL, só pode ser atribuída à sua pouca familiaridade com o funcionamento e a administração de empresas; de fato, os preços praticados pela L’ORÉAL na revenda dos produtos adquiridos da RECORRENTE são superiores aos preços pelos quais essa distribuidora os adquire da RECORRENTE; também é verdadeiro que o total dos custos e despesas operacionais da L’ORÉAL é muito maior do que o total dos custos e despesas da RECORRENTE; g) é claro que as despesas com estocagem, com transporte e seguro dos produtos acabados até os estabelecimentos dos varejistas ou consumidores, assim como as com mãodeobra com vendas, inclusive comissões, deslocamento e hospedagem de vendedores em todos os pontos do território nacional onde existirem supermercados, farmácias, salões de cabeleireiro etc., treinamentos de vendedores, cabeleireiros e manicures no uso apropriado dos produtos comercializados e de publicidade e propaganda desses produtos pertencem à atividade de distribuição, e não à de produção; h) da necessidade da L’ORÉAL transferir seu estabelecimento para a cidade de Duque de Caxias; a demonstração feita desde na inicial de que a existência do Fl. 3600DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.594 15 estabelecimento distribuidor da L’ORÉAL na cidade de Duque de Caxias é dotada de robustas razões econômicas independentes de qualquer vantagem fiscal que disso poderia advir; No mérito: i) defende que o conceito de praça, para fins de determinação do VTM, deve ser entendido como “município ou cidade”, nos termos do PN CST 44/81, do Ato Declaratório Normativo 5/82 e de decisões administrativas da própria RFB; considerando que a fiscalizada está situada no Município do Rio de Janeiro e a Comercial em Duque de Caxias (RJ), não haveria, mercado atacadista na praça do remetente, razão pela qual a empresa teria observado, para o cálculo do VTM, a regra do art. 196, parágrafo único, II do RIPI/2010; j) o autor do feito e os Julgadores de 1ª instância, ao criarem novo conceito de praça, fizeram "Tábula Rasa" dos princípios e garantias Constitucionais que regem o Sistema Tributário Nacional, notadamente o da Legalidade; k) desde a instauração do litígio, a lei pode ter sido silente em definir o termo "praça", mas a Administração Tributária supriu essa lacuna editando legislação para tornar nítido para os contribuintes, em respeito ao princípio da segurança jurídica que habita o preâmbulo e no caput do artigo 5º da Constituição Federal; que praça, no contexto dos critérios de apuração do valor tributável mínimo pelo IPI, correspondente a cidade (município); isso é o que está escrito no subitem 6.1 do PN/CST nº 44/81, no ADN/CST nº 5/82, nas decisões proferidas até então pelos órgãos julgadores administrativos, no Parecer MF/SRF/COSIT/DITIP Nº 168/96 e na orientação dada à RECORRENTE pela SRRF da 7ª RF, ao decidir a consulta formalizada no Processo Administrativo nº 13709001.891/8595, confirmada pelo Parecer CST/SIPE nº 76/86, que foi completamente ignorada pelo acórdão recorrido; l) resta claro que não existe mercado atacadista na praça do remetente quando, na cidade (município) em que estiver localizado o estabelecimento industrial, somente ele efetuar vendas no atacado; encontrandose os estabelecimentos da RECORRENTE e da L´ORÉAL, únicos que comercializam os produtos em questão no atacado, localizados em cidades diferentes (Rio de Janeiro e Duque de Caxias), não há mercado atacadista da praça do remetente (Rio de Janeiro); m) portanto, o critério de apuração do Valor Tributável Mínimo (VTM) adotado pela Recorrente no AnoCalendário de 2011, afigurase consentâneo com a legislação que regula a matéria; n) que o Lançamento inova o ordenamento, ao conceituar “praça” como “região metropolitana”, fazendo, inclusive, uso indevido da analogia para tanto; o) que existe erro nos cálculos efetuados pela fiscalização que, indevidamente, computou as vendas efetuadas no varejo, as realizadas em outros municípios e, ainda, quanto aos descontos incondicionais; que a Fiscalização invoca a aplicação do Inciso I do Art. 195 c/c caput do art. 196 do RIPI/2010, mas não calcula "média ponderada" alguma; p) por fim, requer que, na eventualidade da não reforma da decisão recorrida, evocando a impossibilidade de anexar a esta petição as milhares de notas fiscais emitidas no ano de 2011 pela L’ORÉAL(relativas a vendas a consumidores), a vendas para destinatários Fl. 3601DF CARF MF 16 localizados fora da praça da RECORRENTE, seja qual for o conceito de "praça" que se adote, e às vendas em que foram concedidos descontos incondicionais, até porque são documentos pertencentes a outra PJ, reitera seu pedido no sentido de que, com fulcro no artigo 16, inciso IV, do Decreto n.º 70.235/72, seja realizada a diligência/perícia. À vista das razões de fato e de direito acima aduzidas e expendidas, requer que seja dado provimento ao presente Recurso Voluntário, exonerandoa da improcedente exigência fiscal que lhe foi feita. Das Contrarrazões da Fazenda Nacional Em 29/08/2016, os autos foram encaminhado à PGFN para apresentação das suas contrarrazões (fl. 3.570/3.571). Em 27/09/2016, momento que a Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou suas manifestações, concluindo para que seja negado provimento ao recurso voluntário (fls. 3.572/3.585). Posto isto, o processo, então, foi distribuído para este Conselheiro proceder a análise do Recurso Voluntário interposto pela Recorrente. É o relatório Voto Vencido Conselheiro Relator Waldir Navarro Bezerra 1. Da admissibilidade do Recurso Cuidase de recurso tempestivo e que preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. 2. Objeto da lide Trata os autos sobre remessas de mercadorias efetuadas pela Recorrente à empresa com a qual mantém relação de interdependência. A relação de interdependência é fato incontroverso nos autos. A controvérsia se refere as operações de vendas no atacado para empresa pertencente ao mesmo grupo, portanto, interdependente, sem observância pelo sujeito passivo do Valor Tributável Mínimo (VTM), que se encontra previsto nos arts. 195 e 196 do Regulamento do IPI (RIPI/2010). 3. Do Auto de Infração motivação e fundamentos Tratase de Auto de Infração lavrado para a cobrança de IPI referente ao ano calendário de 2011, em razão da insuficiência no recolhimento daquele tributo, gerado por conta da inobservância das regras relativas ao Valor Tributável Mínimo (VTM, art. 195 e 196 do RIPI/2010), nas saídas de produtos industrializados efetuadas pela Recorrente para estabelecimento comercial interdependente. A fiscalização verificou, no caso, que a empresa PROCOSA, possui 99,99% do total de quotas que compõem o capital social da L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA, CNPJ nº 30.278.428/000161, doravante denominada de L’OREAL, sociedade para a qual vende, no mercado interno, todos os seus produtos. Fl. 3602DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.595 17 No caso sob análise, a Recorrente (CNPJ nº 33.306.929/000445), é estabelecimento da empresa matriz PROCOSA, e tem como objeto social: indústria, comércio, importação, exportação de produtos, especialmente de produtos de beleza, cosméticos e/ou toucador, artigos de higiene, para cabeleireiros, perfumes e/ou essências, e outros como descrito no artigo 2º do seu Contrato Social. Informa o Fisco no seu Termo de Verificação Fiscal (TVF, fls. 3.093/3.109), que no ano de 2011, todas as vendas no mercado interno atacadista de produtos fabricados ou importados pela PROCOSA, por meio do estabelecimento de CNPJ nº 33.306.929/000445 (FISCALIZADO), foram destinados ao estabelecimento L’OREAL, CNPJ nº 30.278.428/0005 95, por meio de notas fiscais em que o IPI foi destacado mediante aplicação das alíquotas vigentes na TIPI (Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados). Este estabelecimento opera como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço de todo o país, sendo considerado ATACADISTA, conforme conceito definido no artigo 14, inciso I do RIPI, aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010 (RIPI/2010). O fundamento para o lançamento foi a violação aos arts. 195, I e 196, caput do RIPI/2010 (conforme fl. 3.112, do Auto de Infração), vigente à época dos fatos geradores, que determinavam que o VTM deveria corresponder ao preço praticado no mercado atacadista da praça do remetente, sempre que o produto fosse destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma interdependente. Estabeleciam também, que o VTM deveria ser calculado com base na "média ponderada dos preços" de cada produtos, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente. 4. Preliminar Nulidade do acórdão DRJ A Recorrente requer a nulidade da decisão da DRJ, alegando que "(...) teria alterado os fundamentos da autuação ao alegar que o conceito de "praça" seria irrelevante para a solução do litígio e, ainda, por violar normas da própria RFB, que consideram o termo “praça” como sinônimo de “município”. Ou seja, a Recorrente pleiteia a nulidade da decisão recorrida, sob o argumento de terem os Julgadores de primeira instância trazido nova fundamentação, diversa daquela apresentada no Auto de Infração. Primeiramente, cabe ressaltar que conforme disposto nos arts. 59 c/c 60 do Decreto n.º 70.235/72 a notificação e demais termos do processo administrativo fiscal somente serão declarados nulos quando se tratar de ato/decisão lavrado ou proferido por pessoa incompetente e resultar em inequívoco cerceamento de defesa à parte. Apenas para um melhor esclarecimento sobre o assunto, transcrevese o dispositivo que rege a matéria no processo administrativo fiscal. Prescreve o art. 59 do Decreto nº 70.235/72, com a nova redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. No caso sob exame, nenhum desses vícios, entretanto, é verificado no presente procedimento, que foi conduzido por autoridade competente e com total observância ao direito de defesa da Recorrente. Fl. 3603DF CARF MF 18 Verificase que o Auto de Infração foi lavrado por autoridade competente e teve origem em auditoria realizada pela Fiscalização da RFB, fartamente detalhada em relatório fiscal, onde consta a motivação para o lançamento e as provas que conduziram a autoridade fazendária a sua lavratura. A Recorrente foi cientificada da exigência fiscal e apresentou impugnação que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, protocolou recurso voluntário, rebatendo as posições adotadas no acórdão recorrido, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, portanto, as motivações para o lançamento, bem como, as do julgamento na primeira instância foram claramente identificadas. Com todo este histórico de discussão administrativa, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no lançamento ou no julgamento da primeira instância, uma vez que todo o procedimento previsto no Decreto nº 70.235/72, foi observado, tanto no lançamento tributário, como no curso do devido processo administrativo fiscal. Além disso, nem mesmo a suposta inovação alegada pela Recorrente é verificada no caso. Com efeito, a decisão atacada não altera o fundamento do lançamento, mas analisa os mesmos fatos e aplica a mesma legislação, apenas corroborando a prática da infração constatada pela autoridade autuante, qual seja, de não utilização do VTM nas operações de venda realizadas com empresa comercial interdependente. Assim, a decisão recorrida trata da relação de interdependência entre as partes e da necessidade de aplicação dos arts. 195, I e 196 do RIPI/2010; da existência de preço corrente no mercado atacadista da remetente (sendo aquele praticado pela comercial interdependente); da individualização dos produtos da autuada e, ainda, da necessidade de se dar ao termo “praça” um conceito mais amplo do que meramente a noção de "cidade ou município", no mesmo sentido aplicado pela Fiscalização, como detalhado no TVF. Em relação aos princípios constitucionais, ao contrário do entendimento da Recorrente, o lançamento não vedou e/ ou alterou sua atividade econômica, foi efetuado com base na legislação tributária vigente e não contrariou entendimento ou determinação do Fisco. Deste modo, não merece guarida a alegação de nulidade, não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Por todo o acima exposto, rejeito a preliminar de nulidade. 5. Da alegação da prática de subfaturamento A Recorrente aduz em seu recurso que "(...) repudia a acusação de ter praticado Subfaturamento; contesta a acusação lançada no subitem 7.1 do TVF de que as vendas efetuadas para a L’ORÉAL eram subfaturadas, alegando que não há evidência nos autos, ou mesmo indício de que tenha emitido nota fiscal fatura com preço inferior ao efetivamente recebido da L’ORÉAL". Por outro lado, sobre este tema, a fiscalização informa no item 7.1 do TFV que, "Em razão de todas as informações levantadas no curso do procedimento fiscal, apurou o preço corrente do mercado atacadista com base somente nas vendas efetuadas pelo interdependente do remetente (ATACADISTA) porque o fabricante/importador não efetuou vendas diretas para destinatários atacadistas com as quais não tinha relação de interdependência, e não existiam outros remetentes a considerar. Por óbvio, não foram consideradas as vendas efetuadas pelo estabelecimento FISCALIZADO para o ATACADISTA no cálculo da "média ponderada", uma vez que tais preços, subfaturados, representam os Fl. 3604DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.596 19 valores que se pretende corrigir, não podendo, ao mesmo tempo, constituirse em base de cálculo, pois geraria um círculo vicioso, já que o novo valor ajustado tornaria a recompor aquela base". Primeiramente, de fato, como argumentado pela Recorrente, há que ressaltar o conceito de subfaturamento: "SUBFATURAMENTO. Dir. Pen. Prática ilícita de fazer constar, de uma fatura, mercadorias ou serviços por preço inferior ao real, no intuito de fraudar o fisco. CP, art. 299, L 4729, de 14.7.1965." (Academia Brasileira de Letras Jurídicas, Dicionário Jurídico, 5ª edição, 1998, Forense Universitária Biblioteca Jurídica, pág. 793). Neste aspecto, entendo que assiste razão à Recorrente quanto ao termo e a forma que foi utilizado pela fiscalização (digase que foi uma única vez no TVE), pois a prática de subfaturamento representa características ou práticas de conduta fraudulenta, o que acarretaria, se fosse constatado no caso sob exame, a aplicação de penalidades qualificadas (multas duplicadas) no Auto de Infração, o que poderia acarretar tipificação de falsidade ideológica por prática de crime contra a ordem tributária sujeito às sanções da Lei nº 8.137/91, o que não restou concretizado pelo Fisco. Tanto é fato, que a multa aplicada foi de 75%, conforme definida pelo art. 80, caput, da Lei nº 4.502/64, com a redação dada pelo art. 13 da Lei nº 11.488/07. Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. Portanto, não se verifica evidências nos autos de que a Recorrente (PROCOSA), tenha emitido nota fiscal fatura com preço inferior ao efetivamente recebido da L'OREAL. A meu sentir, o termo utilizado pela fiscalização no tópico acima, esta relacionado sobre a formação do preço das mercadorias que foram vendidas ao estabelecimento interdependente (ATACADISTA), com os valores referenciais sendo inferiores, objetivando a formação da base cálculo para a incidência do IPI, com o qual, a fiscalização não concorda. 6. Sobre o conceito de "PRAÇA" para efeitos da apuração do VTM Toda a tese desenvolvida em seu recurso, a Recorrente assentase na consideração de que o termo “praça” ou “localidade”, apesar de não contar com definição específica na legislação, possui abrangência especificamente limitada à circunscrição territorial do município. Defende a Recorrente que "(...) o conceito de praça, para fins de determinação do VTM, deve ser entendido como “município ou cidade”, nos termos do PN CST 44/81, do Ato Declaratório Normativo 5/82 e de decisões administrativas da própria Receita Federal. Considerando que a fiscalizada está situada no Município do Rio de Janeiro e a Comercial em Duque de Caxias, não haveria, mercado atacadista na praça do remetente, razão pela qual a empresa teria observado, para o cálculo do VTM, a regra do art. 137, parágrafo único, II do RIPI/2002. Afirma que o termo "praça" designa território de um município ao informar que “mercado atacadista", segundo o PN/CST nº 44/81 e do ADN/CST nº 5/82, significa o Fl. 3605DF CARF MF 20 conjunto (i) das vendas efetuadas por um estabelecimento industrial, ou equiparado, a estabelecimentos comerciais atacadistas localizados no mesmo município e (ii) das revendas de mercadorias idênticas efetuadas por estabelecimentos atacadistas a outros estabelecimentos atacadistas e varejistas, mas também localizados naquele município.” Alega ainda que tanto a Fiscalização como os Julgadores de 1ª instância, ao criarem novo conceito de praça, "fizeram Tábula Rasa dos princípios e garantias Constitucionais que regem o Sistema Tributário Nacional, notadamente o da Legalidade". Por outro lado, o Fisco alega que não existe na legislação, a limitação espacial do conceito de praça (ou mesmo de localidade), como sendo a área de um município. Pois bem. Conforme disposto nos arts. 195 e 196 do RIPI/2010, que traz normas claras, visando impedir que os fabricantes se utilizem de firmas interdependentes para reduzir a Base de Cálculo do IPI, considerar o termo “praça”, previsto na legislação tributária, como sendo limitado ao espaço geográfico de um único município (nos termos defendido pela Recorrente), afastaria da incidência do tributo (IPI), os contribuintes que elegessem uma estrutura entre interdependentes que se situam em cidades distintas, exatamente para se livrarem da tributação regulamentar. Para enfrentar essa matéria, subscrevo as considerações tecidas na decisão recorrida, por compartilhar desse mesmo entendimento, adotandoas como razão de decidir, com forte no § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, passando as mesmas a fazer parte integrante desse voto: "(...) Cumpre esclarecer que o conceito de “praça”, em virtude das orientações lançadas no tópico antecedente, em nada altera o enquadramento jurídico tributário e as suas consequências, devidamente descritos no lançamento de ofício em tela" (...). "(...) Travase o debate, simplesmente, para se colocar luzes aos argumentos da impugnante acerca da concepção do que seja “praça”, os quais, no juízo deste relator, não são os mais razoáveis e compatíveis com o ordenamento jurídico em vigor" (...). "(...) Na análise conceitual de “praça”, há de se ter o cuidado em se formular conceito que venha a atender a finalidade da norma (art. 195 do RIPI/2010), qual seja, garantir que a tributação do IPI recaia sobre valor que se aproxime do valor da operação, evitando, assim, o recolhimento do imposto sobre uma base de cálculo em dimensão econômica muito distante dos preços praticados. No caso de empresas interdependentes, garantir que as saídas dos produtos entre a fabricante/importadora e a sua comercial interdependente sejam tributados, no mínimo, pelo valor do mercado atacadista. Há de se perceber, inicialmente, tratarse de norma antielisão e não de uma norma que estabelece um favor fiscal ou um tratamento mais benéfico" (...). "(...) Aceitar o argumento da impugnante de que o conceito de praça restringese à dimensão geográfica correspondente ao território de município e que não haveria “mercado atacadista da praça do remetente” (e, consequentemente, preço de atacado naquele território) por estarem localizados em municípios diversos os estabelecimentos do remetente/impugnante e do comercial atacadista interdependente, implica interpretar que a localização de empresas interdependentes é fundamental para conferir um determinado tratamento tributário aos diversos sujeitos passivos. Se estiverem domiciliados no mesmo município, um Fl. 3606DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.597 21 tratamento jurídico, e se domiciliados em municípios diferentes, outro mais favorável, em total desconformidade com a finalidade da norma do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010. Um absurdo jurídico. Como vimos, esse tipo de interpretação, assentada num conceito reducionista de “praça”, circunscrita a município, desprestigia os princípios da uniformidade tributária e da isonomia, uma vez que, em situações idênticas, operações de saída de produtos entre empresas interdependentes estariam sujeitas à aplicação de regras distintas em razão da localização de cada estabelecimento, possibilitando a prática de concorrência desleal e ofendendo a ordem econômica". Continua argumentando a Recorrente que, (...) desde a instauração do litígio, a lei pode ter sido silente em definir o termo praça, mas a Administração Tributária supriu essa lacuna editando legislação para tornar nítido para os contribuintes, em respeito ao princípio da segurança jurídica que habita o preâmbulo e no caput do artigo 5º da Constituição Federal; que praça, no contexto dos critérios de apuração do valor tributável mínimo pelo IPI, correspondente a cidade (município); isso é o que está escrito no subitem 6.1 do PN/CST nº 44/81, no ADN/CST nº 5/82, nas decisões proferidas até então pelos órgãos julgadores administrativos, no Parecer MF/SRF/COSIT/DITIP Nº 168/96 e na orientação dada à RECORRENTE pela SRRF da 7ª RF, ao decidir a consulta formalizada no Processo Administrativo nº 13709001.891/8595, confirmada pelo Parecer CST/SIPE nº 76/86, que foi completamente ignorada pelo acórdão recorrido". Não assiste razão à Recorrente. O termo "praça" não significa necessariamente município, como também pela menção contida no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, de que deve ser considerado “o universo das vendas realizadas naquela localidade” e não das vendas realizadas “para aquela localidade”, o que a meu sentir, levaria à conclusão de que não haveria mercado atacadista em determinada localidade se ali não houvesse compradores dos produtos vendidos no