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Numero do processo: 15504.724180/2011-86
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007, 2008
PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO TEMPORAL.
A apresentação de provas, inclusive provas documentais, no contencioso administrativo, deve ser feita juntamente com o recurso, precluindo o direito de fazê-lo em outro momento, salvo se fundamentado nas hipóteses expressamente previstas.
PROVA. PERÍCIA. INDEFERIMENTO.
A autoridade julgadora pode indeferir a perícia que considerar prescindível, e as diligências desnecessárias.
GANHO DE CAPITAL. VALOR DA ALIENAÇÃO. PARCELA DESTINADA A PAGAMENTO DE PASSIVO
A parcela do valor do negócio destinada a pagamento de passivo da pessoa jurídica, e não foi recebida pelos sócios alienantes, não compõe o valor da alienação, se comprovada a efetiva destinação da parcela para liquidação de passivo, e não for demonstrado pela auditoria fiscal que o contrato não teve propósito negocial.
INTIMAÇÃO NO ENDEREÇO DO ADVOGADO.
O domicílio tributário do sujeito passivo é o endereço postal, fornecido pelo contribuinte à Secretaria da Receita Federal do Brasil para fins cadastrais, ou o eletrônico por ele autorizado. Inexiste previsão legal para encaminhamento das intimações ao endereço dos procuradores.
Numero da decisão: 2202-004.741
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares, e, no mérito. em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rosy Adriane da Silva Dias - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: ROSY ADRIANE DA SILVA DIAS
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MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO TEMPORAL. A apresentação de provas, inclusive provas documentais, no contencioso administrativo, deve ser feita juntamente com o recurso, precluindo o direito de fazêlo em outro momento, salvo se fundamentado nas hipóteses expressamente previstas. PROVA. PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora pode indeferir a perícia que considerar prescindível, e as diligências desnecessárias. GANHO DE CAPITAL. VALOR DA ALIENAÇÃO. PARCELA DESTINADA A PAGAMENTO DE PASSIVO A parcela do valor do negócio destinada a pagamento de passivo da pessoa jurídica, e não foi recebida pelos sócios alienantes, não compõe o valor da alienação, se comprovada a efetiva destinação da parcela para liquidação de passivo, e não for demonstrado pela auditoria fiscal que o contrato não teve propósito negocial. INTIMAÇÃO NO ENDEREÇO DO ADVOGADO. O domicílio tributário do sujeito passivo é o endereço postal, fornecido pelo contribuinte à Secretaria da Receita Federal do Brasil para fins cadastrais, ou o eletrônico por ele autorizado. Inexiste previsão legal para encaminhamento das intimações ao endereço dos procuradores. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 41 80 /2 01 1- 86 Fl. 474DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares, e, no mérito. em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão nº 0955.569, proferido pela 6a Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (DRJ/JFA), que julgou procedente o lançamento, mantendo a cobrança do crédito tributário. Do Lançamento Fiscal Foi lançado o Imposto sobre a Renda de Pessoa Física, decorrente de omissão de ganhos de capital na alienação de ações/quotas não negociadas em bolsa, relativo aos anos calendário 2007 e 2008, no montante de R$ 105.232,85 (cento e cinco mil duzentos e trinta e dois reais e oitenta e cinco centavos), incluídos multa de ofício e juros de mora. A auditoria fiscal relata que a Brumafer Mineração Ltda (BRUMAFER) alienou 100% das quotas para a empresa MSA Mineração Serra Azul (MSA), em 31/08/2007. Os titulares das quotas eram as pessoas físicas, que detinham os seguintes percentuais: ESPÓLIO DE JOSÉ EVANDRO DE CASTRO TOLEDO (22%); EVANDRO TOLEDO (15,5%), PETRÔNIO TOLEDO (15,5%); ANTONIO CARLOS CASTRO TOLEDO (21%), JOSÉ RODOLFO CASTRO TOLEDO (21%); JOSÉ MARIA CASTRO TOLEDO (5%). Transcreve trechos do Contrato Promissório de Cessão e Transferência de Quotas Sociais, que contém a cessão de 36.000 quotas (100%), no valor de US$ 33.000.000,00, ajustado em moeda nacional (convertido pela taxa de compra PTAX 800, opção 5, divulgada pelo SISBACEN, vigente à data anterior ao pagamento), a ser pagos da seguinte forma: Parcelas Valor em US$ Data pagto Valor em R$ Sinal do negócio (cláusula "a") 1.598.295,15 01/08/2007 (depositada em conta de titularidade da BRUMAFER) 3.000.000 2ª (cláusula "b") 6.000.000,00 10/04/2008 (depositada em conta indicada pelos promitentes cedentes) 3ª (cláusula "c") 6.000.000,00 10/10/2008 (depositada em conta indicada pelos Fl. 475DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 475 3 promitentes cedentes) 4ª (cláusula "d") 4.401.704,85 10/04/2009 (depositada em conta indicada pelos promitentes cedentes) 5ª (cláusula "e") 12.000.000,00 data da renovação das licenças para o funcionamento (depositada em conta indicada pelos promitentes cedentes) 6ª (cláusula "f") 3.000.000,00 utilizada para liquidação de passivos (apurados por due diligence) Entre os trechos transcritos desse Contrato, consta que: 1) a due diligence para apuração de ativo e passivo total da cedente seria realizada na data da assinatura contratual até o vencimento da 2ª parcela; 2) todas as obrigações de qualquer natureza que recaíssem sobre a BRUMAFER até a data do registro de alteração contratual para a realização do objeto do contrato, seriam de responsabilidade dos promitentes cedentes; 3) se o valor do passivo apurado na due diligence fosse superior aos US$ 3.000.000,00, a promitente cessionária poderia descontar o valor excedente da parcela equivalente aos US$ 12.000.000,00, e se ultrapasse esse valor poderia descontar das demais parcelas vincendas, na ordem inversa das datas de pagamento. A auditoria fiscal informa que em 26/06/2008 foi assinado o 1o Termo Aditivo ao Contrato Promissório de Cessão e Transferência de Quotas Sociais (Contrato Promissório), que estabelecia: 1) o valor de US$ 1.325.190,70 que foi antecipado para pagamento dos passivos da BRUMAFER, seriam descontados da 3ª parcela (US$ 6.000.000,00) e da 5ª parcela (US$ 12.000.000,00); 2) o valor integral do passivo a ser descontado do valor total do negócio seria o consolidado no prazo de 60 dias após o registro de cessão das cotas na JUCEMG (ocorrido em 13/11/2008); 3) o valor de US$ 3.000.000,00 (cláusula "f") e os demais valores liquidados ou a serem liquidados relativos aos passivos da BRUMAFER seriam considerados como custo para efeito da determinação do valor total atribuído ao contrato. O autuante comunica que realizou diligência na empresa MSA, cujos documentos por ela apresentados, demonstram que já tinham sido realizados os seguintes pagamentos: DATA R$ US$ FINALIDADE 27/08/2007 250.000,00 133.191,26 Pagto passivo Brumafer 03/09/2007 1.250.000,00 665.956,31 Pagto passivo Brumafer 19/09/2007 500.000,00 266.382,53 Pagto passivo Brumafer 24/09/2007 1.000.000,00 532.765,05 Pagto passivo Brumafer TOTAL Parcela Sinal 3.000.000,00 1.598.295,15 21/11 /2007 41.582,00 23.573,90 Pagto passivo Brumafer 11/04/2008 9.790.138,08 5.737.411,58 Pagto aos sócios e passivo Brumafer 11/04/2008 390.000,00 239.014,52 Pagto passivo Brumafer TOTAL 2ª Parcela (10/04/2008) 10.180.138,08 6.000.000,00 03/10/2007 1.837.820,96 1.006.143,09 Pagto passivo Brumafer 05/10/2007 136.500,00 75.000,00 Pagto passivo Brumafer 15/10/2007 134.340,00 75.000,00 Pagto passivo Brumafer 30/04/2008 283.057,63 169.047,62 Pagto passivo Brumafer 21/11/2008 3.293.218,20 1.374.809,30 Pagto aos sócios 21/11/2008 3.300.000,00 Multa Contratual Aplicada (em juízo) TOTAL 3ª Parcela (10/10/2008) 5.684.218,20 6.000.000,00 13/04/2009 9.577.229,41 4.401.704,85 Pagto aos sócios Fl. 476DF CARF MF 4 TOTAL 4ª Parcela (10/04/2009) 9.577.229,41 4.401.704,85 30/06/2008 4.820.700,00 3.000.000,00 Pagto passivo Brumafer TOTAL 5ª Parcela (06/2008) 4.820.700,00 3.000.000,00 Noticia que o recorrente era titular de cotas representativas de 5% do capital social da BRUMAFER, que era de R$ 36.000,00, conforme Declaração de Informações Pessoa Jurídica (DIPJ) do ano calendário de 2007. Entretanto, 50% de suas cotas foram transferidas para sua exesposa nos autos do processo judicial de divórcio consensual nº 0024.00.126.8044 (10a Vara de Família de Belo Horizonte/MG). Quando do processo de execução da sentença, o adquirente foi intimado a depositar em juízo o equivalente a 2,5% do valor total do negócio (US$ 33.000.000,00), o que foi efetuado em 11/04/2008, por meio de cheque, no valor de R$ 1.405.635,00. Desse montante, a exesposa do recorrente (Raquel Leite Rangel) levantou R$ 1.177.922,45, dando quitação plena do valor executado, o restante foi levantado pelos demais cotistas. Como já havia sido pago aos vendedores o valor de R$ 33.287.929,62, coube ao recorrente o valor de R$ 785.706,04, recebido parte por meio de liquidação do passivo da BRUMAFER, conforme tabela abaixo (fls. 24): VRS. RECEBIDOS PROPORCIONALMENTE À PARTICIPAÇÃO DE CADA SÓCIOQUOTISTA MÊS DO RECEBIMENTO VR. DO DESEMBOLSO R$ JOSÉ MARIA DE CASTRO TOLEDO 2,50% R$ 31/08/2007 250.000,00 6.400,00 30/09/2007 2.750.000,00 70.400,00 31/10/2007 2.092.004,30 53.555,31 30/11/2007 41.582,00 1.064,50 30/04/2008 6.966.138,23 178.333,14 30/04/2008 673.057,63 17.230,28 30/04/2008 1.177.922,45 0,00 30/04/2008 227.712,55 5.829,44 30/06/2008 1.418.364,85 0,00 30/06/2008 4.820.700,00 123.409,92 30/11/2008 3.293.218,20 84.306,39 30/04/2009 9.577.229,41 245.177,07 TOTAL 33.287.929,62 785.706,04 O Auditor Fiscal explica a composição da tabela, nos seguintes termos: 2.9.1 O valor de R$6.966.138,23 referese ao cheque de R$8.384.503,08 recebido pelos alienantes menos o valor de R$1.418.364,85 desembolsado para pagamento dos 22% de participação societária do espólio de José Evandro de Castro Toledo, dividido entre a meeira Maria Olga dos Santos e as herdeiras Maria Inez Toledo Detoni e Maria Saturnina de Castro Toledo. Sobre este valor já foi recolhido o Imposto de Renda Sobre Ganho de Capital no valor de R$211.566,73 em nome do espólio. 2.9.2 O valor de R$1.177.922,45 referese ao valor levantado por Raquel Leite Rangel, exesposa do sócio José Maria de Castro Toledo, referente aos 2,50% de participação societária da mesma, havidos mediante partilha de bens em acordo judicial no processo de divórcio do casal, processo n° 0024.00.126.804 4. 2.9.3 O valor de R$227.712,55 referese à diferença entre o valor depositado judicialmente pela MSA Mineração Serra Azul Fl. 477DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 476 5 Ltda, R$1.405.635,00 e o valor levantado por Raquel Leite Rangel. O valor de R$1.405.635,00 é equivalente a 2,50% (participação da exesposa) de US$33.000.000,00 (preço de venda das participações societárias). Este valor foi repassado para os sócios remanescentes. Informa que o recorrente não considerou na apuração do ganho de capital os valores repassados pela adquirente para pagamento do passivo da BRUMAFER, e por isso calculou a diferença, conforme abaixo: QUOTAS SOCIAIS VENDIDAS VALOR DE VENDA CUSTO GANHO DE CAPITAL BRUMAFER MINERAÇÃO 785.706,04 900,00 784.806,04 Acrescenta que o percentual entre o ganho de capital total e o valor total da alienação foi de 99,90%, o qual deve ser aplicado aos valores de cada parcela recebida nos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, cujo efetivo recebimento foi comprovado pela documentação bancária juntada pelo recorrente e pela MSA. Sobre esses valores apurou o imposto devido à alíquota de 15%, e aplicou a multa de ofício no percentual de 75%. Cientificado do Auto de Infração (fls. 248), o recorrente apresentou impugnação (fls. 250/261), que foi julgada improcedente pela DRJ/JFA, tendo a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Data do fato gerador: 31/08/2007, 30/09/2007, 31/10/2007, 30/11/2007, 30/04/2008 OMISSÃO DE GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS E DIREITOS. ALIENAÇÃO DE QUOTAS SOCIETÁRIAS. ALEGAÇÃO DE CLÁUSULA CONTRATUAL. A alegação de existência de cláusula contratual prevendo que uma parte dos valores recebidos decorrentes da alienação da participação societária seria utilizado para pagamento do passivo da empresa alienada não cabe para refutar a infração de omissão de ganhos de capital, quando esta houver sido claramente demonstrada nos autos pela fiscalização, sem que tenham sido trazidas quaisquer provas em contrário pelo impugnante. Salvo disposição de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes, nos termos do art. 123 do CTN. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 31/08/2007, 30/09/2007, 31/10/2007, 30/11/2007, 30/04/2008 PEDIDO DE PRODUÇÃO DE PROVAS. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, não podendo o impugnante apresentála em outro Fl. 478DF CARF MF 6 momento a menos que demonstre motivo de força maior, refira se a fato ou direito superveniente, ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. Indeferese a solicitação de perícia quando a prova do fato não depende de conhecimento especial de técnico e sua demonstração pode ser efetuada pela juntada de documentos. INTIMAÇÃO AO ADVOGADO. Na fase do contencioso administrativo, as intimações são feitas no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado da decisão da DRJ/JFA em 08/12/2014 (fls. 456/457), o recorrente apresentou recurso voluntário em 05/01/2015, com os mesmos argumentos da impugnação, que em síntese são os seguintes: · A data efetiva do negócio ocorreu em 28/06/2008, porque não houve pagamento integral da 1ª parcela constante no contrato original, por parte do adquirente; · O adquirente MSA Mineração Serra Azul Ltda assumiria todo o passivo (pagamento de credores) da Brumafer Mineração Ltda, cujo valor apurado seria descontado do valor do negócio; · Foi acordado que os sócios da Brumafer Mineração Ltda receberiam o resultado da diferença entre o valor global do negócio e o valor total do passivo, apurado por meio de uma due diligence; · Do valor global do negócio foi destinado o equivalente a US$ 3.000.000,00 para liquidação do passivo da Brumafer Mineração Ltda, e se o passivo ultrapassasse esse valor, a adquirente estaria autorizada a descontar o excesso, do valor global do negócio; · Os valores recebidos para liquidação do passivo, antes da assinatura do 1º termo de aditamento ao contrato de alienação das quotas, seriam descontados das parcelas futuras; · O valor antecipado pela adquirente para pagamento desse passivo não pode entrar na base de cálculo do ganho de capital, porque está expresso que ele será descontado do valor global do negócio; · O Auditor Fiscal considerou como fato gerador do ganho de capital simplesmente a alienação do bem; e não apontou a realidade factual da análise da materialidade do evento econômico, do qual o recorrente foi partícipe; · Não houve acréscimo ao patrimônio do recorrente, porque o montante foi utilizado para quitação de débitos da Brumafer Mineração Ltda.; · Ao efetuar o cálculo do imposto sobre ganho de capital levou em consideração o rendimento bruto, nos termos da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988. Fl. 479DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 477 7 · Os valores adiantados pela adquirente para pagamento do passivo da Brumafer Mineração Ltda. não podem ser considerados rendimento bruto; · A exigência de imposto de renda sobre os valores utilizados para liquidação do passivo da Brumafer é ilegal, porque se está tributando o próprio negócio de compra e venda, que não é competência da União; · Isso levaria ao entendimento de ser possível a tributação quando da cessão de quotas dos sócios proprietários para seus credores, a fim de liquidação de dívidas préexistentes, sem que eles recebessem valor algum; · Nas alienações a prazo, para a ocorrência do fato gerador, deve estar efetivamente comprovado o recebimento dos valores pelo contribuinte, e não apenas baseado em valores estabelecido em instrumento particular; · Comprovado que não houve omissão de ganho de capital a multa deve ser anulada juntamente com o Auto de Infração; · O Auto não foi instruído da fundamentação correspondente para validálo; · O art. 123 do CTN não se aplica aos autos, que não dizem respeito à determinação do sujeito passivo da obrigação tributária; · A perícia contábil é relevante para detalhar que os valores foram efetivamente utilizados para pagamento do passivo. Dos pedidos: O recorrente requer: · Conhecimento do recurso, improcedência do lançamento, e extinção do crédito; · Produção de provas e juntada posterior de documentos, assim como, realização de prova pericial contábil; · Intimação no endereço de seus advogados e procuradores. É o relatório. Voto Conselheira Rosy Adriane da Silva Dias, Relatora Fl. 480DF CARF MF 8 O Recurso Voluntário é tempestivo, e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço Produção de provas. Perícia. Em relação à solicitação de produção de provas, importante lembrar que o Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo Fiscal, no art. 16 e parágrafos, e art. 18, aborda a questão nos seguintes termos: Art. 16. A impugnação mencionará: [...] III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) [...] § 1º Considerarseá não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) [...] § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) b) refirase a fato ou a direito superveniente; (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) [...] Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observado o disposto no art. 28, in fine. (redação dada pelo art. 1° da Lei n° 8.748/93). Fl. 481DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 478 9 Os dispositivos acima transcritos demonstram que a juntada de documentos após o recurso somente é permitida nas situações expressamente previstas, devendo ser indeferidos eventuais pedidos em desacordo com o estatuído. A prova documental deve ser apresentada no momento do recurso e não em outro. Por fim, registrese que é justamente nesta fase do processo administrativo que a interessada deve exercer o seu direito de ampla defesa, ocasião em que deve comprovar suas alegações. A realização de diligência, ou perícia, pressupõe que a prova não pode, ou não cabe, ser produzida por uma das partes, ou que o fato a ser provado necessite de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador, o que não é o caso dos presentes autos. O Relatório Fiscal e seus anexos detalham de forma clara os critérios utilizados pelo Auditor Fiscal, a forma de apuração da base de cálculo, informando os valores e diferenças apuradas. Portanto, a empresa teve todas as condições para contestar o lançamento, sem a realização de diligências ou perícia. Por isso, não vejo necessidade desses procedimentos, uma vez que o Auto de Infração apresenta todos os elementos necessários para formar a convicção do julgador. Ademais, entendese que não estão presentes os requisitos necessários ao pedido, ao teor do inciso IV e § 1º do art. 16 do Processo Administrativo Fiscal PAF, assim, indeferese o pedido por entendêlo prescindível à solução do litígio. Do mérito A controvérsia reside no fato de parte do valor total do negócio ter sido utilizada para pagamento de passivos da BRUMAFER. Alega o recorrente que a auditoria não poderia acrescentar ao ganho de capital o valor utilizado para pagar passivos da BRUMAFER. Para a solução de controvérsia, importante trazer ao debate o art. 4o da Resolução CFC nº 750, de 29/12/1993, publicado no DOU de 31/12/1993, verbis: SEÇÃO I O PRINCÍPIO DA ENTIDADE Art. 4°. O Princípio da ENTIDADE reconhece o Patrimônio como objeto da Contabilidade e afirma a autonomia patrimonial, a necessidade da diferenciação de um Patrimônio particular no universo dos patrimônios existentes, independentemente de pertencer a uma pessoa, um conjunto de pessoas, uma sociedade ou instituição de qualquer natureza ou finalidade, com ou sem fins lucrativos. Por conseqüência, nesta acepção, o Patrimônio não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição. Parágrafo único — O PATRIMÔNIO pertence à ENTIDADE, mas a recíproca não é verdadeira. A soma ou agregação contábil de patrimônios autônomos não resulta em nova Fl. 482DF CARF MF 10 ENTIDADE, mas numa unidade de natureza econômico contábil." A análise desse princípio, leva à conclusão que o passivo de uma sociedade é diferente do passivo pessoal de seus sócios. As dívidas da sociedade são diferentes das dos seus sócios. Isso está estipulado nos arts. 1024 e 1052 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil): Art. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade, senão depois de executados os bens sociais. [...] Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. Tal autonomia patrimonial também está disposta no art. 795 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Novo Código de Processo Civil NCPC), cuja previsão já estava contida do antigo CPC (Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973): Art. 795. Os bens particulares dos sócios não respondem pelas dívidas da sociedade, senão nos casos previstos em lei. § 1oO sócio réu, quando responsável pelo pagamento da dívida da sociedade, tem o direito de exigir que primeiro sejam excutidos os bens da sociedade. Assim, a pessoa jurídica é um ente distinto das pessoas físicas que a constituem, tem nome próprio, domicílio próprio, nacionalidade própria, e patrimônio próprio. Diante das transcrições anteriores, voltemos ao negócio efetuado entre os sócios da BRUMAFER e a MSA. Com base nas cláusulas do Contrato Promissório de Transferência de Quotas Sociais da empresa BRUMAFER, verificase que o valor do negócio não foi definido em sua assinatura, pois dependia de algumas ocorrências para se chegar ao valor final da alienação, pois as parcelas dependiam do valor do passivo apurado no due diligence, e ao longo do período até que se chegasse ao pagamento da última parcela, e da renovação das licenças ambientais. Com isso temse que o valor da alienação, apesar de ser estipulado em US$ 33.000.000,00, poderia ser reduzido a depender do valor do passivo e da liberação de licença ambiental, não sendo um valor definido. Então, para se determinar o ganho de capital dessa alienação, devese primeiramente, saber qual o valor real da alienação, e segundo qual o valor do custo de aquisição das quotas que foram alienadas. Entendo não haver controvérsia quanto ao segundo elemento. O debate gira em torno do valor da alienação: devese incluir ou não a parcela destacada do valor estipulado em contrato para pagamento do passivo da BRUMAFER? Para isso vamos ver o que diz a Lei nº 7.713/88: Art. 1º Os rendimentos e ganhos de capital percebidos a partir de 1º de janeiro de 1989, por pessoas físicas residentes ou domiciliados no Brasil, serão tributados pelo imposto de renda na forma da legislação vigente, com as modificações introduzidas por esta Lei. Fl. 483DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 479 11 Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (grifei) Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90) § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. § 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, decorrentes de alienação de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de transmissão do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. Pelos trechos legais acima transcritos, percebese que o imposto recairá sobre o que for recebido, e na medida em que for recebido. Assim, no caso hipotético de uma alienação de participação societária ao valor contratual de R$ 1.000,00, com pagamento diferido, da seguinte forma: 1ª parcela: 100,00 deduzidas as dívidas da empresa; 2ª parcela: 200,00 reais deduzidas de possíveis dívidas encontradas na empresa; 3ª parcela: R$ 700,00 quando liberada a licença ambiental, deduzidas dívidas remanescentes da sociedade. Vamos dizer, que à época do pagamento da 1ª parcela, foi apurado de passivo na empresa o valor de R$ 40,00, em vista disso a alienante paga ao sócio R$ 60,00; ao tempo da 2ª parcela, foram encontradas mais dívidas da empresa no valor de R$ 100,00, em função disso, são pagos ao alienante R$ 100,00; e depois de 5 anos finalmente o órgão público libera a licença ambiental da sociedade, ocasião em que a adquirente paga ao sócio alienante os R$ 700,00 relativo à última parcela, mas deduz desse valor, dívidas remanescentes da sociedade no valor de R$ 100,00. Pergunto: qual será o valor considerado para apuração do ganho de capital? Entendo que, apenas o valor efetivamente recebido pelo sócio: 60 + 100 + 600 = 760,00, porque não se tributa o que não foi recebido, e aqui não se inclui o passivo porque não é obrigação do sócio, mas da sociedade, enquanto detentora de autonomia patrimonial. O exemplo é similar ao ocorrido no presente caso, o valor da alienação das participações societárias correspondeu aos valores efetivamente recebidos pelos sócios, e o valor do passivo não foi recebido por eles. Ao que tudo se lê do contrato, a MSA fez uma apuração de haveres, com encontro de contas entre ativo e passivo, para determinar qual seria o valor do negócio, e partindo disso, estipulou um preço que levaria em conta o valor de dívidas da empresa. Isso é o que se conclui dos seguintes trechos do Contrato Promissório transcrito no TVF: Parágrafo Primeiro A due diligence para apuração do ativo e passivo total da Brumafer Mineração Ltda, deverá ser realizada da data de assinatura do presente contrato até o vencimento da parcela prevista na letra "b" da cláusula segunda, e verificará, além dos passivos contábeis, a situação dos ativos de minério de Fl. 484DF CARF MF 12 ferro, relacionados diretamente com as operações de lavra, beneficiamento, comercialização e transporte de minério a eles relacionados, incluindo a avaliação de recursos e reservas minerais, bem como os direitos, deveres e obrigações decorrentes de Termos de Ajustamento e Conduta TAC"s.. Parágrafo Segundo Todas as obrigações, de qualquer espécie, de qualquer natureza, seja a nível tributário, fiscal, trabalhista, previdenciário, reparação civil, que recaírem sobre a Brumafer Mineração Ltda, até a data do registro da alteração contratual necessária à realização do objeto do presente instrumento de cessão e transferência de quotas sociais, serão de responsabilidade dos PROMITENTES CEDENTES, passando a ser, de responsabilidade da PROMITENTE CESSIONÁRIA, a partir daquela mesma data, ou seja, do registro da alteração contratual. Parágrafo Terceiro Finda a due diligence, se o valor do passivo apurado, definitivo e consolidado, for superior em dólares, aos US$3.000.000,00 (três milhões de dólares norte americanos), referidos na letra "f da cláusula segunda, a PROMITENTE CESSIONÁRIA ficará autorizada a descontar o valor a maior eventualmente encontrado e efetivamente pago, da parcela em reais, equivalente a US$ 12.000.000,00 (doze milhões de dólares norteamericanos), referida na letra "e" também da cláusula segunda, observandose, invariavelmente, o estabelecido no Parágrafo Segundo da Cláusula Quinta. Parágrafo Quarto Caso o valor total do passivo apurado e efetivamente pago for superior ao valor da parcela referida na letra "e" da cláusula segunda, poderá a PROMITENTE CESSIONÁRIA, descontar das parcelas vincendas, sempre na ordem inversa das datas de pagamento, o valor que exceder." Vejo que a due diligence teve por objetivo estipular qual seria o valor real das participações societárias, em função da situação patrimonial da sociedade, o que por consequência excluía desse valor o passivo, que ia se acumulando, em função da situação da empresa, que estava com as atividades paradas por decisão judicial. Isto porque, consta no Contrato Promissório, que a cada verificação do passivo que ultrapassasse os US$ 3.000.000,00, o excesso seria descontado do valor das parcelas subsequentes. Se houve destaque do preço de aquisição para pagamento do passivo, o preço de aquisição real foi o preço de venda menos esse passivo. Da mesma forma, a empresa adquirente poderia ter estipulado um valor líquido (excluído o passivo) para as participações societárias, e reservado o valor que correspondesse ao passivo, para liquidar quando do registro da alteração contratual de realização do objeto do Contrato Compromissário. Nesse caso, o passivo teria efeito sobre o valor líquido que seria recebido pelos alienantes? Entendo que não, caso não houvesse cláusula contratual estipulando dedução de valor em função de diferença de passivos apurados; mas se tal cláusula estivesse presente, os valores das parcelas a serem pagas seriam reduzidas. Ou seja, se as parcelas estivessem estipuladas contratualmente, no momento do pagamento a adquirente iria descontar o passivo apurado, então esse líquido corresponderia ao efetivo valor de alienação. Em realidade, houve uma retenção de parcela do valor da alienação, para pagamento do passivo. Fl. 485DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 480 13 A questão é que, o sócio não recebeu o valor destinado ao passivo, que foi diretamente depositado na conta de outros dois sócios para pagamento de dívidas da BRUMAFER. Se o valor destacado era para o passivo, então não era para os sócios, visto que o sócio não é responsável pelas dívidas da empresa, no caso de o capital social estar todo integralizado, e não houver a desconsideração da personalidade jurídica, ou outro fato determinado em lei, que responsabilize os sócios por aquelas dívidas. Diferente seria se, o sócio fosse responsabilizado pelas dívidas da sociedade, em função de situações comprovadamente provocadas por ele, então, o valor destinado ao passivo comporia o valor da alienação, visto que foi destinado ao pagamento do passivo que é de responsabilidade do sócio, assim, uma parte seria utilizada para quitar dívidas dele. Nesse momento, oportuno citar a solução de Consulta Cost nº 3/2016, que sana dúvidas em relação a ágio na alienação de ações, mas que aborda matéria pertinente ao presente processo: [...] Com efeito, a aquisição acionária pode ser feita através de outras formas de integralização, como o oferecimento de bens ou ações, a assunção de passivos e emissão e entrega de instrumentos de capital ou o conjunto combinado de mais de um dos tipos de contraprestação3 . Entretanto, deve haver efetiva contribuição do investidor em qualquer espécie de bem suscetível de avaliação em dinheiro, já que só pode haver o registro do valor pago na escrituração contábil se houver segurança em sua mensuração. Nesse sentido é a exegese dos arts. 1.052 e 1.055 do Código Civil: (destacouse) Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. (...) Art. 1.055. O capital social dividese em quotas, iguais ou desiguais, cabendo uma ou diversas a cada sócio. [...] Importante destacar que os valores depositados na conta caução, apesar de essa ter sido aberta em nome dos Vendedores, ainda não podem ser considerados como custo de aquisição, pois esses valores se destinam a cobrir as garantias impostas pelo Comprador, e só estarão à disposição dos Vendedores na forma e nos prazos estipulados em contrato. 41. Em síntese, o preço de aquisição da participação societária não restou determinado no contrato apresentado pela Consulente, pois, em razão das diversas condições estipuladas no texto, é possível que o montante total a ser pago pelo Comprador seja ajustado para mais ou para menos, a depender de eventos futuros e incertos. Contudo, os valores já transferidos aos Vendedores correspondem a pagamento do preço acordado entre as partes, caracterizandose, desta forma, como custo de aquisição da participação societária para fins de apuração do ágio verificado no negócio celebrado pela Consulente. E, Fl. 486DF CARF MF 14 contrario sensu, os valores devolvidos pelos Vendedores representam redução desse custo de aquisição. Por óbvio, essas alterações influenciarão a apuração do ágio na transação, o que será melhor visto a seguir. [...] As obrigações acessórias estipuladas no contrato devem ser analisadas em face dos requisitos da existência jurídica e da ausência de autonomia frente a obrigação principal. Desta forma, essas obrigações, que no caso em tela determinam a devolução de valores para o Comprador, fazem parte do contrato de compra e venda, e não podem ser analisadas de forma isolada do objeto principal do negócio celebrado entre as partes. [...] 47. Considerando que gravar a coisa é impor a ela limitações ou gravames, também não se aplica ao caso em tela o art. 502 do Código Civil, acima apontado pela Consulente, já que a existência de eventuais débitos anteriores à data de sua alienação não “grava” a participação societária objeto do negócio celebrado entre as partes. Ademais, esses débitos são da sociedade, não do sócio vendedor. Cabe ainda ressalvar que nas sociedades limitadas a responsabilidade do sócio se restringe ao valor de suas quotas, desde que já integralizadas. Quanto à responsabilidade acerca de débitos passados após a incorporação, assim determina o art. 1.116 do Código Civil: (destacouse) Art. 1.116. Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprovála, na forma estabelecida para os respectivos tipos. [...] 51. De fato, o regime de competência determina que o valor das transações e de outros eventos seja reconhecido nos períodos a que se refere, independentemente do recebimento ou pagamento. Entretanto, para seu reconhecimento fiscal é necessário também que esse valor represente com fidedignidade aquilo que consubstancia, no caso em tela o efetivo preço da aquisição da participação societária, uma vez que, conforme sobejamente demonstrado acima, o preço consignado em contrato não é determinado, já que o valor final está condicionado a eventos futuros e incertos. Somente a efetiva e definitiva entrega de numerário aos Vendedores, nas condições estabelecidas no contrato, é que permite reconhecer que determinado valor integra o custo de aquisição da participação societária. [...]53. Em síntese, o custo de aquisição da participação societária é o valor total efetivamente pago pelo Comprador ao Vendedor. Em regra, é aquele estipulado no contrato, mas, deve se sempre observar o que foi acordado entre as partes, a fim de verificar se o preço consignado em contrato equivale àquele que será efetivamente pago aos Vendedores ao final da transação. Fl. 487DF CARF MF Processo nº 15504.724180/201186 Acórdão n.º 2202004.741 S2C2T2 Fl. 481 15 Pois bem, a solução de consulta entende que o preço estipulado no contrato, pode não ser o definitivo, e isso vale tanto do lado do comprador quanto do lado do vendedor, o qual será determinado ao final da transação. Além disso, é bem clara ao afirmar que no preço da participação societária não deve ser considerado o passivo da sociedade, por ser dívida da empresa e não do sócio. Verificase ainda, no TVF que o fundamento do Auditor Fiscal para efetuar o lançamento se limitou ao fato de que as parcelas destacadas para pagamento do passivo deveriam compor o valor da base para apuração do ganho de capital. Entendendo que esse valor não deveria entrar na base de cálculo, pelas razões expostas ao longo deste voto, acrescento que, a auditoria em nenhum momento demonstrou que o valor ao qual se insurge teve outros fins que não o pagamento de dívidas, ou que tais recursos tiveram como beneficiários finais os próprios sócios da empresa, e que as tratativas contratuais foram apenas artifício para evitar o pagamento de imposto, situações essas, que poderiam descaracterizar o negócio e atrair a incidência do imposto. Ao contrário, o que vejo nos autos são documentos apresentados pelo recorrente durante a ação fiscal e com a peça impugnatória, demonstrando o pagamento pela MSA de dívidas da Brumafer, conforme fls. 146/227 e fls. 268/404. Portanto, entendo que não há motivo para manter o lançamento, referente às diferenças apontadas. Diante do exposto, devem ser excluídas da base de cálculo do ganho de capital do recorrente, os valores do passivo da sociedade que foram acrescentados pela Auditoria Fiscal no preço de alienação. Intimação ao advogado Por fim, o recorrente requereu que todas as intimações atinentes ao presente recurso fossem realizadas em nome de seu advogado no endereço lá constante. O artigo 23 do Decreto n° 70.235/72 disciplina integralmente a matéria. Seus incisos I, II e III configuram as modalidades de intimação, atribuindo ao Fisco a discricionariedade de escolher qualquer uma delas. Nesse sentido, o § 3º estipula que os meios de intimação previstos nos incisos do caput do artigo 23 não estão sujeitos a ordem de preferência. O inciso II considera que a intimação via postal deve acontecer no domicílio tributário apenas do sujeito passivo. Já o § 4º dispõe que, para fins de intimação, o domicílio tributário do contribuinte pode ser apenas em dois locais: no endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; ou no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. De tais regras, concluise pela inexistência de intimação postal na figura do procurador do sujeito passivo. Assim, a intimação via postal, no endereço dos procuradores, não acarretaria qualquer efeito jurídico de intimação, pois estaria em desconformidade com o artigo 23, inciso II e §§ 3° e 4°, do Decreto n° 70.235/72. Sendo assim, é de indeferir o pleito do recorrente. Conclusão Por todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares, e, no mérito, em dar provimento ao recurso. Fl. 488DF CARF MF 16 (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Fl. 489DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13227.900661/2009-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jul 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2004
COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO.
Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ).
SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação.
Numero da decisão: 1401-002.540
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13227.900318/2010-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2004 COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ). SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13227.900318/2010-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
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GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ). SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 13227.900318/201060, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 22 7. 90 06 61 /2 00 9- 71 Fl. 65DF CARF MF Processo nº 13227.900661/200971 Acórdão n.º 1401002.540 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte em face do Acórdão n. 0121.941 3ª Turma da DRJ/BEL, que, por unanimidade de votos, não homologou a compensação correlata ao crédito de CSLL não reconhecido. A Recorrente transmitiu declaração de compensação em 06/04/2006, na qual indicou crédito resultante de pagamento indevido ou a maior originário de DARF relativo à receita de código 2484, do período de apuração de 09/2004. A unidade de origem, por intermédio de despacho decisório, não homologou a compensação declarada, sob o argumento de que após analisadas as informações prestadas pela Recorrente foi constatada a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade na qual alegou que: a) A empresa efetuou pagamento de CSLL Código de Receita: 2484, relativo ao período de apuração de 09/2004; b) Por ocasião do encerramento do ano base de 2004, a empresa apurou prejuízo fiscal resultando desta forma crédito a ser compensado.; c) Oportunamente, aproveitou o crédito do pagamento indevido para compensar, via PER/DCOMP e de forma legal, débitos próprios. Diante dos fatos apresentados, requereu a anulação do Despacho Decisório, por questão de justiça e direito. Apreciados tais argumentos, o despacho decisório restou mantido, sob o entendimento de que as declarações de compensação apresentadas à Secretaria da Receita Federal do Brasil somente podem ser homologadas quando reste comprovada pelo sujeito passivo a existência do respectivo direito creditório. Em sede de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito. Inconformada, a Recorrente interpôs Voluntário com vistas a obter a reforma do julgado defendendo estar suficiente comprovado seu direito creditório. Era o essencial a ser relatado. Passo a decidir Fl. 66DF CARF MF Processo nº 13227.900661/200971 Acórdão n.º 1401002.540 S1C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.523, de 17/05/2018, proferida no julgamento do Processo nº 13227.900318/201060, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. O processo paradigma analisou a possibilidade de utilização de crédito relativo a pagamento indevido de IRPJ estimativa mensal, referente ao período de apuração de fevereiro/2006, para compensação com débitos do contribuinte. O presente processo tratase de pedido de compensação de crédito relativo a pagamento indevido de CSLL estimativa mensal, do período de apuração de 09/2004, com débitos do contribuinte. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.523): O Recurso apresenta os requisitos essenciais para sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Ao julgar improcedente a manifestação de inconformidade, a decisão de piso manifestase no sentido de que pode a Fiscalização, após o encerramento do ano calendário, exigir estimativas eventualmente não recolhidas durante o ano calendário, por expressa previsão legal e que a falta de recolhimento de estimativas. Segundo o Acórdão recorrido, descabe a alegação da contribuinte no sentido de que a glosa de estimativas da apuração de saldo negativo representa dupla exigência à Recorrente decorrente do mesmo fato, pois o pagamento de estimativas deveria ter sido feito dentro do prazo legal, o que não teria ocorrido no presente caso, assim como não houve o adimplemento dos débitos confessados, a glosa do saldo negativo é consequência deste fato. Por isso, no entendimento da decisão de piso, não haveria como se manter o saldo negativo de parcelas constituintes que não estariam satisfeitas, porque a cobrança dos valores não pagos decorre de determinação legal, de forma que não haveria que se falar em dupla cobrança, já que uma vez adimplido o débito, este procedimento reflete na apuração do saldo negativo. Ocorre que, conforme apontado pela recorrente em sede de voluntário, embora a compensação tenha se dado de forma equivocada, uma vez que ao entregar a DCTF, a recorrente ao invés de simplesmente comparar o valor devido com o valor recolhido a título de estimativa e assim declarar somente o valor Fl. 67DF CARF MF Processo nº 13227.900661/200971 Acórdão n.º 1401002.540 S1C4T1 Fl. 5 4 devido, caso apurasse valor a maior do que o recolhido por estimativa, declarou o valor apurado como devido e apresentou PERD/DCOMP para compensálo. Considerando que as informações acima transcritas restam localizadas na DIPJ e LALUR, que apontam a base de cálculo da contribuição e os DARFs (fls.) devidamente pagos que originaram o crédito em discussão. Tratase, portanto, de erro de fato no preenchimento do PER aqui analisado, que não pode, sob hipótese alguma, refletir na glosa de estimativas já liquidadas, computadas na apuração do saldo negativo do IRPJ do período. Desta forma, tendo a Recorrente comprovado de maneira incontroversa que as estimativas mensais de outubro de 2006 foram liquidadas através da quitação antecipada autorizada pela Lei nº 13.043/2014 (Doc. 7 do RV), não pode ser mantida a redução do saldo negativo de 2004. Ademais, consolidando este entendimento, temos: SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Diante de todo o exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, para afastar a glosa das estimativas. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves. Fl. 68DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10983.909043/2011-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ. SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO
À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas jurídicas.
O critério adotado de constituição da empresa como sociedade empresarial e a tributação diferenciada quanto às alíquotas no IRPJ e CSLL, somente foi implementado com o advento da Lei nº 11.727/2008. Antes, porém, vigorava a Lei nº 9.249/95 que não estabelecia tais parâmetros de sociedade empresarial como condição para a tributação e aplicação das alíquotas reduzidas do IRPJ (8%) e da CSLL (12%) às receitas provenientes de serviços hospitalares.
Numero da decisão: 1401-002.575
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos,em dar provimento ao recurso nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia de Carli Germano (Vice-Presidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008 IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ. SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas jurídicas. O critério adotado de constituição da empresa como sociedade empresarial e a tributação diferenciada quanto às alíquotas no IRPJ e CSLL, somente foi implementado com o advento da Lei nº 11.727/2008. Antes, porém, vigorava a Lei nº 9.249/95 que não estabelecia tais parâmetros de sociedade empresarial como condição para a tributação e aplicação das alíquotas reduzidas do IRPJ (8%) e da CSLL (12%) às receitas provenientes de serviços hospitalares.
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SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas jurídicas. O critério adotado de constituição da empresa como sociedade empresarial e a tributação diferenciada quanto às alíquotas no IRPJ e CSLL, somente foi implementado com o advento da Lei nº 11.727/2008. Antes, porém, vigorava a Lei nº 9.249/95 que não estabelecia tais parâmetros de sociedade empresarial como condição para a tributação e aplicação das alíquotas reduzidas do IRPJ (8%) e da CSLL (12%) às receitas provenientes de serviços hospitalares. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos,em dar provimento ao recurso nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 3. 90 90 43 /2 01 1- 51 Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia de Carli Germano (VicePresidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal em Juiz de Fora (MG), que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pelo contribuinte apresentada em virtude de não ter reconhecido o direito creditório pleiteado e de não homologar a compensação dos débitos declarados na PER/DCOMP, para manter o crédito tributário exigido. Ao compulsar dos autos, percebese que “a matéria foi objeto de decisão proferida por intermédio do Despacho Decisório eletrônico , exarado pela Delegacia da Receita Federal em Itajaí/SC, no qual não foi homologada a DCOMP, sob o argumento de que “foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP”. Diante disto, a Derat/SC – Florianópolis, não homologou a compensação declarada, exigindo o recolhimento dos débitos, com os respectivos acréscimos legais. Exigiu se os valores devedores indevidamente compensados. A Ciente da autuação, o interessado apresentou MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE, na qual alegou: 1. PRELIMINAR: DA DECISÃO JUDICIAL QUE DECLAROU A NATUREZA HOSPITALAR DOS SERVIÇOS PRESTADOS PELA REQUERENTE AUSÊNCIA DE MOTIVO PARA A EDIÇÃO DO ATO IMPUGNADO: Diz que há uma questão prejudicial à lavratura do Despacho Decisório, tendo em vista que fora judicialmente reconhecida a natureza hospitalar dos serviços de patologia, autorizando lhes a aplicar o percentual de 8% (IRPJ) e 12%CSLL, para efeitos de determinação da base de calculo (lucro presumido)”. 2. NO MÉRITO: O contribuinte alegou haver ingressado com ação ordinária junto à 2ª Vara Federal da Subseção Judiciária de Itajaí/SC, que recebeu o nº 500001672.2010.404.7208, objetivando o reconhecimento do direito de recolher o IRPJ e a CSLL aplicando os percentuais de 8% e 12% sobre a receita bruta e, ainda, o direito de compensar os recolhimentos a maior já efetuados (alíquota de 32%). 3. Diz que obteve decisão judicial que suspendeu a exigibilidade em relação aos créditos tributários correspondentes. E que, uma vez reconhecida judicialmente a natureza hospitalar dos serviços prestados não restam dúvidas no sentido de que a compensação levada a efeito, cujo crédito apurado decorre de pagamentos indevidos Fl. 68DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 4 3 de IRPJ e CSLL, pela aplicação equivocada do percentual de 32% é plenamente legítima, devendo, pois, ser homologado o procedimento de compensação. E que, partindo da premissa que o crédito utilizado para compensação é plenamente legitimo, o entendimento externado no r. Despacho Decisório, configura uma hipótese de negativa de vigência ao disposto no art. 74, da Lei n. 9.430/96”. 4. Requereu que seja: "(a) recebida a presente manifestação de inconformidade, para suspender a exigibilidade do crédito tributário objeto do processo administrativo fiscal, nos termos do art. 151, inc. III, do Código Tributário Nacional; (b) decretada a nulidade do r. Despacho ...; ou, então, (c) seja este integralmente reformado, tendo em vista que fora reconhecida judicialmente a natureza hospitalar dos serviços de patologia prestados”. O Acórdão ora Recorrido recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008. DIREITO CREDITÓRIO. DISCUSSÃO JUDICIAL. Não encontra amparo legal a pretensão de discutir, na esfera administrativa, matéria submetida à apreciação do Poder Judiciário, dada a supremacia hierárquica da esfera judicial. COMPENSAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL. VEDAÇÃO. CRÉDITOS. LIQUIDEZ E CERTEZA. 1. É vedada a compensação de débitos com direito creditório discutido judicialmente, antes do trânsito em julgado da decisão judicial. 2. Somente o trânsito em julgado da decisão judicial no processo no qual se discute a determinação do crédito do contribuinte pode atribuir a este os requisitos de liquidez e certeza sem os quais a compensação declarada não pode ser homologada. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido. Isto porque, segundo entendimento da Turma, a DCOMP foi transmitida anteriormente à ação ordinária, impetrada em 2010, conforme trecho da sentença anexado aos autos, de modo que o crédito, quando utilizado na compensação declarada, não tinha amparo nem fundamento na ação judicial invocada pela interessada. E que, além disso, cumpre observar que se encontra prejudicada a apreciação do mérito do direito ao crédito e de sua compensação, na medida em que não encontra amparo à pretensão de discutir, na esfera administrativa, matéria submetida à apreciação do Poder Judiciário, dada a supremacia hierárquica da esfera judicial”. E no que tange à possibilidade de se compensar os indébitos discutidos na ação ordinária ajuizada pela impugnante, notase que “nos termos do artigo 170A do Código Tributário Nacional, incluído pela Lei Complementar nº 104, de 2001, citado na própria sentença, é vedada a compensação mediante aproveitamento de tributo objeto de contestação judicial antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial”. Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 5 4 Conclui a turma julgadora que “somente após o trânsito em julgado de decisão judicial que reconheça direito creditório é que pode a empresa pleitear na via administrativa a compensação, observados ainda os demais requisitos da legislação pertinente”. Dessa forma, a manifestação fora julgada improcedente, culminandose com a não homologação da compensação objeto da DCOMP. Ciente da decisão do Acórdão, o contribuinte interpõe Recurso Voluntário, alegando seguintes as razões: 1. DA PROTEÇÃO DA SEGURANÇA JURÍDICA DA CONFIANÇA E DA BOAFÉ: Aduz que a compensação levada a efeito, pautouse por entendimento já preconizado pela própria administração fazendária, o acórdão recorrido acabou vulnerando os princípios da segunda jurídica, da proteção da confiança e da boafé, devendo, portando, ser modificado. 2. DA INAPLICABILIDADE DO ART. 170 A (CTN): Aduz que ao se tratar de compensação de indébito resultante de enquadramento legal equivocado, não tem aplicabilidade o disposto no art. 170A, já que nessa hipótese, para constatarse a configuração do indébito, não haverá necessidade de pronunciamento judicial. E que, em decorrência do recolhimento de tributo a maior, a recorrente tem direito ao justo ressarcimento do indébito mediante exercício do direito protestativo de compensação, independentemente de prévia autorização judicial ou administrativo. 3. DA VERIFICAÇÃO E APURAÇÃO DO INDÉBITO RELATIVO AO CRÉDITO COMPENSADO: Afirma que em razão dos amplos poderes de fiscalização da Receita Federal, a compensação levada a efeito não deveria ter sido rejeitada de plano eventualmente pela falta de retificação da DCTF em que fora declarado o tributo indevido. Informa que tal entendimento é baseado no art. 165, II do CTN, em que assegura que a restituição (no caso por compensação) do pagamento indevido mesmo quando o tributo for recolhido a maior em função de erro na edificação do sujeito passivo, na determinação de alíquota aplicada, no calculo do montante de debito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento 4. Requereu o provimento do Recurso Voluntário interposto para modificar o acórdão recorrido, homologandose a compensação pleiteada. É o relatório do essencial. Fl. 70DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 6 5 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.553, de 17/05/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10983.902599/2011 16, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.553): "[...] O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade, portanto dele conheço. A controvérsia que delimita o conteúdo da lide versa sobre o direito de compensar a diferença de alíquotas do IRPJ e CSLL atribuídos por força da utilização do percentual reduzido de 8% e 12% na apuração do lucro presumido por ocasião da equiparação hospitalar, desde que o contribuinte seja constituído de fato e de direito como sociedade empresária. Não é caso novo nesse Conselho. A DRJ manteve o crédito tributário sob o entendimento de que “somente após o trânsito em julgado de decisão judicial que reconheça direito creditório é que pode a empresa pleitear na via administrativa a compensação, observados ainda os demais requisitos da legislação pertinente”. Entretanto, como bem observado pela DRJ “a DCOMP foi transmitida anteriormente à ação ordinária, impetrada em 2010, conforme trecho da sentença anexado aos autos, de modo que o crédito, quando utilizado na compensação declarada, não tinha amparo nem fundamento na ação judicial invocada pela interessada. Não é caso novo nesse Conselho a análise sobre as alíquotas aplicáveis e o enquadramento como serviços de natureza hospitalar. DO ENQUADRAMENTO DE SERVIÇOS HOSPITALARES: É cediço, que o Superior Tribunal de Justiça pacificou a matéria atinente à aplicação de alíquotas reduzidas do IRPJ (8%) e da CSLL (12%) às receitas provenientes de serviços hospitalares. Fl. 71DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 7 6 O critério eleito é de cunho objetivo e concerne “à natureza do serviço que deve ser relacionado à promoção da saúde e ter custo diferenciado, excluídas, assim, as receitas decorrentes de simples consultas médicas e demais atividades administrativas”, senão vejamos: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AOS ARTIGOS 535 e 468 DO CPC. VÍCIOS NÃO CONFIGURADOS. LEI 9.249/95. IRPJ E CSLL COM BASE DE CÁLCULO REDUZIDA. DEFINIÇÃO DA EXPRESSÃO "SERVIÇOS HOSPITALARES". INTERPRETAÇÃO OBJETIVA. DESNECESSIDADE DE ESTRUTURA DISPONIBILIZADA PARA INTERNAÇÃO. ENTENDIMENTO RECENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO. RECURSO SUBMETIDO AO REGIME PREVISTO NO ARTIGO 543C DO CPC. 1. Controvérsia envolvendo a forma de interpretação da expressão "serviços hospitalares" prevista na Lei 9.429/95, para fins de obtenção da redução de alíquota do IRPJ e da CSLL. Discutese a possibilidade de, a despeito da generalidade da expressão contida na lei, poderse restringir o benefício fiscal, incluindo no conceito de "serviços hospitalares" apenas aqueles estabelecimentos destinados ao atendimento global ao paciente, mediante internação e assistência médica integral. 2. Por ocasião do julgamento do RESP 951.251PR, da relatoria do eminente Ministro Castro Meira, a 1ª Seção, modificando a orientação anterior, decidiu que, para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Na mesma oportunidade, ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal referentes aos dispositivos legais acima mencionados não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício. Daí a conclusão de que "a dispensa da capacidade de internação hospitalar tem supedâneo diretamente na Lei 9.249/95, pelo que se mostra irrelevante para tal intento as disposições constantes em atos regulamentares". 3. Assim, devem ser considerados serviços hospitalares "aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde", de sorte que, "em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples Fl. 72DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 8 7 consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos". (STJ, REsp 1.369.763/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 24/6/2013; AgRg no REsp 1.383.586/RS, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 1/10/2015). Coadunase ao entendimento pacificado do STJ, o seguinte julgado: Acórdão nº 1401001.433 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015. Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica. Recorrentes Hemoclínica Serviços de Hemoterapia Ltda Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas, como hemoclínicas. Forçoso reconhecer, portanto, o direito da empresa recorrente ao recolhimento do imposto de renda pessoa jurídica e da contribuição social sobre o lucro líquido, no mesmo patamar exigido das entidades prestadoras de serviços hospitalares, previsto nos arts. 15, § 1º, III, "a" (IRPJ) e 20 da Lei n. 9.249∕95 (CSLL). Desta feita, restandolhe assegurado o direito ao recolhimento no mesmo patamar das prestadoras de serviços hospitalares, também lhe é assegurado o direito à restituição ou compensação dos valores pagos a maior. FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DO ADVENTO DA LEI Nº 11.727/08: Em que pese não tenha sido objeto da decisão recorrida vez que a mesma não adentrou ao mérito, cumpre enfrentar a matéria. O critério adotado de constituição da empresa como sociedade empresarial e a tributação diferenciada quanto às alíquotas no IRPJ e CSLL, somente foi implementado com o advento da Lei nº 11.727/2008. Antes, porém, vigorava a Lei nº Fl. 73DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 9 8 9.249/95 que não estabelecia tais parâmetros de sociedade empresarial como condição para a tributação e aplicação das alíquotas reduzidas do IRPJ (8%) e da CSLL (12%) às receitas provenientes de serviços hospitalares. Acerca do efeito vinculante para a Administração Tributária Federal de teses jurisprudências pacificadas, fazse necessário a transcrição da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 1 de 12 de fevereiro de 2014: Art. 19. Fica a ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional autorizada a não contestar, a não interpor recurso ou a desistir do que tenha sido interposto, desde que inexista outro fundamento relevante, na hipótese de a decisão versar sobre: (Redação dada pela Lei nº 11.033, de 2004) ...V matérias decididas de modo desfavorável à Fazenda Nacional pelo Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos art. 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil, com exceção daquelas que ainda possam ser objeto de apreciação pelo Supremo Tribunal Federal. § 5o As unidades da Secretaria da Receita Federal do Brasil deverão reproduzir, em suas decisões sobre as matérias a que se refere o caput, o entendimento adotado nas decisões definitivas de mérito, que versem sobre essas matérias, após manifestação da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional nos casos dos incisos IV e V do caput. (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) § 6o (VETADO). (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) § 7o Na hipótese de créditos tributários já constituídos, a autoridade lançadora deverá rever de ofício o lançamento, para efeito de alterar total ou parcialmente o crédito tributário, conforme o caso, após manifestação da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional nos casos dos incisos IV e V do caput. (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) De fato, a matéria está na lista de temas em relação aos quais se aplica o disposto no art. 19 da Lei nº 10.522/02 e nos arts. 2º, V, VII, §§ 3º a 8º, 5º e 7º da Portaria PGFN Nº 502/2016, publicada pela a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (http://www.pgfn.fazenda.gov.br/legislacaoe normas/documentosportaria502/listadedispensade contestarerecorrerart2ovviiea7a73oa8oda portariapgfnno5022016, acesso em 15 de outubro de 2017): Fl. 74DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 10 9 "Alíquotas reduzidas Serviços hospitalares REsp 1.116.399/BA (tema nº 217 de recursos repetitivos) Resumo: Para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal referentes aos dispositivos legais acima mencionados não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício. Para fins de redução da alíquota, devem ser considerados serviços hospitalares "aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde", de sorte que, "em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos". Ficou consignado que as modificações introduzidas pela Lei 11.727/08 não se aplicam às demandas decididas anteriormente à sua vigência, bem como de que a redução de alíquota prevista na Lei 9.249/95 não se refere a toda a receita bruta da empresa contribuinte genericamente considerada, mas sim àquela parcela da receita proveniente unicamente da atividade específica sujeita ao benefício fiscal, desenvolvida pelo contribuinte, nos exatos termos do § 2º do artigo 15 da Lei 9.249/95. OBSERVAÇÃO: O benefício não se aplica às consultas médicas, nem mesmo quando realizadas no interior de hospitais, de modo que só abrange parcela das receitas da sociedade que decorre da prestação de serviços hospitalares propriamente ditos. Ressaltamos que o STF não reconheceu repercussão geral com relação a este tema (AI 803.140). OBSERVAÇÃO 2: Deve ser apresentada contestação e interposto recurso quando se tratar de sociedade simples, tendose em vista a alteração introduzida pela Lei 11.718/08* no art 15, III, da Lei 9.249/95, segundo a qual a alíquota reduzida será aplicável apenas quando a prestadora de serviços for organizada sob a Fl. 75DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 11 10 forma de sociedade empresária." (Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 1, de 2014). Ocorre que, somente após o advento da Lei 11.727/08 é que houve a instituição do requisito legal de ser uma sociedade empresária para poder usufruir do beneficio legal da tributação favorecida. Antes de janeiro de 2009, os contribuintes poderiam estar organizados sob a forma de sociedade simples, sem que isso interferisse na obtenção do referido benefício fiscal. Não há obrigatoriedade de ser constituída como sociedade empresária para os fatos geradores ocorridos anteriormente a 01/01/2009, data em que passou a produzir efeitos o art. 29 da Lei n. 11.727/2008. Somente após esta data, é que se deve observar as alterações e imposições trazidas pelo texto legal. In casu, o auto de infração fora lavrado com exigências tributárias referentes aos anoscalendários de 2006/2007/2008, de modo que as alterações trazidas pela Lei nº 11.727/08 não podem retroagir para abarcar fatos geradores ocorridos anteriormente à vigência da Lei. Ademais, admitir a modulação dos efeitos da Lei 11.727/2008 para fatos pretéritos, é aceitar uma modificação de critério jurídico vedado pelo art. 146 do CTN, na medida em que se traz eficácia retroativa aos fatos geradores ocorridos anteriormente à vigência da Lei: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. (CTN). [grifase]. Outrossim, verificase a existência de Recurso Repetitivo nº 217, do STJ, que assim dispôs sobre os serviços hospitalares sujeitos à alíquota reduzida do lucro presumido, inclusive tratandose acerca da irretroatividade da lei para fatos pretéritos, a saber: As modificações introduzidas pela Lei 11.727/08 não se aplicam às demandas decididas anteriormente à sua vigência, bem como de que a redução de alíquota prevista na Lei 9.249/95 não se refere a toda à receita bruta da empresa contribuinte genericamente considerada, mas sim àquela parcela da receita proveniente unicamente da atividade específica sujeita ao benefício fiscal, desenvolvida pelo contribuinte, nos exatos termos do § 2º do artigo 15 da Lei 9.249/95. (STJ Tema 217). [grifo nosso]. Diante do exposto, verificandose que o fiscalizada presta serviços laboratoriais de análises clínicas, serviços esses que estão inseridos no conceito de atividades hospitalares e Fl. 76DF CARF MF Processo nº 10983.909043/201151 Acórdão n.º 1401002.575 S1C4T1 Fl. 12 11 levando em consideração a irretroatividade da Lei 11.727/08 para fatos geradores pretéritos, faz jus a contribuinte ao recolhimento do IRPJ e da CSLL às alíquotas de 8% e 12%, nos termos da Lei nº 9.249/95 (arts. 15, § 1º, inciso III, alínea a, e 20, caput). CONCLUSÃO: Dessa forma, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário interposto, para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, razão pela qual lhe assiste o direito de compensar os pagamentos feitos a maior. É como voto." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 77DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.000473/2009-85
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004
PIS E COFINS. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE.
De acordo com artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS e da COFINS.
PIS E COFINS. DIREITO Á CRÉDITO DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS NÃO CUMULATIVAS NA AQUISIÇÃO DE PEÇAS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO EM MÁQUINAS UTILIZADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE.
De acordo com artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS e da COFINS.
PIS E COFINS. REGIME NÃO-CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. EMBALAGEM DE TRANSPORTE. IMPOSSIBILIDADE
A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas - PIS/COFINS - informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição das embalagens de transporte.
