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Numero do processo: 12448.721788/2013-44
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Mar 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2008
COMPENSAÇÃO. IR-FONTE SOBRE JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. TEMPESTIVIDADE.
Comprovada a existência de crédito de IR-Fonte incidente sobre receitas recebidas de Juros sobre Capital Próprio, o contribuinte pode compensá-lo com débito de IR-Fonte sobre Juros sobre Capital Próprio pagos, devendo a respectiva DCOMP ser apresentada até o prazo legal de vencimento do imposto retido e compensado.
Numero da decisão: 1201-001.982
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator.
EDITADO EM: 14/03/2018
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli e Gisele Barra Bossa. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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IRFONTE SOBRE JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. TEMPESTIVIDADE. Comprovada a existência de crédito de IRFonte incidente sobre receitas recebidas de Juros sobre Capital Próprio, o contribuinte pode compensálo com débito de IRFonte sobre Juros sobre Capital Próprio pagos, devendo a respectiva DCOMP ser apresentada até o prazo legal de vencimento do imposto retido e compensado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator. EDITADO EM: 14/03/2018 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli e Gisele Barra Bossa. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 17 88 /2 01 3- 44 Fl. 165DF CARF MF 2 Relatório Tratase de processo administrativo formalizado para estabelecer tratamento manual à Declaração de Compensação nº 34448.25499.060109.1.3.068342 (fls. 3 a 7), através da qual a interessada buscou compensar crédito de IRFonte incidente sobre receita de juros sobre o capital próprio, no valor de R$ 12.930.000,00, retido em dezembro de 2008 por Construtora Queiroz Galvão S/A – CNPJ 33.412.792/000160 (R$ 12.000.000,00) e Vital Engenharia Ambiental S/A – CNPJ 02.536.066/000126 (R$ 930.000,00), conforme atestam as DIRF (fls. 11/12). Referida Declaração de Compensação foi apresentada em 06/01/2009 para fins de formalizar a compensação do aludido crédito com débito de IRFonte, naquele mesmo montante, apurado no 3º decêndio de dezembro de 2008 (vencimento em 06/01/2009) e incidente nos pagamentos de juros sobre capital próprio feitos pelo contribuinte. Por meio do despacho decisório de fls. 53/57, a autoridade competente reconhece a existência dos créditos e débitos nos mesmos montantes informados pelo contribuinte, mas não homologa a Declaração de Compensação por considerála intempestiva. A decisão foi assim fundamentada: 4 – Entrega intempestiva da Declaração de Compensação A entrega da Declaração de Compensação nº 34448.25499.060109.1.3.068342 foi efetuada de forma intempestiva, pelas razões expostas a seguir. A compensação é uma das formas de extinção do crédito tributário, prevista no artigo 156, II da Lei 5.172 de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional). Neste sentido, o parágrafo 6º do artigo 9º da Lei 9.249/95, transcrito no item 1 acima, autorizou a compensação do imposto de renda retido na fonte incidente sobre os rendimentos de juros sobre o capital próprio com o retido por ocasião do pagamento ou crédito de juros da mesma natureza. Conforme o artigo 34 e parágrafos 1º e 2º e artigo 40 e parágrafos 1º e 2º da Instrução Normativa RFB nº 900/08, esta compensação deve ser efetuada no mesmo trimestre ou ano calendário da retenção, através da apresentação à RFB da Declaração de Compensação gerada a partir do programa PER/DCOMP, ocasião em que o crédito tributário será extinto, sob condição resolutória da ulterior homologação deste procedimento. Neste caso, a declaração de compensação foi entregue em 06/01/2009, mas deveria ter sido efetuada obrigatoriamente até 31/12/2008, independentemente da data do vencimento do imposto. CONCLUSÃO Em função do exposto no item 4 acima, proponho: Fl. 166DF CARF MF Processo nº 12448.721788/201344 Acórdão n.º 1201001.982 S1C2T1 Fl. 3 3 1) PELA NÃO HOMOLOGAÇÃO DA DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO 34448.25499.060109.1.3.068342, POR TER SIDO ENTREGUE INTEMPESTIVAMENTE Devidamente cientificada (fls. 66), a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade (fls. 69/79), cujo teor foi assim relatado pela decisão de piso: a) na interpretação do fisco, o crédito oriundo da retenção de imposto de renda efetuado quando do pagamento pela fonte pagadora de JCP só pode ser aproveitado na compensação de débitos de IRRF incidentes sobre pagamentos de JCP, durante o período de apuração em que houve a retenção originária do referido crédito; b) assim, requer seja reformado o despacho decisório, na parte em que julga intempestivo o envio do PER/DCOMP em comento, para reconhecer e homologar o pedido de compensação, visto que não foi suscitado no despacho decisório qualquer outra situação que pudesse ensejar a não homologação da compensação pleiteada; c) A decisão foi fundamentada no artigo 40, § 2º da IN RFB nº 900/2008 e no artigo 9º da Lei nº 9.249/1995; d) Ocorre que não há na Lei nº 9.249/1995, bem como na Lei nº 9.430/1996 legislação que trata da compensação de tributos federais – nenhuma vedação a que tal crédito pudesse ser objeto do pedido de compensação, na forma e prazo em que fora procedido; e) Não poderia o fisco criar qualquer óbice ao direito creditório da requerente, ao argumento de que a indigitada IN proíbe injustificadamente a compensação em debate, em anocalendário diverso da retenção do IRRF/JCP, mas antes da data de vencimento do débito do mesmo imposto a que se pretenda compensar; f) Inexiste vedação legal ao direito de compensar crédito oriunda de rentenção de imposto de renda, efetuado quando do pagamento pela fonte pagadora de juros sobre o capital próprio, com débito de IRRF incidente sobre o crédito de JCP, antes do vencimento de tal tributo; g) Além da questão acima, importante ressaltar que os fatos que ensejaram a não homologação em comento não se subsumem ao preceito normativo capitaneado pelo artigo 40, § 2º, da IN RFB nº 900/2008. Isso porque a compensação deve ser considerada como realizada no mesmo anocalendário das retenções do imposto de renda, ou seja, 2008; h) Tendo o IRRF sobre o pagamento de JCP a seu acionista sido retido no dia 23/12/2008, o imposto deveria ser recolhido até o terceiro dia útil da semana subseqüente à ocorrência do fato Fl. 167DF CARF MF 4 gerador, ou seja, até 06/01/2009, conforme artigo 70, I, “a”, item 1, da Lei nº 11.196/2005 e o art. 668 do RIR/1999; i) Nesse exato sentido dispunha a Agenda Tributária do mês de janeiro de 2009 (Ato Declaratório Executivo CODAC nº 76/2008), a qual determinava que o IRRF incidente sobre JCP, cujo fato gerador ocorresse entre os dias 21 e 31/12/2008, deveria ser recolhido até o dia 06/01/2009 (mesma data de transmissão do PER/DCOMP); j) Se o pagamento deveria ser realizado no dia 06/01/2009, por que restringir a possibilidade de compensação? k) Assim o fazendo, o fisco está, em verdade, tentando restringir o direito de a requerente compensar débito próprio com direito líquido e certo. Em Sessão de 26 de setembro de 2014, a DRJ do Rio de Janeiro, por unanimidade de votos, julgou a manifestação de inconformidade improcedente, por meio de Acórdão (fls. 126/133) cuja ementa possui a seguinte redação: Juros sobre o Capital Próprio. Compensação. A pessoa jurídica optante pela tributação da renda com base no lucro real pode compensar o imposto de renda retido na fonte incidente sobre verbas recebidas a titulo de juros sobre o capital próprio com o imposto de renda a ser retido sobre verbas pagas por ela sob o mesmo título, desde que a compensação seja operada no mesmo anocalendário e formalizada por via de declaração de compensação. A contribuinte apresentou recurso voluntário (fls. 141/156). Reitera as alegações de defesa e rebate determinados pontos da decisão de primeira instância. É o relatório. Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli O recurso voluntário é tempestivo e atende os pressupostos de admissibilidade, razão pelo qual passo a apreciálo. Restou comprovado que o Recorrente declarou a compensação de débito de IRFonte sobre JCP creditado a seus acionistas no terceiro decêndio do mês de dezembro de 2008, no valor de R$ R$ 12.930.000,00, com crédito de igual monta a título de IRFonte retido sobre rendimentos recebidos de JCP, em dezembro/2008, na qualidade de acionista. A formalização da compensação ocorreu mediante entrega da referida Declaração de Compensação, o que ocorreu em 06/01/2009. Fl. 168DF CARF MF Processo nº 12448.721788/201344 Acórdão n.º 1201001.982 S1C2T1 Fl. 4 5 De acordo com o entendimento do auditor fiscal responsável, e corroborado pela DRJ, a Declaração de Compensação deveria ter sido apresentada no próprio ano calendário de 2008, ou seja, até 31/12/2008. Assim, como o contribuinte formalizou o pleito em 06/01/2009, a compensação não deve ser homologada. Já o contribuinte sustenta que o entendimento em questão não tem base legal, é fruto de uma interpretação restrita e equivocada da própria Instrução Normativa n. 900 e que observou os ritos procedimentais para exercer seu direito à compensação. Como se nota, não se discute aqui a legitimidade do crédito, que foi integralmente reconhecido como líquido, certo e comprovado após análise do fisco. O ponto da controvérsia é a tempestividade ou não da Declaração de Compensação apresentada pela Recorrente. Pois bem. Dispõe o artigo 9º da Lei no 9.249/1995 que: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. [...] § 2º Os juros ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte à alíquota de quinze por cento, na data do pagamento ou crédito ao beneficiário. § 3º O imposto retido na fonte será considerado: I antecipação do devido na declaração de rendimentos, no caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real; II tributação definitiva, no caso de beneficiário pessoa física ou pessoa jurídica não tributada com base no lucro real, inclusive isenta, ressalvado o disposto no § 4º; [...] § 6º No caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real, o imposto de que trata o § 2º poderá ainda ser compensado com o retido por ocasião do pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas. Ao regulamentar a compensação entre créditos e débitos apurados a título de IRFonte sobre JCP, a IN 900/2008 (atualmente revogada, mas vigente à época e citada como base legal para a exigência) estabelece que: Art. 40. A pessoa jurídica optante pelo lucro real no trimestre ou anocalendário em que lhe foram pagos ou creditados juros sobre o capital próprio com retenção de imposto de renda Fl. 169DF CARF MF 6 poderá, durante o trimestre ou anocalendário da retenção, utilizar referido crédito de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) na compensação do IRRF incidente sobre o pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas. § 1º A compensação de que trata o caput será efetuada pela pessoa jurídica na forma prevista no § 1º do art. 34. § 2º O crédito de IRRF a que se refere o caput que não for utilizado, durante o período de apuração em que houve a retenção, na compensação de débitos de IRRF incidente sobre o pagamento ou crédito de juros sobre o capital próprio, será deduzido do IRPJ devido pela pessoa jurídica ao final do período ou, se for o caso, comporá o saldo negativo do IRPJ do trimestre ou anocalendário em que a retenção foi efetuada. Após interpretar esses dispositivos, a decisão de piso assim se manifestou acerca da intempestividade da Declaração de Compensação: Assim, pelo que se expôs e segundo entendo, o PERD/COMP deveria, sim, ter sido enviado ainda no anocalendário de 2008 (final do ano). Ora, certo é que o instituto da compensação abarca os débitos tanto vencidos ou vincendos. E se a lei determina que no caso do IRRF incidente sobre JCP a sua utilização deverá ser realizada dentro do próprio ano, não deveria a interessada ter transportado o valor do débito para o primeiro trimestre de 2009 e sim alocálo no último trimestre de 2008. O que, verificase, não ocorreu. Entendo que, neste caso, importaria à interessada ter realizado a compensação com débitos e créditos correspondentes ao mesmo ano, independentemente da data do vencimento deste tributo (débito). A lei, in casu, fixou as possíveis destinações do imposto retido. Por interpretação, foi fixado, também, o momento que é possível (até o encerramento do período de apuração – possível a compensação) ou determinante (após o encerramento do período de apuração – é considerado antecipação do devido na declaração) a aplicação das hipóteses. Se pensarmos que a interessada, no que tange à possibilidade da compensação dentro do próprio anocalendário, o que poderia ocorrer era ela se utilizar do fato de que o IRRF é considerado antecipação do devido e, após encerrado o anocalendário passaria a compor o saldo negativo de IRPJ, como a própria interessada aduziu em sua manifestação de inconformidade. Nestas condições, DEIXO de ACOLHER a manifestação de inconformidade e NÃO HOMOLOGO a compensação. No racional, então, da decisão recorrida, a compensação do débito do IR Fonte apurado no terceiro decêndio de dezembro de 2008, cujo vencimento legal para quitação corresponde a 06/01/2009, deveria ter sido formalizada até, no máximo, dia Fl. 170DF CARF MF Processo nº 12448.721788/201344 Acórdão n.º 1201001.982 S1C2T1 Fl. 5 7 31/12/2008 (último dia do ano calendário). Como, porém, tal formalização foi feita apenas em 06/01/2009, data esta posterior ao "prazo legal", correta seria a alegação de intempestividade. Não concordo, porém, com essa linha de raciocínio. Isso porque restou demonstrado que a interessada formalizou a compensação de crédito líquido e certo no dia 06/01/2009, data esta que corresponde ao próprio dia de vencimento do imposto compensado e alguns dias depois de ter sofrido a retenção (12/2009). Essa compensação, ressaltese, é exatamente aquela referida no artigo 9o da Lei no 9.249/95 (no caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real, o IR Fonte sobre JCP poderá ainda ser compensado com o retido por ocasião do pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas). Do ponto de vista legal não há definição expressa sobre limite temporal para o contribuinte exercer esse direito. Há, na verdade, uma autorização "especial" que permite o contribuinte compensar créditos e débitos deste título apurados no mesmo ano calendário e existe regra geral que permite que a retenção seja computada para fins de Saldo Negativo de IRPJ (se pessoa jurídica) ou como antecipação do IR da pessoa física. Já a IN 900/2008 (art. 40), ao contrário do quanto quer fazer crer a decisão de piso, não regulamenta o prazo para apresentação de DCOMP, prescrevendo apenas que a pessoa jurídica poderá "utilizar referido crédito de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) na compensação do IRRF incidente sobre o pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas", bem como que "o crédito de IRRF a que se refere o caput que não for utilizado, durante o período de apuração em que houve a retenção, na compensação de débitos de IRRF incidente sobre o pagamento ou crédito de juros sobre o capital próprio será deduzido do IRPJ devido pela pessoa jurídica ao final do período ou, se for o caso, comporá o saldo negativo do IRPJ do trimestre ou anocalendário em que a retenção foi efetuada". A lei e a IN, portanto, apenas determinam que os créditos e débitos de IR Fonte sobre JCP devem se referir ao mesmo ano calendário para serem compensados. Assim, caso não haja esse encontro de contas em relação ao mesmo ano calendário, o valor retido poderá apenas ser deduzido do IRPJ. A expressão "que não for utilizado, durante o período de apuração" referida na norma da IN não pode ser utilizada como fundamento para afirmar que a DCOMP deve ser apresentada dentro do período de apuração, mas sim para evidenciar que o débito e o crédito devem se referir ao mesmo período base. A título de exemplo, imagine que o IRFonte tenha sido retido de determinado contribuinte que recebeu JCP em 31/12 e que, no mesmo dia, efetuou pagamento de JCP sujeito ao IRFonte. O que faz este contribuinte? "Sai correndo" para apresentar a DCOMP, afinal possuiria apenas algumas horas ou minutos de prazo? Me parece que a resposta é negativa. A meu ver a interpretação sistemática das normas que regulamentam o assunto admite que a formalização dessa "compensação especial" que ocorre por meio de DCOMP pode ser feita até o vencimento do débito que se Fl. 171DF CARF MF 8 busca compensar, ainda que este ocorra nas primeiras semanas de janeiro do ano seguinte ao ano calendário. É nessa hipótese que se enquadra a contribuinte. Amparada na referida legislação, ela pleiteou a compensação de crédito de IRFonte sobre rendimentos de JCP recebidos em 12/2009 e após poucos dias, em 06/01/2009, formalizou a compensação de débito de IRFonte que venceria no mesmo dia, mas que também diz respeito ao ano calendário de 2008. Não há fundamento, portanto, para considerar intempestiva a Declaração de Compensação apresentada pelo contribuinte. A propósito, em situação análoga a presente, convém assinalar que o CARF já considerou tempestiva a DCOMP. Vejase: JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. APURAÇÃO DURANTE O ANO CALENDÁRIO. LIMITE TEMPORAL PARA SOLICITAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. A pessoa jurídica optante pelo lucro real no trimestre ou ano calendário em que lhe foram pagos ou creditados juros sobre o capital próprio com retenção de imposto de renda poderá, durante o trimestre ou anocalendário da retenção, utilizar referido crédito de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) na compensação do IRRF incidente sobre o pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas. Sendo que o limite temporal para a solicitação da compensação é até o último dia previsto para o recolhimento do imposto relativo aquele anocalendário. Assim, tendo o IRRF sido retido no dia 28/12/2004 e este imposto poderia ser recolhido até o terceiro dia útil da semana subseqüente à ocorrência do fato gerador, o prazo para a interposição do pedido de compensação foi até 05/01/2005. Recurso provido. (Acórdão no 2202001.970). Nesse sentido, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 172DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.679845/2009-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Mar 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - CIDE
Data do fato gerador: 15/08/2005
NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO. FALTA DE MOTIVAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DE DEFESA. Não ocorre a nulidade do feito fiscal quando a autoridade demonstra de forma suficiente os motivos pelos quais o lavrou, possibilitando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa ao contribuinte e sem que seja comprovado o efetivo prejuízo ao exercício desse direito.
DCOMP. NÃO HOMOLOGAÇÃO. DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITO. A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de compensação não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde.
PROVA. RETIFICAÇÃO DE DCTF. REDUÇÃO DE DÉBITO. APÓS CIÊNCIA DE DECISÃO ADMINISTRATIVA. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Compete ao contribuinte o ônus da prova de erro de preenchimento em DCTF, consubstanciada nos documentos contábeis que o demonstre.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA. JUNTADA DE PROVAS. Deve ser indeferido o pedido de diligência, quando tal providência se revela prescindível para instrução e julgamento do processo.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-004.857
Decisão:
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário para NEGAR-LHE provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente substituto e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Marcos Roberto da Silva (Suplente convocado).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO CIDE Data do fato gerador: 15/08/2005 NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO. FALTA DE MOTIVAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DE DEFESA. Não ocorre a nulidade do feito fiscal quando a autoridade demonstra de forma suficiente os motivos pelos quais o lavrou, possibilitando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa ao contribuinte e sem que seja comprovado o efetivo prejuízo ao exercício desse direito. DCOMP. NÃO HOMOLOGAÇÃO. DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITO. A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de compensação não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde. PROVA. RETIFICAÇÃO DE DCTF. REDUÇÃO DE DÉBITO. APÓS CIÊNCIA DE DECISÃO ADMINISTRATIVA. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Compete ao contribuinte o ônus da prova de erro de preenchimento em DCTF, consubstanciada nos documentos contábeis que o demonstre. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. JUNTADA DE PROVAS. Deve ser indeferido o pedido de diligência, quando tal providência se revela prescindível para instrução e julgamento do processo. Recurso Voluntário Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 67 98 45 /2 00 9- 64 Fl. 108DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário para NEGARLHE provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente substituto e Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Marcos Roberto da Silva (Suplente convocado). Relatório Trata o presente processo de Recurso Voluntário interposto pela empresa TIM CELULAR S/A., contra a Decisão da DRJ, que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade que manteve o Despacho Decisório eletrônico emitido pela Delegacia de Administração Tributária em São Paulo DERAT/SP, que não homologou as compensações declaradas com pagamento indevido de CIDE. No referido Despacho Decisório informa que as compensações não foram homologadas por não ter havido apuração de pagamento indevido pois o pagamento citado foi utilizado para quitar débitos declarados em DCTF. Em sua manifestação de inconformidade a contribuinte reconhece que deixou de retificar as DCTFs relativas aos períodos que entende ter havido recolhimento a maior. Sustenta, contudo, que mero equívoco no preenchimento destas declarações não pode gerar débitos fiscais. Alega ofensa aos princípios do contraditório e ampla defesa, discorre sobre o princípio da verdade material e assevera que o equívoco é evidente e não justifica a glosa havida. No entanto, os argumentos aduzidos pelo Recorrente não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão nº Acórdão 1630.220, prolatado pela DRJ em São Paulo (SP): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO CIDE Data do fato gerador: 15/08/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO DCOMP ALTERAÇÃO DE DCTF APÓS CIÊNCIA DE DECISÃO QUE NÃO HOMOLOGOU A COMPENSAÇÃO. A apresentação de DCTF retificadora, após o despacho decisório que não homologou a compensação, em razão da coincidência entre os débitos declarados e os valores recolhidos, não tem o condão de alterar a decisão proferida, uma vez que tanto as DRJ como o CARF limitamse a analisar a correção do despacho decisório, Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10880.679845/200964 Acórdão n.º 3402004.857 S3C4T2 Fl. 3 3 efetuado com bases nas declarações e registros constantes nos sistemas da RFB na data da decisão. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL NÃO OFENSA CORREÇÃO DE ALTERAÇÃO DE DCTF NÃO COMPROVADA EM DOCUMENTAÇÃO IDÓNEA Qualquer alegação de erro de preenchimento em DCTF deve vir acompanhada dos documentos que indiquem prováveis erros cometidos, no cálculo dos tributos devidos, resultando em recolhimentos a maior. Não apresentada a escrituração contábil/fiscal, nem outra documentação hábil e suficiente, que justifique a alteração dos valores registrados em DCTF, mantémse a decisão proferida, sem o reconhecimento de direito credit6rio, com a conseqüente nãohomologação das compensações pleiteadas. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Credit6rio Não Reconhecido Devidamente cientificada desta decisão, a recorrente interpôs, tempestivamente, o recurso voluntário ora em apreço, reprisando os argumentos de sua Manifestação de Inconformidade, adicionando, em síntese, as seguintes razões: Aduz que como explicitado na Manifestação de Inconformidade, por conta da sistemática tributária vigente, apurou créditos tributários a seu favor (recolhimento indevido ou a maior de diversos impostos e contribuições administrados pela RFB), sendo certo que tais montantes são plenamente utilizáveis para fins de compensação de débitos relativos a outros tributos federais administrados pela RFB. Com efeito, a partir de meados de 2006, constatou ter efetuado recolhimento a maior a titulo de IRRF, CIDE, PIS importação, COFINS importação, incidentes sobre operações de remessa ao exterior de Royalties pela cessão de direitos de uso de programas de computador, bem como pela contraprestação de serviços técnicos e administrativos, recolhimentos estes realizados desde o anocalendário de 2004 e que foram compensados com débitos de COFINS apurada em PER/DCOMP. (i) Da carência de Fundamentação do Despacho Decisório: Conforme já explicitado na Manifestação de Inconformidade e ignorado pela decisão recorrida, o Despacho Decisório é absolutamente carente de fundamentação legal (motivação), quedandose nulo de pleno direito por não conter qualquer fundamentação para a produção do ato por ele exteriorizado; a carência de motivação que torna vazio o despacho decisório inquinado, viola frontalmente o principio da ampla defesa e do contraditório; o simples fato da DRJ/SP1 ter ultrapassado a nulidade alegada sem qualquer análise digna das atribuições da Autoridade Fiscal acarreta indevida supressão de instância; (ii) Quanto ao mérito, argumenta a violação aos princípios da estrita legalidade, da verdade material, da razoabilidade e da proporcionalidade: afirma que o débito em discussão é fruto de um mero equivoco nas DCTF's originais apresentadas e na incapacidade do sistema informatizado da RFB fazer o cruzamento das informações destas com as prestadas via PER/DCOMP, em que pese a evidência do direito ao aproveitamento de tais Fl. 110DF CARF MF 4 créditos; se fosse dado ao contribuinte a chance de apresentar explicações, certamente a Fazenda Nacional pouparia precioso tempo do CARF com cobranças infundadas como esta; que o mero erro material no preenchimento dos valores descritos na DCTF não pode operar quaisquer efeitos; o fato de a Recorrente ter cometido o simples erro de preenchimento relativo à inclusão de débitos indevidamente na sua DCTF, não é bastante para que o Fisco ignore diversos outros elementos que, já analisados pela RFB, revelam manifestamente a validade dos créditos fiscais vindicados, pois estes existem e só não são reconhecidos por um equivoco na declaração; de se frisar que é dever da Administração Pública, em prol da legalidade de sua atuação, investigar e valorar corretamente os fatos que dão ensejo a uma cobrança, ou seja, se a Administração possui dados para identificar os fatos, não deve ela se ater a minúcias formais em manifesto prejuízo do contribuinte; (iii) Do escorreito procedimento de compensação realizado: o entendimento havido pelo Acórdão recorrido baseiase, pura e simplesmente, no fato de que as declarações não identificavam saldo (crédito) a restituir (ou compensar), mas somente a liquidação regular de débitos apurados, situação esta que, consoante já aduzido na Manifestação de Inconformidade, era devida unicamente em razão da falta de retificação das DCTFs enviadas com erros de preenchimento, equívocos perfeitamente sanáveis pelo Fisco, até mesmo de oficio, que tem livre acesso à toda a escrituração fiscal da Recorrente e, mesmo assim, jamais a solicitou para fins de imputação das compensações de créditos declaradas. Por fim, requer que seja o Recurso Voluntário conhecido e recebido com efeito suspensivo (nos termos do artigo 151, III do CTN) e declarado nulo o Despacho Decisório que fundamenta a exigência ante a patente carência de fundamentação ou, caso assim não entenda, seja determinada a conversão do julgamento em diligência na forma do RI CARF, para que seja efetivamente examinada a escrita fiscal da Recorrente. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402004.849, de 30 de janeiro de 2018, proferido no julgamento do processo 10880.679805/200912, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402004.849): 1. Da admissibilidade do Recurso O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido por este Colegiado. 2. Objeto da lide Fl. 111DF CARF MF Processo nº 10880.679845/200964 Acórdão n.º 3402004.857 S3C4T2 Fl. 4 5 O caso se resume à alegação de pagamento a maior de tributo e que esse tributo recolhido a maior estaria sendo utilizado para compensar débitos constante na PER/DCOMP do presente processo. No Despacho Decisório o Fisco informa que as compensações não foram homologadas por não ter havido apuração de pagamento indevido pois o pagamento citado foi utilizado para quitar débitos declarados em DCTF. A Recorrente alega que mero equivoco no preenchimento das DCTF não poderia geral débitos fiscais e que o fato deveria ser reconhecido de plano pela RFB. 3. Preliminar de nulidade do Despacho Decisório A Recorrente alega que há carência de fundamentação e motivação do Despacho Decisório prolatado pela DERAT/SP e que houve cerceamento do seu direito de defesa. Vejase trecho: "(...) Conforme já explicitado na Manifestação de Inconformidade e solenemente ignorado pela decisão da 5ª Turma da DRJ/SP1, o despacho decisório em comento é absolutamente carente de fundamentação legal, quedando nulo de pleno direito por não conter qualquer fundamentação para a produção do ato por ele exteriorizado. "(...) não se pode admitir em nome desta agilidade a violação de direito expresso na Carta Magna, elementar ao principio do contraditório e da ampla defesa, que é a obrigatoriedade de fundamentação das decisões proferidas tanto em âmbito administrativo como judicial (....)". Pois bem, entendo que não assiste razão à Recorrente. Explico. De acordo com o dispositivo constitucional que trata do direito ao contraditório e à ampla defesa, temos que: (artº 5º, inciso LV): Artº 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade nos seguintes termos: (...) LV aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. É cediço que a autoridade competente, ao verificar a infração e entender presente as provas necessárias à caracterização da infração ou do ilícito fiscal, não está obrigada a conceder defesa antes da cientificação do respectivo lançamento ao sujeito passivo, posto que é com a apresentação da impugnação que o procedimento se verte em processo, estabelecendose, por conseguinte, o efetivo conflito de interesses: de um lado o Fisco que acusa a existência de débito tributário, fundando sua pretensão de recebêlo e, de outro, o sujeito passivo, que opõe resistência por meio da apresentação de defesa administrativa Fl. 112DF CARF MF 6 (impugnação). É a partir desse momento, ou seja, com o início da fase processual, que se impõe a aplicação, no âmbito administrativo, do princípio constitucional da garantia ao devido processo legal, no qual está compreendido o respeito à ampla defesa, nos termos do artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal. Verificase que o Despacho Decisório (eletrônico) teve origem em auditoria de análise de crédito declarado em PER/DECOMP pela Recorrente, realizada pela RFB, que encontrase detalhada no corpo do documento (campo 3), onde consta a motivação, fundamentação, decisão e o enquadramento legal que conduziram a autoridade fazendária a não homologação da compensação declarada. Vejase trecho: "Limite do crédito analisado, correspondente ao valor do crédito original na data de transmissão informado no PER/DCOMP: R$ 11.190,74. A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Diante da inexistência do crédito, NÃO HOMOLOGO a compensação declarada". A Recorrente foi devidamente cientificada do referido Despacho Decisório e apresentou, tempestivamente, a sua Manifestação de Inconformidade (fls. 10/24) que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância administrativa. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, protocolou Recurso Voluntário, rebatendo as posições adotadas no acórdão recorrido, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, demonstrando perfeito conhecimento de todo o conteúdo deste processo, não lhe sendo oposto qualquer constrangimento ou dificuldade, e está exercendo seu direito de defesa de forma ampla, por meio deste processo. Portanto, a motivação para o indeferimento no Despacho Decisório, bem como, as do julgamento na primeira instância, estão claramente identificadas e fundamentadas no Acórdão recorrido, não havendo que se falar na "indevida supressão de instância". Com todo este histórico de discussão administrativa, cumpridos os prazos legais para manifestação, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no Despacho Decisório ou no julgamento da primeira instância, ou seja, todo o procedimento previsto no Decreto nº 70.235, de 1972 foi observado, tanto o Despacho Decisório, bem como, o devido processo administrativo fiscal (PAF). Pela leitura do Despacho Decisório, que foi emitido eletronicamente pela RFB, constatase o nome e matrícula Auditor Fiscal (foi assinado por servidor competente no exercício de suas funções), bem como verificase a descrição de forma suficientemente, objetiva e cristalina os fatos o Fl. 113DF CARF MF Processo nº 10880.679845/200964 Acórdão n.º 3402004.857 S3C4T2 Fl. 5 7 enquadramento legal e normativos, o que contribuiu, decisivamente, para a exata compreensão da motivação. Ou seja, não verifico uma dúvida sequer relativa aos fatos narrados pela fiscalização, e tampouco sobre o enquadramento legal e/ou normativo adotado. Por fim, apenas para um melhor esclarecimento sobre nulidade, transcrevese o dispositivo que rege a matéria no âmbito do processo administrativo fiscal. Assim, prescreve o art. 59 do Decreto nº 70.235/72, com a nova redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º (...). Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Como se vê, o caso aqui analisado, não se enquadra em nenhuma das hipóteses do art. 59 acima reproduzido. Assim, respeitados pelo Fisco os princípios da motivação, do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, inexiste o cerceamento do direito de defesa até esta fase processual e, portanto, improcedente é a alegação nulidade do feito fiscal. 4. Do pedido de diligência (produção de provas, escrita fiscal) Requer a Recorrente ao final de seu recurso que, "(...) ou, caso assim não entenda V.Sa., seja determinada a conversão do julgamento em diligência na forma do Regimento Interno deste E. Conselho para que seja efetivamente examinada a escrita fiscal da ora Recorrente, confirmandose, ao final, a compensação declarada". Pois bem. Primeiramente, ressaltese que a diligência no âmbito do processo administrativo fiscal não se presta a suprir deficiência probatória, seja por parte do fisco ou da Recorrente. Conforme será abordado na parte meritória, as questões colocadas não justificam o deferimento de uma diligência uma vez que além de existir nos autos elementos que propiciam ao julgador a cognição dos fatos postos em lide, a Recorrente teve a oportunidade de apresentar seus elementos probatórios quando da Manifestação de Inconformidade. Fl. 114DF CARF MF 8 No art. 15 do Decreto nº 70.235/1972 (Processo Administrativo Fiscal), consta que a impugnação deverá ser formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar. Sobre isso, coloquese, inicialmente, que no que se referente à repartição do ônus da prova nas questões litigiosas, a legislação processual administrativo tributária inclui disposições que, em regra, reproduzem aquele que é, por assim dizer, o princípio fundamental do direito probatório, qual seja o de que quem acusa e/ou alega deve provar. Assim, nos casos de utilização de direito creditório pelo contribuinte, é atribuição do contribuinte/pleiteante a demonstração da efetiva existência deste. Mencionese, adicionalmente, que o Código de Processo Civil, aqui aplicável subsidiariamente ao Decreto 70.235/72, estabelece, em seu art. 373, que o ônus da prova incumbe ao autor, quando fato constitutivo do seu direito. Art. 373. O ônus da prova incumbe: I – ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II – ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Nesse mesmo sentido, segue a Instrução Normativa RFB nº 1.300/2012, que rege atualmente os processos de restituição, compensação e ressarcimento de créditos tributários. Já à autoridade julgadora administrativa, a teor do art. 18, Decreto nº 70.235/1972, cabe determinar, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, mas somente quando entendêlas necessárias ao seu convencimento, devendo indeferir as prescindíveis ao julgamento ou as impraticáveis. Assim, há que se ter em conta, que tais previsões legais não existem com o propósito de suprir o ônus da prova colocado às partes, mas sim de elucidar questões pontuais mantidas controversas mesmo em face dos documentos trazidos pelo contribuinte/pleiteante. Diligências existem para resolver dúvidas acerca de questão controversa originada da confrontação de elementos de prova trazidos pelas partes, mas não para permitir que seja feito aquilo que a lei já impunha como obrigação, desde a instauração do litígio, às partes componentes da relação jurídica. Dentro deste quadro, temse que não cabe a autoridade julgadora, em qualquer pleito repetitório apresentado, diligenciar para fins de, de ofício, promover a produção de prova da existência e/ou procedência do crédito pleiteado pelo Contribuinte. Em estando presentes nos autos do processo os elementos necessários e suficientes ao julgamento da lide estabelecida, prescindível é a diligência/perícia requerida pela contribuinte, cabendo a autoridade julgadora indeferila. Assim, diante dos argumentos expostos indeferese o pedido de diligência/perícia Fl. 115DF CARF MF Processo nº 10880.679845/200964 Acórdão n.º 3402004.857 S3C4T2 Fl. 6 9 com amparo no 18 e 28 do Decreto nº 70.235, de 1972, com a redação que lhes foi dada pelo art. 1º da Lei nº 8.748, de 1993. 5. Quanto ao mérito Em seu recurso a Recorrente argumenta a violação ao princípios da estrita legalidade, da verdade material, da razoabilidade e da proporcionalidade. Afirma que o débito em discussão é fruto de um mero equivoco nas DCTF's originais apresentadas. Vejase: "(...) Conforme já delineado, o débito da ora Recorrente fruto de um mero equivoco nas DCTF's originais apresentadas e na incapacidade do sistema informatizado da RFB fazer o cruzamento das informações destas com as prestadas via PER/DCOMP, em que pese a evidência do direito ao aproveitamento de tais créditos". A Recorrente reconhece que informou, equivocadamente, na DCTF original, débito de CIDE quitado mediante recolhimento de DARF no valor informado no Despacho Decisório que ora se discute. Todavia, após revisão interna, constatou o pagamento a maior do referido débito, uma vez que os cálculos estavam sendo efetuados de maneira incorreta, restando inegável a existência de créditos de COFINS após a correção do montante efetivamente devido. Que se fosse dado "a chance de apresentar explicações, certamente a Fazenda Nacional pouparia precioso tempo do CARF com cobranças infundadas como esta". Por outro lado, relativamente à alegação que teria cometido erros no preenchimento da DCTF e que, sanados esses erros, haveria o crédito que utilizou nas PER/DCOMP, a decisão de piso observa que "a contribuinte limitase a alegar o fato mas não logrou apresentar qualquer prova documental do que alega". Prossegue a Recorrente afirmando que, "(...) O PER/DCOMP em questão, transmitido em 18.06.2007 (DOC.02 da petição de juntada outrora protocolada), contemplou a utilização de crédito apurado de CIDE recolhido em 29.07.2005, conforme DARF no valor de R$ 11.190,74 (onze mil, cento e noventa reais e setenta e quatro centavos DOC.03, da petição de juntada outrora protocolada), para compensação de COFINS apurada no mês de maio de 2007 no valor de R$ 14.270,43 (catorze mil, duzentos e setenta reais e quarenta e três centavos), situação esta que foi finalmente e adequadamente espelhada na DCTF retificadora transmitida em 03.12.2009 (DOC.04, da petição de juntada outrora protocolada), a qual põe por terra quaisquer dúvidas quanto à liquidez do crédito cuja compensação foi pleiteada pelo PER/DCOMP sob exame". No entanto, verificase que tanto na Manifestação de Inconformidade como no Recurso Voluntário, a Recorrente limitase alegar a existência de erro de preenchimento, erro nos cálculos de apuração de tributo, erro no pagamento em DARF, mas reconhece perfeitamente não haver apresentado qualquer Fl. 116DF CARF MF 10 DCTF retificadora até a data da ciência do Despacho Decisório prolatado pelo Fisco, que ocorreu em 23/10/2009. Como muito bem pontuado pela decisão a quo, a qual subscrevo algumas partes das considerações tecidas (com alterações pontuais), adotandoas como razão de decidir, com forte no § 1º do art. 50 da Lei no 9.784, de 1999, "(...) a retificação da DCTF, para reduzir débitos declarados, feita após a decisão prolatada pela autoridade fiscal que examinou os pedidos de restituição e compensação, não pode, simplesmente, ser acolhida, como argumento de defesa, uma vez que a Manifestação de Inconformidade deve ser dirigida a apontar erros que teriam sido cometidos na analise do crédito da Contribuinte, em relação as informações constantes dos Sistemas da Receita Federal, que são formadas pelas informações prestadas pelos contribuintes através das declarações fiscais, tais como DIPJ. DCTF, DIRF, etc, na data da emissão do Despacho Decisório". A Recorrente reconhece, a princípio, que não havia qualquer incongruência entre os débitos declarados em DCTF e o valor dos pagamentos desses débitos em DARF. Logo o sistema PER/DCOMP ao realizar a compensação não poderia ter encontrado saldo credor no DARF utilizado na Declaração de Compensação (DCOMP), eis que estava alocado ao débito segundo informado na DCTF. No entanto, após ciência do Despacho Decisório, quando da Manifestação de Inconformidade é que a Contribuinte informa o Fisco ter havido erro no preenchimento das DCTF e procede a retificação da declaração. É importante ressaltar que a conduta do Fisco é pautada em documentos formais e oficiais e, se a Recorrente resta inerte e não promove à tempo as retificações cabíveis na DCTF, não cabe ao Fisco promovêlas. Vale dizer que este Colegiado vem registrando noutros processos envolvendo matéria idêntica, em que esta Corte Administrativa vem entendendo que a retificação posterior a ciência do Despacho Decisório não impediria o deferimento do pedido quando acompanhado de provas documentais comprovando o erro cometido no preenchimento da declaração original, conforme preconiza o § 1º do art. 147, do CTN: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. (Grifei) Da interpretação do artigo acima, extraise que a simples alegação e mesmo a apresentação de DCTF retificadora não faz qualquer prova, por si só, nessa altura do rito processual, Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10880.679845/200964 Acórdão n.º 3402004.857 S3C4T2 Fl. 7 11 devendo, ao contrário, vir acompanhada dos documentos comprobatórios de eventual equivoco cometido na elaboração da declaração original (DCTF). Ressalto que, como já frisado no tópico anterior, nos casos de utilização de direito creditório pelo contribuinte, é atribuição deste/pleiteante a demonstração da efetiva existência deste (ônus da prova). Assim, a Recorrente deveria ter acostado aos autos, junto com a Manifestação de Inconformidade a sua escrituração contábil/fiscal do período, em especial os Livros Fiscais e Contábeis, como o Livro Diário e Razão, além da movimentação comercial da empresa. Reprisee que no caso em exame, a Recorrente não trouxe aos autos, nas duas oportunidades em que neles compareceu (quando da Manifestação e agora em fase de recurso), qualquer prova documental hábil a demonstrar o erro que alega que cometera no preenchimento da DCTF (como a escrita contábil e fiscal, por exemplo). Veja que o processo administrativo fiscal é normatizado pelo Decreto n° 70.235/72, que em seu art. 16, III assim dispõe, in verbis: Art. 16. A impugnação mencionará. III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pelo art. I.° da Lei n.° 8.748/I993)" Ainda nos §§ 4° e 5° do mesmo artigo determinam que: " § 4º. A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. (Acrescido pelo art. 67 da Lei n.° 9.532/1997) § 5°. A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (Acrescido pelo art. 67 da Lei n.° 9.532/I997)" (Grifei) Percebese que a Recorrente trouxe somente documentos que julgou necessários à instrução de sua peça defensória, não cabendo fazer um pedido genérico para futura juntada de Fl. 118DF CARF MF 12 documentos ou diligência, sem alinhavar a hipótese legal em que se funda tal solicitação. Entre ser verdadeira a afirmação da Recorrente, segundo a qual o fato de não ter retificado a DCTF em tempo hábil antes da transmissão das compensações, não lhe pode subtrair o direito ao crédito (o princípio da verdade material requerido), e reconhecerlhe o direito a esse crédito, passa, inapelavelmente, pelo vão das provas, que a ela competia trazer aos autos, exercendo, com isto, sim, sua ampla defesa, ainda que fosse na segunda instância. Se juntasse as provas no recurso voluntário certamente contaria com a possibilidade de seu acolhimento nesta segunda instância de julgamento. No entanto, vale ressaltar que, até a presente data, passado quase dois anos entre a manifestação de inconformidade e o recurso voluntário, nenhuma documentação foi apresentada pela Recorrente, que se limitou a juntar cópia da DCTF retificadora, não embasada por qualquer documentação comprobatória. Isto posto, para este Colegiado, portanto, não há reparos a fazer na decisão recorrida, ao afirmar que a DCTF retificadora apresentada após a ciência do Despacho Decisório não seria óbice, mas também não seria suficiente para a demonstração do crédito vindicado, sendo indispensável, nos termos do § 1º do art. 147 do CTN, supra, a comprovação do erro em que se fundou a retificação, o que a Recorrente, conforme já ressaltamos neste voto, não logrou realizar. 6. Dos princípios da estrita legalidade, da razoabilidade e da proporcionalidade À autoridade julgadora é vedado afastar a aplicação da lei sob fundamento de inconstitucionalidade, pelo que é impossível apreciar as alegações de ofensa aos princípios constitucionais da vedação ao confisco, legalidade, razoabilidade e proporcionalidade. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. 7. Dispositivo Ante o exposto, conheço do recurso voluntário para no mérito, NEGARLHE provimento. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator Fl. 119DF CARF MF Processo nº 10880.679845/200964 Acórdão n.º 3402004.857 S3C4T2 Fl. 8 13 Fl. 120DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.001077/2006-29
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Apr 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2003
PROGRAMA ESPECIAL DE REGULARIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA PARCIAL DO RECURSO.