atacado, ainda que estabelecimento industrial (ou equiparado) e atacadistas se situassem nessa mesma localidade. Vejase que o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs, in verbis: 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. Nesse aspecto, também concordo com o prolatado na decisão a quo, em afirmar que aceitar o argumento da Recorrente de que o conceito de "praça" restringese à dimensão geográfica correspondente ao território de município e que não haveria “mercado atacadista da praça do remetente” (e, consequentemente, preço de atacado naquele território), por estarem localizados em municípios diversos os estabelecimentos do remetente/impugnante e do comercial atacadista interdependente, implica interpretar que a localização de empresas interdependentes é fundamental para conferir um determinado tratamento tributário aos diversos sujeitos passivos. Ou seja, se estiverem domiciliados no mesmo município, um tratamento jurídico, e se domiciliados em municípios diferentes, outro mais favorável, em total desconformidade com a finalidade da norma do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010. Tal conceito seria um absurdo jurídico. Fl. 3607DF CARF MF 22 Vejase trecho reproduzido da decisão DRJ: "(...) Com efeito, interpretando sistematicamente o art. 195, inciso I do RIPI/2010, firmase a convicção, com fundamento no artigo 32 do Código Comercial, em princípios constitucionais e no conteúdo de Direito Administrativo, de que “praça” é a localidade ou região, circunscrita ou não ao território de um município, onde tem atuação o comerciante nos seus atos negociais em sentido amplo. Assim sendo, como o conceito de “praça” está diretamente relacionado ao campo de atuação do comerciante, os preços por ele praticados nos locais onde mantém atuação mercantil caracterizam os seus “preços da praça”. Há que ser considerado também, que a fiscalização deixou consignado no TVF, que em relação aos fatos em questão, os estabelecimentos remetente (FISCALIZADO) e destinatário (ATACADISTA) estão localizados nos municípios do Rio de Janeiro (RJ) e de Duque de Caxias (RJ), ambos pertencentes à região metropolitana do Rio de Janeiro (RJ). Que essa região, também conhecida como "Grande Rio", foi instituída pela Lei Complementar nº 20, de 1º de julho de 1974, após a fusão dos antigos estados do Rio de Janeiro e Grande Niterói, e é constituída por 19 municípios. Vejase trecho reproduzido: "(...) Como se vê, o mapa acima revela que os municípios de Duque de Caxias e do Rio de Janeiro são limítrofes (números 1 e 3), ao passo que os mapas abaixo denunciam que ambos os estabelecimentos se situam na fronteira entre essas cidades, de forma que, mais do que vizinhos, eles se encontram bem mais próximos entre si do que em relação às suas sedes administrativas que se situam no mesmo ponto do centro da cidade do Rio de Janeiro. Vide as distâncias a seguir destacadas: Distância entre o estabelecimento FISCALIZADO (A) e sua Sede Adm. (B) = 24,6Km; Distância entre estabelecimentos FISCALIZADO (A) e ATACADISTA (B) = 9,8Km; Distância entre o ATACADISTA (B) e sua sede administrativa (A) = 21,4Km: Considerandose o fato de que mesmo a PROCOSA e a L'OREAL BRASIL, se situarem em municípios diversos, podese afirmar que (para efeito de aplicação do art. 195, inciso I do RIPI/2010), no caso em questão, esses estabelecimentos situamse na mesma localidade, não somente por pertencerem à mesma região metropolitana (do Rio de Janeiro), mas, sobretudo, em face da grande proximidade entre estabelecimentos, maior até do que entre muitos bairros do próprio município do Rio de Janeiro. Desta forma, o conceito de "praça" adotado pelo Fisco assegura a justiça da apuração e respeita a finalidade da norma. E isto porque o fato de duas cidades serem municípios vizinhos não pode afastar a definição de praça, ainda mais no caso de Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, por exemplo, tratado nos autos, que além de serem municípios limítrofes, que compõem uma mesma região metropolitana, são cidades que apresentam índices sócioeconômicos bem equivalentes, sendo certo, portanto, que as vendas realizadas pela LOREAL BRASIL, em Duque de Caxias, não podem ser ignoradas. Por fim, no caso analisado, restou comprovado nos autos, que existe um único vendedor atacadista que opera não só no mercado atacadista do remetente/recorrente, mas em todo o mercado nacional, que é justamente a Comercial atacadista interdependente. E, a luz do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, o preço do mercado atacadista do estabelecimento remetente/Recorrente é aquele praticado pela comercial atacadista interdependente, sua única representante. Fl. 3608DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.598 23 7. Do Enquadramento Legal do Auto de Infração Verificase no Auto de Infração à fl. 3.112, que foram os seguintes os enquadramentos nos dispositivos legais, para os fatos geradores do IPI, ocorridos entre o período de 01/01/2011 e 31/12/2011: art. 1º da Lei nº 8.850/94, com as alterações introduzidas pelo art. 7º da Lei 11.774/08; art. 24, inciso II, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); art. 24, inciso III, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); arts. 35, inciso II, 181, 182, inciso I, alínea "b" e inciso II, alínea "c", 186, §§ 2º e 3º, 189, 259, 260, inciso IV, 262, inciso III, do Decreto nº 7.212/2010 (RIPI/10) e no art. 195, inciso I, e art. 196 do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10). 8. Da apuração do valor da base cálculo do IPI Informa a Recorrente em seu recurso à fl. 3.501, que "(...) Com a reunião das atividades dos estabelecimentos comerciais atacadista da L’ORÉAL no seu único estabelecimento comercial atacadista instalado no endereço mencionado no subitem 3.5.6, na Cidade de Duque de Caxias, a RECORRENTE, entendendo, como ainda entende, inclusive com arrimo na decisão proferida pela SRRF da 7ª RF evocada acima nos subitens 4.1.1 e 4.1.1.1, no Parecer Normativo (PN) CST nº 44/81 e no Ato Declaratório Normativo (ADN) CST nº 5/82, que não mais existia mercado atacadista no município do Rio de Janeiro, passou a adotar, como base de cálculo mínima do IPI nas saídas de produtos destinados ao novo estabelecimento da L’ORÉAL, os efetivos custos de fabricação, acrescidos dos incorridos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que deviam ser adicionadas ao preço da operação, de acordo com o inciso II do parágrafo único do artigo 196 do RIPI/2010, em vigor quando da ocorrência dos fatos geradores abrangidos pela ação fiscal, que possuem a seguinte redação". (Grifei). O Fisco, no entanto, discordou desse entendimento. Como pode ser extraído do texto acima, a partir da concentração das atividades dos estabelecimentos comerciais atacadista da L’ORÉAL BRASIL no estabelecimento instalado no município de Duque de Caxias, abandonou o valor tributável mínimo, calculado com base no preço médio ponderado de venda no mercado atacadista praticado no município do Rio de Janeiro, e passou adotar novo valor tributável mínimo, calculado com base no “custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação”. Por sua vez, o motivo apresentado pela fiscalização para rejeitar o novo valor tributável mínimo, utilizado pela fiscalizada como base de cálculo do IPI, foi a constatação de que os custos, as despesas e a margem de lucro por ela apresentados foram artificialmente manipulados, para fim de reduzir a base de cálculo do citado imposto. Vejase trecho reproduzido (fl. 3.098): 4.17. Como demonstrado, esse planejamento tributário destinase a reduzir consideravelmente os valores tributáveis pelo IPI dos produtos com saída de PROCOSA ao transferir para L’OREAL a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos remetente (FISCALIZADO) e destinatário (ATACADISTA), e ainda a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um Fl. 3609DF CARF MF 24 menor pagamento de tributo (IPI), situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor para tais casos a necessidade de determinação do valor tributável mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195 do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo: • Demonstrativo de Apuração da Média Ponderada Mensal de Preços Unitários de Produtos. • Números das Notas Fiscais Referentes à Apuração da Média Ponderada dos Preços (Notas de saída do estabelecimento ATACADISTA) • Demonstrativo de Cálculo do IPI Devido" Muito embora a Recorrente tenha alegado em seu recurso que a reengenharia econômica e de logística operacional não tenha sido implantada com fim puramente econômico e não com finalidade de planejamento tributário, destinado a obter menor pagamento do IPI, os fatos noticiados nos autos, corroborados com elementos probatórios idôneos, contrariam e infirmam tal alegação. É fato que sob ponto vista empresarial, a recorrente tem toda liberdade para adotar o modelo gerencial que lhe mais conveniente e adequado para obtenção de melhores resultados econômicos, por meio da redução de custos e despesas e, conseqüentemente, elevação da taxa de lucro. Entretanto, dentro desse objetivo, não se pode esquecer que há exigências na legislação tributária não podem ser desconsideradas. No caso, ainda que não tenha sido o propósito da recorrente, as diferenças de preços praticadas entre os estabelecimentos industrial e distribuidor interdependentes destoam enormemente dos preços praticados entre estabelecimento industrial e distribuidor em ambiente comercial normal, sem interdependência. Por essas e as demais razões trazidas no Relatório da fiscalização (TVE de fls. 3.095/3.098), entendo que o Fisco agiu com acerto ao desconsiderar o novo valor tributável mínimo adotado pela Recorrente, calculado com base no “custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação”. 9. Da Interdependência entres as empresas Analisase aqui, a questão atinente à apuração do valor da base cálculo do IPI, utilizada pela fiscalização no presente lançamento, especificamente, quanto ao Valor Tributável Mínimo (VTM) aplicado aos produtos vendidos com exclusividade, pela Recorrente, ao estabelecimento atacadista, inscrito no CNPJ sob nº 30.278.428/000595, pertencente a pessoa jurídica L’OREAL, interdependente da autuada e a vendedora (PROCOSA), que detém 99,99% do total das quotas de capital da referida empresa. Noticia em seu recurso que a Fiscalizada possui dois estabelecimentos cujas linhas de fabricação de produtos são distintas, cabendo ao estabelecimento fiscalizado a industrialização precípua de produtos direcionados ao segmento de coloração para cabelos, e ao outro estabelecimento, situado em São Paulo, a fabricação de outros produtos, especialmente de xampus. Conforme informações fornecidas pela própria Recorrente, as referidas empresas integram o conglomerado econômico, controlado pela sociedade francesa L'ORÉAL S/A., uma das líderes mundiais no ramo de perfumes, cosméticos e produtos de toucador. Nos termos do art. 612, I, do RIPI/2010, a interdependência entre duas empresas, verificase sempre que uma delas tiver participação no capital social da outra de Fl. 3610DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.599 25 quinze por cento ou mais, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o segundo grau e respectivos cônjuges. É fato que a empresa PROCOSA encontrase localizada no bairro da Pavuna, pertencente ao município do Rio de Janeiro/RJ, enquanto o estabelecimento da empresa L'ORÉAL BRASIL (doravante denominado também estabelecimento ATACADISTA), está situado no município de Duque de Caxias/RJ, em área limítrofe ao município do Rio de Janeiro/RJ. Consta dos autos que as sedes administrativas das referidas pessoas jurídicas estão localizadas em um mesmo prédio, situado na Rua São Bento, n° 8, no centro da cidade do Rio de Janeiro e que o estabelecimento atacadista operava como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço (salões de beleza, cabeleireiros em geral) de todo o país, sendo considerado atacadista conforme conceito definido no art. 14, I, do Decreto nº 7.212, de 2010, que veicula o Regulamento do IPI de 2010 (RIPI/2010). Portanto, conforme demonstrado e provado nos autos, a Recorrente mantém relação de interdependência com a empresa adquirente de seus produtos, cujas operações foram objeto do lançamento em discussão. 10. Da aplicação do Valor Tributável Mínimo VTM Analisando as informações acima, resta incontroverso que as operações de venda dos produtos objeto da presente autuação foram realizadas, com exclusividade, para estabelecimento atacadista interdependente, conforme definido no art. 612, I e IV, do RIPI/2010. Aliás, esse fato é incontroverso no caso em tela, o que exige do estabelecimento vendedor a adoção de um Valor Tributável Mínimo (VTM), como base de cálculo do IPI, conforme determinado nos arts. 195, I e 196 do RIPI/2010, cujos trechos relevantes, para melhor compreensão das afirmações, seguem abaixo transcritos: Art.195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso I, e DecretoLei no 34, de 1966, art. 2o, alteração 5a); (...) Art.196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: I (...) II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. (Grifei) Fl. 3611DF CARF MF 26 Por outro giro, o Fisco verificou que a Recorrente industrializou os produtos de sua marca, bem como os importou de outras empresas do Grupo L’OREAL, e vendeu tais mercadorias para a L’OREAL BRASIL, que por sua vez as comercializou e distribuiu, com exclusividade, para revendedoras e prestadores de serviços (salões de beleza, cabeleireiros, etc), sendo, assim, nos termos do art. 14, I, "c" do RIPI/2010, considerada como estabelecimento (comercial) ATACADISTA, sendo este o fato que motivou a recusa, pelo Fisco, do Valor Tributável Mínimo (VTM) calculado pela Recorrente. Cabe destacar aqui, que a fiscalização constatou que os preços praticados pela L’OREAL BRASIL, na revenda dos produtos, eram significativamente superiores àqueles praticados na operação de aquisição dos mesmos, entre ela e a PROCOSA (industrial), segundo apontado pela fiscalização, que identificou diferenças da ordem de até 500% nos preços dos produtos adquiridos e vendidos pela L’OREAL BRASIL (comercial). Vejase trecho do TVE: "(...) 4.15. Em sequência, o FISCALIZADO passa a tratar da questão da divergência de preços entre o mesmo e o ATACADISTA. Aquele justifica a substancial diferença de preços praticados pelas duas empresas alegando que a PROCOSA é responsável pela industrialização dos produtos, de forma que arca com os custos fabris e pratica margem normal de lucro, enquanto a L’OREAL, responsável pela comercialização e distribuição, arca com os custos de transporte, propaganda e marketing, o que por sua vez justificaria a margem maior praticada pela ATACADISTA, “sob pena de auferir seguidos prejuízos fiscais”. 4.16. Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a divergência aqui tratada é na ordem de mais de 500% (quinhentos por cento)". Neste caso, há que se levar em conta que o fato de estabelecimentos interdependentes praticarem entre si preços diferentes daqueles negociados no mercado, quando da comercialização entre partes não relacionadas, caracteriza o favorecimento entre elas o que, por si só, já autoriza a conclusão de que a Recorrente, de fato, praticou a infração que lhe foi imputada. Isto porque, conforme definido no Regulamento do IPI, existindo mercado atacadista na praça do remetente, o preço do produto negociado entre elas deveria corresponder ao preço corrente naquele mercado, calculado com base na média ponderada dos preços de cada produto, vigorantes no mês antecedente ao da saída do estabelecimento remetente ou ao mês imediatamente anterior. Nesse mesmo sentido, foi decido por este CARF, pelo Acórdão do 2º CC n° 20216.152, de 22/02/2005: "(...) Em havendo a interdependência, a legislação exige que nas remessas de produtos tributados de uma para outra empresa seja observado o valor tributável mínimo, in casu, o preço do mercado atacadista da praça do remetente. Essa exigência não foi cumprida pela reclamante, que deu saída aos produtos para sua interdependente pelo mesmo preço que os importou (preço de custo), sem observar o preço corrente no mercado atacadista de sua praça" (...). Também nesse mesmo diapasão, foi decido pelo Acórdão n° 3301001.847, de 22/05/2013, da 1ªTO, 3ª Câmara da 3ª Sejul: "BASE DE CÁLCULO. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. Comprovada a relação de interdependência entre as empresas, adotase como base de cálculo do IPI incidente nas saídas dos produtos do estabelecimento industrial da interdependente o valor tributável mínimo. Fl. 3612DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.600 27 VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. APURAÇÃO. O valor tributável mínimo corresponde à média ponderada dos preços de cada produto, vigente no mês precedente ao da saída dos produtos do estabelecimento industrial remetente, e, ainda, não pode ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça daquele, no caso de remessa para empresa interdependente. Há que se ressaltar ainda que no julgamento da Primeira Turma da Segunda Câmara da Terceira Sejul, negouse provimento ao recurso (Acórdão 3201001204), sob o fundamento de que "na saída de produtos tributados pelo IPI para firma interdependente, o valor tributável não pode ser inferior ao preço corrente dos produtos no mercado atacadista do remetente". E que existe preço corrente no mercado atacadista da remetente, ainda que se trate de um mercado monopolista. O preço praticado pela distribuidora interdependente nas vendas para terceiros independentes, equivale ao preço de mercado, por abranger os custos do produto. No caso dos autos, é importante frisar, que o Fisco estabeleceu a “média ponderada”, com base nas vendas realizadas pela L'OREAL, único atacadista, conforme define os arts. 195, I e 196 caput, do RIPI/2010, anteriormente reproduzido. É importante se destacar que, apenas no caso de inexistir mercado atacadista, o que se dá, por exemplo, quando somente houver vendas feitas no varejo, é que se utilizaria a regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010 (como pleiteia a Recorrente), o que, como já abordado neste voto, não é o caso desses autos. Há de se considerar também que, diante da impossibilidade de adotar o critério alternativo de apuração da base cálculo do IPI, previsto no art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, revestese de todo razoável e em consonância com as normas de proteção da base de cálculo do IPI a utilização, pela fiscalização, do VTM calculado com base no preço no atacado médio praticado pelo estabelecimento atacadista interdependente da L’ORÉAL BRASIL, localizado no município de Duque de Caxias, limítrofe com o município do Rio de Janeiro, onde se situa o estabelecimento industrial da recorrente, especialmente tendo em conta que ambos os municípios integram a mesma região metropolitana. Além disso, por utilizar o único preço por atacado idôneo praticado na comercialização dos referidos produtos fabricados pela recorrente e objeto da presente autuação, certamente, tratase de critério objetivo que está em perfeita consonância com o critério de apuração do VTM estabelecido no PN CST 89/1970 e na SCI Cosit nº 8/2012. Por fim, como se sabe, o IPI não é um imposto pessoal (de modo a considerar os custos da pessoa do industrial ou da pessoa do distribuidor), mas sim um imposto real, devendose no caso, ser levados em conta todos os custos da mercadoria (de produção, de vendas, de publicidades, etc). Nesse sentido, importa registrar que o preço praticado pelo destinatário (no caso, pela LOREAL BRASIL) é o que efetivamente abrange, além dos custos de fabricação, também os demais elementos que devem ser considerados na fixação do VTM. 11. Da Base de Cálculo Média Ponderada A Recorrente, embora conhecendo os preços no mercado atacadista praticados pelo seu distribuidor comercial atacadista exclusivo e interdependente, não observou os comandos normativos e utilizou, indevidamente, para definir a base de cálculo do IPI nas suas operações de saída, o inciso II, do art. 196 do RIPI/2010 (reproduzido em tópico acima). Fl. 3613DF CARF MF 28 Desta forma procedendo, recolheu valor de imposto (IPI) muito abaixo do valor tributável mínimo (VTM) previsto pelo inciso I, do art. 195 do RIPI/2010. Como bem asseverado pela decisão de Piso, "no mundo do Direito, a lógica jurídica nos revela que, igualmente, o preço do mercado atacadista da praça do remetente, no caso concreto em análise, é o mesmo praticado pelo estabelecimento comercial atacadista interdependente". O Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, dispôs em determinado trecho que “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada”. Portanto, cabe esclarecer a existência de mercado atacadista na região considerada, uma vez que, no caso, há apenas um único estabelecimento atacadista. Para tanto, não foi outra a conclusão a que chegou a Administração Tributária por meio da Solução de Consulta Interna (SCI) COSIT nº 8, de 13 de junho de 2012, cuja ementa e excertos pertinentes ora reproduzimos: (Grifei). “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI O valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a estabelecimento distribuidor interdependente do estabelecimento industrial fabricante. O valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial fabricante, e que tenha na sua praça um único estabelecimento distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto. Dispositivos Legais: Decreto no 7.212, de 15 de junho de 2010 –Regulamento do IPI; Parecer Normativo CST nº 44, de 1981.” "(...) 9. Ou seja, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo’. 