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Numero do processo: 13888.906876/2012-17
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 20 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Mar 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/09/2008 a 30/09/2008
PRELIMINAR. DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Demonstrados no despacho decisório eletrônico os fatos que ensejaram a não-homologação da compensação, informada a sua correta fundamentação legal e emitido por autoridade competente, é de se rejeitar a alegação de nulidade do despacho decisório por cerceamento de defesa.
AUSÊNCIA DE DILIGÊNCIA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Inexiste cerceamento de defesa quando o próprio contribuinte não requer a realização de diligência e o julgador de primeira instância não determina a sua realização por entender que os elementos que integram os autos são suficientes para a plena formação de convicção e, portanto, para que se proceda ao julgamento. A diligência fiscal não tem a finalidade de trazer aos autos as provas documentais que cabia ao sujeito passivo produzir.
COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE.
Pertence ao contribuinte o ônus de comprovar a certeza e a liquidez do crédito para o qual pleiteia compensação.
PROVA. APRECIAÇÃO INICIAL EM SEGUNDA INSTÂNCIA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. LIMITES. PRECLUSÃO.
A apreciação de documentos não submetidos à autoridade julgadora de primeira instância é possível nas hipóteses previstas no art. 16, § 4º do Decreto nº 70.235/1972 e, excepcionalmente, quando visem à complementar instrução probatória já iniciada quando da interposição da manifestação de inconformidade.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3002-000.609
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto da Silva Esteves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Alan Tavora Nem e Carlos Alberto da Silva Esteves
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DA SILVA ESTEVES
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/09/2008 a 30/09/2008 PRELIMINAR. DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Demonstrados no despacho decisório eletrônico os fatos que ensejaram a não-homologação da compensação, informada a sua correta fundamentação legal e emitido por autoridade competente, é de se rejeitar a alegação de nulidade do despacho decisório por cerceamento de defesa. AUSÊNCIA DE DILIGÊNCIA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste cerceamento de defesa quando o próprio contribuinte não requer a realização de diligência e o julgador de primeira instância não determina a sua realização por entender que os elementos que integram os autos são suficientes para a plena formação de convicção e, portanto, para que se proceda ao julgamento. A diligência fiscal não tem a finalidade de trazer aos autos as provas documentais que cabia ao sujeito passivo produzir. COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE. Pertence ao contribuinte o ônus de comprovar a certeza e a liquidez do crédito para o qual pleiteia compensação. PROVA. APRECIAÇÃO INICIAL EM SEGUNDA INSTÂNCIA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. LIMITES. PRECLUSÃO. A apreciação de documentos não submetidos à autoridade julgadora de primeira instância é possível nas hipóteses previstas no art. 16, § 4º do Decreto nº 70.235/1972 e, excepcionalmente, quando visem à complementar instrução probatória já iniciada quando da interposição da manifestação de inconformidade. Recurso Voluntário Negado.
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PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR PIS Recorrente ELRING KLINGER DO BRASIL LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/09/2008 a 30/09/2008 PRELIMINAR. DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Demonstrados no despacho decisório eletrônico os fatos que ensejaram a nãohomologação da compensação, informada a sua correta fundamentação legal e emitido por autoridade competente, é de se rejeitar a alegação de nulidade do despacho decisório por cerceamento de defesa. AUSÊNCIA DE DILIGÊNCIA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste cerceamento de defesa quando o próprio contribuinte não requer a realização de diligência e o julgador de primeira instância não determina a sua realização por entender que os elementos que integram os autos são suficientes para a plena formação de convicção e, portanto, para que se proceda ao julgamento. A diligência fiscal não tem a finalidade de trazer aos autos as provas documentais que cabia ao sujeito passivo produzir. COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE. Pertence ao contribuinte o ônus de comprovar a certeza e a liquidez do crédito para o qual pleiteia compensação. PROVA. APRECIAÇÃO INICIAL EM SEGUNDA INSTÂNCIA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. LIMITES. PRECLUSÃO. A apreciação de documentos não submetidos à autoridade julgadora de primeira instância é possível nas hipóteses previstas no art. 16, § 4º do Decreto nº 70.235/1972 e, excepcionalmente, quando visem à complementar instrução probatória já iniciada quando da interposição da manifestação de inconformidade. Recurso Voluntário Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 90 68 76 /2 01 2- 17 Fl. 1207DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.208 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Alan Tavora Nem e Carlos Alberto da Silva Esteves Relatório O processo administrativo ora em análise trata de PER/DCOMP (fl. 38/43), cujo crédito teria origem em recolhimento da PIS efetuado a maior. A compensação declarada não foi homologada, conforme despacho decisório (fl. 18), pelos seguintes motivos: "A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP". Após ser intimada da decisão, a ora recorrente apresentou tempestivamente Manifestação de Inconformidade e a instruiu com atos constitutivos e de representação da empresa, o Despacho Decisório, o Dacon retificador e o Per/Dcomp original. Em seqüência, analisando os argumentos apresentados, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte DRJ/BHE julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, por Acórdão que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 30/09/2008 DESPACHO DECISÓRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE REJEITADA. Fl. 1208DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.209 3 Deve ser rejeitada a preliminar de nulidade, quando o Despacho Decisório contém a fundamentação legal e as informações e orientações necessárias ao exercício da plena defesa do contribuinte, e a tramitação do processo se dá em observância estrita ao rito do processo administrativo fiscal. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 30/09/2008 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. CRÉDITO NÃO COMPROVADO. Não se admite a compensação se o contribuinte não comprovar a existência de crédito líquido e certo. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Cientificada dessa decisão, a contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fl. 63/73), no qual requereu a reforma do Acórdão recorrido, em linhas gerais, alegando cerceamento do direito de defesa, tanto do Despacho Decisório, como do Acórdão recorrido, e, no mérito repisa argumentos já apresentados em sua Manifestação de Inconformidade. Anexa aos autos novos documentos. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves Relator O direito creditório envolvido no presente processo encontrase dentro do limite de alçada das Turmas Extraordinárias, conforme disposto no art. 23B do RICARF. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Esta Turma Julgadora já teve, recentemente, oportunidade de se debruçar exatamente sobre matéria, situação fática e probatória semelhantes as constantes nos presentes autos em outros processos da mesma contribuinte. Como exemplo desse fato, citese o processo administrativo nº 13888.906857/201291, no qual foi proferido o Acórdão nº 3002 000.523 da relatoria da Ilustre Conselheira Larissa Nunes Girard. Assim, por entender que o Acórdão citado espelha perfeitamente o meu entendimento sobre a matéria posta em análise no processo atual, reproduzo excerto daquele voto condutor e adoto como razões de decidir os fundamentos ali lançados: Fl. 1209DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.210 4 "Preliminar de Nulidade – Cerceamento de Defesa Na alegação de nulidade por cerceamento do direito de defesa, a recorrente defende que, em prol da verdade material, deveria a autoridade administrativa ter analisado os documentos juntados e solicitado novos documentos (e/ou diligência) para apurar mais alguma informação necessária para a decisão. Prossegue afirmando que a divergência entre Dacon e DCTF não seria motivo suficiente para o indeferimento do pedido, visto que a DCTF por si só não é garantia de liquidez ou certeza da compensação, motivo pelo o qual deveria o julgador ter procurado esclarecer a razão da divergência entre Dacon e DCTF, em uma análise mais cuidadosa da situação, e que o cerceamento se configura por não ter havido fundamentação baseada na análise dos documentos apresentados. De pronto, chama a atenção a inversão de papéis e responsabilidades pretendida pela recorrente. O que temos, de fato, ao longo de todo este processo, são falhas na atuação do contribuinte. Quando fez a transmissão da declaração de compensação, ela estava em desacordo tanto com o Dacon quanto com a DCTF. Ao se aperceber da divergência, providenciou a retificação apenas do Dacon, mas não da DCTF, que é uma declaração que tem o poder de uma confissão de dívida. Posteriormente, ao protocolar sua manifestação de inconformidade, mesmo sabedor do não provimento do seu pedido, não trouxe aos autos eventuais provas que pudesse ter sobre o montante do débito que considerava realmente devido. Limitouse a juntar o Dacon retificador, documento ao qual a DRJ já tinha acesso. E agora, nesta fase, após a segunda negativa a seu pleito, junta notas fiscais em valor insuficiente para respaldar a redução do débito realizada e protesta contra a omissão da Administração Fazendária, que não teria se ocupado de produzir as provas que a ele caberia. É cediço que, nos casos de solicitação de restituição, compensação e ressarcimento de crédito contra a Fazenda Nacional, cabe ao contribuinte, aquele que alega o direito, o ônus da produção da prova. Tal entendimento, aplicado de forma pacífica nos diversos colegiados do Carf, sustentase no Decreto nº 7.574/2011, que regulamenta o processo de determinação e de exigência de créditos tributários da União. Por ele, vemos em seu art. 28 que cabe ao interessado a prova dos fatos que alega. Igualmente podemos nos socorrer do Código de Processo Civil, que estabelece em seu art. 373 que, quanto ao fato constitutivo de seu direito, o ônus da prova incumbe ao autor. Portanto, se o contribuinte não exerceu o seu direito no momento e na forma que deveria, não cabe inculpar a Administração por sua desatenção. O Decreto nº 70.235/1972 (PAF) estabelece que a manifestação de inconformidade deve Fl. 1210DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.211 5 conter os argumentos e provas necessários para a demonstração do que se alega, nos seguintes termos: Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art. 16. A impugnação mencionará: I a autoridade julgadora a quem é dirigida; II a qualificação do impugnante; III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito; V se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição. § 1º Considerarseá não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. (grifado) Fica claro pelo texto legal que a recorrente deveria ter produzido as provas quando apresentou sua impugnação/manifestação de inconformidade. No que tange à reclamação pela ausência de diligência, deve ser esclarecido que se trata de procedimento facultativo, disponível para o julgador quando há dúvida substancial, que deve ser sanada para que seja possível a tomada de decisão, nos termos do que dispõe o PAF em seu art. 18, in verbis: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (grifado) Segundo se depreende do voto do Acórdão da DRJ, não houve qualquer incerteza que justificasse a determinação de ofício de realização de diligência. Como, de sua parte, o contribuinte também não solicitou o procedimento, possibilidade prevista no PAF, não cabe reclamar do julgador que entendeu existirem elementos suficientes para a decisão e assim a proferiu. Cabem ainda algumas considerações sobre o PER/Dcomp e o despacho decisório. A declaração de compensação (Per/Dcomp) que se analisa teve tratamento eletrônico, que consiste no cruzamento dos dados informados pelo contribuinte em suas Fl. 1211DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.212 6 declarações, em busca de se encontrar, ao menos, consistência e coerência nas informações, de modo a permitir o deferimento do pleito. Essa sistemática visa ao processamento rápido de um número expressivo de compensações, o que não se alcança com a análise manual. De se ressaltar que esse batimento de dados não é apto para verificar a fidedignidade contidos nas declarações, mas tão somente a coerência entre eles, de tal forma que o mínimo que se exige do contribuinte nesta fase é que preste a mesma informação em sua declaração de compensação e em sua DCTF. Caso se constate divergência, a compensação é indeferida e o contribuinte tem a oportunidade de apresentar explicações e documentos que irão demonstrar o seu direito ao crédito. Portanto, ainda que a verificação eletrônica consista em um procedimento préestabelecido e limitado, de forma alguma o direito de argumentar, explicar ou se defender é reduzido ou retirado do contribuinte. Fazse necessário, ainda, o esclarecimento sobre o propósito e alcance de cada declaração, aspectos que a recorrente trata com impropriedade e tenta utilizar como forma de desacreditar as decisões. A Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) constitui confissão de dívida, instrumento hábil e suficiente para a cobrança administrativa, conforme dispõe o DecretoLei nº 2.124/1984, sendo enviada para inscrição na Divida Ativa da União em caso de não liquidação dos débitos, e, por isso, é a declaração que a Receita Federal utiliza em suas verificações. O Dacon, por sua vez, é mero demonstrativo da apuração das contribuições sociais, prestandose a detalhar para a Receita Federal como o contribuinte encontrou o valor declarado em DCTF e auxiliar a fiscalização. O Dacon não tem o mesmo status jurídico da DCTF. Por esse motivo, o que consta no Dacon é indício de direito, mas não prova, não havendo qualquer mácula na fundamentação da decisão de primeira instância quando afirma que a retificação de Dacon, destituída de documentos que comprovem a redução do débito não faz prova do direito creditório. (...) Igualmente descabido é o argumento de que a DRJ teria ignorado as alegações e argumentos juntados pela recorrente, sem considerálos em sua decisão. A leitura do voto é suficiente para demonstrar o que se afirma e, por isso, transcrevo a parte final do acórdão recorrido: "No caso, o recorrente não comprova erro que possa alterar o fundamento do despacho decisório. Na falta de comprovação do erro, a divergência entre os valores informados em Dacon e DCTF afasta a certeza do crédito e é Fl. 1212DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.213 7 razão suficiente para o indeferimento do pedido de restituição ou da compensação. Nesse ponto, cabe assinalar que a simples indicação de supostos valores corretos em Dacon retificador ou em demonstrativo integrante da manifestação de inconformidade não é suficiente para comprovar erro nas informações prestadas originalmente na DCTF, de forma a evidenciar a existência de pagamento indevido ou a maior no período considerado e atestar a certeza e liquidez do crédito." (...) Dessa maneira, concluo que não há vício nas decisões que integram este processo, pois estão fundamentadas, foram proferidas por autoridades competentes, os prazos e ciências foram respeitados, os argumentos e o único documento pertinente juntado à manifestação de inconformidade foi analisado. Ademais, e tratase de aspecto elementar para a caracterização do cerceamento de defesa, pelo conteúdo das peças recursais, vêse que o sujeito passivo compreendeu perfeitamente o motivo da denegação do seu pedido. Pelo o exposto, afasto a preliminar de nulidade por cerceamento de defesa. Mérito Tendo compreendido que a mera retificação do Dacon, desacompanhada de documentação que justificasse a redução do débito confessado, não era suficiente para demonstrar o direito, a recorrente traz aos autos provas documentais, pela primeira vez, na fase de recurso voluntário. E requer a sua apreciação, sem maiores considerações sobre o fato de fazêlo intempestivamente. Sobre esse ponto, então, irá residir o cerne deste julgamento. A compensação somente pode ser concedida para créditos líquidos e certos, conforme estabelece o art. 170 do Código Tributário Nacional, e, como já mencionado, que a demonstração da certeza e liquidez nos casos de compensação é ônus que recai sobre o requerente. Assim sendo, para que a Receita Federal autorize a compensação, deve a recorrente demonstrar de forma inequívoca seu crédito, por meio de alegações e provas, e o momento de fazêlo é quando da apresentação da manifestação de inconformidade, em obediência ao Decreto nº 70.235/1972, que assim instituiu: Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamentar, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; Fl. 1213DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.214 8 (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (grifado) Do exposto, extraímos que a recorrente deveria ter juntado a documentação necessária para comprovar o seu direito quando decidiu recorrer do despacho decisório. Foi aí que se iniciou o contencioso e foram definidos os limites desta lide. A apresentação da manifestação de inconformidade é momento crucial no processo administrativo fiscal. O que é trazido pelo sujeito passivo a título de razões e provas define a natureza e a extensão da controvérsia que, regra geral, só deveria alcançar este Conselho após a apreciação da matéria pela primeira instância. Ao admitir o início da produção de provas em fase de recurso voluntário, suprimimos o exame da matéria pelo colegiado a quo, de fato, uma supressão de instância, em desfavor do contraditório e do rito processual estabelecido no referido Decreto. Consoante ainda o art. 16, transcrito acima, preclui o direito da recorrente de fazer prova em momento posterior à apresentação da manifestação de inconformidade, exceto se demonstrada a impossibilidade de fazêlo tempestivamente por motivo de força maior ou a existência de novos fatos ou razões, ocorridos ou trazidos aos autos após a juntada da manifestação. Ainda sobre a entrega extemporânea de documentos, dita o comando que tal solicitação deve ocorrer mediante petição fundamentada, na qual fique demonstrada a ocorrência de alguma das exceções. Conforme já abordado, no momento do despacho decisório havia informação discrepante sobre o real débito de Cofins, prestada pelo próprio contribuinte, que desconsiderou que a redução de débitos confessados em DCTF deveria estar amparada por documentos fiscais e contábeis, hábeis a comprovála, como determina o art. 147 do CTN: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa Fl. 1214DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.215 9 informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. (grifado) Por esse motivo as instruções normativas da Receita Federal que disciplinavam o Dacon, já extinto, determinavam que a pessoa jurídica que retificasse esse Demonstrativo deveria também apresentar DCTF retificadora, confirmando a concepção de que o conteúdo do Dacon pode ser indício de direito, mas não faz prova. É pacífico neste Colegiado que a ausência de retificação da DCTF pode ser superada pela comprovação do direito ao crédito por meio de documentos fiscais e contábeis hábeis e suficientes, mas a manifestação de inconformidade foi instruída apenas com a retificadora do Dacon, que não tem valor de prova, e agora foram juntadas algumas notas fiscais, por amostragem, insuficientes para cobrir a redução que débitos que se pretende, sem justificativa para a apresentação tardia dessa documentação. Incontestável que a situação não se enquadra em nenhuma das alíneas do § 4º do art. 16 do Decreto e está configurada, por conseqüência, a preclusão temporal. Há de se ponderar, todavia, que a ocorrência de determinadas especificidades permitiria ao julgador conhecer da prova apresentada intempestivamente, em prol da verdade material, que é um princípio caro ao processo administrativo fiscal, mas não absoluto, como muitas vezes se pretende. Deve o julgador procurar o equilíbrio com os demais princípios, em especial como os princípios da legalidade e do devido processo legal, principalmente porque se trata de afastar a aplicação de um dispositivo legal que determina expressamente a preclusão. Para tanto, é requisito que o contribuinte tenha exercido seu papel de tentar demonstrar o direito quando devido, ou seja, na interposição da manifestação de inconformidade. Nesse contexto, as provas apresentadas com o recurso voluntário poderiam ser conhecidas com o objetivo de esclarecer um ponto obscuro, complementar uma demonstração já iniciada ou reforçar o valor do que foi anteriormente apresentado, algo próprio do desenvolvimento da marcha processual. O que se configura inadmissível é a invocação da busca da verdade material com vistas a propiciar ao recorrente a oportunidade de suprir sua própria omissão em fase anterior, que é o que ocorre nestes autos. Tal entendimento é o que prevalece atualmente em diversos colegiados no Carf. A ver os Acórdãos seguintes, todos proferidos em julgamentos realizados em 2018: nº 3201003.476 do conselheiro Marcelo Vieira e nº 1302002.731 do conselheiro Fl. 1215DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.216 10 Flávio Dias, representativos de decisões em Turmas Ordinárias de diferentes Seções de Julgamento, bem como o Acórdão nº 9303007.555, do conselheiro Luiz Eduardo Santos, nº 9303 006.241, da conselheira Vanessa Cecconello, e nº 9303007.334, do conselheiro Demes Brito, todos da 3ª Seção da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Transcrevese, a título complementar, as razões de decidir da conselheira relatora Vanessa Cecconello no Acórdão nº 9303 006.241, pela pertinência no presente caso: "Esclareçase não se estar privilegiando o formalismo exacerbado em detrimento do princípio da verdade material, norteador do processo administrativo fiscal. Ocorre que não ficou demonstrada no caso em exame qualquer das hipóteses autorizadoras do acolhimento das provas apresentadas somente na fase recursal, quais sejam: (a) impossibilidade de apresentação oportuna, por força maior; (b) sejam referentes a fato ou a direito supervenientes ou, ainda, (c) destinemse a contrapor fatos ou razões posteriormente veiculados nos autos. Somese aos fundamentos até aqui expendidos, que, conforme consignado no acórdão recorrido, mesmo sendo admitidos os documentos fiscais e contábeis trazidos pelo Sujeito Passivo em sede de recurso voluntário, não seriam suficientes para comprovar a certeza e a liquidez do indébito tributário. Por conseguinte, demandaria a reabertura da fase de instrução do processo para que a Contribuinte colacionasse aos autos outras provas complementares, as quais provavelmente estavam em seu poder quando da apresentação da manifestação de inconformidade, providência incabível, nesse caso, em sede de recurso. Admitirseia a análise de argumentos e provas novas se os mesmos tivessem sido apresentados com a manifestação de inconformidade e, somente no julgamento da mesma por meio de acórdão, tivessem sido considerados por insuficientes. Nessa hipótese, em prol da busca da verdade real dos fatos e demonstrando, a empresa, o intuito de comprovar o seu direito ao crédito pleiteado, poderseia acolher a complementação das alegações e do conjunto probatório trazido ao processo. Nesse diapasão, os argumentos e provas não trazidos em sede de manifestação de inconformidade, mas tão somente em sede de recurso voluntário e não comprovada a ocorrência de uma das hipóteses do art. 16, §4º do Decreto 70.235/72, são considerados preclusos, não podendo ser analisados por este Conselho em sede recursal. Diante do exposto, negase provimento ao recurso especial do Contribuinte." Fl. 1216DF CARF MF Processo nº 13888.906876/201217 Acórdão n.º 3002000.609 S3C0T2 Fl. 1.217 11 Assim sendo, por todo o exposto, voto no sentido de rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário, não reconhecendo o direito creditório pleiteado. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Fl. 1217DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13820.720184/2018-53
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 28 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Apr 16 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2014
DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO.
É passível de dedução da base de cálculo do Imposto de Renda a despesa médica declarada e devidamente comprovada por documentação hábil e idônea.
Numero da decisão: 2002-000.907
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente.
(assinado digitalmente)
Virgílio Cansino Gil - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil e Thiago Duca Amoni. Ausente a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: VIRGILIO CANSINO GIL
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score : 1.0
Numero do processo: 10880.933735/2016-82
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Mar 18 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1302-000.712
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Suplente Convocada), Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Suplente Convocada), Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório Para a devida síntese do processo em tela, transcrevo o relatório do Acórdão 1678.111 – 1ª Turma da DRJ/SPO, complementandoo ao final: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .9 33 73 5/ 20 16 -8 2 Fl. 11001DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.002 2 Tratase o presente processo de manifestação de inconformidade contra despacho decisório que não reconheceu o direito creditório pleiteado pelo contribuinte na PER/DCOMP 27649.84005.101213.1.7.029363, resultando na não homologação das seguintes PER/DCOMP: Os motivos que embasaram o não reconhecimento do direito creditório encontramse detalhados no documento "Informações Complementares da Análise de Crédito" e nas fls 1 a 2612 do processo 16692.726477/201558, e podem ser assim resumidas: 1. Não comprovação do valor de R$ 350.318.335,63, referentes a Imposto de Renda Pago no Exterior; 2. Não comprovação do valor de R$ 83.489.970,28 referentes a estimativas dos meses de janeiro, abril e maio de 2011 compensadas com DCOMPs Não Homologadas e Não Declaradas. Em documento intitulado "Justificativas Referentes à Glosa do Imposto Pago no Exterior" (fls 2616/2620 do processo 16692.726476/201558) a autoridade fiscal assim conclui: "Além de não ter apresentado todos os documentos relacionados à arrecadação necessários a análise do suposto crédito, a contribuinte não apresentou os documentos que comprovassem a sua participação direta ou indireta nas empresas a seguir relacionadas, apesar de ser sido intimada para tanto. Cerveceria Y Maltaria Quilmes SAICA Y G FNC S.A Cerveceria Paraguaya S A Labatt Brewing Company Limited Cerveceria Boliviana Nacional S A Assim não foi possível comprovar se a COMPANHIA DE BEBIDAS DAS AMÉRICAS — AMBEV — CNPJ 02.808.708/000107, de fato possui participação nas empresas relacionadas no parágrafo anterior, qual a participação em cada uma, qual o impacto do resultado das mesmas no lucro da COMPANHIA DE BEBIDAS DAS AMÉRICAS — AMBEV e qual o valor do Imposto sobre a Renda pago no exterior que pode ser utilizado para compensar o Imposto de renda devido no Brasil. Desta forma, concluise pela desconsideração do valor deduzido da IRPJ — Exercício 2011, a título de "IR Pago no Exterior". Fl. 11002DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.003 3 Cientificada do despacho decisório em 15/06/2016, apresentou manifestação de inconformidade em 15/07/2016, com as seguintes alegações abaixo resumidas: 1. Das antecipações mensais compensadas Argumenta a manifestante que entregou declarações de compensação para compensar antecipações mensais de IRPJ e CSLL devidas no anocalendário de 2011, sendo tais declarações objeto de despacho decisório não homologatório em 2014, muito depois de encerrado o período base de apuração dos saldos negativos discutidos nestes autos. Para tais declarações, a manifestante alega ter apresentado manifestações de inconformidade e para o caso de compensação não declarada, apresentado Embargos à Execução. Ressalta que a declaração de compensação, nos termos dos §§ do art. 74 da Lei 9.430/96 é instrumento de confissão de dívida, e o não pagamento da compensação julgada indevida é motivo para que o débito seja encaminhado para inscrição em dívida ativa e posterior execução judicial forçada, caso persista o não pagamento. Cita a Solução de Consulta Interna n° 18/2006 da CoordenaçãoGeral de Tributação ("COSIT"), que conclui "Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Dcomp, e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na DIPJ" (grifos da manifestante"). Lembra a manifestante tratarse de assunto controverso, vez que os Pareceres PGFN/CAT n° 1.658/2011 e 193/2013 propugnavam pela impossibilidade do Fisco efetuar a cobrança de antecipações mensais de imposto. Entretanto, com base no Parecer PGFN/CAT n° 88/2014, o entendimento passou a ser de que os valores de antecipações mensais de IRPJ e CSLL compensados e utilizados na apuração do imposto no final do período base de apuração podem ser cobrados do contribuinte, vez que esses passariam a ter natureza de imposto definitivo. Observa que o item "b" do Parecer PGFN/CAT n° 88/2014, que propõe o ajuste nos sistemas para controlar a cobrança, não podem ser opostos como óbices para eficácia jurídica de qualquer direito do contribuinte. Subsidiariamente, argumenta a manifestante, em caso de impossibilidade de cobrança das antecipações mensais de IRPJ e CSLL compensadas com base nos saldos negativos ora discutidos, o mesmo raciocínio deverá ser aplicado para as antecipações mensais de IRPJ e CSLL de janeiro de 2012, que foram compensadas com base no saldo negativo de IRPJ de 2011, pois se referem a antecipações de períodos de apuração já encerrados, portanto, a sua cobrança deveria ser cancelada. 2. Do Imposto de Renda Favo no Exterior 2.1 Comprovação da participação societária indireta nas sociedades que pagaram imposto de renda no exterior Fl. 11003DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.004 4 Inicia sua peça defensiva, no que se refere a participação indireta nas sociedades que pagaram imposto de renda no exterior, transcrevendo o organograma demonstrando os elos societários da manifestante: Passa a explicitar a participação societária em cada empresa do grupo. 2.1.1 Labatt Holding AS ("Labat Holding”) "44 Como é possível se depreender do Quadro 1 acima, a Defendente controla indiretamente diversas sociedades, entre elas todas aquelas que pagaram o imposto de renda no exterior compensado no anocalendário de 2011, por intermédio Fl. 11004DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.005 5 da Labatt Holding AS ("Labatt Holding"), da qual detinha, em referido anocalendário, participação correspondente à 89,92% do capital social. 45. Conforme demonstra o anexo Registro de Acionistas da Labatt Holding (doc. 11), em 27.08.2004 a Defendente adquiriu 1.000.016.808,00 (um bilhão, dezesseis mil, oitocentos e oito) ações representativas do capital social da Labatt Holding. Na mesma data a Falua Spain S.L. ("Falua") adquiriu 1,00 (urna) ação do capital social da Labatt Holding e todas as antigas sócias deixaram de participar de referida sociedade. Ou seja, nesta data a Defendente passou a deter praticamente 100,00% da Labatt Holding. 46. A participação da Defendente foi diluída em razão de aumento de capital subscrito e integralizado por Jalua em 11.11.2005 de 23.450,00 novas ações da Labatt Holding, e diante dos aumentos de capital subscritos e integralizados por Dunvegan S.A ("Dunvegan") e NCAQ S.C. ("NCAQ”) de 91.297.616 e 31.003.683 novas ações, respectivamente, em 01.09.2010, conforme Registro de Acionistas da Labatt Holding (doc. 11). 47. Ainda conforme o Registro de Acionistas da Labatt Holding (doc. 11), também em 01.09.2010 a Defendente subscreveu e integralizou aumento de capital de 91.122.959 ações da Labatt Holding. 48. Considerando referidos aumentos de capital, a posição acionária demonstrada pelo Registro de Acionistas da Labatt Holding (doc. 11) em 01.09.2010 pode ser resumida no Quadro seguinte: (...) 49. A Labatt Holding foi liquidada em 17.12.2012 (Declaração de Dissolução anexa, doc. 12). 50. Como é possível se depreender da Transcrição Completa referente à Labatt Holding emitida pela Direção Geral da Indústria, Comércio e Sociedades da Dinamarca (doc. 13), não houve alteração na composição acionária da Labatt Holding até a sua extinção, sendo que a última alteração foi aquela ocorrida em 01.09.2010, acima referida. 