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Numero do processo: 10880.978085/2009-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário:2005
DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada de provas hábeis, da composição e existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa, na forma do que dispõe o artigo 170 do CTN.
Não se desincumbindo a recorrente do ônus de comprovar o direito creditório alegado, cabe o não provimento do recurso voluntário.
Direito creditório que não se reconhece
Numero da decisão: 1402-003.417
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, mantendo a decisão recorrida, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Participaram do julgamento os Conselheiros Edgar Bragança Bazhuni e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplentes Convocados).
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente).
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada de provas hábeis, da composição e existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa, na forma do que dispõe o artigo 170 do CTN. Não se desincumbindo a recorrente do ônus de comprovar o direito creditório alegado, cabe o não provimento do recurso voluntário. Direito creditório que não se reconhece Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, mantendo a decisão recorrida, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Participaram do julgamento os Conselheiros Edgar Bragança Bazhuni e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplentes Convocados). (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 97 80 85 /2 00 9- 75 Fl. 126DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 127 2 Relatório O litígio remonta ao Despacho Decisório (DD) nº de Rastreamento 845356540, emitido pela DERAT/SP em 24/08/2009 (fls. 7), que indeferiu o pleito da recorrente e não homologou a compensação intentada, conforme reprodução abaixo: Irresignada, a contribuinte interpôs manifestação de inconformidade perante a Turma Julgadora de 1º Piso (fls. 9/12) requerendo o deferimento integral do direito creditório alegando, em suma, ter procedido à retificação de DCTF. Analisando a MI a 7ª Turma da DRJ/SP1, em sessão de 10/02/2011 (fls. 87/90) manteve a decisão da DERAT/SP e negou provimento ao pedido. Em suas razões de decidir, assentou o voto condutor do acórdão: “O contribuinte apresentou 5 DCOMP vinculadas ao direito creditório: Ao comparar a DCTF entregue em 31.05.2007 com a retificadora entregue em 01.09.2009 (fls. 79 a 83), percebese que o valor inicialmente declarado de CSRF do código 5952 da lª quinzena de julho de 2005 passou de R$ 265.544,58 para R$ 250.665,74, ou seja, uma diminuição de R$ 14.878,84, exatamente o valor original do crédito inicial indicado nas DCOMP acima listadas. Fl. 127DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 128 3 É certo que o contribuinte pode retificar as declarações prestadas ao Fisco, conforme disposto na Instrução Normativa RFB n° 903, de 30.12.2008, vigente à época dos fatos, inclusive para reduzir valores de débitos. No entanto, urna vez que a administração tributária tenha iniciado procedimento fiscal para verificar as obrigações tributárias referentes a determinado período e tributo, no mais se pode falar em espontaneidade na entrega de retificadora. Abaixo seguem transcritos os dispositivos em comento: (...) No caso, o contribuinte foi cientificado do despacho decisório em 31.08.2009 e apenas cm 01.09.2009 efetivou a retificação da DCTF, momento em que não mais poderia se beneficiar da espontaneidade. Uma vez que a administração tributária emite decisão com base em declaração por ele regularmente entregue, não é licito que o contribuinte simplesmente retifique a informação que levou àquela decisão e pretenda que seja a nova informação aceita sem passar pelo crivo do agente fiscal. Em se tratando de procedimento administrativo para apurar a existência de direito creditório, entendo que, após ciente da decisão que lhe foi desfavorável, deveria o contribuinte ter apresentado sua manifestação de inconformidade acompanhada de elementos probatórios que permitissem à autoridade julgadora constatar a efetiva ocorrência do alegado equivoco cometido na DCTF anterior, nos termos do artigo 16, § 4° do Decreto n°70.235/72. Não tendo feito tal prova, não se pode aceitar a mera retificação da declaração para fins de apuração do direito creditório em questão. Isso posto, voto pela improcedência da manifestação de inconformidade”. O Acórdão recorrido tem a seguinte ementa: ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Ano calendário: 2005 COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA DA EXISTÊNCIA DE DIREITO CREDITÓRIO. NÃO HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. Após cientificado o contribuinte de decisão que não homologou a compensação declarada em DCOMP, não basta a mera retificação de DCTF com vistas a reduzir débito tributário, e com isso justificar a existência de direito creditório. Imprescindível a prova de que o valor correto do débito é aquele apresentado na DCTF retificadora. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Cientificada da decisão supra em 07/04/2011 (fls. 92), a recorrente interpôs recurso voluntário (fls. 93/96) no qual reafirma basicamente todos os argumentos aduzidos na manifestação de inconformidade e pleiteia a reforma da decisão recorrida: “3. Com efeito, de acordo com o v. acórdão guerreado, após prolação de DESPACHO DECIS6RIO que não homologa compensação declarada em Fl. 128DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 129 4 DCOMP por falta de crédito, não basta ao contribuinte retificar a DCTF para demonstrar a existência de direito credit6rio. Deve também provar que o valor correto do débito é aquele apresentado na retificadora. 4. Realmente, no entender do acórdão recorrido, o DESPACHO DECISÓRIO constituiu ato administrativo clue marca o inicio de procedimento fiscal. Em consequência, as retificações de DCTF eventualmente realizadas são ineficazes, nos termos do art. 11, § 2º, III, da IN.RFB.903, de 2008. Confirase a conclusão pela transcrição dos seguintes excertos do voto do I. Relator: (...) 5. Todavia, data maxima vênia, nada hé que corrobore a posição de que o DESPACHO DECIS6RIO constituía ato de inicio de procedimento fiscal previsto no IN.RFB.903/08, art. 11, § 2º , III, in verbis: (...) 6. De fato, de acordo com o vigente ordenamento jurídico, o despacho decisório previsto nos arts. 37 e 66 da IN.RFB. no 903, de 2008, possui natureza jurídica de ato administrativo decisório não definitivo, não configurando a intimação "de inicio de procedimento fiscal" citada no item 5 acima. Confirase: (...) 7. Realmente, as autoridades julgadoras responsáveis pelo DESPACHO DECISORIO não lançam tributos e muito menos iniciam processos administrativos nesse sentido. De fato, examinam os registros fiscais e, após as devidas constatações, julga se há ou não credito suficiente para extinguir, por compensação, débitos tributários informados na PERDCOMP. 8. Assim, é patente que o v. acórdão aqui combatido enquadrou erroneamente o DESPACHO DECIS6RIO denegatório da homologação como espécie do termo de inicio de ação fiscal citado no mencionado art. 11, §2º, III. 9. Finalmente, vale ressaltar que a própria RECEITA FEDERAL DO BRASIL não comunga do entendimento adotado no v. acórdão guerreado. Realmente, segundo a página MPF — ORIENTACÕES AO CONTRIBUINTE, o despacho decisório não se enquadra dentre as modalidades de procedimento fiscal nela retratados (doc. 07 a 10). 10. Assim, à DCTF retificadora apresentada em 01.09.2009 deve ser atribuída os efeitos previstos no § 1º do art. 11, da IN.RFB.903, de 2008: (...) 11. Dessa forma, demonstrado está que o equivoco da v. acórdão e a premência de sua integral reforma. 12. Ante todo o exposto, é o presente para requerer se digne esse egrégio CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS a Fl. 129DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 130 5 conhecer e a prover o presente RECURSO VOLUNTARIO, de forma a reformar integralmente o v. acórdão guerreado, de no 1629.534 e oriundo da 7a Turma de Julgamento da DRJ/SP1, e, em consequência, homologando a compensação inserta na PERDCOMP No 24180.13015.171105.1.3.042250”. É o relatório do essencial, em apertada síntese. Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 131 6 Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone Relator O Recurso Voluntário é tempestivo (ciência do acórdão recorrido em 07/04/2011 – fls. 92 – protocolização do RV em 20/04/2011 – fls. 93), a representação da recorrente está corretamente formalizada (fls. 97/98) e os demais pressupostos para sua admissibilidade foram atendidos, pelo que o recebo e dele conheço. A reclamação da recorrente em sua peça recursal tem basicamente dois assentos: a) a possibilidade de retificar a DCTF a qualquer tempo por entender que Despacho Decisório não seria ato administrativo que excluiria a espontaneidade; e, b) a homologação da compensação em face da DCTF retificadora apresentada. Antes de apreciar os termos do Recurso Voluntário, destaco que, em situações análogas à que aqui se aprecia, tenho entendido que o contribuinte pode, sim, proceder à retificação de sua DCTF e, com isso, buscar validar possível pedido de homologação anteriormente negado. Em outro dizer, seria despropositado impedir esse procedimento não só pela lógica jurídica como pela própria falibilidade humana diante da qual erros ocorrem e podem/devem ser retificados. Concretamente, se uma DCTF foi apresentada com valores indevidos e levou a que um possível direito creditório não fosse reconhecido (pelo equívoco cometido), nada mais natural que se faça a correção e atendase à verdade material dos fatos. Nessa linha, certo que a retificação da DCTF pode, claro, ser empreendida e a retificadora substituirá em todos os seus efeitos a retificada (original). PORÉM, e aí está o ponto dissonante da peça recursal, esse proceder (de retificar) exige prova robusta e contundente do erro que levou à transmissão da DCTF original (com valores errados), justificando a feitura de uma nova Declaração (retificadora). Esta prova não veio aos autos! Repitase, tratase de prova robusta, não bastando meras alegações nem a apresentação de cópia da DCTF retificadora. Este documento é unilateral e da lavra da contribuinte e, por óbvio, não permite aferir a comprovação exigida. O que se impõe é que, NO MÍNIMO, livros, documentos, controles, enfim, a escrituração da requerente seja disponibilizada e permita a demonstração de que CABALMENTE houve um equívoco e onde constava o valor de “x” deveria constar “y”. Esta prova simples e direta não veio aos autos, ficando a recorrente no mero terreno das alegações, quadro que dá sustentação ao clássico brocardo jurídico “allegare nihil, et allegatum non probare paria sunt”, ou, em vernáculo, “alegar e não provar o alegado importa nada alegar”. Fl. 131DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 132 7 Nessa linha, independentemente de o Despacho Decisório eliminar (ou não) a espontaneidade da recorrente para transmissão de nova DCTF, fato é que, O QUE REALMENTE INTERESSAVA (a prova do erro cometido e que exigiu a retificação da DCTF), nem de perto veio aos autos. Assim, não há como validar o pedido da recorrente. Por fim, relevante apontar que a decisão recorrida já tratou deste assunto (além do tópico sobre espontaneidade), como se vê no voto condutor, antes reproduzido, mas novamente trazido para melhor visualização (Ac. DRJ fls. 90): “Em se tratando de procedimento administrativo para apurar a existência de direito creditório, entendo que, após ciente da decisão que lhe foi desfavorável, deveria o contribuinte ter apresentado sua manifestação de inconformidade acompanhada de elementos probatórios que permitissem à autoridade julgadora constatar a efetiva ocorrência do alegado equivoco cometido na DCTF anterior, nos termos do artigo 16, § 4° do Decreto n°70.235/72. Não tendo feito tal prova, não se pode aceitar a mera retificação da declaração para fins de apuração do direito creditório em questão”. (negritouse) Em outro dizer, o ônus de apresentar os documentos e registros que comprovem a regularidade das operações é do interessado, contribuinte, autor nestes autos , a quem é impingido acostar as provas do que alega (artigo 373, I do atual CPC art. 333, I, do CPC de 1973). Concretamente, o recurso voluntário limitase a argumentar e não apresenta uma única prova, por isso as alegações se perdem. Por fim, não se olvide, só se permite compensação com a utilização de créditos dotados de liquidez e certeza (art. 170, do CTN): Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) E valores incomprovados não possuem estes requisitos. A jurisprudência administrativa é pacífica em torno do tema: PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. ÔNUS DA PROVA. A prova do indébito tributário, fato jurídico a dar fundamento ao direito de repetição ou à compensação, compete ao sujeito passivo que teria efetuado o pagamento indevido ou maior que o devido. (Acórdão nº 10323579, sessão de 18/09/2008) Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10880.978085/200975 Acórdão n.º 1402003.417 S1C4T2 Fl. 133 8 Pelo exposto, não trazendo a recorrente no recurso voluntário qualquer elemento novo nem prova de suas alegações, a decisão de 1º Piso fica solidificada. Pelo exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, mantendo a decisão recorrida. É como voto. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 133DF CARF MF
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Numero do processo: 18471.001249/2006-55
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 04 00:00:00 UTC 2013
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano-calendário: 2001, 2002, 2003
NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Não há nulidade de lançamento quando lavrado por autoridade competente e não há preterição do direito de defesa do sujeito passivo.
RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA DE EXSÓCIOS.
Demonstrado que a empresa deixou de existir e que os sócios não residem nos endereços informados, é licito a Administração Tributária proceder à intimação do lançamento na pessoa física do ex-sócio administrador.
OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
Caracterizam-se omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento, quando o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações.
ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, COFINS e CSLL. A
tributação reflexa deve acompanhar o entendimento adotado quanto ao principal, em virtude da intima relação dos fatos tributados.
MULTA QUALIFICADA DE 150%.
A ocultação de volumosa movimentação de recursos não declarados na DIPJ e quadro social composto por interpostas pessoas caracteriza a conduta dolosa e evidencia o intuito de não pagar tributos.
Numero da decisão: 1302-001.274
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Os conselheiros Marcio Rodrigo Frizzo e Luiz Tadeu Matosinho Machado acompanharam o Relator pelas conclusões.
Nome do relator: Guilherme Pollastri Gomes da Silva
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ementa_s : PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2001, 2002, 2003 NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade de lançamento quando lavrado por autoridade competente e não há preterição do direito de defesa do sujeito passivo. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA DE EXSÓCIOS. Demonstrado que a empresa deixou de existir e que os sócios não residem nos endereços informados, é licito a Administração Tributária proceder à intimação do lançamento na pessoa física do ex-sócio administrador. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Caracterizam-se omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento, quando o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, COFINS e CSLL. A tributação reflexa deve acompanhar o entendimento adotado quanto ao principal, em virtude da intima relação dos fatos tributados. MULTA QUALIFICADA DE 150%. A ocultação de volumosa movimentação de recursos não declarados na DIPJ e quadro social composto por interpostas pessoas caracteriza a conduta dolosa e evidencia o intuito de não pagar tributos.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2001, 2002, 2003 NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade de lançamento quando lavrado por autoridade competente e não há preterição do direito de defesa do sujeito passivo. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA DE EXSÓCIOS. Demonstrado que a empresa deixou de existir e que os sócios não residem nos endereços informados, é licito a Administração Tributária proceder à intimação do lançamento na pessoa física do exsócio administrador. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Caracterizamse omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento, quando o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, COFINS e CSLL. A tributação reflexa deve acompanhar o entendimento adotado quanto ao principal, em virtude da intima relação dos fatos tributados. MULTA QUALIFICADA DE 150%. A ocultação de volumosa movimentação de recursos não declarados na DIPJ e quadro social composto por interpostas pessoas caracteriza a conduta dolosa e evidencia o intuito de não pagar tributos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Os conselheiros Marcio Rodrigo Frizzo e Luiz Tadeu Matosinho Machado acompanharam o Relator pelas conclusões. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 1. 00 12 49 /2 00 6- 55 Fl. 1105DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 2 (assinado digitalmente) Alberto Pinto Souza Junior Presidente. (assinado digitalmente) Guilherme Pollastri Gomes da Silva Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Veiga Rocha, Marcio Rodrigo Frizzo, Cristiane Silva Costa, Luiz Tadeu Matozinho Machado, Guilherme Pollastri Gomes da Silva e Alberto Pinto Souza Junior Fl. 1106DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 18471.001249/200655 Acórdão n.º 1302001.274 S1C3T2 Fl. 63 3 Relatório Contra o contribuinte foram lavrados Autos de Infração de IRPJ, do PIS, da COFINS e da CSLL, todos com a multa de 150% e juros de mora. O TVF atesta basicamente o seguinte: que a interessada encontrase INAPTA OMISSA NÃO LOCALIZADA, desde 17/07/2004, tendo apresentado a última DIPJ em 28/06/2002, referente ao anocalendário 2001, zerada. que consta na Ficha 42 A os Srs. Aloisio Paes Borba Nogueira e Atilla Paes Borba Nogueira como sócios dirigentes. que em 18/05/2006, os dois sócios responderam que estavam impossibilitados de cumprir o Termo de inicio de fiscalização de 02/05/2006, por não fazerem mais parte da empresa e apresentaram a 12ª alteração contratual registrada no cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas em 13/06/2002 e informaram ainda que os livros e documentos foram transferidos aos novos sócios. que com as alterações contratuais fornecidas pelo Cartório de RCPJ constatouse que cinco novos sócios sucederam os intimados incialmente. que intimados os novos representantes legais, ou prestaram informações de que não eram sócios, ou não foram encontrados, por falecimento, por insuficiência ou mudança endereço, conforme detalhado às fls. 264/265. que em 25/05/2006, foram solicitados aos Bancos ABN AMRO, Bradesco e União de Bancos Brasileiros S/A extratos das movimentações financeiras e fichas cadastrais. que em 18/09/2006, o Sr. Aloisio Paes Borba Nogueira, apesar de não apresentar qualquer registro de ocorrência, informou que o contador e procurador dos novos sócios, poderia informar sobre os livros e documentos, o que o fez em 03/10/2006, quando esclareceu que a empresa encontrase com as atividades paralisadas por não possuir licença da Policia Federal, que seus livros foram roubados, junto com móveis e máquinas, uma vez que o imóvel foi invadido por pessoas da favela próxima (Morro do Alemão). que intimado novamente a comprovar a origem dos créditos efetuados nas contas da empresa, informou que todos os créditos se referiam a pagamentos efetuados pelos clientes. que nas DIRF´s constam pagamentos superiores a metade dos créditos realizados em conta, nos anoscalendário fiscalizados. que considerando que o Sr. An Pinto de Oliveira declarou nunca ter adquirido cotas da sociedade, apesar de aparecer na 12ª alteração contratual com 50% do capital social e o Sr Jeferson Moreira Fernandes (falecido), teria os outros 50%, bem como, ter Fl. 1107DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 4 o Banco Real, onde ocorreram quase toda movimentação ficnanceira, enviado a cópia das fichas cadastrais dos sócios Aloisio Paes Borba Nogueira e Attila Paes Borba Nogueira como responsáveis pela movimentação das contas, o autuante desconsiderou todas as alterações contratuais registradas após 29/04/1998, e concluiu que os verdadeiros sócios da interessada eram na verdade os Srs. Aloisio Paes Borba Nogueira e Attila Paes Borba Nogueira. que em função da falta de apresentação dos livros e documentos fiscais, o lucro foi arbitrado e a omissão de receitas apurada com base nos valores dos créditos efetuados nas contascorrentes (Demonstrativo de fls. 267/269). Intimada do lançamento em 03/11/2008, a interessada apresentou impugnação tempestiva, por seu representante legal Carlos Augusto Santos e José Pedro de Alcântara, e na qualidade de 3° interessado, Aloisio Paes Borba Nogueira, alegando em síntese o seguinte: que não há elementos indicativos de gestão pelos exsócios, pois a empresa foi vendida em meados de 2002, tendo sido registrada a alteração contratual em 13/06/2002 com a saída de Aloisio e Attila, não tendo conhecimento ou responsabilidade pelos atos dos novos gestores. que os sócios que entraram naquele momento, Srs. Ari Pinto de Oliveira e Jeferson Moreira Fernandes só permaneceram na empresa por 36 dias, substituídos pelos atuais sócios Srs. Carlos Augusto Santos e José Pedro de Alcântara, pessoas com ilibada idoneidade e proprietários de outras empresas. que, assim, 4 anos e 3 meses após a saída de Aloisio e Attila, a fiscalização pretende imputar responsabilidade tributária a fato ocorrido em gestão posterior, apesar das alterações terem sido registradas conforma a lei. que os atuais representantes foram regularmente intimados na pessoa do procurador, devendo o processo prosseguir em face destes. que de acordo com o art. 1003, § único do Código Civil, a responsabilidade do sócio permanece até dois anos após sua saída formal e apenas pelos atos que praticou, e não por atos de terceiros. que o art. 133 do CTN afasta a responsabilidade por ato do novo sócio, quando não se tratar de sucessão ou incorporação. que observase também enorme disparidade entre o valor do faturamento e o montante da exigência fiscal, desrespeitando principio da razoabilidade e proporcionalidade. que ao notificar o Sr. Carlos Augusto Santos, na pessoa de seu procurador Franscico Demolinari Arrighi, a figura da omissão caiu por terra e não há que se falar em sócio não localizado, identificado ou "laranja". que o auto encontrase eivado de vicios insanáveis, eis que deixou de precisar qual alínea pertinente, inviabilizando o contraditório e ampla defesa. que deixou de considerar os valores retidos na fonte a titulo de IRRF, apuráveis através das DIRF´s e fazer a circularização para real apuração dos valores de receita. Fl. 1108DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 18471.001249/200655 Acórdão n.º 1302001.274 S1C3T2 Fl. 64 5 cita acórdão do CC para demonstrar que nem todo depósito é receita omitida. que os depósitos não puderam ser comparados com os lançamentos efetuados nos livros, visto que estes encontravamse extraviados. que não cabe a responsabilização dos exsócios já que a empresa foi vendida conforme alteração contratual em 13/06/2002 e que os atuais representantes foram intimados na pessoa do procurador. que consta a fl. 204 e 204verso, cópia do cartão de autógrafos do UNIBANCO, dos procuradores autorizados da Five Stars Segurança e Vigilância Ltda, respectivamente, Aloisio Paes Borba Nogueira e Attila Paes Borba Nogueira, onde consta a data de encerramento de 30/06/2004. que deveria a fiscalização proceder a tributação sem o agravamento da multa de 150%. Cita doutrina e jurisprudência, no sentido de que a fraude exige dolo que não pode ser presumido. A 7ª Turma da DRJ/RJ, pelo Acórdão de nº 1221.695, julgou por unanimidade de votos, improcedente a impugnação conforme a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2001, 2002, 2003 NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há que se cogitar em nulidade do lançamento quando o auto de infração foi lavrado por autoridade competente e não se observam elementos que implicam preterição do direito de defesa do sujeito passivo. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA DE EXSÓCIOS. Demonstrado que a empresa deixou de existir, e que atuais sócios não residem nos endereços informados, é licito A. Administração Tributária proceder à intimação do lançamento na pessoa física do exsócio administrador. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Caracterizamse omissão de receitas ou de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Anocalendário: 2001, 2002, 2003 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, COFINS e CSLL. A tributação reflexa deve, em relação aos respectivos Autos de Infração, acompanhar o entendimento adotado quanto ao principal, em virtude da intima relação dos fatos tributados. MULTA QUALIFICADA DE 150%. A ocultação de volumosa movimentação de recursos efetuada em contas bancárias, não declaradas na DIPJ é conduta dolosa praticada pela interessada, cujo quadro social e composto por interpostas pessoas, Fl. 1109DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 6 visando impedir o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador, o que evidencia o intuito fraudulento de não pagar tributos, sendo cabível, portanto, a aplicação de multa de 150% (cento e cinqüenta por cento), de que trata o art. 44, inciso II, da Lei n° 9.430/1996. Intimado no endereço fornecido a SRFB, o correio informou que a empresa era desconhecida naquele local. Procedeuse então a intimação por edital em 15/10/2010 e em 05/11/2010 a empresa apresentou em conjunto com Aloisio Paes Borba Nogueira, recurso voluntário, onde alega basicamente o seguinte: imposibilidade da imputação da responsabilidade tributária aos ex sócios. Junta jurisprudência. a jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que os bens de sócios de pessoa jurídica não respondem por dividas fiscais assumidas pela sociedade. Só no caso de dissolução irregular ou quando comprovado o excesso de poderes ou infração a lei. no caso o recorrente é exsócio e se desligou da sociedade em 13/06/2002, quando transferiu para seis novos sócios dos quais não guarda relação direta ou indireta. que em relação a informação prestada pelo Unibanco, não há uma cópia sequer de cheque emitido após a sua saída. que o sócio Carlos Augusto Santos foi notificado na pessoa de seu procurador e não havia porque se falar em desconsideração deste para alcançar o exsócio e por isso o auto de infração deve ser anulado. que a própria autuação foi efetuada com base em depósitos bancários (presunção), obtidos em extratos pelo próprio autuante sem que os mesmos pudessem ser comparados com os lançamentos dos livros que encontravamse extraviados. Portanto o agravamento da multa é totalmente improcedente. que considerando que não houve produção de prova robusta e minunciosa, não há que se falar em dolo e fraude e a multa não pode ser de 150%. É o relatório. Fl. 1110DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 18471.001249/200655 Acórdão n.º 1302001.274 S1C3T2 Fl. 65 7 Voto Conselheiro Guilherme Pollastri Gomes da Silva Relator. O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos estipulados no Decreto nº 70235/72, razão porque dele conheço. Com relação à argüição de nulidade do auto, por encontrase eivado de vicios insanáveis que inviabilizaram a ampla defesa, não posso acatar tal pedido, pois depreendese da leitura de suas peças recursais que o Recorrente conhece plenamente todas as acusações as quais lhe foram atribuídas, tendoas rebatido, de forma meticulosa. O Decreto n° 70.235/1972, através de seu artigo 59, estabelece todas as situações em que os atos administrativos venham a ser considerado como nulos, “in verbis”: "Art. 59. São nulos: I. os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II. os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.” Sendo assim, somente estes vícios determinariam a nulidade do ato administrativo. Como nenhum deles veio, efetivamente, a ocorrer no presente processo descarto a pretensão de nulidade. Com referência às arguições de violação aos princípios constitucionais, tais aferições só podem ser feitas pelo Poder Judiciário, cabendo ao Poder Executivo, e bem assim a todos os seus agentes, o estrito cumprimento dos atos legais regularmente editados, matéria consolidada na esfera administrativa conforme Súmula CARF nº 2 que determina:. "Súmula CARF Nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." O recurso questiona a existência de responsabilidade tributária do ex sócio, Aloisio Paes Borba Nogueira, argumentando que a empresa foi vendida em 13/06/2002, conforme alteração contratual, e que os atuais representantes foram intimados na pessoa do procurador. Verifico que o lançamento em questão não atribuiu diretamente a responsabilidade solidária quando do lançamento, e, portanto, o seu comparecimento ao processo para questionar sua responsabilidade só devia acontecer em fase de execução fiscal, se for o caso. Em relação ao arbitramento, uma vez que a autuação se deu em função da falta de apresentação de livros e documentos contábeis e fiscais, não restou à autoridade fiscal outra alternativa senão arbitrar o lucro nos termos do art. 530, inciso III do RIR/99, sendo a omissão de receitas apurada com base nos créditos efetuados nas contascorrentes bancárias, como determina os art. 27, I e 42 da Lei 9.430/96 e arts. 532 e 537 do RIR199. Fl. 1111DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 8 Esta é a jurisprudência dominante do CARF, senão vejamos: ARBITRAMENTO DE LUCROS. FALTA DE APRESENTAÇÃO DE LIVROS OBRIGATÓRIOS. Configurada a hipótese legal de arbitramento dos lucros mediante a falta de apresentação dos livros obrigatórios, e admitida pela própria fiscalizada a impossibilidade de escriturálos, correto o arbitramento dos lucros levado a efeito pelo Fisco. (PAF nº 13851.001020/200622) Quanto a alegação sobre a base de cálculo, cabe ressaltar que a presunção legal elide os argumentos de que os depósitos bancários não podem ser considerados com fato gerador do IRPJ. Assim, segundo disposição legal, depósitos bancários não comprovados fazem presumir receitas omitidas, conforme disposto no art. 42, caput da Lei n° 9.430/1996: "Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Não tendo sido comprovada a origem dos créditos efetuados nas contas bancárias da Recorrente, a lei considera ocorrido o fato gerador para presumir que os recursos depositados traduzem rendimentos do contribuinte. Nesse sentido, a jurisprudência do CARF se consolidou conforme podemos ver pelas ementas abaixo: “OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. PROCEDÊNCIA. Caracterizam omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, coincidente em datas e valores, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (PAF nº 13851.001020/200622) DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITAS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. Caracterizamse como presunção de omissão de receitas ou de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações. (PAF nº 16004.000578/200911)” Fl. 1112DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 18471.001249/200655 Acórdão n.º 1302001.274 S1C3T2 Fl. 66 9 O fato dos Recorrentes alegarem que os livros foram roubados, sem o registro da ocorrência e a tomada das providências visando reconstituir os mesmos, impossibilitaram a apuração do lucro real dos anos em questão Assim, também não há como se considerar os valores retidos na fonte, ou realizar circularizações, pois o fiscal utilizouse da presunção por falta de elementos, já que os Recorrentes não comprovaram com documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em suas contas bancárias. Nestes termos, coube à fiscalização identificar os depósitos bancários de origem não comprovada, e intimar o contribuinte a se manifestar sobre eles, e não tendo sido afastada a presunção juris tantum foi corretamente mantido o lançamento. O motivo da aplicação da multa de 150% foi a expressiva movimentação financeira sem qualquer comprovação de origem. A existência de dolo especifico, está caracterizada pela transferência das quotas da sociedade a pessoas sem condições financeiras ou não encontradas nos endereços fornecidos à RFB e até mesmo, falecidas, beneficiandose os Recorrentes intencionalmente da omissão dos tributos devidos. Discutível seria se estivéssemos diante de uma operação isolada, envolvendo valor de pequena monta, não reincidente, pois poderiase concluir pela ocorrência de um erro eventual de ordem meramente material, passível de tributação sem a caracterização de intuito fraudulento. Mas não é o caso, posto que, como dito, durante os anoscalendário de 2001 a 2003, a autuada não apresenta escrituração e não comprova a origem dos depósitos bancários em suas contascorrentes. Esses procedimentos evidenciam consciente intuito de não pagar tributos e enquadramse perfeitamente à hipótese prevista na Lei n.° 4.502/64, estando correto o procedimento da fiscalização em aplicar a multa qualificada de 150% sobre os tributos oriundos da omissão de receita apurada. No que diz respeito ao entendimento dos acórdãos trazidos pela interessada, cabe observar que não se constituem em normas complementares contidas no artigo 100 do CTN e, portanto, não vinculam as decisões desta instância julgadora, restringindose aos casos julgados e ás partes inseridas no processo que resultou a decisão. Portanto, caracterizada a hipótese de arbitramento do lucro e apurada a omissão de receitas com base nos depósitos bancários sem comprovação da origem dos recursos, deve ser mantido o lançamento de IRPJ. Quanto aos lançamento reflexos de CSLL, PIS e COFINS, observase que sendo os mesmos os elementos de comprovação que fundamentaram o lançamento principal de IRPJ, e, analisada a procedência dele, há que se considerar a intima relação de causa e efeito existente entre a exigência principal e seus decorrentes, devendo ser mantidos. Já em relação à multa de 150%, correta sua aplicação, já que ficou evidenciado que as alterações contratuais da empresa foram feitas para pessoas em condições financeiras incompatíveis, além de estar evidenciado a utilização de chamados “laranjas”, uma vez que um dos “sócios” negou sua participação na sociedade e os outros não foram encontrados nos endereços fornecidos ou já estavam falecidos Fl. 1113DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 10 Por tais razões, nego provimento ao recurso voluntário e mantenho o lançamento do principal e reflexos e a multa agravada de 150%. (assinado digitalmente) Guilherme Pollastri Gomes da Silva Relator Declaração de Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado. Acompanhei o relator pelas conclusões em seu bem fundamentado voto. Embora tenha acompanhado o relator quanto ao não conhecimento do recurso apresentado pelo exsócio da interessada, Sr. Aloisio Paes Borba Nogueira, tendo em vista que no lançamento realizado a fiscalização não atribuiu diretamente a responsabilidade pelo tributos lançados ao mesmo, o seu comparecimento ao processo para questionar a responsabilidade e os demais elementos constantes dos autos indicam que, de fato, o exsócio deveria ter figurado como responsável solidário pelos tributos lançados em nome da pessoa jurídica. A responsabilidade do exsócio pelos atos praticados foi bem descrita e analisada pelo acórdão de primeira instância (fls. 438/441), que assim concluiu: Assim, o Sr. Aloisio Paes Borba Nogueira que impugna o presente auto de infração, era o sóciogerente da sociedade, e que continuou gerindo a empresa, conforme os cadastros e movimentos bancários, portanto, é responsável pelas infrações à lei cometidas pela sociedade, como, por exemplo, não pagar tributos, apresentar DIPJ2002 zerada ou não entregar a DIPJ e outras Declarações exigidas pela legislação fiscal, dissolver a pessoa jurídica passandoa para pessoas sem capacidade econômica ou não localizáveis pela RFB. Portanto, no presente caso, com o relato circunstanciado dos fatos verificados pela fiscalização, é possível revelar a utilização de instrumentos lícitos do direito privado transferências de quotas e alterações do contrato social , com vistas à obtenção de resultados fiscais ilícitos. Restando, assim, provado que a interessada deixou de existir, e que seus sócios remanescentes não residem nos endereços por eles fornecidos, é licito ao Fisco proceder, excepcionalmente, à intimação do lançamento na pessoa fisica dos exsócios, Aloisio e Attila Paes Borba ainda mais quando tudo leva a crer que a saída de ambos da sociedade foi engendrada com o propósito de livraremse de futuras responsabilidades tributárias. Assim, não obstante não tenha figurado na autuação como responsável solidário quando do lançamento, entendo que, eventualmente, poderá a Fazenda Pública, com Fl. 1114DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 18471.001249/200655 Acórdão n.º 1302001.274 S1C3T2 Fl. 67 11 base nos elementos constantes dos autos, vir a redirecionar a execução contra o citado exsócio, caso a obrigação constituída não venha a ser satisfeita pela pessoa jurídica autuada. Essas as razões de meu voto. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 1115DF CARF MF Documento de 11 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP11.1018.09373.REIS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. PÁGINA DE AUTENTICAÇÃO O Ministério da Fazenda garante a integridade e a autenticidade deste documento nos termos do Art. 10, § 1º, da Medida Provisória nº 2.200-2, de 24 de agosto de 2001 e da Lei nº 12.682, de 09 de julho de 2012. Documento produzido eletronicamente com garantia da origem e de seu(s) signatário(s), considerado original para todos efeitos legais. Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001. Histórico de ações sobre o documento: Documento juntado por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SILVA em 28/01/2014 20:13:00. Documento autenticado digitalmente por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SILVA em 28/01/2014. Documento assinado digitalmente por: ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR em 20/02/2014, LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO em 31/01/2014 e GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SILVA em 28/01/2014. Esta cópia / impressão foi realizada por MARIA MADALENA SILVA em 11/10/2018. Instrução para localizar e conferir eletronicamente este documento na Internet: EP11.1018.09373.REIS Código hash do documento, recebido pelo sistema e-Processo, obtido através do algoritmo sha1: E64C2F19520C809EE3022F6551DA09CC5F5841AC Ministério da Fazenda 1) Acesse o endereço: https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx 2) Entre no menu "Legislação e Processo". 3) Selecione a opção "e-AssinaRFB - Validar e Assinar Documentos Digitais". 4) Digite o código abaixo: 5) O sistema apresentará a cópia do documento eletrônico armazenado nos servidores da Receita Federal do Brasil. página 1 de 1 Página inserida pelo Sistema e-Processo apenas para controle de validação e autenticação do documento do processo nº 18471.001249/2006-55. Por ser página de controle, possui uma numeração independente da numeração constante no processo.
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Numero do processo: 10120.720212/2016-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 13 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1201-000.533
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. Vencido o conselheiro, José Carlos de Assis Guimarães que votava para converter o julgamento em diligência apenas quanto a aplicação do art.24 da Lei nº 13.655/2018.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gisele Barra Bossa - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente).