9.1. Agora, se ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo’, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um ‘mercado atacadista’, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao ‘universo das vendas’ a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 (Grifei). Fl. 3614DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.601 29 Quando se observa o inciso I, do art. 195 do RIPI/2010, tal dispositivo legal não faz qualquer referência ao número mínimo de ofertantes que devem atuar no mercado para que este seja caracterizado como um “mercado atacadista”. Tampouco faz qualquer distinção entre mercados monopolizados, oligopolizados ou livre de concorrência. Desse modo, deve ser aplicada a regra prevista (inciso I, do art. 195 do RIPI/2010), sempre que o produto for destinado a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. Já o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs sobre “mercado atacadista”, in verbis: 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente do mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79. Em resumo, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento; devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. Por outro lado, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas e nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Como os produtos da PROCOSA são perfeitamente caracterizados e identificados por marca (L’OREAL), tipo, modelo, espécie e qualidade, o mercado atacadista da praça do remetente é composto por um único vendedor, que atua nesse mercado, qual seja, a sua própria comercial atacadista interdependente, pois esta é a única e exclusiva distribuidora dos produtos da Recorrente para a sua praça (seja ela o município ou não). Assim, sobre os preços desse único atacadista, a conformar o preço corrente no mercado atacadista do remetente/Recorrente é que deverá incidir o IPI, conforme o Ato Declaratório Normativo (ADN) CST nº 05, de 1982 e o Parecer Normativo (PN) CST nº 44, de 1981, bem como a exata orientação emanada da Solução de Consulta Interna (SCI) COSIT n° 08, de 2012, bem como na interpretação do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, apontado no lançamento tributário. Vejase o trecho da Conclusão da referida SC nº 8: Conclusão (Negritei) 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar Fl. 3615DF CARF MF 30 para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto.” A fiscalização informa em seu “Termo de Verificação Fiscal” que tomou com base o valor dos preços praticados pelo ATACADISTA, estabelecimento interdependente foi considerado as vendas efetuadas pelo estabelecimento PROCOSA (recorrente) para o ATACADISTA (L'OREAL BRASIL) no cálculo da "média ponderada", uma vez que tais preços, representam os valores que se pretende corrigir. Que a PROCOSA cobrou de sua interdependente preços muito inferiores aos de mercado, violando as regras do valor tributáveis mínimas previstas nos artigos 195, I e 196 do RIPI/2010. Alega a Recorrente em seu recurso que, "(...) Todavia, apesar de invocar a aplicação ao auto de infração dos comandos insertos no artigo 195 e no caput do artigo 196 do RIPI/2010, na verdade, fiscalização se afastou por completo do critério neles traçados de determinar o VTM com base na média ponderada dos preços correntes do mercado atacadista da praça do remetente, pois considerou como preços praticados nesse mercado somente o do distribuidor e desconsiderou o do próprio contribuinte remetente, no caso, a RECORRENTE" (Grifei). Não assiste razão à Recorrente. Entendo correto o asseverado na decisão da DRJ. Explico. No caso presente, não seria possível calcular a média ponderada, pois o mercado da praça do remetente/Recorrente é composto por um único vendedor, que atua nesse mercado, qual seja, a sua própria comercial atacadista interdependente. Por entender que os preços dos produtos da PROCOSA no mercado atacadista, consistem nos mesmos preços praticados pela sua comercial atacadista, interdependente e exclusiva, encontra respaldo no ADN CST nº 05, de 1982, no PN CST nº 44, de 1981, na SCI COSIT nº 08, de 2012, e na interpretação do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, apontado no lançamento tributário. Além disso, há de se levar em consideração os preços praticados pelo estabelecimento comercial atacadista interdependente, distribuidor exclusivo da Recorrente, porquanto este atua naquela praça, conforme disposto nos atos acima citados. Como já exposto, como se trata de produtos perfeitamente caracterizados e identificados por marca, tipo, modelo, espécie e qualidade, são os preços da comercial atacadista interdependente, a única representante/distribuidora de tais produtos no atacado, que podem ser utilizados para se determinar o preço atacadista na praça da Recorrente/remetente. Nessa esteira, a fiscalização em relação a determinação do VTM, com base na "média ponderada" dos preços correntes do mercado atacadista da praça do remetente, desta forma consignou em seu TVF: " (...) Convém informar que, conforme esclarecimento prestado por meio do Termo de Intimação Fiscal nº 07/07499, o procedimento de cálculo da média ponderada mensal foi efetuado da seguinte forma: para cada produto adquirido do FISCALIZADO, realizouse o somatório dos valores totais registrados em todas as notas fiscais de saída (CFOP 5102, 6102, 6403 e 6110) do ATACADISTA em um determinado mês (multiplicação entre valores unitários de cada produto e quantidades de itens) e dividiuse esse total pelo somatório das quantidades de itens de todas as notas fiscais do mês considerado. Ressaltese que foram utilizados os valores correspondentes às linhas de cada item, e não o valor total da nota que considera frete e tributos. Pelos motivos já expostos nos itens anteriores deste Termo, os valores obtidos no demonstrativo de apuração das médias de preços praticados nas saídas do ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595) devem ser utilizados para determinação dos valores tributáveis mínimos a serem Fl. 3616DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.602 31 observados pelo FISCALIZADO. Portanto, faz parte do presente Termo o “Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo”, bem como a relação informativa de notas fiscais consideradas na apuração da média ponderada. As médias relacionadas na última coluna do demonstrativo mencionado no item anterior são as que constituem o valor tributável mínimo, sendo que quando da utilização deste para cálculo do tributo devido foi utilizada sempre, conforme determina o artigo 196 do RIPI/2010, a média ponderada dos preços calculada no mês precedente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Observese que o critério adotado assegura a justiça da apuração, pois ninguém melhor que o próprio grupo econômico para determinar o preço a ser cobrado de seus clientes cujo montante é suficiente para cobrir todos os custos, inclusive financeiros, administrativos, de venda e publicidade, e ainda garantir a margem de lucro normalmente pretendida pelos sócios" (Grifei). E, foi com base nas informações acima e lastreados nos arquivos digitais das notas fiscais de saída emitidas pelo fabricante/importador que a fiscalização apurou o “Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo”, bem como a relação informativa de notas fiscais consideradas na apuração da "média ponderada", que resultou no "Demonstrativo de Cálculo do IPI Devido” (todos anexados aos autos), onde foram relacionadas as notas fiscais emitidas pelo estabelecimento da Recorrente em que ocorreu insuficiência no destaque do IPI, por inobservância do Valor Tributável Mínimo nas saídas destinadas à firma interdependente. A média ponderada constante dos demonstrativos elaborados, foram as que constituíram o valor tributável mínimo, sendo que quando da utilização deste para cálculo do tributo devido foi utilizada sempre, conforme determina o artigo 196 do RIPI/2010, a média ponderada dos preços calculada no mês precedente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Portanto, não procede os argumentos da Recorrente que, para determinar o VTM, a fiscalização se afastou por completo do critério comandos pelo artigo 195 e no caput do artigo 196 do RIPI/2010. Também, entendo que não caberia a autoridade julgadora apurar ou determinar margem de lucro do sujeito passivo. Especialmente, no caso em tela, em que a base de cálculo do imposto lançado não foi calculada com base lucro ou resultado obtido pela Recorrente, mas com base no VTM. Além disso, também não cabe autoridade julgadora determinar critérios de apuração da base de cálculo do tributo lançado. Essa atividade, induvidosamente, é privativa da autoridade fiscal lançadora, nos termos do art. 142 do CTN. À autoridade julgadora, certamente, cabe se pronunciar sobre legalidade do critério de apuração adotado pela fiscalização, o que no meu entender foi feito apropriadamente, em que restou demonstrado que o VTM apurado pela fiscalização foi feito em perfeita consonância com o disposto no art. 195, I, e 196 do RIPI/2010 (Decreto nº 7.212/2010). 12. Da aplicação da Solução Consulta Interna Cosit (SCI) nº 08/2012 Argumenta a Recorrente em seu recurso que "(...) a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/2012 é ilegal, representa violação ao art. 146 do CTN, por trazer novo critério jurídico e por isso não pode ser aplicada retroativamente a fatos geradores ocorridos em 2011". "(...) Acrescentese que essa malsinada Solução de Consulta Interna nº 8/2012 não é norma complementar, não se caracteriza como ato administrativo normativo, Fl. 3617DF CARF MF 32 nem, por conseguinte, integra a legislação tributária referida no artigo 96 e no inciso I do artigo 100 do CTN, porque, para adquirir normatividade, isto é, produzir efeitos gerais e ter seu conteúdo exigível dos contribuintes, é indispensável que a administração, obedecendo ao comando inscrito no caput do artigo 37 da Constituição Federal, lhe dê publicidade. Sem publicar oficialmente seu conteúdo integral, um ato administrativo não entra em vigor, não podendo seu cumprimento ser exigido dos particulares, como também requer, em linha com o texto constitucional, o inciso I do artigo 103 do CTN, na seguinte dicção" (...). Vejase que a Solução de Consulta Interna da COSIT, como o próprio nome sugere, tratase de ato normativo que tem por finalidade aclarar as dúvidas suscitadas pelos órgãos internos da RFB. Logo, tal ato tem efeito vinculante restrito ao âmbito da RFB, embora sirva de respaldo ao procedimento do sujeito passivo que adote sua orientação. Dada essa característica, o fato de o referido ato não ter sido publicado externamente (na imprensa oficial, por exemplo), certamente, não desobriga a fiscalização de aplicar a sua orientação na execução da atividade vinculada do lançamento. Ao contrário, a simples publicação interna, dada o alcance do seu efeito vinculante, já é suficiente para que autoridade fiscal autuante observe o disposto no referido ato na atividade de lançamento, como ocorreu no caso em tela. E mais. Da leitura dos excertos extraídos da referida SCI, fica claro que ela apenas consolidou os entendimentos exarados nos PN CST 44/1981 e PN CST 89/1970, que tratam dos procedimentos de apuração VTM relativos ao mercado atacadista concorrencial e monopolista, respectivamente. Logo, fica demonstrado que os procedimentos de apuração do VTM são diferentes para cada uma das referidas modalidades de mercado atacadista. Dessa forma, fica evidenciado a improcedência da alegação da Recorrente de que a referida SCI, configura alteração de práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas e que introduziu novo critério jurídico, o que implicaria violação ao art. 146 do CTN, haja vista que, em relação ao mercado atacadista monopolista, ela apenas reafirmou entendimento exarado no PN CST 89/1970, e nada mais. E por esta mesma razão, não há que se falar em afronta ao princípio da segurança jurídica. Quanto a alegação suscitada pela Recorrente, no âmbito do recurso voluntário, de que a ausência de publicidade externa do referido ato retiravalhe a natureza de norma complementar e a característica de ato administrativo normativo, e que, portanto, não integrava a legislação tributária, referida no art. 96 e art. 100, I, do CTN, obviamente, tratase de alegação que diz respeito a natureza normativa da referida SCI, matéria essa que é estranha aos autos. 13. Das vendas Comercial atacadista x varejista e dos fretes e tributos Aduz a Recorrente que, "(...) Deixou o autuante de considerar também, na apuração do valor tributável mínimo os preços unitários dos produtos que a L’ORÉAL comercializou na qualidade de atacadista “registrados em todas as notas fiscais de saída (CFOP 5102, 6102, 6403 e 6110)”, descontados do “frete e tributos”. Quer dizer, para apurar o que acreditou, embora inadequadamente, ser o valor mínimo tributável pelo IPI, o autor do procedimento fiscal quis:a) excluir do seu cálculo todas as vendas efetuadas pela L’ORÉAL no varejo, e b) incluir no seu cálculo as vendas Fl. 3618DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.603 33 efetuadas pela L’ORÉAL no atacado, inclusive as vendas a contribuintes estabelecidos em outras cidades, outras regiões metropolitanas e outros estados. Por outro lado, a Fiscalização, no TVF (fls. 3.107/3.108), informou que as vendas efetuadas pelo comerciante interdependente na condição de varejista não participaram dos cálculos dos valores tributáveis mínimos do IPI considerados no lançamento de ofício: Vejase trechos abaixo reproduzido: "(...) esta fiscalização elaborou demonstrativo de apuração da média ponderada mensal dos preços unitários dos produtos que este atacadista recebeu do remetente (FISCALIZADO) e comercializou por meio de notas fiscais emitidas com os CFOP (Código Fiscal de Operações e prestações) 5102, 6102, 6403 e 6110, uma vez que esses códigos evidenciam as operações efetuadas na condição de atacadista, conforme disposto no artigo 14 do RIPI/2010. Ficaram foram do escopo apurado, portanto, produtos vendidos pelo ATACADISTA na condição de varejista". "(...) Ressaltese que foram utilizados os valores correspondentes às linhas de cada item, e não o valor total da nota que considera frete e tributos. Desta forma, como visto na informação elaborada pelo Fisco, os produtos vendidos pelo Atacadista na condição de varejista, não foram computados na apuração. No mesmo sentido restou consignado em relação a exclusão de fretes e os tributos (que foram excluídos no demonstrativo). Portanto, também não assiste razão a Recorrente neste tópico. 14. Das vendas no Varejo Afirma ainda a Recorrente que, "(...) Logo, se para o autuante era indispensável levantar somente preços dos produtos vendidos no atacado, impunhalhe, por dever de coerência, não incluir na relação de notas fiscais emitidas com o CFOP 5102 aquelas cujas mercadorias se destinavam a não contribuintes do ICMS, isto é, a consumidores, tanto que campo referente ao número da inscrição estadual do destinatário está com a informação “isento” ou “não contribuinte”. Este fato foi muito bem enfrentado pela decisão de Piso, infirmando que o fato de a mercadoria ter sido adquirida por consumidor final não contribuinte do ICMS não pressupõe que tal aquisição tenha sido feita, necessariamente, no varejo. Ou seja, tal fato não pressupõe que tal aquisição jamais possa ter sido feita no atacado. Isso porque não há na seara comercial nem no ordenamento jurídico pátrio a correlação aventada pela Recorrente de que toda venda efetuada a consumidor final seja, obrigatoriamente, uma venda a varejo. Em outras palavras, não existe óbice negocial ou jurídico a que um consumidor final não contribuinte do ICMS efetue uma compra no atacado. Especificamente no campo do IPI, a teor dos preceitos contidos no art. 14, tanto no seu inciso I, alínea “b”, quanto no seu inciso II, todos do RIPI/2010, há plena possibilidade de existência de venda no atacado a consumidor final adquirente: Art. 14. Para os efeitos deste Regulamento, consideramse (Lei nº 4.502, de 1964, art. 4º, § 1º, e Decretolei nº 34, de 1966, art. 2º, alteração 1ª): I estabelecimento comercial atacadista, o que efetuar vendas: Fl. 3619DF CARF MF 34 a) de bens de produção, exceto a particulares em quantidade que não exceda a normalmente destinada ao seu próprio uso; b) de bens de consumo, em quantidade superior àquela normalmente destinada a uso próprio do adquirente; e c) a revendedores; e II estabelecimento comercial varejista, o que efetuar vendas diretas a consumidor, ainda que realize vendas por atacado esporadicamente, considerandose esporádicas as vendas por atacado quando, no mesmo semestre civil, o seu valor não exceder a vinte por cento do total das vendas realizadas.” (Grifei). Posto isto, não procedem as exclusões das vendas a varejo assim consideradas segundo a concepção da Recorrente. 15. Das vendas efetuadas “fora da praça” Segundo a Recorrente, ocorreu outro erro no cálculo do valor tributável mínimo do IPI efetuado pela Fiscalização, "(...) O segundo erro foi deliberado, e residiu na inclusão, no mesmo demonstrativo e para a mesma finalidade, de vendas efetuadas pela L’ORÉAL para estabelecimentos fora da praça por ele próprio considerada" (...). Todavia, ressalvada a hipótese de entender, como chegou a admitir o autuante, que praça seria todo o território nacional, o cálculo da média ponderada dos valores das vendas realizadas em determinado mercado inclui unicamente aquelas cujas mercadorias sejam adquiridas por destinatários localizados na praça do remetente (...)". Ocorre que para este relator, a discussão acima levantada pela Recorrente, não merece guarida, porquanto gira em torno da conceituação do termo “praça”, o que já se encontra em tópico especifico e bem analisado no item "6" deste voto. 16. Dos descontos incondicionais Afirma a Recorrente sobre a Ilegitimidade da Adição dos Descontos Incondicionais Concedidos pela Impugnante à Base de Cálculo do IPI, "(...) Agreguese à coleção de defeitos irremediáveis do auto de infração, endossados pelo acórdão agora enfrentado, a adição feita pela fiscalização, aos valores de venda por ela levantados para determinar as bases de cálculo do IPI, dos descontos que a L’ORÉAL concedeu incondicionalmente aos seus clientes. Para tanto, fundamentou que tal procedimento do Fisco ofendia a Constituição Federal, o CTN, a lei de regência do imposto e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. No caso dos descontos incondicionais, existe vedação normativa expressa no § 3º do art. 190 do RIPI/2010 à dedução dos descontos incondicionais na base de cálculo do IPI: Vejase Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I dos produtos de procedência estrangeira: (...) II dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, inciso II, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15). Fl. 3620DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.604 35 (...) § 3º Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, § 2º, DecretoLei nº 1.593, de 1977, art. 27, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15). (Grifei) Portanto, as fundamentações suscitadas pela Recorrente não merecem acato no presente julgamento administrativo. No entanto, a Recorrente, continua em recurso argumentando que "(...) Esse comportamento ofende a Constituição Federal e o CTN, conforme declarado reiteradamente pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça, a exemplo dos acórdãos proferidos nos julgamentos do REsp nº 848.598/RS35 e do REsp nº 908.441/RN36, e principalmente pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal no RE nº 567.935/SC (Relator: Min Marco Aurélio Mello, data: 04.09.2014), cuja repercussão geral foi reconhecida por essa Suprema Corte, cabendo, portanto, ao caso, a aplicação do disposto no inciso I do artigo 62 do Regimento Interno desse CARF". Reproduz os acórdãos. Como se vê, alegou o cumprimento da regra prevista no artigo 62, § 2º, do RICARF/2015, que estabelece a obrigatoriedade da reprodução, pelos julgadores deste Conselho, das decisões definitivas de mérito proferidas pelo plenário do STF nos julgamentos, sob regime de repercussão geral, no caso a aplicação do entendimento esposado no RE nº 567.935/SC: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS VALORES DE DESCONTOS INCONDICIONAIS BASE DE CÁLCULO INCLUSÃO ARTIGO 15 DA LEI Nº 7.798/89 INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL LEI COMPLEMENTAR EXIGIBILIDADE. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, os valores relativos a descontos incondicionais concedidos quando das operações de saída de produtos, prevalecendo o disposto na alínea “a” do inciso II do artigo 47 do Código Tributário Nacional. Para bem resolvermos o caso, peço licença para reproduzir trechos do voto de lavra do Conselheiro Jose Fernandes do Nascimento (PAF nº 16682.720009/201371), que para uma melhor compreensão do alcance da referida decisão do STF, especialmente, em relação ao preceito legal atingido pela mácula da inconstitucionalidade formal, cabe transcrever o teor do dispositivo do julgado: O Tribunal, por unanimidade e nos termos do voto do Relator, conheceu e negou provimento ao recurso, declarando a inconstitucionalidade do § 2º do art. 14 da Lei 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 15 da Lei 7.798/89, apenas quanto à previsão de inclusão dos descontos incondicionais na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). [...]. (Grifei). Fazendo uma leitura do dispositivo do referido RE, extraise que o preceito legal, parcialmente, declarado inconstitucional (apenas na parte que trata dos descontos incondicionais) foi o § 2º do art. 14 da Lei 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 15 da Lei 7.798/1989, a seguir transcrito: Fl. 3621DF CARF MF 36 Art. 14. Salvo disposição em contrário, constitui valor tributável: (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...] II quanto aos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...] § 2º. Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...]