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11285416 #
Numero do processo: 00001.080154/15-78
Data da sessão: Fri Jun 15 00:00:00 UTC 1979
Ementa: Descabe a exigência de penalidade, por se tratar de perda de mercadoria decorrente de vazamento por avaria.
Numero da decisão: 302-24.510
Decisão: ACORDAM os membros da 2ª Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso vencidos os Conselheiros Sálvio Medeiros Costa, relator, Raimundo José Alves Gonçalves e Edwaldo Reis da Silva. Relatora designada Enila Leite de Freitas Chagas.
Nome do relator: SÁLVIO MEDEIROS COSTA

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' ~~; . ~ 9." , .. . ~ MINISTÉRIO DA FAZENDA ORIGINAL E~JCAMINHADO A PUBLlCAÇAO - O.D.U. SEÇÃO IV RSJ TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES SEGUNDA CÂMARA Sessão de J...5..IJ.~ j.1J.D.b.º de 197 9.... A CORD Ã O N. o.._..~.~.~.2.~-º_ . Recurso n.O 93.533 -,Proc~sso~ 1080/15415/78 Recorrente CIA. DE NAVEGAÇÃO LLOYD BRASILEIRO Recorrid DB-F - PORTO ALEGRE Descabe a exig&ncia de penalidade, por se-tratar de perda de mercadoria decorrente de vazamento por avari~. Visto, relatado e discutido o pres~nte processo, ACORDAM os membros 'da 2ª Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, em dar provimento ao recurs~ v~n~idos o~ Conselheiros S~lvio Medeiros Costa, relator, Raimundo José' .Alves Gonçalves e Edwaldo Reis da Silva. 'Relatora' designada:. Enil'a Lei te de Frei tas Chagas. - Relatora designada - Procurador d~ Fazenda Nacional. - Presidente Sala de Sess~es, 15 de junho de 1979./i \ I ,"'-/ÉDWALDO Participaram do presente julgamento os .seguintes Conselheiros: EDUARDO NOGUEIRA DA GAMA, JOÃO DA SILVA ARAgJO, EDU- ARDO JORGE PEREIRA JÚNIOR E LEVY VALÉRIO DE OLIVEIRA . .: "r " 2 SERViÇO PÚBLICO FEDERAL CÂMARA Rec: 9.3.5.3.3 Ao: 24.510 MF -TERCE1RO ;CONSELH@:BE:"C.oN,TRI,BUIN:TESSEG-tJNbA RECORRENTE: CIA. DE NAVEGAÇÃO LLOYD BRASILEIRO RECORRIDA: DRF - PORTO ALEGRE RELATORA DESIGNADA: ENILA LEITE DE FREITAS CHAqAS R E L A T~6 R I O Em atei de vistoria aduaneira'(fls. 2), foi apurada a fal- ta de 40 Kg de Vulkacit DM/c Dissulfureto de Benzotiazila em pq em dois paletes que, segundo o respectivo termo, foram descarreg~ dos com ind{cio externo de violação e rasgados, tendo sido lavra- do o termo de avaric"lpróprio. A comissão de vistoria responsabilizou a empresa transpo~ tadora pela falta e dela exigiu,' pelo Auto de fls'. 1, o imposto de importação no valor de @ 479,00, a~rescido de @ 2.39,00, cor- respondentes à multa capitulada no artigo .3.3,inciso I, do Decre- to nº 6.3.4.31/68. Inconformada e com guarda de praz'o, a autuada impiygnou a exigência apenas no tocante à multa, sem discutir a responsabili- dade que lhe foi atribu{da, tampouco o imposto exigido. Alega em seu favor que n~o se trata de falta ou extravio, mas, sim, de derrame de conteúdo com depreciação calculada em 0,8%, para o que não cabe a multa cominada, segundo decisão deste Conselho no Recurso nº 87.46.3, pelo Acórdão nº 21.72.3, que junta , , .a defesa, por cop~a. A defesa é contestada às fls._ 12, sob o fundamento de que a mercadoria foi descarregada com diferença de peso, o {'qu~e im- porta na responsabilidade do transportador, de' acordo com o art.' 4l,incisos II e III, do Decreto-lei nº .37/66, cabendo, pois,a a~ plicação da multa prevista no artigo 106, inciso II, do mesmo di- ploma. Aduz, àinda, o informante ,que é irrrelevante o fato de ter -r\ ' sido a fa"'ftadecorrente de avaria, pois, segundo:.afirma, uma grande variedade de mercadorias -inclusive a de que trata o pro- cesso ~ deve ser conferida pelo peso e não pela quantidade, como , -e Ó ca~o'cd~.!,!sf::eras..-,pequeninas,tachin.tJ,aspara sapatos e tantas outras, c~m pequenas dimensões e que,' pela própria natureza, nao podem ser consideradas como derramadas, mas, sim, em falta, se ~ .. SERViÇO PÚBLICO FEDERAL Rec: 93.533 Ac: 24.5l0 3 houve divergência de peso. A autoridade singular manteve a ação fiscal, com base n~s argumentos da contestação e salientando que várie,s julgados deste Conselho já consagram a exigibilidade da multa, na espécie. Em tempo hábil, foi interposto recurso a este Co.nselho com as mesmas razões contidas na impugnação. É o relatório. v O T O Está em lit:f.gioapenas a penalidade do art. l06, II, "d", do D.L. nº 37/66, calculada em 50% do imposto de importação decor rente da falta de mercadoria estrangeira importada. A recorrente n~o contesta a exigência do tributo, enten- dendo,. todavia, que o vazamento de par.te do conteúdo de dois pal;:: tes, no total de 40 Kg, se çaracteriza como avaria, ievêntõ que não está sujeito a penalidade. O art. Jº, inçisos II e III, do Decreto nº 63.43l/68 de- fine dano ou avaria 'e extravio, considerando como o último li toda e ctqalquer fal ta de mercadoria entrada em território nacional li • Entendo que esta definição é demasiado abrangente e extrapola os limites do dispositivo que pretende regulamentar, no caso o art. 4l do D.L. nº 37/66. Analisada isoladamente, levaria' ~ conclusão de que toda diferença de'peso se caracteriza como fal ta, o que não corresponde ~ realidade. Se, por exemplo, um rolo ' de papel fica encharcado, pode sofrer depreciação de lOO%, que no entanto, ser~ considerada como avaria; e, nessa hipótese, o peso terá aumentado. S~ uma máquina se quebra e fica inutilizada' para a destinação própria, ocorre também uma depreciação de lOO~ e pode ou não ter havido alteração de peso, dependendo da parte' que se fragmentou. Se, em outra hipótese, um conjunto de porcela- , .na se esfacela e o material se transforma em po, o peso va1. dimi- nuir, mas terá acontecido uma falta? SERViÇO PÚBLICO FEDERAL Rec: 93.533 Ac: 24.510 4 Assim, em q\l.epese o dispositivo regulamentar citado, cabe;;;J ao intérprete procurar caracterizar qual a hipótese que se materia lizou. "In casu",trata-se de vazamento de natureza acidental, sem ind{cios de subtração dolosa, em que o conteúdo do volume se es- coou através de um orif{cio. Ora, o transporte mar~timo é de tal . ~ natureza que se tOIma imposs{velevi ta:r que poss'1.veis d~slocamen tos da carga, com choques entre os volumes, produzam vazamento@ e derrame""de mercadoria. Estes, na descarga, acusarão, obviamente peso a menor, e o transportador será responsável pelo preju{zo ca~ sado à Fazenda Nacional. Entendo, entretanto, que não houve extra- vio a ser penalizado. Aliás, embora a responsabilidade fiscal seja objetiva, não ,se pode excluir do conceito de penalidade os ele- mentos dolo ou culpa. Só se impõem pena a quem por ação ou omissã~ concorreu para a ocorrência de determinado evento. Na espécie, tra ta~se, claramente, de perda acidental de determinado produto, du- rante transporte marítimo. Logo, o transportador dever ressarcir' . . o preju{zo, mas não está sujeito a multa. Nesse sentido foram os Acórdãos dessa Câmara, de números 19.995, de 08/01/73, 20.226, de 06/06/73 e 22.382, de 15/06/76. Face o exposto, dou provimento ao recurso, para dispen • A •sar a ex~genc~a da penalidade. Sala de Sessões, em 15 de junho de 1979. ~~ENILA LEITE DECi1'fEITAS CHAGAS Relatora Designada. SERViÇO PÚBLICO FEDERAL V OT O V E N C I D O Rec: 93.533 Ac: 24.510 5 A recprrente não contesta a falta e se conforma com o im- posto lançado, mas se insurge contra a multa, sob a alegação de que a mesma decorreu de avaria com derrame do conteúdo. Isto posto, o artigo 60 do Decreto-lei nQ 37/66, em seu inciso I, define dano ou avaria como c. qualquer preju:f.zoque soL'1f"eu a mercadoria ou seu envoltório, enqu~to o inciso II prescreve ~ que extravio é toda e qualquer falta de mercadoria. Por seu turno, o inciso II, al:f.nead, do artigo' lQ6 do mesmo diploma pune com muI ta de 50% o extravio ou fal ta':não o fa zendo"porém, com relação à avaria OÜ dano. Como se vê, está bastante clara a diferença entre avaria e falta. Nesta, presume-se a redução quantitativa da mercadoria ~ na~gela, apenas uma depreciação no seu valor. Portanto, parece:me que à aplicação da penalidade prescr~ ta no inciso II, al:f.nead, do artigo 106 do referido Decreto-lei' nQ 37/66 independe da causa que deu origem à falta. A única hipótese que, a meu ver,beneficiari~ a recorrent~ ! na espécie, inclusive no tocante ao imposto, seria a comprovação' de que a avaria que provocou a ,flai£/!,etadecorreu de caso fortuito ou N ,força maior, o que nao e o caso. Diante do exposto, voto por rtegar provimento ao recurso. Sala de Sessões, em 15 de junho de 1979. 00000001 00000002 00000003 00000004 00000005

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Numero do processo: 13896.904872/2015-48
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 IRPJ. PER/DCOMP. COMPENSAÇÃO COM SALDO NEGATIVO DECORRENTE DE IRRF. COMPROVAÇÃO DAS RETENÇÕES. DOCUMENTAÇÃO SUPERVENIENTE. NECESSIDADE DE DESPACHO COMPLEMENTAR. Apresentada, em sede recursal, documentação relevante voltada à comprovação das retenções na fonte alegadas como origem do crédito, impõe-se o retorno dos autos à unidade de origem para reavaliação do pedido de compensação, à luz do princípio da verdade material e da Súmula CARF nº 143.
Numero da decisão: 1102-001.859
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que esta proceda à análise técnica dos documentos juntados pela Recorrente em sede recursal, com a possibilidade de requisitar documentação complementar que entender necessária, visando à verificação da efetiva existência, legitimidade e comprovação do crédito objeto do pedido de compensação (PER/DCOMP), e, ao final, emita novo despacho decisório, devidamente motivado. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.858, de 30 de janeiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 13896.904873/2015-92, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Cassiano Romulo Soares, Cristiane Pires McNaughton, Gabriel Campelo de Carvalho, Gustavo Schneider Fossati, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).
Nome do relator: FERNANDO BELTCHER DA SILVA

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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que esta proceda à análise técnica dos documentos juntados pela Recorrente em sede recursal, com a possibilidade de requisitar documentação complementar que entender necessária, visando à verificação da efetiva existência, legitimidade e comprovação do crédito objeto do pedido de compensação (PER/DCOMP), e, ao final, emita novo despacho decisório, devidamente motivado. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.858, de 30 de janeiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 13896.904873/2015-92, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Cassiano Romulo Soares, Cristiane Pires McNaughton, Gabriel Campelo de Carvalho, Gustavo Schneider Fossati, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).

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PER/DCOMP. COMPENSAÇÃO COM SALDO NEGATIVO DECORRENTE DE IRRF. COMPROVAÇÃO DAS RETENÇÕES. DOCUMENTAÇÃO SUPERVENIENTE. NECESSIDADE DE DESPACHO COMPLEMENTAR. Apresentada, em sede recursal, documentação relevante voltada à comprovação das retenções na fonte alegadas como origem do crédito, impõe-se o retorno dos autos à unidade de origem para reavaliação do pedido de compensação, à luz do princípio da verdade material e da Súmula CARF nº 143. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que esta proceda à análise técnica dos documentos juntados pela Recorrente em sede recursal, com a possibilidade de requisitar documentação complementar que entender necessária, visando à verificação da efetiva existência, legitimidade e comprovação do crédito objeto do pedido de compensação (PER/DCOMP), e, ao final, emita novo despacho decisório, devidamente motivado. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.858, de 30 de janeiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 13896.904873/2015-92, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Fl. 1011DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.859 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.904872/2015-48 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Cassiano Romulo Soares, Cristiane Pires McNaughton, Gabriel Campelo de Carvalho, Gustavo Schneider Fossati, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se, na origem, de declarações de compensações de saldo negativo de CSLL apresentados pela Recorrente, com a utilização de crédito relativo ao ano-calendário de 2012. O Despacho Decisório homologou parcialmente a compensação declarada, pois o montante comprovado das parcelas de composição do crédito foi insuficiente para respaldar integralmente o valor do saldo negativo alegado pela Recorrente. Dessa forma, os débitos indevidamente compensados foram enviados para cobrança: Cientificada, a Recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade, na qual impugnou os fundamentos da decisão administrativa, sustentando que as divergências apontadas são improcedentes. Ao analisar a defesa apresentada pela Recorrente, os membros da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento do Brasil, proferiram acórdão, no qual decidiram por julgá-la improcedente. Irresignada com a decisão, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário aduzindo, em síntese: (a) Alega ter comprovado a efetiva retenção do Imposto de Renda na Fonte com base em sua escrituração contábil. Em sede de Recurso Voluntário, pugna pela juntada de documentação complementar, consistente em: (i) planilha analítica correlacionando notas fiscais, extratos bancários e valores retidos na fonte referentes às parcelas parcialmente confirmadas e não confirmadas pelo Despacho Decisório; (ii) cópias de notas fiscais, por amostragem; e (iii) planilhas, também por amostragem, relacionando extratos bancários e registros contábeis correspondentes às parcelas parcialmente confirmadas e não confirmadas. Sustenta que, à luz do princípio da verdade material, a jurisprudência do CARF admite a juntada de novos documentos em sede recursal. Fl. 1012DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.859 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.904872/2015-48 3 (b) Sustenta que caberia às autoridades fiscais, com fundamento no art. 76 da Instrução Normativa RFB nº 1.300/2012, determinar a realização de diligência fiscal destinada à verificação da exatidão das informações prestadas, mediante exame da escrituração contábil e fiscal, em observância aos princípios da verdade material e da ampla defesa. (c) No que se refere ao direito à compensação do IRRF, afirma que, nos termos do art. 128 do CTN, a lei pode atribuir a responsabilidade pelo recolhimento do tributo a terceiro que tenha relação com o fato gerador, como ocorre no regime de retenção na fonte. Aduz que, prestados os serviços, incumbe ao tomador efetuar a retenção do imposto e recolhê-lo aos cofres públicos, cabendo à Recorrente apenas o recebimento do valor líquido dos serviços. Destaca que o fato gerador do imposto de renda, nos termos do art. 43 do CTN, ocorre com a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica, sendo esta última verificada no regime de competência, de modo que a retenção se confirma com o recebimento do preço líquido, devidamente registrado na contabilidade, sendo irrelevante, para o prestador, o efetivo recolhimento do tributo pela fonte pagadora. (d) Argumenta que a obrigação tributária principal relativa ao recolhimento do IRRF recai sobre a fonte pagadora, sujeita às sanções legais em caso de descumprimento. Invoca o Parecer Normativo COSIT nº 01/2002, segundo o qual, constatada a falta de recolhimento do tributo pela fonte pagadora, a cobrança do imposto, com multa e juros, recai inicialmente sobre esta, sendo exigível do beneficiário dos rendimentos apenas na hipótese de não submissão dos valores à tributação. Nesse contexto, sustenta que a obrigação acessória de fornecimento do comprovante anual de retenções tem caráter meramente confirmatório do direito à compensação, não podendo eventual inadimplemento dessa obrigação prejudicar o direito creditório da Recorrente. (e) Requer a conversão do julgamento em diligência, a fim de que a fiscalização possa analisar outros documentos e confirmar o direito à compensação com base nas retenções de IRRF sofridas no ano-calendário de 2012, bem como possibilitar a juntada posterior de documentos adicionais relacionados à composição do saldo negativo de IRPJ, em razão do elevado volume documental. É o relatório. Fl. 1013DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.859 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.904872/2015-48 4 VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. 1 MÉRITO A Recorrente sustenta que as retenções de IRRF efetuadas por seus tomadores de serviços resultaram, ao final do ano-calendário de 2012 (exercício de 2013), em saldo negativo de IRPJ no montante de R$ 30.914.655,71. Em decorrência disso, transmitiu o Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Declaração de Compensação – PER/DCOMP nº 00040.28845.250713.1.3.02-7669, em 25/07/2013, posteriormente retificado em 18/07/2014 sob os nºs 19011.40827.180714.1.7.02-0073 e 32033.15976.180714.1.7.02-9733, objetivando a compensação com débitos de COFINS. O Despacho Decisório homologou parcialmente as compensações pleiteadas, sob o fundamento de que determinadas parcelas de IRRF não foram confirmadas, por ausência de comprovação das respectivas retenções, entendimento este mantido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ). Em sede de Recurso Voluntário, a Recorrente trouxe aos autos documentação adicional, com destaque para: (i) Planilha analítica correlacionando notas fiscais, extratos bancários e valores retidos na fonte, inclusive das parcelas parcialmente confirmadas e não confirmadas (doc. 02), totalizando R$ 9.508.896,18; (ii) Cópias de notas fiscais, por amostragem (doc. 03); (iii) Planilhas relacionando, também por amostragem, os extratos bancários e a escrituração contábil pertinentes às retenções (doc. 04). É entendimento consolidado no contencioso administrativo fiscal que o ônus da prova do direito creditório incumbe exclusivamente ao contribuinte, conforme previsto nos arts. 170 do CTN, 74 da Lei nº 9.430/1996, 36 da Lei nº 9.784/1999 e 373, I, do CPC (Lei nº 13.105/2015). Fl. 1014DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.859 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.904872/2015-48 5 No caso de retenções na fonte, a forma ideal de comprovação se dá mediante a apresentação das Declarações do Imposto de Renda Retido na Fonte (DIRFs) elaboradas pelos responsáveis tributários. Contudo, o CARF admite, em sede de julgamento administrativo, outros meios probatórios, desde que suficientes para evidenciar tanto a retenção quanto o oferecimento das receitas à tributação, conforme dispõem as Súmulas nº 80 e nº 143: Súmula CARF nº 80: Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. Súmula CARF nº 143: A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. No presente caso, constata-se que a Recorrente apresentou documentação significativa que, ao menos em juízo preliminar, sinaliza a efetiva ocorrência das retenções alegadas, evidenciando o nexo entre os serviços prestados, os pagamentos realizados e os valores retidos. Nesse contexto, considerando o princípio da busca pela verdade material que norteia o processo administrativo fiscal, entendo que a matéria demanda despacho complementar, de modo que a unidade de origem possa analisar detidamente os documentos apresentados, solicitar outros elementos, se necessário, e aferir a validade do crédito pleiteado. Diante do exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que esta proceda à análise técnica dos documentos juntados pela Recorrente em sede recursal, com a possibilidade de requisitar documentação complementar que entender necessária, visando à verificação da efetiva existência, legitimidade e comprovação do crédito objeto do pedido de compensação (PER/DCOMP), e, ao final, emita novo despacho decisório, devidamente motivado. Fl. 1015DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.859 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.904872/2015-48 6 Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que esta proceda à análise técnica dos documentos juntados pela Recorrente em sede recursal, com a possibilidade de requisitar documentação complementar que entender necessária, visando à verificação da efetiva existência, legitimidade e comprovação do crédito objeto do pedido de compensação (PER/DCOMP), e, ao final, emita novo despacho decisório, devidamente motivado. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Fl. 1016DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 mérito

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Numero do processo: 15578.720406/2017-00
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 02 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 30 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2009 PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DE DCTF. No caso de retificação de DCTF após a ciência do despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição ou que não homologou a declaração de compensação é possível a retomada a análise do crédito quando apresentado o início da comprovação do erro em que se fundamenta, nos termos da Súmula CARF nº 164.
Numero da decisão: 1001-004.206
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos Inominados, com efeitos infringentes para correção do voto condutor do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.803, de 03.04.2025, e assim apreciar as matérias recursais suscitadas e dar provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva – Relatora e Presidente Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Elias da Silva Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Gustavo de Oliveira Machado, Ana Cláudia Borges de Oliveira e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA

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EM LIQUIDAÇÃO ORDINÁRIA E FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2009 PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DE DCTF. No caso de retificação de DCTF após a ciência do despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição ou que não homologou a declaração de compensação é possível a retomada a análise do crédito quando apresentado o início da comprovação do erro em que se fundamenta, nos termos da Súmula CARF nº 164. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos Inominados, com efeitos infringentes para correção do voto condutor do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.803, de 03.04.2025, e assim apreciar as matérias recursais suscitadas e dar provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva – Relatora e Presidente Fl. 400DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Elias da Silva Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Gustavo de Oliveira Machado, Ana Cláudia Borges de Oliveira e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). RELATÓRIO Per/DComp e Despacho Decisório A Recorrente formalizou o Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) utilizando-se do crédito relativo ao pagamento a maior de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) por entidade financeira referente ao saldo decorrente do ajuste a ser pago em quota única, código 2390, no valor de R$763.265,56 contido no DARF recolhido em 31.03.2010 para compensação dos débitos ali confessados. Consta no Despacho Decisório, e-fls. 95-99: Fundamentos 5. Inicialmente, cumpre destacar que o crédito pleiteado em 17/12/2014 tem como base o saldo remanescente de um recolhimento efetuado em 31/03/2010 a título de IRPJ apurado em dezembro de 2009, declaração de ajuste. 6. Embora tenha ocorrido dentro do prazo prescricional de cinco anos para pleitear a restituição, chama a atenção o fato do contribuinte reivindicar um crédito apenas nos últimos dias desse prazo. 7. Ao consultar os sistemas da RFB, verifica-se que, na véspera de apresentar seu pedido de restituição, ou seja, 16/12/2014, o contribuinte retificou sua Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF para o mês de março/2010 e, também, a Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ referente ao ano calendário 2009. 8. Na DIPJ retificadora, o valor do IRPJ a pagar foi reduzido para zero, contra R$ 1.940.313,79 contido na DIPJ original. Essas declarações constam das fls. 32/94. 9. Em relação à DCTF, o valor originalmente confessado foi de R$ 751.319,58. Posteriormente retificou a DCTF para zerar o valor do IRPJ. Verifica-se que o valor confessado originalmente é inferior àquele apresentado na DIPJ original 10. O valor contido inicialmente na DCTF foi recolhido com atraso, totalizando R$ 763.265,56. Esse é justamente o valor do pedido de restituição. 11. Tendo em vista que o crédito pleiteado decorre de um suposto pagamento indevido, é necessário analisar a base de cálculo do tributo. 12. Nesse sentido, um Termo de Intimação Fiscal – TIF foi enviado ao contribuinte no bojo do e-processo 15578.720379/2017-67, que também foi objeto do mesmo Fl. 401DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 3 mandado de segurança. Uma cópia desse TIF encontra-se às fls. 18/19. Foi solicitado que ele apresentasse os seguintes documentos e esclarecimentos: 1) Apresentar demonstrativo detalhado da composição do valor lançado na linha 32 da Ficha 09B da DIPJ retificadora do Ex 2010, entregue em 16/12/2014, que justifique a redução do valor informado em relação àquele contido na DIPJ original, bem como informar todas as contas contábeis relacionadas com tais valores; 2) Apresentar demonstrativo detalhado da composição do valor total lançado na linha 55 da Ficha 09B da DIPJ retificadora do Ex 2010, conforme todas as hipóteses previstas no art. 9º da Lei nº 9.430/96, bem como informar as contas onde ocorreram os registros contábeis das perdas, conforme determinado no art. 10 da mesma Lei; 3) Apresentar cópia do Lalur, partes A e B, para o ano de 2009. 13. Cópia da resposta apresentada encontra-se às fls. 8/10, bem como nos arquivos não pagináveis anexados ao e-processo citado anteriormente. 14. Em relação ao item 1, o contribuinte respondeu o seguinte: Quanto a este item, está sendo disponibilizado por intermédio do PGS – Programa Gerador de Solicitação de Juntada de Documentos o demonstrativo dos valores efetivamente recebidos, que perfazem o montante de R$ 5.740.514,25 (cinco milhões, setecentos e quarenta mim, quinhentos e quatorze reais e vinte e cinco centavos). 15. Note-se que não houve menção às contas contábeis solicitadas no item 1 do Termo de Intimação. 16. No caso do item 2 do TIF, a resposta foi nos seguintes termos: Quanto a este item, insta esclarecer que não houve alteração efetiva entre a DIPJ Originária e DIPJ Retificadora. Na DIPJ Originária consta apenas o resultado líquido entre: os valores constantes nas contas Provisões não Dedutíveis – BACEN e Provisões Dedutíveis (Perdas Efetivas – RFB - nos moldes do Art. 9º da Lei 9.430/96). Senão vejamos: Cálculo: (+) Adição R$ 73.309.587,60 (–) Exclusão R$ 87.508.326,59 = R$ 14.198.738,99. A DIPJ Retificadora mantém os valores das provisões na Adição e o valor das perdas nas exclusões, não impactando na apuração. 17. Ainda em relação ao item 2, onde foi solicitado informar as contas onde ocorreram os registros contábeis das perdas, conforme determinado no art. 10 da Lei nº 9.430/96, a alegação foi a seguinte: ... a Dacasa esclarece que as Instituições Financeiras se submetem às regras e normativos promulgados pelo Banco Central do Brasil (BACEN), para registro contábil seguindo o critério do BACEN. Contudo, para efeito de tributação Fl. 402DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 4 seguimos os preceitos estabelecidos nos Arts. 9º e 12º da Lei 9.430/96 – Extra contábil. Desse modo, não é possível informar as contas, tendo em vista que o Contábil segue as regras previstas pelo BACEN, conforme Resolução nº 2.682/99. E o Fiscal segue as regras previstas na Lei 9.430/96, havendo entre os critérios uma diferença temporal. 18. Por fim, o item 3 do TIF solicitou cópia do Lalur, partes A e B, para o ano de 2009. 19. Apesar do contribuinte informar que, por intermédio do PGS – Programa Gerador de Solicitação de Juntada de Documentos, disponibilizou o arquivo solicitado (LALUR), registro que tais documentos não foram juntados ao e- processo. 20. Pois bem. Como se vê, o contribuinte deixou de atender, parcial ou totalmente, todos os itens do TIF. Senão, vejamos. 21. No item 1, apesar de ter apresentado o demonstrativo referente ao valor contido na linha 32 – Outras adições da ficha 09B da DIPJ, não informou, conforme solicitado, as contas contábeis onde tais valores foram contabilizados, prejudicando a comprovação desses valores. 22. Já no item 2 o contribuinte afirma que não é possível informar as contas contábeis porque há uma diferença temporal entre o “contábil”, que segue as regras da Resolução Bacen nº 2.682/99, e o “fiscal”, que segue as regras previstas na Lei nº 9.430/96. 23. Essas alegações não podem prosperar. 24. A referida Resolução do Banco Central, que é uma norma infralegal, dispõe apenas sobre critérios de classificação das operações de crédito e regras para constituição de provisão para créditos de liquidação duvidosa. O art. 9º da Lei 9.430/96, por sua vez, trata das hipóteses em que tais provisões podem ser consideradas como despesas dedutíveis na apuração do lucro real. 25. As normas mencionadas no parágrafo anterior tratam de assuntos relacionados, mas sobre aspectos distintos. Uma não se sobrepõe ou substitui a outra. 26. Assim, a dedutibilidade da provisão para créditos de liquidação duvidosa vincula-se ao que sobre ela dispõe a legislação tributária. Ato normativo do Banco Central, que determine critério diverso para a constituição a constituição da provisão pelas instituições financeiras, não prevalece sobre a norma fiscal. Uma trata da constituição da provisão. A outra, da sua dedutibilidade na apuração do Lucro Real, quando cabível. 27. No caso em questão, o art. 10 da Lei nº 9.430/96 é explicito: Fl. 403DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 5 Art. 10. Os registros contábeis das perdas admitidas nesta Lei serão efetuados a débito de conta de resultado e a crédito: I - da conta que registra o crédito de que trata a alínea a do inciso II do § 1º do art. 9º e a alínea a do inciso II do § 7º do art. 9º; II - de conta redutora do crédito, nas demais hipóteses. 28. O comando legal é expresso ao afirmar que as perdas serão efetuadas a débito de conta resultado em contrapartida (crédito) da conta que registra o crédito ou de conta redutora, conforme o caso. 29. Portanto, se o contribuinte não contabiliza tais perdas conforme prevê a legislação tributária e não comprova sua contabilização perante a fiscalização, cabe a glosa de tais despesas e sua adição ao Lucro Real para fins de recomposição da base de cálculo, refletindo na redução de crédito porventura devido ou lançamento da diferença no caso de não ter havido decadência desse direito, conforme o caso. 30. Com efeito, se consideramos a forma de apuração da base de cálculo do IRPJ como sendo aquela informada na DIPJ retificadora e adicionarmos o valor equivalente à glosa das despesas decorrentes de perdas em operações de créditos [...]. 31. O valor apresentado na última linha da tabela acima indica o valor do IRPJ a pagar na declaração de ajuste, após a recomposição da base de cálculo. 32. Considerando que o valor recolhido foi de R$ 751.319,58, ainda há saldo a pagar de R$ 20.898.499,00. 33. Essa diferença, contudo, não é mais passível de lançamento em função da decadência. 34. Como se vê, não há que se falar em pagamento indevido ou a maior no período em questão. Ao contrário. O pagamento foi a menor. 35. Por fim, na linha “Estimativas pagas (ficha 12B ajustada)” da tabela está contido o valor total das estimativas de IRPJ efetivamente recolhidas, ou seja, R$ 390.001,68 e R$ 561.728,87, referentes aos meses de novembro e dezembro, respectivamente. 36. Em relação à estimativa do mês de dezembro, destaco que houve apresentação de pedido de restituição. Sua análise, que também foi objeto do mesmo mandado de segurança, está contida no e-processo nº 15578.720379/2017-67. Conclusão 37. Por todo o exposto, concluo que não há crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de IRPJ, declaração de ajuste, apurado em 31 de dezembro de 2009. Manifestação de Inconformidade e Decisão de Primeira Instância Fl. 404DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 6 Cientificada, a Recorrente apresentou a manifestação de inconformidade. Está registrado no Acórdão da 1ª Turma DRJ/08 nº 108-002.758, de 24.09.2020, e-fls. 281-289: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2009 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO. IRPJ. Base de cálculo recomposta em função da glosa de despesas decorrentes de perdas dedutíveis em operações de crédito. APRESENTAÇÃO DE DECLARAÇÃO. PROVA INSUFICIENTE PARA COMPROVAR EXISTÊNCIA DE CRÉDITO DECORRENTE DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Para se comprovar a existência de crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior, é imprescindível que seja demonstrado na escrituração contábil-fiscal, baseada em documentos hábeis e idôneos, que o valor do débito é menor ou indevido, correspondente a cada período de apuração. A simples entrega de declaração, original ou retificadora, por si só, não tem o condão de comprovar a existência de pagamento indevido ou a maior. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido ACÓRDÃO Acordam os membros da 1ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, julgar improcedente a manifestação de inconformidade. Recurso Voluntário Notificada da decisão de primeira instância em 02.12.2020, e-fls. 293, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 22.12.2020, e-fls. 295-312, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. 2. DA LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL DA DACASA FINANCEIRA Conforme se observa na documentação em anexo, em 13/02/2020, o Banco Central do Brasil, por meio do “Ato do Presidente nº 1.349”, decretou a liquidação extrajudicial da Dacasa Financeira. A doutrina define a liquidação extrajudicial como uma medida administrativa saneadora aplicável à instituição financeira, acarretando a paralisação de suas atividades e a eliminação do campo empresarial, conduzindo aos mesmos resultados do procedimento concursal, que é a falência2. Uma vez que consiste a liquidação extrajudicial em regime edificado sob o alicerce do instituto falimentar, ambos têm efeitos semelhantes, como a garantia da higidez da massa, paridade e igualdade entre os credores, etc., além de procedimentos especiais destinados a resguardar a estabilidade e regularidade do Fl. 405DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 7 setor, sendo um desses procedimentos, como dito acima, a paralisação total das atividades da empresa, com sua consequente exclusão do mercado empresarial. Assim, é atribuído ao liquidante a competência para realização dos ativos e satisfação dos passivos, para pagamento dos créditos havidos pelos credores que realmente sejam devidos, observando para tanto a classificação do crédito, bem como a ordem elencada no Art. 83 da Lei 11.101/05. 3. DO DIREITO DA SUBSISTÊNCIA DO CRÉDITO OBJETO DA PER Em breve síntese, a Autoridade Julgadora entendeu que a contribuinte não comprovou a contabilização de despesas decorrentes de perdas em operações de créditos, por isso tais despesas foram glosadas. Feita a apuração do imposto anual, o resultado é de Imposto de Renda a Pagar maior que o imposto de renda efetivamente pago, não havendo pagamento indevido ou maior que justifique o presente feito. Ainda de acordo com a Autoridade Competente, todos os documentos apresentados pela Contribuinte não foram suficientes para comprovação dos valores alegados. Na visão da Autoridade Julgadora, “para se comprovar a existência do crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior, é imprescindível que seja demonstrado na escrituração contábil-fiscal, baseado em documentos hábeis e idôneos”. Ora, por certo que não merecem prosperar tais alegações, o que seria documento idôneo para Receita? A DIPJ, o LALUR, a DCTF não seriam documentos idôneos? Tais declarações são transmitidas para Fazenda, anualmente ou mensalmente, registrando informações contábeis-fiscais para sua conferência. A Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ traz em suas fichas, informações contábeis, tais quais Balanço Patrimonial e Demonstração de Lucro ou Prejuízo Acumulado – DLPA, e informações Fiscais, tal qual apuração do IRPJ e da CSSL. A DIPJ, a época, era documento hábil e obrigatório, apresentado anualmente a Receita, justamente para conferência da apuração do IRPJ e CSLL. A DIPJ, na presente data, fora substituída pela ECF que chama-se – Escrituração Contábil Fiscal. Assim, não há como negar que a DIPJ e demais documentos não sejam apitos para comprovar as alegações da Contribuinte. Na DIPJ e demais documentos já apresentados, estão todas as informações necessárias para se concluir positivamente pelo direito creditório. Os documentos foram juntados quando apresentado a Manifestação de Inconformidade – “Doc_Comprobatorios0001” e “Doc_Comprobatorios0002” em 05/01/2018. A Autoridade Competente ao analisar a PER nº 13304.94172.171214.1.2.04-2607, não homologou a restituição pretendida, por entender que a empresa não contabilizou corretamente as perdas, devendo para tanto ser adicionado ao lucro Real para recomposição da Base de Cálculo. Feito isso, o Fiscal alega que ao invés Fl. 406DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 8 de pagamento indevido ou a maior a contribuinte teria realizado um pagamento a menor. Insta esclarecer que a DACASA FINANCEIRA S/A – Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento é uma Instituição Financeira autorizada a funcionar pelo BACEN – Banco Central do Brasil, de acordo com o Art. 18 da Lei nº 4.595/64 que assim dispõe: Art. 18. As instituições financeiras somente poderão funcionar no País mediante prévia autorização do Banco Central da República do Brasil ou decreto do Poder Executivo, quando forem estrangeiras. (grifo nosso). Por conseguinte, reforça-se que as Instituições Financeiras devem se submeter às regras e normativos promulgados pelo Banco Central do Brasil, quanto ao registro contábil de despesas relacionadas ao provisionamento de perdas das operações de crédito, em especial a Resolução nº 2.682/99. Deste modo, a Resolução nº 2.682/99 estabelece critérios de classificação das operações de crédito e regras para constituição de provisão para créditos de liquidação duvidosa, devendo a Instituições Financeiras, obrigatoriamente, seguir o que a Resolução determina. Senão vejamos: Resolução nº 2.682/99 [...] Pelo que se observa na Resolução em comento, a empresa deve contabilizar gradativamente as provisões para perda desde o 1º dia de atraso, atingindo 100% apenas após completar 180 dias de atraso. Em contrapartida o Art. 9º da Lei nº 9.430/96 estabelece outros critérios para efeito da dedutibilidade das perdas na apuração do Lucro Real, [...]. Logo, patente a observância de critérios distintos, e consequentemente diferenças temporais. As Instituições Financeiras são obrigadas a seguir o critério BACEN para efeito de contabilização, contudo para efeito de apuração deve seguir o que manda a Lei 9.430/96. Desse modo, se as Instituições financeiras utilizassem esse critério BACEN para realizar a apuração do imposto, não estaria condizente com o que determina a Lei 9.430/96, pois esta impõe que as perdas só podem ser deduzidas no mínimo após 180 dias. Portanto apesar do Registro Contábil seguir o que determina a Resolução BACEN, na escrituração Fiscal são realizados os ajustes necessários para se adequar à Lei nº 9.430/96. Por fim, o BACEN por competência delegada pelo Conselho Monetário Nacional, editou a CIRCULAR N° 1.273, instituindo para adoção obrigatória o PLANO CONTÁBIL DAS INSTITUIÇÕES DO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL – COSIF. Pois bem. Conforme dito anteriormente a Dacasa é uma Instituição Financeira, autorizada a funcionar pelo BACEN e para tanto deve seguir as suas regras e normativos, quanto a correta contabilização. Fl. 407DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 9 Nesse sentido, a Dacasa constitui as provisões de perda nas operações de crédito de acordo com o que prevê a resolução BACEN, e registra contabilmente a operação nas contas COSIF nº 8.1.8.30.30 e 8.1.8.30.60, em atendimento ao que preconiza a legislação. As contas em questão para o Exercício de 2009 adicionadas para apuração do Lucro Real perfazem os montantes de: 8.1.8.30.30 PROVISÕES PARA OPERACOES DE CRÉDITO 58.812.141,93 8.1.8.30.60 PROVISÕES PARA OUTROS CRÉDITOS 14.497.445,67 A composição das provisões está prevista na Ficha 5B – L 31, bem como na ECD Ano Calendário 2009 transmitida em 26/06/2010. Todavia, para efeito de apuração do tributo, a Dacasa Financeira segue os critérios que determina o Art. 9º da Lei 9.430/96, realizado por meio de relatórios de forma extracontábil. Por essa razão ao ser questionada sobre as contas contábeis que registraram o valor de R$ 87.508.376,59 (oitenta e sete milhões, quinhentos e oito mil, trezentos e setenta e seis reais e cinquenta e nove centavos), não houve resposta, pois o valor constante nas contas perfazia o valor de R$ 73.309.587,60 (setenta e três milhões, trezentos e nove mil, quinhentos e oitenta e sete reais e sessenta centavos), seguindo os critérios do BACEN e respeitando o Art. 10 da Lei 9.430/96. Desta feita, ao realizar a apuração do Imposto a Dacasa Financeira adiciona ao Lucro Real as provisões nos moldes do BACEN, e deduz as perdas nos moldes do Art. 9º da Lei nº 9.430/96, conforme o LALUR [...]. Conforme se denota de parte do LALUR colacionado acima, foi adicionado R$ 73.309.587,60 (58.812.141,93 + 14.497.445,67) a título de Provisões BACEN e, excluído R$ 87.508.326,59 a título de provisões RFB. Portanto não merecem prosperar as alegações do Fiscal, bem como da Autoridade Julgadora, quando diz que as perdas não foram contabilizadas. As perdas foram devidamente contabilizadas na conta de resultado devedora, porém adotando os critérios do BACEN, por essa razão foram adicionadas ao Lucro Real, para excluir as Perdas efetivas no critério Receita. Logo, não caberia a glosa nem a adição do montante de R$ 87.508.326,59, pois a adição já foi feita no valor de R$ 73.309.587,60. Ora, está claro que os valores foram devidamente contabilizados, e que a documentação apresentada é hábil é completamente idônea, ao contrário do que diz a Fiscalização e Autoridade Julgadora. Fl. 408DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 10 No referido Despacho Decisório o Fiscal contesta ainda, as retificações feitas pela Dacasa Financeira com relação ao Ano Calendário de 2009, que deu ensejo ao pedido de restituição. Em síntese ele alega que DCTF retificada cancelada trazia os montantes de: R$ 751.319,58 no cód. 2390. Já a DCTF retificadora ativa não consta pagamento para o código em referência. Em decorrência disso se faz necessário analisar a base de cálculo. Nesse sentido, vale ressaltar que de acordo com a Lei a Contribuinte pode retificar suas declarações a qualquer momento, dentro do prazo de 5 anos. E de igual forma poderá solicitar a restituição ou compensação dos pagamentos feitos a maior ou indevidamente. Pois bem. Dadas as considerações, para melhor análise quanto às alterações na Base de Cálculo, vale traçar um paralelo entre a DIPJ originária e a retificadora para evidenciar a origem do crédito, as DIPJ’s já estão anexadas aos autos. [...] Insta frisar, que a DIPJ Originária foi preenchida errada, as bases dos dois tributos estão consideravelmente diferentes. Logo, para compor o demonstrativo acima, tomou-se como referência os valores constantes da Ficha 9B da DIPJ Originária. Desse modo, observa-se que as contas alteradas foram: Obs. 01 – Lucro Líquido antes do IRPJ / CSLL - Na DIPJ original, equivocadamente, o valor da CSLL fora adicionada nesta linha (Ficha 9B – L1), sendo incluído duas vezes na base de Cálculo. Obs. 02 / 05 – Despesas operacionais - Não dedutíveis (Adição) / (-) Perdas Dedutíveis, art. 9º da Lei nº 9.430/1996 (Exclusão) – Mais uma vez esclarece a Dacasa Financeira que a DIPJ Originária foi preenchida equivocadamente. Na DIPJ Originária consta apenas o resultado líquido entre: os valores constantes nas contas de provisão (8.1.8.30.30 e 8.1.8.30.60) critério BACEN, e os valores constantes do Relatório de Perda nos moldes do Art. 9º da Lei 9.430/96. A composição das provisões está previsto na Ficha 5B – L 31, bem como na ECD Ano Calendário 2009 transmitida em 26/06/2010. A DIPJ Retificadora mantém os valores das provisões na Adição e o valor das perdas nas exclusões, não impactando na apuração. Obs. 03 – Outras Adições – Esta conta reduziu para R$ 5.740.514,25, registrando tão somente os valores de perdas efetivamente recebidos. Em 2014 foi realizado um estudo para verificar o que realmente foi recuperado e constatou-se que o valor correto era de R$ 5.740.514,25. Ressalta-se que o valor foi apurado de forma extracontábil, nos termos do art. 12 da Lei nº 9.430/96. Relatório repassado para Fiscalização em resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 393/2017, anexado aos Autos do processo nº 15578.720379/2017-67 documentos não pagináveis. Obs. 04 – (-) Reversão das Provisões Não Dedutíveis – Trata-se de reversão de contingência que não foi inserida na DIPJ Originária. Os valores foram registrados na Conta 7.1.9.90.99.0003 - REVERSÃO DE PROVISÕES PARA PASSIVOS Fl. 409DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 11 CONTINGENTES, conforme ECD Ano Calendário 2009 transmitida em 26/06/2010. [...] Insta frisar que DIPJ retificadora traz na Ficha 12B L 14 o valor de R$ 724.467,48 e a Ficha 17 L 74 traz o valor de R$ 460.123,45, em ambos os casos, equivocadamente, não foram informadas as retenções. Todavia o valor é devido. Já na DIPJ originária não foi aproveitado o benefício fiscal de abatimento do IRPJ a pagar relativo ao PAT, nos moldes do Art. 581 e seguintes do RIR/99. Identificado os valores pago a maior/indevidamente foram realizadas 4 (quatro) PER’S [...]. Observe que uma das PER’s foi devidamente homologada. O Fiscal ao analisar a reapuração feita pela Contribuinte, considerou as bases corretas e deferiu o Pedido de forma correta. Veja que o Auditor Fiscal que indeferiu o presente PER contesta as retificadoras realizadas em 12/2014, contudo em seu Despacho opina por glosar o montante de R$ 87.508.326,59 (oitenta e sete milhões, quinhentos e oito mil, trezentos e vinte e seis reais e cinquenta e nove centavos), valor esse que não foi alterado entre a DIPJ originária e a Retificadora. Sendo que a originária trouxe o valor líquido, conforme mencionado acima. Desta feita, patente a observância de que o crédito é devido e que a Contribuinte tem direito a reaver o valor pago indevidamente, nos moldes do art. 165, II do Código Tributário Nacional, razão pela qual fora realizado a PER objeto do presente Despacho Decisório. [...] Deste modo, patente a observância de que ao contrário do que diz a Autoridade Julgadora, a Contribuinte não só apresentou as Declarações originárias e retificadoras, mas também demonstrou a subsistência do crédito por meio da escrituração contábil-fiscal, com lastro no LALUR, na ECD, na DIPJ, e na DCTF. Sendo assim, mister é dar procedência ao presente recurso, reformando a decisão prolatada, a fim de considerar completamente descabida a glosa promovida pela autoridade fiscal, determinando-se a homologação total do cálculo de crédito de CSLL promovido e declarado pela Contribuinte via DIPJ, no montante de R$ 763.265,56 (setecentos e sessenta e três mil, duzentos e sessenta e cinco reais e cinquenta e seis centavos). No que concerne ao pedido conclui que: 4. DO PEDIDO Diante do exposto, pugna-se pelo conhecimento e provimento do presente Recurso Voluntário, reformando-se o v. Acórdão Recorrido, a fim de que sejam canceladas a glosa efetivada no despacho decisório em questão, de modo a reconhecer a completa higidez dos créditos declarados pela Recorrente e a homologar por completo a compensação pretendida. Fl. 410DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 12 Decisão de Segunda Instância Está registrado no Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.803, de 03.04.2025, e- fls. 373-382: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, por maioria, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Carmen Ferreira Saraiva e Gustavo de Oliveira Machado, que davam provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Carmen Ferreira Saraiva (art. 114 do Anexo do Regimento Interno do CARF). Embargos Os Embargos Inominados foram opostos pela Presidente da Turma em face do voto do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.803, de 03.04.2025, e-fls. 373-382, nos termos do § 1º do art. 116 e art. 117 do Anexo do Regimento do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023, tendo em vista “que não restaram integralmente estabelecidos os nexos causais entre os fatos narrados, os direitos aplicáveis aos casos e as consequências jurídicas a que se chegam relativamente a todas as matérias litigiosas”, e-fls. 389-398. É o Relatório. VOTO Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora. Tempestividade O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, inclusive para os fins do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional. Os embargos apresentados foram admitidos nos termos do § 1º do art. 116 e art. 117 do Anexo do Regimento do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023, por restar evidenciada a incompletude da fundamentação do voto condutor do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.803, de 03.04.2025, e-fls. 373-382, da qual decorre a inexatidão material. Assim, deles tomo conhecimento. Fl. 411DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 13 Necessidade de Comprovação da Liquidez e Certeza do Indébito A Recorrente discorda do procedimento fiscal. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição, pode utilizá-lo na compensação de débitos. A partir de 01.10.2002, a compensação somente pode ser efetivada por meio de declaração e com créditos e débitos próprios, que ficam extintos sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Também os pedidos pendentes de apreciação foram equiparados a declaração de compensação, retroagindo à data do protocolo. O Per/DComp delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pela Recorrente quanto ao preenchimento dos requisitos, de modo que em regra a retificação somente é possível se encontrar pendente de decisão administrativa à data do envio do documento retificador e o seu cancelamento é procedimento cabível ao sujeito passivo na forma, no tempo e lugar previstos na legislação tributária (art. 165, art. 168, art. 170 e art. 170-A do Código Tributário Nacional, art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 com redação dada pelo art. 49 da Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, que entrou em vigor em 01.10.2002 e foi convertida na Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002). Posteriormente, ou seja, em 31.10.2003, ficou estabelecido que o Per/DComp constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados, bem como que o prazo para homologação tácita da compensação declarada é de cinco anos, contados da data da sua entrega até a intimação válida do despacho decisório. Ademais, o procedimento se submete ao rito do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional (§1º do art. 5º do Decreto-Lei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, art. 17 da Medida Provisória nº 135, de 30 de outubro de 2003 e art. 17 da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003). O pressuposto é de que a pessoa jurídica deve manter os registros de todos os ganhos e rendimentos, qualquer que seja a denominação que lhes seja dada independentemente da natureza, da espécie ou da existência de título ou contrato escrito, bastando que decorram de ato ou negócio. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a seu favor dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Para que haja o reconhecimento do direito creditório é necessário um cuidadoso exame do pagamento a maior de tributo como condição absolutamente essencial para fins de verificação da precisão dos dados informados. Cabe a averiguação dos livros de registros obrigatórios pela legislação fiscal específica, bem como os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal (art. 195 do Código Tributário Nacional, art. 51 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 6º e art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 e art. 37 da Lei nº 8.981, de 20 de novembro de 1995). Instaurada a fase litigiosa do procedimento, cabe a Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde da comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório Fl. 412DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 14 pleiteado. Devem ser detalhados os motivos de fato e de direito em que se baseiam com exposição de forma minuciosa os pontos de discordância e suas razões. A peça de defesa deve ser instruída com prova documental imprescindível à comprovação das matérias suscitadas dada a concentração dos atos em momento oportuno (art. 170 do Código Tributário Nacional e art. 15, art. 16, art. 18 e art. 29 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). A “escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais” (art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977). Nesse sentido, a legislação exige que a Recorrente produza prova de suas alegações que demonstrem a liquidez e certeza do direito creditório pleiteado (art. 170 do Código Tributário Nacional). Observe-se que no caso de “o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria Administração responsável pelo processo ou em outro órgão administrativo, o órgão competente para a instrução proverá, de ofício, à obtenção dos documentos ou das respectivas cópias” (art. 37 e art. 69 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999 e Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Tem-se que no processo administrativo fiscal a Administração deve se pautar no princípio da verdade material, flexibilizando a preclusão no que se refere a apresentação de documentos, a fim de que se busque ao máximo a incidência tributária (Parecer PGFN nº 591, de 17 de abril de 2014). Em se tratando da necessidade de se demonstrar a liquidez e certeza do crédito que a Recorrente pretende utilizar no Per/DComp, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) pacificou que: “10. A compensação, posto modalidade extintiva do crédito tributário (artigo 156, do CTN), exsurge quando o sujeito passivo da obrigação tributária é, ao mesmo tempo, credor e devedor do erário público, sendo mister, para sua concretização, autorização por lei específica e créditos líquidos e certos, vencidos e vincendos, do contribuinte para com a Fazenda Pública (artigo 170, do CTN)” (Agravo Regimental no Recuso Especial nº 862572/CE) (BRASIL, AgRg no REsp 862572/CE, 2008). Nesse sentido, em caso de Per/DComp inverte-se o ônus da prova, cabendo à Recorrente comprovar seu direito líquido e certo. É dever da autoridade fiscal, ao analisar os valores informados em Per/DComp para fins de decidir homologação ou não da compensação, investigar a exatidão do indébito apurado pela Recorrente. O Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, prevê: Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. Cabe mencionar os seguintes precedentes (art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999): Acórdão da 1ª Turma da CSRF do CARF nº 9101-002.548, de 07.02.2017: Tratando-se de fato constitutivo de direito, cujo ônus da prova incumbe ao autor, em conformidade com o art. 333, inciso I, do Código de Processo Civil CPC (Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015), e tendo em vista que a existência, certeza e Fl. 413DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 15 liquidez do crédito pleiteado são requisitos essenciais ao deferimento da restituição/compensação requerida, na forma do art. 170 do Código Tributário Nacional CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966), compete ao sujeito passivo, que dele pretende se beneficiar, a efetiva comprovação daquele crédito [...]. Acórdão CARF nº 1101-001.494, de 10.12.2024: DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. DOCUMENTAÇÃO PROBATÓRIA. APRESENTAÇÃO. REANÁLISE DO DIREITO CREDITÓRIO. O contribuinte deve provar a liquidez e certeza do direito creditório postulado, exceto nos casos de erro evidente, de fácil constatação. Uma vez colacionados aos autos elementos probatórios suficientes e hábeis, eventual equívoco, o qual deve ser analisado caso a caso, não pode figurar como óbice ao direito creditório. Neste caso, o processo deve retornar à Receita Federal para reanálise do direito creditório vindicado e emissão de despacho decisório complementar. Cabe a aplicação do enunciado estabelecido nos termos do art. 123 do Anexo do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023: Súmula CARF nº 164 A retificação de DCTF após a ciência do despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição ou que não homologou a declaração de compensação é insuficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se fundamenta a retificação. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). O Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015, prevê: Conclusão 22. Por todo o exposto, conclui-se: a) as informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário; b) não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010; c) retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira Fl. 414DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 16 apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo; d) o procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9º-A da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/não- homologação do PER/DCOMP; e) a não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazê-la em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios; f) o valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996; e g) Retificada a DCTF e sendo intempestiva a manifestação de inconformidade, a análise do pedido de revisão de ofício do PER/DCOMP compete à autoridade administrativa de jurisdição do sujeito passivo, observadas as restrições do Parecer Normativo nº 8, de 3 de setembro de 2014, itens 46 a 53. Consta no Acórdão da 1ª Turma DRJ/08 nº 108-002.758, de 24.09.2020, e-fls. 281- 289: Temos ainda que a mera retificação da DCTF e DIPJ não tornam o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP, eis que a autoridade fiscal possui competência para analisar outras questões e documentos. Em consonância com o entendimento exarado no Parecer Normativo Cosit nº 2 de 28 de Agosto de 2015, as informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais Fl. 415DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 17 como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. [...] Como se apontou, a retificação da DCTF é necessária. O débito declarado em DCTF, tendo em vista seu efeito constitutivo, prevalece enquanto não retificado. A retificação da DCTF é ato unilateral do sujeito passivo, com efeito de lançamento tributário, não podendo ser suprido pela decisão de primeira instância. Contudo, a não retificação da DCTF pelo sujeito passivo não impede que o crédito informado em PER/DComp, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios. No caso de retificação de DCTF após a ciência do despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição ou que não homologou a declaração de compensação é possível a retomada a análise do crédito quando apresentado o início da comprovação do erro em que se fundamenta. Tendo em vista as divergências identificadas no recurso voluntário é possível analisar a possibilidade de deferimento do indébito pleiteado nos presentes autos em cotejo com as informações constantes nos sistemas da RFB e aquelas originárias dos registros contábeis e fiscais e respectivos documentos que a Recorrente deve apresentar para fins de comprovação do indébito indicado no Per/DComp, conforme o Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e a Súmula CARF nº 164. A partir da matéria de insurgência recursal dialogando com a decisão de primeira instância cabe esclarecer que foi produzido pela Recorrente um início de prova da apuração do indébito, de acordo com o acervo fático-probatório composto da DIPJ e Lalur, e-fls. 32-94 e 131- 135. As informações constantes nos sistemas da RFB devem ser cotejadas com aquelas originárias dos registros contábeis e fiscais e demais documentos que a Recorrente deve ser notificada a apresentar. Os efeitos da aplicação do direito superveniente fixam a relação de causalidade com a possibilidade de deferimento da Per/DComp. Esta legislação impõe, pois, o retorno dos autos a DRF de origem que inaugurou o litígio sob esse fundamento para que seja analisado o conjunto probatório produzido junto com o recurso voluntário referente ao mérito do pedido sob supressão de instância, sob pena de supressão de instância. Devem ser averiguadas a origem e a procedência do crédito pleiteado, em conformidade com a escrituração mantida com observância das disposições legais, desde que evidenciada por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais em cotejo com os registros internos da RFB. O procedimento previsto no rito do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, pode ser revisto no caso em que foi instaurada a fase litigiosa no procedimento. A autoridade administrativa deve apreciar fato não conhecido ou não provado por ocasião ao ato original decorrente de fato ou a direito superveniente, e ainda se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos, caso em que é elaborado ato administrativo complementar com efeito retroativo ao tempo de sua execução. Assim, no rito do Decreto nº Fl. 416DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 18 70.235, de 06 de março de 1972, sendo afastado o óbice do despacho decisório original em que a compensação não foi homologada na sua integralidade, cabe a autoridade preparadora retomar a verificação do indébito. Registre-se que não se tratar de nova lide, mas sim a continuação de análise do direito creditório pleiteado considerando o saneamento no seu exame. Por conseguinte, não há que se falar em perda do direito de a Fazenda Pública analisar o Per/DComp nesse segundo momento, já que da ciência deste ato complementar não ocorre a homologação tácita, pois os débitos estão com exigibilidade suspensa desde a instauração do litígio. Cumpre registrar, inclusive, que, enquanto a Recorrente não for cientificada de uma nova decisão quanto ao mérito de sua compensação, os débitos compensados permanecem com a exigibilidade suspensa, por não se verificar decisão definitiva acerca de seus procedimentos. E, caso tal decisão não resulte na homologação total das compensações promovidas, deve ser possibilitada a discussão do mérito da compensação nas duas instâncias administrativas de julgamento, conforme o rito processual do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 (§ 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996). Responsabilidade por Infrações Tem-se que “a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato” (art. 136 do Código Tributário Nacional). Ressalte-se que a “atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional” (art. 142 do Código Tributário Nacional). Ademais, “ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece” (art. 3º do Decreto-Lei nº 4.657, de 04 de setembro de 1942). Princípio da Legalidade Tem-se que nos estritos termos legais este procedimento está de acordo com o princípio da legalidade ao qual o agente público está vinculado em razão da obrigatoriedade da aplicação da lei de ofício. Trata-se de poder-dever funcional irrenunciável vinculado à norma jurídica, cuja atuação está direcionada ao cumprimento das determinações constantes no ordenamento jurídico. Como corolário encontra-se o princípio da indisponibilidade que decorre da supremacia do interesse público no que tange aos direitos fundamentais (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 26-A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e art. 98 do Anexo do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023). Dispositivo Em assim sucedendo voto em conhecer e acolher os Embargos Inominados, com efeitos infringentes para correção do voto condutor do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001- 003.803, de 03.04.2025, e assim apreciar as matérias recursais suscitadas e dar provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação Fl. 417DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.206 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15578.720406/2017-00 19 por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva Fl. 418DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 15504.729988/2016-64
Turma: Quarta Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 12 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 PRELIMINAR DE NULIDADE. ATRIBUIÇÃO DO AUDITOR FISCAL PARA RECONHECER VÍNCULO DE SEGURADO EMPREGADO PARA FINS PREVIDENCIÁRIOS-TRIBUTÁRIO DE CUSTEIO NO MOMENTO DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ALEGADA INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE FISCAL. INOCORRÊNCIA. No exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos, desde que de forma fundamentada, sendo o auditor fiscal competente para apontar o vínculo de segurado empregado, a partir da definição da legislação previdenciária, atento a situação fática efetiva (primazia da realidade) e diante dos requisitos encartados no art. 12, inciso I, “a”, da Lei nº 8.212. PRELIMINAR DE NULIDADE POR UTILIZAÇÃO DE AFERIÇÃO INDIRETA. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade quando o lançamento se apresenta devidamente motivado e por sua lógica e coerência procedimental foi respaldado no art. 33, §§ 3º e 6º, da Lei nº 8.212, inclusive pelo regulamentado no art. 233, parágrafo único, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, com suas alterações, em situações na qual o contribuinte presta informação diversa da realidade, ou, ainda, omite informação verdadeira, sendo o procedimento instaurado com o objetivo de lançar de ofício importância que se reputa devida. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade por cerceamento de defesa quando não comprovado efetivo prejuízo. A eventual ausência de elementos ou de provas colacionadas pela fiscalização é matéria de mérito, o qual pode discutir a comprovação, ou não, da infração por parte da fiscalização a partir dos critérios de distribuição do ônus da prova. PRELIMINAR DE NULIDADE. NÃO APROVEITAMENTO DE VALORES RECOLHIDOS POR INTERPOSTAS PESSOAS JURÍDICAS. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade por eventual não aproveitamento de tributos por interpostas pessoas jurídicas, em caso de lançamento de ofício com reconhecimento de simulação e de participação de interpostas pessoas, sendo o critério de aproveitamento, ou não, matéria de mérito. PRIMAZIA DA REALIDADE. QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DE SEGURADO OBRIGATÓRIO. SEGURADO EMPREGADO. OCORRÊNCIA DE PRESSUPOSTOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIO-TRIBUTÁRIA. BASE DE CÁLCULO. AFERIÇÃO INDIRETA. No tocante à relação previdenciário-tributária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando o autuado – que foi comprovadamente efetivo beneficiário do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços –, obrigado ao recolhimento das contribuições devidas conforme correto enquadramento legal para a espécie. Comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma de pactuação e a realidade, imperioso o reconhecimento do colaborador como segurado obrigatório da Previdência Social vinculado com o efetivo contratante, seja na modalidade segurado empregado ou na modalidade de contribuinte individual, conforme contexto fático observado e subsunção ao enquadramento legal adequado. Enquadra-se como segurado empregado, para fins previdenciário-tributário, o trabalhador que prestando serviço diretamente para o efetivo contratante o faça em relação jurídica vinculada com elementos de pessoalidade, habitualidade (não eventualidade), onerosidade, alteridade e subordinação, nessa se observando elementos de vulnerabilidade e vício de consentimento em relação ao efetivo contratante – ex vi da alínea “a” do inciso I do art. 12 da Lei nº 8.212, combinado com o art. 22, I e II, da Lei nº 8.212, e arts. 116, I, 118, I e II, 142 e 149, VII, do CTN. Os valores pagos para segurados obrigatórios do RGPS – segurados empregados –, integram o conceito jurídico de salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. Em caso de aferição indireta, deve a autoridade fiscal justificar o arbitramento da base de cálculo utilizada no lançamento, a qual, ao guardar sintonia com os fatos, não deve ser afastada no controle de legalidade se não existe motivos suficientes para rechaçar a motivação. PRIMAZIA DA REALIDADE. PAGAMENTO EFETUADO PARA INTERPOSTA PESSOA JURÍDICA. REMUNERAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. PRESSUPOSTOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIO-TRIBUTÁRIA. Comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma e a realidade, impõe-se que prevaleça os fatos efetivamente ocorridos. Constatado pagamento para interposta pessoa jurídica que, em verdade, é remuneração de segurado empregado, deve-se reconhecer os valores como salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DO ART. 44, §1º, DA LEI Nº 9.430, APLICADA EM RAZÃO DA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO EM LANÇAMENTO DE OFÍCIO COM INDICAÇÃO DE ELEMENTOS OBJETIVOS CARACTERIZADORES DA PRÁTICA DE SIMULAÇÃO EM CONTEXTO DE SIMULAÇÃO OBJETIVANDO AFASTAR A TRIBUTAÇÃO. LEGALIDADE DA IMPOSIÇÃO. Cabível a imposição da multa qualificada, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra em uma das hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e/ou 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que se referem a situações de sonegação, fraude e conluio, relacionando-se com situações de simulação. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DO ART. 44, §1º, DA LEI Nº 9.430, APLICADA EM RAZÃO DA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO EM LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PERCENTUAL ORIGINÁRIO DE 150%. REDUÇÃO PARA 100% EM RAZÃO DE RETROATIVIDADE BENIGNA DECORRENTE DA LEI Nº 14.689 E MOTIVADO PELA APLICAÇÃO DO TEMA 863 DA REPERCUSSÃO GERAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Na hipótese de existência de processo pendente de julgamento, na esfera administrativa, tendo como origem auto de infração lavrado com base na regra geral de qualificação da multa de ofício, a nova regra mais benéfica (art. 8º da Lei 14.689/2023) deve ser aplicada retroativamente, nos termos do artigo 106, II, “c”, do CTN, in casu, reduzida ao patamar máximo de 100% do valor do tributo cobrado. Aplicável, ainda, o precedente qualificado do Recurso Extraordinário (RE) nº 736.090, da Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal – STF (Tema 863). Tema 863 do STF – Tese Firmada: Até que seja editada lei complementar federal sobre a matéria, a multa tributária qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio limita-se a 100% (cem por cento) do débito tributário, podendo ser de até 150% (cento e cinquenta por cento) do débito tributário caso se verifique a reincidência definida no art. 44, § 1º-A, da Lei nº 9.430/96, incluído pela Lei nº 14.689/23, observando-se, ainda, o disposto no § 1º-C do citado artigo. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA. REQUERIMENTO DE APROVEITAMENTO DE VALORES RECOLHIDOS. Não há como ser aproveitados supostos valores recolhidos por interposta pessoa jurídica quando não guarda relação com a matéria tributável lançada ou inexiste crédito disponível.
Numero da decisão: 2004-000.389
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, exclusivamente a fim de reduzir o percentual da multa de ofício qualificada de 150% para 100%. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros – Relator Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Cleberson Alex Friess (substituto integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Liziane Angelotti Meira (Presidente).
Nome do relator: LEONAM ROCHA DE MEDEIROS

