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Numero do processo: 10980.720139/2016-14
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 15 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2005
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OBSCURIDADE. ALCANCE DO PROVIMENTO PARCIAL. ESCLARECIMENTO SEM EFEITOS MODIFICATIVOS.
Os embargos de declaração constituem instrumento destinado a esclarecer obscuridade, eliminar contradição, suprir omissão ou corrigir erro material no acórdão, nos termos do art. 116 do RICARF (Portaria MF nº 1.634/2023).
Constatada a existência de obscuridade quanto ao alcance do provimento parcial concedido à contribuinte, cabe o acolhimento dos embargos para explicitar que o reconhecimento da tese jurídica não implicou modificação do crédito tributário lançado.
O provimento parcial do recurso voluntário teve caráter exclusivamente declaratório, sem reflexos práticos sobre o resultado do lançamento fiscal.
Embargos de declaração acolhidos parcialmente, sem efeitos modificativos, para sanar obscuridade e precisar o alcance do dispositivo do acórdão embargado.
Numero da decisão: 3302-015.243
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para sanar obscuridade/contradição no dispositivo, esclarecendo que, embora o colegiado tenha reconhecido a tese jurídica de que matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem adquiridos com isenção, inclusive oriundos da Zona Franca de Manaus, podem, em tese, gerar créditos de IPI, a reclassificação fiscal dos insumos em posições tarifárias sujeitas à alíquota zero implicou a manutenção integral do valor autuado, de modo que o provimento parcial registrado possui caráter apenas declaratório, sem efeitos modificativos sobre o resultado prático do julgamento. Decisão sem efeitos infringentes
(assinado digitalmente)
José Renato Pereira de Deus, Relator.
(assinado digitalmente)
Lázaro Antonio Souza Soares, Presidente.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa(substituto[a] integral), Francisca das Chagas Lemos, Jose Renato Pereira de Deus, Lazaro Antonio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: JOSE RENATO PEREIRA DE DEUS
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OBSCURIDADE. ALCANCE DO PROVIMENTO PARCIAL. ESCLARECIMENTO SEM EFEITOS MODIFICATIVOS. Os embargos de declaração constituem instrumento destinado a esclarecer obscuridade, eliminar contradição, suprir omissão ou corrigir erro material no acórdão, nos termos do art. 116 do RICARF (Portaria MF nº 1.634/2023). Constatada a existência de obscuridade quanto ao alcance do provimento parcial concedido à contribuinte, cabe o acolhimento dos embargos para explicitar que o reconhecimento da tese jurídica não implicou modificação do crédito tributário lançado. O provimento parcial do recurso voluntário teve caráter exclusivamente declaratório, sem reflexos práticos sobre o resultado do lançamento fiscal. Embargos de declaração acolhidos parcialmente, sem efeitos modificativos, para sanar obscuridade e precisar o alcance do dispositivo do acórdão embargado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para sanar obscuridade/contradição no dispositivo, esclarecendo que, embora o colegiado tenha reconhecido a tese jurídica de que matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem adquiridos com isenção, inclusive oriundos da Zona Franca de Manaus, podem, em tese, gerar créditos de IPI, a reclassificação fiscal dos insumos em posições tarifárias sujeitas à alíquota zero implicou a manutenção integral do valor autuado, Fl. 7396DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.243 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720139/2016-14 2 de modo que o provimento parcial registrado possui caráter apenas declaratório, sem efeitos modificativos sobre o resultado prático do julgamento. Decisão sem efeitos infringentes (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus, Relator. (assinado digitalmente) Lázaro Antonio Souza Soares, Presidente. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa(substituto[a] integral), Francisca das Chagas Lemos, Jose Renato Pereira de Deus, Lazaro Antonio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração opostos pela Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 3302-014.082, proferido por esta 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção, na sessão de 28 de fevereiro de 2024, nos autos do Recurso Voluntário interposto pela contribuinte SPAIPA S.A. Indústria Brasileira de Bebidas, posteriormente incorporada pela SPAL Indústria Brasileira de Bebidas S.A. O acórdão embargado deu provimento parcial ao recurso voluntário da contribuinte, reconhecendo o direito ao crédito de IPI sobre aquisições de produtos isentos, inclusive quando oriundos da Zona Franca de Manaus, à luz do entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no RE 592.891 (Tema 322 da repercussão geral). O voto vencedor foi lavrado pelo Conselheiro Aniello Miranda Aufiero Júnior, restando vencidos o então relator Conselheiro José Renato Pereira de Deus e o Conselheira Mariel Orsi Gameiro. Naquela oportunidade, o colegiado concluiu pela parcial procedência do recurso, considerando que, embora a contribuinte tivesse razão quanto à possibilidade de aproveitamento de créditos relativos a insumos isentos, o auto de infração deveria subsistir parcialmente, em razão da manutenção de glosas relativas à classificação fiscal e a outros itens não abrangidos pela decisão judicial vinculante. Em 02 de maio de 2025, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional protocolizou os presentes Embargos de Declaração, com fundamento no art. 116 do Regimento Interno do CARF (Portaria MF nº 1.634/2023), alegando a existência de obscuridade no dispositivo do acórdão embargado, quanto ao alcance prático do provimento parcial concedido à contribuinte. Sustenta a embargante que o voto vencedor teria reconhecido tese jurídica que, por si só, não implicaria alteração do valor do crédito tributário mantido, e que, por conseguinte, a Fl. 7397DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.243 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720139/2016-14 3 redação do dispositivo — ao consignar “provimento parcial do recurso voluntário” — poderia induzir à interpretação equivocada de que o lançamento teria sido parcialmente cancelado. Requer, assim, o esclarecimento quanto ao alcance e efeitos práticos da decisão, especificamente se o provimento parcial importou modificação do lançamento fiscal ou se o auto de infração foi integralmente mantido, sendo o provimento apenas formal e declaratório de tese. O Despacho de Admissibilidade nº 3302-000.001, de 17 de julho de 2025, reconheceu a tempestividade e regularidade formal dos embargos, admitindo-os para julgamento pela Turma, com fundamento no art. 116, §1º, do RICARF/2023. É o relatório. VOTO Conselheiro José Renato Pereira de Deus, Relator. I – Admissibilidade Os Embargos de Declaração foram interpostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional de forma tempestiva, com fundamento no art. 65 do Regimento Interno do CARF, apontando a ocorrência de vícios de erro material e de obscuridade/contradição no Acórdão nº 3302-014.082. Presentes os pressupostos formais, passo à análise das questões delimitadas pelo despacho de admissibilidade. II – Obscuridade/contradição no dispositivo O segundo ponto suscitado refere-se ao dispositivo do acórdão embargado, que registrou “provimento parcial” para admitir créditos de IPI sobre insumos adquiridos com isenção, inclusive aqueles oriundos da Zona Franca de Manaus, em consonância com o entendimento firmado pelo STF no RE nº 592.891 (Tema 322 da repercussão geral). É certo que o colegiado, por maioria, acolheu a tese jurídica de que tais insumos podem, em tese, gerar créditos de IPI. Contudo, na mesma decisão, prevaleceu o voto vencedor que, ao tratar da classificação fiscal dos chamados kits de concentrados, determinou a sua classificação individualizada, resultando na sujeição de todos os insumos a alíquota zero de IPI. Esse enquadramento tarifário conduziu a uma consequência prática inequívoca: ainda que se admita a tese de direito, não houve, no caso concreto, qualquer reflexo econômico- financeiro no lançamento, pois insumos classificados com alíquota zero não geram créditos a serem aproveitados. O valor autuado, assim, permaneceu íntegro. É justamente nesse ponto que se identifica a obscuridade/contradição: de um lado, o dispositivo fala em “provimento parcial”, como se houvesse alguma redução do lançamento; de outro, a reclassificação dos insumos para alíquota zero resultou em manutenção integral do montante exigido. A contradição não está no conteúdo dos votos em si, mas na forma como o resultado foi registrado, gerando dúvida quanto ao alcance efetivo da decisão. Fl. 7398DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.243 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720139/2016-14 4 A Procuradoria alerta para as implicações dessa redação: caso não se esclareça que o provimento parcial teve apenas alcance teórico (jurídico) e não repercutiu sobre a exigência, poderia haver questionamento futuro quanto ao interesse recursal da Fazenda Nacional, em eventual recurso especial, dada a ausência de impacto prático sobre o lançamento. Nesse cenário, os embargos se mostram pertinentes, não para rediscutir mérito, mas para garantir a integridade e clareza do acórdão. Assim, a integração deve deixar claro que: O colegiado reconheceu a tese de que insumos adquiridos com isenção, inclusive da ZFM, podem, em tese, gerar créditos de IPI (RE nº 592.891). Contudo, diante da reclassificação fiscal dos insumos para posições tarifárias sujeitas a alíquota zero, não houve repercussão prática na quantificação do crédito tributário, permanecendo válido o lançamento. O provimento parcial registrado no dispositivo tem alcance apenas declaratório, sem efeitos modificativos sobre o valor exigido. IV – Conclusão Em face do exposto, voto em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para sanar obscuridade/contradição no dispositivo, esclarecendo que, embora o colegiado tenha reconhecido a tese jurídica de que matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem adquiridos com isenção, inclusive oriundos da Zona Franca de Manaus, podem, em tese, gerar créditos de IPI, a reclassificação fiscal dos insumos em posições tarifárias sujeitas à alíquota zero implicou a manutenção integral do valor autuado, de modo que o provimento parcial registrado possui caráter apenas declaratório, sem efeitos modificativos sobre o resultado prático do julgamento. Decisão sem efeitos infringentes. Eis o meu voto. Assinado Digitalmente José Renato Pereira de Deus Fl. 7399DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10580.005699/96-07
Turma: Terceira Câmara
Seção: Terceiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2001
Data da publicação: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2001
Ementa: ITR 1995.
PRELIMINAR DE NULIDADE DA NOTIFICAÇÃO - REJEIÇÃO.
Descabida a declaração da nulidade do lançamento por falta da identificação, na Notificação de Lançamento, da autoridade autuante.
PERDA PARCIAL DE DOMÍNIO DE IMÓVEL EM RAZÃO DE INUNDAÇÃO PARA FORMAÇÃO DO LAGO DE SOBRADINHO - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO.
Não apontamento nos registros da CHESF da CHESF da propriedade como indenizada para a formação de Reservatório. À contribuinte compete comprovar, inclusive por laudo técnico, suas alegações. A ausência de provas não autoriza o acolhimento de sua pretensão.
Recurso a que se nega provimento.
Numero da decisão: 303-29.953
Decisão: ACORDAM os Membros da Terceira Câmara do Terceiro Conselho de
Contribuintes, pelo voto de qualidade, rejeitar a preliminar de nulidade da notificação, vencidos os Conselheiros Nilton Luiz Bartoli, Manoel D'Assunção Ferreira Gomes, Irineu Bianchi e Paulo de Assis; e no mérito, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso, na forma do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Designado para redigir o voto quanto à preliminar o Conselheiro João Holanda Costa.
Nome do relator: NILTON LUIZ BARTOLI
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conteudo_txt : Metadados => date: 2009-08-10T17:20:54Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.6; pdf:docinfo:title: ; xmp:CreatorTool: CNC PRODUÇÃO; Keywords: ; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; subject: ; dc:creator: CNC Solutions; dcterms:created: 2009-08-10T17:20:52Z; Last-Modified: 2009-08-10T17:20:54Z; dcterms:modified: 2009-08-10T17:20:54Z; dc:format: application/pdf; version=1.6; Last-Save-Date: 2009-08-10T17:20:54Z; pdf:docinfo:creator_tool: CNC PRODUÇÃO; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:keywords: ; pdf:docinfo:modified: 2009-08-10T17:20:54Z; meta:save-date: 2009-08-10T17:20:54Z; pdf:encrypted: false; modified: 2009-08-10T17:20:54Z; cp:subject: ; pdf:docinfo:subject: ; Content-Type: application/pdf; pdf:docinfo:creator: CNC Solutions; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; creator: CNC Solutions; meta:author: CNC Solutions; dc:subject: ; meta:creation-date: 2009-08-10T17:20:52Z; created: 2009-08-10T17:20:52Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 15; Creation-Date: 2009-08-10T17:20:52Z; pdf:charsPerPage: 1610; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; meta:keyword: ; Author: CNC Solutions; producer: CNC Solutions; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: CNC Solutions; pdf:docinfo:created: 2009-08-10T17:20:52Z | Conteúdo => 41. 4f MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA PROCESSO N° : 10580.005699/96-07 SESSÃO DE : 19 de setembro de 2001 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 RECURSO N° : 122.587 RECORRENTE : FRANCISCO TEIXEIRA DE QUEIROZ RECORRIDA : DRJ/SALVADOR/BA ITR 1995. PRELIMINAR DE NULIDADE DA NOTIFICAÇÃO - REJEIÇÃO. Descabida a declaração da nulidade do lançamento por falta da identificação, na Notificação de Lançamento, da autoridade autuante PERDA PARCIAL DE DOMÍNIO DE IMÓVEL EM RAZÃO DE • INUNDAÇÃO PARA FORMAÇÃO DO LAGO DE SOBRADINHO - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Não apontamento nos registros da CHESF da propriedade como indenizada para a formação de Reservatório. À contribuinte compete comprovar, inclusive por laudo técnico, suas alegações. A ausência de provas não autoriza o acolhimento de sua pretensão. RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os Membros da Terceira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, pelo voto de qualidade, rejeitar a preliminar de nulidade da notificação, vencidos os Conselheiros Nilton Luiz Bartoli, Manoel D'Assunção Ferreira Gomes, Irineu Bianchi e Paulo de Assis; e no mérito, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso, na forma do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Designado para redigir o voto quanto à preliminar o Conselheiro João Holanda Costa. Brasília-DF, em 19 de setembro de 2001 10 7 ide 4,/a JO H LA DA COSTA Pr nte NeI, I(150N LU BARTI R ator Participaram, ainda, do presente julgamento, os seguintes Conselheiros: ANELISE DAUDT PRIETO, ZENALDO LOIBMAN e CARLOS FERNANDO FIGUEIREDO BARROS. Ats/1 MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 RECORRENTE : FRANCISCO TEIXEIRA DE QUEIROZ RECORRIDA : DRJ/SALVADOR/BA RELATOR(A) : NILTON LUIZ BARTOLI RELATOR DESIG. : JOÃO HOLANDA COSTA RELATÓRIO Trata-se de impugnação a lançamento do Imposto Territorial Rural - ITR, exercício 1995, alegando o contribuinte, que o Valor da Terra Nua está fora da realidade, visto que "Por ocasião da formação do Lago do Sobradinho (CHESF), boa parte da área e do domínio útil do imóvel foi reduzida, em razão da inundação de suas águas." e que a propriedade da área inundada não mais lhe pertence, "já que foi expropriada indiretamente pela CHESF" . Juntou aos autos a Notificação de Lançamento, relativa ao ano de 1995, onde consta o VTN declarado pelo contribuinte de R$ 856,11 (1,571ha), e o VTN retificado pela Secretaria da Receita Federal de R$ 45.967,32 (84,65/ha). A IN 42/96 mostra um VTN/ha de R$ 93,24. Na Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador foi prolatada decisão, com a seguinte ementa: "IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL. A autoridade julgadora de primeira instância poderá indeferir a solicitação de diligências e perícias quando considerá-las prescindíveis ou impraticáveis. O lançamento do imposto é realizado com base nas informações prestadas pelo próprio Contribuinte/Declarante. Somente a baixa no Cartório de Registro de Imóveis retira a propriedade do imóvel. O Valor da Terra Nua mínimo - VTNm poderá ser questionado pelo contribuinte com base em laudo técnico que obedeça as normas da ABNT (NBR n° 8799). NOTIFICAÇÃO PROCEDENTE." Intimado da decisão, o contribuinte aparelhou seu recurso aos 14 de novembro de 1997, reiterando os termos discorridos em sua impugnação. -2 MINISTÉRIO DA FAZENDA • TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 Às fls. 32 encontra-se a decisão do Segundo Conselho de Contribuintes, que resolveu por unanimidade dos votos, converter o recurso em diligência, para que fosse apurada a afirmação do contribuinte de que sua propriedade fora inundada para formação do Lago da Barragem de Sobradinho. O resultado da diligência informa que não foi constatado de que a propriedade em questão esteja dentro da área inundada para a formação da Barragem. É o relatório. 1111 3 MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 VOTO Conheço do Recurso Voluntário por ser tempestivo, por atender aos demais requisitos de admissibilidade e por conter matéria de competência deste E. Terceiro Conselho de Contribuintes. A nulidade de todo o processado foi pugnado por este Relator, que vazou seu voto nos seguintes termos: Após a minuciosa análise de todo o processado, chega-se à conclusão de que a declaração de nulidade da Notificação de Lançamento, constante dos autos, é irretorquivel. Senão vejamos. Ao realizar o ato administrativo de lançamento, aqui entendido sob qualquer modalidade, a autoridade fiscal está adstrita ao cumprimento de uma norma geral e abstrata que lhe confere e lhe delimita a competência para tal prática e de outra norma, também geral e abstrata, que incide sobre o fato jurídico tributário, que impõe determinada obrigação pecuniária ao contribuinte. O Código Tributário fornece a exata definição do lançamento no art. 142: "Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o 011 procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatório, sob pena de responsabilidade funcional." Não esquecendo que a origem do Direito Tributário é o Direito Financeiro, entendo oportuno lembrar que também a Lei n.° 4.320, de 17.3.1964, que baixa normas gerais de Direito Financeiro, conceitua o lançamento, no seu art. 53: 4 MINISTÉRIO DA FAZENDA • TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 Art. 53. "O lançamento da receita é o ato da repartição competente, que verifica a procedência do crédito fiscal e a pessoa que lhe é devedora e inscreve o débito desta". As normas legais veiculam, no mundo do direito positivo, conceitos que devem ser observados no momento em que o intérprete jurídico se defronta com uma situação como a que se apresenta nestes autos. O que se verifica é que o lançamento é um ato administrativo, ainda que decorrente de um procedimento fiscal interno, mas é um ato administrativo de caráter declaratório da ocorrência de um fato imponível (fato ocorrido no mundo fenomênico) e constitutivo de uma relação jurídica tributária, • entre o sujeito ativo, representado pelo agente prolator do ato, e o sujeito passivo a quem fica acometido de um dever jurídico, cujo objeto é o pagamento de uma obrigação pecuniária. Sendo o ato administrativo de lançamento privativo da autoridade administrativa, que tem o poder de aplicar o direito e reduzir a norma geral e abstrata em norma individual e concreta, e estando tal autoridade vinculada à estrita legalidade, podemos concluir que, mais que um poder, a aplicação da norma e a realização do ato é um dever, pois, como visto, vinculado e obrigatório. Hugo de Brito Machado (op. cit. Pág. 120) ensina: "A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória sob pena de responsabilidade funcional (CTN, art. 142, parágrafo único). Tomando conhecimento do fato gerador da obrigação tributária principal, ou do descumprimento de uma obrigação tributária acessória, que a este equivale porque faz nascer também uma obrigação tributária principal, no que concerne à penalidade pecuniária respectiva, a autoridade administrativa tem o dever indeclinável de proceder ao lançamento tributário. O Estado, como sujeito ativo da obrigação tributária, tem um direito ao tributo, expresso no direito potestativo de criar o crédito tributário, fazendo o lançamento. A posição do Estado não se confunde com a posição da autoridade administrativa. O Estado tem um direito, a autoridade tem um dever. Para Alberto Xavier (in, Do Lançamento - Teoria Geral do Ato, do Procedimento e do Processo Tributário, 2 a ed., Forense, Rio de Janeiro, 1998, pág. 54 e 66): 5 • MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 "O lançamento é ato de aplicação da norma tributária material ao caso em concreto, e por isso se destingue de numerosos atos regulados na lei fiscal que, ou não são a rigor atos de aplicação da lei, ou não são atos de aplicação de normas instrumentais. Devemos, por isso, aperfeiçoar a noção de lançamento por nós inicialmente formulada, definindo-o como o ato administrativo de aplicação da norma tributária material que se traduz na declaração da existência e quantitativa da prestação tributária e na sua conseqüente exigência. • Esses atos dos agentes públicos, provocados pelo fato gerador, se chamam lançamento e têm por finalidade a verificação, em caso concreto, das condições legais para a exigência do tributo, calculando este segundo os elementos quantitativos revelados por essas mesmas condições." (Aliomar Baleeiro, "Uma Introdução à Ciência das Finanças", vol. 1/281, n.° 193). Américo Masset Lacombe (in, "Curso de Direito Tributário", coordenação de Ives Gandra da Silva Martins, Ed. Cejup, Belém, 1997) ao tratar do tema "Crédito Tributário", postula: "A atividade do lançamento é, assim, conforme determina o parágrafo único deste artigo, vinculada e obrigatória. É vinculada aos termos previstos na lei tributária. Sendo a obrigação tributária decorrente de lei, não podendo haver tributo sem previsão legal, e sabendo-se que a ocorrência do fato imponivel prevista na hipótese de incidência da lei faz nascer o vinculo pessoal entre o sujeito ativo e o sujeito passivo, o lançamento que gera o vinculo patrimonial, constituindo o crédito tributário (obligatio, haftung, relação de responsabilidade), não pode deixar de estar vinculado ao determinado pela lei vigente na data do nascimento do vinculo pessoal (ocorrência do fato imponivel previsto na hipótese de incidência da lei). Esta atividade é obrigatória. Uma vez que verificado pela administração o nascimento do vinculo pessoal entre o sujeito ativo e o sujeito passivo (nascimento da obrigação tributária, debitum, shuld, relação de débito), a administração estará obrigada a efetuar o lançamento. A hipótese de incidência da atividade administrativa será assim a ocorrência do fato imponivel previsto na hipótese de incidência da lei tributária." 6 " MINISTÉRIO DA FAZENDA , TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 , Nos conceitos colacionados, vemos a atividade da administração tributária como um dever de aplicação da norma tributária. O agente administrativo,_ no exercício de sua competência atribuída pela lei, tem o dever-poder de, verificada a ocorrência do fato imponível, exercer sua atividade e lançar o tributo devido. , O ato administrativo do lançamento é obrigatório e incondicional. Em contrapartida, a administração tributária tem o dever jurídico de constituir o crédito tributário (art. 142 e parágrafo único do CTN), segundo as normas regentes. No caso em tela, a norma aplicável à notificação de lançamento do 110 ITR é o art. 11 do Decreto n.° 70.235/72, que disciplina as formalidades necessárias para a emanação do ato administrativo de lançamento: Art. 11 - A notificação de lançamento será expedida pelo órgão que administra o tributo e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do notificado; II - o valor do crédito tributário e o prazo para recolhimento ou impugnação; III - a disposição legal infringida, se for o caso; IV - a assinatura do chefe do órgão expedidor ou de outro servidor autorizado e a indicação de seu cargo ou função e o número de • matrícula. Parágrafo único. Prescinde de assinatura a notificação de lançamento emitida por processo eletrônico. A norma contida no art. 11 e em seu parágrafo único, esboça os requisitos para formalização do crédito, ou seja, em relação às características intrínsecas do documento, as informações que deva conter, e em relação à indicação da autoridade competente para exara-lo. Há, inclusive a dispensa da assinatura da autoridade competente, mas não há a dispensa de sua indicação, por óbvio. Todo ato praticado pela administração pública o é por seu agente, ou seja, a administração como ente jurídico de direito, não tem capacidade física de prolação de atos senão por ,4 7 MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 intermédio de seus agentes: pessoas designadas pela lei que são portadoras da competência jurídica. Não é, no caso em tela, a Delegacia da Receita Federal que expede o ato, enquanto órgão, mas sim a Delegacia pela pessoa de seu delegado ou pela pessoa do Auditor da Receita Federal. Portanto, supor a possibilidade de considerar válido o lançamento que esteja desprovido da indicação da autoridade que o prolatou é desconsiderar a formalidade necessária e inerente ao próprio ato. Seria entender que é dispensável a capacidade e a competência do agente para constituição do crédito tributário pelo lançamento. • O ato administrativo, como qualquer ato jurídico, tem como requisitos básicos o objeto lícito, agente capaz e forma prescrita ou não defesa em lei. Mas como poder aferir tais requisitos não constantes do ato? Como saber se o agente capaz estava autorizado pela lei para prática do ato se não se sabe quem o realizou? Para Paulo de Barros Carvalho, "a vinculação do ato administrativo, que, no fundo, é a vinculação do procedimento aos termos estritos da lei, assume as proporções de um limite objetivo a que deverá estar atrelado o agente da administração, mas que realiza, mediatamente, o valor da segurança jurídica" (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 372). Em nenhum momento poderia a administração tributária dispor de 110 seu dever-poder, em face da existência de uma norma que, simplesmente, objetiva o vetor da relação jurídica tributária acometida ao sujeito passivo. O processo é constituído de uma relação estabelecida através do vínculo entre pessoas (julgador, autor e réu), que representa requisitos material (o vínculo entre essas pessoas) e formal (regulamentação pela norma jurídica), produzindo uma nova situação para os que nele se envolvem. Essa relação traduz-se pela aplicação da vontade concreta da lei. Desde logo, para atingir-se tal referencial, pressupõe-se uma seqüência de acontecimentos desde a composição do litígio até a sentença final. Para que a relação processual se complete é necessário o cumprimento de certos requisitos, quais sejam (dentre outros): 8 • MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA 1 RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 Os pressupostos processuais - são os requisitos materiais e formais necessários ao estabelecimento da relação processual. São os dados para a análise de viabilidade do exercício de direito sob o ponto de vista processual, sem os quais levará ao indeferimento da inicial, ocasionando a sua extinção. As condições da ação (desenvolvimento) - é a verificação da possibilidade jurídica do pedido, da legitimidade da parte para a causa e do interesse jurídico na tutela jurisdicional, sem os quais o julgador não apreciará o pedido. A extinção do processo por vício de pressuposto ou ausência de condição da ação só deve prevalecer quando o feito detectado pelo julgador seja insuperável ou quando ordenado o saneamento, a parte deixe de promovê-lo no prazo que se lhe tenha assinado. A ausência desses elementos não permite que se produza a eficácia de coisa julgada material e, desde que não seja julgado o mérito, não há preclusão temporal para essa matéria, qualquer que seja a fase do processo. Inobservados os pressupostos processuais ou as condições da ação ocorrerá a extinção prematura do processo sem julgamento ou composição do litígio, eis que tal vício levará ao indeferimento da inicial. Nessa linha seguem as normas disciplinadoras no âmbito da Secretaria da Receita Federal, senão vejamos: "ATO DECLARATÓRIO NORMATIVO COSIT N." 02 DE 03/02/1999: 10 O Coordenador Geral do Sistema de Tributação, no uso das atribuições que lhe confere o art. 199, inciso IV, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, aprovado pela Portaria MF n.° 227, de 03/09/98, e tendo em vista o disposto nos arts. 142 e 173, inciso II, da Lei n.° 5.172/66 (CTN), nos arts. 10 e 11 do Decreto n.° 70.235/72 e no art. 6° da IN/SRF n.° 94, de 24/09/97, declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados que: - os lançamentos que contiverem vício de forma - incluídos aqueles constituídos em desacordo com o disposto no art. 5° da IN/SRF n.° 94, de 1997 - devem ser declarados nulos de ofício pela autoridade competente; (sublinhei) 9 MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 Dessa forma, pode o julgador desde logo extinguir o processo sem apreciação do mérito, haja vista que encontrou um defeito insanável nas questões preliminares de formação na relação processual, que é a inobservância, na Notificação de Lançamento, do nome, cargo, o número da matrícula e a assinatura do autuante, essa última dispensável quando da emissão da notificação por processamento eletrônico. L"-‘ Agir de outra maneira, frente a um vício insanável, importaria subverter a missão do processo e a função do julgador. Ademais, dispõe o art. 173 da Lei n.° 5.172/66 - CTN (nulidade por vício formal) que haverá vício de forma sempre que, na formação ou na • declaração da vontade traduzida no ato administrativo, foi preterida alguma formalidade essencial ou o ato efetivado não tenha sido na forma legalmente prevista. Têm-se, por exemplo, o Acórdão CSRF/01-0.538, de 23/05/85 cujo voto condutor assim dispõe: "Sustenta a Procuradora, com apoio no voto vencido do Conselheiro Antonio da Silva Cabral, que foi o da Minoria, a tese da configuração do vício formal. O lançamento tributário é ato jurídico administrativo. Como todo o ato administrativo, tem como um dos requisitos essenciais à sua formação o da forma, que é definida como seu revestimento material. A inobservância da formas prescrita em lei torna o ato inválido. O Conselheiro Antonio da Silva Cabral, no seu bem fundamentado voto já citado, trouxe a lume, dentre outros, os conceitos de Marcelo Caetano (in "Manual de Direito Administrativo", 10a ed., Tomo I, 1973, Lisboa) sobre vício de forma e formalidade, que peço vênia para reproduzir: O vício de forma existe sempre que na formação ou na declaração da vontade traduzida no ato administrativo foi preterida alguma formalidade essencial ou que o ato não reveste a forma legal. Formalidade é, pois, todo o ato ou fato, ainda que meramente ritual, exigido por lei para segurança ou formação ou da expressão da vontade de um órgão de uma pessoa coletiva. lo MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 Também DE PLÁCIDO E SILVA (in "Vocabulário Jurídico", vol. IV, Forense, 2 a ed., 1967, p. 1651, ensina: VÍCIO DE FORMA. É o defeito, ou a falta, que se anota em um ato jurídico, ou no instrumento, em que se materializou, pela omissão de requisito, ou desatenção à solenidade, que prescreve como necessária à sua validade ou eficácia jurídica" (Destaques no original). E no vol. III, págs. 712/713: FORMALIDADE — Derivado de forma (do latim formalistas), 111 significa a regra, solenidade ou prescrição legal, indicativas da maneira por que o ato deve ser formado Neste sentido, as formalidades constituem a maneira de proceder em determinado caso, assinalada em lei, ou compõem a própria forma solene para que o ato se considere válido ou juridicamente perfeito. As formalidades mostram-se prescrições de ordem legal para a feitura do ato ou promoção de qualquer contrato, ou solenidades próprias à validade do ato ou contrato. Quando as formalidades atendem à questão de forma material do ato, dizem-se extrínsecas. Quando se referem ao fundo, condições ou requisitos para a sua eficácia jurídica, dizem-se intrínsecas ou viscerais, e habitantes, segundo apresentam como requisitos necessários à validade do ato (capacidade, consentimento), ou se mostram atos preliminares e indispensáveis à validade de sua formação (autorização paterna, autorização do marido, assistência do tutor, curador etc.)." E, nos autos, encontra-se notificação de lançamento que não traz, em seu bojo, formalidade essencial, qual seja o nome, cargo e o número da matrícula da autoridade a quem a lei outorgou competência para prolatar o ato. Diante do exposto, julgo pela ANULAÇÃO DO PROCESSO, ab initio, declarando nula a notificação de lançamento constante dos autos." A preliminar suscitada (que já vem encontrando respaldo junto à Egrégia Câmara Superior de Recursos Fiscais), no entanto, foi rejeitada, nos termos do voto do Sr. Relator designado, pelo cabe à E. Câmara adentrar no julgamento do mérito do Recurso Voluntário. _ _ r. . MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 E o que se verifica nos presentes autos é que o recorrente limitou- se a argumentar, sem trazer qualquer prova de suas alegações. Dispõe o parágrafo 4° do artigo 3°, da Lei n.° 8.847/941 ser possível rever o VTNm que vier a ser questionado pelo contribuinte, com base em laudo técnico emitido por entidades de reconhecida capacitação técnica ou profissional devidamente habilitado. A Secretaria da Receita Federal instituiu a Norma de Execução SRF/COSAR/COSIT/N.° 02, de 08 de fevereiro de 1.996, disciplinando detalhadamente os procedimentos a serem adotados, inclusive no que se refere ao cálculo do Valor da Terra Nua mínimo (VTNm)2. • O contribuinte, contudo, não trouxe qualquer laudo para amparar sua pretensão. Por outro lado, convertido o julgamento em diligência, pela d. Terceira Câmara do E. Segundo Conselho de Contribuintes, com expedição de ofício à CHESF - Companhia Hidrelétrica do São Francisco, esta remeteu a resposta de fls. 42, informando não haver em seus registros de propriedades indenizadas para formação do Reservatório, ou do Cartório de Registro de Imóveis e Hipotecas de Sento Sé, a área Sítio Saco Velho, Fazenda Boqueirão; ou do Sítio Água Branca, Fazenda Boqueirão. A única denominação apontada pelo registro de imóveis é o da Fazenda Boqueirão Grande. De logo se vê que dúvidas restaram, e as mesmas poderiam ter sido afastadas facilmente pelo contribuinte com a elaboração de laudo técnico, demonstrando suas razões. 1 A autoficlade administrativa competente poderá rever, com base em laudo técnico emitido por entidades de reconhecida capacitação técnica ou profissional devidamente habilitado, o Valor da Terra Nua mínimo (VTNm), que vier a ser questionado pelo contribuinte." 2 "12.6, "b". Os valores referentes aos itens do Quadro de Cálculo do Valor da Terra Nua na DITR relativos a 31 de dezembro do exercício anterior, deverão ser comprovados através de: a) LAUDO TÉCNICO DE AVALIAÇÃO, acompanhado de cópia da Anotação de Responsabilidade Técnica — ART, devidamente registrada no CREA, efetuado por perito (Engenheiro Civil, Engenheiro Agrônomo ou Engenheiro Florestal), devidamente habilitados, com os requisitos das Normas da ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas (NBR 8799) demonstrando os métodos avaliatórios e fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuido ao imóvel; 13) AVALIAÇÃO efetuada pelas Fazendas Públicas Estaduais (Exatorias) ou Municipais, bem como aquelas efetuadas pela EMATER, com as características mencionadas na alínea "a". NOTA — Documento(s) que poderá(ão) ser apresentado(s) a titulo de referência para justificar as avaliações mencionadas nas alíneas "a" e "b" supramencionadas: anúncios em jornais, revistas, folhetos de publicação geral, que tenha(m) divulgado aqueles valores e que levem a convicção do valor da terra nua na data supramencionada." 12 — F"'" • MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 Também não socorre ao recorrente a alegação, em preliminar, de cerceamento de defesa (embora não o mencione expressamente), em razão do não atendimento de seu pedido genérico de inspeções, vistorias e/ou perícias, em desconformidade com o artigo 16, IV, do Decreto n.° 70.235/723. E à autoridade julgadora é permitido formar livremente sua convicção, na apreciação da prova, podendo ou não determinar as diligências que entender necessárias (art. 29 do Decreto supracitado). Dessa forma, tendo o interessado se limitado a alegar, sem, contudo, nada provar, e considerando as informações prestadas pela CHESF, entendo ser o caso de se negar provimento ao recurso interposto. De tudo o que foi exposto, é posição deste Relator NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO, nos termos do voto supra alinhavado. Sala das Sessões, em 19 setembro de 2001 NT6 IF7 ARTO - Relator 3 Art. 16 - A impugnação mencionará: IV - as diligencias, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. * Inciso IV com redação dada pela Lei n° 8.748, de 09/12/1993 (DOU de 10/12/1993, em vigor na data da publicação). 13 • MINISTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES TERCEIRA CÂMARA RECURSO N° : 122.587 ACÓRDÃO N° : 303-29.953 VOTO VENCEDOR QUANTO À PRELIMINAR Rejeito, inicialmente, a preliminar de nulidade do processo a partir da Notificação de Lançamento como argüido na Câmara, ocasião em que reformo a posição que assumi em Sessão de abril de 2.001 o que justifico pelas seguintes razões: Inicialmente, relembro que os casos de nulidade são aqueles exaustivamente fixados pelo art. 59 do Decreto n° 70.235/72, a saber os atos praticados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por pessoa 111 incompetente ou com preterição do direito de defesa. Já o art 60 do mesmo Decreto dispõe que outras irregularidades, incorreções e omissões não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este houver dado causa ou quando influírem na solução do litígio. No presente caso, não se vislumbra, de modo algum a prática do cerceamento de defesa tanto mais que o contribuinte defendeu-se, demonstrando entender as exigências legais e apresentou os documentos que a seu ver eram suficientes para a defesa. Ademais, ele não teve dúvida a respeito de qual a autoridade fiscal que dera origem ao lançamento e junto a esta mesma autoridade apresentou sua defesa nos devidos termo. Ademais, o contribuinte não invocou esta preliminar, não se sentiu prejudicado na sua liberdade de defesa, não argüiu em momento algum haja sido cerceado esse seu direito. Assim, não havendo trazido qualquer prejuízo para o contribuinte, sequer houve necessidade de sanar a falha contida em a notificação. Resta acentuar ainda, quando ao comando da Instrução Normativa 11) SRF-92/97, que não se aplica ao caso sob exame pois tal ato normativo foi baixado especificamente para lançamentos suplementares, decorrentes de revisão, efetuados por meio de autos de infração, não sendo aqui o caso. Por fim, não se pode esquecer a consideração da economia processual, uma vez que declarada a nulidade por vício processual, viria certamente a autoridade administrativa a, dentro do prazo de cinco anos, proceder a novo lançamento, como previsto no art. 173 inciso II, do CTN. Sala das Sessões, em 19 de setembro de 2001 JOÃO AN A COSTA- Relator Designado 14 , .r-, .1 ,. : . . • . MINISTÉRIO DA FAZENDA, TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES -,..../8.*/ TERCEIRA CÂMARA ,,._i......-, ,, Processo n.°: 10580.005699/96-071 Recurso n°: 122.587, , TERMO DE INTIMAÇÃO,, ,, Em cumprimento ao disposto no parágrafo 2° do artigo 44 do Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes, fica o Sr. Procurador, Representante da Fazenda Nacional junto à Terceira Câmara, intimado a tomar ciência do Acórdão n°: 303-29.953 010 Brasília-DF, 10 de julho de2002 Joã ncCosta/id Pr si r dente d Terceira Câmara Ciente em: '.2 i - ---17-, D-/ )1' `3 - 1111 \ (I\ 1_,Ç M'') 'O 1 <-1, w) ç, 6,) Or '3 p.re, ) ?S) f" Page 1 _0003300.PDF Page 1 _0003400.PDF Page 1 _0003500.PDF Page 1 _0003600.PDF Page 1 _0003700.PDF Page 1 _0003800.PDF Page 1 _0003900.PDF Page 1 _0004000.PDF Page 1 _0004100.PDF Page 1 _0004200.PDF Page 1 _0004300.PDF Page 1 _0004400.PDF Page 1 _0004500.PDF Page 1 _0004600.PDF Page 1
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Numero do processo: 17095.721247/2021-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 31/01/2018 a 31/12/2018
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONCOMITÂNCIA COM AÇÃO JUDICIAL. RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS.
A propositura pelo sujeito passivo de demanda judicial com o mesmo objeto do processo administrativo, antes ou depois do lançamento de ofício, implica renúncia às instâncias administrativas e desistência do recurso acaso interposto.
RECOB. REGIME ESPECIAL. ÁLCOOL COMBUSTÍVEL. OPÇÃO.
Para usufruir do regime especial de apuração e pagamento da Cofins incidente sobre a receita bruta auferida na venda de álcool, inclusive para fins carburantes, o interessado deve exercer a sua opção nos termos e condições estabelecidos pela legislação.
NÃO CUMULATIVIDADE. DISTRIBUIDORES DE ÁLCOOL CARBURANTE. CRÉDITOS NA AQUISIÇÃO PARA REVENDA. IMPOSSIBILIDADE. CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL.
Tratando-se de matéria submetida à apreciação do Poder Judiciário, não se conhece da impugnação administrativa, quanto ao mérito, por ter o mesmo objeto da ação judicial, em respeito ao princípio da unicidade de jurisdição contemplado na Carta Política, cabendo, entretanto, análise relativamente à matéria não submetida à apreciação do Poder Judiciário.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 31/01/2018 a 31/12/2018
LANÇAMENTO SOBRE A MESMA MATÉRIA FÁTICA.
Aplica-se à Contribuição para o PIS o decidido sobre a Cofins, por se tratar de mesma matéria fática.
Numero da decisão: 3101-004.403
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário, não conhecendo da parte submetida ao Poder Judiciário. Na parte conhecida, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
Assinado Digitalmente
Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues – Relator
Assinado Digitalmente
Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: MATHEUS SCHWERTNER ZICCARELLI RODRIGUES
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2018 a 31/12/2018 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONCOMITÂNCIA COM AÇÃO JUDICIAL. RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. A propositura pelo sujeito passivo de demanda judicial com o mesmo objeto do processo administrativo, antes ou depois do lançamento de ofício, implica renúncia às instâncias administrativas e desistência do recurso acaso interposto. RECOB. REGIME ESPECIAL. ÁLCOOL COMBUSTÍVEL. OPÇÃO. Para usufruir do regime especial de apuração e pagamento da Cofins incidente sobre a receita bruta auferida na venda de álcool, inclusive para fins carburantes, o interessado deve exercer a sua opção nos termos e condições estabelecidos pela legislação. NÃO CUMULATIVIDADE. DISTRIBUIDORES DE ÁLCOOL CARBURANTE. CRÉDITOS NA AQUISIÇÃO PARA REVENDA. IMPOSSIBILIDADE. CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. Tratando-se de matéria submetida à apreciação do Poder Judiciário, não se conhece da impugnação administrativa, quanto ao mérito, por ter o mesmo objeto da ação judicial, em respeito ao princípio da unicidade de jurisdição contemplado na Carta Política, cabendo, entretanto, análise relativamente à matéria não submetida à apreciação do Poder Judiciário. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2018 a 31/12/2018 LANÇAMENTO SOBRE A MESMA MATÉRIA FÁTICA. Aplica-se à Contribuição para o PIS o decidido sobre a Cofins, por se tratar de mesma matéria fática. Fl. 1041DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário, não conhecendo da parte submetida ao Poder Judiciário. Na parte conhecida, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues – Relator Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). RELATÓRIO Por bem narrar os fatos ocorridos, adoto o relatório contido na decisão proferida pela Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 05: Trata o presente processo de Autos de Infração lavrados contra a contribuinte acima identificada que pretendem a cobrança da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins e da Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS/Pasep relativas aos períodos de apuração de janeiro a dezembro de 2018. No Termo de Verificação Fiscal às folhas 70/74, após descrever os procedimentos adotados durante a fiscalização, o autuante informa ter constado as irregularidades a seguir transcritas, em síntese: II – Considerações Iniciais. O procedimento tem como escopo a apuração da Contribuição para o PIS e da Cofins, compreendendo os períodos de apuração do ano-calendário 2018. O sujeito passivo não fez a opção pelo Recob para o referido período, de modo que a apuração das contribuições é com base nas alíquotas percentuais (ad valorem) incidentes sobre o valor das vendas, excluído o ICMS Substituição Tributária. Fl. 1042DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 3 Não há ICMS a recolher relativo a operações próprias para exclusão da base de cálculo das contribuições. Mesmo não tendo optado pelo Recob à época própria, como exige o § 5º do art. 5º da Lei nº 9.718/1998, calculou as contribuições por essa modalidade. Em face do comando legal ora mencionado, a Receita Federal disciplinou a forma de opção por meio da IN- RFB nº 876/2008, vigente até 14/10/2019. A partir de 15/10/2019 a opção passou a ser estabelecida pelo art. 30 da IN-RFB nº 1.911/2019. (...) III.1 – Falta/Insuficiência de Recolhimento da Contribuição para o PIS e da Cofins Em face da falta de opção pelo Recob, o sujeito passivo apurou, declarou e recolheu valores menores que os devidos, à medida que a aplicação de alíquotas ad rem sobre a quantidade de metros cúbicos vendida, resulta valor menor que a aplicação das alíquotas ad valorem sobre o valor das vendas. IV – Apurações das Bases de Cálculo para Formalização das Exigências Tributárias As bases de cálculo das contribuições estão demonstradas no ANEXO I (UM) onde se vê a aplicação das alíquotas ad valorem previstas no inciso II do art. 5º da Lei nº 9.718/1998 sobre os valores das vendas de AEHC. No cálculo do sujeito passivo não foi feita a exclusão do ICMS Substituição Tributária, tampouco foram calculados os créditos sobre despesas de energia elétrica, depreciações e aluguéis, providências que a fiscalização adotou, assim como o abatimento dos valores informados em DCTF ou pagos. (...) Cientificada dos Autos de Infração em 25/01/2021 por meio de sua Caixa Postal, conforme Termo à folha 274, considerada seu Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) perante a RFB, em 24/02/2021 a contribuinte solicitou a anexação da impugnação às folhas 278/309, ilustrada com doutrina e jurisprudência, sendo essas as suas razões de defesa, em síntese: 1) O Auto de Infração deve ser declarado nulo, por inexistir fundamentação/motivação, requisito básico de qualquer ato administrativo, especialmente aquele que ocasione possível punição ao contribuinte, e cuja ausência resulta em cerceamento do seu direito de defesa. 2) Durante o procedimento de fiscalização, apresentou à Fiscalização resposta devidamente fundamentada, bem como os documentos que comprovam o direito alegado, mas não houve qualquer resposta. 3) Caso a resposta apresentada tivesse sido apreciada e respondida, não haveria que se falar no presente Auto de Infração, vez que restaria devidamente comprovada a suficiência no recolhimento das contribuições ao PIS/Cofins, pois, ao contrário do que apontara a Fiscalização, se verifica um crédito oriundo das aquisições de insumos, custos e despesas essenciais e relevantes vinculados à sua atividade, principalmente Gasolina A, Óleo Diesel A e Álcool Hidratado. 4) A contribuinte faz jus ao crédito de tais contribuições, tendo em vista que se encontra no regime RECOB, está submetida ao regime não cumulativo plurifásico de Fl. 1043DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 4 apuração do PIS e da Cofins e se trata de produção nos termos do art. 24 da Lei nº 11.727, de 2008, citando a Solução de Divergência RFB nº 07, de 2014. 5) A lavratura do Auto de Infração não se encontra alinhada ao Regime Tributário aplicável aos Combustíveis Derivados de Petróleo, notadamente quanto à atividade desempenhada pela empresa, citando a Solução de Consulta Cosit/RFB nº 568, de 2017, e a Solução de Divergência nº 47, de 2017. 6) Além dos créditos de PIS/Cofins sobre o álcool, na apuração fiscal ainda devem ser analisados os demais créditos a que a Distribuidora faz jus e que não foram considerados pela Fiscalização, pelo cálculo apresentado, pois não há relatório a respeito do que considerou ou não na apuração do “montante do tributo devido”. Cita a Solução de Consulta Cosit nº 218, de 2014. 7) Em seguida, a impugnante descreve os procedimentos adotados pelas distribuidoras de combustíveis para a produção da gasolina C e do diesel B, e posterior venda aos varejistas e grandes consumidores, afirmando que a atividade desenvolvida pela empresa envolve não apenas a distribuição (venda de combustíveis), mas sim a produção (mistura), transporte e controle de qualidade do combustível (gasolina C e óleo diesel B), tratando-se de processo de industrialização nos termos da lei, e não de atividade exclusivamente comercial. 8) Essa conclusão amolda-se à indigitada decisão prolatada pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ no julgamento do Recurso Especial (RESP) representativo de controvérsia repetitiva nº 1.221.170-PR, cujas principais repercussões no âmbito desta Secretaria foram analisadas pelo Parecer Normativo Cosit/RFB nº 5, de 17 de dezembro de 2018. 9) Reitera que faz jus ao crédito decorrente da aquisição de aditivos utilizados na produção da Gasolina C aditivada, da própria Gasolina A adquirida, bem como do Óleo Diesel A, aditivos utilizados e do biodiesel B100 utilizados na produção do Óleo Diesel B. 10) A empresa somente foi autuada em razão da espécie de atividade de industrialização entendida pela Auditoria Fiscal, que sequer realizou a visita in loco na empresa, utilizando-se somente de presunção. 11) Por fim, nos termos do art. 16, IV, do Decreto nº 70.235, de 1972, pugna pela produção de prova pericial química para que seja realizada perícia técnica no local operado pela empresa, para fins de averiguar e concluir se a mistura (procedimento obrigatório) dos insumos resulta em um outro combustível, praticando, assim, atividade de produção, indicando o nome da sua perita e formulando quesitos a serem respondidos. A Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 05, por meio do Acórdão nº 105-011.621, de 12 de julho de 2023, decidiu, por unanimidade de votos, rejeitar a alegação de nulidade e julgar improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário em litígio, conforme entendimento resumido na seguinte ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins Período de apuração: 31/01/2018 a 31/12/2018 RECOB. REGIME ESPECIAL. ÁLCOOL COMBUSTÍVEL. OPÇÃO. Fl. 1044DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 5 Para usufruir do regime especial de apuração e pagamento da Cofins incidente sobre a receita bruta auferida na venda de álcool, inclusive para fins carburantes, o interessado deve exercer a sua opção nos termos e condições estabelecidos pela legislação. NÃO CUMULATIVIDADE. DISTRIBUIDORA DE COMBUSTÍVEIS DERIVADOS DO PETRÓLEO. ALÍQUOTAS CONCENTRADAS E INCIDÊNCIA MONOFÁSICA. CRÉDITOS NA AQUISIÇÃO PARA REVENDA. IMPOSSIBILIDADE. A mistura de gasolina “A” com etanol anidro (álcool) para obtenção de gasolina tipo “C” e a mistura de biodiesel ao óleo diesel tipo “A” para obtenção de óleo diesel tipo “B” não se equiparam à produção de combustíveis. Dessa forma, considerando que nada é produzido ou fabricado, não há que se falar em aquisição de “insumos”, não sendo permitida a apuração de créditos da não cumulatividade da Cofins com relação às aquisições de combustíveis derivados de petróleo para mistura e posterior revenda por parte das distribuidoras de combustíveis. NÃO CUMULATIVIDADE. DISTRIBUIDORES DE ÁLCOOL CARBURANTE. CRÉDITOS NA AQUISIÇÃO PARA REVENDA. IMPOSSIBILIDADE. CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL Tratando-se de matéria submetida à apreciação do Poder Judiciário, não se conhece da impugnação administrativa, quanto ao mérito, por ter o mesmo objeto da ação judicial, em respeito ao princípio da unicidade de jurisdição contemplado na Carta Política, cabendo, entretanto, análise relativamente à matéria não submetida à apreciação do Poder Judiciário. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2018 a 31/12/2018 PIS E COFINS. LANÇAMENTO. IDENTIDADE DE MATÉRIA FÁTICA. DECISÃO MESMOS FUNDAMENTOS. Aplicam-se ao lançamento da Contribuição para o PIS as mesmas razões de decidir aplicáveis à Cofins quando ambos os lançamentos recaírem sobre idêntica situação fática. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A recorrente Centro Oeste Brasil Petróleo Ltda. interpôs Recurso Voluntário, reiterando os argumentos expostos na impugnação, informando fato novo (decisão judicial) e pleiteando, em breve síntese, o seguinte: Ante o exposto, a Recorrente vem respeitosamente REQUERER o recebimento do recurso voluntário e sua análise ao final da qual se espera que as razões sejam julgadas procedentes para anular o lançamento em sua íntegra, vez que restou demonstrado o direito a crédito dos insumos mencionados, principalmente Fl. 1045DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 6 Gasolina A e Óleo Diesel A, bem como Álcool Hidratado, levando-se em consideração que a Empresa está submetida ao regime não cumulativo na apuração de PIS COFINS; que tal regime é plurifásico; e como se trata de produção nos termos do art. 24 da Lei nº 11.727/2008. Ressaltando-se ainda que a nos autos do Processo nº 1018525-09.2023.4.01.3600 a Recorrente obteve decisão liminar que permite o creditamento de PIS e COFINS sobre a aquisição dos insumos necessários à produção do óleo diesel B, o que, por silogismo, torna o presente auto de infração insubsistente. É o relatório. VOTO Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e cumpre com os requisitos formais de admissibilidade, devendo, por conseguinte, ser conhecido. 1 DA RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS – FATO NOVO Em seu Recurso Voluntário, a recorrente informa que ajuizou ação de produção antecipada de provas, nos termos do art. 381, III do Código de Processo Civil, (processo n° 1009323-76.2021.4.01.3600) buscando obter elementos que demonstrassem a complexidade de sua atividade. Para tanto, restou confeccionado laudo pericial cujo objetivo era demonstrar se a recorrente realiza atividade de industrialização a partir da comercialização de Gasolina C e Óleo Diesel B, o qual foi devidamente homologado, extinguindo-se a referida relação jurídica processual. Ato contínuo, em 25 de julho de 2023, a recorrente ajuizou AÇÃO DECLARATÓRIA C/C PEDIDO DE CONCESSÃO DE TUTELA PROVISÓRIA DE EVIDÊNCIA, perante a 3ª VARA FEDERAL CÍVEL DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DO MATO GROSSO, registrada sob n. 1018525-09.2023.4.01.3600, com o seguinte pedido final (fls. 842/865): [...] DECLARAÇÃO DE MÉRITO Após que seja ordenada a citação da União, representada pela Procuradoria da Fazenda Nacional, no prazo que lhe assinala o Novo Código de Processo Civil, e seja proferida sentença que, analisando o mérito, julgue o pedido para: e) Reconhecer a natureza da atividade de produção, em virtude do laudo judicial elaborado (processo n.º 1009323-76.2021.4.01.3600), declarar o direito ao crédito Fl. 1046DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 7 de PIS e COFINS nos termos do art. 24 da Lei 11.727/08, bem como em apreço aos critérios da essencialidade e relevância, consoante definido pelo STJ, notadamente das matérias primas Gasolina A e Óleo Diesel A, bem como dos demais insumos (conceito do art. 3.º, II, das Leis n.º 10.637/02 e n.º 10.833/03), nos moldes em que delineado na presente ação; f) Determinar à União Federal que não pratique qualquer ato tendente a glosar os créditos aqui tratados, enquanto perdurar o estado de fato e de direito que deu origem ao presente pleito. DA REPETIÇÃO DO INDÉBITO g) assegurar o direito de repetir tudo o que pagou indevidamente, recolhido em face das normas proibitivas ao crédito, seja por meio de via precatório ou requisição de pequeno valor ou ainda, se for opção do autor, ser objeto de compensação com débitos tributários próprios na via administrativa, uma vez que constituem, ambas as modalidades, formas de execução do julgado colocadas à disposição da parte, nos termos da sumula 461 do Superior Tribunal de Justiça; h) assegurar que o direito de repetição tratado na alínea anterior se estenda aos montantes pagos nos cinco anos anteriores ao aforamento do pedido da ação, nos termos do art. 168 do CTN; Noticia, ainda, que foi proferida decisão, em sede de tutela de urgência (fls. 963/985), da qual destacamos os seguintes excertos, que bem demonstram a matéria submetida à apreciação judicial: Trata-se de ação ordinária ajuizada por CENTRO OESTE BRASIL PETROLEO LTDA contra UNIAO FEDERAL (FAZENDA NACIONAL) objetivando o reconhecimento da atividade de produção, em conformidade pelo laudo judicial elaborado, declarando, por corolário, o direito ao crédito de PIS e COFINS nos moldes do artigo 24 da Lei n. 11.727/2008 em relação aos insumos utilizados na produção da gasolina C e Óleo Diesel B. Narra a inicial que a autora é empresa atuante no comércio atacadista de combustíveis, incluindo gasolina, óleo diese, álcool carburante (etanol), biodiesel, entre outros produtos derivados do petróleo. Entende, entretanto, que sua atividade não se resume ao comércio, inserindo-se, também, na atividade de produção/69industrialização. A fim de corroborar o desempenho de atividade de produção/industrialização, a autora ajuizou ação de produção antecipada de provas neste juízo, distribuído sob o n. 1009323-76.2021.4.01.3600, na qual se originou o laudo pericial anexo à inicial. Salienta que para elaboração dos combustíveis (gasolina C e óleo diesel B) adquire gasolina A e óleo diesel A, a título de insumos para produção daqueles. Fl. 1047DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 8 A gasolina C é composta da mistura dos alegados insumos Álcool Anidro e Gasolina A, enquanto o óleo diesel B é formando pela mistura do óleo diese A e B100. Indica que o processo de mistura com a formação de um terceiro produto, distinto dos insumos utilizados, atende ao conceito de industrialização estabelecido pela Lei n. 4.502/64, regulamentada pelo Decreto 7.212/2010. Afirma, ainda, que em caso de não aceitação de o processo de mistura enquadrar-se no conceito de industrialização, seria possível enquadrá-lo nº conceito de industrialização na modalidade beneficiamento. Assevera, por entender demonstrada a caracterização da atividade de industrialização e de insumos das matérias-primas utilizadas para produção da gasolina C e óleo diesel B, que merece creditamento de PIS e COFINS em relação aos valores pagos na aquisição dos insumos (gasolina A e óleo diese A, bem como os demais componentes) para produção dos aludidos combustíveis. Como fundamento a embasar o pleito, afirma que no caso em testilha aplica-se o disposto no artigo 24 da Lei n. 11727/2008, o qual exclui, expressamente, a restrição imposta nº artigo 3º, inciso I, alínea "b" em relação às pessoas jurídicas sujeitas ao regime de não cumulatividade da contribuição da PIS e COFINS enquadradas como fabricante dos produtos relacionados no § 1º do art. 2º da Lei n. 10.833/2003. Requer a concessão de tutela de evidência, em razão da existência de entendimento do E.STJ sob a sistemática dos recursos repetitivos acerca do direito ao creditamento de PIS e COFINS em relação aos insumos utilizados no desempenho da atividade, bem como pela existência de prova documental. [...] Da mistura de combustíveis como processo de industrialização. [...] Das conclusões exaradas pelo perito, tem-se que com a mistura das matérias- primas utilizadas na produção dos combustíveis gera uma nova substância a qual é diversa dos componentes que as subsidia. Logo, enquadrando-se a atividade exercida pela empresa no disposto no artigo 4º, §1º do Decreto 7.212/2010, há que se concluir pelo reconhecimento do desempenho da atividade de industrialização. Da condição de insumo e o direito ao creditamento de PIS e COFINS. Consoante relatado, o autor objetiva seja reconhecida a condição de insumo da matérias-primas utilizadas para produção da gasolina C e óleo diesel B e, por conseguinte, o reconhecimento do direito ao crédito de PIS e CONFINS sobre a compra daquelas. [...] Fl. 1048DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 9 Considerando os critérios fixados pelo E.STJ, tem-se que reconhecer a imprescindibilidade das matérias-primas empregadas para a produção dos combustíveis, eis que da mistura daquelas cria-se uma nova substância com características próprias que dissonam das dos componentes utilizados para sua produção, quando analisados em separado. Aqui, entretanto, cabe fazer um parêntese em relação ao objeto específico dos autos, uma vez que a parte autora trouxe prova apenas em relação ao processo de mistura do óleo B, sem, contudo, demonstrar a essencialidade das matérias empregadas para o processo de industrialização da gasolina C. O exposto decorre da conclusão a que chegou o laudo pericial, o qual mencionada apenas o óleo diesel C, bem como da resposta exarada aos quesitos a seguir discriminados, pelo qual afere-se que a pesquisa pericial debruçou-se apenas sobre um dos combustíveis produzidos pela autora. [...] Desse modo, considerando a ausência de expertíse do juízo para definir se a mistura dos componentes utilizados para a formação da gasolina C também são insumos, além de o referido combustível tratar de substância nova em relação às matérias-primas utilizadas, só preenche os requisitos de insumo, fixados pela jurisprudência pátria, os componentes empregados na industrialização do Óleo Diesel B. Reconhecido o caráter de insumo dos componentes utilizados para a fabricação do Óleo Diesel B, passa-se à análise do direito ao creditamento sobre a aquisição daqueles. [...] No que tange ao regime monofásico, tem-se que é o aplicável em relação à incidência de PIS e COFINS relativamente à gasolina e óleo diesel, em que a carga tributária é concentrada na refinaria, com consequente desoneração nas revendas de arcar com a contribuição. Em relação à possibilidade de creditamento de PIS e COFINS sobre aquisição dos componentes necessários à obtenção da gasolina C e óleo diese B, tem-se alguns julgados do Tribunais Regionais acerca da matéria, para os quais seria inviável em relação de incidência do regime monofásico, o que proibiria o crédito. [...] Percebe-se os julgados que eles não reconhecem o direito ao crédito, em razão do previsto no artigo 17 da Lei n. 11.033/2004, a qual apenas autorizaria que os créditos decorrentes da aquisição de bens sujeitos à nao cumulatividade (incidência Plurifásica) e não fossem estornados quando as vendas fossem efetuadas com suspensão, isenção, alíquota zero ou não incidência da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, de modo a não autorizar a constituição de créditos sobre o custo de aquisição. Fl. 1049DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 10 Ademais, aliam o exposto ao previsto no artigo 3º, inciso I, "b" da Lei n. 10.637/2002 e 10.833/2003. Ocorre que não se encontra qualquer menção nos aludidos julgados ao disposto nº artigo 24 da Lei n. 11.724/2008, utilizada como base da fundamentação da presente ação. O referido dispositivo assim dispõe: [...] Percebe-se que o dispositivo, de maneira expressa, excepciona a vedação contida no artigo 3º, inciso I, alínea "b", bem como afirma, categoricamente, ser possível o desconto dos créditos relativos a aquisição de gasolina e suas correntes e óleo diesel e suas correntes (art. 2º§1º, inciso I da Lei n. 10.833/2003) por pessoas jurídicas fabricantes ou produtoras desses produtos. Tendo como base a expressa exceção legal a permitir o creditamento no caso de pessoa jurídica fabricante, tem-se que fazer uma distinção em relação ao julgados acima colacionados, eis que calcados na ausência de permissivo legal para tanto. Inclusive, tem-se que o E.STJ no julgamento do Tema repetitivo 1093 fixou a seguinte tese dando conta da ausência de incompatibilidade da técnica de creditamento e o regime de tributação monofásico, indicando, implicitamente, a possibilidade em caso de previsão legal: [...] Logo, demonstrado o desempenho de atividade de industrialização/produção do combustível óleo diesel B, bem como o caráter de insumo de seus componentes (diesel A e B100), aliado ao permissivo legal de creditamento (art. 24 da Lei n. 11727/2008), tem-se que o pedido de tutela merece parcial guarida, nos termos da fundamentação acima exposta. Ante o exposto, DEFIRO, PARCIALMENTE, A TUTELA DE URGÊNCIA, determinando à requerida permita o creditamento de PIS e COFINS sobre a aquisição dos insumos necessários à produção do óleo diesel B, em conformidade com a fundamentação acima esposada. Com base nisto, a recorrente sustenta que, “[...] em observância a decisão judicial proferida, mostra-se necessário que o presente Auto de Infração seja anulado, eis que quando do lançamento o Fiscal ao definir o valor do tributo a pagar não levou em consideração os créditos de PIS/COFINS dos insumos utilizados para a produção do Óleo Diesel B e, desse modo, praticou conduta contraria as disposições do art. 142 do CTN”. É o que passo a apreciar. Consoante dispõem o § 2º, do artigo 1º, do Decreto-lei nº 1.737/1979, e o artigo 38, parágrafo único, da Lei nº 6.830/1980, a propositura, pelo sujeito passivo, antes ou depois do lançamento de ofício, de qualquer demanda judicial com o mesmo objeto do processo Fl. 1050DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 11 administrativo, importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto. Neste sentido, assim dispõe a Súmula nº 1 do CARF: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Desta forma, a propositura de demanda judicial pela recorrente importou renúncia às instâncias administrativas, incluindo, assim, a apreciação do mérito do lançamento sob análise, estando os órgãos julgadores administrativos impedidos de apreciar o mérito da matéria, pois qualquer que pudesse vir a ser o entendimento da instância administrativa a respeito da questão litigiosa, inexoravelmente prevalecerá o veredicto judicial, haja vista o Princípio da Unidade de Jurisdição, adotado pela Constituição Federal de 1988, em que a coisa julgada no âmbito do Judiciário jamais poderá ser objeto de outro exame em processo administrativo (art. 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal). Neste sentido, assim está disciplinado no Parecer Normativo da Coordenação-Geral de Tributação (Cosit) no 7, de 22 de agosto de 2014: CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL E PROCESSO JUDICIAL COM O MESMO OBJETO. PREVALÊNCIA DO PROCESSO JUDICIAL. RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. DESISTÊNCIA DO RECURSO ACASO INTERPOSTO. A propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal implica renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso de qualquer espécie interposto. Quando contenha objeto mais abrangente do que o judicial, o processo administrativo fiscal deve ter seguimento em relação à parte que não esteja sendo discutida judicialmente. A decisão judicial transitada em julgado, ainda que posterior ao término do contencioso administrativo, prevalece sobre a decisão administrativa, mesmo quando aquela tenha sido desfavorável ao contribuinte e esta lhe tenha sido favorável. A renúncia tácita às instâncias administrativas não impede que a Fazenda Pública dê prosseguimento normal a seus procedimentos, devendo proferir decisão formal, declaratória da definitividade da exigência discutida ou da decisão recorrida. É irrelevante que o processo judicial tenha sido extinto sem resolução de mérito, na forma do art. 267 do CPC, pois a renúncia às instâncias administrativas, em decorrência da opção pela via judicial, é insuscetível de retratação. Fl. 1051DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 12 A definitividade da renúncia às instâncias administrativas independe de o recurso administrativo ter sido interposto antes ou após o ajuizamento da ação. Dispositivos Legais: Lei nº5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN), art. 145, c/c art. 149, art. 151, incisos II, IV e V; Decreto-lei nº147, de 3 de fevereiro de 1967, art. 20, § 3º; Decreto nº70.235, de 6 de março de 1972, arts. 16, 28 e 62; Lei nº5.869, de 11 de janeiro de 1973 (CPC), arts. 219, 267, 268, 269 e 301, § 2º; Decreto-lei nº1.737, de 20 de dezembro de 1979, art. 1º; Lei nº6.830, de 22 de setembro de 1980, art. 38; Constituição Federal, art. 5º, inciso XXXV; Lei nº9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 53; Lei nº12.016, de 7 de agosto de 2009, art. 22; Portaria CARF nº52, de 21 de dezembro de 2010; Portaria MF nº341, de 12 de julho de 2011, art. 26; art. 77 da IN RFB nº1.300, de 20 de novembro de 2012. (Grifamos) Assim, em âmbito administrativo, deve ser proferida decisão formal declaratória da definitividade da exigência discutida ou da decisão recorrida, tendo seguimento o processo administrativo apenas em relação à parte que não está sendo discutida judicialmente. Frise-se que, sobrevindo o trânsito em julgado da ação judicial, cabe à autoridade fiscal lançadora aplicar a decisão definitiva, o que resulta, conforme o caso, em cancelamento ou cobrança, total ou parcial, do crédito tributário lançado. Isto porque não cabe, no presente processo, reconhecer ou autorizar matéria já decidida definitivamente pelo Poder Judiciário. Diante do exposto, voto por não conhecer do Recurso Voluntário em relação às matérias submetidas à apreciação judicial, por renúncia às instâncias administrativas. 2 DA RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS – FATO JÁ RECONHECIDO EM 1ª INSTÂNCIA Em sua defesa, a recorrente sustenta que “[...] não há que se falar em suposta insuficiência de recolhimento ao PIS/COFINS, vez que o Contribuinte faz jus ao crédito de tais contribuições, tendo em vista que a empresa se encontra no Regime não cumulativo pelo RECOB, e considerando o princípio da não cumulatividade e as normas sobre apuração de PIS/COFINS, possui direito ao crédito referente à aquisição do álcool (AEHC), bem como quanto aos demais insumos, custos e despesas essenciais e relevantes vinculados à sua atividade”. Ao apreciar tais argumentos em sede de impugnação, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: No presente caso, a despeito de afirmar que era optante pelo Recob no ano- calendário de 2018, a própria contribuinte reconhece que no sistema de consulta pública do referido Regime Especial não consta termo ativo, conforme documento à folha 85; e admite que “ao que tudo indica houve um equívoco interno quando da formalização junto ao aplicativo de adesão ao sistema”. Logo, correto o procedimento da fiscalização ao não considerar a fiscalizada como optante do Regime Especial. Fl. 1052DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 13 [...] Em relação ao álcool hidratado, que é adquirido para revenda, a impugnante aduz apenas que faz jus ao crédito por estar submetida ao regime não cumulativo das contribuições e se tratar de apuração pela sistemática plurifásica. Mas inexiste reparo a se fazer no procedimento do agente do Fisco. [...] Nota-se, portanto, que existe dispositivo legal que veda expressamente a apuração do crédito do PIS e da Cofins na presente hipótese (aquisição de Álcool Etanol Hidratado Combustível – AEHC para revenda por distribuidoras de combustíveis), não sendo possível apropriar-se do crédito em razão da aplicação do princípio da não cumulatividade ou por decorrência lógica de outros dispositivos legais que não tratam especificamente da matéria. Corroborando toda a fundamentação até aqui analisada, ressalte-se que a autuada ingressou judicialmente com pedido para que lhe fosse permitido o direito ao crédito de PIS e de Cofins sobre a aquisição de álcool carburante e de outros “insumos”. Era sabedora, portanto, da vedação ao creditamento existente na legislação de regência. Assim respondeu à Fiscalização, às folhas 116/118: Inicialmente, o contribuinte vem esclarecer que houve um equívoco em sua manifestação anterior, ao relatar que não possui ação judicial sobre as contribuições em fiscalização, isso porque, a empresa possui ação judicial sob n.º 1026731- 69.2019.4.01.3400, em trâmite perante a 16ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal, discorrendo sobre o seu direito aos créditos de PIS e COFINS em decorrência do princípio da não cumulatividade. O equívoco ocorreu em razão da ação tramitar junto a Seção Judiciária do Distrito Federal, não sendo localizado inicialmente. Assim, retifica a informação anteriormente prestada e anexa a petição inicial da referida ação. A petição inicial do processo judicial nº 1026731-69.2019.4.01.3400 encontra-se às folhas 119/170. Vejamos parte do item “VIII – PEDIDOS”, com os destaques do original: Liminar Nos termos da inicial e dos documentos a ela acostados, a Autora vem respeitosamente REQUERER que seja concedida a tutela antecipada de evidência, para fins de permitir o direito ao crédito de PIS e COFINS consoante definido pelo STJ, notadamente sobre a aquisição de álcool carburante, bem como dos demais insumos mencionados, garantindo a aplicação do princípio constitucional da não cumulatividade, determinando ainda que a parte ré se abstenha de realizar qualquer tipo de cobrança/autuação decorrente do referido creditamento. Declaração Mérito ou Direito Fl. 1053DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 14 Após que seja ordenada a citação da União, representada pela Procuradoria da Fazenda Nacional, no prazo que lhe assinala o Novo Código de Processo Civil, e seja proferida sentença que, analisando o mérito, julgue o pedido para: (a) Reconhecendo a natureza da atividade, declarar o direito ao crédito de PIS e COFINS, segundo os critérios da essencialidade e relevância, consoante definido pelo STJ, notadamente do Álcool Hidratado Carburante adquiridos dos produtores, bem como dos demais insumos (conceito do art. 3º, II das Leis n.º 10.637/02 e n.º 10.833/03), nos moldes em que delineado na presente ação; (...) A decisão às folhas 171/173, proferida em 25/10/2019 pela Juíza Federal Substituta da 16ª Vara/SJDF, indeferiu o pedido de tutela de urgência. A sentença, que em 14/09/2020 julgou os pedidos improcedentes, está às folhas 174/178. Resta, então, aplicar ao presente caso o Parecer Normativo Cosit nº 7, de 22 de agosto de 2014, quanto à apuração de créditos de PIS e Cofins sobre a aquisição de Álcool Etanol Hidratado Combustível – AEHC, aditivos, gasolina, óleo diesel e biodiesel, segundo o qual “a propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal implica renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso de qualquer espécie interposto”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera os argumentos expostos quanto ao mérito da controvérsia e contesta o não conhecimento da impugnação, com base nos seguintes argumentos: DO NÃO CONHECIMENTO DA IMPUGNAÇÃO COM RELAÇÃO AO MÉRITO Conforme se evidencia pelas fundamentações do julgamento proferido pela Delegacia Regional de Julgamento (DRJ), o Julgador destacou que, no que concerne à matéria de mérito relacionada ao direito ao crédito de PIS/COFINS na aquisição do Etanol Hidratado, existe uma simultaneidade entre o processo administrativo em curso e o processo judicial. Nesse sentido, o entendimento sustentado é o de que a impugnação não deveria ser admitida, uma vez que a controvérsia deveria ser dirimida no âmbito do Poder Judiciário. No entanto, tal posicionamento carece de fundamentação sólida. Como amplamente demonstrado durante a fase de fiscalização e reiterado na fase de impugnação, a ação declaratória proposta pela Empresa Contribuinte tem como único objetivo obter o reconhecimento do seu direito. Não há, de forma alguma, qualquer interferência daquela ação no atual processo de autuação em análise. Uma situação completamente diversa se configuraria caso estivéssemos diante de uma ação anulatória cuja finalidade fosse a revogação do lançamento fiscal. Fl. 1054DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.403 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.721247/2021-97 15 Portanto, é importante ressaltar que, mesmo com a existência da ação distribuída, não há qualquer sobreposição com o caso em apreço, não se justificando, assim, a rejeição da impugnação. Dessa forma, espera-se que o presente recurso voluntário seja recebido e minuciosamente avaliado, com especial atenção às questões de mérito relacionadas ao processo em análise. Com a devida vênia, não assiste razão à recorrente. Ao ingressar com demanda judicial pleiteando o reconhecimento do direito à apuração de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre a aquisição de Álcool Etanol Hidratado Combustível – AEHC e demais insumos, ainda que posteriormente à lavratura do auto de infração ora combatido, a recorrente transfere a discussão ao Poder Judiciário, renunciando às instâncias administrativas, nos termos expostos no tópico anterior e no v. acórdão recorrido. Por fim, no que se refere ao único ponto que não foi objeto de demanda judicial – a opção pelo Regime Especial de Apuração e Pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre Combustíveis e Bebidas (RECOB) – verifica-se pelos elementos constantes dos autos, e conforme reconhecido pela própria recorrente, que não houve adesão formal ao regime, tendo sido correto o procedimento adotado pela fiscalização. Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário neste tópico, para negar-lhe provimento. CONCLUSÃO Por todo exposto, voto por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das matérias submetidas à apreciação judicial, por renúncia às instâncias administrativas. Na parte conhecida, voto por negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues Fl. 1055DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 DA renúncia às instâncias administrativas – fato novo 2 DA RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS – FATO JÁ RECONHECIDO EM 1ª INSTÂNCIA
score : 1.0
Numero do processo: 10340.720510/2020-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 26 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2015, 2016
OMISSÃO DE RECEITA. LUCRO REAL. AUSÊNCIA DAS HIPÓTESES LEGALMENTE PREVISTAS PARA APURAÇÃO PELO LUCRO ARBITRADO.
Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. (art. 24 da Lei nº 9.249/95). Ausência das hipóteses previstas no art. 47 da Lei nº 8.981/95 para apuração pelo lucro arbitrado.
MULTA ISOLADA PELO NÃO RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE.
O art. 44, I e II, da Lei nº 9.430, de 1996, com nova redação atribuída pela Lei nº 11.488, de 2007, da prevê duas condutas jurídicas distintas e, para cada uma delas, o legislador ordinário previu sanções igualmente distintas. Incorrendo o sujeito passivo nas duas condutas previstas em lei, deve ser aplicada a respectiva sanção prevista.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2015, 2016
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM.
Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação tributária (art. 124, I, do CTN) quando demonstrado que os sujeitos passivos ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, administrando-a em nome das interpostas pessoas artificialmente integradas ao quadro social da pessoa jurídica.
Numero da decisão: 1301-007.960
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Quanto ao Recurso Voluntário, acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade; e (ii) no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os Conselheiros Eduardo Monteiro Cardoso (Relator), José Eduardo Dornelas Souza e Eduarda Lacerda Kanieski, que lhe deram provimento parcial, tão somente para cancelar as multas por falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Iágaro Jung Martins.
Assinado Digitalmente
Eduardo Monteiro Cardoso – Relator
Assinado Digitalmente
Iágaro Jung Martins – Redator designado
Assinado Digitalmente
Rafael Taranto Malheiros – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduarda Lacerda Kanieski, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: EDUARDO MONTEIRO CARDOSO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015, 2016 OMISSÃO DE RECEITA. LUCRO REAL. AUSÊNCIA DAS HIPÓTESES LEGALMENTE PREVISTAS PARA APURAÇÃO PELO LUCRO ARBITRADO. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. (art. 24 da Lei nº 9.249/95). Ausência das hipóteses previstas no art. 47 da Lei nº 8.981/95 para apuração pelo lucro arbitrado. MULTA ISOLADA PELO NÃO RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE. O art. 44, I e II, da Lei nº 9.430, de 1996, com nova redação atribuída pela Lei nº 11.488, de 2007, da prevê duas condutas jurídicas distintas e, para cada uma delas, o legislador ordinário previu sanções igualmente distintas. Incorrendo o sujeito passivo nas duas condutas previstas em lei, deve ser aplicada a respectiva sanção prevista. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2015, 2016 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação tributária (art. 124, I, do CTN) quando demonstrado que os sujeitos passivos ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, administrando-a em nome das interpostas pessoas artificialmente integradas ao quadro social da pessoa jurídica.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Quanto ao Recurso Voluntário, acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade; e (ii) no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os Conselheiros Eduardo Monteiro Cardoso (Relator), José Eduardo Dornelas Souza e Eduarda Lacerda Kanieski, que lhe deram provimento parcial, tão somente para cancelar as multas por falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Iágaro Jung Martins. Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso – Relator Assinado Digitalmente Iágaro Jung Martins – Redator designado Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduarda Lacerda Kanieski, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
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LUCRO REAL. AUSÊNCIA DAS HIPÓTESES LEGALMENTE PREVISTAS PARA APURAÇÃO PELO LUCRO ARBITRADO. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. (art. 24 da Lei nº 9.249/95). Ausência das hipóteses previstas no art. 47 da Lei nº 8.981/95 para apuração pelo lucro arbitrado. MULTA ISOLADA PELO NÃO RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE. O art. 44, I e II, da Lei nº 9.430, de 1996, com nova redação atribuída pela Lei nº 11.488, de 2007, da prevê duas condutas jurídicas distintas e, para cada uma delas, o legislador ordinário previu sanções igualmente distintas. Incorrendo o sujeito passivo nas duas condutas previstas em lei, deve ser aplicada a respectiva sanção prevista. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2015, 2016 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação tributária (art. 124, I, do CTN) quando demonstrado que os sujeitos passivos ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, administrando-a em nome das interpostas pessoas artificialmente integradas ao quadro social da pessoa jurídica. Fl. 77585DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Quanto ao Recurso Voluntário, acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade; e (ii) no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os Conselheiros Eduardo Monteiro Cardoso (Relator), José Eduardo Dornelas Souza e Eduarda Lacerda Kanieski, que lhe deram provimento parcial, tão somente para cancelar as multas por falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Iágaro Jung Martins. Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso – Relator Assinado Digitalmente Iágaro Jung Martins – Redator designado Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduarda Lacerda Kanieski, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO 1. Trata-se de Recurso de Ofício e de Recursos Voluntários interpostos por DISPAR DISTRIBUIDORA DE MEDICAMENTOS LTDA. – EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL (fls. 77.170/77.271), EDUARDO RAWSKI DE PAULA (fls. 77.485/77.492), JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR (fls. 77.274/77.377 e 77.380/77.482) em face de acórdão da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 07 (DRJ07) que julgou parcialmente procedentes as Impugnações apresentadas, mantendo parte do crédito tributário cobrado. 2. Referido crédito tributário decorre de Autos de Infração (fls. 20.319/20.354) lavrados para exigir IRPJ e CSLL dos anos-calendário de 2015 e 2016, em função de suposta Fl. 77586DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 3 omissão de receitas não contabilizadas e da falta de recolhimento sobre as bases de cálculo estimadas. Os tributos foram acrescidos de juros de mora e multa de ofício qualificada. 3. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal (fls. 20.355/20.377), a Fiscalização iniciou o procedimento auditando a pessoa jurídica S.V Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda. (“Auditada”), realizando a intimação da contribuinte DISPAR para esclarecer a omissão de receita dos anos-calendário de 2015 e 2016, apurada com base nas Notas Fiscais emitidas por aquela. O TVF apresenta a seguinte conclusão: 12. A DISPAR não comprovou a escrituração das vendas efetuadas pela Auditada, afirmando que se trata de receita de outra pessoa jurídica do grupo DP4, mas conforme descrito no item 11 as receitas das vendas da Auditada tem como contribuinte a DISPAR, que se utilizou da Auditada para realizar sonegação fiscal. Portanto os valores descritos no item 7 devem compor a Receita Bruta da DISPAR, conforme disposto no artigo 279 do Decreto 3.000, de 26 de março de 1999, o qual afirma que a Receita Bruta compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria o resultado auferido nas operações de conta alheia, in verbis: [...] 13. A DISPAR apurou o Lucro dos anos-calendário de 2015 e 2016 na forma de Lucro Real Anual (fls 11989 e 16038). 14. Na determinação do Lucro Real devem ser adicionados receitas e quaisquer outros valores não incluídos na apuração do lucro líquido, in verbis: [...] 4. As razões para a referida imputação e para a responsabilidade solidária atribuída às pessoas físicas estão no item 11 do TVF, que aponta para uma sequência de atos, bem sintetizados pela DRJ da seguinte forma: a) em 10/09/2012 retiram-se da Auditada os sócios ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA, transferindo a totalidade das suas cotas no valor de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) para CELSO VIEIRA DA SILVA(item 22); b) em 15/03/2013, ingressa no quadro societário da Auditada a pessoa jurídica CVS Holding EIRELI, CNPJ nº 17.777.560/0001-50, aberta em 12/03/2013, sendo o responsável a pessoa física de CELSO VIEIRA DA SILVA(item 23); c) 14/10/2013 foi constituída a DISPAR pela pessoa física EDUARDO RAWSKI DE PAULA, CPF n º xxx.xxx.xxx-xx, e pela pessoa jurídica E.L.M. PARTICIPAÇÕES EIRELI, CNPJ nº 17.007.891/0001-00, sendo o responsável a pessoa física de EDUARDO RAWSKI DE PAULA; tendo como objeto a exploração dos ramos de: Comércio atacadista de medicamentos e drogas de uso humano, cosméticos e produtos de perfumaria e higiene pessoal, instrumentos e materiais para uso médico cirúrgico hospitalar e de laboratórios, outros equipamentos e artigos de uso pessoal e doméstico não especificado(item 28); d) no período de 24/02/2010 a 02/04/2017 o objeto social da Auditada foi: Comércio Atacadista de Medicamentos e Drogas de uso Humano; Comércio Atacadista de Instrumentos e Materiais para uso médico, Cirúrgico, Hospitalar e Fl. 77587DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 4 de Laboratórios; Comércio Atacadista de Cosméticos e Produtos de Perfumaria; Comércio Atacadista de Produtos de Higiene Pessoal; Comércio Atacadista de equipamentos e artigos de uso pessoal e doméstico (itens 21 e 25); e) em 29/07/2014 foi alterada a sede e domicílio da DISPAR para a Alameda Arpó nº 850, Bairro Ouro Fino, São José dos Pinhais/PR(item 29); f) em 03/06/2016, foi alterada a sede e o domicílio da DISPAR para a Rua Valdemiro Valaski nº 2432, Bairro Guatupê, São José dos Pinhais-PR (item 31); g) a Ficha Atualização/Alteração de Endereços, de 26/08/2016, do Banco Bradesco S.A., assinada por CELSO VIEIRA DA SILVA, no campo Contato consta o nome de DARIO FELIPE DO CARMO e seu e-mail dario.felipe@linhaverde.net.br e no campo Endereço Alternativo consta Rua Valdemiro Valaski nº 2432, Bairro Guatupê, São José dos Pinhais-PR (itens 37 e 38); h) na FICHA CADASTRAL – PESSOA JURÍDICA, emitida em 17/09/2019, do Banco do Brasil constam os endereços das sedes da DISPAR, Alameda Arpó nº 850, Bairro Ouro Fino, São José dos Pinhais-PR e Rua Valdemiro Valaski nº 2432, Bairro Guatupê, São José dos Pinhais-PR (item 41 e 42); i) na Ficha Cadastral da conta nº 36058-3, Agência 1688, do Banco Itaú Unibanco, consta no campo e-mail o endereço de dario@dp4distribuidora.com.br, (item 45); j) o Banco Itaú Unibanco enviou documentos de GIOVANKA ASTETE DA SILVA DE PAULA e JULIANO RAWSKI DE PAULA, quando eram sócios da Auditada, como sendo responsáveis pela movimentação das contas bancárias referente aos anos- calendário de 2015 e 2016, anteriores ao ingresso do sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, sendo os documentos mais recentes do ano-calendário de 2008, (itens 47 e 50); l) o Banco Bradesco S.A., atual proprietário do Kinton Bank S.A, apresenta os Cartões de Assinatura do ano-calendário de 2016 dos responsáveis da Auditada, as pessoas físicas: EDUARDO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, qualificação Procurador; MAURICIO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, qualificação Procurador; ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF Nº xxx.xxx.xxx- xx; qualificação Procurador; HELENA RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, qualificação Procuradora e JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº. xxx.xxx.xxx-xx, qualificação Sócio, (item 52); m) o Banco Bradesco S.A., atual proprietário do Kinton Bank S.A, apresenta, referente ao ano-calendário de 2015, formulário Cadastro de Informações – HSBC – Pessoa Jurídica da Auditada com um “X” no campo Inclusão, no qual somente foram preenchidos os campos 1)Dados de Identificação: Razão Social DP4 Negócios e Distribuição Ltda e CNPJ 04.831.217; 4) Titulares/Sócios/Administradores ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA sem data e assinatura do representante da sociedade (item 54); Fl. 77588DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 5 n) o Banco Santander (Brasil) S.A apresentou dados da Ficha cadastral da Auditada, onde consta na aba Endereço além da sede da mesma, o endereço “R VALDEMIRO VALASKI”, que é a sede da DISPAR; na aba Relacionamentos além do nome do sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, consta o nome de EDUARDO RAWSKI DE PAULA como Procurador; cópia dos documentos de identificação de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, JULIANO RAWSKI DE PAULA e CELSO VIEIRA DA SILVA; Ficha Cadastral PJ Segmentos Corporate e Empresas, Ficha Cadastral Representante Pessoa Física Segmento Empresas e Corporate e Proposta/Contrato de Abertura de Conta, Contratação de Outros Produtos e Serviços – Corporate e Empresas, datados de 01 de novembro de 2011, com os nomes de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA e Procuração da DP4 NEGÓCIOS E DISTRIBUIÇÃO LTDA, datada de 02 de abril de 2009, representada por JULIANO RAWSKI DE PAULA, nomeando como Procurador EDUARDO RAWSKI DE PAULA (itens 56 e 57); o) o Banco Safra S.A apresentou a Informação para Cadastro Pessoa Jurídica, sem data e com assinatura dos representantes da Auditada, sendo preenchido no campo Diretores/Sócios – Gerentes os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, Cargo Diretor; Procuração da Auditada, datada de 02 de abril de 2009, do Representante da mesma JULIANO RAWSKI DE PAULA, constituindo seus Procuradores ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx e EDUARDO RAWSKI DE PAULA, xxx.xxx.xxx-xx; Ficha Cadastral de Pessoa: Sócios, Procuradores, Representantes e Garantidores em nome da Auditada, datada de 02 de outubro de 2015, no Campo dos DADOS PESSOAIS consta o nome de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, sendo assinalado a sua Relação com a Empresa não como Sócio, mas “GARANTIDOR” (itens 59/61); p) o Banco Sofisa S.A apresentou Ficha Cadastral – Proposta de Abertura de Conta – Pessoa Jurídica (1º Cadastro) da Auditada, datada de 02 de setembro de 2014, assinada pelo Sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, mas no Campo IV – Identificação dos Representantes Legais/Procuradores/Prepostos estão preenchidos com os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; a Ficha Cadastral – Proposta de Abertura de Conta – Pessoa Jurídica (Renovação) da Auditada, datada de 03 de setembro de 2015, assinada pelo sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, mas no Campo IV – Identificação dos Representantes Legais/Procuradores/Prepostos estão preenchidos com os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; a Ficha Cadastral – Proposta de Abertura de Conta – Pessoa Jurídica (Sem Alterações) da Auditada, datada de 12 de setembro de 2016, assinada pelo sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, mas no Campo IV – Identificação dos Representantes Legais/Procuradores/Prepostos estão preenchidos com os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; Cédula de Crédito Bancário nº 90944 em Fl. 77589DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 6 nome da Auditada no valor de R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), datada de 10 de junho de 2015, assinada pelo sócio CELSO VIEIRA DA SILVA e JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; a Cédula de Crédito Bancário nº 91442 em nome da Auditada no valor de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), datada de 17 de dezembro de 2015, assinada por CELSO VIEIRA DA SILVA, ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, sendo devedor solidário a pessoa física JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; a Cédula de Crédito Bancário nº 91747 no valor de R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), datada de 31 de maio de 2016, assinada por CELSO VIEIRA DA SILVA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, e a Cédula de Crédito Bancário nº 91761 no valor de R$ 2.000.000,00 (dois milhões reais), datada de 08 de junho de 2016, assinada por CELSO VIEIRA DA SILVA e JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; Cartão de Assinatura de CELSO VIEIRA DA SILVA e de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, (itens 63/65); q) a pessoa física Rui Fernando Baggio, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, Representante Comercial, declarou que exerceu os cargos de coordenador de vendas, supervisor de equipe e gerência na Auditada e de coordenador de equipe de vendas na DISPAR; que JULIANO RAWSKI DE PAULA, EDUARDO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR se apresentavam como donos da Auditada; que na DISPAR, JULIANO RAWSKI DE PAULA exercia o cargo de Diretor da área de farmácia e era o chefe geral; que EDUARDO RAWSKI DE PAULA exercia o cargo de Diretor de compras e do setor de supermercados e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR exercia o cargo de Diretor Financeiro; que conheceu de vista CELSO VIEIRA DA SILVA nas instalações da Auditada, pois ele sempre participava das reuniões, treinamentos e eventos com os demais funcionários e representantes comerciais; que viu, quando esteve no setor financeiro da Auditada, CELSO VIEIRA DA SILVA assinando cheques (item 69); r) a pessoa física Alessandra Lemes Batista, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, supervisora de vendas, declarou que na Auditada desde o seu ingresso JULIANO RAWSKI DE PAULA, o EDUARDO RAWSKI DE PAULA e o Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) eram os donos da mesma; que JULIANO RAWSKI DE PAULA era Diretor Comercial e cuidava da parte de medicamentos, EDUARDO RAWSKI DE PAULA cuidava da parte de perfumaria e Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) cuidava da parte da logística; que JULIANO RAWSKI DE PAULA era o líder da Auditada; que CELSO VIEIRA DA SILVA se apresentava como Supervisor de Vendas da área do norte do Paraná (Apucarana); que não tem conhecimento que CELSO VIEIRA DA SILVA era o dono da Auditada; (item 72); s) a pessoa física Allison Antonio Fagundes Machado Pinheiro, CPF nº xxx.xxx.xxx- xx, coordenador de vendas; declarou que os sócios da Auditada são JULIANO RAWSKI DE PAULA, EDUARDO RAWSKI DE PAULA e Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) que são três irmãos; que eles se apresentam como os donos da mesma, pois eles faziam reuniões mensais com os gerentes e supervisores de Fl. 77590DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 7 vendas para cobrança de metas e análise dos resultados do mês anterior; que o JULIANO RAWSKI DE PAULA era Diretor do canal “farma” (farmacêutico) e cabeça de tudo; que o EDUARDO RAWSKI DE PAULA era Diretor do canal alimentar (supermercados); que Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) se apresentava como Diretor Financeiro; que na Auditada o nome deles não aparece, mas o nome de CELSO VIEIRA DA SILVA; que em 2016 já prestava serviços na sede da DISPAR, localizada na Rua Valdemiro Valaski nº 2432, São José dos Pinhais-PR, tendo sido contratado em 03 de abril de 2017 pela mesma; que as pessoas físicas JULIANO RAWSKI DE PAULA, EDUARDO RAWSKI DE PAULA e o Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) se apresentavam como os donos da DISPAR; que os mesmos exerciam as mesmas atividades que exerciam na Auditada; que apenas o EDUARDO RAWSKI DE PAULA consta como sócio da DISPAR (item 75); t) os Eventos anuais iniciados pela Auditada continuam sedo realizados pela DISPAR (item 77); u) a Linha Verde Serviços Contábeis EIRELI, CNPJ nº 13.749.240/ 0001-35, representada pela pessoa física Vânia Nunes da Silva Fernandes, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, em sua Resposta ao questionamento 14) afirma que a Auditada é pessoa jurídica integrante do Grupo DP4, composto por outras pessoas jurídicas, como a DISPAR e RP PROMOÇÕES DE VENDAS E MAR-KETING LTDA, tendo como responsáveis concomitantemente JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx- xx, ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº 979.593.089-34, EDUARDO RAWSKI DE PAULA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx e CELSO VIEIRA DA SILVA, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx; fato confirmado em diligência na DISPAR (itens 81 e 84); v) a DISPAR utilizou na transmissão da sua primeira DCTF de dezembro/2013 o endereço MAC 00-24-8C-D0-03-B6 mesmo endereço MAC utilizado pela Auditada para transmissão das DCTFs dos meses de setembro a dezembro/2013. E para os anos-calendário de 2014 a 2020 foram utilizados pelas duas pessoas jurídicas para transmissão das suas DCTFs os seguintes endereço MAC A0-2B-B8-42-9F-29 e 00- 24-8C-D0-03-B6 (2014); A0-2B-B8-42-9F-29 e 00-24-8C-D0-03-B6 (2015); A0-2B- B8-42-94-D3 e A0-2B-B8-42-9F-29 (2016); 64-51-06-1E-F4-66 e A0-2B-B8-42-94- D3 (2017); 64-51-06-1E-F4-66 (2018); 10-62-E5-DC-45-7E, 2C-44-FD-FA-45-DD e 64-51-06-1E-F4-66 (2019) e 2C-44-FD-FA-45-DD e 64-51-06-1E-F4-66 (2020) (item 87); x) na comparação dos clientes da Auditada e da DISPAR, verifica-se que houve migração dos mesmos, considerando-se os anos-calendário de 2013 até 2018 (item 88); z) o correio eletrônico (e-mail): vania.nunes@linhaverde.net.br da pessoa física Vânia Nunes da Silva Fernandes, CPF nº 047.149.379-10, responsável pela Linha Verde Serviços Contábeis EIRELI, CNPJ nº 13.749.240/0001-35, que começou a prestar serviços a partir do dia 02 de janeiro de 2017 para a DISPAR, e que até esta data prestava serviços para a Auditada; consta do Registro 0030 – Dados Cadastrais da ECF dos anos-calendário de 2014, 2015 e 2016 e no Registro 0930 – Fl. 77591DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 8 Identificação dos Signatários da ECF dos anos-calendário de 2014 e 2015 da DISPAR, (item 89); QUE no ano-calendário de 2013 a Auditada apresentou DIPJ sem movimento e a partir do ano-calendário de 2014 tornou-se OMISSA na entrega da Escrita Contábil Digital (SPED Contábil) e da Escrita Contábil Fiscal (SPED ECF) até a presente data (item 93) e QUE em 03 de abril de 2017, foi alterada a Razão Social da Auditada para S.V DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA tendo como objeto comércio atacadista de produtos alimentícios, sociedades de participação, exceto holding (item 25), concluímos que a Auditada desde o ano-calendário de 2013 foi utilizada como empresa de fachada para sonegação das receitas da DISPAR, constituída em 14 de outubro de 2013, sendo a mesma o contribuinte da omissão de receita das venda efetuadas pela Auditada e sendo Responsáveis Solidários a AUDITADA e as pessoas físicas referidas em fl. 20.368. 5. Com base nesses elementos de fato, a Fiscalização qualificou a multa de ofício e atribuiu responsabilidade solidária, com fundamento no art. 124, I, do CTN, às pessoas físicas EDUARDO RAWSKI DE PAULA, JULIANO RAWSKI DE PAULA, ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, MAURICIO RAWSKI DE PAULA, HELENA RAWSKI DE PAULA e CELSO VIEIRA DA SILVA, bem como à pessoa jurídica S.V DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA. 6. Inconformados, o contribuinte e os responsáveis apresentaram Impugnações. Inicialmente, a DRJ converteu o julgamento em diligência (fls. 23.199/23.201), a fim de esclarecer dúvidas a respeito da quantificação dos valores cobrados. Após o resultado desta primeira diligência (fls. 76.469/76.482), foi realizada uma segunda diligência, para sanar questão específica sobre a responsabilidade tributária atribuída às pessoas físicas MAURICIO RAWSKI DE PAULA e HELENA RAWSKI DE PAULA (fls. 76.925/76.926). Em seguida, a DRJ julgou parcialmente procedentes as defesas, mediante acórdão (fls. 77.032/77.132) ementado da seguinte forma: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015, 2016 OMISSÃO DE RECEITA. LUCRO REAL. OPÇÃO DO CONTRIBUINTE. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. (Inteligência do art. 24 da Lei nº 9.249/1995) Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2015, 2016 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Aplica-se às exigências ditas reflexas o que foi decidido quanto à exigência matriz, devido a íntima relação de causa e efeito entre elas. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2015, 2016 Fl. 77592DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 9 MULTA QUALIFICADA. PROCEDÊNCIA A conduta que tenha a finalidade de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador, obtendo-se como resultado, a redução ou a supressão de tributo, está sujeita à multa qualificada aplicada sobre a totalidade ou diferença do tributo omitido. RETROATIVIDADE BENIGNA. MULTA DE OFÍCIO. FATO PRETÉRITO NÃO DEFINITIVAMENTE JULGADO. PENALIDADE MENOS SEVERA. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito, tratando-se de ato não definitivamente julgado, quando aquela lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo do lançamento tributário. Reduzida a multa qualificada aplicável aos lançamentos de ofício pela Lei nº 14.689/2023, impõe-se a retroatividade benigna a ajustar o percentual originalmente lançado de 150%, reduzindo-o ao percentual de 100% nos casos pendentes de julgamento, caso presentes os demais critérios exigidos pelo legislador. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. JUROS. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA. INOCORRÊNCIA. O crédito tributário não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta. Art. 161 do CTN. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. Cabe a responsabilização de pessoa física ou da pessoa jurídica pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias quando comprovado que tenha praticado atos com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, como também presente o interesse jurídico na situação do fato gerador. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte 7. As defesas foram parcialmente providas, em síntese, para (i) reduzir o IRPJ e a CSLL cobrados, com base no resultado da primeira diligência, que identificou a inclusão indevida de Notas Fiscais de saída que não se referem a operações de venda, (ii) reduzir a multa qualificada ao patamar de 100%, em função da retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023 e (iii) excluir a responsabilidade tributária das pessoas físicas MAURICIO RAWSKI DE PAULA e HELENA RAWSKI DE PAULA. Diante do provimento parcial, houve a interposição de Recurso de Ofício (art. 34, I, do Decreto nº 70.235/1972). 8. A Recorrente DISPAR interpôs Recurso Voluntário (fls. 77.170/77.251), sustentando em síntese que não existiria grupo irregular, devendo ser mantido o lançamento tão somente na pessoa jurídica SV Distribuidora e sendo reconhecida a ausência de conduta dolosa; haveria decadência quanto ao ano-calendário de 2015; seria necessária a aplicação do regime do lucro arbitrado, o que levaria à nulidade da autuação; a exigência seria nula pela consideração de receita de terceiro como receita própria; os lançamentos seriam nulos por violação ao “princípio Fl. 77593DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 10 da realidade”; houve nulidade por cerceamento ao direito de defesa em função da ausência de realização de perícia pela DRJ; estariam incluídos valores que não correspondem a receita; deveria ter sido realizada a intimação do contribuinte eleito como responsável para apresentar documentos comprobatórios de entradas, descontos e outros, os quais deveriam ser considerados antes do lançamento de ofício; deveriam ser considerados os custos e despesas no período fiscalizado, correspondentes às operações de venda (livro de saída), cuja análise demonstra que houve prejuízo da S.V Distribuidora no período; a suposição da Fiscalização levou a considerar que o lucro real do Grupo teria sido de irreais 80,4% no período; as multas de 50% seriam ilegítimas. Também houve a interposição de recurso pelos responsáveis JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR (fls. 77.274/77.377 e 77.380/77.482), que apresentaram razões semelhantes àquelas suscitadas pela contribuinte. 9. O Recorrente EDUARDO RAWSKI DE PAULA (fls. 77.485/77.492), por sua vez, afirmou que a sua responsabilidade tributária deveria ser cancelada, em função da ausência do interesse comum mencionado no art. 124, I, do CTN, bem como em função da ausência de individualização das condutas dos supostos responsáveis solidários. Juntou petição apartada (fls. 77.499/77.506) aditando as suas razões, sustentando a nulidade do lançamento em função da necessidade de arbitramento do lucro, bem como a necessidade de cancelamento da qualificação da multa de ofício e das multas isoladas. 10. A PGFN apresentou contrarrazões aos Recursos Voluntários e razões ao Recurso de Ofício (fls. 77.509/77.574). 11. A Recorrente DISPAR apresentou manifestação em 24/11/2025, sustentando a impossibilidade de cumulação da multa isolada por falta de recolhimento das estimativas mensais com a multa de ofício. 12. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Eduardo Monteiro Cardoso, Relator. I. Conhecimento dos recursos 13. O primeiro Recurso Voluntário foi interposto por DISPAR DISTRIBUIDORA DE MEDICAMENTOS LTDA. – EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL (fls. 77.170/77.271) em 13/12/2024 (fls. 77.168), dentro do prazo de 30 (trinta) dias contados da sua intimação (fls. 77.160), em manifestação assinada por seu representante legal. Assim, este recurso preenche os requisitos legais para a sua admissibilidade. 14. O Recurso Voluntário de EDUARDO RAWSKI DE PAULA, por sua vez, foi interposto em 26/12/2024 (fls. 77.483), dentro do prazo de 30 (trinta) dias contados da intimação (fls. 77.166). Fl. 77594DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 11 Apesar de a solicitação de juntada ter sido feita em seu nome (fls. 77.483), o recurso foi assinado apenas por procurador, cujo instrumento de procuração não foi juntado aos autos. Porém, consultando as procurações eletrônicas vinculadas ao processo, verifiquei a outorga em nome do patrono, com validade no momento da interposição do recurso. Deste modo, entendo que também neste caso estão preenchidos os requisitos de admissibilidade. 15. Também houve a interposição de recurso pelos responsáveis JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR (fls. 77.274/77.377 e 77.380/77.482). Apesar de tais sujeitos não constarem na petição de interposição – a qual indica somente a própria contribuinte DISPAR –, a solicitação de juntada foi feita por meio dos acessos desses responsáveis ao e-CAC. Assim, considerando que foram assinados pelos responsáveis, bem como a sua tempestividade, entendo que tais recursos devem ser conhecidos. 16. O Recurso de Ofício foi interposto em função do provimento parcial das impugnações, inclusive com a exclusão de responsáveis solidários. Assim, uma vez que o valor do crédito tributário discutido supera o montante estabelecido na Portaria MF nº 2/2023 e houve cancelamento da responsabilidade de duas pessoas físicas, o recurso deve ser conhecido. Com isso, devem ser objeto de reexame todas as matérias em que houve acolhimento das defesas, nos termos da Súmula nº 325 do E. STJ. II. Apreciação dos Recursos Voluntários interpostos por DISPAR, EDUARDO RAWSKI DE PAULA, JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR II.1. PRELIMINARES DE NULIDADE 17. Preliminarmente, os Recorrentes sustentam cerceamento do seu direito de defesa, em função da falta de realização de perícia (item 6 do Recurso Voluntário). Sobre este ponto, a DRJ manifestou-se da seguinte forma: 15.1. Perícia é para realizar trabalho que dependa de um aperfeiçoamento técnico acerca de matéria não plenamente demonstrada nos autos. Perícia não é para apuração de despesa e custo que o contribuinte de forma clara presente nos autos não desejou escriturar. 15.2. Também, seria para a obtenção de uma prova que estivesse obscura nos autos e em face de necessidade do julgador para a solução do litígio. Ocorre que tais fatos não são os presentes nos autos. 15.3. Desta forma, indefiro o pedido de perícia, por entender que é desnecessária para a solução do litígio, pois o litígio não tem caráter técnico e sim comprobatório. 18. De acordo com o art. 15 do Decreto nº 70.235/1972, a impugnação deve ser instruída com os documentos em que se fundamentar, cabendo ao contribuinte o ônus da prova com relação aos fatos mencionados. Nesse sentido, a perícia e as diligências não se prestam a Fl. 77595DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 12 substituir as provas que deveriam ter sido apresentadas pela Recorrente, conforme já decidiu esta Turma Ordinária: PEDIDO DE PERÍCIA. CONHECIMENTO TÉCNICO ESPECIALIZADO. SUBSTITUIÇÃO DE PROVA DOCUMENTAL. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A perícia não se presta para substituir provas que deveriam ter sido apresentadas pelo sujeito passivo por ocasião da impugnação, pois sua realização pressupõe a necessidade do julgador conhecer fato que demande conhecimento especializado, não havendo que se falar em cerceamento de direito de defesa em caso de negativa de pedido de tal jaez. (Acórdão nº 1301-005.374, Rel. Cons. Rafael Taranto Malheiros, Sessão de 16/06/2021) 19. Além disso, conforme já entendeu esta Turma Ordinária ao interpretar o art. 18 do Decreto nº 70.235/1972, “[...] descabe a realização de diligência ou perícia quando constarem do processo todos os elementos necessários à formação da convicção do julgador para a solução do litígio” (Acórdão nº 1301-006.241, Rel. Cons. Rafael Taranto Malheiros, Sessão de 18/11/2022). A decisão da DRJ está de acordo com o entendimento mencionado, pois a autoridade julgadora entendeu desnecessária a realização de perícia ou diligência. Portanto, entendo que deve ser rejeitada a preliminar. 20. Os Recorrentes também sustentam a nulidade da autuação em função da falta de “[...] realização de diligências perante o contribuinte eleito como responsável pelos tributos” (item 8 do Recurso Voluntário). Afirmam que a Fiscalização não solicitou ou requisitou qualquer documento à DISPAR, apesar de entender ser ela a responsável pela omissão. Afirmaram que tais diligências seriam necessárias para que esta pessoa jurídica “pudesse comprovar custos, despesas e outros abatimentos”, de modo a afastar o lançamento. 21. Sobre tal alegação, é importante destacar que o procedimento fiscalizatório é instrumentalizado a partir do princípio inquisitório, sendo garantido o contraditório e a ampla defesa com a possibilidade de apresentação posterior de Impugnação, instaurando a fase contenciosa e litigiosa do processo administrativo (art. 14 do Decreto nº 70.235/1972). Ou seja, a ampla defesa e o contraditório são garantidos a partir da oportunidade de apresentação da defesa administrativa, não havendo que se falar em necessidade de participação do responsável durante o procedimento de fiscalização. 22. Por conta disso, esta Turma Ordinária já se manifestou no sentido de que “salvo excepcionais exceções, não se caracteriza o cerceamento de defesa durante o procedimento fiscal que tem nítido caráter inquisitório” (Acórdão nº 1301-006.935, Rel. Cons. Rafael Taranto Malheiros, Sessão de 15/05/2024). Inclusive, tal entendimento está consolidado na Súmula Carf nº 162, segundo a qual “o direito ao contraditório e à ampla defesa somente se instaura com a apresentação de impugnação ao lançamento”. Deste modo, não cabe a alegação de que a falta de realização de diligências prévias junto à DISPAR levaria à nulidade da autuação. Fl. 77596DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 13 23. Os Recorrentes suscitam nulidade da autuação apontando diversos vícios, especificamente erros de apuração e utilização indevida do lucro real. Porém, considerando que tais matérias estão relacionadas ao mérito da controvérsia, serão tratadas a seguir. II.2. MÉRITO II.2.1. ATO ILÍCITO NA EXISTÊNCIA DA PESSOA JURÍDICA SV DISTRIBUIDORA, GRUPO IRREGULAR DE FATO E RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA 24. Os Recorrentes sustentam que se trataria de grupo econômico legítimo sob a “Marca DP4”, com a segregação justificada da DISPAR e da SV Distribuidora, sem qualquer fraude ou confusão patrimonial. Afirmam que a responsabilização de empresa do mesmo grupo por outra dependeria de comprovação do abuso da personalidade jurídica, nos termos do art. 50 do Código Civil, ausente no caso concreto e que a aquisição da participação feita por Celso Vieira da Silva seria justificada. Diante disso, pediu a manutenção do lançamento em face da SV Distribuidora, com a exclusão da DISPAR e das pessoas físicas responsabilizadas. 25. Apesar das alegações dos Recorrentes, a DRJ demonstrou que a utilização da SV Distribuidora se deu de forma fraudulenta, tão somente para ocultar as receitas da DISPAR, apontando os seguintes elementos: 19.1. A ação fiscal iniciou em 23/07/2019 e as ciências dos lançamentos se deram em 12/01/2021, 14/01/2021 e 25/01/2021. No início desta ação fiscal foram feitas várias intimações à empresa SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda, mas sem sucesso. Foram também feitas ao Sr. Celso Vieira da Silva, sócio administrador (no Contrato Social), também sem sucesso. 19.2. Após a transferência das cotas da empresa para o Sr. Celso Vieira da Silva, que ocorreu em 10/09/2012, conforme Contrato Social juntado em fl. 21.276, a empresa SV(DP4) começou a declarar zero e não efetuou pagamentos de IRPJ e CSLL decorrentes das notas fiscais de venda emitidas. 19.3. Consultando as DIRFs apresentadas pela empresa SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda, para o Sr. Celso Vieira da Silva, sócio administrador, conforme consta do Contrato Social constante dos autos, este recebeu rendimento de trabalho assalariado(código 0561) antes e depois de adquirir a empresa, sendo que o seu rendimento era por volta de R$ 1.600,00, continuando em valor semelhante no ano seguinte e passando, após a aquisição, em 2013, para R$ 5.000,00, continuado até os anos-calendário dos lançamentos com rendimentos do trabalho assalariado, conforme reproduções a seguir: [...] 19.4. Os depoimentos de funcionários à época, ante e depois da transferência da SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda para o Sr. Celso Vieira da Silva e criação da Dispar foram os seguintes: 19.4.1. O Sr. Rui, fls. 1132/1135 e 1136/1138: Os Srs. Juliano, Eduardo e Antônio Carlos de Paula Junior (Juninho) se apresentavam como donos da Fl. 77597DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 14 DP4 (nome anterior da SV) desde o seu ingresso na empresa. Conhecia o Sr. Celso de vista, pois participava das reuniões de eventos com funcionários e representantes. Na Dispar, os Srs. Juliano, Eduardo e Antônio Carlos de Paula Junior eram os diretores. 19.4.2. A Sra. Alessandra, fls. 1.151/1.154 e 1.155/1.158, supervisora e gerente de 2006 a 2016, afirmou que o Srs. Juliano, Eduardo e Juninho são donos da DP4 e o Sr. Antônio(pai) o verdadeiro dono. Não tem conhecimento de que o Sr. Celso era dono.; 19.4.3. O Sr. Allison, fls. 1183/1185 e 1186/1189, trabalhou e foi supervisor entre 2012 e 2017. Os Srs. Juliano, Eduardo e Juninho são irmão e se apresentam como donos. O “cabeça” seria Juliano que não aparece, sim Celso. Que os Srs. Juliano, Eduardo e Juninho se apresentavam como donos da DISPAR, mas só o Eduardo consta como sócio. 19.5. No site da SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda está o endereço da Dispar, fls. 1190/1191. 19.6. Assim, pelos depoimentos observamos irregularidades na SV(DP4) e na Dispar, pois na SV consta só o Sr. Celso como sócio administrador, que não confere com os 3(três) depoimentos. E, quanto à Dispar somente o Sr. Eduardo seria administrador o que também não se coaduna com as respostas dos funcionários à época dos fatos geradores dos tributos lançados. 19.7. Com relação à possíveis resposta da SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda e do Sr. Celso Vieira da Silva, durante a ação fiscal, não consta do processo informação, pois estes não atenderam à intimação fiscal. A empresa Dispar, fls. 1.372/1.385, em resposta à intimação fiscal, informa que se trata de um grupo econômico possuindo como responsáveis concomitantes os Sr. Juliano, Antônio Carlos de Paula Junior, Eduardo e Celso Vieira Silva (item 5). 19.8. Outro fato que considero relevante e colocado pela Autoridade Tributária foi a questão da compra da empresa, pois considerou o Sr. Celso interposta pessoa. Analisando a empresa antes e depois da transferência das cotas, é se observar que, pelo que consta das DIRFs constantes dos arquivos RFB, o Sr. Celso recebia rendimentos de trabalho assalariado da SV no valor em torno de R$ 1.600,00, e a situação da empresa assim se apresentava: 19.9. Pelo que consta do Contrato Social, a transferência das cotas para o Sr. Celso se deu por R$ 60.000,00. Com os dados que constam das DIPJs da empresa SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda, não há razão econômica e não Fl. 77598DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 15 ocorreria no “mundo do comércio” a venda de uma empresa com estes números de ativo, lucro e receita por R$ 60.000,00. Outra pergunta, como o Sr. Celso adquirir a empresa? Outro fato que deve ser acrescentado e considero extremamente importante e que demonstra a inocorrência da transação comercial foi que o Sr. Celso não é visto como adquirente, dono ou sócio da SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda, pelos funcionários da mesma. 19.10. Passando aos fatos apresentados pela interessada, a impugnação informa que haveria relato pelo funcionário à época que o Sr. Celso seria sócio. Não comungo com tal entendimento em face dos depoimentos constantes dos autos, pois não foi informado que o Sr. Celso seria sócio e administrador. Devendo ser ressaltado que tal constatação se fosse real se obteria facilmente perguntando aos funcionários à época dos fatos geradores, o que não ocorreu. 19.11. Trago a esta decisão, o Parecer Normativo nº 4, de 10 de dezembro de 2018: [...] 19.12. Pelo que consta dos autos, existem no papel 2(dois) Contratos Sociais e 2 (dois) CNPJ nos sistemas da RFB, mas não é o que consta das provas juntadas aos autos. O adquirente e sócio administrador da empresa SV Distribuidora de Produtos Alimentícios Ltda (DP4), como a própria empresa referida, não foram encontrados na ação fiscal, o que demorou por volta de 1 ano para se chegar à empresa Dispar. Houve a citação de que o Sr. Celso era interposta pessoa sem a comprovação da sua capacidade em adquirir a sociedade, que, ao contrário do que os impugnantes afirmaram, os funcionários à época das empresas referidas não mencionaram o Sr. Celso como dono ou sócio da referida. Ao contrário, ou foi omitido ou informado como desconhecido com relação ao quadro societário da empresa SV(DP4). Os referidos nos depoimentos, como sócio, são os Srs. Juliano, Eduardo e Antônio Carlos de Paula Junior (Juninho). Não há nos autos prova da capacidade do Sr. Celso em adquirir a empresa, ao contrário consultando os pagamentos efetuados a este em DIRF, consta como empregado da empresa SV, recebendo o valor de R$ 1.600,00, que não comprova a capacidade para adquirir a empresa. Ressalto que 60.000,00 não seria, no meu entender, um preço justo para uma empresa que tem ativo imobilizado de contabilizado de 2,5 milhões e foi apurado como omissão de receita em torno de 250 milhões por ano, fato não questionado quanto á existência desta receita. 19.13. Pelos fatos comprovados, não há prova que tenha havido uma aquisição de participação societária e sim uma transposição de patrimônio para uma “outra empresa” de forma gradativa, onde parte da receita não foi oferecida à tributação, e os verdadeiros proprietários são os mesmos antes e depois da transferência das cotas, no papel, para o Sr. Celso. Pelos fatos apurados pela Autoridade Tributária nos depoimentos dos funcionários à época dos fatos geradores lançados, a empresa é a mesma, pois os seus sócios administradores são os mesmos, tendo o mesmo objeto comercial e funcionamento. O que ocorreu foi uma mudança de endereço, de nome da sociedade e da mudança Fl. 77599DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 16 gradativa do patrimônio de uma sociedade para outra, mas considero que a empresa sempre foi a mesma. Isto é o que o Parecer denomina: são atos ilícitos que ensejam a responsabilidade solidária: (i) abuso da personalidade jurídica em que se desrespeita a autonomia patrimonial e operacional das pessoas jurídicas mediante direção única ("grupo econômico irregular"). 19.14. Outro fato constante dos autos e comprovado pelos documentos juntados aos autos, resposta dos bancos, fls. 179/808, todas as pessoas físicas atribuídas como responsáveis tributários, neste lançamento, com exceção da Sra. Helena e o Sr. Maurício, que será objeto de esclarecimento posterior, estão relacionadas com a movimentação de alguma conta da empresa SV à época dos fatos geradores lançados. Logo, se observa que há uma infração legal, contratual e societária, pois isto demonstra que a empresa SV não foi realmente vendida para o Sr. Celso, pois sendo este o único administrador e sócio, como outros, que são os responsáveis tributários neste processo, movimentariam as contas da empresa SV. Logo, se trata de um grupo econômico irregular. 19.15. Considero que as empresas SV e Dispar constitui uma mesma pessoa jurídica, que em certo momento tinha como predominância a SV e após, não sei o motivo, que não foi lícito, tornou-se Dispar. 19.16. Há nos autos um fato de extrema relevância: Uma empresa foi adquirida por um de seus funcionários, este adquiri para de recolher os tributos devidos, continua emitindo notas fiscais de saída de mercadorias e transfere os clientes da empresa adquirida, integralmente, para uma nova empresa criada, que não é proprietário, a Dispar. Este fato está demonstrado pela planilha de venda SV/DISPAR de 2014 a 2018 por destinatário, doc. não paginável de fl. 1.397, que demonstra a transferência de venda da SV para a DISPAR, de forma integral ocorrida até o ano de 2018. 19.17. Face a todo o exposto, como já me manifestei, considero que houve um abuso das personalidades jurídicas registradas em Contrato Social, sendo que pela confusão patrimonial e administrativa demonstrada nos autos, ocorreu a interposição de pessoa física como sócio, não tendo sido demonstrada a correspondente verdade dos fatos registrados em Contrato Social, assim considero que a SV e DISPAR são e sempre foram a mesma pessoa jurídica. Ora se apresentando como SV, e depois como Dispar. Abaixo reproduzo o resumo que demonstra facilmente tal transposição: 19.18. Assim, não se sabe o motivo, mas a realidade foi a transferência da empresa para um funcionário, sem a demonstração de que o valor pago foi justo e que este tinha recursos próprios para a aquisição, e após houve a continuação da Fl. 77600DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 17 empresa com outro nome Dispar, realizando a mesma atividade, com os mesmos clientes (anteriores da SV/DP4) e mesmos participantes na sociedade (não no Contrato Social, mas de fato, pelas provas e depoimentos constantes dos autos). Desta forma, está claro, na verdade dos fatos, que a empresa é a mesma, só tendo mudado o nome. Assim, por se tratar de grupo econômico irregular, considero o lançamento pode ser feito na pessoa jurídica Dispar Distribuidora de Medicamentos Ltda, CNPJ nº 19.195.971/0001-62. 26. Ou seja, a Fiscalização trouxe elementos que demonstram a interposição simulada da S.V Distribuidora, cuja atividade foi posteriormente transferida para a DISPAR. Neste caso, conforme precedentes deste Carf, a simulação na utilização da pessoa jurídica interposta autoriza a sua desconsideração, com a exigência em face da pessoa jurídica real: SIMULAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO DE SEGREGAÇÃO DE PESSOAS JURÍDICAS SIMULADA. DOLO DE EVASÃO FISCAL. Demonstrada a simulação da segregação de fontes de rendimentos em diversas pessoas jurídicas, é legítima a desconsideração da reestruturação societária simulada para a tributação concentrada da única entidade realmente existente. (Acórdão nº 3101-003.989, Rel. Cons. Gilson Macedo Rosenburg Filho, Sessão de 18/12/2024) 27. Sendo legítima tal forma de tributação, não há que se falar em nulidade por consideração de receita de terceiros como própria (item 4 do Recurso Voluntário), vez que, diante dos fatos mencionados, é adequada a imputação da infração à DISPAR. 28. Portanto, rejeito as alegações, para manter o acórdão recorrido. II.2.2. NECESSIDADE DE ARBITRAMENTO DO LUCRO 29. Os Recorrentes sustentam a nulidade do lançamento, em função da utilização indevida do lucro real, uma vez que o correto seria a aplicação do regime do lucro arbitrado, nos termos do art. 602 e seguintes do RIR/2018. Sustentam a incoerência de se considerar os esclarecimentos e provas imprestáveis para demonstrar as suas alegações, mas passíveis de justificar a tributação fora do regime do lucro arbitrado. 30. As hipóteses de utilização do lucro arbitrado estão taxativamente previstas no art. 47 da Lei nº 8.981/1995: Art. 47. O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando: I - o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real ou submetido ao regime de tributação de que trata o Decreto-Lei nº 2.397, de 1987, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraude ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou Fl. 77601DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 18 b) determinar o lucro real. III - o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o livro Caixa, na hipótese de que trata o art. 45, parágrafo único; IV - o contribuinte optar indevidamente pela tributação com base no lucro presumido; V - o comissário ou representante da pessoa jurídica estrangeira deixar de cumprir o disposto no § 1º do art. 76 da Lei nº 3.470, de 28 de novembro de 1958; VI - o contribuinte não apresentar os arquivos ou sistemas na forma e prazo previstos nos arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991, com as alterações introduzidas pelo art. 62 da Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991; (Revogado pela Lei nº 9.718, de 1998) VII - o contribuinte não mantiver, em boa ordem e segundo as normas contábeis recomendadas, livro Razão ou fichas utilizados para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no Diário. VIII - o contribuinte não escriturar ou deixar de apresentar à autoridade tributária os livros ou registros auxiliares de que trata o § 2º do art. 177 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e § 2º do art. 8º do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977. . (Incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008) VIII – o contribuinte não escriturar ou deixar de apresentar à autoridade tributária os livros ou registros auxiliares de que trata o § 2º do art. 177 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e § 2º do art. 8º do Decreto-Lei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) 31. Analisando o TVF, verifico que a Fiscalização, em momento algum, considerou a escrituração do contribuinte imprestável ou entendeu que a documentação não foi entregue. A autuação se limitou a confrontar o Livro de Registro de Saídas dos anos-calendário de 2015 e 2016 da SV Distribuidora com a apuração fiscal da DISPAR, imputando a infração de omissão de receita. A omissão verificada, ainda que substancial, não é causa de arbitramento do lucro, o qual é medida excepcional, devendo ser respeitada a opção pelo contribuinte do regime do lucro real. Nesse sentido: OMISSÃO DE RECEITAS. APURAÇÃO DO IRPJ. LUCRO ARBITRADO. A simples omissão de receitas, por mais expressiva que seja, não é causa que obrigue à apuração do IRPJ pelo lucro arbitrado, que é obrigatório apenas quando presente um dos pressupostos fáticos previstos em lei como determinantes daquela forma de apuração do lucro tributável. (Acórdão nº 1301-004.163, Rel. Cons. Roberto Silva Junior, Sessão de 11/11/2019) 32. Ainda, concordo com as seguintes razões adotadas pela DRJ: 20.13. O contribuinte afirma que o seu lucro ficou elevado em face da apuração de omissão de receita, mas não é tal ocorrência que caracterizaria o arbitramento. Fl. 77602DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 19 A determinação para o arbitramento não está relacionada ao lucro real elevado e/ou receita omitida elevada. A caracterização do arbitramento são as hipóteses prevista em Lei, estabelecidas no art. 47 da Lei 8.981/95 e estas devem ser caracterizadas e provadas, por aquele que alega, pois isto está sendo arguido nesta primeira Instância Administrativa, em oposição à sua opção feita. 20.14. Também, é ônus do contribuinte demonstrar a tese a esclarecer o que seria uma escrituração imprestável. Apresentar documentos à margem da escrituração não configura, por si só a sua imprestabilidade da escrituração. Como foi o contribuinte a levantar a tese da imprestabilidade da sua escrituração, cabe a este apresentar os fatos caracterizadores e as provas em sua escrituração de tais deficiências, para os anos-calendário que foram objeto de lançamento. Isto, no meu entender, não ficou comprovado nas impugnações: a tese, o fundamento e a prova na escrituração comercial considerada imprestável. O lucro real é um cálculo, com receitas, despesas e custos, todos presentes na apuração realizada em sua escrituração, como também no procedimento do lançamento. 20.15. O contribuinte apresenta cálculo de seu lucro apurado conjuntamente com as receitas omitidas e considera irreal a apuração do novo lucro. Por uma questão de coerência, se os interessados(contribuinte e responsáveis) consideram que sua escrituração é imprestável e caberia o arbitramento, também não poderia o lucro apurado servir de prova para configurar a margem de lucro desejada em suas impugnações. Também, a alíquota para a apuração do lucro arbitrado é um fator presumido, por lei, para cálculo do tributo, mas não parâmetro legal para se presumir margem de lucro. A lei não apresenta informação de uma relação numérica, percentual e/ou número a esclarecer ou definir a partir de que grau ou valor numérico de deficiência em sua escrituração ocorreria a imprestabilidade da mesma, desta forma aquele que deseja provar que tal fato ocorreu em face de números e/ou percentuais deve se pautar por números que tragam confiabilidade e certeza, fato que o próprio contribuinte colocou em dúvida. 20.16. Desejo acrescentar que o artigo da lei suscitado pelo contribuinte é extremamente subjetivo e caberá ao contribuinte a prova, pois é quem alega, demonstrar plenamente a sua caracterização. 20.17. Desta forma, sendo o arbitramento medida extrema, não tendo sido constituído e demonstrado pela Autoridade Tributária Autuante, as hipóteses previstas no art. 47 da Lei 8.981/95(que trata do arbitramento), conseguindo apurar o lucro real, com base 24 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e não tendo o contribuinte provado as hipóteses determinadas em lei para o arbitramento, deve permanecer a escolha feita pelo mesmo, lucro real. 20.18. Deve ser ressaltado que o lucro real apurado foi o desejado pelo contribuinte. Em certo momento da sua vida empresarial, pois está claro nos autos, desejou retirar, não escriturar e não pagar os tributos sobre parte do seu resultado(onde deveriam estar incluídas as receitas omitidas). Ocorre que o Fl. 77603DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 20 contribuinte pode escolher não registrar custo e despesa, receita não é faculdade e sim obrigação. 20.19. Assim, não considero que deva ser modificada a forma de apuração dos tributos lançados como arguiu os interessados, devendo o lançamento permanecer com base de cálculo feito, lucro real, pois não foi caracterizado pelo contribuinte e responsáveis os fundamentos previsto em lei para o arbitramento dos lucros. 33. Portanto, rejeito a alegação de necessidade de arbitramento do lucro. Mantido o lucro real, não há que se falar em utilização de base “irreal”, quebrando o “princípio da realidade” como mencionam os Recorrentes. Na verdade, trata-se da aplicação da base de cálculo legalmente prevista (item 5 do Recurso Voluntário). II.2.3. SUPOSTA TRIBUTAÇÃO DE VALORES QUE NÃO REPRESENTAM RECEITA 34. Os Recorrentes afirmam que a Fiscalização tributou todos os valores constantes das Notas Fiscais de saída da pessoa jurídica SV. Porém, nestes valores estariam compreendidos montantes que não representariam receita. 35. Sobre este ponto, vale destacar que foi realizada diligência determinada pela DRJ, a qual foi considerada no julgamento de primeira instância, com a redução do crédito tributário cobrado: 23.6. Verificando que o lançamento se baseou na escrituração do Livro de Saída, 76.436 a 76.468, que se resume no quadro apresentado na diligência realizada, abaixo reproduzido, observo que valores foram incluídos como receita no lançamento, mas não correspondem a receita e sim outras saídas, como Devolução de compras, Remessa de Bônus, Remessa para conserto e outras receitas (não vendas) não podendo, assim, permanecer no lançamento e serão excluídos, conforme tabelas a seguir: [...] 36. Ou seja, já houve a efetiva consideração a respeito das operações identificadas no Livro de Registro de Saídas que não representariam receita, com a sua exclusão pela DRJ. Caberia aos Recorrentes, portanto, demonstrar especificamente os pontos em que a diligência se equivocou, o que não foi feito. Portanto, entendo que deve ser mantida a exigência, já reduzida pela DRJ. II.2.4. ILEGITIMIDADE DA QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO 37. Os Recorrentes questionaram a qualificação da multa de ofício, pois ausentes condições para a sua aplicação. Afirmaram que as condutas descritas são “típicas de omissão de receitas, já punidas com o lançamento de ofício”, sendo descabida a qualificação da multa. Fl. 77604DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 21 38. De acordo com o § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, a qualificação da multa de ofício tem como hipóteses legais a ocorrência de sonegação, fraude ou conluio, descritas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964 da seguinte forma: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. 39. Nos termos da Súmula Carf nº 25, a “presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64”. Ou seja, é necessária a demonstração da ocorrência de um ato adicional à infração tributária, praticado dolosamente com o fim de ocultar a sua ocorrência. Nesse sentido: MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. DOLO. A omissão de receitas dá ensejo à qualificação da multa de ofício quando o contribuinte faz um esforço adicional para ocultar a omissão do Fisco, praticando atos preparatórios para a omissão, como uma simulação, praticando atos contemporâneos à omissão, como o subfaturamento, ou praticando atos posteriores à infração, como a ocultação de documentos ou registros contábeis. (Acórdão nº 1201-002.724, Rel. Cons. Neudson Cavalcante Albuquerque, Sessão de 20/02/2019) 40. Neste caso, entendo que a Fiscalização demonstrou a ocorrência dos mencionados atos adicionais, nos termos expostos pela DRJ: 25.3. O caso sob análise, restou comprovada a inserção artificial de pessoa na sociedade com o objetivo de ocultar uma excessiva omissão de receita somente aferida e apurada em face de ação fiscal, pois o contribuinte e responsáveis deixaram de apresentar as declarações obrigatórias e oferecer a resultado. Foi verificado que o real contribuinte e administradores quiseram, de forma clara, deixar de declarar, informar e recolher, expressivo valor de receita auferida, por instrumento ilícito, de uma transferência patrimonial não comprovada. 25.4. No que se refere à alegação do contribuinte de que o percentual da multa de ofício não atenderia à razoabilidade e proporcionalidade, ressalto que não Fl. 77605DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 22 cabe à autoridade administrativa negar aplicação às leis, pois uma vez validamente editadas, publicadas e em vigor, pressupõe-se que foram atendidos todos os requisitos necessários à sua eficácia. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, conforme determina o art. 142 do Código Tributário Nacional (CTN). 25.5. No que tange especificamente à alegação de confisco, cumpre aduzir que o preceito do art. 150, IV da Constituição Federal, não se destina ao aplicador administrativo da lei. Como norma programática, tal preceito se destina ao poder legislativo, que não pode desprezá-lo quando da elaboração das leis. Já como norma proibitiva, o mesmo preceito está afeto ao controle de constitucionalidade, cujo exercício é de competência exclusiva do poder judiciário. 25.6. Também, arguições de inconstitucionalidade não devem ser oponíveis nesta esfera administrativa, pois esta Instância Administrativa não tem competência para apreciar tal argumentação, uma vez que o julgador administrativo está vinculado à lei, deve aplicá-la e não questioná-la ou modificá-la. 25.7. Sendo assim, pelos fatos e documentos carreados aos autos, deve ser mantida a qualificação da multa e o percentual conforme previsto na Legislação Tributária. 41. Vale destacar que a DRJ já reduziu o percentual da multa qualificada para 100%, em função da retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023, razão pela qual entendo que a decisão deve ser mantida. Sendo hipótese de qualificação da multa de ofício, não há que se falar em decadência parcial, uma vez que a existência de dolo, fraude ou simulação faz com que a contagem do prazo se dê na forma do art. 173, I, do CTN. II.2.5. CUMULATIVIDADE DA MULTA DE OFÍCIO COM AS MULTAS PELA FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS 42. A Fiscalização também exigiu multas isoladas pelo recolhimento insuficiente de estimativas mensais de IRPJ e de CSLL, com fundamento no art. 44, II, “b”, da Lei nº 9.430/1996, o que foi questionado pela Recorrente. 43. De fato, entendo indevida a exigência de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas cumulada com a multa de ofício, por conta da aplicação da Súmula Carf nº 105: "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” 44. Vale destacar que não ignoro a existência de manifestações, neste Carf, no sentido de que tal enunciado não seria aplicável após a alteração feita pela Lei nº 11.488/2007 no art. 44 da Lei nº 9.430/1996. No entanto, entendo que o racional da súmula permanece aplicável, pois Fl. 77606DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 23 não se trata de penalidades para condutas distintas. Nesse sentido há precedentes desta Turma Ordinária: MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA. MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE. Não é cabível a multa isolada de forma cumulativa com a multa de ofício sobre as faltas de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ, de forma cumulativa, com a multa de ofício. (Acórdão nº 1301-003.347, Rel. Cons. Amelia Wakako Morishita Yamamoto, Sessão de 18/09/2018) FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO. SÚMULA CARF 105. ALCANCE. A Súmula CARF 105, que anuncia que a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no artigo 44, §1º, IV, da Lei 9.430/96, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL, apurados no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Em que pese o entendimento sumulado ter sido construído antes da alteração promovida pela MP 351/2007, sua aplicação deve alcançar os casos em que a exigência tenha sido formalizada já com o percentual reduzido de 50%. (Acórdão nº 1301-005.681, Rel. Cons. Lucas Esteves Borges, Sessão de 15/09/2021 – decisão com base no art. 19-E da Lei nº 10.522/02) 45. Além disso, o E. STJ tem se manifestado no mesmo sentido, vedando a exigência cumulativa das referidas multas, inclusive após a edição da Lei nº 11.488/07: 5. A Segunda Turma do STJ, em julgados mais recentes, continua a aplicar o entendimento de que a vedação à cumulação das multas "isolada" e "de ofício" persiste, mesmo após as alterações promovidas pela Lei 11.488/2007. Nesse sentido: AREsp 1.603.525/RJ, Rel. Min. Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 25.11.20. 6. Agravo Interno não provido. (AgInt no AREsp n. 1.878.192/SC, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 28/3/2022, DJe de 12/4/2022) 46. Assim, concluo pela ilegitimidade das multas isoladas aplicadas pela Fiscalização pela falta de recolhimento de estimativas mensais, pois absorvida pela multa de ofício. II.2.6. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA ATRIBUÍDA A EDSON RAWSKI DE PAULA, JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR 47. A Fiscalização atribuiu responsabilidade solidária aos Recorrentes EDSON RAWSKI DE PAULA, JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, com fundamento no art. 124, I, do CTN. 48. O art. 124, I, do CTN prescreve a responsabilidade solidária das “pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal”. A respeito desse dispositivo, há certo consenso no sentido de que o interesse comum mencionado Fl. 77607DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 24 pelo dispositivo legal é o interesse jurídico, e não o meramente econômico. Nesse sentido é a jurisprudência do E. STJ: 5. O interesse comum, como requisito da corresponsabilidade tributária, envolve, necessariamente, a atuação de mais de uma pessoa na situação de conformação do fato gerador do tributo. Não se trata, portanto, da ulterior fruição comum ou igualitária por mais de uma pessoa dos resultados ou dos proveitos da atividade produtora do aumento de renda dela decorrente. Trata-se, na verdade, de atuação simultânea e conjunta de mais de uma pessoa na anterior situação configuradora do próprio fato gerador. Se assim não fosse, qualquer indivíduo, que auferisse alguma benesse do percebente da renda, poderia ser designado corresponsável tributário. (STJ, REsp 1.273.396, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Julgado em 05/12/2019) 49. Assim, entende o E. STJ que não basta o proveito econômico decorrente do fato gerador. É necessário que o responsável tenha efetivamente participado e contribuído para a própria realização da situação que constitui referido fato gerador. Entendo que a participação mencionada pode ser (i) direta, quando praticado em conjunto o fato gerador, ou (ii) indireta, na hipótese em que se configure confusão patrimonial e/ou quando há benefício conjunto em razão da prática de ilícitos como sonegação, fraude ou conluio. Nesse sentido: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124 DO CTN. INTERESSE COMUM. O artigo 124 do CTN trata de solidariedade que pode atingir o contribuinte (pessoa que tem relação com o fato gerador) e o responsável (pessoa assim indicada por lei), a depender da configuração do interesse comum (inciso I) ou da indicação da expressa previsão em lei (inciso II). No caso do artigo 124, I, o interesse comum ali referido é jurídico e não meramente econômico. O interesse jurídico comum deve ser direto, imediato, na realização do fato gerador que deu ensejo ao lançamento, e resta configurado quando as pessoas participam em conjunto da prática dos atos descritos na hipótese de incidência. Essa participação em conjunto pode ocorrer tanto de forma direta, quando as pessoas efetivamente praticam em conjunto o fato gerador, quanto indireta, em caso de confusão patrimonial, quando ambas dele se beneficiam em razão de sonegação, fraude ou conluio. Havendo provas de omissões na contabilidade e da interposição de pessoas, revelando que o imputado responsável era na verdade administrador e proprietário de fato da contribuinte, é de se manter sua responsabilização com base no artigo 124, I, do CTN. (Acórdão nº 1401-002.654, Rel. Cons. Livia de Carli Germano, Sessão de 12/06/2018 – destaquei) 50. Neste caso, a Fiscalização apurou diversas circunstâncias que indicam que EDUARDO RAWSKI DE PAULA, JULIANO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR seriam administradores de fato da contribuinte e da pessoa interposta SV Distribuidora: - ... em 10/09/2012 retiram-se da auditada os sócios ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA, transferindo a totalidade das suas cotas no valor de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) para CELSO VIEIRA DA SILVA; Que em Fl. 77608DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 25 15/03/2013, ingressa no quadro societário da auditada a pessoa jurídica CVS Holding EIRELI, CNPJ nº 17.777.560/0001-50, aberta em 12 de março de 2013, sendo o responsável a pessoa física de CELSO VIEIRA DA SILVA; Que em 14/10/2013 foi constituída a DISPAR pela pessoa física EDUARDO RAWSKI DE PAULA, CPF n º 007.636.489-57, e pela pessoa jurídica E.L.M. PARTICIPAÇÕES EIRELI, CNPJ nº 17.007.891/0001-00, sendo o responsável a pessoa física de EDUARDO RAWSKI DE PAULA; tendo como objeto a exploração dos ramos de: Comércio atacadista de medicamentos e drogas; - que na ficha cadastral – pessoa jurídica, emitida em 17/09/2019, do Banco do Brasil constam os endereços das sedes da DISPAR, Alameda Arpó nº 850, Bairro Ouro Fino, São José dos Pinhais-PR e Rua Valdemiro Valaski nº 2432, Bairro Guatupê, São José dos Pinhais-PR; Que na Ficha Cadastral da conta nº 36058-3, Agência 1688, do Banco Itaú Unibanco, consta no campo e-mail o endereço de dario@dp4distribuidora.com.br; - que o Banco Bradesco S.A., atual proprietário do Kinton Bank S.A, apresenta os Cartões de Assinatura do ano-calendário de 2016 dos responsáveis da Auditada, as pessoas físicas: EDUARDO RAWSKI DE PAULA, CPF nº 007.636.489-57, qualificação Procurador; MAURICIO RAWSKI DE PAULA, CPF nº 811.201.339-04, qualificação Procurador; ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF Nº 979.593.089-34; qualificação Procurador; HELENA RAWSKI DE PAULA, CPF nº 005.495.199-20, qualificação Procuradora e JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº 811.200.799-34, qualificação Sócio; Que o Banco Bradesco S.A., atual proprietário do Kinton Bank S.A, apresenta, referente ao ano-calendário de 2015, formulário Cadastro de Informações – HSBC – Pessoa Jurídica da Auditada com um “X” no campo Inclusão, no qual somente foram preenchidos os campos 1)Dados de Identificação: Razão Social DP4 Negócios e Distribuição Ltda e CNPJ 04.831.217; 4) Titulares/Sócios/Administradores ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA sem data e assinatura do representante da sociedade; - que o Banco Santander (Brasil) S.A apresentou Dados da Ficha Cadastral da Auditada, onde consta na aba Endereço além da sede da mesma, o endereço “R VALDEMIRO VALASKI”, que é a sede da DISPAR; na aba Relacionamentos além do nome do sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, consta o nome de EDUARDO RAWSKI DE PAULA como Procurador; cópia dos documentos de identificação de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, JULIANO RAWSKI DE PAULA e CELSO VIEIRA DA SILVA; Ficha Cadastral PJ Segmentos Corporate e Empresas, Ficha Cadastral Representante Pessoa Física Segmento Empresas e Corporate e Proposta/Contrato de Abertura de Conta, Contratação de Outros Produtos e Serviços – Corporate e Empresas, datados de 01 de novembro de 2011, com os nomes de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA e Procuração da DP4 NEGÓCIOS E DISTRIBUIÇÃO LTDA, datada de 02 de abril de 2009, representada por JULIANO RAWSKI DE PAULA, nomeando como Procurador EDUARDO RAWSKI DE PAULA; Fl. 77609DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 26 - que o Banco Santander (Brasil) S.A apresentou Dados da Ficha Cadastral da Auditada, onde consta na aba Endereço além da sede da mesma, o endereço “R VALDEMIRO VALASKI”, que é a sede da DISPAR; na aba Relacionamentos além do nome do sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, consta o nome de EDUARDO RAWSKI DE PAULA como Procurador; cópia dos documentos de identificação de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, JULIANO RAWSKI DE PAULA e CELSO VIEIRA DA SILVA; Ficha Cadastral PJ Segmentos Corporate e Empresas, Ficha Cadastral Representante Pessoa Física Segmento Empresas e Corporate e Proposta/Contrato de Abertura de Conta, Contratação de Outros Produtos e Serviços – Corporate e Empresas, datados de 01 de novembro de 2011, com os nomes de ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR e JULIANO RAWSKI DE PAULA e Procuração da DP4 NEGÓCIOS E DISTRIBUIÇÃO LTDA, datada de 02 de abril de 2009, representada por JULIANO RAWSKI DE PAULA, nomeando como Procurador EDUARDO RAWSKI DE PAULA; - que o Banco Sofisa S.A apresentou Ficha Cadastral – Proposta de Abertura de Conta – Pessoa Jurídica (1º Cadastro) da Auditada, datada de 02 de setembro de 2014, assinada pelo Sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, mas no Campo IV – Identificação dos Representantes Legais/Procuradores/Prepostos estão preenchidos com os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº 811.200.799- 34, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº 979.593.089-34; a Ficha Cadastral – Proposta de Abertura de Conta – Pessoa Jurídica (Renovação) da Auditada, datada de 03 de setembro de 2015, assinada pelo sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, mas no Campo IV – Identificação dos Representantes Legais/Procuradores/Prepostos estão preenchidos com os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº 811.200.799-34, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº 979.593.089-34; a Ficha Cadastral – Proposta de Abertura de Conta – Pessoa Jurídica (Sem Alterações) da Auditada, datada de 12 de setembro de 2016, assinada pelo sócio CELSO VIEIRA DA SILVA, mas no Campo IV – Identificação dos Representantes Legais/Procuradores/Prepostos estão preenchidos com os nomes de JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF nº 811.200.799- 34, Cargo Diretor, e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF nº 979.593.089-34. Dos depoimentos: - que a pessoa física Rui Fernando Baggio, CPF nº 540.379.309-78, Representante Comercial, declarou que exerceu os cargos de coordenador de vendas, supervisor de equipe e gerência na Auditada e de coordenador de equipe de vendas na DISPAR; que JULIANO RAWSKI DE PAULA, EDUARDO RAWSKI DE PAULA e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR se apresentava como donos da Auditada; que na DISPAR, JULIANO RAWSKI DE PAULA exercia o cargo de Diretor da área de farmácia e era o chefe geral; que EDUARDO RAWSKI DE PAULA exercia o cargo de Diretor de compras e do setor de supermercados e ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR exercia o cargo de Diretor Financeiro; que conheceu de vista CELSO VIEIRA DA SILVA nas instalações da Auditada, pois ele sempre participava das reuniões, treinamentos e eventos com os demais funcionários e representantes Fl. 77610DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 27 comerciais; que viu, quando esteve no setor financeiro da Auditada, CELSO VIEIRA DA SILVA assinando cheques; - que a pessoa física Alesandra Lemes Batista, CPF nº 030.779.209-99, supervisora de vendas, declarou que na Auditada desde o seu ingresso JULIANO RAWSKI DE PAULA, o EDUARDO RAWSKI DE PAULA e o Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) eram os donos da mesma; que JULIANO RAWSKI DE PAULA era Diretor Comercial e cuidava da parte de medicamentos, EDUARDO RAWSKI DE PAULA cuidava da parte de perfumaria e Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) cuidava da parte da logística; que JULIANO RAWSKI DE PAULA era o líder da Auditada; que CELSO VIEIRA DA SILVA se apresentava como Supervisor de Vendas da área do norte do Paraná (Apucarana); que não tem conhecimento que CELSO VIEIRA DA SILVA era o dono da Auditada; - que a pessoa física Allison Antônio Fagundes Machado Pinheiro, CPF nº 046.998.229-24, coordenador de vendas; declarou que os sócios da Auditada são JULIANO RAWSKI DE PAULA, EDUARDO RAWSKI DE PAULA e Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) que são três irmãos; que eles se apresentam como os donos da mesma, pois eles faziam reuniões mensais com os gerentes e supervisores de vendas para cobrança de metas e análise dos resultados do mês anterior; que o JULIANO RAWSKI DE PAULA era Diretor do canal “farma” (farmacêutico) e cabeça de tudo; que o EDUARDO RAWSKI DE PAULA era Diretor do canal alimentar (supermercados); que Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) se apresentava como Diretor Financeiro; que na Auditada o nome deles não aparece, mas o nome de CELSO VIEIRA DA SILVA; que em 2016 já prestava serviços na sede da DISPAR, localizada na Rua Valdemiro Valaski nº 2432, São José dos Pinhais-PR, tendo sido contratado em 03 de abril de 2017 pela mesma; que as pessoas físicas JULIANO RAWSKI DE PAULA, EDUARDO RAWSKI DE PAULA e o Juninho (ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR) se apresentavam como os donos da DISPAR; que os mesmos exerciam as mesmas atividades que exerciam na Auditada; que apenas o EDUARDO RAWSKI DE PAULA consta como sócio da DISPAR (item 75). - que na comparação dos clientes da Auditada e da DISPAR, verifica-se que houve migração dos mesmos, considerando-se os anos-calendário de 2013 até 2018; - que no ano-calendário de 2013 a Auditada apresentou DIPJ sem movimento e a partir do ano-calendário de 2014 tornou-se OMISSA na entrega da Escrita Contábil Digital (SPED Contábil) e da Escrita Contábil Fiscal; Conclui que a Auditada desde o ano-calendário de 2013 foi utilizada como empresa de fachada para sonegação das receitas da DISPAR, constituída em 14 de outubro de 2013, sendo a mesma o contribuinte da omissão de receita das venda efetuadas pela Auditada e sendo Responsáveis Solidários a AUDITADA e as pessoas físicas: EDUARDO RAWSKI DE PAULA, CPF xxx.xxx.xxx-xx; JULIANO RAWSKI DE PAULA, CPF xxx.xxx.xxx-xx; ANTONIO CARLOS DE PAULA JUNIOR, CPF Fl. 77611DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 28 xxx.xxx.xxx-xx; MAURICIO RAWSKI DE PAULA, CPF xxx.xxx.xxx-xx; HELENA RAWSKI DE PAULA, CPF xxx.xxx.xxx-xx; e CELSO VIEIRA DA SILVA, CPF xxx.xxx.xxx-xx. 51. Diante dessa circunstância, fica demonstrada a prática dos ilícitos relativos ao interesse comum indireto mencionado, sendo cabível a responsabilização em função da condição de sócio de fato. Nesse sentido: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, INCISO I, DO CTN. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação tributária quando demonstrado que o responsabilizado ostentava a condição de sócio de fato da autuada, administrando-a em nome das interpostas pessoas artificialmente integradas ao quadro social da pessoa jurídica. (Acórdão nº 9101- 006.490, Rel. Cons. Livia de Carli Germano, Sessão de 27/03/2023) 52. Assim, entendo que é o caso de manter a responsabilidade tributária atribuída aos sujeitos passivos. III. Apreciação do Recurso de Ofício 53. Como relatado, as defesas foram parcialmente providas, em síntese, para (i) reduzir o IRPJ e a CSLL cobrados, com base no resultado da primeira diligência, que identificou a inclusão indevida de Notas Fiscais de saída que não se referem a operações de venda, (ii) reduzir a multa qualificada ao patamar de 100%, em função da retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023 e (iii) excluir a responsabilidade tributária das pessoas físicas MAURICIO RAWSKI DE PAULA e HELENA RAWSKI DE PAULA. 