Numero da decisão: 9303-007.121
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial, para restabelecer a glosa quanto à embalagem utilizada para transportes, vencidos os conselheiros Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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DIREITO DE CRÉDITO. PEÇAS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO DE MÁQUINAS. EMBALAGEM DE TRANSPORTE. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado SINCOL S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004 PIS E COFINS. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE. De acordo com artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS e da COFINS. PIS E COFINS. DIREITO Á CRÉDITO DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS NÃO CUMULATIVAS NA AQUISIÇÃO DE PEÇAS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO EM MÁQUINAS UTILIZADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. De acordo com artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS e da COFINS. PIS E COFINS. REGIME NÃOCUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. EMBALAGEM DE TRANSPORTE. IMPOSSIBILIDADE A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas PIS/COFINS informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição das embalagens de transporte. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 00 04 73 /2 00 9- 85 Fl. 940DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento parcial, para restabelecer a glosa quanto à embalagem utilizada para transportes, vencidos os conselheiros Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto, tempestivamente, pela Fazenda Nacional, com fundamento nos artigos 64, inciso II e 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, contra o acórdão nº 380303.217, que deu parcial provimento ao Recurso Voluntário. Na parte de interesse ao presente julgamento, a decisão do colegiado a quo pode ser resumida pela transcrição dos seguintes fragmentos de sua ementa: (...) NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. INSUMOS. Na não cumulatividade das contribuições sociais, o elemento de valoração é o total das receitas auferidas, o que engloba todo o resultado das atividades que constituem o objeto social da pessoa jurídica, e o direito ao creditamento alcança todos os bens e serviços, úteis ou necessários, utilizados como insumos diretamente na produção, e desde que efetivamente absorvidos no processo produtivo que constitui o objeto da sociedade empresária. MATERIAL DE EMBALAGEM. DIREITO AO CRÉDITO. No regime da não cumulatividade da contribuição para o PIS e da Cofins, há direito à apuração de créditos sobre as aquisições de bens utilizados na embalagem para transporte, cujo objetivo é a preservação das características do produto vendido. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NA PRODUÇÃO. SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. DIREITO A CRÉDITO. Os valores referentes a serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, para manutenção das máquinas e equipamentos empregados na produção de bens destinados à venda, abarcando as pequenas peças de reposição, podem compor a Fl. 941DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 4 3 base de cálculo dos créditos a serem descontados da contribuição não cumulativa, desde que respeitados todos os demais requisitos legais atinentes à espécie. BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NA PRODUÇÃO. DEPRECIAÇÃO. DIREITO A CRÉDITO. Em relação aos bens do ativo imobilizado, com expectativa de utilização no processo produtivo por mais de um ano, os créditos serão calculados com base no valor do encargo de depreciação incorrido no período, observados os demais requisitos exigidos pela lei. CREDITAMENTO. BENS CONSUMIDOS DURANTE O PROCESSO PRODUTIVO. INSUMOS. Dão direito a crédito as aquisições de insumos consumidos durante o processo produtivo na marcação das matériasprimas e dos produtos finais fabricados, bem como na proteção das máquinas utilizadas no setor produtivo. FRETES. TRANSPORTE DE INSUMOS. TRANSFERÊNCIA ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA PESSOA JURÍDICA. CREDITAMENTO. Dá direito a crédito o valor dispendido a título de frete prestado por pessoa jurídica domiciliada no País, tributado pela contribuição, mas não adicionado ao valor de aquisição dos bens utilizados como insumos, ainda que se refiram à transferência de mercadorias entre estabelecimentos do mesmo contribuinte. Não conformada com tal decisão, a Fazenda Nacional interpõe o presente Recurso Especial, aduzindo divergência às seguintes matérias: a) conceito de insumo para fins de creditamento na sistemática de apuração não cumulativa da contribuição; b) direito a crédito na aquisição de produtos utilizados como embalagem de transporte; c) direito a crédito na aquisição de peças de reposição e serviços de manutenção em máquinas utilizadas no processo produtivo; d) direito a crédito na depreciação de bens do ativo imobilizado; e) direito a crédito no transporte de insumos entre filiais, cobrados separadamente dos insumos quando de sua aquisição. Para comprovar a divergência, aponta como paradigma o acórdão nº 203.12.448. Em seguida, mediante despacho de admissibilidade o Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF, deu seguimento ao recurso em relação à: a) conceito de insumo para fins de creditamento na sistemática de apuração não cumulativa da contribuição; b) direito a crédito na aquisição de produtos utilizados como embalagem de transporte; c) direito a crédito na aquisição de peças de reposição e serviços de manutenção em máquinas utilizadas no processo produtivo. Devidamente cientificada, a Contribuinte apresentou contrarrazões pugnando pelo não conhecimento do Recurso interposto e, caso o Colegiado entenda em conhecer do Recurso, no mérito requer que lhe seja negado provimento. No essencial é o Relatório. Fl. 942DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303007.108, de 11/07/2018, proferido no julgamento do processo 10925.000459/200981, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 9303007.108): "O recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, bem como dos demais requisitos de admissibilidade. Sendo assim, dele tomo conhecimento e passo a decidir. In caso, trata o presente processo de pedido de ressarcimento de créditos de contribuições não‑ cumulativas para o PIS, no valor de R$ 21.832,17, cumulado com Declarações de Compensações (PER/DCOMP). A Terceira Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento do CARF, decidiu, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, por entender que “a não cumulatividade aplicada às contribuições sociais para o PIS e Cofins não se confunde com a não cumulatividade dos impostos do IPI e ICMS. Nesta, além da origem constitucional, diferentemente da não cumulatividade das contribuições de origem legal, a sistemática do encontro de contas entre débitos e créditos refere‑ se ao ciclo de produção ou de comercialização de um produto ou mercadoria”. E, assim, terminou por adotar conceito de insumo diverso daquele aplicado para o IPI. Com efeito, alega a Fazenda Nacional que a decisão recorrida, ao alargar o conceito de insumos dado pelo art. 3º da Lei nº 10.637/2002 c/c o disposto na IN SRF nº 247/2002, em razão de uma interpretação equivocada, acabou criando dispensa de pagamento de tributo não prevista em lei. Por este motivo, deve ser mantida a decisão de primeira instância a qual analisou a questão sob o prisma correto, mantendose todas as glosas ali ratificadas. Analisando a quaestio, já consignei meu entendimento intermediário sobre o conceito de insumos no Sistema de Apuração NãoCumulativo das Contribuições, penso que o conceito adotado não pode ser restritivo quanto o determinado pela Fazenda, mas também não tão amplo como aquele freqüentemente defendido pelos Contribuintes. Sem embargo, a jurisprudência Administrativa e dos Tribunais Superiores vem admitindo o aproveitamento de crédito calculado com base nos gastos incorridos pela sociedade empresária e com produtos ou serviços aplicados na produção ou a ela diretamente vinculados, mesmo que, ao contrario de como alguns pretendem limitar por meio de Instruções Normativas. Fl. 943DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 6 5 De fato, salvo melhor juízo, não se vê razão para que conceito de insumo seja determinado pelos mesmos critérios utilizados na apuração do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, contudo, respeito posicionamentos contrários. A legislação que introduziu o Sistema NãoCumulativo de apuração das Contribuições define sua base de cálculo como sendo o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil, compreendendo a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica. Feitas as exclusões expressamente relacionadas nas Leis, tudo o mais deve ser incluído na base imponível. Levandose em consideração a incumulatividade tributária traz em si a idéia de que a incidência não ocorra ao longo das diversas etapas de um determinado processo sem que o contribuinte possa reduzir de seu encargo aquilo do que foi onerado no momento anterior, ainda que considerássemos todas as particularidades e atipicidades do Sistema não cumulativo próprio das Contribuições, terminaríamos por concluir que, a um débito tributário calculado sobre o total das receitas, haveria de fazer frente um crédito calculado sobre o totaldas despesas. Contudo, ainda que a interpretação teleológica conduza nessa direção, o fato é que os critérios de apuração das Contribuições não foram dessa forma definidos em Lei. Tal como consta no texto legal, o direito ao crédito, em definição genérica, admite apenas que se considerem as despesas com bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, jamais referindose à integralidade dos gastos da pessoa jurídica. Prova disso é que os gastos que não se incluem nesse conceito e dão direito ao crédito são listados um a um nos itens seguintes, de forma exaustiva. Neste quadro, para corroborar com minha interpretação, invoco as lições do Prof. Lenio Streck (p.242) que bem esclarece os limites de uma correta interpretação jurídica: “Então, ao contrário do que se diz na dogmática jurídica, não interpretamos para, só depois, compreender. Na verdade, compreendemos para interpretar, sendo a interpretação a explicitação de compreendido, para usar as palavras de Gadamer, em seu Wahrheit und Method. Essa explicitação (justificação do compreendido) necessita sempre de uma estruturação no plano 1argumentativo (é o que se pode denominar de o “como apofântico”). A explicitação da resposta de cada caso deverá estar sustentada em consistente justificação, contendo a reconstrução do direito, doutrinária e jurisprudencialmente, confrontando tradições, enfim, colocando a lume a fundamentação jurídica que, ao fim e ao cabo, legitimará a decisão no plano do que se entende por responsabilidade política do interprete no paradigma do Estado Democrático de Direito2”. Outrossim, se admitíssemos a tese de que insumo denota conceito amplo, abrangendo todos os gastos destinados à obtenção do resultado da pessoa jurídica, nos depararíamos com uma flagrante distorção promovida no amplo reconhecimento ao direito de crédito para o setor industrial ou prestador de serviços, em detrimento ao setor comercial, para o qual o direito teria ficado restrito apenas aos gastos com bens adquiridos para revenda. 1 2 STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica, Estado e Política: uma visão do papel da Constituição em países periféricos. In CADEMARTORI, Daniela Mesquita Leutchuk e GARCIA, Marcos Leite (org.). Reflexões sobre Política e Direito – Homenagem aos Professores Osvaldo Ferreira de Melo e Cesar Luiz Pasold. Florianópolis: Conceito Editorial, 2008; p. 242. Fl. 944DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 7 6 Insumos, tal como definido e para os fins a que se propõe o artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, são apenas as mercadorias, bens e serviços que, assim como no comércio, estejam diretamente vinculados à operação na qual se realiza o negócio da empresa. Na atividade comercial, sendo o negócio a venda dos bens no mesmo estado em que foram comprados, o direito ao crédito restringese ao gasto na aquisição para revenda. Na indústria, uma vez que a transformação é intrínseca à atividade, o conceito abrange tudo aquilo que é diretamente essencial a produção do produto final, conceito igualmente válido para as empresas que atuam na prestação de serviços. Somente a partir desta lógica é que os créditos admitidos na indústria e na prestação de serviços observarão o mesmo nível de restrição determinado para os créditos admitidos no comércio. Em que pese esta E. Câmara Superior já ter definido o conceito de insumos, a matéria foi levada ao poder judiciário e, em recente decisão o Superior Tribunal de Justiça – STJ sob julgamento no rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), estabeleceu conceito de insumo tomando como diretrizes os critérios da essencialidade e/ou relevância. Senão vejamos: TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individualEPI. 4. Sob o rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentamse as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de nãocumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de terminado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Fl. 945DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 8 7 Contribuinte. (Resp n.º Nº 1.221.170 PR (2010/02091150), Relator Ministro Napoleão Nunes Maia Filho). Como visto, a Relatora Ministra Regina Helena Costa, reiterou os conceitos do que já vínhamos decidindo, definiu como conceito a essencialidade e relevância. Vejamos: Essencialidade considerase o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; Relevância considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual EPI), distanciandose, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Deste modo, inferese do voto da Ministra Regina Costa que o conceito de insumo deve “ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância, considerandose a imprescindibilidade ou ainda a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”, ou seja, caracterizase insumos, para fins das contribuições do PIS e da COFINS, todos os bens e serviços, empregados direta ou indiretamente na prestação de serviços, na produção ou fabricação de bens ou produtos e que se caracterizem como essenciais e/ou relevantes à atividade econômica da empresa. Sem embargo, restou ainda decidido ilegais as IN´s nºs 247/2002 e 404/2004, que tratam de conceito de muito restritivo de insumo para as contribuições em pauta, uma vez que somente se enquadrariam os bens e serviços “aplicados ou consumidos” diretamente no processo produtivo. Desta forma, o STJ adotou conceito intermediário de insumo para fins da apropriação de créditos de PIS e COFINS, o qual não é tão restrito como definido na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados, nem tão amplo como estabelecido no Regulamento do Imposto de Renda, mas que privilegia a essencialidade e/ou relevância de determinado bem ou serviço no contexto das especificidades da atividade empresarial de forma particularizada. Neste aspecto, observase que se trata de matéria essencialmente de prova de ônus do contribuinte. Compulsando aos autos, verifico que a atividade empresária da Contribuinte destina se a produção de portas de madeira. Quanto aos produtos utilizados em embalagens para transporte (fita adesiva, filme película, película de polietileno, fita Uniflec, papel, chapa de papelão ondulada, tiras de papelão, folha plástica, embalagem para parquet, sacos plásticos, fita gomada perfurada, embalagem plástica.) entendo essencial a atividade empresária desenvolvida pela Contribuinte, passível de creditamento do Pis e da Cofins. No que tange o direito a crédito na aquisição de peças de reposição e serviços de manutenção em máquinas, verifico que também são essenciais ao processo de produção da Contribuinte, as citadas peças de reposição e serviços de manutenção industrial são adquiridas para conservação das máquinas e equipamentos utilizados na fabricação dos produtos, com objetivo de garantir a qualidade dos produtos industrializados pela Contribuinte. Fl. 946DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 9 8 Ademais, a utilização de peças e serviços não geram aumento de vida útil do bem, apenas mantém as máquinas e equipamentos em condições aptas de funcionamento. São bens consumidos no processo de industrialização, que se desgastam e perdem propriedades físicas e químicas sem integrar o produto final. Destarte, o conceito de "insumo" utilizado pelo legislador para fins de creditamento do Pis e da COFINS, apresenta um campo maior do que o MP, PI e ME, relacionados ao IPI, tal abrangência não é tão flexível como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e despesas necessárias à atividade da empresa. Por outro lado, para que se mantenha equilíbrio, os insumos devem estar relacionados diretamente com a produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este produto não entre em contato direto com os bens produzidos. Neste sentido, o inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.833/03, permite a utilização do crédito de PIS/COFINS no regime não cumulativo nas seguintes hipóteses: “I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos a) nos incisos III e IV do § 3o do art. 1o desta Lei; e b) nos §§ 1º e 1ºA do art. 2o desta Lei; II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2 da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; VII edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; VIII bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei; IX armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. X vale transporte, vale refeição ou vale alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção". Fl. 947DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 10 9 Como se vê, o conteúdo do inciso II supra, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS e da COFINS, referente aos produtos utilizados como embalagem de transporte e na aquisição de peças de reposição e serviços de manutenção em máquinas utilizadas no processo produtivo da Contribuinte." (...) Entendimento que prevaleceu quanto ao direito de crédito sobre as embalagens de transporte. "Com todo respeito ao voto do ilustre relator, porém discordo de suas conclusões a respeito da possibilidade de apuração de créditos da não cumulatividade do PIS sobre as embalagens utilizadas somente para o transporte do produto industrializado. A discussão gira em torno do conceito de insumos para fins do creditamento do PIS no regime da nãocumulatividade previsto na Lei 10.637/2002. Como visto a relatora aplicou o entendimento, bastante comum no âmbito do CARF, de que para dar direito ao crédito basta que o bem ou o serviço adquirido seja essencial para o exercício da atividade produtiva por parte do contribuinte. É uma interpretação bastante tentadora do ponto de vista lógico, porém, na minha opinião não tem respaldo na legislação que trata do assunto. Confesso que já compartilhei em parte deste entendimento, adotando uma posição intermediária quanto ao conceito de insumos. Porém, refleti melhor, e hoje entendo que a legislação do PIS/Cofins traz uma espécie de numerus clausus em relação aos bens e serviços considerados como insumos para fins de creditamento, ou seja, fora daqueles itens expressamente admitidos pela lei, não há possibilidade de aceitálos dentro do conceito de insumo. O objeto de discussão no recurso especial da Fazenda Nacional é quanto a possibilidade de manutenção de créditos da não cumulatividade do PIS e da Cofins sobre as embalagens destinadas precipuamente ao transporte de seu produto final. No presente caso a discussão é sobre os gastos utilizados pelo contribuinte para embalar o seu produto acabado (portas de madeira) para fins de seu transporte. Não se trata da embalagem normal relativa a encerramento do processo produtivo e dele integrante, mas referentes ao gasto com o transporte do produto após o encerramento do processo produtivo do bem destinado a venda. O acórdão recorrido entendeu pela possibilidade de tal creditamento, afirmando que não faz diferença o fato de ser embalagem para o transporte do produto com as demais embalagens, como as de apresentação. Portanto ele entendeu que o uso da embalagem é essencial para a preservação das características dos seus produtos, durante o transporte até os pontos de venda. A Fazenda Nacional insurgese contra esta possibilidade argumentando em apertada síntese pela falta de previsão legal para a concessão dos créditos nesta hipótese. Como já dito, adoto um conceito de insumos bem mais restritivo do que o conceito da essencialidade, adotados pelo acórdão recorrido e pelo relator do voto vencido. Nesse sentido, importante transcrever o art. 3º da Lei nº 10.637/2002, que trata das possibilidades de creditamento do PIS: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: Fl. 948DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 11 10 I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III (VETADO) IV – aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII edificações e benfeitorias em imóveis de terceiros, quando o custo, inclusive de mãodeobra, tenha sido suportado pela locatária; VIII bens recebidos em devolução, cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei. IX energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) X valetransporte, valerefeição ou valealimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) (...) § 2o Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I de mãodeobra paga a pessoa física; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) § 3o O direito ao crédito aplicase, exclusivamente, em relação: I aos bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País; Fl. 949DF CARF MF Processo nº 10925.000473/200985 Acórdão n.º 9303007.121 CSRFT3 Fl. 12 11 II aos custos e despesas incorridos, pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País; III aos bens e serviços adquiridos e aos custos e despesas incorridos a partir do mês em que se iniciar a aplicação do disposto nesta Lei. (...) Ora, segundo este dispositivo legal, somente geram créditos da contribuição custos com bens e serviços utilizados como insumo na fabricação dos bens destinados a venda. Note que o dispositivo legal descreve de forma exaustiva todas as possibilidades de creditamento. Fosse para atingir todos os gastos essenciais à obtenção da receita não necessitaria ter sido elaborado desta forma, bastava um único artigo ou inciso. Não necessitaria ter descido a tantos detalhes. No presente caso é incontroverso que as embalagens que se discute são as destinadas precipuamente para o transporte dos produtos. Não discordo da conclusão do acórdão recorrido de que o uso da embalagem é essencial para a preservação das características dos seus produtos, durante o transporte até os pontos de venda. Penso inclusive, que em maior ou menor grau, a depender do produto final, esta é a finalidade mesmo da embalagem de transporte. Mas o legislador restringiu a possibilidade de creditamento do PIS e da Cofins aos insumos utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Portanto após o encerramento do processo produtivo não é possível tal creditamento, a não ser nas hipóteses expressamente previstas na legislação, a exemplo do aproveitamento do crédito do frete na operação de venda (situação excepcionada expressamente pela Lei). Assim, por se tratar de gastos efetuados após o encerramento do processo produtivo em relação aos quais não há previsão na legislação de regência, voto por dar provimento parcial ao recurso especial da Fazenda Nacional, no sentido de restabelecer as glosas de créditos em relação aos gastos com embalagens destinadas ao transporte do produto final." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial da Fazenda Nacional foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento parcial, para restabelecer as glosas de créditos em relação aos gastos com embalagens destinadas ao transporte do produto final. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 950DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10983.721306/2015-25
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 28/02/2011 a 14/11/2012
OMISSÃO DO JULGAMENTO. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE.
É nulo, por preterição do direito de defesa, o Acórdão referente ao julgamento de primeira instância que deixa de se manifestar sobre matéria impugnada capaz de, em tese, culminar no cancelamento do auto de infração.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Aguardando Nova Decisão.
Numero da decisão: 3402-005.495
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para anular a decisão recorrida.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (suplente convocado).
Nome do relator: Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para anular a decisão recorrida. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (suplente convocado).
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OCULTAÇÃO REAL ADQUIRENTE. Recorrente SEGER COMERCIAL IMPORTADORA E EXPORTADORA S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 28/02/2011 a 14/11/2012 OMISSÃO DO JULGAMENTO. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. É nulo, por preterição do direito de defesa, o Acórdão referente ao julgamento de primeira instância que deixa de se manifestar sobre matéria impugnada capaz de, em tese, culminar no cancelamento do auto de infração. Recurso Voluntário Provido em Parte. Aguardando Nova Decisão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para anular a decisão recorrida. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 3. 72 13 06 /2 01 5- 25 Fl. 302DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (suplente convocado). Relatório Tratase de Auto de Infração para a cobrança de multa decorrente da conversão da pena de perdimento com fulcro no art. 23, inciso V, §§1º e 3º do DecretoLei nº 1.455/76 lavrada em razão da interposição fraudulenta comprovada da empresa SEGER COMERCIAL IMPORTADORA E EXPORTADORA S.A. (“SEGER”) em operações de comércio exterior que teriam sido de fato promovidas pela URBINA DO BRASIL ANDAIMES E ESCORAMENTOS LTDA (“URBINA”). A autuação fiscal se respaldou nas informações prestadas pelas duas empresas no curso da fiscalização, concluindo que as importações incorridas pela SEGER em 2011 e 2012 ocorreram com a URBINA como destinatário predeterminado, que inclusive procedia com adiantamentos a título de sinal. Como indicado no Relatório de Ação Fiscal: "Com o objetivo de investigar mais a fundo as importações realizadas pela Seger e cuja destinação era a empresa Urbina e sanar dúvidas que ainda não haviam sido esclarecidas pela empresa fiscalizada, em 22/05/2015, encaminhamos Termo de Início de Ação Fiscal (TIAFAdq), relativo ao TDPF 0925200.2015.000433, cuja ciência ocorreu em 20/05/2015 (ARTIAF Adq). Nesta Intimação, solicitamos que a Seger apresentasse cópia das Notas Fiscais de Entrada e de Saída que estariam relacionadas às vendas das mercadorias importadas por meio das DI sob fiscalização, apresentar TODOS OS COMPROVANTES DE PAGAMENTO (onde apareça a data do recebimento e o valor) relativos à venda realizada, esclarecesse sobre como foi feita a programação das importações acima mencionadas e quem determinou quantidade e características das mercadorias importadas, além de explicar se existia uma destinação prévia para um cliente específico em cada operação de importação sob fiscalização e se existe algum contrato entre a SEGER e os clientes das mercadorias importadas. Em 15/06/2015, a Seger apresentou uma listagem discriminando todos os contratos de câmbio (e seus dados) celebrados com os exportadores constantes das declarações de importação sob fiscalização (Tabela Contrato Cambio). Em 17/06/2015, a empresa Seger respondeu ao Termo relativo ao TDPF 0925200.2015.000433 (RespTIAF Adq) : encaminhou cópia das notas fiscais de entrada e saída solicitadas; Resposta sobre os itens restantes da intimação. Em 22/06/2015, encaminhou uma tabela onde constam os valores recebidos da Urbina relativos às notas fiscais de saída emitidas (TabelaPagto) bem como seus comprovantes de depósito. Ainda, para coletar mais informações sobre as importações realizadas pela Seger, cujas mercadorias foram destinadas à Urbina, foi emitido o MPFD nº 0925200.2015.000468, em nome da empresa Urbina, em 22/05/2015, por meio do Termo de Intimação Fiscal 01/2015 (TI Urbina). No Termo de Intimação Fiscal nº 01/2015, foram solicitados os seguintes documentos e esclarecimentos: se a empresa mantém ou manteve algum contrato de fornecimento, ou de qualquer outra espécie, com a empresa SEGER, relativamente às importações efetuadas, detalhamento de como foi realizado o contato da empresa com a SEGER para efetuar a compra das mercadorias importadas (motivo de ter escolhido a SEGER como fornecedora data do pedido, nome do contato na empresa SEGER, detalhe do pedido, quantidade, etc), explicação sobre como foram feitos e Fl. 303DF CARF MF Processo nº 10983.721306/201525 Acórdão n.º 3402005.495 S3C4T2 Fl. 303 3 comprovação (encaminhando a cópia dos comprovantes) dos pagamentos relativos às mercadorias importadas e adquiridas da SEGER e explicação sobre como se deu a entrega do produto importado pela SEGER à empresa. Em 02/06/2015, os Correios retornaram a Intimação informando que a empresa Urbina não foi encontrada por motivo de mudança (AR Urbina1). No dia 19/06/2015, reencaminhamos a intimação para o mesmo endereço, acima qualificado, e os Correios retornaram a intimação com o mesmo motivo da não entrega “mudouse”(AR Urbina2). Então, em 24/06/2015, decidimos encaminhar a intimação para o endereço do administrado da Urbina, Sr. Felipe Laverde Herrera, em Indaiatuba/São Paulo, e em 22/09/2015, encaminhamos também para o sócio administrador da Urbina, Sr. Gustavo Adolfo Matos Sanches, em Belo Horizonte/MG. As duas intimações foram devolvidas pelos Correios, informando que não puderam ser entregues por motivo de mudança(AR Urbina3)(AR Urbina4). Logo, não foi possível contatar a empresa Urbina.” (efls. 20/21) "Os dados da citada tabela revelam que a maioria das notas de saída foram emitidas na mesma data da nota fiscal de entrada ou datas bem próximas. Isso nos revela que a mercadoria importada não chegou a fazer parte do estoque de mercadorias da empresa Seger, pois no dia em que a nota fiscal de entrada das mercadorias importadas foi emitida, o que representa a data da entrada destas mercadorias no estoque da empresa Seger, também foi emitida a nota fiscal de saída destas mercadorias para a empresa Urbina, ou seja, a mercadoria não chegou a constar do estoque de mercadorias da empresa Seger. Isto demonstra claramente que as mercadorias, relacionadas nas DI sob análise e mencionadas na Tabela 1, tinham um destinatário predeterminado: a empresa Urbina do Brasil. A Seger já sabia antes mesmo de seu despacho que a mercadoria importada seria destinada à empresa Urbina porém nega essa condição em suas respostas à fiscalização. Esse entendimento é corroborado pela própria resposta da empresa Seger, em atendimento ao Termo de Início de Ação Fiscal (TIAF Adq), abaixo transcrito e contido na resposta da Seger (Resp TIAF Adq): “As importações eram realizadas após a constatação da carência de oferta desses produtos com qualidade e eficiência semelhantes para construção civil e identificação dos interessados para quem eram posteriormente revendidos. Não há contrato entre a SEGER e os clientes das mercadorias importadas.” Ocorre, que a única interessada nos produtos importados pela Seger nas DI sob fiscalização era a empresa Urbina do Brasil. Não é menos importante o fato de a maior parte das importações terem como fornecedor estrangeiro, declarado em todas as DI sob fiscalização, uma empresa sócia majoritária da Urbina do Brasil no exterior, a empresa Urbina SA. Após a análise das declarações de importação (DI) e das respostas da própria empresa Seger, cristalino está que as mercadorias importadas por meio das declarações sob fiscalização tinham, antes mesmo de serem nacionalizadas no despacho aduaneiro, um destinatário prédeterminado: a empresa Urbina do Brasil. E esse fato era conhecido pela empresa Seger no momento do registro destas declarações, oportunidade onde deveria ter sido informado à Receita Federal do Brasil quem era o real destinatário das mercadorias (Urbina do Brasil). Logo, concluímos que a proximidade entre as datas de entrada e de saída das notas fiscais relativas às mercadorias importadas, amoldandose à figura de importação por encomenda, sendo que a fiscalizada declarou realizar importação “por conta própria” é o primeiro grande indício da ocultação dos reais adquirentes. Lembramos que esse indício é corroborado pela própria Seger, em sua resposta acima reproduzida, ao declarar que o interesse do destinatário das mercadorias importadas no mercado interno era manifestado antes do início da operação de Fl. 304DF CARF MF 4 importação, ou seja, antes de estas terem sido nacionalizadas.." (efls. 24/25 grifei) No presente processo a pena de perdimento foi imposta à SEGER, sendo a URBINA arrolada como responsável solidária, sendo ainda imputada à SEGER a multa por cessão do nome no processo nº 10983.721305/201581, com base no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, igualmente posto em julgamento nesta sessão em julgamento. Inconformada, a empresa SEGER apresentou Impugnação Administrativa, que foi julgada improcedente pelo acórdão da 23ª Turma da DRJ/SPO, ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 28/02/2011 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido" (efl. 184) Intimada dessa decisão em 18/04/2016 (efl. 249), a empresa SEGER apresentou Recurso Voluntário em 18/05/2016 (efls. 253/293) alegando em síntese: (i) preliminarmente, a nulidade da decisão de primeira instância em razão de sua omissão quanto a argumentos trazidos na Impugnação Administrativa quanto ao mérito e por inovar na argumentação (indicando uma quebra da cadeia de IPI); (ii) no mérito, indica a inexistência de interposição fraudulenta de terceiros no presente caso, diante: (ii.1) da não comprovação do dolo, necessária para a própria tipicidade da infração; (ii.2) do respaldo da fiscalização apenas em critérios subjetivos e em indícios, não comprovando a interposição alegada na autuação. Sustenta que esses indícios já teriam sido afastados por este Conselho em conformidade com o Acórdão 3301002.638; (ii.3) da ausência de simulação na hipótese, sendo que a falta de contrato de câmbio específico para algumas declarações de importação não seria prova suficiente para demonstrar que os contratos de importação não teriam sido pagos pela importadora, vez que desde a Instrução Normativa n.º 11.371/2006, não é mais obrigatória a vinculação dos contratos de câmbio com as declarações de importação. Afirma que adota política de redução de custos para eliminação Fl. 305DF CARF MF Processo nº 10983.721306/201525 Acórdão n.º 3402005.495 S3C4T2 Fl. 304 5 de estoques (just in time) sendo que as mercadorias efetivamente entraram em seu estoque. Sustenta que a empresa assumiu risco no negócio, sendo que a SEGER sempre dispôs de capacidade econômico e financeira para realizar suas importações, sendo que a existência de um cliente potencial no mercado interno, cujo interesse pela compra era manifestado previamente à importação mediante o pagamento de um sinal, não elimina o risco da operação face a instância de contrato que previsse sanções em caso de desistência ou falência da empresa interessada na compra; (ii.4) a ausência de fraude tributária, fundamentada pela fiscalização na indevida utilização de benefício fiscal relativo ao ICMS, que teria sido adimplido em conformidade com a legislação estadual, inexistindo na hipótese uma operação interestadual como indicado pela decisão recorrida; (iii) a ausência de comprovação de dano ao erário e a desproporcionalidade entre a penalidade aplicada e a infração cometida; e (iv) a impossibilidade da aplicação cumulativa das multas de cessão de nome e a multa por conversão da pena de perdimento. A URBINA foi intimada do acórdão em 02/05/2016 (efl. 251) e não apresentou recurso. Após ser dado cumprimento à Resolução n.º 3402001.161 para avocar o processo conexo nº 10983.721305/201581, os autos foram direcionados para julgamento. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. Conheço do Recurso Voluntário apresentado pela empresa, por tempestivo, adentrando em suas razões. Atentando para o argumento preliminar suscitado pela Recorrente de nulidade da decisão de primeira instância, entendo que a ele cabe provimento, na forma a seguir exposta. Como relatado, sustenta a Recorrente SEGER que a decisão de primeira instância seria nula por ter deixado de analisar os argumentos de mérito trazidos na Impugnação Administrativa e por inovar na argumentação (indicando uma quebra da cadeia de IPI). Aponta a Recorrente que teriam deixado de ser analisados os seguintes argumentos: (a) que a SEGER teria incorrido em risco comercial para proceder com as importações objeto da autuação, sendo que conforme documentação apresentada, ela teria deixado de receber pela venda de mercadorias para a URBINA; (b) a ausência de obrigatoriedade de remissão às declarações de importação no fechamento dos contratos de câmbio e a vinculação do contrato de câmbio e a declaração de importação; (c) a comprovação que não houve ocultação dos participantes da operação de importação e a revenda no mercado interno; (d) as considerações de cunho temporal trazidas pela fiscalização (data da intenção de compra, proximidade das datas de emissão das notas fiscais de entrada e saída, tempo das mercadorias em estoque) não são determinantes para a qualificação da modalidade de importação; (e) importação direta não Fl. 306DF CARF MF 6 é caracterizada pela realização de vendas pulverizadas; e (f) impossibilidade de cumulação da multa de cessão de nome e de interposição fraudulenta sobre o sujeito que cedeu o nome. Atentandose para a r. decisão recorrida, observase que ela se enquadra nas mesmas circunstâncias já identificados em dois processos da mesma Recorrente, na sessão de 19/04/2018, nos acórdãos 3402005.230 (processo de cessão de nome) e 3402005.229 (processo de perdimento), ambos de minha relatoria. Isso porque ela segue um formato não ordinariamente aceito por esta Colenda Turma, como já tivemos a oportunidade de discutir nos Acórdãos n.º 3402004.875, de relatoria da Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz e 3402 004.134, de relatoria da Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula. De fato, a decisão recorrida a decisão aqui analisada foi proferida nos exatos moldes daqueles casos, com um longo, detalhado e genérico levantamento da legislação e dos procedimentos administrativos sobre o exercício dos controle aduaneiros. Desenvolve quanto a forma necessária para proceder com uma importação (habilitação no RADAR efls. 191/192), o combate às práticas de interposição fraudulenta de terceiros (efls. 192/195), o conceito de interposição em operação de importação e os elementos necessários para admitir uma prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros (efls. 195/213), todos em uma perspectiva geral, não relativa ao presente caso. O trato específico das questões de mérito do presente processo teria sido feito quando da descrição dos fatos que embasaram a autuação fiscal entre as efls. 213/222. Contudo, como se observa da leitura dessas folhas, elas são uma reprodução ipsis litteris dos principais trechos do Relatório de Ação Fiscal (efls. 14/56). Em seguida, à efl. 222/223, o acórdão traz menção a uma possibilidade de desconsideração do 1º método de valoração aduaneira, que sequer consta do presente processo. Prosseguindo, adentra efetivamente em argumento específico trazido pela Recorrente, quanto à ausência de dano ao erário (efls. 223/232), ponto no qual novamente ingressa em questões que não se referem ao presente processo por não constar no Relatório de Ação Fiscal (sonegação de PIS/COFINS, quebra da cadeia de incidência do IPI, lavagem de dinheiro). Adentra na questão do benefício fiscal do ICMS (efls. 232/234) para ao final efetivamente enfrentar a discussão em torno da multa por cessão de nome cobrada cumulativamente à multa decorrente da conversão da pena de perdimento (efls. 234/242). Tratase do argumento (f) acima indicado da SEGER (impossibilidade de cumulação da multa de cessão de nome e de interposição fraudulenta sobre o sujeito que cedeu o nome), que efetivamente foi enfrentado pela r. decisão recorrida, inexistindo a omissão apontada. Contudo, melhor sorte não cabe aos argumentos de mérito do processo, em torno da inexistência de interposição fraudulenta de terceiros no caso. Com efeito, observase que a r. decisão recorrida efetivamente não adentrou nos pontos (a) a (e) indicados acima, da discussão instaurada na Impugnação em torno do mérito objeto da autuação. Diante disso que é possível adotar as considerações e a exata conclusão alcançada no mencionado Acórdão 3402004.875, de relatoria da Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz, de 30/01/2018, que passa a integrar as razões de decidir desse acórdão com fulcro no art. 50, §1º da Lei n.º 9.784/99: "De fato, com a simples alusão ao direito aduaneiro vigente e subsequente transcrição do TVF, as razões e documentos apresentadas como mérito nas defesas não foram sequer mencionadas no julgamento a quo (e.g. o impacto do acordo de parceria e distribuição na impossibilidade de se caracterizar as Fl. 307DF CARF MF Processo nº 10983.721306/201525 Acórdão n.º 3402005.495 S3C4T2 Fl. 305 7 operações como importação por conta e ordem de terceiro; o aumento do limite da habilitação das empresas para operarem no comércio exterior; as vendas serem faturadas e recebidas pela Adaime, conforme notas fiscais, a diversos clientes além da Res Brasil; provas sobre a Res Brasil não ser a única responsável pelas negociações; e o risco operacional assumido pela Adaime). Com relação ao mérito, saliento que as razões são pertinentes ao bom julgamento desse processo, uma vez que, caso verificado nos autos que as operações fiscalizadas não se tratam de importação por conta e ordem, cujo ato dissimulado seria a prestação do serviço, mas sim, eram de importações por encomenda (por não serem importações financiadas por empresa oculta nas operações), o lançamento poderia ser cancelado, conforme a jurisprudência desse Tribunal (Acórdão n. 3402002.275). (...) Dessarte, é hialino que não se trata de matéria que pode simplesmente deixar de ser analisada no julgamento administrativo, sob pena de restar configurada nulidade em função da omissão do órgão judicante. No caso, houve incontestável omissão da DRJ ao julgar as impugnações dos sujeitos passivos, sendo portanto nula, por preterição do direito de defesa dos sujeitos passivos, conforme já decidiu esse Colegiado, entre outros, nos seguintes casos: Acórdãos 3402003.029 e 3402003.047. Destaco abaixo a lição de Marcos Vinícius Neder e Maria Teresa López1 sobre o tema: No processo administrativo fiscal, dentre as nulidade mais comuns podemse destacar: os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente; ou com preterição do direito de defesa; a ilegitimidade de partes; omissão do julgador no enfrentamento das questões de defesa e o não atendimento aos requisitos formais do lançamento. Algumas dessas questões arguidas em preliminar são suficientes para a nulidade dos atos correspondentes e para a extinção de todo o processo administrativo, como a questão da ilegitimidade das partes; outras permitem o saneamento da irregularidade, como é o caso de cerceamento de defesa gerada pela falta indispensável da análise de uma tese arguida pelo contribuinte, ocasionando apenas a nulidade da decisão de primeira instância e o seu saneamento com a prática de ato novo. Efetivamente, ausência de análise dos citados argumentos e provas das impugnações, nesse contexto, ocasiona cerceamento do direito de defesa no processo administrativo e caso fosse proferido julgamento inaugural da matéria por este Conselho, estarseia atuando como instância única. Tal situação não é permitida pelo sistema jurídico brasileiro, uma vez que o artigo 5º, inciso LV da Constituição confere aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. Cumpre destacar a lição de James Marins2 sobre o tema: Não podem, União, Estado, Distrito Federal ou Municípios, instituir no âmbito de sua competência, a denominada “instância única” para o julgamento das lides tributárias deduzidas administrativamente, sob pena de irremediável mutilação da regra constitucional e consequente imprestabilidade do sistema administrativo processual que, por falta de tal requisito constitucional de validade, não servirá para aperfeiçoar a pretensão fiscal impugnada, remanescendo carente de exigibilidade. Nesse sentido o artigo 59, inciso II do Decreto no 70.235/1972 confere efetividade ao texto constitucional ao determinar que: Art. 59. São nulos (...) 1 Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 558559. 2 Direito Processual Tributário Brasileiro (Administrativo e Judicial). São Paulo: Dialética, 2010 5ª ed. Fl. 308DF CARF MF 8 II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Por fim, destaco que foi no intuito de coibir tal sorte de problema que o Novo Código de Processo Civil, o qual deve ser aplicado subsidiariamente ao Processo Administrativo Fiscal, estabelece os requisitos essenciais da sentença, bem como as situações em que considera não fundamentada qualquer decisão: Art. 489. São elementos essenciais da sentença: I o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; III o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem. § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; (grifei) Resta a este Colegiado, assim, declarar a nulidade do Acórdão referente ao julgamento a quo que pode ser percebido como supressão de instância administrativa, culminando em preterição do direito de defesa." (grifei) Assim, por uma deficiência na análise do mérito da Impugnação Administrativa apresentada pela SEGER, deve ser declarada a nulidade da r. decisão recorrida. DISPOSITIVO Ante o exposto, voto por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para declarar a nulidade do Acórdão da 23ª Turma da DRJ/SPO, exarado no presente processo, afetando as peças processuais que lhe sucederam. Objetivando considerações úteis ao prosseguimento e à solução do processo, com base no artigo 59, §2º do Decreto n.º 70.235/723, destaco que deve a DRJ, em seu novo julgamento, guardar observância ao artigo 489, §1º do Código de Processo Civil/2015, analisando os argumentos e provas de defesa com relação ao mérito. É como voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne. 3 "Art. 59 (...) § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo" Fl. 309DF CARF MF
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Numero do processo: 36266.003428/2007-15
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/04/2000 a 31/12/2005
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.820
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 11242.000598/2009-57, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício e Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 26 6. 00 34 28 /2 00 7- 15 Fl. 215DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 3 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Contra o contribuinte foi lavrado o presente auto de infração para cobrança de contribuições previdenciárias destinadas à Seguridade Social. Após o trâmite processual, a turma a quo deu provimento parcial ao recurso voluntário do Contribuinte para determinar o recálculo da multa aplicada haja vista alterações promovidas na redação da Lei nº 8.212/1991. Inconformada com o resultado do julgamento, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial cujo objeto é a discussão acerca da aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.733, de 19/04/2018, proferido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.733): "O recurso preenche os pressuposto de admissibilidade razão pela qual deve ser conhecido. A controvérsia levantada pela Fazenda Nacional é relativa às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: Fl. 216DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 4 3 I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão n. 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento Fl. 217DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 5 4 e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499: Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da Fl. 218DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 6 5 declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para Fl. 219DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 7 6 as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas Fl. 220DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 8 7 competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 221DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 9 8 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional para determinar que a multa seja aplicada nos termos em que fixado pela Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009." Fl. 222DF CARF MF Processo nº 36266.003428/200715 Acórdão n.º 9202006.820 CSRFT2 Fl. 10 9 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, voto em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 223DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11040.901049/2011-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/02/2005 a 28/02/2005
CRÉDITO POR PAGAMENTO INDEVIDO. COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
Instaurado o contencioso administrativo, em razão da não homologação de compensação de débitos com crédito de suposto pagamento indevido ou a maior, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso normal do processo administrativo.