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Inexiste nulidade quando o lançamento se apresenta devidamente motivado e por sua lógica e coerência procedimental foi respaldado no art. 33, §§ 3º e 6º, da Lei nº 8.212, inclusive pelo regulamentado no art. 233, parágrafo único, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, com suas alterações, em situações na qual o contribuinte presta informação diversa da realidade, ou, ainda, omite informação verdadeira, sendo o procedimento instaurado com o objetivo de lançar de ofício importância que se reputa devida. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade por cerceamento de defesa quando não comprovado efetivo prejuízo. A eventual ausência de elementos ou de provas colacionadas pela fiscalização é matéria de mérito, o qual pode discutir a comprovação, ou não, da infração por parte da fiscalização a partir dos critérios de distribuição do ônus da prova. PRELIMINAR DE NULIDADE. NÃO APROVEITAMENTO DE VALORES RECOLHIDOS POR INTERPOSTAS PESSOAS JURÍDICAS. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade por eventual não aproveitamento de tributos por interpostas pessoas jurídicas, em caso de lançamento de ofício com reconhecimento de simulação e de participação de interpostas pessoas, sendo o critério de aproveitamento, ou não, matéria de mérito. PRIMAZIA DA REALIDADE. QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DE SEGURADO OBRIGATÓRIO. SEGURADO EMPREGADO. OCORRÊNCIA DE PRESSUPOSTOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIO-TRIBUTÁRIA. BASE DE CÁLCULO. AFERIÇÃO INDIRETA. No tocante à relação previdenciário-tributária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando o autuado – que foi comprovadamente efetivo beneficiário do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços –, obrigado ao recolhimento das contribuições devidas conforme correto enquadramento legal para a espécie. Comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma de pactuação e a realidade, imperioso o reconhecimento do colaborador como segurado obrigatório da Previdência Social vinculado com o efetivo contratante, seja na modalidade segurado empregado ou na modalidade de contribuinte individual, conforme contexto fático observado e subsunção ao enquadramento legal adequado. Enquadra-se como segurado empregado, para fins previdenciário-tributário, o trabalhador que prestando serviço diretamente para o efetivo contratante o faça em relação jurídica vinculada com elementos de pessoalidade, habitualidade (não eventualidade), onerosidade, alteridade e subordinação, nessa se observando elementos de vulnerabilidade e vício de consentimento em relação ao efetivo contratante – ex vi da alínea “a” do inciso I do art. 12 da Lei nº 8.212, combinado com o art. 22, I e II, da Lei nº 8.212, e arts. 116, I, 118, I e II, 142 e 149, VII, do CTN. Os valores pagos para segurados obrigatórios do RGPS – segurados empregados –, integram o conceito jurídico de salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. Em caso de aferição indireta, deve a autoridade fiscal justificar o arbitramento da base de cálculo utilizada no lançamento, a qual, ao guardar sintonia com os fatos, não deve ser afastada no controle de legalidade se não existe motivos suficientes para rechaçar a motivação. PRIMAZIA DA REALIDADE. PAGAMENTO EFETUADO PARA INTERPOSTA PESSOA JURÍDICA. REMUNERAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. PRESSUPOSTOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIO-TRIBUTÁRIA. Comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma e a realidade, impõe-se que prevaleça os fatos efetivamente ocorridos. Constatado pagamento para interposta pessoa jurídica que, em verdade, é remuneração de segurado empregado, deve-se reconhecer os valores como salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DO ART. 44, §1º, DA LEI Nº 9.430, APLICADA EM RAZÃO DA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO EM LANÇAMENTO DE OFÍCIO COM INDICAÇÃO DE ELEMENTOS OBJETIVOS CARACTERIZADORES DA PRÁTICA DE SIMULAÇÃO EM CONTEXTO DE SIMULAÇÃO OBJETIVANDO AFASTAR A TRIBUTAÇÃO. LEGALIDADE DA IMPOSIÇÃO. Cabível a imposição da multa qualificada, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra em uma das hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e/ou 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que se referem a situações de sonegação, fraude e conluio, relacionando-se com situações de simulação. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DO ART. 44, §1º, DA LEI Nº 9.430, APLICADA EM RAZÃO DA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO EM LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PERCENTUAL ORIGINÁRIO DE 150%. REDUÇÃO PARA 100% EM RAZÃO DE RETROATIVIDADE BENIGNA DECORRENTE DA LEI Nº 14.689 E MOTIVADO PELA APLICAÇÃO DO TEMA 863 DA REPERCUSSÃO GERAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Na hipótese de existência de processo pendente de julgamento, na esfera administrativa, tendo como origem auto de infração lavrado com base na regra geral de qualificação da multa de ofício, a nova regra mais benéfica (art. 8º da Lei 14.689/2023) deve ser aplicada retroativamente, nos termos do artigo 106, II, “c”, do CTN, in casu, reduzida ao patamar máximo de 100% do valor do tributo cobrado. Aplicável, ainda, o precedente qualificado do Recurso Extraordinário (RE) nº 736.090, da Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal – STF (Tema 863). Tema 863 do STF – Tese Firmada: Até que seja editada lei complementar federal sobre a matéria, a multa tributária qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio limita-se a 100% (cem por cento) do débito tributário, podendo ser de até 150% (cento e cinquenta por cento) do débito tributário caso se verifique a reincidência definida no art. 44, § 1º-A, da Lei nº 9.430/96, incluído pela Lei nº 14.689/23, observando-se, ainda, o disposto no § 1º-C do citado artigo. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA. REQUERIMENTO DE APROVEITAMENTO DE VALORES RECOLHIDOS. Não há como ser aproveitados supostos valores recolhidos por interposta pessoa jurídica quando não guarda relação com a matéria tributável lançada ou inexiste crédito disponível.

