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Numero do processo: 16561.720155/2013-73
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 13 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 11 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
LANÇAMENTO. NULIDADE.
Preenchidos os requisitos do art. 10 do Decreto nº 70.235/72
ARGUIÇÃO DE NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA E INOCORRÊNCIA ALTERAÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO.
Não é nula a decisão que não pretere o direito de defesa da Recorrente, fundamentando adequadamente o porquê de suas conclusões.
Tendo o auto de infração utilizado mais de uma fundamentação para confirmação da glosa de despesas, não há que se falar em inovação da decisão de primeira instância que motiva suas razões de decidir com base em uma das fundamentações utilizadas pela autoridade fiscal lançadora.
RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. NEGÓCIOS EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO DE PESSOA LIGADA.
Presume-se distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros.
Enquadra-se nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2007, 2008
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. FRAUDE À LEI. ABUSO DE DIREITO.
Os institutos do abuso de direito e da fraude à lei, embora previstos na lei civil, não foram eleitos pelos legislador tributário para qualificação da penalidade.
MULTA DE OFÍCIO. EXIGÊNCIA DA SUCESSORA POR INFRAÇÃO COMETIDA PELA SUCEDIDA. DATA DA COMINAÇÃO DE PENALIDADE. DESINFLUÊNCIA.
A responsabilidade tributária da empresa sucessora abrange, além dos tributos devidos pelo sucedido, as multas moratórias ou punitivas que, por representarem dívida de valor, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que o fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão. Precedente do STJ no REsp Nº 923.012/MG julgado sob o rito do art. 543-C do CPC.
Tanto o tributo quanto as multas a ele associadas pelo descumprimento da obrigação principal fazem parte do patrimônio (direitos e obrigações) da empresa incorporada que se transfere ao incorporador, de modo que não pode ser cingida a sua cobrança, até porque a sociedade incorporada deixa de ostentar personalidade jurídica.
O que importa é a identificação do momento da ocorrência do fato gerador, que faz surgir a obrigação tributária, e do ato ou fato originador da sucessão, sendo desinfluente, como restou assentado no aresto embargado, que esse crédito já esteja formalizado por meio de lançamento tributário, que apenas o materializa. Inteligência dos Embargos de Declaração no Recurso Especial nº 923.012-MG julgado sob o rito do art. 543-C do CPC. Entendimento que deve ser reproduzido neste Conselho por força do art. 62- A do Regimento Interno do CARF.
DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS COM REPERCUSSÃO NO FUTURO. QUESTÕES ATINENTES A PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA.
Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura.
O art. 113, § 1º, do CTN aduz que A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente.
Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis.
Ressalte-se o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.
O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN.
DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SONEGAÇÃO E EXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. INÍCIO DA CONTAGEM DO PRAZO. PRECEDENTE DO STJ NO RECURSO ESPECIAL N° 973.733/SC.
Constatada a existência de pagamento antecipado, e a ausência de dolo, fraude ou simulação, dá-se a homologação do pagamento de que trata o § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, iniciando-se a contagem do prazo decadencial a partir da data de ocorrência do fato gerador. Precedente do STJ no Recurso Especial n° 973.733/SC julgado nos termos do art. 543-C do CPC o que implica, em razão do disposto no art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF 343/2015, vinculação dos membros deste Colegiado à tese vencedora no âmbito do STJ.
Tendo o lançamento sido cientificado ao contribuinte no decorrer do ano de 2013, o crédito tributário decorrente dos fatos geradores ocorridos em 31 de dezembro de 2007 devem ser extintos por decadência, uma vez que deveriam ter sido constituídos até o último dia do ano de 2012.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2007, 2008
REDUÇÃO DOS LUCROS POR REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS.
São indedutíveis, devendo ser adicionados à base de cálculo da CSLL, os valores pagos a título de remuneração de debêntures, tendo em vista os contornos de artificialidade presentes na operação, e a expressa previsão legal de tributação, por esta contribuição, dos lucros distribuídos disfarçadamente.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2007, 2008
MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. NOVA REDAÇÃO DADA PELA MP 351/2007. APLICÁVEL À FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS A PARTIR DA COMPETÊNCIA DE DEZEMBRO DE 2006.
A partir do advento da MP 351/2007, convertida na Lei 11.488/2007 a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma refere-se ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma.
Recurso Provido em Parte.
Numero da decisão: 1402-002.295
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão recorrida, dar provimento parcial ao recurso para acolher a decadência em relação ao ano-calendário de 2007 e reduzir a multa de ofício exigida junto com o tributo ao percentual de 75%. Por voto de qualidade, manter a exigência da multa isolada vencidos os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Caio Cesar Nader Quintella, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por cancelar essa penalidade.
.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Caio Cesar Nader Quintella, Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de Souza Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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DATA DA COMINAÇÃO DE PENALIDADE. DESINFLUÊNCIA. A responsabilidade tributária da empresa sucessora abrange, além dos tributos devidos pelo sucedido, as multas moratórias ou punitivas que, por representarem dívida de valor, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que o fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão. Precedente do STJ no REsp Nº 923.012/MG julgado sob o rito do art. 543-C do CPC. Tanto o tributo quanto as multas a ele associadas pelo descumprimento da obrigação principal fazem parte do patrimônio (direitos e obrigações) da empresa incorporada que se transfere ao incorporador, de modo que não pode ser cingida a sua cobrança, até porque a sociedade incorporada deixa de ostentar personalidade jurídica. O que importa é a identificação do momento da ocorrência do fato gerador, que faz surgir a obrigação tributária, e do ato ou fato originador da sucessão, sendo desinfluente, como restou assentado no aresto embargado, que esse crédito já esteja formalizado por meio de lançamento tributário, que apenas o materializa. Inteligência dos Embargos de Declaração no Recurso Especial nº 923.012-MG julgado sob o rito do art. 543-C do CPC. Entendimento que deve ser reproduzido neste Conselho por força do art. 62- A do Regimento Interno do CARF. DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS COM REPERCUSSÃO NO FUTURO. QUESTÕES ATINENTES A PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Ressalte-se o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário. O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SONEGAÇÃO E EXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. INÍCIO DA CONTAGEM DO PRAZO. PRECEDENTE DO STJ NO RECURSO ESPECIAL N° 973.733/SC. Constatada a existência de pagamento antecipado, e a ausência de dolo, fraude ou simulação, dá-se a homologação do pagamento de que trata o § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, iniciando-se a contagem do prazo decadencial a partir da data de ocorrência do fato gerador. Precedente do STJ no Recurso Especial n° 973.733/SC julgado nos termos do art. 543-C do CPC o que implica, em razão do disposto no art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF 343/2015, vinculação dos membros deste Colegiado à tese vencedora no âmbito do STJ. Tendo o lançamento sido cientificado ao contribuinte no decorrer do ano de 2013, o crédito tributário decorrente dos fatos geradores ocorridos em 31 de dezembro de 2007 devem ser extintos por decadência, uma vez que deveriam ter sido constituídos até o último dia do ano de 2012. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2007, 2008 REDUÇÃO DOS LUCROS POR REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. São indedutíveis, devendo ser adicionados à base de cálculo da CSLL, os valores pagos a título de remuneração de debêntures, tendo em vista os contornos de artificialidade presentes na operação, e a expressa previsão legal de tributação, por esta contribuição, dos lucros distribuídos disfarçadamente. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2007, 2008 MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. NOVA REDAÇÃO DADA PELA MP 351/2007. APLICÁVEL À FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS A PARTIR DA COMPETÊNCIA DE DEZEMBRO DE 2006. A partir do advento da MP 351/2007, convertida na Lei 11.488/2007 a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma refere-se ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma. Recurso Provido em Parte.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 LANÇAMENTO. NULIDADE. Preenchidos os requisitos do art. 10 do Decreto nº 70.235/72 ARGUIÇÃO DE NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA E INOCORRÊNCIA ALTERAÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO. Não é nula a decisão que não pretere o direito de defesa da Recorrente, fundamentando adequadamente o porquê de suas conclusões. Tendo o auto de infração utilizado mais de uma fundamentação para confirmação da glosa de despesas, não há que se falar em inovação da decisão de primeira instância que motiva suas razões de decidir com base em uma das fundamentações utilizadas pela autoridade fiscal lançadora. RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. NEGÓCIOS EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO DE PESSOA LIGADA. Presumese distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Enquadrase nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 55 /2 01 3- 73 Fl. 1678DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.679 2 Anocalendário: 2007, 2008 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. FRAUDE À LEI. ABUSO DE DIREITO. Os institutos do abuso de direito e da fraude à lei, embora previstos na lei civil, não foram eleitos pelos legislador tributário para qualificação da penalidade. MULTA DE OFÍCIO. EXIGÊNCIA DA SUCESSORA POR INFRAÇÃO COMETIDA PELA SUCEDIDA. DATA DA COMINAÇÃO DE PENALIDADE. DESINFLUÊNCIA. A responsabilidade tributária da empresa sucessora abrange, além dos tributos devidos pelo sucedido, as multas moratórias ou punitivas que, por representarem dívida de valor, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que o fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão. Precedente do STJ no REsp Nº 923.012/MG julgado sob o rito do art. 543C do CPC. Tanto o tributo quanto as multas a ele associadas pelo descumprimento da obrigação principal fazem parte do patrimônio (direitos e obrigações) da empresa incorporada que se transfere ao incorporador, de modo que não pode ser cingida a sua cobrança, até porque a sociedade incorporada deixa de ostentar personalidade jurídica. O que importa é a identificação do momento da ocorrência do fato gerador, que faz surgir a obrigação tributária, e do ato ou fato originador da sucessão, sendo desinfluente, como restou assentado no aresto embargado, que esse crédito já esteja formalizado por meio de lançamento tributário, que apenas o materializa. Inteligência dos Embargos de Declaração no Recurso Especial nº 923.012MG julgado sob o rito do art. 543C do CPC. Entendimento que deve ser reproduzido neste Conselho por força do art. 62 A do Regimento Interno do CARF. DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS COM REPERCUSSÃO NO FUTURO. QUESTÕES ATINENTES A PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Fl. 1679DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.680 3 Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.” O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SONEGAÇÃO E EXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. INÍCIO DA CONTAGEM DO PRAZO. PRECEDENTE DO STJ NO RECURSO ESPECIAL N° 973.733/SC. Constatada a existência de pagamento antecipado, e a ausência de dolo, fraude ou simulação, dáse a homologação do pagamento de que trata o § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, iniciandose a contagem do prazo decadencial a partir da data de ocorrência do fato gerador. Precedente do STJ no Recurso Especial n° 973.733/SC julgado nos termos do art. 543C do CPC o que implica, em razão do disposto no art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF 343/2015, vinculação dos membros deste Colegiado à tese vencedora no âmbito do STJ. Tendo o lançamento sido cientificado ao contribuinte no decorrer do ano de 2013, o crédito tributário decorrente dos fatos geradores ocorridos em 31 de dezembro de 2007 devem ser extintos por decadência, uma vez que deveriam ter sido constituídos até o último dia do ano de 2012. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008 REDUÇÃO DOS LUCROS POR REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. São indedutíveis, devendo ser adicionados à base de cálculo da CSLL, os valores pagos a título de remuneração de debêntures, tendo em vista os contornos de artificialidade presentes na operação, e a expressa previsão legal de tributação, por esta contribuição, dos lucros distribuídos disfarçadamente. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2007, 2008 MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. NOVA REDAÇÃO DADA PELA MP 351/2007. APLICÁVEL À FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS A PARTIR DA COMPETÊNCIA DE DEZEMBRO DE 2006. A partir do advento da MP 351/2007, convertida na Lei 11.488/2007 a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma referese ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma. Fl. 1680DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.681 4 Recurso Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão recorrida, dar provimento parcial ao recurso para acolher a decadência em relação ao anocalendário de 2007 e reduzir a multa de ofício exigida junto com o tributo ao percentual de 75%. Por voto de qualidade, manter a exigência da multa isolada vencidos os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Caio Cesar Nader Quintella, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por cancelar essa penalidade. . (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Caio Cesar Nader Quintella, Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de Souza Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone. Fl. 1681DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.682 5 Relatório HEINZ BRASIL S.A. recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 0265.936 da 2ª Turma da Delegacia de Julgamento em Belo Horizonte que julgou improcedente a impugnação apresentada. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: I – DO LANÇAMENTO. Contra o Contribuinte, pessoa jurídica, já qualificada nos autos, foram lavrados os Auto de Infração de fls. 404/430, a saber: Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ, no valor de R$70.818.066,89, cumulado com multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, multa exigida isoladamente e juros de mora pertinentes, calculados até 11.2013. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, no valor de R$25.493.424,04, cumulada com multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, multa exigida isoladamente e juros de mora pertinentes, calculados até 11.2013. I.1 – IRPJ. DESCRIÇÃO DOS FATOS. Na descrição dos fatos, a Fiscalização fez as anotações abaixo transcritas: “0001 –DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS NEGÓCIOS EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO DE PESSOA LIGADA Custo ou despesa indedutível na apuração do Lucro Real correspondente a pagamento feito a pessoa ligada em condições de favorecimento, caracterizando distribuição disfarçada de lucros, conforme relatório fiscal em anexo. (...) 0002 – MULTA OU JUROS ISOLADOS FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA Falta de pagamento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica sobre a base de cálculo estimada em função da receita bruta e acréscimos e/ou balanços de suspensão ou redução. I.2 DO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL – TVF (FLS. 468/473). Fl. 1682DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.683 6 Eis os principais pontos abordados pela Fiscalização. 1. INTRODUÇÃO (...) Durante os procedimentos de auditoria fiscal aplicados. Constatouse que emissão de debêntures foi inteiramente artificial, constituindose tão somente de movimentação escritural de recursos dentro da própria empresa, sem o ingresso de qualquer capital de terceiros investidores, com o único propósito de reduzir ou extinguir o lucro tributário em cada período de apuração, não podendo, portanto, a ela ser aplicada a dedutibilidade prevista no inciso I do art. 462, do RIR/99. (...) 3. DA OPERAÇÃO ECONÔMICA ENGENDRADA PELA FISCALIZADA Em 17.05.2005, de acordo com o Instrumento Particular de Escritura de Emissão de Debêntures Participativas arquivado na JUCESP sob nº 266.248/056, em sessão de 16/09/2005, o contribuinte emitiu, em série única, 56.562 Debêntures Participativas conversíveis em ações ordinárias, no valor unitário de R$1.000,00, totalizando R$56.562.000,00, com vencimento para 17 de maio de 2010. Conforme a escritura, a emissão das debêntures seria efetivada por subscrição particular, fechada, pelo seu valor nominal e a integralização se daria em moeda corrente nacional à vista, no ato da subscrição. A participação das mesmas no lucro da Heinz se daria “à razão de 78% do lucro apurado, antes dos impostos, não fazendo jus a juros fixos ou variáveis e prêmio de reembolso (...). A participação a ser paga será creditada ao debenturista, a partir do trigésimo dia subseqüente à integralização das Debêntures Participativas”. (Cláusula 8 da Escritura). A Escritura previa, também, o fornecimento, pela Fiscalizada, de “certificados de Debêntures Participativas que contenham as exigências estabelecidas no artigo 64, da Lei 6.404/76, sem quaisquer encargos aos subscritores”. (Cláusula 12 da Escritura). Na ocasião, os Srs. SALVADOR PAOLETTI NETO e ROSANA PAOLETTI, respectivamente diretores Superintendente e Presidente, únicos acionistas da Fiscalizada, subscreveram e integralizaram a totalidade das debêntures emitidas “por meio de valores dos sócios, ou seja, o pagamento das debêntures foi feito por meio de crédito dos sócios junto à empresa”. Ou seja, a emissão e integralização das debêntures não representou uma efetiva captação de novos recursos financeiros para a empresa, circunstância inerente a este tipo de operação, sendo certo que não houve sequer um único centavo vindo de terceiros independentes em relação à empresa e a seus acionistas. O que ocorreu foi apenas uma reclassificação contábil de passivo já existente (dívidas com os acionistas reclassificadas como debêntures devidas aos mesmos acionistas) possibilitando a geração de enorme despesa, resultando em drástica redução do lucro tributável em cada período. Impende salientar que a Fiscalizada, apesar de intimada e reintimada, não apresentou a escrituração contábil que refletiu a integralização das debêntures acima alegando que “considerando a ocorrência do prazo decadencial e a dificuldade para o encontro de documentos mais antigos, a empresa deixa de apresentar os documentos solicitados”. Esta manifestação do contribuinte não encontra respaldo na legislação. RIR/99, art. 264: Fl. 1683DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.684 7 (...) Em outras palavras, se o contribuinte tem o dever jurídico de conservar comprovantes da escrituração relativos a fatos que repercutem em lançamentos contábeis de exercícios futuros, até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios futuros, é porque o Fisco tem o poder/dever de examinar os documentos relativos a fatos correspondentes a períodos já decaídos, quando estes repercutirem em exercícios não alcançados pela decadência. (...) Os efeitos da emissão de debêntures sobre o resultado da pessoa jurídica não ocorreram apenas em 2005, mas sim, de forma repetitiva e autônoma, nos anos subseqüentes àquele. A vantagem tributária consiste no fato de que os dividendos são calculados e distribuídos após a tributação (de IRPJ e CSLL) enquanto que a participação dos lucros dos debenturistas é dedutível, tanto do IRPJ quanto da CSLL, deixando, desta forma, de haver qualquer tributação sobre o lucro. E, muito embora a Escrituração de Emissão previsse a possibilidade da conversão das debêntures em ações ordinárias, registrese que os acionistas da emissora são os próprios debenturistas, sem risco, portanto, de ceder participação a terceiros e com a garantia da conversão em ações. 4. DO DESENVOLVIMENTO DA AÇÃO FISCAL (...) A empresa em nenhum momento recorreu ao mercado; não houve a captação de nenhum recurso novo. Muito ao contrário, o prolatado “planejamento estratégico” serviu apenas para transferir recursos da empresa para seus dois únicos acionistas, a pretexto de pagar exorbitante remuneração (78% do lucro da pessoa jurídica antes do IRPJ e CSLL) das debêntures. Mister repetir que as debêntures de R$4.600.000,00 renderam aos acionistas debênturistas, no período de 05/03/2005 a 12/05/2005, o valor acumulado de R$51.962.593,77, o que corresponde a um rendimento de 1.129,62% em pouc mais de 2 anos. Esses valores estão detalhados no quadro abaixo e serviram de base à integralização das debêntures emitidas em 17/05/2005 (e objeto desta fiscalização). DEBENTURISTA PRINCIPAL RENDIMENTO PERCENTUAL Salvador Paoletti Neto R$ 4.140.000,00 R$ 48.167.072,60 Rosana Paoletti R$ 460.000,00 R$ 3.795.521,17 Subtotal R$ 4.600.000,00 R$ 51.962.593,77 1.129,62% TOTAL R$ 56.562.593,77 Diante dos dados acima, é evidente que se a Fiscalizada buscasse os recursos no mercado financeiro lhe seria mais vantajoso, posto que o rendimento creditado aos debenturistas correspondeu a pouco mais de 10,13% ao mês de juros compostos capitalizados no perído de 26 meses. Para se ter uma idéia de tamanha desproporção, no site do Banco Central do Brasil consultamos a taxa de juros da série “73 – Operações de crédito com recursos livres referenciais para taxa de juros (préfixada) – Capital de giro – Taxa total”, também conhecida como “Capital de Giro – Taxa Total”. Esta taxa, de periodicidade diária, consolida os dados das instituições do sistema financeiro, tais como, bancos múltiplos, comerciais, de investimento, de desenvolvimento, sociedade de Fl. 1684DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.685 8 crédito, financiamento e investimento, sociedades de crédito imobiliário, associação de poupança e empréstimo e Caixa Econômica Federal. (...) Pois bem, no período de 05/03/2003 a 12/05/2005, a maior taxa diária encontrada nesta série foi no dia 20/03/2003 e corresponde a 0,1675% a.d. Considerando o padrão de 21 dias adotado pelas instituições financeiras a taxa média mensal é igual a 3,57%. Bem longe, portanto, da remuneração atribuída às debêntures e que equivalia, na prática, a aplicação de uma taxa de retorno mensal na casa dos 10,13% sobre o valor “captado” junto aos acionistas pelo contribuinte. (...) Compulsando as DIPJ’s entregues pelo contribuinte no período de 1997 a 2006, observamos que o mesmo vem agindo desta maneira de forma continuada (fato inclusive corroborado pela Ata da AGE de 12/05/2005). (...) O que se verifica no quadro acima é que debêntures emitidas inicialmente no valor de R$ 2.000.000,00, foram agraciadas com um rendimento acumulado em 2006 de R$181.726.575,33, equivalente a 9.086,32%. Para se ter uma idéia da estratosférica remuneração, a variação acumulada do IGPM (FGV), no período de 01/1997 a 12/2006, é de 157,19%. (...) 4.1. Das Distribuições Disfarçadas de Lucros via “Participações de Debêntures”. (...) Na situação ora apreciada, levandose em consideração que os debenturistas são os próprios acionistas e administradores da sociedade Emissora, e que a integralização se deu com a utilização de créditos que estes mantinham contra a Fiscalizada, é inegável que nessa operação não houve qualquer injeção de recursos novos e externos para investimento pela companhia, o que desvirtua o intuito maior deste tipo de operação. (...) Os valores das participações mensais das debêntures nos resultados da Fiscalizada estão contabilizados em conta de despesas, tendo como contrapartida contas passivas: “Salvador Paoletti Neto” e “Rosana Paoletti”. Os valores creditados aos sócios são retirados, geralmente, em parcelas menores, de acordo com as suas necessidades, de modo que os saldos das contas passivas só tendem a aumentar. Fica evidente, assim, que as debêntures são apenas um artifício criado pela empresa para retirar da base de cálculo do IRPJ e da CSLL parte significativa do lucro, que fica separada numa conta do passivo Circulante. Conforme a empresa paga valores aos sócios, sob quaisquer pretextos, estes valores vão sendo lançados a débito das contas patrimoniais passivas, diminuindo seu saldo, dando uma aparente validade jurídica para o suposto pagamento de remuneração de debêntures, que na realidade tratase de distribuição de lucro, indedutível das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Quanto aos valores contabilizados em despesa, temos que estes compuseram o resultado do exercício da Fiscalizada. Abaixo demonstramos os valores mensais: Fl. 1685DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.686 9 30105010302005312 PARTICIPAÇÃO NAS DEBÊNTURES Comp. Valor Mensal Valor Acumulado Comp. Valor Mensal Valor Acumulado 31/01/07 3.722.534,90 3.722.534,90 31/01/08 4.249.338,06 4.249.338,06 28/02/07 3.756.688,65 7.479.223,55 28/02/08 5.371.693,31 9.621.031,37 31/03/07 2.673.452,12 10.152.675,67 31/03/08 3.543.157,89 13.164.189,26 30/04/07 1.148.229,28 11.300.904,95 30/04/08 1.988.434,30 15.152.623,56 31/05/07 1.080.375,49 12.381.280,44 31/05/08 3.191.282,56 18.343.906,12 29/06/07 2.912.712,31 15.293.992,75 29/06/08 3.609.537,86 21.953.443,98 31/07/07 2.204.193,64 17.498.186,39 31/07/08 7.933.777,16 29.887.221,14 31/08/07 8.323.436,04 25.821.622,43 31/08/08 3.853.876,07 33.741.097,21 30/09/07 5.427.795,72 31.249.418,15 30/09/08 1.239.552,25 34.980.649,46 31/10/07 4.057.817,45 35.307.235,60 31/10/08 4.931.294,77 39.911.944,23 30/11/07 1.872.492,90 37.179.728,50 30/11/08 4.217.822,14 44.129.766,37 31/12/07 3.527.084,65 40.706.813,15 31/12/08 1.730.669,20 45.860.435,57 31/12/08 168.693,80 46.029.129,37 Como nunca houve a efetiva captação de recursos, base de uma emissão de debêntures, a emissão e suas respectivas participações nos resultados devem ser descaracterizadas, uma vez que o objetivo intentado foi o de deduzir da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, valores que deveriam ter sido contabilizados como dividendos. Assim, devem ser glosados os valores registrados contabilmente como participação nos lucros de debenturistas e informados nas DIPJ’s dos anos calendário de 2007 e 2008, nos valores de R$40.706.813,15 e R$46.029.129,37, respectivamente, uma vez que a operação em análise não passou de um planejamento tributário abusivo que anulou resultados de milhões de reais, fazendo uso de distribuição de lucros via participações de debenturistas. 4.2. Das Operações Efetuadas Somente no “Papel”. Em que pese a dedutibilidade das participações de debêntures prevista no art. 462, do RIR/1999, trazemos à baila os seguintes argumentos em contrário: a) como já demonstrado, as debêntures emitidas pela autuada foram adquiridas unicamente por seus acionistas; (...) b) as debêntures foram integralizadas por meio de créditos já mantidos pelos acionistas contra a sociedade; (...) Fica claro que o procedimento adotado pelo contribuinte teve por escopo deixar de pagar tributos, pois ao emitir debêntures com participação nos lucros operacionais à razão de 78% (65% a partir de 04/2008), o seu lucro fica sujeito à tributação apenas na parcela de 22% (35% a partir de 04/2008). E tudo por conta de uma emissão de debêntures que ficou somente no “papel”, ou seja, tratouse, na realidade, apenas de operações contábeis (não houve o ingresso de recursos) que, reiteramos, promoveram indevidamente a redução do lucro líquido por conta do registro de despesas que em nada contribuíram para a melhoria da performance operacional da empresa. Na prática, o que estamos assistindo é a transformação da distribuição de dividendos para com seus acionistas/administradores em remuneração de debêntures e daí, por conta, a dedução de despesas, enfim, um maná sem igual. Portanto, a emissão de debêntures remuneradas com participação nos lucros e a possibilidade de exclusão dessa remuneração do lucro líquido emissor, Fl. 1686DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.687 10 embora autorizadas pela legislação, não podem ser feitas de modo desnaturado, distante das práticas usuais e das forças do mercado, circunstâncias que distorcem e comprometam a validade da operação. c) a Fiscalizada não comprovou as retenções e os recolhimentos do Imposto de Renda na Fonte que seriam devidos sobre os rendimentos auferidos; (...) Embora intimada – e reintimada – a Fiscalizada informou que “não foram encontrados os Darfs solicitados referentes aos rendimentos auferidos pelas debêntures”. Tal informação se coaduna com a escrituração contábil da mesma, haja vista que não existem lançamentos contábeis a apontar retenção de IRRF para estes eventos. Do mesmo modo, não foram localizados nas “DCTF”, entregues pelo contribuinte no período de 01/2007 a 12/2008, qualquer DARF com o código de receita “8053 – Aplicações Financeiras de Renda Fixa, exceto em Fundos de Investimento – Pessoa Física”. d) a Fiscalizada não comprovou a existência física das debêntures, dos certificados e do Livro de Registro de Debêntures; (...) No presente caso, de acordo com a cláusula “6. FORMA E ESPÉCIE: As Debêntures Participativas serão nominativas, com emissão de cautelas, não endossáveis e subordinadas aos credores quirografários, conforme § 4º, do artigo 58, da Lei 6.404/76” (Escritura de emissão de debêntures). Entretanto, embora intimada – e reintimada – a apresentar “cópias autenticadas das 10 primeiras debêntures subscritas e integralizadas, em 17/05/2005, (...), e resgatadas em 27/01/2009” e dos certificados de debêntures participativas, o contribuinte informou “em resposta aos itens 1 e 2 (TIF n.6) a Fiscalizada esclarece que até o presente momento, não encontrou referidos documentos, fato esse decorrente da já noticiada troca de controle havida após as ocorrências fiscalizadas. Todavia, caso tais documentos sejam localizados, a Fiscalizada irá apresentalos prontamente”. A mesma alegação foi apresentada em 22/10/2013, em resposta a reintimação constante da intimação fiscal nº 07. Portanto, embora em 27/01/2009, tenham sido “resgatadas” as 56.562 debêntures emitidas em 17/05/2005, documentos estes que lastrearam a contabilização de mais de oitenta e seis milhões de reais de despesas nos anos calendário de 2007 e 2008, a fiscalizada não conseguiu apresentar uma debênture sequer. Outro fato que chama atenção é com relação a outro aspecto não comprovado pela Fiscalizada: a apresentação de cópia do Livro de Registro de Debêntures Nominativas. (...) Embora intimada – e reintimada para sua apresentação – a Fiscalizada respondeu que “até o momento não foi encontrado o Livro de Registro de Debêntures, (...)” e reiterando a informação em resposta posterior argumentou que “quanto aos itens 6, 7 e 10 da reintimação, a Fiscalizada volta a informar que não possui tais documentos ou dados. (...)”. A extinção das debêntures é tratada no art. 74 da Lei nº 6.404/76, vejamos: (...) Fl. 1687DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.688 11 Como visto acima, a própria lei comercial obriga a Fiscalizada a guardar por 5 anos a documentação que comprove a extinção das obrigações assumidas em decorrência das emissões debenturísticas. Como o resgate das debêntures ocorreu em 27/01/2009, pela lei comercial as mesmas deveriam ser guardadas até 26/01/2009. Assim, a não comprovação dos aspectos formais na emissão das debêntures é outro aspecto que demonstra que as operações foram efetuadas somente no “Papel” e, assim mesmo, de forma deficitária. 4.3. Da Ausência de Juros. Circunstância Não Usual em Operações deste Tipo. (...) 4.4. Do Favorecimento de Pessoas Ligadas. Distribuição Disfarçada de Lucros. (...) Passados 4 anos, a remuneração acumulada paga aos acionistas debenturistas totalizou R$150.277.118,71, ou seja, um retorno de 265,69% em relação ao capital investido. Resta evidente que a emissão de debêntures realizada pela Fiscalizada não tem qualquer racionalidade econômica, a não ser a economia de tributos. É de se questionar qual empresa no mundo real ofereceria como remuneração por um empréstimo a participação de 78% do seu lucro bruto anual a pessoas que a ela não estivessem ligadas. Não é crível que tamanha benesse fosse concedida a um terceiro, sem ligação ou influência nos negócios da empresa. Por certo, a Fiscalizada utilizouse de tal operação não para alavancar seus negócios – posto que os R$56.562.000,00 já eram reconhecidos no seu passivo como devidos aos acionistas, só que a outros títulos – mas para artificialmente aumentar o resultado não tributável e as despesas supostamente dedutíveis incrementado dessa forma o verdadeiro lucro da sociedade,ao arrepio da legislação tributária. Assim, observase claramente que operação engendrada pela Fiscalizada caracterizase como distribuição disfarçada de lucros, já que tratase de negócio realizado em condições de favorecimento com pessoas ligadas (in casu, os seus próprios acionistas), mediante a remuneração de debêntures com 78% dos lucros apurados nos exercícios sociais objeto de ação fiscal, conforme já demonstrado nos parágrafos precedentes. É inegável que se os debenturistas fossem realmente terceiros, as condições de remuneração das debêntures previstas não prevaleciam. (...) Em verdade, como visto nos acórdãos transcritos anteriormente, a inexistência de captação de recursos novos e a vinculação entre emissor e o comprador das debêntures desnatura a operação, pois não estão presentes nem as forças de mercado nem o aumento da capacidade financeira da empresa. Esses aspectos são de fundamental importância em transações dessa natureza. 4.5. Despesas não necessárias. Outro ponto a argumentar é que, independentemente à caracterização da operação como distribuição disfarçada de lucro, ao não captar novos recursos, as despesas contabilizadas como participação das debêntures nos resultados devem ser consideradas como desnecessárias à atividade da empresa, visto Fl. 1688DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.689 12 que é pressuposto básico de dedução das despesas para fim de apuração do resultado tributável a sua necessidade (art. 299, do RIR/1999). (...) Para tanto, em harmonia com o disposto no RIR/1999, não há que se contemplar como dedutível qualquer despesa com debêntures, contabilizada na pessoa jurídica, cuja origem, a causa para a sua emissão não ocorreu (entrada de novos recursos na empresa), mas tãosomente aquelas despesas que, sendo operacionais, estejam revestidas dos predicados de usualidade e normalidade e que guardem uma natural e íntima relação com a atividade da empresa e com a manutenção da respectiva fonte produtora. (...) De todo o exposto, cumpre destacar que a dedução prevista no art. 462 do RIR/1999 não se aplica aos casos em que não foram cumpridas as condições gerais de dedutibilidade de dispêndios, notadamente quando se verifica que a operação caracterizouse como meramente artificial, abusiva, constituindose tãosomente de reclassificação contábil de passivo, sem o ingresso de capital de terceiros investidores, com o único propósito de extinguir abruptamente (de um só passo), o resultado do período de apuração em quase sua totalidade. 5. DA INFRAÇÃO 5.1 Do IRPJ e da CSLL Como já mencionado, a legislação tributária veda a dedutibilidade de despesas desnecessárias às atividades empresariais. No caso presente, face às simulações constatadas, essas despesas não são dedutíveis. Como conseqüência, efetuarseá a glosa dos valores deduzidos a título de despesa de participação de debêntures, cujos valores são apresentados abaixo: GLOSA DAS DESPESAS DE PARTICIPAÇÃO DE DEBÊNTURES perído de Apuração Valor em R$ 2007 40.706.813,15 2008 46.029.129,37 Total 86.735.942,52 5.2 Da multa qualificada (...) O que se verificou na prática acima exposta é que o contribuinte, de forma elaborada, buscou uma construção contábil e documental que teve como intuito dificultar a análise por parte da Fiscalização por ocasião da homologação tributária. A conduta que tenha a finalidade de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador, ou das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal, ou o crédito tributário correspondente, obtendo como resultado a redução ou a supressão de tributo, está sujeita à multa de 150%, aplicada sobre a totalidade ou diferença do tributo omitido. Fl. 1689DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.690 13 A fundamentação legal da multa qualificada encontrase no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, art. 44, que menciona intuito de fraude em sua redação original e que, na atual, limitase a remeter aos arts. 71 a 73, da Lei nº 4.502, de 1964: (...) A conduta planejada consubstanciada na emissão de debêntures tãosomente com o objetivo de utilizar a dedução com participação nos lucros a debenturistas para extinguir significativamente o resultado do período de apuração, reiteradamente, por vários anos, opera no sentido de se concluir que existiram atos preparatórios e de execução que, analisados objetivamente, compõem o percurso notoriamente utilizado para lesar ninguém mais que o Fisco, (...). (...) Age, portanto, com dolo, justificando a qualificação da multa nos termos da própria Lei nº 9.430, de 1996. 5.3 Da multa isolada (...) O Lucro Real e a Base de Cálculo da CSLL levantados com Base em Balanço ou Balancete de Suspensão ou Redução foram minorados pela Fiscalizada em virtude do relatado e, conseqüentemente, houve uma redução do pagamento do IRPJ e da CSLL mensal por estimativa, o que implica na penalidade prevista no art. 44, II, alínea “b”, da Lei nº 9.430, de 1996. (...) Assim, impende a aplicação da multa isolada, a razão de 50%, conforme quadro constante do TVF. 6. DA RETIFICAÇÃO DO LALUR E DO LIVRO DE APURAÇÃO DA CSLL (...) Em face das infrações tributárias aqui apontadas, fica o contribuinte intimado a empreender as devidas retificações no Livros de Apuração do Lucro Real – LALUR e nos Livro de Apuração da CSLL referentes aos anos de 2007 e 2008. II – DA IMPUGNAÇÃO. Tendo sido dele cientificado em 23.11.2013 (vide intimação e “AR”, de fls. 475/476), o sujeito passivo contestou o lançamento em 20.12.2013, mediante o instrumento de fls. 480/569. Adiante compendiamse suas razões. I – DOS FATOS (...) Ao se analisar o TVF, constatase que o Autuante buscou alterar a realidade dos fatos a fim de demonstrar que a Impugnante agiu, em suas declarações e demonstrações contábeis e fiscais, de forma simulada, o que não é verdade. (...) I.1 – Do histórico da empresa (...) I.2 – Dos pressupostos da autuação fiscal (...) Fl. 1690DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.691 14 Segundo relato do item 3 do TVF, a Impugnante, 17.05.2005, emitiu, em série única, 56.562 Debêntures Participativas conversíveis em ações ordinárias, no valor unitário de R$1.000,00, totalizando R$56.562.000,00, com vencimento para 17 de maio de 2010. A emissão em questão foi objeto de Instrumento Particular de Escritura de Emissão de Debêntures Participativas arquivado na JUCESP sob nº 266.248/0506. (Doc. 7.4) Ainda com base no TVF, conforme consta da respectiva Escritura a emissão das Debêntures previa a subscrição particular fechada, por seu valor nominal e a integralização por moeda corrente nacional à vista, no ato da subscrição. A remuneração, que poderia ser paga ou creditada, era em bases mensais e correspondia, inicialmente, a 78% do lucro apurado (essa remuneração foi alterada, para menos, posteriormente). Os subscritores dos títulos foram os diretores e acionistas da Impugnante. A partir daí, no item 4 do TVF, a Fiscalização, (...), passa a conjeturar algumas conclusões, as quais representam a sua acusação, nos seguintes termos: (i) a emissão e integralização das debêntures não representaram uma efetiva captação de recursos financeiros; (ii) houve uma mera reclassificação contábil de passivo já existente (dívidas com os acionistas reclassificadas como debêntures); (iii) a emissão não teria satisfeito as necessidades financeiras da companhia; (iv) provocou drástica redução do lucro tributável pela geração de despesas; (v) os acionistas abriram mão de receber dividendos para ganhar participação nos lucros; (vi) não havia risco em relação a conversibilidade do título em ações ordinárias, na medida em que os acionistas eram os debenturistas; (vii) a remuneração estipulada para os títulos era excessiva frente àquela dita “de mercado”. Com base nessas conjeturas, (...), acusaa de ter promovido a distribuição disfarçada de lucros (“DDL”) via participação nas debêntures, sustentando, nesse ponto, a descaracterização da emissão e suas respectivas participações nos resultados, pois o único objetivo teria sido o de deduzir da base de cálculo do IRPJ e da CSLL valores que deveriam ser contabilizados com dividendos. Como conseqüência, promoveu a glosa das despesas registradas como participação nos lucros de debêntures nos anocalendário de 2007 e 2008, qualificando a conduta da Impugnante como planejamento tributário abusivo. Nesta esteira, (...), aplicou multa de 150% (...). Sobre este item, (...), deve ser registrado, desde logo, que não há que se falar em fraude, dolo ou simulação, a não ser na absurda hipótese de uma interpretação parcial e incompleta sobre aquilo que efetivamente ocorreu, interpretação essa que deve ser rechaçada pelas instâncias julgadoras administrativas, conforme a seguir será demonstrado. Ainda, fica evidente que o motivo para Fiscalização aplicar a multa qualificada não está na realidade fática examinada, mas sim na tentativa de deslocar a contagem do prazo decadencial para lançamento dos tributos sujeito à homologação e, com isso, de forma abusiva e ilegal, alcançar o anocalendário de 2007 na presente autuação. (...) Os pressupostos da autuação fiscal podem ser assim sintetizados: a opção com as debêntures vem desde de 1997 e sempre com o único objetivo de reduzir IRPJ e CSLL; a remuneração das debêntures por meio de participação nos lucros (o que admite que é permitido por lei) trouxe uma vantagem financeira muito grande para os Fl. 1691DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.692 15 acionistas/debenturistas numa remuneração muito acima do mercado; nunca houve a colocação de dinheiro “novo” com a emissão das debêntures; a operação foi só de “papel” tanto que não foram realizados os procedimentos formais normais (emissão das debêntures, escrituração em livros, pagamento do IRFonte); que as debêntures serviram para a realização de distribuição disfarçada de lucros (ddl); que houve fraude “porque o contribuinte, de forma elaborada, fez uma construção contábil e documental com o intuito de dificultar a análise por parte da fiscalização por ocasião da homologação tributária.” (...) II – DO DIREITO II.1 – Preliminarmente II.1.1 – A conduta da Impugnante foi homologada pelo Fisco (...) Desde de logo é preciso demarcar a limitação imposta pelo tempo aos fatos utilizados pela Fiscalização como suporte ao seu trabalho. Nesse sentido, esquecese o Fisco que ao lançar mão desse tipo de argumento (a Impugnante desde 1997 vem reeditando aquilo que caracterizou como planejamento tributário abusivo) da forma aleatória como faz, atrai para si a regra da homologação tácita aplicável aos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, conforme artigo 150, parágrafo 4º, do CTN: (...) No presente caso, a Fiscalização questiona a validade da emissão de debêntures por parte da Impugnante ocorrida no anocalendário de 2005 e, retoricamente (sem qualquer investigação fática substancial), tenta macular a idoneidade do procedimento por meio de alusões a acontecimentos que tiveram lugar antes mesmo de 2005. Nitidamente, tal questionamento ocorre de forma totalmente intempestiva e, portanto, macula o lançamento, tornandoo nulo, na medida em que está embasado em fatos ocorridos fora do prazo legalmente estipulado para o exame fiscal. (...) II.1.2 – Da guarda de documentos Na mesma linha do argumento acima, o período de guarda de documentos deve obediência ao prazo decadencial aplicável aos tributos a que se referem, ou seja, (...) artigo 150, do CTN. Assim, plenamente justificável que um ou outro documento relativo a períodos anteriores a 2008, dentre os inúmeros solicitados “remotamente” pela Fiscalização no curso do procedimento encerrado com a presente autuação, não tenham sido entregues. (...) II.1.3 –Da decadência do lançamento para o anocalendário de 2007 Fl. 