. (grifos não originais) Porém, na presente autuação, a base de cálculo do IPI não foi calculada com base no valor total da operação, previsto no art. 14, II, da Lei 4.502/1964, mas sim, com base no VTM, definido no art. 15, I, do mesmo diploma legal, que segue transcrito: Art . 15. o valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto fôr remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro incluído no artigo 42 e seu parágrafo único; (Redação dada pelo Decreto Lei nº 34, de 1966) (...). Portanto, diferentemente do alegado pela Recorrente, o fundamento da decisão consignada no citado RE, não se aplica à autuação em apreço, pois o enquadramento legal da base de cálculo da autuação foi feito em preceito legal distinto do que fora declarado inconstitucional no citado Recurso Especial. Assim, por expressa vedação legal determinada pelo § 3º, II, do art. 190 do RIPI/2010, não há como ser acatado o pedido de dedução da base de cálculo do IPI dos supostos valores a título de descontos incondicionais. 17. Do Pedido de Diligência Aduz a Recorrente em seu recurso que "(...) evocando a impossibilidade de anexar a esta petição as milhares de notas fiscais emitidas no ano de 2011 pela L’ORÉAL relativas a vendas a consumidores, a vendas para destinatários localizados fora da praça da RECORRENTE, seja qual for o conceito de praça que se adote, e às vendas em que foram concedidos descontos incondicionais, até porque são documentos pertencentes a outra pessoa jurídica, a RECORRENTE reitera seu pedido no sentido de que, com fulcro no artigo 16, inciso IV, do Decreto n.º 70.235/72, seja realizada diligência nos arquivos magnéticos fornecidos pela citada empresa à fiscalização, identificando naqueles arquivos as notas fiscais em que estão presentes essas situações, ou, caso assim o prefiram, seja requerido daquela pessoa jurídica arquivos magnéticos que permitam esses levantamentos, para que os cálculos efetuados pela fiscalização sejam refeitos, nos mesmos moldes requeridos no subitem 8.1 da Impugnação" (...). Sobre o pleito de realização de diligência formulado pela reclamante, mostra se prescindível pelas razões que foram expendidas ao longo deste voto, cujo arrimo consta do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, combinado com o princípio basilar da livre convicção do julgador presente no art. 29 do citado Decreto. Fl. 3622DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.605 37 Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) A Recorrente informou que as notas fiscais emitidas pela L'ORÉAL não estão e nunca estiveram sob sua guarda e responsabilidade, motivo pelo qual seria indispensável a concessão da diligência. No entanto, neste caso, para afastar qualquer dúvida sobre a existência das notas fiscais nos autos, trago a colação a manifestação do Fisco no Termo de Verificação Fiscal (fls. 3.107/3.108): "7.4 Com base nos arquivos digitais, por meio dos dados das notas fiscais de saída emitidas pelo ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595), esta fiscalização elaborou demonstrativo de apuração da média ponderada mensal dos preços unitários dos produtos que este atacadista recebeu do remetente (FISCALIZADO) e comercializou por meio de notas fiscais emitidas com os CFOP (Código Fiscal de Operações e prestações) 5102, 6102, 6403 e 6110, uma vez que esses códigos evidenciam as operações efetuadas na condição de atacadista, conforme disposto no artigo 14 do RIPI/2010. Ficaram foram do escopo apurado, portanto, produtos vendidos pelo ATACADISTA na condição de varejista. 7.5 Convém informar que, conforme esclarecimento prestado por meio do Termo de Intimação Fiscal nº 07/07499, o procedimento de cálculo da média ponderada mensal foi efetuado da seguinte forma: para cada produto adquirido do FISCALIZADO, realizouse o somatório dos valores totais registrados em todas as notas fiscais de saída (CFOP 5102, 6102, 6403 e 6110) do ATACADISTA em um determinado mês (multiplicação entre valores unitários de cada produto e quantidades de itens) e dividiuse esse total pelo somatório das quantidades de itens de todas as notas fiscais do mês considerado. Ressaltese que foram utilizados os valores correspondentes às linhas de cada item, e não o valor total da nota que considera frete e tributos. 7.6 Pelos motivos já expostos nos itens anteriores deste Termo, os valores obtidos no demonstrativo de apuração das médias de preços praticados nas saídas do ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595) devem ser utilizados para determinação dos valores tributáveis mínimos a serem observados pelo FISCALIZADO. Portanto, faz parte do presente Termo o “Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo”, bem como a relação informativa de notas fiscais consideradas na apuração da média ponderada. 7.7 As médias relacionadas na última coluna do demonstrativo mencionado no item anterior são as que constituem o valor tributável mínimo, sendo que quando da utilização deste para cálculo do tributo devido foi utilizada sempre, conforme determina o artigo 196 do RIPI/2010, a média ponderada dos preços calculada no mês precedente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele". (Grifei). Como se vê, as notas fiscais foram o objeto de investigação pelos Auditores Fiscais que lavraram o Auto de Infração em discussão, não sendo possível falar que as provas necessárias não foram acostados aos autos. Fl. 3623DF CARF MF 38 Posto isto, com base no art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, entendo que a Diligência requerida é dispensável, já que as notas fiscais se encontra relacionadas nos demonstrativos apensados aos autos e as informações nelas contidas são suficientes para apuração do valor tributável mínimo (VTM) e outras apurações que são objeto desta lide. 18. Dispositivo Por fim, e para que não se alegue omissão no julgado, ratifico e, supletivamente, adoto todos os fundamentos da decisão recorrida, que tenho por boa e conforme a lei, forte no art. 50, § 1º, da Lei no 9.784, de 1991. Diante dos fundamentos expostos, rejeito as suscitadas preliminares de nulidade da decisão de piso, indefiro a diligência solicitada e, no mérito, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário apresentado, mantendose a decisão recorrida em TODOS os seus termos e fundamentos. É como voto. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator Voto Vencedor Conselheiro Diego Diniz Ribeiro, Redator designando 1. Com a devida vênia ao douto Relator do caso, ouso dele discordar, o que passo a fazer nos seguintes termos. 2. Conforme se observa dos autos, a presente discussão gravita em torno da adequada interpretação dos artigos 195, inciso I e 196, parágrafo único, inciso II, ambos do Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010 (RIPI/2010), dispositivos esses que assim prescrevem: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: (...). Fl. 3624DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.606 39 II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. 3. Tal discussão interpretativa, todavia, não pode ser considerada de forma divorciada da realidade fática apurada no presente lançamento e que aqui se retoma sumariamente: · a empresa recorrente tem por objeto social, dentre outras atividades, a industrialização, importação e exportação de produtos de beleza, cosméticos e toucador; · a empresa recorrente era a controladora da empresa L'oréal Brasil Comercial de Cosméticos Ltda. ("L'oréal"), empresa comercial atacadista para quem se destinaram todos os produtos produzidos pela recorrente no ano de 2011; · há, portanto, uma relação de interdependência entre as citadas empresas, o que é incontroverso nos autos; · a empresa recorrente está situada na cidade do Rio de Janeiro, enquanto que a empresa L'oréal está situada na cidade de Duque de Caxias, na área metropolitana da cidade carioca; · por se tratar de empresas interdependentes, a recorrente sujeitou tais operações à incidência do IPI nos termos do que dispõe o art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010; · a fiscalização, por seu turno, entendeu que o método de apuração do IPI para tais operações não seria o adotado pelo contribuinte, uma vez que a regra determinante no presente caso seria aquela disposta no art. 195, inciso I do mesmo RIPI/2010. 4. Feitas tais considerações de ordem fática, cabe agora voltarse aos dispositivos legais aqui tratados para a sua devida interpretação, mas não sem antes fixar algumas premissas essenciais para o alcance das conclusões que serão externadas ao longo do presente voto. I. Os limites interpretativos no direito tributário 5. É desnecessário aqui me alongar nas considerações acerca da estrita submissão das exigências exacionais ao princípio da legalidade, haja vista a importância deste princípio na seara tributária assim como ocorre no direito penal ao ponto do constituinte originário, não satisfeito com a previsão geral do art. 5o, inciso II da Magna Lex1, reiterar tal norma jurídica no específico nicho tributário (art. 150, inciso I da Constituição Federal2). 1 "Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: Fl. 3625DF CARF MF 40 6. Tal importância, entretanto, não imuniza a lei tributária de problemas, em especial aqueles de caráter semânticojurídico. O emprego, por parte do legislador, de expressões vagas, de conceitos jurídicos indeterminados e, até mesmo, a ausência de conceituações legais, levam a interpretações dúbias de um mesmo texto legislativo o que, em matéria tributária, pode originar sérios problemas para o sujeito passivo de uma relação jurídica deste jaez, já que tal sujeito pode depararse com a mitigação do seu patrimônio3 a pretexto de uma suposta interpretação normativa. 7. Daí a importância de dispositivos como os artigos 108, § 1º e 110 do Código Tributário Nacional4, na medida em que estabelecem limites interpretativos ao aplicador do direito tributário legislado no plano da concretude, densificando, pois, o princípio da legalidade. Assim, mesmo na ausência de uma delimitação semântica por parte da lei ao empregar um determinado signo na esfera jurídicotributária, ainda sim não seria possível negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de sentido. No mesmo diapasão, destacamos o já clássico voto do Ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Galotti, proferido no RE nº 71.758 (Rel. Min. Thompson Flores, DJ de 31.08.1973), in verbis: (...). Se a lei pudesse chamar de compra o que não é compra, de importação o que não é importação, de exportação o que não é exportação, de renda o que não é renda, ruiria todo o sistema tributário inscrito na Constituição. (...). 8. Esta conclusão foi reforçada pelo mesmo STF quando do julgamento da inconstitucionalidade da lei n. 9.718/98, conforme se observa de trecho do voto da lavra do Ministro Cezar Peluso, in verbis: (...) Quando não haja conceito jurídico expresso, tem o intérprete de se socorrer, para a reconstrução semântica, dos instrumentos disponíveis no próprio sistema do direito positivo, ou nos diferentes corpos de linguagem. (...). II ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; (...)." 2 "Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; (...)." 3 Para uma perspectiva da relação jurídicotributária, o ato de tributar nada mais é do que uma autorização constitucional para que o Estado mitigue o direito de propriedade do indivíduo. 4 "Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: (...). § 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei. (...). Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias." Fl. 3626DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.607 41 Como já exposto, não há, na Constituição Federal, prescrição de significado do termo "faturamento". Se se escusou a Constituição de o definir, tem o intérprete de verificar, primeiro, no próprio ordenamento, não havia então algum valor semântico a que pudesse filiarse o uso constitucional do vocábulo, sem explicitação de sentido particular, nem necessidade de futura regulamentação por lei inferior. É que, se há correspondente semântico na ordem jurídica, a presunção é de que a ele se refere o uso constitucional. Quando u'a mesma palavra, usada pela Constituição sem definição expressa nem contextual, guarde dois ou mais sentidos, um dos quais já incorporado ao ordenamento jurídico, será esse, não outro, seu conteúdo semântico, porque seria despropositado supor que o texto normativo esteja aludindo a objeto extrajurídico. (...) (STF – Supremo Tribunal Federal; Rec. Extraordinário 346.084 6 – PR; Tribunal Pleno (grifos nosso). 9. Este recurso empregado pelo ordenamento jurídico e evidentemente limitador do processo hermenêutico na esfera tributária tem um objetivo muito claro: criar um filtro jurídicoracional para preservar a autonomia do direito sem, todavia, fechálo para o novo. Procurase, com isso, evitar que o direito seja incapaz de se diferenciar e de se especificar funcionalmente em relação ao seu ambiente5. 10. Tais considerações, a título de premissas, são essenciais para o deslinde da presente demanda, uma vez que, ao meu ver, a lide gravita em torno do conteúdo semântico jurídico das expressões "mercado atacadista" e "praça do remetente", estabelecidas no art. 195, inciso I do RIPI/2010 e, mais do que isso, qual o conteúdo semântico de tais expressões à época do advento do citado Regulamento de IPI. Antes, todavia, é fundamental aqui precisar qual a razão de ser de tal dispositivo e as regras daí extraídas. II. O valor tributário mínimo como uma regra antielisiva específica para o IPI 11. A regra do valor tributável mínimo ("VTM") para o IPI não é uma novidade na legislação brasileira. Ao contrário, foi inauguralmente prevista no ordenamento jurídico nacional há mais de 50 anos, uma vez que veiculada na própria lei nº 4.502/646, instituidora do então imposto sobre o consumo. Tratase, em verdade, de norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados com o fito de evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. 12. Assim, em hipóteses como a tratada nos autos, há a possibilidade do VTM ser apurado com base em duas metodologias distintas e excludentes entre si. Caso exista mercado atacadista na praça do remetente, o VTM será apurado com base no preço corrente no 5 CAMPILONGO, Celso Fernandes. Política, sistema jurídico e decisão judicial. São Paulo: Max Limonad. 2002. p. 21. 6 "Art . 15. o valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço normal de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, ou na sua falta, ao preço corrente no mercado atacadista do domicílio do remetente, quando o produto fôr remetido, para revenda, a estabelecimento de terceiro, com o qual o contribuinte tenha relações de interdependência (art. 42); (...)." Fl. 3627DF CARF MF 42 mercado pelo cálculo da média ponderada de preços das empresas atacadistas da referida localidade. Por sua vez, na hipótese de inexistir mercado atacadista na praça do remetente, o VTM será apurado como base em uma cesta de elementos objetivamente traçados pelo legislador, quais sejam, custos de produção, outras despesas e margem de lucro normal. 13. Com tais disposições, o legislador quis evitar que empresas interdependentes criassem estruturas com o fito de esvaziar a base de cálculo do IPI nas operações promovidas pela industrial para inflála na operação com a empresa comercial atacadista. 14. Pois bem. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM perpassa, portanto, em precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). III. O conteúdo semânticojurídico das expressões "mercado atacadista" e "praça do remetente" 15. Fixadas as premissas alhures desenvolvidas, convém agora precisar o conceito de "praça do remetente". 16. Para cumprir com tal mister, insta desde já fixar a ideia que "praça do remetente" quer significar uma localidade, ou seja, um local determinado onde se realizam operações empresariais. Aliás, nesse sentido, é bastante elucidativo o parecer juntado aos autos pela recorrente e da lavra do Professor Fábio Ulhoa Coelho (fls. 3.241/3.282), o qual fora ofertado para a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Assim afirma o citado professor: (...). 6. Praça é conceito jurídico com dois significados diferentes. 7. O primeiro significado é o de reunião de comerciantes que realizam trocas mercantis de determinado produto num certo lugar. Tratase, nesse caso, de referência à organização típica dos comerciantes. (...). 16. As praças entendidas nesse primeiro significado de reunião de comerciantes tinham importância no passado. Atualmente, podese dizer que desapareceram. Se até as primeiras décadas do século anterior, existiam vigorosas praças no Brasil como a de Santos, Rio de Janeiro ou Belém , hoje em dia foram substituídas, em parte, pelas Câmara de Comércio, Associações Comerciais etc. 17. Por isso, quando a lei fala em praça atualmente, ela só pode estar se referindo à segunda acepção que o conceito apresenta no direito comercial, a de um lugar onde se costumam realizar negócios comerciais. Fl. 3628DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.608 43 18. Por esse segundo significado jurídico de praça, fazse referência invariavelmente a uma localidade. Tratase de expressão destinada a delimitar um espaço. Praça é, portanto, um conceito por assim dizer geográfico, um recorte no território nacional. (...) (grifos constantes no original). 17. Diante de tais considerações, fica claro que a questão a ser aqui definida é precisar qual a extensão deste recorte geográfico dentro do território nacional, de modo a delimitar a sua amplitude territorial. 18. Um dos primeiros diplomas legais a tratar do assunto foi a antiga lei do cheque (Decreto n. 2.591/1912), que em seu art. 4o assim prescrevia: Art. 4º O cheque deve ser apresentado dentro de cinco dias, quando passado na praça onde tem de ser pago, e de oito dias, quando em outra praça. 19. Referido dispositivo estabelecia prazos diferentes para a apresentação do cheque emitido a depender da referida ordem de pagamento ser da mesma "praça" ou de "praça" distinta da instituição bancária na qual seria apresentado. Na legislação atual (art. 33 da lei n. 7.357/85) falase em "lugar onde houver de ser pago", sem que se perca, todavia, a referência espacial quanto ao local da emissão e o local em que situada a agência bancária responsável pelo cumprimento da ordem. Em ambas as hipóteses resta clara a referência, ainda que implícita, a um Município, tanto que, ao emitir o cheque, o emitente deve indicar em campo próprio a cidade de emissão da cártula. 20. No mesmo sentido, é o Parecer Normativo n. 44/81, que assim prevê: (...) 5. A norma superveniente determina, pois, ser 'o preço corrente do mercado atacadista da praça do remetente (...) a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. (...) (g.n.). 21. É o que também prevê o ADN CST n. 5/82: (...). a) "o termo produto, constante do subitem 6.1 do Parecer Normativo CST nº 44, de 23 de novembro de 1981, indica uma Fl. 3629DF CARF MF 44 mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, se houver, na forma indicada no inciso VIII do artigo 205 do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI)"; e b) "do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o artigo 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser considerados as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. (...) (g.n.). 22. Ademais, o próprio art. 197 do RIPI/2010, inserido na mesmíssima Seção II em que se encontram os analisados artigos 195 e 196, ao estabelecer os procedimentos para o arbitramento da base de cálculo do IPI, textualmente fala em domicílio, o que, por sua vez, obrigatoriamente nos remete a ideia de Município. Vejamos o inteiro teor da regra: Art. 197. Ressalvada a avaliação contraditória, decorrente de perícia, o Fisco poderá arbitrar o valor tributável ou qualquer dos seus elementos, quando forem omissos ou não merecerem fé os documentos expedidos pelas partes ou, tratandose de operação a título gratuito, quando inexistir ou for de difícil apuração o valor previsto no art. 192 (Lei nº 5.172, de 1966, art. 148, e Lei no 4.502, de 1964, art. 17). §1o Salvo se for apurado o valor real da operação, nos casos em que este deva ser considerado, o arbitramento tomará por base, sempre que possível, o preço médio do produto no mercado do domicílio do contribuinte, ou, na sua falta, nos principais mercados nacionais, no trimestre civil mais próximo ao da ocorrência do fato gerador. (...). (g.n.). 23. Ao empregar o termo domicílio é claro que o legislador está se referindo ao limite geográfico de um município, exatamente como se depreende do disposto no art. 70 do Código Civil, in verbis: Art. 70. O domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo. 24. Nem se alegue, ainda que o art. 197 do RIPI/2010 teria usado o termo domicílio em um sentido diferente do signo praça, empregado no art. 195 do mesmo Regulamento, sob pena de vaticinarse a existência de uma legislação patológica, dotada de uma esquizofrenia ou bipolaridade, já que tal assertiva equivaleria a admitir a existência de artigos presentes em uma mesma lei, em uma mesma seção e tratando de um mesmíssimo tema (arbitramento da base de cálculo do IPI), porém com conteúdos semânticos distintos. 