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Numero do processo: 10875.901218/2013-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2004
CRÉDITOS DE PIS E COFINS. DEDUÇÃO.
A sistemática de apuração do lucro líquido, que após as adições e exclusões legais, resulta no lucro real e na base de cálculo da CSLL, já prevê a dedução dos créditos de PIS e Cofins apurados sobre os insumos consumidos pelo contribuinte; deduzir mais uma vez resultaria em duplicidade, sem previsão legal.
Numero da decisão: 1201-001.787
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA
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DEDUÇÃO. A sistemática de apuração do lucro líquido, que após as adições e exclusões legais, resulta no lucro real e na base de cálculo da CSLL, já prevê a dedução dos créditos de PIS e Cofins apurados sobre os insumos consumidos pelo contribuinte; deduzir mais uma vez resultaria em duplicidade, sem previsão legal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 87 5. 90 12 18 /2 01 3- 71 Fl. 414DF CARF MF Processo nº 10875.901218/201371 Acórdão n.º 1201001.787 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o processo de Declaração de Compensação PER/DComp em que o contribuinte requer direito creditório, para compensar débitos. O Despacho Decisório não reconheceu o crédito e não homologou a compensação declarada, determinando o prosseguimento na cobrança dos débitos indevidamente compensados, acrescidos de multa e juros de mora. Regularmente cientificado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, que foi julgada improcedente. Cientificado, apresentou Recurso Voluntário tempestivo ao CARF, sintetizado a seguir. Informa que é contribuinte do Programa de Integração Social PIS e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins, instituídos pela Lei nº 10.637 de 30 de dezembro de 2002 e Lei nº 10.833, de 28 de dezembro de 2003, respectivamente. Afirma que a nãocumulatividade destas contribuições trazidas por estas legislações, criou uma nova materialidade tributária, qual seja a incidência do Imposto de Renda e da Contribuição Social Sobre o Lucro sobre os créditos de PIS e Cofins oriundos das aquisições de determinados bens e serviços. Que a base de cálculo de ambas contribuições é o total da receita bruta auferida de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica, e as alíquotas são de 1,65% para o PIS e 7,6% para a Cofins; o contribuinte tem o direito de abater, do valor apurado, créditos gerados pelas aquisições de bens e serviços necessários à consecução do seu objeto social, definidos no art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003. Apesar de rotulada de nãocumulativa, a sistemática guarda diferenças em relação à apuração de ICMS e IPI. Do ponto de vista contábil afirma que o §10 do art. 3º da Lei 10.833, de 2003, estabelece que o crédito apurado não constitui receita bruta da pessoa jurídica, servindo somente para a dedução do valor da contribuição; que o Ato Declaratório Interpretativo n° 3, de 2007, da SRFB, recomenda a contabilização dos créditos de PIS e Cofins como ativo fiscal, e expressa que em contrapartida não poderão ser contabilizados como receita; que, em assim sendo, alternativamente à contabilização dos créditos como receita, a pessoa jurídica optante pelo Lucro Real, e sujeita a sistemática nãocumulativa do PIS e Cofins, poderá adotar critério de Registro do crédito fiscal como redução do custo, isto é, créditos de PIS/Cofins terem o mesmo registro contábil que o aplicado aos de IPI e ICMS, ou seja, como redução do custo do bem adquirido (ou da despesa); diz que este procedimento foi inicialmente defendido pelo Parecer n.º 1/03 do Conselho Federal de na Interpretação Técnica nº 1, de 2004; e que procedimento técnico do reconhecimento dos créditos de PIS/ Cofins como redução do custo ou como receita, resultará no aumento do resultado contábil que, na apuração do Lucro Real e na Base de Cálculo, sofrerá a incidência do IRPJ e CSLL; cita a definição de receita bruta do art. 224 do Regulamento do Imposto de Renda RIR de 1999 (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999), para concluir que a contabilização de tais créditos, seja com receita, seja como Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10875.901218/201371 Acórdão n.º 1201001.787 S1C2T1 Fl. 4 3 redução de custo, resulta em aumento do Lucro Real, que sofrerá a incidência do IRPJ e da CSLL. Do ponto de vista jurídico, interpreta que o §10 do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, e por analogia também a Lei nº 10.637, de 2002, prevêem a possibilidade de exclusão dos créditos de PIS e Cofins da base de cálculo do IRPJ e CSLL, dado que os créditos oriundos da nãocumulatividade foram afastados do conceito de receita bruta; postula que a exclusão dos créditos da base de cálculo do IRPJ e CSLL se reveste da característica de "Subvenção de Investimento" e tais créditos não devem ser considerados para fins de tributação. Conclui pleiteando que os créditos da nãocumulatividade do PIS e da Cofins sejam excluídos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. É o Relatório. Voto Roberto Caparroz de Almeida, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1201001.782, de 22.06.2017, proferido no julgamento do Processo nº 10875.901028/201515, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1201001.782): 12. A partir das Leis nº 10.637, de 2002, nº 10.833, de 2003, as empresas que optam, ou que são obrigada à tributação do IRPJ e CSLL pelo regime do lucro real, devem apurar os valores a recolher de PIS e Cofins, no regime de nãocumulatividade, que consiste, no seguinte cálculo: a. Débito PIS/Cofins, apurados mediante as alíquotas de 1,65% e 7,6%, respectivamente, sobre a receita bruta; b. Crédito PIS/Cofins, apurados mediante as alíquotas de 1,65% e 7,6%, respectivamente, sobre dispêndios relacionados no art. 2º da Lei nº 10.833, de 2003; c. PIS/Cofins a recolher: Débito () Crédito 13. A apuração do lucro líquido, que após ajustes, é base de apuração de IRPJ e CSLL: a. Receita Bruta () Débito de PIS/Cofins isto é, a apuração do lucro líquido parte da receita bruto, da qual se deduz o valor total do Débito de PIS/Cofins, apurado conforme explicado no item precedente. b. resulta que o Crédito, embutido no valor do Débito, está deduzido, conforme pleiteia a Recorrente. 14. Para melhor esclarecer, apresentase exemplo numérico da apuração da contribuição a pagar pelo contribuinte: a. Receita bruta hipotética R$1.000,00 Fl. 416DF CARF MF Processo nº 10875.901218/201371 Acórdão n.º 1201001.787 S1C2T1 Fl. 5 4 b. Débito de PIS 1,65% x 1.000,00 = R$16,50 c. Insumos hipotéticos sobre os quais pode ser aproveitado crédito R$600,00 d. Crédito de PIS 1,65% x 600,00 = R$9,90 e. PIS a pagar 16,50 () 9,90 = R$6,60 15. Demonstrase a seguir a apuração, de forma simplificada, da base de cálculo de IRPJ e CSLL: Receita bruta 1.000 () débito de PIS 16,50 Lucro líquido 983,50 16. E em seguida, se demonstra que equivale a deduzir os créditos, bem como o valor que o contribuinte pagou: Receita bruta 1.000 () PIS pago 6,60 () crédito de PIS 9,90 Lucro líquido 983,50 17. No caso da Cofins, o procedimento é o mesmo, variando apenas a alíquota. 18. Fica evidente que o pleito do contribuinte seria de deduzir mais uma vez os créditos, ou seja, resulta em duplicidade de dedução, o que não está previsto na legislação. 19. Cabe esclarecer que o §10, do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, e o ADI n° 3, de 2007, visaram esclarecer que o aproveitamento dos créditos de PIS e Cofins, não deve ser tratado como redução de custo ou como subvenção para custeio, dado que estes últimos são considerados receita tributável; o mesmo comentário se aplica à jurisprudência que a Recorrente colacionou. Conclusão Voto por NEGAR provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Fl. 417DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.000185/2006-11
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 28 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Exercício: 2002,2005
NULIDADE.
O enfrentamento das questões na peça de defesa com a indicação dos enquadramentos legais denotando perfeita compreensão da descrição dos fatos que ensejaram o procedimento e sendo asseguradas as garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, não tem cabimento a nulidade do ato administrativo.
DECADÊNCIA.
O termo de início da contagem do prazo decadencial dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação se rege pela regra do inciso I do art. 173 do Código Tributário Nacional no caso de não restarem comprovados os pagamentos antecipados, tampouco informação em DCTF.
INEXATIDÕES MATERIAIS.
Alegações desprovidas de comprovação efetiva de sua materialidade não são suficientes para ilidir a motivação fiscal do procedimento.
JUROS DE MORA.
São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral.
Numero da decisão: 1801-000.607
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos em negar
provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Magda Azario Kanaan Polanczyk e Marcos Vinicius Barros Ottoni que acolhiam a decadência do lançamento tributário referente ao ano-calendário de 2001.
Matéria: IRPJ - AF (ação fiscal) - Instituição Financeiras (Todas)
Nome do relator: Carmen Ferreira Saraiva
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ementa_s : IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2002,2005 NULIDADE. O enfrentamento das questões na peça de defesa com a indicação dos enquadramentos legais denotando perfeita compreensão da descrição dos fatos que ensejaram o procedimento e sendo asseguradas as garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, não tem cabimento a nulidade do ato administrativo. DECADÊNCIA. O termo de início da contagem do prazo decadencial dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação se rege pela regra do inciso I do art. 173 do Código Tributário Nacional no caso de não restarem comprovados os pagamentos antecipados, tampouco informação em DCTF. INEXATIDÕES MATERIAIS. Alegações desprovidas de comprovação efetiva de sua materialidade não são suficientes para ilidir a motivação fiscal do procedimento. JUROS DE MORA. São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral.
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O enfrentamento das questões na peça de defesa com a indicação dos enquadramentos legais denotando perfeita compreensão da descrição dos fatos que ensejaram o procedimento e sendo asseguradas as garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa, não tem cabimento a nulidade do ato administrativo. DECADÊNCIA. O termo de início da contagem do prazo decadencial dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação se rege pela regra do inciso I do art. 173 do Código Tributário Nacional no caso de não restarem comprovados os pagamentos antecipados, tampouco informação em DCTF. INEXATIDÕES MATERIAIS. Alegações desprovidas de comprovação efetiva de sua materialidade não são suficientes para ilidir a motivação fiscal do procedimento. JUROS DE MORA. São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Fl. 470DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 448 2 Magda Azario Kanaan Polanczyk e Marcos Vinicius Barros Ottoni que acolhiam a decadência do lançamento tributário referente ao anocalendário de 2001. (documento assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes Presidente (documento assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Relatora Composição do Colegiado: Participaram do presente julgamento os Conselheiros Carmen Ferreira Saraiva, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Maria de Lourdes Ramirez, Magda Azario Kanaan Polanczyk, Marcos Vinicius Barros Ottoni e Ana de Barros Fernandes. Relatório I Contra a Recorrente acima identificada foi lavrado o Auto de Infração às fls. 162/167, com a exigência do crédito tributário no valor de R$42.814,91, a título de Imposto Sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), juros de mora e sem a multa de ofício proporcional apurado pelo regime de tributação com base no lucro real anual dos anoscalendário de 2001 e 2004, tendo em vista o Mandado de Segurança nº 98.00146903 impetrado junto à Seção Judiciária de São Paulo/SP da Justiça Federal, fls. 07/157 (inciso II do art. 151 do Código Tributário Nacional). O lançamento se fundamenta na falta de adição da CSLL na base de cálculo do IRPJ. Para tanto, foi indicado o seguinte enquadramento legal: incisos art. 1º da Lei nº 9.316, de 22 de novembro de 1996, bem como inciso I do art. 249 e § 6º do art. 344 do Regulamento do Imposto de Renda constante no Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR, de 1999). Cientificada em 13/02/2006, fl. 163, a Recorrente apresentou a impugnação em 15/03/2006, fls. 169/195, com as alegações abaixo sintetizadas. Aduz que seus argumentos se referem à matérias diferenciadas daquelas objeto do lançamento e do Mandado de Segurança n° 98.00146903 e por esta razão devem ser conhecidos. Argumenta que o lançamento é nulo nos termos do art. 142 do Código Tributário Nacional, uma vez que é imprescindível o cálculo correto do montante do tributo devido. Suscita que há erro na apuração do IRPJ do anocalendário de 2001 e que o valor correto seria de R$9.556,91, já que do valor devido de R$10.001,26 deveria ter sido deduzida a CSLL no valor de R$444,35. Procura demonstrar que como há pagamento efetuado de tributo calculado pela base estimada, remanesce o valor de R$8.045,63, que está com a exigibilidade suspensa. Suscita ser absolutamente despropositado deduzir desta quantia a Fl. 471DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 449 3 CSLL no valor de R$444,35 e apurar o valor remanescente de R$7.601,28 a título de IRPJ, que foi lançado de ofício. Defende que esta parcela do lançamento foi alcançada pela decadência. Discorda da incidência de juros de mora equivalentes à taxa referencial do Selic. Com o objetivo de fundamentar seus argumentos interpreta a legislação que rege a questão litigiosa, indica princípios constitucionais que supostamente foram violados e cita entendimentos doutrinários e jurisprudenciais em seu favor. Conclui Face às razões expostas, a Impugnante postula o conhecimento da presente Impugnação, com o acolhimento da preliminar de nulidade, a decretação da decadência parcial suscitada e, no mérito a anulação dos juros de mora lançados sobre o total do crédito supostamente devido, em razão do seu depósito judicial. Termos em que, pede deferimento. Está registrado como resultado do Acórdão da 10ª TURMA DRJ/SPO I/SP nº 1620.213, de 26/01/2009, fls. 386/393: “Lançamento Procedente”. Restou ementado ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2001, 2004 IRPJ. APURAÇÃO ANUAL. DECADÊNCIA. Tendo o contribuinte optado pela apuração anual do IRPJ, o fato gerador se perfaz em 31 de dezembro de cada anocalendário. Como a ciência do auto de infração se deu dentro do prazo qüinqüenal previsto no CTN, não ocorreu a decadência do direito da Fazenda Pública de efetuar o lançamento. AUTO DE INFRAÇÃO. ERRO NA APURAÇÃO DO VALOR TRIBUTÁVEL. Não comprovado o alegado erro na apuração do valor tributável, deve ser mantido o lançamento. JUROS DE MORA. DEPOSITO JUDICIAL. A existência de depósito judicial não afasta a incidência dos juros moratórios. Porém, em caso de decisão judicial final favorável à Unido, o depósito será transformado em pagamento definitivo considerandose a data da realização do depósito. Notificada em 25/02/2009, fl. 398, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 26/03/2009, fls. 399/413, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge reiterando todos os argumentos constantes na peça impugnatória. Conclui Fl. 472DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 450 4 Face às razões expostas, a Recorrente postula o conhecimento do presente Recurso Voluntário, com a conseqüente reforma do v. acórdão, a fim de seja reconhecida a preliminar de nulidade do Auto de Infração em comento, tendo em vista a afronta as disposições contidas no artigo 142 do Código Tributário Nacional, bem como no mérito, anular os juros de mora incidentes sobre o total dos créditos supostamente devidos, uma vez que está depositando regularmente o tributo nos autos do Mandado de Segurança n.° 98.00146903, em atendimento ao disposto no artigo 151, inciso II, do Código Tributário Nacional. Termos em que, Pede deferimento. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência. Cabe esclarecer que a Recorrente reconhece houve ação judicial com o mesmo objeto do lançamento, ou seja, informando que impetrou contra a Fazenda Nacional o Mandado de Segurança nº 98.00146903 com o escopo de reconhecer a legalidade da dedutibilidade da CSLL da base de cálculo do IRPJ, de modo que esta matéria é não litigiosa. A Recorrente alega que o ato administrativo é nulo. O Auto de Infração foi lavrado por servidor competente que regularmente intimou a Recorrente para cumprilo ou impugnálo no prazo legal. As formas instrumentais adequadas foram respeitadas, os documentos foram reunidos nos autos do processo, que estão instruídos com as provas produzidas por meios lícitos. Foi oferecida à interessada a oportunidade de apresentar, no prazo legal, a peça de defesa acompanhada de todos os meios de prova a ela inerentes. Ademais, o enfrentamento das questões na peça de defesa denota perfeita compreensão da descrição dos fatos que ensejaram o procedimento e a indicação dos enquadramentos legais não propiciam a nulidade do ato em litígio. Com referência ao dever de lançar, esclareçase que a autoridade administrativa possuindo competência privativa efetuou o lançamento, cuja atividade é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional (art 142 do Código Tributário Nacional). Ademais, a Recorrente que fez opção pela tributação com base no lucro real devendo determinar a base de cálculo do tributo nos termos da legislação vigente. A Recorrente foi previamente notificada do procedimento mediante a emissão do Mandado de Procedimento Fiscal, fl. 01, Termo de Início de Fiscalização, fl. 03, com a ciência válida do Auto de Infração em 13/02/2006, fl. 163. No presente caso o servidor competente verificou a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinou a matéria tributável, calculou o montante do tributo devido, identificou o sujeito passivo, aplicou a penalidade cabível e determinou a exigência com a regular intimação para que a Recorrente pudesse cumprila ou impugnála no prazo legal (art. 10 e art. 14 do Decreto 70.235, de 1972). No exercício da função pública, a autoridade administrativa corretamente lavrou os Autos de Fl. 473DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 451 5 Infração com observância de todos os requisitos legais que lhes conferem existência, validade e eficácia. Foram asseguradas à Recorrente as garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa (inciso LIV e inciso LV do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil CR e Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972). Logo, não lhe cabe razão. A Recorrente diz que o lançamento referente ao anocalendário de 2001 foi alcançado pela decadência. Vale ressaltar que a decadência é uma objeção, ou seja, é matéria de ordem pública que pode ser conhecida a requerimento da parte ou de ofício, a qualquer tempo e em qualquer instância de julgamento (art. 269 do Código de Processo Civil – CPC). Sobre a matéria, o Código Tributário Nacional (CTN) assim determina: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. [...] § 4º Se a lei não fixar prazo à homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. [...] Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; Em relação contribuições para o custeio da seguridade social, o Supremo Tribunal Federal assim se pronunciou mediante o enunciado da Súmula Vinculante nº 8, a saber: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do Decreto lei nº 1.569/1977 e os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. Consta no Anexo II da Portaria MF n° 256, de 22 de junho de 2009, alterada pela Portaria MF nº 586, de 21 de dezembro de 2010, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF: Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543 B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Fl. 474DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 452 6 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Assim, têm aplicação os entendimentos do STF e do STJ em decisões definitivas de mérito proferidas em repercussão geral e em recurso repetitivo, respectivamente, cujas matérias vinculam esta segunda instância de julgamento. Em relação à matéria, cabe mencionar a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça – STJ proferida em recurso especial representativo da controvérsia, cujo trânsito em julgado ocorreu em 29/10/2009 (fonte:https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_Documento.asp?sSeq=901905&sReg=2007 01769940&sData=20090918&formato=PDF, acesso em 21/01/2011): Superior Tribunal de Justiça RECURSO ESPECIAL Nº 973.733 SC (2007/01769940) RELATOR : MINISTRO LUIZ FUX RECORRENTE : INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL INSS REPR. POR : PROCURADORIAGERAL FEDERAL PROCURADOR : MARINA CÂMARA ALBUQUERQUE E OUTRO(S) RECORRIDO : ESTADO DE SANTA CATARINA PROCURADOR : CARLOS ALBERTO PRESTES E OUTRO(S) EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra Fl. 475DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 453 7 da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose Documento: 901905 Inteiro Teor do Acórdão Site certificado DJe: 18/09/2009 Página 1 de 15 Superior Tribunal de Justiça inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial qüinqüenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. A decadência é a perda do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário pelo lançamento pela sua inércia, tendo em vista o decurso do prazo de cinco anos previsto em lei. É uma causa de extinção do crédito tributário (inciso V do art. 156 do CTN), bem como é tema que exige lei complementar (art. 146 da CR). Aplicase a regra do § 4° do art. 150 do Código Tributário Nacional, no caso em que o sujeito passivo verificando a ocorrência do fato gerador do tributo sujeito ao lançamento por homologação efetive o pagamento antecipado, sem a necessidade do exame prévio por parte da Administração Pública. Caso não se verifique o pagamento antecipado, o prazo de decadência tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. O lançamento pode ser expressamente homologado pelo Erário no prazo de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador. Findo este prazo o lançamento considerase homologado e o Fl. 476DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 454 8 crédito tributário se extingue, salvo se houver dolo, fraude ou simulação ou não existir pagamento antecipado. Restou esclarecido que o termo de início da contagem do prazo decadencial do tributo em exame se rege pela regra do inciso I do art. 173 do Código Tributário Nacional, uma vez que a Recorrente não antecipou qualquer pagamento no período tampouco apresentou a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), uma vez que apurou saldo negativo de IRPJ, fl. 384. O Auto de Infração referente anocalendário de 2001 foi cientificado a Recorrente em 13/02/2006, fl. 163. Portanto, não há que se falar em decadência por falta do decurso do prazo legal. A Recorrente diz que há incorreções no cálculo do montante do IRPJ devido no anocalendário de 2001. A escrituração deve ser mantida com observância das leis comerciais e fiscais, que faz prova em seu favor dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis e idôneos (art. 923 do RIR, de 1999). Com base nos elementos disponíveis então por ela apresentados, a autoridade fiscal apurou o ilícito tributário dedutibilidade indevida da CSLL da base de cálculo do IRPJ no anocalendário de 2001. Analisando a Ficha 11 — Cálculo do Imposto de Renda Mensal por Estimativa da DIPJ, fls. 373/384, temse que a Recorrente apurou o IRPJ a pagar apurado sobre a base de cálculo estimada tãosomente no mês de janeiro de 2001, no montante de RS137.201,95. Na DCTF fl. 385, está informado que este valor foi extinto pela compensação de R$129.156,32 a com saldo negativo do anocalendário de 1998, e pela suspensão da exigibilidade por força do Mandado de Segurança nº 98.0014690 no valor de R$8.045,63. Examinando a Ficha 12B — Cálculo do IR sobre o Lucro Real da DIPJ, fl. 372, verificase que a Recorrente apurou o IRPJ devido no valor de R$10.417,98. Deduzidos os valores de R$416,72 de Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) e de R$137.201,95, de tributo apurado sobre a base de cálculo estimada, apurouse o saldo negativo IRPJ no montante de R$127.200,69. Por seu turno, fazendo a retificação dos valores com base no Mandado de Segurança nº 98.0014690, ou seja, deduzindo a CSLL no valor de R$444,35, o valor de IRPJ que a Recorrente entende correto seria de R$9.556,91, uma vez que o valor do tributo originalmente apurado é de R$10.417,98. Contudo, refazendo todos estes cálculos de ofício temse que somente podem ser deduzidos do valor do tributo originalmente apurado de R$10.417,98: o incentivo fiscal (PAT) o valor de R$398,20; e o IRPJ a efetivamente pago e apurado sobre a base de cálculo no valor de R$129.156,32 Verificase que o valor de R$8.045,63 considerado como parte do pagamento do montante de R$137.201,95 de tributo determinado sobre a base de cálculo estimada não pode ser considerado por expressa previsão legal, uma vez que se trata de tributo não efetivamente recolhido (art. 2º da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996). Fl. 477DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 455 9 Logo, o saldo negativo IRPJ correto do anocalendário de 2001 é no montante de R$119.599,41, conforme abaixo detalhado: Discriminação Dados Informados pela Recorrente – R$ Dados Alterados de Ofício – R$ Lucro Líquido Ante do IRPJ (13.286.256,96) (13.286.256,96) (+) Adições Legais 17.684.336,29 17.679.927,96 () Exclusões Legais (4.298.860,45) (4.298.860,45) () Compensações Prejuízos Fiscais (29.765,66) (28.443,16) = Lucro Real 99.218,88 94.810,55 IRPJ Devido 10.417,98 9.955,11 () PAT (416,72) (398,20) () Pagamentos Efetuados Por Estimativa (137.201,95) (137.201,95) IRPJ Apurado (127.200,69) (119.599,41) Verificase, portanto, que o valor de IRPJ lançado de R$7.601,28 (R$127.200,69R$119.599,41) está correto. Tendo em vista o princípio da verdade material que informa o processo administrativo fiscal, há de ser considerada pertinente a apreciação da prova documental trazida aos autos para oferecer a oportunidade de a Recorrente demonstrar do alegado erro. Partindo do pressuposto legal de que a defesa deve comprovar todas as suas alegações na oportunidade própria (art. 15 do Decreto nº 70.235, de 1996), a Recorrente não juntou novas provas aos autos mediante documentos hábeis e idôneos que demonstrem suas afirmativas de que há incorreções no lançamento. As suas meras alegações desprovidas de comprovação efetiva de sua materialidade mediante a análise de todos os documentos que embasaram a escrituração não são suficientes para ilidir a motivação fiscal do exame da matéria, tendo em vista que as provas já constantes nos autos constituem um conjunto probatório robusto de que o procedimento de ofício está correto nesta parte. Por conseguinte, este argumento não pode prosperar. A Recorrente discorda da incidência de juros de mora equivalentes à taxa referencial do Selic, uma vez que há depósito judicial. O Código Tributário Nacional determina: Art. 151. Suspendem a exigibilidade do crédito tributário: I – moratória; II – o depósito do seu montante integral; III – as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo; V – a concessão de medida liminar ou de tutela antecipada, em outras espécies de ação judicial; VI – o parcelamento. Fl. 478DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 456 10 Em relação à incidência de juros de mora, vale transcrever os enunciados das Súmulas CARF n°s 4 e 5, as quais são de adoção obrigatória (art. 72 do Anexo II da Portaria n° 256, de 22 de junho de 2009, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF) e que assim dispõem: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. [...] São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. Consta às fls. 155/156 a Certidão de Objeto e Pé que consigna que a Recorrente efetuou o depósito judicial em 28/02/2003 no valor de R$64.437,68 identificado pelo nº 0265.635.002074993. O objeto do Mandado de Segurança nº 98.00146903 se refere à pretensão da dedutibilidade da CSLL da base de cálculo do IRPJ a partir do anocalendário de 1998. Em relação ao anocalendário de 2001 deve a repartição de origem verificar se no depósito judicial no valor de R$ R$64.437,68 está contido o depósito do montante integral do tributo e se caso este fato ficar comprovado que se excluam os juros de mora correspondentes. Pertinente ao anocalendário de 2004 não cabem reparos ao lançamento, uma vez que o depósito judicial no valor de R$ R$64.437,68 foi efetuado em 28/02/2003. No que se refere à interpretação da legislação e aos entendimentos doutrinários e jurisprudenciais indicados na peça recursal, cabe esclarecer que somente devem ser observados os atos para os quais a lei atribua eficácia normativa, o que não se aplica ao presente caso (art. 100 do Código Tributário Nacional). Em relação aos princípios constitucionais que a Recorrente aduz que supostamente foram violados, cabe transcrever o enunciado da Súmula CARF n° 2, que é de adoção obrigatória (art. 72 do Anexo II da Portaria MF n° 256, de 22 de junho de 2009, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF), e que assim determina: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Logo, este argumento não pode prosperar. Em face de o exposto voto por, em preliminar, por afastar a decadência e no mérito, por negar provimento ao recurso voluntário. Cabe esclarecer que em relação ao anocalendário de 2001 deve a repartição de origem verificar se no depósito judicial no valor de R$ R$64.437,68 está contido o depósito Fl. 479DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES Processo nº 16327.000185/200611 Acórdão n.º 180100.607 S1TE01 Fl. 457 11 do montante integral do tributo e se caso este fato ficar comprovado que se excluam os juros de mora correspondentes. (documento assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Fl. 480DF CARF MF Emitido em 04/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Assinado digitalmente em 02/07/2011 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, 04/07/2011 por ANA DE BARROS FERNAN DES
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Numero do processo: 10835.000397/2003-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Período de apuração: 01/09/2002 a 30/09/2002
COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. RETENÇÃO NA FONTE. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado se o contribuinte trouxer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito.