1692DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.693 16 (...) É de singela clareza que a Fiscalização, no anocalendário de 2013, teria prazo para lançar os tributos cujos fatos geradores tivessem ocorrido a partir do anocalendáio de 2008. Ocorre que no caso em tela há lançamento cujo fato gerador referese ao anocalendário de 2007 e, portanto, fora do prazo legal (art. 150, §4º, do CTN) de que disponha para promover a constituição de créditos tributários. (...) A Fiscalização busca, de modo abusivo e ilegal, caracterizar a conduta do contribuinte como fraudulenta ou praticada com dolo ou simulação e, desse modo, viabilizar o deslocamento da contagem do prazo decadencial para o artigo 173, I, do CTN. (...) II.1.4 –Da nulidade do lançamento pela incompatibilidade de seu duplo fundamento Uma das linhas seguidas pelo Fisco foi a descaracterização da emissão das debêntures por parte da Impugnante por que esta teria simulado a operação para disfarçar a distribuição de lucros. A partir daí, com base nos artigos 464, IV e 467, V, ambos do RIR/99, considerou 100% das despesas relativas à sua remuneração como despesas indedutíveis, recompondo o resultado tributável dos anos calendário de 2007 e 2008, isto é, refazendo as bases de cálculo originais. Noutra linha argumentativa e tomando com base os mesmo fatos, a Fiscalização sustenta a glosa das despesas não com base na combinação dos citados arts. 464, VI e 467, V, do RIR/99, mas sim com base no art. 299 desse mesmo Diploma normativo. O resultado prático dessa tese de acusação também é a glosa das despesas e recomposição das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, para os anos de 2007 e 2008. É sabido que a acusação fiscal deve ser clara e precisa haja vista que somente assim restam respeitados os princípios da legalidade (que impera em matéria tributária), do contraditório e da ampla defesa com todos os meios a ela inerentes (que regulam o processo administrativo inclusive). (...) Ainda, importância de se saber com exatidão a conduta imputada está no fato que é somente a partir dela que é dado ao acusado defenderse de forma plena. (...) Desde logo, a Impugnante requer seja julgado nulo o lançamento tributário objeto deste processo administrativo, porque fundamentado em duas tipificações distintas. II.1.5 –Da nulidade do lançamento em razão do erro na base de cálculo O presente lançamento é nulo porque a Fiscalização cometeu erro insanável na quantificação do montante tributável ao glosar toda a despesa relativa à remuneração das debêntures, o que implicou em excesso de exação. II.2 – Do mérito II.2.1 – Da realidade fática ignorada pela Fiscalização: a existência e a aplicação dos recursos captados por meio das Debêntures Fl. 1693DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.694 17 (...) Esses fatos ignorados pela Fiscalização (...). São fatos que dizem respeito à comprovação da existência dos recursos captados por meio da emissão das debêntures e, mais do que isso, de sua aplicação na atividade produtiva da Impugnante, (...). (...) No caso desses autos, a Fiscalização subtraiu da Impugnante a possibilidade da efetiva demonstração de referida substância. Não oportunizou no curso da ação fiscal, de forma adequada e tempestiva, a demonstração de que os recursos dos sócios, na qualidade de debenturistas, foram efetivamente investidos, de que havia moeda corrente disponível à companhia no montante das emissões realizadas, e, mais importante, que os recursos existentes foram devidamente aplicados em projetos que promoveram o desenvolvimento dos objetivos sociais da Impugnante. (...) A conduta da Fiscalização de ignorar por completo a existência e a aplicação dos recursos, de um lado, valida a sua conclusão no sentido de que a operação em tela estaria no rol daquelas ditas “de papel”. Todavia, de outro, denuncia o seu artificialismo, na medida em que revela a desconsideração imotivada de fatos concretamente experimentados pela Impugnante e que, seguramente, teriam levado à conclusão diversa caso fossem “computados” na observação da realidade fática para fins de aplicação das normas jurídicas sacadas pela Fiscalização. (...). (...) Por tudo isso, fica evidente que, ao fiscalizado, mesmo nas hipóteses excepcionais e limitadas em que a lei tributária admite o fato jurídico tributário presumido, deverá ser garantido o direito de contraporse àquilo que a ele é imputado, sob pena de macular o procedimento fiscal e o seu fecho, no caso, o lançamento tributário. (...) II.2.1.1 – Das provas apresentadas Inicialmente, importa registrar que esta é a primeira oportunidade de a Fiscalizada, ora Impugnante, de se manifestar de forma efetiva sobre a existência e a aplicação dos recursos captados por meio da emissão das debêntures, haja vista que a durante o curso da ação fiscal não lhe foi oportunizado os meios adequados para tanto. (...) A Impugnante decidiu contratar empresa especializada e independente, com profissionais de renome e com vasta experiência na área de auditoria, para fazer uma varredura nos documentos e movimentações contábeis, financeiras e societárias e operacionais que, de alguma foram, estivessem relacionadas com o objeto da autuação. (...) O resultado desse trabalho pode ser observado no Relatório Técnico (“Memorando de Procedimentos Pré Acordados”) (...). (...) II.2.1.2 – Da existência dos recursos captados (...) Fl. 1694DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.695 18 A existência de dinheiro no caixa da Impugnante revela a sua disponibilidade financeira de levar adiante, os projetos para os quais se propôs e cujo financiamento deuse a partir da emissão e cujo financiamento deuse a partir das debêntures. O estudo revela, de forma bastante clara e com a respectiva documentação (Doc. 7, fls. 7 e Doc. 7.1), que a disponibilidade de caixa em 31.05.2005 (fechamento mais próximo à emissão ocorrida em 17.05.2005) era da ordem de R$48.337.000,00, ou seja, valor bastante próximo àquele captado por meio das debêntures. (...). (...) Outrossim, é inegável que os recursos em questão e que estavam no caixa da Impugnante, eram de propriedade dos acionistas, ou seja, antes da emissão dos títulos, já tinham sido declarados ao Fisco pelas pessoas físicas dos acionistas, como seus (e o Fisco tem essa informação, em seus sistemas informatizados), fatos esses já evidentemente homologados, ainda que tacitamente, (...). (...) II.2.1.3 – Da adequada aplicação dos recursos captados (...) Conforme consta da citada Ata da AGE de 16.05.2005 (Doc. 7.3), a captação dos recursos teve como pressuposto inicial os projetos ali referidos, (...). Todavia, a despeito da importância dessa informação frente à natureza da fiscalização, sequer foram referidos na peça acusatória fiscal. Por isso, assim como ocorreu em relação à existência dos recursos, o estudo procurou trazer à luz a efetiva aplicação dos mesmos. (...) II.2.2 – Da inviabilidade jurídica da descaracterização da operação efetivamente ocorrida: regularidade formal e material Para a caracterização do planejamento tributário ilícito, que é a tese da acusação fiscal, importaria ao Fisco verificar se o negócio indicado pela Impugnante efetivamente ocorreu, extraindo das provas o fato jurídico devidamente ocorrido. Tudo isso, entendase, sob o manto do princípio da legalidade. Com efeito, desde que o negócio jurídico realizado, em sua substância, corresponda efetivamente à sua forma, não ocultando um outro negócio, não há que se falar em ilicitude. Em outros termos, se os dados (as provas) demonstrarem que o negócio praticado pelo contribuinte o fora, verdadeiramente, em sua substância, este não pode ser tachado de ilícito. (...) II.2.2.1 – Da regularidade formal (...) A operação, em termos formais, de fato ocorreu tal como aponta a Fiscalização que, registrese, não a desconsiderou, ao contrário, sob a óptica forma, validoua. E não poderia ser diferente, na medida em que a emissão das debêntures ocorreu em linha com o comando que estava prescrito na legislação societária aplicável. (...) Fl. 1695DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.696 19 Embora reconheça a Fiscalização o cumprimento da Impugnante quanto às questões formais da operação, demonstra inconformismo com o fato de os títulos terem sido emitidos contra os acionistas da Impugnante à época e de que a remuneração era baseada no lucro, e, finalmente, que não foram entregues os certificados ou livros de registro dos títulos. Com relação ao primeiro inconformismo, importa referir que não havia qualquer impedimento legal para a emissão das debêntures contra acionistas da pessoa jurídica emitente. E ainda não há. (...). (...) Finalmente, em relação à falta dos certificados e dos livros de registro das debêntures, a Fiscalizada, ora Impugnante, procurou esclarecer o agente fiscal sobre a dificuldade encontrada para localizar referida documentação, apresentando justificativa para tanto. Fato é que apresentou o Instrumento Particular de Escritura de Debêntures Participativas: não foi feita escritura pública, mas o instrumento particular foi levado a registro na Junta Comercial, tornandose documento público. (...) II.2.2.2 – Da regularidade material (...) A partir daquilo que consta dos itens precedentes que apontam a não consideração de fatos essenciais por parte da Fiscalização, tais como a existência e a aplicação dos recursos, além da respectiva documentaçãosuporte ora apresentada, está patente a impossibilidade da desconsideração procedida pela Fiscalização. (...) A partir da impossibilidade da descaracterização da operação como um todo, o que se poderia discutir, apenas a título de argumentação, seria a remuneração das debêntures, cabendo à Fiscalização, na hipótese, apontar qual seria a remuneração de mercado para, então, glosar apenas a diferença que, supostamente, entende como abusiva, conforme será tratado no item II.2.4.1 (...). II.2.3 – Da inexistência de distribuição disfarçada de lucros e do erro na capitulação legal. Nulidade do lançamento. (...) O trabalho fiscal que levou a referida caracterização de DDL não merece prosperar, haja vista a sua total desconexão com a realidade experimentada pela Impugnante no que diz respeito à forma e à substância da operação enfocada. (...) Assim, restando provado que o negócio privado estabelecido entre as partes contratantes apresenta forma e conteúdo coincidentes com a realidade fática, apresentando a necessária substância, não há como descaracterizalo pelo só fato de ter sido realizado entre partes ligadas – e, novamente, destacase não haver, à época, qualquer impedimento legal para tanto. Todavia, antes de adentrarse n tópico seguinte, que cuidará do tema da dedutibilidade das despesas com base no art. 299 do RIR/99, importa evidenciar a já noticiada nulidade completa do lançamento dado que sua motivação é imprecisa e dúbia. É evidente que a Fiscalização não foi assertiva quanto ao motivo do ato de lançamento, na medida em que imputa à Impugnante duas condutas excludentes entre si de forma simultânea para um mesmo ato. (...). Fl. 1696DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.697 20 (...) Por essas razões, deve ser afastada a tese fiscal de DDL e, ainda, declarada a nulidade do lançamento em razão do evidente erro de sua capitulação legal. II.2.4 – Da dedutibilidade das despesas glosadas pela Fiscalização (...) Ora, é sabido que, do ponto de vista contábil, a debênture representa um passivo da empresa com o debenturista. Por sua vez, as remunerações produzidas pelo título são despesas financeiras que reduzem o lucro antes dos tributos (IRPJ e CSLL). Desta forma, a base de cálculo do IRPJ/CSLL é, por conseqüência, reduzida e isso não é, de per si, infração alguma, ao contrário é regra legal. (...) Ora, qual é o abuso na forma de remuneração estabelecida pela Impugnante? Esta mais do que evidente que se trata de uma remuneração intermediária frente às taxas extremas mínimas e máximas disponíveis, à época da captação, nas diversas linhas de crédito existentes para financiar os investimentos programados. E, além disso, a forma estipulada trazia o risco (inexistente nas outras opções) de ganho zero na hipótese da Impugnante não apurar lucros. (...) Portanto, ao contrário do que quer fazer prevalecer a Fiscalização, os artigos citados como fundamento da glosa das despesas (art. 299 do RIR/99) servem, ao contrário, para legitimar e garantir a dedutibilidade dessas em razão da remuneração dos títulos emitidos, motivo pelo qual resta totalmente insubsistente o auto de infração combatido. II.2.4.1 – Do erro na recomposição da base de cálculo dos tributos lançados e da absurda e irreal rentabilidade apontada pela Fiscalização. Nulidade do lançamento. (...) O procedimento fiscal mostrase equivocado e incoerente, na medida em que, conforme evidenciado nos itens precedentes e nos elementos de prova trazidos, a conduta da Impugnante foi regular tanto em termos formais como em termos materiais e, por isso, não há que se falar em distribuição disfarçada de lucros e conseqüente vedação para dedução de despesas (arts. 464, VI e 467, V, RIR/99) ou simplesmente em desnecessidade das despesas e, portanto, na vedação de sua dedução (art. 299, RIR/99). (...) Ora, se já é amplamente questionável a descaracterização da operação como um todo, proceder à glosa de toda a despesa relativa à remuneração do titulo quando patente está existência de critérios para determinação do quantum representativo da parceria supostamente “abusiva”, inadmissível que tal cobrança leve em conta a glosa do valor total das despesas, conforme inclusive entendimento pacificado na jurisprudência. (...) II.2.5 – Da inexistência de fraude ou da falta de sua caracterização pela Fiscalização Fl. 1697DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.698 21 Conforme alegação da própria Fiscalização às fls. 9 do TVF, “compulsando as DIPJ’s entregues pelo contribuinte no período de 1997 s 2006, observamos que o mesmo vem agindo dessa maneira de forma continuada”. A afirmação do agente fiscal comporta alguns comentários. Primeiramente, é certo que os fatos referidos por ele, anteriores a 2008, estão, nitidamente, abarcados pela decadência revelandose imprestáveis para qualquer fim, quanto mais para determinar ou justificar uma autuação fiscal. Em segundo lugar, tratase de uma afirmação que inviabiliza o direito de defesa da Impugnante, na medida em que lhe são imputados condutas de maneira genérica e sem qualquer pressuposto fático que lhes dêem o devido embasamento. (...) O fato de serem emitentes e debenturistas partes ligadas, de haver remuneração baseada em lucratividade, de não ter havido fluxo financeiro na medida em que os recursos dos acionistasdebenturistas já estavam no caixa da Impugnante, conforme não só alegado, mas devidamente provado (Doc. 7), em nada macula a operação seja em termos legais, já que nenhum impedimento existia à época, para assim ser estruturada, seja em termos fáticos, na medida em que os recursos foram efetivamente aplicados e, ainda que não seja determinante esse fato, foram aplicados com existo, (...). (...) II.2.5.1 – Não houve a tipificação da conduta da Impugnante nos termos da Lei n. 4502/64 (...) É de se afastar a configuração de qualquer das condutas tipificadas na Lei nº 4.502/64, pois que a Impugnante, em momento algum, adotou medidas no intuito de impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária que ora lhe é imputada. (...) É clara a inexistência de embasamento para a pretensão fiscal de aplicação da multa agravada, a uma pela comprovação de que a operação da Impugnante não ocorreu apenas “no papel” (o que afasta a presunção de DDL/indedutibilidade/fraude), e, a duas pelo fato de que, ainda que fosse considerada abusiva a remuneração estipulada – o que se admite por amor ao argumento – tal fato não representaria, em hipótese alguma, conduta dolosa por parte da contribuinte, pois devida, regular e tempestivamente informada ao Fisco, tanto pela Impugnante quanto pelas pessoas físicas dos debenturistas. (...) II.2.5.2 – Não cabe a caracterização de fraude com base no Código Civil, dado que a multa agravada está prevista na Lei n. 4.502/64 Para a qualificação do suposto “intuito de fraude” que, na visão do auditor fiscal, pautou a conduta da Impugnante, foi empregado o instituto da “simulação”, que tem como base o artigo 167 do Código Civil. Ocorre, entretanto, que não se admite a utilização de instituto da lei civil para produção de efeitos na seara tributária, ao menos como retende a Fiscalização in casu. Fl. 1698DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.699 22 (...) II.2.5.3 – Da necessária decretação da decadência do lançamento para o anocalendário 2007 (...) II.2.6 – Da impossibilidade de se cumular multa isolada e multa de ofício (...) Ainda que, por hipótese meramente argumentativa, por um instante apenas, se entendesse pela improvável procedência do trabalho fiscal, mesmo assim a multa aplicada em razão do suposto recolhimento a menor da estimativa mensal desses tributos não tem o menor cabimento e não se sustenta frente ao entendimento consolidado na jurisprudência. (...) II.2.7 – Da não aplicação das multas em virtude da aquisição do controle acionário (...) Os fatos imputados à Impugnante data de 2007 e 2008, antes, portanto, da aquisição das ações que implicaram na troca de controle acionário, ocorrida em 2011. Por isso, é patente a impossibilidade de se responsabilizar a Impugnante, nesse momento, pelas multas impostas a condutas supostamente praticadas, tendo em vista que a autuação foi formalizada em momento posterior à aquisição das ações que implicaram na troca de seu controle. Essa é a inteligência dos artigos 128 a 133 do CTN que cuidam da responsabilidade tributária em razão de operações societárias e de aquisições de bens, como foi a noticiada aquisição do controle acionário da Impugnante. (...) II.2.8 – Da desnecessidade de retificação do LALUR (...) II.2.9 – O respaldo jurisprudência à conduta da Impugnante (...) III – DA CONCLUSÃO Extraemse as seguintes conclusões: A Fiscalização partiu do pressuposto de que a operação fiscalizada, por se tratar de emissão de debêntures entre parte ligadas, era simulada. As provas carreadas nos autos são determinantes e demonstram, de um lado, o erro da Fiscalização ao ignorar a realidade fática substancial e, de outro,ma higidez da operação tanto no seu aspecto formal quanto material. A comprovação da existência real da operação também afasta a hipótese de DDL e fraude. O trabalho fiscal resta comprometido por questões outras, tais como a impossibilidade de lançar tributo fora do lastro legal, forçando a tese de simulação para alcançar o ano de 2007. Fl. 1699DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.700 23 Ainda, promoveu lançamento nulo, porque não capitulou legalmente a conduta da Impugnante, atribuindo dois fundamentos excludentes (DDL e ao mesmo tempo considera não usual a despesa). O lançamento também não se sustenta, pois a remuneração efetiva demonstrouse dentro dos parâmetros de mercado. Ainda, aplicou multas cumulativas (qualificada e isolada) o que também não é autorizado pela legislação e tem sido devidamente rechaçado pela jurisprudência. IV – DO PEDIDO Requer o provimento integral da presente impugnação, para cancelar o auto de infração e a multa. Finalmente, requer provar o alegado por todos os meios e provas em direito admitidas, especialmente a juntada de novos documentos. A 2ª Turma da DRJ em Belo Horizonte, em análise da impugnação apresentada, julgoua improcedente. A Recorrente foi cientificado da decisão em 08 de junho de 2015 (fl. 1.423). Em 07 de julho de 2015 foi apresentado recurso voluntário de fls. 1.426 1.526. Em síntese, são esses os pontos tratados em recurso: preliminar nulidade do acórdão recorrido: a decisão de primeira instância seria nula, pois não se teria se manifestado sobre ponto essencial da defesa. Apesar da operação ter sido realizada entre partes vinculadas, seria real e efetiva, além de ter gerado extrema valorização da companhia, inclusive a viabilização da aquisição do controle acionário por um grupo de renome estrangeiro. A regularidade das operações teriado sido provada por meio de laudo, que: i) comprovaria a existência de recursos no caixa e sua relação com o montante captado; ii) demonstraria que os recursos teriam sido aplicados nos projetos que deram causa à emissãodo título; iii) evidenciaria que a remuneração efetivamente percebida pelos debenturistas teria guardado relação com aquela que seria obtida junto ao mercado, entre partes independentes. Contudo, a decisão de primeira instância não teria se manifestado sobre essa prova, tampouco sobre realidade material da operação, implicando sua nulidade por cerceamento do direito de defesa da Recorrente; preliminar – impossibilidade de correção da capitulação legal da infração pela DRJ: a decisão de primeira instância teria reconhecido que o lançamento tributário não fora exato porque capitulou uma única conduta como infração a dois dispositivos legais excludentes entre si, cujos pressupostos fáticos são diversos, quais sejam, artigos 464 Fl. 1700DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.701 24 c/c 467 do RIR/99 (DDL – distribuição disfarçada de lucros) e 299, do RIR/99 (desnecessidade da despesa). Com o intuito de minimizar o erro insanável, a decisão de piso preferiu adotar um dos fundamentos (artigo 299 do RIR/99), em detrimento do outro. Entretanto, o suposto erro seria insanável, ou seja, não poderia a autoridade julgadora, eleito um dos critérios para embasar sua decisão. Em que pese a consequência tributária das duas infrações ser a mesma (indedutibilidade da despesa), a autoridade fiscal lançadora não poderia enquadrar uma única conduta em dois dispositivos distintos. A hipótese representaria absurda situação em que, havendo dúvida quanto ao enquadramento de um fato entre dois tipos legais, o lançamento seria baseado em ambos os dipositivos. No entender da Recorrente, tal situação teria ensejado o cerceamento do se direito de defesa. Deveria a DRJ, diante do suposto erro no lançamento, têlo anulado, e não procedido à sua retificação. decadência: a autoridade fiscal teria questionado a validade da emissão de debêntures ocorrida no anocalendário de 2005. Alega que fatos ocorridos antes do anocalendário de 2008, em razão do prazo estipulado no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, tendo os autos de infração sido lavrados em 2013, não poderiam mais ser contestados pelo Fisco em razão da suposta homologação expressa ou tácita. Alega ainda a Recorrente que qualquer exigência fiscal com base em ocorrências anteriores a 2008 seria incabível, não havendo qualquer obrigação legal de guarda de documentos relativos a tais ocorrências. Por fim, argui que, com base no disposto no artigo 150, § 4º do CTN, no ano de 2013, somente poderiam ser lançados de ofício tributos cujos fatos geradores tivessem ocorrido a partir do anocalendário de 2008, uma vez que inexistiria fraude, dolo ou simulação que ensejasse a contagem do prazo decadencial com base na regra prevista no artigo 173, I, do CTN. realidade fática ignorada pela fiscalização e pela DRJ – existência e aplicação dos recursos captados por meio das debêntures: fatos determinantes deixaram de ser analisados pelo auto de infração e pela DRJ. A operação possui substância, pois os recursos existiram e foram devidamente aplicados. das provas apresentadas: a Recorrente apresentou relatório técnico, devidamente suportado por documentação hábil e idônea para a demonstração de sua correspondência com a realidade fática, contábil, financeira, econômica, operacional e fiscal. O documento, porém, apesar de ser prova material foi ignorado pelas autoridades administrativas. existência dos recursos captados: um dos pressupostos da autuação é de que não houve ingresso de dinheiro novo com a emissão das debêntures. Contudo, o estudo apresentado revela que a disponibilidade de caixa, em Fl. 1701DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.702 25 31 de maio de 2005, era da ordem de R$ 48.337.000,00, valor bastante próximo daquele captado por meio das debêntures. A ausência de fluxo financeiro exigido pela fiscalização, no sentido de observar a existência de efetivo ingresso de recursos, é facilmente explicada e decorre do fato de que os valores devidos pela sociedade aos seus acionistasdebenturistas eram suficientes para cobrir o valor total da emissão. A contabilidade demonstra essa situação e faz prova em favor da Recorrente. da adequada aplicação dos recursos captados: ata da AGE de 16/05/2005 indicou quais os projetos que motivaram a captação de recursos via debênture. O estudo técnico, por sua vez, prova que os valores tiveram adequada destinação frente aos objetos sociais da empresa. O investimento dos recursos comprovadamente gerou ganho operacional, aumento da produtividade e geração de novos empregos. Logo, não há subsunção do fato narrado no TVF à norma aplicada, pois os pressupostos fáticos que desencadearam as obrigações impostas pela autuação não se fizeram presentes. Não existe simulação ou operação no papel, mas sim operação efetiva e substancial. da inviabilidade jurídica da descaracterização da operação efetivamente ocorrida – regularidade formal e material: se o negócio jurídico realizado, em sua substância, corresponde efetivamente à sua forma, não ocultando um outro negócio, não há que se falar em ilicitude. A operação objeto de autuação apresenta regularidade formal e material. No que diz respeito à regularidade formal, os títulos foram efetivamente emitidos, houve registro da respectiva escritura de emissão, a remuneração estava baseada no lucro, foram emitidos certificados e os subscritores eram acionistas da Companhia. Logo, a operação ocorreu segundo a legislação societária vigente à época dos fatos, precisamente, Lei n. 6.404/76. A norma que trata do assunto não impede a emissão de debêntures contra acionista da pessoa jurídica. Além disso, não há óbice para a remuneração estar baseada no lucro e não há obrigatoriedade para a emissão de certificados. Quanto à regularidade material, ficou demonstrado à saciedade, tanto a existência dos recursos, quanto a sua aplicação na atividade operacional e produtiva da recorrente. Nesse sentido é o relatório técnico, sua documentação suporte e toda aquela apresentada com a defesa. Se formalmente a operação seguiu as determinações legais e estando demonstrada a existência e aplicação dos recursos, não há como desconsiderála. da inexistência de distribuição disfarçada de lucros e do erro na capitulação legal. Nulidade do lançamento: a conclusão do relatório fiscal que aponta para DDL não merece prosperar, haja vista sua total desconexão com a realidade experimentada. O negócio celebrado ocorreu nos estritos termos da legislação societária Fl. 1702DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.703 26 e em condições econômicas, financeiras e de risco plenamente sustentáveis frente à realidade do mercado. A autonomia privada concede aos particulares o poder de efetuar negócio jurídico e regularse de acordo com a norma criada. dedutibilidade das despesas glosadas pela fiscalização: os artigos 462, I e 299 do RIR/99 garantem a dedutibilidade da remuneração assegurada a debêntures. Como a operação é real e efetiva, não se pode negar a dedução dos valores. Quanto à taxa de remuneração utilizada, está mais do que provada que se trata de uma remuneração intermediária frente às taxas extremas mínimas e máximas disponíveis, à época da captação, nas diversas linhas de crédito existentes para financiar os investimentos programados. Além disso, existia a possibilidade de ganho zero, caso não houvesse lucro no período. do erro na recomposição da base de cálculo dos tributos lançados e da absurda e irreal rentabilidade apontada pela fiscalização. Nulidade do lançamento: a fiscalização descaracterizou a emissão das debêntures, ao argumento de que houve simulação para disfarçar a distribuição de lucros. Por conseguinte, considerou 100% das despesas a esse título indedutíveis. Porém, como demonstrado acima, a operação é real. Caso ainda seja considerada abusiva, o que se admite apenas a título argumentativo, a glosa, nessa hipótese, teria que ser da diferença entre aquilo que se considera uma despesa normal, usual e necessária e aquilo que se considera como excesso de remuneração ou liberalidade. A glosa parcial seria o caminho natural para a recomposição da base de cálculo dos tributos, mesmo porque o fiscal faz diversas ilações acerca do valor aceitável em termos de remuneração de debêntures. da inexistência de fraude e da falta de sua caracterização pela fiscalização: a operação foi feita às claras, gerou efeitos e foi devidamente contabilizada e informada às autoridades fiscais. Logo, não há qualquer fraude. O acervo probatório trazido pela defesa demonstra a veracidade das operações. A fiscalização ainda menciona a prática de operações similares em períodos pretéritos. Todavia, como já foram atingidas pela decadência, sequer podem ser citadas como fundamentação para qualificar a multa. não houve a tipificação da conduta da recorrente nos termos da Lei n. 4.502/64: para aplicação da multa qualificada, necessária a tipificação da conduta nos termos da Lei n. 4.502/62, além de se provar o dolo. Deve ser afastada a configuração de qualquer das condutas tipificadas pela Lei, pois a recorrente não adotou medidas no intuito de impedir ou retardar o fato gerador, ao contrário, as operações foram reais, às claras em conformidade com a legislação em vigor à época. Também não está provado o dolo, pois autuada e debenturistas informaram tempestivamente a operação ao Fisco. não cabe a caracterização de fraude com base no Código Civil, dado que a multa agravada está prevista na Lei n. 4.502/64: para qualificar o suposto intuito de fraude, foi empregado o instituto da simulação, previsto no artigo 167 do Código Civil. Porém, não se admite a utilização de instituto da lei civil para produção de efeitos na seara tributária. Pela Lei n. 4.502/64, a multa qualificada demanda uma das Fl. 1703DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.704 27 seguintes hipóteses: sonegação, fraude ou conluio. A interpretação deve ser restritiva. A simulação não está prevista como causa para qualificação da multa. impossibilidade de se acumular multa isolada e multa de ofício. da não aplicação das multas em virtude da modificação no controle acionário: os fatos imputados datam de 2007 e 2008. Em 2011 ocorreu troca de controle acionário. Não é possível, portanto, responsabilizar a recorrente pelas penalidades, pois o auto de infração foi lavrado após a troca de seu controle. Em exigências formalizadas após a operação societária, o sucessor não responde pelas penalidades, tendo em vista que não foi responsável pela prática do ilícito. da desnecessidade de retificação do LALUR: o cancelamento do auto de infração torna despicienda a retificação do LALUR, realizada pela fiscalização. respaldo jurisprudencial à conduta da recorrente: existência de precedentes do CARF validando a operação na forma como foi realizada. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões de fls. 1.550 1.590 requerendo a manutenção integral da exigência. É o relatório. Fl. 1704DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.705 28 Voto Conselheiro FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE O recurso voluntário apresentado é tempestivo e assinado por procurador devidamente habilitado. Preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade do recurso, dele, portanto, tomo conhecimento. 2 PRELIMINAR 2.1 NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO POR AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO E CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Alega a Recorrente que a decisão de primeira instância seria nula em razão de ter se manifestado sobre ponto essencial da defesa (laudo que comprovaria a materialidade e substância da operação). A respeito da nulidade, o mesmo diploma legal assim dispõe: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1.º. A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2.º. Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3.º. Quando puder decidir o mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Acrescido pelo art. 1.º da Lei n.º 8.748/1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. (grifo nosso) Art. 61. A nulidade será declarada pela autoridade competente para praticar o ato ou julgar a sua legitimidade. Compulsando os autos, entendo que a decisão de primeira instância não pode ser tachada de nula. Fl. 1705DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.706 29 Isso porque, ao contrário do que alegado pela Recorrente, o aresto recorrido abordou sim a questão do laudo, concluindo, contudo, que suas conclusões não eram suficientes para cancelamento da exigência. A esse respeito, destaco excerto do voto condutor da decisão de piso: A defesa alegou que o Fisco ignorou fatos que dizem respeito à comprovação da existência dos recursos captados por meio da emissão das debêntures e, mais que isso, da sua aplicação na atividade produtiva da Impugnante. Mais ainda, apresenta laudo técnico para comprovar suas alegações (existência dos recursos pertencentes aos acionistas e a devida aplicação na consecução dos objetivos sociais da companhia) e disse que o Fisco subtraiu da Impugnante a possibilidade da efetiva demonstração da referida substância. Primeiramente, no curso do procedimento fiscal não houve nenhuma subtração no sentido que a Impugnante prestasse esclarecimentos e apresentasse as provas que quisesse. Nesse sentido, foram emitidas as intimações de praxe (vide fls. 17/19 e 26/28). Por outro lado, os pontos colocados pela Impugnante são irrelevantes e em nada afetam a acusação fiscal. Pouco importa se a companhia possuía recursos financeiros em caixa pertencentes aos seus acionistas e que esses, após a reclassificação contábil de passivo já existente (dívidas com acionistas reclassificadas como debêntures devidas aos mesmos acionistas), foram aplicados na consecução dos objetivos sociais da companhia. Relevante, no caso, é que a operação de emissão de debêntures com previsão de participação exorbitante nos lucros não tem em si os pressupostos para sua validade: (1) partes independentes (os debenturistas foram os próprios acionistas da companhia) e (2) entrada de dinheiro novo (a própria Impugnante diz na defesa que “o fato (...), de não ter havido o fluxo financeiro na medida em que os recursos dos acionistasdebenturistas já estavam no caixa da Impugnante, (...) em nada maculam a operação”). [grifos nossos] Conforme dito, a decisão de primeira instância não ignorou os argumentos e documentos apresentados pela Impugnante, mas tão somente entendeu que tais elementos não possuíam o condão de transformar em dedutíveis os valores apropriados a título de remuneração de debêntures. Portanto, não há que se falar em cerceamento de defesa. Isso porque, não se constata qualquer prejuízo ao pleno exercício do contraditório e da ampla defesa por parte da Recorrente, aliás, prejuízo esse primordial à caracterização de nulidade, conforme apregoa o art. 60 do Decreto nº 70.235/72: “As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo”. Rejeito, pois tal arguição de nulidade da decisão de primeira instância. 2.2 NULIDADE DO LANÇAMENTO POR DUPLICIDADE DE ENQUADRAMENTO LEGAL DA INFRAÇÃO E DA DECISÃO DA DRJ POR SUPOSTA CORREÇÃO DA CAPITULAÇÃO LEGAL DA INFRAÇÃO Segundo a Recorrente, haveria inexatidão no lançamento tributário em razão de a autoridade fiscal ter capitulado uma única conduta como infração a dois dispositivos legais excludentes entre si (artigos 464 c/c 467 do RIR/99 DDL – distribuição disfarçada de lucros – e artigo 299 do RIR/99 – despesa desnecessária). Fl. 1706DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.707 30 Para a Recorrente, a turma julgadora de primeira instância elegeu um critério em detrimento do outro em vez de reconhecer o erro insanável e decretar a nulidade do lançamento, realizando verdadeira correção da autuação, o que seria vedado por lei. Mais uma vez discordo do entendimento da Recorrente. Os supostos vícios apontados pela Recorrente no auto de infração e na decisão recorrida efetivamente não existem, também não podendo se falar em dubiedade no enquadramento da infração fiscal, tampouco em correção do lançamento por parte da turma julgadora de primeira instância. Compulsandose o termo de verificação fiscal, constatase facilmente que a autoridade fiscal lançadora, depois de examinar em detalhes a operação levada a efeito pela Recorrente, concluiu serem indedutíveis as despesas atreladas à emissão de debênture. Isso porque, entendeu a Fiscalização que não se podem admitir os efeitos tributários buscados pela autuada de tentar transformar distribuição de lucros aos sócios em despesa dedutível. Seguindo em seu raciocínio, concluiu ainda o autuante que a dedução de qualquer valor deve seguir a regra geral de dedutibilidade prevista no artigo 299 do RIR/99, e, uma vez não atendidos tais pressupostos, a glosa da despesa era mera recorrência de tal constatação. Portanto, ao contrário do que argui a Recorrente, os argumentos não são excludentes, ambos apontando para a mesma conclusão, qual seja, a indedutibilidade das despesas em questão. Os pressupostos legais para a validade do auto de infração são determinados pelo art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972, que trata do Processo Administrativo Fiscal, a seguir transcrito: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de 30 (trinta) dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Preenchidos tais requisitos, não há, pois, que se falar em nulidade do lançamento. No que atine à decisão recorrida, não há que se falar em correção do lançamento, uma vez que não houve inserção de qualquer novo elemento ou dispositivo legal para a confirmação do lançamento, mas somente a adoção de um dos dois fundamentos já utilizados na autuação, os quais, conforme já explanado, indicam a indedutibilidade das despesas glosadas. Fl. 1707DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.708 31 Em relação ao suposto cerceamento do direito de defesa, da simples leitura do Termo de Verificação Fiscal e também da decisão recorrida, depreendese que não há qualquer dúvida quanto à ausência de prejuízo à Recorrente, tanto que, já que tanto em sede de impugnação, quanto de recurso voluntário defendeuse plenamente, despendendo com clareza e qualidade, todos os argumentos necessários ao pleno exercício de sua defesa, consubstanciada em peça com mais de cem laudas. Nesse aspecto, frisese que a possibilidade de defesa foi amplamente viabilizada pelos detalhes da descrição dos fatos realizada pela autoridade fiscal realizada no Termo de Verificação Fiscal, no qual se apontou com minúcias os fatos constatados. No mesmo sentido, e conforme já salientado no tópico anterior deste voto, não há qualquer dúvida quanto à ausência de prejuízo à Recorrente, tanto que, já que tanto em sede de impugnação, quanto de recurso voluntário defendeuse plenamente, despendendo com clareza e qualidade, todos os argumentos necessários ao pleno exercício de sua defesa, consubstanciada em peça com mais de cem laudas. Assim sendo, sob os aspectos formais, não há qualquer mácula no auto de infração lavrado, tampouco na decisão de piso. No mais, o agir tanto da autoridade fiscal quando da autoridade julgadora se deu no desempenho das suas funções estatais, de acordo com as normas legais e com respeito a todas as garantias constitucionais e legais dirigidas aos contribuintes. Portanto, deve ser afastada as arguições de nulidade. Afasto, portanto, as preliminares suscitadas pela Recorrente. 3 MÉRITO 3.1 REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES – INDEDUTIBILIDADE O litígio diz respeito a auto de infração no qual foram glosadas despesas, relativas a remuneração de debêntures, entendendo a autoridade fiscal autuante que, em realidade, teria havido a distribuição disfarçada de lucros aos sócios. O enquadramento legal do lançamento inclui, entre outros dispositivos, os arts. 464, inciso VI, 465, 466 e 467, inciso V, todos do Decreto nº 3000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda – RIR/99), a seguir transcritos: Art. 464. Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso II): [...] VI realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. §3ºA prova de que o negócio foi realizado no interesse da pessoa jurídica e em condições estritamente comutativas, ou em que a Fl. 1708DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.709 32 pessoa jurídica contrataria com terceiros, exclui a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, §2º). Art. 465. Considerase pessoa ligada à pessoa jurídica (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 60, §3º, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso IV): I o sócio ou acionista desta, mesmo quando outra pessoa jurídica; II o administrador ou o titular da pessoa jurídica; III o cônjuge e os parentes até o terceiro grau, inclusive os afins, do sócio pessoa física de que trata o inciso I e das demais pessoas mencionadas no inciso II. §1º Valor de mercado é a importância em dinheiro que o vendedor pode obter mediante negociação do bem no mercado (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, §4º). §2º O valor do bem negociado freqüentemente no mercado, ou em bolsa, é o preço das vendas efetuadas em condições normais de mercado, que tenham por objeto bens em quantidade e em qualidade semelhantes (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, §5º). §3º O valor dos bens para os quais não haja mercado ativo poderá ser determinado com base em negociações anteriores e recentes do mesmo bem, ou em negociações contemporâneas de bens semelhantes, entre pessoas não compelidas a comprar ou vender e que tenham conhecimento das circunstâncias que influam de modo relevante na determinação do preço (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 60, §6º). §4º Se o valor do bem não puder ser determinado nos termos dos §§2º e 3º e o valor negociado pela pessoa jurídica basearse em laudo de avaliação de perito ou empresa especializada, caberá à autoridade tributária a prova de que o negócio serviu de instrumento à distribuição disfarçada de lucros (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, §7º). Art. 466. Se a pessoa ligada for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica, presumirseá distribuição disfarçada de lucros ainda que os negócios de que tratam os incisos I a VI do art. 464 sejam realizados com a pessoa ligada por intermédio de outrem, ou com sociedade na qual a pessoa ligada tenha, direta ou indiretamente, interesse (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 61, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso VI). Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, sócio ou acionista controlador é a pessoa física ou jurídica que, diretamente ou através de sociedade ou sociedades sob seu controle, seja titular de direitos de sócio ou acionista que lhe assegurem, de modo permanente, a maioria de votos nas deliberações da sociedade Fl. 1709DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.710 33 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 61, parágrafo único, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso VI). Art. 467. Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 62, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, incisos VII e VIII): [...] V no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de favorecimento, não serão dedutíveis. Na sequência, a autoridade fiscal ainda asseverou que as despesas em questão, independentemente da distribuição disfarçada de lucros, também não seriam necessárias à atividade da empresa. Destaco excerto do Termo de Verificação Fiscal (fl. 456): Outro ponto importante a argumentar é que, independentemente à caracterização da opção como distribuição disfarçada de lucro, ao não captar novos recursos, as despesas contabilizadas como participação das debêntures nos resultados devem ser consideradas como desnecessárias à atividade da empresa, visto que é pressuposto básico de dedução das despesas para fim de apuração do resultado tributável a sua necessidade, conforme previsto no art. 47 da Lei nº 4.506 de 1964, consolidado no art. 299 do Decreto nº 3.000/99 [...] [grifo nosso] Conforme já abordado na análise das preliminares de nulidade suscitadas pela Recorrente, não vejo maior problema nessa descrição complementar da infração. Discordo da decisão recorrida quanto à sua conclusão de que o lançamento foi realizado exclusivamente com base na desnecessidade das despesas glosadas. Pelo trecho do Termo de Verificação Fiscal transcrito alhures, resta evidente que a autoridade fiscal classificou a infração como distribuição disfarçada de lucros, e, complementarmente, como despesa desnecessária. Como a delimitação realizada pela DRJ não tem o condão de alterar os fundamentos do lançamento, não vislumbro qualquer outro vício daí advindo. Por outro lado, constatase que há lançamentos relativos à mesma matéria baseados única e exclusivamente na distribuição disfarçada de lucros, como, por exemplo, nos acórdãos 1301001.979 e 1201001.412, ou como despesas desnecessárias, como no acórdão 1402001.575 (cujo relator foi o ilustre Presidente desta Turma Julgadora, Conselheiro Leonardo de Andrade Couto). No presente caso, conforme dito, a base principal do lançamento é a distribuição disfarçada de lucros. A respeito das debêntures e de suas características, entendo ser necessário tecer alguns comentários preliminares. A equipe de professores da FIPECAFI, na obra Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações, esclarece que "as debêntures são títulos, normalmente a longo prazo, emitidos pela companhia com garantia de certas propriedades, bens ou aval do emitente". Segundo os mesmos autores, as debêntures fornecem para a companhia recursos a longo prazo para financiar a sua atividade. Esclarecem, ainda, que as debêntures, geralmente, concedem Fl. 1710DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.711 34 juros fixos ou vedáveis, podendo, também, conceder participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. A AMBIMA Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro, em material disponibilizado no sitio eletrônico1, esclarece que: As debêntures são valores mobiliários de renda fixa que podem ser emitidos por sociedades por ações, de capital aberto ou fechado. Entretanto, para que sejam distribuídas publicamente, devem ser emitidas por companhias de capital aberto, com prévio registro na CVM – Comissão de Valores Mobiliários. Há duas formas de debêntures: nominativas ou escriturais. Quanto à classe, podem ser simples, conversíveis ou permutáveis. Já no que diz respeito à garantia, podem ter as seguintes classificações: real, flutuante, quirografária ou subordinada. Esses títulos dão aos seus detentores um direito de crédito sobre a companhia emissora e possuem características particulares de prazo e rentabilidade, sempre definidas em sua escritura de emissão. As escrituras são os documentos mais importantes das emissões de debêntures. Nelas, estão descritas todas as características do papel: valor nominal; indexador pelo qual o valor é atualizado; prazo; forma de cálculo; rentabilidade proposta pelo emissor; fluxo de pagamento; e condições que devem ser obedecidas pela companhia emissora ao longo da vida útil do ativo. [grifos nossos] De acordo com Roberto Barcelos de Magalhãeas2, "as debêntures são obrigações representativas de parcelas de um único empréstimo tomado por sociedade anônima." Rubens Requião, comentando acerca de debêntures, afirma: As debêntures, também chamadas obrigações ao portador, são títulos de crédito causais, que representam frações do valor de contrato de mútuo, com privilegio geral sobre os bens sociais ou garantia real sobre determinados bens, obtidos pelas sociedades anônimas no mercado de capitais. A fim de evitar os inconvenientes de pequenos e constantes financiamentos a curto prazo e a juros altos, no mercado financeiro, as sociedades por ações têm a faculdade exclusiva de obter empréstimos, tomados ao público a longo prazo e a juros mais compensadores, inclusive com correção monetária, mediante resgate a prazo fixo ou em sorteios periódicos. J. X. Carvalho de Mendonça3, assim se refere às debêntures: Essa operação a que recorrem as sociedades anônimas, é, como dissemos, um empréstimo; é o contrato de mútuo, que se distingue do simples mútuo, definido no art. 247 do Código Comercial, pela divisão da quantia mutuada em frações, expressa por títulos ao portador, títulos de crédito negociáveis, e pelo processo especial de amortização, isto ê, do reembolso gradual do capital da divida por parcelas mínimas, em regra, durante longo prazo.... 1 Disponível em: <http://www.debentures.com.br/espacodoinvestidor/introducaoadebentures.asp> Acesso em: 15 jul 2016. 2 MAGALHÃES, Roberto Barcellos de, Lei das S/A: comentários por artigo 2 ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1997, p. 245. 3 MENDONÇA, Jose Xavier Carvalho de, Tratado de Direito Comercial Brasileiro, Vol. II, Tomo III, Campinas: Bookseller, 2001. Fl. 1711DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.712 35 Ainda em conformidade com o autor (J. X. Carvalho de Mendonça), "o empréstimo é contrato real; não existe sem a quantia que a sociedade deseja mutuar seja materialmente paga ou encaixada. Deve ser realizado em dinheiro e nesta espécie resgatável. Não se compreenderia empréstimo sem prestação de capitais. Se a emissão não tem esse intuito, é nula". [grifos nossos] No que se refere à remuneração da debênture, Modesto Carvalhosa4, embora reconheça que a legislação não o diga expressamente, defende que são os juros a sua remuneração natural: O caráter facultativo da norma permite a atribuição de outras vantagens remuneratórias complementares, que façam as debêntures atrativas e com melhor colocação no mercado. Fica então reafirmado o principio da onerosidade e comercia/idade da debênture, que não poderá deixar de oferecer vantagem pecuniária, compativelmente remuneratória do capital mutuado. Faculta a Lei de 1976 que, além dos juros, poderá a escritura de emissão estabelecer outras vantagens, como a participação nos lucros e prêmios, notadamente de reembolso. A alusão a juros variáveis constitui acessório do juro fixo estabelecido, consubstanciados aqueles na aceitação, pela comunhão de debenturistas, de vantagens adicionais aos juros prefixados, quando da colocação de novas séries, ou de debêntures em tesouraria. Assim os juros fixos constituem a remuneração básica e indeclinável das debêntures, sendo as demais modalidades acessórias daqueles, como a participação nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso. E, dentre essas vantagens adicionais aos juros fixos, poderá a companhia emissora oferecer preferência aos tomadores na aquisição de bens, na prestação de serviços ou na aquisição de direito, sempre visando tornar mais atrativa e competitiva a colocação das debêntures no mercado. Os juros constituem, como referido, a forma necessária de remuneração dos recursos emprestados pelos debenturistas companhia. Sendo a remuneração própria do capital mutuado, os juros serão sempre devidos. [grifos nossos] Do visto neste tópico, resta claro que, em sua essência, a debênture corresponde a um contrato de mútuo, ou seja, tratase de um empréstimo de médio ou longo prazo, remunerado com juros mais favoráveis em relação ao mercado financeiro, tomado pela companhia emissora junto a particulares. Passo à análise do caso concreto. Para sua análise se faz necessário retroagir ao início do procedimento adotado pela Recorrente. Com base nas DIPJs transmitidas pela autuada, a autoridade fiscal lançadora demonstrou que no ano de 1997 foi realizada a primeira emissão de debêntures pela Recorrente, no valor de R$ 2.000.000,00. O rendimento pago a essas debêntures, no mesmo período, foi de R$ 6.488.528,72, equivalente a 324,4%. Em 1998, os rendimentos foram de R$ 14.725.795,25 (736,3%). Em 1999, o valor do principal das debêntures foi de R$ 4.000.000,00, permanecendo assim até o ano de 2002, com pagamentos de rendimentos sempre superiores a 4 CARVALHOSA, Modesto; Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, 2002, Editora Saraiva, vol.1, p. 647. Fl. 1712DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.713 36 200% ao ano. Em 2003, 2004 e até maio de 2005, o valor de emissão das debêntures foi de R$ 4.600.000,00. Em 2005 foi realizada a emissão de debêntures cujos efeitos tributários perduraram até os períodos de apuração objeto da presente exigência. Tendo em vista que a maior parte da remuneração das debêntures jamais foi distribuída aos sócios, em nenhum desses momentos posteriores (não há informação sobre a emissão inicial, em 1997) houve novo ingresso de recursos: as emissões posteriores sempre foram realizadas utilizandose suposto crédito dos sócios para com a pessoa jurídica, crédito esse advindo da remuneração das debêntures emitidas em períodos anteriores. Desse modo, a emissão realizada em junho de 2005 se deu no montante de R$ 56.562.000,00, gerando remuneração de R$ 21.830.433,66 em de junho a dezembro de 2006 e de R$ 32.692.206,70 em 2007. Para termos uma ideia da magnitude das despesas com debêntures em tal período, de 1997 a 2006 a Recorrente informou em suas DIPJ que remunerou as debêntures no valor de R$ 181.726.575,33! A tabela constante à fl. 440 (Termo de Verificação Fiscal) é bastante ilustrativa, razão pela qual a reproduzo a seguir: A remuneração das debêntures nos períodos sob fiscalização são sintetizados na seguinte tabela: PARTICIPAÇÃO NAS DEBÊNTURES Comp. Valor Mensal Valor Acumulado Comp. Valor Mensal Valor Acumulado 31/01/07 3.722.534,90 3.722.534,90 31/01/08 4.249.338,06 4.249.338,06 28/02/07 3.756.688,65 7.479.223,55 28/02/08 5.371.693,31 9.621.031,37 31/03/07 2.673.452,12 10.152.675,67 31/03/08 3.543.157,89 13.164.189,26 30/04/07 1.148.229,28 11.300.904,95 30/04/08 1.988.434,30 15.152.623,56 31/05/07 1.080.375,49 12.381.280,44 31/05/08 3.191.282,56 18.343.906,12 29/06/07 2.912.712,31 15.293.992,75 29/06/08 3.609.537,86 21.953.443,98 31/07/07 2.204.193,64 17.498.186,39 31/07/08 7.933.777,16 29.887.221,14 31/08/07 8.323.436,04 25.821.622,43 31/08/08 3.853.876,07 33.741.097,21 30/09/07 5.427.795,72 31.249.418,15 30/09/08 1.239.552,25 34.980.649,46 31/10/07 4.057.817,45 35.307.235,60 31/10/08 4.931.294,77 39.911.944,23 30/11/07 1.872.492,90 37.179.728,50 30/11/08 4.217.822,14 44.129.766,37 31/12/07 3.527.084,65 40.706.813,15 31/12/08 1.730.669,20 45.860.435,57 31/12/08 168.693,80 46.029.129,37 Fl. 1713DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.714 37 De forma sucinta, rememoro os passos da dedução de remuneração com debêntures nos anoscalendário de 2007 e de 2008, elementos que devem ser evidentemente analisados em seu conjunto, como, aliás, sempre tem sido feito pelo CARF em situações como essas, uma vez que, se isoladamente considerados, nenhum deles talvez configurasse uma expressa violação à lei: (i) emissão de debêntures em 2005 sem utilização de novos recursos (valores decorrentes de remuneração de emissão anterior de debênture não distribuída aos sócios); (ii) remuneração das debêntures apenas com base em participação nos lucros; (iii) elevado percentual de comprometimento dos lucros com a remuneração das debêntures (78% nos anos em litígio); (iv) emissão privada de debêntures, com subscrição exclusivamente pelos sócios; (v) elevadíssimo retorno financeiro aos beneficiários das debêntures (superior a 13.000% do capital investido, entre a data da emissão das debêntures iniciais, em 1997, e do último fato gerador sob fiscalização, anocalendário de 2008 – R$ 2.000.000,00 investidos para uma remuneração de mais de R$ 260.000.000,00). Não se pode olvidar que o contribuinte tem o direito de estruturar o seu negócio de maneira que melhor lhe convém, com vistas à redução de custos e despesas, inclusive à redução dos tributos, sem que isso implique, necessariamente, qualquer ilegalidade. Entretanto, o que não se admite atualmente é que os atos e negócios praticados se baseiem numa aparente legalidade, sem qualquer finalidade empresarial ou negocial, para disfarçar o real objetivo da operação, quando unicamente almeje reduzir o pagamento de tributos. Nesse sentido, colacionamse a seguir os ensinamentos de Marco Aurélio Greco5: ... a pergunta que se põe é: admitida a existência do direito de o contribuinte organizar a sua vida, este direito pode ser utilizado sem quaisquer restrições? Ou seja, tal direito é ilimitado? Todo e qualquer “planejamento” é admissível? Minha resposta é negativa. (pág. 190) Ou seja, cumpre analisar o tema do planejamento tributário não apenas sob a ótica das formas jurídicas admissíveis, mas também sob o ângulo da sua utilização concreta, do seu funcionamento e dos resultados que geram à luz dos valores básicos de igualdade, solidariedade social e justiça. (pág. 202) [...] com o advento do Código Civil de 2002 a questão ficou solucionada, pois seu artigo 187 é expresso ao prever que o abuso de direito configura ato ilícito: Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boafé ou pelos bons costumes. (pág. 206) No Brasil, entendo que esta possibilidade de recusa de tutela ao ato abusivo (mesmo antes do Código Civil de 2002) encontra base no ordenamento positivo, por decorrer dos princípios 5 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 198208. Fl. 1714DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.715 38 consagrados na Constituição de 1988 e da natureza da figura. Porém, a atitude do Fisco no sentido de desqualificar e requalificar os negócios privados somente poderá ocorrer se puder demonstrar de forma inequívoca que o ato foi abusivo porque sua única ou principal finalidade foi conduzir a um menor pagamento de imposto. Esta conclusão resulta da conjugação dos vários princípios acima expostos e de uma mudança de postura na concepção do fenômeno tributário que não deve mais ser visto como simples agressão ao patrimônio individual, mas como instrumento ligado ao princípio da solidariedade social. (pág. 208) Em suma, não há dúvida de que o contribuinte tem o direito, encartado na Constituição Federal, de organizar sua vida da maneira que melhor julgar. Porém, o exercício deste direito supõe a existência de causas reais que levem a tal atitude. A autoorganização com a finalidade predominante de pagar menos imposto configura abuso de direito, além de poder configurar algum outro tipo de patologia do negócio jurídico, como, por exemplo, a fraude à lei. (pág. 228) Notase, assim, que o direito ao planejamento tributário não pode ser absoluto, há que haver uma conformação entre a existência do direito e o modo como se exerceu esse direito, sob pena de incorrerse em abuso de direito. Ricardo Lobo Torres, a esse respeito, esclarece que “a proibição da elisão abusiva no campo tributário nada mais é que a especificação do princípio geral, jurídico e moral, da vedação do abuso de direito”.6 A tributação, historicamente, sempre contou com a rejeição do povo. Esse o motivo em função do qual foi fixada, em 1215, a limitação à tributação pela lei. Na Inglaterra de então, os barões e os religiosos procuraram conter o arbítrio do Rei, fixando que não haveria tributação sem lei que a estabelecesse. Mais adiante, a Constituição NorteAmericana de 1787 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 reprisaram a limitação. Essa perspectiva, entretanto, sofreu alteração ao longo do tempo. Hoje, a tributação não é mais uma concessão da sociedade em favor do Estado, mas um instrumento da sociedade que tem por finalidade manter uma máquina pública estruturada em favor da própria sociedade. Esse é o sentido do dever fundamental do indivíduo de recolher os tributos devidos. Confirase, a respeito, o pensamento de Klaus Tipke (“Justiça Fiscal e Princípio da Capacidade Contributiva”, Douglas Yamashita, São Paulo, Malheiros, 2002, pág. 13): O dever de pagar impostos é um dever fundamental. O imposto não é meramente um sacrifício, mas sim uma contribuição necessária para que o Estado possa cumprir suas tarefas no interesse do proveitoso convívio de todos os cidadãos. O Direito tributário de um Estado de Direito não é Direito técnico de conteúdo qualquer, mas ramo jurídico orientado por valores. O direito Tributário afeta não só a relação cidadão/Estado, mas também a relação dos cidadãos uns com os outros. É um direito da coletividade. 6 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário. Elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 20. Fl. 1715DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.716 39 A Constituição Federal de 1988 caminhou no sentido defendido por Tipke, quando afirma no seu art. 1º que a República Federativa do Brasil constituise em Estado Democrático de Direito e estipula como seus fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. A atividade produtiva deve cumprir o seu papel social de importância ao desenvolvimento do país e de fonte de manutenção dos membros da sociedade, mas sem que se sobreponha à cidadania e a dignidade humana. O art. 3º da Constituição estipula como objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a garantia do desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza e a marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Para o atingimento desses objetivos é de suma importância os recursos oriundos da tributação, daí que não se pode admitir o planejamento tributário lastreado exclusivamente na liberdade negocial e no respeito às formas, mas com mascaramento dos atos e negócios praticados para disfarçar o real objetivo da operação, unicamente para se esquivar do pagamento dos tributos. O pagamento de tributos é a contrapartida à proteção estatal que cada cidadão aspira. Ele tem muita importância para a coletividade e, por isso, pode ser exigido. Não se pode ter uma fixação por direitos, sob o aspecto individualista, esquecendose dos deveres, que também são importantes e que cada cidadão deve cumprir em função da posição que ocupa na sociedade. Cabível assentar, também, que a orientação constitucional e jurisprudencial antes referida não representa novidade em termos internacionais. Nos Estados Unidos da América, meca do capitalismo e do liberalismo, a Suprema Corte, ao apreciar o caso Gregory v. Helvering, já em 1935, reconheceu o direito de planejamento do contribuinte, mas afastou a licitude de operações societárias nas quais presente choque entre a realidade e o artifício formal. Daquele julgado, que tratou de pretensa operação societária isenta do imposto de renda, colhese o seguinte excerto da decisão (“Interpretação Econômica do Direito Tributário: o caso Gregory v. Helvering e as doutrinas do propósito negocial (business purpose) e da substância sobre a forma (substance over form)”, Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, Revista Fórum de Direito Tributário, Belo Horizonte, nº 43, págs. 55 a 62): Nessas circunstâncias, os fatos falam por eles mesmos e permitem apenas uma única interpretação. O único empreendimento, embora conduzido nos termos do item “b” da seção 112, fora de fato uma forma elaborada e errônea de transposição simulada como reorganização societária, e nada mais. A regra que exclui de consideração o motivo da elisão fiscal não guarda pertinência com a situação presente, porquanto a transação em sua essência não é alcançada pela intenção pura da lei. Sustentarse de outro modo seria uma exaltação do artifício em desfavor da realidade, bem como retirar da previsão legal em questão qualquer propósito sério. É mantido o julgamento de segunda instância. Fl. 1716DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.717 40 Marco Aurélio Greco assevera ainda que “nem tudo o que é lícito é o honesto” e que o “o ordenamento jurídico não se resume à legalidade; ele contempla também mecanismos em última análise de neutralização de esperteza”, fazendo parte daquilo que Tércio Sampaio Ferraz Júnior denomina de regras de calibração do ordenamento. Ou seja, os textos legais dão as peças do sistema jurídico, mas para que funcionem coordenadamente precisam ser calibradas, ajustadas. 7 (grifo nosso) Sobre o tema, Ricardo Lobo Torres conclui que No direito tributário o mais importante para a Administração é requalificar o ato abusivo, sem anulálo em suas consequências no plano das relações comerciais ou trabalhistas.[...] Na elisão, afinal de contas, ocorre um abuso na subsunção do fato à norma tributária; como lembra Paul Kirchhof, a elisão é sempre uma subsunção malograda [...] Cabe à Administração Tributária, conseguintemente, corrigir a subsunção malograda, requalificando o fato de acordo com a interpretação correta da regra de incidência. 8 Discorrendo sobre o tema planejamento tributário, Greco assim se manifesta: Recordando: na primeira fase, predomina a liberdade do contribuinte de agir antes do fato gerador e mediante atos lícitos, salvo simulação; na segunda fase do ainda predomina a liberdade de agir antes do fato gerador e mediante atos lícitos, porém nela o planejamento é contaminado não apenas pela simulação, mas também pelas outras patologias do negócio jurídico, como o abuso de direito e a fraude à lei. Na terceira fase, acrescentase um outro ingrediente que é o princípio da capacidade contributiva que – por ser um princípio constitucional tributário – acaba por eliminar o predomínio da liberdade, para temperála com a solidariedade social inerente à capacidade contributiva. 9 (grifo nosso) Salienta ainda o doutrinador que a capacidade contributiva é uma norma programática “possuindo caráter positivo em todos os momentos da atividade de concreção dos preceitos constitucionais: legislação, execução e jurisdição. É a afirmação de que a eficácia jurídica alcança os intérpretes e aplicadores do Direito e não apenas o legislador” 10. (grifo nosso) Acrescenta ainda que se trata de instrumentos de controle do abuso de direito, fraude à lei e outras patologias dos negócios jurídicos, uma vez que negariam a eficácia de regramentos constitucionais.11 7 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 231. 8 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário. Elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 25. 9 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 319. 10 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 343. 11 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 344. Fl. 1717DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.718 41 O Supremo Tribunal Federal já vêm se manifestando nesse sentido, como é possível observar no voto do Ministro Carlos Velloso no julgamento do RE nº 227.8321 DJ de 28.06.2002), cujo excerto transcrevese a seguir: [...] a interpretação puramente literal e isolada do §3º do art. 155 da Constituição Federal levaria ao absurdo, conforme linhas atrás registramos, de ficarem excepcionadas do princípio inscrito no art. 195, caput, da mesma Carta – “a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei...” – empresas de grande porte, as empresas de mineração, as distribuidoras de derivados de petróleo, as distribuidoras de eletricidade e as que executam serviços de telecomunicações – o que não se coaduna com o sistema da Constituição, e ofensiva, tal modo de interpretar isoladamente o § 3º do art. 155, a princípios constitucionais outros, como o da igualdade (C.F., artigo 5º e artigo 150, II) e da capacidade contributiva. A respeito da colisão entre liberdade de iniciativa e solidariedade, Greco, em excepcional análise sobre o tema, conclui: [...] quando se diz que é preciso tributar segundo a capacidade contributiva, também é preciso ponderar não ser adequado transformar a capacidade contributiva num valor absoluto que atropele a legalidade e a tipicidade. [...] Minha concepção ideológica é de que sempre haverá de ponderar os dois conjuntos de valores; ou seja, para mim o ponto de partida é o de que ambos devem estar sentados à mesa para dialogar. Vale dizer, não é a rigor um “ponto” de partida, mas uma “dualidade” de partida. Não há caso que não envolva dois tipos de valores. Isso está escrito com todas as letras no artigo 3º, I, da Constituição de 1988 – quando formula os objetivos do Estado brasileiro – ao estabelecer que um deles é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Formulação linguística muito feliz, pois coloca numa ponta a liberdade (típica do Estado de Direito) e, na outra ponta, a solidariedade (típica do Estado Social) e entre elas a justiça que resultará da ponderação das duas. Ou seja, só vamos ter justiça se e quando houver ponderação entre os valores liberdade e solidariedade. 12 (grifo nosso) Portanto, o procedimento adotado pela autoridade fiscal encontrase em total sintonia com os princípios da legalidade e da livre iniciativa, encontrando eco não só na doutrina, mas também na jurisprudência, inclusive do Pretório Excelso. Também não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica ou de atos jurídicos. O que houve, na prática, foi uma requalificação dos atos realizados pelo contribuinte, prática adotada como regra de calibração do sistema (conforme Tércio Sampaio Ferraz Júnior), ou de “neutralização de esperteza”, nas palavras de Marco Aurélio Greco. Portanto, as alegações da Recorrente quanto à ausência de normas para o procedimento adotado pela fiscalização, ou possíveis infringências da autoridade fiscal ao 12 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 5354. Fl. 1718DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.719 42 princípio da legalidade, mostramse superadas, quer pela doutrina, quer pela jurisprudência do Pretório Excelso. Também não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica ou de atos jurídicos. O que houve, na prática, foi uma requalificação dos atos realizados pelo contribuinte, prática adotada como regra de calibração do sistema (conforme Tércio Sampaio Ferraz Júnior), ou de “neutralização de esperteza”, nas palavras de Marco Aurélio Greco. A fim ainda de evitar maiores questionamentos, devemos responder se é necessária a descrição do conceito jurídico em que se enquadram determinados fatos. Marco Aurélio Greco assim expôs sobre o tema: [...] o foco da prova neste campo não é determinado conceito jurídico que expresse uma patologia do negócio jurídico. Ou seja, o foco da prova no planejamento tributário não é a simulação, a fraude à lei ou o abuso em si mesmos considerados. O reconhecimento da existência de um caso de simulação, fraude ou abuso será decorrência de uma prova anteriormente produzida que estará focada no caso em si, naquilo que ocorreu em função da conclusão que se extrair a partir disto, então, será possível afirmar ter ou não ocorrido a patologia do negócio jurídico. Por isso, pouco ajuda iniciar o debate sobre a prova pensando numa das patologias. Ao contrário, pensar nelas ofusca a análise e lança na bruma exatamente aquilo que deve ser o núcleo da preocupação nessa análise. Em suma, o tema da prova no planejamento tributário não é um debate “conceitual” ligado às patologias. 13 (grifo nosso) [..] Provar o que não está escrito O primeiro ponto sensível é ter bem nítido que aquilo que deve ser provado é que não está escrito. Objeto da prova no planejamento tributário transcende o texto escrito. 14 [...] Provar o ocorrido O segundo ponto consiste em determinar o que ocorreu, se aquilo descrito no texto ou se outro evento. A prova direta de que teria ocorrido evento diverso daquele descrito no texto raramente existe. É uma exceção. Pode existir a prova direta de alguns elementos ou aspectos de algo mais amplo, mas a prova do planejamento tributário realizado se dá, 13 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 191. 14 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 194. Fl. 1719DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.720 43 como regra, através do exame do conjunto de elementos que cercam o caso. 15 Manifestar vontade sem escrever [...] No planejamento, buscase provar certa operação ou negócio, o que envolve identificar a vontade manifestada pelas partes. Ocorre que a vontade pode ser manifestada tanto pela palavra escrita, como pela conduta humana. O agir, independente de estar acompanhado de palavras, é uma forma suficiente de o ser humano manifestar sua vontade. Portanto, se a prova, neste campo, visa demonstrar algo que não está escrito – mas que corresponda à manifestação de vontade das partes – assume relevância a identificação do agir das partes. [...] Ou seja, a somatória de escritos e condutas pode adquirir um perfil não coincidente com o texto escrito a denotar a existência de uma intenção que consubstancia manifestação de vontade diferente daquela que resultar apenas do texto. 16 Conflito de qualificações [...] A experiência jurídica apresenta muito frequentemente situações em que há conflitos de qualificação; vale dizer, em que distintas pessoas enquadram os mesmos fatos em categorias distintas. Isto é facilmente identificado na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça naquilo que é denominado de “qualificação ou valoração jurídica de fato certo”. São casos em que, apesar de o Tribunal não poder rever a prova dos fatos, assume serem eles certos, mas reconhece que as partes não estão discutindo sobre a existência do fato, mas sobre a sua valoração ou qualificação. 17 Comportamento concludente Na medida em que o foco da análise abrange o que está escrito, mas também as condutas realizadas, assume relevância o denominado “comportamento concludente”, que corresponde à ação que denota certa manifestação de vontade ainda que não expressa em palavras. 15 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 194. 16 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 196. 17 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 197. Fl. 1720DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.721 44 Esta ideia não é original; está subjacente ao preceito do Código Comercial que, apesar de ter sido revogado, permanece como critério de interpretação. Tratase do artigo 131.3 que previa claramente que “o fato dos contraentes posterior ao contrato, que tiver relação com o objeto principal, será a melhor explicação da vontade que as partes tiverem no ato de celebração do mesmo contrato”. Vale dizer, para bem explicar qual o sentido do contrato, cumpre verificar como as partes se comportaram, que ação realizaram, pois esta deve estar em sintonia com o negócio jurídico celebrado e, se houver discrepância entre o texto escrito e o comportamento, “a melhor explicação” é a que resulta deste comportamento e não do que foi escrito pelas partes. Este mesmo entendimento se extrai do artigo 112 do Código Civil, ao acentuar que a literalidade das palavras não é decisiva quando for possível identificar a intenção consubstanciada no texto, o que se dá verificando o comportamento realizado pelas partes. 18 Exame do contexto Examinar o contexto da operação realizada implica examinar seus antecedentes e consequentes, onde se encontram, respectivamente o motivo e a finalidade do ato ou negócio. Motivo da operação deve ser uma razão prévia e real, enquanto finalidade da operação deve predominantemente não tributária. Sublinhese que esta finalidade (ou a intenção acima referida) é a objetiva, que resulta dos fatos e das condutas; não se trata de uma finalidade ou intenção subjetiva que estaria na mente das pessoas. Motivo que não seja real e prévio à operação, assim como finalidade exclusiva ou predominantemente tributária são razões que fragilizam, ou mesmo contaminam, planejamentos tributários feitos. 19 Distribuição do ônus da prova Em operações de planejamento tributário, contribuinte e Fisco podem ser chamados a prova fatos relevantes para a conclusão que postulam. Do lado do contribuinte, na medida em que motivo e finalidade passam a ser relevantes para a oponibilidade da operação e de seus efeitos ao Fisco, dele esperase uma justificativa do porquê e do para quê realizou a operação. Se o contribuinte não justificar o que fez, isto não é suficiente para autorizar o Fisco a cobrar, mas sua posição na discussão se fragiliza pois, se não 18 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 199. 19 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 200. Fl. 1721DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.722 45 explica o motivo e a finalidade, abrese maior espaço para o Fisco caminhar na construção da sua qualificação dos fatos. Como provar [...] a falta de inerência, de relevância (entre motivo e operação), ou a falta de pertinência (entre operação e finalidade) bem como a falta de congruência entre os três elementos é um indicador de a operação apresentada pelo contribuinte não ser aquela que resulta dos textos e das condutas, mas o que realmente existiu foi outra operação, esta sim que atende a outra estrutura de inerência, relevância, pertinência e congruência. 20 Portanto, vêse com cristalina clareza que o mais importante é a correta descrição dos fatos e não sua qualificação. Nesse aspecto, a Fiscalização foi exemplar: preocupouse mais com os fatos efetivamente ocorridos do que com sua qualificação jurídica. E isso, repisese, em nada prejudicou a Recorrente, que pôde se defender de todos os pontos abordados na autuação. Retornando ao caso concreto, ressalta aos olhos o posicionamento artificial da Recorrente em face das leis de regência de cunhos societário e fiscal. A meu ver restou caracterizada a distribuição disfarçada de lucros em razão da realização de negócios em condições de favorecimento à pessoa ligada, ou seja, em condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que aquelas que prevaleceriam no mercado. Entendo que a operação em questão, nem de longe, se amolda às operações típicas envolvendo debêntures, tratandose, em realidade, de operação absolutamente artificial cujo propósito foi, exclusivamente, diminuir as bases de cálculo de IRPJ e de CSLL, reduzindo em 34% do valor da remuneração paga o valor a recolher de IRPJ de CSLL, substituindoos por uma tributação de imposto de renda exclusiva na fonte que deveria ser de 20%, uma vez que nem esse valor foi retido pela Recorrente. Relativamente aos argumentos da Recorrente de que a operação teria sido usual e o montante empregado na capitalização da empresa, bem como na realização de investimentos que redundaram em valorização do negócio a ponto de despertar o interesse da aquisição a grupos de investidores estrangeiros, discordo totalmente da relação e causa e efeito: não foi a emissão das debêntures que ocasionou tal disponibilidade de caixa, pois os valores em questão foram praticamente gerados pela própria empresa em razão de suas operações normais, ou seja, do próprio lucro da pessoa jurídica. Ou seja, bastaria não haver a distribuição de lucros para que a empresa já tivesse disponível os recursos para tais investimentos, isso porque não houve ingresso de novos recursos com a emissão das debêntures. Por essas razões, não faria qualquer sentido a necessidade de que a autoridade fiscal visitasse as instalações da pessoa jurídica, como alega a Recorrente, a fim de que pudesse averiguar se os valores relativos às debêntures efetivamente haviam sido aplicados em investimentos de tamanho retorno à autuada. 20 GRECO, Marco Aurélio. A Prova no Planejamento Tributário. In: NEDER, Marcos Vinícius, DINIZ DE SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010, p. 201. Fl. 1722DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.723 46 Além disso, resta evidente que não é usual o comprometimento de 78% do resultado da empresa mediante remuneração a debenturistas. Comprometer o resultado real da empresa nessas proporções só tem explicação porque os próprios beneficiários do lucro da pessoa jurídica é que se beneficiaram também da remuneração de debêntures. Ou seria possível imaginarse que a empresa abriria mão da maior parte de seus lucros para remunerar terceiros, e a taxas efetivas que facilmente ultrapassavam a 100% de juros anuais? Obviamente que não. Com efeito, tratase, a toda evidência, de operação cujo único objetivo foi o de transferir aos titulares valores que, de outra forma, deveriam primeiro ser tributados, tanto a título de IRPJ como de CSLL. O único benefício que se pode observar para a empresa foi justamente a buscada economia de IRPJ e CSLL levada a efeito por meio de distribuição de lucros, de forma disfarçada, aos seus sócios. Ademais, a operação de emissão de debêntures iniciouse, pelo menos, em 199721 sendo sucessivamente renovada com valores cada vez mais expressivos e oriundos da própria remuneração de debêntures lançada anteriormente, remanescendo e aumentando, a cada período, a obrigação de remunerar os sócios, tendo como consequência a redução drástica do IRPJ e da CSLL devidos no período. Ora, se o objetivo realmente fosse o de capitalizar a empresa para tais investimentos, o resgate dos títulos já deveria ter sido feito, até porque restou comprovado que o capital dos sócios foi remunerado, em pouco mais de uma década, em mais de 13.000%, o que não parece razoável, tampouco se encontra dentro dos parâmetros de mercado. Por essas mesmas razões, não é possível fazer o "corte" temporal que a defesa procurou explorar em seu recurso: a existência ou não de disponibilidade de caixa na data da emissão das debêntures objeto da presente lide é irrelevante, pois os recursos não foram disponibilizados à pessoa jurídica a partir dessa emissão, muito antes pelo contrário, tais recursos advieram da multiplicação exponencial da remuneração das debêntures emitidas, ao menos, a partir de 1997, remuneração essa praticamente não distribuída a seus sócios e que, conforme já abordado, teve origem, em realidade, nas operações normais da pessoa jurídica , de modo que estariam disponíveis independentemente das emissões de debêntures, bastando a pessoa jurídica não distribuir tal parcela de verdadeiro lucro aos seus sócios. De toda forma, não há de se falar em comparação com taxas de juros e outros tipos de remuneração de mercado, até porque o cerne da questão não é o retorno financeiro em si, mas o fato de que a operação foi realizada de modo artificial, em claro benefício dos sócios e prejuízo à tributação. Conforme já abordado, se por um lado é certo que a pessoa jurídica, escorada no princípio da livre iniciativa, pode organizar seus negócios nos moldes que melhor lhe convier, por outro lado, não se mostra razoável admitirse que atos artificiais, sem qualquer outro propósito negocial que não seja a própria economia tributária, sejam utilizados a fim de diminuir a carga tributária incidente sobre as operações pessoa jurídica. 21 É importante ressaltar, inclusive, que em nenhum momento houve apresentação, por parte da Recorrente, do livro de registro das debêntures, tampouco de seus certificados, o que denota, inclusive, falhas do ponto de vista formal em relação às emissões de debêntures. No mesmo sentido, embora intimada, a Recorrente não apresentou quaisquer informações sobre as debêntures supostamente emitidas em 1997, alegando não mais possuir a documentação pertinente. Fl. 1723DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.724 47 A profundidade do procedimento levado a efeito pela autoridade fiscal, e consubstanciada no Termo de Verificação Fiscal, permite concluir, com segurança e certeza, que a autoridade fiscal descreveu, de forma compreensiva, uma operação artificial com a precípua ou única finalidade de indevidamente suprimir tributos, pelo que não procedem os argumentos de defesa da Recorrente. Resta evidente, desse modo, que a emissão das debêntures foi apenas um artifício criado pela empresa para retirar da base de cálculo do IRPJ e da CSLL parte significativa do lucro, que fica separada numa conta do Passivo Realizável a Longo Prazo. A medida em que a autuada pagava valores aos sócios, sob quaisquer pretextos, estes valores eram lançados a débito da conta de provisão de debêntures, diminuindo seu saldo, dando uma aparente validade jurídica para o suposto pagamento de remuneração de debêntures, que, a bem da verdade, tratavase de distribuição de lucro, indedutível das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Nesse cenário, é fácil concluir que a Recorrente utilizouse de tal operação não para alavancar seus negócios, mas para artificialmente reduzir o resultado tributável por meio da criação de despesas supostamente dedutíveis, sem, contudo, diminuir os valores a que seus sócios fariam jus, tudo ao arrepio da legislação tributária. Como consequência, concluise que a operação engendrada pela Recorrente caracterizase como distribuição disfarçada de lucros. Se o objetivo da empresa era a captação de recursos para a consecução de seus objetivos, poderiam ter sido adotadas outras formas de transferência de capital proporcionando o alcance dos mesmos resultados perseguidos sem a necessidade de redução de 78% da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, como, por exemplo, a capitalização, que, na essência, foi o negócio verdadeiramente praticado pela empresa, o qual esta denominou como emissão de debêntures. Ou seja, lançouse mão, assim, exclusivamente da forma, em detrimento de sua respectiva substância jurídica, para respaldar a redução da base tributária do imposto, o que, hodiernamente, não mais se admite. Outros pontos merecem ainda ser abordados. Para tanto, valhome mão dos argumentos tecidos pelo Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé no acórdão 1201 001.412, com as adaptações necessárias ao caso concreto. A caracterização destas despesas, pela fiscalização, como distribuição disfarçada de lucros, tem o condão de determinar que a tributação deva se dar apenas pela diferença com relação ao valor que seria ordinariamente pago pela contribuinte em operações de mercado, e não pela integralidade daquelas despesas? Reproduzse a seguir os dispositivos legais pertinentes: Art. 464. Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, e Decreto Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso II): [...] VI realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa Fl. 1724DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.725 48 ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. [...] § 3º A prova de que o negócio foi realizado no interesse da pessoa jurídica e em condições estritamente comutativas, ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros, exclui a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, § 2º). [grifo nosso] Art. 467. Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 62, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, incisos VII e VIII): [...] V no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de favorecimento, não serão dedutíveis. Conforme visto, tratase de presunção legal, cujo condão é o de transferir o ônus da prova de sua desconstituição para o sujeito passivo, conforme, aliás, expressa ressalva do parágrafo 3º do art. 464, acima transcrito. Ao sujeito passivo, portanto, para que fosse afastada a presunção, caberia fazer a prova "de que o negócio foi realizado no interesse da pessoa jurídica e em condições estritamente comutativas, ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros" [grifo nosso]. São duas, portanto, as condições para o afastamento da presunção. A despeito das alegações recursais no sentido de que a remuneração das debêntures não teria excedido os valores das despesas com as quais a contribuinte normalmente teria de arcar se contratasse com terceiros (segunda condição), e das manifestações da douta PFN, em sede de contrarrazões, de que esta prova não teria sido adequadamente feita pela Recorrente (e de que nem poderia a Recorrente, lógica e racionalmente, à época, em 2005, conhecer as variáveis que definiriam se era mais vantajoso obter empréstimo via mútuo ou debêntures para os anos subsequentes), o fato é que não houve prova alguma de que o negócio tenha sido realizado no interesse da pessoa jurídica (primeira condição). Ao contrário, restou suficientemente demonstrado que o alegado motivo para a capitalização da empresa por meio da emissão de debêntures não se sustenta, sendo que o verdadeiro propósito da operação foi o de apenas lograr obter uma indevida redução dos tributos devidos. E, sem sombra de dúvidas, não é do interesse da pessoa jurídica produzir lucros para terceiros. Portanto, não restou desconstituída pela Recorrente a presunção legal. Há que se atentar, agora, à seguinte peculiaridade da referida presunção legal. Quando a lei trata da possibilidade de sua desconstituição, pelo sujeito passivo, de fato é feita referência aos parâmetros de mercado com os quais a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Apenas neste aspecto é que faria algum sentido acaso já não se tivesse aqui afastado a pretensão da Recorrente de desconstituição da presunção recorrerse a um comparativo com taxas de juros praticadas pelos bancos em operações de mercado, como quer a Recorrente. Fl. 1725DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.726 49 Contudo, ao tratar da específica hipótese de configuração da presunção de distribuição disfarçada de lucros de que aqui se trata, a lei traz uma redação mais ampla, pois define que esta resta caracterizada, também, quando forem realizados negócios em condições de favorecimento à pessoa ligada, ou seja, em condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que aquelas que prevaleceriam no mercado. Não é por outro motivo, aliás, que o CARF, por exemplo, em precedente do qual este conselheiro não participou, entendeu que o comparativo deveria ser feito com índices tais como o IGPM + 6%, NTNC, e 100% do CDI (Acórdão nº 10197.021), ou seja, índices que refletem a expectativa de retorno esperado por uma pessoa física em aplicações de renda fixa (títulos públicos, e fundos de renda fixa, atrelados ou não ao DI Depósito Interbancário), e não em índices que reflitam o custo de captação de recursos, pela empresa, junto ao mercado financeiro, conforme quer a recorrente (taxa média de juros para conta garantida). Portanto, se alguma diferença houvesse de ser apurada, para fins de tributação a título de distribuição disfarçada de lucros, esta haveria de ser com relação aos primeiros mencionados índices, ou quiçá com relação à Selic ou à TJLP, mas não com relação aos índices reclamados pela Recorrente. Este é o primeiro ponto a ser observado. Entretanto, e basicamente, ao se analisar a questão da distribuição disfarçada de lucros sob a ótica da condição mais vantajosa, para a pessoa ligada, do que aquelas que esta mesma pessoa ligada lograria obter no mercado, então, com a devida vênia, não se há de argumentar pela dedução de qualquer valor, com relação àqueles que foram objeto de lançamento nos anos de [...]. Não é necessário maior esforço argumentativo para demonstrar que, sob qualquer parâmetro, jamais lograriam as pessoas ligadas obter semelhante remuneração àquela obtida por meio das operações engendradas pela recorrente, e que, neste sentido, é absolutamente despropositado cogitarse de eventual dedução, ano a ano, frente a tais parâmetros de remuneração (aplicações de renda fixa), quando a fiscalização já demonstrara que, apenas nos dois primeiros anos da operação, já haviam obtido os debenturistas mais do que o integral retorno de todo o capital investido. Até o final do ano anterior aos lançamentos fiscais de que aqui se trata, por exemplo, ou seja, o ano de 2007, a remuneração já havia atingido 413,38%22. Diante de tal cenário, com a devida vênia, de há muito que os pagamentos efetuados já haviam configurado uma integral e indevida vantagem aos sócios debenturistas. Rejeito, portanto, no caso concreto, o argumento recursal de cálculo da distribuição disfarçada de lucros tendo por base apenas a diferença entre o valor da remuneração atribuída às debêntures e o valor da eventual despesa apurada com base em quaisquer taxas de juros do mercado financeiro. 