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Numero do processo: 16682.901464/2015-38
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Sep 22 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Oct 17 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 3001-000.680
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.679, de 25 de setembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 16682.901469/2015-61, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Lazaro Antonio Souza Soares (substituto[a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Wilson Antonio de Souza Correa, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Lazaro Antonio Souza Soares.
Nome do relator: LUIZ CARLOS DE BARROS PEREIRA
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decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.679, de 25 de setembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 16682.901469/2015-61, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Lazaro Antonio Souza Soares (substituto[a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Wilson Antonio de Souza Correa, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Lazaro Antonio Souza Soares.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2025-10-16T20:45:40Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2025-10-16T20:45:40Z; Last-Modified: 2025-10-16T20:45:40Z; dcterms:modified: 2025-10-16T20:45:40Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2025-10-16T20:45:40Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2025-10-16T20:45:40Z; meta:save-date: 2025-10-16T20:45:40Z; pdf:encrypted: false; modified: 2025-10-16T20:45:40Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2025-10-16T20:45:40Z; created: 2025-10-16T20:45:40Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 3; Creation-Date: 2025-10-16T20:45:40Z; pdf:charsPerPage: 1972; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2025-10-16T20:45:40Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 16682.901464/2015-38 RESOLUÇÃO 3001-000.680 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA SESSÃO DE 25 de setembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE CIMENTO TUPI S.A. EM RECUPERACAO JUDICIAL INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.679, de 25 de setembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 16682.901469/2015-61, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Lazaro Antonio Souza Soares (substituto[a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Wilson Antonio de Souza Correa, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Lazaro Antonio Souza Soares. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Fl. 123DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.680 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16682.901464/2015-38 2 Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que DEFERIU PARCIALEMTNE o ressarcimento solicitado no PER nº 42680.40934.061213.1.1.01-5076 e não homologou a compensação declarada na DCOMP nº 05440.32400.171213.1.3.01-6190, gerando a cobrança ora contestada de R$ 85.175,97 (valor original) em débitos da contribuinte. O crédito solicitado diz respeito ao saldo credor do 1º trimestre de 2012. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/03/2012 COMPENSAÇÃO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO CRÉDITO. Mantidos tanto a glosa de créditos como o lançamento a débito pelo auto de infração e não comprovado o saldo credor suficiente para a compensação pretendida, mantém-se a cobrança dos débitos não pagos pela nãohomologação da compensação. Por meio do Termo de Ciência por Abertura de Mensagem, a Recorrente teve ciência do Acórdão n. 108-030.827. Em seguida, aviou o presente remédio recursivo com suas alegações. É a síntese dos fatos. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: Da competência para julgamento do feito Em virtude da norma contida no artigo 65 do Anexo da Portaria MF nº 1634, de 21 de dezembro de 2023, a qual aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, este colegiado é competente para apreciar este feito. Resolução Requer a Recorrente que o presente processo seja julgado conjuntamente com o de n° 10640-722.837/2016-05, eis que o ressarcimento solicitado no PER nº 04580.74875.230414.1.1.01-7453 e não homologou a compensação declarada na DCOMP nº 30457.01858.240414.1.3.01-3792, gerando a cobrança contestada, uma vez que a compensação só não foi homologada porque houve a glosa de créditos promovida no processo mencionado. Assim, prossegue, se no processo nº 10640-722.837/2016-05, excluída for a glosa, Fl. 124DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.680 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16682.901464/2015-38 3 a compensação perseguida será concedida. Socorre-se ao RICARF. Assiste razão a Recorrente, eis que, para que não se julguem os processos isoladamente, com eventuais deciões conflitantes, entendo que os processos devem ser reunidos para julgamento em conjunto. Penso que todos os processos que tenham origem ao processo sob nº 10640- 722.837/2016-05, devem ser reunidos a ele e, considerando que ele e os demais, exceto esse, ainda não foram distribuídos a outro julgador, esse conselheiro é prevento, devendo recebê-los para relatoria, conforme dispõe os s §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF. Diante do exposto, face a situação fática e jurídica e, diante de dispositivo processual no RICARF acima apontado, necessário que se converta o julgamento em diligência a fim de o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Fl. 125DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10480.914263/2009-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 25 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2006
DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada de provas hábeis, da composição e existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa, na forma do que dispõe o artigo 170 do CTN.
Desincumbindo-se a recorrente, mediante provas robustas, do ônus de comprovar o direito creditório alegado e confirmadas suas alegações pela diligência realizada, cabe o provimento do recurso voluntário.
Numero da decisão: 1402-007.470
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório pleiteado, homologando-se as compensações vinculadas, até o limite reconhecido. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1402-007.467, de 25 de setembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10480.913287/2009-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Paulo Mateus Ciccone – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alexandre Iabrudi Catunda, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça, Rafael Zedral, Ricardo Piza Di Giovanni, Alessandro Bruno Macêdo Pinto e Paulo Mateus Ciccone (Presidente).
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2006 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada de provas hábeis, da composição e existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa, na forma do que dispõe o artigo 170 do CTN. Desincumbindo-se a recorrente, mediante provas robustas, do ônus de comprovar o direito creditório alegado e confirmadas suas alegações pela diligência realizada, cabe o provimento do recurso voluntário.
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ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada de provas hábeis, da composição e existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa, na forma do que dispõe o artigo 170 do CTN. Desincumbindo-se a recorrente, mediante provas robustas, do ônus de comprovar o direito creditório alegado e confirmadas suas alegações pela diligência realizada, cabe o provimento do recurso voluntário. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório pleiteado, homologando-se as compensações vinculadas, até o limite reconhecido. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1402-007.467, de 25 de setembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10480.913287/2009-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Paulo Mateus Ciccone – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alexandre Iabrudi Catunda, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça, Rafael Zedral, Ricardo Piza Di Giovanni, Alessandro Bruno Macêdo Pinto e Paulo Mateus Ciccone (Presidente). Fl. 140DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1402-007.470 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.914263/2009-42 2 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Volta à apreciação do Colegiado o presente processo, depois de cumprida a diligência determinada por Resolução desta Turma Ordinária, de 15/08/2019. Como já relatado na ocasião, trata-se de recurso voluntário interposto pela contribuinte acima identificada em face de decisão exarada pela 4ª Turma da DRJ/REC, sessão de 31 de outubro de 2011, que ratificou o entendimento da autoridade competente, expresso em Despacho Decisório, indeferindo a compensação pleiteada. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão: ASSUNTO: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2006 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO- PER/DCOMP PEDIDO DE ALTERAÇÃO DE DCTF E/OU DIPJ APÓS CIÊNCIA DEDECISÃO QUE NÃO HOMOLOGOU A COMPENSAÇÃO. O pedido de retificação de DCTF, após o despacho decisório que não homologou a compensação, em razão da coincidência entre os débitos declarados e os valores recolhidos, não tem o condão de alterar a decisão proferida, uma vez que tanto as DRJ como o CARF limitam-se a analisar a correção do despacho decisório, efetuado com bases nas declarações e registros constantes nos sistemas da RFB na data da decisão. MOTIVO DE ALTERAÇÃO DE DCTF NÃO COMPROVADO EMDOCUMENTAÇÃO Qualquer alegação de erro de preenchimento em DCTF deve vir acompanhada dos documentos que indiquem prováveis erros cometidos,no calculo dos tributos devidos, resultando em recolhimentos a maior. Não apresentada a escrituração contábil/fiscal, nem outra documentação hábil e suficiente, que justifique o pedido de alteração dos valores registrados em DCTF, mantém-se a decisão proferida, sem o reconhecimento de direito creditório, com a conseqüente não-homologação das compensações pleiteadas. COMPENSAÇÃO. REQUISITOS. A certeza e a liquidez dos créditos são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei. Novamente inconformada com a decisão que lhe foi desfavorável, acostou recurso voluntário, aduzindo: a) que o erro cometido no preenchimento da DCTF em nada prejudicaria o fato de que seu direito ao indébito surgiu no momento em que efetuou Fl. 141DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1402-007.470 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.914263/2009-42 3 pagamento de tributo em montante maior que o devido, conforme demonstrado na DIPJ original. b) que não apresentou elementos probatórios do seu direito juntamente com a Manifestação de Inconformidade por entender que a própria RFB já seria capaz de verificar sua existência. c) assim, em sede de julgamento de recurso voluntário, demonstra o erro que teria cometido na apuração do tributo devido. d) juntou documentos que comprovariam a existência do indébito e, por fim, requer que o Colegiado de segunda instância reconheça seu direito. Submetidos os autos a julgamento na sessão de 15/08/2019 deste Colegiado, houve conversão em diligência a fim de que a Unidade de origem trouxesse esclarecimentos tidos como imprescindíveis pela Turma Julgadora. Cumprindo o determinado, a Equipe Regional de Direito Creditório da 4ª RF/SRRFF realizou o procedimento e lavrou “Informação Fiscal” trazendo os apontamentos entendidos necessários. Acerca da conversão em diligência e de seu resultado, trato adiante no voto. É o relatório do essencial, em apertada síntese. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Já foi atestada antes tempestividade do recurso voluntário bem como a representação processual da contribuinte, pelo que cabe o recebimento e conhecimento do RV. Na origem, tem-se que a unidade de origem e a DRJ negaram o pleito da recorrente sob argumento principal de que o pedido de retificação da DCTF, formulado após a ciência do despacho decisório que não homologou a compensação, “não tem o condão de alterar a decisão proferida, uma vez que tanto as DRJ como o CARF limitam-se a analisar a correção do despacho decisório, efetuado com base nas declarações e registros constantes nos sistemas da RFB na data da decisão”. Não obstante, acrescentou que “qualquer alegação de erro de preenchimento em DCTF deve vir acompanhada dos documentos que indiquem prováveis erros cometidos, no cálculo dos tributos devidos, resultando em recolhimentos a maior”. Fl. 142DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1402-007.470 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.914263/2009-42 4 De seu canto, a contribuinte apresentou o recurso voluntário ora sob exame em que alegou que o erro cometido no preenchimento da DCTF em nada prejudicaria o fato de que seu direito ao indébito surgiu quando efetuou pagamento de tributo em montante maior que o devido, conforme demonstrado na DIPJ original. Afirmou, ainda, que não apresentou elementos probatórios do seu direito juntamente com a manifestação de inconformidade por entender que a própria RFB já seria capaz de verificar sua existência. Desse modo, em sede de julgamento de recurso voluntário, visa demonstrar o erro que teria cometido na apuração do tributo devido, junta documentos que comprovariam a existência do indébito e, por fim, requer que o Colegiado de segunda instância reconheça seu direito. Como dito no relato dos fatos, os autos foram convertidos em diligência pela Resolução nº 1402-000.888, sessão de 15/08/2019 (fls. 114/117), tendo o então Relator, Murillo Lo Visco alinhavado: Em sede de julgamento de primeira instância, a DRJ entendeu que o pedido de retificação da DCTF, formulado após a ciência do despacho decisório que não homologou a compensação, “não tem o condão de alterar a decisão proferida, uma vez que tanto as DRJ como o CARF limitam-se a analisar a correção do despacho decisório, efetuado com base nas declarações e registros constantes nos sistemas da RFB na data da decisão”. No entanto, em ato normativo posteriormente publicado, a própria RFB admitiu a possibilidade de a DCTF ser retificada mesmo depois de o contribuinte ser cientificado do despacho decisório que não homologa sua compensação. Refiro-me ao Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015, cuja ementa segue abaixo reproduzida com destaques acrescidos: (...) Portanto, a partir da leitura da ementa acima reproduzida, pode-se concluir que, diferentemente do que decidiu a Autoridade julgadora de primeira instância, a própria RFB admite a retificação da DCTF após a ciência do despacho decisório que não homologa a compensação. Nessa hipótese, inclusive, o ato normativo da RFB prevê a possibilidade de o julgamento ser convertido em diligência para que se analisem os elementos probatórios que eventualmente justifiquem o erro alegado. Por outro lado, no presente caso, pelo que consta nos autos, a Contribuinte não retificou sua DCTF. No entanto, entendo que não há como lhe imputar inércia, já que expressamente solicitou permissão para assim proceder, tendo-lhe sido negado pelo órgão julgador de primeira instância, o que posteriormente se revelou equivocado, à luz do Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015. Para concluir: Ante o exposto, voto no sentido de converter o julgamento do Recurso em diligência, remetendo-se os autos à Unidade de Origem, para que se manifeste acerca da exatidão da apuração do tributo devido, demonstrada na DIPJ e explicitada no Recurso Voluntário, à luz dos documentos juntados pela Contribuinte neste processo, ou em outro que com ele é conexo e que compõe o Fl. 143DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1402-007.470 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.914263/2009-42 5 lote formado pelos processos 10480.913287/2009-84, 10480.913288/2009-29, 10480.914262/2009-06, 10480.914263/2009-42 e 10480.914264/2009-97, juntamente com o presente. Do resultado desta diligência a Recorrente deverá ser cientificada, oferecendo-lhe a oportunidade de se manifestar acerca do objeto das verificações solicitadas, caso assim desejar. Após a realização das verificações solicitadas, o processo deve retornar a este Colegiado para prosseguimento do julgamento do Recurso Voluntário. Cumprindo o determinado, a Equipe Regional de Direito Creditório da 4ª RF/SRRFF realizou o procedimento e lavrou “Informação Fiscal” (fls. 128/129) trazendo os apontamentos entendidos necessários: Trata o presente de diligência encaminhada pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, através da Resolução n.° 1402-000.888 – 1ª Seção de Julgamento / 4ª Câmara / 2ª Turma, na qual foi convertido o julgamento para proceder ao exame da apuração do IRPJ/CSLL, com base no Lucro Presumido 4º TRIMESTRE/2006, à vista dos documentos deste processo e dos correlatos 10480.913287/2009-84, 10480.913288/2009-29, 10480.914262/2009-06, 10480.914263/2009-42, 10480.914264/2009-97 e 10480.914261/2009-53. 2. Em sede de impugnação e recurso voluntário, o contribuinte, nas alegações, deduz que houve erro de fato no tocante à informação dos rendimentos de aplicações financeiras de renda fixa e variável, ao considerar, no plano da elaboração do cálculo do imposto/contribuição, em DCTF, tais rendimentos no valor R$ de R$ 836.312,66, quando deveria ter sido de R$ 560.465,17, informado na DIPJ AC 2006. 3. Consoante consulta aos sistemas internos RFB DIRF (fls.121/126), o quadro das receitas financeiras (código de receita n.º 3426) e dos juros sobre o capital próprio (código de receita n.º 5706) do referido período revela os valores abaixo: E finalizar: 4. Tendo em vista as informações prestadas pelas fontes pagadoras em DIRF, a apuração da Lucro Presumido 4º TRIM/2006 (fl.127) perfaz o valor R$ 53.388,61. 5. Ao contribuinte, convém lembrar que poderá se manifestar sobre resultado da presente Informação Fiscal, no prazo de 30 (trinta) dias, a contar da ciência. Postos os fatos, os argumentos das partes e a conclusão da diligência, passo ao voto. Fl. 144DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1402-007.470 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.914263/2009-42 6 Acerca das restrições impostas pela decisão, recorrida, o voto que converteu o julgamento em diligência já as afastou, com suporte no Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015. Pois bem, concretamente a diligência concluiu que “Tendo em vista as informações prestadas pelas fontes pagadoras em DIRF, a apuração do Lucro Presumido 4º TRIM/2006 (fl.127) perfaz o valor R$ 53.388,61”. Verificando a DIPJ, já com os ajustes procedidos pela Autoridade Fiscal que conduziu a diligência, apresenta a seguinte posição da CSSL a Pagar do 4º Trimestre/2006 (fls. 127): De outro giro, a recorrente asseverou ter recolhido dois DARF- R$ 75.268,14 e R$ 8.440,44 - relativos à CSLL do referido período, totalizando R$ 83.708,58 (fls. 20/21): Fl. 145DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1402-007.470 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.914263/2009-42 7 Com isso, considerando o montante apurado originalmente de R$ 58.882,30, ANTES, portanto, do ajuste procedido pela diligência, teria efetuado pagamento “a maior” de R$ 24.826,28 (R$ 83.708,58 – R$ 58.882,30), como apôs em suas peças recursais visando repetir-se do indébito. Então, induvidosamente está-se diante de pagamento realizado a maior neste montante, sendo certo, igualmente, que pela diligência realizada que apontou CSLL a Pagar de 53.388,61, o montante do indébito seria ainda maior. Todavia, como ao julgador é defeso aditar pleitos das partes, o valor a ser deferido deve restringir-se ao limite pleiteado, no caso, R$ 24.826,28. Assim, por tudo o que consta nos autos, voto por dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório aqui discutido, homologando-se as compensações a ele vinculadas, até o limite reconhecido. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório pleiteado, homologando-se as compensações vinculadas, até o limite reconhecido. Assinado Digitalmente Paulo Mateus Ciccone – Presidente Redator Fl. 146DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 15746.725211/2023-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 26 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Oct 15 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 1302-001.316
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto do relator.
Assinado Digitalmente
Henrique Nimer Chamas – Relator
Assinado Digitalmente
Sergio Magalhães Lima – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nimer Chamas, Alberto Pinto Souza Junior, Miriam Costa Faccin, Natalia Uchoa Brandao, Sergio Magalhaes Lima (Presidente).
Nome do relator: HENRIQUE NIMER CHAMAS
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto do relator. Assinado Digitalmente Henrique Nimer Chamas – Relator Assinado Digitalmente Sergio Magalhães Lima – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nimer Chamas, Alberto Pinto Souza Junior, Miriam Costa Faccin, Natalia Uchoa Brandao, Sergio Magalhaes Lima (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário oposto em face de acórdão da 12ª Turma da DRJ07, que julgou improcedente a impugnação da contribuinte. Em face da contribuinte foi lavrado o auto de infração de IRPJ (fls. 664 a 673) – objeto deste processo, referente ao ano-calendário de 2019, em razão de dedução de despesas com royalties e serviços de assistência técnica, científica, administrativa ou semelhante da Fl. 1470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 2 apuração do lucro real. Também foi lançada multa isolada por falta de recolhimento do IRPJ sobre base de cálculo estimada. Conforme relatado no Termo de Verificação Fiscal (“TVF”) (fls. 613 a 659), destaco as seguintes informações: 2- DO SUJEITO PASSIVO A SAP BRASIL LTDA segundo o Contrato Social apresentado tem por objeto o “comércio e o desenvolvimento de software, bem como a prestação de serviços na área de informática, podendo participar de outras sociedades na qualidade de sócio ou acionista.” A fiscalizada tem como sócias a SAP SE, sociedade europeia constituída e organizada sob as leis da Alemanha, a qual detém 99,99% do seu capital, bem como a SAP INVESTIMENTS INC, sociedade constituída sob as leis de Delaware, Estados Unidos da América, detendo 0,01% do seu capital. (...) 5- ANÁLISE DAS INFRAÇÕES VERIFICADAS 5.1 - CLASSIFICAÇÃO DOS PAGAMENTOS PARA FINS DA CIDE REMESSAS E DAS DESPESAS PARA FINS DO IRPJ (...) Para fins do IRPJ: - DESPESAS DO TIPO 01: Despesas referentes aos pagamentos de licença à matriz alemã, Sap Se, para uso e distribuição de programas de computador, bem como pelo uso da marca, com transferência da respectiva tecnologia. - DESPESAS DO TIPO 02: Despesas do tipo 02: despesas referentes aos serviços técnicos prestados por subsidiárias e empresas do próprio grupo econômico, domiciliadas no exterior; - DESPESAS DO TIPO 03: Despesas referentes aos pagamentos de licença e distribuição de programas de computador, bem como pelo uso da marca, pagos às empresas não pertencentes ao grupo econômico. 5.2 - QUANTO AO IRPJ 5.2.1 - ROYALTIES INDEDUTÍVEIS (DESPESAS DO TIPO 01 E 03) Verificamos que a empresa deduziu da base de cálculo do IRPJ as despesas/custos contabilizados nas contas contábeis de resultado abaixo: (...) Analisamos o bloco M300 da ECF e constatamos que a empresa não adicionou quaisquer dos valores relativos aos custos e despesas contabilizados nas contas acima na apuração do Lucro Real. Fl. 1471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 3 Verificamos com base na resposta apresentada ao TIF nº 02, constante na página 342 deste processo que as contas elencadas abaixo estão relacionadas aos custos e despesas decorrentes do Contrato firmado com a sócia majoritária da fiscalizada a empresa SAP SE: (...) O Contrato apresentado, título “Contrato de Distribuição de Software”, constante na página 61 em diante deste processo, firmado com a SAP SE e relacionado com as despesas elencadas acima, dispõe no seu item 2.1 o trecho extraído a seguir: (...) Observamos, através do contrato apresentado que as remunerações pagas pela SAP Brasil à sua sócia majoritária no exterior, a SAP AG (atual SAP Se) são, pelo menos, pela licença de uso, ou direitos de comercialização ou distribuição de software. As licenças para uso de software caracterizam exploração de direitos autorais, conforme a lei nº 7.646, de 1987, e a superveniente lei nº 9.609, de 1.998. Por sua vez, a exploração de direitos autorais, por expressa disposição legal (artigo 22, alínea “d”, da lei nº 4.506, de 1964), se classifica como royalties. No entanto, os royalties de natureza de direito autoral (artigo 22, alínea d, lei 4.506/64) são indedutíveis quando pagos aos sócios, conforme a regra prevista no artigo 363, inciso I do RIR/2018 e artigo 71, §único, letra d da Lei nº 4.506/64. Assim sendo, as despesas e custos referentes aos pagamentos à SAP SE, relacionadas ao contrato anexado à página 61, constituem Royalties de natureza de direito autoral e neste caso, o montante de R$913.627.081,12, não é dedutível da base de cálculo do IRPJ, tendo em vista a vedação legal acima identificada. Além disso, o Contrato analisado ainda dispõe no item 6.3 a respeito da concessão do uso das Marcas pela SAP AG (atual SAP SE) à SAP Brasil: (...) Verificamos também com base na resposta apresentada ao TIF nº 02, constante na página 342 deste processo que a conta abaixo refere-se à contabilização dos custos e despesas referente ao contrato firmado com a empresa Business Objects Software Limited: (...) O Contrato anexado às páginas 276 a 330, firmado com a empresa Business Objects Software Limited, intitulado Contrato de Distribuição de Software, contém também no capítulo “7.3 – Marcas Registradas” a previsão da Fiscalizada usar as marcas apenas em conexão com a distribuição. Verificamos que na ECF do ano de 2019 as remessas em decorrência dos contratos firmados com a sócia da fiscalizada SAP AG (atual SAP SE) e com a empresa Business Objects Software Limited, remessas no valor total de R$ Fl. 1472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 4 786.672,100,71 foram registradas no Registro X420 como Direitos Patrimoniais de Marcas, sendo o montante de R$725.289.797,99 pagos à SAP AG e o montante de R$ 61.382.302,88 pagos à empresa Business. No entanto, conforme já comentado, a fiscalizada em resposta ao Termo de Início, argumentou que no registro X420 foram informados pagamentos a título de licenças de uso, ou direitos de comercialização ou distribuição de software, apesar da informação constar no campo do registro X420 destinado ao Royalties por Direitos Patrimoniais de Marcas ao beneficiário no exterior. Diante do exposto, a SAP Brasil foi intimada através do TIF nº 06 a informar se os encargos devidos pela Fiscalizada à SAP AG e à Business Objects Software Limited, em decorrências dos Contratos citados (página 61 e página 276), se além pela Distribuição de software, se referem também aos Royalties pelo uso de marcas de indústria ou de comércio, e nestes casos, se respectivos contratos foram averbados no Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI e registrados no Banco Central do Brasil, apresentando a documentação comprobatória. A empresa em resposta ao questionamento acima, argumentou que as remessas realizadas à SAP AG e à Business Objects Software Limited em decorrência de referidos contratos de Distribuição de Software não contemplam qualquer remuneração pelo uso de marcas de indústria ou comércio. A empresa não apresentou comprovação de averbação destes contratos no INPI e registro no Banco Central do Brasil. Diante do alegado, percebemos que em relação ao Contrato em análise, anexado à página 61 e seguintes, firmado com a empresa SAP AG (atual SAP SE) a discussão não é se a fiscalizada usa ou não a marca da sua sócia majoritária, mas sim se os pagamentos efetuados englobam ou não a remuneração pelo uso da marca. Isto porque é notório que a Sap Brasil usa a marca da sua sócia SAP SE. A começar pelo próprio nome da empresa, SAP BRASIL, não deixa dúvidas que se trata da presença no mercado brasileiro da multinacional da área de informática. A marca está presente no sítio da internet, endereço eletrônico www.sap.com.br, nas redes sociais, nos papéis timbrados do sujeito passivo, vide as respostas por escrito aos termos de intimação, apresentadas a esta fiscalização. (...) No mesmo sentido das decisões citadas, entendemos que os pagamentos efetuados pela SAP Brasil à sua sócia SAP SE, em decorrência do contrato anexado à página 61, além do pagamento pelo licenciamento, uso e Distribuição de software, englobam também o encargo pelo uso da marca realizado pela fiscalizada, pelos motivos já abordados pelas diversas decisões administrativas emitidas, quais sejam: prestígio da marca SAP no ramo em que atua, trazendo atratividade para os clientes da Sap Brasil na contratação do licenciamento e valor intangível da marca SAP demonstrando ser improvável a sua cessão gratuita. (...) Fl. 1473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 5 Diante de todo o exposto, concluímos que as despesas decorrentes do Contrato de Licenciamento firmado entre a SAP Brasil e a SAP SE, anexado à página 61, enquadram-se em duas hipóteses de indedutibilidade de despesas: a- Royalties de natureza de direito autoral são indedutíveis quando pagos aos sócios: artigo 363, inciso I do RIR/2018 e artigo 71, §único, inciso d da Lei nº 4.506/64; b- Royalties pelo uso da marca SAP são indedutíveis quando pagos à pessoa com domicílio no exterior, que mantém o controle do capital com direito a voto, a SAP SE (antiga SAP AG). Artigo 363, inciso III, alínea b do RIR/2018 e artigo 71, § único, inciso e, alínea 2. Já o contrato firmado entre a SAP BRASIL e a empresa Business Objects Software Limited anexado à página 276, percebemos que no seu capítulo 7.3 também contém previsão do uso da marca pela SAP BRASIL. Da mesma forma, entendemos que os pagamentos efetuados pela SAP Brasil à empresa Business Objects Sofware englobam também o encargo pelo uso da marca realizado pela fiscalizada, além do pagamento pelo licenciamento, uso e distribuição de software, pois do mesmo modo não seria crível a cessão da exploração deste bem intangível sem nenhum ônus para a SAP Brasil. Porém, as despesas decorrentes do contrato entre a Business Objects e a fiscalizada incidiram em hipótese de indedutibilidade prevista no artigo 363, inciso V, alínea a do RIR/2018, bem como no artigo 71, §único, inciso g, alínea 1 da Lei nº 4.506/64, que considera indedutíveis os royalties pelo uso de marcas de indústria e comércio pagos ou creditados a beneficiário domiciliado no exterior, que não sejam objeto de contrato registrado no Banco Central do Brasil. Importante lembrar que na resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 06, não foi apresentada a comprovação do registro no Banco Central do Brasil do Contrato firmado entre a fiscalizada e a Business Objects Sofware. Assim sendo, as despesas do Tipo 01, constantes no Anexo 2 a este relatório, no valor de R$ 913.627.081,12, bem como as despesas do Tipo 03, também constantes no Anexo 2 a este relatório, no valor de R$ 6.529.611,10 foram consideradas indedutíveis da base de cálculo do IRPJ, devendo ser adicionadas ao lucro real. 5.2.2 - DESPESAS INDEDUTÍVEIS COM ASSISTÊNCIA TÉCNICA, CIENTÍFICA, ADMINISTRATIVA OU SEMELHANTES (DESPESAS DO TIPO 02) Verificamos que as despesas contabilizadas nas contas contábeis relacionadas no Anexo III a este Relatório são referentes aos serviços Técnicos prestados pela sócia SAP SE ou pelas empresas do grupo econômico à SAP Brasil, todas situadas no exterior, conforme reconhecido pela fiscalizada na resposta ao Termo de Início (página 253), de acordo com a planilha constante na página 275 deste processo e documentos apresentados constantes nas páginas 61 a 235 deste PAF. Fl. 1474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 6 Observamos que os contratos de câmbios constantes nas páginas 432 a 542 deste processo, referentes às remessas ao exterior para pagamentos das despesas/custos em análise tem como natureza da operação a descrição “Serviços – Serviços Tecnicos e profissionais – Serviços de computação”. De fato, conforme a planilha apresentada pela empresa, anexada na página 275 deste PAF, observamos que as despesas analisadas se referem na sua grande maioria pela prestação de serviços técnicos de computador. Relacionamos a seguir as despesas/custos em questão, classificados como serviços técnicos prestados por empresas situadas no exterior: (...) Para fins da dedutibilidade dos serviços técnicos pagos aos beneficiários no exterior da base de cálculo do IRPJ, a empresa deve atender aos requisitos dispostos nos artigos 364 e 365 do RIR/2018. Ressaltamos que segundo o §1º do artigo 364 do RIR/2018: “ As despesas com assistência técnica, científica, administrativa e assemelhados somente poderão ser deduzidas nos cinco primeiros anos de funcionamento da empresa ou da introdução do processo especial de produção, quando demonstrada a sua necessidade, admitida a prorrogação por até mais cinco anos, desde que autorizada pelo Conselho Monetário Nacional (Lei nº 4.131, de 1962, art. 12, § 3º) .” Consultamos os sistemas da RFB e verificamos que a SAP Brasil foi aberta em 22/03/1994, de maneira que em princípio, não poderia deduzir da base de cálculo do IRPJ as despesas/custos com os serviços técnicos questionados, pagos aos beneficiários no exterior. Destacamos também o disposto no artigo 364, §2º e §3º do RIR/2018: (...) Em resposta ao inciso 1, alínea e do TIF nº 2, no qual a empresa foi intimada a informar se o Contrato que originou a despesa/custo foi averbado no INPI, a empresa conforme a coluna I da planilha anexada à página 275, justificou o que segue: “Contrato não passível de averbação pelo INPI por não caracterizar transferência de tecnologia, nos termos do disposto no Artigo 211 da Lei n.º 9.279/96 e, ainda, por não atender aos parâmetros do Artigo 11 da Lei n.º 9.609/98 - conforme doc anexado pág 236-244”. Ainda, em resposta ao item 13 do Termo de Início, a empresa informou que não possui nenhum contrato averbado no Banco Central. Com isso, a empresa não se enquadrou na regra de exceção prevista no §3º do artigo 364 do RIR/2018. Assim sendo, as despesas/custos contabilizados nas contas contábeis acima e deduzidas da base de cálculo do IRPJ, foram consideradas indedutíveis da base de cálculo do IRPJ por esta fiscalização, tendo em vista serem referentes aos serviços Fl. 1475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 7 técnicos prestados pela sócia majoritária no exterior à SAP Brasil, situação de indedutibilidade do IRPJ prevista no artigo 364, §2º, inciso II do RIR/2018 (Lei nº 4.506, de 1964, art. 52, parágrafo único ), bem como ultrapassado o prazo previsto no §1º do artigo 364 do RIR/2018 (Lei nº 4.131, de 1962, art. 12, § 3º). Neste último caso, a situação de indedutibilidade é aplicável aos pagamentos feitos à sócia SAP SE e também aplicável às despesas decorrentes dos serviços técnicos prestados pelas empresas pertencentes ou não pertencente ao grupo econômico. Importante ressaltar que a transferência de tecnologia não constitui requisito indispensável para fins de impor as restrições da dedução de despesas com assistência técnica, científica, administrativa ou semelhante a que se referem o §1º do artigo 364 do RIR/2018 (Lei nº 4.131, de 1962, art. 12, § 3º) e o §2º do artigo 364 do RIR/2018 ( Lei nº 4.506, de 1964, art. 52, parágrafo único ). Somente nos casos em que tal transferência ocorra, tal qual previsto no §3º do artigo 365 do RIR/2018, a legislação exige adicionalmente o registro ou averbação do respectivo contrato no órgão competente. Neste sentido, o acórdão nº 106- 013.199 da 3ª Turma da DRJ06, referente a decisão em processo da própria fiscalizada, PAF nº 15.746.720.471/2020-43. Concluindo, as despesas relacionadas acima e constantes no anexo 3 a este Relatório, classificadas DESPESAS TIPO 02, no valor total de R$ 166.863.817,03, foram consideradas indedutíveis da base de cálculo do IRPJ devendo ser adicionadas ao Lucro Real. A contribuinte apresentou impugnação (fls. 685 a 756). Inicialmente, contextualiza os fatos, esclarecendo que celebrou um contrato de distribuição de software para sublicenciar os programas de computador da SAP SE (anteriormente SAP AG) aos usuários finais no Brasil, remunerando a controladora alemã a título de direitos autorais – e não de royalties – e, até por isso, quando levado a registro no INPI tal contrato, teve sua averbação negada pelo citado instituto, por entender que não havia transferência de tecnologia e que o referido instrumento contratual não envolvia o pagamento de royalties (documentos de fls. 845 e 847). Além disso, esclarece que celebrou contratos de prestação de serviços relacionados consultoria, suporte e outros com a sua controladora alemã, para que a implementação do software no usuário final brasileiro fosse possível, porquanto a tecnologia não é transferida ao Brasil. Afirma existir autorização para que a contribuinte brasileira contratasse subsidiárias para prestar tais serviços aos usuários finais brasileiros. Tais contratos também não puderam ser registrados no INPI, conforme documentos juntados às fls. 934 a 951. Esclarece que o grupo SAP adquiriu a empresa Business Objects Software Limited (“BOSL”), domiciliada na Irlanda, e que nos exatos moldes do contrato anterior, foram firmados Contratos de Distribuição de Software e Serviços. Fl. 1476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 8 Em sede de preliminar, defende erro na determinação da base de cálculo, pois a autoridade fiscal incluiu no rol de despesas indedutíveis valores que se atinem à prestação de serviços por empresas localizadas no território nacional, ao passo que toda a fundamentação do Auto de Infração se relaciona a pagamento de serviços realizados pela contribuinte a empresas sediadas no exterior. Ainda, ao tratar das despesas do “Tipo 02” a autoridade fiscal se equivocou, porquanto parte delas foram prestadas pela Quadrem Brazil Ltda., empresa sediada no Rio de Janeiro, totalizando R$ 34.790.047,80, não podendo ser glosadas com fundamento legal em limites de dedutibilidade de pagamentos a empresas domiciliadas no exterior (fls. 1.049 a 1.077). Isso, alega, constituiria vício de natureza material na determinação da matéria tributável. Ainda em sede preliminar, aduz que teria errado a autoridade fiscal no cálculo da compensação de ofício do lançamento com os prejuízos fiscais, não considerando os prejuízos fiscais acumulados nos anos de 2017 e 2018, devidamente declarados, ao passo que a compensação de ofício alcançou somente os prejuízos fiscais do ano de 2019. Tal erro também seria vício material do lançamento de ofício. No mérito, com relação aos pagamentos pelo licenciamento do uso e distribuição de software (Despesas do “Tipo 01 e 03”), discorre sobre a sua caracterização como remuneração de direito autoral de software, não existindo transferência de tecnologia, cessões ou licenciamentos de patentes, desenhos industriais e ou marcas e, logo, não podendo ser equiparados a royalties. Ainda, tais despesas são necessárias à atividade da interessada, podendo ser integralmente deduzidas do lucro real. Também no tópico sobre o mérito, refuta a tipicidade dos pagamentos feitos à SAP SE e à BOSL sob a ótica do artigo 71, parágrafo único, alíneas “d”, “e” e “g” da Lei nº 4.506/64. Alega que a BOSL jamais foi sócia ou controladora direta ou indireta da contribuinte, sendo que não poderia a autoridade fiscal glosar as despesas no montante de R$ 27.510.450,62 (fls. 1.182 a .1208). No que tange à dedutibilidade das remessas ao exterior como pagamento pela prestação de serviços puros (despesas do “Tipo 02”), defende a inaplicabilidade dos dispositivos legais que fundamentaram a glosa no lançamento de ofício, por não existir transferência de tecnologia, o que caracterizariam como serviços de assistência técnica, conforme inúmeras negativas do INPI. Estariam, portanto, sujeitos à regra do artigo 311 do RIR/2018, isto é, analisadas as despesas sob a ótica de sua necessidade. Refuta também a possibilidade de registro dos contratos no BACEN, ante à negativa do INPI (documento de fls. 1.158 a 1.160). Por fim, contesta a possibilidade de cobrança de multa isolada com multa de ofício, o caráter confiscatório da multa de ofício, a inaplicabilidade da cobrança dos juros SELIC e sua cobrança sobre a multa de ofício. A DRJ julgou a impugnação improcedente, conforme acórdão de fls. 1.288 a 1.324. Entendeu que as preliminares arguidas pela contribuinte afetariam diretamente o mérito do contencioso. Fl. 1477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 9 Com relação ao arguido erro na compensação dos prejuízos fiscais acumulados, entendeu que se devidamente comprovado o montante mencionado na impugnação, poderá ser utilizado pela contribuinte em períodos subsequentes. No que tange aos pagamentos feitos pela contribuinte à Quadrem Brazil Ltda., com sede no Rio de Janeiro, manteve o lançamento, pois julgou ser aplicável a restrição contida no §1º do artigo 364 do RIR/2018, independentemente se a empresa pertence ou não ao grupo econômico, observando ainda que a referida beneficiária dos pagamentos, embora domiciliada no Brasil, é integrante do Grupo SAP. No mérito, reafirmou a aplicabilidade da indedutibilidade aos pagamento de royalties a sócios, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, entendendo que o legislador não distinguiu tal conceito de sócio no artigo 71, parágrafo único, alínea “d”, da Lei nº 4.506/1964, não existindo ilegalidade do artigo 363, inciso I, do RIR/2018. Em seguida, entendeu que os contratos firmados com a SAP SE e com a BOSL previam expressamente o uso de marcas em sua cláusula, o que atrai a regra da indedutibilidade prevista no artigo 363, inciso III, do RIR/2018. Também considerou correta a glosa dos pagamentos efetuados à BOSL, sob a égide do artigo 363, inciso V, do RIR/2018. Entendeu que não havia na documentação fiscal e na contabilidade escrutinada a segregação dos pagamentos relativos a royalties pelo uso de marcas dos pagamentos de royalties por outros motivos, sendo a segregação ônus da contribuinte, a qual não se desincumbiu. Rejeitou a alegação atinente à ausência de transferência de tecnologia para as despesas “Tipo 02” (pagamento por serviços “puros”), pois a regra do §3º do artigo 364 do RIR/2018 é de exceção à regra de indedutibilidade dos pagamentos feitos à controladora no exterior. Ao final, defende a plena aplicabilidade concomitante da multa de ofício e da multa isolada. A contribuinte foi intimada em 8 de maio de 2024 e apresentou Recurso Voluntário (fls. 1.338 a 1.415) em 5 de junho de 2024. Reprisa as alegações da impugnação. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões ao Recurso Voluntário (fls. 1.418 a 1.458) afirmando o acerto do lançamento de ofício e da decisão recorrida. É o relatório. VOTO Conselheiro Henrique Nimer Chamas, Relator. Fl. 1478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 10 Admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Delimitação da lide A principal matéria sob julgamento diz respeito à natureza jurídica dos pagamentos feitos pela contribuinte à sua controladora alemã (SAP SE) e à BOSL, se seriam royalties ou exploração de direitos autorais relacionados a software. Ainda, é necessário se debruçar sobre a dedutibilidade das despesas pagas a prestador de serviços sediados no exterior por serviços de assistência técnica, científica, administrativa ou semelhante da apuração do lucro real. Diligência Conforme se observa nos autos, duas questões pendem de esclarecimentos. A primeira diz respeito aos pagamentos realizados pela contribuinte à Quadrem Brazil Ltda. e a segunda concerne à denominação da BOSL em sua contabilidade, pois esta era denominada “BOBJ”. Sobre a Quadrem Brazil Ltda., a recorrente afirma que os pagamentos feitos a tal empresa foram incluídos no cômputo das glosas. Entretanto, no TVF e nos autos de infração, não se tem a relação minuciosa dos dispêndios que compuseram o montante lançado, sendo que na impugnação se menciona os pagamentos feitos à Quadrem, inclusive, acostando os documentos pertinentes. Porém, não se sabe, ao certo e efetivamente, se tais despesas foram incluídas nos valores objeto de lançamento ou se estão excluídos deste. Tal matéria, portanto, demanda esclarecimentos, a fim de que se comprove que as despesas arcadas pela contribuinte com relação aos pagamentos feitos à Quadrem Brazil Ltda. estão, de fato, incluídas no montante total glosado pela autoridade fazendária lançadora e que é objeto da lide. Já com relação aos pagamentos feitos à BOSL, não obstante seja esta a titular dos pagamentos objeto de questionamento pela autoridade lançadora, o nome da conta contábil é “Despesa de Licença Produtos BOBJ – Afiliadas” (Conta nº 3.1.01.03.01.453167) e “Despesa Produtos BOBJ – Afiliadas” (Conta nº 3.1.01.03.01.453168). A recorrente sustenta que em sua contabilidade a BOSL era denominada BOBJ, porém, a matéria pende de esclarecimento e comprovação de que se tratam da mesma pessoa jurídica. Diante disso, por cautela, é prudente converter o julgamento em diligência, para que seja analisado pela autoridade competente os dois temas que pendem de esclarecimentos e, no exercício privativo de suas atribuições, a unidade de origem deve intimar a contribuinte a Fl. 1479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1302-001.316 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.725211/2023-15 11 apresentar novos documentos que tanto a autoridade fiscal quanto a contribuinte entendam pertinentes à comprovação do direito sob litígio. Formulo os seguintes quesitos a serem respondidos pela autoridade fiscal e determino: (i) a devolução do processo à unidade de origem; (ii) intime a contribuinte a demonstrar que os pagamentos feitos à Quadrem Brazil Ltda. estavam incluídos nas despesas glosadas; (iii) intime a contribuinte a provar que a BOSL era a BOBJ citada na planilha de fls. 24 do TVF, bem como comprove que houve o pedido de registro do contrato de uso de marca celebrado com a BOSL no BACEN; (iv) seja analisado pela autoridade fiscal: a. as razões e documentos trazidas pela recorrente quanto aos pagamentos feitos à Quadrem Brazil Ltda. e os documentos comprobatórios atinentes à BOSL, denominada BOBJ em sua contabilidade; e b. o saldo de prejuízo fiscal de anos anteriores ao lançamento disponível na data em que efetue a diligência ora determinada. (v) elabore relatório conclusivo o tema; (vi) dê ciência do relatório acima referido à contribuinte, facultando-lhe o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação a respeito do seu conteúdo, a qual deverá ser acompanhada das correspondentes provas; e (vii) apresentada ou não manifestação pela contribuinte, no referido prazo, devolva-se o processo ao CARF, para prosseguimento do julgamento do Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Henrique Nimer Chamas Fl. 1480DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto
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Numero do processo: 18088.720118/2019-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Sep 19 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Oct 17 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF
Exercício: 2016
DECADÊNCIA. NÃO OCORRÊNCIA
No caso de tributo lançado por homologação, a Administração Tributária dispõe do prazo de cinco anos para constituir o crédito tributário a contar da data do fato gerador no caso de ter havido recolhimento e não ter ocorrido simulação, fraude ou conluio, e do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, no caso de não ter havido recolhimento ou de ocorrência de simulação, fraude ou conluio.
MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE EMPRESAS. INCIDÊNCIA DO IOF.
As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas sujeitam-se à incidência do IOF, conforme dispõe o art. 13 da Lei 9.779/99.
OPERAÇÕES DE CRÉDITO. MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS. CONTA CORRENTE. INCIDÊNCIA DE IOF.
O mecanismo de conta corrente mantido entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, pelo qual uma disponibiliza à outra recursos financeiros que deverão ser restituídos ao cabo de prazo determinado ou indeterminado, configura operação correspondente a mútuo sobre a qual incide IOF, segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROPOSTA DE APLICAÇÃO DE EQUIDADE.
As propostas de aplicação de equidade apresentadas pelos Conselhos de Contribuintes atenderão às características pessoais ou materiais da espécie julgada e serão restritas à dispensa total ou parcial de penalidade pecuniária, nos casos em que não houver reincidência nem sonegação, fraude ou conluio, nos termos do artigo 40 do Decreto nº 70.235, de 06/03/1972.
Numero da decisão: 3102-002.945
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em julgar o recurso da seguinte forma: i) por unanimidade, afastar a preliminar de decadência; e ii) por maioria, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimarães e Matheus Schwertner Zicarelli Rodrigues, que entendiam pelo cancelamento da autuação, posto que as operações envolvidas não correspondiam a mútuo.