Numero da decisão: 2202-004.108
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.192,20.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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PRUDENTE COOPERATIVA DE TRABALHO MEDICO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Período de apuração: 01/09/2002 a 30/09/2002 COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. RETENÇÃO NA FONTE. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado se o contribuinte trouxer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.192,20. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 5. 00 03 97 /2 00 3- 21 Fl. 428DF CARF MF Processo nº 10835.000397/200321 Acórdão n.º 2202004.108 S2C2T2 Fl. 429 2 Tratase de pedido de compensação no qual o Recorrente pleiteia a compensação de débitos do IRRF decorrente dos rendimentos pagos a seus cooperados, a partir de créditos do imposto de renda que lhe teriam sido retidos na fonte. A compensação pleiteada foi homologada parcialmente no valor de R$ 14.357,21, de um total requerido de R$ 16.884,52. A diferença não homologada deuse por falta de comprovação quanto ao efetivo pagamento do IRRF pelas fontes pagadoras que retiveram o tributo do Recorrente. Em sua manifestação de inconformidade, o Recorrente pleiteou a juntada de documentação hábil a comprovar o seu direito à compensação. A decisão de primeira instância desconsiderou todos os documentos juntados pelo Contribuinte na manifestação de inconformidade, por entender que estava precluso esse direito, julgandoa improcedente. O Contribuinte foi cientificado da decisão de primeira instância em 09/05/2007, por via postal, conforme A.R. de fl. 371, tendo apresentado em 08/06/2007 (envelope de fl. 377) o Recurso Voluntário de fls. 372/376, requerendo a realização de diligência para a apreciação dos referidos documentos. Na sessão de 19/08/2009, os membros da 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento do CARF resolveram, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para que a autoridade fiscal apurasse a existência de crédito apto à homologação da compensação pleiteada, considerando todos os documentos já juntados ao processo (fls. 380/382). Tendo em vista a extinção da 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento do CARF, o processo foi sorteado para essa turma de julgamento, sob minha relatoria. A autoridade fiscal emitiu o Relatório de Diligência de fls. 401/403, com as conclusões da diligência, porém não constava que o Contribuinte foi intimado desse relatório. Na sessão de 09/02/2017, essa Turma Ordinária converteu o julgamento em diligência (fls. 404/406), para que a Contribuinte fosse intimada a se manifestar sobre o resultado da diligência anterior. A Contribuinte foi intimada em 16/03/2017 (A.R. de fl. 410) e apresentou a manifestação de fls. 422/425 em 17/04/2017. É o relatório. Voto Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Fl. 429DF CARF MF Processo nº 10835.000397/200321 Acórdão n.º 2202004.108 S2C2T2 Fl. 430 3 Observase que a autoridade fiscal, em atendimento à diligência determinada pela 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento do CARF, conforme Resolução nº 2801 0008, de 19/08/2009 (fls. 380/382), emitiu o Relatório de Diligência de fls. 401/403. A Contribuinte manifestouse sobre a diligência, alegando que os vários equívocos cometidos pelas fontes pagadoras ao prestarem as informações ao Fisco demonstram que não correspondem totalmente à realidade dos fatos. Defende a Recorrente que a documentação acostada aos autos comprova a origem, existência e legitimidade dos créditos suficientes para a homologação da compensação. Sustenta que o fato de a fonte pagadora eventualmente não ter informado em DIRF a respectiva retenção ou têla informado com código de retenção equivocado não pode criar uma obrigação/punição para a Recorrente. Em atendimento à diligência solicitada, a autoridade fiscal concluiu o seguinte (fls. 401/403): Pela leitura da planilha verificase que foi glosado o valor de R$ 2.527,31 (R$ 2.474,62 + R$ 52,69). Com a análise dos documentos juntados posteriormente, foi comprovado a retenção adicional de R$ 834,99. Vêse, portanto, que após a análise de toda a documentação acostada aos autos pela Recorrente, a autoridade fiscal reconheceu a comprovação adicional de R$ 834,99, totalizando um valor comprovado de R$ 15.192,20 (R$ 14.357,21 + R$ 834,99). Ressaltese que o ônus para a comprovação documental de direito creditório pertence ao interessado, dados os requisitos de liquidez e certeza para os valores pleiteados, conforme determina o art. 170 do Código Tributário Nacional. Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. É notoriamente sabido que, nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos incumbe ao requerente, que deve trazer aos autos os elementos probatórios correspondentes, capazes de demonstrar a liquidez e certeza do crédito. Essa é a dicção do art. 373, inciso I, do Código de Processo Civil – CPC, aplicado subsidiariamente ao processo administrativo fiscal Decreto nº 70.235/72 (PAF): Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; [...] Assim, considerando que o Contribuinte não logrou comprovar o crédito total alegado de R$ 16.884,52, conforme diligência efetuada, deve ser mantida a glosa de R$ 1.692,32. Fl. 430DF CARF MF Processo nº 10835.000397/200321 Acórdão n.º 2202004.108 S2C2T2 Fl. 431 4 Dessa forma, voto por dar provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito creditório de R$ 15.192,20. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator Fl. 431DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12466.002137/2010-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/11/2005 a 31/05/2007
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. REGRAS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO.
Álcool Cetoestearílico industrial, mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool estearílico, correta a classificação mais específica na posição 3823.70.10. Álcool cetílico industrial (álcool cetoestearílico), mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool cetílico, correta a classificação na posição 3823.70.90.
Numero da decisão: 3402-004.336
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício.
JORGE OLMIRO LOCK FREIRE - Presidente.
PEDRO SOUSA BISPO - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire (presidente da turma), Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Tais Laurentis Galkowicz, Daniel Diniz de Ribeiro e Pedro Sousa Bispo
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/11/2005 a 31/05/2007 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. REGRAS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO. Álcool Cetoestearílico industrial, mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool estearílico, correta a classificação mais específica na posição 3823.70.10. Álcool cetílico industrial (álcool cetoestearílico), mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool cetílico, correta a classificação na posição 3823.70.90.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício. JORGE OLMIRO LOCK FREIRE - Presidente. PEDRO SOUSA BISPO - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire (presidente da turma), Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Tais Laurentis Galkowicz, Daniel Diniz de Ribeiro e Pedro Sousa Bispo
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REGRAS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO. Álcool Cetoestearílico industrial, mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool estearílico, correta a classificação mais específica na posição 3823.70.10. Álcool cetílico industrial (álcool cetoestearílico), mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool cetílico, correta a classificação na posição 3823.70.90. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício. JORGE OLMIRO LOCK FREIRE Presidente. PEDRO SOUSA BISPO Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire (presidente da turma), Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Tais Laurentis Galkowicz, Daniel Diniz de Ribeiro e Pedro Sousa Bispo Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o Relatório da decisão recorrida: AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 46 6. 00 21 37 /2 01 0- 91 Fl. 1634DF CARF MF 2 Trata o presente de auto de infração lavrado em face da caracterização de erro de classificação fiscal. Conforme relatado no auto de infração, a contribuinte importou, por intermédio das Declarações de Importação relacionadas às fls. 216/220, por conta e ordem de INDÚSTRIA QUÍMICA ANASTÁCIO S.A, CNPJ. 60.874.724/000196, qualificada como DEVEDOR SOLIDÁRIO, Álcool cetoestearílico, descrito desta forma, com classificação tarifária 3823.70.10, destinada a "Álcool Esteárico". Observa a fiscalização que também foram verificadas outras importações do mesmo produto denominado álcool cetoestearílico, através de outros Importadores, sempre tendo como adquirente o mesmo devedor solidário. Laudos técnicos feitos em amostras dos produtos informam tratarse de uma mistura de álcool estearilico e de álcool cetilico, com característica de cera artificial, positiva para álcool graxo, que atua como agente emulsionante nas formulações cosméticas e farmacêuticas, classificação tarifária correta é 3823.70.90, destinada a "Outros álcoois graxos industriais", enquadrandose no Ex001 da mesma subposição, especificamente por tratarse de produto "com características de cera artificial". Em todas as Declarações de Importação consta da descrição da mercadoria a expressão: ALCOOL ESTEARÍLICO. Em todas elas, detalhes da especificação da mercadoria, constantes da descrição, demonstram tratarse do mesmo produto, a saber: "NAFOL" e/ou "1618" e/ou "1618" e/ou "30/70" (referência à proporção da mistura) e/ou a definição de percentual de componentes próximo da mistura encontrada no laudo técnico. Assim, foi lavrado auto de infração de fls. 1 e ss , no valor de R$ 4.772.767,96, com exigência de diferença de tributos e contribuições, acréscimos legais, multa de ofício e multa por classificação incorreta. Cientificados da autuação, a interessada, LOGISTIC NETWORK TECHNOLOGY COMERCIO IMPORTACAO E EXPORTACÃO S/A, e a responsável solidária, INDÚSTRIA QUÍMICA ANASTÁCIO S/A, apresentaram impugnação conjunta às fls. 752 e ss., onde alegam em síntese que: · Cerceamento ao devido processo legal: reclama que não lhe foi dado direito de participar de maneira ativa no processo fiscalizatório, podendo apresentar documentos comprobatórios e elucidativos à atividade fiscalizadora, que afastariam a lavratura do auto de infração. · Ilegalidade da presunção aplicada pela autoridade administrativa à declarações de importação: afirma que no caso em tela, não se poderia usar da presunção, pois a reclassificação exige efetivação de prova pericial química, para cada DI. Nunca poderia ter fundamentado o laudo num único laudo pericial. Fl. 1635DF CARF MF Processo nº 12466.002137/201091 Acórdão n.º 3402004.336 S3C4T2 Fl. 1.635 3 Afirma que o mesmo nome não significa que tenham a mesma composição. · Ressalta que as DI’são datadas de 2005 a 2006. Segundo consta do laudo n° 2365/2007, o produto só foi levado à análise para essa empresa em 24/10/2007, ou seja, mais de 05 (cinco) meses depois de sua importação, o que poderia comprometer as suas propriedades de composição, alterando o resultado. · Reclama que não é possível às interessadas elaborarem quesitos para dirimir dúvidas. Requer nova perícia, informando que posteriormente apresentariam quesitos. · Reclama dos cálculos para a para apuração do débito, afirmando que o critério utilizado para a atualização dos débitos tributários são irregulares, inexatos e arbitrários. · Reclama também da multa de 75%, porque não classificou de forma errônea, voluntariamente ou não, as importações feitas. Afirma que, em respeito ao princípio da isonomia, o percentual máximo da multa seria de 20%, uma vez que a inflação mensal não chega a 1%. · Alega ilegalidade da taxa SELIC e inaplicabilidade dos juros por ela calculados sobre indébitos tributários. Ao final requer a improcedência da ação. Para melhores esclarecimentos esta DRJ/SPO solicitou informações complementares, consubstanciadas na Resolução 16.000.438, de 24/04/2014 (fls. 1441 e ss). Em resposta, a unidade de origem apresentou seus esclarecimentos, juntados às fls. 1445 e ss, que serão melhor explicitados no voto. Cientificadas do teor da diligência, a interessada e a responsável solidária não se manifestaram a respeito. Em ato contínuo, a DRJSÃO PAULO julgou a manifestação de inconformidade do contribuinte nos seguintes termos: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/11/2005 a 31/05/2007 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. FASE INQUISITÓRIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Os procedimentos da autoridade fiscalizadora têm natureza inquisitória, não se sujeitando, necessariamente, ao contraditório os atos lavrados nessa fase. Somente depois de lavrado o auto de infração e instalado o litígio administrativo é que se pode falar em obediência aos ditames do princípio do contraditório e da ampla defesa. Fl. 1636DF CARF MF 4 PROVA EMPRESTADA. Laudo técnico exarado em outro processo administrativo pode ser utilizado como prova para importações diversas, desde que trate de produto originário do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. Álcool cetílico industrial (álcool cetoestearílico), mistura de álcool cetílico e álcool estearílico. Quando o predomínio é do álcool cetílico, correta a classificação na posição 3823.70.90. Caso contrário, não cabe classificação nessa posição. MULTA POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL.Cabível multa por erro na classificação fiscal da mercadoria, prevista no artigo inciso I do artigo 84 da MP 2.158, de 24/08/2001, pela ocorrência da infração tipificada neste dispositivo legal. Impugnação Procedente em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. Uma vez que foi ultrapassado o valor de alçada, foi interposto o recurso de ofício em comento. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Sousa Bispo A decisão recorrida cancelou parcialmente o auto de infração de diferenças de tributos na importação e multa por classificação incorreta, decorrentes de erro de classificação fiscal adotada pela empresa em seus produtos, conforme resumo abaixo transcrito: Exigido Mantido Exonerado IPI 2.100.311,56 2.100.311,56 Juros 865.477,18 865.477,18 multa erro classificação 148.674,96 13.264,79 135.410,17 PIS 9.993,26 9.993,26 Juros 4.413,23 4.413,23 COFINS 37.748,10 37.748,10 Juros 16.101,05 16.101,05 Total 4.772.767,97 13.264,79 4.759.503,18 Fl. 1637DF CARF MF Processo nº 12466.002137/201091 Acórdão n.º 3402004.336 S3C4T2 Fl. 1.636 5 Conhecemos, desta forma, do Recurso de Ofício tendo em vista que o montante exonerado ultrapassou o valor de R$ 1.000.000,00 previsto no Art.1º da Portaria MF nº 03/2008. O contribuinte não interpôs Recurso Voluntário, conforme Termo de Perempção lavrado. A matéria principal discutida nos autos tratou da classificação fiscal do produto Álcool Cetoestearílico que se apresentou sob diversas denominações e de fornecedores diferentes, conforme tabela resumo extraída dos autos: Fl. 1638DF CARF MF 6 Resumese a demanda, portanto, na classificação adequada para essas misturas de álcoois, se nas posições 3823.70.10 (álcool esteárico) e 3823.70.30 (outras misturas de álcoois alifáticos) como quer a empresa ou na posição 3823.70.90 (Outros álcoois graxos industriais, Ex001Com características de cera artificial, como quer a Autoridade Administrativa. Em suma, a fiscalização reclassificou todos os produtos importados pela empresa para a posição 3823.70.90 (Outro Álcoois Graxos Industriais), EX001 Com Característica de Cera Artificial, o que resultou nas diferenças de tributos lançadas (fls.02 a 198). Constatase que não há nos autos divergência quanto a identificação dos produtos. A fim de facilitar o entendimento, o julgador da DRJ separou a sua análise da classificação fiscal dos produtos em dois itens: Naftol 1618 e demais produtos. Avaliando que essa se constitui na melhor didática, adotase o mesmo modelo na segunda instância. Nafol 1618S Como se pode constatar nos autos, o Nafol 1618S foi o principal produto importado pela empresa. Segundo a sua descrição, esse álcool é constituído de uma mistura de Álcool estearílico e de Álcool cetílico. Por meio do Parecer Técnico 007/2014 (fls.1468 a 1471), chegouse a identificação exata do Nafol 1618S como Álcool Cetoestearílico, com um percentual de 25,8% de Álcool Cetílico (C16) e 74,2% de Álcool Estearílico (C18), com características de cera artificial, um Álcool Estearílico Industrial, Álcool Graxo (Gordo) Industrial. Lendo as conclusões do referido parecer podemos inferir que o produto sob análise têm como característica principal ser um Álcool Graxo Industrial com a predominância do Álcool Estearílico na sua composição. Também no referido Parecer, o responsável informa que nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado consta o Álcool Estearílico especificamente como um dos principais exemplos de Álcool Graxo Industrial: B ÁLCOOIS GRAXOS (GORDOS*) INDUSTRIAIS Os álcoois graxos (gordos*) industriais incluídos na presente posição são misturas de álcoois acíclicos obtidos, especialmente, por redução catalítica dos ácidos graxos (gordos*) industriais desta posição (ver o parágrafo A, anterior) ou dos seus ésteres, por saponificação do óleo de cachalote, por reação catalítica entre as olefinas, o óxido de carbono e o hidrogênio (síntese Oxo), por hidratação das olefinas, por oxidação de hidrocarbonetos ou por outros meios. Estes produtos são quase sempre líquidos. Contudo, alguns deles são sólidos. Os principais álcoois graxos (gordos*) industriais da presente posição são os seguintes: Fl. 1639DF CARF MF Processo nº 12466.002137/201091 Acórdão n.º 3402004.336 S3C4T2 Fl. 1.637 7 1) O álcool laurílico industrial, que é uma mistura de álcoois graxos (gordos*) saturados, obtidos por redução catalítica dos ácidos graxos (gordos*) do óleo de coco. Líquido à temperatura normal, toma uma consistência semisólida a temperaturas mais baixas. 2) O álcool cetílico industrial, que é uma mistura dos álcoois cetílico e estearílico, sendo o primeiro preponderante; obtémse a partir do óleo de cachalote ou do óleo de espermacete. É um sólido cristalino e translúcido à temperatura ambiente. 3) O álcool estearílico industrial, que é uma mistura dos álcoois estearílico e cetílico, obtido por redução da estearina ou de óleos ricos em ácido esteárico ou ainda a partir do óleo de cachalote, por hidrogenação e hidrólise seguida de destilação. Este álcool apresentase sob a forma de um sólido branco cristalino à temperatura ambiente. 4) O álcool oleílico industrial, obtido por redução da oleína ou, por pressão hidráulica, a partir de álcoois derivados do óleo de cacholote. É líquido à temperatura ambiente. 5) As misturas de álcoois primários alifáticos, habitualmente compostas por álcoois com seis a treze átomos de carbono. Tratase de líquidos obtidos geralmente pela síntese Oxo. Os álcoois graxos (gordos*) mencionados nos nºs 1) a 4), acima utilizamse sobretudo para a preparação de derivados sulfonados, cujos sais alcalinos constituem os agentes de superfície orgânicos da posição 34.02. Os álcoois graxos (gordos*) do nº 5) empregamse sobretudo na fabricação de plastificantes para o poli(cloreto de vinila). Os álcoois graxos (gordos*) industriais, que apresentam característica de ceras, são também incluídos nesta posição. A presente posição não compreende os álcoois graxos (gordos*) de constituição química definida com pureza de 90% ou mais (calculada relativamente ao peso do produto no estado seco) (posição 29.05, geralmente).” Os Álcoois Graxos Industriais, de acordo com as Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado, devem ser classificados na posição e subposição 3823.70. Quanto a isso não há divergência entre a Autuada e a Autoridade Administrativa. Para uma melhor visualização da matéria, apresentase abaixo os itens e subitens que compõem a posição 3823.70 da NCM/SH que originaram as divergências: 3823.70 Álcoois graxos industriais 3823.70.10 Esteárico 0 3823.70.20 Láurico 0 3823.70.30 Outras misturas de álcoois primários alifáticos 0 3823.70.90 Outros 0 Ex 01 Com características de ceras artificiais 15 Fl. 1640DF CARF MF 8 Observase que os Álcoois Esteárico e o Láurico possuem posições específicas na NCM/SH. Como afirmado anteriormente, ficou comprovado nos autos, por meio do Parecer Técnico 007/2014, que o produto Nafol 1618S foi identificado como o Álcool Cetoestearílico, constituído predominantemente do Álcool Estearílico. Com efeito, a fim de encontrarmos a classificação correta do produto, devese aplicar a Terceira Regra de Interpretação do Sistema Harmonizado para resolver a demanda. A RGI 3a estabelece que “a posição mais específica prevalece sobre as mais genéricas”. Havendo posição específica para o produto Nafol 1618S (Álcool com predominância do Estearílico) esta deve ser adotada (3823.70.10Álcool Graxo Industrial Estearíco), afastandose consequentemente a posição mais genérica 3823.70.90 Ex.01, adotada pela Fiscalização. Assim, o produto Nafol 1618S não poderia ser classificado no código 3823.70.90 da TIPIEx.01, uma vez que há código específico e precedente (3823.70.10) que, com a observância da RGI 3a, prevalece sobre código genérico e residual, tornandose irrelevante se o produto tem característica de cera artificial. Demais Produtos Foram identificados ainda outras misturas de álcoois estearílico e cetílico em proporções diferentes do produto anteriormente analisado, conforme a tabela mostrada no início deste voto. Algumas dessas misturas ainda apresentaram o Álcool Estearílico em composição superior ao Cetílico ou na proporção de 50%. Para esses produtos valem as mesmas considerações feitas quanto ao Nafol 1618S anteriormente, também devendo ser classificados na posição 3823.70.10. A outra exceção, o produto denominado Álcool Cetoestearílico C1618 60/40, apresenta na sua composição a predominância de Álcool Cetílico (60%). O produto também se caracteriza como um Álcool Graxo Industrial, conforme já mostrado acima nas notas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado. Uma vez que não consta posição específica para o Álcool Cetílico, as posições possíveis para o seu enquadramento seriam as 3223.70.90 (Outros) ou nessa mesma posição fazendo parte da exceção, Ex01 (Com características de ceras artificiais). Assim, resta saber, então, se esse produto possui característica de cera artificial ou não para concluirmos sobre a sua correta classificação. Segundo o Parecer Técnico constante nos autos, um produto para ser considerado uma cera artificial deve apresentar as seguintes características: - um ponto de gota superior a 40 °C - uma viscosidade, medida no viscosímetro rotativo, igual ou inferior a 10 Pa.s(ou 10.000 cP), a uma temperatura de 10 °C acima do seu ponto de gota; - tornamse brilhantes quando friccionadas com ligeira pressão; - sua consistência e sua solubilidade dependem grandemente da temperatura. Fl. 1641DF CARF MF Processo nº 12466.002137/201091 Acórdão n.º 3402004.336 S3C4T2 Fl. 1.638 9 No entanto, o Parecer Técnico apenas foi conclusivo sobre ter característica de cera quanto, unicamente, ao Nafol 1618S. Quanto aos demais produtos não há considerações que possam atribuir tal característica a eles, uma vez que não se submeteram a uma análise específica, conforme consta no Termo de Informação Fiscal.. Assim, diante do exposto, o produto Álcool Cetoestearílico C1618 60/40 tem como classificação correta 3823.70.90, sendo que para esse produto a empresa utilizou incorretamente a posição NCM 3823.70.10. Para todos os demais produtos, a NCM correta é a 3823.70.10, sendo que, conforme pesquisas no SISCOMEX, as impugnantes classificaram as mercadorias nesta NCM, com exceção das mercadorias constantes das DI's de nº 05/13012014(adição 001), 05/13297639(adição 002), 05/13898942(adição 001), 06/00096976(adição 001), 06/00198990(adição 001) e 06/00474113(adição 001),onde foi utilizada pelas impugnantes a NCM 3823.70.30 e das DI's de nº06/12520689(adição 001), 06/13195960(adição 001), 06/13196028(adição 001) e 06/13196044(adição 001), onde foi utilizada pelas impugnantes a NCM 2905.17.30. Por falta de Laudo técnico sobre as características dos produtos, também fica prejudicada qualquer discussão acerca do cabimento do “Ex” 01 — Com características de ceras artificiais. Uma vez que todas as NCM's nos dois últimos parágrafos possuíam, à época dos fatos geradores das DI's correspondentes, as alíquotas de 2,00%, 0,00%, 1,65% e 7,60% para o II, o IPI, o PIS e a COFINS, respectivamente, não há que se falar em exigência de diferença de tributos. Nada a reparar, portanto, no Acórdão da DRJSão Paulo. Diante do exposto, conheço e nego provimento ao Recurso de Ofício. assinado digitalmente Pedro Sousa Bispo Relator Fl. 1642DF CARF MF
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Numero do processo: 13839.001382/2009-24
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009
MULTA ISOLADA. COMPENSAÇÃO CRÉDITO DE TERCEIROS. PROCEDÊNCIA.