Relatório
Nome do relator: GISELE BARRA BOSSA
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Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. Vencido o conselheiro, José Carlos de Assis Guimarães que votava para converter o julgamento em diligência apenas quanto a aplicação do art.24 da Lei nº 13.655/2018. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Relatório 1. Tratase de processo administrativo decorrente de autos de infração lavrados para a cobrança de IRPJ e CSLL, perfazendo o montante de R$ 59.929.676,19, referente a despesas com amortização de ágio que, segundo concluíram as autoridades fiscais, foram indevidamente computadas nas bases de cálculo apuradas pelo contribuinte nos anos calendário de 2011 a 2013. O crédito exigido é composto da seguinte forma: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 01 20 .7 20 21 2/ 20 16 -7 0 Fl. 2117DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 3 2 1.1. IRPJ (fls. 2/23): R$ 45.389.925,86, incluindo o imposto, a multa de ofício de 150%, a multa isolada e os juros de mora calculados até fevereiro de 2016. 1.2. CSLL (fls. 24/39): R$ 14.539.750,33, incluindo a contribuição, multa de ofício e os juros de mora calculados até fevereiro de 2016. 2. A fiscalização responsabilizou pessoalmente os Srs. Alexandre de Jesus Santoro e Pedro Roberto Oliveira Almeida, nos termos do artigo 135, inciso III, do CTN, com base no entendimento de que eles, enquanto membros titulares do Conselho de Administração da empresa autuada, teriam praticado ato fraudulento, nos termos do artigo 72, da Lei nº 4.502/64. 3. Conforme consta no Termo de Verificação Fiscal (fls. 40/61) a empresa autuada teria amortizado indevidamente ágio apurado na aquisição da Brasil Ferrovias S.A. e Novoeste Brasil S.A., com base no entendimento de que a empresa Multimodal Participações Ltda. seria mera empresa veículo e que sua criação não teria razão econômica ou negocial. A Fiscalização afirma que a Multimodal teria sido criada apenas para a transferência do ágio da All – América Latina Logística S.A. para as empresas All – América Latina Logística Malha Paulista, All – América Latina Logística Malha Oeste e a empresa autuada (All – América Latina Logística Malha Norte). 4. Por economia processual e por bem descrever a operação objeto deste processo, adoto como parte deste, trechos do Termo de Verificação Fiscal: “Origem do ágio 24. A estrutura societária antes da aquisição das participações societárias pelo Grupo ALL era assim composta (situação inicial): 25. Em 16/06/2006, a AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA S/A, CNPJ nº 02.387.241/000160, adquire a Brasil Ferrovias S.A. e a Novoeste, em incorporação de ações na qual essas empresas passaram a ser suas subsidiárias integrais. Fl. 2118DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 4 3 26. O ágio total registrado na operação foi de R$2.496.807,00 (dois bilhões, quatrocentos e noventa e seis milhões, oitocentos e sete mil reais), que, ajustado pelos eventos subsequentes, apresentava a seguinte composição em 31/12/2007 (Notas Explicativas da Administração às Demonstrações Financeiras em 31 de dezembro de 2008 e 2007 da Multimodal Ltda). 27. Não houve nenhuma inversão financeira (pagamento em espécie) pela incorporação das ações, ocorrendo, pois, mera substituições de ações, recebendo os acionistas das empresas convertidas em subsidiárias integrais, novas ações de emissão da AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA S/A. 28. A estrutura societária após aquisição das participações societárias pelo Grupo ALL era assim composta: Transferência do ágio 29. Em 03/12/2007 a ALL – AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA S.A. juntamente com a ALL AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA PARTICIPAÇÕES LTDA adquiriram a empresa J.P.E.S.P.E EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA e integralizaram o capital social (ainda apenas subscritos), em moeda corrente, no valor de R$500,00 (quinhentos reais). 30. Na mesma data de aquisição, a ALL – AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA S.A. e a ALL – AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA PARTICIPAÇÕES LTDA resolveram aumentar o capital social de R$500,00 (quinhentos reais) para R$2.512.083.580,00 (dois bilhões, quinhentos e doze milhões, oitenta e três mil e quinhentos e oitenta reais). Fl. 2119DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 5 4 31. A estrutura societária após aumento de capital da J.P.E.S.P.E passa a ser: 32. Em 28/12/2007, após cisão parcial da BRASIL FERROVIAS, a FERRONORTE passou a ser controlada pela NOVA BRASIL FERROVIAS. 33. A estrutura societárias após aumento de capital da J.P.E.S.P.E passa a ser:” "34. Em 25/07/2008, a J.P.E.S.P.E incorporou, a valor patrimonial contábil, as empresas BRASIL FERROVIAS S.A., CNPJ nº 02.457.269/000127, NOVOESTE BRASIL S.A., CNPJn07.593.583/000150 e NOVA FERROBAN S.A, CNPJ n04.004.203/00107. Fl. 2120DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 6 5 35. Em 29/10/2008, as denominações sociais das companhias foram alteradas, passando de Ferrovias Bandeirantes S.A. (FERROBAN S.A) para ALL – AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA MALHA PAULISTA S.A; de Ferrovia Novoeste S.A. (NOVOESTE S.A.) para ALL – AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA MALHA OESTE S.A.; e de Ferronorte S.A. Ferrovias Norte |Brasil (FERRONORTE S.A.) para ALL – AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA MALHA NORTE S.A. 36.. Em 05/11/2009, a MULTIMODAL (nova denominação social da J.P.E.S.P.E) incorporou a NOVA BRASIL FERROVIAS S.A., CNPJ nº 09.371.732/000162, com patrimônio líquido contábil de R$169.502.379,49 (cento e sessenta e nova milhões, quinhentos e dois mil, trezentos e setenta e nove reais e quarenta e nove centavos), igual ao investimento detido pela incorporadora, cujo capital social permaneceu inalterado. 37. Em 30/11/2009, encerrando a operação, foi aprovada a cisão total da empresa Multimodal, sendo vertidas as parcelas de seu patrimônio líquido cindido (valor contábil) para ALL Malha Oeste, ALL Malha Paulista e ALL Malha Norte. No caso específico da ALL Malha Norte, o acervo líquido incorporado no valor de R$395.405.821,85 (trezentos e noventa e cinco milhões, quatrocentos e cinco mil, oitocentos e vinte e um reais e oitenta e cinco centavos), correspondeu exclusivamente à participação que a cindida detinha em seu capital social. 38. Assim, com a cisão total da Multimodal, o valor integral do ágio existente foi transferido para cada sociedade controlada, cabendo à ALL Malha Norte o montante de R$2.050.356.234,91 (dois bilhões, cinquenta milhões, trezentos e cinquenta e seis mil, duzentos e trinta e quatro e noventa e um centavos)”. 5. Após a cisão da Multimodal, o ágio foi vertido para o patrimônio das sociedades cidendas, na proporção do patrimônio recebido por cada uma delas. O Grupo ALL passa a possuir a seguinte estrutura: Fl. 2121DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 7 6 6. Conforme o relatório constante da decisão de primeira instância, as conclusões da autoridade fiscal foram as seguintes: “• com a cisão total da MULTIMODAL, os valores integrais dos respectivos ágios foram transferidos para cada sociedade controlada, cabendo à fiscalizada ALL MALHA NORTE o montante de R$ 2.050.356.234,91 (fls. 307), que passou a ser amortizado deduzido na apuração da sua base de cálculo do IRPJ e da CSLL dos períodos subsequentes; • no entanto, a fiscalização concluiu que a dedução da despesa de amortização do ágio não estava amparada pela legislação de regência (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/97), que apenas faculta a referida dedução à empresa adquirente de investimento que absorva o patrimônio da empresa adquirida; • in casu, a adquirente foi a ALL LOGÍSTICA e as adquiridas foram a BRASIL FERROVIAS e a NOVOESTE BRASIL; a MULTIMODAL, que incorporou estas duas últimas, não foi a adquirente do investimento; o Fl. 2122DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 8 7 ágio foi transferido da ALL LOGÍSTICA para a MULTIMODAL em uma operação de aumento de capital e, portanto, é inadmissível a dedução fiscal da correspondente amortização; apenas a adquirente ALL LOGÍSTICA teria o direito de efetuar tal amortização, caso absorvesse o patrimônio das adquiridas; • como a amortização do ágio, sob o ponto de vista fiscal, não seria vantajosa à holding ALL LOGÍSTICA, haja vista que as receitas e despesas advêm, via de regra, de equivalência patrimonial, que são neutras tributariamente, foram então executados “estágios intermediários” para efetuar a transferência do ágio para as empresas operacionais; • o denominado "estágio intermediário" começara com a constituição da MULTIMODAL em 15/08/2007, quatro meses antes da sua própria "reativação", eis que estava praticamente inoperante, com a integralização de capital ocorrida em 03/12/2007, para a seguir ser incorporada em 30/11/2009; não há dúvida da utilização da MULTIMODAL como empresa veículo para aproveitamento do ágio; (...) • ao término destas operações societárias, a MULTIMODAL (empresa veículo) foi extinta, deixando de existir no mundo jurídico, fato que por si só reforça a convicção que, no contexto das operações sob análise, a única função dessa empresa veículo foi a de viabilizar a transferência do ágio para a ALL MALHA NORTE, ALL MALHA OESTE e ALL MALHA PAULISTA; (...) • MULTIMODAL foi constituída em 15/07/2007, sob a denominação social anterior de J.P.E.S.P.E Empreendimentos e Participações Ltda., com sede na Rua Pamplona n° 818, 9° andar, conjunto 92, bairro Jardim Paulista, CEP 01.405001, São Paulo SP, e tendo como sócias as Sras. Adriana Vechies Salvini, CPF n° 270.566.92800, e Linéia Mathias, CPF n° 253.989.21835, ambas advogadas com inscrição na OAB/SP sob números 218549 e 212026; • quando da constituição da MULTIMODAL as sócias subscreveram apenas R$ 500,00, a serem integralizados no prazo de doze meses contados a partir da assinatura do instrumento; eis que, menos de quatro meses depois, as sócias pessoas físicas retiramse da sociedade e ingressam como novas sócias as empresas ALL LOGÍSTICA e a ALL PARTICIPAÇÕES, aumentando o capital social da JPESPE para o elevado valor de R$ 2.512.083.580,00, o qual foi totalmente subscrito e integralizado pela ALL LOGÍSTICA, mediante a totalidade das ações ordinárias e preferenciais representativas do capital social da BRASIL FERROVIAS e da NOVOESTE BRASIL; (...) • desde a sua criação até a entrada das pessoas jurídicas em tela na sociedade, a MULTIMODAL permaneceu inativa, conforme pode atestar a DIPJ exercício 2008, anocalendário 2007; não houve registro de qualquer despesa operacional relacionada às suas Fl. 2123DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 9 8 atividades; nos anos seguintes, 2008 e 2009, já com novo quadro societário, até a sua cisão total, não constam nas respectivas DIPJs registros de despesas comuns à qualquer empresa que de fato esteja operando no mercado, tais como: aluguel da sala comercial, remuneração de empregados, encargos sociais, propaganda e publicidade, etc.; verificase ainda que os diretores da MULTIMODAL são também diretores da ALL LOGÍSTICA; • reforça a tese de que a MULTIMODAL nunca de fato existiu, o fato de a referida empresa ter apresentado, desde a sua criação até a sua cisão total, uma única Guia de Recolhimento do FGTS e informações à Previdência Social — GFIP, na competência 09/2007, informando a ausência de fatos geradores de contribuições previdenciárias; • cabe ressaltar, ainda, que tendo em vista o disposto no inciso II, do artigo 3°, da Instrução Normativa RFB n° 787/2007, as pessoas jurídicas optantes pelo lucro real, a partir de 01/01/2009, passaram a ser obrigadas a apresentar escrituração contábil digital ECD através do SPED; consultando a DIPJ, anocalendário 2009, da fiscalizada, verificamos que esta é optante pela referida forma de tributação; no entanto, no SPED, a ECD não se encontra autenticada pelo competente órgão de registro, ou seja, a MULTIMODAL, no referido período, não possui escrita contábil regular; (...) • afirma a fiscalizada que “A Multimodal participações detinha a gestão de várias operações de logística ferroviária quer seja na área de transporte ferroviário de cargas, que seja nas áreas de desenvolvimento de tecnologia ferroviária e gestão de equipamentos ferroviários”; contudo, ao confrontarmos esta afirmação com o objeto social da MULTIMODAL verificase desacordo entre ambas; mesmo após as alterações contratuais efetuadas após a entrada do grupo ALL, o único objeto social da MULTIMODAL continuou sendo o controle de outras sociedades; (...) • não se verifica o propósito negocial da criação da empresa MULTIMODAL, e nem o amparo legal que autoriza a transferência do ágio, sendo que os elementos probatórios e a sequência de acontecimentos descritos deixam claros que referida empresa foi criada com o propósito de possibilitar economia indevida de tributos; • a fiscalizada, portanto, reduziu indevidamente o seu lucro real e a sua base de cálculo da CSLL mediante exclusões mensais efetuadas no LALUR, cujos totais anuais são os seguintes: (...) Fl. 2124DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 10 9 • resumidamente concluiu a fiscalização: a) a participação da Multimodal teve o único propósito de reduzir o pagamento de IRPJ e CSLL; b) como resultado da conduta dolosa, houve diminuição do efetivo valor da obrigação tributária, com o consequente pagamento a menor do tributo devido, em evidente prejuízo ao erário; c) a conduta foi realizada de forma consciente e deliberada, objetivando modificar a característica essencial do fato gerador da obrigação tributária principal; d) a conduta demonstrou desprezo ao cumprimento da obrigação fiscal especificamente à Lei 9.532, de 1997, arts. 7º e 8º; • por esses motivos, há de ser aplicada a multa de ofício qualificada de 150%, nos termos do art. 44, §1º, I, da Lei nº 9.430/96; • a transferência de ágio em questão foi objeto de ação fiscal anterior, no tocante à sua repercussão sobre as bases de cálculo apuradas nos anoscalendário de 2009 e 2010, e deu origem ao processo administrativo nº 10183.723840/201320”. 7. Devidamente intimados (aviso de recebimento de 02/03/2016, fls. 984; e avisos de recebimento de 26/02/2016, fls. 985/986), a contribuinte e os responsáveis Pedro Roberto Oliveira Almeida e Alexandre de Jesus Santoro apresentaram Impugnações ao lançamento individualmente e tempestivamente (fls. 1213/1301; fls. 992/1026; e 1103/1137). 8. As impugnações, em linhas gerais, trouxeram os seguintes argumentos de fato e de direito: (i) os autos de infração seriam ilíquidos por terem desconsiderado os efeitos da redução da base de cálculo do IRPJ em face do benefício fiscal da SUDAM; (ii) o direito de questionar a legalidade da operação que gerou o ágio teria decaído; (iii) a holding Multimodal tem propósito negocial; (iv) a hipótese de se utilizar uma empresa veículo não é suficiente para invalidar uma operação que culmina a amortização fiscal do ágio; (v) a aquisição de participação societária com ágio é lícito; (vi) não houve fraude, logo, não deve ser aplicada multa qualificada; (vii) inexiste previsão legal para adição à base de cálculo da CSLL da despesa com amortização de ágio considerado indedutível; (viii) a aplicação de multa isolada consiste em dupla penalidade; (ix) a cobrança de juros de mora sobre a multa é ilegal; (x) o Termo de Responsabilidade Tributária deve ser declarado nulo em face da ausência de motivação; e (xi) inexiste responsabilidade solidária das pessoas físicas, pois não restou comprovado o intuito doloso e a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei/estatuto social. 9. Em sessão de 27 de janeiro de 2017, a 8ª Turma da DRJ/SPO, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a Impugnação da contribuinte e julgou improcedente as Impugnações dos responsáveis solidários, nos termos do voto relator, Acórdão nº 1675.571 (fls. 1659/1717), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo, verbis: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Anocalendário: 2011, 2012, 2013 NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Por observadas as devidas formalidades legais e tendo sido lavrado por autoridade competente para tanto, descabe falarse em nulidade do lançamento fiscal. Fl. 2125DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 11 10 FATOS CONTABILIZADOS COM REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. DECADÊNCIA. Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO PARA EMPRESA VEÍCULO SEGUIDA DE SUA INCORPORAÇÃO PELA INVESTIDA. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. Não há previsão legal para fruição do tratamento fiscal previsto nos arts. 7º e 8° da Lei nº 9.532/1997 nos casos em que ocorre transferência do ágio pago pela adquirente para outra empresa que será posteriormente extinta por incorporação reversa. Nos termos da legislação fiscal, é indedutível o ágio deduzido pela investida, em inexistindo a necessária confusão patrimonial com as suas reais investidoras. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a sucessão de operações societárias sem qualquer finalidade negocial que resulte em incorporação de pessoa jurídica em cuja contabilidade constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, com utilização de empresa veículo, unicamente para criar de modo artificial as condições para aproveitamento da amortização do ágio como dedução na apuração do lucro real e da contribuição social. REDUÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA. SUDAM. O direito à redução do imposto de renda das pessoas jurídicas para a implantação de empreendimento na área de atuação da SUDAM é calculado sobre o lucro da exploração, o qual não é afetado em razão de autuação fiscal. MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. Comprovada a intenção de violação da norma fiscal mediante a concatenação de operações societárias eivadas de artificialidade com a finalidade de escapar do pagamento do imposto devido, é cabível a imposição da multa qualificada. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTOS DE ESTIMATIVAS. MULTA ISOLADA. APÓS ENCERRAMENTO DO EXERCÍCIO. CABIMENTO. Cabível a multa exigida isoladamente, quando a pessoa jurídica sujeita ao pagamento mensal do IRPJ, determinada sobre a base de cálculo estimada, deixar de efetuar o seu recolhimento dentro do prazo legal de vencimento, por expressa previsão legal. A referida multa é aplicável quando a falta é detectada após o encerramento do exercício de apuração da base de cálculo destes tributos, por interpretação lógica do disposto no artigo 44, II, ‘b’ da Lei nº 9.430/96. Fl. 2126DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 12 11 MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. A partir do advento da MP nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007 a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma referese ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma. MULTA ISOLADA. APURAÇÃO INCORRETA. Comprovado o erro na apuração da multa isolada, é de se cancelar o valor exigido na parcela que exceder o efetivamente cabível. JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE MULTA DE OFÍCIO. BASE LEGAL. CABIMENTO. A multa de ofício integra a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, o crédito tributário, sendo legítima a incidência dos juros de mora calculados com base na Taxa Selic. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO – CSLL Anocalendário: 2011, 2012, 2013 CSLL. ADIÇÃO DE DESPESAS DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. EXISTÊNCIA DE PREVISÃO NORMATIVA. O decidido quanto ao IRPJ repercute igualmente no tocante à exigência de CSLL, no que for cabível. A adição, à base de cálculo da CSLL, de despesas com amortização de ágio deduzidas indevidamente pela contribuinte encontra amparo nas normas que regem a exigência da referida contribuição. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO tgr Anocalendário: 2011, 2012, 2013 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis, nos termos do art. 135, inc. III, do CTN, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, pelas obrigações tributárias resultante de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte”. 10. A DRJ/SPO julgou as Impugnações da contribuinte e dos responsáveis tributários sob os seguintes fundamentos: Fl. 2127DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 13 12 10.1. Todos os requisitos formais do auto de infração previstos no artigo 10, do Decreto nº 70.235/72, foram observados. No mais, a eventual apuração incorreta do tributo ou da multa não implicaria em nulidade do lançamento, mas somente redundaria em cancelamento da parcela do crédito tributário indevidamente lançada. 10.2. A contagem do prazo decadencial defendida pela contribuinte é equivocada, pois a data inicial correta a ser considerada é a data relativa à primeira amortização deduzida da apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e não o momento do registro do ágio em 03/12/2007. 10.3. A única hipótese legal para a amortização fiscal de ágio está prevista no inciso III do artigo 7º da Lei nº 9.532/97, somente sendo possível à pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra. Na operação societária em questão não houve em momento algum a combinação dos patrimônios da Brasil Ferrovias (adquirida) e da All Logística (adquirente), conforme requisito previsto na Lei nº 9.532/97. 10.4. No presente caso não ficou demonstrado que a JPESPE (Multimodal) teria outro propósito ou objetivo além de servir como um instrumento eivado de artificialidade para operacionalizar a dedução indevida das despesas com amortização de ágio, causando prejuízo à Fazenda Pública. 10.5. A alegação do contribuinte de que a exigência fiscal de CSLL haveria de ser cancelada por falta de previsão legal é afastada em razão de existir determinação expressa em lei (artigos 57 da Lei nº 8.981/1995, 28 da Lei 9.430/96 e 38, 40 e 75 da Instrução Normativa SRF nº 390/2004) que prevê a aplicação das mesmas normas de apuração e pagamento do IRPJ à CSLL. 10.6. O benefício fiscal da SUDAM concedido à contribuinte é calculado com base no lucro da exploração, que por sua vez é apurado a partir do lucro líquido contábil. Entretanto, o objeto da autuação em questão não repercute na apuração do lucro de exploração, visto que a infração fiscal não diz respeito ao lucro líquido contábil do período, mas ao lucro real apurado por ocasião do ajuste anual. 10.7. A multa qualificada deve ser mantida em razão da nítida intenção dolosa de excluir ou modificar as características essenciais da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Em relação à multa isolada de IRPJ, de fato foram cometidos os equívocos indicados pela contribuinte, devendo ser parcialmente exonerados os valores da referida multa. 10.8. A incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício é cabível, pois de acordo com o artigo 61, §3º, da Lei nº 9.430/96, incidem juros sobre os débitos para com a União decorrentes de tributos. 10.9. Diferente do alegado pelos contribuintes, o Srs. Alexandre de Jesus Santoro e Pedro Roberto Oliveira Almeida tinham poderes de gerência e participaram de forma relevante para a consecução da economia tributária indevida com a dedução fiscal imprópria do ágio. 11. Cientificados da decisão, a contribuinte e os responsáveis tributários (Termo de ciência por abertura de mensagem em 09/02/2017, fl. 1751; AR de 22/02/2017, fl. 1754; AR de 20/02/2017, fl. 1155) interpuseram, tempestivamente, os respectivos Recursos Fl. 2128DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 14 13 Voluntários, reiterando em parte as razões já expostas em impugnações (item 8), e complementam sua defesa com os seguintes pontos: 11.1. Diferente do que foi afirmado na decisão da DRJ, o benefício fiscal SUDAM concedido à Recorrente é calculado sobre o valor do imposto apurado, não se tratando de uma redução do lucro líquido. O agente fiscal não determinou o montante correto da exigência, não cumprindo o requisito previsto no inciso V, do artigo 10, do Decreto nº 70.235/72. Portanto, há de se concluir pela iliquidez dos autos. 11.2. A decisão de piso inovou o critério jurídico da autuação ao trazer argumentos que até então não existiam, apresentando novos fundamentos para justificar a manutenção da responsabilidade solidária, o que é vedado por ausência de competência legal. A situação descrita enseja a nulidade da decisão recorrida. 11.3. No mérito, afirmam que as alterações societárias adotadas pela Recorrente e por seu grupo se deram de forma lícita e adequada para atingir seu objetivo. O planejamento tributário para fins de economia fiscal é legítimo quando se vale de meios não vedados expressamente em previsão legal. 11.4. A afirmação de artificialidade da JPESPE (Multimodal) não se sustenta, pois a referida sociedade exerceu a atividade de administração de sociedades, bem como procurou implementar o sistema de transporte multimodal antes de ser eliminada da estrutura societária do Grupo ALL. 11.5. O legislador não previu expressamente na Lei nº 9.532/97 restrição para a amortização do ágio às hipóteses em que há incorporação, fusão ou cisão envolvendo o adquirente original. 11.6. O Recorrente, o Sr. Alexandre, não possuía os poderes de gestão e execução capazes de praticar os atos previstos no artigo 135, inciso III, do CTN, na qualidade de membro do Conselho Administrativo. Diferentemente do que foi apontado pela fiscalização e decisão de piso, o referido Conselho tem função de orientação e aconselhamento e não de gestão e gerência. 11.7. Não é possível a coexistência, no mesmo processo administrativo, de lançamento do crédito tributário em face da pessoa jurídica e de terceiros supostamente responsáveis, com fundamento no artigo 135, inciso III, do CTN. 12. Ao final, os Recorrentes requerem: (i) a declaração de nulidade dos autos de infração e termo de responsabilização solidária; (ii) a declaração de nulidade do acórdão da DRJ; (iii) a desconstituição dos créditos tributários exigidos; (iii) o cancelamento integral dos autos de infração originários; e (iv) que se reconheça a inexistência de responsabilidade solidária com o consequente cancelamento do respectivo Termo. 13. Como o sujeito passivo foi exonerado parcialmente do crédito tributário em valor superior ao limite de alçada, a Turma Julgadora recorreu de ofício a este Colegiado, nos termos do artigo 34 do Decreto nº 70.235/72 e Portaria MF 03/2008. É o relatório. Voto Fl. 2129DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 15 14 Conselheira Gisele Barra Bossa, Relatora 14. Os Recursos Voluntários interpostos são tempestivos e cumprem os demais requisitos legais de admissibilidade. 15. Quanto à admissibilidade do recurso de ofício, devese ressaltar o teor do artigo 1º, da Portaria MF nº 63/2017, a seguir transcrito: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. 16. No caso em tela, o valor exonerado (fl. 1717) superou o limite estabelecido pela norma em referência de 2,5 milhões. Portanto, ambos os recursos, de ofício e voluntário, são cabíveis, deles tomo conhecimento e passo a apreciar. Questão de Ordem 17. A Recorrente apresentou questão de ordem para fins de requerer a aplicação imediata do artigo 24, do DecretoLei nº 4.657/42, incluído pela Lei nº 13.655/2018, com o consequente cancelamento das respectivas autuações fiscais. 18. Acerca da temática apresentada, vale trazer algumas ponderações. I. Da Aplicabilidade da LINDB ao CARF 19. Inicialmente, cumpre consignar que a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) deve ser observada e aplicada por todos os Órgãos de Estado. 20. A recente decisão da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, chamou a atenção dos operadores ao afastar a aplicação desta Lei a atividade judicante do CARF, verbis: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2002 “PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL. QUESTÃO DE ORDEM. CONHECIMENTO. Não se conhece de questão de ordem cujo conteúdo não tem pertinência com o objeto do Recurso Especial, tampouco é aplicável ao Processo Administrativo Fiscal.” (Processo nº 19515.003515/200774, Acórdão nº 9202006.996, 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Sessão de 21 de junho de 2018, Relatora Maria Helena Cotta Cardozo). Fl. 2130DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 16 15 21. Como fundamento, o voto condutor do r. Acórdão entendeu que a lei só “promoveu alterações na atuação dos órgãos de controle da Administração Pública, principalmente do Tribunal de Contas da União (TCU)”. Fez questão de consignar que “os dispositivos ora tratados basearamse na obra dos Professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano de Azevedo Marques Neto, denominada Contratações Públicas e Seu Controle, o que não deixa margem de dúvida acerca da natureza essencialmente administrativa dos novos dispositivos”. 22. No mais, registrou que “em nenhum momento a lei em tela sinaliza que seria dirigida à atividade judicante administrativa, como é o caso do CARF”,de modo que,“quando muito, a aplicação desta lei no CARF restringirseia às atividades essencialmente administrativas, afetas à sua SecretariaExecutiva”. 23. Diante de tais colocações, os citados professores e coautores do anteprojeto da LINDB, manifestaramse na mídia. Vale conferir os seguintes trechos, verbis: Floriano de Azevedo Marques1 “A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro trata da aplicação da norma por todo o órgão que o faça no exercício de competência estatal. Me surpreende que este argumento tenha sido utilizado para gerar uma imunidade à Lei de Introdução – ou por acaso o Carf não utiliza a regra da Lei de Introdução sobre a vigência? Aplicar a LINDB na contratação ou exoneração de servidor público? Esta é uma interpretação contra legis." (...) "Se alguém achar que existe algum órgão que é imune à aplicação das Leis de Introdução”, ponderou, “este alguém está dizendo que algum órgão está imune à aplicação das regras do Direito”. Carlos Ari Sundfeld2 “A resposta quanto ao âmbito de incidência dos novos arts. 20 a 30 da Lei de Introdução é bem clara, a começar da ementa da lei que a alterou. Tratase de “disposições sobre segurança jurídica e eficiência na criação e aplicação do direito público”. Os dispositivos da lei 13.655 não são de direito administrativo em sentido estrito (isto é, sobre contratos administrativos, servidores públicos, serviços públicos e outros temas a cargo dos professores desse ramo), tampouco sobre controle da administração; a lei é geral de direito público. Seus dispositivos são abrangentes e serão observados nas operações jurídicas envolvendo o direito público em geral. Entendemse como tal as operações cuja tutela tenha como centro as autoridades administrativas, embora com fiscalização e participação de controladores externos e juízes. Em suma, os arts. 20 a 30 da Lei de 1 MENDES, Guilherme. CARF deve aplicar artigo 24 da LINDB, afirma autor da nova redação da norma. Jota, São Paulo, 06 ago. 2018. Disponível em: https://goo.gl/phv85x. Acesso em: 07 ago. 2018. "Floriano de Azevedo Marques, que formulou as alterações da lei, afirma que o CARF não está imune à sua aplicação." 2 SUNDFELD, Carlos Ari. LINDB: Direito Tributário está sujeito à Lei de Introdução reformada. Jota, São Paulo, 10 ago. 2018. Disponível em: https://goo.gl/3kub1r. Acesso em: 10 ago. 2018. Fl. 2131DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 17 16 Introdução tratam do direito público cuja aplicação primária seja administrativa. (...) Quanto à esfera administrativa, a lei não fez distinções nem previu tratamento especial ou imunidades para suas subdivisões. Logo, a Lei de Introdução reformada tem de ser observada por todas as autoridades administrativas, seja qual for sua atuação material específica (ativa, consultiva, controladora, licenciadora, reguladora, sancionadora, etc.), a legislação setorial a que está sujeita (contratual, concorrencial, tributária, etc.), sua vinculação organizacional (autoridades singulares, membros de colegiado, etc.) ou seu nível hierárquico (primeira instância, órgãos recursais, Chefe do Executivo, etc.). Eis então o âmbito objetivo de incidência da lei: situações de criação e aplicação do direito público sob tutela primária da administração pública como um todo. Ela impacta diretamente a aplicação dos direitos constitucional, tributário, administrativo (em sentido estrito), financeiro, ambiental, sanitário, concorrencial, previdenciário, de trânsito, enfim, os ramos do direito público. (...) Impor normas comuns a todos os administradores, controladores e juízes não significa desconhecer as especificidades de organização e funcionamento do controle externo e do Judiciário, tampouco as diferenças que existem na extensão de suas competências de aplicação das normas de direito público cuja tutela primária seja da administração. Para a sujeição de todos às mesmas normas sobre criação e aplicação do Direito, a Lei de Introdução levou em conta a necessidade de coerência normativa: nem o juiz, nem o controlador, podem invalidar, sancionar ou substituir as opções do administrador usando parâmetros de interpretação e decisão discrepantes dos que são naturais e exigíveis na função administrativa. A interpretação tributária feita pelo juiz tem de estar sujeita às mesmas diretrizes que vinculam o administrador tributário. Por identidade de razão, autoridades administrativas judicantes (como o CARF) não podem, para decidir casos, usar conjunto próprio e autônomo de referências jurídicas, diversas das que estão a vincular o administrador tributário ativo e o Poder Judiciário. Convém não esquecer que, ao menos nesse sentido, o Direito é uno, e que a autoridade judicante administrativa em matéria tributária nada mais faz do que aplicar o Direito, e não outra coisa qualquer.” (grifos nossos) 24. Em vista do exposto, fica claro que a LINDB é plenamente aplicável ao CARF e, pessoalmente, não encontro qualquer sentido técnico, jurídico ou hermêutico para afastar os preceitos contidos na LINDB da atividade judicante administrativa. 25. Não há dúvidas de que a LINDB é preceito norteador interpretativo que objetiva, em última análise, assegurar segurança jurídica e previsibilidade aos administrados e anseia pela almejada coerência normativa dada a unicidade do Direito. Fl. 2132DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 18 17 26. Nessa esteira, o primado da eficiência buscar atingir tais preceitos e garantir a satisfatividade das decisões na esfera administrativa. De acordo com Prof. Doutor Humberto Ávila3 " para que a administração esteja de acordo com o dever de eficiência, não basta escolher meios adequados para promover seus fins. A eficiência exige mais o que mera adequação. Ela exige satisfatoriedade na promoção dos fins atribuídos à administração. Escolher um meio adequado para promover um fim, mas que promove o fim de modo insignificante, com muitos efeitos negativos paralelos ou com pouca certeza, é violar o dever de eficiência administrativa. O dever de eficiência traduzse, pois, na exigência de promoção satisfatória, para esse propósito, a promoção minimamente intensa e certa do fim”. 27. Assim sendo, a inobservância dos citados preceitos aqui descritos viola o princípio da eficiência, pois os litígios acabam sendo levados para o âmbito do Poder Judiciário. Para além do ônus suportado pelas partes, temos o ônus para o própria Administração Pública. O Estado é um só e os custos do contencioso são suportados por todos os cidadãos brasileiros. A eficiência de gestão dos recursos públicos e o cuidado na busca de soluções satisfativas são valores legais necessários à promoção do interesse público e não podem ser considerados incompatíveis com esse objetivo. 28. Esses valores atrelados à eficiência, estabilidade e uniformidade são grandes marcos do CPC/2015 e devem liderar não só as iniciativas do Poder Judiciário, mas desafiar os órgãos do Legislativo e Executivo a cumprirem suas funções como verdadeiros guardiões da segurança jurídica. 29. Dito isto, é fácil evidenciar que a LINDB está alinhada aos princípios que regem a Administração Pública, constantes do artigo 374, da CF/88 e do artigo 2º5, da Lei nº 9.784/99, às diretrizes processuais da Lei nº 13.105/20156 (Código de Processo Civil) e, portanto, não há como afastar sua aplicação no âmbito do CARF. II. Da Pertinência da Questão de Ordem Suscitada 30. É notório que tema ágio é altamente controvertido e respondeu em 2014, pelo montante de R$ 18,7 bilhões, nas 30 maiores empresas nãofinanceiras do País (em receita 3 ÁVILA, HUMBERTO. Moralidade, Razoabilidade e Eficiência na Atividade Administrativa. In: Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado, nº 04, out/nov/dez 2005, p. 2324. Disponível em: https://goo.gl/Hn3CpK. Acesso em: 01/01/2018. 4 "Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:" 5 Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. 6 Sobre o tema, não é demais citar os valores processuais contantes dos artigos 4º, 6º e 8º, da Lei nº 13.105/2015: "Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa. (...) Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. (...) Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência." Fl. 2133DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 19 18 líquida) que acumulavam R$ 283,4 bilhões em contencioso tributário, conforme estudo empírico realizado por Ana Teresa Lopes7 na Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. 31. Não podemos olvidar que tais montantes, a depender da classificação de risco da companhia, deixam de ser provisionados e, portanto, em termos práticos, não afetam o resultado financeiro e permitem que tais montantes sejam investidos nas atividades empresariais. 32. Nessa linha, se determinada questão vem sendo julgada pelos tribunais administrativos e/ou judiciais de forma predominantemente favorável aos administrados, as companhias deixam de provisionar determinados valores em litígio, de acordo com as próprias diretrizes do CPC 258: "Provisão 14. Uma provisão deve ser reconhecida quando: (a) a entidade tem uma obrigação presente (legal ou não formalizada) como resultado de evento passado; (b) seja provável que será necessária uma saída de recursos que incorporam benefícios econômicos para liquidar a obrigação; e (c) possa ser feita uma estimativa confiável do valor da obrigação. Se essas condições não forem satisfeitas, nenhuma provisão deve ser reconhecida. Obrigação presente 15. Em casos raros não é claro se existe ou não uma obrigação presente. Nesses casos, presumese que um evento passado dá origem a uma obrigação presente se, levando em consideração toda a evidência disponível, é mais provável que sim do que não que existe uma obrigação presente na data do balanço. 16. Em quase todos os casos será claro se um evento passado deu origem a uma obrigação presente. Em casos raros – como em um processo judicial, por exemplo –, podese discutir tanto se certos eventos ocorreram quanto se esses eventos resultaram em uma obrigação presente. Nesse caso, a entidade deve determinar se a obrigação presente existe na data do balanço ao considerar toda a evidência disponível incluindo, por exemplo, a opinião de peritos. A evidência considerada inclui qualquer evidência adicional proporcionada por eventos após a data do balanço. Com base em tal evidência: (a) quando for mais provável que sim do que não que existe uma obrigação presente na data do balanço, a entidade deve reconhecer a provisão (se os critérios de reconhecimento forem 7 LOPES, Ana Teresa. O contencioso tributário sob a perspectiva corporativa: estudo das informações publicadas pelas maiores companhias abertas do país. Dissertação de mestrado apresentada no programa de direito da FGV DIREITO SP (p. 35 e p. 49), em 15/03/2017. Disponível em: https://goo.gl/2xp1fN. Acesso em: 24/07/2018. 8 "Na elaboração das demonstrações financeiras é comum que as empresas reconheçam como provisão os valores relativos às ações judiciais passivas cuja probabilidade de perda é provável. De acordo com o CPC 25, embora haja um nível de incerteza nestas provisões, o reconhecimento desses eventos como passivo indica que é mais provável que a saída de caixa aconteça do que não aconteça (itens 15 e 16)", por CANADO, Vanessa. Precedentes e Probabilidade de Perda em Ações Judiciais. Jota, São Paulo, 10 mai. 2018. Disponível em: https://goo.gl/eHKKPf. Acesso em: 13 ago. 2018. Fl. 2134DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 20 19 satisfeitos); e (b) quando for mais provável que não existe uma obrigação presente na data do balanço, a entidade divulga um passivo contingente, a menos que seja remota a possibilidade de uma saída de recursos que incorporam benefícios econômicos (ver item 86)." (grifos nossos) 33. Trago este singelo exemplo para demonstrar como a mudança repentina de entendimento do CARF pode impactar diretamente o resultado das companhias e na tomada de decisão dos investidores. 34. Vejam que, em razão da alteração de posicionamento, as empresas acabam, inevitavelmente, por afetar seus resultados (constituição de provisão). Tal movimentação financeira é, por óbvio e diretamente, sentida pelos investidores9. O efeito desta dinâmica nefasta é simples: assistimos o desinvestimento nas operações nacionais, o agravamento do “Custo Brasil” 10, a saída de grupos econômicos do país e o aumento da crise de confiança diante da insegurança jurídica provocada pelos Órgãos de Estado. 35. Sobre este aspecto, bem caminhou o artigo 20 da LINDB, ao dispor que: "Art. 20. Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão. Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da medida imposta ou da invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das possíveis alternativas.” 36. A devida motivação calcada em valores concretos, a observância prática dos efeitos da decisão proferida e a publicização de eventual mudança de posicionamento, são fundamentais para trazer coerência aos julgados, bem como asseguram que o administrado tenha ciência e previsibilidade para bem gerir suas atividades empresariais. 37. Igualmente alinhado aos valores da segurança jurídica e da previsibilidade, o invocado artigo 24, da LINDB, proíbe expressamente que a administração tributária dê aplicação retroativa a nova interpretação sobre a legislação tributária, verbis: LINDB "Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. 9 A simples divulgação dos balanços e notas explicativas afugentam os investimentos. 10 O custo Brasil é um termo genérico, usado para descrever o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que encarecem o investimento no Brasil, dificultando o desenvolvimento nacional, aumentando o desemprego, o trabalho informal, a sonegação de impostos e a evasão de divisas. Em outros termos, "é custo adicional de transacionar, de realizar negócios, no Brasil, em comparação ao custo em um país com instituições que funcionam adequadamente", em PINHEIRO, Armando Castelar. A Justiça e o Custo Brasil. In: Revista USP, nº 101, mar/abr/mai. São Paulo, p. 141158. Disponível em: https://goo.gl/CSvJcn. Acesso em: 13/08/2018. Fl. 2135DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 21 20 Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público." (grifos nossos) 38. Notase que, o caput do citado dispositivo converge com os preceitos contidos no artigo 2º, parágrafo único, inciso XIII, da Lei nº 9.784/1999, artigo 100, incisos II, III e parágrafo único e artigo 146, do CTN.Confirase: Lei nº 9.784/1999 "Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (...) XIII interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação." CTN "Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: (...) II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo." "Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução." (grifos nossos) 39. Contudo, a polêmica trazida pelos operadores com relação a aplicação do artigo 24, da LINDB, gira em torno das expressões "orientações gerais da época", entendidas como "jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público". 40. No presente caso, conforme relatado, a Recorrente teria amortizado, indevidamente, o ágio apurado na aquisição das companhias Brasil Ferrovias S/A e Novoeste Brasil S/A, um vez que, supostamente, não haveria razões econômicas ou negociais para a criação da Multimodal Participações Ltda., suposta "empresa veículo" que teria sido utilizada Fl. 2136DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 22 21 apenas para transferência do ágio da ALL América Latina Logística S/A para as companhias operacionais ALL América Latina Logística Malha Paulista, ALL América Latina Logística Malha Oeste e ALL América Latina Logística Malha Norte (ora Recorrente). 41. Ocorre que, a Recorrente invoca a aplicação do artigo 24, da LINDB, por considerar que a jurisprudência administrativa era majoritária na época dos fatos geradores objeto do lançamento fiscal. 42. Para comprovar o alegado, apresenta relação de casos semelhantes ao presente, onde o aproveitamento fiscal de ágio foi considerado legítimo e plenamente válido: "Acórdão nº 10516.395 (Sessão de 25/04/2007); acórdão nº 105 16.774 (Sessão de 08/11/2007); acórdão nº 10197.027 (Sessão de 13/11/2008); acórdão nº 1402000.342 (Sessão de 15/12/2010); acórdão nº 110100.354 (Sessão 02/09/2010); acórdão nº120100.548 (Sessão de 03/08/2011); acórdão nº1301000.711 (Sessão de 19/10/2011); acórdão nº 1402000.802 (Sessão de 21/10/2011); acórdão nº 1201000.659 (Sessão de 15/03/2012); acórdão nº 1101 000.708 (Sessão de 11/04/2012); acórdão nº 1101000.709 (Sessão de 11/04/2012); acórdão nº 1201000.689 (Sessão de 08/05/2012); acórdão nº 1402001.077 (Sessão de 13/06/2012); acórdão nº 1301 000.999 (Sessão de 07/08/2012); acórdão nº 1202000.884 (Sessão de 03/10/2012); acórdão nº 1101000.835 (Sessão de 04/12/2012); acórdão nº 1402001.279 (Sessão de 04/12/2012); acórdão nº 1402 001.310 (Sessão de 05/12/2012); acórdão nº 1102000.873 (Sessão de 11/06/2013); acórdão nº 1402001.409 (Sessão 10/07/2013); acórdão nº 1102000.982 (Sessão de 04/12/2013)". Ademais, à época das operações aqui analisadas, a jurisprudência administrativa majoritária admitia a validade de operações realizadas com o intuito de reduzir a carga tributária, desde que praticadas de acordo com as normas legais, tal como se verifica no caso em tela. Confirase: acórdão nº 10614.486 (Sessão de 16/03/2005); acórdão nº gisa10247.181 (Sessão de 09/11/2005); e acórdão nº 10247.521 (Sessão de 26/04/2006)." 43. Diante das razões técnicas e jurídicas aqui apresentadas e em vista da relação de julgados supra, evidencio que há fortes indícios de que a jurisprudência aplicável seria majoritária. Assim, considero prudente, em consonância com o princípio do contraditório, que a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) seja intimada para se manifestar acerca do pleito em questão. Do Benefício Fiscal SUDAM 44. Sobre este tema, a Recorrente afirma que o crédito lançado é nulo em razão da desconsideração da fiscalização da existência do benefício fiscal SUDAM. Afirma que o benefício é calculado sobre o valor do IRPJ apurado sobre o lucro de exploração e, por este motivo, após realizada a apuração do imposto devido pelo lucro real, sem qualquer redução de base em razão do benefício fiscal concedido, deduz se o valor correspondente a 75% do IRPJ apurado sobre o lucro de exploração. 45. Por sua vez, de acordo com a decisão de piso a presente autuação "trata de exclusões indevidas efetuadas pela fiscalizada no seu LALUR e, portanto, não repercute na Fl. 2137DF CARF MF Processo nº 10120.720212/201670 Resolução nº 1201000.533 S1C2T1 Fl. 23 22 apuração do lucro de exploração, haja vista que a infração fiscal não diz respeito ao lucro líquido contábil do período, mas tão somente ao lucro real apurado por ocasião do ajuste anual. E, mesmo que o lançamento de ofício tratasse de receitas omitidas na escrituração comercial ou de despesas indedutíveis escrituradas pelo contribuinte, ainda assim não seria cabível a recomposição do lucro de exploração beneficiado com a redução do imposto, consoante expressamente prevê o art. 66 da IN SRF nº 267/2002, e conforme entendimento pacificado há muito tempo com os Pareceres Normativos CST nºs 13/80 e 11/81". 46. Neste aspecto, considero relevante que a Recorrente esclareça e demonstre que o cálculo do lucro do exploração foi de fato afetado pela amortização do ágio e eventual (se for o caso) baixa da provisão para manutenção da integridade do patrimônio líquido (inclusão de tais valores no cálculo do lucro da exploração), isso porque, via de regra, a presente autuação não deveria afetar a fruição do benefício fiscal em questão. Das Providências 47. Em face do exposto, proponho a remessa dos presentes autos à unidade preparadora com o objetivo de intimar a PGFN para se manifestar acerca da questão de ordem suscitada pela Recorrente e, em especial, sobre a relação de decisões apresentadas que, a priori, demonstram ser o entendimento majoritário da época favorável ao aproveitamento fiscal de ágio em casos semelhantes ao presente. 48. Após, a unidade preparadora deverá intimar a Recorrente para que esclareça e demonstre se o cálculo do lucro do exploração foi de fato afetado pela amortização do ágio e eventual (se for o caso) baixa da provisão para manutenção da integridade do patrimônio líquido (inclusão de tais valores no cálculo do lucro da exploração), isso porque, via de regra, a presente autuação não deveria afetar a fruição do benefício fiscal em questão. Na sequência, retornem os autos ao E. CARF para julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Fl. 2138DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15586.000198/2008-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005
RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO.
Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindo-se valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda.
RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO.
Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância.
Numero da decisão: 2402-006.397
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
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VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindose valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO. Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 58 6. 00 01 98 /2 00 8- 21 Fl. 576DF CARF MF Processo nº 15586.000198/200821 Acórdão n.º 2402006.397 S2C4T2 Fl. 3 2 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma deste julgamento. Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, tendo em vista que o crédito exonerado, principal e encargos de multa, relativos a contribuições previdenciárias de custeio, beneficio, terceiros e sanções pecuniárias, superava a época o valor de alçada estipulado no art. 1º da Portaria MF nº 03, de 03 de janeiro de 2008. O valor objeto de exoneração é inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), vindo a julgamento apenas o Recurso de Oficio. É o relatório." Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma ao qual o presente processo encontrase vinculado. Transcrevese, a seguir, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto condutor proferido pelo Conselheiro Jamed Abdul Nasser Feitoza, digno relator da susodita decisão paradigma, reprisese, Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018: Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária “Antes de adentrar a análise do caso concreto, importa observar que o presente julgamento terá efeitos sobre lote repetitivo, eis que o caso em foco foi eleito como paradigma e terá seu resultado aplicado ao lote a que esta relacionado, nos termos do art. 47 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 – RICARF. Fl. 577DF CARF MF Processo nº 15586.000198/200821 Acórdão n.º 2402006.397 S2C4T2 Fl. 4 3 Admissibilidade. Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, tendo em vista que, à época em que foi proferida a decisão de primeira instância administrativa, o crédito exonerado superava o valor de alçada estipulado estabelecido em ato próprio. De acordo com o I do art. 34 do Decreto nº 70.235/1972: Art. 34. A autoridade de primeira instância recorrerá de ofício sempre que a decisão: I exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) II deixar de aplicar pena de perda de mercadorias ou outros bens cominada à infração denunciada na formalização da exigência. § 1º O recurso será interposto mediante declaração na própria decisão. § 2° Não sendo interposto o recurso, o servidor que verificar o fato representará à autoridade julgadora, por intermédio de seu chefe imediato, no sentido de que seja observada aquela formalidade. (Grifouse) O colegiado a quo proferiu decisão em que julgou parcialmente procedente a impugnação, exonerando créditos relativos ao principal e encargos de multas em valor inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil de reais) Cabe ao colegiado julgar a admissibilidade do Recurso de Oficio e, constatandose que o crédito exonerado é inferior àquele que levaria o caso a um reexame necessário na atualidade, não conhecer de referido recurso. O limite referido está posto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, in verbis: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. Fl. 578DF CARF MF Processo nº 15586.000198/200821 Acórdão n.º 2402006.397 S2C4T2 Fl. 5 4 § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União. Art. 3º Fica revogada a Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. Ainda que à época do julgamento de primeira instância tal valor permitisse a interposição do Recurso de Oficio ora julgado, ao caso deve ser aplicado o limite de dispensa atualmente vigente, conforme entendimento consolidado neste Conselho, nos termos da Súmula CARF 103: Súmula CARF nº 103: Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Conclusão Ante ao exposto voto por não conhecer do Recurso de Oficio em razão de o crédito exonerado ser inferior ao limite estabelecido no art. 1º a Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, aplicável ao caso conforme Súmula CARF 103. (assinado digitalmente) Jamed Abdul Nasser Feitoza” Conclusão Nesse contexto, pelas razões de fato e de Direito ora expendidas, voto por NÃO CONHECER do Recurso de Ofício (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 579DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.721069/2009-06
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005
PIS/PASEP E COFINS. REGIME DA NÃO-CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS.
O conceito de insumos para efeitos do art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002, deve ser interpretado com critério próprio: o da essencialidade. Referido critério traduz uma posição "intermediária", na qual, para definir insumos, busca-se a relação existente entre o bem ou serviço, utilizado como insumo e a atividade realizada pelo Contribuinte.
Não é diferente a posição predominante no Superior Tribunal de Justiça, o qual reconhece, para a definição do conceito de insumo, critério amplo/próprio em função da receita, a partir da análise da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo ou à prestação do serviço.
FRETE DE INSUMOS E PRODUTOS SEMI-ELABORADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS.
A transferência de matérias-primas extraídas das minas para as fábricas constitui-se em etapa essencial do ciclo produtivo, ainda mais quando se considera a distância que separa as unidades mineradoras dos complexos industriais e a diversidade de locais onde as minas estão situadas. Além disso, é característica da atividade da Recorrida a produção do próprio insumo, até mesmo como forma de ter a segurança de não interrupção do processo produtivo dos fertilizantes. Nesse cenário, portanto, mostra-se imprescindível a contratação do frete junto à terceira pessoa jurídica para transferência entre estabelecimentos da mesma empresa - frete pago em decorrência do transporte dos minerais das minas até o complexo industrial local onde é produzido o fertilizante, inserindo-se no conceito de insumo.
Assim, os valores decorrentes da contratação de fretes de insumos (matérias-primas), produtos semi-elaborados e produtos acabados entre estabelecimentos da própria empresa geram direito aos créditos das contribuições para o PIS e para a COFINS na sistemática não-cumulativa, pois são essenciais ao processo produtivo da Recorrente e se constituem em insumos essenciais no seu processo de industrialização.
Nos termos do §8º, do art. 63 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, importa consignar ser o entendimento da maioria do Colegiado, que acompanhou a Relatora pelas conclusões, que o conceito de insumo é mais restritivo, podendo ser reconhecido o direito ao crédito de PIS e COFINS não-cumulativos quando o bem ou serviço a ser considerado como insumo estiver estritamente vinculado à produção da mercadoria.
Numero da decisão: 9303-007.082
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Jorge Olmiro Lock Freire e Rodrigo da Costa Pôssas.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 PIS/PASEP E COFINS. REGIME DA NÃO-CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. O conceito de insumos para efeitos do art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002, deve ser interpretado com critério próprio: o da essencialidade. Referido critério traduz uma posição "intermediária", na qual, para definir insumos, busca-se a relação existente entre o bem ou serviço, utilizado como insumo e a atividade realizada pelo Contribuinte. Não é diferente a posição predominante no Superior Tribunal de Justiça, o qual reconhece, para a definição do conceito de insumo, critério amplo/próprio em função da receita, a partir da análise da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo ou à prestação do serviço. FRETE DE INSUMOS E PRODUTOS SEMI-ELABORADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS. A transferência de matérias-primas extraídas das minas para as fábricas constitui-se em etapa essencial do ciclo produtivo, ainda mais quando se considera a distância que separa as unidades mineradoras dos complexos industriais e a diversidade de locais onde as minas estão situadas. Além disso, é característica da atividade da Recorrida a produção do próprio insumo, até mesmo como forma de ter a segurança de não interrupção do processo produtivo dos fertilizantes. Nesse cenário, portanto, mostra-se imprescindível a contratação do frete junto à terceira pessoa jurídica para transferência entre estabelecimentos da mesma empresa - frete pago em decorrência do transporte dos minerais das minas até o complexo industrial local onde é produzido o fertilizante, inserindo-se no conceito de insumo. Assim, os valores decorrentes da contratação de fretes de insumos (matérias-primas), produtos semi-elaborados e produtos acabados entre estabelecimentos da própria empresa geram direito aos créditos das contribuições para o PIS e para a COFINS na sistemática não-cumulativa, pois são essenciais ao processo produtivo da Recorrente e se constituem em insumos essenciais no seu processo de industrialização. Nos termos do §8º, do art. 63 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, importa consignar ser o entendimento da maioria do Colegiado, que acompanhou a Relatora pelas conclusões, que o conceito de insumo é mais restritivo, podendo ser reconhecido o direito ao crédito de PIS e COFINS não-cumulativos quando o bem ou serviço a ser considerado como insumo estiver estritamente vinculado à produção da mercadoria.
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Jorge Olmiro Lock Freire e Rodrigo da Costa Pôssas. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
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CRÉDITO. FRETE NO TRANSPORTE DE INSUMOS ENTRE ESTABELECIMENTOS. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado GALVANI INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS S.A. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 PIS/PASEP E COFINS. REGIME DA NÃOCUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. O conceito de insumos para efeitos do art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002, deve ser interpretado com critério próprio: o da essencialidade. Referido critério traduz uma posição "intermediária", na qual, para definir insumos, buscase a relação existente entre o bem ou serviço, utilizado como insumo e a atividade realizada pelo Contribuinte. Não é diferente a posição predominante no Superior Tribunal de Justiça, o qual reconhece, para a definição do conceito de insumo, critério amplo/próprio em função da receita, a partir da análise da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo ou à prestação do serviço. FRETE DE INSUMOS E PRODUTOS SEMIELABORADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS. A transferência de matériasprimas extraídas das minas para as fábricas constituise em etapa essencial do ciclo produtivo, ainda mais quando se considera a distância que separa as unidades mineradoras dos complexos industriais e a diversidade de locais onde as minas estão situadas. Além disso, é característica da atividade da Recorrida a produção do próprio insumo, até mesmo como forma de ter a segurança de não interrupção do processo produtivo dos fertilizantes. Nesse cenário, portanto, mostrase imprescindível a contratação do frete junto à terceira pessoa jurídica para transferência entre estabelecimentos da mesma empresa frete pago em decorrência do transporte dos minerais das minas até o complexo industrial local onde é produzido o fertilizante, inserindose no conceito de insumo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 10 69 /2 00 9- 06 Fl. 244DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 3 2 Assim, os valores decorrentes da contratação de fretes de insumos (matérias primas), produtos semielaborados e produtos acabados entre estabelecimentos da própria empresa geram direito aos créditos das contribuições para o PIS e para a COFINS na sistemática nãocumulativa, pois são essenciais ao processo produtivo da Recorrente e se constituem em insumos essenciais no seu processo de industrialização. Nos termos do §8º, do art. 63 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, importa consignar ser o entendimento da maioria do Colegiado, que acompanhou a Relatora pelas conclusões, que o conceito de insumo é mais restritivo, podendo ser reconhecido o direito ao crédito de PIS e COFINS nãocumulativos quando o bem ou serviço a ser considerado como insumo estiver estritamente vinculado à produção da mercadoria. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Jorge Olmiro Lock Freire e Rodrigo da Costa Pôssas. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). Fl. 245DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 4 3 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela FAZENDA NACIONAL com fulcro nos artigos 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, buscando a reforma do Acórdão nº 3302002.972 proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento. Na parte de interesse ao presente julgamento, o colegiado a quo reconheceu o direito de crédito da contribuição sobre o frete pago no transporte de insumos entre estabelecimentos da empresa. A Fazenda Nacional alega divergência com relação ao entendimento adotado no acórdão recorrido de que existe previsão legal para crédito de PIS e COFINS nãocumulativos sobre valores de fretes pagos, pelo transporte entre estabelecimentos do mesmo proprietário, de insumos minérios extraídos de minas e enviados a complexos industriais. Sustenta existir direito ao crédito somente com relação ao frete na operação de venda, e quando o ônus for suportado pelo vendedor. Foi dado seguimento ao recurso especial mediante despacho de admissibilidade proferido pelo Presidente da 3ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento, por se ter entendido como comprovada a divergência jurisprudencial. A Contribuinte apresentou contrarrazões ao recurso especial postulando a negativa de provimento. É o Relatório. Fl. 246DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303007.071, de 11/07/2018, proferido no julgamento do processo 10830.721056/200929, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303007.071): "Admissibilidade O recurso especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional atende aos pressupostos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, devendo, portanto, ter prosseguimento. Mérito A discussão principal posta nos autos referese ao conceito de insumos para determinação se pode ser utilizado pela Contribuinte como crédito de PIS e COFINS não cumulativos os gastos incorridos com o pagamento de frete de insumos (minério e matéria prima) entre seus estabelecimentos industriais. A priori, explicitase o conceito de insumos adotado no presente voto, para posteriormente adentrarse à análise dos itens individualmente. A sistemática da nãocumulatividade para as contribuições do PIS e da COFINS foi instituída, respectivamente, pela Medida Provisória nº 66/2002, convertida na Lei nº 10.637/2002 (PIS) e pela Medida Provisória nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833/2003 (COFINS). Em ambos os diplomas legais, o art. 3º, inciso II, autorizase a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda.1 1 Lei nº 10.637/2002 (PIS). Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; [...]. Lei nº 10.8332003 (COFINS). Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...]II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante Fl. 247DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 6 5 O princípio da nãocumulatividade das contribuições sociais foi também estabelecido no §12º, do art. 195 da Constituição Federal, por meio da Emenda Constitucional nº 42/2003, consignandose a definição por lei dos setores de atividade econômica para os quais as contribuições sociais dos incisos I, b; e IV do caput, dentre elas o PIS e a COFINS. 2 A disposição constitucional deixou a cargo do legislador ordinário a regulamentação da sistemática da nãocumulatividade do PIS e da COFINS. Por meio das Instruções Normativas nºs 247/02 (com redação da Instrução Normativa nº 358/2003) (art. 66) e 404/04 (art. 8º), a Secretaria da Receita Federal trouxe a sua interpretação dos insumos passíveis de creditamento pelo PIS e pela COFINS. A definição de insumos adotada pelos mencionados atos normativos é excessivamente restritiva, assemelhandose ao conceito de insumos utilizado para utilização dos créditos do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados, estabelecido no art. 226 do Decreto nº 7.212/2010 (RIPI). As Instruções Normativas nºs 247/2002 e 404/2004, ao admitirem o creditamento apenas quando o insumo for efetivamente incorporado ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, aproximandose da legislação do IPI que traz critério demasiadamente restritivo, extrapolaram as disposições da legislação hierarquicamente superior no ordenamento jurídico, a saber, as Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, e contrariaram frontalmente a finalidade da sistemática da nãocumulatividade das contribuições do PIS e da COFINS. Patente, portanto, a ilegalidade dos referidos atos normativos. Nessa senda, entendese igualmente impróprio para conceituar insumos adotarse o parâmetro estabelecido na legislação do IRPJ Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, pois demasiadamente amplo. Pelo raciocínio estabelecido a partir da leitura dos artigos 290 e 299 do Decreto nº 3.000/99 (RIR/99), poderseia enquadrar como insumo todo e qualquer custo da pessoa jurídica com o consumo de bens ou serviços integrantes do processo de fabricação ou da prestação de serviços como um todo. Em Declaração de Voto apresentada nos autos do processo administrativo nº 13053.000211/200672, em sede de julgamento de recurso especial pelo Colegiado da 3ª Turma da CSRF, o ilustre Conselheiro Gileno Gurjão Barreto assim se manifestou: [...] permaneço não compartilhando do entendimento pela possibilidade de utilização isolada da legislação do IR para alcançar a definição de "insumos" pretendida. Reconheço, no entanto, que o raciocínio é auxiliar, é instrumento que pode ser utilizado para dirimir controvérsias mais estritas. Isso porque a utilização da legislação do IRPJ alargaria sobremaneira o conceito de "insumos" ao equiparálo ao conceito contábil de "custos e despesas operacionais" que abarca todos os custos e despesas que contribuem para a atividade de uma empresa (não apenas a sua produção), o que distorceria a interpretação da legislação ao ponto de tornála inócua e ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; [...] 2 Constituição Federal de 1988. Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: [...] b) a receita ou o faturamento; [...] IV do importador de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar. [...]§ 12. A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão nãocumulativas. (grifouse) Fl. 248DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 7 6 de resultar em indesejável esvaziamento da função social dos tributos, passando a desonerar não o produto, mas sim o produtor, subjetivamente. As Despesas Operacionais são aquelas necessárias não apenas para produzir os bens, mas também para vender os produtos, administrar a empresa e financiar as operações. Enfim, são todas as despesas que contribuem para a manutenção da atividade operacional da empresa. Não que elas não possam ser passíveis de creditamento, mas tem que atender ao critério da essencialidade. [...] Estabelece o Código Tributário Nacional que a segunda forma de integração da lei prevista no art. 108, II, do CTN são os Princípios Gerais de Direito Tributário. Na exposição de motivos da Medida Provisória n. 66/2002, in verbis, afirmase que “O modelo ora proposto traduz demanda pela modernização do sistema tributário brasileiro sem, entretanto, pôr em risco o equilíbrio das contas públicas, na estrita observância da Lei de Responsabilidade Fiscal. Com efeito, constitui premissa básica do modelo a manutenção da carga tributária correspondente ao que hoje se arrecada em virtude da cobrança do PIS/Pasep.” Assim sendo, o conceito de "insumos", portanto, muito embora não possa ser o mesmo utilizado pela legislação do IPI, pelas razões já exploradas, também não pode atingir o alargamento proposto pela utilização de conceitos diversos contidos na legislação do IR. Ultrapassados os argumentos para a não adoção dos critérios da legislação do IPI nem do IRPJ, necessário estabelecerse o critério a ser utilizado para a conceituação de insumos. Diante do entendimento consolidado deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, inclusive no âmbito desta Câmara Superior de Recursos Fiscais, o conceito de insumos para efeitos do art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e do art. 3º, inciso II da Lei 10.833/2003, deve ser interpretado com critério próprio: o da essencialidade. Referido critério traduz uma posição "intermediária" construída pelo CARF, na qual, para definir insumos, buscase a relação existente entre o bem ou serviço, utilizado como insumo e a atividade realizada pelo Contribuinte. Conceito mais elaborado de insumo, construído a partir da jurisprudência do próprio CARF e norteador dos julgamentos dos processos, no referido órgão, foi consignado no Acórdão nº 9303003.069, resultante de julgamento da CSRF em 13 de agosto de 2014: [...] Portanto, "insumo" para fins de creditamento do PIS e da COFINS não cumulativos, partindo de uma interpretação histórica, sistemática e teleológica das próprias normas instituidoras de tais tributos (Lei no. 10.637/2002 e 10.833/2003), deve ser entendido como todo custo, despesa ou encargo comprovadamente incorrido na prestação de serviço ou na produção ou fabricação de bem ou produto que seja destinado à venda, e que tenha relação e vínculo com as receitas tributadas (critério relacional), dependendo, para sua identificação, das especificidades de cada processo produtivo. Nessa linha relacional, para se verificar se determinado bem ou serviço prestado pode ser caracterizado como insumo para fins de creditamento do PIS e da COFINS, impende analisar se há: pertinência ao processo produtivo (aquisição do bem ou serviço especificamente para utilização na prestação do serviço ou na produção, ou, ao menos, para Fl. 249DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 8 7 tornálo viável); essencialidade ao processo produtivo (produção ou prestação de serviço depende diretamente daquela aquisição) e possibilidade de emprego indireto no processo de produção (prescindível o consumo do bem ou a prestação de serviço em contato direto com o bem produzido). Portanto, para que determinado bem ou prestação de serviço seja considerado insumo gerador de crédito de PIS e COFINS, imprescindível a sua essencialidade ao processo produtivo ou prestação de serviço, direta ou indiretamente, bem como haja a respectiva prova. Não é diferente a posição predominante no Superior Tribunal de Justiça, o qual reconhece, para a definição do conceito de insumo, critério amplo/próprio em função da receita, a partir da análise da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo ou à prestação do serviço. O entendimento está refletido no voto do Ministro Relator Mauro Campbell Marques ao julgar o recurso especial nº 1.246.317MG, sintetizado na ementa: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃOCUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações Fl. 250DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 9 8 se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõe se considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido. (REsp 1246317/MG, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/05/2015, DJe 29/06/2015) (grifouse) Portanto, são insumos, para efeitos do art. 3º, II da Lei nº 10.637/2002 e do art. 3º, II da Lei nº 10.833/2003, todos os bens e serviços pertinentes ao processo produtivo e à prestação de serviços, ou ao menos que os viabilizem, podendo ser empregados direta ou indiretamente, e cuja subtração implica a impossibilidade de realização do processo produtivo e da prestação do serviço, objetando ou comprometendo a qualidade da própria atividade da pessoa jurídica. Ainda no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o tema foi recentemente julgado pela sistemática dos recursos repetitivos nos autos do recurso especial nº 1.221.170 PR, no sentido de reconhecer a ilegalidade das Instruções Normativas SRF nºs 247/2002 e 404/2004 e aplicação de critério da essencialidade ou relevância para o processo produtivo na conceituação de insumo para os créditos de PIS e COFINS no regime não cumulativo. Até a presente data da sessão de julgamento desse processo não houve o trânsito em julgado do acórdão do recurso especial nº 1.221.170PR pela sistemática dos recursos repetitivos, pois pendente de julgamento de embargos de declaração interpostos pela Fazenda Nacional. Fazse a ressalva do entendimento desta Conselheira, que não é o da maioria do Colegiado, que conforme previsão contida no art. 62, §2º do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, os conselheiros já estão obrigados a reproduzir referida decisão. A controvérsia em exame gravita em torno da possibilidade de ser considerados como insumos os gastos decorrentes da contratação de fretes de matériasprimas entre estabelecimentos da mesma empresa, de fretes de insumos e de produtos em elaboração para transferência entre estabelecimentos da Contribuinte. Os minerais, principal insumo da produção dos fertilizantes, são extraídos pela Recorrida de minas distantes do complexo industrial, havendo a necessidade de seu transporte, por meio de frete pago a terceira pessoa jurídica, até o local da produção do fertilizante. A Contribuinte sustenta desenvolver atividade econômica em toda a cadeia de produção de fertilizantes, sendo responsável não só pela fabricação do mesmo, como também pela extração dos minerais e o beneficiamento de uma parte dos insumos utilizados no processo produtivo. Por isso, defende que as despesas com frete contratado na aquisição dos insumos, bem como para a realização das transferências de matériasprimas dos estabelecimentos mineradores para as unidades industriais são essenciais para o processo produtivo e confecção do produto fertilizantes. No caso dos autos, temse que a extração dos minerais ocorre em minas da própria Contribuinte que é a produtora dos fertilizantes, sendo que o principal insumo para a fabricação do seu produto são os minerais, portanto, necessários e essenciais à atividade da empresa. Para a movimentação da matériaprima até o estabelecimento onde é produzido o fertilizante, é preciso contratar frete pago a terceira pessoa jurídica. Tal frete, por estar diretamente ligado ao processo produtivo/fabril, deve ser considerado como insumo. Fl. 251DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 10 9 Conforme se verifica da descrição do processo produtivo efetuada pela Recorrida, a mesma atua em toda a cadeia de produção de fertilizantes, sendo responsável pela fabricação do mesmo e também pela extração e beneficiamento de parte dos insumos utilizados no processo produtivo. Traz como exemplo, o concentrado de fosfático pó, que [...] é gerado e encaminhado de sua unidade de Lagamar, em Minas Gerais, para o Complexo Industrial da Paulínia, em São Paulo, onde, agregado a outros insumos, alguns dos quais adquiridos de terceiros, dá origem ao fertilizante, produto final daquela. A transferência de matériasprimas extraídas das minas para as fábricas constituise em etapa essencial do ciclo produtivo, ainda mais quando se considera a distância que separa as unidades mineradoras dos complexos industriais e a diversidade de locais onde as minas estão situadas. Além disso, é característica da atividade da Recorrida a produção do próprio insumo, até mesmo como forma de ter a segurança de não interrupção do processo produtivo dos fertilizantes. Nesse cenário, portanto, mostrase imprescindível a contratação do frete junto à terceira pessoa jurídica para transferência entre estabelecimentos da mesma empresa frete pago em decorrência do transporte dos minerais das minas até o complexo industrial local onde é produzido o fertilizante, inserindose no conceito de insumo. Assim, os valores decorrentes da contratação de fretes de insumos (matérias primas), produtos semielaborados e produtos acabados entre estabelecimentos da própria empresa geram direito aos créditos das contribuições para o PIS e para a COFINS na sistemática nãocumulativa, pois são essenciais ao processo produtivo da Recorrente e se constituem em insumos essenciais no seu processo de industrialização. No mesmo sentido, já se pronunciou essa 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais no julgamento que resultou no Acórdão n.º 9303005.156, de relatoria da nobre conselheira Tatiana Midori Migiyama: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2008 a 30/09/2008 CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na operação” de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo frete na operação de venda”, e não “frete de venda” quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições. CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE MATÉRIASPRIMAS ENTRE ESTABELECIMENTOS Os fretes na transferência de matériasprimas entre estabelecimentos, essenciais para a atividade do sujeito passivo, eis que vinculados com as etapas de industrialização do produto e seu objeto social, devem ser enquadrados como insumos, nos termos do art. 3º, inciso II, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso II, da Lei 10.637/02. Cabe ainda refletir que tais custos nada diferem daqueles relacionados às máquinas de esteiras que levam a matériaprima de um lado para o outro na fábrica para a continuidade da produção/industrialização/beneficiamento de determinada mercadoria/produto. PIS. COFINS. CRÉDITO. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS COM ALÍQUOTA ZERO OU ADQUIRIDOS COM SUSPENSÃO DO PIS E DA COFINS. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 252DF CARF MF Processo nº 10830.721069/200906 Acórdão n.º 9303007.082 CSRFT3 Fl. 11 10 Não há previsão legal para aproveitamento dos créditos sobre os serviços de fretes utilizados na aquisição de insumos não onerados pelas contribuições ao PIS e a Cofins. Por fim, nos termos do §8º, do art. 63 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, importa consignar ser o entendimento da maioria do Colegiado, que acompanhou a Relatora pelas conclusões, que o conceito de insumo é mais restritivo, podendo ser reconhecido o direito ao crédito de PIS e COFINS nãocumulativos quando o bem ou serviço a ser considerado como insumo estiver estritamente vinculado à produção da mercadoria. Diante do exposto, negase provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial da Fazenda Nacional foi conhecido e, no mérito, o colegiado negoulhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 253DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10840.900566/2006-07
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2002
PEDIDO DE CANCELAMENTO DE PER/DCOMP E DE AVALIAÇÃO APENAS DE EXISTÊNCIA DE DÉBITO NA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS DRJ.
Correto o entendimento da DRJ em declinar da análise do pedido de cancelamento de Per/Dcomp por falta de competência (art. 229, III, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria nº 587/2010)
Numero da decisão: 1001-000.688
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa que conheceu parcialmente. Acordam ainda, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Eduardo Morgado Rodrigues (relator) e José Roberto Adelino da Silva que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Edgar Bragança Bazhuni.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Eduardo Morgado Rodrigues - Relator.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente)
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2002 PEDIDO DE CANCELAMENTO DE PER/DCOMP E DE AVALIAÇÃO APENAS DE EXISTÊNCIA DE DÉBITO NA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS DRJ. Correto o entendimento da DRJ em declinar da análise do pedido de cancelamento de Per/Dcomp por falta de competência (art. 229, III, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria nº 587/2010)
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INCOMPETÊNCIA DAS DRJ. Correto o entendimento da DRJ em declinar da análise do pedido de cancelamento de Per/Dcomp por falta de competência (art. 229, III, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria nº 587/2010) Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa que conheceu parcialmente. Acordam ainda, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Eduardo Morgado Rodrigues (relator) e José Roberto Adelino da Silva que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Edgar Bragança Bazhuni. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 84 0. 90 05 66 /2 00 6- 07 Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10840.900566/200607 Acórdão n.º 1001000.688 S1C0T1 Fl. 61 2 Edgar Bragança Bazhuni Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente) Relatório O presente feito tratase de Recurso Voluntário (fl. 40) interposto contra o Acórdão nº 1421.615, proferido pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto/SP (fls. 35 a 38), que, por unanimidade, julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela ora Recorrente. Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: " Tratase de Manifestação de Inconformidade interposta em face do Despacho Decisório, em que foi apreciada a Declaração de Compensação (PER/DCOMP) de fls. 09/l4, por intermédio da qual a contribuinte pretende compensar débito (Cofins) de sua responsabilidade com crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de tributo (IRPJ). Por intermédio do despacho decisório de fl. 01, não foi reconhecido qualquer direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, nãohomologada a compensação declarada no presente processo, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do crédito foi integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, “não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Irresignada, interpôs a contribuinte manifestação de inconformidade de fl. 05, na qual alega, em síntese, que em 26/09/2002, no processo administrativo n° l0840.003522/200203, efetuou pedido de restituição, cumulado com pedido de compensação, no qual pleiteou a restituição de valor pago a maior a titulo de IRPJ, no valor de R$ 3.928,79, compensandose referido montante com outros tributos, dentre eles, a Cofins, relativa ao período de março/2002, no valor de R$ 2.134,86, tendo sido referido pedido deferido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Ademais, informa que, em 25/09/2003, transmitiu a PER/Dcomp n° 27709.32903.250903.1.3.042958, na qual efetuou a compensação do mesmo débito. Assim, solicita o cancelamento do despacho decisório de fl. 01, do presente processo, bem como da PER/Dcomp acima identificada, em face da duplicidade de pedidos. Ao final, requer o acolhimento da presente manifestação de inconformidade para cancelamento do débito fiscal reclamado." Inconformada com a decisão de primeiro grau que indeferiu a sua Manifestação de Inconformidade, a ora Recorrente apresentou o recurso sobre análise apenas reiterando os termos aventados em primeira instância. Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10840.900566/200607 Acórdão n.º 1001000.688 S1C0T1 Fl. 62 3 É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues Relator O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Conforme já narrado, a Recorrente alegou que por erro de fato transmitiu a DCOMP em tela compensado os mesmos débitos que já haviam sido compensados em procedimento anterior, ou seja, a compensação foi realizada em duplicidade. Consequentemente, o débito a que se tentou quitar por esta via já estaria quitado, logo não haveria razão para ser cobrado novamente, devendo ser cancelado. Por sua vez, a DRJ de origem exarou decisão em sentido oposto, determinando que a ela só caberia a análise da eventual existência ou não de crédito suficiente para suportar a compensação pretendida pela DCOMP, a eventualidade de o débito já estar quitados antes da compensação e a consequente inexistência de saldo a ser cobrado seria matéria alheia a sua competência. Ora, inicialmente há que se dizer que eventual erro de fato, como narrado pela Recorrente, no tocante ao objeto principal sobre o qual o despacho decisório SEORT se debruçou, evidentemente, é objeto passível de conhecimento por via de Manifestação de Inconformidade. Notese, que o art. 74 do Decreto 70.235, estabelece a possibilidade de Manifestação de Inconformidade contra a Não Homologação da compensação. Em momento algum tal dispositivo determina quais os pleitos ou situações que poderiam ser abrangidas na Manifestação. Estabelecem, dessa forma, o meio pelo qual o contribuinte exerce o contraditório para esclarecimento acerca de qualquer discordância que tenha do despacho decisório, no caso prático, quanto a inexistência do débito cobrado. Tratase de norma de direito processual que estabelece, apenas, o procedimento e não o direito processual material, mesmo porque, a existência de despacho decisório que expressamente não homologa a suposta compensação vincula a necessidade de apresentação da defesa prevista nos dispositivos acima citados, não havendo a possibilidade de que o contribuinte a impugne por outro meio que não a manifestação apresentada. Em outras palavras, se há despacho decisório a respeito da compensação, há direito a manifestação de conformidade, simples assim. A interpretação do dispositivo supracitado não pode ser feita de forma restritiva, criandose limitações onde a lei não o fez. De outra forma, restringir o conhecimento da Manifestação de Inconformidade à apenas o pleito específico de homologação, não considerando todo o universo de outras circunstâncias possíveis, tais como o presente caso, é um flagrante atentado aos já conhecidos princípios constitucionais do contraditório e ampla defesa. Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10840.900566/200607 Acórdão n.º 1001000.688 S1C0T1 Fl. 63 4 Desta forma, discordo do posicionamento da decisão de piso e entendo que se o contribuinte comprova o erro de fato na ocasião da transmissão da DCOMP em que tentou compensar débito já anteriormente compensado não há que se falar em nova cobrança. Em síntese, a Recorrente alega que em data de 26/09/2002 procedeu a compensação do valor de R$ 3.928,79 por meio do Processo Administrativo nº 10840.003522/200203 (fls. 9 e 10). Posteriormente, em data de 25/09/2003 teria transmitido a PER/DCOMP nº 277009.32903.250903.1.3.042958 (fls. 11 a 16) buscando a compensação do mesmo débito, cuja nãohomologação originou a presente lide. Compulsando a PER/DCOMP em tela notase que o débito indicado para ser quitado por via da compensação era o COFINS referente ao período de apuração de Março de 2002, no importe de R$ 2.134,86. Por sua vez, a análise do Processo Administrativo realizado um ano antes indica que dentre os tributos a serem compensados também está o COFINS de Março de 2002, no mesmo importe de R$ 2.134,86. Do cotejo de ambos os instrumentos, me parece demonstrado que está se compensando o mesmo débito que já fora compensado um ano antes. Ora, a confissão de dívida decorrente da não compensação de débito indicado pelo próprio contribuinte em DCOMP não se traduz em presunção absoluta, isto é, ainda que permita ao fisco promover a cobrança imediata do valor, tal exigência não pode persistir após comprovada a sua insubsistência. De outra forma, o mero erro do contribuinte em declarar um débito já quitado por meio de compensação anterior não justifica a sua cobrança em duplicidade, sob pena de frontal infração ao princípio da legalidade. Assim, uma vez que o contribuinte comprova o erro de fato no oferecimento da DCOMP em tela, afastase qualquer presunção de débito, e deve ser cancelada as exigências em duplicidade. Em face a todo o exposto, VOTO por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, com a consequente reforma da decisão de origem para determinar a inexistência de débitos a serem cobrados da Recorrente em razão da não homologação da compensação em tela. É como voto. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Voto Vencedor Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Redator Designado. Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10840.900566/200607 Acórdão n.º 1001000.688 S1C0T1 Fl. 64 5 No recurso voluntário, a recorrente reitera as alegações apresentadas em sede de primeira instância, ou seja, relata que os pedidos de compensação, que foram feitos em duplicidade e que a presente PER/DCOMP deve ser cancelada, motivo pelo qual alega ser improcedente a decisão da DRJ. Esses argumentos foram fundamentadamente afastados em primeira instância, pelo que peço vênia para transcrever o excerto a seguir do voto condutor do acórdão recorrido, adotandoo desde já como razões de decidir, com base no disposto no § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999 c/c o §3º do art. 57 do RICARF, completandoo ao final: De início, cumpre esclarecer que o Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, aprovado pela Portaria MF n° 095, de 30 de abril de 2007, no que se refere ao caso em exame, dispõe em seu artigo 174, inciso III, que às Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento compete julgar os processos administrativos nos quais tenha sido instaurado, tempestivamente, o contraditório, inclusive os referentes à manifestação de inconformidade do contribuinte quanto à decisão dos Delegados da Receita Federal do Brasil relativa ao indeferimento de pedido de restituição e compensação de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. O Decreto n° 70.235/72, no seu artigo 14, dispõe que a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. No caso de indeferimento de pedidos de compensação ou de restituição, isso significa que o impugnante discorda da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil, verificandose, então, uma lide, um conflito de interesses entre o Fisco e o contribuinte. Convém também consignar que a compensação tributária é uma modalidade de extinção do crédito tributário, mediante a qual se promove o encontro de duas relações jurídicas: (i) a relação jurídica de indébito tributário, na qual o contribuinte tem o direito de exigir, e o Estado tem o dever de restituir determinada quantia ao contribuinte; e (ii) a relação jurídica tributária, na qual o Estado tem o direito de exigir, e o contribuinte o dever de recolher determinada quantia aos cofres públicos (crédito tributário). Assim, em síntese, quando a contribuinte transmite uma Declaração de Compensação, deve, necessariamente, provar um indébito tributário contra a Fazenda Nacional, para extinguir um crédito tributário (débito fiscal) constituído em seu nome, de forma que, o reconhecimento do indébito tributário deve ser o fundamento fático e jurídico de qualquer declaração de compensação. Conforme relatado, o Despacho Decisório da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Ribeirão Preto (fl. 01) não reconheceu qualquer direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, não homologou a compensação declarada no presente processo, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do crédito já havia sido integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, não restando crédito disponível para compensação do débito informado na PER/DCOMP de n° 27709.32903.250903.1.3.042958. Contra esse Despacho a interessada apresentou a manifestação de inconformidade de fl. 05, acompanhada dos documentos de fls. 06/24, na qual informa que, previamente, em 26/09/2002, protocolizou um processo administrativo, sob n° 10840003522/200203, no qual requereu a restituição do valor pago a maior a titulo de IRPJ (código: 2089), do mês de dezembro de 2001, no valor de R$ 3.928,79, cumulado com o pedido de compensação da Cofins (código: 2172), período de apuração: março/2002, no valor de RS 2.134,86. Fl. 64DF CARF MF Processo nº 10840.900566/200607 Acórdão n.º 1001000.688 S1C0T1 Fl. 65 6 Ou seja, segundo a própria manifestação de inconformidade em análise, estaria descaracterizado o objeto da DCOMP formalizada às fls. 09/14, vez que a contribuinte assente que na realidade inexistem o indébito e o débito nela discriminados, tendo sido um equívoco a transmissão, em 25/09/2003, da PER/Dcomp n° 27709.32903.250903.l.3.042958. Dessa forma, a alegação da interessada objetiva tãosomente o cancelamento da P R/Dcomp de n° 27709.32903.250903.1.3.042958 para evitar a cobrança de seu débito, pois, segundo a interessada, tanto o indébito, como o débito, foram objetos de restituição e compensação, respectivamente, no processo administrativo n° 10840003522/200203. Portanto, no que atine aos autos, não há correção a ser feita no despacho decisório de fl. 01, tendo em conta a inobservância de requisito básico para sua formalização, qual seja, a existência de um indébito tributário junto à Fazenda Nacional. Por outro lado, a solicitação da contribuinte de cancelamento do débito de Cofins (código de receita: 2172), período de apuração: março de 2002, no valor de R$ 2.134,86, traduz um pedido de cancelamento da própria PER/DCOMP de fls. 09/14, cuja apreciação, a teor do art. 174 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal e do art.74, § 9°, da Lei n° 9.430, de 27/12/96, não compete à Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. Inclusive, outro óbice, é o fato do débito de Cofins, objeto de cobrança no presente processo, encontrarse declarado em DCTF como compensado mediante a PER/Dcomp de n° 27709.32903.250903.1.3.042958, que é, em verdade, o objeto do despacho decisório de fl. 01, conforme quadro de n° 2, denominado “Identificador do PER/DCOMP”. Em virtude dessas considerações, VOTO pela improcedência da manifestação de inconformidade. Outrossim, ao CARF também falece competência para apreciar pedido de cancelamento da Declaração de Compensação, dado que a apreciação deve ser feita pela unidade local, cabendo a este órgão de julgamento se manifestar em grau de recurso, reexaminando decisão de mérito já proferida. Ante o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, mantendose in totum a decisão de primeira instância. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Fl. 65DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.662126/2012-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Sep 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2007
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL E PROCESSO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA AO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO.