51. Deste modo, entre 01.09.2010 (data da última alteração de composição societária da Labatt Holding) e 17.12.2012 (data da extinção da Labatt Holding), nisto incluindose todo o anocalendário de 2011, a Defendente deteve 89,92% da Labatt Holding." 2.1.2 Labatt Canadá 52. A Defendente detinha participação indireta na Labatt Canadá por meio de sua participação direta na Labatt Holding, acima demonstrada. A Labatt Holding, por sua vez, detinha, em 2011, 100% das ações representativas do capital da Labatt Canadá. 53. A participação indireta da Recorrente na Labatt Canadá é demonstrada pelo seguinte organograma: Fl. 11005DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.006 6 (...) 54. A participação da Labatt Holding no capital social da Labatt Canadá, pode ser comprovada pelo anexo Registro de Acionistas da Labatt Canadá (doc. 14). 55. De fato, consta em referido Registro de Acionistas (doc. 14) que a Labatt Holding deteve 100% das ações da Labatt Canadá entre 23.06.2004 e18.12.2012, período este que inclui o anocalendário de 2011 objeto de discussão nestes autos. Vejase: (...) 56. Como a Defendente detém 89,92% da Labatt Holding e esta, por sua vez, tem 100% da Labatt Canadá, demonstrado está que a Defendente possuía participação indireta de 89,92% na Labatt Canadá durante o anocalendário de 2011." 2.1.3 Quilmes International (Bermuda) Ltd (QIB") "57. A participação da Defendente nas demais sociedades que pagaram imposto de renda no exterior no anocalendário de 2011 (quais sejam, CMQ, FNC, CBN Cervepar) foi detido, no anocalendário de 2011, também por meio do Quilmes International (Bermuda) Ltd. ("QIB"). 58. Na QIB a Defendente tem participação indireta por meio da Labatt Holding, que por sua vez é detida diretamente pela Defendente (conforme demonstrado no Capítulo 111.1.a acima). 59. De fato, a Labatt Holding detém praticamente 100% do capital social da QIB. Consoante o anexo Registro de Acionistas da QIB datado de 14.12.2010 (doc. 15), a Labatt Holding é titular de 113.848.413 (cento e treze milhões, oitocentas e quarenta e oito mil, quatrocentas e treze) ações da QIB, em um total de 113.855.370 (cento e treze milhões, oitocentas e cinqüenta e cinco mil, trezentas e setenta) ações. 60. A informação do Registro de Acionistas da QIB datado de 14.12.2010 (doc. 15) segue suma rizada no Quadro abaixo: (...) 61. Já o Registro de Acionistas da QIB datado de 14.12.2012 (doc. 16) demonstra que todas as participações detidas pelos demais acionistas firam transferidas para a Labatt Holding em 19.10.2011. 62. Resta demonstrado, portanto, que entre 14.12.2010 (doc. 15) e 14.12.2012 (doc. 16), período este que inclui o anocalendário de 2011, a Q1B foi detida integralmente pela Labatt Holding. 63. Como a Defendente deteve, em 2011, 89,92% da Labatt Holding e esta, por sua vez, deteve 100% da QIB, demonstrado está que a Defendente possuía participação indireta de 89,92% na QIB no anocalendário de 2011." 2.1.4 Linthal S.A. ("Linthal Uruguai") Fl. 11006DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.007 7 64. A participação da Defendente nas demais sociedades que pagaram imposto de renda no exterior no anocalendário de 2011 (quais sejam, CMQ, FNC, CBN e Cervepar) foi detida, em referido anocalendário, também por meio da Linthal S.A. ("Linthal Uruguai'). 65. Na Linthal Uruguai a Defendente tem participação indireta por meio da QIB, que é 100% detida pela Labatt Holding (conforme demonstrado no Capítulo 11.1.1.c acima). 66. A QIB por sua vez, participa diretamente da Linthal Uruguai e também de firma indireta por meio de sua subsidiária integral Inversiones Cerveceras S.A. ("Incesa"), que foi liquidada durante o anocalendário de 2011 (doc. 17). 67. De fato, consoante se verifica na Ata de Assembléia Geral Extraordinária da Linthal Uruguai de 30.12.2010 (doc. 18), referida assembléia contou com a participação de todos os sócios da Linthal Uruguai, quais sejam, QIB e sua subsidiária integral Incesa. 68. Esta assembleia, digase, ocorreu imediatamente antes do início do anocalendário de 2011. 69. Referida ata (doc. 18) ainda dá conta de que na data da realização da assembleia haviam sido emitidas 12.746.120.042 ações da Linthal Uruguai. 70. Já o Registro de Presença de Acionistas na Assembléia Ordinária da Linthal Uruguai de 20.04.2010 (doc. 19) permite aferir a participação individualizada da QIB e da Incesa no seu capital social. 71. O quadro abaixo resume as informações contidas no referido Registro de Presença de 20.04.2010 (doc. 19): (...) 72. Resta demonstrado, portanto, que desde 20.04.2010 (doc. 19) e 30.12.2010 (doc. 18), isto é, desde antes do anocalendário de 2011, a Linthal Uruguai era integralmente detida pela QIB, seja diretamente, seja por intermédio de sua subsidiária integral Incesa. 73. Tendo em vista que em 2011 a Defendente detinha participação indireta na QIB de 89,92% (por meio da Labatt Holding, conforme demonstrado no Capítulo 111.1.c) e esta, por sua vez, detinha 100% Linthal Uruguai, demonstrado está que a Defendente possuía participação indireta de 89,92% na Linthal Uruguai no ano calendário de 2011." 2.1.5 Linthal Spain Holding S.L. ("Linthal Espanha") "74. A participação indireta da Defendente nas demais sociedades que pagaram imposto de renda no exterior no anocalendário de 2011 (quais sejam, CMQ, FNC, CBN e Cervepar) ainda passa, em referido anocalendário, pela Linthal Spain Holding S.L. ("Linthal Espanha'), que posteriormente teve sua denominação social alterada para Latin America South lnvestment, S.L. Fl. 11007DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.008 8 75. Durante todo o ano calendário de 2011 a Linthal Espanha teve como sua única sócia a Linthal Uruguai (que, como se demonstrou no Capítulo III1.d acima, é 89,92% detida indiretamente pela Defendente por meio da Labatt Holding e da QIB). 76. Isto pode ser comprovado pela Escritura de Modificação de Estatutos da Linthal Espanha de 24.06.2010 (doc. 20), na qual consta que referida sociedade se constituía como unipessoal e sua única sócia era a Linthal Uruguai (Linthal S.A.). 77. Na Escritura de Publicação de Acordos Sociais da Linthal Espanha de 12.06.2011 (doc. 21) foi aprovada a alteração da denominação social para Latin America South Investment, S.L., mantendose a constituição com sociedade unipessoal. 78. Já na escritura da Escritura de Publicação de Acordos Sociais da Linthal Espanha de 26.09.2012 (doc. 22), a Linthal Uruguai, como única dona, aumenta o capital social e o integraliza com participações sociais que detinha em outras empresas do grupo. 79. Resta demonstrado, portanto, que entre 24.06.2010 (doc. 20) e 26.09.2012 (doc. 22), período que inclui todo o anocalendário de 2011, a Linthal Uruguai foi a única sócia da Linthal Espanha. 80. E como restou demonstrado no Capítulo III. 1.d acima, durante o ano¬ calendário de 2011, a Linthal Uruguai foi 89,92% detida indiretamente pela Defendente, por consequência, também a Linthal Espanha foi 89,92% detida indiretamente pela De/endente no mesmo ano (já que era 100% diretamente detida pela Linthal Uruguai no período)." 2.1.6 FNC “81. Como já referido, a FNC foi uma das sociedades que pagou imposto de renda no exterior aproveitado para compensação com o IRPJ e a CSLL devidos pela Defendente no Brasil e para a firmação dos saldos negativos ora discutidos. 82. Durante o anocalendário de 2011, a FNC foi detida indiretamente pela Defendente através das empresas Linthal Espanha, Linthal Uruguai, QIB, e Labatt Holding, todas estas detidas 89,92% direta ou indiretamente pela Defendente no referido período. 83. O organograma abaixo ilustra a participação indireta da Defendente sobre a FNC: (...) 84. A evolução da composição acionária da FNC no tempo pode ser verificada no anexo Certificado Notarial da FNC emitido em 28.02.2014 (doc. 23). 84.1 O item "D" de referido certificado dá conta de que, em 23.04.2010, foi celebrada Assembleia Geral Ordinária da FNC na qual compareceram como Fl. 11008DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.009 9 acionistas a QIB e a Linthal Uruguai, representando juntas um total de 95,5782408% do capital social da FNC. 84.2 Já o item "E" de referido certificado registra que, em 25.04.2011 foi celebrada Assembleia Geral Ordinária da FNC na qual compareceram como acionistas a QIB e a Linthal Uruguai, representando juntas um total de 97,57824% do capital social da FNC. 84.3 Por fim o item "F" de referido certificado consigna que, em 15.06.2012 foi celebrada Assembleia Geral Ordinária da FNC na qual compareceu como acionista a Linthal Espanha, representando um total de 97,5826% do capital social da FNC. 85. Resta demonstrado consoante os itens "E" e "F" do referido certificado (doc. 23) que durante o anocalendário de 2011 a FNC foi detida em aproximadamente 98% pela QIB e Linthal Uruguai em conjunto e depois pela Linthal Espanha, no mesmo percentual. 86. Tendo em vista que a QIB, a Linthal Uruguai e a Linthal Espanha eram detidas indiretamente pela Defendente em 89,92% dos respectivos capitais sociais em 2011, temos que a participação indireta da Defendente na FNC, em referido ano calendário, corresponde à 88,12%, isto é, 89,92% multiplicados por 98%." "87. Como já referido anteriormente, a Cervepar também é uma das sociedades que pagou imposto de renda no exterior utilizado pela Defendente para compensar IRPJ e CSLL devidos no Brasil e para a firmação dos saldos negativos ora discutidos. 88. Em 2011, além da participação de minoritários, o capital da Cervepar era detido majoritariamente pela Linthal Espanha (diretamente e por intermédio da FNC). 89. O seguinte organograma facilita o entendimento da participação indireta da Defendente na Cervepar: (..) 90. A Ata da Assembleia Geral Extraordinária da Cervepar realizada em 19.04.2011 (doc. 24) registra a presença da Linthal Espanha, que detém diretamente 348.570 ações da Cervepar. Consigna, além disso, que o capital social da Cervepar é divido em 400.000 ações. 91. Se a Linthal Espanha detinha diretamente 348.570 de 400.000 ações em 2011 (conforme a referida Ata, doc. 24), então a Linthal Espanha detinha diretamente 87,14% da Cervepar no anocalendário discutido nos autos. 92. Além disso, a FNC participava de 0,2176% do capital social da Cervepar. Uma vez que a Linthal Espanha possuía 98% da FNC, de forma indireta participava em mais 0,2132% do capital social da Cervepar (isto é, 98% de participação da Linthal Espanha na FNC multiplicado por 0,2176% de participação da FNC na Cervepar). Fl. 11009DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.010 10 93. Em suma, a Linthal Espanha participava, direta e indiretamente, de 87,35% do capital social da Cervepar, no anocalendário de 2011. 94. Considerandose que a Defendente participava indiretamente de 89,92% do capital social da Linthal Espanha, concluise que, no anocalendário de 2011, também participou indiretamente de 78,55% da Cervepar, isto é, 89,92% de participação indireta da Defendente na Linthal Espanha multiplicado por 87,35% de participação direta e indireta da Linhtal Espanha na Cervepar." 2.1.8 CMQ "95 Como também já se referiu anteriormente, a CMQ é uma das sociedades que pagou imposto de renda no exterior utilizado pela Defendente para compensar IRPJ e CSLL devidos no Brasil e para a formação dos saldos negativos ora discutidos. 96. Em 2011, além da participação de minoritários, o capital da CMQ era detido majoritariamente pela Linthal Espanha e pela Linthal Uruguai. 97. O seguinte organograma facilita o entendimento da participação indireta da Defendente na CMQ: 98.Consta do anexo Protocolo Notarial de Alteração de Estatutos da CMQ, emitido em 25.01.2010 (doc. 25) que, em assembleia realizada em 30.11.2009 registrouse presença da maioria dos acionistas da CMQ, correspondente à 99,74% do capital social da CMQ ou 89.867.629 ações ordinárias. 99. Se 99,74% do capital social da CMQ corresponde á 89.867.629 ações, então 100% do capital social corresponde a 90.101.894 ações. 100. Referida composição é corroborada pelo anexo Registro de Acionistas da CMQ (doc. 26), o qual também registra que desde junho de 2008 Linthal Espanha e Linthal Uruguai detém, respectivamente, 85.352.892 e 4.514.737 ações da CMQ. 101.Tendo em vista que o capital da CMQ é composto de 90.101.894 ações, as 85.352.892 ações detidas pela Linthal Espanha representam 94,74% do capital social da CMQ e as 4.514.737 ações detidas pela Linthal Uruguai representam 5% do capital social da CMQ. 102. Como é possível se verificar do Registro de Acionistas da CMQ, a única modificação que ocorreu posteriormente a junho de 2008 foi a alteração do título de acionista da Linthal Espanha e apenas para refletir a mudança de sua denominação social para Latin America South Investment, S.L. Esta modificação foi registrada no dia 08.05.2012. 103. Em outras palavras, é possível afirmar com segurança que no período compreendido entre junho de 2008 e 08.05.2012 acima destacado no Registro de Acionistas da CMQ (doc. 26), que inclui o anocalendário de 2011, as participações da Linthal Espanha representaram 94,74% do capital social da CMQ e da Linthal Uruguai representaram 5% do capital social da CMQ. Fl. 11010DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.011 11 104. Juntas, Linthal Uruguai e Linthal Spain detinham, portanto, 99,74% do capital social da CMQ no anocalendário de 2011. Como a Defendente detinha participação indireta de 89,92% tanto na Linthal Uruguai como na Linthal Spain em referido anocalendário, então para 2011 a participação indireta da Defendente na CMQ era de 89,69% resultado da multiplicação dos percentuais de 89,92% (participação da Defendente na Linthal Uruguai e na Linthal Espanha) e 99,74% (participação da Linthal Uruguai e da Linthal Espanha na CMQ)." 2.1.9 CBN “105. Também a CBN é uma das sociedades que pagou imposto de renda no exterior utilizado pela Defendente para compensar IRPJ e CSLL devidos no Brasil e para a formação dos saldos negativos ora discutidos, conforme já mencionado. 106. Em 2011, além da participação de minoritários, o capital da CBN era majoritariamente detido pela Linthal Espanha, diretamente e por intermédio da PRAD AB ("Prad'), e em menor porção pela Linthal Uruguai e pela Q1B. 107.O seguinte organograma facilita o entendimento da participação indireta da Defendente na CBN: 108.Acerca da Prad. cumpre esclarecer que tratase de subsidiária integral da Linhtal Espanha que teve a denominação alterada para PRAD AB em 04.09.2009 e posteriormente para Austral Beverage Company AB em 22/05/2012, e depois para LAScan Beverage Company AB em 08/07/2015, como podese depreender do anexo Certificado de Registro da Prad emitido pelo Escritório de Registros de Empresas da Suécia (doc. 27). 109. Ademais, consoante se depreende do Registro de Ações da Prad (doc. 28), a partir de 17.06.2011 a totalidade do capital da Prad passa a ser detido pela Linthal Espanha, o que é corroborado pela informação constante da Ata de Assembleia de 01.09.2011, na qual consta que a Linthal Espanha é a única detentora de suas quotas (doc. 29). 110. A composição acionária da CBIV, por sua vez, pode ser conferida com base nos anexos Títulos ou Certificados de Propriedade de Ações de Emissão da CBN (doc. 30). 111. Como é possível se depreender destes títulos de propriedade de ações, Linthal Spain, Prad e QIB detém em conjunto 85,9% do capital social da CBN para o anocalendário de 2011. O quadro abaixo resume a informação contida em referidos títulos: (...) 112.Vejase que referidos títulos foram emitidos em 2002 e 2010 e somente foram cancelados em 29.06.2012. Disto se depreende que a informação neles contida é válida para todo o anocalendário de 2011. 113. Tendo em vista que a Defendente detinha, no anocalendário de 2011, participação indireta na Linthal Espanha, na Prad e na Q1B de 89,92% dos Fl. 11011DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.012 12 respectivos capitais sociais, a participação societária indireta da Defendente na CBN é de 70,60% para referido anocalendário, valor que decorre da multiplicação da participação indireta da Defendente na Q1B, Linthal Espanha e Prad (89,92%) pela participação que estas detêm na CBN (85,9%)." 2.1.10 Sumário das participações societárias Sociedade Participação indireta da Defendente Sociedades intermediárias Capitulo Labbat Canadá 89,92% Labbat Holding III.1.b acima FNC 88,12% Labatt Holding, QIB, Linthal Uruguai e Linthal Espanha III.1.f acima Cerveper 78.55% Labatt Holding, QIB, Linthal Uruguai, Linthal Espanha e FNC III.1.g acima CMQ 89,89% Labatt Holding, QIB, Linthal Uruguai e Linthal Espanha III.1.h acima CBN 70.80% Labial Holding, QIB, Linthal Uruguai, Unthal Espanha e Prad III.i acima 2.2 Da efetiva adição e oferecimento à tributação no Brasil do resultado das subsidiárias que pagaram imposto de renda no exterior Explica a manifestante que a adição de lucros disponibilizados no exterior no valor de R$ 1.488.047.830,11 (um bilhão, quatrocentos e oitenta e oito milhões, quarenta e sete mil, oitocentos e trinta reais e onze centavos), informada nas linhas 07 das Fichas 09A e 17 da DIPJ do anocalendário de 2011 se compõe da seguinte forma: Empresa Resultado adicionado Labatt Holding R$ 1.401.273.342,51 Ambev Intemational R$ 27.985.171,80 Dahlen S.A. R$ 58.809.315,80 Total da adição R$ 1.488.047.830,11 O valor de interesse para o presente processo é o resultado da Labatt Holding (R$ 1.401.273.342,51), vez que o imposto de renda pago no exterior que se busca compensar se refere a sociedades em que a manifestante participa por meio de seu investimento direto na Labatt Holding. Fl. 11012DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.013 13 Para comprovar a adição do resultado a manifestante assim se pronuncia: •O ponto de partida para o cálculo do valor a adicionar foi a demonstração de resultado da Labatt Holding, extraídos da sua Demonstração Financeira Auditada; •O resultado da sociedade, por ser uma holding, se refere ao resultado auferido por suas controladas diretas e indiretas, sendo a participação nos lucros de subsidiárias a sua única receita; •Os investimentos que a Labatt Holding detém em suas subsidiárias é avaliado pelo método da equivalência patrimonial; •O resultado da Labatt Holding corresponde ao resultado de suas subsidiárias, multiplicado pela participação da manifestante na Labatt Holding (89,92%), acrescido do imposto de renda pago no exterior sobre esse resultado; Argumenta que a Instrução Normativa SRF 213/2002 determina que os resultados auferidos por intermédio de outra pessoa jurídica, na qual a controlada no exterior mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente, serão consolidados no balanço da controlada para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil. Conclui, a manifestante, que os resultados da Labatt Canadá, da FNC, da CMQ, da Cervepar e da CBN foram adicionados às bases de cálculo do IRPJ e da CSLL por meio da adição do resultado da Labatt Holding. 2.3. Dos documentos comprobatórios do pagamento do Imposto de renda no exterior 2.3.1. Dos documentos de arrecadação da CMQ Relata a manifestante ter incorrido em erro de digitação em dois documentos de arrecadação, referentes ao período de apuração 2011, assim, registrou valores inferiores ao efetivamente pago. Tal erro gerou um saldo de imposto de renda pago pela CMQ e não utilizado pela manifestante de R$ 3.445.423,08. A manifestante faz ressalva quanto a exigência pela autoridade fiscal de apresentação de declaração de imposto apurado no exterior para fins de compensação do imposto pago no exterior por entender que não há na legislação (Lei 9.249/95, Lei 9.430/96 e Instrução Normativa 213/2002) essa exigência. Os dispositivos legais se limitam a determinar que o contribuinte disponibilize os documentos de arrecadação devidamente reconhecidos pelo órgão competente no país em que o imposto foi pago. Não obstante a falta de exigência legal, juntou ao processo Declaração Jurada — AFIP — Imposto a Las Ganâncias de 2011 apresentada ao fisco argentino cuja autenticidade foi analisada e atestada pelo laudo da empresa KPMG. A mesma empresa comparou os valores de impostos declarados como devidos e os valores de Fl. 11013DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.014 14 imposto pago aproveitados pela Manifestante no anocalendário 2011, concluindo que os créditos utilizados foram inferiores ao imposto de renda declarado como devido. Prossegue sua defesa argumentando contra o não reconhecimento do montante de imposto pago referente a períodos de apuração diferentes de 2011. Alega não ter a autoridade fiscal declinado qualquer fundamentação legal impedindo o seu reconhecimento. A compensação do imposto de renda pago no exterior é regulado pelo art. 26 da Lei 9.249/95, instituindo como condições para a compensação apenas que i) o lucro das subsidiárias deve ter sido computado ao lucro real; ii) a compensação não exceda o imposto devido no Brasil; e iii) o imposto de renda no exterior tenha sido pago. Conclui que desses requisitos não há vedação a compensação do imposto referente ao período de apuração anterior, vez que há casos de lapso temporal inexorável entre a apuração e o efetivo pagamento do imposto. Ainda coloca a Manifestante que o art. 1° da Lei 9.532/97 permitia que o contribuinte adicionasse nas bases do IRPJ e da CSLL os lucros auferidos no exterior até o segundo anocalendário subsequente ao de apuração. Ademais, observa que a regulamentação dada ao assunto pela IN 213 é muito mais ligada ao pagamento do imposto no exterior em si do que propriamente ao período em que referido imposto foi apurado. Em caso de não aceitação dos valores pagos em períodos de apuração diferentes de 2011, subsidiariamente, pede a manifestante a aceitação dos valores de imposto pago referente ao período de apuração 2011. Passa a tratar os valores de compensações não reconhecidas tendo como justificativa a falta de apresentação de comprovação de que as compensações foram aceitas pelo Fisco do país da subsidiária. Argumenta que, assim como no Brasil, em caso de não aceitação pelo fisco argentino das compensações apresentadas pela CMQ, a empresa seria compelida a pagar o respectivo valor, não havendo óbices para utilizar tal valor para compensar no Brasil como imposto efetivamente pago. Alega que a legislação referente à compensação do imposto de renda recolhido no exterior não traz qualquer vedação quanto à forma pela qual referido tributo é quitado no exterior. Prossegue detalhando os códigos de receita solicitados pela autoridade fiscal. Por fim, subsidiariamente, alega inexistir obrigação de adicionar os lucros da CMQ nas bases do IRPJ e da CSLL, portanto, caso não seja reconhecido a possibilidade de incluir o imposto de renda pago na Argentina pela CMQ, a própria adição dos lucros da CMQ nas bases de IRPJ e CSLL deve ser desconsiderada, vez que em função do Tratado para evitar a Dupla Tributação firmado entre Brasil e Argentina, os lucros não poderiam ser tributados no Brasil. O Decreto 87.976/1982 estabelece em seu Artigo VII que os lucros de uma empresa de um Estado Contratante (Argentina) só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante (Brasil), por meio de um estabelecimento permanente aí situado, o que não seria o caso dos autos. Portanto, os lucros auferidos pela CMQ somente deveriam ser tributados na Argentina. Fl. 11014DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.015 15 Ainda que o controle da Manifestante sobre a CMQ seja indireto, o CARF já definiu que a aplicação do art. 74 da MP 2.15835/2002 considera que os resultados são diretamente absorvidos pela investidora brasileira, de modo que para efeitos de aplicação de tratado contra dupla tributação, deve ser considerado o país no qual está a subsidiária que efetivamente auferiu os lucros. 2.3.2. Dos documentos de arrecadação da FNC Relata a manifestante que a autoridade fiscal não aceitou as declarações de apuração do imposto por serem elas cópias parciais. Sobre esse ponto, alega que o laudo elaborado pela KPMG constatou que isso não impede a aferição do montante de imposto de renda apurado e pago pela FNC no Uruguai. Em relação a ausência de apresentação de documentos de arrecadação do imposto apurado, coloca que a KPMG, em seu laudo, constatou que os valores declarados foram efetivamente recolhidos pela FNC, tal constatação se deu com base nas telas de consulta ao sistema da Direccion General Impositiva ("DGI"). 2.3.3. Dos documentos de arrecadação da Cervepar A manifestante faz ressalva quanto a exigência pela autoridade fiscal de apresentação de declaração de imposto apurado no exterior para fins de compensação do imposto pago no exterior, por entender que não há na legislação (Lei 9.249/95, Lei 9.430/96 e Instrução Normativa 213/2002) essa exigência. Os dispositivos legais se limitam a determinar que o contribuinte disponibilize os documentos de arrecadação devidamente reconhecidos pelo órgão competente no país em que o imposto foi pago. Não obstante a falta de exigência legal, a declaração de imposto de renda para o ano de 2011 foi juntada como Anexo Geral V, p.3, do Laudo da KPMG, e foi analisada em conjunto com a declaração de 2010. Com base nesses documentos, a KPMG identificou quem um dos pagamentos de imposto de renda da Cervepar considerados para compensação em 2011 se referem a imposto apurado no ano calendário 2010. Em relação a esse ponto, remete a manifestante aos argumentos apresentados anteriormente (item "2.3.1 Dos documentos de arrecadação da CMQ") Também destaca a manifestante que a KPMG constatou que a Cervepar apurou excesso de antecipações de imposto sobre o imposto de renda devido no fim do período de apuração. Poderia ela ter utilizado o valor para compensar com outros tributos devidos ou mesmo para compensar imposto de renda devido em períodos futuros, mas esse valor não pode ser desconsiderado sem prova por parte das autoridades fiscais de que tal compensação não ocorreu. 2.3.4. Dos documentos de arrecadação da Labatt Canadá Alega que autoridade fiscal não considerou os impostos pagos pela Labatt Canadá por não ter apresentado a declaração de apuração do imposto. Tal declaração foi apresentada à KPMG que a analisou e concluiu que a Defendente aproveitou menos imposto de renda pago pela Labatt Canadá do que os valores por ela declarados aos Fiscos canadenses. 2.3.5. Dos documentos de arrecadação da CBN Fl. 11015DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.016 16 Alega que autoridade fiscal não considerou os impostos pagos pela CBN, pois os documentos estavam ilegíveis. Sobre esse ponto, argumenta que a KPMG em seu laudo identificou que especialmente no cabeçalho, de forma legível, é possível identificar o valor do imposto de renda pago pela CBN. Quando do julgamento do caso em deslinde, a DRJ proferiu decisão nos seguintes termos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011 IMPOSTO PAGO O EXTERIOR. COMPENSAÇÃO. COMPROVANTE. TRADUÇÃO JURAMENTADA. AUTENTICAÇÃO. FISCAL ESTRANGEIRO. CONSULADO BRASILEIRO A tradução juramentada de documento de arrecadação de imposto de renda incidente sobre lucros no exterior, é condição necessárias, mas não suficiente para fins de compensação com o apurado no País, devendo ainda estar o documento autenticado pelo respectivo órgão arrecadador e reconhecido pelo consulado brasileiro no país em que ele for devido, ou fique demonstrado, à luz do direito estrangeiro, a finalidade arrecadatória do documento apresentado. SALDO NEGATIVO DE IRPJ. ESTIMATIVA MENSAL. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. Na apuração do saldo negativo de IRPJ é cabível a glosa de estimativa cuja compensação não foi homologada, por ausentes os atributos de liquidez e certeza do crédito, ainda que referida compensação esteja pendente de decisão administrativa definitiva. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2011 PROVA. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO. O momento para apresentação de provas é no momento da apresentação da peça defensiva, nos termos de art. 16, §40 do Decreto 70.235/72. A posterior junta de provas só se faz possível nos casos em que a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Os principais argumentos lançados pela DRJ para não reconhecer o direito creditório da recorrente foram os seguintes: Das estimativas compensadas (...) Em que pese haver manifestações em sentido contrário, como aquelas emitidas por DRJs ou mesmo pelo CARF colacionadas na peça impugnatória, entendo que é cabível a glosa da estimativa não homologada na apuração do saldo negativo de IRPJ e da base de cálculo da CSLL. Fl. 11016DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.017 17 Se o contribuinte efetuar o pagamento da estimativa não homologada no primeiro processo, seja por desistir do valor pago haverá de ser computado no saldo negativo objeto deste processo, que seria extinto por perda de objeto. O crédito haverá de ser reconhecido pela autoridade fiscal em qualquer momento, a pedido ou de ofício, desde que comprovado o pagamento. Entretanto, repisese, o crédito somente pode ser reconhecido após efetivo e comprovado pagamento da estimativa, momento a partir do qual ficam caracterizadas a liquidez e a certeza requeridas no art. 170, eaput, do Código Tributário Nacional (CTN), para se efetuar a compensação. Ou, alternativamente, o crédito poderá ser reconhecido se houver decisão definitiva favorável, homologando a compensação. Caso contrário, ou seja, enquanto as estimativas de IRPJ não estiverem extintas (compensação não homologada e/ou pendente de pagamento), descabe considerála no saldo negativo do período em questão, eis que ausentes os atributos de liquidez e certeza. Não se cogita reconhecer um crédito de estimativa com base no simples pressuposto de que o respectivo valor, caso não homologada a compensação, será cobrável no futuro. Esta última hipótese equivaleria a admitir a restituição (ou compensação) de valores antes do efetivo recebimento do indébito tributário, o que seria um absurdo. Sendo assim, na apuração do saldo negativo de IRPJ e da CSLL do período em apreço, é cabível a glosa das estimativas, cujas compensações não foram homologadas ou foram não declaradas. Quanto ao pedido subsidiário da manifestante para cancelamento das cobranças de estimativas de IRPJ e CSLL de janeiro de 2012, pois foram compensadas com base no saldo negativo de IRPJ de 2011, não cabe a análise no presente processo, que trata da utilização de estimativas compensadas não homologadas na formação do saldo negativo do IRPJ e CSLL. Do imposto de renda pago no exterior Inicialmente, e considerando que toda a defesa da manifestante em relação ao Imposto de Renda Pago no Exterior remete ao Laudo Técnico de Natureza Contábil elaborado pela KPMG ASSESSORES LTDA, cumpre tecer algumas considerações sobre tal documento. O Laudo Técnico de Natureza Contábil apresentado não é hábil a comprovar as alegações da manifestante quando apresentado isoladamente, ele não isenta o contribuinte a apresentar as demais provas necessárias para firmar a convicção do julgador de primeira instância, da mesma forma que ele não isenta o contribuinte de apresentar os demais elementos exigidos pela legislação de regência das matérias nele veiculadas. Dessa forma, o Laudo em questão serve como um guia para o julgador, que usará as conclusões obtidas nele para, em conjunto com os demais elementos juntados aos autos, firmar sua convicção sobre a matéria. Esse é o entendimento que se depreende do artigo 29 do Decreto 70.235/72 que regulamenta o Processo Administrativo Fiscal, in verbisa lide, seja cumprindo a decisão final desfavorável, então Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. Fl. 11017DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.018 18 Feita essa primeira consideração, passase a analisar o mérito das alegações trazidas pela manifestante. 2.1 Da comprovação da participação societária indireta nas sociedades que pagaram imposto de renda no exterior. Em resumo, alega a manifestante que detém participação societária indireta nas empresas que pagaram imposto de renda no exterior e que foram objeto de compensação no presente processo, ao contrário do apontado pela autoridade fiscal. Sobre o assunto, apresentou organograma demonstrando os elos societários, bem como juntou documentação que considerava ser suficiente para comprovar suas participações societárias. Preliminarmente, antes de adentrar a análise da documentação juntada pela manifestante para comprovar sua participação societária indireta nas sociedades em questão, fazse um adendo sobre a validade de documentos em língua estrangeira. Os documentos em língua estrangeira, para terem validade no direito brasileiro devem vir acompanhados de tradução juramentada para o português, conforme preceitua o art. 192 do Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015): Art. 192. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso da língua portuguesa. Parágrafo único. O documento redigido em língua estrangeira somente poderá ser juntado aos autos quando acompanhado de versão para a língua portuguesa tramitada por via diplomática ou pela autoridade central, ou firmada por tradutor juramentado. (g. n) Na mesma linha de entendimento, encontrase a seguinte redação conferida ao art. 224 da Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil) Art. 224. Os documentos redigidos em língua estrangeira serão traduzidos para o português para ter efeitos legais no País. ('g. n) O Decreto n° 13.609, de 21 de outubro de 1943, que regulamentou o oficio de tradutor público e intérprete comercial, já condicionava a tradução de documento redigido em língua estrangeira, à produção de efeitos em repartições públicas, a teor de seu art. 18: Art 18. Nenhum livro, documentou papel de qualquer natureza que for exarado em idioma estrangeiro, produzirá efeito em repartição da União, dos Estados ou dos Municípios, em qualquer instância, Juízo ou Tribunal ou entidades mantidas, fiscalizadas ou orientadas pelos poderes públicos, sem ser acompanhado da respectiva tradução feita na conformidade desse regulamento. (g.n) É de se concluir que a exigência de tradução juramentada de documentos é requisito mínimo a ser cumprido por qualquer contribuinte que postule, junto a repartição pública, direito apoiado em documento produzido em idioma estrangeiro. Portanto, o Laudo Técnico de Natureza Contábil não supre a necessidade de apresentação de documentação de suporte traduzida ao português por tradutor juramentado comprovando a participação indireta da Manifestante. Fl. 11018DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.019 19 Na sua peça defensiva a manifestante faz alusão a documentos anexados aos autos para comprovar a sua participação societária indireta nas empresas que pagaram imposto de renda no exterior e que foram utilizados para formação do saldo negativo ora em análise. A tabela abaixo demonstra os documentos juntados pelo contribuinte e tece considerações sobre o atendimento ao requisito de serem apresentados na sua versão original e respectiva tradução juramentada. Fl. 11019DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.020 20 Fl. 11020DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.021 21 Portanto, da tabela acima notase que a análise das participações societárias detidas indiretamente pela manifestante resta prejudicada, pois alguns documentos não foram traduzidos ao Português por tradutor juramentado, dessa forma não atenderam aos requisitos dispostos na legislação pátria, e portanto, não tendo valor legal no Brasil. Entretanto, de forma a atestar o quanto possível das alegações prestadas pela manifestante, passase a analisar os documentos que vieram acompanhados dos documentos originais e respectivas traduções juramentadas. (...) 2.1.1 Da participação societária na Labatt Holding Fl. 11021DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.022 22 Como demonstrado na tabela acima, em relação à Labatt Holding, o único documento apresentado original e tradução juramentada foi o intitulado "Transcrição Completa", em que se nota que a companhia Labatt Holding AIS foi dissolvida em 20/12/2012. Entretanto, em tal documento não é possível identificar os sócios da empresa, vez que não demonstra em nenhum dos registros históricos a composição do quadro societário, o documento se limita a apresentar as alterações no Conselho de Administração, alterações na empresa responsável pela Auditoria da companhia, bem como aumentos no capital social. Portanto, considero não ter o contribuinte comprovado sua participação societária na LabattlTolding. 2.1.2 Da participação societária na Labatt Canadá Da tabela acima depreendese que o único documento apresentado original e tradução juramentada foi o intitulado "Registro de Acionistas", nele é possível notar que a Ambev Luxembourg S. a R.L. é a única acionista da Labatt Canadá. Também deste documento notase que a Labatt Holding AIS era a única acionista da Labatt Canadá entre 23/06/2004 e 18/12/2012, como colocado pela Manifestante em sua peça defensiva. Entretanto, tendo em vista que a manifestante alega que sua participação societária na Labatt Canadá era indireta, e por meio da Labatt Holding, como não comprovou sua participação na última, considero não comprovado a participação societária indireta na Labatt Canadá. 2.1.3 Da participação societária na Cervepar Conforme tabela acima, em relação à Cervepar a Manifestante apresentou documento intitulado "Ata da Assembléia Geral Extraordinária da Cervepar" com o original e tradução juramentada. Por meio desse documento, notase que em 19/04/2011, data da 26' Assembléia Extraordinária de Acionistas e 102ª Assembléia Ordinária de Acionistas, a Linthal Spain Holding S.L era titular de 348.570 ações da Cervepar, entretanto, por meio desses documentos não é possível analisar se a Linthal Spain permanecia no quadro societário da Cervepar até o final de 2011. Ademais, a manifestante detinha participação indireta na Cervepar por meio de sua alegada participação na Linthal Spain, portanto, tendo em vista que a manifestante não apresentou qualquer documentação atendendo os requisitos legais para comprovar sua participação na Linthal Spain, considero que a manifestante não logrou êxito em comprovar sua participação indireta na Cervepar. 2.1.4 Da participação societária na CMQ Da tabela acima depreendese que em relação à CMQ o único documento apresentado original e tradução juramentada é aquele denominado "Protocolo Notarial". Fl. 11022DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.023 23 Da leitura desse documento, verificase que em 30/11/2009, data da Assembléia Geral Ordinária e Extraordinária, a Linthal Spain Holding S.L foi representada pela se. Ignácio Nicholson, e que na data possuía 20.493.338 ações da CMQ. Entretanto, não há qualquer outro documento que comprove a participação societária indireta da Manifestante em 2011. Ademais, a manifestante detinha participação indireta na CMQ por meio de sua alegada participação na Linthal Spain, portanto, tendo em vista que a manifestante não apresentou qualquer documentação atendendo os requisitos legais para comprovar sua participação na Linthal Spain, considero que a manifestante não logrou êxito em comprovar sua participação indireta na CMQ. 2.1.5 Da participação societária na CBN Da tabela acima, depreendese que o único documento apresentado para comprovação da participação societária na CBN atendendo aos requisitos legais foi o denominado "Títulos ou Certificados de Propriedade de Ações de Emissão da CBN". Por eles verificase que a Linthal S.A era proprietária de cento e trinta e duas mil e trezentas e vinte ações ordinárias da Cerveceria Boliviana, que a PRAD AB era proprietária de setecentas e quarenta e sete mil e quatrocentas e cinqüenta ações ordinárias da Cerveceria Boliviana e a Quilmes International (Bermuda) era proprietária de um mil cento e setenta e nove ações ordinárias da Cerveceria Boliviana. Entretanto, como a participação da manifestante na CBN era indireta por meio da Linthal S.A, PRAD AB e Quilmes International (Bermuda), e não tendo a manifestante comprovado sua participação societária nessas empresas, não reconheço a participação indireta da manifestante na CBN. Portanto, conforme demonstrado, não acolho os argumentos da manifestante, não reconhecendo a participação societária da manifestante nas empresas que efetuaram pagamento de Imposto de Renda no Exterior e que são objeto do presente pedido de compensação, dessa forma, não comprovou o pagamento de imposto de renda no exterior. De relevo notar, entretanto, que mesmo tendo em vista tudo o que foi exposto no item acima (sobre prova de participação em pessoas jurídicas sediadas no exterior), perde relevância a discussão, pois como será demonstrado nos tópicos seguintes, o contribuinte deixou de demonstrar a higidez do que afirma ter recolhido pelas pessoas jurídicas sediadas no exterior. 2.2 Da Efetiva adição e oferecimento à tributação no Brasil do resultado das subsidiárias que Pagaram imposto de renda no exterior Passo a analisar o argumento de efetiva adição e oferecimento à tributação dos resultados das subsidiárias no Exterior. Inicialmente cumpre destacar que o doc. 31, (doe comprobatório 0222 do processo) intitulado "Demonstração Financeira Auditada da Labatt Holding" não teve sua tradução juramentada para o Português apresentada, dessa forma, como colocado no tópico anterior, nos termos dos art. 192 do Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015), art. 224 da Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil) e art. 18 Decreto n° 13.609, de 21 de Fl. 11023DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.024 24 outubro de 1943 não possuí efeito legais, não servindo de meio de prova a comprovar a efetiva adição e oferecimento à tributação dos rendimentos recebidos pela Labatt Holding. (...) Da leitura do referido dispositivo legal, verificase que a mera apresentação de demonstrações financeiras auditadas não é suficiente para comprovar a adição ao resultado da empresa sediada no Brasil dos lucros obtidos pelas suas controladas, coligadas, filiais ou sucursais no exterior. É preciso deixar evidenciado a disponibilização do resultado mediante a elaboração das demonstrações financeiras das controladas e coligadas, de acordo com as normas comerciais do país de seu domicílio. As contas e subcontas constantes das demonstrações financeiras elaboradas no exterior devem ser traduzidas em idioma nacional, seus valores convertidos em Reais, classificadas segundo as normas da legislação comercial brasileira e, por fim, devem ser transcritas ou copiadas no livro Diário da pessoa jurídica nacional. Vale ressaltar que o art. 395, §4° do RIR/99 também institui a obrigatoriedade de apresentação das demonstrações financeiras correspondentes: (...) Portanto, diante o exposto, considero que a manifestante não comprovou a adição e o oferecimento à tributação no Brasil do resultado das subsidiárias que pagaram imposto de renda no exterior, vez que não apresentou suas demonstrações financeiras atendendo aos requisitos legais. 2.3. Dos documentos comprobatórios do pagamento do Imposto de Renda no Exterior Para a compensação de Imposto de Renda pago no exterior, o art. 395 do RIR/99 estabelece duas possibilidades, a saber: apresentação dos documentos relativos ao imposto de renda incidente no exterior reconhecido pelo órgão arrecadador local e pelo Consulado da Embaixada Brasileira; ou apresentação da comprovação de incidência do imposto no pais de origem através de legislação do país onde arrecadado, in verbis: Em resposta a Termo de Intimação anexado ao processo 16692.726477/201501 (fls. 475/476 do referido processo), em que consta documentos considerados na análise do direito creditório, a recorrente assim se pronunciou: (...) "5) Legislação do Imposto sobre a Renda dos países onde se encontram as controladas direta ou indireta das quais a contribuinte apresentou supostos pagamentos de Impostos sobre a Renda empresas (originais e traduzidos por tradutor juramentado) Resposta: A intimada esclarece que o Regulamento do Imposto de Renda (Decreto 3.000/1999) prevê a possibilidade de apresentar somente as guias consularizadas, desde que reconhecido pelo órgão arrecadador e Consulado da Embaixada Brasileira onde Fl. 11024DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.025 25 for devido o imposto, ou, em substituição, a comprovação de incidência do imposto no país de origem através de legislação do país onde arrecadado, conforme art. 395, parágrafos 2° e 5º): (...) Portanto, resta claro que a manifestante optou por apresentar os comprovantes de arrecadação consularizados e reconhecidos pelo órgão arrecadador, em detrimento de apresentação da legislação do país de origem traduzida. Vale ressaltar, assim como discorrido nos tópicos anteriores, que nos termos dos artigos 192 do Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015), 224 da Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil) e. 18 Decreto n° 13.609, de 21 de outubro de 1943, para que os documentos em língua estrangeira tenham validade no Brasil, esses devem estar traduzidos por tradutora juramentada. No documento comprobatório 185 (Anexo ao Laudo Técnico de Natureza Contábil), incluído ao processo como arquivo não paginável (fl. 160), a manifestante inclui planilha detalhando as referências em que se encontram os comprovantes de arrecadação para comprovação dos valores recolhidos, os quais se passa a analisar. A tabela abaixo demonstra a correspondência apresentada no referido laudo: De pronto, da análise da documentação acostada aos autos notase a falta de tradução juramentada, inviabilizando a sua aceitação como elemento de prova dos pagamentos realizados no exterior. Ademais, da mesma forma, observouse que os comprovantes de pagamentos não observaram os demais requisitos estabelecidos pelo art. 395, §2° do RIR/99, vez que não foram apresentados consularizados. Diante o exposto, entendo que os demais argumentos apresentados pela manifestante no referido tópico estaria com sua análise prejudicada, vez que os documentos de Fl. 11025DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.026 26 pagamento que balizariam as compensações não apresentaram os requisitos legais para sua aceitação. Analiso apenas aquele que pede pela exclusão das receitas provenientes da CMQ em decorrência do tratado para evitar a bitributação celebrado entre Brasil e Argentina, pois não há influência dos comprovantes de pagamentos. Sobre a questão, transcrevo voto proferido pelo relator Eduardo Newman de Mattera Gomes no Acórdão 16074.359, tendo como Recorrente Companhia de Bebidas das Américas — AMBEV em sessão de 25/08/2016, que traduz o entendimento desta 1' Turma de Julgamento da Delegacia de Julgamento em São Paulo. "A Impugnante aduz que o item 2 do art. 23 da convenção internacional celebrada entre o Brasil e a Argentina para evitar a dupla tributação e prevenir a evasão fiscal (adiante nomeado de "T2T Brasil — Argentina") estabelece que os dividendos pagos por uma sociedade Argentina a uma sociedade residente do Brasil detentora de mais de 10% do capital da sociedade pagadora, que sejam tributáveis na Argentina, estariam isentos do imposto no Brasil. Logo, em decorrência da participação da Impugnante no capital das empresas Maltaria Pampa, Lambic e Hohneck superar o patamar de 10%, seria imperioso a aplicação da isenção em foco, casa se entenda válida e ficção de pagamento de dividendos adotada pela fiscalização. (...) Assim como, se existisse (ou vier a existir) determinação para a não tributação dos dividendos efetivamente distribuídos a posteriori, esta seria (ou será) também outra liberalidade (uma vez que já havia sido concedido o alívio anterior)." (g.n.) Assim, sendo certo que a tributação não está calcada na distribuição, efetiva ou presumida, de dividendos, não se mostra aplicável a norma em tela. Ademais, ainda que se entendesse que o art. 74 da Medida Provisória n.º 2.15835 determina a tributação sobre dividendos presumidos (o que não se concorda, conforme anteriormente exposto), permaneceria sendo vedada a aplicação da norma veiculada no item 2 do art. 23 do T2T BrasilArgentina, pois os itens 1 e 2 desta convenção apenas permitem que a Argentina estabeleça, em sua legislação interna, a tributação dos dividendos distribuídos a brasileiros ou empresas brasileiras. Vejamos a redação destes itens: (...) Destarte, em decorrência de inexistir qualquer comprovação, e sequer alegação, de que a legislação interna Argentina determina a tributação dos dividendos distribuídos por suas empresas a brasileiros ou empresas brasileiras, não haveria como se reconhecer a aplicabilidade da isenção veiculada no item 2 do art. 23 do T2T Brasil — Argentina ao caso vertente." 2.4. Do pedido de anexação posterior de provas Por fim, protesta a manifestante pela posterior juntada de documentos adicionais e complementares que julgar importantes. Fl. 11026DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.027 27 (...) Portanto, em regra, as provas devem ser apresentadas junto a impugnação, ao menos que se comprove a incidências nas hipóteses previstas nos incisos "a" a "c" acima transcritos. Portanto, a complexidade dos fatos envolvidos não é motivo suficiente para a produção posterior de provas. Ademais, os documentos necessários para comprovar o direito creditório da manifestante foi objeto de diversas intimações pela autoridade fiscal no curso da diligência que deu origem ao despacho decisório que denegou o direito creditório, não tendo o contribuinte apresentado até o momento. Inconformado, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fls.1803 e segs.), alegando, em síntese: (a) A DRJ, ao admitir a existência de questão prejudicial e, ainda assim, julgara matéria afetada por tal questão prejudicial, a D. DRJ incorreu em flagrante erro, que deve ser corrigido por este E. Conselho com a declaração da nulidade do v. acórdão recorrido, determinação de sobrestamento dos presentes autos e de que outra decisão seja proferida pela D. DRJ somente depois que a questão prejudicial esteja resolvida no respectivo processo. (b) em se tratando de declarações de compensação, caso a não homologação das compensações de antecipações mensais do imposto anteriormente declaradas não sejam homologadas em definitivo, o valor deverá ser pago pela Recorrente ou dela será cobrado, ainda que de forma forçada (mediante execução judicial). Ou seja, mesmo que a Recorrente tenha apresentado defesas e recursos na seara administrativa e as venha apresentar na esfera judicial, se após a apreciação delas o valor for definitivamente julgado como devido, de forma voluntária ou, em último caso, por execução forçada pelo exercício dos poderes jurisdicionais do Estado, o valor será recolhido aos cofres da União; e (c) É imperioso que se admita que, se prevalecerem os fundamentos da D. DRJ para glosar as antecipações mensais de IRPJ e CSLL compensadas e para mostrar coerência jurídica no posicionamento da D. DRJ, então os débitos objeto das DCOMPs acima referidas também não poderão ser cobrados da Recorrente. Explicase. A premissa adotada pela COSIT e pela PGFN para considerar admissível a cobrança de antecipações mensais de IRPJ ou CSLL após o encerramento do anocalendário é que tais antecipações tenham composto o ajuste ao final do período de apuração. Caso seja verdade, como quer fazer crer a D. DRJ, que antecipações mensais cuja compensação não foi homologada não gozam de certeza e liquidez necessárias para serem admitidas na composição do saldo negativo formado no período, então as compensações das antecipações mensais de janeiro de 2012, por não terem sido homologadas ainda também não teriam a certeza e a liquidez necessárias para serem computadas no saldo negativo do anocalendário de 2012 (ou o ajuste do IRPJ e da CSLL apurado naquele anocalendário). E se, desse modo, as antecipações de janeiro de 2012 não compuseram o ajuste do anocalendário de 2012, então não poderão ser exigidas, já que não estará presente a premissa requerida pela legislação para que tais débitos sejam cobrados apóso final do exercício, nos termos do entendimento da COSIT e da própria PGFN. (d) Restam superadas quaisquer dúvidas da D. DRJ acerca da efetiva ligação societária entre a Recorrente e as empresas que pagaram o imposto de renda no exterior Fl. 11027DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.028 28 questionado nos autos, na conformidade do laudo da KPMG e documentação acostada aos autos. (e) a recusa da D. DRJ em virtude de não terem sido apresentadas as traduções juramentadas das Demonstrações Financeiras das empresas relacionadas representa criação de obstáculo desnecessário, em especial por se tratar de documentos cuja essência é composta por números não sujeitos a tradução. Ademais, pela própria DIPJ, notase a existência de adição de lucros na casa de bilhões. No mínimo devese considerar como base tal documento para verificar que efetivamente algum lucro auferido no exterior foi adicionado para fins de tributação no Brasil. Tal conclusão independe de qualquer tradução juramentada para ser compreendida. (f) Da devida comprovação do pagamento do Imposto de Renda no exterior, conforme laudo complementar exarado pela KPMG e anexado aos autos; (g) De outro lado, ainda que o controle da Recorrente sobre a CMQ seja indireto, o CARF já definiu que a aplicação do art. 74 da MP 2.15835/2002 considera que os resultados são diretamente absorvidos pela investidora brasileira, de modo que para efeitos de aplicação de tratado contra dupla tributação, deve ser considerado o país no qual está a subsidiária que efetivamente auferiu os lucros sujeitos a tributação. Ou seja, in casu, deverá ser considerado o tratado contra dupla tributação firmado entre Brasil e Argentina. (h) Em se tratando de imposto de renda pago no exterior, a comprovação do direito da Recorrente demanda procedimentos muitos complexos e demorados. De fato, a estrutura societária que liga a Recorrente às suas controladas no exterior é extremamente ramificada, o que implica, além da dificuldade de coletar documentos em vários países diferentes, também dificuldade para o entendimento de referidos documentos. Aliese a isto o fato de a Recorrente estar constantemente sob diversas fiscalizações tributárias (especialmente da RFB), sobre os mais variados temas tributários, bem como por se tratar de documentação de períodos passados há quase ou mais de 5 anos. Nesse contexto, não é difícil de entender que os prazos concedidos pela D. Fiscalização, bem como o tempo decorrido desde a apresentação da manifestação de inconformidade, não são tão razoáveis quanto a D. DRJ quer fazer crer. Apesar de toda a dificuldade para o levantamento e o enquadramento dos documentos no padrão exigido pela legislação, a Recorrente, ainda assim, apresentou no exíguo prazo de 30 dias um Laudo composto por 36 páginas, além de aproximadamente 1.500 páginas de documentos, o que denota a absoluta boa fé e o empenho na comprovação do seu direito. Ora, restando demonstrada a impossibilidade de ser acostado todos os documentos societários, guias de pagamento e as respectivas traduções juramentadas. Por fim, consta dos autos despacho de fls. 4231/4232, que determinou a distribuição por prevenção do presente processo a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa – Relator. Fl. 11028DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.029 29 O recurso é tempestivo, posto que a ciência do contribuinte ter ocorrido em 10/10/2017, e o recurso interposto em 09/11/2017. Portanto, dele conheço. Umas das questões trazidas para apreciação deste colegiado diz respeito ao reconhecimento ou não do imposto pago no exterior, quer pelas compensações vinculadas ao presente processo. Segundo o despacho decisório resta ausente a comprovação da incidência do imposto no exterior no valor de R$ 350.318.335,63. Situação confirmada pela decisão da DRJ conforme relatado acima. Pois bem. Passamos a análise. A legislação que regulamenta a compensação no Brasil de imposto pago no exterior está consolidada no artigo 395 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, abaixo transcrito: Compensação do Imposto Pago no Exterior Art. 395. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos, ganhos de capital e receitas decorrentes da prestação de serviços efetuada diretamente, computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos, ganhos de capital e receitas de prestação de serviços (Lei nº 9.249, de 1995, art. 26, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 15). § 1º Para efeito de determinação do limite fixado no caput, o imposto incidente, no Brasil, correspondente aos lucros, rendimentos, ganhos de capital e receitas de prestação de serviços auferidos no exterior, será proporcional ao total do imposto e adicional devidos pela pessoa jurídica no Brasil (Lei nº 9.249, de 1995, art. 26, § 1º). § 2º Para fins de compensação, o documento relativo ao imposto de renda incidente no exterior deverá ser reconhecido pelo respectivo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto (Lei nº 9.249, de 1995, art. 26, § 2º). § 3º O imposto de renda a ser compensado será convertido em quantidade de Reais, de acordo com a taxa de câmbio, para venda, na data em que o imposto foi pago; caso a moeda em que o imposto foi pago não tiver cotação no Brasil, será ela convertida em dólares norteamericanos e, em seguida, em Reais (Lei nº 9.249, de 1995, art. 26, § 3º). § 4º Para efeito da compensação do imposto referido neste artigo, com relação aos lucros, a pessoa jurídica deverá apresentar as demonstrações financeiras correspondentes, Fl. 11029DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.030 30 exceto na hipótese do inciso II do § 10 do art. 394 (Lei nº 9.430, de 1996, art. 16, § 2º, inciso I). § 5º Fica dispensada da obrigação de que trata o § 2º deste artigo a pessoa jurídica que comprovar que a legislação do país de origem do lucro, rendimento ou ganho de capital prevê a incidência do imposto de renda que houver sido pago, por meio do documento de arrecadação apresentado (Lei nº 9.430, de 1996, art. 16, § 2º, inciso II). § 6º Os créditos de imposto de renda pagos no exterior, relativos a lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, somente serão compensados com o imposto devido no Brasil, se referidos lucros, rendimentos e ganhos de capital forem computados na base de cálculo do imposto, no Brasil, até o final do segundo anocalendário subseqüente ao de sua apuração (Lei nº 9.532, de 1997, art. 1º, § 4º). § 7º Relativamente aos lucros apurados nos anos de 1996 e 1997, considerarseá vencido o prazo a que se refere o parágrafo anterior no dia 31 de dezembro de 1999 (Lei nº 9.532, de 1997, art. 1º, § 5º). § 8º O imposto de renda retido na fonte sobre rendimentos pagos ou creditados a filial, sucursal, controlada ou coligada de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, não compensado em virtude de a beneficiária ser domiciliada em país enquadrado nas disposições do art. 245, poderá ser compensado com o imposto devido sobre o lucro real da matriz, controladora ou coligada no Brasil quando os resultados da filial, sucursal, controlada ou coligada, que contenham os referidos rendimentos, forem computados na determinação do lucro real da pessoa jurídica no Brasil (Medida Provisória nº 1.807 2, de 25 de março de 1999, art. 9º). § 9º Aplicamse à compensação do imposto a que se refere o parágrafo anterior o disposto no caput deste artigo (Medida Provisória nº 1.8072, de 1999, art. 9º, parágrafo único). Da legislação transcrita concluise que as exigências para a compensação são: a) que ela obedeça ao limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos, ganhos de capital e receitas de prestação de serviços, nos termos do § 1º do artigo 395 acima; b) que os documentos relativos ao imposto pago no exterior sejam reconhecidos pelo respectivo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país, ou, alternativamente, que a empresa comprove que a legislação do país de origem do lucro, rendimento ou ganho de capital prevê a incidência do imposto de renda que houver sido pago, por meio do documento de arrecadação apresentado; Fl. 11030DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.031 31 c) com relação aos lucros, a empresa deverá apresentar as demonstrações financeiras correspondentes; d) os créditos só serão compensados se os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior forem computados na base de cálculo do imposto, no Brasil, até o final do segundo anocalendário subsequente ao de sua apuração. Conforme trazido em Recurso Voluntário, a Recorrente aponta ter obedecido tais limites e o acervo probatório anexado aos autos, demonstra indícios de sua existência. A Recorrente reclama que a prova do pagamento está representada por documentos em línguas estrangeiras acessíveis cujo conteúdo, se não transmite certeza, ao menos dá indício relevante do fato a ser provado — e para isto basta dizer que a D. Fiscalização e a D. DRJ foram capazes, por exemplo, de distinguir comprovantes de pagamento de imposto de renda de documentos que tratam de pedidos de compensação. Além disso, aponta ela que os documentos pertencem a empresas sabidamente integrantes do grupo econômico multinacional da Recorrente (e.g. Cerveceria Paraguaya S A). Aduz a Recorrente que adicionou ao lucro real e à base de cálculo da CSLL no ano calendário em questão aproximadamente R$ 1.5bilhões de lucros auferidos por suas controladas no exterior. Este valor relevante é clara evidência de que haveria imposto de renda pago no exterior a ser compensado e de que se tratava de empresas relacionadas ao grupo, se não fossem, não haveria que se falar em adição de tais lucros aos resultados da Recorrente. Para melhorar e complementar o acervo probatório de seu crédito, a Recorrente anexou ao seu Recurso Voluntário LAUDO TÉCNICO DE NATUREZA CONTÁBIL COMPLEMENTAR, com base no qual pretendeu demonstrar que (i) todos os comprovantes de recolhimento do imposto de renda pago no exterior utilizados para compor o saldo negativo a discutido estão consularizados e devidamente traduzidos para o português; (ii) os valores pago correspondem a imposto de renda efetivamente apurado e devido por controladas da Recorrente; (iii) os valores de imposto de renda compensados no exterior foram efetivamente aceitos pelas respectivas autoridades locais; (iv) a Recorrente é efetivamente controladora das empresas que efetuaram o pagamento do imposto de renda no exterior; e (v) os resultados de suas controladas que efetuaram pagamento do imposto de renda no exterior foram efetivamente oferecidos à tributação no Brasil. Observese que, se o lucro no exterior é computado no cálculo do lucro real (e só no lucro real) e existe um comprovante de recolhimento de imposto no exterior legítimo apresentado pela empresa, basta verificar o limite de compensação e efetuar o confronto de débito e crédito. Embora tal complementação da prova tenha se efetivado já na fase recursal, em razão aos princípios da Verdade Material, exercício de contraditório pleno, não vejo impedimento algum quanto a recepção destes documentos, já que tem por escopo principal solucionar e esclarecer as dúvidas levantadas no acórdão DRJ. Os esclarecimentos complementares trazidos aos autos são atinentes à elaboração pela KPMG ASSESSORES LTDA. ("KPMG"), de um LAUDO TÉCNICO DE Fl. 11031DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.032 32 NATUREZA CONTÁBIL COMPLEMENTAR (doc. 02, "Laudo Complementar"), tendo por objeto a situação litigiosa. Isto porque, o Laudo Complementar incluiu os comprovantes de pagamento do IR no exterior em versões originais, acompanhados das consularizações e traduções juramentadas e legislações dos países onde o IR foi pago (também com traduções juramentadas), que confirmam que os documentos apresentados são os documentos para recolhimento do IR incidente nos respectivos países. Ainda conforme anota a Recorrente, o Laudo Complementar ainda constatou que ela efetivamente detém investimentos nas empresas que pagaram IR incidente no exterior (com base em demonstrações financeiras e documentos societários das empresas) e que os respectivos resultados compuseram a adição de lucros no exterior de aprox. R$ 1,5 Bilhões (com base nas demonstrações financeiras). Como neste julgamento não se entende adequado tomar decisões que invistam contra o direito de liberdade e direito de propriedade dos contribuintes à partir de premissas que se apresentam obscuras, mas que podem ser esclarecidas, entendo que ele deve ser convertido em diligência para uma melhor elucidação dos fatos. Conclusão Diante do exposto, considerando que não foi analisado no início deste procedimento de compensação os comprovantes de pagamento do Imposto de Renda no exterior, bem como os requisitos para seu aproveitamento no Brasil, entendo que este processo deve retornar à Unidade de origem, convertendose o julgamento em diligência, para que a Recorrente seja intimada a: a) comprovar, de forma objetiva e direta, o vínculo societário e o percentual de participação relativo a cada empresa cujo pagamento no exterior estiver sendo objeto de pedido de compensação; b) apresentar, de forma objetiva, o demonstrativo de que o lucro relativo aos valores a serem compensados foi oferecido à tributação, de forma deixar clara a composição dos totais constantes das declarações, bem como os correspondentes documentos contábeis; c) apresentar o demonstrativo de cálculo do limite de compensação, nos termos do § 1º do artigo 395 do RIR/99, individualizados por empresa no exterior; d) apresentar os comprovantes de quitação consularizados, ou, a comprovação de que eles são legítimos, o que pode ser feito com a juntada da lei que estabelece sua utilização com tradução juramentada; e) apresentar o demonstrativo de conversão para o Real dos impostos pagos no exterior; f) após a entrega dos documentos, a autoridade fiscal deve produzir relatório circunstanciado, descrevendo suas análises e conclusões daí resultantes, dele cientificando a interessada, abrindo prazo de 30 dias para o exercício do contraditório. Fl. 11032DF CARF MF Processo nº 10880.933735/201682 Resolução nº 1302000.712 S1C3T2 Fl. 11.033 33 Após, reencaminhese o processo à este Colegiado para continuação do julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Fl. 11033DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.724961/2014-13
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Mar 12 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011
GRUPO ECONÔMICO. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA.
Constatados os elementos necessários à caracterização de Grupo Econômico, deverá a Autoridade Fiscal atribuir a responsabilidade pelo crédito previdenciário a todas as empresas integrantes daquele Grupo conforme art. 124 do CTN c/c art. 30, IX da Lei 8.212/91.
Numero da decisão: 9202-007.495
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento.
(Assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Luciana Matos Pereira Barbosa (suplente convocada), Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Ausente a conselheira Patrícia da Silva, substituída pela conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa.