Constatada a utilização de títulos públicos em compensação contra norma de vedação do art. 74, da Lei nº 9.430/96, é de se manter o lançamento de multa isolada em relação aos débitos indevidamente compensados.
Numero da decisão: 1401-001.929
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Abel Nunes de Oliveira Neto - Relator.
Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo Dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto (Relator), Livia de Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: ABEL NUNES DE OLIVEIRA NETO
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COMPENSAÇÃO CRÉDITO DE TERCEIROS. PROCEDÊNCIA. Constatada a utilização de títulos públicos em compensação contra norma de vedação do art. 74, da Lei nº 9.430/96, é de se manter o lançamento de multa isolada em relação aos débitos indevidamente compensados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Abel Nunes de Oliveira Neto Relator. Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo Dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto (Relator), Livia de Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 00 13 82 /2 00 9- 24 Fl. 170DF CARF MF 2 Relatório Trata o presente processo de auto de infração relativo a multa isolada lavrado contra a empresa em razão tem ter apresentado compensações baseadas em obrigações do reaparelhamento que foram consideradas não declaradas pela delegacia de origem em razão de terem contrariado a vedação estabelecida pelo art. 74, § 12, I e II, "a", da Lei nº 9.430/96. O auto de infração foi lavrado pela aplicação do percentual de 75% sobre a totalidade dos débitos cuja compensação foi considerada não declarada, na forma do art. 18, da Lei nº 10.833/2003. Contra a autuação o contribuinte apresentou a impugnação de fls. 49 em diante. Analisando a Impugnação apresentada, a DRJ/Belo Horizonte decidiu por manter integralmente a autuação, conforme decisão de fls. 121/129. Cientificada da decisão que manteve a autuação o recorrente apresentou o Recurso Voluntário de fls. 135/164, onde apresenta as seguintes alegações: 1) Da indevida aplicação de Multa e Juros sobre débitos que foram objeto de regular procedimento de compensação; 2) Do efeito de confisco vislumbrado pelo tamanho da autuação em comparação com o capital social da empresa que impossibilitará o seu pagamento futuro; 3) Da inconstitucionalidade de sanções políticas pela imposição de obstáculo ao direito de compensação; 4) Da situação de regularidade fiscal da empresa que pode ser atingida pela irregular imposição desta penalidade. Voto Conselheiro Abel Nunes de Oliveira Neto Fl. 171DF CARF MF Processo nº 13839.001382/200924 Acórdão n.º 1401001.929 S1C4T1 Fl. 170 3 De início cumprese informar que o objeto da lide é a análise acerca da legalidade de imposição de multa isolada relativa aos débitos apresentados à compensação de forma tida irregular por basearse tal compensação em créditos de títulos de obrigações do reaparelhamento econômico. As compensações foram consideradas não declaradas e foi realizada representação para lançamento de multa isolada sobre os débitos irregularmente levados à compensação. Em consequência da utilização de prática legalmente vedada, foi lavrado o auto de infração objeto deste processo decorrente da decisão que considerou não declarada a compensação baseada em crédito de terceiros. Do Objeto de Análise no Presente Processo e da Distinção das penalidades. Correta aplicação da Multa Isolada A análise deste processo prendese, apenas e tão somente, à verificação da regularidade do procedimento fiscal que não decorre do descumprimento da obrigação tributária principal, mas sim do uso indevido da Declaração d e Compensação DCOMP como meio extintivo do crédito tributário. Na cobrança dos débitos resultado de compensação não homologada estes se sujeitos à imposição de multa de mora, quando já confessados, ou ao lançamento de oficio do próprio crédito tributário, quando ainda não confessados. Ocorre, no entanto, que quando a compensação é considerada não declarada não estamos mais tratando do crédito tributário e sua cobrança, mas sim da infração cometida pela empresa ao violar dispositivos normativos que impediam a compensação de seus débitos com o crédito que foi manejado. Demonstrase essa diferença pela leitura das normas atinentes ao caso. Iniciamos pela MP nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833/2003, que determina duas providências em face da inadmissibilidade das compen sações veiculadas em DCOMP: Art. 17. O art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, alterado pelo art. 49 da Lei nº 1 0.637, de 30 de dezembro de 2002, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art. 74. ................................................................................. [...]. § 7º Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimálo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. § 8º. Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7º, o débito será encaminhado à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9º. [...] Fl. 172DF CARF MF 4 Art. 18. O lançamento de ofício de que trata o art. 90 da Medida Provisória nº2.15835, de 24 de agosto de 2001, limitarseá à imposição de multa isolada sobre as diferenças apuradas decorrentes de compensação indevida e aplicarseá unicamente nas hipóteses de o crédito ou o débito não ser passível de compensação por expressa disposição legal, de o crédito ser de natureza não tributária, ou em que ficar caracterizada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. § 1º Nas hipóteses de que trata o caput, aplicase ao débito indevidamente compensado o d isposto nos §§ 6º a 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. § 2º A multa isolada a que se refere o caput é a prevista nos incisos I e II ou no § 2º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, conforme o caso. § 3º Ocorrendo manifestação de inconformidade contra a nãohomologação da compensaç ão e impugnação quanto ao lançamento das multas a que se refere este artigo, as peças serão reunidas em um único processo para serem decididas simultaneamente. [...] Nestes termos, a autoridade competente, quando, no presente caso, não admite um PER/DCOMP tem duas obrigações: A primeira, a de cobrar ou lançar os débitos não compensados conforme seja o caso; A segunda, determinar o lançamento de multa isolada no caso das compensações apresentadas pela empresa quando a compensação apresentada infringir qualquer das normas do art. 74, § 12º, da Lei nº 9.430/96, com alterações pela Lei nº 11.051/2004. Ao contrário do que entende o contribuinte em seu recurso, a cobrança dos débitos indevidamente compensados realizase com a simples aplicação da multa de mora, consoante o previsto no art. 61, da Lei nº 9.430/96. A imposição da multa isolada decorre do procedimento irregular de compensação e não dos débitos que foram extintos com a mesma, por isso a multa de mora aplicada ao pagamento dos débitos não pode em qualquer momento, confundirse com a multa isolada aplicada em punição ao irregular procedimento da empresa É certo na jurisprudência que não pode haver a incidência concomitante da multa de mora com a isolada sobre o tributo. Por isso é que, no presente momento, rebatendo as alegações apresentadas pela empresa quanto a este tópico, é necessário demonstrar que esta multa isolada decorrente da infringência de norma legal não guarda relação com o pagamento/lançamento dos débitos indevidamente compensados. Estes, apenas e tão somente, são utilizados como instrumento para calcular o valor da penalidade. Neste caso, a multa isolada por compensação indevida, prevista no art. 1 8 da Lei nº 10.833/2003, embora associada à falta de recolhimento do débito compensado, dec orre do abuso de forma na apresentação de DCOMP, em hipóteses frontalmente contrárias à l ei que autorizou sua utilização. E isto porque a DCOMP não é mera obrigação acessória, ma s sim integra a essência da compensação, que somente se efetiva por meio dela (art. 74, § 1º d a Lei nº 9.430/96, com a redação dada pela Lei nº 10.637/2002), formalizando a extinção do c rédito tributário, e não apenas sua constituição (art. 74, § 2º da Lei nº 9.430/96, com a redaç ão dada pela Lei nº 10.637/2002). Fl. 173DF CARF MF Processo nº 13839.001382/200924 Acórdão n.º 1401001.929 S1C4T1 Fl. 171 5 A multa isolada pune o uso indevido da DCOMP, quando presentes as circunstâncias gravosas previstas em lei, e é proporcional aos efeitos da conduta praticada, qu al seja, o valor dos débitos que o sujeito passivo pretendeu extinguir. Neste sentido, inclusive, j á se firmou o entendimento administrativo de que a multa isolada de que trata o art. 18 da Lei nº 10.833, de 2003, deve ser considerada uma nova penalidade, e pode ter como base de cálcul o tributos de diferentes espécies, multas e juros, na medida em que é aplicável sobre o valor tot al do débito indevidamente compensado. (Excerto do Voto da Conselheira EDELI PEREIRA BESSA) Feita a necessária distinção das penalidades aplicadas aos casos de compensação considerada não declarada, deve ser negado o recurso quanto a este ponto. Passemos aos demais itens apontados no Recurso Voluntário. Da Inexistência de Efeitos Confiscatórios Quanto ao questionamento do contribuinte acerca dos efeitos confiscatórios da Multa Isolada lançada, devemos considerar que a aplicação da penalidade decorre da estrita obediência da autoridade às normas impositivas da legislação tributária. A consideração acerca de analisar se o percentual de aplicação de uma multa representa ou não efeitos confiscatórios descabe na esfera de julgamento administrativo, conforme leciona a Súmula nº 02 do CARF, abaixo transcrita: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assim, quanto à alegação de efeitos confiscatórios não estão estes caracterizados, posto que o percentual aplicado no cálculo da multa de 75% sobre o valor dos créditos tributários objeto de compensação considerada não declarada, está estabelecido pelas normas do art. 18, § 4º, da Lei nº 10.833/2003, com redação dada pela Lei nº 11.488/2007, não podendo este Conselho insurgirse contra uma norma regularmente instituída pelo Devido Processo Legislativo, devendo ser negado o recurso quanto a isto. Da Inconstitucionalidade da Sanção por vedação do Exercício de Direito à Compensação Quanto ao questionamento do contribuinte acerca da inconstitucionalida da aplicação da sanção por implicar em vedação ao direito à compensação, devemos considerar que a aplicação da penalidade decorre da estrita obediência da autoridade às normas impositivas da legislação tributária. Fl. 174DF CARF MF 6 A consideração acerca de analisar se tal tipo de penalidade implica no cerceamento de direito da empresa, estes efeitos desbordam da competência de análise na esfera de julgamento administrativo, conforme leciona a Súmula nº 02 do CARF, abaixo transcrita: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assim, sendo aplicável a súmula acima destacada, não cabe a este Conselho insurgirse contra uma norma regularmente instituída pelo Devido Processo Legislativo. Devendo ser denegado este pedido no recurso. Da situação de regularidade fiscal da empresa que pode ser atingida pela irregular imposição desta penalidade. Quanto a este ponto, a análise do recurso voluntário apresentado não pode basearse na possibilidade de afetação da regularidade fiscal da empresa. A multa imposta decorre da realização de prática legalmente vedada e não guarda qualquer relação com a situação da regularidade fiscal da empresa. Por tal razão considerando que a alegação da empresa de que a imposição de multa pode afetar sua situação de regularidade fiscal não apresenta motivos jurídicos que possam infirmar a regular realização do lançamento levado a efeito contra a empresa, igualmente entendemos por negar provimento ao recurso neste ponto. Por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento integral ao recurso voluntário, mantendo a autuação em todos os seus termos. Abel Nunes de Oliveira Neto Relator Fl. 175DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11065.101099/2008-93
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições.
Recurso Especial do Contribuinte Provido.
Numero da decisão: 9303-005.337
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. EXPORTAÇÃO. Recorrente CALCADOS MALU LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Contribuinte Provido. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 10 10 99 /2 00 8- 93 Fl. 233DF CARF MF Processo nº 11065.101099/200893 Acórdão n.º 9303005.337 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pelo contribuinte contra o Acórdão 330101.374, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF. Na parte de interesse ao presente litígio, o colegiado a quo decidiu que, no período de apuração destes autos, a cessão onerosa de créditos do ICMS deve compor a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. O contribuinte requer a reforma do acórdão argumentando, em síntese, que a cessão de créditos onerosa de créditos de ICMS não tem natureza jurídica de receita, tratando se de mera mutação patrimonial, não podendo, assim, compor a base de cálculo da contribuição, mesmo antes da eficácia da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. A Procuradoria da Fazenda Nacional não apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.319, de 25/07/2017, proferido no julgamento do processo 13016.000004/200401, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.319): "Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF, haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. Fl. 234DF CARF MF Processo nº 11065.101099/200893 Acórdão n.º 9303005.337 CSRFT3 Fl. 4 3 O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, cuja decisão possui a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deu se em 05/12/2013. Fl. 235DF CARF MF Processo nº 11065.101099/200893 Acórdão n.º 9303005.337 CSRFT3 Fl. 5 4 Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte." Fl. 236DF CARF MF Processo nº 11065.101099/200893 Acórdão n.º 9303005.337 CSRFT3 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dou provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 237DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.002529/2009-32
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007
CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
O Relatório Fiscal e os Anexos do Al oferecem as condições necessárias para que o contribuinte conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa ao lançamento, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam a autuação.
MULTA. ALTERAÇÃO LEGISLATIVA. RETROATIVIDADE BENIGNA. INAPLICABILIDADE.
A retroatividade benigna aplica-se a fato pretérito quando indicado corretamente o dispositivo legal o qual se pretende aproveitar.
