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Numero do processo: 10314.004833/2003-11
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 19/06/1998 a 24/10/2001
MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. IMPROCEDÊNCIA DE RECLASSIFICAÇÃO FISCAL PROMOVIDA PELO FISCO. NULIDADE.
Constatado que a classificação fiscal da mercadoria objeto da lide diz respeito a um código NCM diverso, tanto daquele utilizado pelo contribuinte na importação, quanto do indicado pelo Fisco no lançamento, este deve ser anulado por vício material, o que também acarreta a exoneração da multa isolada por erro de classificação fiscal.
Numero da decisão: 9303-005.501
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (relator), Andrada Márcio Canuto Natal e Luiz Augusto do Couto Chagas, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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IMPROCEDÊNCIA DE RECLASSIFICAÇÃO FISCAL PROMOVIDA PELO FISCO. NULIDADE. Constatado que a classificação fiscal da mercadoria objeto da lide diz respeito a um código NCM diverso, tanto daquele utilizado pelo contribuinte na importação, quanto do indicado pelo Fisco no lançamento, este deve ser anulado por vício material, o que também acarreta a exoneração da multa isolada por erro de classificação fiscal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (relator), Andrada Márcio Canuto Natal e Luiz Augusto do Couto Chagas, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Redator Designado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 00 48 33 /2 00 3- 11 Fl. 218DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de recurso especial de divergência, tempestivo, interposto pela Fazenda Nacional ao amparo do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, em face do acórdão nº 3202001.403, que possui a seguinte ementa: ACÓRDÃO DA DRJ. NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. PERÍCIA. Presentes os elementos de fato necessários ao julgamento, tornase prescindível a realização de perícia. FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO.TERCEIRA HIPÓTESE DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL. IMPROCEDÊNCIA. Constatado que a classificação fiscal das mercadorias, objeto da lide, diz respeito a um código NCM diverso, tanto daquele utilizado pela impugnante, bem como daquele que a fiscalização entendeu ser a correta, o lançamento deverá ser julgado improcedente por erro na sua fundamentação. Sendo improcedente a classificação do Fisco, também devem ser julgadas improcedentes as multas dos artigos 44 e 45 da Lei 9.430/96, do artigo 169, I, “b” do Decretolei 37/66 e do artigo 636 do decreto 4.543/2002, cominadas em decorrência do lançamento equivocadamente fundamentado. A matéria de fundo referese a Autos de Infração, lavrado em nome do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de Imposto de Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados, acrescidos de juros de mora e multas dos artigos 44 e 45 da Lei 9.430/96, do artigo 169, I, “b” do Decretolei 37/66 e do artigo 636 do decreto 4.543/2002, em razão da incorreta classificação fiscal de mercadoria importada na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Apreciando o pleito da Contribuinte, a DRJ julgou procedente em parte o lançamento, acolhendo apenas a alegação de decadência. Por ocasião do julgamento do recurso voluntário, a Segunda Turma, da Segunda Câmara da Terceira Seção do CARF, promoveu uma “terceira classificação” da mercadoria importada, em razão de discordar tanto da classificação eleita pelo contribuinte, como daquela oferecida pelo Fisco, ocasião em que julgou por bem cancelar as multas cominadas em função do lançamento equivocadamente fundamentado A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de divergência quanto à manutenção da multa de 1% por erro de classificação fiscal, que foi admitido pela demonstração de dissídio jurisprudencial, conforme despacho de admissibilidade às fls.142 a 145. O sujeito passivo apresentou suas contrarrazões às fls. 201 a 205. É o relatório. Fl. 219DF CARF MF Processo nº 10314.004833/200311 Acórdão n.º 9303005.501 CSRFT3 Fl. 219 3 Voto Vencido Conselheiro RODRIGO DA COSTA PÔSSAS O recurso interposto pelo sujeito passivo é tempestivo, e foi admitido pelo Presidente da 2ª Câmara da 3ª Seção do CARF. A divergência foi suscitada pela Fazenda Nacional quanto à manutenção da multa por erro de classificação ainda que improcedente a reclassificação promovida pelo Fisco, pelo fato de o contribuinte ter laborado em erro quando da sua classificação fiscal O Colegiado a quo concluiu que, em sendo improcedente a classificação promovida pelo Fisco, as multas cominadas seriam, consequentemente, improcedentes. Diversamente, a 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara, da Terceira Seção do CARF, manteve a multa de um por cento do valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, prevista no inciso I do artigo 84 da MP 2.15835/01, mesmo no caso em que foi descartado tanto a classificação promovida pelo contribuinte, como também aquela invocada pelo Fisco, chegandose a uma “terceira classificação”. Diante da comprovação do dissídio jurisprudencial alegado e atendido os demais requisitos de admissibilidade, conheço do recurso. Portanto, a matéria devolvida ao Colegiado cingese à manutenção ou não da multa por erro de classificação fiscal, em caso de incorreção da reclassificação fiscal promovida pela autoridade fiscal. O Acórdão recorrido decidiu pelo afastamento das multas aplicadas tendo em vista a improcedência da reclassificação promovida pelo Fisco. Transcrevo excerto do voto condutor do acórdão recorrido: “[...] Consequetemente, sendo improcedente a classificação do Fisco, também devem ser julgadas improcedentes as multas dos artigos 44 e 45 da Lei 9.430/96, do artigo 169, I, “b” do Decretolei 37/66 e do artigo 636 do decreto 4.543/2002, cominadas em decorrência do lançamento equivocadamente fundamentado.” Em que se pese as considerações do julgador a quo, entendo que a decisão não foi devidamente fundamentada. Não foram apreciados os tipos infracionais das multas aplicadas para se chegar na conclusão de improcedência das multas aplicadas. Foram aplicadas as seguintes multas no Auto de Infração: (i) multa de ofício proporcional (Art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96); (ii) multa do Controle Administrativo (Art. 169, inciso I, alínea "b" do DecretoLei 37/66); e (iii) multa por classificação incorreta (Art. 84 da Medida Provisória 2.15835/2001). O afastamento da multa de ofício, de natureza tributária, é decorrência lógica do afastamento do principal cobrado. Entretanto, o mesmo não ocorre para as penalidades de natureza aduaneira lançadas. Como o Recurso Especial foi admitido apenas em relação à aplicação da multa por classificação incorreta, restringirei a análise a tal penalidade. Assim dispõe o inciso I do artigo 84 da Medida Provisória 2.15835/2001, matriz legal da sanção aplicada: Fl. 220DF CARF MF 4 Art. 84. Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria: I classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria; ou [...] Destacase que o tipo infracional é classificar incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul a mercadoria importada. A classificação incorreta é fato incontroverso, sendo admitida inclusive pelo acórdão recorrido. Independentemente da improcedência da reclassificação fiscal promovida pelo Fisco, constatase que efetivamente ocorreu o erro de classificação fiscal promovido pelo sujeito passivo em sua declaração de importação. A incidência da multa de um por cento prevista no art. 84 da MP 215835/2001 apenas reclama a mera classificação incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria ou, alternativamente, a quantificação incorreta na unidade de medida estatística estabelecida pela Secretaria da Receita Federal. Dessa forma, é apenas necessário comprovar a errônea classificação fiscal do produto importado (fato inequívoco nos autos) para a aplicação da penalidade prevista no art. 84 da MP 215835/2001, sendo de todo impertinente alegar, como motivo para a sua não exigência, o fato de o Fisco também ter se equivocado quando da classificação fiscal. O erro de classificação original persiste, bem como as consequências dele decorrentes. No presente caso, os fundamentos da exigência fiscal mantêmse incólumes. Em face do exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda Nacional, para manter a exigência de multa de um por cento do valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, prevista no inciso I do artigo 84 da MP 2.15835/01. (assinatura digital) RODRIGO DA COSTA PÔSSAS Relator Fl. 221DF CARF MF Processo nº 10314.004833/200311 Acórdão n.º 9303005.501 CSRFT3 Fl. 220 5 Voto Vencedor Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Redator designado No presente caso, segundo o acórdão recorrido, o Fisco, no ato lançamento, e a contribuinte, quando da importação, igualmente equivocaramse ao promover a classificação fiscal do produto importado. Donde a integral exoneração dos valores lançados, inclusive da multa de um por cento em face do erro de classificação fiscal, entendimento contra a qual, especificamente quanto ao cancelamento desta última, insurgiuse a Recorrente, a douta Procuradoria da Fazenda Nacional. Consoante o mesmo acórdão recorrido, a exoneração das multas aplicadas, incluindo a multa isolada que decorre do erro de classificação, deveuse ao fato de o lançamento estar equivocadamente fundamentado. Já o il. relator do voto vencido, diz bastar, para a aplicação da mesma penalidade isolada, ser necessário apenas comprovar a errônea classificação fiscal do produto importado, sendo absolutamente irrelevante o fato de o Fisco também ter se equivocado em sua classificação fiscal, porque, acredita, o erro de classificação persistiu, bem como as consequências deste erro decorrentes. Discordamos. Primeiro, o fato de o erro de classificação fiscal persistir, ou seja, o fato de a classificação fiscal correta não ser a adotada pela contribuinte (classificação "A"), tampouco ser a indicada pelo Fisco (classificação "B"), mas, sim, uma terceira classificação (classificação "C"), não autoriza, só por isso, a manutenção da multa isolada. Se assim fosse, também se deveria manter a exigência do crédito tributário lançado, no caso em que, não obstante o erro de classificação da contribuinte e do Fisco, a terceira classificação fiscal, a classificação "C", se apresentasse com as mesmas alíquotas de II e de IPI vinculado que aquela indicada pelo Fisco no lançamento, a classificação "B". Afinal, neste caso, também continuaria a haver a falta de recolhimento de tributos na importação, assim como, é o que se defende, o erro de classificação (Onde há a mesma razão, haveria de se aplicar o mesmo direito). Segundo, porque, para apontar um erro de classificação fiscal, o Fisco deve indicar as regras de classificação não observadas e a classificação fiscal correta. E assim é porque, não fosse pelo caráter norteador das Regras de Interpretação do Sistema Harmonizado – as quais se direcionam a apontar como chegar à correta classificação fiscal do produto importado, não à errada! –, a Administração Tributária deve informar ao administrado (no caso, o importador) não apenas o erro que cometera, mas, também, como deveria ter agido, a fim de que o erro não venha a se repetir, com todas as consequências daí advindas (o art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 9.784, de 1999, impõe que, nos processos administrativos, a atuação da Administração Pública se dê segundo padrões éticos de probidade, decoro e boafé). Não se pode afirmar errada uma classificação, senão indicando a correta e apontando as regras que autorizam esta nova classificação (por isso, nunca vimos um auto de infração, e estou certo que jamais veremos, que apontasse o erro de classificação cometido pelo importador, mas não indicasse a classificação correta). Terceiro, o lançamento tributário é um ato administrativo que, como outros de mesma natureza, apresenta requisitos cuja não observância enseja a declaração de sua nulidade. Um desses requisitos é a motivação, consistente no relato, em linguagem adequada, do motivo do ato – o fato do mundo fenomênico que autoriza o lançamento. Noutras palavras, Fl. 222DF CARF MF 6 é a exposição, por escrito e de forma inteligível, de que os seus pressupostos de fato realmente ocorreram. Segundo o il. exConselheiro LUÍS EDUARDO BARBIERI, a "autoridade fiscal, ao efetuar o lançamento, deve demonstrar e comprovar que a situação fática (fato jurídico relatado) se enquadrou perfeitamente no pressuposto de direito (dispositivo legal). Devese, portanto, demonstrar a subsunção entre o evento, ocorrido no mundo fenomênico e relatado na linguagem competente – fato jurídico, à hipótese de incidência tributária" (BARBIERI, Luís Eduardo Gorrossino, Lançamento tributário: vícios e seus defeitos, São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2015, p. 226). Um dos equívocos apontados na mesma obra quanto à motivação do lançamento é a ausência, insuficiência ou o erro na descrição dos fatos do auto de infração (p. 227), erro como o que ora constatamos no presente lançamento, uma vez que, na sua motivação, a autoridade fiscal deveria ter demonstrado o equívoco que laborou a contribuinte, mediante análise das regras de interpretação que seriam aplicáveis ao caso e a indicação, como vimos, em face dessas mesmas regras, da classificação correta. A nosso juízo, portanto, a autoridade fiscal cometeu um vício de motivação no lançamento, do qual resulta, pura e simplesmente, a sua nulidade por vício material. Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 223DF CARF MF
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Numero do processo: 10715.002642/2004-82
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Feb 21 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Mar 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Data do fato gerador: 27/08/2001
Ementa:
LANÇAMENTO POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO. CONTENCIOSO. DECISÃO ADMINISTRATIVA. ENQUADRAMENTO EM CÓDIGO NOVO. IMPORTADOR. INFRAÇÃO POR CLASSIFICAÇÃO INDEVIDA. IMPUTAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Inexiste previsão legal para exclusão ou relevação da pena de multa de 1% (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria nos casos em que a contribuinte classifica incorretamente o produto, mesmo que o enquadramento determinado pela Fiscalização Federal no auto de infração revele-se igualmente indevido.
Se a autuação expõe os fundamentos para rejeição da classificação escolhida pelo importador e a ele foi concedido direito a ampla defesa, também não há que se falar em vício na formalização da exigência.
Numero da decisão: 9303-008.194
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
(assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: DEMES BRITO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Demes Brito - Relator (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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MULTA Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CLARIANT S.A ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Data do fato gerador: 27/08/2001 Ementa: LANÇAMENTO POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO. CONTENCIOSO. DECISÃO ADMINISTRATIVA. ENQUADRAMENTO EM CÓDIGO NOVO. IMPORTADOR. INFRAÇÃO POR CLASSIFICAÇÃO INDEVIDA. IMPUTAÇÃO. POSSIBILIDADE. Inexiste previsão legal para exclusão ou relevação da pena de multa de 1% (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria nos casos em que a contribuinte classifica incorretamente o produto, mesmo que o enquadramento determinado pela Fiscalização Federal no auto de infração revelese igualmente indevido. Se a autuação expõe os fundamentos para rejeição da classificação escolhida pelo importador e a ele foi concedido direito a ampla defesa, também não há que se falar em vício na formalização da exigência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 5. 00 26 42 /2 00 4- 82 Fl. 236DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Demes Brito Relator (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Relatório Trata o presente de recurso especial de divergência, interposto pela Fazenda Nacional, ao amparo do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, em face do acórdão de embargos 3201002.152, de 27/04/2016, que traz a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/04/2001 a 30/06/2001 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES DE DE CABIMENTO. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade,omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma. A jurisprudência administrativa e judicial tem admitido o manejo dos embargos também para os casos em que se verifica existir, na decisão embargada, algum erro de fato. Embargos de Declaração acolhidos. Cuida o presente processo de auto de infração lavrado para a exigência do II, acrescido de multa de ofício e juros de mora, em conjunto com a multa capitulada no art. 84, inciso I da MP n° 2.15835, de 24/08/2001, tendo em vista a classificação incorreta de mercadoria importada na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Ao apreciar o feito por força de impugnação, a DRJ manteve o lançamento somente quanto a multa prevista no inciso I do art. 84 da MP nº 2.15835/2001, porquanto os julgadores divergiram tanto da classificação adotada pela fiscalização quanto da classificação eleita pelo contribuinte. Fl. 237DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 4 3 Por ocasião do julgamento do recurso voluntário, a 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF decidiu anular a decisão da DRJ, por cerceamento de defesa. Em sede de embargos de declaração opostos pelo contribuinte, o colegiado a quo entendeu pela ocorrência de vício de contradição entre os fundamentos e a conclusão do Acórdão 3202000.881, de 21/08/2013, conheceu e acolheu os embargos de declaração, com efeitos modificativos, para considerar improcedente o lançamento. A nova ementa do acórdão embargado passou ao seguinte texto: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Data do fato gerador: 27/08/2001 FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO. TERCEIRA HIPÓTESE DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL. MULTA POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL. IMPROCEDÊNCIA. Constatado que a classificação fiscal das mercadorias, objeto da lide, diz respeito a um código NCM diverso tanto daquele utilizado pela impugnante, quanto daquele que a fiscalização entendeu ser a correta, o lançamento deverá ser julgado improcedente. No especial obstaculizado, a Procuradoria da Fazenda Nacional aponta divergência jurisprudencial referente aplicação da multa prevista no art. 84, I, da Medida provisória nº2.15835/2001(multa por erro de classificação fiscal). O apelo recebeu juízo positivo de admissibilidade, (efls. 212/214), ao entendimento de que o paradigma invocado trata de caso similar ao dos autos, no qual houve reclassificação da mercadoria importada, tendo os julgadores descartado tanto a classificação promovida pelo contribuinte, como também aquela invocada pelo Fisco, chegandose a uma “terceira classificação”. Contudo, em que pese esse desfecho, o acórdão paradigma manteve a multa de um por cento do valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, prevista no inciso I do artigo 84 da MP 2.15835/01. A Contribuinte apresentou Contrarrazões (efls.222/232 ), pugna pela inadmissibilidade do Recurso interposto, caso conhecido seja negado provimento ao Recurso. É o relatório. Fl. 238DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 5 4 Voto Vencido Conselheiro Demes Brito Relator O recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, bem como dos demais requisitos de admissibilidade. Sendo assim, dele tomo conhecimento e passo a decidir. In caso, trata o presente processo de auto de infração lavrado para exigência de crédito tributário no valor de R$ 12.179,84 referente a imposto de importação, multa de oficio, multa por mercadoria classificada incorretamente na NCM e juros de mora. Depreendese da descrição dos fatos do auto de infração que a Contribuinte importou mercadorias amparadas pela Declaração de Importação nº01/08494653 (fls.10 a 12), descrevendoas como CASSAPPRET SRNA LIQ 0120 e classificandoas na NCM 3907.99.18 Tereftalato de polibutileno em líquidos e pastas. Analisada amostra do produto o Laboratório de Análises do Ministério da Fazenda LABOR, emitiu o Laudo nº 22214/01 (f1.14), concluindo que se trata de preparação química à base de poliéster do ácido tereftálico, em meio aquoso, apta para uso na indústria têxtil. Em função do resultado da análise laboratorial, foi realizada revisão aduaneira na Declaração de Importação, sendo reclassificada a mercadoria para a NCM 3809.91.90. Em decorrência dessa nova classificação fiscal foi constituído auto de infração paia cobrança da diferença de Imposto de Importação, da multa prevista no inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, da multa devido a mercadoria classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, prevista no inciso I do art. 84 da Medida Provisória n° 2.158/2001,1 e dos juros de mora. Em sede de manifestação de inconformidade, a 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis/SC julgou parcialmente procedente a impugnação, proferindo o Acórdão DRJ/FNS n.º 0715.184 (fls. 127/131), mantendo crédito tributário no valor de R$ 500,00. Fundamentouse no sentido de que tanto a classificação fiscal apontada pela fiscalização, quanto a adotada pelo importador, estavam equivocadas. O tributo exigido foi exonerado (também multa de ofício vinculada e juros de mora), mas mantida a prevista no art. 84, I, da Medida Provisória – MP n.º 2.15635, de 2001, por erro de classificação fiscal. Ao apreciar o Recurso Voluntário, a turma a quo decidiu dar provimento recurso para reformar o acórdão recorrido, ao entendimento de que constatandose que a classificação fiscal da mercadoria não é a adotada pela fiscalização nem a declarada pelo contribuinte, o lançamento deve ser julgado improcedente. Com efeito, para melhor elucidar o feito, faço algumas considerações quanto ao Instituto de Classificação Fiscal de Mercadoria. Em que pese a Classificação fiscal de mercadorias sempre ter sido importante nos processos de importação, os Contribuintes só começaram a se preocupar a partir da publicação da Medida Provisória 215835 de 24/08/2010. Fl. 239DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 6 5 A referida Medida Provisória MP, estabeleceu multa de 1% ou o valor mínimo de R$ 500,00 quando a aplicação do percentual resultar valor inferior, sobre o valor da mercadoria classificada incorretamente na NCM, nas nomenclaturas complementares ou nas mercadorias quantificadas incorretamente na medida estatística definida pelo governo para as mercadorias. Posteriormente foi publicada a Lei 10.833/2003, a qual amplia o rigor em relação as mercadorias, exigindo corretamente a descrição das mercadorias, não aceitando mais descrições genéricas, como se via anteriormente, chegando a se descrever uma mercadoria em uma Declaração de Importação simplesmente com o número de referencia do fabricante. Reclamações eram exaradas por despachantes aduaneiros, empresários e advogados, alegando tratarse de uma medida injusta, já que muitas vezes o erro ocasionava até o pagamento de valor a maior do imposto, o que não justificaria a aplicação de uma penalidade. Sem embargo, o Governo Federal utiliza a NCM (Nomenclatura Comum do MERCOSUL) com objetivo de fazer um acompanhamento estatístico dos produtos importados, visando elaborar uma política mais justa e real para a pauta de produtos importados e ainda proteger a indústria nacional. Tal controle e acompanhamento perdem totalmente a eficácia na hipótese de informar classificação tarifária equivocada, propositalmente ou não. Por isso, a exigência de se indicar a correta Classificação nas importações. Outro controle que fica comprometido na hipótese de erro na classificação fiscal, é o controle do valor aduaneiro, base de cálculo para os impostos incidentes nas importações. Mercadoria com classificação equivocada leva a erro o Siscomex, que não encaminha para Canal Cinza DI’s com mercadorias que deveriam se submeter a tal controle. Alguns Contribuintes, não todos, tentam elaborar um planejamento tributário equivocado alterando a classificação fiscal das mercadorias correta, para outra que apresenta alíquotas menores nos impostos, principalmente no Imposto de Importação e IPI , os quais são impostos seletivos e variam de NCM para NCM. Quando isso ocorre os tributos diminuem, o importador supostamente passa a obter uma falsa economia, como bom Brasileiro, vende seu produto mais barato, em detrimento dos concorrentes que operam de modo correto. Caso haja reclassificação fiscal, de onde poderá o importador obter recursos para arcar com sua irresponsabilidade, evidentemente ele responde por todas as receitas, e os processos aqui acabam, gerando um passivo e estoque de processo para julgamento infindável. Portanto, recomendase agir nos termos da lei. DISCIPLINA JURÍDICA DA NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSULNCM. Necessário se faz, trazer breves considerações acerca da disciplina jurídica da NCM. A classificação fiscal dos produtos industrializados tem como princípio basilar o denominado Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, Fl. 240DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 7 6 que, em síntese , representa o grande acordo entre as nações para a criação de uma nomenclatura de mercadorias de cunho universal e harmônico. O objetivo primeiro do Sistema Harmonizado é tornar o comércio internacional mais fácil e ágil, vez que referido sistema criou uma linguagem única para identificar as mais diversas mercadorias. Nem sempre as Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado e as Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição são suficientes para orientar e dirigir a classificação de um determinado objeto mercadológico para a posição que deve obrigálo. Isso ocorre principalmente com objetos químicos e com as máquinas em geral, dando a impressão que o Sistema Harmonizado tem deficiências que comprometam sua utilização. Visando minimizar essa problemática, o Sistema Harmonizado dispõe de um grupo de observações de fundamentação eminentemente tecnológica, que esclarece certos aspectos de todas as suas posições. Tais observações são reunidas sob o título de Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (Nesh), que constituem elemento subsidiário de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das posições e subposições, bem como das notas de Seção, capítulos, posições e subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado. As Nesh foram introduzidas no ordenamento jurídico nacional por meio do Decreto n° 435, de 27 de janeiro de 1992, sofrendo constantes atualizações, em que a Receita Federal do Brasil dá publicidade na forma de Instrução Normativa nº697/07, (alterações) devidamente publicada no DOU. PRINCÍPIOS JURÍDICOS INTRODUTÓRIOS DA CLASSIFICAÇÃO FISCAL DE MERCADORIASNCM A Classificação de Mercadorias tem, pelo menos, cinco princípios, conforme se verifica a seguir: 1°) Princípio da Equivalência Conceitual: “mercadoria, produto e bem são termos que expressam o mesmo conceito, não tendo sentido fazer qualquer distinção entre os mesmos”; 2°) Princípio da Plena Identificação da Mercadoria: “a mercadoria a ser classificada deverá se apresentar desvendada, ou seja, conhecida naquelas características, propriedades e funções necessárias à sua classificação”; 3°) Princípio da Hierarquia: “merceologia é parte integrante da Classificação de Mercadorias; 4°) Princípio da Unicidade da Classificação: “numa nomenclatura de mercadorias e dentro do universo dos possíveis códigos para abarcar uma mercadoria específica, não pode a mesma ser classificada em dois ou mais códigos”; 5°) Princípio da Distinção das Mercadorias: “as mercadorias não devem ser distinguidas por critérios diferentes daquelas características que as fazem próprias”. Fl. 241DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 8 7 Além dos princípios elencados, a classificação de qualquer mercadoria é guiada também por 6 ( seis) Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI). (6 RGI/SH), bem como, na Regra Geral Complementar (RGC —1). Regras disciplinadas pela Resolução Camex n° 42, de 2001, e pela Instrução Normativa IN SRF n° 99, de 2001 – sendo a classificação de um produto determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo, e pelas demais regras de classificação (Regra Geral n° 1 de Interpretação do Sistema Harmonizado — RGI 1). Deste modo, a classificação nas subposições de uma mesma posição é determinada pelos textos dessas subposições e das Notas de Subposição correspondentes (RGI 6). Essas mesmas regras aplicamse para o enquadramento de um produto nos itens e subitens de uma subposição (Regra Geral Complementar n° 1 — RGC 1). Retornando a lide, vêse que a instância de origem entendeu incorreta a classificação fiscal apontada pela fiscalização, razão pela qual exonerou o imposto de importação e seus consectários legais, porém, como também considerou incorreta a utilizada pelo importador, manteve a multa prevista no art. 84, I, da MP n.º 2.15835, de 2001. Por sua vez, a DRJ decidiu em manter a exigência da penalidade, com fundamento diverso daquele registrado no campo “Descrição dos Fatos” do auto de infração. Contudo, a Autoridade Fiscal alegou que a classificação fiscal correta do produto importado seria 3809.91.90 (“preparação química à base de poliéster do ácido tereftálico, em meio aquoso, apta para uso na indústria têxtil”), com base em que promoveu a cobrança do II, acrescido de multa e juros, e da penalidade por erro de classificação fiscal. Não sendo correta a classificação fiscal utilizada pela fiscalização para proceder ao lançamento, não poderia a instância de origem, considerando correta uma terceira classificação, manter a penalidade isolada, pois esse fato caracteriza em reclassificação fiscal, cerceando o direito da Contribuinte, uma vez que não houve elementos para contraditar em sua manifestação sobre uma terceira classificação fiscal. Esta E. Câmara Superior, julga conflitos jurisprudenciais, na caso em espécie, inferese da leitura dos dispositivos supramencionados, que assiste razão a Contribuinte, a instância de origem nada mais fez do que promover uma alteração na fundamentação do ato administrativo (lançamento), visto que o motivo de fato do qual resultou a exigência da penalidade foi que a classificação fiscal adotada pela Recorrente estava errada porque correta era a indicada pela fiscalização. Portanto, nítida a violação do artigo 146 do CTN, a seguir transcrito: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Esse dispositivo, fundado na segurança jurídica, proíbe a aplicação de novo critério jurídico adotado pela autoridade administrativa. Fl. 242DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 9 8 Sobre o tema, trago à colação ensinamento de Leandro Paulsen e Luciano Amaro, respectivamente: "O art. 146 do CTN positiva, em nível infraconstitucional, a necessidade de proteção da confiança do contribuinte na Administração Tributária, abarcando, de um lado, a impossibilidade de retratação de atos administrativos concretos que implique prejuízo relativamente a situação consolidada à luz de critérios anteriormente adotados e, de outro, a irretroatividade de atos administrativos normativos quando o contribuinte confiou nas normas anteriores. (In Direito Tributário, Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência, 15ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013, p. 1049) Parece evidente que o dispositivo procura traduzir norma de proteção do sujeito passivo. Quem aplica critério jurídico de lançamento é a autoridade (já que se trata de atividade que é dela privativa). A autoridade, portanto, é que está impedida de aplicar novo critério em lançamentos relativos a fatos geradores já ocorridos antes de sua introdução. Nessa ordem de idéias, o preceito só cabe nos casos em que o novo critério jurídico beneficia o Fisco, restando proibida, nessa hipótese, sua aplicação em relação ao passado. A vedação se reporta “a um mesmo sujeito passivo” (e atémse a fatos geradores ocorridos antes da introdução do novo critério, o que significa que todas as obrigações tributárias já nascidas (em face da ocorrência do seu pressuposto de fato) terão de ser lançados de acordo com o critério jurídico (mais favorável) que o Fisco já tiver adotado em lançamento anteriormente realizado, em relação a cada sujeito passivo, o que implica reconhecer no preceito um direito subjetivo invocável contra o Fisco por quem, figurando como sujeito passivo em certo lançamento, efetuado de acordo com determinado critério jurídico, tem o direito de não ver inovado esse critério (em futuros lançamentos), a não ser em relação a fatos geradores ocorridos após a introdução do novo critério". (In Direito tributário brasileiro. 18ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 379). O dispositivo supra, trata, mais do que a mera inalterabilidade do lançamento por mudança de critério jurídico, determina a inalterabilidade do critério a todos os fatos geradores já ocorridos, mesmo quando ainda estejam na pendência de lançamento, como leciona Luciano Amaro (p. 377378). Destaco: "O que o texto legal de modo expresso proíbe não é a mera revisão de lançamento com base em novos critérios jurídicos; é a aplicação desses novos critérios a fatos geradores ocorridos antes de sua introdução (que não necessariamente terão sido objeto de lançamento ). Se, quanto ao fato gerador de ontem, a autoridade não pode, hoje, aplicar critério jurídico (diferente do que, no passado, tenha aplicado em relação a outros fatos geradores atinentes ao mesmo sujeito passivo), a questão não se refere (ou não se resume) à revisão de lançamento (velho, mas abarca a consecução de lançamento (novo). É claro que, não Fl. 243DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 10 9 podendo o novo critério ser aplicado para lançamento novo com base em fato gerador ocorrido antes da introdução do critério, com maior razão este também não poderá ser aplicado para rever lançamento velho. Todavia, o que o preceito resguardaria contra a mudança de critério não seria apenas lançamentos anteriores, mas fatos geradores passados. O motivo da introdução do novo critério (a par da iniciativa de ofício da autoridade) pode ser uma decisão (administrativa ou judicial), contida num processo que, obviamente, se refere a fato gerador pretérito. Se o critério introduzido é aplicável só para fatos geradores futuros, é evidente que ele não terá sido o critério aceito como legítimo para o lançamento objeto do processo, cuja decisão porém, teria provocado a autoridade a introduzir o novo critério.” (In Direito tributário brasileiro. 18ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 377378) Da leitura dos autos, firmo meu entendimento pessoal que houve alteração de critério jurídico, com violação ao 146 do Código Tributário Nacional CTN. Contudo, para resolução do conflito jurisprudencial posto a julgamento nesta E. Câmara Superior, adoto como razões de decidir (mérito) a decisão recorrida, por seus próprios fundamentos, que passa fazer parte integrante do presente voto. Vejamos: "Notese,inicialmente, que o fundamento utilizado pela DRJ para manter a exigência da penalidade isolada é diverso daquele registrado no campo “Descrição dos Fatos” do auto de infração. Com efeito, a fiscalização alegou que a classificação fiscal correta do produto importado seria 3809.91.90 (“preparação química à base de poliéster do ácido tereftálico, em meio aquoso, apta para uso na indústria têxtil”), com base em que promoveu a cobrança do II, acrescido de multa e juros, e da penalidade por erro de classificação fiscal. Não sendo correta a classificação fiscal utilizada pela fiscalização para proceder ao lançamento, não poderia a instância de origem, considerando correta uma terceira classificação, manter a penalidade isolada, pois esse fato caracteriza cerceamento ao direito de defesa, uma vez que à Recorrente não se conferiu oportunidade de se pronunciar, em sua impugnação, sobre esta terceira classificação fiscal. Abraçando esse entendimento, transcrevese a seguinte ementa de decisão do CARF: FUNDAMENTOS DO LANÇAMENTO. PREJUÍZO AO DIREITO DE DEFESA DO SUJEITO PASSIVO. NULIDADE. É nula, por prejuízo ao direito de defesa do sujeito passivo, a decisão de primeira instância que apresenta fundamentos fático jurídicos ao lançamento impugnado não constantes da peça de ataque. (CARF/Segunda Seção/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, Fl. 244DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 11 10 Acórdão n.º 2401002.593, de 14/08/2012). Assim, a instância de origem nada mais fez do que promover uma alteração na fundamentação do ato administrativo (lançamento), visto que o motivo de fato do qual resultou a exigência da penalidade foi que a classificação fiscal adotada pela Recorrente estava errada porque correta era a indicada pela fiscalização. Configurado prejuízo ao direito de defesa, é de se declarar nula decisão proferida pela DRJ, com fulcro no art. 59, II, do Decreto n.º 70.235, de 1972. Pelo exposto, voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para anular a decisão proferida pela DRJ. É como voto. Charles Mayer de Castro Souza" Dispositivo. Ante o exposto, conheço do Recurso interposto, negolhe provimento, mantendose a decisão recorrida por seus próprios fundamentos jurídicos. É como voto. (Assinado digitalmente) Demes Brito Fl. 245DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 12 11 Voto Vencedor Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado Com todo respeito ao voto do ilustre relator, porém divirjo de suas conclusões a respeito do afastamento da multa por classificação fiscal incorreta. Esclareço que na sessão de julgamento de 14/03/2018, este colegiado proferiu o acórdão nº 9303006474, de minha relatoria, no qual decidimos esta mesma matéria. Portanto, com fundamento no § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784/99, transcrevo abaixo aquele voto e o adoto como fundamento de decidir. (...) Os autos dão conta de que a decisão de primeira instância manteve a autuação apenas na fração correspondente à multa por erro de classificação fiscal, prevista no art. 84 da MP n.° 215835/2001, no percentual de 1% (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria importada. A decisão recorrida, por seu turno, exonerou também essa multa. É contra essa exoneração que a Fazenda recorre. As demais penalidades originalmente impostas, assim como a diferença de tributos foram consideradas improcedentes pela DRJ. Uma vez que o Fisco tenha classificado incorretamente a mercadoria no auto de infração, ainda que incontroverso o erro de mesma natureza cometido pelo importador, todas as exigências escoradas na NCM indicada no auto foram consideradas insubsistentes. Até aí, nenhuma novidade. A jurisprudência administrativa é quase uníssona em relação aos efeitos da decisão que, no seu bojo, rejeita a classificação escolhida pela Fiscalização. Quando se chega a essa conclusão, a exigência é considerada improcedente como um todo, ainda que a classificação adotada pela contribuinte também esteja equivocada. De fato, para a NCM que emerge do julgamento há circunstâncias desconhecidas: outra alíquota (talvez ad valorem, talvez específica), outro tratamento administrativo, necessidade de novos esclarecimento técnicos sobre o produto etc. A adequação a essas novas circunstâncias exigiria que todo o procedimento fiscal fosse revisto, o que equivaleria a um novo lançamento, medida que, como se sabe, não foi contemplada pela legislação tributária. Por essa razão, inevitavelmente, a pretensão veiculada nos autos termina sendo abandonada. Contudo, essa máxima não pode ser instantaneamente aplicada quando o assunto envolve a multa decorrente do erro de classificação fiscal em si. Diferentemente da exigência vinculada à diferença de tributos, à multa por declaração inexata/falta de pagamento e à multa por infração ao controle administrativo das importações, todas associadas e dependentes do tratamento tarifário concedido a determinada NCM, a infração por erro de classificação não é afetada quando o enquadramento escolhido pelo Fisco também se revela Fl. 246DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 13 12 equivocado. Tratase de uma infração dissociada de quaisquer exigências e particularidades tributárias e/ou administrativas a que se subsumem as operações com mercadorias classificadas em determinado código tarifário. Noutro giro, releva também destacar que a infração de que aqui se trata, tal como tipificada no art. 84 da MP n.° 215835/2001, não comporta controvérsia em face dos efeitos do ato de que resulta ou de outros aspectos com viés subjetivo. Com a devida vênia aos que pensam de forma diferente, não vejo propósito na discussão travada nos autos acerca da intenção do agente, da extensão dos efeitos do ato ou da presença ou não da máfé comprovada ou demonstrada nos atos praticados pelo infrator. A infração por erro de classificação fiscal, tal como é próprio das infrações de natureza tributária, é objetiva. Como se sabe, à presença do elemento volitivo nos atos infracionais são atribuídas consequências próprias. Via de regra, o dolo dá ensejo ao agravamento da multa exigida; não está associado à circunstância material da infração. Com base nessas premissas, afastase, desde logo, a interpretação que sugere a exclusão da pena perante a ausência de intenção do agente ou de efeitos lesivos do ato. Do ponto de vista estritamente legal, quaisquer destas circunstâncias carecem de conteúdo normativo que lhes conceda efeito jurídico. Conforme disposto na norma legal infracional, a materialidade da infração encontrase na conduta; no erro de classificação fiscal. A priori, uma vez que isso ocorra, nenhuma das circunstâncias acima descritas tem o condão de relevar a pena que decorre do ato de classificar indevidamente a mercadoria. E esse pressuposto aplicase, igualmente, às situações nas quais a classificação escolhida pelo Fisco revelase equivocada. A norma geral e abstrata se materializa na ação do contribuinte que classifica indevidamente a mercadoria. Não há pena prevista para o Erário nem mitigação decorrente de uma escolha também indevida. Tampouco há disposição normativa que exclua a penalidade em face de tal ocorrência. Isto posto, resta examinar a possibilidade de que a imprecisão de que se trata resulte em prejuízo da integridade do auto de infração em si. Ao indicar classificação tarifária equivocada, é possível que a acusação padeça de uma precariedade insuperável na fundamentação que lhe é exigida, do que resultaria todo o procedimento eivado de vício material. A esse respeito, encontrase à efolha 12, na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal do auto de infração, a explicação da Autoridade autuante para desclassificação da mercadoria importada. (...) O caso dos autos é exemplar. A toda evidência, há razões suficientes e autônomas para que se chegue à conclusão de que o importador incorreu em erro na escolha da classificação tarifária da mercadoria. Tratase de uma decisão que encerra em si mesma sua motivação, independe da classificação escolhida pelo Fisco. Ainda que esta seja incorreta, as razões e os fundamentos que levaram à rejeição da classificação escolhida pelo importador subsistirão e foram satisfatoriamente explicitadas no auto. Ao administrado foi concedido o direito de contraditálas. E que se diga que, de fato, a simples escolha de determinada classificação tarifária em detrimento de outra tem relevante potencial lesivo e pode ser evitada à luz de elementos de convicção relativamente superficiais. Isso pode ser observado, Fl. 247DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 14 13 com alguma frequência, no caso de importação de mercadorias passíveis de serem classificadas no conhecido Capítulo 29 da TEC. Vejase o exemplo a seguir. No ano de 2001, por meio da Resolução Camex nº 42/20011, a Câmara de Comércio Exterior, supostamente por razões de cunho econômico, decidiu reduzir a zero a alíquota do imposto de importação incidente sobre cerca de 360 (trezentos e sessenta) códigos tarifários compreendidos no Capítulo 29. Investigar a regularidade na escolha desse capítulo, normalmente, não exige mais do que uma informação elementar acerca da composição química da mercadoria: se tratase de um composto de constituição química definida ou não. Já classificar com precisão um produto químico pode demandar demoradas pesquisas bibliográficas e exames laboratoriais. Isso significa que a simples constatação de erro na opção pelo Capítulo 29, independentemente da classificação tarifária a que o produto deveria ser submetido, garante ao Fisco a condição de coibir a opção do administrado por enquadramento com tratamento tarifário beneficiado, ao qual ele sabia ou deveria saber que não tinha direito. Assim, considerando todo o exposto, não vislumbro nenhum argumento que conduza à decisão de excluir a pena imposta à contribuinte; seja em face das alegações associadas à ausência de qualificação do ato, dos efeitos dele decorrentes, da falta de fundamentação ou mesmo da preterição ao direito de defesa. A contestação, a meu ver, carece de motivação real e de base legal. 1 RESOLUÇÃO CAMEX Nº 42, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2001 DOU 29/12/2001 O PRESIDENTE DA CÂMARA DE COMÉRCIO EXTERIOR, no exercício da atribuição que lhe confere o § 3º do art. 6º do Decreto no 3.981, de 24 de outubro de 2001, e tendo em vista as Decisões nos 67/00 e 06/01, do Conselho do Mercado Comum (CMC), e Resoluções nos 11/01, 12/01, 29/01, 30/01, 32/01, 45/01, 46/01, 48/01 e 57/01, do Grupo Mercado Comum (GMC), do MERCOSUL, e as emendas à Nomenclatura do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, RESOLVE, ad referendum da Câmara: (...) Art. 3º Ficam reduzidas a zero por cento, até 31 de agosto de 2002, as alíquotas do Imposto de Importação das mercadorias descritas nos códigos relacionados no Anexo V a esta Resolução, gravados na TEC com o símbolo “§”. (Prorrogada pelo art. 1º da Resolução Camex nº 08, DOU 31/03/2003) (Prorrogada pelo art. 1º da Resolução Camex nº 19, DOU 01/07/2003) (...) Fl. 248DF CARF MF Processo nº 10715.002642/200482 Acórdão n.º 9303008.194 CSRFT3 Fl. 15 14 (...) Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 249DF CARF MF
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Numero do processo: 11070.721963/2015-28
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012
Súmula CARF nº 108
Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
GLOSA DE CRÉDITOS ILEGÍTIMOS TOMADOS PELO ADQUIRENTE EM RAZÃO DE ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL COMETIDO PELO FORNECEDOR.
Constatado pela fiscalização que a classificação fiscal de insumos no fabricante estava errada, reduzindo a zero o IPI destacado nas notas fiscais de saída, legítima a glosa do IPI creditado a maior no comprador.
Recurso Especial do Procurador provido e Recurso Especial do Contribuinte negado.
Numero da decisão: 9303-007.869
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente
(Assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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Interessado FAZENDA NACIONAL e VONPAR REFRESCOS S.A. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 Súmula CARF nº 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. GLOSA DE CRÉDITOS ILEGÍTIMOS TOMADOS PELO ADQUIRENTE EM RAZÃO DE ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL COMETIDO PELO FORNECEDOR. Constatado pela fiscalização que a classificação fiscal de insumos no fabricante estava errada, reduzindo a zero o IPI destacado nas notas fiscais de saída, legítima a glosa do IPI creditado a maior no comprador. Recurso Especial do Procurador provido e Recurso Especial do Contribuinte negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente (Assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 07 0. 72 19 63 /2 01 5- 28 Fl. 2100DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 3 2 Jorge Olmiro Lock Freire – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de recurso especial de divergência oposto pela Fazenda Nacional (fls. 1632/1646), admitido pelo despacho de fls. 1648/1650, insurgindose contra parte do acórdão 3402003.800, de 26/01/2017, que deu provimento ao recurso voluntário para afastar os juros de mora sobre a multa de ofício. Nessa parte, eis a ementa: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A literalidade do artigo 61, caput e §3º da Lei n. 9.430, de 1996, separa os débitos tributários das penalidades (multas de ofício), determinando a incidência dos juros só sobre os primeiros, e não sobre as segundas. Assim falta previsão legal para a incidência da Selic sobre a multa de ofício imposta nos autos de infração lavrados pela RFB. O contribuinte contraarrazoou o recurso fazendário (fls. 1690/1706), postulando, em suma, que seja negado provimento àquele. Igualmente, o contribuinte interpôs recurso especial de divergência (fls. 1752/1819) requerendo o cancelamento integral do auto de infração. O despacho de admissibilidade de fls. 1996/2006, de 14/03/2018, admitiu parcialmente o recurso exclusivamente em relação à possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Agravado esse despacho pelo contribuinte (fls. 2049/2058), o mesmo foi rejeitado (fls. 2061/2066) pela Presidente da CSRF. A ementa do recorrido não fez menção expressa quanto à esta matéria, mas foi objeto de análise expressa. Na parte admitida, sustenta que deve prevalecer o entendimento dos acórdãos paradigmas (3401003.751 e CSRF/0202.895), pois, afirma, agiu licitamente ao aceitar a classificação fiscal dos produtos fornecidos pela RECOFARMA, constante de nota fiscal idônea. Alega não mais existir previsão regulamentar no sentido de que o adquirente deveria verificar a classificação fiscal do produto indicada pelo fornecedor. Por tal, entende que não pode o crédito ser glosado nem aplicada multa de ofício. De fls. 2073/2090, contrarrazões da PGFN. Inicialmente, alega a procuradoria que o recurso não deve ser conhecido porque os paradigmas tratam de crédito básico de IPI, enquanto o recorrido versa sobre crédito incentivado de IPI. Reportase ao TVF que articula esse fato em seu item 100. Acresce que "a sistemática do crédito presumido e a do crédito escritural são completamente diversas, não havendo como se comparar duas situações distintas". Em relação ao paragonado nº CSRF/0202.895, assevera que nesse julgado o que Fl. 2101DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 4 3 estava em discussão era a exigência de multa regulamentar por erro de classificação fiscal, situação que não se confunde com a destes autos em que não está sob análise a responsabilidade por infração. Quanto ao mérito, em resumo, consigna que o cerne da demanda é o descumprimento dos requisitos legais para o aproveitamento do crédito de IPI e não, propriamente, a regularidade formal do preenchimento da nota fiscal, o que conduziria à rejeição da tese no particular. Entende que constatado o erro de classificação fiscal, impõese o lançamento do tributo pela autoridade fiscal nos termos do art. 142 do CTN. Alfim, pede a Fazenda que seja negado provimento ao recurso especial de divergência interposto pelo contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire Relator I RECURSO DA FAZENDA NACIONAL Conheço do recurso nos termos e fundamentos do despacho que o admitiu. Acerca do recurso especial fazendário, descabe maiores digressões ante o teor da Súmula 108 do CARF, aprovado em setembro deste ano, cujo enunciado dispõe: Súmula CARF nº 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Assim, é de ser provido o especial do Procurador para que sobre a multa de ofício aplicada ao lançamento incida a taxa SELIC. II RECURSO DO CONTRIBUINTE CONHECIMENTO O recurso especial do contribuinte foi admitido unicamente quanto à possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Ao contrário do que pondera a Fazenda, entendo que a questão de fundo travada no paradigma 3401003.751 é a mesma, independentemente de tratarse de crédito básico ou ficto, posto que o mérito é a possibilidade de glosarse crédito escritural indevido em função de reclassificação fiscal dos produtos adquiridos. Mas com razão a Fazenda ao alegar que o outro paragonado é imprestável por falta de similitude fática, vez que naquele a matéria referiase à penalidade que então constava no RIPI pela falta de comunicação ao adquirente quando constatado pelo comprador erro na nota fiscal quanto às suas formalidades, inclusive erro na classificação fiscal das mercadoria adquiridas. Fl. 2102DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 5 4 O seguimento do despacho pelo Presidente da Quarta Câmara desta Terceira Seção, concluiu da seguinte forma: Com fundamento nos artigos 18, III, 67 e 68, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, DOU SEGUIMENTO PARCIAL ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo, admitindo a rediscussão da matéria possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Portanto, ao contrário do afirmado na motivação do despacho de admissibilidade, apenas essa questão pode ser conhecida. Em consequência, descabido o argumento do subscritor do despacho quando assevera em relação à matéria admitida, o seguinte: A admissão desta divergência devolve à CSRF o conhecimento das seguintes matérias alegadas como divergentes, mas que na verdade são argumentos do contribuinte para infirmar a tese fazendária: a) se houve ou não houve mudança de critério jurídico no lançamento; e b) competência da Suframa para aprovar projetos de concessão de benefícios fiscais e validade do Ato Administrativo emitido pela Suframa. Essas duas divergências alegadas pelo contribuinte nada mais são do que argumentos utilizados para contestar a glosa dos créditos efetuada pela fiscalização. Não é necessário apresentar paradigmas contra argumentos. Admitida a tese divergente, a CSRF escolherá qual tese irá prevalecer e os argumentos que a sustentarão. Ora, as questões de alteração de critério jurídico e a competência da SUFRAMA são argumentos autônomos e assim foram articulados pela recorrente, devendo claramente ser cotejadas com algum paradigma com a devida similitude fática. Portanto, estreme de dúvida, demandariam motivação e análise particular, o que não foi feito, pelo que, inclusive, não constam do despacho do Sr. Presidente da Quarta Câmara. Assim, o que subiu para nossa análise foi o determinado especificamente ao final pela autoridade competente quanto ao teor das matérias admitidas. E esta foi transcrita acima, qual seja, possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Em suma, somente em relação a essa questão é que conheço do recurso, porém exclusivamente com arrimo no aresto paradigma 3401003.751, vez que o CSRF/02 02.895 trata de matéria em que não há similitude fática. III RESUMO DOS FATOS Consta dos autos, que a empresa VONPAR Refrescos S/A, CNPJ n° 91.235.549/000978, tem como ramo de atividade a fabricação de refrigerantes. No período de janeiro de 2011 a dezembro de 2012, o estabelecimento produziu os seguintes refrigerantes: CocaCola, CocaCola Zero, CocaCola Light, Fanta Laranja, Fanta Uva, Sprite, Guaraná Kuat, Guaraná Kuat Light e Guaraná Taí. Fl. 2103DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 6 5 No referido período, a maior parte dos créditos do IPI escriturados pela autuada foram oriundos de insumos adquiridos da empresa RECOFARMA, esta situada na Zona Franca de Manaus (ZFM), a qual elabora produtos destinados à fabricação de bebidas não alcoólicas da posição 22.02 da Tabela de Incidência do IPI (TIPI). Tais produtos são constituídos de até seis componentes, sendo que cada componente sai do estabelecimento industrial em embalagem individual. Esses produtos são distribuídos para diversas fábricas engarrafadoras espalhadas no território nacional, que atuam em regime de franquia. A VONPAR é uma dessas franqueadas. No presente processo, o Fisco revisou sua posição sobre o RE nº 212.484RS, no qual a autuada foi autora, tendo o julgado transitado em julgado em seu favor, concordando com o entendimento de que ele continua com efeitos válidos entre as partes. Assim, admite que a empresa autuada tem o direito de aproveitar créditos do IPI correspondentes ao valor do tributo incidente sobre produtos procedentes da Zona Franca de Manaus, mesmo que os bens recebidos somente façam jus à isenção do artigo 81, inciso II, do RIPI/2010 (artigo 69, inciso II, do RIPI/2002). Nas notas fiscais de saída emitidas até o final de 2010, a RECOFARMA identificou esses produtos como "concentrados contendo kits", formados por "partes". Ressaltase que nas notas fiscais de saída emitidas pela RECOFARMA não há destaque de IPI, tendo sido registrado que os produtos estariam isentos do IPI com base nos artigo 69, inciso II, e artigo 82, inciso III, do Decreto n° 4.544, de 2002 (RIPI). Verificouse que nas notas fiscais de saída emitidas até o final do ano de 2010, a RECOFARMA registrou que os “concentrados” se classificariam no código 2106.90.10 (Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas). Gizese que os produtos enquadrados neste código são tributados à alíquota zero. A partir de janeiro de 2011, passou a constar nas notas a indicação do "Ex 01" do código 2106.90.10 (Preparações compostas, não alcoólicas extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Em janeiro de 2011, a RECOFARMA emitiu cartas de correção relativas à ausência da indicação do "Ex 01" nas notas emitidas nos anos anteriores. Até 30/09/2012, os produtos enquadrados no "Ex 01" do código 2106.90.10 eram tributados à alíquota de 27% (Decreto nº 6.006, de 28/12/2006, e Decreto nº 7.660, de 23/12/2011). A partir de 01/10/2012, os produtos enquadrados no "Ex 01" do código 2106.90.10, passaram a ser tributados à alíquota de 20%. Ao final, a fiscalização demonstra em seu Relatório de Ação Fiscal, que apesar de a VONPAR, por força do o RE nº 212.484RS, ter direito a se creditar do valor do tributo incidente sobre insumos adquiridos sob o regime de isenção, permanece plenamente justificada a glosa total dos créditos oriundos de "kits para refrigerantes", por ser igual a zero o valor do IPI calculado, como se devido fosse, sobre os produtos em questão. IV DELIMITAÇÃO DA LIDE Como dito alhures, o que foi devolvido ao nosso conhecimento foi a questão acerca da possibilidade do Fisco efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo Fl. 2104DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 7 6 adquirente, no caso a autuada, em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Portanto, desde já afastase a discussão sobre o mérito quanto à classificação fiscal dos produtos que saíram da RECOFARMA isoladamente e que, desta forma, foram reclassificados pelo Fisco. Para que dúvida não paire, vejase o teor do despacho de admissibilidade do recurso de divergência do contribuinte sobre qual a correta classificação fiscal. Para que reste caracterizado o dissídio jurisprudencial, na forma exigida pelo regimento, é necessário que os Acórdãos confrontados tenham interpretado a mesma norma jurídica quando aplicada a fatos iguais ou semelhantes, implicando a adoção de entendimentos distintos. No caso concreto, nenhum dos paradigmas apresentados decidiu se os diversos componentes dos "kits" devem ser classificados como uma mercadoria única ou separadamente. Analisando o inteiro teor do Acórdão 3201001.873, verificase que a questão da classificação fiscal dos "kits" nem sequer foi levantada pela fiscalização. O colegiado tratou os "kits" como mercadoria única porque a fiscalização não questionou a classificação adotada pelo contribuinte. O recurso voluntário foi parcialmente provido neste paradigma porque o colegiado entendeu que o contribuinte tinha direito à manutenção do crédito com base no art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75. Analisando o inteiro teor dos paradigmas 20301.939 e CSRF/0303.335, verificase que eles versaram sobre a classificação fiscal de cosméticos, tendo restado decidido que os certificados de registro expedidos pelo Ministério da Saúde deveriam ser considerados, pois se trata de órgão técnico que analisa a composição química de cada produto. A situação fática versada nesses paradigmas é totalmente distinta da do caso concreto, pois a Suframa não analisa a composição dos produtos, como ocorre com outros órgãos técnicos da Administração Pública, como o Ministério da Agricultura, Ciência e Tecnologia, Vigilância Sanitária e etc. A Suframa se limita a aprovar o projeto acolhendo as informações prestadas pelos interessados em se instalar em Manaus. Os Atos Administrativos expedidos pela Suframa não analisaram a composição química dos concentrados e nem se eles se enquadram na posição X ou Y da tabela. Portanto, inexistindo divergência entre a tese fixada no Acórdão recorrido e os paradigmas acima analisados, o recurso especial não pode ter seguimento quanto à questão da classificação fiscal dos chamados "kits para produção de refrigerantes". ... Uma vez fixada a premissa de que a classificação fiscal adotada pela fornecedora dos concentrados está errada, resta a Fl. 2105DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 8 7 conclusão de que o insumo é classificado em uma outra posição da tabela, cuja alíquota, segundo o fisco, é zero. Se a alíquota é zero, então o crédito é zero. Se o crédito é zero e o contribuinte se apropriou de um crédito maior do que zero, o excesso deve ser glosado da escrita. E, segundo a tese de mérito adotada no Acórdão recorrido, essa glosa pode ser feita porque a coisa julgada formada no RE 212.484 só ampara o crédito ficto em relação a produtos isentos. ... Portanto, está perfeitamente caracterizado o dissídio jurisprudencial, pois enquanto no caso concreto o colegiado prolator do acórdão recorrido decidiu que é possível glosar créditos tomados em excesso pelo adquirente, em virtude de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor dos insumos; no paradigma colacionado a tese adotada foi diametralmente oposta, no sentido de que não é possível efetuar essa glosa, resultando no cancelamento do crédito tributário correspondente. V A LEGITIMIDADE DA FISCALIZAÇÃO EM GLOSAR CRÉDITOS DO ADQUIRENTE, AUTUADO, EM FUNÇÃO DA RECLASSIFICAÇÃO DOS PRODUTOS ADQUIRIDOS DA RECOFARMA, FORNECEDOR. Alega a recorrente que não tinha a obrigação de verificar a regularidade da classificação fiscal indicada na Nota Fiscal para o "concentrado" e que os créditos de IPI objeto do auto de infração em julgamento, foram apurados sob a vigência de Lei e do RIPI, que não impõem a obrigação de o adquirente examinar a classificação fiscal do produto. E como a classificação dos concentrados na posição 2106.90.10 "Ex. 01", foi definida pela RECOFARMA (fornecedora do concentrado), não há qualquer infração praticada por ela ao aceitar tal classificação fiscal e utilizar a respectiva alíquota para calcular o crédito de IPI isento, sendo esse procedimento um ato lícito. Em suma, entende que não pode o Fisco glosar a alíquota do crédito de IPI decorrente da aquisição do concentrado pela recorrente, fundado em suposto erro da classificação fiscal efetuada pela fornecedora RECOFARMA. No caso, há que se ressaltar uma questão de fato que foi ignorado pela autuada. Conforme consta em Termos e Relatórios elaborados pelo Fisco, nas Notas Fiscais de saída emitidas pela VONPAR até o final do ano de 2010, a RECOFARMA registrou que os “concentrados” se classificariam no código 2106.90.10 (Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas), sem o "Ex 01", cuja alíquota do IPI é zero. Ademais, a recorrente, conforme TVF, tinha ciência que o Fisco com base em MPF nacional estava executando trabalho no estabelecimento da RECOFARMA em Manaus, tendo sido analisado o direito creditório ao aproveitamento de créditos de IPI por parte dos adquirentes da RECOFARMA localizados em todo território nacional. Inclusive, consta no item 33 do TVF, que por meio de Termos lavrados pela DRF de Porto Alegre em 12/11/2013 e em 20/12/2013, a matriz da Vonpar foi cientificada de que o trabalho na RECOFARMA estava em andamento. Em 29/12/2014, em termo lavrado no estabelecimento da Vonpar, esta tomou ciência da conclusão do trabalho realizado na RECOFARMA. Portanto, a autuada estava ciente Fl. 2106DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 9 8 de que os créditos que vinha aproveitando estavam, antes da ciência do lançamento, no entender da fiscalização, errados, pois a alíquota, para o Fisco, seria zero. O TVF acresce: "(...) 70) Em Impugnação ao Auto de Infração lavrado por meio do processo nº 11080.733630/201441, Vonpar alegou que as notas fiscais emitidas pela Recofarma atendiam a todos os requisitos legais, tendo declarado que “conforme referência expressa contida nas notas fiscais emitidas pela RECOFARMA”, a empresa adquiriu concentrados isentos, amparados pela isenção prevista no art. 82, III, do RIPI/02 e classificados na posição 2106.90.10 Ex. 01 da TIPI/2006. 70.1 Na realidade, por muitos anos constou nas notas fiscais emitidas por Recofarma apenas o registro do código de classificação fiscal 2106.90.10, cuja alíquota é zero, sem a indicação do Ex 01". O Fisco também relatou que somente nas notas fiscais emitidas a partir de janeiro de 2011, passou a constar a indicação do "Ex 01" do código 2106.90.10, e que em janeiro de 2011 a RECOFARMA emitiu as respectivas cartas de correção relativas à ausência da indicação do "Ex 01" para as notas emitidas nos anos anteriores. Tal procedimento, também foi informado pela própria Recorrente, conforme consta em seu recurso voluntário. Vejase: "Com efeito, a RECOFARMA emitiu cartas de correção, na qual explicitou o enquadramento no Ex 01 que tem, inclusive, alíquota inferior a do Ex 02, qual seja, 27%". Salientese que nestes autos estão sendo analisados fatos geradores de IPI ocorridos até o mês de dezembro ano de 2010. Portanto, neste processo a autuada efetuou o cálculo dos créditos de IPI com a utilização de alíquota que não correspondia ao código indicado nas notas fiscais. Alega a recorrente que as notas fiscais emitidas pela RECOFARMA atendem a todos os requisitos, de forma que, na qualidade de adquirente de boafé teria direito à manutenção do referido crédito de IPI. Mesmo que a recorrente não tivesse como saber que o código de classificação fiscal estava incorreto, o que não é o caso dos autos, cabível a glosa, pois não existe previsão legal para a manutenção de créditos indevidos/ilegítimos, quando constatado pela Fazenda, seu poderdever fazer a glosa nessas hipóteses. Para a Fazenda é uma questão inter alios. Ademais, entendo que aplicase ao caso o art. 3271 do RIPI/2010, que nada mais faz do que reproduzir o art. 62 da Lei 4.502/67, quando determina que o recebedor da 1 Art. 327. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao selo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62 ). Fl. 2107DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 10 9 mercadoria tem o dever legal de verificar se as mercadoria recebidas em seu estabelecimento "estão acompanhadas dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento". Quisesse eximirse da presente cobrança, vez que sabia de antemão o posicionamento da RFB, devia valerse do previsto no § 1º do art. 62 da Lei 4.502, que dispõe: § 1º Verificada qualquer falta, os interessados, a fim de se eximirem de responsabilidade, darão conhecimento à repartição competente, dentro de oito dias do recebimento do produto, ou antes do início do consumo ou da venda, se êste se der em prazo menor, avisando, ainda, na mesma ocasião o fato ao remetente da mercadoria. Dessarte, entendo legítima a glosa ante a constatação do Fisco que os insumos recebidos pela recorrente estavam com classificação fiscal incorreta. DISPOSITIVO Forte no exposto, conheço de ambos recurso e: 1 Dou provimento ao recurso fazendário para que sobre a multa aplicada incida a taxa SELIC, nos termos da Súmula CARF 108, e: 2 Nego provimento ao recurso do contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) § 1o Verificada qualquer irregularidade, os interessados comunicarão por escrito o fato ao remetente da mercadoria, dentro de oito dias, contados do seu recebimento, ou antes do início do seu consumo, ou venda, se o início se verificar em prazo menor, conservando em seu arquivo cópia do documento com prova de seu recebimento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º ). § 2o A comunicação feita com as formalidades previstas no § 1o exime de responsabilidade os recebedores ou adquirentes da mercadoria pela irregularidade verificada (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º ). § 3o No caso de falta do documento fiscal que comprove a procedência do produto e identifique o remetente pelo nome e endereço, ou de produto que não se encontre selado, rotulado ou marcado, quando exigido o selo de controle, a rotulagem ou a marcação, não poderá o destinatário recebêlo, sob pena de ficar responsável pelo pagamento do imposto, se exigível, e sujeito às sanções cabíveis (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 2º, e Lei no 9.532, de 1997, art. 37, inciso V ). § 4o A declaração, na nota fiscal, da data da entrada da mercadoria no estabelecimento será feita no mesmo dia da entrada. Fl. 2108DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 11 10 Jorge Olmiro Lock Freire Fl. 2109DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 12 11 Fl. 2110DF CARF MF
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Numero do processo: 14090.720754/2017-89
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Apr 10 00:00:00 UTC 2024
Data da publicação: Wed May 22 00:00:00 UTC 2024
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS (IPI)
Período de apuração: 01/10/2012 a 31/12/2013
APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. NOTA FISCAL. PRODUTOS ADQUIRIDOS COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA. GLOSA DOS VALORES INDEVIDAMENTE APROPRIADOS. POSSIBILIDADE. LEI 4.502/1964, ART. 62.