A opção pelo parcelamento da Lei nº 11.941, de 2009, e Programa Especial de Regularização Tributária (PERT) da Lei nº 13.496, de 2017, implica desistência do recurso e renúncia a quaisquer alegações de direito sobre as quais se fundam o processo administrativo.
ESPONTANEIDADE. AQUISIÇÃO.
O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. Os atos valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos.
LUCROS DISTRIBUÍDOS. DISTRIBUIÇÃO EXCEDENTE AO LUCRO PRESUMIDO. ISENÇÃO. CONDIÇÕES. SOCIEDADE DE ADVOGADOS.
a Sociedade de Advogados pode distribuir, com isenção do imposto de renda, valor maior que o lucro presumido do período desde que comprove que o lucro contábil excedeu o presumido, mediante levantamento dos demonstrativos contábeis com observância da legislação comercial, inclusive terem os livros devidamente registrados e autenticados no Conselho Seccional da OAB.
Numero da decisão: 2401-005.294
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso. No mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa, que davam provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Francisco Ricardo Gouveia Coutinho - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Rayd Santana Ferreira, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Cleberson Alex Friess.
Nome do relator: FRANCISCO RICARDO GOUVEIA COUTINHO
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PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA PARCIAL DO RECURSO. A opção pelo parcelamento da Lei nº 11.941, de 2009, e Programa Especial de Regularização Tributária (PERT) da Lei nº 13.496, de 2017, implica desistência do recurso e renúncia a quaisquer alegações de direito sobre as quais se fundam o processo administrativo. ESPONTANEIDADE. AQUISIÇÃO. O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. Os atos valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. LUCROS DISTRIBUÍDOS. DISTRIBUIÇÃO EXCEDENTE AO LUCRO PRESUMIDO. ISENÇÃO. CONDIÇÕES. SOCIEDADE DE ADVOGADOS. a Sociedade de Advogados pode distribuir, com isenção do imposto de renda, valor maior que o lucro presumido do período desde que comprove que o lucro contábil excedeu o presumido, mediante levantamento dos demonstrativos contábeis com observância da legislação comercial, inclusive terem os livros devidamente registrados e autenticados no Conselho Seccional da OAB. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 10 77 /2 00 6- 29 Fl. 1095DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.091 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso. No mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa, que davam provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Francisco Ricardo Gouveia Coutinho Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Rayd Santana Ferreira, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Cleberson Alex Friess. Fl. 1096DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.092 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 1734.984 (fls. 903/915) da 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo II (DRJ/SP2). Por bem detalhar os fatos, transcrevemse excertos do relatório da decisão de piso, que assim resumiu: Contra o contribuinte em questão foi lavrado o auto de infração (fls. 569/573) com o lançamento de imposto de renda relativo ao anocalendário 2003 de R$ 394.590,97, de multa de oficio de R$ 295.943,21 e de juros de mora calculados até 28/04/2006 de R$ 155.517,30. A presente ação fiscal contra o contribuinte foi iniciada, em 18/03/2005, com a ciência do Termo de Início de Fiscalização de fls. 03, em que o contribuinte foi intimado a apresentar comprovantes dos pagamentos de cartões de crédito, no ano calendário 2003, esclarecimentos sobre a origem dos recursos utilizados para o pagamento de tais valores e DIRPF/2003. Em intimações posteriores foram solicitados, ainda, extratos bancários e a comprovação de recursos que deram origem aos créditos, livros fiscais do Escritório de Advocacia Wanderley Bonventi e documentos relativos às operações com ações na Bovespa. Do exame dos documentos apresentados, a autoridade fiscal concluiu, conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 550/554, que foram cometidas as seguintes infrações à legislação tributária: 1 Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica. Omissão de rendimentos recebidos da pessoa jurídica Visão Habitacional, decorrentes de trabalho com vínculo empregatício, no valor de R$ 21.600,00, no anocalendário 2003. Fundamentação legal: artigos 1° ao 3° e parágrafos e artigo 6° da Lei 7.713/88, artigos 1°e 3° da Lei 8.134/90, artigo 1°, da Lei 9.887/99. 2 Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica. Omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, O Livro que Anda e Norton Instituto, decorrente de pagamentos de aluguel, no valor total de R$ 50.400,00, no ano calendário 2003. Fundamentação legal: artigos 1° ao 3° e parágrafos e artigo 6° da Lei 7.713/88, artigos 1°e 3° da Lei 8.134/90, artigo 1°, da Lei 9.887/99. 3 Omissão de Rendimentos Atribuídos a Sócios de Empresas. Rendimentos pagos a sócio de pessoa jurídica excedente ao lucro presumido menos IRPJ, COFINS, CSLL e PIS/PASEP, quando a pessoa jurídica não demonstre, por meio de Fl. 1097DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.093 4 escrituração contábil feita com observância na Lei comercial que o lucro efetivo é superior ao lucro presumido. Enquadramento legal: art. 663, do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto 3.000 de 1999/99, art. 1 da MP 22/2002, convertida na Lei 10.451/2002. 4 Omissão de Ganhos no Mercado de Renda Variável. Falta de recolhimento do imposto incidente sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, referente às operações realizadas no BOVESPA, conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 550/554. Enquadramento legal: artigos 1° ao 3° e §§, 16 a 22, da Lei 7.713/88; artigos 1° e 2°, da Lei 8.134/90; artigo 7° e 21, da Lei . 8.981/95; artigo 17 da Lei 9.249/95; artigos 22 ao 24 da Lei 9.250/95. 5 Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários sem Origem Comprovada. Omissão de rendimentos provenientes de valores creditados em conta de depósito ou de investimento, mantida em instituição financeira, cuja origem dos recursos utilizados nestas operações não foi comprovada mediante documentação hábil e idônea, conforme descrição dos valores tributáveis e respectivas datas dos fatos geradores, no citado auto de infração, e sob o seguinte fundamento legal: artigo 42 da Lei 9.430/96; artigo 4° da Lei 9.481/97; artigo 21 da Lei 9.532/97. O contribuinte toma ciência do auto de infração 01/06/2006, e, inconformado com o lançamento, apresenta impugnação, em 03/07/2006 de fls. 679/707, em que alega, em síntese, que: 1 os rendimentos recebidos de Visão Habitacional Ltda, no valor de R$ 21.600,00, referemse a prólabore cuja tributação já ocorreu por meio da retenção do IRRF, não cabendo o lançamento conforme pretendido pela autoridade fiscal; 2 o mesmo ocorreu em relação aos rendimentos recebidos de O Livro que Anda e de Norton Instituto Hair Dresser, pois já foram tributados na fonte, com a retenção do imposto; 3 em relação aos rendimentos atribuídos aos sócios, o Fisco cometeu uma arbitrariedade, pois o fato de o escritório não ter levado o livro diário a registro não desqualifica os fatos nele registrados; 4 se as empresas do lucro presumido optarem pela escrituração contábil devem fazer nos termos da legislação comercial, mas sem qualquer obrigação de registrar o livro, pois o dispositivo utilizado pela fiscalização é especifico para empresas do lucro real e não e' aplicável às empresas do lucro presumido; 5 mesmo entendendo que o registro do livro diário seja uma obrigação comercial e fiscal aplicável ao lucro presumido, a sua falta pode ser saneada desde que os lançamentos escriturados possam ser comprovados por outros meios; Fl. 1098DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.094 5 6 durante o ano de 2003, o impugnante recebeu várias transferências a titulo de mútuo do escritório de advocacia e, ao final do exercício, liquidou esta divida contra o recebimento de lucros do exercício; 7 corrobora a escrituração a ficha 50A da DIPJ que declara a exatidão do valor distribuído a título de lucro presumido isento a cada sócio; 8 a DIPJ deste exercício foi entregue antes de iniciado qualquer procedimento fiscal; 9 a ausência de registro não é elemento suficiente para desprezar a escrituração contábil existente, exceto quando esta se apresentar imprestável à apuração dos resultados; 10 embora sem registro, a escrituração contábil correspondente não foi desqualificada porque foi feita em observância à legislação fiscal e comercial à época, assim o lucro apurado era passível de distribuição isenta; 11 os valores transferidos a titulo de mútuo não se tratava de numerário disponibilizado ao impugnante, consequentemente não se tratava de fato gerador do imposto de renda; 12 entendendo que se tratava de rendimento efetivo pago pelo escritório, o trabalho fiscal careceria de correções, pois, por se tratar de rendimentos sujeitos a tabela progressiva pago por pessoa jurídica, o fato gerador do imposto de renda teve nascimento no escritório de advocacia; 13 houve erro, portanto, quanto a identificação do sujeito passivo da imposição fiscal. Muito embora o beneficiário do rendimento seja o impugnante, o responsável pela retenção e recolhimento era o escritório; 14 em relação aos depósitos de janeiro de 2003, R$ 15.000,00 são referentes à transferência eletrônica em conta corrente da empresa Visão Habitacional para o impugnante, em razão de reembolso parcial de despesas efetuadas por conta e ordem da empresa; 15 R$ 22.950,00 são referentes a cheques dados em pagamento parcial de empréstimo pela empresa Fitness do Brasil Importação e Exportação ao impugnante, conforme documento n° 8; 16 junta documento 07 que comprova a saída do numerário da conta da empresa e extrato de sua conta demonstrando a entrada do valor; 17 os documentos n° 8 são a carta da Fitness do Brasil encaminhando 6 cheques no valor de R$ 22.950,00 e comprovantes de que se referem a amortizações de empréstimos; Fl. 1099DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.095 6 18 os R$ 18.000,00 de fevereiro de 2003, assim como R$ 21.758,30 de junho de 2003 também são referentes a pagamento parcial de empréstimo pela empresa Fitness ao contribuinte; 19 no mês de fevereiro, o pagamento foi feito por meio de TED, conforme extrato bancário juntado. No mês de junho foi realizada transferência entre contas correntes; 20 atribuir ao contribuinte o pagamento de multa no valor de 75% afronta não só o princípio da vedação da instituição de tributo com efeito confiscatório como também o direito de propriedade; 21 no cálculo dos juros moratórios não pode ser utilizada a taxa SELIC, por ter esta a característica de remuneração do capital. O Acórdão nº 1734.984 do colegiado de primeira instância restou assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2003 INCONSTITUCIONALIDADE DE LEIS TRIBUTÁRIAS. As Delegacias de Julgamento da Receita Federal do Brasil não são competentes para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. A responsabilidade da fonte pagadora pela retenção na fonte e recolhimento do tributo não exclui a responsabilidade do beneficiário do respectivo rendimento, no que tange ao oferecimento desse rendimento à tributação em sua declaração de ajuste anual. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS SÓCIOS PESSOA JURÍDICA TRIBUTADA COM BASE NO LUCRO PRESUMIDO. A distribuição de lucros com isenção do imposto de renda pessoa física acima do limite correspondente à diferença entre o lucro presumido e os valores correspondentes aos tributos só é possível quando a empresa demonstrar, por meio de escrituração contábil feita com observância da lei comercial, que o lucro efetivo e maior que o determinado segundo as normas para apuração da base de cálculo para o qual houver optado. Neste diapasão, para que os livros apresentados possam fazer prova a favor do contribuinte a respeito do lucro efetivo apurado, há necessidade de eles possuírem todas as formalidades exigidas pela legislação. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Fl. 1100DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.096 7 Após 1° de janeiro de 1997, com a entrada em vigor da Lei 9.430 de l996, consideramse rendimentos omitidos, autorizando o lançamento do imposto correspondente, os depósitos junto a instituições financeiras, quando o contribuinte, regularmente intimado, não logra comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados. DEPÓSITOS BANCÁRIOS COMPROVAÇÃO DE ORIGEM EMPRÉSTIMO A alegação de que a origem de depósito em conta é amortização de empréstimo concedido deve vir acompanhada de provas inequívocas do contrato de mútuo firmado entre as panes. Não é suficiente para tal a apresentação de extratos de contas bancárias das partes demonstrando a movimentação do numerário. Impugnação improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado da decisão da DRJ/SP2 em 23/11/2009 (fls. 922), o sujeito passivo apresentou Recurso Voluntário em 22/12/2009 (fls. 926/944), e documentos (fls. 946/1089). Do seu Recurso Voluntário, transcrevemse os principais argumentos de sua defesa: a) Inicialmente, informa que aderiu ao Reis, Lei nº 11.941, de 2009, com a inclusão de parte dos débitos discutidos no presente processo. Por conseguinte, deixa de interpor recurso voluntário contra o lançamento de IRPF sobre os depósitos de R$ 15.000,00, R$ 18.000,00 e R$ 21.758,00, referentes aos meses de janeiro e fevereiro de 2003; b) Diz que a ação fiscal iniciou em 18/03/2005, mediante termo de início de fiscalização, e somente em 01/06/2006, o contribuinte recebeu nova intimação, e que, portanto, a DIRPF/2003 está inserida na espontaneidade readquirida, o que impõe a exclusão da multa de ofício; c) Informa que a decisão recorrida manteve a cobrança de imposto de renda sobre os lucros distribuídos, sob o fundamento de que a sociedade que distribuiu os lucros não teria atendidos determinações do art. 258 do RIR/99, e que a exigência legal de autenticação dos livros diários somente se aplica às sociedades comerciais, não albergando as sociedades de advogados, regulamentadas por legislação específica, Lei nº 8.906, de 1994; d) Transcreve o art. 9º do Provimento nº 112, de 2006, do Conselho Federal da OAB, o qual estabelece como facultativa a autenticação dos livros contábeis das sociedades de advogados, e julgado do Supremo Tribunal Federal (MS 25953 MC, Min RICARDO LEWANDOWSKI, DJ 12/05/2006) para concluir que a norma regulamentar específica tem preferência sobre a norma legal geral; Fl. 1101DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.097 8 e) Prossegue argumentando que a inexistência de obrigação legal de autenticação do livro diário da sociedade de advogados é evidenciada pela vedação legal de registro dos atos destas sociedades pelos cartórios de registro civil ou pela juntas comerciais, art. 16 da Lei nº 8.906, de 1994; f) Declara que a escrituração contábil da sociedade de advogados Wanderley Bonventi e Linares Nolasco S/C atende os requisitos do art. 10 da Lei nº 9.249, de 1995, e, por conseguinte, a distribuição de seus lucros é beneficiada pela não incidência; g) Realça, mais uma vez, que o lançamento ora impugnado decorreu somente da falta de autenticação do livro diário, que apesar de não autenticado, a escrituração da advogados Wanderley Bonventi e Linares Nolasco S/A atende a todas as exigências feitas pela autoridade fiscal. Neste sentido, cita julgados do CARF e do STJ, que tratam da escrituração contábil para efeitos de arbitramento de lucros; h) Apresenta quadro demonstrativo dos Lucros Acumulados, conforme abaixo: i) Diz que os rendimentos auferidos da empresa Visão Habitacional (Pró Labore) sofreram retenção de imposto de renda na fonte e que é indevida nova cobrança de imposto, nesse sentido, também entende que os rendimentos recebidos a título de aluguel de imóveis das empresas " O Livro que Anda Ltda e "Norton Instituto Hair Dresser Ltda"; j) Quanto aos depósitos bancários, afirma que 06(seis) depósitos objeto de lançamento de imposto de renda, sendo três cheques no valor de R$ 6.000,00, Fl. 1102DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.098 9 e três no valor de R$ 1.650,00 cada um, totalizando a quantia de R$ 22.950,00, se enquadram na exclusão de que trata o art. 42, §3°, II, da Lei n° 9.430/96, com a alteração promovida pelo art. 4° da Lei n° 9.481, de 17 de agosto de 1997; l) Ao final, requer seja cancelado os lançamentos de imposto de renda sobre os lucros distribuídos, o prólabore, os alugueis e os depósitos bancários de valor inferior a R$ 12.000,00 e a homologação da renúncia de quaisquer direitos do contribuinte sobre os créditos apontados no item II em razão de sua inclusão no parcelamento da Lei n° 11.941/09. É o relatório Fl. 1103DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.099 10 Voto Conselheiro Francisco Ricardo Gouveia Coutinho O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. Delimitação da lide Da matéria posta em discussão no presente recurso voluntário, após adesões ao Parcelamento da Lei nº 11.941/09 (Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 6/09) e ao Programa Especial de Regularização Tributária (PERT), Lei nº 13.496/17, requerimentos às fls. 924/925 e 1092/1093, restou apenas o questionamento sobre os rendimentos excedentes ao lucro presumido pagos a sócio ou acionista (Item 003 do Auto de Infração). Sendo assim, a desistência, por adesão aos benefícios fiscais, implica renúncia a quaisquer alegações de direito sobre as quais se fundam o processo administrativo. Preliminar de análise da espontaneidade readquirida Aduz o recorrente que a ação fiscal teve início com a intimação do contribuinte para a entrega de documentos por meio do Termo de Início de Fiscalização em 18/03/2005, e que somente em 01/06/2006 recebeu nova intimação. Por esse motivo, entende que a entrega da declaração de imposto de renda do exercício de 2003 estava inserida na espontaneidade readquirida. Nos termos do art. 138 do Código Tributário Nacional, a responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração. Havendo procedimento fiscal em curso contra o sujeito passivo, a espontaneidade é readquirida, consoante art. 7º do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF), após o transcurso do prazo de 60 (sessenta) dias sem que seja cientificado por qualquer ato escrito do prosseguimento dos trabalhos. SEÇÃO III Do Procedimento Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: (Vide Decreto nº 3.724, de 2001) I o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; II a apreensão de mercadorias, documentos ou livros; III o começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada. § 1° O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. Fl. 1104DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.100 11 § 2° Para os efeitos do disposto no § 1º, os atos referidos nos incisos I e II valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. (grifouse) Compulsando os autos, verificase que: a) em 04/05/2005, o recorrente foi cientificado do termo de continuidade do MPF e termo de intimação nº 2; b) em 28/06/2005, foi cientificado do termo de continuidade do MPF; c) em 03/08/2005, foi cientificado do termo de intimação nº 3; d) em 29/08/2005, foi cientificado do termo de continuidade do MPF; e) em 15/09/2005, foi cientificado do termo de intimação fiscal; e) em 21/10/2005, foi cientificado do termo de continuidade do MPF; f) em 19/12/2005, foi cientificado do termo de continuidade do MPF; g) em 27/01/2006, foi cientificado do termo de continuidade do MPF; h) em 09/03/2006, foi cientificado do termo de intimação fiscal; i) em 20/03/2006, foi cientificado do termo de continuidade do MPF; j) em 12/05/2006, foi cientificado do termo de continuidade do MPF e l) por fim, em 01/06/2006, foi cientificado do termo de encerramento da ação fiscal e termo de verificação fiscal. Portanto, sem razão o recorrente. Mérito Dos rendimentos excedentes ao lucro presumido pagos a sócio ou acionista Retirase do Termo de Verificação Fiscal (fls. 610/612) e do Demonstrativo de Apuração do Lucro (fls. 623), a motivação do lançamento de ofício: Considerando a informação na Declaração de Imposto de Renda, do anocalendário 2.003, do Escritório Wanderley Bonventi e Linares Nolasco S/C, de que a escrituração é contábil, ao solicitarmos ao contribuinte os livros contábeis os quais a empresa está obrigada a escriturar pertinentes a suas atividades, verificamos que os mesmos não estão de acordo com as exigências legais. isto é, não foram submetidos à autenticação no órgão competente, no caso, Registro Civil de Pessoas Jurídicas ou no Cartório de Registro de Títulos e Documentos ( artigo 7l da Lei n° 3.470/58 e § 2° do artigo S” do DecretoLei ° 486/69 ). Verificouse ainda. que durante o ano, valores foram distribuídos sem que houvesse lucro efetivo a ser distribuído. O colegiado de primeira instância, Acórdão nº 1734.984, concluiu o seguinte: " No caso em exame, o livro diário não preenche estas formalidades, razão pela qual Fl. 1105DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.101 12 não há possibilidade de o contribuinte beneficiarse de limite de isenção superior ao calculado segundo as regras próprias da pessoa jurídica optante pelo lucro presumido ". Em sua defesa, argumenta o recorrente que a decisão de piso manteve a cobrança de imposto de renda sobre os lucros distribuídos, sob o fundamento de que a sociedade não atendeu o art. 258 do Regulamento do Imposto de Renda. As disposições do art. 258 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, (Regulamento do Imposto de Renda), são as seguintes: Art. 258. Sem prejuízo de exigências especiais da lei, é obrigatório o uso de Livro Diário, encadernado com folhas numeradas seguidamente, em que serão lançados, dia a dia, diretamente ou por reprodução, os atos ou operações da atividade, ou que modifiquem ou possam vir a modificar a situação patrimonial da pessoa jurídica (DecretoLei nº 486, de 1969, art. 5º). § 1º Admitese a escrituração resumida no Diário, por totais que não excedam ao período de um mês, relativamente a contas cujas operações sejam numerosas ou realizadas fora da sede do estabelecimento, desde que utilizados livros auxiliares para registro individuado e conservados os documentos que permitam sua perfeita verificação (DecretoLei nº 486, de 1969, art. 5º, § 3º). § 2º Para efeito do disposto no parágrafo anterior, no transporte dos totais mensais dos livros auxiliares, para o Diário, deve ser feita referência às páginas em que as operações se encontram lançadas nos livros auxiliares devidamente registrados. § 3º A pessoa jurídica que empregar escrituração mecanizada poderá substituir o Diário e os livros facultativos ou auxiliares por fichas seguidamente numeradas, mecânica ou tipograficamente (DecretoLei nº 486, de 1969, art. 5º, § 1º). § 4º Os livros ou fichas do Diário, bem como os livros auxiliares referidos no § 1º, deverão conter termos de abertura e de encerramento, e ser submetidos à autenticação no órgão competente do Registro do Comércio, e, quando se tratar de sociedade civil, no Registro Civil de Pessoas Jurídicas ou no Cartório de Registro de Títulos e Documentos (Lei nº 3.470, de 1958, art. 71, e DecretoLei nº 486, de 1969, art. 5º, § 2º). O dispositivo em referência tratase, para efeitos de apuração do imposto sobre a renda das pessoas jurídicas, das formalidades intrínsecas e extrínsecas de escrituração do Livro Diário, inclusive a sua obrigatoriedade de registro no órgão competente. A regra isentiva da distribuição dos lucros ou dividendos está prevista no art. 10 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995: Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à Fl. 1106DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.102 13 incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. A matéria está tratada no art. 48 da IN SRF nº 93/97, vigente à época dos fatos, que estabelece as condições para a distribuição de lucros e dividendos isentos pelas empresas, desta forma: Seção IX LUCROS E DIVIDENDOS DISTRIBUÍDOS Art. 48. Não estão sujeitos ao imposto de renda os lucros e dividendos pagos ou creditados a sócios, acionistas ou titular de empresa individual. § 1º O disposto neste artigo abrange inclusive os lucros e dividendos atribuídos a sócios ou acionistas residentes ou domiciliados no exterior. § 2º No caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro presumido ou arbitrado, poderá ser distribuído, sem incidência de imposto: I o valor da base de cálculo do imposto, diminuída de todos os impostos e contribuições a que estiver sujeita a pessoa jurídica; II a parcela de lucros ou dividendos excedentes ao valor determinado no item I, desde que a empresa demonstre, através de escrituração contábil feita com observância da lei comercial, que o lucro efetivo é maior que o determinado segundo as normas para apuração da base de cálculo do imposto pela qual houver optado, ou seja, o lucro presumido ou arbitrado. § 3º A parcela dos rendimentos pagos ou creditados a sócio ou acionista ou ao titular da pessoa jurídica submetida ao regime de tributação com base no lucro real, presumido ou arbitrado, a título de lucros ou dividendos distribuídos, ainda que por conta de períodobase não encerrado, que exceder ao valor apurado com base na escrituração, será imputada aos lucros acumulados ou reservas de lucros de exercícios anteriores, ficando sujeita a incidência do imposto de renda calculado segundo o disposto na legislação específica, com acréscimos legais. § 4º Inexistindo lucros acumulados ou reservas de lucros em montante suficiente, a parcela excedente será submetida à tributação nos termos do art. 3º, § 4º, da Lei No 7.713, de 1988, com base na tabela progressiva a que se refere o art. 3º da Lei Nº 9.250, de 1995. Fl. 1107DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.103 14 § 5º A isenção de que trata o "caput" não abrange os valores pagos a outro título, tais como "pro labore", aluguéis e serviços prestados. § 6º A isenção de que trata este artigo somente se aplica em relação aos lucros e dividendos distribuídos por conta de lucros apurados no encerramento de períodobase ocorrido a partir do mês de janeiro de 1996. § 7º O disposto no §3º não abrange a distribuição do lucro presumido ou arbitrado conforme o inciso I do § 2º, após o encerramento do trimestre correspondente. § 8º Ressalvado o disposto no inciso I do § 2º, a distribuição de rendimentos a título de lucros ou dividendos que não tenham sido apurados em balanço sujeitase à incidência do imposto de renda na forma prevista no § 4º. (grifouse) Neste sentido, são também as disposições do art. 238 da IN RFB nº 1.700, de 2017. [...] II a parcela de lucros ou dividendos excedentes ao valor determinado no inciso I, desde que a empresa demonstre, com base em escrituração contábil feita com observância da lei comercial, que o lucro efetivo é maior que o determinado segundo as normas para apuração da base de cálculo do imposto pela qual houver optado. O registro das Sociedades de Advogados, conforme Lei nº 8.906, de 1994 (Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil OAB), é realizado junto ao Conselho Seccional da OBS, in verbis: CAPÍTULO IV Da Sociedade de Advogados Art. 15. Os advogados podem reunirse em sociedade simples de prestação de serviços de advocacia ou constituir sociedade unipessoal de advocacia, na forma disciplinada nesta Lei e no regulamento geral. (Redação dada pela Lei nº 13.247, de 2016) § 1o A sociedade de advogados e a sociedade unipessoal de advocacia adquirem personalidade jurídica com o registro aprovado dos seus atos constitutivos no Conselho Seccional da OAB em cuja base territorial tiver sede. (Redação dada pela Lei nº 13.247, de 2016) [...] Art. 16. Não são admitidas a registro nem podem funcionar todas as espécies de sociedades de advogados que apresentem forma ou características de sociedade empresária, que adotem denominação de fantasia, que realizem atividades estranhas à advocacia, que incluam como sócio ou titular de sociedade unipessoal de advocacia pessoa não inscrita como advogado ou Fl. 1108DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.104 15 totalmente proibida de advogar. (Redação dada pela Lei nº 13.247, de 2016) [...] § 3º É proibido o registro, nos cartórios de registro civil de pessoas jurídicas e nas juntas comerciais, de sociedade que inclua, entre outras finalidades, a atividade de advocacia. § 4o A denominação da sociedade unipessoal de advocacia deve ser obrigatoriamente formada pelo nome do seu titular, completo ou parcial, com a expressão ‘Sociedade Individual de Advocacia’. (Incluído pela Lei nº 13.247, de 2016)(grifo nosso) O art. 54 do mesmo diploma legal atribui competência ao Conselho Federal para: "V editar e alterar o Regulamento Geral, o Código de Ética e Disciplina, e os Provimentos que julgar necessários". Neste sentido, foi editado o Provimento nº 112/2006, que traz a seguinte a regulamentação no seu art. 9º: Art. 9º Os documentos e livros contábeis que venham a ser adotados pela Sociedade de Advogados, para conferir, em face de terceiros, eficácia ao respectivo conteúdo ou aos lançamentos neles realizados, podem ser registrados e autenticados no Conselho Seccional competente. Parágrafo único. Os Conselhos Seccionais devem manter o controle dos registros de que trata este artigo mediante numeração sucessiva, conjugada ao número do registro de constituição da sociedade, anotandoos nos respectivos requerimentos de registro, averbados na forma do art. 8º, caput, inciso V. (grifo nosso) Feitas essas considerações sobre os normativos que tratam da situação em comento, passase agora a análise dos pontos controversos. Pois bem. A Sociedade de Advogados Wandeley Bonventi e Linares Nolasco S/C, CNPJ 59.945.345/000160, relativo ao ano calendário 2003, período objeto da fiscalização, apresentou sua DIPJ do exercício 2004 na sistemática do Lucro Presumido. Em regra, a opção pelo lucro presumido implica que a distribuição dos lucros, com isenção de imposto de renda, está limitado ao lucro presumido apurado diminuído de todos os impostos e contribuições a que estiver sujeita a pessoa jurídica. A pessoa jurídica também pode distribuir com isenção a parcela excedente do lucro apurado, foi o que ocorreu no caso, conforme observase da DIPJ/2004 (fls. 425/468). Entretanto, neste caso, deve a referida sociedade demonstrar que o lucro efetivo é maior que o determinado segundo as normas para apuração da base de cálculo do imposto do lucro presumido. Conforme dispositivos acima, é certo que o registro de Sociedade de Advogados é feito no órgão da OAB. Também esta claro que, com base no provimento nº 112/2006 do Conselho Federal, para conferir efeitos em relação à terceiros, os documentos e livros contábeis podem ser registrados e autenticados no Conselho Seccional competente. Fl. 1109DF CARF MF Processo nº 19515.001077/200629 Acórdão n.º 2401005.294 S2C4T1 Fl. 1.105 16 No caso, tenho para mim que referida sociedade deve comprovar a existência efetiva desses lucros excedentes, através de contabilidade devidamente escriturada, a qual deve estar em consonância com as exigências determinadas pelas normas contábeis, legislação tributária, de modo que se aplica a estas empresas também as formalidades legais a que as demais empresas estão sujeitas, não obstante o seu registro ser de Sociedade de Advogados. Deste modo, entendo como superada a questão dos registros dos livros contábeis, que, na situação, pode ocorrer no órgão da OAB. Repisese, estamos diante de uma regra isentiva relativa a distribuição de lucros excedentes que estabelece, entre outras condições para fruição do benefício, formalidades intrínsecas e extrínsecas quanto ao registro do Livro Diário. A norma faculta a Sociedade de Advogados o registro dos documentos e livros no Conselho Seccional competente. Entretanto, para efeitos de aplicação do benefício fiscal, art. 10 da Lei nº 9.249/1995, disciplinado pelo art. 48 da IN SRF nº 93/97, a pessoa jurídica deve comprovar que os livros atendem as formalidade exigidas. Com relação ao que seria escrituração contábil feita com observância das normais legais, reza a legislação pertinente que os livros ou fichas do Diário deverão conter termos de abertura e de encerramento, e ser submetidos à autenticação no órgão competente. Compulsando os autos, verificase que foram apresentados no curso da ação fiscal os livros Razão Analítico e Diário Geral nº 1 (fls. 497/599), entretanto, o Livro Diário não atende as formalidades legais, ou seja, em relação ao registro, não fora autenticado tempestivamente no Conselho Seccional da OAB. Somente em 01 de setembro de 2008, conforme documentos de fls. 1064/1068, consta o registro do Livro nº 08, referente ao ano calendário 2003. Ademais, constam ainda registros de livros referentes a outros exercícios (fls. 1069/1080). Portanto, sem razão o recorrente. Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso para rejeitar a preliminar e, no mérito, NEGARLHE provimento. (assinatura digitalmente) Francisco Ricardo Gouveia Coutinho Fl. 1110DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19647.012619/2008-55
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2004
DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE.