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luis Cabral, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Fabio Kirzner Ejchel, Gisela Pimenta Gadelha, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF Exercício: 2016 DECADÊNCIA. NÃO OCORRÊNCIA No caso de tributo lançado por homologação, a Administração Tributária dispõe do prazo de cinco anos para constituir o crédito tributário a contar da data do fato gerador no caso de ter havido recolhimento e não ter ocorrido simulação, fraude ou conluio, e do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, no caso de não ter havido recolhimento ou de ocorrência de simulação, fraude ou conluio. MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE EMPRESAS. INCIDÊNCIA DO IOF. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas sujeitam-se à incidência do IOF, conforme dispõe o art. 13 da Lei 9.779/99. OPERAÇÕES DE CRÉDITO. MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS. CONTA CORRENTE. INCIDÊNCIA DE IOF. O mecanismo de conta corrente mantido entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, pelo qual uma disponibiliza à outra recursos financeiros que deverão ser restituídos ao cabo de prazo determinado ou indeterminado, configura operação correspondente a mútuo sobre a qual incide IOF, segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROPOSTA DE APLICAÇÃO DE EQUIDADE. As propostas de aplicação de equidade apresentadas pelos Conselhos de Contribuintes atenderão às características pessoais ou materiais da espécie julgada e serão restritas à dispensa total ou parcial de penalidade pecuniária, nos casos em que não houver reincidência nem sonegação, fraude ou conluio, nos termos do artigo 40 do Decreto nº 70.235, de 06/03/1972.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2025-10-10T13:44:20Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2025-10-10T13:44:20Z; Last-Modified: 2025-10-10T13:44:20Z; dcterms:modified: 2025-10-10T13:44:20Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2025-10-10T13:44:20Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2025-10-10T13:44:20Z; meta:save-date: 2025-10-10T13:44:20Z; pdf:encrypted: false; modified: 2025-10-10T13:44:20Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2025-10-10T13:44:20Z; created: 2025-10-10T13:44:20Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 29; Creation-Date: 2025-10-10T13:44:20Z; pdf:charsPerPage: 1763; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2025-10-10T13:44:20Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 18088.720118/2019-19 ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 19 de setembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE USINA CAROLO S/A-ACUCAR E ALCOOL EM RECUPERACAO INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF Exercício: 2016 DECADÊNCIA. NÃO OCORRÊNCIA No caso de tributo lançado por homologação, a Administração Tributária dispõe do prazo de cinco anos para constituir o crédito tributário a contar da data do fato gerador no caso de ter havido recolhimento e não ter ocorrido simulação, fraude ou conluio, e do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, no caso de não ter havido recolhimento ou de ocorrência de simulação, fraude ou conluio. MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE EMPRESAS. INCIDÊNCIA DO IOF. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas sujeitam-se à incidência do IOF, conforme dispõe o art. 13 da Lei 9.779/99. OPERAÇÕES DE CRÉDITO. MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS. CONTA CORRENTE. INCIDÊNCIA DE IOF. O mecanismo de conta corrente mantido entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, pelo qual uma disponibiliza à outra recursos financeiros que deverão ser restituídos ao cabo de prazo determinado ou indeterminado, configura operação correspondente a mútuo sobre a qual incide IOF, segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROPOSTA DE APLICAÇÃO DE EQUIDADE. Fl. 3470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 2 As propostas de aplicação de equidade apresentadas pelos Conselhos de Contribuintes atenderão às características pessoais ou materiais da espécie julgada e serão restritas à dispensa total ou parcial de penalidade pecuniária, nos casos em que não houver reincidência nem sonegação, fraude ou conluio, nos termos do artigo 40 do Decreto nº 70.235, de 06/03/1972. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em julgar o recurso da seguinte forma: i) por unanimidade, afastar a preliminar de decadência; e ii) por maioria, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimarães e Matheus Schwertner Zicarelli Rodrigues, que entendiam pelo cancelamento da autuação, posto que as operações envolvidas não correspondiam a mútuo. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luis Cabral, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Fabio Kirzner Ejchel, Gisela Pimenta Gadelha, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO Por bem relatar os fatos, adoto o Relatório da decisão recorrida com os devidos acréscimos: Trata-se de impugnação contra lançamento de tributo e multa de ofício de 75% no valor total de R$ 11.461.589,67 pela falta de recolhimento do imposto sobre operações de crédito (IOF), calculado conforme demonstrado à fl. 5:O presente processo trata de Autos de Infração emitidos para exigência do crédito tributário abaixo identificado: Fl. 3471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 3 O relatório fiscal apresentou, em síntese, as seguintes razões: • os integrantes do GRUPO CAROLO constituem um verdadeiro grupo econômico, com pessoas jurídicas interligadas operacionalmente, que executam o empreendimento com divisão de tarefas e que possuem diretores ou administradores em comum. •analisando as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTFs) transmitidas pela USINA, constatou-se que o sujeito passivo não declarou IOF vinculado a fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2014. •não foram apresentados os contratos correspondentes aos empréstimos concedidos pela USINA, a qual referendou a natureza de mútuo para os recursos transferidos às pessoas jurídicas integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO. •a USINA deixou de informar se, nos contratos vinculados aos EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS, estava definido o valor do principal a ser utilizado pelos mutuários. Como consequência, para a apuração do IOF incidente sobre os EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS, tornou-se necessário aplicar o disposto no art. 7°, inciso I, alínea "a" do Decreto n° 6.306/2007, com redação dada pelo Decreto n° 7.726/2012. •a USINA não esclareceu o motivo pelo qual, no ano-calendário 2014, deixou de declarar em DCTF e também deixou de recolher o IOF incidente sobre os EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS às pessoas jurídicas integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO •Em virtude do disposto no art. 44, inciso I, da Lei n° 9.430/1996, com redação dada Lei n° 11.488/2007, tornou-se necessário aplicar a MULTA DE OFÍCIO de 75% para as infrações tributárias mencionadas no item 13 desse relatório. •Tratando de decadência de tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo, decidiu que, no caso de ausência de antecipação de pagamento, o prazo para constituição do crédito tributário é de 5 anos contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento já poderia ter sido efetuado. •CONSIDERANDO que a USINA não recolheu, em DARF, o IOF correspondente aos fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2014 CONCLUI-SE que o termo inicial do prazo decadencial para o lançamento do IOF, cujos fatos geradores ocorreram Fl. 3472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 4 no ano-calendário 2014, é 01/01/2015 (regra do art. 173, inciso I, do Código Tributário Nacional). Consequentemente, o termo final do prazo decadencial para o lançamento do IOF, cujos fatos geradores ocorreram no ano-calendário 2014, é 31/12/2019. 1. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO USINA CAROLO S/A-ACUCAR E ÁLCOOL EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, CNPJ 55.109.474/0001 -68 (doravante simplesmente "USINA"), com domicílio tributário sihiado na FAZENDA CONTENDAS, S/N, PONTAL, SP, CEP 14180-000 (conforme pesquisa no CNPJ). Nos cadastros da Receita Federal, o CNAE principal da USINA é "1671-6-60 Fabricação de açúcar em bruto" enquanto que os CNAEs secundários sào os seguintes: Ainda, na Ata da Assembleia Geral Extraordinária realizada em 13/09/2011, consta que: "Artigo 2°- A sociedade tem por objetivo, atividades industriais e comerciais, a saber: a) industi-ialização ríe cava de açúcar em açúcar e áfcool; b) - exploração agrícola e pastoril, operando por coma própria ou de terceiros, em terras de sua propriedade ou exploradas sob forma de arrendamento, parceria ou outra fornia qualquer ríe exploração; c} - a prática de florestamento e reflorestamento, por conta própria ou de terceiros, e d) - prestação de serviços por mecanização agrícola e transportes de cargas rodoviárias. Único - A sociedade poderá, também, participar ríe outras Sociedades congêneres ou não, na qualidade de sócia, quotista ou acionistas". 2. ESCOPO DA AUDITORIA FISCAL O escopo inicial do TDPF - Fiscalização n° OS 12200-201S-00015-0 abrangeu a análise do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (ERPJ) correspondente aos fatos geradores ocorridos no período de 01/2014 a 12/2014. No decorrer dos procedimentos fiscais, para os fatos geradores ocorridos no ano- calendário 2014, forain identificadas infrações tributárias relativas ao ERPJ. ã Contribuição Social sobre o Lucro Líquido [CSLL) e ao Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros (lOF). O art. 142 da Lei na 5.172/1966 (Código Tributário Nacional) dispõe que: 'Art. 142. Compete privativamente á autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo Fl. 3473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 5 devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. À atividade administrativa de lançamento è vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional." Ein virtude do esponto. tornou-se necessário efetuar o lançamento de oficio dos seguintes tributos, cujos fatos geradores ocorreram no ano-calendário 2014: IRPJ: CSLL e IOF. Neste relatório serão discriminadas as infrações tributárias relativas apenas ao IOF. 3. TERMOS ESTADOS E RESPOSTAS RECEBIDAS Na tabela abaixo estão discriminados os termos enviados á USINA as correspondentes datas de ciência e as respostas apresentadas pela empresa fiscalizada: 4. ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL DIGITAL A Escrituração Contábil Digital correspondente aos fatos contábeis ocorridos no ano-calendário 2014 (doravante simplesmente TÜCD/20141'), transmitida pela USINA ao Sistema Público de Escrituração Digital (SPED). foi obtida mediante a Requisição de Cópia de Escnturaç ão Contábil Digital n° 6f5 9b36d- 5 f2 SdS - ace7- 6dd06 ceO 5 3 de. A ECD/2014 obtida no SPED possui o código de identificação do arquivo (HASH): D 9ÓDDF5 3E7B5BB35E41F9D6 7FD22 5 6AB 43 SFE4D3. 5.ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL FISCAL Escrituração Contábil Fiscal correspondente aos fatos geradores ocorridos no ano- calendário 2014 (doravante simplesmente "ECFV2Ü14"), transmitida pela USINA ao SPED, possui o código de identificação do arquivo (HASH): 92.9F.AA.Ü3.89.B2.7D.E0.Ó4.1F. AB.C0.1E.3e.29.9F.97.93.54.09. Fl. 3474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 6 6.IOF NÀO DECLARADO EM DCTF E TAMBÉM NÃO RECOLHIDO EM DARF Analisando as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTFs) transmitidas pela USINA, constatou-se que o sujeito passivo não declarou IOF vinculado a fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2014. Na tabela abaixo estão listados os números das DCTFs analisadas: Além disso, foram pesquisados, nos sistemas da Receita Federal, todos os recolhimentos de tributos federais efetuados em DARF pela USLNA (tributos cujos fatos geradores ocorreram no ano-calendário 2014). Na tabela abaixo estão demonstrados os tributos recolhidos e os correspondentes montantes recolhidos pelo sujeito passivo: Fl. 3475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 7 ortanto, ficou comprovado que a USINA não recolheu qualquer valor de IOF relativo aos tatos r/eradores ocorridos no ano-calendário 2014. 7. E1MPRESTIMOS, MÚTUOS E FINANCIAMENTOS CONCEDIDOS Em resposta protocolada em 14/06/2013. a USINA relacionou as seguintes contas, pertencentes ao grupo do Ativo, utilizadas para o registro dos saldos/lançamentos dos empréstimos/mútuos/financiamentos concedidos até 31/12/2013 (e não quitados até essa data) e concedidos durante o ano-calendário 2014: Conta Descrição Conta 17110040010000607 AGRO PE C.SANTA CATARINA S/A 17110040010012830 PLANALTO AGROINDÚSTRIA!. LTDA 17110040010260708 AGROPECUÁRIA 2C LTDA 17110040010265408 AMC EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA 17110040010265410 MCC EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA 17110040010270477 MC3 AGROPECUÁRIA LTDA 171100400102S4130 SANTO EXPEDITO AGROPECUÁRIA LTDA Os empréstimos/mútuo s/f mandamentos concedidos, citados neste item. doravante serào referenciados simplesmente por "EMPRESTEMOS CONCEDIDOS". Pela análise dos documentos apresentados e de acordo com pesquisa no CKPJ. verificou-se que as seguintes pessoas jurídicas teriam sido as beneficiarias dos EMPRESTEMOS CONCEDIDOS pela USINA 9.GRUPO ECONÔMICO CAROLO No Pedido de Recuperação Judicial (procedo judicial n° 0000058 75.2014.8.26.0466 que transita na Vara Única da Comarca de Pontal, Estado de Sao Paulo), as pessoas jurídicas USINA CAROLO. SANTA CATARINA. PLANALTO, 2C, AMC, MCC, MC3 e SANTO EXPEDITO (doravante simplesmente "GRUPO CAROLO") informaram que "[...] possuem uma iitrica atiridade interligada, concatenada para o melhor (desenvolvimento da empresa." (sic). No mesmo Pedido de Recuperação Judicial consta que "Assim, fica claro que as. sociedades REQUERENTES sào interligadas e interdependentes operacionalmente, compondo um único empreendimento, uma única empresa (atividade económica)." (sic). Observação: o termo "REQUERENTES''' se refere aos membros do GRUPO CAROLO que, conjuntamente, requereram a Recuperação Judicial no processo n° 0000058- 75 2014.8.26 0466. Fl. 3476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 8 Ainda, no Pedido de Recuperação Judicial, foi descrito que, na realização do empreendimento, existe uma divisão de tarefas entre os integrantes do GRUPO CAROLO: a)USINA CAROLO promove a industrialização de cana-de-açúcar e fabricação de açúcar e álcool; b)SANTA CATARINA promove a exploração das áreas que produzem matéria- prima para a fiscalizada; c)PLANALTO :en: come especialidade a fabricação de áxool e d)MCJ, SANTO EXPEDITO e 2C se dedicam, principalmente, á produção e cultivo de cana-de- açúcar para o fornecimento de matéria-prima ãs industriais. Prosseguindo, tem-se que, de acordo com a Ata da Assembleia Geral Ordinária realizada em 26/08/2013, as pessoas jurídicas AMC e MCC eram as controladoras d?, USINA CAROLO, nos termos do art. 243. -§2°. da Lei n" 6.404/1976, pois; a)na referida ata consta que AMC e MCC representavam a totalidade dos acionistas da empresa fiscalizada com direito a voto (1.281.529.956 votos, representando 100,00% do capital votante) e b)na mesma ata consta que os Srs. MARCELO CAROLO. CPF 036.761.30S-55, e ANTONIO CARLOS CAROLO, CPT 204 272.718-00, (pelo voto da totalidade dos acionistas) foram reeleitos para compor a diretoria da USINA CAROLO até 2016. Complementando, por intermédio de pesquisa no CNPJ e no site da Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP), verificou-se que, no ano-calendario 2014, os sócios/acionistas e os administradores das pessoas jurídicas integrantes do GRUPO CAROLO eram os seguintes contribuintes: DRJ/SPO Fls. 8 PESSOA JURÍDICA INTEGRANTE DO GRUPO ECONÔMICOSÓCIO ou ACIONISTAADMINISTRATOR ou DIRETOR MCCMARCELO CAROLO CPF 036.761.308-55 ANA CRISTINA PINHEIRO CAROLO CPF 611.223.436-04;MARCELO CAROLO CPF 036.761.30S-55 AMCANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204.272.718-00 MAGDA BUCH ALA DA SILVA CAROLO, CPF 743.695.208-00ANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204 272 718-00 SANTA CATARINAAMC MCCMARCELO CAROLO CPF 036.761.30S-53 ANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204.272.71S-00 MC3ARTHUR PINHEIRO CAROLO CPF 223.334.468-54 PEDRO PINHEIRO CAROLO CPF 223.334.488-06 e CATARINA PINHEIRO CAROLO CPF 310.106.038-92MARCELO CAROLO CPF 036.761.308-55 SANTO EXPEDITOANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204.272.718-00 JOÃO GUILHERME CAROLO CPF 214.425.658-61ANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204 272 718-00 2CSANTO EXPEDITO MC3MARCELO CAROLO CPF 036.761.308-55 ANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204.272.718-00 PLANALTOMARCELO CAROLO CPF 036.761.308-55 ANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204.272.718-00MARCELO CAROLO CPF 036.761.308-55 ANTONIO CARLOS CAROLO CPF 204.272.718-00 Pela análise da tabela acima, lern-se que: Fl. 3477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 9 a) os membros da Família Carolo ou as pessoas jurídicas por eles controladas são os sócios/acionistas dos integrantes do GRUPO CAROLO e b) as pessoas jurídicas integrantes do GRITO CAROLO possuem administradores ou diretores em comum (o Sr. MARCELO CAROLO. CPF 036.761.303-55, e/ou o Sr. ANTONIO CARLOS CAROLO, CPF 204.272 718-00) CONSIDERANDO que os integrantes do GRUPO CAROLO se consideram mutuamente corno pessoas jurídicas interliga das operacionalmente, compondo um único empreendimento, uma única empresa (atividade econômica): CONSIDERANDO que, para a execução do empreendimento, existe uma divisão de tarefas entre os integrantes do GRUPO CAROLO: CONSIDERANDO que MCC e AMC sào controladoras da USINA CAROLO: CONSIDERANDO que os sócios/acionistas dos integrantes do GRUPO CAROLO sào membros da Família Carolo ou sào pessoas jurídicas por eles controladas e CONSIDERANDO que os integrantes do GRUPO CAROLO possuem diretores ou administradores em comum [MARCELO CAROLO e/ou ANTONIO CARLOS CAROLO), CONCLUI-SE que os integrantes do GRUPO CAROLO constituem um verdadeiro grupo econômico. Doravante, o grupo composto por USINA CAROLO SANTA CATARINA. PLANALTO 2C, AMC, MCC, MC3 e SANTO EXPEDITO será referenciado simplesmente por GRUPO ECONÔMICO CAROLO Tais informações foram prestadas, pois. no curso do procedimento fiscal, foram apresentados alguns comprovantes de dispêndios pagos pela USINA, mas que, na realidade, tratam-se de dispêndios de integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO. Ainda, segundo a USINA, tais pagamentos foram registrados como mútuos concedidos. 9. LEGISLAÇÃO APLICÁVEL O art. 63. inciso I. do Código Tributário Nacional dispõe que: "Art. 63. O imposto, de competência da União, sobre operações de crédito, câmbio e seguro, e sobre operações relativas a títulos e valores mobiliários têm como fato gerador: I - quanto às operações de crédito, a sita efetivação pela entrega tota! ou parcial do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado;" (grifei) Por sua vez, o art. 13 da Lei n" 9.779/1999 dispõe que: "Art. 13. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa fisica sujeitam-se à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às Fl. 3478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 10 operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras." [grifei) Nas operações de crédito, os tomadores de crédito são os "contribuintes" do IOF (art. 3". inciso I. da Lei n° 8.S94/1004) enquanto que a pessoa jurídica que concede o crédito é a '"responsável" pela cobrança e pelo recolhimento do IOF (art. 13, § 2º, da Lei na 9.179/1999). Observação: no presente lançamento de oficio, a USINA é qualificada como responsável pela cobrança e pelo recolhimento do IOF incidente sobre as operações de crédito que concedeu ãs pessoas jurídicas integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO Prosseguindo, no ano-calendário 2014, vigorava a seguinte redação para as alíneas Lla" e "b" do inciso I do art. T do Decreto n" 6.306/2007, com redação dada pelo Decreto u° 7.726/2012: "Art. 7a A base de cálculo e respectiva alíquota reduzida do IOF: I'- na operação de empréstimo, sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito: a} quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, inclusive por estar contratualmente prevista a reutilização do crédito, até o termo final da operação, a base de cálculo é o somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês, inclusive na prorrogação ou renovação: 1.mutuário pessoa jurídica: 6,0641%; 2.mutuário pessoa física: 0,0041%; b) quando ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, a base de cálculo è o principal entregue ou colocado à sua disposição, ou quando previsto mais de um pagamento, o valor do piincipal de cada uma das parcelas: 1.mutuário pessoa jurídica: 6,0641% ao dia; 2.mutuário pessoa física: 0,0041% ao dia," (grifei)Além do IOF mencionado nas linhas acima (doravante simplesmente "IOF PRINCIPAL"), existe a previsão de cobrança de um valor adicional de IOF previsto nos 55 15 e 1(5 do art. T do Decreto n" o".30672007, com redação dada pelo Decreto n" o".339/200S (doravante simplesmente "IOF ADICIONAL"): "§ 15. Sem prejuízo do disposto no caput, o IOF incide sobre as operações de crédito à alíquota adicional de trinta e oito centésimos por cento, independentemente do prazo da operação, seja o mutuário pessoa física ou pessoa jurídica. §16. Nas hipóteses de que tratam a alínea "a" do inciso I, o inciso III, e a alínea "a" do inciso V, o IOF incidirá sobre o somatório mensal dos acréscimos diários dos saldos devedores, à alíquota adicional de que trata o §15." (grifei) Fl. 3479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 11 Portanto, nas operações de empréstimo, sob qualquer modalidade, quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, o IOF mensal será composto pela soma de suas parcelas: o IOF PRINCIPAL e o IOF ADICIONAL. 10. NÃO FORAM APRESENTADOS OS CONTRATOS CORRESPONDENTES AOS EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS PELA USINA A tabela abaixo foi elaborada a partir dos dados constantes na ECD/2 014 da USINA Na coluna "Saldo Inicial da referida tabela estão discriminados os saldos existentes, em 31/12/2013, nas contas contábeis representativas dos EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS às pessoas jurídicas integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO Por sua vez, na coluna "Total Débitos", está indicado o somatório dos valores debitados em cada conta no ano-calendário 2014 (novas parcelas de mútuos concedidos, capitalização dos juros ativos, capitalização da variação cambial ativa etc). Pois bem, por intermédio do Termo de Intimação na 01/00015/2018, cuja ciência ocorreu em 09/02/2013, a USLNA foi intimada a apresentar cópia legível dos contratos de EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS Até 05/04/2019. foram apresentados apenas três contratos de empréstimos nos quais constavam como partes a USINA e uma pessoa jurídica integrante do GRETO ECONÔMICO CAROLO. As mutuantes, as mutuárias e as datas constantes nestes contratos são as seguintes: Conforme se observa, nos referidos contratos, a USINA figura como mutuária em vez de mutuante. Portanto, referidos instrumentos particulares nào estão vinculados aos EMPRESTEMOS CONCEDIDOS, conforme solicitado no Termo de Intima cão n° 01/00015/2015. Prosseguindo, por intermédio do Termo de Intimação u° 06700015/20IS. cuja ciência, ocorreu em 09/04/2019. a USINA foi informada sobre o fato de que as cópias dos contratos dos EMPRÉSTIMOS CONCEDEOOS ainda nào haviam sido apresentados. Em resposta protocolada em 06705/2015 a USINA informou que: Fl. 3480DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 12 a)"[...] este i. Agente Fiscal segue questionando a regularidade formal das operações de mútuo realizadas entre os integrantes do grttpo econômico da Intimada." (grifei); b)"Assim, o contrato de mútuo está disciplinado nos artigos 586 a 592 do CC/02, que nào determinam expressamente a forma sofene para a \alidade deste contrato; a Uberdade deforma ê a regra, conforme dispõe o artigo 107 do CC/02" e c)"[...] a ausência do contrato formal nào é suficiente para descaracterizar a operação de mútuo- como é o caso -, JJÍÍO há qne se falar em penalidade à Intimada pela nào apresentação desses documentos, uma vez que, como destacado, a simples existência dos lançamentos contábeis de atiro on passivo e respectivos históricos como controle e formaiizaçào dos mútuos e respectivos saldos e mais do que suficiente.'". Portanto, embora intimada, a USE\Á nào apresentou a copia legível dos contratos vinculados aos EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS Por outro lado, como se nota pela resposta apresentada, a USLNA referendou a natureza de mútuo para os recursos transferidos ãs pessoas jurídicas integrantes do GRUPO E CONÔMJCO CARO LO 11. EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS: FALTA DE DEFINIÇÃO DO VALOR DO PRINCIPAL A SER UTILIZADO PELO MUTUÁRIO Conforme mencionado no item 9 deste relatório, para apuração do IOF nas operações de empréstimo, é necessário verificar se Louve ou uào a definição do valor do principal a ser utilizado pelo mutuário. Ocorre que. embora intimada, a USENA deixou de apresentar as cópias dos contratos dos EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS nos quais, eventualmente, poderiam estar definidos os valores do principal a serem utilizados pelo mutuário (vide item 10 deste relatório). Assim, com base na ECD/2014, foi elaborada a tabela abaixo na qual estão discriminados os saldos dos EMPRESTEMOS CONCEDIDOS até 31/12/2013 e não quitados até essa data: Por intermédio do item 10 do Termo de Intimação n° 06/00015/2015 a USINA foi intimada a elaborar e a apresentar uma memória de cálculo que discriminasse, para cada valor que compõe o- saldo inicial das contas contábeis listadas na tabela acima: a)qual parcela era decorrente de contrato de mútuo uo qual NÀO ficou definido o valor do priucipal a ser utilizado pelo mutuário (art. 7º. inciso I, alinea Lla" do Decreto u° 6.30 6/2 00 7) e b)qual parcela era decorrente de contrato de mútuo Fl. 3481DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 13 no qual ficou defiuido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário (art. 7º. inciso I, alínea "b" do Decreto n° ó".306/2007). Além disso, também com base na ECD/2014. foi elaborada a planilha "Lançamentos Contábeis que indicam Empréstimos/Mútuos Concedidos no ano- calendário 2014 - Tabela Af" (doravante simplesmente "TABELA M") que segue anesa. Nesta, foram listados os lançamentos contábeis que indicavam empréstimos concedidos aos integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO no ano-calendário 2014 Por intermédio do item 11 do Termo de Intimação n° 06/00015/201S> a USEVA foi intimada a elaborar e a apresentar uma memória de cálculo que discriminasse, para cada valor listado na TABELA M auexa. se o mesmo era decorrente de: a)contrato de mútuo no qual NÀO ficou definido o valor do priucipal a ser utilizado pelo mutuário (art. 7°. inciso I. alínea "a" do Decreto n° o".306/2007) ou b)contrato de mútuo uo qual ficou definido o valor de- principal a ser utilizado peto mutuário (art. T, inciso I, alínea "b" do Decreto u" 6.30 6/2 00 7). Importante destacar que, no item 12 do Termo de Intimação n° 06/00015/20IS, a USINA foi alertada para o fato de que. caso aã" o atendesse ao que Lavia sido solicitado nos itens 10 e 11 do mesmo termo, seria necessário considerar o disposto no art. 7º, inciso L alinea La" do Decreto n° 6.306/2007, com redação dada pelo Decreto n° 7.726/2012. Em sua resposta protocolada em 06/05/2019. a USINA deixou de informar se, nos contratos vinculados aos EMPRÉSTIMOS CONXEDIDOS. estava definido o valor do principal a ser utilizado pelos mutuários. Como consequência, para a apuração do IOF incidente sobre os EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS, tornou-se necessário aplicar o disposto no art. Ia. inciso I, alinea "a" do Decreto n° 6.306/2007, com redação dada pelo Decreto n" 7.726/2012. 12. BASE DE CÁLCULO DO IOF INCIDENTE SOBRE OS VALORES DOS EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS PELA USINA Embora intimada (item 9 do Termo de Intimação n° 06/00015/2013), a USINA nao esclareceu o motivo pelo qual, no ano-calendário 2014, deixou de declarar em DCTF e também deixou de recolher o IOF incidente sobre os EMPRÉSTIMOS CON* CEDED OS ás pessoas jurídicas integrantes do GRUPO ECONÓMICO CAROLO Portanto, tornou-se necessário proceder ao lançamento de ofício do IOF correspondente aos fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2014. Conforme mencionado no irem 11 deste relatório, a USENA nào comprovou que os valores dos EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS se referiam a contratos de mútuo nos quais estava definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário. Portanto, com base no disposto na alínea "'a" do inciso I do art. Ia do Decreto nD 6.306/2007, com redação dada pelo Decreto na 7.726/2012, foram apurados os Fl. 3482DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 14 valores mensais do IOF PRINCIPAL (designação utilizada neste relatório, conforme item 9). cuja base de cálculo e alíquota sào as seguintes: a)base de cálculo do IOF PRINCIPAL: somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês e b)alíquota do IOF PRINCIPAL: 0,0041% [mutuário pessoa jurídica) Por sua vez, com base no disposto nos §§ 15 e 16 do art. T do Decreto n" 6.306/2007, com redação dada pelo Decreto n3 6.339/2008, foram apurados os valores mensais do IOF ADICIONAL (designação utilizada neste relatório, conforme item 9), cuja base de calculo e alíquota sào as seguintes: a)base de cálculo do IOF ADICIONAL: somatório mensal dos acréscimos diários dos saldos devedores e b)alíquota do IOF ADICIONAL: 0,38%. Para fins de demonstrar os valores de IOF PRINCIPAL e de IOF ADICIONAL, ambos apurados mensalmente, foram elaboradas as seguintes planilhas que seguem anexas: a)"Lançamentos Contábeis nas Contas de Empréstimos/Mútuos/Financiamentos Concedidos - Tabela II" (doravante simplesmente "TABELA II11); b)"Saídos Devedores Diários e Acréscimos Diários dos Saldos Devedores -Tabela 12" (doravante simplesmente "TABELA E21'); c)"'Saldos Devedores Diários e Acréscimos Diários dos Saldos De\'edores calculados Mensalmente - Tabela T3" (doravante simplesmente "TABELA 13"); e d)"Consolidação dos Saldos Devedores Diários e dos Acréscimos Diários dos Saldos Devedores - Tabela 14" (doravante simplesmente "TABELA 14") Na tabela abaixo, estão descritos os dados que constam em cada uma das quatro planilhas citadas acima: 13. IXFRAÇÃO TRIBUTÁRIA: FALTA DE RECOLHIMENTO DO IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO Com base nos dados constantes na TABELA 14 anexa (citada no item 12 deste relatório), foi elaborada a tabela abaixo, na qual estão discriminados os valores do IOF PRINCIPAL, do IOF ADICIONAL e do IOF Total Devido nomes: Fl. 3483DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 15 Portanto, os valores discriminados na coluna TOF Total Deiido no Mês" da tabela acima estão sendo objeto de lançamento de ofício, cujo sujeito passivo é a USINA. 14.MULTA DE OFÍCIO Em virtude do disposto no art. 44, inciso I, da Lei n° 3.430/1996. com redação dada Lei na 11.433/2007, tornou-se necessário aplicar a MULTA DE OFÍCIO de 75% para a infração tributan» mencionada no item 13 desse relatório. 15.NÃO OCORRÊNCIA DE DECADÊNCIA No ano-calendário 2014. a USINA era credora de pessoas jurídicas integrantes do GRUPO ECONÔMICO CAROLO em virtude dos EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS Consequentemente, no ano-calendário 2014. houve fato gerador de IOF, conforme previsto no art. 13 da Lei n° 9.779/1999. Pois bem. o IOF é um tributo sujeito ao lançamento por homologação (previsto no art. 150 do Código Tributário Nacional). Tratando de decadência de tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo, decidiu que, no caso de ausência de antecipação de pagamento, o prazo para constituição do crédito tributário é de 5 anos coutados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento já poderia ter sido efetuado. Fl. 3484DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 16 O precedente tem a seguinte ementa: "PROCESSUAL CIVIL RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543-Ç DO CPC TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PRE V1DENCIARIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCTA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CREDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, l DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, §4°,el 73,1 do CTN. IMPOSSIBILIDADE. O prazo decadência} qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei nào prevê o pagamento antecipado da exaçào ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo incoiTe, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.05Ô/PR, Rei Minisnv Luiz Fux, julgado em 2S.il.2Q07, DJ 25.02.200S, AgRg nos EREsp 216.75S/SP, Rei. Minisfro Teori Albino Zavascki, julgado em S2.Qi.2G06, DJ 10.04.2006, e EREsv 2~5.J42/SP. He!. Miwstro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ2S.02.2005). 2.É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontra-se regulada por cinco regras juridicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado {Eurico Marcos Diniz de Saitti, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3" ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, pags. 163/210). 3.O dies a quo do prazo quinqüenal da aludida regra decadência} rege-se pelo disposto no artigo 173,1, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte ã ocorrência do fato imponivel, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelando-se inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4a, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadência! decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Digito Tributário Brasileiro", 3a ed.. Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. PI/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10" ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3a ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. IS3/1991. Fl. 3485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 17 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuida-se de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias nào restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis oconidos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994, e fiii) a constituição dos créditos tributários respectivos deu-se em 26.03.2001. 6.Destarte, revelam-se caducos os créditos tributários executados, tendo em ris ta o decurso do prazo decadência! qüinqüenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7.Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime áo artigo 543-C, do CPC, e da Resolução STJ OS/2008. (REsp 97Í733/SC, Rei. Minisfro LUTZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009) (grifos e destaques nossos)". O mesmo entendimento é, atualmente, apresentado nos julgados do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). A título de exemplo, cita-se o Acórdão na 9303 003.805 proferido, em 14/06/2019, pela 3 Turma da Camara Superior de Recursos Fiscais do CARF, cuja ementa é reproduzida abaixo: "INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DO FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADÊNCIA!. ARTIGO ¡73, I DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL CTN. INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 62, § 2 DO RICARF. MATÉRIA JULGADA PELA SISTEMÁTICA DOS RECURSOS REPETITIVOS STJ O Superior Tribunal de Justiça STJ, no julgamento realizado pela sistemática do artigo 54iC do antigo Código de Processo Civil, decidiu que, tios tributos cujo lançamento é por homologação, o prazo para constituição do crédito tributário é de 5 anos, {art.150, § 4° do CTNf contados a partir da ocorrência do fato gerador, quando houver antecipação de pagamento, e do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento já poderia ter sido efetuado, no caso de ausência de antecipação de pagamento, ou na ocoirência de dolo, fraude ou simulação {artigo 113,1 do CTN). Nos termos do artigo 62, § 2 do Regimento Interno do CARF, as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribuna! de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 5433 e 543C da Lei n° 5.S69, de 11 de janeiro de 1973, do antigo código de Processo Civil, devem ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF." CONSIDERANDO o disposto no art. 150, § 4a. do Código Tributário Nacional: CONSIDERANDO o disposto no art. 173, inciso I, do Código Tributário Nacional; CONSIDERANDO que o Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo, decidiu que. nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, quando não houver a autecipação de paga mento, o prazo para constituição do Fl. 3486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 18 credito tributário é de 5 anos contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento já poderia ter sido efetuado: CONSIDERANDO que o CARF vem decidindo que. nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, quando nào houver a antecipação de pagamento, o prazo para constituição do credito tributário é de 5 anos contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento já poderia ter sido efetuado e CONSIDERANDO que a USINA nào recolheu, em DARF. o IOF correspondente aos fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2014 (vide item 6 deste relatório). CONCLUI-SE que o termo inicial do prazo decadencial para o lançamento do IOF, cujos fatos geradores ocorreram no ano-calendário 2014, ê 01/01/2015 (regra do art. 173, inciso I. do Código Tributário Nacional). Consequentemente, o termo final do prazo decadencial para o lançamento do IOF, cujos fatos geradores ocorreram no ano-calendário 2014, é 31/12/2019. 16. CONCLUSÃO O presente Relatório de Auditoria Fiscal, assim como as demais planilhas anexas, sào parte integrante do Auto de Infração de IOF correspondente ao período de Dl/2014 a 12/2014, e deles o sujeito passivo toma conhecimento e recebe cópia. O cálculo do imposto devido, multas e juros, bem como os enquadramentos legais constam do Auto de Infração. Ressalte-se, para os devidos fins legais, que não há impedimentos para nova fiscalização do período de 01/2014 a 12/2014. sempre que houver indícios para tal e desde que, para o referido período, nào tenha incorrido o instituto da decadência. Para constar e surtir os efeitos legais, o presente relatório faz parte integrante do Auto de Infração, assim como todos demais demonstrativos/planilhas que o acompanham. Os documentos citados no presente relatório foram incluídos no processo administrativo fiscal eletrônico n° 18088-720.118/2019-19 de que faz parte o presente Auto de Infração e que poderá ser consultado pelo sujeito passivo na Delegacia da Receita Federal do Brasil em Ribeirão Preto. SP. {assinaria-a digital) Osvaldo Bonani Júnior Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil Matrícula 26.262 Cientificada em 23/07/2019 (fls. 3285 a 3286), a empresa apresentou a impugnação ao lançamento em 20/08/2019 (fl. 3290), alegando, em síntese, que: IMPUGNAÇÃO Processo 18088.720118/2019-19DRJ/SPO Acórdão n.° 16-90.963Fls. 21 Fl. 3487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 19 •seria recorrente a utilização do instituto do mútuo entre as empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, para fazer frente às obrigações de cada entidade. •o prazo decadencial dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, quando do não pagamento antecipado, é o previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, qual seja de 5 (cinco) a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. •o IOF é um tributo de apuração mensal, de modo que no último dia de cada mês configura-se o fato gerador, momento em que se constituirá a base de cálculo para lançamento/pagamento do tributo no mês subsequente - logo, o exercício subsequente àquele em que o lançamento poderia ter sido constituído seria o mês imediatamente posterior ao que o IOF deveria ter sido pago. •A lavratura do presente Auto de Infração ocorreu em 15/07/2019, e analisou o período de janeiro de 2014 a dezembro de 2014. Os créditos tributários lançados nos meses de janeiro de 2014 a maio de 2014 estariam fulminados pela decadência. •a Impugnante, por possuir maior poder negocial no mercado e deter os bens e direitos passíveis de serem prestados como garantia a credores (i.e. parque industrial, faturamento da venda de açúcar e etanol, imóveis rurais próprios), contraia empréstimos junto a instituições financeiras e repassava-os às demais empresas do GRUPO CAROLO, com o único objetivo de preservá-las durante o cumprimento do PRJ, o que se assemelha, para fins jurídicos, ao compartilhamento de uma única "conta corrente". •o IOF incidiria sobre operações de crédito que visam a obtenção de receitas financeiras, não se aplicando, portanto às operações de gestão centralizada de recursos por parte da Impugnante, sobretudo em se tratando de grupo econômico sujeito à Recuperação Judicial e, consequentemente, controle judicial. •A 4a Câmara da 2a Turma Ordinário do CARF, quando do julgamento do Recurso Voluntário n° 11060.722406/2011-10, em sessão realizada em 22 de maio de 2018, decidiu: o "IOF. CONTRATO DE CONTA CORRENTE. MÚTUO. GESTÃO DE CAIXA ÚNICO. NÃO INCIDÊNCIA. o O contrato de conta corrente é instrumento hábil para operacionalizar a gestão de caixa único (cash pooling) no âmbito de um grupo econômico, não havendo que se confundir as transferências decorrentes deste daquelas relacionadas a contratos de mútuo e abrangidas pela hipótese de incidência do IOF. Processo 18088.720118/2019-19DRJ/SPO Acórdão n.° 16-90.963Fls. 22 •A 1a Câmara da 1a Turma Ordinário do CARF nos autos do Recurso Voluntário n'. 11080.015070/2008-00 (doc. 06) decidiu: Fl. 3488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 20 o "IOF. RECURSOS DA CONTROLADA EM CONTA DA CONTROLADORA. CONTA CORRENTE. RAZÃO DE SER DA HOLDING. o Os recursos financeiros das empresas controladas que circulam nas contas da controladora não constituem de forma automática a caracterização de mútuo, pois dentre as atividades da empresa controladora de grupo econômico está a gestão de recursos, por meio de conta corrente •a Recuperação Judicial configuraria uma situação análoga ao chamado "estado de necessidade", instituto emprestado do direito penal que exime o agente da conduta típica praticada, conforme previsto no artigo 24 do Código Penal (Decreto-Lei n'. 2.848, de 07 de dezembro de 1940 - "CP") Antes as alegações, a impugnante pleiteia que: •seja afastada a multa de ofício aplicada com base no artigo 44, inciso I, da Lei n'. 9.430/96, no patamar de 75% (setenta e cinco por cento) sobre o imposto devido, tendo em vista a situação de Recuperanda Judicial da Impugnante e do grupo econômico do qual é parte (GRUPO CAROLO), em função da comprovação do"estado de necessidade" nos termos acima destacados, que, analogamente, excluiria a culpabilidade do contribuinte em relação a quaisquer infrações da legislação tributária de regência, ou, ao menos, que seja-lhe aplicada a multa de mora de 20% (vinte por cento), na forma do artigo 59, da Lei n'. 8.383, de 30 de dezembro de 1991. •seja reconhecida a decadência do direito de lançar os créditos tributários relativos aos meses de janeiro a maio de 2014, nos termos do artigo 173, inciso I, do CTN, e com base no entendimento consolidado dos tribunais superiores administrativo e judicial pátrios; •afaste-se integralmente a autuação fiscal e multa de ofício do período de apuração ora impugnadas, haja vista que as operações realizadas pela Impugnante em favor do seu grupo econômico não tiveram qualquer cunho financeiro, apenas objetivaram a gestão única de caixa, a manutenção da atividade e preservação das empresas do Grupo Carolo, que se encontravam em Recuperação Judicial, nos exatos termos do caput do artigo 47, da LFE, e consoante o entendimento mais atual do C. CARF, acima detalhado; •ao menos seja afastada a multa de ofício aplicada com base no artigo 44, inciso I, da Lei n°. 9.430/96, no patamar de 75% (setenta e cinco por cento) sobre o imposto devido, tendo em vista a situação de Recuperanda Judicial da Impugnante, aplicando-se, por analogia, o "estado de necessidade" do direito penal, que exclui a culpabilidade do tipo penal praticado, consoante jurisprudência acima esgrimida e detalhada, OU, ainda, ao menos, seja-lhe aplicada a multa de mora de 20% (vinte por cento), na forma do artigo 59, da Lei n°. 8.383, de 30 de dezembro de 1991. Ato contínuo, a DRJ-SÃO PAULO julgou a impugnação do contribuinte nos termos sintetizados na ementa, a seguir transcrita: Fl. 3489DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 21 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS - IOF Ano-calendário: 2014 IOF. SEM PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. O prazo decadencial dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, quando do não pagamento antecipado, é o previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, qual seja de 5 (cinco) a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. O termo inicial do prazo decadencial para o lançamento do IOF cujos fatos geradores ocorreram no ano- calendário 2014 é 01/01/2015 e o termo final do prazo decadencial é 31/12/2019. DISPONIBILIZAÇÃO E/ OU TRANSFERÊNCIA DE CRÉDITOS A OUTRA PESSOA JURÍDICA. CONTRATO DE MÚTUO. CONTA CORRENTE. IOF. INCIDÊNCIA. A disponibilização e/ ou a transferência de créditos financeiros a outras pessoas jurídicas, ainda que realizadas sem contratos escritos, mediante a escrituração contábil dos valores cedidos e/ ou transferidos, constitui operação de mútuo sujeita à incidência do IOF. No contexto do fato gerador do tributo devem ser compreendidas também as operações realizadas ao abrigo de contrato de conta corrente entre empresas coligadas com a previsão de concessão de crédito. ESTADO DE NECESSIDADE. INAPLICABILIDADE. Excludente de ilicitude prevista no Direito Penal e aplicável a pessoa física não se aplica à infração tributária realizada pela empresa. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em seguida, devidamente notificada, a Recorrente interpôs recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. Neste Recurso, a Empresa suscitou as mesmas questões preliminares e de mérito, repetindo os mesmos argumentos apresentados na sua manifestação de inconformidade. É o relatório. VOTO Conselheiro Pedro Sousa Bispo, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. Conforme se depreende da leitura do processo, a autuação em tela teve por base o procedimento fiscal no qual se constatou que a Recorrente deixou de recolher IOF, no ano de Fl. 3490DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 22 2014 , sobre valores registrados nas contas contábeis que foram caracterizadas como operações de crédito correspondentes a mútuo pela fiscalização, conforme tabela abaixo: Ficou a empresa recorrente como responsável pelo recolhimento do IOF conforme disposto no § 2º do artigo 13 da Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999, in verbis: Art. 13. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física sujeitam-se à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. (...) § 2º Responsável pela cobrança e recolhimento do IOF de que trata este artigo é a pessoa jurídica que conceder o crédito. Nos termos do artigo 7º, inciso I, alínea “a”, do Decreto nº 6.306, de 14 de dezembro de 2007, quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, a base de cálculo é o somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês, in verbis: Art. 7º A base de cálculo e respectiva alíquota reduzida do IOF são (Lei nº8.894, de 1994, art. 1º, parágrafo único, e Lei nº 5.172, de 1966, art. 64, inciso I): I - na operação de empréstimo, sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito: a) quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, inclusive por estar contratualmente prevista a reutilização do crédito, até o termo final da operação, a base de cálculo é o somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês, inclusive na prorrogação ou renovação: 1. mutuário pessoa jurídica: 0,0041%; Fl. 3491DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 23 De acordo com o dispositivo legal acima, foram elaboradas tabelas do cálculo do IOF devido: A recorrente se insurge contra o lançamento pedindo o seu cancelamento e abordando os seguintes aspectos: i) decadência; ii) da situação econômico-financeira da recorrente no ano calendário de 2014 e não incidência do IOF nas operações financeiras entre empresas do mesmo grupo econômico; e iii) não aplicação da multa de ofício; Feitas essas breves considerações para melhor compreensão das matérias em debate, passa-se à análise das pretensões da recorrente nas preliminares e mérito. Decadência A recorrente defende a ocorrência da decadência dos meses de janeiro a maio de 2014 do IOF lançado, isso porque, por ser um tributo sujeito ao lançamento por homologação, aplica-se ao caso o artigo 150, do CTN c/c com o inciso I do art.173. Nesse sentido, defende que, quando a antecipação de pagamento não é realizada – como no presente caso, haja vista a impossibilidade de conduta diversa a ser melhor destacada em tópico próprio –, a regra que se aplica é a do artigo 173, inciso I, do CTN, in verbis: Fl. 3492DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 24 Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos, contados: I - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; Afirma ainda que, de acordo com o artigo 10, inciso I, do RIOF, o imposto será cobrado “no primeiro dia útil do mês subsequente ao de apuração, nas hipóteses em que a apuração da base de cálculo seja feita no último dia de cada mês”, ou seja, o IOF é um tributo de apuração mensal, de modo que no último dia de cada mês configura-se o fato gerador, momento em que se constituirá a base de cálculo para lançamento/pagamento do tributo no mês subsequente - logo, o exercício subsequente àquele em que o lançamento poderia ter sido constituído é o mês imediatamente posterior ao que o IOF deveria ter sido pago, diferentemente do que entende a 1ª Turma da DRJ/SPO, que considera o exercício seguinte o ano fiscal posterior. Dessa forma, conclui afirmando que os seguintes períodos lançados teriam sido atingidos pela decadência: Sem razão a recorrente. Como é cediço, o CTN estabelece o prazo de cinco anos como prazo decadencial para a Fazenda Nacional constituir o crédito pertinente ao tributo que tem lançamento na modalidade por homologação. Quanto ao termo inicial de contagem do prazo de decadência, o Código possui duas regras: a primeira estabelece como prazo inicial a data do fato gerador, no caso de ter ocorrido antecipação de pagamento do tributo (artigos 150, § 4º), e a segunda regra estabelece como termo inicial o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento já poderia haver sido efetuado, no caso de ausência de antecipação de pagamento ou quando houver dolo, fraude ou simulação (inciso I do art.173). No caso concreto, como nada foi dito na autuação sobre o pagamento antecipado, deve então ser adotada a regra específica, de contagem do quinquênio a partir do exercício seguinte ao da ocorrência do fato gerador. Verifica-se que o período de apuração mais antigo corresponde ao mês de janeiro/2014, com dia inicial do prazo decadencial em 01/01/2015. O termo final do referido prazo se deu em 31/12/2019. Como a ciência do auto de infração se deu em 15/07/2019, tem-se que nenhum dos períodos lançados foi alcançado pela decadência. Por fim, não prospera a pretensão da recorrente de querer considerar o termo “exercício seguinte” como o “mês seguinte” ao da ocorrência do fato gerador mensal, posto que na legislação tributária o termo exercício, também conhecido como ano fiscal, é o período de 12 Fl. 3493DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 25 meses, sendo o mesmo período de tempo escolhido para se fazer a demonstração de resultados contábeis de uma empresa. Na própria decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça (“STJ'), nos autos do Recurso Especial (“REsp') 973.733/SC, o Relator Ministro Luiz Fux deixa claro que o exercício fiscal para tal contagem se inicia em 1º de janeiro: Na hipótese dos autos, o fato gerador mais remoto ocorreu em janeiro de 1991 e o mais recente em dezembro de 1994, iniciando-se o prazo decadencial no primeiro dia do exercício seguinte, ou seja, em 01/01/1992 e 01/01/1995, respectivamente. (negritos nossos) Dessa forma, afasta-se a hipótese de ter ocorrido decadência no lançamento ora analisado. Da situação econômico-financeira da recorrente no ano calendário de 2014 e não incidência do IOF nas operações financeiras entre empresas do mesmo grupo econômico A recorrente explica neste tópico que ela e demais empresas do grupo econômico se encontravam em 2014 sob o regime de Recuperação Judicial, que ocorreu em 09 de janeiro de 2014, conforme se verifica do extrato processual do processo nº. 0000058-75.2014.8.26.0466 (fls. 3.341/3345), em trâmite perante a Vara Única da Comarca de Pontal/SP. Nesse cenário, afirma que por possuir maior poder negocial no mercado e deter os bens e direitos passíveis de serem prestados como garantia a credores (i.e. parque industrial, faturamento da venda de açúcar e etanol, imóveis rurais próprios), contraia empréstimos junto a instituições financeiras e repassava-os às demais empresas do Grupo Carolo, com o único objetivo de preservá-las durante o cumprimento do PRJ, o que se assemelha, para fins jurídicos, ao compartilhamento de uma única “conta corrente” – hipótese na qual ausente o cunho financeiro no repasse de valores entre empresas de um mesmo grupo econômico, afastando a incidência do IOF. Em que pese os argumentos da Recorrente, estes não devem prosperar, pois, ainda que se caracterizasse esse tipo de contrato como conta corrente, ainda assim as operações de créditos nele envolvidas estariam sujeitos ao IOF, conforme se verá em seguida. Como é cediço, os contratos de conta corrente possuem características próprias e são utilizados principalmente pelos grupos econômicos que buscam uma gestão financeira unificada em que uma das empresas é escolhida para realizar essa função. Nesse tipo de contrato, duas ou mais pessoas jurídicas convencionam fazer remessas sucessivas de valores, anotando os débitos e créditos em uma conta única, a fim de verificar o saldo exigível ao final de um prazo determinado. Também nesse tipo de contrato não há definição prévia de quem seja credor ou devedor, haja vista que o montante das remessas forma um todo homogêneo que somente ao fim Fl. 3494DF CARF MF Original https://pt.wikipedia.org/wiki/Demonstra%C3%A7%C3%B5es_Cont%C3%A1beis https://pt.wikipedia.org/wiki/Demonstra%C3%A7%C3%B5es_Cont%C3%A1beis https://pt.wikipedia.org/wiki/Contabilidade https://pt.wikipedia.org/wiki/Empresa D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 26 do prazo estipulado é que se apurará quem ficou com saldo positivo nessa na movimentação, ensejando a cobrança de juros de mora e permitindo a execução deste saldo. No caso concreto, ainda que as operações alegadas pela recorrente possam se assemelhar ao contrato de conta corrente, essa questão torna-se irrelevante a solução da lide, visto que as operações envolvendo conta corrente também sofrem a incidência do IOF.O que o art.13 da Lei nº 9.779, de 1999 tributa pelo IOF é a operação de crédito correspondente a mútuo de recursos financeiros, o que independe da natureza de vinculação entre as partes e da formalização de um contrato ou aspectos formais mediante os quais a operação se materializa, quer seja de mútuo, quer seja de conta corrente, basta a entrega do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado para que seja caracterizada uma operação de crédito correspondente a mútuo. Abaixo o conteúdo do dispositivo legal citado: Art. 13. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física sujeitam-se à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. O AD SRF nº 007, de 1999, abordou, entre outras questões, a incidência do IOF sobre as operações de mútuo referidas no art. 13 citado, tratando, especificamente em seu item 1, daquelas “realizadas por meio de conta corrente”, sem prazo de pagamento: 1. No caso de mútuo entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, sem prazo, realizado por meio de conta-corrente, o Imposto sobre Operações d Crédito, Câmbio e Seguro, ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários – IOF, devido nos termos do art. 13 da Lei n ° 9.779, de 19 de janeiro de 1999: a) incide somente em relação aos recursos entregues ou colocados à disposição do mutuário a partir de 1 ° de janeiro de 1999; O Ato Declaratório SRF nº30, de 24 de março de 1999, reforça esse entendimento de que o IOF incide sobre a operação correspondente a mútuo, independente da forma como o recurso foi disponibilizado, in verbis: Art. 1º. O IOF previsto no art. 13 da Lei no 9.779, de 19 de janeiro de 1999, incide somente sobre operações de mútuo que tenham por objeto recursos em dinheiro, disponibilizados sob qualquer forma, e quando o mutuante for pessoa jurídica. (negrito nosso) Nesse sentido, o Decreto nº 6.306, de 2007(RIOF) esclarece que a expressão “operações de crédito” compreende as operações de empréstimo sob qualquer modalidade e mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física: Fl. 3495DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 27 Art. 3º O fato gerador do IOF é a entrega do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado (Lei no 5.172, de 1966, art. 63, inciso I). (...) § 3º A expressão “operações de crédito” compreende as operações de: I - empréstimo sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito e desconto de títulos (Decreto-Lei nº 1.783, de 18 de abril de 1980, art. 1º, inciso I); II - alienação, à empresa que exercer as atividades de factoring, de direitos creditórios resultantes de vendas a prazo (Lei no 9.532, de 1997, art. 58); III - mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física (Lei no 9.779, de 1999, art. 13). Por conseguinte, nas operações de créditos envolvidas na autuação, nas quais houve a disponibilização para pessoas jurídicas ligadas, ainda que tenha sido decorrente de adiantamentos a pessoas ligadas ou compensados posteriormente com valores devidos, houve a disponibilização de recursos financeiros para as jurídicas ligadas, estando caracterizado o mútuo pela transferência do domínio de coisa fungível (dinheiro), com a consequente incidência do IOF. Esse mesmo entendimento tem sido prevalecente na CSRF do CARF, conforme denotam as seguintes ementas: IOF. MÚTUO. OPERAÇÃO DE CONTA CORRENTE. GESTÃO DE CAIXA ÚNICO. DISPONIBILIZAÇÃO E/OU TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS. INCIDÊNCIA. A disponibilização e/ ou a transferência de recursos financeiros a outras pessoas jurídicas (coligadas), ainda que realizadas sem contratos escritos, mediante a escrituração contábil dos valores cedidos e/ ou transferidos, com a apuração periódica de saldos devedores, constitui operação de mútuo sujeita à incidência do IOF. (acórdão nº9303-010.184, CSRF / 3ª Turma, relatoria do Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, sessão de 12 de fevereiro de 2020) DISPONIBILIZAÇÃO E/OU TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS. OPERAÇÃO DE CONTA CORRENTE. APURAÇÃO PERIÓDICA DE SALDOS CREDORES E DEVEDORES. INCIDÊNCIA. A disponibilização e/ ou a transferência de recursos financeiros a outras pessoas jurídicas, ainda que realizadas sem contratos escritos, mediante a escrituração contábil dos valores cedidos e/ ou transferidos, com a apuração periódica de saldos devedores, constitui operação de mútuo sujeita à incidência do IOF. (acórdão 9303-005.583, CSRF / 3ª Turma, relatoria do Conselheiro Andrada Canuto Natal, sessão de 13 de agosto de 2019) Fl. 3496DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 28 Vale citar também a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que vai no mesmo sentido aqui exposto neste voto (RESP nº 1.239.101/RJ): TRIBUTÁRIO. IOF. TRIBUTAÇÃO DAS OPERAÇÕES DE CRÉDITO CORRESPONDENTES A MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS. ART. 13, DA LEI N. 9.779/99. 1. O art. 13, da Lei n. 9.779/99, caracteriza como fato gerador do IOF a ocorrência de "operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas" e não a específica operação de mútuo. Sendo assim, no contexto do fato gerador do tributo devem ser compreendidas também as operações realizadas ao abrigo de contrato de conta corrente entre empresas coligadas com a previsão de concessão de crédito. 2. Recurso especial não provido. (negrito nosso) Com essas considerações, rejeita-se os argumentos de defesa da Recorrente, mantendo-se integralmente a autuação fiscal. Da não aplicação da multa de ofício Neste tópico, a recorrente solicita, alternativamente, o cancelamento da multa de ofício, haja vista que a empresa, em Recuperação Judicial, encontrava-se em 2014 em grave situação financeira, em verdadeiro “estado de necessidade”, concentrando todos os seus esforços para a manutenção de sua atividade econômica e da preservação do seu grupo econômico. Nesse cenário, aduz que, ao menos, deve ser cancelada a multa de ofício aplicada, já que a ausência de recolhimento do IOF deveu-se à ausência de recursos financeiros para tanto. Sem razão à recorrente. Como se percebe, a recorrente pede a relevação da penalidade aplicada em vista da situação financeira pela qual o grupo passou à época. Quanto ao pedido de relevação de penalidade, entendo que inexiste previsão legal para a sua aplicação ao caso ora analisado, bem como, falta competência a este colegiado para análise desse tipo de pedido, pois cabe ao Ministro da Fazenda a competência para esse tipo de análise, conforme os artigos 26 e 40, do Decreto n° 70.235, de 06/03/1972: Art. 26. Compete ao Ministro da Fazenda, em instância especial: [...] II - decidir sobre as propostas de aplicação de equidade apresentadas pelos Conselhos de Contribuintes. [...] Fl. 3497DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.945 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720118/2019-19 29 Art. 40. As propostas de aplicação de equidade apresentadas pelos Conselhos de Contribuintes atenderão às características pessoais ou materiais da espécie julgada e serão restritas à dispensa total ou parcial de penalidade pecuniária, nos casos em que não houver reincidência nem sonegação, fraude ou conluio. No caso ora analisado, no entanto, entendo que a recorrente não atende aos requisitos necessários para proposta de equidade, haja vista a reincidência da infração em anos seguintes, como constatado no processo nº 16004.720037/2020-18, a ser julgado nesta mesma sessão. Como é cediço, a autoridade fiscal é vinculada à lei, que tem a multa de ofício lançada lastreada no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996. Assim, não havendo qualquer dispositivo legal em sentido contrário que preveja a exclusão da multa de ofício aplicada, tem-se que o auditor cumpriu o seu dever de ofício, visto que a referida multa é devida nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. Deve ser mantida, portanto, a multa de ofício aplicada. Dispositivo Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo Fl. 3498DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10480.725922/2018-69
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 17 00:00:00 UTC 2024
Data da publicação: Wed Oct 15 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015
CRÉDITOS DE IPI. AQUISIÇÕES DE PRODUTOS ISENTOS ORIUNDOS DA AMAZÔNIA OCIDENTAL. DESCUMPRIMENTO DE REQUISITOS LEGAIS. GLOSAS.
São insuscetíveis de apropriação na escrita fiscal os créditos concernentes a produtos isentos, adquiridos de estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental, para emprego no processo industrial, mas não elaborados com matérias-primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária.
DECADÊNCIA. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DO PAGAMENTO ANTECIPADO.
Nos lançamentos por homologação, o prazo decadencial começa a fluir a partir do fato gerador. Porém, na ausência do pagamento antecipado, não se fazem presentes os pressupostos desta modalidade de lançamento. Neste caso, a regra aplicável passa a ser a geral, dada pelo art. 173 do CTN.
Em não havendo recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do IPI, o lançamento deve ser de ofício (art. 183, parágrafo único, I, do RIPI/2010).
INCENTIVOS FISCAIS. DL Nº 1.435, DE 1975. VERIFICAÇÃO DO CORRETO CUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO. COMPETÊNCIA.
Compete ao Conselho de Administração da SUFRAMA deliberar acerca da aprovação dos projetos de empresas que visem o gozo dos incentivos fiscais de que trata o art. 6º do DL nº 1.435, de 1975. Porém, a competência para verificar o correto cumprimento da legislação tributária federal, bem como a aplicação dos demais atos administrativos e judiciais na seara tributária é da Secretaria da Receita Federal do Brasil e das autoridades tributárias federais nos exercícios de suas funções.
Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA.
Em matéria de classificação fiscal, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) detém a competência exclusiva para dela tratar oficialmente.
Isto decorre das disposições contidas na Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, combinadas com a Lei nº 8.490, de 1992, arts. 16, III, b, e 19, II, i, o Decreto nº 766, de 1993, art. 2º, e o Regimento Interno da RFB.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. LAUDOS E PARECERES TÉCNICOS. VINCULAÇÃO.
A classificação fiscal não é aspecto técnico e, desta forma, o laudo de especialistas não tem qualquer vinculação para a autoridade administrativa no que a ela se refere, pois, a própria autoridade, considerando as regras aplicáveis à classificação, tem competência para formar seu juízo a respeito.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES.
Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” se constitui de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matérias-primas e produtos intermediários que só se tornam, efetivamente, uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização, ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015
COISA JULGADA. EFICÁCIA.
Coisa julgada é uma qualidade que se agrega à declaração contida na sentença, assim entendida a resposta jurisdicional firmada apenas na parte dispositiva. Nem o relatório e nem a fundamentação da sentença podem se revestir da coisa julgada, porque nestes não existe propriamente um julgamento. Se determinada matéria não integrou o pedido e não consta do dispositivo, não faz coisa julgada, ainda que importante para determinar o alcance da parte dispositiva.
AÇÃO JUDICIAL. ALCANCE.
O provimento jurisdicional abrange o objeto da demanda judicial, vale dizer, o conteúdo do pedido da petição, e seu alcance restringe-se aos associados da impetrante domiciliados no âmbito da competência territorial do órgão prolator.
MATÉRIA NÃO CONTESTADA.
Considera-se não contestada a matéria que não tenha sido expressamente questionada.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/10/2016 a 30/09/2018
AUTO DE INFRAÇÃO. LANÇAMENTO. LEGALIDADE.
Não se cogita de ilegalidade se o auto de infração foi lavrado com estrita observância do Decreto nº 70.23/72 e em consonância com as normas gerais disciplinadas pelo Código Tributário Nacional.
APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. DOCUMENTOS FISCAIS IDÔNEOS. CLASSIFICAÇÃO EQUIVOCADA. RESPONSABILIDADE DO ADQUIRENTE.
Em matéria tributária, a culpa do agente é irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. Na situação, as notas fiscais de aquisição das mercadorias que originaram o suposto crédito, ao consignarem classificação fiscal equivocada que não se aplica ao produto comercializado, deixam de ostentar o amparo necessário a respaldar o crédito ficto escriturado, sendo cabível a glosa.
ACRÉSCIMOS LEGAIS. OBSERVÂNCIA DOS ATOS NORMATIVOS EXPEDIDOS PELAS AUTORIDADES ADMINISTRATIVAS. INCIDÊNCIA.
Atos normativos a que se refere o inciso I do art. 100 do CTN, são normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos que versem sobre matéria tributária. São atos gerais e abstratos, tais como portarias, instruções etc., editadas com a finalidade de explicitar preceitos legais ou de instrumentar o cumprimento das obrigações tributárias. É a observância destes tipos de atos que têm o condão de excluir a cobrança dos consectários legais, nos termos de parágrafo único do art. 100 do CTN. Súmula CARF nº 4 e Súmula CARF nº 5. Súmula CARF nº 108.
APLICAÇÃO DA NORMA JURÍDICA. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA.
A alteração de critério jurídico deve ser entendida como uma mudança de posição interpretativa da Administração a respeito de determinada norma.
Não ocorre alteração de critério jurídico nem ofensa ao art. 146 do CTN se a Fiscalização promove autuação baseada em entendimento distinto daquele que seguidamente adota o contribuinte, mas que jamais foi objeto de manifestação expressa por parte da Administração Tributária.
Numero da decisão: 3401-013.578
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário, mantendo integralmente a decisão recorrida. Vencido o Conselheiro Laercio Cruz Uliana Junior, que dava provimento ao Recurso Voluntário.
Sala de Sessões, em 15 de outubro de 2024.
Assinado Digitalmente
Celso José Ferreira de Oliveira – Relator
Assinado Digitalmente
Leonardo Correia Lima Macedo – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Ana Paula Pedrosa Giglio, Laercio Cruz Uliana Junior, Celso Jose Ferreira de Oliveira, Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos, Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente).
Nome do relator: CELSO JOSE FERREIRA DE OLIVEIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário, mantendo integralmente a decisão recorrida. Vencido o Conselheiro Laercio Cruz Uliana Junior, que dava provimento ao Recurso Voluntário. Sala de Sessões, em 15 de outubro de 2024. Assinado Digitalmente Celso José Ferreira de Oliveira – Relator Assinado Digitalmente Leonardo Correia Lima Macedo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Ana Paula Pedrosa Giglio, Laercio Cruz Uliana Junior, Celso Jose Ferreira de Oliveira, Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos, Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente).
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 CRÉDITOS DE IPI. AQUISIÇÕES DE PRODUTOS ISENTOS ORIUNDOS DA AMAZÔNIA OCIDENTAL. DESCUMPRIMENTO DE REQUISITOS LEGAIS. GLOSAS. São insuscetíveis de apropriação na escrita fiscal os créditos concernentes a produtos isentos, adquiridos de estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental, para emprego no processo industrial, mas não elaborados com matérias-primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária. DECADÊNCIA. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DO PAGAMENTO ANTECIPADO. Nos lançamentos por homologação, o prazo decadencial começa a fluir a partir do fato gerador. Porém, na ausência do pagamento antecipado, não se fazem presentes os pressupostos desta modalidade de lançamento. Neste caso, a regra aplicável passa a ser a geral, dada pelo art. 173 do CTN. Em não havendo recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do IPI, o lançamento deve ser de ofício (art. 183, parágrafo único, I, do RIPI/2010). INCENTIVOS FISCAIS. DL Nº 1.435, DE 1975. VERIFICAÇÃO DO CORRETO CUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO. COMPETÊNCIA. Compete ao Conselho de Administração da SUFRAMA deliberar acerca da aprovação dos projetos de empresas que visem o gozo dos incentivos fiscais de que trata o art. 6º do DL nº 1.435, de 1975. Porém, a competência para verificar o correto cumprimento da legislação tributária federal, bem como a aplicação dos demais atos administrativos e judiciais na seara tributária é da Secretaria da Receita Federal do Brasil e das autoridades tributárias federais nos exercícios de suas funções. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA. Em matéria de classificação fiscal, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) detém a competência exclusiva para dela tratar oficialmente. Isto decorre das disposições contidas na Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, combinadas com a Lei nº 8.490, de 1992, arts. 16, III, b, e 19, II, i, o Decreto nº 766, de 1993, art. 2º, e o Regimento Interno da RFB. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. LAUDOS E PARECERES TÉCNICOS. VINCULAÇÃO. A classificação fiscal não é aspecto técnico e, desta forma, o laudo de especialistas não tem qualquer vinculação para a autoridade administrativa no que a ela se refere, pois, a própria autoridade, considerando as regras aplicáveis à classificação, tem competência para formar seu juízo a respeito. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES. Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” se constitui de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matérias-primas e produtos intermediários que só se tornam, efetivamente, uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização, ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 COISA JULGADA. EFICÁCIA. Coisa julgada é uma qualidade que se agrega à declaração contida na sentença, assim entendida a resposta jurisdicional firmada apenas na parte dispositiva. Nem o relatório e nem a fundamentação da sentença podem se revestir da coisa julgada, porque nestes não existe propriamente um julgamento. Se determinada matéria não integrou o pedido e não consta do dispositivo, não faz coisa julgada, ainda que importante para determinar o alcance da parte dispositiva. AÇÃO JUDICIAL. ALCANCE. O provimento jurisdicional abrange o objeto da demanda judicial, vale dizer, o conteúdo do pedido da petição, e seu alcance restringe-se aos associados da impetrante domiciliados no âmbito da competência territorial do órgão prolator. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Considera-se não contestada a matéria que não tenha sido expressamente questionada. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/10/2016 a 30/09/2018 AUTO DE INFRAÇÃO. LANÇAMENTO. LEGALIDADE. Não se cogita de ilegalidade se o auto de infração foi lavrado com estrita observância do Decreto nº 70.23/72 e em consonância com as normas gerais disciplinadas pelo Código Tributário Nacional. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. DOCUMENTOS FISCAIS IDÔNEOS. CLASSIFICAÇÃO EQUIVOCADA. RESPONSABILIDADE DO ADQUIRENTE. Em matéria tributária, a culpa do agente é irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. Na situação, as notas fiscais de aquisição das mercadorias que originaram o suposto crédito, ao consignarem classificação fiscal equivocada que não se aplica ao produto comercializado, deixam de ostentar o amparo necessário a respaldar o crédito ficto escriturado, sendo cabível a glosa. ACRÉSCIMOS LEGAIS. OBSERVÂNCIA DOS ATOS NORMATIVOS EXPEDIDOS PELAS AUTORIDADES ADMINISTRATIVAS. INCIDÊNCIA. Atos normativos a que se refere o inciso I do art. 100 do CTN, são normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos que versem sobre matéria tributária. São atos gerais e abstratos, tais como portarias, instruções etc., editadas com a finalidade de explicitar preceitos legais ou de instrumentar o cumprimento das obrigações tributárias. É a observância destes tipos de atos que têm o condão de excluir a cobrança dos consectários legais, nos termos de parágrafo único do art. 100 do CTN. Súmula CARF nº 4 e Súmula CARF nº 5. Súmula CARF nº 108. APLICAÇÃO DA NORMA JURÍDICA. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA. A alteração de critério jurídico deve ser entendida como uma mudança de posição interpretativa da Administração a respeito de determinada norma. Não ocorre alteração de critério jurídico nem ofensa ao art. 146 do CTN se a Fiscalização promove autuação baseada em entendimento distinto daquele que seguidamente adota o contribuinte, mas que jamais foi objeto de manifestação expressa por parte da Administração Tributária.