A leitura do art. 62 da Lei no 4.502/1964 demanda ponderação. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, mormente quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em Ex Tarifário, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE no 592.891/SP.
Numero da decisão: 9303-015.038
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar-lhe provimento.
(documento assinado digitalmente)
Liziane Angelotti Meira Presidente
(documento assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Alexandre Freitas Costa, Semíramis de Oliveira Duro, e Liziane Angelotti Meira (Presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS (IPI) Período de apuração: 01/10/2012 a 31/12/2013 APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. NOTA FISCAL. PRODUTOS ADQUIRIDOS COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA. GLOSA DOS VALORES INDEVIDAMENTE APROPRIADOS. POSSIBILIDADE. LEI 4.502/1964, ART. 62. A leitura do art. 62 da Lei n o 4.502/1964 demanda ponderação. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, mormente quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE n o 592.891/SP. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira – Presidente (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 09 0. 72 07 54 /2 01 7- 89 Fl. 10903DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Alexandre Freitas Costa, Semíramis de Oliveira Duro, e Liziane Angelotti Meira (Presidente). Relatório Trata-se de Recurso Especial de divergência interposto pelo Contribuinte contra a decisão consubstanciada no Acórdão n o 3301-005.546, de 28/11/2018 (fls. 10.355 a 10.381) 1 , proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara, da Terceira Seção de Julgamento do CARF, que, na parte conhecida, negou provimento ao Recurso Voluntário apresentado. Breve síntese do processo O processo versa sobre Auto de Infração (fls. 02 a 15), em que são exigidos o Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, a multa de ofício proporcional (no percentual de 75%) e juros de mora, referentes ao período que compreende o 4 o trimestre de 2012 até o 4 o trimestre de 2013. A acusação fiscal reside na utilização de crédito indevido do IPI, sob a rubrica “Outros créditos”, decorrentes da aquisição de insumos - “kits de concentrados” para a fabricação de refrigerantes, da empresa RECOFARMA Industria do Amazonas Ltda, situada na Zona Franca de Manaus (ZFM). Conforme consta no Relatório Fiscal de fls. 16 a 42, as verificações acerca da correta apuração do IPI devido foram realizadas quando da análise de 5 Pedidos de Ressarcimento (PER), sendo apresentados também Pedidos de Compensação (DCOMP), para utilização dos créditos referentes ao Ressarcimento de IPI para quitação de débitos tributários. O lançamento é fundamentado em duas partes: (a) créditos incentivados indevidos do IPI oriundos de produtos não elaborados com matérias-primas extrativas vegetais de produção regional (a Fiscalização afirmou que a maior parte dos créditos de IPI escriturados pela empresa no período sob análise, é oriunda de insumos destinados à fabricação de refrigerantes, descritos na NF como “concentrados” ou "kits de concentrados" (NCM 2106.90.10), adquiridos da empresa RECOFARMA localizada na Zona Franca de Manaus, e entendeu que o crédito é indevido, porque o RE 212.484-RS tem aplicação apenas entre as partes e não alcança o Contribuinte, e, quanto ao Mandado de Segurança Coletivo MSC n o 91.00477834 impetrado pela Associação dos Fabricantes de Coca Cola (AFBCC) perante a Justiça Federal do RJ, a fiscalização também afastou os efeitos da coisa julgada; entende que, para esta isenção do art. 95 do RIPI/2010 e art. 6 o do Decreto-Lei n o 1.435/1975, não é exigido o despacho da autoridade administrativa de que trata o art.179 do CTN, e que o papel da SUFRAMA é aprovar os projetos para fruição do benefício fiscal, inexistindo na legislação qualquer norma que limite total ou parcialmente o exercício da competência da RFB na fiscalização do benefício sob análise, pois, para usufruir do benefício, as empresas precisam atender a todos os requisitos previstos na legislação, e não só aquele constante do § 2 o do art. 6 o do citado DL n o 1.435/1975; e (b) créditos incentivados do IPI aproveitados indevidamente em função de erro de classificação 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (e-processos). Fl. 10904DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 fiscal e alíquota (a Fiscalização afirmou que houve erro na classificação fiscal do produto fornecido pela RECOFARMA, o que permite a glosa, pois a classificação correta tem uma alíquota igual a zero, o que ocasiona a inexistência de crédito, já que o valor do IPI calculado sobre os produtos em questão, como se devido fosse, seria zero, tendo realizado a coleta dos “kits” elaborados pela RECOFARMA, bem como juntado aos autos fotos dos “kits” - fls. 302 a 313; 343 a 359, sendo demandado laudo pericial pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer, objetivando a identificação dos ingredientes contidos em cada parte dos “kits”, tendo os resultados dos exames laboratoriais solicitados pela fiscalização sido anexados ao presente processo - fls. 64 a 101). Informa ainda a Fiscalização que a empresa trata os “kits” como uma mercadoria única por uma decisão comercial, denominada de “concentrado”, aplicando a alíquota prevista para o “Ex 01” do código 2106.90.10 da TIPI, e não por uma imposição da realidade técnica e/ou mercadológica. Neste sentido, não haveria impedimento para que cada componente de “kits” para fabricação de bebidas fosse fabricado e vendido por um estabelecimento diferente, nem para que o fornecedor efetuasse remessas em separado dos componentes dos “kits”, e nem para que fosse especificado o preço cobrado por componente. A partir das glosas de crédito realizadas pelo Fisco a apuração do IPI foi refeita, encontrando-se um saldo de IPI a pagar, culminando no lançamento. Cientificado do Auto de Infração, o Contribuinte apresentou a Impugnação de fls. 9.670 a 9.740, argumentando, em síntese, que: (a) os “concentrados” adquiridos são beneficiados pela isenção do art. 81, II do RIPI/2010, com base legal no art. 9 o do DL n o 288/1967, e, com base nesta isenção, por ser produto adquirido da ZFM, o Contribuinte faz jus ao crédito presumido de IPI, calculando-se o crédito como se devido fosse, com base na coisa julgada formada no MSC n o 91.0047783-5, bem como no RE n o 212.484, julgado pelo STF; (b) os produtos adquiridos podem também ser enquadrados em outra isenção, prevista no art. 95, III do RIPI/2010, permissivo legal do art. 6 o do DL n o 1.435/1975, que concede isenção para matéria-prima agrícola e extrativa vegetal adquirida de produtor situado Amazônia Ocidental e a possibilidade de crédito presumido de IPI para estas aquisições decorre da própria disposição do art. 239 do RIPI/2010, não necessitando da coisa julgada; (c) quanto à alíquota utilizada para fins de apuração do seu crédito presumido e acusação de erro na classificação fiscal, em razão de que tais concentrados adquiridos deveriam ser classificados por suas partes, o Contribuinte argumenta que a autoridade fiscal não indicou os componentes do concentrado que deveriam ser classificados separadamente e em quais posições da TIPI, o que, por si só, gera nulidade do Auto de Infração neste ponto; (d) o Contribuinte é terceiro, adquirente dos concentrados para refrigerantes, e a classificação fiscal dos produtos adquiridos é realizada pela fornecedora, RECOFARMA, não podendo este suposto erro ser imputado ao Contribuinte, e, em relação aos concentrados para refrigerante, a apuração do crédito é simples cálculo aritmético, calculando-se o crédito de IPI à alíquota decorrente da classificação fiscal feita pelo fornecedor do insumo, na época, de 20%; (e) houve alteração do critério jurídico, pois houve mudança de posição interpretativa da Administração Tributária; (f) há impossibilidade de exigência da multa com base no art. 76, II, "a", da Lei n o 4.502/64, diante da existência de decisões irrecorríveis de última instância administrativa proferidas em processos fiscais no sentido de que não cabe ao adquirente do produto verificar a sua correta classificação fiscal, citando vários Acórdãos/CARF; e (g) há impossibilidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. O recurso foi julgado pela DRJ em Ribeirão Preto/SP, por meio do Acórdão n o 14-76-152, de 20/02/2018 (fls. 10.028 a 5.980 a 10.063), considerando improcedente a Impugnação apresentada, mantendo-se intacto o crédito tributário atrelado ao IPI, sob os Fl. 10905DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 seguintes fundamentos: (a) são insuscetíveis de apropriação na escrita fiscal os créditos de IPI concernentes a produtos isentos adquiridos para emprego no processo industrial, mas não elaborados com matérias-primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental; (b) nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” constitui-se de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matérias-primas e produtos intermediários que só se tornam, efetivamente, uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização, ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI; (c) não ocorre alteração de critério jurídico nem ofensa ao art. 146 do CTN se a Fiscalização promove autuação baseada em entendimento distinto daquele que seguidamente adota o contribuinte, mas que jamais foi objeto de manifestação expressa por parte da Administração Tributária; (d) quanto a apropriação de créditos em documentos fiscais idôneos - classificação equivocada, responsabilidade: em matéria tributária, a culpa do agente é irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN (na situação, as notas fiscais de aquisição das mercadorias que originaram o suposto crédito, ao consignarem classificação fiscal equivocada que não se aplica ao produto comercializado, deixam de ostentar o amparo necessário a respaldar o crédito ficto escriturado, sendo cabível a glosa); (e) as decisões judiciais atinentes a casos concretos possuem apenas efeitos inter partes e não vinculam os atos da Administração Tributária, e o provimento jurisdicional abrange o conteúdo do pedido da petição, e seu alcance restringe-se aos associados da impetrante domiciliados no âmbito da competência territorial do órgão prolator; (f) não há que se falar em aplicação do disposto no art. 76, II, a, da Lei n o 4.502, de 1964, c/c o art. 100, II e parágrafo único, do CTN, para a exclusão de penalidades e juros de mora, pela inexistência de lei que atribua eficácia normativa às decisões administrativas em processos nos quais um terceiro não seja parte; e (g) sendo a multa de ofício classificada como débito para com a União, é regular a incidência dos juros de mora, a partir de seu vencimento. Cientificado do Acórdão da DRJ/RPO, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fls. 10.078 a 10.155), devolvendo a análise de todas as matérias já ventiladas em sede de Impugnação, juntando laudo do INT - Instituto Nacional de Tecnologia (fls. 10.245 a 10.275) para atestar a condição de produto único dos “kits”. A PGFN apresentou contrarrazões em fls. 10.307 a 10.344, contraditando os argumentos do Recurso Voluntário e pugnando pela manutenção do Auto de Infração, pelos fundamentos do TVF. Os autos vieram ao CARF para julgamento e o Colegiado exarou a decisão consubstanciada no Acórdão n o 3301-005.546, de 28/11/2018, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara, da Terceira Seção de Julgamento do CARF, que conheceu em parte o Recurso Voluntário e, na parte conhecida, negou provimento, nos seguintes termos: (a) coisa julgada: a existência de coisa julgada permitindo o crédito de IPI na aquisição de produtos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus impede a análise do crédito presumido na instância administrativa; (b) apropriação de créditos incentivados ou fictos, calculados sobre produtos isentos adquiridos de estabelecimentos localizados na ZFM, somente é admitida se houver alíquota positiva do IPI para o produto/insumo adquirido para industrialização (no caso de identificação de erro na classificação fiscal, cuja classificação correta revela que os produtos adquiridos estavam sujeitos à alíquota zero, não há possibilidade de geração de crédito); (c) é Fl. 10906DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 competência da RFB a verificação da legitimidade dos créditos apropriados pela Contribuinte em sua escrita fiscal, inclusive, relativamente à verificação se os produtos adquiridos com isenção estão devidamente classificados na NCM da TIPI, não afastando esta competência da RFB a circunstância de o PPB ter sido aprovado pela SUFRAMA; (d) não representa mudança de critério de jurídico o auto de infração, cujo lançamento decorreu da glosa de créditos incentivados/fictos, por erro de enquadramento na classificação fiscal da TIPI, quando não houve manifestação anterior da Administração neste sentido nem mesmo um lançamento de ofício anterior, cuja conclusão fiscal foi por outra classificação fiscal do produto; e (e) em razão da não cumulatividade do IPI e de sua sistemática imposto sobre imposto, o adquirente de produtos industrializados deve conferir se a nota fiscal atende todas as prescrições legais e regulamentares, conforme art. 62 da Lei n o 4.502/1964, aí se incluindo a classificação fiscal. Cientificado do Acórdão n o 3301-005.546, de 28/11/2018, o Contribuinte opôs os Embargos de Declaração de fls. 10.397 a 10.413, aduzindo, em síntese, a existência de omissão ou contradição em diversos pontos da referida decisão. No entanto, apenas um ponto foi admitido pelo Despacho de Admissibilidade de Embargos s/nº - 3ª Câmara/1ª TO, de 28/02/2019, relativo a omissão quanto à aplicabilidade do art. 76, II, "a", da Lei n o 4.502/1964. No Acórdão (Embargos) n o 3301-006.085, de 25/04/2019 (fls. 10.474 a 10.479), decidiu-se acolher os Embargos de Declaração, sem efeitos infringentes, para sanar a omissão quanto à inaplicabilidade da multa de ofício, esclarecendo-se que: “O art. 76, II, "a" da Lei n o 4.502/1964 prevê o afastamento da multa de ofício quando o contribuinte se orienta de acordo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal. Não é o caso dos autos, tendo em vista que a multa de ofício foi aplicado por infração diversa daquela estampada nos precedentes citados pela contribuinte”. Da matéria submetida à CSRF Cientificado do Acórdão n o 3301-005.546, de 28/11/2018, integrado pelo Acórdão (Embargos) n o 3301-006.085, de 25/04/2009, o Contribuinte interpôs Recurso Especial de divergência de fls. 10.501 a 10.557, suscitando dissídio jurisprudencial quanto às seguintes matérias: (a) inexistência de obrigação para o adquirente de verificar a correção da classificação fiscal consignada pelo fornecedor do produto na nota fiscal de entrada (apresentando como paradigmas da divergência os Acórdãos n o 3401-003.751 e CSRF/02- 02.895); (b) não exclusividade da competência da RFB para definir classificação fiscal de mercadorias; (c) aplicação pela autoridade administrativa de entendimento técnico constante de Laudo Técnico emitido pelo instituto nacional de tecnologia; (d) ilegalidade do auto de infração; e (e) alteração do critério jurídico do lançamento. Preliminarmente, para as matérias “b” e “d”, no Exame de Admissibilidade do recurso, entendeu-se que elas não foram prequestionadas, inviabilizando a sua discussão pela Câmara Superior de Recursos Fiscais. Já quanto às divergências - matérias “c” e “e”, entendeu- se não restar comprovado o dissidio jurisprudencial, sendo negado seguimento ao Recurso Especial. No entanto, foi dado seguimento parcial ao Recurso Especial interposto quanto à matéria “a”: “inexistência de obrigação para o adquirente de verificar a correção da classificação fiscal consignada pelo fornecedor do produto na nota fiscal de entrada”, pois, cotejando os arestos confrontados (recorrido e paradigmas), entendeu-se que há, entre eles, a similitude fática mínima para que se possa estabelecer uma base de comparação para fins de Fl. 10907DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 dedução da divergência arguida: enquanto a decisão recorrida entendeu ser obrigação do adquirente o cuidado de verificar a correção da classificação fiscal consignada na Nota Fiscal de entrada do produtos, os paradigmas assentaram, em sentido contrário, que tal obrigação não se incluiu entre as verificações de que trata o art. 62 da Lei n o 4.502/1964. Isto posto, com as considerações tecidas no Despacho de Admissibilidade de Recurso Especial de 02/12/2019, às fls. 10.767 a 10.779, o Presidente da 3ª Câmara / 3ª Seção de julgamento, deu seguimento parcial ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas quanto à matéria “a”: “Da inexistência de obrigação para o adquirente verificar a correção da classificação fiscal consignada pelo fornecedor do produto na nota fiscal de entrada”. Cientificado do Despacho, o Contribuinte interpôs o recurso de Agravo (fls. 10.788 a 10.807). Considerando as razões suscitadas no Despacho em Agravo CSRF / 3ª Turma, de 11/02/2020 (fls. 10.860 a 7.868 a 10.878), a Presidente da CSRF decidiu pelo seu conhecimento e, no mérito, por sua rejeição, prevalecendo o seguimento parcial ao Recurso Especial expresso pela Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento. Em sede de Contrarrazões, a Fazenda Nacional (fls. 10.892 a 10.898) entende que o Acordão recorrido não comporta reformas, e assevera que a base legal do Regulamento de IPI é o artigo 62 da Lei n o 4.502/1964, que a classificação fiscal está incluída na redação do texto vigente, ao dizer que é dever do adquirente verificar se os documentos fiscais satisfazem todas as prescrições legais e regulamentares. Pede que seja negado provimento ao Recurso Especial, para manter o Acórdão recorrido, bem como o lançamento em sua integralidade. O processo, então, foi distribuído, por sorteio, a este Conselheiro, em 22/06/2023, para dar seguimento à análise do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator. Do Conhecimento O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, conforme consta do Despacho de Admissibilidade do Recurso Especial, 3ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara, de 02/12/2019, exarado pelo Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF de fls. 10.767 a 10.779, aqui endossado em seus fundamentos. Resta clara, a nosso ver, a dissidência jurisprudencial, que não reside em diferença de cenário probatório, nem na valoração das provas apresentadas, mas em simples aplicação não uniforme de dispositivos normativos a fatos semelhantes. Assim, cabe o conhecimento do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. Fl. 10908DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 Do mérito A matéria trazida à cognição deste Colegiado uniformizador de jurisprudência interpretativa, trata sobre a (in)existência de obrigação para o adquirente da mercadoria de verificar a correção da classificação fiscal consignada pelo fornecedor do produto na respectiva Nota Fiscal de entrada. No Acórdão recorrido, ao interpretar o art. 62 da Lei n o 4.502/1964, concluíram unanimemente os julgadores que a classificação fiscal está inserida na redação do texto vigente, sendo dever do adquirente verificar se os documentos fiscais satisfazem todas as prescrições legais e regulamentares. Defendeu-se que a interpretação do dispositivo não deve se restringir apenas aos aspectos formais do documento fiscal, mas também abrange a análise de seu conteúdo, como a descrição do produto, o valor, o peso e a classificação fiscal, devendo o adquirente comunicar ao Fisco e ao fornecedor qualquer incorreção. No Recurso Especial, o Contribuinte alega que o art. 62 da Lei n o 4.502/1964 não estabelece a obrigação de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal indicada na nota fiscal, que os regulamentos de IPI de 2002 e o de 2010 (atua1) expressamente suprimiram essa obrigação; e (c) o CARF está vinculado ao disposto nos regulamentos de IPI (Decretos), por força do art. 26-A do Decreto n o 70.235/1972, e do art. 62 do RICARF, sendo a única conclusão jurídica e lógica possível no sentido de que não está contida na expressão “...prescrições legais e regulamentares” a obrigação de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal indicada da nota fiscal. No Relatório Fiscal, afirma o Fisco que houve erro na classificação fiscal do produto fornecido pela RECOFARMA, o que permite a glosa do crédito, pois a classificação correta tem uma alíquota igual a 0 (zero). Assim, não haveria crédito, já que o valor do IPI calculado sobre os produtos, como se devido fosse, seria zero. O fisco, recorde-se, realizou a coleta dos “kits” elaborados pela RECOFARMA, bem como juntou aos autos fotos dos “kits” (fls. 302 a 313; 343 a 359), solicitando Laudo Pericial pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer, identificando os ingredientes contidos em cada parte dos “kits”, sendo os resultados anexados ao presente processo (fls. 64 a 101). Concluiu a Fiscalização que estes produtos devem ser classificados no código 2106.90.10, como uma “Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”, cuja alíquota é ZERO. Confira-se trecho do Relatório Fiscal (fl. 32 e 36): “(...) A alíquota da citada exceção tarifária (“Ex 01”) vigente à época dos fatos (4 o trim./2012 - 4 o trim./2013) era de 20% (Decreto n o 7.660, de 23/12/2011, alterado pelos Decreto n o 7.742, de 30/05/2012), com redução de 50% nos termos do Decreto n o 8.017, de 17/05/2013 (concentrados que contenham extrato de semente de guaraná)”. “(...) No caso de componentes que correspondam a uma mistura de ingredientes comumente utilizados em diversos produtos da indústria alimentícia, tais como sais, acidulantes e conservantes, deve ser aplicado o código 2106.90.90, reservado às “Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições - Outras - Outras”, também tributado à alíquota zero do IPI. É dizer, ainda que, contrariamente ao que foi demonstrado alhures, fosse possível aplicar-se a isenção de que trata o art. 237, c/c art. 95,III, ou do art. 81, II (amparado por decisão judicial, conforme entendimento da fiscalizada) do RIPI/2010, a CMR não poderia creditar-se do valor do IPI calculado, como se devido fosse, sobre a aquisição Fl. 10909DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 de kits de concentrados da RECOFARMA, haja vista que o valor do imposto “como se devido fosse” é zero!” (grifo nosso) O Contribuinte afirma que as Notas Fiscais emitidas pela RECOFARMA atendem a todos os requisitos, de forma que, na qualidade de adquirente de boa-fé teria direito à manutenção do referido crédito de IPI. Primeiramente. cabe ressaltar que, em matéria tributária, a culpa ou o dolo do agente é, em regra, irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. De outro lado, alega-se que alguns dos Regulamentos do IPI anteriores (RIPI de 1972, 1979 e 1982), ao regulamentar o art. 62 do da Lei n o 4.502/1964, traziam consigo uma disposição expressa de que a verificação das prescrições legais das notas fiscais incluíam a classificação fiscal, porém, na redação do RIPI 2002 (Decreto n o 4.544, art. 266) e na atual redação do art. 327 do RIPI/2010, tal especificação foi retirada do texto, que passou a ter a mesma redação do art. 62 da referida Lei n o 4.502/1964. Confira-se: Lei 4.502/1964: “Art. 62. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao sê-lo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares. § 1 o Verificada qualquer falta, os interessados, a fim de se eximirem de responsabilidade, darão conhecimento à repartição competente, dentro de oito dias do recebimento do produto, ou antes do início do consumo ou da venda, se este se der em prazo menor, avisando, ainda, na mesma ocasião o fato ao remetente da mercadoria.” (...) (grifo nosso) RIPI/2020 - Decreto 7.212/2010: “Art. 327. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao selo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento (Lei n o 4.502, de 1964, art. 62). § 1 o Verificada qualquer irregularidade, os interessados comunicarão por escrito o fato ao remetente da mercadoria, dentro de oito dias, contados do seu recebimento, ou antes do início do seu consumo, ou venda, se o início se verificar em prazo menor, conservando em seu arquivo cópia do documento com prova de seu recebimento (Lei n o 4.502, de 1964, art. 62, § 1 o ). § 2 o A comunicação feita com as formalidades previstas no § 1 o exime de responsabilidade os recebedores ou adquirentes da mercadoria pela irregularidade verificada (Lei n o 4.502, de 1964, art. 62, § 1 o ).” (...) (grifo nosso) Como se vê, o art. 327 do RIPI/2010 nada mais faz do que reproduzir o art. 62 da Lei 4.502/1967, quando determina que o adquirente da mercadoria tem o dever legal de verificar se as mercadorias recebidas em seu estabelecimento “...estão acompanhadas dos documentos Fl. 10910DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento” (grifo nosso). E permite ao adquirente comunicar eventuais inconsistências (conforme § 1 o ). No primeiro paradigma indicado (Acórdão n o 3401-003.751, de 26/04/2017), recordo que se tratava de caso de nulidade da autuação, na parte impactada pela a discussão a respeito da classificação fiscal, em processo em que o autuante sequer remeteu a reclassificação a qualquer regra do Sistema Harmonizado, e a decisão de piso tratou do tema em uma página, com pouca tecnicidade. A falha no enquadramento e as deficiências do lançamento me levaram a acompanhar o relator, Cons. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, inclusive no item referente à apropriação indevida de créditos, tendo em conta o destaque do fornecedor com alíquota que seria maior. Naquela ocasião, invocou o relator como fundamento o Acórdão n o 3402-00.719, em que o colegiado unanimemente assentou: “OBRIGAÇÕES DOS ADQUIRENTES, RESPONSABILIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. A responsabilização do adquirente de produtos sujeitos ao selo de controle, que os receba sem tal condição, só se aplica quando a exigência seja identificável pela classificação fiscal aposta nos documentos de aquisição ou pela simples identificação da mercadoria. Se, entretanto, a classificação fiscal, reconhecida em ato da própria SRF, indica tratar-se de produto não sujeito ao selo, eventual reclassificação fiscal, baseada em laudo técnico elaborado, apenas pode afetar o fabricante.” (grifo nosso) E destacou o relator do Acórdão n o 3401-003.751, após citar tal precedente, que “O caso concreto tratado pelo voto é justamente aquele do exemplo dado, em que a norma exige, de maneira expressa e cogente, um conhecimento específico da adquirente sobre seus fornecedores”, reconhecendo que, em casos específicos pode ser exigido do fornecedor a verificação da classificação da mercadoria. Nesse raciocínio acompanhamos o relator, naquela ocasião, diante da precariedade do lançamento, e do afastamento do erro de classificação, com a declaração de nulidade, o que colocava em cheque a própria correção da alíquota adotada, e, por consequência, da alíquota referente ao crédito tomado. Analisando caso diferente, e relativo ao mesmo sujeito passivo presente nestes autos (NORSA REFRIGERANTES S.A.), a própria 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF proferiu o Acórdão n o 3401-005.943, em 27/02/2019, sob a relatoria do Cons. Lázaro Antônio Souza Soares, concluindo, majoritariamente (vencido apenas o Cons. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco) que: “RESPONSABILIDADE DO RECORRENTE POR ERRO NA CLASSIFICAÇÃO FISCAL DO CONCENTRADO. A autuação em nenhum momento teve por base a falta de conferência, pelo recorrente, da classificação fiscal adotada, bem como nenhuma multa regulamentar foi aplicada por não cumprimento desta exigência, mas tão somente a multa de ofício pelo não recolhimento do IPI devido.” Por ter participado de ambos os julgamentos (Acórdão n o 3401-003.751, de 26/04/2017, e n o 3401-005.943, de 27/02/2019), acompanhei a evolução do entendimento do colegiado sobre o tema, separando o que seria uma imputação de responsabilidade por penalidade decorrente da ausência de cumprimento de uma obrigação da simples responsabilização por tomada de crédito indevido, em situações recorrentes e em que o Fl. 10911DF CARF MF Original Fl. 10 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 conhecimento do fornecedor (inclusive de sua localização geográfica e de seu processo produtivo) afeta o benefício fiscal concedido. Verificando o lançamento de que trata o presente processo, percebe-se que o adquirente não alega que a classificação apontada pelo fornecedor estava incorreta. Pelo contrário, o tema da classificação é debatido, entendendo a recorrente que o fornecedor havia aplicado o código NCM (e o “Ex Tarifário”) corretos no produto transacionado. Depois de laudos técnicos atestou-se no presente processo a mesma conclusão existente em vários outros: que o “Ex Tarifário” não se aplicava à mercadoria, que não se tratava de “concentrado”, e que a mercadoria era tributada à alíquota zero, não gerando crédito. Não se aplica ao recorrente multa por erro de classificação fiscal, ou por descumprimento de obrigação de verificar a correta classificação. Mas impede-se que se credite indevidamente de tributo, ainda mais quando se sabia desde 2010, qual era a classificação correta, como narra o relator no acórdão recorrido (fl. 10377): “Ressalte-se que a administração tributária, desde 2010, já analisou estes produtos e concluiu por uma determinada classificação fiscal. Assim, ao contrário do que afirma a Recorrente, há uma solução de consulta afirmando a classificação fiscal 2106.90.10, tal qual dada pela fiscalização nestes autos.(...)” No que se refere à verificação de regularidade das notas fiscais, à luz do comando do art. 62 da Lei n o 4.502/1964, tema que chega a este colegiado uniformizador de jurisprudência, assim decidiu o acórdão recorrido (fl. 10379): “(...) entendo que a classificação fiscal está incluída na redação do texto vigente ao dizer que é dever do adquirente verificar se os documentos fiscais satisfazem todas as prescrições legais e regulamentares. A interpretação deste dispositivo, a meu ver, não deve se restringir apenas aos aspectos formais do documento fiscal, mas também à análise de seu conteúdo ideológico, tais como descrição do produto, valor, peso e classificação fiscal, devendo comunicar ao Fisco e ao fornecedor qualquer incorreção.” Reforça essa necessidade a metodologia de crédito adotada na sistemática da não- cumulatividade para o IPI. Não pode ser tomado crédito indevido de uma operação tributada à alíquota zero, eventualmente informada de forma incorreta pelo fornecedor na nota fiscal. Por certo que o art. 62 da Lei n o 4.502/1964 dá conta dessa situação, em qualquer das regulamentações do IPI ao longo das últimas décadas. Se a verificação já é importante nos casos de crédito básico, é imprescindível nos casos de crédito presumido, em que uma escrituração do imposto com alíquota positiva pode gerar crédito mesmo nos casos de aquisição isenta (é o caso da Zona Franca de Manaus, conforme decidido pelo STF, de forma vinculante, no Recurso Extraordinário n o 592.891/SP). E o próprio RIPI/2010 prevê, v.g., entre as correções que podem ser efetuadas na nota fiscal, a relativa a “...destaque que deixou de ser efetuado na época própria, ou que foi efetuado com erro de cálculo ou de classificação, ou, ainda, com diferença de preço ou de quantidade” (art. 407, XII). Ademais, o mesmo RIPI/2010 traz, em seu art. 413, os requisitos da nota fiscal, entre os quais está incluída a classificação do produto (inciso IV, “c”). Fl. 10912DF CARF MF Original Fl. 11 do Acórdão n.º 9303-015.038 - CSRF/3ª Turma Processo nº 14090.720754/2017-89 Assim, a leitura do art. 62 da Lei n o 4.502/1964 demanda ponderação, que todos os precedente aqui citados efetuaram, diante dos casos concretos analisados em cada julgamento. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, ainda mais quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE n o 592.891/SP. Como é cediço, o Supremo Tribunal Federal (STF) por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário n o 592.891/SP, com transito em julgado, em sede de repercussão geral, decidiu que “Há direito ao creditamento de IPI na entrada de insumos (matéria-prima e material de embalagem) adquiridos junto à Zona Franca de Manaus sob o regime da isenção, considerada a previsão de incentivos regionais constante do art. 43, § 2 o , III, da Constituição Federal, combinada com o comando do art. 40 do ADCT”. Observa-se que o creditamento na conta gráfica do IPI se dá quando a alíquota do produto adquirido sob o regime isentivo for positiva, conforme a Nota SEI PGFN n o 18/2020. A apropriação de créditos incentivados ou fictos, calculados sobre produtos isentos adquiridos de estabelecimentos localizados na ZFM, somente é admitida se houver alíquota positiva do IPI para o produto/insumo adquirido para industrialização. No caso de identificação de erro na classificação fiscal, cuja classificação correta revela que os produtos adquiridos estavam sujeitos à alíquota zero, não há possibilidade de geração de crédito. Assim, não merece reforma o Acórdão recorrido, cabendo a negativa de provimento ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, e, no mérito, por negar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 10913DF CARF MF Original
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Numero do processo: 10074.001041/2008-79
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed May 19 00:00:00 UTC 2021
Data da publicação: Tue Jun 22 00:00:00 UTC 2021
Ementa: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS
Data do fato gerador: 21/07/2003
MULTA ISOLADA. CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. IMPROCEDÊNCIA DE RECLASSIFICAÇÃO FISCAL PROMOVIDA PELO FISCO. CANCELAMENTO DA MULTA. NÃO OCORRÊNCIA
O fato de a classificação fiscal da mercadoria objeto da lide dizer respeito a um código NCM diverso daquele utilizado pelo contribuinte na importação, bem como do indicado pelo Fisco, o lançamento da multa isolada estabelecida no inciso I do artigo 84 da MP 2.158¬-35/01, deve ser mantido. O simples fato de estar incorreta a classificação escolhida pelo administrado é razão suficiente para imposição da multa aplicada.