São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo ano-calendário da obrigação tributária.
Numero da decisão: 2001-000.242
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernanda Melo Leal - Relatora.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: FERNANDA MELO LEAL
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COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE. São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo anocalendário da obrigação tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal Relatora. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 64 7. 01 26 19 /2 00 8- 55 Fl. 91DF CARF MF 2 Relatório Contra a contribuinte acima identificada foi emitida Notificação de Lançamento de fls. 10, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, exercício de 2004, anocalendário de 2003, por meio do qual foram glosadas despesas médicas no valor total de R$ 10.300,34 , por falta de comprovação de pagamento, gerando um crédito tributário total no valor de R$6.614,66, incluindo juros de mora e multa de ofício. A interessada foi cientificada da notificação e apresentou impugnação, juntando recibos e declarações médicas para evidenciar as prestações do serviço. Alega, em síntese, que nenhuma irregularidade foi praticada, cita jurisprudência vasta e doutrina para corroborar seus argumentos. A DRJ Recife, na análise da peça impugnatória, manifestou seu entendimento no sentido de que os comprovantes fornecidos e juntados ao processo pela Contribuinte não seriam suficientes para comprovar as despesas, devendo, por essa razão, ser mantida a glosa das despesas médicas. Em sede de Recurso Voluntário, alega a contribuinte que não é possível manterse a glosa de despesa com tratamento de despesas médicas, sob o fundamento da falta de comprovação da prestação de serviço, quando os próprios emitentes dos recibos, reconhecem têlos prestados. Apresenta, para tanto, provas ratificadoras, capazes elidir quaisquer dúvidas quanto as despesas médicas despendidas, por meio de recibos detalhados e declaração em anexo. É o relatório. Voto Conselheira Fernanda Melo Leal Relatora. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Mérito Glosa de despesas médicas Nos termos do artigo 8°, inciso II, alínea "a", da Lei 9.250/1995, com a redação vigente ao tempo dos fatos ora analisados, são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda pessoa física as despesas a título de despesas médicas, psicológicas e dentárias, quando os pagamentos são especificados e comprovados. Lei 9.250/1995: Art. 8°. A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: Fl. 92DF CARF MF Processo nº 19647.012619/200855 Acórdão n.º 2001000.242 S2C0T1 Fl. 3 3 I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. (...) § 2º O disposto na alínea ‘a’ do inciso II: (...) II restringese aos pagamentos feitos pelo contribuinte, relativos ao seu próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro de Pessoas Jurídicas de quem recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento.” A Recorrente apresentou os recibos dos pagamentos relativos ao tratamento de psicoterapia contendo nome completo dos prestadores, com CPF/CNPJ dos prestadores, credenciamento profissional, valor pago pela contribuinte, beneficiário dos serviços, ratificando a veracidade das informações contidas nos recibos apresentados. Acrescentese que juntou também declaração emitida por todos e cada um dos profissionais, contendo todos os detalhes do serviço prestado. A decisão de primeira instancia sustentou que o Recorrente não comprovou as despesas médicas, nos seguintes termos: “[...] 8.1. Nos termos do inciso III do § 1º, do art. 80, combinado com o § 1º, do art.73, todos do RIR/1999, acima transcritos, para que as despesas médicas constituam dedução, é necessária a comprovação, mediante documentação hábil e idônea, da prestação dos serviços, limitandose, ainda, a pagamentos especificados e comprovados ou justificados, a juízo da autoridade lançadora. 8.2. No caso de deduções, o ônus da prova é do contribuinte, consoante artigo 73 do RIR/99. Neste contexto, a comprovação das deduções de despesas médicas devem conter os requisitos essenciais (nome, CPF, endereço do profissional e identificação da pessoa beneficiada pelo serviço), além de outros elementos adicionais de prova, tais como, a efetividade da prestação do serviço e/ou do efetivo pagamento, a exemplo de fichas ou prontuários de atendimento, laudos médicos, cópias de Fl. 93DF CARF MF 4 prescrições, cópias dos cheques, transferências bancárias, extratos bancários etc. 8.3. Valores expressivos de despesas médicas respaldam o procedimento da fiscalização na busca de elementos suficientes para comprovar os gastos efetuados pelo contribuinte. 8.4. Como se observa pelos subitens anteriores, no que se refere à dedução de despesas médicas, tal comprovação deve se dar mediante a apresentação de documentos que comprovem sua vinculação a gastos com a saúde e de que houve efetivamente o pagamento, para a formação da convicção do julgador, tal como permitido no artigo 29 do Decreto 70.235/1972 (PAF)....... 9. Compulsando os autos, observase que a impugnante não apresenta a prova da efetividade da prestação do serviço e/ou do efetivo pagamento, tais como, laudo ou prontuários, exames médicos, fichas de atendimento, cópia de cheques ou transferências bancárias etc. Nesta hipótese, seu pleito não pode ser atendido. 10. Esclareçase que a autuação não possui como fundamento a falsidade documental, mas a falta de comprovação da efetividade do pagamento e da prestação dos serviços, em decorrência da imprestabilidade dos recibos, apresentados isoladamente, para fruição do benefício fiscal. 11. Quando se tem a finalidade de utilizar despesas médicas como dedução, o contribuinte deve ter em mente que o pagamento correspondente não envolve apenas ele e o profissional de saúde, mas também a Administração Tributária. Por essa razão, deve conservar além dos recibos, outros meios probantes do pagamento e da realização do serviço. Nesse contexto, o Código Civil, instituído pela Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, ao dispor sobre provas em seu art. 219, afirma que o teor de documentos assinados (recibos) guarda presunção de veracidade somente entre os próprios signatários, sem alcançar terceiros (Administração Tributária) estranhos ao ato..... 12. Pelos citados motivos e com alicerce no princípio da livre convicção do julgador na apreciação da prova, gravado no art. 29 do Decreto nº 70.235, de 1972, ratificase a glosa de despesas médicas no valor de R$ 10.300,34, por falta de comprovação. 13. De todo o exposto, voto pela improcedência da impugnação, para manter o crédito tributário exigido, no valor de R$ 2.832,59, acrescidos de multa de 75% e juros atualizados nos termos da legislação de regência. [...]” No caso concreto, demonstrase, ao longo do processo, que a autoridade fiscal simplesmente entende que os recibos e a declaração emitida pelos prestadores dos serviços, assinadas e datadas pelos mesmos, não foram suficientes para comprovar as despesas. Fl. 94DF CARF MF Processo nº 19647.012619/200855 Acórdão n.º 2001000.242 S2C0T1 Fl. 4 5 Neste diapasão, merece trazer à baila o princípio pela busca da verdade material. Sabemos que o processo administrativo sempre busca a descoberta da verdade material relativa aos fatos tributários. Tal princípio decorre do princípio da legalidade e, também, do princípio da igualdade. Busca, incessantemente, o convencimento da verdade que, hipoteticamente, esteja mais aproxima da realidade dos fatos. De acordo com o princípio são considerados todos os fatos e provas novos e lícitos, ainda que não tragam benefícios à Fazenda Pública ou que não tenham sido declarados. Essa verdade é apurada no julgamento dos processos, de acordo com a análise de documentos, oitiva das testemunhas, análise de perícias técnicas e, ainda, na investigação dos fatos. Através das provas, buscase a realidade dos fatos, desprezandose as presunções tributárias ou outros procedimentos que atentem apenas à verdade formal dos fatos. Neste sentido, deve a administração promover de oficio as investigações necessárias à elucidação da verdade material para que a partir dela, seja possível prolatar uma sentença justa. A verdade material é fundamentada no interesse público, logo, precisa respeitar a harmonia dos demais princípios do direito positivo. É possível, também, a busca e análise da verdade material, para melhorar a decisão sancionatória em fase revisional, mesmo porque no Direito Administrativo não podemos falar em coisa julgada material administrativa. A apresentação de provas e uma análise nos ditames do princípio da verdade material estão intrinsecamente relacionadas no processo administrativo, pois a verdade material apresentará a versão legítima dos fatos, independente da impressão que as partes tenham daquela. A prova há de ser considerada em toda a sua extensão, assegurando todas as garantias e prerrogativas constitucionais possíveis do contribuinte no Brasil, sempre observando os termos especificados pela lei tributária. A jurisdição administrativa tem uma dinâmica processual muito diferente do Poder Judiciário, portanto, quando nos depararmos com um Processo Administrativo Tributário, não se deve deixar de analisálo sob a égide do princípio da verdade material e da informalidade. No que se refere às provas, é necessário que sejam perquiridas à luz da verdade material, independente da intenção das partes, pois somente desta forma será possível garantir o um julgamento justo, desprovido de parcialidades. Somase ao mencionado princípio também o festejado princípio constitucional da celeridade processual, positivado no ordenamento jurídico no artigo 5º, inciso LXXVIII da Constituição Federal, o qual determina que os processos devem desenvolverse em tempo razoável, de modo a garantir a utilidade do resultado alcançado ao final da demanda. Ratifico, ademais, a necessidade de fundamento pela autoridade fiscal, dos fatos e do direito que consubstancia o lançamento. Tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como na Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. Assim sendo, com fulcro nos festejados princípios supracitados, e baseando se na fundamentação no sentido de que os documentos simplesmente não foram suficientes bem como intenção da contribuinte em evidenciar a existência das despesas declaradas, entendo que deve ser acatado o pedido da Contribuinte para reformar a decisão a quo e manter a dedução das despesas médicas em análise. Fl. 95DF CARF MF 6 CONCLUSÃO: Diante tudo o quanto exposto, voto no sentido de, CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, para acatar a dedução das despesas médicas ora glosadas em comento. (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal. Fl. 96DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.905354/2011-00
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002
LUCRO PRESUMIDO. ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO. EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES.
De acordo com a definição dada pelo STJ por meio do Recurso Repetitivo nº 217, são enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde, independentemente do local de prestação, excluindo-se, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar.
Numero da decisão: 1401-002.254
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2002 LUCRO PRESUMIDO. ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO. EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES. De acordo com a definição dada pelo STJ por meio do Recurso Repetitivo nº 217, são enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde, independentemente do local de prestação, excluindo-se, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar.
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ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES Recorrente LAB HORMON LABORATÓRIO ESPECIALIZADO EM DOSAGENS HORMONAIS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 LUCRO PRESUMIDO. ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO. EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES. De acordo com a definição dada pelo STJ por meio do Recurso Repetitivo nº 217, são enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde, independentemente do local de prestação, excluindose, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 90 53 54 /2 01 1- 00 Fl. 126DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DRJ/BSB), que, por meio do Acórdão 03054.196, de 22 de agosto de 2013, julgou improcedente a manifestação de inconformidade da empresa. Reproduzo, por oportuno, o teor do relatório constante no acórdão da DRJ: (início da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) Trata o presente processo de despacho decisório eletrônico (fl. 15), no qual a compensação realizada no Per/Dcomp nº 14397.98340.310107.1.3.046471, pela empresa acima identificada, não foi homologada por inexistência do crédito compensado, haja vista o pagamento relativo ao DARF ali discriminado, foi integralmente utilizado para quitar débito do IRPJ, PA 30/06/2001, não restando saldo disponível. A contribuinte tomou ciência do despacho decisório em 17/09/2010 (AR fl. 18). Inconformada, por intermédio de seu procurador (Francisco Ferreira Neto), apresentou manifestação de inconformidade (fls. 21 a 27) em 19/10/2010, na qual transcreve os fatos, dispositivos da legislação tributária e escorandose em jurisprudenciais e manifestações doutrinárias, em síntese, argumenta o seguinte: vinha apurando normalmente o IRPJ e a CSLL com base no lucro presumido aplicando 32% sobre a receita bruta para as prestadoras de serviços em geral. Com a nova redação dada pela Lei n° 10.684/2003, alterou a alíquota de 12% para 32%, exceto para "serviços hospitalares", para a apuração da CSLL; após a edição da IN SRF n° 539/2005 e da resposta a Solução de Consulta (anexa), verificouse que havia pago a maior os tributos de Código 2089 e 2372, nos períodos de 30/10/2000 a 28/07/2005. Em 19/01/2006, formulou vários pedidos de restituição, um para cada pagamento indevido ou a maior. Se valendo da faculdade do contribuinte, ao invés de aguardar o depósito em conta bancária do valor a restituir optou pela compensação; a forma da apuração do IRPJ e da CSLL, nos períodos de 2000 em diante, foram externadas nas DCTF relativas à época, no entanto, como a IN/SRF e a Solução de consulta só foram dadas em 2005/2006, mas de conteúdo interpretativo e retroativo, as DCTF não mais condizem com a verdade dos fatos; com a edição da IN/SRF n° 539 de 25/04/2009, que deu nova redação ao artigo 27, da IN/SRF n° 480/2004, a interessada foi equiparada a "serviços hospitalares". Assim, começou a apurar o seu IRPJ e a CSLL pela alíquota de 8% e de 12%, respectivamente; os impostos e as contribuições já pagas foram recalculadas e se verificou pagamentos maior os tributos devidos. Assim, providenciou o Pedido de Restituição por meio do programa Per/DComp, devidamente informado em suas Declarações de compensação; uma vez que a IN/SRF n° 539/2005 atribuiu nova interpretação a lei em vigor, o entendimento deve retroagir no espaço e surtir os efeitos desde a vigência da lei em questão; uma vez que já havia pago os respectivos DARF e lançado em DCTF o valor recolhido, bem como o valor apurado, segunda a legislação na época, o sistema da Receita Federal do Brasil não foi capaz de identificar o pagamento a maior; Fl. 127DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 4 3 para se verificar o pagamento a maior, a fiscalização deverá examinar a aplicação das novas alíquotas nas bases de cálculos já conhecidas pela RFB, onde se constatará que cada pedido de restituição realizado corresponde a um DARF pago à maior. Por ultrapassar o qüinqüênio, está impedida de prestar estas informações através de retificadora de DCTF; não bastasse toda a legislação que dá amparo legal para que procedesse a compensação com estes novos créditos apurados, resta ainda trazer à baila o Comunicado SEORT n° 831/2006, que dá ciência da SOLUÇÃO DE CONSULTA, elaborado especialmente pela interessada (anexo), no Processo Administrativo n° 10805.000720/200403; a resposta ofertada à consulta contém uma interpretação autorizada que garante a segurança jurídica da consultante. A própria solução apresentada orienta o contribuinte a proceder com o novo enquadramento e reconhece o pagamento a maior efetuado ao longo do tempo; o Ato de NãoHomologação deve ser anulado e a fiscalização deve oportunizar a interessada em prestar esclarecimentos quanto ao montante apurado, com os devidos documentos fiscais que podem ser livremente exigidos por intimação; a 1N/SRF nº 791, de 10/12/2007, revogou a redação dada pela IN/SRF nº 539/2005, do artigo 20, da IN/SRF nº 480/2004. Ocorre que a nova interpretação só surtirá efeito após 10.12.2007, enquanto os pedidos de restituição foram realizados antes da nova interpretação e na vigência da resposta a consulta; outro não é o entendimento do Conselho de Contribuintes que conclui assim, certo de ter demonstrado que mesmo diante de uma infinidade de normas tributárias que cercam a interessada, esta não procurou obter vantagem indevida ou se aproveitar do instituto da restituição e da compensação para se livrar de suas obrigações tributárias. Pelo contrário, formulou o pedido de consulta e só depois da orientação dada pela autoridade competente é que procedeu aos pedidos eletrônicos de restituição e as declarações de compensação. Por fim, requer seja conhecida e julgada procedente esta interposição, anulando a decisão administrativa que nãohomologou as compensações realizadas, restaurar e manter os efeitos da extinção do crédito tributário compensado. (término da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) A DRJ, por meio do Acórdão 03054.196, de 22 de agosto de 2013, julgou improcedente a manifestação de inconformidade da empresa, conforme a seguinte ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2002 PRESTADOR DE SERVIÇOS HOSPITALARES. PERCENTUAL DE LUCRO PRESUMIDO. REQUISITOS. Para serem considerados serviços hospitalares, as atividades dos contribuintes que desejem usufruir do benefício legal de redução de alíquota, em face da legislação tributária de regência e orientação traçada pela Administração tributária, devem atender cumulativamente todas às exigências e/ou requisitos previstos nos normativos, devidamente comprovada mediante documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 128DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 5 4 Cientificada da decisão da DRJ na data de 04/11/2013 via ARECF de efls. 104 e não satisfeita com a decisão da delegacia de piso, apresentou recurso voluntário em 04/12/2013 (efls. 113 a 122), conforme protocolo de efl. 113, repetindo basicamente os argumentos apresentados na impugnação, mas precipuamente atacando a decisão da DRJ nos seguintes pontos: É ausente, no v. acórdão, qualquer menção, ainda que de passagem, de que a recorrente não teria direito à aplicação dos coeficientes de 8% e 12%, respectivamente para a determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, por não atender aos requisitos exteriorizados. E nesse ponto, peca a decisão, que deixou de analisar concretamente o caso para apenas expor a legislação tributária de caráter geral. Noutras palavras, para exemplificar, é como negar um pedido à uma empresa sob o fundamento de que somente indústria pode formular tal pedido, sem se perguntar se a empresa é, ou não, indústria. Outrossim, a recorrente reproduz a ementa da DRJ, que indica que o fundamento para indeferir o direito creditório pautase na falta de apresentação de documento expedido pela vigilância sanitária estadual e municipal. E conclui com o seguinte: Nobres Julgadores, o direito creditório deve ser reconhecido exatamente pelos mesmos fundamentos que o negaram, e para comprovar, segundo restou consignado na decisão hostilizada, que o fato se subsume à norma, faz juntar os documentos expedidos pelos órgãos de vigilância sanitária, responsáveis pela fiscalização e controle de cada um dos estabelecimentos da recorrente. Assim, não havendo divergência quanto ao direito invocado e aplicado, a questão se resume à matéria de fato, cuja prova conduz à reforma da decisão combatida. No CARF, coube a mim a relatoria do processo. É o Relatório. Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.246, de 22.02.2018, proferido no julgamento do Processo nº 10805.902133/201091. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.246): O recurso preenche os requisitos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. No presente processo, devese avaliar se a atividade exercida pela empresa se enquadra no conceito de atividades hospitalares, para que possa tributar o IRPJ e a CSLL se servindo da base de presunção de tais atividades. Fl. 129DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 6 5 Para tanto, convém reproduzir a legislação vigente à época dos fatos geradores apurados, incluídas suas alterações posteriores, aplicada às empresas que exercem atividades hospitalares (Lei nº 9.249/1995): IRPJ Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 (Vide Lei nº 11.119, de 205) Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: ................... III trinta e dois por cento, para as atividades de: (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) ......... CSLL Art. 20. A partir de 1º de janeiro de 1996, a base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do ano calendário. Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 7 6 jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada pela Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 205) Base de cálculo da CSLL Estimativa e Presumido Art. 20. A base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal ou trimestral a que se referem os arts. 2º, 25 e 27 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, corresponderá a 12% (doze por cento) sobre a receita bruta definida pelo art. 12 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida no período, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a 32% (trinta e dois por cento). (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014 (Vigência) Como se pode ver, a redação contemporânea à realização dos fatos geradores permitia que os serviços hospitalares poderiam se enquadrar nas alíquotas de presunção de 8% (oito por cento) e 12% (doze por cento) para o IRPJ e CSLL, respectivamente. É de se notar, também, que não havia nenhuma outra condição para tal enquadramento. Em resposta à consulta formulada por meio do processo administrativo nº 10805.000720/200403, a Receita Federal estabeleceu as seguintes condições para que a empresa pudesse se enquadrar nas atividades de serviços hospitalares. Veja as conclusões da Solução de Consulta SRRF/8ª RF/DISIT/Nº 273, de 15 de agosto de 2006 (efls. 46 a 53): (início do trecho da conclusão da Solução de Consulta) 19. Diante do exposto e com base nos atos legais citados, solucionase presente consulta informando à consulente o seguinte: 19.1. à prestação de serviços hospitalares aplicamse os percentuais de 8% e 12% sobre a receita bruta para fins de determinação das bases de calculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sabre o Lucre Liquido, respectivamente; 19.2. serviços hospitalares são aqueles prestados por empresário ou sociedade empresaria que exerça uma ou mais das atribuições elencadas pelo art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, na redação dada pela IN SRF nº 539, de 2005, tratadas pela RDC nº 50, de 2002, e que possua estrutura física condizente com o disposto no Item 3 da Parte II da retrocitada resolução, devidamente comprovada por meio de documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal; (destaquei) 19.3. não se consideram serviços hospitalares aqueles prestados exclusivamente pelos sócios da pessoa jurídica ou referentes unicamente ao exercício de atividade intelectual, de natureza cientifica, dos profissionais envolvidos, ainda que envolvam o Fl. 131DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 8 7 concurso de auxiliares ou colaboradores, e, também, quando a pessoa jurídica, prestadora do serviço, não possuir estrutura física condizente para desempenhar suas atividades. Neste caso, para a tributação com base no lucro presumido aplicarseá o percentual de 32% (trinta e dois por cento) para a determinação das bases de cálculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido. (destaquei) (término do trecho da conclusão da Solução de Consulta) Como visto, para que a empresa pudesse ter o direito ao enquadramento nas alíquotas de 8% (oito por cento) e 12% (doze por cento), além de exercer uma ou mais das atribuições elencadas pelo art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, na redação dada pela IN SRF nº 539, de 2005, tratadas pela Resolução RDC nº 50, de 2002, entendeu a Receita Federal que também deveria possuir estrutura física condizente com o disposto no Item 3 da Parte II da retrocitada resolução, devidamente comprovada por licença sanitária estadual ou municipal. Independentemente das atividades exercidas pela recorrente, vejo que a licença sanitária municipal mais remota apresentada licença nº 0208/2003 remete aos idos de 2003 (10/06/2003), período posterior ao crédito aqui solicitado. Desta forma, se fosse seguir o que dispõe a solução de consulta, não haveria como atestar que, no período objeto dos créditos solicitados, a recorrente se enquadrava nas condições estabelecidas pela Receita Federal. Não obstante o entendimento exarado pela Receita Federal, todavia, não posso compartilhar com tal decisão. O STJ, por meio da resolução constante no Recurso Repetitivo nº 217, entendeu que a atividade hospitalar caracterizase tão somente pela prestação de serviços de atendimento à saúde, e independe do local de prestação, excluindose desta regra, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar, veja: Para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão 'serviços hospitalares', constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), devendo ser considerados serviços hospitalares 'aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde', de sorte que, 'em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos'. 1 Dentre forma, os serviços de diagnóstico, tratamento, internação, desenvolvidos nos hospitais ou (inclusive) fora deles, enquadramse como serviços hospitalares nos termos do art. 15, III, "a" e art. 20, ambos da Lei nº 9.249/1995. 1 extraído do seguinte endereço eletrônico: http://www.stj.jus.br/repetitivos/temas_repetitivos/pesquisa.jsp Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10805.905354/201100 Acórdão n.º 1401002.254 S1C4T1 Fl. 9 8 Como a alegação da Receita Federal e da DRJ para o indeferimento do crédito pleiteado pela empresa pautouse na falta de apresentação de licença sanitária contemporânea aos fatos geradores e, uma vez vencida tal proposição pelo STJ, concluo que a referida empresa se enquadra no conceito de serviços hospitalares, podendo usufruir das alíquotas de presunção de 8% (oito por cento) e de 12% (doze por cento), para o IRPJ e CSLL, respectivamente, razão pela qual proponho dar provimento ao recurso voluntário. Conclusão Diante do exposto, voto por DAR provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 133DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.720533/2013-91
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
DESPESAS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PERÍODOS ANTERIORES. REGIME DE COMPETÊNCIA. INDEDUTIBILIDADE.
As despesas com juros sobre o capital próprio (JCP) se submetem às regras gerais de contabilização de despesas, obedecendo o regime de competência: somente podem incorrer no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram se produzem, formando o resultado daquele exercício. Não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Precedentes recentes na 1ª Turma da CSRF. Acórdãos nº 9101-002.180, 9101-002.181, 9101-002.182, 9101-003.064, 9101-003.065, 9101-003.066 e 9101-003.067.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96.