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ATRIBUIÇÃO DO AUDITOR FISCAL PARA RECONHECER VÍNCULO DE SEGURADO EMPREGADO PARA FINS PREVIDENCIÁRIOS-TRIBUTÁRIO DE CUSTEIO NO MOMENTO DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ALEGADA INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE FISCAL. INOCORRÊNCIA. No exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos, desde que de forma fundamentada, sendo o auditor fiscal competente para apontar o vínculo de segurado empregado, a partir da definição da legislação previdenciária, atento a situação fática efetiva (primazia da realidade) e diante dos requisitos encartados no art. 12, inciso I, “a”, da Lei nº 8.212. PRELIMINAR DE NULIDADE POR UTILIZAÇÃO DE AFERIÇÃO INDIRETA. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade quando o lançamento se apresenta devidamente motivado e por sua lógica e coerência procedimental foi respaldado no art. 33, §§ 3º e 6º, da Lei nº 8.212, inclusive pelo regulamentado no art. 233, parágrafo único, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, com suas alterações, em situações na qual o contribuinte presta informação diversa da realidade, ou, ainda, omite informação verdadeira, sendo o procedimento instaurado com o objetivo de lançar de ofício importância que se reputa devida. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade por cerceamento de defesa quando não comprovado efetivo prejuízo. A eventual ausência de elementos ou de provas colacionadas pela fiscalização é matéria de mérito, o qual pode discutir a Fl. 598DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 2 comprovação, ou não, da infração por parte da fiscalização a partir dos critérios de distribuição do ônus da prova. PRELIMINAR DE NULIDADE. NÃO APROVEITAMENTO DE VALORES RECOLHIDOS POR INTERPOSTAS PESSOAS JURÍDICAS. INOCORRÊNCIA. Inexiste nulidade por eventual não aproveitamento de tributos por interpostas pessoas jurídicas, em caso de lançamento de ofício com reconhecimento de simulação e de participação de interpostas pessoas, sendo o critério de aproveitamento, ou não, matéria de mérito. PRIMAZIA DA REALIDADE. QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DE SEGURADO OBRIGATÓRIO. SEGURADO EMPREGADO. OCORRÊNCIA DE PRESSUPOSTOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIO-TRIBUTÁRIA. BASE DE CÁLCULO. AFERIÇÃO INDIRETA. No tocante à relação previdenciário-tributária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando o autuado – que foi comprovadamente efetivo beneficiário do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços –, obrigado ao recolhimento das contribuições devidas conforme correto enquadramento legal para a espécie. Comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma de pactuação e a realidade, imperioso o reconhecimento do colaborador como segurado obrigatório da Previdência Social vinculado com o efetivo contratante, seja na modalidade segurado empregado ou na modalidade de contribuinte individual, conforme contexto fático observado e subsunção ao enquadramento legal adequado. Enquadra-se como segurado empregado, para fins previdenciário- tributário, o trabalhador que prestando serviço diretamente para o efetivo contratante o faça em relação jurídica vinculada com elementos de pessoalidade, habitualidade (não eventualidade), onerosidade, alteridade e subordinação, nessa se observando elementos de vulnerabilidade e vício de consentimento em relação ao efetivo contratante – ex vi da alínea “a” do inciso I do art. 12 da Lei nº 8.212, combinado com o art. 22, I e II, da Lei nº 8.212, e arts. 116, I, 118, I e II, 142 e 149, VII, do CTN. Os valores pagos para segurados obrigatórios do RGPS – segurados empregados –, integram o conceito jurídico de salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. Em caso de aferição indireta, deve a autoridade fiscal justificar o arbitramento da base de cálculo utilizada no lançamento, a qual, ao Fl. 599DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 3 guardar sintonia com os fatos, não deve ser afastada no controle de legalidade se não existe motivos suficientes para rechaçar a motivação. PRIMAZIA DA REALIDADE. PAGAMENTO EFETUADO PARA INTERPOSTA PESSOA JURÍDICA. REMUNERAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. PRESSUPOSTOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIO-TRIBUTÁRIA. Comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma e a realidade, impõe-se que prevaleça os fatos efetivamente ocorridos. Constatado pagamento para interposta pessoa jurídica que, em verdade, é remuneração de segurado empregado, deve-se reconhecer os valores como salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DO ART. 44, §1º, DA LEI Nº 9.430, APLICADA EM RAZÃO DA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO EM LANÇAMENTO DE OFÍCIO COM INDICAÇÃO DE ELEMENTOS OBJETIVOS CARACTERIZADORES DA PRÁTICA DE SIMULAÇÃO EM CONTEXTO DE SIMULAÇÃO OBJETIVANDO AFASTAR A TRIBUTAÇÃO. LEGALIDADE DA IMPOSIÇÃO. Cabível a imposição da multa qualificada, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra em uma das hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e/ou 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que se referem a situações de sonegação, fraude e conluio, relacionando- se com situações de simulação. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DO ART. 44, §1º, DA LEI Nº 9.430, APLICADA EM RAZÃO DA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO EM LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PERCENTUAL ORIGINÁRIO DE 150%. REDUÇÃO PARA 100% EM RAZÃO DE RETROATIVIDADE BENIGNA DECORRENTE DA LEI Nº 14.689 E MOTIVADO PELA APLICAÇÃO DO TEMA 863 DA REPERCUSSÃO GERAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Na hipótese de existência de processo pendente de julgamento, na esfera administrativa, tendo como origem auto de infração lavrado com base na regra geral de qualificação da multa de ofício, a nova regra mais benéfica (art. 8º da Lei 14.689/2023) deve ser aplicada retroativamente, nos termos do artigo 106, II, “c”, do CTN, in casu, reduzida ao patamar máximo de 100% do valor do tributo cobrado. Aplicável, ainda, o precedente qualificado do Recurso Extraordinário (RE) nº 736.090, da Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal – STF (Tema 863). Tema 863 do STF – Tese Firmada: Até que seja editada lei complementar federal sobre a matéria, a multa tributária qualificada em razão de Fl. 600DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 4 sonegação, fraude ou conluio limita-se a 100% (cem por cento) do débito tributário, podendo ser de até 150% (cento e cinquenta por cento) do débito tributário caso se verifique a reincidência definida no art. 44, § 1º-A, da Lei nº 9.430/96, incluído pela Lei nº 14.689/23, observando-se, ainda, o disposto no § 1º-C do citado artigo. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA. REQUERIMENTO DE APROVEITAMENTO DE VALORES RECOLHIDOS. Não há como ser aproveitados supostos valores recolhidos por interposta pessoa jurídica quando não guarda relação com a matéria tributável lançada ou inexiste crédito disponível. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, exclusivamente a fim de reduzir o percentual da multa de ofício qualificada de 150% para 100%. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros – Relator Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Cleberson Alex Friess (substituto integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Liziane Angelotti Meira (Presidente). RELATÓRIO Cuida-se, o caso versando, de Recurso Voluntário (e-fls. 462/590), com efeito suspensivo e devolutivo ― autorizado nos termos do art. 33 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal ―, interposto pelo recorrente, devidamente qualificado nos fólios processuais, relativo ao seu inconformismo com a decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) de primeira instância (e-fls. 414/450), consubstanciada no Acórdão nº 10-61.094 – 6ª Turma da DRJ/POA, de 30/11/2017, que, por Fl. 601DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 5 unanimidade de votos, julgou improcedente o pedido deduzido na impugnação, cujo acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 CONSTITUCIONALIDADE. A constitucionalidade das leis é vinculada para a Administração Pública. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE. No tocante à relação previdenciária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando a empresa autuada, na condição de efetiva beneficiária do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços através de empresas interpostas, obrigada ao recolhimento das contribuições previdenciárias devidas. Entendimento que se aplica também às exações destinadas a outras entidades e fundos, arrecadadas e fiscalizadas pela Receita Federal do Brasil. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 MULTA QUALIFICADA. APLICAÇÃO. A multa de ofício qualificada de 150%, incidente sobre os valores das contribuições não recolhidas, é aplicável sempre que caracterizada a prática de ato com o objetivo de modificar as características essenciais do fato gerador da obrigação tributária principal, de modo a reduzir o montante das contribuições devidas, ou evitar o seu pagamento, bem assim de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária acerca da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Do lançamento fiscal O lançamento, em sua essência e circunstância, para fatos geradores ocorridos nas competências destacadas na ementa do acórdão recorrido, com auto de infração (e-fls. 2/20; 263/264) juntamente com as peças integrativas e Termo de Verificação Fiscal (e-fls. 22/54) devidamente colacionados, tendo o contribuinte sido notificado em 23/01/2017 (e-fl. 265), foi bem sumariado no relatório do acórdão objeto da irresignação, pelo que passo a adotá-lo com breves adaptações quando necessárias: A empresa contribuinte MAIO EMPREENDIMENTOS E CONSTRUÇÕES S/A foi autuada pelo não recolhimento das contribuições destinadas a outras entidades e Fl. 602DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 6 fundos (Terceiros) – no caso, ao Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação – FNDE (Salário-Educação), Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária – INCRA, Serviço Social da Indústria – SESI, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, incidentes sobre valores de remuneração pagos a segurados empregados, nas competências janeiro de 2012 a dezembro de 2013. Os créditos tributários lançados, apurados em 17 de janeiro de 2017, atingiram o montante de R$ 670.510,30 (seiscentos e setenta mil, quinhentos e dez reais e trinta centavos). A empresa teve ciência dos lançamentos em 23 de janeiro de 2017, por via postal (fls. 265/266). No Termo de Verificação Fiscal de fls. 22/54, a autoridade lançadora presta informações acerca da ação fiscal, bem assim no tocante ao lançamento supramencionado. No caso, a auditoria fiscal constatou, em consulta à internet, que a empresa contribuinte Maio Empreendimentos e Construções S/A integra o Grupo Maio/Paranasa. Esclarece que em várias reportagens obtidas, no próprio “site” da empresa e em vídeo institucional, há menção ao Grupo, que atua na área de incorporação e construção de empreendimentos comerciais e residenciais. Aduz que a ligação entre as empresas Maio Empreendimentos (contribuinte) e Paranasa Engenharia e Comércio S/A (solidária na obrigação previdenciária patronal, não havendo solidariedade nas exações para Outras Entidades e Fundos -Terceiros) foi confirmada através de verificação efetuada no quadro societário das empresas. Essas empresas possuem os mesmos acionistas ou quotistas, a saber: MRP Participações Ltda, Fernando Soares Magalhães Viana, Jackson Cançado Ribeiro, Juarez Viana Dolabela Marques e Jânio Valério Alves. Quanto ao lançamento em si, consta que, para atender a demanda de suas atividades econômicas, a autuada contribuinte Maio Empreendimentos utilizou o trabalho de segurados empregados admitidos de forma meramente formal por meio de interpostas pessoas jurídicas. Estes profissionais eram sócios das interpostas, mas que, em face das peculiaridades verificadas na prestação desses serviços, foram enquadrados como segurados empregados da autuada. Também, verificou-se peculiar situação de segurado empregado da própria autuada que teve parte da remuneração paga de forma simulada por meio de interposta pessoa jurídica. Foram considerados, como base de cálculo das contribuições autuadas, primeiro, os valores pagos a pessoas físicas por intermédio de pessoas jurídicas, cujos sócios foram caracterizados, à luz da legislação previdenciária, como segurados obrigatórios da Previdência Social, na qualidade de segurados empregados da empresa autuada. Fl. 603DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 7 “In casu”, foram considerados segurados empregados a serviço da autuada os sócios das empresas interpostas, a saber: Sandro José Diniz Lima Soares, sócio da “SDS Engenharia e Consultoria”, CNPJ nº 10.../0001-53; e Rodrigo Augusto de Moura, sócio da “Viana Moura Engenharia Ltda, atualmente RAM Engenharia Ltda”, CNPJ nº 11.../0001-10. Adicionalmente, o valor pago à empresa “Só Na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda” foi considerado como salário indireto de Charles Gomes de Oliveira, gerente comercial da própria autuada contribuinte Maio Empreendimentos. Tratou-se de pagamento simulado por meio de interposta pessoa jurídica. No primeiro caso, a auditoria fiscal inicialmente identificou, por meio de lançamentos contábeis efetuados na conta de passivo Fornecedores Diversos 2.01.001.101170, aquelas empresas que prestaram serviços para a autuada, no período fiscalizado, executando atividades relacionadas à atividade-fim desta última. Em sequência, solicitou a apresentação dos respectivos contratos de prestação de serviço, notas fiscais emitidas pelas prestadoras e outros elementos, com a finalidade de identificar, claramente, a natureza dos serviços prestados. Com base nesses elementos, concluiu que, nas duas empresas prestadoras de serviço em questão (“SDS Engenharia e Consultoria”; e “Viana Moura Engenharia Ltda”, atualmente “RAM Engenharia Ltda”), ainda que ambas tenham firmado contratos de prestação de serviços e/ou faturado os serviços, a prestação de serviços se deu diretamente pelos sócios, em condições que os enquadram, nos termos da legislação previdenciária, como segurados empregados da contribuinte Maio Empreendimentos tomadora dos serviços, porquanto constatadas a pessoalidade, onerosidade, não eventualidade e subordinação jurídica existentes na relação jurídica entre as partes. As remunerações dos trabalhadores foram apuradas por aferição indireta, com base nas notas fiscais emitidas pelas prestadoras de serviço, procedimento que tem respaldo no artigo 33, §§ 3º e 6º, da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, e no artigo 233, parágrafo único, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 06 de maio de 1999, com suas alterações. No segundo caso (situação da empresa interposta “Só Na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”), a auditoria fiscal considerou como remuneração indireta, integrando o salário de contribuição do segurado empregado da própria autuada Sr. Charles Gomes de Oliveira, o pagamento de R$ 2.500.000,00, efetuado em janeiro de 2012, a título de comissão. O valor referido foi pago de forma simulada para a empresa interposta “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”. Esse valor foi identificado na contabilidade da autuada. Tratava-se, em verdade, de salário “indireto” (comissão) do segurado empregado. A auditoria fiscal registra, ainda, que o Sr. Charles Gomes de Oliveira foi gerente comercial da autuada, admitido em 1º de fevereiro de 2011 e demitido Fl. 604DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 8 em 25 de julho de 2012, além de sócio administrador da empresa “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”, constituída 14/12/2011, com atividades paralisadas em 13/08/2013. O pagamento da remuneração (salário indireto) ocorreu em janeiro de 2012. A autuação vem instruída pelos documentos de fls. 56/261. O lançamento dos autos é reflexo do lançamento das contribuições previdenciárias (Processo Principal Apenso nº 15504.729986/2016-75, julgamento nessa mesma assentada) no qual se imputou responsabilidade solidária para as indicadas empresas do Grupo Econômico da autuada contribuinte Maio Empreendimentos, no entanto nestes autos de lançamento de Terceiros não houve imputação de responsabilidade solidária. Da Impugnação ao lançamento A impugnação (e-fls. 270/393), que instaurou o contencioso administrativo fiscal, dando início e delimitando os contornos da lide, foi apresentada pelo recorrente. Em suma, controverteu-se na forma apresentada nas razões de inconformismo, conforme consta sumariado no relatório da decisão vergastada, pelo que peço vênia para, igualmente, reproduzir com breves adaptações quando necessárias: A empresa contribuinte Maio Empreendimentos e Construções S/A impugnou tempestivamente as exigências, através do arrazoado de fls. 270/393. A ciência da autuação ocorreu em 23 de janeiro de 2017, enquanto a impugnação foi protocolizada em 22 de fevereiro de 2017 (fls. 268/269). Em preliminar, a empresa Maio Empreendimentos e Construções S/A aponta a nulidade dos lançamentos, tendo em vista, a um, a incompetência da fiscalização para desconsiderar a existência de pessoas jurídicas e reconhecer relações de emprego; a dois, a utilização do método de aferição indireta sem que existam parâmetros legais previstos especificamente para a apuração de contribuições previdenciárias; a três, a ocorrência de cerceamento de defesa; e, a quatro, a desconsideração pela autoridade fiscal dos valores já recolhidos a título de contribuição social pelas pessoas jurídicas prestadoras de serviços. Isto posto, veja-se. Da incompetência da fiscalização para desconsiderar a existência de pessoas jurídicas e reconhecer relações de emprego Inicialmente, afirma a impugnante que, nos termos do artigo 114 da Constituição Federal, compete à Justiça do Trabalho a análise da existência de eventual vínculo empregatício, inclusive no que respeita ao reconhecimento das relações de emprego. Fl. 605DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 9 Nesse sentido, conclui pela inconstitucionalidade e ilegalidade no parágrafo 2º do artigo 229 do RPS. Aduz que, nos termos do artigo 33 da Lei nº 8.212/91, o poder fiscalizatório dos agentes da Secretaria da Receita Federal do Brasil - RFB é amplo, inexistindo, contudo, previsão quanto à possibilidade de reconhecimento de vínculo empregatício pela fiscalização. Tampouco a Lei nº 10.593, de 06 de dezembro de 2002, que trata das carreiras dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil, autoriza, em seu artigo 6º, o procedimento previsto no parágrafo 2º do artigo 229 do Regulamento da Previdência Social. Conclui pela nulidade dos lançamentos, haja vista a ausência de competência legal do Fisco para reconhecer a existência de relação de emprego, e, em consequência, para exigir contribuições previdenciárias e multas por descumprimento de obrigações acessórias da impugnante na condição de suposta empregadora. Destaca, ainda, o disposto no artigo 142 do Código Tributário Nacional – CTN, segundo o qual o lançamento, para que surta seus efeitos, deve ser realizado por autoridade competente – o que não ocorreu “in casu”. Também a desconsideração da personalidade jurídica de empresas prestadoras de serviços, realizada pelo Fisco na presente autuação, não faz parte de seu rol de competências legais. Trata-se de competência restrita ao Poder Judiciário, consoante se dessume do artigo 50 do Código Civil – restando igualmente clara, neste caso, a intromissão do Fisco em seara alheia à sua competência legal. Neste diapasão refere ainda o disposto no artigo 129 da Lei nº 11.129/2005 [sic], segundo o qual, para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados – como no caso dos serviços prestados à impugnante, pelas empresas discriminadas no relatório fiscal –, sempre se sujeitam à legislação aplicável às pessoas jurídicas, descabendo às autoridades tributárias lhes dar o tratamento previsto aos trabalhadores, ainda quando destinadas à prestação de serviços de natureza intelectual e mesmo quando estes serviços são realizados por apenas um de seus sócios e em caráter pessoal. Assim também nos termos do parágrafo único do artigo 116 do CTN, que não permite a desconstrução de situações jurídicas consolidadas, como no caso em tela, e depende de lei complementar – ainda não editada – para sua execução. Da utilização do método de aferição indireta sem que existam parâmetros legais previstos especificamente para a apuração de contribuições previdenciárias Afirma que o método de aferição indireta é admitido na hipótese em que a fiscalização constata que a contabilidade ou a documentação do contribuinte não registra o movimento real da pretensa remuneração paga a segurados. Trata-se Fl. 606DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 10 de forma subsidiária de quantificação do fato gerador, à qual não se pode apelar, salvo nos casos rigidamente estabelecidos em lei, no caso, o parágrafo 6º do artigo 33 da Lei nº 8.212/91. Ocorre que para sua utilização devem constar previstos em lei parâmetros para a aferição da matéria tributável – inexistentes em relação às contribuições previdenciárias e sociais –, haja vista o disposto no artigo 142, parágrafo único, do CTN, segundo o qual o ato administrativo do lançamento é vinculado à lei. Acrescenta que, nos termos do artigo 97, inciso IV, do CTN, regulamentador do princípio da legalidade estabelecido no artigo 150, inciso I, da Constituição Federal, “somente a lei pode estabelecer a fixação da alíquota do tributo e da sua base de cálculo”, razão por que nem mesmo eventual parâmetro prescrito em atos administrativos é competente para tanto. No presente caso, inexistindo em lei parâmetros para arbitramento das contribuições previdenciárias e sociais, a aferição indireta preceituada no parágrafo 6º do artigo 33 da Lei nº 8.212/91 afigura-se mera norma programática, que reclama, ainda, regulamentação legal. Os arbitramentos nela embasados, tal qual se constata “in casu”, em que foi utilizado como parâmetro o valor das notas fiscais emitidas pelas pessoas jurídicas tidas como interpostas, mostram-se manifestamente inconstitucionais e ilegais, por afronta ao princípio da legalidade. Da ocorrência de cerceamento de defesa Afirma que o exercício das garantias constitucionais ao contraditório e à ampla defesa pressupõe que o litigante tenha absoluta segurança quanto aos contornos em que definida a pretensão contra ele deduzida. É imperioso que se saiba, ao certo, todos os pontos sobre os quais seja relevante contraditar e apresentar evidências, de forma a permitir que o contribuinte possa influenciar a formação do convencimento da autoridade responsável pelo controle de legitimidade do crédito tributário. No caso em apreço, tais prerrogativas não foram observadas. No Relatório Fiscal, a fiscalização faz referência a documentos, utilizados como base de dados para a lavratura dos autos de infração em referência, os quais não foram disponibilizados no presente processo administrativo. Destaca os itens 19-a, 32 e 33 do relatório, onde o Fisco expressamente afirma que consultou o banco de dados da RFB, notadamente as Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social - GFIPs, para fundamentar o lançamento na suposta ausência de empregados das empresas prestadoras de serviços. Observa que, embora a Fiscalização tenha, expressamente, afirmado que consultou a base de dados da RFB para verificar a existência de empregados registrados em nome das empresas SDS Engenharia e Consultoria, Viana Moura Engenharia e Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda., deixou de colacionar ao processo administrativo as Fl. 607DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 11 GFIPs emitidas por estas, ou mesmo as Relações Anuais de Informações Sociais - RAIS destas, as quais também podem ser acessadas pela auditoria fiscal. Aduz, contudo, que esses documentos detêm informações que não são públicas e que, por óbvio, a impugnante não teve e nem terá acesso a eles. São informações protegidas pelo sigilo fiscal, na forma do artigo 198 do CTN. De qualquer sorte, como os referidos documentos não foram colacionados ao presente processo administrativo, nem entregues simultaneamente com os autos de infração em apreço, não tem a impugnante como verificar a veracidade dessas assertivas. A nulidade dos autos de infração exsurge clara quando se verifica que a não apresentação dos elementos de prova implica cerceamento de defesa imposto à impugnante, bem como atentado ao direito ao contraditório, já que, sem saber com precisão quais são os elementos instrutórios que o sustentam, não pôde trazer à lide seus argumentos e provas cabíveis. Ademais, é dever do Fisco, ao realizar o lançamento, acostar aos autos todos os elementos de prova que lhe deram substrato, conforme determina o artigo 9º do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. No âmbito do processo administrativo-fiscal não prevalece, pois, o entendimento de que a prova deve ser suportada pelo sujeito passivo da obrigação tributária, sob o argumento de presumirem-se verdadeiros os fatos alegados pela Administração Pública. Isso porque, antes de o ônus da prova recair sobre o sujeito passivo no momento da impugnação, em razão dos fatos impeditivos, modificativos ou extintivos de seus direitos, cabe ao Fisco o dever de demonstrar os fatos que fundamentaram o lançamento. Invoca, ainda, o disposto no artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72, o qual impõe a nulidade do lançamento em situação como a presente, “na qual o cerceamento de defesa é incontestável.” Da desconsideração pela autoridade fiscal dos valores já recolhidos a título de contribuição social pelas pessoas jurídicas prestadoras de serviços No presente caso, a fiscalização, em desacordo com o disposto no artigo 142 do CTN, deixou de verificar e deduzir, do lançamento, as contribuições sociais já recolhidas pelas pessoas jurídicas que prestaram serviços à impugnante – o que configura vício de apuração da “matéria tributável”. Uma vez que o Fisco entendeu pela existência de suposta relação de emprego, desconsiderando a personalidade jurídica das empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Engenharia, e que os valores pagos à Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda. seriam salário indireto de empregado da impugnante, caberia a ele o dever de mensurar a exação, considerando os valores regularmente recolhidos por estas até então, tal como determina o artigo 142 do CTN. Fl. 608DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 12 No mérito, a empresa afirma, a um, a insubsistência dos autos de infração; a dois, a indevida desconsideração da personalidade jurídica da empresa Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporações de Negócios Imobiliários Ltda.; a três, a necessária apuração das contribuições sociais de acordo com os profissionais que executaram atividades, ou segundo a participação dos sócios nas respectivas pessoas jurídicas; a quatro, a necessária dedução do presente lançamento das contribuições previdenciárias e sociais e dos tributos recolhidos pelas pessoas jurídicas que prestaram serviços à impugnante; e, a cinco, a ilegalidade da qualificação da multa aplicada. Isto posto, veja-se. Da insubsistência dos autos de infração Afirma, inicialmente, que o procedimento administrativo de lançamento se orienta pela busca da verdade material, a qual deve ser demonstrada objetivamente pela autoridade administrativa, nos termos do artigo 142 do CTN. Assim, deve o lançamento tributário fundar-se na lei e na demonstração da ocorrência dos fatos geradores dos tributos. Em outras palavras, compete ao Fisco, ao realizar uma autuação, provar as premissas fáticas aptas a validar o procedimento, não bastando, para tanto, que seus agentes apresentem meros indícios de prova. No presente caso, entretanto, a fiscalização conduziu-se fora dos limites da lei ou em ofensa a esta, havendo deixado de considerar fatos relevantes para a verificação da existência ou não de vínculos empregatícios. Ao assim proceder, acabou por aplicar à impugnante tributação por mera presunção, o que o ordenamento pátrio renega, porque erigido ao arrepio do artigo 142 do CTN, vulnerando o princípio da legalidade, resultando inválido o lançamento fiscal em tela. A prova da existência da relação de emprego impõe que se confirmem todos os pressupostos elencados no artigo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. Assim, somente se estará diante de empregado se houver inequívoca prova da existência concomitante dos seguintes requisitos: trabalho por pessoa física, pessoalidade, onerosidade, não eventualidade e subordinação jurídica. A desconsideração da personalidade da empresa prestadora do serviço, para viabilizar o reconhecimento do vínculo empregatício entre o seu sócio e o tomador do serviço, exige que seja provada pela auditoria fiscal a configuração desses requisitos, não sendo suficiente a sua demonstração de modo parcial, ou incompleto, ou, ainda, por meio de indícios. Destarte, não comprovada a relação empregatícia, resta malferida a norma prescrita no artigo 142 do CTN, no sentido de que o Fisco não se desincumbiu do dever de demonstrar a ocorrência do fato gerador da obrigação previdenciária, Fl. 609DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 13 dando ensejo à nulidade dos lançamentos tributários, em virtude de vício material. Examina, neste tópico, os requisitos (a) da pessoalidade e da ausência de prestação de serviços por pessoa física, (b) da não eventualidade, (c) da onerosidade e (d) da subordinação. a) da pessoalidade e da ausência de prestação de serviços por pessoa física Afirma, inicialmente, que a prestação de serviços por empresas que não possuem folha de pagamento, inclusive aqueles de natureza intelectual, não enseja a interpretação realizada pelo Fisco, no sentido de que as respectivas atividades sejam realizadas pelos próprios profissionais discriminados no Relatório Fiscal – fato que, no entender da auditoria fiscal, permitiria presumir a prática pela impugnante de “pejotização”, ou melhor, a contratação de empregados sob as vestes de pessoas jurídicas, e a pessoalidade dos serviços prestados, vindo a caracterizar relação de emprego entre a impugnante e os sócios dessas prestadoras dos serviços. Nesse sentido, reitera o disposto no artigo 129 da Lei nº 11.196, de 21 de novembro de 2005, de acordo com o qual, para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais pode ser realizada através de pessoas jurídicas. Observa que essas sociedades, em regra, como suas atividades envolvem a prestação de serviços de natureza intelectual, não possuem grandes estruturas físicas ou intensidade de negócios. Assim, a atividade econômica, por profissional intelectual, pode ser realizada através de pessoa jurídica, a qual pode dispensar, por sua vez, a contratação de mão-de-obra e grandes estruturas físicas para o exercício de seu objeto social. Tais características demonstram que, de fato, é geralmente o próprio sócio que presta, pessoalmente, o serviço contratado. Todavia, este simples elemento não leva à conclusão de que há aqui relação de emprego entre a impugnante e os sócios das empresas contratadas. Destaca que os serviços de engenharia prestados à impugnante envolvem a prestação de esclarecimentos de natureza técnico-científica, ou seja, resumem-se à transmissão de conhecimentos e elementos imateriais de caráter técnico, dado o “know how” que o prestador dos serviços possui. Atividade que não exige necessariamente auxílio profissional. Salienta que as pessoas jurídicas contratadas pela impugnante, enquanto espécies de sociedades simples, têm como principal característica o fato de servirem para viabilizar a prestação de serviços técnicos atinentes à profissão exercida pelos seus sócios, prestando-se a desenvolver atividade eminentemente intelectual referente ao setor de engenharia. Não têm, portanto, essência empresarial, embora exerçam atividade econômica de forma organizada. Em razão disso, considera que a prestação de serviços de engenharia – objeto social das empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Fl. 610DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 14 Engenharia – à impugnante, atuante no setor de construção civil, não permite a configuração de relação empregatícia, com a desconsideração da personalidade das aludidas pessoas jurídicas. Caso contrário, na hipótese de prevalecer o raciocínio desenvolvido pelo Fisco, no sentido de que as atividades exercidas por essas empresas estão inseridas no bojo da atividade-fim regularmente executada pela impugnante e que, por isso, deve ser reconhecido o desempenho de atividade laboral, típica de empregado, pelos sócios dessas sociedades, inevitavelmente ocorrerá o esvaziamento da finalidade jurídica e econômica delas, uma vez que ficarão impossibilitadas de atuar no setor da construção civil. Assim, pouco importa o fato de que as pessoas jurídicas não tenham o registro de empregados, uma vez que os serviços podem ter sido, de modo legítimo, executados pessoalmente pelos seus sócios. Observa que os contratos de prestação de serviços com a impugnante demonstram que as relações firmadas com esta envolveram serviços prestados, exclusivamente, por pessoas jurídicas e não por pessoas físicas. Assim, jamais poderia se concluir pela existência de eventual relação de emprego, já que a figura do trabalhador há de ser, sempre, uma pessoa natural. Tais fatos demonstram que o Fisco, para realizar o presente lançamento, baseou-se em presunções ou indícios inaptos a comprovar qualquer fato, visto que destituídos dos pressupostos da gravidade, precisão e concordância. Acrescenta que a assertiva acerca da pessoalidade da prestação de serviços torna-se ainda mais absurda quando se constata que as pessoas jurídicas contratadas pela impugnante têm quotistas distintos daqueles apontados como empregados, não se podendo presumir que façam parte do respectivo quadro social apenas para permitir a constituição da empresa. Nem mesmo o fato de existir, no entender do Fisco, certa semelhança entre os contratos das pessoas jurídicas que prestaram serviço à impugnante, no período fiscalizado, enseja a natureza empregatícia firmada pela Fiscalização. Na realidade, a adoção de contratos similares decorre exclusivamente da praticidade, inerente às relações de trato negocial. De outra parte, observa que as pessoas jurídicas que prestaram serviços à impugnante já existiam em data anterior ao período fiscalizado, conforme se denota dos itens 23 a 27 do Termo de Verificação Fiscal – descabendo afirmar-se que teriam sido constituídas com o intuito de mascarar relação de emprego. Em relação ao plano de saúde da Unimed-BH, concedido aos empregados regularmente contratados, e estendido às pessoas físicas discriminadas nos itens 61, 62 e 64 do Termo de Verificação Fiscal (Sandro José Diniz Lima Soares e Rodrigo Augusto de Moura), afirma que a referida assistência médica, contratada pela empresa Paranasa Engenharia e Comércio S/A, não tem o condão de servir como elemento de prova da relação laboral. Fl. 611DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 15 A suposta configuração de grupo econômico entre a impugnante e a empresa Paranasa Engenharia e Comércio S/A tem como efeito, no âmbito previdenciário, tão somente a imputação a esta última do dever de adimplir o crédito tributário autuado, sob a justificativa da incidência da responsabilidade solidária, com amparo no artigo 124, inciso II, do CTN, e no artigo 30, inciso IX, da Lei nº 8.212/91. Isto porque, apesar do entendimento da Fiscalização, acerca da formação “in casu” de grupo econômico, tanto a impugnante quanto a Paranasa Engenharia e Comércio S/A são pessoas jurídicas autônomas e distintas, mantendo ambas suas personalidades jurídicas e seus patrimônios individualizados. Refere o disposto nos artigos 266 e 278, parágrafo 1º, ambos da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Destaca, ainda, os artigos 152, inciso I, 494 e 495, todos da Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, que, ao tratarem dos efeitos tributários atinentes ao grupo econômico na seara previdenciária, limitam as suas repercussões ao campo da sujeição passiva da relação jurídico-tributária. Desta forma, os planos de saúde contratados pela Paranasa Engenharia e Comércio S/A, como ato de mera liberalidade, em benefício de sócios da SDS Engenharia e Consultoria (Sandro José Diniz Lima Soares) e da Viana Moura Engenharia (Rodrigo Augusto de Moura), não repercutem na esfera jurídica da impugnante, no sentido de vinculá-la como empregadora das referidas pessoas físicas. Observa, ainda, que, ao contrário do relatado no Termo de Verificação Fiscal, não consta no Termo de Intimação Fiscal nº 01, expedido para notificar a UNIMEDBH, nenhum pedido de esclarecimento acerca da contratação de plano de saúde aos empregados da impugnante. Ademais, de acordo com as informações prestadas pela UNIMEDBH, o sócio Rodrigo Augusto de Moura, da empresa Viana Moura Engenharia, além da fruição no período de 1º de julho de 2011 a 30 de abril de 2013 do plano de saúde concedido pela Paranasa Engenharia e Comércio S.A., também dispunha de idêntico benefício contratado pela Mutua de Assistência dos Profissionais da Engenharia Arquitetura e Agronomia durante o período de 1º de julho de 2010 a 05 de agosto de 2016. Conclui que a presunção levada a efeito pelo Fisco carece de legitimidade e robustez: não há gravidade, porque não existe relevância no fato narrado; é imprecisa, uma vez que enseja várias interpretações diferentes; e não é concordante ou convergente, já que o indício não evidencia um único fato, qual seja a suposta relação de emprego. b) da não eventualidade Em relação à não eventualidade, a impugnante observa, haja vista o que consta dos itens 43 a 45 do Termo de Verificação Fiscal, que os serviços contratados não correspondem à sua atividade-fim, qual seja a prestação de Fl. 612DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 16 serviços de construção civil. No caso, as empresas em destaque prestaram serviços de natureza distinta à da construção civil. Afirma que a inexistência de correspondência entre as atividades prestadas pelas pessoas jurídicas contratadas e aquela exercida pela impugnante é corroborada pelo Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica - CNPJ, de onde se extrai que o código da Classificação Nacional de Atividade Econômica - CNAE de cada uma delas (serviços de engenharia, CNAE 71.12-0-00) é distinto da atividade principal da impugnante (construção civil, CNAE 41.204-00). Assim, as atividades contratadas pela impugnante são distintas de sua atividade-fim, não havendo objeção legal à terceirização de atividade-meio. Nesse pormenor, destaca que o objetivo da contratação das aludidas empresas não é outro, senão o de possibilitar que a impugnante se dedique, exclusivamente, à sua atividade-fim. Assim, não havendo vedação na legislação pátria à adoção da terceirização, a habitualidade da prestação de serviços de tal natureza, por certo, também não caracteriza eventual relação de emprego. Pondera, ainda, que a legislação previdenciária, ao discorrer sobre a contratação de serviços relacionados à atividade-fim da tomadora, através da cessão de mão-de-obra, não prescreve como consequência a configuração do vínculo empregatício dos sócios das pessoas jurídicas que executam os serviços e aquela que os contrata – como equivocadamente efetuado no caso em referência –, mas atribui a quem contrata o serviço o dever de recolher por antecipação as contribuições previdenciárias, através de retenção. O contexto fático narrado pelo Fisco, a pretexto de demonstrar que os sócios das empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Engenharia são, no seu entender, empregados da impugnante, e, em razão disso, desconsiderar a personalidade das aludidas pessoas jurídicas, encontra-se registrado na legislação previdenciária como hipótese de configuração de prestação de serviço mediante cessão de mão-de-obra, dando ensejo à introdução na relação jurídico-tributária da figura da sujeição passiva indireta. Assim, se, para viabilizar a prestação de serviço, o prestador coloca alguns dos seus segurados (sócios – contribuintes individuais) à disposição do tomador (impugnante), em suas dependências, ainda que os serviços prestados se refiram à atividade-fim deste último, tal procedimento tem como consequência apenas a incidência da retenção previdenciária, jamais a caracterização do vínculo empregatício. Destaca o disposto no parágrafo 3º do artigo 33 da Lei nº 8.212/91 e no artigo 115 e parágrafos 1º, 2º e 3º da IN RFB nº 971/2009. De outra parte, no que respeita aos contratos firmados pela impugnante, assevera que foram eles convencionados de acordo com os termos legais, donde destaca o disposto no artigo 598 do Código Civil, que estabelece a possibilidade Fl. 613DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 17 de se convencionar a prestação de serviços pelo prazo de até quatro anos. O fato de tais contratos preverem prazo de duração de um ano, com a permissão de prorrogação, não afronta esta norma, visto que o artigo 599 do mesmo código admite esta possibilidade. Quer dizer: o contrato de prestação de serviços pode ser estipulado por prazo indeterminado. Atingido o prazo de quatro anos, no entanto, ele é automaticamente rescindido, devendo outro ser estipulado, se for o caso. Assim, a possibilidade de indeterminação do prazo de vigência dos contratos não autoriza concluir pela relação laboral, que também pode ter prazo determinado ou indeterminado, conforme previsto na CLT. No caso, os aludidos contratos eram renovados muito antes deste prazo, às vezes anualmente, caso necessário à continuidade da prestação dos serviços, como é o caso daqueles firmados com a empresa SDS Engenharia e Consultoria em 1º de julho de 2011 e 1º de abril de 2012. Outrossim, não há como considerar a não eventualidade dos serviços prestados pelas sociedades auditadas, quando se verifica que as notas fiscais de serviços das pessoas jurídicas contratadas pela impugnante não eram emitidas de forma sequencial, fazendo pressupor que havia a execução, ainda que em menor escala, para outros clientes. Conclui que a não eventualidade arguida pela fiscalização, como pressuposto da relação de emprego de um dos sócios de ambas as pessoas jurídicas prestadoras de serviços com a impugnante, também se pautando em meras presunções, destituídas de qualquer fundamento ou prova, não se sustenta. c) da onerosidade Quanto à onerosidade, a impugnante afirma, de início, que os pagamentos efetuados às empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Engenharia, em conformidade com os dados contidos no Anexo I ao Termo de Verificação Fiscal, não eram efetuados de forma mensal e consecutiva. Além disso, não há nenhuma prova juntada pela Auditoria Fiscal demonstrando que os pagamentos foram efetuados à Viana Moura Engenharia, pela impugnante, até o quinto dia útil do mês subsequente ao da prestação do serviço. Salienta que os pagamentos dependiam da fiscalização do serviço pela impugnante, de sorte que, caso os serviços não estivessem de acordo com as exigências, o pagamento somente ocorreria após a correta prestação do serviço – o que não ocorre na relação trabalhista, em que o pagamento do salário deve ser realizado todo quinto dia útil do mês, independentemente de o empregado ter concluído, da forma como determinado pelo empregador, suas obrigações. Na seara cível, porém, tal qual ocorreu “in casu”, as partes podem livremente estabelecer a forma de pagamento, conforme reza o artigo 597 do Código Civil. Fl. 614DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 18 Acrescenta que os valores das notas fiscais emitidas pela Viana Moura Engenharia são diversos entre si, como se colhe do Anexo I da peça de autuação. À semelhança, os pagamentos efetuados à SDS Engenharia e Consultoria não eram mensais. Além disso, não basta dizer que o pagamento realizado pela impugnante, em razão dos serviços que lhe foram prestados, caracterizariam o elemento da onerosidade. A CLT se refere a este elemento de forma bastante específica, ou seja, somente mediante salário. Nesse pormenor, observa que a autoridade fazendária afirma que os pagamentos dos serviços foram realizados para as pessoas jurídicas contratadas pela impugnante. Porém, se os pagamentos foram realizados em razão da prestação de serviços realizados por pessoas jurídicas, questiona como se pode inferir que exista relação de emprego. Observa, ainda, que por diversas vezes os valores foram pagos em importes variáveis, havendo, inclusive, sua redução de uma competência para outra – o que contraria o artigo 7º, inciso VI, da Constituição Federal, que estabelece a irredutibilidade dos salários no Brasil. Também não é factível que um empregado aceitasse a redução dos seus vencimentos, em alguns casos de mais de 50%. Ressalta, nesse pormenor, que o Fisco sequer demonstrou que os valores pagos às pessoas jurídicas discriminadas no Relatório Fiscal foram destinados exclusivamente àqueles sócios que tiveram maior relacionamento com a impugnante. Questiona se parcela dos lucros das pessoas jurídicas decorrentes de serviços executados em favor da impugnante não teriam sido distribuídos a sócios com os quais ela não manteve tal relacionamento. Quanto à previsão, nos contratos firmados com as empresas prestadoras de serviços, acerca do reembolso de despesas, desde que comprovadas e autorizadas – itens 59 e 60 do Termo de Verificação Fiscal –, a impugnante afirma que tal elemento não caracteriza a relação de emprego. Essas despesas são usualmente pagas para empregados com o intuito de cobrir gastos despendidos fora da empresa. Nada impede, entretanto, que despesas realizadas por prestadoras de serviços para a execução dos trabalhos contratados também sejam firmadas, entre as partes, como de responsabilidade da tomadora, e os montantes respectivos entregues aos representantes das contratadas mediante reembolso. Destaca, nesse sentido, que os artigos 113 e 421 do Código Civil apregoam a liberdade de contratar, observando-se o princípio da boa-fé e a função social do contrato – de forma que os contratos devem ser sempre firmados assegurando-se o equilíbrio entre as partes, de maneira que a avença não importe em injustiças ou imposições desarrazoadas, situação ora vislumbrada, em que se denota a preocupação da impugnante em resguardar às contratadas o direito ao reembolso das despesas necessárias à execução dos serviços, cujo custo não deve ser arcado por elas. Fl. 615DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 19 Afirma, ainda, que a RFB, quando se depara com situação semelhante a esta, em vez de desconsiderar a personalidade jurídica dos prestadores de serviços, inclui os valores dos aludidos reembolsos na receita bruta dos prestadores dos serviços, submetendo-os à tributação. O reembolso de despesas aos prestadores de serviços não configura, sob a ótica da RFB, a onerosidade inerente à relação empregatícia, integrando outrossim o preço do serviço prestado pelas pessoas jurídicas. d) da subordinação Acerca da subordinação, a impugnante afirma inicialmente que, no Direito do Trabalho, esta deve ser encarada sob o prisma objetivo: o que importa é o modo de realização da prestação, e não a pessoa do trabalhador. Subordinação não é sinônimo de sujeição. Afinal, sujeição a determinadas diretrizes, qualquer profissional tem dentro da relação de trabalho, ainda que não exista vínculo empregatício. A fiscalização, contudo, destaca no Relatório Fiscal conceito ultrapassado de subordinação, focado em análise meramente subjetiva. Salienta que, no caso, restaria evidenciada a subordinação econômica, hierárquica e jurídica dos sócios das prestadoras de serviços em face da impugnante. As empresas que prestaram serviços, “in casu”, de fato sujeitam-se a diretrizes traçadas pela impugnante. Porém, não em razão de relação de emprego. A sujeição decorre dos contratos por elas firmados para a prestação de serviços e das cláusulas neles avençadas e livremente estipuladas pelas partes. Trata-se de vínculo contratual mercantil e, não, laboral. Demais, salienta que o próprio Fisco reconhece que os contratados não possuíam subordinação técnica. “Provavelmente em razão da especialização de alto nível dos profissionais.” Na realidade, não há, no presente caso, subordinação de espécie alguma, seja econômica, hierárquica ou jurídica. A subordinação econômica inexiste, porque os valores pagos a título de prestação de serviço foram destinados às pessoas jurídicas, não caracterizando, portanto, salário. A subordinação hierárquica, por sua vez, também não se encontra caracterizada, visto que não se comprovou, nas autuações, que os profissionais prestadores de serviços trabalhavam na sede da impugnante, sujeitando-se a ordens de pessoas hierarquicamente superiores, cumprindo, por exemplo, jornadas de oito horas diárias ou 44 horas semanais de trabalho. Ressalta que o artigo 74 da CLT é expresso em dispor que os empregadores com mais de dez empregados têm a obrigação de anotar a hora de entrada e saída deles, conforme instruções a serem expedidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Também o fato de os contratos serem padronizados não enseja a interpretação de que haveria “in casu” relação de emprego e subordinação hierárquica: é comum nos ajustes negociais que os contratos sigam padrões estipulados pela empresa contratante, cabendo à contratada aceitar ou não os termos estipulados. Fl. 616DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 20 Também não há que se falar em subordinação jurídica, porquanto em momento algum o Fisco comprovou que os profissionais seguiam as regras da CLT. A subordinação jurídica decorre do poder de comando do empregador e do dever de obediência do empregado. No caso, não há ordem de comando, nem dever de obediência. O que existe é a presença da empresa contratante, tomadora dos serviços, e da empresa contratada, prestadora dos serviços. Mera relação contratual que pode ser rescindida a qualquer momento e sem motivos relevantes, por uma das partes, se assim lhe convier, o que demonstra a existência de sujeição, jamais de subordinação. Menciona, ainda, a emissão, no exercício de 2013, de notas fiscais da empresa Viana Moura Engenharia para terceiros, não relacionadas com a execução de serviços para a impugnante. Acrescenta que, mesmo que o faturamento das pessoas jurídicas contratadas fosse, em sua maioria, proveniente de serviços prestados à impugnante, durante os exercícios de 2012 e 2013, tal fato não permite concluir pela existência de vínculo empregatício, haja vista a livre iniciativa, assegurada pelo artigo 170 da Constituição Federal. Aduz que, em nenhuma passagem do Termo de Verificação Fiscal, comprovou-se que a impugnante dirigia, efetivamente, os serviços prestados pela SDS Engenharia e Consultoria e pela Viana Moura Engenharia, “impondo-lhes, por exemplo, uma escala de horário para a execução dos serviços de engenharia.” Observa que o acompanhamento da prestação dos serviços de engenharia, com a finalidade de verificar a sua conformidade com os padrões de qualidade exigidos, não tem a aptidão de configurar a subordinação da relação empregatícia, demonstrando, todavia, a organização gerencial da impugnante. A SDS Engenharia e Consultoria e a Viana Moura Engenharia, por outro lado, em virtude dos contratos celebrados, encontravam-se subordinadas à execução dos serviços de engenharia para os quais se haviam obrigado contratualmente, e não à impugnante. Conclui que o trabalho de auditoria fiscal não foi capaz de demonstrar a simultânea ocorrência dos elementos imprescindíveis à relação de emprego: pessoalidade, trabalho por pessoa física, não eventualidade, onerosidade e subordinação. Da indevida desconsideração da personalidade jurídica da empresa Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporações de Negócios Imobiliários Ltda. Neste tópico, a impugnante, após breve relato acerca do comportamento do mercado imobiliário brasileiro, notadamente a partir de 2012, apresenta justificativa para o estabelecimento de uma parceria comercial entre ela e a empresa Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporações de Negócios Imobiliários Ltda. – donde conclui que “os fatos apontados pela fiscalização não são aptos a gerarem a desconstituição do negócio jurídico entre as partes, haja Fl. 617DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 21 vista que esse, além de lícito e formalmente registrado, conta com propósito negocial, sendo um exemplo da realidade do setor imobiliário nos últimos anos.” Tem, assim, que o pagamento realizado à Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporações de Negócios Imobiliários Ltda. não é uma remuneração indireta a Charles Gomes de Oliveira, e que tal pagamento não pode ser considerado na base de cálculo dos tributos incidentes sobre a folha de salários, haja vista que, devido à sua eventualidade, não se enquadra no conceito de salário de contribuição. Quanto a este último aspecto, ressalta, em síntese, que somente aquelas verbas que sejam pagas aos empregados como retribuição ao trabalho, sendo habituais (não eventuais) e decorrentes da obrigação laboral, “pelo trabalho”, compõem a base de cálculo das contribuições mencionadas, e desde que não haja caráter indenizatório. Efetuado o pagamento uma única vez, inexiste qualquer habitualidade, não podendo ser considerado salário e, por conseguinte, incluído na base de cálculo das contribuições previdenciárias e de terceiros. Destaca, nesse sentido, o disposto no artigo 28, parágrafo 9º, alínea “e”, item 7, da Lei nº 8.212/91, segundo o qual o pagamento efetuado a empregado, todavia sem habitualidade, isto é, em parcela única – o que demonstra a eventualidade – e, ainda, não relacionado ao efetivo exercício da atividade laboral, não se amolda à capitulação legal do salário de contribuição, base de cálculo das exações em tela. Desse modo, ainda que se admita que o pagamento efetuado à empresa Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda. tenha sido, na realidade, um recebimento auferido por Charles Gomes de Oliveira, tal importe não pode ser incluído na base de cálculo das contribuições sociais. Da necessária apuração das contribuições sociais de acordo com os profissionais que executaram atividades, ou segundo a participação dos sócios nas respectivas pessoas jurídicas Neste tópico, a impugnante destaca, inicialmente, que a base de cálculo das contribuições previdenciárias e sociais deveria ser aferida considerando-se os sócios que efetivamente lhe prestaram serviços, de acordo com a remuneração por eles efetivamente recebida, ou segundo a participação de cada um dos sócios nas respectivas pessoas jurídicas. Observa que a receita bruta ou faturamento da pessoa jurídica não corresponde à parcela repassada aos sócios desta, porquanto não excluídos todos os custos e despesas inerentes à atividade mercantil, inclusive os tributos incidentes sobre as operações realizadas. Neste sentido, o contido nos artigos 187 e 189 a 192 da Lei nº 6.404/76. Ainda: de acordo com as normas vigentes, artigos 192 e seguintes da Lei nº 6.404/76, os sócios possuem a prerrogativa de nem Fl. 618DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 22 mesmo distribuir os lucros, ou de fazê-lo parcialmente, retendo parte para custeio de eventos futuros. Demais, em se tratando de sociedade simples ou empresária, como aquelas arroladas no Termo de Verificação Fiscal, cuja personalidade jurídica foi desconsiderada, os lucros não precisam necessariamente ser distribuídos aos sócios quotistas de forma proporcional às participações societárias, como prevê o artigo 1.007 do Código Civil. Em assim sendo, não é possível, ao contrário do que ocorreu no procedimento de aferição indireta, considerar-se como salário de contribuição o montante faturado pelas sociedades em questão à impugnante, mas apenas a parcela dos lucros efetivamente distribuída a cada sócio, nestes termos presumidamente compreendida como sendo referente à sua atuação. Não houve, todavia, qualquer diligência neste sentido, de forma a tornar mais fácil a aferição do crédito tributário, optando-se por utilizar como salário de contribuição o valor total das notas fiscais emitidas, em desprezo à realidade dos fatos. Em consequência, deve, com esteio nos artigos 33 da Lei nº 8.212/91 e 142 do CTN, ser apurada a exação em tela, considerando-se a participação dos trabalhadores, de acordo com os respectivos rendimentos, ou conforme as respectivas participações societárias nas pessoas jurídicas que integravam ao tempo dos fatos geradores aqui debatidos. Da necessária dedução do presente lançamento das contribuições previdenciárias e sociais e dos tributos recolhidos pelas pessoas jurídicas que prestaram serviços à impugnante Neste título, a impugnante manifesta-se acerca da necessidade de que se proceda à dedução, no crédito tributário, das contribuições previdenciárias e tributos já recolhidos pelas empresas SDS Engenharia e Consultoria, Viana Moura Engenharia e Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda. – sob pena de violação ao disposto no artigo 142 do CTN. Demais, a cobrança das contribuições, sem a dedução dos importes já recolhidos, viola o princípio do “non bis in idem”, exigindo-se em duplicidade os apontados tributos – o que configura enriquecimento ilícito do Estado. Destarte, deve ser determinada a dedução, no tocante à exação em apreço, dos tributos já recolhidos pelas empresas discriminadas no Relatório Fiscal da autuação. Da ilegalidade da qualificação da multa aplicada Afirma a impugnante que a qualificação da multa de ofício é indevida. O dolo, requisito essencial à caracterização dos atos ilícitos descritos no artigo 44, parágrafo 1º, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, não restou Fl. 619DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 23 demonstrado pela autoridade fiscal. Em outras palavras: no caso em pauta, não restou comprovada, de forma inequívoca, a intenção dolosa de retardar ou impedir a ocorrência do fato gerador ou modificar suas características. Não há elementos nos autos que demonstrem a intenção premeditada da impugnante de burlar o Fisco. Entende que interpretar, de maneira diversa daquela adotada pelo Fisco, as relações contratuais estabelecidas com as empresas SDS Engenharia e Consultoria, Viana Moura Engenharia e Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda., não legitima a capitulação da conduta da impugnante como dolosa, ou fraudulenta, mormente quando todos os tributos incidentes no caso foram regularmente retidos e recolhidos. Nesse sentido, não colocando a empresa qualquer empecilho à fiscalização e restando declarados por ela todos os fatos que deram substrato ao Fisco, não há como se afirmar que houve dolo apto a caracterizar sonegação, fraude e conluio. De outra parte, ressalta que não é possível inferir a existência de conluio, sonegação e fraude, e, por conseguinte, o dolo, quando se sabe que os trabalhos realizados por profissionais da engenharia envolvem conhecimentos específicos, muitas vezes prestados por trabalhadores autônomos ou por pessoas jurídicas, como autoriza o artigo 129 da Lei nº 11.196/2005. Demais, haja vista o número de empregados da impugnante no período contratado, considera “inegável que a autuação, no que condiz à desconsideração da personalidade jurídica de apenas duas pessoas jurídicas, denota, com clareza, que a impugnante não utilizou tal forma de contratação com intuito doloso, pois, se assim fosse, teria disseminado tal conduta para um número maior de ‘supostos empregados’.” Também não há que se falar em aplicação da multa qualificada se comprovada somente a intenção de reduzir a carga tributária, mas não a ilicitude da conduta praticada. Não houve, assim, a intenção dolosa de sonegar, fraudar ou exercer o conluio. Se alguma irregularidade foi praticada pela impugnante, esta se subsumiu exclusivamente no terreno da culpa. Afirma que o Fisco, ao realizar os lançamentos das multas concernentes ao descumprimento de obrigações acessórias, compreendeu que as infrações praticadas pela impugnante não foram realizadas com dolo, mas por força de interpretação divergente da legislação vigente, “particularmente do artigo 129 da Lei nº 11.195/2005”. Em todas elas compreendeu não haverem ficado configuradas as circunstâncias agravantes previstas no artigo 290 do RPS, especialmente aquela estabelecida no inciso II desse dispositivo legal – fato que reforça a ocorrência de dúvida quanto às circunstâncias materiais da ocorrência do dolo, ensejando a incidência do artigo 112 do CTN. Fl. 620DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 24 Destarte, não restando demonstrada pelo Fisco, inequivocamente, a conduta dolosa lesiva à arrecadação tributária, ocorrendo patente dúvida sobre sua existência, e jamais tendo o Fisco questionado a legitimidade da constituição das mencionadas pessoas jurídicas, torna-se necessária a redução da sanção imposta ao patamar previsto no artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Do pedido Ao final, requer seja declarada a nulidade dos lançamentos, conforme razões aduzidas preliminarmente. No mérito, pede sejam julgados improcedentes os lançamentos em comento, visto que, diante dos fatos e provas ora colacionados, mostra-se insubsistente a desconsideração das empresas prestadoras de serviços, SDS Engenharia e Consultoria, Viana Moura Engenharia e Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda., além da total higidez das operações realizadas entre as pessoas jurídicas. No caso das duas primeiras, inexiste vínculo empregatício entre seus sócios e a impugnante; no caso da última, não há que se falar na exigência de contribuições previdenciárias e sociais sobre o valor pago em uma única parcela e sem habitualidade pela intermediação de negócio. Em caráter subsidiário requer (1) a apuração das contribuições previdenciárias e sociais de acordo com os profissionais que executaram as atividades ou, subsidiariamente, segundo a participação dos sócios nas respectivas pessoas jurídicas; (2) a dedução de todos os valores pagos a título de tributos federais pelas apontadas empresas que prestaram serviços à impugnante; e (3) a redução da multa de ofício para 75%, na forma do artigo 112 do CTN, ante a ausência de comprovação de conduta dolosa da impugnante no sentido de lesar os interesses da arrecadação fiscal. A impugnação vem instruída pelos documentos de fls. 394/410, concernentes à representação da empresa no presente processo. Do Acórdão de Impugnação Na DRJ, primeira instância do contencioso tributário, lavrou-se a decisão a quo cujos fundamentos são pela improcedência dos pedidos deduzidos na impugnação, conforme teses sintetizadas na ementa alhures transcrita. Do Recurso Voluntário e encaminhamento ao CARF No recurso voluntário o sujeito passivo, reiterando termos da impugnação, postula a reforma da decisão de primeira instância, a fim de anular ou cancelar o lançamento de ofício lavrado pela autoridade fiscal. Fl. 621DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 25 Nesse contexto, os autos foram encaminhados para este Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), sendo, posteriormente, distribuído por sorteio para este relator. É o que importa relatar. Passo para a fundamentação do voto analisando, primeiramente, o juízo de admissibilidade e, se superado este, o juízo de mérito para, ao final, consignar o encaminhamento com o registro do dispositivo. VOTO Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, Relator. Admissibilidade O Recurso Voluntário atende a todos os pressupostos de admissibilidade intrínsecos, relativos ao direito de recorrer, e extrínsecos, relativos ao exercício deste direito, sendo caso de conhecê-lo. Quanto aos pressupostos extrínsecos, observo que o recurso se apresenta tempestivo (notificação em 13/12/2017, e-fl. 458, protocolo recursal em 11/01/2018, e-fl. 460, e despacho de encaminhamento, e-fl. 592), tendo respeitado o trintídio legal, na forma exigida no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, que dispõe sobre o Processo Administrativo Fiscal, bem como resta adequada a representação processual, inclusive contando com advogado regularmente habilitado, de toda sorte, anoto que, conforme a Súmula CARF nº 110, no processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo, sendo a intimação destinada ao contribuinte. Por conseguinte, conheço do recurso voluntário. Apreciação de preliminar antecedente a análise do mérito (Matérias preliminares exclusivamente pela contribuinte Maio Empreendimentos) - Preliminar de nulidade por incompetência A recorrente contribuinte “Maio Empreendimentos” requereu seja reconhecida a nulidade da autuação por incompetência da fiscalização tributária para desconsiderar a existência de pessoas jurídicas e reconhecer relações de emprego. Alega violação da competência da Justiça do Trabalho. Fl. 622DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 26 Invoca ofensa ao art. 114 da Constituição Federal, ao art. 50 do Código Civil, ao art. 129 da Lei nº 11.196/2005, ao art. 116, parágrafo único, e art. 142, ambos do Código Tributário Nacional (CTN), e, ainda, ao art. 59, I, do Decreto nº 70.235/1972. Sustenta que aos olhos da fiscalização teria ocorrido à contratação de segurados empregados através de pessoas jurídicas interpostas, com a suposta finalidade de mascarar relações de emprego. Todavia, pondera que se desconsidera pessoas jurídicas legítimas, sem competência para tanto e se reconhece relação de emprego, também sem ter competência para tal mister. Muito bem. Entendo que não ocorre a alegada nulidade, sendo o debate pretendido a matéria a ser enfrentada no mérito, acerca da ocorrência, ou não, da interposição de pessoas com o consequente vínculo de segurado empregado com a autuada. Não se pretende nos autos o reconhecimento de vínculo de emprego em termos de registro celetista com anotação e CTPS. Conquanto, é competência da autoridade fiscal a observância do correto enquadramento dos segurados obrigatórios do Regime Geral da Previdência Social (RGPS) considerando os termos da legislação previdenciária, especialmente os termos da Lei nº 8.212, inclusive de acordo com a primazia da realidade, sem que ocorra qualquer invasão de competência da Justiça do Trabalho, não ordenando o auditor fiscal, por exemplo, assinatura de CTPS ou reconhecimento de vínculo empregatício expresso. O auditor fiscal é competente para apontar o vínculo de segurado empregado, a partir da definição da legislação previdenciária, atento aos requisitos encartados no art. 12, inciso I, “a”, da Lei nº 8.212, o qual contém conteúdo similar ao art. 3º da CLT, mas, com isso, não se está a reconhecer diretamente um vínculo empregatício. Fato é que na omissão de um pronunciamento definitivo e em caso concreto do Poder Judiciário Trabalhista há o espaço para o agir da autoridade tributária ante os elementos do art. 12, inciso I, “a”, da Lei nº 8.212, e o seu dever de ofício de identificar matéria tributável, inclusive no campo da tributação previdenciária-tributária do custeio. Conforme já assentou a Ilustre Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, a teor do decidido no Acórdão nº 2004-000.178, deste Colegiado, “[n]o exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos, desde que de forma fundamentada”. Aliás, na ADPF nº 647 se pretendia o reconhecimento da tese recursal do recorrente diretamente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), porém a ação não foi conhecida, conforme ementa a seguir: ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE ENTENDIMENTO DO CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS – CARF: ATRIBUIÇÃO DO AUDITOR PARA RECONHECER VÍNCULO EMPREGATÍCIO E EFETUAR O LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE. POSSIBILIDADE DE EXAME DAS DECISÕES DA ADMINISTRAÇÃO Fl. 623DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 27 TRIBUTÁRIA PELO PODER JUDICIÁRIO POR INSTRUMENTOS PROCESSUAIS INDIVIDUAIS ADEQUADOS. NÃO CONHECIMENTO DA AÇÃO. MÉRITO: INEXISTÊNCIA DE CONTROVÉRSIA CONSTITUCIONAL RELEVANTE. OFENSA INDIRETA À CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL IMPROCEDENTE. Interessante observar que nos históricos da decisão da Excelsa Corte, na ADPF nº 647, constava uma possível tendência pela improcedência do pedido, caso houvesse avançado ao mérito, veja- se: “Após os votos dos Ministros Cármen Lúcia (Relatora) e Marco Aurélio, que não conheciam da arguição de descumprimento de preceito fundamental e, se superado o óbice, julgavam improcedente o pedido formulado, pediu vista dos autos o Ministro Gilmar Mendes. Falaram: pela requerente, o Dr. Rodrigo de Oliveira Kaufmann; pelo amicus curiae Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho - SINAIT, a Dra. Milena Pinheiro Martins; e, pelo amicus curiae UNAFISCO NACIONAL - Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil, o Dr. Fábio Zambitte Ibrahim. Plenário, Sessão Virtual de 11.6.2021 a 18.6.2021.” “Decisão: O Tribunal, por unanimidade, não conheceu da arguição de descumprimento de preceito fundamental, nos termos do voto da Relatora. Não votou o Ministro André Mendonça, sucessor do Ministro Marco Aurélio, que votara em assentada anterior. Plenário, Sessão Virtual de 11.2.2022 a 18.2.2022.” Demais disto, importante compreender que se o auditor da Administração Tributária, em verificação fiscal do cumprimento das obrigações tributárias e acessórias, constatar a ocorrência do fato gerador de tributo, inclusive quando quadro fático de ato simulado for observado e estiver aparente, a despeito de eventual véu que busque encobri-lo, tendo-se possível constatar a ocorrência do fato imponível de contribuição previdenciária, ainda que encoberta por simulação verificável, deve a auditoria considerar o fato gerador como realizado e existentes os seus efeitos, pois, tratando-se de situação de fato, isto ocorre desde o momento em que se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios (CTN, art. 116, I). Sobremais, é bom lembrar que a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos (CTN, art. 118, I) e dos efeitos dos fatos efetivamente ocorridos (CTN, art. 118, II). Adicionalmente, a autoridade administrativa, neste caso, deve constituir o crédito tributário pelo lançamento, em procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência exata do fato gerador da obrigação correspondente, determinando a matéria tributável, Fl. 624DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 28 calculando o montante do tributo devido, inclusive identificando o sujeito passivo e, sendo o caso, propondo a penalidade cabível (CTN, art. 142), além de poder revisar de ofício atos do contribuinte, ou de terceiros, quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação1 (CTN, art. 149, VII). Vale dizer, é ônus da auditoria fiscal agir como fez, em plena competência e dever de ofício ao qual se encontra vinculado, sob pena de falta funcional. Certo é que não é a forma (a partir de um rótulo) que apontará para a licitude, mas sim os fatos efetivamente observados na prática envolvendo os participes da relação jurídica. De qualquer modo, a licitude, ou não, é matéria de mérito no controle da legalidade do lançamento. Lembro que em contencioso administrativo fiscal prevalece a presunção de constitucionalidade das leis, vedado o pronunciamento de declaração de inconstitucionalidade, de modo que a interpretação do caso deve seguir balizas normativas vigentes, tais como, os arts. 116, I, 118, I e II, 142 e 149, VII, do CTN; os arts. 12 e 33 da Lei nº 8.212; o art. 229, § 2º, do Decreto nº 3.048 (Regulamento da Previdência Social); e o art. 6º, I, “a”, da Lei 10.593/2002. Todas as normas indicam uma competência e dever de ofício da auditoria. Portanto, ao que consta, é obrigação do auditor fiscal, se observar a ocorrência dos requisitos do art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, reconhecer, parta fins previdenciário-tributário, o vínculo de segurado empregado, conforme a legislação previdenciária com espeque no custeio, a partir de normas com âmbito tributário-previdenciário, no âmbito da atuação fiscal-tributária. Isto é, na presença dos elementos – pessoalidade, habitualidade (ou não eventualidade), subordinação (limitação a autonomia do trabalhador e subordinação às ordens direta do tomador dos serviços), alteridade e onerosidade ou em limites remuneratórios característicos de um salário, especialmente com demonstração de efetiva vulnerabilidade e vício de consentimento; quando através de pessoas jurídicas, sem materialidade ou substância, com artificialismo e inexistindo propósito ou affectio societatis –, deve haver a lavratura do auto de infração com reconhecimento do vínculo previdenciário de segurado empregado pelo art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, pois prevalecerá a primazia da realidade e, assim, deve ocorrer o lançamento de ofício correlacionado com a matéria tributária respectiva que imponha determinada tributação em termos de montante do tributo devido. Apenas se houver uma decisão cogente do Poder Judiciário Trabalhista em sentido adverso, que vede por efeito reflexo um reconhecimento na qualidade de segurado empregado, com base em mesmo conjunto de provas e fatos, poder-se-ia cogitar em vedação por prejudicialidade, o que fará sempre parte do controle de legalidade do ato em termos de mérito, mas não de ausência de competência ou de violação de competência da Justiça do Trabalho. 1 Na ADI 2446 o STF assentou a constitucionalidade do parágrafo único do art. 116 do CTN. De toda sorte, em casos de simulação, não é necessário desconsiderar atos ou negócios jurídicos, mas apenas apontar os fatos efetivamente ocorridos na prática observável, pois caracterizam a efetiva ocorrência do fato gerador. Fl. 625DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 29 Por último, como assentou a Preclara Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, no Acórdão nº 2004-000.178, deste Colegiado: De acordo com o § 2º do art. 229 do RPS, “[s]e o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado.” Além disso, da conjugação das previsões contidas no art. 142 e 149 do CTN, bem como em atenção ao disposto no parágrafo único do art. 116 do Digesto Tributário, cuja constitucionalidade veio a ser recentemente chancelada pelo SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, resta evidente a possibilidade de reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos. No exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária, desde que de forma fundamentada, desconsidere situações que, embora previstas no papel, não se descortinam na realidade. Em verdade, não há que se cogitar formalização de vínculo empregatício por auditor fiscal – tal reconhecimento implicaria em expedir ordem para anotação na CTPS do(s) empregado(s), pagamento de 13º salário e terço constitucional de férias etc. Para fins de reconhecimento do vínculo como empregado celetista, é imprescindível a observância das exigências lançadas no art. 3º da CLT. A competência para tanto é da Justiça do Trabalho. No caso, mister a verificação do preenchimento dos requisitos legais para a caracterização do contratado como segurado obrigatório, exclusivamente para fins previdenciários. É no inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/91 – e não no art. 3º da CLT – que estão descritas as hipóteses segundo as quais as pessoas físicas serão enquadradas como segurados obrigatórios da Previdência Social, na qualidade de empregados. Deveras, a al. “a” do inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/91 carrega redação similar à do art. 3º da CLT ao determinar ser segurado obrigatório (empregado) “aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado.” Entretanto, ser o empregado segurado obrigatório da Previdência Social não o faz celetista – para tal reconhecimento, necessária a provocação da justiça especializada. Não me parece compatibilizar com a ordem constitucional demandar da autoridade fazendária a caracterização do fato gerador dissociado da realidade fática, privilegiando aquilo que quiseram fazer constar em documentos. Tem a fiscalização não só o poder, mas o dever de não considerar negócios jurídicos que apenas possuem um verniz de legalidade. Outrossim, inexiste a alegada nulidade da autuação por incompetência da fiscalização tributária para desconsiderar a existência de pessoas jurídicas. É que sequer houve desconsideração de pessoa jurídica como pretende argumentar o recorrente. Fl. 626DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 30 Em realidade, o fato gerador da obrigação tributária é independente e sua ocorrência depende exclusivamente da realidade observável. Se a autoridade fiscal reportou a contento o fato gerador é matéria a ser discutida no mérito. Demais disto, no tocante ao art. 50 do Código Civil, examinado os autos, mormente no que respeita ao Termo de Verificação Fiscal e aos fundamentos legais dos lançamentos efetuados e provas colmatadas, verifica-se que esse dispositivo legal não foi considerado nas autuações. Não houve a desconsideração da personalidade jurídica de qualquer das empresas consideradas interpostas pela autoridade lançadora, mas, sim, se narra ter sido constatado, em termos fáticos, que os trabalhadores estiveram diretamente ligados, por determinados critérios sensíveis, com a contribuinte recorrente tomadora dos serviços, ainda que remunerados de forma indireta pelas interpostas pessoas jurídicas. Isso sob o olhar da fiscalização (matéria de mérito). Também, quanto às disposições contidas no parágrafo único do art. 116 do CTN, incluído pela Lei Complementar nº 104, de 2001, não foi utilizado como fundamento legal para os lançamentos de ofício. Pode-se dizer que foi utilizado diretamente o inciso I, mas não o parágrafo único, em combinação com os arts. 118, I e II, 142, 149, VII, do CTN, além do art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212. Quanto ao disposto no art. 129 da Lei nº 11.196, este não prevalece quando a pessoa física aparentemente sem vínculo preenche as características definidoras da condição de segurado empregado, previstas no art. 12, inciso I, alínea “a”, da Lei nº 8.212, situação em que deve imperar o enquadramento previdenciário, para fins de incidência de contribuições sociais e qualidade de segurado obrigatório, pois na ADC nº 66 se ressalvou situações simuladas, não podendo a prestação de serviços por intermédio de pessoa jurídica ser mero simulacro, destoante da primazia da realidade. Por conseguinte, não há nulidade, sendo possível debater o mérito acerca da correção, ou não, das interpretações fiscais quando qualifica os fatos observados como de efetiva ocorrência do fato gerador praticado pela contribuinte recorrente Maio Empreendimentos. Simplesmente, o debate é de mérito sobre a correta interpretação, ou não, da fiscalização para os fatos que constatou e que qualificou como tributáveis na autuada principal. Sendo assim, rejeito a preliminar constante neste capítulo. - Preliminar de nulidade por utilização de técnica de aferição indireta A recorrente contribuinte “Maio Empreendimentos” requereu seja, ainda, reconhecida a nulidade da autuação, uma vez que compreende que se aplicou de forma indevida a técnica da aferição indireta, sem que exista parâmetros legais previstos especificamente para a apuração das contribuições previdenciárias. Fl. 627DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 31 Diz que o método de aferição indireta é admitido na hipótese em que a fiscalização constata que a contabilidade ou a documentação do contribuinte não registra o movimento real da pretensa remuneração paga aos segurados. Entretanto, pondera que se trata de forma subsidiária de quantificação do fato gerador, aplicada apenas se necessária e se regulamentada para cada espécie tributária. Sustenta que, no caso das contribuições previdenciárias, não houve regulamentação para aplicação do instituto. Advoga que inexiste parâmetros para arbitramento das contribuições previdenciárias e sociais predicados em lei, de forma que a aferição indireta preceituada no art. 33, §6º, da Lei nº 8.212, afigura-se mera norma programática. Por isso, requer a nulidade da autuação. Muito bem. Não assiste razão ao recorrente. Isto porque, ao fim e ao cabo se entendeu que a relação dos sócios das contratadas era estabelecida de forma peculiar e direta com a contribuinte autuada Maio Empreendimentos (contratante, tomadora de serviços), sendo as pessoas físicas enquadradas como segurados empregados dela, portanto. Com isso, os valores pagos para as pessoas jurídicas interpostas foram considerados, em verdade, como as remunerações daquelas pessoas físicas. A pessoa jurídica era mera interposta para simular e buscar esconder a real ocorrência do fato gerador na efetiva contribuinte, tudo sob a ótica fiscal. A aferição indireta da base arbitrada exclusivamente buscou qualificar os valores pagos para as interpostas pessoas jurídicas como a efetiva remuneração das pessoas físicas, a quem os valores verdadeiramente se destinavam, no olhar fiscal. Não visualizo nessa requalificação fiscal procedida pela fiscalização qualquer irregularidade no proceder, considerando que a autoridade tributária pretendeu fundamentar a existência de uma simulação, pelo que afastou o véu que acobertava os atos, para buscar diretamente os efeitos do fato gerador que entendia ocorrido em sua observação empírica. Se a intelecção é correta, ou não, é debate de mérito. Inexiste a aduzida nulidade. A aferição indireta decorreu da própria lógica de motivação do lançamento no sentido de requalificar os fatos declarados. Observe-se que a incidência é apontada pela fiscalização sobre os valores de remuneração pagos a segurados empregados, nas competências 01/2012 a 12/2013, via a interposição de pessoa jurídica na relação que se estabeleceria diretamente entre autuada principal e as pessoas físicas. Observe-se que, primeiro, foram considerados, como base de cálculo das contribuições autuadas, os valores pagos a pessoas físicas por intermédio de pessoas jurídicas, cujos sócios foram caracterizados, à luz da legislação previdenciária, como segurados obrigatórios da Previdência Social, na qualidade de segurados empregados da empresa autuada, sendo eles os sócios das empresas interpostas, a saber: Sandro José Diniz Lima Soares, sócio da “SDS Engenharia e Consultoria”; e Rodrigo Augusto de Moura, sócio da “Viana Moura Engenharia Ltda”, atualmente Fl. 628DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 32 “RAM Engenharia Ltda”. Adicionalmente, o valor pago à empresa “Só Na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda” foi considerado como salário indireto de Charles Gomes de Oliveira, gerente comercial da autuada contribuinte Maio Empreendimentos. A referida base de cálculo tem por pressuposto a realidade concreta que a auditoria fiscal diz enxergar. A auditoria fiscal inicialmente identificou, por meio de lançamentos contábeis efetuados na conta de passivo Fornecedores Diversos “2.01.001.101170”, as empresas que prestaram serviços para a autuada executando atividades relacionadas à atividade-fim dela, pois entendia que aí poderia haver uma desvirtuação e simulação. Em sequência, solicitou a apresentação dos respectivos contratos de prestação de serviço, notas fiscais emitidas pelas prestadoras e outros elementos, com a finalidade de identificar a natureza dos serviços prestados. Com base nos elementos, concluiu que, ainda que firmado contratos de prestação de serviços e/ou faturado os serviços, a prestação de serviços se deu diretamente pelos sócios, em condições que os enquadravam, nos termos da legislação previdenciária, como segurados empregados da contribuinte Maio Empreendimentos. Prosseguindo, importa destacar que, em segundo momento, a auditoria fiscal considerou como remuneração indireta, integrando o salário de contribuição de Charles Gomes de Oliveira, o pagamento de R$ 2.500.000,00, efetuado em 01/2012, a título de comissão, por meio da empresa interposta “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”. Esse valor foi identificado na contabilidade da autuada. O Sr. Charles Gomes de Oliveira foi gerente comercial da autuada, admitido em 1º de fevereiro de 2011 e demitido em 25 de julho de 2012, sendo formalizado como sócio administrador da empresa chamada de interposta “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”, constituída 14/12/2011, com atividades paralisadas em 13/08/2013. Pois bem. As remunerações dos segurados empregados, dita que apurada por aferição indireta, se deu com base nos pagamentos para empresas interpostas por prestação de serviço tida por simulada quando estruturada como prestada pela própria pessoa jurídica, procedimento que tem respaldo no art. 33, §§ 3º e 6º, da Lei nº 8.212, inclusive pelo regulamentado no art. 233, parágrafo único, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, com suas alterações, independentemente de outras regulamentações. No parágrafo único do art. 233 do RPS consta a possibilidade de aplicação da técnica em caso de “informação diversa da realidade, ou, ainda, que omita informação verdadeira” e a técnica foca em “lançar de ofício importância que reputarem devida”. No caso, se as empresas eram interpostas (no olhar fiscal), então os valores pagos para elas, em verdade, eram das pessoas físicas, sendo aí imputado o valor devido, considerando que a base tributável são as remunerações pagas que se destinam para os segurados empregados, no caso das contribuições sobre a folha de salários. Trata-se de proceder hígido e regular. Consentâneo com a lógica do lançamento na forma em que motivado. Se o lançamento é correto, ou não, o debate é de mérito. Se a leitura Fl. 629DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 33 interpretativa da fiscalização foi correta, ou não, se a (re)qualificação dos fatos foi acertada, ou não, se debaterá no mérito. Ora, nos termos do art. 28, inciso I, da Lei nº 8.212, na redação dada pela Lei nº 9.528, de 1997, entende-se por salário de contribuição, para o segurado empregado, “a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa”. No caso, a aferição indireta é o procedimento especial de que dispõem os auditores fiscais para apuração das bases de cálculo. No caso dos autos, no olhar fiscal, foi constatado que o sujeito passivo utilizou-se de empresas interpostas para a contratação/remuneração de segurados empregados, sem haver o reconhecimento dessa condição, nem, por via de consequência, o recolhimento das contribuições sociais devidas. Diante da verificação de que as bases de cálculo (“in casu”, os salários de contribuição) das exações em apreço não constavam dos documentos previstos na legislação previdenciária – por exemplo, da folha de salários da empresa contratante –, de apresentação e declaração obrigatória, como também não constavam lançadas em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, essas bases de cálculo foram aferidas indiretamente, com fundamento nos §§ 3º e 6º do art. 33 da Lei nº 8.212 e em sintonia com a lógica da motivação do ato de lançamento. Na apuração das bases de cálculo (salários de contribuição de segurados qualificados como segurados empregados), consideradas nos lançamentos de contribuições, foram utilizados os valores das notas fiscais emitidas pelas prestadoras de serviço. Isto porque, guarda relação direta com o fato gerador da obrigação tributária – prestação de serviço remunerado –, e por terem sido extraídos de documentos e informações colhidas junto à própria autuada principal, cuja veracidade não foi por ela contestada em que pese o disposto na parte final do §6º do art. 33 da Lei nº 8.212. Fato é que não há nulidade pelo método de apuração da base de cálculo e do montante devido indicado e aferido para o contexto dado para a motivação do lançamento realizado. Sendo assim, rejeito a preliminar constante neste capítulo. - Preliminar de nulidade por cerceamento de defesa A recorrente contribuinte Maio Empreendimentos requereu seja reconhecida a nulidade por cerceamento de defesa. Sustenta a impossibilidade de se defender plenamente ante Fl. 630DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 34 a ausência de provas colacionadas pela fiscalização, as quais são acusatórias e mencionadas como elemento importante para motivar a autuação. Esclarece que a fiscalização aduz que as empresas tidas por interpostas também o seriam porque sequer possuiriam empregados em seus quadros, situação que teria sido investigada e analisada através de consultas pela fiscalização nos sistemas informatizados da base de dados da Administração Tributária, inclusive análise de GFIP das interpostas pessoas jurídicas. No entanto, apesar da afirmativa de que foi feito consulta e que a roupagem é como narrada pela fiscalização, não há prova colacionada aos autos para confirmar as acusações afirmativas, remanescendo apenas a afirmativa fiscal de que as interpostas pessoas jurídicas não teriam empregados, subtendendo que seria um simulacro, mas sem demonstração documental efetiva. Advoga que as provas deveriam estar juntadas aos autos para conhecimento e possibilidade de defesa, inclusive porque não se cuidaria de dados e informes públicos, mas sob sigilo fiscal, de modo que, não ocorrendo a juntada, a recorrente não tem como se manifestar e, consequentemente, não tem como se defender para provar que as interpostas pessoas não têm a situação de simulacro como acusado, que não seriam interpostas pessoas jurídicas. Muito bem. Entendo que não assiste razão ao recorrente. Explico. Efetivamente, a autoridade lançadora, no Termo de Verificação Fiscal, menciona a inexistência de empregados nas empresas prestadoras, no período fiscalizado, tendo em vista a realização de consultas aos bancos de dados da Receita Federal do Brasil (item 18, letra “a”) e às GFIPs constantes dos sistemas informatizados da RFB (itens 31 e 32). Conquanto, não junta aos autos qualquer relatório que respalde a afirmação. Em relação a RAIS, referida pela recorrente, não é mencionada no Termo de Verificação Fiscal, nem compõe os bancos de dados da Receita Federal do Brasil – sua administração encontra-se a cargo do Ministério do Trabalho. De qualquer sorte, penso que a análise deve ser de mérito. Deve se verificar, no mérito, se houve, ou não, a comprovação da interposição de pessoa jurídica. Se há prova produzida pela fiscalização suficiente sobre a interposição que, ao fim e ao cabo, justifica o lançamento. Aliás, observe-se que, no item 33 do Termo de Verificação Fiscal, a autoridade lançadora, “para obter a confirmação de quem prestou o serviço para a MAIO”, procedeu com intimação específica da própria contribuinte autuada principal (Maio Empreendimentos), através do TIF nº 01, de 17 de novembro de 2016 (e-fls. 61/62), para “informar o nome do sócio ou trabalhador [das empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Engenharia Ltda] que prestou os serviços faturados contra a MAIO”, ocasião em que sobreveio resposta informando que os serviços foram prestados pessoalmente pelos respectivos sócios das prestadoras de serviços contratadas (e-fls. 66/67). Se isso é, ou não, suficiente para configurar uma interposição de pessoa jurídica é matéria de mérito, inclusive pela necessidade de análise mais ampla de todo o conjunto probatório do que realmente estiver colacionado aos autos. Fl. 631DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 35 Em termos de alegada nulidade, não visualizo qualquer ocorrência ou prejuízo de defesa. A acusação fiscal foi narrada e explicitado o motivo. Se a prova é insuficiente ou inexistente, debater-se-á no mérito. De mais a mais, desde a impugnação, a autuada pôde infirmar o que consta no Termo de Verificação Fiscal, permitindo produzir as suas provas, inclusive em relação a impessoalidade na prestação dos serviços, ou que as empresas não são mero simulacro, sem prejuízo de se averiguar, no mérito, se a fiscalização também atendeu o seu mister probatório. No mérito, se analisará o próprio critério da distribuição do ônus da prova. Sendo assim, rejeito a preliminar constante neste capítulo. - Preliminar de nulidade por desconsiderar valores já recolhidos pelas pessoas jurídicas prestadoras de serviços A recorrente contribuinte Maio Empreendimentos requereu seja reconhecida a nulidade por desconsiderar valores já recolhidos pelas pessoas jurídicas prestadoras de serviços. Diz que havendo vício intransponível de apuração se impõe a nulidade. Sustenta que compete à autoridade administrativa constituir o crédito tributário, devendo, para tanto, “determinar a matéria tributável”, de modo que houve vício na atividade de lançar, pois deixou de verificar e deduzir as contribuições previdenciárias já recolhidas pelas pessoas jurídicas que prestaram serviços (consideradas interpostas), as quais ofereceram para a tributação as remunerações pagas. Advoga que caberia mensurar a exação, considerando os valores já recolhidos. Muito bem. Entendo que não assiste razão ao recorrente. Explico. Ora, a auditoria fiscal, no exercício de sua competência, limitou-se a identificar, dentre as diversas categorias de segurados previdenciários, estabelecidas no Capítulo I do Título VI da Lei nº 8.212, a situação dos trabalhadores considerados como segurados empregados da autuada, embora contratados/remunerados por meio de empresas interpostas porque diz constatar simulação. Não houve, portanto, a desconsideração da personalidade jurídica de qualquer das empresas consideradas interpostas pela autoridade lançadora, mas, sim, a constatação, em termos fáticos, de quem foi o real e efetivo tomador dos serviços dos trabalhadores contratados/remunerados por meio dessas empresas interpostas. Em assim sendo, entendeu que por se tratar de empresas distintas, não haveria como aproveitar recolhimentos de contribuições eventualmente efetuadas pelas empresas interpostas “SDS Engenharia e Consultoria”, “Viana Moura Engenharia Ltda” e “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”. Porém, de toda sorte, entendo que o assunto não é de nulidade, mas debate de mérito acerca de ser, ou não, dever aproveitar os recolhimentos, considerando a lógica e motivação do lançamento. Não há, sob este fundamento, que se falar em nulidade dos lançamentos de ofício constitutivos do crédito tributário. Fl. 632DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 36 Sendo assim, rejeito a preliminar constante neste capítulo. Mérito Quanto ao juízo de mérito, passo a apreciá-lo. Como informado em linhas pretéritas, a controvérsia é relativa ao lançamento de ofício e se refere a autuação na qual a fiscalização alega que, no período compreendido entre 01/2012 e 12/2013, a contribuinte autuada teria efetuado pagamentos de remunerações para pessoas físicas utilizando-se de interpostas pessoas jurídicas para, supostamente, esconder o vínculo de “segurado emprego” ou omitir remuneração de segurado empregado. Foram considerados segurados empregados da contribuinte recorrente o Sr. Sandro José Diniz Lima Soares, sócio da empresa “SDS Engenharia e Consultoria”, e o Sr. Rodrigo Augusto de Moura, este sócio da sociedade simples “Viana Moura Engenharia”. A fiscalização também considerou que o valor pago pela contribuinte recorrente à empresa “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”, a título de adimplemento pela intermediação na compra de imóvel, seria, em realidade fática, salário indireto do Sr. Charles Gomes de Oliveira, então, seu segurado empregado. O lançamento destes autos é especificamente as contribuições destinadas para Outras Entidades e Fundos (Terceiros), sendo processo reflexo do Processo Principal nº 15504.729986/2016-75 (contribuições previdenciárias), julgado nesta mesma assentada. DO RECURSO DA CONTRIBUINTE RECORRENTE MAIO EMPREENDIMENTOS A contribuinte principal recorrente Maio Empreendimentos sustenta que o lançamento de ofício deve ser cancelado, uma vez que lastreado em mera presunção, sendo inexistente a alegada relação com vínculo de segurado empregado com a autuada, inclusive ausente os elementos de pessoalidade, onerosidade, não-eventualidade e subordinação jurídica para que pudesse se falar em constituição efetiva de vínculo. Advoga a efetiva ausência de prestação de serviços por pessoa física. Não há omissão de remuneração para segurado empregado. Pondera que os serviços foram prestados por pessoa jurídica, inclusive tais serviços são passíveis de serem efetivamente prestados através de pessoas jurídicas, como ocorreu no caso em espécie. Aduz que as empresas prestadoras já existiam antes mesmo de qualquer vínculo com a autuada. Argui que a empresa SDS ENGENHARIA E CONSULTORIA foi constituída em 28/04/2009 e executa serviços de engenharia. Comenta que a empresa VIANA MOURA ENGENHARIA foi constituída em 26/08/2009 e, também, executa serviços de engenharia. Argumenta que houve uma equivocada desconsideração da personalidade jurídica da empresa SÓ NA PLANTA DESENVOLVIMENTO COMERCIAL E INCORPORAÇÕES DE NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS LTDA, ademais o pagamento para tal empresa foi único, isto é, se deu uma única e isolada vez, não restando dúvidas que esse pagamento não poderia sequer ser qualificado como Fl. 633DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 37 habitual e, portanto, não poderia ser considerado salário de segurado empregado, ainda que tivesse ocorrido a presuntiva alegação fiscal, não efetivamente ocorrida. Subsidiariamente, se mantida a lógica de lançar, questiona a base de cálculo. Pondera que é necessário a apuração da participação dos sócios na pessoa jurídica, inclusive a apuração do crédito tributário em apreço não poderia ter sido realizada por meio de aferição indireta, mas deveria ser de acordo com a remuneração efetivamente recebida na pessoa física supostamente prestadora direta. Advoga que, mesmo admita a aferição indireta da base de cálculo, o valor bruto das notas fiscais de serviços é excessivamente desproporcional, não representa o que chega na pessoa física. As pessoas físicas apontadas como vinculadas à autuada como segurados empregados integram o quadro societário das empresas contratadas supostamente interpostas juntamente com outras pessoas físicas, de modo que a distribuição de lucro não representa a totalidade da nota fiscal, ademais o faturamento ou receita bruta é atinente à pessoa jurídica e não representa identidade absoluta com a parcela que é distribuída aos quotistas. Alega que não houve aferição de quinhão para encontrar a eventual proporcionalidade que o sócio da alegada interposta teria recebido como remuneração. Subsidiariamente, se mantida a lógica de lançar, diz que a multa de ofício deve ser de 75%, afastando-se a qualificadora, por ausência de comprovação de dolo. Subsidiariamente, se mantida a lógica de lançar, diz ser necessário deduzir os recolhimentos efetivados pelas alegadas interpostas pessoas jurídicas. - Acusação fiscal de vínculo de segurado empregado dos sócios das pessoas jurídicas SDS ENGENHARIA E CONSULTORIA e VIANA MOURA ENGENHARIA (atual “RAM Engenharia Ltda”) com a autuada (contribuinte Maio Empreendimentos) e, caso mantido o lançamento, irresignação contra a base de cálculo ser o valor bruto das notas fiscais O presente capítulo trata da acusação fiscal na qual a auditoria indica uma simulação no pagamento de valores para pessoas físicas, por meio de interpostas pessoas jurídicas SDS ENGENHARIA E CONSULTORIA e VIANA MOURA ENGENHARIA (atual “RAM Engenharia Ltda”), os quais seriam pagamentos de verdadeiras remunerações para segurados empregados (art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212), mas que não estão declarados e reconhecidos pela empresa autuada. Ainda, caso mantido o lançamento, há irresignação contra a base de cálculo. Abordarei a situação com mais detalhes no decorrer deste voto, após abordagem teórica primeva. Entretanto, é certo que o debate perpassa pela possibilidade de outras formas de contratação ou de divisão do trabalho e a problemática do ato simulatório, quando comprovado. Muito bem. Há muito se discute na jurisprudência do Supremo Tribuna Federal (STF) se é, ou não, possível outras formas de contratação ou de divisão do trabalho, que não exclusivamente pela relação de segurado empregado ou, até mesmo, de contribuinte individual. Fl. 634DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 38 Hodiernamente, o assunto ainda é problematizado, com situações práticas suscitando dúvidas, embora o Supremo conte com uma série de julgados tratando do assunto com ligeiras distinções e particularidades a depender da ótica constitucional focalizada, a teor dos precedentes, a saber: (i) Tema 725 (RE 958.252); (ii) ADPF 324; (iii) Tema 739 (ARE 791.932); (iv) ADC 66; (v) ADC 48; (vi) ADI 3961; (vii) ADI 5625; (viii) Agravo Regimental na Reclamação nº 47.843; (ix) Agravo Regimental na Reclamação nº 39.351; (x) Agravo Regimental na Reclamação nº 53.688; (xi) Agravo Regimental na Reclamação nº 71.838; (xii) Inúmeras outras reclamações constitucionais; (xiii) E, ainda, aguarda-se a próxima manifestação que se dará no Tema 1389 da Repercussão Geral (ARE 1.532.603), o qual abordará sobre o ônus da prova nos processos que discutem a existência de fraude no contrato civil/comercial de prestação de serviços; e a licitude da contratação de pessoa jurídica ou trabalhador autônomo para essa finalidade. A partir destes precedentes qualificados, é possível extrair entendimentos firmes do STF segundo o qual: i) Tema 725 (RE 958.252): “É lícita a terceirização ou qualquer outra forma de divisão do trabalho entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresas envolvidas, mantida a responsabilidade subsidiária da empresa contratante”; ii) ADPF 324: “A terceirização das atividades-meio ou das atividades-fim de uma empresa tem amparo nos princípios constitucionais da livre iniciativa e da livre concorrência, que asseguram aos agentes econômicos a liberdade de formular estratégias negociais indutoras de maior eficiência econômica e competitividade”. Por isso, “É lícita a terceirização de toda e qualquer atividade, meio ou fim, não se configurando relação de emprego entre a contratante e o empregado da contratada”; iii) Tema 739 (ARE 791.932): A Súmula nº 331/TST e as decisões que vedam a possibilidade de terceirização de atividade-fim são inconstitucionais, haja vista o Fl. 635DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 39 Plenário do Supremo Tribunal Federal ter proclamado a licitude da terceirização de toda e qualquer atividade, meio ou fim; iv) ADC 48 e ADI 3961: “É legítima a terceirização das atividades-fim de uma empresa. Como já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal, a Constituição não impõe uma única forma de estruturar a produção. Ao contrário, o princípio constitucional da livre iniciativa garante aos agentes econômicos liberdade para eleger suas estratégias empresariais dentro do marco vigente (CF/1988, art. 170). A proteção constitucional ao trabalho não impõe que toda e qualquer prestação remunerada de serviços configure relação de emprego (CF/1988, art. 7º).” v) Agravo Regimental na Reclamação nº 47.843: É “lícita a terceirização por ‘pejotização’, não havendo falar em irregularidade na contratação de pessoa jurídica formada por profissionais liberais para prestar serviços terceirizados na atividade-fim da contratante (Rcl 39.351 AgR; ...)”; vi) Agravo Regimental na Reclamação nº 53.688: “A prestação de serviços por intermédio de pessoa jurídica, fenômeno conhecido como ‘pejotização’, não constitui, só por si, fraude trabalhista, mas concretização da liberdade negocial admitida pelo Supremo no julgamento da ADPF 324”; vii) Tema 725 (RE 958.252): “O direito não vive de rótulos, mas sim de uma real natureza jurídica dos contratos” (Ministro Alexandre de Moraes, em voto-vista); viii) ADI 5625: “A higidez do contrato é condicionada à conformidade com os fatos, de modo que é nulo instrumento com elementos caracterizadores de relação de emprego”. “Estando presentes elementos que sinalizam vínculo empregatício, este deverá ser reconhecido pelo Poder Público, com todas as consequências legais decorrentes, previstas especialmente na Consolidação da Leis do Trabalho”. “É nulo o contrato civil ..., quando utilizado para dissimular relação de emprego de fato existente, a ser reconhecida sempre que se fizerem presentes seus elementos caracterizadores”; ix) ADI 5625 (no voto do redator para acórdão, Ministro Nunes Marques): O ponto nevrálgico reside exatamente em se perceber que a natureza do ajuste firmado entre profissionais e o estabelecimento será definida de acordo com a presença, ou não, daqueles elementos caracterizadores do vínculo empregatício, a saber: pessoalidade, habitualidade (ou não eventualidade), subordinação e onerosidade. Ao se reconhecer outras formas de contratação como permitidas, não se está juridicamente afastando a possibilidade da caracterização do vínculo de emprego, se e quando, de fato, houver um simulacro para disfarçar a relação de emprego. “Com a evolução dos tempos e a complexidade das tramas sociais, a refletirem tais avanços, modelos alternativos de relações de trabalho têm surgido naturalmente. O vínculo de emprego não deve ser o único regime jurídico a disciplinar o trabalho humano. Com efeito, a produção de bens e serviços ocorre das mais variadas formas, e não exclusivamente por meio do sistema caracterizado pela presença de um empresário e seus empregados. O princípio da valorização do trabalho não se concretiza apenas com a tradicional fórmula do Fl. 636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 40 vínculo empregatício, em absoluto. Para sua perfectibilização, há de se facultar tanto ao trabalhador como aos empreendedores opções legítimas para que exerçam seu ofício sob a égide de regimes jurídicos resilientes, ajustáveis às mudanças sociais e culturais – eventualmente livres, por exemplo, de subordinação e dos limites remuneratórios característicos de um salário que tenha sido previamente contratado. Isso é conveniente para todos os atores econômicos e também para a sociedade em geral”. “A Constituição é capaz de acolher muitos projetos de vida, e o legislador, no diploma em discussão, agiu com grande respeito pelas manifestações espontâneas do mercado de trabalho em questão. Bem ao revés, penso que o enrijecimento do mercado, por força de disposições legais excessivamente dirigentes, isso, sim, pode operar em desfavor da liberdade, do progresso pessoal e da dignidade profissional”. “Um dos fundamentos da ordem econômica é a valorização do trabalho humano, que sempre aparece, no Texto Constitucional, pareado com a livre iniciativa (arts. 1º, IV, e 170, caput). Esta só se pode realizar numa ordem jurídica que não lhe maniete completamente, ainda que com bons propósitos. O vínculo empregatício tem seu lugar de destaque na economia de mercado, mas outras formas de arranjo trabalhista, sobretudo aquelas que surgem espontaneamente e que promovem o crescimento profissional das pessoas, devem ser igualmente respeitadas e estimuladas”. x) ADI 5625 (no voto vogal do Ministro Alexandre de Moraes): “No caso específico dos profissionais de beleza, a modalidade contratual regulamentada pela Lei 13.352/2016 [contrato de parceria] faz frente a essas novas realidades de maneira estruturalmente mais satisfatória que o vínculo empregatício tradicional. (...) os novos arranjos de contrato devem submeter-se ao regime constitucional, em compatibilidade com as garantias sociais fundamentais, para que não sejam invocados formalmente com o objetivo de fraudar uma efetiva relação de emprego, comprometendo as regras que definem contornos mínimos (em prol do trabalhador subordinado) como, por exemplo, no tocante à jornada, férias e seguridade social. (...). (...). As críticas à figura do contrato de trabalho de parceria revelam uma preocupação válida com usos e aplicações possíveis para esse novo instrumento formal, mas não me convenço de que a previsão da espécie contratual sob julgamento seja, ao menos em caráter abstrato, atentatória ao núcleo mínimo de garantias sociais. Ao reverso, entendo idôneas as razões de ordem econômica e social lançadas pelo Poder Executivo e pelo Congresso Nacional em sustento à regulamentação dessa modalidade de trabalho. (...). (...). exercer a prestação de serviços com autonomia e flexibilidade, o profissional da beleza que opta pela condição de MEI tem a possibilidade de usufruir dos benefícios do Simples Nacional para pagamento de seus impostos e para o recolhimento de contribuições sociais e previdenciárias. Refuto, ainda, a alegação de que essa nova modalidade de contrato serviu apenas para disfarçar relações de emprego pretéritas, em que os requisitos do vínculo se fazem presentes, mas livrando os empregadores do ramo, notadamente os salões de beleza, da obrigação de cumprir com os deveres trabalhistas em relação a seus subordinados. Observo, a esse respeito, que, mesmo antes da edição do diploma Fl. 637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 41 legal impugnado, a condição de trabalhador subordinado já não era a regra no caso dos profissionais da beleza. Ao contrário, ..., a maioria dos profissionais a que se refere a Lei 13.352/2016 costuma exercer sua profissão, desde muito antes da superveniência da previsão legal do contrato de parceria, na qualidade de trabalhador autônomo, que, no exercício de sua liberdade negocial, opta pela constituição de sociedades e parcerias com salões de beleza, com diferentes finalidades, como arrendamento do espaço, infraestrutura e equipamentos e gestão compartilhada de clientela. A previsão legal do contrato de parceria nesse setor apenas formalizou condição historicamente exercida pelos profissionais de embelezamento e que, no ramo, mostra-se mais sustentável. Registro, aliás, a existência de diversos precedentes do TST e de Tribunais Regionais Trabalhistas reconhecendo possível, em momento anterior às alterações promovidas pela Lei 13.352/2016, essa relação de parceria entre o profissional e o salão de beleza, que não equivale ao vínculo tradicional de emprego em face da ausência do requisito da subordinação...”. “De toda forma, a Lei 13.352/2016 não exclui a possibilidade de reconhecimento da relação de emprego quanto à pessoa do profissional- parceiro, quando verificada a presença dos pressupostos que ensejam a sua caracterização, independentemente da sua configuração formal como contrato de parceria. Além de a própria legislação impugnada prever a possibilidade de reconhecimento do vínculo empregatício entre a pessoa jurídica do salão-parceiro e o profissional-parceiro (hipóteses dos incisos I e II do art. 1º-C, cumulativamente) e estabelecer que o processo de fiscalização, autuação e imposição de multas será regido pelo disposto no Título VII da CLT (art. 1º-D), prevalece em matéria trabalhista, independentemente de referidas previsões legais, o princípio da primazia da realidade, surgindo impositiva a constatação da existência de relação de emprego sempre que as circunstâncias fáticas evidenciarem a presença de subordinação, alteridade, pessoalidade, onerosidade e não eventualidade. (...). (...). ... sendo certo que a verificação de burla à legislação trabalhista sob a vestidura meramente formal de um contrato de parceria acarreta a prevalência do vínculo empregatício, com o consequente reconhecimento dos direitos e verbas trabalhistas a ele atinentes.” xi) ADI 5625 (no voto vogal do Ministro Luís Roberto Barroso): “... não vejo problema nessa norma [contrato de parceria], evidentemente, desde que ela seja interpretada no sentido de que, se estiverem presentes os requisitos do contrato de trabalho típico, como horário de trabalho e outras obrigações, a parceria seria uma fraude e, evidentemente, nós não chancelaríamos uma fraude. (...). (...) estou validando o contrato de parceria, se for parceria mesmo; se for um contrato de emprego disfarçado, deve-se reconhecer a relação de emprego”. xii) ADI 5625 (no voto vogal da Ministra Cármen Lúcia): “Não me convenço, com todas as vênias, de ter havido qualquer afronta à Constituição Federal, uma vez que, como foi posto aqui e realçado a partir do voto do Ministro Barroso, mas também já mencionado e explicitamente posto pelo Ministro Nunes Marques, em caso de fraude ou de uma maquiagem de um contrato de trabalho no lugar de um Fl. 638DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 42 contrato de parceria desse salão-parceiro, as portas do Poder Judiciário continuam abertas e, portanto, não prevalecerá qualquer fraude aos direitos trabalhistas. Não me parece que esse recorte feito impeça o que seria o acesso à Justiça.” xiii) ADC 66 (no voto da Relatora Ministra Cármen Lúcia): “A norma do art. 129 da Lei n. 11.196/2005 harmoniza-se com as diretrizes constitucionais, especialmente com o inc. IV do art. 1º da Constituição da República, pelo qual estabeleceu a liberdade de iniciativa situando-a como fundamento da República Federativa do Brasil. Dessa liberdade econômica emanam a garantia de livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão e o livre exercício de qualquer atividade econômica, consagrados respectivamente no inc. XIII do art. 5º e no parágrafo único do art. 170 da Constituição da República. (...) (...) A complementariedade entre os valores sociais do trabalho e a livre iniciativa é tema recorrente nos julgamentos deste Supremo Tribunal, que, atento ao sistema constitucional e às transformações das relações de trabalho, não tem se esquivado do exame aprofundado do tema. A ênfase dada a esses vetores constitucionais pode ser exemplificada no julgamento do Recurso Extraordinário n. 958.252 (Tema 725 da repercussão geral) e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 324. (...) (...). Sob essa mesma perspectiva de densificação da liberdade de organização da atividade econômica empresarial, dotando-a da flexibilidade e da adequação atualmente exigidas, e da necessária compatibilização com os valores sociais do trabalho, há de se concluir que a norma objeto desta ação não apresenta vício de inconstitucionalidade. Compatibiliza-se a norma com a normatividade constitucional que abriga a liberdade de iniciativa como fundamento da República. (...). (...). ” xiv) ADC 66 (no voto vogal do Ministro Dias Toffoli): “Verifico que o dispositivo ora impugnado está em harmonia com as advertências lançadas no julgamento do Tema 725, no sentido de que os abusos podem ser coibidos pelo Poder Judiciário.” xv) Agravo Regimental na Reclamação nº 71.838 (Ministro Cristiano Zanin – Voto em consulta por “Sessão virtual”, data de início do julgamento: 14/02/2025), cassando acórdão do CARF nº 9202-011.169 (Processo 10983.720180/2013-18): “Na decisão impugnada inexiste menção a vício de consentimento ou condição de vulnerabilidade dos contratados na opção da relação jurídica estabelecida. Em casos como o destes autos, a existência de vulnerabilidade é critério que vem sendo utilizado pelo Supremo Tribunal Federal para a análise da existência de vínculo de emprego entre as partes contratantes e a licitude da terceirização. (...). (...). Todavia, no caso concreto, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais considerou presentes os pressupostos caracterizadores do vínculo empregatício, mesmo não havendo vício de consentimento ou condição de vulnerabilidade dos contratados na opção da relação jurídica estabelecida”. Consigna que é necessário demonstrar vulnerabilidade dos sócios das empresas, que prestavam serviços, para afastar a escolha dos envolvidos pela utilização de pessoas jurídicas. Fl. 639DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 43 xvi) Agravo Regimental na Reclamação nº 71.838 (Ministro Flávio Dino – Voto vogal em consulta por “Sessão virtual”, data de início do julgamento: 14/02/2025), cassando acórdão do CARF nº 9202-011.169 (Processo nº 10983.720180/2013-18): “No tocante à ADC 66, a Min. Cármen Lúcia, Relatora, ao assentar, em seu voto, a constitucionalidade do art. 129 da Lei n. 11.196/2005, deixou claro que a opção pela contratação de pessoa jurídica para a prestação de serviços intelectuais descrita no referido dispositivo se sujeita ‘à avaliação de legalidade e regularidade pela Administração ou pelo Poder Judiciário, quando acionado, por inexistirem no ordenamento constitucional garantias ou direitos absolutos’.” Vale sintetizar, teoricamente o STF vem entendendo ser possível haver parcerias ou sociedades; haver terceirização de atividades, seja atividade-fim ou atividade-meio; também compreende ser possível haver pejotização; igualmente, aceita outras formas de arranjo ou subdivisão de trabalho (gênero, sendo a relação de emprego ou de contribuinte individual mera espécie de como pode ser exercido o trabalho). O STF compreende que deve imperar a livre iniciativa, a liberdade negocial, assegurando aos agentes econômicos a liberdade de formular estratégias negociais indutoras de maior eficiência econômica e competitividade. Todavia, deve haver respeito a primazia da realidade. A situação deve ser real e não um simulacro. De qualquer sorte, o STF ainda se pronunciará sobre o ônus da prova nos processos que discutem a existência de fraude no contrato civil/comercial de prestação de serviços (na seara trabalhista, é verdade, embora propagando o seu pensamento para todos os ramos jurídicos); e a licitude da contratação de pessoa jurídica ou trabalhador autônomo para essa finalidade (conferir Tema 1389 da Repercussão Geral, ARE 1.532.603), conquanto a tendência seja manter sua jurisprudência remansosa no sentido de que é possível outras formas de trabalho que não a relação de segurado empregado, desde que se evite o ato simulatório. Ao fim e ao cabo, não pode haver simulação e formas alternativas e contratuais são lícitas (trabalho autônomo, trabalho em sociedade como sócio minoritário, trabalho por meio de contrato de parceria, trabalho por meio de prestação de serviços por pessoa jurídica sociedade pessoal ou empresária etc.). Fato é que a Excelsa Corte constitucional – a despeito de formas alternativas possíveis para as relações jurídicas do mundo contemporâneo (reconhecendo avanços e práticas sociais hodiernas) –, não admite escamotear uma típica relação de segurado empregado (Lei nº 8.212, art. 12, I, “a”) ou uma típica relação de segurado contribuinte individual (Lei nº 8.212, art. 12, V, e suas alíneas, especialmente “f”, “g” e “h”) por simulação da efetiva realidade observável. O STF, realmente, tem assentado que os direitos não são absolutos, nem vivem de rótulos, mas devem ser de natureza jurídica observável em experiência empírica constatável. Não se permite a simulação. Dito isto, não será oponível à Fazenda Nacional os contratos civis ou atos simulados, que não traduzam a realidade (CTN, art. 123, combinado com art. 149, VII). Fl. 640DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 44 Não é a forma (a partir de um rótulo) que apontará para a licitude, mas sim os fatos efetivamente observados na prática envolvendo os participes da relação jurídica. A relação de segurado empregado, para fins previdenciário-tributário, consiste em materialização dos elementos constantes do art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, a saber: “Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes pessoas físicas: I - como empregado: a) aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado;”. Uma forma mais didática e conceitual de identificar a relação de segurado empregado (Lei nº 8.212, art. 12, I, “a”) é verificar se estão presentes os elementos a seguir: a) serviço prestado por pessoa física; b) pessoalidade; c) subordinação (limitação a autonomia do trabalhador com presença de subordinação às ordens direta do tomador dos serviços e demonstração de efetiva vulnerabilidade e vício de consentimento, ademais quando o trabalho ocorre formalmente por pessoa jurídica ela não pode se apresentar sem materialidade ou substância, com artificialismo e inexistente o propósito negocial ou a affectio societatis); d) habitualidade (não eventualidade); e) onerosidade mediante salário/remuneração (limites remuneratórios característicos de um salário); e f) alteridade, na qual o tomador do serviço assume os riscos da atividade econômica e não pode transferi-lo ao segurado empregado, o qual não assume quaisquer riscos (Lei nº 8.212, art. 15, I). Se a auditoria fiscal observar os requisitos do art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, deve reconhecer o vínculo de segurado empregado, conforme a legislação previdenciária, no âmbito da atuação fiscal-tributária. Isto é, na presença dos elementos – pessoalidade, habitualidade (ou não eventualidade), subordinação (limitação a autonomia do trabalhador e subordinação às ordens direta do tomador dos serviços, especialmente com demonstração de efetiva vulnerabilidade e vício de consentimento), alteridade (ausência de riscos) e onerosidade com limites remuneratórios característicos de um salário; ainda que a prestação de serviços ocorra sob alegação de ser através de pessoas jurídicas, que se apresente sem materialidade ou substância, com artificialismo e inexistindo propósito ou affectio societatis –, deve haver a lavratura do auto Fl. 641DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 45 de infração com reconhecimento do vínculo previdenciário de segurado empregado pelo art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, sendo os pagamentos base de cálculo de contribuições (Lei nº 8.212, art. 22, I e II). A subordinação e a correlata integrada vulnerabilidade são requisitos essenciais para a caracterização do vínculo previdenciário pelo art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, sendo necessário observar uma subordinação clássica (ou tradicional) na qual se observa o segurado empregado submetido às ordens direta do tomador dos serviços e com limitação de sua autonomia, em contexto de vulnerabilidade. Não é suficiente a subordinação puramente estrutural demonstrando que o trabalhador se integra estruturalmente à organização e dinâmica operacional da empresa tomadora. É preciso que a fiscalização demonstre, ainda que por amostragem, que o segurado empregado esteve submetido às ordens direta do tomador dos serviços e com limitação de autonomia, subordinado em plenitude, de forma clássica, por restar, assim, caracterizada também a vulnerabilidade e o consequente vício de consentimento no formato paginado para a relação. Por sua vez, a relação de segurado contribuinte individual, para fins previdenciário- tributário, consiste em materialização dos elementos constantes do art. 12, inciso V, e suas alíneas, da Lei nº 8.212, a saber: “Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes pessoas físicas: V - como contribuinte individual: a) a pessoa física, proprietária ou não, que explora atividade agropecuária, a qualquer título, em caráter permanente ou temporário, em área superior a 4 (quatro) módulos fiscais; ou, quando em área igual ou inferior a 4 (quatro) módulos fiscais ou atividade pesqueira, com auxílio de empregados ou por intermédio de prepostos; ou ainda nas hipóteses dos §§ 10 e 11 deste artigo; (Redação dada pela Lei nº 11.718, de 2008) b) a pessoa física, proprietária ou não, que explora atividade de extração mineral - garimpo, em caráter permanente ou temporário, diretamente ou por intermédio de prepostos, com ou sem o auxílio de empregados, utilizados a qualquer título, ainda que de forma não contínua; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999) c) o ministro de confissão religiosa e o membro de instituto de vida consagrada, de congregação ou de ordem religiosa; (Redação dada pela Lei nº 10.403, de 2002) d) revogado; e) o brasileiro civil que trabalha no exterior para organismo oficial internacional do qual o Brasil é membro efetivo, ainda que lá domiciliado e contratado, salvo quando coberto por regime próprio de previdência social; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999) Fl. 642DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 46 f) o titular de firma individual urbana ou rural, o diretor não empregado e o membro de conselho de administração de sociedade anônima, o sócio solidário, o sócio de indústria, o sócio gerente e o sócio cotista que recebam remuneração decorrente de seu trabalho em empresa urbana ou rural, e o associado eleito para cargo de direção em cooperativa, associação ou entidade de qualquer natureza ou finalidade, bem como o síndico ou administrador eleito para exercer atividade de direção condominial, desde que recebam remuneração; (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999) g) quem presta serviço de natureza urbana ou rural, em caráter eventual, a uma ou mais empresas, sem relação de emprego; (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999). h) a pessoa física que exerce, por conta própria, atividade econômica de natureza urbana, com fins lucrativos ou não; (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999). Deveras, no contexto do segurado não empregado, é importante dizer que se a fiscalização reconhecer situações de trabalho como contribuinte individual (Lei nº 8.212, art. 12, inciso V, e suas alíneas, especialmente “f”, “g” e “h”) com recebimentos de pagamentos com tal viés, deve lavrar a autuação motivadamente neste cenário, caso não reconhecido o vínculo. Isto porque, se reconhecer que atos civis não são reais deve reconhecer a simulação; e se observar a ocorrência do fato gerador (pagamentos) deve autuar. Aliás, se quadro fático de ato simulado for observado, ter-se-á, consequentemente, demonstrada a ocorrência do fato gerador da contribuição previdenciária, isto de forma direta, pois se considera ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos, tratando-se de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios (CTN, art. 116, I), ademais, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos (CTN, art. 118, I) e dos efeitos dos fatos efetivamente ocorridos (CTN, art. 118, II), adicionalmente, a autoridade administrativa deve constituir o crédito tributário pelo lançamento, em procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, inclusive identificando o sujeito passivo e, sendo o caso, propondo a penalidade cabível (CTN, art. 142), além de poder revisar de ofício atos do contribuinte, ou de terceiros, quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação2 (CTN, art. 149, VII). Pode-se formar parcerias, trabalhar em sociedade, terceirizar, pejotizar ou estabelecer outras formas de trabalho, conquanto esteja vedado camuflar uma verdadeira relação de segurado emprego ou de segurado contribuinte individual por meio das permitidas formas jurídicas. O caso concreto denunciará o que é lícito ou ilícito. Denunciará o que é tributável ou 2 Na ADI 2446 o STF assentou a constitucionalidade do parágrafo único do art. 116 do CTN. De toda sorte, em casos de simulação, não é necessário desconsiderar atos ou negócios jurídicos, mas apenas apontar os fatos efetivamente ocorridos na prática observável, pois caracterizam a efetiva ocorrência do fato gerador. Fl. 643DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 47 não, a depender da materialidade e da base de cálculo e dos fatos efetivamente observáveis empiricamente na prática dos atos verificados. Creio que a importância do controle de legalidade do lançamento de ofício não só objetive evitar a cobrança do que não seja devido, mas também vise aprimorar a forma como deve ocorrer as autuações. Penso que é necessário que a fiscalização caracterize individualizadamente, ainda que por amostragem eficaz, a situação, demonstrando que se caracteriza no particular deste ou daquele trabalhador a efetiva situação de segurado empregado, quando for essa a acusação fiscal; ou a situação de pagamentos para contribuintes individuais quando for esse o ponto acusatório. Pode haver uma globalização (apontamento de subordinação estrutural), mas é preciso, ainda que por amostragem, a demonstração da subordinação clássica consequente com a demonstração da vulnerabilidade no caso de situação de segurado empregado ou o apontamento de elementos concretos da caracterização da situação de pagamentos para segurados contribuintes individuais, conforme cada caso acusatório. Precisa se partir para a subsunção prática com algumas situações concretas que denunciem um eventual simulacro, nem que por amostragem, com efetiva demonstração da realidade empírica efetiva que se constata e que implica na ocorrência do fato gerador, quando for efetivamente a situação concreta auditada. Após a construção teórica, passo a analisar o caso dos autos. Cuida-se de acusação fiscal na qual relata a fiscalização, por outras palavras, que: (i) Os contratos de prestação de serviços de engenharia a serem executados pelas empresas “SDS Engenharia e Consultoria” e “Viana Moura Engenharia Ltda”, atualmente “RAM Engenharia Ltda”, assinados com a contratante autuada contribuinte Maio Empreendimentos, eram extremamente simples, além de serem similares, a despeito das empresas contratadas serem pessoas jurídicas diversas, sendo que a previsão de pagamento era mensal, até o quinto dia útil do mês, não condicionado a qualquer medição, sendo mensalmente devidos de forma fixa por preço unitário; (ii) As contratadas emitiram notas fiscais de forma sequencial e a prestação de serviços, pela sequência exata das notas fiscais, era exclusiva para a contratante; (iii) Pelas GFIPs das prestadoras de serviços (consulta realizada pela fiscalização sobre os informes das empresas contratadas) não havia empregados registrados nas pessoas jurídicas prestadoras de serviços. A prestação dos serviços do contrato com habitualidade mensal era sempre pessoal pelos sócios pessoas físicas das respectivas prestadoras interpostas, ademais a contribuinte em resposta a intimação fiscal confirma que em relação a cada prestadora pessoa jurídica tida por interposta o prestador de serviço era sempre o sócio da própria empresa, sem substituição; Fl. 644DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 48 (iv) Em relação a interposta “SDS Engenharia e Consultoria”, consta que o sócio pessoa física, Sr. Sandro José Diniz Lima Soares, foi empregado registrado em empresa do Grupo econômico da autuada (na empresa Paranasa), no período de 01/1995 a 04/2009. Consta que, na sequência, Sandro José Diniz Lima Soares, a partir de 05/2009, passou a prestar os serviços para a autuada através da empresa interposta “SDS Engenharia e Consultoria”, que teve início de atividade em 28/04/2009. Consta, ainda, que, na análise contábil da interposta, ficou evidenciado, nas contas contábeis 2.04.003.000134 (Condução e Locomoção), 2.04.003.000156 (Viagens, Passag., Hosp., Aliment), 2.04.003.000125 (Aluguéis de Imóveis e Condomínio), 2.04.003.000.168 (Desp. c/ Veículos e Estacionamento), 2.01.001.101173 (Fornecedores, Cx. Nf’s, Reembolso), 2.04.002.000091 (Combustível) e 2.04.003.000121 (Alimentação) que a autuada registrou documentos que dão suporte aos lançamentos contábeis feitos nessas contas em nome de Sandro José Diniz Lima Soares, e foi possível constatar que era a Maio Empreendimentos que reembolsava as despesas efetivamente incorridas na prestação dos serviços (alimentação, hospedagem, transporte, combustível etc.), demonstrando que Sandro teve as despesas de sua atividade arcadas pela Maio Empreendimentos. Sandro prestava conta das despesas efetuadas, indicando que a Maio Empreendimentos tinha ingerência sobre as atividades desempenhadas por Sandro. A Maio Empreendimentos aplicava a política de reembolso de despesas de viagem para Sandro nos mesmos moldes praticados com seus empregados. Ou seja, a Maio concedia a Sandro o mesmo tratamento dado a seus empregados, o que significa dizer que a Maio tratava Sandro com se empregado fosse. Ademais, consta que Sandro tinha plano de saúde pago pela empresa do Grupo econômico da autuada, pago pela Paranasa; (v) Em relação a interposta “Viana Moura Engenharia Ltda”, atualmente “RAM Engenharia Ltda”, consta que o sócio pessoa física Rodrigo Augusto de Moura sempre trabalhou como segurado empregado para empresas com as quais se relacionou no ramo de construção, isto conferido o período de 08/1987 a 03/2009, sendo que, em 08/2009, constituiu a “Viana Moura Engenharia Ltda” para prestar serviço para a autuada com recebimentos mensais consecutivos, com exclusividade, sempre recebendo até o 5º dia útil do mês seguinte ao da prestação dos serviços. Consta que Rodrigo, também, tinha plano de saúde pago pela empresa do Grupo econômico da autuada, pago pela Paranasa, assim como os empregados registrados oficialmente na Maio Empreendimentos; (vi) Consta que as interpostas firmaram contrato com a autuada com critérios de vulnerabilidade e subordinação, considerando que a contratação revela poder decisório da contratante estabelecido em contrato no mesmo padrão, mesmo conteúdo, mesmas cláusulas, mesmos prazos de validade (1 ano), para pagamentos mensais fixos. A padronização, uniformidade e semelhança dos contratos evidenciam a subordinação. A subordinação jurídica estaria confirmada, pois os serviços prestados são fiscalizados pela autuada, através de profissionais do quadro permanente da empresa e, em casos de falhas ou incorreções, a critério Fl. 645DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 49 exclusivo da fiscalização da autuada, a contratada deverá refazer os serviços. Os serviços eram, portanto, prestados sob dependência hierárquica. (vii) Consta que a autuada questionada sobre quem era o contratante do Plano de Saúde dos seus empregados formalizados (na Maio Empreendimentos), uma vez que os mesmos sofriam descontos nas folhas de pagamento referentes a Assistência Médica (Rubrica 213), a empresa fiscalizada informou que a contratação ocorria pela empresa do Grupo Paranasa. Em sequência, realizando diligência, a auditoria fiscal intimou a Unimed Belo Horizonte Cooperativa de Trabalho Médico a informar se Sandro José Diniz Lima Soares, sócio da SDS Engenharia e Consultoria, e se Rodrigo Augusto de Moura, sócio da Viana Moura Engenharia, eram beneficiários de algum Plano de Saúde da UNIMED, indicando qual a empresa contratante do plano e o período de vinculação. Em resposta, a UNIMED BH informou que o Sr. Sandro Jose Diniz Lima Soares possuía plano de saúde através da contratante PARANASA ENGENHARIA E COMERCIO S/A, desde 31/03/1995 até o momento da resposta ativo, enquanto Rodrigo Augusto de Moura possuía plano de saúde através da contratante PARANASA ENGENHARIA E COMERCIO S/A, no período de 11/07/2011 a 30/04/2013; (viii) A fiscalização aduz que a Assistência Médica paga é benefício de cunho trabalhista típico e inerente a relação de segurado obrigatório qualificado como segurado emprego, não sendo benefício ligado a uma relação comercial entre empresas. Observou-se que Rodrigo Augusto começou a ser beneficiário do plano de saúde através do grupo Maio/Paranasa em 07/2011, sendo este o mesmo mês em que assinou o contrato de prestação de serviço com a Maio Empreendimentos, por meio da interposta pessoa jurídica; (ix) a base de cálculo das contribuições previdenciárias de responsabilidade da empresa, destinadas ao custeio da Seguridade Social, alcança todo e qualquer rendimento do trabalho, pago ou creditado, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviços, conforme previsto na alínea “a” do inciso I do art. 195 da Constituição Federal; (x) a base de cálculo das contribuições previdenciárias alcança o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa. É certo que a base de cálculo e o fato gerador da autuação foca nos pagamentos realizados para as interpostas pessoas jurídicas, os quais constam como verdadeiramente destinados para as pessoas físicas efetivamente prestadoras dos serviços, a quem se destinava, na visão fiscal, os valores pagos. Fl. 646DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 50 Em suma, por vários argumentos e outros termos, indica a fiscalização que houve simulação no pagamento dos valores, pois, a despeito de assim não declarados, são remunerações para segurados empregados da própria autuada, para fins previdenciários, ante a conceituação e enquadramento observável no vínculo específico de segurado obrigatório, considerando os elementos constatáveis por provas no caso concreto, inclusive com benefício tipicamente destinado para segurados empregados, tal como, plano de assistência à saúde ou até o reembolso integral de despesas diversas. A autuada foi qualificada como contribuinte de contribuições patronais previdenciárias no processo principal e no caso destes autos das contribuições destinadas para Outras Entidades e Fundos (Terceiros) pelos pagamentos ou creditamentos dos valores para os segurados empregados, ainda que de forma indireta, por meio das interpostas pessoas jurídicas. Muito bem. O que se vê na prova colacionada ao caderno processual é que as conclusões fiscais se mostram efetivas e não meramente conjecturais. Nos autos há uma situação bastante peculiar que não reflete o conteúdo declarado e formalizado. Não há correspondência entre forma e fatos observados no objeto em análise. As ocorrências observáveis são pagamentos de verbas tipicamente de segurados empregados para os sócios das interpostas pessoas jurídicas. O que se observa, para tais sócios das interpostas pessoas jurídicas, é uma relação, para fins previdenciários, com a autuada, em contexto de segurado obrigatório do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), na modalidade segurado empregado, ante os requisitos encartados no art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212. Os valores pagos para as interpostas são, na verdade, a remuneração daquelas pessoas físicas. No tocante à questão da subordinação, inclusive pela vulnerabilidade, ela se apresenta na forma peculiar de contratação em contrato tipicamente idealizado de forma idêntica, simples, com pagamentos mensais, sobressaindo um poder hierárquico da autuada. Veja- se que as contratadas seriam empresas distintas e independentes, não relacionadas, porém os contratos são similares, quase que idênticos, excetuados valores, datas e qualificação de contratada interposta. Demais disto, os efetivos trabalhadores até recebem plano de assistência à saúde de emprega do grupo econômico, em benefício tangenciado exclusivamente para segurados empregados do grupo. Os apontamentos fiscais acima resumidos, quando se compara com a prova dos autos, se apresentam comprovados e tudo ali relatado é realidade observável e efetiva a justificar e motivas a autuação. Longe de se cuidar de falar em mera subordinação estrutural, tem-se nos elementos dos autos uma subordinação de vulnerabilidade que se demonstra e exibe pelo fator relacional entre as pessoas físicas “sócios das interpostas” e a autuada, demonstrando uma relação que se conforma com os requisitos do art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212. Malgrado alguma aparente “liberdade”, pela roupagem de pessoa jurídica, permanecem dependentes do poder econômico da Fl. 647DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 51 tomadora dos serviços autuada, o que se manifestava pela superposição de comando e fiscalização, denunciada pelo contrato formalizado e dependência comprovada com reembolso de despesas diversas e outorga de plano de saúde, além da falta de independência das pessoas jurídicas interpostas que emitem nota fiscal exclusiva e sequenciada mensalmente apenas para a autuada, com serviços exclusivos e mensais, habituais e periódicos, em evidente perfil de subordinação, onerosidade, não-eventualidade, habitualidade, alteridade e dependência por vulnerabilidade. Muito embora a fiscalização não tenha juntado aos autos as GFIPs das interpostas pessoas jurídicas, que diz ter consultado, isso não despreza os demais elementos de prova não refutados a contento pela autuada a demonstrar, em realidade, na prática observável, tratamento característico de segurados empregados para fins previdenciários, diante dos elementos do art. 12, I, “a”, da Lei nº 8.212, inclusive com fornecimento de plano de saúde para as pessoas físicas em trabalho exclusivo mensal, com contratação tabulada de forma uniforme e sem elementos de independência. Demais disto, as ponderações da decisão recorrida, por seus próprios fundamentos, tornam-se necessárias neste momento, na forma que passo a adotar: Reitere-se, conforme já ficou claro em sede preliminar, que, independente de a SDS Engenharia e Consultoria e a Viana Moura Engenharia Ltda. possuírem, ou não, empregados – o que descarta a questão das informações obtidas nas GFIPs dessas empresas, bem assim a existência de outros sócios compondo os respectivos quadros societários, haja vista o que consta da correspondência de fls. 66/67, da Maio Empreendimentos e Construções S/A –, os serviços foram prestados pessoalmente pelos sócios dessas empresas, e não por quaisquer outras pessoas físicas. Ainda quanto à pessoalidade, a autoridade lançadora informa que Sandro José Diniz Lima Soares, sócio da SDS Engenharia e Consultoria, foi empregado registrado da Maio Empreendimentos e Construções S/A, entre janeiro de 1995 e janeiro de 1999, e da Paranasa Engenharia e Comércio S/A, empresa do grupo Maio/Paranasa, no período de janeiro de 1995 a abril de 2009, conforme consulta ao Cadastro Nacional de Informações Sociais - CNIS (fls. 154/171). Aduz que, segundo as pesquisas realizadas, Sandro José Diniz Lima Soares, a partir de maio de 2009, passou a prestar serviço através da empresa SDS Engenharia e Consultoria, constituída em 28 de abril de 2009. Observe-se que, solicitada a apresentação da ficha de registro do empregado Sandro José Diniz Lima Soares – conforme TIF n.º 01 (fls. 61/62) –, a empresa manifestou-se (fl. 67) no sentido de que este trabalhador “jamais integrou o quadro de empregados da Maio Empreendimentos, razão pela qual não há qualquer registro a ser apresentado com relação a ele. Quanto aos dados lançados no documento encaminhado por V. Sa., atinente às competências 03/1998 a 01/1999, trata-se de equívoco cometido pelo funcionário responsável Fl. 648DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 52 pelo preenchimento do mesmo, e cuja retificação deste já está sendo analisada/providenciada.” De qualquer sorte, não deixa de surpreender a referência a Sandro José Diniz Lima Soares, constante na consulta de fl. 168, como empregado da Maio Empreendimentos e Construções Ltda. - Obra Predial, admitido em 02 de janeiro de 1995 – quanto mais não seja para perquirir-se acerca da origem do “equívoco” alegado pela empresa. Por outras palavras, já que a impugnante nada aduziu acerca desse “equívoco”, deveria ela, desincumbindo-se do ônus, que lhe cabe, de provar aquilo que alega, ter demonstrado por que “este Sr. [que] jamais integrou o quadro de empregados da Maio Empreendimentos” consta do Cadastro Nacional de informações Sociais, como empregado da impugnante no período de 02 de janeiro de 1995 a janeiro de 1999. (...) A questão de os contratos celebrados pela impugnante apresentarem “certa semelhança”, no caso, o mesmo padrão, mesmo conteúdo, mesmas cláusulas e mesmos prazos de validade, diz mais respeito à não eventualidade e à subordinação, como elementos caracterizadores da relação previdenciária entre empresa e segurado empregado. Assim, v. g., quanto ao objeto dos contratos – prestação de serviços de engenharia consultiva, consultoria e assessoria, elaboração e avaliação de orçamentos e planejamento de obras –, que, de uma parte, determina a execução de atividades relacionadas com aquelas normais à impugnante (não eventualidade), e, de outra parte, compreende serviços que não podem ser executados de forma autônoma, sem que os sócios (pessoas físicas) estejam integrados dentro da estrutura organizacional da contratante (subordinação). Também não se pode deixar de considerar que os serviços foram avençados de maneira genérica, sem relação com qualquer projeto específico da Maio Empreendimentos e Construções S/A, o que autoriza a conclusão de que Sandro José Diniz Lima Soares e Rodrigo Augusto de Moura foram contratados para ficarem à disposição da contratante, que poderia ou não utilizá-los, de acordo com suas necessidades (subordinação), tal como ocorre na contratação dos demais segurados empregados. Quanto à existência da SDS Engenharia e Consultoria e da Viana Moura Engenharia Ltda. em data anterior ao período fiscalizado, verifica-se, pelo menos em relação a Sandro José Diniz Lima Soares, que este foi empregado da Paranasa Engenharia e Comércio S/A, empresa do grupo Maio/Paranasa, no período de janeiro de 1995 a abril de 2009, passando, a partir de maio de 2009, a prestar serviço através da empresa SDS Engenharia e Consultoria, constituída em 28 de abril de 2009. Dito de outra maneira: Sandro José Diniz Lima Soares, a um, foi empregado da Paranasa Engenharia e Comércio S/A, empresa do grupo Maio/Paranasa, até abril de 2009; e, a dois, constituiu, ainda em abril de 2009, a SDS Engenharia e Fl. 649DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 53 Consultoria, passando, por meio desta, já a partir de maio de 2009 – sem solução de continuidade, portanto –, a prestar serviços para a Maio Empreendimentos e Construções S/A, também pertencente ao grupo Maio/Paranasa. Em relação ao plano de saúde da Unimed, concedido aos empregados “regularmente” contratados pela impugnante e estendido a Sandro José Diniz Lima Soares e Rodrigo Augusto de Moura, não assiste razão à impugnante. (...) Não se pode, todavia, deixar de considerar essa situação como elemento de prova da relação laboral, na medida em que o benefício foi concedido igualmente aos empregados da impugnante, a Sandro José Diniz Lima Soares e a Rodrigo Augusto de Moura. (...) Destaca, ainda, que todas as notas fiscais emitidas pela SDS Engenharia e Consultoria e pela Viana Moura Engenharia Ltda. em 2012 e 2013 tiveram como tomador a Maio Empreendimentos e Construções S/A. Portanto, além de não eventuais, na forma da lei, os serviços contratados foram habituais, como verifica pela rotina mensal de emissão de notas fiscais por parte das empresas contratadas, e exclusivos. (...) Demais, verifica-se, pelos documentos fiscais de fls. 137/163 e 204/228, que os serviços contratados por meio das empresas SDS Engenharia e Consultoria e pela Viana Moura Engenharia Ltda., foram prestados de forma ininterrupta ao longo de todo o período autuado. (...) Em relação às notas fiscais emitidas pelas empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Engenharia Ltda., no período autuado, examinados os documentos de fls. 108/134 e 175/199, respectivamente, constata-se, primeiro, que todas as notas fiscais emitidas pela SDS Engenharia e Consultoria em 2012 (15 notas fiscais) e 2013 (12 notas fiscais) referem-se a serviços prestados para a Maio Empreendimentos e Construções S/A; segundo, que, em relação à Viana Moura Engenharia Ltda., das doze notas fiscais emitidas em 2012, onze referem-se a serviços prestados à impugnante, enquanto que, em 2013, de 21 notas fiscais, quinze foram emitidas para a Maio Empreendimentos e Construções S/A. Não há, portanto, sob o ponto de vista da efetiva continuidade da prestação dos serviços, documentada pelas notas fiscais emitidas pelas empresas SDS Engenharia e Consultoria e Viana Moura Engenharia Ltda., que se falar em eventualidade da prestação dos serviços. (...) Fl. 650DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 54 Demais, note-se, no quesito, que – diferentemente do que alega a empresa – a autoridade fiscal não afirma que “os pagamentos foram realizados em razão da prestação de serviços realizados por pessoas jurídicas”, mas, sim, que os pagamentos foram efetuados aos profissionais executores dos serviços, “apesar de mascarados como pagamentos a pessoas jurídicas, respaldados em notas fiscais de prestação de serviços.” Quanto a eventuais variações ocorridas nos valores pagos pela impugnante, vale lembrar que tanto o salário de contribuição do segurado empregado, definido no artigo 28, inciso I, da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 9.528/97, quanto a remuneração do empregado, definida no artigo 457 e seu parágrafo 1º da CLT, são compostos de parcelas fixas e parcelas variáveis. Portanto, as variações nos valores pagos, inclusive para menor, não se prestam à descaracterização da natureza salarial desses pagamentos. (...) Acerca do reembolso de despesas, verifica-se que dos contratos acostados aos autos não consta previsão que respalde tais pagamentos. Por outras palavras, não foi firmado entre as partes, como de responsabilidade da empresa tomadora, o pagamento das despesas realizadas pelas prestadoras de serviços para a execução dos trabalhos contratados – do que se conclui deveriam tais despesas correr à conta dos prestadores dos serviços. (...) Em segundo lugar, verifica-se que os serviços contratados, ainda que inseridos nas atividades normais da impugnante, foram avençados por um prazo previamente estabelecido, passível de prorrogação, contudo sem a definição ou o estabelecimento de qualquer relação com projeto específico a ser iniciado pela Maio Empreendimentos e Construções S/A, ou mesmo em andamento. Tal fato autoriza a conclusão de que Sandro José Diniz Lima Soares e Rodrigo Augusto de Moura foram contratados, basicamente, para, durante o prazo de vigência acordado, ficarem à disposição da tomadora de seus serviços, que os utilizaria, ou não, da maneira que melhor lhe convier, na própria empresa ou em qualquer lugar onde esta desenvolva algum projeto. Finalmente, quanto ao acompanhamento da execução dos serviços, em ambos os casos este era feito pelo setor de arquitetura da Maio Empreendimentos e Construções S/A, que se reportava ao sócio Jânio Valeriano Alves ou a Digliani Vianna Bavoso, que ocupava a função de gerente. Já a aprovação dos serviços executados e do respectivo pagamento era de responsabilidade de um dos sócios da impugnante. Tem-se, destarte, por suficientemente caracterizada a subordinação de Sandro José Diniz Lima Soares e Rodrigo Augusto de Moura à empresa Maio Empreendimentos e Construções S/A, na execução dos serviços que lhes foram determinados por esta última. Fl. 651DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 55 Pelo exposto, presentes a pessoalidade (prestação de serviços por pessoa física), a não eventualidade, a onerosidade e a subordinação, conclui-se que Sandro José Diniz Lima Soares e Rodrigo Augusto de Moura prestaram serviços à empresa Maio Empreendimentos e Construções S/A, na condição de segurados empregados. Por conseguinte, não havendo dúvidas quanto à prevalência da realidade fática sobre os aspectos formais, não há reparos nos autos de infração com relação à exigência fiscal no particular deste capítulo recursal. Fato é que, no tocante à relação previdenciário-tributária, incluindo o financiamento para Outras Entidades e Fundos (Terceiros), os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando a empresa autuada – que foi comprovadamente efetiva beneficiária do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços – , obrigada ao recolhimento das contribuições devidas conforme correto enquadramento legal para a espécie. Isto porque, comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de disparidade entre a forma de pactuação e a realidade, imperioso o reconhecimento do colaborador como segurado obrigatório da Previdência Social vinculado com o efetivo contratante, seja na modalidade segurado empregado ou na modalidade de contribuinte individual, conforme contexto fático observado e subsunção ao enquadramento legal adequado. Neste diapasão, enquadra-se como segurado empregado para fins previdenciários o trabalhador que prestando serviço diretamente para o efetivo contratante o faça em relação jurídica vinculada com elementos de pessoalidade, habitualidade (não eventualidade), onerosidade, alteridade e subordinação, nessa se observando a vulnerabilidade e o vício de consentimento em relação ao efetivo contratante – ex vi da alínea “a” do inciso I do art. 12 da Lei nº 8.212 combinado com as normas das contribuições para Terceiros (em reflexo as contribuições previdenciárias do art. 22, I e II, da Lei nº 8.212) e arts. 116, I, 118, I e II, 142 e 149, VII, do CTN. Por último, não é demais repisar que os valores pagos para segurados obrigatórios do RGPS – segurados empregados –, integram o conceito jurídico de salário de contribuição para todos os fins previstos na Lei de Custeio da Seguridade Social. Noutro vértice, mantido o lançamento de ofício tratado neste capítulo, quanto à irresignação contra a base de cálculo ser o valor bruto das notas fiscais, questionando, por exemplo, o dever de realizar ao análise de distribuição por quinhão na pessoa jurídica, já que havia outros sócios nas ditas interpostas pessoas jurídicas, tenho que não assiste razão para a recorrente, uma vez que, conforme abordado na análise, nitidamente os valores se destinavam para os prestadores pessoas físicas, conforme peculiaridades anotadas, sendo a interposição mero simulacro bem comprovado pela fiscalização. Aliás, o lançamento só foi possível por aferição indireta diante do formato prático dado pela própria autuada, no sentido de que o valor assim apurado correspondeu a lógica da Fl. 652DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 56 motivação dada ao ato. Os pagamentos das notas fiscais eram exatamente os valores que se destinavam para as pessoas físicas em razão do trabalho delas. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. - Acusação fiscal de remuneração paga para segurado empregado da própria autuada por intermédio de interposta pessoa jurídica “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporações de Negócios Imobiliários Ltda” O presente capítulo trata da acusação fiscal na qual a auditoria indica uma simulação no pagamento de valores para pessoa física segurado empregado da própria autuada, sendo o pagamento da remuneração pago por meio de interposta pessoa jurídica. Consta que o valor pago à empresa “Só Na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda” foi considerado como salário indireto de Charles Gomes de Oliveira, gerente comercial da própria autuada contribuinte Maio Empreendimentos. Tratou-se de pagamento simulado por meio de interposta pessoa jurídica. A auditoria fiscal considerou como remuneração indireta, integrando o salário de contribuição do segurado empregado da própria autuada, Sr. Charles Gomes de Oliveira, o pagamento de R$ 2.500.000,00, efetuado em janeiro de 2012, a título de comissão. O valor referido foi pago de forma simulada para a empresa interposta, sendo identificado na contabilidade da autuada. A auditoria fiscal registra que o Sr. Charles Gomes de Oliveira foi gerente comercial da autuada, admitido em 1º de fevereiro de 2011 e demitido em 25 de julho de 2012, além de sócio administrador da empresa “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”, constituída 14/12/2011, com atividades paralisadas em 13/08/2013. O pagamento da remuneração (salário indireto) ocorreu em janeiro de 2012. O contribuinte sustenta a legalidade do pagamento para a pessoa jurídica, porém não lhe assiste razão. Explico. Como bem anotado pela primeira instância, examinados os documentos que dão respaldo aos registros contábeis do pagamento – ordem de serviço, autorização de pagamento e nota fiscal –, verifica-se que estes informam se tratar, no caso, de comissão formalmente paga à empresa “Só na Planta Desenvolvimento Comercial e Incorporação de Negócios Imobiliários Ltda”, em razão da intermediação na aquisição de imóvel destinado à construção do Residencial Mirante de Alcântara, empreendimento do grupo Maio/Paranasa. A operação de aquisição foi celebrada entre a autuada (adquirente) e a empresa Macedo & Castro Incorporação e Empreendimentos Imobiliários Ltda. Constatou-se, por meio de pesquisa, primeiro, que a empresa “Só na Planta” foi constituída em 14/12/2011 – tendo como objeto a prestação de serviço de corretagem, atividades de intermediação e outras –, havendo solicitado a paralisação de suas atividades perante a Junta Comercial em 1º/07/2013; segundo, Fl. 653DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 57 que o sócio administrador da “Só na Planta” é o Sr. Charles Gomes de Oliveira, gerente comercial da Maio Empreendimentos, admitido por esta em 1º/02/2011 e demitido em 25/07/2012. Examinada a escritura e o registro do imóvel adquirido, que gerou a comissão, a autoridade fiscal constatou, por provas, que autuada havia adquirido o imóvel pelo valor de R$ 6.900.000,00. Quanto ao contrato de compra e venda, este não foi apresentado pela auditada, sob a alegação de não ter localizado o documento, porém foi intimada para apresentação. Observa-se que a comissão paga pela intermediação na aquisição do imóvel foi de R$ 2.500.000,00, o que corresponde a 36,23% do valor do imóvel (adquirido por R$ 6.900.000,00 conforme o registro da escritura), ficando muito acima dos percentuais normalmente praticados no mercado, os quais giram em torno de 5% a 6% do valor do imóvel. Destaca-se, ainda, que a empresa “Só na Planta”, constituída em 12/2011, teve como única receita declarada à Receita Federal em 2012, a comissão recebida da Maio Empreendimentos. Em 2013, não apresentou receita alguma, havendo solicitado a paralisação de suas atividades nesse mesmo exercício. Observa-se, claramente, que a “Só na Planta” foi constituída por formalidades em viés de simulacro para que o Sr. Charles Gomes de Oliveira, empregado da autuada, recebesse o valor decorrente de serviços prestados para a autuada como negociador empregado, especificamente para remunerar a negociação do imóvel adquirido. Não se acolhem as considerações da autuada recorrente acerca de suas relações com Charles Gomes de Oliveira e, por via de consequência, com a pessoa jurídica “Só na Planta”. Ora, Charles Gomes de Oliveira foi admitido pela Maio Empreendimentos em 1º/02/2011, havendo constituído, em 14/12/2011 – dez meses e meio depois, portanto –, a empresa “Só na Planta”, a qual só vai ter 1 único faturamento e, na sequência, vai encerrar atividades. A receita auferida pela “Só na Planta” foi a única receita declarada à RFB em 2012, percebendo-se, com meridiana clareza, que a pessoa jurídica foi constituída com o objetivo único de que Charles Gomes de Oliveira, então empregado da autuada, recebesse o valor decorrente da negociação do imóvel, furtando-se a autuada, mediante tal simulação, ao pagamento das contribuições sociais devidas pela relação de segurado empregado. Correto, portanto, quanto a esse aspecto, o procedimento da autoridade lançadora, ao considerar a comissão auferida como “como remuneração indireta, passando a integrar o salário de contribuição de Charles Gomes de Oliveira”. Não socorre ao recorrente a tese subsidiária de pagamento não habitual, pois, com nitidez, trata-se de remuneração pelo trabalho executado por segurado empregado prestando serviços para a autuada recorrente. Há caráter remuneratório; não corresponde ao pagamento de abono único, previsto em convenção coletiva de trabalho, desvinculado do salário e pago sem habitualidade. O pagamento foi vinculado a um serviço e se tentou escamotear a realidade. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. Fl. 654DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 58 - Irresignação quanto a multa de ofício qualificada O presente capítulo trata da irresignação quanto à multa de ofício qualificada. Pretende o recorrente, uma vez mantido o lançamento, que a multa qualificada seja afastada por entende inexistir fraude. O caso seria de interpretação de fatos controversos a partir das possibilidades dadas pela legislação tributária. Pois bem. Entendo que não assiste razão para a recorrente. Constatado, pelos capítulos anteriores, que a recorrente manteve omisso o reconhecimento de vínculo de segurado empregado por meio de utilização de interpostas pessoas jurídicas ou que remunerou parte do salário de segurado empregado com interposição de pessoa jurídica, não há como deixar de reconhecer a simulação com viés de fraude e, consequente, reconhecimento de conluio com a necessidade de qualificação da multa de ofício. Trata-se da lógica normativa imposta pelo contexto da motivação do lançamento de ofício, que se justifica e que se impõe pelas peculiares circunstâncias fáticas constatadas e comprovadas pelas provas colmatadas. Como bem assenta a primeira instância, as provas colhidas no curso do procedimento fiscal demonstram que a Maio Empreendimentos, ao simular contratos de prestação de serviços de natureza civil com pessoas jurídicas, praticou, de forma inequívoca, ação dolosa, intencional e consciente, que modificou as características do fato gerador da obrigação principal a fim de reduzir/suprimir o montante das contribuições previdenciárias incorrendo na hipótese de fraude prevista no art. 72 da Lei nº 4.502, de 1964. Portanto, cabível a imposição da multa qualificada, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra em uma das hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e/ou 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que se referem a situações de sonegação, fraude e conluio, especialmente se comprovado o elemento fraude relacionado com situação de simulação. De toda sorte, mantida a multa de ofício qualificada, importante perceber que ela foi fixada em 150%. Ocorre que, na hipótese de existência de processo pendente de julgamento, na esfera administrativa, tendo como origem auto de infração lavrado com base na regra geral de qualificação da multa de ofício, a nova norma mais benéfica (art. 8º da Lei 14.689/2023) deve ser aplicada retroativamente, nos termos do artigo 106, II, “c”, do CTN. In casu, a norma mais favorável reduz a multa qualificada ao patamar de 100% do valor do tributo exigido. Aplicável, ainda, o precedente qualificado do Recurso Extraordinário (RE) nº 736.090, da Repercussão Geral do STF (Tema 863). Aliás, o Tema 863 do STF fixou a seguinte Tese: “Até que seja editada lei complementar federal sobre a matéria, a multa tributária qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio limita-se a 100% (cem por cento) do débito tributário, podendo ser de até 150% Fl. 655DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 59 (cento e cinquenta por cento) do débito tributário caso se verifique a reincidência definida no art. 44, § 1º-A, da Lei nº 9.430/96, incluído pela Lei nº 14.689/23, observando-se, ainda, o disposto no § 1º-C do citado artigo”. Sendo assim, com razão parcial para a recorrente na irresignação da multa qualificada para que a multa de ofício qualificada de 150% seja limitada em 100%. - Da irresignação contra o montante do tributo apurado pela não dedução das contribuições previdenciárias e dos tributos recolhidos pelas pessoas jurídicas interpostas Tendo sido mantido o lançamento, a recorrente autuada apresenta irresignação contra o montante do tributo apurado pela não dedução das contribuições previdenciárias e dos tributos recolhidos pelas pessoas jurídicas interpostas. Muito bem. Até entendo que, em casos de simulação, pela lógica do lançamento de ofício, eventuais recolhimentos realizados pelas interpostas pessoas jurídicas sejam aproveitados, no sentido de que a apuração do montante devido no lançamento corresponda apenas a diferença monetária que ainda não foi recolhida aos cofres púbicos, uma vez afastada a figura lesiva do simulacro. No entanto, no caso em espécie, tem-se detalhes a ponderar. Primeiro, estar-se diante de lançamento de contribuições previdenciárias sobre folha de salários em razão de qualificação de pessoa física como segurado obrigatório da previdência social como segurado empregado e, no particular, tem-se que nas pessoas jurídicas interpostas não havia a figura dos segurados empregados, então não pode ter sido recolhido contribuições sobre a folha de salários para fins da contribuição para o GILRAT ou a contribuição para Terceiros (outras Entidades e Fundos). Quanto a contribuição previdenciária patronal que a interposta pessoa jurídica possa ter por hipótese recolhido sobre eventual pro labore pago ao sócio pessoa física dela que, em verdade, era segurado empregado da autuada, tem-se que à mingua de comprovação destes recolhimentos, com dúvidas severas quanto a disponibilidade de crédito, não há como ser aproveitados valores que não possuem comprovação de recolhimento e quanto aos valores que chegaram a tais sócios pagos pela interposta pessoa jurídica a título de distribuição de lucros, é de ciência de todos que sobre eles não há tributação de contribuições previdenciárias, logo não haveria crédito disponível, simplesmente porque não haverá recolhimento de quota patronal. De mais a mais, consta dos autos (e reafirmado na decisão recorrida) que foram consideradas as contribuições dos segurados declaradas em GFIP pelas interpostas e aí no que era possível visualizar algum creditório já ocorreu o aproveitamento que seria possível – não há, portanto, crédito disponível. Sobremais, não há que se falar na dedução de custos e despesas das interpostas pessoas jurídicas, pois não estão na lógica da matéria tributável, da apuração do montante devido de contribuições previdenciárias. Fl. 656DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.389 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15504.729988/2016-64 60 Ainda, tem-se que não há como aproveitar os eventuais tributos sobre a receita e faturamento, pois eles, em verdade, não estão ligados a matéria tributável das contribuições previdenciárias sobre a folha de salários. O aproveitamento possível ali, obiter dictum, sob minha particular ótica, seria da reclassificação da receita da pessoa jurídica para a pessoa física, de modo que envolveria exclusivamente a interposta pessoa jurídica e o seu próprio sócio no caso da tributação sobre a renda da pessoa física. Aqui a discussão é meramente de contribuições sociais. Então, por particularidades e peculiaridades, além de já ter sido aproveitado o que era possível (tendo sido consideradas as contribuições dos segurados declaradas em GFIP pelas interpostas pessoas jurídicas), não há mais o que ser aproveitado, ainda mais neste lançamento de contribuições destinadas para Outras Entidades e Fundos – Terceiros. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. Conclusão quanto ao Recurso Voluntário Em apreciação racional com base na legislação tributária e processual, relatado, analisado e por mais o que dos autos constam, em resumo, conheço do recurso voluntário e, no mérito, dou-lhe provimento parcial exclusivamente para reduzir a multa de ofício qualificada de 150% para 100%, no mais, mantendo a decisão recorrida. Alfim, finalizo em sintético dispositivo. Dispositivo Ante o exposto, DOU PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário para reduzir a multa de ofício qualificada de 150% para 100%. É como Voto. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros Fl. 657DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10120.728246/2015-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 11 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Apr 01 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012 PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel.
Numero da decisão: 3202-003.419
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: JUCILEIA DE SOUZA LIMA