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Constatados os elementos necessários à caracterização de Grupo Econômico, deverá a Autoridade Fiscal atribuir a responsabilidade pelo crédito previdenciário a todas as empresas integrantes daquele Grupo conforme art. 124 do CTN c/c art. 30, IX da Lei 8.212/91. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. (Assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 49 61 /2 01 4- 13 Fl. 594DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Luciana Matos Pereira Barbosa (suplente convocada), Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Ausente a conselheira Patrícia da Silva, substituída pela conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa. Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2201003.724, proferido pela 1ª Turma Ordinária / 2ª Câmara / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de PT nº 15504.724961/201413 (Debcad nº 51.041.8287), no valor de R$ 1.710.414,61 (um milhão, setecentos e dez mil, quatrocentos e quatorze reais e sessenta e um centavos), consolidado 28/07/2014, correspondente as diferenças das contribuições destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho GILRAT, incidentes sobre remunerações pagas a segurados empregados, não declaradas nas GFIP's e não recolhidas para o período 01/2010 a 12/2011. O Contribuinte apresentou a impugnação, às fls. 222/224. A DRJ/SDR, às fls. 470/481, julgou pela improcedência da impugnação apresentada, mantendo o crédito tributário na forma originalmente lançado. O Contribuinte apresentou Recurso Voluntário às fls. 489/500. À fl. 506, a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara de Julgamento da 2ª Seção de Julgamento determinou a reunião dos processos nº 15504.725797/201461 (AI 51.061.7000); n.º 15504.725110/201498 (AI 51.061.7000); nº 15504.724961/201413 (AI 51.041.8287) e nº 15504.724960/201479 (AI 51.061.6992 e 51.065.2085) para julgamento conjunto. A 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara de Julgamento da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 510/517, conheceu o recurso voluntário apresentado apenas no que diz respeito à nulidade na imputação de responsabilidade solidária e, no mérito, DEU PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, para determinar a exclusão dos responsáveis solidários do polo passivo da obrigação tributária. A Decisão restou assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011 GRUPO ECONÔMICO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Para a caracterização da existência do grupo econômico e a atribuição de responsabilidade solidária às empresas que o compõem, é necessário demonstrar a unicidade de comando entre elas, bem como que se confundem em questões administrativas, contábeis, operacionais e de recursos humanos. Não deve prosperar a imputação dessa responsabilidade quando calcada somente na suposta declaração de uma das empresas. Fl. 595DF CARF MF Processo nº 15504.724961/201413 Acórdão n.º 9202007.495 CSRFT2 Fl. 10 3 Às fls. 519/533, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial, arguindo divergência jurisprudencial acerca da seguinte matéria: Grupo econômico Caracterização: formal/de fato. Cotejando o acórdão recorrido juntamente com os acórdãos trazidos à divergência, verificase, de plano, a semelhança das questões fáticas ali envolvidas, tendo em vista que, em ambos os casos, a fiscalização caracterizou a ocorrência de grupo econômico, tendo em vista sua condição de responsáveis solidárias. Contudo, em que pese reportaremse à caracterização de grupo econômico, a decisão recorrida e os acórdãos paradigmas chegaram a conclusões opostas. A decisão recorrida entendeu que, para caracterização do grupo econômico, deveria haver uma comprovação expressa com apontamentos específicos. Em sentido diverso, os paradigmas entenderam configurado o grupo econômico a partir da constatação de sua existência mediante análise dos documentos juntados aos autos, com a consequente responsabilidade solidária de todas as empresas dele integrantes. Tratamse, portanto, de critérios jurídicos diversos para configuração do grupo econômico, interpretando e aplicando de forma mais rigorosa ou mais flexível o art. 30, IX, da Lei 8.212/91 e art. 124 da Lei 5.172/66 (CTN). Ao realizar o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, às fls. 536/539, a 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, DEU SEGUIMENTO ao recurso, concluindo restar demonstrada a divergência de interpretação em relação à seguinte matéria: Grupo econômico Caracterização: formal/de fato. Cientificado à fl. 542, o Contribuinte apresentou Contrarrazões, às fls. 547/559, arguindo, preliminarmente, a inexistência de divergência de interpretação quanto à legislação tributária. Pretensão de mero reexame do material probatório. No mérito, reafirmou as alegações anteriores e requereu o desprovimento do Recurso Especial. Vieram os autos para julgamento. É o relatório. Voto Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de PT nº 15504.724961/201413 (Debcad nº 51.041.8287), no valor de R$ 1.710.414,61 (um milhão, setecentos e dez mil, quatrocentos e quatorze reais e sessenta e um centavos), consolidado 28/07/2014, correspondente as diferenças das contribuições destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho GILRAT, incidentes sobre remunerações pagas a segurados empregados, não declaradas nas GFIP's e não recolhidas para o período 01/2010 a 12/2011. O Acórdão recorrido deu parcial provimento ao Recurso Ordinário. Fl. 596DF CARF MF 4 O Recurso Especial, apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a seguinte divergência: Grupo econômico Caracterização: formal/de fato. Para tratar da caracterização de grupo econômico é importante conjugar conceitos do direito do trabalho com a norma previdenciária tributária. No direito do trabalho há um conceito de especifico de “Grupo Econômico Empresarial”. O artigo 2º, § 2º da CLT determina: “Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de emprego, solidariamente responsáveis a empresa principal e cada um das subordinadas”. Desse conceito se extrai que, para que se configure grupo econômico, basta que uma ou mais empresas se encontrem subordinadas a outra que as dirige, controla, ou administra (“sob a direção, controle ou administração de outra”). Esse tipo de ligação é conhecida como “grupo econômico de subordinação”. O objetivo da norma é assegurar aos empregados de uma determinada empresa, o direito de exigir suas pretensões, não apenas de sua empregadora direta, mas também de outra empresa do mesmo grupo econômico. Contudo, as relações empresariais são dinâmicas e seus conceitos evoluíram. E o conceito de grupo econômico foi flexibilizado pela jurisprudência da Justiça do Trabalho, que incorporou um mais amplo do que o constante na lei. Surgiu o chamado “grupo econômico por coordenação”, cuja caracterização independe do controle e fiscalização por uma empresa líder. As empresas atuam no mesmo plano, sem subordinação. Vale dizer, não precisa existir um vínculo societário ou verticalizado, basta haver uma relação de cooperação, uma convergência de interesses. No âmbito previdenciário/tributário o entendimento para caracterização do grupo econômico de fato não é diferente. As ações de exigência de contribuições previdenciárias, adotam o mesmo conceito da jurisprudência trabalhista para definir grupo econômico, para fins de responsabilidade solidária de empresas pelo cumprimento das obrigações previdenciárias, o que se observa da leitura da IN RFB 971/2009 (bem como a Instrução Normativa SRP n° 03/2005 que a antecedeu) adota o mesmo conceito de grupo econômico da lei trabalhista. Os artigos 494 e 495 da referida IN RFB estabelecem: “Art. 494. Caracterizase grupo econômico quando 2 (duas) ou mais empresas estiverem sob a direção, o controle ou a administração de uma delas, compondo grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica”. “Art. 495. Quando do lançamento de crédito previdenciário de responsabilidade de empresa integrante de grupo econômico, as demais empresas do grupo, responsáveis solidárias entre si pelo cumprimento das obrigações previdenciárias na forma do inciso IX do art. 30 da Lei nº 8.212, de 1991, serão cientificadas da ocorrência”. A jurisprudência do Carf segue nesta linha de entendimento já algum tempo: Fl. 597DF CARF MF Processo nº 15504.724961/201413 Acórdão n.º 9202007.495 CSRFT2 Fl. 11 5 GRUPO ECONÔMICO DE FATO. GRUPO COMPOSTO POR COORDENAÇÃO. RSPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Caracterizase grupo econômico quando duas ou mais empresas estão sob a direção, o controle ou a administração de outra, compondo grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica. Empresas que, embora tenham situação jurídica distinta, são dirigidas de fato pelas mesmas pessoas, exercem suas atividades no mesmo endereço e uma delas presta serviços somente à outra, formam um grupo econômico denominado “grupo composto por coordenação”, sendo solidariamente responsáveis pelas contribuições previdenciárias de qualquer uma delas”. (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, Segunda Seção de Julgamento, Processo nº 11474.000068/200713, Recurso nº 258.031, Acórdão nº 230201.038, 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, Sessão de 11 de maio de 2011). Na hipótese dos autos a fiscalização caracterizou a ocorrência de grupo econômico entre as empresas: Banco Mercantil do Brasil S/A, Sansa Serviços e Negócios Imobiliários S/A, Mercantil do Brasil Imobiliária S/A, Cosefi Cia Securit e de Ass. Recup. Créditos Financeiros, Mercantil do Brasil Empreend. Imobiliários S/A, Mercantil do Brasil Corretora S/A, Mercantil do Brasil Adm. Corret. Seg. Prev. Priv. S/A, Mercantil do Brasil Distribuidora S/A Tit. Val. Mob., Mercantil Adm. E Corretagem de Seguros S/A, Mercantil do Brasil Leasing S/A Arrend. Mercantil, Mercantil do Brasil Financeira S/A Credito Fin. E Invest. e Banco Mercantil de Investimentos S/A. Nos termos do art. 124, I e II do CTN, art. 30, IX, da Lei 8.212/91, art. 222 do RPS e art. 494 da IN RFB 971/09, todas as empresas consideradas como grupo econômico foram consideradas responsáveis solidárias. Observase, contudo, que a Turma Ordinária desconsiderou a existência de grupo econômico de fato, ponto sob o qual se insurge a Fazenda Nacional. Embora alegação do Contribuinte de que para caracterização de grupo econômico estes teriam que ter caracterizado através de atividade conjunta o fato gerador da obrigação tributária este não é o disposto na lei. Assim mesmo que a jurisprudência do STJ já tenha se manifestado neste sentido conforme apontado pelo Contribuinte, no ARE 429923/SP 2013, não se trata de decisão oponível a todos (advinda de recurso julgado no sistema de repetitivos), de modo que a aplicação do dispositivo legal deve prevalecer. Embora a decisão recorrida tenha entendido que, para caracterização do grupo econômico, deveria haver uma comprovação expressa com apontamentos específicos. Em sentido diverso, os paradigmas entenderam configurado o grupo econômico a partir da constatação de sua existência mediante análise dos documentos juntados aos autos, com a consequente responsabilidade solidária de todas as empresas dele integrantes. Tratamse, portanto, de critérios jurídicos diversos para configuração do grupo econômico, interpretando e aplicando de forma mais rigorosa ou mais flexível o art. 30, IX, da Lei 8.212/91 e art. 124 da Lei 5.172/66 (CTN). Fl. 598DF CARF MF 6 Contudo alguns argumentos esposados no acórdão recorrido não merecem prosperar isso por que importa salientar que o acórdão recorrido apontou para o fato de que era dever do auditor fiscal no auto de infração apontar para relação formal do grupo econômico comprovando sua subordinação e unicidade de comando. Aponto aqui meu entendimento diverso esclarecendo que a legislação previdenciária é mais gravosa do que a tributária no que se atine a responsabilidade solidária especificamente porque protege a sociedade através do custeio do caixa da seguridade social, de modo que o grupo de fato pode ser reconhecido, mesmo que formalmente não haja documentos apontados no auto de infração. Não há que se falar em fragilidade do auto de infração na indicação do grupo econômico, isso por que ele era público e notório. O auto de infração foi elaborado dentro da legalidade, os autos de obrigação solidária foram devidamente lavrados, tendo sido permitido as partes o contrário e a ampla defesa. A Fazenda Nacional aponta para o fato de que a simples aplicação literal do art. 30, IX, da Lei 8.212/91 (lei especial que pode ser interpretada fora do alcance do art. 124 do CTN), já seria suficiente para legitimar a responsabilização solidária das empresas de um mesmo grupo econômico pelas dívidas com a Seguridade Social. Aponta ainda: O sítio do Banco Mercantil do Brasil S/A informa sobre a composição do “Grupo Mercantil do Brasil, verbis: ‘Segmento Financeiro • Banco Mercantil do Brasil S/A • Banco Mercantil de Investimentos S/A • Mercantil do Brasil Financeira S/A Crédito, Financiamento e Investimentos • Mercantil do Brasil Distribuidora S/A Títulos e Valores Mobiliários • Mercantil do Brasil Corretora S/A Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários • Mercantil do Brasil Leasing S/A Arrendamento Mercantil • Mercantil Administração e Corretagem de Seguros S/A Segmento Não – Financeiro • Mercantil do Brasil Administradora e Corretora de Seguros e Previdência Privada S.A • Mercantil do Brasil Imobiliária S/A • Sansa Serviços e Negócios Imobiliários S/A • Cosefi Companhia Securitizadora de Créditos Financeiros’ Outrossim, o Grupo Mercantil do Brasil instituiu a entidade fechada de previdência complementar ‘Caixa Vicente de Araújo’, organizada na forma da Lei nº 6.435. Dispõe o estatuto2 da ‘Caixa Vicente de Araújo’, verbis: ‘(...) Art. 1º. A Caixa ‘Vicente de Araújo’ do Grupo Mercantil do Brasil – CAVA, doravante designada CAVA, constituída em 03 de maio de 1958, e declarada de utilidade pública pela Lei Estadual nº 2.601, de 5 de janeiro de 1962, é pessoa jurídica de direito privado, entidade fechada de previdência complementar, autorizada a funcionar pela Portaria nº 2.173, de 25 de junho de 1980, do Ministério da Previdência Social, não tendo fins lucrativos, e sendo dotada de patrimônio próprio e autonomia administrativa e financeira. (...)’ Fl. 599DF CARF MF Processo nº 15504.724961/201413 Acórdão n.º 9202007.495 CSRFT2 Fl. 12 7 Art. 8º. São Patrocinadores dos planos de benefícios previdenciários e de assistência médica da CAVA: I o Banco Mercantil do Brasil S.A., instituição financeira privada, doravante denominado Patrocinadorlíder; II as empresas controladas pelo Patrocinadorlíder ou que a ele sejam coligadas ou vinculadas, direta ou indiretamente; III a própria CAVA. § 1º. Nos termos da legislação de regência, os Patrocinadores celebram, com a CAVA, Convênio de Adesão, submetido à aprovação dos órgãos governamentais competentes. § 2º. Cabe aos Patrocinadores a supervisão das atividades da CAVA, observadas, ainda, as condições que forem estabelecidas, no Convênio de Adesão, quanto à existência, ou não, de solidariedade entre as partes convenentes, no que se refere à garantia dos compromissos assumidos pela Entidade para com os filiados. (...)’ Registrese, ainda, que o Grupo Mercantil do Brasil adotou política unificada de remuneração variável dos administradores por meio do fundo MB Ações, cujo informativo diz: ‘LÂMINA DE INFORMAÇÕES ESSENCIAIS SOBRE O MB AÇÕES MERCANTIL DO BRASIL FUNDO DE INVESTIMENTO ‘(...) Público Alvo: O FUNDO é destinado, exclusivamente, aos diretores das empresas do Grupo Mercantil do Brasil, com vistas ao cumprimento do exposto na Política de Remuneração Variável dos Administradores do Grupo Mercantil do Brasil, de conformidade com o disposto na Resolução Bacen nº 3921, de 25 de novembro de 2010, os quais estão de pleno acordo com todos os termos, cláusulas e condições deste regulamento, observadas as disposições legais vigentes. (...)’ Ante a todo o exposto, resta claro que ‘há unicidade de comando estratégico entre as empresas, e que as empresas se confundem em questões administrativas, contábeis, operacionais e recursos humanos, além de estarem subordinadas a um mesmo comando’. A Fazenda Nacional em seu Recurso Especial logrou êxito ao comprovar que as empresas listadas pelo Auditor Fiscal na fase de fiscalização atuam em conjunto e até mesmo se declaram constantes de um mesmo grupo econômico. Observo aqui a existência de fato de um grupo econômico, sendo este público e notório, motivo pelo qual deve ser assim reconhecido. Em face ao exposto, conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional para no mérito darlhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Fl. 600DF CARF MF 8 Fl. 601DF CARF MF
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Numero do processo: 10111.721457/2013-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Apr 23 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 01/10/2010 a 29/02/2012
CESSÃO DE NOME. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA INEXISTÊNCIA DE ENCOMENDANTE DIVERSO.
Apenas o fato de existirem negociações comerciais prévias à importação não é suficiente para a caracterização da cessão de nome na importação. Ausente demais comprovações, como a própria transferência prévia de recursos, não há como subsistir a imputação de penalidade.
SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO ADMINISTRADOR.
A solidariedade tributária estabelecida em lei pressupõe que a Fiscalização efetue a demonstração do fato e sua adequada subsunção à norma. Inexistente descrição de atos cometidos com excesso de poderes, ou mesmo o interesse jurídico comum, capazes de atrais a incidência das imposições legais, inviável a atribuição de responsabilidade tributária.
Numero da decisão: 3201-004.916
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos Recursos Voluntários.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO
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AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA INEXISTÊNCIA DE ENCOMENDANTE DIVERSO. Apenas o fato de existirem negociações comerciais prévias à importação não é suficiente para a caracterização da cessão de nome na importação. Ausente demais comprovações, como a própria transferência prévia de recursos, não há como subsistir a imputação de penalidade. SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO ADMINISTRADOR. A solidariedade tributária estabelecida em lei pressupõe que a Fiscalização efetue a demonstração do fato e sua adequada subsunção à norma. Inexistente descrição de atos cometidos com excesso de poderes, ou mesmo o interesse jurídico comum, capazes de atrais a incidência das imposições legais, inviável a atribuição de responsabilidade tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos Recursos Voluntários. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 11 1. 72 14 57 /2 01 3- 81 Fl. 17811DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado pelo Contribuinte em face do acórdão nº 1666.557, proferido pela 24ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (SP), que assim relatou o feito: Trata o presente processo de lavratura de auto de infração com crédito tributário apurado de R$ 14.439,07, montante equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas entre outubro de 2010 e fevereiro de 2012, com fulcro no art. 23, V e §§ 1º e 3º, do DecretoLei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, com redação dada pelo art. 59 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002. A autuação foi efetuada sob a certeza da existência da prática de interposição fraudulenta. A autoridade lançadora afirma que a Utilar, empresa integrante do grupo empresarial Mundo dos Filtros, participou de esquema para importação de mercadorias, na qual a operação aduaneira foi efetuada pela empresa Prime Comercial Importadora e Exportadora Ltda por conta e ordem (declarada) da empresa Utilidad Comércio de Móveis e Eletro Ltda. Entretanto, os recursos para a prática das importações eram fornecidos pelos reais adquirentes, empresas do grupo Mundo dos Filtros, que consolidavam seus pedidos para a importação. Segue diagrama para fins de visualização gráfica de modus operandi (fl. 197): Compulsando o auto de infração, verifico que no polo passivo do presente processo encontrase a Utilar. Entretanto, com base no art. 95 do DecretoLei nº 37, de 21 de novembro de 1966 c/c os art. 124, I e 135 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN) a sujeição passiva foi estendida conforme fls. 198 a 200: Fl. 17812DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.812 3 Fl. 17813DF CARF MF 4 Segundo o Relatório de Auditoria Fiscal parte integrante do auto de infração, “A PRIME e a UTILIDAD são dos mesmos sócios (...) e funcionam no mesmo endereço. Na prática são a mesma empresa, mas criam dois níveis de operação, um como importador e outro como adquirente, de modo a ocultar do fisco o terceiro nível de operação, onde se esconde o real interessado na operação” (fl. 20). Prossegue em fl. 23: “Pela análise econômicofinanceira acima descrita fica evidenciado que a Utilidad e seus sócios não dispõe de patrimônio e capacidade financeira para sustentar sua operações no comércio exterior o que evidencia que tais operações sejam suportadas financeiramente por terceiros ocultos (...)”. Por tratar de assunto coincidente, o AuditorFiscal (AFRFB) autuante traz no corpo do relatório do presente processo análises realizadas no processo nº 10111.720547/201273. Analisando os processos de importação da Prime e/ou Utilidad, que encontravamse organizados sob códigos CPP (códigos de processo interno), constatouse reiteradamente que a Prime emitia documento denominado SOLICITAÇÃO DE NUMERÁRIO para Mundo dos Filtros anteriormente ao registro da Declaração de Importação (DI). Colaciono uma das ocorrências retrocitada (fl. 28): Fl. 17814DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.813 5 O CPP 129B, referente à DI nº 11/07694886 traz mais uma evidência acerca da interposição (fl. 32): Em alguns dos CPP também podese encontrar o documento denominado Estimativa de Custos. Colaciono observação relativa a tal documento encontrado em alguns dos processos, neste caso o CPP 276B.211 (fl. 36): Quando analisa as alterações contratuais da Utilidad, o AFRFB tece algumas considerações acerca de Edmar Mothé (fl. 40): Dois meses após Edmar ter ingressado como sócio da Utilidad, com aporte de R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais) e detendo 25% de seu Capital Social, deixa a sociedade, constando como sócioadministrador entre 3 de agosto de 2011 a 30 de setembro do mesmo ano, quando se retirou. Nesta mesma alteração contratual, a Utilidad promove aumento de seu Capital Social de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) para R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais). Todos os sócios integralizaram os valores em espécie, ou seja, depósitos em dinheiro, conforme cópias autenticadas dos comprovantes de depósito. Entretanto, com exceção de Edmar, os outros sócios efetuaram depósitos em quantia superior ao que era esperado. Destaca do relatório: “O importante a destacar sobre os comprovantes de depósitos apresentados pela empresa UTILIDAD é que tais comprovantes são documentos que demonstram depósitos bancários, em Fl. 17815DF CARF MF 6 espécie, dos sócios para a empresa. Sem nenhum outro documento esta operação só comprova a efetiva integralização na data expressa no Contrato Social, mas não comprovam a origem lícita dos recursos e nem se efetivamente estes recursos vieram realmente dos sócios ou foram aportados por terceiros ocultos em seus nomes, ou seja, não demonstram a efetiva transferência dos sócios, por isto a empresa foi mais uma vez intimada a apresentar documentação tendente a demonstrar a origem lícita dos recursos, através da Intimação nº 008/2012. Vale ressaltar que no tópico ‘2.6 – CONTEXTUALIZAÇÃO DA FISCALIZAÇÃO’ os sócios não possuem patrimônio declarado e nem capacidade econômica, apenas uma movimentação financeira não condizente com o patrimônio o que sugere que estes recursos com ‘aparência de legalidade’ na verdade são de terceiros ocultos.” Quanto aos recursos da sócia Prime Holding, a fiscalização demonstra que não há como se aferir sua origem. A Utilidad apresentou, conforme descrito, comprovante de depósito bancário em dinheiro no valor de R$ 165.000,00 (cento e sessenta e cinco mil reais) para demonstrar a integralização de sua cota no Capital Social. Entretanto, em análise de extratos bancários da Prime Holding, foi verificado que as integralizações de Capital Social desta são supostamente originárias de depósitos bancários efetuados por seus sócios, no valor de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais), sendo R$ 85.000,00 (oitenta e cinco mil reais) em 30 de setembro de 2011 e R$ 65.000,00 (sessenta e cinco mil reais) em 10 e 11 de outubro do mesmo ano. “Assim a fiscalização demonstra de maneira irrefutável que quem integralizou esses recursos na empresa UTILIDAD não foi este sócio (PRIME HOLDING), mas sim um terceiro totalmente oculto ao fisco”. O relatório fiscal prossegue e desqualifica a escrita contábil da Utilidad devido a uma infinidade de inconsistências entre notas fiscais e lançamentos contábeis, demonstrando estouros de caixa e de estoques e apresentando elementos demonstrativos de que empresta sua estrutura fiscal, documental, contábil e bancária para ocultar os verdadeiros responsáveis pelas transações por ela registradas. Quanto ao relacionamento com Edmar Mothé, apresenta análises de que em muitas operações foi repassada totalidade da receita de venda para Edmar: A tabela 6 acima relaciona ainda outras tantas transferências que demonstram que a relação do Sr. Edmar Mothe com a empresa fiscalizada é de uma pessoa responsável pelo financiamento das operações da empresa UTILIDAD ditas como de sua própria importação nas Declarações de Importação registradas pela dupla PRIME COMERCIAL e UTILIDAD. Este financiador, Sr Edmar Mothe, é dono de empresas do grupo Mundo dos Filtros que ficam ocultas em todas as importações registradas pela UTILIDAD e que esta fiscalização demonstra durante todo este Termo de Verificação Fiscal que são estas as empresas reais adquirentes ocultas de diversas importações registradas em nome da UTILIDAD. Fl. 17816DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.814 7 Conclui em relação à Utilidad: “Por tudo que foi demonstrado até agora, a empresa UTILIDAD só existe para o objetivo de ocultar os verdadeiros responsáveis pelas importações por ela realizadas. Isto foi comprovado de maneira detalhada quando da análise da capacidade econômica da empresa junto da análise da escrituração dos livros contábeis, dos extratos bancários e até quando da análise da integralização do capital social e dos seus aumentos. Ficou demonstrado que a empresa apresenta documentos simulados, com aparência de legalidade, com o único intuito de ocultar os verdadeiros financiadores e responsáveis pelas operações de importação.” Passando à análise dos reais adquirentes, são apresentadas constatações relativas a Mundo dos Filtros, que não é uma empresa, mas uma marca: “Salvo exceções, cada uma de suas lojas tem um CNPJ diferente, com quadros societários diferentes ... todas as lojas são ligadas de uma forma ou de outra. Em praticamente todos os quadros societários há presença de alguém da família ‘MOTHE’.” A própria Utilar teve como sócio original o Sr. EDMAR MOTHE, CPF 282.632.94720, até a terceira alteração do contrato social, em dezembro de 2009, quando entrou na sociedade a Srª ADRIANA SIMÕES MOTHE, CPF 036.532.491 47, filha do Sr. EDMAR MOTHE, a qual posteriormente transferiu integralmente suas quotas, na quarta alteração contratual, para o Sr. RAPHAEL ANDRADE MOTHE, também filho do Sr. EDMAR MOTHE, e sócio atual da UTILAR. A relação existente principalmente do Sr. EDMAR MOTHE, ex sócioadministrador da UTILAR desde sua constituição até dezembro de 2009 e pai dos sócios administradores sucessores, com a empresa importadora das mercadorias revendidas pela UTILAR, e com a empresa que figurava como adquirente dos bens na importação, foi exaustivamente demonstrada no Termo de Verificação Fiscal anexo ao Auto de Infração do processo administrativo fiscal nº 10111.720547/201273. A UTILAR nunca possuiu habilitação para operar no comércio exterior, mas é revendedora de mercadorias importadas pela empresa PRIME COMERCIAL IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA, CNPJ 07.888.151/000177, sempre em operações declaradas por conta e ordem, em que constava como adquirente a empresa UTILIDAD COMÉRCIO DE MÓVEIS E ELETRO LTDA, CNPJ Nº 10.449.088/000187. Fl. 17817DF CARF MF 8 Fl. 17818DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.815 9 Prossegue a análise, cotejando várias DI para demonstrar que a Utilidad adquire, por conta e ordem, diversos eletrodomésticos, repassando as mercadorias para empresas do grupo Mundo dos Filtros (incluindo a Utilar), normalmente no mesmo dia ou poucos dias após e com baixa agregação de valor (por vezes negativa), sendo que os preços praticados para cada um dos adquirentes sob a bandeira Mundo dos Filtros são os mesmos, independente de quantidades adquiridas. O relatório fiscal empreende, então, análise detalhada por DI, na qual pretende demonstrar a prática fraudulenta de interposição, evidenciando trocas de correspondências eletrônicas entre funcionários das empresas Mundo dos Filtros e Prime, solicitações de numerário e repasses de valores diretamente entre estas empresas (pré e pós registro das DI), inclusive com destaque para Edmar Mothe como fonte pagadora de valores antecipados a Prime, além de notas fiscais relacionadas e proformas invoices encontradas no Escritório Central do Mundo dos Filtros. Constam dos autos impugnações de UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME, do Sr. RAPHAEL ANDRADE MOTHE, o sócioadministrador da empresa UTILAR, do Sr. CLAUDISON DIAS BARBOSA, o sócio da empresa UTILAR, da Srª ADRIANA SIMÕES MOTHE, exsóciaadministradora da empresa UTILAR e do Sr. EDMAR MOTHE. Edmar Mothé concentra sua defesa como segue: “O ponto fulcral em litígio concerne à inclusão do Impugnante entre os nomes dos corresponsáveis pelo crédito tributário exigido no processo administrativo ora debatido, o que é totalmente despropositado, pois, em verdade este jamais praticou atos de gestão durante o curto intervalo de tempo em que figurou no quadro de sócios da pessoa jurídica ‘UTILIDAD’” (fl. 9.733). Alega nulidade por cerceamento de defesa, haja vista não ter sido cientificado do início da fiscalização sobre a Utilidad, o que não lhe oportunizou possibilidade “(...) de se explicar, de apresentar o histórico de sua passagem pela empresa fiscalizada (...)” (fl. 9.734). No mérito, afirma que não pode ser responsabilizado por eventos entre setembro de 2009 e fevereiro de 2012 se somente integrou o quadro societário da Utilidad entre os meses de agosto e setembro de 2011. Além disso, sua participação teria sido meramente documental, não tendo praticado no período atos de gestão da empresa. No afã de sua Fl. 17819DF CARF MF 10 defesa, no item 41 (fl. 9.739), confundese, talvez pensando tratarse de outro processo no qual talvez também esteja se defendendo, ao afirmar que não pode ser responsabilizado por um crédito tributário de mais de R$ 108.000,00 (cento e oito mil reais), quando o crédito tributário lançado no presente processo monta a aproximados R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais). Alega que uma vez integralizada a sua participação no capital social da Utilidad, somente poderia ser responsabilizado caso o Poder Judiciário entendesse pela desconsideração da pessoa jurídica. Afirma que “(...) os auditores fiscais utilizaramse apenas de ilações e presunções extraídas da imaginação fazendária, visando a imputar responsabilidade ao Impugnante (...)” (fl. 9.751). Pugna, pois, pela sua exclusão do polo passivo solidário. A segunda impugnação, que alberga a CF Filtros e suas sócias, alega que, uma vez utilizados argumentos provenientes do Processo nº 10111.720547/201273, seu inteiro teor deveria ser disponibilizado para que não se configure cerceamento de defesa. No mérito, pretende ver reconhecido que as operações de importação realizadas pela Prime por conta e ordem da Utilidad não lhes alcançam, pois a CF Filtros somente teria efetuado, de boa fé, aquisição de parte dessas mercadorias, já devidamente nacionalizadas. Argumenta que Mundo dos Filtros é tão somente uma marca e que a CF Filtros é uma das empresas que utiliza tal marca. Entretanto, todas as empresas que a utilizam possuem “(...) personalidade jurídica e total independência e autonomia para exercer seu objetivo social, sendo irrelevante o fato de algumas possuírem em seu quadro societário pessoa física com algum grau de parentesco com Sr. Edmar Mothé, idealizador da marca” (fl. 9.760). Entretanto admite em seguida: “Especificamente com relação à empresa Utilidad, convém esclarecer que tal empresa foi indicada pelo Sr. Edmar Mothé, que realizou uma grande negociação para que todas as empresas que usam a marca ‘Mundo dos Filtros’ tivesse a mesma condição de compra, independentemente do volume” (fl. 9.761). Ainda, afirma que a legislação não prevê a sua inclusão na operação aduaneira pois “(...) o SISCOMEX não permite, não há campo a ser preenchido para que se inclua um ‘adquirente do adquirente’” (fl. 9.766). Também alega a ausência de dano ao Erário e pleiteia relevação da pena de perdimento. As sócias pleiteiam sua exclusão do polo passivo solidário, inclusive repetindo literalmente os argumentos utilizados na impugnação de Edmar Mothé. O contribuinte EDMAR MOTHÉ, CPF N° 282.632.94720, protocolizou impugnação, alegando que: De modo afrontoso e arbitrário, em flagrante violação aos ditames insculpidos na Constituição Federal e no Código Tributário Nacional, os Auditores da SRFB exorbitaram sua competência funcional ao enquadrarem a pessoa do Impugnante entre os sócios ditos "solidários". Para tanto, os agentes fazendários distorceram a realidade e articularam falaciosos argumentos no sentido de fazer crer que asoperações de importação da "UTILIDAD" teriam sido planejadas e Fl. 17820DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.816 11 executadas com o intuito de propiciar a evasão de tributos devidos, mediante atos fraudulentos. o DA NULIDADE DO FEITO QUANTO À PESSOA DO IMPUGNANTE O absurdo jurídico que é perpetrado pela Fiscalização resta evidenciado em seus próprios dizeres às fls. 134, item 8 "Solidariedade na aplicação da penalidade", do Termo de Verificação. De uma breve leitura do exposto, depreendese que o Impugnante não é passível de ser penalizado solidariamente por supostas irregularidades ventiladas ao longo do Auto de Infração, vez que a própria Fiscalização assume em sobredito item que entende ser cabível a responsabilização solidária dos sócios e o Impugnante não é sócio. Evidente que esta forma de proceder, da parte da Fiscalização, caracteriza grave ofensa ao Princípio Constitucional da Ampla Defesa, que não se aplica somente à fase contenciosa do processo, mas deve prevalecer desde o início da ação fiscal. Junta textos da Jurisprudência Judicial do Supremo Tribunal Federal a respeito do assunto. A notificação encaminhada para a empresa se manifestar em processo administrativo tributário não implica a presunção de que os sócios tenham ciência dos fatos que em tese acarretam a sua responsabilidade. Acaso cabível, essa presunção diria respeito ao próprio crédito tributário e não aos fatos que justificam a responsabilidade de terceiros, que devem ser claramente explanados e fundamentados. No caso concreto, o Impugnante, na condição de exsócio, foi totalmente relegado ao esquecimento, descartado. DO MÉRITO o O DESCABIMENTO DA IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA, QUANTO À PESSOA DO IMPUGNANTE Das Premissas Fáticas Da Defesa Importa salientar, de início, que NÃO COMPETE ao Impugnante pronunciarse com relação à defesa das pessoas jurídicas autuadas, seja pelo fato de não possuir poderes para tanto, já que sequer é sócio das empresas, seja porque desconhece a totalidade dos fatos narrados no auto de infração que não dizem respeito a si. Em verdade, a Fiscalização não indicara no Auto de Infração quais seriam, em tese, as supostas infrações cometidas pelo Impugnante. Não fizera, tampouco, menção a sua pessoa durante o desenrolar dos fatos. Simplesmente o indicara como devedor solidário do crédito pretendido, considerando sua participação societária até 2012, olvidandose dos princípios e garantias assegurados pelo ordenamento pátrio. Mesmo não atestando, demonstrando e principalmente comprovando nenhuma conduta que pudesse, em tese, justificar a inclusão do Impugnante no polo passivo de referido Auto de Fl. 17821DF CARF MF 12 Infração, os auditores não hesitaram em imputar responsabilidade tributária "solidária" ao Impugnante, quando ao crédito exigido da empresa "UTILAR LTDA", à guisa de aplicação de penalidades pecuniárias por supostas fraudes, calculadas sobre a totalidade das operações de importação. Tal responsabilidade solidária é INCABÍVEL no caso concreto do Impugnante, o que será provado de forma exaustiva ao longo da peça de defesa. o DA RESPONSABILIDADE DE SÓCIOS NA SOCIEDADE LIMITADA A empresa autuada é uma sociedade de responsabilidade limitada, regulamentada pelo Código Civil Brasileiro (Lei n.