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Numero do processo: 10530.721612/2011-66
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
LIVRE INICIATIVA. LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL.
A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerando-se a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal.
SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS.
A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados.
CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL.
Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitar-se da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais.
Numero da decisão: 9101-002.795
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL. A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerandose a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal. SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS. A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 16 12 /2 01 1- 66 Fl. 19523DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.524 2 CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL. Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitarse da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado). (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Fl. 19524DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.525 3 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela FAZENDA NACIONAL (efls. 19315/19338) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1101000.852 (efls. 19286/19313), pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 05/03/2013, no qual foi dado provimento ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte. Resumo Processual A autuação fiscal, relativa aos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, discorre sobre as pessoas jurídicas MK Eletrodomésticos Ltda ("MK"), ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda ("ME"), ALPHAPRO Cuidados Pessoais Ltda (antiga MC Climatização, "Alpha") e Mondial Eletrodomésticos ("Mondial"), que fabricam, importam e comercializam produtos com a marca comercial "Mondial". Entendeu a Fiscalização que as empresas, apesar de constituídas como pessoas jurídicas diferentes, na realidade seriam uma mesma universalidade, e a separação teria sido realizada com o objetivo de reduzir a carga tributária. Foram realizados ajustes na base de cálculo, considerandose a apuração incidente sobre apenas uma empresa, a MK, identificada como sujeito passivo direto (Contribuinte). As demais empresas, ME, Alpha e Mondial foram arroladas como sujeitos passivos indiretos (sujeito passivo solidário com fulcro no art. 124 do CTN). A MK apresentou impugnação que foi julgada improcedente pela primeira instância (DRJ). Irresignada, a Contribuinte interpôs recurso voluntário, no qual foi dado provimento pela segunda instância (Turma Ordinária do CARF). Foi interposto pela PGFN recurso especial e a Contribuinte apresentou contrarrazões. O recurso foi admitido por despacho de exame de admissibilidade. A seguir, maiores detalhes sobre a autuação fiscal. Da Autuação Fiscal Discorre a autoridade autuante (efls. 20/47) que as empresas MK, ME, Alpha e Mondial, constituídas em pessoas jurídicas diferentes, eram, na realidade, uma mesma empresa, fundamentando suas conclusões nas seguintes constatações: (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras. Entendeu a autoridade autuante que não haveria nenhum motivo negocial para o desmembramento e existência segmentada das quatro empresas. Concluiu que o único objetivo do desmembramento da empresa em quatro seria a redução do pagamento de tributos e vantagens fiscais no âmbito do ICMS, razão pela qual as operações tributáveis das quatro empresas foram consolidadas. Fl. 19525DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.526 4 Foi eleita com Contribuinte, sujeito passivo direto, a MK, por ser a única empresa que mantém atividade industrial e comercial utilizando a marca “Mondial”, e por possuir em seu quadro societário, o efetivo responsável pelas operações das empresas, Sr. Alberto Baggiani. As demais empresas, ME, Alpha e Mondial foram incluídas no pólo passivo na condição de sujeito passivo indireto, por conta da solidariedade do art. 124 do CTN . No processo de consolidação dos resultados, foram glosados e adicionados ao LALUR valores lançados em conta de despesas operacionais, financeiras e não operacionais, em razão do entendimento de que tais despesas ou provisões seriam indedutíveis na forma do RIR/1999. Os presentes autos tratam dos autos de infração de IRPJ e CSLL (efls. 04/62), relativos aos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, e dos Termos de Sujeição Passiva Solidária (efls. 18519/18527). Da Fase Contenciosa. A MK apresentou impugnação (efls. 18840 e segs), que foi julgada improcedente pela 1ª Turma da DRJ/Salvador, nos termos do Acórdão nº 1528.120 (efls. 19018 e segs.), conforme ementa a seguir. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário:2007, 2008, 2009. AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Tendo o auto de infração preenchido os requisitos legais e o processo administrativo proporcionado plenas condições à interessada de impugnar o lançamento, descabe a alegação de nulidade. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. CONTESTAÇÃO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008,2009. TRANSAÇÕES. LEGALIDADE. LEGITIMIDADE. O fato de cada uma das transações, isoladamente e do ponto de vista formal, ostentar aparente legalidade, não garante a legitimidade do conjunto de operações, quando fica comprovado que os atos praticados tinham objetivo diverso daquele que lhes é próprio. AUTOORGANIZAÇÃO. MOTIVAÇÃO NEGOCIAL. Fl. 19526DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.527 5 O princípio da liberdade de autoorganização, não mais endossa a prática de atos sem motivação negocial, sob o argumento de exercício de planejamento tributário. DESPESAS OPERACIONAIS. DEDUTIBILIDADE. Para efeitos da legislação do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, a dedução de dispêndios a título de custos ou despesas operacionais está condicionada a comprovação da efetividade da prestação dos serviços. Não basta comprovar que a despesa foi assumida e que houve o desembolso, é indispensável, principalmente, comprovar que o dispêndio corresponde à contrapartida de algo recebido de forma a demonstrar sua necessidade à fonte produtora do rendimento, e a conseqüente dedutibilidade na apuração do imposto. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL LANÇAMENTO. MESMOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS. IRPJ. DECORRÊNCIA. Em se tratando de lançamento decorrente dos mesmos pressupostos fáticos que serviram de base para o lançamento do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica, em razão da relação de causa e efeito existente entre as matérias, no que couber, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento ao relativo à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Foi interposto recurso voluntário (efls. 19083 e segs) pela MK (Contribuinte), apreciado pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção do CARF, na sessão de 05/03/2013. Decidiu o Acórdão nº 1101000.852 (efls. 19286 e segs) dar provimento ao recurso voluntário, conforme ementa a seguir. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009. PROVAS. COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS. PROCESSO. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Compete a fiscalização comprovar os fatos que afirma. Não basta juntar documentos e fazer afirmações, é preciso demonstrar como esses documentos comprovam os fatos afirmados. Não é razoável juntar dezenas de volumes de documentos sem fazer referencia às páginas que localizam os documentos e sem demonstrar como comprovam a acusação. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Se o relatório não identifica o documento referido, e se são juntados milhares de documentos, se o julgador buscar por si os documentos que entende comprovar os fatos alegados pela fiscalização, corre o risco de estar fazendo uma nova auditoria Fl. 19527DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.528 6 ou de substituir a fiscalização na fundamentação do auto de infração. LANÇAMENTO. PROVA DOS FATOS. O Fisco têm de comprovar os fatos que afirma ocorridos e que sustentam o lançamento. Sem isso, o lançamento é improcedente. Assunto: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009. SUJEITO PASSIVO. CONTRIBUINTE. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar uma delas como contribuinte. Se as empresas é parte da sociedade de fato, ela não pode ser o contribuinte. SUJEITO PASSIVO. RESPONSÁVEL. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar três delas como responsáveis. Se as empresas são partes da sociedade de fato, elas não podem ser os responsáveis. SUJEITO PASSIVO. SOCIEDADE DE FATO. LANÇAMENTO. Para efetuar o lançamento considerando existente uma sociedade de fato, o Fisco deve identificar a sociedade e apontar os sócios de fato, conforme consiga comprovar os fatos. SOCIEDADE DE FATO. PROVAS. Para a fiscalização considerar que quatro empresas são na verdade apenas uma, é preciso demonstrar haver confusão de objetivos sociais e de recursos. Portanto, é preciso comprovar que as empresas: não tinham vontade própria; e/ou não tinham um espaço físico especifico, mantido as suas custas; e/ou não possuíam maquinários próprios ou alugados; e/ou não adquiriam seus próprios insumos, matériasprima, ou mercadorias; e/ou não eram as contratantes de seus empregados; e/ou não efetuavam suas vendas; respondiam por seus contratos, produtos, empréstimos e atos; etc. Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 19315/19338). Protesta sobre entendimento da decisão recorrida, de que teria ocorrido vício na autuação fiscal na identificação do sujeito passivo, na medida em que foi indicada uma das pessoas jurídicas devedoras como contribuinte e as demais como responsáveis solidárias, vez que o reconhecimento da simulação importaria desconsiderar as personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas, que seria substituídas pela entidade única, e por isso a autuação deveria ter sido em face da sociedade de fato. Entende a recorrente que a tese não encontraria respaldo na jurisprudência do CARF, vez que para se caracterizar a simulação não seria necessária a descaracterização da pessoa jurídica. Interpretandose o art. 118, I e 149, VII Fl. 19528DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.529 7 do CTN, concluise que, se a situação formal diverge da realidade dos fatos, o Fisco deve reconhecer a ocorrência de simulação e proceder ao lançamento de acordo com a situação verdadeira dissimulada. Entende que a indistinção dos direitos e obrigações e, portanto, da receita auferida, ensejou a autuação que poderia dirigirse indistintamente a qualquer uma das pessoas jurídicas, eis que todas são responsáveis pelo tributo devido por se constituírem, em verdade, numa mesma entidade. E, ainda assim, a Fiscalização tomou cuidado de adotar critério para identificar a empresa que figuraria como responsável principal, indicando aquela em que o dirigente de fato era também o dirigente registrado nos estatutos da empresa. Quanto ao mérito, discorre que as provas apresentadas pela Fiscalização permitem a conclusão de que as diferentes empresas formavam uma só na realidade, visando a consecução de um único objeto social: a importação, industrialização e comercialização de produtos da marca MONDIAL. Assim, entende que a situação tratada nos autos subsumese à hipótese prevista no inciso I, § 1º, do art. 167, do Código Civil, pois os direitos atribuídos separadamente a cada uma das quatro empresas, ALPHAPRO, MONDIAL, ME ELETRONICA e MK ELETRONICA, eram gozados como se estas fossem uma entidade única, dirigida pela mesma pessoa, com identidade de objetos, sendo a separação motivada exclusivamente para fins tributários. O Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 19412/19418 deu seguimento ao recurso da PGFN. Foram apresentadas contrarrazões pela MK (efls. 19429/19472). Protesta sobre os acórdãos paradigmas apresentados pela recorrente, entendendo que não se mostrariam aptos a caracterizar a divergência necessária para o seguimento do recurso,por trataram de situações fáticas completamente distintas do caso em análise. No mérito, contesta o entendimento da Fiscalização, que admite nenhuma das quatro empresas existe isoladamente, posto que formariam, em verdade, uma empresa única, mas não informa qual seria a empresa materialmente existente sobre a qual deveria recair a autuação, incorrendo em vício na identificação do sujeito passivo. Sobre a mesma direção das empresas, a Contribuinte jamais negou tal situação, e esclareceu, desde o início, que se trata de um grupo econômico, composto por mais de uma empresa, cujos principais executivos são os mesmos, em um contexto normal no meio empresarial. Quanto ao mesmo endereço, as empresas funcionam em galpões vizinhos, e distintos. Em relação à mesma atividade desenvolvida, as empresas MK, ME e Alpha trabalhavam com produtos e mercados distintos, e a Mondial foi criada para fugir da guerra fiscal existente entre os Estados Federados, de forma que vendia os produtos da MK, ME e Alpha quase que exclusivamente para empresas localizadas fora do Estado da Bahia. Isso porque a MK, ME e Alpha gozavam de benefício fiscal de ICMS, e, por isso, empresas adquirentes fora do Estado da Bahia passaram a ter problemas para se apropriar do crédito de ICMS incidente em etapas anteriores perante os seus Estados (SP, MG, dentre outros). Assim, resolveu o grupo econômico criar uma quarta empresa, a Mondial, que não se utilizava do benefício fiscal de ICMS da Bahia, e, por isso, poderia vender os produtos para fora do Estado sem problemas. Por isso, a Mondial comprava os produtos da MK, ME e Alpha, para que pudessem ser revendidos para fora do Estado da Bahia. Sobre os processos trabalhistas, não há nenhuma menção de que um empregado seria compartilhado pelas quatro empresas, pelo contrário, a situação apresentada apenas confirma que são empresas de um mesmo grupo econômico. Sobre a acusação de interpostas pessoas, não teria ocorrido nos autos, vez que as pessoas constaram como sócias das empresas apenas na fase inicial, antes mesmo das empresas darem início às suas atividades, tanto que o quadro societário foi alterado posteriormente. Sobre a conta de consumo, a conta de energia era no nome da ME porque era a empresa que era proprietária dos imóveis, e os galpões eram alugados para as outras empresas, sendo que a Fl. 19529DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.530 8 própria Fiscalização reconheceu que as despesas de energia eram devidamente partilhadas. Sobre a mesma contabilidade e o mesmo contador, tratase de situação ideal, no qual as empresas do mesmo grupo econômico tenham uma padronização nos seus registros contábeis. Quanto à simulação para reduzir a carga tributária, devese observar que em 2007 as empresas que estavam submetidas ao Lucro Presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores do que aquelas que estavam sujeitas ao Lucro Real (Mondial e Alpha). E a Mondial auferia prejuízo fiscal porque apenas revendia, a preço de custo, os produtos das outras três empresas. Enfim, a partir de 2009, todas as empresas optaram pelo regime de tributação do Lucro Real, ou seja, a tese da "simulação" perde todo o objeto. E, caso se houvesse o intuito de manipular os valores de tributo a recolher, o que deveria ter sido feito era concentrar todas as despesas nas empresas optantes pelo lucro real, e não ratear as despesas em todas as empresas do grupo econômico. Requer, ao final, pela manutenção da decisão recorrida na sua integralidade. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Admissibilidade Tratase de recurso especial interposto pela PGFN, que foi dado seguimento pelo despacho de admissibilidade de efls. 19412/19418. Apresentou a recorrente divergência para as matérias denominadas "legitimidade passiva em caso de simulação" e "divergência quanto a fatos indiciários de simulação", utilizandose o mesmo paradigma para ambas, o Acórdão nº 240100.056, da Primeira Turma da Quarta Câmara da Segunda Seção de Julgamento. Para a segunda matéria também foi apresentado como paradigma o Acórdão nº 110200.667. Transcrevese a ementa do acórdão paradigma nº 240100.056: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 RELAÇÃO JURÍDICA APARENTE DESCARACTERIZAÇÃO Pelo Princípio da Verdade Material, se restar configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. O mero exame da ementa não se mostra suficiente para entender o contexto da decisão. Fl. 19530DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.531 9 A situação tratada nos autos do processo paradigma diz respeito a empresas cuja composição societária é composta por membros de uma mesma família (Cechinel). A empresa eleita como sujeito passivo direto é a Confecções Roscel Ltda que concentra a administração das empresas e o faturamento, além de possuir pequeno número de empregados. A empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda responde pela fabricação das confecções, concentra grande número de empregados, é optante pelo sistema diferenciado de tributação SIMPLES, não possui patrimônio, tem faturamento inexpressivo, e mesmo ausente em determinados períodos. Uma terceira empresa realiza as operações de venda, a Industria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda, e possui parcelamento especial (REFIS). A acusação fiscal é de que a separação seria artificial, e as três empresas seriam, na realidade, uma só, a Confecções Roscel Ltda. O arranjo teria como objetivo elidir a incidência da contribuição previdenciária patronal. Vale transcrever excerto do voto: Embora a recorrente tente fazer transparecer que se trata de empresas independentes entre si, não é o que se verifica. As empresas Confecções Roscel Ltda e Roscel Indústria do Vestiário Ltda funcionam no mesmo local e possuem empregados registrados em uma empresa prestando serviços em outra. Segundo a auditoria fiscal, as empresas têm como administrador, embora não conste atualmente do quadro societário, o fundador do grupo, Sr. Celso Cechinel. Ao contrário do que alega a recorrente não é absolutamente natural que uma pessoa que não participe mais formalmente da gestão de uma empresa possa falar em nome da mesma ou substituir os responsáveis formais, ainda que sejam seus filhos. Verificouse que a Confecções Roscel Ltda paga despesas relativas à Roscel Indústria do Vestuário Ltda como insumos, água e esgoto, contribuição para sindicato de classe, contribuição para o INSS e que, embora a Confecções Roscel Ltda contasse com apenas 2 empregados no ano de 2005 e a fábrica com 125, aquela efetuou o pagamento à empresa especializada para realização de exames médicos, bem como elaboração de PCMSO, PPRA e LTCAT de ambas as empresas. Ainda foi verificado que após a opção pelo SIMPLES da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, houve um remanejamento de vínculos da Indústria e Comércio de Confecções Cechinal Ltda para a primeira. (...) No caso em questão, despesas da Roscel Indústria do Vestuário Ltda foram pagas pela Confecções Roscel Ltda e, segundo consta do Relatório Fiscal, não houve emissão de notas fiscais da primeira, embora tenha número significativo de empregados e despesas que seriam normais em uma empresa independente e ativa. A semelhança com a situação tratada nos presentes autos mostrase evidente. As acusações fiscais para descaracterizar a separação das empresas, tanto nos presentes autos Fl. 19531DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.532 10 quanto no do paradigma, discorrem sobre o fato de que são empresas geridas pela mesma pessoa e grupo econômico, optantes por regimes de tributação diferentes visando reduzir a carga tributária, com localizações em lotes vizinhos, comunicação artificial de receitas e despesas, compartilhamento de empregados, existência de mesmo escritório de contabilidade, dentre outros. No paradigma, são três empresas, de um mesmo grupo econômico, sob regimes de tributação diferenciados, que teriam sido constituídas artificialmente, e que na realidade eram uma só, no qual foi eleita como sujeito passivo a Confecções Roscel Ltda, e cuja construção teria sido com o intuito de reduzir a carga tributária. No recorrido, são quatro empresas, de um mesmo grupo econômico, sob regimes de tributação diferenciados, que teriam sido construídas artificialmente para viabilizar redução na carga tributária, e no qual uma delas foi eleita como sujeito passivo direto, a MK. E, mediante suportes fáticos similares, a interpretação da legislação tributária para as decisões recorrida e paradigma foi divergente. Na decisão recorrida, entendeuse que a construção societária não teria sido artificial, que não estaria demonstrada, constatação que tem repercussão, naturalmente, na eleição dos sujeitos passivos (direto e indiretos), ou seja, que, se a criação das quatro empresas não teria sido eivada de ilicitude, se existiam de fato, por consequência entendimento da autoridade autuante de que a MK seria a contribuinte e as demais três empresas seriam solidárias teria perdido sustentação. Na decisão paradigma, entendeuse que a construção societária das três empresas teria sido artificial, que restou demonstrado o intuito deliberado de redução indevida da carga tributária, e nesse contexto, considerouse acertada a eleição de uma das empresas como sujeito passivo direto. Observase que, caso fosse dada para a decisão recorrida a mesma interpretação da legislação tributária conferida pela decisão paradigma, o resultado seria no sentido de que as quatro empresas teriam sido construídas artificialmente, com a finalidade de se estruturar valendose de regimes de tributação diferenciados visando indevida redução de carga, e, por consequência, não haveria óbice para a MK ser eleita como sujeito passivo direto. Seria dada interpretação da legislação tributária completamente diferente daquela proferida na decisão recorrida. Nesse sentido, tendo em vista que o Acórdão nº 240100.056 prestase como paradigma para caracterizar a divergência, resta atendido o art. 67, Anexo II do RICARF. Portanto, conheço o recurso especial da PGFN. Mérito O que se discute é se a constituição de quatro empresas, MK Eletrodomésticos Ltda ("MK"), ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda ("ME"), ALPHA PRO Cuidados Pessoais Ltda (antiga MC Climatização, "Alpha") e Mondial Eletrodomésticos ("Mondial"), que fabricam, importam e comercializam produtos com a marca comercial "Mondial", seria ou não uma construção artificial, ou seja, se as quatro pessoas jurídicas seriam, na realidade, uma só sociedade empresária, e que teria se segregado com a finalidade de buscar uma indevida redução de tributos. Nesses casos são coletados indícios que, a depender da perspectiva em que são interpretados, convergem rumo a diferentes direções. Mas há sempre um fator Fl. 19532DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.533 11 determinante, um imã que vai agir de maneira preponderante no sentido de atrair os indícios para uma convicção. Na seara tributária, naturalmente, o pólo de atração é se as decisões empresariais tomadas e as correspondentes ações empreendidas tiveram como objetivo um deliberado decréscimo na base de cálculo dos tributos a pagar. Certamente a Lei Maior, ao discorrer sobre a ordem econômica e financeira e dos princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. E a atuação deve ser norteada por princípios fundamentais, como os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, estabelecidos, não por acaso, já no art. 1º. Ocorre que a livre iniciativa é utilizada, de maneira desvirtuada, para justificar construções societárias completamente descontextualizadas, implicando segregações de empresas visando deliberadamente o afastamento da obrigação de pagar tributos. Livre iniciativa não comporta tal comportamento. Pelo contrário, tratase de valor que se submete a outros valores tutelados pelo Estado Democrático de Direito. Não se consubstancia em direito superior, fora do alcance de outros tutelados pelo sistema jurídico, a ponto de poder ser exercido sem que necessite prestar esclarecimentos ao Estado e à sociedade. Vale transcrever abalizada doutrina sobre o assunto 1: A construção do Estado Democrático de Direito, anunciado pelo art. 1º, passa por custos e estratégias que vão além da declaração de direitos. Não há Estado Social sem que haja Estado Fiscal, são como duas faces da mesma moeda. Se todos os direitos fundamentais têm, em alguma medida, uma dimensão positiva, todos implicam custos. Conforme salientam Holmes e Sunstein, nenhum direito é apenas o direito de ser deixado só pelo poder público. (...) Logo, levar direitos a sério exige que seus custos também sejam levados a sério. (grifei) Nesse contexto, é interesse do Estado incentivar a livre iniciativa, e produção econômica, que irá gerar a principal fonte de receita estatal, a arrecadação de tributos. Assim, legislação tributária autoriza, a partir de parâmetros estabelecidos em lei, que o contribuinte possa eleger um regime de tributação que melhor se amolde às suas atividades. Fato é que foram estabelecidas distinções entre pessoa física e pessoa jurídica. A pessoa física tem a opção entre apresentar a declaração de rendimentos completa ou simplificada, enquanto que a pessoa jurídica dispõe de um maior leque de regimes de tributação. Por que tem a pessoa jurídica tratamento mais favorável por parte do Estado? Porque se parte da premissa que a pessoa jurídica tem um efeito multiplicador, irá fomentar desenvolvimento, gerar empregos, exercendo papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, auferir rendas e possibilitar uma maior arrecadação de tributos para o próprio Estado. Por isso, falase em regimes de tributação diferenciados para a pessoa jurídica. 1 MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional, 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 1365. Fl. 19533DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.534 12 Assim, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação, para, por exemplo, desvirtuar o instituto da pessoa jurídica para construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base menor, são condenáveis porque afrontam o sistema tributário e afrontam as premissas que autorizam tratamentos diferenciados para determinados contribuintes (como, por exemplo, as pessoas jurídicas). A livre organização encontra limites, a depender da lesão a impor na coletividade. O liberalismo, laisserfaire, que blindava integralmente o indivíduo contra a ação do Estado, visto como um odioso interventor nas liberdades individuais, é modelo que foi submetido a revisões no decorrer da história recente para se amoldar às necessidades da sociedade. Há tempos exigese do Estado atuação mais presente, em maior ou menor grau, a depender da corrente econômica e/ou política, mas é incontestável que a cobrança de tributos é contraprestação necessária e indispensável para que o Estado possa desenvolver suas atividades. No caso concreto, vários indícios foram colhidos pela autoridade autuante, avaliados inicialmente pela primeira instância (DRJ), que manteve entendimento de construção artificial das quatro empresas. Por sua vez, os mesmos indícios foram apreciados pela segunda instância (CARF), que entendeu pelo afastamento da autuação. Os critérios para cognição dos indícios são diversos, tanto que, como se pode observar, recebeu diferentes interpretações por cada uma das instâncias de julgamento. Fato é que grande parte dos indícios apresentados pela ação fiscal são incontroversos: (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras. O que é controverso é em que direção que devem convergir. De acordo com o recurso da PGFN, são indícios que lastreiam entendimento de que houve uma construção artificial, que as quatro empresas são uma só, e que foram segregadas para viabilizar uma redução indevida de tributos. Para a Contribuinte, a constituição das quatro empresas decorreu de decisões com lastro negocial, visando uma melhor organização do grupo e otimizar o desempenho de suas atividades operacionais. Tratase de situação em que se mostra inevitável averiguar a força motriz que, efetivamente, impulsionou as decisões da Contribuinte de segregar suas atividades em quatro empresas. A acusação fiscal pautouse na seguinte conclusão: 43 A constituição de diferentes empresas foi feita com o objetivo de reduzir a carga tributária incidente sobre as atividades da empresa, conforme se segue:(...) As empresas ME e MK, optantes do lucro presumido, e a empresa Alpha, lucro real, vendiam seus produtos para a Mondial (lucro real) que, por sua vez, efetuava a revenda para o mercado interno. Fl. 19534DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.535 13 A estruturação foi contestada pela autoridade autuante, ao dizer que a opção pelo lucro presumido pela ME e MK para os anoscalendário de 2007 e 2008 proporcionou uma redução na base tributável de R$4.469.125,43 em 2007 e R$13.715.674,05 em 2008 para o IRPJ e a CSLL, enquanto que as outras duas empresas do grupo, submetidas ao lucro real, foram submetidas a bases tributáveis menores, inclusive auferindo prejuízos (Mondial). Aduziu ainda que: Como se vê, as empresas optantes pelo lucro presumido obtiveram uma margem de lucro bastante superior às de lucro real. Isto se explica em parte pelas vendas feitas pela MK e ME à Mondial, onde os produtos eram vendidos por preço superior ao que a Mondial vendia aos clientes externos, conforme explicado no item 3.1. Outra explicação é a concentração de despesas na empresa Mondial que, por sua vez, repassava parte dessas despesas à empresa AlphaPró, como, por exemplo, as despesas decorrentes de contratos comerciais com os varejistas, como bônus, comissões, VPC, transportes, etc”. Por outro lado, em contrarrazões, manifestouse a Contribuinte quanto ao fato de a ME e MK terem optado pelo lucro presumido e a Mondial e Alpha pelo lucro real: 147. Conforme devidamente comprovado no seu Recurso Voluntário, cada empresa tinha uma finalidade e sua atividade própria, de modo que os produtos comercializados por cada empresa eram totalmente distintos e envolviam mercados e riscos diferentes. 148. A criação de cada uma das empresas teve uma razão de ser e um motivo empresarial: a) criouse a ME para a realização de importações e vendas de produtos importados; b) resolveuse dividir os riscos das atividades da ML, criandose duas novas empresas, em duas etapas: i) primeiro, uma parte dos produtos que eram fabricados pela ML passou a sêlo pela MK; ii) depois, a parte restante passou a ser fabricada pela MC, ambas já alocadas em Conceição do JacuípejBA, pois a ML enfrentava muitos problemas financeiros e com a contratação de pessoal; c) por fim, criouse a Mondial Eletrodomésticos para que fosse possível realizar as vendas dos produtos fabricados ou importados para fora da Bahia, a fim de fugir da guerra fiscal. 149. Em outras palavras: as atividades de cada empresa são distintas, tendo em vista que não fabricavam os mesmos produtos, e a segregação delas tinha a finalidade exclusivamente gerencial e negociaI. 150. Ademais, a "tese" de que o desmembramento das atividades buscava apenas reduzir tributos não se fundamenta e é contraposta às provas acostadas pela própria Fiscalização. A grande questão é a seguinte: Qual o benefício tributário que a empresa obteve em desmembrar as suas atividades? A resposta inferida da prova dos autos é nenhuma! (grifei) E sobre a alegação de que as vendas da MK e da ME para a Mondial eram em valor inferior ao que a Mondial revendia para o mercado, manifestouse a Contribuinte: Fl. 19535DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.536 14 115. A partir do surgimento desta nova empresa, A ME, MK e MC continuaram vendendo os seus produtos diretamente para os clientes localizados dentro da Bahia e passaram a vender outra parte de seu estoque para a Mondial, para que esta realizasse as vendas para os clientes localizados fora do território baiano. 116. Ora, conforme já explicitado, a Mondial Eletrodomésticos era uma mera revendedora assim, não tinha porque aumentar os preços praticados pelas outras empresas do grupo. Não havia valor agregado! 117. Quanto à alegação de que a MK e ME vendiam seus produtos por um preço maior que aquele que era praticado pela MONDIAL, tal asserção também não tem respaldo na realidade. 118. A ocorrência eventual de vendas aos clientes, pela Mondial, em preço menor do que o praticado na venda das outras empresas do grupo para ela, refletem estratégias comercias (promoções), que decorrem das leis do mercado (oferta e procura), não tendo, portanto, qualquer relação com fraude ou simulação. Vale notar que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu em apenas um mês ("na passagem do mês de Julho para Agosto de 2007" página 08, ponto "31", do Termo de Verificação), pois não era prática corriqueira da empresa. Tratouse, como dito, de estratégia comercial pontualíssima. Sobre o tema também se pronunciou a decisão recorrida: Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial. Ainda, a explicação dada pelo contribuinte, de que foram concedidos descontos pela Mondial, é plausível. Ademais, mesmo que ficasse comprovada a prática de venda para a Mondial por valor acima do de mercado, isso poderia implicar em glosa de custos na Mondial (por simulação), mas não implicaria em nenhuma convicção sobre existir confusão de objetivos e de recursos das quatro empresas. Verificase que a decisão recorrida entendeu que a explicação dada pela Contribuinte, de que a Mondial revendia os produtos com descontos e por isso, muitas vezes em valor inferior ao valor de aquisição junto à MK e ME, era plausível. Completou ainda que a Fiscalização só teria realizado levantamento para alguns produtos e em apenas um mês. E a Contribuinte expressamente discorreu no sentido de que as empresas que estavam submetidas ao lucro presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores do que aquelas submetidas ao lucro real (Mondial e Alpha). 