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AQUISIÇÕES DE PRODUTOS ISENTOS ORIUNDOS DA AMAZÔNIA OCIDENTAL. DESCUMPRIMENTO DE REQUISITOS LEGAIS. GLOSAS. São insuscetíveis de apropriação na escrita fiscal os créditos concernentes a produtos isentos, adquiridos de estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental, para emprego no processo industrial, mas não elaborados com matérias-primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária. DECADÊNCIA. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DO PAGAMENTO ANTECIPADO. Nos lançamentos por homologação, o prazo decadencial começa a fluir a partir do fato gerador. Porém, na ausência do pagamento antecipado, não se fazem presentes os pressupostos desta modalidade de lançamento. Neste caso, a regra aplicável passa a ser a geral, dada pelo art. 173 do CTN. Em não havendo recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do IPI, o lançamento deve ser de ofício (art. 183, parágrafo único, I, do RIPI/2010). INCENTIVOS FISCAIS. DL Nº 1.435, DE 1975. VERIFICAÇÃO DO CORRETO CUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO. COMPETÊNCIA. Compete ao Conselho de Administração da SUFRAMA deliberar acerca da aprovação dos projetos de empresas que visem o gozo dos incentivos fiscais de que trata o art. 6º do DL nº 1.435, de 1975. Porém, a competência para verificar o correto cumprimento da legislação tributária federal, bem como a aplicação dos demais atos administrativos e judiciais Fl. 2900DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 2 na seara tributária é da Secretaria da Receita Federal do Brasil e das autoridades tributárias federais nos exercícios de suas funções. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA. Em matéria de classificação fiscal, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) detém a competência exclusiva para dela tratar oficialmente. Isto decorre das disposições contidas na Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, combinadas com a Lei nº 8.490, de 1992, arts. 16, III, b, e 19, II, i, o Decreto nº 766, de 1993, art. 2º, e o Regimento Interno da RFB. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. LAUDOS E PARECERES TÉCNICOS. VINCULAÇÃO. A classificação fiscal não é aspecto técnico e, desta forma, o laudo de especialistas não tem qualquer vinculação para a autoridade administrativa no que a ela se refere, pois, a própria autoridade, considerando as regras aplicáveis à classificação, tem competência para formar seu juízo a respeito. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES. Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” se constitui de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matérias-primas e produtos intermediários que só se tornam, efetivamente, uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização, ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 COISA JULGADA. EFICÁCIA. Coisa julgada é uma qualidade que se agrega à declaração contida na sentença, assim entendida a resposta jurisdicional firmada apenas na parte dispositiva. Nem o relatório e nem a fundamentação da sentença podem se revestir da coisa julgada, porque nestes não existe propriamente um julgamento. Se determinada matéria não integrou o pedido e não consta Fl. 2901DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 3 do dispositivo, não faz coisa julgada, ainda que importante para determinar o alcance da parte dispositiva. AÇÃO JUDICIAL. ALCANCE. O provimento jurisdicional abrange o objeto da demanda judicial, vale dizer, o conteúdo do pedido da petição, e seu alcance restringe-se aos associados da impetrante domiciliados no âmbito da competência territorial do órgão prolator. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Considera-se não contestada a matéria que não tenha sido expressamente questionada. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/10/2016 a 30/09/2018 AUTO DE INFRAÇÃO. LANÇAMENTO. LEGALIDADE. Não se cogita de ilegalidade se o auto de infração foi lavrado com estrita observância do Decreto nº 70.23/72 e em consonância com as normas gerais disciplinadas pelo Código Tributário Nacional. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. DOCUMENTOS FISCAIS IDÔNEOS. CLASSIFICAÇÃO EQUIVOCADA. RESPONSABILIDADE DO ADQUIRENTE. Em matéria tributária, a culpa do agente é irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. Na situação, as notas fiscais de aquisição das mercadorias que originaram o suposto crédito, ao consignarem classificação fiscal equivocada que não se aplica ao produto comercializado, deixam de ostentar o amparo necessário a respaldar o crédito ficto escriturado, sendo cabível a glosa. ACRÉSCIMOS LEGAIS. OBSERVÂNCIA DOS ATOS NORMATIVOS EXPEDIDOS PELAS AUTORIDADES ADMINISTRATIVAS. INCIDÊNCIA. Atos normativos a que se refere o inciso I do art. 100 do CTN, são normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos que versem sobre matéria tributária. São atos gerais e abstratos, tais como portarias, instruções etc., editadas com a finalidade de explicitar preceitos legais ou de instrumentar o cumprimento das Fl. 2902DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 4 obrigações tributárias. É a observância destes tipos de atos que têm o condão de excluir a cobrança dos consectários legais, nos termos de parágrafo único do art. 100 do CTN. Súmula CARF nº 4 e Súmula CARF nº 5. Súmula CARF nº 108. APLICAÇÃO DA NORMA JURÍDICA. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA. A alteração de critério jurídico deve ser entendida como uma mudança de posição interpretativa da Administração a respeito de determinada norma. Não ocorre alteração de critério jurídico nem ofensa ao art. 146 do CTN se a Fiscalização promove autuação baseada em entendimento distinto daquele que seguidamente adota o contribuinte, mas que jamais foi objeto de manifestação expressa por parte da Administração Tributária. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário, mantendo integralmente a decisão recorrida. Vencido o Conselheiro Laercio Cruz Uliana Junior, que dava provimento ao Recurso Voluntário. Sala de Sessões, em 15 de outubro de 2024. Assinado Digitalmente Celso José Ferreira de Oliveira – Relator Assinado Digitalmente Leonardo Correia Lima Macedo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Ana Paula Pedrosa Giglio, Laercio Cruz Uliana Junior, Celso Jose Ferreira de Oliveira, Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos, Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente). Fl. 2903DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 5 RELATÓRIO Por bem descrever os fatos até aquele momento processual, adoto o relatório do acórdão de primeira instância: Trata o presente processo de auto de infração lavrado para o lançamento de ofício do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados, em desfavor da interessada em epígrafe, constituindo-se os respectivos créditos tributários, cumulados com multa de ofício e juros de mora, no montante de R$ 17.416.790,26 (dezessete milhões, quatrocentos e dezesseis mil, setecentos e noventa reais, vinte e seis centavos), valor consolidado na data do lançamento conforme Demonstrativo do Crédito Tributário (e-fl. 2). Constam na “Descrição dos Fatos” (e-fls. 5/11) as seguintes infrações à legislação tributária: 1) Falta de escrituração de IPI lançado em notas fiscais de saída; 2) Insuficiência de lançamento do imposto por erro de alíquota; 3) Aproveitamento de créditos básicos indevidamente escriturados; 4) Aproveitamento de crédito ficto indevido. O Termo de Verificação Fiscal (e-fls. 38/122) que instrui o auto de infração traz o detalhamento das infrações acima, que segue em resumo: 1) Falta de escrituração de IPI lançado em notas fiscais de saída O cotejo entre as notas fiscais eletrônicas e o SPED indicou que algumas notas fiscais de saída com destaque de IPI não foram escrituradas, o que levou à redução do saldo apurado nos respectivos períodos. Na planilha “IPI Destacado e não Escriturado – NFe não incluída no RAIPI/SPED” (e-fls. 250/252) foram tabuladas todas as notas fiscais eletrônicas com destaque de IPI, não escriturados no SPED. 2) Insuficiência do lançamento do IPI na nota fiscal Os produtos classificados nos códigos 2106.90.10, Ex 02, e 2202.10.00 da TIPI sujeitavam-se, no período fiscalizado, ao regime geral de tributação previsto no Decreto nº 6.707, de 23 de dezembro de 2008. Alternativamente, a pessoa jurídica que industrializasse aqueles produtos poderia optar pelo regime especial de que trata o Título II do Decreto, como foi o caso da fiscalizada. Neste regime, os valores de IPI eram os constantes do Anexo III do citado Decreto. Posteriormente, o Decreto nº 7.742, de 30 de maio de 2012, trouxe alterações no referido Anexo III daquele Decreto, as quais não foram observadas pelo sujeito passivo. Ademais, as NC 21-1 e NC 22-1, que previam uma redução de alíquota do Fl. 2904DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 6 IPI da qual a fiscalizada se beneficiava, foram revogadas pelo art. 6º do Decreto nº 7.742, de 2012. Com a publicação do Decreto nº 8.017, de 17 de maio de 2013, foram recriadas as NC 21-1 e NC 22-1, contemplando novos benefícios fiscais, mas com características diferentes dos anteriores. As diferenças observadas pela Fiscalização foram apuradas e detalhadas na planilha “Saídas com IPI Destacado a Menor” (e-fls. 253/1533). 3) Utilização de crédito básico indevido A fiscalizada escriturou como créditos de IPI valores decorrentes da aquisição de bens de uso e consumo, a exemplo de antibactericidas, detergentes, dentre outros agentes orgânicos de superfície, os quais não se prestam a ofertar créditos por não se enquadrarem no conceito de insumos. Os créditos indevidos foram relacionados nas planilhas “Glosa de Créditos – Agentes Orgânicos de Superfície – Material de Uso e Consumo” (e-fls. 207/249). 4) Utilização de crédito ficto indevido A maior parte dos créditos do IPI escriturados pela fiscalizada decorreram das aquisições de “kits”, contendo preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas da posição 22.02, além de outros ingredientes acondicionados individualmente, adquiridos de RECOFARMA INDÚSTRIA DO AMAZONAS LTDA, CNPJ 61.454.393/0001-06, fornecedor localizado em Manaus/AM. Os kits fornecidos por Recofarma são denominados pelas empresas de “concentrados”. A Recofarma não destacou o IPI nas notas fiscais de saída dos kits, por entender que os produtos estariam isentos. A partir de janeiro de 2011, passou a utilizar a classificação fiscal 2106.90.10, Ex 01, para seus kits. Apesar da isenção nas aquisições dos insumos, a fiscalizada creditou-se do imposto como se devido fosse, com base no art. 237 do RIPI/2010. 4.1) Ação fiscal na Recofarma No ano de 2014, foi encerrada ação fiscal realizada pela RFB na Recofarma. Neste procedimento, em razão da falta de atendimento em apresentar esclarecimentos sobre as partes componentes dos kits, realizou-se análise pericial em amostras enviadas ao Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer. O entendimento técnico detalhado sobre os dados obtidos nestes laudos consta do documento “Análise efetuada pelo Fisco da classificação fiscal das mercadorias objeto de exame laboratorial”. Em diligência fiscal realizada em 2016/2017, a Recofarma se negou a fornecer informações solicitadas, tendo afirmado que “em hipótese alguma a Intimada poderia descumprir com a verdade e fornecer explicações contrariando a matéria de fato”. Solicitada a esclarecer de que maneira poderia contrariar matéria de fato, a Recofarma afirmou que “A menos que reste finalmente vencida nesta última Fl. 2905DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 7 esfera, por decisão transitada em julgado, não pode ser obrigada a renunciar ao seu entendimento ou a fazer prova contra as suas próprias convicções, isto é, contra o que considera ser a verdade dos fatos (Constituição Federal, art. 55, XXXV, LIV e LV)”. A falta de apresentação de dados por Recofarma dificulta a constatação de possíveis outras irregularidades ainda não identificadas pelo Fisco. No que se refere à classificação fiscal dos kits, porém, os dados disponíveis são suficientes para que se possa demonstrar o erro do entendimento adotado pela empresa. 4.2) Descrição dos kits fornecidos por Recofarma Os kits fornecidos pela Recofarma são constituídos de dois ou mais componentes, cada um acondicionado em embalagem individual (bombona, saco, garrafão, caixa ou contêiner), cujo conteúdo pode ser líquido ou sólido. Ao menos uma das embalagens dos kits contém extratos e ingredientes aromatizantes específicos para a bebida a ser industrializada. O processo produtivo dos refrigerantes (exceto as bebidas sem açúcar) consiste, basicamente, em preparar primeiro o xarope simples (água + açúcar) e daí, o xarope composto. O xarope composto é obtido da mistura do xarope simples com os componentes dos kits recebidos da Recofarma, que são adicionados ao misturador separadamente, seguindo detalhadas especificações técnicas. Para algumas marcas, também é adicionado suco de frutas recebido de terceiros. Depois, o xarope composto é dirigido às linhas de enchimento, onde é feita sua diluição, com adição de água carbonatada. O processo produtivo das bebidas sem açúcar é semelhante. A diferença é que, ao invés do xarope simples, utiliza-se apenas água na etapa em que os componentes dos kits são misturados. Em alguns estabelecimentos engarrafadores, parte da produção do xarope composto é destinada a terceiros (normalmente, bares e restaurantes), a fim de ser utilizada em máquinas de post mix. Neste caso, a mistura com gás carbônico e a água ocorre na máquina post mix, no ponto de venda ao consumidor final. Assim, o xarope composto tanto pode ser um produto intermediário (quando destinado a ser diluído em água carbonatada no próprio estabelecimento industrial), como produto final (quando vendido para terceiros a fim de ser diluído nas máquinas post mix). No período abrangido pela fiscalização, a fiscalizada recebeu kits sabor Coca- Cola formados por duas partes envasadas em contêiner “IBC”. Pelo seu volume e peso (1.237,5 kg cada), o manuseio dessas partes no interior do estabelecimento do engarrafador somente era possível de forma totalmente separada uma da outra. 4.3) Classificação fiscal dos ingredientes acondicionados separadamente Fl. 2906DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 8 Nos casos em que os fabricantes comercializam um conjunto de partes, peças, matérias ou artigos, cada bem individual que compõe o conjunto deve ser classificado separadamente. A fiscalizada se baseia na RGI 1 para classificar os kits no Ex 01 do código 2106.90.10. Entretanto, o texto da posição em questão não faz referência à possibilidade de apresentação em embalagens individuais. Pelo contrário, o Ex 01 utiliza as palavras “preparação”, “concentrado” e “capacidade de diluição”, que indicam claramente se tratar de um produto apresentado em corpo único. Também as Notas da Seção IV e as Notas dos Capítulos 21 e 22 não trazem qualquer previsão de que um conjunto de artigos individuais, como os que compõem os kits recebidos de Manaus, possa ser classificado em código único. A RGI 2.a abrange artigos que se apresentem desmontados ou por montar e que já possuam as características essenciais do artigo completo ou acabado. Porém, os insumos fornecidos pela Recofarma não possuem as características essenciais do artigo completo ou acabado (que é o concentrado). Observa-se, também, que vários componentes servem para outros fins que não seja o uso em bebidas. Além disso, o item VII da Nota Explicativa da RGI 2.a deixa claro que a regra em questão não pode ser aplicada a insumos do setor alimentício. Já a RGI 3.b do SH trata de hipótese em que obras constituídas pela reunião de artigos diferentes e mercadorias apresentadas em sortidos, acondicionados para venda a retalho, devem ser classificadas como uma mercadoria única. Alguns produtos finais do setor alimentício destinados a venda a retalho podem ser classificados como mercadoria única por aplicação da RGI 3.b, quando atendidos todos os requisitos legais. Neste caso, porém, a classificação é definida em função do artigo individual que confere a característica essencial do conjunto, e não com base nas características do conjunto inteiro. Qualquer possibilidade de que um kit contendo insumos destinados à fabricação de bebidas pudesse ser tratado como uma mercadoria única foi eliminada com a inclusão na NESH do item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b. Os kits que podem ser classificados em código único correspondem a bens que já se constituem em produto final, ou que são destinados a constituir um produto final de forma imediata. Em geral, tratam-se de artigos acondicionados para venda a retalho, vendidos a consumidores finais. Desta maneira, inexistindo qualquer norma legal que permita classificar em código único as embalagens individuais contendo ingredientes para elaboração de bebidas, a classificação destas mercadorias deve ser efetuada pela aplicação da RGI 1 sobre cada componente do kit, ou seja, cada componente segue sua classificação própria. Fl. 2907DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 9 Impossibilidade de uso de analogia para a classificação dos kits em código único Os casos de bens formados por elementos constitutivos distintos que se classificam em código único por expressa previsão legal, todos eles, correspondem a mercadorias com características e forma de utilização completamente distintas dos kits fornecidos por Recofarma. Não há como se comparar os insumos fornecidos por Recofarma com produtos das indústrias químicas, brinquedos, artigos destinados a serem montados com uso de parafusos ou soldagem (bens que se enquadram na RGI 2.a), ou sortidos acondicionados para venda a retalho (bens que se enquadram na RGI 3.b). Os kits que podem ser classificados em código único correspondem a bens que já se constituem em produto final, ou que são destinados a constituir um produto final de forma imediata. Em geral, tratam-se de artigos acondicionados para venda a retalho, vendidos a consumidores finais. No caso de ingredientes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto, há norma expressa determinando que devem ser classificados separadamente (item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b). Obrigatoriedade do cumprimento de normais internacionais sobre o SH, inclusive aquela prevista no item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b O item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b foi incluído na NESH após análise efetuada pelo CCA (Conselho de Cooperação Aduaneira) nos anos de 1985 e 1986 sobre a classificação fiscal de bases de bebidas constituídas por diferentes componentes importados em conjunto em proporções fixas em uma remessa. A análise foi realizada em função de consulta sobre a classificação fiscal de bens com características idênticas a dos insumos adquiridos pela fiscalizada, inclusive bases para elaboração de refrigerante sabor cola. A decisão do CCA que deu origem ao o item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b, em diversos momentos, explicitou que cada componente deveria ser enquadrado em sua própria classificação, embora não tenha definido quais os códigos próprios para cada componente, pois não tinha dados suficientes sobre os ingredientes e demais características de cada componente. Nessa ocasião, decidiu incorporar o conteúdo da decisão na Nota Explicativa da Regra Interpretativa 3.b, como um exemplo da não aplicação desta Regra: (XI) A presente Regra não se aplica a produtos constituídos por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto, mesmo estando em embalagem comum, em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo. O Sistema Harmonizado (SH) é mantido pela Organização Mundial das Aduanas (OMA), organização criada sob a designação de Conselho de Cooperação Aduaneira e que continua a ser o seu nome oficial, embora em 1994 tivesse passado a designar-se correntemente OMA. Fl. 2908DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 10 Até o ano de 2014, a Fiscalização da RFB desconhecia a existência da decisão do CCA acima citada. Isto aconteceu porque para se tomar conhecimento de decisões mais antigas é necessário efetuar busca manual específica, já que elas estão disponíveis para os países membros apenas na forma impressa. Segundo as empresas do Sistema Coca-Cola, a decisão do CCA não teria validade dentro do sistema jurídico brasileiro. Na realidade, a decisão do CCA foi incorporada na NESH por meio do item XI da Nota Explicativa da Regra 3.b. E a legislação brasileira não deixa dúvidas de que devem ser cumpridas as regras da NESH. O Sistema Harmonizado é cogente, conforme Decreto nº 97.409, de 22 de dezembro de 1988. 4.4) Outras razões pela impossibilidade de classificação do kit como mercadoria unitária Conceito de “preparação” como mercadoria que contém ingredientes misturados Para que uma mercadoria se enquadre no Ex 01 do código 2106.90.10 da TIPI, ela deve se caracterizar como uma preparação composta. Note-se que, ao se referir a preparações, fica claro que a NCM ou a NESH estão tratando de misturas. Ao abordar especificamente a elaboração de preparações dos tipos utilizados na fabricação de bebidas (posição 21.06), a NESH menciona a adição de ingredientes como acidulantes, conservantes e sucos de frutas aos extratos vegetais. Ao usar o verbo “adicionar”, obviamente, está se referindo ao processo onde ocorre a mistura dos ingredientes, e não a sua remessa em conjunto. Assim, os textos dos Ex 01 e Ex 02 do código 2106.90.10, ao citarem “preparações compostas”, indicam produtos constituídos por uma mistura de diversas substâncias. Cabe observar que as expressões “preparação simples” e “preparação composta” são muitas vezes utilizadas de maneira equivocada. Qualquer preparação, simples ou composta, contém mais de uma substância. A diferença entre ambas as categorias encontra-se no tipo de componentes empregados. Quando as matérias misturadas se classificam no mesmo Capítulo da NCM, a preparação é do tipo “simples”. A elas a Nomenclatura se refere apenas como “preparações”. Quando as preparações contêm matérias de base de Capítulos distintos, a Nomenclatura as distingue das preparações(simples), denominando-as de “preparações compostas”. No que se refere ao tópico sob análise, os kits são formados por um conjunto de insumos acondicionados em embalagens individuais, sendo que pelo menos uma das embalagens contém uma preparação composta. Pelas informações disponíveis, nenhum componente dos kits contém mistura de matérias classificadas no mesmo Capítulo da NCM, inexistindo assim preparações simples. Verifica-se também que nem todos os componentes individuais se caracterizam como preparações, existindo embalagens que contêm uma matéria pura. O “tratamento complementar” mencionado na NESH da posição 21.06 O item 12 da NESH da posição 21.06 menciona que as “preparações destinam-se a ser Fl. 2909DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 11 consumidas como bebidas, por simples diluição em água ou depois de tratamento complementar”. As empresas tentam distorcer o significado do mencionado “tratamento complementar”, defendendo que tal expressão abrangeria todas as operações industriais realizadas pelo engarrafador. Entretanto, não é correto utilizar a NESH da posição 21.06, norma que abrange uma grande variedade de produtos do setor alimentício, criada por organização internacional, para ampliar ou para restringir a abrangência de uma subdivisão específica criada pela legislação brasileira. Ao mencionar o tratamento complementar, a NESH está se referindo a operação realizada sobre uma preparação (mercadoria única classificada na posição 21.06) que só passa a existir após a realização de operação industrial no estabelecimento do engarrafador. Como a própria expressão diz, tratamento complementar é um complemento, uma finalização. Ou seja, além da “simples diluição em água”, a água em que é diluído o concentrado do Ex 01 do código 2106.90.10 pode receber a adição de algumas outras substâncias, em procedimento identificado como “tratamento complementar” pela NESH. A frase do item 12 da NESH inicia com as palavras “Estas preparações”, ou seja, não poderia ser aplicada ao kit para fabricação de bebidas, que é um conjunto de insumos que não se caracteriza como uma preparação. Análise comparativa das exceções tarifárias do código 2106.90.10 O art. 5º, II, do RIPI/2010, faz referência à elaboração de refrigerantes efetuada em restaurantes, bares e outros estabelecimentos que possuem máquinas post mix. O extrato concentrado citado pelo RIPI é corretamente classificado por todos os engarrafadores de refrigerantes no Ex 02 do código 2106.90.10. No texto da TIPI, o conceito de “concentrados” colocado nas duas exceções tarifárias do código 2106.90.10 é idêntico. A diferença básica entre eles é a capacidade de diluição, que no Ex 02 é igual ou menor do que 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Não faz sentido imaginar que produtos com características tão distintas quanto os kits adquiridos pela fiscalizada e o concentrado para máquinas post mix sejam classificados da mesma maneira. Na realidade, o xarope para post mix é um extrato concentrado com capacidade de diluição, mas os kits não o são. Outra diferença no texto das exceções tarifárias do código 2106.90.10 é a previsão de que os insumos do Ex 02 sejam utilizados unicamente na elaboração de refrigerantes, enquanto os insumos do Ex 01 podem ser utilizados na elaboração de qualquer bebida da posição 22.02. Fl. 2910DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 12 Observe-se que no processo produtivo de refrigerantes elaborados pela fiscalizada e por outras empresas, em nenhum momento se forma um concentrado classificado no Ex 01 do código 2106.90.10. O verdadeiro extrato concentrado é o insumo industrializado dentro do estabelecimento do engarrafador, enquadrado no Ex 02 do código 2106.90.10, por ter capacidade de diluição menor do que 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Já a elaboração de bebidas não carbonatadas pode ocorrer a partir de um concentrado classificado no Ex 01 do código 2106.90.10. Caracterização da mistura dos componentes como operação de industrialização A mistura do conteúdo dos componentes dos kits fornecidos pela Recofarma, realizada dentro do estabelecimento engarrafador, caracteriza-se como operação de transformação definida no art. 4º, I, RIPI/2010. Só depois de realizada a operação industrial de mistura dos componentes dos kits é que se obtém a preparação, conhecida como xarope composto, que deve ser enquadrada na exceção tarifária do código NCM 2106.90.10. Nos termos do art. 3º do RIPI/2010, a elaboração do xarope composto, quando destinado a receber tratamento adicional em etapa posterior do processo produtivo da fiscalizada, é uma operação de transformação intermediária. Inclusão nos kits de matérias puras que não fazem jus nem mesmo à isenção do artigo 81, inciso II, do RIPI/2010 Os kits fornecidos pela Recofarma incluem embalagens individuais contendo substâncias puras, como benzoato de sódio, sorbato de potássio ou ácido cítrico. Tais substâncias passam somente por operação de reacondicionamento no estabelecimento. Análise comparativa das exceções tarifárias do código 2106.90.10 O art. 5º, II, do RIPI/2010, faz referência à elaboração de refrigerantes efetuada em restaurantes, bares e outros estabelecimentos que possuem máquinas post mix. O extrato concentrado citado pelo RIPI é corretamente classificado por todos os engarrafadores de refrigerantes no Ex 02 do código 2106.90.10. No texto da TIPI, o conceito de “concentrados” colocado nas duas exceções tarifárias do código 2106.90.10 é idêntico. A diferença básica entre eles é a capacidade de diluição, que no Ex 02 é igual ou menor do que 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Não faz sentido imaginar que produtos com características tão distintas quanto os kits adquiridos pela fiscalizada e o concentrado para máquinas post mix sejam classificados da mesma maneira. Na realidade, o xarope para post mix é um extrato concentrado com capacidade de diluição, mas os kits não o são. Outra diferença no texto das exceções tarifárias do código 2106.90.10 é a previsão de que os insumos do Ex 02 sejam utilizados unicamente na elaboração de refrigerantes, enquanto os insumos do Ex 01 podem ser utilizados na elaboração de qualquer bebida da posição 22.02. Fl. 2911DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 13 Observe-se que no processo produtivo de refrigerantes elaborados pela fiscalizada e por outras empresas, em nenhum momento se forma um concentrado classificado no Ex 01 do código 2106.90.10. O verdadeiro extrato concentrado é o insumo industrializado dentro do estabelecimento do engarrafador, enquadrado no Ex 02 do código 2106.90.10, por ter capacidade de diluição menor do que 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Já a elaboração de bebidas não carbonatadas pode ocorrer a partir de um concentrado classificado no Ex 01 do código 2106.90.10. Caracterização da mistura dos componentes como operação de industrialização A mistura do conteúdo dos componentes dos kits fornecidos pela Recofarma, realizada dentro do estabelecimento engarrafador, caracteriza-se como operação de transformação definida no art. 4º, I, RIPI/2010. Só depois de realizada a operação industrial de mistura dos componentes dos kits é que se obtém a preparação, conhecida como xarope composto, que deve ser enquadrada na exceção tarifária do código NCM 2106.90.10. Nos termos do art. 3º do RIPI/2010, a elaboração do xarope composto, quando destinado a receber tratamento adicional em etapa posterior do processo produtivo da fiscalizada, é uma operação de transformação intermediária. Inclusão nos kits de matérias puras que não fazem jus nem mesmo à isenção do artigo 81, inciso II, do RIPI/2010 Os kits fornecidos pela Recofarma incluem embalagens individuais contendo substâncias puras, como benzoato de sódio, sorbato de potássio ou ácido cítrico. Tais substâncias passam somente por operação de reacondicionamento no estabelecimento de Recofarma, e não são reconhecíveis como destinadas ao uso na industrialização de bebidas, exceto por rótulos colados nas embalagens de transporte. Os componentes dos kits (exceto os elaborados com extrato de guaraná) não fazem jus à isenção do art. 95, III, RIPI/2010. No caso de embalagem individual contendo uma substância objeto de reacondicionamento, a mercadoria não faz jus nem mesmo à isenção do art. 81, II, RIPI/2010. Não faria sentido a criação de estímulo fiscal para matérias recebidas de outras regiões do país e reacondicionadas em Manaus. Decisão dos Estados Unidos que trata da classificação fiscal de kits de alimentos Foi anexado ao presente processo a versão original e a tradução juramentada de uma ruling letter (carta decisória) que trata da classificação fiscal de “kits de alimentos” a serem importados com a marca Griddle StackerTM e que, segundo informou a interessada, consistem em diferentes componentes de alimentos que são agrupados em formato de kit. Essa carta decisória foi respondida pelo Diretor do “National Commodity Specialist Division” de Nova Iorque. O importador do produto citado informou que cada caixa de transporte contém o número exato de panquecas, hambúrgueres de salsicha e/ou hambúrgueres de Fl. 2912DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 14 ovo para fazer doze sanduíches. Além disso, cada caixa contém 12 embalagens para sanduíche e etiquetas para embalar e etiquetar os sanduíches prontos. Como o destinatário destes kits elaboraria os sanduíches e venderia aos consumidores como produto pronto, o importador afirmou que os kits deveriam ser classificados como integralidades, ou preparações alimentícias. Essa situação, no que se refere a regras de classificação fiscal, é muito semelhante à dos kits adquiridos pela fiscalizada. Em decisão que, dentre outros elementos, citou o item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b, a autoridade americana determinou que os diversos componentes dos kits de sanduíche são classificáveis separadamente. Destinação dos kits no processo industrial do engarrafador Embora a fiscalizada seja uma empresa conhecida como engarrafadora de refrigerantes e de outras bebidas, não se pode esquecer que seus estabelecimentos industriais executam dois processos de industrialização distintos. Primeiro eles misturam os componentes dos kits, obtendo o concentrado do Ex 02 do código 2106.90.10. Depois (exceto nos casos em que estes concentrados são destinados a máquinas post-mix) o concentrado resultante da mistura é levado a outro equipamento, onde é diluído em água carbonatada, resultando no refrigerante. Quando se pensa na utilização para a qual o insumo foi concebido, deve se analisar a operação em que este insumo é utilizado, e não a operação realizada em uma etapa futura da cadeia produtiva. 100% dos kits para refrigerantes fornecidos pela Recofarma são usados para industrializar concentrados classificados no Ex 02 do código 2106.90.10. Os kits para refrigerantes não são extratos concentrados destinados à elaboração de bebidas, mas sim um conjunto de substâncias destinadas à industrialização de extratos concentrados. Irrelevância do interesse comercial do fabricante para fins de classificação fiscal A Recofarma trata os kits como uma mercadoria única por motivos comerciais e tributários. Não há impedimento de natureza físico-química para que cada componente do kit seja fabricado e vendido por um estabelecimento diferente, ou para que seja recebido pelo engarrafador em momentos diferentes. Foi constatado que existem outras empresas localizadas em Manaus que vendem kits contendo insumos dos tipos utilizados para elaboração de bebidas, mas que atribuem preços específicos para cada “parte” de kit. Também foi constatado que existem fabricantes de refrigerantes que recebem de fornecedor localizado em Manaus embalagem contendo extrato e aroma natural da bebida, mas que adquirem de empresas localizadas fora da ZFM ingredientes como conservantes e acidulantes. Fl. 2913DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 15 Mesmo dentro do atual método de negócio adotado pelas empresas do Sistema Coca-Cola, em que todos os insumos são vendidos por um único estabelecimento, os componentes não precisariam ser necessariamente remetidos como um todo. As indústrias podem realizar suas operações da forma que considerarem mais conveniente e chamar os produtos pelos nomes que julgarem adequado. Mas não encontra guarida na legislação a ficção de que kits contendo ingredientes acondicionados separadamente se constituem em uma mercadoria única para fins de classificação fiscal. 4.5) Impossibilidade de classificação dos componentes dos kits no código 2106.90.10 Todas as mercadorias enquadradas no código 2106.90.10, seja em seu caput, seja em um de seus dois Ex-tarifários, são preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas. Para que uma mercadoria se classifique no Ex 01 do código 2106.90.10, deve apresentar as seguintes características: a) ser uma preparação composta; b) não ser alcoólica; c) caracterizar-se como extrato concentrado ou sabor concentrado; d) ser apropriada para elaboração de bebida da posição 22.02; e) capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Analisados em conjunto, os kits da Recofarma atendem apenas as condições citadas nas letras “b” e “d” acima. Algumas das embalagens individuais dos kits correspondem a preparações compostas do tipo utilizado na elaboração de bebidas não alcoólicas. Assim, quando individualmente consideradas, tais embalagens atendem às condições citadas nas letras “a”, “b” e “d”. A classificação no Ex 01 do código 2106.90.10 só pode acontecer caso a mercadoria se enquadre em todas as características definidas, inclusive como um extrato concentrado ou sabor concentrado com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Definições de “concentrado” e de “capacidade de diluição” conforme a química Solução é uma mistura homogênea formada por solvente e soluto. Em geral, o soluto se encontra em menor quantidade do que o solvente. Em química, são utilizados os termos “concentrado” ou “diluído” para falar a respeito da quantidade de soluto presente na solução. Diluído significa que apenas uma pequena quantidade de soluto é dissolvida e concentrado significa que uma porção grande de soluto está presente na solução. Soluções concentradas contêm muito soluto em relação ao solvente. Fl. 2914DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 16 Assim, em termos químicos, o Ex 01 do código 2106.90.10 está tratando da forma concentrada de uma bebida não alcoólica, que, mediante simples adição de mais solvente, resulta na bebida pronta para consumo (solução diluída). Como as exceções tarifárias do código 2106.90.10 tratam da forma concentrada de uma bebida da posição 22.02, a expressão “extrato concentrado” ou “sabor concentrado” só pode ser aplicada à preparação que é capaz de, mediante diluição, resultar na bebida. Não é o caso, por exemplo, das preparações que compõem o kit Coca-Cola tradicional. Como cada embalagem contém apenas uma parte dos ingredientes do refrigerante, se o conteúdo fosse diluído em água carbonatada com açúcar, não seria obtida a bebida. O concentrado para elaboração da bebida é uma preparação única. Por exemplo, não se pode dizer que o refrigerante Coca-Cola tradicional é elaborado com a utilização de dois concentrados. A bebida é elaborada com a utilização de diversos ingredientes, mas apenas um concentrado, que é o xarope composto industrializado dentro do estabelecimento da fiscalizada. As exceções tarifárias do código 2106.90.10 distinguem os concentrados conforme sua “capacidade de diluição”, que é expressa em um número de “partes da bebida para cada parte do concentrado”. É incorreto alegar que a diluição referida nos Ex 01 e Ex 02 do código 2106.90.10 abrangeria, além do acréscimo de líquido a fim de diminuir a concentração, também a adição de ingredientes diversos, em operações realizadas em qualquer etapa do processo produtivo. A adição de ingredientes (p.e.: conservantes, acidulantes e suco de frutas) ao extrato não tem o objetivo de reduzir a concentração da preparação e não pode ser descrita simplesmente como uma diluição. Trata-se de uma operação de industrialização de razoável complexidade, realizada em diferentes etapas. Caso se adotasse a interpretação de que a expressão “capacidade de diluição” indicaria apenas que os bens são objeto de diluição em qualquer etapa do processo produtivo, ela poderia ser aplicada até a matérias puras e preparações que não são específicas para elaboração de bebidas. Ressalte-se que, no caso da fabricação dos refrigerantes, o fato de que a mistura entre extratos e aditivos nem sequer ocorre na etapa final do processo produtivo, mas sim em uma etapa intermediária (etapa esta que é a mais importante do processo produtivo) deixa ainda mais evidente que o kit adquirido pelo engarrafador não é um extrato concentrado. A mistura dos componentes do kit não resulta em uma bebida pronta para consumo, e sim no chamado xarope composto. Fl. 2915DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 17 Para determinar o que chama de capacidade de diluição, a Recofarma calcula a proporção em peso do kit em relação ao peso final do produto (refrigerante), o que não faz o menor sentido. Caso a Recofarma enviasse quantidade de água tratada (integrando o que chama de kit) suficiente para resultar na bebida, o peso dos insumos ficaria igual ao peso da bebida, ou seja, o kit não teria qualquer “capacidade de diluição”. Na realidade, inexiste situação em que seja chamado de concentrado um soluto que ainda precise receber acréscimo de outros componentes por meio de operação industrial, para só então ficar apto a resultar na solução mais diluída sob análise. Definições de “concentrado para elaboração de bebida” conforme a legislação técnica brasileira A Lei nº 8.918, de 14 de julho de 1994, mandamento válido para qualquer bebida, foi regulamentada pelo Decreto nº 2.314, de 4 de setembro de 1997, posteriormente revogado pelo Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009. O Decreto nº 6.871, de 2009, traz, no § 4º do art. 13, uma definição geral para produtos concentrados. O seu art. 30 traz uma definição específica para o concentrado líquido para refrigerante. Como se vê na leitura dos artigos, sempre que o Decreto nº 6.871, de 2009, define algum tipo de concentrado, determina que, quando diluído, deverá resultar em bebida que apresente as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para a bebida na concentração normal. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) editou o Regulamento Técnico para Fixação dos Padrões de Identidade e Qualidade para refrescos e refrigerantes, anexo à Portaria nº 544, de 16 de novembro de 1998, a fim de complementar os padrões de identidade e qualidade estabelecidos no Decreto nº 6.871, de 2009. Quando esse Regulamento aborda a Composição e Requisitos das bebidas, estabelece que “As características sensoriais e físico- químicas deverão estar em consonância com a composição do produto”. A preparação recebida de Manaus, se diluída individualmente, não apresentaria as mesmas características sensoriais e físico-químicas da bebida que porventura viesse a ser elaborado a partir dela. O aroma, o sabor e a coloração (elementos das características sensoriais), bem como as características físico-químicas não seriam iguais. Embora os concentrados destinados a indústrias não estejam sujeitos a registro nº MAPA, este detalhe não modifica as definições do Decreto, sendo irrelevante para os efeitos de classificação fiscal. 4.6) Argumentos apresentados pelas empresas do sistema Coca-Cola “Relatório técnico” juntado em processos administrativos que discutem a classificação dos kits A fiscalização juntou, ao presente processo, documento contendo uma análise detalhada do Relatório Técnico nº 000.127/17, elaborado pela Divisão de Fl. 2916DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 18 Engenharia de Avaliações e de Produção (DIEAP) do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), em que ficam claros os graves equívocos nele cometidos. Inexistência de vínculo entre classificação fiscal de mercadorias e atos da SUFRAMA Na realidade, ao contrário do que alegam as empresas do Sistema Coca-Cola, inexiste discordância entre o Fisco e a SUFRAMA quanto à classificação fiscal do produto. A SUFRAMA não se pronunciou sobre o enquadramento na TIPI dos produtos em questão, nem teria competência legal para fazê-lo. A fiscalização não deixou de reconhecer efeitos de ato da SUFRAMA. O que a fiscalização está questionando não é o atendimento a requisitos para gozo da isenção, mas sim a alíquota utilizada pelos adquirentes para cálculo dos créditos, decorrente da adoção de classificação fiscal incorreta. Dentro de suas atribuições, nada impede que a SUFRAMA se refira aos insumos de Manaus como “concentrados”, nome adotado nos projetos que os fabricantes apresentam para a autarquia, e que é comumente utilizado para fins comerciais. A forma usada para identificar a mercadoria não determina sua classificação fiscal. Como consta no Parecer Técnico nº 224/2007, que integra a Resolução do CAS nº 298/2007, a SUFRAMA tomou como base para sua análise “a industrialização do tipo: Concentrado para bebidas refrigerantes, sabor de cola”. Qualquer autoridade competente para avaliar a classificação fiscal das mercadorias não pode tomar como base apenas um dos diversos produtos industrializados pela empresa sob análise. Para tal fim, é necessário que se faça uma análise minuciosa de cada produto, fundamentada com base nas regras de classificação. Nem a SUFRAMA e nem mesmo a Receita Federal podem alterar a definição do produto para fins de enquadramento na NCM (por exemplo, criar a ficção de que um kit de ingredientes embalados individualmente deve ser tratado como se fosse um produto misturado), pois as definições de mercadorias para fins de classificação obedecem a regras internacionais. A SUFRAMA não é o órgão competente para tratar de definições relativas ao setor de bebias nem mesmo quando se trata de outros fins que não sua classificação fiscal. A SUFRAMA é uma autarquia com a “responsabilidade de construir um modelo de desenvolvimento regional que utilize de forma sustentável os recursos naturais”. A competência em relação aos aspectos tecnológicos da fabricação de bebidas, inclusive definições de produtos, pertence ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, conforme previsto na Lei nº 8.918, de 1994. Portanto, para as bebidas é o MAPA, e não a SUFRAMA, que tem papel nas definições de produtos, assim como, por exemplo, a ANVISA é responsável por definições técnicas de produtos sujeitos à vigilância sanitária. Inocorrência de alteração de critério jurídico Fl. 2917DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 19 No caso de classificação de mercadorias, o instrumento apropriado para fixação de critério jurídico é a consulta, procedimento atualmente regulado pela IN RFB nº 1.464, de 8 de maio de 2014, cujo resultado vincula a Administração e o consulente. Recofarma não formalizou qualquer consulta sobre a classificação dos kits. Os entendimentos registrados em Relatórios Fiscais têm efeitos delimitados aos procedimentos de fiscalização regularmente executados pelo Auditor-Fiscal da RFB, relativos a estabelecimentos e períodos específicos. Em procedimentos fiscais anteriores realizados no estabelecimento fiscalizado, assim como não se verificou a classificação dos chamados “concentrados”, também não foram objeto de análise muitos outros aspectos relativos ao IPI, inclusive no que se refere ao próprio benefício fiscal do art. 6º do Decreto-Lei nº 1.435, de 16 de dezembro de 1975. Observe-se que existem decisões administrativas e judiciais em que não se admitiu que fosse efetuada revisão de lançamento em decorrência de erro de direito. Tais decisões, porém, não se aplicam ao presente caso, em que a Fiscalização não efetuou revisão de lançamento, mas sim o lançamento de ofício de imposto devido em períodos de apuração que não haviam sido objeto de cobrança. Códigos de classificação adotados em outros países membros da OMA Segundo as empresas do Sistema Coca-Cola, apenas os seis primeiros dígitos das classificações fiscais do Sistema Harmonizado devem ser uniformes, sendo facultado aos países membros a criação de subdivisões. A legislação brasileira teria utilizado tal possibilidade para criar uma classificação fiscal específica aos concentrados. Mas, de acordo com o art. 3º da Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado, anexa ao Decreto nº 97.409, de 23 de dezembro de 1988, cada país signatário da OMA pode criar subdivisões a um nível mais detalhado que o do SH, mas é obrigatório que seja respeitada a posição e a subposição definida pela organização internacional. Histórico das TlPl As empresas do Sistema Coca-Cola alegam que, desde 1988, o texto das TIPI identificaria o concentrado para refrigerantes como uma mercadoria única constituída por diversos componentes, sendo que a existência de um extrato concentrado/sabor concentrado seria suficiente para que todos os demais componentes integrem o mesmo produto. Na realidade, o texto das TIPI mais antigas indica o contrário. Na subposição 2106.90 da TIPI de 1988, existia códigos que descreviam preparações “constituídas por um xarope ao qual se juntou um extrato concentrado”, e códigos que se referiam a preparações “que contenham” um extrato ou um suco. Ao tratar de preparações dos tipos utilizados na fabricação de bebidas, a NESH Fl. 2918DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 20 esclarece que “Estas preparações podem ser obtidas adicionando aos extratos vegetais da posição 13.02 diversas substâncias”. Outra tabela, criada por Resolução do Comitê Brasileiro de Nomenclatura nº 78, de 30 de novembro de 1989, subdivide os concentrados entre aqueles “em cilindros (postmix)” e “Qualquer outro”. Tal texto indica que os concentrados sempre são mercadorias acondicionadas em embalagem única. Inaplicabilidade das Regras Gerais de Interpretação 2 e 3 O Fisco teria subvertido a ordem de aplicação das Regras Gerais de Interpretação, uma vez que aplicou as regras “secundárias” de interpretação (Regras 2 e 3) antes da primária (Regra 1), de acordo com as empresas do Sistema Coca-Cola. Na realidade, só há base legal para classificar os kits em um código único se fosse possível aplicar uma das citadas regras “secundárias”. Tendo-se concluído que as regras “secundárias” não permitem a classificação dos produtos como mercadoria única, deve ser aplicada a RGI 1 sobre cada componente. Irrelevância de limitações técnicas (razões físico-químicas) para fins de classificação. É evidente que o processo de elaboração de qualquer produto alimentício deve seguir etapas que obedecem às leis da física e da química, mas tal fato não autoriza as empresas a adotarem códigos de classificação fiscal de acordo com as características que o produto só passaria a apresentar em etapas futuras da cadeia produtiva, realizadas em outro estabelecimento industrial. O Sistema Harmonizado abrange os produtos nas condições em que se encontram nas diversas etapas da cadeia produtiva, contemplando classificações fiscais próprias para matérias-primas, classificações fiscais próprias para produtos intermediários, e classificações fiscais próprias para o produto finalmente elaborado. 4.7) Responsabilidade do engarrafador pelos impostos e multas Ocorreram danos ao erário em função do cálculo e aproveitamento de créditos fictos indevidos por parte da fiscalizada, resultantes da aplicação de alíquota incorreta do IPI. Obviamente, o imposto que deixou de ser recolhido na saída dos produtos finais(refrigerantes) só pode ser cobrado do contribuinte de direito em relação a estas operações, que é o engarrafador. Na hipótese do engarrafador se considerar prejudicado pelo fornecedor, ele deve buscar na Justiça seu direito de regresso, para reaver os montantes perdidos. No presente caso, o adquirente não arcou com o ônus financeiro do imposto na entrada dos produtos, tendo ficado comprovado prejuízo aos cofres públicos em função do aproveitamento de créditos indevidos. 4.8) Observações sobre o valor agregado dos insumos Fl. 2919DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 21 O texto do Ex 01 do código 2106.90.10 demonstra que a mercadoria tributada à alíquota de 20% é aquela que já passou por operações de industrialização suficientes para deixá-la com capacidade para, mediante diluição, resultar na bebida. O fato da palavra concentrado ser utilizada também (mas não unicamente) para produtos que já são considerados como bebidas pelo MAPA é mais um elemento que demonstra o alto valor agregado e o estágio avançado que este bem ocupa na cadeia produtiva. Entretanto, a prática que foi adotada por Recofarma é a de comercializar insumos menos completos. Dentre os insumos que geram créditos os para fabricantes de bebidas, incluem-se até mesmo substâncias que são adquiridas no centro do país e passam por simples reacondicionamento em Manaus. Assim, os insumos adquiridos pela fiscalizada têm baixo valor agregado, sendo responsáveis pela criação de uma quantidade bastante reduzida de empregos diretos e indiretos na região amazônica. No que se refere à geração de renda para a região, observe-se que os valores de matérias-primas regionais e dos insumos elaborados em Manaus são muito pouco significativos quando comparados, por exemplo, com os custos com propaganda e publicidade. No caso de marcas de refrigerantes como Coca-Cola, o elemento mais valioso é o nome do produto, cujo direito de uso pertence a empresas estrangeiras. Segundo dados do Banco Central, o setor de bebidas enviou 8,2 bilhões de dólares ao exterior no período entre 2008 e 2012. Os montantes remetidos para o exterior se equivalem aos dos créditos incentivados aproveitados pelos fabricantes das bebidas. Considerando-se o objetivo dos benefícios fiscais concedidos a empresas localizadas na Amazônia Ocidental, não há qualquer lógica no aproveitamento de créditos incentivados calculados sobre valores bilionários que se destinam a remunerar empresas estrangeiras. Note-se que tal parcela do crédito não existiria para um engarrafador que adquirisse uma mercadoria similar de marca nacional, em cuja fabricação tenha sido usada quantidade idêntica de insumos regionais, mas que não demandasse pagamento de royalties. Como a tributação do IPI segue o princípio constitucional da seletividade, normalmente a geração de créditos excedentes deste imposto ocorre no caso de empresas que industrializam produtos considerados essenciais (como remédios ou produtos da cesta básica). Só que a fiscalizada fabrica refrigerantes, produto que tem seu consumo desaconselhado pelo Ministério da Saúde e por organizações internacionais. Em decorrência das análises expostas, a autoridade competente efetuou o lançamento dos débitos de IPI e a glosa dos créditos considerados indevidos; Fl. 2920DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 22 reconstituiu a escrita fiscal, apurando saldo devedor de IPI nos períodos de janeiro de 2013 a fevereiro de 2015. Cientificada do lançamento em 26/07/2018, a autuada apresentou a sua impugnação (e-fls. 1959/2023) em 24/08/2018. Aduziu em sua defesa as razões que sumariamente se passa a expor. A) Decadência Decaiu do direito de glosar créditos de IPI e/ou de exigir o imposto relativamente ao período anterior a 26/07/2013, porque se passaram mais de cinco anos entre os fatos geradores e a ciência do auto de infração. Nos termos do já decidido pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), na aplicação do art. 183, parágrafo único, III, do RIPI/2010, considera-se pagamento os créditos utilizados para dedução dos débitos, admitidos pelo próprio contribuinte, ainda que erradamente, desde que o contribuinte não tenha agido com dolo, fraude ou simulação e não tenha sido imposta multa qualificada. A lógica adotada é a mesma do pagamento idôneo: só se protrai o termo inicial do prazo decadencial para o primeiro dia do exercício seguinte ao do fato gerador se houver dolo, fraude ou simulação no referido creditamento. Além do mais, houve apuração de outros créditos (legítimos) que não foram glosados pela Fiscalização. Se o pagamento antecipado insuficiente não atrai o art. 173, I, do CTN, o creditamento insuficiente também não, em lógica adotada idêntica à do pagamento antecipado a menor. B) Alteração de critério jurídico No lançamento tributário, a atividade da autoridade administrativa é vinculada, nos termos do art. 142 do CTN, e, ao fiscalizar um contribuinte e examinar a sua escrita fiscal de IPI, tem o dever de examinar todos os aspectos legais formadores do fato gerador da obrigação tributária de IPI, a saber: o direito ao crédito de IPI, a classificação fiscal do produto adquirido, sua respectiva alíquota etc. Em verificações fiscais anteriores, o fato era exatamente o mesmo, qual seja, aquisição de idêntico insumo isento da mesma fornecedora, não tendo sido lavrado qualquer auto de infração nessas ocasiões. Não obstante, a autoridade fiscal utilizou de novo critério jurídico, no qual (i) a aquisição dos concentrados para bebidas não alcoólicas não daria direito ao crédito de IPI, (ii) o produto adquirido não seria o concentrado para bebidas não alcoólicas e (iii) não estaria classificado como mercadoria única na posição 2106.90.10 Ex 01, da TIPI/2010. A previsão constante do art. 146 do CTN se aplica a qualquer forma de manifestação da autoridade administrativa; seu objetivo único é o de resguardar o princípio da confiança legitima e qualquer restrição ao seu alcance ofende a regra hermenêutica segundo a qual onde o legislador não restringe, não cabe ao intérprete restringir. Fl. 2921DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 23 C) Responsabilidade do terceiro adquirente A adquirente não tem obrigação de verificar a correção da classificação fiscal indicada na nota fiscal emitida pelo fornecedor da mercadoria, pois não há na lei nem no regulamento do IPI tal obrigatoriedade e esse entendimento está em linha com a jurisprudência judicial e administrativa. O art. 62 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, determina que o adquirente verifique se os produtos que tenham ingressado em seu estabelecimento e as notas fiscais que os acompanham atendem às prescrições legais e regulamentares, mas não exige que o adquirente também examine a correção da classificação fiscal dos produtos realizada pelo fornecedor. Os regulamentos do IPI de 1972, 1979 e 1982, ao regulamentarem esse art. 62 da Lei nº 4.502, de 1964, chegaram a acrescentar, expressamente, a obrigação de o adquirente também examinar a correção da classificação fiscal do produto consignada na nota fiscal elo fornecedor. Não obstante, desde a edição do RIPI/1998, foi suprimido tal acréscimo regulamentar, sendo mantida essa supressão nos regulamentos posteriores. Na esfera judicial, restou pacificado o entendimento de que aquele acréscimo de obrigação, imposto pelos regulamentos de 1972, 1979 e 1982, não encontrava amparo legal no art. 62 da Lei. Na esfera administrativa, a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF proferiu os acórdãos nº 3401003.751, de 26/04/2017, e 3401-003.838, de 28/04/2017, no sentido de que, se o crédito do IPI é calculado pelo adquirente com base na classificação fiscal consignada pelo fornecedor na respectiva nota fiscal, a autoridade administrativa não pode proceder a sua glosa, em razão do disposto no art. 62 da Lei nº 4.502, de 1964. D) Classificação fiscal dos kits e alíquota Natureza unitária do produto fornecido por Recofarma A Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08, de 25 de fevereiro de 1998, (i)estabelece o PPB dos concentrados para bebidas não alcoólicas, os quais foram correlacionados pela SUFRAMA ao código 0653, e (ii) expressamente reconhece que esses concentrados são um único produto, composto por partes líquidas e sólidas cuja homogeneização somente ocorre quando necessário. Considerando o PPB definido na referida Portaria, a SUFRAMA editou a Resolução CAS nº 298, de 11 de dezembro de 2007, que, integrada pelo Parecer Técnico de Projeto nº 224/2007-SPR/CGPRI/COAPI e pelas “Informações Textuais do Produto”: (i) aprovou o projeto industrial da Recofarma para fabricação dos concentrados para bebidas não alcoólicas, necessário para fruição dos benefícios do art. 9º do Decreto-lei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, e do art. 6º do Decreto-lei nº 1.435, de 16 de dezembro de 1975; (ii)reconheceu que esse produto elaborado pela Recofarma está sujeito e observa o PPB objeto da Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08, de 1998, que estabelece o PPB para esses Fl. 2922DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 24 produtos; e (iii) reconheceu expressamente que o produto elaborado pela Recofarma conforme esse PPB é o concentrado para bebidas não alcoólicas, correlacionado ao código 0653, mercadoria única constituída por diversos componentes (partes líquidas e sólidas). O Instituto Nacional de Tecnologia (INT) também reconheceu que o produto fabricado pela Recofarma é o concentrado para bebidas não alcoólicas, tal como consta do código 0653, e que este concentrado tem a natureza de uma mercadoria única. Assim, na parte em que tecnicamente definiu que os produtos elaborados pela Recofarma são uma mercadoria única, entregues em kits, o Laudo do INT deve ser adotado imperiosamente, nos termos do art. 30, caput, do Decreto nº 70.235, de 1972, observado também o art. 26-A. Nesse sentido, em caso semelhante ao presente, o CARF determinou a observância do Laudo emitido pelo INT, conforme se verifica da ementa do Acórdão nº 301-33.786, de 24/04/2007. Vale ressaltar, ainda, que o Laudo elaborado pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer sequer pode ser utilizado como contraprova no presente caso, seja porque não foi juntada a íntegra do referido Laudo, seja porque não foi elaborado por órgão Federal a que os arts. 26-A e 30 do Decreto nº 70.235, de 1972, atribuem força vinculante, como é o caso do INT. Em suma, somente o Laudo do INT vincula a Administração Pública, e a sua conclusão, nº sentido de que o produto elaborado pela Recofarma é mercadoria única, é suficiente e bastante para afastar a autuação. Competência da SUFRAMA para definir classificação fiscal Somente com a respectiva classificação fiscal é possível identificar o produto beneficiado para fins do IPI (art. 1º e art. 4, I, c, do Anexo I do Decreto nº 7.139, de 29 de março de 2010, e artigos 10, 13, 15 e 23 da Resolução CAS nº 202, de 17 de maio de 2006). Nesse passo, a SUFRAMA atribui um código específico a cada produto, relacionado à sua respectiva classificação fiscal, conforme se verifica na “listagem padrão de insumos”, constante do endereço eletrônico: http://wwws.suframa.gov.br/serviços/estrangeiro/ consultas/listageminsumos/EST_PoloProdutoGeraltd.asp?offset=400. No caso, como visto, o produto elaborado pela Recofarma foi classificado pela própria SUFRAMA no código 0653 (concentrado para bebidas não alcoólicas), com a indicação da respectiva classificação fiscal (2106.90.10 Ex 01), considerando a sua destinação e a sua capacidade de diluição. A própria SUFRAMA também confirma que a Recofarma continua observando o respectivo PPB e adotando a mesma classificação fiscal do concentrado por ela estabelecida, nos termos do Ofício nº 4215-COPIN/CGAPI/SPR, de 28/08/2015, e Fl. 2923DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 25 do Ofício nº 3638-SPR/CGAPI/COPIN, de 26/09/2014, apresentados em processos de interesse de outros fabricantes de produtos Coca-Cola. O STJ já decidiu que a RFB não tem competência exclusiva nem excludente para efetuar a classificação fiscal de produto, prevalecendo a classificação fiscal efetuada pelo órgão técnico (naquele caso, a ANVISA) e não cabendo à RFB questionar aquela classificação. Entendimento idêntico já havia sido adotado pelo CARF no julgamento do processo nº 13701.000675/90-04 (Acórdão nº 20301.939), no qual restou decidido que a RFB não tem competência exclusiva nem excludente para efetuar a classificação fiscal de produto, prevalecendo, no referido processo, a classificação fiscal efetuada pelo Ministério da Saúde. Na mesma linha, cite-se o voto do Conselheiro Antônio Carlos Atulim, no Acórdão/CARF nº 3403-002.192, de 22/05/2013, no qual restou concluído que deve ser observado o ato administrativo da SUFRAMA que aprova o projeto industrial com base em Portaria Interministerial e efetua a respectiva classificação do produto incentivado: Fato é que a SUFRAMA classificou o produto elaborado pela RECOFARMA no código 2106.90.10, Ex 01, em ato administrativo que tem presunção de legalidade, legitimidade e veracidade. Nesse sentido, objetivando resguardar a segurança jurídica, a Lei nº 13.655, de 25 de abril de 2018, introduziu o art. 24 ao Decreto-Lei nº 4.657, de 04 de setembro de 1942 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro), nos seguintes termos: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Ainda que se pretendesse rever a validade do ato da SUFRAMA, seus efeitos seriam prospectivos, e nunca retroativos. Histórico das TlPl Pela