° 10.406/2002), em seus artigos 1.052 e seguintes. Sobredita limitação relacionase, em verdade, à responsabilidade de cada sócio pelas obrigações da sociedade, restrita ao valor integralizado de suas quotas. Ressaltase, todavia, que todos os sócios são responsáveis solidariamente pela integralização total do capital, enquanto essa não for cumprida em sua totalidade. De tal entendimento inferese que, após a integralização do capital, o acesso aos bens pessoais dos sócios somente pode ser cogitado se houver a comprovação da prática de atos realizados com excesso de poderes, os quais culminem em ilícitos, fraudes ou irregularidades que lesem terceiros. Além disso, o Impugnante nunca fora cientificado do início e do desenrolar da ação fiscal contra as pessoas jurídicas "UTILIDAD" e "UTILAR LTDA"; em nenhum momento anterior à lavratura do auto de infração foi convocado pelos agentes fazendários a prestar esclarecimentos quanto à sua situação de exsócio dessa empresa. Só com o recebimento do auto de infração, via postal, tomou ciência da cobrança do crédito tributário e das acusações contra a sua pessoa, sendo tolhido de seu direito a ampla defesa. Outro ponto a destacar é que o Impugnante nunca exerceu a administração da sociedade. De forma precipitada, abusiva e despida de provas concretas, os atuantes afoitaramse a lançar graves acusações contra o Impugnante, entre elas a "responsabilidade pessoal por infração" estabelecida no artigo 135, III, do Código Tributário Nacional por intermédio de representação fiscal para fins penais. Considerando o caso em tela, e com fulcro no art. 1.016 do CC, a posição jurídica dominante é de que o sócioquotista que não exerce atos de Administrador e/ou não participa de deliberações em tese irregulares, das quais resultem transtornos para a empresa, tampouco responderá por ela com seus bens. Junta textos da Jurisprudência Judicial do STJ a respeito do assunto. Fl. 17822DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.817 13 Não há no processo PROVAS DOCUMENTAIS de que ele tenha celebrado contratos, assinado cheques, assumido avais, fianças, ou outras obrigações em nome da pessoa jurídica, enfim, tomado medidas ou providências in concreto da administração da sociedade, por meio de atos ilícitos, exorbitando os poderes de administrador. A FISCALIZAÇÃO NADA COMPROVA. Portanto, o alcance da responsabilidade de sócio de uma sociedade limitada está plasmada, em regra, pelo comando do artigo 52 do Código Civil, isto é, fica restrita ao valor de sua participação efetiva no capital social, devidamente integralizada, salvo na ocorrência da hipótese excepcional estabelecida no artigo 50 do Código Civil. Da inteligência de sobredito preceito legal extraise que a desconsideração da personalidade jurídica somente será admitida quando for inconteste a prática de atos exercidos com excesso de poderes, da parte dos sócios, além de ser imperiosa a observância de benefício de ordem, que prevê primeiramente o esgotamento dos bens da sociedade, para somente se cogitar do acesso aos bens do sócio se aqueles forem insuficientes. Deve, pois, ser rechaçada de plano a aplicação da dita teoria, por meras suposições, sem o devido processo legal perante o Poder Judiciário transitado em julgado, único meio apto a definir a real extensão das responsabilidades dos sócios por atos comprovada e efetivamente praticados com excesso de poderes. Vista essa primeira exceção à regra de responsabilidade pertinente à sociedade limitada, passese a examinar o tratamento da matéria no campo tributário, de forma a demonstrar sua inaplicabilidade ao caso concreto relativo à pessoa do Impugnante. o DA RESPONSABILIZAÇÃO SOLIDÁRIA NO DIREITO TRIBUTÁRIO Conforme dispõe o art. 121 do Código Tributário Nacional, dois podem ser os sujeitos passivos da obrigação tributária: o contribuinte propriamente dito e o responsável legal, previsão que possibilita a responsabilização de terceiros por uma obrigação tributária, utilizandose, por exemplo, do instituto da solidariedade. Prevê o art. 124 da cita Lei Complementar tributária que são solidariamente responsáveis (i) as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal e (ii) as pessoas designadas por lei, sendo essa solidariedade de fato (quando diversas pessoas tem interesse em uma situação que constitua o fato gerador em questão) ou de direito (quando decorre diretamente da lei). Sobre a responsabilização de sócios quanto a obrigações tributárias de empresas, assim dispõem o artigo 134, inciso VII, e o artigo 135 do CTN. Anotese que, na hipótese do artigo 134 do diploma legal retro citado, tal responsabilidade solidária Fl. 17823DF CARF MF 14 emerge em face da impossibilidade de exigência de cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte, no caso de liquidação de sociedade de pessoas, cingindose, contudo, aos atos em que os sócios intervieram ou pelas omissões de que foram responsáveis. As sociedades de pessoas, de acordo com entendimento do doutrinador Fábio Ulhôa Coelho são aquelas em que a realização do objeto social depende mais dos atributos individuais dos sócios que da contribuição material que eles dão. Já as sociedades de capital são as sociedades em que essa contribuição material é mais importante que as características subjetivas dos sócios. A natureza da sociedade importa diferenças no tocante à alienação da participação societária (quotas ou ações), à sua penhorabilidade por dívida particular do sócio e à questão da sucessão por morte. Temse que, para aferir se a sociedade limitada ostenta natureza jurídica de uma sociedade de pessoas ou de uma sociedade de capital, imperioso se faz analisar as disposições de seu contrato social, considerando as características dispostas em suas cláusulas. Primeiramente, no caso em lide, podese observar que a "UTILAR LTDA" possui características de sociedade de capital, vez que seu objeto social não depende da personalidade de seus sócios. A atividade empresarial subsistirá mesmo quando de alteração no quadro societário, como inclusive ocorreu, antes e depois da passagem do Impugnante na sociedade. Portanto, resta categoricamente afastada a aplicação do artigo 134 (inciso VII) ao caso de que ora se trata. Mas para que reste devidamente caracterizada a responsabilidade tributária prevista no artigo 135 do CTN, é mister a presença dos elementos fáticos a apontar para a conduta específica praticada com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos e pessoal. Por isso é que as condutas tidas por infratoras devem ser comprovadas, não sendo válida a aplicação de mera presunção humana de descumprimento, pelo sócio, de suas obrigações legais ou societárias. Junta textos da Jurisprudência Judicial do STJ a respeito do assunto. No caso concreto ora discutido,insta ressaltar que a Impugnada limitouse, de forma deveras lacônica, a mencionar e incluir o Impugnante no item 11 "SUJEIÇÃO PASSIVA", embora o Impugnante não mais faça parte do quadro societário de referida pessoa jurídica e mesmo quando desta participara, não o fizera com poderes de administrador. Nessa condição, em nada contribuiu no tocante à prática de supostas irregularidades, em tese sustentada pela Fiscalização, o que impede sua convocação ao pólo passivo da aludida obrigação tributária. Fl. 17824DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.818 15 Para que se pretendesse atingir o patrimônio particular dos sócios, com a finalidade de satisfação de obrigações tributárias pretensamente descumpridas pela "UTILAR LTDA", farseia imperioso exaurir primeiramente o patrimônio da sociedade. Só posteriormente e em sede judicial poderiam ser apuradas as devidas responsabilidades dos seus sócios, respeitandose o devido processo legal. Repisase, por necessário que o Impugnante não praticou qualquer ato como administrador da "UTILAR LTDA". o OS AUDITORES SE VALERAM DE SIMPLES PRESUNÇÕES HUMANAS, SEM FUNDAMENTO LEGAL, PARA ATRIBUIR INJUSTA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA AO IMPUGNANTE. Os auditores fiscais utilizaramse apenas de ilações e presunções extraídas da imaginação fazendária, visando a imputar responsabilidade ao Impugnante, quanto a supostas infrações à legislação tributária aduaneira, por ter figurado como SÓCIO DA EMPRESA UTILAR LTDA ATÉ 2012. Cita o disposto no artigo 112 do Código Tributário Nacional. Junta textos da doutrina a respeito do assunto de HUGO DE BRITO MACHADO e IVES GANDRA DA SILVA MARTINS. Em virtude dos princípios constitucionais e legais norteadores do Sistema Tributário Brasileiro, as presunções jurídicas podem ser utilizadas pelo legislador ordinário, desde que obedecidos os tipos estabelecidos pelo constituinte na Lei Maior, o que não se veri'fica no presente caso. As presunções do homem ou meros indícios não são suficientes a embasar o procedimento administrativo que constitui o crédito tributário. No caso concreto, as Autoridades Fiscalizadoras partiram simplesmente de ilações para, de forma tendenciosa, enquadrar o Impugnante como corresponsável pelo crédito tributário lançado. O procedimento administrativo, tendente a verificar a ocorrência do fato gerador, ou a aplicação de penalidade pecuniária, jamais pode declarar a existência desta ou daquela ocorrência com base em meros indícios ou presunções do homem. Nem mesmo a lei pode conceber presunções sem os limites do suporte fático que dá consistência à exação tributária. A jurisprudência administrativa clássica é dominante no sentido de que as presunções não são suficientes para fundamentar os lançamentos tributários. Junta textos da Jurisprudência Administrativa a respeito do assunto. III DO PEDIDO Em face de todos os argumentos da defesa, sustentados na peça ora apresentada, requer, o Impugnante, seja Fl. 17825DF CARF MF 16 seu nome excluído do polo passivo solidário, quanto ao lançamento efetuado contra a pessoa jurídica "UTILAR LTDA COMÉRCIO DE FILTROS", por absoluta ausência de elementos que permitam comprovar ter praticado atos de administração em nesta empresa, com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, exatamente nos termos do que dispõe o artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional. A contribuinte ADRIANA SIMÕES MOTHÉ, CPF n° 036.532.49147, protocolizou impugnação, alegando o mesmo que EDMAR MOTHÉ, com exceção de que figura apenas como exsócia apenas da Utilar. O contribuinte UTILAR LTDA COMÉRCIO DE FILTROS E UTILIDADES LTDA – EPP, em conjunto com seus sócios Raphael Andrade Mothé e Claudison Dias Barbosa, protocolizou impugnação, alegando, que: Cumpre informar, de plano, que sobreditas importações foram realizadas pela empresa Prime Comercial Importadora e Exportadora Ltda. (doravante simplesmente Prime), CNPJ 07.888.151/000177, na modalidade por conta e ordem da já mencionada empresa Utilidad, que posteriormente revendeu as mercadorias importadas para diversas empresas, dentre as quais encontrase a Impugnante UTILAR LTDA. De acordo com as informações dispostas nos autos, consta que a empresa Utilidad foi autuada pela prática de irregularidades em comércio exterior, Processo Administrativo Fiscal PAF 10111.720547/201273, cujo teor parcial consta nos presentes autos, sem, contudo ter sido apresentada a íntegra do mencionado processo, possibilitando o pleno exercício do direito de defesa dos Impugnantes. Por evidente, não caberia aos Impugnantes a defesa de outros autuados, seja no presente processo, seja no processo originário do presente feito; todavia, o conhecimento de seu inteiro teor farseia de suma importância, inclusive no que concerne a provas carreadas que permeiam a presente autuação. Não há quaisquer provas de que os Impugnantes tenham praticado quaisquer irregularidades, mas ao contrário. O conjunto probatório carreado pela Autoridade Fiscal. A autoridade Fiscal dolosa e parcialmente tenta criar um cenário negativo para aparentar que tratamse as empresas que adquiriram da Utilidad de uma única pessoa jurídica, quando, em verdade são empresas com personalidade jurídica distinta, autônomas, independentes, que apenas compartilham dos mesmos fornecedores por uma estratégia comercial e não com intuito fraudulento. Em nenhum momento foram apresentados quaisquer elementos aptos a demonstrar, tampouco a comprovar a suposta tentativa de burlar o Fisco; ou qual seria, em tese, a vantagem econômica percebida pela Impugnante UTILAR LTDA, já que todos os Fl. 17826DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.819 17 tributos foram rigorosamente recolhidos, em observância à legislação de regência. De um simples raciocínio lógico decorre a irrefutável conclusão que a nítida ausência de provas fazse suficiente para afastar, desde logo, a ilegítima pretensão punitiva que recai sobre os Impugnantes. o DA NÃO PARTICIPAÇÃO DOS IMPUGNANTES NOS ATOS TIDOS COMO IRREGULARES "Mundo dos Filtros" não é uma empresa específica, mas sim uma marca utilizada por diversas empresas distintas que exploram o mesmo ramo de atividade. O fato é que cada uma das empresas possui personalidade jurídica e total independência e autonomia para exercer seu objetivo social, sendo irrelevante o fato de algumas possuírem em seu quadro societário pessoa física com algum grau de parentesco com Sr. Edmar Mothé, idealizador da marca. Além do nome, a única característica comum na maioria das empresas é que elas adquirem as mercadorias dos mesmos fornecedores, alguns inclusive fabricantes nacionais, o que corrobora com a informação de que as empresas são varejistas e não importadoras. A Impugnante UTILAR LTDA, que atua com a marca "Mundo dos Filtros" tem em suas atividades empresariais o foco nas vendas ao varejo. Especificamente no que concerne à Utilidad, insta esclarecer que aludida empresa fora indicada pelo Sr. Edmar Mothé, que realizara uma grande negociação para que todas as demais empresas que usam a marca "Mundo dos Filtros" tivessem a mesma condição de compra, independentemente do volume. Inicialmente, os produtos adquiridos do fornecedor Utilidad ostentavam marca com seu próprio nome, marca essa que foi bem aceita pelo mercado consumidor. Posteriormente, passouse a mesclar os mesmos produtos com outras marcas além da Utilidad, sempre mantendo o mesmo padrão de qualidade e baixo preço. Fato é que os Impugnantes não importam mercadorias. A Impugnante UTILAR LTDA somente adquire produtos nacionais ou nacionalizados, não possui e não pretende possuir uma estrutura de importador. Nos autos, a Autoridade Fiscal, incumbida do onus probandi, não demonstrara o exato fluxo financeiro de cada recurso empregado em cada importação, e nos casos em que o fez, apenas demonstrara que a origem dos recursos é lícita, bem como demonstrara que tais recursos lícitos encontravamse disponíveis e foram efetivamente utilizados nas operações de comércio exterior das empresas importadoras. Nesta conduta, nada de ilícito a ser arguido pela Fiscalização. Fl. 17827DF CARF MF 18 Não se pode simplesmente apenar uma empresa que optara por adquirir de outras empresas legalmente constituídas, mediante a emissão de nota fiscal e comprovação do recolhimento dos tributos de importação (quando mercadorias importadas). Não há como presumir que a Impugnante fora ocultada na operação, pois as mercadorias das importações em discussão não foram vendidas somente para ela, mas sim para diversas empresas, conforme consta no relatório fiscal. O simples fato de que a maioria dos bens foi vendida para empresas que ostentam a marca "Mundo dos Filtros" não significa uma ocultação. Conforme exposto alhures, cada empresa que utiliza essa marca possui personalidade jurídica própria. Ademais, como se pode pretender falar em ocultação quando a na maioria dos bens adquiridos possui a marca do importador (Utilidad)? E o mais importante que toda a formalidade que revestiu os negócios jurídicos legítimos, todos amparados por nota fiscal e demais documentação correlata, é o fato de que não houve qualquer ausência de recolhimento de tributos. A Autoridade Fiscal alegara que a suposta ocultação visa a sonegação de tributos, mas tanto os Impugnantes como as empresas mencionadas (Utilidad e Prime) recolheram devidamente os tributos incidentes em suas operações. Assim, não há que se falar em ausência de recolhimento tributário, negligência, omissão ou qualquer conduta dos Impugnantes no sentido de se ocultar do fisco. Não há que se falar em dano ao Erário. As notas fiscais emitidas pelo importador permitem saber para quem os bens foram vendidos, sendo, portanto, impossível manterse oculto. Por todos os ângulos em que se observe, não há como prosperar a pretensão fiscal. A verdade real é que a Impugnante UTILAR LTDA é apenas uma dos diversos clientes da empresa Utilidad e as empresas não possuem vínculo que exclua a possibilidade de realizar negócios jurídicos com terceiros. Se alguma irregularidade foi perpetrada na importação, os Impugnantes sequer teriam como saber, visto que não participam de nenhuma das etapas da importação; a empresa não produz no exterior, não adquire ou negocia as mercadorias no exterior, não embarca as mercadorias para o Brasil, não transporta as mercadorias do exterior para o Brasil, não realiza a nacionalização; ela apenas realiza a compra de mercadorias que já foram nacionalizadas, de empresas idôneas, mediante emissão de nota fiscal e apresentação da documentação que comprove a importação regular. (ponto 39 da impugnação) Nos casos em que adquiriu bens da empresa Utilidad, é verdadeira adquirente de boa fé. Não se pode pretender exigir que ela executasse as verificações típicas do poder público, fazendo uma investigação minuciosa de cada fornecedor em Fl. 17828DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.820 19 cada compra. Sua obrigação legal restringese a adotar os procedimentos tidos como padrão no oredenamento. o DA REGULAR OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO E RECOLHIMENTO DE TRIBUTOS INCIDENTES' Em que pese o fato de o Auto de Infração ser muito lacônico no tocante à operação de importação, cerne da questão e tema que mereceria uma melhor abordagem pela Autoridade Fiscal, percebese que houve uma desconsideração da operação realizada pela empresa Prime com a empresa Utilidad (importação por conta e ordem), como se tal operação servisse apenas e tão somente como uma espécie de "segundo nível de ocultação dos verdadeiros responsáveis pelas importações realizadas" (palavras da Impugnada). Tal afirmação é fruto de uma imaginação fértil e apenas mostra a fragilidade da autuação, que deveria ser baseada na lei e nos princípios norteadores do direito. No caso em tela, as operações realizadas pela empresa Prime,empresa regularmente habilitada no SISCOMEX, resumemse na importação ostensiva dos bens, por conta e ordem da empresa Utilidad, que posteriormente revendeu as mercadorias importadas para diversas outras empresas, dentre as quais a Impugnante UTILAR LTDA. Impende destacar que a empresa Utilidad atua na distribuição de eletrodomésticos, a maioria de marca própria, sendo imperiosa a sua presença nessa relação de importação. Assim, como não há impedimento legal, não subsiste razão para excluir nem uma nem outra da relação de importação, já que do ponto de vista empresarial o resultado final tende a ser mais lucrativo. Tratase do exercício da livre iniciativa. Não se está aqui realizando uma defesa das empresas Prime e Utilidad; todavia, é imperioso destacar que o princípio da livre iniciativa e livre exercício de atividade econômica sem intervenção estatal permite que o empresário conduza seus negócios. Como não se trata de empresa importadora, as únicas cautelas exigíveis da Impugnante UTILAR LTDA são certificarse de que as empresas são idôneas (e à época dos fatos não havia nada que desabonasse as empresas) e que a importação fora regular (fato atestado pelos Comprovantes de Importação emitidos pela Receita Federal do Brasil), além de exigir a emissão de nota fiscal (fato incontroverso, já que a presente autuação partiu de notas fiscais emitidas pela empresa Utilidad). A Impugnante UTILAR LTDA apenas comprou e revendeu mercadorias que lhe interessava. Se eventualmente ocorreu algum tipo de irregularidade na importação, essa não foi perpetrada pelos Impugnantes, mas sim pelas empresas importadoras. (PONTO 55 da impugnação) Fl. 17829DF CARF MF 20 Junta textos da doutrina a respeito do assunto de Celso Antônio Bandeira de Mello. Notese o problema hipotético: uma importação será realizada pela empresa "A", que vai vender para a empresa "B", que por sua vez vai revender as mercadorias para a empresa "C". "C" não é cliente de "A". "A" vai registrar a Dl e obviamente tem que informar que "B" é o adquirente das mercadorias por si importadas. "A" não poderia declarar "C" como adquirente, pois estaria ocultando "B", por outro lado, declarando "B" como adquirente, ainda que saiba da existência de "C", não tem como declarar que "C" é adquirente de "B", POIS NÃO HÁ CAMPO ESPECÍFICO PARA INCLUIR TAL INFORMAÇÃO E, PRINCIPALMENTE, NÃO HÁ BASE LEGAL QUE EXIJA A INCLUSÃO DESSA INFORMAÇÃO. Se o intuito fraudulento fosse verdadeiro, não haveria recolhimento de tributos ou as empresas declarariam a importação como se fosse por conta própria. Ademais, empresas criadas com intuito de fraudar além de não pagarem os tributos, funcionam em locais afastados, mal possuem funcionários, mobiliário, etc. O fato é que nos autos não há qualquer comprovação documental de fraude, nem mesmo de ocultação de quem quer que seja, há apenas um inconformismo com um modelo de negócios lícito, que respeitou as regras impostas pela lei. Ante o exposto e por tudo o que consta nos autos, merece a improcedência a presente ação fiscal. o DA AUSÊNCIA DE EFETIVO DANO AO ERÁRIO Não obstante aos argumentos lançados, convém destacar a ausência de efetivo dano ao Erário. A aplicação da pena de perdimento (convertida em multa pecuniária) pressupõe o efetivo dano ao Erário, que pode ser definido como uma ação ou omissão que acarrete perda patrimonial, desvio, apropriação ou dilapidação dos bens ou haveres de órgão público. Como se depreende da presente ação fiscal, os tributos incidentes nas operações de comércio exterior foram devidamente recolhidos tanto pela importadora ostensiva (Prime) como pela importadora Utilidad na qualidade de adquirente dos bens. Sendo o perdimento de bens penalidade tão severa, violadora do princípio basilar garantidor da propriedade, só é passível de ser aplicada se o Erário efetivamente sofrer dano. Junta textos da Jurisprudência Judicial do STJ a respeito do assunto. Os Impugnantes não enxergam a plausibilidade da aplicação da pena de perdimento convertida em multa no presente caso, simplesmente porque além de não haver ilegalidade nas operações realizadas, não houve insuficiência de recolhimento de tributos capaz de gerar efetivo dano ao Erário, de modo que a Fl. 17830DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.821 21 pena restritiva de propriedade, convertida em multa pecuniária, é totalmente injustificada, mais ainda tratandose de terceiro adquirente de boa fé. Por outro lado, se mesmo depois de todos os fatos esclarecidos e documentalmente comprovados prevalecer o entendimento das Autoridades Impugnadas, cabível a relevação da pena de perdimento, por ser medida mais razoável a ser tomada em casos como o presente. Assim, indubitável a inaplicabilidade da pena de perdimento, convertida em multa pecuniária por estarem ausentes os requisitos autorizadores destas sanções, como também pelo fato de que não é a medida a ser aplicada no presente caso, mesmo que se avente a possibilidade de haver alguma irregularidade. o DA RESPONSABILIDADE DE SÓCIOS NA SOCIEDADE LIMITADA A empresa autuada é uma sociedade de responsabilidade limitada regulamentada pelo Código Civil Brasileiro (Lei n.° 10.406), em seus artigos 1.052 e seguintes. A terminologia "limitada" não significa exatamente que a responsabilidade da empresa por suas atividades é limitada. Sobredita limitação relacionase, em verdade, à responsabilidade de cada sócio pelas obrigações da sociedade, restrita ao valor integralizado de suas quotas. Ressaltase, todavia, que todos os sócios são responsáveis solidariamente pela integralização total do capital, enquanto essa não for cumprida em sua totalidade. Destarte temse que, integralizado o capital, as responsabilidades da empresa remetemse ao patrimônio pertencente a ela, segundo disposto no contrato social. Isso porque a personalidade da sociedade é distinta da personalidade de seus sócios, sendo distinto o patrimônio econômico e jurídico de ambos. De tal entendimento inferese que, após a integralização do capital, o acesso aos bens pessoais dos sócios somente pode ser cogitado se houver a comprovação da prática de atos realizados com excesso de poderes, os quais culminem em ilícitos, fraudes ou irregularidades que lesem terceiros. Nos autos não há qualquer disposição ou provas de que a gestão dos sócios excedeu seus poderes, muito menos há lesão contra qualquer pessoa, inclusive com relação ao Erário. Há no processo apenas PROVAS DOCUMENTAIS de que as empresas realizaram negócios jurídicos legítimos, sendo que A FISCALIZAÇÃO NADA COMPROVA DE ILÍCITO. Portanto, o alcance da responsabilidade de sócio de uma sociedade limitada está plasmada, em regra, pelo comando do artigo 1.052 do Código Civil, isto é, fica restrita ao valor de sua participação efetiva no capital social, devidamente integralizada, salvo na ocorrência da hipótese excepcional Fl. 17831DF CARF MF 22 estabelecida no artigo 50 do mesmo Cânone, a qual admite superar a regra geral de responsabilidade quando se identifica aquele que praticar atos com excesso de poderes, daí resultando a responsabilidade pessoal do(s) infrator (es), ainda que o capital da empresa já tenha sido totalmente integralizado. Logo, em sintonia com a jurisprudência pátria e com a doutrina majoritária, temse que, para se aventar a "desconsideração da personalidade jurídica" e acesso ao patrimônio particular dos sócios de uma sociedade limitada, é imprescindível a realização de processo judiciário, pelo que se torna ilegal pretender caracterizála por mero ato administrativo da Fiscalização. Quanto à hipótese de responsabilização constante do art. 135 do CTN é imperativo ressaltar, antes de tudo, que em que pese a discussão doutrinária a respeito do tema, a corrente dominante entende que a responsabilidade abarcada pelo art. 135 do CTN não possui o condão de excluir o verdadeiro contribuinte, sendo meramente subsidiária e não por substituição2, uma vez que o texto legal prevê a responsabilização do diretor, gerente ou representante legal das empresas mediante a prática de atos com excesso de poderes. A norma contida no referido dispositivo é exemplo de causa sancionatória justificadora da existência da previsão legal de responsabilidade. Ou seja, a responsabilidade do terceiro dáse em resposta (sanção) por ato DOLOSO praticado contra o Fisco e contra terceiros (no caso a sociedade de que faz ou fazia parte o sócio responsabilizado). Junta textos da doutrina a respeito do assunto. Assim, para que reste devidamente caracterizada a responsabilidade tributária prevista no artigo 135 do CTN, é mister a presença dos elementos fáticos a apontar para a conduta específica praticada com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos e pessoal. Por isso é que as condutas tidas por infratoras devem ser comprovadas, não sendo válida a aplicação de mera presunção humana de descumprimento, pelo sócio, de suas obrigações legais ou societánas. Junta textos da Jurisprudência Judicial do STJ a respeito do assunto. No caso concreto ora discutido, não há qualquer elemento que demonstre a conduta ilícita, individualizada, dos sócios da Impugnante UTILAR LTDA e para que se pretendesse atingir o patrimônio particular dos sócios, com a finalidade de satisfação de obrigações tributárias pretensamente descumpridas por qualquer das pessoas jurídicas mencionadas nos autos, farseia imperioso exaurir primeiramente o patrimônio das sociedades. Só posteriormente e em sede judicial poderiam ser apuradas as devidas responsabilidades dos seus sócios, respeitandose o devido processo legal. Fl. 17832DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.822 23 Por todo o exposto, revelase desprovida de quaisquer fundamentos fáticoprobatórios e jurídicos a desastrada iniciativa da Fiscalização, visando a imputar aos sócios da Impugnante UTILAR LTDA o ônus de responsabilidade tributária solidária, quanto ao crédito tributário constituído no presente processo. o DO PEDIDO Destarte, ante os argumentos ora lançados e a ausência de provas que corroborem a tese fiscal, requerem os Impugnantes que seja a ação fiscal julgada improcedente, afastandose as penalidades propostas no Auto de Infração em epígrafe. Subsidiariamente, requerem a relevação da penalidade de perdimento, aplicandose a multa de que trata o artigo 712 do Regulamento Aduaneiro, bem como a exclusão das pessoas físicas sócias da Impugnante UTILAR LTDA por absoluta ausência de elementos que permitam comprovar terem praticado atos de administração na referida empresa, com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, exatamente nos termos do que dispõe o artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional. Conforme diligência efetuada, ficou confirmado que não foram apresentadas impugnações por Utilidad Comércio de Móveis e Eletro Ltda (CNPJ 10.449.088/00187, baixado por inexistência de fato), Felipe da Costa Coelho (CPF 717.690.48120), Prime Holding e Participações Empresariais Ltda (CNPJ 13.961.150/0001 03), Prime Comercial Importadora e Exportadora Ltda (CNPJ 07.888.151/000177), Vinícius da Costa Coelho (CPF 010.408.99110) e Daniel Chícrala Chaves de Oliveira (CPF 858.493.24100): É o Relatório. Passo ao Voto. Após exame das defesas apresentadas pelos Contribuintes UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME, RAPHAEL ANDRADE MOTHE, CLAUDISON DIAS BARBOSA, ADRIANA SIMÕES MOTHE, e EDMAR MOTHE, a DRJ proferiu acórdão assim ementado: Fl. 17833DF CARF MF 24 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 01/10/2010 a 29/02/2012 Descumprimento das normas relativas à importação por conta e ordem de terceiro. Dano ao Erário. Pena de perdimento. Multa substitutiva. Restando comprovada na declaração de importação a ausência de informação sobre a real adquirente da carga, além da presença de recursos de terceiros na operação, incontroverso o entendimento da fiscalização de ocorrência da infração prevista pelo artigo 23, inciso V, do Decretolei 1.455/76, considerada dano ao Erário, punida com a pena de perdimento das mercadorias, nos termos do § 1.º, do artigo 23, do Decretolei 1.455/76, que é convertida em multa equivalente ao respectivo valor aduaneiro, no caso das mercadorias não serem localizadas ou que tenham sido consumidas, conforme § 3º, do artigo 23, do Decretolei 1.455/76, com a redação dada pela Lei 10.637/02. Solidariedade Passiva. Respondem pela infração quem quer que concorra para a sua prática, ou dela se beneficie, inclusive o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso da importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora, nos termos do artigo 95, incisos I e V, do Decretolei 37/66, sendo solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, seja tributo ou multa, conforme disposto pelos artigos 121 e 124, I, do Código Tributário Nacional CTN. Subfaturamento. Apurada fatura comercial de mesma numeração, assinada pelo próprio exportador estrangeiro, a qual descreve os mesmos produtos e com os mesmos quantitativos constantes da declaração de importação, porém com valor subfaturado em trinta por cento, temos configurado, além da fraude, o subfaturamento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Devidamente intimados, os Contribuintes EDMAR MOTHE (fls. 17.729 e seguintes); UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME e CLAUDISON DIAS BARBOSA (fls. 17.743 e seguintes); RAPHAEL ANDRADE MOTHÉ e UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME (fls. 17.768 e seguintes); ADRIANA SIMÕES MOTHE (fls. 17.785 e seguintes) apresentaram Recurso Voluntário, reiterando os argumentos de defesa apresentados quanto ao crédito tributário mantido. Os autos foram inicialmente distribuídos ao então Conselheiro Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Presidente da 1ª TO da 3º Câmara desta 3º Seção de Julgamento. Nos termos despacho de fls. 17.806 e seguintes, foi determinada, com a concordância dos respectivos Presidentes de Câmara e Seção, a remessa dos autos à minha relatoria em razão de conexão com o Processo nº 10111.720.547/201273 (Utilidad). Fl. 17834DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.823 25 Por conseguinte, os autos foram a mim redistribuídos para inclusão em pauta de julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro Tatiana Josefovicz Belisário O Recurso Voluntário é próprio e tempestivo, portanto, dele tomo conhecimento. Inicialmente cumpre esclarecer que, ao presente processo integra o seguinte grupo de processos reunidos por conexão: PROCESSO PARTE 10111.720547/201273 UTILIDAD COMÉRCIO DE MÓVEIS E ELETRO LTDA. 10111.721635/201373 MEGALAR ELETRO UTILIDADES LTDA. EPP 10111.720158/201418 FILTROS AGUA LIMPA EIRELI ME 10111.720939/201313 UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME 10111.720047/201312 NOVA DISTRIBUIDORA E LOGÍSTICA LTDA. E OUTROS 10111.721473/201373 MYRA PARTICIPACOES, GESTAO DE ATIVOS, IMPORTACAO, EXPORTACAO E COMERCIO LTDA 10111.721457/201381 UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME 10111.720831/201592 UNIVEX COMERCIO DE UTILIDADES PARA O LAR E PRESENTES LTDA EPP Tratamse de autuações em face da constatação fiscal de operações de importação fraudulenta, com a ocultação do real importador. A UTILIDAD (Processo Principal) é apresentada como importadora ostensiva e, as demais empresas, como sujeitos ocultados. Todos os processos acima, reunidos por conexão, estão sendo submetidos a julgamento conjunto por este colegiado. Feito tal esclarecimento, passa ao exame dos presentes autos. Estão sob julgamento exclusivamente os seguintes Recursos Voluntários: Fl. 17835DF CARF MF 26 1. EDMAR MOTHE (fls. 17.729 e seguintes); 2. UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME e CLAUDISON DIAS BARBOSA (fls. 17.743 e seguintes); 3. RAPHAEL ANDRADE MOTHÉ e UTILAR UTILIDADES PARA O LAR LTDA ME (fls. 17.768 e seguintes); 4. ADRIANA SIMÕES MOTHE (fls. 17.785 e seguintes) Inexiste qualquer outro Recurso Voluntário nos autos. Assim, passase ao exame das razões recursais. Preliminarmente a Recorrente alega violação ao direito de ampla defesa e exercício do contraditório pelo fato de não lhe ter sido oportunizado o acesso ao Processo nº 10111.720547/201273 (Utilidad Processo principal), circunstância que impediria ou comprometeria a sua defesa. Com efeito, para fins de manutenção ou não do presente lançamento, apenas as provas acostadas nos presentes autos (ainda que oriundas de procedimento fiscalizatório diverso), podem ser levadas em consideração pelos julgadores. É a suficiência ou não das provas existentes que nortearão o julgamento. Em outras palavras, apenas o fato de não ter tido acesso aos autos do processo nº 10111.720547/201273 (Utilidad Processo principal), não é, por si só, suficiente para qualquer declaração de nulidade. E será no mérito que as provas existentes nos presentes autos serão examinadas, identificandose se estas são ou não aptas a fundamentar o lançamento combatido. Assim, afastase a preliminar aventada. Quanto ao mérito, deve merecer a mesma sorte daquele analisado nos autos do processo principal (10111.720547/201273 UTILIDAD), acima referenciado. A acusação fiscal fundamentase no fato de que, apesar das importações terem sido regularmente realizadas pelo Prime, com indicação que esta se dava por conta e ordem da Utilidad, existiria um terceiro envolvido ocultado da administração aduaneira. No caso, estaria se ocultando os clientes da Utilidad, como é o caso da empresa Recorrente, APL. Buscouse demonstrar que, anteriormente ao registro das DI pela empresa Prime, na condição de importadora por conta e ordem e tendo como importadora final, a autuada Utilidad., a própria Utilidad já tinha conhecimento do seu destinatário final. Além disso, indicouse proximidade de datas entre o registro da DI e da Nota Fiscal de venda ao varejista “ocultado”. É preciso destacar que a cessão de nome identificada nos presentes autos se deu de forma atípica. Como afirma a Fiscalização, esta ocorreu no "segundo nível". Quer dizer, havia um primeira nível consistente na importação pela Prime por conta e ordem da Utilidad (primeiro nível), sendo que, no entendimento fiscal, deveria constar como real importador o destinatário final das mercadorias, no caso, os clientes da Utilidad (segundo nível). Fl. 17836DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.824 27 De fato, cuidou a Fiscalização de demonstrar que a Utilidad, quando registrava as importações, já tinha provável conhecimento do consumidor final que adquiriria tais itens no mercado interno. Nesse ponto, ressalto que a constatação de ocultação de nome ocorreu exclusivamente em razão desta prévia destinação, pois, como visto no Recurso de Ofício, a Fiscalização não logrou demonstrar a ocorrência de transferência indevida de recursos entre os envolvidos. Também relativamente à proximidade entre as datas de emissão das DI e Notas Fiscais de venda, não há nada que indique uma prévia encomenda, posto que os pedidos junto aos fabricantes estrangeiros ocorriam bem antes do registro da DI, estas emitidas apenas no momento de embarque das mercadorias no exterior, quando a Utilidad já poderia se comprometer comercialmente com os seus compradores. E mais, as importações eram realizadas via avião (e não via marítima), portanto, com curto prazo de transporte. A existência de operações comerciais pela destinatária das importações anteriores ao registro da importação não são, por si só, capazes de caracterizar irregularidade da operação antecedente. É certo que na importação realizada por conta e ordem só é possível informar o importador e o adquirente. Não existe qualquer ferramenta que permita a indicação de um terceiro envolvido nesta operação. Ou seja, se a Fiscalização não pôde desconsiderar a importação por conta e ordem realizada entre a Prime e a Utilidad, ou seja, não comprovou qualquer irregularidade nesta, não pode exigir a informação de uma terceira pessoa quando a legislação aduaneira não o faz. Notase que toda fundamentação da fiscalização se deu em cima da contabilidade da empresa, em nenhum momento perquiriu acerca da existência de um estoque físico de mercadorias. Desse modo, à exemplo do que se verifica relativamente à acusação de interposição fraudulenta, falhou a Fiscalização no seu ônus probatório. Ainda que existentes indícios de irregularidades nas empresas envolvidas e até mesmo nas operações, é preciso que a submissão dos fatos à norma seja feita de modo vinculado e coerente. É preciso ressaltar que a decisão ora proferida não tem o propósito de legitimar as operações de importação realizadas, tampouco a idoneidade das empresas envolvidas. O que se afirma é que o lançamento fiscal é carente de provas aptas a suportar a acusação realizada. Por fim, quanto à responsabilidade tributária solidária, também referenciando ao Processo nº 10111.720547/201273 (Utilidad Processo principal) No caso, tendo em vista o cancelamento da autuação por ausência de provas quanto ao cometimento dos ilícitos apontados, por mais razão deverá ser anulada a atribuição de uma responsabilidade que só se justificaria em razão do cometimento de ato ilícito. Ademais, vejase que no Relatório Fiscal limitouse à indicação dos dispositivos legais capazes de sustentar a solidariedade, contudo, sem indicar de forma precisa qual ato cometido pelo solidário seria apto para atrais a solidariedade, tampouco em qual inciso Fl. 17837DF CARF MF 28 legal o ato seria enquadrado (por exemplo, se interesse comum ou se excesso de poderes pelo administrador) 7.4 – SOLIDARIEDADE NA APLICAÇÃO DA PENALIDADE: As empresas UTILIDAD e seus sócios e exsócios, PRIME COMERCIAL e seus sócios, devem aparecer como figura solidária e responsável no pólo passivo para as penalidades aplicadas, nos termos do Artigo 124, 134 e 135 do Código Tributário Nacional (CTN), Lei nº 5.172/66. Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis: I os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores; II os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou curatelados; III os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes; IV o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio; V o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pelo concordatário; VI os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu ofício; VII os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. Parágrafo único. O disposto neste artigo só se aplica, em matéria de penalidades, às de caráter moratório. Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Fl. 17838DF CARF MF Processo nº 10111.721457/201381 Acórdão n.º 3201004.916 S3C2T1 Fl. 17.825 29 Logo, mais uma vez se constata a fragilidade do lançamento fiscal, deixando novamente de proceder a subsunção do fato à norma. No caso, sequer indicou qual fato seria capaz de atrair a incidência de qualquer norma impositiva de solidariedade, seja qual for a sua natureza Pelo exposto, votase por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário para cancelar a exigência fiscal. É como voto. Tatiana Josefovicz Belisário Fl. 17839DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10875.721533/2011-54
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jan 31 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Mar 20 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. AUTUAÇÃO PELO REGIME DE CAIXA. RECÁLCULO PARA APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. POSSIBILIDADE.