151.A título exemplificativo, ao analisar os livros fiscais das quatro empresas e dos balancetes acostados ao processo pela própria fiscalização, percebese que, em 2007, as empresas que estavam submetidas ao Lucro Presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores que aquelas que estavam sujeitas ao Lucro Real (MONDIAL e MC (Alpha Fl. 19536DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.537 15 Pró)). Perguntase: isso é atitude de contribuinte que concentra despesas e manipula resultados? É claro que não. (grifei) Como se pode observar, os mesmos fatos receberam diferentes leituras. Contudo, o demonstrativo elaborado pela autoridade autuante, ao comparar as bases tributáveis de lucro real X lucro presumido para a MK e ME, e a redução considerável da base de cálculo, na ordem de R$4.469.125,43 em 2007 e R$13.715.674,05 em 2008, não foi contestado. E, diante de tal fato, com base nos Demonstrativos de Resultado de Exercício disponibilizados nos autos (efls. 15804/15825), foram consolidados os seguintes quadros, para cada uma das empresas (MK, ME, Mondial e Alpha), relativo aos anoscalendário de 2007 e 2008: AC 2007 MK ME Mondial Alpha Receita Bruta 50.198.429,17 51.697.404,16 112.106.365,85 30.994.998,51 Deduções 14.642.754,07 16.511.513,92 36.868.073,98 11.114.937,90 Receita Líquida 35.555.675,10 35.185.890,24 75.238.291,87 19.880.060,61 CMV 22.453.208,09 20.045.223,73 67.244.812,89 12.697.225,85 Lucro Bruto 13.102.467,01 15.140.666,51 7.993.478,98 7.182.834,76 Despesas Operacionais 7.621.778,73 8.264.334,55 8.075.871,84 6.450.160,00 Receitas Não Operacionais 0,00 0,00 0,00 0,00 Despesas Não Operacionais 265.000,00 549.581,78 0,00 135.000,00 Lucro Antes do IR 5.215.688,28 6.326.750,18 82.392,86 597.674,76 AC 2008 MK ME Mondial Alpha Receita Bruta 63.488.280,50 98.389.597,02 274.186.094,63 63.702.795,74 Deduções 18.092.729,28 29.379.110,76 99.772.854,72 23.720.665,53 Receita Líquida 45.395.551,22 69.010.486,26 174.413.239,91 39.982.130,21 CMV 28.651.440,69 45.784.959,20 147.066.864,00 26.404.034,80 Lucro Bruto 16.744.110,53 23.225.527,06 27.346.375,91 13.578.095,41 Despesas Operacionais 8.106.850,53 7.356.760,38 27.458.077,88 14.091.072,73 Receitas Não Operacionais 0,00 568.204,57 4.523,59 24.816,65 Despesas Não Operacionais 0,00 0,00 0,00 0,00 Lucro Antes do IR 8.637.260,00 16.436.971,25 107.178,38 488.160,67 Apesar de a Contribuinte ter se manifestado sobre as despesas operacionais, aspecto relevante a ser averiguar na apuração da base tributável é o Custo de Mercadorias Vendidas (CMV). Fl. 19537DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.538 16 E, a empresa optante do lucro real, Mondial, percebeu um valor de CMV substancialmente superior aos das demais empresas do grupo. Vale apresentar novo quadro, sobre a participação percentual do CMV na receita líquida de cada uma das empresas: % CMV / Receita Líquida 2007 2008 Regime de Tributação MK 63,15 63,12 Lucro Presumido ME 56,97 66,34 Lucro Presumido Mondial 89,38 84,32 Lucro Real Alpha 63,87 66,04 Lucro Real Observase que a Mondial (lucro real), nas palavras da própria Contribuinte 2 revendedora dos produtos das demais empresas do grupo, MK e ME (optantes de lucro presumido) e Alpha (lucro real), empresas responsáveis pela importação e fabricação dos produtos, apurou CMV em valores substancialmente superiores. Em termos quantitativos também a Mondial respondeu por maior parte do CMV do grupo. % de CMV 2007 2008 Regime de Tributação MK 18,34 11,56 Lucro Presumido ME 16,37 18,47 Lucro Presumido Mondial 54,92 59,32 Lucro Real Alpha 10,37 10,65 Lucro Real Total do CMV 122.440.470,56 247.907.298,69 Respondeu a Mondial por 54,92 % (R$122.440.470,56) para o anocalendário de 2007 e 59,32% (R$247.907.298,69). Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos 2 Vide contrarrazões da Contribuinte: 116. Ora, conforme já explicitado, a Mondial Eletrodomésticos era uma mera revendedora assim, não tinha porque aumentar os preços praticados pelas outras empresas do grupo. Não havia valor agregado! (...) 148. A criação de cada uma das empresas teve uma razão de ser e um motivo empresarial: a) criouse a ME para a realização de importações e vendas de produtos importados; b) resolveuse dividir os riscos das atividades da ML, criandose duas novas empresas, em duas etapas: i) primeiro, uma parte dos produtos que eram fabricados pela ML passou a sêlo pela MK; ii) depois, a parte restante passou a ser fabricada pela MC, ambas já alocadas em Conceição do JacuípejBA, pois a ML enfrentava muitos problemas financeiros e com a contratação de pessoal; c) por fim, criouse a Mondial Eletrodomésticos para que fosse possível realizar as vendas dos produtos fabricados ou importados para fora da Bahia, a fim de fugir da guerra fiscal. Fl. 19538DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.539 17 produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária aproveitarse da segregação do ciclo de produção e venda para se valer de regimes de tributação diferenciados, desvirtuando completamente a construção do sistema tributário. Ora, direcionou parte substancial dos dispêndios incorridos para a empresa revendedora (Mondial) que por acaso é optante do lucro real. E concentrou as receitas nas empresas produtoras que, por acaso, são optantes do lucro presumido (ME e MK). Os quadros demonstram de maneira incontestável que a Mondial concentrou a maior parte dos dispêndios auferidos pelo grupo, e por isso, ao optar pelo regime de tributação pelo lucro real, percebeu uma redução significativa de sua base tributável, tanto que auferiu prejuízos em 2007 e 2008. Por outro lado, a MK e a ME, com percentuais de CMV bem menores, beneficiaramse da opção pelo lucro presumido, incidente sobre coeficiente de determinação aplicado sobre a receita bruta. Consolidouse cenário no qual as despesas foram concentradas para a Mondial, mera revendedora e optante do lucro real, e situação inusitada no qual o CMV das empresas fabricantes, MK, ME e Alpha foi apurado em valor substancialmente inferior, tanto em termos qualitativos quanto qualitativos. E a Contribuinte não se conteve em buscar o "melhor dos mundos" apenas em relação ao Fisco Federal. Isso porque relatou que a criação da Mondial teria ocorrido visando dirimir os efeitos da guerra fiscal entre o Estado da Bahia e outros entes federados. A empresa teria sido constituída como mera revendedora porque as outras três empresas, MK, ME e Alpha gozavam de benefício fiscal de ICMS. A situação provocava um problema quando a venda era efetuada para fora do Estado da Bahia, porque outros estados, como São Paulo, não autorizava o adquirente a aproveitar o crédito de ICMS, apesar de estar destacado na nota fiscal que acompanhava o produto. Assim, a Mondial, como não gozava do benefício fiscal, permitia aos adquirentes o aproveitamento do crédito. Ora, não se discute a criação da Mondial. A questão é que a Mondial foi criada em regime de tributação diferenciado das empresas MK e ME. Observase que o grupo econômico não se contentou em constituir a Mondial apenas para "contornar" restrições fiscais do ICMS (mediante "drible" na aplicação da lei estadual dos demais entes federados, criando empresa revendedora para adquirir produtos das empresas fabricantes e permitir o creditamento do ICMS nos estados do Sul e do Sudeste). Também se aproveitou do contexto para adotar o regime de lucro real para a Mondial (onde foram concentrados a maior parte dos dispêndios do grupo) e concentrar as receitas nas empresas produtoras ME e MK optantes do lucro presumido. Nesse sentido, diante da constatação de que a constituição das quatro empresas buscou, na realidade, concentrar a maior parte dos dispêndios do grupo na empresa revendedora submetida ao lucro real, e submeter maior parte da base tributável às empresas submetidas ao lucro presumido, todos os demais indícios levantados, (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / Fl. 19539DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.540 18 licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras, convergem no sentido de que a constituição das quatro empresas foi uma artificialidade, visando a redução indevida da carga tributária e prejuízo aos Cofres Públicos. Observase ainda que as empresas MK e ME mudaram o regime de tributação para o anocalendário de 2009, passando de lucro presumido para o lucro real, ou seja, todas as quatro empresas passaram a ser optantes do lucro real. Ocorre que, conforme relatório da ação fiscal, as empresas ME e Alpha encerraram suas atividades em dezembro de 2009, e a Mondial reduziu suas atividades a quase zero, fazendo com que a única empresa funcionando dentro da normalidade seja precisamente a Contribuinte, MK. Diante da decisão de encerrar as atividades em 2009, não por acaso a ME passou a optar pelo lucro real, regime de tributação que permite o aproveitamento dos prejuízos fiscais. Da mesma maneira, a MK, que, na condição de única empresa funcionando dentro da normalidade, passou a assumir os dispêndios de todo o grupo, o que explica a mudança do regime de tributação. E vale dizer: quem a autoridade fiscal, diante do entendimento de que as quatro empresas funcionavam como se fosse uma empresa apenas, elegeu com sujeito passivo direto? Precisamente a MK. O teste da realidade demonstra que não poderia ter sido mais acertada a qualificação do sujeito passivo da autuação. Diante de todo o exposto, voto no sentido de conhecer e dar provimento ao recurso interposto pela PGFN. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 19540DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.541 19 Declaração de Voto Conselheira Adriana Gomes Rego. Apresento a presente declaração de voto para consignar que acompanhei o Relator pelos fundamentos e conclusões, mas faço questão de reforçar os indícios da existência de uma única empresa, mormente no que diz respeito à descaracterização como grupo econômico e ao compartilhamento das atividades desenvolvidas. Isto porque o relator fundamentou seu voto no fato de que a criação das quatro empresas desvirtuou a construção do sistema tributário, na medida em que uma das empresas (Mondial), optante pelo lucro real, concentrou dispêndios auferidos pelo grupo (CMV); enquanto que a MK e a ME, optantes pelo lucro presumido, concentraram receitas. Somandose, ainda, todos os indícios levantados no sentido de existência de uma única unidade empresarial. Por essas razões, manteve a autuação. A recorrida defende a existência de um grupo econômico, com direção única. Todavia as quatro empresas não se apresentavam para terceiros como um grupo econômico com direção única. Observese a seguinte declaração da contribuinte em suas contrarrazões (e fl.19437), verbis: 28. Além disso, no caso ora tratado, o grupo econômico sempre definiu os seus dirigentes seguindo os procedimentos formais, com procurações e atas que elegiam os seus representantes FORMALMENTE E MATERIALMENTE! O grupo nunca escondeu quem seriam os seus gestores, fato este também destacado na decisão ora recorrida! Tal afirmativa não procede, tendo em vista que os quadros societários não indicavam expressamente o verdadeiro administrador, o Sr. Alberto Baggiani. Esse fato foi comprovado a partir da auditoria realizada perante às instituições financeiras que apresentaram as procurações em nome do Sr. Alberto, dandolhe amplos poderes em relação às contas bancárias das 4 empresas, da assinatura de contratos, entre outros fatos levantados. Transcrevo trecho do TVF efl.19: 17 Os bancos onde as empresas MK, ML, AlphaPró e Mondial possuem conta corrente foram intimados a apresentar os dados cadastrais, procurações, autorizações e fichas de assinatura referentes à contas correntes mantidas pelas empresas. Da análise destes documentos, verificamos que Alberto Baggiani possui procurações outorgadas pelas empresas AlphaPró e ME eletrônica lhe concedendo amplos, Fl. 19541DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.542 20 gerais e ilimitados poderes, inclusive para movimentar as contas correntes das respectivas empresas. Também é o responsável pela conta corrente das empresas MK, na qualidade de acionista direto, e Mondial, na qualidade de acionista indireto. Giovanni Marins possui procuração outorgada pelas empresas ME industria eletrônica, MK eletrodomésticos, M.Climatização (atualmente AlphaPró cuidados pessoais). As respostas dos bancos constam das efls.18528 a 18821. Dessa forma, não havia transparência acerca da direção única das 4 empresas. É verdade que a direção única não foi negada pela contribuinte, conforme declarou em suas contrarrazões efl.19452: 80. Quanto ao fato de que as empresas possuem a mesma direção, isto nunca foi negado pela Recorrente! Conforme reconhecido pela própria Recorrente nas suas razões, os dirigentes são FORMALMENTE eleitos como representantes das empresas do grupo econômico e efetivamente gerem os negócios deste grupo. Em seguida a contribuinte defende que a existência de mesma direção, não implica haver uma única empresa. De fato, este não seria o único requisito a caracterizar a unicidade da empresa. Mas o que se quer mostrar aqui, é que o verdadeiro administrador das empresas não se apresentava perante terceiros com tal, inclusive para o Fisco. Se se tratasse de grupo econômico, as informações acerca do mesmo deveriam ser apresentadas de maneira clara e expressa para terceiros, no que diz respeito às empresas que compõem o grupo e, mormente no que diz respeito à administração do grupo. Temos ainda outros elementos que podem indicar a existência de uma empresa única, quais sejam, a localização no mesmo terreno, o compartilhamento de alguns empregados de gerência e do mesmo escritório de contabilidade. Ao mesmo tempo, ainda que atendidos todos esses requisitos, poderseia tratar de um grupo econômico. Então qual seria o elemento que, neste caso, poderia caracterizar essa organização societária como um grupo econômico ou empresa única? Entendo que o objeto social e as atividades desenvolvidas por cada um delas pode ser esse elemento chave. O catálogo da Mondial, documento anexado ao auto efls.909 a 914, indica os produtos comercializados por ela, de todas as linhas: eletroportáteis, cuidados pessoais, eletrônicos e ferramentas elétricas. Em seguida, o catálogo mostra uma vista superior do complexo industrial Mondial, o qual possui entrada única, e NÃO faz qualquer menção à existência das empresas que comporiam o grupo. As imagens na parte inferior da página (efl.910) mostram o centro de fabricação de moldes e ferramentas, o parque de injetoras, o laboratório de recebimento, a engenharia, o laboratório de testes, a fabricação de motor, a tampografia, as linhas de montagem, os testes finais e o centro de logística, estoque e distribuição, conforme foto abaixo: Fl. 19542DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.543 21 O catálogo mostra o complexo industrial internamente, sem qualquer individualização por empresas ou por linha de produto. Mais uma vez não esclarece que o alegado grupo econômico seria composto de 4 empresas, cada qual com sua linha de produção e maquinários próprios. Ou seja, mais uma vez apresentase para terceiros com uma empresa única. Pergunto: por que não apresentou as empresas que comporiam o grupo e suas respectivas linhas de produção? Essa prova é tão irrefutável que seria despiciendo maiores esclarecimentos. Todavia o relator do acórdão a quo desconsiderou as declarações das autoridades fiscais, simplesmente porque não citaram o número das folhas no Termo de Verificação Fiscal, transcrevo trecho da ementa do referido aresto: PROVAS. COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS. PROCESSO. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Compete a fiscalização comprovar os fatos que afirma. Não basta juntar documentos e fazer afirmações, é preciso demonstrar como esses documentos comprovam os fatos afirmados. Não é razoável juntar dezenas de volumes de documentos sem fazer referencia às páginas que localizam os documentos e sem demonstrar como comprovam a acusação. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Se o relatório não identifica o documento referido, e se são juntados milhares de documentos, se o julgador buscar por si os documentos que entende comprovar os fatos alegados pela fiscalização, corre o risco de estar fazendo uma nova auauditoria ou de substituir a fiscalização na fundamentação do auto de infração. Ainda no que diz respeito à individualização das atividades, a contribuinte tanto em seu recurso voluntário, quanto em suas contrarrazões (efl. 19456) afirmou: "DO FATO: Mesma Atividade" 92. O fato grave deste ponto consiste na inverdade absoluta, lançada pela Recorrente, na tentativa de convencer esses julgadores. Fl. 19543DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.544 22 93. Isto porque, foi amplamente demonstrado que as empresas MK, ME e ALPHAPRO (MC) trabalhavam com produtos e mercados distintos. A MONDIAL foi criada para fugir da guerra fiscal existente entre os Estados Federados, de forma que vendia os produtos das três primeiras (MK, ME e ALPHA) quase que exclusivamente para empresas localizadas fora do Estado da Bahia. 94. Em que pese todas trabalharem com produtos da marca "MONDIAL", cada uma tinha uma especificidade distinta: a) a MK trabalhava, por exemplo, com produtos de cozinha, fabricados por ela; b) a ME trabalhava com produtos oriundos de importações: batedeiras, por exemplo; e c) a ALPHA fabricava e comercializava os produtos ditos "sazonais", relacionados ao clima, por exemplo, ventiladores. 95. Restou mais do que comprovado nos autos que a divisão do grupo em empresas com atividades distintas foi estribada em uma motivação gerencial. Outrossim, em que pese os galpões das empresas sejam vizinhos, cada uma delas mantinha a sua autonomia e personificação, com contabilidade própria, empregados próprios, maquinários próprios etc. 96. E o mais importante de tudo: as empresas NÃO fabricavam o mesmo produto! Não partilhavam a fabricação dos produtos. Sequer partilhavam maquinário.(grifo nosso) Como dito anteriormente, não é possível perceber a segregação do maquinário das empresas. A contribuinte afirma categoricamente que duas empresas não fabricavam o mesmo produto. Entretanto, as autoridades fiscais fizeram prova em contrário desta afirmação no documento de efls.770812 (Documentos comprobatórios outros Manuais de Produtos Indício para Consolidação): efl.771 consta liquidificador produzido pela MK e na efl.774 consta liquidificador produzido pela ME; Fl. 19544DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.545 23 Veja que a contribuinte não poderia alegar que o liquidificador da MK foi produzido no Brasil, enquanto que o liquidificador da ME foi importado, tendo em vista que os dois são "Indústria Brasileira". Quando se trata de produto importado, como a prancha alisadora, consta "Produto importado por:". Logo, não prospera a afirmação da contribuinte de que cada empresa tinha sua "linha de produtos" e maquinário próprio. O recurso especial da Fazenda destaca essa inverdade declarada pela contribuinte (efl.19334), in verbis: Conforme documentos de folhas 770 a 812 – manuais dos produtos, bem como de folhas 909 a 914 – catálogo mondial, os produtos da marca mondial são classificados como eletroportáteis, cuidados pessoais, eletroeletrônicos e ferramentas. Verificase que um mesmo tipo de produto é fabricado pela MK e ME (liquidificador), e também produtos da mesma linha são fabricados por empresas diferentes (fls. 8 e 9 do Termo de Verificação Fiscal). Os fatos acima expostos reforçam o argumento de que se trata de uma única empresa, porque além de todos os elementos indiciários, as empresas desenvolvem as mesmas atividades, sem que se consiga comprovar a individualização física e operacional de cada uma delas, o que demonstra a confusão de objetivos sociais. Há outra questão que merece atenção, que diz respeito à transação entre as empresas produtoras/importadores (MK, ME e AlphaPró) e a Mondial. O TVF traz um estudo dos preços praticados pela MK e ME quando vendiam diretamente para o mercado varejista e, qual foi o preço praticado após a criação da Mondial e o redirecionamento das vendas através dela. O TVF assim dispôs (efl.27) Transações entre as empresas Fl. 19545DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.546 24 30 As empresas ME e MK vendiam os produtos com a marca "Mondial" diretamente aos clientes finais empresas varejistas como Casas Bahia. WalMart. Carrefour. Bom Preço, Insinuante, entre outros. A partir de agosto de 2007, passaram a vender exclusivamente para a Mondial eletrodomésticos, que revendia para os clientes finais. A empresa Alpha iniciou suas operações em julho de 2007, e só efetuou vendas para a Mondial eletrodomésticos. 31 A análise dos preços praticados pelas empresas mostram que esta transição foi apenas aparente, pois o valor dos produtos vendidos aos clientes finais não sofreu nenhuma alteração. Os preços dos produtos, que antes eram vendidos da ML e MK para os clientes finais, continuou o mesmo após a Mondial elelrodomésticos vender para estes mesmos clientes. Ou seja, a relação comercial continuou a mesma. Outro detalhe é que, na passagem do mês de julho para agosto, a ML e MK aumentaram o preço dos produtos vendidos à Mondial, resultando, na maior parte dos casos, em um preço maior do que o vendido aos clientes finais. As tabelas abaixo demonstram de forma clara esta situação: (...) O TVF procurou mostrar que não havia razão na criação da Mondial para comercializar os produtos, posto que os preços praticados para os comerciantes varejistas permaneceram os mesmos. A contribuinte esclarece que o objetivo da criação da Mondial seria resolver questões de ICMS, por causa da guerra fiscal, e que esses preços teriam sido praticados em um único mês por questões promocionais. Não seria aceitável que uma empresa (Mondial) fosse criada com a finalidade de dar prejuízo, ainda que para driblar a guerra fiscal, tendo em vista que um dos objetivos que caracterizam uma empresa é seu fim lucrativo. O acórdão recorrido aceitou os argumentos da contribuinte de que tal prática se deu num único mês, por razões comerciais (de que a contribuinte não faz prova e não esclarece). Reproduzo trecho do acórdão a quo: Por sua vez o contribuinte explica que a constituição da Mondial buscou concentrar em uma empresa comercial as vendas para fora do estado, visando resolver questões de ICMS. Também, esclarece que a fiscalização só fez a comparação de preços em um mês e os valores se justificam por questões comerciais. A contraposição das posições mostra alguns aspectos. Em primeiro lugar, o fato de empresas fabris e importadoras do mesmo grupo venderem seus produtos para uma empresa comercial do grupo, não revela nenhuma confusão de objetivos ou recursos. Tratase de decisão empresarial sobre a organização do negócio. De outro lado, a explicação dada pelo Fl. 19546DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.547 25 contribuinte, independente da adequação ou não à legislação do ICMS, é bastante razoável para explicar a criação da Mondial e justificar a alteração na forma de venda para antigos clientes. Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial. Ainda, a explicação dada pelo contribuinte, de que foram concedidos descontos pela Mondial, é plausível. Ademais, mesmo que ficasse comprovada a prática de venda para a Mondial por valor acima do de mercado, isso poderia implicar em glosa de custos na Mondial (por simulação), mas não implicaria em nenhuma convicção sobre existir confusão de objetivos e de recursos das quatro empresas.(grifo nosso) Todavia, há que se ressaltar que o Fisco não fez o levantamento para um único mês qualquer, mas sim para o mês em que as empresas MK e ME deixaram de vender diretamente ao comércio varejista e passaram a comercializar seus produtos através da Mondial (julho para agosto/2007). De fato não existem estudos para outros meses, mas o relatório do voto do Conselheiro André Mendes de Moura destaca o elevado CMV da empresa Mondial, bem como o fato de a empresa ter dado prejuízo nos anos 2007 e 2008, e depois ter suas operações reduzidas quase a zero. A contribuinte em suas contrarrazões defende que essa prática de preços foi uma estratégia comercial pontualíssima, todavia o CMV apresentado demonstra o contrário. Manifestouse a contribuinte nos seguintes termos (contrarrazões efl.19462): 118. A ocorrência eventual de vendas aos clientes, pela Mondial, em preço menor do que o praticado na venda das outras empresas do grupo para ela, refletem estratégias comercias (promoções), que decorrem das leis do mercado (oferta e procura), não tendo, portanto, qualquer relação com fraude ou simulação. Vale notar que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu em apenas um mês ("na passagem do mês de Julho para Agosto de 2007" página 08, ponto "31", do Termo de Verificação), pois não era prática corriqueira da empresa. Tratouse, como dito, de estratégia comercial pontualíssima. 119. Fica claro, portanto, que não há que se falar em fraude ou em criação de empresas fictícias com o único fim de redução do tributo a ser pago. Há uma justificativa negocial clara e lógica para o agir da Recorrida. (grifo nosso) A contribuinte cita que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu apenas em um mês, mas tal afirmativa distorce o conteúdo do TVF. Dizer que tal fato ocorreu em apenas um mês, implica dizer que tal prática não teria ocorrido nos demais meses. Todavia, Fl. 19547DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.548 26 os fiscais não fizeram tal afirmação. Apenas apresentaram um estudo no mês em que a Mondial iniciou sua atividade. É de se concluir, que tal prática pode ou não ter acontecido em outros meses, e que não há estudo de preços para esses meses, nem para confirmar, nem para negar se a prática se deu de forma pontualíssima. Entretanto, consta nos autos do processo a contabilidade da contribuinte, onde fica claro o elevado CMV da empresa Mondial. Dessa forma, reitero os fundamentos e as conclusões do Ilustre relator e, reforço suas razões através dos argumentos acima discorridos, para dar provimento ao recurso especial da Fazenda. É como voto. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 19548DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.549 27 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto. Na reunião de maio de 2017, a e. Câmara Superior de Recursos Fiscais (doravante “CSRF”) analisou o recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN”) nos autos do processo n. 10530.721612/201166, em que é recorrida MK ELETRODOMÉSTICOS LTDA. (doravante “contribuinte”), em face do acórdão n. 1101000.852 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”). O acórdão recorrido restou assim ementado: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009. PROVAS. COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS. PROCESSO. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Compete a fiscalização comprovar os fatos que afirma. Não basta juntar documentos e fazer afirmações, é preciso demonstrar como esses documentos comprovam os fatos afirmados. Não é razoável juntar dezenas de volumes de documentos sem fazer referencia às páginas que localizam os documentos e sem demonstrar como comprovam a acusação. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Se o relatório não identifica o documento referido, e se são juntados milhares de documentos, se o julgador buscar por si os documentos que entende comprovar os fatos alegados pela fiscalização, corre o risco de estar fazendo uma nova auditoria ou de substituir a fiscalização na fundamentação do auto de infração. LANÇAMENTO. PROVA DOS FATOS. O Fisco têm de comprovar os fatos que afirma ocorridos e que sustentam o lançamento. Sem isso, o lançamento é improcedente. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009. SUJEITO PASSIVO. CONTRIBUINTE. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar uma delas como contribuinte. Se as empresas é parte da sociedade de fato, ela não pode ser o contribuinte. SUJEITO PASSIVO. RESPONSÁVEL. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar três delas como responsáveis. Se as empresas são partes da sociedade de fato, elas não podem ser os responsáveis. SUJEITO PASSIVO. SOCIEDADE DE FATO. LANÇAMENTO. Para efetuar o lançamento considerando existente uma sociedade de fato, o Fisco deve identificar a sociedade e apontar os sócios de fato, conforme consiga comprovar os fatos. SOCIEDADE DE FATO. PROVAS. Fl. 19549DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.550 28 Para a fiscalização considerar que quatro empresas são na verdade apenas uma, é preciso demonstrar haver confusão de objetivos sociais e de recursos. Portanto, é preciso comprovar que as empresas: não tinham vontade própria; e/ou não tinham um espaço fisico especifico, mantido as suas custas; e/ou não possuíam maquindrios próprios ou alugados; e/ou não adquiriam seus próprios insumos, matériasprima, ou mercadorias; e/ou não eram as contratantes de seus empregados; e/ou não efetuavam suas vendas; respondiam por seus contratos, produtos, empréstimos e atos; etc. Nesta declaração de voto, permissa vênia, apresento os fundamentos que me fizeram votar pelo NÃO PROVIMENTO do recurso especial interposto pela PFN. Conhecimento. Compreendo que o recurso especial interposto pela PFN não preenche os requisitos de admissibilidade. Em relação ao tema da ilegitimidade passiva do contribuinte, o acórdão recorrido decidiu expressamente, in verbis (efls. 19.304): “Quanto á identificação do contribuinte, existe um erro evidente, pois não é possível considerar que a aventada sociedade de fato, formada pelas quatro empresas formais, seja identificada com urna destas empresas, a MK. Caberia ao Fisco colocar no pólo passivo a sociedade de fato que lograsse comprovar. Além disso, deveria identificar e apontar cada um dos sócios de fato, que responderiam ilimitadamente nos termos legais”. A respeito do tema, a PFN apresentou como paradigma o acórdão n. 2401 00.056, que restou assim ementado: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 DECADÊNCIA ARTS 45 E 46 LEI Nº 8.212/1991 INCONSTITUCIONALIDADE STF SÚMULA VINCULANTE DOLO REGRA GERAL INCISO I ART. 173 De acordo com a Súmula Vinculante nº 08, do STF, os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991 são inconstitucionais, devendo prevalecer, no que tange à decadência e prescrição, as disposições do Código Tributário Nacional. Nos termos do art. 103A da Constituição Federal, as Súmulas Vinculantes aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terão efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal No caso de lançamento por homologação, restando caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, deixa de ser aplicado o § 4º do art. 150, para a aplicação da regra geral contida no art. 173, inciso I do CTN. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 RELAÇÃO JURÍDICA APARENTE DESCARACTERIZAÇÃO Pelo Princípio da Verdade Material, se restar configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos Fl. 19550DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.551 29 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 INCONSTITUCIONALIDADE/ILEGALIDADE É prerrogativa do Poder Judiciário, em regra, a argüição a respeito da constitucionalidade ou ilegalidade e, em obediência ao Princípio da Legalidade, não cabe ao julgador no âmbito do contencioso administrativo afastar aplicação de dispositivos legais vigentes no ordenamento jurídico pátrio sob o argumento de que seriam inconstitucionais ou afrontariam legislação hierarquicamente superior. RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO EM PARTE. No entanto, permissa vênia, não há uma única linha em todo esse acórdão quanto ao tema da ilegitimidade passiva do contribuinte. A questão simplesmente não foi enfrentada pela então 1ª Turma, 4ª Câmara, ao proferir o referido acórdão indicado como paradigma. A divergência não pode ser presumida ou considerada implícita no acórdão supostamente paradigmático. Pelo contrário, o Regimento Interno do CARF (“RICARF”), em seu anexo II, art. 67, § 8º, requer seja demonstrada de forma analítica o ponto em que o acórdão indicado como paradigma expressamente enfrentou a mesma matéria do acórdão recorrido e adotando solução diversa: Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF (...) §8º. A divergência prevista no caput deverá ser demonstrada analiticamente com a indicação dos pontos nos paradigmas colacionados que divirjam de pontos específicos no acórdão recorrido. Assim, não há permissivo para o conhecimento do recurso especial da PFN quanto ao tema da ilegitimidade passiva. Diante dessa constatação, contudo, sequer é possível seguir adiante quanto à análise do segundo tema contra o qual foi interposto recurso especial pela PFN, qual seja, a inexistência de provas quanto à simulação da segregação de fontes produtoras de rendimentos. Ocorre que o acórdão recorrido está embasado em mais do que um fundamento autônomo e suficiente para o cancelamento do lançamento tributário, afirmando que, “assim, além do equivoco na indicação do pólo passivo, também pela falta de demonstração do fato imputado, o lançamento não é procedente” (efls. 19.310). Como a PFN não apresentou acórdãos paradigmas hábeis a demonstrar divergência jurisprudencial em relação ao tema da ilegitimidade passiva, tornase inviável o conhecimento de todo o restante de seu recurso, nos termos da Súmula 126 do STJ e da Súmula n. 283 do STF. Para a sua reforma, seria necessário superar todos os fundamentos autônomos e suficientes adotados pelo acórdão recorrido, o que resta inviabilizado neste julgamento. Nesse seguir, voto por NÃO CONHECER o recurso especial interposto pela PFN. Mérito. Fl. 19551DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.552 30 Quanto ao mérito, o caso envolve o tema da segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos (“split strategy”). Por meio desta, em termos gerais, uma entidade empresarial é segmentada em mais do que uma pessoa jurídica, de forma que partes cindidas passam a explorar individualmente as atividades segregadas. Geralmente, segregamse “atividades meio” que, em outro momento e por variadas razões, decidiuse unificar em uma entidade. Há, em geral, a manutenção de relações societárias entre as partes segregadas, controladas por uma holding, embora seja possível cogitar que dessa segregação surjam empresas com rompimento de laços societários. A motivação para essa reestruturação pode ser variada, a exemplo da divisão do controle dos negócios entre diferentes membros da família, ganhos em eficiência, melhoria de organização, oportunidade de explorar e obter ganhos com trabalhos internos em face de demanda do mercado, venda da parcela segregada etc. Sob a perspectiva tributária, é comum que a segregação possibilite que alguma das empresas desmembradas se legitime à opção pelo lucro presumido, enquanto que a anterior unidade empresarial apenas poderia ser tributada pelo lucro real. A partir daí, a economia de opção prescrita pelo legislador permite que, entre as diversas hipóteses de reestruturação possíveis, se cogite situações em que, por exemplo: as unidades empresariais se tornem fornecedoras de insumos para outras empresas do grupo empresarial; as unidades empresariais segregadas passem a oferecer os seus préstimos diretamente ao consumidor. Tratandose a sistemática do lucro presumido de uma economia de opção, a legitimidade de sua adoção depende exclusivamente do cumprimento dos requisitos prescritos pelo legislador. Os referidos requisitos, aplicáveis ao período compreendido no presente processo administrativo e vigentes até hoje, seriam: limitação em função do volume de receitas brutas obtidas pela pessoa jurídica; exercício da atividade que não obrigada ao lucro real. Com a real e efetiva segregação das fontes produtoras de receitas, resultante de reestruturação societária, cada uma das novas unidades empresariais pode verificar se preenche ou não os referidos requisitos e, sendo o caso, optar ou não pelo lucro presumido. Fazse necessário, para este julgamento, distinguir hipóteses de reestruturações societárias reais, cujos efeitos jurídicos devem ser reconhecidos pela administração fiscal, de casos de simulação de reestruturações societárias, praticadas com o dolo da evasão de tributos, inoponíveis ao fisco e sujeitos à multa qualificada. 