interpretação histórica das TIPI desde 1988, o concentrado para bebidas não alcoólicas sempre foi classificado como uma mercadoria única constituída por diversos componentes. Neste particular, é relevante e suficiente para determinar a classificação como produto único a existência de um extrato concentrado/sabor concentrado daquela posição para que todos os demais componentes que a ele se juntaram sejam integrados ao mesmo produto e classificados na mesma posição. Essa mesma descrição foi mantida pela TIPI de 2002, na classificação 2106.90.10, sendo que o Ex 01 passou a compreender as “preparações compostas” destinadas Fl. 2924DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 26 à “elaboração de bebida da posição 22.02”, o que foi mantido nas TIPI de 2006, 2011 e 2016. A interpretação restritiva do Fisco somente seria possível se a redação do referido Ex 01 fizesse referência apenas aos “extratos concentrados ou sabores concentrados”, e não ao gênero “preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados)”, como consta expressamente da redação da TIPI. Classificação fiscal dos produtos pela aplicação das RGI/SH Aplica-se a Regra Geral de Interpretação/SH nº 1, que determina a adoção da posição mais específica para classificar a mercadoria quando esta existir, sem que seja necessário recorrer às subsequentes Regras Gerais Interpretativas, que são subsidiárias. O fato de os concentrados para bebidas não alcoólicas não terem sido previamente homogeneizados, como autoriza expressamente a própria Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/1998, significa que eles estão prontos para uso pelo fabricante dos refrigerantes. Após o ingresso dos concentrados no estabelecimento da adquirente, todo o processo produtivo seguinte é relativo à elaboração de refrigerantes. A decisão do Conselho de Cooperação Aduaneira, de 23/08/1985, consistiu em mero trabalho preparatório que não tem natureza de parecer do Comitê de Sistema Harmonizado da Organização Mundial das Aduanas (OMA) e que não integra a coletânea publicada nº site da RFB. Tal decisão envolve apenas a legislação dos países mencionados na consulta que motivou aquela decisão (Japão, Canadá, Maurícia, Austrália) e, naqueles países, o concentrado para bebidas não alcoólicas não é classificado numa posição específica, como o é e sempre foi na legislação brasileira, razão pela qual naquela decisão foi preciso utilizar as Regras Gerais de Interpretação secundárias (2 e 3.b). Essa divergência nas posições existentes nos países objeto da decisão do CCA e no Brasil ocorre pelo fato de que, no Sistema Harmonizado, apenas os seis primeiros dígitos das classificações fiscais devem ser uniformes, sendo facultado aos países membros da Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado a criação de subdivisões. No Brasil há posição específica com mais de seis dígitos (2106.90.10 Ex 01). Assim, o item XI da Nota Explicativa da RGI 3.b confirma o fato de que os concentrados para bebidas não alcoólicas, entregues em forma de kits, devem ser classificados em uma única posição, porque a sua literalidade demonstra que esses concentrados constituem mercadoria unitária, integrada por diferentes componentes. Os laudos juntados pela Recofarma nos processos nº 11080.732960/2014-10 e nº 11080.732817/2014-28 chegam à mesma conclusão. Fl. 2925DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 27 Ainda que restasse qualquer dúvida quanto à posição 2106.90.10 Ex 01 para os produtos adquiridos, há que prevalecer essa classificação dada pela SUFRAMA, em ato administrativo, devendo ser aplicado ao presente caso o disposto no art. 112 do CTN. E) Ilegalidade do auto de infração A Fiscalização reconheceu que uma das partes do concentrado estaria classificada em posição cuja alíquota seria de 5%, mas deixou de calcular o respectivo crédito sob a alegação de que não teria como arbitrar o valor do crédito, haja vista que, nas notas fiscais de aquisição dos concentrados para bebidas não alcoólicas, não teria sido discriminado o valor de cada parte. Ocorre que não consta esse valor da nota fiscal justamente porque o produto é classificado como mercadoria única, em uma posição única. A reclassificação dos produtos decorre de um entendimento do Fisco, cabendo a este reconhecer, ainda que por arbitramento, o valor do crédito decorrente do seu posicionamento. Tal ilegalidade acarreta o cancelamento integral do lançamento, pois não é possível à autoridade julgadora determinar a correção dessa parte e a quantificação do valor do crédito, eis que essa determinação importaria na alteração do critério jurídico da autuação, violando os artigos 142 e 146 do CTN. O auto de infração também é ilegal por não possuir respaldo probatório. Foi utilizado, para comprovar que os produtos adquiridos não seriam mercadorias unitárias, o laudo pericial elaborado durante a fiscalização que originou o processo administrativo nº 11080.732960/2014-10, instaurado contra a Recofarma (Laudo elaborado pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer). Ocorre que tal laudo não pode ser utilizado como prova suficiente para justificar a reclassificação fiscal, porque não abrange o período correspondente à totalidade dos fatos geradores discutidos no presente processo. Além disso, não foi juntada a íntegra do referido laudo, na medida em que não se anexou a respectiva parte relativa ao produto “concentrado/kit sabor Coca-Cola Light”, citado nos “quesitos para perícia em concentrados/kits produzidos pela Recofarma”. F) Isenção do art. 9º do DL nº 288, de 1967 (MSC nº 91.0047783-4) É indiscutível e incontroverso que, nos autos do Mandado de Segurança Coletivo nº 91.0047783-4, foi proferida decisão final reconhecendo a todos os associados da AFBCC o direito de se creditarem do IPI decorrente da aquisição de insumo isento para refrigerantes, elaborado pela Recofarma. Tendo em vista que o auto de infração não questionou o direito ao crédito de IPI em relação à isenção prevista no art. 9º do DL nº 288, de 1967, deve ser automaticamente reconhecido o direito ao referido crédito de IPI, pois há fundamento formal, material, autônomo, independente e suficiente para manutenção do crédito de IPI. Fl. 2926DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 28 G) Isenção do art. 6º do DL nº 1.435, de 1975 Registre-se que a autoridade fiscal apenas alega que os produtos adquiridos da Recofarma não fariam jus ao benefício, mas não apresenta as razões para tanto, visto que tal entendimento estaria descrito no Relatório de Ação Fiscal nº 01, que não foi anexado ao processo. O Fisco não poderia desconsiderar o benefício do DL nº 1.435, de 1975, porque concedido pela Resolução do CAS nº 298/2007, ato administrativo que permanece válido desde a época do creditamento. Nesse sentido, aplica-se, novamente, o disposto no art. 24 do DL nº 4.657, de 1942, que veda a declaração de invalidade das situações já constituídas e que foram embasadas em ato administrativo, em razão de alteração de entendimento das autoridades administrativas. H) Acréscimos legais Ao utilizar o crédito de IPI decorrente da aquisição de insumos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus, a empresa agiu de acordo com a Resolução CAS nº 298/2007, integrada pelo Parecer Técnico nº 224/2007. A Resolução CAS nº 298/2007, integrada pelo Parecer Técnico nº 224/2007, é ato administrativo que tem efeito normativo em relação aos adquirentes do concentrado, porque esses adquirentes não foram nem são partes no processo que ensejou a referida resolução, mas estão obrigados a observá-la. O art. 100, parágrafo único, do CTN estabelece que a observância de atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas tem o condão de excluir a cobrança de multa, juros de mora e correção monetária. I) Exigência de multa Também seria incabível a imposição de multa relativamente à infração “créditos indevidos” em razão do disposto no art. 76, II, a, da Lei nº 4.502, de 1964. A CSRF já decidiu que a multa de ofício decorrente de auto de infração lavrado para exigir débitos de IPI decorrentes da glosa de créditos, em razão da aquisição de insumos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus, deve ser excluída, por força do art. 486, II, a, do RIPI/2002, e art. 567, II, a, do RIPI/2010, cuja base legal é o art. 76, II, a, da Lei nº 4.502, de 1964, o qual vincula todos os órgãos de julgamento no âmbito do processo administrativo fiscal, por força do art. 26-A do Decreto nº 70.235, de 1972. Ainda que se entenda que o art. 76, II, a, da Lei nº 4.502, de 1964, tenha sido tacitamente revogado, o fato de o próprio RIPI/2002 e o RIPI/2010 excluírem a multa já é suficiente, por si só, para que tal regra seja observada por órgãos de julgamento no âmbito do processo administrativo fiscal, independentemente de qualquer outra consideração. Glosa de créditos básicos Fl. 2927DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 29 A glosa do crédito de IPI decorrente da aquisição de produtos de limpeza, os quais, nº entendimento da autoridade fiscal, não se enquadrariam no conceito de matéria-prima, produto intermediário e material de embalagem, está equivocada. Não há dúvida de que os produtos de limpeza utilizados para assepsia e sanitização integram o processo produtivo dos refrigerantes, já que são inerentes à sua produção, inclusive por exigências sanitárias, e são utilizados de forma obrigatória. Embora os produtos de limpeza não tenham, necessariamente, contato direto com a bebida, tais produtos entram em contato direto com as embalagens dos refrigerantes, visto que são utilizados para higienizar as máquinas e esteiras, onde são elaborados os refrigerantes. Além disso, é inconteste que a utilização dos produtos de limpeza também atende aos requisitos estabelecidos pela jurisprudência do STJ para fins de aproveitamento do crédito de IPI. O art. 226, I, do RIPI/2010, ao dispor sobre o direito ao crédito relativo à aquisição de matéria-prima, produto intermediário e material de embalagem, expressamente reconhece que dá direito ao crédito os produtos que, embora não se integrando ao novo produto, sejam “consumidos” no processo de industrialização. K) Lançamento de débitos Na hipótese de ser revertida a glosa dos créditos, não haverá valor de imposto a ser exigido, porque os créditos seriam suficientes para absorver todos os débitos, inclusive os apurados pela Fiscalização. L) Juros sobre a multa de ofício A incidência de juros sobre a multa de ofício implica numa indireta majoração da própria penalidade, não se podendo falar em mora na exigência de multa. Ao disciplinar a incidência de juros de mora sobre débitos de qualquer natureza perante a Fazenda Nacional, o parágrafo único do art. 16 do Decreto-lei nº 2.323, de 26 de fevereiro de 1987, com a redação que lhe foi dada pelo artigo 6º do Decreto-lei nº 2.331, de 28 de maio de 1987, dispõe expressamente que juros de mora não incidem sobre o valor da multa (ainda que de mora). Segundo entendimento pacífico do STJ, proferido sob a sistemática de recurso repetitivo e, pois, de observância obrigatória, ambas as multas, de ofício e de mora, possuem natureza punitiva. Os dispositivos legais atualmente em vigor (art. 59 da Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991, e art. 61 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996) não preveem a possibilidade de cobrança dos juros na forma pretendida pelo Fisco. Por fim, a interessada pugna pelo cancelamento do auto de infração, com a consequente extinção do crédito tributário exigido. Fl. 2928DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 30 É o relatório do essencial. A DRJ/RPO proferiu a decisão abaixo ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 DECADÊNCIA. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DO PAGAMENTO ANTECIPADO. Nos lançamentos por homologação, o prazo decadencial começa a fluir a partir do fato gerador. Porém, na ausência do pagamento antecipado, não se fazem presentes os pressupostos desta modalidade de lançamento. Neste caso, a regra aplicável passa a ser a geral, dada pelo art. 173 do CTN. Em não havendo recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do IPI, o lançamento deve ser de ofício (art. 183, parágrafo único, I, do RIPI/2010). INCENTIVOS FISCAIS. DL Nº 1.435, DE 1975. VERIFICAÇÃO DO CORRETO CUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO. COMPETÊNCIA. Compete ao Conselho de Administração da SUFRAMA deliberar acerca da aprovação dos projetos de empresas que visem o gozo dos incentivos fiscais de que trata o art. 6º do DL nº 1.435, de 1975. Porém, a competência para verificar o correto cumprimento da legislação tributária federal, bem como a aplicação dos demais atos administrativos e judiciais na seara tributária é da Secretaria da Receita Federal do Brasil e das autoridades tributárias federais nos exercícios de suas funções. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA. Em matéria de classificação fiscal, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) detém a competência exclusiva para dela tratar oficialmente. Isto decorre das disposições contidas na Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, combinadas com a Lei nº 8.490, de 1992, arts. 16, III, b, e 19, II, i, o Decreto nº 766, de 1993, art. 2º, e o Regimento Interno da RFB. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. LAUDOS E PARECERES TÉCNICOS. VINCULAÇÃO. A classificação fiscal não é aspecto técnico e, desta forma, o laudo de especialistas não tem qualquer vinculação para a autoridade administrativa no que a ela se Fl. 2929DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 31 refere, pois, a própria autoridade, considerando as regras aplicáveis à classificação, tem competência para formar seu juízo a respeito. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES. Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” se constitui de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matérias-primas e produtos intermediários que só se tornam, efetivamente, uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização, ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Considera-se não contestada a matéria que não tenha sido expressamente questionada. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2013 a 28/02/2015 LANÇAMENTO. DESCONSIDERAÇÃO DE CRÉDITO NA APURAÇÃO DO SALDO DEVEDOR DO IMPOSTO. FALTA DE JUNTADA DE LAUDO PERICIAL. LEGALIDADE. Ato ilegal é aquele praticado em desconformidade com a lei e deve ser anulado de ofício ou a pedido. Tratando-se de auto de infração no âmbito administrativo- tributário federal, a desconformidade com a lei configura-se com a inobservância do Decreto nº 70.235, de 1972, diploma legal que, de acordo com o seu art.1º, rege o processo administrativo de determinação e exigência dos créditos tributários da União e o de consulta sobre a aplicação da legislação tributária federal. Aspectos concernentes à apuração do saldo devedor do imposto e à ausência de provas situam-se nº campo da análise de mérito da constituição do crédito tributário. APLICAÇÃO DA NORMA JURÍDICA. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA. A alteração de critério jurídico deve ser entendida como uma mudança de posição interpretativa da Administração a respeito de determinada norma. Não ocorre alteração de critério jurídico nem ofensa ao art. 146 do CTN se a Fiscalização promove autuação baseada em entendimento distinto daquele que seguidamente adota o contribuinte, mas que jamais foi objeto de manifestação expressa por parte da Administração Tributária. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. DOCUMENTOS FISCAIS IDÔNEOS. CLASSIFICAÇÃO FISCAL EQUIVOCADA. RESPONSABILIDADE DO ADQUIRENTE. Em matéria tributária, a culpa do agente é irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. Na situação, as Fl. 2930DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 32 notas fiscais de aquisição das mercadorias que originaram o suposto crédito, ao consignarem classificação fiscal equivocada que não se aplica ao produto comercializado, deixam de ostentar o amparo necessário a respaldar o crédito ficto escriturado, sendo cabível a glosa. AÇÃO JUDICIAL. ALCANCE. O provimento jurisdicional abrange o objeto da demanda judicial, vale dizer, o conteúdo do pedido da petição, e seu alcance restringe-se aos associados da impetrante domiciliados no âmbito da competência territorial do órgão prolator. MULTA DE OFÍCIO. EFICÁCIA NORMATIVA DAS DECISÕES ADMINISTRATIVAS. INEXISTÊNCIA DE LEI. EXIGÊNCIA. Não há que se falar em aplicação do disposto no art. 76, II, a, da Lei nº 4.502, de 1964, c/c o art. 100, II e parágrafo único, do CTN, para a exclusão de penalidades e juros de mora, pela inexistência de lei que atribua eficácia normativa às decisões administrativas em processos nos quais um terceiro não seja parte. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Sendo a multa de ofício classificada como débito para com a União, decorrente de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, é regular a incidência dos juros de mora, a partir de seu vencimento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Irresignada, a recorrente apresentou recurso voluntário em que repisa os argumentos de sua impugnação, acrescentando que houve reconhecimento da correção da classificação fiscal que tem utilizado em sentença exarada nos autos da Ação Anulatória (AO) nº 1003920-70.2018.4.01.3200. Ao recurso voluntário, a Procuradoria da Fazenda Nacional opôs as suas contrarrazões em que defende a manutenção do auto de infração e rebate os argumentos da recorrente em relação a créditos de IPI, classificações fiscais e direito ao aproveitamento de insumos isentos da Zona Franca de Manaus, alegando: i) Ausência de Ilegalidade no Auto de Infração: sustenta que o auto de infração, que resultou de análise de Pedidos de Ressarcimento (PERDCOMP), foi devidamente fundamentado e não apresenta qualquer ilegalidade na reclassificação fiscal dos componentes dos kits adquiridos pela Norsa. A alegação de que não houve reclassificação individualizada dos componentes não merece prosperar, pois a autoridade fiscal indicou os códigos NCM corretos. ii) Erro de Classificação Fiscal e Direito ao Crédito de IPI: a principal razão do lançamento, o erro de classificação fiscal dos produtos adquiridos pela Norsa, resultou na aplicação incorreta de alíquotas de IPI, pois, na realidade Fl. 2931DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 33 deveriam ser zero. Portanto, ainda que houvesse direito em abstrato ao crédito de IPI para insumos isentos da Zona Franca de Manaus, esse direito não seria aplicável, pois a alíquota do IPI é zero, impedindo a geração de créditos. iii) Coisa Julgada Limitada: não merece guarida a alegação de que o direito ao crédito de IPI está garantido por uma decisão judicial transitada em julgado, pois coisa julgada formada na decisão anterior não abrange a classificação fiscal ou as alíquotas aplicáveis, que são pontos centrais na controvérsia atual. Ou seja, os limites objetivos da coisa julgada não alcançam a classificação fiscal e a alíquota, portanto, não há coisa julgada sobre esses aspectos. iv) Ausência de posicionamento da Administração Tributária em sentido favorável à classificação fiscal defendida pelo particular: Não assiste razão à recorrente quanto à afirmação de que a própria RFB teria reconhecido expressamente que o produto elaborado pela RECOFARMA, na Zona Franca de Manaus, deve ser classificado na posição 21.06.90.10, Ex. 01. A Nota COEST/CETAD n° 071, de 30 de maio de 2018, apenas estimou o impacto de eventual redução da alíquota incidente sobre concentrados classificados no Código TIPI 2106.90.10, Ex. 01, sem referência alguma às características dos produtos em questão e às regras do Sistema Harmonizado. Nenhum desses fatos mencionados pela recorrente se equiparam aos instrumentos normativos listados no art. 26-A do Decreto 70.235/19723, motivo pelo qual não vinculam os órgãos de julgamento. Tampouco o art. 24 da LINDB, cuja hipótese não abarca o contencioso administrativo-tributário e isto estaria consolidado na jurisprudência do CARF não reconhece a incidência do art. 24 da LINDB no âmbito do processo administrativo-fiscal. v) Classificação Fiscal dos Kits de Concentrados: os kits adquiridos pela Norsa são compostos por partes que devem ser classificadas individualmente, e não como um único produto (concentrado), conforme alega a recorrente, conforme as regras do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias, ao contrário, devem ser classificados individualmente, cada um dos seus componentes. vi) Irrelevância de Decisão Judicial em Ação Anulatória: A sentença favorável em outra ação judicial (Ação Anulatória nº 1003920-70.2018.4.01.3200) é irrelevante ao presente processo, a uma porque decisão não transitou em julgado e a duas porque não produz efeitos em relação à Norsa, que não era parte naquele processo. Fl. 2932DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 34 vii) Classificação fiscal: regras gerais de interpretação do Sistema Harmonizado e características dos produtos adquiridos pela fabricante de bebidas: a. Interpretação do Sistema Harmonizado: não se considera aspecto técnico a classificação fiscal de mercadorias, não sendo vinculantes, no âmbito tributário, conclusões firmadas no Relatório Técnico do INT, em favor de determinada classificação fiscal. Conceito deturpado de “preparação composta”, pois tais preparações não são simplesmente “preparações com mais de um componente”, mas sim aquelas definidas conforme a Nota Explicativa 7 do código 2106 da Nomenclatura do Sistema Harmonizado. Preparações destinadas a serem consumidas como bebidas, por simples diluição em água ou depois de tratamento complementar, conforme Nota Explicativa 12 do mesmo 2106. A definição casuística da classificação das mercadorias deve observar as normas hermenêuticas previstas nas Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado e as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (NESH). A Regra 3 b) tem sua aplicação bloqueada por força da Nota Explicativa IX. Aplica-se a Regra 1 para cada item separadamente. A origem da Nota Explicativa IX é justamente um caso de idêntico ao que se discute nestes autos. b. Compreensão das competências da Secretaria da Receita Federal do Brasil e da Suframa: a aprovação, pela SUFRAMA, de projetos industriais de estabelecimentos situados na Zona Franca de Manaus não interfere na competência fiscal para a definição da alíquota de IPI incidente sobre as operações correspondentes. c. Irrelevância da suposta boa-fé da adquirente para efeito de aproveitamento da classificação fiscal incorreta: É inoponível ao Fisco a alegada boa-fé quanto ao creditamento realizado com base na classificação fiscal feita pelo fornecedor. viii) Legalidade da exigência de multa, de juros de mora e de correção monetária: art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64 foi tacitamente revogado pelo art. 100 do CTN, que passou a exigir que as decisões administrativas tivessem caráter normativo, com base em disposição literal de lei. Em suma, a Procuradoria defende a legalidade do auto de infração, com base em erros de classificação fiscal e no fato de que, mesmo na hipótese de créditos sobre insumos isentos, a alíquota zero impede o creditamento. Fl. 2933DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 35 É o relatório. VOTO Conselheiro Celso José Ferreira de Oliveira, Relator O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade pelo que dele se deve tomar conhecimento. A matéria devolvida à apreciação deste colegiado diz respeito, especialmente, à classificação fiscal adotada pela recorrente para o que denomina “concentrados” e sua incorreção, segundo afirma a fiscalização, e os efeitos daí decorrentes, incluída a impossibilidade de creditamento de IPI nas aquisições de tais produtos, o que levou a glosa de tais créditos e, consequentemente, ausência ou pagamento a menor de IPI, exigido no lançamento juntamente com a corresponde multa de ofício e seus consectários legais. Em síntese, o recurso voluntário pugna por: A) Ilegalidade do auto de infração; B) Direito ao crédito de IPI relativo à aquisição de produtos isentos; C) Da classificação fiscal C.1) Da orientação geral contida em ato público reconhecendo a classificação fiscal; C.2) Do reconhecimento da classificação fiscal na ação anulatória nº 1003920- 70.2018.4.01.3200; C.3) Da aplicação da coisa julgada formada no MS nº 95.0009470-3; D) Idoneidade das NFs e qualidade da recorrente como adquirente de boa-fé; E) Impossibilidade de exigência de multa, juros de mora e correção monetária; F) Dos créditos oriundos da aquisição de produtos utilizados no processo de industrialização de refrigerantes; Passemos a apreciação de cada um dos conjuntos argumentativos. Fl. 2934DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 36 Preliminar. Da ilegalidade do auto de infração Como se leu no relatório, a recorrente alega que o auto de infração seria ilegal por não haver indicação detalhada da classificação fiscal dos componentes dos kits de “concentrados” que adquire da RECOFARMA com o que haveria infringido o art. 10 infringiu o art. 10 do Decreto nº 70.235/72 e o art. 142 do Código Tributário Nacional (CTN), que determinam que o ato administrativo de lançamento deve conter a descrição dos fatos, a correta determinação da matéria tributável e a fundamentação legal, e, em casos em que se discute a classificação fiscal de produto, a indicação dos produtos e sua especifica e individualizada reclassificação fiscal. Veja-se: Segundo o Fisco, o produto elaborado pela Recofarma não seria classificado no código 2106.90.10 Ex 01, porque seria comercializado na forma de kits e, portanto, não seria um produto único. Não obstante, não indicou os componentes dos produtos que deveriam ser classificados separadamente e em quais posições da TIPI, tendo apenas afirmado genericamente que os componentes mais importantes deveriam ser classificados no código 2106.90.10 e os componentes que correspondem a uma mistura de ingredientes, em 2106.90.90. Considerando a falta da precisa e individualizada reclassificação fiscal dos “componentes do concentrado”, o auto de infração é ilegal, porque infringiu o art. 10 do Decreto nº 70.235/72 e o art. 142 do Código Tributário Nacional (CTN), que determinam que o ato administrativo de lançamento deve conter a descrição dos fatos, a correta determinação da matéria tributável e a fundamentação legal, e, em casos em que se discute a classificação fiscal de produto, a indicação dos produtos e sua especifica e individualizada reclassificação fiscal. Ora, basta uma simples conferência na Informação Fiscal, que serve de fundamento para o Auto de Infração, para notar que houve reclassificação motivada dos componentes dos kits e indicação de suas classificações fiscais: 150) No tópico anterior, adiantou-se o entendimento de que as preparações compostas não alcoólicas próprias para elaboração de bebida da posição 22.02 que não se enquadrem como concentrados para elaboração de bebidas devem ser enquadradas no “caput” do código 2106.90.10, independentemente de sua importância no processo produtivo (o texto do Ex 01 do código 2106.90.10 não faz qualquer menção à relevância do insumo na composição do produto final). Fl. 2935DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 37 151) A seguir, será detalhada a base legal para o enquadramento destas preparações no “caput” do código 2106.90.10, bem como os códigos que devem ser aplicados ao conteúdo de outros componentes dos kits. Embalagem individual contendo preparação específica para bebidas 152) A maior parte dos kits fornecidos por Recofarma inclui pelo menos uma embalagem que contém extratos e ingredientes aromatizantes específicos para a bebida a ser industrializada. Por exemplo, os componentes mais importantes dos kits sabor Cola são aqueles que contêm extrato de noz de cola, aromatizantes e corante caramelo. 153) Uma preparação que contenha a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida (excetuadas preparações à base de substâncias odoríferas) se classifica no escopo da posição 21.06, a qual trata das “Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições”, conforme esclarecem as Notas Explicativas dessa posição: “Classificam-se especialmente aqui: [...] 7) As preparações compostas, alcoólicas ou não (exceto as à base de substâncias odoríferas), dos tipos utilizados na fabricação de diversas bebidas não alcoólicas ou alcoólicas. Estas preparações podem ser obtidas adicionando aos extratos vegetais da posição 13.02 diversas substâncias, tais como ácido láctico, ácido tartárico, ácido cítrico, ácido fosfórico, agentes de conservação, produtos tensoativos, sucos de frutas etc. Estas preparações contêm a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida. Em consequência, a bebida em questão pode, geralmente, ser obtida pela simples diluição da preparação em água, vinho ou álcool, com ou sem adição, por exemplo, de açúcar ou de dióxido de carbono. Alguns destes produtos são preparados especialmente para consumo doméstico; são também frequentemente utilizados na indústria para evitar os transportes desnecessários de grandes quantidades de água, de álcool, etc. Tal como se apresentam, estas preparações não de destinam a ser consumidas como bebidas, o que as distingue das bebidas do Capítulo 22.” (grifo nosso)154) Verifica-se da estrutura da posição 21.06, que a mesma se desdobra em apenas duas subposições. Como a subposição 2106.10 está reservada aos “Concentrados de proteínas e substâncias proteicas texturizadas”, a preparação sob análise deve ser enquadrada na subposição 2106.90, destinada a “outras” preparações. 155) Aplicando-se o disposto na Regra Geral Complementar Nº 1 – RGC-1 para determinação da classificação ao nível de item e subitem, verifica-se que a preparação sob análise tem como classificação mais específica o código NCM 2106.90.10, correspondente às “Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas”. Fl. 2936DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 38 156) Por fim, verifica-se que no código NCM 2106.90.10 há dois Ex-tarifários (exceções tarifárias): o Ex 01 e o Ex 02. Entretanto, como já detalhado neste Relatório, as preparações comercializadas por Recofarma não podem ser enquadradas como concentrados para bebidas. 157) Conclui-se que um componente de kit para refrigerantes que contêm extrato e outros ingredientes, acondicionado em embalagem individual, classifica-se no código 2106.9010, como uma “Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”, cuja alíquota do IPI é zero. Embalagem individual contendo misturas de ingredientes utilizados em vários produtos da indústria alimentícia 158) A maior parte dos kits fornecidos por Recofarma inclui pelo menos uma embalagem que não contém extratos e ingredientes aromatizantes específicos para a bebida a ser industrializada. 159) Dentre estes componentes de kits, estão embalagem que contém misturas de ingredientes comumente utilizados em vários produtos da indústria alimentícia. 159.1. Por aplicação da 1ª Regra Geral para Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI-1/SH, as "Preparações alimentícias diversas" classificam-se no Capítulo 21. 159.2. Como não se verifica uma posição específica que trate das preparações em questão, resta a posição 21.06, que trata das "Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições ". 159.3. Verifica-se da estrutura da posição 21.06, que a mesma se desdobra em apenas duas subposições, estando a subposição 2106.10 reservada aos "Concentrados de proteínas e substâncias proteicas texturizadas", enquanto a subposição 2106.90 é reservada a "outras" preparações. Assim, a preparação em análise deve ser enquadrada na subposição 2106.90.159.4. Tendo em vista que a preparação sob análise é utilizada de forma geral pela indústria alimentícia e, portanto, não é do tipo específico utilizado para elaboração de bebidas de que trata o código 2106.90.10, nem se enquadra nos códigos 2106.90.21 até 2106.90.60, lhe resta o item residual "Outras" do código 2106.90.90 159.5. Esclareça que as "Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas" a que se refere o código 2106.90.10 são aquelas que possuem características intrínsecas que as tornam próprias para utilização na elaboração de bebidas. Não é o caso de uma mistura de ingredientes comumente utilizados em diversos produtos da indústria alimentícia. 159.6. Por exemplo, um componente que contém acessulfame de potássio, aspartame e benzoato de sódio (parte 3 do kit Coca-Cola Zero) não pode ser considerado do tipo específico utilizado para elaboração de bebidas. 159.7. Diante desse fato, as preparações sob análise (mistura de ingredientes comumente utilizados em diversos produtos da indústria alimentícia) devem ser Fl. 2937DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 39 classificadas no código residual 2106.90.90, reservado às "Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições - Outras - Outras", tributado à alíquota zero do IPI. Embalagem individual contendo substância pura 160) Conforme detalhado em documento com o título “Análise efetuada pelo Fisco da classificação fiscal das mercadorias objeto de exame laboratorial”, integrante do presente processo, no caso de componente de kit fornecido por Recofarma que corresponda a uma matéria pura acondicionada em embalagem individual, deve ser utilizado o código adequado para a respectiva matéria: 160.1. O código 2916.31.21, tributado à alíquota zero, é próprio para partes compostas exclusivamente de benzoato de sódio. 160.2. O código 2916.19.11, tributado à alíquota zero, é próprio para partes compostas exclusivamente de sorbato de potássio. 160.3. O código 2918.14.00, tributado à alíquota zero, é próprio para partes compostas exclusivamente de ácido cítrico. 160.4. O código 2918.15.00, tributado à alíquota zero, é próprio para partes compostas exclusivamente de citrato de sódio. Embalagem individual contendo preparação à base de substâncias odoríferas 161) As únicas “partes” tributadas a alíquotas positivas adquiridas pela fiscalizada são aquelas classificadas no código 3302.10.00, próprio para preparação à base de mistura de substâncias odoríferas, cuja alíquota é de 5%. 161.1. O texto da posição 33.02 está a seguir transcrito: "Misturas de substâncias odoríferas e misturas (incluindo as soluções alcoólicas) à base de uma ou mais destas substâncias, dos tipos utilizados como matérias básicas para a indústria; outras preparações à base de substâncias odoríferas, dos tipos utilizados para a fabricação de bebidas." 161.2. A Nota 2 da TIPI do capítulo 33 estabelece: 2.- Na acepção da posição 33.02, a expressão "substâncias odoríferas" abrange unicamente as substâncias da posição 33.01, os ingredientes odoríferos extraídos dessas substâncias e os produtos aromáticos obtidos por síntese. 161.3. Tanto as preparações enquadradas no código 2106.90.10 quanto as enquadradas no código 3302.10.00 são dos tipos utilizados para fabricação de bebidas. 161.4. Assim, a diferença entre as preparações enquadradas no código 3302.10.00 e as preparações do código 2106.90.10 é que estas últimas, embora possam conter substâncias odoríferas, não são nelas baseadas. 161.5. Como descrito no documento com o título “Análise efetuada pelo Fisco da classificação fiscal das mercadorias objeto de exame laboratorial”, nos kits Sprite Fl. 2938DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 40 e Sprite Zero há uma embalagem cujo conteúdo deve ser classificado no código 3302.10.00. 161.6. Tais componentes, porém, não são elaborados com matéria-prima extrativa vegetal, não podendo gerar direito a crédito (ver “Relatório de Ação Fiscal nº 01”). Como se vê, a fiscalização não incorreu em ilegalidade em relação ao disposto no art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972, e tampouco em relação ao disposto no art. 142 do CTN. Aliás, bom frisar, trata-se de auto de infração decorrente de glosas de crédito de IPI. Ou seja, não houve alegações de ocorrência de outros fatos geradores, senão aqueles constantes da escrita fiscal da recorrente. Neste sentido, acertada a decisão recorrida em relação a este ponto. Junto, portanto, os seus fundamentos como razões para decidir. Reproduzo-os: Ora, um simples exame do auto de infração (e-fls. 2/22) permite constatar que todos os elementos exigidos pelo Decreto nº 70.235/72 encontram-se ali presentes. Igualmente, o lançamento cumpre com todos os requisitos discriminados no art. 142 do CTN. Ocorre que o caso em tela ocupa-se da glosa de créditos. Em função da glosa de créditos, a escrita fiscal foi reconstituída, resultando em saldos devedores, cujos correspondentes créditos tributários é que foram objeto do lançamento. Não houve apuração de novos débitos e os fundamentos para as glosas encontram-se extensamente detalhados nos autos. Nesta situação, para aproveitar-se de eventuais créditos que entenda ter direito, deve a interessada demonstrar a sua procedência. Não se olvide que, por envolver a fruição de créditos, cabe à requerente o ônus da comprovação da sua existência. Trata-se de postulado do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015), adotado de forma subsidiária na esfera administrativo tributária: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. (...) Art. 434. Incumbe à parte instruir a petição inicial ou a contestação com os Fl. 2939DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 41 documentos destinados a provar suas alegações. (...) Como se viu, o Fisco (o autor, no caso) não alegou a ocorrência de outros fatos geradores do IPI (fatos constitutivos do seu direito), senão aqueles já registrados nos livros fiscais. Por outro lado, se a contribuinte (o réu, no caso) alegar a existência de créditos que possam ser utilizados na dedução dos débitos de IPI apurados (fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor), deve comprová-los. Enfim, não se cogita de ilegalidade do auto de infração. Por outro lado, a recorrente não discutiu, nem em sua impugnação, nem em seu recurso voluntário, o acerto da classificação fiscal adotada pela fiscalização, tratando de discutir tão somente que a classificação por ela adotada seria acertada. De se concluir, portanto, que as classificações adotadas pelo fisco para os componentes, individualmente, é matéria não impugnada. Assim, voto por rejeitar as alegações de ilegalidade do auto de infração. Decadência em relação aos fatos geradores anteriores a 26/07/2013 A recorrente alega haver ocorrido a decadência para os fatos geradores anteriores a 26/07/2013, pois somente foi cientificada do auto de infração em 26/07/2018 e, portanto, os fatos geradores anteriores aos cincos anos compreendidos entre tais datas estariam ao abrigo da regra decadencial disposta no artigo 150, §4º do CTN. Ora, pensamos que se equivoca a recorrente, pois a regra de que reclama aplicação ao caso não é aplicável, pois somente encontra aplicação aos casos em que houve pagamento, pois é evidente que o que se submete à condição resolutória de ulterior homologação é extinção do crédito pelo pagamento antecipado. Ora, é claro que não houve pagamento, logo, não é o caso de submissão à regra do §4º do CTN, mas sim, da regra disposta pelo artigo 173, inciso I, do mesmo Código Tributário Nacional. Neste sentido, não vemos razões para reforma da decisão de primeira instância e adotamos as suas razões de decidir como se nossas fossem, reproduzimos: Sendo o IPI um tributo daqueles que se enquadram na modalidade do lançamento por homologação, é inegável a sua sujeição às regras contidas no art. 150 do CTN: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, opera-se pelo ato em que a referida autoridade, Fl. 2940DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 42 tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento. § 2º Não influem sobre a obrigação tributária quaisquer atos anteriores à homologação, praticados pelo sujeito passivo ou por terceiro, visando à extinção total ou parcial do crédito. § 3º Os atos a que se refere o parágrafo anterior serão, porém, considerados na apuração do saldo porventura devido e, sendo o caso, na imposição de penalidade, ou sua graduação. § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Diz o caput do art. 150 supra: “O lançamento por homologação (...)opera-se pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa.” O que se homologa? É justamente a atividade assim exercida pelo obrigado, qual seja “antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa”. Neste diapasão, o prazo dado pelo § 4º é o da homologação da atividade assim exercida pelo obrigado (o de “antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa”). Sem pagamento antecipado, não há que se falar em homologação. Na ausência do pagamento antecipado, não se fazem presentes os pressupostos do lançamento por homologação, impossibilitando a homologação dos procedimentos que deveriam ter sido adotados pela contribuinte. Neste caso, a regra aplicável ao lançamento do crédito tributário passa a ser a geral, dada pelo art. 173 do CTN: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos, contados: I - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extingue-se definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário Fl. 2941DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 43 pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. Reportando-se ao Regulamento do IPI (RIPI/2010 – Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010), que se amolda a essa interpretação, o seu art. 188 consolida o regramento sobre o assunto: Art. 188. O direito de constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados: I - da ocorrência do fato gerador, quando, tendo o sujeito passivo antecipado o pagamento do imposto, a autoridade administrativa não homologar o lançamento, salvo se tiver ocorrido dolo, fraude ou simulação (Lei nº 5.172, de 1966, art. 150, § 4º); II - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o sujeito passivo já poderia ter tomado a iniciativa do lançamento (Lei nº 5.172, de 1966, art. 173, inciso I); III - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado (Lei nº 5.172, de 1966, art. 173, inciso II). Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extingue-se definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento (Lei nº 5.172, de 1966, art. 173, parágrafo único). Por sua vez, o art. 183 e seguintes do RIPI/2010 estabelecem: Art. 183. Os atos de iniciativa do sujeito passivo, no lançamento por homologação, aperfeiçoam-se com o pagamento do imposto ou com a compensação deles, nos termos do art. 268 e efetuados antes de qualquer procedimento de ofício da autoridade administrativa (Lei nº 5.172, de 1966, art. 150, caput e § 1º, Lei nº 9.430, de 1996, arts. 73 e 74, Lei nº 10.637, de 2002, art. 49, Lei nº10.833, de 2003, art. 17, e Lei nº 11.051, de 2004, art. 4º). Parágrafo único. Considera-se pagamento: I - o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto; II - o recolhimento do imposto não sujeito a apuração por períodos, haja ou não créditos a deduzir; ou III - a dedução dos débitos, no Fl. 2942DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 44 período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher. (grifou-se) Art. 184. Considerar-se-ão não efetuados os atos de iniciativa do sujeito passivo, para o lançamento: (...)III - quando estiver em desacordo com as normas deste Capítulo (Lei nº 4.502, de 1964, art. 23, inciso I). Parágrafo único. Nos casos dos incisos I e III não será novamente exigido o imposto já efetivamente recolhido, e, no caso do inciso II, se a falta resultar de presunção legal e o imposto estiver também comprovadamente pago. Examinando as planilhas que subsidiaram a apuração do crédito tributário constituído (e-fls. 123/128), verifica-se que, de janeiro a julho de 2013, a despeito das glosas, permaneceram créditos admitidos demonstrados na tabela abaixo: [...] Contudo, de abril a julho de 2013, não houve recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto (art. 183, parágrafo único, I, do RIPI/2010), motivo pelo qual foi efetuado o lançamento de ofício. Em janeiro, fevereiro e março, nota-se ter ocorrido a hipótese do art. 183, parágrafo único, III, do RIPI/2010 (dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher). Em assim sendo, fica afastada a regra especial constante do art. 150, § 4º, CTN, para os períodos de abril a julho de 2013, havendo-se de computar a decadência pela regra geral do art. 173, I, do referido diploma legal, segundo a qual o prazo respectivo é contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que os lançamentos, referentes a cada período de apuração, poderiam ter sido efetuados e cuja incidência no caso concreto não estaria a depender da comprovação de dolo, fraude ou simulação. No caso em questão, cuidando de fatos ocorridos no ano-calendário de 2013, o termo inicial da decadência é o primeiro dia do exercício seguinte, isto é, 01/01/2014, com o fim do lustro decadencial em 31/12/2018. Havendo-se cientificado regularmente o lançamento ao sujeito passivo em 26/07/2018, constata-se que não operou a decadência arguida. Acerca da glosa dos créditos em específico, impende esclarecer que a decadência tratada no CTN versa sobre o direito de constituir o crédito tributário. Não se admite estender sua aplicação ou utilizar de analogia aos créditos apropriados na escrituração. Fl. 2943DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 45 Ressalte-se que a apuração do montante do tributo devido insere-se, sem dúvida, na atividade do lançamento. Isto significa que, dentro do prazo decadencial para constituir o crédito tributário, todos os fatos que afetem a sua apuração podem e devem ser considerados, inclusive a utilização de créditos. Neste diapasão, créditos indevidos devem ser excluídos da apuração, ainda mais porque não há na legislação disposições que excepcionem esse entendimento. Por estas razões, voto por rejeitar a preliminar de decadência. Direito ao crédito com base em decisões judiciais A recorrente alega ter direito aos créditos de IPI, pois estaria amparada em decisões judiciais O referido MSC nº 91.00411 83-4 não é aplicável à impugnante, porque esta impetrou o MSI nº 95.0009470-3 para assegurar o direito ao crédito de IPI decorrente da aquisição de matérias-primas isentas, oriundas de fornecedor situado na Zona Franca de Manaus. A autoridade tributária se equivocou ao utilizar prova emprestada de processo em que a empresa responsável pela prática dos fatos geradores foi a Companhia Maranhense de Refrigerantes (CMR), que posteriormente foi sucedida pela Norsa. Tendo em vista que os fatos geradores em discussão neste processo foram praticados pela Norsa e não pela CMR e, não tendo sido questionada a coisa julgada individual formada no MSI nº 95.0009470-3, deve ser reconhecido o direito ao crédito ficto de IPI, pois há fundamento formal, material, autônomo, independente e suficiente para manutenção do referido crédito de IPI. Registre-se ainda que, em 25/04/2019, o Plenário do STF julgou em conjunto o RE nº 596.614 e o RE nº 592.897, este último sob a sistemática de repercussão geral, sendo fixada a tese de que há direito ao creditamento de IPI na aquisição de insumos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus. Outra vez, não assiste razão à recorrente. De fato, considerando haver erro na classificação fiscal dos produtos adquiridos pela recorrente, não lhe socorrem as decisões mencionadas. Vejamos o que diz a decisão recorrida: [...] Todavia, não se trata apenas de discutir a existência do direito de crédito. Fl. 2944DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 46 Apesar de a discussão encontrar-se encerrada no que concerne ao aproveitamento de créditos com base no referido dispositivo legal, relativamente ao contribuinte especificado, indubitavelmente, cabe à autoridade tributária examinar se o valor creditado pelo sujeito passivo em sua escrituração está correto, posto que o provimento judicial apenas assegurou o aproveitamento do crédito relativo ao imposto que incidiria na aquisição dos insumos, caso não houvesse o benefício da isenção. As sucessivas decisões proferidas no curso da ação judicial não dispuseram a respeito da classificação fiscal dos kits para refrigerantes, aspecto que dela não é objeto e que será analisado no próximo tópico deste voto. Em outras palavras, a definição do quantum faz parte da lide, o que implica na análise da alíquota aplicável. Significa dizer que o mérito do lançamento há que ser apreciado. Acerca da aplicação do quanto decidido no RE nº 592.891/SP, submetido a julgamento na sistemática da repercussão geral, trata-se da tese fixada pelo tema 322, assim enunciada: Há direito ao creditamento de IPI na entrada de insumos, matéria- prima e material de embalagem adquiridos junto à Zona Franca de Manaus sob o regime da isenção, considerada a previsão de incentivos regionais constante do art. 43, §2º, III, da Constituição Federal, combinada com o comando do art. 40 do ADCT. Logo se vê que o direito reconhecido é, em essência, o mesmo havido no MSI nº 95.0009470-3. Dessarte, aproveitam-se as mesmas considerações a ele efetuadas. Em primeiro lugar, em relação à coisa julgada formada no MS nº 95.0009470-3, bem lançadas as contrarrazões da Procuradoria da Fazenda Nacional quando afirmam que os limites objetivos da coisa julgada não alcançam a discussão acerca da classificação fiscal e tampouco das alíquotas que são os pontos cruciais da discussão nestes autos. Em relação a isso, importante conferir o que diz a União: A alíquota incidente na operação de venda dos supostos “kits” não foi questão acobertada pela coisa julgada constituída no Mandado de Segurança Coletivo. O pedido veiculado na inicial do Mandado de Segurança pela empresa Refrescos Cearenses S.A., sucedida pela ora recorrente, encontra-se assim redigido: 5.1. Por todo o exposto a IMPETRANTE requer: a) a concessão, inaudita altera pars, de MEDIDA LIMINAR para não ser compelida a estornar o crédito do IPI, incidente sobre as aquisições de matéria-prima isenta a fornecedor situado na Zona Franca de Manaus (concentrado – código 2106.90 do TIPI) (RIPI, art. Fl. 2945DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 47 45, XXI), utilizada na industrialização dos seus produtos (refrigerantes – código 2202.90 da TIPI), cuja saída é sujeita ao IPI, dando-se ciência ao Delegado da Receita Federal. b) a concessão, inaudita altera pars, de MEDIDA LIMINAR, nos termos do art. 151, IV do CTN, para que o IMPETRADO se abstenha de praticar ou determinar a prática de qualquer ato contra a IMPETRANTE, visando à exigência da diferença e IPI, com os acréscimos de multa, juros e correção, com fundamento em glosa do crédito de IPI nas aquisições de matérias-primas referidas na letra a) supra (...); c) que, na sentença, se confirmem as liminares requeridas nas letras a) e b) supra para assegurar à IMPETRANTE o seu direito ao crédito do IPI na aquisição da matéria-prima isenta proveniente da Zona Franca de Manaus (fl. 28.506). Como se percebe, nem mesmo o código NCM completo foi mencionado na inicial. Ainda que tivesse sido, isso não implicaria formação de coisa julgada a respeito do tema, conforme será demonstrado. O crédito a ser aproveitado com base na sentença supostamente favorável à recorrente depende da aferição do código completo NCM e da alíquota correspondente, o que deveria ser apurado nas fases de liquidação/execução do julgado. Ao se reconhecer, no âmbito administrativo, que a alíquota incidente é zero, não há crédito a ser apurado. É relevante destacar que, além de a demanda não contemplar o código NCM completo, a classificação fiscal correta não foi objeto daquele processo, nem fez parte dispositivo da sentença. Em consequência, sobre esse tema não operou o efeito preclusivo da coisa julgada (art. 469 do CPC/1973). A leitura das peças processuais acostadas aos autos revela que a alíquota incidente na saída dos produtos adquiridos da Recofarma não foi objeto daquela lide. De fato, a coisa julgada invocada pela recorrente não interfere no deslinde do presente litígio administrativo-fiscal, uma vez que o motivo do lançamento não está inserido nos limites objetivos da sentença transitada em julgado2, assim disciplinado no art. 468 do CPC/1973 (correspondente ao art. 503 do CPC em vigor): Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas. Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida. Fl. 2946DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 48 Depreende-se de tais normas que “a imutabilidade, ínsita à coisa julgada, somente atinge a parte dispositiva da sentença, na qual se estabeleceu a lei do caso concreto. Todo o restante, ou seja, a fundamentação e o relatório, não restam imutáveis” (MARINONI, Luiz Guilherme. Processo de conhecimento, 12ª ed., São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2014, p. 648). Como ressalta Fredie Didier Jr., o advérbio “expressamente”, inserido no art. 503 do CPC/2015 “serve para reforçar a regra de que não há coisa julgada implícita – ou seja, não há coisa julgada do que está implícito na decisão ou do que não foi decidido”, o que, aliás, já prevalecia no sistema processual anterior (Curso de direito processual civil, v. 2., 10ª ed., Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015, p. 525). Com efeito, não houve provimento declaratório sobre a natureza dos supostos kits concentrados, nem tampouco sobre a correta classificação fiscal correspondente, consoante se verifica no dispositivo da sentença: Em face dos fundamentos expendidos, concedo a ordem (...) para assegurar à parte impetrante o direito de se creditar dos valores relativos ao IPI nas operações de aquisição de concentrado, ainda que essas operações sejam isentas do mesmo imposto, na origem (fl. 28.518). Assim, o direito ao creditamento na aquisição de insumos isentos foi a única questão acobertada pela coisa julgada. A sentença declarou o direito de o contribuinte aproveitar créditos de IPI na aquisição de concentrado saído da Zona Franca com isenção, mas não declara, em hipótese alguma, que os produtos por ela adquiridos se enquadram de fato na classificação fiscal por ela pretendida. [...] Em suma: a coisa julgada não garante automaticamente o direito ao aproveitamento dos créditos de IPI, na forma pretendida, porquanto a classificação fiscal e de alíquota – questão fundamental para a quantificação do crédito – não constou no dispositivo da decisão transitada em julgado, o que, aliás, não podia ocorrer, uma vez que o tema não integrou a causa de pedir. Em relação à necessidade de pronunciamento da PGFN acerca da necessidade de serem cumpridas as determinações dos artigos 19 e 19-A da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, com a redação dada pela Lei nº 13.874, de 20 de setembro de 2019, está correta a decisão de piso. Da mesma forma, coberta de razão a recorrente em afirmar já existir tal pronunciamento hoje. Trata-se da Nota SEI nº 18/2020/COJUD/CRJ/PGAJUD/PGFN-ME, de 2020. Todavia, os termos em que emitido tal parecer não permitem dizer que assiste razão à recorrente em relação a matéria discutida no presente processo. De fato, existe o parecer de que o tema foi objeto, mas não se pode dizer que tenha sido a sua conclusão no mesmo Fl. 2947DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 49 sentido do pleito do particular em relação ao que se discute nos presentes autos. Vejamos o que diz o Parecer constante da Nota SEI nº 18/2020/COJUD/CRJ/PGAJUD/PGFN-ME, de 2020: [...] a) Os bens adquiridos junto às empresas localizadas na Zona Franca de Manaus não podem ser produtos finais, mas apenas insumos, matérias-primas e materiais de embalagem; b) O julgamento se limitou às hipóteses de isenção, portanto, não estão abrangidas as hipóteses de desoneração com fundamento em alíquota zero ou não-tributação; c) Para se falar em creditamento, é necessário que o produto tenha tributação positiva na TIPI, ou seja, repete-se não é possível o creditamento se não houver uma alíquota na TIPI; d) Os insumos, matérias-primas e materiais de embalagem devem ser adquiridos de empresas situadas dentro Zona Franca de Manaus por empresas situadas fora da região. [...] 