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RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). Fl. 153DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 2 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário contra indeferimento de pedido de ressarcimento veiculado por meio do formulário. O direito creditório alegado, no montante de R$ 124.251,89, a título de Contribuição para o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pis/Pasep), o que remontaria ao período compreendido entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. Ao indeferir o pleito, consigna a autoridade fiscal, uma vez não verificada a impossibilidade de utilização do programa gerador próprio (Per/Dcomp), que deveria tal pretensão ter sido veiculado por intermédio do preferido programa, no lugar do formulário de que teria lançado mão o contribuinte. Notificado, a Recorrente apresentou defesa administrativa, a qual foi julgada improcedente pela 3ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Belém/PA, formalizada através do acórdão 01-34.899, assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012 PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel. PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. TRIMESTRE-CALENDÁRIO ÚNICO. Consoante art. 32, §2o, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, cada pedido de ressarcimento deverá referir-se a um único trimestre-calendário, como também ser efetuado pelo saldo credor remanescente no referido trimestre, líquido das utilizações por desconto ou compensação. PIS. NÃO-CUMULATIVIDADE. DESCONTO. SALÁRIOS. PREVISÃO LEGAL. AUSÊNCIA. O legislador, por meio do art. 3o da Lei n. 10.637, de 2002, optou por oferecer relação exaustiva quanto às possibilidades de desconto do montante apurado a título de Pis. Não configura fonte de geração de crédito, destarte, a chamada “folha de salário”, porquanto inexistente previsão legal. AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. ATIVIDADE VINCULADA. ATOS NORMATIVOS. PRESUNÇÃO DE LEGALIDADE E DE CONSTITUCIONALIDADE. Fl. 154DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 3 A autoridade administrativa exerce atividade plenamente vinculada, encontrando-se limitada ao estrito cumprimento da legislação tributária, expressão que, consoante art. 96 do Código Tributário Nacional (CTN), compreende leis, tratados, convenções internacionais, decretos e normas complementares que versem, no todo ou em parte, sobre tributos e relações jurídicas a eles pertinentes. Mais, aos agentes administrativos não é dado apreciar questões que importem na negação da eficácia de preceitos normativos em face da consonância com a Constituição da República. Gozando os atos normativos de presunção de legalidade e de constitucionalidade, resta à autoridade fiscal aplicá-los, salvo, à evidência, quando haja, em benefício do interessado, decisão judicial em sentido diverso, ou nas hipóteses previstas nos §§4o, 5o e 7o ao art. 19 da Lei n. 10.522, de 2002. A interpretação assim qualificada, por excelência, compete ao Poder Judiciário. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada, a Recorrente apresenta Recurso Voluntário do CARF, no qual pugna pela homologação do crédito vindicado. É o que havia a ser relatado. VOTO Conselheira Juciléia de Souza Lima, Relatora O Recurso é tempestivo, bem como, atende aos demais pressupostos para sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Ante a existência da arguição de preliminares, passo a analisá-las. I- DAS PRELIMINARES 1.1- Da obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento Pugna a Recorrente pelo reconhecimento de nulidade do despacho decisório ante a obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento. Fl. 155DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 4 De início, observa-se que, somente, duas são as espécies de irregularidades, elencadas nos incisos do artigo 59 do PAF a ensejar nulidade “ab initio” as peças que o compõem: a incompetência do prolator do ato administrativo (ato, decisão ou despacho) e a preterição do direito de defesa. Primeiro, de acordo com Decreto nº 70.235, 06/03/1972, somente são nulos os atos administrativos proferidos por autoridade incompetente e/ ou com preterição do direito de defesa, assim dispondo: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Para arrematar, o ato ou despacho administrativo foi emitido por servidor competente, arrolando claramente todas as razões de fato e de direito que ensejaram o indeferimento do crédito vindicado. Segundo, a recorrente confunde preliminar com mérito, pois quanto à obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento trata-se de matéria de mérito que será tratada oportunamente neste Voto. Daí, a suscitada nulidade da decisão recorrida é equivocada, não encontrando amparo legal. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configuradas tais hipóteses não é de se declarar a Fl. 156DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 5 nulidade, pois não existem erros no tocante à descrição dos fatos capazes de trazer prejuízos ao exercício de defesa da Recorrente. Sendo assim, rejeito a preliminar arguida. II- DO MÉRITO Conforme relatado acima, a matéria controvertida neste feito é concernente à possibilidade de entrega de Pedido de Ressarcimento e Declaração de Compensação em formulário em papel após entrarem em vigor as alterações promovidas pela Lei nº 10.637/2002 no artigo 74 da Lei nº 9.430/96. Destaco os dispositivos do texto normativo relevantes para o deslinde da controvérsia: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pela sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. [...] § 14. A Secretaria da Receita Federal - SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) Do parágrafo 14 extrai-se que o legislador autorizou a Secretaria da Receita Federal a regulamentar o disposto no artigo. A autorização legal diz respeito às obrigações acessórias necessárias para a operacionalização dos pedidos de ressarcimento e as declarações de compensação. Tais obrigações acessórias, ao contrário do que entende a recorrente, não foram reservadas à lei em sentido estrito pelo artigo 97 do CTN. Assim, é cristalino que estava no âmbito da atribuição da administração tributária regulamentar os procedimentos necessários para a viabilização dos pedidos de ressarcimento e as declarações de compensação. Fl. 157DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 6 Entretanto, ao contrário do que defende a contribuinte, a decisão não afronta qualquer dispositivo da Constituição Federal ou mesmo a legislação de regência, que remete a regulamentação da matéria à Receita Federal, segundo o § 14 do art. 74 da Lei nº 9.430/1996: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) [...] § 14. A Secretaria da Receita Federal SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) A partir dessa alteração na Lei nº 9.430/96, a Receita Federal editou sucessivas INs que passaram a instituir regramentos nos moldes expressamente autorizado, mormente no que tange à forma de apresentação do requerimento (por meio do programa PER/DCOMP). Dessa forma, a exigência de que seja utilizado o meio eletrônico, não é mera formalidade da Administração, mas sobretudo a implementação de praticidade tributária na solução célere dos pleitos dos administrados, em cumprimento ao princípio da eficiência administrativa. Nesse sentido, na IN SRF nº 460, de 17/10/2004, surgiu a regulamentação e a vedação da interposição de manifestação de inconformidade em face de se considerar não formulado pedido de restituição/ressarcimento e não declarada a compensação, por inobservância da utilização do PER/DCOMP eletrônico, conforme seus artigos 31, caput, § 2º e 482 . Antes dessa data, na vigência da IN SRF 323/2003, considerava-se o pedido em papel não formulado e a compensação não declarada, mas inexistia previsão de vedação dos instrumentos de defesa administrativa do contribuinte. Sendo que, é importante mencionar que o contribuinte não trouxe aos autos qualquer elemento de prova ou alegação no sentido de que seu Pedido de Restituição deveria ser feito por meio de petição, sem sequer apresentar o formulário em via física em razão de alguma impossibilidade de solicitar pelo sistema PER/DCOMP devido à ausência de previsão de hipótese de ressarcimento ou por qualquer inviabilidade de acesso ao sistema. Pois bem. Fl. 158DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 7 No momento da entrega do Pedido de Restituição em formulário em papel, a regulamentação administrativa em vigor era veiculada por meio da Instrução Normativa 1.300, de 2012, art. 32, vigente à época da apresentação do formulário em testilha à administração tributária: Art. 32 . O pedido de ressarcimento a que se referem os arts. 27 a 30 será efetuado mediante a utilização do programa PER/DCOMP ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante formulário acompanhado de documentação comprobatória do direito creditório. A IN RFB n. 1.717, de 2017, sucessora da retro citada IN RFB n. 1.300, de 2012, não dispõe de forma diferente: Art. 56. O pedido de ressarcimento e a declaração de compensação devem ser efetuados mediante a utilização do programa PER/DCOMP ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição ou de Ressarcimento, constante do Anexo I desta Instrução Normativa, ou mediante o formulário Declaração de Compensação, constante do Anexo IV desta Instrução Normativa. Merece destaque o disposto no artigo 3º da IN SRF nº 600/2005: Art. 3º A restituição a que se refere o art. 2º poderá ser efetuada: I - a requerimento do sujeito passivo ou da pessoa autorizada a requerer a quantia; ou II - mediante processamento eletrônico da Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (DIRPF). § 1º A restituição de que trata o inciso I será requerida pelo sujeito passivo mediante utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP) ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição constante do Anexo I, ao qual deverão ser anexados documentos comprobatórios do direito creditório. § 2º Na hipótese de pedido de restituição formulado por representante do sujeito passivo, o requerente deverá apresentar à SRF procuração conferida por instrumento público ou por instrumento particular com firma reconhecida, termo de tutela ou curatela ou, quando for o caso, alvará ou decisão judicial que o autorize a requerer a quantia. Fl. 159DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 8 § 3º Tratando-se de pedido de restituição formulado por representante do sujeito passivo mediante utilização do Programa PER/DCOMP, os documentos a que se refere o § 2º serão apresentados à SRF após intimação da autoridade competente para decidir sobre o pedido. § 4º A restituição do imposto de renda apurada na DIRPF reger-se-á pelos atos normativos da SRF que tratam especificamente da matéria, ressalvado o disposto nos arts. 9º, 11 e 12. De fato, o procedimento exigido para pedido de ressarcimento e/ou compensação exigia, portanto, que o contribuinte requeresse seu direito por meio do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP). Somente no caso de ser impossível a utilização do programa é que o sujeito passivo estaria autorizado a utilizar o formulário em papel. A determinação da utilização do sistema informatizado do PER/DCOMP não é sem razão. A Lei nº Lei nº 10.637/2002 trouxe forte alteração na sistemática de ressarcimentos/restituições e compensações, pois passou a permitir que os sujeitos passivos apurassem seus créditos dos diversos tributos e os compensassem com tributos distintos, ampliando fortemente o aproveitamento dos créditos a que estes faziam jus. A apuração dos créditos e sua utilização em compensações não dependeriam mais de uma apreciação prévia por parte da administração. Destarte, o tratamento administrativo da matéria deveria ser massivo. Tal tarefa somente poderia ser desempenhada por meio de sistema informatizado. Daí a exigência da utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP). A exceção para a utilização do formulário em papel, quando a utilização do programa do PER/DCOMP fosse impossível, foi tratada no artigo 76 da Instrução Normativa citada abaixo: Art. 76. Ficam aprovados os formulários Pedido de Restituição, Pedido de Cancelamento ou de Retificação de Declaração de Importação e Reconhecimento de Direito de Crédito, Pedido de Ressarcimento de IPI - Missões Diplomáticas e Repartições Consulares, Declaração de Compensação e Pedido de Habilitação de Crédito Reconhecido por Decisão Judicial Transitada em Julgado constantes, respectivamente, dos Anexos I, II, III, IV e V. § 1º A SRF disponibilizará, no endereço http://www.receita.fazenda.gov.br, os formulários a que se refere o caput. § 2º Os formulários a que se refere o caput somente poderão ser utilizados pelo sujeito passivo nas hipóteses em que a restituição, o ressarcimento ou Fl. 160DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 9 a compensação de seu crédito para com a Fazenda Nacional não possa ser requerida ou declarada eletronicamente à SRF mediante utilização do Programa PER/DCOMP. § 3º A SRF caracterizará como impossibilidade de utilização do Programa PER/DCOMP, para fins do disposto no § 2º, no § 1º do art. 3º, no § 3º do art. 16, no § 1º do art. 22 e no § 1º do art. 26, a ausência de previsão da hipótese de restituição, de ressarcimento ou de compensação no aludido Programa, bem como a existência de falha no Programa que impeça a geração do Pedido Eletrônico de Restituição, do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou da Declaração de Compensação. § 4º A falha a que se refere o § 3º deverá ser demonstrada pelo sujeito passivo à SRF no momento da entrega do formulário, sob pena do enquadramento do documento por ele apresentado no disposto no art. 31. Merece destaque que incumbe ao sujeito passivo comprovar a impossibilidade de utilização do sistema informatizado para ter direito à entrega de Pedido de Ressarcimento em formulário em papel. É oportuno ressaltar que o pedido de restituição e a declaração de compensação são dois atos distintos, que produzem efeitos próprios na esfera do patrimônio dos sujeitos ativo e passivo. No primeiro, o sujeito passivo formaliza um crédito perante o sujeito ativo (no caso, a União). No segundo, utiliza o crédito para extinguir sob condição resolutória um débito de sua responsabilidade perante o sujeito ativo. Portanto, a norma administrativa, ao considerar como não formulado o pedido em papel feito em desacordo com o previsto no artigo 76 da IN SRF nº 600/2005, determina que a autoridade administrativa não reconheça o crédito pedido. Não se está a ampliar as hipóteses de compensação não declarada do parágrafo 12 do artigo 74 da Lei nº 9.430/96 simplesmente porque o efeito é impedir o surgimento do crédito e não a compensação propriamente dita. A consideração de compensação não declarada é apenas uma decorrência lógica da ausência de pedido de ressarcimento. Assim, entendo que o acórdão recorrido não merece reparos. 2.1- Da folha de salários como insumos Ante todo alegado no tópico anterior, todavia, a evitar a oposição de eventual embargos de declaração, adianto-me para defender que entendo ser descabida analisar a essencialidade e relevância dos itens glosados pela fiscalização por terem sido aproveitados pela Recorrente como insumos- da folha de salários como insumos, pois do texto legal, resta que não Fl. 161DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 10 existe amparo legal para tomada de créditos de folha de salários como insumos como defende a Recorrente. Nos termos da sistemática de créditos de PIS/COFINS, no inciso II, do art. 3°, das Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003, trata-se de rol taxativo e não exemplificativo como entende a recorrente. De certo, a dar efetividade ao princípio da não cumulatividade, o legislador ordinário poderia não ter apresentado restrições ao direito de tomada de créditos a legitimar a creditamento de todas as despesas incorridas na atividade empresarial para auferir a receita (fato tributado pelas contribuições). Todavia, assim não ocorrera, pois a legislação do PIS e da COFINS ao apresentar um rol taxativo de direito de crédito, indubitavelmente, imputou o efeito cumulativo à algumas atividades. Existem limites legais impostos pela legislação vigente ao apresentar um rol taxativo de despesas passíveis de creditamento, bem como, exigindo que, para o creditamento com fulcro no art. 3º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, o insumo seja utilizado "na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda". Assim, considerando a seara administrativa na qual se insere essa discussão, não posso me desvincular dos termos da lei, na forma exigida pelo Regimento Interno deste Conselho. Ao contrário do que pretende a Recorrente, o julgamento do recurso repetitivo n.º 1.221.170 pelo Superior Tribunal de Justiça não reconheceu que o rol trazido pelas leis referenciadas não seria taxativo, não ampliando o rol de hipóteses passíveis de creditamento. O que aquele julgado buscou identificar é qual o conceito de insumo que deve ser considerado por aquelas pessoas jurídicas prestadoras de serviço e produtoras/fabricantes. Ressalte-se que não há previsão legal da tomada de créditos das despesas com salários e folha de pagamento como insumos, logo não há sequer que se aferir relevância ou essencialidade de tais dispêndios. Contudo, por ausência de previsão legal, mantenho as glosas com dispêndios com salários e folha de pagamento. E assim, voto por afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório arguida no presente recurso, para no mérito, negar-lhe provimento. É o voto. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima Fl. 162DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.419 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728246/2015-21 11 Fl. 163DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10469.726715/2011-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Dec 12 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 1402-001.938
Decisão: RESOLVEM os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento do recurso voluntário até que seja proferida decisão transitada em julgado nos autos do processo judicial n° 36222-25.2016.401.3400, nos termos do voto do Relator,
Nome do relator: ALEXANDRE IABRUDI CATUNDA