1. A legítima segregação das fontes produtoras de rendimentos: planejamento tributário oponível ao fisco. A primeira questão a ser analisada consiste em saber se a segregação das fontes produtoras de rendimentos, com ou sem a intenção principal (motivo íntimo Fl. 19552DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.553 31 preponderante) de permitir a alguma das unidades segregadas a opção pelo lucro presumido, é admitida pelo sistema jurídico brasileiro. No Brasil, o particular possui um núcleo de direitos livre de intervenções, dentro do qual está inserido o planejamento tributário3. Mais especificadamente, essa garantia dos contribuintes decorre das liberdades econômicas asseguradas pelo Constituinte. Conforme leciona TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR4, essas liberdades atribuem ao ser humano um espaço que não pode ser absorvido pela sociabilidade, tendose como reconhecida a capacidade de “reger o próprio destino, expressar a sua singularidade como indivíduo, igual entre iguais: o homem como distinto e singular entre iguais”. Não há dúvidas que o Estado, por meio da tributação, deve participar dos bem sucedidos resultados econômicos dos particulares a ele conectados. Conforme o princípio da legalidade, o legislador deve eleger, dentro de seu respectivo âmbito de competência tributária, fatos geradores que captem capacidades contributivas conforme uma dosagem adequada à divisão do custo estatal. Dessa forma, ao mesmo tempo em que a Constituição Federal garante aos particulares a existência desse âmbito de liberdade, outorga ao Poder Legislativo a competência para regular e interferir em seu exercício, seja para estabelecer a cobrança de tributos, seja para limitar planejamentos tributários. Não se trata de questão reclusa ao Direito brasileiro: geralmente, há nos ordenamentos jurídicos estrangeiros normas gerais (general anti avoindance rules – GAAR) ou normas específicas (specific anti avoindance rules – SAAR) para a reação aos planejamentos tributários não tolerados. As normas gerais de reação ao planejamento tributário se prestam a alcançar algumas ou todas as espécies tributárias, com a prescrição de critérios para a identificação do “abuso”. Já as normas específicas incluem no âmbito de incidência da norma tributária, casuisticamente, situações que potencialmente podem ser utilizadas pelo contribuinte como substitutas não tributadas ou ainda fiscalmente menos onerosas e que, por decisão do legislador, devem ser submetidas igualmente àquela tributação mais onerosa. No ordenamento jurídico brasileiro, quando houver clara decisão do legislador brasileiro, compete à administração fiscal o papel de atribuir eficácia à intervenção estatal sobre as liberdades econômicas dos particulares, especialmente sobre o seu patrimônio. Mas essa atuação da administração fiscal, invariavelmente, depende de prévia e clara autorização do legislador. Nesse cenário, a legitimidade de segregações societárias para ensejar a economia de opção do lucro presumido ou a outras formas de tributação (como o SIMPLES NACIONAL) deve ser compreendida com vistas a dois fatores fundamentais, analisados nos parágrafos seguintes: (i) as liberdades econômicas potencialmente restringidas pela vedação às referidas reestruturações societárias; 3 Nesse sentido, vide: ÁVILA, Humberto. Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In Grumpenmacher, Betina Treiger (coord.) Direito Tributário e o novo Código Civil São Paulo: Quartier Latin, 2004, p. 7577. 4 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 196. Fl. 19553DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.554 32 (ii) a existência de decisão clara do legislador para a restrição das referidas liberdades econômicas por meio da tributação. Quanto a esse primeiro fator (liberdades econômicas), insta observar que a livre iniciativa foi erigida como fundamento da ordem econômica pelo caput do art. 170 da Constituição Federal, com a dupla feição de proteger tanto o capital quanto o trabalho. Na explicação de TERCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR, tratase de mandamento para que o Estado atue de forma negativa, no sentido de não interferir na expansão da criatividade do indivíduo e, ainda, positiva, de atuação para a valorização do trabalho humano. A esse propósito, leciona o professor: “Não há, pois, propriamente, um sentido absoluto e ilimitado na livre iniciativa, que por isso não exclui a atividade normativa e reguladora do Estado. Mas há ilimitação no sentido de principiar a atividade econômica, de espontaneidade humana na produção de algo novo, de começar algo que não estava antes. Esta espontaneidade, base da produção da riqueza, é o fator estrutural que não pode ser negado pelo Estado. Se, ao fazêlo, o Estado a bloqueia e impede, não está intervindo, no sentido de normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado.” A autonomia privada decorre do princípio da livre iniciativa, atribuindo aos particulares o direito à liberdade contratual, isto é, de livremente celebrar ou não um contrato (liberdade de celebração), bem como de eleger o tipo contratual mais adequado (liberdade de seleção do tipo contratual, salvo restrição legal) e de preencher o seu conteúdo de acordo com os seus interesses (liberdade de fixação do conteúdo do contrato ou de estipulação).5 Garante se, por esse princípio, a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação6. É pertinente notar, com TULIO ROSEMBUJ7, que a liberdade da empresa não se esgota no exercício da liberdade contratual, no exercício do direito de propriedade ou na atividade de produção de bens de terceiros no mercado livre: tratase da garantia de poder decidir como combinar fatores de produção e de utilizar de riqueza para produzir nova riqueza. Se há limites ao exercício da liberdade, o Estado de Direito também pressupõe limites ao legislador para a sua restrição, pois, conforme salutar preocupação de TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR, “a liberdade pode ser disciplinada, mas não pode ser eliminada” 8. Não poderia o Estado utilizar mecanismos de coerção para compelir o contribuinte à prática de determinados atos e, assim, à ocorrência de hipóteses de incidência de tributos (ou seja, de intervenção no patrimônio particular). Assim ocorrendo, como adverte 5 Cf. BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226240. No mesmo sentido, TÔRRES, Heleno Taveira. O conceito constitucional de autonomia privada como poder normativo dos particulares e os limites da intervenção estatal, in Direito e poder: nas instituições e nos valores do público e do privado contemporâneos. Heleno Taveira Torres (coordenador). Barueri : Manole, 2005, p. 567. 6 Cf. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 7 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 57. 8 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 19554DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.555 33 LUÍS EDUARDO SCHOUERI9, estarseia atentando de modo inadmissível contra a proibição ao confisco e o Direito à propriedade. Poderseia questionar, assim, se seria legítimo ao legislador obrigar que um indivíduo ou uma sociedade concentrassem todo o seu universo patrimonial disponível em uma única pessoa jurídica, com a consolidação de todos os resultados na sistemática do lucro real, por ser esta a forma mais gravosa fiscalmente. Em outros termos: poderia o legislador considerar a segregação das fontes produtoras de rendimentos absolutamente inoponível ao fisco, sempre que a tributação sob a forma consolidada fosse capaz de gerar maior volume de receitas tributárias à União? No presente caso, contudo, não é necessário questionar qualquer ofensa do legislador à Constituição Federal por intervenção excessiva (o que não se poderia, de qualquer maneira, realizarse em âmbito administrativo, conforme Súmula n. 2 do CARF). Ocorre que não há, no presente caso, qualquer lei que, de alguma forma, neutralize os efeitos da reorganização patrimonial sob julgamento: não há norma no Direito privado que vede os atos realizados, bem como não há normas tributárias específicas que impeçam a opção fiscal realizada pelo contribuinte (SAAR). Não há SAAR que, de alguma forma, restrinja reorganizações patrimoniais nesse sentido ou interfira na fruição de seus ordinários efeitos jurídicos, inclusive no que diz respeito à sistemática do lucro presumido. Tal como não há regras específicas para a tutela do caso concreto, também não há normas gerais que vedem a priori a efetiva segregação de fontes produtoras de rendimentos. Não há permissão, abstraída diretamente do Texto Constitucional, para que a administração fiscal atue como se possuísse ingerência na condução das atividades econômica empreendidas, substituindo as decisões do indivíduo, para fins tributários, por outras que lhe pareçam arbitrariamente mais adequadas, com discricionário incremento do ônus tributário. No caso, por força do art. 146 da Constituição, compete à lei complementar prescrever normas gerais de intolerância a planejamentos tributários. Assim, com a observância da Constituição Federal, compete ao legislador legitimamente eleito manifestar a decisão sobre em quais circunstâncias e em qual intensidade deverá o Estado intervir no exercício de liberdades econômicas. A exigência de lei para a desconsideração de planejamentos tributários, portanto, não encontra fundamento “apenas” no principio da legalidade em matéria tributária (art. 5o e art. 150, I, da Constituição), mas também das normas de Direito econômico presentes no Texto Constitucional (arts. 170 e seg. da Constituição). O primado da legalidade exige decisão clara do legislador, como se observa de exemplos concretos do sistema tributário brasileiro. Um bom exemplo pode ser colhido da legislação atinente à contribuição ao PIS e à COFINS. No caso, o art. 3o, IV, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003, autorizaram que o contribuinte, na apuração dessas contribuições pelo regime não cumulativo, apurasse créditos de “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”. Empresas que possuíam imóveis próprios, utilizados em sua atividade operacional, logo cogitaram da segregação de tais bens de seu patrimônio para integralização em pessoas jurídicas imobiliárias, que passariam a locálos à sua anterior proprietária. Com isso, seria possível o 9 SCHOUERI, Luís Eduardo. Normas tributárias indutoras e intervenção econômica. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 46. Fl. 19555DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.556 34 aproveitamento de créditos de PIS e COFINS sobre o valor dos alugueis pagos. Nesse caso, por meio da Lei n. 10.865/2004, o legislador decidiu neutralizar os efeitos desse planejamento tributário e prescrever uma SAAR: Art. 31. É vedado, a partir do último dia do terceiro mês subsequente ao da publicação desta Lei, o desconto de créditos apurados na forma do inciso III do § 1o do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, relativos à depreciação ou amortização de bens e direitos de ativos imobilizados adquiridos até 30 de abril de 2004. § 1o Poderão ser aproveitados os créditos referidos no inciso III do § 1o do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, apurados sobre a depreciação ou amortização de bens e direitos de ativo imobilizado adquiridos a partir de 1o de maio. § 2o O direito ao desconto de créditos de que trata o § 1o deste artigo não se aplica ao valor decorrente da reavaliação de bens e direitos do ativo permanente. § 3o É também vedado, a partir da data a que se refere o caput, o crédito relativo a aluguel e contraprestação de arrendamento mercantil de bens que já tenham integrado o patrimônio da pessoa jurídica. Por sua vez, no caso ora sob julgamento, o silêncio do legislador se alia à sonora ordem emanada das liberdades econômicas asseguradas pela Constituição, o que transmite eloquente mensagem ao contribuinte no sentido de que o planejamento tributário em questão é admitido no ordenamento jurídico brasileiro, sendo combatido, por parte do legislador complementar, atos simulados, fraudulentos, cometidos com o dolo da evasão de tributos. Não se trata de lacuna aleatória, mas de decisão consciente do legislador em não prever SAAR quanto ao planejamento tributário ora sob análise, inegavelmente presente no sistema jurídico brasileiro há décadas. Há mais um esclarecimento que se mostra necessário em face do planejamento tributário sob análise: não há qualquer norma, no ordenamento jurídico brasileiro, que autorize distinguir reorganizações patrimoniais motivadas por propósitos tributários ou extratributários. A adoção desse critério, à sombra da lacuna legislativa, entre muitos outros óbices que podem ser suscitados, encontra vedação no art. 108 do CTN, por ofensa à equidade e aos princípios gerais de direito público. A título ilustrativo, suponhase que a sociedade familiar “A” vislumbre na segregação de suas atividades um ganho em organização, com a melhor divisão de responsabilidades e eficiência, bem como apaziguar brigas no seio familiar. Suponhase, ainda, que a empresa “B” decida conduzir reestruturação semelhante à empresa “A”, com a segregação efetiva de pessoas jurídicas que passariam a dedicarse, individualmente à exploração de atividades econômicas específicas, com a assunção dos riscos, responsabilidades e benesses atinentes à espécie. Suponhase, por fim, que o único motivo para que a empresa “B” realizasse a referida reestruturação seria a redução da carga tributária. Nesse exemplo, fica evidente que haverá tratamento não isonômico entre as empresas “A” e “B” caso se discrimine, como critério para a legitimação do planejamento tributário, operações realizadas com ou sem propósitos extratributários (“propósito negocial”). No caso concreto, NÃO há lei que autorize a referida discriminação com base na aferição subjetiva de motivos extratributários (“propósitos negociais”). Apenas se Fl. 19556DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.557 35 poderia atribuir tratamento distinto entre contribuinte que se encontram em condições semelhantes (“A” e “B”) caso o legislador houvesse prescrito tal discrímen, com o delineamento do que viria a ser esse conceito de “propósito negocial”, até hoje não delineado e desconhecido no Direito positivo brasileiro. Diante do cenário jurídico atinente à matéria sob julgamento, concluise que: em vista das liberdades econômicas, o contribuinte brasileiro goza do direito de reestruturar a exploração do seu capital da forma mais eficiente, inclusive sob a perspectiva fiscal, salvo intervenção clara do legislador; não há qualquer norma societária ou tributária que obrigue a concentração do universo patrimonial de um indivíduo ou de uma sociedade em uma única pessoa jurídica, com a sujeição dos rendimentos consolidados à sistemática do lucro real, por ser esta a mais onerosa; A adoção da sistemática do lucro presumido depende exclusivamente do cumprimento do binômio: volume de receitas brutas obtidas pela pessoa jurídica e atividade que não obrigada ao lucro real; não há qualquer norma específica de intolerância ao planejamento tributário em questão (SAAR), que impeça pessoas jurídicas resultantes de reestruturação societária optarem pela sistemática do lucro presumido; tratase de decisão consciente do legislador, que calibrou, com as ferramentas tributárias existentes, as liberdades econômicas e os mecanismos de incremento do desenvolvimento econômico; para fins fiscais, devem ser reconhecidos os efeitos da efetiva segregação das fontes produtoras de rendimentos, tratandose de planejamento tributário plenamente oponível ao fisco; não se requer motivos extratributários (“propósito negocial”) para que segmentações de entidades empresariais (reais) legitimem que cada unidade segregada se legitime à opção pelo lucro presumido; segregações societárias meramente simuladas não são oponíveis ao fisco. Caracterizado o dolo da evasão de tributos, tais segregações simuladas sujeitam o contribuinte à exigência de multa qualificada. Em termos gerais, o entendimento aqui apresentado apreende a tradicional jurisprudência deste Tribunal. No acórdão n. 10323357, de 23.01.2008, o Primeiro Conselho de Contribuintes novamente reafirmou a proteção jurídica da segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos. Como naquele caso os julgadores constataram que não havia provas de artificialismo, sem que qualquer simulação houvesse sido demonstrada pela fiscalização, reconheceuse o direito das partes segregadas optarem pelo lucro presumido. A referida decisão restou assim ementada: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2002 Fl. 19557DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.558 36 Ementa: SIMULAÇÃO – INEXISTÊNCIA – Não é simulação a instalação de duas empresas na mesma área geográfica com o desmembramento das atividades antes exercidas por uma delas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária. OMISSÃO DE RECEITAS – SALDO CREDOR DE CAIXA – DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA – A reunião das receitas supostamente omitidas por duas empresas para serem tributadas conjuntamente como se auferidas por uma só importa em erro na quantificação da base de cálculo e na identificação do sujeito passivo, conduzindo à nulidade do lançamento. Recurso provido. Publicado no D.O.U. nº 57, de 25/03/2008. No acórdão n. 3402001.908, de 26.09.2012, a 2a Turma Ordinária da 4a Câmara de Julgamento, da 3a Seção do CARF, igualmente confirmou o direito do contribuinte à segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos, consignando não haver simulação a ser combatida no caso analisado. A referida decisão restou assim ementada: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 31/10/2001 a 31/12/2003 COFINS ALÍQUOTA PRODUTOS DE HIGIENE E BELEZA ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAL E COMERCIAL ARTS. 1º E 2º DA LEI Nº 10.147/00. Para o cálculo da Cofins incidente sobre a receita de venda dos produtos de higiene e beleza aplicase a alíquota de 10,3% no caso de receita auferida por pessoa jurídica que proceda à industrialização ou importação dos citados produtos sendo que a alíquota é reduzida a zero, no caso de receita de revenda dos referidos produtos, auferida por pessoa jurídica não enquadrada na condição de industrial ou importador. COFINS DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS CISÃO PARCIAL DESMEMBRAMENTO DE ATIVIDADE SIMULAÇÃO INOCORRÊNCIA ART. 116, § ÚNICO DO CTN. Embora não se ignore que a autoridade administrativa pode desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, a Lei Complementar somente autoriza a desconsideração, desde que observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária (art. 116, § único do CTN). Assim o contrato só se transmuda em forma dissimulada quando ocorrer violação da própria lei e da regulamentação que o rege, donde decorre que a descaracterização do contrato só pode ocorrer quando fique devidamente evidenciada uma das situações previstas em lei, sendo que fora desse alcance legislativo, impossível ao Fisco tratar um determinado contrato privado como outro de natureza diversa, para fins tributários. Não há simulação na cisão parcial através da qual se efetua o desmembramento de atividades em várias empresas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária, não sendo lícita a pretensão fiscal de desconsiderar as distintas atividades e respectivas receitas segregadas em diferentes empresas do mesmo grupo, para tributálas unificadamente. No acórdão n. 3302003.138, de 17.03.2016, a 2a Turma Ordinária, da 3a Câmara da 3a Seção do CARF, também confirmou o direito do contribuinte à segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos. Naquele caso, igualmente restou demonstrada a ausência de atos simulados. A referida decisão restou assim ementada: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2008 SIMULAÇÃO. INEXISTÊNCIA. Fl. 19558DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.559 37 Simular é o ato de fingir, mascarar, esconder a realidade, camuflar o objetivo de um negócio jurídico valendose de outro, eis que o objetivo intentado seria alcançado por negócio diverso, daí o motivo de o artigo 167 do Código Civil dispor que o negócio jurídico simulado será nulo. Não é simulação o desmembramento das atividades por empresas do mesmo grupo econômico, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária. Recurso de Ofício Negado Não apenas pela plena convicção de ser este o melhor direito, mas também pela função uniformizadora desta CSRF, o presente voto não destoa dessa tradição de garantia ao contribuinte da proteção jurídica dos efeitos da segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos, negandoa, contudo, aos casos simulados. 2. A desconsideração da simulada segregação de fontes produtoras de rendimentos: definição de “simulação” e critérios legais para a qualificação do caso concreto. Como se sabe, em conformidade com o art. 146 da Constituição Federal, compete ao legislador complementar decidir se haverá uma norma geral de reação a planejamentos tributários e, nesse caso, qual o critério para a identificação das hipóteses as quais o fisco não deverá tolerar (hidrômetro da intolerância). De forma concreta, o legislador complementar competente enunciou apenas norma de reação à fraude, à simulação, ao dolo na evasão de tributos (CTN, art. 149, VII), deixando ao legislador ordinário a tarefa de estabelecer o procedimento especial para que se descortinem os casos de dissimulação (CTN, art. 116, parágrafo único) ou, ainda, para a edição de normas de reação a planejamentos tributários específicos (SAAR). Nesse cenário, embora muito se discuta o assunto, o legislador complementar brasileiro sempre limitou os poderes da administração fiscal para desconsiderar atos praticados pelo contribuinte, restringindoos para tornar inoponíveis apenas atos “simulados”, “fraudulentos”, cometidos com o dolo da evasão de tributos. Não há a outorga, pelo legislador competente (lei complementar), para que a administração fiscal considere inoponível atos que não possam ser qualificados como “simulados”. Isso significa que o legislador competente não considera intitutos como “simulação”, “fraude” ou “dolo” tão estreitos a ponto de permitir atos que não deveriam ser tolerados, nem tão amplos a ponto de permitir arbitrariedades por parte do fisco. O legislador tributário complementar, desde e edição do CTN (anos 1966) até hoje, considera suficiente que a administração fiscal reaja exclusivamente em face de atos simulados, fraudulentos, com o dolo da evasão de tributos, reconhecendose a legitimidade das demais práticas (planejamento tributário). Em relação à fraude, colhese do art. 72, da Lei 4.502/64, tratarse de “toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento”. A exigência do dolo, nesse enunciado prescritivo, tem o condão de agregar ao conceito de fraude a intenção de ofender ao Direito, de cometer ato sabidamente ilícito, e não qualquer hipótese na qual o contribuinte realiza atos para reduzir a ocorrência de fato gerador. O dolo, no Direito Civil, remete ao “emprego de um artifício ou expediente astucioso para Fl. 19559DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.560 38 induzir alguém à prática de um ato que o prejudica e aproveita ao autor do dolo ou a terceiro”10. Dolo seria a própria intenção de causar dano a outrem, de contrariar o direito. 11 Quanto à simulação, pedra de toque para o presente julgamento, podese observar que as decisões do CARF, até o fim do século XX, apresentavam duas características fundamentais: (i) tratarseia de um vício de consentimento, cuja mácula consistiria na divergência entre a vontade interna, subjetiva, e a vontade declarada; (ii) seria exigida a demonstração dos atos realizados às escuras, divergentes daqueles levados ao público.12 Assim, no acórdão n. 0101857, de 15.05.95, julgado pela CSRF13, foram refutadas as alegações de simulação formuladas pela fiscalização, tendo em vista a inexistência de provas de que a vontade das partes, levada a cabo nos documentos formulados para uma incorporação, seria contraditória com a vontade intima efetivamente presente. Contudo, FABIO PIOVESAN BOZZA14 sugere que, desde meados de 2005, a concepção de simulação em diversos casos no âmbito do CARF teria se tornado preponderantemente causalista, com contraposição à postura voluntarista até então adotada. O elemento fundamental para a caracterização da simulação não seria mais a divergência subjetiva, entre a vontade interna das partes e a manifestada nos negócios realizados. O foco, a partir de então, passaria a ser a incompatibilidade objetiva entre o modelo adotado nas operações realizadas para o negócio supostamente pretendido pelas partes. A partir daí, em muitos julgamentos passaram a ser despiciendas as provas quanto à verdadeira vontade das partes (modelo subjetivo). Em vez disso, pelo modelo objetivo, passaram a ter lugar deduções lógicas decorrentes de indícios dos mais variados, vocacionados a demonstrar a divergência do negócio realizado com a sua causa típica. Paradoxalmente, observa FABIO PIOVESAN BOZZA15, muitas vezes o “conceito objetivo de simulação tornouse de aplicação subjetiva”. Notese que o legislador tributário não edificou um instituto distinto para a “simulação fiscal”, mas laborou com remissão normativa, acolhendo o conceito normativo de “simulação” prescrito pelo Direito privado. Por se tratar de questão fundamental, peço vênia para transcrever as seguintes constatações de HUMBERTO ÁVILA16, in verbis: 10 DINIZ, Maria Helena. Dicionário jurídico. São Paulo : Saraiva, 1998, p. 232. 11 PAULO AYRES BARRETO diferencia o dolo da simulação, na medida em que, naquele “apenas um dos interessados tem ciência do ato doloso, enquanto na simulação, ambas as partes têm participação na ação concertada”. A diferença de dolo e fraude residiria no fato de que esta “se consuma sem a intervenção pessoal do prejudicado. Além disso, enquanto o dolo geralmente antecede ou é concomitante à prática do negócio jurídico, a fraude é perpetrada posteriormente à sua celebração” (BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 157186) 12 Nesse sentido, vide: BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 214. 13 CARF, CSRF, acórdão n. 0101857, de 15.05.95. 14 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 218224. 15 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 228. 16 ÁVILA, Humberto. Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In Grumpenmacher, Betina Treiger (coord.) Direito Tributário e o novo Código Civil São Paulo: Quartier Latin, 2004, p. 6572. Fl. 19560DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.561 39 “A referência deve ser havida como conceitual. Sempre que a legislação tributária faz menção a um termo e este termo é conceituado, só pode haver uma referência conceitual na medida em que não teria nenhum propósito lingüístico fazer uma referência sem que essa referência estivesse relacionada a um conceito. A referência é sempre feita a conceitos ‘civilmente impregnados’. Mencionase ‘salário’ segundo o conceito que se tem de salário; fazse referência à ‘mercadoria’ de acordo com o conceito que se tem de mercadoria. O problema, todavia, não é apenas esse. A questão crucial é saber se, havendo conceitos impregnados pelo Direito Civil (...), eles podem ou não ser alterados pelo legislador tributário. Nesse caso, temos dois caminhos: ou a legislação tributária não pode mudar o conceito é o que se convencionou chamar de ‘primado do Direito Civil’ ou o legislador tributário pode alterar o conceito. No primeiro caso, temos a ‘tese da rigidez’: o legislador tributário não pode alterar o conceito de Direito Privado que se tornou rígido pela sua incorporação ao Direito Tributário. No segundo, temos a ‘tese da flexibilidade’: o legislador pode alterar o conceito de Direito Privado porque tem liberdade para fazêlo. “Em primeiro lugar, não havendo reserva constitucional, a atuação expressa do legislador implica modificações do conceito de Direito Privado é o que se chama de ‘precedência do legislador tributário’; em segundo lugar, se o legislador tributário silenciar, vale o conceito de Direito Privado é o chamado ‘primado do Direito Privado’.” Notese, ainda, que o art. 109 do CTN prescreve que “os princípios gerais de direito privado utilizamse para a pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários”. Daí decorre que, se determinado instituto do Direito privado compõe algum enunciado prescritivo de matéria tributária, ao menos duas hipóteses seriam possíveis: (i) pode o legislador tributário atribuir definição, conteúdo e alcance diversos do que se verifica no Direito privado (apenas o nome de batismo seria igual nas diferentes searas jurídicas), ou; (ii) caso o legislador tributário silencie quanto à questão, deve o instituto deve ser compreendido conforme o seu perfil no Direito privado. Conjugandose os artigos 109 e 110 do CTN, surge a questão: a lei tributária poderia utilizar o termo “simulação” para se referir a questão diversa da tutelada pelo Direito Civil, alterando a definição, o conteúdo e o alcance daquele instituto tradicional na seara privada? Em tese, sim, pois a expressão não fora utilizada, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. No entanto, o legislador tributário não alterou o sentido desse instituto, utilizandoo tal qual no Direito privado. No âmbito privado, o perfil jurídico da simulação foi revisto em decorrência da enunciação do novo Código Civil, de 2002. No Código Civil de 1916, a simulação correspondia a um defeito do negócio jurídico, decorrente de vício na vontade do agente, que poderia agir tanto de forma maliciosa, quando o negócio seria anulável (art. 102), como inocente (art. 103), em que o negócio subsistiria. O novo Código Civil tutela a simulação em seu art. 167, da seguinte forma: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; Fl. 19561DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.562 40 II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados. § 2o Ressalvamse os direitos de terceiros de boafé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado. A simulação trazida pelo novo Código Civil difere ao menos em dois pontos de sua conformação anterior. O negócio jurídico simulado será nulo (e não mais anulável), não surtindo efeitos desde a sua realização, bem como não se perpetuará no tempo, conforme o art. 169 do novo Código. Também não há mais menção à possibilidade de simulação inocente, pois a simulação deixa de se referir a um elemento subjetivo, configurando critério objetivo de validade do próprio negócio. No caso, então, a simulação a que se refere o art. 149, VII, do CTN, corresponderia à “mentira” quanto à prática de um ato relevante para fins tributários. Sonega se da Administração Fiscal a verdade dos fatos ocorridos. O ato simulado é um ato aparente, que não existe no mundo dos fatos, mas apenas de forma precária no mundo jurídico. Na simulação absoluta, o contribuinte buscaria construir determinado invólucro que, caso real, lhe atribuiria benefícios fiscais, embora nada exista. Na simulação relativa, a ocorrência do fato gerador de uma obrigação tributária seria ocultada pela oposição do ato simulado. Com a simulação absoluta, expõe TULIO ROSEMBUJ17, as partes criariam com a sua declaração uma aparência de negócio que não querem realizar e do qual não esperam nenhum efeito. Seria uma aparência sem qualquer conteúdo verdadeiro e, assim, juridicamente inexistente, como é o caso da fraude contra credores em que se cria um passivo inexistente ou se diminui o ativo, sem que nada realmente tenha sido realizado. Com a simulação relativa, as partes criariam a aparência para um negócio jurídico diverso daquele que efetivamente querem. Seria um disfarce, em que apenas aparentemente se realizaria um negócio jurídico, para, na verdade, realizarse outro negócio. Como exemplos de simulação, é possível cogitar a venda de bem imóvel por um valor abaixo do realizado, compatível com os limites exigidos pelo legislador para a adoção do lucro presumido ou a utilização de instrumentos antedatados de cessão gratuita do direito de uso de bem imóvel. Citese, ainda, o Recurso Especial n. 243.767MS, do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, para a distinção de simulação (absoluta) e dissimulação (relativa): “Duas situações, entretanto, podem verificarse. Uma, em que a simulação seja absoluta. As partes não pretenderam concluir negócio algum, como no exemplo acima mencionado. Isso reconhecido, não produzirá efeito. Pode, entretanto, ser relativa a simulação. As partes efetivamente desejavam a pratica de determinado contrato, mas esse ficou dissimulado por um outro. Assim, por exemplo, fezse uma doação, dissimulada em compra e venda. Em tal caso, prevalecerá o negócio real.” No Direito tributário brasileiro, então, a simulação se presta à sonegação, ou seja, ao ilícito. O que se combate não é a utilização de formas anormais, atípicas, para se alcançar determinado resultado. Combatese o ato doloso da evasão de tributos em que as 17 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 49. Fl. 19562DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.563 41 partes realizam um determinado negócio jurídico, mas declaram ao fisco que outro teria sido realizado. Notese que, para aferirse a ocorrência de simulação, não é relevante questionar a existência de razões extratributárias. Interessa demonstrar que, por meio dos negócios jurídicos apresentados pelo contribuinte, foram ocultadas do Fisco as verdadeira configuração dos atos praticados (dissimulação) ou, ainda, que nada realmente foi realizado (simulação absoluta). A apurada análise da questão exige que se diferencie a “simulação dos negócios jurídicos praticados” da “simulação da pessoa jurídica”. Nesse primeiro, reconhece se a personalidade jurídica das pessoas jurídicas envolvidas, mas evidenciase a simulação dos negócios jurídicos praticados por estas. Embora não descarte a priori a possibilidade de simulação da própria pessoa jurídica, pareceme tratarse de hipótese rara. A “pessoa jurídica” é ficção criada pelo Direito para segregar uma personalidade jurídica dotada de direitos, inclusive patrimoniais, e apta a assumir deveres, com autonomia em relação ao seus sócios. A existência da pessoa jurídica, portanto, é questão mais de direito que de fato. Parece mais factível a ocorrência de simulação de negócios jurídicos, em que se atribuam a pessoas jurídicas existentes rendimentos que não decorram, verdadeiramente, de suas atividades. É preciso que a solução deste julgamento se mantenha coerente com esses fundamentos. No âmbito do Direito privado e, por remissão do legislador complementar, também no Direito tributário, são reais e existentes atos de transmissão que efetivamente façam com que seja alterado o titular de direitos e obrigações de um determinado acervo patrimonial. Ainda que uma reorganização patrimonial possa ser verificada documentalmente, pode ser irrelevante para fins tributários caso tais documentos contenham declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira capaz de qualificar as operações como simuladas. Operações que apenas simulam a segregação de fontes produtoras de rendimentos devem ser transparentes aos olhos da fiscalização tributária: inoponível, a operação dissimulada, por transparente aos olhos do fisco, conduz a que se desvende a operação verdadeira que se procurou ocultar, à qual devem ser aplicadas as consequências tributárias correspondentes à espécie. O contribuinte que simular a segregação de fontes produtoras de receitas, submetendo indevidamente parte ou todos os seus rendimentos à tributação mais branda aplicável a uma outra pessoa jurídica (decorrente do lucro presumido, por exemplo), estará sujeito ao lançamento de ofício da diferença do tributo que seria devido conforme o regime que lhe seria verdadeiramente aplicável (lucro real, por exemplo). Caso não seja possível a apuração do lucro real, deve ser apurado, nos termos da legislação, o lucro arbitrado. Diante de simulação, com o dolo específico da evasão de tributos, deverá, ainda, ser imposta multa qualificada. A aferição da simulação, contudo, parece requerer considerações distintas diante de empresas com rendimentos ativos (indústria, por exemplo), daquelas que apresentam apenas rendimentos passivos (aplicações financeiras, por exemplo). Enquanto muitas vezes a obtenção dos primeiros (rendimentos ativos) pressupõe estrutura operacional robusta, a Fl. 