24. Ante o exposto, propõe-se a inclusão do tema objeto da presente Nota Explicativa na lista de dispensa de contestação e recursos desta Procuradoria- Geral, com fulcro no art. 19, VI, a, da Lei nº 10.522, de 2002, c/c o art. 2º, V, da Portaria PGFN nº 502, de 2016, nos termos seguintes: 1.20. Creditamento de IPI h) Creditamento de IPI quando a mercadoria é proveniente ou o produtor está localizado na Zona Franca de Manaus (ZFM) – Tema 322 RG – RE 592.891/SP. Resumo: O STF, julgando o tema 322 de Repercussão Geral, firmou a tese de que “há direito ao creditamento de IPI na entrada de insumos, matéria-prima e material de embalagem adquiridos junto à Zona Franca de Manaus sob o regime da isenção, considerada a previsão de incentivos regionais constante do art. 43, § 2º, III, da Constituição Federal, combinada com o comando do art. 40 do ADCT.” Observação 1. O precedente não abrange os produtos finais adquiridos junto às empresas localizadas na ZFM, mas apenas insumos, matérias-primas e materiais de embalagem utilizados para a produção dos bens finais; Observação 2. O julgamento está limitado às hipóteses de isenção, não estando abrangidas demais hipóteses de desoneração com fundamento em alíquota zero ou não-tributação; Observação 3. É necessário que o bem tenha tributação positiva na TIPI, para fins de aplicação do creditamento; Fl. 2948DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 50 Observação 4. Os insumos, matérias-primas e materiais de embalagem devem ser adquiridos da ZFM para empresa situada fora da região. Precedente: RE nº 592.891/SP (tema 322 de Repercussão Geral) Ou seja, é evidente que o Parecer da PGFN mencionado, restringe, como restringiu a Suprema Corte em sua decisão, a existência do direito ao crédito às matérias-primas adquiridas junto à Zona Franca de Manaus sob o regime de isenção, não abrangidas as demais hipóteses de desoneração com fundamento em alíquota zero ou não tributadas. Outrossim, necessário que o bem tenha alíquota positiva na TIPI, seja adquirido da Zona Franca de Manaus por empresa fora da região. Ademais, apenas insumos (matéria-prima e material de embalagem) adquiridos de empresas situadas na Zona Franca de Manaus são abrangidos pela decisão. O lançamento fundado nas glosas de crédito do IPI, a partir de reclassificação das mercadorias adquiridas pela recorrente, afirma, justamente, que não se trata de produtos isentos, mas sim de produtos cuja alíquota é zero. Os únicos requisitos a que se adequa o presente caso são que a empresa fornecedora está na Zona Franca de Manaus e a adquirente está situada fora de tal região. Ademais, não se trata de isenção, mas de alíquota zero, bem como não é o caso de alíquota positiva na TIPI. Ora, por todo o exposto, o que se pode afirmar é que não há decisão judicial que ampare o creditamento por parte da recorrente em relação aos produtos que adquire da Recofarma. Portanto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário neste ponto. Direito ao crédito com base no Decreto-lei nº 1.435/75 A recorrente traz as seguintes alegações em sua impugnação e em seu recurso voluntário: No Parecer Técnico nº 224/2007, parte integrante da Resolução CAS nº 298, de 11 de dezembro de 2007, a SUFRAMA aprovou, para fruição do benefício do art. 6º do DL nº 1.435/75, a verticalização do projeto industrial de fabricação do concentrado decorrente da utilização de açúcar e/ou álcool e/ou corante caramelo e/ou extrato de guaraná, produzido a partir de cana de açúcar e de semente de guaraná, adquiridas de produtores localizados na Amazônia Ocidental. Registre-se que a SUFRAMA, em processos de interesse de outros fabricantes de produtos Coca-Cola, já atestou, expressamente, que a Resolução CAS nº 298/2007, fundada no Parecer Técnico de Projeto nº 224/2007-SPR/CGPRI/COAPI, Fl. 2949DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 51 continua em vigor e que não houve qualquer descumprimento por parte da Recofarma no seu atendimento. O art. 4º da Resolução CAS nº 298/2007 determina que é a SUFRAMA quem cancela o benefício concedido no art. 1º da referida Resolução. No mesmo sentido é o art. 57, V e VI, da Resolução CAS nº 202, de 17 de maio de 2006. Portanto, os atos da SUFRAMA devem ser observados, porque são atos administrativos vigentes e como tais detém legitimidade, veracidade e legalidade. Ainda que se pretendesse rever a validade do ato da SUFRAMA, seus efeitos seriam prospectivos, e nunca retroativos. O auto de infração foi lavrado quando já em vigor o art. 24 do Decreto-lei nº 4.657, de 04 de setembro de 1942 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro), introduzido pela Lei nº 13.655, de 25 de abril de 2018, que veda a declaração de invalidade das situações já constituídas embasadas em ato administrativo, em razão de alteração de entendimento das autoridades administrativas. Para efeitos específicos do crédito, o termo “matéria-prima”, utilizado no § 1º do art. 6º do DL nº 1.435/75, compreende os produtos industrializados com matéria- prima agrícola regional. Sob qualquer ângulo que se examine, não seria legal nem jurídico que, após tantos anos de vigência do benefício concedido, outra autoridade, unilateral e contrariamente a atos administrativos da SUFRAMA, pudesse (i) limitar os efeitos desses atos, apesar de a SUFRAMA, o ter reafirmado, e (ii) glosar o crédito do adquirente, terceiro de boa-fé, contrariando frontal e literalmente o ato administrativo, o devido processo legal e o entendimento expresso da SUFRAMA quanto ao alcance do art. 6º, § 1º, do DL nº 1.435/75. Em primeiro lugar, é preciso dizer que não se trata de questionar a vigência e tampouco a validade dos atos administrativos da SUFRAMA. O que se fez foi verificar o preenchimento de requisitos para a fruição do benefício e, notando não ser o caso, pois, segundo a autoridade administrativa, as mercadorias adquiridas pela recorrente estavam classificadas erroneamente (analisados em seguida) e a reclassificação das mercadorias aponta para alíquotas não positivas, iguais a zero. Consequentemente, glosou os créditos escriturados indevidamente, reconstituiu a escrita fiscal e lavrou auto de infração para cobrança do IPI não recolhido juntamente com a multa de ofício e os juros correspondentes. Assim, não socorre a recorrente pretender ver aplicado o art. 24 da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro (LINDB), pois não é o caso de revisão de atos administrativos. O lançamento funda-se, como já se disse, em verificação da inexistência dos créditos tributários escriturados pela adquirente de produtos de produtor da Zona Franca de Manaus. Ora, segundo a fiscalização, verificou-se o desacerto da classificação fiscal e a correção da classificação errônea redundou em produtos não isentos, mas de alíquota zero. Fl. 2950DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 52 Consequentemente, não foram homologadas as compensações e tampouco deferido o pedido de ressarcimento com base nas DComps transmitidas. Concluiu a fiscalização: No período diligenciado (4º trim./2016 ao 3º trim./2018) exsurgem, na verdade, Saldos Devedores de IPI a Recolher, cabentes à NORSA REFRIGERANTES S.A, no montante de R$23.612.908,62 (vinte e três milhões, seiscentos e doze mil, novecentos e oito reais e sessenta e dois centavos). Pelo expendido, carece de lastro a pretensão da NORSA REFRIGERANTES S.A de requerer ressarcimento de IPI com base nos PERDCOMP do Quadro I e, consequentemente, nas Declarações de Compensação vinculadas (Quadro II), supracitados, pois não há eco na Escrituração Contábil/Fiscal da NORSA REFRIGERANTES S.A, à luz da legislação correlata, amparada na Carta Magna e, em instância Complementar, no CTN. Não se verifica na Informação Fiscal, suposição de que os atos emanados da SUFRAMA seriam inválidos, nem que deles se fazia revisão. O que se verifica são apurações realizadas pelo sujeito passivo em sede de procedimento destinado a homologação de compensações e pedido de ressarcimento. Ora, verificado que não se escrituraram validamente os créditos de que a recorrente pretendeu se aproveitar e que tal pretensão somente se tornaria definitiva ultrapassado o prazo prescrito no §4º do art. 150 do CTN, correta a revisão dos atos praticados pelo particular e o lançamento de diferenças apuradas com os seus consectários legais. Neste sentido, há precedentes do CARF que decidiram pela inaplicabilidade do art. 24 da LINDB, como se pode conferir, entre outros, no Acórdão nº 1402-003.605, de relatoria da ilustre Conselheira Edeli Pereira Bessa, do qual reproduzimos as razões e as adotamos como razões para decidir: Aplicação do art. 24 da LINDB Preliminarmente é oportuno registrar que, apesar de ser passível de conhecimento a petição apresentada depois de pautado o presente processo para julgamento, na medida em que nela estão veiculados novos argumentos acerca de matéria previamente impugnada e debatida em recurso voluntário, deve ser afastada a pretendida aplicação do art. 24 da LINDB que assim dispõe: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, Fl. 2951DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 53 com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideram-se orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. (negrejou-se) As expressões destacadas evidenciam que o dispositivo em questão se dirige à revisão de ato, processo ou norma editados pela Administração Pública, bem como contratos firmados entre ela e particulares. O lançamento tributário, por sua vez, não opera revisão de atos administrativos, nem afeta ato ou situação plenamente constituída. E, caso se cogite que o lançamento de ofício resulta em revisão de apurações promovidas pelo sujeito passivo, está patente que a norma em referência tem por objeto a revisão de atos da Administração Pública dos quais decorram benefícios ou vantagens ao particular, e não a revisão de atos de particulares, mormente considerando que as apurações promovidas pelo sujeito passivo somente se tornam definitivas com o decurso do prazo de homologação previsto no art. 150, §4º do CTN. Esta incompatibilidade, aliás, revela que o alcance atribuído à norma pela requerente conflita com a Constituição Federal que, em seu art. 146, inciso III, alínea “b", atribui à lei complementar a disciplina acerca da atividade administrativa de lançamento. E, mesmo vislumbrando-se o lançamento tributário como sendo o ato passível de revisão por meio de decisão proferida no âmbito do processo administrativo fiscal, basta observar que a aplicação, interpretação e integração da legislação tributária também é regida pelo Código Tributário Nacional. Acrescente-se, ainda, o fato de a norma em referência ter sido editada em face das atividades de controle das contratações públicas, e os prejuízos que sua aplicação traria ao contencioso administrativo obstaculizando o seu aperfeiçoamento e evolução mediante a consolidação de jurisprudência que, quando editada, não dispunha de qualquer atributo normativo na forma da legislação complementar desde antes vigente. Por tais razões, deve ser REJEITADA a preliminar de aplicação do art. 24 da LINDB. Por outro lado, não faz sentido a recorrente dizer que houve pronunciamento público de que a RFB haveria concordado com a classificação fiscal que ela vem adotando. E aqui fazem todo sentido as alegações da Procuradoria que assim resumimos, pois, de fato, não há pronunciamento público da RFB em sentido favorável a classificação pretendida pela recorrente: Ausência de posicionamento da Administração Tributária em sentido favorável à classificação fiscal defendida pelo particular: Não assiste razão à recorrente Fl. 2952DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 54 quanto à afirmação de que a própria RFB teria reconhecido expressamente que o produto elaborado pela RECOFARMA, na Zona Franca de Manaus, deve ser classificado na posição 21.06.90.10, Ex. 01. A Nota COEST/CETAD n° 071, de 30 de maio de 2018, apenas estimou o impacto de eventual redução da alíquota incidente sobre concentrados classificados no Código TIPI 2106.90.10, Ex. 01, sem referência alguma às características dos produtos em questão e às regras do Sistema Harmonizado. Nenhum desses fatos mencionados pela recorrente se equiparam aos instrumentos normativos listados no art. 26-A do Decreto 70.235/19723, motivo pelo qual não vinculam os órgãos de julgamento. Tampouco o art. 24 da LINDB, cuja hipótese não abarca o contencioso administrativo-tributário e isto estaria consolidado na jurisprudência do CARF não reconhece a incidência do art. 24 da LINDB no âmbito do processo administrativo- fiscal. Aliás, o primeiro pronunciamento a respeito de classificação de kits de “concentrados” ocorreu com a publicação da Solução de Consulta SRRF02/Diana nº 5/2010, de 20/05/2010, ratificada pela Informação Coana/Ceclam nº 8/2015, de 12/03/2015, que, como bem lembrou a fiscalização, classificou os produtos da maneira adotada pela fiscalização. Ora, a RFB diz que haverá redução de alíquota em relação a determinada classificação. Tal classificação tem sido adotada por empresas fabricantes de refrigerantes. Então, segundo a recorrente, a RFB concorda com a classificação adotada! É esse o raciocínio que a recorrente pretende seja válido. Mas não é! Vejamos. O que se pode extrair do pronunciamento em uma entrevista, que não é pronunciamento público com o sentido que lhe quer dar a recorrente, do Secretário da RFB na época, é que haverá redução de alíquota de produtos classificados em determinado código (fora da tarifa, diga-se, um ex-tarifário) que tem sido utilizado pelos fabricantes de refrigerantes. Nenhuma palavra acerca da correção da classificação utilizada. Como, então, concluir que a classificação estaria correta? Somente se houvesse fundamento em outra premissa que não aparece expressamente no raciocínio da recorrente, mas lhe daria suposto fundamento. Algo como “Ou aceita a classificação que adoto ou não se mencione a classificação que adoto.” Ou seja, caso haja pronunciamento a respeito da classificação que adota a recorrente, então deve ser considerada correta tal classificação. Com todo respeito ao recurso voluntário, trata-se de um falso dilema, evidentemente, e é conhecido estratagema falacioso, classificado entre as falácias de dispersão. Obviamente, que as pessoas podem falar sobre o que quiserem e isso não significa que se alguém houver falado a respeito de algo estaria concordando com isso. Enfim, o fato de dizer que os fabricantes de refrigerantes se utilizam de uma determinada classificação, e isto é verdadeiro pois corresponde à realidade, a ela se adequando, não significa dizer que é correta a Fl. 2953DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 55 classificação fiscal adotada por tais fabricantes. Nem tampouco aceitá-la. Caso fosse correto tal raciocínio, estaríamos diante da correção de classificação por fato consumado! Como se sabe, tal regra de classificação não pertence ao conjunto daquelas pelas quais se deve classificar mercadorias. Assim, voto por negar provimento ao recurso voluntário neste ponto. Kit do concentrado: produto unitário e classificação fiscal Por fim, ponto central da discussão que se trava nestes autos, as alegações em torno da correção da classificação adotada pela recorrente. De modo resumido, ela alega: O Fisco adota o entendimento de que o produto elaborado pela Recofarma não seria um produto único e, assim, não poderia ser classificado no código 2106.90.10 Ex 01. Todavia, a premissa de que o concentrado não homogeneizado não é, tecnicamente, um produto único está totalmente equivocada. Os DL nos 288/67 e 1.435/75, com redação dada pela Lei nº 8.387, de 30 de dezembro de 1991, definem processo produtivo básico como sendo o conjunto de etapas que devem ser observadas para elaboração de determinado produto beneficiado pelos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus e delegam aos Ministros de Estado da Indústria e da Ciência e Tecnologia competência para fixação desses PPB, devidamente auxiliados por um grupo técnico. A Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08, de 25 de fevereiro de 1998, estabeleceu o PPB para projetos industriais da Zona Franca de Manaus dos seguintes produtos: extratos aromáticos vegetais naturais, concentrados, bases e edulcorantes para bebidas não alcoólicas e corante caramelo, definindo as etapas da produção de cada um deles. Ao determinar o PPB dos concentrados, a Portaria estabelece que concentrado tanto pode ser homogeneizado como pode ser não homogeneizado, porque estatui que a etapa de homogeneizado do concentrado não é obrigatória. Para o PPB do corante caramelo, por sua vez, a Portaria é expressa ao estabelecer que deve ser um produto homogeneizado, pois obriga a homogeneização para a sua caracterização. Ou seja, quando a Portaria quis que o produto oriundo de PPB fosse só aquele homogeneizado, o fez de forma expressa e peremptória. A etapa de mistura referida no PPB não se confunde com a da homogeneização; ocorre apenas entre as matérias-primas que estão no mesmo estado: sólidas com sólidas e líquidas com líquidas. É o que determina a Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/98 quando estabelece a mistura das matérias-primas Fl. 2954DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 56 como etapa do PPB dos concentrados homogeneizados ou dos concentrados não homogeneizados. Não há dúvida de que o produto elaborado pela Recofarma é um produto único. Desta forma, considerando o PPB definido na referida Portaria Interministerial e o código SUFRAMA previsto na Portaria SUFRAMA nº 192, de 16 de agosto de 2000, essa autarquia, exercendo a sua competência, editou a Resolução CAS nº 298/2007, integrada pelo Parecer Técnico de Projeto nº 224/2007- SPR/CGPRI/COAPI e pelas Informações Textuais do Produto. A Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/98 é vinculatória para a RFB e para a SUFRAMA e sequer foi mencionada pela autoridade tributária. Essa Portaria torna inconsistente e insubsistente toda a extensa tese da Fiscalização e refuta a afirmativa fática e jurídica do fluxograma. Registre-se, ainda, que o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) emitiu laudo técnico reconhecendo também que o produto fabricado pela Recofarma, conforme PPB definido na Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/98, é um produto único: concentrado para bebidas não alcoólicas não homogeneizado correlacionado ao código 0653 da SUFRAMA, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Essa natureza de produto único já foi atestada pelos órgãos aduaneiros dos Estados Unidos – National Commodity Specialist Division, caso em que foi examinado, inclusive, o mesmo concentrado objeto deste processo, visto que importado do Brasil, e também pelo órgão aduaneiro do Chile – Chile Aduana Customs. Para que não fosse aplicada o código da TIPI 2106.90.10 Ex 01 aos produtos adquiridos pela impugnante, tal classificação teria que expressa e especificamente excluir do seu alcance o concentrado não homogeneizado, visto que o concentrado não homogeneizado é concentrado, nos termos da Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/98. O concentrado elaborado pela Recofarma sempre foi comercializado na forma de kits e sempre foi classificado fiscalmente considerando a sua condição de produto único, inclusive à época em que eram fabricados no Rio de Janeiro, sujeitando-se, portanto, à tributação, na medida em que não gozavam de isenção de IPI. Esse fato foi reconhecido pela própria RFB, na decisão nº 287/85, proferida pela Divisão de Tributação no âmbito do processo de consulta nº 10768.026294/85-90, que atestou que as preparações para fabricação de refrigerantes da marca Coca- Cola eram, à época, classificadas no código 2107.02.99, que corresponde à classificação atual 2106.90.10 Ex 01. Verifica-se ainda que, em razão da coisa julgada formada no MSI nº 95.0009470-3, restaram também examinadas pelo Poder Judiciário a natureza do produto elaborado pela Recofarma e a sua classificação fiscal para fins de creditamento do IPI. Fl. 2955DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 57 Em 18/06/1997, transitou em julgado a decisão que concedeu integralmente a segurança, nos termos do pedido inicial, concluindo que o concentrado fabricado pela Recofarma, era um produto único, classificado na posição da TIPI correspondente à posição 2106.90, vigente à época da impetração do referido MSI. Transitada em julgado, essa questão não pode mais ser discutida em processo algum, seja judicial, seja administrativo. A edição do Decreto nº 9.394, de 30 de maio de 2018, confirma que o produto elaborado pela Recofarma é o concentrado classificado no código 2106.90.10 Ex 01, pois os atos da RFB que respaldaram tal edição afirmam expressamente que a redução da alíquota dos concentrados classificados na referida posição visa a atingir os insumos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus utilizados na fabricação de refrigerantes e que geram crédito do imposto ao adquirente por força de decisão judicial transitada em julgado. A Nota COEST/CETAD nº 071, de 30/05/2018, que respaldou a exposição de motivos apresentada pelo Ministro da Fazenda para aprovação do Decreto nº 9.394/2018, reconhece expressamente que o produto elaborado pela Recofarma é classificado em 2106.90.10 Ex 01. Inicialmente se faz necessário analisar a composição física das mercadorias. De forma resumida, as mercadorias adquiridas pela Recorrente são compostas de duas partes: extratos e aromatizantes da bebida e outra composta dos mais diversos produtos (Goma Xantana, Vitamina C, Ácido Aceto acético, Sucralose etc.), o que já nos traz alguma aparência de que são dois grupos de mercadorias a classificar. Cada uma das mercadorias mencionada passa (ou ao menos deveria passar nos termos do PPB definido para bebida de Cola) por um processo industrial absolutamente diferente no fornecedor da Recorrente: a parte sólida (em geral, composta de produtos diversos) passa por simples reacondicionamento, a parte líquida passa por diversos processos de mistura, transformação, decantação, filtragem e envase. Já no estabelecimento da Recorrente (utilizando descrição para lá de sucinta do processo produtivo descrita em resposta em procedimento fiscal) as mercadorias do dito kit passam por um processo de mistura com outras mercadorias que dará sabor a esta (como constatado na fiscalização e não o nega a Recorrente). Com tudo isto se quer dizer que os produtos chegam ao estabelecimento do fornecedor da Recorrente em separado, os produtos são produzidos em separado pelo fornecedor da Recorrente, os produtos são utilizados no processo produtivo da Recorrente em separado, os produtos são compostos de matérias em estados diferentes (sólidos e líquidos), em assim sendo, são produtos absolutamente distintos. Em verdade, a única coisa que une o referido kit é o pallet em que são transportados do estabelecimento do fornecedor ao estabelecimento da Recorrente. A fim de verificar a correta classificação fiscal da mercadoria em questão (kits) necessário se faz analisar o funcionamento do instituto da classificação. Fl. 2956DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 58 A Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) toma por base a Convenção Internacional do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias (Convenção do SH) administrado pelo Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA), também conhecido como Organização Mundial de Aduanas (OMA), cuja sede fica em Bruxelas. A Convenção do SH é a base dos Acordos de comércio negociados no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e em outros organismos internacionais. Tal instrumento possui atualmente 182 partes contratantes dentre países territórios e uniões econômicas. O Brasil é signatário desta Convenção desde 31/10/1986 (tendo ratificado sua adesão em 08/11/1988). A promulgação da Convenção do SH foi feita por meio do Decreto n° 97.409, de 1988. No presente caso, da leitura dos autos, resta claro que o CCA, atualmente OMA, por intermédio dos países membros signatários da Convenção do SH, dentre os quais está o Brasil, já havia se pronunciado nos anos 1985 e 1986 quanto à classificação fiscal objeto da disputa. Diversas normas da NESH (Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias) indicam que os componentes de kits para fabricação de bebidas não se caracterizam como uma mercadoria única. De forma resumida, a Convenção do SH possui seis Regras Gerais de Interpretação (RGI) que servem de pilares para o sistema de codificação de mercadorias. Neste sentido, deve se observar, em especial, o item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b), transcrito a seguir (Anexo Único – Parte 1 da Instrução Normativa nº 807, de 11/01/2008), que exclui os bens destinados à fabricação de bebidas do campo de aplicação da RGI 3 b) do Sistema Harmonizado: “XI) A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo.” (Destacou-se) O dispositivo mencionado no parágrafo anterior foi incluído na NESH após análise efetuada pelo Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA) nos anos de 1985 e 1986, em resposta a consultas recebidas de países membros da organização internacional sobre a classificação de produtos com as mesmas características dos kits para fabricação de bebidas produzidos no Brasil. O texto da análise do CCA, cuja tradução juramentada foi providenciada pela fiscalização, equivale a uma detalhada exposição de motivos para o item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b), deixando claro que a criação dessa Nota teve por objetivo determinar que os componentes dos kits para fabricação de bebidas devem ser classificados separadamente nos códigos apropriados para cada um deles. Conforme já mencionado, o Comitê de Nomenclatura e o Comitê do Sistema Harmonizado Interino examinou a classificação de bases de bebidas constituídas por diferentes componentes importados em conjunto em proporções fixas em uma remessa. Quando a matéria Fl. 2957DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 59 foi colocada em votação, o Comitê de Nomenclatura (por 18 votos a 1) e o Comitê do Sistema Harmonizado Interino (por 15 votos a 1) concordaram que os componentes individuais deveriam ser classificados separadamente. A conclusão do Comitê de Nomenclatura e o Comitê do Sistema Harmonizado Interino do CCA/OMA é idêntica à do Secretariado, ou seja, quanto a classificação em separado dos componentes dos kits para fabricação de bebidas. Em decorrência de toda a discussão no âmbito do CCA/OMA, ocorreu alteração das Notas Explicativas do SH, conforme abaixo: NOTAS EXPLICATIVAS A SH E CCCN ALTERADA Regra Interpretativa Geral 3 (b) Item (X) No final, insira o novo parágrafo a seguir: "Bases de bebidas constituídas por diferentes componentes embalados em conjunto em proporções fixas e pretendidos para a fabricação de bebidas, mas não capazes de serem usados para consumo direto sem processamento posterior não poderão ser classificados tendo como referência a Norma 3 (b), uma vez que eles não podem nem ser considerados como produtos compostos", nem como produtos colocados em sortidos para venda a varejo" Dessa forma, por decisão dos países membros, signatários da Convenção do SH, as bases das bebidas constituídas por diferentes componentes estão excluídas da RGI 3(b), devendo ser classificadas de forma separada. A determinação da Convenção do SH de classificar os componentes de forma individual oficializada nos anos 80 continua válida conforme consta atualmente da Regra Interpretativa Geral 3 (b) item (XI). “XI) A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo.” NESH – Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias. Instrução Normativa RFB nº 1788, de 08.02.2018 (DOU de 14.02.2018). A nota acima foi criada pela antiga CCA (atual OMA) e justamente na análise de Kits para fabricação de bebidas – um deles (Fanta) adquirido pela própria Recorrente e outros com composição química muito semelhante àquela dos outros produtos adquiridos. Resta esclarecer que os documentos apresentados pela Recorrente, produzidos por autoridades administrativas nacionais sem competência legal para interpretar a Convenção do SH ou os laudos técnicos de renomados institutos, em nada modificam o entendimento dos países membros da Convenção do SH. O Brasil é signatário da Convenção do SH e tem a obrigação de Fl. 2958DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 60 harmonizar a classificação fiscal adotada em seu território aduaneiro com os demais países membros. Note-se que a harmonização dos códigos do SH é relevante para estatísticas, políticas comerciais, controles administrativos, dentre outros, ultrapassando discussões de natureza tributária. No que diz respeito ao pleito da recorrente sobre a adequação da classificação fiscal adotada, a lide está restrita a assunto resolvido na seara da classificação fiscal resolvida na década de 80 e mundialmente anunciada por meio das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (NESH). Embora não sejam vinculantes, os trabalhos do CCA certamente auxiliam o intérprete, se necessária interpretação de Nota com conteúdo quase de cartilha. Assim, entende-se que a decisão deste colegiado deve alinhar-se com a posição das partes signatárias da Convenção do SH expressados no âmbito do CCA/OMA, devendo, portanto, ser negado provimento ao Recurso Voluntário em relação à classificação fiscal adotada pela recorrente. Adquirente de boa fé A recorrente traz à colação a Súmula nº 509 do STJ no REsp: Enunciado É lícito ao comerciante de boa-fé aproveitar os créditos de ICMS decorrentes de nota fiscal posteriormente declarada inidônea, quando demonstrada a veracidade da compra e venda. (SÚMULA 509, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 26/03/2014, DJe 31/03/2014) Fonte(s) DJe 31/03/2014 RSSTJ vol. 44 p. 93 RSTJ vol. 233 p. 827 Referência Legislativa LEG:FED LCP:000087 ANO:1996 ART:00023 LEG: FED LEI:005869 ANO:1973 ***** CPC-73 CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 1973 ART:0543C LEG: FED RES:000008 ANO:2008 (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - STJ) LEG:FED LEI:005172 ANO:1966 Fl. 2959DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 61 ***** CTN-66 CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL ART:00136 E diz a recorrente: O STJ tem jurisprudência pacífica no sentido de que tem direito ao crédito do imposto (no caso, ICMS) o adquirente de boa-fé de mercadoria, ainda que a nota fiscal seja posteriormente declarada inidônea, posto que o ato declaratório de inidoneidade somente produz efeitos a partir da respectiva publicação (Súmula nº 509). Conforme já decidido pelo Plenário do STF, no julgamento das ADI nºs 2.663 e 3.796, em relação à guerra fiscal, não se pode desconsiderar o crédito do adquirente sem antes cancelar o benefício do fornecedor. Além disso, vale ressaltar que a lei não impõe ao adquirente a obrigação de alterar, de ofício, a classificação fiscal constante das notas fiscais idôneas, consoante o art. 62 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. Entretanto, não nos parece ser aplicável ao caso a jurisprudência sumulada pelo STJ em sua Súmula nº 509. Em todos os seus precedentes e na própria Súmula trata-se de discussão quanto à possibilidade de o adquirente de boa-fé de mercadoria cuja nota fiscal vier a ser declarada inidônea desde que demonstrada a veracidade da compra e venda. Ou seja, a boa-fé revela-se com a demonstração da veracidade da operação de compra e venda. Ora, se o creditamento no caso do ICMS for dependente somente da idoneidade das Notas Fiscais, não haverá obstáculo para que ele, demonstrada a boa-fé, possa ser mantido. Não é o caso em relação ao creditamento do IPI. Aliás, fosse esse o caso, a questão da declaração de inidoneidade de notas fiscais como obstáculo ao creditamento, a solução nem precisaria da Súmula nº 509, pois a Lei nº 9.430, de 1996, que prescreve a não produção de efeitos tributários em favor de terceiros interessados o documento emitido por pessoa declarada inapta, regula os efeitos da declaração de inidoneidade no parágrafo único do artigo 82, de maneira semelhante ao disposto na Súmula nº 509, qual seja a veracidade da operação de compra e venda que, no contexto legal, traduziu-se por comprovação do pagamento do preço e recebimento dos bens, direitos, mercadoria ou utilização dos serviços adquiridos. Vejamos: Art. 82. Além das demais hipóteses de inidoneidade de documentos previstas na legislação, não produzirá efeitos tributários em favor de terceiros interessados o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no CNPJ tenha sido considerada ou declarada inapta. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021) Fl. 2960DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14195.htm#art19 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 62 Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que o adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços comprovarem a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços. Mas, como já se disse, não é esse o caso. O caso é que o creditamento ainda que comprovada a veracidade da operação de compra e venda é dependente da classificação fiscal que se adote e, como já se verificou, o fisco entendeu que a classificação equivocada da recorrente deve ser revista. Ao fazer a revisão, encontrou classificações fiscais que não geram crédito em favor da recorrente, pois não se trata de produtos adquiridos com isenção de empresa situada na Zona Franca de Manaus, mas sim de produtos sujeitos à alíquota zero, isto é, sem alíquota positiva na TIPI. Assim, a questão é relativa à obrigação de a adquirente verificar a correção da classificação fiscal e, em caso de não estar de acordo com a classificação errada, comunicar ao vendedor e ao fisco. Ou seja, tal obrigação de verificar encontrar-se ou não no âmbito de aplicação da regra disposta no artigo 62 da Lei nº 4.502, de 1964. Tal questão já foi enfrentada pela Câmara Superior de Recursos Fiscais em Recurso Especial da própria recorrente para situação idêntica e que resultou no Acórdão nº 9303-015.038, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS (IPI) Período de apuração: 01/10/2012 a 31/12/2013 APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. NOTA FISCAL. PRODUTOS ADQUIRIDOS COM ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL E ALÍQUOTA. GLOSA DOS VALORES INDEVIDAMENTE APROPRIADOS. POSSIBILIDADE. LEI 4.502/1964, ART. 62. A leitura do art. 62 da Lei no 4.502/1964 demanda ponderação. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, mormente quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE no 592.891/SP. Assim, diante da identidade de situação, não resta outra decisão a tomar, senão adotar as razões de decidir do julgado da Câmara Superior, que tem o papel de uniformizar a jurisprudência do CARF, como se minhas fossem a fim de decidir a questão: Fl. 2961DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 63 A matéria trazida à cognição deste Colegiado uniformizador de jurisprudência interpretativa, trata sobre a (in)existência de obrigação para o adquirente da mercadoria de verificar a correção da classificação fiscal consignada pelo fornecedor do produto na respectiva Nota Fiscal de entrada. No Acórdão recorrido, ao interpretar o art. 62 da Lei no 4.502/1964, concluíram unanimemente os julgadores que a classificação fiscal está inserida na redação do texto vigente, sendo dever do adquirente verificar se os documentos fiscais satisfazem todas as prescrições legais e regulamentares. Defendeu-se que a interpretação do dispositivo não deve se restringir apenas aos aspectos formais do documento fiscal, mas também abrange a análise de seu conteúdo, como a descrição do produto, o valor, o peso e a classificação fiscal, devendo o adquirente comunicar ao Fisco e ao fornecedor qualquer incorreção. No Recurso Especial, o Contribuinte alega que o art. 62 da Lei no 4.502/1964 não estabelece a obrigação de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal indicada na nota fiscal, que os regulamentos de IPI de 2002 e o de 2010 (atua1) expressamente suprimiram essa obrigação; e (c) o CARF está vinculado ao disposto nos regulamentos de IPI (Decretos), por força do art. 26-A do Decreto no 70.235/1972, e do art. 62 do RICARF, sendo a única conclusão jurídica e lógica possível no sentido de que não está contida na expressão “...prescrições legais e regulamentares” a obrigação de o adquirente verificar a correção da classificação fiscal indicada da nota fiscal. No Relatório Fiscal, afirma o Fisco que houve erro na classificação fiscal do produto fornecido pela RECOFARMA, o que permite a glosa do crédito, pois a classificação correta tem uma alíquota igual a 0 (zero). Assim, não haveria crédito, já que o valor do IPI calculado sobre os produtos, como se devido fosse, seria zero. O fisco, recorde-se, realizou a coleta dos “kits” elaborados pela RECOFARMA, bem como juntou aos autos fotos dos “kits” (fls. 302 a 313; 343 a 359), solicitando Laudo Pericial pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer, identificando os ingredientes contidos em cada parte dos “kits”, sendo os resultados anexados ao presente processo (fls. 64 a 101). Concluiu a Fiscalização que estes produtos devem ser classificados no código 2106.90.10, como uma “Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”, cuja alíquota é ZERO. Confira-se trecho do Relatório Fiscal (fl. 32 e 36): “(...) A alíquota da citada exceção tarifária (“Ex 01”) vigente à época dos fatos (4o trim./2012 - 4 o trim./2013) era de 20% (Decreto no 7.660, de 23/12/2011, alterado pelos Decreto no 7.742, de 30/05/2012), com redução de 50% nos termos do Decreto no 8.017, de 17/05/2013 (concentrados que contenham extrato de semente de guaraná)”. “(...) No caso de componentes que correspondam a uma mistura de ingredientes comumente utilizados em diversos produtos da indústria alimentícia, tais como sais, acidulantes e Fl. 2962DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 64 conservantes, deve ser aplicado o código 2106.90.90, reservado às “Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições - Outras - Outras”, também tributado à alíquota zero do IPI. É dizer, ainda que, contrariamente ao que foi demonstrado alhures, fosse possível aplicar-se a isenção de que trata o art. 237, c/c art. 95, III, ou do art. 81, II (amparado por decisão judicial, conforme entendimento da fiscalizada) do RIPI/2010, a CMR não poderia creditar-se do valor do IPI calculado, como se devido fosse, sobre a aquisição de kits de concentrados da RECOFARMA, haja vista que o valor do imposto “como se devido fosse” é zero!” (grifo nosso) O Contribuinte afirma que as Notas Fiscais emitidas pela RECOFARMA atendem a todos os requisitos, de forma que, na qualidade de adquirente de boa-fé teria direito à manutenção do referido crédito de IPI. Primeiramente, cabe ressaltar que, em matéria tributária, a culpa ou o dolo do agente é, em regra, irrelevante para que se configure descumprimento à legislação tributária, posto que a responsabilidade pela infração tributária é objetiva, nos termos do art. 136 do CTN. De outro lado, alega-se que alguns dos Regulamentos do IPI anteriores (RIPI de 1972, 1979 e 1982), ao regulamentar o art. 62 do da Lei n o 4.502/1964, traziam consigo uma disposição expressa de que a verificação das prescrições legais das notas fiscais incluíam a classificação fiscal, porém, na redação do RIPI 2002 (Decreto no 4.544, art. 266) e na atual redação do art. 327 do RIPI/2010, tal especificação foi retirada do texto, que passou a ter a mesma redação do art. 62 da referida Lei no 4.502/1964. Confira-se: Lei 4.502/1964: “Art. 62. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao sê-lo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares. § 1 o Verificada qualquer falta, os interessados, a fim de se eximirem de responsabilidade, darão conhecimento à repartição competente, dentro de oito dias do recebimento do produto, ou antes do início do consumo ou da venda, se este se der em prazo menor, avisando, ainda, na mesma ocasião o fato ao remetente da mercadoria.” (...) (grifo nosso) Fl. 2963DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 65 RIPI/2020 - Decreto 7.212/2010: “Art. 327. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao selo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento (Lei no 4.502, de 1964, art. 62). §1º Verificada qualquer irregularidade, os interessados comunicarão por escrito o fato ao remetente da mercadoria, dentro de oito dias, contados do seu recebimento, ou antes do início do seu consumo, ou venda, se o início se verificar em prazo menor, conservando em seu arquivo cópia do documento com prova de seu recebimento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º). §2º A comunicação feita com as formalidades previstas no §1º exime de responsabilidade os recebedores ou adquirentes da mercadoria pela irregularidade verificada (Lei no 4.502, de 1964, art. 62, § 1º).” (...) (grifo nosso) Como se vê, o art. 327 do RIPI/2010 nada mais faz do que reproduzir o art. 62 da Lei 4.502/1967, quando determina que o adquirente da mercadoria tem o dever legal de verificar se as mercadorias recebidas em seu estabelecimento “...estão acompanhadas dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento” (grifo nosso). E permite ao adquirente comunicar eventuais inconsistências (conforme §¹º). No primeiro paradigma indicado (Acórdão nº 3401-003.751, de 26/04/2017), recordo que se tratava de caso de nulidade da autuação, na parte impactada pela discussão a respeito da classificação fiscal, em processo em que o autuante sequer remeteu a reclassificação a qualquer regra do Sistema Harmonizado, e a decisão de piso tratou do tema em uma página, com pouca tecnicidade. A falha no enquadramento e as deficiências do lançamento me levaram a acompanhar o relator, Cons. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, inclusive no item referente à apropriação indevida de créditos, tendo em conta o destaque do fornecedor com alíquota que seria maior. Naquela ocasião, invocou o relator como fundamento o Acórdão no 3402-00.719, em que o colegiado unanimemente assentou: “OBRIGAÇÕES DOS ADQUIRENTES, RESPONSABILIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. A responsabilização do adquirente de produtos sujeitos ao selo de controle, que os receba sem tal condição, só se aplica quando a exigência seja identificável pela classificação fiscal aposta nos documentos de aquisição ou pela simples identificação Fl. 2964DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 66 da mercadoria. Se, entretanto, a classificação fiscal, reconhecida em ato da própria SRF, indica tratar-se de produto não sujeito ao selo, eventual reclassificação fiscal, baseada em laudo técnico elaborado, apenas pode afetar o fabricante.” (grifo nosso) E destacou o relator do Acórdão nº 3401-003.751, após citar tal precedente, que “O caso concreto tratado pelo voto é justamente aquele do exemplo dado, em que a norma exige, de maneira expressa e cogente, um conhecimento específico da adquirente sobre seus fornecedores”, reconhecendo que, em casos específicos pode ser exigido do fornecedor a verificação da classificação da mercadoria. Nesse raciocínio acompanhamos o relator, naquela ocasião, diante da precariedade do lançamento, e do afastamento do erro de classificação, com a declaração de nulidade, o que colocava em xeque a própria correção da alíquota adotada, e, por consequência, da alíquota referente ao crédito tomado. Analisando caso diferente, e relativo ao mesmo sujeito passivo presente nestes autos (NORSA REFRIGERANTES S.A.), a própria 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF proferiu o Acórdão n o 3401-005.943, em 27/02/2019, sob a relatoria do Cons. Lázaro Antônio Souza Soares, concluindo, majoritariamente (vencido apenas o Cons. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco) que: “RESPONSABILIDADE DO RECORRENTE POR ERRO NA CLASSIFICAÇÃO FISCAL DO CONCENTRADO. A autuação em nenhum momento teve por base a falta de conferência, pelo recorrente, da classificação fiscal adotada, bem como nenhuma multa regulamentar foi aplicada por não cumprimento desta exigência, mas tão somente a multa de ofício pelo não recolhimento do IPI devido.” Por ter participado de ambos os julgamentos (Acórdão nº 3401-003.751, de 26/04/2017, e no 3401-005.943, de 27/02/2019), acompanhei a evolução do entendimento do colegiado sobre o tema, separando o que seria uma imputação de responsabilidade por penalidade decorrente da ausência de cumprimento de uma obrigação da simples responsabilização por tomada de crédito indevido, em situações recorrentes e em que o conhecimento do fornecedor (inclusive de sua localização geográfica e de seu processo produtivo) afeta o benefício fiscal concedido. Verificando o lançamento de que trata o presente processo, percebe-se que o adquirente não alega que a classificação apontada pelo fornecedor estava incorreta. Pelo contrário, o tema da classificação é debatido, entendendo a recorrente que o fornecedor havia aplicado o código NCM (e o “Ex Tarifário”) corretos no produto transacionado. Depois de laudos técnicos atestou-se no presente processo a mesma conclusão existente em vários outros: que o “Ex Tarifário” não se aplicava à mercadoria, que não se tratava de “concentrado”, e que a mercadoria era tributada à alíquota zero, não gerando crédito. Fl. 2965DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 67 Não se aplica ao recorrente multa por erro de classificação fiscal, ou por descumprimento de obrigação de verificar a correta classificação. Mas impede-se que se credite indevidamente de tributo, ainda mais quando se sabia desde 2010, qual era a classificação correta, como narra o relator no acórdão recorrido (fl. 10377): “Ressalte-se que a administração tributária, desde 2010, já analisou estes produtos e concluiu por uma determinada classificação fiscal. Assim, ao contrário do que afirma a Recorrente, há uma solução de consulta afirmando a classificação fiscal 2106.90.10, tal qual dada pela fiscalização nestes autos. (...)” No que se refere à verificação de regularidade das notas fiscais, à luz do comando do art. 62 da Lei no 4.502/1964, tema que chega a este colegiado uniformizador de jurisprudência, assim decidiu o acórdão recorrido (fl. 10379): “(...) entendo que a classificação fiscal está incluída na redação do texto vigente ao dizer que é dever do adquirente verificar se os documentos fiscais satisfazem todas as prescrições legais e regulamentares. A interpretação deste dispositivo, a meu ver, não deve se restringir apenas aos aspectos formais do documento fiscal, mas também à análise de seu conteúdo ideológico, tais como descrição do produto, valor, peso e classificação fiscal, devendo comunicar ao Fisco e ao fornecedor qualquer incorreção.” Reforça essa necessidade a metodologia de crédito adotada na sistemática da não cumulatividade para o IPI. Não pode ser tomado crédito indevido de uma operação tributada à alíquota zero, eventualmente informada de forma incorreta pelo fornecedor na nota fiscal. Por certo que o art. 62 da Lei no 4.502/1964 dá conta dessa situação, em qualquer das regulamentações do IPI ao longo das últimas décadas. Se a verificação já é importante nos casos de crédito básico, é imprescindível nos casos de crédito presumido, em que uma escrituração do imposto com alíquota positiva pode gerar crédito mesmo nos casos de aquisição isenta (é o caso da Zona Franca de Manaus, conforme decidido pelo STF, de forma vinculante, no Recurso Extraordinário no 592.891/SP). E o próprio RIPI/2010 prevê, v.g., entre as correções que podem ser efetuadas na nota fiscal, a relativa à “...destaque que deixou de ser efetuado na época própria, ou que foi efetuado com erro de cálculo ou de classificação, ou, ainda, com diferença de preço ou de quantidade” (art. 407, XII). Ademais, o mesmo RIPI/2010 traz, em seu art. 413, os requisitos da nota fiscal, entre os quais está incluída a classificação do produto (inciso IV, “c”). Assim, a leitura do art. 62 da Lei no 4.502/1964 demanda ponderação, que todos os precedentes aqui citados efetuaram, diante dos casos concretos analisados em cada julgamento. Quando o dispositivo legal se refere à necessidade de verificar Fl. 2966DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 68 se os produtos “estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições legais e regulamentares”, está-se a exigir do adquirente que verifique não só requisitos formais, mas a substância do documento, ainda mais quando de tal substância pode decorrer (ou não) crédito incentivado condicionado a características do fornecedor e da classificação da mercadoria ou enquadramento em “Ex Tarifário”, como nas aquisições isentas no âmbito da Zona Franca de Manaus, à luz do RE n o 592.891/SP. Como é cediço, o Supremo Tribunal Federal (STF) por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário no 592.891/SP, com trânsito em julgado, em sede de repercussão geral, decidiu que “Há direito ao creditamento de IPI na entrada de insumos (matéria-prima e material de embalagem) adquiridos junto à Zona Franca de Manaus sob o regime da isenção, considerada a previsão de incentivos regionais constante do art. 43, § 2º, III, da Constituição Federal, combinada com o comando do art. 40 do ADCT”. Observa-se que o creditamento na conta gráfica do IPI se dá quando a alíquota do produto adquirido sob o regime isentivo for positiva, conforme a Nota SEI PGFN no 18/2020. A apropriação de créditos incentivados ou fictos, calculados sobre produtos isentos adquiridos de estabelecimentos localizados na ZFM, somente é admitida se houver alíquota positiva do IPI para o produto/insumo adquirido para industrialização. No caso de identificação de erro na classificação fiscal, cuja classificação correta revela que os produtos adquiridos estavam sujeitos à alíquota zero, não há possibilidade de geração de crédito. Assim, não merece reforma o Acórdão recorrido, cabendo a negativa de provimento ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário neste ponto. Exigência dos acréscimos legais. Legalidade da exigência de multa, de juros de mora e de correção monetária Para a recorrente é indevida a cobrança de multa de ofício, juros de mora e correção monetária conforme argumenta e abaixo reproduzimos: É indevida a cobrança de multa, juros de mora e correção monetária, tendo em vista o disposto no art. 100, parágrafo único, do CTN. É indiscutível que a Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/98, no que tange à definição do PPB do concentrado e às características técnicas do concentrado (homogeneizado ou não) tem efeito normativo, assim como a Fl. 2967DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 69 Portaria SUFRAMA nº 192/2000, que estabelece o código correspondente para os concentrados homogeneizados e os não homogeneizados- código 0653. A Resolução CAS nº 298/2007, integrada pelo Parecer Técnico nº 224/2007, também é ato administrativo com efeito normativo em relação aos adquirentes do concentrado, porque esses adquirentes não foram e nem são partes no processo que ensejou a referida resolução, mas estão obrigados a observá-la. Assim, ao utilizar o crédito de IPI na alíquota prevista para o código 2106.90.10 Ex 01, a impugnante agiu de acordo com a Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 08/98, a Portaria da SUFRAMA nº 192/2000 e a Resolução do CAS nº 298/2007, integrada pelo Parecer Técnico nº 224/2007. Suscita a recorrente a impossibilidade de exigência de multa, nos termos do parágrafo único do art. 100 do CTN e do art. 76, II, ‘a’, da Lei 4.502/64, uma vez que teria agido de acordo com normas complementares e com jurisprudência administrativa vigente à época dos fatos. Complementa a tese dizendo que a multa, os juros de mora e a correção monetária não seriam devidos porque a Resolução do CAS nº 298/2007, integrada pelo Parecer Técnico nº 224/2007, seria ato administrativo que tem efeito normativo em relação aos adquirentes do “concentrado”, nos termos do art. 100, parágrafo único, do CTN. Novamente, sem razão a recorrente. O art. 100 do Código Tributário Nacional determina que: “Art. 100 - São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I - os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II - as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III - as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV - os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo.” [destacou-se] Conforme o próprio teor do referido comando legal, para que se possa pretender a aplicação do seu parágrafo único, necessário que a hipótese se enquadre num de seus incisos. No que concerne à previsão do inciso I, há que se registrar que os “atos administrativos normativos são aqueles que contém um comando geral do Poder Executivo, Fl. 2968DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 70 visando a correta aplicação da lei. O objetivo imediato de tais atos, é explicitar a norma legal a ser observada pela Administração e pelos administrados”7. O ato da SUFRAMA não possui esse comando geral, pois foi editado especificamente para um determinado sujeito de direito. Quanto à hipótese prevista no inciso II do dispositivo – “decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa” –, o entendimento desse Conselho (a exemplo do acórdão nº 101-92167) é de que as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa apenas tomam o caráter de normas complementares quando a lei lhes atribua eficácia normativa. Não sendo assim, possuem eficácia apenas para as partes envolvidas no processo administrativo fiscal, sem comportar a extensão a outras lides. Os atos integrantes da denominada “legislação tributária” e, especificamente, das denominadas “normas complementares”, nos termos dos arts. 96 e 100 do CTN, não incluem decisões administrativas em geral. O inciso II do art. 100 do CTN, como já salientado, reconhece como norma tributária as decisões administrativas tão-somente quando houver lei que lhes atribua eficácia normativa. Quanto às “práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas”, cumpre assinalar que o termo “observadas”, no texto legal, tem a conotação de que a autoridade administrativa ao praticar, ou deixar de praticar um ato, ou conjunto de atos discricionários, analisou-os e julgou-os adequados àquela determinada situação. Como se pode facilmente constatar, as práticas reiteradas das autoridades administrativas nada mais são do que os usos e costumes da Administração. Nesse sentido, para que se forme uma prática reiterada devem estar presentes o uso, ou seja, a conduta reiterada (requisito objetivo) e a convicção jurídica de que aquela conduta é a que deve ser observada (requisito subjetivo). Presentes o uso e a convicção jurídica, surge a norma jurídica que deriva de longa prática uniforme, pública e geral de determinado ato, com a convicção de sua necessidade jurídica. Não é qualquer ato praticado por autoridades administrativas que pode ser considerado como norma complementar. Somente os atos em relação aos quais é permitida certa discricionariedade, quando praticados reiteradamente, podem ser considerados como normas complementares nos termos do art. 100 do CTN. Por outro lado, os atos de natureza vinculada, quando praticados em desacordo com a legislação, não estão sujeitos a validação e não podem ser considerados como normas complementares. Nesse sentido, confira-se a jurisprudência do CARF: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 31/07/2002 a 31/05/2005 NORMAS COMPLEMENTARES. Fl. 2969DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 71 As práticas reiteradas das autoridades administrativas somente podem, eventualmente, serem consideradas normas complementares das leis, dos tratados, das convenções internacionais e dos decretos quando forem práticas discricionárias e reiteradamente observadas, isto é, minuciosa, exaustiva e conscientemente tomadas. Práticas, ainda que reiteradas, fora do campo da discricionariedade, jamais podem ser tomadas como normas complementares. JUROS DE MORA. APLICAÇÃO DA TAXA SELIC. Inexiste ilegalidade na aplicação da taxa Selic, porquanto o Código Tributário Nacional (art. 161, § 1°) outorga à lei a faculdade de estipular os juros de mora incidentes sobre os créditos não integralmente pagos no vencimento e autoriza a utilização de percentual diverso de 1%, desde que previsto em lei. Não é da competência desta instância administrativa a apreciação da constitucionalidade de atos legais. Recurso voluntário negado. Não será deferida a perícia quando os autos reuniram os elementos necessários à formação da convicção do julgador (Acórdão nº 3401-002.563). ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2013 a 31/08/2013 PRÁTICAS REITERADAS OBSERVADAS PELAS AUTORIDADES ADMINISTRATIVAS. PROCEDIMENTOS VINCULADOS A ATOS NORMATIVOS. SOLUÇÃO DE CONSULTA Somente os atos que permitem certa discricionariedade podem se enquadrar nos termos do art. 100, III, do CTN. Atos vinculados, procedidos de outra forma que não a disposta na legislação, não estão sujeitos a validação naqueles termos. A decisão em processo de consulta produz efeitos, apenas e tão-somente, em relação aos produtos por ela especificamente tratados (Acórdão n° 3201- 005.512). Sendo o lançamento um ato administrativo vinculado, consoante disposto nos arts. 3º e 142 do CTN, e, uma vez que, no direito tributário pátrio, vige o princípio da legalidade estrita, as práticas reiteradas das autoridades administrativas só podem se formar em caráter praeter legem (que não é regulado pela lei), como forma de suprir a lei nos casos omissos, o que não se dá na hipótese concreta. Portanto, na situação em análise, não é aplicável o art. 100 do CTN, sendo, destarte, impositiva a aplicação da multa, juros e correção monetária sobre o crédito tributário apurado pela fiscalização. Em relação ao art. 76, II, “a” da Lei 4502/64, pede-se vênia para transcrever trecho do voto condutor do acórdão n° 3403-003.323, que também afasta sua aplicação a caso semelhante aos dos autos: Fl. 2970DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 72 Por fim, a defesa pleiteia a exclusão da penalidade com base no art. 76, II, “a” da Lei nº 4.502/64, por ter observado as decisões administrativas que no passado reconheceram o direito de crédito sobre insumos isentos. Embora esse dispositivo legal realmente autorizasse a dispensa da penalidade em relação àqueles que agiram "(...) de acôrdo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado; (...)", ele não mais pode ser aplicado porque encontra-se tacitamente revogado desde outubro de 1966. O art. 2º, § 1º da Lei de Introdução ao Código Civil, estabelece que a lei posterior revoga a anterior quando regule inteiramente a matéria que tratava a lei anterior. Ora, no caso concreto, o art. 100, II, do CTN tratou de modo totalmente diferente a dispensa de penalidade em razão da observância de decisões administrativas, passando a exigir que estas possuíssem eficácia normativa. Considerando a revogação tácita da lei anterior e também a inexistência de lei atribuindo eficácia normativa às decisões mencionadas no recurso, deve ser mantida a penalidade sobre o crédito tributário remanescente neste processo. (d. n.) Na mesma linha de entendimento, o recente Acórdão nº 3301-003.005 tem a seguinte ementa: MULTA. PEDIDO DE EXONERAÇÃO. ARTIGO 76, II, A, DA LEI Nº 4.502/64. NÃO RECEPÇÃO PELO ARTIGO 100, II, DO CTN. INEXISTÊNCIA DE DECISÃO ADMINISTRATIVA A QUE A LEI ATRIBUA EFICÁCIA NORMATIVA. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DA MULTA. É verdade que o artigo 76, II, "a", da Lei nº 4.502/64, dispensa a aplicação de penalidades em relação aos que agiram "(...) de acordo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado". A despeito de referida prescrição ainda constar do Regulamento do IPI, aludida norma não foi recepcionada pelo CTN, já que o artigo 100, inciso II, atribui força de norma concernente a "decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa", unicamente, àquelas "a que a lei atribua eficácia normativa". Diante da inexistência de decisão administrativa nos termos do artigo 100, inciso II, do CTN, impossível exonerar a multa de ofício lavrada contra o sujeito passivo. Assim, não há razão para se excluir a penalidade imposta à recorrente, haja vista que o art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64 foi tacitamente revogado pelo art. 100 do CTN, que passou a exigir que as decisões administrativas tivessem caráter normativo, com base em disposição literal de lei. Fl. 2971DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 73 Ademais, na hipótese de se entender que não houve a revogação tácita acima defendida, o que se diz por respeito ao debate, cabe destacar que a premissa defendida para afastar a multa de ofício consiste na afirmação de que a CSRF tinha jurisprudência no sentido de que não cabe ao adquirente do produto verificar a sua correta classificação fiscal. Sucede que, nos precedentes mencionados, a discussão envolvia a incidência de multa por infração à legislação tributária, diversamente do que se debate no presente caso. O Acórdão n° 02-02.895, por exemplo, traz em seu relatório a seguinte descrição da controvérsia: Trata-se de recurso especial da Procuradoria da Fazenda Nacional interposto com fulcro na contrariedade à lei, em face do Acórdão n 2 202-15.355, por meio do qual deu-se provimento ao recurso voluntário para cancelar a multa regulamentar do IPI prevista no art. 368 c/c 364 do RIPI/82, lançada contra o adquirente de produtos com erro de classificação fiscal e alíquota, por descumprimento do disposto no art. 173 do mesmo regulamento. Percebe-se que, em momento algum, a jurisprudência administrativa assentou a possibilidade de o adquirente se creditar do IPI com base em alíquota correspondente à classificação fiscal incorreta. Assim, não há fundamento para exclusão da multa de ofício, dos juros de mora e da correção monetária. Aliás, há entendimento pacífico neste tribunal administrativo quanto à incidência de juros moratórios, sumulado conforme abaixo: Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais." (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Súmula CARF nº 5 São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). ......................................................................... ................................ Súmula CARF nº 108 Aprovada pelo Pleno em 03/09/2018 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de Fl. 2972DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 74 ofício. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 129 de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019). Acórdãos Precedentes: CSRF/04-00.651, de 18/09/2007; 103-22.290, de 23/02/2006; 103-23.290, de 05/12/2007; 105-15.211, de 07/07/2005; 106-16.949, de 25/06/2008; 303- 35.361, de 21/05/2018; 1401-00.323, de 01/09/2010; 9101-00.539, de 11/03/2010; 9101-01.191, de 17/10/2011; 9202-01.806, de 24/10/2011; 9202- 01.991, de 16/02/2012; 1402-002.816, de 24/01/2018; 2202-003.644, de 09/02/2017; 2301-005.109, de 09/08/2017; 3302-001.840, de 23/08/2012; 3401- 004.403, de 28/02/2018; 3402-004.899, de 01/02/2018; 9101-001.350, de 15/05/2012; 9101-001.474, de 14/08/2012; 9101-001.863, de 30/01/2014; 9101- 002.209, de 03/02/2016; 9101-003.009, de 08/08/2017; 9101-003.053, de 10/08/2017; 9101-003.137 de 04/10/2017; 9101-003.199 de 07/11/2017; 9101- 003.371, de 19/01/2018; 9101-003.374, de 19/01/2018; 9101-003.376, de 05/02/2018; 9202-003.150, de 27/03/2014; 9202-004.250, de 23/06/2016; 9202- 004.345, de 24/08/2016; 9202-005.470, de 24/05/2017; 9202-005.577, de 28/06/2017; 9202-006.473, de 30/01/2018; 9303-002.400, de 15/08/2013; 9303- 003.385, de 25/01/2016; 9303-005.293, de 22/06/2017; 9303-005.435, de 25/07/2017; 9303-005.436, de 25/07/2017; 9303-005.843, de 17/10/2017. Glosa de créditos básicos A recorrente discorda da glosa de créditos básicos, mas nem em sua impugnação, nem no presente recurso voluntário caracteriza adequadamente o que seriam insumos, isto é, matéria-prima, produtos intermediários ou material de embalagens. Evidentemente, bactericidas, detergentes e outros agentes de superfície não se enquadram no conceito de insumos. Mas a recorrente insiste que há produtos de limpeza que deveriam ser considerados como tal. Entretanto, não indica quais seriam tais produtos, nem tampouco prova a efetividade de sua utilização, ou seja, não se desincumbe a recorrente do ônus de provar. Assim, não merece reforma neste ponto a decisão de primeira instância e, portanto, adotamos as suas razões para decidir como se nossas fossem: Além da glosa dos créditos incentivados, a Fiscalização efetuou a glosa de créditos básicos decorrentes de aquisições de bens, os quais, no seu entender, eram de uso e consumo, a exemplo de anti-bactericidas, detergentes, dentre outros agentes orgânicos de superfície, que não se enquadrariam no conceito de insumos. Relacionou tais produtos nas planilhas anexadas ao Termo de Informação Fiscal, denominadas GLOSA DE CRÉDITOS / AGENTES ORGÂNICOS DE SUPERFÍCIE - MATERIAL DE USO E CONSUMO (e-fls. 207/249). Fl. 2973DF CARF MF Original https://carf.economia.gov.br/noticias/2019/arquivos-e-imagens/portaria-me-129-sumulas_efeito-vinculante.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 75 De sua parte, a interessada defende o direito ao crédito, cujos argumentos podem ser assim sintetizados (e-fls. 2017/2019): 14.3. Com efeito, embora os produtos de limpeza não tenham necessariamente contato direto com a bebida, tais produtos entram em contato direto com as embalagens dos refrigerantes, visto que são utilizados para higienizar as máquinas e esteiras, onde são elaborados os refrigerantes. (grifou-se) (...) 14.7. Assim, tendo em vista o próprio Parecer Normativo CST nº 65/79 e a jurisprudência do STJ, está correto o creditamento do IPI decorrente da aquisição dos produtos de limpeza, porque utilizados e consumidos no processo produtivo dos refrigerantes. No entanto, atente-se que, tanto na informação fiscal quanto nas planilhas que discriminam as glosas, há indicação de outros produtos que não são materiais de limpeza como, por exemplo, saco para coleta microbiológica e placa de Petri. A interessada não identifica quais produtos, dentre aqueles listados, poderiam proporcionar o respectivo crédito, não esclarece como são empregados na industrialização das bebidas e não demonstra a efetividade da sua utilização. Sem estes esclarecimentos, não há como consentir com o crédito pleiteado. Não é demais repetir que, por envolver a fruição de créditos, cabe à interessada o ônus de comprová-los, consoante debatido no tópico 4 deste voto, o que não logrou fazê-lo. Ademais, conforme explica a impugnante, os produtos de limpeza e higienização são utilizados para higienizar as máquinas e esteiras. Neste aspecto, não há dúvidas que não podem ser considerados matérias-primas. Então, resta indagar se poderiam ser caracterizados produtos intermediários, possibilitando o aproveitamento de crédito de IPI. Contudo, diz o Parecer Normativo CST nº 65, de 1979: 10- Resume-se, portanto, o problema na determinação do que se deve entender como produtos “que embora não se integrando no novo produto, forem consumidos no processo de industrialização”, para efeito de reconhecimento ou não do direito ao crédito. 10.1- Como o texto fala em “incluindo-se entre as matérias primas e os produtos intermediários”, é evidente que tais bens hão de guardar semelhança com as matérias-primas e os produtos intermediários “stricto sensu”, semelhança esta que reside no fato de exercerem na operação de industrialização função análoga a destes, ou seja, se consumirem em decorrência de um contato físico, ou melhor dizendo, de uma ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, ou por este diretamente sofrida. (...)11- Em resumo, geram direito ao crédito, além dos que se integram ao produto final (matérias-primas, produtos intermediários, “stricto sensu”, e Fl. 2974DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-013.578 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.725922/2018-69 76 material de embalagem), quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função de ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, ou, vice-versa, proveniente de ação exercida diretamente pelo bem industrializado, desde que não devam, em face dos princípios contábeis geralmente aceitos, ser incluídos no ativo permanente. Ora, é patente que não se verifica uma “ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, ou, vice-versa, proveniente de ação exercida diretamente pelo bem industrializado”. As questionadas mercadorias não são utilizadas no processo produtivo stricto sensu e, por isso, por mais relevantes que sejam as razões para o seu emprego, não se compreendem como matéria-prima ou produto intermediário na industrialização do produto final, de acordo com o Parecer CST nº 65, de 1979. Sem a adequada caracterização como matérias-primas, produtos intermediários ou material de embalagem, os produtos consumidos na unidade fabril não geram direito a crédito de IPI. Ante o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário, rejeitar a preliminar arguidas, para no mérito, negar provimento ao recurso voluntário, mantendo integralmente a decisão recorrida. É como voto. Assinado Digitalmente Celso José Ferreira de Oliveira Fl. 2975DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10909.720192/2020-56
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Regimes Aduaneiros
Data do fato gerador: 12/11/2019, 10/01/2020
DUPLO GRAU ADUANEIRO. INAPLICABILIDADE. AÇÃO JUDICIAL. IMPROCEDÊNCIA. PERDA DO OBJETO.
Nos termos do art. 27, §3º, Decreto-lei nº 1.455/1976, é hipótese de instância única, sendo exceção nos termos do art. 23, §3º de Decreto-lei; Regulamento Aduaneiro art. 774, que seguirá o rito estabelecido no Dec. Nº 70.235/72.
Numero da decisão: 3401-014.129
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em não conhecer do recurso voluntário.
Assinado Digitalmente
LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR – Relator e Vice-presidente.
Assinado Digitalmente
LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO – Presidente
Participaram do presente julgamento os conselheiros Celso Jose Ferreira de Oliveira, Laércio Cruz Uliana Junior, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos, Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente), a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária. Ausente(s) o conselheiro(a) Ana Paula Pedrosa Giglio, substituído(a) pelo(a)conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda.