54. Acerca da redução do IRPJ e da CSLL cobrados, verifico que houve a aplicação do resultado da diligência, com a exclusão dos valores que não representam receita: 23.6. Verificando que o lançamento se baseou na escrituração do Livro de Saída, 76.436 a 76.468, que se resume no quadro apresentado na diligência realizada, abaixo reproduzido, observo que valores foram incluídos como receita no lançamento, mas não correspondem a receita e sim outras saídas, como Devolução de compras, Remessa de Bônus, Remessa para conserto e outras receitas (não vendas) não podendo, assim, permanecer no lançamento e serão excluídos, conforme tabelas a seguir: [...] 55. A redução da multa qualificada ao patamar de 100% também está correta, em função da retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023, como vem reconhecendo a jurisprudência pacífica deste Carf. 56. Por fim, a respeito da responsabilidade tributária das pessoas físicas MAURICIO RAWSKI DE PAULA e HELENA RAWSKI DE PAULA, concordo com os fundamentos apresentados pela DRJ, os quais acolho como razão de decidir: Fl. 77612DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 29 30.10. Examinando os documentos juntados aos autos pela Autoridade Tributária e pelos interessados, surgiu uma dúvida com relação aos documentos referidos, o Banco Bradesco S.A, atual proprietário do Kirton Bank S.A, apresenta os cartões de assinatura do ano-calendário de 2016 dos responsáveis solidários, incluindo a Sra. Helena e o Sr. Maurício como procuradores da SV(DP4), mas não juntou a procuração. Os interessados juntaram aos autos procuração cujos efeitos haviam se encerrado antes dos fatos geradores lançados. Assim, com o objetivo de sanar a dúvida, o julgamento foi convertido em diligência para que fosse intimado o banco a fornecer a procuração com poderes relacionados os anos-calendário lançados. O resultado da diligência consta de fls. 76.965/76.970. Extraio a conclusão apresentada pela Autoridade que realizou a diligência: [...] 30.12. Examinando os autos não apurei outra procuração que desse poder de administrador ao Sr. Maurício Rawski de Paula, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, e à Sra. Helena Rawski de Paula, CPF nº xxx.xxx.xxx-xx, para os anos-calendário objeto de lançamento. Também, quanto às informações prestadas por funcionários colhidas pela Autoridade Tributária não foram mencionados como sócios administradores, por sinal não foram citados os seus nomes, fls. 1.136/1.138, 1.155/1.158 e 1.186/1.189. 30.13. Um fato apurei ao examinar os autos. A Autoridade Tributária apresenta o Termo de Verificação Fiscal(Relatório Fiscal) de fls. 1.884/11.941, onde relata a apresentação pelo Banco Safra de que a Sra. Helena teria assinado com o Banco, 3(três) documento de alienação fiduciária anuindo como cônjuge a fiança assinada por seu marido, Sr. Antônio Carlos de Paula Junior. Primeiro, deve ser salientado que não consta dos autos a ciência à referida e esta não demonstrou em sua impugnação saber de tal informação, demonstrando conhecimento quanto ao motivo apresentado no termo de verificação junto aos lançamentos neste processe o, fls. 20.355/20.378. 30.14. Ocorre que a Autoridade apresenta um fato, mas não motiva e fundamenta a ligação de tais anuências aos ilícitos tributários que constam deste processo, que geraram os lançamentos em exame neste momento. Considero que sendo lançamento por ato ilícito, caberia a demonstração de que a Sra. Helena participou ou se omitiu voluntariamente querendo o resultado do ilícito tributário, que gerou os lançamentos em questão. Não há como estender este consentimento para configurar, por si só, o ilícito tributário e a omissão de receita presentes nos autos. 57. Portanto, entendo que deve ser rejeitado o Recurso de Ofício. IV. Dispositivo 58. Diante do exposto, conheço do Recurso Voluntário, rejeito as preliminares e lhe dou provimento parcial, tão somente para cancelar as multas por falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Ainda, conheço do Recurso de Ofício e lhe nego provimento. Fl. 77613DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 30 Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso VOTO VENCEDOR Conselheiro Iágaro Jung Martins, redator designado Em que pese o preciso voto do i. Conselheiro Relator, que analisou de forma minudente cada tópico do Recurso Voluntário e do Recurso de Ofício, restou uma divergência na Turma, pelo quórum qualificado, que diz respeito a manutenção da multa isolada sobre as estimativas não recolhidas. Trata-se, efetivamente, de uma divergência jurídica e não fática, visto que, sobre os demais pontos o voto, denominado como vencido em razão da multa isolada, é irretocável. Sobre a exigência da multa isolada, entendeu o i. Relator, com base em precedente deste CARF e do STJ, não ser cabível a multa pelo não recolhimento da estimativa mensal, por ser essa uma etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano, que foi sancionado com multa de ofício vinculada, aplicando-se ao caso, o princípio da consunção. Ainda que se compreenda o argumento de natureza econômica sobre a impossibilidade de incidência cumulativa das duas multas exigidas em decorrência de omissão de tributo, uma vinculada ao tributo lançado e outra isolada, incidente sobre as estimativas que deixaram de ser recolhidas em razão da omissão identificada pela Fiscalização (denominado princípio da concomitância ou consunção), a solução do tema deve ser jurídica. Assim, dispõe o art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I – de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II - de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Fl. 77614DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 31 a) na forma do art. 8º da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (g.n.) Note-se que embora a antiga e a nova redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, pareçam similares, elas têm conteúdo distintos. A redação anterior previa multas calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo, fato que permitia concluir que as estimativas estariam contidas no tributo apurado ao final do período. A nova redação, contudo, tem redação mais clara e objetiva, distinguindo as duas condutas típicas, que têm consequências jurídicas distintas. O lançamento foi efetuado com a imputação da multa isolada de 50%, com base na Lei nº 11.488, de 2007, portanto a Súmula CARF nº 105 não se aplica ao presente caso, pois editada em precedentes que analisaram lançamentos efetuados com base em legislação revogada à época do presente lançamento. Há, portanto, duas condutas jurídicas distintas e, para cada uma delas, o legislador ordinário previu sanções igualmente distintas. Incorrendo, portanto, o sujeito passivo nas duas condutas previstas em lei, deve ser aplicada a respectiva sanção prevista para cada uma delas. Nessa linha, destaca-se o seguinte precedente deste CARF: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. O legislador dispôs expressamente, já na redação original do inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei 9.430/96, que é devida a multa isolada ainda que o contribuinte apure prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa ao final do ano, deixando claro que o valor apurado como base de cálculo do tributo ao final do ano é irrelevante para se saber devida ou não a multa isolada e que a multa isolada é devida ainda que lançada após o encerramento do ano-calendário. Fl. 77615DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 32 (Acórdão nº 1302-001.080, sessão de 07.05.0213, relator Conselheiro Alberto Pinto) Pela profunda análise do tema, destacam-se os seguintes excertos do voto: Da inviabilidade de aplicação do princípio da consunção O princípio da consunção é princípio específico do Direito Penal, aplicável para solução de conflitos aparentes de normas penais, ou seja, situações em que duas ou mais normas penais podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato. Primeiramente, há que se ressaltar que a norma sancionatória tributária não é norma penal stricto sensu. Vale aqui a lembrança que o parágrafo único do art. 273 do anteprojeto do CTN (hoje, art. 112 do CTN), elaborado por Rubens Gomes de Sousa, previa que os princípios gerais do Direito Penal se aplicassem como métodos ou processos supletivos de interpretação da lei tributária, especialmente da lei tributária que definia infrações. Esse dispositivo foi rechaçado pela Comissão Especial de 1954 que elaborou o texto final do anteprojeto, sendo que tal dispositivo não retornou ao texto do CTN que veio a ser aprovado pelo Congresso Nacional. À época, a Comissão Especial do CTN acolheu os fundamentos de que o direito penal tributário não tem semelhança absoluta com o direito penal (sugestão 789, p. 513 dos Trabalhos da Comissão Especial do CTN) e que o direito penal tributário não é autônomo ao direito tributário, pois a pena fiscal mais se assemelha a pena cível do que a criminal (sugestão 787, p.512, idem). Não é difícil, assim, verificar que, na sua gênese, o CTN afastou a possibilidade de aplicação supletiva dos princípios do direito penal na interpretação da norma tributária, logicamente, salvo aqueles expressamente previstos no seu texto, como por exemplo, a retroatividade benigna do art. 106 ou o in dubio pro reo do art. 112. Das condutas infracionais diferentes Ainda que aplicável fosse o princípio da consunção para solucionar conflitos aparentes de norma tributárias, não há no caso em tela qualquer conflito que justificasse a sua aplicação. Conforme já asseverado, o conflito aparente de normas ocorre quando duas ou mais normas podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato, o que não ocorre in casu, já que temos duas situações fáticas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimento sobre bases estimadas. Ressalte-se que o simples fato de alguém, optante pelo lucro real anual, deixar de recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada não enseja per se a aplicação da multa isolada, pois esta multa só é aplicável quando, além de não recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada, o contribuinte deixar de levantar balanço de suspensão, conforme dispõe o art. 35 da Lei no 8.981/95. Assim, a multa isolada não decorre unicamente da falta de recolhimento do IRPJ mensal, mas da inobservância das normas que regem o recolhimento sobre bases estimadas, ou seja, do regime. Fl. 77616DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 33 Temos, então, duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas também diferentes. O art. 44 da Lei no 9.430/96 (na sua redação vigente à época do lançamento) já albergava várias normas, das quais vale pinçar as duas sub examine: a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1º aplicável por falta de pagamento do tributo; e a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do § 1º – aplicável pela não observância das normas do regime de recolhimento por estimativa. Ora, a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1º do art. 44 jamais poderia ser aplicada pela falta de recolhimento do IRPJ sobre a base estimada, então, como se falar em consunção, para que esta absorva a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do mesmo § 1º. Assim, demonstrado que temos duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas diferentes, resta irrefutável que não há unidade de conduta, logo não existe qualquer conflito aparente entre as normas dos incisos I e IV do § 1º do art. 44 e, consequentemente, indevida a aplicação do princípio da consunção no caso em tela. Noutro ponto, refuto os argumentos expendidos no acórdão recorrido, os quais concluem que a falta de recolhimento da estimativa mensal seria uma conduta menos grave, por atingir um bem jurídico secundário – que seria a antecipação do fluxo de caixa do governo. Conforme já demonstrado, a multa isolada é aplicável pela não observância do regime de recolhimento pela estimativa e a conduta que ofende tal regime jamais poderia ser tida como menos grave, já que põe em risco todo o sistema de recolhimento do IRPJ sobre o lucro real anual – pelo menos no formato desenhado pelo legislador. Em verdade, a sistemática de antecipação dos impostos ocorre por diversos meios previstos na legislação tributária, sendo exemplos disto, além dos recolhimentos por estimativa, as retenções feitas pelas fontes pagadoras e o recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão), feitos pelos contribuintes pessoas físicas. O que se tem, na verdade são diferentes formas e momentos de exigência da obrigação tributária. Todos esses instrumentos visam ao mesmo tempo assegurar a efetividade da arrecadação tributária e o fluxo de caixa para a execução do orçamento fiscal pelo governo, impondo-se igualmente a sua proteção (como bens jurídicos). Portanto, não há um bem menor, nem uma conduta menos grave que possa ser englobada pela outra, neste caso. Ademais, é um equívoco dizer que o não recolhimento do IRPJ estimada é uma ação preparatória para a realização da “conduta mais grave” – não recolhimento do tributo efetivamente devido no ajuste. O não pagamento de todo o tributo devido ao final do exercício pode ocorrer independente do fato de terem sido recolhidas as estimativas, pois o resultado final apurado não guarda necessariamente proporção com os valores devidos por estimativa. Ainda que o contribuinte recolha as antecipações, ao final pode ser apurado um saldo de tributo a pagar, com base no resultado do exercício. As infrações tributárias que Fl. 77617DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 34 ensejam a multa isolada e a multa de ofício nos casos em tela são autônomas. A ocorrência de uma delas não pressupõe necessariamente a existência da outra, logo inaplicável o princípio da consunção, já que não existe conflito aparente de normas. Das diferentes bases para cálculos das multas A tese de que as multas isolada e de ofício, no presente caso, estariam incidindo sobre a mesma base, também, não deve prosperar, seja porque as bases não são idênticas, seja porque, ainda que idênticas, o bis in idem só ocorreria se as duas sanções fossem aplicadas pela ocorrência da mesma conduta, o que já ficou demonstrado que não ocorre, se não, vejamos. A multa isolada corresponde a um percentual do IRPJ calculado sobre a base estimada, na qual o valor das despesas e custos decorrem de uma estimativa legal, ou seja, o legislador quando determina a aplicação de um percentual sobre a receita bruta, para o cálculo da base estimada, está, em verdade, estimando custos e despesas. A multa de ofício, in casu, corresponde a um percentual sobre o IRPJ calculado sobre o lucro real, na qual se leva em conta as despesas e custos efetivamente incorridos. Em suma, se a base estimada difere do lucro real, se são valores distintos, inclusive com previsões legais distintas, os impostos delas resultantes são também valores distintos e, consequentemente, as multas ad valorem que incidem sobre elas, também, são valores que não se confundem. Todavia, ainda que as multas isolada e de ofício fossem calculadas sobre o IRPJ incidente sobre a mesma base de cálculo, isso não significaria um bis in idem, pois, como já asseverado acima, a ocorrência de uma infração não importa necessariamente na ocorrência da outra, o que torna irrefutável que as infrações decorrem de condutas diversas. O contribuinte pode ter recolhido todo o IRPJ devido sobre a base estimada em cada mês do ano-calendário e não recolher a diferença calculada ao final do período, ficando sujeito assim a multa de ofício, mas não a multa isolada. Ao contrário, pode deixar de recolher o IRPJ sobre a base estimada, mas pagar, ao final do ano, todo o IRPJ sobre o lucro real, hipótese na qual só ficará sujeito à multa isolada. A definição da infração, da base de cálculo e do percentual da multa aplicável é matéria exclusiva de lei, nos termos do art. 97, V do CTN, não cabendo ao intérprete questionar se a dosimetria aplicada em tal e qual caso é adequada ou excessiva, a não ser que adentre a seara da sua constitucionalidade, o que está expressamente vedado pela Súmula CARF nº 2. Da redação original do art. 44, § 1º, IV, da Lei 9430/96 Adite-se ainda, que o legislador dispôs expressamente, já na redação original do inciso IV do § 1º do art. 44, que é devida a multa isolada ainda que o contribuinte apure prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa ao final do ano, deixando claro, assim, que: Fl. 77618DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.960 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720510/2020-51 35 a) primeiro, que estava se referindo ao imposto ou contribuição calculados sobre a base estimada, já que em caso de prejuízo fiscal e base negativa, não há falar em tributo devido no ajuste; e b) segundo, que o valor apurado como base de cálculo do tributo ao final do ano é irrelevante para se saber devida ou não a multa isolada; e c) terceiro, que a multa isolada é devida ainda que lançada após o encerramento do ano calendário, já que pode ser lançada mesmo após apurado prejuízo fiscal ou base negativa. Da negativa de vigência de lei federal Peço vênia aos meus pares, para expressar minha profunda discordância com as referidas posições adotadas por este Colegiado: Entendo que tais posicionamentos têm, em verdade, por via oblíqua, negado vigência a uma lei federal, pois afrontam literalmente o disposto nos art. 2º e 44, § 1º, IV, da Lei no 9.430/96 (vigente à época do lançamento) e no art. 35 da Lei 8.981/95. É demais imaginar que se coaduna com os mais comezinhos princípios do direito a permissão dada ao contribuinte, por tais decisões, para, em janeiro de um determinado ano calendário, decidir se obedece ou não o art. 2º e segs. da Lei nº 9.430/96. Em outras palavras, os referidos posicionamentos deste Colegiado desnaturam a norma tributária tornando-a uma norma facultativa, já que a sua não observância não traz, à luz de tais posicionamentos, qualquer consequência jurídica. Assim, além das condutas infracionais distintas, que a lei atribui consequências sancionatórias distintas, afastar a exigência da multa isolada é negar vigência a texto legal expresso (art. 2º e 44, II, “b”, da Lei no 9.430, de 1996), fato defeso ao CARF, nos termos da Súmula nº 2. Assinado Digitalmente Iágaro Jung Martins Fl. 77619DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 15746.720555/2022-49
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 26 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Dec 30 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020
GLOSA DE CUSTOS. SIMULAÇÃO NAS AQUISIÇÕES COM EMPRESAS NOTEIRAS.
Correta a glosa de custos cujos lançamentos contábeis não estão amparados em documentos hábeis e idôneos, evidenciando-se que as notas fiscais informadas foram emitidas por “empresas noteiras”, de fachada, ideologicamente falsas, inexistentes de fato, com interpostas pessoas (“laranjas”) no quadro societário, sem substância econômica.
VENDAS SIMULADAS. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS DE SAÍDA.
Verificando-se que as vendas foram simuladas, para empresas inexistentes de fato, apenas para controle de estoque das mercadorias adquiridas das noteiras, com a acumulação de créditos tributários, devem ser consideradas inidôneas as notas fiscais de saída correspondentes.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020
CSLL. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO.
Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplica-se ao lançamento reflexo alusivo a CSLL o que decidido quanto ao lançamento do IRPJ.
Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020
GLOSA DE CRÉDITOS DE PIS E DE COFINS. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS.
A glosa de apropriação crédito decorrente da não-cumulatividade, decorrente das NFs inidôneas, ressaltando, ainda, o escorreito estorno da base de cálculo das NF’s inidôneas de saída, realizado pela autoridade autuante.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PESSOAL. ART. 135, III, DO CTN.
São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO.
É devida a aplicação da multa de ofício, na forma qualificada, prevista no art. 44, § 1º, VI, da Lei n. 9.430/96, quando evidenciadas as hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64.
MULTA QUALIFICADA. FRAUDE EVIDENCIADA. REDUÇÃO AO PATAMAR DE 100%. ART. 8º DA LEI N. 14.689/23, C/C ART. 106, II, “C”, DO CTN.
Deve retroagir a lei benéfica, a par do disposto no art. 106, II, “c”, do CTN, reduzindo-se a multa qualificada, aplicada em 150%, para 100%, conforme nova redação dada ao art. 44, § 1º, VI, da Lei n. 9.430/96 pelo art. 8º da Lei n. 14.689/23.
MULTA DE OFÍCIO. AGRAVAMENTO.
O não atendimento da intimação para entregar os arquivos magnéticos que o contribuinte deveria possuir justifica o agravamento da multa de ofício.
MULTA REGULAMENTAR DO IPI. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. ART. 572 DO DECRETO N. 7.212/10.
Sem prejuízo de outras sanções administrativas ou penais cabíveis, incorrerão na multa de igual ao valor comercial da mercadoria ou ao que lhe for atribuído na nota fiscal, os que emitirem, fora dos casos permitidos neste Regulamento, nota fiscal que não corresponda à saída efetiva, de produto nela descrito, do estabelecimento emitente, e os que, em proveito próprio ou alheio, utilizarem, receberem ou registrarem essa nota para qualquer efeito, haja ou não destaque do imposto e ainda que a nota se refira a produto isento.
MULTA REGULAMENTAR. OMISSÕES EFD-CONTRIBUIÇÕES.
Deve ser mantida a penalidade pela omissão de informações na EFD-Contribuições, tendo em vista a entrega, ao fisco, de declarações totalmente em branco, nos termos do inciso II do art. 12 da Lei nº. 8.218/91 c/c art. 106 do CTN.
Numero da decisão: 1202-002.225
Decisão: Vistos, relatados e discutidos em que são partes as acima identificadas.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário e, de ofício, reduzir para 100% (cem por cento) o percentual da multa qualificada aplicada.
Assinado Digitalmente
LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ – Relatora
Assinado Digitalmente
LEONARDO DE ANDRADE COUTO – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andre Luis UlrichPinto, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira,Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de AndradeCouto (Presidente).
Nome do relator: LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ
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SIMULAÇÃO NAS AQUISIÇÕES COM EMPRESAS NOTEIRAS. Correta a glosa de custos cujos lançamentos contábeis não estão amparados em documentos hábeis e idôneos, evidenciando-se que as notas fiscais informadas foram emitidas por “empresas noteiras”, de fachada, ideologicamente falsas, inexistentes de fato, com interpostas pessoas (“laranjas”) no quadro societário, sem substância econômica. VENDAS SIMULADAS. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS DE SAÍDA. Verificando-se que as vendas foram simuladas, para empresas inexistentes de fato, apenas para controle de estoque das mercadorias adquiridas das noteiras, com a acumulação de créditos tributários, devem ser consideradas inidôneas as notas fiscais de saída correspondentes. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020 CSLL. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplica-se ao lançamento reflexo alusivo a CSLL o que decidido quanto ao lançamento do IRPJ. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020 GLOSA DE CRÉDITOS DE PIS E DE COFINS. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. A glosa de apropriação crédito decorrente da não-cumulatividade, decorrente das NFs inidôneas, ressaltando, ainda, o escorreito estorno da Fl. 8269DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 2 base de cálculo das NF’s inidôneas de saída, realizado pela autoridade autuante. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PESSOAL. ART. 135, III, DO CTN. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. É devida a aplicação da multa de ofício, na forma qualificada, prevista no art. 44, § 1º, VI, da Lei n. 9.430/96, quando evidenciadas as hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64. MULTA QUALIFICADA. FRAUDE EVIDENCIADA. REDUÇÃO AO PATAMAR DE 100%. ART. 8º DA LEI N. 14.689/23, C/C ART. 106, II, “C”, DO CTN. Deve retroagir a lei benéfica, a par do disposto no art. 106, II, “c”, do CTN, reduzindo-se a multa qualificada, aplicada em 150%, para 100%, conforme nova redação dada ao art. 44, § 1º, VI, da Lei n. 9.430/96 pelo art. 8º da Lei n. 14.689/23. MULTA DE OFÍCIO. AGRAVAMENTO. O não atendimento da intimação para entregar os arquivos magnéticos que o contribuinte deveria possuir justifica o agravamento da multa de ofício. MULTA REGULAMENTAR DO IPI. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. ART. 572 DO DECRETO N. 7.212/10. Sem prejuízo de outras sanções administrativas ou penais cabíveis, incorrerão na multa de igual ao valor comercial da mercadoria ou ao que lhe for atribuído na nota fiscal, os que emitirem, fora dos casos permitidos neste Regulamento, nota fiscal que não corresponda à saída efetiva, de produto nela descrito, do estabelecimento emitente, e os que, em proveito próprio ou alheio, utilizarem, receberem ou registrarem essa nota para qualquer efeito, haja ou não destaque do imposto e ainda que a nota se refira a produto isento. Fl. 8270DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 3 MULTA REGULAMENTAR. OMISSÕES EFD-CONTRIBUIÇÕES. Deve ser mantida a penalidade pela omissão de informações na EFD- Contribuições, tendo em vista a entrega, ao fisco, de declarações totalmente em branco, nos termos do inciso II do art. 12 da Lei nº. 8.218/91 c/c art. 106 do CTN. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos em que são partes as acima identificadas. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário e, de ofício, reduzir para 100% (cem por cento) o percentual da multa qualificada aplicada. Assinado Digitalmente LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ – Relatora Assinado Digitalmente LEONARDO DE ANDRADE COUTO – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andre Luis UlrichPinto, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira,Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de AndradeCouto (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto em conjunto por TRATHO METAL QUIMICA LTDA e por seu sócio, MARCELO RICA, responsabilizado pessoalmente pelos lançamentos, em face do Acórdão n. 106-030.857 – 4ª TURMA/DRJ06, que julgou totalmente improcedente a Impugnação da autuada, ora recorrente, mantendo integralmente o crédito tributário de IRPJ, CSLL, PIS, COFINS, além das multas regulamentares por omissões na EFD- Contribuições e multa regulamentar do RIPI, no montante total de R$ 787.602.062,93, conforme abaixo discriminado: Fl. 8271DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 4 Os autos de infração decorreram de diversas infrações, que podem ser resumidas, em largo esforço de síntese, da seguinte forma: (i) para o IRPJ, comprovação inidônea de custos; (ii) para a CSLL, custos/despesas operacionais/encargos não comprovados; (iii) para o Pis e a COFINS, insuficiência de recolhimento (glosa de créditos); (iv) multa por apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas; e (v) multa regulamentar básica por utilização de documento fiscal inidôneo, prevista no inciso II do art. 572 do Decreto nº. 7.212/2010. Houve, ainda, lançamento de IPI, para os períodos de 09/2019 a 03/2020; esse lançamento foi destacado para o processo administrativo n. 15746.720564/2022-30. O acórdão de impugnação restou da seguinte forma ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020 NULIDADE Não houve subsunção do caso concreto ao art. 59 da Decreto nº. 70.235/72 e todos os requisitos, art. 10 do mesmo dispositivo legal, foram cumpridos. MULTA REGULAMENTAR Sem prejuízo de outras sanções administrativas ou penais cabíveis, incorrerão na multa igual ao valor comercial da mercadoria ou ao que lhe for atribuído na nota fiscal, os que emitirem, fora dos casos permitidos neste Regulamento, nota fiscal que não corresponda à saída efetiva, de produto nela descrito, do estabelecimento emitente, e os que, em proveito próprio ou alheio, utilizarem, receberem ou registrarem essa Fl. 8272DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 5 nota para qualquer efeito, haja ou não destaque do imposto e ainda que a nota se refira a produto isento. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. INTIMAÇÃO A ADVOGADO Súmula CARF nº 110 No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo. MULTA QUALIFICADA Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas de 75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. E de 150% nos casos previstos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n o 4.502/64 independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. CSLL. PIS E COFINS. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplica-se ao lançamento reflexo alusivo à CSLL, à COFINS e ao PIS o que restar decidido no lançamento do IRPJ. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Contra a referida decisão colegiada, a autuada interpôs Recurso Voluntário, ratificando integralmente as suas razões de Impugnação; em síntese, aduz: a) preliminarmente, a.1) a nulidade formal da autuação decorrente do excesso de prazo”, a impugnante afirma que a fiscalização iniciou em 2020 e foi finalizada apenas em julho/2022, uma prorrogação injustificada, infringindo, portanto, o art. 7º do Decreto 70.235/72 e art. 196 do CTN/66; e a.2) a nulidade por Fl. 8273DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 6 ausência de provas, consoante o art. 6º do Decreto nº. 70.235/72, uma vez que a autoridade fiscal “deixou de abrir diligência aos sete fornecedores suspeitos”; b) quanto à responsabilidade atribuída ao sócio, que o termo de sujeição passiva foi lavrado sem a comprovação da sua atuação com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, ou interesse comum, na forma dos arts. 135 e 124 do CTN; nega a prática dos fatos de que decorreram a autuação, atribuídos à pessoa jurídica; c) quanto ao mérito das autuações: [...] atua desde 2013 na fundição de metais não ferrosos e que possui estrutura técnica e comercial de fundição própria com certificação ISSO 9001:2015 e que, portanto, é terceira de boa fé. Nesse contexto, solicita a manutenção de determinados efeitos das operações realizadas com os fornecedores cuja inidoneidade foi reconhecida pela Receita Federal, posteriormente às operações, estabilização dos efeitos do ato administrativo anulado. [...] A boa-fé da Autuada está caracterizada pelo fato de, além de ter consultado a situação cadastral da fornecedora e de ter pago por todas as Notas Fiscais na época da operação, as fornecedoras possuíam, INCLUSIVE, AUTORIZAÇÃO DO FISCO PARA EMISSÃO DE NOTAS FISCAIS ELETRÔNICAS. Ademais, a contribuinte está ancorada pela TEORIA DA APARÊNCIA, tendo agido de boa-fé, não cabendo à ela provar que a empresa fornecedora era regular e idônea à época da transação, ATÉ PORQUE FOI A PRÓPRIA FAZENDA QUE AUTORIZOU A EMISSÃO DAS NF-e’s posteriormente glosadas, conforme consta dos autos. [...] A empresa autuada, por operar em um sistema não presencial, não teria como identificar que algumas das companhias com as quais negociava poderiam estar em situação irregular. Até porque as provas apresentadas por parte do Fisco também não foram suficientes para demonstrar o alegado conluio. Assim, ainda que prevaleça a inidoneidade dos fornecedores, tal não pode atingir terceiros de boa-fé, sendo, pois, de rigor o acolhimento da Defesa para julgar IMPROCEDENTE o Auto, anulando-se o famigerado débito fiscal dele derivado. [...] tem direito ao crédito do PIS/COFINS e da dedutibilidade dos custos para IRPJ/CSLL. [...] que todas as mercadorias indicadas nas notas fiscais glosadas entraram efetivamente no estabelecimento e foram utilizadas no processo Fl. 8274DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 7 produtivo da Autuada, dessa forma, pelo princípio da não cumulatividade, tem o direito de dedução dos custos. [...] Quanto à escolha do transportador, [...] é o próprio Fisco reconhece que os fretes não eram de sua responsabilidade, mas sim dos fornecedores, portanto não se pode presumir sua má-fé com base em algo que não era de sua responsabilidade. Até porque o próprio Fisco admitiu que não diligenciou junto às fornecedoras, resultando, pois, em prejuízo nas provas apresentadas. Já quanto aos pagamentos, [...] trouxe aos autos todos os comprovantes de pagamentos das transações e [...] a contabilização/pagamento após a data de operação não é vedada. Ainda, as certidões cadastrais comprovam regularidade cadastral. Para as fornecedoras CONNY, ELOIR e IMPERIUM, apresentou Contrato de Fornecimento de Materiais e que o fato de não haver prazo de entrega, nem estipulação da forma de pagamento, e por serem contratos antigos sem prazo de validade, não interferem na integridade formal e material dos negócios jurídicos. [...] a Autoridade Fiscal não pode rejeitar o documento Certificado de Análise por ter sido produzido por ela mesmo, pois tal documento comprova o recebimento e uso do material e conclui que o comprador de boa-fé não pode ser responsabilizado pela inidoneidade de notas fiscais emitidas pela empresa vendedora por operações que de fato ocorreram. Subsidiariamente, afirma que, se a glosa prevalecer, deve-se anular parcialmente a autuação, uma vez que a insigne autuante não considerou a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS, bem como do IRPJ e da CSLL. Sobre a multa regulamentar [...] tal cobrança incide em bis in idem, fato proibido constitucionalmente, uma vez que a multa de ofício já foi qualificada. Por isso, deve ser aplicada ao caso o princípio da absorção ou da consunção. Além disso, a lei usada, inciso II do art. 572 do Decreto nº. 7212/2010, trata sobre IPI, não podendo, portanto, ser usada para IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. [...] Sobre a multa qualificada, de 150%, incabível porque não ficou comprovado nos autos fraude ou dolo. Requereram, ao final, que seja provido o recurso para anular, parcial ou totalmente os autos de infração. Fl. 8275DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 8 É o relatório. VOTO Conselheira Liana Carine Fernandes de Queiroz, Relatora: O recurso voluntário é tempestivo, eis que interposto no prazo previsto no art. 33 do Decreto n. 70.235/72. Ademais, por preencher os demais requisitos legais para sua admissão, dele conheço. Preliminarmente, suscitam os recorrentes a nulidade do procedimento fiscal por excesso de prazo e, ainda, por ausência de provas das infrações. Hão de ser rejeitadas. Não se afiguram presentes os vícios do art. 59 da Decreto nº. 70.235/72, restando, ainda, preenchidos todos os requisitos do art. 10, do mesmo dispositivo legal. Quanto à arguida nulidade por ausência de provas da infração, transfiro-a para o exame do mérito, que passo a analisar. Conforme relatado, no Auto de Infração, há imputação das seguintes infrações: (i) para o IRPJ, comprovação inidônea de custos; (ii) para a CSLL, custos/despesas operacionais/encargos não comprovados; (iii) para o Pis e a COFINS, insuficiência de recolhimento; (iv) multa por apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas; (v) e multa regulamentar básica – utilização de documento fiscal inidôneo. No Termo de Verificação Fiscal (fls. 112-263), consta que a contribuinte possui como objeto social principal a exploração da atividade de Comércio Atacadista de Outros Produtos Químicos e Petroquímicos não especificados (CNAE 4684-2-99), e que o procedimento de auditoria cingiu-se à verificação da idoneidade dos documentos fiscais emitidos por sete dos fornecedores da ora recorrente para perscrutar a) a comprovação da efetividade da entrega dos materiais adquiridos, tendo em vista a insuficiência da capacidade econômica dos fornecedores suspeitos, debilidade na logística de transporte e indisponibilidade de estoque na cadeia anterior; e 2) a comprovação financeira do efetivo pagamento das supostas aquisições, a verificação de possível boa-fé do adquirente, ou irregularidade de apuração de tributos na cadeia anterior de fornecimento. O procedimento fiscal foi detalhado pela autoridade, no título “Das circularizações junto a terceiros”, informando que não foi realizada a diligência junto aos sete fornecedores suspeitos diante dos elementos já bastantes às conclusões fiscais. Esclarece que houve a tentativa de diligenciar junto a duas empresas, quais sejam: (i) RHODOAMIL TRANSPORTES LTDA, empresa de transporte que atuou em todas as NF’s de Fl. 8276DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 9 aquisição da TRATHO junto às sete empresas suspeitas; e (ii) GRIMALDI COMERCIAL OXIDOS EIRELI, empresa que figurou, a partir de análises dos extratos bancários da conta do SAFRA do fiscalizado, como destinatária final de vultosos valores de cheques emitidos pela TRATHO, nominais aos fornecedores BN, SILCOSTA e MILLENIUM – destacando que tais cheques foram emitidos durante o curso do procedimento fiscal, a medida em que foram sendo solicitadas, pela fiscalização, a comprovação de pagamentos de NF’s emitidas em 2017 e 2018. Na empresa RHODOAMIL, não foi localizado nenhuma propriedade de veículos. Ainda, a empresa não é optante do Simples e não entregou quaisquer declarações acessórias de apuração de impostos federais, salvo DIRF’s (para informar rendimentos pagos aos sócios) e SPED fiscal (uma vez que emitiu conhecimento de transporte no período). Expedida intimação fiscal ao seu domicílio, a empresa não foi localizada. Ainda, na empresa GRIMALDI, não foram localizadas NF’s para os períodos, apesar de a empresa ter recebido depósitos dos cheques nominais às empresas BN, SILCOSTA e MILLENIUM, que foram endossados a ela. Expedida intimação fiscal ao seu domicílio, a empresa não foi localizada. O seu sócio foi intimado; no entanto, não respondeu à fiscalização. No título “7.1 Ausência de comprovação de fornecimento – documentos inidôneos 7.1.1 Comentários Gerais – Logística de Entrega dos Produtos (frete), de emissão das NFes e não comprovação do efetivo recebimento”, a autoridade fiscal trouxe diversos indícios de fraude, entre os quais o fato de que todos os fornecedores com suspeição contrataram a mesma empresa de transporte sem capacidade operacional, distante geograficamente dos pontos de remessa e recebimento. Ainda, verifica-se pelas datas de emissão das NF’s que diversas delas foram emitidas no mesmo dia, mesmo considerando as cargas em peso volumoso. Somado a isso, não foram localizados veículos de propriedade da RHODOAMIL e a empresa nem sequer foi localizada. Continua a Autoridade Fiscal relatando que 53% das aquisições realizada junto às sete empresas suspeitas se referem a sucata, de estanho, em sua maioria (gerando altos valores de crédito de ICMS com poucas Notas Fiscais), no valor de R$ 200.021.307,14, sendo que não houve revenda a terceiros, apenas aos próprios fornecedores suspeitos e a produção realizada pela contribuinte foi de apenas 33 milhões; vejamos trecho do Termo de Verificação Fiscal: É evidente a anormalidade operacional em uma empresa que compra 200 milhões em SUCATA, não absorve esse insumo em sua produção e em momento posterior revende de volta SUCATA aos mesmos fornecedores suspeitos. Ou seja, como será amplamente demonstrado as aquisições e vendas de SUCATA junto aos sete fornecedores suspeitos são todas fictícias no sentido de gerar uma menor carga tributária. Fl. 8277DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 10 A autoridade Fiscal salienta que a sucata de estanho é rara de ser encontrada e possui enorme valor comercial, apresenta tabelas. Na sequência, afirma que o mesmo IP dinâmico foi emissor de Notas Fiscais de mais de um fornecedor suspeito com localizações diferentes, apresentando tabela demonstrativa dos referidos documentos originados deste IP. No título “fornecedor TEODORO E MORAES”, a autuante esclarece que a empresa: (i) não possui funcionários em GFIP; (ii) emitiu notas fiscais eletrônicas em montante muito superior ao que movimentou em bancos conforme e-financeira; (iii) tem como principal fornecedora a Conny Comércio de materiais Elétricos que também é fornecedora expressiva da TRATHO; (iv) endereço no cadastro do estabelecimento se trata de local com diversos galpões acoplados e não como estabelecimento único isolado, prática comum para empresas noteiras. Ainda, diz que, [...] além da caracterização de venda em sequência, verificamos emissões de NFes de sucata com característica de no mesmo dia ter vultosa tonelagem diária de produto, sempre considerando que não há a identificação do veículo transportador pela já analisada transportadora RHODOAMIL sem capacidade operacional. Também chama atenção o fato de que para cada bloco de NFes emitidas pela TEODORO para a TRATHO há um bloco de NFes emitidas nos exatos mesmos quantitativos e em dias bastante próximos tendo a TEODORO como participante, oriundas de um fornecedor da cadeia acima. As operações efetuadas entre essa empresa e a fiscalizada foram, pois, tidas como simuladas; menciona exemplo em que a sucata vendida à fiscalizada, no dia 23/10/2018, foi readquirida no dia 30 subsequente, por praticamente o mesmo valor e pelo mesmo quantitativo, com uma logística desvantajosa. Destaca ter apurado que: Em síntese quando subimos um nível acima na cadeia de fornecimento, verificamos a completa impossibilidade de fornecimento dos produtos (sucata de estanho) já que tais fornecedores operam em completa ausência de elementos que caracterizam uma transação de compra e venda nos moldes de uma normalidade (emissão de NFes e movimentação financeira compatível). Ora a TEODORO que sequer tem empregados e capacidade operacional/industrial, Fl. 8278DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 11 de fato não teria como vender cerca de 29 milhões de sucata de estanho à empresa ora fiscalizada. Acrescentamos ainda outra constatação, que corrobora a ocorrência de emissão de NFes simuladas pela TEODORO para a TRATHO ora fiscalizada: a NFe n. 30 de 27/11/2018, no valor de R$ 318.090,24 não foi contabilizada, nem paga; também não há registro de cancelamento; para a fiscalização, se afigurou possível que, diante do grande volume de NFes fictícias, sequer tenha se percebido, pela empresa, a falha indicada, embora seja uma nota fiscal de operação com valor tão relevante – se tratava, afinal, de “apenas de uma NFe falsa a mais”. Verificada a impossibilidade de a “noteira” TEODORO de ter o produto para a entrega, em item próprio mais adiante, foi auditada a comprovação de pagamento para essas aquisições, pelo contribuinte ora fiscalizado, a fim de se verificar sobre a boa-fé arguida, conforme se tratará mais adiante deste voto. Passando ao exame das irregularidades envolvendo o “fornecedor SILCOSTA”, a autoridade autuante, no TVF, esclarece que a empresa: (i) não possui funcionários em GFIP; (ii) emitiu notas fiscais eletrônicas em montante muito superior ao que movimentou em bancos conforme e-financeira; (iii) tem situação cadastral “nula” no CNPJ; (iv) essa empresa não foi destinatária de notas fiscais eletrônicas (indícios de que não possui fornecedores idôneos), e que ela tem como clientes quase que exclusivos a TRATHO e outras duas das principais fornecedoras da fiscalizada: B N COMÉRCIO DE METAIS EIRELI e CONNY COMÉRCIO DE MATERIAIS ELÉTRICOS. De acordo com a autoridade fiscal: A empresa constituída na forma EIRELI foi constituída na data de 14/09/2016, tendo como único responsável o Sr. SILAS COSTA, CPF 063.217.828-07. Porém conforme vasta documentação apresentada, conforme ANEXO 1 do presente Termo de Verificação o Sr. SILAS comprovou judicialmente que teve seu CPF utilizado para abertura da empresa SILCOSTA sem seu conhecimento, sendo a mesma aberta para fraudes tributárias que resultaram em diversas cobranças em seu CPF. Dessa forma, por decisão judicial a RFB publicou o Ato Declaratório Executivo – ADE nº 2146030, de 25/07/2018, tornando nulo o CNPJ da empresa SILCOSTA desde sua constituição, que foi realizada de forma fraudulenta com vício no ato cadastral. Fl. 8279DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 12 No título “fornecedor MILLENIUM”, a Autoridade Fiscal esclarece que a empresa: (i) não possui funcionários em GFIP; (ii) emitiu notas fiscais eletrônicas em montante muito superior ao que movimentou em bancos conforme e-financeira; (iii) foi inscrita no CNPJ em novembro de 2017 e em seguida baixada voluntariamente em junho de 2018, estando “inapta” por não localização no estado; (iv) essa empresa tem como clientes quase que exclusivos a TRATHO e outras duas das principais fornecedoras da fiscalizada: B N COMÉRCIO DE METAIS EIRELI e CONNY COMÉRCIO DE MATERIAIS ELÉTRICOS, entre outros indícios. Ainda, de acordo com o TVF: A MILLENIUM, no curto período de 11/12/2017 a 22/02/2018, faturou para a empresa TRATHO, NFes, com produtos diversos fornecidos na área de metais (sendo a maior parte em estanho em vergas e placas), perfazendo um total de R$ 19.245.150,52 (95 NFes). Identificou-se, aqui, o mesmo “modus operandi” de outros fornecedores suspeitos; além de emissões de NFes para a TRATHO, com venda diária de vultosa tonelagem de mercadoria, não há a identificação do veículo transportador, transporte esse sempre realizado pela já analisada transportadora RHODOAMIL, empresa sem qualquer capacidade operacional. Quando analisamos os fornecedores da MILLENIUM (na condição de participante em NFe), verifica-se, para os ACs de 2017 e 2018, que o seu principal fornecedor é o estabelecimento da empresa NEO RODAS S/A, CNPJ 14.591.542/0002-71, sendo que o produto adquirido é cavaco/borra de alumínio, nos valores R$ 7.657.530,08 (2017) e R$ 6.564.618,30 (2018), que corresponde a praticamente toda aquisição do período. Subindo um nível na cadeia de fornecimento, a empresa NEO RODAS, por sua vez, é participante de vários insumos típicos de industrialização e comércio de rodas de liga leve – aqui, trata-se de um contribuinte com capacidade econômica que, provavelmente, teria o resíduo caracterizado como sucata de alumínio, comercializando à empresa MILLENIUM as sobras. Porém, indaga a fiscalização: como poderia a empresa MILLENIUM, que atua como comércio e sem funcionário, comprar apenas sucata de alumínio e vender placas e vergas em estanho, que eram fornecidas pela fiscalizada, de acordo com os documentos fiscais contra ela emitidos? Quanto ao “fornecedor BN”, constatou-se que a empresa possuía alta movimentação financeira bruta (cerca de R$ 460 milhões a crédito nos anos-calendário 2017 e 2018, somados), e um número razoável de destinatários de notas (superior a 100). No entanto, possuía um único funcionário e alto volume de transações com empresas inidôneas. A Autoridade Fiscal detalha: Fl. 8280DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 13 (...) Acrescenta-se que a B N COMERCIO DE METAIS adquire sucata de estanho da TRATHO com PIS/COFINS/ICMS zerados, e vende para a TRATHO, com destaque de PIS/COFINS/ICMS, principalmente também sucata de estanho. Ou seja, a B N COMERCIO DE METAIS, tudo indica, é responsável por gerar créditos potencialmente inidôneos para a TRATHO (...) Continua a Autoridade, no endereço informado, existe um galpão de uso coletivo, prática comum em empresas noteiras. Em 2018, a empresa emitiu a contribuinte, em janeiro, 20 Notas Fiscais no valor de R$ 3.680.249,80. No demais meses, 27/02 a 28/08, a empresa emitiu 364 Notas no valor total de R$ 106.542.893,55. Ainda, o transporte tem características nos mesmos modus operandi das demais: Em relação ao transporte relacionado a essas vendas, novamente nos deparamos com o exato “modus operandi” de outros fornecedores suspeitos, com diversas emissões de NFes para a TRATHO – com característica de que, no mesmo dia, há vultosa tonelagem diária de mercadoria adquirida, não há a identificação do veículo transportador e o transporte sempre realizado pela já analisada transportadora RHODOAMIL, que não possui capacidade operacional. Ainda, a fornecedora BN comprava a mercadoria em quantidades semelhantes às vendidas, evidenciando-se a ficção dos documentos trocados entre as empresas, já que “seria totalmente inverossímil que uma empresa comprasse um produto de um fornecedor e revendesse o mesmo produto, exatamente no mesmo dia, utilizando a mesma empresa transportadora, com emissão de documento fiscal entre ambas”. Não fica comprovado o deslocamento físico do produto, mas a simples simulação, com a emissão de NFe que traz enorme vantagem na carga tributária para a TRATHO, já que a tributação tem tratamento diferente nas duas operações. Esses fatos foram evidenciados para outros meses, além de março/2018, tomado como exemplo no TVF. Quanto à “fornecedora Imperium”, foi apurado que se trata de uma empresa “híbrida” (tal como a BN), com parte das NF’s emitidas sem lastro operacional: De início reportamos um resumo da suspeição de fornecimento apontada para a empresa IMPERIUM ainda antes do início dos procedimentos fiscais, para o período de 2017 a 2018: A IMPERIUM CONDUTORES ELETRICOS E Fl. 8281DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 14 METALURGICA- EIRELI, CNPJ base n. 20503659, é empresa aparentemente híbrida. Possui certo número de funcionários, movimentação financeira próxima ao seu faturamento, e centenas de clientes. Porém, deve-se ressaltar que ela (i) possui como principais fornecedoras a CONNY COMERCIO DE MATERIAIS ELETRICOS e a própria TRATHO, (ii) adquire sucata de estanho da TRATHO com PIS/COFINS/ICMS zerados, e (iii) vende para a TRATHO com destaque de PIS/COFINS/ICMS, principalmente mercadorias de estanho, inclusive sucata de estanho. Ou seja, a IMPERIUM, tudo indica, é responsável por gerar créditos potencialmente inidôneos para a TRATHO [...] Ressalta que o transporte, nas operações da “fornecedora Imperium”, tem as mesmas características (revela o mesmo “modus operandi”) das demais fornecedoras da TRATHO METAL: O fornecimento de produtos de estanho para a IMPERIUM, onde há os valores mais vultosos em NFes são realizados basicamente por fornecedores que também são suspeitos de atuarem como noteiras, conforme quadro abaixo, isso quando, tal qual já exposta em relação ao fornecedor BN, não há no mesmo período a IMPERIUM vendendo e comprando o mesmo produto em transações com a TRATHO. Assim considerando aquisições totais aproximadas da IMPERIUM em 2018 (R$ 335 milhões) e 2019 (R$ 218 milhões), os fornecedores principais de fato são praticamente a CONNY (outra suspeita de atuar como noteira) e a própria TRATHO, que com a inclusão da NEO RODAS corresponde a 86% para 2018 e 66% para 2019 do fornecimento total, como podemos expor no mesmo quadro abaixo: Percebe-se que, tal qual em relação a outro fornecedor (BN), claramente são fictícias as operações, lastreadas nos documentos fiscais trocados entre as empresas, já que “seria totalmente inverossímil que uma empresa comprasse um produto de um fornecedor e revendesse o mesmo produto exatamente no mesmo dia, utilizando a mesma empresa transportadora (RHODOMIL), sem capacidade operacional, com emissão de documento fiscal entre ambas”. Fl. 8282DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 15 Sendo ficção, não havendo o real deslocamento físico do produto, a simulação de emissão de NFe trazia enorme vantagem na carga tributária para a TRATHO, pois tem tratamento diferente nas duas operações. Esses fatos foram constatados para outros meses, além de março/2018, tomado como exemplo no TVF. O “fornecedor ELOIR”, por sua vez, tinha, igualmente, valor de compras e vendas aproximados; a movimentação financeira era incompatível com os valores transacionados e possuía apenas dois empregados em GFIP no período, fatos denotativos de sua incapacidade operacional. Com base em imagens do google, o auditor conclui que, com exceção do endereço da sua matriz – que parece de fato operar com a reciclagem de papel e papelão – os edifícios das suas filiais não apresentam características de trânsito operacional de produtos. Ressalta, ainda, que o transporte de mercadorias não restou comprovado, para as aquisições feitas pela TRATHO, envolvendo a mesma transportadora e o mesmo “modus operandi”. Concluiu a fiscalização que essa fornecedora atua de maneira ambígua, fornecendo e comprando da empresa TRATHO; elaborou tabela com exemplo de NF’s fictícias. Quanto à “fornecedora CONNY”, também se trataria de empresa híbrida: Nos anos-calendário 2017 e 2018, possuiu movimentação financeira bruta bilionária, foi destinatária de notas emitidas por centenas de pessoas jurídicas, bem como emitiu cerca de R$ 1,8 bilhão em notas fiscais eletrônicas para milhares de CNPJs, sendo difícil afirmar, em um primeiro momento, que ela é puramente uma empresa de fachada. Não obstante, seus recolhimentos fazendários são irrisórios, ela não entrega GFIP desde 2013, e há alto volume de transações com empresas potencialmente inidôneas, incluindo várias anteriormente mencionadas neste relatório. A CONNY, no período de 05/01/2017 a 21/08/2020, faturou para a empresa TRATHO, o vultoso montante total de R$ 211.206.313,18 (975 NFes) sendo os seguintes produtos divididos por ano calendário: Em 2017 a CONNY emitiu NFe de venda para a TRATHO no valor de R$ 77.175.936,16 (543 NFes), acobertando em sua maior parte produtos diversos de estanho. Em 2018, a CONNY emitiu tendo a TRATHO como destinatária o montante de R$ 15.385.362,16 (46 NFe), todas acobertando exclusivamente sucata de estanho. Em 2019 o montante total emitido para a Fl. 8283DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 16 TRATHO foi de R$ 62.194.508,03 (213 NFes), sendo R$ 53.218.706,03 relativas a sucata de estanho. Finalmente em 2020, o montante foi de R$ 56.069.073,12 (172 NFes), sendo R$ 52.495.224,19 relativa a sucata de estanho. Além de emissões de NFes para a TRATHO, constatou-se vultosa tonelagem de mercadoria comercializada num mesmo dia, sem a identificação do veículo transportador, transporte esse que, até setembro/2019, fora atribuído à responsabilidade da já analisada transportadora RHODOAMIL, sem capacidade operacional. A partir de outubro, a “fornecedora ELOIR” passou a utilizar a empresa de transporte LIMA ASSESSORIA EM COMÉRCIO EXTERIOR LTDA, com as mesmas características do uso da RHODOAMIL, sem identificação dos veículos transportadores, para as entregas vinculadas às NFes emitidas. Por essas razões, embora em menor escala, esta fornecedora também realizou, com a autuada, operações simuladas: Em conclusão a esse item 7.1 ficam bastante evidentes os diversos fatos que indicam claramente a emissão de NFes fictícias que não correspondem à realidade transacionada, fazendo assim com que embora formalmente constituídos, os documentos fiscais emitidos pelos fornecedores suspeitos estão viciados em seu conteúdo, não refletindo uma transação real. Segue resumidamente algumas características: 1) Falta de capacidade operacional, ausência de vínculos empregatícios em alguns casos e em algumas vezes falta de capacidade financeira dos sete fornecedores suspeitos de efetuar as transações; 2) Edifícios dos estabelecimentos emitentes das NFes pesquisados pelo Google Mapa, apresentando características típicas de noteiras, sem capacidade de operar o trânsito dos produtos e algumas vezes simulados ou inexistentes; 3) Valores e quantidades vultosas diárias em NFes sequenciais com indicação de MESMA transportadora (RHODOAMIL) sem capacidade operacional de transporte e com sede distante dos estabelecimentos emitentes das NFes, utilizada “coincidentemente” pelos sete fornecedores suspeitos; 4) Ausência de capacidade de fornecimento na cadeia do produto, nas quantidades transacionadas, quando analisada Fl. 8284DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 17 as aquisições efetuadas pelos sete suspeitos de serem noteiras, para terem em estoque o produto para a revenda à empresa TRATHO; 5) Ambiguidade nas transações com 5 dos 7 fornecedores suspeitos em mesmo período e com o mesmo produto, ora atuando como cliente ora atuando como fornecedor. 6) Dentro dessas transações bilaterais as vendas da TRATHO fiscalizada para os fornecedores suspeitos também indicaram nas NFes as mesmas duas transportadoras: RHODOAMIL e LIMA ASSESSORIA da aquisição; 6) Mesmo IP dinâmico gerador da NFe utilizado para fornecedores suspeitos distintos; 7) Mudança de transportador nas NFes suspeitas no exato período e para a mesma nova transportadora para fornecedores suspeitos distintos (da RHODOMIL para a LIMA ASSESSORIA a partir de 10/2019); 8) Transação dos sete fornecedores envolvendo produtos de estanho, em especial sucata de estanho, com valor comercial elevado e com tributação diferenciada para ICMS, com transações de compra e venda interestadual e dentro do mesmo estado, em situação que gera créditos a receber e diferimento no pagamento. 9) Vínculos de fornecimento entre os próprios fornecedores suspeitos, que são clientes e fornecedores entre si. A partir da análise dos fornecedores, houve a necessidade de comprovar, principalmente para as empresas híbridas, os pagamentos com documentação hábil e idônea. Então, foram verificadas pela autoridade fiscal, a existência das seguintes movimentações financeiras ou de pagamento: (i) pagamentos realizados a TRATHO, por meio do Banco Itaú, com retorno do dinheiro, no mesmo dia e valor, à TRATHO por meio de conta no Banco Bradesco; (ii) NF’s pagas depois da abertura do procedimento fiscalizatório – a quase totalidade relativa a NF’s com data de emissão muito pretérita à data do pagamento, sem juros cobrados ou descontos obtidos por meio do Banco Safra ou Barinsul; ainda, nenhum dos cheques auditados tiveram sua Fl. 8285DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 18 compensação em contas bancárias dos fornecedores suspeitos, sendo todos repassados com endosso no verso e depositados em conta de terceiros; (iii) alguns casos, sem comprovação de pagamento. Assim foi que, para as situações descritas nos itens (i) e (ii), foram consideradas, escorreitamente, pela autoridade fiscal, como inexistente prova de pagamento – é improcedente, por isso, a alegação recursal de que todas as operações tiveram o pagamento comprovado, (intencionando a recorrente demonstrar, com isso, a sua boa-fé o desconhecimento da apurada inidoneidade das “noteiras” com as quais mantinha operações comerciais). Vale destacar, a respeito do Termo de Cessão de Direitos e Permutas – apresentado pela autuada durante a ação fiscal, com a pretensão de justificar os endossos realizados nos cheques à empresa terceira, as constatações feitas pela fiscalização, de que se trata de documento contratual singelo em seus termos, sem registro em cartório, demasiado genérico, sem precisão quanto às condições negociais para as compensações de duplicatas entre si; segundo a fiscalização: Como esses três fornecedores, conforme itens anteriores neste Termo de Verificação, de fato atuaram como fornecedor e cliente da TRATHO ao mesmo tempo, e muitas vezes no mesmo produto, caso o Termo sob análise visasse a acobertar essas permutas de direito creditório, tal situação deveria ser claramente detalhada, inclusive na contabilidade da fiscalizada e com planilhas de compensação em suas respostas quando instada a comprovação da quitação das aquisições. Ainda, segundo a Autoridade Fiscal, as empresas CONNY, ELOIR e IMPERIUM efetuaram pagamentos e receberam dinheiro, no mesmo dia e no mesmo valor, caracterizando operações casadas; os pagamentos das NF’s, que deveriam ter sido feitos por meio de duplicatas, no prazo de 90 a 180 dias, tiveram a sua imputação de pagamento, na justificativa apresentada pela fiscalizada, pelos cheques emitidos no curso do procedimento fiscal, entre 2 a 3 anos depois da data considerada do suposto vencimento da obrigação; cito do TVF: Mais grave ainda, é que querendo demonstrar a quitação das aquisições já em curso de fiscalização, não se cercou de realizá-la com detalhamento necessário para a comprovação da veracidade da transação, dentro da auditoria criteriosa de Fl. 8286DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 19 cada valor. Bastaria realizar ao fornecedor suspeito um pagamento direto, se de fato era devedor e havia adquirido os produtos. Porém de forma absurda, optou por utilizar de cheque nominal emitido com endosso (que qualquer um pode se valer em via única) que de fato vira moeda e tem destino diverso ao fim proposto de comprovação do beneficiário final, sob o qual recaia a suspeição. Acrescentamos ainda que, ao verificarmos o destino de compensação dos cheques emitidos, vultoso valor teve a mesma empresa como beneficiária, o que representaria uma realidade difícil de ser considerado como coincidência, já que teríamos fornecedores diferentes recebendo cheques do mesmo cliente e repassando todos ao mesmo destinatário. Os supostos pagamentos, informados pela fiscalizada com o fito de demonstrar sua boa-fé e a veracidade das operações, foram analisados um a um pela autoridade autuante, individualizando-se, ainda, nesta análise, o fornecedor das mercadorias e documento fiscal pertinente; as conclusões alcançadas foram as abaixo relatadas. Para os fornecedores Teodoro, Eloir, Conny e Imperium, foi constatado que os pagamentos não respeitaram os vencimentos das duplicatas indicadas das NF’s; ainda, no mesmo dia, houve um retorno dos valores pagos: a fornecedora devolveu os valores para a fiscalizada TRATHO, que passou de fornecedora a cliente, no mesmo dia, e da mesma mercadoria. Há quadro no TVF com essa constatação, incluindo o rol das notas fiscais inidôneas. Quanto ao fornecedor BN, também foi constatada simulação de pagamento, com devolução dos valores, no mesmo dia, relacionados às NF’s fiscais constantes do “quadro-resumo” do TVF. A maioria das notas emitidas por esse fornecedor, contudo, não teve nenhuma justificativa associada à ausência de pagamentos; há poucos cheques, emitidos 3 anos após a emissão das NF’s, durante a fiscalização, com o endosso a terceiros, compensados por GRIMALDI COMERCIAL OXIDOS EIRELI, CNPJ 18.371.973/0001-00, empresa inexistente. Destaco do TVF: A comprovação de que a GRIMALDI tem o mero papel de trocar os cheques endossados é que ela recebeu não só cheques nominais à BN, mas também foi destinatária de cheques nominais a outros dois fornecedores suspeitos, a saber MILLENIUM e SILCOSTA, para os quais a fiscalizada também emitiu cheques nominais no curso da fiscalização para comprovação de NFes bastante pretéritas. Fica evidente a impossibilidade da coincidência dos fornecedores suspeitos Fl. 8287DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 20 de diferentes municípios terem repassados os cheques para um mesmo destinatário, na mesma praça da fiscalizada. Além disso, muitos dos valores movimentados (em conta corrente e cheques) são diferentes dos valores apresentados nas notas fiscais a que a fiscalizada imputa o pagamento, embora não haja previsão (ou esclarecimento, pela fiscalizada) de critério de acréscimos e/ou descontos concedidos – em alguns casos, com situação de desconto mesmo se tratando de pagamentos de operações realizadas há longo tempo. A emissão dos cheques para pagamento, com endossos ao mesmo terceiro (comum nas operações de cessão de créditos), foi tida pela fiscalização como uma tentativa de iludir o fisco, mesmo quando já em curso o procedimento fiscal e, portanto, sem espontaneidade do contribuinte. em uma situação em que a empresa não está mais espontânea. Embora sustente a recorrente que a extemporaneidade dos pagamentos (realizados cerca de 3 anos após as operações) não implicaria a desconsideração, de per si, de que teriam sido quitadas as operações, como fundamento da própria existência dos negócios, negando-se serem simulados, não há como se dar guarida ao fundamento da defesa. A ora recorrente, até o início da fiscalização, manteve os valores “devidos” por essas operações na conta de “fornecedores a pagar”, aproveitando-se de NFes inidôneas pelo regime de competência na apuração de seus tributos. Somente quando intimada à comprovação efetiva dos pagamentos, passou a emitir os cheques. Foi constatada pela fiscalização a completa ausência de comprovação de pagamento dos quase 100 milhões em NFes das emitidas, somente pela fornecedora BN, contra a autuada, entre os meses de fevereiro e agosto de 2012. Quanto ao “fornecedor Millenium”, com o intuito de comprovar os pagamentos, a impugnante apresentou, no curso da ação fiscal, planilhas de liquidação de cheques e, uma outra, datada de 01/12/2020, em que relaciona algumas NF’s com a indicação de “baixa por encontro de contas – contas a pagar e contas a receber”. No entanto, não foi comprovada a reciprocidade de credor/devedor para essas compensações, sem espeque em qualquer documentação. No que se refere ao fornecedor Silcosta, a Autoridade Fiscal acrescenta que: (...) A maior evidência pode ser verificada que usando esse “modus operandi” de cheques nominais endossados a fiscalizada, mesmo conhecendo a situação de CANCELAMENTO da inscrição da empresa SILCOSTA, por demanda judicial de seu único sócio o Sr. Silas da Costa, uma vez que apresentou, já em sua primeira resposta, uma cópia da decisão judicial, a fiscalizada emitiu cheques nominais a esta empresa que foram simulados. Ora, se era conhecedora Fl. 8288DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 21 de que a empresa não mais existia por que mesmo assim pagou em 2021, com um cheque nominal, depois de mais de 3 anos, NFes emitidas em 2017? Há, no TVF, print de exemplo de cheque nominal à empresa SILCOSTA, com o endosso no verso, feito em data muito posterior à decisão judicial de cancelamento da inscrição da empresa. No título “consolidação da NFes inidôneas”, está o resumo das constatações envolvendo a irregularidade dos “pagamentos”, com uma única planilha detalhando as aquisições inidôneas dos fornecedores; destaca a autuadante: Convém aqui destacar que há um universo maior de NFes de aquisições pela fiscalizada emitidas pelos sete fornecedores suspeitos, no período total auditado de 2017 a 2020. Apesar das evidências da ausência da capacidade operacional de fornecimento pelos fornecedores suspeitos, de uma forma mais conservadora, consideramos na consolidação final apenas as NFes para as quais não houve comprovação de pagamento de forma lícita, descaracterizando assim completamente a boa-fé da fiscalizada. Assim apenas para essas NFes apuramos no presente Termo de Verificação Fiscal as irregularidades resultantes da utilização dessas NFes na apuração dos diversos tributos. Também registramos que o procedimento fiscal se estendeu em vários anos resultando na auditoria de um período de uso de NFes inidôneas, mas de fato a fiscalizada vinha usando do esquema fraudulento em um período bem maior. A necessidade de verificação de diversos ACs deu-se exatamente devido ao deslocamento temporal entre a data da emissão dos documentos inidôneos e os esquemas fraudulentos planejados para a contabilização dos valores fictícios. Também para as situações em que o fornecedor foi de forma simulada alçado à condição de cliente, recebedor principalmente de NFes de sucatas de estanho (que não têm tributação de PIS/COFINS/IPI/ICMS) foram consolidadas pela autuante as NFes consideradas fictícias, excluindo-as de eventual tributação indevida como receita para IRPJ/CSLL pela fiscalizada. Assim, também foi consolidada a planilha denominada “ANEXO 24 – NFes VENDAS SIMULADAS Fl. 8289DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 22 PARA FORNECEDORES SUSPEITOS – 2018 a 2020”, com 447 NFes no período de 22/03/2018 a 11/12/2020, no valor total de R$ 152.162.707,66. Em virtude de efetivas aquisições das mercadorias, retratadas nos documentos fiscais indicados, não terem ficado comprovadas, houve a glosa dos custos identificados como inidôneos, constantes da tabela abaixo destacada: Em contrapartida, para alguns fornecedores/clientes suspeitos (Eloir, Imperium, Teodoro e pequena parte da BN), as receitas ficitícias foram abatidas, conforme abaixo: Em seguida, a Autoriade Fiscal faz um quadro resumo da apuração das ECF’s e dos valores confessados nas DCTF’s do período, cotejando com os valores de DARFs pagos: Fl. 8290DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 23 Desse quadro, a autoridade fiscal inferiu que, a partir do 4º trimestre/2020, período no qual não foram identificadas mais nenhuma NF’s de aquisição junto aos sete fornecedores suspeitos, houve um salto gigantesco no lucro trimestral apurado. Em decorrência disso, elaborou um quadro base de cálculo para os Autos de Infração de IRPJ e CSLL reflexa, acrescentando, ao lucro declarado, todo o custo apropriado indevidamente; descontou-se, em favor do contribuinte, os valores das vendas consideradas simuladas, realizadas aos fornecedores suspeitos, limitando-se estes descontos aos trimestres fiscalizados: Fl. 8291DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 24 Quanto ao PIS e a COFINS, houve a glosa de apropriação crédito decorrente da não- cumulatividade, decorrente das NFs inidôneas; o total do valor de glosa de base de cálculo PIS/COFINS foi de R$ 102.535.488,85. Em favor da contribuinte, para as NF’s inidôneas de saída, houve o estorno da base de cálculo de R$ 10.044.112,50; elaborou a autuante quadro resumo para os três anos calendário, relativos ao estorno. Por fim, quanto ao auto da penalidade pela omissão de informações na EFD- Contribuições, escorreitamente aplicada, eis que a autuada entregou ao fisco duas declarações totalmente em branco, e, nos termos do inciso II do art. 12 da Lei nº. 8.218/91 c/c art. 106 do CTN/66, deu ensejo ao lançamento da penalidade, para os meses de fevereiro e maio/2019, em 5% das transações do período mensal, limitada a 1% da receita: Os valores de Receita Bruta, para os dois meses, foram consolidados nas planilhas correspondentes, com o detalhamento das NFes emitidas de saída, conforme item de apuração de PIS/COFINS anterior, juntadas conforme ANEXO 34, para fevereiro/2019 e ANEXO 35 para maio/2019. Por tudo quanto retratado, inexistiu debilidade probatória; ao contrário, o arcabouço da fiscalização é robusto e deixa estreme de dúvidas a procedência dos lançamentos; não há como se acolher a pretensa nulidade arguida pela defesa ou cancelar-se quaisquer das exações. No que se refere à multa regulamentar, prevista no inciso II do art. 572 do Decreto n. 7.212/10, afirma a recorrente que tal cobrança incide em bis in idem, notadamente em vista da imposição da multa de ofício qualificada; requer que seja aplicado o princípio da absorção ou da consunção; ainda, sustenta a inadequação da penalidade, que, a respeito de tratar de IPI, fora aplicada em decorrência dos fatos relacionados aos lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. A penalidade está disciplinada no inciso II do art. 572 do Decreto n. 7212/2010, nos seguintes termos: Art. 572. Sem prejuízo de outras sanções administrativas ou penais cabíveis, incorrerão na multa igual ao valor comercial da mercadoria ou ao que lhe for atribuído na nota fiscal, respectivamente: Fl. 8292DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 25 (...) II - os que emitirem, fora dos casos permitidos neste Regulamento, nota fiscal que não corresponda à saída efetiva, de produto nela descrito, do estabelecimento emitente, e os que, em proveito próprio ou alheio, utilizarem, receberem ou registrarem essa nota para qualquer efeito, haja ou não destaque do imposto e ainda que a nota se refira a produto isento. Infere-se da legislação acima que a multa regulamentar incide sobre o valor comercial da mercadoria declarada em nota fiscal, nos casos de emissão de nota que não corresponda à saída efetiva da mercadoria, salvo os casos previstos em lei. No caso concreto, houve o lançamento da citada multa, exatamente sobre a base de cálculo prevista na legislação, não havendo correspondência com o IRPJ e seus reflexos. Ainda, como o próprio caput do artigo prescreve, a penalidade é aplicada “sem prejuízo de outras sanções administrativas ou penais cabíveis”; não é vedada a cumulação da referida multa com a penalidade do art. 44, inciso I e § 1º, da Lei nº 9.430/96, ao contrário. Por força do art. 142, parágrafo único, do CTN/66, a autoridade fiscal há de constituir todo o crédito tributário, aplicando as todas as penalidades cabíveis, sob pena de responsabilidade funcional. Ademais, por ter se afigurado presentes, por tudo quanto esposado, o intuito de fraude e conluio, definidos nos arts. 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, a multa de ofício foi aplicada de forma qualificada, em 150%, conforme enunciado no art. 44, inciso I e § 1º, da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei 11.488, de 15 de junho de 2007: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) [...] § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Fl. 8293DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 26 Conforme expressamente definido na legislação, a imputação da multa qualificada (150%) vincula-se às hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964, que dispõem: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos no artigo 71 e 72. Transcrevo as razões irreparáveis que constam do TVF para a aplicação da penalidade: É evidente o dolo, pois na atuação do contribuinte fiscalizado ficou caracterizado que havia a completa ciência de sua participação no esquema de fraude, já que foi destinatário de documentos revestidos da forma correta quanto à emissão, porém, conforme amplo elemento de prova já explanado no presente Termo, completamente viciados em conteúdo já que não refletiam a realidade de uma transação de fato. E mais, para acobertar o vício de tais documentos, fez emissão de novos documentos inidôneos simulando vendas e/ou pagamentos com cheques nominais a terceiros. Independentemente de ser ou não o coordenador do esquema, há a certeza de que se beneficiou conscientemente já que as transações financeiras que envolveu os pagamentos Fl. 8294DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 27 e devoluções no mesmo valor e mesmo dia, deu-se através de suas contas bancárias, das quais detinha o total controle. Mesmo no curso da fiscalização, para os casos que após o início do procedimento fiscalizatório ainda não havia sido realizado quaisquer pagamentos aos fornecedores suspeitos, descaradamente apresentou comprovações financeiras que em nenhum momento comprovou a veracidade da transação e o recebimento pelo beneficiário, em tentativa clara de iludir o trabalho de auditoria. Chegou mesmo a apresentar cheque nominal endossado de empresa de que já era conhecedor de ser considerada INEXISTENTE dedes sua inscrição. Ora agindo dessa forma simulada, impediu de forma dolosa o conhecimento de que de fato os fornecimentos eram fictícios, não apenas por falta de capacidade operacional inclusive de entrega dos produtos, como articulou esquema financeiro para dar uma aparência de licitude, transformando diversos fornecedores suspeitos em pseudo-clientes. Assim a conduta acima denota o elemento subjetivo do dolo, combinado com o conluio, e enseja a aplicação da multa agravada pela ocorrência de fraude prevista nos artigos 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964. [...] Houve Representação Fiscal para Fins Penas, nos termos do art. 1º e 2º da Lei nº 8137/90. E por último, nos termos do art. 135 do CTN/66, houve responsabilização do sócio majoritário MARCELO RICA, CPF 045.949.008-79. Embora mantida a qualificadora da multa, pelas razões apresentadas acima, deve retroagir a lei benéfica, aplicando-se o disposto no art. 106, II, “c”, do CTN, reduzindo-a de 150% para o patamar de 100%, em decorrência da nova redação dada ao art. 44, § 1º, VI, da Lei n. 9.430/96 pelo art. 8º da Lei n. 14.689/23. Um último ponto para análise, ainda quanto ao mérito da exigência, diz respeito ao pedido subsidiário de exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS, bem assim do IRPJ e da CSLL, ao argumento de que possui, inclusive, decisão judicial favorável em seu favor. A esse respeito, tendo em vista que, entre as infrações, não está a omissão de receitas, não procede o requerimento de reexame da base de cálculo das contribuições. Ademais, em relação ao cumprimento de eventual decisão judicial, deverá o contribuinte valer-se dos meios ordinários à satisfação do alegado direito, a ser perseguido por vias próprias, na forma da lei. Fl. 8295DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 28 No que pertine, por fim, à responsabilidade pessoal atribuída ao sócio-administador Marcelo Rica, não há, igualmente, como prosperar, estando suficientemente descrita, no Termo de Verificação Fiscal, sua ação dolosa na administração da empresa, atuando ainda ativamente nas operações simuladas: 311. Assim o contrato social com suas alterações dispõe que a empresa foi no período fiscalizado administrada de forma isolada pelo sócio majoritário e responsável perante a Receita Federal, MARCELO RICA. 312. Nesse relatório fiscal está demonstrado que o gestor da empresa agiu com dolo na administração da empresa, seja por utilizar de documentos fiscais cientes de acobertarem uma transação fictícia já que a simulação de pagamento das aquisições fraudulentas deu-se através de utilização de sua conta bancária, mas também atuando ainda ativamente na produção de vendas simuladas para acobertar o retorno ou simulando endosso em cheques nominais que de fato tiveram destino diverso do fornecedor sob suspeição, sendo que os mesmos foram apresentados mesmo após o início do procedimento fiscal. Como detalhado anteriormente apresentou documento endossado em nome do responsável pela empresa SILCOSTA que inclusive já havia sido declarada inexistente, o que era de seu conhecimento. 313. Dessa forma, agindo dolosamente e de forma ilícita, o Sr. MARCELO RICA, engendrou diversos esquemas para acobertar documentos emitidos com a forma correta, mas completamente viciados em seu conteúdo já que não refletiam uma transação de fato realizada. Com isso diminuiu consideravelmente sua apuração de tributos federais, quer pela elevação indevida de custos quer pelo aproveitamento indevido de créditos. Sendo assim, na forma prevista no art. 135 do Código Tributário Nacional, o recorrente, sócio-administrador da empresa, com sua conduta dolosa sonegatória no exercício da administração, devidamente narrada pela autoridade autuante, responde solidariamente pelos tributos lançados na fiscalizada. Fl. 8296DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.225 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.720555/2022-49 29 CONCLUSÃO Diante de todo o exposto, voto pelo conhecimento e provimento parcial do recurso voluntário, tão somente para reduzir a multa qualificada para o patamar de 100%, nos termos do art. 44, § 1º, VI, da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pelo art. 8º da Lei n. 14.689/23, c/c art. 106, II, “c”, do CTN. É como voto. Assinado Digitalmente LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ Fl. 8297DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 16682.721178/2018-33
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 09 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/04/2014 a 30/04/2014
DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. FASE PRÉ-PROCESSUAL. INOCORRÊNCIA.