25. Não obstante, seguindo esta linha de orientação, i.e., de que praça é sinônimo de município, também encontramos farta jurisprudência deste Tribunal Administrativo. É o que se observa, por exemplo, da decisão exarada pelo Conselheiro Antonio Carlos Atulim e veiculada no acórdão n. 3403002.285, in verbis: Fl. 3630DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.609 45 Ementa Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 31/03/2008 a 31/12/2010 VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. EMPRESAS INTERDEPENDENTES. Inexistindo mercado atacadista na cidade em que está localizado o estabelecimento remetente, o valor tributável mínimo do IPI a ser observado nas vendas para empresa interdependente deve ser apurado com base na regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, considerandose apenas e tãosomente os custos de fabricação e demais despesas incorridas pelo remetente dos produtos. (...). (CARF; Acórdão n. 3403002.285; Relator: Antonio Carlos Atulim) (g.n.) 23. Ainda no mesmo sentido: Ementa ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 10/01/1999 a 31/12/2001 IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTAVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim proceder, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando as especificidades e características (marca, tipo, modelo, espécie, volume, qualidade) dos produtos distintos empregados para sua formação de preços. Recurso Provido. (CARF; Acórdão n. 340100.768; Relator: Dalton Cesar Cordeiro De Miranda) (g.n.). Trecho do voto do Relator (Acórdão n. 340100.768), acompanhado por unanimidade pela Turma julgadora: (...). Como muito bem observado nestes autos, a resposta a este quesito é de extrema valia, uma vez que o Ato Declaratório CST nº 5/82, o Parecer Normativo CST nº 44/81 e os artigos 68 do RIPI/82 e 123, I, do RIPI/98 determinam que o valor tributável do IPI – base de cálculo do IPI nas operações entre empresas interdependentes – será o preço corrente no mercado atacadista Fl. 3631DF CARF MF 46 na praça do remetente, ou seja, na praça da cidade onde está localizada a autuada, in casu, cidade de São Paulo. Que fique bem claro, por oportuno, que tais dispositivos afastam quaisquer hipóteses de inclusão na média ponderada de preços praticados por empresas atacadistas localizadas em outras praças que não a do remetente. E em face desta afirmativa, temse que a recorrente não atua como atacadista de seus produtos na praça da cidade de São Paulo, onde está localizada a Avon Industrial, local sim de sua sede administrativa. (...) (g.n.). Ementa IPI. BASE DE CALCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o artigo 68, inciso I, alínea "a", do RIPI/82, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não pode ser considerado como o praticado por um único estabelecimento. Recurso de ofício negado. (CARF; Acórdão n. 20310.133; Rel. Emanuel Carlos Dantas de Assis) (g.n.). Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 10/02/1999 a 31/12/1999 BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, “a”, do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o praticado pelo adquirente. Recurso de ofício negado. (CARF; Acórdão n. 20218.215; Rel. Maria Teresa Martínez López) (g.n.). 26. Este também é o entendimento consagrado pelo Superior Tribunal de Justiça, quando analisa o conceito de praça para fins de ação de cobrança com base em cheque prescrito: DIREITO COMERCIAL. RECURSO ESPECIAL. CHEQUES. BENEFICIÁRIA DOMICILIADA NO EXTERIOR. PRAÇA DE Fl. 3632DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.610 47 EMISSÃO. OBSERVÂNCIA AO QUE CONSTA NA CÁRTULA. AÇÃO DE LOCUPLETAMENTO SEM CAUSA DE NATUREZA CAMBIAL. TRANSCURSO DO PRAZO PREVISTO NO ARTIGO 61 DA LEI 7.357/85. POSSIBILIDADE DE AJUIZAMENTO DE AÇÃO DE COBRANÇA, COM DESCRIÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO SUBJACENTE, OU DE AÇÃO MONITÓRIA, CUJO PRAZO PRESCRICIONAL É DE 5 ANOS. 1. O cheque é título de crédito que se submete aos princípios cambiários da cartularidade, literalidade, abstração, autonomia das obrigações cambiais e inoponibilidade das exceções pessoais a terceiros de boafé, por isso deve ser considerado como local de emissão o indicado no título. [...] 4. O cheque é ordem de pagamento à vista, sendo de 6 (seis) meses o lapso prescricional para a execução após o prazo de apresentação, que é de 30 (trinta) dias a contar da emissão, se da mesma praça, ou de 60 (sessenta) dias, também a contar da emissão, se consta no título como sacado em praça diversa, isto é, em município distinto daquele em que se situa a agência pagadora. (...) (STJ; REsp n. 1.190.037/SP, Relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, DJe de 27/9/2011.) (g.n.). 27. Diante deste quadro normativo e jurisprudencial, não resta dúvida que praça e município são tratados como sinônimos o que, por conseguinte, implica no presente caso a convocação do disposto no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010 e não o prescrito no art. 195, inciso I do mesmo Regulamento. Isto porque, nos termos empregados pelo Professor Humberto Ávila em parecer também desenvolvido para a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (fls. 3.284/3.322): ...a escolha expressa pela delimitação geográfica para fins de verificação da média de preços do mercado atacadista precisa ser obrigatoriamente respeitada. O aplicador não tem competência para alterar os termos da lei, nem mesmo através de uma interpretação extensiva não comportada pelo texto legal. A definição legal vinculase às noções de previsibilidade, estabilidade e segurança jurídica, que seriam violadas se o intérprete pudesse, conforme a sua conveniência, alterar o significado corrente das expressões escolhidas pelo legislador. Por essas razões, estes dispositivos legais não admitem interpretações elásticas, extensivas ou ampliativas conforme o interesse da autoridade fazendária, sendo exigida a rigorosa observância dos limites fixados de forma expressa e inequívoca pelo Poder Legislativo, a quem compete fixar critérios, e delimitadas pelo Poder Executivo, a quem compete especificar os mandamentos legais. (...). Fl. 3633DF CARF MF 48 28. Apesar da conclusão aqui já externada, convém ainda examinar, para fins de motivação (art. 489, §1o, inciso IV, c.c. o art. 15, ambos do CPC78), os pretensos fundamentos adotados pela fiscalização no caso decidendo. IV. A equivocada fundamentação fazendária para a convocação do disposto no art. 195, inciso I do RIPI/2010 29. Conforme se observa do Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização equivocadamente trata o conceito de praça como sinônimo de mercado, conforme se observa de forma mais precisa as fls. 09/12 do aludido documento. Nesse sentido, mister se faz esclarecer o conceito de mercado para distinguilo da ideia de praça. 30. Logo, insta desde já esclarecer que o termo mercado comporta diferentes abordagens, o que pode redundar em diferentes resultados semânticos, a depender da sua análise ser feita sob uma perspectiva econômica, social, jurídica etc. Mesmo limitando este escopo, ainda sim é possível identificar diferentes espécies de mercados (permanente e temporário; relevante e irrelevante; dentre outras classificações). A classificação, por sua vez, empregada pela fiscalização no caso decidendo leva em consideração o aspecto geográfico como elemento classificatório, o que também pode gerar em diferentes subclassificações (mercados nacionais, regionais, locais etc.). Tratase, portanto, de um conceito ambíguo e que, por conseguinte, merece a devida delimitação em concreto. 31. No presente caso, a fiscalização atrelou a ideia de praça à de mercado, o qual, por sua vez, estaria geograficamente circunscrito ao conceito de região metropolitana. Daí concluiu que, apesar de situadas em cidades distintas, a empresa industrial e a recorrente compunham um único mercado porque situadas em uma mesma "praça" (aqui empregado no sentido da fiscalização), já que ambas PJ's estão situadas na região metropolitana do Rio de Janeiro. 32. Acontece que, com o devido respeito ao trabalho da fiscalização, tal mister padece de dois problemas: um de natureza conceitual e outro de caráter metodológico. 33. Sob uma perspectiva jurídica, ainda que de forma singela, mercado pode ser conceituado como o conjunto de operações empresariais relacionadas a determinados bens ou serviços em um determinado limite geográfico. E está exatamente aí o problema a ser aqui resolvido: as limitações geográficas para a definição do conceito de praça são as mesmas para conformação de um conceito de mercado? A resposta para tal questionamento é uma só: um sonoro não. 34. A limitação geográfica para fins de definição de mercado é dinâmica, na medida em que varia de acordo com o tipo de produto comercializado, bem como os tipos de operações comerciais praticadas. Quando se fala, por exemplo, em um "mercado" de padarias, é possível, a depender do contexto, restringilo a um bairro (v.g., o bairro do Sumaré, na cidade de São Paulo) ou a uma região (a região oeste, também na capital paulista). Já quando se fala, por exemplo, no mercado calçadista, é possível ampliar sensivelmente esta extensão territorial, 7 "Art. 489. São elementos essenciais da sentença: (...). § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...). IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; (...)." 8 "Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente." Fl. 3634DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.611 49 o que pode redundar em delimitação por Estado ou até mesmo por Região do Brasil (Sul, Sudeste, Norte etc.)9. O que se percebe, portanto, é que esta delimitação geográfica do conceito de mercado é dinâmica ou fluida, assim como é a economia, área do saber que fortemente influencia a delimitação semântica deste signo. 35. Por sua vez, a delimitação geográfica que influi na conformação do conceito de praça é estática, uma vez que, como visto, o signo praça é, por diferentes legislações, atrelado a ideia de domicílio, isto é, de cidade. Ora, quando se pensa em domicílio fiscal, por exemplo, o que se afigura é um lugar precisamente delimitado, de modo que o contribuinte possa ser fácil e eficazmente encontrado para fins de comunicação com a Receita Federal do Brasil. Aliás, a indicação do domicílio fiscal é a indicação de um endereço em uma cidade. 36. Percebese, pois, que a primeira diferença entre mercado e praça é conceitual, o que, digase de passagem, foi muito bem pontuado pelo Professor Fábio Ulhoa Coelho no parecer alhures citado: (...). "Praça" não é sinônimo de "mercado". Em nenhuma doutrina ou decisão judicial, afeta ao direito comercial, encontrase qualquer noção assertiva que pudesse levar a tal sinonímia. Mercado não se confunde com praça. Mercado é o conjunto de relações econômicas associado a algum elemento de relevância, que pode ser determinado produto ("mercado de cosméticos"), um segmento econômico ("mercado varejista"), certa base territorial ("mercado nacional") ou outros. Praça, por sua vez, não é um conjunto de operações econômicas. 51. Enquanto "mercado" é conceito que reporta algo dinâmico (relações econômicas), o de "praça" reporta algo estático (lugar ou organização). Não existe nada que se pudesse denominar por praça de cosméticos, mas existe claramente um conjunto de operações que se liga a noção de mercado de cosméticos. Não há nada a que se pudesse referir pela expressão praça varejista, mas visualizase, sem dificuldade, um conjunto de operações econômicas identificável pela locução mercado varejista. Inexiste algo passível de se chamar de praça nacional, mas o conjunto de operações econômicas realizadas internamente num certo país chamase, corretamente, de mercado nacional. (...) (grifos constantes no original). 37. E nem poderia ser diferente, até porque, se considerado o conceito de praça empregado pela fiscalização, i.e., como sinônimo de conjunto de operações empresariais, o disposto no art. 195, inciso I do RIPI/2010 tornaseia um sem sentido jurídico. Referido dispositivo assim prescreve: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro 9 Com segurança é possível afirmar que, por questões climáticas, econômicas e de costumes, o mercado calçadista na região Sul do país apresenta particularidades que o diferem deste mesmo mercado na região do extremo Norte e Nordeste do país. Fl. 3635DF CARF MF 50 estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). 38. Partindo dos conceitos empregados pela fiscalização poderia ser assim reescrito: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente do conjunto de operações empresariais do conjunto de operações empresariais do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). 39. Neste mesmo diapasão conclui o Professor Fábio Ulhoa Coelho: (...). 103. De outro lado, a tentativa de conferir maior abrangência ao conceito de praça desqualificando o elemento territorial que lhe é peculiar, mostrase igualmente uma distorção. quando se tenta conceituar praça como um conjunto de operações mercantis, confundese este conceito com o de mercado. 104. Aliás, esta segunda tentativa de conferir maior abrangência ao conceito de praça, aproximandoo ao de mercado, torna a lei e os regulamentos do IPI incompreensíveis. Tratando estas normas do "mercado de praças do remetente", se tanto mercado como praça forem considerados conjuntos de operações mercantis, as normas legais e regulamentares estariam dizendo algo totalmente ininteligível como "conjunto de operações mercantis do conjunto de operações mercantis do remetente". (...). (grifos constantes no original). 40. Outro equívoco da fiscalização ao equiparar o conceito de praça ao conceito de mercado é metodológico. Antes, entretanto, de justificar tal assertiva, é importante não perder de vista que o caso analisado é fruto de um auto de infração, fato este de extrema relevância para a resolução da presente demanda, à medida que é justamente a iniciativa do processo administrativo que determina o ônus probatório, nos termos do que prevê o art. 373 Código de Processo Civil10. Assim já decidiu este colegiado, conforme se observa do seguinte trecho do acórdão n. 3402002.881, da lavra do Conselheiro Antonio Carlos Atulim: (...) É certo que a distribuição do ônus da prova no âmbito do processo administrativo deve ser efetuada levandose em conta a iniciativa do processo. Em processos de repetição de indébito ou de ressarcimento, onde a iniciativa do pedido cabe ao contribuinte, é óbvio que o ônus de provar o direito de crédito 10 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Fl. 3636DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.612 51 oposto à Administração cabe ao contribuinte. Já nos processos que versam sobre a determinação e exigência de créditos tributários (autos de infração), tratandose de processos de iniciativa do fisco, o ônus da prova dos fatos jurígenos da pretensão fazendária cabe à fiscalização (art. 142 do CTN e art. 9º do PAF). Assim, realmente andou mal a turma de julgamento da DRJ, pois o ônus da prova incumbe a quem alega o fato probando. Se a fiscalização não provar os fatos alegados, a consequência jurídica disso será a improcedência do lançamento em relação ao que não tiver sido provado e não a sua nulidade. (...). 41. Pois bem. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter provado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente. Nesse sentido, perguntase: quais são os fatos econômicos trazidos pela fiscalização que atestam tal assertiva? Quais os índices econômicos que permitem afirmar que de fato os produtos produzidos pelo recorrente não apresentam um mercado mais amplo (estadual, regional ou até mesmo nacional)? 42. Não há uma única linha sequer no TVF que justifique o discricionário recorte geográfico feito pela fiscalização. Em verdade, o único e suposto fundamento trazido pelo fisco nesse sentido é a aproximação física das empresas em questão, separadas por uma distância inferior a 10 km, o que, sob a equivocada ótica fiscal, seria suficiente para definir o mercado de cosméticos na região metropolitana do Rio de Janeiro. 43. Com o devido respeito ao trabalho fiscal, mas tal recorte geográfico não encontra qualquer subsídio jurídico e nem mesmo econômico. Aliás, quando se analisa a justificativa posta no TVF tal conclusão fica ainda mais patente. Vejamos o que diz a fiscalização: (...). 6.7. Adequandose a essa realidade, alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA, apurados com base nos preços correntes de determinada área, hoje são: INPC Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Mede a variação nos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias com rendas entre um e oito salários mínimos. O período de coleta de preços vai do primeiro ao último dia do mês corrente e é divulgado aproximadamente após o período de oito dias úteis. É o índice mais utilizado. IPCA Índice de Preços ao Consumidor Ampliado. É calculado pelo IBGE nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Fl. 3637DF CARF MF 52 Goiânia. Mede a variação nos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias com rendas entre um e quarenta salários mínimos. O período de coleta de preços vai do primeiro ao último dia do mês corrente e é divulgado aproximadamente após o período de oito dias úteis. (...). 44. De forma genérica a fiscalização afirma que alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA são medidos dentro dos limites geográficos de uma região metropolitana, o que, por conseguinte, também deveria ser levado em consideração no caso em comento. O que a fiscalização ignora, todavia, é que os índices citados acima (INPC e IPCA) são determinantes para a apuração de preços para o consumidor, ou seja, leva em consideração o mercado de varejo e não o mercado atacadista, sendo este último o foco da presente fiscalização. Logo, a delimitação geográfica do mercado varejista em regiões metropolitanas não se aplica, necessariamente, para outros mercados mais concentrados, como ocorre no caso dos mercados industrial e atacadista. 45. Ademais, o esforço da fiscalização em demonstrar a proximidade física entre os estabelecimentos da recorrente e o atacadista não comove esTe julgador. Tratase de retórica11 vazia de qualquer conteúdo jurídico ou mesmo econômico. Ora, se proximidades geográficas fossem delimitadoras de critérios jurídicos poderíamos, por exemplo, alterar a competência territorial de uma demanda ajuizada na capital paulista, de acordo com a conveniência do réu, situado em uma extremidade da urbe e mais próximo do Fórum de Santo André, para que a demanda fosse automaticamente transferida para a cidade do ABC. O mesmo poderia ser levado em conta para a delimitação do dever de pagar ISS e assim por diante. Ademais, se o recorrente estivesse em outro ponto da cidade do Rio de Janeiro, com uma distância superior a 50 quilômetros da atacadista Lóreal, isso seria suficiente para afastar a interpretação da fiscalização? Qual seria o limite quilométrico suficiente para tanto? Tal delimitação pode ficar a mercê do subjetivismo fiscal? 46. O que se quer afirmar com esses exemplos e indagações é que nem o aplicador do direito nem o destinatário da norma podem inventar critérios, arbitrariamente, para fins de alterar a incidência de normas jurídicas, em especial quando se está diante de questões tributárias, afinal, tal nicho do direito deve profundo respeito ao princípio da legalidade, como já destacado no presente voto. 47. Por fim, nem se alegue, como pretende a fiscalização, que a Súmula 06, X do Tribunal Superior do Trabalho, ao interpretar o art. 461 da CLT, teria o condão de vaticinar o entendimento fiscal. Vejamos o que diz o citado dispositivo legal e o correlato enunciado sumular: Art. 461 Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade. (g.n.) Súmula nº 06 TST X O conceito de "mesma localidade" de que trata o art. 461 da CLT referese, em princípio, ao mesmo município, ou a municípios distintos que, comprovadamente, pertençam à mesma região metropolitana. (g.n.) 11 Expressão que não é aqui empregada nos entido aristotélico do termos, mas sim sofistico. Fl. 3638DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.613 53 48. Primeiramente, convém desde já destacar que a citada súmula afirma, textualmente, que a expressão "localidade" deve, como regra, ser interpretada como sinônimo de município, o que, como já desenvolvido no presente voto, não é nenhuma novidade. Segue a referida súmula adiante para afirmar que, excepcionalmente, referido signo também pode ser visto como sinônimo de região metropolitana. 49. Percebese, pois, que para chegar a tal conclusão o TST cria uma exceção não prevista em lei mediante uma interpretação extensiva, o que, levando em consideração o tipo de direito material tutelado e quem se pretende prestigiar com tal regra, é perfeitamente compreensível. Ora, o referido enunciado sumular versa sobre relações jurídicas de emprego, as quais apresentam em um dos seus polos o empregado, parte hipossuficiente na referida relação. Logo, é louvável que o TST, em situações excepcionais e de forma justificada, estenda a interpretação do art. 461 da CLT em favor do trabalhador. 50. Já no caso em comento a lógica é completamente inversa, já que a parte hipossuficiente da relação é o sujeito passivo da relação jurídicotributária. Não é por acaso, portanto, que a Constituição Federal prevê uma Seção inteira (Seção II) com o título "Das Limitações do Poder de Tributar". Assim, permitir uma interpretação extensiva do conceito de praça, criada ficcionalmente pelo realizador do direito e, o que é pior, mediante a convocação analógica de um enunciado sumular de um Tribunal afeto às relações trabalhistas é, no mínimo, absurdo. 51. Patente está, portanto, os equívocos das premissas fiscal, o que levou a indevida exigência exacional. V. Das circunstâncias fáticas do presente caso 52. Por fim, resta ainda detalhar um pouco mais as premissas fáticas que antecederam a presente discussão, de modo a afastar qualquer dúvida acerca da legitimidade da estrutura operacional realizada pelo recorrente. 53. Para tanto, insta registrar que, embora não afirme textualmente, a fiscalização induz a interpretação de que a estrutura empresarial tomada pela recorrente teria sido assim arquitetada com um único propósito: reduzir a base de cálculo do IPI na operação realizada pela recorrente, o que se daria mediante a redução dos preços dos produtos negociados nesta fase da cadeia econômica, conforme se observa do seguinte trecho do TVF: (...). 