22 No caso concreto, a fiscalização já demonstrara que, que no primeiro ano em que consta a emissão de debêntures (1997), no valor de R$ 2.000.000,00, o rendimento pago a essas debêntures, no mesmo período, foi de R$ 6.488.528,72, equivalente a 324,4%, ou seja, já haviam obtido os debenturistas mais do que o triplo de todo o capital investido. Até o final do período de apuração objeto do presente lançamento, ou seja, o ano de 2008, a remuneração já havia ultrapassado 13.000% se comparado com o valor inicialmente emitido e capitalizado pela própria remuneração e novas emissões de debêntures com os mesmos valores (R$ 2.000.000,00 investidos para uma remuneração de mais de R$ 260.000.000,00). Fl. 1726DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.727 50 De se ressaltar que o quanto exposto com relação ao IRPJ aplicase integralmente também à CSLL, em razão da expressa previsão legal contida no art. 60 da Lei nº 9.532/97, aliás, expressamente mencionado nos autos de infração lavrados (fl. 420): Art. 60. O valor dos lucros distribuídos disfarçadamente, de que tratam os arts. 60 a 62 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, com as alterações do art. 20 do DecretoLei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983, serão, também, adicionados ao lucro líquido para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido. Além disso, do mesmo modo realizado pela autoridade fiscal lançadora, como argumento complementar, não há como se enquadrar tais dispêndios como despesas normais, usuais ou ainda necessárias à realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. Logo, não restam também preenchidas as condições para serem consideradas dedutíveis, a teor do que dispõe o art. 47 da Lei nº 4.506/1964 (art. 299 do RIR/99). No mérito, portanto, mantenho a exação em sua integralidade. 3.2 DA MULTA QUALIFICADA A decisão recorrida, assim justifica a exasperação da penalidade: [...] as ações caracterizadas como sonegação ou fraude (o conluio é o ajuste que combina ambas), nos termos acima definidos, são as que autorizam a qualificação da multa. Ocorre que o contribuinte manteve reiteradamente a prática da infração durante diversos períodos consecutivos. Restou caracterizada nos autos a conduta do contribuinte de “criar artificialmente despesas supostamente dedutíveis, com o único intuito de suprimir ou reduzir o pagamento do imposto e contribuição social”, por meio ato simulado, na medida em que a operação de emissão de debêntures com previsão de participação exorbitante nos lucros não tem em si os pressupostos para sua validade: (1) partes independentes (os debenturistas foram os próprios acionistas da companhia) e (2) entrada de dinheiro novo (a própria Impugnante diz na defesa que “o fato (...), de não ter havido o fluxo financeiro na medida em que os recursos dos acionistasdebenturistas já estavam no caixa da Impugnante, (...) em nada maculam a operação”). Tal conduta se fez no intuito único de subtrair parcela considerável do lucro tributável, como forma de evitar a incidência do imposto e contribuição social devidos. Vislumbrase, nessa montagem, a sonegação ou a fraude, nos termos definidos na Lei 4.502, de 1964 (acima transcrito). Por sua vez, a simulação (uma das formas de fraude fiscal) é um defeito do ato jurídico e está expressamente regulada, nos artigos 102 a 105, do Código Civil Brasileiro. Essencialmente, como vício do contrato, a simulação afasta a liberdade de contratar. Ocorre que na simulação existe uma ocultação da verdade na declaração. Importante também salientar uma classificação do ato simulado que o subdivide em: simulação inocente ou maliciosa. É inocente, quando não existe intuito de violar a Fl. 1727DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.728 51 lei ou de lesar outrem. Havendo, porém, intenção de prejudicar a terceiros ou de violar a lei, a simulação é maliciosa. No caso, a simulação foi maliciosa, pois violou a lei fiscal brasileira, uma vez que foram criadas artificialmente despesas no intuito de reduzir indevidamente o lucro real da pessoa jurídica que simulou operação de emissão de debêntures cujos debenturistas foram os próprios acionistas da companhia (pessoas ligadas à pessoa jurídica), sem entrada de dinheiro novo na caixa da empresa e com a participação exorbitante no lucro operacional, estipulado como prêmio aos debenturistas. Portanto, no TVF, restou devidamente caracterizado o evidente intuito de fraude decorrente de ações que implicam em sonegação ou fraude (definidas na Lei 4.502, de 1964), fato esse suficiente para autorizar a qualificação da multa de ofício, no percentual de 150%. Discordo de tal entendimento. Antes de adentrar na análise do caso concreto, entendo ser necessário separar o que sejam atos elisivos em contraposição aos atos evasivos. O planejamento tributário se caracteriza, na maior parte das situações, pelo seu caráter preventivo. Isto significa que as diversas alternativas existentes são analisadas e avaliadas antes da ocorrência do fato gerador do tributo. Desse modo, o contribuinte que pretende planejar, com vista à economia de impostos, terá de dirigir a sua atenção para o período anterior à ocorrência do fato gerador e nesse período adotar as opções legais disponíveis. Alguns autores utilizam expressões para definir o tipo de ato praticado pelo contribuinte. Temos, basicamente: elisão, evasão e elusão. A denominada elisão equivaleria a um planejamento tributário consistente. Tratase de obtenção de economia de imposto obtida por interpretação razoável da lei tributária. Para alguns autores ainda existe o denominado planejamento tributário abusivo. Nesse caso, no entender de Ricardo Lobo Torres a economia tributária seria praticada a partir de um ato revestido de forma jurídica que não se subsume na descrição abstrata da lei ou no seu espírito23. Para Marco Aurélio Greco, teríamos, aqui, a denominada fraude à lei (imperativa), não caracterizando fraude, mas, por afronta ao princípio da capacidade contributiva, daria azo ao pagamento do tributo correspondente. A não caracterização de fraude implicaria, por conseguinte, a ausência de repercussão penal.24 Roberto Lobo Torres, apontando teses do direito internacional, assinala dois testes para detectar a elisão abusiva: - propósito negocial (business purpose test): não devem surtir efeitos contra o Fisco os negócios jurídicos que tenham por finalidade única a obtenção de economia de tributos; 23 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 8. 24 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. 3. ed. São Paulo: Dialética, 2011. Fl. 1728DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.729 52 - proporcionalidade: considerase abuso de forma a escolha de forma jurídica inadequada que resulte numa vantagem não prevista em lei sem que o contribuinte comprove o fundamento não tributário da escolha, de acordo com o quadro geral das circunstâncias25. Para esse doutrinador, o planejamento tributário abusivo “se restringe ao abuso da possibilidade expressa da letra da lei e dos conceitos jurídicos indeterminados; iniciase com a manipulação de formas jurídicas lícitas para culminar na ilicitude atípica ínsita ao abuso de direito (art. 187 do Código Civil).”26 Heleno Tôrres27 denomina como elusão tributária os casos de elisão ilícita. A elisão poderia ser definida como as opções legítimas que o ordenamento apresenta ao contribuinte, já a elisão com abuso de direito, ou elusão, se restringiria aos casos em que o contribuinte, utilizandose de liberdades negociais, utiliza negócio jurídico legítimo e válido, mas com causa alheia àquela natural do negócio, com o intuito único de economia tributária. Já a chamada evasão se dá após a ocorrência do fato gerador, consistindo em sua ocultação “com o objetivo de não pagar o tributo devido de acordo com a lei, sem qualquer modificação na estrutura da obrigação ou na responsabilidade do contribuinte.[...] Compreende a sonegação, a simulação, o conluio e a fraude contra a lei, que consistem na falsificação de documentos fiscais, na prestação de informações falsas ou na inserção de elementos inexatos nos livros fiscais, com o objetivo de não pagar o tributo ou de pagar importância inferior à devida. É, também, crime definido pela lei penal. Não se confundem a fraude à lei, que é forma de elisão abusiva, e a fraude contra legem, que é evasão ilícita”.28 Marco Aurélio Greco esclarece quais as reações do ordenamento jurídico diante da simulação, abuso de direito e fraude à lei: Na simulação – seja vista da perspectiva da vontade ou do motivo/causa – sempre há um negócio real e um aparente (ou apenas aparente no caso de pura mentira). A reação do ordenamento é considerar ocorrido o negócio real e ignorar o negócio aparente. Aplicase a lei pertinente ao negócio real (ou ao nenhum negócio). No abuso de direito, como o problema é o excesso no seu exercício, neutraliza se o excesso e negase a tutela jurídica apenas a essa parte. Portanto, é um caso de ineficácia parcial do que foi feito. Na fraude à lei, buscase contornar determinada norma imperativa, mediante a utilização de outra norma (ou ausência de previsão expressa). Neste caso, o ordenamento reage aplicando a norma contornada. Se o contribuinte, por hipótese, quis gerar um ágio para evitar a reavaliação tributada, aplicase a norma da reavaliação. Fezse uma cisão seletiva para contornar o ganho de 25 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 8. 26 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 9. 27 TÔRRES, Heleno Taveira. Direito Tributário e direito privado: autonomia privada, simulação, elusão tributária. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003; pp. 189 e 190. 28 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 910. Fl. 1729DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.730 53 capital na alienação de participação societária, aplicase a norma do ganho de capital. Notese a diferença: no abuso de direito há uma norma, um direito e um excesso no seu exercício; na simulação há duas causas ou duas vontades para uma única norma; na fraude à lei, são duas normas para um único ato. Para figuras diferentes, reações diferentes do ordenamento jurídico diante da sua ocorrência.” 29 Em resumo: A elisão precede a ocorrência do fato gerador no mundo fenomênico. A sonegação e a fraude (= evasão) dãose após a ocorrência daquele fato.30 Podemos assim resumir as questões: Figura Nomenclatura Momento Crime Multa Observações Planejamento Tributário Antes do Fato Gerador Não Planejamento Tributário Abusivo ou Elusão Antes do Fato Gerador Não "Comum" (75%) Abuso de Direito, Fraude à Lei Evasão Sonegação, Fraude (=Dolo) Após o Fato Gerador Sim Qualificada (150%) Sonegação, Fraude ou Conluio Elisão No caso concreto, não tenho dúvidas de que a conduta praticada pela autuada enquadrase no conceito de elisão abusiva, uma vez que as provas coligidas indicam que todos os atos foram praticados antes da ocorrência do fato gerador, devidamente contabilizados e calcados em documentos formalmente corretos. Nesse cenário, quer se enquadre tal conduta como abuso de direito (o que implica a requalificação dos fatos), ou como fraude à lei (aplicandose a lei imperativa para cálculo da exação), não há que se falar em fraude contra a lei de que trata o art. 72 da Lei nº 4.502/64. Também não há que se falar em sonegação (art. 71 da Lei nº 4.502/64), uma vez que todos os atos foram devidamente declarados à Receita Federal, excluindose a possibilidade de ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. A questão atinente à artificialidade da operação limitase aos contornos das patologias de abuso de direito ou de fraude à lei, o que, conforme já observado, não implicam afronta direta à lei, mas sim utilização de dispositivo legal com excesso no seu gozo (abuso de direito) ou contorno de determinada norma imperativa mediante a utilização de outra norma, denominada norma de contorno (fraude à lei). Tanto o abuso de direito quanto a fraude à lei são institutos previstos na lei civil, com características próprias, mas não foram eleitos pelo legislador tributário como razão para qualificação da penalidade. 29 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. 3. ed. São Paulo: Dialética, 2011. p. 285286. 30 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 8. Fl. 1730DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.731 54 Portanto, tratandose de planejamento tributário, ainda que abusivo, entendo não restar caracterizado o dolo apto a ensejar a qualificação da penalidade, mormente quando não há ocultação da prática e da intenção final dos negócios levados a efeito. Além do mais, não se pode esquecer que a autuação como distribuição disfarçada de lucros se calca em presunção legal, aplicandose, com as adaptações necessárias, o disposto na Súmula CARF nº 1431, haja vista a ausência de comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Como argumento adicional, não há como ignorar que à época dos fatos geradores havia doutrina de peso que endossava o procedimento adotado pela autuada. Logo, ausentes elementos que permitam enquadrar a conduta da autuada nos conceitos de sonegação, fraude ou conluio (arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64), voto por reduzir a penalidade para 75%. 3.3 AQUISIÇÃO DE CONTROLE ACIONÁRIO E RESPONSABILIDADE PELA MULTA A questão diz respeito à exigibilidade da multa de ofício aplicada sobre pessoa jurídica que, entre a data da ocorrência do fato gerador e a data da formalização da exigência, teve seu controle acionário alterado. Segundo a Recorrente, não seria possível responsabilizála por multas impostas a condutas supostamente praticadas, uma vez que a autuação foi formalizada em momento posterior à aquisição das ações que implicaram a troca de seu controle. Aduz que a interpretação dos artigos 128 a 133 do CTN não permitiriam a cobrança da penalidade nessa circunstância. Discordo veementemente de tal argumento. A pessoa jurídica é absolutamente a mesma na época da ocorrência dos fatos geradores e no momento da lavratura dos autos de infração guerreados, pois não houve fusão, incorporação ou cisão de empresas. O que se alterou foi o controle da pessoa jurídica, hipótese de forma alguma abarcada pelos dispositivos legais em questão. Hipótese distinta seria se houve atribuição de responsabilidade tributária aos novos controladores, o que, frisese, não é o caso dos autos. De toda forma, ainda que estivéssemos a tratar de sucessão empresarial da pessoa jurídica, a exigência da multa de ofício persistiria. A discussão sobre a exigibilidade da multa de ofício aplicada sobre sucessora relativa à infração cometida pela sucedida, mas somente cominada pelo Fisco após a data da reestruturação societária, foi inteiramente pacificada pelo STJ. Por muito tempo a questão suscitou profundas discussões, em especial se prevaleceria a literalidade do disposto no art. 132 do CTN, o qual dispõe que a responsabilidade da sucessora somente diz respeito aos tributos devidos pela sucedida, ou se a interpretação de tal dispositivo deveria levar em consideração o art. 129 do Estatuto Tributário, qual seja, a responsabilidade diria ao respeito ao crédito tributário devido pelo sucedido, o que 31 Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Fl. 1731DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.732 55 implicaria, por consequência, a responsabilidade dos sucessores também por penalidades aplicadas aos sucedidos. Pois bem, o STJ, no julgamento do REsp nº 923.012/MG sob o rito dos recursos repetitivos (art. 543C do CPC/1973) dirimiu de forma definitiva a questão, de forma que, a teor do que dispõe o art. 62, § 1º, inciso II, alínea “b” do Anexo II do RICARF/2015, importa em adoção obrigatória da mesma tese pelos membros deste Colegiado. Por oportuno, transcrevese a seguir excerto da ementa do julgado em questão: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. RESPONSABILIDADE POR INFRAÇÃO. SUCESSÃO DE EMPRESAS. [...] 1. A responsabilidade tributária do sucessor abrange, além dos tributos devidos pelo sucedido, as multas moratórias ou punitivas, que, por representarem dívida de valor, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que seu fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão. (Precedentes: REsp 1085071/SP, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 21/05/2009, DJe 08/06/2009; REsp 959.389/RS, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/05/2009, DJe 21/05/2009; AgRg no REsp 1056302/SC, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 23/04/2009, DJe 13/05/2009; REsp 3.097/RS, Rel. Ministro GARCIA VIEIRA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/10/1990, DJ 19/11/1990) 2. "(...) A hipótese de sucessão empresarial (fusão, cisão, incorporação), assim como nos casos de aquisição de fundo de comércio ou estabelecimento comercial e, principalmente, nas configurações de sucessão por transformação do tipo societário (sociedade anônima transformandose em sociedade por cotas de responsabilidade limitada, v.g.), em verdade, não encarta sucessão real, mas apenas legal. O sujeito passivo é a pessoa jurídica que continua total ou parcialmente a existir juridicamente sob outra "roupagem institucional". Portanto, a multa fiscal não se transfere, simplesmente continua a integrar o passivo da empresa que é: a) fusionada; b) incorporada; c) dividida pela cisão; d) adquirida; e) transformada. (Sacha Calmon Navarro Coêlho, in Curso de Direito Tributário Brasileiro, Ed. Forense, 9ª ed., p. 701) [...] 9. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. (Resp 923.012/MG, 1ª Seção, Relator Ministro Luiz Fux, sessão de 09 de junho de 2010) Conforme se observa, o entendimento consolidado do STJ é no sentido de que o sucessor responde pelas multas fiscais, não havendo que se falar em aplicação, ao direito tributário, de princípios específicos à seara penal. Fl. 1732DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.733 56 Além disso, ao citar como um de seus fundamentos o art. 113, § 1º, do CTN, o I. Relator do acórdão paradigma deixa transparecer que a obrigação tributária surge com a ocorrência do fato gerador, sendo que o lançamento somente materializa tal obrigação (crédito tributário). Ademais, entre os precedentes citados também há ao menos um que claramente possibilita a cobrança de penalidade desde que o fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão, ainda que formalizado o lançamento posteriormente. Vejase, por exemplo, o REsp nº 959.389, cuja ementa recebeu a seguinte redação: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. ARTIGO 159 DO CC DE 1916. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. MULTA TRIBUTÁRIA. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. SUCESSÃO EMPRESARIAL. OBRIGAÇÃO ANTERIOR E LANÇAMENTO POSTERIOR. RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE SUCESSORA. 1. Não se conhece do recurso especial se a matéria suscitada não foi objeto de análise pelo Tribunal de origem, em virtude da falta do requisito do prequestionamento. Súmulas 282 e 356/STF. 2. A responsabilidade tributária não está limitada aos tributos devidos pelos sucedidos, mas abrange as multas, moratórias ou de outra espécie, que, por representarem penalidade pecuniária, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor. 3. Segundo dispõe o artigo 113, § 3º, do CTN, o descumprimento de obrigação acessória faz surgir, imediatamente, nova obrigação consistente no pagamento da multa tributária. A responsabilidade do sucessor abrange, nos termos do artigo 129 do CTN, os créditos definitivamente constituídos, em curso de constituição ou "constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data", que é o caso dos autos. 4. Recurso especial conhecido em parte e não provido. E, no fechamento do voto condutor do aresto precedente em questão, ficou ainda mais evidente o entendimento firmado, verbis: Portanto, tratandose de obrigação anterior à sucessão empresarial, a responsabilidade é transferida à sucessora, mesmo que a constituição do crédito seja posterior ao ato, nos termos do artigo 129 do CTN. A bem da verdade, o próprio item 1 da ementa do REsp nº 923.012 (recurso repetitivo), já deixava evidente tal exegese: 1. A responsabilidade tributária do sucessor abrange, além dos tributos devidos pelo sucedido, as multas moratórias ou punitivas, que, por representarem dívida de valor, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que seu fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão. [grifei] A fim de que não se alimentem dúvidas a respeito do tema, convém examinar novo acórdão do STJ no exame dos embargos opostos no processo julgado sob a forma de recurso repetitivo (REsp nº 923.012): [...] 4. Quanto à responsabilidade do sucessor pelas multas (moratórias ou punitivas), observese que o ordenamento jurídico tributário admite o Fl. 1733DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.734 57 chamamento de terceiros para arcar com o pagamento do crédito tributário, na forma dos arts. 128 e seguintes do CTN, sendo expresso o art. 132 do CTN ao dispor: Art. 132. A pessoa jurídica de direito privado que resultar de fusão, transformação ou incorporação de outra ou em outra é responsável pelos tributos devidos até a data do ato pelas pessoas jurídicas de direito privado fusionadas, transformadas ou incorporadas. 5. Ora, a incorporação, nos termos da legislação pátria (art. 227 da Lei 6.404/76 e art. 1.116 do CC/32) é a absorção de uma ou várias sociedades por outra ou outras, com a extinção da sociedade incorporada, que transfere integralmente todos os seus direitos e obrigações para a incorporadora. 6. Entendese que tanto o tributo quanto as multas a ele associadas pelo descumprimento da obrigação principal fazem parte do patrimônio do contribuinte incorporado que se transfere ao incorporador, de que modo que não pode ser cingida a sua cobrança, até porque a sociedade incorporada deixa de ostentar personalidade jurídica. 7. Por fim, o art. 129 do CTN estabelece que a transferência da responsabilidade por sucessão aplicase, por igual, aos créditos tributários já definitivamente constituídos, ou em curso de constituição à data dos atos nela referidos, e aos constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data. 8. O que importa, portanto, é a identificação do momento da ocorrência do fato gerador, que faz surgir a obrigação tributária, e do ato ou fato originador da sucessão, sendo desinfluente, como restou assentado no aresto embargado, que esse crédito já esteja formalizado por meio de lançamento tributário, que apenas o materializa. [grifei] Ora, tendo o STJ pacificado o entendimento de que é desinfluente se o crédito tributário estava ou não formalizado por meio de lançamento, e reforçado que a sucessora responde pelo crédito tributário devido pelas sucedidas, inclusive as multas, e considerandose que o julgamento na forma do art. 543C do CPC/1973 vincula os membros deste colegiado (art. 62, § 1º, inciso II, alínea “b” do Anexo II do RICARF/2015), há de se adotar tal entendimento, mantendose a exigência de penalidade no caso concreto. 3.4 DA EXIGÊNCIA DE MULTAS ISOLADAS POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS DE IRPJ E CSLL Em razão da infração principal, a autuada deixou de recolher valores a título de estimativas de IRPJ e CSLL relativas ao anocalendário de 2008, ensejando a exigência de multas isoladas. Há de separar a exigência em dois períodos distintos em razão da nova redação dada ao art. 44 da Lei nº 9.430/1996: o primeiro até o advento da Medida Provisória nº 351/2007 (convertida na Lei nº 11.488/2007) e o segundo após a edição de tal ato. Das Multas Isoladas até o advento da Medida Provisória nº 351/2007 Fl. 1734DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.735 58 Em relação à aplicação da multa isolada de forma concomitante com a multa de ofício, em que pese meu entendimento pessoal sobre a matéria, recentemente foi aprovada súmula impedindo tal cobrança quando baseada no art. 44, §1º, inciso IV, da Lei nº 9.430/96, conforme se observa do enunciado nº 105 da Súmula CARF: "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício." Considerandose que a Medida Provisória nº 351/2007 que em seu art. 14 deu nova redação ao art. 44 da Lei nº 9.430/1996 – foi editada em 22 de janeiro de 2007 (e posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007), as multas isoladas cujos recolhimentos deveriam ter sido realizados antes de tal data devem ser exoneradas. Assim sendo, como o vencimento para pagamento da estimativa é o último dia útil do mês subsequente, devemse exonerar as multas isoladas relativas às estimativas referentes ao período de janeiro a novembro de 2006, já que a estimativa referente ao mês de dezembro de 2006 deveria ter sido recolhida até o dia 31/01/2007, quando já vigia a nova redação do dispositivo legal em questão. Contudo, no caso concreto, os fatos geradores ocorreram todos após o advento da MP nº 351/2007, legislação que passo a analisar. Das Multas Isoladas após o advento da Medida Provisória nº 351/2007 Com a edição da Medida Provisória nº 351/2007 em 22/01/2007, posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007, a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas de IRPJ e CSLL passou a ter novo regramento. No caso concreto houve lançamento relativo às estimativas não recolhidas referentes ao anocalendário de 2008, com fulcro no no art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com a redação que lhe foi dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, não se aplicando, portanto, a Súmula CARF nº 105. Confirase a nova redação do dispositivo em questão: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. [....] Fl. 1735DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.736 59 As multas exigidas juntamente com o tributo ou isoladamente, como definidas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, vinculamse a infrações de natureza distinta. A Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 1º, estabeleceu como regra geral, a partir do mês de janeiro de 1997, a apuração do lucro real trimestral. Apenas por exceção a pessoa jurídica poderia optar pela apuração do lucro real anual, situação em que fica obrigada a efetuar os recolhimentos do IRPJ e da CSLL mensalmente, calculados por estimativa (artigo 2º). As bases de cálculo do IRPJ e da CSLL devidos mensalmente são determinadas por meio da aplicação, sobre a receita bruta do mês, de percentuais estabelecidos pelo artigo 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, de acordo com as atividades desenvolvidas pela pessoa jurídica. Consoante se verifica pela redação das normas transcritas, são essencialmente duas as penalidades previstas no art. 44 retrotranscrito (“serão aplicadas as seguintes multas”, “I...II”): uma, exigida juntamente com o tributo faltante, nas hipóteses de “de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”. Essa penalidade está valorada em 75% “sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição”; outra, exigida de forma isolada, no percentual de 50%, na hipótese da falta recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e da CSLL. É pertinente esclarecer que os recolhimentos efetuados mensalmente a título de estimativas (art. 2º, §§ 3º e 4º, da Lei nº 9.430, de 1996) não são definitivos, porquanto a apuração definitiva do tributo devido se dará somente ao final de cada anocalendário. Esse o motivo pelo qual a penalidade pelo inadimplemento dessa obrigação é denominada multa isolada, uma vez que pode ser exigida independentemente de haver ou não tributo devido ao final do período de apuração. E também não há qualquer correlação entre o valor do tributo devido ao final de apuração e a multa isolada: sua base de cálculo é o valor do pagamento mensal (estimativa) de IRPJ ou CSLL que deixar de ser recolhido. Diante dessas constatações, é imperioso concluir que as multas são distintas e autônomas. Isso decorre, acima de tudo, das evidentes diferenças que existem entre as hipóteses de incidência e os consequentes das normas punitivas. No IRPJ e na CSLL, observamos que os critérios material e temporal são completamente distintos. O tributo não pago, decorrente da existência de lucro apurado trimestralmente ou anualmente, submetese à multa do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, enquanto que a estimativa não recolhida, decorrente da existência de receita bruta mensal ou balanços de redução, submetese à multa do inciso II do dispositivo antes citado. No caso do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, a quantificação toma por base o tributo devido em função do lucro, fazendo incidir o percentual de 75% (regra geral passível de qualificação e agravamento §§ 1º e 2º do art. 44). No caso do inciso II, letra “b”, do dispositivo antes citado, a quantificação toma por base a estimativa apurada em função da receita bruta ou resultados mensais, fazendo incidir o percentual de 50% (regra geral não passível de qualificação ou agravamento). Como se pode observar, são duas normas distintas e autônomas, que punem, em diferentes graus, ilicitudes diversas. Alega a Recorrente que a aplicação da penalidade isolada, tal qual perpetrada no auto de infração, viola o princípio da legalidade. Aduz ainda que não se poderia aplicála Fl. 1736DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.737 60 após o encerramento do exercício, tampouco em concomitância com a multa de ofício de 75%. Cita diversos acórdãos do CARF que dariam guarida a sua tese. Não merecem prosperar os argumentos de defesa. Vejamos. Em primeiro lugar, conforme já transcrito, a penalidade isolada por ausência de recolhimento de estimativas mensais está prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.430/96, não havendo que se falar em ofensa ao princípio da legalidade. Nesse sentido, também, não há ofensa ao art. 97, V, do CTN, uma vez que a multa em discussão foi instituída por lei. Em relação a não aplicabilidade das multas isoladas após o encerramento do exercício, implicaria ofensa à literalidade do art. 44, II, “b”, da Lei nº 9.430/96, dispositivo que prevê, de forma expressa, a aplicação da penalidade isolada “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente”. Ora, se a própria norma prevê sua aplicação ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, pressupõese, por óbvio, que o exercício já tenha sido encerrado, sem o que não se poderia falar em apuração do resultado do exercício. Podese concluir que o ordenamento jurídico protege, com a multa isolada, o fluxo financeiro advindo do pagamento mensal das estimativas. Ora, inexistindo penalidade pelo seu não recolhimento não haveria como obrigar o contribuinte a antecipar o tributo, e o pagamento das estimativas acabaria por se tornar mera faculdade do contribuinte, retirando da norma a sua força cogente, o que não se mostra razoável. Em relação às decisões colacionadas pela Recorrente, frisese que se baseiam na redação anterior do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Em que pese minha particular discordância com a interpretação do referido dispositivo dada pelos acórdãos em questão, não se pode olvidar que os argumentos utilizados não se amoldam a novel redação dada ao dispositivo pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. Vejamos. Ao se comparar a alteração da redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, constatase que se buscou adequar o dispositivo à jurisprudência então dominante no CARF, mais precisamente a firmada em torno do entendimento do então Conselheiro e Presidente de Câmara José Clóvis Alves, que atacava a redação do caput do art. 44 da Lei nº 9.430/96 ("Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição..."), e também o fato da ocorrência de bis in idem, pois a "mesma" multa seria aplicada quando do lançamento de ofício do tributo (Acórdão CSRF 0105503 101134520). Na nova redação do citado artigo, o caput não mais faz referência à diferença de tributo (“Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas...”), sendo tal expressão utilizada somente no inciso I, que trata da multa de 75% aplicada sobre a diferença de tributo lançado de ofício. A referência à multa isolada agora é tratada em dispositivo específico (inciso II), com multa em percentual distinto da multa de ofício (esta é de 75%, e aquela de 50%). Vêse, assim, que a nova multa isolada é aplicada, em percentual próprio, sobre o valor do pagamento mensal que deixou de ser efetuado a título de estimativa, não mais se falando em diferença sobre tributo que deixou de ser recolhido. Em voto que a meu ver bem reflete a tese aqui exposta, o ilustre Conselheiro GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES foi preciso na análise do tema (Acórdão 10323.370, Sessão de 24/01/2008): Fl. 1737DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.738 61 [...] Nada obstante, as regras sancionatórias são em múltiplos aspectos totalmente diferentes das normas de imposição tributária, a começar pela circunstância essencial de que o antecedente das primeiras é composto por uma conduta antijurídica, ao passo que das segundas se trata de conduta lícita. Dessarte, em múltiplas facetas o regime das sanções pelo descumprimento de obrigações tributárias mais se aproxima do penal que do tributário. Pois bem, a Doutrina do Direito Penal afirma que, dentre as funções da pena, há a PREVENÇÃO GERAL e a PREVENÇÃO ESPECIAL. A primeira é dirigida à sociedade como um todo. Diante da prescrição da norma punitiva, inibese o comportamento da coletividade de cometer o ato infracional. Já a segunda é dirigida especificamente ao infrator para que ele não mais cometa o delito. É, por isso, que a revogação de penas implica a sua retroatividade, ao contrário do que ocorre com tributos. Uma vez que uma conduta não mais é tipificada como delitiva, não faz mais sentido aplicar pena se ela deixa de cumprir as funções preventivas. Essa discussão se torna mais complexa no caso de descumprimento de deveres provisórios ou excepcionais. Hector Villegas, (em Direito Penal Tributário. São Paulo, Resenha Tributária, EDUC, 1994), por exemplo, nos noticia o intenso debate da Doutrina Argentina acerca da aplicação da retroatividade benigna às leis temporárias e excepcionais. No direito brasileiro, porém, essa discussão passa ao largo há muitas décadas, em razão de expressa disposição em nosso Código Penal, no caso, o art. 3º: Art. 3º A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram, aplicase ao fato praticado durante sua vigência. O legislador penal impediu expressamente a retroatividade benigna nesses casos, pois, do contrário, estariam comprometidas as funções de prevenção. Explico e exemplifico. Como é previsível, no caso das extraordinárias, e certo, em relação às temporárias, a cessação de sua vigência, a exclusão da punição implicaria a perda de eficácia de suas determinações, uma vez que todos teriam a garantia prévia de, em breve, deixarem de ser punidos. É o caso de uma lei que impõe a punição pelo descumprimento de tabelamento temporário de preços. Se após o período de tabelamento, aqueles que o descumpriram não fossem punidos e eles tivessem a garantia prévia disso, por que então cumprir a lei no período em que estava vigente? Ora, essa situação já regrada pela nossa codificação penal é absolutamente análoga à questão ora sob exame, pois, apesar de a regra que estabelece o dever de antecipar não ser temporária, cada dever individualmente considerado é provisório e diverso do dever de recolhimento definitivo que se caracterizará no ano seguinte. Fl. 1738DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.739 62 Desse modo, após o advento da MP nº 351/2007, entendo que as multas isoladas devem ser mantidas, ainda que aplicadas em concomitância com as multas de ofício pela ausência de recolhimento/pagamento de tributo apurado de forma definitiva. Tal conclusão decorre da constatação de se tratarem de penalidades distintas, com origem em fatos geradores e períodos de apuração diversos, e ainda aplicadas sobre bases de cálculos diferenciadas. A legislação, em nenhum momento, vedou a aplicação concomitante das penalidades em comento. Em complemento, e em especial em relação à suposta aplicação do princípio da consunção, transcrevo o entendimento firmado pelo Conselheiro Leonardo de Andrade Couto em seus votos sobre o tema em debate: Manifesteime em outras ocasiões pela aplicação ao caso do princípio da consunção, pelo qual prevalece a penalidade mais grave quando uma pluralidade de normas é violada no desenrolar de uma ação. De forma geral, o princípio da consunção determina que em face a um ou mais ilícitos penais denominados consuntos, que funcionam apenas como fases de preparação ou de execução de um outro, mais grave que o(s) primeiro(s), chamado consuntivo, ou tãosomente como condutas, anteriores ou posteriores, mas sempre intimamente interligado ou inerente, dependentemente, deste último, o sujeito ativo só deverá ser responsabilizado pelo ilícito mais grave.32. Vejase que a condição básica para aplicação do princípio é a íntima interligação entre os ilícitos. Pelo até aqui exposto, podese dizer que a intenção do legislador tributário foi justamente deixar clara a independência entre as irregularidades, inclusive alterando o texto da norma para ressaltar tal circunstância. No voto paradigma que decidiu casos como o presente sob a ótica do princípio da consunção, o relator cita Miguel Reale Junior que discorre sobre o crime progressivo, situação típica de aplicação do princípio em comento. Pois bem. Doutrinariamente, existe crime progressivo quando o sujeito, para alcançar um resultado normativo (ofensa ou perigo de dano a um bem jurídico), necessariamente deverá passar por uma conduta inicial que produz outro evento normativo, menos grave que o primeiro. Noutros termos: para ofender um bem jurídico qualquer, o agente, indispensavelmente, terá de inicialmente ofender outro, de menor gravidade — passagem por um minus em direção a um plus. 33 (destaques acrescidos). Estaríamos diante de uma situação de conflito aparente de normas. Aparente porque o princípio da especialidade definiria a questão, com vistas a evitar a subsunção a dispositivos penais diversos e, por conseguinte, a confusão de efeitos penais e processuais. 32 RAMOS, Guilherme da Rocha. Princípio da consunção: o problema conceitual do crime progressivo e da progressão criminosa. Jus Navigandi, Teresina, ano 5, n. 44, 1 ago. 2000. Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/texto/996>. Acesso em: 6 dez. 2010. 33 Idem, Idem Fl. 1739DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.740 63 Aplicandose essa teoria às situações que envolvem a imputação da multa de ofício, a irregularidade que gera a multa aplicada em conjunto com o tributo não necessariamente é antecedida de ausência ou insuficiência de recolhimento do tributo devido a título de estimativas, suscetível de aplicação da multa isolada. Assim, não há como enquadrar o conceito da progressividade ao presente caso, motivo pelo qual tal linha de raciocínio seria injustificável para aplicação do princípio da consunção. Ainda seguindo a analogia com o direito penal, a grosso modo poderseia dizer que a situação sob exame representaria um concurso real de normas ou, mais especificamente, um concurso material: duas condutas delituosas causam dois resultados delituosos. Abstraindose das questões conceituais envolvendo aspectos do direito penal, a Lei nº 9.430/96, ao instituir a multa isolada sobre irregularidades no recolhimento do tributo devido a título de estimativas, não estabeleceu qualquer limitação quanto à imputação dessa penalidade juntamente com a multa exigida em conjunto com o tributo. Isso posto, voto por manter a exigência das multas isoladas. 4 PREJUDICIAL DE MÉRITO: DA ARGUIÇÃO DE DECADÊNCIA Em primeiro lugar, aduz a Recorrente que a Fiscalização não poderia questionar no ano de 2013 a validade da emissão de debêntures realizada em 2005. O tema é pacífico neste Colegiado. Entendese que, para início da contagem do prazo decadencial, devese ater à data de ocorrência dos fatos geradores, e não à data de contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. Até mesmo porque o art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Portanto, o lançamento, dado seu caráter constitutivo do crédito tributário, mas declaratório da obrigação, somente pode ser realizado após a ocorrência do fato gerador e, consequentemente, o surgimento da obrigação tributária. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advêm dos registros contábeis. Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.” Fl. 1740DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.741 64 Portanto, somente se pode falar de infração, no caso concreto, a cada exercício que o contribuinte vier a deduzir de seu resultado a remuneração das debêntures em questão. Corroborando tal entendimento, o art. 37 da Lei nº 9.430/96 assim estabelece: Art. 37. Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. Com efeito, o prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. O segundo argumento diz respeito à suposta decadência do crédito tributário referente a fato gerador ocorrido em 2007, pois o lançamento foi formalizado somente em 2013, em flagrante desrespeito ao disposto no artigo 150, § 4º do CTN. Em relação à contagem do prazo decadencial, não se pode ignorar que o STJ entendeu em caráter definitivo (julgamento de recurso representativo de controvérsia, nos termos do art. 543C, do CPC) que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, a questão do pagamento antecipado é relevante para definição do prazo, assim como a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, conforme se observa na ementa do REsp 973.733/SC, 1ª Seção, Dje 18/09/2009, de relatoria do Ministro Luiz Fux: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA.ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre,sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco Fl. 1741DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.742 65 regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, antea configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii)a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial qüinqüenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. No caso concreto, compulsando os autos, de fato, constatei a existência de pagamentos antecipados de IRPJ e de CSLL (fls. 313319 indicam retenção de imposto de renda na fonte e às fls. 16151676 demais recolhimentos). Assim, tendo em vista a redução da multa de ofício qualificada, afastase também a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, e o início da contagem do prazo decadencial deve se dar com base no disposto § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, ou seja, a partir da data de ocorrência do fato gerador. Desse modo, tendo o lançamento sido cientificado ao contribuinte no decorrer do ano de 2013, o crédito tributário relativo aos fatos geradores ocorridos em 31 de dezembro de 2007 devem ser extintos por decadência, uma vez que deveriam ter sido constituídos até o último dia do ano de 2012. Fl. 1742DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720155/201373 Acórdão n.º 1402002.295 S1C4T2 Fl. 1.743 66 4 CONCLUSÃO Isso posto, voto por rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão de primeira instância, e a arguição de decadência da totalidade do crédito tributário, extinguindo, contudo, o crédito tributário relativo aos fatos geradores ocorridos em 31 de dezembro de 2007 em razão da decadência. No mérito, voto por dar provimento parcial ao recurso para reduzir a multa para 75%. (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO Relator Fl. 1743DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO
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Numero do processo: 10073.720020/2014-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
DEDUÇÕES. REQUISITOS. As despesas com serviços médicos comprovadas, do contribuinte e/ou dependentes, são dedutíveis dos rendimentos sujeitos à tributação pelo imposto de renda. No caso dos autos o beneficiário das despesas médicas é o próprio contribuinte.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2401-004.527
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, e, no mérito, dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Miram Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Maria Cleci Coti Martins - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Denny Medeiros da Silveira, Luciana Matos Pereira Barbosa, Marcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto, Maria Cleci Coti Martins e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: MARIA CLECI COTI MARTINS
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, e, no mérito, dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Miram Denise Xavier Lazarini - Presidente (assinado digitalmente) Maria Cleci Coti Martins - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Denny Medeiros da Silveira, Luciana Matos Pereira Barbosa, Marcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto, Maria Cleci Coti Martins e Rayd Santana Ferreira.