Súmula CARF nº 161.
Numero da decisão: 9303-011.439
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(documento assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(documento assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Tatiana Midori Migiyama, Rodrigo Mineiro Fernandes, Valcir Gassen, Jorge Olmiro Lock Freire, Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. IMPROCEDÊNCIA DE RECLASSIFICAÇÃO FISCAL PROMOVIDA PELO FISCO. CANCELAMENTO DA MULTA. NÃO OCORRÊNCIA O fato de a classificação fiscal da mercadoria objeto da lide dizer respeito a um código NCM diverso daquele utilizado pelo contribuinte na importação, bem como do indicado pelo Fisco, o lançamento da multa isolada estabelecida no inciso I do artigo 84 da MP 2.158¬-35/01, deve ser mantido. O simples fato de estar incorreta a classificação escolhida pelo administrado é razão suficiente para imposição da multa aplicada. Súmula CARF nº 161. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (documento assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Tatiana Midori Migiyama, Rodrigo Mineiro Fernandes, Valcir Gassen, Jorge Olmiro Lock Freire, Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 07 4. 00 10 41 /2 00 8- 79 Fl. 871DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 9303-011.439 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10074.001041/2008-79 Trata-se de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional contra a decisão consubstanciada no Acórdão nº 3301-007.007, de 23/10/2019 (fls. 783/800), proferida pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de julgamento do CARF, que deu provimento ao Recurso Voluntário apresentado. Do Auto de Infração O processo trata de Auto de Infração de fls. 7/40, lavrado em 07/02/2008, formalizando a exigência das seguintes penalidades aduaneiras: (a) multa regulamentar, (b) duas multas proporcionais ao valor aduaneiro (VA) e, (c) multa do controle administrativo no valor de R$ 390.511,11, em virtude dos fatos descritos no Relatório de Auditoria Fiscal (RAF) de fls. 41/50. Ressalta-se que não houve lançamento de tributos aduaneiros. O motivo relatado pela Fiscalização foi que, (i) considerando a correta classificação da mercadoria no código NCM 5407.61.00, deixou a empresa de obter a Licença de Importação - LI (tratamento administrativo do SISCOMEX). Para tanto, foi autuada em 30% sobre o valor aduaneiro das mercadorias importadas sem a devida LI, de acordo com a alínea "a" do inciso II do art. 633, e art. 490 do Decreto n° 4.543/02 (RA); (ii) pela incorreta classificação das mercadorias importadas nas referidas DIs, a multa de 1% sobre o valor aduaneiro das mercadorias, conforme determina o art. 84 da MP n° 2.158/01, combinado com o art. 69 da Lei n° 10.833/03 e, (iii) tendo em vista a não manutenção dos documentos fiscais e comerciais que embasaram as importações analisadas, como define o item 1 da alínea "b", do inciso II do art. 70 da Lei n° 10.833/03, a multa de 5% do VA das mercadorias importadas. Cabe informar que no RAF, o Fisco relata que a descrição do produto atribuída pelo importador na DI foi: Tecido Sintético (POLIÉSTER) - NCM: 5516.23.00 (Texto da NCM: Tecidos de Fibras Artificiais Descontínuas), portanto, um tecido sintético. Para a Fiscalização, para tais mercadorias das DIs, correta é a NCM 5407.61.00 (Tecidos de Fios de Filamentos Sintéticos, contendo pelo menos 85%, em peso, de Filamentos de Poliéster não Texturizados). Da Impugnação e Decisão de 1ª Instância Cientificado dos Autos de Infração, a Contribuinte apresentou a Impugnação de fls. 339/354, alegando, em resumo, que: a) seja afastada a classificação fiscal adotada pela Fiscalização para as Dl em tela, sendo inadmitida extensão do resultado do Laudo técnico aos produtos que não sejam originários do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação; b) como consequência, do exame dos autos, conclui-se que o lançamento deve ser declarado por completo insubsistente: 1. pelo fato de haver sido erigido sobre elementos de prova frágeis e escassos, remanescendo dúvidas que beneficiam o acusado; 2. em razão da falta de provas de que o produto analisado seja constituído exclusiva e essencialmente pelos compostos e da forma elencada no capítulo 54; 3. porque é imprescindível ao reenquadramento tarifário de mercadorias a certeza quanto à sua identificação na nova posição proposta pela Fiscalização; 4. porque não é possível estender o resultado do Laudo pericial efetuado sobre apenas um produto, importado, de outra origem, cerca de quatro anos depois, a todas as demais importações efetuadas pela Impugnante; e, 5. porque os documentos contábeis se encontram em boa guarda, sempre à disposição da fiscalização. Requer, quanto a Multa do controle administrativo, aplicação do Ato Declaratório COSIT N° 12/97. Fl. 872DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 9303-011.439 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10074.001041/2008-79 A DRJ em São Paulo (SP), apreciou a Impugnação que, em decisão consubstanciada no Acórdão nº 16-071.565, de 31/03/2016 (fls. 469/488), considerou improcedente a Impugnação, para manter o crédito tributário lançado. Na ementa do Acórdão restou assentado que: (i) a descrição do produto atribuída pelo importador foi: “Tecido Sintético Poliéster”, portanto um tecido sintético. Assim, a classificação adequada se faz na posição NCM 5407 (Tecidos de Fios de Filamentos Sintéticos); (ii) Quanto a Multa proporcional ao valor aduaneiro (5% do V.A.), deve ser mantida, considerando a não manutenção dos documentos fiscais e comerciais que embasaram as importações analisadas, em boa guarda e ordem, e a não apresentação dos mesmos à fiscalização. (iii) quanto a Multa do controle administrativo, no caso, é inaplicável o Ato Declaratório COSIT n° 12/97, porque na descrição não estão presentes todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e (iv) a Multa proporcional ao valor aduaneiro (1% do V.A.), deve ser mantida, em função de classificação fiscal errônea. Recurso Voluntário Cientificada da decisão de 1ª Instância, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário de fls. 500/515, onde reitera os argumentos aduzidos na Impugnação, e reforça as seguintes argumentos (juntando documentos): i) cópias de livros fiscais, para combater as multas correspondentes; ii) que a descrição das mercadorias na DI foi suficiente para a fiscalização efetuar nova classificação, o que elidiria as multas por falta de LI e erro de classificação fiscal; iii) que o resultado de um laudo técnico não pode ser estendido a todas as importações; e iv) alega que o Laudo técnico não dá suporte à classificação adotada pela Fiscalização. Resolução Em 28/08/18, o processo foi trazido ao CARF e a Turma, resolveu converter o julgamento em diligência à Unidade de origem para verificações, coleta de informações e esclarecimentos, por meio da Resolução n° 3301-000.798 (fls. 739/750), nos termos da solicitação contida às fls. 745/750. A diligência foi realizada e o Relatório Fiscal foi elaborado pela Fiscalização (fls. 754/757), bem como, a Manifestação do contribuinte (fls. 772/779), encontram-se nos autos. Decisão CARF Os autos retornaram ao CARF e recurso foi submetido a apreciação da Turma julgadora e foi exarada a decisão consubstanciada no Acórdão nº 3301-007.007, de 23/10/2019 (fls. 783/800), proferida pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de julgamento do CARF, que deu provimento ao Recurso Voluntário apresentado. Nessa decisão, o Colegiado verificou, em resumo que: (a) que a classificação fiscal das mercadorias, objeto da lide, diz respeito a um código NCM diverso (uma terceira hipótese), tanto daquele utilizado pela empresa, bem como daquele que a Fiscalização entendeu ser a correta, portanto, o lançamento deverá ser julgado improcedente por erro na sua fundamentação; e, (b) sendo improcedente a classificação do Fisco, igualmente serão improcedentes as multas por erro de classificação fiscal e falta de obtenção de LI. Recurso Especial da Fazenda Nacional Regularmente notificado do Acórdão nº 3301-007.007, de 23/10/201, a Fazenda Nacional apresentou Recurso Especial (fls. 802/809), apontando divergência com relação à Fl. 873DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 9303-011.439 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10074.001041/2008-79 seguinte matéria: à manutenção da aplicação da penalidade (multa isolada) por erro de classificação fiscal, mesmo sendo improcedente a classificação fiscal promovida pelo Fisco. Para comprovar a divergência, apresentou como paradigma, o Acórdãos nº 3102- 002.198. Quando da Análise de Admissibilidade do Recurso Especial pelo Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção recorrida, o recurso foi admitido e dado seguimento, a saber: No cotejo dos arestos confrontados (paradigma e recorrido), verificou-se que, enquanto a o Colegiado do Acórdão recorrido votou contra a Súmula CARF nº 161, ao defender que, em sendo improcedente a classificação fiscal promovida pelo Fisco, as multas aplicadas, inclusive a por erro de classificação fiscal, devem ser canceladas, o Acórdão paradigma nº 3102-002.198, que é inclusive um dos precedentes da Súmula CARF nº 161, em sentido contrário, concluiu que a multa por erro de classificação deve subsistir pelo só fato de o contribuinte ter efetivamente laborado em erro na classificação fiscal que efetuou na DI. Sem dúvidas a divergência restou bem comprovada. Desta forma, com base nos fundamentos no Despacho de Admissibilidade do Recurso Especial, de 04/05/2020, exarado pelo Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF às fls. 813/817, DEU SEGUIMENTO ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Contrarrazões da Contribuinte Cientificada do Acórdão nº 3301-007.007, de 23/10/201, do Recurso Especial da Fazenda Nacional que foi dado seguimento, a Contribuinte apresentou suas contrarrazões de fls. 834/846, com aditivo de fls. 859/865, requerendo que seja negado seguimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional por ausência de pressupostos de admissibilidade e, caso não seja este o entendimento, requer que, no mérito, seja negado provimento ao citado recurso, mantendo-se, no ponto em que questionado o Acórdão recorrido. O processo, então, foi sorteado para este Conselheiro para dar prosseguimento à análise do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Relator. Conhecimento O Recurso Especial do Contribuinte é tempestivo, conforme consta do Despacho de Admissibilidade do RE - 3ª Câmara, de 04/05/2020 (fls. 813/817), exarado pelo Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de julgamento/CARF. Contudo, em face dos argumento apresentados em sede de contrarrazões pela Contribuinte, entendo ser necessária uma análise dos demais requisitos de admissibilidade do recurso. Isto, porque o Contribuinte pede, em suas contrarrazões, que o Recurso Especial não seja conhecido, por ausência do atendimentos aos seus pressupostos de admissibilidade. Com efeito, passo, então, a analisar os questionamentos por ela apresentados. No Acórdão recorrido, a Turma decidiu por cancelar as multas por erro de classificação fiscal e falta de LI, tendo em vista a conclusão de laudo técnico, que adotou uma terceira classificação fiscal para o produto, não concordando nem a classificação fiscal do Fisco, Fl. 874DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 9303-011.439 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10074.001041/2008-79 e nem a do contribuinte, assim como cancelou também a multa por descumprimento do dever de manter documentos fiscais em boa guarda, ao argumento de ausência de prejuízo ao exercício do controle aduaneiro. Veja-se trecho do voto condutor (fl. 795): “E esta última classificação, com efeito, também não é a adotada pelo contribuinte não dezoito DI revisadas, que foi no código 55.16.2300. Como a conclusão das autoridades aduaneiras para o despacho da DI paradigma foi uma classificação fiscal (5515.19.00) diferente da adotada pelo autuante (5407.10.19), conclui-se que os lançamentos de ofício das multas por erro na classificação fiscal e por falta de obtenção de LI são nulos, por vício material (art. 142 do CTN), e devem ser cancelados”. (Grifei) Para comprovar a divergência a Contribuinte apresenta o paradigma nº 3102- 002.198, de 23/04/2014. Veja-se trecho da conclusão do voto condutor: “O erro de classificação persiste e as consequências dele decorrentes, quais sejam, a infração por errar a classificação e a multa de um por cento do valor aduaneiro das mercadorias, são indiferentes à revisão proferida no julgamento do processo administrativo fiscal. Neste caso específico, os fundamentos da exigência fiscal mantêm-se incólumes. Não precisam ser confirmados em reanálise; prescindem de qualquer tipo de revisão. (Grifei) No Acórdão paradigma, entendeu que a infração do art. 84, I, da MP nº 2.158- 35/2001 (artigo 636 do Decreto nº 4.543/2002) subsiste pelo simples fato de o contribuinte ter se equivocado em sua classificação fiscal. No acórdão recorrido entende que, em sendo improcedente a classificação promovida pelo Fisco, as multas cominadas são, consequentemente, improcedentes. Portanto, há clara divergência interpretativa acerca da incidência e alcance dos artigos 44 e 45 da Lei nº 9.430/96, e do artigo 84, I, da Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001. Portanto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Mérito Para análise do mérito, se faz necessária a delimitação do litígio. Cinge-se a controvérsia, exclusivamente em relação à seguinte matéria: à manutenção ou não da aplicação da penalidade (multa isolada) por erro de classificação fiscal, mesmo sendo improcedente a classificação fiscal promovida pelo Fisco. Em suma, por ocasião do julgamento do Recurso Voluntário, a Turma promoveu uma “terceira classificação” da mercadoria importada, em razão de discordar tanto da classificação eleita pelo contribuinte, como daquela oferecida pelo Fisco, ocasião em que julgou por bem cancelar todas as multas cominadas em função do lançamento equivocadamente fundamentado, inclusive a das multas por erro na classificação fiscal. No que interessa à presente discussão, verifica-se no Auto de Infração que foram aplicadas 4 multas no importador, incluindo a multa proporcional ao Valor Aduaneiro (1% sobre o VA), motivado pela classificação incorreta na NCM declarada, conforme disposto no Art. 84, I, da Medida Provisória nº 2.158-35/2001. Pois bem. O afastamento da multa de ofício, de natureza tributária, é decorrência lógica do afastamento do principal cobrado. Entretanto, o mesmo não ocorre para as penalidades de natureza aduaneira lançadas. Como o Recurso Especial foi admitido apenas em relação à aplicação da multa (isolada) por classificação incorreta, restringe-se a análise a tal penalidade. Assim dispõe o inciso I do artigo 84 da Medida Provisória 2.158-35/2001, matriz legal da sanção aplicada: Art.84. Aplica-se a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria: Fl. 875DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 9303-011.439 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10074.001041/2008-79 I- classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria; ou (...). Cabe informar que, quanto a classificação fiscal, os detalhamentos instituídos pela legislação aduaneira visam a perfeita identificação da mercadoria ou, alternativamente, a correta quantificação na unidade de medida estatística estabelecida pela regras da RFB. Como é cediço, caso verificado estar incorreta a classificação tarifária escolhida pela Fiscalização, de fato, resta comprometida boa parte da exigência fiscal consignada no Auto de Infração controvertido (neste caso, não houve lançamento de tributos aduaneiros). Se a indicação da premissa elementar na definição do tratamento tributário e/ou administrativo (classificação fiscal) não foi precisa, quase todas as conclusões que dela se extraem terminam sem fundamentação fática e jurídica, às quais a manutenção da exigência está condicionada, sendo inaceitável que esse elemento seja revisto no curso do processo administrativo fiscal. Destaca-se que o tipo infracional tipificada no inciso I, do art. 84 acima, é classificar incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul a mercadoria importada e a classificação incorreta é fato incontroverso nos autos, sendo admitida inclusive pelo Acórdão recorrido. Confira-se trecho reproduzido do recorrido (fl.795) : “(...) E esta última classificação, com efeito, também não é a adotada pelo contribuinte nas dezoito DI revisadas, que foi no código 55.16.2300. Como a conclusão das autoridades aduaneiras para o despacho da DI paradigma foi uma classificação fiscal (5515.19.00) diferente da adotada pelo autuante (5407.10.19), (...)”. Portanto, independentemente da improcedência da reclassificação fiscal promovida pelo Fisco, constata-se que efetivamente ocorreu o erro de classificação fiscal promovido pelo sujeito passivo em todas as suas DIs registradas. Como se observa nos autos, o fato ocorreu, qual seja, o erro de classificação fiscal das mercadorias importadas declaradas pelo Contribuinte nas DIs, persiste, conforme comprovado no Acórdão recorrido. E, as consequências dele decorrentes também persiste, quais sejam, a aplicação da penalidade prevista no art. 84 da MP 215835/2001, erro na classificação fiscal da mercadoria e a consequente infração - multa de 1% (um por cento) do valor aduaneiro das mercadorias, uma vez que esse tipo de penalidade são indiferentes à revisão proferida no julgamento do processo administrativo fiscal. Pacificando o entendimento acerca da matéria, o Conselho Administrativo Fiscal – CARF aprovou a súmula 161, nos termos a seguir reproduzidos: Súmula CARF nº 161 O erro de indicação, na Declaração de Importação, da classificação da mercadoria na Nomenclatura Comum do Mercosul, por si só, enseja a aplicação da multa de 1%, prevista no art. 84, I da MP nº 2.158-35, de 2001, ainda que órgão julgador conclua que a classificação indicada no lançamento de ofício seria igualmente incorreta. Acórdãos Precedentes: 3201-000.007, 3102-002.198, 9303-006.331, 9303-006.474 e 9303-008.194. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 410, de 16/12/2020, DOU de 18/12/2020). Observa-se assim, que não há que alegar, como motivo para a sua não exigência, o fato de o Fisco também ter se equivocado quando da classificação fiscal. Reprisando-se, o erro na classificação original persiste, bem como as consequências dele decorrentes. Fl. 876DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 7 do Acórdão n.º 9303-011.439 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10074.001041/2008-79 No presente caso, os fundamentos da exigência fiscal mantêm-se incólumes. Conclusão Em face do exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, para manter a exigência de multa de 1% (um por cento) do valor aduaneiro (VA) da mercadoria classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme previsto no inciso I do artigo 84 da MP nº 2.158-35, de 2001. É como voto. (documento assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 877DF CARF MF Documento nato-digital
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Numero do processo: 11050.001092/00-12
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Feb 19 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Mar 12 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 14/07/1999 a 20/03/2000
Ementa:
LANÇAMENTO POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO. CONTENCIOSO. DECISÃO ADMINISTRATIVA. ENQUADRAMENTO EM CÓDIGO NOVO. IMPORTADOR. INFRAÇÃO POR CLASSIFICAÇÃO INDEVIDA. IMPUTAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Inexiste previsão legal para exclusão ou relevação da pena de multa de 1% (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria nos casos em que a contribuinte classifica incorretamente o produto, mesmo que o enquadramento determinado pela Fiscalização Federal no auto de infração revele-se igualmente indevido.
Se a autuação expõe os fundamentos para rejeição da classificação escolhida pelo importador e a ele foi concedido direito a ampla defesa, também não há que se falar em vício na formalização da exigência.