4.17. Como demonstrado, esse planejamento tributário destina se a reduzir consideravelmente os valores tributáveis pelo IPI dos produtos com saída de PROCOSA ao transferir para L’OREAL a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos remetente (FISCALIZADO) e destinatário (ATACADISTA), e ainda a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de tributo (IPI), situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor para tais casos a Fl. 3639DF CARF MF 54 necessidade de determinação do valor tributável mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195 do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo: (...) (g.n.). 54. Como dito acima, a fiscalização sutilmente afirma que a forma da estrutura tomada pela recorrente teria por escopo a redução de tributos, mediante o emprego de um "planejamento tributário". O que a fiscalização ignora, todavia, é que este tipo de segregação de atividades (industrial e atacadista) é explicitamente admitida no caso de operações sujeitas com o IPI, afinal de contas, os artigos 195 e 196 do RIPI/2010 só existem no ordenamento jurídico por partirem da premissa de que este tipo de estruturação empresarial é válida sob o ponto de vista legal. 55. Outrossim, chega a ser pueril a ideia da fiscalização no sentido de que o "planejamento tributário" por ela questionado restaria configurado pela diferença das margens de lucro apuradas pela recorrente e pela atacadista, partindo do pressuposto, equivocado, de que a margem de lucros de um produtor/industrial deve ser a mesma ou muito próxima daquela auferida por um distribuidor. 56. A fiscalização ignora, pois, que a as atividades em questão (industrial e atacadista) são distintas, com características que lhes são próprias, o que torna absolutamente inviável essa pretensa "planificação" de margens de lucro. A recorrente vende os produtos por ela industrializados no atacado, enquanto que a L'oréal vende tais bens no varejo, o que redunda em uma logística simplificada e uma inadimplência minorada para a recorrente, em contraposição a uma logística mais sofisticada/pulverizada e um risco maior de inadimplência para a L'oréal, o que, por óbvio, se traduz em uma menor margem de lucro para a recorrente e uma maior margem para a L'oréal. Caso, todavia, fosse válida a assertiva fiscal, o que se cogita aqui apenas de forma hipotética, perguntase: qual seria a margem de lucro aceitável para validar a presente operação? Este parâmetro deveria ser fixado em lei ou poderia ficar ao arbítrio da fiscalização? Aliás, levando em consideração o caso em concreto, quais as diferenças percentuais de margem de lucro entre a recorrente e a empresa atacadista? Tais indagações também permanecem sem respostas no presente caso, o que se só reforçam a fragilidade da acusação fiscal. 57. Não obstante, em momento algum a fiscalização acusa a operação praticada pela recorrente de deficitária. Ao contrário, parte do pressuposto que é lucrativa, mas com uma margem minorada quando comparada com a operação perpetrada pela empresa atacadista. Afastase, com isso, uma característica muito comum em casos de pretenso subfaturamento ou planejamentos abusivos: de que o preço praticado pelo contribuinte na operação de venda do seu produto é incapaz de arcar com o custo da sua operação. Não é o que ocorre no caso em tela, já que a aqui a própria fiscalização repitase reconhece a existência de lucro. 58. Ademais, outro elemento de prova muito empregado para provar a existência de planejamentos abusivos é a identificação do momento da criação das empresas empregadas neste tipo de estratagema. Neste sentido, este Tribunal tem entendido que a criação de empresas logo após o advento da lei que altera a tributação é um forte indício de um planejamento sem propósito negocial, ou seja, com o fito exclusivo de redução de tributos. Não é esse, entretanto, o caso dos autos, podendo a estrutura operacional da recorrente ser assim sumarizada: Fl. 3640DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.614 55 · 1959: início das atividades do Grupo L’Oréal no Brasil (em 1960 foi inaugurada a primeira fábrica brasileira); · 1969: inauguração da fábrica da Procosa na Via Dutra (estabelecimento ora autuado no Rio de Janeiro); · 1979: segregação das atividades industrial e comercial com a criação de nova empresa (Belocap Produtos Capilares Ltda. – atual L’Oréal Brasil Comercial de Cosméticos), ambas na cidade do Rio de Janeiro, seguindo o modelo internacional de organização da Companhia; · 2001: aquisição de novo estabelecimento industrial pela Procosa na cidade de São Paulo; · 200104: operação da L’Oreal Brasil com 2 CDs (um em Caxias e outro no Rio de Janeiro) recebendo as compras das Procosas no Rio de Janeiro e em São Paulo; · 2004: mudança definitiva de endereço da L’Oréal Brasil para o município de Duque de Caxias, como parte de uma estratégia de redesenho logístico para ganhos de eficiência e de capacidade adequada ao volume de vendas. 59. Aliás, a necessidade da transferência da empresa atacadista para o município de Duque de Caxias foi bem explicada pela recorrente em suas manifestações, conforme se observa do seguinte trecho dos memoriais entregues aos membros deste colegiado e que também consta de suas peças impugnatórias: (...). 5.2. Com efeito, até o ano de 2000, (i) a RECORRENTE possuía um único estabelecimento fabril, na Cidade do Rio de Janeiro, no qual estava concentrada toda a fabricação dos produtos da marca L’ORÉAL no Brasil, e (ii) a L’ORÉAL um único estabelecimento, também nesta cidade, na Auto Estrada Rio D´Ouro nº 800, Pavuna, com galpão de 14.055 m2 para armazenagem (vide doc. 4 à Impugnação), no qual concentrava a distribuição no atacado, para todo o território nacional, desses produtos e de outros, adquiridos no mercado interno. 5.3. Em 2001, para expandir suas atividades, a RECORRENTE adquiriu novos investimentos industriais na CIDADE DE SÃO PAULO (doc. 05 à Impugnação). 5.3.1. A partir de então, coube à RECORRENTE a industrialização precípua de produtos direcionados ao segmento de coloração para cabelos, e ao estabelecimento em situado na CIDADE DE SÃO PAULO, a fabricação de outros produtos, especialmente de xampus. 5.4. Mais tarde, isto é, em 2004, até mesmo por efeito do aumento da produção da RECORRENTE, o estabelecimento da L’ORÉAL na Cidade do Rio de Janeiro tornouse pequeno, Fl. 3641DF CARF MF 56 obrigandoa a alugar outro imóvel para satisfazer à demanda que crescera e crescia. 5.4.1. A L’ORÉAL, então, implantou um segundo estabelecimento comercial na Rodovia Washington Luiz, 15509, Parque Eldorado, já na Cidade de Duque de Caxias, com área construída menor, de somente 5.200 m2 (docs. 06 e 07 da Impugnação), passando aquela empresa a possuir dois estabelecimentos distribuidores, um na Cidade do Rio de Janeiro e outro na Cidade de Duque de Caxias. 5.5. Essa situação, qual seja, produção em duas unidades da federação diferentes e distribuição segmentada em dois estabelecimentos armazenadores e distribuidores em municípios distintos, acarretou dificuldades logísticas evidentes, levando a L’ORÉAL a procurar novo local com área maior que a da soma dos dois que alugava para substituílos. 5.6. Nesse momento, surgiu como único disponível com tais dimensões, em condições de preço razoáveis, o prédio situado no Loteamento Internacional Business Park, lotes 4 e 3, parte, também na Cidade de Duque de Caxias, com área total construída de 48.109,70 m2, alugado ao Carrefour Comércio e Indústria Ltda., que lhe sublocou 25.000 m2, conforme contrato juntado aos autos (doc. 08 à Impugnação). 5.6.1. A partir de então, a L’OREAL encerrou as atividades dos seus dois estabelecimentos, operando unicamente neste, para o qual passou a se destinar a totalidade da produção dos dois estabelecimentos industriais da RECORRENTE, o instalado na Cidade do Rio de Janeiro e o instalado na Cidade de São Paulo. 5.7. Como se vê, ao escolher o endereço acima para instalar, a partir de 2006, seu único estabelecimento distribuidor atacadista, que adotou o número de inscrição no CNPJ do estabelecimento encerrado naquela cidade (docs. 09 e 10 à Impugnação), a L’ORÉAL não agiu movida por planejamento tributário, como consta absurdamente no TVF, para “obter um menor pagamento de tributo (IPI)”, ATÉ PORQUE, O TERRITÓRIO DA CIDADE DE SÃO PAULO, ONDE SE ENCONTRA O OUTRO ESTABELECIMENTO DA RECORRENTE, NÃO É LIMÍTROFE A DUQUE DE CAXIAS. 5.8. Diversamente, essa decisão empresarial, da maior relevância para o futuro daquela empresa, foi motivada por necessidade econômica imperiosa e interesse legítimo em gerir seu negócio da forma mais eficaz possível, sendo um despautério negar essa conclusão, mormente quando a fiscalização não trouxe aos autos comprovação alguma da disponibilidade, na Cidade do Rio de Janeiro, de imóvel com características equivalentes, para ser alugado em condições financeiras mais vantajosas, que justificasse as alegações que fez no TVF. (...). Fl. 3642DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.615 57 60. Percebese, portanto, que a motivação da empresa atacadista em mudarse definitivamente para a cidade de Duque de Caxias foi econômica e logística, tanto que o novo galpão que passou a ser utilizado nesta cidade possuía 5.000 m2 a mais do que a somatória da metragem dos seus estabelecimentos anteriores [no bairro de Pavuna, na cidade do Rio de Janeiro (14.055 m2) e na cidade de Duque de Caxias (5.200 m2)]. 61. Todo estes fundamentos afastam a acusação de que a recorrente teria arquitetado um planejamento tributário abusivo com o fito de furtarse de obrigações tributárias, o que implica a exoneração da presente exigência fiscal. Aliás, assim tem entendido este CARF em casos semelhantes ao aqui tratado (segregação de atividades empresarias em casos de monofasia de PIS e COFINS): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2000, 2001, 2002, 2003 PIS. REGIME MONOFÁSICO. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. SIMULAÇÃO ABSOLUTA. DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS. ART. 116, P.U. DO CTN. UNIDADE ECONÔMICA. ART. 126, III, DO CTN. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Não se configura simulação absoluta se a pessoa jurídica criada para exercer a atividade de revendedor atacadista efetivamente existe e exerce tal atividade, praticando atos válidos e eficazes que evidenciam a intenção negocial de atuar na fase de revenda dos produtos. A alteração na estrutura de um grupo econômico, separando em duas pessoas jurídicas diferentes as diferentes atividades de industrialização e de distribuição, não configura conduta abusiva nem a dissimulação prevista no art. 116, p.u. do CTN, nem autoriza o tratamento conjunto das duas empresas como se fosse uma só, a pretexto de configuração de unidade econômica, não se aplicando ao caso o art. 126, III, do CTN. Recurso voluntário provido. Recurso de ofício prejudicado. (Acórdão n. 3403002.519 grifos nosso). Ementa Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 31/10/2001 a 31/12/2003 COFINS ALÍQUOTA PRODUTOS DE HIGIENE E BELEZA ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAL E COMERCIAL ARTS. 1º E 2º DA LEI Nº 10.147/00 Para o cálculo da Cofins incidente sobre a receita de venda dos produtos de higiene e beleza aplicase a alíquota de 10,3% no caso de receita auferida por pessoa jurídica que proceda à industrialização ou importação dos citados produtos sendo que a alíquota é reduzida a zero, no caso de receita de revenda dos Fl. 3643DF CARF MF 58 referidos produtos, auferida por pessoa jurídica não enquadrada na condição de industrial ou importador. COFINS DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS CISÃO PARCIAL DESMEMBRAMENTO DE ATIVIDADE SIMULAÇÃO INOCORRÊNCIA ART. 116, § ÚNICO DO CTN. Embora não se ignore que a autoridade administrativa pode desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, a Lei Complementar somente autoriza a desconsideração, desde que observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária (art. 116, § único do CTN). Assim o contrato só se transmuda em forma dissimulada quando ocorrer violação da própria lei e da regulamentação que o rege, donde decorre que a descaracterização do contrato só pode ocorrer quando fique devidamente evidenciada uma das situações previstas em lei, sendo que fora desse alcance legislativo, impossível ao Fisco tratar um determinado contrato privado como outro de natureza diversa, para fins tributários. Não há simulação na cisão parcial através da qual se efetua o desmembramento de atividades em várias empresas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária, não sendo lícita a pretensão fiscal de desconsiderar as distintas atividades e respectivas receitas segregadas em diferentes empresas do mesmo grupo, para tributálas unificadamente. (Acórdão n. 3402001.908). 62. Ressaltese, inclusive, que o contexto fático dos precedentes aqui invocados eram muito mais graves em desfavor do contribuinte, uma vez que as empresas em questão (industrial e atacadista) encontravamse no mesmo local físico e partilhavam os mesmos funcionários, o que não ocorre no presente caso. 63. Assim, diante de tudo o que fora exposto e do vasto e elucidativo acervo probatório produzido pelo recorrente, não há que se cogitar a existência de um planejamento tributário abusivo, mas sim operações empresariais válidas e com o nítido propósito econômico, em perfeita sintonia, portanto, com o princípio constitucional da livre iniciativa privada. Dispositivo 64. Diante do exposto, voto pelo provimento total do recurso voluntário interposto pelo contribuinte, o que faço com a devida vênia ao ilustre Relator do caso. 65. É como voto. Diego Diniz Ribeiro Conselheiro. Fl. 3644DF CARF MF Processo nº 16682.722461/201530 Acórdão n.º 3402004.341 S3C4T2 Fl. 3.616 59 Fl. 3645DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.906240/2012-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 13/10/2006
DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO.
A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material.
VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA.
As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado.
COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA.
O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado.
RECURSO VOLUNTÁRIO. PEDIDOS EM CONCOMITÂNCIA COM AÇÃO JUDICIAL.
Não se conhece de matéria submetida ao Poder Judiciário. Súmula Carf nº 1.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3201-003.000
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO. A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material. VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA. As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. RECURSO VOLUNTÁRIO. PEDIDOS EM CONCOMITÂNCIA COM AÇÃO JUDICIAL. Não se conhece de matéria submetida ao Poder Judiciário. Súmula Carf nº 1. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 90 62 40 /2 01 2- 31 Fl. 399DF CARF MF Processo nº 10580.906240/201231 Acórdão n.º 3201003.000 S3C2T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila. Relatório BAHIA SERVIÇOS DE SAÚDE S/A transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição (Cofins/PIS). A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico não homologando a compensação, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a restituição pleiteada. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante alegou que efetuara o pagamento em valor maior que o devido e que retificara a DCTF, tendo sido observados todos os trâmites administrativos próprios à compensação, não havendo motivo para a negativa do seu pleito. Juntou cópia da DCTF retificadora e Dacon retificador. Nos termos do Acórdão nº 14052.348, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a DRJ fundamentado sua decisão no fato de que, por ser a DCTF instrumento de confissão de dívida, qualquer alegação de erro no seu preenchimento devia vir acompanhada de declaração retificadora munida de documentos idôneos para justificar as alterações realizadas. Destacou, ainda, que apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, conforme artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN). Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa suas razões de defesa, destacando a existência a seu favor de decisão judicial em mandado de segurança assegurando lhe o direito à não incidência da contribuição para o PIS e da Cofins sobre medicamentos, cuja tributação se dá na forma prevista na Lei 10.147/00, com as alterações realizadas pela Lei 10.548/02 e posteriores. Junta cópias de decisões judiciais. Em resumo, solicita: 1. “que se determine à autoridade impetrada e seus prepostos que se abstenham de exigir o recolhimento da contribuição para o PIS e COFINS sobre a receita proveniente da utilização de medicamentos que já sofreram tal tributação, na forma prevista pela Lei 10.147/00, com as alterações realizadas pela Lei 10.548/02 e posteriores.”; 2. que seja provido o Recurso Voluntário; 3. que se declare o direito dos substituídos à compensação de todos os valores indevidamente recolhidos a título de PIS e COFINS sobre a receita de medicamentos que já sofreram tal tributação, nos termos da Lei 10.147/00”; 4. que se cumpra a decisão e sentença judicial. É o relatório. Voto Fl. 400DF CARF MF Processo nº 10580.906240/201231 Acórdão n.º 3201003.000 S3C2T1 Fl. 4 3 Conselheiro Winderley Morais Pereira Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.987, de 29/06/2017, proferido no julgamento do processo nº 10580.900671/201294, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.987): Juízo de Conhecimento A questão da incidência com alíquota zero ou não incidência de Pis e Cofins sobre medicamentos está submetida ao Poder Judiciário, ensejando a aplicação da Súmula Carf nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Acrescento que a recorrente não trouxe prova de estar representada na demanda judicial, impetrada por “Confederação Nacional de Saúde, Hospitais e Estabelecimento e Serviços”. De qualquer modo, a solução da presente lide independe desse processo judicial, pois aqui não controverte quanto à incidência ou não de Pis e Cofins sobre medicamentos. A controvérsia que se instalou no presente processo é quanto à prova do pagamento indevido do Darf em foco. Ora, não há, nos autos, quaisquer elementos de prova que vinculem esse pagamento à questão discutida na Justiça. Sem esses elementos, a questão a ser tratada aqui somente se refere à possibilidade de se deferir compensação com base em DCTF e Dacon retificadora. Tal questão se tratará no mérito. Desse modo, rejeito os pedidos 1, 3, e 4, por impertinentes à presente lide. Mérito O crédito pretendido não foi demonstrado e provado. Com efeito, o débito de Pis, no valor integral do Darf, foi confessado em DCTF. A DCTF é o instrumento formal para confissão de débito, no lançamento por homologação (Decretolei 2.124/84), de modo que o crédito tributário representado pelo valor integral do Darf foi formalmente constituído. Estando o crédito tributário formalmente constituído, para que se pudesse retificálo seria necessária prova de sua inexatidão. Seria preciso demonstrar, documentalmente, a composição da Base de Cálculo Fl. 401DF CARF MF Processo nº 10580.906240/201231 Acórdão n.º 3201003.000 S3C2T1 Fl. 5 4 e as deduções permitidas em lei, com os livros oficiais, tais como Diário, Razão, ou qualquer escrituração ou documento legal que se revista do caráter de prova. Ora, o ônus da prova cabe ao interessado (art. 36 da Lei 9.784/991, art. 373, I2 do CPC). Ressaltese que a DCTF e a Dacon que foram apresentadas na Manifestação de Inconformidade foram retificadas depois da cientificação do Despacho Decisório. Ora, a retificação após ciência de procedimento fiscal não é abrangida pelo espontaneidade, cf. art. 138, § único3 do CTN. Não há, também, qualquer prova de que esse pretendido crédito se vincule à questão judicial discutida no Mandado de Segurança 2009.34.00.0314472, conforme já mencionado. Sem os elementos de prova do direito da recorrente, atento aos requisitos de certeza e liquidez do crédito, de acordo com art. 1704 do CTN, se mostra impossível desconstituir o que formalmente foi constituído, por meio da DCTF original. Pelo exposto, voto por não conhecer da matéria de fato quanto à incidência de Pis e Cofins sobre medicamentos, e por negar provimento ao Recurso Voluntário. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à contribuição para o PIS, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Cofins. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, não conheço da matéria de fato quanto à incidência de PIS e Cofins sobre medicamentos, e nego provimento ao recurso voluntário. 1 Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. 2 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; 3 Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. 4 Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Fl. 402DF CARF MF Processo nº 10580.906240/201231 Acórdão n.º 3201003.000 S3C2T1 Fl. 6 5 (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 403DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10074.720587/2015-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 31 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 04/01/2011 a 25/02/2011
OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE DE MERCADORIA IMPORTADA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. AUSÊNCIA DE PROVA. MULTA POR CESSÃO DE NOME. DESCABIMENTO.
É descabida a aplicação da multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, quando não comprovada a fraude ou simulação negocial, na realização de operações de importação, tendente à ocultação dos reais adquirentes das mercadorias, não se configurando a necessária interposição fraudulenta quando os intervenientes estão respaldados em contratos comerciais válidos, possuem capacidade econômico-financeira e operacional para realização das operações e não restou demonstrada qualquer irregularidade na sua execução, não servindo de prova meras conjecturas fundadas em relações societárias e direitos de exclusividade.
Recurso voluntário provido.
Numero da decisão: 3401-003.967
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário apresentado.