A propositura, pelo contribuinte, de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal, implica renúncia à discussão da matéria na via administrativa.
Numero da decisão: 1201-002.521
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2007 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL E PROCESSO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA AO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. A propositura, pelo contribuinte, de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal, implica renúncia à discussão da matéria na via administrativa.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado.
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CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA AO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. A propositura, pelo contribuinte, de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal, implica renúncia à discussão da matéria na via administrativa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 66 21 26 /2 01 2- 18 Fl. 219DF CARF MF Processo nº 10880.662126/201218 Acórdão n.º 1201002.521 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de processo administrativo decorrente de Pedido de Restituição eletrônico PER/DCOMP, transmitido pelo contribuinte a fim de compensar pretenso saldo credor de CSLL referente ao 4ª trimestre/2007. Por meio do despacho decisório de fls., o pedido foi indeferido, sob a alegação de que o DARF informado como origem do crédito já teria sido integralmente utilizado para quitar outro débito declarado. O contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade. Alega, em síntese: (i) que o crédito é legítimo, uma vez que, por exercer atividade consistente na prestação de serviço hospitalar, faria jus ao direito de aplicação do percentual de presunção do lucro de 12% para CSLL, e não de 32%, como equivocadamente considerou nas suas apurações; e (ii) que retificou as declarações (DIPJ e DCTF), ainda que em momento posterior ao despacho decisório. A DRJ, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, por entender que o contribuinte não faria jus ao enquadramento do percentual de presunção de 12%. Cientificada da decisão de piso, a empresa interpôs recurso voluntário por meio do qual reitera as razões de defesa, bem como alega que possui decisão judicial que reconheceu o direito de aplicar o percentual de 12%, e não 32%. É o relatório. Fl. 220DF CARF MF Processo nº 10880.662126/201218 Acórdão n.º 1201002.521 S1C2T1 Fl. 4 3 Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa Relatora O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1201002.511, de 21/09/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.662116/2012 74, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1201002.511): Conforme visto no tópico do relatório, o presente litígio diz respeito ao enquadramento ou não do objeto social da Recorrente no conceito de serviços hospitalares. Assim, caso seja verificado que a empresa presta serviço hospitalar, cabível o reconhecimento do direito creditório. Caso contrário, ou seja, uma vez verificado que a atividade desenvolvida é outra, correto o indeferimento do pedido de restituição. Nesse contexto, e por mais esforços que a autoridade fiscal responsável pelo lançamento e a decisão da DRJ tenham empreendido no sentido de afastar o enquadramento da atividade da empresa enquanto serviço hospitalar, o fato é que a Recorrente ajuizou ação judicial que tem por objeto justamente o reconhecimento do direito de se valer do referido percentual de 8% às suas atividades. De fato, o contribuinte possui sentença que deu provimento à ação judicial por ele ajuizada e, inclusive, já transitou em julgado o reconhecimento do direito de se valer do percentual de 8% para fins de lucro presumido. Abaixo copio o quadro do movimento do processo disponibilizado eletronicamente e transcrevo o resumo da demanda, respectivamente: PROCESSO 002259987.2013.4.03.6100 MOVIMENTAÇÃO PROCESSUAL Todas as Movimentações Seq Data Descrição 40 23/01/2015 ARQUIVAMENTO DOS AUTOS Receb.Guia: 542/2014 (7a. Vara) Pac.: 610007000412 39 05/12/2014 BAIXA DEFINITIVA ARQUIVO conf. Guia n.542/2014 (7a. Vara) Fl. 221DF CARF MF Processo nº 10880.662126/201218 Acórdão n.º 1201002.521 S1C2T1 Fl. 5 4 38 28/11/2014 DECURSO DE PRAZO Nome da Parte: AUTORA Complemento Livre: DESPACHO DE FLS. 91 37 30/10/2014 DISPONIBILIZACAO D. ELETRONICO DE DESPACHO/DECISAO ,PAG. 39/41 36 08/10/2014 REMESSA PARA PUBLICACAO DE DESPACHO/DECISAO 35 08/10/2014 RECEBIMENTO DO JUIZ C/ DESPACHO/DECISAO 34 06/10/2014 AUTOS COM (CONCLUSAO) JUIZ PARA DESPACHO/DECISAO 33 06/10/2014 TRANSITO EM JULGADO Data do Último Prazo: 23/09/2014 Complemento Livre: PARA PARTES 32 27/08/2014 RECEBIMENTO DA FAZENDA NACIONAL 31 27/08/2014 RECEBIMENTO NA SECRETARIA 30 18/08/2014 REMESSA EXTERNA PROCURADORIA DA FAZENDA NACIONAL VISTA 29 12/08/2014 DECURSO DE PRAZO Nome da Parte: AUTORA Complemento Livre: 28 16/07/2014 DISPONIBILIZACAO D. ELETRONICO DE SENTENCA ,PAG. 35/55 27 02/07/2014 REMESSA PARA PUBLICACAO DE SENTENCA Tratase de ação ordinária, com pedido de tutela antecipada, em que postula a autora a inexigibilidade do percentual de presunção de 32% na aplicação do Imposto de Renda sobre a Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido pelo regime de apuração do lucro presumido às atividades hospitalares, reconhecendose como corretos os percentuais de 8% e 12%, respectivamente.Alega que, por se tratar de pessoa jurídica prestadora de serviços médicos de pronto socorro junto ao Hospital São Luiz Unidade Itaim, atendendo em média 7.600 pacientes por mês, tem direito ao recolhimento dos tributos pelas alíquotas menores asseguradas aos prestadores de serviços hospitalares.Sustenta que a Receita Federal vinha reconhecendo às clínicas médicas o enquadramento tributário na qualidade de prestadores de serviços hospitalares, entendimento que foi alterado após a edição do Ato Declaratório Interpretativo 19/2007 e da Instrução Normativa RFB n 791/2007, com as alterações da IN n 1234/2012, que restringiram a possibilidade de enquadramento da grande maioria das clínicas na tributação presumida da renda sob os percentuais minorados.Entende que a Receita Federal não poderia criar um novo conceito de serviços hospitalares dissociado do Direito Privado, o que determina sejam afastados os atos impugnados. Como se nota, a discussão que foi travada no processo judicial direito à aplicação do percentual de 8% para fins de IRPJ no lucro presumido tem o mesmo objeto do que se postula no recurso voluntário ora interposto. Fl. 222DF CARF MF Processo nº 10880.662126/201218 Acórdão n.º 1201002.521 S1C2T1 Fl. 6 5 Nesses casos, cabível a aplicação da Súmula CARF nº 1, que assim dispõe: importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Em razão, então, da concomitância apontada, NÃO CONHEÇO do RECURSO VOLUNTÁRIO. É como voto. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 223DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19647.007558/2006-42
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Data do fato gerador: 14/07/2004
CRÉDITOS BÁSICOS. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC.
Nos termos da súmula 411 do STJ, é devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco.
Não é esta, contudo, a hipótese dos presentes autos, em que fora pleiteada a incidência da taxa SELIC desde a data de entrada do insumo até o momento da apresentação do processo.
Numero da decisão: 3002-000.291
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões o conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente
(assinado digitalmente)
Maria Eduarda Alencar Câmara Simões - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Alan Tavora Nem, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Relatora) e Carlos Alberto da Silva Esteves.
Nome do relator: MARIA EDUARDA ALENCAR CAMARA SIMOES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Data do fato gerador: 14/07/2004 CRÉDITOS BÁSICOS. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. Nos termos da súmula 411 do STJ, é devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco. Não é esta, contudo, a hipótese dos presentes autos, em que fora pleiteada a incidência da taxa SELIC desde a data de entrada do insumo até o momento da apresentação do processo.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões o conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard - Presidente (assinado digitalmente) Maria Eduarda Alencar Câmara Simões - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Alan Tavora Nem, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Relatora) e Carlos Alberto da Silva Esteves.
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SELIC. Recorrente GRÁFICA A ÚNICA LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 14/07/2004 CRÉDITOS BÁSICOS. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. Nos termos da súmula 411 do STJ, é devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco. Não é esta, contudo, a hipótese dos presentes autos, em que fora pleiteada a incidência da taxa SELIC desde a data de entrada do insumo até o momento da apresentação do processo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões o conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente (assinado digitalmente) Maria Eduarda Alencar Câmara Simões Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Alan Tavora Nem, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Relatora) e Carlos Alberto da Silva Esteves. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 64 7. 00 75 58 /2 00 6- 42 Fl. 224DF CARF MF Processo nº 19647.007558/200642 Acórdão n.º 3002000.291 S3C0T2 Fl. 225 2 Por bem relatar os fatos, adoto o relatório da decisão da DRJ, à fl. 194 dos autos: Tratase de "Pedido Eletrônico de Ressarcimento PER" (fls. 01/13) de IPI, no valor de R$ 7.837,53, relativo ao 2° trimestre de 2004, transmitido em 14/07/2004. Encaminhado o processo para a realização de diligência, após anexação das folhas 14/62, o auditor apresentou suas conclusões no Termo de Informação Fiscal de folhas 63/78. Desta forma, foi proferido o Despacho Decisório de folha 81 indeferindo o pedido de ressarcimento. Em 24/01/2007 (Aviso de Recebimento — AR à folha 83), a contribuinte foi cientificada do referido Despacho Decisório, apresentando em 22/02/2007 a Manifestação de Inconformidade de folhas 84/90, sendo essas as suas razões, em síntese: • Inicialmente, requer a suspensão da exigibilidade dos débitos, nos termos dos parágrafos 9° ao 11 do art. 74 da Lei n° 9.430, de 1996; • A previsão legal para aplicação da taxa SELIC na compensação e restituição encontrase no § 4° do art. 39 da Lei n° 9.250, de 1995, que em momento algum especifica que somente incidirá sobre a compensação de valores recolhidos indevidamente ou a maior; • A SELIC deve ser aplicada ante a demora da Receita Federal em apreciar o seu pedido de compensação, transcrevendo ementas de acórdãos do Conselho de Contribuintes que entende corroborar seus argumentos. Em face da transferência de competência para julgamento prevista no anexo Vda Portaria SRF n° 179, de 13 de fevereiro de 2007, o presente processo foi encaminhado a esta Delegacia de Julgamento. Em sua manifestação de inconformidade, o contribuinte requereu, além do reconhecimento do direito à aplicação a taxa SELIC sobre o alegado crédito de IPI, a reunião dos 28 processos no de nº 19647.006788/200694, gerados em decorrência do pleito de ressarcimento do IPI referente ao período do 1º trimestre de 1999 até o 2º trimestre de 2005, alegando a necessidade de evitar desordens e decisões conflitantes nos processos. Juntou, com a defesa, atos constitutivos e de representação da empresa (fls. 182/188). Ao analisar o caso, a DRJ entendeu, por unanimidade de votos, indeferir o pedido de ressarcimento, conforme decisão que restou assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 14/07/2004 CRÉDITOS BÁSICOS. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. Incabível atualização monetária ou juros de mora incidentes sobre o eventual valor a ser objeto de ressarcimento, por ausência de previsão legal. Fl. 225DF CARF MF Processo nº 19647.007558/200642 Acórdão n.º 3002000.291 S3C0T2 Fl. 226 3 Solicitação indeferida Em seus fundamentos, o acórdão (fls. 192/200) consignou que, nos termos da legislação, o crédito tributário cuja compensação não foi homologada encontrase com a exigibilidade suspensa. Afirmou, ainda, que não há previsão legal para incidência de atualização monetária para ressarcimento de créditos escriturais de IPI. Tal atualização está prevista para os casos de indébito tributário (restituição), e não para ressarcimento de quantias que foram devidas, porém devolvidas em razão da não cumulatividade do imposto. Estender a previsão existente para o caso em apreço, segundo entendeu, feriria o princípio da legalidade. O contribuinte foi intimado acerca desta decisão em 20/02/2008 (vide AR à fl. 220 dos autos) e, insatisfeito com o seu teor, interpôs, em 03/03/2008, Recurso Voluntário (fls. 204/218). Em seu recurso, além dos argumentos já apresentados na manifestação de inconformidade, frisou que o acórdão merece reforma no ponto em que afirma não haver previsão legal para aplicação da correção monetária ao caso em apreço, visto que se deve utilizar da analogia, nos termos do artigo 108, I, do CTN, para aplicar as leis nº 9.250/95 e 9.430/96, atendendo, assim, ao princípio constitucional da isonomia. Em relação ao princípio da legalidade, arguiu estar a autoridade administrativa ferindoo ao negar aplicação ao artigo 108, I, do CTN, que fundamenta a aplicação das supra referidas leis. Pediu, ao fim, provimento do recurso para incluir sobre o alegado crédito de IPI a taxa SELIC. Não foram apresentados novos documentos. Os autos, então, vieramse conclusos para fins de análise do Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte. É o breve relatório. Voto Conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões Relatora: O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Consoante acima narrado, a discussão objeto da presente demanda versa tão somente sobre a aplicação da taxa SELIC sobre créditos escriturais de IPI a serem ressarcidos. Como é cediço, este assunto foi objeto do Recurso Especial nº 1.035.847/RS, julgado conforme procedimentos previsto para os Recursos Repetitivos, conforme teor a seguir colacionado: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. Fl. 226DF CARF MF Processo nº 19647.007558/200642 Acórdão n.º 3002000.291 S3C0T2 Fl. 227 4 “1. A correção monetária não incide sobre os créditos de IPI decorrentes do princípio constitucional da não cumulatividade (créditos escriturais), por ausência de previsão legal. 2. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito oriundo da aplicação do princípio da não cumulatividade, descaracteriza referido crédito como escritural, assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil. 3. Destarte, a vedação legal ao aproveitamento do crédito impele o contribuinte a socorrerse do Judiciário, circunstância que acarreta demora no reconhecimento do direito pleiteado, dada a tramitação normal dos feitos judiciais. [...] Ou seja, por meio deste REsp, restou concluído que o direito à correção monetária surge na medida em que tenha havido oposição por parte da Administração Pública, seja administrativa ou normativa, quanto à utilização dos créditos escriturais. Sedimentando este entendimento, foi aprovada a Súmula nº 411, do STJ, in verbis: "É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco" Destaquese, outrossim, que o STJ já pacificou este entendimento inclusive para outros créditos escriturais que não os de IPI. É o que se extrai da decisão proferida pelo STJ no REsp nº 1.203.802/RS, relacionada a créditos de PIS e COFINS: “1. O regramento específico para os créditos de PIS e Cofins apurados na forma do art. 3º das Leis 10.637∕02 e 10.833∕03 só permite que sejam deduzidos do montante a ser pago a título da própria contribuição. No entanto, havendo saldo credor acumulado ao final do trimestre, é possível a compensação com outros tributos administrados pela Receita Federal do Brasil, conforme autoriza o art. 16 da Lei 11.116∕2005. 2. A Primeira Seção do STJ, no julgamento do REsp 1.035.847∕RS (assentada de 24.6.2009), submetido ao rito dos recursos repetitivos (art. 543C do CPC), pacificou o entendimento de que somente é devida a correção monetária dos créditos escriturais de IPI nos casos em que o direito ao creditamento não foi exercido no momento oportuno, em razão de óbice normativo instituído pelo Fisco. O mesmo raciocínio aplicase aos créditos escriturais de PIS e Cofins obtidos na forma do art. 3º das Leis 10.637∕2002 e 10.833∕2003, já que não há previsão legal que admita sua correção monetária.” (grifei) Sendo assim, para que seja reconhecida a incidência da SELIC sobre os créditos escriturais, é imprescindível que reste configurada no caso concreto sob análise a resistência do Fisco, seja administrativa, seja normativa, acerca da utilização de tais créditos. Ocorre que, ao analisar o caso concreto objeto dos presentes autos, verificase que não há que se falar em tal resistência. Para que não reste qualquer dúvida quanto ao aqui exposto, transcrevo a seguir passagem do termo de informação fiscal constante de fls. 133/138 dos autos: Antes de iniciar a demonstração da correta reconstituição da escrita fiscal do IPI, cabe destacar que o contribuinte indevidamente pleiteou em seus processos juros compensatórios, a título da taxa SELIC, como se tivesse havido restituição (nos casos de pagamento indevido ou a maior). O contribuinte, apesar de não ter se creditado de tais juros compensatórios na sua escrita fiscal, ao apresentar o processo Fl. 227DF CARF MF Processo nº 19647.007558/200642 Acórdão n.º 3002000.291 S3C0T2 Fl. 228 5 + incluiu tal acréscimo sobre o valor de cada crédito original, como se a Fazenda Nacional estivesse em mora com ele desde a data de entrada do insumo industrial. Conforme expresso nos art. 147 do RIPI/98 e art. 164 do RIPI/2002, as hipóteses de crédito do IPI não incluem qualquer forma de juros compensatórios referentes aos créditos escriturados na apuração do IPI. O contribuinte somente pode creditarse dos valores autorizados por lei, além do mais, sem previsão legal autorizativa, não pode o contribuinte julgarse credor de qualquer parcela de juros para os créditos do IPI acumulados na escrita fiscal. (...) Logo, ao considerar todas as razões expostas, comprovase incabível o procedimento adotado pelo contribuinte de pleitear atualização monetária/juros compensatórios desde a data de entrada do insumo até o momento da apresentação do processo. Com esse mecanismo de cálculo, ele consegue beneficiarse de sua própria demora em protocolar o processo, o que, sem dúvida, é algo inadmissível à luz da legislação tributária. Como se vê, a incidência da SELIC pretendida pelo contribuinte não é aquela incidente deste o protocolo do pedido de ressarcimento até o julgamento final que lhe for favorável, mas sim aquela incidente desde a data de entrada do insumo até o momento da apresentação do processo. Percebese, portanto, que as decisões e súmula do STJ acima colacionadas não protegem tal situação. Ao contrário, a refutam, em razão da inexistência de previsão legal para a sua concessão. Como visto, deverá incidir a SELIC tão somente nos casos em que tenha a fiscalização tenha apresentado óbice ao usufruto do crédito. Sobre o tema, trago à colação lição do Conselheiro João Carlos Cassuli Junior, extraída do Acórdão n.º 3402002.370: Como dito, embora o julgado transcrito tenha sido proferido em sede de IPI, a verdade é que o raciocínio se aplica aos créditos escriturais como um todo, no sentido de que, havendo permissão legal para tomada dos créditos e o contribuinte não os escriturou no devido tempo, por sua própria mora ou omissão, não fará jus aos juros e correção, pois que não pode imputar ao Poder Público uma penalização que decorre de sua própria inércia. No entanto, o inverso também é verdadeiro, na medida em que, havendo oposição da Administração Tributária, no tocante ao direito de escriturar determinados créditos, ou pela sua diminuição por inserção indevida de “débitos” em sua base de cálculo, inibindo o contribuinte de lançálos no tempo oportuno ou obrigandoo a correr o risco de glosa ou mesmo de indeferimento de créditos acumulados, forçandoo, com isso, a buscar guarida num processo litigioso, administrativo ou judicial, será então debitada a mora ao Poder Público, que dessa forma, deverá permitir a incidência de SELIC sobre os créditos que até então tinham seu registro vedado, por norma expressa ou oposição na interpretação dada pela Administração Pública. (Grifos apostos). Da conclusão Fl. 228DF CARF MF Processo nº 19647.007558/200642 Acórdão n.º 3002000.291 S3C0T2 Fl. 229 6 Diante das razões acima expostas, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) Maria Eduarda Alencar Câmara Simões Relatora Fl. 229DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.928042/2009-49
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 15/09/2003
DILIGÊNCIA. PEDIDO. INDEFERIMENTO.
Indefere-se pedido de diligência quando sua realização revele-se prescindível para a formação de convicção pela autoridade julgadora.
INTIMAÇÃO PESSOAL DE PATRONOS DO CONTRIBUINTE. DESCABIMENTO.
O processo administrativo fiscal federal não prevê a possibilidade de a intimação dar-se na pessoa do patrono do contribuinte, tampouco o Ricarf apresenta regramento nesse sentido.
SUSTENTAÇÃO ORAL. TURMAS EXTRAORDINÁRIAS. REGRAMENTO PRÓPRIO. REQUISITOS. NÃO CUMPRIMENTO.
Se o contribuinte deixa de atentar para os requisitos inerentes ao pedido de sustentação oral, resta impossibilitada a hipótese de atendimento do pleito formulado às Turmas Extraordinárias do Carf.
DECADÊNCIA. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. DCTF.
Embora tenha o contribuinte deixado de tratar em seu recurso voluntário sobre a decadência em face a homologação tácita do crédito tributário declarado em DCTF, esta matéria poderá ser reapreciada pelo Carf, visto tratar-se de matéria de ordem pública.
RECURSO VOLUNTÁRIO. ADOÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA REPRODUÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO.
Registrando o relator que as partes não apresentaram novas razões de mérito perante o Carf e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida, é facultado a transcrição dos termos da decisão de primeira instância, como fundamento para decidir a controvérsia.
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/COFINS. EXTINÇÃO.
O direito de pleitear a restituição extingue-se com o decurso do prazo de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário.
PER/DCOMP. PAGAMENTO A MAIOR. DCTF RETIFICADORA. HIPÓTESE. TRANSMITIDA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO E DO PRAZO DE 5 ANOS DO FATO GERADOR.
Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais -DCTF- retificadora transmitida após a ciência do Despacho Decisório, com objetivo de reduzir o valor do débito ao qual o pagamento estava integralmente alocado e depois de transcorrido cinco anos para pleito da restituição não gera efeitos jurídicos para a compensação pleiteada por meio da apresentação de Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação -Per/Dcomp-, em face da decadência do referido direito.
Constatando-se, conforme evidencia a documentação acostada, inclusive, no recurso voluntário, que sequer tem-se notícia que o contribuinte apresentou, ainda que a destempo, DCTF retificadora para tal finalidade, resta impossibilitada a restituição do crédito que alega possuir quando da apresentação de Per/Dcomp.
Numero da decisão: 3001-000.473
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para rejeitar a diligência suscitada e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 15/09/2003 DILIGÊNCIA. PEDIDO. INDEFERIMENTO. Indeferese pedido de diligência quando sua realização revelese prescindível para a formação de convicção pela autoridade julgadora. INTIMAÇÃO PESSOAL DE PATRONOS DO CONTRIBUINTE. DESCABIMENTO. O processo administrativo fiscal federal não prevê a possibilidade de a intimação darse na pessoa do patrono do contribuinte, tampouco o Ricarf apresenta regramento nesse sentido. SUSTENTAÇÃO ORAL. TURMAS EXTRAORDINÁRIAS. REGRAMENTO PRÓPRIO. REQUISITOS. NÃO CUMPRIMENTO. Se o contribuinte deixa de atentar para os requisitos inerentes ao pedido de sustentação oral, resta impossibilitada a hipótese de atendimento do pleito formulado às Turmas Extraordinárias do Carf. DECADÊNCIA. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. DCTF. Embora tenha o contribuinte deixado de tratar em seu recurso voluntário sobre a decadência em face a homologação tácita do crédito tributário declarado em DCTF, esta matéria poderá ser reapreciada pelo Carf, visto tratarse de matéria de ordem pública. RECURSO VOLUNTÁRIO. ADOÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA REPRODUÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO. Registrando o relator que as partes não apresentaram novas razões de mérito perante o Carf e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida, é AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 92 80 42 /2 00 9- 49 Fl. 210DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 211 2 facultado a transcrição dos termos da decisão de primeira instância, como fundamento para decidir a controvérsia. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/COFINS. EXTINÇÃO. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário. PER/DCOMP. PAGAMENTO A MAIOR. DCTF RETIFICADORA. HIPÓTESE. TRANSMITIDA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO E DO PRAZO DE 5 ANOS DO FATO GERADOR. Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF retificadora transmitida após a ciência do Despacho Decisório, com objetivo de reduzir o valor do débito ao qual o pagamento estava integralmente alocado e depois de transcorrido cinco anos para pleito da restituição não gera efeitos jurídicos para a compensação pleiteada por meio da apresentação de Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação Per/Dcomp, em face da decadência do referido direito. Constatandose, conforme evidencia a documentação acostada, inclusive, no recurso voluntário, que sequer temse notícia que o contribuinte apresentou, ainda que a destempo, DCTF retificadora para tal finalidade, resta impossibilitada a restituição do crédito que alega possuir quando da apresentação de Per/Dcomp. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para rejeitar a diligência suscitada e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante. Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão 1635.267, da 13ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo 1 DRJ/SP1 que, em sessão de julgamento realizada no dia 12.12.2011, julgou improcedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório pleiteado no Per/Dcomp 0916.49014.070705.1.7.048883. Da síntese dos fatos Fl. 211DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 212 3 Por bem sintetizar os fatos, transcrevo o relatório do acórdão recorrido (efls. 42 a 50), verbis: Relatório 1. Trata o presente processo de Declaração de Compensação apresentada pelo Contribuinte em meio eletrônico (PER/DCOMP nº 20916.49014.070705.1.7.048883), na data de 07/07/05 (página 1 PER/DCOMP), pela qual pretende quitar os débitos de PIS 69121, referente à competência de jun05, com supostos créditos decorrentes de recolhimento indevido realizado por meio do DARF de 15/09/2003, no valor de R$ 10.112,93 (código de receita: 6912). 2. Apreciando o pedido formulado, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Administração Tributária em São Paulo (DERAT/SPO) emitiu o Despacho Decisório de fls. 9, datado de 20/04/09, no qual pronunciouse pela NÃO HOMOLOGAÇÃO, por inexistência de crédito da compensação declarada. 3. Cientificada, em 28/04/09, da solução dada à declaração de compensação apresentada, conforme informação constante às fls. 10, a Insurgente, por intermédio de representante constituído, interpôs a Manifestação de Inconformidade de fls. 11 a 13, tempestivamente, conforme fls. 41, com a juntada de documentos de fls. 14 a 40, apresentando, resumidamente, as seguintes alegações: 3.1. O valor do crédito compensado existe, é legítimo e válido, uma vez que deriva de apuração constante no Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (DACON), referente ao ano calendário 2003/3º trimestre (ago). 3.2. Ademais, informa que, por lapso, deixou de apresentar a devida retificação da DCTF respectiva, para proceder a alteração do campo débito apurado do valor informado de R$ 17.788,69, para o quanto entendido correto, correspondente a R$ 7.675,76. 3.3. Diante do quanto alegado, no intuito de regularizar o crédito defendido, comprometese a retificar a DCTF em questão requerendo, para tanto, o prazo de 45 dias úteis. É o relatório. Da ementa da decisão recorrida A 13ª Turma da DRJ/SP1, ao julgar improcedente a manifestação de inconformidade, exarou o citado acórdão de manifestação de inconformidade, cuja ementa foi vazada nos seguintes termos, verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 15/09/2003 Ementa: Fl. 212DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 213 4 DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. É requisito indispensável ao reconhecimento da compensação não homologada a comprovação dos fundamentos da existência e a demonstração do montante do crédito que lhe dá suporte, sem o que não pode ser admitida. A mera alegação da existência do crédito, desacompanhada de elementos cabais de prova quanto aos motivos determinantes das alterações nos débitos confessados originalmente por intermédio da DCTF, não é suficiente para reformar a decisão não homologatória de compensação. DCOMP. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Considerando que o DARF indicado no PER/DCOMP (Pedido de Ressarcimento ou Restituição / Declaração de Compensação) como origem do crédito foi totalmente utilizado para quitar outro débito do Contribuinte, a compensação não poderá ser homologada. ALTERAÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PAGAMENTO HOMOLOGADO TACITAMENTE. IMPOSSIBILIDADE. Crédito tributário definitivamente constituído e extinto pelo pagamento em virtude do transcurso do lustro previsto no § 4º, art. 150 do CTN, não é passível de alteração pelo Contribuinte e nem pela Administração Tributária. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Da ciência O contribuinte, conforme depreendese da "INTIMAÇÃO Nº 139/2012" (efl. 51) e do Aviso de Recebimento AR (efl. 52), conheceu do teor do acórdão vergastado em 26.01.2012, razão pela qual, irresignado com a decisão recorrida, em 24.02.2012, protocola, perante a Derat/SP, o presente recurso voluntário, acompanhados de demais documentos, é o que demonstra o carimbo constante em sua "Folha de Rosto" (efls. 53 a 206). Do recurso voluntário Sintetizo os argumentos de defesa apresentado no recurso voluntário, identificando, também, os documentos nele juntados. Depois de historicizar os fatos inerentes ao seu pedido de restituição da contribuição ao PIS, cumulado com o de compensação e sua negativa por parte do colegiado a quo, o recorrente argumenta em sua defesa, que: 1 desde o ano de 2003, está sujeito à incidência da contribuição ao PIS determinada sobre a sistemática não cumulativa, conforme prevê a Lei 10.637 de 2002, estando obrigado, portanto, à apuração mensal de débitos e créditos relativamente a tal contribuição; Fl. 213DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 214 5 2 apesar de o regime não cumulativo do PIS ter sido estabelecido a partir de dezembro de 2002, foi somente no ano de 2004 que passouse, segundo a IN SRF 387 de 2004, a exigir a entrega do Dacon relativamente aos quatro trimestres do ano de 2003; 3 somente após revisar seus procedimentos para entrega do Dacon respectivo é que constatou que valor do PIS devido para o período era inferior àquele originalmente declarado em DCTF; 4 por equívoco não retificou a respectiva DCTF, de modo que o valor pago indevidamente naquele período constaria nas bases de dados da RFB como devido; 5 na Ficha 04 da mencionada Dacon, declarou a composição da base de cálculo dos créditos que apurou, os quais se lastrearam na aquisição de bens utilizados como insumos, nas despesas com energia elétrica, com aluguéis de prédios locados de pessoas jurídicas e com financiamentos de empréstimos, além dos encargos com depreciação; 6 os mencionados créditos decorrentes das aquisições de insumos referiam se às compras de produtos para industrialização, industrializações efetuadas por encomenda para si e aquisições de material de uso consumo realizadas no período, conforme consta das notas fiscais selecionadas por amostragem, ora anexadas, do Resumo de CFOP do Livro Registro de Entrada e do arquivo do Sintegra do período (Docs. 09, 10 e 11); 7 referidos documentos comprovam a legitimidade dos créditos que apurou, pois que os bens adquiridos foram e aplicados em seu processo produtivo, enquadrandose no conceito de insumo, à exceção dos materiais de uso e consumo, que optou por efetuar o pagamento com a inclusão da multa e dos juros, conforme Darf (Doc. 12); 8 quanto às despesas com energia elétrica, na época apropriava apenas os créditos relativos à produção, conforme razão contábil, pagas conforme o valor constante na respectiva nota fiscal e escrituradas no LRE (Docs. 13/14); 9 quanto às despesas com aluguéis, tais valores são também legítimos, líquidos e certos por decorrerem de pagamento a pessoa jurídica, pela locação do prédio no qual desempenha suas atividades, conforme demonstra o respectivo contrato, bem como sua contabilidade (Docs. 15/16); 10 os créditos de despesas de financiamento se encontram devidamente comprovados pelos documentos que à época deram azo às operações de arrendamento mercantil, conforme se depreende do razão contábil da conta relacionada (Doc. 17); 11 os créditos com os encargos de depreciação do ativo imobilizado foram calculados e regularmente contabilizados (Docs. 18/19); 12 os documentos ora juntados não se tratam de novas provas, pois tratamse de meros detalhamentos do crédito já demonstrado na manifestação de inconformidade, com a apresentação do Dacon. Não obstante, mencionese que o Carf já se manifestou pela possibilidade de juntada de provas em fase recursal, por aplicação do principio da verdade material, ao qual o processo administrativo está intrinsecamente subsumido; 13 a jurisprudência no âmbito administrativo garante que o crédito pago indevidamente pelo contribuinte seja compensado. Cita legislação e jurisprudência; Fl. 214DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 215 6 14 o mero erro formal, consubstanciado na não retificação da DCTF à época não descaracterizar o direito material legalmente atribuído, devendolhe ser garantida a recuperação, mediante compensação, dos valores pagos a maior em virtude do não cômputo dos créditos legais; 15 as declarações a que está obrigada a apresentar, como, por exemplo, a DCTF, DIPJ, etc., nada mais são do que obrigações acessórias mediante as quais o contribuinte declara as suas informações econômicofiscais. Assim, a falta ou a incorreção do preenchimento do formulário não tem o condão de criar ou extinguir direitos, já que tal nada mais é que um meio para o Fisco "agilizar" o procedimento fiscalizatório; 16 é pacifica a jurisprudência do Carf em admitir que a verdade material deve prevalecer em detrimento da formal quando há erro de preenchimento em DCTF, ainda mais que referido equívoco não causou prejuízo ao Erário Público. 17 acaso necessário, solicita a conversão do julgamento em diligência para que se comprove a existência da totalidade do crédito pleiteado. Formula quesitos a serem respondidos pelas autoridades fiscais; 18 seja intimada, na pessoa de seu procurador/patrono, para fins de realizar sustentação oral. Diante do alegado, requer o provimento do recurso e consequente deferimento do direito creditório pleiteado, homologandose a compensação realizada extinguindo respectivo crédito tributário. Juntamente com a presente peça recursal, o contribuinte apresenta: DOC. 01 Cópia autenticada do Contrato Social e alterações posteriores; DOC. 02 Cópia autenticada do instrumento de procuração pública; DOC. 03 Cópia autenticada do documento do Representante Legal; DOC. 04 DARF de recolhimento da Contribuição para o PIS (8109); DOC. 05 Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF); DOC. 06 Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (DACON); DOC. 07 PERD/DCOMP; DOC. 08 Memória de cálculo do crédito de PIS; DOC. 09 Notas fiscais de aquisição de insumos; DOC. 10 Resumo de CFOP do Livro Registro de Entradas (LRE); DOC. 11 Arquivo do SINTEGRA relativo As entradas de insumos; DOC. 12 DARF de recolhimento do valor inconteste; DOC. 13 Razão contábil da conta de despesas com energia elétrica; DOC. 14 Nota fiscal de aquisição de energia elétrica; DOC. 15 Contrato de locação de bem imóvel firmado com pessoa jurídica; DOC. 16 Razão contábil da conta de despesas com aluguel; DOC. 17 Razão contábil da conta de arrendamento mercantil; DOC. 18 Memória de cálculo de encargos de depreciação; e DOC. 19 Razões contábeis das contas de encargos de depreciação. Do encaminhamento Em razão disso, os autos ascenderam ao Carf em 06.01.2014 (efl. 208), que, na forma regimental, foi distribuído e sorteado para manifestação deste colegiado extraordinário da 3ª Seção, cabendo a este conselheiro o processamento do presente feito. É o relatório. Fl. 215DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 216 7 Voto Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Da competência para julgamento do feito Observo que, em conformidade com o prescrito no artigo 23B do Anexo II da Portaria MF 343 de 2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Ricarf, com redação da Portaria MF 329 de 2017, este colegiado é competente para apreciar o presente feito. Da tempestividade O recurso voluntário foi juntado aos autos em 24.02.2012, depois da ciência ocorrida em 26.01.2012; portanto, a petição é tempestiva e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos na legislação de regência, de modo que dela conheço. Do pedido de diligência Quanto ao pedido de diligência efetuado pelo recorrente, para melhor apuração do crédito tributário informado e, por consequência, sua habilitação para a compensação pleiteada, entendo que todos os elementos necessários à formação da convicção deste julgador se encontram presentes nos autos. Destarte, aplicase o artigo 18 do Decreto 70.235 de 06.03.1972, que dispõe que a "autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis". Embora o comando legal inserido na norma em referência esteja direcionado ao julgador administrativo de primeira instância, entendo também aplicável a esta instância recursal diante de eventual necessidade de esclarecimento de fatos necessários ao julgamento da lide, o que não ocorre no presente caso. Neste sentido, indefiro pleito. Da intimação ao patrono Registrese que é demandada a ciência dos patronos do contribuinte para fins de sustentação oral. Todavia, para fins de esclarecimento, os incisos I a III do artigo 23 do Decreto 70.235 de 06.03.1972 estabelece que as intimações no decorrer do contencioso administrativo tributário federal serão realizadas pessoalmente ao sujeito passivo, não a seu advogado, inexistindo tampouco permissivo para tanto no Ricarf. Razão pela qual, nego a solicitação. Da sustentação oral Quanto a sustentação oral pretendida perante as turmas extraordinárias convém esclarecer que o artigo 61A do Anexo II do Ricarf, inserido pela Portaria MF 329 de Fl. 216DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 217 8 04.07.2017, dispõe que referido pleito seja realizado dentro de um prazo regulamentar e mediante apresentação de requerimento próprio, cuja aceitação "implica a retirada do processo para inclusão em pauta de sessão não virtual". Logo, inexistindo, nos autos referido requerimento, resta descumprido o regramento estatuído pela norma de regência. Razão pela qual não provejo o pedido. Da matéria de ordem pública Embora o contribuinte não tenha contestado em seu recurso voluntário os fundamentos da decisão recorrida no que concerne ao instituto da decadência, por conta da ocorrência da homologação tácita do crédito tributário constituído pela apresentação de DCTF, por tratarse de matéria de ordem pública, portanto, cognoscível de ofício, conforme consagrado por sedimentada jurisprudência judicial e deste Conselho, na medida em que tem competência para reapreciar a matéria nesta oportunidade, ainda que seja para confirmar o que decidiu o colegiado a quo. Da fundamentação Da adoção, como razão de decidir, da decisão recorrida Dispõe o parágrafo 3º do artigo 57 do Anexo II do Ricarf, verbis: § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida. (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) Em análise do pleito, nada há que deva ser acrescentado por este juízo administrativo aquilo que já foi minuciosamente explicitado pela 13ª Turma da DRJ/SP1, quando da prolação do acórdão recorrido. Com efeito, andou bem o colegiado a quo ao assentar a vinculação estrita das autoridades administrativas às determinações contidas de forma literal em lei. Assim, só cabe aqui reafirmarse aquilo que de forma expressa consta da legislação tributária: o prazo para repetição do indébito é de cinco anos, contados da extinção do crédito tributário (inciso I do artigo 168 do CTN), sendo que o pagamento antecipado, efetuado no âmbito do lançamento por homologação, conformase como uma das hipóteses de extinção, mesmo que pendente a sua homologação (parágrafo 1º do artigo 150 do CTN). De tal sorte, do ponto de vista estritamente legal, o pedido de restituição tem de ser efetuado no período de cinco anos que sucede o eventual recolhimento indevido ou a maior. Desta feita, em sua manifestação de inconformidade, o contribuinte argumenta que o valor do crédito compensado deriva de apuração constante no Dacon, mas que, por lapso, deixou de apresentar a DCTF retificadora respectiva para alterar o valor incorretamente informado no campo débito, uma vez que o correto correspondente a uma importância menor que aquela; tanto que, embora não o fazendo, comprometeuse a retificar a DCTF em questão no intuito de regularizar o crédito indicado no Per/Dcomp. Fl. 217DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 218 9 Por sua vez, o colegiado a quo, não acolhe o pleito do contribuinte, tendo em vista que o crédito tributário pleiteado em questão está definitivamente constituído e extinto pelo pagamento em virtude do transcurso do prazo previsto no parágrafo 4º do artigo 150 do CTN, não sendo, portanto, passível de alteração pelo contribuinte ou pela Administração Tributária. Desta forma, com amparo no permissivo regimental reproduzido, por concordar com seus fundamentos, adoto como razão de decidir os termos do voto condutor da decisão recorrida, notadamente no que respeita ao tema "Do Crédito em Análise", que reproduzo, verbis: Voto (...) 