Numero da decisão: 9303-008.113
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
(assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: DEMES BRITO
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CONTENCIOSO. DECISÃO ADMINISTRATIVA. ENQUADRAMENTO EM CÓDIGO NOVO. IMPORTADOR. INFRAÇÃO POR CLASSIFICAÇÃO INDEVIDA. IMPUTAÇÃO. POSSIBILIDADE. Inexiste previsão legal para exclusão ou relevação da pena de multa de 1% (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria nos casos em que a contribuinte classifica incorretamente o produto, mesmo que o enquadramento determinado pela Fiscalização Federal no auto de infração revelese igualmente indevido. Se a autuação expõe os fundamentos para rejeição da classificação escolhida pelo importador e a ele foi concedido direito a ampla defesa, também não há que se falar em vício na formalização da exigência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 05 0. 00 10 92 /0 0- 12 Fl. 743DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 3 2 Demes Brito Relator (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência, interposto pela Fazenda Nacional, tempestivamente,. ao amparo dos artigos 67 e 68 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF n. 256, de 22/06/2009, em face do acórdão nº 3102000.946, que traz a seguinte ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 14/07/1999 a 20/03/2000 Ementa: Produto Denominado Comercialmente “Atmer 163”. Enquadramento Tarifário. O produto químico denominado comercialmente “Atmer 163”, identificado O produto comercialmente denominado Atmer 163, um antiestático para redução do ciclo de injeção do processo produtivo de polipropeno, constituído por uma mistura de alquil dietanolamina, sem constituição química definida, deve ser classificado no código NCM/SH 3824.90.39. RGI 1, RGI 6, RGC1 e Nota 1 do Capítulo 29. Recurso Voluntário Provido. No especial obstaculizado, a recorrente insurgiuse contra o entendimento adotado pela decisão recorrida, relativamente à classificação fiscal do produto importado. Em relação a tal matéria, traz os seguintes paradigmas, cujas respectivas ementas, idênticas, são transcritas a seguir: Acórdãos n's 30334.948 e 30334.949 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CAPITULO 29 DA TIP" O capitulo 29 da TIPI destinase aos produtos de constituição química definida, apresentado isoladamente, ainda que contenham impurezas, ou em soluções aquosas. ATMER 163. Apesar de ser classificado quimicamente como pertencente et função aminoálcool, não é unia substância de constituição definida, pois se trata de uma mistura de aminoálcoois. podendo conter isômeros e homólogos. Fl. 744DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 4 3 Do juízo de admissibilidade, o Presidente da 1ª Câmara da 3º Seção de Julgamento do CARF, deu seguimento ao Recurso, ás (efls. 730 731). Devidamente cientificada, a Contribuinte apresentou Contrarrazões (efls. 734 740), pugna para que decisão recorrida seja mantida por seus próprios fundamentos. No essencial é o Relatório. Voto Vencido Conselheiro Demes Brito Relator O recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, bem como dos demais requisitos de admissibilidade. Sendo assim, dele tomo conhecimento e passo a decidir. In caso, a 1º Câmara da 2º Turma Ordinária da 3º Seção, deu provimento ao Recurso Voluntário por entender que uma terceira classificação fiscal, diversa da apontada pela Autoridade Fiscal e pelo Contribuinte, não há como manter a exigência fiscal, nem muito menos inovar na autuação e determinar a manutenção da exigência com base nesse novo código tarifário, sob pena de se violar os comandos inseridos no art. 9º17 e no parágrafo 3º do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972. Inferese da leitura dos dispositivos, assiste razão a Contribuinte, a instância de origem nada mais fez do que promover uma alteração na fundamentação do ato administrativo (lançamento), visto que o motivo de fato do qual resultou a exigência da penalidade foi que a classificação fiscal adotada pela Recorrente estava errada porque correta era a indicada pela fiscalização. No que tange essa matéria, adoto como razões de decidir o processo nº 10715.002642/200482, acórdão nº 9303008.194, de minha relatoria, que passa a fazer parte integrante do presente voto. Vejamos: "Com efeito, para melhor elucidar o feito, faço algumas considerações quanto ao Instituto de Classificação Fiscal de Mercadoria. Em que pese a Classificação fiscal de mercadorias sempre ter sido importante nos processos de importação, os Contribuintes só começaram a se preocupar a partir da publicação da Medida Provisória 215835 de 24/08/2010. A referida Medida Provisória MP, estabeleceu multa de 1% ou o valor mínimo de R$ 500,00 quando a aplicação do percentual resultar valor inferior, sobre o valor da mercadoria classificada incorretamente na NCM, nas nomenclaturas complementares ou nas mercadorias quantificadas incorretamente na medida estatística definida pelo governo para as mercadorias. Posteriormente foi publicada a Lei 10.833/2003, a qual amplia o rigor em relação as mercadorias, exigindo corretamente a descrição das mercadorias, não aceitando mais descrições genéricas, como se via anteriormente, chegando a se descrever Fl. 745DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 5 4 uma mercadoria em uma Declaração de Importação simplesmente com o número de referencia do fabricante. Reclamações eram exaradas por despachantes aduaneiros, empresários e advogados, alegando tratarse de uma medida injusta, já que muitas vezes o erro ocasionava até o pagamento de valor a maior do imposto, o que não justificaria a aplicação de uma penalidade. Sem embargo, o Governo Federal utiliza a NCM (Nomenclatura Comum do MERCOSUL) com objetivo de fazer um acompanhamento estatístico dos produtos importados, visando elaborar uma política mais justa e real para a pauta de produtos importados e ainda proteger a indústria nacional. Tal controle e acompanhamento perdem totalmente a eficácia na hipótese de informar classificação tarifária equivocada, propositalmente ou não. Por isso, a exigência de se indicar a correta Classificação nas importações. Outro controle que fica comprometido na hipótese de erro na classificação fiscal, é o controle do valor aduaneiro, base de cálculo para os impostos incidentes nas importações. Mercadoria com classificação equivocada leva a erro o Siscomex, que não encaminha para Canal Cinza DI’s com mercadorias que deveriam se submeter a tal controle. Alguns Contribuintes, não todos, tentam elaborar um planejamento tributário equivocado alterando a classificação fiscal das mercadorias correta, para outra que apresenta alíquotas menores nos impostos, principalmente no Imposto de Importação e IPI , os quais são impostos seletivos e variam de NCM para NCM. Quando isso ocorre os tributos diminuem, o importador supostamente passa a obter uma falsa economia, como bom Brasileiro, vende seu produto mais barato, em detrimento dos concorrentes que operam de modo correto. Caso haja reclassificação fiscal, de onde poderá o importador obter recursos para arcar com sua irresponsabilidade, evidentemente ele responde por todas as receitas, e os processos aqui acabam, gerando um passivo e estoque de processo para julgamento infindável. Portanto, recomendase agir nos termos da lei. DISCIPLINA JURÍDICA DA NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSULNCM. Necessário se faz, trazer breves considerações acerca da disciplina jurídica da NCM. A classificação fiscal dos produtos industrializados tem como princípio basilar o denominado Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, que, em síntese , Fl. 746DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 6 5 representa o grande acordo entre as nações para a criação de uma nomenclatura de mercadorias de cunho universal e harmônico. O objetivo primeiro do Sistema Harmonizado é tornar o comércio internacional mais fácil e ágil, vez que referido sistema criou uma linguagem única para identificar as mais diversas mercadorias. Nem sempre as Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado e as Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição são suficientes para orientar e dirigir a classificação de um determinado objeto mercadológico para a posição que deve obrigálo. Isso ocorre principalmente com objetos químicos e com as máquinas em geral, dando a impressão que o Sistema Harmonizado tem deficiências que comprometam sua utilização. Visando minimizar essa problemática, o Sistema Harmonizado dispõe de um grupo de observações de fundamentação eminentemente tecnológica, que esclarece certos aspectos de todas as suas posições. Tais observações são reunidas sob o título de Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (Nesh), que constituem elemento subsidiário de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das posições e subposições, bem como das notas de Seção, capítulos, posições e subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado. As Nesh foram introduzidas no ordenamento jurídico nacional por meio do Decreto n° 435, de 27 de janeiro de 1992, sofrendo constantes atualizações, em que a Receita Federal do Brasil dá publicidade na forma de Instrução Normativa nº697/07, (alterações) devidamente publicada no DOU. PRINCÍPIOS JURÍDICOS INTRODUTÓRIOS DA CLASSIFICAÇÃO FISCAL DE MERCADORIASNCM A Classificação de Mercadorias tem, pelo menos, cinco princípios, conforme se verifica a seguir: 1°) Princípio da Equivalência Conceitual: “mercadoria, produto e bem são termos que expressam o mesmo conceito, não tendo sentido fazer qualquer distinção entre os mesmos”; 2°) Princípio da Plena Identificação da Mercadoria: “a mercadoria a ser classificada deverá se apresentar desvendada, ou seja, conhecida naquelas características, propriedades e funções necessárias à sua classificação”; 3°) Princípio da Hierarquia: “merceologia é parte integrante da Classificação de Mercadorias; 4°) Princípio da Unicidade da Classificação: “numa nomenclatura de mercadorias e dentro do universo dos possíveis códigos para abarcar uma mercadoria específica, não pode a mesma ser classificada em dois ou mais códigos”; Fl. 747DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 7 6 5°) Princípio da Distinção das Mercadorias: “as mercadorias não devem ser distinguidas por critérios diferentes daquelas características que as fazem próprias”. Além dos princípios elencados, a classificação de qualquer mercadoria é guiada também por 6 ( seis) Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI). (6 RGI/SH), bem como, na Regra Geral Complementar (RGC —1). Regras disciplinadas pela Resolução Camex n° 42, de 2001, e pela Instrução Normativa IN SRF n° 99, de 2001 – sendo a classificação de um produto determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo, e pelas demais regras de classificação (Regra Geral n° 1 de Interpretação do Sistema Harmonizado — RGI 1). Deste modo, a classificação nas subposições de uma mesma posição é determinada pelos textos dessas subposições e das Notas de Subposição correspondentes (RGI 6). Essas mesmas regras aplicamse para o enquadramento de um produto nos itens e subitens de uma subposição (Regra Geral Complementar n° 1 — RGC 1). Retornando a lide, vêse que a instância de origem entendeu incorreta a classificação fiscal apontada pela fiscalização, razão pela qual exonerou o imposto de importação e seus consectários legais, porém, como também considerou incorreta a utilizada pelo importador, manteve a multa prevista no art. 84, I, da MP n.º 2.15835, de 2001. Por sua vez, a DRJ decidiu em manter a exigência da penalidade, com fundamento diverso daquele registrado no campo “Descrição dos Fatos” do auto de infração. Contudo, a Autoridade Fiscal alegou que a classificação fiscal correta do produto importado seria 3809.91.90 (“preparação química à base de poliéster do ácido tereftálico, em meio aquoso, apta para uso na indústria têxtil”), com base em que promoveu a cobrança do II, acrescido de multa e juros, e da penalidade por erro de classificação fiscal. Não sendo correta a classificação fiscal utilizada pela fiscalização para proceder ao lançamento, não poderia a instância de origem, considerando correta uma terceira classificação, manter a penalidade isolada, pois esse fato caracteriza em reclassificação fiscal, cerceando o direito da Contribuinte, uma vez que não houve elementos para contraditar em sua manifestação sobre uma terceira classificação fiscal. Esta E. Câmara Superior, julga conflitos jurisprudenciais, no caso em espécie, inferese da leitura dos dispositivos supramencionados, que assiste razão a Contribuinte, a instância de origem nada mais fez do que promover uma alteração na fundamentação do ato administrativo (lançamento), visto que o motivo de fato do qual resultou a exigência da penalidade foi que a classificação fiscal adotada pela Recorrente estava errada porque correta era a indicada pela fiscalização. Fl. 748DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 8 7 Portanto, nítida a violação do artigo 146 do CTN, a seguir transcrito: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Esse dispositivo, fundado na segurança jurídica, proíbe a aplicação de novo critério jurídico adotado pela autoridade administrativa. Sobre o tema, trago à colação ensinamento de Leandro Paulsen e Luciano Amaro, respectivamente: "O art. 146 do CTN positiva, em nível infraconstitucional, a necessidade de proteção da confiança do contribuinte na Administração Tributária, abarcando, de um lado, a impossibilidade de retratação de atos administrativos concretos que implique prejuízo relativamente a situação consolidada à luz de critérios anteriormente adotados e, de outro, a irretroatividade de atos administrativos normativos quando o contribuinte confiou nas normas anteriores. (In Direito Tributário, Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência, 15ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2013, p. 1049) Parece evidente que o dispositivo procura traduzir norma de proteção do sujeito passivo. Quem aplica critério jurídico de lançamento é a autoridade (já que se trata de atividade que é dela privativa). A autoridade, portanto, é que está impedida de aplicar novo critério em lançamentos relativos a fatos geradores já ocorridos antes de sua introdução. Nessa ordem de idéias, o preceito só cabe nos casos em que o novo critério jurídico beneficia o Fisco, restando proibida, nessa hipótese, sua aplicação em relação ao passado. A vedação se reporta “a um mesmo sujeito passivo” (e atémse a fatos geradores ocorridos antes da introdução do novo critério, o que significa que todas as obrigações tributárias já nascidas (em face da ocorrência do seu pressuposto de fato) terão de ser lançados de acordo com o critério jurídico (mais favorável) que o Fisco já tiver adotado em lançamento anteriormente realizado, em relação a cada sujeito passivo, o que implica reconhecer no preceito um direito subjetivo invocável contra o Fisco por quem, figurando como sujeito passivo em certo lançamento, efetuado de acordo com determinado critério jurídico, tem o direito de não ver inovado esse critério (em futuros lançamentos), a não ser em relação a fatos geradores ocorridos após a introdução do novo critério". (In Direito tributário brasileiro. 18ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 379). O dispositivo supra, trata, mais do que a mera inalterabilidade do lançamento por mudança de critério jurídico, determina a inalterabilidade do critério a todos os fatos geradores já Fl. 749DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 9 8 ocorridos, mesmo quando ainda estejam na pendência de lançamento, como leciona Luciano Amaro (p. 377378). Destaco: "O que o texto legal de modo expresso proíbe não é a mera revisão de lançamento com base em novos critérios jurídicos; é a aplicação desses novos critérios a fatos geradores ocorridos antes de sua introdução (que não necessariamente terão sido objeto de lançamento ). Se, quanto ao fato gerador de ontem, a autoridade não pode, hoje, aplicar critério jurídico (diferente do que, no passado, tenha aplicado em relação a outros fatos geradores atinentes ao mesmo sujeito passivo), a questão não se refere (ou não se resume) à revisão de lançamento (velho, mas abarca a consecução de lançamento (novo). É claro que, não podendo o novo critério ser aplicado para lançamento novo com base em fato gerador ocorrido antes da introdução do critério, com maior razão este também não poderá ser aplicado para rever lançamento velho. Todavia, o que o preceito resguardaria contra a mudança de critério não seria apenas lançamentos anteriores, mas fatos geradores passados. O motivo da introdução do novo critério (a par da iniciativa de ofício da autoridade) pode ser uma decisão (administrativa ou judicial), contida num processo que, obviamente, se refere a fato gerador pretérito. Se o critério introduzido é aplicável só para fatos geradores futuros, é evidente que ele não terá sido o critério aceito como legítimo para o lançamento objeto do processo, cuja decisão porém, teria provocado a autoridade a introduzir o novo critério.” (In Direito tributário brasileiro. 18ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 377378) Da leitura dos autos, firmo meu entendimento pessoal que houve alteração de critério jurídico, com violação ao 146 do Código Tributário Nacional CTN. Contudo, para resolução do conflito jurisprudencial posto a julgamento nesta E. Câmara Superior, adoto como razões de decidir (mérito) a decisão recorrida, por seus próprios fundamentos, que passa fazer parte integrante do presente voto. Vejamos: "Notese,inicialmente, que o fundamento utilizado pela DRJ para manter a exigência da penalidade isolada é diverso daquele registrado no campo “Descrição dos Fatos” do auto de infração. Com efeito, a fiscalização alegou que a classificação fiscal correta do produto importado seria 3809.91.90 (“preparação química à base de poliéster do ácido tereftálico, em meio aquoso, apta para uso na indústria têxtil”), com base em que promoveu a cobrança do II, acrescido de multa e juros, e da penalidade por erro de classificação fiscal. Não sendo correta a classificação fiscal utilizada pela fiscalização para proceder ao lançamento, não poderia a instância de origem, considerando correta uma terceira Fl. 750DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 10 9 classificação, manter a penalidade isolada, pois esse fato caracteriza cerceamento ao direito de defesa, uma vez que à Recorrente não se conferiu oportunidade de se pronunciar, em sua impugnação, sobre esta terceira classificação fiscal. Abraçando esse entendimento, transcrevese a seguinte ementa de decisão do CARF: FUNDAMENTOS DO LANÇAMENTO. PREJUÍZO AO DIREITO DE DEFESA DO SUJEITO PASSIVO. NULIDADE. É nula, por prejuízo ao direito de defesa do sujeito passivo, a decisão de primeira instância que apresenta fundamentos fático jurídicos ao lançamento impugnado não constantes da peça de ataque. (CARF/Segunda Seção/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, Acórdão n.º 2401002.593, de 14/08/2012). Assim, a instância de origem nada mais fez do que promover uma alteração na fundamentação do ato administrativo (lançamento), visto que o motivo de fato do qual resultou a exigência da penalidade foi que a classificação fiscal adotada pela Recorrente estava errada porque correta era a indicada pela fiscalização. Configurado prejuízo ao direito de defesa, é de se declarar nula decisão proferida pela DRJ, com fulcro no art. 59, II, do Decreto n.º 70.235, de 1972. Pelo exposto, voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para anular a decisão proferida pela DRJ. É como voto. Charles Mayer de Castro Souza" Dispositivo. Ante o exposto, conheço do Recurso interposto, e negolhe provimento. É como voto. (Assinado digitalmente) Demes Brito Fl. 751DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 11 10 Voto Vencedor Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal Redador designado Com todo respeito ao voto do ilustre relator, porém divirjo de suas conclusões a respeito do afastamento da multa por classificação fiscal incorreta. Esclareço que na sessão de julgamento de 14/03/2018, este colegiado proferiu o acórdão nº 9303006474, de minha relatoria, no qual decidimos esta mesma matéria. Portanto, com fundamento no § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784/99, transcrevo abaixo aquele voto e o adoto como fundamento de decidir. (...) Os autos dão conta de que a decisão de primeira instância manteve a autuação apenas na fração correspondente à multa por erro de classificação fiscal, prevista no art. 84 da MP n.° 215835/2001, no percentual de 1% (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria importada. A decisão recorrida, por seu turno, exonerou também essa multa. É contra essa exoneração que a Fazenda recorre. As demais penalidades originalmente impostas, assim como a diferença de tributos foram consideradas improcedentes pela DRJ. Uma vez que o Fisco tenha classificado incorretamente a mercadoria no auto de infração, ainda que incontroverso o erro de mesma natureza cometido pelo importador, todas as exigências escoradas na NCM indicada no auto foram consideradas insubsistentes. Até aí, nenhuma novidade. A jurisprudência administrativa é quase uníssona em relação aos efeitos da decisão que, no seu bojo, rejeita a classificação escolhida pela Fiscalização. Quando se chega a essa conclusão, a exigência é considerada improcedente como um todo, ainda que a classificação adotada pela contribuinte também esteja equivocada. De fato, para a NCM que emerge do julgamento há circunstâncias desconhecidas: outra alíquota (talvez ad valorem, talvez específica), outro tratamento administrativo, necessidade de novos esclarecimento técnicos sobre o produto etc. A adequação a essas novas circunstâncias exigiria que todo o procedimento fiscal fosse revisto, o que equivaleria a um novo lançamento, medida que, como se sabe, não foi contemplada pela legislação tributária. Por essa razão, inevitavelmente, a pretensão veiculada nos autos termina sendo abandonada. Contudo, essa máxima não pode ser instantaneamente aplicada quando o assunto envolve a multa decorrente do erro de classificação fiscal em si. Diferentemente da exigência vinculada à diferença de tributos, à multa por declaração inexata/falta de pagamento e à multa por infração ao controle administrativo das importações, todas associadas e dependentes do tratamento tarifário concedido a determinada NCM, a infração por erro de classificação não é afetada quando o enquadramento escolhido pelo Fisco também se revela Fl. 752DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 12 11 equivocado. Tratase de uma infração dissociada de quaisquer exigências e particularidades tributárias e/ou administrativas a que se subsumem as operações com mercadorias classificadas em determinado código tarifário. Noutro giro, releva também destacar que a infração de que aqui se trata, tal como tipificada no art. 84 da MP n.° 215835/2001, não comporta controvérsia em face dos efeitos do ato de que resulta ou de outros aspectos com viés subjetivo. Com a devida vênia aos que pensam de forma diferente, não vejo propósito na discussão travada nos autos acerca da intenção do agente, da extensão dos efeitos do ato ou da presença ou não da máfé comprovada ou demonstrada nos atos praticados pelo infrator. A infração por erro de classificação fiscal, tal como é próprio das infrações de natureza tributária, é objetiva. Como se sabe, à presença do elemento volitivo nos atos infracionais são atribuídas consequências próprias. Via de regra, o dolo dá ensejo ao agravamento da multa exigida; não está associado à circunstância material da infração. Com base nessas premissas, afastase, desde logo, a interpretação que sugere a exclusão da pena perante a ausência de intenção do agente ou de efeitos lesivos do ato. Do ponto de vista estritamente legal, quaisquer destas circunstâncias carecem de conteúdo normativo que lhes conceda efeito jurídico. Conforme disposto na norma legal infracional, a materialidade da infração encontrase na conduta; no erro de classificação fiscal. A priori, uma vez que isso ocorra, nenhuma das circunstâncias acima descritas tem o condão de relevar a pena que decorre do ato de classificar indevidamente a mercadoria. E esse pressuposto aplicase, igualmente, às situações nas quais a classificação escolhida pelo Fisco revelase equivocada. A norma geral e abstrata se materializa na ação do contribuinte que classifica indevidamente a mercadoria. Não há pena prevista para o Erário nem mitigação decorrente de uma escolha também indevida. Tampouco há disposição normativa que exclua a penalidade em face de tal ocorrência. Isto posto, resta examinar a possibilidade de que a imprecisão de que se trata resulte em prejuízo da integridade do auto de infração em si. Ao indicar classificação tarifária equivocada, é possível que a acusação padeça de uma precariedade insuperável na fundamentação que lhe é exigida, do que resultaria todo o procedimento eivado de vício material. A esse respeito, encontrase à efolha 12, na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal do auto de infração, a explicação da Autoridade autuante para desclassificação da mercadoria importada. (...) O caso dos autos é exemplar. A toda evidência, há razões suficientes e autônomas para que se chegue à conclusão de que o importador incorreu em erro na escolha da classificação tarifária da mercadoria. Tratase de uma decisão que encerra em si mesma sua motivação, independe da classificação escolhida pelo Fisco. Ainda que esta seja incorreta, as razões e os fundamentos que levaram à rejeição da classificação escolhida pelo importador subsistirão e foram satisfatoriamente explicitadas no auto. Ao administrado foi concedido o direito de contraditálas. E que se diga que, de fato, a simples escolha de determinada classificação tarifária em detrimento de outra tem relevante potencial lesivo e pode ser evitada à luz de elementos de convicção relativamente superficiais. Isso pode ser observado, Fl. 753DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 13 12 com alguma frequência, no caso de importação de mercadorias passíveis de serem classificadas no conhecido Capítulo 29 da TEC. Vejase o exemplo a seguir. No ano de 2001, por meio da Resolução Camex nº 42/20011, a Câmara de Comércio Exterior, supostamente por razões de cunho econômico, decidiu reduzir a zero a alíquota do imposto de importação incidente sobre cerca de 360 (trezentos e sessenta) códigos tarifários compreendidos no Capítulo 29. Investigar a regularidade na escolha desse capítulo, normalmente, não exige mais do que uma informação elementar acerca da composição química da mercadoria: se tratase de um composto de constituição química definida ou não. Já classificar com precisão um produto químico pode demandar demoradas pesquisas bibliográficas e exames laboratoriais. Isso significa que a simples constatação de erro na opção pelo Capítulo 29, independentemente da classificação tarifária a que o produto deveria ser submetido, garante ao Fisco a condição de coibir a opção do administrado por enquadramento com tratamento tarifário beneficiado, ao qual ele sabia ou deveria saber que não tinha direito. Assim, considerando todo o exposto, não vislumbro nenhum argumento que conduza à decisão de excluir a pena imposta à contribuinte; seja em face das alegações associadas à ausência de qualificação do ato, dos efeitos dele decorrentes, da falta de fundamentação ou mesmo da preterição ao direito de defesa. A contestação, a meu ver, carece de motivação real e de base legal. 1 RESOLUÇÃO CAMEX Nº 42, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2001 DOU 29/12/2001 O PRESIDENTE DA CÂMARA DE COMÉRCIO EXTERIOR, no exercício da atribuição que lhe confere o § 3º do art. 6º do Decreto no 3.981, de 24 de outubro de 2001, e tendo em vista as Decisões nos 67/00 e 06/01, do Conselho do Mercado Comum (CMC), e Resoluções nos 11/01, 12/01, 29/01, 30/01, 32/01, 45/01, 46/01, 48/01 e 57/01, do Grupo Mercado Comum (GMC), do MERCOSUL, e as emendas à Nomenclatura do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, RESOLVE, ad referendum da Câmara: (...) Art. 3º Ficam reduzidas a zero por cento, até 31 de agosto de 2002, as alíquotas do Imposto de Importação das mercadorias descritas nos códigos relacionados no Anexo V a esta Resolução, gravados na TEC com o símbolo “§”. (Prorrogada pelo art. 1º da Resolução Camex nº 08, DOU 31/03/2003) (Prorrogada pelo art. 1º da Resolução Camex nº 19, DOU 01/07/2003) (...) Fl. 754DF CARF MF Processo nº 11050.001092/0012 Acórdão n.º 9303008.113 CSRFT3 Fl. 14 13 (...) Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 755DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.728064/2016-25
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 09 00:00:00 UTC 2024
Data da publicação: Thu Nov 28 00:00:00 UTC 2024
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012
APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS DO IPI. NOTA FISCAL. PRODUTOS DA ZFM ADQUIRIDOS COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA. GLOSA DOS VALORES INDEVIDAMENTE APROPRIADOS. POSSIBILIDADE. ART. 62 DA LEI Nº 4.502/1964.
A leitura do art. 62 da Lei nº 4.502/1964 demanda ponderação. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, mormente quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE nº 592.891/SP.
Numero da decisão: 9303-016.082
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar-lhe provimento.