Não há que se falar em ofensa à ampla defesa na fase de auditoria, inexistindo ainda imputação de infração ou não reconhecimento de direito creditório. Os princípios do contraditório e da ampla defesa são de observância obrigatória na fase litigiosa do processo administrativo fiscal, que, no caso de pedido de restituição, tem início com a apresentação de manifestação de inconformidade ao despacho decisório denegatório do direito creditório.
DIREITO DE CRÉDITO. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA.
Inexiste norma legal determinando a homologação tácita do pedido de restituição de indébito tributário no prazo de 5 anos, não se lhes aplicando os prazos decadenciais para lançamento nem o prazo para homologação de compensações.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2014 a 30/04/2014
CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS NÃO RETIFICADAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 231.
A apuração extemporânea de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins só é admitida mediante retificação das declarações e demonstrativos correspondentes, a exemplo do EFD-Contribuições, conforme Súmula CARF nº 231.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. SERVIÇOS PORTUÁRIOS. INSUMO. DEFICIÊNCIA PROBATÓRIA. CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE.
A ausência de comprovação de que os serviços portuários estão inseridos na atividade produtiva impossibilita sua inclusão na base de creditamento das contribuições a título de insumos.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES. POSSIBILIDADE.
O afretamento de embarcações utilizadas nas atividades da empresa dá direito ao crédito das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. AFRETAMENTO DE AERONAVES. IMPOSSIBILIDADE.
O afretamento de aeronaves utilizadas para transporte de funcionários não dá direito ao crédito das contribuições ao PIS e da COFINS a título de insumos, pois estes somente contemplam aquisição de bens ou serviços, e não a locação, de que é espécie o afretamento. Por sua vez, o inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 também não é aplicável, pois se limite a “prédios, máquinas e equipamentos”.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. EXISTÊNCIA DO CRÉDITO ALEGADO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA.
A restituição de créditos tributários está condicionada à comprovação da certeza e liquidez do direito pleiteado, cujo ônus é do contribuinte.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. TRANSPORTE FIRME DE GÁS NATURAL. ENCARGO DE CAPACIDADE DE TRANSPORTE. “SHIP OR PAY”. POSSIBILIDADE.
As despesas relacionadas ao encargo de capacidade de transporte, componente estrutural da tarifa de transporte cobrada pelo serviço de transporte firme de gás natural, compõem a base de cálculo das contribuições não cumulativas.
Numero da decisão: 3202-003.140
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em rejeitar as preliminares de nulidade do despacho decisório por cerceamento do direito de defesa e de homologação tácita da obrigação tributária (decadência), para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, da seguinte forma: (1) por unanimidade, (a) reverter a glosa, a título de crédito extemporâneo, exclusivamente em relação às notas fiscais juntadas às fls. 2824-2837; (b) reverter as glosas de crédito com afretamentos de embarcações; e (c) reverter as glosas relativas às notas fiscais nº 872, 873, 874 e 227; (2) por maioria de votos, em reverter as glosas de crédito relativas a encargos de capacidade de transporte relacionados ao transporte de gás natural (contratos do tipo “ship or pay”). Vencidos os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negavam provimento ao recurso na matéria. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre os gastos descritos como afretamento de aeronaves. Vencidas as Conselheiras Onízia de Miranda Aguiar Pignataro e Aline Cardoso de Faria, que davam provimento ao recurso na matéria.
Assinado Digitalmente
Rafael Luiz Bueno da Cunha – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Juciléia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL LUIZ BUENO DA CUNHA
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NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. FASE PRÉ-PROCESSUAL. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em ofensa à ampla defesa na fase de auditoria, inexistindo ainda imputação de infração ou não reconhecimento de direito creditório. Os princípios do contraditório e da ampla defesa são de observância obrigatória na fase litigiosa do processo administrativo fiscal, que, no caso de pedido de restituição, tem início com a apresentação de manifestação de inconformidade ao despacho decisório denegatório do direito creditório. DIREITO DE CRÉDITO. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. Inexiste norma legal determinando a homologação tácita do pedido de restituição de indébito tributário no prazo de 5 anos, não se lhes aplicando os prazos decadenciais para lançamento nem o prazo para homologação de compensações. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/04/2014 a 30/04/2014 CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS NÃO RETIFICADAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 231. A apuração extemporânea de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins só é admitida mediante retificação das declarações e demonstrativos correspondentes, a exemplo do EFD-Contribuições, conforme Súmula CARF nº 231. Fl. 5446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 2 NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. SERVIÇOS PORTUÁRIOS. INSUMO. DEFICIÊNCIA PROBATÓRIA. CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE. A ausência de comprovação de que os serviços portuários estão inseridos na atividade produtiva impossibilita sua inclusão na base de creditamento das contribuições a título de insumos. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES. POSSIBILIDADE. O afretamento de embarcações utilizadas nas atividades da empresa dá direito ao crédito das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. AFRETAMENTO DE AERONAVES. IMPOSSIBILIDADE. O afretamento de aeronaves utilizadas para transporte de funcionários não dá direito ao crédito das contribuições ao PIS e da COFINS a título de insumos, pois estes somente contemplam aquisição de bens ou serviços, e não a locação, de que é espécie o afretamento. Por sua vez, o inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 também não é aplicável, pois se limite a “prédios, máquinas e equipamentos”. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. EXISTÊNCIA DO CRÉDITO ALEGADO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA. A restituição de créditos tributários está condicionada à comprovação da certeza e liquidez do direito pleiteado, cujo ônus é do contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. TRANSPORTE FIRME DE GÁS NATURAL. ENCARGO DE CAPACIDADE DE TRANSPORTE. “SHIP OR PAY”. POSSIBILIDADE. As despesas relacionadas ao encargo de capacidade de transporte, componente estrutural da tarifa de transporte cobrada pelo serviço de transporte firme de gás natural, compõem a base de cálculo das contribuições não cumulativas. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em rejeitar as preliminares de nulidade do despacho decisório por cerceamento do direito de defesa e de homologação tácita da obrigação tributária (decadência), para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, da seguinte forma: (1) por unanimidade, (a) reverter a glosa, a título de crédito Fl. 5447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 3 extemporâneo, exclusivamente em relação às notas fiscais juntadas às fls. 2824-2837; (b) reverter as glosas de crédito com afretamentos de embarcações; e (c) reverter as glosas relativas às notas fiscais nº 872, 873, 874 e 227; (2) por maioria de votos, em reverter as glosas de crédito relativas a encargos de capacidade de transporte relacionados ao transporte de gás natural (contratos do tipo “ship or pay”). Vencidos os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negavam provimento ao recurso na matéria. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre os gastos descritos como afretamento de aeronaves. Vencidas as Conselheiras Onízia de Miranda Aguiar Pignataro e Aline Cardoso de Faria, que davam provimento ao recurso na matéria. Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Juciléia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). RELATÓRIO Tratam os autos do Pedido Eletrônico de Restituição (PER) nº 23952.26912.011018.1.2.04-8307, transmitido em 01/10/2018, por meio do qual são pleiteados R$ 54.731.880,15 que teriam sido recolhidos a maior por meio de DARF em 23/05/2014 a título de COFINS não cumulativa relativa ao período de apuração 04/2014. Em 03/10/2018, foi emitido o Despacho Decisório Eletrônico de fls. 578, indeferindo integralmente o pedido de restituição. Em 19/02/2020, a 17ª Turma da DRJ07 declarou nulo o referido despacho por motivação inadequada, determinando que outro fosse proferido. Assim, após realização de procedimento fiscal para análise dos créditos objetos do pedido de restituição, em 12/12/2022 foi emitido o Despacho Decisório de fls. 2690-2692 que, com base no Relatório de Verificação Fiscal de fls. 2632-2689, não reconheceu, na sua totalidade, o direito creditório pleiteado. O não reconhecimento se deveu ao entendimento, pela autoridade fiscal, de que a recorrente incorporou indevidamente à base de cálculo dos créditos passíveis de dedução do valor devido da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS: Fl. 5448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 4 Créditos extemporâneos Despesas portuárias Despesas com projetos Despesas com afretamento de aeronaves e embarcações Despesas de viagem Despesas com serviços sem comprovação de enquadramento como insumo Despesas relacionadas a contratos do tipo “Ship or pay” Cientificada da decisão, a recorrente apresentou manifestação de inconformidade, em que aduz, preliminarmente, (i) violação do direito à ampla defesa e (ii) decadência do direito de revisar de ofício a obrigação tributária. No mérito, contesta as glosas relacionadas a (i) Créditos extemporâneos (ii) Despesas portuárias (iii) Despesas com projetos (iv) Afretamento de aeronaves e embarcações (v) Despesas de viagem (vi) Despesas serviços sem comprovação enquadramento insumo e (vii) Despesas do tipo Ship por Pay. Também se insurgiu contra o cálculo dos créditos glosados. A 17ª Turma da DRJ07, por meio do Acórdão nº 107-023.509, considerou a manifestação de inconformidade improcedente, decisão da qual a recorrente foi cientificada em 12/09/2023. Irresignada, em 11/10/2023, interpôs o Recurso Voluntário de fls. 5226-5269, em que repisa os argumentos trazidos em sua Manifestação de Inconformidade e, em síntese, requer que seja dado provimento ao recurso, com o reconhecimento da integralidade do indébito declarado e o deferimento de sua restituição. É o relatório. VOTO Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha, Relator 1. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade. 2. Preliminares Como preliminares ao mérito, a recorrente suscitou a nulidade do despacho decisório por cerceamento do direito de defesa e a decadência do direito de a administração tributária revisar sua obrigação tributária no âmbito do pedido de restituição formulado. Passemos à análise dessas matérias. 2.1. Cerceamento de defesa Fl. 5449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 5 Em sede preliminar, a recorrente suscita a nulidade do Despacho Decisório, alegando que os prazos exíguos fornecidos durante o procedimento fiscal para que se manifestasse e apresentasse documentação comprobatória de seu direito de crédito teriam violado seu direito à ampla defesa. Não assiste razão à recorrente. A etapa que precede a emissão do despacho decisório é procedimental e apuratória. Essa é uma fase pré-processual, em que ainda não há litígio instaurado, não havendo que se falar em ofensa aos princípios do contraditório e da ampla defesa, cuja observância se dá, obrigatoriamente, na fase litigiosa. Esta, por sua vez, instaura-se com a apresentação da impugnação da exigência ou, no caso de direito creditório, da manifestação de inconformidade, conforme art. 14 do Decreto nº 70.235/1976. Nesse sentido: Acórdão 9101-004.214, de 06/06/2019, Rel. Cons. Demetrius Nichele Macei DESPACHO DECISÓRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NA FASE DE AUDITORIA INTERNA. FASE PRÉ-PROCESSUAL. PRELIMINAR REJEITADA. Não há que se falar em cerceamento do direito de defesa na fase de auditoria interna, inexistindo ainda acusação ou imputação de infração, mas tão-somente investigação fiscal. Os princípios do contraditório e da ampla defesa são de observância obrigatória na fase do devido processo legal administrativo fiscal, que, no caso de declaração de compensação, tem início com a apresentação de manifestação de inconformidade ao despacho decisório denegatório do direito creditório. Dessa forma, rejeito a preliminar de nulidade suscitada. 2.2. Homologação tácita da obrigação tributária (decadência) Também de maneira preliminar ao mérito, a recorrente alega que teria operado contra a Fazenda Pública a decadência do direito de verificar seus débitos tributários para fins de apuração do direito creditório pleiteado em virtude do disposto no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional (CTN). Argumenta que: [...] uma vez declarada a obrigação tributária pelo contribuinte, com a efetivação do seu pagamento, a fiscalização possui o prazo de 5 anos, contados da data da ocorrência do fato gerador, para se pronunciar e revisar o lançamento. Nada sendo feito, nesse prazo, não só o crédito tributário se torna líquido e certo, como também os pontos da apuração que determinaram a sua origem (repisa-se, ato jurídico complexo que é), não havendo qualquer ressalva legal que autorize que seus efeitos deixem de repercutir, inclusive, para fins de restituição de indébito tributário. Sem razão a recorrente. Fl. 5450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 6 O §4º do art. 150 do CTN, invocado pela recorrente, trata do prazo decadencial para homologação do denominado autolançamento. O caso sob análise não trata de lançamento tributário, mas sim de pedido de restituição de indébito, em que a autoridade tributária tem o dever de apurar a liquidez e a certeza do crédito. Para isso, deve, necessariamente, analisar e cotejar os créditos e os débitos do período de origem do crédito pleiteado. Em relação ao procedimento de reconhecimento de direito de crédito, a legislação não impõe prazo findo o qual ocorre a “homologação tácita” do pedido feito pelo contribuinte. A jurisprudência deste Conselho é tranquila nesse sentido: Acórdão 3302-009.279, de 27/08/2020, Rel. Cons. Vinicius Guimarães ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2001 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DECADÊNCIA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. PRAZOS INAPLICÁVEIS. Nos pedidos de restituição não se aplicam os prazos decadenciais para lançamento nem o prazo de homologação de compensações. A análise de pedidos de restituição não se confunde com o procedimento de constituição do crédito tributário - daí não se falar em prazo decadencial para a apreciação da restituição, nem com o procedimento de análise de declarações de compensação - ao qual se aplica, de forma exclusiva, o prazo de cinco anos para a apreciação da compensação, sob pena de homologação tácita. Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do pedido de restituição no prazo de 5 anos. O artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 cuida de prazo para homologação de declaração de compensação, não se aplicando à apreciação de pedidos de restituição. Por sua vez, os prazos decadenciais previstos no art. 150, caput e § 4º, e no art. 173, ambos do Código Tributário Nacional, são limites temporais que se aplicam exclusivamente aos casos de lançamento tributário, procedimento que não se confunde com a análise de pedidos de restituição. Acórdão 3402-009.672, de 24/11/2021, Rel. Cons. Thais De Laurentiis Galkowicz ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2004 a 30/09/2006 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. Inexiste norma legal determinando a homologação tácita do pedido de restituição de indébito tributário no prazo de 5 anos. O artigo 74 da Lei nº 9.430, de 1996, cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de pedidos de restituição ou ressarcimento. Fl. 5451DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 7 Ante o exposto, rejeito a preliminar suscitada. 3. Mérito Como visto, tratam os autos de pedido de restituição de crédito de COFINS não cumulativa apurado pela recorrente na aquisição de bens e serviços utilizados na atividade da empresa. Parte das despesas incluídas na base de crédito foi glosada pela unidade responsável pela análise do pedido de restituição. Do montante glosado, parte foi revertida pela autoridade julgadora de primeira instância. Contra a decisão, foi apresentado o Recurso Voluntário ora em apreço, em que remanesce a controvérsia em relação às seguintes glosas: Créditos extemporâneos Despesas portuárias Despesas com projetos Despesas com afretamento de aeronaves e embarcações Despesas de viagem Despesas com serviços sem comprovação de enquadramento como insumo Despesas relacionadas a contratos do tipo “Ship or pay” Passemos à análise de cada umas das matérias acima. 3.1. Créditos extemporâneos Conforme consta do Relatório de Verificação Fiscal que fundamentou o Despacho Decisório, foram glosados da base de cálculo dos créditos dedutíveis da COFINS os valores relativos a aquisições em datas anteriores a 30 dias do início do período de apuração, denominados “créditos extemporâneos”. Trata-se de créditos escriturados nos registros A100/A170 e D100/D105 da EFD-Contribuições relativa a período de apuração diverso daquele em que o crédito se originou. Tal apropriação extemporânea, no entanto, não foi acompanhada da retificação das declarações referentes a cada um dos meses cuja apuração da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins foi por ela impactada. A recorrente impugnou a matéria em sua manifestação de inconformidade, argumentando que a autoridade fiscal teria incluído na glosa créditos relativos ao período de apuração sob o fundamento de extemporaneidade. Juntou planilha e documentos a fim de demonstrar que a data de emissão dos documentos não é a que consta nos Anexos I.A e I.B do Relatório Fiscal. Continua para defender a possibilidade de apropriação dos créditos glosados, ainda que se trate de crédito extemporâneo. O acórdão recorrido, no entanto, não acolheu as razões de defesa e manteve as glosas. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente repisa o argumento trazido anteriormente de que há notas emitidas dentro do período de apuração que foram consideradas extemporâneas, exemplificando com a nota fiscal nº 482, da Cia Docas da Paraíba. Fl. 5452DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 8 Já com relação ao mérito da matéria, limita-se a colacionar jurisprudência favorável a seu pleito e a afirmar que “deve-se considerar que não há qualquer prejuízo ao Fisco, pelo contrário, uma vez que os créditos são aproveitados em seu valor nominal, sem atualização (art. 13 da Lei nº 10.833/2003)” Entendo que assiste parcial razão à recorrente. Analisando as planilhas de fls. 2822 e 2823, apresentadas juntos à Manifestação de Inconformidade, bem como as cópias das notas ficais relacionadas nas mencionadas planilhas (fls. 2824-2837 e 2838-2843, verifica-se que algumas delas, de fato, foram emitidas em 04/2014, em data diferente da que consta no Anexo I.A do Relatório Fiscal. Isso, no entanto, mostra-se verdadeiro para as notas fiscais relacionadas às fls. 2824-2837, apenas, já que as notas das fls. 2838-2843, de fato, são de outro período. Assim sendo, em que pese, possivelmente, não tenha havido engano da autoridade fiscal na realização da glosa, mas sim erro da recorrente no preenchimento da EFD-Contribuições, considero que a alegação é verossímil e que as glosas merece ser revertida em relação às notas fiscais juntadas às fls. 2824-2837. Com relação às demais glosas a título de crédito extemporâneo, no entanto, não há reforma a fazer no acórdão. A discussão sobre a necessidade ou não de retificação das obrigações acessórias para aproveitamento de créditos extemporâneos não é nova no âmbito deste Conselho. No entanto, o tema não merece maiores digressões neste voto, haja vista que se trata de matéria objeto de Súmula deste Conselho. Trata-se da Súmula CARF nº 231: SÚMULA CARF Nº 231 Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 05/09/2025 – vigência em 16/09/2025 O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. Importa salientar que a Súmula em questão é de observância obrigatória por parte deste colegiado, conforme dispõe o art. 25, inciso II e §13º do Decreto nº 70.235/1977. Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001) [...] II – em segunda instância, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, com atribuição de julgar recursos de ofício e voluntários de decisão de primeira Fl. 5453DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 9 instância, bem como recursos de natureza especial. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) [...] § 13. Os órgãos julgadores referidos nos incisos I e II do caput deste artigo observarão as súmulas de jurisprudência publicadas pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. (grifamos) Por fim, vale dizer que, embora o caso concreto não envolva DACON, mas sim de EFD-Contribuições, obrigação acessória que sucedeu a DACON, os fundamentos da súmula se mantêm e ela deve, obrigatoriamente, ser aplicada ao caso dos autos. Ante o exposto, nessa matéria, voto por dar parcial provimento ao recurso para reverter, exclusivamente, as glosas relativas às notas fiscais juntadas às fls. 2824-2837. 3.2. Glosas relativas a aquisições de bens e serviços não enquadrados como insumos Como visto, foram glosados créditos tomados sobre “despesas portuárias”, “despesas com projetos”, “despesas com afretamento de aeronaves e embarcações”, “despesas de viagem”, “despesas de serviços sem comprovação de enquadramento como insumo” e “despesas relacionadas a contratos do tipo ship or pay” em virtude de a autoridade fiscal ter entendido que não se trata de aquisições de bens ou serviços que denotam o conceito de insumo. Assim, antes de analisar os itens glosados no procedimento fiscal, importante sintetizar os critérios a partir dos quais o conceito de insumo contido no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003 deve ser aferido para fins de creditamento da Contribuição para o PIS e da COFINS. O tema foi apreciado pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial (REsp) nº 1.221.170/PR, que se deu sob a sistemática dos recursos repetitivos e em que foram firmadas as seguintes teses (Temas Repetitivos 779 e 780): (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não- cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. Portanto, os critérios determinantes para que um bem ou serviço denote o conceito de insumo para fins de creditamento das contribuições deve levar em conta sua essencialidade ou relevância na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Fl. 5454DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 10 É importante frisar que a essencialidade e a relevância referidas pela decisão do STJ relacionam-se à atividade produtiva, e não a qualquer atividade no âmbito de uma empresa, em consonância com o que prevê o art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003, abaixo transcrito. Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (grifo nosso) É nesse sentido a Nota SEI nº 63/2018, editada pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional com o fim de analisar a decisão do STJ. [...] tal aferição deve se dar considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item para o desenvolvimento da atividade produtiva, consistente na produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. Também nesse sentido é o Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05/2018, editado pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil (RFB). 15. Neste ponto já se mostra necessário interpretar a abrangência da expressão “atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto essa expressão, por sua generalidade, possa fazer parecer que haveria insumos geradores de crédito da não cumulatividade das contribuições em qualquer atividade desenvolvida pela pessoa jurídica (administrativa, jurídica, contábil etc.), a verdade é que todas as discussões e conclusões buriladas pelos Ministros circunscreveram-se ao processo de produção de bens ou de prestação de serviços desenvolvidos pela pessoa jurídica. 16. Aliás, esta limitação consta expressamente do texto do inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, que permite a apuração de créditos das contribuições em relação a “bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda”. 17. Das transcrições dos excertos fundamentais dos votos dos Ministros que adotaram a tese vencedora resta evidente e incontestável que somente podem ser considerados insumos itens relacionados com a produção de bens destinados à venda ou com a prestação de serviços a terceiros, o que não abarca itens que não estejam sequer indiretamente relacionados com tais atividades. (grifo nosso) Fl. 5455DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 11 Assentadas essas premissas interpretativas, pertinente trazer algumas considerações sobre a atividade desenvolvida pela recorrente. Conforme consta dos autos, nos termos do art. 3º de seu Estatuto Social, a recorrente se dedica à pesquisa, à lavra, à refinação, ao processamento, ao comércio e ao transporte de petróleo proveniente de poço, de xisto ou de outras rochas, de seus derivados, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos, além das atividades vinculadas à energia, podendo promover a pesquisa, o desenvolvimento, a produção, o transporte, a distribuição e a comercialização de todas as formas de energia, bem como quaisquer outras atividades correlatas ou afins. Além disso, conforme documento intitulado “Cadeia Integrada das Atividades da Petrobras” (fls. 640-660), a cadeia produtiva da recorrente é realizada de forma integrada nos diversos setores da indústria de exploração e produção de petróleo e gás natural, passando pela fase de upstream até a fase de downstream, abrangendo as seguintes atividades: i. exploração e produção de petróleo e gás natural; ii. refino, comercialização e transporte de combustíveis e derivados; iii. produção, comercialização e transporte de gás natural e derivados; iv. geração e comercialização de energia elétrica; e v. produção e comercialização de fertilizantes. A recorrente também destaca que, “para manter a integração do seu processo produtivo, a Petrobras mantém diversos estabelecimentos com ativos estratégicos situados em todo o território nacional:” i. bacias de exploração e produção de petróleo e gás natural; ii. refinarias; iii. gasodutos, terminais e oleodutos; iv. termelétricas; e Fl. 5456DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 12 v. fábricas de fertilizantes. Tendo isso em vista, passemos à análise dos itens sob discussão. 3.2.1. Despesas portuárias A autoridade fiscal glosou créditos denominados “despesas portuárias”, escrituradas nos Registros A100-170 e F100 das EFD-Contribuições transmitidas pela recorrente e descritas como “manutenção em área portuária”, “movimentação marítima de cargas”, “obras portuárias”, “projetos obras portuárias”, “rebocadores portuários” e “utilização de portos”, por entender que se trata de despesas com serviços que não integram a etapa de produção da recorrente, de maneira que não se caracterizam como insumo. Por sua vez, a recorrente alega que tais serviços fazem parte de sua atividade econômica. Afirma em sua Manifestação de Inconformidade que sua atividade não se restringe à atividade marítima e que “o simples bom senso se presta a desconstruir o entendimento” da autoridade fiscal. O acórdão recorrido não acolheu as razões apresentadas e manteve as glosas. Inconformada, em seu Recurso Voluntário, a recorrente voltou a se insurgir, sustentando que o acórdão recorrido: [...] deixou de analisar o caso concreto do processo, que diz respeito aos gastos feitos por uma empresa cuja atividade se concentra na exploração e produção de óleo e gás em alto mar, atividade esta notoriamente dependente do apoio das atividades portuárias para o embarque e desembarque de pessoal, equipamentos e materiais para as unidades de operação industrial [...]. Traz também normas relativas à obrigatoriedade de contratação de rebocadores para atracação e desatracação nos portos. E continua para defender que os serviços de praticagem são de contratação obrigatória: Da mesma forma que os rebocadores, a contratação de serviços de praticagem é obrigatória para a atração e desatracação em alguns Portos, a depender das Normas e Procedimentos da Capitania dos Portos de cada Estado brasileiro e em consonância com o disposto na NORMAN-12/DCP. A ausência da contratação do profissional prático impede a atracação e desatracação da embarcação da empresa de apoio marítimo a depender do Porto em que a operação vier a ser realizada, impossibilitando o embarque e desembarque de profissionais e suprimentos para aquela embarcação. Além disso, aduz argumentos relativos a serviços aduaneiros, denotando que estes também estariam englobados pelos registros mencionados. No escopo da atividade de operação de uma embarcação estão incluídos os serviços aduaneiros, necessários para a importação de bens aplicados nas embarcações, incluindo o transporte dos bens do local da importação até a base operacional. Fl. 5457DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 13 A indústria de petróleo e gás natural, sabidamente, é uma área de atuação de profissionais, tecnologias e bens estrangeiros, sendo, portanto, necessário o devido suporte de empresas especializadas para a correta realização de todo o processo de despacho aduaneiro de bens. Ora, a depender do bem importado, a ausência do despacho aduaneiro (incluindo aqui o transporte até o local de uso) ou ainda a sua realização de forma indevida, traz consequências relevantes na operação de uma embarcação. Não há dúvidas de que, pelo porte e pelo objeto da recorrente, o desenvolvimento de sua atividade econômica é extremamente complexo e envolve inúmeras etapas, inclusive no que diz respeito especificamente à atividade produtiva. A despeito desse fato, não se pode perder de vista que a legislação permite o desconto de créditos das contribuições a título de insumos especificamente em relação aos bens e serviços utilizados na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. No caso concreto, os itens glosados foram descritos como “manutenção em área portuária”, “movimentação marítima de cargas”, “obras portuárias”, “projetos obras portuárias”, “rebocadores portuários” e “utilização de portos”. Em sua defesa, a recorrente não faz qualquer menção a que se referem as despesas com “manutenção em área portuária”, “obras portuárias”, “projetos obras portuárias”, “utilização de portos” ou “movimentação marítima de cargas”, focando sua defesa na contratação de serviços de rebocadores portuários, de serviços de praticagem e de “serviços aduaneiros, necessários para a importação de bens aplicados nas embarcações”, estes dois últimos sequer inferíveis por meio das descrições genéricas constantes da escrituração na EFD-Contribuições. Embora seja crível que serviços de natureza portuária possam se enquadrar como insumos a depender da fase em que estão inseridos, não há nos autos segregação e especificação suficiente das etapas em que os serviços pleiteados são aplicados na atividade produtiva (e não econômica) da recorrente, de maneira que não é possível a concessão indiscriminada de créditos a título de insumo. Argumentos de cunho genérico, como “o simples bom senso se presta a desconstruir o entendimento” ou “atividade notoriamente dependente do apoio das atividades portuárias”, sem especificar a participação de cada um dos itens glosados, não se prestam a fazer prova em favor do direito requerido. Conforme documento “Cadeia Integrada das Atividades da Petrobrás”, a etapa de exploração consiste no “conjunto de operações ou atividades destinadas a avaliar áreas, objetivando a descoberta e a identificação de jazidas de petróleo ou gás natural”. Trata-se, portanto, de etapa prévia à produção e que, pela sua natureza, quando realizada no ambiente marítimo, requer apoio portuário. No entanto, por não estar inserida na produção, os serviços portuários associados a essa etapa não podem ser caracterizados como insumos, a menos que haja, de fato, resultado produtivo vinculado a ela. Nesse sentido o Parecer Normativo COSIT nº 5/2018. Fl. 5458DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 14 27. [...] somente haverá insumos geradores de créditos das contribuições se o processo no qual estão inseridos efetivamente resultar em um bem destinado à venda ou em um serviço disponibilizado ou prestado a terceiros (esforço bem- sucedido). Daí conclui-se não haver insumos permissivos de creditamento em atividades que não geram tais resultados, como em pesquisas, projetos abandonados, projetos infrutíferos etc. [...] 8.2. PESQUISA E PROSPECÇÃO DE RECURSOS MINERAIS E ENERGÉTICOS 117. No mesmo contexto dos dispêndios das pessoas jurídicas em geral com pesquisa e desenvolvimento, encontram-se os dispêndios com pesquisa e prospecção de recursos minerais e energéticos. 118. Conquanto ainda não tenham sido editadas normas contábeis específicas posteriores aos novos métodos e critérios contábeis introduzidos pela Lei nº 11.638, de 2007, permanece aplicável a tais dispêndios a exigência explanada na seção de análise geral do conceito fixado na decisão judicial em estudo de que haja ao final do processo um bem destinado à venda ou um serviço disponibilizado a terceiros (esforço bem-sucedido) para que haja insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. (grifo nosso) Ademais, apesar de a recorrente produzir derivados de petróleo, comercializa também óleo cru, caso em que a etapa em que são realizados os serviços portuários aqui tratados podem estar inseridos após a cadeia produtiva. Por exemplo, a contratação de serviços de rebocadores e de serviços de praticagem pode estar associada à exportação do petróleo, o que inviabiliza seu reconhecimento como insumo do processo produtivo, conforme entendimento deste Conselho. Acórdão 9303-015.265, de 10/06/2024, Rel. Cons. Alexandre Freitas Costa Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 [...] CRÉDITOS. DESPESAS PORTUÁRIAS. OPERAÇÕES DE EXPORTAÇÃO. NÃO CABIMENTO. Não há como caracterizar que esses serviços portuários de exportação seriam insumos do processo produtivo para a produção de açúcar e álcool. Não se encaixarem no conceito quanto aos fatores essencialidade e relevância, na linha em que decidiu o STJ. Tais serviços não decorrem nem de imposição legal e nem tem qualquer vínculo com a cadeia produtiva do Contribuinte. Tais exemplos demonstram ser imprescindível que se proceda à devida segregação e especificação da aplicação dos serviços a fim de recuperar créditos das contribuições a título de insumo, o que não foi feito no presente caso. Fl. 5459DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 15 Por fim, cabe dizer que, subsidiariamente, a recorrente requereu o enquadramento das despesas ora em discussão como frete ou armazenagem na operação de venda, com base no art. 3º inciso IX, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Pelo que consta dos autos, não há qualquer despesa de frete (transporte) ou armazenagem nesse tópico, quanto menos relacionadas à operação de venda, de maneira que não há como atender ao pleito da recorrente também sob essa perspectiva. Assim, em vista da falta de segregação e de comprovação da aplicação dos itens glosados nas etapas do processo produtivo da recorrente, bem como por não se tratar de despesa de transporte ou de armazenagem na operação de venda, voto por manter as glosas sobre as despesas denominadas “despesas portuárias”. 3.2.2. Despesas com projetos Também foram glosadas da base de cálculo dos créditos da COFINS despesas escrituradas nos Registros A100-170 e F100 das EFD-Contribuições a título de despesas com projetos consideradas pela autoridade fiscal como consultoria técnica de detalhamento e execução de projetos ocorridas em etapa anterior ou posterior à produção, razão pela qual entendeu não se tratar de insumos. O detalhamento das glosas está nas planilhas "Anexo do Relatório Fiscal – ANEXO II.2A” e "Anexo do Relatório Fiscal – ANEXO II.2B”. A recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando que em relação às glosas sob análise: [...] evidencia-se uma dedução por parte do auditor fiscal sem qualquer amparo nos documentos apresentados pela contribuinte, no sentido de que tudo seria consultoria técnica. Está evidente, portanto, que não houve comprovação suficiente a sustentar as glosas realizadas. [...] Da simples leitura dos itens acima, evidenciam-se gastos ligados a projetos industriais, destinados ao investimento da atividade empresarial. Correspondem, pois a serviços prestados, todos ligados à realização de projetos de engenharia nas instalações industriais da requerente, sendo irrefutável, portanto, a sua caracterização como insumo para fins de creditamento de PIS e COFINS, pelas mesmas razões já expostas nos itens anteriores. Apresentou também prova documental para sustentar seu direito. A despeito disso, ao apreciar a Manifestação de Inconformidade apresentada pela recorrente, a autoridade julgadora de primeira instância consignou que: [...] os dispêndios com estudos, projetos, serviços de engenharias, apoio administrativo relativo à administração de obras, serviços de sondagem, testes, amostras e análise sejam passíveis de creditamento é necessária a comprovação Fl. 5460DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 16 de que sua aplicação resultou, efetivamente, a extração e venda de petróleo (esforço bem-sucedido). Como não restou demonstrada e comprovada a vinculação da tais dispêndios no período ora analisado a um esforço bem-sucedido, não há como analisar a possibilidade de creditamento da contribuição em relação a esses dispêndios. Em seu Recurso Voluntário, repisa os argumentos anteriores e sustenta que as despesas sob discussão “correspondem, pois, a serviços prestados, ligados à realização de projetos de engenharia nas instalações industriais da recorrente, sendo irrefutável, portanto, a sua caracterização como insumo para fins de creditamento de PIS e COFINS”. Pois bem, entendo que não assiste razão à recorrente. Vejamos Analisando a documentação dos autos, foi encontrado contrato apenas com a TECNOLITE CONSTRUÇOES E MONTAGENS – CNPJ 39.074.290/0001-55 (contrato às fls. 2844-3907) Por sua vez, verificou-se que não constam glosas relativas ao período de apuração destes autos na planilha do "Anexo do Relatório Fiscal – ANEXO II.2B”, e, na planilha do "Anexo do Relatório Fiscal – ANEXO II.2A”, apesar de haver glosas para o período, nenhuma se refere à TECNOLITE CONSTRUÇOES E MONTAGENS – CNPJ 39.074.290/0001-55, empresa constante do contrato apresentado em sede de Manifestação de Inconformidade. Nesse contexto, releva destacar que o ônus de comprovar o direito creditório pleiteado é do interessado, nos termos do art. 36 da Lei nº 9.784/1999 e do art. 373, inciso I, do CPC, aplicável subsidiariamente ao processo administrativo fiscal. Nesse sentido: Acórdão 9303-015.440, de 13/06/2024, Relatora Cons. Liziane Angelotti Meira ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 [...] DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. Em se tratando de direito creditório, é do interessado o ônus da prova, conforme previsto na legislação processual administrativa e civil (art. 36 da Lei 9.784/99 e art. 333, I, do antigo CPC). (grifo nosso) Dessa forma, não havendo prova documental de que se trata de serviços relacionados à atividade produtiva da recorrente, considero que não há reforma a fazer no acórdão. 3.2.3. Despesas com afretamento de aeronaves e embarcações A autoridade fiscal também glosou créditos sobre despesas com afretamento de aeronaves e embarcações escrituradas nos Registros A100-170 e F100 das EFD-Contribuições transmitidas pela recorrente, por entender que somente há previsão legal para a inclusão de tais despesas na base de cálculo de créditos de PIS/Cofins quando o afretamento for contratado no Fl. 5461DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 17 exterior e houver pagamento efetivo das contribuições “sobre o valor pago, creditado, entregue, empregado ou remetido à pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, referente a aluguéis [...] embarcações e aeronaves utilizados na atividade da empresa”, destacando que não é o caso dos autos, em que “a totalidade dos registros em questão diz respeito a contratações originadas no mercado interno [...]”. Além disso, a autoridade fiscal também entendeu que os afretamentos de aeronaves e embarcações não se enquadrariam como aluguel de “prédios, máquinas e equipamentos”, única hipótese normativa prevista para o creditamento com aluguel. Inconformada com as glosas, a recorrente apresentou manifestação de inconformidade, em que enfatiza que as aeronaves e embarcações afretadas são utilizadas para o transporte de pessoal, materiais, equipamentos e produtos até suas plataformas de exploração de petróleo e gás em alto mar, além de realizar atividades de apoio marítimo e manutenção de plataformas. No sentido de comprovar essas afirmações, colaciona o objeto de diversos desses contratos de afretamento. Ao apreciar a peça de defesa, o acórdão recorrido manteve as glosas, sob os argumentos de que: [...] mesmo que se considere o contrato de afretamento como se aluguel fosse, a legislação prevê apenas uma hipótese legal de apuração de crédito, tendo como base de cálculo despesas dessa espécie ("aluguel de embarcações"), a saber, os gastos realizados em decorrência de contratos firmados com empresas estrangeiras, conforme disposto no inciso IV do art. 15 da Lei nº 10.865/2004 e a Instrução Normativa RFB nº 2.121/2022 [...] [...] [...] a legislação traz benefício especificamente direcionado para o aluguel de prédios, máquinas e equipamentos e para a contraprestação do arrendamento mercantil. Sendo assim, por falta de referência expressa no dispositivo legal, não se pode cogitar que o benefício abranja outros valores que não os que se refiram aos referidos bens e à natureza mercantil do arrendamento. [...] Portanto, não se enquadrando nem no inciso IV ("aluguel"), nem no inciso V ("arrendamento"), do art. 3º, das Leis n° 10.637/202 e 10.833/2003, não há possibilidade de se reconhecer o direito creditório no afretamento das embarcações. Irresignada, a recorrente voltou a se insurgir contra as glosas em seu recurso voluntário, repisando os argumentos apresentados na manifestação de inconformidade e sustentando que: Fl. 5462DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 18 [...] para cumprir o seu escopo empresarial, a recorrente firma variados contratos de aluguel de embarcações, as quais estão envolvidas em toda, frisa-se, toda a cadeia de exploração. [...] Mas não somente as embarcações, como também as aeronaves se mostram notoriamente ligadas ao processo produtivo da recorrente, de forma a inviabilizá- lo caso a empresa não pudesse se valer de tal recurso no transporte de sua força de trabalho para as unidades de exploração e produção, localizadas em sua maior parte, em alto mar. Entendo que assiste direito parcial ao crédito pleiteado. Vejamos. Como se sabe, com o advento das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, a Contribuição para o PIS e a COFINS passaram a ser apuradas pela sistemática da não cumulatividade para boa parte dos contribuintes, como é o caso da recorrente. No caso dessas contribuições sociais, a técnica escolhida pelo legislador para operacionalizar a não cumulatividade foi o método subtrativo indireto, em que a legislação prevê hipóteses de desconto de créditos do valor devido. Essas hipóteses estão estabelecidas nos arts. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, cujos rols são taxativos. Nesse contexto, a recorrente defende que lhe assiste o direito ao crédito de COFINS sobre o afretamento de aeronaves e embarcações seja no inciso II, seja no inciso IV do art. 3º da Lei nº 10.833/2003, que assim dispõem: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) [...] IV - aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; Aqui, cumpre dizer que o contrato de afretamento é uma espécie de contrato de locação. Na locação de bens móveis, a teor do art. 565 do Código Civil, a obrigação do locador é de ceder ao locatário, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de coisa não fungível, mediante certa retribuição, não se tratando, portanto, de prestação de serviço, em que o prestador assume com o tomador uma obrigação de fazer. Assim sendo, entendo que o afretamento, por não ter Fl. 5463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 19 natureza de bem ou serviço, não se amolda ao conceito de insumo previsto no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.833/2003. A despeito disso, o inciso IV do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 assegura o direito ao desconto de crédito da COFINS não cumulativa calculado sobre o valor de “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”. No caso sob análise, a documentação juntada aos autos é suficiente para comprovar que os bens em questão foram afretados de pessoas jurídicas e que foram utilizados nas atividades da empresa. Assim, para que possam ensejar o creditamento, resta saber se as aeronaves e embarcações devem ser enquadradas como “máquinas ou equipamentos”. Entendo que é o caso das embarcações, mas não das aeronaves. Ao utilizar a expressão “aluguel de prédios, máquinas e equipamentos”, o legislador adotou um enunciado com elevada carga de genericidade1, utilizando vocábulos com conteúdo semântico amplo, denotando um extenso conjunto de objetos de referência. Por exemplo, quando se perquire o significado de máquina, encontram-se diversas definições2: 1. Aparelho destinado a produzir, dirigir ou transformar uma forma de energia em outra, ou aproveitar essa mesma energia para a produção de determinado efeito. 2. Qualquer equipamento empregado com um fim específico e cuja ação mecânica é capaz de substituir o trabalho humano. 3. Conjunto de peças que determinam o funcionamento de um mecanismo ou engenho. 4. Qualquer instrumento ou ferramenta que se emprega na indústria para a fabricação de um produto. 5. Aparelho elétrico usado nos afazeres domésticos; instrumento, utensílio. 6. Equipamento mecânico, elétrico, eletrônico ou digital operado pelo ser humano. Da mesma forma, para o vocábulo equipamento, também há várias acepções3, entre as quais “conjunto de instrumentos e instalações necessários para um trabalho ou profissão”. Dessa forma, inclusive em razão de sua natureza de norma geral e abstrata, que visa disciplinar hipóteses de creditamento para empresas com as mais variadas atuações, a redação do inciso IV do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 não exaure, de maneira objetiva e categórica, os atributos dos casos individuais e concretos por ele contemplados. 1 Conforme Humberto Ávila (ÁVILA, Humberto. Teoria da indeterminação do direito. 2ª ed. São Paulo: Editora JusPodivm, 2023), “o significado de um termo ou enunciado será genérico se e somente se puder ser aplicado indiscriminadamente a uma variedade de casos em razão de sua amplitude semântica e da falta de especificidade contextualmente necessária”. 2 https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/maquina 3 https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/equipamento Fl. 5464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 20 No caso concreto, as embarcações objeto dos afretamentos pela recorrente são de diversas espécies, como embarcações de apoio às unidades marítimas de produção e perfuração, navios sonda e FPSO (Floating Production Storage and Offloading). Há que se considerar, portanto, as finalidades de tais embarcações nas atividades da recorrente, que vão muito além do mero transporte de carga. Nessa conjuntura, excluir embarcações do conceito amplo de máquina ou equipamento necessário à persecução do objeto social da recorrente não parece, a meu ver, ser a interpretação mais adequada à preservação do regime da não cumulatividade. Também em virtude das finalidades com que são empregadas as embarcações, afasta-se a incidência da Súmula CARF nº 190, que se aplica exclusivamente a veículos de transporte de carga e de passageiros, nos seguintes termos: Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas. O mesmo entendimento, no entanto, não se aplica às aeronaves, já que, conforme contratos juntados aos autos, os helicópteros afretados destinam-se à “movimentação de pessoal e de materiais”. A própria recorrente, em seu recurso, afirma que: [...] devido à concentração de sua atividade em alto mar, por característica da própria natureza, é por meio do afretamento de aeronaves que a recorrente pode levar a sua mão-de-obra especializada para a operação dos equipamentos necessários para a exploração e produção de petróleo e gás natural e para viabilizar a permanência dos profissionais a bordo em sua escala de trabalho [...] Ainda que a particularidade da atividade da recorrente, em grande parte desenvolvida em alto mar, imponha o uso de aeronaves para transportar seus funcionários até a plataforma, não há como desconsiderar que a finalidade precípua desse aluguel é o transporte de passageiros. Assim, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário nesse ponto, revertendo as glosas de despesas com afretamentos de embarcações, mas mantendo as glosas relativas ao afretamento de aeronaves. 3.2.4. Despesas de viagem Também foram efetuadas glosas de créditos de notas fiscais escrituradas nos Registros A100-170 das EFD-Contribuições com a descrição “despesas de viagens”, por não se tratar de despesas de serviços empregados na fase de produção da empresa. A recorrente impugnou as glosas em sua manifestação de inconformidade, argumentando que houve erro em sua escrituração e que “tais despesas, na verdade, consistem Fl. 5465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 21 em serviços vinculados à atividade operacional da requerente, como suporte técnico e prestação de serviços de engenharia”. Apresentou também prova documental para sustentar seu direito. Ao apreciar a defesa, o acórdão recorrido manteve as glosas, consignando que a empresa apresentou como documentos comprobatórios as notas fiscais nº 56, de 03/02/2014, e nº 1008, de 15/12/2014, ambas fora do período de apuração do PER objeto destes autos. Inconformada, a recorrente apresentou recurso voluntário em que reitera de que houve erro na descrição informada na EFD-Contribuições e que se trata, em verdade, de “serviços vinculados à sua atividade operacional, como suporte técnico e prestação de serviços de engenharia”. Analisando-se a documentação juntada aos autos às fls. 3908-3991, verificam-se cópias as seguintes notas fiscais constantes da planilha “Anexo II.4 Despesas Serviços de Viagens”, com as respectivas descrições de serviços: Data emissão Nº nota fiscal Descrição serviço 08/04/2014 872 Serviço de consultoria de engenharia estrutural para as plataformas marítimas fixas do E&P 08/04/2014 873 Serviço de consultoria de engenharia estrutural para as plataformas marítimas fixas do E&P 08/04/2014 874 Serviço de consultoria de engenharia estrutural para as plataformas marítimas fixas do E&P 01/04/2014 58 Serviços de engenharia prestados na realização de projetos básicos e de detalhamento 04/04/2014 665 Serviços de inspeção completa. Elaboração de ensaios e relatórios. Desenvolvimento de projetos de recuperação e reforço estrutural das estruturas de concreto da refinaria Presidente Getúlio Vargas. 03/04/2014 56 Serviços de planejamento de paradas de manutenção, detalhamento de obras estruturais e de tubulação 23/04/2014 227 Manutenção industrial 02/04/2014 61 Serviços remanescentes de engenharia em projetos conceitual, básico, de detalhamento, conforme construído (as built) e assessoria técnica especializada. 02/04/2014 59 Serviços remanescentes de engenharia em projetos conceitual, básico, de detalhamento, conforme construído (as built) e assessoria técnica especializada. Nota-se que há uma variedade de serviços, inclusive relacionados à construção civil e à consultoria de engenharia. No entanto, entendo que somente possuem descrições que permitem inferir que se trata de serviços intrinsicamente relacionados à atividade produtiva da recorrente os relativos às notas fiscais de nº 872, 873, 874 e 227. Nesses casos, considerando a atividade desenvolvida pela recorrente, entendo que tais serviços amoldam-se ao conceito de insumo. Dessa forma, voto por dar parcial provimento ao recurso nesse ponto para reverter as glosas relativas às notas fiscais nº 872, 873, 874 e 227. 3.2.5. Despesas com serviços sem comprovação de enquadramento como insumo Fl. 5466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 22 A autoridade fiscal também glosou créditos de notas fiscais escrituradas nos Registros A100-170 e F100 das EFD-Contribuições cuja descrição continha apenas “Tx_Administração”, por falta de comprovação de seu enquadramento como insumo. Afirmou ainda que, durante a ação fiscal, a recorrente foi intimada a esclarecer de que se tratavam tais despesas, tendo ela afirmado que seriam "serviços de desenvolvimento sistemas utilizados nas áreas operacionais da Petrobras” e apresentado um contrato de direito de uso de software. A recorrente contestou as glosas em sua manifestação de inconformidade, sustentando que se tratou de “erro no registro das despesas que, em verdade, constituem contratações de serviços de desenvolvimento de sistemas utilizados nas suas áreas operacionais”. Afirma, ainda, que: Os documentos apresentados revelam os contratos de manutenção dos produtos de softwares, aquisição, aluguel e manutenção e suporte de aplicativos Landmark (específico para a indústria de óleo e gás, conforme se verifica à fl. 665 e demais fls. segs.), serviços de atualização e suporte técnico do sistema PI (Plant Information) e licenciamento de uso de software, dentre outros ligados à área de tecnologia da indústria de óleo e gás. Ao apreciar as razões de defesa, o acórdão recorrido concluiu que: [...] podemos concluir pela procedência da glosa perpetrada pela autoridade tributária, pois não há prova robusta nos autos que possibilite a apuração de créditos como serviços utilizados como insumos das importâncias relacionadas como Taxa de Administração, seguindo entendimento firmado em tópico anterior no presente voto, pois para que sejam passíveis de creditamento é necessária a comprovação de que sua aplicação resultou, efetivamente, a extração e venda de petróleo ( no caso concreto bem-sucedido). Inconformada, a recorrente apresentou seu recurso voluntário, em que repisa os argumentos trazidos em sua manifestação de inconformidade, em especial a possibilidade de os serviços em questão serem considerados insumos, pois “é inegável a essencialidade ou ao menos a relevância do emprego de softwares e sistemas informatizados para a precisão e excelência da atividade operacional”. Entendo que não tem razão à recorrente. Vejamos. É fato notório que, atualmente, os softwares são essenciais ao funcionamento de praticamente qualquer empresa, quanto mais de uma empresa do porte da recorrente. No entanto, como já afirmado nesse voto, para que sejam considerados insumos os bens ou serviços devem ter sido adquiridos para utilização na prestação de serviços ou na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Dessa forma, não é qualquer serviço de manutenção ou desenvolvimento de software que pode ser considerado insumo, mas somente aqueles relacionados à atividade produtiva. Fl. 5467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 23 Analisando-se os contratos juntados aos autos às fls. 991-1227, verificam-se contratos firmado com as seguintes empresas: Landmark Graphics Corporation (licenciamento de uso e manutenção do software Landmark); Halliburton Worldwide GMBH (sucessora da Landmark no contrato de licenciamento de uso e manutenção do software Landmark); OSIsoft LLC (serviços de atualização e suporte técnico do sistema PI – Plant Information); Paradigm Geophysical BV (fornecimento do software Paradigm); Thermo Labsystems Inc. (licenciamento e atualização do software Thermo Samplemanager e a prestação de serviço de suporte técnico); Triple Point Tecnology Inc. (licenciamento de software e prestação de serviços) Nota-se que, em todos os casos, trata-se de empresas domiciliadas fora do Brasil, que – inclusive por serem estrangeiras - não constam entre as emissoras de notas fiscais glosadas, relacionadas no Anexo II.4 do Relatório de Fiscal. De qualquer forma, não há direito a crédito em relação a pagamentos relacionados a essas empresas, já que o inciso I do §3º do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 dispõe que só há direito a crédito em relação “aos bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País”. Além disso, analisando-se os documentos fiscais apresentados junto à manifestação de inconformidade, verificam-se descrições genéricas como “serviço de geração de programa de computador, sob encomenda”, “prestação de serviços de análise, modelagem de processos de negócios e de administração de dados de exploração e produção”, “reprografia, microfilmagem e digit”, “prestação de serviços técnicos de atendimento local aos usuários” etc., de maneira que não é possível vincular tais serviços à atividade produtiva da recorrente. Nesse contexto, releva destacar que o ônus de comprovar o direito creditório pleiteado é do interessado, nos termos do art. 36 da Lei nº 9.784/1999 e do art. 373, inciso I, do CPC, aplicável subsidiariamente ao processo administrativo fiscal. Nesse sentido: Acórdão 9303-015.440, de 13/06/2024, Relatora Cons. Liziane Angelotti Meira ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 [...] DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. Em se tratando de direito creditório, é do interessado o ônus da prova, conforme previsto na legislação processual administrativa e civil (art. 36 da Lei 9.784/99 e art. 333, I, do antigo CPC). (grifo nosso) Fl. 5468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 24 Dessa forma, não tendo a recorrente se desincumbido do ônus de comprovar seu direito creditório em relação a esses serviços, voto por negar provimento ao recurso na matéria. 3.2.6. Despesas relacionadas a contratos do tipo “Ship or pay” A autoridade fiscal também glosou créditos sobre encargos de capacidade de transporte relacionados ao transporte de gás natural (contratos do tipo “ship or pay”), escriturados no Registro F100 das EFD-Contribuições transmitidas pela recorrente, sob o entendimento de que: 63 [...] quando o contratante paga despesas de transporte de produtos por terminais na modalidade "Ship por Pay", está pagando por um serviço, na realidade, não prestado, já que, efetivamente, não houve transporte de carga com custo de frete incluso, mas tão somente um encargo pela capacidade não utilizada, decorrente desta modalidade de negócios. 64 Na legislação vigente inexiste previsão legal para tomada de crédito de PIS/Cofins sobre aquisição de serviços de fretes. Admite-se a dedução do custo do frete dessas contribuições quando incluso no custo de bens, produtos e serviços adquiridos para produção de bens e prestação de serviços. [...] 67 Pondera-se ainda que, mesmo que não houvesse o referido encargo contratual na contratação de transporte em dutos/terrestre, o gás natural produzido ou importado transportado pela Petrobras tem como destinos preponderantes suas usinas térmicas, fábricas de fertilizantes ou refinarias de propriedade da contribuinte, cujo dispêndio também não conferiria créditos de PIS/Cofins, uma vez que se trata de fretes entre estabelecimentos da empresa, o que é vedado pela legislação. A recorrente se insurgiu contra as glosas em manifestação de inconformidade, sustentando que tais despesas são decorrentes de contratos de transporte de gás natural por meio de dutos e que o preço desse transporte é composto por diversos elementos, entre os quais a “tarifa de ship or pay”, que corresponde “a uma parcela do preço contratual pela reserva da capacidade de transporte”, de maneira que “este encargo, portanto, faz parte do preço do contrato de transporte do gás natural, e obviamente está ligado ao processo produtivo da requerente”. Aduziu também que tal encargo é definido pelas normas legais e regulamentares que regem o setor, de maneira que não se trata de convenção entre as partes. Subsidiariamente, argumentou que a parcela referente à tarifa de ship or pay poderia se enquadrar como aluguel de máquinas e equipamentos para tomada de crédito, e que as despesas sob discussão já teriam sido glosadas em auto de infração que constituiu o crédito referente a tais glosas. Fl. 5469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 25 Ao apreciar o recurso, o acórdão recorrido adotou o entendimento firmado pela mesma turma (17ª Turma da DRJ07) no processo nº 16682.720836/2018-70, que, em síntese, assim se manifestou: Não se trata de insumo, que no caso seria o próprio gás, e nem mesmo serviço empregado sobre a fabricação de produto, já que é parcela independente do custo (art. 3º, inciso II). Da mesma forma não se mistura ao frete, já que é parcela independente da ocorrência do mesmo (art. 3º, inciso IX). Se assemelharia mais a um aluguel de equipamento (reserva de capacidade) mas ainda assim, não poderia ser classificado como tanto, já que é parte inerente a um contrato específico de transporte. [...] Admite-se a importância do encargo previsto nas cláusulas de ship or pay, porém, tais encargos não podem ser considerados insumos para a prestação do serviço. Tratam-se, outrossim, de gastos operacionais necessários ao funcionamento geral do negócio, não sendo essenciais à produção da atividade finalística própria da empresa, de forma que a exclusão desse item não importa a impossibilidade da produção/fabricação ou a perda substancial da qualidade do produto. Inconformada, a recorrente voltou a impugnar as glosas em seu recurso voluntário, argumentando que: [...] os créditos sob tal rubrica foram tomados pela recorrente na qualidade de insumos, uma vez que, sem esses gastos, inviabilizado estaria o escoamento do gás natural, já que: (i) para escoar a sua produção, a recorrente necessita da malha dutoviária de terceiros; e (ii) o pagamento do preço pela contratação da malha para escoamento compreende, obrigatoriamente (haja vista as normas da ANP já mencionadas pela recorrente e reconhecidas no acórdão recorrido), a inserção dessa taxa, que nada mais é do que uma parte do preço. Ressalta também que a parcela ship or pay não corresponde ao pagamento pela ociosidade dos dutos, mas sim à remuneração pela estrutura que está sendo disponibilizada ao contratante do transporte de gás, sendo parte integrante do preço de transporte do gás natural, cujo destaque no contrato se deve à determinação do órgão regulador, Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Afirma ainda que “[...] o fato do seu pagamento ser feito de forma destacada não desvirtua a sua natureza de parcela do preço pelo transporte do gás natural, cuja essencialidade e relevância para a atividade da recorrente é notória”. Subsidiariamente, defende que, se as despesas relativas ao ship or pay não forem consideradas como insumos, devem, ao menos, ser consideradas como relativas ao aluguel dos dutos. Nesse sentido, aduz que: [...] a fiscalização defendeu que dutos não seriam equipamentos, mas instalação de transporte de GLP. Fl. 5470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 26 Ora, e por que “instalação de transporte de GLP” não poderia ser tida como equipamento para o transporte do GLP ou prédio, a fim de garantir ao contribuinte o direito de tomar crédito de PIS e COFINS?! [...] [...] se a intenção é a de equipará-los a instalações de transporte, sugerindo aqui a ideia de uma instalação predial inerente ao serviço, ainda assim funcionariam como despesas passíveis de gerarem créditos, agora na condição de instalações equivalentes a prédios, alugados ao contribuinte de maneira exclusiva para fins de permitir o desenvolvimento da sua atividade. Em síntese, portanto, a controvérsia reside na possibilidade ou não da tomada de crédito sobre a parcela da tarifa de transporte de gás natural denominada “encargo de capacidade de transporte”, conhecida como ship or pay. Para uma análise do tema com a profundidade necessária, é importante que se tenha o panorama jurídico relativo ao transporte de gás natural. É o que passo a expor. Tratando-se de transporte de gás natural por meio de conduto, o inciso IV do art. 177 da Constituição Federal assegura à União o monopólio da atividade. O §1º do mesmo artigo prevê que, observadas condições estabelecidas em lei, a União poderá contratar esse transporte com empresas privadas. Por sua vez, o inciso III de seu §2 determina que a estrutura e as atribuições do órgão regulador desse monopólio devem estar estipuladas em lei. Art. 177. Constituem monopólio da União: [...] IV - o transporte marítimo do petróleo bruto de origem nacional ou de derivados básicos de petróleo produzidos no País, bem assim o transporte, por meio de conduto, de petróleo bruto, seus derivados e gás natural de qualquer origem; [...] §1º A União poderá contratar com empresas estatais ou privadas a realização das atividades previstas nos incisos I a IV deste artigo observadas as condições estabelecidas em lei. §2º A lei a que se refere o § 1º disporá sobre: [...] III - a estrutura e atribuições do órgão regulador do monopólio da União; (grifo nosso) Assim, com a finalidade de disciplinar “as atividades relativas ao transporte de gás natural, de que trata o art. 177 da Constituição Federal”, foi editada a Lei nº 11.909/2009 (revogada pela Lei nº 14.134/2021, mas vigente à época dos fatos), que, no §1º de seu art. 1º, dispõe que o transporte de gás natural por meio de condutos e a importação e exportação de gás natural “serão reguladas e fiscalizadas pela União, na qualidade de poder concedente, e poderão Fl. 5471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 27 ser exercidas por empresa ou consórcio de empresas constituídos sob as leis brasileiras, com sede e administração no País”. O art. 3º da referida lei prevê que a atividade de transporte de gás natural será exercida mediante os regimes de concessão ou autorização. No caso de exploração mediante concessão, tarifa máxima aplicada ao transporte de gás será estabelecida pela ANP (§2º do art. 13 da Lei nº 11.909/2009); já no caso de autorização, as tarifas de transporte de gás natural serão propostas pelo transportador e aprovadas pela ANP, segundo critérios por ela previamente definidos (art. 28 da Lei nº 11.909/2009). A ANP, diga-se, foi instituída pelo art. 7º da Lei nº 9.478/97 com competência para atuar “como órgão regulador da indústria do petróleo, gás natural, seus derivados e biocombustíveis, vinculada ao Ministério de Minas e Energia”. Entre outra atribuições, cabe a ANP “estabelecer critérios para o cálculo de tarifas de transporte dutoviário e arbitrar seus valores”, conforme dispõe o inciso VI do art. 8º da mesma lei. Art. 8º A ANP tem como finalidade promover a regulação, a contratação e a fiscalização das atividades econômicas integrantes da indústria do petróleo, do gás natural, dos combustíveis sintéticos, dos biocombustíveis, do hidrogênio de baixo carbono e da captura e da estocagem geológica de dióxido de carbono, no que lhe compete conforme a lei, cabendo-lhe: [...] VI - estabelecer critérios para o cálculo de tarifas de transporte dutoviário e arbitrar seus valores, nos casos e da forma previstos nesta Lei; (grifo nosso) No exercício dessa competência, a ANP editou a Resolução ANP nº 15/2014 com o objetivo de estabelecer i) os critérios para cálculo das tarifas de transporte referentes aos serviços de transporte firme, interruptível e extraordinário de gás natural e ii) o procedimento para a aprovação das propostas de tarifa de transporte de gás natural encaminhadas pelos transportadores para os gasodutos de transporte objeto de autorização. Conforme inciso XIV do art. 2º da mencionada Resolução, o serviço de transporte de gás compreende as atividades de “receber, movimentar e entregar volumes de gás natural por meio de gasodutos de transporte, nos termos do respectivo Contrato de Serviço de Transporte”. Para o que nos interessa, o inciso XVI do mesmo artigo define o conceito do serviço de transporte firme, como é o caso dos autos: Art. 2º Ficam estabelecidas as seguintes definições para fins desta Resolução: [...] XVI - Serviço de Transporte Firme: Serviço de Transporte no qual o Transportador se obriga a programar e transportar o volume diário de gás natural solicitado pelo Carregador até a Capacidade Contratada de Transporte estabelecida no contrato com o Carregador; Fl. 5472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 28 Por sua vez, o caput do art. 5º da Resolução ANP nº 15/2014 dispõe que “a tarifa de transporte aplicável a cada serviço de transporte deve ser composta por uma estrutura de encargos relacionados à natureza dos custos, despesas e investimentos atribuíveis a sua prestação, devendo refletir:” Art. 5º [...] I - os custos, despesas e investimentos incorridos em bases econômicas que efetivamente contribuam para a prestação do respectivo Serviço de Transporte; II - os determinantes de custos, tais como a distância entre os pontos de recebimento e de entrega, a Capacidade de Transporte, o volume movimentado, o desequilíbrio entre os volumes recebidos e entregues, e o prazo de contratação; III - uma remuneração justa e adequada do investimento durante a sua vida útil esperada. Depreende-se do dispositivo, portanto, que um dos encargos que reflete o custo do serviço de transporte é justamente a capacidade de transporte, entendida como o “volume máximo diário de gás natural que o Transportador pode movimentar em um determinado Gasoduto de Transporte” (art. 2º, inciso II). No caso do transporte firme, como é o caso dos autos (a exemplo do contrato com a Transportadora Associada de Gás S.A. – TAG, às fls. 1228-1321), a estrutura tarifária mínima está determinada no art. 8º da Resolução ANP nº 15/2014. Art. 8º A Tarifa de Transporte aplicável ao Serviço de Transporte Firme será estruturada, no mínimo, com base nos seguintes encargos: I - Encargo de capacidade de entrada: destinado a cobrir os investimentos relacionados à capacidade de recebimento, e os custos e as despesas fixos da prestação do Serviço de Transporte Firme; II - Encargo de capacidade de transporte: destinado a cobrir os investimentos relacionados à Capacidade de Transporte; III - Encargo de capacidade de saída: destinado a cobrir os investimentos relacionados à capacidade de entrega; IV - Encargo de movimentação: destinado a cobrir os custos e as despesas variáveis com a movimentação de gás. Parágrafo único. A parcela dos custos e despesas fixos relacionados à capacidade de entrega, de forma compatível com sua natureza, pode ser alocada no encargo de capacidade de saída. Como se vê, dadas a particularidade e a complexidade envolvidas na atividade de transporte de gás por meio de gasodutos, a tarifa de transporte possui uma estrutura mínima normativamente estabelecida que visa discriminar, de maneira clara, as parcelas que compõem o valor final e que visam remunerar cada um dos custos incorridos nas etapas da prestação do Fl. 5473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 29 serviço. Não se trata, porém, de serviços distintos, o serviço, em si, é apenas um: o transporte de gás natural. Assim, o encargo de capacidade de transporte, conhecido como ship or pay, é a parcela da tarifa de transporte destinada a remunerar a infraestrutura que está sendo disponibilizada e garantida ao contratante do transporte do gás. Em que pese sua discriminação na composição da tarifa, entendo não ser possível dissociar tal parcela do valor pago pelo serviço de transporte de gás. No caso dos autos, como visto, a autoridade fiscal considerou que as despesas decorrentes da cláusula de “ship or pay” dos contratos de transporte de gás seriam pagamentos “por um serviço, na realidade, não prestado, já que, efetivamente, não houve transporte de carga com custo de frete incluso, mas tão somente um encargo pela capacidade não utilizada [...]”. Pondera, ainda, que “o gás natural produzido ou importado transportado pela Petrobras tem como destinos preponderantes suas usinas térmicas, fábricas de fertilizantes ou refinarias de propriedade da contribuinte, cujo dispêndio também não conferiria créditos de PIS/Cofins, uma vez que se trata de fretes entre estabelecimentos da empresa, o que é vedado pela legislação”. Com a devida vênia, entendo que há equívoco nessa interpretação, tanto em relação à visão simplista de que o encargo de capacidade de transporte seria um encargo pela capacidade não utilizada, quanto em relação à afirmação de que o transporte de gás natural até suas usinas térmicas, fábricas e refinarias da recorrente seria um serviço não passível de creditamento. Em relação ao primeiro ponto, já foi visto que o valor referente ao encargo de capacidade de transporte (ship or pay) é normativamente definido como um componente estrutural da tarifa de transporte, que, por sua vez, corresponde ao “valor a ser pago pelo Carregador ao Transportador pelo Serviço de Transporte [...]”, conforme inciso XVIII do art. 2º da Resolução ANP nº 15/2014. Especificamente, trata-se da parcela da tarifa de transporte que se destina a cobrir os investimentos relacionados à infraestrutura necessária à disponibilização de determinado volume máximo diário de gás natural que o transportador pode movimentar em um determinado gasoduto de transporte. Da mesma forma, é equivocado o argumento de que o transporte de gás natural seria um serviço não passível de creditamento. O gás natural que a recorrente transporta se destina i) a suas usinas, fábricas e refinarias, ou ii) a seus clientes finais. No primeiro caso, o gás é utilizado como matéria-prima na produção de energia, de produtos químicos ou de combustíveis, portanto se enquadra no conceito de insumo do inciso II do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Conforme entendimento pacífico neste Conselho, o serviço de transporte de insumos, quando tributados, geram crédito das contribuições não cumulativas. Nesse sentido a Súmula CARF nº 188: É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e Fl. 5474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 30 pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Embora trate de insumos não onerados pelas contribuições, a súmula deixa clara a possibilidade de creditamento de despesas com fretes na aquisição de insumos. Também é nesse sentido a disposição expressa do inciso VIII do §1º do art. 176 da Instrução Normativa RFB nº 2.121/2022. Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). § 1º Consideram-se insumos, inclusive: [...] VIII - serviços de transporte de insumos e de produtos em elaboração realizados em ou entre estabelecimentos da pessoa jurídica; Já no caso em que o gás natural se destina a clientes da recorrente, ele não é insumo, mas sim produto final, de maneira que o serviço de transporte cujo ônus tenha sido suportado pela recorrente gera crédito na modalidade de frete na operação de venda, conforme previsão do inciso IX do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Assim, em qualquer das duas perspectivas, seja como serviço-insumo, seja como frete na operação de venda, entendo que o serviço de transporte de gás natural preenche os requisitos para que as despesas com ele sejam incluídas na base de créditos das contribuições não cumulativas. Ante o exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário neste tópico, para o fim de reverter a glosa efetuada sobre os valores referentes a encargos de capacidade de transporte relacionados ao transporte de gás natural (contratos do tipo “ship or pay”). 3.3. Erro no cálculo do crédito Em sua manifestação de inconformidade, a recorrente argumentou que: [...] há um erro na planilha apresentada pela fiscalização no que se refere aos valores apresentados como base de créditos, uma vez que a coluna (A100_VL_BC_PIS) utilizada para compor o montante de R$22.243.596.071,46 repete o valor do documento fiscal em alguns casos. A coluna que melhor representa a base de cálculo dos tributos é a "A170_VL_BC_PIS" ou "A170_VL_BC_COFINS". Fl. 5475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 31 Ao apreciar o recurso, o acórdão recorrido consignou que o erro indicado inexiste, pois “no Relatório Fiscal, a Consolidação das Glosas do PIS/Cofins corresponde justamente ao somatório das glosas de créditos correspondentes aos tópicos indicados durante a análise do direito creditório”. A recorrente voltou a se insurgir contra o cálculo em seu recurso voluntário, reiterando que haveria um erro na planilha apresentada pela fiscalização no que se refere aos valores apresentados como base dos créditos, sustentando que isso “não foi devidamente explicado pela DRJ ao manter a decisão administrativa”. Mais uma vez, não tem razão a recorrente. Vejamos. Conforme se depreende do Relatório de Verificação Fiscal, nos tópicos relativos às glosas de créditos há duas planilhas, uma que contém o detalhamento das glosas pela descrição da glosa e uma que contém a consolidação das glosas por mês do exercício de 2014, e ambas utilizaram exatamente a métrica “A_170_VL_BC_PIS” para os cálculos. Também nos anexos do Relatório de Verificação Fiscal, em que há o detalhamento das glosas por item de nota fiscal, é possível verificar, até com maior clareza, que os cálculos dos valores a serem excluídos da base de creditamento foram feitos com base na métrica não agregada “A170_VL_BC_PIS”, que contém o valor individual de cada item, e não o valor total da nota fiscal. Completamente equivocado, portanto, o argumento de que há erro de cálculo por repetição de valores de documentos fiscais. Ante o exposto, nego provimento ao recurso nesse ponto. 4. Dispositivo Ante o exposto, voto no sentido de: 1. Rejeitar as preliminares de nulidade do despacho decisório por cerceamento do direito de defesa e de homologação tácita da obrigação tributária (decadência); e 2. No mérito, dar parcial provimento ao recurso, para: a) Reverter a glosa, a título de crédito extemporâneo, exclusivamente em relação às notas fiscais juntadas às fls. 2824-2837; b) Reverter as glosas de crédito com afretamentos de embarcações; c) Reverter as glosas relativas às notas fiscais nº 872, 873, 874 e 227. d) Reverter as glosas de crédito relativas a encargos de capacidade de transporte relacionados ao transporte de gás natural (contratos do tipo “ship or pay”) É como voto. Fl. 5476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.140 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.721178/2018-33 32 Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha Fl. 5477DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1. Admissibilidade 2. Preliminares 2.1. Cerceamento de defesa 2.2. Homologação tácita da obrigação tributária (decadência) 3. Mérito 3.1. Créditos extemporâneos 3.2. Glosas relativas a aquisições de bens e serviços não enquadrados como insumos 3.2.1. Despesas portuárias 3.2.2. Despesas com projetos 3.2.3. Despesas com afretamento de aeronaves e embarcações 3.2.4. Despesas de viagem 3.2.5. Despesas com serviços sem comprovação de enquadramento como insumo 3.2.6. Despesas relacionadas a contratos do tipo “Ship or pay” 3.3. Erro no cálculo do crédito 4. Dispositivo
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Numero do processo: 11634.720103/2019-78
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Nov 24 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Jan 27 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2014
EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. ATIVIDADE VEDADA. CONTROLE DE ENTRADA.