Nome do relator: LAERCIO CRUZ ULIANA JUNIOR
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conteudo_txt : Metadados => date: 2025-10-13T22:46:56Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2025-10-13T22:46:56Z; Last-Modified: 2025-10-13T22:46:56Z; dcterms:modified: 2025-10-13T22:46:56Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2025-10-13T22:46:56Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2025-10-13T22:46:56Z; meta:save-date: 2025-10-13T22:46:56Z; pdf:encrypted: false; modified: 2025-10-13T22:46:56Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2025-10-13T22:46:56Z; created: 2025-10-13T22:46:56Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 7; Creation-Date: 2025-10-13T22:46:56Z; pdf:charsPerPage: 1463; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2025-10-13T22:46:56Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10909.720192/2020-56 ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 17 de setembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE LED LIGHT COMÉRCIO E SERVIÇOS DE ILUMINAÇÃO INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Regimes Aduaneiros Data do fato gerador: 12/11/2019, 10/01/2020 DUPLO GRAU ADUANEIRO. INAPLICABILIDADE. AÇÃO JUDICIAL. IMPROCEDÊNCIA. PERDA DO OBJETO. Nos termos do art. 27, §3º, Decreto-lei nº 1.455/1976, é hipótese de instância única, sendo exceção nos termos do art. 23, §3º de Decreto-lei; Regulamento Aduaneiro art. 774, que seguirá o rito estabelecido no Dec. Nº 70.235/72. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em não conhecer do recurso voluntário. Assinado Digitalmente LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR – Relator e Vice-presidente. Assinado Digitalmente LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Celso Jose Ferreira de Oliveira, Laércio Cruz Uliana Junior, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos, Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente), a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária. Ausente(s) o conselheiro(a) Ana Paula Pedrosa Giglio, substituído(a) pelo(a)conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda. Fl. 250DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.720192/2020-56 2 RELATÓRIO Por bem relatar os fatos, transcrevo a decisão da Alfandega de Itajaí-SC: Trata-se de autuação fiscal formalizada nos autos do processo em epígrafe, na qual foi proposta a aplicação da pena de perdimento às mercadorias que, em face do referido procedimento administrativo, encontram-se apreendidas em nome e ordem do Excelentíssimo Sr. Ministro da Economia como medida acautelatória dos interesses da Fazenda Nacional. Consta na descrição dos fatos que a empresa LED LIGHT, acima qualificada, registrou nº Siscomex, nas datas de 12 de novembro de 2019 e 10 de janeiro de 2020, as declarações de importação(DI) 19/2102151-0 (fls. 21-27), 19/2102317-3 (fls. 29-34), 20/0065220-3 (fls. 111-116) e 20/0065370-6(fls. 118-123), pretendendo a admissão em entreposto aduaneiro, com cobertura cambial, de 63,9 toneladas de luminárias, painéis e refletores de LED de origem chinesa. Por ocasião da verificação física, foram encontradas mercadorias etiquetadas com a informação de que o importador seria a empresa ALL GREEN IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA, CNPJ 19870244/0002-63. As DI foram então submetidas a procedimento especial de controle aduaneiro (PECA), conforme previsão contida na Instrução Normativa RFB nº 1.169/2011, cuja instauração deu-se através do Termo de Intimação Fiscal nº 0025/2019 (fls. 36-42). A fiscalização concluiu que o contribuinte não comprovou a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações. Em vista disso, procedeu na lavratura, na data de 27 de janeiro de 2020, do Auto de Infração e Termo de Apreensão e Guarda Fiscal nº 0927800/00647/19(fls. 2-20), que propõe a aplicação da penalidade de perdimento por interposição fraudulenta presumida. Enquadramento legal no artigo 23, inciso V, parágrafos 1º e 2º do Decreto-Lei nº 1.455/1976. A ciência ocorreu em 18 de fevereiro de 2020 (fl. 137). Inconformada, a autuada interpôs impugnação administrativa em 5 de março de 2020 (fls. 170-183). Aduz, em síntese: que ínfima parte da carga estava endereçada a ALL GREEN, decorrente de erro de armazenagem do exportador; que as teses levantadas para sustentar a suspeita de fraude de ocultação do real responsável e do sujeito passivo são frágeis e intangíveis; que os prazos dados à recorrente são irrisórios e prejudicam sua defesa; que todos os recursos da empresa possuem origens lícitas; que a penalidade proposta é desproporcional, pois equipara interposição presumida com a interposição comprovada, ferindo os princípios constitucionais da proporcionalidade e razoabilidade. Fl. 251DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.720192/2020-56 3 Pede, por fim, que seja deferida a produção de novas provas, que seja suspensa a exigibilidade até a decisão final na via administrativa e a procedência da impugnação com anulação do auto. E assim o feito julgado: AUTO DE INFRAÇÃO E TERMO DE APREENSÃO E GUARDA FISCAL. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA ORIGEM, DISPONIBILIDADE E TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS EMPREGADOS EM OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO. IMPUGNAÇÃO NÃO TRAZ ELEMENTOS PROBATÓRIOS A AFASTAR A PRESUNÇÃO LEGAL. PERDIMENTO PROCEDENTE. Inconformada a contribuinte apresentou recurso voluntário a qual Foi apresentado o recurso voluntário pela contribuinte tempestivamente, repisando os mesmos argumentos da impugnação, no entanto, houve despacho em e-fl. 234: Diante da inadmissibilidade do recurso voluntário, a recorrente impetrou mandado de segurança sob nº 5011443-17.2020.4.04.7208, que determinou o processamento desse processo no CARF. É o relatório. VOTO Conselheiro Laércio Cruz Uliana Junior, Relator. Conforme relatado a contribuinte manejou mandado de segurança sob nº 5011443- 17.2020.4.04.7208 para que o recurso voluntário fosse processado, assim, foi proferida liminar (e- fl. 242): Fl. 252DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.720192/2020-56 4 Cuida-se de Mandado de Segurança no qual a impetrante requer: a) A concessão do pedido liminar, inaudita altera parte, para o fim de obstar a i. autoridade coatora de levar a leilão as mercadorias objeto das DI´s 19/2102151-0, 19/2102317-3, 20/0065220-3 e 20/0065370-6, objeto do Processo Administrativo n.º 10909.720192/2020-56; bem como para determinar a remessa do procedimento administrativo ao CARF, para regular processamento e julgamento do Recurso Voluntário interposto pela Impetrante, e, consequentemente, seja concedido o efeito suspensivo à exigibilidade do crédito tributário, nos termos do art. 151, III, do CTN; Em resumo, sustenta a possibilidade de revisão por uma segunda instância julgadora de sua defesa em procedimentos administrativos, nos quais foram aplicados a pena perdimento das mercadorias importadas, nos termos do Decreto nº. 10.276/2020 e as disposições do Decreto nº 70.235/1972. Decido. Adoto, como fundamentação da liminar, a decisão que proferi nos autos do Mandado de Segurança n. 50009282020204047208, em sentença de embargos de declaração, tendo em conta o Decreto n. 10.276/2020, por meio do qual o Presidente da República promulgou o texto do Protocolo de Revisão da Convenção Internacional para a Simplificação e a Harmonização dos Regimes Aduaneiros - Convenção de Quioto: (...) Tendo em conta o exposto acima, bem como os fatos narrados na inicial, há verossimilhança e perigo na demora, nos termos do artigo 7º, inciso III, da Lei nº 12.016/200. PELO EXPOSTO, DEFIRO o pedido liminar para que a autoridade coatora permaneça com as mercadorias referentes às DI´s 19/2102151-0, 19/2102317-3, 20/0065220-3 e 20/0065370-6, objeto do Processo Administrativo n.º 10909.720192/2020-56 sob sua guarda, vedando-se, até ordem judicial em contrário, a sua destinação, bem como para determinar a remessa do procedimento administrativo ao CARF, para regular processamento e julgamento do Recurso Voluntário interposto pela Impetrante, com consequênte efeito suspensivo à exigibilidade do crédito tributário, nos termos do art. 151, III, do CTN. Notifique-se a autoridade coatora com urgência, para cumprimento da liminar, bem como para apresentar as informações, no prazo legal. Intimem-se. Ciência do feito ao órgão de representação judicial da pessoa jurídica interessada(União - Fazenda Nacional) na forma do artigo 7º, II, da Lei n. 12.016/2009. Fl. 253DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.720192/2020-56 5 Pois bem! O processo judicial seguiu seu curso normal tendo seu pleito negado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, e posteriormente a contribuinte recorrendo ao Superior Tribunal de Justiça que assim proferiu decisão: RECURSO ESPECIAL Nº 2094102 - SC (2023/0309160-4) RELATORA : MINISTRA ASSUSETE MAGALHÃES RECORRENTE : LED LIGHT COMERCIO E SERVICOS DE ILUMINACAO LTDA. ADVOGADOS : CLÁUDIO RENATO DO CANTO FARAG - DF014005 FELIPE TEIXEIRA VIEIRA - DF031718 JULIO CESAR DE SOUZA LIMA - DF053939 RECORRIDO : FAZENDA NACIONAL (...) Ante o exposto, com fundamento no art. 255, § 4º, I, do RISTJ, não conheço do Recurso Especial. Não obstante o disposto no art. 85, § 11, do CPC/2015 e no Enunciado Administrativo 7/STJ ("Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016 será possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11, do NCPC"), deixo de majorar os honorários advocatícios, já que, conforme orientação fixada pela Súmula 105/STJ, não é admitida a condenação ao pagamento de honorários advocatícios em Mandado de Segurança. I. Brasília, 25 de setembro de 2023. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES Relatora Após, foi interposto Agravo no Recurso Especial que foi julgado da seguinte forma: EMENTA AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. ADUANEIRO. PENA DE PERDIMENTO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. APLICAÇÃO DO DECRETO N. 70.235/1972 EM RAZÃO DO PREVISTO ART. 4.º, ITEM 3, DECRETO N. 9.326/2018. MATÉRIA SOBRE A QUAL O TRIBUNAL DE ORIGEM NÃO EMITIU JUÍZO DE VALOR. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA N. 211 DO STJ. DESNECESSIDADE DE DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO NA VIA ADMINISTRATIVA. ART. 4º, ITEM 1, DECRETO N. 9.326/2018. FUNDAMENTO AUTÔNOMO NÃO IMPUGNADO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 283 DO STF. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Quanto à alegação de que o art. 4.º, item 3, do Decreto n. 9.326/2018, proíbe procedimento de recursos ou revisão de forma discriminatória, e que, portanto, deveria ser aplicado o Decreto n. 70.235/1972, verifica-se que o Tribunal de origem, apesar da oposição de embargos de declaração, não apreciou a referente tese recursal, motivo pelo qual está ausente o necessário prequestionamento, nos termos da Súmula n. 211 do STJ 2. A simples menção da matéria na peça recursal não é suficiente para atender ao requisito constitucional de cabimento do recurso destinado à instância Fl. 254DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.720192/2020-56 6 especial, bem como a ausência de alegação de violação ao art. 1.022 do CPC impede esta Corte de verificar eventual vício inquinado ao acórdão da origem. 3. Verifica-se claramente que dois foram os fundamentos que subsidiaram a decisão recorrida: princípio da especialidade e possibilidade de duplo grau na seara administrativa ou judicial. A parte recorrente, no entanto, deixou de impugnar o segundo fundamento, relativo à previsão normativa que dispensaria o duplo grau de jurisdição no âmbito administrativo. Portanto, incide o óbice da Súmula n. 283 do STF. 4. Agravo interno desprovido. MINISTRO TEODORO SILVA SANTOS Relator AgInt no RECURSO ESPECIAL Nº 2094102 - SC Ainda inconformada foi manejado Embargos de Declaração no Agravo Interno no Recurso Especial, que teve a seguinte decisão: EMENTA PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. ADUANEIRO. PENA DE PERDIMENTO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE DE DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO NA VIA ADMINISTRATIVA. ART. 4º, ITEM 1, DECRETO N. 9.326/2018. FUNDAMENTO AUTÔNOMO NÃO IMPUGNADO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 283 DO STF. ACÓRDÃO EMBARGADO. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. EMBARGOS REJEITADOS. 1. Nos termos do comando normativo insculpido no art. 1.022 do Código de Processo Civil, o recurso integrativo tem como escopo corrigir omissões, obscuridades, contradições ou erros materiais eventualmente existentes no provimento judicial. 2. O acórdão embargado apresentou, de forma inteligível e congruente, o fundamento que alicerçou o convencimento nele plasmado nº sentido da incidência da Súmula n. 283 do STF, ante a ausência de impugnação de esteio suficiente, por si só, para manter o acórdão recorrido. 3. Embargos de declaração rejeitados. Assim houve o trânsito em 11 de junho de 2025 no Superior Tribunal de Justiça em desfavor da contribuinte. Dessa forma, verifica-se perda do objeto uma vez que a contribuinte teve a decisão revertida pelo Judiciário, assim, não devendo ser processo o feito, implicando do não conhecimento. Fl. 255DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.129 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.720192/2020-56 7 Ante o exposto, voto por não conhecer do recurso voluntário. Assinado Digitalmente LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR Fl. 256DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10480.731468/2015-32
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Sep 12 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Oct 13 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011
LANÇAMENTO. ATIVIDADE VINCULADA.
A atividade administrativa do lançamento é vinculada e obrigatória, uma vez constatada, com base na documentação constante dos autos, a não inclusão de valores pagos aos empregados na base de cálculo das contribuições, situação descrita na lei como necessária e suficiente para ensejar o fato gerador da obrigação tributária, e não se desincumbindo o sujeito passivo de seu ônus de apresentação de provas em contrário, mediante documentação hábil e idônea, cabe à autoridade tributária proceder ao lançamento, com os devidos acréscimos legais.
ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE PROVAS.
As provas e alegações de defesa devem ser apresentadas no início da fase litigiosa, considerado o momento processual oportuno, sendo que meras alegações, desacompanhadas de provas, não são suficientes para desconstituir o lançamento tributário.
PERÍCIA. CONHECIMENTO TÉCNICO ESPECIALIZADO. SUBSTITUIR PROVA DOCUMENTAL. PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO.
O pedido de perícia será indeferido se o fato a ser provado não necessitar de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador.
A perícia, pela sua especificidade, não tem a faculdade de substituir provas que poderiam ser produzidas pela contribuinte com a juntada de documentos aos autos no momento oportuno.
Numero da decisão: 2101-003.338
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por negar provimento ao recurso voluntário.
Assinado Digitalmente
Mário Hermes Soares Campos – Relator e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Heitor de Souza Lima Junior, Roberto Junqueira de Alvarenga Neto, Cleber Ferreira Nunes Leite, Silvio Lúcio de Oliveira Junior, Ana Carolina da Silva Barbosa, Mario Hermes Soares Campos (Presidente).
Nome do relator: MARIO HERMES SOARES CAMPOS
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 LANÇAMENTO. ATIVIDADE VINCULADA. A atividade administrativa do lançamento é vinculada e obrigatória, uma vez constatada, com base na documentação constante dos autos, a não inclusão de valores pagos aos empregados na base de cálculo das contribuições, situação descrita na lei como necessária e suficiente para ensejar o fato gerador da obrigação tributária, e não se desincumbindo o sujeito passivo de seu ônus de apresentação de provas em contrário, mediante documentação hábil e idônea, cabe à autoridade tributária proceder ao lançamento, com os devidos acréscimos legais. ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE PROVAS. As provas e alegações de defesa devem ser apresentadas no início da fase litigiosa, considerado o momento processual oportuno, sendo que meras alegações, desacompanhadas de provas, não são suficientes para desconstituir o lançamento tributário. PERÍCIA. CONHECIMENTO TÉCNICO ESPECIALIZADO. SUBSTITUIR PROVA DOCUMENTAL. PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. O pedido de perícia será indeferido se o fato a ser provado não necessitar de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador. A perícia, pela sua especificidade, não tem a faculdade de substituir provas que poderiam ser produzidas pela contribuinte com a juntada de documentos aos autos no momento oportuno.
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ATIVIDADE VINCULADA. A atividade administrativa do lançamento é vinculada e obrigatória, uma vez constatada, com base na documentação constante dos autos, a não inclusão de valores pagos aos empregados na base de cálculo das contribuições, situação descrita na lei como necessária e suficiente para ensejar o fato gerador da obrigação tributária, e não se desincumbindo o sujeito passivo de seu ônus de apresentação de provas em contrário, mediante documentação hábil e idônea, cabe à autoridade tributária proceder ao lançamento, com os devidos acréscimos legais. ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE PROVAS. As provas e alegações de defesa devem ser apresentadas no início da fase litigiosa, considerado o momento processual oportuno, sendo que meras alegações, desacompanhadas de provas, não são suficientes para desconstituir o lançamento tributário. PERÍCIA. CONHECIMENTO TÉCNICO ESPECIALIZADO. SUBSTITUIR PROVA DOCUMENTAL. PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. O pedido de perícia será indeferido se o fato a ser provado não necessitar de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador. A perícia, pela sua especificidade, não tem a faculdade de substituir provas que poderiam ser produzidas pela contribuinte com a juntada de documentos aos autos no momento oportuno. Fl. 2474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Mário Hermes Soares Campos – Relator e Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Heitor de Souza Lima Junior, Roberto Junqueira de Alvarenga Neto, Cleber Ferreira Nunes Leite, Silvio Lúcio de Oliveira Junior, Ana Carolina da Silva Barbosa, Mario Hermes Soares Campos (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 09-70.415, da 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora/MG – DRJ/JFA (e.fls. 2416/2431), que julgou improcedente a impugnação ao lançamento de Contribuições Sociais Previdenciárias (parte patronal), contribuição para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (Gilrat) e contribuições destinadas a terceiros (Salário-Educação, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra; Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial - Senai, Serviço Social da Indústria - Sesi e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - Sebrae). Consoante o “Relatório Fiscal de Autos de Infração”, lavrado pela autoridade fiscal lançadora, parte integrante dos Autos de Infrações (e.fls. 2/20) as autuações decorrem da apuração de: a) divergências entre os valores das remunerações dos empregados constantes das folhas de pagamentos dos segurados e os informados nas Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP’s) e; b) diferenças entre valores registrados a débito em contas de custos e despesas relativas às remunerações dos empregados e os valores de proventos constantes das folhas de pagamento dos segurados. No Relatório Fiscal são prestadas as seguintes principais informações relativamente às irregularidades apuradas: 4.2. Os fatos geradores que motivaram o presente lançamento se referem ao seguinte: a) Divergências entre os valores das remunerações dos empregados constantes das folhas de pagamentos dos segurados e os informados nas GFIPs, no período Fl. 2475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 3 de 01/2011 a 13/2011, conforme descrito nos subitens 4.3. a 4.11. do presente relatório fiscal. b) Diferenças entre valores registrados a débito em contas de custos e despesas relativas às remunerações dos empregados, e os valores de proventos constantes das folhas de pagamento dos segurados, nas competências 01/2011, 05/2011, 06/2011, 08/2011, 09/2011, 11/2011 e 12/2011. O relato desta situação consta dos subitens 4.15. a 4.22 deste relatório. Divergências Folhas de Pagamento dos Segurados X GFIPs – Remuneração de Empregados (...) Das divergências apuradas 4.4. Do confronto entre as folhas de pagamento digitais e as GFIPs, referentes às competências 01/2011 a 13/2011, verificou-se que os valores das remunerações dos segurados empregados, constantes das referidas folhas, eram superiores aos declarados nas GFIPs. As divergências apuradas foram consideradas salários-de- contribuição dos empregados e constam de discriminativo intitulado ‘Folha de Pagamento X GFIP’, elaborado pela auditora autuante, anexo a este processo. As contribuições previdenciárias incidentes sobre tais divergências foram lançadas no auto em tela. 4.5. Para fins de apuração dos salários-de-contribuição dos empregados (pela fiscalização), foram consideradas as rubricas identificadas em planilha anexa ao presente processo intitulada ‘Rubricas Folha de Pagamento Digital’, com amparo no art. 28, inciso I e parágrafo 9º., da Lei 8.212/91. 4.6. Ressalte-se que, em documentos datados de 30/04/15, 16/09/15 e 19/10/15 (em anexo), a empresa prestou esclarecimentos sobre a natureza de diversas rubricas constantes das aludidas folhas de pagamento, em atendimento a solicitações efetuadas durante a ação fiscal. Merecem exame mais detalhado as rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’, conforme relato a seguir. ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’ 4.7. A autuada informou (documentos de 16/09/15 e 19/10/15), que as rubricas ‘235-AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310-AJUDA DE CUSTO S/T’ se referiam a ‘pagamentos em razão da transferência de empregados para outra localidade ou para viabilizar a prática laboral, conforme se verifica na Política anexa’(sic). Sobre a matéria, o art. 28, parágrafo 9º., ‘g’, da Lei 8.212/91, assim dispõe: (...) 4.8. A empresa também apresentou documento relativo à política de transferência nacional de seus funcionários, cujo objetivo é ‘estabelecer práticas e regulamentar critério para transferências de profissionais entre unidades/localidades, por prerrogativa/necessidade da Empresa (incluindo Fl. 2476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 4 aprovação de processo seletivo interno) que demandem mudança de domicílio para outro município dentro do Brasil’(sic). O conceito de ‘transferência’, constante do referido documento, foi reproduzido abaixo: “Transferência: Para os fins desta instrução, considera-se transferência quando o empregado necessitar residir em município diferente daquele que trabalha atualmente, exigindo a transferência de domicílio, dentro do território nacional. Estas transferências, ando por definitivo, serão consideradas “Transferências Definitivas” atendendo critérios de acordo com a “Tabela de Critérios para Transferência de Funcionários”, considerando a distância, custo de vida do local de destino em relação ao local de origem, o número de membros da família conforme base cadastral SAP e critérios do item 5.4 deste PG e que exija, concomitantemente, mudança de residência de forma definitiva.” 4.9. Não consta, da ‘política de transferência nacional’ supracitada, nenhuma menção às rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’. Verificou-se existir a previsão de pagamento de um provento denominado ‘AJUDA INSTALAÇÃO’, o qual se refere, na verdade, à outra rubrica existente na folha de pagamento dos segurados, intitulada ‘Gratificação Liberalidade’, conforme se constata de trecho reproduzido a seguir, extraído do documento da política de transferência em foco: “7.2.2.AJUDA INSTALAÇÃO: Tem a funcionalidade de auxiliar o empregado a cobrir as despesas decorrentes da transferência. A Empresa pagará ao profissional transferido a quantidade de salários nominais, vigente no mês da transferência, conforme Tabela de Critérios para Transferência referência, através da Folha de Pagamento, limitado ao valor de R$ 150.0000,00. A Ajuda Instalação deve ser paga como Gratificação Liberalidade, não incidindo encargos legais e Imposto de Renda. A ajuda instalação não integrará a remuneração do empregado e será paga em uma única vez.” 4.10. Em razão do exposto, a fiscalização considerou que a ‘ajuda instalação’ acima citada trata-se, de fato, de ‘Gratificação Liberalidade’, e não é relativa às rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’. Destarte, a rubrica ‘Gratificação Liberalidade’, no ano de 2011, configurou-se a ajuda de custo prevista no art. 28, parágrafo 9º., da Lei 8.212/91, e não foi tributada nesta ação fiscal, situação não se aplica às rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’, que foram devidamente tributadas neste auto de infração e estão incluídas na planilha ‘Rubricas Folha de Pagamento Digital’ citada no subitem 4.5. deste relatório. 4.11 As bases de cálculo do lançamento em foco, que corresponde às divergências entre folha de pagamento e GFIP, no tocante às remunerações dos empregados, constam na coluna ‘C – Diferenças’ da planilha ‘Folha de Pagamento X GFIP’, Fl. 2477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 5 elaborada pela autuante e anexa a este processo. Na citada planilha, tais valores estão discriminados por competência e por estabelecimento. (...) Diferenças Contabilidade X Folha de Pagamento 4.15. Do confronto entre a contabilidade da empresa (enviada ao Sistema Público de Escrituração Digital – SPED, ano 2011) e as folhas de pagamento dos segurados, das competências 01/2011, 05/2011, 06/2011, 08/2011, 09/2011, 11/2011 e 12/2011, foram verificadas divergências entre valores registrados a débito em contas de custos e despesas relativas às remunerações dos empregados, e os valores de proventos constantes das referidas folhas. Os valores de divergências apurados constam do discriminativo a seguir: (...) 4.16. Os lançamentos contábeis que compõem os valores da coluna A - ‘Remuneração Contabilidade’ do quadro acima, constam de planilha elaborada pela fiscalização, intitulada ‘Lançamentos a Débito - Contas Proventos’, anexa ao Termo No. 09 – Constatação e Intimação Fiscal, emitido em nome da autuada nesta ação fiscal. Saliente-se que os registros efetuados nas contas específicas de décimo terceiro salário e férias não estão incluídos na planilha ‘Lançamentos a Débito - Contas Proventos’. (...) 4.19. Através de documento datado de 19/10/2015, a autuada apresentou à fiscalização planilha em arquivo digital, formato Excel, intitulada ‘LAN PROVENTOS FOLHAS DE PGTO’. Dita planilha (cuja cópia foi anexada a este processo) contém informações acerca de algumas divergências apontadas. No quadro a seguir, estão discriminados os valores (coluna B), por competência, que foram informados pela empresa na planilha ‘LAN PROVENTOS FOLHAS DE PGTO’. (...) 4.20. Ocorre que a empresa não apresentou nenhum documento comprovando os esclarecimentos que prestou na planilha ‘LAN PROVENTOS FOLHAS DE PGTO’., embora tenha sido devidamente intimada, através dos Termos Nos. 09 e 10, a apresentar os documentos comprobatórios dos esclarecimentos prestados. (...) 4.24. No ‘Demonstrativo de Apuração’ citado no subitem anterior, consta a discriminação, para cada infração identificada no quadro acima, dos valores das bases de cálculo apuradas, das alíquotas utilizadas e dos valores originários das contribuições devidas pelo sujeito passivo, por estabelecimento e por competência. 4.25. Cabe informar que o lançamento em foco foi efetuado apenas no CNPJ da matriz (10.656.452/0001-80). Fl. 2478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 6 (...) Inconformada com o lançamento, a contribuinte apresentou a impugnação de e.fls. 1049/1061, onde afirma que a existência de divergência entre os valores não se configuraria sonegação, fraude ou tentativa de ludibriar a fiscalização, existindo uma razão lógica e jurídica para justificar as diferenças e que não teria havido pagamento a menor da contribuição previdenciária, conforme passa a defender. Assevera ainda: “...ser necessário, de plano, corrigir equívoco da autuação, pois, como consta do Relatório Fiscal, estão sendo exigidas supostas diferenças objeto do confronto entre os valores da "Contabilidade x Folha de Pagamento" e da "GFIP x Folha de Pagamento". Nessa linha, afirma que eventuais diferenças encontradas do confronto "Contabilidade x Folha de Pagamento" já contemplariam as diferenças apuradas na análise "GFIP x Folha de Pagamento", razão pela qual, relativamente ao CNPJ 10.656.452/0001-80, os valores que discrimina em planilha estariam sendo indevidamente exigidos: “...já que para estes períodos existe a cobrança da suposta diferença encontrada na contabilidade” . Na sequência, alega a então impugnante que parte da diferença “Folha de Pagamento X GFIP”, decorreria do pagamento referente a "Ajuda Instalação", que foram pagas como "Gratificação Liberalidade", e não teriam sido objeto de questionamento pela fiscalização. Esclarece tratar-se de política nacional de transferência da Impugnante, sendo que, em alguns pagamentos teria classificado "Ajuda Instalação" como "Ajuda de Custo"; e em razão dessa classificação equivocada, a fiscalização entendeu que deveria incidir a contribuição previdenciária sobre tais pagamentos. Entretanto, sustenta que: “Com a devida vênia, nomenclatura equivocada não pode justificar a incidência da contribuição previdenciária, se sobrepondo à verdade material. Trata-se de rubrica que não integra o salário de contribuição, nos termos do artigo 28, §92, letra g), da Lei n2 8.212/91.” Afirma ainda a impugnante, que em outras situações, teria verificado que as exigências estavam relacionadas com reembolsos de farmácia e educação, reembolsos de tarifas bancárias e abonos pecuniários, conforme relações que anexa, a título exemplificativo, que demonstrariam a insuficiência do trabalho fiscal. Quanto ao lançamento decorrente da apuração de “Diferença Contabilidade x Folha de Pagamento”, aduz que as diferenças encontradas, em muitos casos, se justificariam pela rubrica "Ajuda de Custo — Aluguel", que representa o pagamento de aluguel de empregado que foi transferido de localidade de trabalho, que também se enquadraria na excepcionalidade do artigo 28, § 9º, alínea “g”, da Lei nº 8.212/91, não integrando o salário de contribuição. Afirma ainda, ter verificado a existência de lançamentos que foram realocados de centro de custo e estão com a rubrica "Reclassificação Centro 6". Esses lançamentos seriam decorrentes de folha de pagamento e eram cadastrados no Centro de Custo 6, quando não se tinha a informação para qual projeto deveria ser alocado o salário do empregado, sendo que, posteriormente, no momento do fechamento da folha, o referido valor era realocado para o projeto específico. Informa também que a diferença apontada pela fiscalização, relativa a dezembro/11, no montante de R$4.722.772,42. 21, seria justificada em parte pela rubrica "Ajuda de Custo — Aluguel" e, Fl. 2479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 7 principalmente, pelos lançamentos relativos a rubrica "ENCERRAMENTO CONTAS RESULTADO", no montante total de R$4.450.813,01. Acresce que: 22. Ao final do ano, quando do encerramento do exercício, o sistema de dados da Impugnante realiza o "zeramento" dos centros de custo, necessário para a entrega do SPED contábil. Assim sendo, foi computado em dezembro/11 o saldo residual das contas contábeis de 2010, no importe de R$4.450.813,01. 23. Este valor de R$4.450.813,01, relativo a folha de pagamento de salários, horas extras e gratificações de 2010, iá foi objeto de lançamento nas respectivas contas contábeis daquele ano, como se demonstra pelo Livro Razão de 2010 (doc.11) e pelo Relatório de partidas individuais contas do Razão (doc. 12h E para demonstrar cabalmente que inexistem quaisquer diferenças, a Impugnante faz juntar (doc. 13) CD contendo a comprovação de todos os valores declarados e recolhidos relativos ao ano de 2.011. que se compatibilizam com os ajustes feitos na contabilidade. 24. Portanto, os valores relativos à rubrica "ENCERRAMENTO CONTAS RESULTADO", que totalizam R$4.450.813,01, devem ser integralmente excluídos dos Autos de Infração ora combatidos. Ao final é requerida a realização de perícia, em razão do enorme volume de documentos envolvidos na comprovação Antes de submeter a impugnação a julgamento, entendeu a 5ª Turma da DRJ/Juiz de Fora, pela baixa dos autos em diligência, conforme o “Despacho 39 – 5ª Turma da DRJ/JFA” (e.fls. 2364/2370), para que a autoridade fiscal lançadora se manifestasse sobre os documentos e argumentos de defesa apresentados pela autuada em sua peça impugnatória. Em atendimento à Diligência requerida pela 5ª Turma da DRJ/JFA, a autoridade fiscal apresentou o “Relatório de Procedimento Fiscal – Diligência” de e.fls. 2372/2401. Cientificada do “Relatório de Procedimento Fiscal – Diligência”, a contribuinte apresentou a manifestação de e.fls. 2407/2414, onde reitera os termos da impugnação e, em especial, os argumentos quanto à necessidade de realização de perícia, que justifica pelo enorme volume de documentos envolvidos. Retornados os autos para julgamento, decidiu a 5ª Turma da DRJ/JFA, pela improcedência da impugnação, sendo mantido integralmente o crédito tributário. A decisão exarada, Acórdão 09-70.415 (e.fls. 2416/2431) apresenta a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2011 a 30/12/2011 LANÇAMENTO DE CRÉDITO PREVIDENCIÁRIO. Fl. 2480DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 8 Constatado a falta de recolhimento total ou parcial de contribuições sociais previdenciárias, não declaradas em GFIP, o auditor-fiscal da Receita Federal do Brasil efetuará o lançamento do crédito previdenciário. AJUDA DE CUSTO. GRATIFICAÇÃO. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. Ajuda de custo ou gratificação, não estando expressamente excluídas do salário de contribuição pelo § 9º, do art. 28 da Lei nº 8.212/91, têm natureza salarial e integram a remuneração para efeito de contribuição à Previdência Social. LANÇAMENTO CONTÁBIL DE AJUSTE A Lei das Sociedades por Ações determina que se contabilize diretamente na conta de Lucros Acumulados os Ajustes de Exercícios Anteriores decorrentes de efeitos da mudança de critério contábil ou da retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, sem transitar pela Demonstração do Resultado do Exercício. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Ciente da decisão proferida pela DRJ/JFA, a autuada interpôs o recurso voluntário de e.fls. 2450/2463, onde principia apresentando histórico do procedimento fiscal e da decisão de primeira instância, para em seguida, reiterar todos os argumentos de defesa apresentados em sua impugnação, refutando os fundamentos do acórdão recorrido. Volta assim, a afirmar que a existência de divergência entre os valores apurados não se configuraria sonegação, fraude ou tentativa de ludibriar a fiscalização, e que não teria havido qualquer pagamento a menor da contribuição previdenciária. Para melhor entendimento da defesa da recorrente, peço vênia para parcial reprodução dos principais argumentos trazidos na peça recursal: II – Das Razões de Reforma do Acórdão da DRJ/JFA II.1. – Da Duplicidade de Bases de Cálculo – CNPJ 0001/80 – Exigência Indevida 9. Com relação a este ponto, a impugnação deixou claro o equívoco na autuação, pois, como consta do Relatório Fiscal, estão sendo exigidas supostas diferenças objeto do confronto entre os valores da “Contabilidade x Folha de Pagamento” e da “GFIP x Folha de Pagamento”. 10. A autoridade lançadora, ao se manifestar no item b.1 do relatório de diligência fiscal, de forma equivocada entende que não há duplicidade, “... pois as diferenças de valores não partem da GFIP em comparação à Folha de Pagamento, Fl. 2481DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 9 como menciona a impugnante, mas, sim o inverso, Folha de Pagamento x GFIP.” A r. decisão recorrida somente fez reverberar tal argumento. 11. Com a devida vênia, não há dúvida de que a base é a Folha de Pagamento. O que se disse na impugnação, e agora se reitera, é que, relativamente ao CNPJ 10.656.452/0001-80, eventuais diferenças encontradas do confronto “Contabilidade x Folha de Pagamento” já contemplam as diferenças apuradas na análise “GFIP x Folha de Pagamento”. 12. A alegação de que os lançamentos em discussão partiram de dados gerados pelo próprio contribuinte apenas tergiversa, não impedindo a ocorrência da duplicidade em discussão nem servindo de justificativa para a r. decisão recorrida ignorar tal duplicidade. Assim, remanescem os valores abaixo sendo indevidamente exigidos (já que para estes períodos existe a cobrança da suposta diferença encontrada na contabilidade): (...) II.2. - Ajuda de Custo x Gratificação Liberalidade 14. Consta do Relatório Fiscal que, para diversos estabelecimentos da Recorrente, existiriam diferenças entre os valores constantes da folha de pagamento digital e aqueles declarados na GFIP. Sobre estas diferenças, relativas a diversas rubricas, está se exigindo o recolhimento da respectiva contribuição previdenciária. 15. Como destacado em sua Impugnação, a rubrica “Ajuda de Custo” foi paga como “Gratificação Liberalidade”, e, portanto, não sofreu a incidência da contribuição previdenciária. Em seu relatório, o julgador singular transcreveu trechos da impugnação e concluiu que o contribuinte não juntou documentação hábil para comprovar que o pagamento se deu por liberalidade. 16. Ora, com a devida vênia, o contribuinte demonstrou em sua impugnação que, de forma equivocada, denominou como “Ajuda de Custo” o que na verdade seriam pagamentos a título de “Ajuda Instalação”. Esta última é objeto da política nacional de transferência da empresa, e está assim descrita: (...) 17. Neste ponto, reitera-se os termos da impugnação de fls. , onde se demonstrou que a classificação equivocada não pode justificar a incidência da contribuição previdenciária, se sobrepondo inclusive à verdade material. Trata-se de rubrica que não integra o salário de contribuição, nos termos do artigo 28, §9º, letra g, da Lei nº 8.212/91. 18. Vale, ademais, abordar o argumento da d. fiscalização que foi reverberado pela r. decisão recorrida, ou seja, que os valores em questão seriam pagos todos os meses em valor fixo e reajustável, adquirindo assim natureza salarial. 19. Ora, na tabela elaborada pela fiscalização, às fls. 2391, nota-se que, das 25 (vinte e cinco) referências a funcionários da recorrente, nenhuma indica qualquer ocorrência de pagamentos mensais em valores fixos reajustáveis. Apenas em 2 Fl. 2482DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 10 (dois) desses casos os pagamentos se repetem (uma vez como Ajuda de Custo, outra como Gratificação Liberalidade), mas em valores distintos – sem qualquer evidência lógica de reajuste que justifique a variação entre um e outro pagamento que, ademais, são realizados em meses não consecutivos (entre três e oito meses de diferença entre um e outro). Portanto, nada que possa justificar a conclusão equivocado da fiscalização, ratificada pela DRJ. 20. Logo, o levantamento feito pela própria fiscalização vai contra a sua própria argumentação, corroborando, por outro lado, o quanto alegado pela Recorrente desde o início da presente discussão: não há que se falar em exigência de contribuições previdenciárias sobre os valores ora discutidos. II.3. - Reembolsos Farmácia, Educação, Tarifas Bancárias e Abonos Pecuniários 21. Embora em sua manifestação (item d.1), a autoridade lançadora se justifique afirmando que não tratou este grupo de rubricas de forma individualizada, pois as mesmas estariam englobadas nas divergências apuradas do confronto Folha de Pagamento x GFUP e Contabilidade x Folha de Pagamento, o fato é que o equívoco do lançamento remanesce, pois não incide a contribuição previdenciária sobre estas rubricas. 22. A autoridade lançadora concorda com o entendimento do contribuinte, e inclusive elabora uma tabela com os valores relacionados a estes reembolsos (fl. 3465): (...) 23. Todavia, de forma equivocada deixa a autoridade de revisar o lançamento, sendo acompanhada pela r. decisão recorrida sob o falacioso e repisado argumento de que “os lançamentos em discussão partiram de dados gerados pelo próprio contribuinte”. Ora, o que se depreende dos “dados gerados pelo próprio contribuinte” é que os valores autuados correspondem a reembolsos de farmácia, educação, tarifas bancárias e abonos pecuniários, sobre os quais não incide a contribuição previdenciária em combate. (...) II.4 - Ajuste Contábil 12/2011 27. Neste quesito, a questão é bastante simples e não merece grandes digressões. A Recorrente demonstrou com clareza - e documentalmente - em sua impugnação de fls. que a suposta diferença obtida do confronto entre os valores constantes na contabilidade e os da folha de pagamento digital, estava relacionada em grande parte com um ajuste contábil efetuado em 12/2011. 28. Em sua manifestação, a autoridade lançadora equivocadamente entendeu que “...a boa técnica contábil não permite que ajustes de exercícios anteriores interfira no resultado apurado em determinado exercício...”, e que a Recorrente não teria apresentado elementos comprobatórios de suas alegações. A r. decisão recorrida praticamente reproduz o entendimento fiscalista. Fl. 2483DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 11 29. Todavia, como se demonstrou na impugnação, foram efetuados lançamentos relativos a rubrica “ENCERRAMENTO CONTAS RESULTADO”, no montante total de R$4.450.813,01, sobre os quais indevidamente se exige a contribuição previdenciária. 30. Ao final do ano, quando do encerramento do exercício, o sistema de dados do contribuinte realiza o “zeramento” dos centros de custo, necessário para a entrega do SPED contábil. Assim sendo, foi computado em dezembro/11 o saldo residual das contas contábeis de 2010, no importe de R$4.450.813,01. 31. Este valor de R$4.450.813,01, relativo a folha de pagamento de salários, horas extras e gratificações de 2010, já foi objeto de lançamento nas respectivas contas contábeis daquele ano, como se demonstrou pelo Livro Razão de 2010 (doc.11 da impugnação) e pelo Relatório de partidas individuais contas do Razão (doc. 12 da impugnação). Ainda, para demonstrar cabalmente que inexistem quaisquer diferenças, a Recorrente juntou (doc. 13 da impugnação) CD contendo a comprovação de todos os valores declarados e recolhidos relativos ao ano de 2.011, que se compatibilizam com os ajustes feitos na contabilidade. 32. Quer parecer à Recorrente que toda a documentação acima mencionada foi juntada aos autos à toa, pois não mereceu sequer uma breve análise por parte da r. decisão recorrida, aparentemente satisfeita em manter a presente exigência sob o argumento de que “como ajuste de exercícios anteriores, serão considerados apenas os decorrentes de efeitos da mudança de critérios contábil ou da retificação de erro imputável a determinado período anterior” para, enfim, desconsiderar a argumentação da Recorrente. 33. Ora, novamente, a r. decisão recorrida reverbera acriticamente os argumentos da d. fiscalização e, de maneira injustificada, desconsidera aqueles trazidos pela Recorrente em sua Impugnação que demonstrou o equívoco por ela cometido, e que esse não deveria refletir em qualquer exigência de contribuição previdenciária para o ano de 2011. 34. Todavia, tal exigência restou mantida, a despeito de a fiscalização não ter sido capaz de justificá-la em relação aos valores da rubrica “ENCERRAMENTO CONTAS RESULTADO” (R$4.450.813,01), não sendo válida, por óbvio, a incidência da contribuição previdenciária sobre eventuais erros contábeis. (...) Ao final, é requerido o conhecimento e provimento do Recurso Voluntário, com consequente cancelamento integral das exigências objeto do lançamento, sendo ainda, reiterado o pedido de realização de perícia ou diligência, para efeito de “cotejo dos valores da contabilidade com os valores declarados e os recolhidos”. É o relatório. Fl. 2484DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 12 VOTO Conselheiro Mário Hermes Soares Campos, Relator A recorrente foi intimada da decisão de primeira instância em 06/05/2019, conforme o “Termo de Ciência por Abertura de Mensagem”, de e.fl. 2447; tendo sido o recurso protocolizado em 29/05/2019, acorde atesta o “Termo de Solicitação de Juntada” de e.fl. 2448, considera-se tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade. Alegação de Duplicidade de Bases de Cálculo no CNPJ 0001/80 A contribuinte volta a advogar que haveria duplicidade de bases de cálculo de exigências decorrentes do confronto entre os valores da "Contabilidade x Folha de Pagamento" e da "GFIP x Folha de Pagamento". Afirma que eventuais diferenças encontradas do confronto "Contabilidade x Folha de Pagamento" já contemplariam as diferenças apuradas na análise "GFIP x Folha de Pagamento", razão pela qual, relativamente ao CNPJ 10.656.452/0001-80, os valores que discrimina em planilha estariam sendo indevidamente exigidos. Acresce não haver dúvidas de que a base seria a Folha de Pagamento, assim: “O que se disse na impugnação, e agora se reitera, é que, relativamente ao CNPJ 10.656.452/0001-80, eventuais diferenças encontradas do confronto “Contabilidade x Folha de Pagamento” já contemplam as diferenças apuradas na análise “GFIP x Folha de Pagamento.” Conforme relatado, antes de submeter a impugnação a julgamento, entendeu a 5ª Turma da DRJ/Juiz de Fora, pela baixa dos autos em diligência, mediante o “Despacho 39 – 5ª Turma da DRJ/JFA” (e.fls. 2364/2370), para que a fiscalização se manifestasse sobre os documentos e argumentos de defesa apresentados pela autuada em sua peça impugnatória. Um dos pontos questionados na impugnação, e que foi objeto de manifestação da fiscalização em atendimento à diligência ora referida, seria a suposta duplicidade de Bases de Cálculo Em atendimento à Diligência requerida pela 5ª Turma da DRJ/JFA, a fiscalização apresentou o “Relatório de Procedimento Fiscal – Diligência” de e.fls. 2372/2401, onde, ao tratar da alegação de duplicidade de bases de cálculo, assim se manifestou: b.1. Depreende-se, ao observar o argumento formulado pela autuada, transposto logo abaixo, que a mesma inverte os comparativos entre as fontes que demonstraram as divergências para o lançamento dos créditos tributários. As diferenças entre essas fontes: Contabilidade, Folha de Pagamento e GFIP, obedeceram a esta ordem, ou seja, A>B>C. Deste modo, vê-se que a apuração se deu primeiro entre a Folha de Pagamento (B) e a GFIP (C) e, posteriormente, entre a Contabilidade (A) e a Folha de Pagamento (B). Não há que se mencionar duplicidade para este caso, pois as diferenças de valores não partem da GFIP em comparação à Folha de Pagamento, como menciona a impugnante, mas, sim o inverso, Folha de Pagamento x GFIP. Consta do “Relatório Fiscal de Autos de Infração” e também novamente explicitado pela fiscalização no relatório da diligência, que as diferenças apuradas partiram: a) inicialmente Fl. 2485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 13 dos valores apurados, a maior, mediante o batimento entre as folhas de pagamento e os valores declarados pela empresa em GFIP (folhas de pagamentos – GFIP); e b) em um segundo momento, os valores apurados, também a maior, pelo cotejamento entre os valores constantes da escrita contábil da contribuinte e os constantes das folhas de pagamento (contabilidade – folhas de pagamento). Portanto, não se justifica a alegação de duplicidade de lançamentos, uma vez que, na segunda apuração (contabilidade – folhas de pagamento), somente foi considerada a diferença entre a contabilidade e a folha. A seu turno, no primeiro levantamento (folhas de pagamentos – GFIP), partiu-se dos valores lançados em folhas de pagamentos a maior do que aqueles declarados em GFIP. Como os lançamentos tiveram como base de cálculo as diferenças apuradas, não há que se falar em duplicidade dessas bases de exigências, pois uma não estaria contida na outra. Sem razão assim a recorrente quanto a tais argumentos. Alegações relativas a “Ajuda de Custo x Gratificação Liberalidade” e “Reembolsos Farmácia, Educação, Tarifas Bancárias e Abonos Pecuniários” Ao tratar dessas rubricas, afirma a recorrente que, como destacado na Impugnação, a “Ajuda de Custo” teria sido paga como “Gratificação Liberalidade” e, portanto, não haveria a incidência da contribuição previdenciária. Aduz que, no relatório, o julgador singular transcreveu trechos da impugnação e concluiu que a contribuinte não teria juntado documentação hábil para comprovar que o pagamento se deu por liberalidade. Entretanto, alega que teria demonstrado que, de forma equivocada, denominou como “Ajuda de Custo” o que na verdade seriam pagamentos a título de “Ajuda Instalação”, sendo esta última objeto da política nacional de transferência da empresa, que está assim descrita em instrumento intitulado “Política de Transferência Nacional“, que trata do tema: 7.2.2. AJUDA INSTALAÇÃO: Tem a funcionalidade de auxiliar o empregado a cobrir as despesas decorrentes da transferência. A Empresa pagará ao profissional transferido a quantidade de salários nominais, vigente no mês da transferência, conforme Tabela de Critérios para Transferência referência, através da Folha de Pagamento, limitado ao valor de R$150.000,00. A Ajuda Instalação deve ser paga como Gratificação Liberalidade, não incluindo encargos legais e Imposto de Renda. A ajuda instalação não integrará a remuneração do empregado e será paga em uma única vez. Nessa linha, entende a recorrente tratar-se de rubrica que não se integraria ao salário de contribuição, nos termos do artigo 28, § 9º, alínea “g”, da Lei nº 8.212/91. Refuta ainda, o que afirma ser argumento da fiscalização, albergado pela decisão recorrida, de que os valores em questão seriam pagos todos os meses em valor fixo e reajustável, adquirindo assim natureza salarial. Ao tratar do tema e manter os valores na base de cálculo do presente lançamento, a decisão recorrida apresenta os seguintes fundamentos: (...) Fl. 2486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 14 Com relação a rubrica ajuda de custo, em primeiro lugar é oportuno registrar que o Auditor esclareceu que as rubricas consideradas estão identificadas nos códigos "235 - Ajuda de Custo; 1310 - Ajuda de Custo S/T" e que a rubrica "Gratificação de Liberalidade - código 1695", não foi incluída como salário de contribuição no presente levantamento. Na Tabela de fls. 2391, identifica-se quais os empregados tiveram tais gratificações consideradas como base de cálculo de incidência de contribuições. Diferente da autuada, sustentando a regularidade do lançamento, com relação às verbas ajuda de custo, entendo que qualquer espécie de pagamento ou utilidade fornecida pelo empregador ao empregado, seja para remunerar seu desempenho, ou simplesmente premiá-lo, constitui verba salarial, uma vez fornecida em caráter de contraprestação pelo serviço prestado. Da mesma forma, o argumento de pagamento eventual não afasta a vinculação a contraprestação. Não se trata de um pagamento fortuito, sem qualquer vinculação contraprestativa, pelo contrário, vincula-se a prestação de serviço, sendo que o número de vezes em que se deu o pagamento mostra-se irrelevante, posto que quando pago possui nítida feição salarial. O pagamento eventual descrito na norma previdência, diz respeito aquele desvinculado do contrato de trabalho, por exemplo, decorrente de um caso fortuito, o que não se coaduna com pagamento único de ajuda de custo ou de gratificação espontaneamente concedida. A título de esclarecimentos, com bem colocado pelo Auditor, considera-se que a ajuda de custo não integra o salário de contribuição, se paga em parcela única, recebida exclusivamente em decorrência de mudança de trabalho do empregado. A ajuda de custo, quando paga em todos os meses em valor fixo e reajustável, nas mesmas épocas dos reajustes salarial, sem a intenção de ressarcir despesas ou de reembolsar gastos feito pelo empregado, adquire natureza salarial. Os argumentos trazidos à baila pela impugnante, no entender desta Relatora, não são passiveis de alterar o lançamento. Por disposição expressa de lei, as provas das alegações devem acompanhar a impugnação. A ausência de provas inviabiliza o acatamento das alegações. Aponta o recorte da decisão acima reproduzida, que foi considerada como não integrativa ao salário de contribuição (base de cálculo do lançamento) a ajuda de custo paga em parcela única, recebida exclusivamente em decorrência de mudança de trabalho do empregado. Noutro giro, foi esclarecido que, “...qualquer espécie de pagamento ou utilidade fornecida pelo empregador ao empregado, seja para remunerar seu desempenho, ou simplesmente premiá-lo, constituiria verba salarial, uma vez fornecida em caráter de contraprestação pelo serviço prestado.” Fl. 2487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 15 Partindo de tais premissas, consta expressamente informado no “Relatório Fiscal” que a rubrica "Gratificação de Liberalidade - código 1695", não foi incluída como salário de contribuição no levantamento ora sob análise. (...) 4.9. Não consta, da ‘política de transferência nacional’ supracitada, nenhuma menção às rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’. Verificou-se existir a previsão de pagamento de um provento denominado ‘AJUDA INSTALAÇÃO’, o qual se refere, na verdade, à outra rubrica existente na folha de pagamento dos segurados, intitulada ‘Gratificação Liberalidade’, conforme se constata de trecho reproduzido a seguir, extraído do documento da política de transferência em foco: (...) 4.10. Em razão do exposto, a fiscalização considerou que a ‘ajuda instalação’ acima citada trata-se, de fato, de ‘Gratificação Liberalidade’, e não é relativa às rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’. Destarte, a rubrica ‘Gratificação Liberalidade’, no ano de 2011, configurou-se a ajuda de custo prevista no art. 28, parágrafo 9º., da Lei 8.212/91, e não foi tributada nesta ação fiscal, situação não se aplica às rubricas ‘235 - AJUDA DE CUSTO’ e ‘1310 – AJUDA DE CUSTO S/T’, que foram devidamente tributadas neste auto de infração e estão incluídas na planilha ‘Rubricas Folha de Pagamento Digital’ citada no subitem 4.5. deste relatório. O trecho acima reproduzido, do “Relatório Fiscal”, deixa claro que os pagamentos efetuados sob o título de “Gratificação Liberalidade”, foram considerados como a ajuda de custo de que trata o art. 28, § 9º, da Lei nº 8.212/1991, e não foram considerados como tributáveis pela fiscalização. Tratamento diverso foi dado aos pagamentos efetuados sob as rubricas “235 – Ajuda de Custo” e “1310 – Ajuda de Custo S/T”, que foram devidamente tributadas, por falta de comprovação, mediante documentação hábil, de que tais pagamentos teriam se dado por mera liberalidade. No Recurso Voluntário, a autuada limita-se a apresentar os mesmos argumentos de defesa trazidos por ocasião da peça impugnatória, entretanto, não junta qualquer outra documentação, que possa comprovar o alegado erro de denominação de tais pagamentos. Deve ser destacado o fato de que, no documento apresentado pela recorrente, denominado “Política de Transferência Nacional“, há expressa previsão de pagamentos a título de “ajuda instalação”, que ocorrem sob a rubrica de “Gratificação Liberalidade” , valores esses que, repise-se, não foram considerados como tributáveis pela autoridade fiscal lançadora. Conforme apontado alhures, na peça recursal o autuado se limita a reiterar os argumentos de defesa apresentados por ocasião da impugnação, embora devidamente advertido quanto à necessidade de comprovação de suas afirmações, mediante documentação hábil, novamente não se desincumbiu do ônus de trazer aos autos elementos idôneos que comprovem Fl. 2488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 16 suas justificativas. Não foi apresentado nenhum elemento de prova, capaz de demonstrar que, os valores registrados a título de “235 – Ajuda de Custo” e “1310 – Ajuda de Custo S/T”, se trataria de pagamentos a título de “Ajuda Instalação/Gratificação Liberalidade”. Cabe ao interessado instruir sua defesa, juntamente com os motivos de fato e de direito, com os documentos que respaldassem suas afirmações, ou entendesse pertinentes a sua comprovação, a teor da disciplina do caput e inc. III, do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972, bem como o disposto no inciso I, do art. 373 do CPC. Portanto, o ônus da prova recai exclusivamente sobre a contribuinte, a quem caberia trazer aos autos todos os documentos que entendesse capazes de demonstrar e provar o alegado; desta forma, meras alegações, desacompanhadas de provas, não se prestam a desconstituir o lançamento fiscal regularmente efetuado. Quanto aos pagamentos efetuados pela autuada a seus empregados sob os títulos de “Reembolsos: Farmácia, Educação, Tarifas Bancárias e Abonos Pecuniários”, cumpre reiterar os termos da decisão recorrida, no sentido de que, qualquer espécie de pagamento ou utilidade fornecida pelo empregador ao empregado, seja para remunerar seu desempenho, ou simplesmente premiá-lo, constitui verba salarial, uma vez fornecida em caráter de contraprestação pelo serviço prestado. Inexistindo ato normativo que autorize a exclusão de tais pagamentos da base de cálculo das contribuições previdenciárias, noutras palavras, na ausência de norma que ampare a alegada não incidência sobre tais pagamentos, correto o lançamento procedido pela autoridade fiscal. Baseado nos fundamentos acima, assim como, nas conclusões da decisão recorrida, que também adoto como minhas razões de decidir, deve ser mantida a infração. Alegações relativas às “Diferenças Contabilidade X Folha de Pagamento” Em sua peça recursal a contribuinte trata de tal tópico como “Ajuste Contábil 12/2011”, onde afirma que a questão seria bastante simples e que teria demonstrado, com clareza e documentalmente, na impugnação, que a suposta diferença obtida do confronto entre os valores constantes na contabilidade e os da folha de pagamento digital, estaria relacionada em grande parte com um ajuste contábil efetuado em 12/2011. Afirma ter demonstrado, que teriam sido efetuados lançamentos relativos à rubrica “Encerramento Contas Resultado”, no montante total de R$4.450.813,01, ao final do ano, quando do encerramento do exercício, posto que o sistema de dados do contribuinte realiza o “zeramento” dos centros de custo, necessário para a entrega do SPED contábil. Assim sendo, informa ter computado, em dezembro/11, o saldo residual das contas contábeis de 2010, no referido importe de R$4.450.813,01. Entretanto, ainda de acordo com a recorrente, este valor, relativo à folha de pagamento de salários, horas extras e gratificações de 2010, já teria sido objeto de lançamento nas respectivas contas contábeis daquele ano: “...como se demonstrou pelo Livro Razão de 2010 (doc.11 da impugnação) e pelo Relatório de partidas individuais contas do Razão (doc. 12 da impugnação). Ainda, para demonstrar cabalmente que inexistem quaisquer diferenças, a Recorrente juntou (doc. 13 da impugnação) CD Fl. 2489DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 17 contendo a comprovação de todos os valores declarados e recolhidos relativos ao ano de 2.011, que se compatibilizam com os ajustes feitos na contabilidade.” Nesses termos, entende a contribuinte que indevidamente se exigiria a contribuição previdenciária. Analisando esses mesmos argumentos, também apresentados na peça impugnatória, ao manter os valores na base de cálculo das autuações, assim se manifestou a autoridade julgadora de piso: (...) No tocante ao valor de R$ 4.450.813,01, registrado nas constas 33102010 (Salário), 33102030 (Horas Extras) e 33102040 (Gratificações – Funcionários), respectivamente no importe de R$ 4.383.120,69, R$ 35.378,14 e R$ 32.314,18, do Livro Razão de 2010, lançado a débito em 31/11/2011, com histórico “ENCERRAMENTO CONTAS DE RESULTADO” que diz a autuada serem "Ajustes de Exercícios anteriores", como bem explicado pelo Auditor, "a Lei das Sociedades por Ações determina que se contabilize diretamente na conta de Lucros Acumulados os Ajustes de Exercícios Anteriores decorrentes de efeitos da mudança de critério contábil ou da retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, sem transitar pela Demonstração do Resultado do Exercício. A Lei das Sociedades por Ações estabeleceu em seu art. 186, mantido pela Lei 11.638/2007, que, como ajuste de exercícios anteriores, serão considerados apenas os decorrentes de efeitos da mudança de critérios contábil ou da retificação de erro imputável a determinado período anterior". Portanto, devem ser contabilizados diretamente na conta de Lucros Acumulados sempre que existir efeitos decorrentes de mudança de critérios contábeis Retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, e que não possam ser atribuídos a fatos subseqüentes. Segundo o pronunciamento técnico de nº 23 do Comitê de Pronunciamentos Contábeis - CPC editado para "definir os critérios para a seleção, alteração e divulgação de políticas contábeis, para as alterações nas estimativas contábeis e para as retificações de erros" os erros de períodos anteriores são omissões e incorreções nas demonstrações contábeis da entidade de um ou mais períodos anteriores decorrentes da falta de uso, ou uso incorreto, de informação confiável que: a) estava disponível quando da autorização para divulgação das demonstrações contábeis desses períodos; e b) pudesse ter sido razoavelmente obtida e levada em consideração na elaboração e na apresentação dessas demonstrações contábeis. O referido pronunciamento, diz in verbis que: Erros de Períodos Anteriores 10. Erros de períodos anteriores são omissões e incorreções nas demonstrações contábeis da entidade de um ou mais períodos anteriores decorrentes da falta de uso, ou uso incorreto, de informação confiável que: Fl. 2490DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 18 (a) estava disponível quando as demonstrações contábeis desses períodos foram autorizadas para divulgação; e (b) poderia ter sido razoavelmente obtida e levada em consideração na preparação e apresentação dessas demonstrações contábeis. 11.Tais erros incluem os efeitos de erros matemáticos, erros na aplicação de políticas contábeis, descuidos ou interpretações incorretas de fatos e fraudes. 12. A não ser que seja impraticável determinar ou os efeitos específicos de um período ou o efeito cumulativo do erro, a entidade deve corrigir os erros materiais de períodos anteriores retrospectivamente no primeiro conjunto de demonstrações contábeis divulgadas após a sua descoberta por: (a) republicação comparativa para o(s) período(s) anterior(es) apresentado(s) em que tenha ocorrido o erro; ou (b) se o erro ocorreu antes do período anterior mais antigo apresentado, ajuste dos saldos de abertura dos ativos, passivos e patrimônio líquido para o período anterior mais antigo apresentado. As omissões ou declarações incorretas de itens são materiais se puderem, individual ou coletivamente, influenciar as decisões econômicas dos usuários tomadas com base nas demonstrações contábeis. 13. O Pronunciamento determina, resumidamente, que devem ser divulgados: a) a natureza da política contábil que sofrer mudança, as razões da mudança, os efeitos da mudança e outras informações pertinentes; b) a natureza e o montante de mudança na estimativa contábil que tenha efeito no período corrente ou se espera que tenha efeito em períodos subsequentes; c) a natureza do erro sendo retificado, o valor dessa retificação e outras informações também pertinentes; c) no caso de impossibilidade de mensuração de quaisquer desses efeitos, as razões que levam a essa situação devem também ser divulgadas. Não tendo sido, portanto, demonstrado na escrituração contábil o alegado pela empresa, mantenho o entendimento adotado pela fiscalização. Atendendo à Diligência determinada pela DRJ/Juiz de Fora, após análise da documentação acostada aos autos pela contribuinte juntamente com a impugnação, foi informado pela fiscalização que as Guias da Previdência Social, os relatórios SEFIP e os Resumos da Folhas de pagamento acostados aos autos pela impugnante (e.fls. 1191/2268), todos atinentes às competências de 2011, não guardam relação com a divergência ora sob exame. Também foi apontado, que a boa técnica contábil não permite que ajustes de exercícios anteriores interfira no resultado apurado em exercícios subsequentes. Destarte, considerando que a então impugnante não acostou elementos comprobatórios que oferecessem suporte ao Razão de 2010, assim como, que a técnica contábil aplicada não seria a estabelecida no ordenamento normativo, entendeu a fiscalização, pela manutenção do respectivo lançamento na competência 12/2011. Em sua peça recursal, a autuada mais uma vez se limita a reiterar os argumentos de defesa apresentados por ocasião da impugnação, portanto, considerando que no recurso Fl. 2491DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 19 voluntário são apresentadas as mesmas razões de defesa, entendo que a matéria já foi adequada e suficientemente abordada na decisão recorrida, assim como, no excerto acima reproduzido do “Relatório de Procedimento Fiscal – Diligência” (especificamente nas e.fls. 2400/2401). Por concordar com tais fundamentos, os quais adoto como razões de decidir, tenho que a parte da autuação fiscal ora sob análise, relativa a “Diferenças Contabilidade X Folha de Pagamento”, se encontra devidamente calcada nos comandos normativos, devendo ser mantida. Requerimento para Realização de Perícia Caso vencido nos argumentos de defesa constantes do Recurso, advoga a autuada que: “...não se pode ignorar os benefícios para a presente discussão a opinião técnica advinda da realização de perícia ou diligência, nos termos do artigo 16, inciso IV, do Decreto nº 70.235/72, para que se realize o correto cotejo dos valores da contabilidade com os valores declarados e os recolhidos.” Baseado em tais argumentos, foi novamente requerida pela contribuinte a produção de prova pericial, justificando que, questões técnicas relacionadas ao cálculo efetuado careceriam de análise técnica, realizada por profissional habilitado, como um apoio à verificação fiscal realizada, em razão do enorme volume de documentos envolvidos; sendo apontados quesitos e indicado profissional contador para atuar como seu perito. Ocorre que as diligências e a prova pericial, além do caráter específico, não depende exclusivamente da vontade das partes, mas sim, de circunstâncias que justifiquem a necessidade de apreciações técnicas, por especialistas com conhecimento específico em determinadas matérias, com o intuito de esclarecer questões controvertidas; para que o julgador, diante de indícios ou elementos incipientes de prova, possa melhor elucidar os fatos para formar sua convicção. Hipótese esta não caracterizada na presente situação, sendo oportuno relembrar, que já houve a baixa dos autos em diligência, antes do julgamento de piso. A perícia, pela sua especificidade, não tem a faculdade de substituir provas que poderiam ser produzidas pela contribuinte com a juntada de documentos aos autos no momento oportuno; assim, para o fim de apurar os fatos por ela apresentados , deveria a contribuinte, ao discordar da autuação, apresentar, no momento oportuno, qual seja, o da impugnação, os documentos e fatos que entendesse capazes de alteração dos valores lançados, ou eventuais fatos desconstitutivos. Conforme já asseverado, caberia à interessada instruir sua defesa, juntamente com os motivos de fato e de direito, com os documentos que respaldassem suas afirmações, ou entendesse pertinentes a sua comprovação, a teor da disciplina do caput e inc. III, do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972, bem como o disposto no inciso I, do art. 373 do CPC, não se justificando o pedido de produção de provas por parte da Administração Tributária. Assim sendo, indefiro o pedido de perícia, pelos motivos expostos e por considerar não se tratar de matéria que demande conhecimento técnico especializado fora do campo de atuação deste Conselho, nos termos do art. 29 do Decreto nº 70.235, de 1972, que permite à autoridade julgadora, na apreciação das provas, formar livremente sua convicção, podendo indeferir o pedido de perícia/diligência que entender desnecessário. Fl. 2492DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.338 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.731468/2015-32 20 Conclusão Baseado em todo o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Mário Hermes Soares Campos Fl. 2493DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10930.908044/2016-16
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2014 a 30/06/2014
INSUMO. CONCEITO. REGIME NÃO CUMULATIVO. STJ, RESP 1.221.170/PR).