(documento assinado digitalmente)
Régis Xavier Holanda – Presidente
(documento assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Dionísio Carvallhedo Barbosa, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, e Régis Xavier Holanda (Presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS DO IPI. NOTA FISCAL. PRODUTOS DA ZFM ADQUIRIDOS COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA. GLOSA DOS VALORES INDEVIDAMENTE APROPRIADOS. POSSIBILIDADE. ART. 62 DA LEI Nº 4.502/1964. A leitura do art. 62 da Lei nº 4.502/1964 demanda ponderação. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, mormente quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE nº 592.891/SP. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar- lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Régis Xavier Holanda – Presidente Fl. 4595DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 2 (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Dionísio Carvallhedo Barbosa, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, e Régis Xavier Holanda (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Especial de divergência interposto pelo Contribuinte contra a decisão consubstanciada no Acórdão nº 3302-006.579, de 26/03/2019 (fls. 4.139 a 4.170)1, integrado pelo Acórdão de Embargos nº 3302-008.146, de 30/01/2020 (fls. 4.228 a 4.237), proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento/CARF, que negou provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo Contribuinte, por maioria de votos. Breve síntese do processo O processo versa sobre Auto de Infração de fls. 3.281 a 3.294, lavrado para exigência de Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, referente ao período de apuração compreendido entre 01/01/2012 e 31/12/2012, acrescido de multa proporcional de ofício de 75% e dos juros de mora. A empresa é integrante do denominado “Sistema Coca-Cola Brasil”, tendo como principal fornecedora a empresa RECOFARMA - Industria do Amazonas Ltda., situada na Zona Franca de Manaus - ZFM, também pertencente ao "Sistema Coca-Cola Brasil”, e que produz os denominados “kits para refrigerantes”. Conforme informado pela Fiscalização no Termo de Verificação Fiscal (TVF), a infração apontada foi motivada pelo aproveitamento de créditos incentivados indevidos oriundos da aquisição de “kits para refrigerantes” de fornecedor situado na Zona Franca de Manaus (ZFM), conforme descrito no Termo de Verificação Fiscal (fls. 3.047 a 3.152). Tais créditos não foram considerados pelos seguintes motivos: a) os produtos adquiridos não fazem jus à isenção do artigo 95, inciso III, do Decreto nº 7.212/2010 (RIPI/2010), porque não teria havido a utilização de matérias-primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, no processo de industrialização, o que inviabiliza o aproveitamento de crédito com base no art. 237 do RIPI; e b) mesmo que houvesse direito ao crédito, o valor do IPI calculado como se devido fosse seria zero, pois nenhum dos componentes de kits para refrigerantes se enquadra no Ex 1 do código NCM 2106.90.10, o que impossibilita a utilização da alíquota de 27%. 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (e-processos). Fl. 4596DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 3 O Contribuinte entende que os “concentrados” estariam beneficiados por duas isenções previstas na legislação do IPI: i) art. 81, inc. II do Decreto 7.212/2010 (RIPI/2010), cuja base legal é o art. 9º do Decreto-Lei 288/1967, por serem produzidos na Zona Franca de Manaus (ZFM) e ii) art. 95, III, do RIPI/2010, que tem base legal no art. 6º do Decreto-Lei 1.435/1975, porque além de produzidos na ZFM teriam sido elaborados com matéria-prima agrícola adquirida de produtor situado na Amazônia Ocidental, e que, em relação ao aproveitamento de créditos decorrente das aquisições isentas com base no art. 81, inc. II do RIPI/2010, estaria legitimado pela necessidade de observância compulsória, pela Administração, da coisa julgada formada no julgamento do Recurso Extraordinário n° 212.484-RS, que beneficiou outra empresa do Sistema Coca-Cola (Vonpar Refrescos S.A), bem como do Mandado de Segurança Coletivo (MSC) n° 91.0047783-4, interposto pela Associação dos Fabricantes Brasileiros de Coca-Cola (AFBCC). A Fiscalização, discorrendo sobre a classificação fiscal dos “kits para refrigerantes”, ressaltou que estes não podem ser tratados como se fossem um produto único para fins de classificação fiscal, devendo seus componentes ser classificados separadamente, do que resulta a inexistência de valor a ser aproveitado, pois a maior parte desses componentes é tributada à alíquota zero, e, nas exceções em que os componentes são tributados à alíquota de 5%, não seria possível apurar o valor do crédito correspondente, concluindo pela inexistência de crédito. Cientificado do Auto de Infração, o Contribuinte apresentou Impugnação (fls. 3.309 a 3.415), na qual: a) invoca existência de coisa julgada no âmbito do MSC n° 91.0047783-4, impetrado pela referida entidade em 14/08/1991, com o objetivo de evitar que seus associados fossem compelidos a estornar o crédito do IPI incidente sobre as aquisições de matéria prima isenta (concentrado), de fornecedor situado na ZFM; b) defende a ausência de responsabilidade do Contribuinte, pois seria o terceiro adquirente do produto denominado de “kit ou concentrado para refrigerantes”, por erro na classificação fiscal; c) alega que houve alteração de critério jurídico em desconformidade com a lei; d) discorre sobre a competência da SUFRAMA para definir a classificação fiscal do produto denominado “kit ou concentrado” para refrigerantes; e) discorre sobre os aspectos técnicos de classificação fiscal de mercadorias e a ordem de aplicação das Regras Gerais de Interpretação (RGI); f) aborda o direito ao crédito relativo à aquisição de concentrados para refrigerantes isentos; g) defende o direito ao crédito com base na isenção do art. 81, inc. II, do RIPI/2010 (Base Legal: art. 9º do Decreto-Lei 288/1967); h) demanda a aplicação do benefício previsto no art. 95, inc. III, DO RIPI/2010 (base legal: art. 6º do Decreto-Lei 1.435/1975); i) solicita a aplicação do art. 11 da Lei n° 9.779, de 1999; e j) defende a impossibilidade de exigência de multa, juros e correção monetária, demandando ainda a improcedência da exigência de juros sobre a multa de ofício. A DRJ em Porto Alegre/RS apreciou a Impugnação e, em decisão consubstanciada no Acórdão nº 10-59.012, de 31/05/20178 (fls. 3.818 a 3.850), entendeu por julgá-la improcedente, sob os seguintes fundamentos: (a) não ocorre alteração de critério jurídico nem ofensa ao art. 146 do CTN se a Fiscalização promove autuação baseada em entendimento distinto daquele que seguidamente adota o contribuinte, mas que jamais foi objeto de manifestação Fl. 4597DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 4 expressa da Administração Tributária; (b) a aquisição de insumos isentos, provenientes da Zona Franca de Manaus, não legitima aproveitamento de créditos de IPI; (c) é indevido o aproveitamento de créditos de IPI decorrentes de aquisições de insumos isentos feitas a estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental e com projetos aprovados pela SUFRAMA, mas que não tenham sido elaborados com matérias-primas agrícolas e extrativas vegetais, exclusive as de origem pecuária, de produção regional; (d) nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” constitui-se de um conjunto cujas partes consistem em diferentes MP e produtos intermediários que só se tornam efetivamente uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI; e (e) a multa sobre lançamento de ofício consiste em débito para com a União decorrente de tributos e contribuições administrados pela RFB, e, por isso, é legítima a incidência de juros de mora sobre o respectivo valor, a partir do vencimento. Cientificado da decisão de 1ª instância, o Contribuinte apresentou o Recurso Voluntário de fls. 3.858 a 3.9.69, em que pede a reforma da decisão, endossando argumentos: a) quanto à responsabilidade pelo erro na classificação fiscal do concentrado - alega não ser o responsável, pois foi a vendedora RECOFARMA quem emitiu as notas fiscais, descreveu os produtos e efetuou a sua classificação fiscal na posição 21.06.90.10; b) sobre mudança no critério jurídico; c) sobre os concentrados isentos para a produção de Guaraná e demais concentrados Isentos; d) sobre obediência às normas legais e à interpretação fiscal; e e) sobre a impossibilidade de aplicação de juros sobre a multa de ofício. Em 20/09/2017, a PGFN apresentou suas contrarrazões às fls. 4.005 a 4.082, em que pugna pelo não provimento do recurso, mantendo-se integralmente a decisão recorrida. Em 16/03/2018, a Contribuinte apresentou Petição, apontando “Fatos novos - Supervenientes” (fls. 4.093 a 4.116), que podem ser assim sintetizados: 1) sobre os desdobramentos do MSC nº 91.00477834, informando que com o trânsito em julgado da decisão proferida nos autos do REsp nº 1.438.361/RJ, ocorrido em 23/02/2017; 2) que … “o próprio STF, no ARE nº 1.028.652, interposto pela IPIRANGA contra decisão que havia inadmitido o RE interposto contra o referido acórdão do TRF da 2" Região, decretou a perda de objeto desse RE; 3) que o reconhecimento, pelo STF, “… em decisão transitada em julgado em 18/08/2017, a extinção da Rcl nº 7.778, por perda superveniente de seu objeto, reconhecendo igualmente que aquela decisão do STJ, proferida no RESP n. 1.438.361RJ; e 4) existência de LAUDO técnico expedido pelo INT. Em 30/07/2018, a PGFN manifestou-se às fls. 4128 a 4.135, sustentando seu argumento de que "(...) os componentes separados dos kits da forma como que são adquiridos pela recorrente, não configuram a preparação composta de que trata o Ex 01 do código 2106.90.10 da TIPI", eis que não seriam "preparações compostas", mas sim produtos isolados. Fl. 4598DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 5 O recurso, então, veio ao CARF e foi submetido à apreciação da Turma julgadora, com decisão consubstanciada no Acórdão nº 3302-006.579, de 26/03/2019, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de julgamento/CARF, que negou provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo Contribuinte, sob os seguintes fundamentos: (a) novos elementos de prova apresentados no âmbito do Recurso Voluntário podem, excepcionalmente, ser apreciados nos casos em que fique prejudicado o amplo direito de defesa do contribuinte ou em benefício do princípio da verdade material; (b) o adquirente das mercadorias é responsável pela sua correta classificação fiscal, ainda que tenha adquirido de terceiros sob a mesma classificação; (c) o fato de o Fisco não haver detectado anteriormente uma suposta infração praticada pelo contribuinte não pode ser interpretado como um reconhecimento tácito da validade desta conduta, nem tampouco tomado como uma “prática reiteradamente observada pelas autoridades administrativas”, que lhe atribua foros de “norma complementar de lei”; (d) com o advento do Código Tributário Nacional, para que exista a exclusão de penalidade por força de decisões proferidas por órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa é necessário que lei lhe atribua eficácia normativa, o que não existe; (e) a RFB, pode fiscalizar o fiel cumprimento das condições delineadas pela SUFRAMA necessárias ao gozo de isenção tributária condicionada; (f) importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo; e (g) os denominados "kits ou concentrados para refrigerantes" devem ser classificados individualmente, nos termos da NESH. Cientificado do Acórdão nº 3302-006.579, de 26/03/2019, o Contribuinte opôs Embargos de Declaração (fls. 4.177 a 4.191), sob os pressupostos regimentais da omissão e da contradição. Analisado o recurso, com os fundamentos consignados no Despacho de Embargos de fls. 4.223 a 4.226, houve acolhida parcial, com proposta de saneamento das omissões e do erro material constatados. O recurso foi apreciado pela Turma julgadora, que acolheu parcialmente os Embargos de declaração, para sanar a omissão e o erro material sem, contudo, imprimir efeitos infringentes, conforme Acórdão (de Embargos) nº 3302-008.146, de 30/01/2020 (fls. 4.228 a 4.236). Da matéria submetida à CSRF Cientificado do Acórdão nº 3302-006.579, de 26/03/2019, integrado pelo Acórdão (Embargos) nº 3302-008.146, de 30/01/2020, o Contribuinte interpôs Recurso Especial (fls. 4.280 a 4.327), apontando Divergência jurisprudencial em relação às seguintes matérias: 1) quanto à responsabilidade de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal constante da nota fiscal indicada pelo fornecedor; 2) quanto à alteração do critério jurídico do lançamento; 3) quanto à aplicação pela autoridade administrativa de entendimento técnico constante de laudo técnico emitido pelo instituto nacional de tecnologia; 4) quanto à aplicação do art. 112 do CTN; e, 5) quanto à aplicação do art. 76, inc. II, "A", da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. Fl. 4599DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 6 Para comprovar as divergências, indicou como paradigmas os Acórdãos nº 3401- 003.751 e nº CSRF/02-02.895, para a Divergência 1; o Acórdão nº 3401-002.537, para a Divergência 2; os Acórdãos nº 301-33.786 e CSRF/03-03.678 para a Divergência 3; o Acórdão nº 303-32.457 para a Divergência 4, e o Acórdão nº 9303-003.517 para a Divergência 5. Em exame monocrático, de pronto, constatou-se que não foram comprovadas as divergências suscitadas quanto às matérias: 2, 3, 4 e 5. No entanto, com relação a matéria: 1) “Quanto à responsabilidade de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal constante da nota fiscal indicada pelo fornecedor”, que indicou como paradigma os Acórdãos nº 3401-003.751 e nº CSRF/02-02.895, o exame monocrático de admissibilidade, no cotejo dos arestos confrontados, verificou que havia, entre eles, a similitude fática mínima para que se possa estabelecer uma base de comparação para fins de dedução da divergência arguida. O dissídio interpretativo emerge quando se verifica que, enquanto a decisão recorrida entendeu ser obrigação do adquirente o dever de verificar a correção da classificação fiscal consignada na nota fiscal de entrada do produtos, e os paradigmas entenderam, em sentido contrário, que tal obrigação não se incluiu entre as verificações de que trata o art. 62 da Lei nº 4.502, de 1964 (obrigação de observar se tais documentos satisfazem às prescrições formais do Regulamento). Assim, com as considerações tecidas no Despacho de Admissibilidade de Recurso Especial de 01/10/2020 (às fls. 4.486 a 4.498), o Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF deu seguimento parcial ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas em relação à divergência 1, “Quanto à responsabilidade de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal constante da nota fiscal indicada pelo fornecedor”. Cientificado do Despacho que deu seguimento parcial ao seu Recurso Especial, o Contribuinte apresentou o recurso de Agravo de fls. 4.506 a 4.529, requerendo o seguimento às demais matérias. Analisado o recurso, com base nas informações tecidas no Despacho em Agravo - CSRF / 3ª Turma, de 29/10/2020 (fls. 4.561 a 4.570), a Presidente da CSRF concluiu que os processos não possuem similitude fática suficiente para aferição das divergências deduzidas pelo Contribuinte. Assim, o Agravo foi rejeitado, mantendo-se o seguimento parcial do Recurso Especial na forma decretada pelo Presidente da 3ª Câmara/3ª Seção/CARF. Cientificada do Despacho que deu seguimento parcial ao Recurso Especial do Contribuinte, a Fazenda Nacional apresentou suas contrarrazões de fls. 4.580 a 4.589, requerendo que seja negado seu provimento, mantendo-se o Acórdão proferido pela Turma Ordinária a quo, nos quesitos objeto da insurgência. Em 24/07/2024, o processo foi distribuído a este Conselheiro, mediante sorteio, para relatoria e submissão ao Colegiado da análise do Recurso Especial do Contribuinte. É o relatório. Fl. 4600DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 7 VOTO Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator. Do Conhecimento O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, conforme consta do Despacho de Admissibilidade do Recurso Especial - 3ª Câmara, de 01/10/2020, às fls. 4.486 a 4.498, exarado pelo Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF, restando evidente a divergência jurisprudencial sobre matéria 1: “Quanto à responsabilidade de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal constante da nota fiscal indicada pelo fornecedor”. Importa informar que, no Acórdão recorrido e nos paradigmas confrontados, alega- se a apreciação da mesma situação fática (interpretação do conteúdo semântico da expressão "(...) e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares" existente na parte final do art. 62 da Lei nº 4.502/64, se inclui (ou não) a obrigatoriedade de o adquirente verificar se a classificação fiscal dos produtos adquiridos encontra-se correta), e a divergência restou bem caracterizada, pelo que cabe endossar e corroborar a admissibilidade, nos seus termos e fundamentos. Portanto, preenchidos os demais requisitos e respeitadas as formalidades regimentais, cabe ratificar, no caso, o conhecimento do Recurso Especial do Contribuinte. Assim, cabe o conhecimento do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. Do Mérito No mérito, trata-se, em síntese, da “responsabilidade (ou não) de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal constante da nota fiscal indicada pelo fornecedor”. No Acórdão recorrido, ao interpretar o art. 62 da Lei nº 4.502, de 1964 a Turma Julgadora entendeu que: “Em relação ao fato da adquirente das mercadorias sustentar que não pode ser responsabilizada pela eventual classificação das mesmas (sic), eis que realizada pelo vendedor, tal argumento não merece prosperar eis que a relação tributária decorre de um dever jurídico ex lege, pautado em implicações decorrentes da prática de atos, que neste caso foi realizado pela Recorrente, ainda que eventualmente possa ter sido induzida a erro por terceiro”. Defendeu-se que a interpretação do dispositivo não deve se restringir apenas aos aspectos formais do documento fiscal, mas também abrange a análise de seu conteúdo, como a descrição do produto, o valor, o peso e a classificação fiscal emitida pelo fornecedor: “Sendo a correta classificação das mercadorias um dever ex lege da Recorrente, não pode imputar a terceiro eventual erro ou indução a erro por inexatidão”. O Contribuinte alega no Recurso Voluntário que não deve ser dele exigida, como adquirente de boa-fé, a obrigação de examinar a classificação dos produtos, dada pelo fornecedor, não havendo, portanto, qualquer infração cometida pela empresa ao aceitar a classificação adotada pela empresa fornecedora RECOFARMA. Fl. 4601DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 8 No especial, alega que o art. 62 da Lei nº 4.502/1964 não estabelece a obrigação de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal indicada na nota fiscal. Os regulamentos de IPI de 2002 e o de 2010 (atual) expressamente suprimiram essa obrigação, e o CARF está vinculado ao disposto nos regulamentos de IPI (Decretos), por força do art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972, e do art. 62 do RICARF, sendo a única conclusão jurídica e lógica possível no sentido de que não está contida na expressão “(...) prescrições legais e regulamentares” a obrigação de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal indicada da nota fiscal. Por fim afirma que (fl. 4.317), “No presente caso, há mais razão ainda para aplicação da referida jurisprudência, porque as notas fiscais emitidas pela RECOFARMA são idôneas.” No Termo de Verificação Fiscal (TVF), a Fiscalização informa que houve erro na classificação fiscal do produto fornecido pela RECOFARMA, o que permite a glosa do crédito, pois a classificação correta tem uma alíquota igual a 0 (zero). Assim, não haveria crédito, já que o valor do IPI calculado sobre os produtos, como se devido fosse, seria zero. Foi juntado aos autos, Laudo Pericial pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer, identificando os ingredientes contidos em cada parte dos “kits”, sendo os resultados anexados ao presente processo. Concluiu a Fiscalização que estes produtos devem ser classificados no código 2106.90.10, como uma “Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”, cuja alíquota é ZERO. Sobre o tema, cabe destacar que, em matéria tributária, a culpa ou o dolo do agente é, em regra, irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. De outro lado, alega-se que alguns dos Regulamentos do IPI anteriores (RIPI de 1972, 1979 e 1982), ao regulamentar o art. 62 do da Lei nº 4.502/1964, traziam consigo uma disposição expressa de que a verificação das prescrições legais das notas fiscais incluíam a classificação fiscal, e que na redação do RIPI 2002 (Decreto nº 4.544/2002, art. 266) e na atual redação do art. 327 do RIPI/2010, tal especificação foi retirada do texto, que passou a ter a mesma redação do art. 62 da referida Lei no 4.502/1964. Confira-se: Lei 4.502/1964: “Art. 62. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao sê-lo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares. §1º Verificada qualquer falta, os interessados, a fim de se eximirem de responsabilidade, darão conhecimento à repartição competente, dentro de oito dias do recebimento do produto, ou antes do início do consumo ou da venda, se Fl. 4602DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 9 este se der em prazo menor, avisando, ainda, na mesma ocasião o fato ao remetente da mercadoria.” RIPI/2020 - Decreto 7.212/2010: “Art. 327. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao selo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62). § 1º Verificada qualquer irregularidade, os interessados comunicarão por escrito o fato ao remetente da mercadoria, dentro de oito dias, contados do seu recebimento, ou antes do início do seu consumo, ou venda, se o início se verificar em prazo menor, conservando em seu arquivo cópia do documento com prova de seu recebimento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º ). §2º A comunicação feita com as formalidades previstas no § 1º exime de responsabilidade os recebedores ou adquirentes da mercadoria pela irregularidade verificada (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º ).” (...) (grifo nosso) Como se vê, o art. 327 do RIPI/2010 nada mais faz do que reproduzir o art. 62 da Lei nº 4.502, de 1967, quando determina que o adquirente da mercadoria tem o dever legal de verificar se as mercadorias recebidas em seu estabelecimento “(...) estão acompanhadas dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento” (grifo nosso). E permite ao adquirente comunicar eventuais inconsistências (conforme § 1º). Veja-se que, no primeiro paradigma indicado (Acórdão nº 3401-003.751, de 26/04/2017), recordo que se tratava de caso de nulidade da autuação, na parte impactada pela discussão a respeito da classificação fiscal, em processo em que o autuante sequer remeteu a reclassificação a qualquer regra do Sistema Harmonizado, e a decisão de piso tratou do tema em uma página, com pouca tecnicidade. A falha no enquadramento e as deficiências do lançamento me levaram a acompanhar o relator, Cons. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, inclusive no item referente à apropriação indevida de créditos, tendo em conta o destaque do fornecedor com alíquota que seria maior. Naquela ocasião, invocou o relator como fundamento o Acórdão no 3402-00.719, em que o Colegiado unanimemente assentou: “OBRIGAÇÕES DOS ADQUIRENTES, RESPONSABILIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. A responsabilização do adquirente de produtos sujeitos ao selo de controle, que os receba sem tal condição, só se aplica quando a exigência seja identificável pela classificação fiscal aposta nos documentos de aquisição ou pela simples identificação da mercadoria. Se, entretanto, a classificação fiscal, reconhecida em ato da própria SRF, indica tratar-se de produto não sujeito ao selo, eventual reclassificação fiscal, baseada em laudo técnico elaborado, apenas pode afetar o fabricante.” (grifo nosso) Fl. 4603DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 10 E destacou o relator do Acórdão no 3401-003.751, após citar tal precedente, que “O caso concreto tratado pelo voto é justamente aquele do exemplo dado, em que a norma exige, de maneira expressa e cogente, um conhecimento específico da adquirente sobre seus fornecedores”, reconhecendo que, em casos específicos pode ser exigido do fornecedor a verificação da classificação da mercadoria. Nesse raciocínio acompanhamos o relator, naquela ocasião, diante da precariedade do lançamento, e do afastamento do erro de classificação, com a declaração de nulidade, o que colocava em destaque a própria correção da alíquota adotada, e, por consequência, da alíquota referente ao crédito tomado. Analisando caso diferente (relativo a outro sujeito passivo) a própria 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF proferiu o Acórdão no 3401-005.943, em 27/02/2019, sob a relatoria do Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, concluindo, majoritariamente (vencido apenas o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco) que: “RESPONSABILIDADE DO RECORRENTE POR ERRO NA CLASSIFICAÇÃO FISCAL DO CONCENTRADO. A autuação em nenhum momento teve por base a falta de conferência, pelo recorrente, da classificação fiscal adotada, bem como nenhuma multa regulamentar foi aplicada por não cumprimento desta exigência, mas tão somente a multa de ofício pelo não recolhimento do IPI devido.” Por ter participado de ambos os julgamentos (Acórdãos n o 3401-003.751, de 26/04/2017, e n o 3401-005.943, de 27/02/2019), acompanhei a evolução do entendimento do Colegiado sobre o tema, separando o que seria uma imputação de responsabilidade por penalidade decorrente da ausência de cumprimento de uma obrigação da simples responsabilização por tomada de crédito indevido, em situações recorrentes e em que o conhecimento do fornecedor (inclusive de localização geográfica e seu processo produtivo) afeta o benefício fiscal concedido. Verificando o lançamento de que trata o presente processo, percebe-se que o adquirente não alega que a classificação apontada pelo fornecedor estava incorreta. Pelo contrário, o tema da classificação é debatido, entendendo o Contribuinte que o fornecedor havia aplicado o código NCM (e o “Ex tarifário”) corretos no produto transacionado. Depois de Laudos técnicos atestou-se no presente processo a mesma conclusão existente em vários outros: que o “Ex tarifário” não se aplicava à mercadoria, que não se tratava de “concentrado”, e que a mercadoria era tributada à alíquota zero, não gerando crédito. Não se aplica ao Contribuinte multa por erro de classificação fiscal, ou por descumprimento de obrigação de verificar a correta classificação, mas impede-se que se credite indevidamente de tributo. Pois bem. No que se refere à verificação de regularidade das notas fiscais, à luz do comando do art. 62 da Lei n o 4.502/1964, tema que chega a este Colegiado uniformizador de jurisprudência, assim decidiu o Acórdão recorrido (fl. 4.157): “(...) Em relação ao fato da adquirente das mercadorias sustentar que não pode ser responsabilizada pela eventual classificação das mesmas (sic), eis que realizada pelo vendedor, tal argumento não merece prosperar eis que a relação tributária decorre de um dever jurídico ex lege, pautado em implicações Fl. 4604DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 11 decorrentes da prática de atos, que neste caso foi realizado pela Recorrente, ainda que eventualmente possa ter sido induzida a erro por terceiro”. Reforça essa necessidade a metodologia de crédito adotada na sistemática da não- cumulatividade para o IPI. Não pode ser tomado crédito indevido de uma operação tributada à alíquota zero, eventualmente informada de forma incorreta pelo fornecedor na nota fiscal. Por certo que o art. 62 da Lei n o 4.502/1964 dá conta dessa situação, em qualquer das regulamentações do IPI ao longo das últimas décadas. Se a verificação já é importante nos casos de crédito básico, é imprescindível nos casos de crédito presumido, em que uma escrituração do imposto com alíquota positiva pode gerar crédito mesmo nos casos de aquisição isenta (é o caso da Zona Franca de Manaus, conforme decidido pelo STF, de forma vinculante, no Recurso Extraordinário n o 592.891/SP). E o próprio RIPI/2010 prevê, v.g., entre as correções que podem ser efetuadas na nota fiscal, a relativa à “(...) destaque que deixou de ser efetuado na época própria, ou que foi efetuado com erro de cálculo ou de classificação, ou, ainda, com diferença de preço ou de quantidade” (art. 407, XII). Ademais, o mesmo RIPI/2010 traz, em seu art. 413, os requisitos da nota fiscal, entre os quais está incluída a classificação do produto (inciso IV, “c”). Assim, a leitura do art. 62 da Lei n o 4.502, de 1964, demanda ponderação, que todos os precedente aqui citados efetuaram, diante dos casos concretos analisados em cada julgamento. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, ainda mais quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE n o 592.891/SP. Como é cediço, o Supremo Tribunal Federal (STF) por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário n o 592.891/SP, com trânsito em julgado, em sede de repercussão geral, decidiu que “Há direito ao creditamento de IPI na entrada de insumos (matéria-prima e material de embalagem) adquiridos junto à Zona Franca de Manaus sob o regime da isenção, considerada a previsão de incentivos regionais constante do art. 43, § 2 o , III, da Constituição Federal, combinada com o comando do art. 40 do ADCT”. Observa-se que o creditamento na conta gráfica do IPI se dá quando a alíquota do produto adquirido sob o regime isentivo for positiva, conforme a Nota SEI PGFN n o 18/2020. A apropriação de créditos incentivados ou fictos, calculados sobre produtos isentos adquiridos de estabelecimentos localizados na ZFM, somente é admitida se houver alíquota positiva do IPI para o produto/insumo adquirido para industrialização. No caso de identificação de erro na classificação fiscal, cuja classificação correta revela que os produtos adquiridos estavam sujeitos à alíquota zero, não há possibilidade de geração de crédito. Exatamente neste mesmo sentido decidiu este colegiado, de forma unânime, recentemente: “APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. NOTA FISCAL. PRODUTOS ADQUIRIDOS COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA. GLOSA DOS VALORES INDEVIDAMENTE APROPRIADOS. POSSIBILIDADE. LEI 4.502/1964, ART. 62. A leitura do art. 62 da Lei no 4.502/1964 demanda ponderação. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão Fl. 4605DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-016.082 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.728064/2016-25 12 acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, mormente quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em ‘Ex Tarifário’, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE no 592.891/SP.” (Acórdão 9303-015.038, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, unânime, sessão de 10.abr.2024) (Presentes ainda os Cons. Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Alexandre Freitas Costa, Semíramis de Oliveira Duro, e Liziane Angelotti Meira) Assim, e em endosso ao entendimento unânime deste colegiado, não merece reforma o Acórdão recorrido, cabendo a negativa de provimento ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, e, no mérito, em negar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 4606DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10480.722499/2009-54
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 31/05/2005 a 31/12/2007
OCORRÊNCIA DE EQUÍVOCO ORIGINÁRIO NO ACÓRDÃO RECORRIDO.
Necessário o retorno dos autos ao Colegiado de origem quando há ocorrência de equívoco originário no acórdão recorrido.