Comprovado o exercício de atividade vedada pela Legislação Tributária, é devida a exclusão do contribuinte do tratamento diferenciado e favorecido do Simples Nacional.
A cessão de mão de obra para função de porteiros e vigias não se confunde com a cessão de mão de obra para prestação de serviços de vigilância para fins de aplicação da exceção prevista no inciso VI, do § 5º-C, do art. 18, da Lei Complementar nº 123/2006.
Numero da decisão: 1202-002.194
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, rejeitar a preliminar e, no mérito, em negar-lhe provimento.
Assinado Digitalmente
André Luis Ulrich Pinto – Relator
Assinado Digitalmente
Leonardo de Andrade Couto – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Andre Luis Ulrich Pinto, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE LUIS ULRICH PINTO
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2014 EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. ATIVIDADE VEDADA. CONTROLE DE ENTRADA. Comprovado o exercício de atividade vedada pela Legislação Tributária, é devida a exclusão do contribuinte do tratamento diferenciado e favorecido do Simples Nacional. A cessão de mão de obra para função de porteiros e vigias não se confunde com a cessão de mão de obra para prestação de serviços de vigilância para fins de aplicação da exceção prevista no inciso VI, do § 5º-C, do art. 18, da Lei Complementar nº 123/2006.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, rejeitar a preliminar e, no mérito, em negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente André Luis Ulrich Pinto – Relator Assinado Digitalmente Leonardo de Andrade Couto – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Andre Luis Ulrich Pinto, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
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ATIVIDADE VEDADA. CONTROLE DE ENTRADA. Comprovado o exercício de atividade vedada pela Legislação Tributária, é devida a exclusão do contribuinte do tratamento diferenciado e favorecido do Simples Nacional. A cessão de mão de obra para função de porteiros e vigias não se confunde com a cessão de mão de obra para prestação de serviços de vigilância para fins de aplicação da exceção prevista no inciso VI, do § 5º-C, do art. 18, da Lei Complementar nº 123/2006. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, rejeitar a preliminar e, no mérito, em negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente André Luis Ulrich Pinto – Relator Assinado Digitalmente Leonardo de Andrade Couto – Presidente Fl. 374DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.194 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11634.720103/2019-78 2 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Andre Luis Ulrich Pinto, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de Andrade Couto (Presidente). RELATÓRIO O presente processo trata do Ato Declaratório Executivo nº 35, de 8 de Julho de 2010, lavrado pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Londrina – PR. Em síntese, a Recorrente foi excluída do Simples Nacional, com efeitos a partir de 1º de julho de 2014, por praticar atividade vedada pela Lei Complementar nº 123/2006, qual seja, a cessão de mão de obra para exercício da função de porteiro e controlador de acesso para diversos tomadores de serviço. A ora Recorrente apresentou manifestação de inconformidade que foi julgada improcedente pela DRJ, que entendeu estar comprovado o exercício de atividade de cessão de mão de obra e afastou a alegação de que a natureza dos serviços prestados estaria enquadrada na exceção de que trata o inciso VI, do § 5º-C, do art. 18, da Lei Complementar nº 123/2006, por não se equiparar a serviços de “vigilância, limpeza ou conservação”. Irresignada, a Recorrente interpôs o mesmo recurso voluntário nos autos dos processos 1634.720103/2019-78, 11634.720102/2019-23 e 11634.720137/2019-62, que tratam, respectivamente, do ADE de exclusão do Simples Nacional, autos de infração lavrados em decorrência da exclusão do Simples Nacional e representação fiscal para fins penais. Dessa forma, a Recorrente alegou: (i) Nulidade do ADE e auto de infração; (ii) Improcedência do ADE pela falta de demonstração de atividade vedada; e (iii) Ausência de crime contra ordem tributária. É o relatório. VOTO Conselheiro André Luis Ulrich Pinto, Relator O recurso voluntário é tempestivo, preenche os pressupostos de admissibilidade e, portanto, deve ser conhecido. Fl. 375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.194 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11634.720103/2019-78 3 Por outro lado, a Recorrente, além de contestar o ADE, também traz argumentos alheios ao presente processo, mais precisamente, alegações sobre a nulidade dos autos de infração e não ocorrência de crime contra ordem tributária. Ocorre que os argumentos relativos ao auto de infração deverão ser analisados nos autos do processo administrativo sob nº 1634.720102/2019-23, que será julgado por esta mesma Turma na mesma sessão de julgamento em que se analisa o recurso voluntário interposto nos autos do presente processo. No que diz respeito à representação fiscal para fins penais e as alegações quanto à não ocorrência de crime contra a ordem tributária, deve-se dizer que este Conselho não é competente para apreciá-las, nos termos do enunciado da Súmula CARF nº 28. Dessa forma, entendo que o recurso voluntário deve ser conhecido apenas na parte em que trata do ADE, não devendo ser conhecido quanto às alegações apresentadas contra o auto de infração lavrado em decorrência da exclusão do Simples Nacional ou a representação fiscal para fins penais. 1 ATO DECLARATÓRIO EXECUTIVO Nº 35, DE 8 DE JULHO DE 2019 A Recorrente alega que o Ato Declaratório Executivo nº 35, de 8 de julho de 2019 é nulo por falta quanto ao exercício de atividade vedada, mais precisamente, da acusação quanto À cessão de mão de obra para serviço de portaria. Quanto ao mérito, a Recorrente traz arrazoado no mesmo sentido, incluindo argumentos no sentido de que: (i) os serviços discriminados nos contratos citados pela Fiscalização não seriam serviços de portaria, mas serviços de “controle de acesso”; (ii) dentre os trabalhadores cedidos aos tomadores de serviço, não há qualquer empregado registrado como “porteiro” (CBO 5174-10), sendo todos registrados como vigia (CBO 5174-20); e (iii) chama atenção para o fato de que os holerites demonstram o pagamento de verba trabalhista em decorrência do risco da função exercida pelo trabalhador. Como se vê, a preliminar de nulidade se confunde com os argumentos de mérito, razão pela qual devem ser analisados em conjunto. A Recorrente defende que não há nos atos do presente processo administrativo qualquer comprovação de que a Recorrente cedia mão de obra para serviços de portaria. Argumenta que o seu contrato social não evidencia a prestação de serviço de portaria. A Recorrente tem razão quanto a esse ponto, mas é evidente que o trabalho da Autoridade Fiscal não se limitou à analise do objeto social constante do contrato social. A verdade é que a Autoridade Fiscal reuniu documentos comprobatórios da atividade de cessão de mão de obra, tais como contratos de prestação de serviços, Folha de Pagamento, GFIP e Informações à Previdência Social. Fl. 376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.194 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11634.720103/2019-78 4 A Autoridade Fiscal demonstrou, a partir dos contratos de prestação de serviços, que a Recorrente foi contratada para cessão de mão de obra para prestação de serviço de “controlador de acesso”. A Recorrente argumenta que os serviços não seriam referentes ao trabalho de porteiros, mas ao trabalho de vigias para o controle de acesso nas dependências dos tomadores de serviço. Entendo que é inócua a discussão pretendida pela Recorrente, ao defender que a mão de obra é cedida de trabalhadores na função de “vigia”. Isso porque a legislação tributária não estabelece qualquer exceção para empresas que cedem mão de obra para exercício da atividade de porteiros ou vigias. A exceção prevista no inciso VI, do § 5º-C, do art. 18, da Lei Complementar nº 123/2006 limita-se aos serviços de vigilância, limpeza ou conservação. A Solução de Consulta nº 57, de 2 de fevereiro de 2015 é de grande contribuição para a interpretação da norma citada linhas acima. Conforme ao que se depreende da referida Solução de Consulta COSIT nº 57, o serviço de vigilantes e guardas de segurança (5173) não se confunde com o serviço de porteiros e vigias (5174). A solução de consulta, com base na Classificação Brasileira de Ocupações, destaca diversas diferenças quanto à formação, experiência e condições gerais de exercício de cada função para concluir que: 7. Como é possível perceber no quadro acima, feito a partir da CBO/2002, os serviços de vigilância, de fato, têm algo em comum com os de portaria no que tange à “Descrição sumária”, na medida em que ambos, cada qual a seu modo, cuidam da guarda de dependências e do patrimônio do contratante. Mas há diferenças consideráveis: enquanto os de portaria não têm a finalidade de prevenir delitos, os de vigilância não têm a de receber pessoas(prestando informações e orientação), documentos, correspondências ou encomendas, nem a de efetuar pequenos reparos nos locais de trabalho (p.ex., troca de lâmpadas, tomadas ou interruptores). 8. As diferenças são ainda maiores no que diz respeito às “Condições gerais de trabalho”, porquanto os vigilantes, segundo a própria CBO/2002, trabalham sob pressão, estando sujeitos a maiores riscos. Sobretudo quanto à “Formação e experiência”, uma vez que “os vigilantes passam por treinamento obrigatório em escolas especializadas em segurança, onde aprendem a utilizar armas de fogo”, requisito evidentemente desnecessário para porteiros. Por fim, quanto à regulação jurídica, os serviços de vigilância (somados aos de segurança) se encontram disciplinados na já citada Lei nº 7.102, de 1983, bem como nº Decreto nº 89.056, de 1983, que a regulamenta. Os de portaria, não. 9. Na realidade, as decisivas diferenças citadas no item 8, acima, quanto às condições de trabalho, qualificação profissional e regime jurídico de porteiros e Fl. 377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.194 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11634.720103/2019-78 5 vigilantes, fazem com que até mesmo as poucas atividades comuns (defesa lato sensu das dependências)sejam exercidas de forma bastante distinta pelos dois tipos de trabalhadores. 10. Destarte, por todos os motivos acima mencionados, conclui-se que os serviços de portaria realmente não se confundem com os de vigilância, de sorte que não se enquadram no art. 18, § 5º-C, inciso VI, da Lei Complementar nº 123, de 2006. Veremos mais adiante, nos itens 20 e ss., quais são as conseqüências jurídicas desse não-enquadramento. Dentre as diversas diferenças, destaque-se que a atividade de vigilantes é regulamentada e exige formação em curso específico, além da aprovação em exames, diferente do que ocorre com controladores de acesso, sejam eles chamados de “vigias” ou “porteiros”. A Recorrente argumenta que os seus empregados estariam sujeitos ao risco no exercício de suas atividades e, por essa razão, teriam direito a adicionais. Para comprovar o quanto alegado, apresenta holerites dos pagamentos efetuados aos empregados. Em primeiro lugar, deve-se dizer quem nem todos os controladores de acesso receberam o referido adicional de risco, conforme ao que se depreende dos holerites juntados às fls. 169, 171, 192, 199, 218. Outro ponto a se destacar é que, mesmo nos casos nos quais se identificou a verba “adicional de risco”, o valor pago foi muito inferior ao percentual de 30% previsto no art. 193 da Consolidação das Leis Trabalhistas. É o que se verifica do holerite juntado às fls. 167. Veja-se. Note-se que o valor pago a título de adicional (R$ 21,00) corresponde a 2% do valor do salário normal (R$ 1.020,00). Dessa forma, o pagamento alegado pela Recorrente não é suficiente para comprovar a cessão de mão de obra para exercício da função de vigilante, razão pela qual o recurso voluntário não merece provimento. Fl. 378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.194 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11634.720103/2019-78 6 CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por conhecer parcialmente do recurso voluntário, deixando de conhecer na parte que trata do auto de infração lavrado em decorrência da exclusão do Simples Nacional e da representação fiscal para fins penais e, na parte conhecida, rejeitar a preliminar de nulidade e negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente André Luis Ulrich Pinto Fl. 379DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Ato dECLARATÓRIO EXECUTIVO Nº 35, DE 8 DE JULHO DE 2019 Conclusão
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Numero do processo: 10980.720307/2017-44
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Dec 15 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 30 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2012, 2013
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. COMPENSAÇÃO. NÃO CABIMENTO.
É incabível a aplicação do benefício da denúncia espontânea, previsto no artigo 138 do Código Tributário Nacional e no artigo 47 da Lei n. 9.430/96 aos casos de compensação tributária, justamente porque, nessa hipótese, a extinção do débito estará submetida à ulterior condição resolutória da sua homologação pelo Fisco, a qual, caso não ocorra, implicará o não pagamento do crédito tributário.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2012, 2013
MULTA DE OFÍCIO. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA.
A partir das alterações no art. 44, da Lei nº 9.430/96, trazidas pela Lei nº 11.488/2007, em função de expressa previsão legal, deve ser aplicada a multa isolada sobre os pagamentos que deixaram de ser realizados concernentes ao imposto de renda a título de estimativa, seja qual for o resultado apurado no ajuste final do período de apuração e independentemente da imputação da multa de ofício exigida em conjunto com o tributo.
Numero da decisão: 1202-002.292
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os autos acima identificados.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário, para manter a exigência fiscal, acrescida da multa de ofício de 75%; por voto de qualidade, manter a multa isolada sobre as estimativas mensais não recolhidas, aplicada em concomitância com a multa de ofício incidente sobre os valores de IRPJ e CSLL apurados nos anos-calendários auditados, vencida a Relatora, Conselheira Liana Carine Fernandes de Queiroz, e os Conselheiros Andre Luis Ulrich Pinto e Fellipe Honório Rodrigues da Costa, que cancelavam essa exigência. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Assinado Digitalmente
LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ – Relatora
Assinado Digitalmente
LEONARDO DE ANDRADE COUTO – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mauricio Novaes Ferreira, Andre Luis Ulrich Pinto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Nome do relator: LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2012, 2013 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. COMPENSAÇÃO. NÃO CABIMENTO. É incabível a aplicação do benefício da denúncia espontânea, previsto no artigo 138 do Código Tributário Nacional e no artigo 47 da Lei n. 9.430/96 aos casos de compensação tributária, justamente porque, nessa hipótese, a extinção do débito estará submetida à ulterior condição resolutória da sua homologação pelo Fisco, a qual, caso não ocorra, implicará o não pagamento do crédito tributário. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2012, 2013 MULTA DE OFÍCIO. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA. A partir das alterações no art. 44, da Lei nº 9.430/96, trazidas pela Lei nº 11.488/2007, em função de expressa previsão legal, deve ser aplicada a multa isolada sobre os pagamentos que deixaram de ser realizados concernentes ao imposto de renda a título de estimativa, seja qual for o resultado apurado no ajuste final do período de apuração e independentemente da imputação da multa de ofício exigida em conjunto com o tributo. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos acima identificados. Fl. 2448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário, para manter a exigência fiscal, acrescida da multa de ofício de 75%; por voto de qualidade, manter a multa isolada sobre as estimativas mensais não recolhidas, aplicada em concomitância com a multa de ofício incidente sobre os valores de IRPJ e CSLL apurados nos anos-calendários auditados, vencida a Relatora, Conselheira Liana Carine Fernandes de Queiroz, e os Conselheiros Andre Luis Ulrich Pinto e Fellipe Honório Rodrigues da Costa, que cancelavam essa exigência. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Assinado Digitalmente LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ – Relatora Assinado Digitalmente LEONARDO DE ANDRADE COUTO – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mauricio Novaes Ferreira, Andre Luis Ulrich Pinto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Leonardo de Andrade Couto (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto por NEW LIFE MULTISSERVICOS S.A. em face do Acórdão n. 108-027.963 – 5ª TURMA/DRJ08, que julgou improcedente a Impugnação, mantendo integralmente o Auto de Infração de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (fls.183/195), no valor de R$ 464.375,93, referente ao período de apuração de 01/01/2012 a 31/12/2013, conforme discriminado abaixo: Fl. 2449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 3 De acordo com o Termo de Verificação Fiscal (fls. 197-200), a autuada teria deixado de recolher, nos anos-calendários 2012 e 2013, os valores de estimativas de IRPJ e CSLL declarados em DIPJ, mas não informados em DCTF. A empresa adotou, como forma de determinação da Base de Cálculo do IRPJ e CSLL, o Balanço de Suspensão ou Redução, tendo apurado valores a recolher a título de estimativas de IRPJ em alguns meses dos anos-calendários 2012 e 2013, bem como os valores de ajuste de IRPJ nos mesmos anos-calendários; ainda, a título de CSLL, o valor de ajuste do ano-calendário 2013, conforme as DIPJ's dos referidos períodos; não fez também os recolhimentos, deixando de declarar os tributos devidos em DCTF. Intimada a justificar a omissão (Termos de Intimação Fiscal ns. 17/2016 e 21/2016), a contribuinte admitiu erro de preenchimento das DIPJs e a existência de inconsistências nas declarações apresentadas na época, juntando as DIPJ retificadoras, mas que não foram transmitidas, no e-Dossiê de Atendimento N° 10010.023174/1116-60 (anexos 4 e 5 da resposta ao Termo de Intimação Fiscal n. 21). Afirmou que, "com relação ao AC 2013, conforme documentação apresentada no Anexo 5, não existiram saldos devedores de imposto de renda e contribuição social, visto que os valores retidos no ano superaram os devidos"; ainda, que "os valores informados em DIPJ dos anos de 2012 e 2013 estavam incorretos e foram ajustados conforme demonstrado nas planilhas de apuração anexo 10 e 11, em resposta ao item 5 do termo de intimação, contendo as bases tributárias com os valores corrigidos, e DIPJ's retificadas conforme anexos 4 e 5, neste ato apresentadas a esta fiscalização juntamente com os valores devidos já compensados e/ou recolhidos". Justificou, ainda, que, na apuração inicial da DIPJ, foram identificadas inconsistências, que foram corrigidas, conforme planilhas de apuração (anexos 12 e 13) e DIPJ Fl. 2450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 4 retificadora (anexo 5); e, após estes procedimentos, verificou-se que a Contribuição Social não era devida e que a informação na DCTF do período em questionamento estava correta (sem valor). De acordo com a resposta apresentada pela autuada às intimações, após revisar a apuração que teria feito dos referidos tributos, haveria o valor principal a pagar de R$149.767,96, a título de IRPJ, no ano-calendário 2012. Ainda, informou proceder à quitação de tal quantia através de compensação com saldos negativos de IRPJ do exercício 2015 e de CSLL dos exercícios 2015 e 2016, conforme PERDCOMP's 00125.60611.121216.1.3.03-6924, 05514.57732.121216.1.3.02-0845, 21555.84013.121216.1.3.03-3060, transmitidas em 12/12/2016, bem como através de recolhimento, em 12/12/2016, via Sispag, do montante total de R$ 17.630,44 (valor principal R$10.793,71 + multa R$2.158,74 + juros R$4.677,99), no código DARF 2362. Os documentos juntados no e-Dossiê de Atendimento n. 10010.023174/1116-60 (justificativas, balanços patrimoniais, planilhas de apuração, demonstrativos dos resultados dos exercícios e outros), foram examinados pela autoridade fiscal, em cotejo com os dados encontrados nos Sistemas da RFB (DIRF, PERDCOMP, DCTF, DIPJ, ECF e outros), concluindo a fiscalização pela procedência da revisão dos valores devidos do IRPJ e da CSLL a pagar, nos ajustes dos anos-calendários 2012 e 2013, com a consideração das retenções na fonte e da dedução do incentivo fiscal do Programa de Alimentação do Trabalhador PAT (Fichas 11,12A, 17, 57 da DIPJ). No entanto, em virtude de as PERDCOMP's mencionadas haverem sido transmitidas em 12/12/2016, somente após o início da ação fiscal, concluiu a autuante pela inexistência de espontaneidade; também, em virtude de não existir a declaração dos débitos de IRPJ do ano-base 2012 em DCTF, de as PERDCOMP's terem sido transmitidas no curso da ação fiscal e se referirem à compensação dos débitos de IRPJ do ano-calendário de 2012 com os saldos negativos de IRPJ e CSLL dos exercícios 2015 e 2016, não auditados e que não integram a ação fiscal, foi lavrado Auto de Infração de para a cobrança do saldo do debito de IRPJ relativo ao ajuste do AC 2012 (exercício 2013), no montante de R$ 149.767,96 , além dos acréscimos legais inerentes (multa de ofício e juros). Destaca-se, do Termo de Verificação Fiscal (fls. 197-200): Desta forma, para fim da lavratura do Auto de Infração, relacionamos abaixo: 1- DA MULTA PELA INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS Com relação à apuração do IRPJ e da CSLL da empresa, realizados pelo Lucro Real, as planilhas apresentadas demonstram que há estimativas de IRPJ a recolher nos meses Fl. 2451DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 5 de maio/2012, setembro/2012 e dezembro/2012, abril/2013, junho/2013, agosto/2013 e setembro/2013. [...] Ainda que tivesse apurado prejuízo ao final do ano-calendário, os recolhimentos das estimativas eram devidos nos meses em que apurou resultado positivo. A legislação inclusive prevê a compensação de valores caso ocorra prejuízo ao final do período anual. Como a empresa não efetuou os recolhimentos, fica sujeita à multa instituída na Lei n° 9.430/96: [...] Listamos abaixo os valores das estimativas dos AC 2012 e 2013, constantes nos demonstrativos de apuração apresentados pela empresa, e as respectivas multas devidas pelas diferenças de valores não recolhidos. 2- DA INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO OU DE DECLARAÇÃO EM DCTF Com base nas planilhas apresentadas pela contribuinte, assim como nas informações constantes das fichas 07A e 09A da DIPJ, verificou-se que houve insuficiência de recolhimento do IRPJ no ano-calendário de 2012, conforme descrito acima. Cientificada do lançamento, a autuada apresentou Impugnação (fls. 213/228), sustentando, em síntese, não concordar com a dupla incidência de multa (de ofício e isolada) e com a multa de ofício aplicada em 75% sobre o valor dos lançamentos. Sustenta que o recolhimento dos tributos ocorreu durante o procedimento fiscal, enquadrando-se no disposto no artigo 47 da Lei 9.430/96, de modo que seriam devidos com o acréscimo tão somente de multa de 20% e correção monetária. Fl. 2452DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 6 Defende que não há como se imputar ao contribuinte o pagamento de multa isolada sobre uma estimativa após o ajuste ocorrido ao término do exercício e que a incidência da referida multa, cumulada com a multa de ofício, importa enriquecimento ilícito da União. Pediu, ao final, “(a) Pela anulação do auto de infração que deu origem ao presente processo administrativo e; (b) cancelando-se o débito fiscal reclamado bem como da culminação dos encargos e multa dele decorrentes ou; (c) pelo aceite do recolhimento realizado por meio de PERDCOMP; (d) pelo cancelamento das multas sobre as estimativas apuradas após o encerramento do ano calendário de 2012; (e) pelo cancelamento das multas sobre as estimativas apuradas após o encerramento do ano calendário de 2013; ou (f) pelo afastamento das multas lançadas concomitantemente; (g) Deferindo o benefício de redução da multa para 20%”. Rejeitados todos os seus pedidos pelo acórdão da DRJ, após regular ciência, a autuada interpôs o presente recurso voluntário, reiterando tudo quanto constou de suas razões defensivas em primeira instância. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Liana Carine Fernandes de Queiroz (Relatora): Preenchidos os requisitos de admissibilidade, conheço do recurso voluntário. Em primeiro lugar, insurge-se a autuada quanto à não aplicação da denúncia espontânea, entendendo ser indevido o lançamento que deixa de aplicar o quanto previsto no art. 47 da Lei 9.430/96. Entretanto, não há como acolher a pretensão recursal, eis que estava sob ação fiscal quando teria procedido à “quitação” de suas obrigações, resultando na perda do benefício da denúncia espontânea. Vejamos o que dispõe o parágrafo único do artigo 138 do Código Tributário Nacional: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento Fl. 2453DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 7 administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. Do mesmo modo, a Súmula CARF n. 31 dispõe: Súmula CARF n. 31: Descabe a cobrança de multa de ofício isolada exigida sobre os valores de tributos recolhidos extemporaneamente, sem o acréscimo da multa de mora, antes do início do procedimento fiscal. O art. 47 da Lei n. 9.430/96, por seu turno, prevê a possibilidade de que os tributos já declarados possam ser pagos, sem multa de ofício, pelo contribuinte, já submetido a uma ação fiscal por parte da Receita Federal do Brasil, acrescido somente de multa de mora (não multa de ofício) e juros moratórios, desde que o faça até o vigésimo dia subsequente à data de recebimento do termo de início de fiscalização: Art. 47. A pessoa física ou jurídica submetida a ação fiscal por parte da Secretaria da Receita Federal poderá pagar, até o vigésimo dia subsequente à data de recebimento do termo de início de fiscalização, os tributos e contribuições já declarados, de que for sujeito passivo como contribuinte ou responsável, com os acréscimos legais aplicáveis nos casos de procedimento espontâneo. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) Com efeito, a situação dos autos não se enquadra no artigo 47 da Lei n° 9.430/96. Isso porque, a recorrente não pagou os valores dentro do prazo de 20 (vinte) dias, de forma que, a compensação tributária, por estar sujeita a posterior homologação, não equivale a pagamento, não se aplicando, por conseguinte, o afastamento da multa decorrente pelo inadimplemento a destempo. A norma disposta no artigo 47, acima transcrito, dispõe que o contribuinte poderá “pagar”, até o vigésimo dia, os tributos e contribuições já declarados. No caso, não houve o efetivo pagamento, mas a compensação com outros tributos, por meio de PERDCOMP transmitida no curso da ação fiscal. Fl. 2454DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 8 Referido dispositivo já foi objeto de enunciação interpretativa pelo Superior Tribunal de Justiça, firme no sentido de que o enunciado normativo não permite a aplicação do benefício da denúncia espontânea para os casos de compensação tributária, justamente porque, nessa hipótese, a extinção do débito estará submetida à ulterior condição resolutória da sua homologação pelo Fisco, a qual, caso não ocorra, implicará o não pagamento do crédito tributário. Destaco, dos escólios daquela Corte: TRIBUTÁRIO. COMPENSAÇÃO. CONDIÇÃO RESOLUTÓRIA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. REQUISITOS. INOCORRÊNCIA. 1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça consolidou- se no sentido de que é incabível a aplicação do benefício da denúncia espontânea, previsto no art. 138 do CTN, aos casos de compensação tributária, justamente porque, nessa hipótese, a extinção do débito estará submetida à ulterior condição resolutória da sua homologação pelo fisco, a qual, caso não ocorra, implicará o não pagamento do crédito tributário, havendo, por consequência, a incidência dos encargos moratórios. Precedentes. 2. Agravo interno desprovido. (STJ, AgInt nos EDcl nos EREsp 1657437/RS, Relator Ministro Gurgel de Faria, 1ª Seção, j. em 12/09/2018) TRIBUTÁRIO. COMPENSAÇÃO. CONDIÇÃO RESOLUTÓRIA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. REQUISITOS. INOCORRÊNCIA. 1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça consolidou- se no sentido de que é incabível a aplicação do benefício da denúncia espontânea, previsto no art. 138 do CTN, aos casos de compensação tributária, justamente porque, nessa hipótese, a extinção do débito estará submetida à ulterior condição resolutória de sua homologação pelo fisco, a qual, caso não ocorra, implicará o não pagamento do crédito tributário, havendo, por consequência, a incidência dos encargos moratórios. Precedentes. 2. Agravo interno desprovido. (AgInt no AREsp 1270551/RS, Relator Ministro Gurgel de Faria, 1ª Turma, j. em 20/10/2020) Fl. 2455DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 9 PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO. ENUNCIADO ADMINISTRATIVO Nº 3 DO STJ. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE EM CASO DE COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. PRECEDENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO DESTA CORTE. 1. A Primeira Seção desta Corte pacificou entendimento segundo o qual é incabível a aplicação do benefício da denúncia espontânea previsto no art. 138 do CTN aos casos de compensação tributária, justamente porque, nessa hipótese, a extinção do débito estará submetid à ulterior condição resolutória da sua homologação pelo Fisco, a qual, caso não ocorra, implicará o não pagamento do crédito tributário, havendo, por consequência, a incidência dos encargos moratórios. Precedente: AgInt nos EDcl nos EREsp. 1.657.437/RS, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção, DJe 17.10.2018. 2. Agravo interno não provido. (STJ, AgInt no AREsp 1687605/RJ, Relator Ministro Mauro Campbell Marques, j. em 30/11/2020) Nesse sentido, e servindo-me do permissivo do art. 114, §12 do RICARF, faço adesão irrestrita a tudo quanto constou do acórdão da DRJ para rejeitar este pleito recursal, por apresentar razões suficientes a refutar integralmente tudo quanto arguido pela postulante – notadamente ante a iteração, ipsis litteris, neste recurso, da peça de impugnação: Assim, o cerne do litígio gira em torno da figura da espontaneidade de que tratam o art. 138, do CTN, o §1º do art. 7º do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF), e, mais especificamente, o art. 47 da Lei nº 9.430, de 1996. Na realidade, a análise do litígio se concentra, precipuamente, no que estabelece o último dispositivo mencionado, pois a própria impugnante reconhece que efetuou o pagamento após iniciado procedimento fiscal (fl.220), assim são dispensáveis quaisquer análises sobre o instituto da espontaneidade de que trata o art. 7º do Decreto nº 70.235/1972. Fl. 2456DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 10 O art. 47 da Lei nº 9.430/1996 possui a seguinte redação: [...] Na delimitação de seu campo de incidência, vemos que o dispositivo faz referência inicialmente à necessidade de haver “pagamento”. Esse deve ser entendido em sentido estrito, qual seja, como sendo o recolhimento do tributo via documento próprio. Afastam-se do instituto, portanto, figuras como a confissão de dívida, os parcelamentos, etc. Esse entendimento já vem consagrado pelas Autoridades da Receita Federal, conforme o Ato Declaratório Normativo COSIT n° 15/1999. Vejamos: O COORDENADOR-GERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO, no uso das atribuições que lhe confere o art. 199, inciso IV, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, aprovado pela Portaria MF Nº 227, de 3 de setembro de 1998, e tendo em vista o disposto no art. 138 da Lei Nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional), e no art. 47 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com a alteração introduzida pelo art. 70 da Lei Nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados que, para imposição dos acréscimos legais aplicáveis nos casos de procedimento espontâneo, a pessoa física ou jurídica submetida a ação fiscal por parte da Secretaria da Receita Federal deverá efetuar, até o vigésimo dia subseqüente à data de recebimento do termo de início de fiscalização, o pagamento do valor total do débito relativo a cada um dos tributos e contribuições já declarados, ou seja, o débito não poderá ser parcelado. (negritei) Fl. 2457DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 11 Ainda quanto à figura do pagamento, há, na parte final do dispositivo, a expressa menção de que o tributo devido deve ser pago juntamente com os acréscimos legais cabíveis, ou seja, de acordo com a legislação em vigor com a multa de mora e os juros de mora. Continuando, o art. 47 faz referência a um lapso temporal de vinte dias no qual se deve dar o pagamento, sendo ele contado a partir do termo de início de fiscalização. Observa-se que o “termo” a que se refere a lei deve estar em consonância com o disposto no art. 7º, inciso I, do Decreto nº 70.235, de 1972, a saber: Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: I - o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; (...) Ou seja, não há necessidade de que o termo que deflagra o procedimento fiscal seja, formalmente, um “termo de início de fiscalização”, mas sim qualquer termo que caracterize o início do procedimento, nos termos da legislação processual tributária. Ainda no mister de delimitar o alcance da norma, ela fixa que o objeto do pagamento deverá ser o tributo ou contribuição declarado. Sem dúvida, a primeira delimitação do conceito de declarado parece-me decorrente de norma de natureza tributária, surgida dentro do quadrante da legislação específica dos tributos e contribuições federais, os quais são sempre, e de diversas formas, objeto de declarações de seus montantes feitas pelo sujeito passivo à autoridade administrativa. Quando se fala em “valor declarado” no âmbito do Fisco Federal, está a se falar de valor informado em alguma dessas obrigações acessórias que conhecemos. Então, esse conceito de “tributo declarado” não pode ser outro que o Fl. 2458DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 12 tributo informado em declarações obrigatórias costumeiramente exigidas dos contribuintes. Nesse contexto, a busca da definição do conceito nos leva a limitar o rol de declarações que serviriam ao propósito da norma. Esse limite se encontra quando se investigam as informações sobre tributos informadas ao Fisco em declarações, cuja natureza não é meramente informativa, revestindo-se de confissão de dívida tributária. Os tributos e contribuições declarados como dívida confessa, por definição, não são objeto de lançamento fiscal, logo, não são objeto de procedimento de ofício nos termos do art. 7º. Nesses casos, não há que se falar em início de procedimento, ou mesmo de espontaneidade. Dívida confessa dispensa o lançamento, esse entendimento já é consagrado na Administração Tributária. Desse modo, a exegese correta da expressão “tributos e contribuições já declarados” contida no art. 47, ora analisado, não envolve as declarações que se prestam como instrumento de confissão de dívida (por exemplo, a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF), mas sim outros tipos de declarações em que o tributo ou a contribuição é apurado e/ou informado, como ocorre, por exemplo, com a Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica - DIPJ. O tributo informado na DCTF (confissão de dívida) está fora do campo de abrangência do art. 47, uma vez que nesta situação é dispensável o lançamento de ofício. Por fim, considerando-se que o art. 47 apenas se refere ao direito de o contribuinte "pagar, até o vigésimo dia subseqüente à data de recebimento do termo de início de fiscalização, os tributos e contribuições já declarados", sem a imposição de que o gozo do benefício somente ocorre quando ele quita todos os tributos anteriormente confessados; assim, o benefício alcança qualquer pagamento efetuado nesse período, desde que relativo a débito já declarado, ocorrido no prazo de vinte dias (ub lex non distinguir, nec nos distinguere debemus - não cabe ao intérprete restringir o que a lei não restringe). Feitas essas digressões acerca dos contornos jurídicos da figura da espontaneidade de que trata o art. 47 da Lei nº 9.430, de 1996, passa-se à análise da situação em litígio. Fl. 2459DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 13 O primeiro ato de ofício dirigido à impugnante foi o Termo de Intimação nº 17, fls. 89/90, tendo a impugnante sido cientificada em 22/11/2016 (fl.92). Nos termos do inciso I, art. 7º, do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF), o referido documento deflagrou o início da fiscalização. Em resposta ao referido Termo de Intimação (fls.95/99), a impugnante admite que suas DIPJs (AC 2012 e AC 2013) estão incorretas; e providência a retificação destas, ajustando as bases de cálculo dos tributos devidos, apresentando as retificadoras, no dia 27/12/2016, no e-dossiê nº 10010.023174/1116-60: R: As inconsistências nas Declarações de Imposto de Renda - DIPJ e Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais - DCTF's referentes aos anos calendários 2012 e 2013 foram causadas por erro no preenchimento das DIPJ's. Após apuração do erro e realização de levantamentos para se obter a informação correta a serem lançadas nas DIPJ ajustamos as referidas declarações de acordo com as bases de cálculo que entendemos corretas (conforme declarações confeccionadas e ainda não transmitidas em anexos 4 e 5) para as quais aguardamos o término deste procedimento fiscalizatório para retificação eletrônica. Conforme exposto anteriormente, o instituto jurídico do art. 47, da Lei nº 9.430/1996, estabelece que sua aplicabilidade somente se dá nos casos em que haja “o pagamento do valor total do débito relativo a cada um dos tributos e contribuições já declarados”, ou seja, o débito devido, mas não pago, deve estar já declarado em alguma obrigação acessória antes do início de qualquer ação fiscal por parte da Receita Federal. No caso concreto, havia, antes do procedimento fiscalizatório, débitos declarados (em 28/6/2013 e 30/6/2014) nas DIPJs, mas não pagos. Se tais débitos tivessem sido Fl. 2460DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 14 efetivamente pagos, dentro do prazo de até 20 dias após o início do procedimento fiscalizatório; o instituto do art. 47, da Lei nº 9.430/1996, poderia ser devidamente usufruído pela impugnante. Entretanto, não foi o que ocorreu, pois os débitos já declarados nas DIPJs (e não pagos), foram retificados durante o procedimento de fiscalização (iniciado em 22/11/2016), sendo apresentadas, então, DIPJs retificadoras (em 27/12/2016), que alteraram os débitos que já estavam declarados antes do procedimento fiscalizatório, constituindo, assim, novos débitos, ou seja, tais débitos não podem mais serem considerados “tributos e contribuições já declarados”, uma vez que a retificação destes lhes retirou tal qualidade, qual seja: “já declarados”. Ainda no curso da fiscalização, no dia 12/12/2016 foi efetuado o recolhimento, de um DARF (fl.236), no valor de R$ 17.630,44 (valor do principal: R$10.793,71 + multa R$2.158,74 + juros R$4.677,99), sob código de receita 2362. Na mesma data, a impugnante entregou à RFB três DCOMPs (nº 00125.60611.121216.1.3.03-6924, nº 05514.57732.121216.1.3.02-0845 e nº 1555.84013.121216.1.3.03-3060), em que pretendeu compensar Saldos Negativos de IRPJ, do exercício 2015, e de CSLL, dos exercícios de 2015 e 2016 (fls. 233/235). Ademais, mesmo que a impugnante não houvesse retificado os débitos originais, já declarados em suas DIPJs, não poderiam ser aceitas, para os fins do que pretende a impugnante, as DCOMPs entregues após o início do procedimento fiscal. Como já informado no início do voto, o art. 47 da Lei nº 9.430/1996 concede benefício ao contribuinte que "pagar, até o vigésimo dia subseqüente à data de recebimento do termo de início de fiscalização". O dispositivo não se refere, pois, às outras formas de extinção do crédito tributário, conforme previstas no art. 156 do Código Tributário Nacional - CTN (dentre as quais se inclui a compensação). Assim, partindo- se da premissa de que o próprio CTN tratou de forma distinta Fl. 2461DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 15 as diversas hipóteses de extinção, a exegese do art. 47 deve ser restritiva, sendo necessário para o seu alcance que haja o efetivo pagamento, via documento próprio (no caso federal, DARF). Desse modo, a título de exemplo e na mesma linha do entendimento acima, de que a aplicação do art. 47, da Lei nº 9.460/1996 deve ser restritiva, no sentido de que tal benesse somente pode ser aplicada quando haja o efetivo pagamento; tem-se o disposto na Nota Técnica COSIT nº 19/2012, que firmou o entendimento de que se considera ocorrida a denúncia espontânea, para fins de aplicação do artigo 19, da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002: b1) quando o sujeito passivo confessa a infração, inclusive mediante a sua declaração em DCTF, e até este momento extingue a sua exigibilidade com o pagamento, nos termos do Ato Declaratório PGFN nº 4, de 20 de dezembro de 2011; b2) quando o contribuinte declara a menor o valor que seria devido e paga integralmente o débito declarado, e depois retifica a declaração para maior, quitando-o, nos termos do Ato Declaratório PGFN n° 8, de 20 de dezembro de 2011; c) não se considera ocorrida denúncia espontânea, para fins de aplicação do artigo 19 da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002: c1) quando o sujeito passivo paga o débito, mas não apresenta declaração ou outro ato que dê conhecimento da infração confessada; c2) quando o sujeito passivo declara o débito a menor, mas não paga o valor declarado e posteriormente retifica a declaração, pagando concomitantemente todo o débito; c3) quando o sujeito passivo compensa o débito confessado, mediante apresentação de DCOMP; Fl. 2462DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 16 c4) quando o sujeito passivo declara o débito, mas o paga a destempo; d) que os eventuais pedidos de revisão de lançamento, restituição e/ou compensação dos créditos já constituídos nas situações do item "b" acima devem ser analisados com base no entendimento exarado nos Atos Declaratórios PGFN n°s 4 e 8, de 2011. (negritei) Por último, não tendo cumprido os requisitos estabelecidos pelo art. 47, da Lei nº 9.460/1996, não é possível que seja aceito o pagamento efetuado via DARF (R$ 17.630,44), que além de constar somente parte do pagamento do débito devido, se refere a débitos que foram declarados durante o procedimento fiscalizatório, e não a débitos de tributos e contribuições já declarados antes do início do procedimento fiscalizatório. Dito isso, não existem reparos a fazer quanto ao lançamento dos valores de IRPJ e CSLL relativos ao período fiscalizado, sendo devidos com os acréscimos da multa de ofício de 75%, mantendo-se, por seus próprios fundamentos, a decisão recorrida. Doutra parte, quanto à aplicação concomitante da multa isolada com a multa de ofício, entendo assistir razão à recorrente. Com efeito, indevida a incidência da multa isolada, prevista no art. 44, II, “b”, da Lei n. 9.430/96, com a redação da dada pela Lei n. 11.488/07 –, em 50% sobre as estimativas não- recolhidas, aplicada de forma concomitante com a multa de ofício, por falta de pagamento dos tributos IRPJ e CSLL apurados nos ajustes anuais dos anos-calendários objeto da auditoria. A respeito da impossibilidade da concomitância na aplicação das referidas penalidades, em aplicação do princípio da consunção, salutar citar, em rememorar histórico, o voto do Conselheiro Marcos Vinicius Neder, constante do Acórdão CSRF 01-05.501, de 18/09/2006, do antigo Conselho de Contribuintes: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de Fl. 2463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 17 apuração e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano-calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. A discussão tem lugar no estudo do direito sancionatório e, na época em que prolatado o acórdão acima referido – paradigmático para o estudo desta matéria – havia por eleito um critério temporal referente ao lançamento como baliza para a aplicação da multa isolada do art. 44, II, b, da Lei n. 9.430/96 (em sua redação original) e da multa de ofício por falta de pagamento dos tributos nos ajustes anuais. Haveria de se aplicar a multa isolada pela falta do pagamento das estimativas acaso o lançamento fosse efetuado antes do encerramento do ano-calendário e, portanto, antes da apuração do valor do ajuste – de modo que não configurada a hipótese de multa de ofício. Diversa a situação em que os lançamentos são realizados após o encerramento do ano-calendário – maior parte dos casos, à evidência. Nesses, a base de cálculo da multa a ser lançada haveria de se limitar aos valores do IRPJ e de CSLL devidos no ajuste, ou melhor: à diferença entre a estimativa efetivamente recolhida e o valor do ajuste; se sobre tal diferença já houvesse o lançamento de multa de ofício proporcional, nenhuma multa isolada poderia ser constituída. Consoante essa linha de raciocínio, se houvesse apuração de prejuízo fiscal no exercício, ao final do ano-calendário, sequer haveria de se falar na aplicação de multa isolada pelo não recolhimento das estimativas (v. g. Acórdão CSRF 01-04.930, de 12/04/2004). Com a Medida Provisória n. 351, de 22 de janeiro de 2007, convertida na Lei n. 11.488, de 15 de junho de 2007, ficou superada essa interpretação; passe-se a não mais cogitar de que a multa isolada, para ser lançada, dependa da existência de valores de IRPJ e de CSLL devidos no ajuste. A reforma legislativa de 2007, contudo, no meu entender, não passou a permitir a concomitância das penalidades – antes já entendidas como inconciliáveis; o racional que ensejou o enunciado na Súmula 105 do CARF (“A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício”) não restou abalado. Fl. 2464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 18 O que ficou afastada foi a limitação – que antes se interpretava existente – a que a multa isolada somente fosse aplicada sobre eventual valor que tivesse deixado de ser recolhido em vista do resultado apurado no ajuste anual – somente teria lugar (em lançamento relativo a exercício encerrado) se, após o encerramento do exercício, as estimativas recolhidas resultassem em montante menor que o devido no período. Não houve de prosperar a interpretação “consequencialista pragmática”, que propunha a exclusão da incidência da multa isolada – apartando-se da legalidade estrita, orientando-se por olhar lançado para o resultado do exercício – quando constatada a inexistência de diferença de tributo na apuração de ajuste do ano-calendário. Decerto, a omissão de receita (ou a dedução indevida de despesas para o recolhimento de estimativas com base em balanços de suspensão ou redução) é conduta que pode resultar no não-recolhimento das estimativas, bem como o não-pagamento dos valores dos tributos que seriam devidos do ajuste. Quando a conduta omissiva não repercutir no valor do ajuste, a falta do recolhimento das estimativas há de ser punida pela incidência da multa isolada. Todavia, se esta falta repercutir integralmente no ajuste, com a aplicação da multa de ofício sobre os valores objeto do lançamento pela fiscalização, certo que essa punição deve absorver – por ser inclusive mais elevada – a punição prevista para o caso de não recolhimento das estimativas mensais. Adotando referido entendimento cito o percuciente voto da relatoria Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, proferido em 7 de junho de 2024, destacado do Acórdão n. 9101-007.040-CSRF/1ª Turma (Processo n. 10530.721458/2015-56, Recurso Especial do Procurador): Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011 MULTA ISOLADA - CONCOMITÂNCIA - PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO Pelo princípio da absorção ou consunção, não deve ser aplicada penalidade pela violação do dever de antecipar, na mesma medida em que houver aplicação de sanção sobre o dever de recolher em definitivo. Concluo, portanto, pela impossibilidade de concomitância da incidência das multas de ofício e isolada ao presente caso, devendo ser improcedente, nessa parte, a autuação fiscal. CONCLUSÃO Fl. 2465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 19 Por todo o exposto, voto pelo conhecimento e provimento parcial do recurso voluntário, somente para cancelar a exigência da multa isolada sobre estimativas mensais não recolhidas, dada a impossibilidade concomitância desta penalidade com a multa de ofício pelo não pagamento do IRPJ e da CSLL nos ajustes do ano-calendário. É como voto. Assinado Digitalmente LIANA CARINE FERNANDES DE QUEIROZ VOTO VENCEDOR Conselheiro Leonardo de Andrade Couto, redator designado: Peço vênia à I. Relatora para manifestar divergência em relação à concomitância da multa isolada com a multa de ofício exigida junto com o tributo. O pagamento do imposto por estimativa foi instituído pela Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Essa Lei estabeleceu período de apuração trimestral para o IRPJ, com a opção anual sendo que, nesse último caso, existe a obrigatoriedade de recolher o tributo mensalmente, determinado sobre uma base de cálculo estimada mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais previstos no art. 15 da Lei nº 9.249/95. Entendeu o legislador que, feita a opção pelo recolhimento por estimativa, a ausência ou insuficiência desses pagamentos constituiria em sanção passível de punição via multa de ofício calculada sobre o montante não recolhido e aplicada isoladamente, nos termos do inciso IV, do § 1º , do art. 44 da Lei nº 9.430/96, em sua redação original. A questão de fato é polêmica. Neste Colegiado, alguns entendem que não se justificaria a aplicação da multa após o encerramento do período de apuração, quando já teriam sido realizados os devidos ajustes. Nesse caso bastaria a cobrança de eventual imposto apurado no ajuste acompanhado, aí sim, da respectiva multa. Esse posicionamento praticamente nega eficácia ao dispositivo legal supra mencionado, pois limitaria sua aplicabilidade a procedimentos de fiscalização efetuados durante o período sob exame. Além do mais, ignora a literalidade do texto legal que determina a aplicação da multa ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal no ajuste, ou seja, a Lei determina claramente que a multa pode ser imputada após o encerramento do período e mesmo sem tributo apurado no ajuste A principal e respeitável linha argumentativa daqueles que defendem essa tese parte do próprio texto legal. Na redação original tem-se (destaque acrescido): Fl. 2466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 20 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I - de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; (....) § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: (....) IV - isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazê-lo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente; (......) Com base na redação do caput essa corrente defende que, mesmo na forma isolada, a multa incidiria sobre a totalidade ou diferença de tributo. Com a ressalva de que o valor pago a título de estimativa não tem a natureza de tributo, a lógica do pagamento de estimativas seria antecipar para os meses do ano-calendário o recolhimento do tributo que, de outra forma, seria devido apenas ao final do exercício. Sob essa ótica, a tese defende que o tributo apurado no ajuste e a estimativa paga ao longo do período devem estar intrinsecamente relacionados de forma a que a provisão para pagamento do tributo deve coincidir com o montante pago de estimativa ao final do exercício. Assim, concluem que só há que se falar em multa isolada quando evidenciada a existência de tributo devido. A princípio, alinhei-me nessa posição e com ela votei em alguns julgados. Hoje, após cuidadosa reflexão penso que essa tese está equivocada porque, apesar de sua construção lógica ser irrefutável, mistura situações distintas. O texto original da lei estabelece que a multa isolada seria calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição. Entendeu-se assim que o legislador estabeleceu uma norma de imposição tributária quando na verdade o não recolhimento das estimativas impõe a aplicação de uma regra sancionatória. Fl. 2467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 21 Aquela avaliação não mais se justifica a partir da nova redação do dispositivo em comento, estabelecida pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, onde fica clara a distinção (destaque acrescido): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (.......) II - de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (......) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (.....) Inexiste assim a estreita correlação entre o tributo correspondente e a estimativa a ser paga no curso do ano. Registre-se que essa nova redação não impõe nova penalidade ou faz qualquer ampliação da base de cálculo da multa, simplesmente torna mais clara a intenção do legislador. A inexistência de correlação entre o tributo e a estimativa fez-me refletir também sobre a questão da concomitância, ou seja, a aplicação da multa de ofício exigida junto com o tributo e a multa sobre as estimativas. Manifestei-me em outras ocasiões pela aplicação ao caso do princípio da consunção, pelo qual prevalece a penalidade mais grave quando uma pluralidade de normas é violada no desenrolar de uma ação. De forma geral, o princípio da consunção determina que em face a um ou mais ilícitos penais denominados consuntos, que funcionam apenas como fases de preparação ou de execução de um outro, mais grave que o(s) primeiro(s), chamado consuntivo, ou tão-somente como condutas, anteriores ou posteriores, mas sempre intimamente interligado ou inerente, dependentemente, deste último, o sujeito ativo só deverá ser responsabilizado pelo ilícito mais grave. Veja-se que a condição básica para aplicação do princípio é a íntima interligação entre os ilícitos. Pelo até aqui exposto, pode-se dizer que a intenção do legislador tributário foi justamente deixar clara a independência entre as irregularidades, inclusive alterando o texto da norma para ressaltar tal circunstância. Fl. 2468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 22 No voto paradigma que decidiu casos como o presente sob a ótica do princípio da consunção, o relator cita Miguel Reale Junior que discorre sobre o crime progressivo, situação típica de aplicação do princípio em comento. Pois bem. Doutrinariamente, existe crime progressivo quando o sujeito, para alcançar um resultado normativo (ofensa ou perigo de dano a um bem jurídico), necessariamente deverá passar por uma conduta inicial que produz outro evento normativo, menos grave que o primeiro. Noutros termos: para ofender um bem jurídico qualquer, o agente, indispensavelmente, terá de inicialmente ofender outro, de menor gravidade — passagem por um minus em direção a um plus. Estaríamos diante de uma situação de conflito aparente de normas. Aparente porque o princípio da especialidade definiria a questão, com vistas a evitar a subsunção a dispositivos penais diversos e, por conseguinte, a confusão de efeitos penais e processuais. Aplicando-se essa teoria às situações que envolvem a imputação da multa de ofício, a irregularidade que gera a multa aplicada em conjunto com o tributo não necessariamente é antecedida de ausência ou insuficiência de recolhimento do tributo devido a título de estimativas, suscetível de aplicação da multa isolada. Assim, não há como enquadrar o conceito da progressividade ao presente caso, motivo pelo qual tal linha de raciocínio seria injustificável para aplicação do princípio da consunção. Ainda seguindo a analogia com o direito penal, a grosso modo poder-se-ia dizer que a situação sob exame representaria um concurso real de normas ou, mais especificamente, um concurso material: duas condutas delituosas causam dois resultados delituosos. Abstraindo-se das questões conceituais envolvendo aspectos do direito penal, a Lei nº 9.430/96, ao instituir a multa isolada sobre irregularidades no recolhimento do tributo devido a título de estimativas, não estabeleceu qualquer limitação quanto à imputação dessa penalidade juntamente com a multa exigida em conjunto com o tributo. Sob essa ótica, a Fiscalização simplesmente aplicou a norma ao caso concreto, no exercício do poder-dever legal, motivo pelo qual voto por manter a imputação da multa isolada em sua integralidade. Importa ressaltar que a Súmula CARF nº 101 NÃO SE APLICA A FATOS GERADORES POSTERIORES À LEI Nº 11.488/2007, eis que todas as decisões que serviram de base à edição da Súmula não levaram em consideração a mudança legislativa. Assinado Digitalmente Fl. 2469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.292 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.720307/2017-44 23 LEONARDO DE ANDRADE COUTO Fl. 2470DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 19515.720994/2019-21
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 18 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2013, 2014
PRELIMINAR DE NULIDADE. DESTRUIÇÃO DE MÍDIAS COM EXTRATOS BANCÁRIOS. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURAÇÃO.
Não configura cerceamento de defesa a destruição de mídias magnéticas contendo extratos bancários recebidos pela fiscalização, desde que observadas as normas de segurança estabelecidas no art. 9º da Portaria RFB nº 2.047/2014, sendo obrigatório o descarte após a digitalização dos dados e sua inclusão no sistema e-Processo, com lavratura do respectivo Termo de Destruição.
PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. DISPONIBILIZAÇÃO DE ARQUIVOS EM FORMATO DIVERSO DO PREVISTO NA CARTA-CIRCULAR BACEN Nº 3.454/2010. INEXISTÊNCIA.
Inexiste vício na instrução processual pela disponibilização de arquivos em formato diverso daquele previsto na Carta-Circular BACEN nº 3.454/2010, norma dirigida às instituições financeiras e não à Administração Tributária. A validade da prova independe da forma de apresentação, desde que preservados os elementos essenciais para o pleno exercício do contraditório.
PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. NÃO CONFIGURAÇÃO.
A ausência de individualização de condutas não enseja nulidade do lançamento quando este se fundamenta na responsabilização solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional, cujo critério jurídico repousa na existência de interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária. Ademais, assegurado o pleno exercício do contraditório e ampla defesa, mediante regular ciência dos atos processuais e das razões do lançamento, não há o que se falar em cerceamento de defesa.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONVERSÃO EM DILIGÊNCIA. ALEGAÇÃO DE INSUFICIÊNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
A alegação de “insuficiência” das diligências, fundada na discordância com a conclusão da autoridade fiscal, não configura vício formal, sobretudo quando assegurado o contraditório, com ciência dos atos e oportunidade de manifestação sobre os elementos probatórios produzidos.
PROVA EMPRESTADA. DECISÃO JUDICIAL EM MEDIDA CAUTELAR. INDÍCIOS DE GRUPO ECONÔMICO. CONTRADITÓRIO ASSEGURADO. INEXISTÊNCIA DE NULIDADE.
Não enseja nulidade a utilização, no processo administrativo fiscal, de elementos oriundos de decisões judiciais proferidas em sede de medida cautelar ou em agravo de recurso especial, especialmente quando tais decisões reconhecem, ainda que de forma provisória, a existência de direção e controle comuns entre os envolvidos e a ocorrência de confusão patrimonial. Tais elementos não constituem prova emprestada em sentido técnico, mas indícios utilizados como complementação da prova documental, devidamente incorporados aos autos e submetidos ao contraditório.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. RESERVA DE JURISDIÇÃO. INAPLICABILIDADE.
A imputação de responsabilidade solidária com fundamento no art. 124, inciso I, do CTN não implica desconsideração da personalidade jurídica, tampouco exige a prévia intervenção do Poder Judiciário. Trata-se de instituto próprio do Direito Tributário, distinto da desconsideração prevista no art. 50 do Código Civil, e fundado na participação objetiva dos sujeitos na situação que constituiu o fato gerador.
DECADÊNCIA. ART. 173, I, DO CTN. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO OU CONFISSÃO DE DÉBITO. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, §4º, DO CTN. PRESENÇA DE DOLO. SÚMULA CARF Nº 72. DECADÊNCIA PARCIAL RECONHECIDA NA INSTÂNCIA A QUO.
A ausência de recolhimentos antecipados ou de confissão de débitos próprios na DCTF afasta a incidência do art. 150, §4º, do CTN, impondo-se a observância da regra decadencial prevista no art. 173, inciso I, do mesmo diploma legal. Ademais, estando caracterizada a existência de dolo, aplica-se a orientação da Súmula CARF nº 72, que determina a aplicação do prazo do art. 173, I, do CTN.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2013, 2014
OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. PRESUNÇÃO LEGAL DO ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE.
É legítima a aplicação da presunção legal de omissão de receitas prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/1996, quando o contribuinte, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos valores creditados em suas contas bancárias. Alegações genéricas e ausência de demonstração individualizada entre depósitos e operações não afastam a presunção legal de omissão de receitas.
LUCRO ARBITRADO. ART. 47 DA LEI Nº 8.981/1995. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL OU LIVRO CAIXA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS NÃO COMPROVADOS. RECEITA BRUTA CONHECIDA. NATUREZA NÃO SANCIONATÓRIA.
A apuração do lucro com base no arbitramento é medida imposta pela legislação tributária nas hipóteses em que a pessoa jurídica deixa de apresentar escrituração contábil ou Livro Caixa exigido pelo art. 45 da Lei nº 8.981/1995, impossibilitando a identificação da efetiva movimentação financeira, inclusive bancária. Constatada a existência de créditos bancários não comprovados, configura-se receita bruta conhecida, apta a embasar o arbitramento do lucro, nos termos do art. 47 da Lei nº 8.981/1995 e do art. 530 do RIR/1999. O arbitramento, nesse contexto, não possui natureza sancionatória, mas trata-se de critério legal de apuração do lucro diante da ausência ou inidoneidade da escrituração.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. BASE DE CÁLCULO DO LANÇAMENTO. COMPOSIÇÃO ANALÍTICA. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. EXCLUSÕES PARCIAIS.
É legítima a constituição da base de cálculo do crédito tributário com base em depósitos bancários de origem não comprovada, quando o contribuinte, regularmente intimado, não apresenta documentação idônea que comprove a natureza não tributável dos valores. A ausência de descrição individualizada de cada lançamento bancário não compromete a validade do lançamento, desde que os elementos fornecidos sejam suficientes para assegurar o contraditório e a ampla defesa.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. DESNECESSIDADE DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR.
A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional decorre da existência de interesse comum, de natureza jurídica, na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária, prescindindo da demonstração de condutas individualizadas a cada corresponsável.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, II E III, DO CTN. INFRAÇÃO À LEI. OMISSÃO DE RECEITAS. ENTREGA DE DECLARAÇÕES ZERADAS. BLINDAGEM PATRIMONIAL. CONFIGURAÇÃO
A responsabilidade pessoal prevista no art. 135, incisos II e III, do Código Tributário Nacional exige a demonstração de infração à lei, contrato social ou estatutos, praticada com excesso de poderes ou no exercício da administração, sendo suficiente a comprovação de conduta omissiva relevante ou de tolerância consciente a práticas ilícitas. A total omissão de receitas, a ausência de escrituração contábil e o descumprimento reiterado de obrigações acessórias configuram infração à lei apta a atrair a responsabilização pessoal dos diretores, gerentes ou representantes legais.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM. CARACTERIZAÇÃO
Caracteriza-se a responsabilidade solidária quando demonstrada a confusão patrimonial entre pessoas jurídicas e físicas, evidenciada pela circulação indiscriminada de recursos, ausência de segregação contábil e inexistência de comprovação da causa jurídica das transferências. Alegações genéricas de gestão financeira, desacompanhadas de prova idônea, não afastam a configuração do interesse comum na conformação do fato gerador.
PIS/COFINS. REGIME CUMULATIVO. RECEITAS OMITIDAS. BASE DE CÁLCULO.