5. Ademais, cumpre suscitar o quanto previsto pelo artigo 74 da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei nº 10.637/02: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1º A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2º A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. 5.1. Nesses termos, a compensação deve ser implementada pelo Sujeito Passivo com a entrega da declaração correspondente, na qual constam informações relativas aos pretensos créditos (líquidos e certos) a serem utilizados para liquidação de débitos existentes. O efeito da declaração é a extinção do crédito tributário, ainda que sob condição resolutória de sua ulterior homologação. 5.2. Destarte, a Declaração de Compensação, por intermédio do PER/DCOMP, se presta a formalizar a compensação e, por consequência, a extinção dos débitos compensados, sob condição resolutória de sua posterior homologação pela Administração Fiscal. Assim, as informações sobre a origem do direto de crédito e do débito compensado, de inteira responsabilidade do Contribuinte, devem estar conformes, sob o risco de o declarante ver seu procedimento não homologado. 6. No caso concreto, o Contribuinte declarou débitos de PIS 69121, competência jun/05, e apontou o documento de arrecadação (DARF) como origem do suposto pagamento Fl. 218DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 219 10 indevido e, por conseguinte, do reclamado crédito. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela Insurgente foi realizada também de forma eletrônica, tendo resultado no Despacho Decisório em discussão. 6.1. O ato hostilizado aponta como causa da não homologação o fato de que não foi localizado crédito disponível em favor da Manifestante atinente ao indigitado DARF, vez que integralmente utilizado para quitar o débito correspondente, declarado por intermédio da DCTF, conforme apontado no próprio Despacho Decisório. 6.2. Assim, o exame das declarações prestadas pela própria Interessada à Administração Tributária revelaram a inexistência do pretenso crédito declarado e requerido para compensação. 6.3. Em suma, os motivos da não homologação residiram nas próprias declarações e documentos produzidos pela Insurgente. Estes foram, portanto, a prova e o motivo do ato administrativo. 7. Destaquese, ademais, que as matérias não expressamente questionadas presumemse legítimas e não deverão ser objeto de análise, vez que não se tornaram controvertidas nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, na redação dada pela Lei nº 9.532/97. Do Crédito em Análise 8. O Contribuinte contesta o Despacho Decisório DD que não homologou a compensação afirmando possuir crédito líquido e certo contra a Fazenda Pública. Para sustentar tal afirmação acostou aos autos cópias de DACON que suportaria o crédito que alega possuir e, ainda, solicita prazo para entrega da DCTF Retificadora. 8.1. Primeiramente, é de ser ressaltado que não é suficiente, para os fins pretendidos pela Requerente, a apresentação de DACON Retificador, nos casos em que as informações de débitos restaram inferiores àqueles confessados em DCTF. Permanece a necessidade de o Contribuinte comprovar, por meio de documentos contábeisfiscais idôneos, a origem dos valores declarados e a composição da base de cálculo dos tributos em questão. 8.2. À guisa de complementação, deve ser observado que há grande distinção, mormente no tocante aos efeitos jurídicos, entre as informações prestadas por intermédio da DCTF e do DACON, vez que, enquanto a primeira, consoante predito, revelase como instrumento de constituição de crédito tributário, o segundo desempenha papel meramente informativo, cujo intuito é o de corroborar ou complementar informações de interesse da Administração Tributária. 8.2.1. Ademais, a própria legislação tributária prevê a necessidade de o Contribuinte apresentar DCTF retificadora Fl. 219DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 220 11 sempre que eventual retificação do DACON acarretar na modificação dos valores declarados em DCTF anterior. É o que se verifica desde a publicação da Instrução Normativa SRF nº 590, de 22/12/2005, que assim dispôs: Art. 11. Os pedidos de alteração nas informações prestadas no Dacon serão formalizados por meio de Dacon retificador, mediante a apresentação de novo demonstrativo elaborado com observância das mesmas normas estabelecidas para o demonstrativo retificado. ... § 4º A pessoa jurídica que entregar o Dacon retificador, alterando valores que tenham sido informados em DCTF, deverá apresentar, também, DCTF retificadora. (destaques não constam do original) 8.2.2. Tal comando normativo permanece vigente até o momento, tendo sido convalido nas instruções normativas posteriores. 8.3. Insta mencionar, neste ponto, tomandose por base as previsões estampadas nos atos normativos que regulam o procedimento de retificação de declarações, conforme o atualmente disposto no inciso II, do § 2º, do art. 9º, da Instrução Normativa RFB nº 1.110, de 24/12/2010, que seria ineficaz qualquer retificação de DCTF após a ciência de início de procedimento administrativo, consubstanciado na não homologação da compensação expressa pelo combatido DD, nos moldes da previsão constante no art. 142 do CTN, especialmente no tocante à matéria tributável e ao cálculo do montante do tributo devido. Transcrevese os termos da citada instrução normativa: § 2º A retificação não produzirá efeitos quando tiver por objeto: [...] II alterar os débitos de impostos e contribuições em relação aos quais a pessoa jurídica tenha sido intimada de início de procedimento fiscal. (original sem destaques) 8.4. De outro giro, deve ser observado que a análise em apreço, mormente quanto ao alegado crédito da Manifestante, perpassa questão que envolve lançamento na modalidade por homologação, vez que a Insurgente apurou o montante devido e declarou a ocorrência e quantificação dos fatos geradores verificados por intermédio da DCTF, consoante previsto no art. 150, caput, do CTN. 8.5. Neste ponto, mencionase o que entende a doutrina pátria acerca da modalidade de lançamento em tela, mormente quanto ao seu objeto. Assim, conforme ensina Hugo de Brito Machado1, in verbis: Fl. 220DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 221 12 Lançamento por homologação, é aquele aplicável aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, no que concerne a sua determinação. (...) Objeto da homologação não é o pagamento, como alguns tem afirmado. É a apuração do montante devido, de sorte que é possível a homologação mesmo que não tenha havido pagamento. (...) O que caracteriza essa modalidade de lançamento é a exigência legal de pagamento antecipado. Não o efetivo pagamento antecipado. 8.6. Por outro lado, cumpre transcrever o que leciona Luciano Amaro2, que traduz a linha de raciocínio também sustentada por Aliomar Baleeiro3 e Eduardo Sabbag4. Na prática, o “dever de antecipar o pagamento” significa que o sujeito passivo tem o encargo de valorizar os fatos à vista da norma aplicável, determinar a matéria tributável, identificarse como sujeito passivo, calcular o montante do tributo e pagálo, sem que a autoridade precise tomar qualquer providência. E o lançamento? Este diz o Código Tributário Nacional operase por meio do ato da autoridade que, tomando conhecimento da atividade exercida pelo devedor, nos termos do dispositivo, homologaa. A atividade aí referida outra não é senão a de pagamento, já que esta é a única providência do sujeito passivo tratada no texto. Melhor seria falarse em “homologação do pagamento”, ... . 8.7. Notese que a homologação, que segundo Celso Antonio Bandeira de Melo5, “é o ato vinculado pelo qual a administração concorda com ato jurídico já praticado, uma vez verificada a consonância dele com os requisitos legais condicionadores de sua válida emissão”, tem por efeito dar ao ato homologado a eficácia que até então não se lhe atribuía. Homologar, portanto, pressupõe não apenas concordar com o ato praticado, mas também, conferirlhe validade ou eficácia que antes não sustentava. É somente diante desta ótica que se pode aceitar a idéia de “autolançamento”, como muitos doutrinadores intitulam esta modalidade, sem entender ferido o art. 142 do CTN. 8.8. Assim, tendo havido apuração do montante devido e a correspondente informação ao Fisco (declaração em DCTF), corroborada pelo pagamento dos tributos reputados devidos, há de ser considerado efetuado o “autolançamento” no caso em tela. Fl. 221DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 222 13 8.9. Em adição e reforço, é cediço que a DCTF (criada com base no artigo 5º do DecretoLei nº 2.124/84), quando regularmente apresentada, tem o condão de formalizar o crédito tributário, viabilizando a inscrição em dívida ativa do débito denunciado pelo Contribuinte, caso não pago, consoante pacífico entendimento das mais altas cortes do país. Desta sorte, o indigitado documento encerra instrumento de confissão de dívida e constituição do crédito tributário. 8.10. Em decorrência do predito, de acordo com o vaticinado no § 1º, do referido art. 150 do CTN, o pagamento do tributo apurado conforme tal modalidade de lançamento extingue o crédito tributário sob condição resolutória da ulterior homologação daquele. 8.11. Em complemento, o § 4º do mesmo artigo do Código Tributário determina que caso a lei não fixe prazo à homologação, será ele de 05 (cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador, em não havendo pronunciamento da Fazenda Pública dentro de tal interstício, considerandose homologado, tacitamente, o lançamento e definitivamente extinto o crédito tributário dele decorrente. 8.12. Neste ponto, não é despiciendo relembrar que o Direito não socorre àquele que, por largo espaço de tempo, permanece inerte quanto ao exercício de determinado direito/faculdade que lhe possa assistir (“dormientibus non succurrit jus”). 8.13. No caso vertente há de ser ressaltado que se aprecia tributo referente ao período de apuração findado em 31/08/03, sendo considerada esta data, ainda que por ficção legal, a da ocorrência do respectivo fato gerador. 8.14. Assim, não tendo a Administração Fazendária se pronunciado durante o lustro legalmente previsto, cujo termo final se deu em 31/08/08, o crédito tributário em testilha foi, de forma inafastável, definitivamente constituído e extinto pelo pagamento nessa data. Tratase de prazo decadencial a pesar contra a Fazenda e contado a partir do fato imponível. 8.15. Ademais, emerge do quanto articulado que houve a homologação dos tributos com relação aos quais, e na exata medida em que, o contribuinte, por intermédio da DCTF em epígrafe, dimensionou e informou a ocorrência do fato gerador tendo efetuado, inclusive, o correspondente pagamento. 8.16. Assim, tendose operado a homologação tácita (constituição definitiva do crédito tributário), a partir de tal advento resta defeso à Fazenda questionar ou rever o ato comissivo do Contribuinte alcançado por tal instituto jurídico, consubstanciado na apuração e respectiva quitação dos tributos reputados devidos. 8.17. Em adição a tudo quanto articulado, apenas ad argumentandum, fossem superadas as questões já enfrentadas, Fl. 222DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 223 14 insta mencionar que é lícito ao Contribuinte retificar as informações prestadas ao Fisco, ao menos enquanto não iniciado qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, sempre se resguardando à Administração Tributária o direito de analisar e revisar as informações declaradas, consoante vaticina o art. 149 do CTN, enquanto não verificada a decadência tributária. 8.18. Contudo, no caso vertente, o Contribuinte quedouse inerte, não apresentando DCTF Retificadora dentro do prazo legal em que esta surtiria efeito (antes da ocorrência da homologação tácita), razão pela qual se revelou apático quanto ao direito creditício que ora sustenta deter em face da Fazenda Pública. 8.19. Tão logo teve conhecimento dos fatos capazes de alterar a apuração do tributo que ora alega ter pagado indevidamente, a Manifestante tinha por obrigação dar conhecimento da nova apuração, fatos constitutivos do direito creditório que erige deter, à Administração Tributária pelos meios próprios existentes para tanto DCTF Retificadora. 8.20. Em não o fazendo, frente à relação jurídicotributária, deixou de “retificar” o “autolançamento” e, por via transversa, não formalizou a existência do crédito que pretendeu utilizar por intermédio da DCOMP em apreço. 8.21. No presente caso, mutatis mutandis, tratase da decadência do direito de o Contribuinte modificar fato gerador, ou um de seus aspectos, como o valorativo, de crédito/obrigação tributária já extinta, que se consubstanciaria na gênese do alegado direito de crédito. 8.22. A inércia da Insurgente, aliada ao transcurso temporal, culminou na imutabilidade da situação jurídica sub examine extinção do crédito tributário autolançado declarado por intermédio da DCTF. 8.23. Consoante o sistema jurídico pátrio, as obrigações nasceram para serem extintas. Ocorrida a extinção, cogitarse da possibilidade de reversão de seus efeitos traria grande instabilidade jurídicosocial e, ademais, conspiraria contra os princípios gerais de direito. (...) Da questão material, em complemento aos termos da decisão recorrida Conforme reafirmado, o despacho decisório cerne da peça recursal declarou a inexistência do direito creditório pleiteado pelo recorrente, em razão do pagamento indicado encontrarse totalmente utilizado, vinculado a débito de mesmo valor. Irresignado, o recorrente alega que apresentou o Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais Dacon informando os supostos verdadeiros débitos correspondentes ao exercício em questão, mas que, por lapso, deixou de apresentar a devida DCTF retificadora. Fl. 223DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 224 15 Em análise aos elementos constantes nos autos, no período pertinente ao tributo em discussão no presente processo, foi apresentada a DCTF original, no prazo legal para tanto. Igualmente, no seu prazo devido, foi apresentado o Dacon original, referente ao período de apuração do tributo em questão. Percebese que o pagamento efetuado pelo contribuinte mostrase incompatível o que fora declarado no referido Dacon. Destarte, em algum tempo depois, considerando o débito que consta informado no Dacon original, e sem ter retificado a DCTF original, o recorrente apresentou o Per/Dcomp pleiteando, em face do suposto saldo credor, a compensação em exame, que não foi homologada pela autoridade fiscal. Porém, mesmo após ter sido cientificada do despacho decisório, o recorrente, frisese, embora tenha manifestado a intenção de retificar a DCTF original, a fim de semelhar as informações contidas no Dacon, pelo que depreendese destes autos, tal intento não se concretizou. Logo, no caso que se examina, não há dúvidas que o recorrente não retificou sua DCTF original. Aqui, há que se atentar que é por meio da DCTF, e não pelo Dacon, que o débito do sujeito passivo considerase juridicamente constituído, pois, assim como a DIPJ, o Dacon tem caráter meramente informativo, distinto da DCTF, que tem caráter declaratório/constitutivo, significando uma confissão de débitos apurados pela pessoa jurídica. Destarte, por óbvio, pelo que depreendese destes autos, na data da apresentação do Per/Dcomp em apreço, não homologada pela autoridade fiscal, a DCTF original ainda não tinha sido objeto de retificação, significando que o crédito utilizado pelo recorrente em sua compensação, juridicamente, era e é ainda inexistente. Neste caso, não haveria que se falar, juridicamente, no alegado pagamento a maior, o que retiraria do crédito pretendido a liquidez e certeza que a lei impõe para que este possa ser objeto de repetição, nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, verbis: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Portanto, ainda que o recorrente pretendesse efetuar a retificação da DCTF original, resta evidente o transcurso do prazo de cinco anos contado da data de ocorrência do fato gerador do débito nela declarado, nos termos do caput do artigo 168 do CTN, de forma que a referida retificação não produziria quaisquer efeitos tributários, o que tornase dispensável a análise fática do direito material do suposto crédito tributário perseguido pelo recorrente, em face da sua peremptoriedade jurídica. Da conclusão Fl. 224DF CARF MF Processo nº 10880.928042/200949 Acórdão n.º 3001000.473 S3C0T1 Fl. 225 16 Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário, para rejeitar os pedidos de diligência, de intimação dos patronos e de sustentação oral e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 225DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16682.722760/2016-55
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012
DECISÃO DE PISO. NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO.
É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972.
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA.
O valor tributável mínimo - VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes.
A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação).
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA".
O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídico-tributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de um signo jurídico em matéria tributária deve socorrer-se da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitando-se ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido.
Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante.
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO.
Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter cabalmente demonstrado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela.
Numero da decisão: 3402-005.599
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do redator designado Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes e Pedro Sousa Bispo, que negavam provimento ao Recurso.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator.
(assinado digitalmente)
Diego Diniz Ribeiro - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Ávila (suplente convocado).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 DECISÃO DE PISO. NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO. É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA. O valor tributável mínimo - VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA". O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídico-tributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de um signo jurídico em matéria tributária deve socorrer-se da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitando-se ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido. Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter cabalmente demonstrado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do redator designado Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes e Pedro Sousa Bispo, que negavam provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Ávila (suplente convocado).
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NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO. É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA. O valor tributável mínimo VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA". O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídicotributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 27 60 /2 01 6- 55 Fl. 2522DF CARF MF 2 um signo jurídico em matéria tributária deve socorrerse da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitandose ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido. Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter cabalmente demonstrado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do redator designado Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes e Pedro Sousa Bispo, que negavam provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Ávila (suplente convocado). Relatório Trata o presente processo de Auto de Infração (fls. 1.685/1.691), lavrado contra a empresa PROCOSA PRODUTOS DE BELEZA LTDA. (doravante denominada de PROCOSA), com exigência do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), referente aos meses de janeiro a dezembro de 2012, no montante de R$ 594.148.235,28, a título de IPI, juros de mora e multa proporcional, motivado em razão da insuficiência no recolhimento daquele tributo, gerado por conta da inobservância das regras relativas ao Valor Tributável Mínimo Fl. 2523DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.523 3 (VTM) nas saídas de produtos industrializados para empresa com a qual a Recorrente mantém relação de interdependência. O fundamento do lançamento foi a violação aos arts. 195 e 196 do RIPI/2010, vigente à época dos fatos geradores, que determinavam que o VTM deveria corresponder ao preço praticado no mercado atacadista da praça do remetente sempre que o produto fosse destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma interdependente e que estabeleciam, ainda, que o VTM deveria ser calculado com base na média ponderada dos preços de cada produtos, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente. Por trazer uma clara síntese do processo até o julgamento da Impugnação administrativa, peço vênia para transcrever o relatório do Acórdão nº 1469.925, da 2ª Turma da DRJ em Ribeirão Preto/SP (fls. 2.290/2.315): Conforme podemos verificar no Termo de Verificação de Infração Fiscal, fls 1.663/1.683, a autoridade fiscal relata que a empresa fiscalizada, industrial, vende seus produtos exclusivamente para a empresa L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA (doravante denominada L’ORÉAL BRASIL), inscrito no CNPJ sob o nº 30.278.428/000595, a preços muito abaixo daqueles que seriam praticados entre empresas não relacionadas. Verificase nos autos trataremse de empresas interdependentes, fato não contestado pela interessada. Consta, ainda, que ambas empresas situamse em uma mesma região metropolitana, qual seja, do Rio de Janeiro, possuindo domicílios na cidade do Rio de Janeiro RJ (PROCOSA), e no município de Duque de CaxiasRJ (L'OREAL BRASIL). Intimada, a autuada esclarece que os preços praticados nas operações de saída de produtos industrializados da fiscalizada para a Comercial observaram o disposto no artigo 196 do RIPI/10. A fiscalização concluiu que as operações de saída da unidade Industrial, segregando as funções de comercialização, a cargo da empresa L'OREAL BRASIL visou a redução artificial do valor da base de cálculo. "Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a diferença entre os preços praticados pelo estabelecimento industrial remetente (FISCALIZADO) e o estabelecimento atacadista é de mais de 500% (quinhentos por cento)." 4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista Fl. 2524DF CARF MF 4 interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo: • ANEXO I Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo VTM • ANEXO II Relação das Notas Fiscais utilizadas na Apuração da Média Ponderada dos Preços (Notas de saída do estabelecimento ATACADISTA) • ANEXO III Relação de Códigos de Mercadorias • ANEXO IV Demonstrativo de Cálculo do IPI Devido. A impugnante apresenta, em síntese, os seguintes argumentos em sua defesa: 1. que a existência de Consulta Formal formulada pela Impugnante, em sentido contrário ao realizado pela Fiscalização, é suficiente para o cancelamento do Auto de Infração; 2. que é improcedente a afirmação por parte da autoridade fiscal que houve "subfaturamento" ou saída de produto com valor abaixo do valor tributável mínimo VTM; conforme demonstração empírica do item 28 de sua Impugnação; 3. que a Fiscalização deveria ter demonstrado que o preço praticado não seria suficiente para que a Requerente fizesse frente a seus custos, despesas e ainda tivesse uma margem de lucro normal; 4. que as empresas industrial (PROCOSA) e comercial (L'OREAL BRASIL) estão realmente segregadas e tal estrutura operacional é legítima e admitida no Brasil; 5. que a mudança de entendimento formulado em consulta formal deve ser exercido por meio de prévia notificação ou publicação pela imprensa oficial; 6. que o conceito de "praça" é o estabelecido em atos normativos, qual seja, o município; 7. Que houve erro material no cálculo do valor tributável mínimo por desconsiderar as vendas praticadas pelo estabelecimento industrial; Fl. 2525DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.524 5 8. Impossibilidade de exigência de tributos a partir de presunção; 9. que há erro no valor lançado, pois a Fiscalização "a D. Fiscalização determinou a base de cálculo do IPI supostamente devido pelo Estabelecimento Industrial: (i) com base exclusivamente nas vendas efetuadas pela L’Oréal Brasil, desconsiderando as vendas efetuadas pela Requerente; (ii) considerou o preço de venda praticado pela L’Oréal Brasil até 3 (três) meses anteriores ao fato gerador do IPI, para fins de cálculo da média ponderada; e (iii) não excluiu da base de cálculo os valores concedidos a título de descontos incondicionais pela L’Oréal Brasil para seus clientes."; 10. que a formação da base de cálculo do IPI em operações envolvendo estabelecimentos interdependentes foi regular; 11. que "praça" deve ser entendido como sendo a cidade em que se localiza o estabelecimento do remetente como acolhido em alguns julgados administrativos; 12. que as autoridades fiscais não podem alterar o conceito de "praça"; 13. que a interpretação da Solução de Consulta COSIT nº 08/12 não pode ser aplicada ao presente caso, pois o estabelecimento comercial atacadista não se encontra localizado na mesma praça do estabelecimento industrial; 14. que não se pode alterar conceito jurídico de "praça" por ato infralegal; 15. que a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/12 não pode aplicarse ao caso, pois promove uma cobrança majorada (Art. 150, III, "a", CF/88; 16. que os atos normativos sobre a matéria definem o conceito de "praça" e este não pode ser alterado pelas autoridades fiscais; 17. que nos cálculos da média ponderada devem ser considerados os preços do estabelecimento industrial; 18. que nos cálculos da média ponderada não foram considerados os descontos incondicionais; 19. requer diligência para "reapurar" o valor da base de cálculo do IPI, considerando os erros apontados pela impugnante; 20. que não há incidência de juros sobre as multas aplicadas por falta de embasamento legal; Concluindo, conforme abaixo: 233. Inicialmente foi demonstrado que não houve qualquer subfaturamento nas vendas feitas pela Requerente para a L’Oréal Brasil. Além disso, a D. Fiscalização não fez qualquer Fl. 2526DF CARF MF 6 prova ou demonstração de que os preços praticados pela Requerente não mereciam fé. 234. Da mesma forma, foi demonstrado de forma clara e objetiva, que as duas empresas possuem segregação física, econômica, empresarial e estrutural. Ademais, ambas as sociedades tiveram em 2012 margem de lucro compatíveis com suas atividades e em percentual próximo ao exigido pela legislação federal do imposto de renda. 235. Não houve qualquer acusação, alegação ou insinuação de existência de indícios de simulação, dolo ou fraude, tendo sido respeitada a validade jurídica de todos os fatos e atos descritos ao longo do TVF e desta Impugnação. 236. É portanto, neste contexto fático e jurídico, que devem ser analisados os argumentos preliminares e de mérito apresentados nesta Impugnação. 237. Em vista de todo o exposto, requerse que a presente Impugnação seja integralmente acolhida em suas razões de fato e de Direito, para que seja reconhecida: (i) em sede preliminar, que houve erro de direito em razão da não aplicação da Consulta Formal, a qual define o conceito de praça como cidade e a forma de cálculo do VTM, para os casos em que o Estabelecimento Industrial e o comercial atacadista estejam localizados no mesmo município, e possui efeitos vinculantes tanto para a Administração Pública, quanto para a Requerente no ano de 2012. De se notar, que as determinações da Consulta Formal emitida em favor da Requerente estavam plenamente em vigor em 2012, uma vez que a Requerente jamais foi notificada de nova orientação editada pelas autoridades fiscais, nem tampouco a Solução COSIT 8/12 foi publicada na imprensa oficial para sequer formalizar o novo entendimento das autoridades fiscais para os casos em que a referida Solução COSIT 8/12 poderia ter sido aplicada; (ii) em sede preliminar, existência de erro por adotar novo conceito jurídico de praça, diferente daquele previsto na Consulta Formal, sem prévia notificação da Requerente e com base em ato normativo (Solução COSIT 8/12) não publicado na imprensa oficial e que não tratou do conceito jurídico de praça; (iii) ainda em sede preliminar, houve erro material em razão da falta de aplicação da Consulta Formal quando da apuração do VTM, uma vez que, na autuação ora impugnada, não foram considerados os preços praticados pelo Estabelecimento Industrial em suas vendas para o estabelecimento comercial da L’Oréal Brasil; (iv) a nulidade do Auto de Infração pelo fato de a D. Fiscalização ter realizado o lançamento baseada apenas em mera presunção de suposto subfaturamento, tendo em vista que não carreou aos presentes autos quaisquer evidências documentais que comprovem a realização de pagamentos complementares de preço nas operações com a L’Oréal Brasil, bem como que não demonstrou qualquer indício de simulação, fraude ou outro defeito jurídico, que possa colocar em dúvida a verdade material refletida nos documentos fiscais emitidos pelas referidas empresas; Fl. 2527DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.525 7 (v) subsidiariamente, a nulidade do Auto de Infração por erro no quantum debeatur, já que a D. Fiscalização: (a) não considerou o preço de venda do Estabelecimento Industrial no cálculo da média ponderada; (b) utilizou preço de venda da L’Oréal Brasil de até três meses antes do fato gerador do IPI; e (c) não excluiu da base de cálculo do tributo os valores concedidos a título de descontos incondicionais concedidos pela L’Oréal Brasil; (vi) no mérito, seja reconhecida a insubsistência do lançamento, e cancelado o Auto de Infração, uma vez que a D. Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido pelo Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasil; (vii) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal na forma do inciso II do Parágrafo Único do artigo 196 do RIPI/10 (i.e. aplicação do VTM custo) e da Solução de Consulta colacionada aos autos na forma do doc. nº 07 hipótese em que todos os custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade a serem considerados para fins do referido recálculo sejam exclusivamente aqueles já incorridos pelo Estabelecimento Industrial; (viii) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal, de maneira a excluir tanto os valores indicados no item “v” acima quanto, também, para que o VTM seja calculado de maneira a incluir preço praticado pelo próprio Estabelecimento Industrial em suas operações com a L’Oréal Brasil. Caso fosse aplicada a nova fórmula de cálculo, em observância do princípio da irretroatividade da norma tributária, é evidente que o novo cálculo não poderia retroagir a fatos geradores ocorridos antes de 90 dias após a disponibilização do conteúdo da Solução COSIT 8/12. Caso seja feito o cálculo pela média ponderada, os cálculos devem ser refeitos para que apenas as vendas na cidade do Rio de Janeiro sejam incluída na média ponderada. Além disso, o valor cobrado não poderá ser acrescido de penalidades, juros de mora e atualizações monetárias em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN; e (ix) por fim, seja afastada a incidência dos juros SELIC sobre as multas de ofício aplicadas. 238. Para fins de demonstrar as irregularidades no cálculo da média ponderada do preço de venda adotado pela D. Fiscalização para calcular o IPI devido, a Requerente requer, Fl. 2528DF CARF MF 8 com fulcro no artigo 16 do Decreto 70.235/72, a realização de diligência para reapurar o valor da base de cálculo do IPI, nos termos dos quesitos formalizados no Anexo I desta Impugnação. 239. Pelo exposto, a Requerente tem por comprovada a exatidão dos procedimentos adotados e a total improcedência do Auto de Infração, bem como o equívoco cometido pela D. Fiscalização ao interpretar os fatos e o Direito a eles aplicável neste caso. 240. Assim sendo, a Requerente pleiteia que a presente Impugnação seja integralmente acolhida, a fim de que seja reconhecida a insubsistência integral do Auto de Infração ora questionado, com o consequente cancelamento da exigência fiscal (principal, multa e juros), determinandose ao final o arquivamento do presente processo administrativo. Esta é a síntese do Relatório. Os argumentos aduzidos pelo sujeito passivo, no entanto, não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão abaixo transcrito (fl. 2.290): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 OPERAÇÕES COM INTERDEPENDENTE. Provado nos autos a relação de interdependência com comerciante atacadista exclusivo, há de ser observado pelo sujeito passivo o valor tributável mínimo, previsto no regulamento do IPI. COMPOSIÇÃO DO MERCADO ATACADISTA. Provada a participação do estabelecimento interdependente no mercado atacadista da praça do remetente, seus preços devem servir de parâmetro para a definição do valor tributável mínimo, previsto no Art. 195, I, RIPI/2010. EXCLUSÃO DE OUTROS PRODUTOS Provado nos autos que os produtos da Impugnante, em virtude de suas características próprias, constituem produtos únicos a ensejar a exclusão dos produtos de seus concorrentes, somente os preços de seu estabelecimento comercial atacadista se mostra apto a compor o valor tributável mínimo, previsto no Art. 136, I do RIPI. EXCLUSÃO DO VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO Tendo em vista que os preços praticados nas saídas de produtos da Impugnante para sua comercial atacadista interdependente não correspondem ao preço de mercado atacadista, impõese sua exclusão na composição do valor tributável mínimo do Art. 195, I do RIPI/10, conforme orientações do Ato Declaratório Normativo CST nº 05/1982, PN CST nº 44/81 e Solução de Consulta Interna nº 08/2012. Impõemse, igualmente, a exclusão de produtos que não sejam plenamente compatíveis com os produtos objeto das operações com o estabelecimento interdependente na quantificação do valor tributável mínimo, tais como: mercadorias de uso e consumo, matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem. Fl. 2529DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.526 9 DEDUÇÃO DA BASE CÁLCULO. DESCONTOS INCONDICIONAIS.IMPOSSIBILIDADE. É expressamente vedada a dedução da base de cálculo do IPI dos valores dos descontos incondicionais, nos termos do art. 190, § 3º, do RIPI/2010. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A empresa PROCOSA tomou ciência do Acórdão prolatado pela DRJ em 05/09/2017, através de sua Caixa Postal (DTE), Módulo eCAC no Site da RFB, conforme consta do documento de fl. 2.321. Em 02/10/2017, apresentou Recurso Voluntário de fls. 2.324/2.401, alegando, de forma resumida que: i) preliminarmente, requer a NULIDADE da decisão da DRJ, que teria alterado os fundamentos jurídicos do lançamento, argumentando que houve cerceamento de defesa e ilegalidade na alteração dos critérios jurídicos do lançamento; que estes autos sejam remetidos à DRJ/RPO para novo julgamento, oportunidade em que as Autoridades Julgadoras deverão efetivamente enfrentar a linha de argumentação específica trazida nestes autos, e manifestar sua opinião sobre elementos concretos do presente processo; ii) em preliminar, que seja reconhecido que houve erro de direito em razão da não aplicação da Consulta Formal, a qual define o conceito de praça como cidade e a forma de cálculo do VTM, para os casos em que o Estabelecimento Industrial e o Comercial Atacadista estejam localizados no mesmo município, e possui efeitos vinculantes tanto para a Administração Pública, quanto para a Recorrente no ano de 2012. De se notar, que as determinações da Consulta Formal emitida em favor da Recorrente estavam plenamente em vigor em 2012, uma vez que a Recorrente jamais foi notificada de nova orientação editada pelas autoridades fiscais, nem tampouco da Solução COSIT nº 08/12, foi publicada na imprensa oficial para sequer formalizar o novo entendimento das autoridades fiscais para os casos em que a referida Solução COSIT, poderia ter sido aplicada; (iii) em preliminar, existência de erro por adotar novo conceito jurídico de conceito de praça, diferente daquele previsto na Consulta Formal, sem prévia notificação da Recorrente e com base em ato normativo (Solução COSIT nº 8/12), não publicado na imprensa oficial e que não tratou do conceito jurídico de praça; (iv) ainda também em preliminar, que houve erro material em razão da falta de aplicação da Consulta Formal quando da apuração do VTM, uma vez que, na autuação ora questionada, não foram considerados os preços praticados pelo Estabelecimento Industrial em suas vendas para o estabelecimento comercial da L’Oréal Brasil; (v) seja decretada a NULIDADE do Auto de Infração pelo fato de a Fiscalização ter realizado o lançamento baseada apenas em mera presunção de suposto subfaturamento, tendo em vista que não carreou aos presentes autos quaisquer evidências documentais que comprovem a realização de pagamentos complementares de preço nas operações com a L’Oréal Brasil, bem como que não demonstrou qualquer indício de simulação, fraude ou outro defeito jurídico, que possa colocar em dúvida a verdade material refletida nos documentos fiscais emitidos pelas referidas empresas; Fl. 2530DF CARF MF 10 (vi) subsidiariamente, seja decretada a nulidade do Auto de Infração por erro no quantum debeatur, já que a Fiscalização: (a) não considerou o preço de venda do Estabelecimento Industrial no cálculo da média ponderada; (b) utilizou preço de venda da L’Oréal Brasil de até três meses antes do fato gerador do IPI; e (c) no excluiu da base de cálculo do tributo os valores concedidos a título de descontos incondicionais concedidos pela L’Oréal Brasil; (vii) no Mérito, que seja reconhecida a insubsistência do lançamento, e cancelado o Auto de Infração, uma vez que a Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido no Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasi1; (viii) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal na forma do inciso II do Parágrafo Único do artigo 196 do RIPI/10 (i.e. aplicação do VTM custo) e da Solução de Consulta colacionada aos autos, hipótese em que todos os custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade a serem considerados para fins do referido recálculo sejam exclusivamente aqueles já incorridos pelo Estabelecimento Industrial; (ix) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal, de maneira a excluir tanto os valores indicados no item acima quanto, também, para que o VTM seja calculado de maneira a incluir preço praticado pelo próprio Estabelecimento Industrial em suas operações com a L’Oréal Brasil. Caso fosse aplicada a nova fórmula de cálculo, em observância do princípio da irretroatividade da norma tributária, é evidente que o novo cálculo no poderia retroagir a fatos geradores ocorridos antes de 90 dias após a disponibilização do conteúdo da Solução COSIT nº 8/12. Caso seja feito o cálculo pela média ponderada, os cálculos devem ser refeitos para que apenas as vendas na cidade do Rio de Janeiro sejam incluída na média ponderada. Além disso, o valor cobrado não poderá ser acrescido de penalidades, juros de mora e atualizações monetárias em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN; e (x) por fim, seja afastada a incidência dos juros SELIC sobre as multas de ofício aplicadas. Para fins de demonstrar as irregularidades no cálculo da média ponderada do preço de venda adotado pela Fiscalização para calcular o IPI devido, a Recorrente renova seu pedido, com fulcro no artigo 16 do Decreto 70.235/72, pela realização de diligência para reapurar o valor da base de cálculo do IPI, nos termos dos quesitos formalizados no Anexo 1 deste Recurso Voluntário. Protesta ainda pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários, nos termos do artigo 16, § 40, alínea “a” do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal. Das Contrarrazões da Fazenda Nacional Conforme Despacho de fl. 2.521, informando que "Não tendo havido requisição dos autos para apresentação de contrarrazões pela PGFN, conforme dossiê 10040.000014/101622, encaminhese o processo ao SEDIS para inclusão em lote/sorteio". Fl. 2531DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.527 11 Posto isto, o processo, então, foi distribuído para este Conselheiro proceder a análise do Recurso Voluntário interposto. É o relatório Voto Vencido Conselheiro Waldir Navarro Bezerra 1. Da admissibilidade do Recurso Cuidase de recurso tempestivo e que preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. 