Numero da decisão: 9101-003.216
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andre Mendes de Moura. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Cristiane Silva Costa Relatora
(assinado digitalmente)
Andre Mendes de Moura Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CRISTIANE SILVA COSTA
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 DESPESAS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PERÍODOS ANTERIORES. REGIME DE COMPETÊNCIA. INDEDUTIBILIDADE. As despesas com juros sobre o capital próprio (JCP) se submetem às regras gerais de contabilização de despesas, obedecendo o regime de competência: somente podem incorrer no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram se produzem, formando o resultado daquele exercício. Não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Precedentes recentes na 1ª Turma da CSRF. Acórdãos nº 9101 002.180, 9101002.181, 9101002.182, 9101003.064, 9101003.065, 9101 003.066 e 9101003.067. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andre Mendes de Moura. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 05 33 /2 01 3- 91 Fl. 674DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 675 2 (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego Presidente em exercício (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa – Relatora (assinado digitalmente) Andre Mendes de Moura – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratase de processo originado por Autos de Infração de IRPJ e CSLL, quanto aos anos de 2007, 2008 e 2009, com a imposição de multa de 75%. Consta do Termo de Verificação Fiscal (fls. 116) como descrição dos eventos que originaram a autuação fiscal: Conforme informação da Ficha 06B – Demonstração do resultado – da Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (DIPJ) 2009 / Cisão total, a fiscalizada registrou despesas de Juros sobre Capital Próprio (...) no anocalendário de 2009. O beneficiário dos juros, conforme consta da Ata da Reunião da Diretoria Executiva parágrafo “ENCERRAMENTO”, FOI O ACIONISTA CONTROLADOR Banco Santander (Brasil) S.A. (...) Durante o procedimento fiscal o contribuinte apresentou informações que demonstram que este montante referese a juros calculados sobre diversos anoscalendário. O contribuinte apresentou “Ata da reunião da diretoria executiva realizada em 30 de junho de 2009”, que em sua 2ª deliberação trata acerca da distribuição e pagamento dos JCP no ano de 2009 (...) Fl. 675DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 676 3 Apesar de constar em ata que os JCP foram apurados no balanço de 30 de junho de 2009, em sua resposta o contribuinte informa que, para o exercício findo em 30/06/09, foi determinado o valor de (...) para aquele anocalendário, sendo a diferença relativa aos anos de 2003, 2004, 2006 e 2008. (...) Conforme já minuciosamente exposto no tópico 3, as Sociedades Anônimas estão obrigadas à observância do regime de competência por força legal do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) Além disso, as demonstrações financeiras dos anoscalendário 2003, 2004 e 2005, 2006 e 2008 foram aprovadas sem a previsão do pagamento/creditamento de Juros sobre Capital Próprio no período. (...) Logo, não regularmente materializada a opção do interessado, nos anoscalendário de 2003, 2004, 2005, 2006 e 2008, mediante a inexistência de deliberação tomada no devido tempo e a falta de contabilização do pagamento ou do crédito aos sócios dos JCP, não é possível validar a opção extemporânea pelo pagamento de juros sobre capital próprio, sob pena de deturpação da sistemática de tributação em vigor. O contribuinte apresentou Impugnação Administrativa, decidindo a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo pela manutenção integral dos lançamentos, conforme acórdão ementado da forma seguinte (fls. 230/248): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE. REGIME DE COMPETÊNCIA. A contabilização no períodobase correspondente é condição para a dedutibilidade dos juros sobre o capital próprio por se tratar de opção do contribuinte. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009 ALEGAÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. O exame de alegações de ilegalidade e inconstitucionalidade é de exclusiva competência do Poder Judiciário. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 MULTA DE OFÍCIO. CISÃO TOTAL. SUCESSÃO DAS OBRIGAÇÕES. Fl. 676DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 677 4 Nos termos do art.229, §3º, da Lei nº 6.404/76, quando a sociedade cindida cede parcela do seu patrimônio a sociedade existente, observamse as formalidades da incorporação, cabendo observar que a pessoa jurídica sucessora é responsável pelo crédito tributário da sucedida, respondendo tanto pelos tributos e contribuições, como por eventual multa de ofício e demais encargos legais decorrentes de infração cometida pela empresa sucedida, mesmo que formalizados após a alteração societária, mormente se sucessora e sucedida encontravamse sob controle comum. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O contribuinte apresentou recurso voluntário (fls. 253), ao qual foi negado provimento pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção deste Conselho, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2010 DESPESAS OPERACIONAIS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE. A remuneração ou não do capital próprio constitui uma faculdade ínsita à esfera de decisão da pessoa jurídica, sendo lhe lícito, ao decidir pela remuneração, apropriar a despesa no momento que melhor lhe aprouver. Contudo, os efeitos fiscais decorrentes de tal decisão são ditados pela norma tributária de regência. Nos termos do art. 9º da Lei nº 9.249/1995, a observância dos critérios e limites para fins de dedutibilidade deve ser feita no momento em que a despesa com os juros é apropriada ao resultado. INOBSERVÂNCIA DE REGIME CONTÁBIL. INOCORRÊNCIA. Não tratando os autos de registro de despesa em período diverso ao de competência, nem de postergação do pagamento do imposto, descabe apreciar os efeitos preconizados pelas normas regulamentares que disciplinam tais matérias (artigos 247 e 273 do RIR/99). ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2010 SUCESSÃO. OBRIGAÇÃO ANTERIOR E LANÇAMENTO POSTERIOR. RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE SUCESSORA. DECISÃO DO STJ EM SEDE DE RECURSOS Fl. 677DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 678 5 REPETITIVOS. EMPRESAS PERTENCENTES AO MESMO GRUPO ECONÔMICO. SÚMULA CARF Nº 47. A responsabilidade tributária de que trata o art. 132 do CTN não está limitada aos tributos devidos pelos sucedidos, mas abrange as multas que, por representarem penalidade pecuniária de caráter objetivo, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor. O descumprimento da obrigação principal faz com que a ela se agregue, imediatamente, a obrigação consistente no pagamento da multa tributária. A responsabilidade do sucessor abrange, nos termos do artigo 129 do CTN, os créditos definitivamente constituídos, em curso de constituição ou "constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data", que é o caso dos autos. Decisão do STJ em sede de recursos repetitivos (art. 543C do CPC), nos Edcl no REsp nº 923.012MG. Tal conclusão se aplica, ainda com mais motivos, diante da constatação de que sucessora e sucedida pertenciam ao mesmo grupo econômico à época do evento sucessório, impondose a aplicação da Súmula CARF nº 47. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Em 14/09/2015, o contribuinte foi intimado quanto ao acórdão (fls. 416), interpondo recurso especial em 25/09/2015, alegandose divergência na interpretação da lei tributária, quanto aos seguintes temas: (i) inovação do critério jurídico pela autoridade julgadora, mencionando como paradigmas os acórdãos (i.a) 10809.256 (processo administrativo nº 13884.005045/200375), no qual se decidiu que "À autoridade julgadora (DRJ ou Conselho de Contribuintes) não é permitido ajustar o lançamento" e (i.b) 3102001.690 (processo administrativo nº 10711.000143/200229), do qual se extrai: "ao julgador é defeso inovar na fundamentação da exigência"; (ii) dedutibilidade dos juros sobre capital próprio, indicando como paradigmas os acórdãos: (ii.a) 1402001179 (processo administrativo nº 16327.001201/200928), no qual se decidiu que "Embora os juros pagos e deduzidos em 2006 e 2007 tenham sido calculados também com base nas contas do patrimônio líquido de anoscalendário anteriores de 2001 a 2005, tratandose de despesas relativas aos anoscalendários de 2006 e 2007, respectivamente, e não de 2001 a 2005, tendo em vista que somente em 2006 e 2007 ocorreu a deliberação sobre o pagamento/crédito dos valores desses juros" e (ii.b) 10196.751, no qual consta que "não vejo qualquer óbice na legislação de regência de a Recorrente adotar o procedimento acima Fl. 678DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 679 6 descrito pelo fiscal, que vale repetir, de calcular ano a ano o montante do valor de JCP passível de dedução". (iii) a incidência de juros sobre a multa de ofício, indicando como paradigma o acórdão 9101000722, do qual se destaca: "Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada". O recurso especial foi parcialmente admitido, conforme razões a seguir reproduzidas da decisão da Presidente da 3ª Câmara da Primeira Seção deste Conselho (Conselheira Adriana Gomes Rêgo) às fls. 563/569, proferida em 15/10/2015: a) Impossibilidade de inovação do critério jurídico pela autoridade julgadora divergência de interpretação do art. 149 do Código Tributário Nacional (...) Confrontandose os acórdãos recorrido e paradigmas, no entanto, não se confirma a divergência suscitada na interpretação do art. 149 do CTN, dispositivo que elenca os casos em que "o lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa". Com efeito, se os acórdãos paradigma, ante a situações fáticas totalmente distintas da que envolve o acórdão recorrido, manifestaram entendimento de que não se pode admitir que a autoridade julgadora administrativa venha a corrigir erros cometidos na autuação fiscal, o recorrido não se posicionou em sentido contrário, ou seja, de que tais erros possam ser corrigidos em sede de julgamento administrativo. Assim, as diferenças de conclusão entre os julgados não decorreram de divergência de interpretação do art. 149 do CTN, mas sim de apreciação sobre situações que não convergem. Ora, no primeiro paradigma, que trata de mútuo com pessoa vinculada sediada no exterior, concluiuse, resumidamente, que "o lançamento deveria ter reconhecido como receita de juros correspondente à operação, no mínimo, o valor calculado com base na taxa Libor acrescida de 3% anuais a título de spread", e que, tendo a DRJ identificado tal equívoco, andou bem ao exonerar o crédito tributário constituído, uma vez que não caberia a ela ajustar o lançamento. Já no segundo paradigma, que trata de lançamento de IPI e Imposto de Importação em decorrência de reclassificação fiscal de mercadorias feita em procedimento de revisão aduaneira, o colegiado julgador concluiu que "tanto a classificação defendida pelo Fisco quanto a defendida pelo contribuinte estão equivocadas", e que, assim, "a aplicação de terceira classificação implicaria inovação na fundamentação", cabendo "decretarse a improcedência da exigência". O acórdão recorrido, por sua vez, manifestandose expressamente sobre a alteração do critério jurídico do lançamento por parte do julgador de primeira instância alegada pela Recorrente, concluiu não ter havido tal alteração de Fl. 679DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 680 7 critério. Isso porque tanto a autuação fiscal quanto a decisão que julgou a sua impugnação tomaram por base o disposto no art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995, e que, embora a decisão da DRJ tenha feito "extensas considerações acerca do regime de competência, citando inclusive dispositivos da Lei das Sociedades por Ações", o lançamento foi mantido por descumprimento do art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995. (...) Não se confirma, portanto, a divergência de interpretação da legislação tributária, uma vez que as conclusões diferentes a que chegaram os acórdãos confrontados com o recorrido advém da apreciação que cada colegiado fez da situação fática com a qual se defrontou, sendo as situações enfrentadas totalmente diversas. b) Atendimento ao limite legalmente previsto para dedutibilidade dos JCP divergência de interpretação do art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995 O confronto do primeiro paradigma (acórdão nº 1402001.179) com o acórdão recorrido confirma a divergência apontada. Com efeito, embora ambos os julgados convirjam na conclusão de que despesas com JCPs só podem ser consideradas incorridas, no regime de competência, após a sociedade deliberar por seu pagamento ou crédito, divergem no que se refere aos critérios de determinação para fins de dedução na apuração da base de cálculo do IRPJ. Deveras, no recorrido se considerou que a observância dos critérios e limites estabelecidos pelo art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995, para fins de dedutibilidade, "deve ser feita no momento em que a despesa com os juros é apropriada ao resultado", ou seja, "descabendo cogitar de aplicação de limites 'a cada ano'". E, assim, decidiu o colegiado por manter o lançamento fiscal que glosou a parcela dos JCPs que extrapolava o limite dedutível, calculado com base na TJLP e no Patrimônio Líquido no ano calendário 2009, ano no qual foi deliberado pagamento ou creditamento dos juros. (...) Confirmada a divergência em relação ao primeiro paradigma, despisciendo o exame em relação ao segundo julgado apontado, sendo de se assinalar que as ementas dos dois paradigmas apresentam, na parte que trata da matéria apreciada nesse tópico, texto praticamente igual, bem como que o primeiro paradigma faz referência e transcreve longo trecho do segundo. c) Ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício divergência de interpretação dos artigos 161 do CTN e 61 da Lei nº 9.430, de 1996 (...) Com razão a recorrente. O confronto da ementa dos acórdãos paradigma e recorrido (transcrita parcialmente no início do presente exame), bem como o teor dos trechos do paradigma reproduzidos no recurso confirmam a divergência suscitada. (...) Fl. 680DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 681 8 Em cumprimento ao disposto no art. 18, inciso III, do Anexo II do RICARF, e com base nas razões retro expostas, que aprovo e adoto como fundamentos deste despacho, DOU SEGUIMENTO PARCIAL ao recurso especial interposto, apenas nas matérias do atendimento ao limite legalmente previsto para dedutibilidade dos JCP e da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício, e, por força do art. 71 do Anexo II do RICARF, submeto o presente despacho à apreciação do Presidente da CSRF. O Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais (Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto) confirmou o despacho da Presidente de Câmara em 27/10/2015, conforme decisão às fls. 570/571, da qual se destaca: Com base no art. 71 do RICARF, recepciono o recurso especial para reexame e passo a apreciálo, juntamente com o despacho que lhe negou seguimento. O despacho da Presidente da 3ª Câmara não merece qualquer reparo, uma vez que, em relação ao tópico da impossibilidade de inovação do critério jurídico pela autoridade julgadora, a diferença de conclusão entre os acórdãos recorrido e paradigmas não decorre de interpretação divergente do art. 149 do Código Tributário Nacional, mas sim da apreciação que cada colegiado julgador fez das situações fáticas que envolvem cada julgado, situações essas que se mostram totalmente distintas. Em face do exposto, decido por manter, na íntegra, o despacho da Presidente da Câmara e DOU PARCIAL SEGUIMENTO ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo, apenas em relação às matérias do atendimento ao limite legalmente previsto para dedutibilidade dos JCP e da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício. Encaminhemse os autos à Procuradoria da Fazenda Nacional para ciência do despacho da Presidente da Câmara e deste despacho, facultandolhe a apresentação de contrarrazões ao recurso especial do sujeito passivo na parte admitida. Após ciência da Fazenda Nacional, os autos deverão ser encaminhados à Deinf São Paulo, para dar ciência ao sujeito passivo do despacho da Presidente da Câmara e deste despacho, e demais providências cabíveis em relação à parte na qual o sujeito passivo restou vencido. Posteriormente, o processo deve retornar à 1ª Turma da CSRF, para prosseguimento. O processo foi remetido à Procuradoria em 28/10/2015(fls. 572), que apresentou contrarrazões em 05/11/2015, nas quais pleitea seja negado provimento ao recurso (fls. 573/608). Como o processo não havia sido encaminhado à unidade de origem para ciência do sujeito passivo quanto ao despacho da Presidente da Câmara e do Presidente da CSRF e demais providências, a despeito da previsão no artigo 71, §3º, do RICARF (Portaria MF 343/2015) então vigente, foi determinada tal providência (fls. 611/616). Fl. 681DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 682 9 Tendo sido intimado em 10/05/2017, o contribuinte apresentou agravo (fls. 624/629). O Presidente da CSRF negou conhecimento ao agravo e indeferiu o pedido de retificação do exame de admissibilidade, entendendo não estar demonstrado lapso manifesto ou inexatidão material (fls. 659/664). O contribuinte foi intimado quanto a esta decisão em 22/06/2016 (fls. 669). É o relatório. Voto Vencido Conselheira Cristiane Silva Costa, Relatora Conheço do recurso especial quanto aos dois temas acima referidos, eis que tempestivo e demonstrada a divergência na interpretação da lei tributária, conforme decisões da Presidente de Câmara, adotando as suas razões de decidir. Passo a analisar seu mérito. Juros sobre Capital Próprio A Lei nº 9.249/1995, dispõe sobre os juros sobre capital próprio, tendo a seguinte redação ao tempo dos fatos em discussão nestes autos (2009): Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. (...) § 7º O valor dos juros pagos ou creditados pela pessoa jurídica, a título de remuneração do capital próprio, poderá ser imputado ao valor dos dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo do disposto no § 2º. (ver se vigente ao tempo dos fatos) Segundo a Lei nº 9.249/1995, portanto, os juros sobre capital próprio ("JsCP") serão dedutíveis no momento em que pagos ou creditados ao acionista (art. 9º, caput). O mesmo dispositivo legal estabeleceu que estes JsCP seriam calculados sobre contas do Fl. 682DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 683 10 patrimônio líquido, limitados à variação pro rata dia da TJLP (art. 9º, caput, in fine). E ainda limitou os juros ao valor de 50% de lucros acumulados ou das reservas de lucros (art. 9º, §1º). Pois bem. A remuneração de capital dos sócios, por meio de JsCP, é faculdade relacionada à liberdade do exercício da atividade econômica. E apenas com o pagamento ou crédito aos sócios após assembleia que delibere a esse respeito surge a despesa correspondente a estes JsCP. A inexistência de norma tributária ou mesmo de outro ramo do Direito que restrinja o pagamento de juros sobre capital próprio com base em patrimônio líquido de anos anteriores reafirma a liberdade das pessoas jurídicas de deliberar a esse respeito, com a dedução de tais valores na forma autorizada pelo artigo 9º, acima colacionado. Assim, só quando os JsCP forem deliberados e pagos (ou creditados) aos acionistas será possível a dedutibilidade, na forma expressa pelo artigo 9º, acima reproduzido. No caso destes autos, houve efetiva deliberação e pagamento dos juros sobre o capital próprio em 2009, reputandose, em tal momento, a possibilidade de sua dedução, mesmo que relacionandose aos anos anteriores. O Superior Tribunal de Justiça decidiu de forma similar, legitimando a dedução dos juros sobre capital próprio em anocalendário futuro: MANDADO DE SEGURANÇA. DEDUÇÃO. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO DISTRIBUÍDOS AOS SÓCIOS/ACIONISTAS. BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL. EXERCÍCIOS ANTERIORES. POSSIBILIDADE. I Discutese, nos presentes autos, o direito ao reconhecimento da dedução dos juros sobre capital próprio transferidos a seus acionistas, quando da apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL no anocalendário de 2002, relativo aos anoscalendários de 1997 a 2000, sem que seja observado o regime de competência. II A legislação não impõe que a dedução dos juros sobre capital próprio deva ser feita no mesmo exercíciofinanceiro em que realizado o lucro da empresa. Ao contrário, permite que ela ocorra em anocalendário futuro, quando efetivamente ocorrer a realização do pagamento. III Tal conduta se dá em consonância com o regime de caixa, em que haverá permissão da efetivação dos dividendos quando esses foram de fato despendidos, não importando a época em que ocorrer, mesmo que seja em exercício distinto ao da apuração. IV "O entendimento preconizado pelo Fisco obrigaria as empresas a promover o creditamento dos juros a seus acionistas no mesmo exercício em que apurado o lucro, impondo ao contribuinte, de forma oblíquoa, a época em que se deveria dar o exercício da prerrogativa concedida pela Lei 6.404/1976". Fl. 683DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 684 11 V Recurso especial improvido. (Superior Tribunal de Justiça, Primeira Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, Resp 1086752, DJe 11/03/2009) O julgamento realizado pela Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça não foi submetido à sistemática do então vigente art. 543C, do CPC/1973. Assim, não se trata de decisão de reprodução obrigatória pelos membros deste Colegiado. De toda forma, reforça o entendimento ora manifestado no presente voto. Por fim, afasto a alegação de renúncia do direito pela ausência de deliberação de pagamento dos JsCP nos anos anteriores, por força do artigo 192, da Lei nº 6.404/1976. Até porque "os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretamse estritamente", como prevê o artigo 114, do Código Civil. A eventual renúncia do direito pela contribuinte só poderia ocorrer de forma expressa, não se admitindo sua presunção pela mera omissão de manifestação do acionista em assembleias realizadas em anos anteriores. Acrescento que o artigo 132, da Lei nº 6.404/1976 não estabelece obrigação de deliberação a respeito do pagamento de JsCP nas assembleias gerais ordinárias, o que corrobora a impropriedade em se tratar a omissão dos acionistas como renúncia ao direito de pagamento destes JsCP. Destaco trecho de voto de lavra do exConselheiro Alexandre Antonio Alkimin, adotandoo como fundamento do presente voto, a respeito da inaplicabilidade da "preclusão temporal" quanto aos JsCP de anos anteriores: Portanto, tendo em vista ser a preclusão relacionada à perda de direitos, faculdades ou poderes processuais, logicamente, não será aplicada à hipótese de ausência de deliberação de JCP. Mesmo na eventualidade de considerar que a ausência de deliberação do JCP em exercícios anteriores conduziria à caducidade do direito à dedução do valor do lucro real (direito material), o argumento não prosperaria em virtude da ausência de fundamento legal que ampare esse raciocínio. Isso porque, como bem salientou a DRJ, a deliberação do pagamento de JCP é uma faculdade dos acionistas. Lado outro, a caducidade extingue o direito pelo fato de seu titilar quedarse inerte e não exercer seu direito dentro do prazo legal ou convencional. Ora, se a lei não define prazo para que seja exercida a faculdade atribuída ao contribuinte, não há que se falar em perda do direito por decurso de prazo que não foi limitado ou fixado por ato legal. Deste modo, não merece prosperar o argumento de preclusão temporal, vez que esse instituto não é aplicável à perda de direito material e tampouco existe previsão legal de prazo para deliberação de pagamento de JCP. (Acórdão nº 1401000.901, processo administrativo nº 16327.001409/201081) Diante de tais razões, notadamente considerando que o art. 9º da Lei 9.249/95 define que o "pagamento ou crédito" é definidor do momento da ocorrência do fato gerador dos JsCP, entendo que apenas neste momento é possível a dedutibilidade destes "juros". Fl. 684DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 685 12 Em que pese o entendimento desta Relatora, esclareço que esta Turma da CSRF firmou entendimento em sentido contrário, com composição similar à presente, como se observa do acórdão nº 9101002.692, proferido em sessão de julgamento de 19/03/2017: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 2005 JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. FACULDADE SUJEITA AO REGIME DE COMPETÊNCIA E A CRITÉRIOS TEMPORAIS. DEDUÇÃO EM EXERCÍCIOS POSTERIORES. VEDAÇÃO. 1 O pagamento ou crédito de juros sobre capital próprio a acionista ou sócio representa faculdade concedida em lei, que deve ser exercida em razão do regime de competência. Incabível a deliberação de juros sobre capital próprio em relação a exercícios anteriores ao da deliberação, posto que os princípios contábeis, a legislação tributária e a societária rejeitam tal procedimento, seja pela ofensa ao regime de competência, seja pela apropriação de despesas em exercício distinto daquele que as ensejou. 2 As despesas de Juros com Capital Próprio devem ser confrontadas com as receitas que formam o lucro do período, ou seja, tem que estar correlacionadas com as receitas obtidas no período que se deu a utilização do capital dos sócios, no período em que esse capital permaneceu investido na sociedade. 3 A aplicação de uma taxa de juros que é definida para um determinado período de um determinado ano, e seu rateio proporcional ao número de dias que o capital dos sócios ficou em poder da empresa, configuram importante referencial para a identificação do período a que corresponde a despesa de juros, e, conseqüentemente, para o registro dessa despesa pelo regime de competência, 4 Não existe a possibilidade de uma conta de despesa ou de receita conservar seus saldos para exercícios futuros. Em outros termos, apurado o resultado, o que era receita deixa de sêlo e também o que era despesa deixa de sêlo. Apenas as contas patrimoniais mantém seus saldos de um ano para outro. os JCPs podem passar de um exercício para o outro, desde que devidamente incorrida e escriturada a despesa dos JCPs no exercício em que o capital dos sócios foi utilizado pela empresa, com a constituição do passivo correspondente. Contribuição Social sobre o lucro líquido – CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Estendese ao lançamento decorrente, no que couber, a decisão prolatada no lançamento matriz, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Fl. 685DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 686 13 Em referido julgamento, foram vencidos esta Relatora, além dos Conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. O entendimento desta Relatora não se alterou desde aquele julgamento. Diante de tais razões, com a devida vênia ao entendimento majoritário desta Turma, voto por dar provimento ao recurso especial da contribuinte. Juros de Mora sobre a Multa de Ofício Ademais, dou provimento ao recurso especial do contribuinte para reconhecer a ilegalidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, em face da falta de previsão expressa em lei para tanto, mantendo, assim, o acórdão recorrido. Isto porque o caput do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, trata apenas dos débitos de tributos e contribuições administradas pela Secretaria da Receita Federal, verbis: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) O caput acima colacionado, ao dispor sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições tratou dos débitos decorrentes dos fatos geradores que originam a cobrança destes tributos e contribuições, isto é, os débitos dos tributos. Não tratou, assim, das penalidades decorrentes do descumprimento da obrigação tributária. Acrescentese que o §3º deste dispositivo legal trata da possibilidade de incidência de juros de mora sobre os débitos a que se refere o citado artigo, isto é, débitos de tributos e contribuições devidas à Receita Federal do Brasil expressamente tratados pelo caput , confirmando que não há previsão para incidência de juros sobre a multa de ofício. Ressaltese que os parágrafos de um artigo expressam aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo, ou exceções à regra por ele estabelecidas, conforme artigo 11, III, alínea "c", da Lei Complementar nº 95/1998: Fl. 686DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 687 14 Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas: (...) III para a obtenção de ordem lógica: (...) c) expressar por meio dos parágrafos os aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo e as exceções à regra por este estabelecida; Assim, a disposição do §3º, do artigo 61 deve se conformar ao caput deste dispositivo, regulando, assim, os débitos de tributos, contribuições e multa de mora. É oportuno lembrar que o legislador expressamente previu a incidência de juros sobre multas isoladas, como se depreende do artigo 43, da mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Ao regular a multa de ofício, em sentido contrário, o artigo 44 da Lei nº 9.430/1996 não estabeleceu expressamente a incidência de juros. Nesse sentido, destacase a , redação do citado dispositivo, com redação vigente ao tempo do fato gerador tratado nestes autos (2007): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; Ressaltese que o Código Tributário Nacional trata de crédito tributário com dois sentidos diferentes, em alguns dispositivos tratando da obrigação tributária e a penalidade pelo descumprimento desta obrigação, como se observa dos artigos 121, 139, 142, em outros apenas como a obrigação tributária principal, como se verifica dos artigos 161 e 164. Colacionase o artigo 164, do Código Tributário Nacional: Fl. 687DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 688 15 Art. 164. A importância de crédito tributário pode ser consignada judicialmente pelo sujeito passivo, nos casos: I de recusa de recebimento, ou subordinação deste ao pagamento de outro tributo ou de penalidade, ou ao cumprimento de obrigação acessória; II de subordinação do recebimento ao cumprimento de exigências administrativas sem fundamento legal; III de exigência, por mais de uma pessoa jurídica de direito público, de tributo idêntico sobre um mesmo fato gerador. § 1º A consignação só pode versar sobre o crédito que o consignante se propõe pagar. Ao dispor que cabe a consignação na hipótese de recusa ao pagamento "outro tributo ou de penalidade" evidencia que no crédito tributário tratado pelo artigo 164 não está incluída penalidade. No mesmo sentido, dispõe o artigo 161, do Código Tributário Nacional: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. Notese que o artigo 161, do Código Tributário Nacional, define a incidência de juros de mora, "sem prejuízo das penalidades", revelando que estas penalidades não compõe o crédito tributário na acepção expressa por este dispositivo. O §1º do artigo 161 expressa "aspectos complementares à norma enunciada no caput" (conforme artigo 11, III, alínea "c", da Lei Complementar nº 95/1998) e, portanto, não infirma a conclusão que a penalidade não está incluída no crédito como definido por este dispositivo. Conclusão Diante de tais razões, com a devida vênia ao entendimento majoritário desta Turma, dou provimento ao recurso especial da contribuinte quanto a ambos os temas (JsCP e juros sobre a multa). (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 688DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 689 16 Voto Vencedor Conselheiro Andre Mendes de Moura, Redator designado. Não obstante o substancioso voto da I. Relatora, a quem sempre rendo homenagens, manifesto meu entendimento contrário em relação ao mérito. As matérias devolvidas são temporalidade do JCP (Juros sobre Capital Próprio) e incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Passo ao exame. I. Juros sobre Capital Próprio Dedutibilidade de Pagamento/Creditamento O assunto já foi enfrentado pelo Colegiado, em recentes julgamentos. Vale citar os Acórdãos nº 9101002.180, 9101002.181, 9101002.182, 9101003.064, 9101 003.065, 9101003.066 e 9101003.067 (os últimos quatro na sessão de setembro de 2017). Transcrevo o voto da Conselheira Adriana Gomes Rego, proferido no Acórdão nº 9101003.066, cujos fundamentos adoto como razões para decidir. Juros sobre Capital Próprio Períodos Anteriores A discussão cingese à possibilidade de a pessoa jurídica deduzir, na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL de determinado anocalendário, tão somente os juros sobre o capital próprio (JCP) calculados sobre os valores das contas do patrimônio líquido no exercício social correspondente ao anocalendário em questão (entendimento da Fiscalização) ou também em relação a exercícios sociais anteriores (entendimento da Contribuinte). (...) Como resta evidente pelos próprios precedentes trazidos pela Fazenda e pela Contribuinte, a matéria não se encontra pacificada no âmbito do CARF. As decisões mais recentes desta 1ª Turma da CSRF, no entanto, vão no sentido da indedutibilidade dos JCP em relação a períodos pretéritos. Com efeito, na sessão de 20 de janeiro de 2016, foram prolatados três acórdãos (de nºs 9101 002.180, 9101002.181 e 9101002.182), todos de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo nessa linha. Em todas essas votações, meu voto acompanhou o Relator, por entender que: a) os Juros sobre o Capital Próprio representam uma remuneração dos sócios pelo capital investido; b) por serem juros pagos pelas pessoas jurídicas a seus sócios, têm a natureza contábil de despesas (contrapartida das receitas advindas do uso desse capital); c) por serem uma despesa, transitam pelo resultado; e Fl. 689DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 690 17 d) por transitarem pelo resultado, não podem ser pagos ou creditados após o encerramento do período. Já na sessão de 1º de março de 2016, um processo de minha relatoria foi a julgamento, tendo esta Turma decidido que não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores (acórdão nº 9101002.248). Nesse contexto, trazse para o presente caso os argumentos expendidos na decisão em questão, dirimidas eventuais diferenças. Em primeiro lugar, registrese presente o fato de que a Lei nº 9.249/1995 visou estimular o investimento de capital nas empresas e desestimular o financiamento das atividades operacionais, mediante empréstimos, que caracterizavam uma subcapitalização. Constatase, também, que a lei não mencionou o momento em que tais juros devem ser pagos. Contudo, vislumbrase isso desnecessário, porque se a norma estabelece limites para fins de dedução do lucro real, é porque estamos falando de uma despesa contábil, que tem limites de dedutibilidade para fins de lucro real. Por oportuno, transcrevese trecho do acórdão nº 1102000.934, de 8 de outubro de 2013, da lavra do exConselheiro José Evande Carvalho Araújo: Contudo, pareceme evidente que, quando a lei permite que se deduza, para efeitos da apuração do lucro real, os JCP calculados pela aplicação pro rata dia da taxa TJLP sobre os valores das contas do patrimônio líquido, está se limitando o cálculo para o mesmo período da apuração do lucro real. Apesar de a doutrina afirmar que a natureza jurídica dos juros sobre o capital próprio é a de distribuição sui generis de lucro, não há dúvidas de que a lei fiscal lhes dá o tratamento de despesa financeira. E como despesa financeira, só podem ser apropriados no período a que competirem. Não é razoável se entender que a lei permitiu implicitamente a dedução de uma despesa calculada com base no patrimônio de períodos anteriores. Isso seria o mesmo que admitir, por exemplo, a dedução de juros sobre um empréstimo relativos ao ano calendário anterior. (Grifei) Antes da deliberação para o pagamento dos JCP não há que se falar em direito subjetivo dos sócios ao seu recebimento, nem em despesa incorrida. De fato, a despesa só surge após deliberação acerca do pagamento ou do creditamento dos juros e da sua correspondente contabilização. Correto o Ilustre relator do acórdão recorrido quando afirma que para os exercícios pretéritos, não tendo havido pagamento da despesa ou apropriação da obrigação para pagar aos sócios em conta de passivo, não há que se falar em despesa incorrida. Fl. 690DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 691 18 Todavia, resta equivocado quando declara ser descabida menção à inobservância do regime de competência, posto que não houve despesa incorrida. Há inobservância ao regime de competência quando em 2010, a contribuinte apropria uma despesa, cujos fatos geradores ocorreram entre 1998 a 2009. Neste sentido, trago à colação a lição de Hiromi Higuchi (HIGUCHI, Hiromi. Imposto de Renda das Empresas: Interpretação e Prática. 38ª ed. São Paulo: IR Publicações, 2013. p. 127.): Alguns tributaristas entendem que os juros sobre o capital próprio são dedutíveis na determinação do lucro real, ainda que não contabilizados no período base correspondente, desde que escriturados como exclusão no LALUR e sejam contabilizados no períodobase seguinte como ajuste de exercício anterior. Entendemos que a contabilização no períodobase correspondente é condição para a dedutibilidade dos juros sobre o capital próprio por tratarse de opção do contribuinte. Sem o exercício da opção de contabilizar os juros não há despesa incorrida. É diferente de juros calculados sobre o empréstimo de terceiro porque neste há despesa incorrida, ainda que os juros sejam contabilizados só no pagamento. (Grifei) E também os ensinamentos de Edmar Oliveira Andrade Filho 1: Se em determinado exercício social passado não foram pagos ou creditados juros sobre o capital e se demonstrações contábeis já tiverem sido aprovadas pelos acionistas é lícito inferir que eles deliberaram pelo não pagamento ou crédito dos juros. Se as pessoas que detinham competência para deliberar sobre o pagamento dos juros não o fizeram e aprovaram as demonstrações financeiras sem que tal obrigação fosse considerada, parece fora de dúvida que elas renunciaram à faculdade prevista em lei. Em decorrência dessa renúncia e considerando demonstrações contábeis, depois de aprovadas pelos sócios ou acionistas são consideradas "ato jurídico perfeito", impõese a conclusão de que elas só podem ser modificadas em caso de erro, dolo ou simulação. Portanto, lógica e juridicamente, não há como imputar a exercícios passados os efeitos de deliberação societária (sujeita a uma disciplina jurídica específica) tomada no presente. Essa imputação só poderá ocorrer se o Balanço vier a ser retificado por determinação dos sócios ou acionistas, mas tal retificação só poderia ser juridicamente 1 (Disponível em <http://www.fiscosoft.com.br/a/2fac/irpjecslljurossobreocapitalpropriocalculadosobrea movimentacaodopatrimonioliquidoosfatoseaconsultaedmaroliveiraandradefilho>, acesso em 10/07/2017, às 15h58min ) Fl. 691DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 692 19 justificada se demonstrada a anterior ocorrência de erro, dolo ou simulação. E é aqui que reside a questão: o momento que em o valor dos juros é imputado ao resultado do exercício. Como após a apuração do lucro, não há que se falar mais em pagamento ou reconhecimento da obrigação referentes às despesas de juros sobre o capital próprio, relativamente aos anoscalendário de 1998 a 2009, não se poderia mais pagar juros sobre capital próprio; daí porque o “períodobase correspondente”, como dito, necessariamente precisa ser o de apuração do lucro. No presente processo, em relação aos anoscalendário 1998 a 2009, para os quais a deliberação para pagamento de JCP só ocorreu em dezembro de 2010, e não foi constituída a obrigação de pagar os JCP correspondentes nos AC 1998 a 2009, não há que se falar em dessas despesas incorridas. Poderseia argumentar que a lei autoriza o cálculo de JCP sobre os lucros acumulados de anos anteriores; contudo, a menção aos lucros acumulados trazida pela Lei nº 9.249, de 1995, diz respeito tão somente a um dos limites para fins de dedutibilidade do lucro real, senão vejamos: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. (Redação dada pela Lei nº 9.430, de 1996) (Grifei) Neste sentido também entendeu a Conselheira Edeli Pereira Bessa, por meio do Acórdão nº 1101000.904, de 12 de junho de 2013: Esclareçase, ainda, que o fato de a remuneração do capital próprio por meio de juros atribuídos aos sócios ter seus limites estabelecidos, também, em função do montante de lucros acumulados no momento da deliberação, não significa que o cálculo dos juros podem considerar períodos de apuração anteriores, cujos resultados integram aquele saldo acumulado, mas apenas que os juros incorridos no período de referência podem ser pagos ainda que superem o resultado do exercício correspondente, desde que haja saldo em conta de lucros acumulados que suportem este pagamento. Inadmissível, assim, a redução dos lucros apurados no anocalendário 2005 em razão de juros decorrentes da utilização de capital próprio em Fl. 692DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 693 20 período de apuração distinto daquele ao qual se refere os lucros que se pretendeu destinar à remuneração de capital. (Grifei) Além disso, o fato de o Conselho de Administração deliberar em dezembro/2010 acerca do pagamento de juros sobre o capital, que poderia ter sido deliberado em exercícios passados, não tem o condão de subverter o regime de competência e tornar dedutível despesa não incorrida a seu tempo. É dizer, não tendo a despesa com JCP incorrido no exercício correspondente, não se pode deduzi la na apuração do lucro real de exercício posterior. A imputação dessa despesa só poderia ser efetivada com retificação do balanço, e esta retificação só tem previsão nas hipóteses de ocorrência de erro, dolo ou simulação, o que não é o caso. Para se considerar a despesa como efetivamente incorrida, são necessários dois requisitos: i) a deliberação acerca do pagamento ou creditamento dos JCP e ii) a devida contabilização do pagamento da despesa ou da apropriação da obrigação em conta de passivo. Dessa forma, a deliberação em reunião do Conselho de Administração para creditar aos sócios JCP incidentes sobre patrimônio líquido de exercícios anteriores (1998 a 2009) não tem validade para fins fiscais, pois se refere a despesas que não foram incorridas naqueles exercícios. Não se discute que a deliberação, nos termos do art. 37 do Estatuto Social da autuada, é uma faculdade. O ponto é que essa faculdade precisa ser exercida no momento da apuração do lucro, por se estar tratando de uma despesa da pessoa jurídica. É uma faculdade do Conselho de Administração deliberar sobre pagamento de JCP em 2010, poderia não têlo feito. Mas ao decidir fazer uso desta faculdade, a deliberação só pode abranger o pagamento de JCP sobre o patrimônio líquido existente ao final do anocalendário de 2010, não podendo criar despesas para períodos de apuração já encerrados. De fato, a análise dos requisitos de dedutibilidade não pode ficar restrita à possibilidade de pagamento posterior dos juros do capital próprio, sob pena de se concluir, equivocadamente, que a legislação estipulou o regime de caixa para seu reconhecimento. Se a lei silencia, o regime a ser adotado é o de competência, estabelecido no art.177 da Lei nº 6.404/76 como regra geral, verbis: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicála em nota e ressaltar esses efeitos. (Grifei) Ou seja, a Lei nº 6.404/76 adotou o regime de competência como regra geral, devendo o regime de caixa ser aplicado excepcionalmente, para isso, Fl. 693DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 694 21 deve estar previsto expressamente em lei. Nesse mesmo sentido, a citada lei, em seu art.187, que trata da demonstração do Resultado do Exercício, vincula as despesas, custos e encargos às receitas correspondentes do mesmo exercício, verbis: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: (...) § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. Temse ainda a Instrução Normativa SRF nº 11/96, que em seu artigo 29 disciplina a possibilidade de dedução de juros sobre capital próprio, e ratifica a interpretação da Lei nº 6.404/76, verbis: Juros Sobre Capital Próprio Art. 29. Para efeito de apuração do lucro real, observado o regime de competência, poderão ser deduzidos os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração de capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pró rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo – TJLP. (Grifei) A contribuinte invoca o mesmo normativo (art.29 da IN SRF nº 11/96) para declarar que respeitou o regime de competência, na medida em que só se pode cogitar da existência da despesa relativa ao JCP no momento em que o pagamento se torna obrigatório para a pessoa jurídica, e que essa obrigatoriedade só surgiu após a deliberação do Conselho de Administração em dezembro de 2010. Conforme já mencionado, tal entendimento não tem cabimento, uma vez que a inobservância ao regime de competência decorre do fato de a contribuinte tentar apropriar despesas, em descompasso com as receitas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram. A matéria também se encontra regulamentada na IN SRF nº 41/98, nos seguintes termos: Art. 1º Para efeito do disposto no art. 9º da Lei Nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, considerase creditado, individualizadamente, o valor dos juros sobre o capital próprio, quando a despesa for registrada, na escrituração contábil da pessoa jurídica, em contrapartida a conta ou subconta de seu passivo exigível, representativa de direito de crédito do sócio ou acionista da sociedade ou do titular da empresa individual. (Grifei) Fl. 694DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 695 22 O normativo acima esclarece que é possível o pagamento posterior de juros sobre capital próprio, mas desde que a despesa tenha sido reconhecida e devidamente registrada no anocalendário correspondente ao que foi utilizado para cômputo do JCP, em contrapartida à conta do passivo, que represente a obrigação perante os sócios para pagamento futuro. No caso em tela, a contribuinte manteve uma planilha de JCP acumulados à margem da contabilidade da empresa. (...) Resta claro, assim, que a legislação adota como regra geral o regime de competência para o registro das mutações patrimoniais e das receitas e despesas. As exceções devem vir explícitas na lei. Contudo, a Lei nº 9.249/95 não tratou de excepcionar a regra geral, razão pela qual seria um contrassenso, calcular os JCP com base no patrimônio líquido de um determinado anocalendário, e apropriar essa despesa em um anocalendário distinto daquele que serviu como parâmetro para o cálculo dos JCP. Antes, é preciso compreender os juros sobre capital próprio como destinação do lucro formado a partir da aplicação do capital dos sócios, e uma destinação opcional, em substituição à distribuição de lucros, consoante expressa o art. 9º, §7º da Lei nº 9.249/95, ao permitir que o valor dos JCP seja "imputado ao valor dos dividendos" obrigatórios, "de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo" da retenção na fonte prevista no §2º daquele dispositivo. Ressaltese que o caput do art. 9º permite a dedução, para efeitos da apuração do lucro real, dos juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio. Por óbvio que o capital próprio a ser remunerado por juros ao final de cada ano é o capital dos sócios ou acionistas naquele anocalendário. Esse aspecto da legislação precisa ser observado, porque leva ao seguinte questionamento: ocorrendo a deliberação acerca do pagamento de JCP em 2010, referente a anoscalendários anteriores (1998 a 2009), os sócios/acionistas que receberam a remuneração dos juros foram individualizadamente aqueles constantes do quadro societário/acionistas de 1998 a 2009? Ou foram os sócios/acionistas existentes em 2010? Poderia a Conselho de Administração em 2010 rever as decisões tomadas pelos sócios/acionistas anteriores? Observese, portanto, que se a contribuinte delibera em 2010 o pagamento de JCP dos anoscalendários 1998 a 2009, os sócios a serem remunerados deveriam ser aqueles constantes do quadro societário nos respectivos anoscalendários sobre o qual se calcula os JCP, não os sócios existentes em 2010, sob pena de não se estar a remunerar o capital próprio, mas o capital de outrem. Certamente não é isso o que acontece. O Conselho de Administração não ia decidir, no presente, remunerar sócios/acionistas que não mais fazem parte da sociedade, quando poderia remunerar os sócios/acionistas atuais através de dividendos. Remunerar os sócios atuais com juros sobre um capital de anos calendários pretéritos, seria desvirtuar completamente o instituto do juros sobre capital próprio, pois estarseia a remunerar um capital que pertencia a outrem, logo, não haveria remuneração de capital próprio dos sócios. Por todo exposto, temse que as despesas com JCP somente podem incorrer, no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas (geradas com Fl. 695DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 696 23 o uso do capital que os JCP remuneram) se produzem, formando o resultado daquele exercício. Ressalto que despesas incorridas são aquelas efetivamente pagas ou apropriadas contabilmente como obrigação em conta de passivo. Não tendo incorrido no exercício correspondente, não se pode deduzilas na apuração do lucro real de exercício posterior. É dizer, não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Em relação ao decidido pela 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, também se manifestou com clareza o Acórdão nº 9101003.066: Quanto ao precedente do Superior Tribunal de Justiça STJ trazido pela Contribuinte em contrarrazões [REsp nº 1.086.752PR (2008/01933882), 1ª Turma, Rel. Ministro Francisco Falcão, DJ 11/03/2009], observase que não se trata de decisão definitiva de mérito proferida pelo STJ na sistemática dos recursos repetitivos (art. 543C da Lei nº 5.869, de 1973 CPC). Não se aplica, portanto, o comando de vinculação de decisões veiculado no art. 62, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno deste CARF, aprovado pela Portaria nº 343, de 9 de junho de 2015. Acrescentese que este REsp nº 1.086.752 do STJ é um precedente isolado, não havendo outros no mesmo sentido. Além do que, seu entendimento contraria frontalmente o art.177 da Lei nº 6.404/76, que estabelece a regra geral do regime de competência. Colacionase um excerto do RESP, que demonstra tal contradição: II A legislação não impõe que a dedução dos juros sobre capital próprio deva ser feita no mesmo exercício financeiro em que realizado o lucro da empresa. Ao contrário, permite que ela ocorra em anocalendário futuro, quando efetivamente ocorrer a realização do pagamento. III Tal conduta se dá em consonância com o regime de caixa, em que haverá permissão da efetivação dos dividendos quando esses foram de fato despendidos, não importando a época em que ocorrer, mesmo que seja em exercício distinto ao da apuração. (Grifei) Logo, data venia, resta equivocado o entendimento consignado neste RESP, e talvez por esta razão, não se encontrem outros julgados neste sentido. Resta evidente, portanto, a impossibilidade de, no anocalendário de 2008, deduzirse de despesas relativas a pagamentos de JCP atinentes aos anoscalendários pretéritos. Tampouco há que se falar em postergação, vez que a despesa deixa de ser dedutível porque não observou o período de competência e também porque não foi reconhecida nas correspondentes assembléias dos acionistas realizada nos anos anteriores a 2008. Fl. 696DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 697 24 E, não tendo sido objeto de reconhecimento no momento correto (2004 a 2007), conforme previsto na legislação, não há que se falar em antecipação de despesa. Da mesma maneira, a partir do momento em que foi reconhecida em um momento posterior (2008), sem previsão legal, consumouse uma despesa indevida, desprovida de dedutibilidade, que provocou a redução da base de cálculo do IRPJ e CSLL, razão pela qual se mostra imperiosa a glosa do dispêndio. Nesse contexto, sem reparos o procedimento da autoridade fiscal, ao glosar despesa de juros sobre capital próprio cujo pagamento referese a períodos pretéritos, vez que não goza de dedutibilidade. Cabe, assim, ser negado provimento ao recurso. II. Juros de Mora sobre Multa de Ofício. Sobre o assunto, vale transcrever, inicialmente, o artigo 113, do CTN, que predica que o objeto da obrigação tributária principal é o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. (grifei) § 2º (...) Por sua vez, o crédito tributário decorre da obrigação principal, conforme o artigo 139 do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A penalidade pecuniária tem base no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, materializada na multa de ofício aplicada sobre o tributo. E, como se pode observar a penalidade pecuniária, decorrente da infração, compõe a obrigação tributária principal e, por conseguinte, integra o crédito tributário. Por sua vez, o CTN, ao discorrer sobre o pagamento, informa que devem incidir juros sobre o crédito tributário não integralmente adimplido no vencimento, verbis: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. (grifei) § 1º (...) E a correção estipulada pelo mencionado art. 161, a partir da Lei nº 9.065, de 1995, segue a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, questão já pacificada pela Súmula CARF nº 4: Fl. 697DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 698 25 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Verificase, assim que tanto tributo quanto a multa de ofício estão sujeitos à atualização prevista no art. 161 do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC. Portanto, cabe ser negado provimento ao recurso. III. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Contribuinte. (assinado digitalmente) Andre Mendes de Moura Fl. 698DF CARF MF
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Numero do processo: 10580.726611/2009-06
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2006, 2007
DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA SALARIAL.