Numero da decisão: 2402-005.688
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente Substituto
(assinado digitalmente)
Bianca Felícia Rothschild - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
Nome do relator: BIANCA FELICIA ROTHSCHILD
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. O Relatório Fiscal e os Anexos do Al oferecem as condições necessárias para que o contribuinte conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa ao lançamento, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam a autuação. MULTA. ALTERAÇÃO LEGISLATIVA. RETROATIVIDADE BENIGNA. INAPLICABILIDADE. A retroatividade benigna aplica-se a fato pretérito quando indicado corretamente o dispositivo legal o qual se pretende aproveitar.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente Substituto (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
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INOCORRÊNCIA. O Relatório Fiscal e os Anexos do Al oferecem as condições necessárias para que o contribuinte conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa ao lançamento, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam a autuação. MULTA. ALTERAÇÃO LEGISLATIVA. RETROATIVIDADE BENIGNA. INAPLICABILIDADE. A retroatividade benigna aplicase a fato pretérito quando indicado corretamente o dispositivo legal o qual se pretende aproveitar. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 25 29 /2 00 9- 32 Fl. 859DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente Substituto (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild. Fl. 860DF CARF MF Processo nº 19515.002529/200932 Acórdão n.º 2402005.688 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório Conforme relatório da decisão recorrida, tratase de crédito lançado pela fiscalização contra a empresa retro identificada, por meio do Auto de Infração (AI) DEBCAD n.° 37.117.5887, no montante de R$ 22.082.574,16 (vinte e dois milhões, oitenta e dois mil e quinhentos e setenta e quatro reais e dezesseis centavos), consolidado em 30/06/2009, referente a contribuições destinadas à Seguridade Social, previstas no artigo 22, incisos I e II, e parágrafo 1° da Lei n.° 8.212, de 24/07/1991, correspondentes à parte da empresa e do financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, incidentes sobre a remuneração paga a segurados empregados, não declaradas em GFIP (Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social), relativas a competências de 01/2004 a 13/2007, e a diferença de acréscimos legais (levantamento DAL), apurada nas competências 01/2005, 02/2005 e 02/2007. O Relatório Fiscal, de fls. 730 a 732, informa que: o débito lançado foi apurado, mediante exame dos seguintes livros e documentos, analisados no decorrer da ação fiscal, apresentados pelo contribuinte à fiscalização, quando para tanto intimado, através do “Termo de Início da Ação Fiscal” TIAF: a) Relação Anual de Informações Sociais RAIS Anos Calendário de 2004 a 2007; b) Folhas de Pagamento de empregados de 01/2004'a 12/2008 e 13° Salário; c) Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações a Previdência Social GFIP, de 01/2004 a 12/2008; e, d) Livros Diário dos exercícios de 2004 e 2005; foram realizados trabalhos de verificação e confronto dos valores das contribuições sociais devidas com as efetivamente declaradas e recolhidas, tendo sido apurados débitos, por meio dos levantamentos AJ C e FPA; com relação ao levantamento AJC (Ajuda de Custo) no exame das rubricas constantes das folhas de pagamento, se identificou que, para as filiais localizadas em Fernandópolis/SP (CNPJ 63.054.266/000480) e Descalvado/SP (CNPJ 63.054.266/000641), houve o pagamento de ajuda de custo em mais de uma competência para os mesmos empregados, devendo integrar o salário de contribuição, o que não foi considerado pela empresa; o levantamento FPA (debito não declarado em GFIP) se refere a diferença de valores de remunerações informadas em folhas de pagamento com as declaradas em GFIP, na Matriz (CNPJ 63.054.266/000137) e nas filiais CNPJ 63.054.266/000307, 63.054.266/000480, 63.054.266/000560 e 63.054.266/000641; a não declaração em GFIP constitui omissão de fato gerador, existindo indícios, em tese, de crime de sonegação de contribuições sociais, previsto no art. 337A incisos I e III, do Código Penal DecretoLei n.° 2.848, de 07/12/1940 com redação dada pela Lei n.° 9.983, de 17/07/2000; Fl. 861DF CARF MF 4 constituem fatos geradores das contribuições lançadas: os valores das remunerações pagas aos segurados empregados constantes das folhas de pagamento e RAIS, abrangendo o período de janeiro de 2004 a dezembro de 2008 e não declarados em GFIP, estando estes discriminados no Relatório de Lançamentos; os valores devidos a Previdência Social oriundos de remunerações pagas aos segurados empregados declarados em GFIP's e não recolhidos em época própria não foram considerados nesta ação fiscal, por equivalerem a confissão de divida e sua cobrança estar a cargo da DERAT Delegacia de Arrecadação da Receita Federal do Brasil; a base legal que ensejou o presente lançamento encontrase na legislação constante do relatório FLD ¬ Fundamentos Legais do Débito, que integra este AI. Complementam o Relatório Fiscal, e encontramse anexos ao AI: IPC » Instruções para o Contribuinte; DAD Discriminativo Analítico de Débito; DSD Discriminativo Sintético de Débito; DSE Discriminativo Sintético por Estabelecimento; RL Relatório de Lançamentos; RDA Relatório de Documentos Apresentados; RADA Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados; FLD Fundamentos Legais do Débito; REPLEG Relatório de Representantes Legais; e, VÍNCULOS Relação de Vínculos. Foram juntados, também, pela fiscalização: MPF Mandado de Procedimento Fiscal; TIAF Termo de Inicio da Ação Fiscal; TIAD Termo de Intimação para Apresentação de Documentos; Termos de Intimação Fiscal; Termos de Prosseguimento de Ação Fiscal; e, TEPF Termo de Encerramento do Procedimento Fiscal. Foram juntados, ainda, pela fiscalização, ao presente processo, cópias de alguns documentos da empresa, entre os quais se destacam folhas de pagamento e GFIP's da matriz e das filiais objeto de lançamento por meio deste AI. E, consta, às fls. 736, termo de juntada de processo, segundo o qual, em 30/06/2009, se apensou ao presente processo de n.° 19515002529/200932 os seguintes processos: l9515.002523/200965, l95l5.002524/200918, 19515002525/200954, l95l5.002526/200907, 195l5.002527/200943 e 19515002528/200998. DA IMPUGNAÇÃO Inconformada com a autuação, da qual foi cientificada, pessoalmente, em 30/06/2009 (fls. 03), a empresa apresentou, em 29/07/2009, a impugnação de fls. 740 a 751, com documentos anexos às fls. 752 a 774 (Procuração, e cópias de documento de identificação do subscritor da impugnação, de Ata de Assembléia Geral Extraordinária de 3l/ 10/2007, e do Estatuto Social adaptado às Leis 10.406/2002 e 11.127/2005, aprovado pela Assembléia Geral Extraordinária de l 1/01/2007), na qual deduz as alegações a seguir sintetizadas. Das considerações iniciais: Informa a empresa que o relatório fiscal, de forma concisa, descreve que o lançamento se refere a contribuições previdenciárias devidas referentes ao período de janeiro de 2004 a dezembro de 2008 não declaradas em GFIP e destacadamente reembolso de despesas, e que referida exigência não poderia prosperar. Do cerceamento ao direito do exercício da ampla defesa: Segundo a impugnante, a afirmação de forma unilateral e genérica de que teria deixado de recolher valores devidos à Previdência Social, sem, contudo, demonstrar a origem e a natureza da contribuição e os segurados beneficiários da previdência social, Fl. 862DF CARF MF Processo nº 19515.002529/200932 Acórdão n.º 2402005.688 S2C4T2 Fl. 4 5 impediria a perfeita identificação da obrigação inadimplida, sendo que o obscurantismo do ato administrativo o inquinaria de nulidade. Sustenta que todo ato administrativo, além da obrigação de possuir fundamentação legal, sob pena de violar os princípios da legalidade e da motivação, celebrados pelos artigos 37 e 150, inciso I da Constituição Federal de 1988, e artigos 97, inciso I, e 142, parágrafo único do Código Tributário Nacional, deve possuir descrição correta, ou seja, identificar com clareza o ato praticado, permitindo ao administrado a prática de ampla defesa administrativa de seus direitos, também constitucionalmente assegurados pelo inciso LV do artigo 5° da Constituição Federal de 1988. Para ela, a infração cometida, a fundamentação jurídica e a base imponível deveriam estar indicadas de forma precisa, de modo a respaldar a validade da autuação, possibilitando, com sua identificação, o exercício da ampla defesa na esfera administrativa. Alega, então, que houve, no caso, violação aos artigos 2° e 50, inciso II da Lei n.° 9.784, de 29/01/1999, e conclui que padece de vício de nulidade a constituição do crédito sem a identificação dos segurados beneficiários, bem como dos fatos geradores. Da decadência: Afirma a empresa que o lançamento das contribuições previdenciárias é denominado por homologação, aplicável aos tributos em que o contribuinte antecipa o pagamento sem prévio exame do Fisco, dispondo o INSS de cinco anos para homologar o pagamento, e que, findo este prazo sem que o Fisco tenha se manifestado, se operam os efeitos da decadência e se considera tacitamente homologado o pagamento antecipado, feito pelo sujeito passivo, extinguindose, conseqüentemente, o crédito tributário, nos termos do artigo 150, § 4° do Código Tributário Nacional (CTN). Informa que, nesta modalidade de lançamento, o prazo contase a partir da ocorrência do fato gerador e não a partir do primeiro dia do exercício seguinte em que se extinguiu o seu direito de rever e homologar o lançamento, como ocorre nas hipóteses de lançamento direto (art. 173, I do CTN). Segundo ela, a jurisprudência do STJ teria se reorientado, corretamente neste sentido, citando o “Resp 180.879SP, STJ, 2” Turma, unânime, 1552001”, segundo o qual “havendo pagamento antecipado, contase o prazo decadencial a partir da ocorrência do fato gerador”. Relata que a natureza tributária das contribuições dos artigos 149 e 195 da Constituição Federal foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal, e que a Lei Ordinária n.° 8.212/91, em seus artigos 45 e 46, teria fixado o prazo de 10 (dez) anos para a constituição dos créditos oriundos das contribuições sociais e para a sua cobrança, contrariando as regras contidas no CTN. Destaca que a Constituição de 1988 reservou à lei complementar a competência para disciplinar a matéria atinente à decadência tributária; e que a Lei n.° 5.172/66, recepcionada como lei complementar, estabelece o prazo decadencial de 5 (cinco) anos para a Fazenda Pública constituir e cobrar o crédito tributário, sendo que as contribuições sociais são espécies de tributos. Fl. 863DF CARF MF 6 Alega que os dispositivos dos artigos 45 e 46 ferem o princípio da competência legislativa, pois, se o Constituinte outorgou competência ao legislador complementar para regular normas gerais de direito tributário, dentre as quais a decadência, somente o legislador complementar poderia disciplinar tal matéria, sob pena de inconstitucionalidade por inobservância do quorum especial e qualificado. Faz menção, então, à Súmula Vinculante n.° 8, ressaltando os efeitos vinculantes introduzidos pela Emenda Constitucional n° 45 de 30/ 12/2004, ao acrescentar o artigo 103A da Constituição Federal, regulamentada pela Lei n.° 11.417, de 19/ 1 2/2006. E conclui que, no seu entendimento, restariam decadentes as exigências tributárias do período de 01/2004 a 06/2004. Da multa: Destaca, aqui, a empresa, algumas modificações introduzidas na Lei n.° 8.212/91 pela Medida Provisória n.° 449/2008, já convertida em lei, transcrevendo os artigos 32A e 35, em sua nova redação, e informa que o Código Tributário Nacional, em seu artigo 106, regulamenta os efeitos mais benéficos de forma retroativa. E afirma que restou cristalino que não houve aplicação da penalidade mais benéfica, até mesmo diante dos valores conflitantes consignados no relatório fiscal. Do pedido: Para ela, assim, restaria demonstrada a necessidade de revisão do ato impugnado para declarar a sua nulidade. A decisão da autoridade de primeira instancia julgou procedente em parte a impugnação da Recorrente, cuja ementa encontrase abaixo transcrita: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 Ementa: CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. OBRIGAÇÃO DO RECOLHIMENTO. A empresa é obrigada a recolher, nos prazos definidos em lei, as contribuições previdenciárias a seu cargo, incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer titulo, aos segurados empregados a seu serviço. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. O Relatório Fiscal e os Anexos do Al oferecem as condições necessárias para que o contribuinte conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa ao lançamento, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam a autuação. DECADÊNCIA. SÚMULA VINCULANTE. STF. Com a declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei n.° 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por meio da Súmula Vinculante n.° 8, publicada no Diário Oficial da União em 20/06/2008, o lapso de tempo de que dispõe a Secretaria da Receita Federal do Brasil para constituir os créditos relativos às contribuições previdenciárias será regido pelo Código Tributário Nacional (Lei n.° 5.172/66). Fl. 864DF CARF MF Processo nº 19515.002529/200932 Acórdão n.º 2402005.688 S2C4T2 Fl. 5 7 MULTA. ALTERAÇÃO LEGISLATIVA. RETROATIVIDADE BENIGNA. A lei aplicase a fato pretérito quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. O cálculo para aplicação da multa mais benéfica ao contribuinte deverá ser efetuado no momento do pagamento, parcelamento ou execução do crédito, comparando se a legislação vigente à época dos fatos geradores com os termos da Lei n.° 11.941/2009. Cientificado da decisão de primeira instancia em 01/02/2011 (fl. 844), o contribuinte apresentou tempestivamente, fl. 846/852, em 28/02/2011, o recurso voluntário aduzindo, em síntese que: 1. CERCEAMENTO AO DIREITO DO EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA A afirmação de forma unilateral e genérica de que a Notificada deixou de recolher valores devidos à Previdência Social, sem, contudo, demonstrar a origem e a natureza da contribuição e os segurados beneficiários da previdência social, impede a perfeita identificação da obrigação inadimplida. Assim, ante aos princípios da legalidade, a infração cometida deve estar demonstrada e sua fundamentação jurídica, bem como a base imponível de forma precisa, possibilitando com sua identificação o exercício da ampla defesa na esfera administrativa. Logo, aduz que padecem do vicio de nulidade a constituição do crédito previdenciário sem a identificação dos segurados beneficiários, bem como dos fatos geradores. 2. PENALIDADE MAIS BENÉFICA O Código Tributário Nacional em seu artigo 106 regulamenta os efeitos mais benéficos de forma retroativa. Neste sentido as alteraçoes nos valores das penalidades impostas por descumprimento de obrigações acessórias nos termos da nova redação da Medida Provisória n° 449/2008 convertida na Lei 11.541/2009 , trouxeram expressivas modificações conforme disposto no artigo 32A da Lei 8.212/91 assim descrito: Assim, defende que restou cristalino que não houve aplicação da penalidade mais benéfica, até mesmo diante dos valores conflitantes consignados no relatório fiscal. Diante do exposto, requer seja decretada a nulidade do presente lançamento de débito. É o relatório. Fl. 865DF CARF MF 8 Voto Conselheira Bianca Felícia Rothschild Relatora O recurso é TEMPESTIVO, eis que intimado da decisão no dia 01/02/2011 (fl. 844), interpôs recurso voluntário no dia 28/02/2011, atendendo também às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser CONHECIDO. CERCEAMENTO AO DIREITO DO EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA Não procede a alegação da Recorrente no sentido de que o presente AI padeceria do vício de nulidade, por falta de identificação da obrigação inadimplida. Primeiramente, cabe observar que o AI foi lavrado tendo em vista a constatação de falta de recolhimento de contribuições (descumprimento de obrigação principal) e não de infração a dispositivo da legislação que estabelece prestações no interesse da sua arrecadação ou fiscalização (descumprimento de obrigação acessória). Merece destaque, aqui, o fato de constar expressamente no Relatório Fiscal do AI: a) que as contribuições lançadas tiveram origem no exame de livros e documentos apresentados pelo contribuinte à fiscalização, quais sejam: Relação Anual de Inforrnações Sociais (RAIS) de 2004 a 2007; Folhas de pagamento (FP) de 01/2004 a 12/2008, e 13° Salário; Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP) de 01/2004 a 12/2008; e, Livros Diário de 2004 e 2005; e, b) que os valores lançados foram apurados como resultado dos trabalhos de verificação e confronto das contribuições devidas com as efetivamente declaradas e recolhidas. Ressaltese, ainda, no caso, que a empresa não trouxe aos autos quaisquer elementos comprobatórios no sentido de que as contribuições lançadas teriam valores diversos dos levantados. A seguir, se demonstra, por meio de alguns exemplos, como se deu a apuração da base de cálculo referente ao levantamento FPA, com base na metodologia citada no Relatório Fiscal e nos documentos anexados pela fiscalização nos autos deste AI n.° 37.117.5887, não havendo obscurantismo no lançamento. Quanto à falta de identificação dos segurados, citada pela Recorrente, por sua vez, cabe observar: a) que, para o levantamento AJC, existe às fls. 281 a 317 dos autos este AI n.° 37.117.5887, planilha demonstrativa de base de cálculo e de contribuições individualizada por segurado; e, b) que, para o levantamento FPA, a empresa tem condições de saber a quais segurados se referem os saláriosdecontribuição lançados, tendo em vista que o crédito foi constituído com base em seus próprios documentos, apresentados por ela à fiscalização, entre os quais se destacam as suas folhas de pagamento e as suas GFlP's, não havendo que se falar em cerceamento de defesa. Houve, no caso, a discriminação clara e precisa dos fatos geradores (remuneração de empregados), da natureza das contribuições devidas (contribuições devidas à Seguridade Social correspondente às contribuições da empresa e do financiamento dos beneficios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho) e do período a que se referem (01/2004 a 13/2007), conforme se pode verificar no AI e seus anexos. Fl. 866DF CARF MF Processo nº 19515.002529/200932 Acórdão n.º 2402005.688 S2C4T2 Fl. 6 9 Cumpre salientar que o ato administrativo consubstanciado neste Al possui motivo legal, tendo sido praticado em conformidade ao legalmente estipulado, e estando os seus fundamentos legais discriminados no anexo “FLD Fundamentos Legais do Débito”, bem como motivo de fato, tendo havido, pela fiscalização, a verificação concreta da situação fática para a qual a lei previu o cabimento do ato, e estando os fatos imponíveis discriminados no Relatório Fiscal, e no anexo “DAD Discriminativo Analítico de Débito”. O anexo DAD indica os valores das bases de cálculo consideradas e “discrimina, por estabelecimento, levantamento, competência e item de cobrança, os valores originários das contribuições devidas pelo sujeito passivo, as alíquotas utilizadas, os valores já recolhidos, anteriormente confessados ou objeto de Auto, as deduções legalmente permitidas e as diferenças existentes”, e o anexo FLD “informa ao contribuinte os dispositivos legais que fundamentam o lançamento efetuado, de acordo com a legislação vigente à época de ocorrência dos fatos geradores”. Tais anexos, ao indicarem a base de cálculo apurada, as alíquotas aplicadas e as contribuições exigidas por competência, bem como os dispositivos legais aplicados, pela fiscalização, no presente lançamento, discriminados por período, propiciaram o pleno exercício do direito do contraditório e da ampla defesa constitucionalmente assegurado aos litigantes em processo administrativo. Dessa forma, o ato administrativo de lavratura do presente AI não deve ser invalidado, uma vez estando presentes os seus requisitos de validade, e tendo sido atendidos, pela fiscalização, os requisitos previstos nos artigos 2° e 50, inciso II da Lei n.° 9.784/99, entre os quais se destacam a observância aos princípios da legalidade e motivação. DA APLICAÇÃO PENALIDADE MAIS BENÉFICA Não tendo sido indicado claramente o dispositivo legal que se pretende aplicar de forma mais benéfica ao caso em tela, entendo que não procede a alegação da Recorrente neste aspecto. Tendo em vista todo o acima, voto no sentido de CONHECER e NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild. Fl. 867DF CARF MF
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Numero do processo: 13116.901585/2012-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 30/06/2006
PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE.
A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni - Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário.
COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA.
O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendo-se necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.934
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 30/06/2006 PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE. A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni - Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário. COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA. O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendo-se necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo. Recurso Voluntário Negado
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1798; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C2T1 Fl. 2 1 1 S3C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13116.901585/201273 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3201002.934 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 28 de junho de 2017 Matéria RESTITUIÇÃO Recorrente UNIÃO BRASILIENSE DE EDUCAÇÃO E CULTURA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 30/06/2006 PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE. A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário. COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA. O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 11 6. 90 15 85 /2 01 2- 73 Fl. 77DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório UNIÃO BRASILIENSE DE EDUCAÇÃO E CULTURA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição para o PIS. A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico indeferindo o Pedido de Restituição, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a restituição pleiteada. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante informou que o direito creditório tinha por fundamento a isenção da contribuição para o PIS decorrente da adesão ao Programa Universidade para Todos ProUni, nos termos da Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009, em que se reafirmou o direito à isenção durante o período de vigência do Termo de Adesão (art. 5º da Medida Provisória nº 213/2004). Nos termos do Acórdão nº 14053.566, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a DRJ fundamentado sua decisão no fato de inexistir comprovação, por meio de documentação contábil e fiscal, do direito creditório pleiteado e por não ter havido a comprovação da adesão da instituição ao ProUni, nos termos do art. 8º da Lei nº 11.096/2005. Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa suas razões de defesa, destacando a existência a seu favor de solução de consulta da Receita Federal assegurando o direito à isenção, o que, segundo ela, tornava "legalmente desnecessária" a exigência de comprovação de sua adesão ao programa. Argumenta, ainda, que, nos casos da espécie, é "faticamente impossível" a apresentação de documentos, por se tratar o pedido de restituição de procedimento eletrônico. Na sequência, sustenta a absoluta desnecessidade dos elementos de prova exigidos pela Delegacia de Julgamento, quais sejam, folhas de salário e contabilidade, por se tratar de questão aperfeiçoada e superada ante a homologação da base de cálculo da contribuição por parte da Fiscalização, tendo em vista que constou do despacho decisório que o valor declarado encontravase exato e perfeito. Supletivamente, pugna, caso o CARF entenda necessário, pela realização de diligência junto à repartição de origem, para que a autoridade administrativa oficie o Ministério da Educação com vistas a elucidar os termos no quais se manteve a sua adesão ao ProUni no período sob comento. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator Fl. 78DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.885, de 28/06/2017, proferido no julgamento do processo nº 13116.900001/201412, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.885): O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. O dispositivo legal que trata da isenção de impostos e contribuições às instituições de ensino que aderirem ao Prouni é o art. 8º da Lei nº 11.096/2005, reproduzido no que se aplica ao caso (grifei): Art. 8o A instituição que aderir ao ProUni ficará isenta dos seguintes impostos e contribuições no período de vigência do termo de adesão: (Vide Lei nº 11.128, de 2005) (...) III Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social, instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991; e IV Contribuição para o Programa de Integração Social, instituída pela Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970. § 1° A isenção de que trata o caput deste artigo recairá sobre o lucro nas hipóteses dos incisos I e II do caput deste artigo, e sobre a receita auferida, nas hipóteses dos incisos III e IV do caput deste artigo, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2° A Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda disciplinará o disposto neste artigo no prazo de 30 (trinta) dias. § 3° A isenção de que trata este artigo será calculada na proporção da ocupação efetiva das bolsas devidas. (Incluído pela Lei nº 12.431, de 2011). A Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 5.493, de 18/07/2005, com os dispositivos que se aplicam ao caso transcritos (grifei): Art. 1o O Programa Universidade para Todos PROUNI, de que trata a Lei no 11.096, de 13 de janeiro de 2005, destinase à concessão de bolsas de estudo integrais e bolsas de estudo parciais de cinqüenta por cento ou de vinte e cinco por cento, para estudantes de cursos de graduação ou seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior, com ou sem fins lucrativos, que tenham aderido ao PROUNI nos termos da legislação aplicável e do disposto neste Decreto. Parágrafo único. O termo de adesão não poderá abranger, para fins de gozo de benefícios fiscais, cursos que exijam formação prévia em nível superior como requisito para a matrícula. Art. 2o O PROUNI será implementado por intermédio da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. Fl. 79DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 5 4 § 1o A instituição de ensino superior interessada em aderir ao PROUNI firmará, em ato de sua mantenedora, termo de adesão junto ao Ministério da Educação. (...) Art. 12. Havendo indícios de descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão, será instaurado procedimento administrativo para aferir a responsabilidade da instituição de ensino superior envolvida, aplicandose, se for o caso, as penalidades previstas. (...) A Secretaria da Receita Federal em cumprimento ao disposto no § 2º do art. 8º acima, editou a Instrução Normativa SRF nº 456/2004, posteriormente revogada pela IN RFB nº 1.394/2013, que dispunha, no que se aplica ao caso (grifei): Art. 1º A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (ProUni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, das seguintes contribuições e imposto: I Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); II Contribuição para o PIS/Pasep; (...) § 1º A isenção de que trata o caput recairá sobre o lucro na hipótese dos incisos III e IV, e sobre o valor da receita auferida na hipótese dos incisos I e II, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2º Para fins do disposto nos incisos III e IV do caput a instituição de ensino deverá apurar o lucro da exploração referente às atividades sobre as quais recaia a isenção, observado o disposto no art. 2º e na legislação do imposto de renda. (...) Art. 3º Para usufruir da isenção, a instituição de ensino deverá demonstrar em sua contabilidade, com clareza e exatidão, os elementos que compõem as receitas, custos, despesas e resultados do período de apuração, referentes às atividades sobre as quais recaia a isenção segregados das demais atividades. (...) O termo de adesão foi previsto no art. 5º da Lei nº 11.096/2005, in verbis (grifei): Art. 5o A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, poderá aderir ao Prouni mediante assinatura de termo de adesão, cumprindolhe (...) § 1o O termo de adesão terá prazo de vigência de 10 (dez) anos, contado da data de sua assinatura, renovável por iguais períodos e observado o disposto nesta Lei. Fl. 80DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 6 5 (...) Art. 7o As obrigações a serem cumpridas pela instituição de ensino superior serão previstas no termo de adesão ao Prouni, no qual deverão constar as seguintes cláusulas necessárias: (...) Art. 9o O descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão sujeita a instituição às seguintes penalidades: (...) Art. 16. O processo de deferimento do termo de adesão pelo Ministério da Educação, nos termos do art. 5o desta Lei, será instruído com a estimativa da renúncia fiscal, no exercício de deferimento e nos 2 (dois) subseqüentes, a serusufruída pela respectiva instituição, na forma do art. 9o desta Lei, bem como o demonstrativo da compensação da referida renúncia, do crescimento da arrecadação de impostos e contribuições federais no mesmo segmento econômico ou da prévia redução de despesas de caráter continuado A recorrente alega a desnecessidade de apresentação de qualquer documento que comprove sua regular adesão ao Prouni sob o fundamento de que o documento é totalmente eletrônico e a própria Lei nº 11.096/2005 em seu art. 11, § 1º, remete a competência para tais verificações e exigências ao Ministério da Educação. Não é o que se extrai da leitura dos dispositivos acima. O termo de adesão é documento a ser firmado no qual se inserem requisitos de participação no referido Programa. Os diversos dispositivos transcritos (Lei, Decreto e Instrução Normativa) apontam para vários elementos a serem inseridos no Termo que permitiram não somente a adesão da instituição de ensino, mas o controle de sua permanência, enquanto regular e vigente, a aplicação de penalidade, e, principalmente ao que interessa ao presente litígio, a isenção de contribuições. Dessa forma, a exibição do documento "Termo de Adesão" é essencial ao gozo do benefício fiscal de isenção das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins Ao contrário do que alega a recorrente, o termo de Adesão, ainda que eletrônico, prevê o ato de sua assinatura, para que se dê a devida validade e autenticidade. Realmente é emitido no âmbito do Ministério da Educação, o que demonstra não estar nos sistemas internos (informatizados) da Secretaria da Receita Federal; e, se de fato materializado apenas em formato eletrônico em razão de sua essencialidade, é de se presumir a possibilidade de sua impressão, típica das emitidas por órgãos públicos, com chave de segurança para confirmação da autenticidade. Ademais, documento oficial, que confere benefícios tributários de outra ordem, e firmado entre partes Ministério da Educação e instituição de ensino privada há de ser mantido pela parte interessada para o gozo dos benefícios previstos no Termo. Fl. 81DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 7 6 Nada obstante, o que a recorrente argumenta para a não apresentação do Termo de adesão ao Prouni outros recorrentes em situação idêntica não se escusaram do cumprimento de singelo mister. Vejase exemplo de julgado proferidos neste Conselho em que se demonstrou a possibilidade fática de apresentar e comprovar a adesão e mantença no Programa (grifei): Autoridade Julgadora de 1ª Instância bem observou ainda que o contribuinte em questão comprovou nos autos (fls. 3.325) a adesão ao Programa Universidade para Todos, trecho que merece ser reproduzido por ser de extrema valia: "60. Para comprovar a adesão ao PROUNI o contribuinte anexou aos autos cópia do correio eletrônico do MEC (fls. 3.118) e cópia do Termo de Adesão (fls. 3.119 a 3.273). (Acórdão nº 3402001.704, processo nº 19515.000260/200879, relatoria do cons. João Carlos Cassuli Junior, sessão de 22/03/2012) Não se pode concluir de outra forma, senão a que a recorrente não se dignou a comprovar a existência e aposição de assinatura no Termo de Adesão e a regular fruição do Programa que aderiu. Tenho que este fundamento é suficiente para negar provimento ao recurso voluntário; contudo, há de se tecer ainda argumentos pertinentes ao ônus probatório a cargo a de quem pleiteia direito seu. Antes, porém, analisase as demais teses suscitadas no recurso voluntário que visam seu provimento Sustenta ainda a desnecessidade de apresentação das folhas de salário e respectivamente contabilidade pois entende que no despacho decisório há o reconhecimento expresso de que a base de cálculo encontrase "exata e perfeita", além de "devidamente homologada". Quanto à exigência de apresentação de documentos fiscais e contábeis, assentou o voto condutor do acórdão recorrido que deveria também ter juntado a folha de salários, a fim de demonstrar a base de cálculo do PIS, e os livros fiscais que demonstrassem os lançamentos relativos a ela. Ora, em que pese a ressaltava da DRJ, com a qual concordo, que a isenção do PIS prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 não alcança a parcela que incide sobre a folha de salários, a Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009 proferiu entendimento cuja interpretação errônea da contribuinte adiante será enfrentado lhe é favorável quanto à isenção do PISfolha de salários. Ad argumentandum tantum, justamente firmada no entendimento favorável que extraiu do ato expedido pela autoridade, a recorrente pleiteia a restituição do PISfolha de salários, código de receita "8301". Se há o entendimento de que faz jus à esta isenção deveras tem o ônus de fazer prova documental de seu pretenso direito, qual seja, a apresentação dos documentos e livros atinentes à rubrica "salários" para que se comprove qual sua dimensão (quantificação) na base de cálculo. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 8 7 Por fim, assevera que a controvérsia quanto ao direito à isenção está superado pela conclusão da indigitada Solução de Consulta, que entende terlhe assegurado a isenção do PIS sobre folha de salários. Mais uma vez, sem razão a contribuinte. A Solução de Consulta expressamente consignou que a isenção alcança a Contribuição para o PIS, nada dispondo acerca do PIS folha de salários. Digase que na elaboração da peça a consulente, ora recorrente, apenas informou ter realizada a adesão ao Prouni, sem qualquer comprovação naquele autos de consulta, e apresenta seu entendimento de que a isenção alcançaria o PIS folha de salários, para ao final requerer a manifestação do Órgão quanto ao seu entendimento. Eis a cartaconsulta: Entendo que ao fundamentar a solução da consulta, a autoridade que a proferiu fez constar em seus fundamentos a legislação que trata da incidência do PIS sobre a folha de salários, à alíquota de 1%, deixando assente a tributação sobre esta rubrica, com a transcrição do art. 13 e incisos III e IV, da Medida Provisória nº 2.15835/2001. Colacionou os dispositivos que tratam da isenção do PIS sobre a receita auferida pela instituição de educação que aderir e assim se mantém no Prouni. Transcreveu os arts. 8º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º da Lei nº 11.096/2005; arts. 1º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º, e 3º caput e parágrafo único da IN SRF nº 456/2004, para em seguida enunciar no mesmo tópico "fundamentos" que: " 5. Ante os dispositivos acima expostos, verificase que a instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória n° 213, de 2004, Fl. 83DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 9 8 ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS." Conclui a solução da consulta com o enunciado: Conclusão 6. Em face do exposto, concluise que a instituição privada de ensino superior com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao programa Universidade para Todos (prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Completase os fatos com a apresentação da ementa da Solução de Consulta SRRF/1ªRF/Disit nº 86, de 2 de junho de 2009: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: PIS. PROUNI. INCIDÊNCIA. A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5o da Medida Provisória nº 213. de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Dispositivos Legais: art.13 da Medida Provisória n° 2.15835/2001; art.8° da Lei n° 11.096/2005; arts. 1º e 3o da Instrução Normativa nü 456/2004. Não vislumbro imprecisão no Ato que poderia dar a interpretação de que toda e qualquer incidência do PIS a que se sujeitam as entidades aderentes ao Prouni estaria isenta. A uma, os dispositivos legais da ementa da solução de consulta informam a legislação aplicada, primeiro, a que dispõe acerca do Pis folha de salários tributado à alíquota de 1% e após, a que trata do PIS alcançado pela isenção; a duas, porque nos fundamentos, a autoridade trouxe a legislação que faz distinção entre PISfolha de salário tributada à alíquota de 1%, e o PIS sobre receitas isentos nos termos e requisitos das legislação; a três, a omissão do termo "PIS sobre folha de salários" não tem o condão de fazêlo incluir na isenção pelo motivo a seguir; a quatro, nos termos do art. 111 caput e inciso II do CTN, "interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção"; a cinco, não caberia a autoridade fiscal ou administrativa contrariar preceito legal. Por fim, sacramentando o entendimento do não alcance da isenção ao PIS sobre folha de salários, o Órgão Central da Secretaria da Receita Federal editou a Solução de Divergência Cosit nº 1, de 2015, publicada no D.O.U de 24/12/2015, com a ementa: SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA Nº 1, DE 10 DE FEVEREIRO DE 2015. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP EMENTA: INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR. PROUNI. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP INCIDENTE SOBRE A FOLHA Fl. 84DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 10 9 DE SALÁRIOS. A isenção de que trata o art. 8º da Lei nº 11.096, de 2005, não se aplica à Contribuição para o PIS/Pasep incidente sobre a folha de pagamentos da pessoa jurídica que adere ao Prouni. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº 9.532, de 1997, art. 12; Decreto nº 4.524, de 2002, arts. 9º e 46; Lei nº 11.096, de 2005, art. 8º; DecretoLei nº 5.172 (CTN), de 1966, art. 111,II; Instrução Normativa RFB nº 1.394, de 2013 e Medida Provisória (MP) nº 2.15835, de 2001. O último argumento da recorrente referese à eventual realização de diligência, oficiandose ao Ministério da Educação acerca da sua manutenção no Prouni, acaso não seja superada os fundamentos ante aduzidos que entende suficiente ao direito à restituição pleiteada decorrente do pagamento indevido da Contribuição. Primeiramente, desnecessária a providência pois como assentado neste voto os fundamentos antecedentes são suficientes para negar provimento ao recurso. Não há dúvidas intransponíveis nos autos que necessitam de serem completadas para decidir o litígio. Nos processos, como o presente, que tratam de solicitação de restituição e compensação, a comprovação do direito aos créditos incumbe ao postulante. É seu dever carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, em especial quando necessário à fruição de benefício tributário de isenção. Caso essa comprovação houvesse sido feita, e ainda restasse dúvida ao julgador quanto a permanência regular e temporal no Programa, cabível seria a diligência. Assim, incabível a solicitação de diligência dirigida ao Ministério da Educação para apresentação do Termo de Adesão, documento primário e essencial ao compromisso assumido e firmado pela instituição educacional que requer o gozo dos benefícios do Prouni e que não se dignou a apresentar aos autos. Até esse ponto, restou assente que a recorrente não apresentou o Termo de Adesão ao Prouni, folhas de salário e escrituração contábil; e não permaneceu silente quanto às exigências. Em todas as peças recursais impugnação e recurso voluntário sustentou a desnecessidade desse dever, pois entendeu que o despacho decisório e a solução de consulta reconheceram expressamente seu direito à isenção do PIS relativo ao Programa, sem colacionar qualquer documento seu aos autos. A ausência de elementos probantes viola a regra jurídica adotada pelo direito pátrio de que a prova compete à pessoa que alega o fato, conforme se depreende do abaixo transcrito artigo 16, caput, III, do Decreto n° 70.235, de 1972 (PAF), que regulamenta o processo administrativo fiscal no âmbito federal, e do artigo 373, do Código de Processo Civil,verbis: Decreto n° 70.235, de 1972: Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Lei nº 13.105/2015 CPC Fl. 85DF CARF MF Processo nº 13116.901585/201273 Acórdão n.º 3201002.934 S3C2T1 Fl. 11 10 "Art. 373. 0 ônus da prova incumbe: I — ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II — ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor." Cabe assinalar que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoas com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente, com análise da situação fática, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. As Declarações (DCTF, DCOMP e DACON, PER/DCOMP), os documentos fiscais e contábeis e aqueles pertinentes a benefícios tributários, celebrados com órgãos públicos, são produzidos e celebrados pelo próprio contribuinte ou com sua participação, de sorte que, havendo inconsistências ou omissões, impõe a obrigação da recorrente em comprovar os fatos mediante a escrituração contábil e fiscal, sustentada em documentos, tendo em vista que, apenas os créditos líquidos e certos comprovados inequivocamente pelo contribuinte são passíveis de compensação tributária, conforme preceituado no artigo 170 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional/CTN). Conclusão Por todo o exposto a recorrente não se desincumbiu do ônus de provar o alegado direito líquido e certo, decorrente de suposto pagamento a maior ou indevido de PIS. Assim, não encontro razão para modificar a decisão a quo e VOTO no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO e NÃO RECONHECER O DIREITO CREDITÓRIO. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 86DF CARF MF
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Numero do processo: 10530.721612/2011-66
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
LIVRE INICIATIVA. LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL.
A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerando-se a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal.
SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS.
A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados.
CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL.
Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitar-se da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais.
Numero da decisão: 9101-002.795
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 LIVRE INICIATIVA. LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL. A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerando-se a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal. SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS. A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados. CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL. Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitar-se da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais.
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LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL. A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerandose a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal. SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS. A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 16 12 /2 01 1- 66 Fl. 19523DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.524 2 CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL. Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitarse da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado). (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Fl. 19524DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.525 3 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela FAZENDA NACIONAL (efls. 19315/19338) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1101000.852 (efls. 19286/19313), pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 05/03/2013, no qual foi dado provimento ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte. Resumo Processual A autuação fiscal, relativa aos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, discorre sobre as pessoas jurídicas MK Eletrodomésticos Ltda ("MK"), ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda ("ME"), ALPHAPRO Cuidados Pessoais Ltda (antiga MC Climatização, "Alpha") e Mondial Eletrodomésticos ("Mondial"), que fabricam, importam e comercializam produtos com a marca comercial "Mondial". Entendeu a Fiscalização que as empresas, apesar de constituídas como pessoas jurídicas diferentes, na realidade seriam uma mesma universalidade, e a separação teria sido realizada com o objetivo de reduzir a carga tributária. Foram realizados ajustes na base de cálculo, considerandose a apuração incidente sobre apenas uma empresa, a MK, identificada como sujeito passivo direto (Contribuinte). As demais empresas, ME, Alpha e Mondial foram arroladas como sujeitos passivos indiretos (sujeito passivo solidário com fulcro no art. 124 do CTN). A MK apresentou impugnação que foi julgada improcedente pela primeira instância (DRJ). Irresignada, a Contribuinte interpôs recurso voluntário, no qual foi dado provimento pela segunda instância (Turma Ordinária do CARF). Foi interposto pela PGFN recurso especial e a Contribuinte apresentou contrarrazões. O recurso foi admitido por despacho de exame de admissibilidade. A seguir, maiores detalhes sobre a autuação fiscal. Da Autuação Fiscal Discorre a autoridade autuante (efls. 20/47) que as empresas MK, ME, Alpha e Mondial, constituídas em pessoas jurídicas diferentes, eram, na realidade, uma mesma empresa, fundamentando suas conclusões nas seguintes constatações: (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras. Entendeu a autoridade autuante que não haveria nenhum motivo negocial para o desmembramento e existência segmentada das quatro empresas. Concluiu que o único objetivo do desmembramento da empresa em quatro seria a redução do pagamento de tributos e vantagens fiscais no âmbito do ICMS, razão pela qual as operações tributáveis das quatro empresas foram consolidadas. Fl. 19525DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.526 4 Foi eleita com Contribuinte, sujeito passivo direto, a MK, por ser a única empresa que mantém atividade industrial e comercial utilizando a marca “Mondial”, e por possuir em seu quadro societário, o efetivo responsável pelas operações das empresas, Sr. Alberto Baggiani. As demais empresas, ME, Alpha e Mondial foram incluídas no pólo passivo na condição de sujeito passivo indireto, por conta da solidariedade do art. 124 do CTN . No processo de consolidação dos resultados, foram glosados e adicionados ao LALUR valores lançados em conta de despesas operacionais, financeiras e não operacionais, em razão do entendimento de que tais despesas ou provisões seriam indedutíveis na forma do RIR/1999. Os presentes autos tratam dos autos de infração de IRPJ e CSLL (efls. 04/62), relativos aos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, e dos Termos de Sujeição Passiva Solidária (efls. 18519/18527). Da Fase Contenciosa. A MK apresentou impugnação (efls. 18840 e segs), que foi julgada improcedente pela 1ª Turma da DRJ/Salvador, nos termos do Acórdão nº 1528.120 (efls. 19018 e segs.), conforme ementa a seguir. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário:2007, 2008, 2009. AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Tendo o auto de infração preenchido os requisitos legais e o processo administrativo proporcionado plenas condições à interessada de impugnar o lançamento, descabe a alegação de nulidade. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. CONTESTAÇÃO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008,2009. TRANSAÇÕES. LEGALIDADE. LEGITIMIDADE. O fato de cada uma das transações, isoladamente e do ponto de vista formal, ostentar aparente legalidade, não garante a legitimidade do conjunto de operações, quando fica comprovado que os atos praticados tinham objetivo diverso daquele que lhes é próprio. AUTOORGANIZAÇÃO. MOTIVAÇÃO NEGOCIAL. Fl. 19526DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.527 5 O princípio da liberdade de autoorganização, não mais endossa a prática de atos sem motivação negocial, sob o argumento de exercício de planejamento tributário. DESPESAS OPERACIONAIS. DEDUTIBILIDADE. Para efeitos da legislação do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, a dedução de dispêndios a título de custos ou despesas operacionais está condicionada a comprovação da efetividade da prestação dos serviços. Não basta comprovar que a despesa foi assumida e que houve o desembolso, é indispensável, principalmente, comprovar que o dispêndio corresponde à contrapartida de algo recebido de forma a demonstrar sua necessidade à fonte produtora do rendimento, e a conseqüente dedutibilidade na apuração do imposto. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL LANÇAMENTO. MESMOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS. IRPJ. DECORRÊNCIA. Em se tratando de lançamento decorrente dos mesmos pressupostos fáticos que serviram de base para o lançamento do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica, em razão da relação de causa e efeito existente entre as matérias, no que couber, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento ao relativo à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Foi interposto recurso voluntário (efls. 19083 e segs) pela MK (Contribuinte), apreciado pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção do CARF, na sessão de 05/03/2013. Decidiu o Acórdão nº 1101000.852 (efls. 19286 e segs) dar provimento ao recurso voluntário, conforme ementa a seguir. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009. PROVAS. COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS. PROCESSO. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Compete a fiscalização comprovar os fatos que afirma. Não basta juntar documentos e fazer afirmações, é preciso demonstrar como esses documentos comprovam os fatos afirmados. Não é razoável juntar dezenas de volumes de documentos sem fazer referencia às páginas que localizam os documentos e sem demonstrar como comprovam a acusação. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Se o relatório não identifica o documento referido, e se são juntados milhares de documentos, se o julgador buscar por si os documentos que entende comprovar os fatos alegados pela fiscalização, corre o risco de estar fazendo uma nova auditoria Fl. 19527DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.528 6 ou de substituir a fiscalização na fundamentação do auto de infração. LANÇAMENTO. PROVA DOS FATOS. O Fisco têm de comprovar os fatos que afirma ocorridos e que sustentam o lançamento. Sem isso, o lançamento é improcedente. Assunto: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009. SUJEITO PASSIVO. CONTRIBUINTE. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar uma delas como contribuinte. Se as empresas é parte da sociedade de fato, ela não pode ser o contribuinte. SUJEITO PASSIVO. RESPONSÁVEL. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar três delas como responsáveis. Se as empresas são partes da sociedade de fato, elas não podem ser os responsáveis. SUJEITO PASSIVO. SOCIEDADE DE FATO. LANÇAMENTO. Para efetuar o lançamento considerando existente uma sociedade de fato, o Fisco deve identificar a sociedade e apontar os sócios de fato, conforme consiga comprovar os fatos. SOCIEDADE DE FATO. PROVAS. Para a fiscalização considerar que quatro empresas são na verdade apenas uma, é preciso demonstrar haver confusão de objetivos sociais e de recursos. Portanto, é preciso comprovar que as empresas: não tinham vontade própria; e/ou não tinham um espaço físico especifico, mantido as suas custas; e/ou não possuíam maquinários próprios ou alugados; e/ou não adquiriam seus próprios insumos, matériasprima, ou mercadorias; e/ou não eram as contratantes de seus empregados; e/ou não efetuavam suas vendas; respondiam por seus contratos, produtos, empréstimos e atos; etc. Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 19315/19338). Protesta sobre entendimento da decisão recorrida, de que teria ocorrido vício na autuação fiscal na identificação do sujeito passivo, na medida em que foi indicada uma das pessoas jurídicas devedoras como contribuinte e as demais como responsáveis solidárias, vez que o reconhecimento da simulação importaria desconsiderar as personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas, que seria substituídas pela entidade única, e por isso a autuação deveria ter sido em face da sociedade de fato. Entende a recorrente que a tese não encontraria respaldo na jurisprudência do CARF, vez que para se caracterizar a simulação não seria necessária a descaracterização da pessoa jurídica. Interpretandose o art. 118, I e 149, VII Fl. 19528DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.529 7 do CTN, concluise que, se a situação formal diverge da realidade dos fatos, o Fisco deve reconhecer a ocorrência de simulação e proceder ao lançamento de acordo com a situação verdadeira dissimulada. Entende que a indistinção dos direitos e obrigações e, portanto, da receita auferida, ensejou a autuação que poderia dirigirse indistintamente a qualquer uma das pessoas jurídicas, eis que todas são responsáveis pelo tributo devido por se constituírem, em verdade, numa mesma entidade. E, ainda assim, a Fiscalização tomou cuidado de adotar critério para identificar a empresa que figuraria como responsável principal, indicando aquela em que o dirigente de fato era também o dirigente registrado nos estatutos da empresa. Quanto ao mérito, discorre que as provas apresentadas pela Fiscalização permitem a conclusão de que as diferentes empresas formavam uma só na realidade, visando a consecução de um único objeto social: a importação, industrialização e comercialização de produtos da marca MONDIAL. Assim, entende que a situação tratada nos autos subsumese à hipótese prevista no inciso I, § 1º, do art. 167, do Código Civil, pois os direitos atribuídos separadamente a cada uma das quatro empresas, ALPHAPRO, MONDIAL, ME ELETRONICA e MK ELETRONICA, eram gozados como se estas fossem uma entidade única, dirigida pela mesma pessoa, com identidade de objetos, sendo a separação motivada exclusivamente para fins tributários. O Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 19412/19418 deu seguimento ao recurso da PGFN. Foram apresentadas contrarrazões pela MK (efls. 19429/19472). Protesta sobre os acórdãos paradigmas apresentados pela recorrente, entendendo que não se mostrariam aptos a caracterizar a divergência necessária para o seguimento do recurso,por trataram de situações fáticas completamente distintas do caso em análise. No mérito, contesta o entendimento da Fiscalização, que admite nenhuma das quatro empresas existe isoladamente, posto que formariam, em verdade, uma empresa única, mas não informa qual seria a empresa materialmente existente sobre a qual deveria recair a autuação, incorrendo em vício na identificação do sujeito passivo. Sobre a mesma direção das empresas, a Contribuinte jamais negou tal situação, e esclareceu, desde o início, que se trata de um grupo econômico, composto por mais de uma empresa, cujos principais executivos são os mesmos, em um contexto normal no meio empresarial. Quanto ao mesmo endereço, as empresas funcionam em galpões vizinhos, e distintos. Em relação à mesma atividade desenvolvida, as empresas MK, ME e Alpha trabalhavam com produtos e mercados distintos, e a Mondial foi criada para fugir da guerra fiscal existente entre os Estados Federados, de forma que vendia os produtos da MK, ME e Alpha quase que exclusivamente para empresas localizadas fora do Estado da Bahia. Isso porque a MK, ME e Alpha gozavam de benefício fiscal de ICMS, e, por isso, empresas adquirentes fora do Estado da Bahia passaram a ter problemas para se apropriar do crédito de ICMS incidente em etapas anteriores perante os seus Estados (SP, MG, dentre outros). Assim, resolveu o grupo econômico criar uma quarta empresa, a Mondial, que não se utilizava do benefício fiscal de ICMS da Bahia, e, por isso, poderia vender os produtos para fora do Estado sem problemas. Por isso, a Mondial comprava os produtos da MK, ME e Alpha, para que pudessem ser revendidos para fora do Estado da Bahia. Sobre os processos trabalhistas, não há nenhuma menção de que um empregado seria compartilhado pelas quatro empresas, pelo contrário, a situação apresentada apenas confirma que são empresas de um mesmo grupo econômico. Sobre a acusação de interpostas pessoas, não teria ocorrido nos autos, vez que as pessoas constaram como sócias das empresas apenas na fase inicial, antes mesmo das empresas darem início às suas atividades, tanto que o quadro societário foi alterado posteriormente. Sobre a conta de consumo, a conta de energia era no nome da ME porque era a empresa que era proprietária dos imóveis, e os galpões eram alugados para as outras empresas, sendo que a Fl. 19529DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.530 8 própria Fiscalização reconheceu que as despesas de energia eram devidamente partilhadas. Sobre a mesma contabilidade e o mesmo contador, tratase de situação ideal, no qual as empresas do mesmo grupo econômico tenham uma padronização nos seus registros contábeis. Quanto à simulação para reduzir a carga tributária, devese observar que em 2007 as empresas que estavam submetidas ao Lucro Presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores do que aquelas que estavam sujeitas ao Lucro Real (Mondial e Alpha). E a Mondial auferia prejuízo fiscal porque apenas revendia, a preço de custo, os produtos das outras três empresas. Enfim, a partir de 2009, todas as empresas optaram pelo regime de tributação do Lucro Real, ou seja, a tese da "simulação" perde todo o objeto. E, caso se houvesse o intuito de manipular os valores de tributo a recolher, o que deveria ter sido feito era concentrar todas as despesas nas empresas optantes pelo lucro real, e não ratear as despesas em todas as empresas do grupo econômico. Requer, ao final, pela manutenção da decisão recorrida na sua integralidade. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Admissibilidade Tratase de recurso especial interposto pela PGFN, que foi dado seguimento pelo despacho de admissibilidade de efls. 19412/19418. Apresentou a recorrente divergência para as matérias denominadas "legitimidade passiva em caso de simulação" e "divergência quanto a fatos indiciários de simulação", utilizandose o mesmo paradigma para ambas, o Acórdão nº 240100.056, da Primeira Turma da Quarta Câmara da Segunda Seção de Julgamento. Para a segunda matéria também foi apresentado como paradigma o Acórdão nº 110200.667. Transcrevese a ementa do acórdão paradigma nº 240100.056: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 RELAÇÃO JURÍDICA APARENTE DESCARACTERIZAÇÃO Pelo Princípio da Verdade Material, se restar configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. O mero exame da ementa não se mostra suficiente para entender o contexto da decisão. Fl. 19530DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.531 9 A situação tratada nos autos do processo paradigma diz respeito a empresas cuja composição societária é composta por membros de uma mesma família (Cechinel). A empresa eleita como sujeito passivo direto é a Confecções Roscel Ltda que concentra a administração das empresas e o faturamento, além de possuir pequeno número de empregados. A empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda responde pela fabricação das confecções, concentra grande número de empregados, é optante pelo sistema diferenciado de tributação SIMPLES, não possui patrimônio, tem faturamento inexpressivo, e mesmo ausente em determinados períodos. Uma terceira empresa realiza as operações de venda, a Industria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda, e possui parcelamento especial (REFIS). A acusação fiscal é de que a separação seria artificial, e as três empresas seriam, na realidade, uma só, a Confecções Roscel Ltda. O arranjo teria como objetivo elidir a incidência da contribuição previdenciária patronal. Vale transcrever excerto do voto: Embora a recorrente tente fazer transparecer que se trata de empresas independentes entre si, não é o que se verifica. As empresas Confecções Roscel Ltda e Roscel Indústria do Vestiário Ltda funcionam no mesmo local e possuem empregados registrados em uma empresa prestando serviços em outra. Segundo a auditoria fiscal, as empresas têm como administrador, embora não conste atualmente do quadro societário, o fundador do grupo, Sr. Celso Cechinel. Ao contrário do que alega a recorrente não é absolutamente natural que uma pessoa que não participe mais formalmente da gestão de uma empresa possa falar em nome da mesma ou substituir os responsáveis formais, ainda que sejam seus filhos. Verificouse que a Confecções Roscel Ltda paga despesas relativas à Roscel Indústria do Vestuário Ltda como insumos, água e esgoto, contribuição para sindicato de classe, contribuição para o INSS e que, embora a Confecções Roscel Ltda contasse com apenas 2 empregados no ano de 2005 e a fábrica com 125, aquela efetuou o pagamento à empresa especializada para realização de exames médicos, bem como elaboração de PCMSO, PPRA e LTCAT de ambas as empresas. Ainda foi verificado que após a opção pelo SIMPLES da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, houve um remanejamento de vínculos da Indústria e Comércio de Confecções Cechinal Ltda para a primeira. (...) No caso em questão, despesas da Roscel Indústria do Vestuário Ltda foram pagas pela Confecções Roscel Ltda e, segundo consta do Relatório Fiscal, não houve emissão de notas fiscais da primeira, embora tenha número significativo de empregados e despesas que seriam normais em uma empresa independente e ativa. A semelhança com a situação tratada nos presentes autos mostrase evidente. As acusações fiscais para descaracterizar a separação das empresas, tanto nos presentes autos Fl. 19531DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.532 10 quanto no do paradigma, discorrem sobre o fato de que são empresas geridas pela mesma pessoa e grupo econômico, optantes por regimes de tributação diferentes visando reduzir a carga tributária, com localizações em lotes vizinhos, comunicação artificial de receitas e despesas, compartilhamento de empregados, existência de mesmo escritório de contabilidade, dentre outros. No paradigma, são três empresas, de um mesmo grupo econômico, sob regimes de tributação diferenciados, que teriam sido constituídas artificialmente, e que na realidade eram uma só, no qual foi eleita como sujeito passivo a Confecções Roscel Ltda, e cuja construção teria sido com o intuito de reduzir a carga tributária. No recorrido, são quatro empresas, de um mesmo grupo econômico, sob regimes de tributação diferenciados, que teriam sido construídas artificialmente para viabilizar redução na carga tributária, e no qual uma delas foi eleita como sujeito passivo direto, a MK. E, mediante suportes fáticos similares, a interpretação da legislação tributária para as decisões recorrida e paradigma foi divergente. Na decisão recorrida, entendeuse que a construção societária não teria sido artificial, que não estaria demonstrada, constatação que tem repercussão, naturalmente, na eleição dos sujeitos passivos (direto e indiretos), ou seja, que, se a criação das quatro empresas não teria sido eivada de ilicitude, se existiam de fato, por consequência entendimento da autoridade autuante de que a MK seria a contribuinte e as demais três empresas seriam solidárias teria perdido sustentação. Na decisão paradigma, entendeuse que a construção societária das três empresas teria sido artificial, que restou demonstrado o intuito deliberado de redução indevida da carga tributária, e nesse contexto, considerouse acertada a eleição de uma das empresas como sujeito passivo direto. Observase que, caso fosse dada para a decisão recorrida a mesma interpretação da legislação tributária conferida pela decisão paradigma, o resultado seria no sentido de que as quatro empresas teriam sido construídas artificialmente, com a finalidade de se estruturar valendose de regimes de tributação diferenciados visando indevida redução de carga, e, por consequência, não haveria óbice para a MK ser eleita como sujeito passivo direto. Seria dada interpretação da legislação tributária completamente diferente daquela proferida na decisão recorrida. Nesse sentido, tendo em vista que o Acórdão nº 240100.056 prestase como paradigma para caracterizar a divergência, resta atendido o art. 67, Anexo II do RICARF. Portanto, conheço o recurso especial da PGFN. Mérito O que se discute é se a constituição de quatro empresas, MK Eletrodomésticos Ltda ("MK"), ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda ("ME"), ALPHA PRO Cuidados Pessoais Ltda (antiga MC Climatização, "Alpha") e Mondial Eletrodomésticos ("Mondial"), que fabricam, importam e comercializam produtos com a marca comercial "Mondial", seria ou não uma construção artificial, ou seja, se as quatro pessoas jurídicas seriam, na realidade, uma só sociedade empresária, e que teria se segregado com a finalidade de buscar uma indevida redução de tributos. Nesses casos são coletados indícios que, a depender da perspectiva em que são interpretados, convergem rumo a diferentes direções. Mas há sempre um fator Fl. 19532DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.533 11 determinante, um imã que vai agir de maneira preponderante no sentido de atrair os indícios para uma convicção. Na seara tributária, naturalmente, o pólo de atração é se as decisões empresariais tomadas e as correspondentes ações empreendidas tiveram como objetivo um deliberado decréscimo na base de cálculo dos tributos a pagar. Certamente a Lei Maior, ao discorrer sobre a ordem econômica e financeira e dos princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. E a atuação deve ser norteada por princípios fundamentais, como os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, estabelecidos, não por acaso, já no art. 1º. Ocorre que a livre iniciativa é utilizada, de maneira desvirtuada, para justificar construções societárias completamente descontextualizadas, implicando segregações de empresas visando deliberadamente o afastamento da obrigação de pagar tributos. Livre iniciativa não comporta tal comportamento. Pelo contrário, tratase de valor que se submete a outros valores tutelados pelo Estado Democrático de Direito. Não se consubstancia em direito superior, fora do alcance de outros tutelados pelo sistema jurídico, a ponto de poder ser exercido sem que necessite prestar esclarecimentos ao Estado e à sociedade. Vale transcrever abalizada doutrina sobre o assunto 1: A construção do Estado Democrático de Direito, anunciado pelo art. 1º, passa por custos e estratégias que vão além da declaração de direitos. Não há Estado Social sem que haja Estado Fiscal, são como duas faces da mesma moeda. Se todos os direitos fundamentais têm, em alguma medida, uma dimensão positiva, todos implicam custos. Conforme salientam Holmes e Sunstein, nenhum direito é apenas o direito de ser deixado só pelo poder público. (...) Logo, levar direitos a sério exige que seus custos também sejam levados a sério. (grifei) Nesse contexto, é interesse do Estado incentivar a livre iniciativa, e produção econômica, que irá gerar a principal fonte de receita estatal, a arrecadação de tributos. Assim, legislação tributária autoriza, a partir de parâmetros estabelecidos em lei, que o contribuinte possa eleger um regime de tributação que melhor se amolde às suas atividades. Fato é que foram estabelecidas distinções entre pessoa física e pessoa jurídica. A pessoa física tem a opção entre apresentar a declaração de rendimentos completa ou simplificada, enquanto que a pessoa jurídica dispõe de um maior leque de regimes de tributação. Por que tem a pessoa jurídica tratamento mais favorável por parte do Estado? Porque se parte da premissa que a pessoa jurídica tem um efeito multiplicador, irá fomentar desenvolvimento, gerar empregos, exercendo papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, auferir rendas e possibilitar uma maior arrecadação de tributos para o próprio Estado. Por isso, falase em regimes de tributação diferenciados para a pessoa jurídica. 1 MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional, 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 1365. Fl. 19533DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.534 12 Assim, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação, para, por exemplo, desvirtuar o instituto da pessoa jurídica para construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base menor, são condenáveis porque afrontam o sistema tributário e afrontam as premissas que autorizam tratamentos diferenciados para determinados contribuintes (como, por exemplo, as pessoas jurídicas). A livre organização encontra limites, a depender da lesão a impor na coletividade. O liberalismo, laisserfaire, que blindava integralmente o indivíduo contra a ação do Estado, visto como um odioso interventor nas liberdades individuais, é modelo que foi submetido a revisões no decorrer da história recente para se amoldar às necessidades da sociedade. Há tempos exigese do Estado atuação mais presente, em maior ou menor grau, a depender da corrente econômica e/ou política, mas é incontestável que a cobrança de tributos é contraprestação necessária e indispensável para que o Estado possa desenvolver suas atividades. No caso concreto, vários indícios foram colhidos pela autoridade autuante, avaliados inicialmente pela primeira instância (DRJ), que manteve entendimento de construção artificial das quatro empresas. Por sua vez, os mesmos indícios foram apreciados pela segunda instância (CARF), que entendeu pelo afastamento da autuação. Os critérios para cognição dos indícios são diversos, tanto que, como se pode observar, recebeu diferentes interpretações por cada uma das instâncias de julgamento. Fato é que grande parte dos indícios apresentados pela ação fiscal são incontroversos: (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras. O que é controverso é em que direção que devem convergir. De acordo com o recurso da PGFN, são indícios que lastreiam entendimento de que houve uma construção artificial, que as quatro empresas são uma só, e que foram segregadas para viabilizar uma redução indevida de tributos. Para a Contribuinte, a constituição das quatro empresas decorreu de decisões com lastro negocial, visando uma melhor organização do grupo e otimizar o desempenho de suas atividades operacionais. Tratase de situação em que se mostra inevitável averiguar a força motriz que, efetivamente, impulsionou as decisões da Contribuinte de segregar suas atividades em quatro empresas. A acusação fiscal pautouse na seguinte conclusão: 43 A constituição de diferentes empresas foi feita com o objetivo de reduzir a carga tributária incidente sobre as atividades da empresa, conforme se segue:(...) As empresas ME e MK, optantes do lucro presumido, e a empresa Alpha, lucro real, vendiam seus produtos para a Mondial (lucro real) que, por sua vez, efetuava a revenda para o mercado interno. Fl. 19534DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.535 13 A estruturação foi contestada pela autoridade autuante, ao dizer que a opção pelo lucro presumido pela ME e MK para os anoscalendário de 2007 e 2008 proporcionou uma redução na base tributável de R$4.469.125,43 em 2007 e R$13.715.674,05 em 2008 para o IRPJ e a CSLL, enquanto que as outras duas empresas do grupo, submetidas ao lucro real, foram submetidas a bases tributáveis menores, inclusive auferindo prejuízos (Mondial). Aduziu ainda que: Como se vê, as empresas optantes pelo lucro presumido obtiveram uma margem de lucro bastante superior às de lucro real. Isto se explica em parte pelas vendas feitas pela MK e ME à Mondial, onde os produtos eram vendidos por preço superior ao que a Mondial vendia aos clientes externos, conforme explicado no item 3.1. Outra explicação é a concentração de despesas na empresa Mondial que, por sua vez, repassava parte dessas despesas à empresa AlphaPró, como, por exemplo, as despesas decorrentes de contratos comerciais com os varejistas, como bônus, comissões, VPC, transportes, etc”. Por outro lado, em contrarrazões, manifestouse a Contribuinte quanto ao fato de a ME e MK terem optado pelo lucro presumido e a Mondial e Alpha pelo lucro real: 147. Conforme devidamente comprovado no seu Recurso Voluntário, cada empresa tinha uma finalidade e sua atividade própria, de modo que os produtos comercializados por cada empresa eram totalmente distintos e envolviam mercados e riscos diferentes. 148. A criação de cada uma das empresas teve uma razão de ser e um motivo empresarial: a) criouse a ME para a realização de importações e vendas de produtos importados; b) resolveuse dividir os riscos das atividades da ML, criandose duas novas empresas, em duas etapas: i) primeiro, uma parte dos produtos que eram fabricados pela ML passou a sêlo pela MK; ii) depois, a parte restante passou a ser fabricada pela MC, ambas já alocadas em Conceição do JacuípejBA, pois a ML enfrentava muitos problemas financeiros e com a contratação de pessoal; c) por fim, criouse a Mondial Eletrodomésticos para que fosse possível realizar as vendas dos produtos fabricados ou importados para fora da Bahia, a fim de fugir da guerra fiscal. 149. Em outras palavras: as atividades de cada empresa são distintas, tendo em vista que não fabricavam os mesmos produtos, e a segregação delas tinha a finalidade exclusivamente gerencial e negociaI. 150. Ademais, a "tese" de que o desmembramento das atividades buscava apenas reduzir tributos não se fundamenta e é contraposta às provas acostadas pela própria Fiscalização. A grande questão é a seguinte: Qual o benefício tributário que a empresa obteve em desmembrar as suas atividades? A resposta inferida da prova dos autos é nenhuma! (grifei) E sobre a alegação de que as vendas da MK e da ME para a Mondial eram em valor inferior ao que a Mondial revendia para o mercado, manifestouse a Contribuinte: Fl. 19535DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.536 14 115. A partir do surgimento desta nova empresa, A ME, MK e MC continuaram vendendo os seus produtos diretamente para os clientes localizados dentro da Bahia e passaram a vender outra parte de seu estoque para a Mondial, para que esta realizasse as vendas para os clientes localizados fora do território baiano. 116. Ora, conforme já explicitado, a Mondial Eletrodomésticos era uma mera revendedora assim, não tinha porque aumentar os preços praticados pelas outras empresas do grupo. Não havia valor agregado! 117. Quanto à alegação de que a MK e ME vendiam seus produtos por um preço maior que aquele que era praticado pela MONDIAL, tal asserção também não tem respaldo na realidade. 118. A ocorrência eventual de vendas aos clientes, pela Mondial, em preço menor do que o praticado na venda das outras empresas do grupo para ela, refletem estratégias comercias (promoções), que decorrem das leis do mercado (oferta e procura), não tendo, portanto, qualquer relação com fraude ou simulação. Vale notar que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu em apenas um mês ("na passagem do mês de Julho para Agosto de 2007" página 08, ponto "31", do Termo de Verificação), pois não era prática corriqueira da empresa. Tratouse, como dito, de estratégia comercial pontualíssima. Sobre o tema também se pronunciou a decisão recorrida: Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial. Ainda, a explicação dada pelo contribuinte, de que foram concedidos descontos pela Mondial, é plausível. Ademais, mesmo que ficasse comprovada a prática de venda para a Mondial por valor acima do de mercado, isso poderia implicar em glosa de custos na Mondial (por simulação), mas não implicaria em nenhuma convicção sobre existir confusão de objetivos e de recursos das quatro empresas. Verificase que a decisão recorrida entendeu que a explicação dada pela Contribuinte, de que a Mondial revendia os produtos com descontos e por isso, muitas vezes em valor inferior ao valor de aquisição junto à MK e ME, era plausível. Completou ainda que a Fiscalização só teria realizado levantamento para alguns produtos e em apenas um mês. E a Contribuinte expressamente discorreu no sentido de que as empresas que estavam submetidas ao lucro presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores do que aquelas submetidas ao lucro real (Mondial e Alpha). 151.A título exemplificativo, ao analisar os livros fiscais das quatro empresas e dos balancetes acostados ao processo pela própria fiscalização, percebese que, em 2007, as empresas que estavam submetidas ao Lucro Presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores que aquelas que estavam sujeitas ao Lucro Real (MONDIAL e MC (Alpha Fl. 19536DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.537 15 Pró)). Perguntase: isso é atitude de contribuinte que concentra despesas e manipula resultados? É claro que não. (grifei) Como se pode observar, os mesmos fatos receberam diferentes leituras. Contudo, o demonstrativo elaborado pela autoridade autuante, ao comparar as bases tributáveis de lucro real X lucro presumido para a MK e ME, e a redução considerável da base de cálculo, na ordem de R$4.469.125,43 em 2007 e R$13.715.674,05 em 2008, não foi contestado. E, diante de tal fato, com base nos Demonstrativos de Resultado de Exercício disponibilizados nos autos (efls. 15804/15825), foram consolidados os seguintes quadros, para cada uma das empresas (MK, ME, Mondial e Alpha), relativo aos anoscalendário de 2007 e 2008: AC 2007 MK ME Mondial Alpha Receita Bruta 50.198.429,17 51.697.404,16 112.106.365,85 30.994.998,51 Deduções 14.642.754,07 16.511.513,92 36.868.073,98 11.114.937,90 Receita Líquida 35.555.675,10 35.185.890,24 75.238.291,87 19.880.060,61 CMV 22.453.208,09 20.045.223,73 67.244.812,89 12.697.225,85 Lucro Bruto 13.102.467,01 15.140.666,51 7.993.478,98 7.182.834,76 Despesas Operacionais 7.621.778,73 8.264.334,55 8.075.871,84 6.450.160,00 Receitas Não Operacionais 0,00 0,00 0,00 0,00 Despesas Não Operacionais 265.000,00 549.581,78 0,00 135.000,00 Lucro Antes do IR 5.215.688,28 6.326.750,18 82.392,86 597.674,76 AC 2008 MK ME Mondial Alpha Receita Bruta 63.488.280,50 98.389.597,02 274.186.094,63 63.702.795,74 Deduções 18.092.729,28 29.379.110,76 99.772.854,72 23.720.665,53 Receita Líquida 45.395.551,22 69.010.486,26 174.413.239,91 39.982.130,21 CMV 28.651.440,69 45.784.959,20 147.066.864,00 26.404.034,80 Lucro Bruto 16.744.110,53 23.225.527,06 27.346.375,91 13.578.095,41 Despesas Operacionais 8.106.850,53 7.356.760,38 27.458.077,88 14.091.072,73 Receitas Não Operacionais 0,00 568.204,57 4.523,59 24.816,65 Despesas Não Operacionais 0,00 0,00 0,00 0,00 Lucro Antes do IR 8.637.260,00 16.436.971,25 107.178,38 488.160,67 Apesar de a Contribuinte ter se manifestado sobre as despesas operacionais, aspecto relevante a ser averiguar na apuração da base tributável é o Custo de Mercadorias Vendidas (CMV). Fl. 19537DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.538 16 E, a empresa optante do lucro real, Mondial, percebeu um valor de CMV substancialmente superior aos das demais empresas do grupo. Vale apresentar novo quadro, sobre a participação percentual do CMV na receita líquida de cada uma das empresas: % CMV / Receita Líquida 2007 2008 Regime de Tributação MK 63,15 63,12 Lucro Presumido ME 56,97 66,34 Lucro Presumido Mondial 89,38 84,32 Lucro Real Alpha 63,87 66,04 Lucro Real Observase que a Mondial (lucro real), nas palavras da própria Contribuinte 2 revendedora dos produtos das demais empresas do grupo, MK e ME (optantes de lucro presumido) e Alpha (lucro real), empresas responsáveis pela importação e fabricação dos produtos, apurou CMV em valores substancialmente superiores. Em termos quantitativos também a Mondial respondeu por maior parte do CMV do grupo. % de CMV 2007 2008 Regime de Tributação MK 18,34 11,56 Lucro Presumido ME 16,37 18,47 Lucro Presumido Mondial 54,92 59,32 Lucro Real Alpha 10,37 10,65 Lucro Real Total do CMV 122.440.470,56 247.907.298,69 Respondeu a Mondial por 54,92 % (R$122.440.470,56) para o anocalendário de 2007 e 59,32% (R$247.907.298,69). Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos 2 Vide contrarrazões da Contribuinte: 116. Ora, conforme já explicitado, a Mondial Eletrodomésticos era uma mera revendedora assim, não tinha porque aumentar os preços praticados pelas outras empresas do grupo. Não havia valor agregado! (...) 