Numero da decisão: 9303-005.972
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento parcial, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para analisar a classificação fiscal e as demais questões de mérito.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargo Autran) e Vanessa Marini Cecconello. Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Érika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 31/05/2005 a 31/12/2007 OCORRÊNCIA DE EQUÍVOCO ORIGINÁRIO NO ACÓRDÃO RECORRIDO. Necessário o retorno dos autos ao Colegiado de origem quando há ocorrência de equívoco originário no acórdão recorrido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento parcial, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para analisar a classificação fiscal e as demais questões de mérito. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama – Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 72 24 99 /2 00 9- 54 Fl. 1396DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargo Autran) e Vanessa Marini Cecconello. Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Érika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional contra Acórdão nº 3302002.444, da 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, por unanimidade de votos, deu provimento parcial ao recurso voluntário, consignando a seguinte ementa: “ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 31/05/2005 a 31/12/2007 RECLASSIFICAÇÃO DE PRODUTO INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 149 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL REVISÃO DE ERRO DE DIREITO. Apenas é permitida a revisão do lançamento tributário quando houver erro de fato, entendendose este como aquele relacionado ao conhecimento da existência de determinada situação. Não se admite a revisão quando configurado erro de direito consistente naquele que decorre do conhecimento e da aplicação incorreta da norma. Seguese a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça STJ, no sentido de que o contribuinte não pode ser surpreendido, após o desembaraço aduaneiro, com uma nova classificação, proveniente de correção de erro de direito. PRESCRIÇÃO 5 ANOS DO APROVEITAMENTO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO INAPLICABILIDADE DA CONTAGEM DO PRAZO DO MOMENTO DA GERAÇÃO DO CRÉDITO. Em relação ao saldo credor de 2003, aproveitado no ano de 2005, sem razão a recorrente. É fato que quando ocorreu a fiscalização já havia transcorrido 5 anos do momento da geração do crédito. Todavia, não havia transcorrido 5 anos do momento do aproveitamento do crédito tributário, e é este o período em que a fiscalização pode analisar a contabilidade do contribuinte. ” Fl. 1397DF CARF MF Processo nº 10480.722499/200954 Acórdão n.º 9303005.972 CSRFT3 Fl. 1.397 3 Irresignada, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão que sustentou que constitui modificação de critério jurídico, o resultado do procedimento de revisão aduaneira que implique alteração da classificação do produto NCM, anteriormente adotada pelo importador. Traz, entre outros, que, · Em consonância com disposto no inciso I, o artigo 54 do Decretolei n° 37, de 1966, com a redação dada pelo Decretolei nº 2.472, de 1988, prevê expressamente a possibilidade de realização, após o desembaraço aduaneiro ou liberação da mercadoria, do procedimento de revisão das informações tributárias e outra natureza, prestadas pelo importador na DI que serviu de base para o processamento do despacho aduaneiro; · O porcelanato é um produto cerâmico, e, como tal, por aplicação da RG/SHI nº. 01, deve ser classificado no capítulo 69, na posição 6907(se não vidrado nem esmaltado) ou na posição 6908 (se vidrado ou esmaltado), razão pela qual mostrase correta a reclassificação procedida pelo Fisco. Em despacho às fls. 1306 a 1308, foi dado seguimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. Contrarrazões ao recurso especial foram apresentadas pelo sujeito passivo, trazendo, entre outros, que: · A mudança repentina de entendimento por parte da receita federal viola o princípio da segurança jurídica, haja vista a ilegal revisão do lançamento com efeitos retroativos, após o desembaraço respaldado no entendimento da própria autoridade mediante resposta a pedido de informação acostada aos autos; · Não tendo havido erro ou omissão por parte da contribuinte quanto à matéria de fato constante de declaração de importação, no que concerne à identificação física da mercadoria, não há que se admitir a Fl. 1398DF CARF MF 4 revisão do lançamento, como feito no Auto de Infração ora objurgado, consoante se denota da análise dos incisos IV e V, do art. 149, do CTN; · Em relação à correta classificação fiscal da mercadoria importada: ü O porcelanato em nada se aproxima da porcelana; ü O porcelanato é um produto composto por feldspato, dolomita, quartzo e uma pequena quantidade de argila, inferior a 15%, composição que, consoante restará evidenciado, é diversa da cerâmica e se assemelha a um granito, conforme laudo técnico elaborado com base no parecer técnico 8.202 do IPT e já convalidado pela DRJ em julgamento do processo 1964.013825/200882; ü As características técnicas do porcelanato são muito diferentes da cerâmica, posto que 75% do porcelanato é composto de matérias duras. Tratase de produto estável, mais resistente a temperaturas baixas, já a cerâmica sofre mais retração e expansão, com a oscilação de tempo; ü Quanto à cozedura e ponto de fusão há uma substancial diferença entre o porcelanato e uma cerâmica, o que demonstra o equívoco da Nota Coana/Cotac/Dinon 2007/0319 que ensejou a lavratura do auto de infração. Esse processo foi pautado para 18.1.2017, conforme publicação no Diário Oficial da União de 5.10.2017, retornando para julgamento, observandose pedido de vista, em novembro. É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama Relatora Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, entendo que devo conhecêlo, eis que atendidos os pressupostos de admissibilidade constante do art. 67 do RICARF/2015 – Portaria MF 343/2015 com alterações posteriores. Fl. 1399DF CARF MF Processo nº 10480.722499/200954 Acórdão n.º 9303005.972 CSRFT3 Fl. 1.398 5 Ora, do simples cotejo entre as ementas dos acórdãos recorrido e indicados como paradigmas, constatase a efetiva existência de interpretação divergente quanto à ocorrência ou não de modificação de critério jurídico na reclassificação fiscal de mercadorias promovida em sede de revisão aduaneira. Em vista de todo o exposto, conheço o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Contrarrazões devem ser consideradas, vez que tempestivas. Não obstante ao decidido em acórdão recorrido, para melhor entendimento, importante recordar: · O Auto de Infração no campo “Descrição dos Fatos e Enquadramento(s) Legal(is) trouxe, entre outros (Grifos meus): “001 – PRODUTO SAÍDO DO ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL OU EQUIPARADO A INDUSTRIAL COM EMISSÃO DE NOTA FISCAL OPERAÇÃO COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA DO IPI Falta de lançamento de imposto por ter o estabelecimento industrial promovido a saída de produtos tributos, “Porcelanatos”, de tamanhos, colorações, brilhos, formatos etc diversificados, com falta de destaque do IPI, por ter cometido erro na classificação fiscal e erro da alíquota do imposto, como descrito no Termo de Verificação Fiscal anexo. [...] 002 – CRÉDITOS INDEVIDOS CRÉDITO BÁSICO INDEVIDO O estabelecimento industrial não recolheu o IPI por ter registrado em sua escrita fiscal um crédito indevido, na forma do saldo credor inicial de janeiro de 2005. [...]” Fl. 1400DF CARF MF 6 · O Termo de Verificação Fiscal trouxe, entre outros (Grifos meus): “[...] No presente caso, impende destacar que a presente autuação decorre de procedimento fiscal anterior que identificou erro nos despachos aduaneiros de importação da empresa, visto que ela dotava uma equivocada classificação fiscal para a placas de "porcelanato" que importava para industrialização em seu estabelecimento.[...] Foi realizada então uma análise nos arquivos digitais apresentados pelo contribuinte a fim de constatar se ele adotara o mesmo equívoco da alíquota do IPI nas saídas de produtos industrializados. Concluída essa análise, foi possível constatar que a empresa tributou seus produtos "porcelanato" (de formatos, cores e brilhos diversos) com a classificação fiscal e a alíquota do IPI usadas no âmbito do despacho aduaneiro de importação.[...] Sendo assim, neste auto de infração, não serão autuadas as importâncias do IPIvinculado não recolhidas, mas apenas os valores do IPI das saídas com falta de destaque do imposto, não escriturados no Livro Registro de Apuração do IPI (RAIPI), por conta do erro ma classificação fiscal adotada pela empresa em suas vendas de produtos "porcelanatos", como expresso em suas notas fiscais de saída. [...] Concluída essa análise, foi possível constatar que a empresa tributou seus produtos “porcelanato” (de formatos, cores, brilho diversos) com a classificação fiscal e a alíquota do IPI usadas no âmbito do despacho aduaneiro de importação. [...] Por conseguinte, em respeito à qualidade dos argumentos expendidos no mencionado processo (particularmente, a Nota COANA/COTAC/DINOM nº 2007/0319), adotase, sem qualquer ressalva, neste auto de infração de infração a mesma classificação fiscal ali retratada – 6907.90.00 (para os porcelanatos não vidrados ou esmaltados) ou 6908.90.00 (para Fl. 1401DF CARF MF Processo nº 10480.722499/200954 Acórdão n.º 9303005.972 CSRFT3 Fl. 1.399 7 os porcelanatos vidrados ou esmaltados), ambos com a mesma alíquota do IPI: [...] A prática do estabelecimento de promover saídas com a classificação fiscal errônea (NCM 6810.19.00) e a alíquota do IPI igual a 0% resultou, ao longo dos vários períodos de apuração, em infração à legislação do IPI, por ter deixado de realizar o destaque do imposto exigível na nota fiscal de saída e consequentemente ter deixado de recolher os eventuais saldos devedores do imposto, a serem detalhados. [...]” · A impugnação trouxe, entre outros: “[...] 14. A instauração de procedimentos administrativo com base em revisão de mercadorias importadas, regularmente desembaraçadas, submetidas a industrialização e comercialização, após quase 5 (cinco) anos, com base em mudança na classificação fiscal posterior, é manifestamente irregular e contrários às normas que regem o processo administrativo tributário pátrio, o que autoriza a decretação da nulidade de todos os atos até então praticados... [...]” · O acórdão de impugnação trouxe, entre outros: “[...] Partindo dessa premissa, não foram autuadas as importâncias relativas ao IPI vinculado à importação não recolhidas, mas apenas os valores do IPI correspondentes às saídas com falta de destaque do imposto, não escriturados no RAIPI, por conta do erro na classificação fiscal adotada pela empresa em suas vendas do produto, como expresso em suas notas fiscais de saída. [...]” · O acórdão de recurso voluntário trouxe, entre outros: “[...] Fl. 1402DF CARF MF 8 Conforme relatado, tratase de auto de infração lavrado em relação ao período de jan/2005 a dez/2007, em virtude da reclassificação fiscal dos produtos importados pela Recorrente, que entendia ser aplicável, quando do despacho aduaneiro, o código 6810.19.00, aplicável à “outras obras de cimento, de concreto ou de pedra artificial, mesmo armadas”, com alíquotas de 8% de II e 0% de IPI; enquanto a fiscalização entendia que os produtos deveriam ter sido importados sob as rubricas: 6907.90.00 (para os porcelanatos não vidrados nem esmaltados) e 6908.90.00 (para aqueles vidrados ou esmaltados), ambos com as mesmas alíquotas do IPI, a saber: 10% nos anos de 2005 e 2006; 5% no ano de 2007 (Decreto nº 6.006.2006). [...] Em resumo, tratase de diferença de crédito tributário apurada em procedimento de revisão aduaneira das Declarações de Importação da Recorrente em decorrência do entendimento da fiscalização de que houve adoção equivocada de critério de classificação fiscal.[...] Portanto, é condição necessária a existência de um prévio lançamento tributário. Os tributos recolhidos por ocasião do despacho aduaneiro configuram antecipação de pagamento, na modalidade do lançamento por homologação. Entender que a conferência aduaneira e o conseqüente desembaraço da mercadoria configurariam lançamento tributário implica em dizer que houve homologação expressa do lançamento previsto no artigo 150 do CTN (lançamento por homologação), o que de fato não resta configurado no despacho aduaneiro. O despacho aduaneiro de importação é um procedimento de fiscalização, previsto no regulamento aduaneiro Decreto nº 4.543, de 2002 art. 482 e no Decreto 70.235, de 1972, art. 7º, inciso III, com vistas ao desembaraço aduaneiro. [...]”. Vêse, pela leitura dos trechos dos autos desse processo, que se trata efetivamente de discussão acerca da promoção de saídas com classificação fiscal errônea, Fl. 1403DF CARF MF Processo nº 10480.722499/200954 Acórdão n.º 9303005.972 CSRFT3 Fl. 1.400 9 segundo a autoridade fiscal – que, por sua vez, trouxe que não foi realizado o destaque do imposto exigível na nota fiscal de saída. Tal constatação originouse da análise nos arquivos digitais apresentados pela contribuinte a fim de constatar se ele adotara o mesmo equívoco da alíquota do IPI nas saídas de produtos industrializados. Não se trata de classificação de IPI da “entrada”, tal como tratou o acórdão recorrido – que se adentrou ainda na discussão acerca da “revisão aduaneira”, mas sim da “saída”. Recordando ainda, quanto à menção de revisão aduaneira, que o auto se originou de análise nos arquivos digitais apresentados pelo sujeito passivo. Em vista de todo o exposto, considerando o equívoco trazido no acórdão recorrido, voto por dar provimento parcial ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional, cancelando o acórdão recorrido com retorno dos autos ao colegiado de origem, para analisar a classificação fiscal e as demais questões de mérito. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 1404DF CARF MF
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Numero do processo: 15165.000471/2011-73
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 15/12/2008 a 26/10/2009
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. MICROPROCESSAMENTO COM DISSIPADOR DE CALOR. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. POSSIBILIDADE.
Placas de microprocessamento ou processador com dissipador de calor classificam- se no código NCM 8473.30.43.
Aplica-se multa de 1 % por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente, nos termos do artigo 84, I, da Medida Provisória 2.15835/2001.
Numero da decisão: 9303-006.331
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negar-lhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: DEMES BRITO
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ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 15/12/2008 a 26/10/2009 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. MICROPROCESSAMENTO COM DISSIPADOR DE CALOR. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. POSSIBILIDADE. Placas de microprocessamento ou processador com dissipador de calor classificam se no código NCM 8473.30.43. Aplicase multa de 1 % por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente, nos termos do artigo 84, I, da Medida Provisória 2.15835/2001. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negarlhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto qualidade, em dar lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado). (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Demes Brito Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 16 5. 00 04 71 /2 01 1- 73 Fl. 562DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 563 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional e Contribuinte com fundamento nos artigos 64, inciso II e 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, contra o acórdão nº 3302002.930, proferido pela 3ª Câmara/1ª Turma Ordinária da 3ª Seção de julgamento, que decidiu em dar provimento ao Recurso Voluntário, por entender que, caso existindo dúvida razoável quanto à precisa identificação técnica do produto importado com relação a sua característica principal, visto que prejudicada a perfeita identificação desta pela ausência de laudo técnico, dado o grau de especificidade técnica do referido produto importando, impossibilitando inclusive a análise comparativa com o laudo técnico produzido pelo contribuinte, aplicase a interpretação benigna autorizada pelo art. 112, II do CTN, para exonerar o crédito referente à multa por classificação fiscal incorreta. Transcrevo, inicialmente, excerto do relatório da decisão de primeiro grau: "Tratase de Autos de Infração (fls. 5/102), em que formalizada a cobrança de crédito tributário no valor total de R$ 8.317.673,23, compreendendo o somatório do Imposto sobre a Importação (II), do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), da Contribuição para o PIS/Pasep Importação e da Cofins Importação, acrescidos de multa de ofício, juros de mora, e multa regulamentar por erro de classificação fiscal. De acordo com Termo de Verificação Fiscal de fls. 103/113, o motivo da presente autuação foi a constatação de que a autuada havia cometido erro na classificação fiscal das mercadorias importadas, ao enquadrálas no código NCM 8542.31.90 (Outros processadores e controladores), com alíquotas do II de 0% e do IPI de 2,0%, em vez de no código NCM 8473.30.49 (Outros circuitos impressos com componentes elétricos ou eletrônicos montados), com alíquotas do II de 12,0% e do IPI de 15,0%, por se tratar de placas de microprocessamento ou processador sem dissipador de calor. Segundo a fiscalização, o código NCM utilizado pela autuada aplicase apenas ao microprocessador isolado (placa de silício minúscula), ainda não montada numa placa de microprocessamento, ao passo que o produto efetivamente importado eram placas de microprocessamento montadas, com diversos componentes (substrato, capacitores, processador, dissipador de calor IHS e interface térmica TIM), que, portanto, incluía o microprocessador. O acórdão recorrido restou assim ementado: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Fl. 563DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 564 3 Período de apuração: 15/12/2008 a 26/10/2009 NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL (NCM). PLACAS DE MICROPROCESSAMENTO COM DISSIPADOR DE CALOR. CÓDIGO NCM. As placas de microprocessamento com dispositivo de dissipação de calor e de proteção do processador (placa de metal IHS Integrated Heat Spreader), especialmente concebida para utilização em uma máquina automática de processamento de dados, classificamse no código NCM 8473.30.43. ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL DO CONTRIBUINTE E DA FISCALIZAÇÃO. TERCEIRO CÓDIGO NCM CONTENDO AS MESMAS ALÍQUOTAS DO CÓDIGO INFORMADO PELO CONTRIBUINTE. IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO DOS TRIBUTOS E CONSECTÁRIOS LEGAIS. CABIMENTO. Se autuação foi fundamentada em código NCM não pertencente ao produto importado, cujo código NCM contém as mesmas alíquotas do código NCM errado declarado pelo contribuinte, inexiste diferença de tributos e respectivos consectários legais (juros moratórios e multa de ofício), por ausência da diferença de alíquotas que fundamentava o lançamento. ERRO NA FUNDAMENTAÇÃO FÁTICA DA AUTUAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA DA COBRANÇA DOS TRIBUTOS E CONSECTÁRIOS LEGAIS LANÇADOS. POSSIBILIDADE. Se código NCM correto do produto importado não corresponde ao código NCM declarado pelo importador nem ao utilizado na autuação pela fiscalização, por erro na fundamentação da autuação, não procede a cobrança dos tributos e consectários legais lançados. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE LAUDO TÉCNICO PARA A PERFEITA IDENTIFICAÇÃO DA MERCADORIA NA AUTUAÇÃO. INTERPRETAÇÃO BENIGNA AUTORIZADA PELO ARTIGO 112 DO CTN. Restando demonstrado nos autos que a fiscalização não se utilizou de assistência técnica para identificar a mercadoria importada na autuação, requisito indispensável no caso da espécie dos autos pela especificidade técnica, aplicase a interpretação benigna autorizada pelo artigo 112 do CTN. Recurso Voluntário Provido. Crédito Tributário Exonerado". Fl. 564DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 565 4 Devidamente Cientificada, a Fazenda Nacional interpõe o presente Recurso Especial, suscitou divergência contra o entendimento adotado pela decisão recorrida, relativamente à exoneração da multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente na NCM. Visando comprovar o dissenso foi apontado, como paradigma, o Acórdão nº 3102002.198. Em seguida, o Presidente da 3º Seção do CARF, deu seguimento ao Recurso, por entender que foi comprovada a divergência, conforme se extrai do despacho de admissibilidade, fls. 445/447. Em que pese ter obtido o provimento total do Recurso, a Contribuinte também interpõe Recurso Especial, suscita divergência quanto à correta classificação fiscal da mercadoria em foco. Para comprovar o dissenso foi colacionado, como paradigma, o Acórdão nº 3403002.595. O Presidente da 3º Seção do CARF, deu seguimento ao Recurso, por entender que foi comprovada a divergência, conforme se extrai do despacho de admissibilidade, fls. 514/516. Cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, às fls.518/527. É o relatório. Voto Demes Brito Conselheiro Relator Os Recursos foram apresentados com observância do prazo previsto, atende os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles tomo conhecimento, nos termos dos respectivos despachos de admissibilidade. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamado de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Fl. 565DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 566 5 Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos, não tendo espaço para questões fáticas, que já ficaram devidamente julgadas no Recurso Voluntário. Passo ao julgamento. Com efeito, os Recursos serão julgados em conjunto, tendo em vista o Recurso Especial da Contribuinte que, embora, tenha sido provido totalmente, ela traz a divergência e dúvida quanto a devida classificação fiscal de sua mercadoria, em que pese o acórdão recorrido ter decidido a lide adotando a classificação fiscal com bem entendeu. Já quanto ao Recurso da Fazenda Nacional, a discussão diz respeito ao entendimento adotado pela decisão recorrida, relativamente à exoneração da multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada incorretamente na NCM. Compulsando aos autos, verifico que a decisão recorrida deu provimento ao Recurso Voluntário, com o seguinte fundamento: "Restando demonstrado nos autos que a fiscalização não se utilizou de assistência técnica para identificar a mercadoria importada na autuação, requisito indispensável no caso da espécie dos autos pela especificidade técnica, aplicase a interpretação benigna autorizada pelo artigo 112 do CTN. Conforme se demonstrou acima, a fundamentação do auto de infração não se fez acompanhar de assistência técnica para a perfeita identificação da mercadoria importada, balizamento imprescindível neste caso para possibilitar a correta análise classificatória. Assim a ausência de laudo técnico por parte da fiscalização, impossibilitando inclusive a análise comparativa com o laudo técnico produzido pela recorrente justifica a exoneração da multa por classificação fiscal incorreta, estabelecida no art. 84, I, da Medida Provisória 2.15835/ 2001, com escopo no artigo 112 do Código Tributário Nacional CTN. Ressaltese que a interpretação benigna autorizada pelo art. 112 do CTN norteiase pelo que dispõem seus incisos [Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I à capitulação legal do fato; II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação.. No presente caso existindo dúvida razoável quanto à precisa identificação técnica do produto importado com relação a sua característica principal, visto que prejudicada a perfeita identificação desta pela ausência de laudo técnico, dado o grau de especificidade técnica do referido produto importando, impossibilitando inclusive a análise comparativa com o laudo técnico produzido pelo contribuinte, aplicase a interpretação benigna autorizada pelo art. 112, II do Fl. 566DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 567 6 CTN, para exonerar o crédito referente à multa por classificação fiscal incorreta". Causa espanto, os fundamentos do voto vencedor, sequer fundamentou qual classificação fiscal deve ser adotada, simplesmente alega que: "a ausência de laudo técnico por parte da fiscalização, impossibilitando inclusive a análise comparativa com o laudo técnico produzido pela recorrente justifica a exoneração da multa por classificação fiscal incorreta". Como visto, a decisão recorrida não empreendeu a melhor solução para lide, neste sentido, adoto como fundamento em minha razões de decidir os fundamentos e conclusões do Voto irretocável da lavra do Ilustre Conselheiro José Fernandes do Nascimento, que passa a fazer parte integrante desse voto. Vejamos: "Assim, uma vez identificado o tipo de produto, inexiste controvérsia quanto ao enquadramento dele na NCM. Em outras palavras, não há dissenso quanto ao enquadramento do circuito integrado eletrônico na posição 85.42 da NCM e da placa de microprocessaemento na posição 84.73 da NCM. Nesse sentido, o enunciado da posição 84.73 das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias (NESH), afasta qualquer dúvida respeito, ao determinar que: “Excluemse também desta posição: [...] e) Os circuitos integrados (posição 85.42). De acordo com o texto da referida nota, ao excluir o circuito integrado da posição 84.73, que compreende “Partes e acessórios (exceto estojos, capas e semelhantes) reconhecíveis como exclusiva ou principalmente destinados às máquinas ou aparelhos das posições 84.69 a 84.72”, e enquadrálo na posição 85.42, que compreende “Circuitos integrados eletrônicos”, ficou claramente definido que a classificação fiscal dos “circuitos integrados eletrônicos” é determinada pela sua natureza intrínseca e não pela sua aplicação ou destinação. Assim, embora destinado, exclusiva ou principalmente, à montagem de máquinas automáticas para processamento de dados, pertencentes à posição 84.71 da NCM, se a parte ou acessório tiver natureza de “circuito integrado eletrônico” ele se classifica na posição 85.42 da NCM e não na posição 84.73 da NCM. Portanto, a classificação fiscal dos circuitos integrados é determinada pela sua natureza intrínseca e não em função da sua aplicação ou destinação. Dessa forma, para o deslinde da controvérsia, a questão relevante passa a ser a precisa identificação do componente eletrônico importado pela recorrente, que, segundo o Termo de Verificação Fiscal (fl. 106), tem a seguinte estrutura e composição: a) Package substrate; b) Capacitors; c) Processor core (die); d) IHS (Integrate Heat Spreader); e e) TIM (Thermal Interface Material), conforme ilustrado na figura a seguir reproduzida: Fl. 567DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 568 7 A figura acima mostra um esboço dos componentes do pacote do processador e como eles são montados na placa do sistema (system board) e no soquete (socket). No centro, encontrase o núcleo do processador (processor core, die), o processador propriamente dito. Na base se pode visualizar a presença de capacitores, componentes eletrônicos passivos, com a função de filtrar e estabilizar a corrente. Na parte superior do conjunto, uma cobertura de alta condutividade térmica, o IHS (Integrated Heat Spreader ou Difusor de Calor Integrado), cuja função é difundir o calor interno gerado pelo funcionamento do chip. Ainda entre o processador e IHS existe uma interface de material térmico, o TIM (Thermal Interface Material ou Material de Interface Térmica). Também com base na referida figura, a fiscalização apresentou a seguinte descrição do produto importado, in verbis: No “substrate” estão montados o processador, os capacitores e o IHS. Temos, então, um circuito impresso com elementos eletrônicos (ativo e passivos), além do IHS. Os capacitores são considerados componentes eletrônicos passivos, que são simplesmente condutores de sinais elétricos; o processador, por sua vez, componente eletrônico ativo, suscetível de produzir, retificar, detectar, modular ou amplificar sinais elétricos. Observase também que os componentes eletrônicos passivos (capacitores) estão dispostos de forma não discreta no substrato. Cabe ainda ressaltar que, em relação a estrutura e composição do produto importado inexiste controvérsia, uma vez que a recorrente baseiase nos Fl. 568DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 569 8 mesmos elementos para apresentar a sua discordância em torno da conclusão apresentada pela fiscalização. Feito esses breves relevantes esclarecimentos, passase a analisar o ponto fulcral da controvérsia. Para esse fim, iniciase com a transcrição do texto da Nota 8 b) do Capitulo 85, que apresenta as características intrínsecas do circuito integrado, tais como os elementos de composição e os tipos de fabricação, com os seguintes dizeres, in verbis: 8.Na acepção das posições 85.41 e 85.42, consideramse: a) “Diodos, transistores e dispositivos semicondutores semelhantes”, os dispositivos cujo funcionamento se baseie na variação da resistividade sob a influência de um campo elétrico; b) Circuitos integrados: 1º) Os circuitos integrados monolíticos em que os elementos do circuito (diodos, transistores, resistências, condensadores, indutâncias, etc.) são criados essencialmente na massa e à superfície de um material semicondutor (por exemplo, silício impurificado (dopado), arsenieto de gálio, silíciogermânio, fosfeto (fosforeto*) de índio), formando um todo indissociável; 2º) Os circuitos integrados híbridos que reúnam de maneira praticamente indissociável, por interconexões ou cabos de ligação, sobre um mesmo substrato isolante (vidro, cerâmica, etc.) elementos passivos (resistências, condensadores, indutâncias, etc.) obtidos pela tecnologia dos circuitos de camada fina ou espessa e elementos ativos (diodos, transistores, circuitos integrados monolíticos, etc.), obtidos pela tecnologia dos semicondutores. Estes circuitos podem incluir também componentes discretos; 3º) Os circuitos integrados de múltiplos chips, constituídos por dois ou mais circuitos integrados monolíticos interconectados, combinados de maneira praticamente indissociável, dispostos ou não sobre um ou mais substratos isolantes, mesmo com elementos de conexão, mas sem outros elementos de circuito ativos ou passivos. Na classificação dos artefatos definidos na presente Nota, as posições 85.41 e 85.42 têm prioridade sobre qualquer outra posição da Nomenclatura, exceto a posição 85.23, suscetível de os incluir, em particular, em razão de sua função. (grifos não originais) Da simples leitura do texto transcrito, verificase que (i) a classificação do circuito integrado é definida pela sua natureza intrínseca e não em função da sua destinação, conforme ressaltada anteriormente, e (ii) que, de acordo com o tipo de processo de fabricação, existem três tipos de circuitos integrados: circuitos integrados monolíticos, circuitos integrados híbridos e circuitos integrados de múltiplos chips. Fl. 569DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 570 9 Nos autos, há consenso de que o produto importado pela recorrente não atende as características do circuito integrado monolítico nem do circuito integrado de múltiplos chips. O dissenso reside em relação à identificação do produto como circuito integrado híbrido, da posição 85.42 da NCM, ou placa microprocessamento, da posição 84.73 da NCM, como já mencionado. Assim, com vista ao deslinde da controvérsia, iniciase a análise pelas características do tipo de circuito integrado eletrônico1 que se enquadra na posição 85.42 da NCM, que, segundo a recorrente é onde se enquadra o produto importado. Para esse fim, passase a analisar as pertinentes explicações apresentadas na nota da posição 85.42 das NESH sobre as características definidoras do referido produto, que seguem transcritas: Os artefatos da presente posição são definidos na Nota 8 b) do presente Capítulo. Esta posição compreende um conjunto de dispositivos eletrônicos, com uma densidade elevada de elementos ou componentes passivos e ativos, considerados como constituindo uma unidade (ver, no que diz respeito aos elementos ou componentes “passivos” ou “ativos”, a Nota Explicativa da posição 85.34, primeiro parágrafo). Pelo contrário, os circuitos eletrônicos compostos unicamente de elementos passivos são excluídos da presente posição. Diversamente dos circuitos integrados eletrônicos, os componentes discretos podem ter uma só função elétrica ativa (dispositivos semicondutores definidos na Nota 8 a) do Capítulo 85), ou uma só função elétrica passiva (resistências, capacidades, indutâncias, etc.). Os componentes discretos são indivisíveis e são os componentes eletrônicos básicos na construção de um sistema. Não se consideram, todavia, como componentes discretos os constituídos por vários elementos de um circuito elétrico, e com várias funções elétricas, tais como os circuitos integrados. Os circuitos integrados eletrônicos compreendem as memórias DRAM (memória de acesso aleatório dinâmica), SRAM (memória de acesso aleatório estática), EPROM (memória programável, apagável, apenas de leitura), EEPRO ou E2PROM (memória programável, eletricamente apagável, apenas de leitura), microcontroladores, circuitos de comando, circuitos lógicos, circuitos de redes de portas programadas gate arrays”, circuitos de interface, etc. Os circuitos integrados eletrônicos compreendem: [...] II. Os circuitos integrados híbridos. Os circuitos integrados híbridos são microestruturas eletrônicas construídas sobre um substrato isolante no qual um circuito de camada fina ou espessa foi formado. A formação deste circuito permite obter, simultaneamente, alguns Fl. 570DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 571 10 elementos passivos (resistências, capacitâncias, indutâncias, por exemplo). Contudo, para constituir um circuito integrado híbrido da presente posição, elementos semicondutores devem ser incorporados, quer sob a forma de microplaquetas (chips), encapsuladas ou não, quer sob a forma de semicondutores previamente encapsulados, por exemplo, dentro de invólucros miniaturas especialmente concebidos para esse fim. Os circuitos integrados híbridos podem também possuir elementos passivos obtidos individualmente e colocados no circuito da camada de base, da mesma maneira que os semicondutores. Tratase geralmente de componentes, tais como condensadores, resistências ou bobinas, sob a forma de microplaquetas (chips). Os substratos compostos de várias camadas (geralmente de cerâmica), reunidos por cozedura de maneira a formar um conjunto compacto, devem considerarse como constituindo um mesmo substrato na acepção da Nota 8 b) 2) do presente Capítulo. Os componentes que formam um circuito integrado híbrido devem estar reunidos de maneira praticamente indissociável, isto é, a retirada ou a substituição de alguns elementos é possível teoricamente, mas tal só pode ser feito mediante operações minuciosas e delicadas que, em condições normais de produção, não seriam economicamente rentáveis. Exceto as combinações (praticamente indissociáveis) referidas nas partes II) e III), acima, relativas aos circuitos integrados híbridos, excluemse também desta posição os conjuntos obtidos por: a) Montagem de um ou mais componentes discretos num suporte formado, por exemplo, por um circuito impresso; 2º) Os outros conjuntos, de conformidade com as disposições que regem a classificação das partes de máquinas (Notas 2 b) e 2 c) da Seção XVI, em particular). Com base nas explicações anteriormente apresentadas e demais informações coligidas aos autos, depreendese que os produtos importados pela recorrente tratase de um conjunto obtido pela