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RESOLVEM os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento do recurso voluntário até que seja proferida decisão transitada em julgado nos autos do processo judicial n° 36222-25.2016.401.3400, nos termos do voto do Relator Assinado Digitalmente Alexandre Iabrudi Catunda – Relator e Presidente Substituto Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Alexandre Iabrudi Catunda (Presidente substituto), Mauritânia Elvira de Sousa Mendonca, Rafael Zedral, Ricardo Piza Di Giovanni, Alessandro Bruno Macedo Pinto. RELATÓRIO Trata o presente processo de análise das Dcomp nº 38468.68975.280809.1.7.02-2150 e 02332.87760.241208.1.3.02-2807. O contribuinte pleiteia crédito no valor de R$ 425.204,23, relativo ao Saldo Negativo IRPJ do ano calendário de 2003 (SNIRPJ/2003). D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1402-001.938 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10469.726715/2011-11 2 Segundo o Despacho Decisório (fls. 118/121) o direito creditório não foi reconhecido e as compensações declaradas foram consideradas não homologadas em virtude de haver auto de infração para o mesmo ano calendário do crédito pleiteado e que apurou imposto a pagar. O referido lançamento está controlado no processo n° 16707.003570/2005-57. Em julgamento da manifestação de inconformidade a DRJ/REC a considerou improcedente prolatando o Acórdão n° 11-51.074 contendo as seguintes ementas: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2003 PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO/AMPLA DEFESA. Antes da emissão do Despacho Decisório, não há que se falar em violação ao Princípio do Contraditório e da Ampla Defesa, já que a oportunidade de contradizer o fisco é prevista em lei para a fase do contencioso administrativo, que se inicia com a manifestação de inconformidade. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. COMPETÊNCIA PARA APRECIAÇÃO. No tocante à compensação, a competência das DRJ limita-se ao julgamento de manifestação de inconformidade contra o não reconhecimento do direito creditório ou a não homologação da compensação. NULIDADE. Estando o ato administrativo revestido de suas formalidades essenciais e, não tendo restado comprovada a ocorrência de preterição do direito de defesa nem de qualquer outra hipótese expressamente prevista na legislação, não se há que decretar sua nulidade. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. SOBRESTAMENTO. JULGAMENTO CONJUNTO. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal nem para o sobrestamento, nem para o julgamento conjunto de processos. O processo administrativo fiscal é regido por princípios, dentre os quais o da oficialidade, que obriga a administração a impulsionar o processo até sua decisão final. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO - PER/DCOMP COMPENSAÇÃO. SALDO NEGATIVO DO IRPJ. Poderá ser utilizado na compensação o saldo negativo do IRPJ comprovadamente apurado no encerramento do ano-calendário. COMPENSAÇÃO. REQUISITO. Nos termos do art. 170 do CTN, somente são compensáveis os créditos líquidos certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1402-001.938 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10469.726715/2011-11 3 O contribuinte foi cientificado por meio eletrônico através de seu Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) em 18/09/2015 (fl 279) e apresentou recurso voluntário (fls. 281/333) em 20/10/2015, conforme carimbo aposto na primeira folha do documento, trazendo apenas alegações contestando o auto de infração, tal qual fez quando da entrega da manifestação de inconformidade. Em sessão realizada no dia 17 de agosto de 2021, esta Turma prolatou a Resolução nº 1402-001.522, em julgamento que seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando o decidido na Resolução nº 1402-001.521, prolatada no julgamento do processo 10469.726479/2011-25, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Na referida Resolução decidiu-se pela conversão do julgamento em diligência para que se proceda à vinculação dos autos e ao sobrestamento do julgamento do processo, de forma a aguardar a decisão relativa ao processo principal nº 1677.003570/2005-57. Em razão de ter sido prolatada decisão administrativa definitiva no processo 1677.003570/2005-57, conforme constatado em despacho de fls 506, os autos retornaram a esta Turma para julgamento do recurso voluntário. VOTO Conselheiro Alexandre Iabrudi Catunda, Relator Da tempestividade e admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e, por possuir todos os requisitos para sua admissibilidade, dele tomo conhecimento. Da preliminar de nulidade Preliminarmente, alega a Recorrente que o processo é nulo, uma vez que não se extrai dos autos qualquer demonstrativo que justifique a inexistência do crédito objeto de compensação, tendo em vista que a fiscalização acostou unicamente a cópia do auto de infração lavrado em face da Recorrente. Nesse ponto, discordo da Recorrente. Isso porque ela foi devidamente intimada, tendo tomado ciência e apresentado a manifestação tempestivamente, o que significa que exerceu o seu direito de defesa no momento oportuno. Além disso, a decisão foi proferida por autoridade competente e sem preterição do direito de defesa, não restando, assim, demonstrada qualquer das hipóteses previstas no artigo 59 do Decreto 70.235/72 que assim dispõe: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1402-001.938 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10469.726715/2011-11 4 II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. Finalmente, como se trata de um processo de compensação, o ônus de comprovar a liquidez e certeza do crédito é da Recorrente. Em face do exposto, rejeito a alegação de nulidade. Do mérito O crédito pleiteado de saldo negativo de IRPJ referente ao ano calendário de 2003 não foi reconhecido em virtude de a DRF em Natal, em procedimento de fiscalização, ter revisado o imposto de renda apurado na DIPJ do ano-calendário de 2003 e, ao invés de saldo negativo de IRPJ apurou saldo positivo de IRPJ a pagar. O referido lançamento está controlado administrativo n ° 16707003570/2005-57. É o que se depreende o trecho do Despacho Decisório que analisou o crédito copiado abaixo: 04. Quanto ao alegado crédito de saldo negativo, a DRF em Natal, em procedimento de fiscalização, revisou o imposto de renda apurado na DIPJ do ano-calendário de 2003 e ao invés de saldo negativo de IRPJ apurou saldo positivo de IRPJ a pagar. Como conseqüência, foi lançado contra o contribuinte em epígrafe auto de infração de IRPJ para este período, como também para os anos-calendário de 2000, 2001, 2002 e 2004. 05. O sobredito lançamento foi registrado no processo administrativo n°.16707003570/2005-57 de onde foi extraída cópia do auto de infração, fls. 101 a 116. Em julgamento da manifestação de inconformidade, a DRJ/REC confirma os termos do citado Despacho Decisório, uma vez que, no momento do julgamento da lide em primeira instância, o recurso voluntário referente ao auto de infração já havia sido julgado pelo CARF. O seu resultado, pendente, a época, de apreciação de embargo apresentou um saldo positivo de imposto de renda a pagar no valor de R$ 8.599.517,19. O Lançamento efetuado pela fiscalização, através do Auto de Infração contido no Processo nº 16707.003570/2005-57, se encontra em litígio com Recurso Voluntário (Embargos de Declaração) no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e apresentou um saldo positivo de imposto de renda a pagar no valor de R$ 8.599.517,19 referente ao ano-calendário de 2003, fl. 260 a 264, ao invés do saldo negativo apresentado pela contribuinte. D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1402-001.938 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10469.726715/2011-11 5 Portanto, não foram confirmados os pretensos créditos informados nas PER/DCOMPs em lide. A recorrente não apresenta qualquer alegação a respeito do crédito negado, apenas busca nova apreciação da matéria constante nos autos do processo administrativo nº 16707.003570/2005-57, o que não é possível no presente feito. Isto porque os motivos que fundamentaram o auto de infração devem ser discutidos, como de fato o foram, no mesmo processo em que foi lavrado. E, por essa razão, em julgamento do recurso voluntário, Resolução n° 1402-001.522, foi determinado o sobrestamento do julgamento do presente processo até que fosse proferida decisão definitiva no processo n° 16707.003570/2005-57 Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, CONVERTER o julgamento em diligência para que se proceda à vinculação dos autos e ao sobrestamento do julgamento do processo, de forma a aguardar a decisão relativa ao processo principal nº 1677.003570/2005-57 Despacho de fls 506, constata que foi proferida decisão administrativa do citado processo: Conforme documentação acostada às fls.379 a 505, o processo nº 16707.003.570/2005-57 teve decisão administrativa definitiva. Pelo exposto e em atenção à resolução de fls.371 a 375, devolvo os autos para seguimento do contencioso. Não houve alteração no que foi decidido no Acórdão n° 1201-000.995, fl 208, prolatado pela 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara desta mesma Seção, que deram provimento parcial ao recurso voluntário e negaram provimento ao recurso de ofício apenas para afastar a multa isolada: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício e em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a multa isolada, nos termos do relatório e voto que integram o presente processo. Esta decisão, conforme já exposto já foi utilizada como fundamento pela DRJ/REC para manutenção do Despacho Decisório em sua integralidade. Após a decisão acima foram impetrados, ainda, embargos de declaração e recurso especial, ambos não foram admitidos, conforme despachos de admissibilidade de embargos de fl. 379, de admissibilidade de recurso especial, fl 477 e reexame de admissibilidade, fl. 490. Em nenhum desses houve reexame da matéria, mantendo-se o que foi decidido no Acórdão n° 1201- 000.995, que resultou em IRPJ a pagar de R$ 8.599.517,19 em vez do saldo negativo pleiteado. Ocorre que às fls 358/359, foi acostada certidão emitida pelo Tribunal Regional da Primeira Região em que consta que que a recorrente impetrou ação ordinária n° 36222- D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1402-001.938 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10469.726715/2011-11 6 25.2016.401.3400 contra a Fazenda Nacional requerendo a anulação do auto de infração controlado no processo administrativo n° 16707.003.570/2005-57: Em que pese a decisão administrativa já ter concluído pela manutenção do auto de infração que impede a concessão do crédito de saldo negativo aqui pleiteado, é notória a possibilidade de esta decisão ser alterada no curso do citado processo judicial possibilitando a alteração do que aqui for julgado. D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1402-001.938 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10469.726715/2011-11 7 Desta maneira, o julgamento do recurso voluntário deve ser sobrestado até que haja decisão judicial definitiva a respeito da anulação do auto de infração lavrado nos autos do processo administrativo n° 16707.003.570/2005-57. Sendo assim, por todo o exposto voto por sobrestar o julgamento do recurso voluntário até que seja proferida decisão transitada em julgado nos autos do processo judicial n° 36222-25.2016.401.3400. Assinado Digitalmente Alexandre Iabrudi Catunda Resolução Relatório Voto