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Numero do processo: 16542.721075/2012-82
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 16 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Sep 05 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2008
EMBARGOS INOMINADOS. ERRO DE DIGITAÇÃO.
Verificado no acórdão embargado a existência de erro de digitação no relatório, cabe a correspondente retificação, sem modificação quanto ao resultado.
Embargos Acolhidos.
Numero da decisão: 2402-005.417
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos inominados para acolhê-los.
(Assinado digitalmente)
Kleber Ferreira de Araújo - Presidente
(Assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Amílcar Barca Teixeira Júnior, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felicia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2008 EMBARGOS INOMINADOS. ERRO DE DIGITAÇÃO. Verificado no acórdão embargado a existência de erro de digitação no relatório, cabe a correspondente retificação, sem modificação quanto ao resultado. Embargos Acolhidos.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos inominados para acolhê-los. (Assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo - Presidente (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Amílcar Barca Teixeira Júnior, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felicia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
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ERRO DE DIGITAÇÃO. Verificado no acórdão embargado a existência de erro de digitação no relatório, cabe a correspondente retificação, sem modificação quanto ao resultado. Embargos Acolhidos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 54 2. 72 10 75 /2 01 2- 82 Fl. 126DF CARF MF Impresso em 05/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/08/2016 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 26/08/20 16 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 02/09/2016 por KLEBER FERREIRA DE ARAUJO 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos inominados para acolhêlos. (Assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo Presidente (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Amílcar Barca Teixeira Júnior, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felicia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 127DF CARF MF Impresso em 05/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/08/2016 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 26/08/20 16 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 02/09/2016 por KLEBER FERREIRA DE ARAUJO Processo nº 16542.721075/201282 Acórdão n.º 2402005.417 S2C4T2 Fl. 749 3 Relatório Tratase de alegação de inexatidão material formulada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Florianópólis/SC mediante Informação Fiscal datada de 8/4/2016 (fls. 120/122), da qual colho o seguinte trecho: (...) 3. Observase que no item “Relatório”, ocorre a descrição do julgado no órgão de primeira instancia com a identificação equivocada do Imposto de renda suplementar apurado após a autuação, como destacado, em síntese, a seguir: “Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis (SC) DRJ/FNS, que julgou procedente Notificação de Lançamento de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) alterando o saldo de imposto de renda a restituir do anocalendário 2009 de R$ 4.952,35 para o montante de R$ 75.067,56 (fls. 51/56), face à omissão de rendimentos do trabalho (...)” (grifei). 4. Observase que o valor resultante da notificação de lançamento é de R$ 5.067,56, conforme documento de fl. 52. Em decorrência deste aparente erro, e como o art. 66 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF 343, de 09/06/2015, prevê que as inexatidões materiais devidas serão retificadas pelo Presidente de turma mediante requerimento do titular da unidade da administração tributária encarregada da execução do Acórdão, PROPONHO, após a devida apreciação pelo Sr. Chefe e ulterior ciência da Sr. Chefe do Secat: a) Retornar os autos à Quarta Câmara do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais para análise deste pleito, reformando, se julgar pertinente, o Acórdão nº 2402005.109; e, b) Submeter o presente despacho à apreciação do Sr. Delegado, consoante previsão contida no art. 66 do Regimento Interno do Conselho de Contribuintes, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. A alegação formulada pela DRF/Florianópolis/SC foi recebida como Embargos Inominados para correção do supra evidenciado erro de redação, nos termos do art. 66 do Anexo II do Regimento Interno do CARF RICARF (Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015), conforme despacho datado de 1º/7/2016 (fls. 124/126), sendo então enviada a este relator para prosseguimento. É o relatório. Fl. 128DF CARF MF Impresso em 05/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/08/2016 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 26/08/20 16 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 02/09/2016 por KLEBER FERREIRA DE ARAUJO 4 Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson Relator Os embargos são tempestivos e atendem aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles conheço. De fato, pode ser constatado da leitura dos autos (fl. 54) que o valor associado ao imposto suplementar resultante do lançamento corresponde a R$ 5.067,56, e não a R$ 75.067,56. Por conseguinte, verificase inexatidão material na redação do Acórdão de Recurso Voluntário em questão, a qual deve ser corrigida por meio da prolação de um novo acórdão, de modo que conste no relatório do Acórdão nº 2402005.159, no lugar de "R$ 75.067,56", o valor de "R$ 5.067,56". Sendo assim, e para que reste claro o alcance do julgado em evidência, voto no sentido de conhecer e ACOLHER OS EMBARGOS INOMINADOS, para fins de que conste no relatório do Acórdão nº 2402005.159, no lugar de "R$ 75.067,56", o valor de "R$ 5.067,56". É o voto. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson. Fl. 129DF CARF MF Impresso em 05/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/08/2016 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 26/08/20 16 por RONNIE SOARES ANDERSON, Assinado digitalmente em 02/09/2016 por KLEBER FERREIRA DE ARAUJO
score : 1.0
Numero do processo: 10283.721058/2008-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 16 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Sep 13 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2006
RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE.
Não se conhece de apelo à segunda instância, contra decisão de autoridade julgadora de primeira instância, quando formalizado depois de decorrido o prazo regulamentar de trinta dias da ciência da decisão.
Recurso Não Conhecido
Numero da decisão: 2301-004.777
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
João Bellini Júnior - Presidente.
(Assinado digitalmente)
Alice Grecchi - Relatora.
(Assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (Presidente), Gisa Barbosa Gambogi Neves, Julio Cesar Vieira Gomes, Andrea Brose Adolfo, Alice Grecchi e Fabio Piovesan Bozza
Nome do relator: ALICE GRECCHI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR Exercício: 2006 RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. Não se conhece de apelo à segunda instância, contra decisão de autoridade julgadora de primeira instância, quando formalizado depois de decorrido o prazo regulamentar de trinta dias da ciência da decisão. Recurso Não Conhecido
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INTEMPESTIVIDADE. Não se conhece de apelo à segunda instância, contra decisão de autoridade julgadora de primeira instância, quando formalizado depois de decorrido o prazo regulamentar de trinta dias da ciência da decisão. Recurso Não Conhecido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. João Bellini Júnior Presidente. (Assinado digitalmente) Alice Grecchi Relatora. (Assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (Presidente), Gisa Barbosa Gambogi Neves, Julio Cesar Vieira Gomes, Andrea Brose Adolfo, Alice Grecchi e Fabio Piovesan Bozza Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 72 10 58 /2 00 8- 81 Fl. 146DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR 2 Contra a contribuinte acima qualificada, foi lavrada Notificação de Lançamento nº 02201/00026/2008 de fls. 19/23, emitida em 03.11.2008, intimando a recorrente a recolher o crédito tributário, no montante de R$ 407.518,90, referente ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), exercício de 2006, acrescido de multa lançada (75%) e juros de mora, tendo como objeto o imóvel denominado “Fazenda Redentor”, cadastrado na RFB sob o nº 5.859.0480, com área declarada de 39.500,0 ha, localizado no Município de Canutama/AM. O Termo de Intimação Fiscal nº 02201/00019/2008 de fls. 13/16, intimou a contribuinte a apresentar os seguintes documentos: 1º Ato Declaratório Ambiental – ADA requerido dentro de prazo junto ao IBAMA; 2º documentos, tais como Laudo Técnico emitido por engenheiro agrônomo/florestal, acompanhado de Anotação de Responsabilidade Técnica – ART registrada no CREA, que comprovem as áreas de preservação permanente declaradas, identificando o imóvel rural e detalhando a localização e dimensão das áreas declaradas a esse título, previstas nos termos das alíneas “a” até “h” do art. 2º da Lei 4.771 de 15 de setembro de 1965, que identifique a localização do imóvel rural através de um conjunto de coordenadas geográficas definidores dos vértices de seu perímetro, preferivelmente georreferenciadas ao sistema geodésico brasileiro; 3º Certidão do órgão público competente, caso o imóvel ou parte dele esteja inserido em área declarada como de preservação permanente, nos termos do art. 3º da Lei nº 4.771/1965, acompanhado do ato do poder público que assim a declarou; 4º matrícula atualizada do registro imobiliário, com a averbação da área de reserva legal, caso o imóvel possua matrícula ou cópia do Termo de Responsabilidade/Compromisso de Averbação da Reserva Legal ou Termo de Ajustamento de Conduta da Reserva Legal, acompanhada de certidão emitida pelo Cartório de Registro de Imóveis comprovando que o imóvel não possui matrícula no registro imobiliário; 5º documento que comprove a localização da área de reserva legal, nos termos do § 4º do art. 16 do Código Florestal, introduzido pela Medida Provisória 2.16667, de 24 de agosto de 2001. A notificação de lançamento foi lavrada, pelo fato da contribuinte não ter comprovado a isenção da área declarada a título de preservação permanente do imóvel rural. Portanto, pelo fato de não ter sido apresentado nenhum documento de prova e procedendose a análise e verificação dos dados constantes da DITR/2006, a fiscalização glosou a área de preservação permanente de 3.950,0 ha e a área de reserva legal de 31.600,0 ha, com consequente aumento da área tributável/aproveitável, do VTN tributável e da alíquota aplicada, e disto resultando o imposto suplementar de R$ 204.937,85, conforme demonstrado às fls. 22. Resumo da autuação: Fl. 147DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR Processo nº 10283.721058/200881 Acórdão n.º 2301004.777 S2C3T1 Fl. 147 3 A descrição dos fatos e os enquadramentos legais das infrações, da multa de ofício e dos juros de mora constam às fls. 20/21 e 23. Após ser cientificada do lançamento na data de 21/11/2008, como consta a fl. 24, a contribuinte apresentou, em 05/12/2008, impugnação de fls. 32/58, instruída com os documentos de fls. 59/84, alegando e solicitando o seguinte: a Administração Pública ao praticar atos administrativos deve indicar expressamente os motivos do ato para possibilitar a apreciação, em cada caso concreto, do efetivo cumprimento das normas legais respectivas, a motivação deve consistir na indicação do texto legal de lei que autoriza a edição do ato, bem como no pressuposto de fato que permite a sua prática, tornando possível o controle da legalidade do ato, no caso o lançamento tributário, e essa exigência é decorrência do princípio da legalidade previsto no art. 5º, II, da Constituição da República; o Fisco utilizou de bases legais genéricas, que não podem nem devem ser tidas como suficientes para sustentar a pretensa infração e que a descrição fática não é suficiente para fornecer ao impugnante condições mínimas de defesa, vez que genérica e abstrata e cita jurisprudência para sustentar sua tese; o procedimento utilizado (baseado em descrições genéricas) é expediente tendencioso, eivado de ilegalidades, que só faz por conduzir o lançamento à nulidade e cita jurisprudência do antigo Conselho de Contribuintes, para referendar seu argumento; Fl. 148DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR 4 disserta abundantemente sobre as figuras das presunções (comum e legal relativa e absoluta) dentro do ordenamento jurídicotributário; o uso da presunção depende de autorização legal e salienta que não há qualquer dispositivo legal que autorize o uso da presunção para as situações descritas pela fiscalização; embora imaginariamente possíveis, as insinuações fiscais carecem de materialidade fiscal, tratandose de meros indícios (ou presunção comum), passíveis de investigação adicional; o Fisco usou equivocadamente da presunção e em função do lançamento precário, pede que seja a Notificação de Lançamento julgada nula em sede de preliminar, senão improcedente em seu mérito pela ausência de materialidade; enfatiza o art. 10, § 1º, II, “a” da Lei nº 9.393/1996 que faz remição à Lei nº 4.771/65, ao tratar das áreas de preservação permanente, não fazendo menção quanto à exigência do ato declaratório ambiental (ADA) do IBAMA; considera a exigência do ADA por meio da IN/SRF nº 256/02 não está prevista em Lei, ou seja, a referida IN extrapolou de certa forma, os limites da Lei; considera as áreas de preservação permanente e de reserva legal, previstas na letra “a”, do inciso II, § 1º, do art. 10 da Lei nº 9.393/96, aquelas estipuladas no art. 2º da Lei nº 4.771/65, não precisam ser previamente reconhecidas pelo Poder Público para que ocorra a dedução do ITR, havendo tal exigência apenas quanto àquelas previstas no art. 3º da Lei nº 4.771/65, bem como das alíneas “b” e “c”, do inciso II, § 1º, do art. 10 da Lei nº 9.393/1996; o art. 10, § 7º, da Lei nº 9.393/1996, cuja edição encontra respaldo no art. 106 do CTN, diz que a declaração do contribuinte não está sujeita à prévia comprovação, ou seja, cabe ao Fisco desconstituir a declaração do contribuinte no caso de falsidade da mesma e que tal entendimento pautase no Princípio da Verdade Material, que deve informar a atuação da Receita Federal nos procedimentos de lançamento e do processo administrativo, em todas as instâncias; ressalta a ilegalidade da exigência feita pela IN/SRF nº 256/02, quanto à apresentação do ADA para comprovar as áreas de preservação permanente e de reserva legal, como condição para dedução da base de cálculo do ITR, tendo em vista que a previsão legal não generaliza tal exigência para todas as áreas, tãosomente para aquelas relacionadas no art. 3º, do Código Florestal e cita Acórdãos do antigo Conselho de Contribuintes sobre o tema; a multa aplicada de 75% é confiscatória, gerando a inconstitucionalidade referida no art. 150, IV, da Constituição da República, além de ferir os princípios da proporcionalidade e razoabilidade; Requer: que seja reconhecida (i) a nulidade do lançamento pela falta de motivação, mormente que não traz a verificação correta da realidade fática; (ii) utilização equivocada da presunção, para ter sido utilizado zelo usual para analisar cada ponto elencado pela fiscalização em consonância coma legislação e jurisprudência e não conforme unicamente interesses fiscais; Fl. 149DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR Processo nº 10283.721058/200881 Acórdão n.º 2301004.777 S2C3T1 Fl. 148 5 requer, quanto ao mérito: seja (i) julgada improcedente a Notificação de Lançamento face a inexigibilidade da apresentação do ADA para efeitos de comprovação de isenção da área de preservação permanente; (ii) o afastamento da multa aplicada no percentual de 75%, por ser de caráter confiscatório; protesta por todos os meios de prova admitidos em direito, em especial perícia técnicocontábil, a ser designada para apuração dos fatos questionados, pleiteando, ainda, a posterior juntada de documentos. A Turma de Primeira Instância julgou a impugnação improcedente, restando a decisão assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2006 DA NULIDADE DO LANÇAMENTO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Tendo a contribuinte compreendido as matérias tributadas e exercido de forma plena o seu direito de defesa, não há que se falar em NULIDADE do lançamento, que contém todos os requisitos obrigatórios previstos no Processo Administrativo Fiscal (PAF). DO ÔNUS DA PROVA Cabe ao contribuinte, quando solicitado pela autoridade fiscal, comprovar com documentos hábeis, os dados cadastrais informados na sua DITR, posto que é seu o ônus da prova. DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE E DE RESERVA LEGAL Essas áreas ambientais, para fins de exclusão do ITR, devem ser reconhecidas como de interesse ambiental pelo IBAMA, ou pelo menos, que seja comprovada a protocolização, em tempo hábil, do requerimento do respectivo ADA, além da averbação tempestiva das áreas de reserva legal à margem da matrícula do imóvel. DA PROVA PERICIAL A perícia técnica destinase a subsidiar a formação da convicção do julgador, limitandose ao aprofundamento de questões sobre provas e elementos incluídos nos autos, não podendo ser utilizada para suprir o descumprimento de uma obrigação prevista na legislação. DA INSTRUÇÃO DA PEÇA IMPUGNATÓRIA A impugnação deve ser instruída com os documentos em que se fundamentar e que comprovem as alegações de defesa, precluindo o direito de o contribuinte fazêlo em outro momento processual. Fl. 150DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR 6 DA MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO A vedação ao confisco pela Constituição da República é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicala, nos moldes da legislação que a instituiu. Apurado imposto suplementar em procedimento de fiscalização, no caso de informação incorreta na declaração do ITR ou subavaliação do VTN, cabe exigilo juntamente com a multa e os juros aplicados aos demais tributos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A Contribuinte foi notificada do Acórdão 0351.301 1ª Turma da DRJ/BSB em 19/09/2013 (fl. 112), mediante Aviso de Recebimento – AR. Em 28/10/2013, sobreveio recurso voluntário (fl. 115). Alega em síntese: que o fato do ato administrativo padece de vício de nulidade, ocorrendo pelo fato de inexistir autorização legal, tendo o ato sido emanado sem fundamento. Completa ainda que, o fisco utilizou de bases legais genéricas, não podendo ou devendo serem tidas como suficientes para sustentar a infração em questão; que a descrição fática não é suficiente para fornecer a recorrente as mínimas condições de defesa, por serem genéricas e abstratas; que a fiscalização excedeu os limites legais para o uso da presunção na caracterização da infração cometida contra a Lei 9393/96. Citando doutrina de Clóvis Bevilacqua, Cândido Rangel Dinamarco e Alfredo Augusto Becker, sobre a presunção ser representada como uma prova indireta, partindo de fatos secundários; justifica que, após a revogação da Instrução Normativa n° 60/2001 pela Instrução Normativa n° 256/01, tratando do fato em questão em seu art. 9, § 2°, I que para a exclusão da área tributável do ITR dos imóveis, não é mais obrigatório ao contribuinte a apresentação do ADA (Ato Declaratório Ambiental); reforça a nãoobrigatoriedade do ADA, citando a Lei 4.771/65 e Lei 7803/89 tratando das áreas de preservação permanente, não fazendo menção quanto à exigência do ato declaratório do IBAMA; questiona que além da cobrança de crédito tributário indevido, ainda se exige a cobrança de multa moratória no patamar de 75%, alegando ser desproporcional a arrecadação do valor de “praticamente outro crédito tributário” (fl. 134); esclarece que a contribuinte “tem plena ciência que as multas administrativas são penalidades pecuniárias para compensar o possível dano causado pelo contribuinte ao erário. Contudo, o fato é que, na situação em epigrafe, a exigência se faz totalmente irrazoável”(fl. 135) pela proporção da multa moratória; salienta que as áreas supracitadas não são mais de propriedade da Recorrente, sendo, portanto, inconcebível a incidência do ITR nesse caso. Cita jurisprudência a seu favor, art. 29 do Código Tributário Nacional. Fl. 151DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR Processo nº 10283.721058/200881 Acórdão n.º 2301004.777 S2C3T1 Fl. 149 7 É o relatório Passo a decidir. Voto Conselheira Relatora Alice Grecchi O prazo estipulado na legislação para apresentação de recurso voluntário é de 30 (trinta) dias, contados da ciência da decisão de primeira instância, conforme disposição expressa do art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, in verbis: Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos 30 (trinta) dias seguintes à ciência da decisão. Como se colhe dos autos, o contribuinte tomou ciência da decisão de primeira instância em 19/09/2013, conforme Aviso de Recebimento, fl. 112. Já o recurso foi apresentado em 29/10/2013 (fl. 115). Temse, portanto, que o recurso foi apresentado depois de já ultrapassado o prazo de 30 dias do recebimento da decisão de primeira instância. Conforme acentua o despacho de encaminhamento da RFB (fl. 141), a recorrente teria até a data de 21/10/2013 para apresentar recurso, todavia somente apresentou sua defesa em 29/10/2013. Nesse sentido, é forçoso concluir pela intempestividade do recurso, o que torna definitiva, na esfera administrativa, a decisão de primeira instância, nos termos do art. 42, I do Decreto nº 70.235, de 1972, in verbis: Art. 42. São definitivas as decisões: I – de primeira instância, esgotado o prazo para recurso voluntário sem que este tenha sido interposto; Ante o exposto, voto no sentido de NÃO CONHECER do recurso voluntário, por perempto. Alice Grecchi Relatora (Assinado digitalmente) Fl. 152DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR 8 Fl. 153DF CARF MF Impresso em 13/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/09/2016 por ALICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por AL ICE GRECCHI, Assinado digitalmente em 12/09/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR
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Numero do processo: 19515.720185/2012-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 28 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Oct 05 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010
PREÇO PREDETERMINADO. ILEGALIDADE DA IN Nº 468/2004 e 658/2006.
O preço predeterminado não se descaracteriza pela aplicação de indexador, trata-se de mera atualização monetária dos valores dos contratos, e, não torna o preço pactuado (predeterminado) para fornecimento de bens e serviços em preço indeterminado. A ilegalidade da exclusão promovida pela IN 468/04 dos contratos de fornecimento de bens e serviços, com prazo superior a 1(um) ano, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, a preço determinado, prevista no art. 10, inc. XI alínea b da Lei 10.833/03.
IGP-M. CORREÇÃO MONETÁRIA. CONTRATO PREDETERMINADO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO.
O reajuste de preços efetuado nas condições descritas no artigo 27 da Lei n° 9.069/95 independentemente do índice utilizado não descaracteriza a condição de preço predeterminado do contrato e, consequentemente, a sua manutenção no regime cumulativo, previsto na Lei n° 9.718/98. Não consta na legislação impedimento à utilização do IGP-M.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010
PREÇO PREDETERMINADO. ILEGALIDADE DA IN Nº 468/2004 e 658/2006.
O preço predeterminado não se descaracteriza pela aplicação de indexador, trata-se de mera atualização monetária dos valores dos contratos, e, não torna o preço pactuado (predeterminado) para fornecimento de bens e serviços em preço indeterminado. A ilegalidade da exclusão promovida pela IN 468/04 dos contratos de fornecimento de bens e serviços, com prazo superior a 1(um) ano, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, a preço determinado, prevista no art. 10, inc. XI alínea b da Lei 10.833/03.
IGP-M. CORREÇÃO MONETÁRIA. CONTRATO PREDETERMINADO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO.
O reajuste de preços efetuado nas condições descritas no artigo 27 da Lei n° 9.069/95 independentemente do índice utilizado não descaracteriza a condição de preço predeterminado do contrato e, consequentemente, a sua manutenção no regime cumulativo, previsto na Lei n° 9.718/98. Não consta na legislação impedimento à utilização do IGP-M.
Numero da decisão: 3402-003.302
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Jorge Freire e Waldir Navarro Bezerra. A Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula votou pelas conclusões, por discordar que a IN nº 658/2006 seja ilegal. Sustentou pela recorrente a Dra. Fabiana Carsoni Alves F. da Silva, OAB/SP nº 246.569.
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos Atulim - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim (Presidente), Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 PREÇO PREDETERMINADO. ILEGALIDADE DA IN Nº 468/2004 e 658/2006. O preço predeterminado não se descaracteriza pela aplicação de indexador, tratase de mera atualização monetária dos valores dos contratos, e, não torna o preço pactuado (predeterminado) para fornecimento de bens e serviços em preço indeterminado. A ilegalidade da exclusão promovida pela IN 468/04 dos contratos de fornecimento de bens e serviços, com prazo superior a 1(um) ano, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, a preço determinado, prevista no art. 10, inc. XI alínea “b” da Lei 10.833/03. IGPM. CORREÇÃO MONETÁRIA. CONTRATO PREDETERMINADO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO. O reajuste de preços efetuado nas condições descritas no artigo 27 da Lei n° 9.069/95 independentemente do índice utilizado não descaracteriza a condição de preço predeterminado do contrato e, consequentemente, a sua manutenção no regime cumulativo, previsto na Lei n° 9.718/98. Não consta na legislação impedimento à utilização do IGPM. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 PREÇO PREDETERMINADO. ILEGALIDADE DA IN Nº 468/2004 e 658/2006. O preço predeterminado não se descaracteriza pela aplicação de indexador, tratase de mera atualização monetária dos valores dos contratos, e, não torna o preço pactuado (predeterminado) para fornecimento de bens e serviços em preço indeterminado. A ilegalidade da exclusão promovida pela IN 468/04 dos contratos de fornecimento de bens e serviços, com prazo superior a 1(um) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 01 85 /2 01 2- 42 Fl. 1854DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 2 ano, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, a preço determinado, prevista no art. 10, inc. XI alínea “b” da Lei 10.833/03. IGPM. CORREÇÃO MONETÁRIA. CONTRATO PREDETERMINADO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO. O reajuste de preços efetuado nas condições descritas no artigo 27 da Lei n° 9.069/95 independentemente do índice utilizado não descaracteriza a condição de preço predeterminado do contrato e, consequentemente, a sua manutenção no regime cumulativo, previsto na Lei n° 9.718/98. Não consta na legislação impedimento à utilização do IGPM. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Jorge Freire e Waldir Navarro Bezerra. A Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula votou pelas conclusões, por discordar que a IN nº 658/2006 seja ilegal. Sustentou pela recorrente a Dra. Fabiana Carsoni Alves F. da Silva, OAB/SP nº 246.569. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim (Presidente), Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Trata o presente processo de Autos de Infração de fls. 1232 a 1236 e de fls. 1217 a 1221, lavrado contra o sujeito passivo em epígrafe, ciência em 20.12.2012 (fls. 1233 e 1218), constituindo crédito tributário de: i) COFINS (fls. 1232 a 1236) no valor total de R$ (...), incluindose tributo, multa proporcional e juros de mora, estes calculados até 30.11.2012, referente aos períodos de 01.2008 a 12.2010, com enquadramento legal exposto às fls. 1231 e 1236; ii) PIS (fls. 1217 a 1221) no valor total de R$ (...), incluindose tributo, multa proporcional e juros de mora, estes calculados até 30.11.2012, referente aos períodos de 01.2008 a 12.2012, com enquadramento legal exposto às fls. 1216 e 1221. Por razões de economia, se reproduzirá abaixo parte do relatório da decisão a quo, que bem sintetiza o feito. No Termo de Constatação de fls. 1185 a 1200 a autoridade fiscal autuante informa que: Fl. 1855DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 3 3 i) A contribuinte tem por atividade econômica a geração de energia elétrica. Sua operação reside, basicamente, na produção de energia, através de transformadores instalados em suas usinas, fornecendoa as concessionárias de transmissão e distribuição dos Estados do Acre (Eletroacre), Rondônia (CERON) e Pará (CELPA), nos sistemas isolados desses Estados, denominados "lugares remotos"; ii) A fiscalizada adotou o regime cumulativo na apuração das contribuições ao PIS e à COFINS, incidente sobre a totalidade de suas receitas no período de jan/2008 a mar/2010, passando a informar nos DACONs de abril a dezembro de 2010, as receitas relativas à venda de peças sob o regime nãocumulativo (menos de 1% do faturamento total), além das receitas de fornecimentos às concessionárias sob o regime cumulativo; iii) Na forma do Termo n° 01, datado de 11/10/2011, a contribuinte foi intimada a fundamentar a adoção do regime cumulativo. Em resposta encaminhada em 01/11/2011, a fiscalizada expõe, em síntese, que o disposto no art. 10, inciso XI, alínea "b" da Lei n° 10.833/03 assegura a manutenção do regime anterior (cumulativo), e que ainda que o preço ajustado sofra reajuste anual, enquanto mera reposição da desvalorização da moeda frente à inflação, tal situação não descaracteriza a natureza de preço predeterminado; iv) A Nota Técnica SRF/COSIT n° 01, de 16/02/2007, corroborada e ratificada pelo Parecer PGFN/CAT nº 1610/2007 dispõe, em síntese, que as receitas decorrentes de contratos de compra e venda de energia elétrica, de transmissão de energia elétrica, e de outros contratos vinculados a essas atividades devem submeterse à tributação pelo regime da nãocumulatividade, tendo em vista que os contratos inerentes a tais atividades não se enquadram no conceito de preço predeterminado; v) No caso especifico da fiscalizada, verificase que seus contratos iniciais, firmados em 1997 e 1998, estabeleceram originalmente os seguintes reajustes de preços: CERON Cláusula 16ª variação setorial de preços de venda de energia elétrica por produtores independentes, divulgada pela ANEEL; no 5º Aditivo, de 11/05/2005, ficam previstos reajustes pelo IGPM; ELETROACRE Cláusula 16ª variação do IGP, limitado ao aumento médio de tarifas de energia elétrica concedidos pela ANEEL à contratada; através do 4ª Aditivo, de 16/11/2006, se prevê reajustes pelo IGPM; CELPA Cláusula 31ª variação do IGP; vi) É fundamental aqui ressaltar, que em nenhuma hipótese, os reajustes efetivamente aplicados pela fiscalizada tomaram por base custos de produção efetivamente incorridos ou qualquer índice específico refletindo a variação dos insumos empregados; vii) Cumpre observar, ainda, que se encontram previstos nos contratos iniciais, e foram posteriormente efetivados, reajustes associados à majoração de tributos, como no contrato junto a CERON (4º Aditivo, Cláusula 3ª). Dessa forma, conforme Solução de Consulta SRRF/8ªRF/DISIT n° 30, de 18/09/2006: "retira a característica de preço predeterminado o reajuste no qual se considera fator que reflita a variação da carga tributária Incidente sobre o faturamento, permitindo que seja repassada ao adquirente do bem ou serviço"; viii) Os contratos e os preços praticados pela contribuinte não atendem a condição de preço predeterminado, afastandoa da previsão legal de enquadramento no Fl. 1856DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 4 regime da cumulatividade, o que a submete, por consequência, à tributação do PIS e da COFINS sob o regime da nãocumulatividade; ix) A fiscalizada apresentou as planilhas intituladas "Estudo RFB" Calculo do Crédito do Pis e da Cofíns" e "Cálculo de Pis Cofíns Estudo RFB Regime Não Cumulativo", referentes a 2008 a 2010, onde aponta os valores mensais que seriam devidos sob o regime nãocumulativo. O exame das mesmas revela que a fiscalizada considerou como passíveis de créditos praticamente todos seus custos e despesas que se encontram nas contas consignadas nos Balancetes de 2008 a 2010. Na realidade, os créditos permitidos pela legislação são bem mais restritos que os utilizados pela fiscalizada em sua apuração (estudo). A Lei 10.637/2002 (PIS), em seu art. 3º , bem como a Lei 10.833/2003 (COFINS), art. 3º , estabelecem os créditos que poderão ser apropriados. x) Conforme inserido na ementa da Solução de Divergência COSIT n° 15/2008, que "Para efeito do inciso II do art. 3º da Lei n° 10.637, de 2003, o termo insumo não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço necessário para a atividade da pessoa jurídica, mas, tão somente, aqueles bens ou serviços adquiridos de pessoa jurídica, intrínsecos à atividade, aplicados ou consumidos na fabricação do produto ou no serviço prestado"; xi) Com fundamento na legislação e entendimento acima citados, e com base nos valores e elementos apresentados pela empresa, bem como no exame da escrituração contábil e fiscal das respectivas contas sob análise, foi elaborado o DEMONSTRATIVO DE APURAÇÃO DOS CRÉDITOS NÃOCUMULATIVOS (Anexo I –fls. 1201 a 1203). Às fls. 1197 e 1198 constam a fundamentação dos créditos aceitos e não aceitos pela fiscalização; xii) Foi elaborado o DEMONSTRATIVO DE APURAÇÃO DOS VALORES TRIBUTÁVEIS (Anexo III – fls. 1205 a 1207), que reflete a apuração fiscal dos valores devidos ao PIS e à COFINS sob o regime nãocumulativo. A Contribuinte apresentou sua extensa impugnação, onde alegou, em síntese o seguinte (cf. fls.16901694): 1) A Impugnante celebrou contratos para fornecimento de energia elétrica com as concessionárias de transmissão e distribuição de energia elétrica ELETROACRE, CERON e CELPA; 2) Uma vez que referidos contratos foram firmados antes do advento das Leis n°s 10.637/2002 e 10.833/2003, a Impugnante submeteu as receitas decorrentes destes contratos, no período de janeiro de 2008 a março de 2010, à tributação pelo regime cumulativo da Contribuição ao Programa de Integração Social PIS e da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social COFINS, conforme determina o artigo 10, inciso XI, alínea b, e artigo 15, ambos da Lei n° 10.833/2003; 3) A Fiscalização sustentou que os contratos firmados pela Impugnante com as concessionárias de transmissão e distribuição de energia elétrica ELETROACRE, CERON e CELPA não atendem ao requisito de "preço predeterminado", requisito indispensável para que se mantenha a aplicação do regime da cumulatividade. Frisese, desde já, que este entendimento baseiase tão somente na existência de cláusulas nos referidos contratos, que prevêem o reajuste de preços fixados originalmente, seja em razão da necessidade de aplicação de índices que reflitam a desvalorização da moeda (correção monetária) ou, ainda, em razão da ocorrência de eventos extraordinários; Fl. 1857DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 4 5 4) Em nenhum momento a fiscalização comprovou a ocorrência do reajuste dos preços predeterminados. Mesmo não comprovadas in casu as alegações suscitadas pela D. Autoridade Fazendária, fato é que tais argumentos não merecem prosperar, visto que os contratos firmados pela Impugnante e que são objeto da autuação fiscal ora guerreada atendem a todos os requisitos previstos no artigo 10, inciso XI, "b", da Lei n° 10.833/2003, inclusive o de "preço predeterminado". Isto porque além do fato de os índices de correção monetária previstos nos referidos contratos estarem de acordo com a legislação aplicável, há ainda que se considerar que a simples existência de cláusula de reajuste e revisão não é suficiente para que o contrato de prestação de serviços perca sua condução de contrato com preço predeterminado; 5) Mesmo com o novo regime da nãocumulatividade posto como regra para a incidência das contribuições em comento, entendeu por bem o legislador manter diversas categorias de contribuintes e determinados tipos de receitas sujeitas ao regime da cumulatividade, conforme previsto expressamente no artigo 10, inciso XI, "b", da Lei n° 10.833/2003. Com base no que dispõe o referido dispositivo, aplicase as normas anteriores à vigência da Lei n° 10.833/2003 para as receitas provenientes dos contratos firmados antes de 31 de outubro de 2003, com prazo superior a 1 ano, com preço predeterminado e que tenham por objeto o fornecimento de bens e serviços; 6) Foi com o propósito de cuidar para que o aumento repentino das referidas contribuições ao PIS e à COFINS não colhesse de surpresa situações já consolidadas e aperfeiçoadas sob o regime anterior que culminou com a edição do artigo 10, inciso XI, da Lei n° 10.833/03; 7) Assim, atendidos, cumulativamente, os requisitos acima indicados, tem o contribuinte o direito de submeter as receitas provenientes destes contratos à tributação pelo regime cumulativo do PIS e da COFINS, exatamente como é o caso da Impugnante, que firmou Contratos para o fornecimento de energia elétrica com as concessionárias de transmissão e distribuição de energia elétrica ELETROACRE, CERON e CELPA os quais atendem a todos os requisitos necessários para a manutenção do regime cumulativo; 8) A Autoridade Lançadora invocou os argumentos aduzidos na Nota Técnica SRF/COSIT n° 1/07 e no Parecer PGFN/CAT n° 1610/07 acerca da caracterização do "preço predeterminado", os quais expõem o entendimento do Fisco Federal no sentido de que o reajuste dos preços, em razão da necessidade de recomposição do equilíbrio econômico, é causa para a descaracterização do preço predeterminado e, consequentemente, a submissão das receitas provenientes destes contratos ao regime da nãocumulatividade; 9) A submissão das receitas provenientes dos contratos celebrados pela Impugnante ao regime da nãocumulatividade deuse exclusivamente em razão da existência de cláusulas de reajuste de preços, o que, no entendimento fiscal, retiraria a condição de preço predeterminado dos referidos contratos. Em nenhum momento o Auditor Fiscal, responsável pela lavratura dos Autos de Infração ora combatidos, comprovou a ocorrência, na prática, do reajuste dos preços originalmente pactuados. De qualquer forma, mesmo não restando comprovada a ocorrência do reajuste dos preços, resta evidente in casu que os contratos firmados pela Impugnante com as concessionárias de transmissão e distribuição de energia elétrica ELETROACRE, CERON e CELPA atendem a todos os requisitos previstos no artigo 10, inciso XI, da Lei n° 10.833/03, inclusive o de preço predeterminado; Fl. 1858DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 6 10) A Nota Técnica SRF/COSIT n° 1/07 e no Parecer PGFN/CAT n° 1610/07 expressam o entendimento fazendário acerca do conceito de "preço predeterminado" para fins dos dispositivos legais mencionados acima, no sentido de que a previsão de reajuste de preços, que não tenha como base custos de produção ou qualquer índice específico que reflita a variação dos insumos empregados, descaracterizaria o preço predeterminado fixado no contrato. Foi com base neste entendimento que foi editada a Instrução Normativa SRF n° 468/04 que, em seu artigo 2º , estabeleceu o conceito de preço predeterminado, conforme o entendimento fiscal: "Artigo 2º Para efeito desta Instrução Normativa, preço predeterminado é aquele fixado em moeda nacional como remuneração da totalidade do objeto do contrato. §1º Considerase também preço predeterminado aquele fixado em moeda nacional por unidade de produto ou por período de execução."; 11) Os contratos firmados pela Impugnante com as concessionárias estão fixados no parâmetro R$/MWh (Megawatt/hora), ou seja, por unidade de produto. A previsão de valor fixo em reais por MWh já caracteriza a condição de preço predeterminado do contrato, o que enseja concluir que os contratos firmados pela Impugnante com as concessionárias de energia elétrica atendem ao requisito de "preço predeterminado" previsto no artigo 10, inciso XI, "b", da Lei n° 10.833/03; 12) A Autoridade Lançadora concluiu que a previsão de reajuste dos preços fixados originalmente nos referidos contratos enseja a descaracterização do "preço predeterminado". Tal entendimento está baseado no que dispõem os §§ 2º e 3º do artigo 2º da IN SRF n° 468/04, in verbis: "§2° Se estipulada no contrato cláusula de aplicação de reajuste, periódico ou não, o caráter predeterminado do preço subsiste somente até a implementação da primeira alteração de preços verificada após a data mencionada no artigo 1º. §3° Se o contrato estiver sujeito a regra de ajuste para manutenção do equilíbrio econômicofinanceiro, nos termos dos arts. 57, 58 e 65 da Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993, o caráter predeterminado do preço subsiste até a eventual implementação da primeira alteração nela fundada após a data mencionada no artigo 1º.”; 13) Com o objetivo de esclarecer a questão acerca da possibilidade de reajuste dos preços, a Lei n° 11.196/2005 trouxe, em seu artigo 109, a seguinte norma reputada como interpretativa: "Artigo 109. Para fins do disposto nas alíneas b e c do inciso XI do caput do artigo 10 da Lei n° 10.833, de 29 de dezembro de 2003, o reajuste de preços em função do custo de produção ou da variação de índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do § 1o do artigo 27 da Lei no 9.0692, de 29 de junho de 1995, não será considerado para fins da descaracterização do preço predeterminado.”