2. Objeto da lide Tratase de lançamento do IPI, sobre o Valor Tributável Mínimo (VTM) e o conceito de praça. Versa sobre remessas de mercadorias efetuadas à empresa com a qual mantém relação de interdependência. A relação de interdependência é fato incontroverso nos autos. Em síntese, a Fiscalização considerou que o Estabelecimento Industrial, localizado no Município do Rio de Janeiro/RJ, descumpriu as regras de determinação do VTM previstas no artigos 195, inciso 1, e 196, caput, do RIPI/lO (“VTM_Praça”), aplicáveis às operações realizadas entre estabelecimentos interdependentes localizados na mesma praça, quando deu saída a produtos com destino ao estabelecimento comercial atacadista da L’Oréal Brasil, localizado no Município de Duque de Caxias, no anocalendário de 2012. 3. Do Auto de Infração motivação e fundamentos Tratase de Auto de Infração lavrado para a cobrança de IPI referente ao ano calendário de 2012, em razão da insuficiência no recolhimento daquele tributo, gerado por conta da inobservância das regras relativas ao Valor Tributável Mínimo (VTM, art. 195 e 196 do RIPI/2010), nas saídas de produtos industrializados efetuadas pela Recorrente para estabelecimento comercial interdependente. Consta do Termo de Verificação Fiscal (TVF fls. 1.663/1.681), que a Fiscalização verificou, no caso, que a empresa PROCOSA, possui 99,99% do total de quotas que compõem o capital social da L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA, CNPJ nº 30.278.428/000161, doravante denominada de L’OREAL, sociedade para a qual vende, no mercado interno, todos os seus produtos. No caso sob análise, a Recorrente (CNPJ nº 33.306.929/000445), é estabelecimento da empresa matriz PROCOSA, e tem como objeto social: indústria, comércio, importação, exportação de produtos, especialmente de produtos de beleza, cosméticos e/ou toucador, artigos de higiene, para cabeleireiros, perfumes e/ou essências, e outros como descrito no artigo 2º do seu Contrato Social. Fl. 2532DF CARF MF 12 Informa o Fisco no TVF (fls. 3.093/3.109), que no ano de 2012, todas as vendas no mercado interno atacadista de produtos fabricados ou importados pela PROCOSA, por meio do estabelecimento de CNPJ nº 33.306.929/000445 (FISCALIZADO), foram destinados ao estabelecimento L’OREAL, CNPJ nº 30.278.428/000595, por meio de notas fiscais em que o IPI foi destacado mediante aplicação das alíquotas vigentes na TIPI (Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados). Este estabelecimento opera como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço de todo o país, sendo considerado ATACADISTA, conforme conceito definido no artigo 14, inciso I do RIPI, aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010 (RIPI/2010). O fundamento para o lançamento foi a violação aos arts. 195, I e 196, caput do RIPI/2010 (conforme fl. 1.686, do Auto de Infração), vigente à época dos fatos geradores, que determinavam que o VTM deveria corresponder ao preço praticado no mercado atacadista da praça do remetente, sempre que o produto fosse destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma interdependente. Estabeleciam também, que o VTM deveria ser calculado com base na "média ponderada dos preços" de cada produtos, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente. 4. Preliminares 4.1 Da Nulidade do Acórdão DRJ A Recorrente requer, preliminarmente, a NULIDADE da decisão da DRJ, alegando que teria sido alterado os fundamentos jurídicos do lançamento, com isso houve cerceamento do seu direito defesa. Aduz em seu recurso que, (...) Fica evidente, portanto, que a decisão recorrida INOVOU quanto aos fundamentos jurídicos do lançamento, bem como não realizou análise detida e pormenorizada do caso concreto dos autos, valendose de “minuta” de outra decisão sobre caso análogo que, como se pode verificar, abordava discussões jurídicas distintas daquelas objeto da presente lide, o que implica a NULIDADE da referida decisão". Afirma que o Fisco simplesmente ignoram a contribuição da L’Oreal Brasil para o negócio como um todo, assumindo que apenas a atividade fabril agregaria valor ao produto vendido quando, na verdade, a etapa fabril (transformação de matérias primas com baixo valor agregado em produtos de beleza) é a mais simples e menos custosa. Que nenhum levantamento desse tipo foi realizado. Não obstante, mesmo confrontada com a ausência desses elementos de prova, a DRJ/RPO teve por bem utilizar afirmações categóricas sobre o modelo de negócios, a formação de preços, e a realidade de mercado da Recorrente, todas sem esteio em efetiva comprovação documental, para manter a autuação. Não se verifica qualquer análise aprofundada acerca da efetiva segregação (ou não) das atividades industriais e comerciais, simplesmente não produziu prova sobre a maneira como as empresas do Grupo L’Oreal de fato operam. Sustenta que além desse expediente se mostrar um mero exercício retórico por parte da DRJ/RPO, temse que tais afirmações, dissociadas de provas concretas trazidas aos autos pela Fiscalização, acabam por efetivamente alterar a fundamentação jurídica do lançamento ora combatido e, por conseguinte, implicam a nulidade do Acórdão recorrido, por cerceamento do Direito de Defesa, que não teve a oportunidade de se defender dessas alegações ou produzir prova em contrário na Impugnação, até porque não eram essas as acusações que fundamentaram o lançamento. Pois bem. Alega a Recorrente que o Acórdão prolatado pela DRJ não se ateve estritamente a parte do Auto de Infração e Termo de Verificação Fiscal que originou o Fl. 2533DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.528 13 processo administrativo em referência quando de seu julgamento, de modo que utilizou argumentos não consignados pela Fiscalização. Desse modo, teria a DRJ extrapolado o limite da acusação fiscal contido nos autos que originou a presente lide (citando dados econômicos, avaliação de mercados de cosméticos, nº de empregados da empresa, etc), bem como se equivocado no tocante a análise de alguns dos documentos comprobatórios apresentados. Neste aspecto, concordo que o julgador deve restringir sua análise nos termos da exação fiscal contida no Auto de Infração e no TVF. Portanto, não conheço dos fundamentos estranhos à presente lide. Todavia, entendo que a decisão recorrida não deixou de se posicionar sobre os argumentos inerentes ao demonstrado no TVF objeto da presente lide, demonstrando o raciocínio empregado que levou a formar sua convicção, no sentido de manter o lançamento. Ademais, vejamos as hipóteses de nulidade dos atos e termos lavrados, de acordo com o art. 59 do Decreto nº 70.235/72, a saber: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. (...) Observase, pois, que este dispositivo não é aplicável ao presente caso. Primeiramente, cabe ressaltar que conforme disposto nos arts. 59 c/c 60 do Decreto n.º 70.235/72, a notificação e demais termos do processo administrativo fiscal somente serão declarados nulos quando se tratar de ato/decisão lavrado ou proferido por pessoa incompetente e resultar em inequívoco cerceamento de defesa à parte. No caso sob exame, nenhum desses vícios, entretanto, é verificado no presente procedimento, que foi conduzido por autoridade competente e com total observância ao direito de defesa da Recorrente. Verificase que o Auto de Infração foi lavrado por autoridade competente e teve origem em auditoria realizada pela Fiscalização da RFB, fartamente detalhada em Relatório Fiscal, onde consta a motivação para o lançamento e as provas que conduziram a autoridade fazendária a sua lavratura. A Recorrente foi cientificada da exigência fiscal e apresentou Impugnação que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, a Recorrente protocolou recurso voluntário, rebatendo as posições adotadas no acórdão recorrido, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, portanto, as motivações para o lançamento, bem como, as do julgamento na primeira instância foram claramente identificadas. Com todo este histórico de discussão administrativa, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no lançamento ou no julgamento da primeira instância, uma vez que todo o procedimento previsto no Decreto nº 70.235/72, foi observado, tanto no lançamento tributário, como no curso do devido processo administrativo fiscal. Fl. 2534DF CARF MF 14 Além disso, nem mesmo a suposta inovação alegada pela Recorrente é verificada no caso. Com efeito, a decisão atacada não altera o fundamento do lançamento, mas analisa os mesmos fatos e aplica a mesma legislação, apenas corroborando a prática da infração constatada pela autoridade autuante, qual seja, de não utilização do VTM nas operações de venda realizadas com empresa comercial interdependente. Assim, a decisão recorrida trata da relação de interdependência entre as partes e da necessidade de aplicação dos arts. 195, I e 196 do RIPI/2010; da existência de preço corrente no mercado atacadista da remetente (sendo aquele praticado pela comercial interdependente); da individualização dos produtos da autuada e, ainda, da necessidade de se dar ao termo “praça” um conceito mais amplo do que meramente a noção de "cidade ou município", no mesmo sentido aplicado pela Fiscalização, como detalhado no TVF. Em relação aos princípios constitucionais, ao contrário do entendimento da Recorrente, o lançamento não vedou e/ ou alterou sua atividade econômica, foi efetuado com base na legislação tributária vigente e não contrariou entendimento ou determinação do Fisco. Deste modo, não merece guarida a alegação de nulidade da decisão recorrida, não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Por todo o acima exposto, rejeito esta preliminar de nulidade. 4.2 Nulidade do AI alegado erro de direito conceito de praça apuração VTM Sustenta a Recorrente que seja reconhecido que houve erro de direito em razão da não aplicação da Consulta Formal, a qual define o conceito de praça como cidade e a forma de cálculo do VTM, para os casos em que o Estabelecimento Industrial e o Comercial Atacadista estejam localizados no mesmo município, e possui efeitos vinculantes tanto para a Administração Pública, quanto para a Recorrente no ano de 2012. De se notar, que as determinações da Consulta Formal emitida em favor da Recorrente estavam plenamente em vigor em 2012, uma vez que a Recorrente jamais foi notificada de nova orientação editada pelas autoridades fiscais, nem tampouco a Solução COSIT nº 08/12 foi publicada na imprensa oficial para sequer formalizar o novo entendimento. Alega ainda que, "(...) não pode deixar de destacar que tal orientação, no sentido de o termo “praça comercial” ser sinônimo de Município, foi repetido em Resposta à Consulta Formal endereçada a outro contribuinte em situação essencialmente semelhante àquela da ora Recorrente (doc. n° 08 da impugnação), o que só faz confirmar a procedência dessa interpretação: “12. Deslindando a questão, verificamos que da legislação aplicável à matéria não tem aplicabilidade ao caso em apreço o disposto no inciso 1 do caput do artigo 136 do RIPI, em face de não se ter o preço praticado pela distribuidora interdependente da consulente, pelo simples fato de a mesma não proceder a venda por atacado na praça do município onde ambas estão localizadas. Em face disso, movese a interpretação do IPI, para fins de aplicação do valor mínimo, do artigo 136 para o artigo 137, todos do RIPI.” (Grifei). A Recorrente entende que, considerando o teor da reposta à Consulta Formal, temse que tanto a DRJ/RPO quanto a Fiscalização incorreram em erro de direito (material) ao deixar de aplicar a interpretação determinada pela própria RFB com relação ao disposto no parágrafo 5° do artigo 68 do RIPI/82 (atual artigo 196, caput, do RIPI/10). Tal erro de direito, Fl. 2535DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.529 15 enseja o imediato cancelamento do Auto de Infração, haja vista que o teor da resposta à Consulta Formal da Recorrente é vinculante à Administração Pública. Como se vê, no entender da Recorrente, o conceito jurídico de "praça" está materializado nos atos normativos que tratam da matéria, o que não procede, e que as autoridades fiscais não poderiam alterálo. Tais normas complementares (Consulta Formal) não fixaram expressamente o conceito "jurídico" de praça. Quando muito a ela se referiu, de modo que, tanto as autoridades fiscais, quanto a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/12, não estabeleceram alteração alguma. Vejase que a Solução de Consulta Interna da COSIT nº 08/12, como o próprio nome sugere, tratase de Ato Normativo que tem por finalidade aclarar as dúvidas suscitadas pelos órgãos internos da RFB. Logo, tal ato tem efeito vinculante restrito ao âmbito da RFB, embora sirva de respaldo ao procedimento do sujeito passivo que adote sua orientação. Dada essa característica, o fato de o referido ato não ter sido publicado externamente (na imprensa oficial, por exemplo), certamente, não desobriga a fiscalização de aplicar a sua orientação na execução da atividade vinculada do lançamento. Ao contrário, a simples publicação interna, dada o alcance do seu efeito vinculante, já é suficiente para que autoridade fiscal autuante observe o disposto no referido ato na atividade de lançamento, como ocorreu no caso em tela. E mais. Da leitura dos excertos extraídos da referida SCI, fica claro que ela apenas consolidou os entendimentos exarados nos PN CST 44/1981 e PN CST 89/1970, que tratam dos procedimentos de apuração VTM relativos ao mercado atacadista concorrencial e monopolista, respectivamente. Logo, fica demonstrado que os procedimentos de apuração do VTM são diferentes para cada uma das referidas modalidades de mercado atacadista. Dessa forma, fica evidenciado a improcedência da alegação da Recorrente de que a referida SCI, configura alteração de práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas e que introduziu novo critério jurídico, o que implicaria violação ao art. 146 do CTN, haja vista que, em relação ao mercado atacadista monopolista, ela apenas reafirmou entendimento exarado no PN CST 89/1970, e nada mais. Na verdade, no processo interpretativo, tais atos normativos e Solução de Consulta Interna nada mais fizeram que descortinar facetas do mesmo objeto, partes do mesmo fenômeno. E por esta mesma razão, não há que se falar em afronta ao princípio da segurança jurídica e que houve erro de direito. Quanto a alegação suscitada pela Recorrente, no âmbito do recurso voluntário, de que a ausência de publicidade externa do referido ato retiravalhe a natureza de norma complementar e a característica de ato administrativo normativo, e que, portanto, não integrava a legislação tributária, referida no art. 96 e art. 100, I, do CTN, obviamente, tratase de alegação que diz respeito a natureza normativa da referida SCI, matéria essa que é estranha aos autos. Quanto ao existência de erro material em razão da falta de aplicação da Consulta Formal quando da apuração do VTM, uma vez que, na autuação ora questionada, Fl. 2536DF CARF MF 16 não foram considerados os preços praticados pelo Estabelecimento Industrial em suas vendas para o estabelecimento comercial da L’Oréal Brasil, tal fato será enfrentado em tópico seguinte, quando analisado o mérito. Portanto, não procede as alegações da Recorrente que houve erro de direito/material no caso dos autos. 4.3 Nulidade do Auto de Infração presunção de suposto Subfaturamento Aduz a Recorrente que seja decretada a nulidade do Auto de Infração pelo fato de a Fiscalização ter realizado o lançamento baseada apenas em mera presunção de suposto subfaturamento, tendo em vista que não carreou aos presentes autos quaisquer evidências documentais que comprovem a realização de pagamentos complementares de preço nas operações com a L’Oréal Brasil, bem como que não demonstrou qualquer indício de simulação, fraude ou outro defeito jurídico, que possa colocar em dúvida a verdade material refletida nos documentos fiscais emitidos pelas referidas empresas. Isto porque no TVE a Fiscalização concluiu que as operações de saída da unidade Industrial, segregando as funções de comercialização, a cargo da empresa L'OREAL Brasil, visou a redução artificial do valor da base de cálculo (fls. 1.666/1.669/1.670): "(...) 3.2. Mais especificamente, foram constatados indícios de subfaturamento nas vendas efetuadas pelo FISCALIZADO ao ATACADISTA, em função da análise comparativa das receitas de vendas de ambas as pessoas jurídicas, sendo que a quase totalidade das receitas da pessoa jurídica atacadista (L’ORÉAL BRASIL) decorre de revendas de mercadorias adquiridas da pessoa jurídica industrial (PROCOSA)". "Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a diferença entre os preços praticados pelo estabelecimento industrial remetente (FISCALIZADO) e o estabelecimento atacadista é de mais de 500% (quinhentos por cento)." 4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. Quanto a expressão "subfaturamento" utilizada pela Fiscalização em seu Termo de Verificação Fiscal, como bem observou a Recorrente, entendo que referese a situação de saída de produto cujo valores apurados estão abaixo do VTM. Vejase que a Fiscalização consigna em seu Relatório que em razão de todas as informações levantadas no curso do procedimento fiscal, apurou o preço corrente do mercado atacadista com base somente nas vendas efetuadas pelo interdependente do remetente (ATACADISTA) porque o fabricante/importador não efetuou vendas diretas para destinatários atacadistas com as quais não tinha relação de interdependência, e não existiam outros remetentes a considerar. Por óbvio, não foram consideradas as vendas efetuadas pelo estabelecimento FISCALIZADO para o ATACADISTA no cálculo da "média ponderada", uma vez que tais preços, representam os valores que se pretende corrigir, não podendo, ao Fl. 2537DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.530 17 mesmo tempo, constituirse em base de cálculo, pois geraria um círculo vicioso, já que o novo valor ajustado tornaria a recompor aquela base. Nesse contexto, há que ressaltar, primeiramente, o conceito de subfaturamento: "SUBFATURAMENTO (Dir. Pen.) Prática ilícita de fazer constar, de uma fatura, mercadorias ou serviços por preço inferior ao real, no intuito de fraudar o fisco. CP, art. 299, L 4729, de 14.7.1965." (Academia Brasileira de Letras Jurídicas, Dicionário Jurídico, 5ª edição, 1998, Forense Universitária Biblioteca Jurídica, pág. 793). Assim, neste aspecto, entendo que assiste razão à Recorrente quanto ao termo e a forma que foi utilizado pela Fiscalização (digase que foi repetido por duas vezes no TVE), pois a prática de subfaturamento representa características ou práticas de conduta fraudulenta, o que acarretaria, se fosse constatado no caso sob exame, a aplicação de penalidades qualificadas (multas duplicadas) no Auto de Infração, o que poderia acarretar tipificação de falsidade ideológica por prática de crime contra a ordem tributária sujeito às sanções da Lei nº 8.137/91, o que não restou concretizado a multa aplicada pelo Fisco. Tanto é fato, que a multa aplicada foi de 75%, conforme definida pelo art. 80, caput, da Lei nº 4.502/64, com a redação dada pelo art. 13 da Lei nº 11.488/07. Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. Portanto, não se verifica evidências nos autos de que a Recorrente (PROCOSA), tenha emitido nota fiscal fatura com preço inferior ao efetivamente recebido da L'OREAL. Conforme pode ser observado no item 4.18 do TVF: "4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo:"...)" (Grifei) A meu sentir, o termo utilizado pela fiscalização esta relacionado sobre a formação do preço das mercadorias que foram vendidas ao estabelecimento interdependente (ATACADISTA), com os valores referenciais sendo inferiores, objetivando a formação da base cálculo para a incidência do IPI, com o qual, a fiscalização não concorda. Por isso, não vislumbrase, no caso, a nulidade do Auto de Infração. 4.4 Nulidade do Auto de Infração erro na 'quantia devida' Requer subsidiariamente, que seja decretada a nulidade do Auto de Infração por erro no quantum debeatur, já que a Fiscalização: (a) não considerou o preço de venda do Estabelecimento Industrial no cálculo da média ponderada; (b) utilizou preço de venda da L’Oréal Brasil de até três meses antes do fato gerador do IPI; e (c) no excluiu da base de Fl. 2538DF CARF MF 18 cálculo do tributo os valores concedidos a título de descontos incondicionais concedidos pela L’Oréal Brasil. Não assiste razão à Recorrente, pois não há qualquer erro ou dúvida em relação à matéria tributável, ao cálculo da média ponderada realizada pela Fiscalização (art. 196, do RIPI/10), bases de cálculos e em relação aos descontos incondicionais. Frizese que o enquadramento legal utilizado não merece reparos. Está plenamente adequado ao caso concreto e quanto a este entendimento a Recorrente ofertou ampla oposição em sua Impugnação e agora em sede de recurso. Ademais, essas alegações serão enfrentadas e debatidas nos tópicos seguintes, quando será analisado o mérito do recurso. 5. Do Mérito No mérito, alega a Recorrente que seja reconhecida a insubsistência do lançamento, e cancelado o Auto de Infração, uma vez que a Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido no Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasi1. 5.1 Sobre o conceito de "PRAÇA" para efeitos da apuração do VTM Toda a tese desenvolvida em seu recurso, a Recorrente assentase na consideração de que o termo “praça” ou “localidade”, apesar de não contar com definição específica na legislação tributária, possui abrangência especificamente limitada à circunscrição territorial do município ou cidade. Defende a Recorrente que, "(...) primeiro verificou, com fundamento na legislação de regêncïa e precedentes administrativos e judiciais sobre o assunto, que o termo “praça” deve ser entendido como “Município” e, assim, constatou a impossibilidade de apurar o IPI pela sistemática do VTM Praça previsto no inciso I do artigo 195 do RIPI/2010, dado que é a única empresa atacadista vendedora de seus produtos que está instalada no Município do Rio de Janeiro/RJ e, em seguida, não podendo aplicar o VTM Praça, nem tampouco considerar os preços praticados pela empresa comercial atacadista L’Oreal Brasil na apuração do imposto, dado que o estabelecimento daquela empresa se localiza em “praça” distinta (i.e. Município de Duque de Caxias/RJ), a Recorrente apurou o IPI devido no ano de 2012 segundo o método do VTM Custo". Continua asseverando que pelo fato de a L’Oréal Brasil efetuar vendas ao município do Rio de Janeiro/RJ, não seria suficiente para colocar a Recorrente e aquela sociedade na “mesma praça comercial”. Na verdade, ainda que a L’Oréal Brasil efetue determinadas vendas a adquirentes localizados no município do Rio de Janeiro/RJ, isso não faz com que tal empresa possua praça nesse Município. Esse ponto é central, pois, o centro de distribuição L’Oreal Brasil tanto possui domicílio (ou seja, está localizado para fins práticos e jurídicos) quanto atua (ou seja, opera uma planta comercial e pratica seus negócios) no Município de Duque de Caxias/RJ, o qual constitui praça diversa do Município do Rio de Janeiro/Ri, no qual o Estabelecimento Industrial atua e possui domicílio. Fl. 2539DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.531 19 Afirma que o termo "praça" designa território de um município ao informar que “mercado atacadista", segundo o PN/CST nº 44/81 e do ADN/CST nº 5/82, significa o conjunto (i) das vendas efetuadas por um estabelecimento industrial, ou equiparado, a estabelecimentos comerciais atacadistas localizados no mesmo município e (ii) das revendas de mercadorias idênticas efetuadas por estabelecimentos atacadistas a outros estabelecimentos atacadistas e varejistas, mas também localizados naquele município.” Ou seja, para a Recorrente, o conceito de praça, para fins de determinação do VTM, deve ser entendido como “município ou cidade”, no seu entender, nos termos do PN CST 44/81, do Ato Declaratório Normativo 5/82 e de decisões administrativas da RFB. Considerando que a Recorrente (Industrial) está situada no Município do Rio de Janeiro/RJ e a Comercial situada em Duque de Caxias/RJ, não haveria, mercado atacadista na praça do remetente, razão pela qual a empresa teria observado, para o cálculo do "VTM Custo", previsto no inciso II, do artigo 196 do RIPI/2010. Por outro lado a Fiscalização utiliza um outro critério para apurar a base de cálculo do IPI devido naquele ano calendário, pois procedeu à apuração do IPI devido pela Recorrente a partir dos preços exclusivamente praticados nas saídas do estabelecimento da L’Oréal Brasil, em aplicação do VTM Praça ao caso dos autos. Que não existe na legislação tributária, a limitação espacial do conceito de praça (ou mesmo de localidade), como sendo a área de um município ou cidade. Esse mesmo critério foi adotado pelo Acórdão recorrido que, em linhas gerais, considerou que a inexistência de outros estabelecimentos comerciais atacadistas no Município do Rio de Janeiro/RJ não impediria a apuração do VTM Praça a partir dos preços praticados pela empresa L’Oreal Brasil. Pois bem. Conforme disposto nos arts. 195 e 196 do RIPI/2010, que traz normas claras, visando impedir que os fabricantes se utilizem de firmas interdependentes para reduzir a Base de Cálculo do IPI, considerar o termo “praça”, previsto na legislação tributária, como sendo limitado ao espaço geográfico de um único município (nos termos defendido pela Recorrente), afastaria da incidência do tributo (IPI), os contribuintes que elegessem uma estrutura entre interdependentes que se situam em cidades distintas, exatamente para se livrarem da tributação regulamentar. Para enfrentar essa matéria, doravante subscrevo varias considerações tecidas por este Relator (faço adaptações pontuais), no PAF nº 16682.722461/201530 (Acórdão nº 3402004.341, de 29/08/2017), desta mesma empresa (PA 2011), adotandoas como razão de decidir, com forte no § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784, de 1999, passando as mesmas a fazer parte integrante desse voto. Primeiramente, cumpre esclarecer que o conceito de “praça”, em virtude das orientações lançadas no tópico antecedente, em nada altera o enquadramento jurídicotributário e as suas consequências, devidamente descritos no lançamento de ofício em tela. Travase o debate, simplesmente, para se colocar luzes aos argumentos da Recorrente acerca da concepção do que seja “praça”, os quais, no juízo deste Relator, não são os mais razoáveis e compatíveis com o ordenamento jurídico em vigor. Na análise conceitual de “praça”, há de se ter o cuidado em se formular conceito que venha a atender a finalidade da norma (art. 195 do RIPI/2010), qual seja, garantir Fl. 2540DF CARF MF 20 que a tributação do IPI recaia sobre valor que se aproxime do valor da operação, evitando, assim, o recolhimento do imposto sobre uma base de cálculo em dimensão econômica muito distante dos preços praticados. No caso de empresas interdependentes, garantir que as saídas dos produtos entre a fabricante/importadora e a sua comercial interdependente sejam tributados, no mínimo, pelo valor do mercado atacadista. Há de se perceber, inicialmente, tratarse de norma antielisão e não de uma norma que estabelece um favor fiscal ou um tratamento mais benéfico. Aceitar o argumento da Recorrente de que o conceito de praça restringese à dimensão geográfica correspondente ao território de município e que não haveria “mercado atacadista da praça do remetente” (e, consequentemente, preço de atacado naquele território) por estarem localizados em municípios diversos os estabelecimentos do remetente/impugnante e do comercial atacadista interdependente, implica interpretar que a localização de empresas interdependentes é fundamental para conferir um determinado tratamento tributário aos diversos sujeitos passivos. Ou seja, se estiverem domiciliados no mesmo município, um tratamento jurídico e, se domiciliados em municípios diferentes, outro mais favorável, em total desconformidade com a finalidade da norma do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010. Como vimos, esse tipo de interpretação, assentada num conceito reducionista de “praça”, circunscrita a município, desprestigia os princípios da uniformidade tributária e da isonomia, uma vez que, em situações idênticas, operações de saída de produtos entre empresas interdependentes estariam sujeitas à aplicação de regras distintas em razão da localização de cada estabelecimento, possibilitando a prática de concorrência desleal e ofendendo a ordem econômica". E, continua argumentando a Recorrente que, (...) Assim, considerando a definição da lei comercial vigente ao tempo da edição da Lei n° 4.502, de 30.11.1964 (“Lei 4.502/64”), o entendimento expresso pelas autoridades fiscais e os precedentes administrativos e judiciais sobre a matéria (que não é “parco,” como afirma o v. Acórdão recorrido na fl. 2.309), é evidente que o conceito jurídico de praça somente pode ser entendido como sendo equivalente a “município”, ou localidade específica do estabelecimento industrial". Conforme descrito na Impugnação, em 2O8.1985 a Recorrente formulou Consulta Formal (Processo n° 13709.001891/8595) (doc. n° 07 da impugnação) à Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil no Estado do Rio de Janeiro, para questionar sobre a interpretação da legislação do IPI no tocante à determinação (i) do correto entendimento do conceito de praça; e (ii) da base de cálculo nas vendas para estabelecimento com a qual mantinha relação de interdependência. Como nota, a Recorrente não pode deixar de ressaltar que o próprio Acórdão recorrido reconhece que o conceito jurídico de praça atualmente vigente, relacionado à idéia de território ou município, estaria “ultrapassado” e careceria de uma revisão". Por final, destaca que "a Solução COSIT nº 8/12 não modificou a definição do termo “praça” dada pela Ato Declaratório Normativo n° 5, de 1982 (“ADN/5/82”) e pelo Parecer Normativo n° 44, de 19 de novembro de 1981 ("PN 44/81”). Na verdade, a referida Solução COSIT tratou apenas de interpretar as normas relativas à base de cálculo do IPI, pois nem possuía competência para analisar questão relativa a conceitos estabelecidos em atos normativos". Fl. 2541DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.532 21 No entanto, entendo que não assiste razão à Recorrente. O termo "praça" não significa necessariamente município, como também pela menção contida no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, de que deve ser considerado “o universo das vendas realizadas naquela localidade” e não das vendas realizadas “para aquela localidade”, o que a meu sentir, levaria à conclusão de que não haveria mercado atacadista em determinada localidade se ali não houvesse compradores dos produtos vendidos no atacado, ainda que estabelecimento industrial (ou equiparado) e atacadistas se situassem nessa mesma localidade. Vejase que o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs, in verbis: 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. De outro lado, interpretando sistematicamente o art. 195, inciso I do RIPI/2010, firmase a convicção, com fundamento no artigo 32 do Código Comercial, em princípios constitucionais e no conteúdo de Direito Administrativo, de que “praça” é a localidade ou região, circunscrita ou não ao território de um município, onde tem atuação o comerciante nos seus atos negociais em sentido amplo. Assim sendo, como o conceito de “praça” está diretamente relacionado ao campo de atuação do comerciante, os preços por ele praticados nos locais onde mantém atuação mercantil caracterizam os seus “preços da praça”. Há que se destacar ainda, que a fiscalização deixou consignado no TVF, que em relação aos fatos em questão, os estabelecimentos remetente (FISCALIZADO) e destinatário (ATACADISTA) estão localizados nos municípios do Rio de Janeiro (RJ) e de Duque de Caxias (RJ), ambos pertencentes à região metropolitana do Rio de Janeiro (RJ). Que essa região, também conhecida como "Grande Rio", foi instituída pela Lei Complementar nº 20, de 1º de julho de 1974, após a fusão dos antigos estados do Rio de Janeiro e Grande Niterói, e é constituída por 19 municípios. Vejase trecho reproduzido (fl. 1.675): "(...) Como se vê, o mapa acima revela que os municípios de Duque de Caxias e do Rio de Janeiro são limítrofes (números 1 e 3), ao passo que os mapas abaixo denunciam que ambos os estabelecimentos se situam na fronteira entre essas cidades, de forma que, mais do que vizinhos, eles se encontram bem mais próximos entre si do que em relação às suas sedes administrativas que se situam no mesmo ponto do centro da cidade do Rio de Janeiro. Vide as distâncias a seguir destacadas: Distância entre o estabelecimento FISCALIZADO (A) e sua Sede Adm. (B) = 24,6Km; Distância entre estabelecimentos FISCALIZADO (A) e ATACADISTA (B) = 9,8Km; Distância entre o ATACADISTA (B) e sua sede administrativa (A) = 21,4Km: Considerandose o fato de que mesmo a PROCOSA e a L'OREAL Brasil, se situarem em municípios diversos, podese afirmar que (para efeito de aplicação do art. 195, inciso I do RIPI/2010), no caso em questão, esses estabelecimentos situamse na mesma localidade, não somente por pertencerem à mesma região metropolitana (do Rio de Janeiro), Fl. 2542DF CARF MF 22 mas, sobretudo, em face da grande proximidade entre estabelecimentos, maior até do que entre muitos bairros do próprio município do Rio de Janeiro. Desta forma, o conceito de "praça" adotado pelo Fisco assegura a justiça da apuração e respeita a finalidade da norma. E isto porque o fato de duas cidades serem municípios vizinhos não pode afastar a definição de praça, ainda mais no caso de Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, por exemplo, tratado nos autos, que além de serem municípios limítrofes, que compõem uma mesma região metropolitana, são cidades que apresentam índices sócioeconômicos bem equivalentes, sendo certo, portanto, que as vendas realizadas pela L'OREAL Brasil, em Duque de Caxias, não podem ser ignoradas. Por fim, no caso analisado, restou comprovado nos autos, que existe um único vendedor atacadista que opera não só no mercado atacadista do remetente/recorrente, mas em todo o mercado nacional, que é justamente a Comercial atacadista interdependente. Notese que não há, no art. 195, inciso I, do RIPI/2010, qualquer menção ou restrição ao local do destino das vendas do estabelecimento integrante do mercado atacadista da praça do remetente. Vejase o dispositivo: Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso I, e DecretoLei nº 34, de 1966, art. 2º); Como se vê, a luz do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, o preço do mercado atacadista do estabelecimento remetente/Recorrente é aquele praticado pela comercial atacadista interdependente, sua única representante. 6. Do Enquadramento Legal do Auto de Infração Verificase no Auto de Infração à fl. 1.686, que foram os seguintes os enquadramentos nos dispositivos legais, para os fatos geradores do IPI, ocorridos entre o período de 01/01/2012 e 31/12/2012: Art. 195, inciso I, e art. 196 do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Art. 24, inciso II, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Art. 24, inciso III, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Arts. 35, inciso II, 181, 182, inciso I, alínea "b" e inciso II, alínea "c", 186, §§ 2º e 3º, 189, 259, 260, inciso IV, 262, inciso III, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Art. 1º da Lei 8.850/94, com as alterações introduzidas pelo art. 7º da Lei 11.774/08. 7. Da apuração do valor da base cálculo do IPI Em relação a formação da base de cálculo do IPI em operações envolvendo estabelecimentos interdependentes VTM como norma antielisiva, informa a Recorrente em seu recurso que, "(...) No Auto de Infração, a Fiscalização procedeu à apuração do IPI supostamente devido pela Recorrente a partir dos preços praticados nas saídas do estabelecimento da L’Oréal Brasil (CNPJ n° 30.278.428/000595). Entretanto, tal critério adotado pela Fiscalização para apurar o valor do IPI supostamente devido nas saídas realizadas pela Recorrente para estabelecimento interdependente não encontra respaldo na legislação fiscal". E prossegue afirmando que a apuração da base de cálculo nas saídas realizadas por estabelecimentos industriais com destino a estabelecimentos com os quais Fl. 2543DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.533 23 mantenha relação de interdependência, na forma do artigo 612 do RIPI/10, está sujeita às regras previstas no inciso I do artigo 195 (VTM Praça) e no artigo 196 (VTM Custo), ambos do RIPI/10. Vejase: Art. 195. O valor tributável no poderá ser inferíor: 1 ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...) Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos 1 e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: 1 (...). II no caso de produto nacional, o custo de fabricaçüo, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado” (Grifei) Vejase que da leitura dos artigos transcritos acima o entendimento dos dispositivos é simples. (i) Se existir um preço corrente no mercado atacadista na praça do remetente, então a base de cálculo do IPI deve ser calculada com base na média ponderada dos preços praticados neste mercado (VTM Praça), e (ii) se não existir um preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, então a base de cálculo do IPI deve ser calculada com base nos custos incorridos, acrescidos de uma margem de lucro normal (VTM Custo). Assim, a definição de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM perpassa, portanto, em precisar qual o significado do termo “praça do remetente” para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista. Como visto, a Recorrente afirma que primeiro verificou, com fundamento na legislação de regêncïa e precedentes administrativos e judiciais sobre o assunto, que o termo “praça” deve ser entendido como “Município” e, assim, constatou a impossibilidade de apurar o IPI pela sistemática do "VTM Praça" previsto no inciso I do artigo 195 do RIPI/2010, dado que é a única empresa atacadista vendedora de seus produtos que está instalada no Município do Rio de Janeiro/RJ e em seguida, não podendo aplicar o "VTM Praça", nem tampouco considerar os preços praticados pela empresa comercial atacadista L’Oreal Brasil na apuração do imposto, dado que o estabelecimento daquela empresa se localiza em “praça” distinta (Município de Duque de Caxias/RJ), a Recorrente apurou o IPI devido no ano de 2012 segundo o método do "VTM Custo" previsto no inciso II do artigo 196 do RIPI/2010. No entanto o Fisco discordou desse entendimento. Como pode ser extraído dos autos, a partir da concentração das atividades dos estabelecimentos comerciais atacadista da L’ORÉAL Brasil no estabelecimento instalado no município de Duque de Caxias, abandonou o valor tributável mínimo, calculado com base no preço médio ponderado de venda no mercado atacadista praticado no município do Rio de Janeiro/RJ (VTM Praça), e passou Fl. 2544DF CARF MF 24 adotar novo VTM, calculado com base no “custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação (VTM Custo). Por sua vez, o motivo apresentado pela Fiscalização para rejeitar o novo valor tributável mínimo (VTM Custo), utilizado pela Recorrente como base de cálculo do IPI, foi a constatação de que os custos, as despesas e a margem de lucro por ela apresentados foram artificialmente manipulados, para fim de reduzir a base de cálculo do IPI. Vejase trecho reproduzido do TVF (fl. 1.670): "4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo" (...). Muito embora a Recorrente tenha alegado em seu recurso que a reengenharia econômica e de logística operacional não tenha sido implantada com fim puramente econômico e não com finalidade de planejamento tributário, destinado a obter menor pagamento do IPI, os fatos noticiados nos autos, corroborados com elementos probatórios idôneos, contrariam e infirmam tal alegação. É fato que, sob ponto vista empresarial, a Recorrente tem toda liberdade para adotar o modelo gerencial que lhe mais conveniente e adequado para obtenção de melhores resultados econômicos, por meio da redução de custos e despesas e, conseqüentemente, elevação da taxa de lucro. Entretanto, dentro desse objetivo, não se pode esquecer que há exigências na legislação tributária não podem ser desconsideradas. No caso, ainda que não tenha sido o propósito da Recorrente, as diferenças de preços praticadas entre os estabelecimentos industrial e distribuidor interdependentes destoam enormemente dos preços praticados entre estabelecimento industrial e distribuidor em ambiente comercial normal, sem interdependência. Por essas e as demais razões trazidas no Termo de Verificação Fiscal, entendo que o Fisco agiu com acerto ao desconsiderar o valor tributável mínimo (VTM Custo) adotado pela Recorrente, calculado com base no “custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação. 8. Da Interdependência entres as empresas Fl. 2545DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.534 25 Analisase aqui, a questão atinente à apuração do valor da base cálculo do IPI, utilizada pela fiscalização no presente lançamento, especificamente, quanto ao Valor Tributável Mínimo (VTM) aplicado aos produtos vendidos com exclusividade, pela Recorrente, ao estabelecimento atacadista, inscrito no CNPJ sob nº 30.278.428/000595, pertencente a pessoa jurídica L’OREAL, interdependente da autuada e a vendedora (PROCOSA), que detém 99,99% do total das quotas de capital da referida empresa. A relação de interdependência é fato incontroverso nos autos. Conforme informações fornecidas pela própria Recorrente, as referidas empresas integram o conglomerado econômico, controlado pela sociedade francesa L'ORÉAL S/A., uma das líderes mundiais no ramo de perfumes, cosméticos e produtos de toucador. Nos termos do art. 612, I, do RIPI/2010, a interdependência entre duas empresas, verificase sempre que uma delas tiver participação no capital social da outra de quinze por cento ou mais, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o segundo grau e respectivos cônjuges. É fato que a empresa PROCOSA encontrase localizada no bairro da Pavuna, pertencente ao município do Rio de Janeiro/RJ, enquanto o estabelecimento da empresa L'ORÉAL BRASIL (denominado estabelecimento ATACADISTA), está situado no município de Duque de Caxias/RJ, em área limítrofe ao município do Rio de Janeiro/RJ. Consta dos autos que as sedes administrativas das referidas pessoas jurídicas estão localizadas em um mesmo prédio, situado na Rua São Bento, n° 8, no centro da cidade do Rio de Janeiro e que o estabelecimento atacadista operava como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço (salões de beleza, cabeleireiros em geral) de todo o país, sendo considerado atacadista conforme conceito definido no art. 14, I, do Decreto nº 7.212, de 2010, que veicula o Regulamento do IPI de 2010 (RIPI/2010). Portanto, conforme demonstrado e provado nos autos, a Recorrente mantém relação de interdependência com a empresa adquirente de seus produtos, cujas operações foram objeto do lançamento em discussão. 