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4623740 #
Numero do processo: 10580.000693/2001-08
Turma: Terceira Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Thu Aug 24 00:00:00 UTC 2006
Data da publicação: Thu Aug 24 00:00:00 UTC 2006
Numero da decisão: 203-00.757
Decisão: RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligencia, nos termos do voto do Relator.
Matéria: PIS - ação fiscal (todas)
Nome do relator: ODASSI GUERZONI FILHO

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Recorrida : em Salvador - BA RESOLUÇÃO N° 203-00. 757 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto por: VRV — VIAÇÃO RIO VERMELHO LTDA. RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligencia, nos termos do voto do Relator. Sala das Sessões, em 24 de Agosto de 2006. Participaram, ainda, do presente julgamento os Conselheiros Emanuel Carlos Dantas de Assis, Cesar Piantavigna, Silvia de Brito Oliveira, Valdemar Ludvig, Eric Moraes de Castro e Silva, e Dalton Cesar Cordeiro de Miranda. Eaal/mdc MIN t.,A FAZENIJA - 2.• CC COt.4 O ORIGINAL ..... VIS TO 1 MIN :;)% F A2.ENT,A - 2: CC 0 ORIGImA: 0 ' Q 0 6 Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes 2° CC-MF Fl. Processo n° : 10580.000693/2001-08 Recurso n° : 121.931 Recorrente : VRV — VIAÇÃO RIO VERMELHO LTDA. RELATÓRIO E VOTO DO CONSELHEIRO-RELATOR ODASSI GUERZONI FILHO Trata o presente processo de auto de infração lavrado em 29/01/2001 para a exigência de PIS, tido como recolhido a menor nos períodos de apuração de março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro de 1999, e janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto e setembro de 2000, no valor de R$54.855,36, que, acrescido de juros moratórios e a multa de oficio de 75%, atingiu a cifra de R$99.596,59 (fls. 3 a 5). A própria interessada reconheceu como certa a exigência da contribuição devida nos períodos de março de 1999 a janeiro de 2000, restando, controversa, portanto, a matéria relativa aos demais períodos - fevereiro a setembro de 2000 - já que a interessada considera indevida a cobrança sob a argumentação de que os débitos exigidos já teriam sido por ela quitados mediante o instituto da compensação tributária. Na sua peça impugnat6ria de fl. 63 diz que, respaldada pela Resolução do Senado Federal de n° 49, de 10/10/1995, que considerou inconstitucionais os Decretos-Leis n''s. 2.445 e 2.449 de 1988, utilizou os créditos, decorrentes de pagamentos do PIS feitos a maior nos períodos de apuração de maio, junho, agosto, setembro, outubro de 1991 e janeiro de 1992, para guitar os débitos do PIS das competências de fevereiro, março, abril, junho, julho, agosto e setembro de 2000. Registro, portanto, à luz de tal afirmativa e dos documentos apresentados às fls. 83 a 96 (listagens de créditos a recuperar), que não foi objeto da compensação o PIS do período de apuração do mês de maio de 2000. Esta Terceira Câmara já teve oportunidade de se manifestar sobre o processo, Acórdão n° 203-09.370, de 4/12/2003, por meio do qual proveu em parte o recurso voluntário, afastando a prejudicial da decadência da compensação feita pelo sujeito passivo e determinando que a Primeira Instância apreciasse os argumentos de mérito (fls. 290 a 293). Eis como foi ementado o referido Acórdão: "PIS. COMPENSAÇÃO COM PIS. A decadência do direito de pleitear a compensação/restituição tem como prazo inicial, na hipótese dos autos, a data da publicação da Resolução do Senado Federal n°49, de 09/10/95, publicada em 10/10/95, que suspende a execução da norma declarada inconstitucional. Assim, a partir da publicação, conta-se cinco anos até a data do protocolo do pedido (termo final). In casu, não ocorreu a decadência do direito postulado. Excluída a prejudicial de decadência devem os argumentos do mérito serem apreciados pela Primeira Instância. Recurso Provido em parte." Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes CC-MF Fl. Processo n° : 10580.000693/2001-08 Recurso n° : 121.931 Cumprindo a referida determinação deste Colegiado, a DRJ em Salvador proferiu novo Acórdão, mantendo integralmente o lançamento fiscal, no valor de R$ 53.694,60, acrescidos dos juros de mora e multa de oficio, correspondente aos períodos de maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro de 1999, e janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto e setembro de 2000 (fls. 296 a 305), por considerar que, "...uma vez não comprovada a regularidade dos recolhimentos do PIS que originaria os alegados créditos informados como compensados na DCTF, não há como homologar os procedimentos de compensação realizada pela interessada, uma vez que esta não demonstrou serem seus créditos líquidos e certos". Indeferiu o pedido de perícia formulado pela interessada, consistente na apuração da correção dos procedimentos de compensação, sob o argumento de que o processo contém todos os elementos para formação da sua livre convicção. Irresignada, a interessada recorreu novamente a este Colegiado, argumentando, em síntese, que há indubitável contradição entre a ementa da decisão recorrida e os seus fundamentos, já que esta, ao tempo em que afirma estarem presentes no processo todos os elementos para a formação de seu livre convencimento, em outro, diz que não foram apresentadas provas que pudessem revestir os créditos de liquidez e certeza. Alega ainda estar desobrigada, ã época, de solicitar autorização da Secretaria da Receita Federal para proceder compensação, em face do disposto no artigo 66 da Lei n° 8.383/91, bem como de jurisprudência do STJ que traz à colação. 0 ponto central da divergência aqui estabelecida se encontra nos procedimentos de compensação que a interessada diz ter efetuado, mediante a utilização de créditos de PIS recolhido a maior com base nos DLs n's 2.445 e 2.449 de 1988, para a quitação dos débitos do PIS dos períodos de fevereiro a setembro de 2000, os quais, ao final, restaram exigidos por meio do auto de infração do presente processo. Em outras palavras, o Fisco considera que, não obstante as inúmeras oportunidades que teve para fazê-lo, a interessada não trouxe aos autos quaisquer provas no sentido de demonstrar a liquidez e certeza de seus créditos. Portanto, se procedente a compensação, restará indevida a exigência. O Acórdão recorrido indeferiu o pedido de perícia por considerar que os elementos do processo seriam suficientes para permitir a formação da convicção ao julgador, mas, entretanto, não enfrentou diretamente os argumentos da interessada de que seus créditos teriam sido o bastante para que não restassem em aberto os valores do PIS que estão sendo exigidos por meio do presente auto de infração. A leitura dos parágrafos "12", "13" e "14" (fl. 301) do Acórdão recorrido sugere que não se tomou conhecimento ou se ignorou por completo a existência de documentos trazidos pela interessada na fase impugnatória (fls. 83 a 96), denominados "Listagem de Créditos a Recuperar", os quais, sendo bastantes para fornecer todos os elementos de convicção do julgador, no mínimo apontam para a origem do credito utilizado na compensação e, portanto, merecem ser analisados mais detidamente. ----- G ORIGINAL cos , 06 3 To • DASSI GUERZONI Fl Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes 2° CC-MF Fl. Processo n° : 10580.000693/2001-08 Recurso n° : 121.931 Num ponto tem razão o Acórdão recorrido: não se é capaz de aferir a liquidez e certeza dos créditos utilizados no encontro de contas promovido pela interessada, o que, a meu ver, somente será possível com o retorno do presente processo à DRF de origem para tal providência, que deverá consistir, dentre outras que considerar pertinentes, inclusive com solicitação de informações junto à recorrente, na análise detida dos documentos de fl. 57 (Planilha de Aproveitdmento de Créditos), 83 a 96 (Listagem de Créditos a Recuperar), 97 (Darf do PIS dos períodos de apuração de junho e agosto de 1991), 99 a 104 (Declaração de IRPJ do Exercício Financeiro de 1992); 114 a 117 (Dalf de recolhimentos complementares de PIS dos períodos de apuração de fevereiro a setembro de 2000); 121, 123, 146, 147, 173, 174, 175, 182, 184, 226, 227, 229, e 240 (todas, correspondentes às DCTF relacionadas ao PIS envolvendo os períodos de autuação). Voto, portanto, no sentido de converter o presente julgamento em diligencia para que, especificamente, seja confirmado, ou não, se a compensação efetuada pela interessada, mediante a utilização de créditos do PIS recolhido a maior com base nos DLs nos 2.445 e 2.449, de 1988 durante os períodos de apuração de maio, junho, agosto, setembro, outubro de 1991 e janeiro de 1992, foi suficiente para guitar os débitos do PIS dos períodos de apuração de fevereiro a setembro de 2000, os quais estão sendo exigidos por meio de Auto de Infração. Sala das Sessões, em 24 e agosto de 2006. MIN OA FAIENf)A - 2-.* CC rM O ORIGINAL 0 1 0 5 ••••■■•••■11, 4

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11283385 #
Numero do processo: 11065.724510/2013-61
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 05 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 30 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011 INCENTIVO À CULTURA NA FORMA DO ART.18 DA LEI 8.313/91. DEDUTIBILIDADE DE DESPESA. IMPOSSIBILIDADE. As doações e os patrocínios referidos no § 2.º do art.18 da lei 8.313/91 não podem ser deduzidos como despesa operacional da empresa, nos termos do § 2.º da mesma lei, redação dada pela lei 9.874/99. IRPJ/CSLL. GLOSA. INDEDUTIBILIDADE. DESPESAS COM BRINDES. As despesas com brindes, por não constituírem objeto normal da atividade da empresa, são indedutíveis nos termos da legislação de regência. INCENTIVOS FISCAIS. DEDUÇÃO, PARA EFEITO DE APURAÇÃO DO LUCRO LÍQUIDO. EXCLUSÃO DO LUCRO LÍQUIDO, NA DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL. DEPRECIAÇÃO INTEGRAL, NO PRÓPRIO ANO DA AQUISIÇÃO. Para fazer jus aos incentivos fiscais de que tratam o artigo 17, incisos I e III e o artigo 19, caput, da Lei n.º 11.196, de 2005, a pessoa jurídica deve preencher todos os requisitos legais e considerar que, tanto na dedução para efeito de apuração do lucro líquido quanto na exclusão do lucro líquido para a determinação do lucro real, os dispêndios realizados no período de apuração com pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica são aqueles classificáveis como despesas operacionais pela legislação do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica. MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. ALEGAÇÃO DE CONFISCO. COMPETÊNCIA. A alegação de caráter confiscatório da multa não pode ser acolhida no âmbito do CARF, que não possui competência para se manifestar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Aplicação da Súmula CARF nº 2.
Numero da decisão: 1001-004.225
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ – Relator Assinado Digitalmente CARMEN FERREIRA SARAIVA – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Ana Claudia Borges de Oliveira, Gustavo de Oliveira Machado, Paulo Elias da Silva Filho, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011 INCENTIVO À CULTURA NA FORMA DO ART.18 DA LEI 8.313/91. DEDUTIBILIDADE DE DESPESA. IMPOSSIBILIDADE. As doações e os patrocínios referidos no § 2.º do art.18 da lei 8.313/91 não podem ser deduzidos como despesa operacional da empresa, nos termos do § 2.º da mesma lei, redação dada pela lei 9.874/99. IRPJ/CSLL. GLOSA. INDEDUTIBILIDADE. DESPESAS COM BRINDES. As despesas com brindes, por não constituírem objeto normal da atividade da empresa, são indedutíveis nos termos da legislação de regência. INCENTIVOS FISCAIS. DEDUÇÃO, PARA EFEITO DE APURAÇÃO DO LUCRO LÍQUIDO. EXCLUSÃO DO LUCRO LÍQUIDO, NA DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL. DEPRECIAÇÃO INTEGRAL, NO PRÓPRIO ANO DA AQUISIÇÃO. Para fazer jus aos incentivos fiscais de que tratam o artigo 17, incisos I e III e o artigo 19, caput, da Lei n.º 11.196, de 2005, a pessoa jurídica deve preencher todos os requisitos legais e considerar que, tanto na dedução para efeito de apuração do lucro líquido quanto na exclusão do lucro líquido para a determinação do lucro real, os dispêndios realizados no período de apuração com pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica são aqueles classificáveis como despesas operacionais pela legislação do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica. MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. ALEGAÇÃO DE CONFISCO. COMPETÊNCIA. A alegação de caráter confiscatório da multa não pode ser acolhida no âmbito do CARF, que não possui competência para se manifestar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Aplicação da Súmula CARF nº 2.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ – Relator Assinado Digitalmente CARMEN FERREIRA SARAIVA – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Ana Claudia Borges de Oliveira, Gustavo de Oliveira Machado, Paulo Elias da Silva Filho, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011 INCENTIVO À CULTURA NA FORMA DO ART.18 DA LEI 8.313/91. DEDUTIBILIDADE DE DESPESA. IMPOSSIBILIDADE. As doações e os patrocínios referidos no § 2.º do art.18 da lei 8.313/91 não podem ser deduzidos como despesa operacional da empresa, nos termos do § 2.º da mesma lei, redação dada pela lei 9.874/99. IRPJ/CSLL. GLOSA. INDEDUTIBILIDADE. DESPESAS COM BRINDES. As despesas com brindes, por não constituírem objeto normal da atividade da empresa, são indedutíveis nos termos da legislação de regência. INCENTIVOS FISCAIS. DEDUÇÃO, PARA EFEITO DE APURAÇÃO DO LUCRO LÍQUIDO. EXCLUSÃO DO LUCRO LÍQUIDO, NA DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL. DEPRECIAÇÃO INTEGRAL, NO PRÓPRIO ANO DA AQUISIÇÃO. Para fazer jus aos incentivos fiscais de que tratam o artigo 17, incisos I e III e o artigo 19, caput, da Lei n.º 11.196, de 2005, a pessoa jurídica deve preencher todos os requisitos legais e considerar que, tanto na dedução para efeito de apuração do lucro líquido quanto na exclusão do lucro líquido para a determinação do lucro real, os dispêndios realizados no período de apuração com pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica são aqueles classificáveis como despesas operacionais pela legislação do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica. MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. ALEGAÇÃO DE CONFISCO. COMPETÊNCIA. A alegação de caráter confiscatório da multa não pode ser acolhida no âmbito do CARF, que não possui competência para se manifestar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Aplicação da Súmula CARF nº 2. Fl. 873DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ – Relator Assinado Digitalmente CARMEN FERREIRA SARAIVA – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Ana Claudia Borges de Oliveira, Gustavo de Oliveira Machado, Paulo Elias da Silva Filho, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto por GRUPO K1 S.A., contra decisão nº 01- 37.403 da 1ª Turma da DRJ/BEL (PA) que julgou improcedente a impugnação apresentada em face do lançamento que constituiu crédito tributário de IRPJ e CSLL, relativos aos anos-calendário de 2010 e 2011. Conforme depreende-se dos autos de infração, bem como detalhadamente descrito no Relatório Fiscal, apurou-se as seguintes “infrações”: a) lançamento da parcela excedente das despesas com patrocínios de caráter cultural e artístico como despesa dedutível; b) despesas apropriadas na rubrica publicidade e propaganda, entendidas como concessão de brindes pelo Fisco c) despesas dedutíveis relacionadas a multas de ofício incidentes em autos de infração; d) despesas como aquisição de bens, cujos valores deveriam ser apropriadas no ativo imobilizado; e) não observância do regime de competência na apropriação de despesas com locação de painéis; Fl. 874DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 3 f) apropriação de depreciação integral de bem adquirido pela impugnante e classificado como despesa com inovação tecnológica, no âmbito da denominada "Lei do Bem". A contribuinte apresentou Impugnação perante a DRJ/Belém, alegando, em síntese: a) No processo administrativo fiscal, portanto, predomina o princípio da verdade material, no sentido de que aí se busca descobrir se realmente ocorreu o fato objeto de discussão, com o consequente nascimento da obrigação tributária, porquanto o que o está em jogo é a legalidade da tributação; b) suportou uma despesa com patrocínios em valores superiores daqueles que estava autorizada a deduzir do imposto e pagar. Assim agiu, por entender que a norma jurídica apenas proibia que houvesse a apropriação concomitante da despesa com o beneficio fiscal respectivo, razão pela qual manteve a referida parcela excedente como despesa normalmente dedutível; c) os referidos itens listados pela autoridade fiscal são todos utilizados para propagar a marca da empresa, perante os seus funcionários, clientes e fornecedores. Isso resta evidente, a medida que todos os itens em discussão têm como característica primordial a fixação - de uma forma mais visível possível - da marca comercialmente utilizada pela contribuinte, conforme comprova as fotos anexas; d) manifesta sua total irresignação acerca das conclusões lançadas pelo Sr. Auditor no Relatório Fiscal, subtítulo "IX -EXCLUSÕES DO LUCRO LÍQUIDO - DEPRECIAÇÃO INTEGRAL". A DRJ/Belém, contudo, negou provimento a impugnação, mantendo as glosas de despesas apuradas pela fiscalização. Inconformada, a empresa interpôs Recurso Voluntário ao CARF, reiterando os fundamentos de mérito já apresentados e relatados acima. É o Relatório. VOTO Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz 1. Da Admissibilidade O presente recurso voluntário foi interposto dentro do prazo legal de trinta dias, conforme estabelecido pela legislação aplicável. Ademais, estão presentes todos os demais Fl. 875DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 4 pressupostos de admissibilidade, como legitimidade, interesse e adequação. Por essas razões, o recurso merece ser conhecido e devidamente apreciado por esta instância. 2. Da Delimitação da Lide Consoante expressamente consignado no relatório do acórdão recorrido, a controvérsia limita-se à análise da legitimidade das glosas efetuadas pela autoridade fiscal relativamente a: a) valores lançados como despesa operacional referentes a patrocínios culturais enquadrados no art. 18 da Lei nº 8.313/1991; b) despesas com brindes, consideradas indedutíveis para fins de apuração do lucro real; c) apropriação integral de depreciação de bem classificado pela contribuinte como despesa com inovação tecnológica, com fundamento na Lei nº 11.196/2005 (Lei do Bem). Registre-se, desde logo, que outras matérias originalmente não discutidas na impugnação foram expressamente reconhecidas como incontroversas pela DRJ, razão pela qual não integram o objeto devolvido a este Colegiado. Tendo em vista o exposto acima, os créditos não Impugnados foram transferidos para outro Processo para a devida cobrança. Assim, passo à análise das matérias efetivamente controvertidas. 3. Das deduções com patrocínios a operações de caráter cultural e artístico A fiscalização glosou a dedução, como despesa operacional, dos valores correspondentes à parcela dos patrocínios culturais não absorvida pela dedução direta do imposto devido, nos termos do art. 18 da Lei nº 8.313/1991. A tese recursal insiste em atribuir natureza de despesa necessária a tais dispêndios, sob o argumento de que promoveriam a marca e a imagem institucional da empresa. Todavia, conforme já demonstrado, o regime jurídico do incentivo cultural não admite interpretação extensiva. A dedução fiscal é concedida de forma condicionada e exaustiva, sendo vedada qualquer outra forma de aproveitamento tributário do mesmo dispêndio. A esse respeito, a decisão de primeira instância bem destacou que: Ora, como vimos, a demanda está entre a legitimidade ou não do Contribuinte deduzir as despesas com patrocínios, como despesa operacional, dos valores que excederem à 4% do IRPJ devido. Fl. 876DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 5 Segundo informa o termo de verificação, o lançamento foi motivado pelo fato de o sujeito passivo ter considerado como despesas dedutíveis certos desembolsos referentes a projetos culturais, descumprindo o disposto no § 2.º do art. 18 da lei 8.313/91, pois Dispõe o artigo 18 da Lei n° 8.313, de 23 de dezembro de 1991 que as pessoas jurídicas poderão deduzir valores de doação ou patrocínio a projetos culturais até o limite de 4% do valor de IRPJ devido, nos termos do artigo 15, parágrafo 5°, da Instrução Normativa SRF n° 267, de 23 de dezembro de 2002. Entretanto, para as pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, independentemente da dedução desse valores diretamente do IRPJ devido, não é permitida a utilização das despesas correspondentes a essas doações como despesa operacional, conforme mandamento expresso no artigo 18, parágrafo 2°, da Lei n° 8.313, de 23 de dezembro de 1991. Conseqüentemente, devem ser adicionados ao lucro líquido para fins de apuração do lucro real. (...) No caso concreto, a Fiscalizada informara na ficha 12A da DIPJ, como deduções de patrocínios de Operações de Caráter Cultural e Artístico o montante de R$ 256.198,16, correspondente a 4% do IRPJ devido. Entretanto, a diferença entre o valor total de patrocínios efetuados e o informado na DIPJ (R$ 65.301,84 = R$ 321.500,00 - R$ 256.198,16) fora contabilizado em 31 de dezembro de 2010 a débito da conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE", portanto como despesa operacional, não tendo sido adicionado ao lucro líquido para fins de determinação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. De forma que, por ocasião dos fatos geradores aqui lançados, não mais existia a possibilidade, para as doações ou patrocínios referidos no § 2.º do art.18 da lei 8.313/91, de se deduzirem tais valores como despesa operacional. Uma vez que a empresa se encaixa no tipo de contribuinte ao qual se destina a norma, e o patrocínio por ela efetuado também é aquele definido no dispositivo, clara está a impossibilidade de sua dedução como despesa operacional. Concordando com tal entendimento, adoto os excertos acima como complemento das minhas razões, por refletirem com precisão a vedação legal expressa contida no § 2º do art. 18 da Lei nº 8.313/1991, bem como a lógica sistêmica do incentivo fiscal. 4. Das despesas com propaganda e publicidade, entendidas como "despesas com brindes" pela autoridade fiscal A glosa das despesas com brindes decorreu da constatação de que os itens distribuídos gratuitamente — canetas, pastas, camisetas, copos e similares — não se enquadram como amostras de produtos, mas sim como brindes, nos termos da legislação do imposto de renda. Fl. 877DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 6 A legislação é clara ao vedar a dedução de tais despesas, conforme art. 249, parágrafo único, inciso VIII, do RIR/1999, norma que não comporta relativização com base em critérios subjetivos de utilidade mercadológica. Não obstante o alegado pela Recorrente, conforme bem apontado pela decisão a quo: Ora, pelas características das despesas abaixo, não há como afirmar que são necessárias à atividade da empresa: AQUISIÇÃO DE PASTAS EXECUTIVAS Para comprovação de despesa no valor de R$ 20.000,00, lançada a débito da Conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE" em 12 de março de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia da nota fiscal n° 013814, emitida pela empresa Incorpast Industrial e Comércio de Pastas Ltda., fl. 223. Do conteúdo da nota fiscal constou se tratar da aquisição de "1.000 pastas executivas courvin ". Em resposta ao item 10 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou tê-las distribuído gratuitamente, de forma promocional, para representantes, funcionários e clientes, fls. 442-443 e 455. AQUISIÇÃO DE PASTAS Para comprovação de despesa no valor de R$ 34.200,00, lançada a débito da Conta de Resultado "51020130290050055 - MATERIAL DE EXPEDIENTE" em 5 de abril de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia da nota fiscal n° 006400, emitida pela empresa Betina Couro e Artes Ltda., fl. 224. Do conteúdo da nota fiscal constou se tratar da aquisição de 1.800 pastas. Em resposta ao item 11 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou tê-las distribuído gratuitamente, de forma promocional, para representantes, funcionários e clientes, fls 443 e 455. AQUISIÇÃO DE CANETAS E ESTOJOS DE VELUDO Para comprovação de despesa no valor de R$ 21.000,00, lançada a débito da Conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE" em 10 de junho de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia da nota fiscal n° 005775/1, emitida pela empresa Nacional Brindes Presentes Corporativos Ltda., fl. 225. Do conteúdo da nota fiscal constou se tratar da aquisição de 5.000 canetas metal e 5.000 estojos veludo para canetas. Em resposta ao item 12 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou ter distribuído as canetas e os estojos de veludo gratuitamente, de forma promocional, para clientes, funcionários e público em geral, fls. 443 e 455. AQUISIÇÃO DE BONÉS PROMOCIONAIS Para comprovação de despesa no valor de R$ 12.400,00, lançada a débito da Conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE" em 25 de junho de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia da nota fiscal n° 2048, emitida pela empresa Bonés Rossi Ltda., fl. 226. Do conteúdo da nota fiscal constou se tratar da aquisição de 4.000 "bonés promocionais (Kappesberg) ". Em resposta ao Fl. 878DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 7 item 13 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou ter distribuído os bonés gratuitamente, de forma promocional, para clientes, funcionários e público em geral, fls. 444 e 455. AQUISIÇÃO DE COPOS PERSONALIZADOS Para comprovação de despesa no valor de R$ 69.876,99, lançada a débito da Conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE" em 15 de dezembro de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia do Documento Auxiliar da Nota Fiscal Eletrônica (Danfe) n° 000546653, emitido pela empresa Owens-Illinois do Brasil Ind. e Com. S.A., fl. 227. Do conteúdo do Danfe constou se tratar da aquisição de 840 unidades do produto "Copo Mistique LD Kappesberg 12 unidades avulsas " e de 540 unidades do produto "Copo Hannover 300 Kappesberg B2B 24 unidades avulsas ", totalizando 1.380 caixas de produtos. Em resposta ao item 14 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou ter distribuído os copos gratuitamente, de forma promocional, para clientes, funcionários e público em geral, fls. 444 e 455. AQUISIÇÃO DE CAMISETAS Para comprovação de despesa no valor de R$ 29.100,00, lançada a débito da Conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE" em 11 de junho de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia do Danfe n° 479, emitido pela empresa Malharia Schulz Ltda., fls. 228-229. Do conteúdo do Danfe constou se tratar da aquisição de 900 "Camisetas Baby Look", 630 "Camisetas Pretas " e 910 "Camisetas Polo Preta ". Em resposta ao item 15 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou ter distribuído as camisetas gratuitamente, de forma promocional, para clientes, funcionários e público em geral, fls. 445 e 455. AQUISIÇÃO DE CDS/DVDS Para comprovação de despesa no valor de R$ 68.498.60, lançada a débito da Conta de Resultado "51020110080050269 - PROPAGANDA E PUBLICIDADE" em 14 de dezembro de 2010, a Fiscalizada apresentou cópia do Danfe n° 000.000.221, emitido pela empresa Triplica do Brasil Soluções em Multimídia Ltda., fl. 230. Do conteúdo do Danfe constou se tratar da aquisição de 50.000 "CDs Promocionais /Artista Regional /Sem Valor Comercial" e 20.000 "Kits (CD + DVD Promocionais / Artista Regional / Sem Valor Comercial) ". Em resposta ao item 16 do Termo de Intimação Fiscal n° 3, a Fiscalizada informou ter distribuído os produtos gratuitamente, de forma promocional, para clientes, funcionários e público em geral, fls. 445 e 456. Cabível, portanto, a glosa das despesas com brindes, mediante adição ao lucro líquido dos valores constantes nos itens acima, e, por conseqüência às bases de cálculo do IRPJ do ano de 2010 e da CSLL, esta com fundamento no artigo 13 da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995: a) de qualquer provisão, com exceção apenas daquelas constituídas para: férias de empregados e 13º salário; reservas técnicas das companhias de seguro e de Fl. 879DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 8 capitalização, bem como das entidades de previdência privada cuja constituição é exigida pela legislação especial a elas aplicável; b) das contraprestações de arrendamento mercantil e do aluguel de bens móveis ou imóveis, exceto quando relacionados intrinsecamente com a produção ou comercialização dos bens e serviços; c) de despesas de depreciação, amortização, manutenção, reparo, conservação, impostos, taxas, seguros e quaisquer outros gastos com bens móveis e imóveis, exceto se relacionados intrinsecamente com a produção ou comercialização (sobre o conceito de bem intrinsecamente relacionado com a produção ou comercialização vide IN SRF nº 11/96, art. 25); d) das despesas com alimentação de sócios, acionistas e administradores; e) das contribuições não compulsórias, exceto as destinadas a custear seguros e planos de saúde e benefícios complementares assemelhados aos da Previdência Social, instituídos em favor de empregados e dirigentes da pessoa jurídica; f) de doações, exceto se efetuadas em favor: do PRONAC; instituições de ensino e pesquisa sem finalidade lucrativa (limitada a 1,5% do lucro operacional); de entidades civis sem fins lucrativos legalmente constituídas no Brasil que prestem serviços em benefício de empregados da pessoa jurídica (limitada a 2% do lucro operacional); g) das despesas com brindes. Via de regra, as despesas com brindes são indedutíveis para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL ao amparo do artigo 249, parágrafo único, VIII do RIR/99. O Fisco admite algumas exceções relacionadas às festas de fim de ano. O termo "brindes" do art.13, VII da Lei 9.249/95 refere-se às mercadorias que não constituam objeto normal da atividade da empresa, adquiridas com a finalidade específica de distribuição gratuita ao consumidor ou usuário final, objetivando promover a organização ou a empresa. De igual forma, amolda-se à definição de brindes estabelecida no Parecer CST n° 15, de 1° de abril de 1976, publicado no Diário Oficial da União em 14 de abril de 1976, abaixo transcrito. Portanto, esses produtos são considerados brindes para efeitos tributários. "6. A falta de normas específicas na legislação, relativamente às despesas em apreço, cabe buscar no próprio direito tributário o conceito adequado ao objeto das mesmas, ou seja, o que se deva considerar como "brindes", para os efeitos tributários. 7. Os "brindes " se destinam a promover a organização ou empresa e não necessariamente seus produtos, distinguindo-se, portanto, das "amostras". Podem, todavia, ser a elas assemelhados, desde que representados, exclusivamente, por objetos distribuídos gratuitamente, com a finalidade de promoção, e que sejam de "diminuto ou nenhum valor comercial" , conforme em Fl. 880DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 9 relação àquelas estabelece o artigo 9°, inciso V, do Regulamento do Imposto Sobre Produtos Industrializados (Decreto n° 70.172, de 18.02.1972), podendo ter, não obstante, alguma utilidade. " (g.n)) Assim, considerando que as mercadorias adquiridas, foram Pastas Executivas, Pastas, Canetas, Estojos de veludos, Bonés, Copos Personalizados, Camisetas, CDs e DVDs , distribuídas gratuitamente, resta claro que estas mercadorias não constituem objeto normal da atividade da empresa, razão pela qual entendemos que a glosa deve ser integralmente mantida. Neste diapasão, deve ser mantida a glosa. 5. Inovação Tecnológica - Depreciação integral Este ponto demanda análise mais detida. A fiscalização glosou a apropriação integral, em um único exercício, da depreciação de bem adquirido pela contribuinte, que foi por ela classificado como despesa com inovação tecnológica, com fundamento nos incentivos previstos na Lei nº 11.196/2005. A contribuinte sustenta que o bem estaria inserido em projeto de inovação tecnológica regularmente enquadrado na denominada “Lei do Bem”, o que autorizaria o tratamento fiscal adotado. Contudo, a análise do Relatório Fiscal e da decisão recorrida evidencia que não se trata de simples discussão sobre enquadramento do projeto, mas sobre a forma de aproveitamento do incentivo fiscal. A Lei nº 11.196/2005, em especial seus arts. 17 a 19, concede benefícios fiscais específicos às pessoas jurídicas que realizem pesquisa e desenvolvimento tecnológico, tais como:  exclusão adicional de dispêndios do lucro líquido;  redução de IPI;  depreciação acelerada incentivada, nos termos do art. 17, § 1º. Todavia, mesmo a depreciação acelerada não se confunde com depreciação integral imediata, tampouco autoriza a classificação do bem como despesa operacional no próprio exercício de aquisição. A legislação é clara ao exigir:  a ativação do bem no ativo imobilizado;  a apropriação da depreciação segundo critérios técnicos e temporais, ainda que acelerados;  a comprovação documental do vínculo direto do bem com o projeto de inovação. Fl. 881DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 10 No caso concreto, conforme consignado pela DRJ, a contribuinte não observou tais requisitos, tendo apropriado integralmente o valor do bem como despesa, afastando-se do regime legal previsto. Nesse ponto, a decisão de piso foi precisa ao afirmar que: A Fiscalização demonstrou que as informações trazidas pela Impugnante, e as prestadas pelo MCTI, não atendeu os critérios técnicos de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, portanto, não restou comprovado o direito ao benefício fiscal: - Os Equipamentos foram adquiridos em 19 de abril de 2010, no valor de 812.664,68, e em 17 de setembro de 2010, no valor de R$ 1.034.707,01; - De acordo com o artigo 17, inciso III, da Lei n° 11.196, de 21 de novembro de 2005, com a redação dada pela Lei n° 11.774, de 17 de setembro de 2008, admite- se a depreciação integral, no próprio ano da aquisição, de máquinas, equipamentos, aparelhos e instrumentos, novos, destinados à utilização nas atividades de pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica. Esta depreciação acelerada é operacionalizada mediante exclusão do lucro líquido para fins de apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. - Portanto, constatou-se que a Fiscalizada, para fins de utilização do benefício fiscal previsto no artigo 17, inciso III, da Lei n° 11.196, de 21 de novembro de 2005, depreciou integralmente os valores correspondentes a máquinas importadas das marcas IMA e HOMAG, vinculadas ao projeto de pesquisa e desenvolvimento "Bordas 45°", por meio da exclusão do lucro líquido do valor de R$ 1.831.977,55; - Após questionamentos, foi verificada que as Máquinas tinham destinação para o Setor Produtivo da Fiscalizada; - Não foram apresentados maiores esclarecimentos nem documentos comprobatórios da realização de atividades de pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica, é fato inconteste que ao longo dos anos de 2011, 2012 e 2013, a Fiscalizada utilizou as referidas máquinas no setor produtivo; Não obstante, cabe referir que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) também efetuou a análise das informações prestadas pela Fiscalizada no FORMP&D para fins de utilização dos benefícios da Lei n° 11.196, de 21 de novembro de 2005. Dessa análise, resultou no fato de a Fiscalizada não figurar no rol de Empresas Beneficiárias dos Benefícios Fiscais previstos na Lei n° 11.196, de 21 de novembro de 2005 para o ano de 2010, disponível para consulta na página do MCTI na internet; Questionamentos efetuados pela fiscalização, por meio do Ofício n° 39/2013/SEFIS/DRF-NHO/SRRF10/RFB/MF-RS, fls. 551-557, o MCTI prestou novos esclarecimentos, relativos à análise das informações consignadas no FORMP&D, fls. 555, 557, replicados a seguir. Fl. 882DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 11 (...) - Retomando-se a situação específica da destinação das referidas máquinas IMA e HOMAG, constatou-se que o Ministério da Ciência da Tecnologia e Inovação (MCTI) foi categórico ao afirmar que as máquinas adquiridas pela Fiscalizada, verbis, "referem-se a equipamentos destinados à linha de produção da empresa (trata-se de modernização industrial). Portanto, não são destinados ao Centro de P&D da empresa para utilização nas atividades de pesquisa tecnológica e ao desenvolvimento tecnológico e/ou inovação tecnológica o que contraria ao disposto no item III, do Art. 17 do Capítulo III da Lei 11.196/05 (Lei do Bem) ", fl. 556. Ou seja, tais conclusões do MCTI coadunam-se com o mencionado anteriormente, por também levarem à conclusão de que as referidas máquinas IMA e HOMAG foram destinadas ao setor de produção da Fiscalizada; - a condição essencial para a fruição do benefício fiscal da depreciação integral no ano da aquisição é que as máquinas sejam utilizadas nas atividades de pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica. Na situação em análise, constatou-se destinação distinta, com a utilização das máquinas na linha de produção da Fiscalizada; - No momento em que as máquinas passaram a ser utilizadas na produção - e não mais exclusivamente em P&D - em decorrência do disposto no artigo 24 da Lei n° 11.196, de 21 de novembro de 2005, o saldo correspondente à depreciação acelerada, controlado na Parte "B" do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur), deveria ter sido adicionado ao lucro líquido para fins de apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL; - Não foram localizados nos registros do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur) dos anos de 2011 e 2012, lançamentos dando conta especificamente da adição ao lucro líquido a título de reversão da depreciação dessas máquinas, fls. 268-315. (...) Incumbe à Impugnante o cumprimento das exigências feitas pelo MCTI, na forma em que foi estipulada por este órgão, por imposição do artigo 14, caput, do Decreto nº 5.798/06, de maneira a obter a sua habilitação/classificação, portanto, não cabe ao Fisco o ônus de provar a inexistência de pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica para glosar o benefício. Depreende-se dos excertos que a Lei nº 11.196/2005 não autoriza o reconhecimento imediato, como despesa, do valor integral de bens do ativo imobilizado, ainda que vinculados a projetos de inovação tecnológica, devendo ser observadas as regras de depreciação, ainda que sob a forma incentivada. Assim, adoto as razões expendidas pela DRJ como complemento das minhas, porquanto alinhadas ao texto expresso da legislação e à natureza jurídica dos incentivos concedidos pela Lei do Bem. Fl. 883DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.225 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11065.724510/2013-61 12 A glosa, portanto, não decorre da negativa do incentivo, mas da utilização inadequada da técnica de aproveitamento fiscal, o que legitima plenamente o lançamento efetuado. 6. Da multa Assevera a Recorrente a natureza confiscatória da multa aplicada no percentual de 75% sobre o valor do tributo. Além do mais, pugna pela impossibilidade de aplicação da multa por ferir o principio da ilegalidade e ser inconstitucional. Quanto ao alegado caráter confiscatório da multa e da necessidade de observância dos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, a pretensão da Recorrente demandaria a declaração de inconstitucionalidade do artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996, fundamento legal da aplicação da penalidade. Apesar das alegações da Recorrente, convém esclarecer que tais argumentos que remontam à inconstitucionalidade de dispositivos legais não podem ser apreciados por esse Conselho, que se limita ao controle de legalidade, nos termos da Súmula CARF n.º 2, que assim dispõe: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Ademais, considerando que a imposição de penalidades pelo fisco obedece ao princípio da estrita legalidade, nos termos do art. 97, inciso V, do CTN, sendo inerente ao lançamento de ofício, não cabe à autoridade tributária reduzir os percentuais de multa aplicados, segundo a legislação tributária, nem afastar sua exigência, como requer a Recorrente. Diante do exposto, nego provimento ao recurso. 7. Da conclusão Diante do exposto, voto em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ Fl. 884DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 16692.720355/2019-26
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Feb 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2017, 2018 EMBARGOS. INEXATIDÃO MATERIAL. RECURSOS REPETITIVOS (CARF). PARADIGMA 1201006.344. TEMA 736/STF (RE 796.939/RS; ADI 4.905). DISTINÇÃO (DISTINGUISHING). MULTA ISOLADA DE 225% (ART. 18 DA LEI 10.833/2003 C/C ART. 44, §2º, DA LEI 9.430/1996). Mera não homologação de compensação não configurada. DCOMP com informação falsa (saldo negativo inexistente) e inobservância à intimação. Alcance do tema 736 limitado à penalidade vinculada exclusivamente à não homologação (art. 74, §§15 e 17, da lei 9.430/1996). Embargos providos, com efeitos infringentes. MULTA AGRAVADA. NÃO ATENDIMENTO À INTIMAÇÃO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA O agravamento da penalidade pelo não atendimento a intimações subsiste quando não impugnado especificamente no recurso voluntário, operando-se a preclusão quanto ao ponto. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2017, 2018 DCOMP. MULTA ISOLADA. INFORMAÇÃO FALSA. ART. 18, §2º, DA LEI Nº 10.833/2003 Caracterizada a falsidade objetiva das informações prestadas em declarações de compensação, impõe-se a aplicação da multa isolada prevista no art. 18, §2º, da Lei nº 10.833/2003. A responsabilidade por infrações independe da intenção do agente, nos termos do art. 136 do CTN, sendo irrelevante a alegação de ausência de dolo ou atuação de terceiros contratados. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO ADMINISTRADOR. ARTS. 124 E 135 DO CTN. NECESSIDADE DE LIAME SUBJETIVO A responsabilização pessoal do administrador exige demonstração individualizada de participação consciente e nexo causal com o ilícito, não bastando a mera condição societária ou benefício econômico indireto. Ausentes os requisitos do art. 124, I, e do art. 135, III, do CTN, afasta-se a corresponsabilização do sócio.
Numero da decisão: 1201-007.459
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para sanar a inexatidão material apontada, nos termos do voto da relatora. Votou pelas conclusões e apresentou declaração de voto o Conselheiro Lucas Issa Halah. Vencido o Conselheiro Renato Rodrigues Gomes, que votou por afastar a multa de ofício no percentual de 150%, com readequação da penalidade ao regime aplicável à não homologação ordinária. Assinado Digitalmente Isabelle Resende Alves Rocha – Relatora Assinado Digitalmente Nilton Costa Simoes – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Isabelle Resende Alves Rocha, Lucas Issa Halah, Marcelo Antonio Biancardi, Raimundo Pires de Santana Filho, Renato Rodrigues Gomes e Nilton Costa Simoes (Presidente).
Nome do relator: ISABELLE RESENDE ALVES ROCHA