No regime cumulativo, a base de cálculo do PIS e da COFINS abrange a totalidade das receitas auferidas, inclusive as omitidas. Valores ingressados de forma definitiva no patrimônio da pessoa jurídica, sem comprovação de origem ou natureza jurídica diversa, integram a base tributável, ainda que não escriturados. Alegações genéricas de atipicidade ou sujeição à alíquota zero, sem prova idônea, não afastam a incidência das contribuições.
MULTA QUALIFICADA. DOLO. OMISSÃO DE RECEITAS. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO E DECLARAÇÕES.
A multa qualificada prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.430/1996 é cabível diante de conduta dolosa evidenciada por omissão relevante de receitas, ausência de escrituração contábil, entrega de declarações com valores zerados e confusão patrimonial. Tais elementos afastam erro escusável e justificam a manutenção da multa qualificada.
RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. EXCLUSÃO DE TERCEIROS DO POLO PASSIVO. ART. 124, I, E ART. 135 DO CTN. VÍNCULO JURÍDICO-MATERIAL. ATOS PRATICADOS COM EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO À LEI, AO CONTRATO SOCIAL OU AOS ESTATUTOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO.
É legítima a exclusão de terceiros do polo passivo do auto de infração quando não demonstrado, de forma objetiva e suficiente, o vínculo jurídico-material com a situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária (art. 124, I, do CTN), tampouco a prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos (art. 135 do CTN).
RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. PIS/COFINS. REGIME DE APURAÇÃO MENSAL. ART. 173, I, DO CTN. CIÊNCIA DO AUTO DE INFRAÇÃO APÓS O PRAZO LEGAL.
É correta a exclusão do crédito tributário relativo ao PIS e à COFINS dos períodos de outubro e novembro de 2013 quando, à luz do art. 173, I, do CTN, restar ultrapassado o prazo de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte ao do fato gerador.
RECURSO DE OFÍCIO. OMISSÃO DE RECEITAS. EXCLUSÃO DE RESGATES DE APLICAÇÕES FINANCEIRAS. DÉBITOS BANCÁRIOS NÃO TRIBUTÁVEIS.
Não se subsume à presunção legal de omissão de receitas, nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, os valores referentes a resgates de aplicações financeiras ou saídas de recursos (débitos bancários), por não representarem acréscimo patrimonial. A exclusão de tais valores, reconhecida pela autoridade julgadora de primeira instância, baseou-se em documentação fiscal e bancária, com adequada distinção entre ingressos financeiros e conversões de ativos ou transferências.
RECURSO DE OFÍCIO. MULTA QUALIFICADA. REDUÇÃO DE 150% PARA 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO DO ART. 44, § 1º, DA LEI Nº 9.430/1996, COM REDAÇÃO DADA PELA LEI Nº 14.689/2023.
A redução da multa qualificada de 150% para 100%, determinada pela autoridade julgadora de primeira instância, encontra amparo no novo limite legal introduzido pela Lei nº 14.689/2023, aplicável aos lançamentos não definitivos, nos termos do art. 106, II, c, do CTN.
Numero da decisão: 1301-008.014
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, (i) quanto aos Recursos Voluntários, em rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência e, no mérito, em lhes negar provimento; e (ii) quanto ao Recurso de Ofício, em lhe negar provimento.
Assinado Digitalmente
Eduarda Lacerda Kanieski – Relatora
Assinado Digitalmente
Rafael Taranto Malheiros – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Luis Angelo Baptista Carneiro, José Eduardo Dornelas Souza, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: EDUARDA LACERDA KANIESKI
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, (i) quanto aos Recursos Voluntários, em rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência e, no mérito, em lhes negar provimento; e (ii) quanto ao Recurso de Ofício, em lhe negar provimento. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski – Relatora Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Luis Angelo Baptista Carneiro, José Eduardo Dornelas Souza, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2013, 2014 PRELIMINAR DE NULIDADE. DESTRUIÇÃO DE MÍDIAS COM EXTRATOS BANCÁRIOS. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURAÇÃO. Não configura cerceamento de defesa a destruição de mídias magnéticas contendo extratos bancários recebidos pela fiscalização, desde que observadas as normas de segurança estabelecidas no art. 9º da Portaria RFB nº 2.047/2014, sendo obrigatório o descarte após a digitalização dos dados e sua inclusão no sistema e-Processo, com lavratura do respectivo Termo de Destruição. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. DISPONIBILIZAÇÃO DE ARQUIVOS EM FORMATO DIVERSO DO PREVISTO NA CARTA-CIRCULAR BACEN Nº 3.454/2010. INEXISTÊNCIA. Inexiste vício na instrução processual pela disponibilização de arquivos em formato diverso daquele previsto na Carta-Circular BACEN nº 3.454/2010, norma dirigida às instituições financeiras e não à Administração Tributária. A validade da prova independe da forma de apresentação, desde que preservados os elementos essenciais para o pleno exercício do contraditório. PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. NÃO CONFIGURAÇÃO. A ausência de individualização de condutas não enseja nulidade do lançamento quando este se fundamenta na responsabilização solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional, cujo critério jurídico repousa na existência de interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária. Ademais, assegurado o pleno exercício do contraditório e ampla defesa, mediante regular ciência dos atos processuais e das razões do lançamento, não há o que se falar em cerceamento de defesa. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONVERSÃO EM DILIGÊNCIA. ALEGAÇÃO DE INSUFICIÊNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. A alegação de “insuficiência” das diligências, fundada na discordância com a conclusão da autoridade fiscal, não configura vício formal, sobretudo quando assegurado o contraditório, com ciência dos atos e oportunidade de manifestação sobre os elementos probatórios produzidos. PROVA EMPRESTADA. DECISÃO JUDICIAL EM MEDIDA CAUTELAR. INDÍCIOS DE GRUPO ECONÔMICO. CONTRADITÓRIO ASSEGURADO. INEXISTÊNCIA DE NULIDADE. Não enseja nulidade a utilização, no processo administrativo fiscal, de elementos oriundos de decisões judiciais proferidas em sede de medida cautelar ou em agravo de recurso especial, especialmente quando tais decisões reconhecem, ainda que de forma provisória, a existência de direção e controle comuns entre os envolvidos e a ocorrência de confusão patrimonial. Tais elementos não constituem prova emprestada em sentido técnico, mas indícios utilizados como complementação da prova documental, devidamente incorporados aos autos e submetidos ao contraditório. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. RESERVA DE JURISDIÇÃO. INAPLICABILIDADE. A imputação de responsabilidade solidária com fundamento no art. 124, inciso I, do CTN não implica desconsideração da personalidade jurídica, tampouco exige a prévia intervenção do Poder Judiciário. Trata-se de instituto próprio do Direito Tributário, distinto da desconsideração prevista no art. 50 do Código Civil, e fundado na participação objetiva dos sujeitos na situação que constituiu o fato gerador. DECADÊNCIA. ART. 173, I, DO CTN. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO OU CONFISSÃO DE DÉBITO. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, §4º, DO CTN. PRESENÇA DE DOLO. SÚMULA CARF Nº 72. DECADÊNCIA PARCIAL RECONHECIDA NA INSTÂNCIA A QUO. A ausência de recolhimentos antecipados ou de confissão de débitos próprios na DCTF afasta a incidência do art. 150, §4º, do CTN, impondo-se a observância da regra decadencial prevista no art. 173, inciso I, do mesmo diploma legal. Ademais, estando caracterizada a existência de dolo, aplica-se a orientação da Súmula CARF nº 72, que determina a aplicação do prazo do art. 173, I, do CTN. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2013, 2014 OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. PRESUNÇÃO LEGAL DO ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. É legítima a aplicação da presunção legal de omissão de receitas prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/1996, quando o contribuinte, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos valores creditados em suas contas bancárias. Alegações genéricas e ausência de demonstração individualizada entre depósitos e operações não afastam a presunção legal de omissão de receitas. LUCRO ARBITRADO. ART. 47 DA LEI Nº 8.981/1995. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL OU LIVRO CAIXA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS NÃO COMPROVADOS. RECEITA BRUTA CONHECIDA. NATUREZA NÃO SANCIONATÓRIA. A apuração do lucro com base no arbitramento é medida imposta pela legislação tributária nas hipóteses em que a pessoa jurídica deixa de apresentar escrituração contábil ou Livro Caixa exigido pelo art. 45 da Lei nº 8.981/1995, impossibilitando a identificação da efetiva movimentação financeira, inclusive bancária. Constatada a existência de créditos bancários não comprovados, configura-se receita bruta conhecida, apta a embasar o arbitramento do lucro, nos termos do art. 47 da Lei nº 8.981/1995 e do art. 530 do RIR/1999. O arbitramento, nesse contexto, não possui natureza sancionatória, mas trata-se de critério legal de apuração do lucro diante da ausência ou inidoneidade da escrituração. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. BASE DE CÁLCULO DO LANÇAMENTO. COMPOSIÇÃO ANALÍTICA. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. EXCLUSÕES PARCIAIS. É legítima a constituição da base de cálculo do crédito tributário com base em depósitos bancários de origem não comprovada, quando o contribuinte, regularmente intimado, não apresenta documentação idônea que comprove a natureza não tributável dos valores. A ausência de descrição individualizada de cada lançamento bancário não compromete a validade do lançamento, desde que os elementos fornecidos sejam suficientes para assegurar o contraditório e a ampla defesa. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. DESNECESSIDADE DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR. A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional decorre da existência de interesse comum, de natureza jurídica, na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária, prescindindo da demonstração de condutas individualizadas a cada corresponsável. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, II E III, DO CTN. INFRAÇÃO À LEI. OMISSÃO DE RECEITAS. ENTREGA DE DECLARAÇÕES ZERADAS. BLINDAGEM PATRIMONIAL. CONFIGURAÇÃO A responsabilidade pessoal prevista no art. 135, incisos II e III, do Código Tributário Nacional exige a demonstração de infração à lei, contrato social ou estatutos, praticada com excesso de poderes ou no exercício da administração, sendo suficiente a comprovação de conduta omissiva relevante ou de tolerância consciente a práticas ilícitas. A total omissão de receitas, a ausência de escrituração contábil e o descumprimento reiterado de obrigações acessórias configuram infração à lei apta a atrair a responsabilização pessoal dos diretores, gerentes ou representantes legais. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM. CARACTERIZAÇÃO Caracteriza-se a responsabilidade solidária quando demonstrada a confusão patrimonial entre pessoas jurídicas e físicas, evidenciada pela circulação indiscriminada de recursos, ausência de segregação contábil e inexistência de comprovação da causa jurídica das transferências. Alegações genéricas de gestão financeira, desacompanhadas de prova idônea, não afastam a configuração do interesse comum na conformação do fato gerador. PIS/COFINS. REGIME CUMULATIVO. RECEITAS OMITIDAS. BASE DE CÁLCULO. No regime cumulativo, a base de cálculo do PIS e da COFINS abrange a totalidade das receitas auferidas, inclusive as omitidas. Valores ingressados de forma definitiva no patrimônio da pessoa jurídica, sem comprovação de origem ou natureza jurídica diversa, integram a base tributável, ainda que não escriturados. Alegações genéricas de atipicidade ou sujeição à alíquota zero, sem prova idônea, não afastam a incidência das contribuições. MULTA QUALIFICADA. DOLO. OMISSÃO DE RECEITAS. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO E DECLARAÇÕES. A multa qualificada prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.430/1996 é cabível diante de conduta dolosa evidenciada por omissão relevante de receitas, ausência de escrituração contábil, entrega de declarações com valores zerados e confusão patrimonial. Tais elementos afastam erro escusável e justificam a manutenção da multa qualificada. RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. EXCLUSÃO DE TERCEIROS DO POLO PASSIVO. ART. 124, I, E ART. 135 DO CTN. VÍNCULO JURÍDICO-MATERIAL. ATOS PRATICADOS COM EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO À LEI, AO CONTRATO SOCIAL OU AOS ESTATUTOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. É legítima a exclusão de terceiros do polo passivo do auto de infração quando não demonstrado, de forma objetiva e suficiente, o vínculo jurídico-material com a situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária (art. 124, I, do CTN), tampouco a prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos (art. 135 do CTN). RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. PIS/COFINS. REGIME DE APURAÇÃO MENSAL. ART. 173, I, DO CTN. CIÊNCIA DO AUTO DE INFRAÇÃO APÓS O PRAZO LEGAL. É correta a exclusão do crédito tributário relativo ao PIS e à COFINS dos períodos de outubro e novembro de 2013 quando, à luz do art. 173, I, do CTN, restar ultrapassado o prazo de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte ao do fato gerador. RECURSO DE OFÍCIO. OMISSÃO DE RECEITAS. EXCLUSÃO DE RESGATES DE APLICAÇÕES FINANCEIRAS. DÉBITOS BANCÁRIOS NÃO TRIBUTÁVEIS. Não se subsume à presunção legal de omissão de receitas, nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, os valores referentes a resgates de aplicações financeiras ou saídas de recursos (débitos bancários), por não representarem acréscimo patrimonial. A exclusão de tais valores, reconhecida pela autoridade julgadora de primeira instância, baseou-se em documentação fiscal e bancária, com adequada distinção entre ingressos financeiros e conversões de ativos ou transferências. RECURSO DE OFÍCIO. MULTA QUALIFICADA. REDUÇÃO DE 150% PARA 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO DO ART. 44, § 1º, DA LEI Nº 9.430/1996, COM REDAÇÃO DADA PELA LEI Nº 14.689/2023. A redução da multa qualificada de 150% para 100%, determinada pela autoridade julgadora de primeira instância, encontra amparo no novo limite legal introduzido pela Lei nº 14.689/2023, aplicável aos lançamentos não definitivos, nos termos do art. 106, II, c, do CTN.
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FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2013, 2014 PRELIMINAR DE NULIDADE. DESTRUIÇÃO DE MÍDIAS COM EXTRATOS BANCÁRIOS. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURAÇÃO. Não configura cerceamento de defesa a destruição de mídias magnéticas contendo extratos bancários recebidos pela fiscalização, desde que observadas as normas de segurança estabelecidas no art. 9º da Portaria RFB nº 2.047/2014, sendo obrigatório o descarte após a digitalização dos dados e sua inclusão no sistema e-Processo, com lavratura do respectivo Termo de Destruição. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. DISPONIBILIZAÇÃO DE ARQUIVOS EM FORMATO DIVERSO DO PREVISTO NA CARTA-CIRCULAR BACEN Nº 3.454/2010. INEXISTÊNCIA. Inexiste vício na instrução processual pela disponibilização de arquivos em formato diverso daquele previsto na Carta-Circular BACEN nº 3.454/2010, norma dirigida às instituições financeiras e não à Administração Tributária. A validade da prova independe da forma de apresentação, desde que preservados os elementos essenciais para o pleno exercício do contraditório. PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. NÃO CONFIGURAÇÃO. A ausência de individualização de condutas não enseja nulidade do lançamento quando este se fundamenta na responsabilização solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional, cujo critério jurídico repousa na existência de interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária. Ademais, assegurado o Fl. 9956DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 2 pleno exercício do contraditório e ampla defesa, mediante regular ciência dos atos processuais e das razões do lançamento, não há o que se falar em cerceamento de defesa. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONVERSÃO EM DILIGÊNCIA. ALEGAÇÃO DE INSUFICIÊNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. A alegação de “insuficiência” das diligências, fundada na discordância com a conclusão da autoridade fiscal, não configura vício formal, sobretudo quando assegurado o contraditório, com ciência dos atos e oportunidade de manifestação sobre os elementos probatórios produzidos. PROVA EMPRESTADA. DECISÃO JUDICIAL EM MEDIDA CAUTELAR. INDÍCIOS DE GRUPO ECONÔMICO. CONTRADITÓRIO ASSEGURADO. INEXISTÊNCIA DE NULIDADE. Não enseja nulidade a utilização, no processo administrativo fiscal, de elementos oriundos de decisões judiciais proferidas em sede de medida cautelar ou em agravo de recurso especial, especialmente quando tais decisões reconhecem, ainda que de forma provisória, a existência de direção e controle comuns entre os envolvidos e a ocorrência de confusão patrimonial. Tais elementos não constituem prova emprestada em sentido técnico, mas indícios utilizados como complementação da prova documental, devidamente incorporados aos autos e submetidos ao contraditório. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. RESERVA DE JURISDIÇÃO. INAPLICABILIDADE. A imputação de responsabilidade solidária com fundamento no art. 124, inciso I, do CTN não implica desconsideração da personalidade jurídica, tampouco exige a prévia intervenção do Poder Judiciário. Trata-se de instituto próprio do Direito Tributário, distinto da desconsideração prevista no art. 50 do Código Civil, e fundado na participação objetiva dos sujeitos na situação que constituiu o fato gerador. DECADÊNCIA. ART. 173, I, DO CTN. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO OU CONFISSÃO DE DÉBITO. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, §4º, DO CTN. PRESENÇA DE DOLO. SÚMULA CARF Nº 72. DECADÊNCIA PARCIAL RECONHECIDA NA INSTÂNCIA A QUO. A ausência de recolhimentos antecipados ou de confissão de débitos próprios na DCTF afasta a incidência do art. 150, §4º, do CTN, impondo-se Fl. 9957DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 3 a observância da regra decadencial prevista no art. 173, inciso I, do mesmo diploma legal. Ademais, estando caracterizada a existência de dolo, aplica- se a orientação da Súmula CARF nº 72, que determina a aplicação do prazo do art. 173, I, do CTN. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2013, 2014 OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. PRESUNÇÃO LEGAL DO ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. É legítima a aplicação da presunção legal de omissão de receitas prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/1996, quando o contribuinte, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos valores creditados em suas contas bancárias. Alegações genéricas e ausência de demonstração individualizada entre depósitos e operações não afastam a presunção legal de omissão de receitas. LUCRO ARBITRADO. ART. 47 DA LEI Nº 8.981/1995. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL OU LIVRO CAIXA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS NÃO COMPROVADOS. RECEITA BRUTA CONHECIDA. NATUREZA NÃO SANCIONATÓRIA. A apuração do lucro com base no arbitramento é medida imposta pela legislação tributária nas hipóteses em que a pessoa jurídica deixa de apresentar escrituração contábil ou Livro Caixa exigido pelo art. 45 da Lei nº 8.981/1995, impossibilitando a identificação da efetiva movimentação financeira, inclusive bancária. Constatada a existência de créditos bancários não comprovados, configura-se receita bruta conhecida, apta a embasar o arbitramento do lucro, nos termos do art. 47 da Lei nº 8.981/1995 e do art. 530 do RIR/1999. O arbitramento, nesse contexto, não possui natureza sancionatória, mas trata-se de critério legal de apuração do lucro diante da ausência ou inidoneidade da escrituração. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. BASE DE CÁLCULO DO LANÇAMENTO. COMPOSIÇÃO ANALÍTICA. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. EXCLUSÕES PARCIAIS. É legítima a constituição da base de cálculo do crédito tributário com base em depósitos bancários de origem não comprovada, quando o contribuinte, regularmente intimado, não apresenta documentação idônea que comprove a natureza não tributável dos valores. A ausência de descrição individualizada de cada lançamento bancário não compromete a Fl. 9958DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 4 validade do lançamento, desde que os elementos fornecidos sejam suficientes para assegurar o contraditório e a ampla defesa. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE POR INTERESSE COMUM. ART. 124, I, DO CTN. DESNECESSIDADE DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR. A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional decorre da existência de interesse comum, de natureza jurídica, na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária, prescindindo da demonstração de condutas individualizadas a cada corresponsável. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, II E III, DO CTN. INFRAÇÃO À LEI. OMISSÃO DE RECEITAS. ENTREGA DE DECLARAÇÕES ZERADAS. BLINDAGEM PATRIMONIAL. CONFIGURAÇÃO A responsabilidade pessoal prevista no art. 135, incisos II e III, do Código Tributário Nacional exige a demonstração de infração à lei, contrato social ou estatutos, praticada com excesso de poderes ou no exercício da administração, sendo suficiente a comprovação de conduta omissiva relevante ou de tolerância consciente a práticas ilícitas. A total omissão de receitas, a ausência de escrituração contábil e o descumprimento reiterado de obrigações acessórias configuram infração à lei apta a atrair a responsabilização pessoal dos diretores, gerentes ou representantes legais. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INTERESSE COMUM. CARACTERIZAÇÃO Caracteriza-se a responsabilidade solidária quando demonstrada a confusão patrimonial entre pessoas jurídicas e físicas, evidenciada pela circulação indiscriminada de recursos, ausência de segregação contábil e inexistência de comprovação da causa jurídica das transferências. Alegações genéricas de gestão financeira, desacompanhadas de prova idônea, não afastam a configuração do interesse comum na conformação do fato gerador. PIS/COFINS. REGIME CUMULATIVO. RECEITAS OMITIDAS. BASE DE CÁLCULO. No regime cumulativo, a base de cálculo do PIS e da COFINS abrange a totalidade das receitas auferidas, inclusive as omitidas. Valores ingressados de forma definitiva no patrimônio da pessoa jurídica, sem comprovação de origem ou natureza jurídica diversa, integram a base tributável, ainda que Fl. 9959DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 5 não escriturados. Alegações genéricas de atipicidade ou sujeição à alíquota zero, sem prova idônea, não afastam a incidência das contribuições. MULTA QUALIFICADA. DOLO. OMISSÃO DE RECEITAS. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO E DECLARAÇÕES. A multa qualificada prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.430/1996 é cabível diante de conduta dolosa evidenciada por omissão relevante de receitas, ausência de escrituração contábil, entrega de declarações com valores zerados e confusão patrimonial. Tais elementos afastam erro escusável e justificam a manutenção da multa qualificada. RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. EXCLUSÃO DE TERCEIROS DO POLO PASSIVO. ART. 124, I, E ART. 135 DO CTN. VÍNCULO JURÍDICO-MATERIAL. ATOS PRATICADOS COM EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO À LEI, AO CONTRATO SOCIAL OU AOS ESTATUTOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. É legítima a exclusão de terceiros do polo passivo do auto de infração quando não demonstrado, de forma objetiva e suficiente, o vínculo jurídico-material com a situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária (art. 124, I, do CTN), tampouco a prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos (art. 135 do CTN). RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. PIS/COFINS. REGIME DE APURAÇÃO MENSAL. ART. 173, I, DO CTN. CIÊNCIA DO AUTO DE INFRAÇÃO APÓS O PRAZO LEGAL. É correta a exclusão do crédito tributário relativo ao PIS e à COFINS dos períodos de outubro e novembro de 2013 quando, à luz do art. 173, I, do CTN, restar ultrapassado o prazo de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte ao do fato gerador. RECURSO DE OFÍCIO. OMISSÃO DE RECEITAS. EXCLUSÃO DE RESGATES DE APLICAÇÕES FINANCEIRAS. DÉBITOS BANCÁRIOS NÃO TRIBUTÁVEIS. Não se subsume à presunção legal de omissão de receitas, nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, os valores referentes a resgates de aplicações financeiras ou saídas de recursos (débitos bancários), por não representarem acréscimo patrimonial. A exclusão de tais valores, reconhecida pela autoridade julgadora de primeira instância, baseou-se em documentação fiscal e bancária, com adequada distinção entre ingressos financeiros e conversões de ativos ou transferências. Fl. 9960DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 6 RECURSO DE OFÍCIO. MULTA QUALIFICADA. REDUÇÃO DE 150% PARA 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO DO ART. 44, § 1º, DA LEI Nº 9.430/1996, COM REDAÇÃO DADA PELA LEI Nº 14.689/2023. A redução da multa qualificada de 150% para 100%, determinada pela autoridade julgadora de primeira instância, encontra amparo no novo limite legal introduzido pela Lei nº 14.689/2023, aplicável aos lançamentos não definitivos, nos termos do art. 106, II, "c", do CTN. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, (i) quanto aos Recursos Voluntários, em rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência e, no mérito, em lhes negar provimento; e (ii) quanto ao Recurso de Ofício, em lhe negar provimento. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski – Relatora Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Luis Angelo Baptista Carneiro, José Eduardo Dornelas Souza, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recursos Voluntários interpostos em face do Acórdão nº 105-012.863, proferido pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Ribeirão Preto/SP – DRJ/RPO (e-fls. 9.315/9.411), que julgou parcialmente procedentes as impugnações apresentadas pela Contribuinte e Responsáveis Solidários. Fl. 9961DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 7 Para uma descrição detalhada dos fatos, reproduzo o relatório constante do v. Acórdão, abaixo colacionado: “1- Trata o presente processo de impugnações apresentadas em face de Auto de Infração, lavrado em 29/11/2019, pela Delegacia Especial de Fiscalização da Receita Federal em São Paulo. 2-Houve lançamento dos seguintes tributos, com fatos geradores ocorridos nos anos- calendário de 2013 e 2014, no montante de R$ 140.628.439,59 (cento e quarenta milhões, seiscentos e vinte e oito mil, quatrocentos e trinta e nove reais e cinquenta e nove centavos): DA AÇÃO FISCAL 3-A descrição dos fatos consta do corpo do Termo de Constatação Fiscal (fls.511 a 527). Seguem seus principais pontos: Da Fiscalizada A forma de tributação adotada para os anos de 2013 e 2014 foi a do Lucro Presumido. A movimentação financeira no período de 01/10/2013 a 31/12/2014 foi da ordem de R$ 335.576.777,15. Foi constituída em 09/04/2012, mantendo, desde sua constituição quadro societário inalterado (Ton Energy Investimentos, Participações e Agronegócios Ltda-CNPJ: 07.245.496/0001-02, em recuperação judicial e AF Investimentos Participações Ltda-CNPJ: 06.206.008/0001-95), tendo como administrador o Sr. José Roberto Monte-CPF: 034.186.976-74. O capital social também se manteve inalterado, representado pelo valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais). De acordo com contrato social, presta serviços de gestão de contas a pagar e a receber, bem como assessoria para implementação, operacionalização e desenvolvimento de distribuidora de combustíveis, postos de gasolina, distribuidora de gás GLP e unidades produtoras de etanol. Até a data de encerramento da fiscalização, houve registro de apenas um empregado, ocorrido no mês de julho de 2014. Não houve recolhimentos tributários. Por sua vez, a DIPJ do ano-calendário de 2013 e ECF do ano-calendário de 2014 foram apresentadas com todos os campos zerados. Na DCTF constam apenas retenções na fonte de assalariados e terceiros (códigos de retenção 0561 e 1708). Fl. 9962DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 8 A Ação fiscal foi iniciada em 08/05/2018, com ciência postal. Após diversas intimações e reintimações não foram apresentados a escrituração contábil e/ou Livro Caixa, os extratos bancários, notas fiscais emitidas, nem a relação de empresas com quem foram contratados serviços de gestão de recursos financeiros. Diante da não apresentação dos extratos bancários foi emitida Requisição de Movimentação Financeira. Com base na movimentação obtida, houve intimação para a comprovação de origem dos recursos, em 12/03/2019. Contudo, não houve resposta. Em 30/04/2019, houve nova intimação, não atendida, para comprovação dos recursos transitados em contas correntes. Do Grupo Econômico Informal O Sr. José Roberto Monte-CPF: 034.186.976-74 atuava como administrador da fiscalizada e representante de diversos do grupo econômico irregular. As pessoas físicas e jurídicas relacionadas foram reconhecidas pelo Superior Tribunal de Justiça (Recurso Especial nº 1.345.699-SP-fl. 335/342), como integrantes de grupo informal, capitaneado pelo Sr. José Roberto Monte, seu filho, Gustavo Monte-CPF nº 150.821.468-90 e a esposa deste, Sra. Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte, CPF nº 149.019.768-00. De acordo com análise da movimentação financeira, houve transferência de recursos entre a fiscalizada e as pessoas físicas e jurídicas componentes do grupo informal. Da Movimentação Financeira Os valores individualizados, excluídas as transferências de mesma titularidade, constam do anexo ao Termo de Intimação Fiscal de fls. 433/509. Não houve qualquer comprovação da origem dos recursos, ficando caracterizada omissão de receita. Do Arbitramento do Lucro Uma vez não apresentados os registros contábeis e livros obrigatórios, o lucro foi arbitrado, a partir da receita bruta conhecida, composta pelos valores creditados nas contas correntes bancárias. Dos Crimes Contra a Ordem Tributária Houve apresentação de declarações inverídicas, por não conterem valores positivos, caracterizando dolo, em não recolher tributos devidos, ocultando os fatos geradores, situação que se sobsome aos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502/1964. Da Responsabilidade Tributária Diante dos fatos devidamente comprovados “pela documentação juntada neste processo administrativo, fica caracterizado o controle comum das empresas integrantes do grupo informal relacionadas no item 3 (três) deste relatório, a confusão societária Fl. 9963DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 9 definida no Acórdão nº 1.345.699 como ‘composição societária repetida e revezada entre empresas’, e a confusão societária e patrimonial, com a transferência de volume substancial de recursos entre as empresas sem a apresentação da documentação comprobatória da origem desses recursos, circunstâncias essas que determinam a responsabilidade tributária solidária nos termos dos incisos I e II do artigo 124 e incisos II e III, do artigo 135 da Lei nº 5.172/66-Código Tributário Nacional (...).” Das Pessoas Jurídicas Responsabilizadas “Ficou caracterizada a formação de grupo econômico para exploração de atividade empresarial integrada, compreendendo desde a produção até a distribuição de combustíveis no atacado e no varejo, e empresas com atuação periférica, destinadas à blindagem patrimonial do grupo, todas com propósito de NÃO RECOLHER quaisquer tributos à Fazenda Pública”. I- Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber Ltda-CNPJ: 15.825.009/0001-09. II- Aspen Distribuidora de Combustíveis Ltda-CNPJ:01.382.912/0001-38. III- Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis Ltda-CNPJ: 04.138.529/0001-27. IV- AF Investimentos e Participações Ltda-CNPJ: 06.206.008/0001-95. V- Ton Energy Invest, Part e Agronegócios Ltda-CNPJ: 07.245.496/0001-02. VI- Destilaria Nova Era Ltda-CNPJ: 07.736.245/0001-20. VII- Aleser Comércio de Derivados de Petróleo Ltda-CNPJ: 01.382.911/0001-93. VIII- Agropecuária Águas Cristalinas Ltda-CNPJ: 05.071.538/0001-00. IX- Mrx Logística e Transportes Ltda-CNPJ: 00.137.970/0001-33 X- Favacho Impar Empreendimentos Imobiliários Eireli-CNPJ: 13.858.412/0001-09. XI- Siqueira Ferreira Monte Advogados EPP-CNPJ:04.821.921/0001-76. XII- Centro Automotivo Prime de Sorocaba Ltda-CNPJ: 12.812.570/0001-65. XIII- Auto Posto JVR Ltda-CNPJ: 08.534.659/0001-30. XIV- Auto Posto Nova Sumaré Ltda-CNPJ: 02.728.062/0001-40. XV- Centro Oeste Brasil Petróleo Ltda-CNPJ: 07.115.453/0001-02. XVI- Centro Automotivo das Magnólias Ltda-CNPJ: 05.829.420/0001-07. XVII- Central Energética Bandeirantes Ltda-CNPJ: 08.842.644/0001-39. Das Pessoas Físicas Responsabilizadas I- José Roberto Monte-CPF: 034.186.976-74 II- Gustavo Monte-CPF: 150.821.468-90 Fl. 9964DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 10 III- Mário Camarozano-CPF: 833.837.868-20 IV- Alessandro Silva Romero-CPF: 178.897.338-01 V- Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte-CPF: 149.019.768-00 DA IMPUGNAÇÃO DA FISCALIZADA 4-A ciência do auto de infração ocorreu por edital (fls.5.476 e 5.477), na data de 27/12/2019, tendo sido apresentada defesa em 20/01/2020 (fls. 6.532 a 6.589). Seguem seus principais pontos: Das Preliminares de Nulidade do Auto de Infração Inobservância de procedimento obrigatório quanto às provas obtidas via Requisição de Movimentação Financeira/RMF-Cerceamento do Direito de Defesa Não foram acostados ao processo administrativo os “supostos” extratos obtidos mediante Requisição de Movimentação Financeira, assim como foi efetuada sua destruição. Tal situação impediu a revisão do lançamento efetuado, provocando cerceamento do direito de defesa. Foi desobedecido o artigo 9º, caput, do Decreto nº 70.235/72, o qual determina que o lançamento tributário deve ser instruído com todas as suas provas. Por sua vez, artigo 6º da Lei Complementar 105/2001, determina que as informações obtidas por meio de RMF devem integrar o processo administrativo fiscal instaurado, quando interessarem à prova do lançamento de ofício. O ônus da prova cabe à fiscalização, tendo havido afronta os princípios da motivação, legalidade e demais princípios da administração pública. Da Nulidade em razão do descumprimento do art.9º do Decreto nº 70.235/72 (e ainda insuficiência dos documentos de instrução probatória) A Fiscalização deixou de dar ciência à Impugnante de todos os documentos necessários à comprovação do suposto ilícito. Não foi dada ciência dos extratos bancários. O edital de ciência foi afixado em 27/12/2019. Não constava do edital o acesso aos “arquivos não pagináveis”, em formato txt, relativos aos extratos bancários, tendo sido os mesmos anexados aos autos em 23/12/2019 (após a sua destruição, ocorrida em 29/11/2019). Também foram anexados os termos de ciência de solidariedade, que até então não se tinha notícia, mas que são indispensáveis à regular formalização de lançamento em relação aos solidários. Os documentos foram “escondidos" do impugnante, por não constarem do edital. “Ou seja, a fiscalização disse que fez uma coisa, mas fez outra com o propósito de Fl. 9965DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 11 confundir os autuados. Primeiro diz que destruiu as provas e depois anexa as supostas provas de maneira sorrateira ao processo sem comunicar aos autuados.” “(...) a Impugnante só tomou ciência dos mesmos por acaso, quando acessou o processo via e-Cac, após tomar conhecimento do Edital, em total afronta ao art. 9º do Decreto nº 70.235/72, que é imperativo no sentido de que o contribuinte receba todos os documentos que constituam as supostas provas que suportem a base de cálculo e o valor dos tributos apurados, além de outras eventuais acusações, e não apenas aqueles documentos que se encontram descritos no Edital acima colacionado.” Deveriam ter sido juntados todos os documentos fornecidos pelas instituições financeiras. “Como se verifica da Circular BACEN n. 3.454/2010, que regulamenta o leiaute da prestação de informações à Receita Federal do Brasil via RMF, as informações devem ser prestadas em cinco arquivos eletrônicos distintos, a saber: “agências”, “contas”, “titulares”, “extrato” e “origem_destino”.” “Contudo, entre os documentos trazidos pela fiscalização, nota-se apenas dois arquivos com os títulos “extrato”, ou seja, foi anexado apenas um dos cinco arquivos necessários à suposta comprovação dos ilícitos narrados, apesar de a Fiscalização ter requerido muito mais arquivos e informações (...).” “Mas não é só. Verifica-se que a referida Circular determina que o documento referente ao “extrato” tenha 14 (quatorze) colunas. Contudo, dos arquivos em TXT juntados, verifica-se a existência de apenas 13 (treze) colunas. Ou seja, existe evidência clara que os arquivos foram manipulados pela Fiscalização!" “Além disso, em uma breve análise das informações constantes dos documentos TXT anexados pela Fiscalização, a Impugnante conseguiu identificar outros graves vícios das supostas “provas”." “Veja-se, por exemplo, que da planilha elaborada pela Fiscalização para fundamentar a autuação, consta, do dia 31 de dezembro de 2014, um crédito no suposto valor de R$ 945.000,00 (fl. 509): (...) “Contudo, ao se pesquisar o mesmo documento (318976) no extrato anexado pela Fiscalização (“Extrato_Bradesco”), verifica-se que o suposto valor de R$ 945.000,00 é, na verdade, de R$ 379.530,00, ou seja, menos da metade do suposto valor creditado na conta da Impugnante:” “Já à fl. 506, verifica-se da planilha elaborada pelo D. Auditor Fiscal que a Impugnante teria recebido, no dia 23/12/2014, crédito em conta no valor de R$ 1.054.834,94.” “Contudo, ao pesquisar o mesmo documento (9002154) no extrato anexado pela Fiscalização (“Extrato_Bradesco”), não se encontra qualquer referência! “ Da Decadência Parcial Fl. 9966DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 12 “No presente caso, a formalização da autuação ocorreu em 28.11.2019, com ciência pela Impugnante apenas no dia 27.12.2019. Ocorre que fatos geradores relativos ao 4º trimestre de 2013 e aos 1º, 2º e 3º trimestres de 2014 ocorreram respectivamente em 31.12.2013, 31.03.2014, 30.06.2014 e 30.09.2014, há mais de cinco anos da ciência formal dos Autos de Infração. No mesmo sentido, os fatos geradores mensais relativos ao PIS e à COFINS anteriores a 31.12.2014 também foram alcançados pela decadência." “No presente caso, conforme Demonstrativo dos Valores Declarados em DCTF elaborado pela própria Fiscalização (fls. 431/432), houve pagamento parcial de todos os tributos objeto do presente processo. Destaque-se, ainda, que não houve qualquer fraude ou sonegação, como será melhor demonstrado adiante. Em vista disso, o art. 150, § 4º, do CTN é plenamente aplicável ao presente caso." “Considerando que os acórdãos proferidos sob o rito dos recursos repetitivos são de observância obrigatória ao Poder Judiciário e à Administração Pública, não há muito mais o que dizer, restando decidido e definido que o prazo decadencial para fins de aplicação do art. 173, inc. I, do CTN, é o primeiro dia seguinte ao da ocorrência do fato gerador.” “Sendo assim, no presente caso, considerando que o prazo decadencial previsto no art. 173, inc. I, do CTN, inicia-se no dia seguinte ao da ocorrência do fato gerador, resta fulminada pela decadência a parcela da autuação cujos fatos geradores ocorreram antes de 31.12.2014.” “Ainda que assim não fosse, o que se admite apenas para argumentar, é certo que o termo “exercício” se refere ao período de apuração de cada tributo e não a ano- calendário”, conforme decisão do STJ. Do Mérito Da impossibilidade de arbitramento do lucro com base na receita bruta conhecida Não houve apresentação de provas de omissão de receitas; nem todos os depósitos em conta corrente configuram-se como receita; o lançamento foi efetuado com pressuposto em confusão patrimonial, sem exclusão das operações dentro do "grupo". A receita decorrente de presunção de omissão de receitas não se caracteriza como “conhecida". Todos os valores creditados em conta foram considerados como receita, não tendo sido analisados individualmente. A fiscalização adotou esse procedimento por não ter “encontrado a “receita bruta conhecida” de que trata o art. 531 do RIR/99, nos livros ou nas notas fiscais emitidas pela Impugnante, só restava uma única opção para a Fiscalização: arbitrar a base de cálculo do lucro com base nos critérios do art. 535 do RIR/99 (art. 608 do RIR/18), o que não foi feito, resultando em nulidade do lançamento combatido.” Também não foi apresentada prova do fato indiciário, por ter havido destruição dos extratos. Fl. 9967DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 13 “A Impugnante não sabe de onde vieram os valores lançados na planilha de fls. 343/359 e 436/509. A Impugnante não tem como conferir se os valores lançados nessas planilhas correspondem aos valores supostamente existentes nos supostos extratos e nem se esses supostos valores estavam mesmo nos supostos extratos. A destruição deliberada da prova que a Fiscalização disse ter colhido junto aos bancos impede a Impugnante de verificar a exatidão das planilhas, o que configura cerceamento de seu direito de defesa e nulidade do procedimento de arbitramento do lucro.” “No presente caso, está-se diante de gravíssimas contradições internas. Apesar de entender que haveria uma “confusão societária e patrimonial”, a Fiscalização, em momento algum, preocupou-se em dar as devidas consequências jurídicas às suas premissas e acusações." “Ora, se havia uma grande confusão patrimonial, deveria a Fiscalização, em primeiro lugar, ter realizado o procedimento de inaptidão de CNPJ de todas as pessoas jurídicas, o que jamais foi feito. Cabe destacar que o CNPJ de quase todas as pessoas jurídicas autuadas se encontra ativo e legítimo, como atestaram consultas efetuadas nesta data na base de dados cadastrais do CNPJ no site da Receita Federal. Sendo assim, jamais se poderia falar em “confusão patrimonial” ou “caixa comum” se a Fiscalização sequer realizou o procedimento previsto na IN RFB nº 1.863/2018 para afastar a personalidade jurídica das empresas autuadas." “A Fiscalização também não se dignou a excluir os valores constantes das planilhas que elaborou e que poderiam ser de outras empresas do chamado “grupo informal”. Ora, se era tudo “uma coisa só”, uma grande confusão patrimonial, jamais poderia ser receita a remessa de recursos de uma empresa ou pessoa do chamado “grupo informal” para outra." “No presente caso, inclusive, a Fiscalização tinha plenas condições de identificar todas as remessas de recursos entre as empresas do chamado “grupo informal”, já que quebrou o sigilo bancário de todas as pessoas jurídicas com base no procedimento previsto na LC n. 105/01.” Da improcedência da autuação do Pis e da Cofins No Lucro Presumido, esses tributos são apurados de forma cumulativa. Assim “as receitas não operacionais, como as receitas financeiras, decorrentes da venda de ativo imobilizado, entre outras, não compõem a base de cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS no regime cumulativo.” “(...) o D. Auditor-Fiscal se equivocou ao oferecer à tributação pelo PIS e pela COFINS a integralidade dos supostos depósitos bancários da Impugnante, sem nem ao menos verificar as suas naturezas.” Da Improcedência da Multa Qualificada Não houve comprovação do dolo. A prova de fraude deveria ter sido feita de forma direta, tendo sido realizada de forma presuntiva. Fl. 9968DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 14 “Veja-se, nesse sentido, que a Fiscalização, em momento algum, fundamentou a aplicação da multa qualificada. Existe um tópico no TCF denominado “5 – Dos Crimes Contra a Ordem Tributária” (página 10 do TCF), onde o D. Auditor Fiscal alega que teria ocorrido sonegação e fraude e menciona os arts. 71 e 72 da Lei n. 4.502/64, mas não há qualquer referência à multa qualificada. Ou seja, sequer houve fundamentação lícita e válida para a imputação da penalidade majorada." “Além disso, verifica-se que o motivo que levou a Fiscalização a concluir que teria havido supostas sonegação e fraude foi apenas a falta de entrega ou a entrega “em branco” de obrigações acessórias.” Essas condutas poderiam ter ocorrido por erro ou culpa. Foram desrespeitadas as súmulas nºs 14, 25 e 96 do CARF. Do Pedido O pedido foi efetuado no sentido de: Nulidade do auto de infração. Decadência parcial dos lançamentos tributários efetuados. Improcedência do lançamento. Subsidiariamente, afastamento da multa qualificada. DAS IMPUGNAÇÕES DOS RESPONSABILIZADOS SOLIDARIAMENTE 5-O detalhamento individual adas impugnações tornar-se-ia muito longo, haja vista a quantidade de solidarizados. 6-Adotei como método relatar os argumentos ainda não levantados pela contribuinte. Também não repeti argumentos. 7-Seguem as defesas, de forma resumida, na ordem em que anexadas aos autos do processo administrativo. Os detalhes necessários serão postos, quando da redação do Voto: I-SIQUEIRA FERREIRA MONTE ADVOGADOS e VERA CECILIA CAMARGO DE SIQUEIRA FERREIRA MONTE. fls. 632 a 712 Ausência de participação no procedimento fiscal. Ausência de participação nas atividades que culminaram na autuação. (...)a impugnante não foi reconhecida com integrante do indigitado grupo informal de empresas capitaneado por José Roberto Monte e Gustavo Monte. Muito pelo contrário, a impugnante teve justamente reconhecida a ilegitimidade passiva para figurar no pólo passivo tanto da execução fiscal quanto da cautelar fiscal estadual ajuizada em face das mesmas empresas ora autuadas. Fl. 9969DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 15 II-AUTOPOSTO JVR. fls.820 a 828 Junta sua escrituração contábil e fiscal. (fls.859 a 5.474). O “Autoposto JVR Ltda” nunca teve e não tem qualquer envolvimento econômico com o suposto “Grupo Econômico” indicado pela Fiscalização. (...) A “Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a pagar e a receber Ltda” é tão somente cliente do “Auto Posto JVR Ltda”, haja vista que abastece os seus veículos no estabelecimento da empresa ora contestante, conforme comprovam as Notas Fiscais dos anos de 2013 e 2014 (docs. 04/05). (...) Abaixo, os principais indícios que podem caracterizar a existência dos chamados grupos de empresas: (i) a direção e/ou administração das empresas pelos mesmos sócios e gerentes e o controle de uma pela outra; (ii) a origem comum do capital e do patrimônio das empresas; (iii) a comunhão ou a conexão de negócios; (iv) a utilização da mão de obra comum ou outras situações que indiquem o aproveitamento direto ou indireto por uma empresa da mão de obra contratada por outra. No presente caso concreto NÃO há nada que identifique que a empresa contestante faça parte do chamado grupo econômico da “Harpia”, haja vista que o “Autoposto JVR Ltda” tem a sua administração e direção totalmente independente, NÃO há confusão patrimonial, NÃO possui conexão de negócios com a “Harpia”, NÃO tem origem comum de capital e patrimônio e, por fim, NÃO possui utilização comum de mão de obra. (...) A Fiscalização fez menção a duas supostas movimentações financeiras que envolveriam a empresa contestante, nos valores de R$ 118.000,00 como débito e de R$ 30.000,00 como crédito, mas não indicou qual o mês e tampouco o ano das supostas transações. Tal fato também impede o exercício do direito da ampla defesa e do contraditório, haja vista que a empresa não sabe do que se trata. Mesmo assim, a empresa fez pesquisas em seus extratos bancários nos anos de 2013 e 2014, mas não localizou transações financeiras dos referidos valores com a empresa “Harpia”. Dessa forma, resta totalmente prejudicado o direito de defesa e contraditório da empresa contestante. (...) Fl. 9970DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 16 No caso em tela, o que parecer ocorrer é uma simples presunção de que a empresa contestante poderia fazer parte do grupo econômico, presunção esta que não se faz suficiente para considerá-la pessoalmente como responsável tributário solidário. III-ALESSANDRO SILVA ROMERO-fls.5.544 a .5.559 e GUSTAVO MONTE-fls. 5.571 a 5.586 04. Preliminarmente, cumpre ressaltar que merece ser decretada a nulidade do lançamento tributário, haja vista que a Autoridade Fiscal, em flagrante desrespeito à Constituição Federal, não concedeu vista à Impugnante de todos os documentos anexados no Auto de Infração, cerceando assim o pleno exercício ao direito de defesa e do contraditório. 05. Isso porque, conforme parte final do Relato Fiscal, a Autoridade Fiscal elenca uma série de documentos que estão anexados ao Auto de Infração sem, no entanto, disponibilizá-los à Impugnante, seja por meio físico ou eletrônico (E-CAC), o que impede a Impugnante de se defender integralmente do lançamento tributário. (...) 16. No presente caso, a Autoridade Fiscal responsabilizou solidariamente o Impugnante sob o argumento de que atuou como sócio de várias empresas componentes do lançamento tributário, entre elas a Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA, cuja responsabilidade tributária tem por fundamento os incisos II e III do artigo 135 do Código Tributário Nacional. 17. No entanto, cumpre esclarecer que a Autoridade Fiscal se equivocou neste quesito. Isso porque, apesar dos Senhores Gustavo Monte e Alessandro Silva Romero ainda constarem como sócios da Monte Cabral na base de dados da Receita Federal, eles de fato não são mais sócios da referida pessoa jurídica, senão veja-se. 18. Em 01.06.2012 o Impugnante e o senhor Gustavo Monte firmaram instrumento de venda e compra de fundo de comércio com cessão de cotas sociais e promessa de pagamento da sociedade Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA com o Sr. Mário Camarozano, no qual estabeleceu-se que este pagaria aos senhores Gustavo e Alessandro a quantia total de um milhão de reais através de cinco parcelas mensais e sucessivas de duzentos mil reais, vencendo-se a primeira em 25 de agosto de 2012 e a última em 25 de dezembro de 2012. 19. Durante o período do parcelamento o Impugnante e o senhor Gustavo outorgaram procuração para que o Sr. Mário gerisse o negócio e adquirisse todos os direitos e obrigações inerentes ao cargo de administrador da sociedade. 20. No entanto, o Sr. Mário Camarozano descumpriu a avença, deixando de adimplir as 3 (três) últimas parcelas do acordo, oportunidade em que o Impugnante e o senhor Gustavo ingressaram a com a ação judicial nº 3002755-69.2013.8.26.0428 para requerer o pagamento de R$665.063,64 correspondente às parcelas vencidas, corrigidas monetariamente e incidindo a multa contratual, bem como para o reconhecimento dos atos de gestão pelo Sr. Mário a partir de 01 de junho de 2012, com sua exclusiva responsabilidade. Fl. 9971DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 17 21. Sobrevindo a r. sentença, o Magistrado reconheceu o contrato formulado entre as partes e fixou a responsabilidade civil e criminal do Sr. Mário pela pessoa Jurídica Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA, nos termos da cláusula 8ª do contrato, a partir de 01 de junho de 2012, quando o Sr. Mário adquiriu o estabelecimento comercial. 22. Assim, conforme é possível observar dos fatos acima colacionados, o Impugnante e o senhor Gustavo Monte não são mais sócios da responsável solidária Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA desde 01.06.2012, quando promoveram a cessão das quotas sociais ao Sr. Mário Camarozano. 22. Assim, conforme é possível observar dos fatos acima colacionados, o Impugnante e o senhor Gustavo Monte não são mais sócios da responsável solidária Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA desde 01.06.2012, quando promoveram a cessão das quotas sociais ao Sr. Mário Camarozano. (...) 28. Ora, Nobre Julgador, em nenhum momento a Autoridade Fiscal trouxe elementos que demonstram, cabalmente, a prática de atos com excesso de poder do Impugnante na gestão das pessoas jurídicas componentes do lançamento tributário como responsáveis solidárias. (...) 30. Por fim, insta salientar que a Impugnante anexa, nesta oportunidade, parecer jurídico do notável jurista Paulo de Barros Carvalho, o qual discorre acerca da inexistência de formação de grupo econômico entre as diversas pessoas componentes do lançamento tributário combatido na presente impugnação. 31. No referido parecer o Ilustre Jurista é enfático ao afirmar que “para caracterizar um “grupo econômico”, é preciso que haja uma estrutura societária operada por acordo de acionistas ou participações acionárias”, conforma colação abaixo: (...) 32. Trazendo a citação do Ilustre Jurista ao caso concreto, chegase à conclusão de que inexiste estrutura societária operada por acordo de acionistas ou participações acionárias, cada empresa possui sua personalidade jurídica, atuando de forma totalmente independente uma da outra. 33. Nesse sentido, o Nobre Jurista conclui a questão do grupo econômico afirmando que são requisitos legais para que se configure: “(i) existência de diversas empresas com personalidade jurídica própria, mas (ii) sob direção, controle ou administração de outra, o que, no direito empresarial, recebe o nome de influência dominante”. 34. Sendo assim, imperioso concluir pela inexistência de formação de grupo econômico entre a Impugnante e as demais pessoas jurídicas que compõem o lançamento tributário combatido, sendo medida que se impõe o julgamento de improcedência em relação à Impugnante. (...) Fl. 9972DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 18 41. Como visto, a autoridade fiscal responsabilizou solidariamente este Impugnante, com base no art. 135, III, do CTN, sob o argumento de que o impugnante faz parte de um quadro de “pessoas físicas que atuaram como sócios, sóciosadministradores e responsáveis perante o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ, cuja responsabilidade tributária tem por fundamento os incisos II e III do artigo 135 do Código Tributário Nacional, por constituírem grupo informal de empresas com o propósito deletério do não RECOLHIMENTO DE TRIBUTOS e, desta forma, atuam com excesso de poderes e infração à lei”, bem como pelo suposto interesse comum como representante legal de outras pessoas jurídicas que compõem o lançamento tributário. 42. Entretanto, ficou evidenciado que o Impugnante se retirou do quadro societário da contribuinte Monte Cabral desde 01.06.2012, ou seja, não mais administrou a sociedade empresária a partir dessa data, ficando claro que não praticou qualquer ato com excesso de poderes. (...) 50. Observe-se que o dispositivo legal supratranscrito enuncia de forma clara o efeito proibitivo do confisco tributário. Assim, vale ressaltar que as multas aplicadas à Impugnante no PERCENTUAL DE 150% (cento e cinquenta por cento) são totalmente confiscatórias. (...) 62. No presente caso, merece atenção a impossibilidade de aplicação dos juros de mora sobre a multa de ofício, como acontece no presente caso, em razão da ausência de previsão legal. IV- CENTRO OESTE BRASIL PETRÓLEO LTDA-fls.5598 a 5.625; CENTRO AUTOTMOTIVO DAS MAGNÓLIAS-fls.5.704 a 5.731; AUTO POSTO NOVA SUMARÉ-fls.5.810 a 5.837; CENTRAL ENERGÉTICA BANDEIRANTES-fls. 5.916 a 5.943; CENTRO AUTOMOTIVO PRIME SOROCABA- fls.6.022 a 6.049; FAVACHO IMPAR EMPREENDIMENTOS EIRELI fls. 6.128 a 6.155; AGROPECUÁRIA ÁGUAS CRISTALINAS LTDA-fls.6.234 a 6.261 (...)a Impugnante passa a demonstrar no presente tópico que inexiste formação de grupo econômico com a empresa Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA, uma vez que referidas empresas são independentes entre si, possuindo cada qual sua contabilidade individualmente apurada. 20. Assim, de rigor colacionar o conceito de grupo econômico. Referido conceito encontra- se presente no artigo 265 da Lei nº 6.404/76, segundo qual grupo econômico se caracteriza por a reunião de sociedades, mediante convenção pela qual se obriguem a combinar recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos. (...) 22. Conforme explanado acima, referido conceito não se encaixa na realidade fática da Impugnante e da empresa Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA, uma vez que ambas são independentes entre si, possuindo contabilidade própria e objetivos individuais. Fl. 9973DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 19 24. Nesse sentido, cumpre salientar que a alegação de formação de grupo econômico não pode prosperar, pois a Impugnante possui atividade empresarial independente da empresa Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA, uma vez que possui independência operacional e financeira, faturamento próprio, contratos e movimentação financeira distintos. 25. Sem prejuízo da argumentação explorada no tópico anterior, cumpre ressaltar que a Impugnante exerce suas atividades em endereço diverso da contribuinte Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA. (...) 28. Não bastasse isso, a Impugnante sequer possui identidade societária com a contribuinte Harpia Asset, o que reforça a independência funcional ora alegada. (...) 41. Em outras palavras, não basta que haja um suposto interesse genérico, mas sim um interesse jurídico, no qual há direitos e deveres comuns entre as pessoas situadas em um mesmo lado da relação jurídica que constitua o fato gerador da obrigação tributária. (...) 45. Portanto, o entendimento predominante da doutrina especializada, do Superior Tribunal de Justiça – STJ e, principalmente, do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) é de que somente é possível sustentar a responsabilidade solidária por interesse comum (art. 124, I do CTN) nos lançamentos fiscais se a Autoridade Fiscal demonstrar que os sujeitos passivos praticaram conjuntamente o fato gerador ou desfrutaram de seus resultados em caso de fraude. (...) 50. Partindo para o caso concreto, podemos dizer que a impugnante não possui interesse comum no fato gerador supostamente praticado pela empresa autuada, uma vez que possui personalidade jurídica própria, ou seja, não praticou qualquer ingerência na administração societária da empresa Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA. (...) 52. Ainda no quesito responsabilidade, merece atenção o fato de que a impugnante não praticou o fato gerador da obrigação tributária aqui discutida. (...) 54. A jurisprudência do STJ - Superior Tribunal de Justiça, bem como do CARF - Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, já se manifestaram que para a responsabilização solidária é necessário que as partes realizem o fato gerador em conjunto, ou ainda que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador 56. Nesse sentido, em razão da ausência da realização do fato gerador em conjunto com a contribuinte Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA, bem Fl. 9974DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 20 como da inexistência de provas nesse sentido, o lançamento deve ser julgado improcedente em relação ao devedor solidário, ora impugnante. (...) 64. Nesse sentido, resta aqui demonstrada a violação ao princípio da tipicidade, pois a autoridade fiscal imputou responsabilidade solidária inexistente à luz do Código Tributário Nacional, tendo em vista que o elemento “interesse comum” presente no art. 124, I, indispensável à responsabilização solidária, não ocorreu no presente caso. (...) 67. Por fim, cumpre salientar que a Impugnante possui independência financeira, comercial, negocial e contábil, não havendo que se falar, novamente, em responsabilidade solidária pelo inadimplemento provocado pela contribuinte Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a Pagar e a Receber LTDA. (...) 71. Por fim, como forma de robustecer os argumentos explorados nos tópicos anteriores no que tange a ausência de interesse comum no fato gerador praticado pela contribuinte Harpia Asset, cumpre enaltecer o fato da Impugnante não possuir identidade societária com a contribuinte Harpia Asset. 72. Conforme demonstra o Comprovante de Inscrição e Situação Cadastral da empresa Harpia Asset, ela possui como sócios as empresas Ton Energy Investimentos, Participações e Agronegócios LTDA, AF Investimentos e Participações LTDA, e o Senhor Jose Roberto Monte, ao passo que a Impugnante possui como sócio os Senhores Gustavo Monte e Alessandro Silva Romero. 73. Portanto, mais uma vez a impugnante reforça a necessidade do lançamento tributário ora combatido ser julgado improcedente em relação a si, o que se requer desde já. V-ASPEN DISTRIBUIDORA DE COMBUSTÍVEIS-fls.6.340 a 6.385; MRX LOGÍSTICA E TRANSPORTES-fls.6.484 a 6.530; TON ENERGY INVESTIMENTOS-fls.6.651 a 6.688 e AF INVESTIMENTOS E PARTICIPAÇÕES-fls.6.701 a 6.738. 14. Neste caso concreto, a Impugnante só teve acesso aos Autos de Infração e ao Termo de Constatação, sequer lhe foi franqueado acesso ao indispensável Termo de Sujeição Passiva Solidária. 15. Sob esse aspecto, é flagrante a violação do art. 9º do Decreto nº 70.235/72 e a nulidade do procedimento por cerceamento do direito de defesa em relação à Impugnante, pois ela não recebeu a notificação formal de que havia sido responsabilizada pela dívida tributária de outrem e sequer teve acesso aos documentos que supostamente seriam as provas das acusações constantes do Termo de Constatação. 16. Sem ter acesso ao conteúdo do Termo de Sujeição Passiva Solidária não é possível conhecer a motivação que a Fiscalização utilizou para justificar que a existência de um grupo econômico de fato caracteriza o interesse comum mencionado na lei. (...) Fl. 9975DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 21 18. Muito mais grave ainda, também não pode a Impugnante se defender adequadamente porque não teve acesso às supostas provas carreadas aos autos pela Fiscalização, seja porque não lhe foram entregues, seja porque não lhe foi disponibilizado acesso ao processo por meio do portal e-CAC. 19. Com efeito, nem se contraponha o argumento de que a Impugnante poderia ter obtido o Termo de Ciência de Responsabilidade Tributária via e-CAC.Isso porque o e-CAC, até a data de 22 de dezembro, não dava acesso à integra do processo aos responsáveis solidários, conforme comprova o “print” da tela abaixo, onde não se verifica em lugar algum a possibilidade de acessar a íntegra do presente processo: (...) 21. Após vários dias de infrutíferas tentativas de acessar o processo via eCAC, a Impugnante logrou êxito apenas em 23 de dezembro, ocasião em que o D. Auditor-Fiscal, após o término do procedimento fiscalizatório e intimação da Impugnante para apresentação de Impugnação, continuou a manipular o processo e a anexar documentos e informações que deveriam instruir a autuação, causando não apenas outro vício insanável por cerceamento de defesa, como levantando sérias dúvidas acerca da forma como o trabalho de fiscalização foi efetuado. (...) 23. Ocorre que, para a surpresa da Impugnante, após vários dias de ter sido intimada do lançamento, praticamente na véspera de Natal, dia 23 de dezembro, a Fiscalização anexou aos autos o “arquivo não paginável” de fl. 713, como se verifica do termo de anexação anexo e do print abaixo: (...) 25. Além disso, também anexou aos autos o “TERMO DE CIÊNCIA DE LANÇAMENTOS E ENCERRAMENTO TOTAL DO PROCEDIMENTO FISCAL – RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA” de todos os solidários (fls. 714/797), que até então não se tinha notícia, mas que são indispensáveis à regular formalização de lançamento em relação aos solidários. (...) 77. A Fiscalização também não dedicou uma só linha no Termo de Constatação para explicitar no que se consubstanciaria o interesse comum, mencionado no art. 124, I, do CTN. Também não ficou claro o motivo pelo qual a Impugnante foi responsabilizada. (...) 80. Como se vê, não é possível, a partir dos textos do Termo de Constatação e do demonstrativo de responsáveis solidários, que a Impugnante saiba o motivo pelo qual foi responsabilizada, isto é, não é possível saber qual é a motivação jurídica do suposto “interesse comum”. (...) Fl. 9976DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 22 82. Ora, o fato de a Impugnante pertencer a um grupo econômico, ainda que isso tivesse sido provado nos autos, não denota qualquer conduta fraudulenta ou prova qualquer tipo de “interesse comum”, que, repita-se, jamais foi qualificado juridicamente. (...) E como única prova dessa infundada alegação, menciona a decisão proferida pelo STJ no Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699, que teria decidido no sentido de que o tal grupo econômico de fato realmente existe e que foi criado com o propósito de sonegar tributos. Entretanto, a leitura do inteiro teor dessa decisão do STJ revela que nada do que foi alegado pela Fiscalização é verdadeiro, como será visto mais adiante. (...) 98. É fora de dúvida que o Tribunal competente para fixar a interpretação do direito federal definiu entendimento no sentido de que o interesse jurídico comum que autoriza a responsabilização com base no art. 124, I, do CTN, só existe entre sujeitos que estão no mesmo polo da relação jurídica de direito privado, que tenha sido eleita pela norma jurídica tributária como hipótese de incidência do tributo. (...) 106. É entendimento unânime, portanto, que somente é possível atribuir a solidariedade por interesse comum nas hipóteses em que o sujeito já é contribuinte daquela obrigação, em razão da natureza do tributo, por este (tributo) comportar a existência de duas ou mais pessoas coobrigadas. A solidariedade, repita-se, somente é imputada a contribuintes (aqueles que possuem relação pessoal e direta com a situação que constitua o fato gerador)! 107. No presente caso, a Fiscalização não apresentou uma única prova de qual seria o “interesse comum” da Impugnante nos supostos fatos geradores praticados pela HARPIA, exceto a existência do “grupo informal”, que não serve para fundamentar a solidariedade tributária. (...) 109. Além disso, a Impugnante está em recuperação judicial e já não tem mais qualquer ingerência sobre os seus recursos financeiros, a menos que a Fiscalização tenha entendido que os credores, o administrador judicial e o Juiz de Direito do processo de recuperação judicial também sejam parte do tal “grupo informal”. 110. Diante disso, uma vez demonstrado que apenas o interesse jurídico, calcado na prática conjunta do fato gerador do tributo, autoriza a imputação de solidariedade com base no art. 124, inc. I, do CTN e que não se evidencia o interesse jurídico em lugar algum do presente processo, como demonstrado, deve ser afastada a atribuição de solidariedade à Impugnante. (...) 113. A leitura desses excertos do Termo de Constatação permite vislumbrar que os elementos que a Fiscalização considerou essenciais para a caracterização do grupo Fl. 9977DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 23 econômico foram (i) a vinculação gerencial e (ii) a suposta confusão societária e patrimonial, em razão da transferência de recursos entre as empresas. 114. Contudo, deve ser afastada a tentativa do D. AuditorFiscal de atribuir solidariedade à Impugnante sob a alegação de “grupo econômico”, seja porque a legislação tributária não tem tal instituto, seja porque os fatos alegados não têm natureza fraudulenta, sendo comuns em todos os grupos empresariais do Brasil, o que não pode justificar a atribuição de solidariedade com base no art. 124, inc. I, do CTN. (...) 117. A definição do que se considera “grupo econômico de fato” foi feita por norma jurídica infralegal, o art. 494 da IN SRF nº 971/2009, que, segundo seu pretensioso preâmbulo, “Dispõe sobre normas gerais de tributação previdenciária...”. Dizse que a Administração Tributária foi pretensiosa porque à luz do art. 146, III, da CF/887, somente a União, por meio de lei complementar, pode dispor sobre normas gerais em matéria tributária. (...) 20. Repita-se: não existe lei estabelecendo que empresas que possuam unidade de comando, suposta confusão patrimonial e atuação complementar, são responsáveis solidárias pelas dívidas tributárias umas das outras. E se existisse, essa seria uma hipótese, em tese, de solidariedade legal (art. 124, II) e não de solidariedade factual (por interesse comum no fato gerador - art. 124, I). (...) 123. Portanto, o mero benefício econômico, que sequer está provado nos presentes autos, não é causa suficiente à configuração de solidariedade com fundamento no art. 124, inc. I, do CTN. 124. O Termo de Constatação aponta, ainda, fatos corriqueiros do dia a dia de qualquer empresa, como, por exemplo, o de uma mesma pessoa física administrar duas ou mais empresas, ou a existência de procurações para gestão de negócios, como sendo prova indiciária da prática de sonegação ou de um suposto “interesse”. (...) 128. Isso porque a decisão no Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699, foi proferida no âmbito de uma Medida Cautelar Fiscal, cujo objeto não é a declaração da existência ou inexistência de uma relação jurídica, mas sim tornar os bens das pessoas físicas e jurídicas executadas indisponíveis, de modo a garantir a satisfação de suas dívidas tributárias ao final da execução. 129. Desse modo, é evidente que no âmbito da Cautelar Fiscal, não pode ter havido decisão transitada em julgado quanto à “existência de um grupo econômico de fato destinado a sonegar tributos”, como alegado pelo Ilustre Auditor-Fiscal. Trata-se de pura e simples mentira, que deveria ser apurada. 130. A Fiscalização tentou usar uma decisão incidental no âmbito de uma Cautelar Fiscal como uma espécie de atestado de má conduta permanente da Impugnante e dos demais Fl. 9978DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 24 autuados, pois nem se deu ao trabalho de informar quais os fatos geradores abrangidos pela Execução Fiscal e nem qual o número do processo de execução. Toda e qualquer decisão no âmbito da Cautelar Fiscal ou no âmbito da Execução Fiscal diz respeito aos fatos geradores objeto da Execução e não pode ser estendida indefinidamente a fatos geradores futuros, como pretendeu a Fiscalização em seu Termo de Constatação. (...) 137. Independentemente disso, é importante ressaltar que as multas exigidas nos autos de infração lavrados contra a Empresa não podem ser imputadas por solidariedade. 138. Isso porque, como é cediço, as multas de ofício imputadas (caso prevaleçam) possuem caráter personalíssimo, não podendo ser cobradas do responsável ou solidário (Impugnante). Nesse sentido, somente o agente da infração tributária, em se confirmando as acusações, poderá ser apenado com a cobrança da multa de ofício. (...) 141. Com base no já mencionado princípio da personalidade ou da pessoalidade da pena – advindo do Direito Penal e positivado como cláusula pétrea na Constituição Federal11 – segundo o qual ninguém pode ser punido por fato alheio, não se pode admitir que a Impugnante seja apenada por suposta falta cometida por outrem. De fato, muitas foram as contribuições do Direito Penal para o Direito Tributário (e deste para aquele – v.g. os crimes contra a ordem tributária), de modo que a aplicação de seus princípios em âmbito fiscal – regida por ramo didático do Direito Tributário conhecido como Direito Tributário Penal – é plenamente admitida pela doutrina e pela jurisprudência. (...) 148. Em verdade, pela análise das normas contidas nos dispositivos transcritos anteriormente, não há como negar que as multas exigidas não são atingidas pelo instituto da solidariedade, de modo que jamais poderá a Impugnante ser cobrada de tais quantias, razão pela qual deverá essa D. DRJ determinar o cancelamento do Termo de Sujeição Passiva Solidária. VI-MONTE CABRAL DISTRIBUIDORA-fls.6457 a 6468 Isso porque, o Recurso Especial citado (1.345.699/SP) trata-se requerimento de inconformismo ajuizado por Alessandro Silva Romero contra decisão de medida liminar que indisponibilizou seus bens em medida cautelar fiscal (0000305-39.2015.8.26.0428), tratando apenas de questionamento a respeito da sua concessão. Veja que o processo principal, que pede a vinculação do grupo econômico sequer foi sentenciado, ou seja, não há qualquer reconhecimento judicial como faz crer a fiscalização, o que se demonstra pela juntada do extrato do processo de origem. Dessa forma, a decisão em questão não tem qualquer referência a formação do grupo econômico e, sequer se tem decisão definitiva (transitada em julgado) sobre o tema conforme demonstrado. Outro argumento que também não merece prosperar, refere-se as transferências de valores entre a impugnante e a devedora principal (HARPIA), que na verdade, decorrem Fl. 9979DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 25 de serviço contratado pela impugnante para administração de pagamento e recebimentos de terceiros. Veja que a devedora principal (HARPIA) é empresa dedicada ao serviço de gestão de contas a pagar e receber, com a qual a impugnante (MONTE CABRAL) realizou negócio jurídico válido para administração dos seus recebíveis e pagamento. Tal negócio jurídico foi registrado por contrato entre as partes, que se encontra juntado as fls. 122/130, sendo apresentado pela própria fiscalizada quando da execução dos serviços de auditoria, constando ainda diversos contratos com outras empresas que prestam o mesmo serviço. Assim, as transferências em questão nada mais são que disponibilização de pagamentos e recebimentos realizados com a devedora principal para o cumprimento de contrato de administração e gestão de contas a pagar e receber. Nesse ponto, veja que a fiscalização menciona que não considera prestação do serviço em questão ante a falta de comprovante do ocorrido, no entanto, a impugnante, cumprindo os termos do próprio contrato firmado, repassava as documentações diretamente a empresa HARPIA, que detinha a responsabilidade de guarda dos documentos (Clausula 2.1): (...) Todos os documentos (notas fiscais e comprovantes) ficavam sobre guarda da devedora principal. No entanto e, devido ao tempo das operações a impugnante vem unindo esforços para resgatar tais documentos e apresentar a estes autos. VI- JOSÉ ROBERTO MONTE-fls.6.606 a 6.638 48. Como se vê, a Fiscalização enquadrou a responsabilização do Impugnante no art. 135, II e III, do CTN, que exige não só a comprovação da prática de um ato com excesso de poderes, infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos, mas também o dolo específico do agente e o nexo de causalidade entre o ato praticado e a falta de recolhimento de tributo. 49. Contudo, a Fiscalização não diz qual foi o suposto ato praticado com excesso de poderes, infração à lei, ao contrato social e aos estatutos. Ela também não diz qual lei ou dispositivo do contrato social teriam sido violados. Tampouco diz no que consistiu o excesso de poder. Em momento algum se preocupou em demonstrar e provar o dolo e o nexo de causalidade entre a conduta e o resultado. 50. Não é possível, a partir dos textos do Termo de Constatação e do demonstrativo de responsáveis solidários, que o Impugnante saiba a motivação jurídica da sua responsabilização. Ao que tudo indica ele foi responsabilizado com base no art. 135 do CTN apenas pelo fato de ser o sócio com poderes de gestão. 