Numero da decisão: 3302-005.446
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Diego Weis Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Jorge Lima Abud, Vinicius Guimarães, Diego Weis Junior, José Renato Pereira de Deus, Raphael Madeira Abad, Walker Araújo.
Nome do relator: DIEGO WEIS JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/02/2005 a 28/02/2005 CRÉDITO POR PAGAMENTO INDEVIDO. COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Instaurado o contencioso administrativo, em razão da não homologação de compensação de débitos com crédito de suposto pagamento indevido ou a maior, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso normal do processo administrativo.
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COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Instaurado o contencioso administrativo, em razão da não homologação de compensação de débitos com crédito de suposto pagamento indevido ou a maior, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso normal do processo administrativo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Diego Weis Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Jorge Lima Abud, Vinicius Guimarães, Diego Weis Junior, José Renato Pereira de Deus, Raphael Madeira Abad, Walker Araújo. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 04 0. 90 10 49 /2 01 1- 92 Fl. 54DF CARF MF Processo nº 11040.901049/201192 Acórdão n.º 3302005.446 S3C3T2 Fl. 55 2 Tratase de Recurso Voluntário interposto pela H W FERNANDES E CIA LTDA contra o Acórdão n. 0950.365 da 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG) – DRJ/JFA, assim ementado. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2005 DIREITO CREDITÓRIO. SALDO DE PAGAMENTO PARA HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. INSUFICIÊNCIA. Deve ser confirmado o despacho decisório de homologação parcial de compensação quando demonstrado que, do pagamento informado, não resulta saldo disponível para confirmar o crédito declarado. PEDIDO DE RETIFICAÇÃO DE DCOMP. INCOMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO. Falece competência às Delegacias de Julgamento para apreciar pedidos de retificação de Declaração de Compensação. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Em síntese, a Turma não reconheceu a pretensão da Recorrente por entender que inexiste crédito a ser compensado. A pretensão central da Recorrente é reverter despacho decisório não homologou a compensação declarada na DCOMP n. 02921.59675.291007.1.3.044312. Em sua manifestação de inconformidade fl. 10 o contribuinte alega que o crédito utilizado na DCOMP nº 02921.59675.291007.1.3.044312, referese à valores indevidamente recolhidos entre os anos de 2005 e 2006, período no qual equivocadamente os débitos da empresa foram apurados e recolhidos sob a forma do lucro presumido, quando na verdade deveriam ter sido incluídos no Simples Nacional. Admite, ainda, a existência de eventual erro de preenchimento do DCOMP, razão pela qual requer prazo para análise e correção. Quando do julgamento do Acórdão recorrido a Turma entendeu que no ano calendário de 2005, a interessada apresentou Declaração pelo Simples, sendo assim, neste período faz jus ao direito creditório sobre os valores recolhidos fora dessa sistemática. Entretanto o DARF informado na DCOMP já foi parcialmente utilizado em compensações anteriores não sendo possível a retificação da Declaração de Compensação em tempo de julgamento administrativo. Declarou ainda a instância a quo não deter competência para apreciar pedidos de retificação de Declaração de Compensação. Em recurso voluntário – fls. 43/44 – o contribuinte alega que recolheu tributos sob o regime do lucro presumido entre 2005 e 2006 por não ter sido informado sobre sua inserção no SIMPLES. Quando teve ciência do fato pagou a multa por declaração em atraso e entregou declaração simplificada, nos termos do Simples Nacional. Fl. 55DF CARF MF Processo nº 11040.901049/201192 Acórdão n.º 3302005.446 S3C3T2 Fl. 56 3 Ao fim, requer o sujeito passivo “bem como achamos complexa a vossa comunicação de indeferimento, entendemos que para um melhor compreensão da nossa parte, a Receita Federal deveria nos fornecer uma conta corrente ou algo em que constasse, onde forma utilizados os valores que recolhemos indevido, ou pelo menos a informação que estes valores ora cobrado não foram compensado porque naquele tipo de contribuição já não tinha saldo para mais aquele valor, mas que em contra partida em outro imposto recolhido sobre determinado valor, pois como já nos reportamos tratava se de um valor bem superior”. É o relatório. Voto Conselheiro Diego Weis Junior, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os pressupostos e requisitos de admissibilidade. Cumpre ressaltar que é patente a boa fé do contribuinte e a presença de elementos indicadores da existência de recolhimentos indevidos, porque pagos sob o regime incorreto de apuração. Contudo, ainda que haja indícios do direito creditório, não detém esta Corte poder para alterar os dados equivocadamente inseridos pelo contribuinte na Declaração de Compensação. Detendo apenas competência para analisar os dados informados pelo contribuinte e decidir pela existência ou não do direito creditório. Tendo em vista que a homologação da compensação de débito tributário, nos termos do §1º, do artigo 74, da Lei 9.430/96, depende exclusivamente da comprovação da existência de certeza e liquidez do crédito a ser compensado, não há como homologar compensação cujo crédito não seja nesses termos confirmado. A compensação de tributos é, basicamente, um encontro de contas onde cabe ao contribuinte provar que detém o crédito que pretende compensar com os valores por ele devidos e que, por essa razão, nos termos do disposto no artigo 74, da Lei 9.430/96, c/c o art. 170 do CTN, faz jus compensação pretendida. Portanto, não tendo sido comprovada nos autos a certeza e liquidez do crédito a ser compensado, não resta a este tribunal outra decisão que não a manutenção do acórdão recorrido. Conforme dispõe o regimento interno deste colegiado em seu artigo 1º1, aos conselheiros cabe analisar os valores e documentos acostados aos autos, e, assim, julgar os 1 Art.1º O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, tem por finalidade julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância, bem como os recursos de natureza especial, que versem sobre a aplicação da legislação referente a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB). Fl. 56DF CARF MF Processo nº 11040.901049/201192 Acórdão n.º 3302005.446 S3C3T2 Fl. 57 4 recursos que lhes são apresentados. Neste caso, incumbe aos conselheiros desta Turma apenas a decisão acerca da confirmação ou não do direito creditório utilizado na compensação pretendida. Ocorre que o recorrente não trouxe aos autos qualquer documento capaz de demonstrar a liquidez e certeza do crédito pretendido compensar, não se podendo reconhecer a existência de tal direito. No caso em estudo, o contribuinte apresentou várias declarações de compensação cuja homologação foi negada, sendo cada uma delas tratada em um processo administrativo distinto, conforme tabela/resumo abaixo. DEMONSTRATIVO DAS COMPENSAÇÕES DECLARADAS Nº DCOMP APRESENTADA DCOMP INICIAL PROCESSO ADMINISTRATIVO ORIGEM DO CRÉDITO (DARF) 2 DÉBITO 29531.44582.291007.1.3.046560 15560.25031.291007.1.3.040430 11040.901048/201148 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 02.2005 62,77 02921.59675.291007.1.3.044312 13703.81870.291007.1.3.040938 11040901049/201192 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 04.2005 237,98 06813.30975.291007.1.3.040397 02782.67723.291007.1.3.048786 11040901050/201117 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 05.2005 54,13 30624.33604.291007.1.3.044584 37260.89442.291007.1.3.046187 11040901051/201161 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 05.2005 286,20 36413.30105.291007.1.3.043678 20569.87623.291007.1.3.045162 11040901053/201151 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 09.2005 270,68 07870.23376.291007.1.3.046716 36413.30105.291007.1.3.043678 11040901054/201103 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 10.2005 308,81 35821.57117.291007.1.3.049705 07870.23376.291007.1.3.046716 11040901055/201140 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 10.2005 57,21 35023.93042.301007.1.3.042367 22218.77856.291007.1.3.043173 11040901062/201141 PIS 28.02.2005 R$17,10 SIMPLES 01.2006 849,29 TOTAIS R$ 17,10 R$ 2.127,07 Conforme se percebe pela análise da tabela acima, a recorrente utilizou o mesmo pagamento como origem de todos os pedidos de compensação efetuados. O DARF apontado como origem do crédito foi relativo a um recolhimento de PIS, referente ao mês 02/2005, no valor de R$17,10, sendo este insuficiente para compensar qualquer um dos débitos apontados individualmente, máxime para compensar todos os débitos em conjunto. Resta evidente, portanto, que de fato ouve erro de preenchimento das DCOMP´s não homologadas. Contudo, conforme dito alhures, não cabe a este julgador proceder a retificação de tais declarações. Ademais, o reconhecimento do direito creditório, nos autos de processo administrativo, depende da comprovação documental da existência de certeza e liquidez do crédito pleiteado. A falta das cópias dos DARF´s e dos respectivos comprovantes, pagos fora do regime simplificado de apuração quando neste já estava inserido o contribuinte, comprometeu totalmente a análise da liquidez do crédito alegado, impossibilitando o reconhecimento do direito creditório em discussão neste PAF. Diante do exposto, tendo em vista a falta de comprovação da certeza e liquidez do crédito alegado, voto por conhecer do recurso voluntário e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) 2 As informações sobre o DARF indicado como origem do Crédito, foram retiradas de cada um dos despachos decisórios que não homologaram as respectivas Declarações de Compensação. Fl. 57DF CARF MF Processo nº 11040.901049/201192 Acórdão n.º 3302005.446 S3C3T2 Fl. 58 5 Diego Weis Junior Relator Fl. 58DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.004862/2003-91
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Apr 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 31/12/1998, 31/07/2001, 31/08/2001, 30/09/2001, 31/07/2002
MULTA DE OFÍCIO. PARCELAMENTO APÓS INÍCIO DA AÇÃO FISCAL.
O parcelamento de débito após o inicio do procedimento fiscal não afasta a multa de oficio por ausência de espontaneidade.
Recurso Especial do Procurador provido
Numero da decisão: 9303-005.046
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que não conheceram do recurso. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Érika Costa Camargos Autran - Relatora
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ERIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 31/12/1998, 31/07/2001, 31/08/2001, 30/09/2001, 31/07/2002 MULTA DE OFÍCIO. PARCELAMENTO APÓS INÍCIO DA AÇÃO FISCAL. O parcelamento de débito após o inicio do procedimento fiscal não afasta a multa de oficio por ausência de espontaneidade. Recurso Especial do Procurador provido
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que não conheceram do recurso. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran - Relatora (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1504; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT3 Fl. 796 1 795 CSRFT3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 19515.004862/200391 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9303005.046 – 3ª Turma Sessão de 12 de abril de 2017 Matéria COFINS Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado SE SUPERMERCADOS LTDA ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 31/12/1998, 31/07/2001, 31/08/2001, 30/09/2001, 31/07/2002 MULTA DE OFÍCIO. PARCELAMENTO APÓS INÍCIO DA AÇÃO FISCAL. O parcelamento de débito após o inicio do procedimento fiscal não afasta a multa de oficio por ausência de espontaneidade. Recurso Especial do Procurador provido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que não conheceram do recurso. No mérito, por voto de qualidade, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 48 62 /2 00 3- 91 Fl. 796DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 797 2 (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o acórdão n.º 330100.507, de 29 de abril de 2010 (fls. 690 a 695 do processo eletrônico), proferido pela Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção de Julgamento deste CARF, decisão que por unanimidade de votos, negou provimento ao Recurso de Oficio e conheceu em parte do Recurso Voluntário, em razão da opção pela via judicial, e, na parte conhecida negou provimento, conforme acórdão assim ementado in verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA 0 FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 31/12/1998, 31/07/2001, 31/08/2001, 30/09/2001, 31/07/2002 NORMAS PROCESSUAIS. OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. RENÚNCIA A DISCUSSÃO ADMINISTRATIVA. Importa renúncia as instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de oficio, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Sumula CARF N° 1) ESTORNO. AUSÊNCIA DE DOCUMENTAÇÃO HÁBIL E IDÔNEA. IMPOSSIBILIDADE. Somente são admissíveis os estornos regularmente contabilizados e devidamente acompanhados de documentação hábil e idônea. Fl. 797DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 798 3 Recurso de oficio Negado. Recurso voluntário conhecido em parte, e na parte conhecida negado provimento. A discussão dos presentes autos tem origem no auto de infração decorrente do fato do Contribuinte não ter recolhido integralmente valores devidos de COFINS relativamente a fatos geradores ocorridos no período de fevereiro de 1999 a dezembro de 2001, e de julho de 2002 a outubro de 2003, assim o contribuinte foi notificado a recolher o crédito tributário incluindo acréscimos legais, no valor total de R$ 3.468.090,92. Intimado, o sujeito passivo apresentou impugnação. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo I (SP) julgou o lançamento parcialmente procedente, exonerando o crédito relativo ao mês de julho de 2002, bem como a multa de ofício respectiva, em face da constatação de que o parcelamento fora efetuado anteriormente à autuação. Irresignado com a decisão contrária ao seu pleito, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário, bem como, a DRJ em São Paulo I apresentou Recurso de Ofício. O colegiado entendeu por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso de Oficio e conhecer em parte do Recurso Voluntário, em razão da opção pela via judicial, e, na parte conhecida negar provimento. A Fazenda Nacional opôs Embargos de Declaração às fls. 704 a 706 sendo que estes foram rejeitados por ausência de omissão ou contradição a serem sanados, conforme despacho às fls. 722 a 724. A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de Divergência (fls. 726 a 737) em face do acordão recorrido que negou provimento ao recurso de ofício, bem como ao Recurso Voluntário. A divergência suscitada pela Fazenda Nacional foi em relação à impossibilidade de exclusão da multa de ofício quando a contribuinte adere ao parcelamento após o início do procedimento fiscal. Fl. 798DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 799 4 Para comprovar a divergência foi apresentado, como paradigma, os acórdãos de números 9202003.577 e 210100.025, cuja ementas foram transcritas na peça recursal. O Recurso Especial da Fazenda Nacional foi admitido, conforme despacho de fls. 739 a 741 sob o argumento que no confronto das decisões ficou comprovada a divergência jurisprudencial. Na decisão recorrida foi exonerado o crédito tributário relativo ao período em que restou comprovado que o contribuinte protocolou pedido de parcelamento anteriormente ao lançamento, porém após o início do procedimento fiscal, o que incluiu o valor do principal mais a multa de oficio de 75% e juros de mora. Por outro lado, nos acórdãos paradigmas entendeuse que o parcelamento de débito após o início do procedimento fiscal não afasta a multa de oficio por ausência de espontaneidade. O Contribuinte apresentou contrarrazões às fls. 781 a 792, manifestando para que seja negado seguimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional e mantido o v. acórdão no tocante ao débito de COFINS referente ao mês julho/2002. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Érika Costa Camargos Autran Relatora DA ADMISSIBILIDADE Vale ressaltar que se deve ter sempre em conta que o dissídio jurisprudencial consiste na interpretação divergente da mesma norma aplicada a fatos iguais ou semelhantes, o que implica a adoção de posicionamento distinto para a mesma matéria versada em hipóteses semelhantes na configuração dos fatos embasadores da questão jurídica. Fl. 799DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 800 5 Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, entendo que não deva ser admitido, ainda que o Recurso seja tempestivo, pelos motivos a seguir. No acordão Recorrido a discussão posta se refere à insuficiência no recolhimento da COFINS relativa ao mês de julho de 2002, no montante de R$ 1.224.870,85, valor este parcelado pela Recorrida através do processo n.° 11610.004753/20011, cujo deferimento somente ocorreu em 30/06/2003. Logo, a parcela relativa ao mês de julho de 2002, foi parcelada anteriormente ao lançamento (fls. 160). Não houve sequer desistência referente a esta parte, pelo fato da mesma ter sido parte de outro processo. Já nos paradigmas, houve desistência do Recurso Voluntário, mas em razão da adesão a parcelamento efetivada durante a tramitação do processo administrativo, situação fática essa diversa da presente nestes autos. Ou seja, a adesão ao parcelamento pelo contribuinte deuse quando o contribuinte já se encontrava sob ação fiscal, iniciada através do Termo de Intimação Fiscal. Diante destes fatos, nos acórdãos paradigmas tiveram a posição de que, após o início da ação fiscal, o que se perfectibiliza com a intimação do Mandado de Procedimento Fiscal, não há mais espontaneidade passível de conferir à contribuinte o direito de excluir a multa de ofício imputada, em face do disposto no art. 138 do CTN c/c art. 7º do Decreto n.º 70.235/72. Ademais, analisando os autos, verificase que em nenhum momento foi questionado ou tratado de denúncia espontânea ou verificação se ocorreu ou não a reaquisição de espontaneidade, conforme previsto no art. 7º, § 2º do Decreto n.º 70.235/72, por inação do fisco na continuidade do processo iniciada há mais de 60 (sessenta) dias, situação essa que exclui a multa de ofício. Ou seja, não foi tratado no recurso voluntário sobre a espontaneidade passível de conferir à contribuinte o direito de excluir a multa de ofício imputada, em face do disposto no art. 138 do CTN c/c art. 7º do Decreto n.º 70.235/72. Fl. 800DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 801 6 Nesse contexto, concluise que a situação fática destes autos não se amolda ao regramento supra referenciado, pois não se refere à desistência de um eventual recurso em tramitação na fase processual administrativa. Considerando as disposições do art. 67 do Anexo II do RICARF, que delimitam os pressupostos à interposição do Recurso Especial de divergência, é possível verificar que, tratandose de situações fáticas diversas, cada qual com seu conjunto probatório específico, conforme ocorre no presente caso, as soluções diferentes não têm como fundamento a interpretação divergente da legislação, decorrendo elas, em verdade, de situações fáticas dessemelhantes, não havendo que se falar em divergência jurisprudencial. Dessa forma, voto por NÃO CONHECER do Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional, em razão da falta de demonstração da divergência jurisprudencial regimentalmente exigida, dada a dessemelhança das situações fáticas controvertidas no acórdão recorrido e nos paradigmas. DO MÉRITO Ventiladas tais considerações, caso essa Conselheira seja vencida, entendendo o Colegiado pelo conhecimento do Recurso, passo a análise do Recurso. A discussão posta nos autos restringe à possibilidade ou não da exclusão da multa de ofício quando o Contribuinte adere ao parcelamento após o início do procedimento fiscal. No que toca à insuficiência no recolhimento da COFINS relativa ao mês de julho de 2002, no montante de R$ 1.224.870,85, a Recorrida demonstrou que parcelou a divida perante através do processo n.° 11610.004753/200111. Compulsando os autos, de fato, o Contribuinte logrou comprovar integralmente tal alegação, anexando cópia do Pedido de Parcelamento (fls. 154), do Demonstrativo de Consolidação para Pagamento Parcelado (fls. 157), e Discriminação de Fl. 801DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 802 7 débitos a parcelar (fls. 158), em que consta o crédito tributário relativo ao período de julho de 2002, lançado no presente processo. Ademais, conforme extrato anexado a fls. 161, tal crédito tributário consta e efetivamente no processo administrativo n.° 11610.004753/200111. Logo, a parcela relativa ao mês de julho de 2002, foi parcelada anteriormente ao lançamento e o parcelamento somente foi deferido em 30/06/2003 (fls. 160). Vêse que para tais débitos, o Contribuinte optou por extinguilos, aderindo ao parcelamento trazido pela Lei n.º 11.941/09 que, inclusive traz o benefício da anistia dos juros, multas e encargos, conforme consolidação do débito pelo sujeito passivo. Tal consolidação deverá ser ratificada pela Receita Federal do Brasil. Sendo assim, entendo que se encontram extintos tais débitos, restando prejudicada a discussão acerca dos juros sobre a multa de ofício trazida pela Fazenda, eis que, caso enfrentássemos a matéria tal como propôs a Fazenda Nacional, poderíamos incorrer em erro, eis que não há razão de se discutir tais encargos – se o sujeito passivo aderiu ao parcelamento nos termos trazidos pela Lei n.º 11.941/09. Ademais, ao aderir ao programa de parcelamento, a pessoa jurídica confessava de forma irrevogável e irrefutável os débitos declarados, situação essa que remanescia mesmo após eventual exclusão do programa. No âmbito da legislação processual administrativa, o art. 78, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF n.º 256, de 2009 (que corresponde ao mesmo artigo do atual RICARF, este aprovado pela Portaria MF n.º 343, de 2015), assim dispõe: Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratável de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de Fl. 802DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 803 8 suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. (g. n.) Conforme se verifica do caput do art. 78 supra, a regra nele insculpida se refere aos recursos em tramitação, independentemente da fase processual em que se encontrem, devendo o § 2º, que trata da desistência do recurso em razão do parcelamento e/ou da confissão de dívida, ser interpretado em consonância com o comando contido no caput, uma vez que os parágrafos de um artigo constituemse em subdivisões do assunto tratado no caput, dado que este é o centro orbital do artigo. Dessa forma, o pedido de parcelamento e/ou a confissão irretratável de dívida de que cuida o § 2º supra, em decorrência dos quais se tem por configurada a desistência do recurso, são aqueles formulados durante a fase processual administrativa, quando eventuais recursos já se encontram em tramitação, situação essa não condizente com os presentes autos, pois aqui, conforme acima apontado, houve a adesão ao parcelamento, incluindo os mesmos valores que vieram a ser objeto do lançamento de ofício (inclusive da multa de ofício), antes da lavratura do auto de infração. O fato do deferimento do parcelamento ter se dado após o início da ação fiscal não desfigura esse quadro, pois, quando do lançamento de ofício, o crédito tributário respectivo já se encontrava constituído por meio da confissão irrevogável e irretratável dos respectivos débitos, inclusive, repitase, da multa de ofício de 75%. Não se pode perder de vista que o procedimento de apuração do crédito tributário, ou seja, a fase investigativa que precede o lançamento de ofício, não se insere na fase processual administrativa propriamente dita, conforme se extrai do art. 14 do Decreto nº 70.235/1972 (que disciplina o processo administrativo fiscal), segundo o qual a fase litigiosa do procedimento fiscal, ou seja, a sua fase processual, se instaura com a impugnação1, e é essa fase que se encontra regida pelo RICARF, não se referindo as regras do Regimento a atos praticados anteriormente à instauração do litígio administrativo. 1 Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. Fl. 803DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 804 9 Em vista de todo o exposto, voto por negar provimentos ao Recurso interposto pela Fazenda Nacional. É como voto. (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Voto Vencedor Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza – Redator Designado Discordamos da il. Relatora. Entendemos que o Recurso Especial deve ser conhecido. Com efeito, enquanto o acórdão recorrido entendeu afastar a aplicação da multa de ofício quando a contribuinte adere a programa de parcelamento após o início do procedimento fiscal, o acórdão paradigma consolidou entendimento diametralmente oposto, ou seja, o de que a penalidade, no mesmo contexto, não pode ser excluída. E, conhecido, a ele deve se dar provimento. Ora, é de conhecimento geral, depois de devidamente cientificado do início da ação fiscal, o contribuinte tem a sua espontaneidade afastada, nos termos do art. 7º do Decreto nº 70.235, de 1972, que regula o Processo Administrativo Fiscal: Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: I o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; II a apreensão de mercadorias, documentos ou livros; III o começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada. § 1° O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação, a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. (g.n.) Fl. 804DF CARF MF Processo nº 19515.004862/200391 Acórdão n.º 9303005.046 CSRFT3 Fl. 805 10 Destarte, sobre os valores inseridos em programa de parcelamento que se refiram a tributos não oportunamente recolhidos antes da ciência do Termo de Início da Fiscalização TIF, deve incidir a multa de ofício, nos termos da legislação aplicável. Ante o exposto, conheço e dou provimento ao recurso especial interposto pela PFN. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 805DF CARF MF
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Numero do processo: 13558.721462/2015-02
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2012, 2013
Simples Nacional. Decadência. Tributo Mensal Lançado por Homologação.
O prazo para lançamento do Simples Nacional, que tem periodicidade mensal e está sujeito a lançamento por homologação, é de cinco anos contados do fato gerador.
Multa Qualificada. Reiteração da Conduta. Dolo.
A aplicação de multa qualificada se justifica quando presente o dolo, que pode ser caracterizado pela existência de conduta prolongada e reiterada ao longo de vários anos.
Tributo e Multa. Efeito de Confisco. Exame na Esfera Administrativa. Impossibilidade.
No processo administrativo tributário é vedado o exame do caráter confiscatório do tributo e da multa, por implicar a realização de controle de constitucionalidade, que foge à competência do CARF, conforme entendimento consagrado na Súmula CARF nº 2.
Numero da decisão: 1301-003.224
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente
(assinado digitalmente)
Roberto Silva Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausência justificada da Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: ROBERTO SILVA JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2012, 2013 Simples Nacional. Decadência. Tributo Mensal Lançado por Homologação. O prazo para lançamento do Simples Nacional, que tem periodicidade mensal e está sujeito a lançamento por homologação, é de cinco anos contados do fato gerador. Multa Qualificada. Reiteração da Conduta. Dolo. A aplicação de multa qualificada se justifica quando presente o dolo, que pode ser caracterizado pela existência de conduta prolongada e reiterada ao longo de vários anos. Tributo e Multa. Efeito de Confisco. Exame na Esfera Administrativa. Impossibilidade. No processo administrativo tributário é vedado o exame do caráter confiscatório do tributo e da multa, por implicar a realização de controle de constitucionalidade, que foge à competência do CARF, conforme entendimento consagrado na Súmula CARF nº 2.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior - Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausência justificada da Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
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ME Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2012, 2013 SIMPLES NACIONAL. DECADÊNCIA. TRIBUTO MENSAL LANÇADO POR HOMOLOGAÇÃO. O prazo para lançamento do Simples Nacional, que tem periodicidade mensal e está sujeito a lançamento por homologação, é de cinco anos contados do fato gerador. MULTA QUALIFICADA. REITERAÇÃO DA CONDUTA. DOLO. A aplicação de multa qualificada se justifica quando presente o dolo, que pode ser caracterizado pela existência de conduta prolongada e reiterada ao longo de vários anos. TRIBUTO E MULTA. EFEITO DE CONFISCO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE. No processo administrativo tributário é vedado o exame do caráter confiscatório do tributo e da multa, por implicar a realização de controle de constitucionalidade, que foge à competência do CARF, conforme entendimento consagrado na Súmula CARF nº 2. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 55 8. 72 14 62 /2 01 5- 02 Fl. 1751DF CARF MF Processo nº 13558.721462/201502 Acórdão n.º 1301003.224 S1C3T1 Fl. 1.752 2 (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausência justificada da Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratase de recurso interposto por SPHERA PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA. ME, já qualificada nos autos, contra o Acórdão nº 1284.075, da DRJ Rio de Janeiro, que negou provimento à impugnação da recorrente, mantendo contra ela o lançamento que exigia crédito tributário em face de omissão de receita. A omissão de receitas foi apurada mediante verificação de valores repassados por administradoras de cartões de crédito e débito; e pela constatação da existência de créditos em contas bancárias de origem não comprovada. A Fiscalização esclareceu que foram excluídos do rol dos depósitos os créditos cujas origens era possível identificar pelo histórico contido nos extratos. O lançamento foi impugnado, mas a DRJ RJO negou provimento à impugnação, em acórdão assim resumido: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2012, 2013 OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA. FATO GERADOR. EVENTOS ESTRANHOS À SUA OCORRÊNCIA. A obrigação tributária, decorrente do fato gerador prescrito em lei, independe de eventos não ligados à sua concretização. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2012, 2013 PROVA MATERIAL. INADMISSIBILIDADE DE SIMPLES ALEGAÇÕES. Incumbe à parte trazer aos autos as provas de alegações factuais, sem as quais as mesmas se apresentam inadmissíveis. ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2012, 2013 OMISSÃO DE RECEITAS. VENDAS POR CARTÕES DE CRÉDITO/DÉBITO. Fl. 1752DF CARF MF Processo nº 13558.721462/201502 Acórdão n.º 1301003.224 S1C3T1 Fl. 1.753 3 Caracterizam omissões de receitas vendas efetuadas através de cartões de crédito/débito, não apropriadas à receita bruta. OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS/DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Presumemse receitas omitidas créditos/depósitos bancários para os quais intimado, o contribuinte não logra lhes comprovar as origens. PENALIDADE QUALIFICADA. FUNDAMENTO. A evidência da intenção dolosa, exigida na lei para a qualificação da penalidade aplicada, aflora na instrução processual através da continuada omissão de incontestes, não presumidas, receitas em três anoscalendário subsequentes. Não resignada, SPHERA PRODUTOS ALIMENTÍCIOS interpôs recurso. Preliminarmente, arguiu prescrição (rectius decadência). No mérito, alegou que a empresa é familiar, tendo um faturamento alto e uma lucratividade baixa. A gerência era dispersa, não existindo controle rigoroso sobre a equipe. Além do mais, a administração era pouco preparada. Tudo isso contribuiu para uma baixa margem de lucro, mas as obrigações tributárias foram cumpridas. Em 2009, um dos membros da família teve sérios problemas de saúde, fazendo com que os administradores se afastassem da empresa, por longo período. Quando retornaram, perceberam vários desvios, não apenas de mercadorias, mas também de dinheiro. Nesse contexto, a recorrente se viu impossibilitada de cumprir suas obrigações acessórias. Não pode igualmente arcar com os honorários do contador, que acabou se desvinculando de suas responsabilidade, deixando de cumprir parte das obrigações fiscais. A recorrente invocou o princípio da dignidade da pessoa humana, para contestar exigências fiscais que impedem a manutenção das fontes de renda. Esse argumento se aplicaria também à exigência de multa no percentual de 150% do valor do tributo devido, que, por exorbitante, tangencia o confisco. Por fim, negou ter havido dolo ou intenção de lesar o Fisco. A falta de declaração e a declaração inexata não autorizam a exacerbação da penalidade. Com essas alegações, pediu a exclusão da multa de 150%. É o relatório. Fl. 1753DF CARF MF Processo nº 13558.721462/201502 Acórdão n.º 1301003.224 S1C3T1 Fl. 1.754 4 Voto Conselheiro Roberto Silva Junior, Relator O recurso é tempestivo e atende aos requisitos formais de admissibilidade. Preliminarmente, afastese a alegação de decadência. O lançamento colheu fatos geradores dos anos de 2012 e 2013. A notificação regular ao sujeito passivo deuse, de forma pessoal, em 11 de janeiro de 2016 (fls. 142 e 143), antes, portanto, do decurso do prazo quinquenal, que só ocorreria em fevereiro de 2017, considerando os fatos geradores mensais. Quanto à alegação de que a exigência do crédito tributário, por ser desproporcional, violaria a dignidade humana, a razoabilidade e a vedação de confisco por meio de tributo, cabe lembrar que tais aspectos não podem ser examinados na via administrativa. Tampouco se admite que, considerando esses argumentos, se afaste a aplicação de lei ou ato normativo, em favor dos quais existe presunção de constitucionalidade. No mais, o art. 26A do Decreto nº 70.235/1972 proíbe que se faça controle de constitucionalidade no processo administrativo tributário: Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. O mesmo entendimento está consolidado no enunciado da Súmula CARF nº 2: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Afastadas as preliminares, cumpre enfrentar o mérito. A autoridade fiscal apurou omissão de receitas. Uma parte da infração foi demonstrada por prova direta, a saber, os repasses de valores feitos por empresas administradoras de cartões de crédito e débito. A outra parte foi caracterizada por presunção firmada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada. A multa qualificada (150%) ficou restrita apenas às receitas vindas das instituições financeiras administradoras de cartões, já que os valores indicam ter havido venda de mercadorias. Por outro lado, a reiteração da conduta revela claramente a intenção de subtrair as receitas à tributação. Portanto, a qualificação da multa se justifica. Nesse sentido, vale transcrever parte do Termo de Verificação Fiscal TVF: No presente procedimento é aplicável a multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento) sobre o crédito tributário constituído a partir da omissão de receita proveniente da venda de mercadorias, cujos tributos não foram contabilizados, pagos, parcelados, compensados ou confessados à administração tributária federal. Por conseguinte, a conduta lesiva do sujeito passivo revela a intenção de eximirse, deliberada e persistentemente, do pagamento de parte significativa dos Fl. 1754DF CARF MF Processo nº 13558.721462/201502 Acórdão n.º 1301003.224 S1C3T1 Fl. 1.755 5 impostos e contribuições devidos à administração tributária federal. Agiu assim a fiscalizada, por sua conta e risco, e não pode se esquivar das conseqüências tributárias impostas, qual seja, a aplicação da multa qualificada de 150%. (fl. 149) Por último, cabe dizer que a enfermidade de parente próximo do sócio, ou a estreita margem de lucro da empresa optante pelo Simples Nacional são fatores metajurídicos que não podem interferir na decisão a ser tomada. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer do recurso, para no mérito negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior Relator Fl. 1755DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.723494/2015-84
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2010
AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE.
Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa
EMPRESA IMOBILIÁRIA. CRIAÇÃO. CONDIÇÃO MANDATÓRIA
A criação de uma empresa, sob alegação de que visou a aquisição de terreno, desmembramento deste, isolamento dos riscos envolvidos para facilitar o financiamento na modalidade project finance para outra empresa que exploraria a Arena de esportes a ser construída, proteger o contratante de eventuais dívidas e passivos contraídos pela contratada em outras atividades, constituir direito de superfície para a outra empresa que exploraria a Arena de esportes, preparar os imóveis para a fase de exploração, atuando como SPE, não era mandatória, como alegado, se a criação da mesma não era condição para a assinatura do contrato, mas sim opção da Autuada, e se de todos os motivos listados, apenas executou a aquisição e revenda do terreno, sendo posteriormente incorporada e extinta, com a justificativa de não haver razão para sua continuidade.
AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL
Revela-se destituída de finalidade negocial a empresa imobiliária que, sem estrutura própria ou recursos humanos, foi criada para e realizou a operação de compra e venda, sendo extinta em seguida, evidenciando-se que a operação foi efetivamente realizada pela controladora do grupo, que a constituiu e posteriormente a absorveu e que forneceu recursos para a compra e recebeu os recursos provenientes da alienação.
AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. SIMULAÇÃO.
Cabe desconsiderar como sendo executada pela empresa criada com finalidade de elidir a tributação do ganho de capital, a operação em que a real executora foi a controladora do grupo.
INCORPORAÇÃO. DIREITOS E OBRIGAÇÕES. NECESSIDADE DE READEQUAÇÃO DE TODA A SITUAÇÃO TRIBUTÁRIA DAS PESSOAS JURÍDICAS ENVOLVIDAS.
Devem ser deduzidos dos tributos lançados na autuada, os tributos pagos pela empresa Novo Humaitá S/A (empresa incorporada). A formalização de exigências fiscais deve levar em conta a situação tributária de todas as pessoas jurídicas envolvidas, sob pena de se verificar tributação em duplicidade.
Numero da decisão: 1201-002.148
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em afastar a preliminar de nulidade dos lançamentos como votado pela relatora, vencidos os conselheiros Gisele Barra Bossa (relatora), Luis Marotti Toselli, Breno do Carmo Moreira Vieira e Leonam Rocha de Medeiros, que deram provimento integral ao recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar provimento parcial ao recurso, para deduzir dos tributos lançados na autuada, os tributos pagos pela empresa Novo Humaitá S/A (incorporada pela autuada), nos termos do voto da relatora, vencidos os conselheiros Eva Maria Los e José Carlos de Assis Guimarães, que lhe negaram provimento, portanto, também votaram contra a referida dedução. Designada para redigir o voto vencedor, em relação à preliminar de nulidade, a conselheira Eva Maria Los.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gisele Barra Bossa - Relatora
(assinado digitalmente)
Eva Maria Los - Redatora designada
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado), José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado e Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: GISELE BARRA BOSSA
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NULIDADE. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa EMPRESA IMOBILIÁRIA. CRIAÇÃO. CONDIÇÃO MANDATÓRIA A criação de uma empresa, sob alegação de que visou a aquisição de terreno, desmembramento deste, isolamento dos riscos envolvidos para facilitar o financiamento na modalidade project finance para outra empresa que exploraria a Arena de esportes a ser construída, proteger o contratante de eventuais dívidas e passivos contraídos pela contratada em outras atividades, constituir direito de superfície para a outra empresa que exploraria a Arena de esportes, preparar os imóveis para a fase de exploração, atuando como SPE, não era mandatória, como alegado, se a criação da mesma não era condição para a assinatura do contrato, mas sim opção da Autuada, e se de todos os motivos listados, apenas executou a aquisição e revenda do terreno, sendo posteriormente incorporada e extinta, com a justificativa de não haver razão para sua continuidade. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL Revelase destituída de finalidade negocial a empresa imobiliária que, sem estrutura própria ou recursos humanos, foi criada para e realizou a operação de compra e venda, sendo extinta em seguida, evidenciandose que a operação foi efetivamente realizada pela controladora do grupo, que a constituiu e posteriormente a absorveu e que forneceu recursos para a compra e recebeu os recursos provenientes da alienação. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. SIMULAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 72 34 94 /2 01 5- 84 Fl. 3207DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 3 2 Cabe desconsiderar como sendo executada pela empresa criada com finalidade de elidir a tributação do ganho de capital, a operação em que a real executora foi a controladora do grupo. INCORPORAÇÃO. DIREITOS E OBRIGAÇÕES. NECESSIDADE DE READEQUAÇÃO DE TODA A SITUAÇÃO TRIBUTÁRIA DAS PESSOAS JURÍDICAS ENVOLVIDAS. Devem ser deduzidos dos tributos lançados na autuada, os tributos pagos pela empresa Novo Humaitá S/A (empresa incorporada). A formalização de exigências fiscais deve levar em conta a situação tributária de todas as pessoas jurídicas envolvidas, sob pena de se verificar tributação em duplicidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em afastar a preliminar de nulidade dos lançamentos como votado pela relatora, vencidos os conselheiros Gisele Barra Bossa (relatora), Luis Marotti Toselli, Breno do Carmo Moreira Vieira e Leonam Rocha de Medeiros, que deram provimento integral ao recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar provimento parcial ao recurso, para deduzir dos tributos lançados na autuada, os tributos pagos pela empresa Novo Humaitá S/A (incorporada pela autuada), nos termos do voto da relatora, vencidos os conselheiros Eva Maria Los e José Carlos de Assis Guimarães, que lhe negaram provimento, portanto, também votaram contra a referida dedução. Designada para redigir o voto vencedor, em relação à preliminar de nulidade, a conselheira Eva Maria Los. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Relatora (assinado digitalmente) Eva Maria Los Redatora designada Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado), José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado e Rafael Gasparello Lima. Relatório Fl. 3208DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 4 3 1. Tratase de autos de infração do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ (fls. 2587 a 2592) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL (fls. 2593 a 2597), lavrados para formalização e exigência de crédito tributário no montante de R$ 94.459.747,62. 2. De acordo com o Relatório de Ação Fiscal, às fls. 2599 a 2612, o lançamento decorreu da falta de contabilização de ganho de capital resultante de alienação/baixa de bens do ativo permanente, o que reduziu de forma indevida o lucro sujeito à tributação. 3. A OAS S/A utilizouse da empresa Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A, sujeita à tributação com base nas regras do lucro presumido, para vender os referidos bens e considerar a respectiva receita como se fosse da atividade imobiliária, com o propósito de fugir da tributação pela sistemática do lucro real, que (no caso) se revelava mais onerosa. 4. Evidenciouse, todavia, a Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A não possuía empregados ou estrutura para desenvolver o objeto social a que se propunha, tratandose de empresa cuja existência se deu apenas no plano formal. 5. De acordo com o Relatório de Ação Fiscal (item 5, às fls. 2608 a 2612), os trabalhos tiveram início por meio de diligência na Federação dos Círculos Operários do Rio Grande do Sul (FCORS), para obtenção de informações sobre a venda de um terreno no Bairro Humaitá, de sua propriedade, para a construção da Arena do Grêmio Football Porto Alegrense. 6. Antes as particularidades do negócio, mormente ante afiguração da Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários como promitente compradora no respectivo contrato de promessa de compra e venda, foram adotadas as providências fiscais descritas nas fls. 2601 a 2603. 7. Verificouse que, o grupo OAS firmou acordo com o Grêmio Football Porto Alegrense para a construção de novo estádio1, e, de forma concomitante, condicionada à realização do empreendimento, assinou promessa de compra e venda de terreno, no bairro Humaitá, com a Federação dos Círculos Operários do Rio Grande do Sul (FCORS) 2. 8. Na sequência, a construtora OAS Ltda. firmou contrato com o Grêmio para construção e exploração do estádio, comprometendose a criar duas empresas: uma denominada "proprietária", incumbida de adquirir o terreno, desmembrálo e constituir direito real de superfície, sobre a parte destinada à construção do estádio, em favor da outra, denominada "superficiária", que receberia o direito de superfície e promoveria a construção e exploração do empreendimento (vide alínea "c" do tópico Cronologia das Operações, à fl. 2603). 1 Relatório de Ação Fiscal, fl.2603: a) Em 05/09/08, foi assinada uma "promessa de compra e venda de bem imóvel e outras avneças" (fl.19), entre a Federação dos Círculos Operários do Estado do RS (FCORS) e a Construtora OAS Ltda., tendo como objeto um terreno de 311.127,89 m² no Bairro Humaitá em Porto AlegreRS, matrícula 6.422 no Registro de Imóveis da 4ª Zona, para a construção da Arena do Grêmio Football Porto Alegrense e de empreendimentos residenciais e comerciais adjacentes ao estádio. 2 Às fls. 2603 a 2608 (Cronologia dos fatos), estão descritas, em ordem cronológica, de forma pormenorizada, todas as etapas relacionadas à consecução, ou dela decorrentes, do acordo firmado. Fl. 3209DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 5 4 9. A empresa "proprietária" veio a ser a Novo Humaitá, constituída pela OAS S/A (autuada) com o seguinte objeto: exploração de atividade de engenharia civil, compra, venda, locação e administração de e administração de receitas da concessão de superfície e participação em outras empresas. A outra empresa ("superficiária"), responsável pela construção da Arena, foi a Arena Porto Alegrense (vide alínea "d" do tópico Cronologia das Operações, fl. 2603). 10. Em 20/08/09 (fl. 606), a Nova Humaitá substituiu a Construtora OAS na promessa de compra e venda firmada com a FCORS, assumindo a dívida de R$ 40,7 milhões a ser paga em dinheiro, dação de imóveis e construção de duas escolas. 11. Em 22/12/10, ela assinou, conjuntamente com a FCORS, as escrituras públicas de compra e venda, pelo preço de R$ 33,8 milhões, ajustado por redução da área inicial e, de imediato, desfezse do terreno, transferindo parte para a OAS 26 (cisão do dia 27/12/10) e vendendo parte por R$ 160 milhões para a Karagounis Participações3 (28/12/10). Naquele momento, a FCORS só recebeu duas parcelas de aproximadamente R$ 1 milhão. 12. Desses R$ 160 milhões, R$ 10,7 milhões foram destinados ao pagamento de tributos, R$ 8 milhões foram pagos como dividendos para a OAS Empreendimentos, da qual a OAS S/A detém 99,99% das ações, R$ 102 milhões foram transferidos para a Arena Porto Alegrense, o que gerou "crédito com pessoas ligadas", que foi transferido, conjuntamente com R$ 35,5 milhões para a OAS S/A, em virtude da incorporação da Novo Humaitá, em 31/05/114. 13. A Novo Humaitá, todavia não reteve qualquer valor para a manutenção de suas atividades. Não permaneceu como proprietária de nenhum imóvel, não desenvolveu de fato a atividade de conceder direito de superfície e administrar receitas provenientes de concessão. Tampouco capitalizou os recursos repassados à Arena Porto Alegrense ou participou da empresa construtora dos imóveis a ser entregues em dação à FCORS. 14. Não subsistiu para completar a operação a que se propunha inicialmente, pois se desfez dos terrenos em 2010 e foi extinta em 2011, antes do final da construção da Arena, em 2012, quando deveria permutar o terreno do novo estádio com o terreno do estádio Olímpico. Desde a sua constituição, em fevereiro de 2009, até a sua incorporação pela OAS Engenharia e Participações5, em maio de 2011, não auferiu qualquer receita além dos R$ 160 milhões pela venda dos terrenos e das receitas financeiras decorrentes da aplicação dos recursos. 15. Nunca teve estrutura para suportar as obrigações assumidas com a FCORS (no momento de sua incorporação, restavam 90% da dívida e a obrigação foi assumida pela OAS S/A6) ou desenvolver qualquer atividade prevista no seu estatuto. As suas GFIPS 3 Relatório de Ação Fiscal, fl. 2611: O terreno residencial foi adquirido por R$ 8,8 milhões e vendido por R$ 60 milhões. Do terreno da Arena, adquirido por R$ 12,6 milhões, metade foi vendia por R$ 100 milhões. 4 Relatório de Ação Fiscal, fl. 2608: x) Em 31.05.11 a Novo Humaitá foi incorporada pela OAS Engenharia e Participações (fl.993). 5 Relatório de Ação fiscal, fl. 2600: Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A (CNPJ 10.938.773/0001 77): constituída em fev/09 pela OAS S/A(99%), passou para o controle da OAS Empreendimentos S/A em dez/10 (99%), e voltou a ser controlada pela OAS S/A em abril/11, sendo incorporada pela controladora em 31/05/11. 6 Relatório Fiscal, fl. 2611: Mas a empresa nunca teve estrutura para desenvolver seus objetivos, e não o fez. Na única operação que supostamente realizou, a compra e venda dos terrenos, 90% da dívida perante a FCORS foi assumida pela OAS S/A, e os recursos auferidos na venda, provenientes do Fundo FII, foram repassados também para a OAS S/A. Fl. 3210DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 6 5 foram apresentadas zeradas, desde a sua constituição até a sua incorporação (fl.1262), e na sua contabilidade não fora registrada qualquer despesa com pessoal. 16. Diante destas circunstâncias fáticoprobatórias, concluiuse que a Novo Humaitá teve existência apenas formal7. Quem comprou o terreno e efetuou a venda de parte dele para a Karagounis Participações foi a OAS S/A, que, diretamente ou por meio de suas controladas, constituiu, cindiu e incorporou empresas para alcançar os objetivos propostos pelo grupo OAS, que também se responsabilizou pelas obrigações de construir as escolas, através de sua controlada Construtora OAS e de terceirizadas, além de ter assumido quase a totalidade da dívida com a FCORS e de ser, por consequência lógica, a verdadeira beneficiária dos valores recebidos pela venda dos terrenos (Relatório de Ação Fiscal, fls. 2612). 17. Para facilitar a compreensão do caso, trago ao presente relato síntese da estrutura societária do Grupo OAS, bem como da cronologia dos fatos relevantes à análise do caso concreto. Estrutura Societária do Grupo OAS (fls. 2599/2600) 18. As operações descritas nesse relatório envolveram diversas empresas do Grupo OAS, cuja estrutura no período fiscalizado pode ser resumida da seguinte forma. A OAS S/A (fiscalizada), anteriormente denominada OAS Engenharia e Participações S/A, é controlada pela CMP Participações Ltda. (CNPJ 42.187.138/000191), com 90% do capital. A CMP pertence a Cesar de Araujo Mata Pires (CPF 056.377.24504), com 99% do capital social. 19. A OAS S/A, além de executar obras de engenharia, atua como holding do grupo, detendo 99% da OAS Empreendimentos S/A (CNPJ 06.324.922/000130), 99% da Construtora OAS Ltda. (CNPJ 14.310.577/000104) e 99% da OAS Investimentos S/A (CNPJ 07.584.023/000130), dentre outras participações. 20. As empresas do grupo constituídas para as operações vinculadas ao empreendimento da Arena e adjacências têm a seguinte estrutura societária: 7 Relatório Fiscal, fl. 2611: Os fatos demonstram que a participação da Novo Humaitá na operação não foi uma realidade, não podendo figurar no polo passivo da obrigação tributária. Tentou atrair indevidamente para si os efeitos tributários de um fato gerador do qual não participou efetivamente. Fl. 3211DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 7 6 · Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A (CNPJ 10.938.773/000177): constituída em fev/09 pela OAS S/A (99%), passou para o controle da OAS Empreendimentos S/A em dez/10 (99%), e voltou a ser controlada pela OAS S/A em abr/11, sendo incorporada pela controladora em 31/05/11. · Arena Porto Alegrense S/A (CNPJ 10.938.980/000121): constituída em fev/09 pela OAS S/A (99%), passando em dez/10 para a OAS Investimentos (99%) e em set/13 para a SPE Gestão e Exploração de Arenas Multiuso S/A (CNPJ 17.316.830/000125). · Karagounis Participações S/A (CNPJ 12.955.172/000106): constituída em out/10, pertence à OAS Empreendimentos S/A (20%) e ao Fundo de Investimento Imobiliário Caixa Desenvolvimento Imobiliário (80%), CNPJ 13.020.465/000156. · OAS 26 Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda. (CNPJ 13.017.278/000113): constituída em dez/10 pela OAS Empreendimentos S/A (99%). · Albízia Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda. (CNPJ 14.813.250/000155): constituída em set/11 pela Karagounis Participações (99%); · Acaua Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda. (CNPJ 15.038.597/000130): constituída em dez/11 pela Karagounis Participações (99%). Cronologia 05.09.2008 Assinada promessa de compra e venda entre a Construtora OAS e a FCORS (Federação dos Círculos Operários do RS) para aquisição de terreno no bairro Humaitá em Porto Alegre, Matrícula 6.422 no Registro de Imóveis da 4ª Zona (fls. 19); 18.12.2008 Firmado contrato entre a Construtora OAS e Grêmio de Football Porto Alegrense que previa uma série de obrigações, dentre as quais se destacam as seguintes, por serem importantes ao caso (fls. 568): I. A Construtora OAS construiria 2 (duas) SPEs para a concretização do contrato: a) 1 (uma) SPE designada como proprietária (que veio a ser Novo Humaitá) que deveria adquirir o terreno junto à FCORS, desmembrar a área total e construir direito de superfície sobre a parte do terreno destinada à construção da Arena Grêmio em favor da segunda SPE; b) 1 (uma) SPE designada como superficiária (que veio a ser a Arena Porto Alegrense) que construiria a Arena e seria responsável por sua exploração pelo prazo de 20 (vinte) anos; II. Após a construção da Arena, o terreno seria permutado com o Grêmio pelo imóvel do antigo Estádio Olímpico, mantendose os direitos de exploração da superficiária (Arena Porto Alegrense) pelo período contratual (20 anos) quando então a propriedade plena seria consolidada em favor do citado clube de futebol; 04.02.2009 Foram constituídas as SPEs i) Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S.A.; e ii) Arena Porto Alegrense. Ambas eram controladas diretamente pela OAS Engenharia e Participações, atual OAS S/A (com 99% do capital social) e possuíam objeto praticamente idêntico diferindo apenas na questão dos direitos de superfície; 20.08.2009 A construtora OAS cedeu à Novo Humaitá a posição contratual firmada com a FCORS e no dia seguinte a Novo Humaitá pagou a primeira parcela de R$ 1 Milhão à FCORS, Fl. 3212DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 8 7 com recursos aportados pela sua sócia majoritária, OAS Engenharia e Participações (atual OAS S/A); 15.01.2010 Novo Humaitá e Arena Porto Alegrense assumiram, propriamente, as condições de proprietária e superficiária no contrato firmado em 18.12.2008 com o Grêmio, por meio de aditivo contratual; 30.08.2010 A Arena Porto Alegrense assinou contrato com a Construtora OAS para a execução das obras da Arena (fls. 1.1663); 01.12.2010 A OAS Empreendimentos aumentou o capital da OAS Engenharia e Participações (atual OAS S/A) mediante conferência das ações da Novo Humaitá. 14.12.2010 Em cumprimento às Cláusulas 2.2 e 4.1 do contrato a Novo Humaitá desmembrou o imóvel Humaitá (Mat. 6.422) em 4 (quatro) matrículas distintas (i) Mat. 157.918 (Arena); (ii) Mat. 157.919 (Comercial); (iii) Mat. 157.920 (Residencial); e (iv) Mat. 157.921 (adjacentes); 15.12.2010 A OAS Empreendimentos constitui a SPE OAS 26 Empreendimentos Imobiliários (contrato social fls. 1.349); 20.12.2010 A OAS Empreendimentos adquire Karagounis (fls. 2.586); 22.12.2010 Novo Humaitá e FCORS assinaram as escrituras públicas de compra e venda dos imóveis desmembrados do Imóvel Humaitá (Mat. 6.422) da seguinte forma: I. 79,18% da Arena (Mat. 157.918), por R$ 12.667.167,45; II. 100% do Comercial (Mat. 157.919) por R$ 12.346.928,05; e III. 100% do Residencial (Mat. 157.920) por R$ 8.883.818,71; Dez/2010 A Novo Humaitá pagou outra parcela de R$ 1 Milhão à FCORS e mais R$ 1,7 Milhão de ITBI; 27.12.2010 Houve a cisão parcial da Novo Humaitá da seguinte forma: I. OAS 26 recebeu 52,67% da Arena e 100% do Comercial; II. OAS 26 assumiu R$ 20,4 Milhões da dívida com a FCORS (posteriormente parte da dívida – R$ 16,5 Milhões – foi assumida pela OAS S.A.); III. Restaram na Novo Humaitá 100% do Residencial e 47,33% da Arena, além do passivo restante de R$ 16 milhões a pagar ao FCORS. 27.12.2010 A OAS Empreendimentos e o FIIFGTS firmaram acordo de investimento em que o FIIFGTS passou a deter 80% da Karagounis; 28.12.2020 A Novo Humaitá firmou contrato de compra e venda (fls. 915) com a Karagounis por meio do qual lhe transferiu os terrenos indicados acima (100% do Residencial e 47,33% da Arena) pelo valor de R$ 160 Milhões, mais uma parcela posterior de R$ 17,7 Milhões. Essa operação foi tributada pela Novo Humaitá no 4º Trimestre de 2010, pelo lucro presumido Fl. 3213DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 9 8 (percentual de 8%) (fls. 1.128). Os valores recebidos pela Novo Humaitá tiveram a seguinte destinação: I. R$ 10,7 Milhões de tributos sobre venda (fls. 1.097); II. R$ 8 Milhões para pagamentos de dividendos; III. R$ 102 Milhões repassados para a SPE Arena Porto Alegrense (AFAC, depois reclassificado para “crédito com pessoa ligada”); IV. R$ 35 Milhões mantidos em caixa. Fev/2011 A Novo Humaitá realizou diversos pagamentos à Epplan Construtora para a construção da nova sede da Escola Oswaldo Vergara (fls. 1.115), obrigação assumida pelo contrato de aquisição do imóvel Humaitá 01.04.2011 A OAS Empreendimentos vendeu sua participação na Novo Humaitá para a OAS Engenharia e Participações (atual OAS S/A) por R$ 145 Milhões (fls. 936); 25.04.2011 Lavrada a escritura pública de compra e venda da área Residencial (fls. 922); 11.05.2011 Lavrada a escritura pública de compra e venda da Arena (fls. 928); 31.05.2011 A Novo Humaitá foi incorporada pela OAS Engenharia e Participações (atual OAS S/A) (fls. 993 e seguintes); 30.07.2011 A OAS S/A assumiu R$ 16,5 Milhões da dívida da OAS 26 com a FCORS (fls. 429); 01.12.2011 Karagounis e OAS 26 concederam o direito de superfície à Arena Porto Alegrense (fls. 1.705). Da Impugnação 21. A contribuinte apresentou Impugnação (fls. 2621/2654), contrapondose, em síntese: 21.1. A constituição da Novo Humaitá não teria sido opcional, "mas sim mandatória", por expressa determinação contratual (vide fls. 2625 e 2626)8. No mais, seu escopo seria comum à atividade imobiliária9, "evitar que os imóveis e direitos reais objeto da 8 Impugnação, fl. 2638: Além de mandatória, a constituição da Novo Humaitá constituia condição preliminar à transferência do Imóvel da Azenha para a OAS. 9 Impugnação, fl. 2638: Por exemplo, é muito comum que as grandes empresas do mercado imobiliário optem por constituírem patrimônio de afetação para a exploração de determinado empreendimento imobiliário. Com isso, evitase que as dívidas e passivos oriundos de outros empreendimentos afetem o patrimônio afetado, uma vez que os riscos do negócio ficam atrelados única e exclusivamente aos ativos e passivos objetos do empreendimento afetado. Não há dúvidas de que o mesmo raciocínio se aplica à sociedades com propósitos específicos, também amplamente utilizadas pelas empresas do mercado imobiliário. A única diferença com relação ao patrimônio de afetação reside no fato de que as SPEs possuem personalidade jurídica. Fl. 3214DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 10 9 transação fossem onerados por dívidas oriundas de outras operações das empresas envolvidas no projeto que resultou na construção da Arena"10. 21.2. Em vista do propósito pela qual foi constituída, seria absolutamente compreensível que a Novo Humaitá não possuísse, à época dos fatos, estrutura e empregados próprios. A partir da definição do caminho para a exploração dos imóveis, e ela conseguisse angariar recursos financeiros, parceiros e outros elementos essenciais à exploração dos imóveis, "é claro que haveria então necessidade da contratação de empregados e o desenvolvimento de uma estrutura adequada" (fl. 2642) 11. 21.3. Não prevaleceria a afirmação de que ela não desenvolveu qualquer atividade prevista no seu estatuto, vez que foi a Novo Humaitá quem teria comprado e vendido o imóvel em discussão. Além do que, não haveria no nosso ordenamento jurídico qualquer disposição "obrigando as sociedades a realizarem todas as atividades previstas no seu objeto social" (fl. 2643). 21.4. A Construtora OAS, que assinou o "Instrumento Particular" com o Grêmio, não atuaria na área de incorporação imobiliária, mas apenas na área de engenharia e construção civil, de modo que não fazia sentido manter os imóveis em seu nome12. 10 Segundo a impugnação, em 18 de dezembro de 2008, a Construtora OAS Ltda. e o Grêmio Football Porto Alegrense celebraram instrumento particular de contrato para a aquisição de imóveis, assunção de obrigação de construção e outras avenças, pelo qual definiram os direitos e obrigações de cada parte no projeto para a construção de uma nova Arena que atendesse aos padrões da FIFA. A Construtora se responsabilizou por constituir uma sociedade com o propósito específico de adquirir o imóvel Humaitá, destacar a parte relativa à construção da Arena e constituir direito real de superfície sobre ela ("proprietária); e outra, com o propósito específico de receber o direito de superfície, promover a construção da Arena, explorála por vinte anos ("superficiária") e, ao final deste período, transferir o direito real de superfície ao Grêmio, que se comprometera a transmitir à proprietária os direitos sobre os imóveis da Azenha (Estado Olímpico), tão logo constituídas a Proprietária e a Superficiária. Impugnação, fl.2642: A finalidade principal de sua constituição era, no curto prazo, conforme acima destacado, evitar que o projeto de construção da Arena pudesse ser afetado pelas dívidas e passivos oriundos das atividades da Construtora OAS e facilitar, no contexto de uma obra de infraestrutura que demanda investimentos consideráveis, a obtenção de financiamento, na modalidade projecto finance, pela Arena Porto Alegrense. A segregação da propriedade do imóvel se justificaria, sob a perspectiva do Grêmio e dos credores, "na medida em que no dia 31 de março de 2015, a OAS S.A. , ora impugnante, apresentou pedido de recuperação judicial em nome dela e das seguintes sociedades: Construtora OAS S.A; OAS Empreendimentos S.A. SPE Gestão e Exploração de Arenas Multiuso S.A; OAS Infraestrutura S.A; OAS Imóveis S.A; OAS Investimentos Gmbh; OAS Investimentos Limited; OAS Finance Limited; e OAS Investimentos S.A." 11 Impugnação, fl: 2650: Diferentemente, a Novo Humaitá prescindia de estrutura robusta para a fase inicial do projeto, que abrangeu os seguintes atos/objetivos: (i) aquisição do Imóvel Humaitá; (ii) desmembramento do Imóvel Humaitá; (iii) isolamento dos riscos envolvidos para facilitar o financiamento, na modalidade project finance, pela Arena Porto Alegrense, e proteger o Grêmio de eventuais dívidas e passivos contraídos pela Construtora OAS em outras atividades; (iv) constituição do direito de superfície; e preparação dos imóveis para a fase de exploração. Apenas na segunda fase, que envolveria a exploração dos imóveis, seria necessário que a Novo Humaitá possuísse estrutura e equipe próprias. Tal fase, no entanto não foi realizada pela Novo Humaitá em virtude do surgimento do interesse de segregação dos recebíveis da venda do Imóvel Residencial ds atividades a serem desenvolvidas no imóvel comercial. 12 Impugnação, fls. 2629 e 2630: Neste contexto, foram constituídas, no dia 04 de fevereiro de 2009, a Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários, na condição de Proprietária, e a Arena porto Alegrense S.A., na condição de Superficiária (docs 07 e 08). Em 20 de agosto de 2009 a Construtora OAS cedeu à Novo Humaitá, a título gratuito, sua posição contratual no instrumento de Promessa de Compra e Venda do Imóvel Humaitá ("Promessa de Compra e Venda") que havia sido celebrado com a Federação dos Círculos Operários do estado do Rio Grande do Sul ("FCORS") no dia 05 de setembro de 2008 (doc 09). Fl. 3215DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 11 10 21.5. Tanto a Arena Porto Alegrense como a Novo Humaitá teriam praticado todos os atos necessários ao cumprimento do "Instrumento Particular" e de seu objeto social. A novo Humaitá por certo iria desenvolver a atividade de exploração dos imóveis, via venda, incorporação imobiliária etc., mas surgiu investidor interessado em 80% do imóvel residencial (Karagounis) 13, o que a levou a trilhar caminho diverso, mas igualmente legítimo14. 21.6. A defesa sustenta que não há dúvidas de que a constituição da Novo Humaitá teve propósitos negociais diversos da economia tributária. O seu próprio objeto social teria como finalidade "preparar o empreendimento para o futuro ingresso de investidores e parceiros." 21.7. A alienação do terreno residencial para a Karagounis e a cisão da Novo Humaitá, com a transferência do terreno Comercial para a OAS 26, não fariam parte de planejamento tributário. A alienação do imóvel residencial à Karagounis teria causado "a duplicação de tributos se comparada com a estrutura inicialmente prevista"15. A cisão da Novo Humaitá teria atraído a incidência do ITBI, à alíquota de 3%. 21.8. Diante da "inaplicabilidade ou eficácia limitada" do parágrafo único do artigo 116 do CTN, a desconsideração de atos praticados pelos contribuintes só poderia ocorrer "em caso de haver ilicitudes tais como simulação ou fraude", o que sequer teria sido cogitado pela fiscalização. 21.9. Ainda que se admita a desconsideração da existência da Novo Humaitá e das operações por ela praticadas, "no projeto que resultou na construção da Arena, os ganhos deveriam ser atribuídos à entidade que celebrou o contrato com terceiros", de maneira que o auto de infração deveria ter sido lavrado contra a Construtora OAS e não contra a OAS S/A (Holding). 21.10. O PIS e a Cofins recolhidos pela Novo Humaitá deveriam ter sido compensados com o IRPJ e a CSLL formalizados por meio do lançamento. 22. Em sessão de 29 de agosto de 2016, a 3ª Turma da DRJ/REC, por unanimidade de votos, considerou improcedente a Impugnação (fls. 2621/2654), para manter Posteriormente, em 15 de janeiro de 2010, a Construtora OAS transferiu integralmente para a Novo Humaitá, na condição de proprietária, e para a Arena Porto Alegrense S.A., na condição de Superficiária, os direitos e obrigações decorrentes deste Instrumento Particular (docs. 10 e 11). 13 Impugnação, fl: 2644: Se houve desvio de curso para acomodar o invetimento do FIIFGTS (o qual como visto exigiu a venda do imóvel residencial, de um lado, e a cisão do Imóvel comercial para segregálo dos recebíveis decorrentes da venda do imóvel Residencial, de outro), não se pode admitir a distorção dos fatos pretendia pela fiscalização para penalizar o contribuinte. 14 Segundo a impugnação, em decorrência dessa negociação, o grupo OAS optou por cindir parcialmente a Novo Humaitá, transferindo para a OAS 26 Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda., acervo cindido composto por 52,67% do Imóvel da Arena, 100% do Imóvel Comercial e parte do passivo decorrente da aquisição do imóvel originariamente adquirido da FCORS. A OAS 26 teria sucedido a Nova Humaitá na condição de empresa proprietária, "sem que tal transação tivesse qualquer objetivo de planejamento tributário". Como não mais haveria razões econômicas ou empresariais para manutenção da Novo Humaitá, ela foi incorporada. 15 Impugnação, fl:2645: De fato, a Novo Humaitá pagou IRPJ/CSLL/PIS e Cofins sob regime do lucro presumido e posteriormente a Karagounis (que embora tivesse 80% do seu capital detido pelo FIIFGTS, também fazia parte do grupo OAS, que detinha os 20% restantes) certamente enfrentou ou enfrentará nova tributação pelo lucro presumido ou pelo RET quando da venda das unidades imobiliárias construídas (sem que os tributos pagos pela Novo Humaitá gerem créditos ou deduções). Além disso a alienação atraiu o ITBI de 3% da cidade de Porto Alegre. Fl. 3216DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 12 11 integralmente o crédito tributário, nos termos do voto relator, Acórdão nº 1153.084 (fls. 3113/3125), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo, verbis: “ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2010 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. NECESSIDADE. O contribuinte que paga tributo indevido ou a maior do que o devido tem direito de solicitar a restituição do indébito ou sua utilização na compensação de débitos próprios vencidos ou vincendos, relativos a tributos sob administração da RFB. A prerrogativa entretanto não prescinde de procedimento específico, que se dá por meio de apresentação de PER/DCOMP.” “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Anocalendário: 2010 INTERPOSTA PESSOA. GANHO DE CAPITAL. TRIBUTAÇÃO. PESSOA JURÍDICA. PARTICIPAÇÃO NO NEGÓCIO. Uma vez verificado o ganho de capital decorrente de alienação de bens é atribuído a interposta pessoa, que com efeito não reunia condições para obtêlo, devese constituir o respectivo crédito contra a pessoa jurídica que efetivamente participou da negociação.” “ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2010 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” 23. Cientificada da decisão (Termo de Ciência por Abertura de Mensagem (DTE) de 25/11/2016, fls. 3135), a Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls. 3137/3170) em 20/12/2016, reiterando as razões já expostas em sede de Impugnação (fls. 2621/2654, com preliminares de nulidade do auto de infração) e, ao final, requer que o acórdão proferido pela DRJ seja integralmente reformado, cancelandose o crédito tributário constituído pela fiscalização e objeto do processo administrativo em epígrafe e, alternativamente, caso o acórdão proferido pela DRJ não seja integralmente reformado, requer sejam os valores recolhidos à título do PIS e da COFINS pela Novo Humaitá deduzidos do IRPJ e da CSLL cobrados da Recorrente. Fl. 3217DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 13 12 24. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões ao Recurso Voluntário (fls. 3178/3205), nas quais reforçou as questões fáticoprobatórias trazidas pelas autoridades fiscais para que seja mantido o acórdão proferido pela E. Delegacia de Julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Gisele Barra Bossa, Relatora 25. O recurso é tempestivo e cumpre os demais requisitos legais de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento e passo a apreciar. 26. No caso concreto, a Recorrente desenvolve seus argumentos de defesa alicerçada em três pontos centrais: (i) ausência de capitulação legal e motivação hábil a justificar a autuação em face da OAS S/A inexistência de fraude, dolo ou simulação; (ii) erro na determinação do sujeito passivo; e (iii) da existência de atividade substancial na Novo Humaitá. 27. Passemos a analisar cada uma dessas questões preliminares que são reforçadas quando analisadas conjuntamente com as questões de mérito, em observância ao disposto no artigo 59, §3º, do Decreto nº 70.235/7216. I. Premissa técnica: Distinção entre vício formal e vício material do lançamento fiscal 28. Inicialmente, cumpre trazer ponderações técnicas acerca do exato conceito de vício formal do lançamento fiscal e diferenciálo de eventual vício material, por serem imprescindíveis para o desenrolar do presente julgamento. 29. O vício formal existe quando inobservada alguma formalidade essencial do lançamento tributário. O erro deve ser considerado formal quando concernente a elemento externo ao crédito tributário e intrínseco ao ato administrativo de lançamento tributário. O vício formal alcança a eficácia do lançamento tributário, mas não a validade ou a existência do crédito tributário. 30. E é exatamente por essa razão que o CTN prevê em seu artigo 173, inciso II, novo prazo de cinco anos para dar eficácia ao crédito que ainda possa ser válido, contado da decisão que anulou a eficácia do lançamento. Isso se dá através da elaboração de novo auto de infração eficaz à cobrança do crédito. 16 “Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou compreterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta.” Fl. 3218DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 14 13 31. Segundo De Plácido e Silva17: "Vício de Forma. É o defeito, ou a falta, que se anota em um ato jurídico, ou no instrumento, em que se materializou, pela omissão de requisito, ou desatenção à solenidade, que se prescreve como necessária à sua validade ou eficácia jurídica", e ainda: "Formalidade Derivado de forma (do latim formalitas), significa a regra, solenidade ou prescrição legal, indicativas da maneira por que o ato deve ser formado". 32. Nessa linha, relevante trazer a leitura que faz o Prof. Ives Gandra Martins acerca da previsão do artigo 173, inciso II do CTN: “Entendemos que a solução do legislador não foi feliz, pois deu para a hipótese excessiva elasticidade a beneficiar o Erário no seu próprio erro. Premiou a imperícia, a negligência ou a omissão governamental, estendendo o prazo de decadência. A nosso ver, contudo, sem criar uma interrupção(…). Devemos compreender, porém, o artigo no espírito que norteia todo o Código Tributário, que considera créditos tributários definitivamente constituídos aqueles que se exteriorizem por um lançamento, o qual pode ser modificado, constituindo um novo crédito tributário. Ora, o que fez o legislador foi permitir um novo lançamento não formalmente viciado sobre obrigação tributária já definida no primeiro lançamento mal elaborado. Pretendeu, com um prazo suplementar, beneficiar a Fazenda a ter seu direito à constituição do crédito tributário restabelecido, eis que claramente conhecida a obrigação tributária por parte dos sujeitos ativo e passivo. Beneficiou o culpado, de forma injusta, a nosso ver, mas tendendo a preservar para a hipótese de um direito já previamente qualificado, mas inexequível pelo vício formal detectado” 33. Do exposto, podemos considerar como exemplos de vício formal as seguintes situações: 33.1. Ausência de elementos obrigatórios no auto de infração que ausentes, impedem o exercício da ampla defesa pelo contribuinte; 33.2. Erro de grafia na identificação do sujeito passivo; e 33.3. Solicitação de informações pela fiscalização à pessoa equivocada; 34. Adicionalmente, vale referenciar a Solução de Consulta Interna Cosit nº 8/2013 acerca do que seja vício formal, verbis: "8. O vício formal ocorre no instrumento de lançamento (atofato administrativo). É quando o produto do lançamento está corretamente direcionado ao sujeito passivo, ou seja, está correto o critério pessoal da regramatriz de incidência. Contudo, há erro formal no instrumento de lançamento (auto de infração ou notificação de lançamento) que tem o condão de prejudicar o direito de defesa do autuado ou notificado. São os atos considerados anuláveis." 17 SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1982, v. II e IV. Fl. 3219DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 15 14 35. A mencionada Solução de Consulta avança então para o conceito de erro material: " 10. Falta analisar a situação em que o erro na identificação do sujeito passivo é um vício material. Se o vício formal decorre do erro de fato, o material decorre do erro de direito. No conceito de Paulo de Barros de Carvalho: Já o erro de direito é também um problema de ordem semântica, mas envolvendo enunciados de normas jurídicas diferentes, caracterizandose como um descompasso de feição externa, internormativa. (...) Quer os elementos do fato jurídico tributário, no antecedente, quer os elementos da relação obrigacional, no consequente, quer ambos, podem, perfeitamente, estar em desalinho com os enunciados da hipótese ou da conseqüência da regramatriz do tributo, acrescendose, naturalmente, a possibilidade de inadequação com outras normas gerais e abstratas, que não a regrapadrão de incidência. (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 486). 10.1. No erro de direito há incorreção no cotejo entre a norma tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário em um dos elementos do consequente da regramatriz de incidência, qual seja, o pessoal. Há erro no atonorma. É vício material e, portanto, impossível de ser convalidado. 10.2. Desse modo, o erro na interpretação da regramatriz de incidência no que concerne ao sujeito passivo da obrigação tributária (o que inclui tanto o contribuinte como o responsável tributário) gera um lançamento nulo por vício material, não se aplicando a regra especial de contagem do prazo decadencial do art. 173, II, do CTN.(nossos grifos) 36. Pela leitura deste trecho da consulta é possível observar que o conceito de vício material, no âmbito do lançamento tributário, se refere à matéria tributada pela fiscalização. O vício material diz respeito à própria obrigação tributária e não aos requisitos formais exigidos em lei para o válido lançamento tributário. 37. Envolve questões relacionadas com a interpretação das normas jurídicas aplicáveis, situações fáticas consideradas (motivação do lançamento), matéria tributável, dentre outras. Assim, quando o auto de infração se mostra insubsistente em razão de erro relacionado à um dos aspectos da hipótese de incidência (pessoal, material, espacial, temporal e quantitativo), estamos diante de erro de natureza material. II. Da Existência de Nulidades Materiais no Caso Concreto II.1. Da capitulação legal do lançamento e da inexistência de fraude dolo e simulação hábil a justificar a autuação em face da OAS S/A Fl. 3220DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 16 15 38. Em análise à capitulação legal constante dos lançamentos, verifico que a autuação fiscal foi fundamentada nos seguintes dispositivos: IRPJ (fls. 2588), artigo 3º, da Lei nº 9.249/95 e artigos 247, 248 e 418 do RIR/99; e CSLL (fls. 2594), artigo 2º, da Lei nº 7.689/88, com as alterações introduzidas pelo artigo 2º da Lei nº 8.034/90, artigo 57, da Lei nº 8.981, com as alterações do artigo 1º, da Lei nº 9.065/95, artigo 2º, da Lei nº 9.249/95; artigo 1º da Lei nº 9.316/96; artigo 28 da Lei nº 9.430/96 e artigo 3º, da Lei nº 7.689/88, com redação dada pelo artigo 17 da Lei nº 11.727/08. 39. No mais, foi aplicada multa de ofício de 75%, com fundamento no artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96 com a redação dada pelo artigo 14 da Lei nº 11.488/07. 40. Notase que, todos os dispositivos legais apontados nos autos de infração são referentes à apuração do IRPJ e CSLL de forma genérica. Quanto ao IRPJ, tais os normativos versam sobre o conceito de lucro real, conceito de lucro líquido e escrituração contábil para fins de determinação do lucro real tributável. A douta fiscalização não faz uma clara relação lógica entre os dispositivos utilizados para fundamentar a autuação e os fatos por ela descritos na presente autuação, o que, de plano, já ensejaria o cancelamento da presente autuação. 41. Em relação à CSLL, os dispositivos citados tratam igualmente de regras apenas gerais, ora disciplinando a apuração da base de cálculo que de forma geral deve seguir o IRPJ , ora estabelecendo alíquotas, mas sem que nenhum deles se relacione, nem mesmo indiretamente, aos fatos descritos nesta autuação. 42. O dispositivo mais específico é o artigo 418 do RIR18 que trata do ganho de capital na alienação de imóveis do ativo permanente. Contudo, os imóveis foram adquiridos já com a destinação de posterior revenda e, portanto, desde sempre foram classificados no ativo circulante, mais especificamente na conta de estoque de imóveis, o que afasta a pretensão de apuração de ganho de capital, na linha dos precedentes desse CARF e da SC Cosit nº 254/2014 que serão citados e comentados mais adiante. 43. Vejam que o Decreto nº 70.235/72, em seu artigo 10, estabelece que o auto de infração será lavrado por autoridade competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: (i) a qualificação do autuado; (ii) o local, a data e a hora da lavratura; (iii) a descrição do fato; (iv) a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; (v) a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de 30 (trinta) dias; e (vi) a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. 44. Por sua vez, o artigo 50, parágrafo 1º, da Lei nº 9.784/99, determina que o auto de infração deve descrever, detalhadamente, os motivos de fato e de direito que embasam a autuação, sendo que a motivação deve ser explícita, clara e congruente, ou seja, devem ser referenciadas as normas legais infringidas pelo contribuinte no caso concreto. 45. Como se vê, em lugar de motivar a presente autuação com a indicação das específicas normas tributárias e respectivas penalidades que teriam sido supostamente infringidas pela Recorrente, explicando as suas alegações de modo claro, a douta fiscalização 18 Art. 418. Serão classificados como ganhos ou perdas de capital, e computados na determinação do lucro real, os resultados na alienação, na desapropriação, na baixa por perecimento, extinção, desgaste, obsolescência ou exaustão, ou na liquidação de bens do ativo permanente. Fl. 3221DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 17 16 limitouse a listar um apanhado de normas tributárias, sem estabelecer a necessária relação entre seus respectivos conteúdos e os fatos que originaram o presente processo administrativo. 46. Em nenhum momento houve acusação por parte da autoridade lançadora de que teria ocorrido algum tipo de fraude, dolo ou simulação hábil a justificar a autuação em face da OAS S/A (holding, controladora) ao invés da Novo Humaitá ou, forçosamente, da Construtora OAS Ltda (Contrato entre a Construtora OAS Ltda e o Grêmio Football Porto Alegrense, que previa a obrigação da Construtora OAS de constituir duas SPEs, sendo uma dela a Novo Humaitá). 47. Ressaltese que, sequer a multa qualificada de 150% foi aplicada, prevista no inciso II do artigo 44 da Lei nº 9.430/96. Apenas nessas situações se poderia cogitar a completa desconsideração dos atos validamente praticados, como estabelece o artigo 149, inciso VII, do CTN19, verbis: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: (...) VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação. 48. A partir da previsão supra, evidenciase que as figuras do dolo, fraude ou simulação (figuras evasiva e não elisivas) estão previstas no Código Tributário Nacional e têm aplicação imediata. Trago esse argumento, justamente porque tal previsão sequer constou dos autos de infração em análise. 49. Como pode a autoridade fiscal, sem motivar o auto de infração, lançar crédito tributário de IRPJ e CSLL baseado na ausência de propósito negocial e/ou substância na constituição da empresa Novo Humaitá? 50. Não há a devida capitulação legal, a respectiva aplicação de penalidades, tampouco motivação técnica alinhada às circunstâncias fáticoprobatórias hábeis a legitimar o lançamento tributário. A teoria do propósito negocial e a teoria da substância econômica (antielisão) sequer encontram amparo legal no ordenamento brasileiro. 51. Cumpre esclarecer que, cito o artigo 149, inciso VII, do CTN, por considerar que o parágrafo único do artigo 116, do CTN20 não é autoaplicável, mas depende de regulamentação por lei ordinária, a qual não ocorreu até o presente momento. 52. No anocalendário de 2002, houve tentativa de regulamentação do citado dispositivo por meio dos artigos 13 e 14, da Medida Provisória nº 66/2002. 19 Relevante estudo sobre as figuras da evasão, elisão e elusão fiscal, bem como acerca da aplicação do parágrafo único do artigo 116, do CTN (eficácia limitada) e do artigo 149, VII, do CTN em: NISHIOKA, Alexandre Naoki. Planejamento Fiscal e Elusão Tributária na Constituição e Gestão de Sociedades: Os limites da requalificação dos atos e negócio jurídicos pela Administração. Tese apresentada à Banca Examinadora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutor em Direito Econômico e Financeiro. Disponível em: https://bit.ly/2HqNq8b. Acesso em: 31/03/2018. 20 Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: (...) Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. Fl. 3222DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 18 17 53. A redação proposta para citados artigos era no sentido de que a desconsideração de ato ou negócio jurídico poderia ser feita se fosse verificada a "falta de propósito negocial ou abuso de forma". Entretanto, essa tentativa de regulamentação não logrou êxito, pois os respectivos artigos da MP 66/2002 foram excluídos quando da sua conversão na Lei nº 10.637/2002. 54. O objetivo do parágrafo único do artigo 116, do CTN é introduzir no sistema tributário nacional a possibilidade de as autoridades fiscais desconsiderarem determinadas condutas dentro de circunstâncias específicas a serem dispostas por meio de norma regulamentadora que, conforme consignado, não existe. 55. E, por mais que as autoridades fiscais tentem aplicar o citado parágrafo único do artigo 116, do CTN, a chamada "teoria da substância econômica", o entendimento uníssono na doutrina e jurisprudência atuais é o de que o referido dispositivo permanece sem efeitos e não pode ser aplicado a nenhum caso concreto até que sobrevenha a referida regulamentação por lei ordinária. Nesse sentido, já se manifestou a própria Receita Federal do Brasil: "Desconsideração de Atos e Negócios Jurídicos O parágrafo único do art. 116 do CTN, com redação dada pela Lei Complementar nº 104/2001, possui eficácia limitada, sendo imprescindível para sua eficácia plena a entrada em vigor de lei integrativa". (Decisão nº 3.310; 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora/MG; sessão de 27/03/2003). No mesmo sentido já se posicionou o antigo Conselho de Contribuintes: "IPI. DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS. O dispositivo previsto no parágrafo único do art. 116 do CTN, com a redação dada pela LC nº 104/2001, reveste se de eficácia limitada, ou seja, dependia, à época da ocorrência dos fatos geradores alcançados pelo lançamento de ofício, da existência de norma integradora que lhe garantisse eficácia plena. Inexistente esta à época dos fatos, o lançamento padece da falta de suporte legal para sua validade e eficácia." (Acórdão nº 20216.959, da antiga 2ª Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes; Rel. Cons. Maria Cristina Roza da Costa; sessão de 28/03/2006). 56. O Poder Judiciário já se externou opinião acerca inaplicabilidade da interpretação visada pela d. fiscalização no presente caso. Devido à eficácia limitada do parágrafo único do artigo 116 do CTN, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região proferiu a seguinte decisão: "TRIBUTÁRIO. ELISÃO. EVASÃO. SIMULAÇÃO. PRESCRIÇÃO. (...) 4. Malgrado toda a discussão doutrinária acerca da aplicação da teoria econômica à elisão fiscal, o art. 116 do CTN não se aplica ao caso dos autos. É que o auto de infração se baseou no artigo 149 do CTN, isto é, na existência de simulação. Independentemente de ser considerada e aplicada com uma norma antielisiva, o Fl. 3223DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 19 18 art. 116 do CTN somente teria uma posição subsidiária no contexto da lide. Explico. O art. 149 do CTN é específico e taxativo ao prever os casos de evasão (dolo, simulação ou fraude). E tudo o que não se subsumir no art. 149 do CTN deve ser considerado elisão, isto até que o art. 116 do CTN (que não é autoaplicável) venha a ser regulamentado com outras vedações." (TRF 4ª Região, 2ª Turma, Apelação Cível nº 2006.72.04.0043638, Rel. Des. Vânia Hack de Almeida; sessão de 19/08/2008). 57. Portanto, neste caso concreto caberia, em havendo conduta fraudulenta, dolosa ou simulatória (evasão fiscal), a aplicação e motivação fáticoprobatória à luz do artigo 149, inciso VII, do CTN, o que não ocorreu. 58. No mais, a suposta alegação de abuso de direito (ausente no auto de infração e incluída mediante inovação da DRJ de origem) não poderia embasar a autuação, sem que houvesse a imputação de qualquer ilícito (digase, fraude ou simulação). 59. Observese que, houve nestes autos, efetiva mudança de critério jurídico, diferente do que constou do auto de infração, a DRJ fundamentou sua decisão na ocorrência de abuso de direito. Em outros termos, alterouse não só a percepção do fato, mas o fato em si, em prejuízo para o contribuinte, vez que a autuação não foi devidamente fundamentada. 60. Tal conduta, claramente viola o preceito contido no artigo 146, do CTN, verbis: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. 61. A própria CSRF, proíbe a mudança de critério jurídico após a impugnação. Confirase: AUTO DE INFRAÇÃO. ALTERAÇÃO PELA DECISÃO DE 1ª INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. MUDANÇA DO CRITÉRIO JURÍDICO. ART. 146 DO CTN. SEGURANÇA JURÍDICA. PROTEÇÃO DA CONFIANÇA. A modificação de critério jurídico adotado pela autoridade tributária no exercício do lançamento, pela autoridade julgadora de primeira instância não é possível, ainda que se resulte em valores inferiores àquele originalmente lançado. A utilização de outro critério, diferente daquele originalmente utilizado, para a apuração do valor tributável mínimo do IPI, efetuado após diligência solicitada pela autoridade julgadora, configurase como mudança de critério jurídico, que somente produzirá efeitos para fatos futuros, conforme disposto no artigo 146 do CTN. (Acórdão nº 9303004.627, da 3ª Turma da CSRF; Rel. Cons. Rodrigo da Costa Pôssas; sessão de 14/02/2017). Fl. 3224DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 20 19 62. Por mais esse aspecto, a nulidade da autuação é flagrante. 63. Mas, não é só. Dando continuidade a análise, a partir da própria descrição dos fatos constantes do presente relatório, evidencio a total impossibilidade de a OAS S/A figurar como sujeito passivo do presente processo administrativo. II. 2. Do erro na determinação do sujeito passivo 64. Considero que a fiscalização não poderia ter lavrado o auto de infração contra a Recorrente. Em suas conclusões considerou que: “a participação da Novo Humaitá na operação não foi uma realidade, não podendo figurar no polo passivo da obrigação tributária” e determinou que “quem deveria arcar com a tributação do ganho auferido na operação seria a OAS S.A. que, diretamente, ou através de suas controladas, constituiu, cindiu e incorporou empresas para alcançar os objetivos propostos pelo grupo OAS.” 65. Ainda que, forçosamente, se admita a desconsideração da existência da Novo Humaitá e das transações por ela praticadas, os ganhos deveriam ser atribuídos à entidade que celebrou o contrato com terceiros. 66. Neste caso, o auto de infração deveria ter sido lavrado contra a Construtora OAS Ltda e não contra a Recorrente (OAS S/A, holding do grupo). 67. Ressaltese inclusive que, tanto a fiscalização como a DRJ não fundamentaram a manutenção do crédito tributário em face da OAS S/A como decorrência da solidariedade e/ou responsabilidade tributária de que tratam os artigos 121 e seguintes do CTN. Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. 68. Em outras palavras, o direcionamento do débito para a Recorrente resulta unicamente da mecânica da desconsideração da existência da Novo Humaitá e dos atos por ela praticados. Desta forma, se a Novo Humaitá deve ser desconsiderada, também devem ser desconsiderados todos atos por ela praticados, a começar pela cessão dos direitos e obrigações do Instrumento Particular da Construtora OAS Ltda para a Novo Humaitá. 69. Neste sentido, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“CARF”) já se pronunciou em mais de uma oportunidade: OMISSÃO DE RENDIMENTOS NA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do Fl. 3225DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 21 20 beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção (Súmula CARF n. 18). SIMULAÇÃO DE NEGÓCIOS. SUBSTÂNCIA DOS ATOS. Verificase a simulação quando a exteriorização dos atos praticados revela incoerência com os institutos de direito privado adotados e o contribuinte não vivencia as conseqüências e ônus das formas jurídicas por ele escolhidas. SIMULAÇÃO RELATIVA. EFEITOS DA DESCONSIDERAÇÃO. Caracterizada a simulação relativa devem ser considerados em sua plenitude os efeitos tributários dos atos que se pretendeu esconder e desconsiderados em sua plenitude os efeitos dos atos aparentes/simulados, sejam eles favoráveis ou desfavoráveis ao contribuinte. (Acórdão nº 2202000.586, da 2ª Câmara, da 1ª Turma Ordinária da 2ª Seção de Julgamento; Rel. Gustavo Lian Haddad; sessão de 17/06/2010) 70. Caso se entenda, pela suposta falta de propósito negocial e de estrutura, que a Novo Humaitá sequer existiu, devem ser desconsiderados todos os atos por ela ou com ela praticados, sejam eles favoráveis ou desfavoráveis ao contribuinte. 71. Desta forma, os ganhos relativos à compra e venda do Imóvel Residencial para a Karagounis deveriam ter sido atribuídos pela fiscalização à entidade que celebrou o Instrumento Particular com o Grêmio, i.e., a Construtora OAS Ltda. 72. A fiscalização embasou e a DRJ manteve a cobrança do crédito tributário contra a Recorrente pelo fato de ser acionista controladora da Novo Humaitá quando de sua constituição. E, posteriormente, em vista da Novo Humaitá ter sido incorporada pela Recorrente (quase 3 anos depois). 73. Contudo, tal imputação não é possível. Se a Novo Humaitá, foi apenas um veículo – existente apenas do ponto de vista formal – utilizado para “sonegar” tributo, devese desconsiderar a sua existência alocando os ganhos para a parte que celebrou o Instrumento Particular. 74. Assim, ainda que fosse verídica a afirmação da fiscalização, equivocadamente mantida pela DRJ, certo é que houve erro na identificação do sujeito passivo da relação jurídicotributária, sendo clara a configuração da ilegitimidade passiva da Recorrente. 75. Tal equívoco impede que a Recorrente seja vista como sujeito passivo dos tributos discutidos neste processo administrativo. 76. O erro na identificação do sujeito passível é vício material do lançamento, conforme precedentes deste Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, verbis: "LANÇAMENTO. ERRO DE IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO E QUANTIFICAÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. NULIDADE POR VÍCIO MATERIAL. CABIMENTO. Fl. 3226DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 22 21 O erro na identificação do sujeito passivo e determinação do montante do crédito tributário implica inobservância de requisito essencial estabelecido no art. 142 do CTN e, por conseguinte, nulidade do lançamento por vício material". (Acórdão 380200.932, de 24/04/2012). "LANÇAMENTO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Quando o lançamento não obedece aquilo o que determinado pelo art. 142 do CTN, deverá ser considerado como carecedor de algum de seus fundamentos principais de validade, o que enseja a ocorrência de vício material insanável". (Acórdão nº 2402002.252, de 28/11/2011). "IRPJ. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NORMAS GERAIS. NULIDADE DO LANÇAMENTO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. O erro na identificação do sujeito passivo representa vício insanável, quanto à existência do Ato Administrativo de Lançamento, em face do estabelecido nos artigos 132 e 142 do CTN, e do artigo 5º, inciso I, do Decretolei nº 1.598, de 1977". (Acórdão nº 10196.161, de 24/05/2007) "NORMAS PROCESSUAIS. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. Comprovado o erro na identificação do sujeito passivo, é de ser anulado o lançamento original e feitos novos lançamentos contra os verdadeiros sujeitos passivos na boa e devida forma. Recursos a que se dá provimento." (Acórdão nº 20172336, de 08/12/1988 1º CC). "IRPJ. LANÇAMENTO. ILEGITIMIDADE PASSIVA. É nulo por erro na identificação ao sujeito passivo, o lançamento efetuado contra a pessoa jurídica extinta por incorporação, antes da lavratura do auto de infração." (Acórdão nº 10193.686, de 08/11/2001 1ª CC). "COFINS. SUJEITO PASSIVO. Ocorrendo erro na identificação do sujeito passivo é de se cancelar o lançamento. Recurso de ofício a que se nega provimento." (Acórdão nº 20172802, de 19/05/1999, 1º CC) 77. Portanto, é certo que o lançamento de ofício lavrado contém vício formal insanável, qual seja, erro na identificação do sujeito passivo. Nesse caso, os autos de infração devem ser declarados nulo e, como consequencia, deve ser cancelado integralmente, inclusive com relação às penalidades. 78. Notase que, tais nulidades por si só, ensejariam o cancelamento dos presentes autos, mas considero pertinente trazer ao presente julgamento pontuais ponderações acerca da autuação da Novo Humaitá, do atingimento dos seus objetivos, da ampla utilização de SPEs em incorporações imobiliárias e da efetiva improcedência das alegações apresentadas pela fiscalização. Fl. 3227DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 23 22 I. Da autuação do Novo Humaitá e Atingimento de seus Objetivos 79. Restou amplamente exposto nos autos (e devidamente corroborado pela documentação indicada) que a Novo Humanitá realizou diversas outras atividades abaixo relacionadas, além da simples compra e venda do imóvel, durante o período de quase 3 (três) anos de sua existência. Atividades essas essenciais à implementação do contrato complexo firmado com a FCORS: 79.1. adquiriu o imóvel Humanitá; e 79.2. segregou o imóvel Humanitá em 4 (quatro) matrículas autônomas, de modo a destacar o imóvel da Arena do Imóvel Humanitá; 79.3. evitou que os imóveis e direitos reais objeto da transação fossem onerados por dívidas oriundas de outras operações das empresas envolvidas no projeto Arena; 79.4. facilitou a obtenção do financiamento, na modalidade Project finance, pela Arena Porto Alegrense; 79.5. preparou o empreendimento para o futuro ingresso de investidores e parceiros, o que efetivamente ocorreu com a entrada da Karagounis e OAS 26, esta última assumindo a posição de proprietária, inicialmente detida pelo Novo Humaitá, passando a ser responsável pelas demais obrigações assumidas; 79.6. realizou diversos pagamentos tanto à FCORS, quanto à empresa Epplan Construtora para construção da nova sede da Escola Oswaldo Vergara, tudo em cumprimento ao contrato firmado. Além do recolhimento dos tributos incidentes em cada etapa da operação. 80. Notase, portanto, que a narrativa da fiscalização de que a Novo Humaitá seria uma empresa apenas no papel, não encontra suporte quando da análise dos fatos que envolvem a complexa operação de incorporação imobiliária realizada no decorrer de vários anos. 81. Vênias devidas, tratase de visão simplista sobre uma atividade extremamente complexa, visando atribuir à holding de grupo (OAS S/A), que possui diversas subsidiárias e coligadas, a responsabilidade sobre atividade que sequer poderia por ela ser desempenhada, em face de seu contrato social. 82. Aliás, vale frisar que no caso da atividade de incorporações imobiliárias a prática recomendada e largamente utilizada pelo mercado é a constituição de SPEs para cada projeto, especificamente, com vistas a dar maior segurança à concretização do negócio e aos próprios futuros compradores, para que determinado projeto não seja afetado diretamente por dívidas de outras empresas do Grupo. 83. E no presente caso, digase mais, tal objetivo negocial e societário foi, inclusive, de grande importância, pois atualmente a Recorrente e outras empresas do Grupo estão em recuperação judicial. II. Da ampla utilização de SPEs em incorporações imobiliárias Fl. 3228DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 24 23 84. Devese também destacar que a utilização de SPEs para a concretização de empreendimentos imobiliários é amplamente comum e recomendável segundo as melhores práticas de gestão corporativa. 85. Isso porque, a própria natureza da SPE permite que tal modelo societário seja utilizado até mesmo para a realização de 1 (um) único negócio determinado, como se observa pelo artigo 981 do Código Civil de 2002 que assim dispõe: Art. 981 Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. Atividade pode restringirse à realização de um ou mais negócios determinados. 86. No caso de parcerias público privadas (PPPs) sua utilização é até mesmo mandatória, conforme artigo 9° da Lei n° 11.079/2004: Art. 9° Antes da celebração do contrato, deverá ser constituída sociedade de propósito específico, incumbida de implantar e gerir o objeto da parceria. 87. Por mais que se tente considerar a Novo Humaitá como responsável apenas pela compra e venda dos imóveis, tal fato, por si só, não poderia levar à sua desconsideração pelas autoridades fiscais, conforme razões já desenvolvidas acima (item II). 88. Ademais, sobre a subsequente extinção da Novo Humaitá (incorporada pela OAS Engenharia e Participações S/A (atual OAS S/A, ora Recorrente)), é certo que a própria doutrina nacional reconhece ser o seu desaparecimento inerente à sua natureza, como se vê nas palavras do Professor José Edwaldo Tavares Borba21, verbis: (...) a SPE não tem interesse próprio, não cumpre um objeto social próprio, não se destina a desenvolver uma vida social. Tratase do que se pode chamar um sociedade ancilar, mero instrumento de sua controladora. A rigor, essas sociedades nascem para prestar um serviço a sua controladora, para cumprir uma simples etapa de um projeto, ou até mesmo para desenvolver um projeto da controladora. Normalmente, cumprido esse projeto, o seu destino é a liquidação. Nascem, normalmente, já marcadas para morrer."(grifos nossos) 89. No caso em tela, além da existência da Novo Humaitá não ter sido efêmera (quase 3 anos), teve participação relevante na concretização do empreendimento: a Arena Grêmio já foi concluída e os demais terrenos (Residencial e Comercial) estão com construções em andamento, com vantagens à localidade do Humaitá. III. Da construção fáticoprobatória que afastam as alegações da Fiscalização 21 BORBA, José Edwaldo Tavares. Direito Societário. 9. ed. rev., aumentada e atual. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, cit. p. 518. Fl. 3229DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 25 24 90. A autuação se fundamenta basicamente na alegação de inexistência de estrutura da SPE Novo Humaitá para suportar as obrigações assumidas. Contudo, inexiste qualquer tipo de simulação ou fraude, tanto é que, não foi imputada multa qualificada. 91. A doutas autoridades fiscais e a Fazenda Nacional partem da premissa de que todas as empresas devem ter amplo espaço físico, pessoal próprio e maquinário para concretizarem suas operações. E mais, toda essa estrutura deve nascer com a empresa independentemente do seu core business. 92. Tal visão simplesmente ignora que determinadas atividades podem ser desempenhadas sem a necessidade de robusta "estrutura física", dentre as quais podese citar: (i) a busca no mercado de investidores; (ii) o gerenciamento de determinado projeto; (iii) compra, venda, locação e administração de imóveis. Todas elas desempenhadas pela SPE Novo Humaitá. 93. Existem ainda outras atividades mais complexas, como a própria construção de determinados imóveis, que podem ser totalmente terceirizadas pela sociedade e não desempenhadas diretamente, como ocorreu na situação da contratação da empresa Epplan Construtora para construção de nova sede da Escola Oswaldo Vergara. 94. Ademais, a alegação da fiscalização, reprisada pela Fazenda Nacional, de que a Novo Humaitá não cumpriu seu objeto social parece se basear na ideia de que uma sociedade deve, necessariamente, exercer todas as atividades contidas no seu objeto social, o que não se amolda à legislação e/ou a própria realidade empresarial. 95. No caso específico da SPE, em face de sua natureza, é controversa a possibilidade de alteração do contrato social para inclusão de nova atividade. Assim, idealmente, já em sua constituição, devem ser previstas todas as eventuais atividades que ela poderá desempenhar, o que não representa obrigatoriedade de consecução/conclusão de todas elas, tampouco significa que a SPE deixou de cumprir seus objetivos empresariais e institucionais. 96. Conforme também consignado no item II, a alegação de suposto planejamento abusivo se funda na ideia de que o regime do Lucro Presumido seria um "regime privilegiado de tributação", como o SIMPLES, o que também não encontra amparo legal. 97. A depender da operação empresarial, o lucro presumido pode ser até mais gravoso, sendo assim uma faculdade do contribuinte (opção fiscal e não planejamento abusivo), salvo nas situações em que mandatória a utilização do Lucro Real, que não é o caso dos autos. 98. Tal entendimento tem fundamento na opinião de Marco Aurélio Greco22, para quem as faculdades asseguradas pela legislação tributária não se inserem na temática da elisão fiscal. Segundo o autor, as opções fiscais “estão fora do planejamento, pois correspondem a escolhas que o ordenamento positivamente coloca à disposição do contribuinte, abrindo expressamente a possibilidade de escolha”, podendo um caminho “ser menos oneroso do que o outro”. 