Fenelon Moscoso de Almeida Presidente Substituto
Robson José Bayerl Relator.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge DOliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Participou do julgamento, ainda, em substituição ao Conselheiro Rosaldo Trevisan, o Conselheiro suplente Cleber Magalhães.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 04/01/2011 a 25/02/2011 OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE DE MERCADORIA IMPORTADA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. AUSÊNCIA DE PROVA. MULTA POR CESSÃO DE NOME. DESCABIMENTO. É descabida a aplicação da multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, quando não comprovada a fraude ou simulação negocial, na realização de operações de importação, tendente à ocultação dos reais adquirentes das mercadorias, não se configurando a necessária interposição fraudulenta quando os intervenientes estão respaldados em contratos comerciais válidos, possuem capacidade econômico-financeira e operacional para realização das operações e não restou demonstrada qualquer irregularidade na sua execução, não servindo de prova meras conjecturas fundadas em relações societárias e direitos de exclusividade. Recurso voluntário provido.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 04/01/2011 a 25/02/2011 OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE DE MERCADORIA IMPORTADA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. AUSÊNCIA DE PROVA. MULTA POR CESSÃO DE NOME. DESCABIMENTO. É descabida a aplicação da multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, quando não comprovada a fraude ou simulação negocial, na realização de operações de importação, tendente à ocultação dos reais adquirentes das mercadorias, não se configurando a necessária interposição fraudulenta quando os intervenientes estão respaldados em contratos comerciais válidos, possuem capacidade econômicofinanceira e operacional para realização das operações e não restou demonstrada qualquer irregularidade na sua execução, não servindo de prova meras conjecturas fundadas em relações societárias e direitos de exclusividade. Recurso voluntário provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário apresentado. Fenelon Moscoso de Almeida – Presidente Substituto Robson José Bayerl – Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 07 4. 72 05 87 /2 01 5- 51Fl. 2813DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D’Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Participou do julgamento, ainda, em substituição ao Conselheiro Rosaldo Trevisan, o Conselheiro suplente Cleber Magalhães. Relatório Tratase de auto de infração para exigência da multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, em razão da cessão de nome e documentário fiscal para acobertamento dos reais intervenientes e/ou beneficiários nas operações de importação. Narra a fiscalização que o autuado (doravante CARVALHO) agiu como interveniente das pessoas jurídicas PUIG Brasil Comercializadora de Perfumes S/A (doravante PUIG) e MRA Cosméticos Ltda., sem identificação nas declarações de importação registradas por Ind. e Com. Quimetal S/A (doravante QUIMETAL), sob encomenda daquela primeira empresa. O relatório destaca que a contabilidade e os dados bancários da CARVALHO não revelaram irregularidades entre esta e a PUIG e MRA, bem assim, que todos os envolvidos são empresas existentes de fato, localizadas em instalações adequadas às suas operações. As importações envolvem perfumes diversos de marcas conhecidas internacionalmente (Burberry, Bulgari, Hèrmes, Valentino, Carolina Herrera, Paco Rabanne, Nina Ricci, dentre outras), mobiliário próprio para este tipo de produto e materiais promocionais, asseverando a fiscalização que tanto a PUIG quanto a MRA não possuem habilitação para operar no comércio exterior. O relatório discorre sobre a importação por conta e ordem e a encomendante predeterminado. As razões de autuação em relação às operações com a PUIG são as seguintes: · Que a PUIG tem por controladora (99,97%) a empresa espanhola Antonio Puig S/A, que é a titular do direito de comercialização mundial das marcas importadas e também a exportadora destes produtos à CARVALHO; · que os produtos já vêm acabados e embalados do exterior, cabendo à CARVALHO apenas a etiquetagem/selagem e a recolocação do plástico celofane, o que não revelaria operação de industrialização, nos termos do art. 6º, § 2º do RIPI/10; · intimada, CARVALHO informou que as atividades relacionadas à PUIG, com a mercadoria já nacionalizada, consiste no registro do produto na ANVISA, retirada do celofane original, etiquetagem com as informações em língua portuguesa, aposição do selo de originalidade do produto, “celofanização” e embalagem em caixas de transporte; · que todos os produtos importados, de empresas do grupo Antonio Puig S/A, são destinados à PUIG (Brasil); Fl. 2814DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.530 3 · que os produtos são importados pelo Espírito Santo, em seguida, enviados à CARVALHO, no Rio de Janeiro, para realização das atividades sob sua responsabilidade, e, após, reenviados ao Espírito Santo, para a PUIG, de onde são distribuídas aos revendedores em território brasileiro; · que existem contratos de distribuição e fornecimento firmados entre CARVALHO, PUIG e Antonio Puig S/A; · que, no contrato de fornecimento, entre CARVALHO e Antonio Puig S/A, a definição do preço de venda (custo de importação mais o serviço de “celofanização”) cabe a esta última, não tendo a primeira nenhum poder sobre sua determinação; · que existe contrato de compra e venda entre QUIMETAL, CARVALHO e Antonio Puig S/A, onde esta última empresa detém amplos poderes perante os demais contratantes; e, · que o contrato firmado entre CARVALHO e Antonio Puig S/A impõe que a primeira somente possa fornecer os produtos importados aos compradores autorizados pelo segundo, no caso, PUIG (Brasil). Relativamente à MRA, são os seguintes os fundamentos expendidos: · Que as operações de importação, ao longo de 2011, envolveram, como importadoras, a Eximbiz Coml. Internacional e QUIMETAL, e, como encomendantes, Viva Cosméticos (doravante VIVA) e CARVALHO, respectivamente; · que, tanto a VIVA como a CARVALHO, possuem como sócia majoritária a Srª Ivanilza Carvalho Martins, sendo que esta última empresa, em 2008, recebeu parte dos ativos daqueloutra e um aumento de capital em decorrência de sua cisão parcial; · que a análise sequencial das operações de importação revela que CARVALHO sucedeu a VIVA em relação aos negócios com a MRA; · que a MRA indicava à VIVA de quem compraria as mercadorias e as respectivas quantidades, caracterizando uma compra por encomenda; · que, mesmo intimadas, CARVALHO e MRA se esquivaram de fornecer os contratos relacionados aos produtos envolvidos nas operações (Bulgari, Salvador Dali e Hèrmes); · que a MRA foi a destinatária de todos os produtos importados diretamente dos proprietários das marcas, pela CARVALHO, referentes à Bulgari, Salvador Dali e Hèrmes; · que o modus operandi é o mesmo adotado pela CARVALHO/PUIG; · que as mercadorias são vendidas à MRA em até três dias da data do desembaraço pela QUIMETAL; e, Fl. 2815DF CARF MF 4 · que, além dos contratos já citados, outros contratos de fornecimento foram requisitados e não apresentados, bem assim, o Livro Registro da Produção e do Estoque ou, ainda, controle alternativo. Prossegue a fiscalização aduzindo que a autuada apresentou um laudo técnico que descreve os procedimentos adotados nas operações envolvidas, além de asseverar que possui instalações industriais adequadas à realização das atividades e fabricação de produtos cosméticos, reconhecendo as autoridades fiscais que a autuada efetua operações de industrialização, não, porém, quanto às operações com a PUIG e MRA. Ante o quadro estampado, entendeu a autuante que PUIG e MRA sabiam que estavam encomendando produtos importados por CARVALHO, sem providenciar a habilitação a operar no comércio exterior e tampouco apresentar requerimento à RFB postulando vinculação à CARVALHO e QUIMETAL; que permaneceram ocultas no processo de importação, deixando transparecer que CARVALHO era a real encomendante da mercadoria; que PUIG e MRA beneficiaramse da ocultação, ao perderem a condição de contribuinte do IPI, por equiparação a estabelecimento industrial; que PUIG é vinculada ao fornecedor estrangeiro, nas operações que lhe diz respeito, o que teria lhe propiciado a fuga da legislação de preço de transferência e valoração aduaneira; e, que a QUIMETAL não tinha conhecimento que CARVALHO não era o real encomendante da mercadoria importada, não sendo responsável pela infração em comento. Em impugnação o recorrente defendeu a lisura dos negócios, asseverando que a escolha do modelo obedece a interesses empresariais e logísticos dos envolvidos, PUIG e MRA, que preferem terceirizar as operações de importação e embalagem, o que levou à sua contratação; que os produtos importados não estão prontos para comercialização, necessitando de adequação às normas próprias estabelecidas pela ANVISA, cuidandose de produtos acabados, mas inaptos à comercialização, semiacabados e insumos; que realiza o controle de qualidade e a manipulação industrial; que não há fraude ou qualquer tipo de ocultação nas operações de importação; que inexiste infração catalogada como “interposição fraudulenta do encomendante”; que o auto de infração é nulo por vício no procedimento fiscal, ante a insuficiência probatória, mormente pelo fato da fiscalização nunca ter comparecido ao seu estabelecimento e averiguar suas atividades; que todos os procedimentos realizados foram amplamente expostos, como atesta correspondência de 30/06/2015; que os produtos são submetidos a várias etapas produtivas antes de serem entregues aos clientes (PUIG e MRA); e, que não houve qualquer análise de conteúdo do laudo técnico apresentado. No mérito, alegou ausência dos requisitos para aplicação da multa inflingida, ao passo que não restou provada a interposição fraudulenta, a simulação ou o acobertamento do real importador; que a fiscalização reconheceu a inexistência de irregularidade nas operações de importação; que a autuação criou a figura sui generis da interposição fraudulenta do encomendante; que não restou provado, nos autos, que as operações seriam ilegítimas ou que as negociações internacionais foram conduzidas por PUIG e MRA, ou, ainda, que não possuísse capacidade econômica e financeira para realização das importações; que a jurisprudência do CARF já reconheceu que, ausentes tais requisitos, não há fundamento para aplicação da multa do art. 33 da Lei nº 11.488/07; que as operações comerciais possuem legitimidade econômicojurídica; que a autuada possui instalações industriais próprias e conta com cerca de 700 (setecentos) empregados para realização de suas atividades; que a manipulação de produtos cosméticos é fiscalizada pela ANVISA e que atende as exigências desse órgão para funcionamento; que, distintamente do que afirmado pela autuação, realiza operações de industrialização, como atesta o laudo técnico aviado, ao listar 14 procedimentos tipicamente industriais, dentre eles, exemplificativamente, limpeza e higienização da área de produção, controle de qualidade, abertura de embalagens, encartuchamento, etiquetagem, Fl. 2816DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.531 5 selagem, celofanização e embalagem; que o deslocamento dos produtos entre o Espírito Santo e o Rio de Janeiro tem um propósito empresarial, não representando uma burla à fiscalização; que o vínculo societário entre o fornecedor/adquirente é normal no ramo cosmético, em função dos direito de marca e exclusividade de distribuição, o que, inclusive, justifica a venda apenas às empresas PUIG e MRA; que a falta de poderes decisórios relevantes, no contrato de importação/venda no mercado interno, não é indicativo de fraude, justamente pelas especificidades do setor; que a simulação de negócios exige prova de sua ocorrência, nos termos do art. 167 do Código Civil, não meros indícios; que a análise dos contratos firmados pela recorrente não revela qualquer ilicitude ou irregularidade; que não foram firmados contratos para importação com a MRA, daí porque não apresentados à fiscalização, assim como não existem contratos firmados com o exportador estrangeiro, sendo que o único contrato existente, para fabricação dos produtos que menciona, foi entregue; que não houve omissão deliberada de qualquer contrato celebrado; e, que, mesmo demonstrada a correção dos negócios, mesmo que admissível alguma penalidade, não seria a multa lançada, por ausência do elemento fraudulento. A DRJ Florianópolis/SC manteve o lançamento: “MULTA POR CESSÃO DE NOME. CABIMENTO. Cabe a aplicação da multa prevista no ati. 33 da Lei n.0 11.488/2007 à pessoa jurídica que cede seu nome para realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários da operação de importação. RIPI. CARACTERIZAÇÃO DE INDUSTRIALIZAÇÃO. Não caracteriza industrialização quando a natureza do acondicionamento e as características do rótulo do produto atendam, apenas, a exigências técnicas ou outras constantes de leis e de atos administrativos.” O recurso voluntário, com alguma variação, repetiu os argumentos da impugnação, destacando sinteticamente, a ausência de questionamento quanto à capacidade financeira dos intervenientes; a existência de fato e a capacidade operacional da recorrente; nulidade da decisão recorrida, por lastrearse em presunções; nulidade do lançamento por vício no procedimento fiscal; improcedência das razões deduzidas no julgado recorrido; inaplicabilidade da multa; ausência de ocultação de parte nas operações de comércio exterior; ausência de fraude, simulação ou interposição fraudulenta; improcedência da alegação de simples repasse de mercadoria e não caracterização de industrialização; existência de laudo emitido pelo Instituto Nacional de Tecnologia – INT e sua vinculação no processo administrativo; ausência de ilicitude no fato de PUIG e Antonio Puig S/A pertencerem ao mesmo grupo econômico; adequação dos contratos firmados pelas partes; que não houve descumprimento das regras de preço de transferência, valoração aduaneira ou da legislação do IPI; as importações obedeceram as regras de importação por encomenda; ausência de interposição e descabimento da multa prevista no art. 711 do Regulamento Aduaneiro. É o relatório. Voto Fl. 2817DF CARF MF 6 O recurso voluntário preenche os requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. Inicialmente, registro algumas situações de fato e de direito que servirão de parâmetro ao exame de mérito do lançamento. Nesse sentido, segundo o termo de constatação lavrado, as apurações se concentraram em 03 (três) vertentes: i) verificação da existência de fato das empresas; ii) verificação das origens, disponibilidades e transferências dos recursos utilizados nas operações; e, iii) a condição de real adquirente. Em relação aos dois primeiros itens, a fiscalização asseverou que a investigação pautouse na contabilidade e extratos bancários e, nada obstante a apresentação dos documentos, inclusive extratos bancários originais, não houve detida apuração porque não foram apontadas irregularidades no dossiê da pessoa jurídica, além do que, eventuais fiscalizações a respeito deveriam ser empreendidas pela unidade jurisdicionante da importadora QUIMETAL. Quanto à existência de fato, a partir dos documentos apresentados e consultas à rede mundial de computadores, concluiuse pela existência física dos estabelecimentos das pessoas jurídicas envolvidas. Então, não há acusação de ausência de capacidade econômico financeira ou inexistência de fato da autuada e demais intervenientes, pelo que, a única imputação reside na descaracterização da condição de real adquirente da mercadoria. Outro ponto merecedor de destaque é que não há, nos autos, qualquer afirmação, ilação ou prova de que as empresas PUIG (Brasil) e MRA negociavam diretamente com os fornecedores estrangeiros ou antecipavam recursos financeiros a autuada, como sói ocorrer nesse tipo de operação, mas sim, que ditas empresas, encomendavam os produtos e quantidades diretamente à autuada, no mercado interno, que, por sua vez, promovia a importação, na modalidade por encomenda, através da empresa QUIMETAL. Não há acusação de falsidade material ou ideológica dos documentos que instruíram as operações de importação, mormente as faturas comerciais. Não se questiona o trânsito físico das mercadorias entre os estabelecimentos da QUIMETAL, no Espírito Santo; na CARVALHO, no Rio de Janeiro; e, por fim, da PUIG (Brasil) e MRA, ambas no Espírito Santo. Não se põe em dúvida, também, a realização de atividades fabris pela CARVALHO, ora recorrente, como previstas em contrato, consistentes, no mínimo, na selagem, etiquetagem e “celofanização” dos perfumes importados. Nesse ponto, abro um parêntese para, rebatendo a defesa, esclarecer que essas atividades realizadas pela autuada, a partir do exame dos laudos juntados, bem assim, pelo cotejo entre os produtos discriminados nas declarações de importação e nas notas fiscais de saída, em sua maioria, não configuram “industrialização” para a finalidade da legislação do IPI (Lei nº 4.502/64), em que pese reconhecêlas como operações fabris, do ponto de vista comercial. Como destacado pela fiscalização, ainda que se reconheça que a autuada possui um complexo industrial capaz de manipular fórmulas cosméticas e efetivamente produza certas marcas, os produtos objeto deste auto de infração, em sua integralidade, não passaram por qualquer tipo de manipulação de seu conteúdo “intrafrasco”, mas tãosomente de Fl. 2818DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.532 7 suas embalagens, como é possível verificar das planilhas de correlação (DI x NF Saída) de efls. 876/974. Nessas planilhas, há clara demonstração que os produtos importados vinham em embalagens destinadas à venda a retalho (30 ml., 50 ml., 60 ml., 75 ml., 80ml., 100 ml., etc.) e assim foram faturadas, quando de sua saída, nesses mesmos recipientes. Então, pelo que se extrai do laudo técnico apresentado às efls. 1.681/1.722, corroborado pelo Relatório Técnico nº 000.918/15, do Instituto Nacional de Tecnologia – INT (efls. 2.531/2.573), relativamente aos produtos importados, tratarseiam de mercadorias semiacabadas, não aptas, no estado em que se encontram, à comercialização, cabendo à autuada duas espécies de “industrialização”, a saber: perfumes recebidos em frascos completamente desembalados, envoltos apenas em cápsulas, como se observa da foto de efl. 1.701/1.702, a que o laudo atribui a “operação industrial” de montagem; e, ii) perfumes já embalados (embalagem de apresentação) prontos para comercialização, mas que, por exigência da legislação da ANVISA, necessitam ser retirados dessas embalagens, etiquetados com informações em português, aplicação de selo de controle/autenticidade e “celofanização”, conforme efls. 1.707/1.709, a que o laudo enquadra como reacondicionamento. Estabelece o Decreto nº 7.212/10, que regulamenta o Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, em seu art. 4º, quanto às operações citadas, que montagem é a operação que consista na reunião de produtos, peças ou partes e de que resulte um novo produto ou unidade autônoma, ainda que sob a mesma classificação fiscal, e reacondicionamento, a que importe em alterar a apresentação do produto, pela colocação da embalagem, ainda que em substituição da original, salvo quando a embalagem colocada se destine apenas ao transporte da mercadoria. Transplantando os conceitos da legislação do IPI para industrialização às atividades exercidas, contempladas neste lançamento, inferese que, onde o laudo técnico qualifica como “montagem”, ocorre acondicionamento, pelo encartuchamento das cápsulas de perfumes/desodorantes nas embalagens de apresentação, enquanto que na atividade denominada “reacondicionamento”, inexiste industrialização, pois a simples retirada do plástico celofane, para etiquetagem e selagem, com posterior recolocação, não configura a operação industrial, porquanto este plástico (celofane) não é a embalagem, mas simples envoltório sem qualquer função de acondicionamento, a não ser a conservação da aparência da embalagem, melhorando a sua apresentação. Por pertinente, o controle de qualidade, ainda que de extrema relevância na atividade empresarial moderna, não caracteriza qualquer operação de industrialização descrita no Regulamento do Imposto sobre Produto Industrializado – RIPI. Entretanto, ainda que haja apenas um parcial reconhecimento de realização de operação industrial, nos moldes da legislação de regência do IPI, é irrefutável que a autuada, sob o ponto de vista exclusivamente econômico, realiza operações fabris. Oportuno acentuar que essa conclusão – que não há integral operação de industrialização nessas atividades –, não afasta a equiparação a estabelecimento industrial dos intervenientes, nos termos da legislação do imposto, para as finalidades nela dispostas. Concernente aos demais materiais importados – mobiliário material promocional – (efls. 975/984), com mais razão ainda inexiste industrialização, eis que a Fl. 2819DF CARF MF 8 atividade se limita a fracionálos e, na melhor das hipóteses, acomodálos em embalagem para transporte, não havendo especificação clara sobre os procedimentos executados nestes produtos. Feitas as colocações iniciais passo ao exame recursal. Respeitante à primeira preliminar argüida, a bem da verdade, uma premissa fática, já pontuei no preâmbulo do voto e volto a fazêlo: é de se reconhecer que não houve questionamento algum em relação à capacidade financeira da importadora direta (QUIMETAL) e da encomendante (CARVALHO – autuada) nas operações realizadas, bem assim, existência de fato e a capacidade operacional desta última. Em seguida, invertendo a ordem de enfrentamento das questões, tocante à nulidade do lançamento por vício na fiscalização, devido, basicamente, ao fato que o AFRFB não compareceu ao estabelecimento da autuada para aferir as atividades por ela executadas nas operações com produtos importados, temse que o procedimento fiscal é eminentemente inquisitivo e, nessa condição, não sujeito ao contraditório ou ampla defesa, ainda que interessante franquear oportunidade de manifestação ao fiscalizado, de maneira que, entendendo as autoridades responsáveis pela condução dos trabalho a desnecessidade das verificações sugeridas pelo sujeito passivo, não estão obrigadas a observálas, porque a fiscalização é atividade administrativa unilateral, não havendo que se falar em defeito que inquine a autuação de nulidade. Quanto à invalidade da decisão recorrida, por lastrearse em presunções para manutenção do auto de infração, também não a vislumbro, ao passo que os julgadores de primeira instância administrativa, a partir dos dados disponíveis no processo, como a vinculação societária entre exportador estrangeiro e distribuidor nacional e o regime de exclusividade na comercialização dos produtos importados, dessumiu a ocultação do real beneficiário das importações, não havendo qualquer falha nesse raciocínio. No entanto, se os elementos constantes dos autos são suficientes a embasar essa conclusão é discussão que não envolve nulidade/validade da decisão, enquanto ato administrativo, mas sim a procedência/improcedência dos seus argumentos pela manutenção do lançamento. No mérito, principia o recorrente por alegar o descabimento da multa imposta, em função da regularidade das operações, não havendo qualquer indício de fraude ou ilicitude a configurar conduta infracional tipificada. Da análise dos elementos coligidos aos autos, infiro que assiste razão ao recorrente, pelos razões que passo a expor. Como acentuado na exposição prefacial, a acusação fiscal se assentou basicamente na relação societária entre exportador estrangeiro e distribuidor, a correspondência entre produtos importados e saídos do estabelecimento equiparado a industrial (autuado), prazo exíguo entre o desembaraço e a saída dos produtos, exclusividade para comercialização das marcas e termos dos contratos firmados entre os intervenientes. Em outra frente, não se negou a existência física da autuada, sua capacidade operacional e econômicofinanceira, a realização de atividades fabris como encomendante dos produtos importados, a validade dos contratos para importação dos produtos e a responsabilidade pelas tratativas comerciais com o exportador estrangeiro. A imposição da multa do art. 33 da Lei nº 11.488/07, em princípio e a meu ver, exige prova do consilium fraudis, o conluio, ante o princípio da autonomia patrimonial Fl. 2820DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.533 9 inerente às pessoas jurídicas, eis que as sociedades, à luz do direito civil e comercial, têm existência própria e distinta de seus sócios e, logicamente, das demais pessoas de direito, sejam elas naturais ou jurídicas. Prescreve o mencionado dispositivo: “Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais).” A cessão de nome e/ou documentário fiscal para ocultação de terceiros constitui abuso da personalidade jurídica, consubstanciada na confusão patrimonial, hipótese que acarreta, nos termos do art. 50 do Código Civil, a desconsideração da personalidade jurídica. Assim, em tese, não é possível falarse em cessão de nome/documentário fiscal sem minimamente tangenciar a fraude, que, por sua vez, exige prova específica ou, pelo menos, um forte conjunto indiciário da simulação negocial. Nestes autos, como antecipado, a caracterização da interposição comercial a respaldar a penalidade, na visão da fiscalização, fundouse, basicamente, no fato da PUIG (Brasil) pertencer ao mesmo conglomerado comercial que o exportador estrangeiro, Antonio Puig S/A (Espanha), e pelas informações obtidas nos sítios virtuais, tanto de PUIG quanto de MRA, que ambas seriam as distribuidoras das marcas