montagem, na placa do sistema (system board) e no soquete (socket), do processador, propriamente dito, dos capacitores e do dissipador integrado de calor (IHS). Ademais, verificase os capacitores, componentes eletrônicos passivos, estão dispostos de forma não discreta no substrato, mas montados na parte inferior da placa do sistema. Dessa forma, os produtos importados pela recorrente não pertencem a posição 85.42 da NCM, pois, não atende as característica dos circuitos integrados da referida posição, pois, o sistema contém alguns componentes eletrônicos passivos (capacitores) que não foram criados na massa ou à Fl. 571DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 572 11 superfície do circuito integrado, mas montados na parte inferior da placa do circuito impresso, portanto, não formam um todo indissociável. Em outras palavras, para que o produto importado pela recorrente fosse considerado um circuito integrado híbrido era necessário que os componentes que o formam estivessem reunidos de maneira praticamente indissociável, de modo que a retirada ou a substituição de alguns elementos fosse possível teoricamente, mas tal só poderia ser feito mediante operações minuciosas e delicadas que, em condições normais de produção, não seriam economicamente viáveis. Não é o que ocorre com o tipo e característica dos microprocessadores importados pela recorrente, pois, conforme demonstrado, os seus componentes passivos e ativos estão dispostos na placa do sistema e no soquete, de forma que podem ser removidos normalmente. Ademais, os componentes passivos (os capacitores), não foram criados em circuito de camada fina ou espessa, condição necessária para caracterizar o componente eletrônico como circuito integrado híbrido. Assim, chegase a conclusão que o produto importado pela recorrente não se trata de um circuito integrado híbrido da posição 85.42 da NCM. Com base nessa conclusão, resta analisar se o produto importado pela recorrente tratase de placa de microprocessamento da posição do 84.73 da NCM, conforme enquadramento atribuído pela fiscalização. Para essa finalidade, recorrese ao disposto na nota 2 b da Seção XVI da NCM, que trata das partes de máquinas dos capítulos da referida Seção, que tem a seguinte redação: b) Quando se possam identificar como exclusiva ou principalmente destinadas a uma máquina determinada ou a várias máquinas compreendidas numa mesma posição (mesmo nas posições 84.79 ou 85.43), as partes que não sejam as consideradas na alínea a) anterior, classificamse na posição correspondente a esta ou a estas máquinas ou, conforme o caso, nas posições 84.09, 84.31, 84.48, 84.66, 84.73, 85.03, 85.22, 85.29 ou 85.38; todavia, as partes destinadas principalmente tanto aos artefatos da posição 85.17 como aos das posições 85.25 a 85.28, classificamse na posição 85.17; Como as placas de microprocessamento, sabidamente, são partes das máquina da posição 84.71 da NCM, não resta qualquer dúvida que, no âmbito da posição 84.73, tais placas se enquadram na subposição 8473.30, que compreende as “Partes e acessórios das máquinas da posição 84.71”. E em nível da subposição 8473.30, não há qualquer dificuldade em enquadrar as citadas placas no item 8473.30.4, que compreende os “Circuitos impressos com componentes elétricos ou eletrônicos, montados”. Este item desdobrase em quatro subitens, que, na época dos fatos, tinha a seguinte redação2, ipsis litteris: 8473.30.41 Placasmãe ("mother boards") Fl. 572DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 573 12 8473.30.42 Placas (módulos) de memória com uma superfície inferior ou igual a 50cm2 8473.30.43 Placas de microprocessamento com dispositivo de dissipação de calor, inclusive em cartuchos 8473.30.49 Outros (grifos não originais) Diante da descrição anteriormente apresentada, fica evidenciado que os produtos importados pela recorrente se enquadram no subitem 8473.30.43, relativo as “Placas de microprocessamento com dispositivo de dissipação de calor, inclusive em cartuchos”. Porém, este não foi o código da NCM atribuído ao produto nas presentes autuações. Para a fiscalização, os produtos importados pela recorrente classificarseiam no código NCM 8473.30.49, que compreende os “Outros” “Circuitos impressos com componentes elétricos ou eletrônicos, montados”. Os argumentos apresentados para adoção dessa classificação foram os seguintes (fls. 108/109) CLASSIFICAÇÕES FISCAIS ADOTADAS Em relação à classificação fiscal, o sujeito passivo considerou a classificação de processadores na NCM: 8542.31.90. Considerando que foram importadas Placas de microprocessamento sem a menção ao cooler ou especificamente sem cooler a classificação fiscal correta será 8473.30.49 Com a devida vênia, a conclusão apresentada pela fiscalização contém duas contradições insuperável. A primeira, ao afirmar que, por gerarem grande quantidade de calor, os processadores requerem dissipadores de calor ativos, ou seja, dissipadores de calor com ventoinhas (cooler). A segunda, ao afirmar que, por não ter feito menção à existência a dispositivo de ventilação ativo, ou a existência de cooler, a conclusão seria de que os processadores não continham dispositivo dissipador de calor. Além disso, o microprocessador ou placa de microprocessamento com dispositivo de calor é compatível com o sistema de resfriamento ativo, com a utilização de cooller, conforme, o entendimento esposado nos enunciados de ementas extraídos das Soluções de Consulta proferidas pela Divisão Administração Aduaneira (Diana) da Superintendência da Receita Federal do Brasil da 6ª Região Fiscal (SRRF06), a seguir transcritas: Solução de Consulta SRRF06/Diana nº 33 de 12 de Abril de 2011 EMENTA: Código TEC Mercadoria 8473.30.43 Placa de microprocessador com dispositivo de dissipação de calor, especialmente concebida para utilização em uma máquina automática de processamento de dados, comercialmente denominada Processador Intel Pentium DualCore Fl. 573DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 574 13 E5400, apresentada isoladamente em bandeja (tray) ou acondicionada para venda a retalho em caixa de papelão com o sistema de solução térmica (dispositivo auxiliar de dissipação de calor com cooler). Solução de Consulta SRRF06/Diana nº 43 de 15 de Abril de 2011 EMENTA: Código TEC Mercadoria 8473.30.43 Placa de microprocessador Intel®, dotada de dispositivo para dissipação de calor e proteção do processador (placa de metal IHS Integrated Heat Spreader), especialmente concebida para utilização em uma máquina automática de processamento de dados, comercialmente denominada “Processador Intel Celeron 430”, apresentada isoladamente em bandeja (tray) ou acondicionada em caixa de papelão com o sistema de solução térmica (dispositivo auxiliar de dissipação de calor com cooler). Com base nessas considerações, fica demonstrado que os produtos importados pela recorrente, objeto das presente autuações, classificamse no código NCM 8473.30.43, por se tratar de placas de microprocessamento com dispositivo de dissipação de calor, que, na época dos fatos geradores, tinham alíquota do II de 0% e do IPI de 2%, que era as mesmas alíquotas dos outros circuitos integrados eletrônicos classificados no código NCM 8542.31.90, que foi a classificação fiscal adotada pela recorrente nas respectivas DI. Dessa forma, inexiste diferença de alíquota do II e do IPI a ser cobrada da recorrente, bem como as diferenças de Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins lançadas, decorrentes do lançamento das referidas diferenças de alíquotas, e das multas de ofício lançadas. No caso, cabe ressaltar ainda que, se houvesse diferença positiva de alíquotas dos citados impostos, o crédito tributário lançado e os respectivos acréscimos legais (juros moratórios e multa de ofício), inequivocamente, também deveriam ser cancelados, por fundamentação equivocada do lançamento, caracterizado pelo enquadramento do produto em código NCM errado. Entretanto, esse equívoco por parte da fiscalização, não justifica o cancelamento da multa por classificação fiscal incorreta, estabelecida no art. 84, I, da Medida Provisória 2.15835/ 2001, a seguir transcrita: Art. 84 Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria: I classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria; ou [...] Fl. 574DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 575 14 A referida multa deve ser mantida, porque ficou comprovado nos autos que a recorrente classificou incorretamente os produtos importados (placas de microprocessamento com dispositivo de dissipação de calor), ao atribuilos o código NCM 8542.31.90, ao invés do código NCM 8473.30.43". Por derradeiro, por esta E. Câmara Superior de Recursos Fiscais, julgar apenas conflitos jurisprudências, utilizo subsidiariamente em minhas razões de decidir, a regra contida no artigo 489, § 1º, IV, do CPC/2015, que passa fazer parte integrante do presente voto. Vejamos: "O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. O julgador possui o dever de enfrentar apenas as questões capazes de infirmar (enfraquecer) a conclusão adotada na decisão recorrida. Assim, mesmo após a vigência do CPC, não cabem embargos de declaração contra a decisão que não se pronunciou sobre determinado argumento que era incapaz de infirmar a conclusão adotada. STJ. 1ª Seção. EDcl no MS 21.315DF, Rel. Min. Diva Malerbi (Desembargadora convocada do TRF da 3ª Região), julgado em 8/6/2016 (Info 585)". Por derradeiro, por esta E. Câmara Superior de Recursos Fiscais, julgar apenas conflitos jurisprudências, utilizo subsidiariamente em minhas razões de decidir, a regra contida no artigo 489, § 1º, IV, do CPC/2015, que passa fazer parte integrante do presente voto. Vejamos: Com essas considerações, reformo a decisão recorrida, dou provimento ao Recurso da Fazenda Nacional, para que seja mantida a multa de 1% ( um por cento) sobre o valor aduaneiro, em razão de estar comprovado junto aos autos que a Contribuinte classificou incorretamente os produtos importados (placas de microprocessamento com dispositivo de dissipação de calor), ao atribuílos o código NCM 8542.31.90, ao invés do código NCM 8473.30.43, e Nego provimento ao Recurso da Contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) Demes Brito Relator Fl. 575DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 576 15 Fl. 576DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 577 16 Declaração de Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza No presente caso, segundo o acórdão recorrido, o Fisco, no ato lançamento, e a contribuinte, quando da importação, igualmente equivocaramse ao promover a classificação fiscal do produto importado. Donde a integral exoneração dos valores lançados, inclusive da multa de um por cento em face do erro de classificação fiscal, entendimento contra a qual, especificamente quanto ao cancelamento desta última, insurgiuse a Recorrente, a douta Procuradoria da Fazenda Nacional. Consoante o mesmo acórdão recorrido, a exoneração da multa aplicada, decorrente do erro de classificação, deveuse ao fato de o lançamento não estar bem fundamentado ("ausência de laudo técnico por parte da fiscalização, impossibilitando inclusive a análise comparativa com o laudo técnico produzido pela recorrente justifica a exoneração da multa por classificação fiscal incorreta"). Já para o il. relator, bastaria, para a aplicação da mesma penalidade isolada, ser necessário apenas comprovar a errônea classificação fiscal do produto importado, sendo absolutamente irrelevante o fato de o Fisco também ter se equivocado em sua classificação fiscal, porque, acredita, o erro de classificação persistiu, bem como as consequências deste erro decorrentes. Discordamos. Primeiro, o fato de o erro de classificação fiscal persistir, ou seja, o fato de a classificação fiscal correta não ser a adotada pela contribuinte (classificação "A"), tampouco ser a indicada pelo Fisco (classificação "B"), mas, sim, uma terceira classificação (classificação "C"), não autoriza, só por isso, a manutenção da multa isolada. Se assim fosse, também se deveria manter a exigência do crédito tributário lançado, no caso em que, não obstante o erro de classificação da contribuinte e do Fisco, a terceira classificação fiscal, a classificação "C", se apresentasse com as mesmas alíquotas de II e de IPI vinculado que aquela indicada pelo Fisco no lançamento, a classificação "B". Afinal, neste caso, também continuaria a haver a falta de recolhimento de tributos na importação, assim como, é o que se defende, o erro de classificação ("Onde há a mesma razão, há de se aplicar o mesmo direito"). Segundo, porque, para apontar um erro de classificação fiscal, o Fisco deve indicar as regras de classificação não observadas e a classificação fiscal correta. E assim é porque, não fosse pelo caráter norteador das Regras de Interpretação do Sistema Harmonizado – as quais se direcionam a apontar como chegar à correta classificação fiscal do produto importado, não à errada! –, a Administração Tributária deve informar ao administrado (no caso, o importador) não apenas o erro que cometera, mas, também, como deveria ter agido, a fim de que o erro não venha a se repetir, com todas as consequências daí advindas (o art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 9.784, de 1999, impõe que, nos processos administrativos, a atuação da Administração Pública se dê segundo padrões éticos de probidade, decoro e boafé). Não se pode afirmar errada uma classificação, senão indicando a correta e apontando as regras que autorizam esta nova classificação. Terceiro, o lançamento tributário, como se sabe, é um ato administrativo e, como tal, como outros de mesma natureza, apresenta requisitos cuja não observância enseja a declaração de sua nulidade. Um desses requisitos é a motivação, consistente no relato, em linguagem adequada, do motivo do ato – o fato do mundo fenomênico que autoriza o Fl. 577DF CARF MF Processo nº 15165.000471/201173 Acórdão n.º 9303006.331 CSRFT3 Fl. 578 17 lançamento. Noutras palavras, é a exposição, por escrito e em forma inteligível, de que os seus pressupostos de fato realmente ocorreram. Segundo o il. Conselheiro LUÍS EDUARDO BARBIERI, a "autoridade fiscal, ao efetuar o lançamento, deve demonstrar e comprovar que a situação fática (fato jurídico relatado) se enquadrou perfeitamente no pressuposto de direito (dispositivo legal). Devese, portanto, demonstrar a subsunção entre o evento, ocorrido no mundo fenomênico e relatado na linguagem competente – fato jurídico, à hipótese de incidência tributária" (BARBIERI, Luís Eduardo Gorrossino, Lançamento tributário: vícios e seus defeitos, São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2015, p. 226). Um dos equívocos apontados, na mesma obra, quanto à motivação do lançamento, e com a qual concordamos, é a ausência, insuficiência ou o erro na descrição dos fatos do auto de infração (p. 227), erro como o que ora constatamos no presente lançamento, uma vez que, na sua motivação, a autoridade fiscal deveria ter demonstrado, como antes defendemos, o equívoco em que laborou a contribuinte, mediante a análise das regras de interpretação que seriam aplicáveis ao caso e a indicação, em face dessas mesmas regras, da classificação correta. A nosso juízo, portanto, a autoridade fiscal cometeu um vício de motivação no lançamento, do qual resulta, pura e simplesmente, a sua nulidade por vício material. Ainda que persista o erro de classificação – e isso não está em discussão –, há um defeito no ato administrativo que não admite convalidação. Ante o exposto, somos por negar provimento ao recurso especial da PFN. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 578DF CARF MF
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Numero do processo: 12466.003180/2008-59
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 13 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Nov 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 02/06/2008 a 16/07/2008
RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS
É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusões díspares. Em se tratando de classificação fiscal de produtos, recorrida e paradigma devem tratar do mesmo produto, admitindo-se, excepcionalmente, que se refiram a produtos distintos, mas referidos no mesmo código NCM, quando a discussão travada nas duas decisões puder ser aplicada a ambos os produtos.
Numero da decisão: 9303-004.240
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em não conhecer o Recurso Especial do Contribuinte, nos termos do voto do Relator designado. Vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que o conheceram.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Érika Costa Camargos Autran - Relatora
(assinado digitalmente)
Julio Cesar Alves Ramos - Relator Designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran, Andrada Márcio Canuto Natal, Julio Cesar Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ERIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN
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CLASSIFICAÇÃO FISCAL Recorrente CISA TRADING S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 02/06/2008 a 16/07/2008 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusões díspares. Em se tratando de classificação fiscal de produtos, recorrida e paradigma devem tratar do mesmo produto, admitindose, excepcionalmente, que se refiram a produtos distintos, mas referidos no mesmo código NCM, quando a discussão travada nas duas decisões puder ser aplicada a ambos os produtos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em não conhecer o Recurso Especial do Contribuinte, nos termos do voto do Relator designado. Vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que o conheceram. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora (assinado digitalmente) Julio Cesar Alves Ramos Relator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran, Andrada Márcio AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 46 6. 00 31 80 /2 00 8- 59 Fl. 597DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 3 2 Canuto Natal, Julio Cesar Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello. Relatório Trata o presente de recurso especial de divergência, tempestivo, interposto pelo sujeito passivo, ao amparo do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF n.º 256, de 22 de junho de 2009, em face do acórdão n.º 3202001.438, de 11/12/2014, que traz a seguinte ementa: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Fato Gerador: 28/08/2007 CARTUCHOS DE TONER DE MÁQUINA MULTIFUNCIONAL. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. Por aplicação da RGI/SH 3C, combinada com a RGI/SH 6 e a RGC1, os cartuchos de toner de máquina multifuncional devem ser classificados no código 8443.99.39. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA NA NCM. Mantida a reclassificação fiscal efetuada, é cabível a multa de 1% sobre o valor aduaneiro decorrente da incorreição na classificação fiscal na NCM adotada pela contribuinte na DI. MULTA DE OFÍCIO. O não cumprimento da legislação fiscal sujeita o infrator à multa de ofício no percentual de 75% do valor do imposto lançado de ofício, nos termos da legislação tributária específica. JUROS DE MORA. Os juros de mora decorrem de lei e, por terem natureza compensatória, são devidos em relação ao crédito não integralmente pago no vencimento, seja qual for o motivo determinante da falta de recolhimento no prazo legal. Recurso voluntário negado Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Thiago Moura de Albuquerque Alves e Tatiana Midori Migiyama. (grifos nossos) Cuida o presente processo de lançamento de ofício para cobrança do Imposto de Importação, do IPI, do PIS e da Cofins, acrescidos da multa de ofício de 75% pela falta de pagamento do tributo (art. 44, I, da Lei n. 9.430/1996 com a redação dada pelo art. 14 da Lei n.º 11.488/2007) e também da multa regulamentar de 1% sobre o valor da mercadoria classificada incorretamente na NCM (art. 84, inciso I, da Medida Provisória n.° 215835/2001 combinado com o art. 69 e art. 81, inc. IV, da Lei n.º 10.833/2003), em decorrência de Fl. 598DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 4 3 classificação incorreta de mercadorias, detectada em ato de conferência aduaneira, de “cartuchos de toner de diversos modelos", os quais foram classificados pelo importador no código NCM/SH 8443.99.29. A fiscalização entendeu que os cartuchos são partes de máquinas multifuncionais do código NCM/SH 8443.31.00, devendo ser classificados no código NCM/SH 8443.99.39. A contribuinte apresentou recurso voluntário perante este Colegiado onde repisa os argumentos já trazidos na impugnação, além de citar julgados proferidos pelo CARF sobre a matéria, requerendo a reforma da decisão recorrida, com a anulação das cobranças dos tributos e das multas aplicadas. O Colegiado negou provimento ao Recurso voluntário, com base em normas jurídicas consubstanciadas nas RGI/SH, as quais revelam que os “cartuchos de toner de diversos modelos” devem ser classificadas no código NCM/SH 8443.99.39, em função do que dispõe a RGI/SH 3C (a utilização do item situado em último lugar na ordem numérica), não cabendo aludir a direito consuetudinário, sob o argumento de que há soluções de consultas em sentido divergente ao adotado pela fiscalização. Inconformada, a contribuinte interpôs Recurso Especial, evidenciando a divergência entre o entendimento exarado no Acórdão Recorrido e os Acórdãos paradigmas, no que tange à aplicação e interpretação da Regra 3 das Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado. Ou seja, entendeuse (paradigma), que a função principal das multifuncionais seria a de impressão, de forma a se afastar a incidência da Regra 3c das RGI/SH, posto haver uma NCM mais específica, conforme Regras 3a e 3b; entendimento este que deve ser estendido aos acessórios cartuchos de toner (mercadoria importada), o que contraria o entendimento do acórdão recorrido. Então, no caso presente do recurso especial, concentrase no mérito da questão quanto a diferença de classificação. O recurso foi admitido por intermédio de despacho do Presidente da Câmara recorrida. Contrarrazões foram apresentadas. É o relatório, em síntese. Voto Vencido Conselheira Érika Costa Camargos Autran Da admissibilidade O Recurso Especial do Contribuinte é tempestivo e atende os requisitos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido, conforme razões expostas abaixo Fl. 599DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 5 4 O cerne do presente litígio referese à correta classificação fiscal a ser atribuída aos produtos importados descritos como “cartuchos de toner de diversos modelos”, os quais foram classificados pelo importador no código NCM/SH 8443.99.29. A fiscalização entendeu que os cartuchos são partes de máquinas multifuncionais do código NCM/SH 8443.31.00, devendo ser classificados no código NCM/SH 8443.99.39. E o acórdão recorrido, com base em normas jurídicas consubstanciadas nas RGI/SH, entendeu que os "cartuchos de toner de diversos modelos” devem ser classificadas no código NCM/SH 8443.99.39, em função do que dispõe a RGI/SH 3C (a utilização do item situado em último lugar na ordem numérica), não cabendo aludir a direito consuetudinário, sob o argumento de que há soluções de consultas em sentido divergente ao adotado pela fiscalização. ] A contribuinte então interpôs Recurso Especial, evidenciando a divergência entre o entendimento exarado no Acórdão Recorrido e os Acórdãos paradigmas, no que tange à aplicação e interpretação da Regra 3 das Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado. O paradigma entendeu que a função principal das multifuncionais seria a de impressão, de forma a se afastar a incidência da Regra 3c das RGI/SH, posto haver uma NCM mais específica, conforme Regras 3a e 3b; entendimento este que deve ser estendido aos acessórios cartuchos de toner , o que contraria o entendimento do acórdão recorrido. E visando comprovar a divergência foram apontados diversos paradigmas, no entanto cito os seguintes Acórdãos 3802001.002, 3803002.648, e 310100.253: Acórdão 3802001.002, de 22/05/2012: Assunto: Classificação de Mercadorias Data do fato gerador: 17/03/2006 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. IMPRESSORA MULTIFUNCIONAL. O produto caracterizado como impressora multifuncional, que execute pelo menos duas das seguintes funções: impressão, cópia ou transmissão de telecópia (fax), capaz de ser conectada a uma máquina automática para processamento de dados ou a uma rede, encontrava adequada classificação fiscal no código NCM 8471.60 utilizado pelo importador, tal como adotado pelo Decreto n° 5.802/06, diversamente do definido pelo Ato Declaratório Interpretativo SRF No. 7 de 26/07/2005. Atualmente, com a edição da Resolução n° 07/08 do Mercosul, o produto encontra correta classificação fiscal no código NCM 8443.31 RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO." ACORDAM os membros da 2ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatórioe votos que integram o presente julgado. Acórdão 3803002.648, de 21/03/2012: Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 24/02/2006 a 14/03/2006 Fl. 600DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 6 5 EQUIPAMENTOS MULTIFUNCIONAIS. CLASSIFICAÇÃO. CARACTERÍSTICA ESSENCIAL. Os produtos constituídos pela reunião de aparelhos diferentes classificamse pela matéria ou artigo que lhes confira a característica essencial, quando for possível realizar esta determinação, segundo Regra Geral para Interpretação do Sistema Harmonizado. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 24/02/2006 a 14/03/2006 LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INSUBSISTÊNCIA DO MOTIVO. CANCELAMENTO Deve ser cancelado o lançamento fundado em motivo que se revela insubsistente, consubstanciado na atribuição de erro na classificação fiscal procedida pela Contribuinte, que se verifica correta. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade. O Conselheiro Belchior Melo de Sousa, neste aspecto acompanhou o relator por suas conclusões. No mérito, por maioria de votos, deuse provimento ao recurso.Vencido o Relator. Designado para a redação do voto vencedor o Conselheiro Belchior Melo de Sousa. Acórdão 310100.253, de 19 de outubro de 2009 ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Data do fato gerador: 28/09/2005 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. IMPRESSORA MULTIFUNCIONAL. A classificação fiscal adotada pelo Fisco (Ato Declaratório Interpretativo SRF n° 7/2005) para as impressoras multifucionais, não cumpre o rigor das regras de classificação fiscal, pois as funções nela disponíveis e a característica de sua conectividade com máquinas de processamento de dados, afastaa da posição 9009. A confirmação dessa interpretação está atualmente passificada no âmbito do Mercosul, por seu Comitê Técnico n° 1 da Comissão de Comércio do Mercosul que aceitou o laudo técnico do produto apresentado pela delegação brasileira e concluiu que o produto denominado comercialmente de "impressora multifuncional" tratase de uma impressora com diversas funções, razão pela qual determinou a sua classificação no código NCM 8443.31, como "máquinas que executem pelo menos duas das seguintes funções: impressão, cópia ou transmissão de telecópia (fax), capazes de ser conectadas a uma máquina automática para processamento de dados ou a uma rede" (CXXXVIII Reunião do Comitê Técnico n° 1 "Tarifas, Nomenclatura e Classificação de Mercadorias" MERCOSUL/CCM/CT N° 1/ ATA N° 08/08) Recurso Voluntário Provido. Para melhor ilustrar a divergência ora sob análise, cabe transcrever fragmentos dos votos dos acórdãos paradigmas, respectivamente: Acórdão 3802001.002 "Tenho que, a princípio, em termos objetivas, as máquinas multifuncionais, da forma como se apresentam no presente caso, possuem normalmente como principal função a de impressão. Com efeito, em geral, é essa a função própria Fl. 601DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 7 6 desses equipamentos, sendo as demais funções realizadas de forma secundária não por outra razão são comercialmente conhecidas como impressoras multifuncionais. " Acórdão 3803002.648 Os produtos constituídos pela reunião de aparelhos diferentes classificamse pela matéria ou artigo que lhes confira a característica essencial, quando for possível realizar esta determinação, segundo Regra Geral para Interpretação do Sistema Harmonizado. Portanto é forçoso concluir como correta a classificação procedida àquele tempo pela contribuinte. " Já o acórdão recorrido indica que não se pode aplicar as Regras 3a e 3b, porque os cartuchos de toner importados pela Recorrente tanto poderiam ser utilizados para impressão quanto para cópia, conforme trecho do voto abaixo: "A Regra 3a é clara: devese classificar a mercadoria na posição (no caso, item) mais específica. Esclarece a NESH que posição mais específica é aquela que identifica a mercadoria mais claramente, com descrição mais precisa e completa. Acontece que o item referente a partes e acessórios de impressora é tão específico quanto os itens referentes a partes e acessórios de telecopiadoras e de copiadoras, não trazendo nenhum deles qualquer descrição mais precisa ou completa da mercadoria em relação aos outros, uma vez que esta se trata de cartucho de toner que pode ser utilizado, indistintamente, em qualquer uma das funções, seja ela impressão, cópia ou telecópia. Não se mostra possível, portanto, a aplicação da regra 3a. Por sua vez, a regra 3b determina a classificação pela matéria ou artigo que configure à mercadoria sua característica essencial, porém é aplicável somente nos casos de i. produtos misturados; ii. obras compostas de matérias diferentes; iii. obras constituídas pela reunião de artigos diferentes; e iv. mercadorias apresentadas em sortidos acondicionados para venda a retalho. A mercadoria em questão não se trata de nenhum dos 4 casos em que a regra pode ser aplicada." Vale ressalta que de acordo com a Regra Geral n.º 1 para a Interpretação do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias: “Os títulos das Seções, Capítulos e Subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, pelas Regras seguintes:”. Entretanto, caso pareça que a mercadoria possa classificarse em duas ou mais posições, a classificação deverá efetuar se na forma da Regra Geral nº 3: a) A posição mais específica prevalece sobre as mais genéricas. Todavia, quando duas ou mais posições se refiram, cada uma delas, a apenas uma parte das matérias constitutivas de um produto misturado ou de um artigo composto, ou a apenas um dos componentes de sortidos acondicionados para Fl. 602DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 8 7 venda a retalho, tais posições devem considerarse, em relação a esses produtos ou artigos, como igualmente específicas, ainda que uma delas apresente uma descrição mais precisa ou completa da mercadoria. b) Os produtos misturados, as obras compostas de matérias diferentes ou constituídas pela reunião de artigos diferentes e as mercadorias apresentadas em sortidos acondicionados para venda a retalho, cuja classificação não se possa efetuar pela aplicação da Regra 3 a), classificam se pela matéria ou artigo que lhes confira a característica essencial, quando for possível realizar esta determinação. c) Nos casos em que as Regras 3 a) e 3 b) não permitam efetuar a classificação, a mercadoria classificase na posição situada em último lugar na ordem numérica, dentre as suscetíveis de validamente se tomarem em consideração. Desta maneira, o contraste das ementas e do teor dos votos das decisões evidencia a divergência entre o entendimento exarado no Acórdão Recorrido e os Acórdãos paradigmas, no que tange à aplicação e interpretação da Regra 3 das Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado. Ou seja, entendeuse (paradigma), que a função principal das multifuncionais seria a de impressão, de forma a se afastar a incidência da Regra 3c das RGI/SH, posto haver uma NCM mais específica, conforme Regras 3a e 3b; entendimento este que deve ser estendido aos acessórios cartuchos de toner (mercadoria importada), o que contraria o entendimento do acórdão recorrido. Diante do exposto, comprovada a divergência, voto no sentido de conhecer do recurso interposto pelo contribuinte. Vencida no conhecimento, deixo de analisar o mérito. É como voto. ÉRIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN Relatora Voto Vencedor Conselheiro Júlio César Alves Ramos redator para o acórdão Fui designado pela Presidência para a redação das razões pelas quais a maioria do colegiado, divergindo da relatora, não conheceu do recurso apresentado. Elas se resumiram à constatação de que todos os acórdãos trazidos como paradigma referemse a impressoras e não a cartuchos de impressora. O colegiado, mantendo longa jurisprudência, não entendeu oponíveis decisões relativas a classificação fiscal quando diferentes os produtos por classificar. Nessa linha, quando muito, podem ser opostos itens distintos, mas que pertençam ao mesmo código NCM. E, ainda assim, a semelhança entre eles tem de ser tal que a discussão travada em ambos possa ser tomada como suficiente à definição da classificação correta. Fl. 603DF CARF MF Processo nº 12466.003180/200859 Acórdão n.º 9303004.240 CSRFT3 Fl. 9 8 No caso em discussão, pretende a recorrente que a divergência se deu quanto à aplicação da regra 3A do sistema harmonizado. Para ela, as decisões paradigmas a aplicaram e a recorrida não. Ora, isso não pode bastar à caracterização de divergência, a menos que se pretenda aceitála sempre que a regra que o recorrente pretendia ver aplicada não o for. Muito mais do que isso, o que importa para configurar a divergência, quando a matéria envolve a classificação fiscal de produtos, é que colegiados distintos tenham proposto classificações diferentes para o mesmo produto, pouco importando se o fizeram aplicando a mesma regra de classificação ou diferente. Em qualquer caso, caberá à CSRF dizer qual das duas propostas é a correta, ratificando, por consequencia, a aplicação da regra correspondente, quando divergentes. De outra banda, não basta meramente apontar a regra que deve ser aplicada sem daí deduzir a consequência para o específico produto em consideração. Isso só tem valor se for ratificada a decisão recorrida, pois, para o produto que interessa classificar, somente ela disse que a regra é tal e a consequência, qual. No "paradigma" estáse a dizer que, para produto distinto, a regra é outra. Ainda assim, para o produto que queremos classificar, resta a pergunta: e daí? Com efeito, os "paradigmas" entenderam que para as impressoras multifuncionais, dadas as características delas, impressoras, a regra a ser adotada é a 3A. Mas o que nos autoriza a concluir que as características do toner são as mesmas, como faz a dra. Érika, ao dizer " entendimento este que deve ser estendido aos acessórios cartuchos de toner". Por quê? Toner é uma coisa e impressora é outra. Por isso, nada, para ele, se extrai da conclusão de que " a função principal das multifuncionais seria a de impressão, de forma a se afastar a incidência da Regra 3c das RGI/SH". Isso pode perfeitamente ser verdade para a impressora e não o ser para o toner. Do mesmo jeito que " haver uma NCM mais específica" para impressoras não impõe que haja uma para o toner. O que essas próprias expressões demonstram é quais os critérios que devem ser seguidos na aplicação das subdivisões da regra 3. Sobre isso não há divergência alguma. O que há é que um outro produto (segundo os paradigmas) tem uma função principal identificável e posição específica. Como a decisão recorrida disse que o toner não os tem, precisaríamos de acórdão que dissesse, contrariando a recorrida, que ele também o tem. E isto não pode ser dito originariamente pelo colegiado superior, como o fazia a relatora. Essas as razões que levaram o colegiado a não admitir o recurso. Esse o acórdão que me coube redigir. Conselheiro Júlio César Alves Ramos Fl. 604DF CARF MF
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