. Em razão da edição do referido artigo, a SRF editou a IN SRF n° 658/06 que, substituindo a IN SRF n° 468/04, manteve o mesmo teor da definição já examinada anteriormente; 14) Ao determinar por meio das referidas Instruções Normativas que o caráter de preço predeterminado subsiste apenas até eventual alteração dos preços em razão de reajuste aplicado, o Fisco Federal acabou por majorar, de forma reflexa, as alíquotas das referidas contribuições, o que somente pode ser realizado por meio de lei, sob pena de violação do princípio da legalidade. As Instruções Normativas, em razão do seu caráter regulamentar, nos termos do artigo 100, inciso I, do CTN, não podem usurpar os ditames legais, já que possuem caráter de acessoriedade. Não restam dúvidas acerca da ilegalidade das Instruções Normativas SRF n°s 468/04 e 658/06, que serviram de base para a acusação fiscal ora atacada, quanto à descaracterização do conceito de "preço predeterminado" quando do reajuste de preços, ante a patente ofensa ao princípio da legalidade; 15) De outra ponta, mesmo que se admita a legalidade das Instruções Normativas SRF n°s 468/04 e 658/06, ainda assim não há que se considerar a cláusula de Fl. 1859DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 5 7 reajuste de preços baseado na correção monetária como causa para descaracterização do "preço predeterminado". Isto porque nos termos do artigo 109 da Lei n° 11.196/2005 os contratos sujeitos a reajuste de preços em função do custo de produção ou da variação de índice que refletisse a variação ponderada dos custos dos insumos empregados, nos termos do inciso II, do § 1º do artigo 27 da Lei n° 9.069/1995, não perderiam o caráter de preço predeterminado. Nos termos do referido dispositivo legal supra citado, a regra geral é no sentido de que a correção monetária de quaisquer negócios jurídicos seria calculada com base no IPCr. Ocorre que referido índice (IPCr) foi extinto nos termos do artigo 8º da Lei n° 10.192/20015, razão pela qual passouse a aplicar outros índices, entre os quais o IGPM, que é um índice que se enquadra exatamente no conceito apresentado pelo artigo 27 da Lei n° 9.069/95; 16) Dessa forma, nos termos do artigo 109 da Lei n° 11.196/2005, a ocorrência de mero reajuste de preços, efetuado com base no artigo 27, § 1 o , inciso II, da Lei n° 9.069/95, independentemente do índice a ser utilizado (entre os quais o IGPM), não enseja a descaracterização da condição de preço predeterminado do contrato. E é exatamente o que se verifica no caso da Impugnante, haja vista que os contratos firmados com as concessionárias estabelecem o reajuste dos preços pelo IGPM, que é um índice que se enquadra na previsão do artigo 27, § 1º , inciso II, da Lei n° 9.069/95; 17) O Contrato 101398, firmado entre a Impugnante e a ELETROACRE, desde a data de sua celebração já previa a possibilidade de reajuste dos preços com base na correção monetária, conforme sua Cláusula 16º. E, na prática, os preços foram reajustados pelos 6º e 7º Termos Aditivos ao referido contrato, que determinou a correção do valor de R$ 72,50/MWh para R$ 192,00/MWh; 18) O Contrato 08598 celebrado entre a Impugnante e a concessionária CERON, em sua Cláusula 16º prevê o reajuste dos preços com base na variação setorial de preços de venda de energia elétrica por Produtores Independentes, divulgada pela ANEEL. Na realidade, tal reajuste não foi aplicado efetivamente, sendo certo que apenas houve, de fato, o reajuste do preço com base no IPGM por meio do 5º Termo Aditivo, que fixou o preço de R$ 103,51/MWh a partir de dezembro de 2000, ou seja, ante da edição da Lei n° 10.833/2003, e de R$ 105,22/MWh a partir de 07 de fevereiro de 2011; 19) Quanto aos Contratos firmados com a concessionária CELPA (15997, 16097, 16197 e 16297) há a previsão de reajuste do preço fixado em MWh anualmente pelo índice econômico divugado pela FGV, mais especificamente pelo IGPM, reajuste este que não foi aplicado até o presente momento; 20) Como se vê, os contratos celebrados pela Impugnante com as concessionárias de energia elétrica foram firmados com a previsão de reajuste de preços com base na correção monetária, mais especificamente com base no IGPM, o qual, como visto anteriormente, se enquadra no conceito estabelecido pelo artigo 27, § 1º , inciso II, da Lei n° 9.069/1995 e, portanto, está de acordo com o que dispõe o artigo 109 da Lei n° 11.196/2005, que estabelece o conceito de preço predeterminado; 21) De outra ponta, mesmo que assim não fosse, não se pode admitir que o reajuste de preços originalmente fixados tenha o condão de retirar a condição de preço predeterminado. Ora, a previsão de reajuste de preços se faz necessária para minimizar os efeitos do desgaste inflacionário ocorrido durante o ano, uma vez que a cláusula de reajuste de preço do valor do contrato tem por finalidade precípua a manutenção e a preservação da Fl. 1860DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 8 situação idealizada inicialmente pelas partes quando da assinatura de contrato de longo prazo, sem acarretar prejuízos a uma das partes. A alteração nominal do preço em virtude da atualização monetária, objetivando a manutenção da equação econômico financeira primitivamente estabelecida, ou seja, preestabelecida, não importa em aumento de preço e, sim, mera recomposição do valor real da moeda, necessário quer em função do fenômeno inflacionário, quer em função de ajustes decorrentes de aumento nos insumos e materiais usados no processo comercial ou industrial e mesmo decorrentes da majoração na carga tributária; 22) Dessa premissa, extraise a conclusão de que a cláusula de reajuste e correção monetária, que tem a finalidade de manutenção do equilíbrio econômico financeiro da relação contratual, em nada altera as características do preço predeterminado, já que tal reajuste não afeta a substância do negócio jurídico. Desta feita, mesmo que se admita que a previsão de reajuste dos preços não esteja enquadrado no conceito estabelecido artigo 27, § 1º, inciso II, da Lei n° 9.069/95, o que já restou demonstrado que na verdade está, ainda assim há que se considerar que tal reajuste aplicado a preços fixados inicialmente não enseja a alteração do conceito de "preço predeterminado", posto se caracterizar como mera reposição da desvalorização da moeda frente à inflação; 23) A Lei n° 10.833/03, que estaria sendo regulamentada e/ou interpretada pelas citadas Instruções Normativas SRF n° 468/04 e n° 658/06, não contem, nem expressa nem implicitamente, a restrição disposta nestes atos infralegais. Desta feita, nem mesmo a cláusula de revisão contratual, quando aplicada, poderia alterar o caráter de predeterminado do preço ajustado contratualmente. Referida cláusula, como explicado anteriormente, também alberga o equilíbrio econômicofinanceiro do contrato, sendo aplicada somente na eventualidade de evento novo, imprevisível, que reflita diretamente na equação econômica da execução do objeto contratual; 24) Neste passo, podese concluir que o contrato só pode ser executado com a manutenção das condições econômicas previstas pelas partes nos momentos do ajuste contratual. Na eventualidade de eventos extraordinários e imprevisíveis, que tornem a prestação excessivamente onerosa para uma das partes, devem as mesmas revisar as bases inicialmente ajustadas. Consequentemente, com a revisão do preço em virtude desses acontecimentos, não há que se falar em modificação do preço, mas tãosomente na recomposição do preço, ou seja, a tradução do preço ao novo contexto fático, preservandose sua equivalência original; 25) Frisese que no caso em tela o único reajuste de preço realizado por fato superveniente e extraordinário foi realizado no Contrato DT08598, que, dentre as previsões de revisão de preço, em sua Cláusula 19ª, prevê a previsão de majoração ou novos tributos ou encargos que possam ser cobrados da Impugnante. De acordo com a referida cláusula, o custo adicional correspondente será incorporado aos preços contratados através de Termo aditivo ao contrato, com efeito retroativo à data de vigência dos tributos ou encargos. Essa cláusula de revisão contratual foi efetivamente utilizada em 2000, quando da celebração do 4º Termo Aditivo, em virtude da alteração do percentual da COFINS, ocasião em que a Impugnante acordou com a concessionária em estabelecer novo valor da tarifa, desde janeiro de 2000, para R$ 93,93/MWh. Ocorre que, por essa revisão ter ocorrido anteriormente à edição da Lei n° 10.833/2003, não há qualquer razão que justifique a descaracterização do preço predeterminado sob tal argumento; 26) Nos termos do artigo 10, inciso XI, "b", da Lei n° 10.833/2003, dentre os requisitos a serem atendidos para que seja mantido o regime da cumulatividade, está a necessidade de os contratos terem sido firmados anteriormente a 31 de outubro de 2003. Fl. 1861DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 6 9 Analisandose as datas em que foram celebrados os contratos objeto da autuação ora combatida, não restam dúvidas de que os referidos contratos foram celebrados anteriormente a 31 de outubro de 2003, restando, portanto, atendido o requisito relativo à data de celebração dos contratos; 27) Outro requisito a ser atendido para que as receitas decorrentes dos contratos firmados antes de 31 de outubro de 2003 sejam tributadas pelo regime cumulativo da COFINS, à alíquota de 3%, referese ao prazo de vigência dos contratos. Mais especificamente, para que as receitas sejam tributadas pelo regime da cumulatividade, é necessário que o contrato firmado para o fornecimentos de bens e serviços tenha prazo mínimo de 1 ano de vigência, requisito este também atendido nos contratos celebrados pela Impugnante com as concessionárias ELETROACRE, CERON e CELPA; 28) O último requisito a ser analisado trata do objeto dos contratos sob questionamento, que necessariamente deve tratar de fornecimento de bens e serviços. E in casu dúvidas não restam quanto à natureza do objeto dos referidos contratos, que consiste no fornecimento de bens (energia elétrica), uma vez que é assente o entendimento de que o contrato de compra e venda de energia elétrica é espécie de contrato de fornecimento de bens; 29) Considerando a ilegalidade das Instruções Normativas SRF n°s 468/04 e 658/06 e o entendimento já pacífico de que o reajuste de preço com base na correção monetária e em razão de eventos extraordinários correspondem à mera recomposição do equilíbrio econômico financeiro, não restam dúvidas de os contratos celebrados pela Impugnante com as concessionárias ELETROACRE, CERON e CELPA atendem aos requisitos previstos no artigo 10, inciso XI, da Lei n° 10.833/03. A impugnação do contribuinte foi julgada improcedente em acórdão assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 REGIME DE TRIBUTAÇÃO. CONTRATOS DE LONGO PRAZO. PREÇO DETERMINADO. DESCARACTERIZAÇÃO. TRIBUTAÇÃO NÃOCUMULATIVA. As receitas decorrentes de contratos de fornecimento de energia elétrica, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, com cláusula de reajuste pelo IGPM, estão sujeitas, a partir do primeiro reajuste ocorrido, ao regime não cumulativo do PIS/Pasep e da Cofins, por restar descarecterizado o conceito de preço predeterminado. IMPUGNAÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO. PROVAS. De acordo com a legislação, a impugnação mencionará, dentre outros, os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. A mera alegação sem a devida produção de provas não é suficiente para a revisão do lançamento. Fl. 1862DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 10 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 REGIME DE TRIBUTAÇÃO. CONTRATOS DE LONGO PRAZO. PREÇO DETERMINADO. DESCARACTERIZAÇÃO. TRIBUTAÇÃO NÃOCUMULATIVA. As receitas decorrentes de contratos de fornecimento de energia elétrica, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, com cláusula de reajuste pelo IGPM, estão sujeitas, a partir do primeiro reajuste ocorrido, ao regime não cumulativo do PIS/Pasep e da Cofins, por restar descaracterizado o conceito de preço predeterminado. IMPUGNAÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO. PROVAS. De acordo com a legislação, a impugnação mencionará, dentre outros, os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. A mera alegação sem a devida produção de provas não é suficiente para a revisão do lançamento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em seu Recurso Voluntário, a Contribuinte reitera as razões de sua impugnação, pelo que não serão reproduzidas abaixo. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. O cerne da discussão nesse processo cingese ao conceito de "preço determinado", para fins de aplicação do art.10, XI da Lei 10.833/03, especialmente em relação à adoção do índice IGPM em cláusula contratual de reajuste de preços. A RFB entende que a adoção de tal índice não atende ao art.109 da Lei 11.196/2006, verbis: Art. 109. Para fins do disposto nas alíneas b e c do inciso XI do caput do art. 10 da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003, o reajuste de preços em função do custo de produção ou da variação de índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do § 1o do art. 27 da Lei no 9.069, de 29 de junho de 1995, não será considerado para fins da descaracterização do preço predeterminado. Fl. 1863DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 7 11 Tal posição decorre da consideração de que o IGPM não reflete o custo de produção ou da variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do § 1o do art. 27 da Lei no 9.069/95: Art. 27. A correção, em virtude de disposição legal ou estipulação de negócio jurídico, da expressão monetária de obrigação pecuniária contraída a partir de 1º de julho de 1994, inclusive, somente poderá darse pela variação acumulada do Índice de Preços ao Consumidor, Série r IPCr. § 1º O disposto neste artigo não se aplica: (...) II aos contratos pelos quais a empresa se obrigue a vender bens para entrega futura, prestar ou fornecer serviços a serem produzidos, cujo preço poderá ser reajustado em função do custo de produção ou da variação de índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados; Por sua vez, a Recorrente frisa a impossibilidade de aplicação das Instruções Normativas da SRF nº 468/04 e 658/06, por estabelecerem obstáculo ao reajustamento dos preços não existentes no dispositivo mencionado da lei 10.833/03. Vejamos inicialmente o dispositivo que prevê a permanência no regime cumulativo: Art. 10. Permanecem sujeitas às normas da legislação da COFINS, vigentes anteriormente a esta Lei, não se lhes aplicando as disposições dos arts. 1o a 8o: XI as receitas relativas a contratos firmados anteriormente a 31 de outubro de 2003: (...) b) com prazo superior a 1 (um) ano, de construção por empreitada ou de fornecimento, a preço predeterminado, de bens ou serviços; Da legislação depreendese imediatamente que os requisitos para que a receita permaneça na sistemática de cumulatividade das contribuições são: i) contrato anterior a 31/10/2003; ii) prazo de duração superior a 1 (um) ano; iii) de construção, empreitada ou fornecimento de bens ou serviços; iv) a preço predeterminado. A celeuma se dá em torno do que seria o preço predeterminado, reconhecendo o próprio Fisco a presença dos demais requisitos. A IN 658/2006, invocada pela Fazenda para fundamentar a pretensão arrecadatória, diz o seguinte: “Art. 3º Para efeito desta Instrução Normativa, preço predeterminado é aquele fixado em moeda nacional como remuneração da totalidade do objeto do contrato. Fl. 1864DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 12 § 1º Considerase também preço predeterminado aquele fixado em moeda nacional por unidade de produto ou por período de execução. §2º Ressalvado o disposto no § 3º, caráter predeterminado do preço subsiste somente até a implementação, após a data mencionada no art. 2º, da primeira alteração de preços decorrente da aplicação: I – de cláusula contratual de reajuste, periódico ou não; ou II – de regra de ajuste para manutenção do equilíbrio econômicofinanceiro do contrato, nos termos dos arts. 57, 58 e 65 da Lei 8.566, de 21 de junho de 1993. §3º O reajuste de preços, efetivado após 31 de outubro de 2003, em percentual não superior àquele correspondente ao acréscimo dos custos de produção ou à variação de índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do § 1º do art. 27 da Lei nº 9.069, de 29 de junho de 1995, não descaracteriza o preço predeterminado.” Em primeiro lugar, há que se pontuar que não há, nos autos, qualquer prova ou indício de que tenha sido implementada em relação aos contratos celebrados com a ELETRONORTE e a CELPA, nos termos do art.3º, §2º da IN 658/2006, o que por si só seria elemento fático suficiente para derrocar a autuação quanto a estes contratos, visto tal implementação ser condição de aplicação do referido dispositivo. Mas vamos além. A ilegalidade de tal instrução normativa é patente. Ao dar uma interpretação restritiva ao conceito de preço determinado, através da aposição de diversos elementos de forma inovadora para a sua caracterização, a Administração Pública violou o art.99 do Código Tributário Nacional, que restringe o alcance das normas infralegais àquilo que suas superioras hierárquicas determinem. A esse respeito, não faltam vozes na doutrina a denunciar tal ilegalidade: “Caracterização do preço predeterminado. “a) o Direito Civil fornece elementos suficientes para o hermenêutico encontrar a correta definição de “preço predeterminado”, não sendo passível às normas infralegais, promover a alteração de tais conceitos: b) a aplicação de cláusulas de reajuste não descaracteriza a predeterminação do preço, já que tais cláusulas visam, tãosomente, repor o valor originário da moeda acordada contratualmente; c) a aplicação de cláusula de revisão de preço em decorrência de eventos extraordinários igualmente não caracteriza a predeterminação do preço, tendo em vista que este tipo de cláusula busca a mera recomposição do preço, traduzindoo ao novo contexto fático e, assim, preservando sua equivalência original; d) as Instruções Normativas, na qualidade de ato infralegais, são normas complementares, não podendo inovar, modificar ou alterar a ordem jurídica vigente, como buscou fazer a Instrução Normativa nº 468/04. Referida Instrução Normativa é absolutamente ilegal, em razão de haver criado novos critérios para a definição de preço predeterminado, violando assim o princípio constitucional da legalidade; e) finalmente, ao buscar retroagir seus efeitos até fevereiro de 2004, mais uma vez a Instrução Normativa n. Fl. 1865DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 8 13 468/04 afrontou um princípio constitucional, desta vez o da irretroatividade das leis, albergado pelo artigo 150, III, “a”, da Carta Maior. ”(Berndt, Marco Antônio; Panzarini Filho, Clóvis, PIS/Cofins – a ilegalidade da IN 468/04 ao conferir novo conceito de preço predeterminado nos contratos a longo prazo. RDDT 115/70, abr/05). A doutrina tem como certo que o preço predeterminado não se descaracteriza pela aplicação de indexador, afirma que trata de mera atualização monetária de valores contratos, e, não o torna o preço pactuado (predeterminado) para fornecimento de bens e serviços em “preço indeterminado, que esse fato não importa em novação de contrato firmado previamente, é o que extraí da lição Sacha Calmon Navarro. (COELHO, Sacha Calmon Navarro; DERZI, Misabel Abreu Machado. PIS/Cofins Regime Cumulativo x não cumulativo.Contratos de Longo Prazo, Reajuste pelo ICPM, Instruções Normativas 468/04 e 658/06, RDDT nº 145m out/07, p.148) Na mesma linha, a jurisprudência desse Conselho já reconheceu diversas vezes, e de forma expressa, a ilegalidade das instruções normativas e a possibilidade de reajuste dos preços pelo IGPM sem que isso desqualifique o requisito de "preço determinado". Inclusive, devese mencionar que o IGPM é o índice oficial dos contratos de fornecimento de energia, conforme Nota Técnica n 224/2006 SFF/ANEEL, que aponta o IGP M como índice de correção apto a refletir a variação de custos dos insumos, não descaracterizando o caráter de preço predeterminado dos contratos em análise. Sobre isso também, cumpre assinalar que não há nos autos qualquer prova carreada pela fiscalização que aponte que a aplicação do IGPM, quando implementada. superaria o valor referente aos custos de produção ou dos insumos, elemento este que seria essencial ao caderno probatório para autorizar o entendimento do Fiscal pela aplicabilidade do regime nãocumulativo às receitas da empresa. Ora, não tendo a fiscalização produzido nada neste sentido, não tem o Contribuinte ônus de demonstrar que o IGPM está aquém ou além dos custos de produção e dos insumos, pois isso operaria um ônus probatório absolutamente arbitrário, que deveria restar apenas com o fiscal responsável pela autuação. Podese mencionar, por exemplo, o Acórdão 3403003.607, julgado em 26/02/2015, relatado pelo Cons. Domingos de Sá Filho, em turma presidida pelo Cons. Antonio Carlos Atulim, onde por unanimidade reconheceuse o que é dito aqui. Senão, vejamos a elucidativa ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/02/2004 a 31/05/2004 PREÇO PREDETERMINADO. ILEGALIDADE DA IN Nº 468/2004 e 658/2006. O preço predeterminado não se descaracteriza pela aplicação de indexador, tratase de mera atualização monetária dos valores dos contratos, e, não torna o preço pactuado (predeterminado) para fornecimento de bens e Fl. 1866DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 14 serviços em preço indeterminado. A ilegalidade da exclusão promovida pela IN 468/04 dos contratos de fornecimento de bens e serviços, com prazo superior a 1(um) ano, celebrados antes de 31 de outubro de 2003, a preço determinado, prevista no art. 10, inc. XI alínea “b” da Lei 10.833/03. Recurso Provido. No mesmo sentido, vejase o Acórdão 3302001.659, julgado em 26 de Junho de 2012, com voto da Ilustre Conselheira Fabíola Keramidas: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/08/2004 a 31/12/2007 CONTRATOS ANTERIORES A 31 DE OUTUBRO DE 2003. FORNECIMENTO DE BENS E SERVIÇOS. OBRIGAÇÕES DE TRATO SUCESSIVO. PREÇO PREDETERMINADO. REAJUSTE. Somente a adoção de índice que represente reajuste acima ao dos custos de produção Lei nº. 11.196, de 2005, art. 109 implica a sujeição das receitas decorrentes de contrato de fornecimento de bens e serviços de trato sucessivo, ao regime nãocumulativo da contribuição. A não comprovação, pela fiscalização, de que o índice adotado pelas partes superou o valor referente aos custos de produção, torna aceitável o índice escolhido pelas partes. IGPM. CORREÇÃO MONETÁRIA. CONTRATO PREDETERMINADO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO. O reajuste de preços efetuado nas condições descritas no artigo 27 da Lei n° 9.069/95 independentemente do índice utilizado não descaracteriza a condição de preço predeterminado do contrato e, consequentemente, a sua manutenção no regime cumulativo, previsto na Lei n° 9.718/98. Não consta na legislação impedimento à utilização do IGPM. CLÁUSULA DE REAJUSTE. CLÁUSULA DE REVISÃO. CONTRATO PREDETERMINADO. MANUTENÇÃO. A simples existência de cláusula de reajuste e revisão não é suficiente para que o contrato de prestação de serviços perca sua característica de contrato predeterminado, seria preciso comprovar que o valor referente ao aumento da carga tributária foi repassado ao preço do serviço contratado. Ademais, a existência das mencionadas cláusulas estão previstas na própria lei de licitações Lei nº 8.666/93, artigos 57, 58 e 65. Esta questão foi julgada pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Recurso Especial nº 1.089.998 – RJ, tendo aquele Tribunal concluído que a cláusula de correção monetária não altera o valor prédeterminado no contrato e que a Instrução Normativa em comento (IN 468/2004) extrapolou seu poder normativo, ocasionando o aumento da carga tributária sem ser por meio de lei, a saber: Fl. 1867DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM Processo nº 19515.720185/201242 Acórdão n.º 3402003.302 S3C4T2 Fl. 9 15 TRIBUTÁRIO. COFINS. REGIME DE CONTRIBUIÇÃO. LEI N. 10.833/03. INSTRUÇÃO NORMATIVA N. 468/2004. VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. 1. Cuidase de recurso especial interposto pelo contribuinte, questionando o poder regulamentar da Secretaria da Receita Federal, na edição da Instrução Normativa n. 468/04, que regulamentou o art. 10 da Lei n. 10.833/03. 2. O art. 10, inciso XI, da Lei n. 10.833/03 determina que os contratos de prestação de serviço firmados a preço determinado antes de 31.10.2003, e com prazo superior a 1 (um) ano, permanecem sujeitos ao regime tributário da cumulatividade para a incidência da COFINS. 3. A Secretaria da Receita Federal, por meio da Instrução Normativa n. 468/04, ao definir o que é "preço predeterminado", estabeleceu que "o caráter predeterminado do preço subsiste somente até a implementação da primeira alteração de preços" e, assim, acabou por conferir, de forma reflexa, aumento das alíquotas do PIS (de 0,65% para 1,65%) e da COFINS (de 3% para 7,6%). 4. Somente é possível a alteração, aumento ou fixação de alíquota tributária por meio de lei, sendo inviável a utilização de ato infralegal para este fim, sob pena de violação do princípio da legalidade tributária. 5. No mesmo sentido do voto que eu proferi, o Ministério Público Federal entendeu que houve ilegalidade na regulamentação da lei pela Secretaria da Receita Federal, pois "a simples aplicação da cláusula de reajuste prevista em contrato firmado anteriormente a 31.10.2003 não configura, por si só, causa de indeterminação de preço, uma vez que não muda a natureza do valor inicialmente fixado, mas tão somente repõe, com fim na preservação do equilíbrio econômicofinanceiro entre as partes, a desvalorização da moeda frente à inflação." (Fls. 335, grifo meu.) Mantenho o voto apresentado, no sentido de dar provimento ao recurso especial. (REsp 1089998/RJ, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 18/10/2011, DJe 30/11/2011) Não apenas a ilegalidade é patente, mas o absurdo de se tratar a aplicação de um índice de correção monetária como forma de acréscimo de valor do negócio se afigura contrária ao entendimento consolidado tanto pelo Supremo Tribunal Federal quanto pelo Superior Tribunal de Justiça: "(...) 3. União Federal. Pagamento de expurgos inflacionários. Admissibilidade. A correção monetária não se constitui em um plus, não é uma penalidade, mas mera reposição do valor real da moeda corroída pela inflação. Agravo regimental desprovido." (Supremo Tribunal Federal, Pleno, ACO nº 404 ExecuçãoAgR/ SP, Rel. Min.Maurício Correa, DJU 02/04/2004) Fl. 1868DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM 16 "Tributário Parcelamento Transação Correção Monetária Sobrevindo nova ordem econômica no país, não ofende direito do devedor a atualização de parcelas vincendas da OTNs, até porque a atualização não constitui um plus mas simples critério de atualização na moeda em regime inflacionário. (...)" (Superior Tribunal de Justiça, Primeira Turma, REsp nº 12.006/RS, Rel. Min. Garcia Vieira, DJU 09/09/91). Para se desqualificar a aplicação do IGPM deveria a fiscalização ter demonstrado que tal índice corresponderia a percentuais de correção superiores ao custo de produção ou custo dos insumos, o que não aconteceu no caso em tela. Nesse caso, o fiscal autuou apenas por haver a previsão do ajuste pelo IGPM. Ante o exposto, voto por dar PROVIMENTO INTEGRAL ao Recurso Voluntário. É como voto. Carlos Augusto Daniel Neto Relator Fl. 1869DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/1 0/2016 por CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO, Assinado digitalmente em 03/10/2016 por ANTONIO CARLOS ATULIM
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Numero do processo: 10830.720470/2011-35
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Nov 10 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Nov 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira - CPMF
Período de apuração: 04/01/2006 a 31/12/2007
DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. TERMO INICIAL.
No caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo decadencial aplicável será contado a partir da data da ocorrência do fato gerador, § 4º do art. 150 do CTN, somente na hipótese de haver antecipação do pagamento do tributo e na ausência de dolo, fraude ou simulação. De outro modo, o prazo decadencial será contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, I do CTN).
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Por consequência, sobre o crédito tributário assim constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Recurso Especial do contribuinte negado.
Recurso Especial da Fazenda Nacional provido.
Numero da decisão: 9303-004.407
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Valcir Gassen, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ANDRADA MARCIO CANUTO NATAL
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ementa_s : Assunto: Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira - CPMF Período de apuração: 04/01/2006 a 31/12/2007 DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. TERMO INICIAL. No caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo decadencial aplicável será contado a partir da data da ocorrência do fato gerador, § 4º do art. 150 do CTN, somente na hipótese de haver antecipação do pagamento do tributo e na ausência de dolo, fraude ou simulação. De outro modo, o prazo decadencial será contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, I do CTN). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Por consequência, sobre o crédito tributário assim constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso Especial do contribuinte negado. Recurso Especial da Fazenda Nacional provido.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2028; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT3 Fl. 5.274 1 5.273 CSRFT3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 10830.720470/201135 Recurso nº Especial do Procurador e do Contribuinte Acórdão nº 9303004.407 – 3ª Turma Sessão de 10 de novembro de 2016 Matéria Juros sobre a multa de ofício e Decadência Recorrentes FAZENDA NACIONAL NOVA AMÉRICA FOMENTO MERCANTIL LTDA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA CPMF Período de apuração: 04/01/2006 a 31/12/2007 DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. TERMO INICIAL. No caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo decadencial aplicável será contado a partir da data da ocorrência do fato gerador, § 4º do art. 150 do CTN, somente na hipótese de haver antecipação do pagamento do tributo e na ausência de dolo, fraude ou simulação. De outro modo, o prazo decadencial será contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, I do CTN). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Por consequência, sobre o crédito tributário assim constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso Especial do contribuinte negado. Recurso Especial da Fazenda Nacional provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 04 70 /2 01 1- 35 Fl. 5274DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.275 2 lhe provimento, vencidas as conselheiras Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Valcir Gassen, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello. Fl. 5275DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.276 3 Relatório Tratase, na espécie, de auto de infração de CPMF para exigência de valores não recolhidos nos anoscalendário 2006 e 2007. Junto com a exigência do tributo foi aplicada multa de ofício qualificada de 150%. Impugnado o lançamento a DRJ/Campinas manteve parcialmente o lançamento, afastando da exigência somente a qualificação da multa determinando sua aplicação no patamar de 75%. Da dispensa da multa, a DRJ apresentou recurso de ofício e o contribuinte apresentou recurso voluntário na parte em que foi vencido. Do julgamento dos referidos recursos, resultou o Acórdão nº 340301.623, de 23/05/2012, o qual possui a seguinte ementa, com destaques para as partes objeto do presente recurso especial: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 04/01/2006 a 31/12/2007 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO. INEXISTÊNCIA. ART. 173, I DO CTN. O lançamento por homologação, para atrair a regulação da decadência estatuída no art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional, exige a antecipação do pagamento ou, ao menos, existência de declaração dotado do efeito de confissão de dívida, de maneira que, se ausentes, a contagem do prazo decadencial passa à regra geral do art. 173, I do mesmo diploma, cujo termo inicial é o primeiro dia exercício seguinte àquele em que poderia ter se efetuado o lançamento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA CPMF Período de apuração: 04/01/2006 a 31/12/2007 CPMF. SUJEIÇÃO PASSIVA. CONTRIBUINTE. RECOLHIMENTO. RESPONSABILIDADE SUPLETIVA. Por expressa disposição do art. 5º, § 3º da Lei nº 9.311/96, em caso de falta de retenção da CPMF, fica mantida, em caráter supletivo, a responsabilidade do contribuinte pelo seu pagamento, disposição esta que reflete o regramento do art. 128 do Código Tributário Nacional. CPMF. LANÇAMENTO. INCONSISTÊNCIAS. DEMONSTRAÇÃO. Fl. 5276DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.277 4 As alegações de inconsistências no lançamento, para que admitidas, devem vir acompanhadas de elementos de provas que demonstrem cabalmente a existência de indigitados defeitos e que influam na apuração do valor exigido, não servindo para tal objetivo simples conjecturas ou mesmo documentos que não apontam claramente o vício. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 04/01/2006 a 31/12/2007 JUROS DE MORA. MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. PREVISÃO LEGAL. INEXISTÊNCIA. Não existe amparo legal para a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. Recurso de ofício negado e recurso voluntário provido em parte. Desta decisão, a Fazenda Nacional manejou recurso especial de divergência acostado às fls. 5144/5158. Ataca referido acórdão somente na parte que dispensou a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Argumenta em síntese que esta exigência está amparada por dispositivos legais. O recurso especial da Fazenda Nacional foi admitido por meio do despacho de fl. 5182, de 27/11/2014, proferido pelo então Presidente da 3ª Seção de Julgamento do CARF. O contribuinte apresentou, tempestivamente, contrarrazões a esse recurso, fls. 5219/5225. Por sua vez, o contribuinte também apresentou recurso especial de divergência, fls. 5195/5200, alegando que no caso o prazo decadencial deveria ser o previsto no art. 150, § 4º e não o do art. 173, inc. I, ambos do CTN. O recurso especial do contribuinte foi admitido por meio do despacho de fl. 5260/5262, de 02/09/2015, aprovado pelo então Presidente da 4ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF. É o relatório. Fl. 5277DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.278 5 Voto Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal Conhecimento do Recurso Especial da Fazenda Nacional O recurso especial da Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos legais de admissibilidade, à medida em que efetivamente apresentou elementos que demonstram que sobre a mesma matéria houve decisões divergentes entre colegiados diferentes. Sendo certo que o acórdão recorrido entendeu não ser aplicável a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, o acórdão paradigma (910100.539) aplicou entendimento totalmente oposto. Em suas contrarrazões o contribuinte defende o não conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional alegando que os paradigmas apresentados são dos anos de 2007 e 2010 e cita jurisprudência do CARF afirmando que o entendimento neles consubstanciado já está superado. Esta afirmação não é verdadeira. Como veremos na análise do mérito do recurso existem sim decisões atuais, inclusive da CSRF, com o mesmo entendimento dos paradigmas citados. Além do mais não existe previsão regimental para afastar conhecimento do recurso especial em razão de existência de jurisprudência em sentido contrário aos paradigmas. O que o RICARF prevê, § 3º do art. 67, é se os paradigmas contrariarem súmula do CARF, o que não é o caso. Assim entendo que o recurso especial da Fazenda Nacional deve ser conhecido. Conhecimento do Recurso Especial do contribuinte O recurso especial do contribuinte é tempestivo. A matéria, decadência, encontrase prequestionada. A divergência está comprovada, à medida em que o acórdão recorrido entendeu que a informação prestada pela instituição financeira, desacompanhada de pagamento, não é suficiente para a aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4º do CTN, sendo que o acórdão paradigma entendeu que referida informação por si só seria suficiente para aplicação dessa regra decadencial. Como se vê as decisões são divergentes e o recurso especial do contribuinte deve ser conhecido. Mérito Recurso Especial do Contribuinte Decadência O acórdão recorrido negou provimento ao recurso voluntário do contribuinte, mantendo entendimento de que não houve o transcurso do prazo decadencial, sendo legítimo o lançamento. Aplicou ao caso a contagem do prazo decadencial previsto no art. 173, I do CTN, tendo em vista que não houve antecipação de pagamento da CPMF e que a simples informação Fl. 5278DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.279 6 pela instituição financeira não é suficiente para aplicar a regra do art. 150, § 4º do CTN, pois essa informação não tem o caráter de confissão de dívida. O contribuinte defende a tese aplicada no acórdão paradigma de que a informação, à Receita Federal, dos valores dos débitos da CPMF pelas instituições financeiras seria suficiente para a aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4º do CTN. Veja o seguinte trecho do seu recurso especial: (...) No caso dos autos, ainda que não tenha havido pagamento antecipado, houve sim declaração prévia do débito da CPMF pelas instituições financeiras diretamente ao Fisco que, inclusive, se valeu dessas informações para lavrar o auto de infração... (...) Vejamos então a redação dos dispositivos legais do Código Tributário Nacional a respeito da decadência: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento. § 2º Não influem sobre a obrigação tributária quaisquer atos anteriores à homologação, praticados pelo sujeito passivo ou por terceiro, visando à extinção total ou parcial do crédito. § 3º Os atos a que se refere o parágrafo anterior serão, porém, considerados na apuração do saldo porventura devido e, sendo o caso, na imposição de penalidade, ou sua graduação. § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. (...) Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; Constatase então que o CTN prevê duas formas de contagem do prazo decadencial: 1) cinco anos da ocorrência do fato gerador, no caso do art. 150, § 4º e 2) cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter Fl. 5279DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.280 7 sido efetuado. No caso do presente processo, aplicando a primeira regra, parte do auto de infração não poderia ter sido exigido. Aplicandose a segunda regra haveria a exigibilidade total do lançamento. A esse respeito o STJ, por ocasião do julgamento do Recurso Especial repetitivo 973.733/SC, já firmou o entendimento de que para aplicação da regra do art. 150, § 4º do CTN, há a necessidade de ter havido antecipação de pagamento do tributo. Como se trata de julgado nos termos do art. 543C do CPC, deve este colegiado seguir o que foi nele decidido (art. 62, § 2º do anexo II do Regimento do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015). Veja o que dispôs referido julgado: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). (...) 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. De acordo com esta decisão, o art. 173, I do CTN deve ser aplicado quando a lei não prevê a antecipação do pagamento, ou prevendo, o contribuinte não efetua o pagamento de forma antecipada. Assim, em sentido oposto, para aplicação do prazo decadencial previsto no art. 150, § 4º do CTN deve haver pagamento do tributo relativo àquele período de apuração, ainda que parcial. Abstraise no caso a análise de existência de dolo, fraude ou simulação, uma vez inexistente essa discussão no presente processo. Concluise portanto que é de extrema relevância na definição da forma de contagem do prazo decadencial, saber se houve ou não antecipação de pagamento. Qualquer declaração apresentada pelo contribuinte, com ou sem força de confissão de dívida, não tem o condão de afastar a necessidade da existência da antecipação do pagamento. Menos ainda, quando tratase de uma informação de terceiros e não do próprio contribuinte, como é o caso dos presentes autos. Fl. 5280DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.281 8 A declaração reclamada pelo contribuinte em seu recurso especial veio das instituições financeiras que tinham obrigação legal de informar à Receita Federal, os valores devidos da CPMF em relação aos contribuintes que efetuavam movimentações financeiras submetidas à incidência da referida contribuição. Evidentemente que a Receita Federal não poderia, somente com esta informação advinda de terceiros, considerar referidos débitos como confessados e propor sua cobrança executiva, sendo certo que estas informações não se revestem da natureza de título habilitado à inscrição em dívida ativa. Transcrevo abaixo ementa de recente jurisprudência da 2ª Turma da CSRF, nesse mesmo sentido: DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. ART. 173, I DO CTN. Nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o direito de a Fazenda Pública lançar o crédito tributário decai em 5 (cinco) anos após verificada a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária (art. 150, § 4% do CTN), desde que comprovado o recolhimento antecipado do tributo, o que não é o caso dos autos, aplicandose, nestes casos, a regra decadencial prevista no art. 173, I do CTN. (Acórdão nº 9202004253, de 22/06/2016, Processo 15956.000258/200698, relatoria da Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira). Diante do exposto, considerando que a CPMF é um tributo sujeito ao lançamento por homologação e que não houve antecipação de pagamento, concluo que deve ser aplicada ao presente caso a contagem do prazo decadencial prevista no art. 173, inc. I do CTN. Portanto, nego provimento ao recurso especial apresentado pelo contribuinte. Recurso Especial da Fazenda Nacional Incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. O recurso especial da Fazenda Nacional defende a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, sendo que acórdão recorrido afastou a sua aplicação. O contribuinte apresentou contrarrazões que reforçam o entendimento do acórdão recorrido de que não existe previsão legal para a pretendida incidência. Essa matéria não é nova e no meu entendimento existe previsão legal para a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. De acordo com o art. 161 do CTN, o crédito tributário não pago no vencimento deve ser acrescido de juros de mora, qualquer que seja o motivo da sua falta. Dispõe ainda em seu parágrafo primeiro que, se a lei não dispuser de modo diverso, os juros serão cobrados à taxa de 1% ao mês. Fl. 5281DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.282 9 De forma que o art 61 da Lei nº 9.430/96 determinou que, a partir de janeiro/97, os débitos vencidos com a União serão acrescidos de juros de mora calculados pela taxa Selic quando não pagos nos prazos previstos na legislação tributária, até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Entendo que os débitos a que se refere o art. 61 da Lei nº 9.430/96 correspondem ao crédito tributário de que dispõe o art. 161 do CTN. O art. 139 do CTN dispõe que o crédito tributário decorre da obrigação tributária e tem a mesma natureza desta. Já o art. 113, parágrafo primeiro, do mesmo diploma legal, define que a obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Assim, se o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta, necessariamente deve abranger o tributo e a penalidade pecuniária. A multa de ofício aplicada ao presente lançamento está prevista no art. 44 da Lei nº 9.430/96 que prevê expressamente a sua exigência juntamente com o tributo devido. Ao constituir o crédito tributário pelo lançamento de ofício, ao tributo somase a multa de ofício, tendo ambos a natureza de obrigação tributária principal, devendo incidir os juros à taxa Selic sobre a sua totalidade. Tanto é assim, que a própria Lei 9.430/96, em seu art. 43, prevê a incidência de juros Selic quando a multa de ofício é lançada de maneira isolada. Não faria sentido a incidência dos juros somente sobre a multa de ofício exigida isoladamente, pois ambas tem a mesma natureza tributária. Nesse sentido é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, no AgRg no Recurso Especial nº 1.335.688PR, relator Ministro Benedito Gonçalves, em decisão de 04/12/2012, assim ementada: "PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. Para afastar a afirmação do contribuinte, em suas contrarrazões, de que a jurisprudência recente do CARF seria uniforme no sentido da não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, transcrevo abaixo algumas recentes decisões da CSRF: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, mediante aplicação da taxa Fl. 5282DF CARF MF Processo nº 10830.720470/201135 Acórdão n.º 9303004.407 CSRFT3 Fl. 5.283 10 SELIC conforme Súmula CARF nº 4. (Acórdão CSRF nº 9101 002385, de 12/07/2016, Processo 10932.000633/200905, relator do voto vencedor do Conselheiro André Mendes de Moura). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional, e sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão CSRF nº 9202004250, de 23/06/2016, Processo 10980.723322/201582, relatoria da Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão CSRF nº 9303003480, de 25/02/2016, Processo 16682.721207/201191, relatoria do Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas). Diante do acima exposto, dou provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. Conclusão Voto por negar provimento ao recurso especial do contribuinte e dar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. Andrada Márcio Canuto Natal Relator Fl. 5283DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15374.971833/2009-22
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 29 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 20/03/2003
PRESCRIÇÃO. SUSPENSÃO ATRAVÉS DE PROTESTO JUDICIAL.