19563DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.564 42 condução das atividades relacionados aos últimos (rendimentos passivos) pode exigir, por natureza, estrutura operacional mínima. No caso dos autos, as empresas do grupo empresarial desenvolvem atividades geradores de rendimentos primordialmente ativos. Nesse caso, em geral, alguns fatores podem ser considerados determinantes para qualificarse uma reestruturação societária como simulada, enquanto outros relevantes, por corroborar com o acervo probatório, mas não necessariamente determinantes. A relevância de cada fator dependerá do particular contexto presente no caso específico, não se descartando a relativização de todos eles em vista de situações concretas. Em uma relação que não pretende ser exaustiva, é possível identificar alguns desses fatores, com especial enfoque na estrutura negocial, na estrutura contábil e financeira e, ainda, na estrutura física e operacional das empresas segregadas: A. ESTRUTURA NEGOCIAL § Assunção de efetiva responsabilidade pela atividade alegadamente desenvolvida. Gastos com folha de pagamento, com a manutenção da estrutura básica ou aquisição de insumos para as atividades específicas de uma das empresas, suportados aleatoriamente por outras empresas do grupo, na ausência de justificativa plausível, podem evidenciar, de forma determinante, confusão das unidades segregadas e simulação. § Assunção, pela pessoa jurídica segregada, dos riscos e das benesses sobre os ativos recebidos como contribuição ao capital social. Na reestruturação societária em análise, pode haver a contribuição de parcela do patrimônio outrora concentrado em uma pessoa jurídica, para a composição do capital social da pessoa jurídica que conduzirá a atividade segregada. Caso se declare ter transferido ativos a essa nova empresa para a integralização de seu capital, é plausível que esta assuma a responsabilidade, o risco e as benesses geradas por tais ativos. § Coerência negocial. É natural que operações que não apresentem, ao menos de forma aparente, coerência com os padrões normais de gestão, demandem certa atenção. Não se pode, contudo, punir fiscalmente um particular por adotar uma estrutura ineficiente ou com padrões não ortodoxos. Por essa razão, geralmente esse fator apresentarse como não determinante ou mesmo irrelevante. § Prática de preços de mercado entre as partes segregadas. A manipulação dos preços praticados entre partes relacionadas pode ser uma evidência contundente quanto ao dolo da evasão de tributos. Além de poder atrair legislação própria para a regência de certos casos, como os de distribuição disfarçada de lucros, esse fator esse elemento também pode ser relevante para a evidenciar a vícios de regregação de atividades societárias. Assim como os demais, contudo, esse elemento pode ser relativizado: da mesma forma que a prática de preços de mercado não é, por si só, fator suficiente para legitimar as operações, a prática de preços menores que o de mercado também não conduz necessariamente a vícios no negócio jurídico. B. ESTRUTURA FINANCEIRA E CONTÁBIL Fl. 19564DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.565 43 § Confusão de titularidade dos recebíveis e dos passivos, capaz de evidenciar ausência de autonomia das partes e a unidade de empresas apenas formalmente segmentadas. A utilização injustificada e indiscriminada de contas bancárias centralizadas e outras sistemáticas de compensação financeira para o recebimento de receitas e o cumprimento de obrigações, mantidas por empresas do grupo empresarial diferentes daquela a que são imputadas para fins tributários, corresponde a uma evidência contundente. Certamente empréstimos entre empresas do mesmo grupo empresarial, respeitados os ditames legais, são lícitos. O que evidencia a simulação da segregação societária é a confusão e o descontrole financeiro entre as unidades supostamente segmentadas da entidade empresarial, que deve manter a assunção dos riscos e as benesses do negócio; § Informes financeiros devidamente formalizados. A contabilidade é instrumento hábil para descrever as mutações patrimoniais das empresas segregadas. Informes financeiros devidamente formalizados vinculam tanto o fisco como o contribuinte a assumir o ônus de provar que a realidade dos fatos é diversa daquela retratada pela contabilidade. As demonstrações contábeis, portanto, representam valioso instrumento para se aferir a existência de entidades segregadas. Há casos em que os vícios presentes na contabilidade tornam os informes financeiros imprestáveis, ou mesmo em que estes não foram escriturados, o que não conduz necessariamente à presunção de fraude. Inexistente esse importante meio probatório, outros meios de prova podem ser utilizados para evidenciar a realidade dos fatos. Certamente haveria ensejo ao arbitramento dos lucros, mas se este deve ser realizado de forma segregada ou aglutinada dependerá de outros fatores presentes no caso. Caso a fiscalização demonstre ter a contabilidade sido utilizada para simular uma determinada situação fática, o repertório probatório necessário para tanto possivelmente será suficiente para que a segregação fictamente alegada se torne inoponível. C. ESTRUTURA FÍSICA E OPERACIONAL. § Localização contígua das empresas. A adoção de endereços contíguos não conduz à presunção de irregularidades. A depender da dimensão da estrutura física de uma das empresas do grupo empresarial, pode ser plausível que a pessoa jurídica segregada utilize parte desta e, assim, ser justificável a manutenção de endereços contíguos. Outras evidências devem ser verificadas, a fim de que se possa aferir se há confusão entre as empresas. § Estrutura operacional capaz de suprir toda a demanda da fonte produtora dos rendimentos: A aparente incompatibilidade da estrutura da empresa segregada com as receitas que lhe são atribuídas é um fator relevante e que suscita maiores cuidados. A partir daí, a fiscalização deve aprofundar a análise do caso concreto, de forma a corroborar com mais evidências quanto à validade ou a inoponibilidade da alegada segregação. Contudo, a relevância dessa evidência pode ser relativizada, pois não se pode deixar de cogitar hipóteses em que a segregação de atividades se justifica pela exploração de método Fl. 19565DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.566 44 negocial inovador, mais enxuto e eficiente, com a adoção, por exemplo, do modelo da terceirização de etapas produtivas. § Centralização de atividades administrativas. A centralização de departamentos administrativos, como um mesmo departamento de contas a pagar e a receber para diversas empresas ou um contrato único com empresas de cartão de crédito, pode ser indício de manutenção de uma unidade não segregada. No entanto, a questão demanda a investigação de outros aspectos, pois a existência de estrutura operacional compartilhada entre as empresas do grupo empresarial, com contrato de rateio de despesas (Cost Sharing), é sabidamente legítimo no Direito brasileiro. § Existência de operações realizadas fora do grupo empresarial: A segregação de atividades desenvolvidas interna corporis não impede que as empresas segregadas também desenvolvam as suas atividades em benefício de unidades do mesmo grupo empresarial. A obtenção de receitas por operações realizadas com agentes estranhos ao grupo econômico pode, contudo, evidenciar efetiva exploração do mercado pela empresa segregada e, assim, afastar suspeitas de simulação da exploração econômica da atividade empresarial. § Inexistência dos estabelecimentos declarados ao fisco. Nos ramos que pressupõem a condução de atividades em estabelecimentos físicos, a inexistência de fato dos estabelecimentos declarados formalmente corresponde a evidência contundente de simulação da condução de tais atividades pela empresa em questão. Os fatores em questão serão mais relevantes quanto mais estreito for o nexo entre o elemento simulado e o fato gerador do tributo que dolosamente se procurou ocultar. Este Tribunal administrativo mantém longa tradição ao tratar da segregação operacional e societária de fontes produtoras, com correta intolerância a reestruturações meramente simuladas, sujeitandoas, inclusive por dever funcional do agente fiscal (ato vinculado e não discricionário), às multas qualificadas. Um dos mais emblemáticos julgamentos sobre a matéria se deu em 25.02.1986 (Caso Grendene, acórdão n. 10307260), em que o Primeiro Conselho de Contribuintes proferiu decisão assim ementada: IRPJ – TRANFERÊNCIA DE RECEITAS – EVASÃO FISCAL. Há evasão ilegal de tributos quando se criam oito sociedades de uma só vez, com os mesmos sócios que, sob a aparência de servirem à revenda dos produtos da recorrente, têm, na realizada, o objetivo admitido de evadir tributo, ao abrigo de regime de tributação mitigada (lucro presumido). Nesse julgamento, não se decidiu que a segregação operacional e societária de fontes de rendimentos seria algo intolerável. Pelo contrário, a referida decisão reagiu a operações que apenas simulavam tal segregação, mas que na verdade apenas esconderiam a manutenção da unidade empresarial original. Os silogismos adotados na decisão restaram claros: como as operações praticadas pelo contribuinte foram simuladas, então a economia de tributos gerada pela reestruturação societária não deveria ser reconhecida; mas se a segregação fosse verdadeira, então os seus efeitos jurídicos deveriam ser reconhecidos pela administração fiscal e o correspondente planejamento tributário respeitado. Fl. 19566DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.567 45 Na mesma linha, no acórdão n. 10195.208, de 19.10.2005, o Primeiro Conselho de Contribuintes, de forma harmônica com o até aqui exposto, compreendeu que as segregações artificiais, com o propósito exclusivo de simular a legitimidade à opção pelo lucro presumido pelas partes, não poderia ser reconhecida para fins tributários. A decisão reconheceu o direito do contribuinte à reorganização societária e operacional de suas atividades e os efeitos tributários daí decorrente, mas se voltou contra a situação concreta, reputada como simulada. A referida decisão administrativa restou assim ementada: NULIDADE – INEXISTÊNCIA MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL – PRORROGAÇÃO – REGISTRO ELETRÔNICO NA INTERNET – A prorrogação do MPF, à luz do que determina o artigo 13 da Portaria 3007/2001, se dá mediante registro eletrônico, disponível na Internet. IRPJ – CSL – CONSTITUIÇÃO DE EMPRESA COM ARTIFICIALISMO – DESCONSIDERAÇÃO DOS SERVIÇOS PRETENSAMENTE PRESTADOS – MULTA QUALIFICADA – NECESSIDADE DA RECONSTITUIÇÃO DE EFEITOS VERDADEIROS – Comprovada a impossibilidade fática da prestação de serviços por empresa pertencente aos mesmos sócios, dada a inexistente estrutura operacional, resta caracterizado o artificialismo das operações, cujo objetivo foi reduzir a carga tributária da recorrente mediante a tributação de relevante parcela de seu resultado pelo lucro presumido na pretensa prestadora de serviços. Assim sendo, devem ser desconsideradas as despesas correspondentes. Todavia, se ao engendrar as operações artificiais, a empresa que pretensamente prestou os serviços sofreu tributação, ainda que de tributos diversos, há de se recompor a verdade material, compensandose todos os tributos já recolhidos. IRPJ – CSL – PIS – COFINS SALDO CREDOR DE CAIXA – Não se tratando de empréstimos derivados de sócios ou administradores, mas restando os mesmos sem a devida comprovação, a glosa dos encargos deduzidos seria o procedimento correto. Optando a fiscalização por expurgar tais valores da conta caixa, para fins de apuração de saldo credor, deve fazêlo tanto para os recebimentos quanto para os pagamentos dos empréstimos. Recurso voluntário parcialmente provido. Como regra a ser seguida, então, deve ser desconsiderada a segregação de fontes produtoras de rendimentos que se comprove simulada, respeitandose, por sua vez, os efeitos tributários de legítimas reestruturações socitárias implementadas pelo particular. 3. Aplicação das normas jurídicas ao caso concreto: inexistência de elementos de prova quanto à simulação de segregação das fontes produtoras de rendimentos. O acórdão a quo assentou questões fáticas que, aliadas às normas jurídicas acima expostas, permitem encontrar uma solução para o presente caso. 3.1. Evidência de vícios na estrutura negocial do contribuinte. O acórdão recorrido constatou não haver provas nos autos de que restaria desvirtuada a assunção de efetiva responsabilidade pela atividade alegadamente desenvolvida por cada uma das empresas do grupo, in verbis: “Quanto a haver ou não uma vontade própria de cada empresa, a análise feita pela fiscalização do quadro social da ML do Nordeste, empresa da qual teriam se originado as quatro empresas, em nada respalda a tese do lançamento. De fato, tal análise apenas apontaria os membros da direção da ML como possíveis Fl. 19567DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.568 46 membros da direção das quatro empresas, já que estas são resultantes do desmembramento da ML. Restaria que a fiscalização conseguisse demonstrar que as quatro empresas tinham órgãos de direção compostos por membros da direção da ML e que todas as empresas perseguiam em conjunto um mesmo objetivo social. A análise do fiscal do quadro social da MK, ME, e MC (AlphaPro), também não traz nenhum esclarecimento. Ela apenas indica os nomes dos sócios formais como potenciais membros da direção da aventada empresa única. (...) Também a informação da fiscalização de que participaram do quadro social inicial da ML, Mondial e MC (AlphaPro) pessoas ligadas A. contadora das quatro empresas, não corrobora a tese base do lançamento, porque isso não refuta o quadro social e a direção das quatro empresas nos períodos autuados, nem indica uma determinada composição societária nas quatro empresas, nem demonstra confusão de objetivos sociais. Em resumo, mesmo tomadas em conjunto, estas análises da fiscalização não conseguem de modo algum refutar o quadro social e direção das quatro empresas formalmente registrados. Muito menos conseguem demonstrar a existência de uma mesma direção em todas as quatro empresas atuando para a realização de um objetivo social único.” Ainda com vistas à coerência negocial das estruturas analisadas neste recurso especial, o acórdão recorrido destacou, in verbis: “Outro ponto levantado pelo Fisco para sustentar suas conclusões é que a MK, ME e a AlphaPró têm por principal atividade a fabricação, montagem e comércio de eletrodomésticos e eletrônicos e a Mondial tem por atividade principal o comércio atacadista de eletrodomésticos e eletrônicos, sendo que todas comercializam os produtos e mercadorias sob a marca Mondial. A fiscalização explica que marca é de titularidade de empresas ligadas (Crowland SA e Silman Internacional SA) e que o logo da Mondial aparece no teto dos galpões. Com base nisso, conclui que não existe distinção entre a MK, ME, AlphaPró e Mondial, pois tudo é Mondial. Por sua vez o contribuinte explica que se trata de um grupo econômico e que cada uma das empresas tinha uma linha de produto e atividade especifica. Explica que: 1) a ME importa alguns tipos de produtos da China, diferentes dos produzidos pelas outras empresas; 2) a MK produz a linha de cozinha e importa alguns produtos afins; 3) a AlphaPro produz a linha de ventilação e aquecedores; 4) a Mondial comercializa os produtos das três empresas quando os cliente são de outro estado. Enfatiza que cada empresa possui seu próprio maquinario e moldes, que compram sua própria matéria prima, e que não existe partilhamento na fabricação dos produtos. Insiste que o uso da mesma marca não faz as empresas perderem a personalidade. Quanto a estes aspectos, cabem algumas ponderações. Inicialmente, vale notar que o uso da mesma marca pelas quatro empresas não permite concluir que elas seriam uma só. As empresas podem vender produtos com uma mesma marca sem perder sua personalidade. Inclusive, a própria fiscalização destaca, que a titularidade da marca é de outras empresas (Crowland SA e Si'man Internacional SA) que não foram afetadas pelo lançamento. Isso fragiliza a tese do lançamento, pois de um lado a própria.” O acórdão recorrido analisou as provas dos autos e concluiu, ainda, pela inexistência de demonstração quanto à prática preços de estranhos ao mercado entre as partes segregadas: “Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para Fl. 19568DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.569 47 alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial.” 3.2. Evidência de vícios na estrutura financeira e contábil do contribuinte. O acórdão recorrido também evidenciou inexistir demonstração de confusão de titularidade dos recebíveis e dos passivos, capaz de evidenciar ausência de autonomia das partes e a unidade de empresas apenas formalmente segmentadas, in verbis: “Além disso, as empresas pagavam aluguel pelo uso do espaço fisico, sendo irrelevante que os galpões fossem de propriedade de uma delas. Quanto à efetividade desses alugueis, a fiscalização teve acesso aos livros que registram esses aluguéis e não fez qualquer exame adicional para verificar se foram ou não pagos. Inclusive, sequer mencionou que as empresas pagavam alugueis pelos galpões que ocupavam. Portanto, não é possível falar em confusão de espaço físico e nem em empréstimo gracioso de espaço. Até onde esta demonstrado nos autos, cada empresa ocupava um galpão e arcava com os custos deste imóvel. Por oportuno, a alegação da fiscalização de que as empresas rateavam a conta de energia, também é explicada pelo aluguel dos galpões. Ou seja, se as empresas alugavam os galpões da ME, é razoável que a energia fosse rateada entre elas. Além disso, é a própria fiscalização que diz que cada empresa pagava sua despesa, já que a conta era rateada, e não põe em cheque o critério de rateio, obrigando que este seja aceito como correto. Por outro lado, o contribuinte explica que a dona do terreno (ME) é a titular do contrato com a Coelba e que divide as despesas com a MK. Também, informa que a AlphaPró tem seu próprio contrato com a Coelba, em relação ao seu galpão alugado. O acórdão recorrido também evidenciou inexistir demonstração de vícios capazes de macular efetivamente a contabilidade das empresas relacionadas e os informes financeiros elaborados, in verbis: “O Fisco também diz haver confusão na contabilidade das empresas. Sustenta esta posição dizendo que a contadora é a mesma e que a contabilidade apresenta a mesma estrutura. A fiscalização também diz que intimou o contribuinte a consolidar a contabilidade das quatro empresas e que o contribuinte apresentou tal consolidação, embora apenas fazendo a soma de cada conta. Afirma que este compartilhamento de dados, que seriam sigilosos, mostra a ligação entre as empresas. O contribuinte diz que isso não demonstra nenhuma confusão entre as empresa e que é comum um grupo empresarial ter um mesmo escritório de contabilidade e ter contabilidade com estrutura semelhante. Também, transcreve texto de intimação no qual o Fisco exige a apresentação da consolidação das quatro contabilidades sob pena de aplicação de multa e explica que apenas atendeu ao exigido pela fiscalização. Ora, salta aos olhos que o fato das empresas terem o mesmo responsável pela contabilidade e mesma estrutura de contas não implica em qualquer confusão. No caso, o que a fiscalização poderia ter pesquisado era se as empresas assumiam cada uma o custo do escritório de contabilidade ou se este era arcado por apenas uma delas ou por um caixa comum. Mas, este trabalho não foi feito. Quanto ao fato das empresas apresentarem a consolidação exigida pelo Fisco, isso também não comprova a existência de uma empresa única, mas sim de um Fl. 19569DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.570 48 grupo com acesso a informações uma das outras, fato admitido pelo contribuinte.” Como se pode constatar, além da inexistência de evidência relevantes quanto à ocultação da verdadeira estrutura negocial do contribuinte, também não há evidência de vícios na sua estrutura financeira e contábil capaz de tornar inoponível ao fiscal a segregação societária e operacional implementada. 3.3. Evidência de vícios na estrutura física e operacional do contribuinte. As questões quanto à localização geográfica e possíveis confusões estruturais foram verificadas pelo o acórdão a quo, que assentou, in verbis: “O ponto de partida do relatório fiscal é sustentar que as quatro empresa "funcionavam no mesmo endereço". Para manter a acusação, a fiscalização informa a localização inicial da sede de cada empresa e conta que elas se transferiram para Conceição do Jacuipe. Indica o endereço de cada empresa dizendo que: a MK se localizava na Estrada da Volta, 1200, galpão 2; a ME, na Estrada da Volta, 1200; a Alpha, na Try. da Volta, 155, galpão 2; e a Mondial, na Estrada da Volta, 1200, galpão 3B. Já o contribuinte explica que as empresas ocupavam galpões vizinhos, construidos em terreno da ME, e que pagavam alugueis pelo uso do espaço. Para comprovar suas alegações, juntou o registro contábil dos alugueis pagos por diversas empresas (MK, MC, AlphaPró, M Service, Margel, Global, Mondial, SPD) para a ME (proc. fls. 18893 a 18899). Também, juntou copia dos cartões CNPJ, que mostram os endereços cadastrados (proc. fls. 19010 a 19014). Portanto, percebese que a fiscalização e o contribuinte concordam em que as empresas estavam localizadas em galpões vizinhos. Mas, se as empresas ocupam cada uma um galpão diferente, não é possível dizer que dividem um mesmo espaço físico. Ou seja, mesmo admitindose que o endereço do terreno onde estão localizados os galpões pudesse ser um só, cada empresa tem suas instalações em um local (galpão) diferente. Assim, não se pode falar em compartilhamento de espaço fisico.” Também constatou o acórdão a quo, in verbis: “Além disso, o contribuinte informa que a MK e a AlphaPró compraram todas as máquinas e moldes da ML. Isso mostra que cada empresa tinha no seu galpão os seus próprios maquindrios e equipamentos, necessários para sua atividade. Assim, não se pode falar em compartilhamento de instalações. De outra banda, a fiscalização teve acesso as instalações, livros e documentos. Portanto, é de supor que tenha verificado se as máquinas, moldes e demais ativos haviam sido adquiridos por cada uma das empresas, se estavam registrados na contabilidade, e se estavam instalados no galpão correto. Logo, se a fiscalização nada disse sobre este aspecto tão importante, é necessário admitir como verdadeira a informação do contribuinte de que as instalações de cada empresa era da própria empresa. A fiscalização também não efetuou qualquer diligência para demonstrar que as empresas dividiam maquindrio na fabricação de seus produtos. Portanto, também é preciso supor que não existe partilharnento de equipamentos na produção. Assim, se os bens são das empresa, se estão instalados nos seus respectivos galpões, e se cada empresa usa suas próprias máquinas, o fato das empresas usarem a mesma marca para comercializar seus produtos apenas indica tratarse Fl. 19570DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.571 49 de um grupo econômico, e não de uma única empresa. De qualquer modo, cabe continuar a análise das demais afirmações do Fisco”. Quanto às questões estruturais pertinentes aos funcionários de cada uma das empresas do grupo, a decisão recorrida também apresentou constatações decisivas, in verbis: “Outro ponto levantado pela fiscalização para sustentar suas conclusões é a divisão de empregados. Para sustentar esta posição a fiscalização diz que analisou a folha de pagamento e concluiu que as empresas dividiam alguns quadros gerenciais, pela construção da hipótese de que alguns cargos seriam necessários nas duas empresas industriais. Para informar quais gerentes seriam compartilhados, o Fisco apresenta uma tabela. Mas, tal tabela não permite compreender quais gerencias seriam divididas, nem a descrição dos fatos traz qualquer explicação. Além disso, a falta de indicação da localização nos autos dos elementos comprobatórios impede a verificação do afirmado e um maior esforço de compreensão da posição da fiscalização. Portanto, este ponto da acusação fica parcialmente prejudicado. Também para comprovar esta acusação de compartilhamento de empregados, a fiscalização diz que "as empresas ME, MK, Mondial e Alpha figuram em vários processos trabalhistas como `plfirima réu', ou seja, partes que tinham relação com o fato/empresa reclamada" e que "em um dos processos, há uma sentença declarando a existência do mesmo grupo econômico, e reconhecendo a solidariedade entre as empresas". No entanto, a simples menção a aches trabalhistas, onde as empresas teriam relações com a reclamada, não é suficiente para se concluir que o processo trabalhista indique uma ou várias pessoas que trabalhassem para as quatro empresas. Se acaso algum destes processos tivessem elementos que demonstrassem a utilização do mesmo empregado pelas 4 empresas, a fiscalização deveria ter detalhado tal situação. Do mesmo modo, a existência de sentença reconhecendo o grupo econômico ou a solidariedade entre as empresas não obra em favor da tese da fiscalização. Ao contrário, tal sentença confirma que existe um grupo econômico e não uma empresa. Por sua vez, o contribuinte afirma que cada empresa tem seus próprios funcionários e junta a folha de pagamento das quatro empresas (proc. fls. 18962 a 19009). Ora, se a fiscalização examinou as folhas de pagamentos e os locais de trabalho, e se não encontrou empregados de uma empresa trabalhando no espaço fisico de outra, não é razoável afirmar que haveria divisão de empregados. De fato, a fiscalização poderia ter feito diligências nas sedes das empresas e anotado os nomes das pessoa que la se encontravam, para verificar se eram ou não empregadas pela empresa onde estavam atuando. Mas, tal exame não foi feito e o Fisco pretende dizer que existe divisão de empregados pela construção da hipótese de que alguns cargos seriam necessários nas duas empresas industriais. Mesmo supondo a hipótese de que alguns cargos seriam necessários nas duas empresas fabris e que as duas empresas compartilhariam gerentes nesses postos (o que não restou provado), seria preciso ponderar a significância desta circunstância com o total da mão de obra empregada em cada empresa. Mas, esta ponderação não foi apresentada pelo Fisco. Por isso este ponto do relatório não é apto a comprovar a tese da fiscalização. Ao contrário, a juntada das folhas de pagamento pelo contribuinte e a ausência de exames fundamentais, que poderiam ser feitos pela fiscalização, demonstram não haver divisão ou confusão no uso da mão de obra. Deste modo, cabe Fl. 19571DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.572 50 analisar se as outras acusações da fiscalização têm o condão de comprovar a tese do lançamento”. Diante de todo o exposto, resta evidenciado que a autoridade fiscal não se desincumbiu do ônus de provar a simulação, a fraude ou o dolo da evasão de tributos. Considerando o que consta nos autos, a forma de organização societária e negocial das empresas relacionadas nos presentes autos não se desviou da causa típica atinente à espécie, à “função prática que caracteriza o negócio jurídico, em garantia da qual o direito concede a sua tutela”18. Nesse cenário, compreendo não merecer reparo o acórdão a quo, razão pela qual, quanto ao mérito do recurso especial da PFN, voto pelo seu não provimento. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto 18 VANONI, Ezio. Natureza e interpretação das leis tributarias. Trad. Rubens Gomes de Souza. Rio de Janeiro : Ed Financeiras, 1932, p. 128. Fl. 19572DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.573 51 Declaração de Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Histórico A PGFN apresentou recurso especial defendendo a existência de divergência jurisprudencial acerca de duas matérias: I) erro na identificação dos sujeitos passivos; II) qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação. Para comprovar a existência de divergência jurisprudencial a respeito da primeira matéria discutida, a PGFN indicou o Acórdão nº 240100.056. Já no que diz respeito à segunda matéria, foram apontados como paradigmas os acórdãos nº 240100.056 (novamente) e nº 110200.667. Ao desenvolver a defesa a respeito da existência de dissenso jurisprudencial concernente à segunda matéria, a PGFN confrontou o acórdão recorrido com as decisões paradigma em relação a alguns pontos específicos que foram elencados pela Fiscalização como indicadores da existência de planejamento tributário ilícito. O acórdão recorrido foi comparado com o Acórdão nº 240100.056 no que diz respeito à existência de direção comum das empresas de um grupo econômico e à utilização de um mesmo contador por todas elas. Já o Acórdão nº 110200.667 foi cotejado com a decisão recorrida tendo como pano de fundo as questões da comunhão de objetos sociais entre as empresas de um grupo e a utilização de um mesmo espaço físico por todas elas. Finalizada a defesa do atendimento do requisito recursal da existência de divergência jurisprudencial, a PGFN apresentou argumentos de mérito que, no seu entender, deveriam provocar a reforma do acórdão recorrido, no que se refere tanto à declaração de ilegitimidade passiva dos sujeitos apontados quanto à conclusão de que inexistiria planejamento tributário ilícito no caso analisado nos autos. O recurso especial da PGFN foi submetido à análise de admissibilidade e obteve seguimento total. A contribuinte foi intimada a respeito da interposição do recurso pela Fazenda Nacional e apresentou contrarrazões tempestivas. Argumentou a contribuinte: I) que o recurso não pode ser conhecido no que atine à primeira matéria contestada (erro na identificação dos sujeitos passivos) porque inexistiria similitude fática entre o acórdão recorrido e o paradigma nº 240100.056. Fl. 19573DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.574 52 II) também não pode ser admitido o recurso no que diz respeito à segunda matéria guerreada (qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação), por dois motivos: a) A pretensão da recorrente é de rediscussão de provas e fatos, o que não se admite em sede de recurso especial; b) Inexiste similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas. Além das arguições preliminares de não conhecimento do recurso fazendário, a contribuinte apresentou argumentos pela manutenção da decisão recorrida. Posteriormente a contribuinte apresentou memoriais em que apresenta novos argumentos em seu pleito da declaração de não conhecimento do recurso especial ou da negativa de seu provimento e manutenção do acórdão recorrido. Análise 1) Preliminar de não conhecimento da matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos" em razão da ausência de similitude fática O acórdão recorrido não é muito claro a respeito do que considerou como erro na identificação do sujeito passivo: "Quanto á identificação do contribuinte, existe um erro evidente, pois não é possível considerar que a aventada sociedade de fato, formada pelas quatro empresas formais, seja identificada com urna destas empresas, a MK. Caberia ao Fisco colocar no pólo passivo a sociedade de fato que lograsse comprovar. Além disso, deveria identificar e apontar cada um dos sócios de fato, que responderiam ilimitadamente nos termos legais. Também, não é possível apontar como responsável solidário as empresas que o Fisco considera fazer parte de uma única empresa. Se as empresas são partes da sociedade de fato, elas não podem ser responsáveis." No seu recurso especial, a PGFN faz afirmação que leva ao entendimento de que o Conselheiro Relator do acórdão recorrido quis se referir a uma suposta necessidade de desconsideração das personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas que, segundo a Fiscalização, atuavam como uma só: "Segundo argumentação desenvolvida nos fundamentos do acórdão recorrido, o reconhecimento da simulação importaria desconsiderar as personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas, que seriam substituídas pela entidade única identificada (designada como sociedade de fato), em face de quem deveria ser pomovida a autuação. Nesse linha, conclui que, ao indicar uma das pessoas jurídicas como devedora principal e as demais como responsáveis solidárias a autuação incorreu em vício na sujeição passiva, eivando de nulidade o lançamento." Fl. 19574DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.575 53 Pois bem. De qualquer forma, o que se sabe é que a decisão recorrida entendeu como nulos os lançamentos tributários em razão de erro na identificação dos sujeitos passivos. No seu entendimento, não poderiam figurar no polo passivo a MK ELETRODOMÉSTICOS como contribuinte e as empresas ME INDÚSTRIA ELETRÔNICA DO NORDESTE, ALPHAPRO CUIDADOS PESSOAIS e MONDIAL ELETRODOMÉSTICOS como responsáveis tributárias. A PGFN trouxe como paradigma atinente a esta matéria apenas um acórdão: nº 240100.056. De relevante para a análise aqui realizada, podemos extrair as seguintes passagens daquele julgado: "Relatório (...) A auditoria fiscal desenvolveu ação fiscal em empresas, cuja composição societária é composta por membros da família Cechinel, conforme se verifica à folha 51. Tais empresas seriam a Confecções Roscel Ltda (administração), Roscel Indústria do Vestuário Ltda (fábrica), Industria e Comércio de Confecções Cechinel (Posto de vendas) e Roscel Administração de Imóveis Ltda (administração de bens próprios). A despeito da apresentação formal de sociedades empresárias aparentemente distintas, constatouse a efetiva existência de uma única empresa, sujeito passivo do presente lançamento. Foi verificado que a existência formal da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, que na prática representa o setor de industrialização ou fábrica do sujeito passivo, somente se justifica como artificio para a obtenção indevida de tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela lei do SIMPLES. A Indústria o Comércio de Confecções Cechinel Ltda comercializa os produtos da Roscel. Tal empresa possui parcelamento especial (REFIS). (...) A notificada apresentou impugnação (fls. 392/448 Vol II) onde alega que a presente notificação pautouse exclusivamente em suposições e levantamentos infundados. (...) Considera que houve erro na identificação do sujeito passivo, eis que em nenhum momento fica demonstrada a responsabilidade da requerente para com a empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda. (...) Voto (...) Observase que o recurso apresentado, seja em sede de preliminar quando alega erro na identificação do sujeito passivo ou ausência de motivação para o lançamento, seja quanto ao mérito, quando aduz que o lançamento tomou por base indícios inverídicos fundados em meras suposições, tem como cerne o inconformismo da recorrente pela responsabilização da mesma pelas contribuições patronais incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados Fl. 19575DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.576 54 formalmente vinculados à Roscel Industrial do Vestuário Ltda, optante pelo SIMPLES, os quais a auditoria fiscal entendeu estarem verdadeiramente vinculados à recorrente. (...) Escudada no Princípio da Verdade Material e pelo poderdever de buscar o ato efetivamente praticado pelas partes, a Administração, ao verificar a ocorrência de simulação, pode superar o negócio jurídico simulado para aplicar a lei tributária, aos verdadeiros participantes do negócio pois, de acordo com o art. 118, inciso I do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Não restam dúvidas de que todos os expedientes utilizados tinham por objetivo simular negócio jurídico, no qual a intentio facti se divorcia da intentio iuris, ou seja, a intenção das partes é uma, a forma jurídica adotada é outra." (grifouse) Inicialmente, observese que a contribuinte que figura no acórdão paradigma apresentou arguição de erro na identificação do sujeito passivo. A alegação foi refutada no voto condutor da decisão, sob o argumento de que ele representava mero inconformismo da contribuinte com a responsabilização que lhe foi atribuída. Apesar de não haver no acórdão paradigma discussão explícita acerca da questão da correta sujeição passiva a ser apontada em casos de planejamento tributário em que várias empresas formalmente distintas agem coordenadamente como se fossem uma só, com a exclusiva finalidade de redução artificial da carga tributária, é seguro afirmar que aquela decisão entendeu como perfeito o apontamento de uma das empresas integrantes do grupo econômico como contribuinte dos tributos lançados por meio do auto de infração. No entendimento do acórdão recorrido, nenhuma das empresas integrantes do grupo econômico poderia constar no polo passivo, mas apenas os sócios de fato, cuja identificação caberia à Fiscalização. Assim, constatase que efetivamente existe divergência de entendimentos entre os dois acórdãos contrapostos, em relação à matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos". Dos trechos transcritos do Acórdão nº 240100.056, é de fácil verificação a existência de similitude fática entre os julgados, no que interessa à divergência suscitada. Em ambos os casos, tratouse de um conjunto de empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, formalmente independentes, que atuavam de forma coordenada como se fossem uma só pessoa jurídica, com o intuito de reduzir a carga tributária suportada pela universalidade do grupo. O planejamento tributário apontado pela Fiscalização, em ambos os processos, dizia respeito a uma artificial segregação de atividades que normalmente são realizadas pela mesma empresa, de forma a possibilitar que algumas destas empresas pudessem gozar de regimes tributários mais favorecidos. Assim, buscavase, também de forma artificial, a concentração das despesas do grupo naquelas empresas tributadas pelo lucro real e das receitas em outras, optantes por regimes tributários mais insensíveis ao acréscimo dos rendimentos (SIMPLES, no acórdão paradigma; regime de lucro presumido, no caso do acórdão recorrido). Fl. 19576DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.577 55 Assim, considero existente a similitude fática entre os acórdãos cotejados e configurada a divergência jurisprudencial a respeito da correta indicação do sujeito passivo em casos de grupos econômicos que têm suas atividades submetidas a tributação como se fossem uma só empresa, diante da constatação, pela Fiscalização, de planejamento tributário ilícito. Deve ser, portanto, rejeitada a arguição preliminar da recorrida de não conhecimento do recurso especial no que atine à matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos". 