As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte.
INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS.
Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, trata-se de juros tributáveis.
Numero da decisão: 9202-006.287
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada).
(Assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
(Assinado digitalmente)
Ana Cecília Lustosa da Cruz - Redatora Designada
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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NATUREZA SALARIAL. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte. INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS. Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, tratase de juros tributáveis. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada). (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora (Assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 66 11 /2 00 9- 06 Fl. 383DF CARF MF 2 Ana Cecília Lustosa da Cruz Redatora Designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2802001.572, proferido pela 2ª Turma Especial / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de auto de infração relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física IRPF correspondente aos exercícios 2005, 2006, 2007, para exigência de crédito tributário, no valor de R$ 133.109,21, incluída a multa de ofício no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e juros de mora, decorrente de omissão de rendimentos recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006. Conforme descrição dos fatos e enquadramento legal constantes no auto de infração, o crédito tributário foi constituído em razão de ter sido apurada classificação indevida de rendimentos tributáveis na Declaração de Ajuste Anual como sendo rendimentos isentos e não tributáveis. Os rendimentos foram recebidos do Ministério Público do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, em decorrência da Lei Complementar do Estado da Bahia nº 20, de 08 de setembro de 2003. As diferenças recebidas teriam natureza eminentemente salarial, pois decorreram de diferenças de remuneração ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para URV em 1994, consequentemente, estariam sujeitas à incidência do imposto de renda, sendo irrelevante a denominação dada ao rendimento. O Contribuinte apresentou impugnação alegando, às fls. 28/97, em síntese: que não teria classificado indevidamente os rendimentos recebidos a título de URV, pois seriam isentos de imposto de renda em conformidade com a legislação que instituiu tal verba indenizatória. Asseverou que a responsabilidade pela retenção do imposto seria da fonte pagadora, no caso o Estado da Bahia, sendo impossível atribuir responsabilidade decorrente da omissão da fonte à autuada. Questionou a multa de ofício, ponderando que seu erro teria sido motivado pela fonte pagadora e tal entendimento teria sido expresso pelo Ente autuante em resposta à Consulta Administrativa feita pela Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, ratificando o entendimento já fixado pelo Advogado Geral da União, através da Nota AGU/AV 12/2007. Ponderou que mesmo que o valor decorrente do recebimento da URV em atraso fosse tributável, não caberia tributar os juros incidentes sobre ele, tendo em vista sua natureza indenizatória. Invoca a distribuição constitucional das receitas para reforçar seus argumentos de impossibilidade de manutenção da exigência em discussão. Ponderou que o STF, através da Resolução nº 245, de 2002, deixou claro que o abono conferido aos Magistrados Federais em razão das diferenças de URV tem natureza indenizatória, e que por esse motivo não sofre a incidência do imposto de renda. Assim, tributar estes mesmos valores recebidos pelos Magistrados Estaduais constitui violação ao princípio constitucional da isonomia. Fl. 384DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 10 3 A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, fls. 114/121, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. O Contribuinte interpôs Recurso Voluntário, fls. 124/207, reiterando os argumentos feitos em sua impugnação. A 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 221/226, DEU PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Ordinário. A ementa do acórdão recorrido assim dispôs: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 ILEGITIMIDADE PASSIVA. SÚMULA CARF Nº 12. Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. IRPF. ABONO PERCEBIDO PELOS INTEGRANTES DA MAGISTRATURA DO ESTADO DA BAHIA (LEI ESTADUAL nº 8.730, de 08 de setembro de 2003) As verbas percebidas pelos Magistrados do Estado da Bahia, resultantes da diferença apurada na conversão de suas remunerações da URV para o Real, ainda que recebidas em virtude de decisão judicial, têm natureza salarial e, portanto, estão sujeitas à incidência de Imposto de Renda. Precedentes do C. STJ e deste E. Sodalício. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA. Por ocasião do julgamento do EDCL no Resp 1227133 RS, Primeira Seção, Rel. Ministro Cesar Asfor Rocha, julgado em 23.11.2011. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. MULTA DE OFÍCIO. ERRO ESCUSÁVEL. Não comporta multa de oficio o lançamento constituído com base em valores espontaneamente declarados pelo contribuinte que, induzido pelas informações prestadas pela fonte pagadora, incorreu em erro escusável no preenchimento da declaração de rendimentos. Preliminares Rejeitadas Recurso Voluntário Provido em Parte. Às fls. 229/246, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de Divergência, alegando divergência jurisprudencial em relação à incidência ou não de imposto Fl. 385DF CARF MF 4 de renda sobre juros moratórios e a aplicação do Resp nº 1.227.133 RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel. para acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011. Expôs inicialmente que, em todos os feitos, analisava se lançamento de IRPF relativo às diferenças de remuneração recebidas pela Magistratura e/ou pelo Ministério Público do Estado da Bahia, em decorrência da Lei Estadual. Sobre a divergência, consoante decidiram os paradigmas, segundo o entendimento encampado pelo STJ, em julgamento submetido ao rito do art. 543 C do CPC, o imposto de renda não incide sobre os juros quando a verba trabalhista possui natureza indenizatória, de modo que, a contrario senso, em sendo de natureza remuneratória, seria possível a incidência do tributo. Para a Turma a quo, a verba principal recebida pelo autuado não tem natureza trabalhista e/ou indenizatória nem foi recebida em virtude de sentença judicial, o que leva à conclusão de que não se aplicam a ela os fundamentos adotados pelo STJ para afastar a incidência do IRPF sobre os juros moratórios no julgamento do Recurso Repetitivo 1.227.133/RS. Às fls. 248/251, a 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento realizou o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, DANDO SEGUIMENTO ao recurso em relação à incidência ou não de imposto de renda sobre juros moratórios. Intimado à fl. 254, o Contribuinte apresentou Recurso Especial de Divergência, às fls. 256 e ss., alegando divergência jurisprudencial em relação à definição da natureza da verba de abono variável recebidas pelo membros do Ministério Público Estadual para fins de incidência de IRPF. De um lado, o acórdão recorrido entendeu que sobre abono variável pago aos membros do Ministério Público baiano incide Imposto de Renda Pessoa Física, haja vista a vedação a extensão com base em analogia em sede de incidência tributária. Já o acórdão paradigma considerou que sobre o abono variável previsto pela Lei 10.447 de 2002 pagos aos membros do Ministério Público do Estado da Bahia não incide o Imposto de Renda Pessoa Física em razão de uma interpretação extensiva de decisão do STF que considerou isenta tais verbas pagas aos membros da magistratura federal. O Contribuinte, às fls. 306/324, apresentou Contrarrazões, arguindo, no tocante ao mérito, que as alegações da União não merecem prosperar, uma vez que aplicável, sim, ao caso presente, o disposto no art. 62, § 2º do RICARF e, portanto, indevida a incidência dos juros sobre as verbas recebidas pela Recorrida, conforme entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça, de forma ampla e brilhantemente fundamentada, razão pela qual se impõe a manutenção da decisão guerreada neste posto. Às fls. 362/364, a 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento realizou o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, NEGANDO SEGUIMENTO ao recurso, uma vez que o acórdão paradigma utilizado pelo Recorrente restou reformado. Intimado o Contribuinte à fl. 371, vieram os autos conclusos para julgamento. É o relatório. Voto Vencido Fl. 386DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 11 5 Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de auto de infração relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física IRPF correspondente aos exercícios 2005, 2006, 2007, para exigência de crédito tributário, no valor de R$ 133.109,21, incluída a multa de ofício no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e juros de mora, decorrente de omissão de rendimentos recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006. O Acórdão recorrido deu parcial provimento ao Recurso Ordinário. O Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a divergência jurisprudencial em relação incidência ou não de imposto de renda sobre juros moratórios e a aplicação do Resp nº 1.227.133 RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel. para acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011. INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA SOBRE JUROS MORATÓRIOS A questão merece debate, pois está longe de ter entendimento unânime no Tribunal Administrativo. A Fazenda Nacional sustenta a regularidade do auto de infração, pois defende que a interpretação correta do Repetitivo de Controvérsia RE 1227.133/RS, é a de que imposto de renda não incide sobre os juros de mora em apenas duas hipóteses. A primeira é condenação judicial no contexto de perda de emprego ou rescisão contratual. A segunda hipótese ocorre quando a verba principal for isenta ou estiver fora do campo de incidência do imposto de renda. Sustenta assim que no caso em análise, a verba principal tem nítido caráter salarial, uma vez que corresponde a diferenças de remuneração ocorridas na conversão de Cruzeiro Real para URV. Se os valores recebidos têm natureza salarial, os juros moratórios, necessariamente, terão a mesma natureza, conforme dispõe o art. 92 do novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 10/02/2002). Por sua vez a Contribuinte defende a não incidência do Imposto de Renda sobre os valores recebidos a título de juros. Segundo o entendimento do Recorrente, invariavelmente, os juros de mora possuem natureza indenizatória, pois sua função é a de recompor dano ao patrimônio do beneficiário que deixou de receber no tempo certo valor que lhe seria devido. Sendo assim, insurgese contra o auto de infração, pois partindo do pressuposto de que a verba é isenta, estaria esta fora do campo de incidência do imposto de renda. O acórdão recorrido seguiu no sentido do que foi argumentado pela Contribuinte. Fl. 387DF CARF MF 6 Tratase de entendimento compartilhado pelos mais renomados juristas, valendo citar parte do artigo publicado pelo Professor Hugo de Brito Machado, na Revista Dialética de Direito Tributário nº 215 (p. 115/116): Não há dúvida quanto à natureza indenizatória dos juros de mora. A expressão juros moratórios, que é própria do Direito Civil, designa a indenização pelo atraso no pagamento da divida. O Código Civil de 1916 estabelecia que as perdas e danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, consistem nos juros de mora e custas, sem prejuízo das pena convencional. E o Código Civil vigente estabelece: "Art. 404. As perdas e danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, serão pagas com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, abrangendo juros, custas e honorários de advogados, sem prejuízo da penas convencional. Parágrafo único: Provado que os juros de mora não cobrem o prejuízo, e não havendo pena convencional, pode o juiz concede ao credor indenização complementar." Com se vê, o legislador previu que o não recebimento nas datas correspondentes dos valores me dinheiro aos quais se tem direito implica prejuízo. (...) Não se trata de lucro cessante, nem de dano simplesmente moral, que evidentemente também podem ocorrer. Tratase de perda patrimonial efetiva, decorrente do não recebimento, nas datas correspondentes, dos valores aos quais tinha direito. Perda que o legislador presumiu e tratou como presunção absoluta que não admite prova em contrário, e cuja indenização com juros de mora independe de pedido do interessado. Sendo assim, os valores recebidos a título de juros moratórios não estariam sujeitos ao imposto, afinal o conceito de renda e proventos pressupostos pela Constituição Federal, exigem a ocorrência de um acréscimo patrimonial experimentado ao longo de um determinado período de tempo, o que conforme anteriormente exposto não ocorre no presente caso concreto. Cito aqui posicionamento adotado pelo Conselheiro Gerson Guerra, em relação à incidência do IRPF sobre juros moratórios "é importante destacar, que o acessório segue o principal. Nesse contexto, aplicase o que decidido pelo STJ (NUMÉRO DO RESP), fundamentado no artigo 543C, do antigo Código de Processo Civil", no seguinte sentido: Fl. 388DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 12 7 RECURSO ESPECIAL. REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla. Recurso especial, julgado sob o rito do art. 543C do CPC, improvido. Ressalto aqui que não desconheço a existência de Repercussão Geral sobre o tema, conforme esposado pela conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri: Destaco que o Supremo Tribunal Federal ainda não firmou sua posição em relação ao assunto, haja vista estar pendente de julgamento o Recurso Extraordinário nº 855.091, recebido sob o rito da Repercussão Geral sob o Tema 808 Incidência de imposto de renda sobre juros de mora recebidos por pessoa física, processo por meio do qual questionase a constitucionalidade dos dispositivos acima descrito. Em que pese concordar com os argumentos acima, entendo que a norma regimental prevista no art. 62 do RICARF me impede de deixar de aplicar o que determina o art. 6 da Lei 4.506/1964: “Art. 16. serão classificados como rendimentos do trabalho assalariado tôdas as espécies de remuneração por trabalho ou serviços prestados no exercício dos empregos, cargos ou funções referidos no artigo 5º do Decretolei número 5.844, de 27 de setembro de 1943, e no art. 16 da Lei número 4.357, de 16 de julho de 1964, tais como: (...) Parágrafo único. Serão também classificados como rendimentos de trabalho assalariado os juros de mora e quaisquer outras indenizações pelo atraso no pagamento das remunerações previstas neste artigo.” (Grifamos) Tal dispositivo está reproduzido no art. 43, § 3º do Decreto 3.000/99 (RIR): “Art. 43. São tributáveis os rendimentos provenientes do trabalho assalariado, as remunerações por trabalho prestado no exercício de empregos, cargos e funções, e quaisquer proventos ou vantagens percebidos, tais como (Lei nº 4.506, de 1964, art. 16, Lei nº 7.713, de 1988, art. Fl. 389DF CARF MF 8 3º, § 4º, Lei nº 8.383, de 1991, art. 74, e Lei nº 9.317, de 1996, art. 25, e Medida Provisória nº 1.76955, de 11 de março de 1999, arts. 1º e 2º): (...) § 3º Serão também considerados rendimentos tributáveis a atualização monetária, os juros de mora e quaisquer outras indenizações pelo atraso no pagamento das remunerações previstas neste artigo (Lei nº 4.506, de 1964, art. 16, parágrafo único).” Contudo a meu ver acredito que o encaminhamento a essa questão deva ser dado de modo diverso. Considerando a existência de Repetitivo de controvérsia atinente a questão, e que, este não foi sobrestado ao tema 808 admitido em sede de repercussão geral, por se tratar de julgado anterior a admissão deste é caso de se aplicar o repetitivo até posterior julgamento da repercussão geral. Pelo exposto, voto no sentido de conhecer o Recurso Especial da Contribuinte para no mérito negarlhe provimento. É o voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Voto Vencedor Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Redatora designada. Em que pese o brilhantismo e a logicidade do voto da ilustre Relatora, ouso dela divergir, com a máxima vênia, quanto à incidência do imposto de renda sobre o valor recebido a título de diferenças da Unidade Real de Valor (URV) e dos respectivos juros de mora. Argumenta o Contribuinte a não incidência do imposto de renda sobre a diferença de URV e sobre os juros de mora, considerando a natureza indenizatória da verba principal, bem como dos juros de mora, por conseqüência (o acessório segue o principal). Assim, a primeira apreciação a ser feita referese à natureza das verbas sob análise. E o segundo ponto a ser analisado é sobre a existência ou não de isenção relativa à URV. Ao meu ver, embora seja menos relevante a natureza indenizatória da verba para a análise da incidência do imposto de renda, entendo que os valores recebidos pelos contribuintes decorrem da compensação pela falta de correção no valor nominal do salário, oportunamente, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. Fl. 390DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 13 9 Não obstante o meu entendimento anteriormente destacado acerca da natureza salarial da diferença de URV, cabe ressaltar que, no caso do Ministério Público da Bahia, foi publicada uma Lei Estadual (LC 20/2003) que dispôs de modo diverso, tratando a verba como indenização. Tendo em vista que o imposto de renda é regido por legislação federal, tal dispositivo não possui efeito tributário para a análise do tributo em questão. Assim, estando a mencionada lei em plena vigência, prestase apenas ao fim por ela almejado, qual seja o pagamento de precatório, de forma especial. Cabe destacar que a inaplicabilidade da LC 20/2003 não decorre de um juízo de inconstitucionalidade, mas sim de uma interpretação sistemática das normas, em observância do princípio da legalidade, tendo em vista a ausência de lei isentiva, no presente caso. Sobre a aplicação da Resolução do Supremo Tribunal Federal (STF) 245/2002 pugnada pelos recorrentes, notase que foi conferida natureza jurídica indenizatória ao abono variável concedido à Magistratura Federal e ao Ministério Público da União, não se confundindo com as diferenças decorrentes de URV, ora analisadas. Desse modo, deve ser considerada a natureza salarial das diferenças sob apreciação. Ainda que fosse caracterizada como indenizatória a verba sob análise, ressaltase que a incidência do imposto de renda independe da denominação do rendimento, pois as indenizações não gozam de isenção indistintamente, mas tão somente as previstas em lei específica concessiva de isenção. Havendo, notadamente, acréscimo patrimonial, sob a forma de diferenças de vencimentos recebidos a destempo, resta evidente a incidência do imposto de renda, não havendo lei concessiva de isenção apta a afastar a tributação, nesse caso. No que se referem aos juros de mora, aplico o posicionamento da Primeira Seção do STJ no sentido da incidência do imposto de renda sobre tais juros, em regra, não incidindo, excepcionalmente, quando decorrentes da rescisão do contrato de trabalho ou quando a verba principal for isenta ou fora do campo de incidência do IR. Portanto, como a verba principal não é isenta, bem como não é oriunda de rescisão do contrato de trabalho, há incidência do imposto de renda sobre os juros de mora. Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, dar lhe provimento. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz Fl. 391DF CARF MF 10 Fl. 392DF CARF MF
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Numero do processo: 10768.043486/95-79
Turma: Segunda Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Tue Feb 02 00:00:00 UTC 1999
Numero da decisão: 202-02017
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score : 1.0
Numero do processo: 10860.721255/2011-02
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 30/06/2006 a 30/06/2006
ADESÃO AO PRORELIT. DESISTÊNCIA DOS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. RENÚNCIA AO DIREITO SOBRE O QUAL SE FUNDAM OS RECURSOS ADMINISTRATIVOS.
A adesão ao Programa de Redução de Litígios Tributários - PRORELIT, de que trata a Lei nº 13.202/2015 configura desistência dos recursos administrativos e renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente.
CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordina-se à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente.
Recurso Voluntário Negado.
Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 3302-005.306
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède
Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Diego Weis Jr.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 30/06/2006 a 30/06/2006 ADESÃO AO PRORELIT. DESISTÊNCIA DOS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. RENÚNCIA AO DIREITO SOBRE O QUAL SE FUNDAM OS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. A adesão ao Programa de Redução de Litígios Tributários - PRORELIT, de que trata a Lei nº 13.202/2015 configura desistência dos recursos administrativos e renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordina-se à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente. Recurso Voluntário Negado. Crédito Tributário Mantido.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Diego Weis Jr.
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DESISTÊNCIA DOS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. RENÚNCIA AO DIREITO SOBRE O QUAL SE FUNDAM OS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. A adesão ao Programa de Redução de Litígios Tributários PRORELIT, de que trata a Lei nº 13.202/2015 configura desistência dos recursos administrativos e renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordinase à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente. Recurso Voluntário Negado. Crédito Tributário Mantido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 0. 72 12 55 /2 01 1- 02 Fl. 411DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 411 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Diego Weis Jr. Relatório Trata o presente de Auto de Infração para constituição de crédito tributário referente ao Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, em razão de: 1. Glosas de compras de insumos para industrialização, com origem nos mercados interno e externo, com destaque indevido de IPI, em razão de a operação ser obrigatoriamente, com suspensão; 2. Glosa de crédito de devolução e retorno de produtos tributados, em razão de sua não escrituração no Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou sistema equivalente; 3. Multa isolada por destaque indevido de IPI nas notas fiscais de aquisição de importados, cujas operações eram de suspensão obrigatória. Em impugnação, a recorrente alegou que o fornecedor Johnson Mathey do Brasil é estabelecimento equiparado a industrial, não se aplicando a suspensão prevista no artigo 5º da Lei nº 9.826/1999, que destinase apenas aos estabelecimentos industriais e não aos equiparados; que a glosa nas compras com destaque do IPI é indevida, uma vez que a suspensão é opcional e não obrigatória, como entendeu a fiscalização; a escrituração no Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou sistema equivalente é mera obrigação acessória, incapaz de elidir a possibilidade de tomada de crédito, uma vez que fora comprovada a efetiva entrada dos produtos e o registro no Livro Registro de Entradas; que a multa não é devida, pois a recorrente promovera o pagamento do imposto, tido por devido pela fiscalização, antes de qualquer procedimento fiscal e que o destaque teria decorrido de erro escusável por erro de interpretação da legislação, nos termos do artigo 488, §3º do RIPI/2002. Por sua vez, a Oitava Turma da DRJ em Ribeirão Preto julgou a impugnação parcialmente procedente, nos termos da seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 30/06/2006 SUSPENSÃO DO IPI. ART.29 DA LEI Nº10.637, DE 2002. EQUIPARADO A INDUSTRIAL. A suspensão do IPI prevista no art. 29 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, com redação dada pelo art. 25 da Lei nº 10.684, de 30 de maio de 2003, não alcança as operações de saídas realizadas por estabelecimento importador que tenha sido equiparado a industrial por força do inciso I do art. 4º da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, regulamentado pelo inciso I do art. 9º do Decreto nº 4.544, de 26 de dezembro de 2002 (Regulamento do IPI Ripi/2002). Fl. 412DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 412 3 SUSPENSÃO DO IPI. ART.29 DA LEI Nº10.637. IMPORTAÇÃO. As matériasprimas, os produtos intermediários e os materiais de embalagem, importados diretamente por estabelecimentos industriais fabricantes, preponderantemente, de componentes, chassis, carroçadas, partes e peças destinados a veículos automotores, serão desembaraçados, obrigatoriamente, com suspensão do IPI. CRÉDITOS RELATIVOS A DEVOLUÇÕES E RETORNOS DE PRODUTOS. FALTA DE ESCRITURAÇÃO DO LIVRO REGISTRO DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE OU DE SISTEMA EQUIVALENTE. O aproveitamento de créditos de IPI relativos a devoluções e retornos de produtos tributados está condicionado à comprovação de escrituração do Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou sistema de controle equivalente. MULTA ISOLADA. CRÉDITO INDEVIDO. Somente não será aplicada a multa isolada se, além do pagamento, o responsável provar que a infração decorreu de erro escusável. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte. Inconformada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, reiterando as razões aduzidas em impugnação, à exceção da matéria na parte que a decisão da DRJ foilhe favorável. Posteriormente, a recorrente protocolou petição requerendo a revisão de débitos com a exigibilidade suspensa por ter aderido ao PRORELIT, tendo efetuado o pagamento de 30% do valor das débitos relativos às multas isoladas mantidas no acórdão da DRJ, conforme efls. 386/387 e 405/406. Na forma regimental, o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède. Conforme a petição de efls. 386/387, a recorrente aderiu ao Programa de Redução de Litígios Tributários PRORELIT nos termos da Lei nº 13.202/2015, efetuando o pagamento de 30% dos débitos relativos às multas isoladas, únicos débitos remanescentes após Fl. 413DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 413 4 o julgamento na DRJ, de acordo com o artigo 2º, inciso I, alínea "a"1 da Lei nº 13.202/2015, com a consequente desistência dos recursos administrativos concernentes aos débitos objeto da adesão ao programa, conforme disposto no §3º do referido artigo 2º: § 3o Para aderir ao programa de que trata o art. 1o, o sujeito passivo deverá comprovar a desistência expressa e irrevogável das impugnações ou dos recursos administrativos e das ações judiciais que tenham por objeto os débitos que serão quitados e renunciar a qualquer alegação de direito sobre as quais se fundem as referidas impugnações e recursos ou ações. No caso, a petição protocolada, informando o pagamento de 30% e a adesão ao PRORELIT configura desistência do prosseguimento do litígio, relativo aos débitos das multas isoladas mantidas na decisão da DRJ, implicando a renúncia ao direito sobre o qual se fundava o recurso voluntário, nos termos do §3º do artigo 78 do Anexo II do RICARF: Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratável de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. § 3º No caso de desistência, pedido de parcelamento, confissão irretratável de dívida e de extinção sem ressalva de débito, estará configurada renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto pelo sujeito passivo, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. Porém, a multa isolada por destaque indevido de imposto, quando o correto era suspensão, vincula à glosa mantida na decisão recorrida relativa às aquisições de insumos importados sem suspensão de IPI, com destaque do imposto. Os fundamentos desenvolvidos pela recorrente em sua peça recursal para a inaplicabilidade da multa foram a inexistência da infração concernente ao destaque indevido nas aquisições de insumos importados por não ter havido suspensão, ou alternativamente, caso prevalecesse a tese da fiscalização quanto à obrigatoriedade da suspensão, a existência do pagamento do IPI destacado por ocasião do desembaraço e a existência de erro escusável por erro de interpretação da legislação, de acordo com o §3º do artigo 488 do RIPI/2002, não tendo havido dolo ou máfé por parte da recorrente. Ocorre que a desistência implica a renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso, o que no caso concreto, configura renúncia ao direito referente à inexistência da 1 Art. 2o O requerimento de que trata o § 1o do art. 1o deverá ser apresentado até 30 de novembro de 2015, observadas as seguintes condições: I pagamento em espécie equivalente a, no mínimo: a) 30% (trinta por cento) do valor consolidado dos débitos indicados para a quitação, a ser efetuado até 30 de novembro de 2015; Fl. 414DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 414 5 infração de destaque indevido do IPI, pois que a multa isolada é mero reflexo da infração que resultou na glosa dos créditos de IPI tomados em razão do destaque de IPI. Assim, a renúncia ao direito sobre o fundamento para cancelamento da multa isolada atinge diretamente a defesa quanto à glosa dos créditos tomados em razão do destaque indevido, de cuja a aplicação da multa isolada é mero reflexo. Portanto, entendo que houve renúncia ao fundamento deduzido para a glosa perpetrada. Destarte, não conheço do recurso voluntário quanto às matérias "II.1 Glosa de créditos de IPI Apropriação de crédito em importação própria suspensão do IPI benefício fiscal optativo e não obrigatório" e "II.3. Da Multa Isolada", remanescendo ainda o litígio quanto ao item "II.2. Da Glosa do Crédito por Falta de Escrituração do Livro Controle da Produção e do Estoque". Quanto à glosa do crédito de retorno por falta de escrituração no Livro de Registro e Controle da Produção e do Estoque, não há reparos a se fazer na decisão recorrida. Os artigos 172 do RIPI/2002 e 234 do RIPI/2010 dispuseram sobre a exigência de registro no referido livro nos seguintes termos: RIPI/2002: Art. 172. Na hipótese de retomo de produtos, deverá o remetente, para creditarse do imposto, escriturálo nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente nos termos do art. 388, com base na nota fiscal, emitida na entrada dos produtos, a qual fará referência aos dados da nota fiscal originária. RIPI/2010: Art. 234. Na hipótese de retorno de produtos, deverá o remetente, para creditarse do imposto, escriturálo nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente, nos termos do art. 466, com base na nota fiscal, emitida na entrada dos produtos, a qual fará referência aos dados da nota fiscal originária. As disposições regulamentares são claras ao exigir a escrituração no Livro Registro e Controle da Produção e Estoque, como forma de garantir a reincorporação dos produtos ao estoque e nova tributação quando de eventual nova saída. A respeito, transcrevo o voto condutor da decisão recorrida, cujas razões adoto como fundamento de decidir: "O IPI regese pelo princípio da nãocumulatividade previsto constitucionalmente no art. 153, § 3º, inciso II, da Carta Magna de 1988, sendo normatizado por disposições constantes do art. 49 do Código Tributário Nacional (CTN – Lei nº 5.172/66) e exercido pelo “sistema de créditos”, consoante a disciplina do Capítulo X (arts. 163 a 198) do RIPI/2002, vigente à época dos fatos. Nesse contexto, temse que o art. 167 do RIPI/2002 permitia ao estabelecimento contribuinte creditarse do IPI relativo a produtos tributados recebidos em devolução ou retorno, de modo total ou parcial, conforme tais operações assim tenham ocorrido: Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 415 6 Art. 167. É permitido ao estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, creditarse do imposto relativo a produtos tributados recebidos em devolução ou retorno, total ou parcial.’ Observase, porém, que o direito à utilização do crédito em tais operações encontravase subordinado ao adimplemento das exigências especificadas no art. 169 do RIPI/2002, a teor do disposto pelo art. 30 (abaixo transcrito) da Lei nº 4.502/64: Art. 30. Ocorrendo devolução do produto ao estabelecimento produtor, devidamente comprovada, nos termos que estabelecer o regulamento, o contribuinte poderá creditarse pelo valor do imposto que sobre ele incidiu quando da sua saída. (grifouse) Dessa forma, cabe ao Regulamento do IPI estabelecer as condições segundo as quais se considerava comprovada a devolução/retorno dos produtos, tendo sido, dentre outros requisitos, condicionada tal comprovação ao registro das notas fiscais de devolução/retorno no livro fiscal Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, conforme a disposição do inciso II, alínea ‘b’, do supracitado art. 169 do RIPI/2002: Art. 169. O direito ao crédito do imposto ficará condicionado ao cumprimento das seguintes exigências: (...) II pelo estabelecimento que receber o produto em devolução: (...) b) lançamento nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque das notas fiscais recebidas, na ordem cronológica de entrada dos produtos no estabelecimento;’ (grifouse) Também os arts. 172 e 388 do RIPI/2002 determinavam condições para a utilização dos créditos em devolução/retorno de produtos: Art. 172. Na hipótese de retorno de produtos, deverá o remetente, para creditarse do imposto, escriturálo nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente nos termos do art. 388, com base na nota fiscal emitida na entrada dos produtos, a qual fará referência aos dados da nota fiscal originária. Art. 388. O estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, e o comercial atacadista, que possuir controle quantitativo de produtos que permita perfeita apuração do estoque permanente, poderá optar pela utilização desse controle, em substituição ao livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, observado o seguinte: I o estabelecimento fica obrigado a apresentar, quando solicitado, aos Fiscos Federal e Estadual, o controle substitutivo; Fl. 416DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 416 7 II para a obtenção de dados destinados ao preenchimento do documento de prestação de informações, o estabelecimento industrial, ou a ele equiparado, poderá adaptar, aos seus modelos, colunas para indicação do valor do produto e do imposto, tanto na entrada quanto na saída; e III o formulário adotado fica dispensado de prévia autenticação. Além da previsão contida no art. 388 do RIPI/2002, que admitia a dispensa do livro modelo 3 na hipótese de o estabelecimento adotar equivalente sistema de controle da produção e do estoque, o RIPI/2002 consignava, no art. 385, inciso I, a possibilidade de substituição do aludido livro por fichas impressas com os mesmos elementos do livro substituído: Art. 385. O livro poderá, a critério da autoridade competente do Fisco Estadual, ser substituído por fichas: I impressas com os mesmos elementos do livro substituído; A respeito dos elementos que a escrituração do referido livro modelo 3 deveria conter, assim preceituava o art. 384 do RIPI/2002: Art. 384. Os registros serão feitos da seguinte forma: I no quadro "Produto": identificação do produto; II no quadro "Unidade": especificação da unidade (quilograma, litro etc.); III no quadro "Classificação Fiscal": indicação do código da TIPI e da alíquota do imposto; IV nas colunas sob o título "Documento": espécie e série, se houver, do respectivo documento fiscal ou documento de uso interno do estabelecimento, correspondente a cada operação; V nas colunas sob o título "Lançamento": número e folha do livro Registro de Entradas ou Registro de Saídas, em que o documento fiscal tenha sido registrado, bem como a respectiva codificação contábil e fiscal, quando for o caso; VI nas colunas sob o título "Entradas": a) coluna "Produção No Próprio Estabelecimento": quantidade do produto industrializado no próprio estabelecimento; b) coluna "Produção Em Outro Estabelecimento": quantidade do produto industrializado em outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, com matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, anteriormente remetidos para esse fim; c) coluna "Diversas": quantidade de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, produtos em fase de fabricação e produtos acabados, não compreendidos nas alíneas Fl. 417DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 417 8 anteriores, inclusive os recebidos de outros estabelecimentos da mesma firma ou de terceiros, para industrialização e posterior retorno, consignandose o fato, nesta última hipótese, na coluna "Observações"; d) coluna "Valor": base de cálculo do imposto, quando a entrada dos produtos originar crédito do tributo; se a entrada não gerar crédito ou quando se tratar de isenção, imunidade ou não incidência, será registrado o valor total atribuído aos produtos; e) coluna "IPI": valor do imposto creditado; VII nas colunas sob o título "Saídas": a) coluna "Produção No Próprio Estabelecimento": em se tratando de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, a quantidade remetida do almoxarifado para o setor de fabricação, para industrialização do próprio estabelecimento; no caso de produto acabado, a quantidade saída, a qualquer título, de produto industrializado do próprio estabelecimento; b) coluna "Produção Em Outro Estabelecimento": em se tratando de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, a quantidade saída para industrialização em outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, quando o produto industrializado deva ser remetido ao estabelecimento remetente daqueles insumos; em se tratando de produto acabado, a quantidade saída, a qualquer título, de produto industrializado em estabelecimentos de terceiros; c) coluna "Diversas": quantidade de produtos saídos, a qualquer título, não compreendidos nas alíneas anteriores; d) coluna "Valor": base de cálculo do imposto; se a saída estiver amparada por isenção, imunidade ou nãoincidência, será registrado o valor total atribuído aos produtos; e) coluna "IPI": valor do imposto, quando devido; VIII na coluna "Estoque": quantidade em estoque após cada registro de entrada ou de saída; IX na coluna "Observações": anotações diversas. § 1º Quando se tratar de industrialização no próprio estabelecimento, será dispensada a indicação dos valores relativos às operações indicadas na alínea "a", do inciso VI, e na primeira parte da alínea "a", do inciso VII. § 2º No último dia de cada mês serão somados as quantidades e valores constantes das colunas "Entradas" e "Saídas", apurando se o saldo das quantidades em estoque, que será transportado para mês seguinte. Portanto, o Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque – modelo 3 – e os sistemas legais a ele equivalentes consubstanciavam, à época dos fatos, como ainda Fl. 418DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 418 9 consubstanciam na legislação vigente, medida cautelar prevista no Regulamento do IPI para conferir à Administração Tributária a segurança de que os produtos devolvidos ou retornados haviam sido efetivamente reincorporados ao estoque do estabelecimento contribuinte, encontrandose em condições de uma nova saída sujeita à tributação. Deveras, os requisitos para a admissão do crédito traduziamse não só pela reentrada dos produtos no estabelecimento, caracterizada pela emissão de notas fiscais de devolução/retorno de produtos, com registro no livro de entradas, mas, sobretudo, pela sua reincorporação ao estoque, comprovada pelos meios de prova estabelecidos especificamente nos arts. 169 e 172 do RIPI/2002, ou por outros meios com a mesma eficácia. Destaquese que a opção por ‘outros meios de mesma eficácia’ significa que o controle eleito pelo estabelecimento contribuinte contenha todos os dados do livro (modelo 3) substituído, imprescindíveis para a formação de um juízo de certeza quanto ao real ingresso do produto devolvido/retornado ao estoque. É esse o sentido que se deve abstrair da expressão “sistema equivalente de controle da produção e do estoque”. Como exposto, a essência do controle da produção e do estoque é conferir a segurança de que os produtos devolvidos/retornados tenham sido realmente reincorporados ao estoque, estando, assim, aptos a uma nova saída tributada, legitimandose, com isso, o direito ao crédito do imposto pelo reingresso e sujeitandose ao débito pela posterior saída. E a emissão de notas fiscais de devolução ou de retorno, assim como seu registro no livro fiscal de entradas, quando muito podem servir de indício acerca da reentrada dos produtos no estabelecimento, mas, terminantemente, não comprovam a efetiva reincorporação ao estoque, condição esta sem a qual não se torna possível a ocorrência de uma nova saída tributada. Não se pode olvidar que o produto que reentrou no estabelecimento, pelas mais variadas razões, pode não mais se sujeitar a uma nova saída. E somente a reincorporação ao estoque é que garante uma potencial saída tributada ulterior, viabilizando o direito ao crédito do IPI pela reentrada. Essa é a essência quantitativa e qualitativa do controle da produção e do estoque. Ora, está claro que a finalidade da lei ao instituir o Livro de Registro da Produção e do Estoque, ou controle equivalente, foi propiciar ao fisco o controle quantitativo da produção e do estoque de mercadorias, o que só pode ser alcançado por meio de registros que permitam controlar a espécie e a quantidade de produtos em estoque. Outrossim, o entendimento ora expendido encontra total consonância com o posicionamento de longa data emanado do então Segundo Conselho de Contribuintes, conforme atestam os Acórdãos nºs 20172.344; 20204.484 e 20305.199, cujas ementas, respectivamente, dispõem: Fl. 419DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 419 10 ‘IPI CRÉDITOS EM DEVOLUÇÃO/RETORNO GLOSA 1 Consoante art. 30 da Lei nr. 4.502/54, c/c o art. 86, II, ‘b’, do Decreto nr. 87.981 (RIPI/82), é condição para o creditamento do valor do IPI relativo às devoluções e retornos de mercadorias o lançamento no livro fiscal modelo. 3. A falta de escrituração deste livro fiscal ou de sistema equivalente que veicule, de pronto, as mesmas informações daquele, tornam ilegítimo o crédito, dando margem à sua glosa e recálculo do IPI. Precedentes jurisprudenciais (CSRF/020.074).’ ‘IPI – CRÉDITO POR DEVOLUÇÃO DE VENDAS – Improcede quando não reste demonstrada a reintegração do produto aos estoques possíveis de nova saída tributada.’ ‘IPI – LIVRO MODELO 3 – Inexistência, inclusive, de elementos de controle da produção e do estoque. Desatendimento do art. 86, inciso II, letra ‘b’, do RIPI/82, e da Portaria MF nº 328/72, item 2. Negase provimento ao recurso voluntário.’ A final, cumpre salientar que a essência dos preceitos normativos do RIPI/82 sobre a matéria em questão (legitimidade dos créditos do IPI referentes a operações de devolução ou de retorno de produtos) encontrase presente nos demais Regulamentos do IPI que o sucederam (RIPI/98 e RIPI/2002).” Desse modo, diante de previsão legal expressa em sentido contrário, não se pode aceitar como substitutos do Modelo 3, os livros de entrada ou de controles internos, sem as adaptações que permitam o controle quantitativo/qualitativo dos produtos movimentados, devendo, por conseguinte, ser mantida a glosa efetuada pela fiscalização..." Neste sentido, citamse outras decisões deste Conselho: Acórdão nº 3402004.087: IPI. CRÉDITO. DEVOLUÇÕES E RETORNOS DE PRODUTOS. FALTA DA ESCRITURAÇÃO DAS NF NO LIVRO REGISTRO DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE OU SISTEMA EQUIVALENTE. IMPOSSIBILIDADE. O aproveitamento de créditos de IPI relativos a devoluções e retornos de produtos tributados está condicionado à comprovação de escrituração do Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou de sistema de controle equivalente. O sistema adotado pela empresa apenas indica a data da emissão da nota de devolução/cancelamento e o seu motivo, não constando o número das notas de devolução cuja escrituração no sistema equivalente de controle de estoque é exigida pelos artigos 231, II, 'b' e 234 do RIPI/2010 como condicionante para o aproveitamento do crédito. Acórdão nº 3403001.936: IPI. CRÉDITO. RETORNO DE MERCADORIAS. ESCRITURAÇÃO. REQUISITOS. Fl. 420DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 420 11 O aproveitamento de créditos por retorno e/ou devolução de mercadorias, assegurado pelo art. 167 do RIPI/02 (Decreto nº 4.544/02), se vincula à observância dos requisitos exigidos pelo art. 169 do mesmo regulamento, dentre os quais, a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque (mod. 3) ou sistema controle alternativo, não sendo suficiente apenas a escrituração do Livro Registro de Entradas (mod. 1). Acórdão nº 20219271: CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordinase à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente. Diante do exposto, voto para conhecer parcialmente o recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 421DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.000188/2008-36
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007
ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF/2015. INSUFICIÊNCIA RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO.