Consoante decidido pelo STF na sistemática estabelecida pelo art. 543-B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o Imposto de Renda Pessoa Física sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado de acordo com o regime de competência, sem qualquer óbice ao recálculo do valor devido, para adaptá-lo às determinações do RE.
Numero da decisão: 9202-007.557
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em Exercício e Redatora Designada
(assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Ausente a conselheira Patrícia da Silva.
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em Exercício e Redatora Designada (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Ausente a conselheira Patrícia da Silva.
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AUTUAÇÃO PELO REGIME DE CAIXA. RECÁLCULO PARA APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. POSSIBILIDADE. Consoante decidido pelo STF na sistemática estabelecida pelo art. 543B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o Imposto de Renda Pessoa Física sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado de acordo com o regime de competência, sem qualquer óbice ao recálculo do valor devido, para adaptálo às determinações do RE. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício e Redatora Designada (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 87 5. 72 15 33 /2 01 1- 54 Fl. 127DF CARF MF 2 Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Ausente a conselheira Patrícia da Silva. Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2801003.811, proferido pela 1ª Turma Especial / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de notificação de lançamento de fl. 07, relativa ao imposto sobre a renda das pessoas físicas do anocalendário 2007, que apurou omissão de rendimentos sujeitos à tabela progressiva, no valor de R$ 35.012,29. O Contribuinte apresentou a impugnação, às fls. 02/04. A DRJ/SDR, às fls. 65/71, julgou pela improcedência da impugnação apresentada, mantendo o crédito tributário na forma originalmente lançado. O Contribuinte apresentou Recurso Voluntário às fls. 77/86. A 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 93/96, DEU PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, para o fim de se cancelar o lançamento tributário suplementar. A Decisão restou assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2008 IMPOSTO SOBRE A RENDA PESSOA FÍSICA IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. Em se tratando de rendimentos auferidos acumuladamente pelo contribuinte, em decorrência de ação judicial movida contra o Instituto Nacional do Seguro Social, a tributação deve levar em consideração o regime de competência, e não o regime de caixa. Recurso voluntário provido para o fim de afastar o lançamento tributário suplementar. Às fls. 98/103, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial, arguindo divergência jurisprudencial acerca da seguinte matéria: IRPF omissão de rendimentos Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA): cálculo conforme tabela progressiva vigente à época em que os valores deveriam ter sido pagos ao contribuinte. Enquanto o acórdão recorrido entendeu por cancelar o crédito tributário suplementar, o acórdão paradigma considerou refazer o cálculo o IRPF em correlação ao parâmetros fixados na tabela progressiva do imposto de renda vigente à época dos respectivos fatos geradores. Ao realizar o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, às fls. 112/114, a 1ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, DEU SEGUIMENTO ao recurso, concluindo restar demonstrada a divergência de interpretação em relação à seguinte matéria: IRPF omissão de rendimentos Rendimentos Recebidos Fl. 128DF CARF MF Processo nº 10875.721533/201154 Acórdão n.º 9202007.557 CSRFT2 Fl. 128 3 Acumuladamente (RRA): cálculo conforme tabela progressiva vigente à época em que os valores deveriam ter sido pagos ao contribuinte. Cientificado através de Edital, conforme fl. 124, o Contribuinte mantevese inerte, vindo os autos para julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de notificação de lançamento de fl. 07, relativa ao imposto sobre a renda das pessoas físicas do anocalendário 2007, que apurou omissão de rendimentos sujeitos à tabela progressiva, no valor de R$ 35.012,29. O Acórdão recorrido deu provimento ao Recurso Ordinário. O Recurso Especial, apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a seguinte divergência: IRPF omissão de rendimentos Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA): cálculo conforme tabela progressiva vigente à época em que os valores deveriam ter sido pagos ao contribuinte. Na decisão recorrida, deuse provimento ao recurso do Contribuinte, para cancelar o lançamento, devido à impossibilidade de refazimento do lançamento na atual fase processual. Da análise do tema, observo que não assiste razão a Fazenda Nacional, pois o referido lançamento não pode prosperar. Isso porque o art. 12 da Lei nº 7.713/88 teve sua constitucionalidade afastada. O referido dispositivo legal que era utilizado para a cobrança do IRPF incidente sobre rendimentos recebidos de forma acumulada, através da aplicação da alíquota vigente no momento do pagamento sobre o total recebido, teve sua inconstitucionalidade reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário nª 614.406/RS, o qual foi submetido à sistemática da Repercussão Geral prevista no artigo 543B do Código de Processo Civil, vejamos: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. Fl. 129DF CARF MF 4 (RE 614406, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 23/10/2014 ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe233 DIVULG 26112014 PUBLIC 27112014) De acordo com a referida decisão, transitada em julgado em 09/12/2014, ainda que seja aplicado o regime de caixa aos rendimentos recebidos acumuladamente pelas pessoas físicas (nascimento da obrigação tributária), é necessário, sob pena de violação aos princípios constitucionais da isonomia, da capacidade contributiva e da proporcionalidade, que o dimensionamento da obrigação tributária observe o critério quantitativo (base de cálculo e alíquota) dos anos calendários em que os valores deveriam ter sido recebidos, e não o foram. Assim, considerando que o lançamento foi amparado na interpretação jurídica de dispositivo legal, que foi declarado inconstitucional pelo STF, é de se reconhecer que deve ser cancelado, visto que, que utilizou fundamento legal inválido. Neste ponto o acórdão recorrido não merece reforma, tendo procedido ao cancelamento do auto e não apenas ao seu recálculo como foi a conclusão do paradigma que a Fazenda Nacional quer ver prevalecer. Em face ao exposto, conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional para no mérito negarlhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Voto Vencedor Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Redatora Designada Discordo do voto da Ilustre Relatora, no que tange ao mérito do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. O apelo visa rediscutir a manutenção do lançamento relativo a omissão de rendimentos recebidos acumuladamente, determinandose tão somente o recálculo do Imposto de Renda com base nas tabelas progressivas da época em que os rendimentos deveriam ter sido pagos. No acórdão recorrido, entendeuse pelo cancelamento da exigência. A matéria não é nova neste Colegiado e já foi objeto de inúmeros julgamentos, com provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Dentre esses julgados, destacase o Acórdão nº 9202006.000, de 27/09/2017, da lavra do Ilustre Conselheiro Heitor de Souza Lima Júnior, cujos fundamentos ora adoto e colaciono como minhas razões de decidir: "Sem dúvida, reconhecese aqui, em linha com o recorrido, que a matéria sob litígio foi objeto de análise recente pelo STF, no âmbito do RE 614.406/RS, objeto de trânsito em julgado em 11/12/2014, feito que teve sua repercussão geral previamente Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10875.721533/201154 Acórdão n.º 9202007.557 CSRFT2 Fl. 129 5 reconhecida (em 20 de outubro de 2010), obedecida assim a sistemática prevista no art. 543B do Código de Processo Civil vigente. Obrigatória, assim, a observância, por parte dos Conselheiros deste CARF dos ditames do Acórdão prolatado por aquela Suprema Corte em 23/10/2014, a partir de previsão regimental contida no art. 62, §2o. do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF no. 343, de 09 de junho de 2015. Reportandome a este último julgado vinculante, noto, porém, que, ali, se acordou, por maioria de votos, em manter a decisão de piso do TRF4 acerca da inconstitucionalidade do art. 12 da Lei no. 7.713, de 1988, devendo ocorrer, na forma ali determinada, a 'incidência mensal para o cálculo do imposto de renda correspondente à tabela progressiva vigente no período mensal em que apurado o rendimento percebido a menor regime de competência (...)', afastandose assim o regime de caixa. Todavia, de se ressaltar aqui também que em nenhum momento se cogita, no Acórdão, de eventual cancelamento integral de lançamentos cuja apuração do imposto devido tenha sido feita obedecendo o art. 12 da referida Lei no. 7.713, de 1988, notese, diploma plenamente vigente na época em que efetuado o lançamento sob análise, o qual, ainda, em meu entendimento, guarda, assim, plena observância ao disposto no art. 142 do Código Tributário Nacional, não se estando destarte, diante de utilização de critério jurídico equivocado ou vício material no lançamento efetuado. A propósito, de se notar que os dispositivos legais que embasaram o lançamento, constantes de efl. 20, em nenhum momento foram objeto de declaração de inconstitucionalidade ou de decisão em sede de recurso repetitivo de caráter definitivo que pudesse lhes afastar a aplicação ao caso in concretu. Deflui daquela decisão da Suprema Corte, em meu entendimento, inclusive, o pleno reconhecimento do surgimento da obrigação tributária que aqui se discute, ainda que em montante diverso daquele apurado quando do lançamento, o qual, repitase, obedeceu os estritos ditames da legalidade à época da ação fiscal realizada. Da leitura do inteiro teor do decisum do STF, é notório que, ainda que se tenha rejeitado o surgimento da obrigação tributária somente no momento do recebimento financeiro pela pessoa física, o que a faria mais gravosa, entendese, ali, inequivocamente, que se mantém incólume a obrigação tributária oriunda do recebimento dos valores acumulados pelo contribuinte pessoa física, mas agora a ser calculada em momento pretérito, quando o contribuinte fez jus à percepção dos rendimentos, de forma, assim, a restarem respeitados os princípios da capacidade contributiva e isonomia. Assim, com a devida vênia ao posicionamento esposado por alguns membros deste Conselho, entendo que, a esta altura, ao se defender a exoneração integral do lançamento, se estaria, inclusive, a contrariar as razões de decidir que embasam o Fl. 131DF CARF MF 6 decisum vinculante, no qual, reitero, em nenhum momento, note se, se cogita da inexistência da obrigação tributária/incidência do Imposto sobre a Renda decorrente da percepção de rendimentos tributáveis de forma acumulada. Se, por um lado, manterse a tributação na forma do referido art. 12 da Lei no. 7.713, de 1988, conforme decidido de forma definitiva pelo STF, violaria a isonomia no que tange aos que receberam as verbas devidas 'em dia' e ali recolheram os tributos devidos, exonerar o lançamento por completo a esta altura significaria estabelecer tratamento antiisonômico (também em relação aos que também receberam em dia e recolheram devidamente seus impostos), mas em favor daqueles que foram autuados e nada recolheram ou recolheram valores muito inferiores aos devidos, o que deve, em meu entendimento, também se rechaçar. Assim, diante de tais motivos, voto no sentido de dar provimento ao Recurso da Fazenda Nacional, no sentido de determinar a retificação do montante do crédito tributário com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. Assim, não há que se falar em impossibilidade de recálculo do montante devido pelo Contribuinte pelo regime de competência, de sorte que o Recurso Especial da Fazenda Nacional deve ser provido. Diante do exposto, conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, doulhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 132DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.901405/2015-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 21 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Apr 10 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1402-000.819
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência nos termos do voto da relatora. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 16327.901398/2015-45, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(Assinado digitalmente)
Edeli Pereira Bessa - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogerio Borges, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Paulo Mateus Ciccone, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Eduardo Morgado Rodrigues e Edeli Pereira Bessa (Presidente). Ausente o conselheiro Caio Cesar Nader Quintella substituído pelo conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: EDELI PEREIRA BESSA
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O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 16327.901398/201545, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (Assinado digitalmente) Edeli Pereira Bessa Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogerio Borges, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Paulo Mateus Ciccone, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Eduardo Morgado Rodrigues e Edeli Pereira Bessa (Presidente). Ausente o conselheiro Caio Cesar Nader Quintella substituído pelo conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Trata o presente processo de Manifestação de Inconformidade contra o Despacho Decisório que não homologou a compensação formalizada por meio da declaração de compensação, por meio da qual o contribuinte, pretende compensar recolhimento indevido de estimativa. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 63 27 .9 01 40 5/ 20 15 -1 7 Fl. 194DF CARF MF Processo nº 16327.901405/201517 Resolução nº 1402000.819 S1C4T2 Fl. 3 2 O fundamento do Despacho Decisório foi o fato de o crédito informado no PER/DCOMP se refere a pagamento já alocado a débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação. Cientificado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade alegando, em síntese, o seguinte: a) A autoridade administrativa não considerou que, para a compensação dos débitos informados, foram utilizados valores recolhidos a maior e não homologou a compensação declarada. b) O que se pede nesta manifestação é que seja aceita a compensação declarada, pois o valor recolhido a maior foi utilizado conforme o direito de compensação desse crédito através dos PER/DCOMPs em questão. Para comprovar o crédito alegado a contribuinte juntou à manifestação de inconformidade, além da DCOMP apresentada e do despacho decisório de não homologação, a declaração em DCTF do débito compensado, a DIPJ tempestivamente apresentada, na parte referente à apuração das estimativas devidas no anocalendário e às retenções sofridas, além de elementos de sua escrituração comercial. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto julgou improcedente a manifestação de inconformidade por entender que: a) A empresa enviou PER/DCOMP no qual indicou como origem de crédito um DARF que teria sido pago indevidamente (PER/DCOMP na modalidade de pagamento indevido ou a maior que o devido). b)Na manifestação de inconformidade resta evidente que o crédito, na verdade, é decorrente de saldo negativo. Nessa situação não se verifica pagamento indevido, mas sim um valor relativo a antecipações e deduções maiores que o IRPJ devido, no encerramento do período de apuração desse tributo. c) Ou seja, na presente situação contatase erro no tipo de PER/DCOMP enviado, sendo que não há que se falar que as estimativas não eram devidas, pois, na verdade, apesar das estimativas serem antecipações, que, no fim do período de apuração podem compor saldo de IRPJ a ser restituído, no curso do anocalendário, elas são devidas conforme previsto na legislação de regência. Não há, pois, que se tratar os valores pagos por meio de DARF a esse título, como se indevidos fossem, solicitando compensação na forma de PGIM. Ao invés disso deveria ter sido formulado PERDCOMP de saldo negativo de IRPJ. d) Tratase de mudança da natureza jurídica do crédito, e não apenas correção de um dado informado erradamente. Neste sentido, é de se ver que as informações prestadas no PER/DCOMP e os batimentos efetuados pelos sistemas da RFB são totalmente diferentes. f) Assim, a partir das alegações da Recorrente, ela deveria ter cancelado o PER/DCOMP em tela (PGIM) e transmitido outro PER/DCOMP (saldo negativo), visto que possuem direito creditório e batimentos de naturezas diferentes. Por óbvio, tais procedimentos deveriam ter sido adotados em tempo hábil. Fl. 195DF CARF MF Processo nº 16327.901405/201517 Resolução nº 1402000.819 S1C4T2 Fl. 4 3 Cientificada a contribuinte apresentou o Recurso Voluntário, no qual alegou, resumidamente, o seguinte: a) De acordo com a IN nº 900/2008 não há dúvida de que o pagamento indevido ou a maior de estimativa tem tratamento de indébito tributário o que lhe confere direito a restituição. b) Que seu posicionamento encontrase amparado pela Súmula 84 do CARF. É o relatório Voto Conselheira Edeli Pereira Bessa Relatora O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º , do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 1402000.811, de 21/02/2019, proferida no julgamento do Processo nº 16327.901398/201545, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº1402000.811): O recurso preenche os pressupostos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. A decisão recorrida negou o pedido de compensação fundamentalmente por entender que os recolhimentos de estimativas devidas devem compor eventual saldo negativo. Sendo assim, a Recorrente teria cometido erro quanto ao tipo de compensação formulada, pois ao invés de realizar o pedido de compensação de pagamento indevido deveria ter requerido a compensação de saldo negativo, conforme se verifica pelo trecho abaixo transcrito: Ora, a empresa enviou PERDCOMP no qual indicou como origem de crédito um DARF que teria sido pago indevidamente (PERDCOMP na modalidade de pagamento indevido ou a maior que o devido). Na manifestação de inconformidade resta evidente que o crédito, na verdade, é decorrente de saldo negativo. Nessa situação não se verifica pagamento indevido, mas sim um valor relativo a antecipações e deduções maiores que o IRPJ devido, no encerramento do período de apuração desse tributo. No entanto, ao analisar a DIPJ juntada à manifestação de inconformidade verificase que a contribuinte, a partir do mês de setembro, não mais apurou estimativas a pagar, possivelmente por deduzir as retenções sofridas no período. Sendo assim, o recolhimento constante do DARF, poderia ser, de fato, recolhimento indevido diferentemente do decidido pela decisão recorrida. Em face do exposto, voto por converter o julgamento em diligência para que a Delegacia de origem analise a apuração das estimativas Fl. 196DF CARF MF Processo nº 16327.901405/201517 Resolução nº 1402000.819 S1C4T2 Fl. 5 4 informadas em DIPJ em confronto com a escrituração do sujeito passivo e outros elementos que devam ser a ele requeridos, em especial confirmando as retenções aproveitadas e o cômputo dos correspondentes rendimentos na base tributável, e manifestandose expressamente acerca da existência, suficiência e disponibilidade do crédito utilizado em compensação. Ao final dos trabalhos a autoridade fiscal deve produzir relatório circunstanciado, descrevendo suas análises e conclusões daí resultantes, dele cientificando a interessada, com reabertura de prazo de 30 (trinta) dias para complementação de suas razões de defesa. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por converter o julgamento em diligência para que a Delegacia de origem analise a apuração das estimativas informadas em DIPJ em confronto com a escrituração do sujeito passivo e outros elementos que devam ser a ele requeridos, em especial confirmando as retenções aproveitadas e o cômputo dos correspondentes rendimentos na base tributável, e manifestandose expressamente acerca da existência, suficiência e disponibilidade do crédito utilizado em compensação. Ao final dos trabalhos a autoridade fiscal deve produzir relatório circunstanciado, descrevendo suas análises e conclusões daí resultantes, dele cientificando a interessada, com reabertura de prazo de 30 (trinta) dias para complementação de suas razões de defesa. (Assinado digitalmente) Edeli Pereira Bessa. Fl. 197DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.915934/2013-66
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 27 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Apr 02 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/03/2011
INSUMOS. CONCEITO ESTABELECIDO PELO RESP 1.221.170/PR
À luz decisão do STJ, sob a sistemática dos recursos repetitivos, que deve ser adotada por este colegiado (§ 2° do art. 62 do Anexo II do RICARF), em razão de sua essencialidade, devem ser considerados como insumos, para fins de creditamento de COFINS, os materiais de limpeza e desinfecção das máquinas e equipamentos industriais, produtos para tratamento das águas residuais do processo produtivo, reagentes químicos para análise da qualidade do leite e materiais de embalagem para transporte.
Numero da decisão: 3301-005.795
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencida a Conselheira Liziane Angelotti Meira, que manteve as glosas de material de embalagem para transporte.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencida a Conselheira Liziane Angelotti Meira, que manteve as glosas de material de embalagem para transporte. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
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CONCEITO ESTABELECIDO PELO RESP 1.221.170/PR À luz decisão do STJ, sob a sistemática dos recursos repetitivos, que deve ser adotada por este colegiado (§ 2° do art. 62 do Anexo II do RICARF), em razão de sua essencialidade, devem ser considerados como insumos, para fins de creditamento de COFINS, os materiais de limpeza e desinfecção das máquinas e equipamentos industriais, produtos para tratamento das águas residuais do processo produtivo, reagentes químicos para análise da qualidade do leite e materiais de embalagem para transporte. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencida a Conselheira Liziane Angelotti Meira, que manteve as glosas de material de embalagem para transporte. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 91 59 34 /2 01 3- 66 Fl. 353DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de compensação de contribuição não cumulativa, que não restou integralmente homologada em razão do indeferimento parcial do crédito que originava tal pedido, nos termos da informação fiscal que instrui os autos. Cientificado desta decisão, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade tempestiva, alegando, em síntese, que: • Preliminarmente, solicitase a reunião dos 54 processos administrativos, decorrentes dos 54 despachos decisórios proferidos, em apenas dois, um relativo ao PIS, e outro à Cofins, em razão dos princípios da economia processual, da razoabilidade e da eficiência, assegurados no art. 37 da Constituição, considerando que a questão controvertida é a mesma em todos os casos; • Ainda em sede preliminar, alegase a impossibilidade de se exigir crédito tributário com base apenas no despacho decisório, o que leva à nulidade da exigência formulada, uma vez que somente poderia ser feita por meio de lançamento, nos termos dos arts. 142 do CTN, 9º do Decreto nº 70.235/72, 38 do Decreto nº 7.574/2011; • A autoridade administrativa não pode cobrar débitos sem que tenham sido constituídos por meio do lançamento. Caso a cobrança seja feita de forma diversa e não prevista em lei, será improcedente, devendo ser cancelada; • Nesse sentido, citase jurisprudência do CARF e do STJ; • Assim, resta evidente a necessidade de se anular o despacho decisório, visto que este não é via competente para se fazer cobrança; • O texto das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 não define o conceito de insumo, nem estabelece quais seriam os bens e serviços passíveis de creditamento; • A autoridade fiscal diverge do entendimento firmado pela doutrina e pela jurisprudência administrativa sobre tal conceito, considerando o disposto nas IN nºs 247/2002 e 404/2004, que interpretaram tal conceito de forma restritiva, tomando por base o conceito de insumo estabelecido na legislação do ICMS e do IPI; • No entanto, tal conceito deve ser analisado de forma ampla, contemplando a totalidade dos dispêndios essenciais para o processo produtivo da empresa, do qual resulta seu faturamento, pois as citadas Leis não apresentam qualquer ressalva quanto ao conceito de insumo, seja em relação à natureza dos bens e serviços adquiridos, seja no que se refere à sua aplicação, direta ou indiretamente, no processo produtivo; • Citase doutrina acerca de tal questão; Fl. 354DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 4 3 • O conceito de insumo deve estar atrelado a tudo que colabora de forma imprescindível à formação de receita, incorporando todas as despesas que sejam essenciais para a atividade comercial e geração de receitas da sociedade; • Assim, a definição do termo “insumo” nas referidas IN não encontra amparo nas Leis citadas, pois restringe o direito ao desconto de créditos de forma arbitrária e sem fundamento, desvirtuandose do princípio da estrita legalidade previsto no art. 150I da Constituição e no art. 97 do CTN, bem como da própria sistemática não cumulativa do PIS e da Cofins, prevista no art. 195, § 12, da Constituição; • As IN expedidas pela RFB são normas secundárias, cuja finalidade exclusiva é esclarecer as disposições contidas em lei, não lhes cabendo inová las ou contrariálas; • O conceito de “insumo” para fins de PIS e Cofins deve ser assemelhado aos conceitos de “custo de produção” e “despesas necessárias”, previstos nos arts. 290I e 299 do RIR, mais amplos que aqueles contidos nas IN citadas; • Ao contrário do ICMS e do IPI, o PIS e a Cofins não dependem de operações específicas para que ocorra seu fato gerador. Ao contrário, dependem apenas da geração de receita/faturamento; • A requerente entende que não apenas o bem ou serviço consumido por sua aplicação direta ao produto final deve ser considerado insumo, mas também os bens ou serviços indispensáveis ao processo produtivo e à geração de receita; • Citase jurisprudência do CARF e da CSRF; • Especificamente em relação às glosas efetuadas, em razão do ramo de atividade exercido pela requerente, é nítida a essencialidade de gastos com materiais de limpeza utilizados na higienização e sanitização de equipamentos e máquinas, assim como os produtos adquiridos com o fim de dispensar tratamento às águas residuais do processo produtivo e os reagentes químicos adquiridos com o fim de realizar análise da qualidade do leite; • Tais gastos são empregados diretamente no processo produtivo, seja para garantir a não contaminação do leite, seja para permitir sua conservação, caracterizandose como insumos por sua essencialidade; • Além disso, tais despesas não são mera liberalidade da requerente, mas exigidas pelos órgãos governamentais para a industrialização e comercialização do leite, ou seja, são imprescindíveis à atividade da empresa. Nesse sentido, citase a Portaria nº 370/1997 e a IN nº 62/2011, do Ministério da Agricultura, órgão responsável pelo controle da industrialização e pelo comércio do leite, além da Portaria nº 177/1999, da Secretaria de Vigilância Sanitária; • Citase decisão do STJ, relativa à aquisição de materiais de limpeza aplicados ao ambiente produtivo, e jurisprudência do CARF; Fl. 355DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 5 4 • Quanto aos materiais de embalagem, a autoridade fiscal incorreu em erro ao efetuar a glosa, uma vez que fazem parte do processo de produção da requerente, tanto a embalagem que envolve o leite, com conteúdo de 1 litro, como também a caixa que acondiciona as doze embalagens e o plástico que as circunda; • Conforme comprovam as fotos da linha de produção da requerente, a máquina responsável pelo acondicionamento do leite inicia a produção inserindo o leite na embalagem de 1 litro e, dentro da mesma máquina, essas embalagens são lacradas e acondicionadas na caixa contendo material mais resistente, voltada para a segurança do produto; • Após, a mesma máquina envolve a caixa com o plástico, para garantir que não haja dano, contaminação ou sujeira nas embalagens durante o transporte; • Assim, a caixa contendo 12 embalagens e o plástico que a envolve não são utilizados pela requerente apenas por opção e conveniência de transporte, mas para segurança do produto. A embalagem individual necessita de uma embalagem de acondicionamento, sob o risco de estourar ou apresentar vazamentos. Logo, tais materiais fazem parte do processo produtivo e integram o produto; • Tal questão já foi objeto de julgamento no STJ e no CARF, conforme decisões transcritas; • Sem a utilização de tais itens seria impossível o transporte e a comercialização do leite, não se tratando de excesso ou de algo desnecessário, não essencial, supérfluo, nem ocasional, mas de embalagem fundamental para a atividade fim da sociedade; • Sobre a glosa das despesas com soro de leite, a requerente esclarece que não tomou crédito sobre tais despesas no período objeto do despacho decisório – 1º tri/2006; • Considerando as alegações trazidas, a empresa requer a realização de diligência, para que, por meio de perícia técnica, seja demonstrada a essencialidade das despesas objeto das glosas, trazendo os quesitos que pretende ver respondidos e indicando seu assistente técnico; • Além disso, a falta de homologação das compensações por parte da autoridade fiscal não pode ensejar a cobrança de multa e juros moratórios, em razão da suspensão da exigibilidade dos créditos tributários; • Para a exigência de tais acréscimos, é condição necessária que o contribuinte encontrese em atraso com o pagamento de crédito tributário, o que não se verifica no presente caso. A requerente só estaria em mora caso houvesse transcorrido 30 dias, contados da data em que teve ciência da decisão que homologou parcialmente seus pedidos de compensação, conforme ordem de intimação a ela encaminhada; • Tal prazo não transcorreu. Pretender tal exigência antes do referido prazo é ato ilegal. Além disso, a presente manifestação suspende a Fl. 356DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 6 5 exigibilidade do crédito. Mesmo depois de findo tal prazo, nenhum valor a título de multa e juros de mora poderá ser exigido enquanto o processo administrativo encontrarse me curso; • A compensação realizada é legal e válida, e implicou quitação do valor compensado, supostamente devido pela requerente. Assim, não há acréscimos a serem cobrados; • Por fim, ainda que algum valor fosse devido a este título, tendo em vista que a requerente, ao proceder à compensação, observou todas as normas e atos administrativos expedidos pela autoridade fiscal, de acordo com o art. 100, parágrafo único, do CTN, deve ser excluída da base de cálculo do tributo “a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário”. O colegiado a quo julgou improcedente esta manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão nº 12080.880 Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, no qual repete os argumentos apresentados na manifestação de inconformidade. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301005.757, de 27 de fevereiro de 2019, proferido no julgamento do processo 10880.915900/201371, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 3301005.757): "O recurso voluntário preenche os requisitos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. Tratase de indeferimento parcial de créditos de COFINS e consequente homologação de compensações até o limite do crédito admitido (Despacho Decisório, fl. 90). O Fisco revisou Pedidos de Ressarcimento (PER) e glosou créditos calculados sobre compras de materiais de limpeza e desinfecção das máquinas e equipamentos industriais, produtos para tratamento às águas residuais do processo produtivo, reagentes químicos para análise da qualidade do leite, materiais de embalagem para transporte e soro de leite. Fl. 357DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 7 6 Antes de adentrar nas preliminares e mérito, consigno que a recorrente pleiteou a reunião de 54 processos administrativos, cujas discussões são idênticas ao presente, quais sejam, legitimidade de créditos de COFINS ou PIS, objetos de, aos quais foram vinculados Pedidos de Compensação (DCOMP). O presente processo será julgado sob a sistemática dos "recursos repetitivos", com reunião para julgamento em conjunto de todos os processos conexos que se encontram no CARF. Passemos então à análise dos argumentos de defesa. PRELIMINAR "Nulidade da exigência fiscal vício formal" Alegou que o Despacho Decisório (fl. 90) é nulo, por conter vício formal, pois não pode ser utilizado para exigir créditos tributários decorrentes da instauração de mandado de procedimento fiscal. Apresenta como fundamento o art. 142 do CTN, o art. 9° do Decreto n° 70.235/72, decisões do CARF (Acórdãos n° 20401.613, de 21.8.2006; 10514.097, de 13.5.2003; e 10704.172, de 15.5.1997) e do STJ (Embargos de Divergência do Recurso Especial nº 576.661/RS). Em sua opinião, assim deveria ter procedido a fiscalização (recurso voluntário, fl. 266): "(. . .) 31. Com efeito, uma vez apresentado o pedido de compensação pelo contribuinte, cabe à D. Autoridade Fiscal analisar a procedência do crédito e, posteriormente, homologar ou não a compensação. Caso não seja homologada, deverá ser realizado de ofício o lançamento do débito apurado, mediante a lavratura de Auto de Infração ou Notificação de Lançamento, sob pena de nulidade do ato. 32. Sendo assim, resta claro que há necessidade de reforma do V. Acórdão recorrido, com o reconhecimento da nulidade formal da exigência fiscal formulada, uma vez que o r. despacho decisório não é a via competente para se fazer uma cobrança decorrente de Mandado de Procedimento Fiscal, e tal fato contraria expressamente o disposto no artigo 142, caput e parágrafo único do CTN, além dos artigos 9º do Decreto nº 70.235/72 e 38 do Decreto nº 7.574/2011. (. . .)" Divirjo da recorrente. Não houve lançamentos de ofício, porém cobrança de tributos já lançados, que restaram em aberto, em decorrência da não homologação da compensação. Adoto como fundamento, o Fl. 358DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 8 7 seguinte trecho da decisão de piso, com fulcro no § 1° do art. 50 da Lei n° 9.784/99: "(. . .) DA NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO Ainda em sede preliminar, o contribuinte alega a impossibilidade de se exigir crédito tributário com base no despacho decisório, pretendendo a nulidade da exigência formulada, uma vez que somente poderia ser feita por meio de lançamento, nos termos dos artigos 142 do CTN, 9º do Decreto nº 70.235/72 e 38 do Decreto nº 7.574/2011. O contribuinte informou no PER/DCOMP nº 24770.42497.080808.1.3.11 8497 a compensação do direito creditório ora em análise com débito de IRPJ, relativo ao PA mar/2008. Em conseqüência do reconhecimento parcial do direito pleiteado, restou um saldo não compensado deste débito, no valor original de R$ 41.256,22, objeto de cobrança no próprio despacho decisório. A utilização de direito de crédito para fins de compensação com débitos administrados pela RFB encontrase prevista e disciplinada pela Lei nº 9.430/96, conforme dispositivos abaixo transcritos: 'Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. (...) § 6o A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. § 7o Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimálo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. Fl. 359DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 9 8 § 8o Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7o, o débito será encaminhado à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9o. § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7o, apresentar manifestação de inconformidade contra a nãohomologação da compensação. § 10. Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade caberá recurso ao Conselho de Contribuintes. § 11. A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 9o e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadram se no disposto no inciso III do art. 151 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação. (...)'(Grifouse) Desta forma, não procede a alegação do contribuinte, uma vez que a própria Lei que instituiu a compensação nos moldes em que é realizada atualmente equiparou a Declaração de Compensação a instrumento hábil e suficiente para exigência dos débitos nela declarados, não havendo, portanto, necessidade de se realizar o lançamento para viabilizar a cobrança de tais valores, na hipótese de a compensação não ser homologada, ou ser homologada parcialmente, como ocorreu no presente caso. Na hipótese de não pagamento dos débitos, a Lei prevê, inclusive, sua inscrição em Dívida Ativa da União. Portanto, apresentado o PER/DCOMP pelo contribuinte, os créditos tributários nele confessados e compensados já estão aptos a serem exigidos, na eventual hipótese de não homologação da compensação, ou de sua homologação parcial, independentemente de qualquer ato de ofício da autoridade fiscal relativo à sua constituição, constituindo se a própria Declaração de Compensação em título de cobrança administrativa e execução judicial, por expressa autorização legal. (. . .)" Com base no acima exposto, nego provimento à preliminar de nulidade. MÉRITO A fiscalização glosou créditos calculados sobre compras de materiais de limpeza e desinfecção das máquinas e equipamentos industriais, produtos para tratamento às águas residuais do processo produtivo, reagentes químicos para Fl. 360DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 10 9 análise da qualidade do leite e materiais de embalagem para transporte. Os produtos não se enquadrariam no conceito de insumos, previsto nas IN SRF n° 247/02 e 400/04, que disciplinaram os artigos 3° das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03. Em sede do REsp n° 1.221.170/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, a cuja decisão este colegiado está vinculado (§ 2° do art. 62 do RICARF), o STJ considerou ilegal o conceito de insumos previsto nas IN SRF 247/02 e 400/04 e dispôs que o enquadramento ou não no conceito de insumos deve levar em conta "(. . .) essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte." Reproduzo a ementa da decisão: "EMENTA TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e Fl. 361DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 11 10 lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individualEPI. 4. Sob o rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentamse as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de terminado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, prosseguindo no julgamento, por maioria, após o realinhamento feito, conhecer parcialmente do Recurso Especial e, nessa parte, darlhe parcial provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator, que lavrará o ACÓRDÃO. Votaram vencidos os Srs. Ministros Og Fernandes, Benedito Gonçalves e Sérgio Kukina. O Sr. Ministro Mauro Campbell Marques, Assusete Magalhães (voto vista), Regina Helena Costa e Gurgel de Faria (que se declarou habilitado a votar) votaram com o Sr. Ministro Relator. Não participou do julgamento o Sr. Ministro Francisco Falcão. Brasília/DF, 22 de fevereiro de 2018 (Data do Julgamento). NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO MINISTRO RELATOR" (g.n.) A meu ver, a decisão do STJ está essencialmente em linha com a maior parte das decisões sobre o tema que vêm sendo proferidas pelo CARF e, em particular, com os posicionamentos que este relator tem adotado. Em razão da decisão do STJ, em 18/12/18, a RFB publicou o PN COSIT n° 5/18, em que traz um novo conceito de insumos a ser aplicado no âmbito da RFB e ainda analisa a situação de alguns tipos de bens e serviços à luz do REsp n° 1.221.170/PR. Fl. 362DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 12 11 Extraio os trechos da conclusão do PN COSIT n° 5/18 que demonstram de forma patente a mudança no conceito antes aplicado pela RFB: "(. . .) b) permitese o creditamento para insumos do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços, e não apenas insumos do próprio produto ou serviço comercializados pela pessoa jurídica; c) o processo de produção de bens encerrase, em geral, com a finalização das etapas produtivas do bem e o processo de prestação de serviços geralmente se encerra com a finalização da prestação ao cliente, excluindose do conceito de insumos itens utilizados posteriormente à finalização dos referidos processos, salvo exceções justificadas (como ocorre, por exemplo, com os itens que a legislação específica exige aplicação pela pessoa jurídica para que o bem produzido ou o serviço prestado possam ser comercializados, os quais são considerados insumos ainda que aplicados sobre produto acabado); (. . .) e) a subsunção do item ao conceito de insumos independe de contato físico, desgaste ou alteração química do bem insumo em função de ação diretamente exercida sobre o produto em elaboração ou durante a prestação de serviço; (. . .) h) havendo insumos em todo o processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviços, permitese a apuração de créditos das contribuições em relação a insumos necessários à produção de um bem insumo utilizado na produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros (insumo do insumo); i) não são considerados insumos os itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada pela pessoa jurídica em qualquer de suas áreas, inclusive em seu processo de produção de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde, seguro de vida, etc., ressalvadas as hipóteses em que a utilização do item é especificamente exigida pela legislação para viabilizar a atividade de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades, como no caso dos equipamentos de proteção individual (EPI); (. . .)" Consignado o conceito de insumos, transcrevo excertos da "Informação Fiscal" (fls. 67 a 84) que instruiu o Despacho Fl. 363DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 13 12 Decisório (fl. 90), em que o agente fiscal dispõe sobre os tipos de produtos cujos créditos foram glosados: "(. . .) DOS BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS PRODUTOS QUÍMICOS UTILIZADOS EM OPERAÇÕES ACESSÓRIAS AO PROCESSO PRODUTIVO (. . .) 51. Tendo em vista que a interessada tem como objeto a produção e venda de derivados de leite e laticínios em geral, os materiais de limpeza utilizados na higienização e sanitização de equipamentos e máquinas são, no âmbito da produção executada pela interessada, insumos indiretos de produção e, como não estão literalmente dispostos na legislação pertinente, não geram direito a crédito, tanto no cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep quanto no da Cofins, nos termos do art. 3º, inciso II, respectivamente das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. 52. O mesmo pode se dizer a respeito dos produtos adquiridos com o fim de dispensar tratamento às águas residuais do processo produtivo e os reagentes químicos adquiridos com o fim de realizar análise da qualidade, que não têm vínculo intrínseco com a produção e são, na verdade, necessários a operações paralelas que dão suporte ao processo produtivo. (. . .) DOS MATERIAIS DE EMBALAGEM (. . .) 62. No caso em tela, como já consignado, o sujeito passivo atua no ramo de laticínios e tem como principal atividade a produção e venda de leite industrializado. 63. Encontramos em suas planilhas descritivas de créditos aquisições de papelão cortado em forma própria, moldados para a montagem de caixotes; e bobinas de filme plástico classificados nos códigos NCM 39.20.10.99, 3920.10, 3920.10.10, 3920.10.90, 3920.10.99, 3921.19, 48.19.10.01, 4819.00, 4819.10, 4819.10.01, 4819.50 e 4823.90.99. 64. Uma parte do filme plástico é utilizada pelo sujeito passivo para envolver o conjunto de caixotes contendo 12 caixas de 1 litro de leite transportados em pallets. Vale dizer que esse plástico sequer chega ao consumidor final, sendo descartado pelos varejistas assim que o Fl. 364DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 14 13 produto é integrado ao estoque, enquadrandose, portanto, no conceito de “embalagem para transporte”. 65.Já o papelão moldado e a outra parte do filme plástico são utilizados para a confeccionar e envolver os caixotes para o transporte de 12 caixas de leite do tipo “Tetrapak” contendo 1 litro cada envoltas em filme plástico. 66. Vale lembrar que o leite é vendido ao consumidor no varejo individualmente por cada caixa de 1 litro. Os caixotes de papelão, embora encontrados na venda a varejo, ali estão por liberalidade do vendedor, não sendo praticada a compra do caixote contendo 12 litros de leite e sim a compra individual de 12 caixas de 1 litro de leite, de modo que o caixote é levado por conveniência das partes com o objetivo de facilitar o transporte. 67. Fica claro que os caixotes de papelão e o filme plástico que os envolve enquadramse na definição de “embalagem para transporte” e, assim, não ensejam apuração de créditos das contribuições. 68. Desta forma, o papelão moldado, utilizado na confecção de caixotes, e o filme plástico, utilizados para envolver individualmente ou em conjunto os referidos caixotes para transporte em pallets, foram glosados pela Fiscalização. (. . .)" (g.n.) Meu voto é no sentido de acatar todos os créditos em discussão, quais sejam, os calculados sobre compras de materiais de limpeza e desinfecção das máquinas e equipamentos industriais, produtos para tratamento às águas residuais do processo produtivo, reagentes químicos para análise da qualidade do leite e materiais de embalagem para transporte. Entendo que são elementos essenciais para a conclusão satisfatória do processo produtivo, bem como para garantir que os produtos (alimentícios) sejam oferecidos aos clientes em perfeitas condições. Não se admite que uma empresa do ramo alimentício não empregue os devidos esforços para manter em perfeito estado de limpeza e conservação as máquinas que preparam alimentos para consumo humano. E este rigor deve ser ainda maior, quando se trata de verificar se os produtos estão aptos para o consumo, por meio de testes de qualidade. Em sua defesa, a recorrente menciona a Portaria do Ministério da Agricultura e do Abastecimento n° 370/1997, que exige que o industrial aplique testes para certificarse de que o leite atende aos padrões legais exigidos. Fl. 365DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 15 14 Com relação às embalagem, conforme descrição contida na "Informação Fiscal", acima transcrita, tratase de filme plástico e caixa de papelão. Consta da peça recursal que se destinam à proteção das caixas "Tetrapak", onde é acondicionado o leite. O processo de produção somente pode ser tido como concluído, após a obtenção do produto final, no formato em que será transportado para o consumo. E todos os elementos que são adicionados ao produto têm sua função, posto que nenhum empresário deseja onerar desnecessariamente o custo de seu produto, em prejuízo de sua margem de lucro ou mesmo que o obrigasse a aumentar o preço, reduzindo sua competitividade no mercado. O filme plástico e a caixa de papelão são imprescindíveis à manutenção da integridade do leite, produto para consumo humano. Passa, sem sombra de dúvida, por qualquer teste que adote o critério de "essencialidade ou relevância" estabelecido pela citada decisão do STJ. E, por fim, não se poderia admitir que bem os resíduos industriais fossem dispensados, sem o devido tratamento, posto que colocariam em risco o meio ambiente, o que ao certo colidiria com a legislação aplicável. Assim, reputo que estão compreendidos no conceito de insumos e podem ser computados nas bases de cálculo dos créditos de COFINS. Não obstante, cumpre destacar que, exceto quanto os créditos sobre material de embalagem para transporte, os demais foram expressamente citados pelo PN COSIT n° 5/18 como produtos que devem ser tidos como insumos, à luz da decisão do STJ, como segue (trechos do PN COSIT n° 5/18): "(. . .) 53.São exemplos de itens utilizados no processo de produção de bens ou de prestação de serviços pela pessoa jurídica por exigência da legislação que podem ser considerados insumos para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins: a) no caso de indústrias, os testes de qualidade de produtos produzidos exigidos pela legislação4; b) tratamento de efluentes do processo produtivo exigido pela legislação c) no caso de produtores rurais, as vacinas aplicadas em seus rebanhos exigidas pela legislação, etc. (. . .) 98. Como relatado, na presente decisão da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, os Ministros consideraram elegíveis ao conceito de insumos os “materiais de limpeza” descritos pela recorrente como “gastos gerais de fabricação” de produtos alimentícios. Fl. 366DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 16 15 99. Aliás, também no REsp 1246317 / MG, DJe de 29/06/2015, sob relatoria do Ministro Mauro Campbell Marques, foram considerados insumos geradores de créditos das contribuições em tela “os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios”. 100. Malgrado os julgamentos citados refiramse apenas a pessoas jurídicas dedicadas à industrialização de alimentos (ramo no qual a higiene sobressai em importância), parece bastante razoável entender que os materiais e serviços de limpeza, desinfecção e dedetização de ativos utilizados pela pessoa jurídica na produção de bens ou na prestação de serviços podem ser considerados insumos geradores de créditos das contribuições. 101. Isso porque, à semelhança dos materiais e serviços de manutenção de ativos, tratase de itens destinados a viabilizar o funcionamento ordinário dos ativos produtivos (paralelismo de funções com os combustíveis, que são expressamente considerados insumos pela legislação) e bem assim porque em algumas atividades sua falta implica substancial perda de qualidade do produto ou serviço disponibilizado, como na produção de alimentos, nos serviços de saúde, etc. (. . .) 150.De outra banda, a análise é mais complexa acerca dos testes de qualidade aplicados sobre produtos que já finalizaram sua montagem industrial ou sua produção (produtos acabados). Conquanto tais testes sejam realizados em momento bastante avançado do processo de produção, é inexorável considerálos essenciais ao este processo, na medida em que sua exclusão priva o processo de atributos de qualidade. 151.Assim, são considerados insumos do processo produtivo os testes de qualidade aplicados anteriormente à comercialização sobre produtos que já finalizaram sua montagem industrial ou sua produção, independentemente de os testes serem amostrais ou populacionais. 152.Por fim, salientase que os testes de qualidade versados nesta seção são aqueles aplicados por escolha da pessoa jurídica, vez que os testes de qualidade aplicados por exigência da legislação estão versados na seção BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS POR IMPOSIÇÃO LEGAL. (. . .)" (g.n.) Por outro lado, apesar de propor que sejam acatados os créditos correlatos, também consigno que a RFB manteve o Fl. 367DF CARF MF Processo nº 10880.915934/201366 Acórdão n.º 3301005.795 S3C3T1 Fl. 17 16 entendimento de que material de embalagem para transporte não gera créditos: "(. . .) 56. Destarte, exemplificativamente não podem ser considerados insumos gastos com transporte (frete) de produtos acabados (mercadorias) de produção própria entre estabelecimentos da pessoa jurídica, para centros de distribuição ou para entrega direta ao adquirente6, como: a) combustíveis utilizados em frota própria de veículos; b) embalagens para transporte de mercadorias acabadas; c) contratação de transportadoras. (. . .)" Isto posto, voto por dar provimento integral ao recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 368DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 36392.001996/2007-36
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 13 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Mar 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1995 a 31/12/1995
LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. PRAZO. ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO. DOLO. FRAUDE. SIMULAÇÃO.
É de cinco anos o prazo para a Fazenda Pública efetuar o lançamento das contribuições previdenciárias, contado esse prazo do fato gerador, no caso de lançamento por homologação, quando há antecipação de pagamento e sem ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ou do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ser efetuado.
Numero da decisão: 2402-006.975
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, cancelando integralmente o crédito lançado, uma vez que atingido pela decadência.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Denny Medeiros da Silveira, Gregório Rechmann Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, Paulo Sérgio da Silva, Renata Toratti Cassini e Wilderson Botto (Suplente Convocado).
Nome do relator: DENNY MEDEIROS DA SILVEIRA
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DECADÊNCIA. PRAZO. ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO. DOLO. FRAUDE. SIMULAÇÃO. É de cinco anos o prazo para a Fazenda Pública efetuar o lançamento das contribuições previdenciárias, contado esse prazo do fato gerador, no caso de lançamento por homologação, quando há antecipação de pagamento e sem ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ou do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ser efetuado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, cancelando integralmente o crédito lançado, uma vez que atingido pela decadência. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Denny Medeiros da Silveira, Gregório Rechmann Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, Paulo Sérgio da Silva, Renata Toratti Cassini e Wilderson Botto (Suplente Convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 39 2. 00 19 96 /2 00 7- 36 Fl. 394DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 395 2 Relatório Por bem descrever os fatos ocorridos até a decisão de primeira instância, transcreveremos o relatório constante do Acórdão nº 1218.494 da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) no Rio de Janeiro/RJ I, fls. 338 a 372: DA NOTIFICAÇÃO Tratase de crédito lançado contra o contribuinte acima identificado, através da Notificação Fiscal de Lançamento de DébitoNFLD DEBCAD n° 37.093.1998, no valor de R$ 274.457,00 (duzentos e setenta e quatro mil quatrocentos e cinqüenta e sete reais), que acrescido de multa e juros corresponde ao valor consolidado em 11/04/2007 de RS 947.196,81 (novecentos e quarenta e sete mil cento e noventa e seis reais e oitenta e um centavos), relativo ao não recolhimento, no prazo legal, das contribuições previdenciárias e destinadas aos Terceiros devidas, incidentes sobre o total das remunerações pagas aos segurados empregados, relativo às competências 01/1995 a 12/1995. O presente crédito compõese de: a) contribuições previdenciárias a cargo da empresa incidentes sobre o total das remunerações pagas aos segurados empregados; b) contribuições previdenciárias a cargo da empresa para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa, decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas aos segurados empregados, denominadas de Seguro de Acidente de TrabalhoSAT; c) contribuições previdenciárias dos segurados empregados, não descontadas nem retidas dos mesmos, observado o limite máximo do saláriodecontribuição; d) contribuições devidas por lei aos terceiros, a cargo da empresa (Salárioeducação, Incra, Sesc e Sebrae); e) acréscimos legais devidos, compostos de juros e multa moratória, em face do não recolhimento das contribuições devidas. 2. Esclarece o agente fiscal no relatório fiscal (fls. 5673) que: 2.1. O presente lançamento objetivou a substituição da NFLD n° 35.866.1420, anulada pela 43 Câmara de Julgamento do Conselho de Recursos da Previdência Social, através do Acórdão n° 1612/2006, de 28/09/2006 (fls. 7489), em decorrência da ausência de fundamento legal para arbitramento; 2.2. A presente ação fiscal foi desenvolvida por força do Mandado de Procedimento Fiscal n° 09369007F00. O Fl. 395DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 396 3 procedimento fiscal iniciouse em 2005 na sociedade empresária TV GLOBO LTDA., CNPJ 33.252.156/000119, conforme Mandado de Procedimento Fiscal n° 9233568, de 15/04/2005 e Mandado de Procedimento Fiscal Complementar 01, de 09/08/2005. Posteriormente, a citada empresa apresentou documentos, comprovando a sua incorporação pela empresa Globo Comunicações e Participações S/A, CNPJ 27.865.757/000102. Em decorrência da sucessão empresarial, com fulcro no art. 132 do Código Tributário Nacional, a auditoria fiscal foi realizada em nome da empresa incorporadora; 2.3. O procedimento fiscal foi iniciado a partir da requisição do Mistério Público do Trabalho, como resultado final do Inquérito Civil Público n° 602/00, instaurado em face da TV GLOBO LTDA, ora sucedida, que concluiu que “...a inquirida vem fraudando os contratos de trabalho de dezenas de seus empregados, com violação aos direitos sociais assegurados aos trabalhadores no art. 7° da Constituição, além de incorrer em sonegação de verbas ao FGTS, à Previdência Social e à Receita Federal. A fraude consiste em mascarar a relação de emprego mantida com muitos de seus jornalistas, radialistas e artistas através de uma falsa contratação “civil” com pessoas jurídicas constituídas por aqueles profissionais.” 2.4. A fraude à legislação trabalhista caracteriza ato nulo, nos termos do art. 9°, CLT, sem necessidade de declaração judicial; 2.5. A Lei 6.533/78 dispõe sobre a regulamentação de artista e técnico de espetáculos de diversão; 2.6. Na presente ação fiscal, a fiscalização caracterizou os sócios das empresas prestadoras de serviço, no caso os artistas, que prestaram serviço à TV GLOBO S/A à época dos fatos geradores, como sendo segurados empregados da tomadora de serviço, nos termos do art. 12, I, “a” da Lei n° 8.212/91 c/c arts. 2° e 3° da CLT; 2.7. Na análise do contrato de prestação de serviços, ficaram demonstrados os requisitos da caracterização de emprego, quais sejam: serviço prestado por pessoa física, pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação. A fiscalização citou as cláusulas dos contratos de prestação de serviço que comprovam a relação de emprego. No anexo 2 do relatório fiscal (fls. 91104), consta a transcrição de algumas cláusulas que demonstram a relação de emprego, de cada contrato analisado dos artistas; O presente lançamento engloba os seguintes artistas e empresas interpostas: Fl. 396DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 397 4 2.9. A base de cálculo do presente lançamento, no período de 01/1995 a 12/1995, foi apurada com base nos valores registrados nas contas contábeis 5006, 5007 e 5012, constantes do arquivo magnético fornecido pela empresa. A contribuição do segurado empregado foi apurada, obedecendose ao limite máximo do saláriodecontribuição, sendo considerados os valores recolhidos por cada segurado, conforme dados extraídos do sistema CNIS Cadastro Nacional de Informações Sociais; 3. Em face da responsabilidade solidária' das empresas integrantes do grupo econômico, nos termos do art. 30, IX da Lei n° 8.212/91, as empresas GLOBOSAT PROGRAMADORA LTDA, CNPJ 00.811.990/000148 e SIGLASISTEMA GLOBO DE GRAVAÇÕES AUDIOVISUAIS LTDA, CNPJ 28.114.122/000128, devedoras solidárias do presente lançamento, foram cientificadas da presente notificação fiscal de lançamento de débito para exercerem o seu direito de defesa. 4. O Discriminativo Analítico do DébitoDAD, o Discriminativo Sintético do DébitoDSD e o Relatório de LançamentoRL demonstram as bases de cálculo, as alíquotas utilizadas, os valores devidos originários, os acréscimos moratórios e os valores finais devidos. 5. A fundamentação legal do lançamento de crédito é apresentada no Relatório Fiscal e complementada no Anexo "Fundamentos Legais do Débito FLD", onde consta toda a legislação que ampara o lançamento, por rubrica e por competência. DA IMPUGNAÇÃO 6. Inconformada com o lançamento, a empresa GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S/A (sucessora de TV Fl. 397DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 398 5 GLOBO LTDA) contestou o lançamento, através do instrumento de fls. 126292. Os demais devedores solidários (GLOBOSAT PROGRAMADORA LTDA e SIGLASISTEMA GLOBO DE GRAVAÇÕES AUDIOVISUAIS LTDA) não impugnaram o lançamento. 7. Em apertada síntese, a empresa alega: 7.1. que a autoridade fiscal desconsiderou os contratos de prestação de serviços entre as pessoas jurídicas contratadas e a impugnante, entendendo que haveria relação de emprego entre os sócios das pessoas jurídicas contratadas e a notificada; 7.2. a decadência em razão da inovação do critério jurídico da NFLD; 7.3. que ocorreu a decadência do direito de constituição do crédito tributário relativo ao período de 01 a 12/ 1995, pois já tinha decaído o direito ao respectivo lançamento quando da lavratura da NFLD original n° 35.866.1420, em 02/12/2005. A autoridade fiscal não efetuou o respectivo lançamento no prazo de 5 anos contados do fato gerador, nos termos do art. 150, § 4° do CTN. O art. 150, § 4° e o art. 173, I do CTN disciplinam o para a autoridade administrativa constituir o crédito tributário. Cita ainda decisões o STJ que consideram o prazo para lançamento de cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte aos fatos geradores, bem como que considera o prazo de dez anos a contar do fato gerador nos casos de lançamento por homologação sem que nenhum pagamento tenha sido realizado pelo sujeito passivo. Alega ainda a inconstitucionalidade do art. 45, I, da Lei n° 8.212/91, colacionando julgados; 7.4. a possibilidade de prestação de serviços artísticos pessoais por pessoas jurídicas e aplicação ao caso concreto do art. 129 da Lei n° 11.196/05; 7.5. a autoridade fiscal invadiu a competência exclusiva da justiça do trabalho ao lavrar NFLD reconhecendo o vínculo empregatício dos sócios das empresas prestadoras de serviço com a notificada. A suposta alegação de nulidade pela autoridade fiscal, com fulcro no art. 9° da CLT, não afasta a necessidade prévia de decisão judicial, o que colide frontalmente com o art. 114, caput e IX da CRFB/88 que atribui competência exclusiva à Justiça de Trabalho para apreciar os conflitos oriundos de relação de trabalho. Esse é o entendimento dos Tribunais Regionais Federais, conforme decisões citadas; 7.6. o lançamento não encontra amparo legal para desconstituição dos negócios jurídicos. A autoridade fiscal desconsiderou os contratos de prestação de serviços celebrados entre a notificada e as empresas contratadas, com fundamento no art. 229, § 2°, do Decreto n° 3.048/99. Tal conduta viola o art. 150, I, CRFB/88 e nos arts. 97, 108 e 116, § único do CTN; Fl. 398DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 399 6 7.7. impossibilidade de enquadramento de pessoa jurídica como segurada da previdência social, em face do art. 12 da Lei n° 8.212/91; 7.8. cerceamento do direito de defesa, em face de inúmeras empresas prestadoras em uma mesma NFLD; 7.9. a impossibilidade de aplicação de penalidade. Não cabe a aplicação da multa moratória em face do art. 100, I, § único do CTN, uma vez que o contribuinte obedeceu às normas complementares das leis editadas pela Administração no que tange ao trabalho de caráter personalíssimo. A notificada, como sucessora da TV GLOBO S/A, só é responsável pelos tributos devidos pelas incorporadas e não pelas multas, nos termos do art. 132 do CTN. A impossibilidade da aplicação da multa moratória prevista no art. 135 da Lei n° 8.212/91. Ao julgar a impugnação, a 11ª Turma da DRJ do Rio de Janeiro I/RJ, por unanimidade de votos, concluiu pela sua improcedência, mantendo o crédito tributário lançado. Cientificada do Acórdão nº 1218.494, em 7/7/08, segundo a consulta ao Histórico do Objeto de fl. 378, a contribuinte, por meio de seus advogados (procuração de fls. 560 a 561), interpôs o recurso voluntário de fls. 380 a 384, em 14/7/08, alegando, apenas, a decadência das contribuições lançadas, nos seguintes termos, em síntese: 1.4. [...] o prazo para a constituição das CONTRIBUIÇÕES é o de 5 (cinco) anos previsto no Código Tributário Nacional (CTN) e não o de 10 (dez) anos previsto no art. 45 da Lei nº 8.212, de 24.07.1991. 1.5. Não obstante, a decisão ora recorrida manteve a NFLD, sob o argumento de que o prazo para a constituição das CONTRIBUIÇÕES seria o de 10 (dez) anos previsto no art. 45 da Lei nº 8.212/91. 1.6. Ocorre que, em 20.06.2008, foi publicada no Diário Oficial da União e no Diário de Justiça, a Súmula Vinculante nº 8 do Supremo Tribunal Federal (STF), que dispõe: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 52 do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. [...] 1.9. Vêse, pois, que se aplica à hipótese a Súmula Vinculante nº 8 do STF, devendo ser reconhecida a extinção dos créditos tributários exigidos na NFLD em epígrafe por decadência. 1.12. Por todo o exposto, a RECORRENTE pede e espera: a) seja reconsiderada a decisão recorrida, reconhecendose a aplicação, ao caso, da Súmula Vinculante nº 8 do STF e a consequente extinção dos créditos tributários exigidos na NFLD em epígrafe, por decadência, ou Fl. 399DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 400 7 b) caso a decisão recorrida não seja reconsiderada, seja este recurso encaminhado ao Egrégio 2º Conselho de Contribuintes, para reconhecimento da aplicação, ao caso, da Súmula Vinculante nº 8 do STF, e da consequente extinção dos créditos tributários exigidos na NFLD em epígrafe, por decadência. É o relatório. Voto Conselheiro Denny Medeiros da Silveira – Relator Do conhecimento O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6/3/72. Assim, dele tomo conhecimento. Do prazo decadencial Segundo a Recorrente, o prazo para a constituição das contribuições, à luz da Súmula Vinculante nº 8, do Supremo Tribunal Federal (STF), é de 5 (cinco) anos, conforme previsto no Código Tributário Nacional (CTN), e não o prazo de 10 (dez) anos, previsto no art. 45 da Lei nº 8.212, de 24/7/91, sendo essa a única alegação trazida em seu recurso voluntário. Pois bem, vejamos, primeiramente, o que restou consignado na decisão recorrida a respeito do prazo decadencial: 40. [...], a Lei n° 8.212/91 regula inteiramente a questão do prazo decadencial da contribuição previdenciária, não cabendo aplicar o Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66), que dispõe sobre normas gerais, para suprir eventuais lacunas na legislação. 41. Não obstante a polêmica existente na doutrina e na jurisprudência sobre a constitucionalidade de tal dispositivo legal, o mesmo não teve sua vigência afastada pelo Supremo Tribunal Federal. Logo, em face dos princípios da unidade da Constituição e da presunção de constitucionalidade das leis e atos do poder público, o art. 45 da Lei n° 8.212/91 presumese constitucional, pois até o presente momento o Supremo Tribunal Federal, guardião da Carta Constitucional, não se manifestou sobre a inconstitucionalidade do citado dispositivo, “ex vi” art. 102, I, “a”, CRFB/88. [...] 48. Cumpre assim à Administração Tributária, portanto, seguir expressamente o que preceitua a legislação pertinente à matéria previdenciária, a qual determina que o referido prazo decadencial é de 10 (dez) anos, posto que o mesmo não foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Fl. 400DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 401 8 [...] 50. No caso ora em comento, o lançamento foi efetuado em 25/04/2007, relativas às contribuições previdenciárias, do período de 01/1995 a 12/2005, em substituição à NFLD 35.866.1420, em face da decisão da decisão da 4ª Câmara de Julgamento, que anulou o lançamento original. Logo, não ocorreu a decadência, “ex vi” art. 45, II, da Lei n° 8.212/91. Conforme se observa, de fato, o julgado a quo considerou o prazo decadencial de 10 (dez) anos e manteve o lançamento incólume. Acontece que nos termos do art. 45, da Lei 8.212, de 24/7/91, vigente à época dos fatos geradores, o direito da Seguridade Social de apurar e lançar seus créditos extinguiase em 10 (dez) anos1, porém, em decorrência do julgamento dos Recursos Extraordinários 556.664, 559.882, 559.943 e 560.626, o Supremo Tribunal Federal (STF) editou, em 12/6/08, a Súmula Vinculante nº 8 (DOU 20/6/2008), nos seguintes termos: São inconstitucionais o parágrafo único do art. 5º do Decreto Lei nº 1.569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. Nesta feita, ao analisar os efeitos da edição da Súmula Vinculante nº 8 do STF, assim concluiu o Parecer PGFN/CAT nº 1617, de 1/8/08: a) no caso do pagamento parcial da obrigação, independentemente de encaminhamento de documentação de confissão (DCTF, GFIP ou pedido de parcelamento), o prazo de decadência para o lançamento de ofício da diferença não paga é contado com base no § 4º, do art. 150, do Código Tributário Nacional; b) no caso de não pagamento, nas hipóteses acima elencadas (com ou sem o encaminhamento de documentação de confissão), o prazo é contado com base no inciso I, do art. 173, do CTN; A esse respeito, vejamos o que dispõe o Código Tributário Nacional (CTN), Lei 5.172, de 25/10/66: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. [...] 1 Contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, a constituição de crédito anteriormente efetuada. Fl. 401DF CARF MF Processo nº 36392.001996/200736 Acórdão n.º 2402006.975 S2C4T2 Fl. 402 9 § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. [...] Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. Como se vê, o prazo para a Seguridade Social apurar e lançar seus créditos passou a ser de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador, nas hipóteses em que o tributo obedeça ao regime de lançamento por homologação e desde que haja início de pagamento (antecipação), ainda que parcial (art. 150, § 4º, do CTN), ou a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, na hipótese de inexistência de início de pagamento (art. 173, I, do CTN), ou na ocorrência de dolo, fraude ou simulação (parte final do § 4º, art. 150, do CTN). No caso em tela, tendo em vista que o lançamento substituído foi efetuado em 2/12/05 e que diz respeito às competências de 01/1995 a 12/1995, constatase que todo o período abrangido pelo lançamento se encontra atingido pela decadência, tanto pela regra do art. 150, § 4º, do CTN, quanto pela regra do art. 173, inciso I, do mesmo diploma. Conclusão Isso posto, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, cancelando integralmente o crédito lançado, uma vez que atingido pela decadência. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Fl. 402DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13116.902745/2011-11
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 12 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Apr 02 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2004
PER/DCOMP. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA.