2) Preliminar de não conhecimento da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" em razão da pretensão de reexame fático Em contrarrazões e memoriais, a contribuinte alega que a PGFN, ao propor a discussão a respeito da qualificação jurídica dos fatos relatados nos autos, estaria, na realidade, pretendendo a reapreciação dos fatos, o que é vedado em sede de julgamento de recurso especial. Os fatos a serem apreciados não seriam, ao contrário do que argumenta a recorrente, incontroversos. Assim, tratarseia efetivamente de reexame dos fatos e valoração das provas. Considero improcedentes tais alegações. Em grande parte dos casos julgados pela CSRF, é impossível, na prática, desviar totalmente o olhar do conjunto probatório reunido nos autos e restringir a discussão à pura abstração jurídica. A não ser em discussões já consagradas, como por exemplo aquela que diz respeito ao cabimento da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, as deliberações empreendidas pela Câmara quase sempre resvalam na verificação do conjunto probatório coligido no processo, sem que isso possa ser considerado um "reexame" de fatos ou provas. Tal fato é particularmente verdadeiro quando se trata de julgamentos acerca de planejamentos tributários, que normalmente envolvem mais de uma empresa, várias etapas, múltiplos atos societários e diversos efeitos tributários. A completa avaliação destes cenários, ainda que em julgamento pela instância especial do contencioso administrativo, não pode dispensar totalmente a verificação, ainda que superficial, dos fatos e provas retratados no processo. A correta aplicação do direito ao caso sob discussão demanda necessariamente que se entenda como os fatos se desenrolaram no mundo real, o que só pode ser alcançado por meio do olhar lançado sobre os fatos e provas. E a aplicação do direito é justamente o que se espera de uma instância recursal. Em que pese tratar de recursos judiciais, é justamente esta a inteligência do art. 1.034 do Novo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015): Art. 1.034. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial, o Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça julgará o processo, aplicando o direito. Parágrafo único. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial por um fundamento, devolvese ao tribunal superior o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado. Fl. 19577DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.578 56 Assim, a aplicação do direito ao caso concreto não pode e não deve ignorar todo o contexto fático e acervo probatório que foi construído na devida fase processual. Julgo ser exatamente este o caso da presente lide. Da análise do processo, não vislumbro discussão relevante acerca de provas produzidas ou de fatos relatados. Assim, tem se um conjunto probatório estabelecido e passível de valorização jurídica. A Fiscalização e a autoridade julgadora de primeira instância consideraram que tal conjunto probatório era suficiente para se concluir pela invalidade tributária dos atos negociais praticados, propondo a desconsideração de seus efeitos fiscais. A Turma a quo, a partir da análise do mesmo conjunto probatório, construiu entendimento diverso, no sentido que não existiriam indícios relevantes de vícios que pudessem mitigar a regularidade formal dos atos negociais, permanecendo inalterados os efeitos tributários pretendidos pela contribuinte e pelas demais empresas pertencentes ao seu grupo econômico. Diante disso, verifico que o recurso especial sob análise, caso conhecido, não tem a pretensão de revolver e rediscutir a coleção de provas reunidas, mas simplesmente de debater a melhor valoração jurídica a ser dada a um conjunto de atos negociais que já são, na presente fase processual, incontroversos. A parte que permanece controvertida, na minha opinião, já se localiza no campo da diversidade de qualificações jurídicas que diferentes mentes podem dar aos mesmos fatos. Com base nestes argumentos, entendo que deve ser rejeitada a preliminar da contribuinte recorrida de não conhecimento do recurso especial em relação à matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", por alegada pretensão de reexame de provas. 3) Preliminar de não conhecimento da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" em razão da ausência de similitude fática A contribuinte recorrida refuta a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os dois paradigmas (nº 240100.056 e nº 110200.667), no que diz respeito à qualificação jurídica dada aos fatos relacionados nos autos, sob o argumento de que inexistiria similitude fática entre os julgados. Em seu intuito, a contribuinte questiona argumentos específicos trazidos pela PGFN em seu recurso especial, apontando aspectos que impediriam o adequado cotejo entre as decisões no que diz respeito a estes pontos. Assim, defende que, apesar de o acórdão recorrido e o paradigma nº 2401 00.056 tratarem de empresas submetidas a direção comum e que utilizam os serviços do mesmo contador, a comparação pretendida pela recorrente é impossível diante da consideração da distinção de outras características dos casos concretos, tais como a identidade de objetos sociais, a confusão de recursos humanos e financeiros, presença de gestor "oculto" e o vínculo empregatício do contador. Já o confronto entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 110200.667, sugerido pela recorrente em relação à comunhão de objetos sociais e à identidade/proximidade do espaço físico, tampouco seria possível se levarse em conta a existência de diferenças Fl. 19578DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.579 57 fáticas relevantes relativas à redação dos contratos sociais, à confusão de recursos e despesas e ao correto rateio de custos e despesas compartilhados. Dessa forma, defende a contribuinte que nenhum dos dois paradigmas elencados pela recorrente se prestaria à tarefa de comprovar a ocorrência de divergência jurisprudencial frente ao acórdão recorrido. Entendo que, quando a autuação fiscal é fundamentada em planejamento tributário considerado pela Fiscalização como ilícito ou abusivo, sua análise deve ser feita sempre sobre o conjunto de suas características, evitandose o cotejo entre recortes que podem ser retirados de seu real contexto. Assim, creio que a comparação entre os arcabouços fáticos da decisão recorrida e dos acórdãos paradigmas deve ser feita tendose em perspectiva a totalidade de suas características. Esta é a única forma de se verificar se os casos concretos analisados são similares o suficiente para que as distintas conclusões jurídicas dali derivadas possam ser consideradas como verdadeiras divergências jurisprudenciais. Isso posto, examinemse os trechos retirados do Acórdão nº 240100.056 que discorrem sobre as características do planejamento tributário constatado pela Fiscalização: "Relatório (...) A auditoria fiscal desenvolveu ação fiscal em empresas, cuja composição societária é composta por membros da família Cechinel, conforme se verifica à folha 51. Tais empresas seriam a Confecções Roscel Ltda (administração), Roscel Indústria do Vestuário Ltda (fábrica), Industria e Comércio de Confecções Cechinel (Posto de vendas) e Roscel Administração de Imóveis Ltda (administração de bens próprios). A despeito da apresentação formal de sociedades empresárias aparentemente distintas, constatouse a efetiva existência de uma única empresa, sujeito passivo do presente lançamento. Foi verificado que a existência formal da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, que na prática representa o setor de industrialização ou fábrica do sujeito passivo, somente se justifica como artificio para a obtenção indevida de tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela lei do SIMPLES. A Indústria o Comércio de Confecções Cechinel Ltda comercializa os produtos da Roscel. Tal empresa possui parcelamento especial (REFIS). O que levou a auditoria fiscal à conclusão de que o conjunto das empresas formalizadas na verdade representa uma simulação com o objetivo de elidir a contribuição previdenciária patronal são as seguintes constatações. • Com exceção da administradora dos bens próprios, as demais empresas dedicamse à exploração de uma só atividade econômica, qual seja, a confecção e comércio de peças de vestuário (...) • Não se trata de empresas distintas funcionando de "per si", mas de um empreendimento econômico desenvolvendo a mesma atividade e sob a mesma Fl. 19579DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.580 58 administração de fato, bem como funcionando no mesmo local (uma com endereço na frente do imóvel, acesso pela Rodovia Luiz Rosso, e outra nos fundos, acesso pela rua Raimundo Pucker). (...) • Há trabalhadores formalmente registrados e pessoa jurídica diversa daquela em que efetivamente prestam serviços. • A Confecções Roscel Ltda figurou como reclamada em ação trabalhista juntamente com a indústria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda. (...) • O expediente adotado pela empresa resulta na situação em que o faturamento e o patrimônio ficam reservados para a verdadeira empresa e o quadro funcional com os respectivos encargos de folha para a empresa optante pelo SIMPLES. • Embora a contabilidade apresentada pelas empresas contivesse várias irregularidades, verificouse a inexistência de contabilização de despesas necessárias á manutenção da atividade da Roscel Indústria do Vestuário Lula, como assistência técnica de máquinas e equipamentos, fornecimento de água e esgoto, bem como de patrimônio. (...) Voto (...) As empresas envolvidas pertencem a membros da família Cechinel. O arranjo realizado pelas empresas consiste em manter três empresas separadas. A notificada Confecções Roscel Ltda concentra a administração das empresas e o faturamento, além de possuir pequeno número de empregados. A empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda responde pela fabricação das confecções, concentra grande número de empregados, é optante pelo sistema diferenciado de tributação SIMPLES, não possui patrimônio, faturamento inexpressivo e, em alguns períodos, ausente. As operações de venda são realizadas por uma terceira empresa, a Industria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda. Embora a recorrente tente fazer transparecer que se trata de empresas independentes entre si, não é o que se verifica. As empresas Confecções Roscel Ltda e Roscel Indústria do Vestiário Ltda funcionam no mesmo local e possuem empregados registrados em uma empresa prestando serviços em outra. Segundo a auditoria fiscal, as empresas têm como administrador, embora não conste atualmente do quadro societário, o fundador do grupo, Sr. Celso Cechinel. Ao contrário do que alega a recorrente não é absolutamente natural que uma pessoa que não participe mais formalmente da gestão de uma empresa possa falar em nome da mesma ou substituir os responsáveis formais, ainda que sejam seus filhos. Fl. 19580DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.581 59 No que concerne ao fato dos contadores de uma empresa aparecerem assinando documentos contábeis das duas empresas, a recorrente alega que nada impede que seus contadores pudessem prestar serviços a outras empresas. Tratase de mais uma alegação desprovida de comprovação. Da análise dos fatos apresentados, é possível concluir que a conduta descrita se revela verdadeira simulação. O Código Civil Brasileiro instituído pela Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 regula a questão da simulação no Capítulo que trata da Invalidade do Negócio Jurídico e no inciso I do § ra do artigo 167 temos o exato enquadramento da situação verificada pela auditoria fiscal, in verbis: (...) Escudada no Princípio da Verdade Material e pelo poderdever de buscar o ato efetivamente praticado pelas partes, a Administração, ao verificar a ocorrência de simulação, pode superar o negócio jurídico simulado para aplicar a lei tributária, aos verdadeiros participantes do negócio pois, de acordo com o art. 118, inciso I do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Não restam dúvidas de que todos os expedientes utilizados tinham por objetivo simular negócio jurídico, no qual a intentio facti se divorcia da intentio iuris, ou seja, a intenção das partes é uma, a forma jurídica adotada é outra. (...) Nesse diapasão, podese citar o entendimento de Heleno Urres em sua obra Direito Tributário e Direito Privado — Autonomia Privada, Simulação, Elusão Tributária — Ed. Revista dos Tribunais —2003 — pág. 371: "Como é sabido, a Administração Tributária não tem nenhum interesse direto na desconstituição dos atos simulados, salvo para superarlhes a forma, visando a alcançar a substância negociai, nas hipóteses de simulação absoluta. Para a Administração Tributária, como bem recorda Alberto Xavier, é despiciendo que tais atos sejam considerados válidos ou nulos, eficazes ou ineficazes nas relações privadas entre os simuladores, nas relações entre terceiros ou nas relações entre terceiros com interesses conflitantes. Eles são simplesmente inoponíveis à Administração, cabendo a esta o direito de superação. pelo regime de desconsideração do ato negociai, da personalidade jurídica ou da forma apresentada, quando em presença do respectivo "motivo" para o ato administrativo: o ato simulado"" É de fácil constatação a existência de várias coincidências entre os indícios apontados pela Fiscalização nos autos em que foram proferidos o acórdão recorrido e o paradigma nº 240100.056. Em cada um dos dois casos, a Fiscalização considerou que empresas integrantes de um grupo econômico, submetidas à gestão das mesmas pessoas, atuavam de forma coordenada como se fossem uma só pessoa jurídica. As empresas compartilhavam a mesma localização física (espaços contíguos, com comunicação direta). As suas contabilidades estavam entregues ao mesmo contador ou Fl. 19581DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.582 60 escritório de contabilidade. Elas figuravam juntas como reclamadas em diversas ações trabalhistas. Havia empregados que, embora formalmente ligados a apenas uma das empresas, prestavam serviços às demais. Nos dois casos concretos, a Fiscalização entendeu que o arranjo orquestrado entre as empresas tinha o único propósito de reduzir, de forma artificial, a carga tributária total devida pelas empresas integrantes dos grupos econômicos. Com este intuito, as empresas simulavam uma segregação das atividades componentes de seu processo produtivo, deslocando despesas e receitas para as empresas que teriam sua tributação mais favoravelmente impactada por estes valores. Obviamente existem diferenças fáticas entre os dois casos concretos (como seria esperado, diante da improbabilidade de se encontrar configurações fáticas exatamente iguais). Todavia, diante da contemplação da plenitude dos quadros comparados, as semelhanças, para os fins aqui propostos, se mostram significativamente mais relevantes do que os aspectos distintos. Assim, diante da existência de similitude fática entre os acórdãos recorridos e paradigma (nº 240100.056) e do fato de as interpretações jurídicas adotadas por eles, diante de quadro similar, serem diversas (o acórdão paradigma entendeu configurada simulação e manteve a tributação lançada sobre uma das empresas participantes do grupo, enquanto a decisão recorrida considerou não configurado planejamento tributário e determinou o cancelamento da autuação lavrada contra uma das empresas integrantes do grupo), considero que foi suficientemente demonstrada a existência de divergência jurisprudencial entre as decisões cotejadas. A recorrente indicou ainda, quando defendeu a existência de dissídio jurisprudencial acerca da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", um segundo acórdão paradigma, de nº 110200.667. Desta segunda decisão, podemos extrair as seguintes passagens de interesse para a análise ora realizada: "Inicialmente, registrese que não há dúvidas de que as empresas SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS partilham de uma única área geográfica. Comprovam este fato as fotos anexas aos autos, e os relatos feitos de que o acesso a ambas as empresas, em que pese uma conste nos cadastros da RFB como sediada no nº 18.500, e a outra no nº 18.550, se dá pela mesma portaria, que há uma única recepção, que as instalações de direção e administração são comuns, que os funcionários da contabilidade são os mesmos, e que a máquina que emite as notas fiscais é a mesma. Estas são constatações feitas in loco pela fiscalização, e que em nenhum momento foram contraditadas pela recorrente. Por outro lado, até este ponto podese considerar tais providências como simples racionalização de operações com vistas a uma redução dos seus custos administrativos. (...) Segundo a recorrente, as empresas não dividiriam instalações e equipamentos. Cada uma delas possui fornecedores, funcionários, equipamentos e instalações próprias, e desenvolve as suas atividades de forma independente uma da outra, conquanto complementares. Conforme já relatado, afirma a recorrente que a KIWI BOATS fabrica somente os cascos de fibra de vidro de acordo com a encomenda de clientes, e a SCHAEFER Fl. 19582DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.583 61 YACHTS apenas promove a instalação, nesses cascos, dos equipamentos que são adquiridos no mercado pelos seus clientes. (...) Tampouco a alegação da recorrente de que cada empresa teria seus próprios fornecedores se confirma. (...) Assim, o que as notas fiscais emitidas pelas empresas em questão demonstram é tão somente uma “repartição” do faturamento pela venda do produto final, em que a KIWI BOATS emite diretamente em nome do adquirente da embarcação uma nota fiscal de venda do casco nu, e a SCHAEFER YACHTS emite outra nota fiscal para o mesmo adquirente, contendo a seguinte segregação: materiais montados no casco, e prestação de serviços. Diante de tais constatações, perfeitamente correto o procedimento fiscal de tributá las como uma única entidade, consolidando as suas escritas fiscais e contábeis, e aproveitando os recolhimentos, eventualmente por elas feitos, na apuração dos tributos lançados. Além das empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, há que se falar, no ano de 2005, na participação de uma terceira empresa envolvida no negócio. Tratase da empresa SPA Comércio de Embarcações e Equipamentos Náuticos Ltda (SPA), constituída em agosto de 2004, pelos Srs. Márcio Luz Schaefer e Pedro Odílio Phelippe, que também são os mesmos sócios da empresa SCHAEFER YACHTS, sendo que o Sr. Márcio Luz Schaefer também é o sócio majoritário da KIWI BOATS, com 95% de participação. Esta empresa, conforme as alegações da recorrente, tem por finalidade a prestação de serviços de assessoria e administração na compra de embarcações, administrando todas as fases envolvidas na aquisição de uma embarcação, verificando o material empregado e os acessórios que compõe a embarcação encomendada. (...) Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. (...) Por fim, considerese ainda os seguintes indícios complementares de inexistência da alegada segregação de fato das operações entre as três empresas fiscalizadas. Em primeiro lugar, destaquese que os contratos sociais das empresas SCHAEFER YACHTS e a KIWI BOATS não evidenciam a alegada segregação de atividades entre elas, senão antes uma quase total identidade destas. Vejamos quais eram os seus objetivos sociais à época dos fatos (2005): (...) Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem Fl. 19583DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.584 62 na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. (...) Quanto à aplicação da multa qualificada (150%), por todo o exposto, creio estar suficientemente demonstrado a presença de simulação nos atos praticados pelas empresas formalmente constituídas, ao tentar dar a aparência de que uma única atividade na verdade segregarseia em três distintas empresas, localizadas todas de fato no mesmo espaço geográfico (embora uma delas declarasse ter sua sede em outro local, também naquele espaço comum desenvolveria suas atividades)." A exemplo do que ocorreu no exame da primeira decisão paradigma indicada pela PGFN a respeito da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", verifico que também o conteúdo do Acórdão nº 110200.667 configura dissídio jurisprudencial frente ao acórdão recorrido. A decisão também estuda planejamento tributário operacionalizado por um grupo de empresas submetidas a gerência comum. Naqueles autos, a exemplo do contatado no processo em que foi exarado o acórdão recorrido, a Fiscalização elencou nos autos de infração os seguintes indícios de que as empresas atuavam como se fossem uma só entidade: i) mesmo endereço (espaços contíguos, com comunicação interna direta); ii) exercício das mesmas atividades; iii) artificial segregação de atividades; iv) deslocamento de receitas de uma empresa para outra, submetida a regime de tributação mais favorável. Assim, como ocorreu no caso discutido no acórdão recorrido, também no acórdão paradigma tratouse de lançamento realizado pela Fiscalização contra uma das empresas integrantes do grupo econômico, de forma centralizada. Diante de conjuntos fáticos semelhantes, o acórdão recorrido e o Acórdão nº 110200.667 efetivamente concluíram de forma divergente. Enquanto a decisão paradigma considerou inoponíveis ao Fisco os efeitos do planejamento tributário levado a efeito e configurada a simulação (lá houve, inclusive a aplicação de multa de ofício qualificada), o acórdão recorrido considerou lícita a atuação do grupo econômico da contribuinte). Portanto, também frente ao segundo paradigma trazido pela PGFN, Acórdão nº 110200.667, restou comprovada a existência de divergência jurisprudencial apta a provocar o conhecimento do recurso especial, nos termos do art. 67, do Anexo II do RICARF/2015. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 19584DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.585 63 Declaração de Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Antes de trazer as razões que me levaram a divergir do I. Relator acerca da matéria em exame, registro meu respeito pelos fundamentos declinados, inclusive pela aprofundada técnica com que conduziu seu voto. Tratase de processo administrativo, para exigência de IRPJ e de CSLL, relativos ao anocalendário de 2007, 2008 e 2009, alem de multa de ofício de 75% e dos juros de mora. De acordo com a fiscalização, o contribuinte apurou incorretamente IRPJ e CSLL, em face da adoção de base de cálculo menor que a apurada na sua escrituração fiscal, com enquadramento legal nos artigos 247, 249 e 250, do RIR/99. Em síntese, o Termo de Verificação Fiscal esclarece o seguinte: "Durante o trabalho fiscal, foi constatado que, no período sob fiscalização, existiam 04 empresas que, na prática, funcionavam como uma só". Nesse passo, a fiscalização indica a MK como contribuinte e, nos termos do art. 124 do CTN, elege como responsáveis solidários as seguintes empresas: i) Mondial Eletrodomésticos Ltda, CNPJ 08.002.985/000104; ii) ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda, CNPJ 06.272.816/000150; e, iii) AlphaPro Cuidados Pessoais, CNPJ 08.387.026/0001 46. A discussão gira em torno da desqualificação por parte da fiscalização das operações tributáveis das quatro empresas, consolidandoas, e apurando os tributos federais incidentes como empresa única, sob a premissa de que estas empresas teriam sido constituídas de forma simulada, para o usufruto do benefício fiscal propiciado pelo regime do lucro presumido. O contribuinte, por sua vez, sustenta a inexistência de simulação, enfatizando ser falsa a afirmação de que estas empresas inexistem, lembra que o que é vedado pelo ordenamento jurídico é a utilização do formal pelo formal, cita doutrina autorizada em apoio a sua afirmação, e enfatiza que as empresas em questão possuem sedes próprias, funcionários próprios, contabilidades próprias e finalidades específicas, e por isso, não há que se falar em "ausência de exercício de atividade empresarial autônoma" ou "falta de propósito negocial". Além disso, enfatiza que todas as empresas funcionam em endereços diversos, pois apesar de estarem localizadas lado a lado, formando um parque industrial, cada empresa tem o seu galpão; que não exercem a mesma atividade, pois cada empresa é responsável, isoladamente, pela fabricação/importação de produtos específicos e acabados, ou seja, enquanto uma empresa fabrica ventiladores, outra fabrica liquidificadores e espremedores de fruta, por exemplo; não há, portanto, qualquer partilhamento na fabricação dos produtos para montagem posterior. Para comprovar suas alegações, trouxe documentos. Enfim, alega que todos os atos e decisões administrativas adotadas pelo grupo tinham uma motivação negocial, e que não se deveria confundir, como o fez a fiscalização, o instituto da evasão fiscal (conduta ilícita, que visa ao não pagamento de tributo) Fl. 19585DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.586 64 com o da elisão fiscal (conduta lícita, que visa promover uma economia tributária por meio de planejamento fiscal da empresa). Sob o ponto, em sede de Recurso Especial, sustenta a Fazenda Nacional que a fiscalização teria comprovado que as quatro empresas são dirigidas pelas mesmas pessoas, e que os 2 principais dirigentes são os antigos proprietários da empresa ML do Nordeste, percussora da marca "Mondial" na Bahia, conluindo haver a mesma direção. Afirma que, apesar da aparente diferença nos endereços, o documento de folha 910 mostra que a empresa está instalada no mesmo terreno, funcionando em uma única estrutura (galpão), com portaria e recepção únicas, e que o galpão da empresa tem o logo "mondial" pintado no teto, além do que não haver internamente divisão entre as empresas, mas, tão somente, setores de produção (parque de injetores, engenharia, fabricação de moldes, tampografia, etc.). Enfatiza que as empresas MK eletrodomésticos, ME Industria Eletrônica e Alpha Pro Cuidados Pessoais, em seus contratos sociais, têm como principal atividade a fabricação, importação, montagem e comércio de eletrodomésticos, e aponta documentos nos autos (fls 770 a 812 e 909 a 914), que comprovam que um mesmo tipo de produto é faricado pela MK e ME (liquidificador), e também produtos da mesma linha são fabricados por empresas diferentes (fls. 8 e 9 do Termo de Verificação Fiscal). Ressalta ainda restar demonstrado que a divisão de empregados entre as quatro empresas era apenas aparente, pois os funcionários trabalhavam no mesmo espaço físico, desempenhando funções idênticas, ressaltando que os cargos mais relevantes foram divididos entre as empresas, pois existia apenas um gerente de engenharia, um gerente de suprimento, um coordenador de recurso humanos, etc. Pontua ainda que os documentos colacionados aos autos evidenciam compartilhamento de conta de consumo e que as empresas possuem a mesma contadora. Conclui que a partir dos fatos examinados, juntamente com as provas colacionadas, não haver autonomia da vontades, pois as empresas reunidas formam um ente de natureza econômica, submetido à direção comum e destinado a um único objeto social: a importação, industrialização e comercialização de produtos da marca MONDIAL, e por isso, a autonomia das personalidades jurídicas deve ser considerada simulada. Colocada a questão, passo a examinar as alegações da recorrente, no que concerne à acusação de que as quatro empresas teriam sido constituídas de forma simulada, vício esse que macularia, por conseqüência, os negócios jurídicos realizados pelo contribuinte. Para tanto, é necessário examinar se cada uma das empresas perseguia seus objetivos sociais com recursos físicos e humanos próprios. Ou seja, cabe examinar se as empresas: tinham vontade própria; tinham um espaço físico especifico, mantido as suas custas; possuíam maquinários próprios ou alugados; adquiriam seus próprios insumos ou mercadorias; eram as contratantes de seus empregados; efetuavam suas vendas; respondiam por seus contratos, produtos, empréstimos e atos; etc. Quanto a haver ou não uma vontade própria de cada empresa, não encontro nos autos provas para chegar a mesma conclusão a que chegou a fiscalização. Isso porque é verdade que elas (as provas) demonstram haver um grupo econômico, e a existência de uma única gestão, isso não quer significar que as quatro empresas formam uma única empresa. Fl. 19586DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.587 65 O fato das empresas em questão fazer parte de um mesmo grupo econômico e que são administrados pela mesma pessoa, não implica haver identidade ou confusão de objetivos sociais das empresas e confusão de recursos com os quais estes objetivos são perseguidos. Além do que o uso da mesma marca pelas quatro empresas também não permite concluir que elas seriam uma só. Obviamente, as empresas podem vender produtos com uma mesma marca sem perder sua personalidade. Com referência ao espaço físico específico, a fiscalização sustenta que as quatro empresas funcionavam no mesmo endereço, ao passo que o contribuinte explica que as empresas ocupavam galpões vizinhos, construídos em terreno da ME, e que pagavam alugueis pelo uso do espaço, em conformidade com as provas trazidas para sustentar suas alegações. Ora, não há como prevalecer a acusação de que as empresas funcionavam em um mesmo endereço se está demonstrado nos autos que as empresas ocupavam cada um dos galpões, ainda que estes galpões sejam vizinhos. A meu ver, o fato das empresas pagarem alugueis pelo uso do espaço físico reforça a tese de que elas não se encontravam localizadas em um mesmo espaço físico. Para descaracterizar os alugueis, deveria a fiscalização verificar se eles foram ou não pagos, o que não foi feito. É de se ver ainda que o contribuinte comprova que cada empresa tem seus próprios funcionários, encontrandose, assim, sujeita ao recolhimento de encargos trabalhistas e contribuições previdenciárias. Ora, se a fiscalização teve acesso a documentação fiscal e contábil do contribuinte e não fez alguma ponderação sobre as folhas de pagamentos, e ainda, tendo acesso às dependências físicas das empresas, não fez qualquer comentário sobre eventuais empregados de uma empresa trabalhando no espaço físico de outra, entre outros fatos que poderiam embasar sua acusação, não há como prevalecer sua tese. De fato, a fiscalização poderia ter feito algum exame adicional sobre estes documentos e fatos, mas não fez, inclusive apontando eventualmente o uso dos mesmos maquinários por cada empresa em questão. Por fim, com referência à economia tributária gerada com a criação de tais empresas, não vejo que tal fato possa concorrer para a simulação apontada. Neste aspecto, transcrevo doutrina a seguir: "ilicitude na escolha de um caminho fiscalmente menos oneroso, desde que a menor onerosidade seja a única razão da escolha desse caminho", sob pena de se ter de admitir "o absurdo de que o contribuinte seria sempre obrigado a escolher o caminho de maior onerosidade fiscal" (Luciano Amaro). Da Constituição Federal advém o direito "à utilização de estruturas jurídicas válidas, sem violação da lei, que sejam capazes de evitar incidências tributárias, ou de minorar os seus ônus" (Ricardo Mariz de Oliveira). Todos os meios e formas licitas de que se vale o contribuinte para evitar a ocorrência do fato gerador do tributo, reduzindo ou impedindo o surgimento do dever ou da obrigação tributária são designados pelo nome de elisão fiscal, cuja distinção básica Fl. 19587DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.588 66 da evasão ilícita reside nos meios empregados, como ensina SAMPAIO DÓRIA: "O primeiro aspecto substancial que as extrema é a natureza dos meios eficientes para sua consecução: na fraude, atuam meios ilícitos (falsidade) e, na elisão, a licitude dos meios é condição sine qua non de sua realização efetiva". (Elisão e Evasão Fiscal, São Paulo, José Bushataky, Editor, p. 58). Por tais razões, voto por negar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, mantendose a decisão recorrida em todos os seus fundamentos. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 19588DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.589 67 Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa. Não tendo sido apresentada no prazo regimental19, considerase não formulada a declaração de voto. 19 RICARF, Anexo II: Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 19589DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16151.000544/2006-81
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 25 00:00:00 UTC 2011
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano calendário:2006
INTEMPESTIVIDADE MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. LITÍGIO NÃO INSTAURADO.