51. Sequer a fundamentação legal auxilia nessa identificação, já que os incisos II e III do art. 135 do CTN englobam inúmeras pessoas e atos diferentes e a Fiscalização não se deu ao trabalho de indicar qual deles fundamentaria a responsabilidade do Impugnante. Fl. 9980DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 26 52. Ao longo de todo discurso apresentado para impor a responsabilidade pessoal pelo crédito tributário ao Impugnante, a Fiscalização diz que ele seria o responsável pela criação de um suposto grupo econômico de fato, destinado a sonegar impostos; diz que ele é sócio-administrador de várias empresas integrantes desse grupo; e disse também que tudo isso teria sido confirmado pelo STJ em decisão judicial transitada em julgado. (...) 62. Ou seja, além de entender que o mero inadimplemento do tributo não gera a responsabilidade tributária, o STJ rejeita a teoria de responsabilização objetiva dos administradores de sociedades com base no artigo 135, III, do CTN. Rejeita, também, a teoria da responsabilidade subjetiva com culpa presumida dos administradores, pois exige a prova do ato ilícito para a configuração fática da hipótese prevista no artigo 135, III, do CTN. (...) 66. Portanto, a aplicação da regra de responsabilização do artigo 135, II e III, do CTN tem como pressuposto inicial a prática de um ato ilícito não tributário ou a infração de contrato ou estatuto social. 67. O segundo requisito, a vinculação da obrigação jurídicotributária ao ato ilícito não tributário, é, na verdade, uma consequência do primeiro: do ato ilícito não tributário deve nascer uma obrigação jurídica tributária. (...) 75. Entretanto, em momento algum a Fiscalização demonstrou (muito menos provou) quais atos o Impugnante teria praticado com excesso de poderes, fraude a lei ou contrato social e, muito menos, qual a relação dessas condutas com a suposta falta de pagamento de tributos. 76. Também não houve qualquer indicação de quais dispositivos legais ou contratuais teriam sido supostamente fraudados pelo Impugnante. 77. Ora, a mera alegação de que o Impugnante e as demais pessoas físicas e jurídicas autuadas faziam parte de um grupo econômico não é suficiente para atribuir responsabilidade solidária, com base no art. 135, como demonstrado à exaustão. 78. Ante todo o exposto, resta claro que a Fiscalização não conseguiu comprovar que o Impugnante se enquadra nas disposições do art. 135, incisos II e III do CTN, motivo pelo qual deve esta C. Turma Julgadora, também por este motivo, excluí-lo do polo passivo deste processo. (...) 80. A leitura desses excertos do Termo de Constatação permite vislumbrar que os elementos que a Fiscalização considerou essenciais para a caracterização do grupo econômico foram (i) a vinculação gerencial e (ii) a suposta confusão societária e patrimonial, em razão da transferência de recursos entre as empresas. Fl. 9981DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 27 81. Contudo, deve ser afastada a tentativa do D. AuditorFiscal de atribuir solidariedade ao Impugnante sob a alegação de “grupo econômico”, seja porque a legislação tributária não tem tal instituto; seja porque o fato de o Impugnante ser o controlador de várias empresas não tem qualquer natureza fraudulenta, sendo comum em todos os grupos empresariais do Brasil; seja porque a mera transferência de recursos entre as empresas não caracteriza nenhuma confusão patrimonial. Tais fatos não podem justificar a atribuição de solidariedade com base no art. 135, III, do CTN. 82. Na verdade, o Impugnante conta atualmente 83 anos de idade e está há dez anos afastado da direção dos negócios, em face de sérios problemas de saúde que começaram a se agravar a partir de 2008/2009, conforme comprovam os relatórios e atestados médicos anexos (DOC. 02). Sendo assim, seu próprio estado de saúde denota que ele não praticou nenhum ato doloso que seja passível de enquadramento no art. 135, II e III, do CTN. (...) 88. Repita-se: não existe lei estabelecendo que empresas que possuam unidade de comando, suposta confusão patrimonial e atuação complementar, são responsáveis solidárias pelas dívidas tributárias umas das outras. E se existisse, essa seria uma hipótese de solidariedade legal (art. 124, II) e não de responsabilidade pessoal com base no art. 135, II e III, do CTN. (...) 91. Ocorre que após baixar da internet a íntegra do Acórdão proferido no Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699, o Impugnante constatou que a citação dessa decisão não passou de mais uma tentativa de a Fiscalização legitimar suas falsas presunções. 92. Isso porque a decisão no Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699, foi proferida no âmbito de uma Medida Cautelar Fiscal, cujo objeto não é a declaração da existência ou inexistência de uma relação jurídica, mas sim tornar os bens das pessoas físicas e jurídicas executadas indisponíveis, de modo a garantir a satisfação de suas dívidas tributárias ao final da execução. 93. Desse modo, é evidente que no âmbito da Cautelar Fiscal, não pode ter havido decisão transitada em julgado quanto à “existência de um grupo econômico de fato destinado a sonegar tributos”, como alegado pelo Ilustre Auditor-Fiscal. Trata-se de pura e simples mentira, que deveria ser apurada. 94. A Fiscalização tentou usar uma decisão incidental no âmbito de uma Cautelar Fiscal como uma espécie de atestado de má conduta permanente do Impugnante e dos demais autuados, pois nem se deu ao trabalho de informar quais os fatos geradores abrangidos pela Execução Fiscal e nem qual o número do processo de execução.Toda e qualquer decisão no âmbito da Cautelar Fiscal ou no âmbito da Execução Fiscal diz respeito aos fatos geradores objeto da Execução e não pode ser estendida indefinidamente a fatos geradores futuros, como pretendeu a Fiscalização em seu Termo de Constatação. VII-MARIO CAMAROZANO-fls. 6.749 a 6.760 Fl. 9982DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 28 No relatório fiscal alega-se que a empresa da qual o impugnante é administrador faria parte de um grupo econômico criado para “blindagem da riqueza acumulada através dos esquemas de sonegação fiscal e concorrência desleal". E continua narrando, que o Sr. MARIO CAMAROZANO, integraria o núcleo controlador desse agrupamento empresarial. Ocorre que no momento de individualizar a conduta do impugnante, para demonstrar a suposta prática de atos com excesso de poder, ou então a infração de lei, contrato social, ou estatutos, a fiscalização simplesmente alega que a "formação do grupo econômico" já teria transitado em julgado, por meio do Agravo em REsp no 1.345.699/SP e que a falta de apresentação dos documentos solicitados justificaria o lançamento do crédito tributário. Evidente que tais fatos não dão ensejo as condutas tipificadas no art. 135 do CTN, para permitir corresponsabilização do impugnante. E isso porque, por primeiro, a dita formação de grupo econômico ainda não transitou em julgado, vez que essa questão está sendo tratada em sede de Ação Cautelar Fiscal', que desde 20 de janeiro de 2015 tramita perante o foro do Setor de Execuções Fiscais do Foro da Comarca de Paulínia!! O recurso que transitou em julgado, e que é usado pelo Fisco Nacional, como fundamento para, e pretexto para corresponsabilização deste contribuinte é, na verdade, um agravo de instrumento ajuizado pelo Sr. ALESSANDRO SILVA ROMERO, onde busca reverter a decisão concedida em caráter liminar, na ação que tramita perante o foro de Paulínia. Portanto, o que transitou em julgado foi a "validação", sé é que podemos assim dizer, da liminar concedida a 05 (cinco) anos atrás, para indisponibilização dos bens, das partes incluídas na cautelar fiscal. (...) Em todo o Relatório Fiscal, poucas vezes são citados o nome do impugnante, tanto é que a Fazenda não faz prova de que, na gestão da devedora principal, o Sr. MARIO tenha agido com excesso de poder, ou então em infração a lei. E, nesse último aspecto, é importante esclarecer que a mera irregularidade na forma de atuação do empresário, não dá ensejo a sua responsabilização, vez que a "infração" mencionada pelo legislador, decorre de algo muito mais grave que, para que seja constatado, faz-se necessária a demonstração de seu dolo específico, em um procedimento com acesso ao contraditório e a ampla defesa. (...) Desse modo, considerando que a Autoridade Autuante não logrou êxito em comprovar a prática de qualquer ato ilícito ou com abuso de poderes por parte do impugnante, fica afastada qualquer tipo de responsabilidade do mesmo pelo pagamento do tributo, se devido, pela devedora principal. No caso do art. 135, inciso III, a hipótese de incidência Fl. 9983DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 29 (extraída do próprio dispositivo legal) é a insuficiência ou o não pagamento da obrigação principal pelo contribuinte, resultante de atos praticados, pelos responsáveis, com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Ocorre que, conforme ja alegado, o relatório que segue o auto de infração, bem como a documentação acostada, não demonstrou esse indispensável "interesse comum" na situação que constitua o fato gerador do ICMS. Fora de situações como tal, assim como ocorre no caso presente, não há fundamento que respalde a aplicação de responsabilidade solidária do titular da pessoa jurídica autuada, sendo necessária a sua exclusão do polo passivo do presente auto, vez que ao Fisco não compete, simplesmente presumir a ocorrência das infrações, ensejando o lançamento, de forma imotivada, sem sua subsunção à norma hipotética, expressamente descrita na hipótese de incidência tributária. DAS DILIGÊNCIAS 8-Na data de 05/06/2020, emiti o Despacho de Diligência nº 46/2020 (fls.6.779 a 6.781) a fim de que a Unidade de origem esclarecesse alguns pontos: a) Informação quanto à localização, no processo administrativo, dos extratos bancários, em formato “pdf”, obtidos mediante Requisição Movimentação Financeira. Em caso de não anexação, requeiro que sejam anexados. b) O fiscal autuante informa que os valores componentes da base de cálculo do auto de infração estão individualizados na intimação de fls.433 a 509. Tais valores foram compulsados de quais extratos bancários? Deverá ser indicada a localização individual deles no processo, ou providenciada anexação. c) Há diversos valores na mencionada intimação que indicam como histórico “Resgate Mercado Aberto”, “Transferência On Line”, “Transf CC para CC PJ”, entre outros históricos que indicam a possibilidade de transferências entre contas de mesma titularidade. Deverá ser informado se foi feita a conciliação bancária dos extratos a fim da verificação de transferências entre contas de mesma titularidade e resgates de aplicações financeiras. d) Há na intimação, dois valores referentes à saída de numerário. Deverá ser informado se tais valores compõem a base de cálculo do auto de infração. Também deverá ser indicada a localização individual no processo dos extratos que contém esse lançamentos, ou providenciada anexação: e) Os valores detectados pela fiscalização, decorrentes de transferências de recursos entre a fiscalizada e as pessoas físicas e jurídicas componentes do grupo “informal" não contém informação de data, nem estão discriminados de forma individual. Também não foi esclarecido se compõem a base de cálculo do auto de infração. Assim sendo, requisito o esclarecimento de como foi feita a verificação no sentido de tratar-se de transferências entre pessoas do mesmo grupo, informação quanto à composição ou não da base de Fl. 9984DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 30 cálculo do auto de infração e elaboração de planilhas, indicando as datas e valores individuais das transferências. f) Após os esclarecimentos e providências constantes das letras (a) a (e), deverá ser elaborada planilha com os dados de contas bancárias individualizados (diários), componentes da base de cálculo do auto de infração. g) Esclarecimento a respeito do trânsito em julgado do Recurso Especial nº 1.345.699-SP e seu teor. h) Juntada da decisão de primeira instância que reconheceu a existência de grupo de empresas i) Cientificar a Contribuinte sobre o resultado da diligência, concedendo-lhe o prazo de 30 (trinta) dias para que se manifeste, nos termos do artigo 29, do Decreto n° 70.235, de 1972. j) Deverá ser aguardado o prazo de manifestação da contribuinte. Caso apresentada, deverá ser juntada ao processo. Após essas providências, devolver o presente processo a essa DRJ/SDR, para que seja dado prosseguimento ao julgamento. 9-O resultado da referida diligência consta das fls. 7.852 a 7.856, datada de 22/03/2021, onde é informado, pela Autoridade Fiscal Diligenciante, que: Na presente ação fiscal foram trabalhados os extratos bancários encaminhados pelas instituições financeiras intervenientes, Banco do Brasil e Bradesco, em atendimento às RMFs – Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira, fls. 152 a 157, contendo os assentamentos relativos às seguintes contas correntes: Após análise individualizada dos créditos, desconsiderando-se as transferências de outras contas da própria pessoa jurídica, conforme o inciso I, do § 3º, do artigo 42 da Lei nº 9.430/96, as mídias foram destruídas e lavrado o Termo de Destruição de Documentos. Quanto aos extratos, por se tratar de elementos de prova, essenciais à caracterização das infrações tributárias constatadas, foram anexadas neste processo administrativo de constituição do crédito tributário pelo TERMO DE ANEXAÇÃO DE ARQUIVO NÃO PAGINÁVEL, fls. 713, todavia, anexamos neste ato os documentos em “pdf”, fls.xxx, conforme determinação da DRJ/SDR em sua decisão Portanto, atendendo à determinação da 1ª Turma da DRJ/SDR, informo que os extratos bancários podem ser prontamente localizados neste processo administrativo como arquivo não paginável, anexados quando da formalização deste processo administrativo e em “pdf” anexados neste ato, fls. 6787/7766. 2-) HISTÓRICOS INDICADORES DE TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS DE MESMA TITULARIDADE – Item “c” do Despacho da DRJ/SDR Neste processo administrativo o crédito tributário foi constituído tomando-se como base os depósitos bancários de origem não comprovada, como resultado da análise Fl. 9985DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 31 individualizada dos lançamentos nas contas correntes, com a prévia exclusão dos créditos cuja origem pudesse ser aferida nos próprios documentos bancários, tais como valores provenientes de transferência entre contas do contribuinte, depósitos vinculados a operações de empréstimos obtidos na própria instituição financeira depositária dos recursos ou depósitos de cheques devolvidos e estornos, conforme determinação contida no § 5º, artigo 42, Lei nº 9.430/96 e legislação complementar. Os lançamentos que se enquadram nos critérios legalmente estabelecidos foram devidamente excluídos, permanecendo a presunção de omissão de receitas sobre os demais lançamentos representativos de créditos na movimentação financeira do contribuinte que, devidamente intimado a comprovar a origem tributada, isenta, não tributada ou tributada exclusivamente na fonte, fls. 433/434, não deu qualquer atendimento. Cabendo observar que esta conduta de desdenhar da Fiscalização foi a estratégia adotada pelo contribuinte ao longo de toda a ação fiscal, cabendo ainda observar que nenhum documento comprobatório da origem tributada, ou não, de suas operações bancárias encontra-se acostado à impugnação apresentada, fls. 6533/6589. Por outro lado, observe-se que o contribuinte não transmitiu ao SPED – Sistema Público de Escrituração Digital a sua ECD – Escrituração Contábil Digital contendo os assentamentos contábeis de acordo com a legislação comercial e fiscal, nem a sua ECF- Escrituração Fiscal Digital, contendo os assentamentos do Livro Caixa, uma vez que optou pela tributação pelo lucro presumido. Escrituração essa que deveria conter toda movimentação financeira, inclusiva a bancária. Apoiado, apenas, nos extratos bancários, esta Fiscalização não encontrou os elementos que legalmente permitissem aferir a origem tributada, isenta, não tributada ou tributada exclusivamente na fonte, dos créditos cujos lançamentos contenham os seguintes históricos: “Resgate do Mercado Aberto”, “Transferência On Line”, “Transf CC para CC PJ”, ressaltando mais uma vez que o contribuinte foi devidamente intimado a comprovar a origem tributada, isenta, não tributada ou tributada exclusivamente na fonte, dos créditos, fls. 433/434, com a relação individualizada dos respectivos lançamentos às fls. 436/509. Outrossim, o contribuinte não deu qualquer atendimento. 3-) VALORES INDEVIDAMENTE COMPUTADOS NA BASE DE CÁCULO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO – Item “d” do Despacho da DRJ/SDR. O fato de a autoridade julgadora ter encontrado lançamentos a débito, representativo de saídas de recursos, como créditos, entradas de recursos, ensejou o confronto entre os créditos das contas correntes bancárias e os extratos anexados ao processo como arquivos não pagináveis, tendo sido constatado que estão relacionados 3(três) lançamentos cujos valores estão a débito e, portanto, não se enquadram no conceito de receitas. Por esta razão proponho, salvo melhor juízo, a exclusão da base de cálculo do crédito tributário constituído os valores a seguir: Fl. 9986DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 32 (...) 4-) DO GRUPO INFORMAL DE EMPRESAS – Item “e” do Despacho da DRJ/SDR. Inicialmente, convém ressaltar que o crédito tributário foi constituído tomando-se como base de cálculo os créditos efetuados nas contas correntes bancárias mantidas pelo contribuinte nas instituições financeiras intervenientes, no Banco do Brasil e no Bradesco, no período compreendido entre 1º de outubro de 2013 e 31 de dezembro de 2014, após as exclusões legalmente permitidas, conforme demonstrado nos itens anteriores. Desta forma, o demonstrativo contendo as transferências de recursos entre as pessoas físicas e jurídicas, tem por objetivo ilustrar as relações societárias e a movimentação de recursos financeiros entre os integrantes desse grupo informal constituído por pessoas físicas e jurídicas, com o propósito do não cumprimento de obrigações tributárias, quer obrigações acessórias, quer obrigações principais. Pelo Demonstrativo das Relações Societárias, fls. 7767/7768, elaborado a partir da responsabilidade tributária atribuída aos integrantes desse grupo informal, conforme Termo de Constatação Fiscal, constata-se o entrelaçamento de pessoas físicas e jurídicas na formação do quadro societário das pessoas jurídicas, comprovando a afirmação contida na decisão do Superior Tribunal de Justiça – STJ, nos autos do Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699-SP: “composição societária repetida e revezada existente entre as empresas”. Outrossim, o Demonstrativo dos Valores Declarados em DCTF e Pagos, fls. 7769, evidencia o propósito deliberado dos integrantes desse grupo de não cumprimento de obrigações tributárias, uma vez que os impostos e contribuições declarados e recolhidos no período abrangido pela Fiscalização, revelam-se incipientes, sendo recorrente a não apresentação dos DCTFs à Receita Federal, CONFORME Demonstrativo de Débitos em DCTF, fls. 7770/7777. Além do mais o montante dos recursos movimentados pelo fiscalizado, no período fiscalizado de 1º de outubro de 2013 a 31 de dezembro de 2014, no montante acima de R$ 289.412,700,52, sem qualquer tributação, tanto pelo titular das contas correntes bancárias, como pelos demais integrantes desse grupo informal que, para se eximirem de suas responsabilidades tributárias individuais, canalizaram substancial montante de recursos financeiro para abastecer o Caixa da fiscalizada, acobertado o não cumprimento das obrigações tributárias sob o manto da gerência de contas a receber e a pagar. 5-) PLANILHA COM LANÇAMENTOS INDIVIDUALIZADOS – Item “f” do Despacho da DRJ/SDR. Como resultado do tratamento dado aos lançamentos individualizados constantes dos extratos das contas correntes bancárias que embasaram a constituição do crédito tributário, elaborou-se a planilha denominada DEMONSTRATIVO DOS CRÉDITOS EM CONTASCORRENTES BANCÁRIAS, fls. 7778/7851, na qual estão discriminados todos os lançamentos que, conforme determina o “caput” do artigo 287 do Decreto nº 3.000/99 - Regulamento do Imposto de Renda, vigente à época da ocorrência dos fatos geradores correspondentes, por se caracterizarem como omissão de receita, (...). 6-) DO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL nº 1.345.699-SP Fl. 9987DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 33 O Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699-SP, fls. 335/341, no qual o Ministro OG Fernandes do Superior Tribunal de Justiça – STJ, reconheceu a existência de grupo informal de empresas, encontra-se definitivamente baixado para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo – TJSP, com trânsito em julgado em 14 de fevereiro de 2019, fls. 342. As buscas realizadas nos sítios de pesquisa processual do STJ e do TJSP, revelaramse infrutíferas diante da informação de que o referido processo tramitou sob segredo de justiça, uma vez que a ação judicial teve origem em Medida Cautelar Fiscal que, por necessidade de segurança, tramitam amparadas em segredo de justiça. Desta forma, ficam prejudicadas as determinações da DRJ/SDR, tanto sobre o trânsito em julgado como sobre a petição inicial. Todavia, dado o caráter apenas ilustrativo do referido acórdão, diante da impossibilidade judicialmente determinada do acesso ao conteúdo das peças processuais não invalida a circunstância de que, efetivamente, estamos diante de um grupo de empresas, grupo esse constituído com o propósito do não recolhimento à Fazenda Pública dos impostos e contribuições incidentes sobre suas operações econômicas. 10-As interessadas foram devidamente cientificadas do resultado da diligência. Alegam questões idênticas à já levantadas nas impugnações. Bem de se observar, entretanto, que os arquivos não pagináveis não são os extratos, mas arquivos em formato TXT que aparentemente podem ter sido elaborados a partir das informações dos extratos. A falta dos documentos originais (PDF dos próprios extratos) para base de comparação impede que se certifique de que os TXT foram compilados a partir das informações fornecidas pelos bancos. (...) Por mais que se saliente que os lançamentos foram realizados com base legal, a falta dos PDF dos extratos bancários induz que a resposta fica prejudicada, assim como o próprio lançamento que deixa de ter o anteparo documental mais básico. (...) Em essência, esse questionamento também deixou de ser respondido. No termo de diligência as afirmações que não atendem o ponto central da dúvida da Relatoria: em se tratando de empresas componentes de um "grupo econômico informal", o levantamento não buscou identificar operações entre tais empresas que devessem ser excluídas da base de cálculo por não representar ingresso de valores tributáveis. (...) Apesar da alegação da Auditoria de que o processo corre em segredo, em consulta à página do Superior Tribunal de Justiça é possível verificar que o AREsp 1.345.699/SP, transitou em julgado no dia 14/02/2019 conforme afirmado (extrato anexo). (...) Fl. 9988DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 34 A conclusão é que o caso chegou ao STJ em recurso dos particulares que tentava discutir uma decisão liminar, conferida em Ação Cautelar Fiscal, que aplicou algum efeito sobre outras empresas e pessoas físicas que não a devedora. Repare-se: decisão liminar é aquela conferida em cognição sumária, diferente da cognição exauriente que se faz em uma sentença em que são analisados todos os elementos de prova produzidos ao longo da instrução. E decisão singular do STJ não entrou na análise do acerto ou não da liminar o que importaria (segundo o sentir do Ministro Relator) em revolver aspectos de prova, o que não é permitido em recurso especial. Em síntese: não há decisão judicial em cognição exauriente que tenha reconhecido "grupo econômico de fato", como leitura da manifestação da Auditoria poderia levar a concluir. 11-DO SEGUNDO DESPACHO DE DILIGÊNCIA Nº 27/2022, DE 23/09/2022; fls.9.072 a 9.075: 4-No Despacho de Diligência de nº 46/2020, de 05/06/2020, dentre outras providências, na letra (c), foram requeridos os seguintes esclarecimentos: Há diversos valores na mencionada intimação que indicam como histórico “Resgate Mercado Aberto”, “Transferência On Line”, “Transf CC para CC PJ", entre outros históricos que indicam a possibilidade de transferências entre contas de mesma titularidade. Deverá ser informado se foi feita a conciliação bancária dos extratos a fim da verificação de transferências entre contas de mesma titularidade e resgates de aplicações financeiras. 5-Em resposta à diligência, foi esclarecido que: Neste processo administrativo o crédito tributário foi constituído tomando-se como base os depósitos bancários de origem não comprovada, como resultado da análise individualizada dos lançamentos nas contas correntes, com a prévia exclusão dos créditos cuja origem pudesse ser aferida nos próprios documentos bancários, tais como valores provenientes de transferência entre contas do contribuinte, depósitos vinculados a operações de empréstimos obtidos na própria instituição financeira depositária dos recursos ou depósitos de cheques devolvidos e estornos, conforme determinação contida no § 5º, artigo 42, Lei nº 9.430/96 e legislação complementar. Os lançamentos que se enquadram nos critérios legalmente estabelecidos foram devidamente excluídos, permanecendo a presunção de omissão de receitas sobre os demais lançamentos representativos de créditos na movimentação financeira do contribuinte que, devidamente intimado a comprovar a origem tributada, isenta, não tributada ou tributada exclusivamente na fonte, fls. 433/434, não deu qualquer atendimento. Cabendo observar que esta conduta de desdenhar da Fiscalização foi a estratégia adotada pelo contribuinte ao longo de toda a ação fiscal, cabendo ainda observar que nenhum documento comprobatório da origem tributada, ou não, de suas operações bancárias encontra-se acostado à impugnação apresentada, fls.6533/6589. 6-Contudo, as impugnantes mencionam alguns exemplos de históricos bancários, sobre os quais requeiro que o fiscal autuante se expresse de modo específico: Fl. 9989DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 35 7-Também foi solicitado o seguinte esclarecimento: d) Há na intimação, dois valores referentes à saída de numerário. Deverá ser informado se tais valores compõem a base de cálculo do auto de infração. 8-Em resposta à diligência, o fiscal autuante assim se manifestou: O fato de a autoridade julgadora ter encontrado lançamentos a débito, representativo de saídas de recursos, como créditos, entradas de recursos, ensejou o confronto entre os créditos das contas correntes bancárias e os extratos anexados ao processo como arquivos não pagináveis, tendo sido constatado que estão relacionados 3 (três) lançamentos cujos valores estão a débito e, portanto, não se enquadra, no conceito de receitas. Por esta razão proponho, salvo melhor juízo, a exclusão da base de cálculo do crédito tributário constituído, os valores a seguir: 9-Assim, requeiro as seguintes providências: I- Manifestação quanto aos históricos bancários listados no item (6) do presente despacho. Fl. 9990DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 36 II- Em caso de algum deles referir-se a valores não tributáveis deverá haver novo confronto entre os créditos das contas correntes bancárias e os extratos anexados ao processo como arquivos não pagináveis. III- Exclusão da base de cálculo e nova quantificação do crédito tributário, dos valores constantes do item (8) desse despacho. IV- Em havendo outros valores a serem excluídos da base de cálculo, decorrentes da verificação constante no quesito II supra, que seja feita a devida exclusão e nova quantificação do crédito tributário. V- Ciência à impugnante e abertura de prazo de trinta dias para sua manifestação. DA RESPOSTA À SEGUNDA DILIGÊNCIA 12-A Resposta à diligência acima reproduzida, consta das fls.9.083 a 9.092. Nela, foi recalculado o lançamento de ofício, que será objeto de análise no decorrer do Voto. Seguem seus principais pontos: Os créditos com histórico de “desbloqueio de depósito”, salvo melhor juízo, devem ser mantidos na base de cálculo do auto de infração pois representam entrada de recurso de origem não comprovada. Salientamos que não está ocorrendo lançamento em duplicidade desses créditos pois, quando o depósito é efetuado, não é gerado crédito na conta bancária nem no extrato bancário e, por esse motivo, os referidos créditos somente são incluídos no auto de infração no momento em que ocorre o “desbloqueio do depósito”. (...) Os créditos com histórico de “RESGATE BB CDB DI” são referentes ao resgate de aplicações financeiras da própria empresa e, salvo melhor juízo, devem ser excluídos do da base de cálculo do auto de infração pois não representam entrada de recurso de origem não comprovada. (...) Os créditos bancários com histórico “DEPOS ENTRE AGS DINHEIRO”, salvo melhor juízo, devem ser mantidos na base de cálculo do auto de infração pois, conforme respostas a questionamento efetuado ao banco Bradesco (vide fls 9077 à 9082), os referidos créditos representam depósitos em espécie efetuados na conta bancária da empresa, caracterizando entrada de recurso de origem não comprovada. (...) Os créditos com histórico “RESGATE MERCADO ABERTO”, salvo melhor juízo, devem ser excluídos da base de cálculo do auto de infração pois, conforme respostas a questionamento efetuado ao banco Bradesco (vide fls 9077 à 9082), os referidos créditos são referentes ao resgate de aplicações financeiras da própria empresa e não representam entrada de recurso de origem não comprovada. Fl. 9991DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 37 13-A contribuinte e responsáveis foram devidamente cientificados. Somente a contribuinte, ciência em 06/09/2023 (fl.9.302), trouxe argumentos novos (fls. 9.310 a 9.313), juntados, na data de 09/10/2023: O que o Termo de Diligência não responde é se, na composição da base de cálculo dos depósitos de origem não comprovada, promoveu a exclusão dos depósitos bloqueados de forma que os valores não apareçam duplicados. (...) propõe a manutenção dos lançamentos com o histórico "DEPOS ENTRE AGS DINHEIRO" sustentando – com base em resposta fornecida pela instituição financeira – que os referidos créditos representam depósitos em espécie efetuados na conta bancária da empresa, caracterizando entrada de recurso de origem não comprovada. Entretando essa situação não exclui a possibilidade de os depósitos terem sido efetuados pela própria parte/correntista, o que caracterizaria uma das hipóteses em que os valores não devem compor a base de cálculo para fins do art. 42 da Lei n. 9.430/96. (...) A intimação encaminhada ao contribuinte (fls. 433/434) com a relação dos créditos sobre os quais se pedia esclarecimento foi acompanhada de uma compilação denominada "Demonstrativo dos Créditos em Contas Correntes Bancárias" (fls. 436/509) que não foi separada por instituição financeira ou conta, na qual os lançamentos foram organizados por data, enumerando operações entre 01 de outubro de 2013 a 31 de dezembro de 2014. É o relatório.” A DRJ05 julgou procedente em parte as impugnações, nos termos que seguem: “(...) I- Excluir a atribuição de responsabilidade de solidária de Mário Camarozano (CPF: 833.837.868-20), Siqueira Ferreira Monte Advogados (CNPJ:04.821.921/0001-76) e Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte (CPF: 149.019.768-00). II- Manter a atribuição de responsabilidade solidária às pessoas físicas: José Roberto Monte. CPF: 034.186.976-74; Gustavo Monte. CPF: 150.821.468-90 e Alessandro Silva Romero. CPF: 178.897.338-01. III- Manter a atribuição de responsabilidade solidária às pessoas jurídicas: Aspen Distribuidora de Combustíveis Ltda-CNPJ:01.382.912/0001-38; Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis Ltda-CNPJ: 04.138.529/0001-27; AF Investimentos e Participações Ltda- CNPJ: 06.206.008/0001-95; Ton Energy Invest, Part e Agronegócios Ltda-CNPJ: 07.245.496/0001-02;Destilaria Nova Era Ltda-CNPJ: 07.736.245/0001-20; Aleser Comércio de Derivados de Petróleo Ltda-CNPJ: 01.382.911/0001-93; Agropecuária Águas Cristalinas Ltda-CNPJ: 05.071.538/0001-00; Mrx Logística e Transportes Ltda-CNPJ: 00.137.970/0001- 33; Favacho Impar Empreendimentos Imobiliários Eireli-CNPJ: 13.858.412/0001-09; Centro Automotivo Prime de Sorocaba Ltda-CNPJ: 12.812.570/0001-65; Auto Posto JVR Ltda- CNPJ: 08.534.659/0001-30; Auto Posto Nova Sumaré Ltda-CNPJ: 02.728.062/0001-40; Fl. 9992DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 38 Centro Oeste Brasil Petróleo Ltda-CNPJ: 07.115.453/0001-02; Centro Automotivo das Magnólias Ltda-CNPJ: 05.829.420/0001-07; Central Energética Bandeirantes Ltda-CNPJ: 08.842.644/0001-39. IV- Exonerar, em face do reconhecimento de decadência, o lançamento de ofício da Cofins e do PIS, relativo aos períodos de apuração dos meses de outubro e novembro, do ano- calendário de 2013. V- Excluir da base de cálculo dos autos de infração os lançamentos bancários com históricos “RESGATE BB CDB DI” e “RESGATE MERCADO ABERTO, da ordem de R$ 3.735.405,65, constando a relação individualizada, nas fls.9.085 a 9.087. VI- Excluir da base de cálculo os valores abaixo discriminados: VII- Reduzir o percentual da multa aplicada de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento). VIII- Manter os juros, proporcionalmente aos valores mantidos do auto de infração. Os valores mantidos do auto de infração constam de tabelas anexadas à Conclusão desse Acórdão. Uma vez que houve afastamento de atribuição de responsabilidade solidária, em auto de infração superior a R$ 15.000.000,00, submeta-se esta decisão à apreciação do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, e Portaria MF nº 2, de 17 de janeiro de 2023, por força de recurso necessário.” RECURSOS VOLUNTÁRIOS A Contribuinte e Responsáveis Tributários apresentaram recursos voluntários, individual ou coletivamente, sustentando, em linhas gerais: Preliminar de nulidade da autuação por cerceamento de defesa, notadamente pela ausência de disponibilização tempestiva dos documentos obtidos via RMF, e pela suposta destruição das provas originais, afrontando o art. 9º do Decreto nº 70.235/72 e o art. 5º, II, “c”, do Decreto nº 3.724/01; Preliminar de decadência, com base no art. 150, § 4º, do CTN, defendendo que houve pagamentos parciais e, portanto, inaplicável o art. 173, I; Ausência de interesse comum nos termos do art. 124, I, do CTN, afirmando que a existência de relações contratuais ou coincidências societárias não é suficiente para Fl. 9993DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 39 configurar solidariedade, conforme entendimento doutrinário (Paulo de Barros Carvalho, Hugo de Brito Machado) e jurisprudencial (STJ e CARF); Inexistência de grupo econômico de fato, por falta de prova de controle comum, confusão patrimonial ou comunhão de negócios; Inexistência de dolo ou fraude, como condição para o afastamento do prazo decadencial de 5 anos, e para qualificação da multa; As recorrentes requerem, ao final, a exclusão de sua responsabilidade tributária, com o consequente cancelamento do crédito constituído em relação a cada qual, com base na ausência de prova do liame jurídico-tributário com os fatos geradores discutidos no lançamento. É o relatório. VOTO Conselheira Eduarda Lacerda Kanieski, Relatora 1 DA ADMISSIBILIDADE a) Recursos Voluntários Compulsando os autos, verifico que a ciência e interposição dos recursos se deram nas seguintes datas: NOME DA PARTE MODALIDADE DE CIÊNCIA DATA DA CIÊNCIA DATA DO RECURSO TEMPESTIVIDADE HARPIA ASSET ASSESSORIA NA GESTÃO DE CONTAS A PAGAR E A RECEBER LTDA via postal (AR YA262543254BR) 27/08/2024 (e-fls. 9508) 25/09/2024 (e-fls. 9877) SIM ASPEN DISTRIBUIDORA DE COMBUSTÍVEIS LTDA DTE 15/08/2024 (e-fls. 9489) 16/09/2024 (e-fls. 9797) SIM CENTRO AUTOMOTIVO DAS MAGNOLIAS LTDA DTE 15/08/2024 (e-fls. 9490) 29/08/2024 (e-fls. 9551) SIM GUSTAVO MONTE DTE 15/08/2024 (e-fls. 29/08/2024 (e-fls. SIM Fl. 9994DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 40 9491) 9581) MONTE CABRAL DISTRIBUIDORA DE COMBUSTÍVEIS LTDA DTE 15/08/2024 (e-fls. 9492) 15/09/2024 (e-fls. 9781) SIM AF INVESTIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA DTE 16/08/2024 (e-fls. 9493) 16/09/2024 (e-fls. 9845) SIM CENTRO OESTE BRASIL PETRÓLEO LTDA DTE 16/08/2024 (e-fls. 9494) 29/08/2024 (e-fls. 9707) SIM DESTILARIA NOVA ERA LTDA DTE 19/08/2024 (e-fls. 9495) 18/09/2024 (e-fls. 9861) SIM SIQUEIRA FERREIRA MONTE S.I. ADVOCACIA DTE 19/08/2024 (e-fls. 9496) Não apresentou recurso voluntário - AUTO POSTO NOVA SUMARÉ LTDA DTE 20/08/2024 (e-fls. 9502) 29/08/2024 (e-fls. 9521) SIM CENTRO AUTOMOTIVO PRIME DE SOROCABA LTDA DTE 20/08/2024 (e-fls. 9503) 30/08/2024 (e-fls. 9737) SIM ALESSANDRO SILVA ROMERO via AR 28/08/2024 (e-fls. 9513) 29/08/2024 (e-fls. 9599) SIM CENTRAL ENERGÉTICA BANDEIRANTES LTDA via AR Tentativa (e-fls. 9518) 29/08/2024 (e-fls. 9617) SIM FAVACHO IMPAR EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA via AR Tentativa (e-fls. 9509) 29/08/2024 (e-fls. 9647) SIM AGROPECUÁRIA ÁGUAS CRISTALINAS LTDA Via Edital nº 034499106 22/10/2024 (e-fls. 9921) 29/08/2024 (e-fls. 9677) SIM MRX LOGÍSTICA E TRANSPORTES LTDA via edital eletrônico 22/10/2024 (e-fls. 9922) 19/11/2024 (e-fls. 9945) SIM TON ENERGY INVESTIMENTOS, PARTICIPAÇÕES E AGRO-NEGÓCIOS LTDA DTE 30/08/2024 (e-fls. 9511) 28/09/2024 (e-fls. 9905) SIM ALESER COMÉRCIO DE DERIVADOS DE PETRÓLEO LTDA via edital eletrônico nº 033324290, ciência em 30/08/2024 (e-fls. 9479) 30/08/2024 (e-fls. 9479) não localizado termo de recurso - AUTO POSTO JVR LTDA DTE (mensagem caixa postal), ciência em 29/08/2024 (e-fls. 9507) 29/08/2024 (e-fls. 9507) 03/09/2024 (e-fls. 9767) SIM JOSÉ ROBERTO MONTE via AR, ciência em 20/09/2024 (e-fls. 9506) 20/09/2024 (e-fls. 9506) 24/09/2024 (e-fls. 9934) SIM Outrossim, verifico a regularidade da representação processual, eis que os Recursos Voluntários foram apresentados por advogados regularmente constituídos por procuração. Presentes os pressupostos de admissibilidade extrínsecos e intrínsecos, quais sejam, tempestividade, regularidade formal, legitimidade, interesse recursal e competência deste Colegiado para apreciação da matéria, conheço dos Recursos Voluntários. b) Recursos de Ofício O Recurso de Ofício foi interposto em razão de a r. decisão recorrida, proferida pela Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil – DRJ05, haver exonerado parcialmente o Fl. 9995DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 41 crédito tributário constituído, bem como afastado a atribuição de responsabilidade solidária de Mário Camarozano, Siqueira Ferreira Monte Advogados e Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte. A exoneração alcançou o montante total de R$ 12.352.979,56, correspondente a R$ 4.084.316,51, a título de principal, e R$ 8.268.663,05, a título de multa, conforme demonstrativos de débitos de e-fls. 9457/9459, mantendo-se o crédito tributário no valor global de R$ 89.792.166,76, relativos aos tributos IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, referentes aos anos-calendário de 2013 e 2014. Nos termos do art. 34, inciso I, do Decreto nº 70.235, de 1972, e considerando o limite atualmente vigente de R$ 15.000.000,00, fixado pela Portaria MF nº 2, de 2023, verifica-se que o valor do auto de infração, bem como o afastamento da sujeição passiva solidária em lançamento superior ao referido patamar, supera o piso legal para a interposição do reexame necessário. Assim, presentes os pressupostos objetivos de admissibilidade, conheço do Recurso de Ofício. 2 DAS PRELIMINARES DE NULIDADE 2.1 DESTRUIÇÃO DE MÍDIAS E FORMATO DOS ARQUIVOS Os Recorrentes arguem a nulidade do lançamento por cerceamento de defesa e vício material, sustentando que a Fiscalização teria procedido à destruição dos arquivos (CDs) contendo os extratos bancários fornecidos pelas instituições financeiras, antes mesmo de sua anexação aos autos. Alegam, ainda, que os arquivos digitais disponibilizados (formato ".txt") divergem do leiaute previsto na Carta-Circular BACEN nº 3.454/2010 (contendo 13 colunas ao invés de 14), o que comprometeria a higidez da prova. A preliminar não merece acolhimento. Fl. 9996DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 42 A destruição de arquivos magnéticos originais não constitui supressão de provas, mas estrito cumprimento de norma de segurança que visa preservar o sigilo das informações bancárias do Contribuinte, prevista no art. 9 da Portaria RFB nº 2.047/2014, verbis: Art. 9º No caso de recebimento de informações em arquivos magnéticos, e após encerrado o procedimento de fiscalização, o Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil responsável pela conservação e utilização desses arquivos procederá à sua destruição, por processo lógico ou físico que impossibilite sua recuperação, e as registrará em termo próprio. Nesses termos, após a digitalização dos arquivos para inclusão no sistema e- processo, o Auditor-Fiscal tem o dever funcional de destruir as mídias físicas para evitar o vazamento de sigilo bancário. Tal procedimento foi devidamente documentado no Termo de Destruição de Informações Bancárias acostado às e-fls. 510. Quanto ao formato dos arquivos, a alegação é inócua. A Carta-Circular BACEN nº 3.454/2010 citada pelos Recorrentes vinculam as instituições financeiras na prestação de informações, e não a Administração Tributária na instrução processual. O essencial é que os dados (data, histórico e valor) estejam inteligíveis e preservados para permitir o contraditório, o que foi integralmente atendido. Por tais razões, rejeita-se a preliminar de nulidade suscitada. 2.2 DA NULIDADE POR AUSÊNCIA DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA Os Recorrentes sustentam a nulidade do lançamento sob o argumento de que a Fiscalização não teria individualizado, de forma específica, as condutas atribuídas a cada corresponsável, limitando-se a imputações genéricas, fundadas em presunções de participação em grupo econômico, sem demonstração concreta de atos próprios ou de interesse comum na situação que constituiu o fato gerador. As alegações não procedem. A exigência de individualização de condutas, tal como formulada pelos Recorrentes, é característica das hipóteses de responsabilização pessoal por infração, previstas no art. 135 do Fl. 9997DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 43 Código Tributário Nacional, nas quais se impõe a demonstração de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos. Tal lógica, contudo, não se confunde com o regime jurídico da responsabilidade solidária por interesse comum, disciplinado no art. 124, inciso I, do CTN, cujo teor dispõe: Código Tributário Nacional Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; (...) Com efeito, a alegação de ausência de individualização de condutas não configura vício formal do lançamento, mas matéria que se confunde com o mérito da responsabilização solidária, a ser apreciada oportunamente, não se prestando a ensejar nulidade por cerceamento de defesa. Acrescente-se, ademais, que o contraditório foi regularmente assegurado, tendo os Recorrentes sido devidamente intimados dos atos praticados, das diligências realizadas e dos fundamentos do lançamento, com ampla oportunidade de manifestação, devidamente apreciada no Acórdão recorrido. Pelo exposto, rejeita-se a preliminar de nulidade suscitada. 2.3 DA NULIDADE POR CERCEAMENTO DE DEFESA. SUPOSTA INSUFICIÊNCIA DAS DILIGÊNCIAS O Contribuinte suscita nulidade da decisão de primeira instância por cerceamento do direito de defesa, ao argumento de que, embora a autoridade julgadora de piso tenha convertido o feito em diligência, os esclarecimentos prestados pela fiscalização não teriam sido suficientes para sanar as dúvidas relativas à natureza dos depósitos bancários utilizados como base de cálculo do lançamento, persistindo obscuridade quanto à caracterização dos valores como receita própria. Fl. 9998DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 44 A preliminar não merece acolhimento. Compulsando-se os autos, verifica-se que o julgamento foi convertido em diligência por duas vezes, o que evidencia o zelo da Autoridade Julgadora de piso na busca da verdade material e no exaurimento da instrução probatória. Em atendimento às determinações formuladas, a autoridade fiscal prestou esclarecimentos adicionais acerca dos critérios adotados para a apuração da base de cálculo, promovendo, inclusive, a exclusão de valores referentes a resgates de aplicações financeiras e a transferências entre contas de mesma titularidade, medidas expressamente consignadas no acórdão recorrido. O fato de a Recorrente discordar das conclusões alcançadas pela fiscalização ou de considerar os esclarecimentos prestados como “insuficientes”, por não se alinharem à sua tese defensiva, não configura cerceamento de defesa. O contraditório foi regularmente assegurado, tendo a devedora principal sido intimada dos resultados das diligências realizadas e apresentado suas manifestações, as quais foram devidamente apreciadas e enfrentadas pela autoridade julgadora de primeira instância. Não se verifica, portanto, qualquer prejuízo ao exercício do direito de defesa, inexistindo nulidade a ser reconhecida. 2.4 ALEGAÇÃO DE VÍCIO NA UTILIZAÇÃO DE PROVA EMPRESTADA Os Recorrentes questionam a utilização de provas oriundas da Medida Cautelar Fiscal e do Agravo em Recurso Especial nº 1.345.699/SP (STJ), alegando que não participaram daquele feito ou que a decisão não transitou em julgado quanto ao mérito do "grupo econômico". A preliminar não merece acolhimento. No caso, a decisão do STJ foi utilizada como elemento complementar de prova documental que atestou, judicialmente, a existência de “direção e controle comum entre as pessoas jurídicas e físicas envolvidas, bem como a ocorrência de confusão patrimonial”. Fl. 9999DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 45 A decisão da DRJ foi cirúrgica ao pontuar que o reconhecimento judicial da existência de estrutura engendrada para sonegação fiscal, ainda que formulado no contexto de medida cautelar, constitui indício qualificado, que, somado aos demais elementos constantes dos autos — notadamente o fluxo financeiro sem causa econômica aparente —, autoriza a atribuição da responsabilidade solidária. No caso, não se verifica utilização de prova emprestada em sentido técnico, mas sim o emprego de elementos indiciários obtidos no exercício regular da atividade fiscal, tais como dados cadastrais, informações bancárias obtidas por meio legal e referências a decisões judiciais e administrativas relacionadas ao mesmo contexto fático, todos eles integralmente incorporados aos autos e submetidos ao contraditório, desde a fase de impugnação. Ressalte-se que o contraditório, no processo administrativo fiscal, incide sobre os elementos constantes dos autos, e não sobre o procedimento de obtenção da informação em outro feito. Uma vez trasladados os elementos e oportunizada a manifestação da parte, como ocorreu no caso concreto, inexiste vício de instrução ou ofensa às garantias processuais. Diante do exposto, rejeito a preliminar de nulidade neste ponto. 2.5 DA ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E RESERVA DE JURISDIÇÃO Os Recorrentes suscitam a inconstitucionalidade da atribuição de responsabilidade solidária no âmbito administrativo, ao argumento de que tal providência exigiria, previamente, a desconsideração da personalidade jurídica pela via judicial, em observância à chamada reserva de jurisdição, sustentando ofensa ao art. 50 do Código Civil. O apelo não merece prosperar. A responsabilidade solidária por interesse comum, prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional, constitui instituto próprio do Direito Tributário, dotado de disciplina e pressupostos específicos, autônomos em relação ao regime civil da desconsideração da personalidade jurídica. Enquanto esta última pressupõe a superação episódica da autonomia Fl. 10000DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 46 patrimonial da pessoa jurídica, nos termos do art. 50 do Código Civil, aquela decorre diretamente da lei tributária e se fundamenta na participação objetiva dos sujeitos passivos na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária. Não se trata, portanto, de afastar ou desconsiderar a personalidade jurídica, mas de reconhecer a pluralidade de sujeitos passivos da obrigação tributária, tal como expressamente autorizado pelo legislador tributário. Nessa perspectiva, a atribuição de responsabilidade solidária não implica invasão do patrimônio de terceiros estranhos à relação jurídico-tributária, mas, ao contrário, pressupõe o reconhecimento de que tais sujeitos integram a própria relação obrigacional, na forma do art. 121, parágrafo único, inciso II, do CTN. A atuação da autoridade administrativa, ao identificar e imputar a responsabilidade solidária, decorre do estrito cumprimento do dever legal de constituição do crédito tributário, nos termos do art. 142 do CTN, não se subordinando à prévia manifestação do Poder Judiciário. Inexiste, portanto, qualquer exigência de reserva de jurisdição para o reconhecimento da solidariedade tributária, instituto cuja aplicação se insere no âmbito da competência administrativa de lançamento. De todo modo, na parte em que os Recorrentes pretendem ver reconhecida a inconstitucionalidade da legislação tributária aplicada, a arguição não pode ser conhecida no âmbito deste Conselho, por vedação expressa da Súmula CARF nº 2: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. Diante disso, rejeita-se a preliminar de nulidade. 2.6 DECADÊNCIA. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, §4º DO CTN Os Recorrentes suscitam preliminar de decadência parcial do crédito tributário, sustentando, em síntese, que o lançamento somente teria sido formalizado em 28/11/2019, com ciência em 27/12/2019, razão pela qual estariam fulminados pelo decurso do prazo decadencial os fatos geradores relativos ao quarto trimestre do ano-calendário de 2013 e aos três primeiros Fl. 10001DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 47 trimestres de 2014, no que se refere ao IRPJ e à CSLL, bem como os fatos geradores mensais do PIS e da COFINS anteriores a 31/12/2014. Argumentam, ainda, que teria havido pagamento parcial dos tributos objeto da autuação, conforme demonstrativo elaborado pela própria Fiscalização (fls. 431/432), circunstância que atrairia a aplicação do art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional, afastando-se a regra do art. 173, inciso I, do mesmo diploma legal. Sustentam, por fim, a inexistência de dolo, fraude ou simulação e defendem interpretação segundo a qual o termo “exercício”, constante do art. 173 do CTN, deveria ser compreendido como período de apuração do tributo, e não como ano-calendário. A preliminar não merece acolhimento, ressalvada a decadência parcial já reconhecida na instância a quo. Inicialmente, cumpre registrar que a autoridade julgadora de primeira instância examinou detidamente a matéria, inclusive mediante a realização de diligência junto aos sistemas informatizados da Administração Tributária, com o objetivo de verificar a existência de declarações apresentadas e de recolhimentos efetuados relativamente aos tributos lançados. Consoante expressamente consignado no acórdão recorrido, o demonstrativo invocado pelos Recorrentes refere-se exclusivamente a retenções na fonte (códigos 0561, 1708 e 5952), decorrentes de pagamentos efetuados a assalariados e a terceiros, não se confundindo, portanto, com pagamentos antecipados ou confissões de débitos próprios de IRPJ, CSLL, PIS ou COFINS da pessoa jurídica autuada. Assim, restou apurado de forma inequívoca que: (i) não houve transmissão de DCTF relativas aos períodos de apuração de outubro e novembro de 2013; (ii) as DCTF transmitidas no período de dezembro de 2013 a dezembro de 2014 não contêm confissão de débitos referentes aos tributos ora em discussão; e Fl. 10002DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 48 (iii) inexistem recolhimentos de IRPJ, CSLL, PIS ou COFINS, limitando-se os valores identificados a tributos retidos na fonte. Diante desse contexto fático, não se verifica a ocorrência de pagamento antecipado ou de confissão de débito apta a atrair a incidência do art. 150, § 4º, do CTN. Ao revés, cuida-se de hipótese em que inexistiu qualquer antecipação do tributo devido, impondo-se a aplicação da regra geral de decadência prevista no art. 173, inciso I, do Código Tributário Nacional, conforme entendimento pacífico no âmbito do contencioso administrativo. Acrescente-se que a própria decisão de primeira instância consignou a presença de dolo, conforme descrito no Termo de Representação Fiscal para fins penais, circunstância que, por si só, reforça a inaplicabilidade do art. 150, § 4º, do CTN, nos termos da Súmula CARF nº 72, segundo a qual, caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. No que se refere ao IRPJ e à CSLL, cuja apuração é trimestral, os fatos geradores relativos ao quarto trimestre do ano-calendário de 2013 ocorreram em 31/12/2013. Nessas condições, o lançamento poderia ter sido efetuado a partir de 1º de janeiro de 2014, iniciando-se o prazo decadencial em 01/01/2015, com termo final em 31/12/2019. Considerando que a ciência do auto de infração ocorreu em 27/12/2019, não há que se falar em decadência quanto a esses tributos. Diversa, contudo, é a situação dos lançamentos relativos ao PIS e à COFINS dos meses de outubro e novembro de 2013. Nesses casos, os fatos geradores ocorreram antes de 31/12/2013, de modo que o prazo decadencial iniciou-se em 01/01/2014, encerrando-se em 31/12/2018, razão pela qual tais exigências já se encontravam fulminadas quando da ciência do lançamento em dezembro de 2019, conforme já reconhecido em primeira instância. Portanto, nenhum reparo ao v. Acórdão recorrido quanto a este ponto. Fl. 10003DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 49 3 DO MÉRITO 3.1 VERDADE MATERIAL NO PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL E LIMITES OBJETIVOS DO DEVER INSTRUTÓRIO No mérito, os Recorrentes sustentam que o lançamento estaria viciado por afronta ao princípio da verdade material, ao argumento de que a Fiscalização e a Autoridade Julgadora de primeira instância teriam se limitado à aplicação automática da presunção prevista no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, sem promover investigação suficiente acerca da efetiva natureza dos depósitos bancários que fundamentaram a autuação. Alegam, ainda, que teria havido indevida transferência do ônus probatório ao contribuinte, com a exigência de comprovação da origem dos recursos sem que o Fisco houvesse previamente demonstrado a caracterização de receitas tributáveis, o que, em seu entender, configuraria cerceamento do direito de defesa e violação ao dever instrutório da Administração Tributária. Pois bem. É certo que o processo administrativo fiscal orienta-se pelo princípio da verdade material. Tal diretriz, contudo, não possui caráter absoluto, nem implica a transferência automática ao Fisco da incumbência de produzir prova que se encontra, por sua própria natureza, na esfera de disponibilidade exclusiva do contribuinte. No caso concreto, a narrativa fiscal, corroborada pelos documentos acostados aos autos, evidencia a realização de sucessivas intimações para apresentação de extratos bancários, contratos, escrituração contábil e Livro Caixa. Diante da inércia dos Recorrentes em apresentar documentação hábil e idônea apta a comprovar a origem dos recursos, a Fiscalização agiu em estrito cumprimento do dever legal, ao aplicar a presunção prevista no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Não houve, portanto, “inversão indevida” do ônus da prova, mas a aplicação da regra legal de distribuição do ônus probatório própria do lançamento de ofício fundado em depósitos bancários de origem não comprovada. A lei estabelece presunção legal relativa (juris Fl. 10004DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 50 tantum) de omissão de receitas, de modo que, uma vez demonstrada pelo Fisco a existência dos créditos bancários — fato indiciário —, incumbe ao contribuinte comprovar a origem não tributável dos recursos, como fato impeditivo do direito da Fazenda Pública. Dito de outro modo, identificada pela autoridade fiscal a existência de depósitos bancários de origem não comprovada, revela-se legítima a atribuição ao contribuinte do ônus de demonstrar, mediante documentação hábil e idônea, a origem não tributável dos valores creditados. Nesse mesmo sentido, a autoridade julgadora de primeira instância fundamentou a rejeição das alegações deduzidas neste ponto, conforme se extrai do seguinte excerto do acórdão recorrido: “(...) 64-A relação de causalidade, entre os créditos/depósitos e a infração imputada, é estabelecida pela própria lei, tratando-se de presunção legal relativa, juris tantum, o que torna lícita a inversão do ônus da prova e a consequente exigência atribuída ao contribuinte de demonstrar que tais valores não são provenientes de receitas omitidas, mediante comprovação hábil e idônea da origem de tais créditos/depósitos em conta bancária. 65-Cabe exclusivamente à contribuinte demonstrar a exata correlação entre cada valor depositado em sua conta bancária e a correspondente origem do recurso, fato não demonstrado. 66-Deste modo, ocorrendo os dois antecedentes da norma: créditos em conta e a não comprovação da origem quando o contribuinte tiver sido intimado a fazê-lo, o consequente é a presunção da omissão. 67-A caracterização da ocorrência do fato gerador do imposto de renda não se dá pela mera constatação de um crédito bancário, considerado isoladamente. Pelo contrário, a caracterização está ligada à falta de esclarecimentos da origem dos numerários creditados, conforme descrição literal do art. 42 da Lei n° 9.430/96. 68-Portanto, existe uma relação mútua e lógica entre o fato conhecido – ser beneficiado por um crédito bancário sem origem – e o fato desconhecido – auferir receitas. Essa correlação autoriza plenamente o estabelecimento da presunção legal de que o dinheiro surgido na conta bancária, sem justificativa, provém de rendimentos/receitas não declarados. 69-A criação de presunções legais em nosso sistema jurídico tem fundamento previsto no Código de Processo Civil, decorrente do art. 374, da Lei nº 13.105/2015 (Novo Código de Processo Civil-CPC) ao dispor que: Art. 374. Não dependem de prova os fatos: Fl. 10005DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 51 I - notórios; II - afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária; III - admitidos no processo como incontroversos; IV - em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade. (grifei) 70-Portanto, ao contrário do que postula a impugnante, não há necessidade de comprovação de utilização dos valores depositados como renda consumida, a evidenciar sinais exteriores de riqueza, ou comprovação de disponibilidade econômica em favor do contribuinte, já que a Lei n° 9.430/96, através do seu art. 42, caracteriza como omissão de receitas, valores creditados em conta de depósito ou de investimento, quando não comprovado mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. A partir dessa prescrição legal, os valores mantidos em conta de depósito, sem comprovação de sua origem, passaram a ser receitas presumidas. 71-Rejeito as alegações da interessada.” (grifos e destaques no original) Tendo em vista o acerto da fundamentação utilizada pela Autoridade Julgadora de piso, nego provimento às alegações recursais neste ponto. 3.2 DAS ALEGAÇÕES EM FACE DO ARBITRAMENTO DO LUCRO Superada a validade da presunção legal de omissão de receitas, os Recorrentes passam a reiterar, em sede recursal, as alegações já deduzidas na impugnação quanto à metodologia adotada para o arbitramento do lucro. Nesse sentido, sustentam que as receitas apuradas pela Fiscalização não se caracterizariam como “receita conhecida”, o que inviabilizaria a utilização desse critério de apuração. Alegam, ainda, que o arbitramento assumiria natureza sancionatória, razão pela qual seria inaplicável ao caso concreto. As alegações não merecem acolhimento. O arbitramento do lucro, embora constitua critério excepcional de apuração da base de cálculo, revela-se imperativo nas hipóteses em que a escrituração contábil se mostra inexistente, imprestável ou insuficiente para a correta determinação do resultado tributável, nos exatos termos da legislação de regência. Fl. 10006DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 52 No caso concreto, resta assente que os valores creditados nas contas bancárias da contribuinte, não justificados nem regularmente escriturados, configuram receita bruta conhecida, apta a servir de base para o arbitramento do lucro, afastando-se, assim, a tese recursal de inexistência de base segura para a apuração. Compulsando os autos, verifica-se, ainda, que a contribuinte não apresentou escrituração comercial e fiscal, tampouco manteve Livro Caixa com o registro integral de sua movimentação financeira, inclusive bancária, em descumprimento ao disposto no parágrafo único do art. 45 da Lei nº 8.981, de 1995. Cumpre registrar que, ainda que optante pelo regime do lucro presumido, a pessoa jurídica não se exime do dever de manter escrituração contábil regular ou, alternativamente, Livro Caixa, no qual deve constar toda a sua movimentação financeira, inclusive bancária, bem como de conservar os documentos que lastreiam tais registros, conforme dispõem os arts. 45 e 47 da Lei nº 8.981, de 1995, verbis: Lei nº 8.981/1995 Art. 45. A pessoa jurídica habilitada à opção pelo regime de tributação com base no lucro presumido deverá manter: I - escrituração contábil nos termos da legislação comercial; II - Livro Registro de Inventário, no qual deverão constar registrados os estoques existentes no término do ano-calendário abrangido pelo regime de tributação simplificada; III - em boa guarda e ordem, enquanto não decorrido o prazo decadencial e não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, todos os livros de escrituração obrigatórios por legislação fiscal específica, bem como os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal. Parágrafo único. O disposto no inciso I deste artigo não se aplica à pessoa jurídica que, no decorrer do ano-calendário, mantiver livro Caixa, no qual deverá estar escriturado toda a movimentação financeira, inclusive bancária. (...) Art. 47. O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando: I - o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real ou submetido ao regime de tributação de que trata o Decreto-Lei nº 2.397, de 1987, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; Fl. 10007DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 53 II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraude ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real. III - o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o livro Caixa, na hipótese de que trata o art. 45, parágrafo único; (...) (grifamos) Nesses termos, a ausência reiterada de apresentação desses elementos, mesmo após sucessivas intimações da autoridade fiscal, enquadra-se diretamente nas hipóteses legais que impõem o arbitramento do lucro. A autoridade julgadora de primeira instância analisou a matéria controvertida de forma minuciosa e tecnicamente adequada, razão pela qual, por expressa concordância, adoto como razões de decidir os fundamentos por ela expendidos, os quais transcrevo em parte: “(...) 73-Como mencionado, no Termo de Constatação Fiscal, não foram apresentados os registros contábeis e livros obrigatórios, fatos que autorizam o arbitramento do lucro, a partir da receita bruta conhecida, composta pelos valores creditados nas contas correntes bancárias. 74-O Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99), dispõe fartamente sobre a dimensão mensurável do fato gerador, especificando a forma como se dá a medida da renda das pessoas jurídicas, conceituando seja ela determinada sob três diferentes regras, a saber: a) lucro real; b) lucro presumido; c) lucro arbitrado. 75-Para a adoção de uma forma de cálculo em detrimento à outra se presume o atendimento de condições específicas, previstas nas normas de regência. 76-É importante ressaltar que tanto nas regras do lucro real quanto do lucro presumido, impõe-se à contribuinte o dever de apresentação, guarda e conservação dos livros contábeis e/ou fiscais pertinentes a cada uma dessas modalidades de apuração do lucro, bem como da documentação que acoberta os registros escriturados. 77-No presente caso, a ação fiscal foi iniciada em 08/05/2018, com ciência postal. Após diversas intimações e reintimações não foram apresentados a escrituração contábil e/ou Livro Caixa, os extratos bancários, notas fiscais emitidas, nem a relação de empresas com quem foram contratados serviços de gestão de recursos financeiros. Assim, com base no Fl. 10008DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 54 art. 530, do RIR/99 (mesmas disposições reproduzidas no art. 603 do RIR/2018), abaixo reproduzido, coube o arbitramento do lucro: Art.530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano-calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): (...) II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real; III - o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527; (grifei) 78-Observa-se que há disposição legal expressa que determina o arbitramento do lucro no presente caso, não havendo como se acatar os argumentos da impugnante de que o arbitramento é penalidade. 79-Deve-se considerar que os arts. 45 e 47 da Lei n° 8.981/95, determinam que é obrigação do contribuinte apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, no caso de optante pelo Lucro Presumido, onde deve, por óbvio, estar toda a sua movimentação financeira, inclusive bancária: Art. 45. A pessoa jurídica habilitada à opção pelo regime de tributação com base no lucro presumido deverá manter: I - Escrituração contábil nos termos da legislação comercial; II - Livro Registro de Inventário, no qual deverão constar registrados os estoques existentes no término do ano-calendário abrangido pelo regime de tributação simplificada; III - em boa guarda e ordem, enquanto não decorrido o prazo decadencial e não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, todos os livros de escrituração obrigatórios por legislação fiscal específica, bem como os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal. Parágrafo único. O disposto no inciso I deste artigo não se aplica à pessoa jurídica que, no decorrer do ano-calendário, mantiver livro Caixa, no qual deverá estar escriturado toda a movimentação financeira, inclusive bancária. (...) Art. 47. O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando: I - o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real ou submetido ao regime de tributação de que trata o Decreto-Lei nº 2.397, de 1987, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraude ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: Fl. 10009DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 55 a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real. III - o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o livro Caixa, na hipótese de que trata o art. 45, parágrafo único; IV - o contribuinte optar indevidamente pela tributação com base no lucro presumido; 80-Na falta de apresentação da referida escrituração, como no presente caso, e ante a impossibilidade de se identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, a legislação determina que o lucro seja dimensionado através do arbitramento, não se tratando, portanto, de penalidade, mas critério de apuração do lucro, nos termos da legislação referida. 81-Conforme visto, correto o procedimento de arbitramento do lucro, motivo pelo qual rejeito as alegações aqui postas. (...)” (destaques no original) Assim, uma vez constatada a impossibilidade de identificação da efetiva movimentação financeira por culpa exclusiva da contribuinte, impõe-se a aplicação do arbitramento do lucro, inexistindo amparo jurídico para o acolhimento das teses recursais deduzidas. Diante do exposto, nega-se provimento aos recursos voluntários. 3.3 DA SUPOSTA IMPROPRIEDADE QUANTO AOS VALORES CONSTANTES DA BASE DE CÁLCULO As Recorrentes alegam a impropriedade do lançamento ao argumento de que não haveria relação individualizada dos valores autuados, afirmando inexistir detalhamento suficiente que permitisse identificar, de forma analítica, a composição da base de cálculo utilizada para a exigência dos tributos. A alegação não procede. Conforme se extrai dos autos, a base de cálculo do lançamento foi constituída a partir da movimentação financeira apurada nas contas bancárias da contribuinte, a qual, apesar de regularmente intimada, não se desincumbiu do ônus de comprovar a origem dos créditos bancários identificados. Fl. 10010DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 56 Diante dessa circunstância, mostrou-se legítima a atuação da Fiscalização ao consolidar os créditos bancários por período de apuração, utilizando-os como parâmetro objetivo para a constituição do crédito tributário. Os demonstrativos que instruem o lançamento evidenciam, de forma clara e objetiva, a apuração mensal e trimestral dos valores, com indicação dos montantes que compõem a receita tomada como base de cálculo dos tributos exigidos. Não se exige, para a validade do lançamento, a descrição pormenorizada de cada lançamento bancário individual, sobretudo quando o critério adotado é objetivo, verificável e lastreado em extratos bancários e planilhas consolidadas, suficientes para permitir ao sujeito passivo a compreensão do quantum exigido e o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa. Ressalte-se, ademais, que as interessadas foram expressamente intimadas a se manifestar sobre os valores apurados e a comprovar a origem dos créditos, oportunidade em que poderiam ter apresentado planilhas, conciliações, contratos ou quaisquer outros elementos aptos a demonstrar eventual inadequação da base de cálculo. A ausência de esclarecimentos específicos, acompanhados de prova idônea, não pode ser suprida por alegação genérica de falta de individualização dos valores. Cumpre destacar, por fim, que a autoridade julgadora de primeira instância promoveu exame aprofundado da matéria, inclusive com a conversão do feito em diligência em mais de uma oportunidade, o que resultou, inclusive, na exclusão de determinados créditos bancários indevidamente considerados, com a consequente redução parcial do crédito tributário. Por oportuno, transcrevo os excertos do v. Acórdão recorrido que demonstram o exame detalhado das alegações: “(...) 82-As interessadas arguem que não há relação individualizada dos valores autuados. Tal argumento não merece prosperar. A Autoridade fiscal autuante, em resposta à diligência, esclarece que (fls. 7.852 a 7.856): Como resultado do tratamento dado aos lançamentos individualizados constantes dos extratos das contas correntes bancárias que embasaram a constituição do crédito tributário, elaborou-se a planilha denominada DEMONSTRATIVO DOS CRÉDITOS EM Fl. 10011DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 57 CONTASCORRENTES BANCÁRIAS, fls. 7778/7851, na qual estão discriminados todos os lançamentos que, conforme determina o “caput” do artigo 287 do Decreto nº 3.000/99 - Regulamento do Imposto de Renda, vigente à época da ocorrência dos fatos geradores correspondentes, por se caracterizarem como omissão de receita, verbis: Art. 287 – Caracterizam-se também como omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa jurídica, regularmente intimado não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (grifei) 83-Argumenta-se, em manifestação a uma das diligências, que não houve, em intimação, identificação quanto à instituição financeira, mantenedora do crédito: A intimação encaminhada ao contribuinte (fls. 433/434) com a relação dos créditos sobre os quais se pedia esclarecimento foi acompanhada de uma compilação denominada "Demonstrativo dos Créditos em Contas Correntes Bancárias" (fls. 436/509) que não foi separada por instituição financeira ou conta, na qual os lançamentos foram organizados por data, enumerando operações entre 01 de outubro de 2013 a 31 de dezembro de 2014. 84-O argumento não merece prosperar. A primeira coluna das mencionadas planilhas, contém a numeração da instituição financeira: 85-Alega-se também, ausência de investigação adequada: Com efeito, uma simples análise da planilha elaborada pela própria Fiscalização – que, repita-se, não é prova de nada, já que os extratos foram destruídos – revela que um enorme volume de recebimentos em sua conta bancária não tem natureza de receita ou, no mínimo, geram dúvida e comportariam maiores investigações ou a sua desconsideração para fins de base de cálculo. 86-Ora como já mencionado nesse Voto, cabe exclusivamente à contribuinte demonstrar a exata correlação entre cada valor depositado em sua conta bancária e a correspondente origem do recurso, fato não demonstrado. No caso de transações, sem natureza de receita ou que gerassem dúvida, é dever da fiscalizada fazer o contraponto probatório. 87-Frise-se que, como já explanado a destruição refere-se aos meios magnéticos, onde contidos os registros bancários. O arquivo não paginável, com os registros digitais de lançamentos foi juntado no prazo de defesa. Fl. 10012DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 58 88-Outro ponto a ser afastado são os argumentos de que há lançamentos duplicados (sustentam que poderiam ter decorrido de depósitos desbloqueados) e que não deveriam ter sido considerados créditos de históricos, tais como, “Transferência On Line”, “Transf CC para CC PJ”, “DEPOS ENTRE AGS DINHEIRO” (sustentam que poderiam ter sido valores iguais, depositados pela própria interessada). Isto porque, não houve anexação de quaisquer documentos probatórios a respeito deles. 89-A auditoria juntou à intimação para comprovação de origem, planilha demonstrativa de cada crédito considerado na apuração, constante das fls.436 a 509. 