A propositura de ação cautelar de protesto tem o condão de suspender a prescrição do direito do contribuinte de pleitear a compensação de crédito que possui, face ao princípio da isonomia processual.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3402-003.373
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário para reformar o acórdão recorrido na parte em que decidiu pela prescrição do crédito, determinando-se o retorno do processo à unidade julgadora de origem para análise das demais questões de mérito ventiladas na manifestação de inconformidade.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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Restituição. Prescrição. Recorrente FÁBRICA CARIOCA DE CATALISADORES S.A. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 20/03/2003 PRESCRIÇÃO. SUSPENSÃO ATRAVÉS DE PROTESTO JUDICIAL. A propositura de ação cautelar de protesto tem o condão de suspender a prescrição do direito do contribuinte de pleitear a compensação de crédito que possui, face ao princípio da isonomia processual. Recurso Voluntário Provido. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário para reformar o acórdão recorrido na parte em que decidiu pela prescrição do crédito, determinandose o retorno do processo à unidade julgadora de origem para análise das demais questões de mérito ventiladas na manifestação de inconformidade. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Trata o presente processo de PER/DCOMP transmitida para compensação de débitos tributários federais com créditos decorrentes de pagamento indevido ou a maior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 4. 97 18 33 /2 00 9- 22 Fl. 657DF CARF MF Processo nº 15374.971833/200922 Acórdão n.º 3402003.373 S3C4T2 Fl. 3 2 A compensação não foi homologada pela unidade de origem sob o fundamento de que o DARF discriminado no PER/DCOMP, apesar de localizado, havia sido integralmente utilizado na compensação de débitos declarados pelo contribuinte, que esgotaram o crédito disponível. O contribuinte apresentou manifestação de inconformidade na qual alega que recolheu indevidamente o IPI no período de outubro de 2002 a maio de 2003 (aplicou a alíquota de 10%), sobre saídas de produtos cuja alíquota fora reduzida a zero. Em face disso, considera fazer jus à restituição dos valores pagos, e que tais valores podem ser objeto de compensação, com base no art.74 da Lei nº 9.430/96. A manifestação foi julgada improcedente (Acórdão 14054.309), a despeito do reconhecimento da existência do crédito, em razão da verificação de ofício da prescrição do direito do contribuinte de pleitear a restituição. O contribuinte apresentou Recurso Voluntário no qual repisa a sua impugnação, acrescentando que o prazo prescricional do direito de pleitear a restituição foi interrompido por iniciativa da Recorrente, que ajuizou ação cautelar de protesto, com o fito de interromper o prazo de prescrição nos termos do art.174, parágrafo único, II do Código Tributário, em 05/09/2007, vindo a ser definitivamente efetivada em 21/01/2015. É o relatório. Voto Conselheiro Antonio Carlos Atulim, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402003.367, de 29 de setembro de 2016, proferido no julgamento do processo 15374.971828/200910, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402003.367): "O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido pelo Colegiado. A questão inicial do processo dizia respeito à existência ou não do crédito de IPI decorrente do pagamento indevido, questão esta prima facie superada pelo próprio reconhecimento da decisão a quo da sua existência, com base nos documentos de fls. 111303, analiticamente examinados no "Relatório extrajudicial sobre utilização crédito IPI" de fls. 526661, verbis: Em princípio, observo que a manifestante, aparentemente, trouxe aos autos provas do indevido recolhimento, bem como, a autorização para pedir a restituição do adquirente. Fl. 658DF CARF MF Processo nº 15374.971833/200922 Acórdão n.º 3402003.373 S3C4T2 Fl. 4 3 O seu exaurimento cognitivo restou prejudicado pela verificação ex officio da prescrição do direito do Recorrente de pleitear a restituição dos créditos, com fundamento no art.168, I c/c art.165, I, ambos do Código Tributário Nacional, concluindo nos seguintes termos: Pois bem, consta dos autos que este processo é o de crédito e que a PERDCOMP foi transmitida em 01/04/2008, sendo que o pagamento indevido foi efetuado em 10/03/2003, ou seja, já em 11/03/2008 o contribuinte tinha perdido o direito de pleitear a repetição do indébito, considerando o disposto no CTN: Pois bem, em seu Recurso Voluntário, o Recorrente apresentou certidão judicial da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro (fls.502503) certificando a propositura, por ela, de uma Ação de Protesto Judicial contra a Fazenda Nacional com o objetivo de interromper o prazo para restituição do IPI recolhido a partir de Outubro de 2002 até o último decêndio de Maio de 2003. Certificou também que a propositura da ação se deu em 05/09/2007, tendo o protesto interruptivo da prescrição sendo efetivado em 21/01/2015. Em primeiro lugar, há que se enfrentar a questão da preclusão acerca da apresentação de provas sobre o ajuizamento da ação cautelar de protesto pela Recorrente, haja vista tais provas terem sido juntadas apenas com seu Recurso Voluntário. Entendemos ser perfeitamente cabível tal juntada e manifestação específica acerca da questão da prescrição, por se tratar de questão fática e jurídica trazia posteriormente aos autos, ao ser conhecida de ofício na decisão recorrida e que portanto somente pôde ser atacada em seus fundamentos no âmbito do Recurso Voluntário. É a dicção expressa do art.16, §4, "c" do Decreto 70.235/72, verbis: Art.16. (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Desse modo, é legítima a juntada de documentos após a decisão de 1ª instância com vistas a contrapor matéria conhecida de ofício pelo Colegiado a quo. Superado este ponto, podese enfrentar seguramente o mérito das alegações. De fato, a decisão recorrida está correta ao estabelecer que o dies a quo do prazo prescricional relativo ao direito do contribuinte de pleitear a restituição tem início com o pagamento feito nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, é essa a dicção clara do CTN: “Art. 168 O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: Fl. 659DF CARF MF Processo nº 15374.971833/200922 Acórdão n.º 3402003.373 S3C4T2 Fl. 5 4 I nas hipóteses dos incisos I e II do art. 165, da data da extinção do crédito tributário ; “Art. 165 O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade de pagamento, ressalvado o disposto no § 4° do art. 162, nos seguintes casos: I cobrança ou pagamento espontâneo do tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; Desse modo, o art.150, §1º do mesmo Código é claro quanto a eficácia extintiva do pagamento antecipado, sendo a homologação posterior apenas condição resolutória, isto é, exercer seus efeitos desde o momento da sua realização, ficando sujeito a evento futuro e incerto que pode lhe tirar a eficácia: “Art. 150 O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1° O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos desta lei extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento.” Para afastar quaisquer dúvidas a respeito da identificação da data de início de contagem do prazo, a Lei Complementar nº 118/2005 trouxe em seu artigo 3º regra interpretativa a esse respeito, aplicandose retroativamente por força do art.106, I do CTN: Art. 3º Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1o do art. 150 da referida Lei. Até o presente ponto o raciocínio da decisão recorrida é irretocável. Todavia, olvidou o julgado da existência de causa de interrupção da prescrição do direito à repetição tributária, por não ter sido tal matéria informada desde o início na manifestação de inconformidade. De fato, as causas de interrupção da prescrição são as seguintes: Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em cinco anos, contados da data da sua constituição definitiva. Parágrafo único. A prescrição se interrompe: I – pelo despacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscal; II pelo protesto judicial; III por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; IV por qualquer ato inequívoco ainda que extrajudicial, que importe em reconhecimento do débito pelo devedor. Fl. 660DF CARF MF Processo nº 15374.971833/200922 Acórdão n.º 3402003.373 S3C4T2 Fl. 6 5 Portanto, o ajuizamento da ação cautelar de protesto, se feito dentro do prazo prescricional, tem o condão de interrompêlo. Nesse sentido, inclusive, é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, consolidado nos votos da lavra do Min. Demócrito Reinaldo, a exemplo do REsp 52.281/DF, julgado em 03/03/1997, no qual consignou o seguinte: Com efeito, o CTN, em seu artigo 174, parágrafo único, inciso II, expressamente elege o protesto judicial como causa interruptiva do prazo prescricional para propor a ação de cobrança do crédito tributário. Face ao princípio da "isonomia processual", idêntico tratamento deve ser dispensado ao contribuinte, nas ações em que postula repetição do indébito. Tal entendimento encontra eco também no REsp nº 82.553/DF, REsp nº 40.365/DF e no REsp 108.866/DF, com a ressalva que neste último se enfrenta especificamente a data em que se inicia a recontagem do prazo prescricional: PROCESSO CIVIL. INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO. PROTESTO JUDICIAL. SE A AÇÃO E PRECEDIDA DE PROTESTO JUDICIAL, A PRESCRIÇÃO SE INTERROMPE NA DATA DA CITAÇÃO DESTE (CC, ART. 172). RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO EM PARTE. (REsp 108.866/DF, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, SEGUNDA TURMA, julgado em 24/02/1997, DJ 07/04/1997, p. 11098) Nesses termos, a citação da Fazenda Nacional marca o reinício do prazo prescricional, retroagindo a interrupção à data da propositura da ação cautelar de protesto, por força da regra da actio nata, consagrada de longa data pelo Superior Tribunal de Justiça e consentânea com a sistemática do exercício do direito de ação. Por fim, recentemente, cumpre apontar também a decisão do REsp 335942/RS, julgado em 01/10/2009, cuja ementa traz o seguinte: PROCESSUAL CIVIL, ADMINISTRATIVO E TRIBUTÁRIO. CRÉDITOPRÊMIO DE IPI. PRESCRIÇÃO. PROTESTO JUDICIAL. INTERRUPÇÃO. INTELIGÊNCIA DOS ARTS. 1º, 8º E 9º DO DECRETO 20.910/1932. 1. O STJ possui entendimento no sentido de que o prazo prescricional referente ao aproveitamento do créditoprêmio de IPI é de cinco anos contados da aquisição do direito, nos termos do Decreto 20.910/1932. 2. Hipótese que se diferencia da restituição de tributo indevidamente recolhido (art. 168, I, do CTN), pois se trata de pedido relativo a benefício fiscal não reconhecido pelo Fisco a ser creditado pelo interessado. 3. O regime jurídico da prescrição deve ser analisado à luz do Decreto 20.910/1932, que prevê a possibilidade de interrupção por uma única vez, recomeçando o lapso temporal a correr pela metade. 4. Ajuizouse medida cautelar de protesto judicial interruptivo da prescrição (art. 867 do CPC; c/c o art. 202, II, do Código Civil), tendo sido citada a recorrente em 6.12.1984. A ação declaratória que originou o presente recurso foi ajuizada em 9.11.1987, isto é, Fl. 661DF CARF MF Processo nº 15374.971833/200922 Acórdão n.º 3402003.373 S3C4T2 Fl. 7 6 após o transcurso de mais de dois anos e meio do ato interruptivo. Prescrição reconhecida. 5. Recurso Especial provido. (REsp 335.942/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 01/10/2009, DJe 09/10/2009) A posição atual do STJ é pela aplicação dos arts. 8º e 9º do Decreto nº 20.910/32, que se encontra válido e vigente no ordenamento pátrio e assim prescreve: Art. 8º A prescrição somente poderá ser interrompida uma vez. Art. 9º A prescrição interrompida recomeça a correr, pela metade do prazo, da data do ato que a interrompeu ou do último ato ou termo do respectivo processo. Considerando que a propositura da ação se deu em 05/09/2007 e portanto dentro do prazo prescricional e tendo o protesto interruptivo da prescrição sendo efetivado em 21/01/2015, possui ainda o Contribuinte dois anos e meio para pleitear sua restituição, contados desta data, isto é, até 21/07/2017. Portanto, não há que se considerar a prescrição apontada pela decisão a quo. Superado a preliminar referente à prescrição, verificase que a decisão recorrida pautouse exclusivamente por ela, deixando de analisar o mérito relativo ao crédito pleiteado, razão pela qual esse Colegiado não pode avaliála. Ante o exposto, voto por dar provimento à preliminar de inocorrência de prescrição do direito ao pedido de ressarcimento/compensação, remetendo os autos à DRJ responsável pela decisão a quo para, superada a questão prescricional, se manifeste sobre o mérito do crédito pleiteado." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dáse provimento ao recurso voluntário, para reformar o acórdão recorrido na parte em que decidiu pela prescrição do crédito, determinandose o retorno do processo à unidade julgadora de origem para análise das demais questões de mérito ventiladas na manifestação de inconformidade (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Fl. 662DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.724714/2015-75
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 22 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2013
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROVAS APRESENTADAS EM RECURSO VOLUNTÁRIO. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL.
Como regra geral a prova deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de fazê-lo em outro momento processual. Contudo, tendo o contribuinte apresentado os documentos comprobatórios no voluntário, razoável se admitir a juntada e a realização do seu exame, pois seria por demais gravoso e contrário ao princípio da verdade material a manutenção da glosa de deduções sem a análise das provas constantes nos autos.
Além disso, esta é a ultima instância administrativa para derradeiro reconhecimento, e não sendo atendido, o contribuinte não hesitará em buscar a tutela do seu direito no Poder Judiciário, o que exigiria do Fisco enfrentar a mesma situação, com as provas apresentadas em juízo.
DEDUÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES PARA A PREVIDÊMCIA PRIVADA. COMPROVAÇÃO.
As contribuições para a previdência privada do contribuinte são dedutíveis, desde que devidamente comprovadas.
DEDUÇÃO DE DESPESAS COM SAÚDE. RECIBOS DE PAGAMENTO. REQUISITOS LEGAIS.
São dedutíveis as despesas com saúde pagas dentro do ano calendário. Comprovado que o gasto se refere ao contribuinte e seus dependentes as despesas glosadas devem ser restabelecidas em razão de ter havido a comprovação documental das deduções.
DEDUÇÃO A TÍTULO DE PENSÃO ALIMENTÍCIA. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. GLOSA DA DEDUÇÃO.
São dedutíveis da base de cálculo do imposto sobre a renda os valores pagos a título de pensão alimentícia quando em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente e dentro dos parâmetros do normativo fiscal.
Recurso Voluntário Provido Parcialmente.
Numero da decisão: 2201-003.357
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Daniel Melo Mendes Bezerra, Relator e Denny Medeiros da Silveira (Suplente convocado). Designado para elaborar o voto vencedor o Conselheiro José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado).
Assinado digitalmente.
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente.
Assinado digitalmente.
DANIEL MELO MENDES BEZERRA - Relator.
Assinado digitalmente.
JOSÉ ALFREDO DUARTE FILHO - Redator designado.
EDITADO EM: 07/10/2016
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira(presidente), Carlos Alberto do Amaral Azeredo, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada), Denny Medeiros da Silveira (Suplente convocado), Daniel Melo Mendes Bezerra, Carlos César Quadros Pierre Ana Cecília Lustosa da Cruz.
Nome do relator: DANIEL MELO MENDES BEZERRA
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PROVAS APRESENTADAS EM RECURSO VOLUNTÁRIO. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. Como regra geral a prova deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual. Contudo, tendo o contribuinte apresentado os documentos comprobatórios no voluntário, razoável se admitir a juntada e a realização do seu exame, pois seria por demais gravoso e contrário ao princípio da verdade material a manutenção da glosa de deduções sem a análise das provas constantes nos autos. Além disso, esta é a ultima instância administrativa para derradeiro reconhecimento, e não sendo atendido, o contribuinte não hesitará em buscar a tutela do seu direito no Poder Judiciário, o que exigiria do Fisco enfrentar a mesma situação, com as provas apresentadas em juízo. DEDUÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES PARA A PREVIDÊMCIA PRIVADA. COMPROVAÇÃO. As contribuições para a previdência privada do contribuinte são dedutíveis, desde que devidamente comprovadas. DEDUÇÃO DE DESPESAS COM SAÚDE. RECIBOS DE PAGAMENTO. REQUISITOS LEGAIS. São dedutíveis as despesas com saúde pagas dentro do ano calendário. Comprovado que o gasto se refere ao contribuinte e seus dependentes as despesas glosadas devem ser restabelecidas em razão de ter havido a comprovação documental das deduções. DEDUÇÃO A TÍTULO DE PENSÃO ALIMENTÍCIA. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. GLOSA DA DEDUÇÃO. São dedutíveis da base de cálculo do imposto sobre a renda os valores pagos a título de pensão alimentícia quando em cumprimento de decisão judicial ou AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 72 47 14 /2 01 5- 75 Fl. 181DF CARF MF 2 acordo homologado judicialmente e dentro dos parâmetros do normativo fiscal. Recurso Voluntário Provido Parcialmente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Daniel Melo Mendes Bezerra, Relator e Denny Medeiros da Silveira (Suplente convocado). Designado para elaborar o voto vencedor o Conselheiro José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado). Assinado digitalmente. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Presidente. Assinado digitalmente. DANIEL MELO MENDES BEZERRA Relator. Assinado digitalmente. JOSÉ ALFREDO DUARTE FILHO Redator designado. EDITADO EM: 07/10/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira(presidente), Carlos Alberto do Amaral Azeredo, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada), Denny Medeiros da Silveira (Suplente convocado), Daniel Melo Mendes Bezerra, Carlos César Quadros Pierre Ana Cecília Lustosa da Cruz. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra a decisão de primeira instância que julgou procedente em parte a impugnação do contribuinte, ofertada em face da lavratura de Notificação de Lançamento de IRPF, que é objeto do presente processo. Em procedimento de revisão da Declaração de Ajuste Anual 2013, ano calendário 2012, procedeuse ao lançamento de ofício, originário da apuração das infrações abaixo descritas, por meio da Notificação de Lançamento do Imposto de Renda Pessoa Física, lavrada em 13/04/2015, pelos motivos adiante descritos pela autoridade lançadora: Glosa do valor de R$ 18.402,12, indevidamente deduzido a título de contribuição à Previdência Privada e Fapi, por falta de comprovação, ou cujo ônus não tenha sido do contribuinte, ou cujo benefício não tenha sido deste ou de seus dependentes, ou ainda de adequação do valor da dedução declarada ao limite percentual de 12% dos rendimentos considerados, após alterações, na determinação da base de cálculo do imposto devido na declaração de rendimentos. Fl. 182DF CARF MF Processo nº 11080.724714/201575 Acórdão n.º 2201003.357 S2C2T1 Fl. 182 3 Glosa do valor de R$ 78.384,00, indevidamente deduzido a título de Pensão Alimentícia Judicial e/ou por Escritura Pública, por falta de comprovação, ou por falta de previsão legal para sua dedução. Não foi apresentada decisão judicial, acordo homologado judicialmente ou escritura pública fixando valor de pensão alimentícia para as declaradas alimentadas ANDREIA CARDOSO DE SOUZA (nasceu em 1974) e de CAROLINE MARIATH CORREA (nasceu em 1981) conforme requisitado pelo Termo de Intimação Fiscal no. 2013/236024568433621. A filha EDUARDA CARDOSO CORREA foi incluída pelo contribuinte como sua dependente na declaração. Glosa do valor de R$ 5.180,36, indevidamente deduzido a título de despesas médicas por falta de comprovação. Em sede de impugnação, o recorrente alegou que: No que concerne à dedução indevida de previdência privada e fapi informa que foi cometido erro no preenchimento da DIRPF/2013. O valor deve ser considerado como dedução de outra natureza. A dedução pretendida foi feita conforme homologação judicial; Em relação à dedução indevida de pensão alimentícia judicial, informa que o valor referese a pagamentos efetuados a título de pensão alimentícia em decorrência de decisão judicial. Em relação à glosa da dedução indevida de despesas médicas relaciona dependentes. A DRJ julgou improcedente a impugnação. Cientificado do acórdão da DRJ em 12/11/2015, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário em 10/12/2015, tempestivamente, alegando em síntese que: Solicita a revisão quanto ao plano de previdência privada da PRECAVER. Foi descontado da sua contacorrente justamente o valor informado na sua declaração de rendimentos. Foi acordado judicialmente que Andreia Cardoso de Souza não mais receberia pensão e que somente sua filha Eduarda Cardoso Correa receberia pensão passando de cinco para seis saláriosmínimos mensalmente. A sua filha Caroline possui emprego com baixa remuneração, ainda recebendo a pensão que foi determinada ao recorrente, não tendo a intenção de retirar a pensão alimentícia que foi determinada pelo juiz. Quanto às despesas médicas, tem descontado diretamente da sua produção como médico cooperado da UNIMED, conforme valores descritos no Auto de Infração. Os valores deduzidos a título de plano de saúde referemse à sua pessoa e sua filha Eduarda, que é sua dependente. Fl. 183DF CARF MF 4 Por fim, requer o acolhimento do presente recurso para o fim de que seja cancelado o débito fiscal reclamado. Voto Vencido Conselheiro Daniel Melo Mendes Bezerra, Conselheiro Relator Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo. Ademais, preenche os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Da dedução de contribuição para a Previdência Privada As deduções relativas aos Planos de Previdência Privada encontram amparo na legislação, mais precisamente no art. 4o., inciso IV e V, da Lei 9.250, de 26 de dezembro de 1995, que assim dispõe: Art. 4o. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto, poderão ser deduzidas: (...); IV as contribuições para a Previdência Social da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; V as contribuições para as entidades de previdência privada domiciliadas no País, cujo ônus tenha sido do contribuinte, destinadas a custear benefícios complementares assemelhados aos da Previdência Social; Grifouse. O recorrente deduziu o valor de R$ 18.402,12 a título de previdência privada e foi intimado pela autoridade lançadora para comprovar a regularidade da dedução. Quando do prolatação da decisão de primeira instância carreou aos autos documento comprovando o pagamento de previdência privada em nome de Andressa Correia Vara. Em sede de recurso voluntário, junta documento emitido pela entidade de previdência privada no afã de comprovar a regularidade da referida dedução, entretanto, não justifica o motivo de não têlo feito em momento oportuno. Com relação à apresentação de provas o Decreto nº 70.235/1972 dispõe em seu art.16: Art. 16. A impugnação mencionará: § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997). a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; ( Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) b) refirase a fato ou a direito superveniente ;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das Fl. 184DF CARF MF Processo nº 11080.724714/201575 Acórdão n.º 2201003.357 S2C2T1 Fl. 183 5 condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) Como se vê, o § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/1972 determina o momento processual para juntada de prova documental, sob pena de ocorrer a preclusão. No caso concreto, não restaram configuradas as hipóteses de exceção à regra. Analisar a prova documental carreada ao presente recurso daria a opção ao contribuinte de escolher a instância julgadora que melhor lhe aprouvesse para o julgamento do seu pedido, o que consistiria em uma inegável ofensa às normas adjetivas que norteiam o processo administrativo fiscal, com a supressão da primeira instância. Assim sendo, deve ser mantida a glosa do valor de R$ 18.402,12 destinado à entidade de previdência privada. Da Dedução da Pensão Alimentícia Judicial A dedução da base de cálculo relativa ao pagamento de pensão alimentícia encontra previsão no inciso II do caput do art. 4º, bem como na alínea “f” do inciso II do caput do art. 8º, ambos da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, abaixo transcritos: Art. 4º Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto de renda poderão ser deduzidas: (...) II as importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão ou acordo judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais; Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os não tributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: (...) f) às importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, inclusive a prestação de alimentos provisionais; A decisão de piso manteve a glosa, arrematando que: Por meio dos documentos carreados aos autos pelo contribuinte não houve possibilidade de se comprovar se os valores pagos pelo contribuinte à ANDREIA CARDOSO CORREA foram decorrentes de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, uma vez que somente apresentou decisão provisória consubstanciada no acórdão prolatado no Agravo de Instrumento que tratou do afastamento do contribuinte da residência comum do casal e da fixação de alimentos provisórios em favor da exmulher e da filha do casal. Fl. 185DF CARF MF 6 Em sede recursal, teve o sujeito passivo a oportunidade de contrapor o argumento, inclusive com a juntada de documentação complementar, mas permaneceu inerte. Assim, entendo que a decisão recorrida deve ser mantida pelos seus próprios e doutos fundamentos. Da dedução das despesas médicas O art. 8.º, I e II, “a”, da Lei n.º 9.250, de 26 de dezembro de 1995, estabelece que: Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais,bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (...).” De acordo com a decisão de primeira instância, o contribuinte não apresentou documentos comprobatórios das despesas das despesas médicas informadas na Declaração de Ajuste Anual de Imposto de Renda do anocalendário 2012. Como dito alhures, o § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/1972 determina o momento processual para juntada de prova documental, sob pena de ocorrer a preclusão. No caso concreto, não restaram configuradas as hipóteses de exceção à regra. O sujeito passivo não apresentou motivos para a apresentação de prova extemporânea. No caso que se cuida, não houve nenhuma justificativa para a não exibição de documentos no momento da impugnação, nem havia no momento do proferimento da decisão de piso, qualquer indício probatório, por menor que fosse, para amparar as alegações do sujeito passivo. Assim, deve ser mantida a glosa de dedução de despesas com saúde. Fl. 186DF CARF MF Processo nº 11080.724714/201575 Acórdão n.º 2201003.357 S2C2T1 Fl. 184 7 Conclusão Diante de todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado digitalmente. Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Voto Vencedor Conselheiro Suplente Convocado José Alfredo Duarte Filho, Redator Designado. DA ADMISSIBILIDADE DAS PROVAS Em que pese as respeitáveis razões do ilustre Conselheiro Relator, peço vênia para manifestar entendimento divergente esposando posicionamento conclusivo diverso do adotado pelo ilustre julgador, na linha da jurisprudência relacionada a decisões no âmbito dos julgamentos na esfera administrativa. O regramento do instituto da preclusão visa estabelecer uma ordem no sistema processual com a finalidade de atingir um desempenho satisfatoriamente célere e ordenado. Contudo, se generalizado, por puro formalismo, acaba sendo aplicado de forma exagerada. É sabido que, por vezes, a ausência de um ato no limite temporal aprazado pode levar o julgador a proferir uma decisão de forma definitiva, ocasionando a perda de direito a um julgamento justo na esfera administrativa. Assim, para uma correta e adequada decisão no contencioso administrativo fiscal o julgador deve se utilizar de todos os meios de provas disponíveis ou colocadas a disposição, não deixando de recebêlas em razão de não terem sido apresentadas no momento da instrução do processo. A produção probatória que acontece em momento posterior a instrução do processo administrativo pode ser de ordem complementar àquelas provas apresentadas anteriormente ou, ainda, aquelas não oferecidas originalmente no momento próprio, por impossibilidade real na obtenção dos documentos necessários a comprovação dos fatos e das alegações apresentadas. Em qualquer caso, a baliza temporal não deve impedir ou dificultar o exercício do direito no que se refere aos princípios da verdade material, do contraditório e da ampla defesa. A jurisprudência em matéria de preclusão na apresentação das provas no contencioso administrativo está longe do consenso, mas tem conduzido a uma linha de entendimentos de concessão elástica no recebimento das provas no recurso, com o objetivo da obtenção de maior instrumentalidade da essência e conteúdo do processo. Cito a seguir alguns Acórdãos do CARF, entre outros: Acórdão CARF 1201001.447 de 20/09/2016 EMENTA. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 2002 Fl. 187DF CARF MF 8 DOCUMENTAÇÃO JUNTADA APÓS DILIGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. POSSIBILIDADE. Via de regra, a prova documental deve ser apresentada em sede de impugnação, sob pena de preclusão. No entanto, em razão do Princípio da Verdade Material, devese analisar os documentos apresentados pelo Contribuinte após a impugnação, uma vez que tal documentação visa reforçar seu direito em face da argumentação apresentada pelo julgador a quo. Acórdão CARF 2402004.925 de 08/03/2016 EMENTA.Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF Exercício: 2010 NORMAS GERAIS. PRECLUSÃO. DOCUMENTOS APRESENTADOS NO RECURSO. CONHECIMENTO. REQUISITOS. Segundo a legislação, a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; refirase a fato ou a direito superveniente; ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. No presente caso, a prova documental deve ser conhecida, mesmo após a impugnação, pois soluciona a questão, é mero detalhamento de documentos já apresentados desde o início do processo, não ocasionará retorno à etapa processual já superada e não se demonstra como forma de procrastinar a decisão final nos autos. LANÇAMENTO. OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA PRINCIPAL. GLOSA DE DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. São dedutíveis as despesas médicas pagas dentro do ano calendário referente a tratamento do contribuinte e de seus dependentes. Comprovado que o gasto com despesa médica referese à contribuinte, as despesas médicas que haviam sido glosadas em razão da glosa devem ser restabelecidas. No presente caso, ficou claro, pela documentação apresentada, que a despesa médica ocorreu, para e com a recorrente, motivo da dedutibilidade da despesa e, portanto, provimento do recurso. Recurso Voluntário Provido em Parte. Acórdão CARF 1102000.940 de 13/03/2014 EMENTA.Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 2004 NULIDADE. LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA. Não é nulo o procedimento fiscal que glosou despesas com juros após lavrar diversas intimações com pedidos de esclarecimentos sobre a matéria, aguardando prazo razoável para apresentação de documentos antes da lavratura do auto de infração. PRODUÇÃO DE PROVAS NO VOLUNTÁRIO. POSSIBILIDADE PARA SE CONTRAPOR ÀS RAZÕES DO JULGAMENTO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. Como regra geral, a prova documental deve ser apresentada na impugnação, precluindo do direito de fazêlo em outro momento processual. Fl. 188DF CARF MF Processo nº 11080.724714/201575 Acórdão n.º 2201003.357 S2C2T1 Fl. 185 9 Contudo, tendo o contribuinte trazido os documentos que julgava aptos a comprovar seu direito, ao não ser bem sucedido no julgamento de 1a instância, razoável se admitir a juntada das provas no voluntário, pois é exceção à regra geral de preclusão a produção de novos documentos destinados a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Ademais, seria por demais gravoso, e contrário ao princípio da verdade material, a manutenção da glosa de deduções sem a análise das provas constantes nos autos. E ainda, sendo esta a última instância administrativa, tal postura exigiria do contribuinte a busca da tutela do seu direito no Poder Judiciário, o que exigiria do Fisco a análise das provas apresentadas em juízo, e ainda condenaria a União pelas custas do processo. No âmbito judicial, a Ministra Nancy Andrighi do STJ também se manifestou pela prevalência da busca da verdade real sobre o formalismo processual do voto, no REsp 331.550, da seguinte forma: “Antes do compromisso com a lei, o magistrado tem um compromisso com a justiça e com o alcance da função social do processo, para que este não se torne um instrumento de restrita observância da forma, distanciandose da necessária busca pela verdade real.” A Ministra também afirmou, no REsp 1.012.306 que: “a iniciativa probatória do magistrado, em busca da verdade real, com realização de prova de ofício, é amplíssima, porque é feita no interesse público de efetividade da justiça.” A preclusão no processo administrativo fiscal federal, como também no âmbito estadual e municipal, é tratada especialmente no que dispõe o parágrafo 4º, do art. 16, do Decreto nº 70.235/72, quando diz: “§ 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) Fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior;” No interesse da verdade material e enriquecimento do conteúdo do processo o julgador deve sobrepor a essência sobre a formalidade. Neste sentido o termo “motivo de força maior” deve ser entendido de maneira abrangente porque qualquer ocorrência ou a falta dela pode se transformar em razão impeditiva para obtenção da prova até aquele momento da instrução. Ocorrência ou inocorrência, não necessariamente na gravidade conceitual do termo “motivo de força maior”, mas que em certos casos se transformam em dificuldades geradoras de morosidade que impedem o contribuinte do cumprimento da obrigação naquele prazo. Não se vislumbra a possibilidade do contribuinte propositadamente deixar de apresentar prova no momento próprio, o que viria em desfavor de sua defesa. Se não o faz quando lhe é de direito oferecida a oportunidade, certamente que é motivado por fatores alheios a sua vontade. É absolutamente normal acontecerem eventos que proporcionam consequências ou efeitos desfavoráveis ao contribuinte no momento da coleta das provas e isso deve ser considerado Fl. 189DF CARF MF 10 pelo julgador para o estabelecimento do equilíbrio do direito entre as partes, em atendimento a orientação do art. 7º do CPC, como segue: “Art. 7º É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório”. (grifei) Limitar a apresentação de provas a um único momento no processo administrativo fiscal pode ferir o princípio da ampla defesa e do contraditório ao impedir o contribuinte de contrapor fatos e reforçar afirmações em defesa de seus interesses, o que se reverte em verdadeira penalidade exatamente pela perda do direito a um julgamento justo. Ao contrário, o julgador pode ter a iniciativa de pedir diligências e solicitar a juntada de novas provas, entendendo cabível, para o estabelecimento do equilíbrio do direito entre as partes e a prevalência da verdade real. Podese afirmar que o melhor critério para aferição da peremptoriedade do prazo é aquele que considera a prevalência da essência sobre a forma e não resulte em alteração no equilíbrio da relação processual, com vantagem a uma das partes em detrimento da outra, em contrário senso do principio da isonomia no processo. Assim, em homenagem aos princípios da ampla defesa e da verdade real a apresentação de provas no processo administrativo fiscal deve ser acolhida com a elasticidade temporal na dimensão do interesse do julgador na mais justa decisão da lide, não permitindo prevalecer a verdade fictícia quando obstada a oportunidade probatória da verdade real. Por fim, o novo CPC traz reforço para esse entendimento quando suaviza o posicionamento anterior que atribuía ao contribuinte, de forma quase que exclusiva, o ônus da prova, e inaugura a possibilidade das partes atuarem em prol de uma instrução colaborativa, a fim de oferecer ao julgador melhores subsídios para proferir a decisão, sem que se faça uso da regra do ônus da prova de forma unilateral. Este novo procedimento está explicitado no art. 373 e seus incisos. De forma semelhante o art. 6º do CPC reforça este entendimento colaborativo ao dizer que “Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. Por tudo isso, no processo administrativo se faz necessário o exame das provas oferecidas mesmo após a impugnação, afastandose o argumento da preclusão, de forma a não afrontar o direito do contribuinte ao contraditório e a ampla defesa. DO MÉRITO O lançamento fiscal teve como base a glosa das contribuições para a previdência privada no valor de R$ 18.402,12, a dedução das despesas médicas no valor de R$ 5.180,36 e o valor da dedução da pensão alimentícia judicial de R$ 78.384,00, como despesas deduzidas do imposto sobre a renda. Da dedução de contribuição para a Previdência Privada Fl. 190DF CARF MF Processo nº 11080.724714/201575 Acórdão n.º 2201003.357 S2C2T1 Fl. 186 11 As deduções relativas aos Planos de Previdência Privada encontram amparo na legislação, mais precisamente no art. 4o., inciso IV e V, da Lei 9.250, de 26 de dezembro de 1995, conforme explicitado no voto do Conselheiro Relator. “Art. 4o. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto, poderão ser deduzidas: (...) IV as contribuições para a Previdência Social da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; V as contribuições para as entidades de previdência privada domiciliadas no País, cujo ônus tenha sido do contribuinte, destinadas a custear benefícios complementares assemelhados aos da Previdência Social;” Restou constatado que o Recorrente deduziu o valor de R$ 18.402,12 a título de previdência privada que constou em sua declaração de ajuste anual de 2012, e juntou comprovantes emitidos pela Unicred Porto Alegre, conforme fls. 157, 158 e 159, referentes a pagamentos de sua previdência ao Precaver Plano de Previdência, fazendose o contribuinte merecedor da dedução efetuada na Declaração de Ajuste Anual. Da dedução das despesas médicas O art. 8.º, I e II, “a”, da Lei n.º 9.250, de 26 de dezembro de 1995, conforme consta do voto do Relator. “Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento;” O valor constante na declaração de ajuste anual referese ao plano de saúde do Recorrente Eduardo Marques Correa e de sua filha Eduarda Cardoso Correa, dependente Fl. 191DF CARF MF 12 para efeito do IR, no valor de R$ 5.180,36, conforme constou na Declaração de Ajuste Anual de Imposto de Renda do anocalendário 2012, cujos valores do plano foram descontados na fonte, conforme documentos juntados, visto que presta serviços para entidade daquele ramo de atividade, que é a própria Unimed, conforme fls. 131 e 162 do processo, fazendose merecedor da dedução da referida despesa na apuração do imposto. Da Dedução da Pensão Alimentícia Judicial A dedução da base de cálculo relativa ao pagamento de pensão alimentícia encontra previsão no inciso II do caput do art. 4º, bem como na alínea “f” do inciso II do caput do art. 8º, ambos da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, conforme explicitado no voto do Conselheiro Relator. “Art. 4º Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto de renda poderão ser deduzidas: (...) II – as importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão ou acordo judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais; Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no ano calendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os não tributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: (...) f) às importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normasdo Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, inclusive a prestação de alimentos provisionais;” O Recorrente juntou ao processo, por ocasião da impugnação, cópia de parte da decisão judicial que decidiu pela obrigação da pensão alimentícia para Caroline Mariath Correa, filha nascida em 1981, com 31 anos de idade no anocalendário de 2012, portanto sem direito ao benefício da dedução. Na oportunidade foi apresentada decisão judicial consubstanciada no Acórdão prolatado no Agravo de Instrumento que tratou, também, da fixação de alimentos provisórios em favor da exesposa e da filha. Contudo, por ocasião do recurso o Recorrente juntou ao processo cópia do acordo judicial homologado e formal de partilha dos bens, conforme fls. 170 a 179, confirmando em declaração pessoal na fl. 169, que sua exesposa Andréia Cardoso de Sousa não recebe nenhuma pensão alimentícia desde junho de 2008 e que somente a filha Eduarda Cardoso Correa continuou a receber seis salários mínimos mensais a título de pensão alimentícia. Ocorre que o contribuinte informou na DIRPF/2013, anobase 2012, Eduarda Cardoso Correa como sua dependente, não podendo, por isso, considerála como beneficiária de pensão alimentícia judicial para efeito de apuração do imposto, o que se caracterizou na utilização de duplo benefício da dedução para efeito de apuração do imposto. Por todas essas razões fica mantida a glosa no valor total efetuado pela fiscalização a título de pensão alimentícia. Assim, ficam mantidas as deduções das contribuições para a previdência privada no valor de R$ 18.402,12 e das despesas médicas do contribuinte e sua dependente no Fl. 192DF CARF MF Processo nº 11080.724714/201575 Acórdão n.º 2201003.357 S2C2T1 Fl. 187 13 valor de R$ 5.180,36. Permanece, porém, a glosa das deduções das pensões alimentícias judicias no valor de R$ 78.384,00, em vista do que consta no processo. Ante o exposto, voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário. Assinado digitalmente. José Alfredo Duarte Filho – Redator Designado. Fl. 193DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.723628/2010-24
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 20 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Aug 18 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007
DESPESAS PESSOAIS DO SÓCIO PAGAS PELA EMPRESA. DESCARACTERIZAÇÃO DE MÚTUO. REMUNERAÇÃO INDIRETA. PAGAMENTO SEM CAUSA. INCIDÊNCIA EXCLUSIVA NA FONTE.
Constatado o pagamento de remuneração indireta, sem a respectiva adição à remuneração direta, ou verificando-se o pagamento efetuado sem causa, em ambos os casos o Imposto de Renda passa a ser devido exclusivamente na fonte, que assume o ônus do tributo.