Não se pode conhecer do recurso interposto quando a turma de julgamento constatou a preclusão do direito da contribuinte em se defender do ato administrativo de exclusão do Simples, por intempestivo o seu exercício, não sendo objeto do recurso a matéria do acórdão proferido em primeira instância. Litígio administrativo não instaurado.
Numero da decisão: 1801-000.579
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por precluso o direito da recorrente nos termos do voto da relatora.
Matéria: Simples- proc. que não versem s/exigências cred.tributario
Nome do relator: Ana de Barros Fernandes
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LITÍGIO NÃO INSTAURADO. Não se pode conhecer do recurso interposto quando a turma de julgamento constatou a preclusão do direito da contribuinte em se defender do ato administrativo de exclusão do Simples, por intempestivo o seu exercício, não sendo objeto do recurso a matéria do acórdão proferido em primeira instância. Litígio administrativo não instaurado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por precluso o direito da recorrente nos termos do voto da relatora. (documento assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes – Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento, os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Magda Azario Kanaan Polanczyk, Edgar Silva Vidal e Ana de Barros Fernandes. Relatório Fl. 1DF CARF MF Emitido em 31/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES 2 A empresa em epígrafe foi excluída do Simples pelo Ato Declaratório Executivo (ADE) n. 478.376, fls. , por entender a autoridade a quo que pratica atividade vedada nos termos do inciso XIII do artigo 9o da lei n 9.317/96. Na Solicitação de Revisão do ato de exclusão, fls. 08, a empresa esclarece que executa trabalhos de filmes e vídeos às suas próprias expensas, não configurando prestação de serviços, mas mera venda, não estando a atividade que exija habilitação profissional legalmente exigida, vedada nem pela Lei do Simples Federal, nem elencada no parágrafo 1o do artigo 663 do RIR/94 e, ainda, possuindo resposta de consulta favorável a si sobre a possibilidade de aderir ao Simples – n. 757, em 14/07/1997, e desde a sua abertura ter apresentando declarações e efetuando pagamentos observando este regime de tributação simplificado. Indeferida a solicitação de revisão, a empresa manifestouse às fls. 01 a 06 reprisando a argumentação e alertando que a exclusão do Simples inviabiliza seu negócio forçandoa a encerrar as atividades. Esclarece que exerce atividade meio de arte gráfica na produção de filmes e fitas de vídeos. Defende que: (i) o ADE de exclusão, interpretativo, fere frontalmente o princípio constitucional da legalidade, sendo uma invasão do poder público no patrimônio do contribuinte, vedada pelo artigo 97 da Constituição Federal e 150 do Código Tributário Nacional (CTN); (ii) não pode ter efeitos retroativos; (iii) ofensa ao princípio da isonomia em vista de várias empresas no mesmo ramo permanecerem no Simples; (iv) ofensa ao princípio da capacidade contributiva; (v) verdadeiro confisco ao excluíla do Simples, por criar um ônus insuportável e inviabilizar a atividade; (vi) descabimento de penalidade contra a contribuinte por ter agido de uma forma, permitida por interpretação ao dispositivo legal vigente, estando amparada pelo art. 106, do CTN, entre outras arguições. A Primeira Turma de Julgamento da DRJ em São Paulo/SP exarou o Acórdão n. 1620.247/09 no qual resta registrado que não tomou conhecimento da impugnação interposta pela contribuinte por haver extrapolado o prazo legal para apresentála – fls. 94 a 98 A turma julgadora de primeira instância observou que a empresa recebeu a decisão da solicitação de revisão de exclusão do Simples em 21/08/06, conforme Aviso de Recebimento (AR) de fls. 86, e somente protocolizou a manifestação de inconformidade em 22/09/06, quando o prazo legal findouse em 20/09. A empresa apresentou, tempestivamente, o Recurso Voluntário de fls. 101 a reprisando as argumentações de defesa iniciais, argüindo que a Lei Complementar 123/06 veio a admitir as empresas que desempenham esta atividade no Simples e colacionando à peça recursal decisões administrativas em SR de exclusão do Simples de empresas que desempenham as mesmas atividades e reintegradas ao Simples (pareceres procedentes). Não tece qualquer comentário sobre a intempestividade declarada pela turma julgadora de primeira instância. É o relatório. Passo ao voto. Voto Conselheira Ana de Barros Fernandes, Relatora Fl. 2DF CARF MF Emitido em 31/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 16151.000544/200681 Acórdão n.º 180100.579 S1TE01 Fl. 127 3 Não é possível conhecer do presente recurso, pois o litígio sequer instaurou se em primeira instância dada a intempestividade declarada e inconteste da defesa interposta às fls. 01 a 06. O recurso administrativo voluntário é peça que contesta o acórdão proferido em primeira instância. E o acórdão sequer adentrou ao mérito da questão trazida ora em segundo grau, por manifestamente intempestiva a peça de defesa. O direito de discutir a exclusão do Simples neste órgão de julgamento de segunda instância está precluso para a empresa nos termos da legislação processual que rege a matéria e já transcrita no acórdão de fls. 94 a 98, salientandose o teor dos artigos 14 e 15 do Decreto n. 70.235/72, que disciplina o processo administrativo fiscal – PAF. No âmbito administrativo resta à empresa solicitar apenas revisão de ofício do ato de exclusão à própria autoridade que o emanou, em vista das decisões dissonantes apresentadas, conforme alegada, ficando ao crivo daquela revisar ou não o seu próprio ato, ou socorrerse do Poder Judiciário. Voto por não conhecer do recurso interposto, por precluso o direito de defesa da recorrente já em primeira instância. (documento assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes – Relatora Fl. 3DF CARF MF Emitido em 31/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES
score : 1.0
Numero do processo: 10880.004597/99-14
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2001
Numero da decisão: 202-00.231
Decisão: RESOLVEM os Membros da Segunda Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: Dalton Cesar Cordeiro de Miranda
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Numero do processo: 15889.000614/2007-03
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/05/2007
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO. PROCEDÊNCIA.
O erro material a ensejar a contradição entre o resultado do julgamento (conteúdo) e sua parte dispositiva (forma) merece ser sanada, o que enseja o provimento dos embargos de declaração interpostos.
Embargos de declaração providos.
Numero da decisão: 3402-004.679
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos para corrigir erro material, nos termos do voto do Relator.
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
Diego Diniz Ribeiro- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Pedro Sousa Bispo, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: DIEGO DINIZ RIBEIRO
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CONTRADIÇÃO. PROCEDÊNCIA. O erro material a ensejar a contradição entre o resultado do julgamento (conteúdo) e sua parte dispositiva (forma) merece ser sanada, o que enseja o provimento dos embargos de declaração interpostos. Embargos de declaração providos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos para corrigir erro material, nos termos do voto do Relator. Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. Diego Diniz Ribeiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Pedro Sousa Bispo, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório 1. Por bem retratar o caso em debate, emprego aqui parte do relatório realizado por este tribunal Administrativo quando da lavratura do acórdão n. 3402002.209 (fls. 1.385/1.405), o que faço nos seguintes termos: AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 88 9. 00 06 14 /2 00 7- 03 Fl. 1543DF CARF MF 2 Versam os autos de lançamento tributário relativo ao Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, no valor total de R$ 80.779.674,25 (oitenta milhões, setecentos e setenta e nove mil, seiscentos e setenta e quatro reais e vinte e cinco centavos), lavrado através de Auto de Infração que fundamentase em diferenças apuradas entre os valores devidos e aqueles declarados em suas DCTF e pagos, relativas aos períodos de apuração compreendidos entre 01 de janeiro de 2002 e 31 de maio de 2007. Segundo Termo de Constatação Fiscal, o lançamento deveuse ao fato de ter sido constatado que o sujeito passivo informou em DCTF e recolheu a menor o imposto, em virtude de ter escriturado indevidamente no Livro RAIPI créditos de terceiros, ou ainda, créditos calculados sobre a aquisição de insumos isentos, não tributados e alíquota zero, bem como crédito presumido para compensar PIS/COFINS de exportações, ora inserindo crédito no Livro RAIPI em desacordo com o escriturado no Livro Registro de Entradas, ora simplesmente informando na DCTF valor menor que o apurado no RAIPI. Constou ainda do Auto de Infração que o sujeito passivo, após início da fiscalização, procedeu à retificações de diversas DCTF´s, ajustandoas em parte às constatações procedidas pela autoridade lançadora, porém, sem terem sido acatadas em face da perda da espontaneidade por parte do contribuinte. DA IMPUGNAÇÃO Cientificado do Auto de Infração em 28/11/2007, conforme assinatura lançada no próprio documento, às fls. 05 – numeração em papel (fl. 06, ne.), o contribuinte apresentou Impugnação em 28/12/2007, opondose à autuação, através dos argumentos que por muito bem sintetizados pela DRJ/RPO, permitome transcrever: (...). DO JULGAMENTO DE 1ª INSTÂNCIA Em análise aos argumentos sustentados pelo sujeito passivo em sua defesa, a 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP) (DRJ/CPS), houve por bem em considerar procedente o lançamento, proferindo o Acórdão nº. 1418.398, ementado nos seguintes termos: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2002 a 31/05/2007 TRIBUTO NÃO PAGO E NÃO DECLARADO. LANÇAMENTO. Constatada a existência de tributo não pago e não espontaneamente declarado, correto o lançamento de ofício com os devidos acréscimos legais. Fl. 1544DF CARF MF Processo nº 15889.000614/200703 Acórdão n.º 3402004.679 S3C4T2 Fl. 1.544 3 ATOS PRATICADOS APÓS O INÍCIO DO PROCEDIMENTO FISCAL EXCLUSÃO DA ESPONTANEIDADE (ART. 138 DO CTN). Para fins de lançamento e aplicação de penalidade somente podem ser considerados pela fiscalização os atos praticados antes do início do procedimento fiscal, pois a partir daí que o contribuinte tem sua espontaneidade excluída (art. 7o do Decreto n. 70.235/72 e art. 138 do CTN). A retificação de DCTF e a solicitação de inclusão no PAEX, uma vez efetuadas no curso de procedimento fiscal, não são hábeis para infirmar o Auto de Infração. IPI. CRÉDITOS FICTOS. AQUISIÇÕES DESONERADAS DE INSUMOS. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. O aproveitamento de valores a título de créditos fictos do imposto rende ensejo à glosa dos valores e à exigência do imposto não recolhido por meio de lançamento de ofício com os consectários a ele inerentes e sem a suspensão da exigibilidade, após a perda da concessão de liminar em ação autorizando seu aproveitamento. GLOSA DE CRÉDITO. TRANSFERÊNCIA DE CRÉDITO. AUTONOMIA DOS ESTABELECIMENTOS. O IP1 é regido pelo princípio da autonomia dos estabelecimentos, e por conseqüência, é obrigação de cada estabelecimento comprovar a legitimidade dos créditos recebidos em transferência, subordinado ao preenchimento dos requisitos e condições determinados pela legislação tributária de regência. IMPUGNAÇÃO DESTITUÍDA DE PROVAS. A impugnação deverá ser instruída com os documentos que fundamentem as alegações do interessado. Lançamento Procedente Resumidamente, a DRJ/RPO afastou a preliminar de prescrição do direito de lançar relativamente aos períodos em que o contribuinte efetuou pedidos de compensação com créditos de terceiros, ao entendimento de que não se aplica referido preceito ao caso em análise. No mérito, afastou o argumento de impossibilidade de lançar valores constantes de DCTF´s retificadoras, assim como de exclusão dos valores constantes da adesão ao PAEX, ambos ao fundamento de que tais procedimentos foram adotados após o início do procedimento fiscal. No tocante à alegação de duplicidade de exação com valor supostamente inscrito em dívida ativa, do mesmo modo, por decorrer de débito constante de DCTF retificadora, não ensejaria o direito de não efetivar o lançamento; e, ainda, quanto a valores objeto de procedimentos de cobrança, manteve a exigência por constatar que tratarse Fl. 1545DF CARF MF 4 iam de débitos objeto das DCTF´s retificadoras, não coincidindo com os débitos lançados. Quanto a ser, a empresa, detentora de liminar que suspenderia o crédito tributário, lhe autorizando a utilização dos créditos advindos de aquisições desonaradas do IPI, a DRJ entendeu que já havia sido cassada a ordem judicial que suspendia a exigibilidade do crédito tributário quando da lavratura do lançamento, de modo a entender hígido tanto o lançamento quanto a multa de ofício aplicada. No tocante aos créditos presumidos de IPI como ressarcimento de PIS e COFINS transferidos da matriz para a filial, entendeu que a ausência de documento obrigatório registrando referido trânsito de créditos, impede seu uso pelo estabelecimento destinatário, pelo que manteve a exigência. Finalmente, com relação a créditos de terceiros, utilizados para compensação de valores constantes do lançamento, e que estariam sendo objeto de cobrança em duplicidade (porque objeto de controle e cobrança nos processos próprios), a decisão entendeu referidos argumentos carentes de comprovação, mantendo, consequentemente, o crédito tributário. COMPLEMENTO DE IMPUGNAÇÃO Antes de tomar ciência do Acórdão prolatado pela DRJ/RPO, o sujeito passivo apresentou petição pela qual pretendeu complementar seu arrazoado, trazendo nova “Certidão de Objeto e Pé” relativa a processos judiciais, suscitando erro de fato no lançamento e reiterando os pontos já contidos na peça inicialmente apresentada. DO RECURSO VOLUNTÁRIO Cientificado do Acórdão da DRJ/RPO em 27/03/2008, conforme AR de fls. 1012 – numeração eletrônica, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fls. 1022 e seguintes) em 25/04/2008, no qual: a) solicita a apreciação dos elementos e argumentos contidos no seu “complemento de impugnação”, já que teria sido apresentado antes da ciência da decisão recorrida; b) reitera a prescrição quanto a lançamentos de fatos ocorridos até outubro de 2002; c) pretende o cancelamento da exigência de valores inseridos no PAEX; d) reafirma que parte dos créditos utilizados, oriundos de terceiros, ou estão sendo objeto de cobrança em processos próprios, ou já foram pagos, conforme demonstrariam DARF´s acostados; e) sustenta possuir direito de não sofrer autuação com exigibilidade, em face da vigência da liminar obtida judicialmente, e, consequentemente, não estando em mora, não lhe seria aplicável a multa de ofício ou os juros moratórios; e) afirma que tem direito aos créditos de IPI como ressarcimento de PIS e COFINS oriundos da matriz, já que a mera falta de emissão de Nota Fiscal não poderia lhe tolher seu direito, citando jurisprudência do Conselho de Contribuintes; f) discorre, ao final, sobre a composição dos créditos de IPI de cada período lançado, relacionando as supostas inconsistências que amparam seu pleito de cancelamento da exigência. Fl. 1546DF CARF MF Processo nº 15889.000614/200703 Acórdão n.º 3402004.679 S3C4T2 Fl. 1.545 5 PRIMEIRA DILIGÊNCIA Através da Resolução nº 20400.682, em sessão de 03 de fevereiro de 2009, sob relatoria do Conselheiro Júlio César Alves Ramos, a 4ª Câmara do extinto Segundo Conselho de Contribuinte houve por bem converter o julgamento do recurso em diligência, solicitando esclarecimentos sobre a natureza, o objeto e o estágio atual dos Processos nºs. 13873.000225/200217, 13873.000145/200253, 13873.000368/200211, 13873.000366/200221 e 13873.000298/200209, que versariam sobre os créditos de terceiros pretensamente utilizados nas compensações levadas a cabo pelo contribuinte, focalizando se se tratariam de pedidos de compensação de débitos do sujeito passivo com créditos de terceiros, solicitando a juntada das decisões neles proferidas bem como que se aguardasse o deslinde final dos mesmos, ou se, tratandose de autos de infração, que se esclarecesse se tratar seiam de IPI e quais os períodos lançados para que se possa aquilatar eventual duplicidade de exigência. Através do Despacho de fl. 1.226 (ou fl. 1268 – ne.), a autoridade preparadora cumpriu parcialmente a diligência (exceto com relação do processo n° 13873.000.225/200217, cujos autos não teriam sido enviados pela Procuradoria Seccional da Fazenda Nacional em Bauru), para informar trataremse os processos de pedidos de compensações de crédito com débitos de terceiros; porém todos já com decisão contrária da DRJ/RPO, concluindo serem em duplicidade com os lançados nestes autos, informando, inclusive, a confecção de representação para o cancelamento das inscrições em Dívida Ativa. Às folhas 1.227 a 1.229 (ou fl. 1.269 a 1.271 – ne.), a Recorrente apresentou petição de “desistência parcial da impugnação ou do recurso interposto”, para fins de adesão ao parcelamento de que trata a Lei nº 11.941/2009, arrolando os períodos e valores “originais” objeto do pleito de desistência (períodos de apuração compreendidos entre 02/07/2002 e 03/05/2007). A autoridade preparadora, então, após acostar documentos que esclareceriam que os débitos oriundos do processo n° 13873.000.225/200217 encontrarseiam inscritos em dívida ativa e que teriam sido objeto de adesão ao parcelamento da Lei nº 11.941/2009, concluiu (Despacho de fls. 1.275 – ne.) estarem atendidas as solicitações contidas na Resolução nº 20400.682, devolvendo o PAF ao Conselho. SEGUNDA DILIGÊNCIA Em sessão de 09 de dezembro de 2010 houve novamente a conversão do julgamento em diligência, sendo que através da Resolução nº 340200.122 foi solicitado que a autoridade preparadora esclarecesse se as decisões acostadas aos autos, relativas aos Processos administrativos versando sobre os Fl. 1547DF CARF MF 6 pedidos de compensação de créditos com débitos de terceiros, seriam mesmo definitivas. Através da promoção de folhas 1.272 e 1.273 (ou fl. 1.316 e 1.317 – ne.) foi esclarecido que as decisões prolatadas nos citados processos eram definitivas, assim como esclarecidas e reiteradas informações já defluentes da diligência anterior, retornando os autos ao Conselho para prosseguimento. O sujeito passivo, através de petição juntada às folhas nº 1.285/88 (ou fl. 1.330/33 – ne), vem “esclarecer” que com relação aos períodos de apuração de 01.02.2003 (vencimento em 20.02.2003 e saldo originário de R $ 51.000,00) e de 01.06.2003 à 01.12.2003, estes já são objeto da CDA n° 80.3.07.000.72123, e que tais débitos já estariam incluídos no programa da Lei 11.941/09 por meio da PGFN, de modo que não seriam “parceláveis” no âmbito da RFB; bem como, em virtude de supostos problemas decorrentes do programa da RFB, seria necessário “alterar” os dados relativos aos valores inseridos do parcelamento da Lei nº 11.941/09. Em seguida, em nova petição (fl. 1.335 – ne.) o contribuinte informa que os valores relativos aos PA´s. 01.01.2002 a 01.05.2002 não teriam sido inseridos no Parcelamento, em virtude de entender estarem decaídos; reiterando, ainda, os termos da petição anterior. Através do Despacho de Encaminhamento de fls. 1.363 (ne.), após esclarecimentos sobre solicitação interna de verificação de duplicidade de cobrança, o processo foi reencaminhado ao CARF, para prosseguimento. (...) (grifos nosso). 2. Diante deste quadro, o citado recurso voluntário foi parcialmente conhecido e, na parte conhecida, parcialmente provido, nos termos da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI PerÍodo de apuração: 01/01/2002 a 31/05/2007 PEDIDO DE PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA PARCIAL. PERDA DE OBJETO. NÃO CONHECIMENTO. A opção do contribuinte a parcelamento após a lavratura do lançamento importa em desistência da discussão administrativa e renúncia ao direito sobre o qual se funda a defesa, impondose o não conhecimento do recurso nesta parte. AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA DE OBJETO. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. SÚMULA Nº 1 DO CARF. A matéria já suscitada perante o Poder Judiciário não pode ser apreciada na via administrativa. DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTAGEM DO PRAZO DECADENCIAL DE CINCO ANOS A PARTIR DA Fl. 1548DF CARF MF Processo nº 15889.000614/200703 Acórdão n.º 3402004.679 S3C4T2 Fl. 1.546 7 OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR QUANDO HÁ ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO E A PARTIR DO 1º DIA DO ANO SEGUINTE AO FATO GERADOR QUANDO NÃO SE ANTECIPOU PAGAMENTO. PRECEDENTES DO STJ EM RECURSO REPETITIVO. APLICAÇÃO DO ART. 62A, DO RICARF. Tratandose de tributo sujeito ao lançamento por homologação, o Poder Público dispõe do prazo de 05 (cinco) anos para constituir o crédito tributário pelo lançamento, contados do fato gerador, quando há antecipação de pagamento ou do 1º dia do ano seguinte ao fator gerador, quando não se antecipou pagamento, nos termos do art. 150, §4º, e do art. 173, I, do CTN. Aplicação do entendimento exarado pelo STJ, no Recurso Especial Representativo de Controvérsia nº 566.621, nos termos do art. 62A, do RICARF. PROCESSO ADMINISTRATIVO. CONFISSÃO DE DÍVIDA E CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO VIA PARCELAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO POSTERIOR. DESCABIMENTO. CANCELAMENTO. Sendo o parcelamento uma forma de constituição válida do crédito tributário em favor da Administração, em que a Lei atribui o efeito de confissão de dívida, a lavratura de Auto de Infração posterior traduzse em descabida duplicidade de lançamento, devendo ser afastados os lançamentos quanto aos valores comprovadamente inseridos no parcelamento. RETIFICAÇÃO DE DCTF. PROCEDIMENTO FISCAL EM CURSO. ESPONTANEIDADE. INEXISTÊNCIA. CANCELAMENTO DO LANÇAMENTO SUBSEQUENTE. EXCLUSÃO DE MULTA. DESCABIMENTO. Nos termos do art. 138, do CTN, estando o contribuinte sob procedimento fiscal, a posterior retificação de DCTF não caracteriza espontaneidade para fins de inviabilizar o subsequente lançamento tributário, bem como para que haja o afastamento da incidência da multa de ofício quanto aos valores contidos na retificadora. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LANÇAMENTO POSTERIOR A DECISÃO JUDICIAL QUE CONSIDEROU DEVIDO O TRIBUTO. MULTA. ART. 63 E §2º, DA LEI Nº 9.430/96. INAPLICABILIDADE. Tratandose de auto de infração lavrado após o transcurso dos 30 dias da publicação da decisão judicial que considerou devido o tributo, sem que o contribuinte efetuasse o recolhimento do tributo, tornase inaplicável o disposto no § 2º do art. 63, da Lei n.º 9.430/96, sendo devida a multa de ofício em razão da infração de falta de recolhimento e seu retardamento culposo. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI COMO RESSARCIMENTO DE PIS E COFINS. TRANSFERÊNCIA DE UM Fl. 1549DF CARF MF 8 ESTABELECIMENTO PARA OUTRO SEM EMISSÃO DE DOCUMENTO FISCAL. ESCRITURAÇÃO. GLOSA. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. FLEXIBILIZAÇÃO. PROVAS. AUSÊNCIA. DESCABIMENTO. À míngua de provas robustas de que os créditos presumidos de IPI, escriturados pelo estabelecimento para o qual tenham sido transferidos de outro estabelecimento do contribuinte, não é possível cogitar em flexibilizar requisito legal para afastar exigência tributária fundada na respectiva glosa, devendo ser mantido o lançamento. Recurso Parcialmente Conhecido. Recurso Voluntário Provido em Parte. 3. Em suma, a então Turma julgadora decidiu por (i) não conhecer parte do recurso interposto, mais precisamente no que tange aos períodos inseridos no parcelamento e quanto à matéria objeto de concomitância e, (ii) na parte conhecida, dar parcial provimento para (ii.i) cancelar o lançamento tributário relativo aos períodos de apuração de outubro de 2002 e pretéritos em razão da decadência; bem como para (ii.ii) determinar a exclusão dos valores inseridos no PAEX e que ao mesmo tempo tenham sido objeto de constituição por meio do lançamento aqui tratado, mantendose, por conseguinte, os demais valores (principal, multa e juros) que não tenham sido inseridos no referido parcelamento. Não obstante, a referida decisão determinou ainda que, em relação ao tributo mantido, (ii.iii) a multa moratória incidisse a partir do trigésimo dia após a decisão em sede de apelação que cancelou a tutela provisória concedida judicialmente em favor contribuinte. 4. Uma vez intimada, a Fazenda Nacional interpôs os embargos de declaração de fls. 1.407/1.409 para suprir suposta contradição, uma vez que, segundo a embargante: (...) enquanto no voto condutor do acórdão e na ementa determinase a manutenção da multa de ofício, por se entender inaplicável o disposto no art. 63, § 2º da Lei nº 9.430/96; consta, no dispositivo do acórdão, que deve haver a incidência tão somente de multa moratória, a partir do trigésimo dia após a decisão final do processo judicial. (...) (grifos constantes no original). 5. O contribuinte, por seu turno, interpôs o recurso voluntário de fls. 1.479/1.496. 6. Em sede de despacho de saneamento (fls. 1.541/1.542) constatouse que, apesar da interposição de recurso especial por parte do contribuinte, os embargos de declaração interpostos pela Fazenda Nacional não haviam sido julgados, o que motivou nova distribuição deste caso perante uma das Turmas Ordinárias da 3a Seção para fins de julgamento do citado recurso fazendário, o que ora se realiza no presente ato. 7. É o relatório. Voto Fl. 1550DF CARF MF Processo nº 15889.000614/200703 Acórdão n.º 3402004.679 S3C4T2 Fl. 1.547 9 Conselheiro Relator Diego Diniz Ribeiro 8. Conforme destacado no relatório do presente voto, o recurso fazendário tem um escopo muito bem delimitado, qual seja, afastar a contradição existente entre a ementa e o resultado do julgamento e o voto vencedor. Vejamos, pois, o que diz a ementa e a parte dispositiva do voto embargado no tópico que aqui interessa ao julgamento: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI PerÍodo de apuração: 01/01/2002 a 31/05/2007 (...). PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LANÇAMENTO POSTERIOR A DECISÃO JUDICIAL QUE CONSIDEROU DEVIDO O TRIBUTO. MULTA. ART. 63 E §2º, DA LEI Nº 9.430/96. INAPLICABILIDADE Tratandose de auto de infração lavrado após o transcurso dos 30 dias da publicação da decisão judicial que considerou devido o tributo, sem que o contribuinte efetuasse o recolhimento do tributo, tornase inaplicável o disposto no § 2º do art. 63, da Lei n.º 9.430/96, sendo devida a multa de ofício em razão da infração de falta de recolhimento e seu retardamento culposo. (...). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer de parte do recurso referente aos períodos inseridos no parcelamento e quanto à matéria objeto de concomitância e, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial para cancelar o lançamento tributário relativo aos períodos de apuração de outubro de 2002 e pretéritos, pela decadência; para determinar a exclusão dos valores que comprovadamente tiverem sido inseridos no PAEX e ao mesmo tempo tenham sido objeto de constituição através do lançamento sob análise, mantidos os valores (principal, multa e juros) que não tenham sido inseridos no referido Parcelamento. E, pela maioria de votos, determinar que a multa moratória incida a partir do trigésimo dia após a decisão em sede de apelação, que cancelou a liminar. Vencidos João Carlos Cassuli Junior (relator) e Francisco Mauricio Rabelo de Albuquerque Silva. Designado conselheiro para redigir o voto vencedor Fernando Luiz da Gama D Eça. Fez sustentação oral dr Eduardo Diamantino Bonfim e Silva OAB/SP 119083. (grifos nosso). 9. Não obstante, o voto vencedor do Conselheiro Fernando Luiz Da Gama Lobo D’eça assim prescreveu: (...). Fl. 1551DF CARF MF 10 Inicialmente anoto que nem mesmo a hipótese de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, poderia obstar o lançamento tributário, pois como já assentou a jurisprudência uniforme do E. STJ “a suspensão da exigibilidade do crédito tributário na via judicial impede o Fisco de praticar qualquer ato contra o contribuinte visando à cobrança de seu crédito, tais como inscrição em dívida, execução e penhora, mas não impossibilita a Fazenda de proceder à regular constituição do crédito tributário para prevenir a decadência do direito de lançar” (cf. Ac. da 1ª Seção do STJ nos Emb. de Divergência no REsp. nº 572.603PR, Reg. nº 2004/01217933, em sessão de 08/06/05, Rel. Min. CASTRO MEIRA, publ. in DJU de 05/09/05 p. 199 e in RDDT vol. 123 p. 239), eis que “o prazo para lançar não se sujeita a suspensão ou interrupção, sequer por ordem judicial” (cf. Ac. da 2ª Turma do STJ no R. Esp. nº 119986SP, Reg. nº 1997/00110168, em sessão de 15/02/01, Rel. Min. ELIANA CALMON, publ. In DJU de 09/04/01 p. 337 e in RSTJ vol. 147 p. 154), sendo certo que a procedência, ou improcedência do débito principal objeto do lançamento, já se encontra adredemente vinculada à sorte da decisão final do processo judicial. Embora não se ignore que o § 2º do art. 63, da Lei n.º 9.430/96, expressamente estabelece que “a interposição da ação judicial favorecida com a medida liminar interrompe a incidência da multa de mora, desde a concessão da medida judicial, até 30 dias após a data da publicação da decisão judicial que considerar devido o tributo ou contribuição", no caso concreto, verificase que o auto de infração excogitado foi lavrado após o transcurso dos 30 dias da publicação do v. Acórdão na Apelação Cível relativa a Ação nº 98.00007687 que considerou devido o tributo, sem que o contribuinte efetuasse o recolhimento do tributo no prazo previsto no referido dispositivo, o que torna inaplicável o referido dispositivo à espécie, e sujeita a Recorrente à multa de ofício em razão da infração de falta de recolhimento e do seu retardamento culposo. (...). 10. Da simples análise dos trechos alhures destacados é possível concluir que, de fato, a parte dispositiva do julgado não condiz o teor do voto condutor nem com o trecho da ementa correspondente ao tópico em análise. Tratase, portanto, de típico erro material, passível de ser sanado por meio de embargos de declaração. 11. Nesse sentido, encaminho meu voto para reconhecer o aludido erro a ensejar a contradição, de modo que a parte dispositiva do acórdão embargado passe a ter a seguinte redação: ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer de parte do recurso referente aos períodos inseridos no parcelamento e quanto à matéria objeto de concomitância e, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial para cancelar o lançamento tributário relativo aos períodos de apuração de outubro de 2002 e pretéritos, pela decadência; para determinar a exclusão dos valores que comprovadamente tiverem sido inseridos no PAEX e ao mesmo tempo tenham sido objeto de constituição através do lançamento Fl. 1552DF CARF MF Processo nº 15889.000614/200703 Acórdão n.º 3402004.679 S3C4T2 Fl. 1.548 11 sob análise, mantidos os valores (principal, multa e juros) que não tenham sido inseridos no referido Parcelamento. E, pela maioria de votos, determinar que a multa moratória incidente sobre o crédito remanescente seja mantida, nos termos do voto vencedor. Vencidos João Carlos Cassuli Junior (relator) e Francisco Mauricio Rabelo de Albuquerque Silva. Designado conselheiro para redigir o voto vencedor Fernando Luiz da Gama D Eça. Fez sustentação oral dr Eduardo Diamantino Bonfim e Silva OAB/SP 119083. (sublinhado o trecho alterado para sanar a contradição). 12. Dessa feita, estará sanado o erro material a ensejar a contradição aventada pela Fazenda Nacional. Dispositivo 13. Diante do exposto, voto por conhecer e dar provimento aos embargos de declaração interpostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional, de modo a suprir o erro material a ensejar a contradição do julgado embargado. 14. É o relatório. Diego Diniz Ribeiro Relator. Fl. 1553DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.720013/2011-44
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
INTIMAÇÃO PARA CIÊNCIA DE DECISÕES E TERMOS EM SEDE DE PROCESSO ADMINISTRATIVO.