O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial no 1.221.170/PR).
EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE
As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR
CRÉDITO SOBRE FRETES. TRANSPORTE DE INSUMOS DESONERADOS. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF 188.
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições.
TRATAMENTO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE
É legítima a tomada de crédito da contribuição não-cumulativa em relação ao custo de bens e serviços aplicados no tratamento de resíduos sólidos necessários à recuperação do meio ambiente dado que esses serviços são aplicados ou consumidos diretamente na produção de bens destinados à venda.
Numero da decisão: 3202-002.920
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas dos créditos sobre (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235, (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial.
Assinado Digitalmente
Juciléia de Souza Lima – Relatora
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: JUCILEIA DE SOUZA LIMA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas dos créditos sobre (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235, (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
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CONCEITO. REGIME NÃO CUMULATIVO. STJ, RESP 1.221.170/PR). O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial no 1.221.170/PR). EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR CRÉDITO SOBRE FRETES. TRANSPORTE DE INSUMOS DESONERADOS. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. TRATAMENTO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE É legítima a tomada de crédito da contribuição não-cumulativa em relação ao custo de bens e serviços aplicados no tratamento de resíduos sólidos necessários à recuperação do meio ambiente dado que esses serviços são aplicados ou consumidos diretamente na produção de bens destinados à venda. Fl. 624DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas dos créditos sobre (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235, (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário contra o indeferimento de Pedido de Ressarcimento Eletrônico- PER nº 15509.33349.180814.1.1.19-6708), cumulado com Declaração de Compensação Eletrônica (DCOMP), de crédito de Cofins apurado na sistemática não cumulativa, vinculado a receita não tributada no mercado interno e a receita de exportação, no valor de R$2.845.340,13, relativo ao 2º trimestre de 2014, no qual houve o deferimento parcial do creditório no montante de R$34.140,57. Na Informação Fiscal a autoridade tributária informa que a pessoa jurídica é uma cooperativa tendo como atividade a fabricação de laticínios. E que grande parte da receita não é tributada, face redução da alíquota a zero (Lei nº 10.925/2004, art. 1º, incisos XI, XII, XIII e XXIV) e suspensão do leite in natura (art. 9º, inciso II, da mesma Lei). Fl. 625DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 3 Ressalta que a Recorrente usa o método de rateio proporcional e que os valores dos pedidos de ressarcimentos são compatíveis com os valores dos créditos informados na EFD- Contribuições. Constatou ainda a fiscalização que as receitas de exportação declaradas são compatíveis com os valores das exportações registradas no SISCOMEX, houve a confirmação da regularidade cadastral dos principais fornecedores da contribuinte, bem como, a compatibilidade entre os valores das NFe e dos CTe emitidos pelos principais fornecedores com os valores escriturados e que a contribuinte não utilizou o crédito requerido em deduções/descontos ou em outro pedido de ressarcimento. Da auditoria das informações prestadas na Escrituração Fiscal Digital – EFD- Contribuições e das informações prestadas pela contribuinte, apurou-se irregularidades, sendo assim, houve as seguintes glosas: 1- AQUISIÇÃO DE BENS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS: 1.a- Combustíveis (álcool e gasolina); 1.b – Embalagens para transporte; 1.c - Fretes 1.c.i- Frete na aquisição de insumos (leite cru) 1.c.ii- Despesas com Armazenagem, Frete na operação de venda não comprovados (CST 51) e Frete interno entre estabelecimentos (Remessa e retorno para industrialização e Remessa e Retorno para armazenagem) 1.c.iii- Frete de produtos acabados 2- SERVIÇOS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS: 2.a- Serviços de análise laboratorial; 2.b- Tratamento de resíduos industriais; 2.c- Carregamento de produtos acabados; 2.d- Controle de Pragas na indústria Cientificada, a Recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade, a qual foi julgada parcialmente procedente pela 31ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento para reconhecer o crédito adicional de R$ 38.800,34, formalizada através do acórdão 108-034.908, assim ementado: Fl. 626DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 4 Assunto: Contribuição para o PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2014 a 30/06/2014 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça nº Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para o processo de produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica, cujas despesas restem devidamente comprovadas. Nas hipóteses em que for possível que o mesmo bem ou serviço seja considerado insumo gerador de créditos para algumas atividades e não o seja para outras, é necessário que a pessoa jurídica realize rateio fundamentado em critérios racionais e devidamente demonstrado em sua contabilidade para determinar o montante de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurável em relação a cada bem, serviço ou ativo, discriminando os créditos em função da natureza, origem e vinculação, a teor de rateio já previsto na legislação antes mesmo da ampliação do conceito de insumos trazido pelo julgamento do STJ. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMO. Somente podem ser considerados insumos bens e serviços aplicados nº processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços a terceiros. Havendo insumos em todo o processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviços, permite-se a apuração de créditos das contribuições em relação a insumos necessários à produção de um bem- insumo utilizado na produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros(insumo do insumo). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. COMBUSTÍVEIS. Consideram-se insumos combustíveis e lubrificantes consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos responsáveis por qualquer etapa do processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. EMBALAGEM. Fl. 627DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 5 Não são consideradas insumos as embalagens utilizadas no transporte de produtos acabados. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. FRETE. MERCADORIAS E INSUMOS. É cabível a apropriação de crédito em relação às despesas de frete nas operações de venda, desde que se trate de bens para revenda ou de bens produzidos ou fabricados pelo vendedor e que o ônus seja suportado pelo vendedor. Referida hipótese não abrange a transferência de mercadoria entre estabelecimentos da pessoa jurídica, pois se trata de etapa anterior à venda propriamente dita. É vedado o crédito a título de insumo com o frete relativo a transferência de produto acabado em ou entre estabelecimentos da pessoa jurídica. A parcela do frete sujeita ao pagamento das contribuições, que integra o custo de aquisição do insumo não tributado (suspensão, alíquota zero ou não incidência), inclusive, concede direito ao crédito com o respectivo transporte. Já o frete não sujeito ao pagamento das contribuições, que integra o custo de aquisição do insumo, não concede direito ao crédito com o respectivo transporte. A falta de comprovação da tributação do frete incorrido na aquisição de produto não tributado impede a admissão do creditamento. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/07/2014 a 30/09/2014 DECISÕES JUDICIAIS E ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. As decisões judiciais e administrativas relativas a terceiros não possuem eficácia normativa, uma vez que não integram a legislação tributária de que tratam os artigos 96 e 100 do Código Tributário Nacional. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. COMPETÊNCIA. A apreciação de questionamentos relacionados à validade, legalidade e constitucionalidade de dispositivos que integram a legislação tributária não se insere na competência da esfera administrativa, sendo exclusiva do Poder Judiciário. INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF Nº 247/02 E Nº 404/04. LEGALIDADE. MATÉRIA JULGADA NO ÂMBITO DE RECURSO REPETITIVO PELO STJ. Fl. 628DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 6 Declarada pelo Superior Tribunal de Justiça - STJ, em sede de recurso repetitivo, a ilegalidade das IN SRF nº 247/02 e nº 404/04, adotam-se as balizas constantes do correspondente julgado (REsp nº 1.221.170/PR), da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, de 26/09/2018, e do Parecer Normativo Cosit/RFB nº 05, de 17/12/2018, no que concerne ao conceito de insumo. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/07/2014 a 30/09/2014 PROVA. A prova documental deve ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade, a menos que demonstrado, justificadamente, o preenchimento de um dos requisitos constantes do art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235, de 1972, o que não se logrou atender neste caso. PERÍCIA. Indefere-se o pedido de perícia quando presentes nos autos elementos capazes de formar a convicção do julgador, bem como quando não preenchidos os requisitos legais previstos para sua formulação. ÔNUS DA PROVA. CRÉDITO NA SISTEMÁTICA NÃO CUMULATIVA. É da contribuinte o ônus probatório da legitimidade dos créditos, eis que, ao descontá-los das contribuições devidas, reduz, em seu benefício, os valores das contribuições a pagar. E o momento oportuno de se fazer a prova necessária é na manifestação de inconformidade. Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte Inconformada, a Recorrente apresenta Recurso Voluntário ao CARF, no qual pugna pela homologação integral do crédito pleiteado. Em suma, é o Relatório. VOTO Conselheira Juciléia de Souza Lima, Relatora O Recurso é tempestivo, bem como, atende aos demais pressupostos para sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Fl. 629DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 7 Ante a inexistência da arguição de preliminares, passo a analisar o mérito. DO MÉRITO Do conceito de insumo e o RESP 1.221.170/PR Para interpretar o conceito de insumo, entendo por bem registrar que o conceito de insumo para fins de creditamento do PIS e da COFINS deve tomar como base a decisão proferida no RESP 1.221.170. É sabido que em fevereiro de 2018, a 1ª Seção do STJ ao apreciar o Resp 1.221.170 definiu, em sede de repetitivo, decidiu pela ilegalidade das instruções normativas 247 e 404, ambas de 2002, sendo firmada a seguinte tese: “(a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte”. No resultado final do julgamento, o STJ adotou interpretação intermediária, considerando que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, pretendeu-se que seja considerado insumo o que for essencial ou relevante para o processo produtivo ou à atividade principal desenvolvida pela empresa. Vejamos excerto do voto da Ministra Assusete Magalhães: “Pela perspectiva da zona de certeza negativa, quanto ao que seguramente se deve excluir do conceito de ‘insumo’, para efeito de creditamento do PIS/COFINS, observa-se que as Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 trazem vedações e limitações ao desconto de créditos. Quanto às vedações, por exemplo, o art. 3º, §2º, de ambas as Leis impede o crédito em relação aos valores de mão de obra pagos a pessoa física e aos valores de aquisição de bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições. Já como exemplos de limitações, o art. 3º, §3º, das referidas Leis estabelece que o desconto de créditos aplica-se, exclusivamente, em relação aos bens e serviços adquiridos de pessoas jurídicas domiciliadas no País e aos custos e despesas pagos ou creditados a pessoas jurídicas também domiciliadas no território nacional.” Restou pacificada no STJ a Fl. 630DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 8 tese que: “o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte”. O conceito de insumo também foi consignado pela Fazenda Nacional, vez que, em setembro de 2018, publicou a NOTA SEI PGFN/MF 63/2018, in verbis: "Recurso Especial nº 1.221.170/PR Recurso representativo de controvérsia. Ilegalidade da disciplina de creditamento prevista nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004. Aferição do conceito de insumo à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Tese definida em sentido desfavorável à Fazenda Nacional. Autorização para dispensa de contestar e recorrer com fulcro no art. 19, IV, da Lei n° 10.522, de 2002, e art. 2º, V, da Portaria PGFN n° 502, de 2016. Nota Explicativa do art. 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 01/2014." A Nota clarifica e orienta, internamente, a definição do conceito de insumos na “visão” da Fazenda Nacional: “41. Consoante se observa dos esclarecimentos do Ministro Mauro Campbell Marques, aludindo ao “teste de subtração” para compreensão do conceito de insumos, que se trata da “própria objetivação segura da tese aplicável a revelar a imprescindibilidade e a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto tal método não esteja na tese firmada, é um dos instrumentos úteis para sua aplicação in concreto. 42. Insumos seriam, portanto, os bens ou serviços que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços e que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção, ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. 43. O raciocínio proposto pelo “teste da subtração” a revelar a essencialidade ou relevância do item é como uma aferição de uma “conditio sine qua non” para a produção ou prestação do serviço. Busca-se uma eliminação hipotética, suprimindo-se mentalmente o item do contexto do processo produtivo atrelado à atividade empresarial desenvolvida. Ainda que se observem despesas importantes para a empresa, inclusive para o seu êxito no mercado, elas não são necessariamente essenciais ou relevantes, quando analisadas em cotejo Fl. 631DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 9 com a atividade principal desenvolvida pelo contribuinte, sob um viés objetivo." Com tal nota, restou claro, assim, que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou obste a atividade principal da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. Tal ato ainda reflete que o “teste de subtração” deve ser utilizado para fins de se definir se determinado item seria ou não essencial à atividade do sujeito passivo. Eis o item 15 da Nota PGFN: “15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. 16. Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. 17. Observa-se que o ponto fulcral da decisão do STJ é a definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo. É o raciocínio que decorre do mencionado “teste de subtração” a que se refere o voto do Ministro Mauro Campbell Marques.” Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente - cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. Com efeito, o conceito de insumo a ser utilizado nesse voto será a sua relação direta com o processo produtivo. Feitos os devidos comentários, passemos à análise do presente do caso. 1- DAS GLOSAS Segundo a fiscalização, com base na descrição da mercadoria adquirida, excluiu-se diversas aquisições da base de cálculo do crédito, por entender a Fiscalização que não correspondem ao conceito de insumo. Tratam-se das seguintes glosas: Fl. 632DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 10 AQUISIÇÕES DE BENS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS: 1.a- Combustíveis (álcool e gasolina) Entendeu a fiscalização, ratificado pelo julgador de piso, que as despesas com combustíveis e lubrificantes são consideradas insumos quando aplicados em veículos utilizados em qualquer etapa do processo produtivo, tal como nº transporte dos insumos de produção entre estabelecimentos da empresa para o processo produtivo. No presente caso, a glosa se deu porque trata-se de despesas com combustíveis utilizados em veículos de vendedores da área comercial. A Recorrente opõe-se a tais glosas, afirmando que os bens desconsiderados pela fiscalização têm ligação com o processo produtivo. No presente tópico recursal, não há reforma a fazer, pois, a meu entender, dispêndios com combustíveis utilizados na área comercial não podem ser considerados insumos para fins de tomada de crédito das contribuições por não serem elementos inseparáveis do processo produtivo, em outros termos, não integram o processo de produção da Recorrente, nem pela singularidade do processo produtivo nem por disposição legal, portanto, mantenho hígidas as respectivas glosas. 1.b – Embalagens para transporte Foram glosados os créditos com caixas de Papelão, caixa shirink, cantoneira de papelão, chapa de papelão, filme strech, fita adesiva e película polietileno contrátil, porque utilizados para acondicionamento dos produtos que já estão em sua embalagem de apresentação, objetivando transporte, não gerando crédito a título de insumo. Em sua defesa, esclarece a contribuinte tratar-se de embalagem para transporte de produtos embalados individualmente, que devem necessariamente ser acondicionados em embalagens maiores, sob pena de ser tornar impossível - do ponto de vista físico - o transporte dos produtos. Por sua vez, alega a fiscalização, que por não se tratar de embalagem de apresentação, mas sim embalagem de transporte, não há como tomar crédito sobre tais dispêndios. Aqui entendo que não assiste razão o julgador de piso. Pois as embalagens são utilizadas no transporte das mercadorias, sendo que essas têm por fito a preservação e acondicionamento de alimentos, como é o presente caso, entendo que tais embalagens revestem- se da condição da essencialidade, um dos pressupostos do creditamento. Salienta-se que o processo de produção de bens, em regra, encerra-se com a finalização das etapas produtivas do bem e que o processo de prestação de serviços, geralmente, se encerra com a finalização da prestação ao cliente. Fl. 633DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 11 Consequentemente, os bens e serviços empregados, mesmo que, posteriormente à finalização do processo de produção ou de prestação não são considerados insumos, salvo exceções justificadas, como ocorre com os itens exigidos para que o bem ou serviço produzidos possam ser comercializados. Por conseguinte, gize-se, só dão direito a crédito com gastos de embalagens quando indispensáveis as mesmas para a manutenção, preservação e qualidade do produto, como é o presente caso. Aqui merecem as glosas serem revertidas. 1.c – DOS FRETES 1.c.i- Frete na aquisição de insumos (leite cru) não sujeitos ao pagamento das contribuições Como relatado, a cooperativa tem por atividade a fabricação de laticínios e aufere receita não tributada pela suspensão (leite in natura – art. 9º, II, da Lei nº 10.925/04) e pela alíquota zero (Leite pasteurizado ou industrializado, leite em pó, bebidas lácteas, queijos, soro de leite fluido, manteigas etc. – art. 1º, XI, XII, XIII e XXIV da Lei nº 10.925/04). No que cerne ao direito a tomar crédito sobre aquisições de insumos (leite cru) não sujeitos ao pagamento das contribuições, entendeu a fiscalização que não há crédito em relação a bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições. A fiscalização argumentou a existência de previsão legal para apuração de créditos sobre fretes apenas e tão somente se relacionados com operações de venda e se suportados pelo vendedor, nos termos do art. 3º, IX, e art. 15, II, da Lei n. 10.833/2003. No entanto, sustentou a possibilidade de inclusão dos valores dispendidos com frete na aquisição de insumos, já que essa despesa comporá o custo de aquisição do produto. Para que isso seja possível a fiscalização aduz que o frete esteja submetido à tributação e, além disso, é necessário que o bem adquirido também dê direito à apuração de crédito. Assim, o frete é um acessório, não sendo possível a apuração de um crédito como uma despesa autônoma. Portanto, o frete, por ser custo de aquisição do insumo, assume a mesma natureza deste, não podendo ser admitido o crédito se o custo do bem adquirido não pode ser inserido na base de cálculo dos créditos. Com a devida vênia, divirjo do acórdão recorrido e da fiscalização, existe um equívoco de interpretação cometido pelo julgador de piso, pois as despesas comerciais com armazenagem e fretes na operação de venda têm disciplina própria prevista no art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/2003, não estando vinculadas a um outro direito de crédito, existem por si, melhor explicando, não são acessórios de nada, simplesmente, por conta de previsão legal expressa, independentemente, do tratamento tributário dado à mercadoria comercializada. Fl. 634DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 12 É de se registrar que apesar do produto não ser sujeito a tributação de PIS e COFINS ou ser submetido ao crédito presumido, o frete é tributado, o serviço de transporte prestado pela transportadora contratada pela contribuinte será tributado em PIS/COFINS devido por aquela, sobre o valor pago pela Recorrente. O valor aqui creditado será lá tributado, mantendo a lógica da não cumulatividade, no momento em que o creditamento aqui é negado e a tributação lá é mantida, quebra-se, sem fundamento legal, a não cumulatividade prevista na Lei nº 10.833/03. Por tais razões, reverto as glosas de créditos das contribuições em tela referentes aos serviços de frete contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. 1.c.ii- Despesas com Armazenagem e Fretes na operação de venda não comprovados (CST 51) e fretes internos (Frete de remessa e retorno para industrialização e de remessa e retorno para armazenagem) Aqui, neste tópico recursal, trata-se de matéria de provas. Ratificado pela julgador de piso, a fiscalização glosou créditos decorrentes de despesas com fretes na operação de venda não comprovados (CST 51) e frete interno (remessa e retorno para industrialização e remessa e retorno para armazenagem). A fiscalização efetuou a glosa da diferença entre o valor informado na memória de cálculo e aquele constante da EFD-Contribuições a título de despesas de armazenagem e frete na operação de venda (CST 51), diante da falta de comprovação. Ainda, glosou o frete entre estabelecimentos da pessoa jurídica por entender que é autorizado o crédito, somente, com o frete nas operações de venda, quando o ônus tenha sido suportado pelo vendedor. Em sua defesa, alega a Recorrente que operações de venda nem sempre são diretas, havendo necessidade de que os produtos ou mercadorias sejam transferidos ou remetidos para filiais ou centros de distribuição. Acerca da parcela não comprovada, o acórdão recorrido enfatiza que nenhum documento probatório foi apresentado pela contribuinte em sua defesa, que se limitou a alegar inexistir diferenças entre os valores informados na EFD-Contribuições e aqueles contidos na memória de cálculo, mas apenas uma confrontação de valores de forma equivocada. Alega que a fiscalização não aceitou a destinação dos insumos e a utilização dos serviços prestados no processo produtivo relacionando documentos de forma aleatória em planilha eletrônica, mas a contribuinte sequer aponta quais insumos e serviços que julga terem sido indevidamente desconsiderados pela fiscalização. Ademais, a rubrica em questão não trata de insumos, mas de despesas de armazenagem e frete na operação de venda, cuja previsão de apropriação de crédito é específica, constante do art. 3º, IX, c/c art. 15, II, da Lei nº 10.833/2003, distinta daquela prevista Fl. 635DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 13 para bens e serviços utilizados como insumos (art. 3º, II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003). Daí, reitera o julgador de piso que ônus da prova é da contribuinte, cabendo a ela comprovar o seu direito creditório e que a prova deve ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade. Ratificando o acórdão recorrido, a glosa se deu por ausência de provas da efetividade das operações. Todavia, a demonstração da certeza e liquidez do crédito tributário é condição sine qua non para que a Autoridade Fiscal possa apurar o direito pleiteado. Daí, se ausentes os elementos probatórios que evidenciem o direito pleiteado pela Recorrente, não há outro caminho que não seja seu não reconhecimento, conforme inteligência do inciso VII, §3º do art. 74 da Lei 9.430/1996: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 3º- Além das hipóteses previstas nas leis específicas de cada tributo ou contribuição, não poderão ser objeto de compensação mediante entrega, pela sujeito passivo, da declaração referida no §1º: VII- o crédito objeto de pedido de restituição ou ressarcimento e o crédito informado em declaração de compensação cuja confirmação de liquidez e certeza esteja sob procedimento fiscal; Não há como afastar a regra contida nos art. 170 do CTN, impõe-se como imperioso a necessidade de comprovação da certeza e liquidez do crédito tributário para validação da compensação do crédito tributário. Por iguais razões acima exposta, ou seja, por ausência de comprovação de efetividade das operações, também mantenho hígidas tais glosas com despesas com armazenagem e fretes interno entre estabelecimentos (Remessa e retorno para industrialização e Remessa e Retorno para armazenagem). 1.c.iii- Frete entre estabelecimentos de produtos acabados No que se refere as glosas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da cooperativa, tal questão não merece maiores digressões, merecendo aplicar ao tema a Súmula CARF nº 217: Fl. 636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 14 Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Portanto, mantenho as glosas. 2- SERVIÇOS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS: 2.a- Serviços de análise laboratorial No que se refere ao serviço de análise laboratorial de matéria-prima e produto acabado, a contribuinte ali descreveu genericamente o serviço prestado, bem como a sua utilidade a título de insumo para a fabricação dos produtos (análise laboratorial de produto), por isso, a fiscalização procedeu a glosa do respectivo crédito. Entretanto, tais glosas merecem ser revertidas, sobretudo, considerando a atividade produtiva da recorrente, na qual se evidencia a relevância e essencialidade do insumo para o seu processo produtivo. Por isso, reverto tais glosas. 2.b- Tratamento de resíduos industriais Segundo o entendimento da fiscalização, ratificado pelo julgador de piso, a glosa do tratamento de resíduos industriais ocorre posteriormente ao processo produtivo e sendo assim, não seria essencial ou relevante ao processo de produção. A meu sentir, tais glosas merecem ser revertidas dado que adequado tratamento e descarte de resíduos é exigível para o cumprimento de normas ambientais, bem como, necessários sob o ponto de vista de proteção ao meio ambiente. Reverto as glosas referente às despesas com tratamento de resíduos industriais. 2.c- Carregamento de produtos acabados (serviços de carga e descarga) Segundo o entendimento da fiscalização, ratificado pelo julgador de piso, a glosa com despesas com carregamento de produtos acabados (serviços de carga e descarga) ocorrem posteriormente ao processo produtivo e sendo assim, não seria essencial ou relevante ao processo de produção. Entretanto, compulsando-se os autos, no presente recurso, não há impugnação específica para presente glosa, portanto, não conheço do presente tópico recursal. 3- Do julgamento em conjunto Fl. 637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908044/2016-16 15 Pleiteia o contribuinte o julgamento em conjunto dos Processos 10930.908045/2016-52; 10930.908041/2016-74; 10930.908042/2016-19; 10930.908046/2016-05; 10930.908047/2016-41; e 10930.908048/2016-96. Nesta Sessão de Julgamento, estão sendo julgados todos os processos que a mim foram distribuídos para relatar. Por fim, ante todo exposto, voto por conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as seguintes glosas: (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235; (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições; e (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial. É o voto. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima Fl. 638DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10860.720967/2016-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Sep 15 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013
EXCLUSÃO DO SIMPLES. DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL PREVIDENCIÁRIO.
O foro adequado para discussão acerca da exclusão da empresa do Simples é o respectivo processo instaurado para esse fim. Descabe em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário previdenciário rediscussão acerca dos motivos que conduziram à expedição do Ato Declaratório Executivo e Termo de Exclusão do Simples.
Numero da decisão: 2402-013.155
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário interposto.
Assinado Digitalmente
João Ricardo Fahrion Nüske – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Duarte Firmino – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Gregorio Rechmann Junior, Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcelo Valverde Ferreira da Silva(substituto[a] integral), Marcus Gaudenzi de Faria, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente)
Nome do relator: JOAO RICARDO FAHRION NUSKE
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DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL PREVIDENCIÁRIO. O foro adequado para discussão acerca da exclusão da empresa do Simples é o respectivo processo instaurado para esse fim. Descabe em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário previdenciário rediscussão acerca dos motivos que conduziram à expedição do Ato Declaratório Executivo e Termo de Exclusão do Simples. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário interposto. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Gregorio Rechmann Junior, Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcelo Valverde Ferreira da Silva(substituto[a] integral), Marcus Gaudenzi de Faria, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente) Fl. 438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 2 RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto nos autos do processo nº 10860.720967/2016-19, em face do acórdão nº 01-33.719, julgado em sessão realizada em 17 de dezembro de 2009, na qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: 1. O presente processo administrativo, lavrado pela Fiscalização contra a empresa antes qualificada, é constituído pelos Autos de Infração a seguir descritos, formalizados com base nos mesmos elementos de prova: • Auto de Infração nº 51.060.161-8 - (fls. 08/26) no montante de R$ 282.360,68 (duzentos e oitenta e dois mil, trezentos e sessenta reais e sessenta e oito centavos), referente às contribuições devidas à Seguridade Social, da parte da empresa, e para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho (GILRAT), incluindo juros e multa, abrangendo o período 01/2012 a 13/201, consolidado em 29/08/2016; • Auto de Infração nº 51.060.162-6 - fls. 27/37) , relativo às contribuições destinadas às Outras Entidades e Fundos – Terceiros (SALÁRIO EDUCAÇÃO, INCRA, SESC/ SENAC, e SEBRAE), no montante de R$ 57.353,82 (cinquenta e sete mil, trezentos e cinquenta e três reais, oitenta e dois centavos), incluindo juros e multa, abrangendo o período 01/2012 a 13/201, consolidado em 29/08/2016; • Auto de Infração nº 51.060.163-4 (fls. 38) , por infração ao artigo n°. 33, § 2°, 3° e 8°, da Lei n° 8.212 de 24/07/91, com a redação dada pela MP n° 449/2008, convertida na Lei n° 11.941/2009, combinado com os artigos n° 232 e 233 do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048, de 06/05/1999, por ter apresentado os Livros Caixa anos - calendários de 2012 e 2013, com omissões das escriturações referentes às operações bancárias e os recebimentos envolvendo operações com cartões de crédito, código de fundamentação legal (CFL) 38, no montante de R$ 64.290,33(sessenta e quatro mil, duzentos e noventa reais, trinta e três centavos). Observa-se que o crédito fiscal foi apurado com base nas remunerações dos segurados e contribuinte individual nas competências 01/2012 a 12/2013) a serviço da empresa, informadas, pelo próprio sujeito passivo, nas Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O Relatório Fiscal – REFISC de fls. 39 a 96, comum aos três Autos de Infração, informa, em síntese, que: - Em preliminar cumpre ressaltar que a presente ação fiscal objetivou de princípio o lançamento das contribuições patronais, Gilrat e aquelas destinadas a terceiros, Fl. 439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 3 incidentes apenas sobre as remunerações declaradas pelo contribuinte, que se auto proclamou, indevidamente, como optante do regime tributário diferenciado denominado Simples Nacional. Nesse contexto, constituem-se em fatos geradores das Obrigações Principais do lançamento fiscal, os pagamentos de remunerações doravante denominadas Bases de Cálculos ou Salários de Contribuições, transferidos a trabalhadores empregados e/ou contribuintes individuais, que, ainda que as suas remunerações tenham sido declaradas em GFIPs, NÃO FORAM OFERECIDOS À TRIBUTAÇÃO INTEGRAL, pelas razões que serão expostas a seguir, em razão de declaração incorreta ou inexata. O contribuinte auditado declarou a condição de optante pelo Simples Nacional, ao informar, em todas as GFIPs do período auditado, no campo "Opção pelo SIMPLES", o código "2", quando deveria ter utilizado o indicador "1". Com esta informação indevida, o sistema GFIPWEB considerou-o como pertencente ao SIMPLES NACIONAL, inibindo, automaticamente, o cálculo das contribuições patronais e, também, aquelas devidas a outras entidades e fundos (Terceiros), calculando, apenas, a contribuição previdenciária descontada dos segurados empregados e dos contribuintes individuais. Conforme se depreende das telas "Simples Nacional -Consulta Histórico", extraídas do sistema corporativo "Simples Nacional", pode-se afirmar, com absoluta certeza, que o contribuinte auditado em nenhum momento foi optante do Simples Nacional nos anos calendários de 2012 e 2012. O campo "Detalhamento das Solicitações de Opção pelo Simples Nacional", da tela anexada, confirma que a solicitação de adesão para o ano de 2012, formulada em 20/01/2012, às 17:04:05 foi INDEFERIDA em 11/02/2012, com a situação "Indeferido por problemas fiscais". Da mesma forma, para o ano de 2013, a solicitação de adesão formulada em 24/01/2013, às 09:33:37 foi INDEFERIDA em 11/02/2013, pela mesma razão: "Indeferido por problemas fiscais", conforme cópias anexadas como Doc. AOP 01, e recortes parciais abaixo. Note-se quem em 29/02/2012 o contribuinte alegou que todas as pendências estavam regularizadas, mas nos termos do Acórdão, em consulta realizada mais de dois anos depois, em 19/03/2014, ainda persistiam débitos previdenciários, de IRPJ (código 2089) e débito inscrito em Dívida Ativa da União de SIMPLES (código 8 822). Apenas mais um sofisma que foi prontamente descontruído pelo julgador, mas que se prestou ao seu intento de procrastinação e criação de um recurso artificioso de "estar amparado por uma contenda ainda não decidida". O processo encontra-se arquivado desde 26/06/2014 nos termos do despacho de fls. 90: "Tendo em vista que a empresa tomou ciência do Acórdão que considerou a manifestação de inconformidade improcedente e não apresentou recurso voluntário até a presente data, encaminhe-se o e-processo ao Arquivo Único". A comunicação do acórdão se deu através da Comunicação n° 59/2014, ciência efetivada em 14/05/2014. Fl. 440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 4 No exercício de 2013, consoante demonstram as telas anexadas (AOP_01), procedeu da mesma forma. Apresentou novo pedido de adesão, também indeferido, em 24/01/2013, pelos mesmos motivos. Não foi apresentado pela PJ ou localizado nos sistemas da RFB, qualquer registro de contestação/impugnação para esse indeferimento de 2013. Em que pese a clareza da legislação e os sucessivos indeferimentos, o contribuinte persistiu em enviar as suas informações declaratórias relativas aos anos de 2012/2013 como se estivesse aderido e plenamente habilitado ao sistema simplificado. Poder-se-ia alegar, apenas para argumentar quanto ano de 2012, que o mesmo ainda não havia sido cientificado do Acórdão de indeferimento. No entanto, tal justificativa não se sustentaria, pois mesmo após a ciência da decisão de improcedência da manifestação de inconformidade, ocorrida em 14/05/2014, NÃO houve, por parte do contribuinte, qualquer solicitação de regularização ou retificação das GFIPs, relativas ao período de 2012/2013. Das Multas Com relação às multas aplicadas nos Autos de Infrações, cabe esclarecer que a Medida Provisória n° 449, de 03/12/2008, convertida na Lei n° 11.941, de 27/05/2009, alterou o art. 35 da Lei n° 8.212/91 e inseriu o art. n° 35-A na mesma Lei. Desta forma, a previsão legal de aplicação da multa em lançamentos de ofício, bem como, da sua qualificação, encontra-se contida no referido artigo n° 44 da Lei n° 9.430/96. Portanto, a hipótese de qualificação, com a duplicação da multa, encontra-se nos citados artigos n° 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/1964: Diante das previsões legais aplicadas à situação fática verificada durante a ação fiscal, configuram-se como elementos materializadores da aplicação e da majoração das multas, as condutas e fatos a seguir reportados a)A falta de pagamento ou recolhimento; b)A falta de declaração, caracterizada pela declaração INEXATA, indevida e incorreta de opção ao Simples;(vide Anexo III e Doc. AOP_02)Na esteira dos fatos até aqui expostos, constata-se que o contribuinte, a um, prestou ao Fisco declarações contraditórias e falsas; e a dois, omitiu informações obrigatórias em livros e instrumentos fiscais declaratórios; condutas que, EM TESE, configuram a prática de ilícitos previstos nas legislações previdenciária e penal e que, por imposição vinculada, implicaram na formalização de várias Representações Fiscais, Administrativas e para Fins Penais, objetivando a devida comunicação às autoridades competentes. DO AUTO DE INFRAÇÃO DEBCAD N° 51.060.163-4- CFL 38 Com relação ao descumprimento de obrigações de cunho acessório, o contribuinte foi autuado, através do Auto de Infração de Obrigações Acessórias - AIOA n° 51.060.163-4, por infração ao artigo n°. 33, § 2°, 3° e 8°, da Lei n° 8.212 de 24/07/91, com a redação dada pela MP n° 449/2008, convertida na Lei n° 11.941/2009, combinado com os artigos n° 232 e 233 do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048, de 06/05/1999, por ter Fl. 441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 5 apresentado os Livros Caixa anos -calendários de 2012 e 2013, com omissões das escriturações referentes às operações bancárias e os recebimentos envolvendo operações com cartões de crédito, discriminados no tópico "VII - DA OMISSÃO DE RECEITAS E DE OPERAÇÕES BANCÁRIAS", exigência prevista na Lei n° 123/1996(art. 26, II e 29, VIII) e no Decreto n° 3000/1999 (art. 190, I). Da análise de tudo o quanto foi exposto neste relatório, e, em especial das exposições contidas no tópico "VIII - DAS AÇÕES ILÍCITAS E SUAS TIPIFICAÇÕES", restam, plenamente, configuradas as circunstâncias agravantes previstas no artigo nº 290, II do Decreto n° 3.048/1999. Em face da competência estabelecida no art. 293 do Regulamento da Previdência Social -RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048/99, foi aplicada a multa prevista nos artigos 92 e 102 da Lei n. 8.212/91 e artigo 283, inciso II, alínea "j" e artigo n° 373 do Regulamento da Previdência Social (Decreto n.º 3.048/99), cujo valor encontra-se definido pela Portaria Interministerial MTPS/MF N° 1 DE 08/01/2016, elevada em três vezes, conforme inciso II, do artigo n. 292, considerando a existência da circunstância agravante prevista no artigo 290, II, atingindo o valor de R$ 64.290,33 (Sessenta e quatro mil, duzentos e noventa reais e trinta e três centavos) Em julgamento a DRJ firmou a seguinte posição: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 AUTOs DE INFRAÇÃO (AI). FORMALIDADES LEGAIS. SUBSUNÇÃO DOS FATOS À HIPÓTESE NORMATIVA. Os Autos de Infração encontram-se revestidos das formalidades legais, tendo sido lavrados de acordo com os dispositivos legais e normativos que disciplinam o assunto, apresentando, assim, adequada motivação jurídica e fática, bem como os pressupostos de liquidez e certeza, podendo ser exigidos nos termos da Lei. Constatado que os fatos descritos se amoldam à norma legal indicada, deve o Fisco proceder ao lançamento, eis que esta é atividade vinculada e obrigatória. EXCLUSÃO DO SIMPLES. EFEITOS. A partir do momento em que operados os efeitos da exclusão, a pessoa jurídica excluída do Simples se sujeita às normas de tributação aplicáveis às demais pessoas jurídicas. Inexiste óbice à cobrança das contribuições patronais para o período em que a empresa foi excluída do SIMPLES por ato administrativo devidamente formalizado. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há cerceamento de defesa quando os Autos de Infração (AI´s) e seus anexos integrantes são regularmente cientificados ao sujeito passivo, sendo-lhe Fl. 442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 6 concedido prazo para sua manifestação, e quando estejam discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações, tendo sido observados todos os princípios que regem o processo administrativo fiscal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Sobreveio Recurso Voluntário alegando, em síntese que sua manutenção no SIMPLES foi objeto de impugnação É o relatório. VOTO Conselheiro João Ricardo Fahrion Nüske, Relator 1. DO NÃO CONHECIMENTO A parte recorrente centra a integralidade de sua defesa em argumentos referentes à opção pelo SIMPLES Nacional e sua indevida exclusão, bem como a suspensão da exigibilidade das contribuições ora em discussão, tendo em vista a existência de Processo Administrativo sobre a exclusão do SIMPLES (Processo nº 13881.720047/2012-17). Sustenta a nulidade da intimação realizada no processo sobre a exclusão do SIMPLES, bem como a extrapolação do prazo do art. 24 da Lei nº11.457/2007. Em que pese a argumentação, este Conselho possui precedentes no sentido do não conhecimento do recurso, seja pela análise da exclusão do SIMPLES em processo próprio, seja pelo lançamento preventivo da decadência, seja do sobrestamento do feito, conforme Acórdão nº 2401-008.339 proferido em 03.09.2020 pela 1ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara, da 2ª Seção de Julgamento: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/08/2007 SOBRESTAMENTO DO PROCESSO. INDEFERIMENTO DO PEDIDO. Tendo em vista que o processo que trata da exclusão da contribuinte do Simples Nacional já foi julgado por este CARF, o pedido não procede e o presente julgamento não deve ser sobrestado. EXCLUSÃO SIMPLES. ANÁLISE DE PROCESSO PRÓPRIO. PREVENÇÃO DA DECADÊNCIA. SÚMULA CARF 77. A constituição de auto de infração para apurar a exigência de tributo devido em razão de exclusão da empresa do regime do SIMPLES nacional, não implica em suspensão de processo administrativo fiscal, uma vez que o crédito ainda está Fl. 443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 7 sendo formalmente constituído, para aí sim se for o caso ser suspenso conforme análise da autoridade lançadora e das normas tributárias vigentes. O respectivo ato tem o condão de prevenir o lançamento, evitando-se a decadência. Ademais nos termos da Súmula CARF n° 77 “a possibilidade de discussão administrativa do Ato Declaratório Executivo (ADE) de exclusão do Simples não impede o lançamento de ofício dos créditos tributários devidos em face da exclusão”. QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO. O Supremo Tribunal Federal julgou, com repercussão geral (RE 601.314/SP), constitucionais os dispositivos da LC nº 105/2001 que permitem a Receita Federal obter dados bancários de contribuintes, fornecidos diretamente pelos bancos, sem prévia autorização judicial. EXCLUSÃO DO SIMPLES. DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL PREVIDENCIÁRIO. O foro adequado para discussão acerca da exclusão da empresa do Simples é o respectivo processo instaurado para esse fim. Descabe em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário previdenciário rediscussão acerca dos motivos que conduziram à expedição do Ato Declaratório Executivo e Termo de Exclusão do Simples. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. APRECIAÇÃO. INCOMPETÊNCIA. É vedado aos membros das turmas de julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Súmula CARF nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. SIMPLES NACIONAL. EMPRESA EXCLUÍDA. A empresa excluída do Simples Nacional deve recolher as contribuições previdenciárias devidas à Seguridade Social e aquelas por ela arrecadadas para terceiros, incidentes sobre os valores pagos a todos os segurados que lhe prestem serviços, nos termos da legislação vigente. Assim, não cabe no processo de cobrança de créditos decorrentes de contribuições sociais, discutir sobre a correção ou não da exclusão da empresa do SIMPLES Nacional. Desta forma, em não sendo cabível a referida discussão, entendo por não conhecer do recurso voluntário interposto. Conclusão Ante o exposto voto por não conhecer do recurso voluntário interposto. Fl. 444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.155 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10860.720967/2016-19 8 Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske Fl. 445DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 15504.721207/2020-70
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 12 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2016
PRELIMINAR DE NULIDADE. LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL.
O vício material diz respeito aos aspectos intrínsecos do lançamento e relaciona-se com a verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação, determinação da matéria tributável, o cálculo do montante do tributo devido e a identificação do sujeito passivo.
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. NÃO OCORRÊNCIA.
Não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica quando a receita é reclassificada para ser considerada rendimentos auferidos pela pessoa física.
OCORRÊNCIA DE DOLO.FRAUDE.SIMULAÇÃO.DECADÊNCIA.REGRA GERAL
Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Súmula CARF nº 72)
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA.DECADÊNCIA.REGRA GERAL
Lançamento de multa por descumprimento de obrigação acessória submete-se ao prazo decadencial previsto no art. 173, inciso I, do CTN. (Súmula Carf nº 174)
CONTRIBUIÇÃO PARA A SEGURIDADE SOCIAL E PARA TERCEIROS
São devidas as contribuições previdenciárias constatadas pela autoridade a partir da contratação fraudulenta de pessoas jurídicas na forma da lei.
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA – CFL 30 – DEIXAR A SOCIEDADE EMPRESÁRIA DE PREPARAR AS FOLHAS DE PAGAMENTOS DOS SERGURADOS EMPREGADOS
Deixar a empresa de preparar as folhas de pagamento relativas às remunerações dos segurados a seu serviço de acordo com os padrões e normas estabelecidos pela Receita Federal do Brasil constitui infração à legislação tributária.
MULTA QUALIFICADA.APLICAÇÃO
Em havendo fraude é devida a multa majorada nos termos da lei.
RETROATIVIDADE BENIGNA.POSSIBILIDADE
Tratando-se de lançamento não definitivamente julgado em instância administrativa a lei se aplica a fato pretérito quando lhe comine penalidade menos severa.
DECLARAÇÃO DE CONCORDÂNCIA COM OS FUNDAMENTOS DA DECISÃO DE ORIGEM
A fundamentação da decisão pode ser atendida mediante declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida.
Numero da decisão: 2402-013.088
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas; (ii) por voto de qualidade, rejeitar a prejudicial de decadência para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário interposto, reduzindo a multa qualificada aplicada ao patamar de 100%, vencidos os Conselheiros Gregorio Rechmann Junior (relator), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano que reconheceram a perda do direito de o Fisco constituir o crédito tributário até a competência 10/2015, inclusive, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN e, no mérito, deram provimento ao recurso voluntário interposto, cancelando-se o lançamento fiscal. Designado redator do voto vencedor o Conselheiro Rodrigo Duarte Firmino.
Assinado Digitalmente
Gregório Rechmann Junior – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Duarte Firmino – Presidente e Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Francisco Ibiapino Luz (substituto integral), Gregório Rechmann Junior, João Ricardo Fahrion Nüske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria e Rodrigo Duarte Firmino (presidente).