Recurso Especial do Procurador conhecido e negado
Numero da decisão: 9202-004.301
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que não o conheceram e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar-lhe provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Patrícia da Silva e Ana Paula Fernandes.
Fez sustentação oral o patrono do contribuinte, Dr. Luiz Henrique Bona Terra, OAB-PR 17.427, escritório Ferrari Turra Advogados.
(assinado digitalmente)
LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
MARIA HELENA COTTA CARDOZO - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Gerson Macedo Guerra e Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2005, 2006, 2007 DESPESAS PESSOAIS DO SÓCIO PAGAS PELA EMPRESA. DESCARACTERIZAÇÃO DE MÚTUO. REMUNERAÇÃO INDIRETA. PAGAMENTO SEM CAUSA. INCIDÊNCIA EXCLUSIVA NA FONTE. Constatado o pagamento de remuneração indireta, sem a respectiva adição à remuneração direta, ou verificandose o pagamento efetuado sem causa, em ambos os casos o Imposto de Renda passa a ser devido exclusivamente na fonte, que assume o ônus do tributo. Recurso Especial do Procurador conhecido e negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que não o conheceram e, no mérito, por unanimidade de votos, em negarlhe provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Patrícia da Silva e Ana Paula Fernandes. Fez sustentação oral o patrono do contribuinte, Dr. Luiz Henrique Bona Terra, OABPR 17.427, escritório Ferrari Turra Advogados. (assinado digitalmente) LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Presidente em exercício (assinado digitalmente) MARIA HELENA COTTA CARDOZO Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 36 28 /2 01 0- 24 Fl. 2085DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Gerson Macedo Guerra e Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório A pessoa jurídica autuada, Logika Distribuidora de Cosméticos Ltda, bem como a empresa Bonyplus Indústria e Comércio, Exportação e Importação, efetuaram em favor do Sr. Newton Bonin, durante os anoscalendário de 2005 e 2006, diversas transferências de recursos e pagamentos de despesas com escolas e cursos de línguas, condomínio, cartões de crédito do contribuinte pessoa física e seu cônjuge, despesas com luz, gás, celular do beneficiário, cônjuge e filhos, telefone, IPTU, IPVA, seguros de vida e de veículos do beneficiário, cônjuge e filhos, clubes, salários e respectivos encargos sociais de empregados inerentes a atividade rural do beneficiário, dentre outros pagamentos. O Sr. Newton Bonin é sócio administrador da empresa Logika Distribuidora de Cosméticos Ltda, que contabilizou os pagamentos na conta "Empréstimos a Pessoas Ligadas". A fiscalização entendeu que na verdade ditos pagamentos representariam vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados, portanto integrariam a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável, como rendimentos do trabalho com vínculo empregatício. Quanto à empresa Bonyplus Indústria e Comércio, Exportação e Importação, os pagamentos foram feitos ao Sr. Newton Bonin a título de adiantamento de remuneração de representação, havidos em conta de "Adiantamentos de Distribuidores", e foram tributados como omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício. A autuação da pessoa física foi levada a cabo por meio do processo nº 10980.723625/201091, no qual foi prolatado o Acórdão nº 210201.857, de 02/03/2012, mantendo a exigência. Nesse julgado consta que o art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, fez parte da base legal da autuação, e que também foi feita citação ao art. 3º da Lei nº 7.713, de 1988, no corpo do Auto de Infração. A fiscalização adicionou a remuneração indireta aos rendimentos da pessoa física, reajustou a base de cálculo e aplicou a tabela progressiva. Já no presente processo é exigido da fonte pagadora Logika Distribuidora de Cosméticos Ltda. a multa isolada por falta de retenção na fonte, com fundamento no art. 9º, da Lei nº 10.426, de 2002, e juros de mora. Em sessão plenária de 14/05/2013, foi julgado o Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2202002.298, assim ementado: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2005, 2006, 2007 DECADÊNCIA. MULTA E JUROS DE MORA EXIGIDOS ISOLADAMENTE PELA FALTA DE RETENÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA DEVIDO A TÍTULO DE ANTECIPAÇÃO. A contagem do prazo decadencial da multa e dos juros de mora exigidos isoladamente em razão da falta de retenção do imposto Fl. 2086DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO Processo nº 10980.723628/201024 Acórdão n.º 9202004.301 CSRFT2 Fl. 2.085 3 de renda retido na fonte a título de antecipação submetese à regra geral estabelecida no art. 173, inciso I, do Código Tributário Nacional CTN, ou seja, cinco anos do primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado. IMPOSTO DE RENDA NA FONTE. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVIDADE DAS OPERAÇÕES DE MÚTUO PACTUADOS COM A PESSOA FÍSICA DO SÓCIO. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA NA FONTE. A falta de comprovação da efetividade das operações de mútuos pactuados entre a empresa e seu sócio, contabilizados ou não, sujeitarseá à incidência do imposto exclusivamente na fonte, conforme o disposto no art. 61 da Lei no 8.981, de 1995. Para que a hipótese de incidência se materialize é necessário que a fiscalização demonstre a existência do pagamento e que não seja comprovada a operação ou causa deste pagamento. FALTA DE PAGAMENTO DE IMPOSTO DE RENDA TRIBUTADO EXCLUSIVAMENTE NA FONTE. MULTA ISOLADA E JUROS DE MORA ISOLADOS PELA FALTA DE RETENÇÃO. INEXIGIBILIDADE. Descabe a aplicação da multa e dos juros de mora exigidos isoladamente quanto os rendimentos que lhe deram origem são tributados exclusivamente na fonte. Nesse caso, cabe exigir da fonte pagadora o pagamento do imposto com os devidos acréscimos legais." O processo foi encaminhado à PGFN em 14/06/2013 (Despacho de Encaminhamento de fls. 2.029). De acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527, de 2010, a intimação presumida da Fazenda Nacional ocorreria 30 dias após a referida data, em 14/07/2013. Em 01/07/2013, foi interposto o Recurso Especial de fls. 2.030 a 2.048 (Despacho de Encaminhamento de fls. 2.049), com fundamento nos arts. 67 e 68, do RICARF, visando rediscutir a natureza e forma de tributação dos rendimentos que deram origem à aplicação da multa de ofício isolada e juros de mora isolados. Como paradigma, a Fazenda Nacional indicou o Acórdão nº 210201.857, proferido no processo 10980.723625/201091, formalizado em nome de Newton Bonin, em que se tratou das mesmas operações objeto do presente processo. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme despacho de 08/11/2013 (fls. 2.051 a 2.060). No apelo, a Fazenda Nacional alega, em síntese: o acórdão recorrido merece reforma, pois analisando os mesmo fatos do acórdão paradigma, chegou a interpretação jurídica totalmente diversa; o acórdão recorrido concluiu que houve erro na capitulação legal da omissão de rendimentos imputada a pessoa física e, consequentemente, na forma de tributação adotada, entendendo que não houve a comprovação das operações ou da sua causa; Fl. 2087DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO 4 entretanto, conforme relatado pela autoridade fiscal, foi constatado que a recorrida efetuou diversas transferências de recursos e pagamentos de despesas em favor de seu sócio (pagamento de escolas e cursos de línguas, condomínio, cartões de crédito de titularidade do sócio e do cônjuge, despesas com luz, gás, celular do beneficiário, cônjuge e filhos, telefone, IPTU, IPVA, seguros de vida e de veículos do beneficiário, cônjuge e filhos, clubes, salários e respectivos encargos sociais de empregados inerentes a atividade rural do sócio etc), contabilizados como Empréstimos a Pessoas Ligadas; esses valores foram confirmados tanto pela fonte pagadora como pelo Sr. Newton Bonin, sócio e beneficiário das transferências e pagamentos efetuados pela pessoa jurídica; embora tais valores tenham sido contabilizados na conta de empréstimos, a fiscalização concluiu que se tratavam de vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados e integram a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável; entretanto, apesar de não comprovadas as operações de mútuo, foram comprovados os pagamentos de remuneração indireta em retribuição aos serviços prestados pela pessoa física a pessoa jurídica (causa); indo mais além, a fiscalização identificou que os valores recebidos foram utilizados para pagamento de despesas pessoais do recorrente, como “cursos de idiomas, ensino fundamental e superior, cartões de créditos, despesas inerentes à atividade rural explorada pelo beneficiário, despesas com condomínio, luz, telefone, celular, gás, seguros, aquisição de imóveis, transferências de recursos para contas correntes, dentre outros, despesas essas pagas em nome do contribuinte fiscalizado, de seu cônjuge e dependentes”; iniludivelmente, não se tratou de contratos de mútuo, mas de remuneração que beneficiou o contribuinte e que deve ser tributada pelo imposto de renda da pessoa física; neste contexto, uma vez devidamente identificados os valores recebidos e a causa de seu pagamento (retribuição aos serviços prestados à pessoa jurídica), resta inaplicável o art. 61, da Lei nº 8.981, de 1995; quanto à divergência sobre tributação exclusiva na fonte, destacamos que, nos termos da legislação vigente, o recebimento de rendimentos está sujeito à incidência do imposto na fonte e, uma vez constatado que não houve o oferecimento à tributação, a retenção e tampouco o recolhimento pela fonte pagadora, do imposto de renda devido, a responsabilidade pelo mesmo passa a ser do beneficiário (Parecer Normativo COSIT nº 01/20022); assim, resta hígida a conduta da autoridade fiscal, que lançou o imposto de renda na pessoa física (mantido pelo CARF no acórdão paradigma) e na pessoa jurídica, como penalidade, à falta de identificação do beneficiário da despesa e a não incorporação das vantagens aos respectivos salários dos beneficiários, lançou Multa Isolada e Juros Isolados pela não retenção do IRRF; não há que se falar em lançamento exclusivamente na pessoa jurídica, mas sim na pessoa física mais multa na pessoa jurídica, tal qual firmado no acórdão paradigma; em suma, perfeito o lançamento realizado pela autoridade fiscal, que lançou o imposto de renda na pessoa física (mantido pelo CARF no acórdão paradigma) e na pessoa jurídica, como penalidade, à falta de identificação do beneficiário da despesa e a não Fl. 2088DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO Processo nº 10980.723628/201024 Acórdão n.º 9202004.301 CSRFT2 Fl. 2.086 5 incorporação das vantagens aos respectivos salários dos beneficiários, lançou Multa Isolada e dos Juros Isolados pela não retenção do IRRF. após o prazo final fixado para a entrega da declaração, no caso de pessoa física, ou, após a data prevista para o encerramento do período de apuração em que o rendimento for tributado, seja trimestral, mensal estimado ou anual, no caso de pessoa jurídica, a responsabilidade pelo pagamento do imposto passa a ser do contribuinte; assim, conforme previsto no art. 957 do RIR/1999 e no art. 9º da Lei nº 10.426, de 2002, constatandose que o contribuinte: a) não submeteu o rendimento à tributação, serlheão exigidos o imposto suplementar, os juros de mora e a multa de ofício, e, da fonte pagadora, a multa de ofício e os juros de mora. Ao final, a Fazenda Nacional pede o provimento do recurso especial. Cientificada do acórdão, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do despacho que lhe deu seguimento em 27/12/2013 (AR Aviso de Recebimento de fls. 2.064), a Contribuinte ofereceu, em 12/01/2014, as Contrarrazões de fls. 2.066 a 2.071, contendo os seguintes argumentos, em síntese: a questão jurídica dada a decidir na Instância Especial diz com o tratamento tributário a ser dado quando, na presente ou em qualquer outra circunstância abstratamente considerada, constatando a transferência de recursos financeiros pela empresa a seu sócio fundador e controlador, entenda a autoridade fazendária como desnaturada a Conta de Empréstimo inscrita na contabilidade e sob tal fundamento desconstituídas e desconsideradas as operações de mútuo; o fato objeto do acórdão recorrido e do acórdão apontado como paradigma é idêntico, mas divergem as soluções dadas por um e outro julgado, portanto é correta a admissão do Recurso Especial; a divergência jurisprudencial está em que: de um lado, e de acordo com o acórdão paradigma resolutório de tal questão jurídica para a pessoa física, a desconstituição dos mútuos implicaria considerar as transferências financeiras como configurando "vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados e integram a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável"; de um outro, agora na linha do acórdão recorrido resolutório de mesma questão jurídica para a pessoa jurídica, "tratandose de empréstimos realizados entre a contribuinte e seu sócio, contabilizados pela pessoa jurídica para os quais não houve a comprovação das operações, deverseia aplicar o art. 61 da Lei n. 8.981, de 20 de janeiro de 1995", isso no sentido de que "os pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovadas a operação ou a sua causa" sujeitamse a tributação do imposto de renda exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%"; não há justa causa para multa e juros de mora exigidos isoladamente no presente lançamento, pois as operações foram devidamente contabilizadas e declaradas, cuja desconsideração induz apenas à incidência de IR na fonte exigível da fonte pagadora; Fl. 2089DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO 6 na presente e em qualquer outra circunstância abstratamente considerada, se porventura constata a autoridade fiscal a transferência de recursos financeiros a sóciofundador e controlador, e se entende como não sendo mútuo tal transferência, evidente que jamais poderia razoavelmente presumir que tal transferência de recursos financeiros corresponde ou corresponderia, como presume o acórdão paradigma, a "vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados e integram a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável"; é que não faz sentido que, podendo o sócio fundador e controlador proceder a uma tal tomada de recursos financeiros junto à empresa na forma de distribuição de lucros ou de adiantamento de lucros, a salvo assim de nova tributação para além da tributação já na pessoa jurídica, viesse a realizar tomada a título de "vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados e integram a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável"; essa solução dada no acórdão paradigma presume contra o sócio fundador e controlador uma situação jurídica que não faz sentido e contraria o que ordinariamente acontece na vida das empresas (art. 335, CPC), na medida em que, na prática, implica pressupor que, mesmo dispondo de alternativas fiscais lícitas menos onerosas para receber valores de empresa da qual é sóciofundador e controlador (mútuo ou distribuição de lucros ou adiantamento de distribuição de lucros), viesse a fazêlo a título de remuneração em correspondência a serviços prestados à própria empresa de que é controlador, como se empregado fosse ou a esse equiparado, e como não integrasse a própria essência de sua condição de fundador e controlador a prestação de serviços à empresa sem qualquer contrapartida adicional a lucros; de qualquer sorte, e nos limites da divergência jurisprudencial, certo está que não faz sentido nem se mostra razoável que, para além de desconstituir a Conta de Empréstimos, descaracterizar os mútuos e considerar como remuneração as transferências de valores pela empresa a seu sócio fundador e controlador, pretenda ainda a Fazenda Nacional reivindicar uma multa brutal sobre uma tal operação reconhecida em contabilidade e declarada à própria Fazenda Nacional; no caso concreto, e como fundamentado no acórdão recorrido, "ainda que se considere correto o enquadramento como remuneração indireta, tais rendimentos, por força do § 2o acima transcrito, são tributados exclusivamente na fonte à alíquota de 35%", e nada mais; a exigência de multa em tal circunstância, como postula a Fazenda Nacional no recurso especial objeto dos presentes autos, gera uma situação manifestamente contrária ao direito federal de regência, dado que, em última análise, implica apenar operações declaradas, como se sonegadas fossem, e tributar valores que, a salvo de tributação, poderiam ser havidos por sócio controlador de múltiplas formas; a descaracterização do mútuo não autoriza configurar os valores objeto de transferência como tributáveis, já que a sonegação em tese pensável, no plano lógico e racional, somente pode referirse a uma tributação sobre pagamentos a "administradores, diretores, gerentes e seus assessores", isso porque em relação aos sócios dispõe o direito federal de regência pela regra geral de intributabilidade de valores havidos por sócios; Fl. 2090DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO Processo nº 10980.723628/201024 Acórdão n.º 9202004.301 CSRFT2 Fl. 2.087 7 no ordenamento jurídico brasileiro, regra geral é a de intributabilidade de valores havidos por sócio junto a empresa de que seja sócio, controlador ou não, exceto quando se configure como fraudulenta ou simulada a condição de sócio ou então quando fraudulenta e simulada a própria transferência, ambas hipóteses incogitadas no caso concreto; em contraste, certo está no caso concreto que as transferências foram todas contabilizadas, declaradas, e que o foram em favor de sócio fundador e controlador, de forma que inexiste fraude, dolo ou simulação na condição de sócio ou nas transferências, e que, ainda quando desconstituídos os mútuos, efeito único que poderia advir dessa desconstituição dos mútuos a exigência de IR na fonte pela empresa, que é a fonte pagadora, sem qualquer incidência adicional, e, pois, na linha do acórdão recorrido, que "não há se falar em falta de retenção do imposto de renda devido a título de antecipação do imposto devido no ajuste anual e, portanto, não cabe a exigência da multa e dos juros de mora exigidos isoladamente no presente lançamento". Ao final, a Contribuinte pede o não provimento do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora O Recurso Especial da Fazenda Nacional é tempestivo, restando perquirir acerca dos demais pressupostos de admissibilidade. De plano, esclareçase que a Contribuinte, em sede de Contrarrazões, não manifestou qualquer óbice quanto ao seguimento do recurso. Muito pelo contrário, concordou expressamente com a admissibilidade do apelo. Confirase: "O fato objeto do acórdão recorrido e do acórdão apontado como paradigma é idêntico, mas divergem as soluções dadas por um e outro julgado, portanto é correta a admissão do recurso especial pela douta Presidência da 2ª Câmara da 2ª Seção do CARF." Entretanto, tendo em vista os argumentos levantados da tribuna pelo representante da Contribuinte, cabe esclarecer que, tal como registrado no trecho acima destacado, o seguimento do apelo foi correto, conforme será a seguir demonstrado. A matéria suscitada é a natureza e forma de tributação dos rendimentos que deram origem à aplicação da multa de ofício isolada e juros de mora isolados. Ditos rendimentos dizem respeito ao pagamento, pela empresa, de despesas pessoais de seu sócio, mediante operações de empréstimo que foram descaracterizadas como tal. Nesse passo, o Imposto de Renda incidente sobre ditos rendimentos foi exigido do beneficiário pessoa física, por meio de outro processo, e da pessoa jurídica foram exigidos multa e juros isolados pela falta de retenção, por meio do presente processo. Fl. 2091DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO 8 No caso do acórdão recorrido, deuse provimento ao Recurso Voluntário, entendendose incabível a exigência em face da pessoa física, tendo em vista tratarse de autuação com base em incidência exclusiva na fonte (art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, conforme o Auto de Infração, ou ainda o art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995, conforme entendeu a Relatora). Consequentemente, concluiuse pela impossibilidade de manutenção de multa e juros isolados por falta de retenção na fonte, o que somente seria admissível nas incidências cujo tributo fosse efetivamente devido a título de antecipação do devido na Declaração de Ajuste Anual. A Fazenda Nacional entende que a autuação exigência do imposto em face do beneficiário pessoa física e da multa/juros isolados em face da fonte pagadora foi correta, e para demonstrar a alegada divergência jurisprudencial indica como paradigma exatamente o acórdão proferido no processo que manteve a exigência em face da pessoa física, referendando assim a sistemática de tributação adotada na autuação. Destarte, conforme reconhece a própria Contribuinte em sede de Contrarrazões, a divergência interpretativa foi cabalmente demonstrada, nos exatos limites da matéria suscitada e discutida no acórdão recorrido: natureza e forma de tributação dos rendimentos que deram origem às exigências ora examinadas. Com efeito, em face dos mesmos rendimentos, foram adotadas duas formas de tributação, que são incompatíveis entre si: no caso do acórdão paradigma, adotouse a tese da tributação dos rendimentos em face da pessoa física (imposto, multa proporcional e juros de mora), combinada com a exigência de multa e juros isolados em face da fonte pagadora pessoa jurídica, por falta de retenção; no caso do acórdão recorrido, adotouse a tese da tributação exclusiva em face da fonte pagadora pessoa jurídica (imposto, multa proporcional e juros de mora), descartandose consequentemente a exigência de penalidade e acréscimos legais isolados pela falta de retenção. Em confronto os dois posicionamentos, cabe à Instância Especial dirimir a divergência, manifestandose sobre o cabimento ou não da multa e dos juros isolados em face da fonte pagadora, exigência esta que está atrelada à tese adotada pela fiscalização e abraçada pelo paradigma. Diante do exposto, restou demonstrado o alegado dissídio jurisprudencial, portanto conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e passo a examinar lhe o mérito. Tratase de exigência de multa isolada por falta de retenção na fonte, com fundamento no art. 9º, da Lei nº 10.426, de 2002, e juros de mora, tendo em vista que tal obrigação teria deixado de ser cumprida, no seguinte contexto: a empresa autuada efetuou em favor do Sr. Newton Bonin, seu sócio administrador, durante os anoscalendário de 2005 e 2006, diversas transferências de recursos e pagamentos de despesas com escolas e cursos de línguas, condomínio, cartões de crédito do contribuinte pessoa física e seu cônjuge, despesas com luz, gás, celular do beneficiário, cônjuge e filhos, telefone, IPTU, IPVA, seguros de vida e de veículos do beneficiário, cônjuge e filhos, clubes, salários e respectivos encargos sociais de empregados inerentes a atividade rural do beneficiário, dentre outros pagamentos. Fl. 2092DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO Processo nº 10980.723628/201024 Acórdão n.º 9202004.301 CSRFT2 Fl. 2.088 9 a empresa contabilizou os pagamentos na conta "Empréstimos a Pessoas Ligadas"; a fiscalização entendeu que ditos pagamentos representariam vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados, portanto integrariam os rendimentos do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável, como rendimentos do trabalho com vínculo empregatício; a autuação da pessoa física foi levada a cabo por meio do processo nº 10980.723625/201091, no qual foi prolatado o Acórdão nº 210201.857, de 2/03/2012, mantendo a exigência; nesse julgado consta que o art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, fez parte da base legal da autuação, e que também foi feita citação ao art. 3º da Lei nº 7.713, de 1988, no corpo do Auto de Infração; conforme consta da autuação no presente processo, a fiscalização, no processo da pessoa física, adicionou a remuneração indireta aos rendimentos recebidos, reajustou as bases de cálculo e aplicou a tabela progressiva. Primeiramente, cabe esclarecer que o Imposto de Renda pressupõe uma série de incidências, cada qual adequada a uma determinada situação concreta. Nesse passo, verificase que os rendimentos objeto da presente autuação foram classificados pela própria fiscalização como sendo remuneração indireta, por isso mesmo foi citado o art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, no Auto de Infração. Dito dispositivo legal assim estabelece: "Art. 74. Integrarão a remuneração dos beneficiários: I a contraprestação de arrendamento mercantil ou o aluguel ou, quando for o caso, os respectivos encargos de depreciação, atualizados monetariamente até a data do balanço: a) de veículo utilizado no transporte de administradores, diretores, gerentes e seus assessores ou de terceiros em relação à pessoa jurídica; b) de imóvel cedido para uso de qualquer pessoa dentre as referidas na alínea precedente; II as despesas com benefícios e vantagens concedidos pela empresa a administradores, diretores, gerentes e seus assessores, pagos diretamente ou através da contratação de terceiros, tais como: a) a aquisição de alimentos ou quaisquer outros bens para utilização pelo beneficiário fora do estabelecimento da empresa; b) os pagamentos relativos a clubes e assemelhados; c) o salário e respectivos encargos sociais de empregados postos à disposição ou cedidos, pela empresa, a administradores, diretores, gerentes e seus assessores ou de terceiros; d) a conservação, o custeio e a manutenção dos bens referidos no item I. § 1º A empresa identificará os beneficiários das despesas e adicionará aos respectivos salários os valores a elas correspondentes. Fl. 2093DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO 10 § 2º A inobservância do disposto neste artigo implicará a tributação dos respectivos valores, exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e três por cento. (grifei) Claro está que o comando para que seja identificado o beneficiário da despesa e para que esta seja adicionada aos salários é dirigido à empresa e, caso ela não o faça, ditos valores devem sujeitarse à tributação exclusiva na fonte, à alíquota de 35% (conforme art. 61, § 1º, da Lei nº 8.981, de 1995). Assim, a sistemática acima, considerada aplicável ao caso pela própria fiscalização, prevê a exigência de Imposto de Renda exclusivamente na fonte. Tal sistemática é obviamente incompatível com a tributação dos rendimentos na pessoa física do beneficiário, combinada com cobrança de multa e juros isolados aplicados à fonte pagadora, por falta de retenção. Com efeito, não há como combinar, relativamente a um mesmo rendimento, tributação exclusiva na fonte com tributação na fonte por antecipação do imposto devido pelo beneficiário no ajuste anual. No caso em apreço, a fiscalização identificou os rendimentos como remuneração indireta e submeteuos à incidência do art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, que é aplicável à fonte pagadora como tributação exclusiva. Ademais, reajustou as bases de cálculo, considerando os rendimentos brutos como sendo líquidos, procedimento esse normalmente adotado quando a fonte pagadora assume o ônus do tributo. Entretanto, apresentou tal exigência em face da pessoa física, utilizando não a alíquota de 35% mas sim a tabela progressiva. Embora o lançamento tenha sido mantido na pessoa física (processo nº 10980.723625/201091, Acórdão nº 210201.857, de 02/03/2012), no caso do presente processo, que trata da autuação da pessoa jurídica, no acórdão ora recorrido assim se decidiu: "Natureza dos rendimentos e da forma de tributação Conforme relatado pela fiscalização, foi constado que a contribuinte efetuou diversas transferências de recursos e pagamentos de despesas em favor de seu sócio (pagamento de escolas e cursos de línguas, condomínio, cartões de crédito de titularidade do sócio e do cônjuge, despesas com luz, gás, celular do beneficiário, cônjuge e filhos, telefone, IPTU, IPVA, seguros de vida e de veículos do beneficiário, cônjuge e filhos, clubes, salários e respectivos encargos sociais de empregados inerentes a atividade rural do sócio etc), contabilizados como Empréstimos a Pessoas Ligadas. Esses valores foram confirmados tanto pela fonte pagadora como pelo Sr. Newton Bonin, sócio e o beneficiário das transferências e pagamentos efetuados pela pessoa jurídica. Embora tais valores tenham sido contabilizados na conta de empréstimos, a fiscalização concluiu que se tratavam de vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados e integram a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável. Os argumentos relacionados à natureza dos rendimentos que teriam originado o lançamento da Multa Isolada e dos Juros Isolados pela não retenção do IRRF já foram exaustivamente apreciados, nos autos do processo no 10980.723625/201091, em Fl. 2094DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO Processo nº 10980.723628/201024 Acórdão n.º 9202004.301 CSRFT2 Fl. 2.089 11 nome do beneficiário dos recursos, o Sr. Newton Bonin, pela Segunda Turma da Primeira Câmara da Segunda Sessão Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, na sessão plenária de 12/03/2012, cujo relator foi o Conselheiro Giovanni Christian Nunes Campos, que, acompanhado pelos demais membros daquele Colegiado, decidiram ser “correto o entendimento da autoridade fiscal que considerou os mútuos não comprovados, das empresas Logika e Bonyplus, em prol do recorrente, os quais se subsumem ao conceito de renda, devendo sofrer a incidência do imposto de renda.” (folha 11 do Acórdão no 210201.857, de 12/03/2012). Sem que se entre no mérito da comprovação ou não do mútuo pactuado entre a contribuinte e seu sócio, Sr. Newton Bonin, entendo que houve erro na capitulação legal da omissão de rendimentos imputada a pessoa física e, conseqüentemente, na forma de tributação adotada. Explicase. A fiscalização comprovou a existência diversas transferências de recursos e pagamentos de despesas realizadas pela contribuinte em favor de seu sócio, cujos valores teriam sido contabilizados como empréstimos. Uma vez que a contribuinte não logrou comprovar o empréstimo realizado com seu sócio, a fiscalização concluiu que se tratava de vantagens individuais concedidas pela pessoa jurídica em retribuição a serviços prestados e integram a remuneração do beneficiário como remuneração indireta, razão pela qual foram computados no montante mensal tributável, com fulcro no art. 622 do Decreto no 3.000, de 26 de março de 1999 – RIR/99, cuja matriz legal é o art. 74 da Lei no 8.383, de 30 de dezembro de 1991, que dispõe (grifos nossos): (...) Ainda que se considere correto o enquadramento como remuneração indireta, tais rendimentos, por força do §2º acima transcrito, são tributados exclusivamente na fonte à alíquota de 35%. Na verdade, tratandose empréstimos realizados entre a contribuinte e seu sócio, contabilizados pela pessoa jurídica para os quais não houve a comprovação das operações, dever seia, aplicar o art. 61 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995: (...) O dispositivo acima transcrito é bastante claro no sentido de que, “os pagamentos efetuados ou os recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa” sujeitam se a tributação do imposto de renda exclusivamente na fonte, a alíquota de 35%. Tratase de uma presunção legal do tipo juris tantum (relativa), e, portanto, cabe ao fisco comprovar apenas o fato definido na Fl. 2095DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO 12 lei como necessário e suficiente ao estabelecimento da presunção. Assim, cumprido o ônus atribuído à Fazenda Pública, que é o identificar os pagamentos efetuados pela contribuinte, cabendo a ela (contribuinte) o encargo de comprovar a operação que deu causa a esses pagamentos. No caso, as transferências e pagamentos foram confirmados tanto pela fonte pagadora como pelo Sr. Newton Bonin, sócio e o beneficiário, sem que fosse comprovada a causa das operações, e, portanto tais valores estavam sujeitos a tributação exclusivamente na fonte, não podendo ser incluídos na base de cálculo do ajuste anual da pessoa física (beneficiário dos recursos). Concluise assim, que deveria ter sido exigido da fonte pagadora (contribuinte) o pagamento do imposto com os devidos acréscimos legais. Conseqüentemente, não há se falar em falta de retenção do imposto de renda devido a título de antecipação do imposto devido no ajuste anual e, portanto, não cabe a exigência da multa e dos juros de mora exigidos isoladamente no presente lançamento." (grifei) Em seu Recurso Especial, a Fazenda Nacional, ao tempo em que reitera tratarse de remuneração indireta paga a sócio, confirmando assim a tributação com base no art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, que seria exclusiva na fonte, pede a reforma da decisão recorrida, para que se aplique multa/juros isolados por falta de retenção, o que evidentemente não pode ser atendido, já que essas exigências são incompatíveis, a despeito da manutenção da autuação em face da pessoa física. Como bem pontuou o acórdão recorrido, ainda que se considere incabível o art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995, e se aplique o art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991, como fez a fiscalização, essas duas incidências resultam em tributação exclusiva na fonte, o que de forma alguma se harmoniza com a exigência de multa isolada por falta de retenção na sistemática de antecipação do imposto devido no ajuste anual. Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e negolhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 2096DF CARF MF Impresso em 18/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 17/0 8/2016 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por MARIA HELENA COT TA CARDOZO
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Numero do processo: 10530.724256/2012-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 13 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Oct 13 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
OMISSÃO DE RECEITAS. PASSIVO FICTÍCIO.
A concretização da presunção de omissão de receitas por passivo fictício prescinde da demonstração de que as obrigações foram efetivamente quitadas antes do encerramento do período de apuração.
PASSIVO FICTÍCIO. REGIME DE COMPETÊNCIA.
A omissão de receita decorrente de passivo fictício ou não comprovado deve ser apurada com obediência ao regime de competência, tributando-se a irregularidade no período de apuração em que foi quitada a operação que lhe deu origem.
PRESUNÇÃO.MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. DESCABIMENTO.
Não cabe a imputação da multa qualificada na apuração da exigência com base em presunção legal se não indicados fatos específicos caracterizadores do dolo.
Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Ano-calendário: 2008
CSLL. AUTUAÇÃO REFLEXA.
Tratando-se de lançamento tido como reflexo, aplica-se o resultado do julgamento da autuação tida como principal.
PIS. COFINS. FATO GERADOR MENSAL.
A contribuição ao PIS e a Cofins têm fato gerador mensal e mostra-se equivocada a formalização da exigência de forma consolidada no último mês do período de apuração.
Numero da decisão: 1402-002.292
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
Leonardo de Andrade Couto Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 OMISSÃO DE RECEITAS. PASSIVO FICTÍCIO. A concretização da presunção de omissão de receitas por passivo fictício prescinde da demonstração de que as obrigações foram efetivamente quitadas antes do encerramento do período de apuração. PASSIVO FICTÍCIO. REGIME DE COMPETÊNCIA. A omissão de receita decorrente de passivo fictício ou não comprovado deve ser apurada com obediência ao regime de competência, tributando-se a irregularidade no período de apuração em que foi quitada a operação que lhe deu origem. PRESUNÇÃO.MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. DESCABIMENTO. Não cabe a imputação da multa qualificada na apuração da exigência com base em presunção legal se não indicados fatos específicos caracterizadores do dolo. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Ano-calendário: 2008 CSLL. AUTUAÇÃO REFLEXA. Tratando-se de lançamento tido como reflexo, aplica-se o resultado do julgamento da autuação tida como principal. PIS. COFINS. FATO GERADOR MENSAL. A contribuição ao PIS e a Cofins têm fato gerador mensal e mostra-se equivocada a formalização da exigência de forma consolidada no último mês do período de apuração.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 OMISSÃO DE RECEITAS. PASSIVO FICTÍCIO. A concretização da presunção de omissão de receitas por passivo fictício prescinde da demonstração de que as obrigações foram efetivamente quitadas antes do encerramento do período de apuração. PASSIVO FICTÍCIO. REGIME DE COMPETÊNCIA. A omissão de receita decorrente de passivo fictício ou não comprovado deve ser apurada com obediência ao regime de competência, tributandose a irregularidade no período de apuração em que foi quitada a operação que lhe deu origem. PRESUNÇÃO.MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. DESCABIMENTO. Não cabe a imputação da multa qualificada na apuração da exigência com base em presunção legal se não indicados fatos específicos caracterizadores do dolo. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Anocalendário: 2008 CSLL. AUTUAÇÃO REFLEXA. Tratandose de lançamento tido como reflexo, aplicase o resultado do julgamento da autuação tida como principal. PIS. COFINS. FATO GERADOR MENSAL. A contribuição ao PIS e a Cofins têm fato gerador mensal e mostrase equivocada a formalização da exigência de forma consolidada no último mês do período de apuração. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 42 56 /2 01 2- 13 Fl. 817DF CARF MF Impresso em 13/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/10/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 12/10 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (ASSINADO DIGITALMENTE) Leonardo de Andrade Couto – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto Fl. 818DF CARF MF Impresso em 13/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/10/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 12/10 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10530.724256/201213 Acórdão n.º 1402002.292 S1C4T2 Fl. 818 3 Relatório Tratase de autos de infração referente ao anocalendário de 2008 para cobrança do IRPJ e lançamentos reflexos de CSLL, PIS e Cofins no valor total de R$ 17.064.367,30; aí incluídos multa de ofício no percentual de 150 % e juros de mora. A fiscalização apurou a existência de valores integrantes da conta Fornecedores sem que o sujeito passivo demonstrasse que as obrigações que lhes deram origem ainda não haviam sido liquidadas, caracterizando passivo fictício. Em procedimento de circularização junto a alguns dos fornecedores, constatou que parte das obrigações foram quitadas no próprio anocalendário. O sujeito passivo apresentou impugnação suscitando que, dado o montante da receita considerada omitida, a apuração do resultado deveria ser por arbitramento. Defende que autuação só poderia envolver os fornecedores que responderam a circularização e ainda sim com exclusão dos valores correspondentes a vendas canceladas e também financiamentos, eis que nesse último caso parte dos pagamentos ocorreu efetivamente em 2009. Sustenta equívoco da Fiscalização na formalização da exigência do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, que consolidou em dezembro os valores supostamente omitidos, como se a apuração fosse anual e não trimestral (caso do IRPJ e CSLL) ou mensal (caso do PIS e da Cofins). Por fim, afirma que a Fiscalização limitouse a transcrever os dispositivos da legislação que tratam da multa qualificada sem apontar a motivação que justificasse a imputação da exasperadora. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador – BA, prolatou o Acórdão 1532.607 dando provimento parcial à impugnação da seguinte forma: Limitou a exigência às operações efetivamente identificadas na circularização como quitadas no anocalendário de 2009; A partir da depuração de que trata o item anterior manteve a exigência apenas em relação às operações realizadas no 4º trimestre de 2008; Deduziu, respeitado o limite legal, o saldo de prejuízos fiscais e de base de cálculo negativa da CSLL dos trimestres anteriores na exigência remanescente após os procedimentos de que tratam os itens anteriores; Reduziu a exigência do PIS e da Cofins apenas em relação às operações realizadas em dezembro/2008; e; Reduziu o percentual da multa de ofício a 75%. Fl. 819DF CARF MF Impresso em 13/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/10/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 12/10 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 4 Dessa decisão, houve recurso de ofício a este colegiado. É o relatório. Fl. 820DF CARF MF Impresso em 13/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/10/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 12/10 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10530.724256/201213 Acórdão n.º 1402002.292 S1C4T2 Fl. 819 5 Voto Conselheiro Leonardo de Andrade Couto O acórdão recorrido não merece qualquer reparo. De fato, a autoridade lançadora deu à presunção legal uma alcance muito acima do permitido pelo ordenamento. A norma estabelece que presumese como decorrente de omissão de receitas os valores mantidos em conta de passivo referentes a operações já liquidadas. Entretanto não autoriza que se presuma, como fez a Fiscalização de forma geral, que a ausência de documentos indicativa da quitação significaria que tal fato teria ocorrido dentro do ano calendário. Assim, a exigência só pode subsistir para aqueles valores que, mediante procedimento de circularização, demonstrouse que efetivamente foram quitados no próprio anocalendário. Mais ainda. Em termos genéricos, ao estabelecer a presunção legal de omissão de receita em função do passivo fictício ou não comprovado, o legislador tinha como escopo principal atingir situações nas quais a pessoa jurídica aufere ganhos tributáveis à margem da escrituração e esse procedimento gera um “rombo” no ativo circulante regularmente contabilizado, normalmente na conta Caixa. Para equilibrar o saldo, a pessoa jurídica debita no Caixa o valor necessário para o suprimento em contrapartida a um lançamento em conta de passivo, lançamento este obviamente sem lastro. Também norteou o legislador a situação de ocorrer a criação do passivo simplesmente para trazer, via débito do caixa, valores de receita obtidos á margem da escrituração. Sob essa ótica, o passivo fictício (ou não comprovado) vinculase diretamente a uma irregularidade que lhe é anterior e praticada no mesmo período de apuração, caso contrário ele não se justificaria. Em outras palavras, como é a praxe na escrituração da pessoa jurídica, o registro de valores em conta de passivo deve seguir o regime de competência, seja esse passivo caracterizado como fictício, não comprovado ou regular Tratandose de apuração trimestral, os períodos são estanques. Se a Fiscalização formalizou a exigência para o 4º trimestre de 2008, apenas as obrigações quitadas nesse trimestre podem ser objeto de verificação quanto à possível ocorrência de passivo fictício, o que se aplica também à CSLL. No caso das contribuições ao PIS e à Cofins, a autoridade lançadora cometeu o equívoco de consolidar os valores em dezembro, sem atentar que o fato gerador é mensal. Assim, a aplicação do raciocínio supra explanado implica em considerar apenas as operações quitadas em dezembro do anocalendário. Fl. 821DF CARF MF Impresso em 13/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/10/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 12/10 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 6 No que se refere à multa qualificada, a fiscalização não apresentou qualquer razão para justificala limitandose a atestar que firmou convicção “..quanto à intenção do contribuinte, corroborada pelo tudo que fora exposto acima...” . Fato é que o “exposto acima’” limitase à descrição de fatos que implicaram na caracterização da omissão de receita com base em presunção legal. Isso significa que a irregularidade tem origem na assunção de que se obterá o mesmo resultado que se obteve numa generalidade de casos iguais, em virtude de uma lei de freqüência de resultados conhecidos. A norma concede à autoridade o poder de presumir ocorrido esse resultado. Entretanto, a fraude não se presume. Há que se aprofundar a análise dos indícios apurados. Saliento que, a meu ver, não é o fato de se tratar de apenas um indício que descaracteriza o dolo. Ao contrário, indício é prova e a prova indiciária pode perfeitamente firmar convicção quanto à conduta fraudulenta. Só que, em casos como o presente, é necessária a constatação de fatos agravantes complementares que diferenciem perfeitamente esta situação de outras hipóteses de omissão de receita nas quais é aplicada multa de 75%. Entretanto, a Fiscalização não procedeu dessa forma. Do exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício. Leonardo de Andrade Couto – Relator Fl. 822DF CARF MF Impresso em 13/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/10/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 12/10 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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