A intimação por edital requer apenas que a Administração Tributária tente, primeiramente, realizar a ciência quer pessoal, quer postal, quer eletrônica, não sendo necessário que sejam esgotadas todas essas formas.
Ainda que haja petição nos autos para que a ciência seja realizada na pessoa dos prepostos ou representantes legais, no âmbito do processo administrativo a legislação é clara no sentido que a intimação por via postal será feita no domicílio fiscal eleito pelo sujeito passivo perante a Administração Tributária, assim se entendendo aquele pelo qual ele se cadastra.
Numero da decisão: 9101-003.049
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego.
(assinatura digital)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente.
(assinatura digital)
Luís Flávio Neto - Relator.
(assinatura digital)
Adriana Gomes Rego - Redatora designada.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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Recorrente BASF PERFORMANCE POLYMERS INDUSTRIA DE POLIMEROS E PLASTICOS DE ENGENHARIA LTDA Interessado UNIÃO (FAZENDA NACIONAL) ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006 INTIMAÇÃO PARA CIÊNCIA DE DECISÕES E TERMOS EM SEDE DE PROCESSO ADMINISTRATIVO. A intimação por edital requer apenas que a Administração Tributária tente, primeiramente, realizar a ciência quer pessoal, quer postal, quer eletrônica, não sendo necessário que sejam esgotadas todas essas formas. Ainda que haja petição nos autos para que a ciência seja realizada na pessoa dos prepostos ou representantes legais, no âmbito do processo administrativo a legislação é clara no sentido que a intimação por via postal será feita no domicílio fiscal eleito pelo sujeito passivo perante a Administração Tributária, assim se entendendo aquele pelo qual ele se cadastra. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego. (assinatura digital) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 13 /2 01 1- 44 Fl. 2050DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.050 2 (assinatura digital) Luís Flávio Neto Relator. (assinatura digital) Adriana Gomes Rego Redatora designada. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial interposto por BASF PERFORMANCE POLYMERS INDUSTRIA DE POLIMEROS E PLASTICOS DE ENGENHARIA LTDA (doravante “contribuinte” ou “recorrente”), em face do acórdão n. 1402001.411 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela 2a Turma Ordinária, 4a Câmara, 1a Seção (doravante “Turma a quo”). O acórdão recorrido assim sintetizou os fatos em discussão (efls. 1.964 e seg.): “Compulsandose os autos, verificase que foram realizadas diversas tentativas de intimar o contribuinte. Vejamos: 1) AV PROFESSOR VICENTE RAO, 90 PREDIO 122 BROOKLIN PAULISTA SAO PAULO SP, cujo AR foi devolvido com a informação “mudouse”, em 24/10/2012 (fls. 1827/1833); 2) AV BRIGADEIRO FARIA LIMA 3600 – 9o ANDAR – ITAIM BIBI – SAO PAULO, cujo AR foi devolvido com a informação de “destinatário desconhecido”, em 04/12/12 (fls. 1834/1837); e 3) AV BRIGADEIRO FARIA LIMA 3600 – 11o ANDAR – SALA BELGICA – ITAIM BIBI – SÃO PAULO – SP, cujo AR foi devolvido com a informação “mudouse”, em 26/12/12 (fl. 1838/1842). Resultando improfícuos os meios de intimaçaõ por via postal, em virtude de mudança do domicílio fiscal do contribuinte sem a devida comunicacã̧o ao fisco, foi determinada a intimação por edital. Assim, em 02/01/2013, foi afixado o Edital no. 01/2013 (fl. 1843), cientificando o contribuinte do acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento e intimandoo a pagar os débitos de sua responsabilidade ou a Fl. 2051DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.051 3 apresentar recurso, no prazo de 30 (trinta) dias, contados do 16o (décimo sexto) dia da data da afixaca̧õ do edital. Muito embora o prazo recursal tenha se esgotado em 19/02/13, o recurso voluntário do contribuinte só foi protocolado em 06/03/13, conforme se verifica da peça recursal (fl. 1865) e do extrato de processo as̀ fls. 1961/1962.” O acórdão recorrido julgou o recurso voluntário intempestivo, restando assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 VALIDADE DE NOTIFICAÇÃO POR EDITAL. INEXISTÊNCIA DE PREFERÊNCIA ENTRE OS MEIOS DE CIÊNCIA. DESNECESSIDADE DE ESGOTAMENTO DOS MEIOS DE INTIMAÇÃO. O processo administrativo fiscal possibilita que a intimação seja feita pela via pessoal, postal ou eletrônica, inexistindo qualquer preferência entre os meios de cien̂cia. Ademais, conforme redaçaõ do artigo 23, parágrafo 1o do Decreto no. 70.235, de 1972, é válida e eficaz a intimação por edital, quando resultarem improfícuos um dos meios de intimação pessoal, postal e eletrônica. INTIMAÇÃO AO ADVOGADO. O Processo Administrativo Fiscal não prevê a hipótese de intimação do sujeito passivo no endereço de seus advogados. RECURSO VOLUNTÁRIO. PRAZO. INTEMPESTIVIDADE. Tratandose de intimação por edital , o recurso voluntário deve ser interposto dentro do prazo de trinta dias, contados do décimo sexto dia da data de sua afixação na repartição. Intimado o contribuinte por edital sem divergen̂cia de identificaca̧õ, no domicílio tributário informado à Receita Federal, conforme determina o artigo 23, inciso III, parágrafo 1o, item II, do Decreto no. 70.235, de 1972, há de se ratificar a perempção. Recurso Voluntário não conhecido. O contribuinte interpôs embargos de declaraçaõ (efls. 1976 e seg.), os quais foram rejeitados por meio de despacho (efls. 1987 e seg.). O contribuinte, então, interpôs recurso especial (efls. 1988 e seg.), alegando divergen̂cia da decisão recorrida, que não conheceu o recurso por intempestividade, considerarando válida a intimacã̧o por edital, mesmo sem a tentativa de ciência do procurador da interessada, o que teria sido expressamente requerida nos autos, inclusive com a indicação do procurador e de seu endereço. O referido recurso especial foi admitido por despacho (efls. 2035 e seg.). A PFN apresentou contrarrazões, pugnando pelo não provimento do recurso especial (efls. 2039 e seg.): Concluise, com isso, o relatório. Fl. 2052DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.052 4 Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto, relator. Em seu recurso especial, a recorrente apresentou analiticamente argumentos para a demonstração de divergência jurisprudencial, cumprindo com o que requer o art. 67 do RICARF. Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos para interposição do recurso especial, concluindo corretamente quanto à legitimidade de seu integral conhecimento. No mérito, a recorrente argumenta que o acórdão recorrido diverge de decisão de outra Câmara do CARF, que entendeu ser invaĺida a intimação por edital antes da notificação do procurador do contribuinte devidamente constituído no autos e requerida pela parte, em endereço indicado no aludido pedido. O recorrente indicou como paradigma para demonstrar a divergência o acórdão n. 330200.150, que apresenta os seguintes fundamentos quanto à matéria, in verbis: “A Lei 11.196/2005 trouxe uma série de modificações no que diz respeito às intimações dos contribuintes, especialmente no que se refere à utilização de edital. Antes dela a intimação por edital seria possível apenas se restassem esgotados todos os demais meios possíveis de intimação. Contudo, depois das alterações implementadas, a citação por edital passou a ser permitida caso não seja logrado êxito na intimação pessoal do sujeito passivo ou de seu mandatário(inciso "I"), ou por via postal, telegráfica ou qualquer outro meio com prova do recebimento do sujeito passivo (inciso "II"), ou ainda por meio eletrônico (inciso "III"): Além destas hipóteses, também restou permitida quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal (§ 1°). Por conta disso, é certo que na forma do inciso I, sendo a intimação endereçada diretamente ao sujeito passivo e este não sendo encontrado, será perfeitamente válida a intimação por edital. Contudo, emerge fundada dúvida para aqueles casos em que os contribuintes estão regularmente representados por procuradores nos autos do processo administrativo e não há uma tentativa de intimação destes previamente à expedição de edital. A análise que faço da aplicação conjugada do inciso I e do § 1° é no segtido de que, havendo procurador regularmente constituído, o contribuinte pode até ser diretame,nté intimado pelo correio da decisão proferida. Mas para que seja efetivamente válida a utilização do edital, devem, necessariamente, ser exauridos todos os meios dispostos no inciso I. E o referido inciso é taxativo ao determinar a intimação do procurador do sujeito passivo quando constituído nos autos, sem a qual, reputo inválida a intimação por edital. Essa conclusão parte do princípio que, transferido ao mandatário poderes amplos para atuar, inclusive receber intimações, não há porque expedir a intimação ao sujeito passivo em substituição ao mandatário. O mesmo raciocínio pode ser utilizado no que se refere aos incisos II e III e ao § 4° do dispositivo: sempre que houver procurador regularmente constituído, a intimação deve ser a ele diretamente endereçada. Isso significa que, quando a lei fala do "domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo" (inciso II) ou do "domicílio tributário do sujeito passivo" (inciso III), sempre que houver procurador regularmente constituído, estará na verdade tratando do endereço Fl. 2053DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.053 5 em que o mandatário exerce suas atividades. Do contrário chegaríamos à conclusão que os procuradores somente poderiam ser intimados na forma do inciso I (pessoalmente) e nunca pelos demais modos. Então não pode ser considerada válida a intimação por edital sem que se tenha tentado previamente a intimação do representante legal do contribuinte nas formas dos incisos I, II e III do artigo 23 do Decretolei 70.235”. O Decreto n. 70.235/72 trata da questão pertinente à intimação do sujeito passivo em meio ao processo administrativo fiscal (“PAF”): Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) § 1o Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I no endereço da administração tributária na internet; (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) (...) Sustenta o recorrente que a interpretação sistemática do referido dispositivo permitiria ao sujeito passivo eleger o endereço de seu procurador para o recebimento de intimações ou, ainda, tornaria inválida a intimação por edital antes da tentativa de intimação no endereço de ambos. Após refletir detidamente sobre a matéria, compreendo ser a interpretação esposada pelo acórdão n. 330200.150, indicado como paradigma de divergência, como a mais adequada para a solução da questão. A interpretação do referido dispositivo legal deve ser iluminada por uma série de princípios que governam o PAF, especialmente publicidade, segurança jurídica, eficiência, contraditório e ampla defesa (STF, RE 388.359). É necessário evitar construções interpretativas que prejudiquem o efetivo exercício de tais garantias asseguradas pela Constituição Federal. Algumas das causas da existência do PAF decorrem do interesse inerente à administração pública de praticar atos em conformidade à mais adequada interpretação, pois sua função precípua é justamente aplicar com correção a norma tributária em sentido estrito, bem como decorrem da garantia ao direito de petição, contraditório e ampla defesa ao contribuinte (Constituição Federal, art. 5o). Fl. 2054DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.054 6 Sob a luz dos princípios de regência, o art. 23 prevê que, eleito um dos métodos, deve ser esgotada a atividade estatal para persecução da intimação pessoal do contribuinte ou do seu procurador constituído, antes de sucumbir à intimação por edital. O princípio da publicidade (Constituição Federal, art. 37) reforça a concepção de que a ciência do contribuinte deve ser sempre que possível material, devendo ser excepcional a adoção de meios de intimação que se prestem à ciência meramente formal. A intimação por edital, que conduz à notificação meramente formal do contribuinte, é solução possível, mas excepcional, que deve ser adotada ao menos após o esgotamento das vias para o cientificação postal do sujeito, que foi o método precipuamente adotado no presente caso. Não se trata de afastar qualquer dispositivo legal pelo não cumprimento de tais ditames constitucionais, o que não é possível perante a esfera administrativa. Está em discussão a interpretação do art. 23 do Decreto n. 70.235/72, com vistas à efetivação dos aludidos princípios constitucionais que lhe dão suporte. A intimação pessoal (Decreto n. 70.235/72, art. 23, I) poderá ser “provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar”. Notese não haver motivos para colocar em dúvida que o procurador regularmente constituído nos autos detenha competência para tomar ciência de decisão proferida em um PAF. Com referência ao inciso III, também ao procurador é outorgada a legitimidade para ser intimado por meio do endereço eletrônico do contribuinte. Eleita pelo contribuinte a opção pelo endereço eletrônico, no âmbito do ECAC, notificações quanto aos assuntos de seu interesse dever ser realizadas neste canal. Concretizada a eleição do endereço eletrônico, as intimações passam a ser realizadas: i) quando o contribuinte ou o seu procurador acessar a notificação no referido ambiente virtual ou, ainda, ii) tacitamente, após o decurso do prazo previsto pela legislação sem que o contribuinte ou o seu procurador constituído tenham acessado a caixa postal do correspondente ambiente virtual. Vale sublinhar que, igualmente nessa hipótese, não há motivos para colocar em dúvida se o procurador do contribuinte, regularmente constituído e habilitado, detenha competência para tomar ciência de decisão proferida. Tratase de questão corriqueira. O caso dos autos diz respeito à intimação realizada pela via postal (Decreto n. 70.235/72, art. 23, II). Nesse caso, certamente a administração fiscal tem a prerrogativa de intimar em primeiro lugar o contribuinte no endereço mantido automaticamente em seus cadastros. Recebida a intimação pelo contribuinte, tem início a contagem de prazo. Mas não se pode dizer esgotada a atividade estatal de persecução da intimação postal na hipótese de ter sido expressamente requerido à administração fiscal que estas fossem encaminhadas a um endereço postal certo e determinado, atinente ao procurador do contribuinte regularmente constituído nos autos. Não parece razoável que todas as demais hipóteses (incidos I e III) legitimem o procurador do contribuinte à ciência dos atos processuais, mas na hipótese de intimação postal (inciso II) esta não poder ser endereçada ao procurador quando assim for expressamente requerido. O princípio da eficiência (Constituição Federal, art. 37) requer que a administração utilize o mínimo de recursos públicos (esforço de pessoal, serviços contratados, materiais etc.), com a obtenção dos melhores resultados possíveis. O cumprimento do princípio da eficiência deve ser aferido em cada concreto. Embora o referido princípio tenha sido Fl. 2055DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.055 7 introduzido no Texto Constitucional pela Emenda 19, de 1998, a sua carga normativa pode ser verificada claramente no CTN, de 1966: prevê o seu art. 127, § 2º, que “a autoridade administrativa pode recusar o domicílio eleito, quando impossibilite ou dificulte a arrecadação ou a fiscalização do tributo”. No caso concreto, a administração fiscal empenhou esforços por dois meses, empreendendo investigações cadastrais e remetendo intimações postais a três endereços diferentes, que supostamente pertenceriam ao contribuinte, após o que procedeuse a intimação meramente formal por meio de publicação de edital, como e verifica dos autos: “1) AV PROFESSOR VICENTE RAO, 90 PREDIO 122 BROOKLIN PAULISTA SAO PAULO SP, cujo AR foi devolvido com a informação “mudouse”, em 24/10/2012 (fls. 1827/1833); 2) AV BRIGADEIRO FARIA LIMA 3600 – 9o ANDAR – ITAIM BIBI – SAO PAULO, cujo AR foi devolvido com a informação de “destinatário desconhecido”, em 04/12/12 (fls. 1834/1837); e 3) AV BRIGADEIRO FARIA LIMA 3600 – 11o ANDAR – SALA BELGICA – ITAIM BIBI – SÃO PAULO – SP, cujo AR foi devolvido com a informação “mudouse”, em 26/12/12 (fl. 1838/1842).” Toda essa movimentação, contudo, poderia ter sido evitada com a intimação postal remetida ao endereço do procurador do contribuinte, expressamente requerido nos autos. Não se trataria, portanto, de esforço desproporcional ou mesmo superior. Pelo contrário, diante do objetivo em questão (cientificação quanto à decisão proferida) seria obtido resultado de forma mais eficiente, em menor tempo, com menos dispêndios, cumprindo com o que requer o princípio da eficiência expresso no art. 37 da Constituição Federal, caso a segunda tentativa já fosse enviada aos procurados constituídos nos autos. Se frustrada essa segunda tentativa de intimação postal no endereço do procurador constituído nos autos, na forma requerida pelo contribuinte, surgiria o ensejo para a intimação por edital. Dessa forma, mesmo a interpretação literal, de que a frustração de apenas um dos meios previstos no art. 23 seria suficiente para ensejar a intimação editalícia, conduz, sob a luz dos princípios de regência, à procedência do recurso especial. É importante, para essa compreensão, observar que o Poder Judiciário tem adotado tal interpretação. Citese, por exemplo, o seguinte precedente do Tribunal Regional Federal da 3a Região: EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO EXPRESSAMENTE ELEITO E INATENDIDO NA INTIMAÇÃO FAZENDÁRIA DO JULGAMENTO MONOCRÁTICO AMPLA DEFESA VULNERADA PROCEDÊNCIA AOS EMBARGOS 1. Denominada de " preliminar" gama consistente de assuntos de mérito, neste último momento é que cabível seu exame. 2. Os fatos contidos nos autos demonstram o fatal equivoco incorrido pela União. 3. Na cronologia dos principais eventos ocorridos no procedimento fiscal. 4. Diante de tão casuístico detalhamento, claramente se detecta exerceu o pólo apelado sua expressa opção domiciliar ( rua Júlio de Mesquita, 149, Santos, SP), entregue perante a própria União, em 25/10/93, por conseguinte repousando o mortal erro fazendário, como se extrai, no "improviso" representado pelo envio a outro endereço distinto do então já objeto de escolha Fl. 2056DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.056 8 contribuinte, ato fazendário aquele representado, respectivamente nos dias 01 e 21/02/95, diante do AR negativo da postagem enviada para a rua Armando em 16/01/95. 5. Inoponível pelo Poder Público qualquer "hábito" ou "costume" que se deseje imputar ao processamento do investigatório fiscal em pauta com eventual comunicação em outra sede : nos termos da própria legalidade tributária a que estritamente jungido o erário, caput do art. 127, CTN, indesculpável para outro domicílio tributário tenha a tentativa de intimação fazendária se endereçado, desde aquela expressa escolha traduzida no protocolo de 25/10/93, onde cristalinamente eleito o domicílio da enfocada Rua Júlio de Mesquita. 6. Sem substância o "arranjo" do reenvio, quando a ECT já afirmara, não era aquela rua Armando S. Oliveira a sede da pessoa recorrida. 7. Vítima a União de sua própria desorganização, em nada oponível, assim, qualquer outra rotina, pois elementar o direito do contribuinte de receber as comunicações fiscais na sede que assim identifique com clareza e para cujo acesso não demonstre o Poder Público qualquer obstáculo, §3° daquele mesmo art. 127. 8. Ferida de morte a fundamental ampla defesa, assegurada desde o plano constitucional (art. 5°, inciso LV), pois fundamental se oportunizasse ao investigado o direito da interposição recursal diante do monocrático decisório administrativo que lhe desfavorável, de fato a nenhum outro desfecho se alcança que não o da sentenciada procedência, desconstitutiva da execução por tão viceral vício de tramitação. 9. De rigor o improvimento ao apelo e ao reexame necessário, acertando a r. sentença inclusive na fixação sucumbencial, consentânea com os contornos do caso vertente, art. 20, CPC, execuções em apenso, por suas CDA. 10. Improvimento à apelação e à remessa oficial. (TRF 3ª Região, TURMA SUPLEMENTAR DA SEGUNDA SEÇÃO, AC APELAÇÃO CÍVEL 701220 020327577.1997.4.03.6104, Rel. JUIZ CONVOCADO SILVA NETO, julgado em 26/06/2008, DJF3 DATA:16/07/2008 ) Permissa vênia aos fundamentados entendimentos diversos, compreendo que deve ser adotada a interpretação normativa que conduza à potencial vivificação dos princípios da publicidade, segurança jurídica, do direito ao contraditório e à ampla defesa, com a recusa às construções interpretativas que prejudiquem o efetivo exercício de tais garantias asseguradas pela Constituição Federal. No caso, além de considerar mais plausível a interpretação exposta neste voto, a sua adoção e o reconhecimento do direito do contribuinte ao conhecimento de suas razões de mérito do recurso voluntário conduzem justamente à preservação das aludidas garantias fundamentais dos particulares. Nesse cenário, voto por CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso especial interposto, com o retorno dos autos à Turma a quo para a análise do mérito do recurso voluntário. (assinatura digital) Luís Flávio Neto Fl. 2057DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.057 9 Voto Vencedor Conselheira Adriana Gomes Rêgo Redatora Designada Em que pese o muito bem fundamentado voto proferido pelo ilustre Conselheiro Relator, este colegiado, por maioria de votos, divergiu de sua conclusão. A discussão cingese à validade ou não de intimação feita por edital, sem a prévia tentativa de intimação no endereço do procurador do sujeito passivo. Em seu voto, o relator entendeu que no caso em análise a ciência deveria ter sido realizada "com a intimação postal remetida ao endereço do procurador do contribuinte", fundamentando seu entendimento essencialmente nos princípios da publicidade, segurança jurídica, direito ao contraditório e à ampla defesa. Entretanto, este colegiado entende que foi regular a intimação da contribuinte por edital, após tentativas frustradas de intimação por via postal, tendo em vista que observou se o disposto no artigo 23 do Decreto nº 70.235/1972, e pelos fundamentos que ora buscase demonstrar. Um dos pressupostos para o conhecimento de recurso voluntário é a tempestividade. O prazo para a interposição desse recurso é de trinta dias contados da ciência da decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ), conforme dispõe o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72: "Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão". No caso em análise, verificase que o recurso voluntário interposto pela contribuinte foi considerado intempestivo, uma vez que o prazo recursal teria se esgotado em 19/2/2013 e a apresentação do recurso ocorreu em 6/3/2013. Nesse sentido, colacionase trecho do acórdão recorrido: Resultando improfícuos os meios de intimação por via postal, em virtude de mudança do domicílio fiscal do contribuinte sem a devida comunicação ao fisco, foi determinada a intimação por edital. Assim, em 02/01/2013, foi afixado o Edital nº. 01/2013 (fl. 1843), cientificando o contribuinte do acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento e intimandoo a pagar os débitos de sua responsabilidade ou a apresentar recurso, no prazo de 30 (trinta) dias, contados do 16º (décimo sexto) dia da data da afixação do edital. Muito embora o prazo recursal tenha se esgotado em 19/02/13, o recurso voluntário do contribuinte só foi protocolado em 06/03/13, conforme se verifica da peça recursal (fl. 1865) e do extrato de processo às fls. 1961/1962. Nesse passo, há inclusive um despacho da DERAT/SPO/DICAT às fls. 1963, confirmando o transcurso do prazo regulamentar Fl. 2058DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.058 10 para que o interessado apresentasse recurso à decisão da autoridade de primeira instância. (Grifouse) Em seu recurso especial, a ora recorrente afirma, entretanto, que a intimação da decisão da DRJ deve ser considerada inválida, uma vez que foi realizada por edital, embora tenha procurador regularmente constituído nos autos, bem como por ter solicitado em sua Impugnação que todas as intimações fossem realizadas no endereço de seu procurador. Pois bem. Inicialmente cumpre esclarecer que o processo administrativo fiscal (PAF) em âmbito federal é regido pelo já citado Decreto nº 70.235/1972, que, tendo status de lei ordinária, estabelece em seu artigo 23 as formas de intimação passíveis de utilização no PAF: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) § 1º Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I no endereço da administração tributária na internet; (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) (Grifouse) Assim, em processo administrativo fiscal a intimação pode ser pessoal, por via postal, por meio eletrônico e por edital. Com o advento da Lei nº 11.196/2005, o § 3º do artigo 23 passou a prever expressamente que os meios de intimação previstos no caput "não estão sujeitos a ordem de preferência". Isso significa que a lei não exige que a escolha do meio a ser utilizado para Fl. 2059DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.059 11 cientificar o contribuinte sobre determinada decisão observe uma ordem de preferência; pelo contrário: tratase de opção a ser feita pela Administração Pública. Assim, nada impede que a intimação seja realizada por via postal, e não por meio eletrônico (caso tenha optado pelo domicílio eletrônico), ou o contrário, por exemplo. Caso resulte improfícuo um dos meios de intimação previstos na lei, surge a possibilidade de que a intimação seja realizada por meio de edital, não se exigindo o esgotamento das modalidades de ciência. Com efeito, a intimação será realizada por edital quando restar frustrada tentativa de intimação por via pessoal, postal ou eletrônica. Assim, para intimação por edital não é necessário que todos os meios de intimação sejam colocados em prática, bastando que se utilize da via postal, por exemplo. É o que se verifica no presente caso. Compulsando os autos, vêse que a administração tributária realizou três tentativas de intimar a contribuinte por via postal, remetendo intimações a três endereços distintos, fornecidos pela própria contribuinte e constantes no banco de dados da RFB. As tentativas de intimação, entretanto, foram fracassadas, não tendo a contribuinte sido localizada nos respectivos endereços, o que foi noticiado pelos Correios. Conforme demonstrado pelo acórdão recorrido, as tentativas de intimação foram as seguintes: 1) AV PROFESSOR VICENTE RAO, 90 PREDIO 122 BROOKLIN PAULISTA SAO PAULO SP, cujo AR foi devolvido com a informação “mudouse”, em 24/10/2012 (fls. 1827/1833); 2) AV BRIGADEIRO FARIA LIMA 3600 – 9º ANDAR – ITAIM BIBI – SAO PAULO, cujo AR foi devolvido com a informação de “destinatário desconhecido”, em 04/12/12 (fls. 1834/1837); e 3) AV BRIGADEIRO FARIA LIMA 3600 – 11º ANDAR – SALA BELGICA – ITAIM BIBI – SÃO PAULO – SP, cujo AR foi devolvido com a informação “mudouse”, em 26/12/12 (fl. 1838/1842). Quanto a esses endereços convém destacar que em seu recurso, a contribuinte sequer questiona a validade dos endereços para os quais foram encaminhadas as correspondências, do que decorre que de fato não houve erro do órgão preparador ao realizar as tentativas de intimação. O primeiro endereço até mesmo coincide com o endereço informado na Impugnação, e para o qual a contribuinte solicitou que fossem encaminhadas cópias das decisões proferidas nesse processo administrativo. Ocorre que mesmo nesse endereço a recorrente não foi localizada. Logo, por ter restado improfícua a tentativa de intimação por via postal, restou configurada a hipótese de aplicação do §1º do artigo 23 do Decreto nº 70.235/72, isto é, a intimação por edital, o que efetivamente ocorreu com a afixação do documento "em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação" (cf. Edital nº 01/2013, às efls. 1.843). Assim, não há reparos a se fazer com relação a essa intimação, já que ocorreu em estrita observância à lei. A contrario sensu, é exatamente por não haver previsão legal que não pode ser acatado no processo administrativo tributário federal o pleito formulado pela contribuinte em sua Impugnação para que "todas as intimações e notificações a serem feitas, relativamente às decisões proferidas neste processo sejam encaminhadas aos seus procuradores". Ainda que Fl. 2060DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.060 12 se admita que a ciência pessoal possa ser provada com a assinatura de mandatário ou preposto do sujeito passivo, não há essa mesma previsão legal para a intimação por via postal. Para a intimação por via postal, exigese a prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo. O § 4º do artigo 23 do Decreto nº 70.235/72, por sua vez, define o que é o domicílio tributário do sujeito passivo, para fins de intimação, nos seguintes termos: Art. 23. Farseá a intimação: (...) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (...) § 4º Para fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) (Grifouse) À luz do inciso I do supracitado parágrafo, percebese que não há fundamento legal para o argumento sustentado pela recorrente de que ao solicitar na Impugnação "que todas as intimações sejam feitas no endereço de seus representantes legais", estaria elegendo seu domicílio tributário. Isso porque, nos termos da legislação, o domicílio tributário do sujeito passivo é o endereço fornecido à administração tributária para fins cadastrais. Para que a intimação por via postal seja válida é necessário que haja a prova do recebimento nesse endereço fornecido à administração tributária. Assim, somente é possível a intimação por via postal em endereço constante nos cadastros da Receita Federal do Brasil, fornecido pelo próprio sujeito passivo em declarações, por exemplo. Não há, portanto, a obrigação legal de que as intimações por via postal sejam realizadas em endereço diverso daquele constante no cadastro do contribuinte junto ao órgão da Administração Tributária, ainda que em endereço de procurador devidamente constituído nos autos. Portanto, não assiste razão à recorrente por absoluta falta de previsão legal quanto à possibilidade de serem realizadas intimações no endereço de procurador do sujeito passivo. Ainda que no processo civil exista a previsão legal da comunicação dos atos processuais serem realizados em nome dos advogados, e não das partes, no processo administrativo fiscal a comunicação deve ser realizada exclusivamente em nome dos sujeitos passivos, em seu domicílio tributário. Pode justificar o tratamento diverso o fato de no processo judicial, em regra, por força do artigo 103 do Código de Processo Civil, haver a obrigatoriedade de a parte estar "representada em juízo por advogado regularmente inscrito na Fl. 2061DF CARF MF Processo nº 16561.720013/201144 Acórdão n.º 9101003.049 CSRFT1 Fl. 2.061 13 Ordem dos Advogados do Brasil". Ou seja, em regra, naquele processo a parte apenas poderá postular em juízo por meio de advogado, o que não se verifica no âmbito do processo administrativo. Cumpre ainda destacar que a intimação apenas teve que ser realizada por edital porque a empresa não foi localizada nos endereços que informou à Administração Tributária, embora ao longo de dois meses tenham sido realizadas três tentativas em diferentes endereços. Ocorre que é obrigação da contribuinte manter seus dados cadastrais junto à RFB atualizados, especialmente quando se trata de mudança de endereço. Nesse sentido, dispõe o artigo 30, do Decreto nº 3.000/99 (Regulamento do Imposto de Renda): Art. 30. O contribuinte que transferir sua residência de um município para outro ou de um para outro ponto do mesmo município fica obrigado a comunicar essa mudança às repartições competentes dentro do prazo de trinta dias (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 195). Parágrafo único. A comunicação será feita nas unidades da Secretaria da Receita Federal, podendo ser também efetuada quando da entrega da declaração de rendimentos das pessoas físicas. Ao pretender a invalidação da intimação por edital, é como se a contribuinte estivesse imputando à Administração Pública a responsabilidade por seu descumprimento da legislação tributária. Pelo exposto, concluise que é válida a intimação de contribuinte por edital, caso não se obtenha sucesso com a utilização de um dos meios de intimação previstos no artigo 23, caput, do Decreto nº 70.235/72, não havendo previsão legal para que a intimação seja enviada para o endereço do procurador do sujeito passivo. Sendo assim, NEGO provimento ao Recurso Especial da contribuinte. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 2062DF CARF MF
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Numero do processo: 15983.000124/2011-15
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed May 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/08/2007 a 31/12/2009
AUTO DE INFRAÇÃO - MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA -
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.482