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL. O vício material diz respeito aos aspectos intrínsecos do lançamento e relaciona-se com a verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação, determinação da matéria tributável, o cálculo do montante do tributo devido e a identificação do sujeito passivo. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. NÃO OCORRÊNCIA. Não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica quando a receita é reclassificada para ser considerada rendimentos auferidos pela pessoa física. OCORRÊNCIA DE DOLO.FRAUDE.SIMULAÇÃO.DECADÊNCIA.REGRA GERAL Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Súmula CARF nº 72) OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA.DECADÊNCIA.REGRA GERAL Lançamento de multa por descumprimento de obrigação acessória submete-se ao prazo decadencial previsto no art. 173, inciso I, do CTN. (Súmula Carf nº 174) CONTRIBUIÇÃO PARA A SEGURIDADE SOCIAL E PARA TERCEIROS São devidas as contribuições previdenciárias constatadas pela autoridade a partir da contratação fraudulenta de pessoas jurídicas na forma da lei. Fl. 3176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 2 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA – CFL 30 – DEIXAR A SOCIEDADE EMPRESÁRIA DE PREPARAR AS FOLHAS DE PAGAMENTOS DOS SERGURADOS EMPREGADOS Deixar a empresa de preparar as folhas de pagamento relativas às remunerações dos segurados a seu serviço de acordo com os padrões e normas estabelecidos pela Receita Federal do Brasil constitui infração à legislação tributária. MULTA QUALIFICADA.APLICAÇÃO Em havendo fraude é devida a multa majorada nos termos da lei. RETROATIVIDADE BENIGNA.POSSIBILIDADE Tratando-se de lançamento não definitivamente julgado em instância administrativa a lei se aplica a fato pretérito quando lhe comine penalidade menos severa. DECLARAÇÃO DE CONCORDÂNCIA COM OS FUNDAMENTOS DA DECISÃO DE ORIGEM A fundamentação da decisão pode ser atendida mediante declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas; (ii) por voto de qualidade, rejeitar a prejudicial de decadência para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário interposto, reduzindo a multa qualificada aplicada ao patamar de 100%, vencidos os Conselheiros Gregorio Rechmann Junior (relator), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano que reconheceram a perda do direito de o Fisco constituir o crédito tributário até a competência 10/2015, inclusive, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN e, no mérito, deram provimento ao recurso voluntário interposto, cancelando-se o lançamento fiscal. Designado redator do voto vencedor o Conselheiro Rodrigo Duarte Firmino. Assinado Digitalmente Gregório Rechmann Junior – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente e Redator designado Fl. 3177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 3 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Francisco Ibiapino Luz (substituto integral), Gregório Rechmann Junior, João Ricardo Fahrion Nüske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria e Rodrigo Duarte Firmino (presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto em face da decisão da 13ª Turma da DRJ01, consubstanciada no Acórdão 101-008.133 (p. 2.881), que julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Na origem, trata-se de lançamento fiscal com vistas a exigir crédito tributário referente às contribuições previdenciárias devidas pela empresa para a SEGURIDADE SOCIAL e contribuição social para os TERCEIROS incidentes sobre as remunerações pagas aos prestadores de serviços pessoas naturais (sócias) por meio de notas fiscais emitidas por pessoas jurídicas (pejotização) não declarados na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações a Previdência Social – GFIP (autos de infração de p.p. 02 e 18, respectivamente). Foi lançada, também multa por descumprimento de obrigação acessória (p. 42), por ter a fiscalizada deixado de preparar a folha de pagamento das remunerações pagas a todos os segurados a seus serviços, de acordo com os padrões e normas estabelecidos pelo órgão competente da Seguridade Social. A multa de ofício foi qualificada, tendo em vista que a autoridade administrativa fiscal considerou a existência de fatos que se subsomem a pelo menos uma das previsões dos artigos 71, 72 e 73 da Lei 4502, de 1964. Cientificada do lançamento fiscal, a Contribuinte apresentou a sua competente defesa administrativa (p. 981), esgrimindo suas razões de defesa nos seguintes pontos, em síntese: (i) nulidade do lançamento por incompetência da autoridade fiscalizatória; (ii) nulidade do lançamento por erro material e por violação da garantia fundamental do devido processo legal; (iii) nulidade do lançamento por ausência de desconsideração da personalidade jurídica; (iv) nulidade do lançamento por existência de erros materiais no lançamento; (iv.i) erro material quanto à atribuição das alíquotas do RAT-FAP; (iv.ii) erro material quanto à mensuração das bases de cálculo atinentes aos lançamentos; Fl. 3178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 4 (v) decadência do lançamento fiscal em relação às competências de 01 a 11/2015; (vi) ausência da relação de emprego; (vii) ilegalidade da cobrança da multa qualificada; e (viii) dedução dos recolhimentos realizados pelas pessoas jurídicas contratadas. A DRJ julgou improcedente a impugnação, nos termos do susodito Acórdão nº 101- 008.133 (p. 2.881), conforme ementa abaixo reproduzida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2016 CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PARA A SEGURIDADE SOCIAL E PARA OS TERCEIROS. Há caracterização do sócio da pessoa jurídica como segurado empregado, quando há prestação de serviço do sócio de forma pessoal e na atividade fim da empresa tomadora, consequentemente afastar a empresa interposta e constituir o vínculo diretamente com o tomador de serviços. AUTO DE INFRAÇÃO. - CFL 30 - MULTA. DEIXAR A SOCIEDADE EMPRESÁRIA DE PREPARAR FOLHAS DE PAGAMENTOS A TODOS OS SEGURADOS A SEU SERVIÇO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a sociedade empresária de preparar folhas-de-pagamento das remunerações pagas ou creditadas a todos os segurados a seu serviço, de acordo com os padrões e normas estabelecidos pela Receita Federal do Brasil. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificada dos termos da decisão de primeira instância, a Contribuinte apresentou recurso voluntário (p. 2.944), reiterando, em síntese, os termos da impugnação. Ato contínuo, na sessão de julgamento realizada em 04/06/2024, este Colegiado baixou os presentes autos em diligência fiscal para que a Unidade do Origem informasse a existência de recolhimentos das contribuições exigidas por meio do presente PAF à época dos fatos. Em atenção ao quanto solicitado, foi emitida a Informação Fiscal de p. 3.135, em relação à qual, devidamente cientificada, a Contribuinte quedou-se inerte. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Gregório Rechmann Junior, Relator. Fl. 3179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 5 O recurso voluntário é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Deve, portanto, ser conhecido. Conforme exposto no relatório supra, trata-se o presente caso de lançamento fiscal com vistas a exigir crédito tributário referente a: 1 - Contribuição previdenciária da empresa e do empregador Auto de Infração (fls. 2 a 17) Infrações imputadas ao contribuinte: Valores pagos ou creditados a contribuintes individuais não oferecidos à tributação (aferição indireta); Rubricas a segurados empregados não oferecidas à tributação; GILRAT sobre rubricas de empregados não oferecidas à tributação; 2 - Contribuição para outras entidade e fundos Auto de Infração (fls. 18 a 40) Infrações imputadas ao contribuinte: INCRA FNDE SEBRAE SENAC SESC 3 - Multas Previdenciárias (CFL 30) Auto de Infração (fls. 42 a 44) Infrações imputadas ao contribuinte: Não preparo das folhas de pagamento das remunerações pagas ou creditadas a todos os segurados – arts. 92 e 102 da Lei 8212/91; 283, I, a, 292, II, III e IV, e 373 do Decreto 3.048/99. Em sua peça recursal, a Contribuinte esgrime suas razões de defesa nos seguintes pontos, em síntese: (i) nulidade do lançamento por incompetência da autoridade fiscalizatória; (ii) nulidade do lançamento por erro material e por violação da garantia fundamental do devido processo legal; Fl. 3180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 6 (iii) nulidade do lançamento por ausência de desconsideração da personalidade jurídica; (iv) nulidade do lançamento por existência de erros materiais no lançamento; (iv.i) erro material quanto à atribuição das alíquotas do RAT-FAP; (iv.ii) erro material quanto à mensuração das bases de cálculo atinentes aos lançamentos; (v) decadência do lançamento fiscal em relação às competências de 01 a 11/2015; (vi) ausência da relação de emprego; (vii) ilegalidade da cobrança da multa qualificada; e (viii) dedução dos recolhimentos realizados pelas pessoas jurídicas contratadas. Pois bem! Considerando que o presente processo era, incialmente, de relatoria da Conselheira Ana Cláudia Borges de Oliviera e que a mesma, na sessão de julgamento realizada em 02/2024, apresentou a íntegra o seu voto, estando as conclusões por si alcançadas, em linhas gerais, em consonância com o entendimento perfilhado por este Relator, em homenagem ao trabalho da referida conselheira, adoto suas razões de decidir, com as devidas modificações e/ou atualizações que se fizerem necessárias. 1. Preliminar de Nulidade - Devido Processo Legal A Administração Pública deve obediência, dentre outros, aos princípios da legalidade, motivação, ampla defesa e contraditório, cabendo ao processo administrativo o dever de indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinam a decisão e a observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados – arts. 2º, caput, e parágrafo único, incisos VII e VIII, e 50 da Lei nº 9.784/99. Tomando como base esses princípios, serão nulas, no processo administrativo fiscal, as decisões proferidas com preterição do direito de defesa (art. 59, II, do Decreto nº 70.235/721), consubstanciado no princípio do contraditório e da ampla defesa a ser traduzido sob duas formas: por um lado, pela necessidade de se dar conhecimento da existência dos atos do processo às partes; de outro, pela possibilidade das partes reagirem aos atos que lhe forem desfavoráveis no processo administrativo fiscal. A violação ao direito de defesa está presente quando constatada a descrição deficiente dos fatos imputáveis ao contribuinte ou quando a decisão contiver vício na motivação, 1 Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Fl. 3181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 7 por não enfrentar todos os argumentos capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador, ou que se enquadre em uma das hipóteses do art. 489, § 1º, do CPC. O devido processo legal deve pressupor sempre uma imputação acusatória certa e determinada, que permita ao sujeito passivo, conhecendo perfeita e detalhadamente a acusação, exercitar a sua defesa plena. Não obstante, o cerceamento do direito de defesa deve ser verificado concretamente, diante do prejuízo ao direito de defesa, e não apenas em tese. No caso, não há que se falar em nulidade por cerceamento do direito de defesa. O direito de defesa do contribuinte não foi prejudicado, de modo a revelar que conhece plenamente as acusações que lhe foram imputadas, rebatendo-as, uma a uma, razão pela qual descabe a proposição de nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa. O entendimento está em consonância com o deste Conselho. Confira-se: NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não tendo ocorrido quaisquer das causas de nulidade previstas no art. 59 do Decreto 70.235/1972 e presentes os requisitos elencados no art. 10 do mesmo diploma legal, não há que se falar em nulidade do auto de infração tampouco cerceamento de defesa. (...) (Acórdão 2202-009.978, Relatora Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, publicado 27/07/2023) PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. DEVIDO PROCESSO LEGAL E CERCEAMENTO DE DEFESA. PROCEDIMENTO FISCALIZATÓRIO. Não há se confundir procedimento administrativo fiscal com processo administrativo fiscal. O primeiro tem caráter apuratório e inquisitorial e precede a formalização do lançamento, enquanto o segundo somente se inicia com a impugnação do lançamento pelo contribuinte. As garantias do devido processo legal, em sentido estrito, contraditório e ampla defesa são próprias do processo administrativo fiscal. Estando o lançamento amparado por farta documentação e tendo o mesmo descrito com clareza, precisão e de acordo com as formalidades legais, as infrações imputadas ao contribuinte, não há se falar em cerceamento de defesa a impor a nulidade do feito. NORMAS GERAIS. NULIDADES. INOCORRÊNCIA. A nulidade do lançamento deve ser declarada quando não atendidos os preceitos do CTN e da legislação que rege o processo administrativo tributário no tocante à incompetência do agente emissor dos atos, termos, despachos e decisões ou no caso de preterição do direito de defesa e do contraditório do contribuinte. (...) (Acórdão 2201-010.453, Relatora Conselheira Débora Fófano dos Santos, publicado 20/04/2023) Fl. 3182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 8 Quanto ao vício material e a alegação de erro material, importante ressaltar que o vício material diz respeito aos aspectos intrínsecos do lançamento e relaciona-se com a verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação, determinação da matéria tributável, o cálculo do montante do tributo devido e a identificação do sujeito passivo, conforme definido pelo art. 142 do CTN. O vício formal, por outro lado, não interfere no litígio propriamente dito, ou seja, não há impedimento à compreensão dos fatos que baseiam as infrações imputadas, e o seu refazimento não exige inovação no conteúdo material, nem muito menos nos seus próprios fundamentos, nem resta atingida a essência da relação jurídico-tributária, nem a comprovação da ocorrência do fato gerador. Assim, entendendo o fiscal autuante pela existência de vínculos de empregos mascarados, nasce a obrigação do lançamento, ato vinculado. Entendo que não assiste razão ao recorrente no capítulo em epígrafe. Como dito, a declaração de nulidade de qualquer ato do procedimento administrativo depende da efetiva demonstração de prejuízo à defesa do contribuinte, o que, no presente caso, verifica-se não ter ocorrido, atraindo a incidência do princípio pas de nullité sans grief. - Desconsideração da PJ A defesa se insurge contra o que denomina de desconsideração da personalidade jurídica efetivada sem poderes judiciais. Invoca o art. 50 do Código Civil, que alega exigir mandamento judicial. A desconsideração da personalidade jurídica (ou disregard of the legal entity) permite que não mais se considere os efeitos da personificação da sociedade para atingir e vincular responsabilidades dos sócios, com o intuito de impedir a consumação de fraudes e abusos por eles cometidos, que causem prejuízos e danos a terceiros2. Quando ocorre a desconsideração da personalidade jurídica os bens particulares dos sócios respondem pelos danos causados a terceiros. No presente caso, o procedimento fiscal não é resultado da desconsideração da personalidade jurídica, nem é necessário que haja essa desconsideração para que ocorra a reclassificação. Vale lembrar que a sujeição passiva da obrigação jurídica tributária pode recair sobre um contribuinte ou um responsável. Será contribuinte aquele que tem relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador. Por outro lado, será responsável pessoa diversa do contribuinte, ou seja, um terceiro que, de alguma forma, possua algum vínculo com o fato gerador da respectiva obrigação, na forma do art. 128 do CTN; ou, os sócios, no caso da desconsideração da personalidade jurídica. 2 TARTUCE, Flavio. Manual de Direito Civil: volume único. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense; Método, 2021, p. 178. Fl. 3183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 9 No caso da desconsideração da personalidade jurídica, o contribuinte continua sendo a pessoa jurídica, no entanto, a responsabilidade pelo pagamento do débito é imputada aos sócios. Ou seja, o deslocamento do fato gerador para outro contribuinte não se confunde com desconsideração da personalidade jurídica, procedimento que depende de autorização judicial. Isto posto, nesse ponto, sem razão o recorrente. - Competência da Autoridade Tributária Tramita no Supremo Tribunal Federal a Arguição de Descumprimento de Preceito Federal (ADPF nº 606) que questiona a constitucionalidade das decisões do CARF e das DRJs que conferem competência para o Auditor Fiscal da Receita Federal reconhecer vínculo de emprego sem a intermediação e o pronunciamento jurisdicional da Justiça do Trabalho. Até o momento não existe decisão proferida pela Suprema Corte de aplicação obrigatória no processo administrativo fiscal. Em julgamento realizado por esta Turma, com outra composição, por maioria, restou decidido que, “Se a fiscalização constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições caracterizadoras da relação de emprego, deve desconsiderar o vínculo pactuado e enquadrar tal segurado como empregado, sob pena de responsabilidade funcional” (Acórdão nº 2402-006.976, Relator Conselheiro Denny Medeiros da Silveira, Sessão de 13/02/20193). 3 Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/04/2010 a 31/12/2010 FISCALIZAÇÃO. RELAÇÃO DE EMPREGO. CARACTERIZAÇÃO. ENQUADRAMENTO. SEGURADO EMPREGADO. Se a fiscalização constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições caracterizadoras da relação de emprego, deve desconsiderar o vínculo pactuado e enquadrar tal segurado como empregado, sob pena de responsabilidade funcional. DESCONSIDERAÇÃO DE ATO OU NEGÓCIO JURÍDICO. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência de fato gerador de tributos ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. NORMA DO ART. 116, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. EFICÁCIA. APLICAÇÃO. AUTORIDADE TRIBUTÁRIA. O art. 116, parágrafo único, do Código Tributário Nacional, se constitui em norma de eficácia contida, tendo, pois, total eficácia por si só, em que pese poder vir a sofrer restrições por outras normas. Dessa forma, pode ser aplicado de forma imediata e direta pela Autoridade Tributária. ART. 129. LEI 11.196/95. SERVIÇOS INTELECTUAIS. PROFISSIONAIS AUTÔNOMOS. ELEMENTOS CARACTERIZADORES. VÍNCULO EMPREGATÍCIO. O art. 129 da Lei 11.196/05 diz respeito à prestação de serviços intelectuais por profissionais autônimos, e não admite a presença dos elementos caracterizadores do vínculo empregatício na relação do prestador com o contratante dos serviços. JUROS DE MORA. MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108. A multa de ofício integra o crédito tributário, logo está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do mês subsequente ao do vencimento. Segue nessa linha a Súmula CARF nº 108. Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, cancelando apenas o lançamento das diferenças de RAT/FAT, referentes ao CNPJ 27.865.757/0023-00 e consignado na Fl. 3184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 10 É isto o que dispõe o arts. 9º e 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social (Decreto nº 3.048, de 06/05/1999): Art. 9º São segurados obrigatórios da previdência social as seguintes pessoas físicas: I - como empregado: a) aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural a empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado; Art. 229. O Instituto Nacional do Seguro Social é o órgão competente para: (...) § 2º Se o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado. (Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) Dessa forma, conclui-se pela improcedência das alegações recusais quanto à invasão de competência suscitada. 2. Decadência Em sendo a decadência, matéria prejudicial, deve ser analisada antes do mérito. Contudo, para a aplicação da regra decadencial (art. 150 ou art. 173 do CTN) imprescindível a análise do mérito em razão do fundamento relacionado à multa qualificada. Alega o recorrente que o crédito foi parcialmente extinto pela ocorrência da decadência em relação ao período de 01/2015 a 11/2015, com fundamento no art. 150, § 4º, do CTN. A DRJ concluiu pela não ocorrência da decadência e aplicação da regra decadencial inscrita no art. 173, I, do CTN. Em se tratando de obrigações tributárias principais, o critério de determinação da regra decadencial aplicável (art. 150, § 4º, ou art. 173, I, do CTN) é a existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização. Informação Fiscal de fls. 916 a 920, uma vez que atingidas pela decadência. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior, que deram provimento integral ao recurso. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Denny Medeiros da Silveira, Gregório Rechmann Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, Paulo Sérgio da Silva, Renata Toratti Cassini e Wilderson Botto (Suplente Convocado). (Acórdão nº 2402-006.976, Relator Conselheiro Denny Medeiros da Silveira, Sessão de 13/02/2019) Fl. 3185DF CARF MF Original http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3265.htm#art1 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 11 Nos casos em que há pagamento antecipado, o termo inicial é a data do fato gerador, na forma do § 4º, do art. 150, do CTN. Por outro lado, na hipótese de não haver antecipação do pagamento ou se comprovada à ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o dies a quo é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, conforme prevê o inciso I, do art. 173, do mesmo Código. Caracteriza pagamento antecipado qualquer recolhimento de contribuição previdenciária na competência do fato gerador, independentemente de ter sido incluída na base de cálculo do recolhimento a rubrica específica exigida no Auto de Infração, nos termos do Enunciado nº 99 da Súmula do CARF: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir à autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. Para fins de solução da controvérsia e aplicação da regra do art. 150, § 4º, do CTN, adoto como razões de decidir o voto vencedor proferido pelo Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci no julgamento do Acórdão nº 2402-006.656, proferido por esta mesma Turma – em outra composição – na sessão de 03/10/2018, onde se discutia o prazo decadencial aplicável na contratação de empregados através de pessoas jurídicas interpostas. Confira-se: O prazo decadencial do art. 150, § 4º, do CTN, é igualmente considerado como um prazo de homologação tácita do lançamento por homologação (ou recolhimento por homologação). Ali está estabelecido que o lançamento por homologação ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento, o qual é homologado tacitamente pelo decurso do prazo de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador. No caso concreto, as contribuições estão sujeitas ao lançamento por homologação e a contribuinte fez o pagamento antecipado dos valores que entendia devidos. Tal recolhimento antecipado, a propósito, é calculado e efetuado sobre a folha de salários (ou folha de pagamentos) como um todo, e não empregado por empregado, tanto que levado a cabo numa única guia de recolhimento, por competência e por código, e não por pessoa física. Esse recolhimento antecipado, por óbvio, viabiliza a atividade homologatória pelo fisco e inexiste qualquer critério legal que permita concluir que o lustro decadencial seja aferido por trabalhador. Os comprovantes de recolhimentos anexados às fls. 5872 e seguintes do PAF demonstram a existência de recolhimentos parciais das contribuições nas Fl. 3186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 12 competências 01/2008 e 11/2008; e, com o devido respeito ao entendimento do ilustre conselheiro relator, entendemos que o recolhiremento antecipado a que se refere o art. 150, § 4º, do CTN, a Súmula CARF 99 e o recurso repetitivo nº REsp 973.733/SC, é o recolhimento antecipado da exação, Considerando-se a folha de pagamento como um todo, e não a folha de pagamento por funcionário. Veja-se, primeiramente, o julgado do STJ em sede de recurso representativo de controvérsia, o qual alude ao recolhimento antecipado da exação: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). [...] 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009) (destacou-se) Veja-se, em segundo lugar, a Súmula CARF 99, a qual alude expressamente ao "valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador", sendo iniludível que houve o citado recolhimento antecipado pelo contribuinte nos fatos geradores nas competências 01/2008 a 11/2008: Súmula CARF nº 99 Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo Fl. 3187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 13 que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. Insista-se que as contribuições em referência são incidentes sobre a folha de salários, na dicção do art. 195, inc. I, alínea a, da CF. Quer dizer, a totalidade da folha deve ser indubitavelmente considerada, inexistindo, ainda, qualquer critério legal que permita concluir que a aferição dos recolhimentos parciais seja feita por empregado ou mesmo por parcela relativa à rubrica especificamente exigida no auto de infração. Logo, entendo que houve sim recolhimentos parciais. Por fim, também entendo que não houve dolo, fraude ou simulação, uma vez que a recorrente agiu de acordo com um modo de proceder que entendeu ser lícito. Ademais, ainda que se entenda que houve a caracterização de vínculo empregatício, tal caracterização não implica automaticamente o reconhecimento de ato doloso por parte da recorrente. Como já pontuado no acórdão 2201003.664, cujo contribuinte é a própria recorrente, não houve nenhuma declaração falsa ou omissão de informação, e os fatos estavam explicitados na contabilidade e nos registros do sujeito passivo. Veja-se o seguinte excerto do voto condutor do acórdão retro mencionado: Não houve nenhuma declaração falsa ou omissão de informação. Houve sim, segundo se observa a contratação de pessoas jurídicas para a prestação de serviços e tais fatos restaram explícitos na contabilidade e nos registros do sujeito passivo, tanto assim o é que foi com base nesses documentos que a Fiscalização obteve os elementos para o lançamento tributário que aqui se discute. Tal constatação afasta a sonegação. Portanto, é aplicável ao caso o disposto no art. 150, § 4º, do Código, de tal modo que, como o lançamento foi efetuado em 20/12/2013, realmente estavam decaídas as contribuições até a competência 11/2008. De outro vértice, e diante do que foi dito com relação à inexistência de dolo, fraude ou simulação, é incabível a qualificação da multa de ofício, multa que somente pode ser duplicada nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei 4502/1964, ex vi do disposto no § 1º do art. 44 da Lei 9430/1996. Registre-se pela sua importância que, na sessão de julgamento realizada em 04/06/2024, este Colegiado baixou os presentes autos em diligência fiscal para que a Unidade do Origem informasse a existência de recolhimentos das contribuições exigidas por meio do presente PAF à época dos fatos. Em atenção ao quanto solicitado, foi emitida a Informação Fiscal de p. 3.135, por meio da qual o preposto fiscal trouxe aos autos as telas do sistema de arrecadação da RF13 correspondentes aos recolhimentos no código 2100 – GPS – do período de 01/2015 a 10/2015. Referidos documentos encontram-se às p.p. 3.067 a 3.134 e confirmam a existência de recolhimentos das contribuições exigidas por meio do presente PAF à época dos fatos. Fl. 3188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 14 Neste espeque, considerando que o presente lançamento se refere ao período de 01/2015 a 12/2016 e que o contribuinte foi notificado em 11/2020 (AR de p. 974), devem ser afastadas as competências 01/2015 a 10/2015, vez que fulminadas pela decadência, com fundamento no art. 150, § 4º, do CTN. Mantidas as competências 11/2015 a 12/2016, passa-se à análise dos demais pontos. 3. Ausência de Relação de Emprego e Contratação de pessoas jurídicas para prestação de serviços Alega o recorrente a inexistência dos requisitos caracterizadores da relação de emprego: pessoa física e pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação. A DRJ manteve o lançamento sob o fundamento de que as provas dos autos demonstram que o recorrente contratou empregados na forma de contratação de PJ (Pessoas Jurídicas) prestadoras de serviço. O Termo de Verificação Fiscal – TVF (fls. 46 a 108) já no início informa que o trabalho teve como causa inicial o fato de terem sido verificados indícios de pagamento praticado pela fiscalizada a pessoa física por meio de notas fiscais emitidas por pessoas jurídicas das quais tais pessoas físicas eram / são sócias. A esta julgadora cabe indagar por qual a razão o pagamento praticado pela fiscalizada a pessoa física por meio de notas fiscais emitidas por pessoas jurídicas das quais tais pessoas físicas eram / são sócias é CAUSA INICIAL DE UMA FISCALIZAÇÃO SE O FATO, POR SI, É PERMITIDO PELA LEGISLAÇÃO, NÃO INDICA UMA INFRAÇÃO, UM ILÍCITO, NEM NADA. (fl. 53). Ademais, tentando, de forma frustrada, conotar depreciação do fato LÍCITO, administra o termo PEJOTIZAÇÃO como se pejorativo fosse, quando na realidade não passa de uma inaptidão a analisar quais são os termos da legislação vigente, em vã tentativa de fossilizar algum tipo de progresso – humano e necessário. A dúvida certamente permanecerá enquanto a Fiscalização Tributária brasileira continuar insistindo em tratar como ilícito um ato que é lícito e continuará se desgastando e gastando dinheiro do erário público em fiscalizações de ato lícito. Até quando haverá insistência quanto a isso não sabemos, de toda forma falemos do óbvio, vale dizer, da legislação vigente que segue ignorada por nossa Fiscalização Tributária. Vejamos. Exercendo o papel de dicionário, o TVF descreve o conceito de PEJOTIZAÇÃO. Veja- se (fl. 54): Fl. 3189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 15 Assim adotando, a razão do lançamento centra-se no seguinte fato (fls. 54 e 55): 10. A fiscalização após analisar os documentos apresentados constatou que a fiscalizada para a constituição de seu quadro de pessoal - habilitado, capacitado e devidamente treinado para o cumprimento das atividades contratadas – se valeu do conjunto de empregados que manteve ao longo do período do procedimento fiscal (01/2015 a 12/2016) acrescido de um conjunto de pessoas físicas que contratou e remunerou por meio de notas fiscais emitidas pelas pessoas jurídicas das quais tais pessoas físicas são / eram sócias (Pejotização). No caso sob análise que a fiscalização detalhará mais adiante se verifica a simulação de uma situação com o objetivo único de reduzir encargos tributários ilegalmente. A fiscalizada simulou uma estrutura organizacional para obter benefícios fiscais. Veja-se. Em momento algum o ordenamento jurídico vigente proíbe a contratação de pessoas jurídicas para a prestação de serviços, tão pouco existe qualquer linha de argumentação coerente que possa enquadrar esse fato como uma simulação. Muito pelo contrário. Exercendo o papel de estabelecer as normas que regem as relações e protegem os direitos, a LEI nº 11.196, de 21/11/2005, há mais de 18 anos AFIRMA que: Art. 129. Para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se sujeita tão-somente à legislação aplicável às pessoas jurídicas, sem prejuízo da observância do disposto no art. 50 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil. Assim, o exercício de atividade personalíssima por meio de pessoa jurídica, sem que se trate de sociedade unipessoal, é amparado pelo art. 129 da Lei 11.196, de 21 de novembro de 2005, que surgiu no ordenamento jurídico com a finalidade de viabilizar a contratação de pessoa jurídica para a prestação de serviços de natureza intelectual, cultural, artística ou científica. Entende-se por atividade personalíssima aquela que é intuito personae, ou seja, cuja realização deve ser feita pela própria pessoa física. Personalíssimo é, assim, aquele ato ou serviço que depende essencialmente do indivíduo a que se refere para ser realizado, ou ainda, nas palavras de Maria Helena Diniz, que a execução não comporta modificação quanto ao seu sujeito4. 4 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, volume 1: teoria geral do direito civil. 29. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 420. Fl. 3190DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10406.htm#art50 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10406.htm#art50 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 16 Para Ricardo Mariz, o escopo desse dispositivo é “pacificar inúmeros litígios que então existiam (e ainda existem), nos quais a fiscalização federal não reconhece a condição de pessoa jurídica e pretende tratar como pessoa física”5. Destarte, o art. 129 da Lei n˚ 11.196/2005 estabelece uma exceção à regra da tributação na pessoa física dos rendimentos recebidos na prestação de serviços de caráter personalíssimo, autorizando a sujeição à legislação aplicável às pessoas jurídicas, nas hipóteses prestação de serviços intelectuais, de natureza científica, artística ou cultural. Serviço intelectual, de fato, comporta conceito fluido de definição imprecisa tendo como uma única certeza que a natureza científica, artística ou cultural é rol exemplificativo deste dispositivo. Para Ricardo Mariz, inexistem dúvidas quanto à abrangência do art. 129 da Lei n˚ 11.196/2005, já que a “palavra ‘inclusive’, nele contida – “serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural” –, não deixa margem à tergiversações que pretendam dizer que a natureza científica, artística ou cultural constitua uma relação exaustiva da norma”6. De fato, a norma não cria nova forma de tributação, tampouco busca atribuir condição de contribuinte à pessoa diversa daquela determinada pelo CTN. Simplesmente, veio dirimir dúvidas quanto à tributação dos rendimentos recebidos pela prestação de serviços intelectuais quando prestados por pessoa jurídica. Indo além, informa o TVF que (fl. 55). 11. A fiscalização verificou também que as pessoas físicas prestadoras de serviços e remuneradas por meio das notas fiscais emitidas pelas pessoas jurídicas das quais eram / são sócias estavam claramente inseridas na cadeia produtiva da fiscalizada conforme se demonstrará adiante exercendo funções de mandatários, direção técnico-consultiva, funções gerenciais, coordenação de trabalhos técnicos, supervisão de obras e liderança de equipe e atuavam na atividade nuclear da fiscalizada e nas atividades de apoio conforme se verá adiante. O TVF “apenas” esqueceu de dizer onde está o problema de tais pessoas estarem inseridas na cadeia produtiva da fiscalizada e, mais, QUAL O PROBLEMA DE EXERCEREM FUNÇÃO DE MANDATÁRIO, DIREÇÃO E ETC??? ONDE ESTÁ A PROIBIÇÃO DESSE FATO??? A leitura integral do TVF reforça a ideia que não existe qualquer proibição no ordenamento jurídico, existe apenas inconformismo. Mais um ponto do TVF diz o seguinte (fl. 58): 5 OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Interpretação, Vigência e Eficácia das Normas Jurídicas – a Função dos Regulamentos – o Caso do Art. 129 da Lei n. 11.196. Revista Direito Tributário Atual n ̊42, ano 37, p. 519-543. São Paulo: IBDT, 2˚ semestre 2019. 6 OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Interpretação, Vigência e Eficácia das Normas Jurídicas – a Função dos Regulamentos – o Caso do Art. 129 da Lei n. 11.196. Revista Direito Tributário Atual n ̊42, ano 37, p. 519-543. São Paulo: IBDT, 2˚ semestre 2019. Fl. 3191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 17 Ao i. Auditor Fiscal fica a minha pergunta, POR QUAL MOTIVO O REEMBOLSO COM LANCHE É INDÍCIO DE PEJOTIZAÇÃO E POR QUAL MOTIVO RESOLVEU USAR O TERMO PEJOTIZAÇÃO COMO SE SINÔNIMO DE CRIME FOSSE, QUANDO A PRÓPRIA LEGISLAÇÃO VIGENTE PERMITE A CONTRATAÇÃO DE PJ PARA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS?? Veja-se que o TVF em exaustivas 63 laudas traz fatos que nada relacionam uma conduta errada por parte do contribuinte. conforme o trecho que está às fls 57, abaixo reproduzido, qual o problema da fiscalizada ser a principal ou exclusiva fonte pagadora? O que há de ilegal ou por qual razão tal fato implica a mudança na estrutura da regra matriz de incidência tributária? Só posso concluir que nenhum, pois a fiscalização mesmo não aponta qualquer motivo pelo qual o descrito abaixo é ILÍCITO, ILEGAL, PROIBIDO: Desde quando uma estrutura empresarial precisa de um endereço físico diverso da residência, em pleno século XXI? E onde foi que o ordenamento disse que precisamos ter estrutura empresarial para que a incidência tributária seja aquela que é aplicada às pessoas jurídicas.??? Em nenhum lugar, de fato. Não sendo suficiente a redação sem ambiguidades do art. 129 da Lei nº 11.196/2005 e todo o posicionamento doutrinário SEM DIVERGÊNCIA, o Supremo Tribunal Federal foi provocado a manifestar-se quanto à constitucionalidade desse artigo no bojo da Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 66, ajuizada pela Confederação Nacional da Comunicação Social (CNCOM), sob o fundamento de que juízes e auditores da RFB têm deixado de aplicar a Fl. 3192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 18 norma em discussão para determinar a incidência, a PJ prestadoras de serviços intelectuais enquadradas nos pressupostos do art. 129 da Lei nº 11.196/2005. Em dezembro de 2020, o Supremo Tribunal Federal finalizou o julgamento da Ação Declaratória nº 66 (ADC 66) onde concluiu pela constitucionalidade do art. 129 da Lei nº 11.196/2005. Constou no voto da Relatora, Ministra Cármen Lucia, a “REGRA JURÍDICA VÁLIDA DO MODELO DE ESTABELECIMENTO DE VÍNCULO JURÍDICO ESTABELECIDO ENTRE PRESTADOR E TOMADOR DE SERVIÇOS DEVE PAUTAR-SE PELA MÍNIMA INTERFERÊNCIA NA LIBERDADE ECONÔMICA CONSTITUCIONALMENTE ASSEGURADA E REVESTIR-SE DE GRAU DE CERTEZA PARA ASSEGURAR O EQUILÍBRIO NAS RELAÇÕES ECONÔMICAS E EMPRESARIAIS”. A ministra ainda ressaltou a necessidade de haver segurança jurídica quanto à eficácia das escolhas empresariais dos contribuintes. A decisão não significa uma presunção de licitude para que todas as atividades prestadas por jogadores, técnicos, artistas, intelectuais, cientistas e demais atletas sejam exercidas mediante a intermediação de pessoas jurídicas, ou seja, não constitui um salvo-conduto para legitimar aqueles que se utilizam desta estrutura de forma irregular. CONTUDO, A "PEJOTIZAÇÃO" DA PRESTAÇÃO PERSONALÍSSIMA DE SERVIÇOS INTELECTUAIS NÃO DEVE MAIS, POR SI SÓ, SER TRATADA COMO ILÍCITO TRIBUTÁRIO. Como ressaltado por HUMBERTO ÁVILA, “as normas reconstruídas a partir do art. 129 Lei 11.196/05 são, portanto, expletivas de um direito que já poderia ser reconstruído a partir dos direitos prescritos pela Constituição: como a Constituição Federal garante o livre exercício de atividade econômica, o contribuinte é livre para definir o que contratar, com quem contratar, como contratar e quando contratar”. SERGIO ANDRÉ ROCHA, por sua vez, assevera que “É UMA OBVIEDADE QUE, SE A LIBERDADE, NESTE CASO, PREVALECE MESMO SOBRE OS DIREITOS TRABALHISTAS DO INDIVÍDUO, SENDO A ESTRUTURA CONTRATUAL SOBERANA, NÃO CABERIA AO FISCO PRETENDER DESCONSIDERÁ-LA (...) ESTA INTERPRETAÇÃO SE APLICA A SITUAÇÕES REAIS E NÃO A MAQUIAGENS”. PAULO DE BARROS CARVALHO, em sintonia com o entendimento do Supremo Tribunal Federal, reforça que: Se considerarmos os valores máximos acolhidos por nosso Texto Constitucional, principalmente em termos de tributação — segurança e certeza — que sustentam os cânones da legalidade e da tipicidade, torna-se extremamente problemático captar a figura da desconsideração do negócio jurídico, em especial tomando como critério o “abuso de direito” e a “fraude à lei”, aludindo a noções de ordem econômica. São procedimentos e conceitos que devem respeitar esses princípios, especialmente ao tratar de matéria de imposição tributária7. 7 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 30. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019, p. 615. Fl. 3193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 19 As normas de combate ao abuso em matéria fiscal servem para evitar o “desvirtuamento do sistema jurídico em prol de ganhos pessoais ou para fins que não lhe eram originalmente pensados”8. Nesse cenário, HUGO DE BRITO MACHADO explica que, a despeito da inexistência de uniformidade terminológica na doutrina, o termo evasão serve para designar a forma ilícita de fugir do tributo, enquanto a elisão refere-se a forma lícita de praticar essa mesma fuga. Contudo, em sentido amplo, tratam, outrossim, de qualquer forma de fuga ao tributo, lícita ou ilícita. Conclui o professor que: O que importa, a rigor, é saber se o comportamento adotado pelo contribuinte para fugir, total ou parcialmente, ao tributo (evasão fiscal), ou para eliminar, ou suprimir, total ou parcialmente, o tributo (elisão fiscal), é um comportamento lícito ou ilícito. Em outras palavras, a questão essencial que deve ser enfrentada é a de saber se em determinado caso ocorreu, ou não, o fato gerador da obrigação tributária e qual a sua efetiva dimensão econômica. Assim, quando se fala em norma geral antielisão, o que na verdade se tem em vista é uma norma dirigida ao intérprete e aplicador da lei tributária, o que autoriza a fugir dos limites da norma tributária definidora da hipótese de incidência do tributo, para alcançar situações nela não previstas9. MARCO AURÉLIO GRECCO consagra que “O ordenamento constitucional consagra uma liberdade para o cidadão, e o chamado planejamento tributário surge a partir da ideia do exercício dessa liberdade de montar os próprios negócios, organizar a própria vida de modo a PAGAR O MENOR TRIBUTO ‘VALIDAMENTE’ POSSÍVEL”. Exatamente como ocorreu no caso analisado. Enquanto a fiscalização tributária brasileira não tiver consciência dos efeitos nocivos que seus atos estão causando em termos de litigiosidade fiscal, continuaremos perdendo, o país inteiro, contribuintes e administração pública. Se o alerta não chegou, é necessário que seja feito o quanto antes . - Possibilidade de Terceirização da atividade-fim Insistindo, ou não, no uso da terminologia pejotização, como se fosse pejorativa fosse, o Tribunal Superior do Trabalhou manifestou-se e, por bem, considerou diferenciar e chamar de terceirização da atividade-fim. Quanto à possibilidade de terceirização de atividade-fim (atividade diretamente relacionada ao objeto e atuação da empresa), vale frisar, inicialmente, que não há, no 8 PEREIRA, Luís Eduardo Marola de Queiroz; PRZEPIORKA, Michell; MESSETTI, Pedro Leonardo Stein. Princípio de proibição ao abuso: uma GAAR para o Brasil? In: Revista Direito Tributário Atual: RDTA, São Paulo, n. 40, p. 524-549, 2018. 9 MACHADO, Hugo de Brito. Curso de Direito Tributário. 30. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 131-132. Fl. 3194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 20 ordenamento jurídico vigente qualquer norma que vede essa prática. Até a promulgação da Lei nº 13.249, de 31/03/2017, que passou a expressamente autorizar a terceirização das atividades-fim, o tema estava delimitado pelo Enunciado nº 331 da Súmula do TST. Em sede de controle concentrado de constitucionalidade, ao julgar a ADPF nº 324, de relatoria do Ministro Luís Roberto Barroso, o Supremo Tribunal Federal concluiu pela constitucionalidade da terceirização de atividade-fim e de atividade-meio, destacou a responsabilidade subsidiária da empresa tomadora do serviço no caso de descumprimento das obrigações trabalhistas e previdenciárias e declarou inconstitucional a Súmula 331 do TST. Confira-se: Direito do Trabalho. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. Terceirização de atividade-fim e de atividade-meio. Constitucionalidade. 1. A Constituição não impõe a adoção de um modelo de produção específico, não impede o desenvolvimento de estratégias empresariais flexíveis, tampouco veda a terceirização. Todavia, a jurisprudência trabalhista sobre o tema tem sido oscilante e não estabelece critérios e condições claras e objetivas, que permitam sua adoção com segurança. O direito do trabalho e o sistema sindical precisam se adequar às transformações no mercado de trabalho e na sociedade. 2. A terceirização das atividades-meio ou das atividades-fim de uma empresa tem amparo nos princípios constitucionais da livre iniciativa e da livre concorrência, que asseguram aos agentes econômicos a liberdade de formular estratégias negociais indutoras de maior eficiência econômica e competitividade. 3. A terceirização não enseja, por si só, precarização do trabalho, violação da dignidade do trabalhador ou desrespeito a direitos previdenciários. É o exercício abusivo da sua contratação que pode produzir tais violações. 4. Para evitar tal exercício abusivo, os princípios que amparam a constitucionalidade da terceirização devem ser compatibilizados com as normas constitucionais de tutela do trabalhador, cabendo à contratante: i) verificar a idoneidade e a capacidade econômica da terceirizada; e ii) responder subsidiariamente pelo descumprimento das normas trabalhistas, bem como por obrigações previdenciárias (art. 31 da Lei 8.212/1993). 5. A responsabilização subsidiária da tomadora dos serviços pressupõe a sua participação no processo judicial, bem como a sua inclusão no título executivo judicial. 6. Mesmo com a superveniência da Lei 13.467/2017, persiste o objeto da ação, entre outras razões porque, a despeito dela, não foi revogada ou alterada a Súmula 331 do TST, que consolidava o conjunto de decisões da Justiça do Trabalho sobre a matéria, a indicar que o tema continua a demandar a manifestação do Supremo Tribunal Federal a respeito dos aspectos constitucionais da terceirização. Além disso, a aprovação da lei ocorreu após o pedido de inclusão do feito em pauta. Fl. 3195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 21 7. Firmo a seguinte tese: “1. É lícita a terceirização de toda e qualquer atividade, meio ou fim, não se configurando relação de emprego entre a contratante e o empregado da contratada. 2. Na terceirização, compete à contratante: i) verificar a idoneidade e a capacidade econômica da terceirizada; e ii) responder subsidiariamente pelo descumprimento das normas trabalhistas, bem como por obrigações previdenciárias, na forma do art. 31 da Lei 8.212/1993”. 8. ADPF julgada procedente para assentar a licitude da terceirização de atividade- fim ou meio. Restou explicitado pela maioria que a decisão não afeta automaticamente decisões transitadas em julgado. (ADPF 324, Relator(a): ROBERTO BARROSO, Tribunal Pleno, julgado em 30/08/2018, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-194 DIVULG 05-09-2019 PUBLIC 06-09- 2019) (grifei) Na mesma ocasião, a Suprema Corte julgou o Recurso Extraordinário nº 958.252, com Repercussão Geral reconhecida, de relatoria do Ministro Luiz Fux. Com a mesma razão, a Suprema Corte já havia reconhecido, em julgado anterior, a licitude da terceirização do serviço de call center de empresas de telefonia, no julgamento do Recurso Extraordinário com Agravo nº 791.932, com repercussão geral reconhecida. ADEMAIS, O REGIMENTO INTERNO DO CARF IMPÕE A ADOÇÃO OBRIGATÓRIA DOS ENTENDIMENTOS FIRMADOS PELA SUPREMA CORTE EM SEDE DE CONTROLE CONCENTRADO DE CONSTITUCIONALIDADE, BEM COMO EM SEDE DE RECURSO JULGADO COM REPERCUSSÃO GERAL. Desse modo, ao lado do reconhecimento da possibilidade de terceirização da atividade-fim, caminha a permissão legal de reconhecimento do vínculo empregatício com a empresa tomadora do serviço, no caso de serem constatadas ilegalidades na prática estabelecida. Outrossim, a possibilidade de terceirização não se confunde, por óbvio, com a permissão de utilização desse instituto para mascarar relações que constituem fatos geradores de obrigações previdenciárias. Destarte, a contratação de serviços por meio de empresa terceirizada, a priori, não revela uma prática ilícita e não tem o condão de estabelecer o vínculo de emprego diretamente com o tomador de serviço. Contudo, a permissão de terceirização da atividade-fim não impede a análise de ocorrências de ilegalidades, tal como dispõe a própria CLT em seu art. 9º. - Lançamento por arbitramento – aferição indireta A apuração indireta do débito por intermédio da aferição é autorizada pela legislação previdenciária; contudo, estando no campo da exceção, deve atender a requisitos mínimos que determinem com exatidão o surgimento do fato gerador da obrigação tributária. A Lei n ̊8.212/91, em seu art. 33, §§ 3 ̊e 6,̊ atribui à fiscalização o poder de (a) lançar de oficio a importância devida, cabendo à empresa ou ao segurado o ônus da prova em contrario, no caso de recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação Fl. 3196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 22 deficiente; (b) apurar e lançar as contribuições devidas quando constatar que a contabilidade não registra a realidade da remuneração dos segurados a seu serviço e (c) desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado, quando constate que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições que caracterizem tal condição. De tal modo, a legislação vigente determina o uso de aferição indireta quando a documentação apresentada pelo contribuinte não demonstra a realidade; ou seja, quando a Fiscalização conclui que a escrituração contábil da empresa não registra o movimento real da remuneração dos segurados a seu serviço, o que não ocorreu no presente caso. Causa surpresa que a Fiscalização, no bojo do TVF, analise dados “por amostragem” e entenda que assim está correto, no entanto, por outro, realiza o lançamento, por arbitramento, em face do contribuinte por entender que faltava clareza ao contrato de prestação de serviços. Confira-se (fls. 55). Mais uma vez, pergunta-se. ONDE ESTÁ A ILICITUDE PELO FATO DOS CONTRATOS ANALISADOS “POR AMOSTRAGEM” TEREM MESMO PADRÃO, MESMO CONTEÚDO E CLÁUSULAS COMUNS E PRAZO DE VALIDADE? GOSTANDO, OU NÃO (O QUE REVELA INCONFORMISMO), ONDE MORA A ILEGALIDADE NESSE FATO? O contribuinte não poderia fazer descrição genérica, mas a fiscalização poderia fazer análise por amostragem? O pior desse cenário é que, de fato, não há qualquer legislação proibindo a descrição genérica do objeto do contrato, enquanto, por outro lado, há EXTREMA PROIBIÇÃO na legislação de lançamento por amostragem. O processo administrativo fiscal é regido por diversos princípios, dentre eles o da Verdade Material, que impõe a perseguição pela realidade dos fatos (prática do fato gerador) praticados pelo contribuinte, podendo o julgador, inclusive de ofício, independentemente de requerimento expresso, realizar diligências para aferir os eventos ocorridos. Nesse sentido, é ônus da fiscalização munir o lançamento com todos os elementos de prova dos fatos constituintes do direito da Fazenda. Na ausência de provas, o lançamento tributário deve ser cancelado (Acórdão nº 3301-003.975). Fl. 3197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 23 O art. 9º do Decreto nº 70.235/72 dispõe que a exigência do crédito tributário deve vir acompanhada dos elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Não se admite lançamento baseado em presunção e indícios. Valendo-me de julgado proferido pelo CARF (em que a fiscalização desvalidou a existência da cooperativa e considerou haver uma relação de emprego), tenho que, tal como ocorreu no presente caso, “A desconsideração do vínculo de natureza societária para o vínculo de natureza trabalhista restou incompleto pela fiscalização, tendo em vista que houve, efetivamente, certo açodamento por ocasião da conclusão dos trabalhos da Autoridade Administrativa incumbida de verificar os procedimentos levados a efeito pelo contribuinte. Não se observou, naquele instante, e na plenitude, o tipo de relação jurídica existente a partir da formação da cooperativa. Ao agir da forma em que agiu, a fiscalização, bem como o Relator originário destes autos, deixaram de observar os comandos insertos no art. 110 do Código Tributário Nacional – CTN” (Acórdão nº 2803-00.556). A tipicidade tributária significa a exata adequação do fato à norma, e, por isso mesmo, o surgimento da obrigação se condicionará ao evento da subsunção, que é a plena correspondência entre o fato jurídico tributário e a hipótese de incidência, fazendo surgir a obrigação correspondente, nos exatos termos previstos em lei. Não se verificando o perfeito enquadramento do fato à norma, inexistirá obrigação tributária.10 Além disso, o princípio da legalidade tributária, “como estatuído no Brasil, obsta a utilização da chamada interpretação econômica pelo aplicador, mormente por parte do Estado-Administração, cuja função é a de aplicar a lei aos casos concretos, de ofício”.11 Com essas considerações, o estabelecimento de um vínculo tributário válido demanda a existência de lei anterior com a descrição do fato imponível (princípio da legalidade), subsunção do fato à hipótese normativa (princípio da tipicidade) e os elementos da relação jurídica, que devem equivaler aos descritos na lei.12 A autoridade fiscal, ao exercer a fiscalização acerca do efetivo recolhimento das contribuições por parte do contribuinte, possui o dever de investigar a relação laboral entre a empresa e as pessoas que a ela prestam serviços. Caso constate que a empresa erroneamente descaracteriza a relação empregatícia, a fiscalização deve proceder a autuação, a fim de que seja efetivada a arrecadação. Todavia, a constatação deve ser feita de forma clara, precisa, com base em provas; não sendo válido o lançamento que se baseia em indícios ou presunções. Em respeito ao princípio da legalidade, não pode subsistir o lançamento de crédito tributário quando não demonstrada a ocorrência do fato gerador e a subsunção dos fatos à hipótese descrita na lei. A presunção da ocorrência do fato gerador não inverte o ônus da prova. 10 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 30. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019, p. 614. 11 COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de direito tributário brasileiro. 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020, p. 545 e 248-249. 12 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 30. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019, p. 615. Fl. 3198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 24 4. Necessidade de dedução dos valores recolhidos pelas PJs Subsidiariamente, a Recorrente requer o aproveitamento do tributo recolhido pela pessoa jurídica, com a finalidade de compensação ou abatimento do devido no auto de infração. Em respeito ao princípio da moralidade administrativa, sendo reclassificada a relação, deve-se adotar o mesmo procedimento em relação aos tributos pagos pela pessoa jurídica. O aproveitamento do tributo comprovadamente recolhido pela pessoa jurídica, previamente ao início do procedimento de fiscalização, é apto a operar efeitos na base de cálculo da multa de ofício, ou seja, antes da inclusão dos acréscimos legais. Nesse sentido é o entendimento desse Conselho, conforme consta no Acórdão nº 2202-004.869, de relatoria do Conselheiro Ronnie Soares Anderson: Numero do processo: 12448.729104/2016-03 Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção Câmara: Segunda Câmara Seção: Segunda Seção de Julgamento Data da sessão: Wed Jan 16 00:00:00 BRST 2019 Data da publicação: Mon Feb 04 00:00:00 BRST 2019 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 (...) RECLASSIFICAÇÃO DA RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração do crédito tributário os valores arrecadados sob códigos de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi reclassificada e reconhecida como rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de ofício. Nesse sentido, incluo como razões de decidir o voto proferido pela Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira no Acórdão nº 2202-008.362. Confira-se: II – DO PEDIDO SUBSIDIÁRIO: DA DEDUÇÃO DOS VALORES JÁ RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA Aduz em arremate que, [n]a eventualidade remota de ser considerada subsistente a presente Notificação, o que se admite apenas para argumentar, ainda, assim não podem prevalecer os valores apurados pela Sra. Fiscal, posto que deixou de deduzir dos valores que computou como devidos à Previdência, as contribuições previdenciárias já recolhidas pelos prestadores de serviços, nos termos da lei. (f. 437) Fl. 3199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 25 Para afastar o pleito subsidiário, a DRJ asseverou que “(...) são pessoas jurídicas diferentes da Impugnante e no caso em tela, houve caracterização de vínculo empregatício entre os sócios das prestadoras com Impugnante, que foram considerados segurados empregados desta.” (f. 475) Em suma, não poderiam ser considerados aproveitáveis pela recorrente eventuais pagamentos de tributos realizado por terceiros. Há muito tem a Câmara Superior deste eg. Conselho jurisprudência em sentido diametralmente oposto ao externado pela instância a quo. Nos idos de 2016, sob a pena da Cons.ª Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, sustentado que não existe lógica cobrar duas vezes em relação aos mesmos segurados, até porque o recolhimento da sua contribuição em duplicidade, não lhe beneficiaria, mesmo que o custo inicialmente recaísse sobre a pessoa jurídica que contratou de forma irregular. Dessa forma, a contribuição previdenciárias paga pelos segurados enquanto sócios, arrecadas pelas pessoas jurídicas, cujas contratações foram reclassificadas como relação de emprego no presente AIOP, deverão ser deduzidas dos valores lançados no presente auto de infração. (Acórdão nº 9202-004.640, sessão de 25/11/2016) Ao recentemente apreciar a mesma controvérsia, idêntico o posicionamento da eg. Câmara Superior. Confira-se: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 CARACTERIZAÇÃO DE VÍNCULO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA DOS SEGURADOS. RECOLHIMENTO POR INTERPOSTA PESSOA. APROVEITAMENTO. POSSIBILIDADE. As contribuições previdenciárias, referentes à parte dos segurados, paga por pessoas jurídicas interpostas em relação a seus sócios ou empregados, cujas contratações tenham sido reclassificadas como relação de emprego em empresa diversa, podem ser deduzidas dos valores considerados no auto de infração. (CARF. Acórdão nº 9202-009.262, Cons. Rel. MÁRIO PEREIRA DE PINHO FILHO, sessão de 19/11/2020; sublinhas deste voto) Por esse motivo, acolho o pedido subsidiário para determinar a dedução das contribuições previdenciárias pagas pelos segurados na qualidade de sócios, arrecadas pelas pessoas jurídicas, cujas contratações foram reclassificadas como relação empregatícia. Nesse mesmo sentido: (...) TRABALHADORES VINCULADOS À EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO OPTANTE PELO SIMPLES FEDERAL. DESCONSIDERAÇÃO DO VÍNCULO EXISTENTE. CARACTERIZAÇÃO DIRETAMENTE COM A EMPRESA PRINCIPAL. PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA. (...) SIMPLES FEDERAL. EMPRESA INTERPOSTA. APROVEITAMENTO DE RECOLHIMENTOS PELA EMPRESA PRINCIPAL. Fl. 3200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 26 Tendo sido constituído, pelo lançamento, vínculo direto entre os trabalhadores e o Sujeito Passivo, entendo-se que esse é o verdadeiro contribuinte, aquele que, de fato, incidiu nos fatos geradores de contribuição previdenciária, o que ensejou o aproveitamento das contribuições descontadas dos segurados. Nesse sentido, as contribuições patronais previdenciárias, mesmo que recolhidas na sistemática do SIMPLES, devem ser aproveitadas quando do lançamento tributário. Inteligência da Súmula CARF 76. (...) ARBITRAMENTO. AFERIÇÃO INDIRETA. POSSIBILIDADE. A apresentação deficiente de documentos à fiscalização, bem como a recusa destes, respalda o arbitramento da remuneração dos segurados, por aferição indireta, incumbindo ao sujeito passivo apontar objetivamente as inconsistências existentes no procedimento adotado pelo Fisco, sob pena da manutenção do lançamento fiscal. (...) Recurso voluntário provido em parte. (Acórdão nº 2401-003.977, Redator Designado Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira, publicado em 05/04/2016) Nesse ponto, entendo que o recurso voluntário deve ser provido para reconhecer a possibilidade de dedução das contribuições previdenciárias pagas pelos segurados na qualidade de sócios, arrecadas pelas pessoas jurídicas, cujas contratações foram reclassificadas como relação empregatícia. Portanto, caso se entenda pela procedência do Auto de Infração, é cabível a dedução do lançamento fiscal em relação aos valores arrecadados pela pessoa jurídica, cuja receita foi reclassificada pela fiscalização e considerada como rendimentos auferidos pela pessoa física, sob pena de caracterização de bis in idem. 5. CFL 30 A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos, nos termos do art. 113, § 2º, do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172/66), tendo por escopo facilitar a fiscalização e permitir a cobrança do tributo, sem que represente a própria prestação pecuniária devida ao Ente Público13. Na lição de Leandro Paulsen, conquanto sejam chamadas de acessórias, “têm autonomia relativamente às obrigações principais. Efetivamente, tratando-se de obrigações tributárias acessórias, não vale o adágio sempre invocado no âmbito do direito civil, de que o acessório segue o principal.” 14. A autoridade fiscal realizou o lançamento da obrigação acessória sob o fundamento de ausência de preparo das folhas de pagamento das remunerações pagas ou creditadas a todos os segurados – arts. 92 e 102 da Lei 8212/91; 283, I, a, 292, II, III e IV, e 373 do Decreto 3.048/99. 13 REsp 1405244/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 08/08/2018, DJe 13/11/2018. 14 PAULSEN, Leandro. Curso de Direito Tributário Completo. 11. ed. São Paulo: Saraiva Educação. 2020, p. 310. Fl. 3201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 27 No TVF, informou que (fl. 47): O presente TVF trata, ainda, da multa por deixar a fiscalizada de preparar folha de pagamento das remunerações pagas a todos os segurados a seu serviço, de acordo com os padrões e normas estabelecidos pelo órgão competente da Seguridade Social conforme estabelecido no artigo 32, inciso I, da Lei 8.212, de 1991 combinado com o artigo 225, inciso I, § 9º do Regulamento da Previdência Social – RPS aprovado pelo Decreto 3.048, de 1999 e respectivas alterações. Informou ainda (fl. 102): 48. A fiscalização constatou que a fiscalizada efetuou pagamento de parcelas que integram o salário de contribuição (Remuneração a pessoa física por meio de nota fiscal emitida pela pessoa jurídica da qual a pessoa física é sócia – Anexo I, pagamento de pró-labore / complemento de pró-labore a sócios administradores e a diretores não empregados – Anexo II e pagamento de complemento salarial a empregado – Anexo III) identificadas na análise da Escrituração Contábil Digital – ECD transmitida ao Sistema Público de Escrituração Digital – Sped e deixou de incluir tais parcelas remuneratórias em sua folha de pagamento como parcela integrante da remuneração do empregado e do contribuinte individual (Anexos I, II e III), conforme previsto na Lei 8212, de 1991, artigo 32, inciso I, combinado com o artigo 225, inciso I e § 9º do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº. 3048, de 1999. O art. 32, I, da Lei nº 8.212/91 determina que a empresa é obrigada a preparar folhas de pagamento das remunerações pagas ou creditadas a todos os segurados a seu serviço, de acordo com os padrões e normas estabelecidos pelo órgão competente da Seguridade Social. Por sua vez, assim dispõe o art. 225 do RPS: Art. 225. A empresa é também obrigada a: I - preparar folha de pagamento da remuneração paga, devida ou creditada a todos os segurados a seu serviço, devendo manter, em cada estabelecimento, uma via da respectiva folha e recibos de pagamentos; (...) § 9º A folha de pagamento de que trata o inciso I do caput, elaborada mensalmente, de forma coletiva por estabelecimento da empresa, por obra de construção civil e por tomador de serviços, com a correspondente totalização, deverá: I - discriminar o nome dos segurados, indicando cargo, função ou serviço prestado; II - agrupar os segurados por categoria, assim entendido: segurado empregado, trabalhador avulso, contribuinte individual; (Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) Fl. 3202DF CARF MF Original http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3265.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3265.htm#art1 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 28 O art. 12 da Lei nº 8.212/91 informa que o trabalhador avulso é aquele que presta, a diversas empresas, sem vínculo empregatício, serviços de natureza urbana ou rural definidos no regulamento e enquadra-se como segurado obrigatório da Previdência Social. Por fim, a autoridade fiscal concluiu por elevar em três vezes a multa. Confira-se (fls. 102 e 103): 49. A fiscalização observou ainda repita-se que a conduta da fiscalizada no sentido de efetuar pagamentos de pró-labore utilizando notas fiscais de pessoas jurídicas das quais os respectivos contribuintes individuais – diretores não empregados - eram sócios implica em omissão pela fiscalizada de informação e declaração falsa as autoridades fazendárias e inserção de elementos inexatos na declaração de rendimentos de seus contribuintes individuais durante todo o período do presente procedimento fiscal para os segurados contribuintes individuais especificados no Anexo II, parte integrante do TVF bem assim ao efetuar pagamento de remuneração a segurados 50. A fiscalização verificou, portanto, que restou configurada as circunstâncias agravantes do inciso II do artigo 290 do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3048, de 1999 razão pela qual a multa a ser aplicada será elevada em três vezes conforme previsto no inciso II do artigo 292 do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3048, de 1999. 51. A multa aplicada é a prevista na Lei nº. 8.212, de 24 de julho de 1991, art. 92 e 102 e no Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto n°, 3.048, de 06.05.99, art. 283, inciso I, alínea "a", artigo 292, inciso II e art. 373 e elevada em três vezes conforme previsto no inciso II do artigo 292, cujo valor atualizado, nos termos da Portaria Ministério da Economia - ME nº. 3659, de 10 de fevereiro de 2020, publicada no DOU de 11 de fevereiro de 2020 é de R$ 2.519,31 (dois mil quinhentos e dezenove reais e trinta e um centavos) que elevado em três vezes perfaz o total de R$ 7.557,93 (sete mil quinhentos e cinquenta e sete reais e noventa e três centavos). O art. 209 do RPS assim informa: Art. 290. Constituem circunstâncias agravantes da infração, das quais dependerá a gradação da multa, ter o infrator: I - tentado subornar servidor dos órgãos competentes; II - agido com dolo, fraude ou má-fé; III - desacatado, no ato da ação fiscal, o agente da fiscalização; IV - obstado a ação da fiscalização; ou V - incorrido em reincidência. Parágrafo único. Caracteriza reincidência a prática de nova infração a dispositivo da legislação por uma mesma pessoa ou por seu sucessor, dentro de cinco anos Fl. 3203DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 29 da data em que se tornar irrecorrível administrativamente a decisão condenatória, da data do pagamento ou da data em que se configurou a revelia, referentes à autuação anterior. (Redação dada pelo Decreto nº 6.032, de 2007) No caso, contudo, ainda que mantida a obrigação acessória, não há que se falar em dolo, fraude ou má-fé, que necessitam da devida comprovação, não sendo suficiente a divergência da fiscalização quanto aos atos praticados pelo contribuinte, que não estão proibidos no ordenamento. Neste espeque, impõe-se, também, o afastamento da qualificadora da multa de ofício aplicada, reduzindo esta ao seu patamar ordinário de 75%. Caso, entretanto, este não seja o entendimento da maioria dos membros deste Colegiado, deve-se, ao menos, reduzir a muta qualificada de 150% para 100%, tendo em que, com a superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, o percentual da Multa Qualificada, prevista no art. 44, I, § 1º da Lei nº 9.430/1996, passou a ser de 100% (cem por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício. Conclusão Ante o exposto, voto no sentido de (i) rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas, (ii) reconhecer a perda do direito de o Fisco constituir o crédito tributário até a competência 10/2015, inclusive, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN e (iii) no mérito, dar provimento ao recurso voluntário interposto, cancelando-se o lançamento fiscal. Assinado Digitalmente Gregório Rechmann Junior VOTO VENCEDOR Conselheiro Rodrigo Duarte Firmino, Redator designado Com o mais profundo respeito às razões de decidir do ilustre conselheiro relator, ouso divergir essencialmente por estar o contencioso em discussão diante de uma simulação com o fim de obter benefícios fiscais, que utilizou fradulentamente de pessoas jurídicas vinculadas a trabalhadores para dissimular aquelas atividades essencialmente desempenhada por estes e inseridas “umbilicalmente” na cadeia de produção da recorrente, conforme exaustivamente descrito pela autoridade no Termo de Verificação Fiscal (TVF) de fls. 46/108. Os contratos das empresas prestadores de serviço apresentaram o mesmo padrão, conteúdo, cláusulas comuns, prazo de validade, descrição genérica e padronizada do objeto, pagamentos de diárias, alimentação, deslocamento, inclusive evidenciadas na escrituração contábil analisada pela autoridade. A fiscalização identificou que as empresas prestadoras têm sede empresarial localizada em endereço residencial. Fl. 3204DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6032.htm#art1 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 30 Destaco, in casu, o uso sistemático de 274 pessoas jurídicas que somente se prestaram à sonegação escancarada da recorrente, dissimulando a realidade dos fatos para se furtar ao financiamento da previdência social, conforme se vê claramente, fls. 59/72. O TVF traz de modo detalhado a pessoalidade, habitualidade, subordinação (econômica, hierárquica e jurídica) demonstrando a remuneração dos segurados empregados, conforme se vê a fls. 75/79, bem como também o pagamento de prolabore aos diretores da recorrente, utilizando mesmo modus operandi (pessoas jurídicas vinculadas), fls. 81/96, inclusive na forma de complementação de salário dos trabalhadores, fls. 96/98, evidenciando a higidez do lançamento do tributo previdenciário. A mim se torna clarividente a fraude à legislação previdenciária, conforme os próprios fundamentos trazidos na exação, em especial a nulidade do negócio jurídico, nos termos do art. 166, VI do Código Civil (Lei nº 10.406, de 2.002), pela evidenciada finalidade de burlar a Lei nº 8.212, de 1.991. Aplicável ao caso o prazo decadencial previsto na regra geral, art. 173, I do Código Tributário Nacional (CTN), nos termos do precedente que abaixo transcrevo e utilizo como razão de decidir: Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Súmula Carf nº 72) Portanto, inexiste decadência nos créditos constituídos, incluindo-se para aqueles relativos às obrigações acessórias: Lançamento de multa por descumprimento de obrigação acessória submete-se ao prazo decadencial previsto no art. 173, inciso I, do CTN. (Súmula Carf nº 174) Quanto ao argumento recursal que combate a aplicação da multa qualificada de 150%, entendo que a sanção foi corretamente imposta segundo os ditames legais e apontamentos do lançamento, contudo e em razão da nova redação dada ao art. 44, §1º caput e inc. VI da Lei nº 9.430, de 1996, conforme a Lei nº 14.689, de 2023, entendo aplicável, nos termos do art. 106, II, c do CTN, a legislação posterior menos severa, já que inexiste registro nos autos de reincidência: (Lei nº 9.430, de 1996) Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) Fl. 3205DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.088 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.721207/2020-70 31 § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será majorado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, e passará a ser de: (Redação dada pela Lei nº 14.689, de 2023) (...) VI – 100% (cem por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício; (Incluído pela Lei nº 14.689, de 2023) (grifo do autor) (CTN) Art. 106. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito: (...) II - tratando-se de ato não definitivamente julgado: (...) c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifo do autor) Assim, a sanção qualificada deve ser reduzida, in casu, ao patamar de 100%. Entendo ainda descabida a dedução dos recolhimentos realizados pelas pessoas jurídicas contratadas, haja vista a simulação do negócio jurídico e a fraude ao financiamento da previdência social. No mais, entendo que o decidido na origem não merece reparo, donde manifesto também minha concordância, com fundamento no art. 114, §12, I, Anexo do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 2023 Portanto, concluo meu voto (i) por conhecer do recurso voluntário interposto; (ii) rejeitar as preliminares; (iii) afastar a prejudicial de decadência; (iv) para no mérito dar parcial provimento ao recurso voluntário de modo a reduzir a multa qualificada ao percentual de 100%. É como voto! Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino Fl. 3206DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
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