22 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário, 2.ed. São Paulo: Dialética, p. 100. Fl. 3230DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 26 25 99. Dessa forma, é plenamente legítima e normal a criação de SPEs para o desenvolvimento de empreendimentos imobiliários; é inequívoco que a Novo Humaitá desenvolveu diversas atividades às quais se propunha; e inexiste a obrigatoriedade de adoção do lucro real na espécie. Nesse cenário, evidenciase a total improcedência da autuação, além de outros vícios materiais, conforme já exposto. 100. Sobre a legitimidade de utilização do percentual de presunção de 8% no presente caso, merece destaque a citada Solução de Consulta COSIT nº 254, de 15 de setembro de 2014, que expressamente autoriza tal modelo de tributação, ainda que os imóveis estivessem classificados no ativo permanente (e não no estoque) e em situação que a empresa, à época da venda, sequer possuía tal atividade (compra e venda de imóveis) em seu objeto social. Confira se: "Assim é legítimo concluir que, no processo de organização que abrange a inclusão das atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos e compra e venda de imóveis próprios e de terceiros, a pessoa jurídica poderá definir quais bens integram o seu estoque para venda, tanto aqueles adquiridos com o propósito negocial de venda, quanto aos bens previamente integrantes de seu patrimônio, para os quais há decisão de redirecionálos ao comércio. Postos em contexto esses aspectos inerentes à atividade empresarial, seria de surpreender que a legislação tributária condicionasse a incidência da margem presumida sobre as receitas da atividade imobiliária ao momento da aquisição dos imóveis destinados a venda. Inexiste, porém, tal restrição temporal. De modo que, formado o estoque de imóveis para venda, a pessoa jurídica que explore atividade imobiliária, optante pelo lucro presumido, deverá considerar como receita bruta o montante recebido pelos bens vendidos, cuja base de cálculo presumida de IRPJ e da CSLL, em cada mês, será determinada mediante a aplicação, respectivamente, do percentual de 8% (oito por cento) e 12% (doze por cento) sobre essa receita bruta auferida." 101. A douta DRJ tenta afastar a aplicação da citada Solução de Consulta sob a alegação de que a Novo Humaitá não exerceria "de fato e de direito" a atividade imobiliária. 102. No entanto, restou comprovado que a Novo Humaitá, dentre outras providências, adquiriu imóvel Humaitá, segregou a matrícula em 4 (quatro) outras áreas perante as autoridades competentes e vendeu tais áreas para compradores diversos. Não há dúvidas de que estamos diante de atividade imobiliária. 103. Sob esse aspecto, merece destaque a Resolução CFC nº 963/03 que aprova a NBC T 10.5 Entidades Imobiliárias, que assim dispõe: "10.5.1.2. Entidades imobiliárias são aquelas que têm como objeto uma ou mais das seguintes atividades exercidas em parceria ou não: a) compra e venda de direitos reais sobre imóveis; Fl. 3231DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 27 26 b) incorporação de terreno próprio ou em terreno de terceiros; c) loteamento de terrenos em áreas próprias ou em áreas de terceiros; d) intermediação na compra ou venda de direitos reais sobre imóveis; e) administração de imóveis; e f) locação de imóveis." 104. Nesse sentido, são os precedentes deste E. CARF, verbis: "LUCRO PRESUMIDO. VENDA DE IMÓVEL. ATIVO PERMANENTE. Sobre a receita da venda de estoques de imóveis das empresas com atividade de incorporação de prédios, loteamento de terrenos ou compra e venda de imóveis, é aplicável o percentual de 8% para fins de determinação do Lucro Presumido. A alienação de imóveis de empresas que não fazem o exercício de uma destas atividades fica sujeita à apuração de ganho de capital. (...)" (Acórdão nº 1302000.469, Processo Administrativo nº11516.001460/200584, Rel. Cons. Marcos Rodrigues de Mello, julgado em 27/01/2011) "LUCRO PRESUMIDO. VENDA DE IMÓVEIS. ATIVO PERMANENTE. O resultado da venda de imóveis contabilizados no Ativo Permanente é tributado como ganho de capital, ainda que antes da alienação eles sejam destinados à revenda e no contrato social da alienante haja previsão, dentre outras, de atividade imobiliária. A legislação somente permite a incidência sobre a margem presumida de lucro calculada a partir da receita de venda do imóvel quando este é adquirido para revenda." (Acórdão nº 1101000.930, Processo Administrativo nº 19311.720244/201279), Rel. Cons. Edeli Pereira Bessa, julgado em 08/08/2013). 105. Diante dos arestos acima transcritos, a tributação da venda de imóveis somente não foi admitida por esse Conselho em situações onde (i) a alienante se dedicava a outra atividade, que não a imobiliária (comércio de combustíveis e lubrificantes, Acórdão nº 1302000.469); (ii) imóvel adquirido como ativo permanente, não integrando o estoque de imóveis. 106. No caso em análise, não evidencio essas situações, pois a SPE Novo Humaitá foi criada especificamente para o exercício da atividade imobiliária e o imóvel Humaitá, desde sua aquisição, foi contabilizado como estoque de imóveis para revenda (ativo circulante), conforme Livro Diário de fls. 1070/1071. 107. Assim, mesmo considerando a posição mais restritiva indicada nos precedentes aqui citados, vez que a SC COSIT nº 254/2014 é posterior aos referidos julgados, fica clara a possibilidade de alteração da destinação inicial e posterior inclusão posterior da atividade imobiliária. Os imóveis em apreço devem ser tributados pela aplicação do percentual de presunção de 8% e não como ganho de capital. Fl. 3232DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 28 27 108. Portanto, até no mérito, deve ser considerado improcedente os lançamentos em questão. IV. Da Dedutibilidade dos Tributos Lançados na Recorrente pagos pela Empresa Novo Humaitá S/A 109. Por fim, caso reste vencida no reconhecimento da nulidade dos lançamentos por vício material, considero devida a dedução dos tributos lançados na autuada, os tributos pagos pela empresa da Novo Humaitá na OAS/SA, com fulcro nos artigos 1.116, do Código Civil (Lei nº 10.406/2002) c/c artigo 227, da Lei nº 6.404/76 e artigo 132, do CTN, verbis: Lei nº 10.406/2002 "Art. 1.116. Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprovála, na forma estabelecida para os respectivos tipos." (grifos nossos) Lei nº 6.404/76 "Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações." (grifos nossos) CTN "Art. 132. A pessoa jurídica de direito privado que resultar de fusão, transformação ou incorporação de outra ou em outra é responsável pelos tributos devidos até à data do ato pelas pessoas jurídicas de direito privado fusionadas, transformadas ou incorporadas." 110. Os diplomas normativos são claros no sentido de que a incorporação gera não só obrigações, mas direitos advindos a empresa incorporada. Logo, o direito ao aproveitamento dos créditos, quando da operação de incorporação, decorre da própria sucessão tributária, sob pena de se verificar tributação em duplicidade. Há a sucessão universal das obrigações e dos direitos da sucedida/incorporada. 111. O próprio CARF já se manifestou no sentido de que devem ser aproveitados na apuração do crédito tributário da incorporadora os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica cuja operação tenha sido desconsiderada. Confirase: " (...) SIMULAÇÃO Não se caracteriza simulação para fins tributários quando ficar incomprovada a acusação de conluio entre empregador, sociedade esportiva, e o empregado, técnico de futebol profissional, por meio de empresa já constituída com o fim de prestar serviços de treinamento de equipe profissional futebol. MULTA QUALIFICADA DE OFíCIO Para que a multa de ofício qualificada no percentual de 150% possa ser aplicada é necessário que haja descrição e inconteste comprovação da ação ou omissão dolosa, . na qual fique evidente o intuito de Fl. 3233DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 29 28 sonegação, fraude ou conluio, capitulado na forma dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, respectivamente. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS Devem ser aproveitados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos da pessoa física, base de cálculo de lançamento de ofício."(grifos nossos) (Acórdão nº 10614.244, Processo Administrativo nº 11020.003823/200326), Rel. Cons. José Ribamar Barros Penha, julgado em 20/10/2004). "PIS DESCONSIDERAÇÃO DA ATIVIDADE EXERCIDA NECESSIDADE DE READEQUAÇÃO DE TODA A SITUAÇÃO TRIBUTÁRIA DAS PESSOAS JURÍDICAS ENVOLVIDAS – Quando a fiscalização descaracteriza os negócios jurídicos realizados (no caso consócio de empresas), a formalização de exigências fiscais deve levar em conta a situação tributária de todas as pessoas jurídicas envolvidas, sob pena de se verificar tributação em duplicidade."(grifos nossos) (Acórdão nº 10708.958, Processo Administrativo nº 10882.003953/200356), Rel. Cons. Luiz Martins Valero, julgado em 29/03/2007). 112. Diante do exposto, na remota hipótese deste douto colegiado entender pela manutenção da decisão de piso, devem ser deduzidos dos tributos lançados na autuada (ora Recorrente), os tributos pagos pela empresa Novo Humaitá S/A (empresa incorporada). Conclusão 113. Diante do exposto, VOTO no sentido de CONHECER do presente RECURSO VOLUNTÁRIO, e, em sede de preliminar, reconheço a nulidade dos lançamentos por vício material, ante a ausência de capitulação legal e respectiva motivação hábil a justificar a atuação em face da ora Recorrente (existência de prática evasiva), bem como por erro na determinação do sujeito passivo. É como voto. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Voto Vencedor Conselheira Eva Maria Los, redatora designada. 1. Trata este voto da nulidade da autuação advogada no voto da eminente Relatora nos seguintes termos: Fl. 3234DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 30 29 Diante do exposto, VOTO no sentido de CONHECER do presente RECURSO VOLUNTÁRIO, e, em sede de preliminar, reconheço a nulidade dos lançamentos por vício material, ante a ausência de capitulação legal e respectiva motivação hábil a justificar a atuação em face da ora Recorrente (existência de prática evasiva), bem como por erro na determinação do sujeito passivo. 2. Trata o processo dos autos de infração que exigem Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, no regime do lucro real anual, com fato gerador em 31/12/2010, apurados sobre ganho de capital de R$142.293.374,70 resultante da alienação por R$160.000.000,00, de terrenos vinculados à construção da Arena do Grêmio Football Porto Alegrense e do empreendimento residencial, em Porto Alegre/MS, cujo custo foi R$17.706.625,30 (o valor do ganho de capital foi apurado pela própria Autuada); os valores de IRPJ e CSLL que a subsidiária integral Novo Humaitá, recolheu sobre a venda dos imóveis foram subtraídos da exigência fiscal; não foram subtraídos os valores recolhidos de PIS e Cofins. 3. Os valores de PIS e Cofins que a Novo Humaitá recolheu, não compensados na autuação, foram objeto do recurso voluntário e a maioria da Turma votou pela compensação, conforme se verifica do teor do Acórdão. 4. As operações societárias ocorridas estão representadas no gráfico a seguir; depois, listadas cronologicamente e, por fim, analisadas: Fl. 3235DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 31 30 Cesar de Araújo Mata Pires | 99% CMP Participações Ltda | 90% OAS S/A |___________________________________ |99% | 99% | 99% Fundo de Invest. Imob.Caixa Des. Imob II OAS Empreen dimentos S/A Contrutora OAS Ltda OAS Investi mentos S/A | 80% | 20% |99% Venda por 160 () 17,7= Ganho de Capital 142,3 Milhões (adquirida. em 12/2010) Karagounis Participaç. S/A (const em 12/2010) OAS 26 Empreend Imob SPE Ltda | ______|________ | | | 99% 99% | (const em 12/2011) Acauã Empreend. Imobiliá. SPE Ltda (const em 09/2011) Albízia Empreend. Imobiliá. SPE Ltda Fl. 3236DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 32 31 | ^ ^ | Terrenos 27/12/2010 Cisão/incorp/ terrenos 100% Comercial; 47,33% Arena Novo Humaitá Em preendimentos Imobiliários S/A 1 Recurso Voluntário 5. A Recorrente argumentou sua ilegitimidade passiva, alegando que os ganhos deveriam ter sido atribuídos à parte que assinou o "Instrumento particular de contrato atípico para a aquisição de imóveis e assunção de obrigação de construção e outras avenças, com condições precedentes", isto é, a sua subsidiária Construtora OAS Ltda, pois, "Se a Novo Humaitá deve ser desconsiderada, todos os atos que tiveram a participação desta empresa devem ser igualmente desconsiderados"; e apontou que a constituição da Novo Humaitá foi mandatória; sua criação visou a aquisição do Imóvel Humaitá, desmembramento deste terreno, isolamento dos riscos envolvidos para facilitar o financiamento na modalidade project finance pela Arena Porto Alegrense, e proteger o Grêmio de eventuais dívidas e passivos contraídos pela Construtora OAS em outras atividades, constituição do direito de superfície e preparação dos imóveis para a fase de exploração, atuando como SPE; e aduz que a Novo Humaitá não teve existência efêmera; a ausência de estrutura não pode ser fundamento e que havendo propósito negocial e não havendo simulação ou fraude, não pode o Fisco desconsiderar a existência da Novo Humaitá (art. 116, parágrafo unico do CTN). 2 As operações societárias e a alienação que gerou o ganho de capital 6. A Autuada OAS S/A, denominavase então OAS Engenharia e Participações S/A; seu objeto social era e é a execução de obras de engenharia e holding do grupo OAS. 7. A estrutura do grupo OAS era: a) A pessoa física Cesar de Araújo Mata Pires, que detinha, b) 99% da CMP Participações Ltda, que detinha, c) 90% OAS S/A (a Autuada, então OAS Engenharia e Participações S/A), que detinha, c.1) 99% da OAS Investimentos S/A c.2) 99% da Construtora OAS Ltda c.3) 99% da OAS Empreendimentos S/A Fl. 3237DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 33 32 8. Em 05/09/2008, foi firmada Promessa de Compra e Venda entre Federação dos Círculos Operários do estado do Rio Grande do Sul FCOS e a promitente compradora Construtora OAS Ltda, do terreno "Imóvel Humaitá"; em 18/10/2008, foi firmado 1º Aditivo detalhando condições; e em 20/08/2009, foi assinado o 2º Aditivo, este entre os FCORS e a empresa Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A, dado que a signatária Construtora OAS Ltda, "cedeu integralmente os direitos e obrigações relativos ao Contrato para a Novo Humaitá, com o que a Federação expressamente anuiu"; págs. 19/54. 9. Em 18/12/2008 foi firmado "Instrumento particular de contrato atípico para a aquisição de imóveis e assunção de obrigação de construção e outras avenças, com condições precedentes" entre a Construtora OAS Ltda (subsidiária da Autuada) e o Grêmio Football Porto Alegrense, para a construção da Arena. (págs. 568/605): (iv) a Arena deverá ser construída em fração do imóvel localizado no Bairro do Humaitá, no Município de Porto Alegre, atualmente objeto da transcrição 6.422 do 4o Oficial de Registro de Imóveis de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, devidamente identificado na planta que constitui o Anexo 2 (o "Imóvel do Humaitá"), fração esta que será posteriormente destacada do Imóvel do Humaitá (sendo dita fração o "Imóvel da Arena"); (v) a OAS pretende constituir uma empresa (a 'Proprietária") com propósito de (a) adquirir o Imóvel do Humaitá; (b) destacar o Imóvel da Arena do Imóvel do Humaitá;e (c) constituir em favor da Superficiária o direito real de superfície sobre o Imóvel da Arena, de forma onerosa, prevendo determinada remuneração à proprietária do Imóvel da Arena; (vi) a OAS pretende constituir uma empresa (a "Superficiária" com o propósito de (a) receber o direito de superfície sobre o Imóvel da Arena; (b) promover a construção da Arena no Imóvel da Arena, nos termos do Projeto; e (c) explorar a Arena durante os 20 (vinte) primeiros anos de seu funcionamento e (e) transferir ao Grêmio; 10. Em 02/2009, foi constituída a Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A (Proprietária), pela Autuada, tratandose de subsidiária integral de capital fechado. 11. Na mesma data, foi constituída a Arena Porto Alegrense S/A (Superficiária), detida 99% pela Autuada. 12. Em 20/08/2009, foi firmado 2º Aditivo à Promessa de Compra e Venda, este entre os FCORS e a empresa Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A, dado que a signatária Construtora OAS Ltda, "cedeu integralmente os direitos e obrigações relativos ao Contrato para a Novo Humaitá, com o que a Federação expressamente anuiu"; págs. 19/54 13. Em 01/12/2010, a Novo Humaitá e transferida de forma não onerosa, pela Autuada, para a subsidiária OAS Empreendimentos S/A. 14. Em 15/01/2010, a Novo Humaitá e a Arena Porto Alegrense assumiram as posições contratuais de "proprietária" e "superficiária", respectivamente, no 1º Aditivo ao "Instrumento particular de contrato atípico para a aquisição de imóveis e assunção de obrigação de construção e outras avenças, com condições precedentes" com o Grêmio; a Contrutora OAS transferelhes, na íntegra, os direitos e obrigações lhes imputados no contrato (págs. 602/605). 15. Em 14/12/2010, o terreno original, objeto da negociação, foi desmembrado em 4 (quatro matrículas) Fl. 3238DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 34 33 16. Em 15/12/2010, foi constituída a OAS 26 Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda. pela OAS Empreendimentos S/A (99%), conforme contrato social, pág. 1.349. 17. Em 20/12/2010, a Karagounis Participações S/A foi adquirida pela OAS Empreendimentos S/A, conforme registrado na contabilidade da adquirente (pág. 2.586). 18. Em 22/12/2010 a FCORS e a Novo Humaitá assinaram as escrituras públicas de compra e venda dos terrenos do Bairro Humaitá (págs. 72/93), objetos da promessa de compra e venda firmada anteriormente (nas quais os imóveis adquiridos constam como resultantes do fracionamento do terreno em 4 (quatro), como se descreve a seguir); nessa data, a área já se encontrava desmembrada em quatro terrenos de matrículas distintas, conforme "(c)", pág. 96, da Escritura Pública Pública e Confissão de Dívida e Outras Avenças, entre a Novo Humaitá e FCORS, datada de 22/12/2010, págs. 94/110: c) QUE o imóvel objeto da transcrição nº 6.422 do registro de Imóveis da Quarta (4ª ) Zona da Comarca Porto Alegre (RS), livro 3D, fl. 138, foi fracionado em 4 novas áreas, originando os imóveis matriculados sob os nºs 157.918 (o "Imóvel da Arena"), 157.919 ("o Imóvel Comercial"), 157.920 ("o imóvel Residencial'), ... e 157.921 ("o Imóvel destinado ao prolongamento da Avenida Padre Leopoldo Brentano") ... a. Isto é, a Novo Humaitá adquiriu 100% do terreno Residencial, 100% do terreno Comercial e 79,18% do terreno da Arena, sendo que dos 20,82% restantes deste terreno da Arena, parte foi desapropriada pelo DNIT (9%), referente ao entorno da BR 448, e os outros 11,82% (Área da Escola Estadual) foram vendidos pelos FCORS para a OAS S/A posteriormente, em 17/05/12 (págs. 113/120). 19. Em 27/12/2010 ocorreu uma cisão parcial na Novo Humaitá (págs. 954/992): 52,67% do terreno Arena e 100% do terreno Comercial foram incorporados pela OAS 26 cujo capital social foi aumentado de R$1.000,00 para R$463.270,00 com a parcela incorporada; na contabilidade da Novo Humaitá foi baixado de estoques de terrenos (fl. 1082) e reduzido o capital social no mesmo montante; OAS 26 assumiu um passivo de R$ 20,4 milhões, correspondente à parte proporcional da dívida junto à FCORS pelos terrenos (desses R$ 20,4 milhões, a OAS S/A assumiu posteriormente R$ 16,5 milhões, conforme instrumento particular na pág. 492); após a cisão, restaram na Novo Humaitá, 100% da área Residencial e 47,33% da área da Arena, além do restante do passivo de terrenos a pagar (R$ 16 milhões). Esses terrenos foram vendidos pela Novo Humaitá no dia seguinte à cisão. 20. Ainda em 27/12/2010, a OAS Empreendimentos S/A e o Fundo de Investimento Imobiliário Caixa Desenvolvimento Imobiliário (FII), cujo único cotista é o FGTS, celebraram um "Acordo de Investimento" (fl. 1897) e um "Acordo de Acionistas" (fl. 1972). Em decorrência desses acordos, o FII ingressou na Karagounis, da qual passou a deter 80%, e a OAS Empreendimentos ficou com 20%. Conforme definido na cláusula "4" do Acordo de Investimento (fl. 1912), os recursos aportados pelo FII, que vieram a totalizar aproximadamente R$300 milhões, utilizados para adquirir os terrenos da Novo Humaitá e as incorporações imobiliárias da Karagounis e suas subsidiárias. 21. Em 28/12/2010, via contrato de promessa de compra e venda (fl. 915), a Novo Humaitá vendeu para a Karagounis, 100% do terreno da área Residencial e os 47,33% restantes do terreno da Arena, por RS 160 milhões, mais uma parcela condicional variável de até R$ 20 milhões. A parcela variável efetiva foi de R$ 17,5 milhões, pagos, em 30/06/2011, pela Fl. 3239DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 35 34 Karagounis à OAS S/A (fls. 453 e 2089), que na data da apuração dessa parcela já havia incorporado a Novo Humaitá. 22. O autuante apontou que, do valor recebido pela Novo Humaitá pela venda dos terrenos para a Karagounis: R$10,7 milhões foram pagos em tributos (fl. 1.097), R$8 Milhões dividendos pagos (pág. 1.099); R$102 milhões foram repassados para a empresa Arena Porto Alegrense (fl. 1.161), a título de AFAC (posteriormente reclassificado contabilmente para "créditos com pessoa ligada"), e R$ 35,5 milhões mantidos em caixa e transferidos para a OAS Engenharia e Participações (OAS S/A), na incorporação, juntamente com o crédito de 102 milhões junto à Arena Porto Alegrense (fl. 1007). 23. Em 01/04/2011 a OAS Empreendimentos vendeu a participação na Novo Humaitá por R$ 145 milhões para a OAS Engenharia e Participações (que é a OAS S/A, a Autuada), que voltou a controlar a Novo Humaitá (fl. 936). 24. Em 31/05/2011 a Novo Humaitá foi incorporada pela OAS Engenharia e Participações (OAS S/A) e extinta (págs. 993/1.031). 25. Em 30/07/2011 a OAS S/A assumiu uma parcela de R$ 16,5 milhões da dívida da OAS 26 junto à FCORS (fl. 492), decorrente da aquisição dos terrenos do Bairro Humaitá. Essa dívida havia sido transferida da Novo Humaitá para a OAS 26 por ocasião da cisão. Essa dívida, somada aos R$ 14 milhões assumidos pela OAS S/A na incorporação da Novo Humaitá, totaliza R$ 30,5 milhões assumidos pela fiscalizada, ou seja, mais de 90% do valor total da compra dos terrenos. 26. Em 01/12/2011 a OAS 26 e a Karagounis concederam à Arena PortoAlegrense S/A, através de escritura pública (fl. 1.705), o direito de superfície sobre o terreno destinado à construção da Arena. 27. Resumemse a seguir, as operações societárias referentes à Novo Humaitá e Arena Porto Alegrense: Empresas constituídas pela OAS S/A sócio OAS S/A Constituídas, respectivamente como Proprietaria e Superficiária Passa para a titularidade da OAS Empreendimentos mentos S/A Retorna para a titularidade da OAS S/A Incor poração pela OAS S/A Novo Humaita Empreendimentos Imobiliários S/A (Proprietária) 02/2009 99% 15/01/2010 12/2010 99% 04/2011 99% 05/2011 Arena Porto Alegrense S/A (Superficiária) 02/2009 99% 15/01/2010 12/2010 99% (*) (*) 09/2013 passa a ser controlada pela SPE Gestão e Exploração de Arenas Multiuso S/A 28. Enquanto a Arena Porto Alegrense (Superficiária) continuou em operação e cumprindo a função para a qual foi criada, a Novo Humaitá foi reabsorvida pela OAS S/A e extinta. Fl. 3240DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 36 35 2.1 ANÁLISE 29. Quanto ao argumento da Recorrente de que a criação da Novo Humaitá, não se tratou de opção, mas foi mandatória, isto é, exigência contratual verificase que consta do contrato (de 18/02/2008) entre a Construtora OAS Ltda (subsidiária 99% da OAS S/A) com o Grêmio Football Porto Alegrense, págs. 568/569: (v) a OAS pretende constituir uma empresa (a Proprietária) com propósito de (a) adquirir o Imóvel do Humaitá; (b) destacar o Imóvel da Arena do Imóvel do Humaitá;e (c) constituir em favor da Superficiária o direito real de superfície sobre o Imóvel da Arena, de forma onerosa, prevendo determinada remuneração à proprietária do Imóvel da Arena; (vi) assim que a Arena estiver devidamente concluída e o Imóvel da Arena estiver em condições de ser transmitido, e sem prejuízo do direito a ser assegurado à Superficiária nos termos do item "vi", acima, pretendem as Partes que a propriedade do Imóvel da Arena, já com a Arena pronta', juntamente com todos os direitos devidos pela Superficiária em razão do direito de superfície constituído, seja transmitida ao Grémio; (vii) em contrapartida ao disposto no item "vi", acima, o Grêmio transmitira OAS os Direitos sobre os Imóveis da Azenha; (...) (x) a transmissão, pelo Grêmio à Proprietária, dos Direitos sobre os Imóveis da Azenha, será feita pela forma prevista no Instrumento Particular de Promessa de Compra e Venda e Promessa de Cessão de Direitos com Condições Precedentes (a "Promessa de Venda e de Cessão"), a ser firmado pelas Partes tào logo estejam constituídas a Proprietária e a Superficiária, c que constitui o Anexo 6 do presente contrato; a. Evidenciase que foi pactuado que a OAS constituiria a Novo Humaitá, no entanto, não há indício de que fosse condição para a assinatura do contrato, mas sim, opção da Autuada. 30. Quanto ao argumento de que, se desconsiderada a Novo Humaitá, então, a autuação deveria se dar na Construtora OAS Ltda, que firmou os contratos e não na controladora/holding OAS S/A. a. a Novo Humaitá foi constituída formalmente pela OAS S/A; sem estrutura própria nem recursos humanos, efetuou a compra e transferiu os imóveis via cisão/venda; identificada a falta de objetivo de sua continuidade, foi incorporada e extinta pela OAS S/A; a autuação se deu em 06/06/2015, depois que a Novo Humaitá já havia sido incorporada pela Autuada e extinta (31/05/2011); b. o entendimento do Autuante foi que a criação da Novo Humaitá teve finalidade de economia tributária, pois foi constituída como empresa do ramo imobiliário e sendo recém criada, sem receitas anteriores, pode optar pelo lucro presumido, tributar a venda do imóvel como receita operacional e evitou a tributação na operação de compra e venda dos terrenos, como ganho de capital, no regime do lucro real da OAS S/A, empresa não imobiliária; c. evidenciado que a Novo Humaitá não teve finalidade negocial, senão o de economia tributária, sua existência foi apenas formal, sendo inoponível ao fisco esta operação de planejamento tributário, cabe exigir os tributos da empresa que foi a real executora da operação imobiliária, a OAS S/A, que dispunha de estrutura e recursos necessários á execução das operações. Fl. 3241DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 37 36 31. Argumenta que a constituição da Novo Humaitá teve finalidade negocial. a. É pertinente transcrever os argumentos expostos pela Autuada, pág. 998, constantes da Ata da AGE de, incorporação da Novo Humaitá; a) A NOVO HUMAITA, foi constituída com o objetivo de promover: (i) a exploração de atividade de engenharia civil, inclusive desenvolvimento, gerenciamento, construção e execução de obras civis, por si ou por terceiros; (ii) a compra de imóveis de terceiros e venda de imóveis próprios; (iii) locação de bens móveis e imóveis; (iv) a gestão e administração de bens imóveis e direitos a eles atinentes; (v) construção de direito real de superfície sobre imóveis próprios em favor de terceiros; (vi) a gestão e administração de receitas oriundas da concessão de direito real de superfície a terceiros; (vil) participação em outras sociedades, comerciais ou civis, como sócia, acionista ou quotista. Para a persecução de seus objetivos a Novo Humaitá adquiriu 139.111,8680m2, correspondente a 19,1797946% do todo maior da área de térreas de 175.691,12m² do imóvel matriculado sob o n° 157.918 da 4a Zona do Cartório de Registro de Imóveis da Cidade de Porto Alegre (sendo apenas a área de propriedade da Novo Humaitá identificada como "Imóvel Arena".e o todo maior identificado como "imóvel Humaitá",. bem corno a plena propriedade dos imóveis consistentes nos terrenos sob os nºs. 157,919 e 157,920, perante a 4ª Zona do Cartório de Registro de Imóveis da Cidade de Porto Alegre, localizados no Bairro Humaitá (em conjunto os "Imóveis"). Imóveis estes frutos do desmembramento do imóvel 6.422, adquirido em 5 de setembro de 2008, mediante a celebração de uma Promessa de Compra e Venda de Bem Imóvel e Outras Avenças; b) Após a aquisição dos Imóveis a NOVO HUMAITÁ avaliou suas características diante do mercado imobiliário tal, bem como o projeto de construção do novo estádio do Grêmio Foot Ball Porto Alegrense no imóvel Arena e o financiamento necessário para sua construção. c) Dessa forma, considerando que os Imóveis foram alienados pela NOVO HUMAITÁ durante o exercido de 2010, seja mediante compra e venda seja por cisão parcial de seu patrimônio líquido, tendo cada um dos imóveis a destinação que lhes fora previamente atribuída, razão pela qual o objeto social da NOVO HUMAITÁ restou prejudicado, não havendo mais razão para sua continuidade. d) Assim, de forma a simplificar a estrutura societária da OAS PARTICIPAÇÕES, através da consolidação das Partes em uma única companhia, promovendo maior eficácia e sinergia às suas atividades, havendo, ainda, uma redução das despesas necessárias à manutenção da NOVO HUMAITÁ, de caráter eminentemente burocrático, resolvem pela sua Incorporação pela OAS PARTICIPAÇÕES. 32. De fato, constituída com os objetivos sociais listados na Ata, verificase que esta: Fl. 3242DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 38 37 (i) não desenvolveu a exploração de atividade de engenharia civil, nem desenvolvimento, gerenciamento, construção e execução de obras civis, por si ou por terceiros; (ii) efetuou a compra de imóveis de terceiros e a venda de imóveis próprios, apenas na operação referente aos terrenos objeto do processo; (iii) não locou de bens móveis e imóveis; (iv) não fez a gestão e administração de bens imóveis e direitos a eles atinentes; a própria litigante confirma que a Novo Humaitá não tinha qualquer estrutura, nem recursos humanos (v) construção de direito real de superfície sobre imóveis próprios em favor de terceiros serviu apenas de meio para receber os recursos da venda e repassálos à Superficiária (Arena Porto Alegrense S/A) na forma de mútuo, sendo o restante, assim como o mútuo absorvidos pela Autuada, quando da incorporação da Novo Humaitá; (vi) a gestão e administração de receitas oriundas da concessão de direito real de superfície a terceiros; não teve qualquer participação; (vii) participação em outras sociedades, comerciais ou civis, como sócia, acionista ou quotista não houve. 33. A OAS S/A justifica que a Novo Humaitá se tornou desnecessária, após os imóveis terem sido alienados; de fato, cada um dos imóveis teve a destinação que lhe fora previamente atribuída, porém não para que a implementação das obras fosse feita pela Novo Humaitá, mas sim pelas SPEs (OAS 26, Acauã e Albízia) criadas para tanto. 2.1.1 Operação de subdivisão da área adquirida. 34. Destaquese, quanto à alegação de que comprou e efetuou subdividão da área, que, como descrito no item AS OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS E A ALIENAÇÃO QUE GEROU O GANHO DE CAPITAL, o terreno já se encontrava desmembrado em 4 (quatro), a saber: "Imóvel da Arena", "o Imóvel Comercial", "o imóvel Residencial' e "o Imóvel destinado ao prolongamento da Avenida Padre Leopoldo Brentano", antes da compra. 2.1.2 Obtenção de financiamento, project finance. 35. No que tange a facilitar a obtenção de financiamentos pela Superficiária Arena Portoalegrense, verificouse que os recursos foram aportados pela CEF (Fundo de Investimento Imobiliário Caixa Desenvolvimento Imobiliário (FII), na Karagounis, empresa adquirida em 20/12/2010, pela subsidiária OAS Empreendimentos S/A, que utilizou R$160 milhões para adquirir os terrenos da Novo Humaitá (que foram carreados para a Superficiária e a Autuada), e o restante foi utilizado pela Karagounis e suas subsidiárias na implementação dos projetos; daí se evidencia que a constituição da Nova Humaitá não trouxe qualquer benefício para a obtenção de financiamento. Fl. 3243DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 39 38 2.1.3 Execução dos empreendimentos 36. Os terrenos adquiridos foram repassado às três SPE Empreendimentos Imobiliários Ltda, que são a OAS 26, a Albízia e a Acauã; não coube à Novo Humaitá executar os empreendimentos previstos, apenas serviu de trânsito para os terrenos que adquiriu. 37. Como relata o Autuante, os recursos carreados pelo FII serviram para pagar a Novo Humaitá pelos terrenos que se destinaram às subsidiárias da Karagounis Albizia e Acauã, e para a execução dos empreendimentos por estas e a OAS 26. 2.1.4 Constituição em favor da Superficiária o direito real de superfície sobre o Imóvel da Arena. 38. Constou do contrato com o Grêmio Football Porto Alegrense; "(v) a OAS pretende constituir uma empresa (a Proprietária) com propósito de (a) adquirir o Imóvel do Humaitá; (b) destacar o Imóvel da Arena do Imóvel do Humaitá;e (c) constituir em favor da Superficiária o direito real de superfície sobre o Imóvel da Arena, de forma onerosa (...)". 39. Contudo, extinta em 31/05/2011 a Novo Humaitá, em 01/12/2011 foram a OAS 26 e a Karagounis que concederam à Arena PortoAlegrense S/A, através de escritura pública, o direito de superfície sobre o terreno destinado à construção da Arena. 2.1.5 Em síntese: a. a OAS S/A constituiu a subsidiária integral Novo Humaitá; outra subsidiária, a Construtora OAS S/A, transferiu os contratos de promessa de compra e venda e o "Instrumento particular de contrato atípico para a aquisição de imóveis e assunção de obrigação de construção e outras avenças, com condições precedentes" para Novo Humaitá, criada especialmente, para a atividade imobiliária mas, a atividade imobiliária de subdivisão do terreno adquirido em 4 (quatro) já havia sido feita antes da compra e venda; b. os terrenos foram comprados e repassados: via cisão, para a SPE OAS 26, subsidiária da OAS Empreendimentos, por sua vez subsidiária da OAS S/A; e via venda, para a Karagounis, e alocados nas SPEs Albízia e Acauã, subsidiárias da Karagounis (esta detida 20% pela OAS Empreendimentos e 80% pelo financiador FII), sendo que os recursos aportados pelo FII, que vieram a totalizar aproximadamente R$300 milhões, foram utilizados para adquirir os terrenos da Novo Humaitá e financiar as incorporações imobiliárias da Karagounis e suas subsidiárias; dessa forma, a Novo Humaitá, comprou e se desfez dos terrenos, recebendo em pagamento os recursos que haviam sido injetados na compradora Karagounis, pela CEF; em seguida, a Novo Humaitá, que havia sido transferida de forma não onerosa para a subsidiária OAS Empreendimentos, foi por esta vendida de volta para a controladora OAS S/A, que é a Autuada; c. A OAS S/A, justificando a falta de objetivo da Novo Humaitá, promoveu a sua incorporação e extinção. 