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FRAL - DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS DE HIGIENE LTDA. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2017, 2018 EMBARGOS. INEXATIDÃO MATERIAL. RECURSOS REPETITIVOS (CARF). PARADIGMA 1201‑ 006.344. TEMA 736/STF (RE 796.939/RS; ADI 4.905). DISTINÇÃO (DISTINGUISHING). MULTA ISOLADA DE 225% (ART. 18 DA LEI 10.833/2003 C/C ART. 44, § 2º, DA LEI 9.430/1996). Mera não homologação de compensação não configurada. DCOMP com informação falsa (saldo negativo inexistente) e inobservância à intimação. Alcance do tema 736 limitado à penalidade vinculada exclusivamente à não homologação (art. 74, §§ 15 e 17, da lei 9.430/1996). Embargos providos, com efeitos infringentes. MULTA AGRAVADA. NÃO ATENDIMENTO À INTIMAÇÃO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA O agravamento da penalidade pelo não atendimento a intimações subsiste quando não impugnado especificamente no recurso voluntário, operando- se a preclusão quanto ao ponto. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2017, 2018 DCOMP. MULTA ISOLADA. INFORMAÇÃO FALSA. ART. 18, §2º, DA LEI Nº 10.833/2003 Caracterizada a falsidade objetiva das informações prestadas em declarações de compensação, impõe-se a aplicação da multa isolada prevista no art. 18, §2º, da Lei nº 10.833/2003. A responsabilidade por infrações independe da intenção do agente, nos termos do art. 136 do CTN, sendo irrelevante a alegação de ausência de dolo ou atuação de terceiros contratados. Fl. 419DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 2 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO ADMINISTRADOR. ARTS. 124 E 135 DO CTN. NECESSIDADE DE LIAME SUBJETIVO A responsabilização pessoal do administrador exige demonstração individualizada de participação consciente e nexo causal com o ilícito, não bastando a mera condição societária ou benefício econômico indireto. Ausentes os requisitos do art. 124, I, e do art. 135, III, do CTN, afasta-se a corresponsabilização do sócio. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para sanar a inexatidão material apontada, nos termos do voto da relatora. Votou pelas conclusões e apresentou declaração de voto o Conselheiro Lucas Issa Halah. Vencido o Conselheiro Renato Rodrigues Gomes, que votou por afastar a multa de ofício no percentual de 150%, com readequação da penalidade ao regime aplicável à não homologação ordinária. Assinado Digitalmente Isabelle Resende Alves Rocha – Relatora Assinado Digitalmente Nilton Costa Simoes – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Isabelle Resende Alves Rocha, Lucas Issa Halah, Marcelo Antonio Biancardi, Raimundo Pires de Santana Filho, Renato Rodrigues Gomes e Nilton Costa Simoes (Presidente). RELATÓRIO Cuidam os autos de embargos opostos pelo titular da unidade da administração tributária encarregada da liquidação e execução do acórdão (DERAT/SP - Unidade Preparadora) contra acórdão proferido por esta Turma (1201-006.681) que, por maioria, deu provimento ao Recurso voluntário do contribuinte para afastar a multa isolada de 225%, aplicando, por adesão, a tese fixada no Tema 736/STF (inconstitucionalidade de multa por mera não homologação de Fl. 420DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 3 compensação) e o entendimento firmado em paradigma de recursos repetitivos no CARF (Acórdão nº 1201‑006.344). A Unidade Preparadora sustenta inexatidão material do acórdão, visto que o auto de infração destes autos não teria se baseado nos §§ 15 e 17 do art. 74 da Lei 9.430/1996 (núcleo do Tema 736), mas sim no art. 18 da Lei 10.833/2003, combinado com o art. 44, § 2º, da Lei 9.430/1996, ante inserção de informação falsa na DCOMP (retenções inexistentes), somada ao não atendimento às intimações. Requer a análise do vício apontado por este Conselho. É o relatório. VOTO 1 EMBARGOS Os embargos foram admitidos pela Presidência, com fundamento no art. 117 do RICARF, por apontarem possível inexatidão material no acórdão embargado. Da mesma forma, recebo os embargos e passo a analisá-los, de modo a verificar a inexatidão material apontada. Delimita-se a controvérsia a (i) saber se o acórdão embargado incorreu em inexatidão material ao aplicar automaticamente o paradigma repetitivo (Ac. nº 1201‑006.344) e o Tema 736/STF; e (ii) sendo positiva a resposta, se é caso de distinguir o precedente, porquanto o Auto de infração teria se ancorado em fundamentação diversa (art. 18 da Lei 10.833/2003 c/c art. 44, § 2º, da Lei 9.430/1996), em contexto fático de falsidade (informação falsa em DCOMP e desatendimento a intimações), e não na mera não homologação da compensação. O Tema 736/STF (RE 796.939/RS, à luz também da ADI 4.905) fixou a inconstitucionalidade de multa isolada aplicada pelo simples fato de a compensação não ter sido homologada, entendendo a Corte que esse exercício regular do direito de petição e do procedimento administrativo (PER/DCOMP) não configura infração a ser punida por multa isolada. Em consequência, autos lavrados com base exclusivamente nessa hipótese (tipificada nos §§ 15 e 17 do art. 74 da Lei 9.430/1996) devem ser afastados. Contudo, a razão de decidir da Suprema Corte não alcança hipóteses em que a Administração demonstra: (a) falsidade ou simulação na declaração; (b) inexistência do crédito invocado lastreada em dados objetivos (p. ex., ausência total de DIRF compatível e ECF/DCTF apontando IR a pagar); (c) descumprimento de intimações; e (d) base legal autônoma de penalidade (v. g., art. 18 da Lei 10.833/2003, com qualificação por fraude – art. 44, § 2º, da Lei 9.430/1996). Nesses casos, não se pune o mero envio da declaração de compensação, mas a Fl. 421DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 4 conduta de inserir informação falsa para extinguir tributos, o que é qualitativamente distinto da situação apreciada pelo STF. Essa afirmação decorre, não apenas da interpretação desta relatora acerca do acórdão de Repercussão Geral, mas do PARECER SEI Nº 2674/2023/MF, que autorizou a dispensa da PGFN de contestar e recorrer nos processos relacionados ao Tema 736: (...) é possível citar as seguintes multas que, além de não terem sido abarcadas pelos precedentes, foram, em obiter dictum dos votos-condutores, consideradas válidas, quando a não homologação for motivada em falsidade, sonegação, conluio ou, se caracterizada, as situações de compensação não declarada, a saber:  multa de 150% (cento e cinquenta por cento), aplicada por lançamento de ofício, quando comprovada a falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, com previsão nº art. 18, §2º, da Lei nº 10.833, de 2003, combinado com o art. 44, I, da Lei nº 9.430, de 1996; (destaques meus) De fato, trechos do acórdão proferido pelo STF corroboram a interpretação ora encampada: Voto do Ministro relator, Edson Fachin Trata-se de saber se é constitucional o art. 74, §§15 e 17, da Lei 9.430/96, em que se prevê multa ao contribuinte que tenha indeferido seu pedido administrativo de ressarcimento ou de homologação de compensação tributária declarada. (...) Verifica-se que o cerne do litígio persiste, uma vez que somente se alterou a base sobre a qual se calcula o valor da multa isolada, isto é, do valor do crédito objeto de declaração para o montante do débito. Nesse sentido, permanece a potencialidade de ofensa à Constituição da República no tocante ao direito de petição e ao princípio do devido processo legal. Em síntese, firmo convicção em sentido convergente ao parecer ministerial, ou seja, pela inconstitucionalidade da multa prevista no art. 74, §17, da Lei 9.430/96, tendo em conta que a mera não homologação de compensação tributária não consiste em ato ilícito com aptidão para ensejar sanção tributária. Voto Vogal Ministra Carmen Lúcia: A compensação “será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados” (§1º do art. 74 da Lei n. 9.430/1996). No § 2º do art. 74 dessa lei estabelece-se que “a compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação.” No §17º do art. 74 da Lei n. 9.430/1996, determina-se a incidência de multa quando declarações de Fl. 422DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 5 compensação não vierem a ser, posteriormente, homologadas pela Secretaria da Receita Federal. Saliente-se que a multa incide ainda que não haja falsidade no pedido, pois, havendo, a multa a ser aplicada é de 150%, conforme determina o §2º do art. 18 da Lei n. 10.833/2003 c/c o inc. I do art. 44 da Lei n. 9.430/1996. (...) Assim como a exigência de depósito prévio, a multa prevista no § 17º do art. 74 da Lei n. 9.430/1996 tem por objetivo a intimidação do contribuinte de forma a desestimulá-lo a apresentar declarações de compensação, incidindo ainda que não haja falsidade no pedido, pelo que frustra o regular exercício do direito de petição. (...) A multa imposta não distingue entre os contribuintes de boa-fé que, por um erro técnico, tenham suas compensações não homologadas e aqueles que, apesar de cientes da ausência de direito à compensação, apresentam suas declarações de má-fé. Lembro que, na hipótese de falsidade, a multa a ser aplicada é de 150%, conforme determina o §2º do art. 18 da Lei n. 10.833/2003 c/c o inc. I do art. 44 da Lei n. 9.430/1996. (destaques meus) Percebe-se claramente, portanto, que o STF julgou inconstitucional a multa que incidia sobre a mera não homologação de compensações, que não esteja calcada em elementos como falsidade das informações, ou condutas criminosas (sonegação, fraude e conluio). Essas outras penalidades foram constantemente ressalvadas no julgamento, a fim de diferenciar o intuito punitivo a multa declarada inconstitucional. Assim, o paradigma de recursos repetitivos citado no acórdão embargado (Acórdão nº 1201‑006.344) foi desenhado justamente para casos típicos de multa vinculada à mera não homologação de compensação, sem elementos de fraude declaratória autônoma. Se o suporte fático-probatório diverge materialmente, a técnica do distinguishing impõe não transpor mecanicamente a ratio decidendi do precedente. No caso dos autos, a DERAT/SP apurou, documentalmente, que o alegado saldo negativo de IRPJ foi construído exclusivamente com retenções na fonte supostamente promovidas pelo Itaú Unibanco no montante de R$ 230.000,00 e R$ 500.000,00, ao passo que a DIRF da fonte pagadora consigna valores irrisórios de R$ 287,43 e R$ 272,15. Além disso, a ECF e a DCTF do contribuinte informavam IRPJ a pagar nos mesmos períodos — portanto, incompatíveis com a existência de saldo negativo. Não houve apresentação de comprovantes das retenções após duas intimações. Tais achados levaram a autoridade fiscal a não homologar as DCOMPs (fls. 24-39) e a lavrar Auto de infração (fl. 40/57) para lançar penalidade de 225% com fundamento no art. 18, Fl. 423DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 6 caput, §§ 2º e 5º, da Lei 10.833/2003, combinado com o art. 44, § 2º, da Lei 9.430/1996 (falsidade da DCOMP e não atendimento a intimações). Também foram imputadas responsabilidades solidárias (CTN, arts. 124 e 135) e mencionadas as repercussões penais (Lei 8.137/1990). Logo, não se está diante de multa por mera não homologação (que é o cerne do Tema 736/STF), mas de sanção pela inserção de informação falsa em DCOMP, o que desborda do âmbito do precedente constitucional que fundamentou a conclusão do acórdão paradigma nº 1201‑006.344. Dessa forma, os embargos merecem acolhimento e, efetuada a correção, impõe-se conferir efeitos infringentes aos embargos, pois a distinção ora reconhecida demanda o julgamento autônomo do Recurso voluntário, enfrentando-se os argumentos dos Recorrentes, destinados a afastar a penalidade imposta com base no art. 18 da Lei 10.833/2003 c/c art. 44, § 2º, da Lei 9.430/1996. 2 RECURSO VOLUNTÁRIO Tendo em vista a brevidade do relatório exposto apenas para fins de análise dos embargos da Unidade Preparadora, narro agora com mais detalhes o caso concreto, de modo a propiciar um julgamento seguro e específico do recurso voluntário. 2.1 RELATÓRIO Na origem, trata-se de auto de infração lavrado contra a pessoa jurídica M. FRAL – DISTRIBUIDORA, IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA., com responsabilização solidária de seus sócios Edson Guissan Maeda e Emerson Yoshinobu Maeda, bem como se seu procurador Daniel Bruno Carvalho Bezerra, para lançamento de multa isolada de 225% sobre débitos indevidamente compensados via Declarações de Compensação – DCOMP (total da multa: R$ 243.094,66). Consta a imputação de falsidade de informações nas DCOMPs e não atendimento a intimações, tendo a Fiscalização consignado, ainda, a emissão de Representação Fiscal para Fins Penais. Segundo a descrição dos fatos no auto de infração (fls. 40/57) e no Despacho Decisório (fls. 24/39) que lhe serve de fundamento, a Fiscalização verificou a apresentação, pela Contribuinte, de sucessivas DCOMPs nas quais se declaravam créditos de saldo negativo de IRPJ apurados no 2º e no 4º trimestre de 2018, respectivamente nos valores de R$ 230.000,00 e R$ 500.000,00. A DRF apurou que tais “saldos negativos” teriam sido formados exclusivamente por retenções na fonte (IRRF) declaradas como realizadas pelo Itaú Unibanco S.A., mas inexistentes ou irrisórias nas DIRF das supostas fontes pagadoras (R$ R$ 287,43 para o 2º Trimestre e R$ R$ 272,15 para o 4º trimestre). Além disso, a própria ECF e DCTF da Contribuinte apontavam IRPJ a pagar naqueles trimestres (R$ 24.607,32 e R$ R$ 28.145,41, respectivamente), o que inviabilizava a existência de Fl. 424DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 7 saldo negativo para o mesmo período. Diante da ausência de resposta a duas intimações e das inconsistências verificadas, concluiu‑se pela falsidade das informações inseridas nas DCOMPs e pela não homologação das compensações, com lançamento de multa isolada de 225%, composta pela penalidade do art. 18, §2º, da Lei 10.833/2003 (multa de 150% por falsidade) majorada em 50% pelo art. 44, §2º, da Lei 9.430/1996 e art. 74, § 2º, da IN RFB nº 1.717/2017 (não atendimento à intimação), nos seguintes termos: Lei nº 10.833/2003: Art. 18. O lançamento de ofício de que trata o art. 90 da Medida Provisória no 2.158-35, de 24 de agosto de 2001, limitar-se-á à imposição de multa isolada em razão de não-homologação da compensação quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) § 2º A multa isolada a que se refere o caput deste artigo será aplicada no percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicado em dobro, e terá como base de cálculo o valor total do débito indevidamente compensado. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) § 5º Aplica-se o disposto no § 2º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, às hipóteses previstas nos §§ 2o e 4o deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Lei nº 9.430/96: § 2º Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1º deste artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I - prestar esclarecimentos; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) IN RFB nº 1.717/2017: Art. 74. O tributo objeto de compensação não homologada será exigido com os acréscimos legais previstos na legislação. § 1º Sem prejuízo do disposto no caput, será exigida do sujeito passivo, mediante lançamento de ofício, multa isolada, nos seguintes percentuais: I - de 50% (cinquenta por cento) sobre o valor do débito objeto de declaração de compensação não homologada; ou II - de 150% (cento e cinquenta por cento) sobre o valor total do débito tributário indevidamente compensado, quando ficar comprovada falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. Fl. 425DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 8 § 2º A multa a que se refere o inciso II do § 1º passará a ser de 225% (duzentos e vinte e cinco por cento) nos casos de não atendimento, pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para prestar esclarecimentos ou para apresentar documentos ou arquivos magnéticos. (destaques meus) Devidamente cientificados, apenas a M. FRAL, Edson Guissan Maeda e Emerson Guissan Maeda apresentaram impugnação (conjunta, fls. 72/101). Em preliminar, os Impugnantes sustentaram a nulidade do auto de infração ou, ao menos, a impossibilidade de imposição de solidariedade tributária à empresa e aos sócios administradores, por ausência de interesse comum no fato gerador da penalidade (art. 124, I, do CTN). Afirmaram que não participaram da escolha da origem do crédito e que as compensações foram operacionalizadas por terceiros contratados, que, segundo os Impugnantes, ofereceram e executaram “serviços de compensação tributária” com promessa de existência de créditos aptos a saldar débitos federais. Para corroborar suas alegações, anexaram comprovantes de pagamentos mensais de honorários na ordem de R$ 20.000,00 entre junho/2017 e dezembro/2018, cópia de contrato de consultoria tributária, além de trocas de mensagens entre o consultor e o sócio Edson, e também mensagens com a esposa do consultor, que também compunha a equipe. A partir desse conjunto, os Impugnantes sustentaram que não houve adesão consciente a qualquer esquema fraudulento e que faltam elementos para reconhecer, em relação à empresa e a seus sócios, o alegado interesse comum na conduta sancionada, razão pela qual pugna pela exclusão de todos do polo passivo solidário, caso não se reconheça a nulidade total da autuação. No mérito, a impugnação assentou‑se na tese de boa‑fé objetiva e ausência de dolo. Afirmaram os Impugnantes que sempre atuaram regularmente em suas atividades empresariais, sem histórico de autuações, e que, tão logo desconfiaram da inidoneidade da empresa de consultoria, ao final de 2018, teriam interrompido a prática de compensação e retomado o recolhimento de tributos a partir de janeiro de 2019, juntando aos autos DARFs e comprovantes de pagamento de tributos de 2019 e 2020. Acrescentaram que, posteriormente, veio a público a notícia de prisões do consultor indicado e de terceiros a ele vinculados (Grupo Platinum), o que reforçaria a condição da empresa como vítima de golpe, e declara intenção de regularizar integralmente os débitos objetos das DCOMPs por meio de parcelamento. Nessa toada, requereram o afastamento da multa de 225% por entenderem que não houve proveito indevido deliberado, senão indução a erro atribuída aos consultores. Em reforço, os Impugnantes arrolaram fundamentos constitucionais: afirmaram que a penalidade de 225% viola os princípios do não confisco, da proporcionalidade e da razoabilidade, citando precedentes do STF e do STJ para sustentar que a sanção deve guardar medida com a gravidade da conduta e o elemento subjetivo aferido. Fl. 426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 9 A DRJ/RPO proferiu acórdão julgando improcedentes as impugnações. A Turma julgadora rechaçou a tese de “erro formal”, indicando que a conduta reiterada de enviar declarações com créditos inexistentes evidencia dolo e se amolda ao art. 72 da Lei 4.502/1964 (fraude). A responsabilidade solidária de todos os envolvidos foi mantida com base nos arts. 124 e 135 do CTN. A DRJ salientou que as DCOMPs foram transmitidas com o certificado digital de Daniel Bruno Carvalho Bezerra, revelando interesse comum e atuação do mandatário e dos sócios da empresa na inserção das informações, o que legitima a corresponsabilização. A respeito dos princípios constitucionais, a DRJ consignou que não lhe compete afastar lei por alegada inconstitucionalidade (Súmula CARF 2; art. 26‑A do Decreto 70.235/1972), razão pela qual não apreciou a pretensão de reduzir/afastar a multa por suposto não confisco. Após a ciência regular de todos os responsáveis solidários, a Contribuinte principal e os responsáveis Edson Maeda e Emerson Maeda interpuseram recurso voluntário conjunto (fls. 360/387), reiterando os argumentos de sua impugnação. Narrado o histórico do processo, passo a analisar os argumentos do Recurso voluntário. 2.2 ADMISSIBILIDADE Embora a admissibilidade do recurso já tenha sido realizada quando da prolação do acórdão embargado, existem aspectos que precisam ser verificados agora, dada a modificação do escopo de julgamento. Nesse sentido, importante registrar que a multa agravada em 50% pelo não atendimento às intimações não foi questionada no recurso voluntário. Muito embora os Recorrentes questionem a multa de 225% como um todo, pedindo seu cancelamento em função da ausência de dolo na falsidade das informações, ou sua redução por ofensa aos princípios da razoabilidade e não-confisco, os Recorrentes não atacam o fundamento da multa agravada em 50%, contida na multa total de 225%. Desse modo, apesar desta relatora entender inaplicável o agravamento em casos como o presente, não há a possibilidade de aplicar esse entendimento ante a ausência de questionamento pelos Recorrentes. Por último, em relação à matéria do recurso voluntário, ressalvo que os Recorrentes aduzem alegações que perpassam a inconstitucionalidade de normas ou condutas fiscais, o que, a meu ver, levaria ao não conhecimento parcial do Recurso, em razão da Súmula CARF nº 2. Porém opto por analisar essas alegações no mérito, respeitados os limites a que este Conselho está submetido. Fl. 427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 10 2.3 MULTA ISOLADA EM RAZÃO DE NÃO-HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO QUANDO SE COMPROVE FALSIDADE DA DECLARAÇÃO – 150% Não obstante plausibilidade na comprovação de que os Recorrentes foram vítimas de um golpe perpetrado por terceiros, entendo não ser possível afastar a multa isolada aplicada na forma do art. 18, §2º, da Lei nº 10.833/2003. Inicialmente, rechaço os argumentos preliminares no ponto em que os Recorrentes pretendem atribuir à pessoa jurídica autuada a condição de responsável solidária para, a partir daí, sustentar ausência de interesse comum (art. 124, I, do CTN) por “não ter participado do fato gerador da penalidade”. A empresa figura no polo passivo como sujeito passivo principal, pois foi em seu nome que se transmitiram as declarações de compensação reputadas falsas, ainda que operacionalizadas por mandatário ou terceiros contratados. Não se trata, portanto, de hipótese de solidariedade tributária da pessoa jurídica, mas de imputação direta da infração a quem a praticou formalmente. Já quanto aos sócios administradores, o debate é pertinente e a insurgência recursal se firma também na tese de que teriam sido enganados por consultoria contratada, devendo ser excluídos do polo passivo da demanda juntamente com a empresa da qual são sócios, por ausência de dolo e de comprovação de interesse comum nos termos do art. 124, do CTN. A discussão sobre a responsabilidade pessoal dos administradores, porém, será enfrentada em tópico próprio. No mérito, da análise dos elementos fáticos que compõem o processo, percebe-se que a materialidade do lançamento decorre de um conjunto de inconsistências objetivas que, analisadas em bloco, conduzem à conclusão de que as DCOMPs foram transmitidas com informações inverídicas sobre a existência/legitimidade do crédito utilizado para extinguir débitos: 1. Volume e reiteração da conduta: O despacho decisório e o auto de infração arrolam 4 DCOMPs transmitidas entre 29/10/2018, todas ancoradas em crédito de mesma natureza e com a mesma problemática de confirmação (suposto saldo negativo do 2º e 4º trimestre de 2018), o que afasta a hipótese de equívoco pontual e revela um modus operandi reiterado. 2. Inexistência de lastro declaratório do alegado saldo negativo: o crédito informado (saldo negativo decorrente de retenções em aplicações financeiras) não foi confirmado nas escriturações/declarações da própria contribuinte (ECF) e tampouco foi corroborado nas declarações das fontes pagadoras (DIRF). Pelo contrário, a ECF da empresa apurou IRPJ a pagar nos dois períodos que teriam originado o crédito. 3. Ausência de esclarecimento/documentação mínima quando instada a apresentar: a multa de 50% por não atendimento das intimações será objeto de capítulo próprio neste voto, mas, para fins de análise da manutenção da multa do art. 18 da Lei nº 10.833/2003 é relevante registrar que não houve, nem no curso da Fl. 428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 11 fiscalização, nem nas manifestações processuais, a apresentação de elementos capazes de demonstrar a origem e a titularidade do crédito. Pelo contrário, inicialmente, os Recorrentes afirmavam que se tratava de crédito originado de cessão, erroneamente apontado como saldo negativo e, depois, informaram terem sido vítimas de golpe. Ou seja, reconheceu-se a inexistência de saldo negativo a compensar. Esse quadro satisfaz o núcleo normativo da multa aplicada, o que é essencial para delimitar o ponto jurídico que diferencia esta penalidade de outras figuras sancionatórias. Isso, porque, dada a gravidade da penalidade imposta (150% dos débitos objetos das DCOMPs), poder- se-ia questionar a superficialidade da fundamentação constante do despacho decisório, que, a partir dos elementos objetivos narrados acima, concluiu pela falsidade das declarações e trouxe até mesmo consequências criminais para o ato. Veja-se: Despacho Decisório: Constatadas (1) a inexistência da retenção formadora do suposto direito creditório de saldo negativo de IRPJ pleiteado na DCOMP e (2) a inexistência de apuração de saldo negativo de IRPJ na escrituração contábil-fiscal do contribuinte, resta evidente e comprovada a falsidade das informações inseridas pelo interessado na DCOMP para forjar créditos de saldos negativos aproveitados nas compensações. (...) Cumpre salientar que, nos termos do art. 74, § 2º, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Ao informar em DCOMP crédito que sabia ser inexistente, conforme apuração constante em sua escrituração contábil-fiscal, o contribuinte extinguiu, sob condição resolutória, os débitos compensados. Deste modo, não se vislumbra, no presente caso, a ocorrência de erro escusável, mas intenção dolosa de burlar a Fazenda Pública, com a apresentação de compensações com direito creditório sabidamente inexistente para a extinção de tributos federais. A inserção de informações de que tinha plena consciência de serem falsas em DCOMP com a intenção de abster-se do pagamento de tributos federais configura fraude, conforme previsto no art. 72, da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, e crime contra a Ordem Tributária, nos termos dos arts. 1º e 2º, ambos da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990 (...) Em função da não homologação das compensações, motivada pela inserção de informação falsa na declaração, será realizado lançamento de ofício de multa isolada de 225% sobre o valor dos débitos indevidamente compensados, Fl. 429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 12 conforme previsto no art. 18, caput, § 2º e § 5º, da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, combinado com o art. 44, § 2º, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, e no art. 74, § 2º, da Instrução Normativa RFB nº 1.717, de 17 de julho de 2017. A meu ver, o Despacho Decisório falhou ao concluir pela existência de fraude, com base na presunção de que a Contribuinte autuada tinha plena consciência de que as informações inseridas nas DCOMPs eram falsas, o que caracterizaria a “intenção dolosa de burlar a Fazenda Pública.” A Autoridade Fiscal não demonstra esse dolo, não constrói a comprovação do nexo subjetivo entre a conduta da empresa e de seus sócios e a consequência criminal imputada. O que se vê no despacho decisório e no auto de infração é uma inferência no sentido de que, se as informações prestadas em DCOMP não são verídicas, dada a inexistência do saldo negativo pleiteado, logo, a empresa em nome da qual as DCOMPs foram transmitidas cometeu o crime de fraude e de envio de informações falsas ao fisco. Contudo, isso não interfere na integridade da autuação, justamente porque a multa imposta se fundamentou, ao fim e ao cabo, na constatação de falsidade objetiva das DCOMPS (art. 18, caput, § 2º e § 5º, da Lei nº 10.833), não na configuração do crime de fraude de fraude ou de envio de informações falsas ao fisco. Essa menção na fundamentação fiscal, apenas teve o intuito de justificar a emissão de Representação Fiscal para fins penais e de responsabilização solidária dos sócios da empresa, o que será analisado em tópico específico. Veja-se, dizer que se contata falsidade em declaração de compensação com base em elementos objetivos para se aplicar a multa isolada não é o mesmo de caracterizar o crime, o tipo penal do envio de informações falsas ao fisco constante dos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137/90, da Lei nº 4.502/64. Embora as palavras usadas nas duas normas tenham raízes semelhantes (falsidade), a configuração da infração é totalmente diversa. Pois bem, a jurisprudência deste Conselho tem reconhecido que a multa por envio de DCOMP com informação falsa, prevista no art. 18 da Lei nº 10.833/2003, não se confunde com a multa de ofício qualificada por fraude, conluio ou sonegação (art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/96) e, por isso, não exige a mesma demonstração do elemento subjetivo (dolo específico) que seria indispensável para qualificação da multa em outras hipóteses. Nesse sentido, o Acórdão nº 1202-001.685 (29/08/2025) registrou expressamente que, “diferentemente da multa de ofício qualificada, a multa por transmissão de declaração de compensação com informações falsas não depende da comprovação do dolo do sujeito passivo”, acrescentando que a contratação de terceiros para realizar revisão/assessoria não exonera o contribuinte da responsabilidade por infrações. Ou seja: para a multa em debate, o núcleo de incidência é a falsidade da informação declarada, aferida objetivamente a partir do conjunto probatório, e não a reconstrução psicológica da intenção do contribuinte nos mesmos moldes de infrações em que o dolo específico é Fl. 430DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 13 elementar. Tanto é assim que o próprio art. 18 da Lei nº 10.833/2003 tem outra previsão de multa para os casos de fraude, sonegação e conluio, qual seja, o parágrafo 4º: § 4º Será também exigida multa isolada sobre o valor total do débito indevidamente compensado quando a compensação for considerada não declarada nas hipóteses do inciso II do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicando-se o percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, duplicado na forma de seu § 1º, quando for o caso. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (destaques meus) Ao remeter ao inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430/96 (75%), com a expressão “duplicado na forma de seu § 1º, quando for o caso” entendo que o §4º previu punição específica em que, no envio de declarações de compensação consideradas não declaradas, há a necessidade de comprovação do dolo subjetivo para a prática de fraude, conluio, ou sonegação, crimes referenciados no § 1º do art. 44 da Lei no 9.430/96, que justificam a qualificação da multa. É dizer: embora se refira a falsidade, conduta que precisa ser identificada e comprovada de alguma forma, a fundamentação legal em que a penalidade dos autos foi motivada não exige, em sua essência jurídica, a comprovação de existência do dolo subjetivo do sujeito passivo na prática da conduta. Diferentemente do §4º, o §2º do art. 18, da Lei nº 10.833/2003 não remete ao § 1º do art. 44 da Lei no 9.430/96, mas ao “percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicado em dobro”. A mesma linha de raciocínio já apareceu no âmbito da 3ª Seção: o Acórdão nº 3301- 014.650 reafirmou o enquadramento próprio da penalidade em questão, inclusive afastando a retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023, que limitou a multa qualificada de ofício do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/96 a 100%. Veja-se, ainda, que não se está a tratar de mero erro formal ou limitação sistêmica no envio da DCOMP, como tentou fazer crer a Contribuinte em sua impugnação original. A situação em análise decorre da inidoneidade do crédito e das incongruências materiais, justamente o que diferencia o caso concreto do Tema 736 de Repercussão Geral. No recurso voluntário, o Contribuinte afirma ter sido vítima de golpe perpetrado por empresa de consultoria contratada, juntando contrato e mensagens trocadas com os golpistas. Não se ignora que tais elementos indiquem ausência de adesão consciente a um esquema criminoso e, nesse plano humano do litígio, a boa-fé subjetiva é um dado que merece registro. Todavia, no campo específico da responsabilidade por infrações tributárias, vigora a regra do art. 136 do CTN, segundo a qual, “salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável.” Além disso, os próprios documentos trazidos pelos Recorrentes em impugnação reforçam o contexto de falsidade das DCOMPs e revelam a vantagem econômica que cercou as compensações: o contrato de assessoria juntado nas fls. 141/148 prevê o pagamento de Fl. 431DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 14 remuneração à empresa de consultoria em 50% do valor dos débitos quitados com os créditos, o que sugere uma quitação com deságio expressivo e economicamente atípico. É dizer, na prática, a Contribuinte principal demonstra ter obtido um desconto de 50% em seus débitos compensados, visto que não aparece nos autos nenhum outro tipo de desembolso feito pela autuada. Essa estrutura negocial não prova, por si, dolo subjetivo dos Recorrentes em fraudar as DCOMPs, nem autoriza juízos morais ou conclusões pela ocorrência de crime sem que se construa o liame subjetivo necessário, mas é um indicador de que a operação se apresentava como benefício extraordinário para a empresa autuada, incompatível com a normalidade das formas lícitas de liquidação de passivos tributários. Em tal cenário, ainda que se admita que o contribuinte tenha sido induzido por terceiros, permanece verdadeiro que ele foi beneficiário direto da extinção de débitos via DCOMPs contendo as informações falsas, transmitidas em seu nome. Em síntese: a alegação de ter sido enganado pode ser relevante para outras esferas (cível/penal/regressiva), mas não elide, no plano administrativo-fiscal, a incidência da multa isolada em debate quando objetivamente comprovada a falsidade do conteúdo declarado. O fato de ter interrompido a utilização do crédito falso quando da descoberta do procedimento tampouco afasta a incidência da multa para os Recorrentes, por razões semelhantes às que já expus acima. De se notar, inclusive, que as informações trazidas pelos próprios Recorrentes no recurso voluntário, permitiriam o enquadramento da multa no §4º do 18 da Lei nº 10.833/2003 citado acima, já que se identificou que o crédito utilizado, em tese, pertencia a terceiros, uma das hipóteses de compensação não declarada prevista no inciso II do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, referenciado no mencionado §4º do 18 da Lei nº 10.833/2003. Veja-se a seguinte cláusula do contrato de assessoria apresentado: CLÁUSULA PRIMEIRA - DO OBJETO O objeto do presente instrumento é a CONSULTORIA TRIBUTÁRIA, para redução de débitos tributários federais da CONTRATANTE já vencidos, por meio de créditos pertencentes à CONTRATANTE e oriundos da ação judicial transitada em julgado em 24/10/2003, sob n° 1.059/57, em favor de CDM CONSULTORIA E DESENVOLVIMENTO DE MINAS LTDA, sociedade empresária limitada, (...). A CONTRATADA possui autorização para comercialização desses créditos para fins de direito. (...) Parágrafo Segundo - O crédito está inscrito junto à Secretaria da Receita Federal do Brasil sob o número do processo administrativo n° (...) 2010-47. (destaques meus) Esses trechos denotam que, além de não existir o saldo negativo indicado nas DCOMPs, o crédito utilizado, ao menos formalmente, pertencia a terceiros. Caso a Fiscalização Fl. 432DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 15 tivesse identificado esses pontos quando da emissão do Despacho Decisório e do Auto de infração de origem, em vez de não homologadas, as compensações poderiam ser consideradas não declaradas e a multa poderia se dar com base no § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96 (constatação de fraude, conluio e sonegação). A primeira consequência prática dessa formatação legal seria o não cabimento de Manifestação de Inconformidade (§13 do art. 74, da Lei nº 9.430/96), de modo que não se obteria a suspensão da exigibilidade automática dos débitos por nenhuma manifestação eventualmente apresentada. No entanto, o esquema utilizado pela empresa de consultoria era claramente arquitetado para afastar esse enquadramento, de modo a garantir ao cliente que, caso houvesse algum questionamento do procedimento, ainda seria cabível uma defesa para suspender a cobrança, o que permitiria ao contribuinte continuar emitindo suas certidões de regularidade fiscal, em razão da suspensão da exigibilidade dos débitos. É por esse motivo que se vendia um crédito supostamente pertencente a terceiros, por meio de cessão, tal como demonstrou o contrato juntado pelos Recorrentes, mas, em razão da impossibilidade de se compensarem débitos junto à RFB com créditos de terceiros, as compensações eram sistemicamente viabilizadas pela criação de saldos negativos inexistentes, declarados nas DCOMPs em questão. E essa foi justamente a explicação dada nas Impugnações apresentadas: o crédito tinha origem em operação de cessão, mas apenas foi indicado como saldo negativo na DCOMP por ausência de campo específico para esse tipo de crédito. Ora, neste caso, a ausência de tal campo específico decorre justamente da proibição legal de se realizar esse tipo de compensação. Ou seja, além de fabricar créditos falsos, a empresa de consultoria vendia os créditos na forma de cessão, convencendo as vítimas de que esses créditos de terceiros poderiam compensar seus débitos federais. O organograma a seguir ilustra o esquema perpetrado pelos consultores: A segunda consequência prática de se considerarem as compensações não declaradas seria a necessidade de comprovação, pelo fisco, de dolo subjetivo da autuada na Fl. 433DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 16 prática de um dos crimes referenciados no § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96 para qualificação da multa isolada, o que demandaria detalhamento e aprofundamento do trabalho fiscal. De se lembrar que, embora tenha se configurado a falsidade das DCOMPs, a autoridade fiscal não caracterizou a tipificação penal necessária para a configuração de qualquer crime tributário. Vale mencionar que a autuação de origem se deu no contexto da "Operação Saldo Negativo" noticiada pelos próprios Recorrentes (fls. 318/330), em que a polícia Federal prendeu 25 pessoas relacionadas ao esquema de compensações com créditos falsos, articulado pela Platinum Consultoria, empresa contratada pela Contribuinte ora autuada1, mas a caracterização jurídica do cometimento de crime pela Contribuinte não ocorreu, o que também afasta a multa do §4º do 18 da Lei nº 10.833/2003, aventada apenas para fins didáticos a respeito do esquema de fraude que foi o pano de fundo da autuação. Toda essa fundamentação serve para fixar, portanto, as seguintes premissas:  A multa em exame decorre do art. 18, §2º, da Lei nº 10.833/2003, cujo foco recai sobre a falsidade objetiva do conteúdo declarado na DCOMP, distinguindo-se de outras hipóteses sancionatórias em que o legislador exige configuração de fraude/sonegação/conluio, com demonstração clara de dolo subjetivo do agente.  Ainda que a fundamentação fiscal não explore o dolo subjetivo dos Recorrentes, o acervo processual densifica o conjunto probatório sobre a falsidade objetiva das DCOMPs, atraindo a aplicação do referido art. 18.  A tese de “golpe” e a explicação do modus operandi das consultorias criminosas explicam o contexto fático e devem ser consideradas com intuito de reconhecer a vulnerabilidade de pequenos empresários diante desse tipo de prática que ainda vem sendo aplicada. É notório que muitos contribuintes não detêm conhecimento técnico nem conta com mão de obra qualificada para escrutinar a engenharia fiscal utilizada por consultorias aparentemente especializadas.  Essa boa-fé subjetiva, contudo, não é relevante para excluir a multa pelo envio de DCOMP com informações falsas. A delegação da execução do procedimento a terceiros e o desconhecimento dos mecanismos declaratórios empregados não afastam a responsabilidade do sujeito passivo pelas informações prestadas em seu nome perante a Administração Tributária, ainda mais considerando elevado desconto obtido na quitação dos débitos, caso o esquema não fosse desvelado.  A reconstrução do contexto, dos papéis e da dinâmica da operação fornece as bases fáticas necessárias para, em tópico próprio, avaliar a responsabilização pessoal dos administradores da Contribuinte principal, com critérios distintos dos aplicáveis à pessoa jurídica na manutenção da multa isolada. 1 https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2019/11/05/veja-como-funcionava-o-esquema-desarticulado-na- operacao-saldo-negativo.ghtml Fl. 434DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 17 Por fim, quanto às alegações de confisco, desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa, nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não possui competência para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade das normas que serviram de fundamento para o lançamento. Isso se confirma também no art. 26-A do Decreto nº 70.235/72, que assim dispõe: Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Vale relembrar que o Tema 863 de Repercussão Geral, que limitou a multa de 150% se verificada a existência de sonegação, fraude ou conluio a 100%, analisou a constitucionalidade do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/96, não sendo permitido a este Conselho aplicar o entendimento por analogia, justamente em função da limitação regimental mencionada. Diante disso, portanto, entendo caracterizada, para os fins do art. 18 da Lei nº 10.833/2003, a falsidade das Declarações de Compensação, sendo de rigor a manutenção da multa isolada qualificada (150%). 2.4 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS SÓCIOS Relembrando o contexto de responsabilização solidária do auto de infração analisado, a autoridade fiscal incluiu na cobrança, além das empresas de consultoria envolvida e seus responsáveis, os dois sócios da Contribuinte autuada, sob a seguinte fundamentação legal: Por se tratar de obrigações tributárias decorrentes de atos praticados com a infração prevista pela Lei nº 8.137, de 1990, a qual dispõe no inciso I, de seu art. 2º, que a declaração falsa, com o intuito de se eximir, total ou parcialmente, de pagamento de tributo, configura crime contra a ordem tributária, o sócio da empresa, EDSON GUISSAN MAEDA, cadastrado no CPF sob o nº (...), responde pessoalmente pelos créditos tributários nos termos dos arts. 124, I, e 135, III, ambos do Código Tributário Nacional. Por se tratar de obrigações tributárias decorrentes de atos praticados com a infração prevista pela Lei nº 8.137, de 1990, a qual dispõe no inciso I, de seu art. 2º, que a declaração falsa, com o intuito de se eximir, total ou parcialmente, de pagamento de tributo, configura crime contra a ordem tributária, o sócio da empresa, EMERSON YOSHINOBU MAEDA, cadastrado no CPF sob o nº (...), responde pessoalmente pelos créditos tributários nos termos dos arts. 124, I, e 135, III, ambos do Código Tributário Nacional. No Recurso Voluntário, os Recorrentes questionam sua responsabilização por dois motivos: ausência de demonstração de interesse comum no fato gerador da multa (foram vítimas de golpe, logo, não contribuíram para infração realizada) e ausência de dolo na conduta penalizada. Dito isso, penso que a fundamentação desenvolvida no tópico anterior é suficiente para dar provimento ao recurso neste ponto. Muito embora não seja possível afastar a Fl. 435DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 18 responsabilidade da Contribuinte pelo envio de informações falsas em DCOMP, a fiscalização não estabeleceu o liame subjetivo e individual entre a conduta penalizada e a ação dos sócios, de modo a justificar sua responsabilização pelo crime tributário supostamente cometido. Para corroborar essa conclusão, trago breves considerações jurídicas a respeito dos institutos de responsabilidade solidária que embasaram a autuação (art. 124, I e 135, III, do CTN). A responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN é regra de sujeição passiva que permite, desde que preenchidos requisitos estritos, exigir o crédito tributário de mais de um sujeito, sem benefício de ordem, quando haja interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Assim, o art. 124 do CTN é compreendido como espécie de responsabilidade tributária, apta a incluir terceiro no polo passivo, não por mera conveniência, mas pela constatação, em concreto, de vínculo jurídico-material com o fato gerador (ou com a relação jurídica a ele vinculada) e, sobretudo, de nexo causal entre a conduta e o resultado lesivo ao Fisco, em hipóteses de ilicitudes tributárias. A premissa metodológica que deve orientar a aplicação do art. 124, I, portanto, precisa conciliar dois vetores: (i) efetividade no enfrentamento de estruturas artificiais criadas para ocultar os reais operadores e beneficiários; e (ii) contenção jurídica para evitar a banalização do “interesse comum”, repelindo responsabilizações por simples proximidade societária, profissional ou econômica. Essa ponderação, em termos de técnica de imputação, exige motivação individualizada, coerência entre fatos e norma aplicada, e distribuição adequada do ônus probatório, com recusa a generalidades. O “interesse comum” de que trata o art. 124, I, não se confunde com afinidade de interesses empresariais, com vínculos de mercado, com pertencimento a grupo econômico formal, ou com mera vantagem indireta. O conceito exige que o terceiro tenha interesse na própria situação fática/jurídica que dá nascimento ao tributo, vale dizer, participação direta (isolada ou conjunta) na conformação do fato gerador ou atuação ativa em relação ao ato, fato ou negócio que deu origem ao fato jurídico tributário. Essa linha é compatível com a compreensão de que não há solidariedade tributária objetiva e que a interdependência societária ou o benefício financeiro, por si só, não bastam. A distinção é decisiva: interesse meramente econômico configura vantagem remota, expectativa de lucro, sinergias, repercussões financeiras, conveniência empresarial. Poder ser indício para a responsabilização em alguns casos, mas não é critério suficiente. Já o interesse comum previsto na norma pode ser interpretado como a participação na realização do fato imponível (ou na sua manipulação ilícita), com presença de vínculo causal e materialidade demonstrada. Ou seja, não se restringe à exigência de que todos os responsáveis se encontrem no mesmo polo passivo da relação jurídica de fundo, por exemplo. Nessa linha de interpretação, o “interesse comum” se evidencia, em regra, quando mais de uma pessoa: (i) atua para realizar o fato gerador; (ii) beneficia-se diretamente de sua não Fl. 436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 19 realização; ou (iii) em hipóteses de fraude/conluio ou outro crime tributário, ajusta condutas para sonegar, ocultar, simular, interpor pessoas ou desvirtuar negócios, de modo que o fato jurídico tributário se apresente, externamente, deformado ou artificial. Neste ponto, valho-me do Parecer Normativo Cosit/RFB nº 04/18, que expressa o atual entendimento da Receita Federal, com o qual me alinho. Vejamos: 10. Cabe observar que a responsabilização tributária pelo inciso I do art. 124 do CTN (doravante simplesmente denominada "responsabilidade solidária") não pode se dar de forma indiscriminada, sem uma delimitação clara do seu alcance. Ela não se confunde com a responsabilidade tributária de que trata o art. 135 do CTN, não obstante em algumas situações poderem estar presentes os elementos de ambas as responsabilidades. Seu signo distintivo é o interesse comum, e é por ele que a presente análise se inicia. (...) 13. Voltando-se à responsabilidade solidária, o interesse comum ocorre no fato ou na relação jurídica vinculada ao fato gerador do tributo. É responsável solidário tanto quem atua de forma direta, realizando individual ou conjuntamente com outras pessoas atos que resultam na situação que constitui o fato gerador, como o que esteja em relação ativa com o ato, fato ou negócio que deu origem ao fato jurídico tributário mediante cometimento de atos ilícitos que o manipularam. Mesmo nesta última hipótese está configurada a situação que constitui o fato gerador, ainda que de forma indireta. 14. Para se chegar a essa conclusão, deve-se levar em conta que a interpretação do inciso I do art. 124 do CTN não pode estar dissociada do princípio da capacidade contributiva contida no § 1º do art. 145 da Constituição Federal (CF), o qual deve ser aplicado pelo seu duplo aspecto: (i) substantivo, em que a graduação do caráter pessoal do imposto ocorre "segundo a capacidade econômica"; (ii) adjetivo, na medida em que é facultado à administração tributária "identificar o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte". (...) 15. Apesar de neste parecer concordar-se com a linha da consulente no sentido de ser possível a responsabilização pelo inciso I do art. 124 do CTN para situação de ilícitos, em geral, ele não implica que qualquer pessoa possa ser responsabilizada. Esta deve ter vínculo com o ilícito e com a pessoa do contribuinte ou do responsável por substituição, comprovando-se o nexo causal em sua participação comissiva ou omissiva, mas consciente, na configuração do ato ilícito com o resultado prejudicial ao Fisco dele advindo. 16. Não é qualquer interesse comum que pode ensejar a aplicação do disposto no inciso I do art. 124 do CTN. O interesse deve ser no fato ou na relação jurídica relacionada ao fato jurídico tributário, como visto acima. Assim, o mero interesse econômico, sem comprovação do vínculo com o fato jurídico tributário (incluídos os atos ilícitos a ele vinculados) não pode caracterizar a Fl. 437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 20 responsabilização solidária, não obstante ser indício da concorrência do interesse comum daquela pessoa no cometimento do ilícito. Em suma, pessoas físicas ou jurídicas “ligadas” às empresas envolvidas no esquema de fraude podem, em tese, ser responsabilizadas solidariamente na autuação dirigida ao contribuinte, desde que se demonstre que tais agentes: a) participaram conscientemente do arranjo fraudulento (dolo); b) mantiveram relação ativa com o ato/negócio que originou o fato jurídico tributário manipulado; e c) mantiveram nexo causal com o resultado (redução indevida do tributo), indo além de mera atuação regular. Por isso, não basta “ser ligado” à Contribuinte de transmitiu as declarações falsas – transpondo o raciocínio ao caso concreto; é necessário ser partícipe do acontecimento tributário criminoso. Afasta-se, portanto, a responsabilidade solidária dos Srs. Edson e Emerson firmada com base no art. 124, I, do CTN. Passando ao art. 135, III, do CTN, tem-se que responsabilização de um sócio administrador pela obrigação tributária da empresa exige a existência de prova consistente e detalhada que, além de individualizar sua ação, evidencie o ato ilícito praticado. Somente nessa hipótese se admite atingir o patrimônio pessoal do gestor para satisfazer o crédito tributário. Para reforçar esta fundamentação, recorro à doutrina de Karoline Lins Câmara Marinho, que estudou a Responsabilidade Tributária dos Sócios Administradores da Sociedade Limitada como Decorrência do Jus Puniendi Estatal, título de sua tese de doutorado publicada em 2018. A autora discorre que a reponsabilidade dos sócios nesse tipo de sociedade está limitada à proporção de suas cotas, exceto em caso de prática de ilícitos. Citando José Augusto Delgado, ela expõe que o administrador não se exime de responder por danos produzidos ao patrimônio da sociedade ou a terceiros, quando atuar extrapolando as atribuições outorgadas pelo contrato social. No campo tributário, não basta ser sócio para ter responsabilidade atribuída em relação a créditos da empresa. É preciso que seja comprovada a ilicitude da sua conduta que tenha causado o não cumprimento da obrigação tributária. Mas como essa ilicitude é verificada e comprovada no caso do art. 135, III, do CTN? Para responder essa pergunta, Karoline Marinho identifica quatro elementos hábeis a autorizar a responsabilização do sócio no caso do art. 135, III, quais sejam: Fl. 438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 21 a) Elemento pessoal – administradores, diretores, gerentes ou representantes, não necessariamente sócios. Ou seja, quem tem o comando da sociedade, que efetivamente toma decisões de gestão e administração, não bastando, portanto, ser sócio; b) Elemento circunstancial – o mero inadimplemento não configura a responsabilidade pessoal do administrador. É preciso que o fisco demonstre atuação com (i) excesso de poder, quando o agente, detentor dos poderes de direção que decorrem de suas funções, excedeu esses limites e os utilizou para perseguir objetivo diverso daquele estipulado no objeto do contrato social; ou (ii) infração à lei, que é o descumprimento das normas que regem a atuação do administrador, como ocorre em hipóteses de ocultação de receitas, adulteração de documentos ou criação de despesas fictícias. c) Elemento temporal – o administrador responde apenas por condutas exercidas durante o exercício de sua posição como tal; d) Elemento subjetivo – é necessária a comprovação do dolo na conduta. “Será atribuída responsabilidade pelos créditos tributários mesmo quando, embora a sociedade possua recursos para adimpli-los, tenham agido de má-fé, com excesso de poderes e em infração à lei ou contrato social, não os recolhendo aos cofres públicos.” Assim, por tudo que já se expendeu até aqui, percebe-se não ser possível manter a responsabilidade solidária dos Srs. Edson e Emerson também por não se configurarem os requisitos do art. 135, III, do CTN. 3 DISPOSITIVO Diante do exposto, voto no sentido de acolher os embargos da Unidade Preparadora, com efeitos infringentes, para, sanando a inexatidão material constante do Acórdão nº 1201-006.680, dar provimento parcial ao recurso voluntário a fim de excluir a responsabilidade solidária dos srs. Edson Guissan Maeda e Emerson Yoshinobu Maeda. Assinado Digitalmente Isabelle Resende Alves Rocha DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Lucas Issa Halah Divirjo da eminente Relatora por entender que, comprovada a condição de vítima do Contribuinte, a responsabilidade em questão é exclusiva de quem a vitimou. Fl. 439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 22 A responsabilização pessoal do agente por infrações merece considerações teóricas introdutórias que já teci no âmbito acadêmico, e que por isso transcrevo2. 3.2.1 O interesse comum e o escopo do art. 124, I do CTN A imputação da responsabilidade tributária solidária com fundamento no art. 124, I do CTN, frequentemente debatida em casos de tentativa de responsabilização de sociedades integrantes do mesmo grupo econômico e sócios de fato, vem sendo enfrentada sob três principais vertentes na jurisprudência do CARF: (i) a que entende bastar o interesse econômico, (ii) a que demanda o interesse jurídico, e (iii) a vertente intermediária, pela qual o interesse não pode ser meramente econômico, nem precisa ser jurídico, devendo haver alguma participação direta em ato que visa a adulterar a obrigação tributária. Todas possuem fundamentos factíveis e derivam da interpretação da expressão “interesse comum na situação que caracteriza o fato gerador”, utilizada pelo inciso I do art. 124. A primeira vertente, para a qual o interesse referido pelo art. 124, I do CTN é econômico, é recorrentemente encampada pelas autoridades fiscais para fundamentar a responsabilização de pessoas jurídicas integrantes do mesmo grupo econômico e sócios que, em virtude da economia tributária, auferiram rendimentos distribuídos pelo contribuinte . Trata-se, contudo, de vertente não mais sustentada pela própria Receita Federal, ao menos a partir da edição do Parecer Normativo Cosit/RFB nº 04/18, que dispõe sobre a responsabilidade tributária prevista no artigo 124, inciso I do CTN. A segunda vertente, construída em oposição à primeira, defende que o interesse comum ser deve ser jurídico, colocando o responsável e o contribuinte no mesmo polo do ato que consubstancia o fato gerador, de maneira tal que seja possível identificar uma consciência de grupo com os demais sujeitos passivos da obrigação tributária, que devem todos atender ao previsto no art. 128 do CTN . Na lição de Luís Eduardo Schoueri, o interesse em comum só é concebido entre pessoas que se encontram no mesmo polo da situação que constitui o fato jurídico tributário , como ocorre com os condôminos relativamente ao IPTU . Distanciando-se neste ponto de Neder, Schoueri vale-se de uma leitura que considera relevante a estrutura do Código Tributário Nacional, notando que o art. 124 encontra-se em sessão concebida para tratar do regime de responsabilidade, e não para eleger os potenciais responsáveis, de maneira que o art. 124, I do CTN se prestaria a fixar o regime de responsabilidade solidária entre aqueles que já se encontram na condição de sujeitos passivos. 2 EVARISTO PINTO, Alexandre. CHAMAS Henrique Nimer. HALAH, Lucas Issa. A responsabilidade cível e tributária dos cooperados e diretores das sociedades cooperativas. In: FORNECETE, Rodrigo. Peixoto, Marcelo Magalhães. Tributação das cooperativas: impactos da reforma tributária. São Paulo: MP Editora, 2025. Fl. 440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 23 Partidário desta mesma vertente, Luciano Amaro enfatiza a posição antagônica, e não comum, de vendedor e comprador na situação que constitui o fato gerador de tributos incidentes sobre a respectiva operação. Para o autor, eventual conivência ou interesse do comprador com, por exemplo, a subavaliação da operação que beneficie o vendedor, não caracterizaria interesse comum do comprador no fato jurídico tributário . Esta vertente tem sido encampada no CARF com alguma recorrência, como ilustra o Acórdão nº 1402-002.459, de 2017, de relatoria do Conselheiro Leonardo de Andrade Couto. O Superior Tributal de Justiça, intérprete Autêntico do art. 124, I do Código Tributário Nacional, também vem confirmando de maneira massiva o caráter jurídico de interesse comum, restringindo o alcance da norma contida no art. 124, I apenas às pessoas que se encontram no mesmo polo do contribuinte , ainda que por vezes o Tribunal trate a solidariedade como forma de responsabilidade , conforme aponta estudo elaborado por Caio Takano . Também no Supremo Tribunal Federal há indícios de que seja esta a visão preponderante. Em raro precedente sobre o tema , a Relatora Ministra Ellen Gracie expressou que a impossibilidade de o legislador ordinário, ao interpretar o art. 124, II do CTN, criar hipóteses de responsabilidade em matéria tributária sem a observância dos requisitos exigidos pelo art. 128 do CTN, e reconheceu que as normas gerais de responsabilidade estão previstas nos arts. 134 e 135 do CTN. Reforçando essa posição cerca de uma década depois, ao julgar a constitucionalidade da instituição de obrigação solidária de contadores por créditos tributários instituída por lei estadual , o Plenário do Supremo Tribunal Federal decidiu que a lei estadual invadira a competência da lei complementar na matéria, a qual, para o Relator, se encontraria cingida aos artigos 135 e 134 do CTN, contrapondo-se esta visão à que vislumbra no art. 124 hipótese autônoma de atribuição de responsabilidade . Dessa maneira, mesmo sem enfrentar diretamente o conteúdo da expressão interesse comum o Supremo Tribunal Federal parece ter tomado como premissa que, em primeiro lugar, seria preciso verificar se há sujeição passiva, nos termos dos artigos 134 e 135 do CTN, para só então avaliar se o regime de responsabilidade é solidário, por aplicação do art. 124, I do CTN . Já a terceira vertente representa a atual posição oficial da Receita Federal, ao menos a partir da edição do Parecer Normativo Cosit/RFB nº 04/18. Por meio do parecer, a Cosit trouxe importantes delineamentos acerca desse tema tratado de maneira pouco minudente no Código Tributário Nacional, fixando o entendimento pelo qual a expressão “interesse comum” alcança não somente o ato lícito que gerou a obrigação tributária, mas também o ato ilícito que a desfigurou. O parecer estabelece a incorreção tanto da primeira quanto da segunda vertentes, esclarecendo que, em sua visão ambas estariam erradas e tentariam interpretar um conceito indeterminado a partir de outro . Fl. 441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 24 Extrai-se do parecer que, na visão das autoridades fiscais: (i) o responsável deve ter vínculo – de fato ou de direito – com o fato gerador ou com o sujeito passivo que o praticou; (ii) o exigido “interesse comum” deve ser no fato ou na relação jurídica relacionada ao fato jurídico tributário, não bastando o mero proveito econômico; (iii) ensejam a responsabilidade o cometimento de ato ilícito com abuso de personalidade jurídica envolvendo grupo econômico irregular, evasão fiscal ou planejamento tributário abusivo; e (iv) o ato ilícito tem de ser praticado com dolo. Identifica-se com isso o interesse comum como uma situação fática decorrente de ato comissivo ou omissivo doloso pelo qual a pessoa responsabilizada contribua com a infração à legislação tributária, ainda que não se encontre no mesmo polo jurídico da relação que deu ensejo ao tributo. Por esta visão, o adquirente de bem imóvel que aceita lavrar a escritura por valor inferior ao de mercado contribuiria com a sonegação e por conseguinte responderia solidariamente pela obrigação tributária, nos termos do art. 124, I do CTN, ainda que não seja contribuinte do tributo sonegado. A posição parece em linha com a doutrina de Maria Rita Ferragut , para quem o art. 124, I dispensa que os sujeitos passivos se encontrem no mesmo polo da relação jurídica de direito privado que constitui o fato gerador, independentemente de previsão expressa em lei (art. 124, II). Essa parece ter sido a vertente encampada no Acórdão CARF nº 9303-015.104, de 2024. Embora o voto condutor do Acórdão mencione bastar o interesse econômico, ao expor no que consistiria este interesse no caso concreto, materialmente relata a ocorrência das hipóteses elencadas pelo Parecer Normativo Cosit como representativas do interesse na relação jurídica relacionada ao fato jurídico tributário. 3.2.1.1 A responsabilização de sócios e administradores e o art. 135 do CTN A responsabilização de sócios e administradores, por sua vez, costuma ser atribuída por subsunção às hipóteses do artigo 135, incisos I e III do CTN, respectivamente, o que desafia a nada trivial compreensão da interface entre os artigos 134, 135 e 137 desse diploma. A dicção do art. 134 do CTN permite com objetividade afirmar trata-se de responsabilidade subsidiária, embora o caput use o termo solidária, já que as pessoas lá elencadas respondem apenas “nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte”. Além disso, a responsabilidade do art. 134 é tão somente pelos tributos e pela multa moratória, o que justifica inexigência de dolo. A responsabilidade fundada no art. 135, por sua vez, exige a comprovação do dolo específico no cometimento de um ilícito consistente na prática de sonegação, fraude ou conluio, conforme corrente majoritária na Doutrina e na jurisprudência administrativa, o que é consistente com sua abrangência que inclui as multas Fl. 442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 25 punitivas e afasta o benefício de ordem do art. 134. De outra banda, bastaria o inadimplemento da obrigação tributária para a responsabilização do administrador, entendimento contrário ao consolidado na Súmula nº 430 do STJ, editada a partir do julgamento do REsp nº 1.101.728/SP sob a sistemática dos Recursos Repetitivos, veiculada no Tema nº 97 . A responsabilidade de administradores costuma vir qualificada no inciso III do art. 135, sendo que a responsabilização de sócios não administradores é usualmente enquadrada no inciso I do art. 135 do CTN, como decorrência da menção feita às “pessoas referidas no artigo anterior” (no art. 134 do CTN, especificamente em seu inciso VII que menciona os sócios). A remissão, contudo, não admite a segmentação dos componentes do referido inciso valorizando somente as pessoas mencionadas no art. 134, independentemente das situações especificadoras que acompanham sua nomeação. Esta segmentação resultaria na esdrúxula hipótese de responsabilização dos pais pelos tributos devidos pelos filhos maiores, não somente pelos filhos menores. Sob esta lógica, o inciso I do art. 135 não permite a responsabilização dos sócios em outros tipos de sociedades que não as sociedades de pessoas. Sobre o dolo específico exigido pelo dispositivo, é necessária a demonstração de que o sócio ou administrador agiu em nome da sociedade e em favor da sociedade, mas contrariando as disposições de lei, bem como as disposições lícitas do contrato social e de estatutos sociais. Neste ponto reside sua distinção em relação ao art. 137, figura mais rara na jurisprudência, talvez devido ao elevado ônus probatório que demanda. O dispositivo trata da situação em que o agente atua “em nome e por conta do terceiro, mas, ardilosamente, fugindo aos deveres de sua função, age no seu próprio interesse . Na esfera administrativa Federal, localizam-se acórdãos reconhecendo sua aplicação em situações nas quais o agente atua contrariamente aos interesses do mandante (e.g. Acórdãos 2402-005.519, de 2016 e 301-31.603 de 2004), posição não consolidada nem majoritária, conforme ilustra o Acórdão nº 1201-006.931, de 2024. Mais raro é o enfrentamento do tema na esfera judicial. Pesquisa no âmbito do STJ, conduzida por Igor Mauler Santiago e Marco Antonio Cintra Gouveia , identificou apenas cinco julgados sobre o art. 137 do CTN, sendo um anulando o acórdão de segundo grau que não o analisara e os demais afastando a sua incidência no caso concreto . A dificuldade em localizar julgados que dão concretude a sua aplicação não parece refletir a profusão de operações policiais que desmascaram empresas de consultoria que, valendo-se de estudo falacioso e de seguro de responsabilidade Fl. 443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 26 de nunca renovado, negociam com deságio compatível com o mercado créditos inexistentes ou inaproveitáveis (e.g. a Operação Fake Money ). Outra questão de relevo diz respeito a sua abrangência. A Doutrina tradicional referenda que esta hipótese de responsabilização torna o agente responsável por todo o crédito tributário frente ao Estado, na medida em que atuou cometendo ilícitos em benefício próprio ou de terceiros, em prejuízo da sociedade . Há, por outro lado, quem entenda tratar-se de responsabilidade pelas multas punitivas, em interpretação da expressão “quanto às infrações”, repetida em todos os seus incisos, visão consistente com a inviabilidade do Fisco desvendar de antemão o agir do mandante contra os interesses sociais e ser onerado por descumprimento de tais avenças particulares na atuação do agente (art. 123 do CTN). Em virtude de todas as controvérsias relacionadas à aplicação dos artigos 134, 135 e 137 do CTN, entendemos que a hipótese dos incisos I e II do artigo 135 são as comumente observadas na jurisprudência administrativa e judicial, exigindo a comprovação do dolo específico no cometimento de um ilícito consistente na prática de sonegação, fraude ou conluio, em atividades praticadas pelas pessoas elencadas no texto legal, abrangendo em regra os mandatários, prepostos e empregados, além dos diretores, gerentes ou representantes das sociedades cooperativas. Sob estas premissas teóricas, entendo que o caso em tela se amolda ao art. 137 do Código Tributário Nacional, na medida em que há elementos de convicção suficientes nos autos a demonstrar que o Contribuinte e seus sócios foram vítimas de engodo praticado contra a sociedade por seus prepostos. Para lançar contra a sociedade e os sócios a multa capitulada no art. 18, caput e § 2°, da Lei n°10.833/03, com redação dada pela Lei n°11.488/07, a autoridade autuante deveria demonstrar cabalmente o dolo específico destes na transmissão de declaração de compensação sabidamente falsa, caso contrário, estaríamos diante da instituição de multa de 150% sobre a mera transmissão de compensação não homologada por ausência do direito creditório, em um momento em que o STF já julgou inconstitucional a multa prevista para esta situação, de 50% e também limitou — ainda que tratando do art. 44 da Lei nº 9.430/96 — as multas tributárias qualificadas em razão de sonegação, fraude ou conluio a 100% do débito tributário correspondente, que no caso da compensação é representada pelo débito que se pretendeu compensar (Tema 863 da Repercussão Geral). A falsidade distingue-se do mero equívoco pela comprovação justamente do intento doloso em obter a extinção de crédito tributário mediante declaração de compensação sabendo-se não ser titular do direito creditório, nisso consiste o elemento distintivo do falso extraído do tipo previsto no art. 299 do Código Penal, que inadmite a modalidade culposa, Fl. 444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.459 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16692.720355/2019-26 27 corroborando a impossibilidade de se responsabilizar o agente por culpa em quaisquer de suas modalidades. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário, por entender que a responsabilidade, sendo pessoal do agente que, em prática de engodo, vitimou a sociedade e seus sócios, é o único sujeito passivo possível in casu. Assinado Digitalmente Conselheiro Lucas Issa Halah Fl. 445DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 EMBARGOS 2 RECURSO VOLUNTÁRIO 2.1 Relatório 2.2 ADMISSIBILIDADE 2.3 Multa isolada em razão de não-homologação da compensação quando se comprove falsidade da declaração – 150% 2.4 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS SÓCIOS 3 DISPOSITIVO Declaração de Voto