9. Da aplicação do Valor Tributável Mínimo VTM Analisando as informações acima, resta incontroverso que as operações de venda dos produtos objeto da presente autuação foram realizadas, com exclusividade, para estabelecimento atacadista interdependente, conforme definido no art. 612, I e IV, do RIPI/2010. Aliás, esse fato é incontroverso no caso em tela, o que exige do estabelecimento vendedor a adoção de um Valor Tributável Mínimo (VTM), como base de cálculo do IPI, conforme determinado nos arts. 195, I e 196 do RIPI/2010. Por outro giro, o Fisco verificou que a Recorrente industrializou os produtos de sua marca, bem como os importou de outras empresas do Grupo L’OREAL, e vendeu tais mercadorias para a L’OREAL Brasil, que por sua vez as comercializou e distribuiu, com exclusividade, para revendedoras e prestadores de serviços (salões de beleza, cabeleireiros, etc), sendo, assim, nos termos do art. 14, I, "c" do RIPI/2010, considerada como estabelecimento (comercial) ATACADISTA, sendo este o fato (presença de valores de saídas artificialmente manipulados) que motivou a recusa, pelo Fisco, do Valor Tributável Mínimo (VTM custo) calculado pela Recorrente. Fl. 2546DF CARF MF 26 Cabe destacar aqui, que a fiscalização constatou que os preços praticados pela L’OREAL Brasil, na revenda dos produtos, eram significativamente superiores àqueles praticados na operação de aquisição dos mesmos, entre ela e a PROCOSA (industrial), segundo apontado pela fiscalização, que identificou diferenças da ordem de até 500% nos preços dos produtos adquiridos e vendidos pela L’OREAL Brasil (comercial). Vejase trecho do TVE: "4.15. Na sequência, o FISCALIZADO passa a tratar da questão da diferença entre seus preços e os preços praticados pelo ATACADISTA. Aquele alega que a substancial diferença entre os preços praticados pelos dois estabelecimentos provém das particularidades da atividade econômica de cada um deles, sendo que um realiza produção industrial enquanto o outro se dedica à distribuição. O estabelecimento da PROCOSA (FISCALIZADO), sendo responsável pela industrialização dos produtos, arcaria com os custos fabris, enquanto a L’ORÉAL, responsável pela comercialização e distribuição, arcaria com outros custos, como os de estocagem, transporte, propaganda e publicidade, o que por sua vez justificaria a maior margem agregada pelo ATACADISTA na comercialização de seus produtos, “sob pena de auferir seguidos prejuízos fiscais”. 4.16. Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a diferença entre os preços praticados pelo estabelecimento industrial remetente (FISCALIZADO) e o estabelecimento atacadista é de mais de 500% (quinhentos por cento)". Neste caso, há que se levar em conta que o fato de estabelecimentos interdependentes praticarem entre si preços diferentes daqueles negociados no mercado, quando da comercialização entre partes não relacionadas, caracteriza o favorecimento entre elas o que, por si só, já autoriza a conclusão de que a Recorrente, de fato, praticou a infração que lhe foi imputada. Isto porque, conforme definido no Regulamento do IPI, existindo mercado atacadista na praça do remetente, o preço do produto negociado entre elas deveria corresponder ao preço corrente naquele mercado, calculado com base na média ponderada dos preços de cada produto, vigorantes no mês antecedente ao da saída do estabelecimento remetente ou ao mês imediatamente anterior. Nesse mesmo sentido, foi decido por este CARF, pelo Acórdão do 2º CC n° 20216.152, de 22/02/2005: "(...) Em havendo a interdependência, a legislação exige que nas remessas de produtos tributados de uma para outra empresa seja observado o valor tributável mínimo, in casu, o preço do mercado atacadista da praça do remetente. Essa exigência não foi cumprida pela reclamante, que deu saída aos produtos para sua interdependente pelo mesmo preço que os importou (preço de custo), sem observar o preço corrente no mercado atacadista de sua praça" (...). Também nesse mesmo diapasão, foi decido pelo Acórdão n° 3301001.847, de 22/05/2013, da 1ªTO, 3ª Câmara da 3ª Sejul: "BASE DE CÁLCULO. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. Comprovada a relação de interdependência entre as empresas, adotase como base de cálculo do IPI incidente nas saídas dos produtos do estabelecimento industrial da interdependente o valor tributável mínimo. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. APURAÇÃO. O valor tributável mínimo corresponde à média ponderada dos preços de cada produto, vigente no mês precedente ao da saída dos produtos do estabelecimento industrial remetente, e, ainda, não pode ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça daquele, no caso de remessa para empresa interdependente. Fl. 2547DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.535 27 Há que se ressaltar ainda que no julgamento da Primeira Turma da Segunda Câmara da Terceira Sejul, negouse provimento ao recurso (Acórdão 3201001204), sob o fundamento de que "na saída de produtos tributados pelo IPI para firma interdependente, o valor tributável não pode ser inferior ao preço corrente dos produtos no mercado atacadista do remetente". E que existe preço corrente no mercado atacadista da remetente, ainda que se trate de um mercado monopolista. O preço praticado pela distribuidora interdependente nas vendas para terceiros independentes, equivale ao preço de mercado, por abranger os custos do produto. No caso dos autos, é importante frisar, que o Fisco estabeleceu a “média ponderada”, com base nas vendas realizadas pela L'OREAL, único atacadista, conforme define os arts. 195, I e 196 caput, do RIPI/2010, anteriormente reproduzido. É importante se destacar que, apenas no caso de inexistir mercado atacadista, o que se dá, por exemplo, quando somente houver vendas feitas no varejo, é que se utilizaria a regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010 (como pleiteia a Recorrente), o que, como já abordado neste voto, não é o caso desses autos. Há de se considerar também que, diante da impossibilidade de adotar o critério alternativo de apuração da base cálculo do IPI, previsto no art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, revestese de todo razoável e em consonância com as normas de proteção da base de cálculo do IPI a utilização, pela fiscalização, do VTM calculado com base no preço no atacado médio praticado pelo estabelecimento atacadista interdependente da L’ORÉAL BRASIL, localizado no município de Duque de Caxias, limítrofe com o município do Rio de Janeiro, onde se situa o estabelecimento industrial da recorrente, especialmente tendo em conta que ambos os municípios integram a mesma região metropolitana. Além disso, por utilizar o único preço por atacado idôneo praticado na comercialização dos referidos produtos fabricados pela recorrente e objeto da presente autuação, certamente, tratase de critério objetivo que está em perfeita consonância com o critério de apuração do VTM estabelecido no PN CST 89/1970 e na SCI Cosit nº 8/2012. Por fim, como se sabe, o IPI não é um imposto pessoal (de modo a considerar os custos da pessoa do industrial ou da pessoa do distribuidor), mas sim um imposto real, devendose no caso, ser levados em conta todos os custos da mercadoria (de produção, de vendas, de publicidades, etc). Nesse sentido, importa registrar que o preço praticado pelo destinatário (no caso, pela LOREAL Brasil) é o que efetivamente abrange, além dos custos de fabricação, também os demais elementos que devem ser considerados na fixação do VTM. 10. Da Base de Cálculo Média Ponderada Aduz a Recorrente em seu recurso que, "(...) que a D. Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido pelo Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasil". (Grifei) Fl. 2548DF CARF MF 28 Por outro lado, a Fiscalização entende que, embora conhecendo os preços no mercado atacadista praticados pelo seu distribuidor comercial atacadista exclusivo e interdependente, a Recorrente não observou os comandos normativos e utilizou, indevidamente, para definir a base de cálculo do IPI nas suas operações de saída, o inciso II, do art. 196 do RIPI/2010. Desta forma procedendo, recolheu valor de imposto (IPI) muito abaixo do valor tributável mínimo (VTM) previsto pelo inciso I, do art. 195 do RIPI/2010. Pois bem. Como bem asseverado pela decisão de piso, "No mundo jurídico, a lógica jurídica nos revela que, igualmente, o preço do mercado atacadista da praça do remetente, no caso concreto, é o mesmo praticado pelo estabelecimento Comercial Interdependente". Verificase que no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, dispôs em determinado trecho que “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada”. Portanto, cabe esclarecer a existência de mercado atacadista na região considerada, uma vez que, no caso, há apenas um único estabelecimento atacadista. Nesse sentido, não foi outra a conclusão a que chegou a Administração Tributária por meio da Solução de Consulta Interna (SCI) COSIT nº 8, de 13 de junho de 2012, cuja ementa e excertos pertinentes ora reproduzimos: (Grifei). “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI O valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a estabelecimento distribuidor interdependente do estabelecimento industrial fabricante. O valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial fabricante, e que tenha na sua praça um único estabelecimento distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto. Dispositivos Legais: Decreto no 7.212, de 15 de junho de 2010 –Regulamento do IPI; Parecer Normativo CST nº 44, de 1981.” "(...) 9. Ou seja, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo’. 9.1. Agora, se ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo’, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um ‘mercado atacadista’, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. Fl. 2549DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.536 29 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao ‘universo das vendas’ a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 (Grifei). Quando se observa o inciso I, do art. 195 do RIPI/2010, tal dispositivo legal não faz qualquer referência ao número mínimo de ofertantes que devem atuar no mercado para que este seja caracterizado como um “mercado atacadista”. Tampouco faz qualquer distinção entre mercados monopolizados, oligopolizados ou livre de concorrência. Desse modo, deve ser aplicada a regra prevista (inciso I, do art. 195 do RIPI/2010), sempre que o produto for destinado a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. Já no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs sobre “mercado atacadista”, in verbis: 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente do mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79. Em resumo, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento; devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. Por outro lado, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas e nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Como os produtos da PROCOSA são perfeitamente caracterizados e identificados por marca (L’OREAL), tipo, modelo, espécie e qualidade, o mercado atacadista da praça do remetente é composto por um único vendedor, que atua nesse mercado, qual seja, a sua própria comercial atacadista interdependente, pois esta é a única e exclusiva distribuidora dos produtos da Recorrente para a sua praça (seja ela o município ou não). Assim, sobre os preços desse único atacadista, a conformar o preço corrente no mercado atacadista do remetente/Recorrente é que deverá incidir o IPI, conforme o Ato Declaratório Normativo (ADN) CST nº 05, de 1982 e o Parecer Normativo (PN) CST nº 44, de 1981, bem como a exata orientação emanada da Solução de Consulta Interna (SCI) COSIT n° 08, de 2012, bem como na estrita interpretação do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, apontado no lançamento tributário. Vejase o trecho da Conclusão da referida SC nº 8: Fl. 2550DF CARF MF 30 Conclusão (Negritei) 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto.” A fiscalização informa em seu Termo de Verificação Fiscal, que a norma em sua correta interpretação, busca alcançar uma base de cálculo composta por uma média de preços praticados por agentes (compradores ou vendedores) atacadistas (no caso, há apenas um vendedor atacadista: L’ORÉAL Brasil) circunscritos à mesma realidade de mercado do estabelecimento remetente, ou, no dizer da norma, à mesma praça (localidade) comercial. Como no caso sob análise, no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010, existe um único distribuidor (o estabelecimento 0005 da L’ORÉAL Brasil), interdependente de estabelecimento industrial fabricante (o estabelecimento 0004 da PROCOSA) de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo (VTM) aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados, pelo distribuidor único, nas vendas por atacado do citado produto. Por óbvio, não foram consideradas as vendas efetuadas pelo estabelecimento FISCALIZADO para o ATACADISTA no cálculo da média ponderada, uma vez que tais preços, representam os valores que se pretendia corrigir, não podendo, ao mesmo tempo, constituirse em Base de Cálculo, sob pena de macular esta BC. Por entender que os preços dos produtos da PROCOSA no mercado atacadista, consistem nos mesmos preços praticados pela sua comercial atacadista, interdependente e exclusiva, encontra respaldo no ADN CST nº 05, de 1982, no PN CST nº 44, de 1981, na SCI COSIT nº 08, de 2012, e na interpretação do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, apontado no lançamento tributário. Além disso, há de se levar em consideração os preços praticados pelo estabelecimento comercial atacadista interdependente, distribuidor exclusivo da Recorrente, porquanto este atua naquela praça, conforme disposto nos atos acima citados. Como se trata de produtos perfeitamente caracterizados e identificados por marca, tipo, modelo, espécie e qualidade, são os preços da comercial atacadista interdependente, a única representante/distribuidora de tais produtos no atacado, que podem ser utilizados para se determinar o preço atacadista na praça da Recorrente/remetente. Nessa esteira, a fiscalização em relação a determinação do VTM, com base na "média ponderada" dos preços correntes do mercado atacadista da praça do remetente, desta forma consignou em seu TVF: "(...) Com base nos arquivos digitais de Notas Fiscais Eletrônicas, e tomandose os dados das Notas Fiscais de Saída emitidas pelo ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595), esta Fiscalização elaborou Demonstrativo de Apuração da Média Ponderada Mensal (art. 196, caput, RIR/2010) dos preços unitários dos produtos que o atacadista recebeu do remetente (FISCALIZADO), e comercializou por meio de notas fiscais emitidas na condição de atacadista, para adquirentes localizados dentro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (apesar de, como visto, o local de destino das vendas do atacadista não importar para fins de determinação do Valor Tributável Mínimo, mas no intuito de abarcar os compradores, por atacado, da mesma praça do remetente)". Fl. 2551DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.537 31 Portanto, a Fiscalização deixou claro que foram selecionadas para o cálculo do Valor Tributável Mínimo (VTM) apenas as Notas Fiscais de Saída do estabelecimento 0005 da L’ORÉAL BRASIL que correspondiam a operações de venda de mercadorias por atacado a pessoas jurídicas localizadas em municípios integrantes da Região Metropolitana do Rio de Janeiro/RJ. Desta forma não integraram a apuração do VTM os produtos vendidos pelo ATACADISTA na condição de varejista, bem como os produtos destinados a adquirentes localizados fora da praça comercial em questão (Região Metropolitana do Rio de Janeiro). Ressalta o Fisco que, "Os valores obtidos no demonstrativo de apuração das médias de preços praticados nas saídas do ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595) devem ser utilizados para determinação dos valores tributáveis mínimos a serem observados pelo FISCALIZADO. Portanto, faz parte do presente Termo o “Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo VTM” (ANEXO I), bem como A “Relação das Notas Fiscais utilizadas na Apuração da Média Ponderada dos Preços” (ANEXO II)". As médias apuradas nos demonstrativos, constituem o Valor Tributável Mínimo, sendo que quando da utilização deste para cálculo do tributo devido pelo FISCALIZADO foi utilizada sempre, conforme determina o artigo 196 do RIPI/2010, a média ponderada dos preços do ATACADISTA calculada no mês precedente ao período de apuração do IPI no FISCALIZADO ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior. Portanto, não procede os argumentos da Recorrente que, para determinar o VTM, a fiscalização se afastou por completo do critério comandos pelo artigo 195 e no caput do artigo 196 do RIPI/2010. Também, entendo que não caberia a autoridade julgadora apurar ou determinar margem de lucro do sujeito passivo. Especialmente, no caso em tela, em que a base de cálculo do imposto lançado não foi calculada com base lucro ou resultado obtido pela Recorrente, mas com base no VTM. Além disso, também não cabe autoridade julgadora determinar critérios de apuração da base de cálculo do tributo lançado. Essa atividade, induvidosamente, é privativa da autoridade fiscal lançadora, nos termos do art. 142 do CTN. À autoridade julgadora, certamente, cabe se pronunciar sobre legalidade do critério de apuração adotado pela fiscalização, o que no meu entender foi feito apropriadamente, em que restou demonstrado que o VTM apurado pela fiscalização foi feito em perfeita consonância com o disposto no art. 195, I, e 196 do RIPI/2010 (Decreto nº 7.212/2010). 11. Da alegada não exclusão dos Descontos incondicionais Aduz a Recorrente que, "(...) 284. Como segundo equívoco, verificase que a D. Fiscalização desconsiderou os descontos incondicionais (previstos na nota fiscal) concedidos pela L’Oréal Brasil aos seus clientes ao proceder ao cálculo da média ponderada de preços praticados por esta empresa. Contudo, se o desconto é parte integrante do preço de venda, não fazendo parte da base de cálculo do IPI, então a média ponderada, para fins de determinação do VTM, também deve ser calculada a partir do preço líquido, ou seja, excluindo os descontos". No caso dos descontos incondicionais, existe vedação normativa expressa no § 3º do art. 190 do RIPI/2010 à dedução dos descontos incondicionais na base de cálculo do IPI: Vejase Fl. 2552DF CARF MF 32 Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I (...) II dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, inciso II, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15). (...) § 3º Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, § 2º, DecretoLei nº 1.593, de 1977, art. 27, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15). (Grifei) Portanto, as fundamentações suscitadas pela Recorrente não merecem acato no presente julgamento administrativo. No entanto, a Recorrente, continua em recurso argumentando que, "(...) Neste sentido, vale destacar que o Supremo Tribunal Federal (“STF”), no julgamento do Recurso Extraordinário n° 567.935, sob a sistemática de repercussão geral, proferiu decisão vinculante no sentido de que descontos incondicionais, como os concedidos pela L’Oréal Brasil, não integrariam a base de cálculo do IPI". Como se vê, alegou o cumprimento da regra prevista no artigo 62, § 2º, do RICARF/2015, que estabelece a obrigatoriedade da reprodução, pelos julgadores deste Conselho, das decisões definitivas de mérito proferidas pelo plenário do STF nos julgamentos, sob regime de repercussão geral, no caso a aplicação do entendimento esposado no RE nº 567.935/SC: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS VALORES DE DESCONTOS INCONDICIONAIS BASE DE CÁLCULO INCLUSÃO ARTIGO 15 DA LEI Nº 7.798/89 INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL LEI COMPLEMENTAR EXIGIBILIDADE. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, os valores relativos a descontos incondicionais concedidos quando das operações de saída de produtos, prevalecendo o disposto na alínea “a” do inciso II do artigo 47 do Código Tributário Nacional. Para bem resolvermos o caso, peço licença para reproduzir trechos do voto de lavra do Conselheiro Jose Fernandes do Nascimento (PAF nº 16682.720009/201371), que para uma melhor compreensão do alcance da referida decisão do STF, especialmente, em relação ao preceito legal atingido pela mácula da inconstitucionalidade formal, cabe transcrever o teor do dispositivo do julgado: O Tribunal, por unanimidade e nos termos do voto do Relator, conheceu e negou provimento ao recurso, declarando a inconstitucionalidade do § 2º do art. 14 da Lei 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 15 da Lei 7.798/89, apenas quanto à previsão de inclusão dos descontos incondicionais na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). [...]. (Grifei). Fazendo uma leitura do dispositivo do referido RE, extraise que o preceito legal, parcialmente, declarado inconstitucional (apenas na parte que trata dos descontos Fl. 2553DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.538 33 incondicionais) foi o § 2º do art. 14 da Lei 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 15 da Lei 7.798/1989, a seguir transcrito: Art. 14. Salvo disposição em contrário, constitui valor tributável: (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...] II quanto aos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...] § 2º. Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...]. (grifos não originais) Porém, na presente autuação, a base de cálculo do IPI não foi calculada com base no valor total da operação, previsto no art. 14, II, da Lei 4.502/1964, mas sim, com base no VTM, definido no art. 15, I, do mesmo diploma legal, que segue transcrito: Art . 15. o valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto fôr remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro incluído no artigo 42 e seu parágrafo único; (Redação dada pelo Decreto Lei nº 34, de 1966) (...). Portanto, diferentemente do alegado pela Recorrente, o fundamento da decisão consignada no citado RE, não se aplica à autuação em apreço, pois o enquadramento legal da base de cálculo da autuação foi feito em preceito legal distinto do que fora declarado inconstitucional no citado Recurso Especial. Assim, por expressa vedação legal determinada pelo § 3º, II, do art. 190 do RIPI/2010, não há como ser acatado o pedido de dedução da base de cálculo do IPI dos supostos valores a título de descontos incondicionais. 12. Da aplicação da Solução Consulta Interna Cosit (SCI) nº 08/2012 Argumenta a Recorrente em seu recurso que a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/2012 é ilegal, representa violação ao art. 146 do CTN, por trazer novo critério jurídico e por isso não pode ser aplicada retroativamente a fatos geradores ocorridos em 2012. "(...) Contudo, tal pretensão de buscar amparo na Solução COSIT 8/12 para justificar o critério de cobrança adotado não merece prosperar por três principais razões: (i) a orientação descrita na Solução COSIT 8/12 literalmente não se aplica à Recorrente; (ii) impossibilidade de se alterar o conceito jurídico de “praça” por meio de norma infralegal; e (iii) a Solução COSIT 8/12 só pode ser aplicada a partir de sua publicação (princípio da irretroatividade)". Vejase que a Solução de Consulta Interna da COSIT, como o próprio nome sugere, tratase de Ato Normativo que tem por finalidade aclarar as dúvidas suscitadas pelos Fl. 2554DF CARF MF 34 órgãos internos da RFB. Logo, tal ato tem efeito vinculante restrito ao âmbito da RFB, embora sirva de respaldo ao procedimento do sujeito passivo que adote sua orientação. Dada essa característica, o fato de o referido Ato não ter sido publicado externamente (na imprensa oficial, por exemplo), certamente, não desobriga a Fiscalização de aplicar a sua orientação na execução da atividade vinculada do lançamento. Ao contrário, a simples publicação interna, dada o alcance do seu efeito vinculante, já é suficiente para que autoridade fiscal autuante observe o disposto no referido ato na atividade de lançamento, como ocorreu no caso em tela. E mais. Da leitura dos excertos extraídos da referida SCI, fica claro que ela apenas consolidou os entendimentos exarados nos PN CST 44/1981 e PN CST 89/1970, que tratam dos procedimentos de apuração VTM relativos ao mercado atacadista concorrencial e monopolista, respectivamente. Logo, fica demonstrado que os procedimentos de apuração do VTM são diferentes para cada uma das referidas modalidades de mercado atacadista. Dessa forma, fica evidenciado a improcedência da alegação da Recorrente de que a referida SCI, configura alteração de práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas e que introduziu novo critério jurídico, o que implicaria violação ao art. 146 do CTN, haja vista que, em relação ao mercado atacadista monopolista, ela apenas reafirmou entendimento exarado no PN CST 89/1970, e nada mais. E por esta mesma razão, não há que se falar em afronta ao princípio da segurança jurídica. 13. Das penalidades, juros aplicáveis Alega a Recorrente que "(...) caso seja admitida a mudança do conceito jurídico de “praça” com base em um mero ato infralegal, e prevaleça a exigência do IPI conforme pretende a D. Fiscalização (com exclusão dos preços praticados pelo Estabelecimento Industrial), o que efetivamente se admite apenas para argumentar, certo é que o valor cobrado não poderia ser acrescido de penalidades, juros de mora e atualizações monetárias em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN". O argumento da impugnante consiste, em síntese, na alegação de que, no caso em análise, a Recorrente baseou seu procedimento nas disposições do PN 44/81, no ADN 5/82, nas decisões do próprio CARF e na resposta a sua Consulta Formal. Não havia um só caso ou dispositivo normativo que indicava que praça deveria ser interpretada como algo diferente do que cidade/localidade. Pelo contrário, existia uma resposta em Consulta Formal que confirmava justamente o entendimento adotado pela Recorrente, e que assim não caberia a aplicação de penalidade (multa de ofício), nos termos do art. 76, II, “a”, da Lei nº 4.502/1964, que dispõe: “Art . 76. Não serão aplicadas penalidades: II enquanto prevalecer o entendimento, aos que tiverem agido ou pago o imposto: a) de acordo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado; ...” Ocorre que posteriormente à edição da Lei nº 4.502/1964, foi editado o Código Tributário Nacional [Lei nº 5.172, de 1966], recepcionado como Lei Complementar pela Constituição Federal de 1988, que assim dispôs no seu art. 100, incs. I e II e parágrafo único: Fl. 2555DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.539 35 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; ... Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Ou seja, a partir da vigência do CTN, a exclusão de penalidades, sem que o contribuinte seja parte nos processos específicos, só é possível caso exista lei atribuindo eficácia normativa às referidas decisões, o que, até o presente momento, não existe nos autos. Nada obstante, no caso, a multa prescrita foi dada pelo art. 569 do RIPI/2010, com espeque no art. 80 da Lei 4.502/64, com redação dada pelo art. 13 da Lei 11.448, de 15/06/2007, vazada nos seguintes termos: Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. Logo, carece de fundamento a argumentação que visa afastar a aplicação de penalidade, devendo ser mantida a exigência de multa de ofício. 14. Dos Juros (SELIC) sobre a Multa de Ofício Em que pese as razões e dos fundamentos legais contidos no recurso para que seja afastada à incidência dos juros Selic sobre a Multa de Ofício, entendo que não assiste razão à Recorrente. Matéria recorrente neste Colegiado, sendo minha posição conhecida no sentido de sua pertinência. Em seu recurso, defende a Recorrente ser incabível a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, por ausência de dispositivo legal. Contudo, pareceme induvidoso que a multa de ofício integra o conceito de obrigação tributária esposado pelo artigo 113 do Código Tributário Nacional. Como é cediço, o conceito de crédito tributário no Brasil engloba tributo e multa, como expressamente estabelece o artigo 43 da Lei nº 9.430/96: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o §3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (grifei) Fl. 2556DF CARF MF 36 O artigo 5º, §3º, da Lei nº 9.430/96: As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. (grifei) No mesmo sentido, impõe o Código Tributário Nacional que: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária.(grifei) Do exposto podemos concluir que há disposição expressa para a cobrança de juros sobre multas, porque incluídas no conceito de crédito tributário, e que a taxa aplicável à espécie é a referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC. Esse também é o entendimento do STJ sobre o assunto, conforme se observa da ementa a seguir transcrita (AgRgnoREsp1335.688/PR DJe de 10/12/2012): PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1.Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel.Min.Teori Albino Zavascki, DJde2/6/2010. (grifei). E no CARF, a matéria vem sendo debatida exaustivamente, razão pelaqual colaciono alguns de seus julgados a respeito: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional.Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdãonº 9101002.180, CSRF, 1ª Turma) JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu inadimplemento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão nº 9202003.821,CSRF 2ª Turma) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até Fl. 2557DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.540 37 o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão nº 9303003.385, CSRF, 3ª Turma). Assim, devem ser mantidos os juros de mora sobre a multa de ofício. 15. Do Pedido de Diligência Aduz a Recorrente em seu recurso que, "(...) Para fins de demonstrar as irregularidades no cálculo da média ponderada do preço de venda adotado pela Fiscalização para calcular o IPI devido, a Recorrente renova seu pedido, com fulcro no artigo 16 do Decreto 70.235/72, pela realização de diligência para reapurar o valor da base de cálculo do IPI, nos termos dos quesitos formalizados no Anexo I deste Recurso Voluntário". Sobre o pleito de realização de diligência formulado pela Recorrente, mostra se prescindível pelas razões que foram expendidas ao longo deste voto, cujo arrimo consta do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, combinado com o princípio basilar da livre convicção do julgador presente no art. 29 do citado Decreto. Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) No caso sob análise, considerase desnecessária a diligência proposta pela Recorrente, por entendêla dispensável para o deslinde do presente julgamento. A realização de diligência/perícia pressupõe que o fato a ser provado necessite de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador, o que não é o caso dos presentes autos. No auto de Infração e no TVF (demonstrativos de cálculos anexos), a Fiscalização aponta com vasta análise que houve infringência do art. 195, I, do Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados RIPI (Decreto nº 7.212/2010). Para tanto, encontrase reproduzidos os artigos 195 e 196 do RIPI/10, em virtude de a discussão estar centrada na interpretação destes dispositivos. Posto isto, com base no art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, entendo que a Diligência requerida é dispensável, já que os relatórios, demonstrativos apensados aos autos e as informações nelas contidas são suficientes para apuração do valor tributável mínimo (VTM) e outras apurações que são objeto desta lide. Posto isto, indefiro o pedido de diligência para juntada de novos documentos. 16. Dispositivo Diante dos fundamentos expostos, rejeito as suscitadas preliminares de nulidade da decisão de piso, indefiro a diligência solicitada e, no mérito, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário apresentado, mantendose a decisão recorrida em TODOS os seus termos e fundamentos. É como voto. (assinado digitalmente) Fl. 2558DF CARF MF 38 Waldir Navarro Bezerra Voto Vencedor 1. Com a devida vênia ao douto Relator do caso, ouso dele discordar, o que passo a fazer nos seguintes termos. 2. Conforme se observa dos autos, a presente discussão gravita em torno da adequada interpretação dos artigos 195, inciso I e 196, parágrafo único, inciso II, ambos do Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010 (RIPI/2010), dispositivos esses que assim prescrevem: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: (...). II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. 3. Tal discussão interpretativa, todavia, não pode ser considerada de forma divorciada da realidade fática apurada no presente lançamento e que aqui se retoma sumariamente: · a empresa recorrente tem por objeto social, dentre outras atividades, a industrialização, importação e exportação de produtos de beleza, cosméticos e toucador; · a empresa recorrente era a controladora da empresa L'oréal Brasil Comercial de Cosméticos Ltda. ("L'oréal"), empresa comercial atacadista para quem se destinaram todos os produtos produzidos pela recorrente no ano de 2011; · há, portanto, uma relação de interdependência entre as citadas empresas, o que é incontroverso nos autos; Fl. 2559DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.541 39 · a empresa recorrente está situada na cidade do Rio de Janeiro, enquanto que a empresa L'oréal está situada na cidade de Duque de Caxias, na área metropolitana da cidade carioca; · por se tratar de empresas interdependentes, a recorrente sujeitou tais operações à incidência do IPI nos termos do que dispõe o art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010; · a fiscalização, por seu turno, entendeu que o método de apuração do IPI para tais operações não seria o adotado pelo contribuinte, uma vez que a regra determinante no presente caso seria aquela disposta no art. 195, inciso I do mesmo RIPI/2010. 4. Feitas tais considerações de ordem fática, cabe agora voltarse aos dispositivos legais aqui tratados para a sua devida interpretação, mas não sem antes fixar algumas premissas essenciais para o alcance das conclusões que serão externadas ao longo do presente voto. I. Os limites interpretativos no direito tributário 5. É desnecessário aqui me alongar nas considerações acerca da estrita submissão das exigências exacionais ao princípio da legalidade, haja vista a importância deste princípio na seara tributária assim como ocorre no direito penal ao ponto do constituinte originário, não satisfeito com a previsão geral do art. 5o, inciso II da Magna Lex1, reiterar tal norma jurídica no específico nicho tributário (art. 150, inciso I da Constituição Federal2). 6. Tal importância, entretanto, não imuniza a lei tributária de problemas, em especial aqueles de caráter semânticojurídico. O emprego, por parte do legislador, de expressões vagas, de conceitos jurídicos indeterminados e, até mesmo, a ausência de conceituações legais, levam a interpretações dúbias de um mesmo texto legislativo o que, em matéria tributária, pode originar sérios problemas para o sujeito passivo de uma relação jurídica deste jaez, já que tal sujeito pode depararse com a mitigação do seu patrimônio3 a pretexto de uma suposta interpretação normativa. 7. Daí a importância de dispositivos como os artigos 108, § 1º e 110 do Código Tributário Nacional4, na medida em que estabelecem limites interpretativos ao 1 "Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...). II ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; (...)." 2 "Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; (...)." 3 Para uma perspectiva da relação jurídicotributária, o ato de tributar nada mais é do que uma autorização constitucional para que o Estado mitigue o direito de propriedade do indivíduo. 4 "Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: (...). § 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei. Fl. 2560DF CARF MF 40 aplicador do direito tributário legislado no plano da concretude, densificando, pois, o princípio da legalidade. Logo, mesmo na ausência de uma delimitação semântica por parte da lei ao empregar um determinado signo na esfera jurídicotributária, ainda sim não seria possível negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de sentido. No mesmo diapasão, destacamos o já clássico voto do Ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Galotti, proferido no RE nº 71.758 (Rel. Min. Thompson Flores, DJ de 31.08.1973), in verbis: (...). Se a lei pudesse chamar de compra o que não é compra, de importação o que não é importação, de exportação o que não é exportação, de renda o que não é renda, ruiria todo o sistema tributário inscrito na Constituição. (...). 8. Esta conclusão foi reforçada pelo mesmo STF quando do julgamento da inconstitucionalidade da lei n. 9.718/98, conforme se observa de trecho do voto da lavra do Ministro Cezar Peluso, in verbis: (...) Quando não haja conceito jurídico expresso, tem o intérprete de se socorrer, para a reconstrução semântica, dos instrumentos disponíveis no próprio sistema do direito positivo, ou nos diferentes corpos de linguagem. Como já exposto, não há, na Constituição Federal, prescrição de significado do termo "faturamento". Se se escusou a Constituição de o definir, tem o intérprete de verificar, primeiro, no próprio ordenamento, não havia então algum valor semântico a que pudesse filiarse o uso constitucional do vocábulo, sem explicitação de sentido particular, nem necessidade de futura regulamentação por lei inferior. É que, se há correspondente semântico na ordem jurídica, a presunção é de que a ele se refere o uso constitucional. Quando u'a mesma palavra, usada pela Constituição sem definição expressa nem contextual, guarde dois ou mais sentidos, um dos quais já incorporado ao ordenamento jurídico, será esse, não outro, seu conteúdo semântico, porque seria despropositado supor que o texto normativo esteja aludindo a objeto extrajurídico. (...) (STF – Supremo Tribunal Federal; Rec. Extraordinário 346.084 6 – PR; Tribunal Pleno (grifos nosso). 9. Este recurso empregado pelo ordenamento jurídico e evidentemente limitador do processo hermenêutico na esfera tributária tem um objetivo muito claro: criar um filtro jurídicoracional para preservar a autonomia do direito sem, todavia, fechálo para o (...). Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias." Fl. 2561DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.542 41 novo. Procurase, com isso, evitar que o direito seja incapaz de se diferenciar e de se especificar funcionalmente em relação ao seu ambiente5. 10. Tais considerações, a título de premissas, são essenciais para o deslinde da presente demanda, uma vez que, ao meu ver, a lide gravita em torno do conteúdo semântico jurídico das expressões "mercado atacadista" e "praça do remetente", estabelecidas no art. 195, inciso I do RIPI/2010 e, mais do que isso, qual o conteúdo semântico de tais expressões à época do advento do citado Regulamento de IPI. Antes, todavia, é fundamental aqui precisar qual a razão de ser de tal dispositivo e as regras daí extraídas. II. O valor tributário mínimo como uma regra antielisiva específica para o IPI 11. A regra do valor tributável mínimo ("VTM") para o IPI não é uma novidade na legislação brasileira. Ao contrário, foi inauguralmente prevista no ordenamento jurídico nacional há mais de 50 anos, uma vez que veiculada na própria lei nº 4.502/646, instituidora do então imposto sobre o consumo. Tratase, em verdade, de norma antielisiva específica7 para operações com produtos industrializados com o fito de evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. 5 CAMPILONGO, Celso Fernandes. Política, sistema jurídico e decisão judicial. São Paulo: Max Limonad. 2002. p. 21. 6 "Art . 15. o valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço normal de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, ou na sua falta, ao preço corrente no mercado atacadista do domicílio do remetente, quando o produto fôr remetido, para revenda, a estabelecimento de terceiro, com o qual o contribuinte tenha relações de interdependência (art. 42); (...)." 