importadas em território brasileiro, além de uma virtual quebra da cadeia do IPI e burla à legislação de preços de transferência e valoração aduaneira. Ocorre que essa vinculação societária, isoladamente, por não ser vedada pela legislação, não pode ser guindada a indício de ocultação do real adquirente se desacompanhado de outros elementos conducentes a essa situação. Outro indício de interposição narrado pela fiscalização é a correspondência entre os produtos importados e os documentos de saída e o diminuto prazo entre o desembaraço e a emissão da nota fiscal de saída. Contudo, é estreme de dúvidas que o produto importado chega ao país semiacabado e sujeito a algumas providências de adequação à legislação da ANVISA e preparação final para consumo, sendo que o autuado é contratado para, além da realização da importação, adotar as providências necessárias a finalizar a apresentação desses produtos (encartuchamento e “celofanização”, p.e.), antes de despachálos aos destinatários comerciais no território nacional – PUIG e MRA. Também não se discute que a autuada tenha exercido essas atividades fabris sobre os produtos importados objeto do lançamento. A exclusividade de comercialização dos produtos foi outro indício assinalado, o que poderia revelar, de fato, a prefalada interposição, se a autuada (CARVALHO) não possuísse qualquer autorização para realização das importações. Fl. 2821DF CARF MF 10 Nesse ponto, PUIG (Brasil) é o distribuidor exclusivo, no Brasil, das marcas importadas de Antonio Puig S/A, contudo, há contrato comercial formal ajustado entre esta última e a autuada (CARVALHO) concertando a realização das operações de importação e os serviços de preparação dos produtos, antes da entrega ao distribuidor exclusivo. Tocante a esse contrato, entre CARVALHO e Antonio Puig S/A, a fiscalização faz severas críticas aos seus termos, destacando que os prazos de nacionalização, especificações e quantidades a serem importadas são definidas pela interligada brasileira (PUIG Brasil), destinandose exclusivamente a ela a venda do produto nacionalizado e que o preço de venda é definido pelo exportador, não pela autuada, o que demonstraria a qualidade de mera prestadora de serviços da autuada, pertencendo as mercadorias, de fato, à PUIG Brasil. As supostas disparidades deste contrato, em meu entender, não conduzem à cessão fraudulenta do nome para realização de operações de importação, pois, como aduzido, não se provou antecipação de recursos pela PUIG (Brasil) à autuada, ausência de propósito negocial do contrato firmado ou mesmo que as operações ajustadas não tivessem ocorrido, como contratado. A definição das especificações, quantidades e prazos de nacionalização, antes de revelar ocultação do real adquirente, parece atender à logística dos negócios entabulada entre os envolvidos, ao passo que, sendo PUIG (Brasil) o distribuidor exclusivo no país, a esta empresa caberia a avaliação da demanda pelos produtos e não à autuada, que apenas importava e os preparava para distribuição. No que tange à definição de preço no mercado interno, pelo exportador estrangeiro, ainda que não sirva como indício de “cessão de nome”, poderia indicar alguma infração à observância dos valores tributáveis mínimos, consoante legislação do IPI, porém, isso não foi alvo de investigação. A escolha por esta cadeia de negócios, na forma como concebida, ainda que possa ter atendido a um bem elaborado planejamento tributário, apenas pelo seu desenho, não se enquadra na infração catalogada. Não existe norma comercial, tributária ou de outra natureza que obrigue PUIG (Brasil) a importar e preparar para consumo os produtos que distribui, simplesmente porque é coligada com a empresa exportadora estrangeira e detém a exclusividade de comercialização no país. Quanto à MRA, não foi juntado documento algum, tampouco informação, que esta pessoa jurídica seja representante exclusiva, no país, dos produtos importados a ela endereçados, revelandose mera conjectura, a partir da praxe comercial desse ramo de atividade. A fiscalização pressupõe a exclusividade e existência de contratos de distribuição e passa a exigir sua apresentação, ao que, tanto a autuada (CARVALHO) quanto MRA, afirmam sua inexistência, passando a autoridade fiscal a presumir sua propositada ocultação, por entender que esses ajustes demonstrariam a interposição fraudulenta em prejuízo das alegações dos envolvidos. Por outro lado, soa ilógica a alegação de exclusividade, que, acaso ocorrente, não permitiria que a importação fosse efetivada pela autuada sem o consentimento do suposto distribuidor brasileiro (MRA), em função da “praxe comercial desse ramo”, eis que, partindo da mesma lógica da autuação – a verossimilhança –, se houvesse um distribuidor exclusivo e Fl. 2822DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.534 11 um contrato de fornecimento, fatalmente estaria nele previsto que a autuada teria autorização para realizar a operação, como ocorrido no contrato entre a autuada e Antonio Puig S/A. A meu sentir, o fato de não ser apresentado qualquer contrato entre MRA ou CARVALHO com os exportadores estrangeiros, exceção àquele firmado entre ambas, não é relevante para o deslinde do caso, pois, tal qual os instrumentos apresentados, não apontariam cabalmente para qualquer cessão de nome, a não ser por presunção. Demais disso, a prova do fato é ônus de quem acusa, no caso a fiscalização, que deveria provar a existência dos contratos exigidos e da exclusividade, ainda que sua obtenção exigisse a cooperação das exportadoras estrangeiras, não bastando simples alegações de verossimilhança ou o fato de apenas os envolvidos terem importado os cosméticos das marcas. Da mesma forma, não apresenta relevância para caracterizar cessão de nome o fato de MRA utilizar, ao longo de 2011, duas empresas coligadas para efetuar as importações, in casu, a CARVALHO e a VIVA Cosméticos. Por fim, a afirmação que a autuada (CARVALHO), nas operações envolvendo PUIG e MRA, não é encomendante, industrial ou revendedor, “mas sim o de mero ocultador do verdadeiro sujeito passivo/real adquirente/encomendante” acaba por ser contraditória ante outras afirmações da fiscalização, ao reconhecer que a capacidade econômico financeira da autuada não apresenta irregularidade, que realiza determinadas operações fabris antes da entrega dos produtos e que a movimentação da mercadoria entres os estabelecimento é real e não simulada. Como não bastasse e já enfadonhamente repetido, não está demonstrado nos autos, sequer sugerido, que não fossem os importadores (autuada/QUIMETAL) quem encabeçavam as negociações de importação ou que houvesse antecipação de numerário para realização dessas operações importação, bem assim, que o recebimento pela venda dos produtos, acrescido da prestação de serviços, não ocorresse em contrapartida da respectiva emssão da nota fiscal de venda. Noutra linha argumentativa, a autoridade autuante faz uma explanação acerca das espécies de importação terceirizadas, admitidas pelas normas legais – importação por conta e ordem e a encomendante predeterminado –, destacando o seguinte: “Atualmente, duas formas de terceirização das operações de comércio exterior são reconhecidas e regulamentadas pela Secretaria da Receita Federal (SRF), a importação por conta e ordem e a importação por encomenda . ∙ na importação por encomenda, uma empresa (a encomendante predeterminada), interessada em uma certa mercadoria, contrata uma outra empresa (a importadora) para que esta, com seus próprios recursos, providencie a importação dessa mercadoria e a revenda posteriormente para a empresa encomendante. ∙ na importação por conta e ordem, uma empresa (a adquirente), interessada em uma determinada mercadoria, Fl. 2823DF CARF MF 12 contrata uma prestadora de serviços (a importadora por conta e ordem) para que esta, utilizando os recursos originários da contratante, providencie, entre outros, o despacho de importação da mercadoria em nome da empresa adquirente. No caso da importação ser realizada com recursos do importador, o terceiro será denominado encomendante. No caso da importação ser realizada com recursos do terceiro, este será chamado adquirente. São institutos e nomes distintos, mas que geram as mesmas implicações, pois, em ambas as formas, aquele que solicita uma importação será tratado praticamente como se ele mesmo a tivesse realizado, sofrendo equiparações e imputações de responsabilidade.” As operações autuadas são classificadas na modalidade por encomenda (importação a encomendante predeterminado), porém, aponta a fiscalização como reais encomendantes as pessoas jurídicas PUIG Brasil e MRA e não a autuada e QUIMETAL, importadores de direito, em que pese partir da premissa que as importações foram realizadas com recursos próprios destes últimos. A partir dessa premissa, conclui que houve ocultação dos reais “encomendantes” e, conseqüentemente, a indevida cessão de nome e documentário fiscal a sujeitar a penalidade do art. 33 da Lei nº 11.488/07. Essa ocultação, sob a ótica fiscal, teria propiciado a quebra da cadeia de IPI, a fuga da legislação de preço de transferência e valoração aduaneira, em vista do malsinado vínculo societário entre empresas envolvidas em parte das operações (Antônio Puig S/A e PUIG Brasil), cristalizandose a ocultação apenas pela adoção da logística de importação, verbis: “A ocultação do real adquirente dos produtos estrangeiros consiste numa atividademeio, geralmente utilizada para tentar ocultar outras infrações e objetivos visados pelos infratores, como por exemplo: a) em caso de lançamento de crédito tributário o patrimônio do real adquirente é protegido da execução fiscal; b) o real adquirente perde a condição de contribuinte do IPI por equiparação a estabelecimento industrial; c) no caso de importador e exportador vinculados, buscas e fugir da legislação de Preço de Transferência e de Valoração Aduaneira, possibilitando que as empresas vinculadas alterem o custo das mercadorias importadas e de suas Receitas da forma que lhes for mais conveniente e d) ‘lavagem’ ou ocultação de bens, direitos e valores. A interposição fraudulenta pode ser presumida ou real. A hipótese de interposição fraudulenta presumida é observada nos casos em que o importador ostensivo não prova a origem dos recursos empregados em operações de comércio exterior. Nesta situação, é licito ao agente fiscal presumir a existência de um sujeito oculto que Fl. 2824DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.535 13 supostamente financiaria a importação e que ao final seria o destinatário dos bens importados. A segunda hipótese é aquela em que o agente fiscal identifica o real beneficiário da importação, seja por vinculação de créditos em conta corrente para arcar com a operação internacional, seja pela logística da operação indicando que a mercadoria foi adquirida para atender a encomendante ou adquirente predeterminado. É exatamente essa logística da importação que será analisada no tópico seguinte, onde examinaremos a relação de fato existente entre a Cosméticos Carvalho e a empresa PUIG Brasil.” Mais uma vez, o autuante indicou a potencial conduta infracional de iludir a legislação do IPI e de valoração aduaneira e preços de transferência, porém, não aprofundou as investigações necessárias ao esclarecimento dessas suposições. Ou seja, a imputação é abstrata e genérica, sem suporte em elementos concretos de convicção. Se existe ou existiu burla à incidência do IPI, à valoração aduaneira ou preços de transferência, não bastariam suspeitas ou hipóteses, ainda que fundadas em presunções relativas (hominis) – baseadas nas regras de experiência, pelo que ocorre diuturnamente em situações assemelhadas –, mas a prova dessa ocorrência, através de fiscalização específica sobre essas questões. Desse modo, o único fundamento da autuação se resume no emprego de uma logística operacional que, no cotidiano aduaneiro, tem revelado a pretensão de seus utilizadores à ocultação do real adquirente da mercadoria. É fato que a maioria esmagadora das situações julgadas nesse colégio envolvem fraudes onde as pessoas jurídicas importadoras apenas emprestam seu nome para formalização da importação, registrando declarações de importação, como se fossem próprias, e que, no curso das fiscalizações, constatase que os recursos financeiros são disponibilizados antecipadamente pelos terceiros e também as negociações comerciais são por ele entabuladas, o que demonstraria a interposição fraudulenta. No caso dos autos, contudo, já foi exaustivamente dito que não há prova de antecipação de numerário, reconhecendo a fiscalização, a priori, a ausência de irregularidades na origem dos recursos, e também não se questionou a integral realização das operações, inclusive pedidos aos fornecedores estrangeiros, por parte da autuada. Então, não estando presentes essas situações, cumpria à fiscalização carrear aos autos outros elementos probatórios que demonstrassem a ilicitude fiscal das importações, a refletir indigitada ocultação. A esse respeito, a única alegação sensível atrelouse à vinculação societária entre a PUIG (Brasil), distribuidor, e Antonio Puig S/A exportador. Fl. 2825DF CARF MF 14 Contudo, como já asseverado, a intermediação entre exportador, autuada e distribuidor está assentada em contrato, onde a autuada se comprometeu a realizar as importações e preparar o produto para comercialização, cabendo ao distribuidor pura e simplesmente a remessa dos produtos ao varejo. O fato de o contrato prever cláusulas que retiram da autuada o direito de estabelecer preços e obrigar a entrega dos produtos ao distribuidor exclusivo no país não pode conduzir, por si só, à inferência que houve cessão de nome e/ou documentário fiscal, sem que comprovada a ausência de intuito comercial do ajuste firmado ou a simulação das operações com vistas a dissimular o real negócio jurídico, o que não foi feito nesse trabalho fiscal. A “logística operacional”, de fato, aparenta o emprego de um planejamento tributário destinado à redução da carga tributária, seja pelo desvio da condição de contribuinte equiparado do IPI, com vistas à inobservância do valor mínimo tributável, ou mesmo à valoração aduaneira, contudo, essas situações exigem fiscalização específica e a prova de sua ocorrência ou, ainda, um robusto conjunto probatórioindicário, o que não se verificou nesses autos. A própria decisão recorrida reconhece a liberdade do modelo de negócios entre os particulares: “A escolha entre importar mercadoria estrangeira por conta própria (importação direta) ou por meio de um intermediário contratado para esse fim é livre e perfeitamente legal, seja esse intermediário um prestador de serviço ou um revendedor. Entretanto, tanto o importador quanto o real adquirente ou encomendante, devem ser devidamente identificados perante o Fisco, cumprirem as obrigações acessórias previstas na legislação e, conforme o caso, observar o tratamento tributário específico dessas operações, as quais devem ser expressamente informadas à Aduana por meio da Declaração de Importação DI.” No entanto, a par de admitir a liberdade negocial, condiciona seu exercício à identificação dos envolvidos perante o Fisco, mas não descreve como essa situação, no caso dos autos, deve ser indicada junto à RFB, ou mesmo, qual o fundamento legal ou normativo para tal proceder, eis que a acusação aponta a ocultação do “encomendante do encomendante”. A importação de mercadorias por encomendante predeterminado, a partir de pedido formulado no mercado interno, por empresa nacional, a meu ver, não exige que esse “encomendante nacional” tenha de se submeter a registro para operação no comércio exterior, se nenhum ardil, simulação ou fraude foi utilizada na operação de importação ou mesmo na negociação. Em outra passagem, a decisão reclamada desenvolve um raciocínio análogo à autoridade lançadora, tentando justificar a autuação por presunção ou hipótese: “A impugnante insiste na argumentação de que as operações comerciais realizadas entre as empresas não só são legais como é prática regular no setor de cosméticos que determinadas marcas sejam vendidas exclusivamente para determinados distribuidores. Fl. 2826DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.536 15 De fato, do ponto de vista comercial, estas operações podem ser legais e até previsível que, por se tratarem de marcas conhecidas internacionalmente e por garantia de suas autenticidades, sejam comercializadas dentro de um controle mais rígido por parte dos detentores das marcas ao autorizar a venda por empresas específicas. No entanto, a análise que se faz nos autos é do ponto de vista das operações de comércio exterior que possuem normas a serem obedecidas pelos interessados e é dever da fiscalização aduaneira detectar possíveis cometimentos de infrações, evitando lesões ao interesse público. E é sob esta análise que emerge dos fatos aqui apresentados que, ainda que possa parecer legal a atividade comercial empreendida pelas empresas citadas, percebese que existe uma conexão por interesse em comum entre os envolvidos no negócio: sempre os mesmos exportadores, a Cosméticos Carvalho (e anteriormente também pela Viva) revende os perfumes importados somente para PUIG Brasil e MRA, que, por sua vez, somente estas é que podem vendêlos no mercado interno.” (destacado) De fato, é dever da fiscalização detectar possíveis infrações à legislação, como destacado, porém, ninguém pode ser autuado pelo possível cometimento de uma infração, mas tãosomente pela efetiva prática infracional. Por outro lado, a existência de uma “conexão por interesse em comum entre os envolvidos no negócio” não pode, em hipótese alguma, desacompanhada de prova de fraude ou simulação, ser alçada à condição de razão para exigência de multa por cessão de nome. No mesmo voto, há outro excerto que denota a tênue distinção que se pretende fazer, acerca da regularidade ou não do negócio, para manutenção do lançamento: “Ora, não se está questionando a validade comercial de tais cláusulas. Mas através delas se constata que a relação comercial existente entre estas empresas é, de fato, uma contratação de encomenda de mercadorias associada, em alguns casos, a algum serviço prestado, como a colocação de etiquetas. Não fosse o caso de serem mercadorias importadas, este negócio, provavelmente, não teria nada de irregular. Inclusive o fato de empresas detentoras de marcas controlarem a venda de seus produtos, criando, inclusive, obrigações para seus revendedores, com o fito de preservar a qualidade e o nome da marca. Mas se tratando de mercadorias importadas, a encomenda assume relevância, impondo controle aduaneiro sobre as mesmas para verificação do cumprimento das normas Fl. 2827DF CARF MF 16 estabelecidas, com a finalidade, como já dito, de coibir lesões ao interesse público. E o que se vê de toda esta operação é que, na verdade, tratase de encomenda por parte da empresa Puig Brasil de mercadorias importadas que somente ela pode revender, utilizando a Cosméticos Carvalho como intermediária neste negócio. E ainda que tais mercadorias sofressem qualquer alteração que justificassem sua entrada na Cosméticos Carvalho, esta ‘passagem’, na forma como estabelecido nos contratos, não lhe dá a condição de real proprietária das mercadorias, não possuindo liberdade para negociála nem em valor, quantidade ou compradores. (...) Com relação à empresa adquirente MRA, a fiscalização informa que obteve apenas o contrato firmado com a empresa Compania Universal de Perfumeria Francesa S.A., mas que não continha a relação dos produtos abrangidos e o contrato entre a Cosméticos Carvalho e MRA, e que também não incluía os produtos importados. Assim, dada a não apresentação de contrato ou mesmo apresentação com informações incompletas, não é possível fazer uma análise tal como se deu com a empresa Puig Brasil. Mas salientese, que tal omissão não aproveita a autuada visto que tais contratos refletiriam a mesma relação de interdependência já vista entre estas empresas.” (destacado) Segundo essa exegese, o contrato é válido, mas como o objeto (produto) é estrangeiro, há irregularidade na importação, porque o controle aduaneiro foi ludibriado, mas, ao mesmo tempo, não aponta qual controle aduaneiro foi logrado ou mesmo qual lesão ao interesse público foi perpetrada pela autuada. Em resumo, não consigo vislumbrar qualquer ocultação de real adquirente ou interposição fraudulenta a justificar a cessão de nome ou documentário fiscal, porquanto havia contratos formais para realização das operações de importação, tanto com PUIG (Brasil) como MRA; as atividades contratadas foram efetivamente realizadas; não houve antecipação de numerário, possuindo a autuada capacidade econômicofinanceira e operacional para realização das tarefas ajustadas; as importações foram efetivadas em consonância com as normas baixadas pela RFB; e, os documentos relativos aos negócios foram apresentados. O acervo probatório carreado aos autos não desqualifica as operações na forma como realizadas, lastreandose o lançamento, em minha visão, em presunções relativas, por si só, insuficientes ao desiderato de demonstrar a ocorrência de ocultação dos reais adquirentes das mercadorias importadas. Como assinalado alhures, a fiscalização aparenta enxergar na estrutura de importação montada um planejamento tributário visando a elisão do IPI e do IRPJ, além dos tributos sobre o comércio exterior, pela suposta inobservância de valores tributáveis mínimos, Fl. 2828DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.537 17 valor aduaneiro e preços de transferência, o que se infere pelas seguintes passagens do relatório de autuação: “Conforme será detalhado neste Relatório, a autuada foi contratada pela PUIG Brasil tão somente para acobertar a relação comercial existente entre esta empresa, real importadora, sediada no Brasil, e Antonio Puig S/A. (exportadora, sediada na Espanha, e controladora da PUIG Brasil); visando ocultar das autoridades nacionais a cadeia de comando das operações comerciais, a condição da PUIG Brasil de responsável pela operação de importação e de contribuinte do IPI e o vínculo existente entre o comprador (PUIG Brasil) e o vendedor (sua controladora Antonio Puig S/A). No caso da MRA, a autuada foi contratada para ocultar das autoridades nacionais a condição de responsável pela operação de importação e de contribuinte do IPI da empresa MRA e as relações comerciais existentes entre a MRA e as exportadoras BULGARI CORPORATION OF AMERICA, COFINLUXE S.A. E HERMES PARFUMS. (...) A ocultação do real adquirente dos produtos estrangeiros consiste numa atividademeio, geralmente utilizada para tentar ocultar outras infrações e objetivos visados pelos infratores, como por exemplo: a) em caso de lançamento de crédito tributário o patrimônio do real adquirente é protegido da execução fiscal; b) o real adquirente perde a condição de contribuinte do IPI por equiparação a estabelecimento industrial; c) no caso de importador e exportador vinculados, buscase fugir da legislação de Preço de Transferência e de Valoração Aduaneira, possibilitando que as empresas vinculadas alterem o custo das mercadorias importadas e de suas Receitas da forma que lhes for mais conveniente e d) "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores. (...) Pela relação de interdependência aparentemente existente entre as empresas, tal vai e vem tem por objetivo a não observância de valores tributáveis mínimos para fim de apuração do IPI, pois, por interpretação distorcida da legislação, alguns contribuintes entendem que o valor tributável mínimo não incide quando os estabelecimentos do remetente e do atacadista estão situados em municípios diferentes. Fl. 2829DF CARF MF 18 A Puig Brasil filial 0005, sediada no Espírito Santo, é a destinatária de todas as mercadorias vendidas à Puig Brasil pela empresa Cosméticos Carvalho. Vale destacar a proximidade da data de constituição da referida Puig Brasil filial 0005 (03/03/2010) com a data da assinatura do Contrato de Fornecimento celebrado entre Puig Brasil e Cosméticos Carvalho, com a anuência de Antonio Puig S/A34 22/02/2010, indicando que a constituição de uma filial em município diverso da Cosméticos Carvalho não teria sido feita de forma aleatória, mas, sim, planejada com base nesta interpretação distorcida da legislação do IPI. (...) A justificativa para o trajeto custoso dessas mercadorias era, simplesmente, ocultar das autoridades nacionais a condição de encomendante da PUIG Brasil e, desta forma, desonerála das obrigações relativas ao IPI e ao IRPJ no que tange aos preços de transferência. (...)” (destacado) Estranhamente, porém, passa ao largo dessas questões, suscitando sua possível verificação apenas como argumento para exigência da multa imposta, sem direcionar as verificações a esse rumo. Se havia alguma infração à legislação do IPI, valoração aduaneira ou preços de transferências, não há nos autos qualquer informação de realização de trabalho fiscal tendente a apurar a ocorrência desses ilícitos fiscais, de maneira que manter o lançamento com base nessas suposições, a partir de conjecturas, o que pareceu ser o caso do lançamento e da decisão sob vergasta, corresponde a configurar uma infração apenas por ilações, o que não encontra sustentáculo em lei. A multa pela cessão de nome ou documentário fiscal é uma pena acessória, uma vez que a conduta nela descrita é uma “infraçãomeio” para prática de outros ilícitos tributários, que necessariamente exigem apuração própria e aprofundada, de modo que não vejo possibilidade de sua manutenção isolada, quando não averiguadas as infrações principais, como no caso vertente. Com essas considerações, voto por dar provimento ao recurso. Robson José Bayerl Fl. 2830DF CARF MF Processo nº 10074.720587/201551 Acórdão n.º 3401003.967 S3C4T1 Fl. 2.538 19 Fl. 2831DF CARF MF 20 Fl. 2832DF CARF MF
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