90-O demonstrativo de autuação (fls. 7.852 a 7.856), conforme esclarecido pelo fiscal autuante, em resposta à diligência, foi efetuado, após análise individualizada dos créditos, desconsiderando-se as transferências de outras contas da própria pessoa jurídica, conforme o inciso I, do § 3º, do artigo 42 da Lei nº 9.430/96: Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (...) § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I - os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; 91-O fiscal autuante, esclarece (fls. 7.852 a 7.856), em resposta à diligência efetuada, a concessão de oportunidade de esclarecimento quanto à origem dos recursos financeiros, a qual também não foi juntada até a presente data: Apoiado, apenas, nos extratos bancários, esta Fiscalização não encontrou os elementos que legalmente permitissem aferir a origem tributada, isenta, não tributada ou tributada exclusivamente na fonte, dos créditos cujos lançamentos contenham os seguintes históricos: Resgate do Mercado Aberto”, “Transferência On Line”, “Transf CC para CC PJ”, ressaltando mais uma vez que o contribuinte foi devidamente intimado a comprovar a origem tributada, isenta, não tributada ou tributada exclusivamente na fonte, dos créditos, fls. 433/434, com a relação individualizada dos respectivos lançamentos às fls. 436/509. Outrossim, o contribuinte não deu qualquer atendimen 92-Os valores com os históricos “RESGATE BB CDB DI” e “RESGATE MERCADO ABERTO”, serão excluídos da base de cálculo do auto de infração. Seguem esclarecimentos, com os quais concordo, constantes de resposta à diligência, de fls.9.083 a 9.092: Os créditos com histórico de “desbloqueio de depósito”, salvo melhor juízo, devem ser mantidos na base de cálculo do auto de infração pois representam entrada de recurso de origem não comprovada. Salientamos que não está ocorrendo lançamento em duplicidade desses créditos pois, quando o depósito é efetuado, não é gerado crédito na conta bancária nem no extrato bancário e, por esse motivo, os referidos créditos somente são incluídos no auto de infração no momento em que ocorre o “desbloqueio do depósito”. Fl. 10013DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 59 (...) Os créditos com histórico de “RESGATE BB CDB DI” são referentes ao resgate de aplicações financeiras da própria empresa e, salvo melhor juízo, devem ser excluídos do da base de cálculo do auto de infração pois não representam entrada de recurso de origem não comprovada. (...) Os créditos bancários com histórico “DEPOS ENTRE AGS DINHEIRO”, salvo melhor juízo, devem ser mantidos na base de cálculo do auto de infração pois, conforme respostas a questionamento efetuado ao banco Bradesco vide fls 9077 à 9082), os referidos créditos representam depósitos em espécie efetuados na conta bancária da empresa, caracterizando entrada de recurso de origem não comprovada. (...) Os créditos com histórico “RESGATE MERCADO ABERTO”, salvo melhor juízo, devem ser excluídos da base de cálculo do auto de infração pois, conforme respostas a questionamento efetuado ao banco Bradesco (vide fls 9077 a 9082), os referidos créditos são referentes ao resgate de aplicações financeiras da própria empresa e não representam entrada de recurso de origem não comprovada. 93-O montante da base de cálculo excluída, decorrente dos históricos “RESGATE BB CDB DI” e “RESGATE MERCADO ABERTO é da ordem de R$ 3.735.405,65, constando a relação individualizada, nas fls.9.085 a 9.087. 94-É mencionado, nas defesas, que há lançamentos, registrados a débito, não representativos de receitas: O fato de a autoridade julgadora ter encontrado lançamentos a débito, representativo de saídas de recursos, como créditos, entradas de recursos, ensejou o confronto entre os créditos das contas correntes bancárias e os extratos anexados ao processo como arquivos não pagináveis, tendo sido constatado que estão relacionados 3(três) lançamentos cujos valores estão a débito e, portanto, não se enquadram no conceito de receitas. Por esta razão proponho, salvo melhor juízo, a exclusão da base de cálculo do crédito tributário constituído os valores a seguir: No demonstrativo acima, convém observar que a coluna “Chave” é a ordem sequencial dos lançamentos no extrato emitido pelo Banco do Brasil; na coluna “Valor”, os dois últimos dígitos à esquerda devem ser tratados como casa decimais, de forma expressar valor de cada operação em moeda corrente do País, em Real. Portanto, o valor de correspondente ao documento 120209 é R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais), e não R$ 220.000,00. 96-É argumentado, em manifestação à diligência, que essa situação gera perda de confiabilidade no trabalho fiscal. Como já dito, cabe à interessada o ônus da prova. Uma vez que as contas são de sua titularidade, teria plenas condições de verificar toda a movimentação financeira. 97-É argumentado erro de aposição de valor em dezembro de 2014: Veja-se, por exemplo, que da planilha elaborada pela Fiscalização para fundamentar a autuação, consta, do dia 31 de dezembro de 2014, um crédito no suposto valor de R$ 945.000,00. (...) Fl. 10014DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 60 Contudo, ao se pesquisar o mesmo documento (318976) no extrato anexado pela Fiscalização (“Extrato Bradesco”), verifica-se que o suposto valor de R$ 945.000,00 é, na verdade, de R$ 379.530,00, ou seja, menos da metade do suposto valor creditado na conta da Impugnante. 98-As planilhas de autuação constam das fls. 7.778/7.851. O lançamento mencionado consta da fl.7.851, no registro de 30/12/2014: O fato de a autoridade julgadora ter encontrado lançamentos a débito, representativo de saídas de recursos, como créditos, entradas de recursos, ensejou o confronto entre os créditos das contas correntes bancárias e os extratos anexados ao processo como arquivos não pagináveis, tendo sido constatado que estão relacionados 3(três) lançamentos cujos valores estão a débito e, portanto, não se enquadram no conceito de receitas. Por esta razão proponho, salvo melhor juízo, a exclusão da base de cálculo do crédito tributário constituído os valores a seguir: No demonstrativo acima, convém observar que a coluna “Chave” é a ordem sequencial dos lançamentos no extrato emitido pelo Banco do Brasil; na coluna “Valor”, os dois últimos dígitos à esquerda devem ser tratados como casa decimais, de forma expressar valor de cada operação em moeda corrente do País, em Real. Portanto, o valor de correspondente ao documento 120209 é R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais), e não R$ 220.000,00. 96-É argumentado, em manifestação à diligência, que essa situação gera perda de confiabilidade no trabalho fiscal. Como já dito, cabe à interessada o ônus da prova. Uma vez que as contas são de sua titularidade, teria plenas condições de verificar toda a movimentação financeira. 97-É argumentado erro de aposição de valor em dezembro de 2014: Veja-se, por exemplo, que da planilha elaborada pela Fiscalização para fundamentar a autuação, consta, do dia 31 de dezembro de 2014, um crédito no suposto valor de R$ 945.000,00. (...) Contudo, ao se pesquisar o mesmo documento (318976) no extrato anexado pela Fiscalização (“Extrato Bradesco”), verifica-se que o suposto valor de R$ 945.000,00 é, na verdade, de R$ 379.530,00, ou seja, menos da metade do suposto valor creditado na conta da Impugnante. 98-As planilhas de autuação constam das fls. 7.778/7.851. O lançamento mencionado consta da fl.7.851, no registro de 30/12/2014: O fato de a autoridade julgadora ter encontrado lançamentos a débito, representativo de saídas de recursos, como créditos, entradas de recursos, ensejou o confronto entre os créditos das contas correntes bancárias e os extratos anexados ao processo como arquivos não pagináveis, tendo sido constatado que estão relacionados 3(três) lançamentos cujos valores estão a débito e, portanto, não se enquadram no conceito de receitas. Por esta razão proponho, salvo melhor juízo, a exclusão da base de cálculo do crédito tributário constituído os valores a seguir: No demonstrativo acima, convém observar que a coluna “Chave” é a ordem sequencial dos lançamentos no extrato emitido pelo Banco do Brasil; na coluna “Valor”, os dois últimos dígitos à esquerda devem ser tratados como casa decimais, de forma expressar valor de Fl. 10015DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 61 cada operação em moeda corrente do País, em Real. Portanto, o valor de correspondente ao documento 120209 é R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais), e não R$ 220.000,00. 96-É argumentado, em manifestação à diligência, que essa situação gera perda de confiabilidade no trabalho fiscal. Como já dito, cabe à interessada o ônus da prova. Uma vez que as contas são de sua titularidade, teria plenas condições de verificar toda a movimentação financeira. 97-É argumentado erro de aposição de valor em dezembro de 2014: Veja-se, por exemplo, que da planilha elaborada pela Fiscalização para fundamentar a autuação, consta, do dia 31 de dezembro de 2014, um crédito no suposto valor de R$ 945.000,00. (...) Contudo, ao se pesquisar o mesmo documento (318976) no extrato anexado pela Fiscalização (“Extrato Bradesco”), verifica-se que o suposto valor de R$ 945.000,00 é, na verdade, de R$ 379.530,00, ou seja, menos da metade do suposto valor creditado na conta da Impugnante. 98-As planilhas de autuação constam das fls. 7.778/7.851. O lançamento mencionado consta da fl.7.851, no registro de 30/12/2014: 100-Continua argumentando que: Já à fl. 506, verifica-se da planilha elaborada pelo D. Auditor Fiscal que a Impugnante teria recebido, no dia 23/12/2014, crédito em conta no valor de R$ 1.054.834,94. (...) Contudo, ao pesquisar o mesmo documento (9002154) no extrato anexado pela Fiscalização (“Extrato Bradesco”), não se encontra qualquer referência! 101-As planilhas de autuação constam das fls. 7778/7851. O lançamento mencionado consta da fl.7.848: 102-O lançamento mencionado consta, no arquivo paginável do Banco Bradesco, mais precisamente, na fl.7.757, devendo ser desconsiderada a alegação apresentada: 103-A interessada alega ainda que: 153. A Fiscalização também não se dignou a excluir os valores constantes das planilhas que elaborou e que poderiam ser de outras empresas do chamado “grupo informal”. Ora, se era tudo “uma coisa só”, uma grande confusão patrimonial, jamais poderia ser receita a remessa de recursos de uma empresa ou pessoa do chamado “grupo informal” para outra. (...) Fl. 10016DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 62 158. Nesse particular, verifica-se, por exemplo, o contrato firmado entre a Impugnante e a empresa Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis (fls. 122/130), firmado no início de 2014. A sua cláusula 3.1 prevê como remuneração mensal pelos serviços que a Impugnante prestará à tal empresa o valor de R$ 25.000,00. Confira-se: 159. Fazendo o cotejo desse contrato com a planilha elaborada pela Fiscalização, supostamente com base nos extratos bancários, verifica-se que existem créditos no valor de R$ 25.000,00, na conta bancária da Impugnante, a partir de fevereiro de 2014, como se verifica dos exemplos abaixo: 104-Ocorre que a simples apresentação de contratos, com coincidência dos valores pactuados em alguns lançamentos bancários, é insuficiente à comprovação de origem de recursos. 105-Deveriam vir acompanhados de notas fiscais/recibos e comprovantes de transferências bancárias. Repita-se que o ônus da prova é da contribuinte. 106-Acato em parte as alegações da interessada, para excluir da base de cálculo os créditos com históricos “RESGATE BB CDB DI”; “RESGATE MERCADO ABERTO” e os três valores registrados a débito, discriminados no item 95 desse Voto.” (grifos e destaques no original) Por concordar expressamente com a fundamentação do v. Acórdão de piso, faço uso da faculdade conferida pelo art. 114, §12, inciso I do RICARF, adoto-os como razões de decidir para negar provimento aos recursos voluntários neste ponto. Fl. 10017DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 63 3.4 DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E SUPOSTA AUSÊNCIA DE INDIVIDUALIZAÇÃO DE CONDUTAS Os Recorrentes pleiteiam o cancelamento do lançamento, sob o argumento de que a Fiscalização não teria individualizado, de forma específica, as condutas atribuídas a cada corresponsável, limitando-se a imputações genéricas, fundadas em presunções de participação em grupo econômico, sem demonstração concreta de atos próprios ou de interesse comum na situação que constituiu o fato gerador. As alegações não procedem. Conforme já exposto em tópico preliminar, a exigência de individualização de condutas, tal como formulada pelos Recorrentes, é característica das hipóteses de responsabilização pessoal por infração, previstas no art. 135 do Código Tributário Nacional, nas quais se impõe a demonstração de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos. Tal lógica, contudo, não se confunde com o regime jurídico da responsabilidade solidária por interesse comum, disciplinado no art. 124, inciso I, do CTN, cujo teor dispõe: Código Tributário Nacional Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; (...) A respeito desse dispositivo, é firme a orientação jurisprudencial no sentido de que o interesse comum ali referido é de natureza jurídica, e não meramente econômica, exigindo a atuação conjunta ou integrada na conformação da situação que constitui o fato gerador. Nesse sentido, destaca-se o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça: “O interesse comum, como requisito da corresponsabilidade tributária, envolve, necessariamente, a atuação de mais de uma pessoa na situação de conformação do fato gerador do tributo. Não se trata, portanto, da ulterior fruição comum ou igualitária por mais de uma pessoa dos resultados ou dos proveitos da atividade produtora do aumento de renda dela decorrente. Trata-se, na verdade, de atuação simultânea e conjunta de mais Fl. 10018DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 64 de uma pessoa na anterior situação configuradora do próprio fato gerador.” (REsp nº 1.273.396/DF, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, julgado em 05/12/2019, DJe de 12/12/2019) Vê-se, portanto, que, na responsabilidade solidária por interesse comum, a imputação não se fundamenta na prática de atos individualizados por cada sujeito passivo, mas na participação objetiva na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária, prescindindo da descrição pormenorizada de condutas individualmente atribuídas, bastando a demonstração do vínculo jurídico-material que justifica a solidariedade. No caso concreto, conforme se extrai do Termo de Constatação Fiscal (e-fls. 511/528), a Fiscalização imputou a responsabilidade solidária às pessoas físicas e jurídicas a partir de conjunto articulado e convergente de elementos fáticos, que extrapolam a mera existência de relações comerciais isoladas, destacando-se, em síntese: (i) a identificação de controle comum, exercido pelo Sr. José Roberto Monte, administrador da Harpia Asset e representante de diversas empresas envolvidas, bem como a atuação conjunta com seus familiares, conforme inclusive reconhecido em precedente do Superior Tribunal de Justiça citado no Termo Fiscal; (ii) a confusão societária, caracterizada pela composição societária repetida e revezada entre as empresas do núcleo, com vínculos cruzados e ausência de autonomia decisória efetiva; (iii) a confusão patrimonial e financeira, evidenciada pela transferência de volume substancial de recursos entre as empresas e pessoas físicas indicadas, sem apresentação de documentação hábil e idônea que comprovasse a origem, a natureza ou a causa jurídica desses fluxos financeiros; (iv) a atuação integrada das pessoas jurídicas, inseridas em uma mesma cadeia econômica voltada à exploração de atividades relacionadas à produção, distribuição e comercialização de combustíveis, bem como à utilização de empresas periféricas com função instrumental; e (v) a inexistência de escrituração contábil regular e de controles capazes de segregar, de forma minimamente confiável, os recursos próprios e os Fl. 10019DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 65 supostamente pertencentes a terceiros, circunstância que reforçou a caracterização de atuação conjunta e interesse comum na materialização do fato gerador. Com base nesses elementos, a Fiscalização concluiu pela existência de grupo econômico de fato, apto a caracterizar interesse comum na situação que constituiu o fato gerador, nos termos do art. 124, inciso I, do CTN. No tocante às pessoas físicas, cuja responsabilização foi imputada com fundamento no art. 135, incisos II e III, do CTN, a Autoridade Fiscal consignou que atuaram como sócios, administradores e representantes de fato das pessoas jurídicas integrantes do grupo informal, imputando-lhes a prática — ou, ao menos, a tolerância — de atos caracterizados como infração à lei, consubstanciados na total omissão de receitas e na ausência das declarações fiscais obrigatórias. Ao apreciar as impugnações, o Acórdão da DRJ enfrentou detidamente a matéria, procedendo à análise individualizada da sujeição passiva, conforme se extrai dos seguintes excertos do voto condutor, que adoto como razões de decidir: “(...) 107-Foram responsabilizados, em face do artigo 135, III, por terem poderes de administração na fiscalizada e nas pessoas jurídicas formadoras do grupo econômico: I- José Roberto Monte. CPF: 034.186.976-74. Participações societárias: HARPIA ASSET ASS NA GESTAO DE CONTAS A PAG E A REC-CNPJ: 15.825.009/0001-09 ASPEN DISTRIBUIDORA DE COMBUSTIVEIS LTDA- CNPJ 01.382.912/0001-38 AF INVESTIMENTOS E PARTICIPACOES LTDA. CNPJ 06.206.008/0001-95. TON ENERGY INVEST, PARTICIP E AGRO-NEGOCIOS LTDA - CNPJ 07.245.496/0001-02. ALESER COMERCIO DE DERIVADOS DE PETROLEO LTDA. CNPJ 01.382.911/0001-93. II- Gustavo Monte. CPF: 150.821.468-90. Participações Societárias: Fl. 10020DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 66 MONTE CABRAL DISTRIBUIDORA DE COMBUSTIVEIS LTDA- CNPJ 04.138.529/0001-27 AGROPECUARIA ÁGUAS CRISTALINAS LTDA- CNPJ 05.071.538/0001-00 CENTRO AUTOMOTIVO PRIME DE SOROCABA LTDA-CNPJ: 12.812.570/0001-65 AUTO POSTO NOVA SUMARE LTDA-CNPJ: 02.728.062/0001-40 CENTRO OESTE BRASIL PETROLEO LTDA-CNPJ: 07.115.453/0001-02 CENTRO AUTOMOTIVO DAS MAGNOLIAS LTDA-CNPJ: 05.829.420/0001-07 CENTRAL ENERGETICA BANDEIRANTES LTDA-CNPJ: 08.842.644/0001-39 FAVACHO IMPAR EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS EIRELI: CNPJ 13.858.412/0001-09 III- Mário Camarozano. CPF: 833.837.868-20. Participação Societária: MRX LOGISTICA E TRANSPORTES LTDA. CNPJ 00.137.970/0001-33 IV- Alessandro Silva Romero. CPF: 178.897.338-01. Participações Societárias: MONTE CABRAL DISTRIBUIDORA DE COMBUSTIVEIS LTDA- CNPJ 04.138.529/0001-27 AGROPECUARIA ÁGUAS CRISTALINAS LTDA- CNPJ 05.071.538/0001-00 CENTRO AUTOMOTIVO PRIME DE SOROCABA LTDA-CNPJ: 12.812.570/0001-65 AUTO POSTO NOVA SUMARE LTDA-CNPJ: 02.728.062/0001-40 CENTRO OESTE BRASIL PETROLEO LTDA-CNPJ: 07.115.453/0001-02 CENTRO AUTOMOTIVO DAS MAGNOLIAS LTDA-CNPJ: 05.829.420/0001-07 CENTRAL ENERGETICA BANDEIRANTES LTDA-CNPJ: 08.842.644/0001-39 V- Vera Cecília de Siqueira Ferreira Monte. CPF: 149.019.768-00. Participações Societárias: SIQUEIRA FERREIRA MONTE ADVOGADOS- CNPJ 04.821.921/0001-76. 108-Assim reza o Código Tributário Nacional: Fl. 10021DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 67 Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (...) II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. 109-A Autoridade Fiscal relatou que: Pessoas físicas que atuaram como sócios, administradores e responsáveis perante o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica-CNPJ, cuja responsabilidade tributária tem por fundamento os incisos II e III do artigo 135 do Código Tributário Nacional, por constituírem grupo informal de empresas com o propósito deletério do não ECOLHIMENTO DE TRIBUTOS e, desta forma, atuam com excesso de poderes e infração à lei. 110-Todos alegam que não há demonstração, nem prova do ato realizado com excesso de poderes, infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos, estando ausente o dolo. 111-Essa alegação não merece prosperar. Ainda que não conste relato, no tópico específico de atribuição de responsabilidades, todas as infrações estão descritas no corpo do Termo de Constatação Fiscal. Caracteriza infração à lei, mediante sonegação e dolo, a total omissão de receitas e ausência de todas as declarações a que estava obrigada a pessoa jurídica fiscalizada. Os mandatários, prepostos e empregados; os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado; à época dos fatos geradores, são os realizadores desses atos. 112- Não cabe alegar que deve ser demonstrada a prática de mão própria do ato. As pessoas mencionadas são pessoalmente responsáveis pelos atos com infração à lei que pratica, ou que tolera, quando deveria evitar, em razão do exercício do poder de gestão. 113-A defesa de José Roberto Monte alega o afastamento da direção dos negócios por mais de dez anos: 82. Na verdade, o Impugnante conta atualmente 83 anos de idade e está há dez anos afastado da direção dos negócios, em face de sérios problemas de saúde que começaram a se agravar a partir de 2008/2009, conforme comprovam os relatórios e atestados médicos anexos (DOC. 02). Sendo assim, seu próprio estado de saúde denota que ele não praticou nenhum ato doloso que seja passível de enquadramento no art. 135, II e III, do CTN. 114-Esse é um argumento de ordem subjetiva, não podendo ser acatado. Observe-se que, como relatado no Termo de Constatação Fiscal, fazem parte do quadro societário da fiscalizada as pessoas jurídicas Ton Energy Investimentos Participações e Agronegócios Ltda e AF Investimentos e Participações Ltda. José Roberto Monte figura como administrador da fiscalizada e representante das duas sócias. 115-Gustavo Monte alega que: 16. No presente caso, a Autoridade Fiscal responsabilizou solidariamente o Impugnante sob o argumento de que atuou como sócio de várias empresas componentes do Fl. 10022DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 68 lançamento tributário, entre elas a Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA, cuja responsabilidade tributária tem por fundamento os incisos II e III do artigo 135 do Código Tributário Nacional. 17. No entanto, cumpre esclarecer que a Autoridade Fiscal se equivocou neste quesito. Isso porque, apesar dos Senhores Gustavo Monte e Alessandro Silva Romero ainda constarem como sócios da Monte Cabral na base de dados da Receita Federal, eles de fato não são mais sócios da referida pessoa jurídica, senão veja-se. 18. Em 01.06.2012 o Impugnante e o senhor Alessandro Silva Romero firmaram instrumento de venda e compra de fundo de comércio com cessão de cotas sociais e promessa de pagamento da sociedade Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA com o Sr. Mário Camarozano, no qual estabeleceu-se que este pagaria aos senhores Gustavo e Alessandro a quantia total de um milhão de reais através de cinco parcelas mensais e sucessivas de duzentos mil reais, vencendo-se a primeira em 25 de agosto de 2012 e a última em 25 de dezembro de 2012. 19. Durante o período do parcelamento o Impugnante e o senhor Alessandro outorgaram procuração para que o Sr. Mário gerisse o negócio e adquirisse todos os direitos e obrigações inerentes ao cargo de administrador da sociedade. 20. No entanto, o Sr. Mário Camarozano descumpriu a avença, deixando de adimplir as 3 (três) últimas parcelas do acordo, oportunidade em que o Impugnante e o senhor Alessandro ingressaram a com a ação judicial nº 3002755-69.2013.8.26.0428 para requerer o pagamento de R$665.063,64 correspondente às parcelas vencidas, corrigidas monetariamente e incidindo a multa contratual, bem como para o reconhecimento dos atos de gestão pelo Sr. Mário a partir de 01 de junho de 2012, com sua exclusiva responsabilidade. 21. Sobrevindo a r. sentença, o Magistrado reconheceu o contrato formulado entre as partes e fixou a responsabilidade civil e criminal do Sr. Mário pela pessoa Jurídica Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA, nos termos da cláusula 8ª do contrato, a partir de 01 de junho de 2012, quando o Sr. Mário adquiriu o estabelecimento comercial. 22. Assim, conforme é possível observar dos fatos acima colacionados, o Impugnante e o senhor Alessandro Silva Romero não são mais sócios da responsável solidária Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis LTDA desde 01.06.2012, quando promoveram a cessão das quotas sociais ao Sr. Mário Camarozano. 116- Apesar das alegações apresentadas, Gustavo Monte, consta, na base de dados da Receita Federal do Brasil, como sócio administrador da Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis Ltda e diversas outras pessoas jurídicas indicadas pela fiscalização, devendo ser mantido no polo passivo da presente demanda: 117-Mário Camarozano, CPF: 833.837.868-20, alega que foi incluído no polo passivo, somente por constar no contrato social da MRX LOGISTICA E TRANSPORTES LTDA CNPJ 00.137.970/0001-33. Em consulta à base de dados da Receita Federal do Brasil, verifiquei que seu nomo não consta como sócio administrador, nem como responsável. Assim, será feita sua exclusão do polo passivo. Fl. 10023DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 69 119-Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte, em defesa conjunta com Siqueira Ferreira Monte Advogados, alega que: (...)teve justamente reconhecida a ilegitimidade passiva para figurar no polo passivo tanto da execução fiscal quanto da cautelar fiscal estadual ajuizada em face das mesmas empresas ora autuadas. (...) O Auditor Fiscal fundamenta a inclusão das impugnantes como responsáveis tributárias solidárias de fato por supostamente haver decisão judicial nesse sentido. Ocorre que em relação às impugnantes a decisão judicial transitada em julgado é justamente em sentido oposto. (...) De fato, as impugnantes já tiveram o imensurável prejuízo de terem sido incluídas no pólo passivo de execução fiscal e cautelar fiscal estadual ajuizada em face das mesmas empresas ora autuadas em razão de débito tributário da empresa ASPEN DISTRIBUIDORA DE COMBUSTÍVEIS LTDA., sendo que foram excluídas do pólo passivo da execução fiscal por decisão monocrática e confirmada pelo Tribunal de Justiça, consoante incluso acórdão transitado em julgado (docs.05/06). Tiveram também reconhecida a ilegitimidade passiva nos autos da referida cautelar fiscal, conforme decisão monocrática confirmada por sentença (docs. 07/08). 120-As alegações das interessadas merecem prosperar. Na fl. 675, consta decisão do Tribunal de justiça de São Paulo, com data de 05/05/2015, referente à execução fiscal, em face de Aspen Distribuidora de Combustíveis Ltda no seguinte sentido: defiro o pedido formulado às fls. 629/641 por Siqueira Ferreira Monte Advogados e Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte para o fim de excluir, por ora, os peticionários do polo passivo dessa execução fiscal: Fl. 10024DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 70 121-A Fazenda Pública do Estado de São ajuizou agravo de instrumento, o qual teve provimento negado (fl.676), em 01/09/2015: 122-Na decisão (fls.677 a 681) que negou provimento ao recurso, consta que até o momento da decisão não há fatos que atestem que as interessadas são integrantes do Grupo Aspen: 123-Foi juntada a Certidão de Trânsito em Julgado (fl.682):] Fl. 10025DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 71 124-Na fl. 685, consta decisão, datada de 05/07/2018, relativa à Ação Cautelar Fiscal tendo por requerente a Fazenda Pública do Estado de São Paulo e por requerido Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis ltda e outros. Nela, Siqueira Ferreira Monte Advogados e Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte tiveram a ação extinta sem resolução do mérito:] 125-Assim, acolho as alegações de Mário Camarozano, Siqueira Ferreira Monte Advogados e Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte para excluí-los do polo passivo da presente autuação. Fl. 10026DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 72 126-Rejeito as alegações das demais interessadas, mantendo-as no polo passivo.” (grifos e destaques no original) Dessa forma, a controvérsia foi dirimida pela autoridade julgadora de primeira instância de maneira suficiente, coerente e juridicamente adequada, com enfrentamento individualizado das situações fáticas e correta distinção entre responsabilidade solidária (art. 124, I, do CTN) e responsabilidade pessoal por infração (art. 135 do CTN). A simples reiteração do inconformismo dos Recorrentes, desacompanhada de prova idônea apta a infirmar os elementos fáticos que embasaram o lançamento e a decisão recorrida, não autoriza o afastamento da responsabilidade tributária reconhecida. Diante do exposto, nego provimento aos recursos voluntários, mantendo o v. Acórdão recorrido por seus próprios fundamentos. 3.5 DA CARACTERIZAÇÃO DA CONFUSÃO PATRIMONIAL No mérito da responsabilização solidária, os Recorrentes sustentam, em síntese, que não teria havido confusão patrimonial, afirmando que as transferências financeiras identificadas pela Fiscalização decorreriam de contratos legítimos de prestação de serviços de gestão de contas a pagar e a receber, caracterizando mera centralização financeira (cash pooling), sem perda da autonomia patrimonial das empresas envolvidas. Alegam, ainda, que inexistiria prova de benefício comum ou de atuação conjunta apta a justificar a solidariedade tributária. As alegações, contudo, não merecem prosperar. A jurisprudência deste e. CARF é firme no sentido de que a confusão patrimonial se caracteriza quando inexiste separação fática e contábil entre os patrimônios de pessoas jurídicas formalmente distintas, evidenciando-se pela circulação indiscriminada de recursos, ausência de registros contábeis idôneos, inexistência de contratos eficazes ou de comprovação da causa jurídica dos fluxos financeiros, bem como pela utilização de recursos de uma entidade para solver obrigações de outra, sem adequada contraprestação. Confira-se: Fl. 10027DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 73 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2013, 2014 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. ARTIGO 124, I, DO CTN. CONFUSÃO PATRIMONIAL. O interesse comum previsto no artigo 124, I, do CTN como hipótese de responsabilidade solidária é jurídico, e não meramente econômico. O interesse jurídico comum deve ser direto, imediato, na realização do fato gerador que deu ensejo ao lançamento, e resta configurado quando as pessoas participam em conjunto da prática dos atos descritos na hipótese de incidência. Essa participação em conjunto pode ocorrer tanto de forma direta, quando as pessoas efetivamente praticam em conjunto o fato gerador, quanto indireta, em caso de confusão patrimonial. Em se tratando de autuação relativa a omissão de receitas, caracterizam confusão patrimonial a prova de recebimento de benefício financeiro injustificado, assim como a prova da interposição de pessoas existentes meramente no papel e cujo patrimônio é constituído de bens essenciais à atividade da contribuinte e antes a ela pertencentes. (Acórdão nº 9101-006.631, Rel. Cons. Lívia de Carli Germano, Data da Sessão: 11/07/2023) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2012 CONTABILIZADA. FALTA DE RECOLHIMENTO Todas as receitas tributáveis devem ser consideradas para aferição do resultado contábil e fiscal. A ausência de receita tributável na apuração do resultado gera o lançamento da diferença de tributo não recolhido com a multa e os juros moratórios devidos. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2012 DECORRÊNCIA DA OMISSÃO DE RECEITA APURADA NO IRPJ. Verificada a procedência da omissão de receita apurada, fato gerador da contribuição social sobre o lucro líquido, deve ser considerado procedente o lançamento por ausência de fato novo. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. GRUPO ECONÔMICO DE FATO. CONFUSÃO PATRIMONIAL. O interesse comum, a ensejar a responsabilidade solidária de terceiro, ocorre no fato ou na relação jurídica vinculada ao fato gerador do tributo, ainda que de forma indireta. Verifica-se o interesse comum em relação ao grupo econômico de fato quando há identidade do corpo diretivo ou confusão patrimonial entre empresas do grupo. SÚMULA CARF nº 2. Este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, conforme súmula CARF nº 2. (Acórdão nº 1301-003.827, Rel. Cons. Amelia Wakako Morishita Yamamoto, Data da Sessão: 16/04/2019) Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2012, 2013 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DO ART. 124, I, DO CTN. EXISTÊNCIA DE INTERESSE COMUM. É cabível a imputação de responsabilidade tributária às pessoas, físicas ou jurídicas, que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Existência de confusão patrimonial decorrente da atuação de grupo econômico de fato estruturado por meio da utilização de interpostas pessoas e esvaziamento patrimonial das pessoas jurídicas operacionais. (Acórdão nº 1301-003.827, Rel. Cons. Eduardo Monteiro Cardoso, Data da Sessão: 24/07/2025) Fl. 10028DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 74 No âmbito do direito tributário, tal fenômeno assume especial relevância quando utilizado como instrumento para ocultação do sujeito passivo real, diluição artificial de receitas ou frustração da arrecadação, legitimando a aplicação da responsabilidade solidária por interesse comum, nos termos do art. 124, inciso I, do CTN. No caso em apreço, a instrução processual revelou um cenário diametralmente oposto ao sustentado pelos Recorrentes: 1. Ausência de Segregação Contábil: Não foram apresentados os Livros Diário e Razão da Harpia, tampouco das supostas empresas-clientes, que demonstrassem o registro das operações como mútuos, adiantamentos ou contas-correntes entre partes. Os recursos ingressavam nas contas bancárias da Harpia e eram movimentados como se patrimônio próprio fossem, sem vinculação objetiva às obrigações das empresas remetentes. 2. Pagamento de Obrigações de Terceiros A Fiscalização identificou que recursos provenientes de determinadas empresas eram utilizados para pagamento de despesas de outras pessoas jurídicas ou mesmo de sócios pessoas físicas, sem qualquer compensação financeira, contrato ou registro contábil correspondente, o que caracteriza típica confusão patrimonial, e não mera gestão financeira centralizada. 3. Fluxo Financeiro Assimétrico e Blindagem Patrimonial Diferentemente do que se observa em contratos legítimos de conta-corrente ou cash pooling — nos quais há fluxos recíprocos e saldos controlados —, constatou-se o esvaziamento sistemático do caixa das empresas operacionais, que acumulavam débitos fiscais próprios, em favor da Harpia, a qual, por sua vez, não declarava receitas nem recolhia tributos, evidenciando estrutura voltada à blindagem patrimonial e à ocultação da materialidade tributável. Fl. 10029DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 75 Esse conjunto de circunstâncias demonstra que a estrutura adotada não se prestava à eficiência financeira, mas à dissolução artificial da base tributável, com atuação coordenada e convergente dos diversos sujeitos passivos, caracterizando interesse comum na situação que constituiu o fato gerador. Nessa linha, a decisão de primeira instância consignou, de forma minuciosa: “(...) 144-Ao contrário do que alegam as Impugnantes, não se pode admitir que falta consciência e dolo na realização de transferências entre contas correntes. 145-As Impugnantes alegam que a fiscalização imputou responsabilidade solidária indiscriminadamente a todas as entidades que se relacionaram com a contribuinte. Não é verdade. 146-A contribuinte não efetuou recolhimentos tributários. Por sua vez, a DIPJ do ano- calendário de 2013 e ECF do ano-calendário de 2014 foram apresentadas com todos os campos zerados. Por outro lado, a movimentação financeira no período de 01/10/2013 a 31/12/2014 foi da ordem de R$ 335.576.777,15. 147-As Impugnações não juntam documentos que fundamentem suas alegações, feitas, atente-se, de forma quase sempre genérica ou exemplificativa, quando muito, e, ainda assim, sem documentos que comprovem o alegado. 148-A fiscalização detectou transferências de valores significativos entre as pessoas responsabilizadas solidariamente: 149-Alegam ainda desconhecer se essas são as únicas transferências. A Autoridade Fiscal, em resposta à diligência efetuada, deixa claro que não houve objetivo de levantar todas as transferências efetuadas dentro do grupo. Deixa também claro, que os valores individualizados constam das fls.7778 a 7.851. O levantamento demonstrado teve por objetivo fazer parte do conjunto probatório de formação do grupo econômico: Fl. 10030DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 76 Inicialmente, convém ressaltar que o crédito tributário foi constituído tomando-se como base de cálculo os créditos efetuados nas contas correntes bancárias mantidas pelo contribuinte nas instituições financeiras intervenientes, no Banco do Brasil e no Bradesco, no período compreendido entre 1º de outubro de 2013 e 31 de dezembro de 2014, após as exclusões legalmente permitidas, conforme demonstrado nos itens anteriores. Desta forma, o demonstrativo contendo as transferências de recursos entre as pessoas físicas e jurídicas, tem por objetivo ilustrar as relações societárias e a movimentação de recursos financeiros entre os integrantes desse grupo informal constituído por pessoas físicas e jurídicas, com o propósito do não cumprimento de obrigações tributárias, quer obrigações acessórias, quer obrigações principais. (grifei) 150- O envio de recursos financeiros de e para a contribuinte e outras pessoas jurídicas/físicas, sem contrapartidas conhecidas, configura confusão patrimonial. Uma vez que não há registro das contrapartidas/comprovação de origem de recursos, inexiste a separação de fato do patrimônio. 151-A própria contribuinte, em sua impugnação, ao exemplificar alguns lançamentos bancários, que segundo sua ótica estariam comprovados, concorda com a existência de movimentação de recursos entre pessoas jurídicas. Contudo, não faz a devida comprovação: 157. Com efeito, a Impugnante conseguiu identificar diversos depósitos com os mesmos valores do que os remetidos por outras empresas, revelando que tais ingressos não poderiam ser considerados receitas no contexto de “confusão societária e patrimonial”. (...) 159. Fazendo o cotejo desse contrato com a planilha elaborada pela Fiscalização, supostamente com base nos extratos bancários, verifica-se que existem créditos no valor de R$ 25.000,00, na conta bancária da Impugnante, a partir de fevereiro de 2014, como se verifica dos exemplos abaixo: (...) 163. Esse exemplo revela, uma vez mais, a superficialidade e a despreocupação com que o trabalho fiscal foi conduzido. Com efeito, a Impugnante encontrou o montante de aproximadamente R$ 46.010.107,28 a título de remessas entre empresas do chamado “grupo informal”, apenas com base no cruzamento da planilha elaborada pela Fiscalização e de informações que possui. (grifei) 152-A pessoa jurídica Monte Cabral Distribuidora de Combustíveis Ltda que, na tabela acima reproduzida, tem transações, em torno de R$ 20.000.000,00 com a interessada, alega que os valores se referem a serviços contratados: Outro argumento que também não merece prosperar, refere-se as transferências de valores entre a impugnante e a devedora principal (HARPIA), que na verdade, decorrem de serviço contratado pela impugnante para administração de pagamento e recebimentos de terceiros. Fl. 10031DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 77 Veja que a devedora principal (HARPIA) é empresa dedicada ao serviço de gestão de contas a pagar e receber, com a qual a impugnante (MONTE CABRAL) realizou negócio jurídico válido para administração dos seus recebíveis e pagamento. Tal negócio jurídico foi registrado por contrato entre as partes, que se encontra juntado as fls. 122/130, sendo apresentado pela própria fiscalizada quando da execução dos serviços de auditoria, constando ainda diversos contratos com outras empresas que prestam o mesmo serviço. Assim, as transferências em questão nada mais são que disponibilização de pagamentos e recebimentos realizados com a devedora principal para o cumprimento de contrato de administração e gestão de contas a pagar e receber. Nesse ponto, veja que a fiscalização menciona que não considera prestação do serviço em questão ante a falta de comprovante do ocorrido, no entanto, a impugnante, cumprindo os termos do próprio contrato firmado, repassava as documentações diretamente a empresa HARPIA, que detinha a responsabilidade de guarda dos documentos (Clausula 2.1): (...) Todos os documentos (notas fiscais e comprovantes) ficavam sobre guarda da devedora principal. No entanto e, devido ao tempo das operações a impugnante vem unindo esforços para resgatar tais documentos e apresentar a estes autos. (grifei) 153-Como visto, é afirmado que é juntado contrato de prestação de serviços. Como já dito nesse Voto, a simples apresentação de contratos, não comprova a origem de recursos, permanecendo como contrapartidas desconhecidas. 154- A própria impugnante confessa que não possui notas fiscais e comprovantes, que ficariam sob guarda da contribuinte. 155-O Auto Posto JVR faz alegações contraditórias. Primeiro afirma que a contribuinte abastece seus veículos em seu estabelecimento: A “Harpia Asset Assessoria na Gestão de Contas a pagar e a receber Ltda” é tão somente cliente do “Autoposto JVR Ltda”, haja vista que abastece os seus veículos no estabelecimento da empresa ora contestante, conforme comprovam as Notas Fiscais dos anos de 2013 e 2014 (docs. 04/05). 156-Posteriormente, alega que não encontrou transação bancárias nos valores apontados pela fiscalização: A Fiscalização fez menção a duas supostas movimentações financeiras que envolveriam a empresa contestante, nos valores de R$ 118.000,00 como débito e de R$ 30.000,00 como crédito, mas não indicou qual o mês e tampouco o ano das supostas transações. Tal fato também impede o exercício do direito da ampla defesa e do contraditório, haja vista que a empresa não sabe do que se trata. Mesmo assim, a empresa fez pesquisas em seus extratos bancários nos anos de 2013 e 2014, mas não localizou transações financeiras dos referidos valores com a empresa “Harpia”. Fl. 10032DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 78 157-Ora, se havia abastecimento de veículos, não havia pagamentos transitando por contas bancárias? Nas notas fiscais apresentadas, fls.859 a 1.727, não localizei uma sequer emitida, tendo por tomadora do serviço, a contribuinte. Nos documentos Diário (fls.1.738 a 1.838) e Razão (fls.5.246 a 5.352) anexados, também não localizei quaisquer registros com o nome Harpia. 158-Rejeito as alegações nesse tema.” (grifos e destaques no original) Nota-se que a autoridade julgadora de primeira instância não se limitou a presunções genéricas, mas lastreou sua conclusão em robusto conjunto dos fatos colhidos do procedimento fiscal, análise da movimentação bancária, ausência de escrituração regular, e da inexistência de comprovação documental mínima das alegadas relações contratuais. As Recorrentes, por sua vez, não apresentaram qualquer alegação específica a fim de infirmar o raciocínio adotado no acórdão recorrido, limitando-se a alegações genéricas, desprovidas de amparo documental. Diante desse contexto, adoto integralmente os fundamentos do Acórdão recorrido, por reputá-los corretos e suficientes para caracterizar a confusão patrimonial e a atuação conjunta dos sujeitos passivos, mantendo-se a responsabilidade solidária com fundamento no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional. 3.6 DA INCIDÊNCIA DE PIS/COFINS SOBRE AS RECEITAS OMITIDAS Os Recorrentes sustentam, de forma subsidiária, que, na hipótese de manutenção do lançamento, os valores apurados não poderiam sofrer a incidência das contribuições ao PIS e à COFINS. Alegam, em síntese, que, sendo a contribuinte optante pelo regime do Lucro Presumido, submetida ao regime cumulativo, eventuais ingressos financeiros ou receitas atípicas não integrariam a base de cálculo das contribuições, ou estariam sujeitas à alíquota zero. A tese não merece acolhimento. Nos termos do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, a base de cálculo do PIS e da COFINS, no regime cumulativo, corresponde à receita bruta, assim entendida como a totalidade Fl. 10033DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 79 das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. Em relação as receitas omitidas, uma vez reconhecidas como ingressos definitivos no patrimônio do contribuinte, integram a base de cálculo das contribuições, ainda que não registradas na escrituração ou qualificadas pelo sujeito passivo como atípicas. No caso concreto, conforme amplamente demonstrado nos autos, os valores apurados pela Fiscalização decorrem de ingressos financeiros não comprovados, cuja origem lícita e natureza jurídica não foram demonstradas pela contribuinte, apesar das reiteradas intimações. Não se trata, portanto, de meros ingressos transitórios, recursos de terceiros ou valores sujeitos a posterior restituição, mas de receitas próprias omitidas, incorporadas de forma definitiva ao patrimônio da pessoa jurídica. A alegação de que tais valores estariam sujeitos à alíquota zero ou excluídos da base de cálculo carece de respaldo legal e probatório. A legislação de regência prevê hipóteses específicas e taxativas de exclusão ou alíquota zero, cujo ônus de comprovação incumbe ao contribuinte, o que não se verificou no presente caso. Ademais, a própria caracterização da omissão de receitas, confirmada nos tópicos precedentes, afasta qualquer possibilidade de tratamento diferenciado para fins de PIS e COFINS. Admitir a não incidência das contribuições sobre receitas reconhecidamente omitidas implicaria beneficiar conduta ilícita, em afronta aos princípios da isonomia e da neutralidade tributária. Assim, correta a exigência das contribuições ao PIS e à COFINS sobre os valores omitidos, razão pela qual rejeito as alegações recursais quanto à não incidência. 3.7 DA MULTA QUALIFICADA Os Recorrentes insurgem-se contra a aplicação da multa qualificada, originalmente fixada em 150% e posteriormente reduzida ao patamar de 100% pela autoridade julgadora de Fl. 10034DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 80 primeira instância. Nesse ponto, alegam a inexistência de dolo, fraude ou simulação, sustentando que eventuais inconsistências nas declarações decorreriam de erro escusável, falhas operacionais ou divergência interpretativa, o que atrairia, quando muito, a aplicação da multa de ofício no percentual de 75%. As alegações não procedem. Nos termos do art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, a multa qualificada é aplicável quando caracterizadas condutas dolosas, consubstanciadas em sonegação, fraude ou conluio. No caso concreto, a decisão recorrida consignou, de forma expressa e fundamentada, a existência de dolo, evidenciado por um conjunto robusto de elementos fáticos, dentre os quais se destacam: (i) a total omissão de receitas, apurada em montante extremamente elevado; (ii) a ausência completa de escrituração contábil idônea; (iii) a não apresentação das declarações fiscais obrigatórias ou sua entrega com valores zerados, em manifesta desconformidade com a expressiva movimentação financeira identificada; e (iv) a utilização de estrutura empresarial informal, com confusão patrimonial e circulação de recursos sem lastro documental, conforme detalhado nos tópicos anteriores. Tais circunstâncias afastam, por completo, a tese de erro escusável ou de mera divergência interpretativa. Não se está diante de equívocos pontuais ou falhas formais, mas de conduta sistemática e reiterada, apta a demonstrar a intenção consciente de ocultar a materialidade tributável e frustrar a atuação fiscal. Ressalte-se, ademais, que a autoridade julgadora de primeira instância procedeu à revisão do enquadramento sancionatório, reduzindo a multa originalmente aplicada, o que evidencia a observância aos princípios da retroatividade benigna, sem afastar, contudo, a caracterização do dolo. Fl. 10035DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 81 Nesse contexto, não há elementos nos autos capazes de infirmar a conclusão alcançada pela decisão recorrida quanto à qualificação da multa. A simples discordância dos Recorrentes quanto à valoração jurídica dos fatos não é suficiente para descaracterizar o dolo reconhecido com base no conjunto probatório. Diante do exposto, mantém-se a multa qualificada, nos termos fixados pela autoridade julgadora de primeira instância, negando-se provimento aos recursos voluntários também quanto a este ponto. 4 RECURSO DE OFÍCIO Nos termos do art. 34 do Decreto nº 70.235, de 1972, foi apresentado Recurso de Ofício em razão do julgamento parcialmente procedente das impugnações, que implicou redução do crédito tributário originalmente constituído, seja pelo reconhecimento de decadência parcial, seja pela exclusão de corresponsáveis do polo passivo, pela exclusão de determinados valores da base de cálculo, bem como pela adequação do percentual da multa aplicada. Impõe-se, assim, o exame dos pontos em que a autoridade julgadora de primeira instância acolheu, total ou parcialmente, as alegações defensivas, a fim de aferir a correção jurídica e técnica das conclusões adotadas. 4.1 DA EXCLUSÃO DE CORRESPONSÁVEIS DO POLO PASSIVO A autoridade julgadora de piso excluiu Mário Camarozano, Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte e Siqueira Ferreira Monte Advogados do polo passivo do auto de infração, ao concluir pela não configuração dos pressupostos legais da responsabilidade tributária, seja sob o enfoque do art. 124, inciso I, seja sob a ótica do art. 135 do Código Tributário Nacional. A decisão merece ser mantida. Com efeito, a imputação de responsabilidade tributária a terceiros exige a demonstração concreta do vínculo jurídico-material que os conecte à situação que constituiu o Fl. 10036DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 82 fato gerador ou, no caso da responsabilidade pessoal por infração, a comprovação de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos. No caso dos corresponsáveis excluídos, a autoridade julgadora, a partir da análise criteriosa do conjunto probatório constante dos autos, concluiu pela insuficiência de elementos aptos a evidenciar a participação efetiva desses sujeitos na materialização do fato gerador ou na prática de condutas ilícitas que justificassem a responsabilização. Ressalte-se, ainda, que, quanto a Vera Cecília Camargo de Siqueira Ferreira Monte e à pessoa jurídica Siqueira Ferreira Monte Advogados, foram considerados precedentes judiciais transitados em julgado, proferidos em sede de execução fiscal e de ação cautelar fiscal, nos quais restou reconhecida a ilegitimidade passiva dessas mesmas partes em relação a débitos tributários de empresas inseridas no mesmo contexto fático. Embora tais decisões não possuam efeito vinculante no âmbito deste processo administrativo, constituem relevante elemento de reforço probatório, corroborando a inexistência de interesse comum ou de atuação dolosa. Não se vislumbra, portanto, qualquer vício ou impropriedade na exclusão promovida, a qual se mostra compatível com os princípios da legalidade, da pessoalidade da responsabilidade tributária e da segurança jurídica. Assim, nega-se provimento ao recurso de ofício quanto a este ponto, mantendo-se a exclusão dos referidos corresponsáveis. 4.2 DA DECADÊNCIA PARCIAL – PIS E COFINS (OUTUBRO E NOVEMBRO DE 2013) A autoridade julgadora reconheceu a decadência dos lançamentos relativos ao PIS e à COFINS referentes aos períodos de apuração de outubro e novembro de 2013, afastando tais exigências do crédito tributário. A decisão não merece reparos. Consoante consignado no acórdão recorrido, os fatos geradores desses tributos ocorreram em momento anterior ao início do prazo decadencial contado na forma do art. 173, inciso I, do Código Tributário Nacional, de modo que, quando da ciência do auto de infração, em Fl. 10037DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 83 dezembro de 2019, já se encontrava exaurido o prazo para a constituição válida do crédito tributário relativamente a tais períodos. Ademais, a autoridade julgadora procedeu à adequada distinção entre tributos de apuração mensal e trimestral, aplicando o regime decadencial de forma técnica e coerente. Não há, portanto, qualquer fundamento apto a amparar a reforma da decisão nesse aspecto, razão pela qual nega-se provimento ao recurso de ofício. 4.3 DA EXCLUSÃO DE VALORES REFERENTES A RESGATES DE APLICAÇÕES FINANCEIRAS E SAÍDA DE RECURSOS Outro ponto diz respeito à exclusão, da base de cálculo do lançamento, de valores identificados como resgates de aplicações financeiras, notadamente aqueles lançados sob as rubricas “RESGATE BB CDB DI” e “RESGATE MERCADO ABERTO”. Sem reparos. Conforme esclarecido pela própria Fiscalização, em resposta às diligências determinadas pela autoridade julgadora de piso, tais valores não representam ingressos financeiros de origem desconhecida, mas mera conversão de ativos financeiros da própria contribuinte, não se subsumindo, portanto, à presunção legal de omissão de receitas fundada em créditos bancários sem comprovação de origem. A exclusão desses valores preserva a coerência metodológica do lançamento e evita a tributação de ingressos que não configuram receita nova ou acréscimo patrimonial. A autoridade julgadora determinou, ainda, a exclusão de determinados lançamentos que, embora inicialmente considerados no conjunto analisado, correspondiam, na realidade, a saídas de recursos (débitos), e não a créditos bancários. A correção efetuada decorreu de exame minucioso dos extratos bancários e dos demonstrativos fiscais, inclusive com esclarecimentos quanto à correta leitura dos valores e das casas decimais. Trata-se de ajuste pontual, fundado em critério objetivo e verificável, que afasta Fl. 10038DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 84 da base de cálculo valores que, por sua própria natureza, não poderiam ser qualificados como receitas omitidas. Inexiste, assim, qualquer razão para o restabelecimento de tais valores, impondo-se a manutenção da decisão recorrida também neste ponto. 4.4 DA REDUÇÃO DO PERCENTUAL DA MULTA QUALIFICADA Por fim, a autoridade julgadora de primeira instância promoveu a adequação do percentual da multa qualificada, originalmente aplicada no patamar de 150%, para 100%, em razão da superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, que alterou o art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430, de 1996, passando a fixar, de forma expressa, o referido percentual máximo para as hipóteses de sonegação, fraude ou conluio previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. A providência adotada encontra amparo direto na legislação vigente e observa, de modo adequado, o princípio da retroatividade benigna, aplicável às penalidades administrativas de natureza sancionatória, nos termos do art. 106, inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional. Com efeito, tratando-se de norma posterior mais favorável ao sujeito passivo, impõe-se sua aplicação aos lançamentos ainda não definitivamente constituídos na esfera administrativa. Portanto, nego provimento ao Recurso de Ofício, mantendo-se a decisão de primeira instância por seus próprios fundamentos. 5 CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por conhecer os Recursos Voluntários para rejeitar as preliminares de nulidade e, no mérito, negar-lhes provimento. Quanto ao Recurso de Ofício, voto conhecê-lo para negar-lhe provimento. É como voto. Fl. 10039DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.014 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720994/2019-21 85 Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski Fl. 10040DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 DA ADMISSIBILIDADE 2 DAS PRELIMINARES de nulidade 2.1 Destruição de Mídias e Formato dos Arquivos 2.2 da nulidade por ausência de individualização de condutas. cerceamento ao direito de defesa 2.3 da nulidade por Cerceamento de defesa. suposta insuficiência das diligências 2.4 Alegação de vício na utilização de prova emprestada 2.5 DA ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E RESERVA DE JURISDIÇÃO 2.6 Decadência. inaplicabilidade do art. 150, §4º do ctn 3 DO MÉRITO 3.1 Verdade material no processo administrativo fiscal e limites objetivos do dever instrutório 3.2 das alegações em face do arbitramento do lucro 3.3 DA SUPOSTA IMPROPRIEDADE QUANTO AOS VALORES CONSTANTES DA BASE DE CÁLCULO 3.4 da responsabilidade solidária e suposta ausência de individualização de condutas 3.5 Da Caracterização da Confusão Patrimonial 3.6 da incidência de pis/cofins sobre as receitas omitidas 3.7 da multa qualificada 4 recurso de ofício 4.1 Da exclusão de corresponsáveis do polo passivo 4.2 Da decadência parcial – PIS e COFINS (outubro e novembro de 2013) 4.3 Da exclusão de valores referentes a resgates de aplicações financeiras e saída de recursos 4.4 Da redução do percentual da multa qualificada 5 CONCLUSÃO
score : 1.0
Numero do processo: 13161.720384/2016-55
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Jan 29 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013
EMPRESA CEREALISTA. VENDAS COM SUSPENSÃO. APROVEITAMENTO PIS/COFINS. VEDAÇÃO LEGAL.
A empresa cerealista que realiza vendas de produtos com suspensão das contribuições deve estornar os créditos de PIS/COFINS apurados na aquisição, sendo-lhe vedado o aproveitamento para fins de ressarcimento. A regra geral contida no art. 17º da Lei 11.033 de 2004 não revogou a norma especial e anterior do art. 8º, §4º, inciso II, da Lei 10.925/2004, que veda o creditamento para atividade agropecuária.
Numero da decisão: 3101-004.253
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.250, de 11 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13161.720381/2016-11, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO
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VENDAS COM SUSPENSÃO. APROVEITAMENTO PIS/COFINS. VEDAÇÃO LEGAL. A empresa cerealista que realiza vendas de produtos com suspensão das contribuições deve estornar os créditos de PIS/COFINS apurados na aquisição, sendo-lhe vedado o aproveitamento para fins de ressarcimento. A regra geral contida no art. 17º da Lei 11.033 de 2004 não revogou a norma especial e anterior do art. 8º, §4º, inciso II, da Lei 10.925/2004, que veda o creditamento para atividade agropecuária. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.250, de 11 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13161.720381/2016-11, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). Fl. 1917DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 2 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que denegara/acolhera em parte o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente a suposto crédito de Pis- Pasep/Cofins. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: 1. NÃO CUMULATIVIDADE. BENS PARA REVENDA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS DAS AQUISIÇÕES. VEDAÇÃO LEGAL. É vedado à empresa cerealista o aproveitamento de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput do art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004. Cientificado do acórdão recorrido, o Sujeito Passivo interpôs Recurso Voluntário, reiterando a existência do direito creditório postulado e requerendo o integral ressarcimento, aduzindo os seguintes argumentos, em síntese: - O regime da não cumulatividade é aplicável ao caso, uma vez que as saídas de seus produtos foram realizadas com suspensão das contribuições, conforme os artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925/2004 e a Instrução Normativa nº 660/2006; - O art. 17 da Lei nº 11.033/2004 é plenamente aplicável ao caso, tendo revogado tacitamente o inciso II do § 4º do art. 8º da Lei nº 10.925/2004; - A Instrução Normativa nº 660/2006 determina o estorno apenas dos créditos decorrentes da aquisição de insumos utilizados em produtos vendidos com suspensão, não podendo a fiscalização estender essa regra para todas as aquisições da Recorrente; - A eventual inobservância da lei por parte do fornecedor da Recorrente não comprova a não ocorrência das operações comerciais; Fl. 1918DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 3 - A venda com suspensão não pode ser condicionada à apresentação de declaração, cuja exigência foi revogada pela Instrução Normativa nº 977/2009, que a tornou obrigatória apenas para adquirentes que não apuram o Imposto de Renda com base no Lucro Real. Ao final, pugna pelo provimento do recurso. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Recurso tempestivo. Passo à análise do mérito. A controvérsia central reside em definir se a Recorrente, na condição de empresa cerealista, faz jus à manutenção e ao ressarcimento de créditos de PIS/COFINS vinculados a receitas de vendas efetuadas com suspensão das contribuições. A principal discussão travada nos presentes autos está na aplicação do art. 8º, §4º, inciso II, da Lei 10.925/2004, o qual veda expressamente o credito pela empresa cerealista em relação às receitas de venda com suspensão. De acordo com o supramencionado artigo, os créditos apurados na aquisição dos grãos devem ser estornados quando a revenda ocorre sob o regime de suspensão. Recorrente atua no ramo de comércio atacadista de matérias primas agrícolas - milho e soja, sendo desta forma contribuinte do PIS e da COFINS na forma não cumulativa, conforme determinado para as empresas tributadas com base no lucro real, no termos das leis n. 10.637/02 (PIS/PASEP) e n. 10.833/03 (COFINS). Com isso, o contribuinte apurou o IRPJ e a CSLL pelo lucro real. Adquiriu, para revenda exclusiva no mercado interno, milho e soja em grãos (códigos dos itens 1005.90 e 12.01, respectivamente) assumindo, assim, a condição de cerealista. No que se refere aos bens para revenda, o contribuinte efetuou as saídas com suspensão com base nos artigos 8° e 9° da Lei 10.925/04 e Instrução Normativa SRF n° 660/2006. Fl. 1919DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 4 O conceito de cerealista está previsto na Lei 10.925/2004 e IN RFB 1.911/2019, que estabelece como a pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar produtos in natura de origem vegetal: Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições efetuadas de: I - cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e 18.01, todos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. (...) Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: I - de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; O Recorrente apresenta em seu Recurso a sistemática lógica que teria se baseado a apuração do PIS e da COFINS no setor do agronegócio, alegando que o regime de créditos presumidos foi, inicialmente, atribuído para as indústrias de produtos alimentícios de origem vegetal e animal por meio dos artigos 3º, parágrafos 5º e 6º, da Lei 10.833/2003, sendo, logo em Fl. 1920DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 5 seguida, revogados pela Lei 10.925/2004, a qual dispôs acerca do regime em questão em seu conhecido artigo 8º. Com essa sistemática, buscou-se diminuir distorções na cadeia produtiva, decorrente da alteração legislativa que instituiu a não cumulatividade para o PIS e a COFINS. Isto porque, uma parte significativa dos insumos das agroindústrias eram – e continuam sendo – oriundos de produtores pessoas físicas, com impossibilidade de se efetuar o crédito ordinário. Com isso, defende a parte que, somada com a entrada em vigor da Lei nº 11.033/2004, a qual trouxe em seu artigo 17 a previsão que “as vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS não impedem a manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados a essas operações”, deve ser levado em consideração no momento de uma aquisição e consequente creditamento das contribuições a tributação incidente na operação anterior, e não as operações futuras, em que ainda muitas vezes nem se sabe qual será o destino daquele produto. Ocorre que o entendimento quanto a vedação às cerealistas do aproveitamento do crédito presumido é decorrência natural da própria condição de cerealista. Uma vez que exerce o papel de revendedora do grão, não há que se falar em crédito presumido, o qual é direcionado exclusivamente às aquisições como insumo num processo de industrialização. Assim, entendo que deve ser mantido o entendimento da DRJ. A alegação da Recorrente de que o art. 17 da Lei nº 11.033/2004 teria revogado tacitamente a vedação contida no referido artigo não merece prosperar, como bem ressaltou o acórdão da DRJ, trata-se de um conflito aparente de normas que deve ser solucionado pelo princípio da especialidade. A Lei nº 10.925/2004 contém uma norma específica para as operações do agronegócio realizada por cerealistas, como é o caso da Recorrente, enquanto a Lei nº 11.033, apesar de posterior, estabelece uma regra geral e deve ser aplicada a outros casos. Portanto, entendo, em consonância com o entendimento da DRJ, que a vedação específica ao aproveitamento do crédito permanece válida e Fl. 1921DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 6 aplicável ao caso em exame, eis que a lei geral posterior não revoga nem modifica a lei especial anterior. O referido entendimento ainda está em perfeita consonância com a jurisprudência pacífica deste Conselho Administrativo, que reconhece a impossibilidade de creditamento e a obrigatoriedade do estorno dos créditos por empresas cerealistas em vendas com suspensão. Senão, vejamos: Ementa(s) ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2006 INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS. REsp 1.221.170/PR. NOTA SEI PGFN MF 63/2018 O conceito de insumos, no contexto das contribuições não-cumulativas, deve ser interpretado à luz dos critérios da essencialidade e relevância do bem ou serviço, aferidos em face da sua relação com o processo produtivo ou de prestação de serviços realizados pelo sujeito passivo. STJ, REsp n.º 1.221.170/PR, julgado sob o rito do art. 543-C do CPC/1973, e em face do art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF). E aplicação da NOTA SEI PGFN MF 63/2018. PEDIDO DE RESSARCIMENTO/DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. SUJEITO PASSIVO. Em pedidos de restituição/ressarcimento e em declarações de compensação, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez dos créditos pretendidos. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso do processo administrativo. DESPESAS DE FRETES. AQUISIÇÕES COM FIM ESPECIFICO DE EXPORTAÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. É expressamente vedado pela legislação tributária o aproveitamento de crédito da contribuição não cumulativa, calculado sobre os custos de aquisições de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação, por parte da comercial exportadora, assim como sobre os respectivos fretes e demais despesas não vinculadas às exportações de produtos próprios. REGIME DA NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DE CONTRIBUIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE APURAÇÃO DE CRÉDITO. Em regra, não geram créditos no regime da não-cumulatividade das contribuições as aquisições de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. As aquisições de bens para revenda em operações que Fl. 1922DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 7 estão sujeitas à alíquota zero não geram direito ao crédito da contribuição não-cumulativa, por força da vedação estabelecida pelo art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.833/2003. PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVO. GASTOS COM TRANSPORTE DE INSUMOS. CUSTO DE AQUISIÇÃO DA MATÉRIA-PRIMA SUJEITA À ALÍQUOTA ZERO. DIREITO A CRÉDITO NO FRETE. POSSIBILIDADE. O artigo 3º, inciso II das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos insumos, mas excetua expressamente nos casos da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição (inciso II, § 2º, art. 3º). Tal exceção, contudo, não invalida o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador dos insumos sujeitos à alíquota zero, que compõe o custo de aquisição do produto (art. 289, §1º do RIR/99), por ausência de vedação legal. Sendo os regimes de incidência distintos, do insumo (alíquota zero) e do frete (tributável), permanece o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do insumo para produção. VEÍCULOS UTILIZADOS NO TRANSPORTE DE INSUMOS. ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO. POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. Os encargos de depreciação de veículos utilizados no transporte de insumos geram créditos no âmbito das contribuições não-cumulativas. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. As despesas com serviços de manutenção em máquinas e equipamentos utilizados no processo produtivo podem gerar direito ao crédito de PIS/COFINS não-cumulativos. VENDAS COM SUSPENSÃO. CREDITAMENTO. VEDAÇÃO LEGAL EXPRESSA. Por força do art. 8º, § 4º, inciso II, e do art. 15, § 4º, ambos da Lei nº 10.925/2004, a pessoa jurídica cerealista, aquela que exerça as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura, ou, ainda, aquela que exerça atividade agropecuária e a cooperativa de produção agropecuária, de que tratam os incisos I a III do § 1º do referido art. 8º, deverão estornar os créditos referentes à incidência não-cumulativa do PIS/COFINS, quando decorrentes da aquisição dos insumos utilizados nos produtos agropecuários vendidos com suspensão da exigência daquelas contribuições. Nesses casos, a expressa vedação legal ao aproveitamento de créditos de PIS/COFINS continua válida e vigente, não tendo sido afastada pelo art. 17 da Lei nº 11.033/2004. SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO. SÚMULA CARF nº. 125. Fl. 1923DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 8 Súmula CARF nº 125: No ressarcimento da COFINS e da Contribuição para o PIS não cumulativas não incide correção monetária ou juros, nos termos dos artigos 13 e 15, VI, da Lei nº 10.833, de 2003. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. CRÉDITO. TRANSPORTE DE INSUMOS TRIBUTADOS. A apuração de crédito de PIS não cumulativo, calculado sobre despesas de frete, é cabível apenas na hipótese de transporte de insumos sujeitos à tributação pelas contribuições. PIS/PASEP. COMBUSTÍVEIS E LUBRIFICANTES UTILIZADOS COMO INSUMOS NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE O creditamento pelos insumos previsto no art. 3º, II, da Lei nº 10.637/2002 abrange os custos com combustíveis utilizados pelo contribuinte nas máquinas agrícolas e demais equipamentos que participam de seu processo produtivo, gerando, portanto, direito a crédito. NÃO CUMULATIVIDADE. ALUGUÉIS DE PRÉDIOS. ARRENDAMENTO. A apuração de crédito não cumulativo calculado sobre arrendamento de área rural para plantio e cultivo de produtos agropecuários, bem como benfeitorias da área arrendada, segue a mesma sistemática permitida para o aluguel de prédios. Processo nº 10183.909233/2011-93, Relator: PAULO ROBERTO DUARTE MOREIRA, Nº do Acórdão 3201-008.938, julgado em: 25/08/2021). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2008 INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS. REsp 1.221.170/PR. NOTA SEI PGFN MF 63/2018 O conceito de insumos, no contexto das contribuições não-cumulativas, deve ser interpretado à luz dos critérios da essencialidade e relevância do bem ou serviço, aferidos em face da sua relação com o processo produtivo ou de prestação de serviços realizados pelo sujeito passivo. Tal entendimento restou consubstanciado pelo STJ, no REsp n.º 1.221.170/PR, julgado sob o rito do art. sob o rito do art. 543-C do CPC/1973, sendo, assim, de aplicação obrigatória pelos membros do CARF, em face do art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF). Com o advento da NOTA SEI PGFN MF 63/2018, restou clarificado o conceito de insumos, para fins de constituição de crédito das contribuições não-cumulativas, definido pelo STJ ao apreciar o REsp 1.221.170, em sede de repetitivo - qual seja, de que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Fl. 1924DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 9 PEDIDO DE RESSARCIMENTO/DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. SUJEITO PASSIVO. Em pedidos de restituição/ressarcimento e em declarações de compensação, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez dos créditos pretendidos. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso do processo administrativo. DESPESAS DE FRETES. AQUISIÇÕES COM FIM ESPECIFICO DE EXPORTAÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. É expressamente vedado pela legislação tributária o aproveitamento de crédito da COFINS não cumulativa, calculado sobre os custos de aquisições de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação, por parte da comercial exportadora, assim como sobre os respectivos fretes e demais despesas não vinculadas às exportações de produtos próprios. REGIME DA NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DE CONTRIBUIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE APURAÇÃO DE CRÉDITO. Em regra, não geram créditos no regime da não-cumulatividade da COFINS as aquisições de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. As aquisições de bens para revenda em operações que estão sujeitas à alíquota zero não geram direito ao crédito da COFINS não- cumulativa, por força da vedação estabelecida pelo art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.833/2003. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS COM ALÍQUOTA ZERO OU ADQUIRIDOS COM SUSPENSÃO DO PIS E DA COFINS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal para aproveitamento dos créditos sobre os serviços de fretes utilizados na aquisição de insumos não onerados pelas contribuições ao PIS/COFINS. VEÍCULOS UTILIZADOS NO TRANSPORTE DE INSUMOS. ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO. POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. Os encargos de depreciação de veículos utilizados no transporte de insumos geram créditos no âmbito das contribuições não-cumulativas. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. As despesas com serviços de manutenção em máquinas e equipamentos utilizados no processo produtivo podem gerar direito ao crédito de PIS/COFINS não-cumulativos. Fl. 1925DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 10 DESPESAS DE EMBARQUE PARA EXPORTAÇÃO. CRÉDITOS. APROVEITAMENTO. POSSIBILIDADE. As despesas com embarque, nas operações de exportação de produtos para o exterior, constituem despesas na operação de venda e, portanto, dão direito ao creditamento. VENDAS COM SUSPENSÃO. CREDITAMENTO. VEDAÇÃO LEGAL EXPRESSA. Por força do art. 8º, § 4º, inciso II, e do art. 15, § 4º, ambos da Lei nº 10.925/2004, a pessoa jurídica cerealista, aquela que exerça as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura, ou, ainda, aquela que exerça atividade agropecuária e a cooperativa de produção agropecuária, de que tratam os incisos I a III do § 1º do referido art. 8º, deverão estornar os créditos referentes à incidência não-cumulativa do PIS/COFINS, quando decorrentes da aquisição dos insumos utilizados nos produtos agropecuários vendidos com suspensão da exigência daquelas contribuições. Nesses casos, a expressa vedação legal ao aproveitamento de créditos de PIS/COFINS continua válida e vigente, não tendo sido afastada pelo art. 17 da Lei nº 11.033/2004. SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO. SÚMULA CARF nº. 125. Súmula CARF nº 125: No ressarcimento da COFINS e da Contribuição para o PIS não cumulativas não incide correção monetária ou juros, nos termos dos artigos 13 e 15, VI, da Lei nº 10.833, de 2003. (Processo nº 10183.720782/2013-82, Relator: Vinicius Guimaraes, Nº do Acórdão 3302-010.597, julgado em: 23/03/2021). Entendo ser correto ainda o entendimento da DRJ de manter a reclassificação de parte das receitas da Recorrente como tributáveis, eis que o benefício da suspensão exige o cumprimento de requisitos cumulativos pelo contribuinte, como a apuração do IRPJ pelo lucro real e a utilização do produto como insumo, vedada a revenda. Não tendo o contribuinte logrado êxito em comprovar que os adquirentes preenchem os pressupostos legais, escorreita a reclassificação efetuada pela fiscalização, que não pode se pautar em presunções quando se trata de benefício fiscal. Ante o exposto, voto pelo conhecimento do recurso voluntário, mas no mérito, nego-lhe provimento. Fl. 1926DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.253 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.720384/2016-55 11 Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao recurso. Assinado Digitalmente GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO – Presidente Redator Fl. 1927DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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