7 Já tive a aoportunidade de me manifestar no âmbito acadêmico que: "Essas normas ou cláusulas antielisivas podem ser de dois tipos distintos, conforme o grau de detalhe com o qual é feito seu pressuposto de aplicação: a) cláusulas gerais, dotadas de pressuposto aberto e prevista para ser aplicada em um número indefinido de casos; e b) cláusulas específicas, voltadas a tutelares negócios e situações bastante particulares. Falamse, também, em um tipo híbrido, as cláusulas setoriais, que são dotadas de alguma generalidade, mas se direcionam a um âmbito delimitado de contribuintes e de operações, estando mais próximo do modelo específico1. As regras gerais antielisivas têm origem no ordenamento alemão2, não sendo direcionadas a certos contribuintes ou situações específicas – pelo contrário, normalmente atribuem à Administração Fiscal o poder de classificar como elisiva determinadas condutas e impor o pagamento do tributo elidido3. (..). Por outro lado, têmse as cláusulas antielisivas específicas ou "ad hoc", que apresentam uma estrutura normativa baseada em um pressuposto fático rígido, detalhado e taxativo5. Elas são utilizadas sempre posteriormente à constatação, pela fiscalização de um campo aberto à elisão, através da alteração do direito positivo visando fechar aquela lacuna específica6, a exemplo do que foi feito com as regras de preços de transferência e o regime de CFC (“Controlled Foreign Corporation”). Elas atuam, usualmente, por meio do estabelecimento de ficções e presunções relativas aos elementos da regra matriz tributária, seja quanto aos caracteres do fato gerador, seja quanto àqueles da relação jurídica tributária, a depender da técnica normativa utilizada pelo legislador. Em razão disso, o legislador deve ser excepcionalmente cuidadoso na sua elaboração, visto que a regra deverá ser interpretada sempre de forma restrita, de modo a não ter a sua sistemática ampliada, diferentemente do alcance amplo das regras antielisivas gerais, que procuram abarcar todos os contribuintes. Parecenos, pois, que as cláusulas específicas, por dependerem de presunções e ficções nos elementos essenciais da norma tributária, são dotadas de uma excepcionalidade que lhe imprime um grau elevado de restrição na sua interpretação e aplicação às situações concretas, estando próximas da sua literalidade. (...). (DANIEL NETO, Carlos Augusto; RIBEIRO, Diego Diniz. O Valor Tributável Mínimo (VTM) e o Conceito de 'Praça' na sua Apuração. "In": DIREITO TRIBUTÁRIO ATUAL, v. 39, p. 3655, 2018.). Fl. 2562DF CARF MF 42 12. Assim, em hipóteses como a tratada nos autos, há a possibilidade do VTM ser apurado com base em duas metodologias distintas e excludentes entre si. Caso exista mercado atacadista na praça do remetente, o VTM será apurado com base no preço corrente no mercado pelo cálculo da média ponderada de preços das empresas atacadistas da referida localidade. Por sua vez, na hipótese de inexistir mercado atacadista na praça do remetente, o VTM será apurado como base em uma cesta de elementos objetivamente traçados pelo legislador, quais sejam, custos de produção, outras despesas e margem de lucro normal. 13. Com tais disposições, o legislador quis evitar que empresas interdependentes criassem estruturas com o fito de esvaziar a base de cálculo do IPI nas operações promovidas pela industrial para inflála na operação com a empresa comercial atacadista. 14. Pois bem. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM perpassa, portanto, em precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). III. O conteúdo semânticojurídico das expressões "mercado atacadista" e "praça do remetente" 15. Fixadas as premissas alhures desenvolvidas, convém agora precisar o conceito de "praça do remetente". 16. Para cumprir com tal mister, insta desde já fixar a ideia que "praça do remetente" quer significar uma localidade, ou seja, um local determinado onde se realizam operações empresariais. Aliás, nesse sentido, é bastante elucidativo o parecer juntado aos autos pela recorrente e da lavra do Professor Fábio Ulhoa Coelho (fls.), o qual fora ofertado para a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Assim afirma o citado professor: (...). 6. Praça é conceito jurídico com dois significados diferentes. 7. O primeiro significado é o de reunião de comerciantes que realizam trocas mercantis de determinado produto num certo lugar. Tratase, nesse caso, de referência à organização típica dos comerciantes. (...). 16. As praças entendidas nesse primeiro significado de reunião de comerciantes tinham importância no passado. Atualmente, podese dizer que desapareceram. Se até as primeiras décadas do século anterior, existiam vigorosas praças no Brasil como a de Santos, Rio de Janeiro ou Belém , hoje em dia foram substituídas, em parte, pelas Câmara de Comércio, Associações Comerciais etc. 17. Por isso, quando a lei fala em praça atualmente, ela só pode estar se referindo à segunda acepção que o conceito apresenta Fl. 2563DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.543 43 no direito comercial, a de um lugar onde se costumam realizar negócios comerciais. 18. Por esse segundo significado jurídico de praça, fazse referência invariavelmente a uma localidade. Tratase de expressão destinada a delimitar um espaço. Praça é, portanto, um conceito por assim dizer geográfico, um recorte no território nacional. (...) (grifos constantes no original). 17. Diante de tais considerações, fica claro que a questão a ser aqui definida é precisar qual a extensão deste recorte geográfico dentro do território nacional, de modo a delimitar a sua amplitude territorial. 18. Um dos primeiros diplomas legais a tratar do assunto foi a antiga lei do cheque (Decreto n. 2.591/1912), que em seu art. 4o assim prescrevia: Art. 4º O cheque deve ser apresentado dentro de cinco dias, quando passado na praça onde tem de ser pago, e de oito dias, quando em outra praça. 19. Referido dispositivo estabelecia prazos diferentes para a apresentação do cheque emitido a depender da referida ordem de pagamento ser da mesma "praça" ou de "praça" distinta da instituição bancária na qual seria apresentado. Na legislação atual (art. 33 da lei n. 7.357/85) falase em "lugar onde houver de ser pago", sem que se perca, todavia, a referência espacial quanto ao local da emissão e o local em que situada a agência bancária responsável pelo cumprimento da ordem. Em ambas as hipóteses resta clara a referência, ainda que implícita, a um Município, tanto que, ao emitir o cheque, o emitente deve indicar em campo próprio a cidade de emissão da cártula. 20. No mesmo sentido, é o Parecer Normativo n. 44/81, que assim prevê: (...) 5. A norma superveniente determina, pois, ser 'o preço corrente do mercado atacadista da praça do remetente (...) a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. (...) (g.n.). 21. É o que também prevê o ADN CST n. 5/82: (...). Fl. 2564DF CARF MF 44 a) "o termo produto, constante do subitem 6.1 do Parecer Normativo CST nº 44, de 23 de novembro de 1981, indica uma mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, se houver, na forma indicada no inciso VIII do artigo 205 do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI)"; e b) "do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o artigo 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser considerados as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. (...) (g.n.). 22. Ademais, o próprio art. 197 do RIPI/2010, inserido na mesmíssima Seção II em que se encontram os analisados artigos 195 e 196, ao estabelecer os procedimentos para o arbitramento da base de cálculo do IPI, textualmente fala em domicílio, o que, por sua vez, obrigatoriamente nos remete a ideia de Município. Vejamos o inteiro teor da regra: Art. 197. Ressalvada a avaliação contraditória, decorrente de perícia, o Fisco poderá arbitrar o valor tributável ou qualquer dos seus elementos, quando forem omissos ou não merecerem fé os documentos expedidos pelas partes ou, tratandose de operação a título gratuito, quando inexistir ou for de difícil apuração o valor previsto no art. 192 (Lei nº 5.172, de 1966, art. 148, e Lei no 4.502, de 1964, art. 17). §1o Salvo se for apurado o valor real da operação, nos casos em que este deva ser considerado, o arbitramento tomará por base, sempre que possível, o preço médio do produto no mercado do domicílio do contribuinte, ou, na sua falta, nos principais mercados nacionais, no trimestre civil mais próximo ao da ocorrência do fato gerador. (...). (g.n.). 23. Ao empregar o termo domicílio é claro que o legislador está se referindo ao limite geográfico de um município, exatamente como se depreende do disposto no art. 70 do Código Civil, in verbis: Art. 70. O domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo. 24. Nem se alegue, ainda que o art. 197 do RIPI/2010 teria usado o termo domicílio em um sentido diferente do signo praça, empregado no art. 195 do mesmo Regulamento, sob pena de vaticinarse a existência de uma legislação patológica, dotada de uma esquizofrenia ou bipolaridade, já que tal assertiva equivaleria a admitir a existência de artigos presentes em uma mesma lei, em uma mesma seção e tratando de um mesmíssimo tema (arbitramento da base de cálculo do IPI), porém com conteúdos semânticos distintos. 25. Não obstante, seguindo esta linha de orientação, i.e., de que praça é sinônimo de município, também encontramos farta jurisprudência deste Tribunal Fl. 2565DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.544 45 Administrativo. É o que se observa, por exemplo, da decisão exarada pelo Conselheiro Antonio Carlos Atulim e veiculada no acórdão n. 3403002.285, in verbis: Ementa Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 31/03/2008 a 31/12/2010 VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. EMPRESAS INTERDEPENDENTES. Inexistindo mercado atacadista na cidade em que está localizado o estabelecimento remetente, o valor tributável mínimo do IPI a ser observado nas vendas para empresa interdependente deve ser apurado com base na regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, considerandose apenas e tãosomente os custos de fabricação e demais despesas incorridas pelo remetente dos produtos. (...). (CARF; Acórdão n. 3403002.285; Relator: Antonio Carlos Atulim) (g.n.) 23. Ainda no mesmo sentido: Ementa ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 10/01/1999 a 31/12/2001 IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTAVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim proceder, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando as especificidades e características (marca, tipo, modelo, espécie, volume, qualidade) dos produtos distintos empregados para sua formação de preços. Recurso Provido. (CARF; Acórdão n. 340100.768; Relator: Dalton Cesar Cordeiro De Miranda) (g.n.). Trecho do voto do Relator (Acórdão n. 340100.768), acompanhado por unanimidade pela Turma julgadora: (...). Como muito bem observado nestes autos, a resposta a este quesito é de extrema valia, uma vez que o Ato Declaratório CST nº 5/82, o Parecer Normativo CST nº 44/81 e os artigos 68 do Fl. 2566DF CARF MF 46 RIPI/82 e 123, I, do RIPI/98 determinam que o valor tributável do IPI – base de cálculo do IPI nas operações entre empresas interdependentes – será o preço corrente no mercado atacadista na praça do remetente, ou seja, na praça da cidade onde está localizada a autuada, in casu, cidade de São Paulo. Que fique bem claro, por oportuno, que tais dispositivos afastam quaisquer hipóteses de inclusão na média ponderada de preços praticados por empresas atacadistas localizadas em outras praças que não a do remetente. E em face desta afirmativa, temse que a recorrente não atua como atacadista de seus produtos na praça da cidade de São Paulo, onde está localizada a Avon Industrial, local sim de sua sede administrativa. (...) (g.n.). Ementa IPI. BASE DE CALCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o artigo 68, inciso I, alínea "a", do RIPI/82, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não pode ser considerado como o praticado por um único estabelecimento. Recurso de ofício negado. (CARF; Acórdão n. 20310.133; Rel. Emanuel Carlos Dantas de Assis) (g.n.). Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 10/02/1999 a 31/12/1999 BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, “a”, do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o praticado pelo adquirente. Recurso de ofício negado. (CARF; Acórdão n. 20218.215; Rel. Maria Teresa Martínez López) (g.n.). 26. Este também é o entendimento consagrado pelo Superior Tribunal de Justiça, quando analisa o conceito de praça para fins de ação de cobrança com base em cheque prescrito: Fl. 2567DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.545 47 DIREITO COMERCIAL. RECURSO ESPECIAL. CHEQUES. BENEFICIÁRIA DOMICILIADA NO EXTERIOR. PRAÇA DE EMISSÃO. OBSERVÂNCIA AO QUE CONSTA NA CÁRTULA. AÇÃO DE LOCUPLETAMENTO SEM CAUSA DE NATUREZA CAMBIAL. TRANSCURSO DO PRAZO PREVISTO NO ARTIGO 61 DA LEI 7.357/85. POSSIBILIDADE DE AJUIZAMENTO DE AÇÃO DE COBRANÇA, COM DESCRIÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO SUBJACENTE, OU DE AÇÃO MONITÓRIA, CUJO PRAZO PRESCRICIONAL É DE 5 ANOS. 1. O cheque é título de crédito que se submete aos princípios cambiários da cartularidade, literalidade, abstração, autonomia das obrigações cambiais e inoponibilidade das exceções pessoais a terceiros de boafé, por isso deve ser considerado como local de emissão o indicado no título. [...] 4. O cheque é ordem de pagamento à vista, sendo de 6 (seis) meses o lapso prescricional para a execução após o prazo de apresentação, que é de 30 (trinta) dias a contar da emissão, se da mesma praça, ou de 60 (sessenta) dias, também a contar da emissão, se consta no título como sacado em praça diversa, isto é, em município distinto daquele em que se situa a agência pagadora. (...) (STJ; REsp n. 1.190.037/SP, Relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, DJe de 27/9/2011.) (g.n.). 27. Diante deste quadro normativo e jurisprudencial, não resta dúvida que praça e município são tratados como sinônimos o que, por conseguinte, implica no presente caso a convocação do disposto no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010 e não o prescrito no art. 195, inciso I do mesmo Regulamento. Isto porque, nos termos empregados pelo Professor Humberto Ávila em parecer também desenvolvido para a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (fls. 3.284/3.322): ...a escolha expressa pela delimitação geográfica para fins de verificação da média de preços do mercado atacadista precisa ser obrigatoriamente respeitada. O aplicador não tem competência para alterar os termos da lei, nem mesmo através de uma interpretação extensiva não comportada pelo texto legal. A definição legal vinculase às noções de previsibilidade, estabilidade e segurança jurídica, que seriam violadas se o intérprete pudesse, conforme a sua conveniência, alterar o significado corrente das expressões escolhidas pelo legislador. Por essas razões, estes dispositivos legais não admitem interpretações elásticas, extensivas ou ampliativas conforme o interesse da autoridade fazendária, sendo exigida a rigorosa observância dos limites fixados de forma expressa e inequívoca pelo Poder Legislativo, a quem compete fixar critérios, e delimitadas pelo Poder Executivo, a quem compete especificar os mandamentos legais. Fl. 2568DF CARF MF 48 (...). 28. Apesar da conclusão aqui já externada, convém ainda examinar, para fins de motivação (art. 489, §1o, inciso IV, c.c. o art. 15, ambos do CPC89), os pretensos fundamentos adotados pela fiscalização no caso decidendo. IV. A equivocada fundamentação fazendária para a convocação do disposto no art. 195, inciso I do RIPI/2010 29. Conforme se observa do Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização equivocadamente trata o conceito de praça como sinônimo de mercado. Nesse sentido, mister se faz esclarecer o conceito de mercado para distinguilo da ideia de praça. 30. Logo, insta desde já esclarecer que o termo mercado comporta diferentes abordagens, o que pode redundar em diferentes resultados semânticos, a depender da sua análise ser feita sob uma perspectiva econômica, social, jurídica etc. Mesmo limitando este escopo, ainda sim é possível identificar diferentes espécies de mercados (permanente e temporário; relevante e irrelevante; dentre outras classificações). A classificação, por sua vez, empregada pela fiscalização no caso decidendo leva em consideração o aspecto geográfico como elemento classificatório, o que também pode gerar em diferentes subclassificações (mercados nacionais, regionais, locais etc.). Tratase, portanto, de um conceito ambíguo e que, por conseguinte, merece a devida delimitação em concreto. 31. No presente caso, a fiscalização atrelou a ideia de praça à de mercado, o qual, por sua vez, estaria geograficamente circunscrito ao conceito de região metropolitana. Daí concluiu que, apesar de situadas em cidades distintas, a empresa industrial e a recorrente compunham um único mercado porque situadas em uma mesma "praça" (aqui empregado no sentido da fiscalização), já que ambas PJ's estão situadas na região metropolitana do Rio de Janeiro. 32. Acontece que, com o devido respeito ao trabalho da fiscalização, tal mister padece de dois problemas: um de natureza conceitual e outro de caráter metodológico. 33. Sob uma perspectiva jurídica, ainda que de forma singela, mercado pode ser conceituado como o conjunto de operações empresariais relacionadas a determinados bens ou serviços em um determinado limite geográfico. E está exatamente aí o problema a ser aqui resolvido: as limitações geográficas para a definição do conceito de praça são as mesmas para conformação de um conceito de mercado? A resposta para tal questionamento é uma só: um sonoro não. 34. A limitação geográfica para fins de definição de mercado é dinâmica, na medida em que varia de acordo com o tipo de produto comercializado, bem como os tipos de operações comerciais praticadas. Quando se fala, por exemplo, em um "mercado" de padarias, é possível, a depender do contexto, restringilo a um bairro (v.g., o bairro do Sumaré, na cidade de São Paulo) ou a uma região (a região oeste, também na capital paulista). Já quando se fala, 8 "Art. 489. São elementos essenciais da sentença: (...). § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...). IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; (...)." 9 "Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente." Fl. 2569DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.546 49 por exemplo, no mercado calçadista, é possível ampliar sensivelmente esta extensão territorial, o que pode redundar em delimitação por Estado ou até mesmo por Região do Brasil (Sul, Sudeste, Norte etc.)10. O que se percebe, portanto, é que esta delimitação geográfica do conceito de mercado é dinâmica ou fluida, assim como é a economia, área do saber que fortemente influencia a delimitação semântica deste signo. 35. Por sua vez, a delimitação geográfica que influi na conformação do conceito de praça é estática, uma vez que, como visto, o signo praça é, por diferentes legislações, atrelado a ideia de domicílio, isto é, de cidade. Ora, quando se pensa em domicílio fiscal, por exemplo, o que se afigura é um lugar precisamente delimitado, de modo que o contribuinte possa ser fácil e eficazmente encontrado para fins de comunicação com a Receita Federal do Brasil. Aliás, a indicação do domicílio fiscal é a indicação de um endereço em uma cidade. 36. Percebese, pois, que a primeira diferença entre mercado e praça é conceitual, o que, digase de passagem, foi muito bem pontuado pelo Professor Fábio Ulhoa Coelho no parecer alhures citado: (...). "Praça" não é sinônimo de "mercado". Em nenhuma doutrina ou decisão judicial, afeta ao direito comercial, encontrase qualquer noção assertiva que pudesse levar a tal sinonímia. Mercado não se confunde com praça. Mercado é o conjunto de relações econômicas associado a algum elemento de relevância, que pode ser determinado produto ("mercado de cosméticos"), um segmento econômico ("mercado varejista"), certa base territorial ("mercado nacional") ou outros. Praça, por sua vez, não é um conjunto de operações econômicas. 51. Enquanto "mercado" é conceito que reporta algo dinâmico (relações econômicas), o de "praça" reporta algo estático (lugar ou organização). Não existe nada que se pudesse denominar por praça de cosméticos, mas existe claramente um conjunto de operações que se liga a noção de mercado de cosméticos. Não há nada a que se pudesse referir pela expressão praça varejista, mas visualizase, sem dificuldade, um conjunto de operações econômicas identificável pela locução mercado varejista. Inexiste algo passível de se chamar de praça nacional, mas o conjunto de operações econômicas realizadas internamente num certo país chamase, corretamente, de mercado nacional. (...) (grifos constantes no original). 37. E nem poderia ser diferente, até porque, se considerado o conceito de praça empregado pela fiscalização, i.e., como sinônimo de conjunto de operações empresariais, o disposto no art. 195, inciso I do RIPI/2010 tornaseia um sem sentido jurídico. Referido dispositivo assim prescreve: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: 10 Com segurança é possível afirmar que, por questões climáticas, econômicas e de costumes, o mercado calçadista na região Sul do país apresenta particularidades que o diferem deste mesmo mercado na região do extremo Norte e Nordeste do país. Fl. 2570DF CARF MF 50 I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). 38. Partindo dos conceitos empregados pela fiscalização poderia ser assim reescrito: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente do conjunto de operações empresariais do conjunto de operações empresariais do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). 39. Neste mesmo diapasão conclui o Professor Fábio Ulhoa Coelho: (...). 103. De outro lado, a tentativa de conferir maior abrangência ao conceito de praça desqualificando o elemento territorial que lhe é peculiar, mostrase igualmente uma distorção. quando se tenta conceituar praça como um conjunto de operações mercantis, confundese este conceito com o de mercado. 104. Aliás, esta segunda tentativa de conferir maior abrangência ao conceito de praça, aproximandoo ao de mercado, torna a lei e os regulamentos do IPI incompreensíveis. Tratando estas normas do "mercado de praças do remetente", se tanto mercado como praça forem considerados conjuntos de operações mercantis, as normas legais e regulamentares estariam dizendo algo totalmente ininteligível como "conjunto de operações mercantis do conjunto de operações mercantis do remetente". (...). (grifos constantes no original). 40. Outro equívoco da fiscalização ao equiparar o conceito de praça ao conceito de mercado é metodológico. Antes, entretanto, de justificar tal assertiva, é importante não perder de vista que o caso analisado é fruto de um auto de infração, fato este de extrema relevância para a resolução da presente demanda, à medida que é justamente a iniciativa do processo administrativo que determina o ônus probatório, nos termos do que prevê o art. 373 Código de Processo Civil11. Assim já decidiu este colegiado, conforme se observa do seguinte trecho do acórdão n. 3402002.881, da lavra do Conselheiro Antonio Carlos Atulim: (...) É certo que a distribuição do ônus da prova no âmbito do processo administrativo deve ser efetuada levandose em conta a iniciativa do processo. Em processos de repetição de indébito ou 11 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Fl. 2571DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.547 51 de ressarcimento, onde a iniciativa do pedido cabe ao contribuinte, é óbvio que o ônus de provar o direito de crédito oposto à Administração cabe ao contribuinte. Já nos processos que versam sobre a determinação e exigência de créditos tributários (autos de infração), tratandose de processos de iniciativa do fisco, o ônus da prova dos fatos jurígenos da pretensão fazendária cabe à fiscalização (art. 142 do CTN e art. 9º do PAF). Assim, realmente andou mal a turma de julgamento da DRJ, pois o ônus da prova incumbe a quem alega o fato probando. Se a fiscalização não provar os fatos alegados, a consequência jurídica disso será a improcedência do lançamento em relação ao que não tiver sido provado e não a sua nulidade. (...). 41. Pois bem. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter provado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente. Nesse sentido, perguntase: quais são os fatos econômicos trazidos pela fiscalização que atestam tal assertiva? Quais os índices econômicos que permitem afirmar que de fato os produtos produzidos pelo recorrente não apresentam um mercado mais amplo (estadual, regional ou até mesmo nacional)? 42. Não há uma única linha sequer no TVF que justifique o discricionário recorte geográfico feito pela fiscalização. Em verdade, o único e suposto fundamento trazido pelo fisco nesse sentido é a aproximação física das empresas em questão, separadas por uma distância inferior a 10 km, o que, sob a equivocada ótica fiscal, seria suficiente para definir o mercado de cosméticos na região metropolitana do Rio de Janeiro. 43. Com o devido respeito ao trabalho fiscal, mas tal recorte geográfico não encontra qualquer subsídio jurídico e nem mesmo econômico. Aliás, quando se analisa a justificativa posta no TVF tal conclusão fica ainda mais patente. Vejamos o que diz a fiscalização: (...). 6.8. Adequandose a essa realidade, alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA, apurados com base nos preços correntes de determinada área, hoje são calculados com base no mercado consumidor de determinada região metropolitana: · INPC Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Mede a variação nos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias com rendas entre um e oito salários mínimos. O período de coleta de preços vai do primeiro ao último dia do mês corrente, e é Fl. 2572DF CARF MF 52 divulgado aproximadamente após o período de oito dias úteis. É o índice mais utilizado. · IPCA Índice de Preços ao Consumidor Ampliado. É calculado pelo IBGE nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Mede a variação nos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias com rendas entre um e quarenta salários mínimos. O período de coleta de preços vai do primeiro ao último dia do mês corrente, e é divulgado aproximadamente após o período de oito dias úteis. (...). 44. De forma genérica a fiscalização afirma que alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA são medidos dentro dos limites geográficos de uma região metropolitana, o que, por conseguinte, também deveria ser levado em consideração no caso em comento. O que a fiscalização ignora, todavia, é que os índices citados acima (INPC e IPCA) são determinantes para a apuração de preços para o consumidor, ou seja, leva em consideração o mercado de varejo e não o mercado atacadista, sendo este último o foco da presente fiscalização. Logo, a delimitação geográfica do mercado varejista em regiões metropolitanas não se aplica, necessariamente, para outros mercados mais concentrados, como ocorre no caso dos mercados industrial e atacadista. 45. Ademais, o esforço da fiscalização em demonstrar a proximidade física entre os estabelecimentos da recorrente e o atacadista não comove esTe julgador. Tratase de retórica12 vazia de qualquer conteúdo jurídico ou mesmo econômico. Ora, se proximidades geográficas fossem delimitadoras de critérios jurídicos poderíamos, por exemplo, alterar a competência territorial de uma demanda ajuizada na capital paulista, de acordo com a conveniência do réu, situado em uma extremidade da urbe e mais próximo do Fórum de Santo André, para que a demanda fosse automaticamente transferida para a cidade do ABC. O mesmo poderia ser levado em conta para a delimitação do dever de pagar ISS e assim por diante. Ademais, se o recorrente estivesse em outro ponto da cidade do Rio de Janeiro, com uma distância superior a 50 quilômetros da atacadista Lóreal, isso seria suficiente para afastar a interpretação da fiscalização? Qual seria o limite quilométrico suficiente para tanto? Tal delimitação pode ficar a mercê do subjetivismo fiscal? 46. O que se quer afirmar com esses exemplos e indagações é que nem o aplicador do direito nem o destinatário da norma podem inventar critérios, arbitrariamente, para fins de alterar a incidência de normas jurídicas, em especial quando se está diante de questões tributárias, afinal, tal nicho do direito deve profundo respeito ao princípio da legalidade, como já destacado no presente voto. 47. Por fim, nem se alegue, como pretende a fiscalização, que a Súmula 06, X do Tribunal Superior do Trabalho, ao interpretar o art. 461 da CLT, teria o condão de vaticinar o entendimento fiscal. Vejamos o que diz o citado dispositivo legal e o correlato enunciado sumular: Art. 461 Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, 12 Expressão que não é aqui empregada nos entido aristotélico do termos, mas sim sofistico. Fl. 2573DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.548 53 corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade. (g.n.) Súmula nº 06 TST X O conceito de "mesma localidade" de que trata o art. 461 da CLT referese, em princípio, ao mesmo município, ou a municípios distintos que, comprovadamente, pertençam à mesma região metropolitana. (g.n.) 48. Primeiramente, convém desde já destacar que a citada súmula afirma, textualmente, que a expressão "localidade" deve, como regra, ser interpretada como sinônimo de município, o que, como já desenvolvido no presente voto, não é nenhuma novidade. Segue a referida súmula adiante para afirmar que, excepcionalmente, referido signo também pode ser visto como sinônimo de região metropolitana. 49. Percebese, pois, que para chegar a tal conclusão o TST cria uma exceção não prevista em lei mediante uma interpretação extensiva, o que, levando em consideração o tipo de direito material tutelado e quem se pretende prestigiar com tal regra, é perfeitamente compreensível. Ora, o referido enunciado sumular versa sobre relações jurídicas de emprego, as quais apresentam em um dos seus polos o empregado, parte hipossuficiente na referida relação. Logo, é louvável que o TST, em situações excepcionais e de forma justificada, estenda a interpretação do art. 461 da CLT em favor do trabalhador. 50. Já no caso em comento a lógica é completamente inversa, já que a parte hipossuficiente da relação é o sujeito passivo da relação jurídicotributária. Não é por acaso, portanto, que a Constituição Federal prevê uma Seção inteira (Seção II) com o título "Das Limitações do Poder de Tributar". Assim, permitir uma interpretação extensiva do conceito de praça, criada ficcionalmente pelo realizador do direito e, o que é pior, mediante a convocação analógica de um enunciado sumular de um Tribunal afeto às relações trabalhistas é, no mínimo, absurdo. 51. Patente está, portanto, os equívocos das premissas fiscal, o que levou a indevida exigência exacional. V. Das circunstâncias fáticas do presente caso 52. Por fim, resta ainda detalhar um pouco mais as premissas fáticas que antecederam a presente discussão, de modo a afastar qualquer dúvida acerca da legitimidade da estrutura operacional realizada pelo recorrente. 53. Para tanto, insta registrar que, embora não afirme textualmente, a fiscalização induz a interpretação de que a estrutura empresarial tomada pela recorrente teria sido assim arquitetada com um único propósito: reduzir a base de cálculo do IPI na operação realizada pela recorrente, o que se daria mediante a redução dos preços dos produtos negociados nesta fase da cadeia econômica, conforme se observa do seguinte trecho do TVF: (...). 4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando Fl. 2574DF CARF MF 54 da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente – FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo: (...) (grifos constantes no original). 54. Como dito acima, a fiscalização textualmente afirma que a forma da estrutura tomada pela recorrente teria por escopo a redução de tributos, mediante o emprego de um "planejamento tributário". O que a fiscalização ignora, todavia, é que este tipo de segregação de atividades (industrial e atacadista) é explicitamente admitida no caso de operações sujeitas com o IPI, afinal de contas, os artigos 195 e 196 do RIPI/2010 só existem no ordenamento jurídico por partirem da premissa de que este tipo de estruturação empresarial é válida sob o ponto de vista legal. 55. Outrossim, chega a ser pueril a ideia da fiscalização no sentido de que o "planejamento tributário" por ela questionado restaria configurado pela diferença das margens de lucro apuradas pela recorrente e pela atacadista, partindo do pressuposto, equivocado, de que a margem de lucros de um produtor/industrial deve ser a mesma ou muito próxima daquela auferida por um distribuidor. 56. A fiscalização ignora, pois, que a as atividades em questão (industrial e atacadista) são distintas, com características que lhes são próprias, o que torna absolutamente inviável essa pretensa "planificação" de margens de lucro. A recorrente vende os produtos por ela industrializados no atacado, enquanto que a L'oréal vende tais bens no varejo, o que redunda em uma logística simplificada e uma inadimplência minorada para a recorrente, em contraposição a uma logística mais sofisticada/pulverizada e um risco maior de inadimplência para a L'oréal, o que, por óbvio, se traduz em uma menor margem de lucro para a recorrente e uma maior margem para a L'oréal. Caso, todavia, fosse válida a assertiva fiscal, o que se cogita aqui apenas de forma hipotética, perguntase: qual seria a margem de lucro aceitável para validar a presente operação? Este parâmetro deveria ser fixado em lei ou poderia ficar ao arbítrio da fiscalização? Aliás, levando em consideração o caso em concreto, quais as diferenças percentuais de margem de lucro entre a recorrente e a empresa atacadista? Tais indagações também permanecem sem respostas no presente caso, o que se só reforçam a fragilidade da acusação fiscal. 57. Não obstante, em momento algum a fiscalização acusa a operação praticada pela recorrente de deficitária. Ao contrário, parte do pressuposto que é lucrativa, mas Fl. 2575DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.549 55 com uma margem minorada quando comparada com a operação perpetrada pela empresa atacadista. Afastase, com isso, uma característica muito comum em casos de pretenso subfaturamento ou planejamentos abusivos: de que o preço praticado pelo contribuinte na operação de venda do seu produto é incapaz de arcar com o custo da sua operação. Não é o que ocorre no caso em tela, já que a aqui a própria fiscalização repitase reconhece a existência de lucro. 58. Ademais, outro elemento de prova muito empregado para atestar a existência de planejamentos abusivos é a identificação do momento da criação das empresas empregadas neste tipo de estratagema. Neste sentido, este Tribunal tem entendido que a criação de empresas logo após o advento da lei que altera a tributação é um forte indício de um planejamento sem propósito negocial, ou seja, com o fito exclusivo de redução de tributos. Não é esse, entretanto, o caso dos autos, podendo a estrutura operacional da recorrente ser assim sumarizada: · 1959: início das atividades do Grupo L’Oréal no Brasil (em 1960 foi inaugurada a primeira fábrica brasileira); · 1969: inauguração da fábrica da Procosa na Via Dutra (estabelecimento ora autuado no Rio de Janeiro); · 1979: segregação das atividades industrial e comercial com a criação de nova empresa (Belocap Produtos Capilares Ltda. – atual L’Oréal Brasil Comercial de Cosméticos), ambas na cidade do Rio de Janeiro, seguindo o modelo internacional de organização da Companhia; · 2001: aquisição de novo estabelecimento industrial pela Procosa na cidade de São Paulo; · 200104: operação da L’Oreal Brasil com 2 CDs (um em Caxias e outro no Rio de Janeiro) recebendo as compras das Procosas no Rio de Janeiro e em São Paulo; · 2004: mudança definitiva de endereço da L’Oréal Brasil para o município de Duque de Caxias, como parte de uma estratégia de redesenho logístico para ganhos de eficiência e de capacidade adequada ao volume de vendas. 59. Aliás, a necessidade da transferência da empresa atacadista para o município de Duque de Caxias foi bem explicada pela recorrente em suas manifestações, conforme se observa do seguinte trecho dos memoriais entregues aos membros deste colegiado e que também consta de suas peças impugnatórias: (...). 5.2. Com efeito, até o ano de 2000, (i) a RECORRENTE possuía um único estabelecimento fabril, na Cidade do Rio de Janeiro, no qual estava concentrada toda a fabricação dos produtos da marca L’ORÉAL no Brasil, e (ii) a L’ORÉAL um único estabelecimento, também nesta cidade, na Auto Estrada Rio D´Ouro nº 800, Pavuna, com galpão de 14.055 m2 para armazenagem (vide doc. 4 à Impugnação), no qual concentrava Fl. 2576DF CARF MF 56 a distribuição no atacado, para todo o território nacional, desses produtos e de outros, adquiridos no mercado interno. (...). 5.6. Nesse momento, surgiu como único disponível com tais dimensões, em condições de preço razoáveis, o prédio situado no Loteamento Internacional Business Park, lotes 4 e 3, parte, também na Cidade de Duque de Caxias, com área total construída de 48.109,70 m2, alugado ao Carrefour Comércio e Indústria Ltda., que lhe sublocou 25.000 m2, conforme contrato juntado aos autos (doc. 08 à Impugnação). (...). 5.8. Diversamente, essa decisão empresarial, da maior relevância para o futuro daquela empresa, foi motivada por necessidade econômica imperiosa e interesse legítimo em gerir seu negócio da forma mais eficaz possível, sendo um despautério negar essa conclusão, mormente quando a fiscalização não trouxe aos autos comprovação alguma da disponibilidade, na Cidade do Rio de Janeiro, de imóvel com características equivalentes, para ser alugado em condições financeiras mais vantajosas, que justificasse as alegações que fez no TVF. (...). 60. Percebese, portanto, que a motivação da empresa atacadista em mudarse definitivamente para a cidade de Duque de Caxias foi econômica e logística, tanto que o novo galpão que passou a ser utilizado nesta cidade possuía 5.000 m2 a mais do que a somatória da metragem dos seus estabelecimentos anteriores [no bairro de Pavuna, na cidade do Rio de Janeiro (14.055 m2) e na cidade de Duque de Caxias (5.200 m2)]. 61. Todo estes fundamentos afastam a acusação de que a recorrente teria arquitetado um planejamento tributário abusivo com o fito de furtarse de obrigações tributárias, o que implica a exoneração da presente exigência fiscal. Aliás, assim tem entendido este CARF em casos semelhantes ao aqui tratado (segregação de atividades empresarias em casos de monofasia de PIS e COFINS): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2000, 2001, 2002, 2003 PIS. REGIME MONOFÁSICO. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. SIMULAÇÃO ABSOLUTA. DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS. ART. 116, P.U. DO CTN. UNIDADE ECONÔMICA. ART. 126, III, DO CTN. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Não se configura simulação absoluta se a pessoa jurídica criada para exercer a atividade de revendedor atacadista efetivamente existe e exerce tal atividade, praticando atos válidos e eficazes que evidenciam a intenção negocial de atuar na fase de revenda dos produtos. A alteração na estrutura de um grupo econômico, separando em duas pessoas jurídicas diferentes as diferentes atividades de Fl. 2577DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.550 57 industrialização e de distribuição, não configura conduta abusiva nem a dissimulação prevista no art. 116, p.u. do CTN, nem autoriza o tratamento conjunto das duas empresas como se fosse uma só, a pretexto de configuração de unidade econômica, não se aplicando ao caso o art. 126, III, do CTN. Recurso voluntário provido. Recurso de ofício prejudicado. (Acórdão n. 3403002.519 grifos nosso). Ementa Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 31/10/2001 a 31/12/2003 COFINS ALÍQUOTA PRODUTOS DE HIGIENE E BELEZA ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAL E COMERCIAL ARTS. 1º E 2º DA LEI Nº 10.147/00 Para o cálculo da Cofins incidente sobre a receita de venda dos produtos de higiene e beleza aplicase a alíquota de 10,3% no caso de receita auferida por pessoa jurídica que proceda à industrialização ou importação dos citados produtos sendo que a alíquota é reduzida a zero, no caso de receita de revenda dos referidos produtos, auferida por pessoa jurídica não enquadrada na condição de industrial ou importador. COFINS DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS CISÃO PARCIAL DESMEMBRAMENTO DE ATIVIDADE SIMULAÇÃO INOCORRÊNCIA ART. 116, § ÚNICO DO CTN. Embora não se ignore que a autoridade administrativa pode desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, a Lei Complementar somente autoriza a desconsideração, desde que observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária (art. 116, § único do CTN). Assim o contrato só se transmuda em forma dissimulada quando ocorrer violação da própria lei e da regulamentação que o rege, donde decorre que a descaracterização do contrato só pode ocorrer quando fique devidamente evidenciada uma das situações previstas em lei, sendo que fora desse alcance legislativo, impossível ao Fisco tratar um determinado contrato privado como outro de natureza diversa, para fins tributários. Não há simulação na cisão parcial através da qual se efetua o desmembramento de atividades em várias empresas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária, não sendo lícita a pretensão fiscal de desconsiderar as distintas atividades e respectivas receitas segregadas em diferentes empresas do mesmo grupo, para tributálas unificadamente. (Acórdão n. 3402001.908). Fl. 2578DF CARF MF 58 62. Ressaltese, inclusive, que o contexto fático dos precedentes aqui invocados eram muito mais graves em desfavor do contribuinte, uma vez que as empresas em questão (industrial e atacadista) encontravamse no mesmo local físico e partilhavam os mesmos funcionários, o que não ocorre no presente caso. 63. Assim, diante de tudo o que fora exposto e do vasto e elucidativo acervo probatório produzido pelo recorrente, não há que se cogitar a existência de um planejamento tributário abusivo, mas sim operações empresariais válidas e com o nítido propósito econômico, em perfeita sintonia, portanto, com o princípio constitucional da livre iniciativa privada. Dispositivo 64. Diante do exposto, voto pelo provimento total do recurso voluntário interposto pelo contribuinte, o que faço com a devida vênia ao ilustre Relator do caso. 65. É como voto. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro. Fl. 2579DF CARF MF
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