40. Concluise que a Autuada utilizouse da Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A, para efetuar a operação de compra e venda, sendo a operação submetida à Fl. 3244DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 40 39 tributação no regime do lucro presumido da Novo Humaitá, empresa em tese da atividade operacional imobiliária, menos gravoso do que a tributação de ganho de capital, no lucro real, regime da Autuada, no qual foi lavrada a infração. 41. Citese o Relatório de Ação Fiscal: A Novo Humaitá não reteve qualquer valor para a manutenção de suas atividades. Efetuou apenas uma operação, da qual participou tão somente do ponto de vista formal, que foi a compra e a alienação dos terrenos. Não permaneceu como proprietária de nenhum imóvel, e, como consequência, não desenvolveu de fato a atividade de conceder direito de superfície e administrar receitas provenientes da concessão. Não participou de sociedades, pois nunca capitalizou os recursos repassados à Arena Porto Alegrense e não participou da empresa que está construindo os imóveis que serão entregues em dação à FCORS. Não subsistiu sequer para completar a operação a que se propunha inicialmente, pois se desfez dos terrenos em 2010 e foi extinta em 2011, antes do final da construção da Arena, em 2012, quando deveria permutar o terreno do novo estádio com o terreno do estádio Olímpico. Desde a sua constituição, em fev/09, até a incorporação, em mai/11, não auferiu qualquer receita além dos RS 160 milhões pela venda dos terrenos e das receitas financeiras decorrentes da aplicação desses recursos. Nunca teve estrutura para suportar as obrigações assumidas perante a FCORS e quando foi incorporada restavam 90% da dívida, obrigação assumida pela OAS S/A. (...) Basta analisarmos as obrigações decorrentes das cláusulas do contrato com a FCORS, e confrontarmos com a absoluta falta de estrutura da Novo Humaitá, para concluirmos que sua posição contratual de promitente compradora não passou de mera ficção. Foi utilizada apenas para arcar com a tributação sobre a valorização dos terrenos, que decorreu do próprio projeto planejado para a área. (...) Mas a empresa nunca teve estrutura para desenvolver seus objetivos, e não o fez. Na única operação que supostamente realizou, a compra e venda dos terrenos, 90% da dívida perante a FCORS foi assumida pela OAS S/A, e os recursos auferidos na venda, provenientes do Fundo FII, foram repassados também para a OAS S/A. Os fatos demonstram que a participação da Novo Humaitá na operação não foi uma realidade, não podendo figurar no polo passivo da obrigação tributária. Tentou atrair indevidamente para si os efeitos tributários de um fato gerador do qual não participou efetivamente. (Grifouse.). Fl. 3245DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 41 40 42. O fato de não ter aplicado multa qualificada, não ilide a avaliação que o Autuante expressou, pois, apesar de não ter usado a expressão "simulação", a descrição se refere ter sido a operação efetuada pela Novo Humaitá, mera ficção e que a operação não foi uma realidade. 43. De fato, o Dicionário Aurélio de Português esclarece: Simulação: 1 Fingir, fazer o simulacro de, fazer parecer real (o que não o é). 2 Fazer crer; aparentar. 3 Imitar 3 Nulidade arguida pela Relatora. 44. A nulidade da autuação não foi arguida pela Recorrente, porém foi votada pela ilustre Relatora. 45. Contudo, de acordo com o art. 59, I, do Decreto nº 70.235, de 1972, só se pode cogitar de declaração de nulidade de auto de infração que se insere na categoria de ato ou termo , quando esse auto for lavrado por pessoa incompetente (art. 59, I). 46. E não é este o caso da presente autuação. 3.1 ERRO NA DETERMINAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. 47. A autuação se deu depois da Novo Humaitá ter sido extinta e incorporada pela Autuada, OAS S/A, a quem a subsidiária da autuada, a Construtora OAS Ltda, cedeu posição para que efetuasse a compra e venda dos terrenos. 48. Identificouse a ausência de propósito negocial na criação da Novo Humaitá. 49. As operações de compra e venda foram realizadas nominalmente pela Nova Humaitá, criada para intermediar a operação imobiliária no lugar da Autuada, sendo que, destituída de qualquer estrutura, as operações não foram, efetivamente realizadas pela Nova Humaitá, mas pela Autuada, que a constituiu e que posteriormente a absorveu e extinguiu, sendo que os recursos para a operação de compra e os resultantes da venda provieram e resultaram na Autuada. 3.2 AUSÊNCIA DE CAPITULAÇÃO LEGAL DO FATO TRIBUTÁVEL. 50. A base legal da autuação se refere à infração descrita pelo Autuante: Ganhos e Perdas de Capital Apurados Incorretamente Alienação/Baixa de Bens do Ativo Permanente, arts. 247, 248 e 418 do Regulamento do Imposto de Renda RIR de 1999 (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999). 3.3 FALTA DE MOTIVAÇÃO HÁBIL A JUSTIFICAR A AUTUAÇÃO EM FACE DA ORA RECORRENTE. 51. Argumenta a Recorrente de que o princípio da legalidade material (princípio da tipicidade cerrada) impede que o fisco desconsidere os atos (lícitos) praticados pelos contribuintes; que é inegável que os contribuintes não podem opor ao fisco atos viciados e ilícitos, tais como atos simulados ou fraudulentos; que a maior parte de doutrina reconhece ser possível a desconsideração de atos ilícitos como forma de buscar os fatos efetivamente ocorridos e aplicar a correta tributação; que, por força do artigo 142 do CTN, cabe ao fisco o ônus de provar que determinado ato que se pretende desconsiderar é simulado ou fraudulento; Fl. 3246DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 42 41 aponta a "inaplicabilidade ou eficácia limitada" do parágrafo único do art. 116, do CTN e afirma que tal só poderia ocorrer se houvesse simulação ou fraude. 52. Cabe citar o entendimento do CARF, expresso nos seguintes Acórdãos, e aplicável ao presente caso: Tipo do Recurso: RECURSO DE OFÍCIO RECURSO VOLUNTARIO Acórdão 1201001.136 Data da Sessão: 26/11/2014: Matéria: IRPJ e CSLL Ganho de Capital NORMA GERAL ANTIELISIVA. EFICÁCIA. O art. 116, parágrafo único, do CTN requer, com vistas a sua plena eficácia, que lei ordinária estabeleça os procedimentos a serem observados pelas autoridades tributárias dos diversos entes da federação ao desconsiderarem atos ou negócios jurídicos abusivamente praticados pelos sujeitos passivos. No que concerne à União, há na doutrina nacional aqueles que afirmam ser ineficaz a referida norma geral antielisiva, sob o argumento de que a lei ordinária regulamentadora ainda não foi trazida ao mundo jurídico. Por outro lado, há aqueles que afirmam ser plenamente eficaz a referida norma, sob o argumento de que o Decreto nº 70.235/72, que foi recepcionado pela Constituição de 1988 com força de lei ordinária, regulamenta o procedimento fiscal. Dentre as duas interpretações juridicamente possíveis deve ser adotada aquela que afirma a eficácia imediata da norma geral antielisiva, pois esta interpretação é a que melhor se harmoniza com a nova ordem constitucional, em especial com o dever fundamental de pagar tributos, com o princípio da capacidade contributiva e com o valor de repúdio a praticas abusivas. Voto Conselheiro Marcelo Cuba Netto, Relator. (...) Em verdade, como se observa ao longo de todo o TCF, entendeu a autoridade com base no art. 116, parágrafo único do CTN, que houve planejamento tributário abusivo perpetrado pela contribuinte com vistas a evitar a incidência do IRPJ e da CSLL sobre o ganho de capital auferido na alienação da participação no capital das mineradoras. (...) 2.2) Da Alegada Inaplicabilidade do Art. 116, Parágrafo Único, do CTN Ao longo de sua peça recursal a interessada por diversas vezes afirma ser incabível a exigência do crédito tributário lançado Fl. 3247DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 43 42 com base em planejamento tributário abusivo, haja vista que a aplicabilidade do a seguir transcrito art. 116, parágrafo único, do CTN, dependeria de regulamentação por lei ordinária, algo que ainda não ocorreu: Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: (...) Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. (Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) Pois bem, realmente a doutrina majoritária afirma que o dispositivo em questão ainda não é aplicável, sob o argumento de que não foi promulgada a lei ordinária que a regulamentaria. (...) O professor Ricardo Lobo Torres, entretanto, tem entendimento diverso acerca dessa questão. Segundo esse conceituado tributarista1: Resta saber se o art. 116, parágrafo único, do CTN, trazido pela LC nº 104/2001 é de aplicação imediata. Parecenos que fica na dependência de normas federais, estaduais ou municipais de caráter procedimental para que possa ser aplicado. Tendo surgido a norma antielisiva por lei complementar federal, a regra procedimental ordinária correspondente não será apenas federal, mas deverá operar no âmbito do processo administrativo fiscal da União, dos Estados e dos Municípios. Se as legislações desses entes da federação já possuírem regras de procedimento administrativo que permitam a aplicação da norma antielisiva, nada obsta a incidência imediata do art. 116, parágrafo único, do CTN. Afinal de contas, a LC nº 104/2001 não está introduzindo uma novidade no direito brasileiro, senão que veio explicitar o que já era aplicado pelos Tribunais sob a forma de combate à fraude à lei ou ao abuso de forma jurídica. (Grifamos) Sucede que o Governo Federal optou por baixar a MP nº 66/2002, introduzindo desnecessárias complicações na sistemática da norma antielisiva. Mas a medida provisória foi recusada pelo Congresso Nacional. De modo que, no plano federal, as normas que regulam o processo tributário administrativo podem ser aplicadas nos casos de elisão abusiva, embora sejam rudimentares e lacunosas. (Grifamos) Em outras palavras, de acordo com Torres, o art. 116, parágrafo único, do CTN, sendo uma norma nacional, é imediatamente Fl. 3248DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 44 43 aplicável aos entes da federação que possuam normas sobre o procedimento administrativo fiscal, como é o caso da União, cuja regulação é feita pelo Decreto nº 70.235/72, recepcionado pela nova ordem constitucional com status de lei ordinária (Grifouse.) Havendo, então, duas interpretações para o mesmo dispositivo legal, caberá a esta Turma, ao menos em relação ao caso sob exame, decidir qual das duas deverá prevalecer. Mas a interpretação de normas jurídicas pelo aplicador do Direito não é um ato de vontade, ou seja, havendo duas interpretações possíveis, deverá o aplicador verificar qual delas é a “correta”, segundo as regras de hermenêutica jurídica. E em um sistema como o adotado em nosso país, de supremacia da Constituição, a primeira providência nos casos em que houver duas interpretações possíveis para a mesma norma jurídica é verificar se há incompatibilidade entre alguma delas e a Carta Magna. Feito isso, e acaso ambas forem compatíveis, devese verificar se alguma delas melhor concretiza as normas constitucionais. Se ambas as interpretações bem concretizem a Constituição, passase às demais regras de hermenêutica jurídica a fim de verificarse qual delas é a “correta”. Mas, no caso dos presentes autos essa última providência não será necessária, como se verá a seguir. A Carta de 1988, como é cediço, instituiu uma enorme quantidade de direitos e garantias fundamentais, bem como atribuiu ao Estado o dever de concretizálos. E uma vez que a concretização de direitos exige o dispêndio de vultosos recursos públicos2, recursos esses obtidos pelo Estado principalmente via tributação, surge por determinação constitucional, ao lado dos direitos e garantias fundamentais, o dever fundamental de pagar tributos3. (...) Nesse sentido, interpretarse o art. 116, parágrafo único, do CTN, introduzido pela Lei Complementar nº 104/2001, da forma defendida pela ora recorrente, significaria uma autorização para que os grandes contribuintes deixassem de cumprir, ao menos até a promulgação da lei ordinária (e já se vão quase 14 anos de omissão legislativa no âmbito federal), o seu dever fundamental de pagar tributos, mediante a adoção de planejamentos tributários abusivos. Seria assim uma inovação legislativa com vista a impedir que o fisco coibisse o ilícito, já que, como ressalta Torres, o combate à fraude à lei e ao abuso de forma jurídica já existia mesmo antes do advento da norma em questão. Além de não se coadunar com o dever fundamental da pagar tributos, tal interpretação também constitui uma afronta ao princípio da capacidade contributiva, insculpido no art. 145, § 1º, da Constituição, já que os grandes contribuintes, justamente aqueles que possuem maior capacidade econômica, estariam Fl. 3249DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 45 44 sendo gravados com uma tributação inferior à sua capacidade, e em detrimento da tributação incidente sobre os demais contribuintes, uma vez que o montante de recursos orçamentários necessários à concretização dos direitos e garantias fundamentais permanece inalterado. É de se em conta, ainda, que a nova ordem constitucional conferiu grande importância a valores morais, tais como a boa fé e a função social do contrato, repudiando por conseguinte a adoção de praticas abusivas perpetradas seja pelo Estado seja pelos particulares. Em assim sendo, também aqui a interpretação defendida pela recorrente não se harmoniza com a Constituição na medida em que, segundo ela, enquanto não for promulgada a lei ordinária prevista no art. 116, parágrafo único, do CTN, o Fisco estaria impedido de coibir práticas abusivas perpetradas pelos grandes contribuintes. Por tudo o que foi dito, das duas interpretações possíveis para o art. 116, parágrafo único, do CTN, aquela que melhor se harmoniza com a nova ordem constitucional, em especial com o dever fundamental de pagar tributos, com o princípio da capacidade contributiva e com o valor de repúdio a praticas abusivas (valores da boafé e da função social do contrato), é sem dúvida aquela defendida pelo professor Ricardo lobo Torres. Ressaltese que não estamos aqui a afirmar que a interpretação proposta pela contribuinte seja inconstitucional, até porque este Conselho não é competente apreciar essa questão. O que estamos dizendo é que, das duas interpretações possíveis, seguramente a que melhor se harmoniza com a Constituição é a que afirma a eficácia imediata, para a União, da norma geral antielisiva, daí porque, de acordo com as regras de hermenêutica jurídica, deve prevalecer sobre a interpretação defendida pela contribuinte. (Grifouse.) 53. O Autuante não explicitou a aplicação do art. 116, parágrafo único do CTN, porém os argumentos para imputar a infração à OAS S/A se enquadram na Norma Geral Antielisiva, como se observa no Relatório de Ação Fiscal: Em resumo, a OAS S/A utilizou a Novo Humaitá Empreendimentos Imobiliários S/A para reduzir indevidamente a tributação do ganho de capital na compra e venda dos terrenos. A Novo Humaitá foi constituída pela OAS S/A para adquirir os terrenos e alienar parte desses terrenos para outra empresa, que promoveria empreendimentos imobiliários. O ganho de capital, que deveria ter sido tributado na fiscalizada, optante pelo lucro real, foi tributado pelo lucro presumido na Novo Humaitá, como receita da atividade sujeita ao percentual de presunção de 8%. A redução da tributação foi indevida, pois, conforme demonstrado ao longo desse relatório, a Novo Humaitá não desenvolveu qualquer atividade de fato, tratandose de empresa Fl. 3250DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 46 45 constituída tão somente do ponto de vista formal, sem estrutura para desenvolver o objeto social a que se propunha, em especial para assumir as complexas e onerosas obrigações decorrentes da compra dos terrenos e da implementação dos projetos da Arena e adjacências. (...) Basta analisarmos as obrigações decorrentes das cláusulas do contrato com a FCORS, e confrontarmos com a absoluta falta de estrutura da Novo Humaitá, para concluirmos que sua posição contratual de promitente compradora não passou de mera ficção. Foi utilizada apenas para arcar com a tributação sobre a valorização dos terrenos, que decorreu do próprio projeto planejado para a área. (...) Os fatos demonstram que a participação da Novo Humaitá na operação não foi uma realidade, não podendo figurar no polo passivo da obrigação tributária. Tentou atrair indevidamente para si os efeitos tributários de um fato gerador do qual não participou efetivamente. Quem comprou e vendeu os terrenos foi a OAS S/A, que deve arcar com a tributação do ganho auferido na operação. Foi a OAS S/A que, diretamente ou através de suas controladas, constituiu, cindiu e incorporou empresas para alcançar os objetivos propostos pelo grupo OAS. Na compra do terreno foi a responsável de fato pelas obrigações de construir as escolas, através de sua controlada Construtora OAS e de terceirizadas, além de ter assumido o restante da dívida perante a FCORS e de ser a verdadeira beneficiária dos valores recebidos na venda. (Grifouse.) 54. Como se vê, está implícito que o Autuante identificou a simulação na constituição da Novo Humaitá e a prática de alteração da natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. 55. Cabe enfatizar que, em relação ao supra citado Acórdão nº 1201001.136 de 26/11/2014, foi apresentado recurso especial pelo contribuinte, que foi admitido, e foi proferido o Acórdão de Recurso Especial nº 9101003.447, de 6 de março de 2018, no seguinte teor, que confirma: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2007 AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. IMPOSSIBILIDADE DE DIVERGÊNCIA NA INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Diante de falta de comunicação entre o suporte fático tratado pela decisão recorrida e paradigma, impossível atendimento do requisito de admissibilidade concernente à divergência na Fl. 3251DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 47 46 interpretação da legislação tributária previsto no artigo 67 do Anexo II do RICARF. NORMA GERAL ANTIELISIVA. EFICÁCIA. Perfeita a decisão recorrida, ao discorrer que o art. 116, parágrafo único, do CTN requer, com vistas a sua plena eficácia, que lei ordinária estabeleça os procedimentos a serem observados pelas autoridades tributárias dos diversos entes da federação ao desconsiderarem atos ou negócios jurídicos abusivamente praticados pelos sujeitos passivos. Na esfera federal, há na doutrina nacional aqueles que afirmam ser ineficaz a referida norma geral antielisiva, sob o argumento de que a lei ordinária regulamentadora ainda não foi trazida ao mundo jurídico. Por outro lado, há aqueles que afirmam ser plenamente eficaz a referida norma, sob o argumento de que o Decreto nº 70.235/72, que foi recepcionado pela Constituição de 1988 com força de lei ordinária, regulamenta o procedimento fiscal. Dentre as duas interpretações juridicamente possíveis deve ser adotada aquela que afirma a eficácia imediata da norma geral antielisiva, pois esta interpretação é a que melhor se harmoniza com a nova ordem constitucional, em especial com o dever fundamental de pagar tributos, com o princípio da capacidade contributiva e com o valor de repúdio a praticas abusivas. No mesmo sentido, precedente na 1ª Turma da CSRF, Ac. 9101002.953. 56. Também pertinente o seguinte Acórdão, recente do CARF: Tipo do Recurso RECURSO VOLUNTARIO Data da Sessão 18/04/2018 Nº Acórdão 3301004.593 Ementa(s) Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 31/01/2010 a 31/12/2013 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. VALIDADE. PROPÓSITO NEGOCIAL. A validade do planejamento tributário é aferida após verificação de adequação da conduta no campo da licitude ou da ilicitude. Assim, a opção negocial do contribuinte no desempenho de suas atividades, quando não integrar qualquer hipótese de ilicitude, ou seja, implicando a ausência de subsunção do fato à norma tributária ou acarretando o enquadramento à norma tributária que prescreva exigências menos onerosas, é perfeitamente lícita e não susceptível de desconsideração pela autoridade administrativa para fins de tributação. Todavia, estará o contribuinte no campo da ilicitude se demonstrada a ausência de propósito negocial. (Grifouse.) 57. E neste voto, está analisado que a criação da Novo Humaitá não teve propósito negocial. 58. Citese também recentes julgados da CSRF: Fl. 3252DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 48 47 Tipo do Recurso RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE Data da Sessão 03/07/2017 Nº Acórdão 9101002.953 Ementa(s) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJAnocalendário: 2003 SIMULAÇÃO RELATIVA. VÍCIO DE VONTADE. CTN, ART. 116, PARÁGRAFO ÚNICO. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO.É legítima a desconsideração de atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do IRPJ, nos termos do artigo 116, parágrafo único do CTN. LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontrase intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. 2 Em vez de o alienante transferir diretamente o ativo para o adquirente, valeuse de uma "holding". Ambos, alienante e adquirente, passam a ser sócios da "holding". O alienante integraliza na "holding" precisamente o ativo que pretendia alienar. O adquirente integraliza na "holding" precisamente o valor em espécie que iria pagar a aquisição do ativo. Posteriormente, a alienante retirase da "holding". Em contrapartida à integralização, é entregue ao alienante precisamente o valor em espécie que foi integralizado pela adquirente. Enquanto isso, a adquirente ficou com o ativo que queria comprar.3 Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo) e simulação, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%. Tipo do Recurso RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE, RECURSO ESPECIAL DO PROCURADOR Nº Acórdão 9101003.396 Data da Sessão: 05/02/2018 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2006, 2007, 2008, 2009 ÁGIO. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. INEFICÁCIA. A reorganização societária na qual inexista motivação outra que não a criação artificial de condições para Fl. 3253DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 49 48 obtenção de vantagens tributárias é inoponível à Fazenda Pública. Negada eficácia fiscal ao arranjo societário sem propósito negocial, restam não atendidos os requisitos para a amortização do ágio como despesa dedutível, impondose a glosa e a recomposição da apuração dos tributos devidos. 59. Por também se adequar à situação de que trata este processo, transcrevese o voto proferido no Acórdão da Câmara Superior de Recursos Ficais CSRF: Acórdão nº 9101 002.429, de 18 de agosto de 2016: Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão Relator (...) A questão objeto de exame nesta instância limitase ao cabimento, ou não, para fins tributários, de operações de reorganização societária que visem, exclusivamente, reduzir a carga tributária (falta de propósito negocial), e se tal situação, caso incabível para fins tributários, configurando a simulação, qualifica a multa de ofício aplicada. Alegam as contribuintes, em seu recurso especial, que "não se deve perder de vista o fato de que a Constituição Federal consagrou a autonomia privada como direito fundamental, direito este consistente na aptidão conferida ao cidadão em se autorregular em suas relações privadas, desde que observados os limites de licitude e interesse coletivo constantes do ordenamento jurídico brasileiro." (efls. 793) Ora, é justamente o interesse coletivo que deve delimitar aquela autonomia privada. Explicase. Até poucas décadas atrás, assim no Brasil, como no mundo, prevalecia o pensamento liberal, que privilegiava a liberdade econômica e a propriedade privada, em detrimento de quaisquer outros interesses sociais. Tal pensamento, com o correr dos anos, quedouse superado por aquele que passou a priorizar o bemestar social. A Constituição Federal de 1988, em vários de seus dispositivos, deixa claro esse novo posicionamento: a) ao dispor, em seu preâmbulo, sobre "direitos sociais e individuais", "sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos" e "harmonia social"; b) ao estabelecer em seu art. 1º, inciso IV, como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, "os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa"; c) ao definir, em seu art. 3º, incisos I e III, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, entre outros, "construir uma sociedade livre, justa e solidária" e Fl. 3254DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 50 49 "erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais"; d) ao estatuir, em seu art. 5º, incisos XXIII e XXIV, que "a propriedade atenderá a sua função social" e que "a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por interesse social"; e) ao reconhecer, em seu art. 170, caput, que a ordem econômica deve se conformar aos ditames da justiça social; f) ao prever, em seu art. 170, incisos III e VII, como princípios gerais da atividade econômica, entre outros, a "função social da propriedade" e a "redução das desigualdades regionais e sociais"; g) ao estipular que "compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social"; h) ao afirmar, em seu art. 193, caput, que "a ordem social tem como objetivo o bemestar e a justiça sociais"; e i) ao fixar, em seu art. 195, caput, que "a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta". Também o Novo Código Civil (Lei nº 10.406. de 10 de janeiro de 2002) encontrase impregnado da mesma concepção: a) ao consignar, em seu art. 187, caput, que "também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social"; b) ao prescrever, em seu art. 421, caput, que "a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato"; c) ao ordenar em seu art. 1.228, §§ 1º e 3º que o direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais" e que "o proprietário pode ser privado da coisa, nos casos de desapropriação por interesse social"; e d) ao concluir, em seu art. 2.035, parágrafo único, que "nenhuma convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública, tais como os estabelecidos por este Código para assegurar a função social da propriedade e dos contratos". É, pois, o interesse coletivo que impede que as empresas ajam, em seus negócios particulares, como se não pertencessem a uma coletividade, a uma comunidade, a um grupo social. E bem verdade que, a se entender que eventual vantagem fiscal que se possa ter em razão de determinada estrutura de negócios seja impeditiva à realização do próprio negócio em si, terseia a invalidade, para fins tributários, de boa parte das incorporações, fusões e cisões que comumente ocorrem nas atividades empresariais (mas não é este o caso presente). Fl. 3255DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 51 50 Isso porque é evidente que, para o emprego dessas operações de rearranjo societário, pelas empresas, são analisados, dentre outros aspectos, também o aspecto tributário. Porém, o que não se pode admitir, à luz dos princípios constitucionais e legais acima expostos entre eles os da função social da propriedade e do contrato e da conformidade da ordem econômica aos ditames da justiça social —, é que, para a adoção dessas operações, seja analisado, única e exclusivamente, o seu aspecto tributário (falta de propósito negocial). Por outro lado, a adoção de operações de reorganização societária, pelas empresas, de forma a esconder, ou subtrair à incidencia tributária, a verdadeira operação da qual resulta as operações, implica a consideração dessas operações como simuladas, com a consequente qualificação da multa de oficio aplicada. Isso porque, não possuindo essas operações qualquer propósito negocial, configuramse, antes, meros artifícios jurídicos, simples truques organizacionais, objetivando burlar a tributação, ao aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas ("empresas veículo", "interpostas pessoas", "testas de ferro", "laranjas", etc.) daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem, na precisa dicção do § 1£ do art. 167 do Novo Código Civil, e dessa forna, impedindo ou retardando, total ou parcialmente, o conhecimento, por r arte da autoridade fazendária. da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal. Aia natureza ou circunstâncias materiais, ou das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente (art. 71 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964). No presente caso, o que se verifica é que a reorganização societária procedida consubstanciouse em operação simulada que visou, exclusivamente, uma indevida redução tributária sobre alienações de imóveis e florestas. Basta ver que a empresa Saiqui. originária de cisão da Transpinho como muito bem ressaltado na decisão da DRJ e no voto vencedor da decisão recorrida não possuía qualquer estrutura física ou mãodeobra apta a desenvolver as atividades objeto de seu contrato social: (...). Assim, procedente a afirmação da Fazenda Nacional, em contrarrazões, de que, na realidade, estáse diante de uma "empresa veículo, com único intuito de diminuir a tributação sobre as operações realizadas" (efls. 960). Por decorrência, cabível a qualificação da multa de ofício aplicada, como, aliás, bem fundamentado no relatório do procedimento fiscal (fls. 312, 313 e 321): (Grifouse.) Fl. 3256DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 52 51 3.4 ACÓRDÃO DRJ. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. 60. Acusa a Relatora que o Acórdão DRJ inovou a capitulação legal, mudou o critério jurídico. 61. Citese o Acórdão DRJ: 28. Nessa linha, também não haveria falar em inaplicabilidade ou eficácia limitada do Parágrafo único do art. 116 do CTN. Sem embargo, o argumento em si é falacioso, pois que independentemente da caracterização de fraude ou de simulação, não restam dúvidas de que a Novo Humaitá foi adrede constituída para desempenhar papel fora do script; ou seja, a OAS S.A, apenas a constituiu para fins tributários, sem nenhum propósito negocial. 29. A atitude da OAS S.A evidência abuso de direito24, o que implica os efeitos dos atos maculados pelo defeito não são oponíveis na esfera tributária25, independentemente da eficácia do Parágrafo único do art. 116 do CTN. Isso porque, a partir do Código Civil de 2002 (Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002), a prática passou a ser considerada ilícita26, o que a sujeita, por conseguinte, à aplicação do art. 149 do CTN27. 30. Essa é a posição do Carf, que vem construindo nova visão acerca do Planejamento Tributário, segundo a qual se deve buscar a essência dos atos e negócios jurídicos empregados28, como se vê do excerto do Acórdão n° 10323.290/2007, da lavra do Conselheiro Aloysio Percínio: 24 Grosso modo, o abuso de direito configura práticas que, não obstante a observação da legislação específica desbocam em desequilíbrio no relacionamento entre as partes; seja pela utilização de um poder ou de um direito com finalidade diversa daquela para a qual o ordenamento jurídico assegura a sua existência, seja pela sua distorção funcional, por implicar a ineficácia da lei incidente sobre a hipótese, sem uma razão suficiente que a justifique. No dizer de Luciano Amaro, o abuso de direito se traduziria em procedimentos que, embora correspondentes a modelos abstratos legalmente previstos, só estariam sendo concretamente adotados para fins outros que não aqueles que normalmente decorreriam de sua prática. 27 Para Marco Aurélio Greco (Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2004, p. 417.), a partir da entrada em vigor do Código Civil de 2002, o parágrafo único do art. 116 não se destina às hipóteses de abuso de direito e fraude à lei, as quais, na vigência do novo código civil são práticas ilícitas e portanto sujeitas à aplicação do artigo 149 do CTN. No dizer de suas palavras: Ou seja, somente estarão dependentes da regulamentação do dispositivo as hipóteses que não se enquadrem no artigo 149 do CTN. Simulação, fraude à lei e abuso de direito sofrem reações do ordenamento tributário independente do artigo 116, parágrafo único e comportam lançamento de oficio; portanto, não se submetem às regras procedimentais especificas do dispositivo. Objeto especifico do dispositivo é o conjunto de Fl. 3257DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 53 52 hipóteses de dúvida na qualificação jurídica dos negócios jurídicos, especialmente em função da eficácia positiva do principio da capacidade contributiva diante de negócios indiretos não abusivos nem em fraus legis. O autor do voto condutor do acórdão recorrido, com pertinência,também tratou do abuso de direito praticado: "140. Em suma, não há dúvida de que a interessada tem o direito, previsto na Constituição Federal, de organizar sua vida da maneira que melhor julgar. Porém, o exercício deste direito supõe a existência de causas reais que levem a tal atitude. A autoorganização com a finalidade predominante de pagar menos imposto configura abuso de direito. Como tal, uma vez provado tratarse de operação com esta razão principal, como penso restou provado nestes autos pelos motivos por mim expostos neste voto, pode o Fisco recusarse a aceitar seus efeitos no âmbito tributário de modo a neutralizar os efeitos fiscais do excesso abusivo.” A jurisprudência deste Conselho tem adotado firme posicionamento acerca da necessidade de propósito negocial para aceitação das conseqüências tributárias da operação de incorporação, a exemplo dos seguintes acórdãos: (...) 62. Eis que a legislação prevê que empresas que se dedicam à atividade imobiliária e cujo faturamento se encontra dentro do limite autorizado para a apuração de tributos e contribuições do regime do lucro presumido, que era de R$48.000.000,00 em 2010, podem aplicar o percentual de 8% na determinação do lucro presumido sobre as receitas na revenda de imóveis. 63. O legislador visou facilitar e simplificar a atividade das empresas pequenas e médias, do ramo imobiliário, que de fato exerçam a atividade, facilitando o seu desenvolvimento e crescimento e estimulando a economia do País. 64. Será que o objetivo teria sido abrir oportunidade de redução dos tributos e contribuições para empresa de grande porte controladora de grande grupo empresarial, que não exerce a atividade imobiliária, nem a tem no objeto social? 65. Entendeu o Autuante e também esta relatora que, ao constituir a Novo Humaitá, apenas para se valer da redução tributária, a Autuada utilizouse de institutos cujos objetivos eram outros; e, embora o Autuante não tenha se utilizado da expressão, de fato, se trata de simulação e abuso de direito, pois, como se viu, quem de fato efetuou as operações foi a Autuada. 4 Conclusão. Voto por afastar a preliminar de nulidade arguida pela Relatora. (assinado digitalmente) Eva Maria Los Fl. 3258DF CARF MF Processo nº 10880.723494/201584 Acórdão n.º 1201002.148 S1C2T1 Fl. 54 53 Fl. 3259DF CARF MF
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