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Numero do processo: 10665.722787/2012-46
Turma: Quarta Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 RECONHECIMENTO DE ELEMENTOS CARACTERIZADORES DO SEGURADO OBRIGATÓRIO (EMPREGADO). EXERCÍCIO DO PODER DE POLÍCIA PELA AUTORIDADE FAZENDÁRIA. PRELIMINAR DE NULIDADE REJEITADA. No exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos, desde que de forma fundamentada. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. CONTRATAÇÃO DE PESSOAS JURÍDICAS INTERPOSTAS. PEJOTIZAÇÃO. EXISTÊNCIA. TERCEIRIZAÇÃO DE ATIVIDADE-FIM. POSSIBILIDADE. TEMA Nº 725 DO STF. É lícita a terceirização entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresas envolvidas, sendo possível terceirizar a atividade-fim sem que essa circunstância, por si só, gere vínculo de segurado empregado. REQUISITOS QUALIFICAÇÃO SEGURADO OBRIGATÓRIO. ÔNUS DA FISCALIZAÇÃO. Para que seja reclassificado o negócio pactuado, de modo a reconhecer ser o indivíduo segurado obrigatório da Previdência Social, necessário seja comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de habitualidade, subordinação, pessoalidade e remuneração - ex vi da al. “a” do inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/81. A ausência de demonstração pela autoridade fiscalizadora dos requisitos inarredáveis e cumulativos previstos na legislação previdenciária faz com que seja necessário o afastamento da autuação.
Numero da decisão: 2004-000.364
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitadae, no mérito, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores: Cleberson Alex Friess (Substituto integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Liziane Angelotti Meira (Presidente).
Nome do relator: LUDMILA MARA MONTEIRO DE OLIVEIRA

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EXERCÍCIO DO PODER DE POLÍCIA PELA AUTORIDADE FAZENDÁRIA. PRELIMINAR DE NULIDADE REJEITADA. No exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos, desde que de forma fundamentada. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. CONTRATAÇÃO DE PESSOAS JURÍDICAS INTERPOSTAS. PEJOTIZAÇÃO. EXISTÊNCIA. TERCEIRIZAÇÃO DE ATIVIDADE- FIM. POSSIBILIDADE. TEMA Nº 725 DO STF. É lícita a terceirização entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresas envolvidas, sendo possível terceirizar a atividade-fim sem que essa circunstância, por si só, gere vínculo de segurado empregado. REQUISITOS QUALIFICAÇÃO SEGURADO OBRIGATÓRIO. ÔNUS DA FISCALIZAÇÃO. Para que seja reclassificado o negócio pactuado, de modo a reconhecer ser o indivíduo segurado obrigatório da Previdência Social, necessário seja comprovada pela autoridade fiscalizadora a existência de habitualidade, subordinação, pessoalidade e remuneração - ex vi da al. “a” do inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/81. A ausência de demonstração pela autoridade fiscalizadora dos requisitos inarredáveis e cumulativos previstos na legislação previdenciária faz com que seja necessário o afastamento da autuação. ACÓRDÃO Fl. 526DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores: Cleberson Alex Friess (Substituto integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Liziane Angelotti Meira (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto por ALVOAR LACTEOS S/A contra o acórdão, proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (DRJ/SPO), que julgou improcedente a impugnação, mantendo-se a exigência dos seguintes lançamentos: DEBCAD nº 51.029.724-2: referente às contribuições previdenciárias devidas à Seguridade Social, parte da empresa, e para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho (GILRAT), incidente sobre os valores pagos, devidos ou creditados aos segurados que prestaram serviços à Autuada, no montante de R$ 95.368,91 (noventa e cinco mil, trezentos e sessenta e oito reais e noventa e um centavos), incluindo juros e multa, abrangendo as competências 01/2009 a 12/2009, consolidado em 10/12/2012 DEBCAD nº 51.029.725-0: referente às contribuições destinadas aos Terceiros (Salário Educação e INCRA Especial), incidentes sobre os valores pagos, devidos ou creditados aos segurados que prestaram serviços à Autuada, no montante de R$ 22.541,76 ( vinte e dois mil, quinhentos e quarenta e um reais e setenta e seis centavos), incluindo juros e multa, abrangendo as competências 01/2009 a 12/2009, consolidado em 10/12/2012. Embora conste no dispositivo ter sido considerada improcedente, em verdade, apenas parcialmente conhecida a impugnação, uma vez que com relação às empresas – Distribuidora ASL da Silva & Cia, René Guerra Advogados Associados, ISOMON, DATAFLOW, AW GONÇALVES PRESTADORA DE SERVIÇOS LTDA e REFRIGERATION – as alegações trazidas pelo Autuado são Fl. 527DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 3 equivocadas, diante do fato de que a Fiscalização não caracterizou os serviços prestados pelos segurados das mesmas como empregados (art. 12, I, “a” da Lei 8.212/91), muito menos afirmou que se tratavam de empresas interpostas e/ou utilizou notas fiscais de prestação de serviço para compor a base de cálculo dos autos (...). (sublinhas deste voto) As peças de defesa apresentadas, ambas de idêntico teor – vide f. 281/ss e f. 367/ss – apresentaram, em apertadíssima síntese, as seguintes alegações: i) a ausência de caracterização de “vínculo empregatício”, discorrendo sobre cada um dos que teriam sido configurados; e, ii) a impossibilidade de caracterização de “vínculos empregatícios” pela autoridade fazendária. Subsidiariamente, pretendeu fossem deduzidas as contribuições recolhidas pelas pessoas jurídicas, cujo negócio jurídico veio a ser reclassificado. Requerida ainda a intimação de todos os atos em nome de seus patronos, sob pena de nulidade. Ao apreciar os motivos de insurgência, prolatado o acórdão assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 INTIMAÇÃO. ENDEREÇO. PATRONO DA CAUSA. PREVISÃO NORMATIVA. AUSÊNCIA. A intimação dos atos processuais por via postal deve sempre ser dirigida para o domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, porquanto na legislação que rege o processo administrativo federal não há disposição que autorize o uso do endereço do patrono da causa para esse fim. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 VÍNCULO EMPREGATÍCIO. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. DESCONSIDERAÇÃO. ART. 12, I, “a” DA LEI 8.212/91. Quando o sujeito passivo mantém formalmente contratos com empresas prestadoras de serviços mas, de fato, tais serviços são executados pelos titulares dessas prestadoras em condições que caracterizam o vínculo empregatício, cabe a Fiscalização desconsiderar tais contratos, com enquadramento desses trabalhadores como segurados empregados. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA.PARTE PATRONAL. Tendo a empresa remunerado seus empregados e contribuintes individuais com verbas integrantes do salário-de-contribuição previdenciário, torna-se obrigada ao recolhimento das contribuições, incidente sobre tais verbas, previstas no art. 22, I, II e III, da Lei 8.212/91. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 Fl. 528DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 4 CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A TERCEIROS. Em decorrência dos artigos 2º e 3º da Lei nº 11.457/2007 são legítimas as contribuições destinadas a Terceiras Entidades incidentes sobre o salário de contribuição definido pelo art. 28 da Lei 8.212/91. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido (f. 457) Cientificado da decisão da DRJ em 15 de maio de 2019 (f. 492), apresentou, em 12 de junho de 2019 (f. 494), recurso voluntário (f. 496/520), arguindo essencialmente as mesmas matérias de defesa, decotando às alheias à autuação, não conhecidas pela Turma a quo, embora antes trazidas na impugnação. Acrescenta, apenas em grau recursal, que [t]odas as empresas que embasaram a autuação correspondem a empresas de consultoria, cuja prestação dos serviços possui natureza estritamente intelectual, o que atrai a aplicação do disposto no artigo 129 da Lei nº 11.196/05. Acuso o recebimento de memoriais gentilmente ofertados pela parte Recorrente, os quais mereceram minha atenciosa leitura.1 É o relatório. VOTO Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Relatora Como narrado, nova tese foi apresentada em sede recursal: a de uma suposta afronta à Lei nº 11.196/05. No sistema brasileiro, a finalidade do recurso é única, qual seja, devolver ao órgão de segunda instância o conhecimento das mesmas questões suscitadas e discutidas no juízo de primeiro grau. Por isso, inadmissível, em grau recursal, suscitar novos fundamentos que não foram objeto da defesa – e que, por óbvio, sequer foram discutidos na origem. Embora em momento algum na peça impugnatória tenha sido a tese aventada explicitamente, entendo ser possível conhecê-la, uma vez que, desde a defesa inaugural, abordada, ainda que reflexamente. Após transcorrer acerca dos requisitos imprescindíveis para a caracterização do “vínculo empregatício”, aduz que [e]m todos os serviços prestados pelas empresas indicadas pela fiscalização verifica-se a ausência de alguns dos elementos citados. Inclusive, há casos em 1 Em sede de memoriais acrescenta o deslinde do Tema de nº 725 do STF, que chancela a terceirização até mesmo das atividades finalísticas da pessoa jurídica. Fl. 529DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 5 que o único existente é o da onerosidade, não sendo atendidos nenhum dos demais, tornando evidente inexistir relação empregatícia (...). (...) Dito de outro modo, o artigo 129 da Lei nº 11.196/05 impede, nos casos de serviços intelectuais, que a necessária natureza personalíssima da prestação seja distorcida pela fiscalização para fins de caracterização de suposta relação de emprego. Malgrado reconheça a existência de pessoalidade nas prestações, elemento este necessariamente a ser aferido para a caracterização de segurado na modalidade empregado, afirma estar amparado pela norma supracitada. Conheço do tempestivo recurso, presentes os pressupostos de admissibilidade. I – DA PRELIMINAR: (IN)COMPETÊNCIA DA FISCALIZAÇÃO Insiste a recorrente que padeceriam os autos de infração de nulidade ante a incompetência da autoridade para reconhecimento da relação de emprego. A encampada na ADPF nº 647, que não foi conhecida pelo exc. Supremo Tribunal Federal, tentava, assim como a Recorrente, colocar em xeque a constitucionalidade das decisões prolatadas por este eg. Conselho e das DRJs que chancelaram a competência dos auditores fiscais para caracterização de vínculo empregatício, a despeito de pronunciamento da Justiça do Trabalho. De acordo com o § 2º do art. 229 do RPS, [s]e o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado. Além disso, da conjugação das previsões contidas no art. 142 e 149 do CTN, bem como em atenção ao disposto no parágrafo único do art. 116 do Digesto Tributário, cuja constitucionalidade foi chancelada pelo SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, resta evidente a possibilidade de reclassificar atos que visam escamotear a realidade dos fatos. No exercício de seu poder de polícia, pode a autoridade fazendária, desde que de forma fundamentada, desconsidere situações que, embora previstas no papel, não se descortinam na realidade. Em verdade, não há que se cogitar formalização de vínculo empregatício por auditor fiscal – tal reconhecimento implicaria em expedir ordem para anotação na CTPS do(s) empregado(s), pagamento de 13º salário e terço constitucional de férias etc. Para fins de reconhecimento do vínculo como empregado celetista, é imprescindível a observância das exigências lançadas no art. 3º da CLT. A competência para tanto é da Justiça do Trabalho. Fl. 530DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 6 No caso, mister a verificação do preenchimento dos requisitos legais para a caracterização do contratado como segurado obrigatório, exclusivamente para fins previdenciários. É no inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/91 – e não no art. 3º da CLT – que estão descritas as hipóteses segundo as quais as pessoas físicas serão enquadradas como segurados obrigatórios da Previdência Social, na qualidade de empregados. Deveras, a al. “a” do inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/91 carrega redação similar à do art. 3º da CLT ao determinar ser segurado obrigatório (empregado) “aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado.” Entretanto, ser o empregado segurado obrigatório da Previdência Social não o faz celetista – para tal reconhecimento, necessária a provocação da justiça especializada. Não me parece compatibilizar com a ordem constitucional demandar da autoridade fazendária a caracterização do fato gerador dissociado da realidade fática, privilegiando aquilo que quiseram fazer constar em documentos. Tem a fiscalização não só o poder, mas o dever de não considerar negócios jurídicos que apenas possuem um verniz de legalidade. Farta é a jurisprudência deste eg. Conselho que colide com a pretensão da Recorrente – a título exemplificativo, cf. Acórdão nº 3303-006.137, Cons. Rel. VALCIR GASSEN, sessão de 21/05/2019; Acórdão nº 2401-007.105, Cons. Rel. JOSÉ LUÍS HENTSCH BENJAMIN PINHEIRO, sessão de 05/11/2019; Acórdão nº 2402-006.976, Cons. Rel. DENNY MEDEIROS DA SILVEIRA, sessão de 13/02/2019; Acórdão nº 2202-005.260, Cons. Rel. MARTIN DA SILVA GESTO, sessão de 05/06/2019; Acórdão nº 2202-005.189, Cons. Rel. RONNIE SOARES ANDERSON, sessão de 08/05/2019. Anoto ainda, em atenção à tese trazida à baila apenas em grau recursal, que quando chancelada a constitucionalidade do art. 129 da Lei do Bem, a Min. CÁRMEN LÚCIA, relatora da ADC nº 66, igualmente de forma arguta, pontuar não significar que a opção pela contratação de pessoa jurídica para a prestação de serviços intelectuais descrita no art. 129 da Lei n. 11.196/2005 não se sujeite à avaliação de legalidade e regularidade pela Administração ou pelo Poder Judiciário quando acionado, por inexistirem no ordenamento constitucional garantias ou direitos absolutos. (...) A escolha de qualquer modelo negocial indutor à livre concorrência não pode, por certo, ser aceito. Mas insisto: todo abuso a direitos, toda a contrariedade ao direito, especialmente quanto aos valores do trabalho, tem formas de ser Fl. 531DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 7 questionado e haverá de contar com essas formas e instrumentos para que não se mantenha situação contrária ao Direito, portanto, ilícita.2 Adequando o fecho do voto da Min.ª Rel.ª da nossa Corte Constitucional ao âmbito no qual estamos, certo poder dizer que “eventual conduta de maquiagem de contrato – como ocorre em qualquer caso – “, há de ser apurada pela fiscalização tributária, com a consequente lavratura do auto de infração. Certo que, com arrimo na livre iniciativa, pode a empresa optar pela forma de organização de sua atividade econômica, desde que observe os limites constitucionais e legais postos. Em nosso ordenamento, inexiste uma única liberdade absoluta, como também fez questão de destacar o Min. Alexandre de Morais no julgamento do Tema de nº 725, que veio a ser suscitado em sede de memoriais pela Recorrente. Acertadamente diz o Ministro: Em nenhum momento a opção da terceirização como modelo organizacional por determinada empresa permitirá, seja a empresa “tomadora”, seja a empresa “prestadora de serviços”, desrespeitar os direitos sociais, previdenciários ou a dignidade do trabalhador. (...) Caso isso ocorra, seja na relação contratual trabalhista tradicional, seja na hipótese de terceirização, haverá um desvio ilegal na execução de uma das legítimas opções de organização empresarial, que deverá ser fiscalizado, combatido e penalizado. Não é compatível com a ordem constitucional demandar da autoridade fazendária a caracterização do fato gerador dissociada da realidade fática, privilegiando aquilo que quiseram fazer constar em documentos. Se rótulos vêm sendo atribuídos para conferir a negócios jurídicos um verniz de legalidade, tem a administração fazendária não só o poder, como o dever, de desconsiderá-los. Firmada a competência da fiscalização, rejeito a preliminar. II – DO MÉRITO: (NÃO) CARACTERIZAÇÃO DA QUALIDADE DE SEGURADO EMPREGADO DO RGPS Conforme já aclarado, o § 2º do art. 229 do Decreto nº 3.048/99 (RPS) determina que [s]e o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado. 2 Cf. voto da Min. CÁRMEN LÚCIA em: STF. ADC nº 66, Rel.ª Min.ª CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 21/12/2020. Fl. 532DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 8 A al. “a” do inc. I do art. 9º do RPS, como não poderia deixar de ser, exibe a mesma redação da al. “a” do inc. I do art. 12 da Lei nº 8.212/91 firmando a necessidade de preenchimento de quatro requisitos inarredáveis e cumulativos para que tal enquadramento seja ultimado. Isso significa que, para que seja considerado segurado obrigatório na modalidade empregado, a prestação de serviço de natureza urbana ou rural deve se dar com: i) pessoalidade, ii) habitualidade, iii) subordinação; e, iv) pagamento de remuneração O ônus probatório para a reclassificação do negócio jurídico cai, portanto, sobre as autoridades fazendárias. Firmadas as premissas, passo analisar a situação descortinada no caso em espeque. Peço licença para transcrever a fundamentação trazida no relatório fiscal (f. 15/27), no que importa: 9.1.1 O sócio administrador da empresa JMD CONSULTORIA FINANCEIRA LTDA, Jorge Joaquim Diaz – CPF (...), foi diretor da Embaré Indústrias Alimentícias no período de 09/09/1992 a 31/12/2004. As notas fiscais de prestação de serviços estão em ordem sequencial comprovando que o trabalho é exclusivo á empresa contratante. A empresa prestadora de serviço não declarou GFIP no período da prestação de serviços o que nos leva a deduzir que a mesma era unipessoal e o serviço foi prestado pessoalmente pelo(s) sócio(s). O endereço comercial da empresa é o mesmo endereço residencial do sócio administrador. Conforme consta no contrato, o pagamento pelos serviços prestados é mensal e fixo. 9.1.2 As Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP da empresa PEC LEITE CONSULTORIA LTDA comprovam que o segurado empregado da empresa exerce funções administrativas, comprovando que os serviços técnicos foram executados pelos sócios. As notas fiscais de prestação de serviços estão em ordem sequencial comprovando que o trabalho é exclusivo á empresa contratante. O endereço comercial da empresa é o mesmo endereço residencial do sócio administrador. Declarações emitidas pela empresa contratada atestam a pessoalidade dos serviços prestados. 9.1.3 As Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP da empresa AGROLIVA PLANEJAMENTO LTDA comprovam que os segurados empregados da empresa exercem funções administrativas, comprovando que os serviços técnicos foram executados pelos sócios. As notas fiscais de prestação de serviços estão em ordem sequencial comprovando que o trabalho é exclusivo á empresa contratante. Declarações emitidas pela empresa contratada atestam a pessoalidade dos serviços prestados. 9.1.4 As Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP da empresa MARCIO ANTONIO DE OLIVEIRA CONSULTORIA LTDA revelam que a empresa era unipessoal e os serviços foram Fl. 533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 9 executados pessoalmente pelo titular da empresa. As notas fiscais de prestação de serviços estão em ordem sequencial comprovando que o trabalho é exclusivo á empresa contratante. Declarações emitidas pela empresa contratada atestam a pessoalidade dos serviços prestados. O endereço comercial da empresa é o mesmo endereço residencial do sócio administrador. 9.1.5 As Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP da empresa CONSULTORIA VETERINÁRIA PEREIRA ANDRADE LTDA revelam que a empresa era unipessoal e os serviços foram executados pessoalmente pelos próprios sócios. As notas fiscais de prestação de serviços estão em ordem sequencial comprovando que o trabalho é exclusivo á empresa contratante. Declarações emitidas pela empresa contratada atestam a pessoalidade dos serviços prestados. O endereço comercial da empresa é o mesmo endereço residencial do sócio administrador. 9.1.6 As Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP da empresa PORTAL REPRESENTAÇÕES E CONSULTORIA EM AGROPECUÁRIA LTDA revela que a empresa era unipessoal e os serviços foram executados pessoalmente pelos próprios sócios. As notas fiscais de prestação de serviços estão em ordem sequencial comprovando que o trabalho é exclusivo á empresa contratante. Declarações emitidas pela empresa contratada atestam a pessoalidade dos serviços prestados. O endereço comercial da empresa é o mesmo endereço residencial do sócio administrador. 10. Após análise dos contratos de prestação de serviços, das notas fiscais de prestação de serviços, das Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP das empresas prestadoras de serviços e dos demais elementos de convicção, a despersonalização das diversas empresas elencadas no item 9 foi feita pelos motivos abaixo discriminados: 10.1. Primeiramente, cumpre mencionar que o Código Tributário Nacional autoriza a desconsideração da personalidade jurídica das sociedades prestadoras de serviços, conforme artigo 118, inciso I, “in verbis”: (...) 10.2. A pessoa jurídica tem como característica a autonomia, assumindo os riscos do seu próprio negócio, sem vínculo de subordinação, o que não se verifica no caso. Percebe-se, claramente, que na prática ocorre a simples substituição do contrato de trabalho. O profissional está apenas disfarçado de pessoa jurídica, tendo em vista a presença das características de segurado empregado. 10.3. As empresas não foram contratadas para prestação de serviços com cessão de mão de obra, como se poderia pensar à primeira vista, mas, sim, visando à formação profissional e à especialidade do sócio ou dos sócios, o que evidentemente caracteriza a pessoalidade. 10.3.1 A ausência de segurados empregados declarados em GFIP ou a declaração de que exercem atividades administrativas, as declarações emitidas pelas empresas afirmando que a prestação de serviços foi realizada pelo(s) sócio(s) Fl. 534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 10 ratifica a pessoalidade do serviço prestado pelas empresas interpostas à EMBARÉ INDÚSTRIAS ALIMENTÍCIAS S/A. 10.4. Observamos que o endereço de várias empresas é o mesmo endereço residencial do sócio representado no contrato; evidenciando que a mesma embora possua endereço comercial, presta serviços exclusivamente nas dependências de terceiros. 10.5. Diante das situações expostas, ficou plenamente configurada, à luz da legislação previdenciária, a relação jurídica entre a EMBARÉ INDÚSTRIAS ALIMENTÍCIAS S/A e os trabalhadores, na qual estão presentes os pressupostos que caracterizam o vínculo previdenciário na condição de segurado empregado, em conformidade com o artigo 12 da Lei nº 8.212/91, abaixo transcrito: (...) A relação de emprego não é aferida apenas pelos elementos formais existentes nos contratos, mas pela realidade fática da execução do serviço. Desse modo, para caracterizar o vínculo previdenciário na condição de segurado empregado, não há necessidade de subordinação rigorosa, bastando que o trabalhador se coloque à disposição do empregador e dele receba ordens. (...). (destaques no original) Da leitura dos motivos que lastrearam a autuação resta evidenciado não ter a fiscalização demonstrado o preenchimento dos requisitos trazidos no art. 12 da Lei nº 8.212/91, eis que se escora, exclusivamente: i) na pessoalidade da prestação dos serviços; ii) na suposta exclusividade da prestação do serviço, requisito este despiciendo para a reclassificação do negócio jurídico; e, iii) na coincidência da sede da pessoa jurídica com o domicílio de seu sócio, situação tampouco vedada pela legislação pátria. Na tentativa de demonstrar a existência de subordinação, requisito imprescindível para que tivesse sido o lançamento ultimado, vale-se de lições doutrinárias e jurisprudenciais, sem qualquer comprovação de sua ocorrência no caso concreto. Por serem insuficientes os elementos relatados pela fiscalização, ausente a comprovação dos 4 (quatro) requisitos do art. 12 da Lei nº 8.212/91, merece ser provido o recurso. III – DO DISPOSITIVO Ante o exposto, rejeito a preliminar e, no mérito, dou provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira Fl. 535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.364 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10665.722787/2012-46 11 Fl. 536DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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