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 3. 00 01 24 /2 01 1- 15 Fl. 395DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Cuidase de Recurso Especial do Procurador interposto contra o Acórdão nº 2402003.509, que restou assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/08/2007 a 31/12/2009 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. Não há cerceamento de defesa quando o auto de infração foi devidamente instruído com os relatórios Discriminativo do Débito DD, Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados RADA, Relatório de Lançamentos RL, Fundamentos Legais do Débito FLD e Relatório Fiscal, necessários para a adequada compreensão fática e jurídica das obrigações. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. ARGUIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não é órgão competente para afastar a incidência da lei em razão de inconstitucionalidade ou ilegalidade, salvo nos casos previstos no art. 103A da CF/88 e no art. 62 do Regimento Interno do CARF. RECÁLCULO DAS MULTAS. RETROATIVIDADE BENIGNA. POSSIBILIDADE. Tendose em conta a alteração da legislação que trata das multas previdenciárias, devese analisar a situação específica de cada caso e optar pela penalidade mais benéfica ao contribuinte. Recurso Voluntário Provido em Parte. Na origem, tratase de impugnação contra lançado crédito tributário consubstanciado nos: 1. DEBCAD 37.307.2503: • Relativo a contribuições patronais e do contratante de serviços sobre a remuneração de empregados e contribuintes individuais. • Remunerações constantes de folhas de pagamento, mas sem recolhimento das respectivas contribuições. Fl. 396DF CARF MF Processo nº 15983.000124/201115 Acórdão n.º 9202005.482 CSRFT2 Fl. 396 3 • Na GFIP, o Contribuinte, não sendo optante do SIMPLES NACIONAL, declarou como se fosse, o que inibiu o cálculo automático das correspondentes contribuições previdenciárias a cargo do empregador. • Os levantamentos incluídos neste processo foram codificados como “CI1 – CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS”: contribuições incidentes sobre pagamentos a contribuintes individuais, cujos valores não foram declarados em GFIP, mas constantes dos livros contábeis; “FP – FOLHA PAGTO DECL COMO SIMPLES”, “FP1 – FOLHA PAGTO DECL COMO SIMPLES” e “FP2 – FOLHA PAGTO DECL COMO SIMPLES”: contribuições incidentes sobre a remuneração de empregados, constantes de folhas de pagamento e declaradas em GFIP, mas com a indevida utilização do código de optante do SIMPLES NACIONAL; e, finalmente, “PL – PRO LABORE DECL COMO SIMPLES”, “PL1 – PRO LABORE DECL COMO SIMPLES” e “PL2 – PRO LABORE DECL COMO SIMPLES”: contribuições incidentes sobre a remuneração de administradores (contribuintes individuais), constantes de folhas de pagamento e declaradas em GFIP, mas com a indevida utilização do código de optante do SIMPLES NACIONAL. 2. DEBCAD 37.307.2511: • Relativo a contribuições de contribuintes individuais, cuja responsabilidade pela arrecadação e recolhimento é da fonte pagadora. • O levantamento constante deste processo foi codificado como “CI1 – CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS” e compreende contribuições incidentes sobre pagamentos a contribuintes individuais, cujos valores não foram declarados em GFIP, mas constantes dos livros contábeis. 3. DEBCAD 37.307.2520: • Relativo a contribuições para outras entidades (FNDE, SEBRAE, INCRA e SESC). • Os levantamentos incluídos neste processo foram codificados como “FP – FOLHA PAGTO DECL COMO SIMPLES”, “FP1 – FOLHA PAGTO DECL COMO SIMPLES” e “FP2 – FOLHA PAGTO DECL COMO SIMPLES” e compreende contribuições incidentes sobre a remuneração de empregados, constantes de folhas de pagamento e declaradas em GFIP, mas com a indevida utilização do código de optante do SIMPLES NACIONAL. 4. DEBCAD 37.307.2538: é relativo à imposição de multa, por descumprimento de obrigação tributária acessória: apresentar GFIP com informações incorretas ou omissas, qual seja, a declaração de que seria optante do SIMPLES NACIONAL. 5. DEBCAD 37.310.9652: é relativo à imposição de multa, por descumprimento de obrigação tributária acessória: apresentar Fl. 397DF CARF MF 4 livros contábeis sem atendimento das formalidades legais exigíveis, ou seja, deixou de registrálos no órgão competente. O acórdão n° 0535.162 da DRJ julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário integralmente (efls. 312/326). Inconformado, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário buscando a insubsistência dos autos de infração, ou pelo menos a redução das multas aplicadas (efls. 335/344). O recurso foi parcialmente provido, por unanimidade de votos, para realização do recálculo da multa imposta limitandose ao patamar de 75% do valor principal, aplicandose a que for mais benéfica. (efls. 352/357). Contra a referida decisão, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial alegando que o acórdão contrariou precedentes deste Conselho (efls. 359/367), apontando como paradigma os Acórdãos nº 230100.283 e nº 240100.120. Ao final, requer a reforma do julgado no ponto em que determinou a aplicação do art. 35, caput, da Lei n° 8.212/91 (na atual redação conferida pela Lei n° 11.941/2009), em detrimento do art. 35A, também da Lei n° 8.212/91, devendose verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se a multa anterior (art. 35, II, da norma revogada) ou a do art. 35A da Lei n° 8.212/91. Em sede de exame de admissibilidade foi dado seguimento ao recurso para rediscussão da multa a ser aplicada no período lançado (efls. 370/373). Nas contrarrazões recursais, o contribuinte requer o não provimento do Recurso Especial do Procurador por entender que “não fará sentido aplicar penalidade acessórias uma vez que os interesses (arrecadação e fiscalização) foram protegidos na imposição de ofício” (efls. 384/387). O contribuinte também apresentou recurso especial (efls. 378/383), porém, não sendo observado o requisito da divergência jurisprudencial não foi conhecido em sede de exame de admissibilidade (efls. 391/393). É o relatório. Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora Na interposição do presente recurso, foram observados os pressupostos gerais de admissibilidade, razão pela qual dele conheço. A lide tem como objeto a multa a ser aplicada no descumprimento de obrigações principais e obrigações acessórias previdenciárias, cujos fatos geradores ocorreram antes da entrada em vigor da MP nº 449/2008. Fl. 398DF CARF MF Processo nº 15983.000124/201115 Acórdão n.º 9202005.482 CSRFT2 Fl. 397 5 Antes de analisar o debate em questão, importante tecer algumas considerações sobre a sistemática da Lei nº 8.212/91 no tocante à penalidade pelo descumprimento das obrigações (principais e acessórias) sob a ótica do princípio da retroatividade benigna. Como se sabe, a MP nº 449/2008 trouxe relevantes alterações na sistemática das multas aplicáveis. Antes de sua entrada em vigor, o descumprimento das obrigações principais era penalizado da seguinte forma: As obrigações declaradas em GFIP, mas pagas em atraso, eram sancionadas com multa variável entre 8% a 20%, de acordo com o art. 35, I, da Lei nº 8.212/91 (redação anterior à MP nº 449/2008); As obrigações que não tinham sequer sido lançadas em GFIP, cujos lançamentos se deram de ofício pela autoridade fiscal, eram punidas com a multa variável entre 24% a 50%, nos termos do art. 35, II, da mesma Lei. Caso os créditos fossem incluídos em dívida ativa, a multa aplicável era de 60% a 100%, conforme o inciso III. Em que pese ambas as multas serem denominadas de “multa de mora”, os percentuais diferenciavamse pela existência de uma prévia declaração do tributo ou pelo lançamento de ofício. A nova sistemática trazida pela MP nº 449/2008 estabeleceu uma distinção mais visível entre as multas, denominando de multa de mora a multa incidente sobre as obrigações já declaradas em GFIP, mas pagas em atraso, e de multa de ofício as obrigações lançadas de ofício pela autoridade fiscal, objetivando abrandar a multa de mora e aplicar uma penalidade mais severa às obrigações lançadas de ofício. Desta forma, a multa pelo pagamento em atraso das obrigações já declaradas (anteriormente prevista no art. 35, I) passou a ser de 0,33% ao dia, limitada a 20%, nos termos do atual art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91, que faz remissão ao art. 61, da Lei nº 9.430/96. Já para as obrigações lançadas de ofício, a multa (antes prevista no art. 35, II) passou a ser fixa, de 75%, nos termos do art. 35A, da mesma Lei, que faz remissão ao art. 44, I, da Lei nº 9.430/96. Quanto às obrigações acessórias, o descumprimento das obrigações era penalizado com as multas previstas no art. 32, §§ 4º, 5º e 6º, da Lei nº 8.212/91. A MP nº 449/2009 revogou os referidos dispositivos, instituindo a multa do art. 32A, da mesma Lei, que é de “R$ 20,00 (vinte reais) para o grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas” e “de 2% ao mês calendário ou fração incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento)”. Como se observa, em determinados pontos a nova sistemática foi mais benéfica ao contribuinte, mas em outros estabeleceu multa mais severa. Assim, para o cálculo das multas incidentes sobre fatos geradores ocorridos antes da entrada em vigor da MP nº 449/2008, mas realizado após 12/2008, devese levar em conta o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106, do CTN. Assim, sob a ótica do referido princípio, as multas de fatos geradores ocorridos antes de 03/12/2008, mas aplicadas posteriormente a essa data, devem ser calculadas comparando a legislação anterior com a atual, isto porque a Lei nº 8.212/91 é clara ao estabelecer penalidades distintas para o descumprimento das obrigações principais declaradas e pagas em atraso (multa de mora do art. 35, caput), para as obrigações principais lançadas de Fl. 399DF CARF MF 6 ofício (multa de ofício do art. 35A) e para o descumprimento de obrigações acessórias ( multa do art. 32A). Todavia, a Receita Federal vem adotando posicionamento no sentido da aplicação de uma multa única quando houver descumprimento de obrigações principais e acessórias, por entender ser a sistemática mais favorável ao contribuinte, em virtude da proibição do bis in idem. Desta forma, para o cálculo das multas por descumprimento das obrigações previdenciárias, o Fisco vem adotando a seguinte sistemática, de acordo com o art. 476A, da Instrução Normativa RFB 971/2009, vejamos: Art. 476A. No caso de lançamento de oficio relativo a fatos geradores ocorridos: (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) I até 30 de novembro de 2008, deverá ser aplicada a penalidade mais benéfica conforme disposto na alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 1966 (CTN), cuja análise será realizada pela comparação entre os seguintes valores:(Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) a) somatório das multas aplicadas por descumprimento de obrigação principal, nos moldes do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009, e das aplicadas pelo descumprimento de obrigações acessórias, nos moldes dos §§ 4º, 5º e 6º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009; e (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) b) multa aplicada de ofício nos termos do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) II a partir de 1º de dezembro de 2008, aplicamse as multas previstas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º, 5º e 6º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) Observase, portanto, que ao instituir uma multa única, deixase de estipular qualquer comparação entre os dispositivos anteriores e atuais da Lei nº 8.212/91, considerando se viável a aplicação da multa de ofício de forma generalizada. Fl. 400DF CARF MF Processo nº 15983.000124/201115 Acórdão n.º 9202005.482 CSRFT2 Fl. 398 7 Em julgados anteriores, vinha adotando o posicionamento de que, em respeito ao art. 106, do CTN, na execução do julgado a autoridade fiscal deverá verificar a situação mais benéfica ao contribuinte a partir da comparação entre as multas anteriormente previstas nos arts. 35, I e II, e 32, com as multas atuais dos arts. 35, caput, 35A e 32A, de acordo com a natureza da infração cometida. Isto porque, entendo que não é possível admitir que a penalidade por descumprimento de obrigação acessória seja estabelecida de uma forma quando aplicada de forma isolada e de forma distinta quando cumulada com multa referente à obrigação principal, pois não há previsão legal nesse sentido. À Receita Federal cabe implementar meios para recalcular os débitos de forma a aplicar a penalidade mais benéfica ao contribuinte, comparando os dispositivos da lei anterior ao atual, e não criar condições prejudiciais aos contribuintes. Ressalvada minha tese sobre a questão, constatase que o meu posicionamento diverge da posição deste colegiado, que em outros julgados tem se manifestado quase à unanimidade, não fosse o voto divergente da ora relatora, no sentido de dar provimento ao recurso especial da Fazenda, razão pela qual modifico o meu posicionamento para me adequar à jurisprudência deste Conselho. Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, para que seja reformado o acórdão recorrido na parte em que determinou a aplicação da multa prevista no art. 35 com redação original da Lei n° 8.212/91, permitindo que a Fazenda Nacional realize a aferição acerca da opção mais benéfica, nos moldes requeridos pela Recorrente, a saber: a soma das duas multas, aplicadas nos Autos de Infração de descumprimento de obrigações principais e acessórias; ou a multa de 75% sobre a totalidade ou diferença de contribuição, prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 401DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10865.000741/2010-54
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Sep 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2007
IRPF. RENDIMENTO RECEBIDO ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. POSSIBILIDADE.
O Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. É cabível a restituição de imposto de renda, quando reconhecida existência de pagamento indevido ou a maior.
Recurso Voluntário Provido
Numero da decisão: 2202-004.112
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurelio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2007 IRPF. RENDIMENTO RECEBIDO ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. POSSIBILIDADE. O Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. É cabível a restituição de imposto de renda, quando reconhecida existência de pagamento indevido ou a maior. Recurso Voluntário Provido
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurelio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada.
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RENDIMENTO RECEBIDO ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. POSSIBILIDADE. O Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. É cabível a restituição de imposto de renda, quando reconhecida existência de pagamento indevido ou a maior. Recurso Voluntário Provido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurelio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 00 07 41 /2 01 0- 54 Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10865.000741/201054 Acórdão n.º 2202004.112 S2C2T2 Fl. 108 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 10865.000741/201054, em face do acórdão nº 1535.744, julgado pela 3ª. Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (DRJ/SDR), na sessão de julgamento de 26 de junho de 2013, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de origem, que assim relatou os fatos: "A interessada requereu em 9/3/2010, a restituição do imposto de renda que afirma indevidamente retido sobre rendimentos do trabalho assalariado, recebidos acumuladamente em 2006. Argumenta em síntese que o cálculo do imposto de renda devido, em conformidade com a sentença judicial, deveria tomar por base as tabelas progressivas mensais, vigentes nos meses de referência das diferenças salariais pagas por força de decisão judicial. Alega ainda que o seu pleito é calcado única e exclusivamente na sentença judicial transitada em julgado (fls.3 a 14). O pedido foi indeferido pela Delegacia da Receita Federal em Limeira/SP, mediante Despacho Decisório do Serviço de Orientação e Análise Tributária – Seort, de 3/5/2011, com fundamento no art. 12 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, segundo o qual, no caso de rendimentos recebidos acumuladamente o imposto incidirá no mês do recebimento e sobre o total dos rendimentos (fls.40/41). A contribuinte contesta o lançamento, argumentando em síntese a nulidade do despacho decisório por descumprimento de ordem judicial. A decisão administrativa teria dado nova interpretação à regra de retenção do imposto contida na sentença judicial que reconheceu o direito às diferenças salariais. Reafirma que os parâmetros fixados na sentença para cálculo do imposto não foram obedecidos pela fonte pagadora que efetuou a retenção. Cita jurisprudência judicial e refere confirmada com a edição da Lei nº 12.350, de 20 de dezembro de 2010, na qual o legislador entendeu que a regra de tributação dos rendimentos recebidos acumuladamente feria princípios constitucionais. E que essa conclusão ratifica o acerto da decisão judicial que lhe garantiu a distribuição dos rendimentos pelos meses de sua geração, para fins de incidência do imposto de renda. Finaliza requerendo a reforma do despacho decisório para que o seu pedido seja processado em conformidade com a decisão judicial que reconheceu o seu direito e, na eventualidade de desconsideração, que seja reconhecido o seu direito à distribuição dos rendimentos recebidos acumuladamente pelos meses em que foram gerados (fls.42 a 58)." Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10865.000741/201054 Acórdão n.º 2202004.112 S2C2T2 Fl. 109 3 A Delegacia Federal do Brasil de Julgamento de origem entendeu por não reconhecer o crédito tributário pleiteado pela contribuinte. Inconformada, a contribuinte apresentou recurso voluntário às fls. 71/86, reiterando as alegações expostas em manifestação de inconformidade. Ainda, a fl. 98, apresenta petição, onde requerer prioridade de tramitação do feito. É o relatório. Voto Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator O recurso voluntário apresentado dentro do prazo legal e reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade, entendo por conhecêlo. A contribuinte requereu em 09/03/2010, a restituição do imposto de renda que afirma indevidamente retido sobre rendimentos do trabalho assalariado, recebidos acumuladamente em 2006. Argumentou a contribuinte que o cálculo do imposto de renda devido, em conformidade com a sentença judicial, deveria tomar por base as tabelas progressivas mensais, vigentes nos meses de referência das diferenças salariais pagas por força de decisão judicial. Conforme já relatado, o pedido foi indeferido pela Delegacia da Receita Federal em Limeira/SP, mediante Despacho Decisório do Serviço de Orientação e Análise Tributária – Seort, de 3/5/2011, com fundamento no art. 12 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, segundo o qual, no caso de rendimentos recebidos acumuladamente o imposto incidirá no mês do recebimento e sobre o total dos rendimentos (fls. 40/41). No presente caso, verificase que a contribuinte realizou o recolhimento de imposto de renda pelo regime de caixa e não o de competência, conforme regra estabelecida no art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em recurso repetitivo representativo da controvérsia, submetido ao regime do art. 543C do CPC, no REsp n° 1.118.429SP, decidiu: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AÇÃO REVISIONAL DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PARCELAS ATRASADAS RECEBIDAS DE FORMA ACUMULADA. 1. O Imposto de Renda incidente sobre os benefícios pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10865.000741/201054 Acórdão n.º 2202004.112 S2C2T2 Fl. 110 4 alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a cobrança de IR com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Precedentes do STJ. 2. Recurso Especial não provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do CPC e do art. 8º da Resolução STJ 8/2008 (STJ, 1ª Seção, REsp 1.118.429/SP,rel. Min. Herman Benjamin, j., em 24.03.2010) (grifo nosso) . Dessa forma, deve ser aplicado o entendimento do STJ no sentido de que o Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte. eguem alguns julgados recentes deste Conselho nesse sentido. IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. Consoante decidido pelo STF através da sistemática estabelecida pelo art. 543B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o IRPF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado utilizandose as tabelas e alíquotas do imposto vigentes a cada mês de referência (regime de competência). (Acórdão nº 9202003.695 2ª Turma de 27/01/2016. Relator originário: José Cheffe Rahal. Redator designado: Heitor de Souza Lima Junior). IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. RECLAMATÓRIA TRABALHISTA. O imposto de renda incidente sobre os rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente deve ser calculado com base tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, conforme dispõe o Recurso Especial nº 1.118.429/SP, julgado na forma do art. 543C do CPC (art. 62A do RICARF). (Acórdão nº 2202002.785, de 09/09/2014. Rel. Antonio Lopo Martinez). RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. TRIBUTAÇÃO. Seguindose a decisão do Superior Tribunal de Justiça, o Imposto de Renda incidente sobre os benefícios pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos. Recurso Voluntário Provido em Parte. (Acórdão nº 2802003.160, de 07/10/2014. Rel. Ronnie Soares Anderson) Assim, entendo que deve ser acolhido o pedido de restituição pleiteado em 09/03/2010 pela contribuinte, devendo ser aplicado aos rendimentos recebidos acumuladamente as tabelas e alíquotas do imposto de renda vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, devendo a contribuinte receber, por restituição, os valores recolhidos a maior. Ante o exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. Fl. 110DF CARF MF Processo nº 10865.000741/201054 Acórdão n.º 2202004.112 S2C2T2 Fl. 111 5 (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Fl. 111DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10909.900453/2008-23
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004
DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITOS.
A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde.
Recurso Especial do Contribuinte negado.
Numero da decisão: 9303-005.522
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004 DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITOS. A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde. Recurso Especial do Contribuinte negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
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COMPENSAÇÃO Recorrente TECONVI S/A TERMINAL DE CONTÊINERES DO VALE DO ITAJAÍ Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004 DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITOS. A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde. Recurso Especial do Contribuinte negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 9. 90 04 53 /2 00 8- 23 Fl. 130DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 3803000.676, de 24/08/2010, proferido pela 3ª Turma Especial da Terceira Seção do CARF, que fora assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA. REQUISITO DE VALIDADE A compensação de créditos tributários depende da comprovação da liquidez e certeza dos créditos contra a Fazenda Nacional. Irresignada, a Recorrente se insurgiu contra o entendimento esposado no acórdão recorrido de que ela não conseguiu demonstrar, no momento da compensação, a existência de créditos líquidos e certos que autorizassem a homologação da DCOMP. Acrescentou ainda que o recorrente não apresentou os motivos que o fizeram realizar nova apuração da contribuição devida no período objeto do processo e, portanto, retificar a DACON e a DCTF, informando os novos valores. Decidiu, portanto, o Colegiado não considerar na análise da compensação as retificadoras efetuadas. Alega divergência com relação ao que decidido nos Acórdãos nº 3403002.294 e nº 1101000.848. O exame de admissibilidade do recurso especial encontrase às fls. 117/120. Intimada, a PFN apresentou contrarrazões ao recurso (fls. 122/127). É o Relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial interposto pela contribuinte deve ser conhecido. Conforme assentado no exame de sua admissibilidade, o acórdão recorrido entendeu que a apresentação de DCOMP e DCTF retificadoras não tem o condão de alterar a decisão proferida, competindo ao contribuinte o ônus de provar o erro de preenchimento da declaração, mediante a apresentação de escrita contábil e fiscal. É o que consignou o relator ao final do acórdão recorrido: Ademais, sem prejuízo do acima exposto, a Defendente não argumenta acerca da origem do seu crédito, que bases deixou de tributar quando da nova apuração e não se ocupou, nas duas instâncias, em demonstrar essa origem colacionando os Fl. 131DF CARF MF Processo nº 10909.900453/200823 Acórdão n.º 9303005.522 CSRFT3 Fl. 131 3 elementos da sua apuração e comproválo com anexação da escrita contábilfiscal pertinente. Registrese que a DACON retificadora foi apresentada em 29/10/2004, antes, portanto, de proferido o Despacho Decisório (o que ocorreu em 24/04/2008), mas a DCTF retificadora somente depois, em 23/05/2008. Já no segundo paradigma, a Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ também foi apresentada antes de proferido o Despacho Decisório, mas não a DCTF, que, portanto, tal como sucedeu no caso objeto dos presentes autos, somente foi retificada depois. Logo, entendemos comprovada a divergência. No mérito, como já registramos noutros processos envolvendo matéria idêntica, esta Corte Administrativa vem entendendo que a retificação posterior ao Despacho Decisório não impediria o deferimento do pedido quando acompanhada de provas documentais comprovando a erro cometido no preenchimento da declaração original, conforme preconiza o § 1º do art. 147 do CTN: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. No caso em exame, a contribuinte não trouxe aos autos, nas duas oportunidades em que neles compareceu, qualquer prova documental hábil a demonstrar o erro que cometera no preenchimento da DCTF (escrita contábil e fiscal). Para nós, portanto, correta a Câmara baixa, ao afirmar que a DCTF retificadora apresentada após a ciência do Despacho Decisório não seria óbice, mas também não seria suficiente para a demonstração do crédito vindicado, sendo indispensável, nos termos do § 1º do art. 147 do CTN, supra, a comprovação do erro em que se fundou a retificação, o que a Recorrente, conforme já ressaltamos, não logrou realizar. Ante o exposto, conheço do recurso especial e, no mérito, negolhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 132DF CARF MF 4 Fl. 133DF CARF MF Processo nº 10909.900453/200823 Acórdão n.º 9303005.522 CSRFT3 Fl. 132 5 Fl. 134DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.100756/2006-13
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.367
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado.
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. EXPORTAÇÃO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado RITZEL COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 10 07 56 /2 00 6- 13 Fl. 360DF CARF MF Processo nº 11065.100756/200613 Acórdão n.º 9303005.367 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão 380302.446. Na parte de interesse ao presente litígio, o colegiado a quo decidiu que a cessão onerosa de créditos do ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. A Fazenda Nacional requer a reforma do acórdão argumentando, em síntese, que a cessão onerosa de créditos de ICMS é uma operação que equiparase a verdadeira alienação de direitos a titulo oneroso, originando receita tributável, devendo compor a base de cálculo da PIS/ COFINS, conforme dispõe o art. 1° §§ 1º e 2º da Lei nº 10.637/2002, bem como o art. 1° da Lei nº 10.833/2003. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. O contribuinte não apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.319, de 25/07/2017, proferido no julgamento do processo 13016.000004/200401, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.319): "Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF, haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. Fl. 361DF CARF MF Processo nº 11065.100756/200613 Acórdão n.º 9303005.367 CSRFT3 Fl. 4 3 O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, cuja decisão possui a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deu se em 05/12/2013. Fl. 362DF CARF MF Processo nº 11065.100756/200613 Acórdão n.º 9303005.367 CSRFT3 Fl. 5 4 Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte." Fl. 363DF CARF MF Processo nº 11065.100756/200613 Acórdão n.º 9303005.367 CSRFT3 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 364DF CARF MF
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Numero do processo: 10835.000400/2003-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Período de apuração: 01/12/2002 a 30/12/2002
COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. RETENÇÃO NA FONTE. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado se o contribuinte trouxer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito.
Numero da decisão: 2202-004.111
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.967,39.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Período de apuração: 01/12/2002 a 30/12/2002 COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. RETENÇÃO NA FONTE. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado se o contribuinte trouxer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.967,39. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada.
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PRUDENTE COOPERATIVA DE TRABALHO MEDICO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Período de apuração: 01/12/2002 a 30/12/2002 COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. RETENÇÃO NA FONTE. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado se o contribuinte trouxer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.967,39. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 5. 00 04 00 /2 00 3- 15 Fl. 425DF CARF MF Processo nº 10835.000400/200315 Acórdão n.º 2202004.111 S2C2T2 Fl. 426 2 Relatório Tratase de pedido de compensação no qual o Recorrente pleiteia a compensação de débitos do IRRF decorrente dos rendimentos pagos a seus cooperados, a partir de créditos do imposto de renda que lhe teriam sido retidos na fonte. A compensação pleiteada foi homologada parcialmente no valor de R$ 15.240,41, de um total requerido de R$ 17.269,04. A diferença não homologada deuse por falta de comprovação quanto ao efetivo pagamento do IRRF pelas fontes pagadoras que retiveram o tributo do Recorrente. Em sua manifestação de inconformidade, o Recorrente pleiteou a juntada de documentação hábil a comprovar o seu direito à compensação. A decisão de primeira instância desconsiderou todos os documentos juntados pelo Contribuinte na manifestação de inconformidade, por entender que estava precluso esse direito, julgandoa improcedente. O Contribuinte foi cientificado da decisão de primeira instância em 09/05/2007, por via postal, conforme A.R. de fl. 373, tendo apresentado em 08/06/2007 (envelope de fl. 379) o Recurso Voluntário de fls. 374/378, requerendo a realização de diligência para a apreciação dos referidos documentos. Na sessão de 19/08/2009, os membros da 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento do CARF resolveram, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para que a autoridade fiscal apurasse a existência de crédito apto à homologação da compensação pleiteada, considerando todos os documentos já juntados ao processo (fls. 382/384). Tendo em vista a extinção da 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento do CARF, o processo foi sorteado para essa turma de julgamento, sob minha relatoria. A autoridade fiscal emitiu o Relatório de Diligência de fls. 398/400, com as conclusões da diligência, porém não consta que o Contribuinte foi intimado desse relatório. Na sessão de 09/02/2017, essa Turma Ordinária converteu o julgamento em diligência (fls. 401/403), para que a Contribuinte fosse intimada a se manifestar sobre o resultado da diligência anterior. A Contribuinte foi intimada em 16/03/2017 (A.R. de fl. 407) e apresentou a manifestação de fls. 419/422 em 17/04/2017. É o relatório. Fl. 426DF CARF MF Processo nº 10835.000400/200315 Acórdão n.º 2202004.111 S2C2T2 Fl. 427 3 Voto Conselheiro Relator Relator O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Observase que a autoridade fiscal, em atendimento à determinada pela 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento do CARF, conforme Resolução nº 28010009, de 19/08/2009 (fls. 382/384), emitiu o Relatório de Diligência de fls. 398/400. A Contribuinte manifestouse sobre a diligência, alegando que os vários equívocos cometidos pelas fontes pagadoras ao prestarem as informações ao Fisco demonstram que não correspondem totalmente à realidade dos fatos. Defende a Recorrente que a documentação acostada aos autos comprova a origem, existência e legitimidade dos créditos suficientes para a homologação da compensação. Sustenta que o fato de a fonte pagadora eventualmente não ter informado em DIRF a respectiva retenção ou têla informado com código de retenção equivocado não pode criar uma obrigação/punição para a Recorrente. Em atendimento à diligência solicitada, a autoridade fiscal concluiu o seguinte (fls. 398/400): Pela leitura da planilha verificase que foi glosado o valor de R$ 2.028,63 (R$ 1.935,27 + R$ 93,36). Com a análise dos documentos juntados posteriormente, foi comprovado a retenção adicional de R$ 726,98. Vêse, portanto, que após a análise de toda a documentação acostada aos autos pela Recorrente, a autoridade fiscal reconheceu a comprovação adicional de R$ 726,98, totalizando um valor comprovado de R$ 15.967,39 (R$ 15.240,41 + R$ 726,98). Ressaltese que o ônus para a comprovação documental de direito creditório pertence ao interessado, dados os requisitos de liquidez e certeza para os valores pleiteados, conforme determina o art. 170 do Código Tributário Nacional. Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. É notoriamente sabido que, nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos incumbe ao requerente, que deve trazer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito. Essa é a dicção do art. 373, inciso I, do Código de Processo Civil – CPC, aplicado subsidiariamente ao processo administrativo fiscal Decreto nº 70.235/72 (PAF): Fl. 427DF CARF MF Processo nº 10835.000400/200315 Acórdão n.º 2202004.111 S2C2T2 Fl. 428 4 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; [...] Assim, considerando que o Contribuinte não logrou comprovar o crédito total alegado de R$ 17.269,04, conforme diligência efetuada, deve ser mantida a glosa de R$ 1.301,65. Dessa forma, voto por dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.967,39. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator Fl. 428DF CARF MF
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