O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado.
INEXATIDÃO MATERIAL.
Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB.
Numero da decisão: 1003-000.502
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Relatora e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes e Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça. Ausente justificadamente o Conselheiro Wilson Kazumi Nakayama.
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004 PER/DCOMP. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. INEXATIDÃO MATERIAL. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Relatora e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes e Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça. Ausente justificadamente o Conselheiro Wilson Kazumi Nakayama. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 11 6. 90 27 45 /2 01 1- 11 Fl. 137DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 138 2 A Recorrente formalizou o Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) nº 07036.42996.300708.1.3.043738, em 30.07.2008, efls. 6871, utilizandose do crédito relativo ao pagamento a maior de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), código 0220, do segundo trimestre do anocalendário de 2004 no valor de R$15.173,08 recolhido em 17.03.2005 apurado pelo regime de tributação com base no lucro real, para compensação dos débitos ali confessados. Consta no Despacho Decisório Eletrônico, efl. 72, que as informações relativas ao reconhecimento do direito creditório foram analisadas das quais se concluiu pelo indeferimento do pedido: Valor do crédito pleiteado do PER/DCOMP: 15.173,08 A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado foram localizados um ou mais pagamentos abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição. [...] Diante da inexistência do crédito, INDEFIRO o Pedido de Restituição. Enquadramento Legal: Art. 165 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Cientificada, a Recorrente apresentou a manifestação de inconformidade. Está registrado na ementa do Acórdão da 3ª Turma/DRJ/REC/PE nº 1144.470, de 20.12.2013, efls. 7781: PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. REQUISITOS. A certeza e a liquidez dos créditos são requisitos indispensáveis para a restituição autorizada por lei. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. UTILIZAÇÃO INTEGRAL. RESTITUIÇÃO INDEFERIDA. Mantémse o despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição quando constatado que o recolhimento indicado como fonte de crédito foi integralmente utilizado na quitação de débito confessado em DCTF. IRPJ. RESTITUIÇÃO INDEFERIDA. PARCELAMENTO EM ANDAMENTO. É vedada a restituição de recolhimentos relativos a crédito tributário incluído em processo de parcelamento em andamento, por faltarlhes os atributos de certeza e liquidez. Manifestação de Inconformidade Improcedente Notificada em 16.06.2014, efl. 132, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 15.07.2014, efls. 84131, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Relativamente aos fatos aduz que: Fl. 138DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 139 3 III DO DIREITO DO PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL No processo administrativo, o julgador deve sempre buscar a verdade material dos. fatos, ainda que, para isso, tenha que se valer de outros elementos além. daqueles trazidos aos autos pelos interessados. A busca pela verdade deve funcionar como verdadeiro norte do processo administrativo, de modo que a autoridade administrativa competente deve sempre sopesar os dados contidos nos autos e a realidade aplicável ao caso, podendo e devendo buscar todos os elementos que possam influir seu convencimento. [...] Como se vê, em decorrência do principio da verdade material, corolário do processo administrativo, temse que o julgador não pode se ater aos dados contidos nos autos, devendo utilizar de todos os meios possíveis e ilícitos para alcançar a verdade dos fatos. No presente caso, em que pese a PER/DCOMP ter vinculado DARF utilizado para pagamento de débito devidamente declarado em DCTF, tal pagamento ocorreu quando já havia iniciado fiscalização na empresa Recorrente, motivo pelo qual o auditor autuante não considerou o pagamento efetivado, sob argumento de falta de espontaneidade. Assim, o i. auditor fiscal autuante [...] lavrou auto de infração para a cobrança do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ e Contribuição Social sobre o lucro Liquido CSSL, abarcando os valores objeto da DCTF retificadora apresentada em 09/01/2006. Ora, ilustres julgadores! Se os valores objeto da presente PER/DCOMP tivessem sido integralmente vinculados e utilizados para pagamento do débito confessado em DCTF, como aduzido [...] no julgamento do manifesto de inconformidade, qual a necessidade de se lavrar auto de infração para cobrança destes mesmos valores? É fato certo e notório que os valores utilizados para pagamento do débito confessado em DCTF não foram considerados pelo fiscal autuante. O próprio Termo de Verificação Fiscal deixa claro tal fato ao enunciar que "Devese ressaltar que durante os trabalhos fiscais foram efetuados alguns pagamentos pela contribuinte de IRPJ e CSLL, até então em atraso. Esses pagamentos não foram considerados quando da lavratura do auto de infração, em razão de a contribuinte estar sob procedimento fiscal, portanto, sujeita ao lançamento da multa de oficio. Esses valores poderão ser objeto de pedido de compensação com os valores lançados" [...]. Todavia, não obstante a realidade existente (auto de infração para cobrança dos valores declarados em DCTF retificadora, por não considerar os pagamentos efetuados), a Delegacia da Receita Federal do Brasil não se valeu do princípio da verdade material, se atendo ao simples fato de que o crédito reclamado na PER estava vinculado a débito confessado em DCTF, sem considerar o auto de infração lavrado para cobrança destes valores. Ocorre que o princípio da verdade material é corolário do processo administrativo, devendo ser amplamente observado, sob pena de afronta às disposições legais. Desta maneira, considerando que os pagamentos vinculados aos débitos confessados em DCTF foram objeto de autuação, e devendo a Administração Fl. 139DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 140 4 Pública valerse do princípio da verdade material, temse que o pedido de compensação merece ser homologado, devendo ser reformada a decisão que indeferiu tal pedido. DA INEXISTÊNCIA DE PRESCRIÇÃO A ilustre julgadora, em citação totalmente fora de contexto, uma vez que em nenhum momento argumentou a respeito da existência de prescrição do direito de pleitear a restituição; citou o artigo 165 e 168, ambos do Código Tributário Nacional, que trata sobre o prazo prescricional. [...] Da data do pagamento indevido até a data de transmissão do pedido de restituição/compensação, decorreu o lapso temporal inferior a 02 (dois) anos. Considerando que nos termos do artigo 168, do CTN, o direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 05 (cinco) anos, contados da data da extinção do crédito tributário, em caso de pagamento indevido ou a maior, evidente que o crédito objeto do presente pedido de compensação não se encontra abarcado pela prescrição, uma vez que da data da extinção do crédito tributário [...] até a data do pedido de restituição [...], decorreu lapso temporal bem inferior ao prazo limítrofe de 05 (cinco) anos. Assim, temse que não há o que falar em prescrição do direito de se pleitear a restituição do crédito tributário pago indevidamente. DA CONSISTÊNCIA DO PEDIDO DE COMPENSAÇÃO DO CRÉDITO ORA PLEITEADO COM O DÉBITO INDICADO NA PER/DCOMP O acórdão [...] aduziu que para que o sujeito passivo postule a restituição ou a compensação de tributos, é necessário que seu direito seja líquido e certo, decorrente de crédito tributário por ele comprovadamente extinto em montante indevido ou a maior que o devido è que o parcelamento de débitos não constitui modalidade de extinção do crédito tributário e sim de suspensão. Ainda, afirmou que o crédito que se quer restituir tem origem em recolhimentos que são relativos ao mesmo crédito tributário constante de processo de parcelamento excepcional PAEX em andamento, resultando, daí, que, por não estar o crédito tributário extinto (liquidado), não se lhe reconhece a certeza e liquidez necessárias à pretendida restituição. Por fim, disse que a orientação passada pelo fiscal autuante foi de que os valores poderiam ser objeto de pedido de compensação com os valores lançados, razão pelo qual os pagamentos efetuados deveriam ser objeto de compensação com os valores lançados de oficio. Logo, a autoridade a quo não pode reconhecer crédito algum, porque não sendo líquido e certo o crédito contra a Fazenda Pública, não pode ser postulada sua restituição. Tais argumentos são desprovidos de razão, motivo pelo qual não merecem prosperar. Primeiramente cumpre sa salientar que os argumentos lançados pela i. Julgadora/Relatora são contraditórios. Num primeiro momento aduz que o recolhimento fora integralmente vinculado a débito confessado em DCTF, motivo pelo qual restou inexistente o crédito reclamado na PER. Num segundo momento, aduz de forma contrária, reconhecendo que o crédito que se quer restituir tem origem em recolhimentos que são relativos ao mesmo crédito tributário constante de processo de parcelamento excepcional PAEX em andamento. Todavia, aduz que por Fl. 140DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 141 5 não estar o crédito tributário extinto (liquidado), não se reconhece a certeza e a liquidez necessárias à pretendida restituição, uma vez que o parcelamento é causa de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, e não de extinção. Ora! Razão não assiste a Julgadora Tributária. Em que pese o parcelamento ser causa de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, e ainda estar em vigência, tal fato não pode ser motivo para o indeferimento do presente pedido. E assim o é porque, em que pese serem relativos ao mesmo tributo, os créditos objeto do pedido de compensação não foram considerados pelo auditor fiscal autuante, tendo sido lavrado auto de infração que está sendo pago através de parcelamento. Ou seja, tratase de hipóteses distintas, uma vez que o próprio fiscal autuante não considerou os pagamentos efetuados através do DARF, motivo pelo qual não poderiam ser utilizados para pagamento do débito objeto de autuação, e, muito menos, sua compensação com outros débitos ser condicionada ao término do parcelamento. Se o fiscal autuante, no momento da lavratura do auto de infração, não considerou os pagamentos realizados através dos DARF's, autuando a Recorrente pelo não pagamento do tributo, tais pagamentos não poderiam ser utilizados para pagamento do auto de infração. Se os pagamentos realizados através de DARF pudessem ser utilizados para pagamento do débito objeto de fiscalização, o i. auditor fiscal autuante deveria considerar os pagamentos realizados, lavrando auto de infração somente em relação à multa e aos juros, pela não consideração da espontaneidade do pagamento. Ou então, o próprio fisco, no momento da consolidação do débito do Parcelamento Excepcional PAEX, deveria abater o valor dos pagamentos efetuados por meio de DARF's. E se assim não o fez, não pode o Julgador Tributário, ao analisar os pedidos de compensação, condicionar o deferimento da PER/DCOMP ao término do parcelamento, uma vez que ps créditos objeto da PER não foram dados como garantia do parcelamento, até mesmo porque a lei não exige tal garantia, sendo que, em caso de não pagamento das parcelas, o Fisco deve se valer de outros meios legais de cobrança. Ora, ilustres julgadores! Qual outra conduta possível que a Recorrente deveria se valer a não ser o pedido de compensação? O pagamento indevido ocorreu, uma vez que os pagamentos efetivados não foram considerados pelo fiscal autuante e sequer abatidos no momento do parcelamento. Logo, não haveria outra conduta a ser realizada pela Recorrente a não ser valerse do pedido de compensação. E condicionar o deferimento deste pedido ao término do parcelamento, fadaria o crédito à ocorrência de prescrição. Ademais, em pesquisa ao site da Receita Federal do Brasil, no campo perguntas e respostas, constatouse que não podem ser objeto de compensação efetuada pelo sujeito passivo o débito que já tenha sido encaminhado à PGFN para inscrição em Dívida Ativa da União; e o débito consolidado em qualquer modalidade de parcelamento concedido pela RFB. Fl. 141DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 142 6 Ou seja, como o débito objeto do auto de infração lavrado em desfavor da Recorrente foi parcelado, tendo o débito sido consolidado, não pode ser objeto de compensação. Além disso, o argumento da Julgadora Tributária no sentido de que os pagamentos efetuados deveriam ser objeto de compensação. Com os valores lançados de oficio, em razão da orientação repassada ao contribuinte pelo autuante, não merece prosperar. E assim o é porque no Termo de Verificação Fiscal o fiscal autuante tão somente consignou que os valores poderiam ser objeto de pedido de compensação com os valores lançados. Tal fato não pode induzir o Julgador Tributário à conclusão que chegou de que os pagamentos deveriam ter sido objeto de compensação com os valores lançados de oficio, sendo incluídos no processo de parcelamento. O fato de o fiscal autuante ter facultado a possibilidade de compensação com os débitos lançados, não obrigada o contribuinte a agir de tal maneira, conforme afirma o julgador tributário. A compensação com os valores lançados seria uma faculdade do contribuinte, que pode se valer ou não desta prerrogativa, de acordo com o seu interesse. E por ter a Recorrente aderido ao Parcelamento Excepcional PAEX, para quitação dos débitos, achou por bem compensar os créditos oriundos do pagamento indevido realizado por meio de DARF's com outros débitos que não os lançados, exercendo sua faculdade de compensar os créditos com os débitos que entendeu adequado. Assim, resta evidente que o condicionamento estabelecido pelo i. Julgador Tributário, de deferimento do pedido de compensação ao término do parcelamento é indevido, merecendo ser reformada a r. decisão recorrida, uma vez que a compensação dos pagamentos efetuados com os valores lançados de oficio era mera faculdade do contribuinte, que por ter aderido ao PAEX, entendeu compensar os créditos devidos com outros débitos que não os lançados de oficio. Por fim, cumpre esclarecer, que condicionar o deferimento do pedido de compensação com o término do parcelamento, fere direito líquido e certo da Recorrente.em ter restituído/compensado débito pago indevidamente, uma vez que esperar o término do parcelamento para poder requerer a compensação certamente fará com o direito de compensação esteja prescrito, em total afronta à legislação pátria vigente. DA EXISTÊNCIA DE DECISÃO TOTALMENTE DIFERENTE DA R. RECORRIDA EM RELAÇÃO AO MESMO CASO DOS AUTOS Como visto anteriormente, foram objeto de fiscalização e posterior autuação os seguintes tributos: CSSL e IRPJ. O caminho trilhado em relação aos dois tributos foi o mesmo, qual seja: o contribuinte efetuou o pagamento através de DARF's, sendo que o pagamento não foi considerado pelo auditor fiscal autuante sob o argumento de falta de espontaneidade, uma vez que os pagamentos ocorreram quando já havia iniciado o procedimento fiscalizatório. Em razão de o fiscal autuante não ter considerado os pagamentos efetivados por meio dos DARF's, a Recorrente transmitiu Pedido de Ressarcimento ou Restituição' e Declaração de Compensação PER/DCOMP, para compensar os pagamentos não acolhidos pelo auditor fiscal autuante com outros débitos, uma vez Fl. 142DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 143 7 que o débito objeto do auto de infração lavrado em seu desfavor fora parcelado através da adesão ao Parcelamento Excepcional PAEX. Em primeira.análise, os pedidos de compensação foram indeferidos, sendo proferido despacho decisório de não homologação de compensação, sob o argumento de que o pagamento foi integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação do débito informado na declaração. Inconformado com a decisão, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade em relação a todos os pedidos de compensação, sendo que parte dos manifestos foram encaminhados para julgamento à 4ª Turma DRJ/BSB e outra parte à 3ª Turma da DRJ/REC. Os manifestos de inconformidade encaminhados para julgamento à 3ª Turma da DRJ/REC tiveram o destino delineado anteriormente, cujas argumentos são refutados no presente recurso, em razão do seu indeferimento. Já os manifestos de inconformidade encaminhados para julgamento à 4ª Turma DRJ/BSB, teve caminho totalmente diverso, com a procedência do pedido sob o argumento de que: como afirma o contribuinte, o Auditor Fiscal, ao apurar a diferença entre o valor escriturado e o declarado/pago, deixou de deduzir o valor pago e declarado pela interessada em DCTF retificadora. Em razão disto, resta claro que a empresa recolheu indevidamente e tem direito de repetição do indébito, pois a autuação já contemplou no lançamento de oficio aquele valor. a compensação pode ser homologada até o limite daquele crédito, tendo em vista que comprovada nos autos a existência de crédito do sujeito passivo contra a Fazenda Nacional para absorver o débito tributário. por fim, aduz que a compensação de créditos tributários (débitos do contribuinte) pode ser efetuada com crédito liquido e certo do sujeito passivo, que é o caso dos autos, motivo pelo qual julgou procedente a manifestação de inconformidade formulada, reconhecendo o crédito do sujeito passivo, homologando a compensação até o limite daquele crédito, nos termos da legislação de regência. Como se vê, em relação ao mesmo caso, alguns manifestos de inconformidade teve destino totalmente diverso, sendo julgados procedentes, em total atenção à realidade ocorrida nos autos, por restar liquido e certo o direito da Recorrente à compensação. Portanto, temse que, no presente caso, devese dado o mesmo tratamento dispensado aos pedidos de compensação julgados pela 4ª Turma DRJ/BSB, com o julgamento de procedência do presente Recurso Voluntário, pela existência de direito líquido e certo da Recorrente à compensação e por ser medida da mais lidime justiça. Com o objetivo de fundamentar as razões apresentadas na peça de defesa, interpreta a legislação pertinente, indica princípios constitucionais que supostamente foram violados e faz referência a entendimentos doutrinários e jurisprudenciais em seu favor. Concernente ao pedido expõe que: IV DO PEDIDO Por todo o exposto, requer: Fl. 143DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 144 8 a) Que seja recebido e processado o presente RECURSO VOLUNTÁRIO, reconhecendo a existência de crédito e anulando a r. decisão recorrida que não homologou as compensações efetivadas, uma vez que devidamente comprovada a existência do crédito; b) a homologação do pedido de compensação realizado através de PER/DCOMP, pelos próprios e jurídicos fundamentos deste Recurso; c) a juntada dos documentos (PER/DCOMP, DCTF, DARF, auto de infração, Termo de Verificação Fiscal e comprovante de parcelamento) ora anexados; d) o cadastramento do Advogado MÁRCIO EMRICH GUIMARÃES LEÃO. OAB/GO 19.964, para o recebimento das intimações provenientes destes autos, no endereço constante do rodapé desta; e) Pugna, ainda, pela juntada posterior de documentos que reputar pertinentes. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. Assim, dele tomo conhecimento. A Recorrente solicita a realização de todos os meios de prova. Sobre a matéria, vale esclarecer que no presente caso se aplicam as disposições do processo administrativo fiscal que estabelece que a peça de defesa deve ser formalizada por escrito incluindo todas as teses e instruída com os todos documentos em que se fundamentar, precluindo o direito de a Recorrente praticar este ato e apresentar novas razões em outro momento processual, salvo a ocorrência de quaisquer das circunstâncias ali previstas, tais como fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, refirase a fato ou a direito superveniente ou se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos1. Embora lhe fossem oferecidas várias oportunidades no curso do processo, a Recorrente não apresentou a comprovação inequívoca de quaisquer fatos que tenham correlação com as situações excepcionadas pela legislação de regência. A realização desses meios probantes é prescindível, uma vez que os elementos probatórios produzidos por meios lícitos constantes nos autos são suficientes para a solução do litígio. A justificativa arguida pela defendente, por essa razão, não se comprova. Os argumentos atinentes ao Auto de Infração formalizado no processo nº 13116.000427/200656, efls. 3853 e 135136, devem ser ali tratados (art. 142 do Código Tributário Nacional e art. 11 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). A Recorrente não instaurou no tempo, no lugar e na forma própria a fase litigiosa no procedimento (art. 14 do 1 Fundamentação legal: art. 16 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. Fl. 144DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 145 9 Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972), que se encontra no ARQUIVO DEL REC FED EM ANAPOLISGO desde 29.07.2010. Ocorre que o contencioso do lançamento de ofício não pode ser inaugurado nos presentes autos, que trata do Per/DComp, cujo rito está previsto no art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. No que se refere as alegações pertinentes ao parcelamento formalizado nos processos nºs 18208.001246/200712, 18208.001247/200767 e 18208.001248/200710, efls. 5455, vale ressaltar que cabe a autoridade preparadora da unidade de origem de circunscrição da Recorrente analisar a matéria, nos termos do art. 270 do Anexo I do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB, aprovado pela Portaria MF nº 430, de 09 de outubro de 2017. Ademais, o referido processo encontrase no SETOR PROC ELETRÔNICO REFIS DRF ANA GO desde 01.06.2007, efl. 134. Para fins de esclarecimento vale discriminar os débitos de IRPJ objeto de parcelamento, efls. 5455, e aqueles que foram lançados, conforme o Auto de Infração, efls. 3853: Período de Apuração Débitos de IRPJ Parcelamento Valores Originais R$ Débitos de IRPJ Auto de Infração Valores Originais R$ 1º Trimestre de 2001 18.072,18 44.628,47 2º Trimestre de 2001 28.040,19 28.040,19 3º Trimestre de 2001 66.039,94 66.039,94 4º Trimestre de 2001 1º Trimestre de 2002 2º Trimestre de 2002 580,97 580,97 3º Trimestre de 2002 771,22 771,22 4º Trimestre de 2002 1º Trimestre de 2003 3.302,68 2º Trimestre de 2003 3.082,22 3º Trimestre de 2003 2.139,94 4º Trimestre de 2003 11.034,07 60.936,80 1º Trimestre de 2004 4.667,85 107.022,23 31.119,06 107.022,23 2º Trimestre de 2004 95.700,78 3.456,45 23.043,00 95.700,78 3º Trimestre de 2004 1.016,43 1.016,43 4º Trimestre de 2004 O Auto de Infração foi lavrado em 2006 e somente em 2007 a Recorrente efetuou a adesão ao parcelamento e como visto nem todos os débitos de IRPJ lançados no Auto de Infração foram parcelados. Relativamente ao pedido de cadastramento do patrono para o recebimento das intimações provenientes destes autos, temse que consta no enunciado da Súmula CARF nº 110 que "no processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo". Por conseguinte, o pleito da Recorrente não pode ser deferido, uma vez que "as decisões reiteradas e uniformes do CARF serão consubstanciadas em súmula de observância obrigatória pelos membros do CARF (art. 72 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015). Fl. 145DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 146 10 No caso de prescrição da repetição de indébito em relação aos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o termo de início da contagem do prazo prescricional de 5 (cinco) anos começa a fluir a partir da data do pagamento indevido (art. 165 e art. 168 do Código Tributário Nacional e Lei Complementar nº 118, de 9 de fevereiro de 2005). Verifica se que não houve o transcurso do prazo prescricional, haja vista que a Recorrente formalizou o Per/DComp em 30.07.2008, efls. 6871, utilizandose do crédito relativo ao pagamento a maior de IRPJ, código 0220, do segundo trimestre do anocalendário de 2004 no valor de R$15.173,08 recolhido em 17.03.2005. No que tange ao resultado do julgamento em outro procedimento, vale ressaltar que a cada processo autônomo, como é o caso dos presentes autos, prevalece o princípio da persuasão racional mediante o qual a autoridade julgadora forma livremente sua convicção na apreciação da prova (art. 29 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). A Recorrente discorda do procedimento fiscal. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição, pode utilizálo na compensação de débitos. A partir de 01.10.2002, a compensação somente pode ser efetivada por meio de declaração e com créditos e débitos próprios, que ficam extintos sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Também os pedidos pendentes de apreciação foram equiparados a declaração de compensação, retroagindo à data do protocolo. Posteriormente, ou seja, em de 30.12.2003, ficou estabelecido que a Per/DComp constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados, bem como que o prazo para homologação tácita da compensação declarada é de cinco anos, contados da data da sua entrega. Ademais, o procedimento se submete ao rito do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional. 2. O pressuposto é de que a pessoa jurídica deve manter os registros de todos os ganhos e rendimentos, qualquer que seja a denominação que lhes seja dada independentemente da natureza, da espécie ou da existência de título ou contrato escrito, bastando que decorram de ato ou negócio. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor dela dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais3. Instaurada a fase litigiosa do procedimento, a Recorrente deve detalhar os motivos de fato e de direito em que se basear expondo de forma minuciosa os pontos de discordância e suas razões e instruindo a peça de defesa com prova documental préconstituída imprescindível à comprovação das matérias suscitadas. Por seu turno, a autoridade julgadora, orientandose pelo princípio da verdade material na apreciação da prova, deve formar 2 Fundamentação legal: art. 165, art. 168, art. 170 e art. 170A do Códido Tributário Nacional, art. 9º do Decreto Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, 1º e art. 2º, art. 51 e art. 74 da Lei nº 9.430, de 26 de dezembro de 1996, art. 49 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002 e art. 17 da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003. 3 Fundamentação legal : art. 195 do Código Tributário Nacional, art. 51 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 6º e art. 9º do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, art. 37 da Lei nº 8.981, de 20 de novembro de 1995, art. 6º e art. 24 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995 e art. 1º e art. 2º da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Fl. 146DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 147 11 livremente sua convicção mediante a persuasão racional decidindo com base nos elementos existentes no processo e nos meios de prova em direito admitidos. Os diplomas normativos de regências da matéria, quais sejam o art. 170 do Código Tributário Nacional e o art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, deixam clara a necessidade da existência de direto creditório líquido e certo no momento da apresentação do Per/DComp, hipótese em que o débito confessado encontrarseia extinto sob condição resolutória da ulterior homologação. Apenas nas situações comprovadas de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e erros de escrita ou de cálculos podem ser corrigidas de ofício ou a requerimento da Requerente. O erro de fato é aquele que se situa no conhecimento e compreensão das características da situação fática tais como inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos. A Administração Tributária tem o poder/dever de revisar de ofício o procedimento quando se comprove erro de fato quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória. A este poder/dever corresponde o direito de a Recorrente retificar e ver retificada de ofício a informação fornecida com erro de fato, desde que devidamente comprovado. O conceito de erro material apenas abrange a inexatidão quanto a aspectos objetivos, não resultantes de entendimento jurídico, como um cálculo errado, a ausência de palavras, a digitação errônea, e hipóteses similares. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB (art. 32 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e incisos I e III do art. 145 e inciso IV do art. 149 do Código Tributário Nacional). Por inexatidão material entendemse os pequenos erros involuntários, desvinculados da vontade do agente, cuja correção não inove o teor do ato formalizado, tais como a escrita errônea, o equívoco de datas, os erros ortográficos e de digitação. Diferentemente o erro de direito, que não é escusável, diz respeito à norma jurídica disciplinadora e aos parâmetros previstos nas normas de regência da matéria. Cabe a Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. Para que haja o reconhecimento do direito creditório é necessário um cuidadoso exame do pagamento a maior de tributo, uma vez que é absolutamente essencial verificar a precisão dos dados informados em todos os livros de escrituração obrigatórios por legislação fiscal específica bem como os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal 4. Conforme determinam os §§ 1º e 3º do art. 9º do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, a escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do sujeito passivo dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, exceto nos casos em que a lei, por disposição especial, atribua a ele o ônus da prova de fatos registrados na sua escrituração. 4 Fundamentação legal: art. 170 do Código Tributário Nacional, art. 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 e art. 2º da Lei nº 9.430, 27 de dezembro de 1996. Fl. 147DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 148 12 A Recorrente tem o ônus de instruir os autos com documentos hábeis e idôneos que justifiquem a retificação das informações retificadas. Nesse sentido também vale ressaltar o disposto no art. o art. 195 do Código Tributário Nacional e o art. 4º do DecretoLei nº 486, de 03 de março de 1969, que preveem, em última análise, "que os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram." No presente caso, a partir das características do DARF discriminado no Per/DComp foi identificada a integral alocação integralmente para quitação de débito da Recorrente, não restando crédito disponível para restituição. Verificase que os dados presumidamente errados não podem ser considerados, pois não foram produzidos no processo elementos de prova que evidenciem as alegações da Recorrente (§ 1º do art. 147 do Código Tributário Nacional e 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Logo, não foram carreados aos autos pela Recorrente os elementos essenciais a produzir um conjunto probatório robusto dos argumentos contidos no recurso voluntário. Consta no Acórdão da 3ª Turma/DRJ/REC/PE nº 1144.470, de 20.12.2013, efls. 7781, cujos fundamentos de fato e direito são acolhidos de plano nessa segunda instância de julgamento (art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999): Conforme relatado, a DRF constatou a existência do pagamento, todavia observou que o recolhimento fora integralmente vinculado a débito confessado em DCTF. Assim, restou inexistente o crédito reclamado no PER, razão pela qual foi indeferido o pedido de restituição. Alega a inconformada que efetuou pagamento indevido do IRPJ, que restou evidenciado seu crédito, por ocasião da autuação efetuada e relativa ao ano calendário 2004, quando realizou, durante o procedimento fiscal, os recolhimentos listados no quadro à fl. 03, que não foram considerados pelo autuante em razão do procedimento de fiscalização em andamento e, consequente ausência de espontaneidade. Afirma ainda, que os valores lançados de ofício através do Auto de Infração lavrado foram incluídos em processo de parcelamento em 14/09/2006, valores divididos em 120 parcelas, o que comprova com o extrato PAEX fls. 54/55. [...] Como se observa, para que o sujeito passivo postule a restituição ou a compensação de tributos, é necessário que seu direito seja líquido e certo, decorrente de crédito tributário por ele comprovadamente extinto em montante indevido ou a maior que o devido. Por outro lado, sabese que o parcelamento de débitos não constitui modalidade de extinção do crédito tributário, e sim de suspensão, nos termos dos arts. 151 e 156 do CTN, adiante transcritos: [...] No caso concreto, conforme se relatou, o contribuinte pleiteia restituição de recolhimentos do IRPJ relativos ao mesmo tributo e mesmo período de apuração incluído em processo de parcelamento que se encontra em andamento na DRF de sua jurisdição, ou seja, o crédito que se quer restituir tem origem em recolhimentos que são relativos ao mesmo crédito tributário constante de processo de parcelamento excepcional PAEX em andamento, resultando daí que, por não estar o crédito Fl. 148DF CARF MF Processo nº 13116.902745/201111 Acórdão n.º 1003000.502 S1C0T3 Fl. 149 13 tributário extinto (liquidado), não se lhe reconhece a certeza e liquidez necessárias à pretendida restituição. Por fim, transcrevese a seguir orientação repassada ao contribuinte pelo autuante no Termo de Verificação Fiscal cuja, cópia foi trazida pela inconformada, fl. 53: “Devese ressaltar que durante os trabalhos fiscais foram efetuados alguns pagamentos pela contribuinte de IRPJ e CSLL, até então em atraso. Esses pagamentos não foram considerados quando da lavratura do auto de infração, em razão de a contribuinte estar sob procedimento fiscal, portanto, sujeita ao lançamento da multa de ofício. Esses valores poderão ser objeto de pedido de compensação com os valores lançados” Portanto, os pagamentos efetuados deveriam ser objeto de compensação com os valores lançados de ofício, na realidade, deveriam ter sido incluídos no processo de parcelamento, a pedido do interessado, para apuração do montante a parcelar, se não o foram, só após extinção do montante parcelado, é que poderão ser restituídos ou compensados com outros débitos a critério do contribuinte. Assim, não poderia a autoridade a quo reconhecer crédito algum para a interessada, porque não sendo líquido e certo o crédito contra a Fazenda Pública, não pode ser postulada sua restituição, nos termos do art. 170 do CTN). No que concerne à interpretação da legislação e aos entendimentos doutrinários e jurisprudenciais, cabe esclarecer que somente devem ser observados os atos para os quais a lei atribua eficácia normativa, o que não se aplica ao presente caso, nos termos do art. 100 do Código Tributário Nacional. Atinente aos princípios constitucionais, cabe ressaltar que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, uma vez que no âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade5. Temse que nos estritos termos legais o procedimento fiscal está correto, conforme o princípio da legalidade a que o agente público está vinculado (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 26A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e art. 62 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de julho de 2015). Em assim sucedendo, voto em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva 5 Fundamentação legal: art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, art. 62 do Anexo II do Regimento Interno do CARF e Súmula CARF nº 2. Fl. 149DF CARF MF
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