Tendo o crédito tributário sido constituído com base em dois suportes legais autônomos, o recurso que visa ao seu cancelamento deve atacar ambos.
Se a autoridade julgadora somente se manifesta acerca de um dispositivo legal, cabe ao sujeito passivo provocar o pronunciamento também a respeito do outro, pela via dos embargos declaratórios, para que haja apreciação completa da acusação fiscal.
Não tendo havido a adequada caracterização da divergência de ambos os suportes jurídicos, o recurso que leva a julgamento um único dispositivo legal base do lançamento se mostra insuficiente para cancelar a acusação fiscal.
ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos.
A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2003
ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar.
Tampouco se presta o ágio criado de tal forma artificial a impactar o cálculo de ganhos de capital em operações de alienação do investimento a ele associado.
Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 9101-003.254
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que conheceram integralmente do recurso. No mérito, (i) quanto à decadência, por unanimidade de votos, acordam em negar provimento ao recurso e (ii) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF/2015. INSUFICIÊNCIA RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO. Tendo o crédito tributário sido constituído com base em dois suportes legais autônomos, o recurso que visa ao seu cancelamento deve atacar ambos. Se a autoridade julgadora somente se manifesta acerca de um dispositivo legal, cabe ao sujeito passivo provocar o pronunciamento também a respeito do outro, pela via dos embargos declaratórios, para que haja apreciação completa da acusação fiscal. Não tendo havido a adequada caracterização da divergência de ambos os suportes jurídicos, o recurso que leva a julgamento um único dispositivo legal base do lançamento se mostra insuficiente para cancelar a acusação fiscal. ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos. A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2003 ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. Tampouco se presta o ágio criado de tal forma artificial a impactar o cálculo de ganhos de capital em operações de alienação do investimento a ele associado. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que conheceram integralmente do recurso. No mérito, (i) quanto à decadência, por unanimidade de votos, acordam em negar provimento ao recurso e (ii) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego.
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Aproveitamento tributário de ágio. Recorrente KLABIN S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF/2015. INSUFICIÊNCIA RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO. Tendo o crédito tributário sido constituído com base em dois suportes legais autônomos, o recurso que visa ao seu cancelamento deve atacar ambos. Se a autoridade julgadora somente se manifesta acerca de um dispositivo legal, cabe ao sujeito passivo provocar o pronunciamento também a respeito do outro, pela via dos embargos declaratórios, para que haja apreciação completa da acusação fiscal. Não tendo havido a adequada caracterização da divergência de ambos os suportes jurídicos, o recurso que leva a julgamento um único dispositivo legal base do lançamento se mostra insuficiente para cancelar a acusação fiscal. ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos. A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 00 01 88 /2 00 8- 36 Fl. 2336DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 3 2 ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidenciase a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. Tampouco se presta o ágio criado de tal forma artificial a impactar o cálculo de ganhos de capital em operações de alienação do investimento a ele associado. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que conheceram integralmente do recurso. No mérito, (i) quanto à decadência, por unanimidade de votos, acordam em negar provimento ao recurso e (ii) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 2337DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 4 3 (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte KLABIN S.A. em 01/09/2016, com fundamento nos arts. 64, inciso II, 67 e 68 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF/2015), em que se alega a existência de divergências jurisprudenciais acerca de matérias relacionadas à lide. A recorrente insurgese contra o Acórdão nº 1102001.182, por meio do qual os membros da 2a Turma Ordinária da 1a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF decidiram, por maioria de votos, negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário, para admitir a dedução de despesas com fiança prestada pela controladora da contribuinte. Os autos de infração objeto do presente processo trataram de uma série de infrações tributárias que a Fiscalização entendeu terem sido cometidas pela contribuinte. Entre os anoscalendário de 2003 a 2007, teriam sido indevidamente deduzidas do lucro real e da base de cálculo da CSLL despesas indedutíveis relacionadas a: (i) remuneração de aval prestado por pessoa jurídica sócia da contribuinte; (ii) pagamento de royalties a pessoa jurídica sócia da contribuinte; (iii) amortização de ágio decorrente da incorporação da empresa KLAMASA PARTICIPAÇÕES S.A. (doravante denominada KLAMASA) pela pessoa jurídica INDÚSTRIAS KLABIN DE PAPEL E CELULOSE S.A. (identificada de agora em diante apenas como IKPC); e (iv) amortização/depreciação de ágio decorrente da aquisição das ações da empresa IGARAS PAPÉIS E EMBALAGENS S.A. (citada a partir deste ponto apenas como IGARAS) pela contribuinte. O lançamento dos créditos tributários relacionados às infrações apontadas implicou na insuficiência de saldos de prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL que a contribuinte havia utilizado em compensações nos anoscalendário de 2004, 2006 e 2007. Assim, a Fiscalização também efetuou a glosa das aludidas compensações indevidas. A primeira infração identificada pela Fiscalização concerne ao tratamento tributário dado pela contribuinte aos valores pagos à sua controladora KLABIN IRMÃOS & CIA, em razão de esta lhe ter prestado garantias exigidas pelo BNDES em contratos de concessão de financiamentos. A contribuinte considerou dedutíveis as despesas relativas à comissão de aval, entendimento questionado pela Fiscalização, que defende a indedutibilidade de tais despesas como consequência de sua desnecessidade. A segunda irregularidade constante dos autos de infração também advém da discordância entre contribuinte e Fiscalização a respeito da necessidade (e consequente dedutibilidade) de despesas incorridas. A contribuinte deduziu das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL valores de royalties pagos à sua controladora KLABIN IRMÃOS & CIA e à SOGEMAR SOCIEDADE GERAL DE MARCAS LTDA. (controlada exatamente pelos mesmos sócios da contribuinte, direta ou indiretamente) em decorrência de contrato de licença para uso de marca. Fl. 2338DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 5 4 A Fiscalização considerou que tais despesas seriam desnecessárias, uma vez que os proprietários da marca cedida eram, direta ou indiretamente, proprietários da contribuinte KLABIN S.A.. Assim careceria de sentido o pagamento de royalties pela pessoa jurídica possuidora do parque industrial às empresas que a controlavam e eram, portanto, diretamente beneficiadas pelos seus resultados, por meio da distribuição de dividendos. Diante da desnecessidade de tais despesas, entendeuse desatendida a condição de dedutibilidade prevista pelo art. 352 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999) RIR/1999, dispositivo baseado no art. 71, alínea "a", da Lei nº 4.506/1964. Além disso, a Fiscalização destacou o teor do inciso I do art. 353 do mesmo RIR/1999, que expressamente declara, com fundamento na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964, que não são dedutíveis os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes. Já a terceira infração tributária apontada pela Fiscalização diz respeito ao indevido aproveitamento tributário do ágio de R$ 255.332.858,04 gerado contabilmente em operações que envolveram a contribuinte KLABIN S.A. e as empresas KLAMASA, IKPC, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e KIV PARTICIPAÇÕES S.A. (doravante mencionada apenas como KIV). Tal ágio surgiu em 24/11/2000, por ocasião da incorporação das ações da KLAMASA pela IKPC. As ações tinham o valor contábil de R$ 68.046.232,68, mas foram avaliadas em R$ 323.379.090,72 com fundamento na expectativa de rentabilidade futura da KLAMASA (cujo principal ativo eram ações da contribuinte KLABIN S.A., à época ainda denominada KLABIN RIOCELL S.A.). A diferença entre tais valores (R$ 255.332.858,04) foi registrada como ágio na contabilidade da IKPC. Em 22/10/2001, a IKPC utilizou as ações da KLAMASA (acompanhadas do ágio) para integralizar aumento de capital social da empresa INDÚSTRIAS KLABIN S.A.. Esta empresa incorporou a KLAMASA em 30/10/2001, passando a controlar diretamente as ações da contribuinte KLABIN RIOCELL S.A.. Em 31/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. utilizou o investimento que detinha junto à contribuinte para fins de aumento do capital da KIV. Por fim, em 28/12/2001, a contribuinte, já renomeada como KLABIN S.A., incorporou suas controladoras KIV, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e IKPC, trazendo para sua contabilidade o ágio associado a suas ações e passando a utilizálo tributariamente (parte teve sua amortização deduzida como despesa; parte foi baixada em 2003, por ocasião da alienação do investimento). A Fiscalização considerou que a engenharia societária promovida pelo grupo KLABIN teve o objetivo único de criar ágio que pudesse ser aproveitado para reduzir lucros tributáveis da KLABIN S.A., seu braço mercantil. Apontou a autoridade tributária que os sócios das empresas envolvidas nas operações eram os mesmos, direta ou indiretamente; que a KLAMASA foi utilizada como empresa veículo para transferir o ágio; que os valores deduzidos dos resultados tributáveis eram indedutíveis, por inexistência dos pressupostos do ágio; que configurouse no caso concreto um abuso de direito, em razão da distorção da aplicação de lei. Assim, foram glosados os valores indevidamente deduzidos, relacionados ao ágio de R$ 255.332.858,04, e realizados os consequentes lançamentos de IRPJ e de CSLL, com Fl. 2339DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 6 5 fundamento nos arts. 247, 249, 299, 386, 390 e 391 do RIR/1999, art. 2º da Lei nº 7.698/1988, art. 1º da Lei nº 9.316/1996 e art. 28 da Lei nº 9.430/1996. Por fim, o último ilícito tributário verificado pela autoridade tributária guarda relação com o ágio de R$ 570.909.159,70 associado às ações da empresa IGARAS. A contribuinte KLABIN S.A. adquiriu da empresa INDÚSTRIAS KLABIN S.A., em 10/12/2001, 100% das ações da IGARAS por R$ 704.294.450,85, valor que contemplaria: i) ágio de R$ 384.545.590,77 fundamentado na mais valia do ativo imobilizado da sociedade adquirida; e ii) ágio de R$ 186.363.568,93 baseado em expectativa de rentabilidade futura da mesma pessoa jurídica. Em 28/12/2001, a contribuinte incorporou a IGARAS e passou a concentrar, em uma mesma pessoa jurídica: o ativo imobilizado que pertencia à incorporada e a mais valia a ele atribuído; a investida e o ágio fundamentado na rentabilidade futura que dela se esperava. Assim, julgandose amparado pela regra determinada pelo art. 386 do RIR, a contribuinte passou a amortizar o ágio de R$ 384.545.590,77, fundamentado no valor de mercado dos bens do ativo da IGARAS, em 10 anos, e o ágio de R$ 186.363.568,93, fundamentado em expectativa de rentabilidade futura da IGARAS, em 5 anos. A Fiscalização se opôs à dedutibilidade de tais despesas apontando uma série de motivos que a impediriam, entre as quais se destacam: a) não se verificou, na vendedora INDÚSTRIAS KLABIN S.A., ganho de capital que justificasse o surgimento de ágio na contribuinte; b) os laudos de avaliação que embasaram a criação do ágio datam de setembro e novembro de 2001, um ano após a aquisição da IGARAS pelo grupo KLABIN; c) não houve qualquer pagamento da adquirente KLABIN S.A. à alienante INDÚSTRIAS KLABIN S.A., apenas o registro de dívida em contas credora e devedora, extintas por ocasião da incorporação da segunda empresa pela primeira. Por considerar que o ágio sob discussão teria sido gerado de forma artificial, dentro do grupo econômico, sem desembolso algum e com o único propósito de propiciar a redução de tributos a serem pagos pela contribuinte, a autoridade tributária promoveu a glosa das respectivas despesas verificadas nos anoscalendário fiscalizados e constituiu os correspondentes créditos tributários de IRPJ e CSLL. Além dos fundamentos legais já indicados no lançamento relacionado à KLAMASA, os autos de infração indicaram ainda, neste lançamento, os arts. 434 e 435 do RIR/1999 como base do lançamento. No julgamento administrativo de primeira instância, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) em São Paulo I cancelou a cobrança da CSLL relativa às glosas de despesas com a remuneração de aval e com o pagamento de royalties a pessoa jurídica sócia da contribuinte, mantendo o restante da autuação (as glosas de compensação foram devidamente ajustadas para refletir a exoneração dos créditos de CSLL). Posteriormente a 2a Turma Ordinária da 1a Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, em decisão contra a qual ora se insurge a contribuinte recorrente, negou provimento ao recurso de ofício e deu provimento parcial ao recurso voluntário apenas para cancelar a cobrança dos créditos de IRPJ relacionados à glosa das despesas decorrentes da prestação de fiança por empresa controladora da contribuinte. O acórdão recorrido foi assim ementado: Fl. 2340DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 7 6 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 REMUNERAÇÃO POR FIANÇA PRESTADA POR SÓCIO CONTROLADOR. DESPESAS NECESSÁRIAS. São dedutíveis as despesas necessárias e usuais pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa e voltadas para a manutenção da respectiva fonte produtora, nos termos do art. 299 do RIR/99. São necessárias e usuais as despesas relacionadas à remuneração por garantia prestada pelo controlador na forma de fiança em contrato de empréstimo tomado junto ao BNDES, quando o mútuo está claramente relacionado com as atividades da empresa, e o pagamento se deu com base em taxas compatíveis com as cobradas no mercado. IRPJ. ROYALTIES PAGOS A SÓCIO. DESPESA INDEDUTÍVEL. Não são dedutíveis, da base de cálculo do IRPJ, os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, por expressa vedação do art. 353, inciso I, do RIR/99 (art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964). DECADÊNCIA. FATOS COM REPERCUSSÃO EM PERÍODOS FUTUROS. É legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do procedimento fiscal para deles extrair a repercussão tributária em períodos ainda não atingidos pela decadência. Desse modo, é possível o lançamento de infrações relativas aos efeitos tributários decorrentes da amortização de ágio dos últimos cinco anos, mesmo que a origem do ágio date de período anterior, estando a empresa obrigada a manter a escrituração de fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, nos termos do art. 37 da Lei nº 9.430, de 1996. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. USO DE EMPRESA VEÍCULO. APROVEITAMENTO POR OUTRA EMPRESA DO GRUPO. PROPÓSITO NEGOCIAL. POSSIBILIDADE. Em regra, é legítima a dedutibilidade de despesas decorrentes de amortização de ágio efetivamente pago, devidamente fundamentado na mais valia do ativo ou em rentabilidade futura, e decorrente de transação entre partes independentes. Caso exista um propósito negocial válido e se demonstre ser possível a dedução do ágio por incorporação direta, não há óbices para que o grupo econômico “transfira” o ágio efetivamente pago para outra de suas empresas, aproveitandose do benefício fiscal em outra parte da estrutura societária, mesmo se para isso se utilizar de empresa veículo. Do mesmo modo que é necessário frear os planejamentos que criem benefícios fiscais aos quais o contribuinte não faça jus, não se deve permitir que um formalismo exacerbado impeça o uso de direito legitimamente adquirido. Fl. 2341DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 8 7 ÁGIO. FUNDAMENTO. DEMONSTRAÇÃO CONTEMPORÂNEA AOS FATOS. NECESSIDADE. A lei exige que o lançamento do ágio com base no valor de mercado ou na expectativa de rentabilidade futura seja baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Não há a exigência de que a comprovação se dê por laudo, mas por qualquer forma de demonstração, contemporânea aos fatos, que indique por que se decidiu por pagar um sobrepreço. Contudo, não é possível se admitir que laudo elaborado mais de um ano após os fatos, sem qualquer suporte em documentos contemporâneos à aquisição de terceiros, sirva para fundamentar o ágio em uma das modalidades que permitam o benefício fiscal. ÁGIO DECORRENTE DE REAVALIAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA A VALOR DE MERCADO. INDEDUTIBILIDADE. Não é dedutível o ágio decorrente de incorporação de ações reavaliadas a valor de mercado, por ter sido criado dentro do próprio grupo econômico, sem a ocorrência de efetivo desembolso nem tendo como contrapartida a apuração de ganho de capital. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 BASE DE CÁLCULO DA CSLL. LUCRO REAL. REGRAS DE APURAÇÃO. O artigo 57 da Lei nº 8.981, de 1995, não autoriza aplicar à base de cálculo da CSLL as mesmas regras expressamente endereçadas pela lei para a apuração do lucro real (entendimento majoritário da Turma, ressalvada a opinião do relator). CSLL. ROYALTIES PAGOS A SÓCIO. DESPESA NECESSÁRIA E DEDUTÍVEL. A regra do art. 353, inciso I, do RIR/99 (art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964), que veda a dedução de royalties pagos a sócios da base de cálculo do IRPJ, não se aplica à CSLL por falta de previsão legal. A princípio, o pagamento de royalties por marca detida por outra empresa do grupo consiste em despesa necessária e usual à atividade da empresa, em especial se, na acusação, não há qualquer ponderação sobre alguma vantagem tributária ilícita obtida com a prática. LANÇAMENTO REFLEXO DE CSLL. MESMA MATÉRIA FÁTICA Para as demais infrações, aplicase ao lançamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL o decidido em relação ao lançamento do tributo principal, por decorrer da mesma matéria fática. Recurso de Ofício Negado. Recurso Voluntário Provido em Parte. Fl. 2342DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 9 8 Os autos foram encaminhados eletronicamente à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) em 12/02/2015, dandose a intimação pessoal presumida do Procurador em 16/03/2015, nos termos do § 3º do art. 7º da Portaria MF nº 527/2010 e do art. 79 do RICARF/2015. Em 17/03/2015, a Fazenda Nacional se manifestou afirmando expressamente que não recorreria da decisão. A contribuinte foi intimada a respeito do acórdão em 24/07/2015, por meio de mensagem eletrônica enviada à sua Caixa Postal (Domicílio Tributário Eletrônico), e lhe opôs, em 27/07/2015, embargos de declaração tempestivos. Arguiu a existência de contradições entre os fatos analisados e o direito aplicado e de omissões em relação a aspectos essenciais para o julgamento da lide, vícios cujo saneamento implicaria no reconhecimento de efeitos infringentes e na consequente modificação da decisão embargada. Por meio de despacho exarado em 12/07/2016, o Presidente da 1ª Câmara da 1ª Seção não admitiu, com fundamento no art. 65, § 3º do Anexo II do RICARF/2015, os embargos de declaração manejados pela contribuinte, por entender que as situações de omissão e de contradição não estariam apontadas objetivamente e que as alegações suscitadas seriam improcedentes. Em 23/08/2016, a contribuinte foi cientificada a respeito da não admissão de seus embargos, por meio de mensagem eletrônica remetida ao seu Domicílio Tributário Eletrônico. Já em 01/09/2016, interpôs recurso especial tempestivo insurgindose contra o acórdão que apreciou seu recurso voluntário, sob a alegação de que ele teria dado à lei tributária interpretação diversa da adotada em outros processos julgados no âmbito do CARF e do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes. O recurso especial apresentado pela contribuinte contesta a interpretação adotada pelo acórdão recorrido em relação a quatro matérias: 1) dedutibilidade de royalties pagos a acionistas; 2) decadência do direito de questionar a formação dos ágios; 3) dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS; e 4) dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA. Em atendimento aos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2015, a contribuinte apontou acórdãos de turmas de câmaras do CARF, de câmaras do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes e de turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) que teriam dado aos temas combatidos interpretação diversa daquela esposada pelo acórdão recorrido. Por razões de clareza, serão separadamente analisadas as alegações perfiladas pela recorrente a respeito de cada matéria combatida. 1) Dedutibilidade de royalties pagos a acionistas A contribuinte narra que o Acórdão nº 1102001.182, ora recorrido, defende que a regra de indedutibilidade de despesas com pagamento de royalties a sócios, contida na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964 (base legal do art. 353, inciso I, do RIR/1999), aplicarseia também a pagamentos feitos a sócios pessoas jurídicas. Ao adotar tal entendimento, a decisão recorrida teria entrado em conflito com os Acórdãos nº CSRF/0104.629 (proferido pela 1ª Turma da CSRF) e nº 10806.226 (julgado pela 8ª Câmara do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes). As decisões trazidas como Fl. 2343DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 10 9 paradigmas teriam interpretado o citado dispositivo legal de forma oposta à abraçada pelo acórdão recorrido. Enquanto a decisão recorrida afirma que a expressão "parentes e dependentes", contida no dispositivo, diria respeito apenas aos dirigentes de empresas e sócios pessoas físicas, visando apenas à inclusão de novas pessoas na regra de indedutibilidade e não à exclusão das pessoas jurídicas, os acórdãos paradigmas, de modo diverso, interpretam que a presença da citada expressão leva obrigatoriamente à conclusão de que a vedação legal alcança somente sócios pessoas físicas. Assim, estaria devidamente configurada a divergência jurisprudencial necessária ao seguimento do recurso especial no que diz respeito à matéria. 2) Decadência do direito de questionar a formação dos ágios Em seguida, a contribuinte defende que não poderiam ter sido glosadas, no ano de 2008, despesas relacionadas a ágios originados em operações societárias ocorridas em 2000 e 2001, uma vez que o direito de o Fisco contestar tais operações já estaria fulminado pela decadência, quer seja pela aplicação do art. 150, § 4º, do CTN, quer seja pela inteligência do art. 173, I, do mesmo Código. Em seu favor, argumenta que o Fisco já conhecia tais operações societárias desde a sua ocorrência, graças às alterações promovidas nos cadastros das pessoas jurídicas envolvidas e às informações contidas nas suas DIPJ. Apesar disso, o acórdão recorrido teria negado a ocorrência da decadência concluindo que "é possível o lançamento de infrações relativas aos efeitos tributários decorrentes da amortização de ágio dos últimos cinco anos, mesmo que a origem do ágio date de período anterior". A recorrente defende que, dessa forma, o acórdão recorrido teria inaugurado divergência jurisprudencial frente a decisões anteriormente proferidas no âmbito do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes: Acórdão nº 10197.084 (1ª Câmara) e Acórdão nº 107 09.545 (7ª Câmara). A primeira decisão paradigma trazida ao debate contraria o entendimento adotado pelo acórdão recorrido, segundo a recorrente, ao pregar que o Fisco não pode analisar fatos ocorridos e contabilizados em períodos anteriores a cinco anos, a contar do momento da autuação. Já o segundo acórdão paradigma afirma que o Fisco até pode examinar fatos situados em períodos já alcançados pela decadência, mas não readequálos segundo seu juízo de valor. Assim, segundo esta tese, a consideração de que uma operação societária não se enquadrou nas condições legais que permitem a amortização fiscal do ágio ali originado configuraria juízo de valor a seu respeito, não podendo ser utilizada pelo Fisco para fins de lançamentos tributários. Desta forma, também em relação à questão da decadência o acórdão recorrido estaria dissonante de decisões administrativas anteriores. 3) Dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS Fl. 2344DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 11 10 A contribuinte inicia este tópico de seu recurso especial identificando a legislação tributária que teria sido interpretada de maneira divergente: arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, que correspondem aos arts. 385 e 386 do RIR/1999. O acórdão recorrido, relata a contribuinte, teria negado a dedutibilidade das despesas de amortização do ágio surgido na operação de aquisição da empresa IGARAS por conta da inexistência de demonstração do fundamento do ágio que fosse contemporânea à realização do investimento. Portanto, a demonstração exigida pelo § 3º do art. 20 do Decreto Lei nº 1.598/1977 deveria ser, impreterivelmente, um documento contemporâneo à operação de aquisição. As decisões paradigmas arroladas no recurso, Acórdão nº 1101000.899 (de lavra da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF) e Acórdão nº 1103000.960 (julgado pela 3ª Turma Ordinária da mesma Câmara), embora tenham alcançado conclusões desfavoráveis aos sujeitos passivos que figuravam nas lides, teriam, segundo a recorrente, rechaçado a razão de decidir do acórdão recorrido. Naqueles casos, o não provimento dos recursos dos contribuintes teria sido fundado em outras razões, alheias à discussão desenvolvida no presente processo. No que interessa à matéria sob discussão, a contribuinte recorrente afirma que os acórdãos paradigmas teriam entrado em conflito com a decisão combatida por trazerem as seguintes teses em seus votos condutores: Acórdão nº 1101000.899: "Isto porque a exigência legal é no sentido de que a contribuinte mantenha comprovante de escrituração que demonstre o fundamento do ágio pago. Este comprovante deve expressar razões que justifiquem a aquisição, mas não precisa ser, necessariamente, elaborado antes ou concomitantemente com a operação." Acórdão nº 1103000.960: "Na hipótese aventada não há razão para rejeição como comprovação do laudo feito posteriormente, desde que apresentados elementos complementares, como de fato aconteceu no caso sob exame, tendose em mente a inexistência de prazo fixado na legislação." Dessa forma, teria restado devidamente demonstrado, no entender da recorrente, a divergência jurisprudencial acerca do fundamento utilizado pelo Acórdão nº 1102001.182 para negar a dedutibilidade das despesas relacionadas ao ágio originado nas operações que envolveram a empresa IGARAS. 4) Dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA Por fim, a recorrente aduz ainda a existência de dissenso jurisprudencial a respeito da interpretação dada à legislação (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e art. 252 da Lei nº 6.404/1976) pelo acórdão recorrido quando concluiu pela impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio oriundo das operações de aquisição da empresa KLAMASA. Segundo a contribuinte, o acórdão recorrido teria negado o efeito tributário pretendido por ela com base na afirmação de que o ágio em questão decorreria de reavaliação de participação societária a valor de mercado efetuada por meio de incorporação de ações, sem a ocorrência de efetivo desembolso ou a verificação de ganho de capital como contrapartida. Fl. 2345DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 12 11 Ao assim decidir, a decisão recorrida teria entrado em colisão com os entendimentos constantes dos Acórdãos nº 1301001.852 e nº 1301001.297, que defendem a possibilidade de formação do ágio passível de aproveitamento tributária em qualquer forma de aquisição, independentemente de efetivo desembolso ou "entrega de dinheiro". Além disso, o acórdão recorrido teria divergido do Acórdão nº 1301001.852 ao rechaçar a possibilidade de avaliação de ações a valor de mercado na operação de incorporação de ações, tendo em vista que a decisão paradigma defende que, neste tipo de operação, as ações da incorporada devem ser entregues em substituição a novas ações emitidas pela incorporadora, com a manutenção de equivalência entre as riquezas envolvidas. Por fim, a recorrente argumenta que os acórdãos paradigmas contrariam o disposto na decisão recorrida ainda no que diz respeito à possibilidade de criação de ágio amortizável em operações entre partes relacionadas: o acórdão recorrido negou tal possibilidade no caso concreto porque o ágio sob discussão teria sido criado dentro de um grupo econômico; os acórdãos paradigmas, em sentido inverso, defendem que a legislação fiscal não veda a utilização do ágio gerado no interior de um grupo. Defendendo terem sido devidamente demonstradas as divergências jurisprudenciais a respeito das quatro matérias que combate, a contribuinte pede que seu recurso especial seja admitido e remetido para julgamento pela CSRF. Além de defender a existência de divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorrido e paradigmas em relação às matérias indicadas, a recorrente apresenta ainda uma série de alegações endereçadas à CSRF que deveriam, sob seu ponto de vista, provocar a reforma da decisão recorrida. Em suma, argumentase que: O art. 353, I, do RIR/1999, na parte em que veda a dedutibilidade dos royalties pagos a sócios pessoas jurídicas, não possui fundamento legal porque o art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei nº 4.506/1964, estabelece restrição aplicável somente a sócios pessoas físicas; A expressão "e seus parentes ou dependentes", presente na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964, leva obrigatoriamente à conclusão de que os sócios ali mencionados só podem ser pessoas físicas; A comparação do art. 353, I, do RIR/1999, com os dispositivos correspondentes nas versões anteriores do RIR (de 1966, 1975 e 1980), editadas já na vigência da Lei nº 4.506/1964, prova que a inclusão dos sócios pessoas jurídicas na vedação à dedutibilidade de pagamentos de royalties se deu de forma ilegal: as versões anteriores somente reproduziam o art. 71 da Lei, sem mencionar "pessoas jurídicas"; O RIR/1999, em seu art. 353, inciso I, teria, portanto, extrapolado a legislação que lhe serve de amparo, o que não pode ser admitido; Os ágios cujas despesas de amortização foram considerados indedutíveis pela Fiscalização foram originados em operações ocorridas e registradas nos controles fiscais e contábeis da recorrente e de outras empresas havia mais de cinco anos (anos 2000 e 2001) contadose do momento da autuação (2008). Assim, o direito de o Fisco contestar tais operações já encontravase fulminado pela decadência; Fl. 2346DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 13 12 Mesmo tendo ciência das operações desde a época de sua realização, por conta das alterações promovidas nos cadastros das pessoas jurídicas e de informações constantes de suas DIPJ, a Fiscalização somente em 2008 veio alegar a existência de irregularidades nos negócios jurídicos; A atuação da Fiscalização em 2008 não se trata de simples questionamento de dados relativos às amortizações deduzidas entre 2003 e 2007, como a aferição da correção das quotas amortizadas, mas de verdadeira discordância a respeito da validade dos negócios jurídicos realizados em 2000 e 2001, para tentar invalidar seus efeitos jurídicos e consequências fiscais; Tal intenção afronta a segurança jurídica, princípio fundamental do Estado de Direito protegido pelo instituto da decadência (art. 150, § 4º, e art. 173, I, ambos do CTN); Se o Fisco se mantém inerte ao longo dos cinco anos seguintes àquele em que o negócio jurídico foi realizado, a atividade exercida pelo contribuinte considerase homologada e não pode mais ser questionada, uma vez que, seja pela decadência, seja pela homologação tácita, extinguese o próprio crédito tributário, nos termos do art. 156, V e VII, do CTN; Em 03/10/2000, as controladoras da empresa IGARAS no exterior (RASAGI e VERYWOOD) foram adquiridas pela BAYWOOD, empresa do grupo KLABIN, por US$ 510.000.000,00, sendo que ágio de US$ 257.849.667,68 foi apurado considerandose como custo de aquisição somente o valor de US$ 400.400.000,00 (excluiuse a parcela do preço pago por meio da assunção de dívidas). O valor empregado na aquisição das empresas foi objeto de avaliação pelo BANCO CHASE MANHATTAN, que realizou estudo econômico baseado na rentabilidade esperada da IGARAS; Em dezembro de 2001, em processo de reorganização societária promovida pelo grupo KLABIN, a IGARAS passou a ser controlada diretamente pela INDUSTRIAS KLABIN S.A., que contabilizou suas ações por R$ 704.294.450,85, sem desdobrar tal valor para reconhecer o ágio. Em 10/12/2001, a contribuinte KLABIN S.A. adquiriu as ações e desdobrou seu custo para reconhecer ágio de R$ 570.909.159,70 (R$ 384.545.590,77 lastreado em mais valia do ativo imobilizado e R$ 186.363.568,93 baseado em expectativa de rentabilidade futura). Já em 28/12/2001, a contribuinte recorrente incorporou a IGARAS, passando a deduzir despesas de amortização de tais ágios; O ágio apurado na aquisição da IGARAS decorreu, portanto, de investimento por compra e venda, com pagamento em dinheiro, feita perante terceiros não relacionados ao grupo KLABIN; O sobrepreço pago em tal aquisição estava devidamente fundamentado em estudo de rentabilidade futura feito pelo BANCO CHASE em 28/06/2000, durante, portanto, as negociações de compra da IGARAS perante terceiros. Tal estudo chegou a conclusões semelhantes às alcançadas pela TREVISAN CONSULTORES, em avaliação realizada mais de um ano depois; A legislação (art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977) não obriga que o contribuinte elabore laudo antes da aquisição do investimento, tampouco condiciona a amortização fiscal à elaboração de laudo de forma prévia ou concomitante à operação. A lei exige somente uma demonstração, nada mais. Somente com a vigência da Medida Provisória nº Fl. 2347DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 14 13 627, convertida na Lei nº 12.973/2014, é que se passou a estabelecer alguns requisitos formais para o documento em questão; O fato de uma nova legislação ter introduzido formalidades e prazos em relação ao comprovante de fundamentação do ágio também deve ser interpretado como prova da inexistência de idênticas exigências no passado. Além disso, a Lei nº 12.973/2014, ao alterar a redação do § 3º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, estabelece que o laudo relativo ao ágio deve ser apresentado em até 13 meses após a aquisição do investimento. Ou seja, a exigência que passou a existir permite a elaboração de laudo posteriormente ao lançamento contábil, exatamente como verificado no caso concreto; Assim, não merece prevalecer o argumento da Fiscalização e do acórdão recorrido no sentido de que a avaliação feita em 2001 não serve como demonstrativo das razões econômicas que motivavam o pagamento do ágio em discussão, devendo ser canceladas as glosas fiscais correspondentes; Já o ágio relacionado às operações envolvendo a empresa KLAMASA surgiu em decorrência de permuta entre acionistas de empresas do grupo KLABIN, especialmente da IKPC, e vários acionistas independentes e institucionais da contribuinte KLABIN S.A., o que já é suficiente para refutar a alegação de que o ágio teria se originado em operações praticadas entre partes relacionadas; A permuta em questão, realizada em 23/11/2000, consistiu na troca de 82.893.666 ações da IKPC, possuídas pela KLAMASA (empresa criada especificamente para operacionalizar esta operação e que recebeu as ações em integralização de aumento de capital promovido pelos acionistas controladores da IKPC), a um custo de R$ 68.619.940,98, por 289.917.420 ações da contribuinte KLABIN S.A. (à época ainda denominada KLABIN RIOCELL S.A.), até então de propriedade de acionistas como BNDES, PREVI, PETROS e outros; Os valores adotados na permuta respeitaram os valores de mercado das empresas, segundo avaliação feita por empresa especializada; Neste momento, a KLAMASA fez a equivalência patrimonial do investimento e desdobrou seu valor total de R$ 240.116.940,98 em um deságio de R$ 171.497.000,00 e custo de R$ 68.619.940,98; Em conformidade com o que havia sido previamente acertado entre os permutantes, em 24/11/2000 houve a incorporação das ações da KLAMASA pela IKPC. Para tal, a IKPC emitiu mais 82.494.666 ações (mesma quantidade previamente aportada na KLAMASA para a realização da permuta), pelo valor de R$ 323.379.090,72 (foi atribuído a cada ação o mesmo valor praticado na permuta, ou seja, R$ 3,92). As ações emitidas foram integralizadas com o recebimento das ações da KLAMASA, valoradas a R$ 68.046.232,68, o que provocou a contabilização, no ativo da IKPC, de ágio de R$ 255.332.858,04; Finalizada a permuta, os acionistas da KLABIN S.A., que detinham 58.85% do capital desta empresa, passaram a possuir 11,19% do capital da IKPC. Já os acionistas da IKPC, que entregaram ações para a KLAMASA e posteriormente receberam igual quantidade de ações da IKPC na incorporação de ações, detinham participação de 49,95% no capital da empresa e ficaram, ao final, com 43,62%, tendo em vista aumento de capital subscrito apenas pelo BNDES; Fl. 2348DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 15 14 Um ano depois, em 22/10/2001, já no contexto da reorganização societária do grupo KLABIN, a IKPC transferiu seu investimento na KLAMASA, juntamente com o ágio de R$ 255.332.858,04, para a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. em operação de aumento de capital social. O deságio de R$ 171.497.000,00 permaneceu na KLAMASA; Em 30/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. incorporou a KLAMASA por valores contábeis, transferindo o ágio de R$ 255.332.858,04 da conta de investimento para seu ativo diferido. A INDÚSTRIAS KLABIN S.A. passou então a controlar diretamente a contribuinte KLABIN S.A. e o deságio de R$ 171.497.000,00, anteriormente controlado na KLAMASA, foi reconstituído na INDÚSTRIAS KLABIN S.A.; Em 31/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN transferiu seu investimento na KLABIN S.A., pelo seu valor patrimonial contábil, para sua controlada KIV, em processo de aumento de capital. O ágio de R$ 255.332.858,04 passou a ser registrado no ativo diferido da KIV. O deságio de R$ 171.497.000,00 foi realizado, com a adição do valor ao lucro real da INDÚSTRIAS KLABIN S.A.; Já em 28/12/2001, a KLABIN S.A. (que, repitase, à época ainda adotava o nome KLABIN RIOCELL S.A.) incorporou suas controladoras diretas e indiretas (IKPC, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e KIV). Com isso, o ágio de R$ 255.332.858,04 foi inserido no ativo diferido da contribuinte; O raciocínio de que o ágio sob análise seria decorrente de mera reavaliação de ações realizada entre partes relacionadas sem o efetivo desembolso, constante do acórdão recorrido, não merece prosperar uma vez que o ágio em comento nasceu em operação de incorporação de ações, efetuada no âmbito de reorganização societária realizada entre partes independentes, sob amplo escrutínio da CVM; A operação de incorporação de ações, regida pelo art. 252 da Lei nº 6.404/1976, implica em aquisição de participação societária. Se tal participação for relevante para fins de aplicação do método de equivalência patrimonial, a incorporadora obrigase à aplicação da regra de desdobramento do respectivo custo em valor de patrimônio líquido da investida e ágio ou deságio (art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977); Foi para dar cumprimento a esta regra que a IKPC, ao incorporar a totalidade das ações da KLAMASA, desdobrou o respectivo custo de aquisição em valor do patrimônio líquido e ágio; O art. 20 de DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 386 do RIR/1999 não limitam sua aplicação a operações de compra e venda, aceitando qualquer modalidade de aquisição de participação societária. Entre as modalidades possíveis, está justamente a incorporação de ações, hipótese encontrada nos presentes autos; Sendo assim, também é irrelevante a contraprestação da aquisição corresponder a pagamento em dinheiro ou a qualquer outra obrigação do adquirente; Da mesma forma, é irrelevante, para fins de reconhecimento de ágio ou deságio, a ocorrência de ganho ou perda de capital pela contraparte, ao contrário do que defende o acórdão recorrido; Fl. 2349DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 16 15 Na incorporação de ações, a apuração de ágio é mera decorrência do fato de as ações entregues pela incorporadora possuírem valor superior ao valor patrimonial das ações por ela incorporadas; Também é descabida a alegação, contida no acórdão recorrido, de que o ágio teria sido apurado entre partes relacionadas. A operação em questão, apesar de envolver partes relacionadas, também teve a participação efetiva do mercado, por conta da presença de acionistas minoritários, tendo inclusive ocorrido sob o crivo da CVM. A contribuinte encerra seu recurso especial com o pedido de que este seja conhecido, processado em seus trâmites regulares e afinal provido para cancelar integralmente as exigências fiscais objeto da lide. A irresignação da contribuinte foi submetida a juízo de admissibilidade, a fim de se verificar o atendimento aos requisitos regimentalmente exigidos dos recursos especiais. As conclusões foram expostas em despacho de 07/11/2016. O aludido despacho considerou cumpridos os requisitos formais de admissibilidade e passou a verificar a existência das alegadas divergências jurisprudenciais entre a decisão recorrida (Acórdão nº 1102001.182) e os vários paradigmas indicados. A este respeito, foram expostas as seguintes conclusões: Matéria "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas": Considerouse comprovada a existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois paradigmas indicados pela recorrente (nº CSRF/0104.629 e nº 10806.226); Matéria "decadência do direito de questionar a formação dos ágios": Entendeuse demonstrado o dissídio jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão nº 10197.084, primeiro paradigma trazido pela recorrente. Por esta razão, o cotejo com o segundo acórdão paradigma (nº 10709.545) foi considerado dispensável; Matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS": Do cotejo entre o acórdão recorrido e os acórdãos paradigmas colacionados, concluiuse que não foi comprovada a divergência jurisprudencial arguida pela recorrente, restando desatendidos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos no art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. De início, considerouse que a decisão recorrida não exige, como alega o recurso, que a demonstração do fundamento do ágio seja contemporânea aos fatos, mas apenas que o laudo, mesmo que elaborado posteriormente às operações, seja acompanhado de provas das razões que serviram de base à tomada de decisões, estas sim, por questão lógica, contemporâneas aos fatos. Além disso, em relação ao Acórdão nº 1101000.889 (primeiro paradigma), verificouse que: a questão atinente aos requisitos do laudo foi abordada como mero obiter dictum; não é possível concluir que o entendimento da Conselheira Redatora seria de fato divergente do expresso na decisão recorrida; o contexto fáticoprobatório é diverso daquele analisado no acórdão combatido. Já no que toca ao segundo paradigma, de nº 1103 000.960, também constatouse que: os excertos reproduzidos do julgado não permitem concluir que o entendimento a respeito do assunto em foco seria contrário ao exposto na decisão recorrida; os contextos fáticos esquadrinhados em cada caso são distintos; Matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA": Concluiuse pela existência de dissenso jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão nº 1301 Fl. 2350DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 17 16 001.297, segundo paradigma apontado pela recorrente. Em virtude disso, o cotejo com o primeiro acórdão paradigma (nº 1301001.852) foi dispensado; Portanto, o despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial interposto pela contribuinte decidiu por darlhe seguimento parcial. Obtiveram seguimento três das matérias recorridas: "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas", "decadência do direito de questionar a formação dos ágios" e "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA". Devidamente cientificada do despacho que deu seguimento parcial ao seu recurso especial, a contribuinte protocolou, em 16/12/2016, de forma tempestiva e com fulcro nos arts. 64, III, e 71 do Anexo II do RICARF/2015, agravo questionando a parte do despacho que negou seguimento a uma das matérias recorridas. De forma sintética, alegou o seguinte: A divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os paradigmas, no que diz respeito à matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS", deve ser observada do ponto de vista da demonstração do fundamento do ágio, conforme prega o § 3º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977; Neste contexto, é patente a divergência jurisprudencial arguida pela recorrente, já que a decisão recorrida entendeu ser imprescindível que a demonstração do ágio seja contemporânea à aquisição do investimento, enquanto as decisões paradigmas atestaram expressamente que a lei não prevê nenhum prazo para elaboração da demonstração do fundamento do ágio; Enquanto o acórdão recorrido não admitiu demonstração elaborada posteriormente à aquisição, os acórdãos paradigmas a reconheceram como válida. Assim, o fato de haver ou não elementos contemporâneos à aquisição é despiciendo, tendo em vista que a lei não fala de outros elementos, mas tão somente em demonstração a ser arquivada pelo contribuinte; Assim, no contexto da interpretação do § 3º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, não resta dúvida acerca da divergência entre os acórdãos analisados; Quanto à alegação do despacho agravado de que inexistiria similitude fática entre os acórdãos cotejados, registrese que a demonstração analítica da divergência não requer a exata identidade fática entre os arestos recorrido e paradigma. Basta, em realidade, que a mesma norma tenha sido julgada em sentidos diversos, sejam as circunstâncias fáticas dos casos sob exame iguais ou meramente similares; Ademais, é imperioso salientar que a demonstração do fundamento do ágio foi elaborado pela contribuinte no momento em que seu reconhecimento se tornou obrigatório, nos termos do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Por isso a elaboração da demonstração se deu em setembro de 2001 (época da reorganização societária do grupo KLABIN), quando passou a ser obrigatória, a despeito de a aquisição do investimento ter se dado em 2000, por pessoa jurídica sediada no exterior (não submetida à legislação tributária brasileira); Portanto, não há que se falar em extemporaneidade da demonstração elaborada pela ora agravante, haja vista que ela foi elaborada no momento em que reconhecimento do ágio era mandatório. Fl. 2351DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 18 17 Ao final, a contribuinte pede que seu agravo seja conhecido e provido para reformar o despacho de admissibilidade de modo que se dê seguimento ao recurso especial também em relação à matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS". O agravo foi rejeitado pelo Presidente da CSRF por meio de despacho exarado em 06/02/2017. Considerouse que a decisão agravada não merecia reparos, uma vez que efetivamente não existia qualquer divergência entre os acórdãos recorrido e paradigmas em relação à matéria objeto do recurso especial. Nos termos do despacho, "as singelas diferenças vislumbradas pela agravante entre os casos confrontados residem, justamente, no elemento essencial para a decisão expressa nos paradigmas: a existência de elementos contemporâneos à aquisição que se prestem como justificativa para o preço pago, posteriormente confirmados em laudo". Após a análise do agravo, o processo foi remetido à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) para fins de ciência da interposição de recurso especial pela contribuinte, assim como dos despachos que o admitiram parcialmente, em conformidade com o art. 70 do Anexo II do RICARF/2015. Em resposta, foram apresentadas, em 24/02/2017, contrarrazões às alegações da recorrente. Assim podem ser resumidas as alegações perfiladas pela Fazenda Nacional: Não há suporte hermenêutico para que se interprete de maneira restritiva o termo "sócio" contido na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964, que estabelece hipótese de indedutibilidade de despesas com pagamento de royalties. Se o legislador federal em momento algum distinguiu a pessoa física da pessoa jurídica, não pode o hermeneuta fazêlo; No presente caso, mais do que interpretar restritivamente a lei, o que a recorrente propõe é uma atuação como legislador positivo, com a inserção de distinção em momento algum veiculada no texto legal. A referência a "parentes e dependentes" não restringe o significado da palavra "sócios", pois não se trata de aposto restritivo. O que existe são diversos núcleos do objeto indireto colocados em paralelo por coordenação, conforme se nota pela utilização da conjunção aditiva "e"; Obviamente a expressão "parentes e dependentes" somente se refere aos sócios pessoas físicas, mas isso não significa, de forma alguma, que a expressão "sócios" só se refira a pessoas físicas. Neste sentido já se manifestaram a jurisprudência e a doutrina; No que toca à alegação recursal de decadência, registrese que, embora os atos que geraram os ágios glosados na autuação tenham ocorrido em 2001, a amortização desse ágio pela recorrente só se deu no decorrer de 2003 a 2007, o que motivou a adequada e pontual atuação do Fisco, em 2008, conforme fatos geradores indicados nos autos de infração de IRPJ e CSLL; O prazo decadencial aplicase à atividade tributante do Estado. Ou seja, ocorrida a materialização da hipótese de incidência tributária prevista em lei (fato gerador), o Fisco tem o prazo de cinco anos para constituir a correspondente obrigação tributária por meio do lançamento; Fl. 2352DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 19 18 Portanto, para a contagem da decadência, devese ter em mira o fato gerador da obrigação tributária. Sem a materialização de alguma hipótese de incidência prevista em lei, não há que se falar em constituição de crédito fiscal, o que, por sua vez, afasta a possibilidade de contagem do prazo decadencial. Em resumo, não havendo fato gerador, não haverá prazo decadencial a ser contado; Como o simples pagamento de um ágio na aquisição de participação societária não é fato gerador de nenhum tributo federal, não há que se cogitar da ocorrência de decadência no caso dos presentes autos; Ao adquirir uma participação societária com ágio, a pessoa jurídica adquire uma expectativa de direito de, no futuro, caso ocorra a situação prevista na legislação, poder amortizar esse valor na apuração de tributos por ela devidos. Somente a partir do momento em que a contribuinte promove o efeito tributário que entende decorrer de tal ágio é que o Fisco poderá averiguar a regularidade de sua utilização, concordando ou não com sua amortização nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL; Já em relação ao ágio originado nas operações que envolveram a empresa KLAMASA, acertou a Fiscalização ao considerálo indedutível para fins de apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, à luz dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999); De acordo com o art. 385 do RIR/1999, no caso de investimentos realizados em sociedade coligada ou controlada, em razão da aplicação do método de equivalência patrimonial, o correspondente preço de ágio deverá ser registrado pela parte que o suporta em conta distinta do valor patrimonial do investimento (desdobramento do custo de aquisição); Na apuração do lucro real e do lucro líquido das empresas, normalmente o ágio e o deságio não integram o cálculo do resultado. Via de regra, eles só serão considerados quando o investimento que lhes deu origem for alienado ou liquidado (arts. 391 e 426 do RIR/1999); A exceção a tal regra ocorre em certos casos de incorporação, fusão ou cisão, quando a dedução da amortização do ágio ou deságio na conta de resultado é admitida independentemente de alienação ou liquidação do investimento. O art. 386 do RIR/1999, repetindo os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, determina que uma empresa que absorva o patrimônio de outra em que detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 385 do RIR/1999 e baseado em expectativa de resultados futuros, pode passar a deduzir a amortização do correspondente ágio ou deságio; Ocorre que, para existir, o ágio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e um substrato econômico (transação comercial). Meros registros escriturais não podem ensejar o nascimento desta figura econômica e contábil; Por propósito negocial entendese a razão negocial que leva uma empresa a adquirir um investimento por valor superior àquele que originalmente custou ao alienante; O ágio deve sempre decorrer da efetiva aquisição de um investimento oriundo de um negócio comutativo, onde as partes contratantes, independentes entre si e ocupando posições opostas, tenham interesse em assumir direitos e obrigações correspondentes e proporcionais; Fl. 2353DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 20 19 A operação que dá origem ao ágio deve ainda ter substrato econômico, com o dispêndio de um gasto (econômico ou patrimonial) pelo adquirente e o respectivo ganho (também econômico ou patrimonial) pelo alienante. Sem essa troca de riquezas e da titularidade do investimento, não há que se falar em aquisição e, como consequência, em surgimento de ágio; A exigência do cumprimento de tais requisitos é reconhecida pela Comissão de Valores Mobiliários, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007 e pelo Conselho Federal de Contabilidade, nos termos da Resolução CFC nº 1157/2009; A aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a real materialização no mundo econômico, não é hábil a gerar ágio ou deságio; No caso sob análise, o ágio amortizado pela recorrente efetivamente não era dedutível, uma vez que não existiu de verdade, foi criado apenas no papel e não apresentou propósito negocial ou substrato econômico que justificasse seu surgimento; O ágio em questão não se fundamentou em rentabilidade futura da KLAMASA, mas da própria recorrente (o único bem possuído pela KLAMASA era seu investimento na KLABIN S.A.). Enfim, o propósito negocial das operações que originaram o ágio era sua própria criação, um fim em si mesmo; A KLAMASA teve o único papel de servir como veículo para a transferência de ações entre as empresas, com geração de ágio contábil. Cumprida tal tarefa, a empresa foi extinta logo em seguida, sem que nenhum fato externo tenha concorrido para isso; Além de não ter propósito negocial, o ágio criado com a "reorganização societária" também não apresenta substrato econômico que justifique seu surgimento. Não houve circulação de nenhuma espécie de riqueza que justificasse sua existência; Os mesmos sujeitos ocuparam indiretamente as posições de adquirente e cedente da participação societária alienada, sem a intervenção de qualquer terceiro. Assim, não houve variação patrimonial dos envolvidos, não ocorreu dispêndio de qualquer natureza e não se verificou qualquer racionalidade econômica na operação, a não ser engendrar uma economia fiscal decorrente da minoração da base de cálculo de IRPJ e CSLL; O titular de um bem não pode simplesmente lhe atribuir valor superior ao de aquisição/constituição para originar despesas que afetem seu lucro tributável. É isso que acontece quando são utilizadas operações realizadas no interior de um grupo econômico, por pessoas interligadas, em desacordo com o requisito da autonomia das partes envolvidas; Diante do exposto, concluise que o ágio objeto de discussão nos presentes autos, sendo inexistente, não é válido e não é eficaz para ser amortizado na conta de resultado da recorrente, seja pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), seja por qualquer outra norma; Na ausência de norma que excepcione a incidência de CSLL em casos como o presente, aplicase a disposição constante do art. 57 da Lei nº 8.981/1995. Além disso existe, no art. 75 da Instrução Normativa (IN) nº 390/2004, que dispõe sobre a apuração e o pagamento de CSLL, previsão de que as condições de dedutibilidade do ágio na base de Fl. 2354DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 21 20 cálculo do IRPJ, previstas no art. 386 do RIR/1999, aplicamse igualmente ao cálculo da contribuição. Por conta de tudo que expôs, a PGFN pede, ao final, que seja negado provimento ao recurso especial da contribuinte, mantendose o acórdão preferido pela Turma a quo. Os autos seguiram então para a CSRF para o julgamento do recurso especial. É o relatório. Fl. 2355DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 22 21 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator Embora o tema não tenha sido abordado nas razões que a PGFN contrapôs ao recurso especial apresentado pela contribuinte KLABIN S.A., julgo relevante examinar inicialmente a questão do conhecimento recursal no que diz respeito à dedutibilidade dos royalties pagos a sócios pessoas jurídicas. Vencida tal etapa, passarei à análise da arguição preliminar trazida pela recorrente, concernente à suposta decadência do direito de o Fisco questionar aspectos de operações societárias praticadas em períodos que antecederam a autuação em mais de cinco anos. Por fim, analisarei o mérito da controvérsia relacionada à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio oriundo das operações societárias que envolveram a empresa KLAMASA, praticadas pelo grupo econômico a que pertence a contribuinte. 1) Conhecimento do recurso especial Royalties Conforme relatado, um dos motivos que levaram a contribuinte a se insurgir contra o Acórdão nº 1102001.182 foi o fato de ter sido mantida a cobrança dos créditos tributários de IRPJ fundamentados na indedutibilidade das despesas com pagamento de royalties a sócios pessoas jurídicas. Ao tratar desta infração tributária, dispôs o Termo de Verificações Fiscais: "2 ROYALTIES (...) A legislação do Imposto de Renda esta consubstanciada nos artigos 352 e seqüentes, e determinam que: A dedução de despesas com royalties será admitida quando necessárias para que o contribuinte mantenha a posse, uso ou fruição do bem ou direito que produz o rendimento (Lei n° 4.506, de 1964, art. 71) Tratandose da necessidade, como é possível entender que os proprietários da marca que são efetivamente, direta ou indiretamente, proprietários da Klabin S/A, submeter a pagamentos de royalties pelo uso da marca justamente a empresa possuidora do parque industrial de produção, que comercializa os seus produtos e que afinal traz resultados, quase que exclusivamente, que serão distribuídos para os sócios em forma de dividendos. Outra questão que se poderia fazer é como seria a empresa se utilizasse marca diferente daquela que repercute despesas de royalties, será que influenciaria no retorno que os sócios desejariam desta empresa? Fl. 2356DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 23 22 A eventual alegação de que a klabin não pertence 100% aos sócios detentores da marca (família Klabin e família Lafer), perdese quanto se verifica que os sócios proprietários da marca são exatamente aqueles que diretamente administram o grupo de empresas que levam o nome Klabin. A resposta a esta questão só pode ser reconhecida como ação para diminuir o lucro da Klabin S/A com a geração deste tipo de despesas, e por conseqüência reduzir a carga tributária. Logo, a necessidade de uso da marca é do interesse dos sócios para que a Klabin proporcione lucros a ela própria, diferentemente de royalties pelo uso da marca feita por terceiros como acontece, por exemplo, com marcas de calçados, onde quem usa a marca o faz para obter lucratividade com o nome e o proprietário da marca recebe por emprestar o nome, e tudo o que envolve a marca, tendo ingerência na administração da empresa produtora, quanto à manutenção da qualidade dos produtos e a forma do uso da marca. Já o artigo 353 do RIR/06, é conclusivo, ao determinar que não são dedutíveis (Lei 4.506, de 1964, art. 71, parágrafo único), logo no primeiro inciso, os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes. É literal e não deixa dúvidas sobre a restrição imposta pela legislação tributaria, crivando de indedutibilidade os valores atribuídos a titulo de royalties conforme especifica. Vale citar que é perfeitamente compatível com o ordenamento jurídico, na medida em que o legislador pode restringir a dedutibilidade de custos e despesas das pessoas jurídicas, quando a incorrência desses encargos operase no campo restrito da liberalidade de seus dirigentes. Ou seja, a lei tributaria não proíbe a pratica de operações mercantis, como a celebrada entre a fiscalizada e seus controladores, mas atribuilhes efeitos próprios no campo de apuração da base tributável do IRPJ. Contribui para esta definição os dizeres do Parecer Normativo n" CST 102/75 item c — "Com efeito, as despesas com royalties são indedutiveis, por força do artigo 71, parágrafo único, alínea d, da Lei 4.506/94 (não são dedutíveis os royalties pagos a sócios...), reproduzido pelo artigo 353 do atual RIR). Referida determinação alcança tantos os royalties pagos a beneficiários aqui domiciliados como no exterior. Não se alegue, de outro lado, que o dispositivo veda a dedutibilidade apenas quando o beneficiário for pessoas física, não cerceando os pagamentos a pessoas jurídicas. A administração fazendária, em casos análogos, através dos Paraceres Normativos CST n" 241 e 871, ambos de 1971, estabeleceu entendimento que a restrição legal é extensiva também às pessoas jurídicas ". (...)" (grifouse) É de fácil percepção que a autoridade tributária determinou a glosa das despesas relativas aos pagamentos de royalties a sócios pessoas jurídicas com base em dois suportes legais autônomos: Fl. 2357DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 24 23 i) A desnecessidade de tais despesas, o que, nos termos do art. 352 do RIR/1999 (alínea "a" do art. 71 da Lei nº 4.506/1964), implica na sua indedutibilidade; ii) A correta interpretação do art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei nº 4.506/1964, é aquela dada pelo art. 353, I, do RIR/1999, qual seja, o termo "sócios" na sentença "Não são dedutíveis os 'royalties' pagos a sócios ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes" engloba tanto pessoas físicas quanto jurídicas. Pois bem. Em seu recurso voluntário, a contribuinte efetivamente ataca ambos os suportes legais do lançamento promovido pela Fiscalização, conforme se verifica nas passagens transcritas a seguir: "Inicialmente, a fiscalização alega que aquelas despesas não seriam necessárias, como requerem o art. 352 do RIR/99 e o art. 71, alínea "a", da Lei n. 4506, de 30.11.1964. Diz ela: (...) A seguir, pretende justificar a autuação com base no suposto descumprimento do art. 353, inciso I, do RIR/99, cujo fundamento legal é o art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506. Confirase: (...) A acusação fiscal, tal como definida nos autos de infração e no respectivo Termo de Verificação Fiscal, está baseada tão somente na suposta falta de necessidade das despesas, segundo o art. 352 do RIR/99, e na inobservância do art. 353, inciso I, do mesmo regulamento. Quanto à alegação de falta de necessidade, é necessário esclarecer que, ao contrário do que pretende levar a crer a fiscalização, não houve infração ao art. 352 do RIR/99. (...) O art. 352 contém norma específica para as despesas com "royalties", fato que afasta de pronto qualquer possibilidade de discussão nestes autos acerca da aplicação da regra geral de necessidade das despesas, contida no art. 299 do mesmo regulamento, conforme demonstrado nos capítulos II e III deste recurso. (...) Em suma, as despesas com "royalties", incorridas pela recorrente, são necessárias, nos termos do art. 352 do RIR/99. Superada esta questão, devese verificar que o art. 353, inciso I, do RIR/99, não serve de amparo para a glosa "sub judice". (...) Ocorre que o art. 353, inciso I, na parte em que veda a dedutibilidade dos "royalties" pagos a sócios pessoas jurídicas, não possui fundamento legal, pois nos termos do art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506, tal restrição é aplicável apenas às pessoas físicas. Confirase: Fl. 2358DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 25 24 (...) Em suma, diante do acima exposto, devese reconhecer que a vedação contida no art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506, é aplicável apenas aos "royalties" devidos a sócios pessoas físicas. Portanto, o art. 353, inciso I, do RIR/99, ao pretender estender a vedação em questão também aos sócios pessoas jurídicas, extrapolou a legislação que lhe serve de amparo, o que não é possível. (...) Destarte, conforme acima demonstrado, não é válida a norma contida no art. 353, inciso I, do RIR/99, ao pretender estender aos sócios pessoas jurídicas a vedação aplicável apenas aos "royalties" pagos a sócios pessoas físicas, nos termos art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506. Sendo o referido art. 353, inciso I, o dispositivo que serve de fundamento para o presente item da autuação "sub judice", deve ser reconhecida a sua improcedência, por evidente falta de amparo legal, devendo ser canceladas as respectivas exigências fiscais." (grifouse) Ao apreciar o recurso voluntário interposto pela contribuinte, a 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do acórdão ora recorrido de nº 1102001.182, manteve as glosas no tocante ao IRPJ nos seguintes termos, expostos no voto condutor da decisão: "Foram glosadas despesas relativas a royalties pagos a sua controladora, a empresa Klabin Irmãos & Cia (KIC), em decorrência de licença para uso de marca, no valor de 1,3657% do faturamento líquido dos produtos. A Fiscalização considerou as despesas indedutíveis nos termos do art. 353, inciso I, do RIR/99, abaixo transcrito: (...) Além disso, a autoridade fiscal considerou as despesas como não necessárias, entendendo não ser razoável se pagar royalties aos próprios proprietários da empresa. A decisão recorrida confirmou a glosa das despesas, mas exonerou a tributação da CSLL, por se entender que, nos casos de vedação de dedutibilidade da legislação do IRPJ, não existe previsão de ajuste na base de cálculo da CSLL, sendo que isso somente ocorreria nos casos de falta de comprovação ou inexistência das despesas deduzidas. Quanto à necessidade da despesa, o recorrente esclarece que não há qualquer irregularidade no fato de os direitos referentes às marcas Klabin serem detidos por pessoas jurídicas diferentes daquela que industrializa e vende os produtos que levam tais marcas, sendo que essa estrutura decorre de decisão gerencial estratégica do conglomerado econômico, cuja conveniência não pode ser questionada pela Fiscalização. Acrescenta que, se as referidas marcas são de titularidade de outras empresas do grupo, a sua utilização deve necessariamente ocorrer Fl. 2359DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 26 25 mediante cessão de direito de uso. E não há estranheza alguma em que tal cessão seja remunerada, pois se trata de contrato oneroso, isto é, no qual a uma prestação corresponde uma contraprestação. Quanto ao art. 353, inciso I, do RIR/99, na parte em que veda a dedutibilidade dos royalties pagos a sócios pessoas jurídicas, a defesa afirma não possuir fundamento legal, pois, nos termos do art. 71, parágrafo único, alínea “d”, da Lei nº 4.506, de 1964, tal restrição seria aplicável apenas às pessoas físicas. Isso tanto porque a menção a “parentes e dirigentes”, feita no dispositivo legal, obviamente a restringe a pessoas físicas, quanto pela já consolidada interpretação que se faz do art. 72, inciso I, da mesma Lei nº 4.506, de 1964, que possui idêntica redação e só tem sua aplicação admitida para pessoas físicas. Acrescenta que este Conselho pode deixar de cumprir dispositivo de regulamento que não tem base em lei, conforme se vê em inúmeros precedentes, pois seu regimento interno somente veda o afastamento de decreto por motivo de inconstitucionalidade (art. 62), e não de sua contrariedade com a lei. Quanto à CSLL, defende a manutenção da decisão recorrida, pois a indedutibilidade de royalties não se estenderia a essa contribuição por falta de previsão legal. Quanto ao recurso voluntário, entendo não possuir razão a defesa. É insuperável a vedação da dedução de despesas de royalties pagos a sócios pessoas jurídicas, nos termos do art. 353, inciso I, do RIR/99, com base legal no art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964, abaixo transcrito: (...) A defesa argumenta que: a) a menção a “parentes e dirigentes” restringe a interpretação a sócios pessoas físicas; b) formouse consolidada interpretação nesse sentido quando da análise do conteúdo do art. 72, inciso I, da mesma Lei nº 4.506, de 1964, que possuía redação semelhante, mas que se concluiu referir apenas a sócio pessoa física. Apesar de engenhosos e instigantes, os argumentos não convencem. A expressão “parentes e dependentes” diz respeito apenas àqueles a quem possa ser imputada tal relação: os dirigentes de empresas e os sócios pessoas físicas. Isto é, a lei objetivou incluir novas pessoas à regra da indedutibilidade, e não excluir os sócios pessoas jurídicas. Ademais, a jurisprudência citada a respeito da distribuição disfarçada de lucros nos termos do art. 72 da Lei nº 4.506, de 1964, limitase à leitura do dispositivo na égide do Decreto nº 58.400, de 10 de maio de 1966 (RIR/66), que não havia incluído as pessoas jurídicas no dispositivo regulamentar, sendo que as próprias decisões citadas afirmam que tal quadro se alterou com a edição dos Decretos nºs 2.064 e 2.065, ambos de 1983, quando também passou a se considerar a distribuição disfarçada de lucros em negócios realizados entre pessoas jurídicas. Fl. 2360DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 27 26 Tem sido esse o entendimento desta Casa, como demonstram as ementas abaixo transcritas: (...)" (grifouse) Verificase que o voto lavrado pelo i. Conselheiro Relator do acórdão recorrido abordou, quando da análise do recurso voluntário, somente um dos dispositivos legais apontados pela Fiscalização para fins de realização da glosa das despesas com pagamento de royalties a sócios pessoas jurídicas: a correta interpretação da alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964. E assim o fez por entender que, no tocante àquela discussão, seu entendimento acerca deste enquadramento legal específico já era suficiente para a manutenção do lançamento tributário, sendo desnecessário adentrar na seara da aplicabilidade ao caso concreto do art. 352 do RIR/1999 (art. 71, alínea "a", da Lei nº 4.506/1964), que trata da necessidade das despesas. Ocorre que o silêncio em relação ao outro suporte jurídico não tem o condão de afastálo e tornar insubsistente a acusação fiscal. Para que o cancelamento se dê deveria ter havido a apreciação completa da acusação fiscal. Registrese que o i. Conselheiro Relator até aborda a questão da necessidade das despesas, mas apenas quando aprecia o recurso de ofício que visava ao restabelecimento da cobrança dos créditos de CSLL exonerados pela decisão de primeira instância. Assim, no que tange à apreciação do recurso voluntário, o acórdão recorrido efetivamente se cala sobre a necessidade/desnecessidade das despesas. E isso se comprova facilmente pela leitura da ementa da decisão, que, no que concerne ao tema, que traz apenas: IRPJ. ROYALTIES PAGOS A SÓCIO. DESPESA INDEDUTÍVEL. Não são dedutíveis, da base de cálculo do IRPJ, os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, por expressa vedação do art. 353, inciso I, do RIR/99 (art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964). Diante deste quadro, caberia à contribuinte, caso quisesse ver julgados ambos os suportes jurídicos que a Fiscalização apontou para a glosa das despesas, ter oposto embargos declaratórios ao Acórdão nº 1102001.182 para provocar o pronunciamento da 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara a respeito da dedutibilidade de tais despesas com base no art. 352 do RIR/1999. Houve oposição de embargos à decisão, mas a questão citada não foi abordada naquela peça, que se restringiu a questionar supostas omissões e contradições relativas ao julgamento do aproveitamento tributário dos ágios oriundos das operações societárias que envolveram as empresas integrantes do grupo econômico KLABIN, notadamente a KLAMASA e a IGARAS. Restou, portanto, não apreciada a acusação fiscal da desnecessidade das despesas com pagamento de royalties aos sócios pessoas jurídicas da contribuinte. Por conta do exposto, verificase que, mesmo que a questão da dedutibilidade de royalties pagos a acionistas fosse conhecida, conforme opina o despacho que examinou a Fl. 2361DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 28 27 admissibilidade do recurso especial da contribuinte, sua discussão seria inócua para a finalidade recursal desejada pela recorrente, qual seja, o cancelamento das glosas relativas às despesas com pagamento de royalties. Isso porque, tendo o contribuinte contestado apenas um dos suportes jurídicos autônomos utilizados para tais glosas (e comprovado a existência de divergência jurisprudencial a respeito deste, como exige o art. 67 do Anexo II do RICARF/2015), os créditos tributários correspondentes não seriam cancelados ainda que esta 1ª Turma da CSRF considerasse procedentes os argumentos recursais e fosse aplicável ao caso concreto o entendimento adotado pelos acórdãos paradigmas colacionados pela recorrente. O outro dispositivo da legislação, concernente à necessidade das despesas à luz do art. 352 do RIR/1999, condição para sua dedutibilidade, não foi contestado por meio do recurso especial. Sendo assim, concluise que a matéria relativa à "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas", nos termos e com o alcance em que foi proposta pela recorrente, não deve ser conhecida por conta de sua insuficiência recursal. Significa dizer que, independentemente do resultado do julgamento da matéria em sede de recurso especial, o efeito prático seria a manutenção da exigência tributária. Diante do exposto, voto por NÃO CONHECER do recurso especial interposto pela contribuinte em relação à matéria "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas". Destaco que, no que atine às outras duas matérias que obtiveram seguimento para julgamento por esta CSRF, "decadência do direito de questionar a formação dos ágios" e "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA", adoto as razões expostas no despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial para delas CONHECER. 2) Preliminar de decadência em relação aos efeitos do ágio gerado em 2000 e 2001 A recorrente defende que o Fisco não poderia ter glosado, no ano de 2008, despesas relacionadas a ágios que surgiram em operações societárias praticadas em 2000 e 2001. Isso porque o direito de o Fisco contestar tais operações já teria sido fulminado pela decadência. As operações a que a recorrente se refere são aquelas que culminaram na criação do ágios que posteriormente ela pretendeu dedutíveis: i) Em 24/11/2000, a IKPC incorporou as ações da KLAMASA, contabilizandoas por R$ 323.379.090,72, valor em que se embutia ágio de R$ 255.332.858,04; e ii) Em 10/12/2001, a contribuinte adquiriu as ações da IGARAS junto à INDÚSTRIAS KLABIN S.A., desdobrando o preço pago em valor patrimonial e ágio de R$ 570.909.159,70. A recorrente alega que o Fisco já conhecia as operações desde a época de sua realização, por conta da entrega de DIPJ e da atualização dos CNPJ, mas que somente veio a apontar irregularidades nos negócios jurídicos em 2008, com a intenção de invalidar seus efeitos jurídicos e consequências tributárias. Fl. 2362DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 29 28 Assim, irregular seria a conduta da Fiscalização, que estaria desrespeitando a segurança jurídica, princípio fundamental protegido pelo instituto da decadência. Se o Estado quedouse inerte ao longo dos cinco anos seguintes àquele em que os negócios jurídicos foram realizados, não poderia mais questionar a atividade exercida pelo contribuinte. Em resumo, postula a recorrente o reconhecimento da decadência do direito do Fisco de questionar a legalidade de atos praticados em período já alcançado, no momento da autuação, pelo prazo decadencial de cinco anos previsto no art. 150, §4º, ou no art. 173, I, ambos do CTN. Pois bem. O instituto da decadência tributária visa a limitar, no tempo, o direito do Fisco de constituir créditos tributários por meio do lançamento, sendo regido pelos arts. 173 e 150 do CTN. O primeiro dispositivo traz, em seu inciso I, a regra geral da decadência, que reza que o direito da Fazenda Pública de constituir o crédito tributário se extingue com o esgotamento do prazo de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento tributário poderia ter sido efetuado. Já o §4º do art. 150 prevê a regra a que se submetem os tributos sujeitos ao lançamento por homologação: se a Fazenda Pública não se pronunciar em cinco anos a partir da ocorrência do fato gerador do tributo, o lançamento é homologado e o respectivo crédito, extinto. In verbis: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. (...) Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Observase que os dois dispositivos têm algo em comum: ambos baseiamse no fato gerador dos tributos para estabelecer o marco temporal inicial da contagem do prazo decadencial. No caso do art. 173, inciso I, a contagem se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a autoridade tributária já poderia ter realizado o lançamento, motivado, logicamente, pela verificação do fato gerador. Já na previsão contida no §4º do art. 150, a própria ocorrência do fato gerador inaugura o decurso do prazo decadencial. Fl. 2363DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 30 29 Os presentes autos tiveram origem em autos de infração referentes a dois tributos: IRPJ e CSLL. Observese o que a legislação específica estabelece para tais tributos: Decreto nº 3.000, de 26/03/1999 (Regulamento do Imposto de Renda) Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. (...) Lei nº 7.689, de 15/12/1988 Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. a) será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; c) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: (...) O fato gerador do IRPJ é, portanto, a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza. Já o fato gerador da CSLL, embora o dispositivo legal não seja explícito a este respeito, é a ocorrência de resultado ajustado positivo no exercício financeiro, antes da provisão para o imposto de renda. Assim, só há sentido em se discutir decadência de lançamento relativo ao IRPJ e à CSLL a partir do momento em que ocorrem tais fatos geradores, por determinação expressa dos arts. 150, §4º, e 173, inciso I, do CTN. A recorrente defende a tese de que a contagem do prazo decadencial se iniciaria com as operações societárias ocorridas em 2000 e 2001, ou com o registro dos ágios decorrentes de tais operações na contabilidade das empresas IKPC e KLABIN S.A., ou ainda com a entrega ao Fisco das informações atinentes a tal contabilização. Segundo a teoria exposta, feitos os registros contábeis referentes aos atos societários que deram origem ao ágio, se estes não forem contestados pela Administração Tributária dentro de cinco anos, receberiam uma espécie de "homologação tácita" e seu aproveitamento fiscal estaria autorizado, também de forma tácita. Fl. 2364DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 31 30 Não existe fundamento jurídico que possa sustentar a tese desenvolvida pela recorrente. O instituto da decadência tributária tem o nobre propósito de evitar surpresas na relação entre contribuintes e Estado, homenageando o princípio da segurança jurídica. Todavia, ele não existe de forma independente, desvinculada dos fatos geradores dos tributos. Não é razoável cogitarse da existência de decadência para cada ato societário, cada registro contábil, cada transação realizada. Tais eventos indubitavelmente fazem parte da rotina das pessoas jurídicas, mas somente quando implicam na ocorrência do fato gerador de um tributo específico é que se pode falar em início da contagem de prazo decadencial. O simples registro do ágio na contabilidade da recorrente ou da IKPC ou ainda a sua transferência a outras empresas do mesmo grupo econômico não poderiam ser objeto de glosa ou de lançamento tributário por parte da autoridade fiscalizadora. A presença do ágio nos livros contábeis não provoca redução de crédito tributário, majoração de prejuízo fiscal ou causa para lançamento de multa isolada. Assim, não havia obrigação de atuação por parte do Fisco que pudesse provocar a fluência de prazo decadencial contra ele. Os arts 385 e 386 do RIR/1999 prevêem que a pessoa jurídica que incorporar outra em que detenha participação societária (ou for por ela incorporada), com a contabilização de ágio fundamentado na expectativa de resultados futuros, passa a ter um potencial direito de, no futuro, caso sejam cumpridos os demais requisitos exigidos pela legislação, usufruir da possibilidade de utilização das despesas decorrentes da amortização de tal ágio como deduções na apuração do IRPJ e da CSLL devidos. Algo semelhante se dá em relação à teórica possibilidade de utilização de ágio contabilizado anteriormente para fins de integração ao valor contábil de participação societária alienada ou liquidada no futuro, conforme previsão do art. 426 do RIR/1999. Somente quando o contribuinte faz uso destes direitos que entende lhe caberem, é que surge a obrigação da autoridade tributária de verificar a correção dos procedimentos adotados e dos valores apurados a título de IRPJ e de CSLL. Se os tributos forem apurados de forma incorreta, a valor menor, em razão da utilização de ágio tributariamente imprestável ou do não cumprimento de todas as exigências legais, passa a existir um fato que demanda a atuação do Fisco. Somente a partir do momento em que ocorrem os fatos geradores destes tributos, portanto, é que se passa a discutir decadência. O prazo decadencial aplicável a esta hipótese delimita o tempo de que o Fisco dispõe para averiguar a utilização, pelos contribuintes, do ágio, contabilizado em anos anteriores, para fins de redução dos tributos relativos aos anos posteriores. No caso da presente lide, os créditos tributários lançados referemse aos anoscalendário de 2003 a 2007. Assim, se considerarmos aplicável ao caso o §4º do art. 150 do CTN (hipótese mais benéfica à recorrente), a autoridade tributária teria até o fim do ano de 2008 (cinco anos contados dos fatos geradores dos tributos) para verificar a utilização do ágio na apuração dos tributos relativos a 2003 (primeiro anocalendário autuado), homologando sua utilização ou glosando as parcelas dela decorrentes. Como a ciência da contribuinte a respeito das mencionadas glosas se deu em 08/12/2008, nenhuma irregularidade é identificada na atuação estatal. Além disso, registrese que a atuação do Fisco pode desconstituir a utilização fiscal do ágio, caso as condições legais estabelecidas pelos arts. 385, 386 ou 426 do RIR/1999 não tenham sido cumpridas, mas não a sua contabilização. O ágio contábil permanece na escrituração dos contribuintes, fato que reforça a ideia de que a atuação da autoridade tributária Fl. 2365DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 32 31 não afeta, efetivamente, fatos ocorridos e já alcançados pela decadência, mas apenas seus efeitos verificados em anos ainda não decaídos. O entendimento exposto neste voto é corroborado pela Lei nº 9.430/1996, na parte em que dispõe a respeito da obrigação de guarda de documentos pelos sujeitos passivos: Art. 37. Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. Ao determinar que os comprovantes de escrituração relativos a fatos que repercutam no futuro devem ser guardados pelos sujeitos passivos até o momento em que se opere a decadência do direito de constituição dos créditos tributários relativos a estes exercícios (os futuros), a legislação explicita que os fatos comprovados pela documentação não inauguram a contagem do prazo decadencial, mas sim os fatos geradores dos tributos que devem ser apurados e recolhidos nos exercícios posteriores. O CARF já teve oportunidade de se pronunciar acerca da tese apresentada pela recorrente. Em recente julgamento de recurso voluntário nos autos do processo nº 10183.723840/201320, a 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara apreciou alegação exatamente igual à levantada no recurso especial sob análise. No Acórdão nº 1301002.019, restou assim ementada a decisão relativa a tal discussão: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TERMO INICIAL. Em relação à decadência, a contagem do prazo deve ter como base a data a partir da qual o Fisco poderia efetuar o lançamento, ou seja, a data do fato gerador da obrigação. Sob essa ótica, para efeito de tributação da amortização indevida do ágio, a simples apuração desse ágio não dá azo a qualquer infração a qual só poderia, eventualmente, caracterizarse quando da amortização. Isso porque o valor amortizado é despesa que reduz o resultado tributável gerando, quando indevida, a infração passível de lançamento. Do voto que prevaleceu em relação a esta matéria naquele julgamento, reproduzse o excerto: "Como preliminar, inicialmente, a recorrente insurgese contra a decisão da Turma Julgadora a quo que decidiu no sentido de que o termo inicial para a contagem do prazo decadencial seria contado a partir do início da sua amortização (anocalendário 2009) e não quando da apuração do ágio (ano calendário 2007). Com relação a decadência, a contagem do prazo deve ter como base a data a partir da qual o Fisco poderia efetuar o lançamento, ou seja, a data do fato gerador da obrigação. Sob essa ótica, para efeito de tributação da amortização indevida do ágio, a simples apuração desse ágio não dá azo a qualquer infração a qual só poderia, eventualmente, caracterizarse quando da sua amortização. Isso porque o valor Fl. 2366DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 33 32 amortizado é despesa que reduz o resultado tributável gerando, quando indevida, a infração passível de lançamento. Assim, o prazo decadencial deve ter como referência o período de apuração onde tenha ocorrido a amortização/dedução. No caso sob exame, a amortização iniciouse no anocalendário de 2009, como a ciência dos autos deuse em 24/09/2013, rejeito a preliminar da decadência conforme suscitada." (grifouse) Diante de tudo o que foi exposto, entendo que não existe decadência a afetar o lançamento dos créditos tributários objeto dos presentes autos. Os autos de infração foram lavrados em 2008, tendo por base fatos geradores de IRPJ e de CSLL ocorridos de 2003 a 2007, não os ágios registrados em 2000 e 2001. Assim, relativamente à alegação preliminar de decadência, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte. 3) Possibilidade de aproveitamento tributário do ágio criado nas operações que envolveram a KLAMASA O último ponto de debate nos presentes autos, entre aqueles que foram objeto do recurso especial da contribuinte e obtiveram seguimento para esta CSRF, diz respeito à regularidade do procedimento adotado pela recorrente (e condenado pela Fiscalização) de promover o aproveitamento tributário, no anocalendário de 2003, do ágio registrado na contabilidade da IKPC por ocasião da incorporação das ações da KLAMASA, em novembro de 2000. Inicialmente, esclareçase que, embora os autos de infração que originaram o presente processo se refiram aos anoscalendário de 2003 a 2007, no caso específico da infração associada ao ágio oriundo das operações que envolveram a empresa KLAMASA, só houve lançamento tributário relativo ao anocalendário de 2003. Conforme se verifica na tabela apresentada pela contribuinte ainda na fase de fiscalização, à fl. 83, e reproduzida no Termo de Verificações Fiscais à fl. 1.183 (numeração referente ao processo digital), a contribuinte também promoveu, ao longo do ano de 2002, a dedução de despesas decorrentes da amortização de parte do ágio originalmente registrado de R$ 255.332.858,04. Contudo, como tal período já se encontrava decaído em dezembro de 2008, época da formalização dos autos de infração, somente foram lançadas as glosas do saldo aproveitado em 2003, de R$ 195.755.191,20. Zerado tal saldo ainda em 2003, não houve reflexos tributários nos anos seguintes. O ágio de R$ 255.332.858,04 objeto da controvérsia surgiu em novembro de 2000 como desdobramento de um processo de permuta entre ações da IKPC e da contribuinte, que à época ainda atendia pelo nome de KLABIN RIOCELL S.A.. Foram permutadas, em 23/11/2000, 82.893.666 ações da IKPC, de propriedade da KLAMASA, por 289.917.420 ações da contribuinte KLABIN S.A., até então detidas por acionistas como BNDES, PETROS, PREVI e outros. A contribuinte alega que os valores atribuídos às ações permutadas (R$ 3,92 cada ação da IKPC; R$ 1,12 cada ação da KLABIN S.A.) respeitaram o valor de mercado de cada empresa, segundo avaliação realizada por empresas especializadas. Com base neste valor de mercado é que foi estabelecida a taxa de troca entre as ações, de aproximadamente 3,5 ações da KLABIN S.A. para cada ação da IKPC. Fl. 2367DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 34 33 Ocorre que as ações da IKPC possuídas pela KLAMASA estavam registradas por um custo de R$ 68.619.940,98, resultado da soma de R$ 68.127.000,49 (valor contábil das 82.494.666 ações da IKPC conferidas em aumento de capital da KLAMASA em 31/08/2000) e R$ 492.940,49 (valor pago pela KLAMASA na aquisição de mais 398.906 ações da IKPC para completar a quantidade que se pensava inicialmente ser necessária para a permuta que estava por vir). A partir dos números apresentados, podese calcular que o valor contábil de cada ação da IKPC detida pela KLAMASA, antes da permuta, era de aproximadamente R$ 1,21. No dia seguinte à permuta (24/11/2000), com o intuito de incorporar as ações da KLAMASA, a IKPC emitiu mais 82.494.666 ações, pelo valor de R$ 323.379.090,72 (adotouse para cada ação emitida o valor de mercado de R$ 3,92, o mesmo utilizado anteriormente para fins de cálculo da taxa de permuta de 3,5 para 1). As ações emitidas foram integralizadas pelos acionistas da KLAMASA por meio da entrega da totalidade das ações desta empresa, a um valor contábil de R$ 68.046.232,68. Por conta da diferença entre o valor de mercado que atribuiu a suas próprias ações (R$ 323.379.090,72) e o valor contábil pelo qual recebeu as ações da KLAMASA (R$ 68.046.232,68), a IKPC registrou ágio de R$ 255.332.858,04 associado a tal investimento. Destaquese que o único ativo relevante detido à época pela KLAMASA eram as ações da contribuinte KLABIN S.A. recebidas em permuta pelas ações da IKPC. Já no contexto da reorganização societária do grupo KLABIN, em 22/10/2001, a IKPC utilizou seu investimento na KLAMASA, devidamente acompanhado do ágio, para integralizar aumento de capital da INDÚSTRIAS KLABIN S.A.. Em 30/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. incorporou a KLAMASA a valores contábeis, passando a registrar o ágio de R$ 255.332.858,04 em seu ativo diferido e a controlar de forma direta a contribuinte KLABIN S.A.. No dia seguinte, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. transferiu, em procedimento de aumento de capital, seu investimento na contribuinte KLABIN S.A., a valores patrimoniais, para sua controlada KIV, que registrou em seu ativo diferido o ágio associado à participação societária recebida. Por fim, em 28/12/2001, a KLABIN S.A. incorporou suas controladoras IKPC, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e KIV, trazendo o ágio de R$ 255.332.858,04 para sua contabilidade. Julgandose amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), a contribuinte passou a promover, durante os anoscalendário de 2002 e 2003, o aproveitamento tributário do ágio, por meio da dedução das despesas decorrentes de sua amortização e de sua baixa para alienação de investimento (conforme já se mencionou, apenas os efeitos tributários observados no ano de 2003 foram considerados para fins de autuação, uma vez que o anocalendário de 2002 já se encontrava decaído). Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: Fl. 2368DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 35 34 I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, Fl. 2369DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 36 35 antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Fl. 2370DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 37 36 Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção referese a transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de Fl. 2371DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 38 37 mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 1 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 2372DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 39 38 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. 3 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 2373DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 40 39 O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição Fl. 2374DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 41 40 da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). Fl. 2375DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 42 41 §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e Fl. 2376DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 43 42 outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A 5 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 2377DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 44 43 (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra Fl. 2378DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 45 44 fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 2379DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 46 45 sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo §6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu §6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, o ágio que a contribuinte pretendeu aproveitar tributariamente teve origem em 24/11/2000, quando a IKPC incorporou a totalidade das ações da KLAMASA, atribuindo a elas um valor de mercado de R$ 323.379.090,72. Como Fl. 2380DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 47 46 tais ações tinham um valor contábil de R$ 68.046.232,68, a diferença entre o "custo de aquisição" e o "valor patrimonial" das ações incorporadas (R$ 255.332.858,04) foi registrado pela IKPC como ágio. Quase um ano depois, este ágio foi transferido entre empresas do grupo: (i) em 22/10/2001, a IKPC o transferiu à INDÚSTRIAS KLABIN S.A. em integralização de aumento de capital; (ii) em 31/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN o transferiu, após ter incorporado a KLAMASA, à KIV, também em integralização de aumento de capital; (iii) em 28/12/2001, a contribuinte KLABIN S.A. o trouxe para sua contabilidade por meio da incorporação da KIV. Como o ágio fora originalmente atribuído à expectativa de rentabilidade futura da KLAMASA, cujo único ativo relevante à época eram as ações da KLABIN S.A., a contribuinte considerou que tinha reunido na mesma entidade, a partir de 28/12/2001, o ágio e o investimento cuja expectativa de resultados lhe servira como fundamento. Assim, julgando se amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), passou a deduzir, nos anoscalendário de 2002 e 2003, despesas decorrentes da amortização do ágio das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ocorre que o entendimento defendido pela contribuinte não tem amparo nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou a ser absorvida por ela, no caso da incorporação "às avessas") tenha acreditado na "mais valia", feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado os recursos para a aquisição do investimento. Verificando as operações societárias que envolveram a empresa KLAMASA, descritas nos autos, é incontroverso que não houve desembolso algum, por qualquer das partes envolvidas, que justificasse o surgimento do ágio de R$ 255.332.858,04. Este número adveio simplesmente da diferença entre o valor de mercado atribuído a 82.494.666 ações da IKPC emitidas em 24/11/2000 (para fins de incorporação das ações da KLAMASA) e o valor contábil de 82.494.666 ações da mesma IKPC emitidas em 31/08/2000 (conferência em aumento de capital da KLAMASA para fins de realização da permuta por ações da contribuinte KLABIN S.A.). Em agosto de 2000, as ações da IKPC foram transferidas à KLAMASA pelo valor contábil de R$ 1,21 cada uma. Como consequência, o valor contábil das ações da KLAMASA, incorporadas pela IKPC em 24/11/2001, totalizou R$ 68.046.232,68. Mas em novembro de 2000, ao dimensionar o "custo de aquisição" das ações da KLAMASA que incorporou, a IKPC valorou as ações que emitiu a R$ 3,92 cada uma (segundo a recorrente, tratarseia do seu valor de mercado). Por conta disso, o custo de aquisição das ações da KLAMASA foi calculado em R$ 323.379.090,72. A partir destes valores, chegouse a diferença de R$ 255.332.858,04, que foi denominada de ágio. Fl. 2381DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 48 47 Concluise, portanto, que não houve desembolso algum por quaisquer das partes envolvidas e que o ágio efetivamente decorreu de mera reavaliação das ações da IKPC. Entre agosto e novembro de 2000, cada ação desta empresa teve uma valorização de quase 224%, passando de R$ 1,21 (valor considerado para formação do valor contábil das ações da KLAMASA, em virtude da utilização de ações da IKPC na integralização de seu aumento de capital) para R$ 3,92 (valor de mercado atestado por empresa especializada). Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de "confusão patrimonial" entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a "mais valia" paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os contribuintes dêem por perdido o capital investido na "mais valia" e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal "mais valia", não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a amortização operada pela recorrente não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliação do valor de mercado das ações da empresa IKPC, não tendo sido verificado nenhum dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. É indiferente para tal conclusão o fato de, ao final das operações societárias promovidas pelo grupo KLABIN, estarem reunidos no patrimônio da contribuinte KLABIN S.A. o ágio de R$ 255.332.858,04 (que, no fim das contas, fundamentouse na expectativa de sua rentabilidade futura, uma vez que o ativo da KLAMASA resumiase a ações da recorrente) e o investimento que lhe serviu de fundamento. Sem a realização de investimento efetivo que justifique o nascimento do ágio, não há que se falar na ocorrência de confusão patrimonial que possibilite a dedutibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. Fl. 2382DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 49 48 O ágio inicialmente contabilizado pela IKPC e posteriormente incorporado pela recorrente foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienante. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isso só foi possível por causa do vínculo existente entre as empresas IKPC e KLAMASA. Conforme demonstrado pela própria recorrente, a KLAMASA foi constituída por parte dos acionistas da IKPC para operacionalizar a permuta de ações desta empresa por ações da contribuinte, à época ainda chamada de KLABIN RIOCELL S.A.. Embora a IKPC tivesse ações negociadas em bolsa da valores, apenas 24,35% de seu capital se encontrava distribuído desta forma. Em outras palavras, as decisões do grupo KLABIN (a partir de sua controladora IKPC) estavam concentradas nas mãos de dois grupos que a recorrente identificou da seguinte forma nos slides que acompanharam seu recurso especial (fls. 2.164 a 2.174): CONTROLADORES (NIBLAK e irmãos KLABIN) e ACIONISTAS PF. As mesmas pessoas, portanto, controlavam a IKPC e a KLAMASA à época das operações que geraram o ágio contábil de R$ 255.332.858,04. Somente por esta razão foi possível a absurda valorização de 224%, em um período de três meses, atribuída às ações da IKPC, que gerou a diferença milionária entre o valor contábil das ações da KLAMASA e o valor pelo qual elas foram incorporadas em seguida. A circulação de riquezas requerida pelo art. 386 do RIR/1999, para fins de caracterização do aspecto pessoal da hipótese de incidência, requer obrigatoriamente a participação de um terceiro, externo ao grupo econômico que negocia a participação societária, especificamente na operação que fixa o "custo de aquisição", o "valor de mercado", que será empregado no cálculo do ágio. É neste momento que a participação de um terceiro é necessária, porque somente desta forma é possível garantir que o valor praticado na "aquisição" do investimento é verossímil e apto a ser utilizado como parâmetro de cálculo de um ágio que poderá ser posteriormente convertido em vantagens tributárias para o adquirente da participação societária. No caso concreto, os controladores da IKPC poderiam determinar, em última instância, qualquer valor de "alienação" para as ações da KLAMASA que foram incorporadas em 24/11/2000 porque ocupavam, simultaneamente, as posições de alienante e adquirente da participação societária. Não há sentido em se cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente pelos controladores, sem que o valor estipulado para a "mais valia" passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro nãorelacionado, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). A participação, no processo de reorganização societária do grupo, de acionistas independentes da KLABIN RIOCELL S.A., como BNDES, PREVI, PETROS e outros, não muda tal análise por dois motivos: i) No momento da permuta, para estes acionistas houve efetivamente uma simples troca de ações da KLABIN RIOCELL S.A. por ações da IKPC, valor a valor, de acordo com a proporção de 3,5 para 1 estabelecida a partir dos valores de mercado estimados para as empresas envolvidas. Assim, tais acionistas não tinham ingerência ou interesse direto Fl. 2383DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 50 49 na fixação dos valores do custo contábil e custo de aquisição das ações da KLAMASA pela IKPC, que afetaram diretamente o valor do ágio que veio a ser registrado; ii) Ainda que não tivessem interesse direto na fixação dos valores que impactaram o cálculo do ágio, o interesse indireto que tais acionistas poderiam ter em tal ágio era convergente com o dos controladores da IKPC: como passariam a ser controladores indiretos da KLABIN S.A., uma futura majoração dos resultados e dividendos desta empresa (em virtude da redução de tributos a serem pagos) lhes beneficiaria, notadamente porque não tiveram que realizar desembolso algum por ocasião da formação do ágio que possibilitaria tal vantagem tributária. Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de todos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas estarem submetidas a controle comum adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar todas as partes envolvidas. Embora a contribuinte tenha argumentado que a utilização tributária do ágio de R$ 255.332.858,04 se fundamentou no disposto do art. 386 do RIR/1999, verificase que considerável parte deste ágio foi baixada no anocalendário de 2003, não como despesa de amortização, mas como baixa por alienação de investimento. É o que depreende das respostas que a contribuinte prestou às intimações feitas pela autoridade tributária. À fl. 83, a contribuinte apresenta tabela que mostra que o saldo de R$ 195.755.191,20 de ágio que existia na sua contabilidade ao final de 2002 foi utilizado da seguinte forma: Verificase que houve um lançamento em 30/06/2003 no valor de R$ 25.533.285,80, a título de "Amortização mensal Jan a Jun 2003" e mais dois lançamentos, em 30/06/2003 e 31/07/2003, com valores de R$ 68.088.762,16 e R$ 102.133.143,24 respectivamente, identificados como "Baixa pela alienação de investimento". Na resposta que consta à fl. 113 dos presentes autos, a contribuinte confirma tais informações e explica que o primeiro lançamento se deu a débito da conta "3180201094 Amortização de Ágio Empresas Incorporadas" e os dois últimos, a débito da conta "3310203000" Resultado Não Operacional Outros Ganhos e Perdas". Fl. 2384DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 51 50 Estas informações sugerem que, dos R$ 195.755.191,20 que a contribuinte utilizou para fins tributários em 2003 e que foram glosados pela Fiscalização, R$ 25.533.285,80 foram deduzidos das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL como despesas de amortização e os R$ 170.221.905,40 restantes foram utilizados para reduzir a tributação sobre ganhos de capital auferidos sobre investimentos alienados. Outro indício de que o aproveitamento tributário dos R$ 170.221.905,40 não se fundamentou no art. 386 do RIR/1999 é o fato de que a utilização do ágio não se deu em parcelas mensais (mínimo de 60), como determina aquele dispositivo, mas em apenas duas parcelas (junho e julho de 2003) que, juntas, totalizaram dois terços de todo o ágio contabilizado em 2000, por ocasião da incorporação da KLAMASA pela IKPC. Diante deste quadro, uma hipótese bastante factível é que a contribuinte tenha julgado que o aproveitamento tributário da parcela de R$ 170.221.905,40 do ágio estaria albergada na previsão contida no art. 426 do RIR/1999 (já mencionado neste voto), que trata da alienação de investimento avaliado pelo método da equivalência patrimonial: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. Ocorre que, a exemplo do que se verificou em relação à aplicabilidade dos arts. 385 e 386 do RIR/1999 (reproduções do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1977), também a regra insculpida no art. 426 do RIR/1999 (cópia do art. 33 do DecretoLei nº 1.598/1977, na redação vigente à época) exige a existência de ágio real, surgido em operações dotadas de propósito negocial e substrato econômico. Só se pode cogitar de aproveitamento tributário de ágio que seja real, o que só ocorre a partir do momento em que uma pessoa jurídica ou física investidora se dispõe a pagar pelo sobrepreço. O "pagamento do sobrepreço" aqui referido não tem que se dar necessariamente por meio do desembolso de valores monetários, mas exigese a existência de alguma operação que gere ganhos para o alienante e gastos proporcionais para o adquirente. Em outras palavras, exigese a ocorrência de variações patrimoniais para os envolvidos, em valores condizentes com o negócio celebrado. No caso dos autos, já analisado neste voto, os controladores da IKPC atribuíram um valor contábil às ações da KLAMASA a partir do valor de suas próprias ações conferidas em aumento de capital. Três meses depois, por meio de reavaliação de suas ações a Fl. 2385DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 52 51 valor de mercado, designaram um valor consideravelmente superior ao primeiro, como custo de aquisição das ações da KLAMASA que a IKPC incorporou. Da diferença entre tais valores, surgiu o ágio contábil de R$ 255.332.858,04. Ou seja, o ágio inicialmente registrado na IKPC e posteriormente incorporado pela recorrente KLABIN S.A. foi criado sem troca alguma de riquezas entre adquirente e alienante. Tratouse de um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. O ágio surgiu de forma artificial, em ambiente em que não imperava a livre concorrência. Os controladores da IKPC, por meio de uma ação determinada unicamente por eles, converteram um direito seu em outro, de maior valor (mantiveram o controle sobre as empresas do grupo KLABIN, mas "turbinado" por um ágio milionário). Não é possível cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente pelos sócios controladores de uma empresa, sem que o valor estipulado para a "mais valia" passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). Portanto, concluise que também o ágio de R$ 170.221.905,40 (utilizado pela contribuinte para reduzir as bases de cálculo de IRPJ e CSLL em junho e julho de 2003), ainda que não tenha sido amortizado com base no art. 386 do RIR/1999, é imprestável para fins tributários por ter sido gerado de forma artificial por meio de operações celebradas entre partes vinculadas. Este entendimento é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operação societária envolvendo apenas empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: "Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de Fl. 2386DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 53 52 substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade." (Grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação." Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 “O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado.” Resolução CFC nº 1.303/2010 "48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo." Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, ao período em que o grupo econômico a que pertence a recorrente praticou operações societárias que pretensamente originaram o ágio passível de aproveitamento tributário (2000). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: "RELATÓRIO Fl. 2387DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 54 53 No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Oficio Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007,(...) SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do Oficio Circular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, §1º da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas "o mais antigo e discutido principio de contabilidade" — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse principio foi expressamente reconhecido na "Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade" desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Portanto, ainda que o OficioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em "mudança de critério contábil" (grifouse). Concluise, portanto, que as próprias Ciências Contábeis têm restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas entre partes vinculadas e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário diferenciado para tal situação, forçoso se faz concluir pela inutilidade do ágio discutido nestes autos para os fins tributários pretendidos pela recorrente. Fl. 2388DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 55 54 Assim, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte também no que diz respeito ao pedido de cancelamento das glosas relativas ao ágio oriundo das operações que envolveram a empresa KLAMASA, mantendo os lançamentos de IRPJ e CSLL realizados pela Fiscalização. Desse modo, sumariando os entendimentos expostos, voto no sentido de NÃO CONHECER do recurso especial interposto pela contribuinte em relação à matéria "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas" e, na parte conhecida, por NEGAR PROVIMENTO tanto ao pedido de reconhecimento da decadência do direito do Fisco de contestar os efeitos tributários de ágio gerado em 2000 e 2001 quanto ao pleito de cancelamento das glosas relacionadas à utilização tributária do ágio criado nas operações que envolveram a KLAMASA. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 2389DF CARF MF
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