148. A criação de cada uma das empresas teve uma razão de ser e um motivo empresarial: a) criouse a ME para a realização de importações e vendas de produtos importados; b) resolveuse dividir os riscos das atividades da ML, criandose duas novas empresas, em duas etapas: i) primeiro, uma parte dos produtos que eram fabricados pela ML passou a sêlo pela MK; ii) depois, a parte restante passou a ser fabricada pela MC, ambas já alocadas em Conceição do JacuípejBA, pois a ML enfrentava muitos problemas financeiros e com a contratação de pessoal; c) por fim, criouse a Mondial Eletrodomésticos para que fosse possível realizar as vendas dos produtos fabricados ou importados para fora da Bahia, a fim de fugir da guerra fiscal. Fl. 19538DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.539 17 produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária aproveitarse da segregação do ciclo de produção e venda para se valer de regimes de tributação diferenciados, desvirtuando completamente a construção do sistema tributário. Ora, direcionou parte substancial dos dispêndios incorridos para a empresa revendedora (Mondial) que por acaso é optante do lucro real. E concentrou as receitas nas empresas produtoras que, por acaso, são optantes do lucro presumido (ME e MK). Os quadros demonstram de maneira incontestável que a Mondial concentrou a maior parte dos dispêndios auferidos pelo grupo, e por isso, ao optar pelo regime de tributação pelo lucro real, percebeu uma redução significativa de sua base tributável, tanto que auferiu prejuízos em 2007 e 2008. Por outro lado, a MK e a ME, com percentuais de CMV bem menores, beneficiaramse da opção pelo lucro presumido, incidente sobre coeficiente de determinação aplicado sobre a receita bruta. Consolidouse cenário no qual as despesas foram concentradas para a Mondial, mera revendedora e optante do lucro real, e situação inusitada no qual o CMV das empresas fabricantes, MK, ME e Alpha foi apurado em valor substancialmente inferior, tanto em termos qualitativos quanto qualitativos. E a Contribuinte não se conteve em buscar o "melhor dos mundos" apenas em relação ao Fisco Federal. Isso porque relatou que a criação da Mondial teria ocorrido visando dirimir os efeitos da guerra fiscal entre o Estado da Bahia e outros entes federados. A empresa teria sido constituída como mera revendedora porque as outras três empresas, MK, ME e Alpha gozavam de benefício fiscal de ICMS. A situação provocava um problema quando a venda era efetuada para fora do Estado da Bahia, porque outros estados, como São Paulo, não autorizava o adquirente a aproveitar o crédito de ICMS, apesar de estar destacado na nota fiscal que acompanhava o produto. Assim, a Mondial, como não gozava do benefício fiscal, permitia aos adquirentes o aproveitamento do crédito. Ora, não se discute a criação da Mondial. A questão é que a Mondial foi criada em regime de tributação diferenciado das empresas MK e ME. Observase que o grupo econômico não se contentou em constituir a Mondial apenas para "contornar" restrições fiscais do ICMS (mediante "drible" na aplicação da lei estadual dos demais entes federados, criando empresa revendedora para adquirir produtos das empresas fabricantes e permitir o creditamento do ICMS nos estados do Sul e do Sudeste). Também se aproveitou do contexto para adotar o regime de lucro real para a Mondial (onde foram concentrados a maior parte dos dispêndios do grupo) e concentrar as receitas nas empresas produtoras ME e MK optantes do lucro presumido. Nesse sentido, diante da constatação de que a constituição das quatro empresas buscou, na realidade, concentrar a maior parte dos dispêndios do grupo na empresa revendedora submetida ao lucro real, e submeter maior parte da base tributável às empresas submetidas ao lucro presumido, todos os demais indícios levantados, (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / Fl. 19539DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.540 18 licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras, convergem no sentido de que a constituição das quatro empresas foi uma artificialidade, visando a redução indevida da carga tributária e prejuízo aos Cofres Públicos. Observase ainda que as empresas MK e ME mudaram o regime de tributação para o anocalendário de 2009, passando de lucro presumido para o lucro real, ou seja, todas as quatro empresas passaram a ser optantes do lucro real. Ocorre que, conforme relatório da ação fiscal, as empresas ME e Alpha encerraram suas atividades em dezembro de 2009, e a Mondial reduziu suas atividades a quase zero, fazendo com que a única empresa funcionando dentro da normalidade seja precisamente a Contribuinte, MK. Diante da decisão de encerrar as atividades em 2009, não por acaso a ME passou a optar pelo lucro real, regime de tributação que permite o aproveitamento dos prejuízos fiscais. Da mesma maneira, a MK, que, na condição de única empresa funcionando dentro da normalidade, passou a assumir os dispêndios de todo o grupo, o que explica a mudança do regime de tributação. E vale dizer: quem a autoridade fiscal, diante do entendimento de que as quatro empresas funcionavam como se fosse uma empresa apenas, elegeu com sujeito passivo direto? Precisamente a MK. O teste da realidade demonstra que não poderia ter sido mais acertada a qualificação do sujeito passivo da autuação. Diante de todo o exposto, voto no sentido de conhecer e dar provimento ao recurso interposto pela PGFN. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 19540DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.541 19 Declaração de Voto Conselheira Adriana Gomes Rego. Apresento a presente declaração de voto para consignar que acompanhei o Relator pelos fundamentos e conclusões, mas faço questão de reforçar os indícios da existência de uma única empresa, mormente no que diz respeito à descaracterização como grupo econômico e ao compartilhamento das atividades desenvolvidas. Isto porque o relator fundamentou seu voto no fato de que a criação das quatro empresas desvirtuou a construção do sistema tributário, na medida em que uma das empresas (Mondial), optante pelo lucro real, concentrou dispêndios auferidos pelo grupo (CMV); enquanto que a MK e a ME, optantes pelo lucro presumido, concentraram receitas. Somandose, ainda, todos os indícios levantados no sentido de existência de uma única unidade empresarial. Por essas razões, manteve a autuação. A recorrida defende a existência de um grupo econômico, com direção única. Todavia as quatro empresas não se apresentavam para terceiros como um grupo econômico com direção única. Observese a seguinte declaração da contribuinte em suas contrarrazões (e fl.19437), verbis: 28. Além disso, no caso ora tratado, o grupo econômico sempre definiu os seus dirigentes seguindo os procedimentos formais, com procurações e atas que elegiam os seus representantes FORMALMENTE E MATERIALMENTE! O grupo nunca escondeu quem seriam os seus gestores, fato este também destacado na decisão ora recorrida! Tal afirmativa não procede, tendo em vista que os quadros societários não indicavam expressamente o verdadeiro administrador, o Sr. Alberto Baggiani. Esse fato foi comprovado a partir da auditoria realizada perante às instituições financeiras que apresentaram as procurações em nome do Sr. Alberto, dandolhe amplos poderes em relação às contas bancárias das 4 empresas, da assinatura de contratos, entre outros fatos levantados. Transcrevo trecho do TVF efl.19: 17 Os bancos onde as empresas MK, ML, AlphaPró e Mondial possuem conta corrente foram intimados a apresentar os dados cadastrais, procurações, autorizações e fichas de assinatura referentes à contas correntes mantidas pelas empresas. Da análise destes documentos, verificamos que Alberto Baggiani possui procurações outorgadas pelas empresas AlphaPró e ME eletrônica lhe concedendo amplos, Fl. 19541DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.542 20 gerais e ilimitados poderes, inclusive para movimentar as contas correntes das respectivas empresas. Também é o responsável pela conta corrente das empresas MK, na qualidade de acionista direto, e Mondial, na qualidade de acionista indireto. Giovanni Marins possui procuração outorgada pelas empresas ME industria eletrônica, MK eletrodomésticos, M.Climatização (atualmente AlphaPró cuidados pessoais). As respostas dos bancos constam das efls.18528 a 18821. Dessa forma, não havia transparência acerca da direção única das 4 empresas. É verdade que a direção única não foi negada pela contribuinte, conforme declarou em suas contrarrazões efl.19452: 80. Quanto ao fato de que as empresas possuem a mesma direção, isto nunca foi negado pela Recorrente! Conforme reconhecido pela própria Recorrente nas suas razões, os dirigentes são FORMALMENTE eleitos como representantes das empresas do grupo econômico e efetivamente gerem os negócios deste grupo. Em seguida a contribuinte defende que a existência de mesma direção, não implica haver uma única empresa. De fato, este não seria o único requisito a caracterizar a unicidade da empresa. Mas o que se quer mostrar aqui, é que o verdadeiro administrador das empresas não se apresentava perante terceiros com tal, inclusive para o Fisco. Se se tratasse de grupo econômico, as informações acerca do mesmo deveriam ser apresentadas de maneira clara e expressa para terceiros, no que diz respeito às empresas que compõem o grupo e, mormente no que diz respeito à administração do grupo. Temos ainda outros elementos que podem indicar a existência de uma empresa única, quais sejam, a localização no mesmo terreno, o compartilhamento de alguns empregados de gerência e do mesmo escritório de contabilidade. Ao mesmo tempo, ainda que atendidos todos esses requisitos, poderseia tratar de um grupo econômico. Então qual seria o elemento que, neste caso, poderia caracterizar essa organização societária como um grupo econômico ou empresa única? Entendo que o objeto social e as atividades desenvolvidas por cada um delas pode ser esse elemento chave. O catálogo da Mondial, documento anexado ao auto efls.909 a 914, indica os produtos comercializados por ela, de todas as linhas: eletroportáteis, cuidados pessoais, eletrônicos e ferramentas elétricas. Em seguida, o catálogo mostra uma vista superior do complexo industrial Mondial, o qual possui entrada única, e NÃO faz qualquer menção à existência das empresas que comporiam o grupo. As imagens na parte inferior da página (efl.910) mostram o centro de fabricação de moldes e ferramentas, o parque de injetoras, o laboratório de recebimento, a engenharia, o laboratório de testes, a fabricação de motor, a tampografia, as linhas de montagem, os testes finais e o centro de logística, estoque e distribuição, conforme foto abaixo: Fl. 19542DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.543 21 O catálogo mostra o complexo industrial internamente, sem qualquer individualização por empresas ou por linha de produto. Mais uma vez não esclarece que o alegado grupo econômico seria composto de 4 empresas, cada qual com sua linha de produção e maquinários próprios. Ou seja, mais uma vez apresentase para terceiros com uma empresa única. Pergunto: por que não apresentou as empresas que comporiam o grupo e suas respectivas linhas de produção? Essa prova é tão irrefutável que seria despiciendo maiores esclarecimentos. Todavia o relator do acórdão a quo desconsiderou as declarações das autoridades fiscais, simplesmente porque não citaram o número das folhas no Termo de Verificação Fiscal, transcrevo trecho da ementa do referido aresto: PROVAS. COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS. PROCESSO. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Compete a fiscalização comprovar os fatos que afirma. Não basta juntar documentos e fazer afirmações, é preciso demonstrar como esses documentos comprovam os fatos afirmados. Não é razoável juntar dezenas de volumes de documentos sem fazer referencia às páginas que localizam os documentos e sem demonstrar como comprovam a acusação. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Se o relatório não identifica o documento referido, e se são juntados milhares de documentos, se o julgador buscar por si os documentos que entende comprovar os fatos alegados pela fiscalização, corre o risco de estar fazendo uma nova auauditoria ou de substituir a fiscalização na fundamentação do auto de infração. Ainda no que diz respeito à individualização das atividades, a contribuinte tanto em seu recurso voluntário, quanto em suas contrarrazões (efl. 19456) afirmou: "DO FATO: Mesma Atividade" 92. O fato grave deste ponto consiste na inverdade absoluta, lançada pela Recorrente, na tentativa de convencer esses julgadores. Fl. 19543DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.544 22 93. Isto porque, foi amplamente demonstrado que as empresas MK, ME e ALPHAPRO (MC) trabalhavam com produtos e mercados distintos. A MONDIAL foi criada para fugir da guerra fiscal existente entre os Estados Federados, de forma que vendia os produtos das três primeiras (MK, ME e ALPHA) quase que exclusivamente para empresas localizadas fora do Estado da Bahia. 94. Em que pese todas trabalharem com produtos da marca "MONDIAL", cada uma tinha uma especificidade distinta: a) a MK trabalhava, por exemplo, com produtos de cozinha, fabricados por ela; b) a ME trabalhava com produtos oriundos de importações: batedeiras, por exemplo; e c) a ALPHA fabricava e comercializava os produtos ditos "sazonais", relacionados ao clima, por exemplo, ventiladores. 95. Restou mais do que comprovado nos autos que a divisão do grupo em empresas com atividades distintas foi estribada em uma motivação gerencial. Outrossim, em que pese os galpões das empresas sejam vizinhos, cada uma delas mantinha a sua autonomia e personificação, com contabilidade própria, empregados próprios, maquinários próprios etc. 96. E o mais importante de tudo: as empresas NÃO fabricavam o mesmo produto! Não partilhavam a fabricação dos produtos. Sequer partilhavam maquinário.(grifo nosso) Como dito anteriormente, não é possível perceber a segregação do maquinário das empresas. A contribuinte afirma categoricamente que duas empresas não fabricavam o mesmo produto. Entretanto, as autoridades fiscais fizeram prova em contrário desta afirmação no documento de efls.770812 (Documentos comprobatórios outros Manuais de Produtos Indício para Consolidação): efl.771 consta liquidificador produzido pela MK e na efl.774 consta liquidificador produzido pela ME; Fl. 19544DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.545 23 Veja que a contribuinte não poderia alegar que o liquidificador da MK foi produzido no Brasil, enquanto que o liquidificador da ME foi importado, tendo em vista que os dois são "Indústria Brasileira". Quando se trata de produto importado, como a prancha alisadora, consta "Produto importado por:". Logo, não prospera a afirmação da contribuinte de que cada empresa tinha sua "linha de produtos" e maquinário próprio. O recurso especial da Fazenda destaca essa inverdade declarada pela contribuinte (efl.19334), in verbis: Conforme documentos de folhas 770 a 812 – manuais dos produtos, bem como de folhas 909 a 914 – catálogo mondial, os produtos da marca mondial são classificados como eletroportáteis, cuidados pessoais, eletroeletrônicos e ferramentas. Verificase que um mesmo tipo de produto é fabricado pela MK e ME (liquidificador), e também produtos da mesma linha são fabricados por empresas diferentes (fls. 8 e 9 do Termo de Verificação Fiscal). Os fatos acima expostos reforçam o argumento de que se trata de uma única empresa, porque além de todos os elementos indiciários, as empresas desenvolvem as mesmas atividades, sem que se consiga comprovar a individualização física e operacional de cada uma delas, o que demonstra a confusão de objetivos sociais. Há outra questão que merece atenção, que diz respeito à transação entre as empresas produtoras/importadores (MK, ME e AlphaPró) e a Mondial. O TVF traz um estudo dos preços praticados pela MK e ME quando vendiam diretamente para o mercado varejista e, qual foi o preço praticado após a criação da Mondial e o redirecionamento das vendas através dela. O TVF assim dispôs (efl.27) Transações entre as empresas Fl. 19545DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.546 24 30 As empresas ME e MK vendiam os produtos com a marca "Mondial" diretamente aos clientes finais empresas varejistas como Casas Bahia. WalMart. Carrefour. Bom Preço, Insinuante, entre outros. A partir de agosto de 2007, passaram a vender exclusivamente para a Mondial eletrodomésticos, que revendia para os clientes finais. A empresa Alpha iniciou suas operações em julho de 2007, e só efetuou vendas para a Mondial eletrodomésticos. 31 A análise dos preços praticados pelas empresas mostram que esta transição foi apenas aparente, pois o valor dos produtos vendidos aos clientes finais não sofreu nenhuma alteração. Os preços dos produtos, que antes eram vendidos da ML e MK para os clientes finais, continuou o mesmo após a Mondial elelrodomésticos vender para estes mesmos clientes. Ou seja, a relação comercial continuou a mesma. Outro detalhe é que, na passagem do mês de julho para agosto, a ML e MK aumentaram o preço dos produtos vendidos à Mondial, resultando, na maior parte dos casos, em um preço maior do que o vendido aos clientes finais. As tabelas abaixo demonstram de forma clara esta situação: (...) O TVF procurou mostrar que não havia razão na criação da Mondial para comercializar os produtos, posto que os preços praticados para os comerciantes varejistas permaneceram os mesmos. A contribuinte esclarece que o objetivo da criação da Mondial seria resolver questões de ICMS, por causa da guerra fiscal, e que esses preços teriam sido praticados em um único mês por questões promocionais. Não seria aceitável que uma empresa (Mondial) fosse criada com a finalidade de dar prejuízo, ainda que para driblar a guerra fiscal, tendo em vista que um dos objetivos que caracterizam uma empresa é seu fim lucrativo. O acórdão recorrido aceitou os argumentos da contribuinte de que tal prática se deu num único mês, por razões comerciais (de que a contribuinte não faz prova e não esclarece). Reproduzo trecho do acórdão a quo: Por sua vez o contribuinte explica que a constituição da Mondial buscou concentrar em uma empresa comercial as vendas para fora do estado, visando resolver questões de ICMS. Também, esclarece que a fiscalização só fez a comparação de preços em um mês e os valores se justificam por questões comerciais. A contraposição das posições mostra alguns aspectos. Em primeiro lugar, o fato de empresas fabris e importadoras do mesmo grupo venderem seus produtos para uma empresa comercial do grupo, não revela nenhuma confusão de objetivos ou recursos. Tratase de decisão empresarial sobre a organização do negócio. De outro lado, a explicação dada pelo Fl. 19546DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.547 25 contribuinte, independente da adequação ou não à legislação do ICMS, é bastante razoável para explicar a criação da Mondial e justificar a alteração na forma de venda para antigos clientes. Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial. Ainda, a explicação dada pelo contribuinte, de que foram concedidos descontos pela Mondial, é plausível. Ademais, mesmo que ficasse comprovada a prática de venda para a Mondial por valor acima do de mercado, isso poderia implicar em glosa de custos na Mondial (por simulação), mas não implicaria em nenhuma convicção sobre existir confusão de objetivos e de recursos das quatro empresas.(grifo nosso) Todavia, há que se ressaltar que o Fisco não fez o levantamento para um único mês qualquer, mas sim para o mês em que as empresas MK e ME deixaram de vender diretamente ao comércio varejista e passaram a comercializar seus produtos através da Mondial (julho para agosto/2007). De fato não existem estudos para outros meses, mas o relatório do voto do Conselheiro André Mendes de Moura destaca o elevado CMV da empresa Mondial, bem como o fato de a empresa ter dado prejuízo nos anos 2007 e 2008, e depois ter suas operações reduzidas quase a zero. A contribuinte em suas contrarrazões defende que essa prática de preços foi uma estratégia comercial pontualíssima, todavia o CMV apresentado demonstra o contrário. Manifestouse a contribuinte nos seguintes termos (contrarrazões efl.19462): 118. A ocorrência eventual de vendas aos clientes, pela Mondial, em preço menor do que o praticado na venda das outras empresas do grupo para ela, refletem estratégias comercias (promoções), que decorrem das leis do mercado (oferta e procura), não tendo, portanto, qualquer relação com fraude ou simulação. Vale notar que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu em apenas um mês ("na passagem do mês de Julho para Agosto de 2007" página 08, ponto "31", do Termo de Verificação), pois não era prática corriqueira da empresa. Tratouse, como dito, de estratégia comercial pontualíssima. 119. Fica claro, portanto, que não há que se falar em fraude ou em criação de empresas fictícias com o único fim de redução do tributo a ser pago. Há uma justificativa negocial clara e lógica para o agir da Recorrida. (grifo nosso) A contribuinte cita que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu apenas em um mês, mas tal afirmativa distorce o conteúdo do TVF. Dizer que tal fato ocorreu em apenas um mês, implica dizer que tal prática não teria ocorrido nos demais meses. Todavia, Fl. 19547DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.548 26 os fiscais não fizeram tal afirmação. Apenas apresentaram um estudo no mês em que a Mondial iniciou sua atividade. É de se concluir, que tal prática pode ou não ter acontecido em outros meses, e que não há estudo de preços para esses meses, nem para confirmar, nem para negar se a prática se deu de forma pontualíssima. Entretanto, consta nos autos do processo a contabilidade da contribuinte, onde fica claro o elevado CMV da empresa Mondial. Dessa forma, reitero os fundamentos e as conclusões do Ilustre relator e, reforço suas razões através dos argumentos acima discorridos, para dar provimento ao recurso especial da Fazenda. É como voto. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 19548DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.549 27 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto. Na reunião de maio de 2017, a e. Câmara Superior de Recursos Fiscais (doravante “CSRF”) analisou o recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN”) nos autos do processo n. 10530.721612/201166, em que é recorrida MK ELETRODOMÉSTICOS LTDA. (doravante “contribuinte”), em face do acórdão n. 1101000.852 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”). O acórdão recorrido restou assim ementado: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009. PROVAS. COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS. PROCESSO. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Compete a fiscalização comprovar os fatos que afirma. Não basta juntar documentos e fazer afirmações, é preciso demonstrar como esses documentos comprovam os fatos afirmados. Não é razoável juntar dezenas de volumes de documentos sem fazer referencia às páginas que localizam os documentos e sem demonstrar como comprovam a acusação. ORGANIZAÇÃO DOS AUTOS. INDICAÇÃO DA LOCALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS. Se o relatório não identifica o documento referido, e se são juntados milhares de documentos, se o julgador buscar por si os documentos que entende comprovar os fatos alegados pela fiscalização, corre o risco de estar fazendo uma nova auditoria ou de substituir a fiscalização na fundamentação do auto de infração. LANÇAMENTO. PROVA DOS FATOS. O Fisco têm de comprovar os fatos que afirma ocorridos e que sustentam o lançamento. Sem isso, o lançamento é improcedente. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009. SUJEITO PASSIVO. CONTRIBUINTE. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar uma delas como contribuinte. Se as empresas é parte da sociedade de fato, ela não pode ser o contribuinte. SUJEITO PASSIVO. RESPONSÁVEL. SOCIEDADE DE FATO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. Não é possível ao Fisco considerar a existência de uma sociedade de fato composta por quatro empresas diferentes e apontar três delas como responsáveis. Se as empresas são partes da sociedade de fato, elas não podem ser os responsáveis. SUJEITO PASSIVO. SOCIEDADE DE FATO. LANÇAMENTO. Para efetuar o lançamento considerando existente uma sociedade de fato, o Fisco deve identificar a sociedade e apontar os sócios de fato, conforme consiga comprovar os fatos. SOCIEDADE DE FATO. PROVAS. Fl. 19549DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.550 28 Para a fiscalização considerar que quatro empresas são na verdade apenas uma, é preciso demonstrar haver confusão de objetivos sociais e de recursos. Portanto, é preciso comprovar que as empresas: não tinham vontade própria; e/ou não tinham um espaço fisico especifico, mantido as suas custas; e/ou não possuíam maquindrios próprios ou alugados; e/ou não adquiriam seus próprios insumos, matériasprima, ou mercadorias; e/ou não eram as contratantes de seus empregados; e/ou não efetuavam suas vendas; respondiam por seus contratos, produtos, empréstimos e atos; etc. Nesta declaração de voto, permissa vênia, apresento os fundamentos que me fizeram votar pelo NÃO PROVIMENTO do recurso especial interposto pela PFN. Conhecimento. Compreendo que o recurso especial interposto pela PFN não preenche os requisitos de admissibilidade. Em relação ao tema da ilegitimidade passiva do contribuinte, o acórdão recorrido decidiu expressamente, in verbis (efls. 19.304): “Quanto á identificação do contribuinte, existe um erro evidente, pois não é possível considerar que a aventada sociedade de fato, formada pelas quatro empresas formais, seja identificada com urna destas empresas, a MK. Caberia ao Fisco colocar no pólo passivo a sociedade de fato que lograsse comprovar. Além disso, deveria identificar e apontar cada um dos sócios de fato, que responderiam ilimitadamente nos termos legais”. A respeito do tema, a PFN apresentou como paradigma o acórdão n. 2401 00.056, que restou assim ementado: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 DECADÊNCIA ARTS 45 E 46 LEI Nº 8.212/1991 INCONSTITUCIONALIDADE STF SÚMULA VINCULANTE DOLO REGRA GERAL INCISO I ART. 173 De acordo com a Súmula Vinculante nº 08, do STF, os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991 são inconstitucionais, devendo prevalecer, no que tange à decadência e prescrição, as disposições do Código Tributário Nacional. Nos termos do art. 103A da Constituição Federal, as Súmulas Vinculantes aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terão efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal No caso de lançamento por homologação, restando caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, deixa de ser aplicado o § 4º do art. 150, para a aplicação da regra geral contida no art. 173, inciso I do CTN. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 RELAÇÃO JURÍDICA APARENTE DESCARACTERIZAÇÃO Pelo Princípio da Verdade Material, se restar configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos Fl. 19550DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.551 29 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 INCONSTITUCIONALIDADE/ILEGALIDADE É prerrogativa do Poder Judiciário, em regra, a argüição a respeito da constitucionalidade ou ilegalidade e, em obediência ao Princípio da Legalidade, não cabe ao julgador no âmbito do contencioso administrativo afastar aplicação de dispositivos legais vigentes no ordenamento jurídico pátrio sob o argumento de que seriam inconstitucionais ou afrontariam legislação hierarquicamente superior. RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO EM PARTE. No entanto, permissa vênia, não há uma única linha em todo esse acórdão quanto ao tema da ilegitimidade passiva do contribuinte. A questão simplesmente não foi enfrentada pela então 1ª Turma, 4ª Câmara, ao proferir o referido acórdão indicado como paradigma. A divergência não pode ser presumida ou considerada implícita no acórdão supostamente paradigmático. Pelo contrário, o Regimento Interno do CARF (“RICARF”), em seu anexo II, art. 67, § 8º, requer seja demonstrada de forma analítica o ponto em que o acórdão indicado como paradigma expressamente enfrentou a mesma matéria do acórdão recorrido e adotando solução diversa: Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF (...) §8º. A divergência prevista no caput deverá ser demonstrada analiticamente com a indicação dos pontos nos paradigmas colacionados que divirjam de pontos específicos no acórdão recorrido. Assim, não há permissivo para o conhecimento do recurso especial da PFN quanto ao tema da ilegitimidade passiva. Diante dessa constatação, contudo, sequer é possível seguir adiante quanto à análise do segundo tema contra o qual foi interposto recurso especial pela PFN, qual seja, a inexistência de provas quanto à simulação da segregação de fontes produtoras de rendimentos. Ocorre que o acórdão recorrido está embasado em mais do que um fundamento autônomo e suficiente para o cancelamento do lançamento tributário, afirmando que, “assim, além do equivoco na indicação do pólo passivo, também pela falta de demonstração do fato imputado, o lançamento não é procedente” (efls. 19.310). Como a PFN não apresentou acórdãos paradigmas hábeis a demonstrar divergência jurisprudencial em relação ao tema da ilegitimidade passiva, tornase inviável o conhecimento de todo o restante de seu recurso, nos termos da Súmula 126 do STJ e da Súmula n. 283 do STF. Para a sua reforma, seria necessário superar todos os fundamentos autônomos e suficientes adotados pelo acórdão recorrido, o que resta inviabilizado neste julgamento. Nesse seguir, voto por NÃO CONHECER o recurso especial interposto pela PFN. Mérito. Fl. 19551DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.552 30 Quanto ao mérito, o caso envolve o tema da segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos (“split strategy”). Por meio desta, em termos gerais, uma entidade empresarial é segmentada em mais do que uma pessoa jurídica, de forma que partes cindidas passam a explorar individualmente as atividades segregadas. Geralmente, segregamse “atividades meio” que, em outro momento e por variadas razões, decidiuse unificar em uma entidade. Há, em geral, a manutenção de relações societárias entre as partes segregadas, controladas por uma holding, embora seja possível cogitar que dessa segregação surjam empresas com rompimento de laços societários. A motivação para essa reestruturação pode ser variada, a exemplo da divisão do controle dos negócios entre diferentes membros da família, ganhos em eficiência, melhoria de organização, oportunidade de explorar e obter ganhos com trabalhos internos em face de demanda do mercado, venda da parcela segregada etc. Sob a perspectiva tributária, é comum que a segregação possibilite que alguma das empresas desmembradas se legitime à opção pelo lucro presumido, enquanto que a anterior unidade empresarial apenas poderia ser tributada pelo lucro real. A partir daí, a economia de opção prescrita pelo legislador permite que, entre as diversas hipóteses de reestruturação possíveis, se cogite situações em que, por exemplo: as unidades empresariais se tornem fornecedoras de insumos para outras empresas do grupo empresarial; as unidades empresariais segregadas passem a oferecer os seus préstimos diretamente ao consumidor. Tratandose a sistemática do lucro presumido de uma economia de opção, a legitimidade de sua adoção depende exclusivamente do cumprimento dos requisitos prescritos pelo legislador. Os referidos requisitos, aplicáveis ao período compreendido no presente processo administrativo e vigentes até hoje, seriam: limitação em função do volume de receitas brutas obtidas pela pessoa jurídica; exercício da atividade que não obrigada ao lucro real. Com a real e efetiva segregação das fontes produtoras de receitas, resultante de reestruturação societária, cada uma das novas unidades empresariais pode verificar se preenche ou não os referidos requisitos e, sendo o caso, optar ou não pelo lucro presumido. Fazse necessário, para este julgamento, distinguir hipóteses de reestruturações societárias reais, cujos efeitos jurídicos devem ser reconhecidos pela administração fiscal, de casos de simulação de reestruturações societárias, praticadas com o dolo da evasão de tributos, inoponíveis ao fisco e sujeitos à multa qualificada. 1. A legítima segregação das fontes produtoras de rendimentos: planejamento tributário oponível ao fisco. A primeira questão a ser analisada consiste em saber se a segregação das fontes produtoras de rendimentos, com ou sem a intenção principal (motivo íntimo Fl. 19552DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.553 31 preponderante) de permitir a alguma das unidades segregadas a opção pelo lucro presumido, é admitida pelo sistema jurídico brasileiro. No Brasil, o particular possui um núcleo de direitos livre de intervenções, dentro do qual está inserido o planejamento tributário3. Mais especificadamente, essa garantia dos contribuintes decorre das liberdades econômicas asseguradas pelo Constituinte. Conforme leciona TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR4, essas liberdades atribuem ao ser humano um espaço que não pode ser absorvido pela sociabilidade, tendose como reconhecida a capacidade de “reger o próprio destino, expressar a sua singularidade como indivíduo, igual entre iguais: o homem como distinto e singular entre iguais”. Não há dúvidas que o Estado, por meio da tributação, deve participar dos bem sucedidos resultados econômicos dos particulares a ele conectados. Conforme o princípio da legalidade, o legislador deve eleger, dentro de seu respectivo âmbito de competência tributária, fatos geradores que captem capacidades contributivas conforme uma dosagem adequada à divisão do custo estatal. Dessa forma, ao mesmo tempo em que a Constituição Federal garante aos particulares a existência desse âmbito de liberdade, outorga ao Poder Legislativo a competência para regular e interferir em seu exercício, seja para estabelecer a cobrança de tributos, seja para limitar planejamentos tributários. Não se trata de questão reclusa ao Direito brasileiro: geralmente, há nos ordenamentos jurídicos estrangeiros normas gerais (general anti avoindance rules – GAAR) ou normas específicas (specific anti avoindance rules – SAAR) para a reação aos planejamentos tributários não tolerados. As normas gerais de reação ao planejamento tributário se prestam a alcançar algumas ou todas as espécies tributárias, com a prescrição de critérios para a identificação do “abuso”. Já as normas específicas incluem no âmbito de incidência da norma tributária, casuisticamente, situações que potencialmente podem ser utilizadas pelo contribuinte como substitutas não tributadas ou ainda fiscalmente menos onerosas e que, por decisão do legislador, devem ser submetidas igualmente àquela tributação mais onerosa. No ordenamento jurídico brasileiro, quando houver clara decisão do legislador brasileiro, compete à administração fiscal o papel de atribuir eficácia à intervenção estatal sobre as liberdades econômicas dos particulares, especialmente sobre o seu patrimônio. Mas essa atuação da administração fiscal, invariavelmente, depende de prévia e clara autorização do legislador. Nesse cenário, a legitimidade de segregações societárias para ensejar a economia de opção do lucro presumido ou a outras formas de tributação (como o SIMPLES NACIONAL) deve ser compreendida com vistas a dois fatores fundamentais, analisados nos parágrafos seguintes: (i) as liberdades econômicas potencialmente restringidas pela vedação às referidas reestruturações societárias; 3 Nesse sentido, vide: ÁVILA, Humberto. Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In Grumpenmacher, Betina Treiger (coord.) Direito Tributário e o novo Código Civil São Paulo: Quartier Latin, 2004, p. 7577. 4 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 196. Fl. 19553DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.554 32 (ii) a existência de decisão clara do legislador para a restrição das referidas liberdades econômicas por meio da tributação. Quanto a esse primeiro fator (liberdades econômicas), insta observar que a livre iniciativa foi erigida como fundamento da ordem econômica pelo caput do art. 170 da Constituição Federal, com a dupla feição de proteger tanto o capital quanto o trabalho. Na explicação de TERCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR, tratase de mandamento para que o Estado atue de forma negativa, no sentido de não interferir na expansão da criatividade do indivíduo e, ainda, positiva, de atuação para a valorização do trabalho humano. A esse propósito, leciona o professor: “Não há, pois, propriamente, um sentido absoluto e ilimitado na livre iniciativa, que por isso não exclui a atividade normativa e reguladora do Estado. Mas há ilimitação no sentido de principiar a atividade econômica, de espontaneidade humana na produção de algo novo, de começar algo que não estava antes. Esta espontaneidade, base da produção da riqueza, é o fator estrutural que não pode ser negado pelo Estado. Se, ao fazêlo, o Estado a bloqueia e impede, não está intervindo, no sentido de normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado.” A autonomia privada decorre do princípio da livre iniciativa, atribuindo aos particulares o direito à liberdade contratual, isto é, de livremente celebrar ou não um contrato (liberdade de celebração), bem como de eleger o tipo contratual mais adequado (liberdade de seleção do tipo contratual, salvo restrição legal) e de preencher o seu conteúdo de acordo com os seus interesses (liberdade de fixação do conteúdo do contrato ou de estipulação).5 Garante se, por esse princípio, a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação6. É pertinente notar, com TULIO ROSEMBUJ7, que a liberdade da empresa não se esgota no exercício da liberdade contratual, no exercício do direito de propriedade ou na atividade de produção de bens de terceiros no mercado livre: tratase da garantia de poder decidir como combinar fatores de produção e de utilizar de riqueza para produzir nova riqueza. Se há limites ao exercício da liberdade, o Estado de Direito também pressupõe limites ao legislador para a sua restrição, pois, conforme salutar preocupação de TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR, “a liberdade pode ser disciplinada, mas não pode ser eliminada” 8. Não poderia o Estado utilizar mecanismos de coerção para compelir o contribuinte à prática de determinados atos e, assim, à ocorrência de hipóteses de incidência de tributos (ou seja, de intervenção no patrimônio particular). Assim ocorrendo, como adverte 5 Cf. BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226240. No mesmo sentido, TÔRRES, Heleno Taveira. O conceito constitucional de autonomia privada como poder normativo dos particulares e os limites da intervenção estatal, in Direito e poder: nas instituições e nos valores do público e do privado contemporâneos. Heleno Taveira Torres (coordenador). Barueri : Manole, 2005, p. 567. 6 Cf. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 7 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 57. 8 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 19554DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.555 33 LUÍS EDUARDO SCHOUERI9, estarseia atentando de modo inadmissível contra a proibição ao confisco e o Direito à propriedade. Poderseia questionar, assim, se seria legítimo ao legislador obrigar que um indivíduo ou uma sociedade concentrassem todo o seu universo patrimonial disponível em uma única pessoa jurídica, com a consolidação de todos os resultados na sistemática do lucro real, por ser esta a forma mais gravosa fiscalmente. Em outros termos: poderia o legislador considerar a segregação das fontes produtoras de rendimentos absolutamente inoponível ao fisco, sempre que a tributação sob a forma consolidada fosse capaz de gerar maior volume de receitas tributárias à União? No presente caso, contudo, não é necessário questionar qualquer ofensa do legislador à Constituição Federal por intervenção excessiva (o que não se poderia, de qualquer maneira, realizarse em âmbito administrativo, conforme Súmula n. 2 do CARF). Ocorre que não há, no presente caso, qualquer lei que, de alguma forma, neutralize os efeitos da reorganização patrimonial sob julgamento: não há norma no Direito privado que vede os atos realizados, bem como não há normas tributárias específicas que impeçam a opção fiscal realizada pelo contribuinte (SAAR). Não há SAAR que, de alguma forma, restrinja reorganizações patrimoniais nesse sentido ou interfira na fruição de seus ordinários efeitos jurídicos, inclusive no que diz respeito à sistemática do lucro presumido. Tal como não há regras específicas para a tutela do caso concreto, também não há normas gerais que vedem a priori a efetiva segregação de fontes produtoras de rendimentos. Não há permissão, abstraída diretamente do Texto Constitucional, para que a administração fiscal atue como se possuísse ingerência na condução das atividades econômica empreendidas, substituindo as decisões do indivíduo, para fins tributários, por outras que lhe pareçam arbitrariamente mais adequadas, com discricionário incremento do ônus tributário. No caso, por força do art. 146 da Constituição, compete à lei complementar prescrever normas gerais de intolerância a planejamentos tributários. Assim, com a observância da Constituição Federal, compete ao legislador legitimamente eleito manifestar a decisão sobre em quais circunstâncias e em qual intensidade deverá o Estado intervir no exercício de liberdades econômicas. A exigência de lei para a desconsideração de planejamentos tributários, portanto, não encontra fundamento “apenas” no principio da legalidade em matéria tributária (art. 5o e art. 150, I, da Constituição), mas também das normas de Direito econômico presentes no Texto Constitucional (arts. 170 e seg. da Constituição). O primado da legalidade exige decisão clara do legislador, como se observa de exemplos concretos do sistema tributário brasileiro. Um bom exemplo pode ser colhido da legislação atinente à contribuição ao PIS e à COFINS. No caso, o art. 3o, IV, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003, autorizaram que o contribuinte, na apuração dessas contribuições pelo regime não cumulativo, apurasse créditos de “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”. Empresas que possuíam imóveis próprios, utilizados em sua atividade operacional, logo cogitaram da segregação de tais bens de seu patrimônio para integralização em pessoas jurídicas imobiliárias, que passariam a locálos à sua anterior proprietária. Com isso, seria possível o 9 SCHOUERI, Luís Eduardo. Normas tributárias indutoras e intervenção econômica. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 46. Fl. 19555DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.556 34 aproveitamento de créditos de PIS e COFINS sobre o valor dos alugueis pagos. Nesse caso, por meio da Lei n. 10.865/2004, o legislador decidiu neutralizar os efeitos desse planejamento tributário e prescrever uma SAAR: Art. 31. É vedado, a partir do último dia do terceiro mês subsequente ao da publicação desta Lei, o desconto de créditos apurados na forma do inciso III do § 1o do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, relativos à depreciação ou amortização de bens e direitos de ativos imobilizados adquiridos até 30 de abril de 2004. § 1o Poderão ser aproveitados os créditos referidos no inciso III do § 1o do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, apurados sobre a depreciação ou amortização de bens e direitos de ativo imobilizado adquiridos a partir de 1o de maio. § 2o O direito ao desconto de créditos de que trata o § 1o deste artigo não se aplica ao valor decorrente da reavaliação de bens e direitos do ativo permanente. § 3o É também vedado, a partir da data a que se refere o caput, o crédito relativo a aluguel e contraprestação de arrendamento mercantil de bens que já tenham integrado o patrimônio da pessoa jurídica. Por sua vez, no caso ora sob julgamento, o silêncio do legislador se alia à sonora ordem emanada das liberdades econômicas asseguradas pela Constituição, o que transmite eloquente mensagem ao contribuinte no sentido de que o planejamento tributário em questão é admitido no ordenamento jurídico brasileiro, sendo combatido, por parte do legislador complementar, atos simulados, fraudulentos, cometidos com o dolo da evasão de tributos. Não se trata de lacuna aleatória, mas de decisão consciente do legislador em não prever SAAR quanto ao planejamento tributário ora sob análise, inegavelmente presente no sistema jurídico brasileiro há décadas. Há mais um esclarecimento que se mostra necessário em face do planejamento tributário sob análise: não há qualquer norma, no ordenamento jurídico brasileiro, que autorize distinguir reorganizações patrimoniais motivadas por propósitos tributários ou extratributários. A adoção desse critério, à sombra da lacuna legislativa, entre muitos outros óbices que podem ser suscitados, encontra vedação no art. 108 do CTN, por ofensa à equidade e aos princípios gerais de direito público. A título ilustrativo, suponhase que a sociedade familiar “A” vislumbre na segregação de suas atividades um ganho em organização, com a melhor divisão de responsabilidades e eficiência, bem como apaziguar brigas no seio familiar. Suponhase, ainda, que a empresa “B” decida conduzir reestruturação semelhante à empresa “A”, com a segregação efetiva de pessoas jurídicas que passariam a dedicarse, individualmente à exploração de atividades econômicas específicas, com a assunção dos riscos, responsabilidades e benesses atinentes à espécie. Suponhase, por fim, que o único motivo para que a empresa “B” realizasse a referida reestruturação seria a redução da carga tributária. Nesse exemplo, fica evidente que haverá tratamento não isonômico entre as empresas “A” e “B” caso se discrimine, como critério para a legitimação do planejamento tributário, operações realizadas com ou sem propósitos extratributários (“propósito negocial”). No caso concreto, NÃO há lei que autorize a referida discriminação com base na aferição subjetiva de motivos extratributários (“propósitos negociais”). Apenas se Fl. 19556DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.557 35 poderia atribuir tratamento distinto entre contribuinte que se encontram em condições semelhantes (“A” e “B”) caso o legislador houvesse prescrito tal discrímen, com o delineamento do que viria a ser esse conceito de “propósito negocial”, até hoje não delineado e desconhecido no Direito positivo brasileiro. Diante do cenário jurídico atinente à matéria sob julgamento, concluise que: em vista das liberdades econômicas, o contribuinte brasileiro goza do direito de reestruturar a exploração do seu capital da forma mais eficiente, inclusive sob a perspectiva fiscal, salvo intervenção clara do legislador; não há qualquer norma societária ou tributária que obrigue a concentração do universo patrimonial de um indivíduo ou de uma sociedade em uma única pessoa jurídica, com a sujeição dos rendimentos consolidados à sistemática do lucro real, por ser esta a mais onerosa; A adoção da sistemática do lucro presumido depende exclusivamente do cumprimento do binômio: volume de receitas brutas obtidas pela pessoa jurídica e atividade que não obrigada ao lucro real; não há qualquer norma específica de intolerância ao planejamento tributário em questão (SAAR), que impeça pessoas jurídicas resultantes de reestruturação societária optarem pela sistemática do lucro presumido; tratase de decisão consciente do legislador, que calibrou, com as ferramentas tributárias existentes, as liberdades econômicas e os mecanismos de incremento do desenvolvimento econômico; para fins fiscais, devem ser reconhecidos os efeitos da efetiva segregação das fontes produtoras de rendimentos, tratandose de planejamento tributário plenamente oponível ao fisco; não se requer motivos extratributários (“propósito negocial”) para que segmentações de entidades empresariais (reais) legitimem que cada unidade segregada se legitime à opção pelo lucro presumido; segregações societárias meramente simuladas não são oponíveis ao fisco. Caracterizado o dolo da evasão de tributos, tais segregações simuladas sujeitam o contribuinte à exigência de multa qualificada. Em termos gerais, o entendimento aqui apresentado apreende a tradicional jurisprudência deste Tribunal. No acórdão n. 10323357, de 23.01.2008, o Primeiro Conselho de Contribuintes novamente reafirmou a proteção jurídica da segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos. Como naquele caso os julgadores constataram que não havia provas de artificialismo, sem que qualquer simulação houvesse sido demonstrada pela fiscalização, reconheceuse o direito das partes segregadas optarem pelo lucro presumido. A referida decisão restou assim ementada: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2002 Fl. 19557DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.558 36 Ementa: SIMULAÇÃO – INEXISTÊNCIA – Não é simulação a instalação de duas empresas na mesma área geográfica com o desmembramento das atividades antes exercidas por uma delas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária. OMISSÃO DE RECEITAS – SALDO CREDOR DE CAIXA – DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA – A reunião das receitas supostamente omitidas por duas empresas para serem tributadas conjuntamente como se auferidas por uma só importa em erro na quantificação da base de cálculo e na identificação do sujeito passivo, conduzindo à nulidade do lançamento. Recurso provido. Publicado no D.O.U. nº 57, de 25/03/2008. No acórdão n. 3402001.908, de 26.09.2012, a 2a Turma Ordinária da 4a Câmara de Julgamento, da 3a Seção do CARF, igualmente confirmou o direito do contribuinte à segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos, consignando não haver simulação a ser combatida no caso analisado. A referida decisão restou assim ementada: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 31/10/2001 a 31/12/2003 COFINS ALÍQUOTA PRODUTOS DE HIGIENE E BELEZA ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAL E COMERCIAL ARTS. 1º E 2º DA LEI Nº 10.147/00. Para o cálculo da Cofins incidente sobre a receita de venda dos produtos de higiene e beleza aplicase a alíquota de 10,3% no caso de receita auferida por pessoa jurídica que proceda à industrialização ou importação dos citados produtos sendo que a alíquota é reduzida a zero, no caso de receita de revenda dos referidos produtos, auferida por pessoa jurídica não enquadrada na condição de industrial ou importador. COFINS DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS CISÃO PARCIAL DESMEMBRAMENTO DE ATIVIDADE SIMULAÇÃO INOCORRÊNCIA ART. 116, § ÚNICO DO CTN. Embora não se ignore que a autoridade administrativa pode desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, a Lei Complementar somente autoriza a desconsideração, desde que observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária (art. 116, § único do CTN). Assim o contrato só se transmuda em forma dissimulada quando ocorrer violação da própria lei e da regulamentação que o rege, donde decorre que a descaracterização do contrato só pode ocorrer quando fique devidamente evidenciada uma das situações previstas em lei, sendo que fora desse alcance legislativo, impossível ao Fisco tratar um determinado contrato privado como outro de natureza diversa, para fins tributários. Não há simulação na cisão parcial através da qual se efetua o desmembramento de atividades em várias empresas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária, não sendo lícita a pretensão fiscal de desconsiderar as distintas atividades e respectivas receitas segregadas em diferentes empresas do mesmo grupo, para tributálas unificadamente. No acórdão n. 3302003.138, de 17.03.2016, a 2a Turma Ordinária, da 3a Câmara da 3a Seção do CARF, também confirmou o direito do contribuinte à segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos. Naquele caso, igualmente restou demonstrada a ausência de atos simulados. A referida decisão restou assim ementada: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2008 SIMULAÇÃO. INEXISTÊNCIA. Fl. 19558DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.559 37 Simular é o ato de fingir, mascarar, esconder a realidade, camuflar o objetivo de um negócio jurídico valendose de outro, eis que o objetivo intentado seria alcançado por negócio diverso, daí o motivo de o artigo 167 do Código Civil dispor que o negócio jurídico simulado será nulo. Não é simulação o desmembramento das atividades por empresas do mesmo grupo econômico, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária. Recurso de Ofício Negado Não apenas pela plena convicção de ser este o melhor direito, mas também pela função uniformizadora desta CSRF, o presente voto não destoa dessa tradição de garantia ao contribuinte da proteção jurídica dos efeitos da segregação operacional e societária das fontes produtoras de rendimentos, negandoa, contudo, aos casos simulados. 2. A desconsideração da simulada segregação de fontes produtoras de rendimentos: definição de “simulação” e critérios legais para a qualificação do caso concreto. Como se sabe, em conformidade com o art. 146 da Constituição Federal, compete ao legislador complementar decidir se haverá uma norma geral de reação a planejamentos tributários e, nesse caso, qual o critério para a identificação das hipóteses as quais o fisco não deverá tolerar (hidrômetro da intolerância). De forma concreta, o legislador complementar competente enunciou apenas norma de reação à fraude, à simulação, ao dolo na evasão de tributos (CTN, art. 149, VII), deixando ao legislador ordinário a tarefa de estabelecer o procedimento especial para que se descortinem os casos de dissimulação (CTN, art. 116, parágrafo único) ou, ainda, para a edição de normas de reação a planejamentos tributários específicos (SAAR). Nesse cenário, embora muito se discuta o assunto, o legislador complementar brasileiro sempre limitou os poderes da administração fiscal para desconsiderar atos praticados pelo contribuinte, restringindoos para tornar inoponíveis apenas atos “simulados”, “fraudulentos”, cometidos com o dolo da evasão de tributos. Não há a outorga, pelo legislador competente (lei complementar), para que a administração fiscal considere inoponível atos que não possam ser qualificados como “simulados”. Isso significa que o legislador competente não considera intitutos como “simulação”, “fraude” ou “dolo” tão estreitos a ponto de permitir atos que não deveriam ser tolerados, nem tão amplos a ponto de permitir arbitrariedades por parte do fisco. O legislador tributário complementar, desde e edição do CTN (anos 1966) até hoje, considera suficiente que a administração fiscal reaja exclusivamente em face de atos simulados, fraudulentos, com o dolo da evasão de tributos, reconhecendose a legitimidade das demais práticas (planejamento tributário). Em relação à fraude, colhese do art. 72, da Lei 4.502/64, tratarse de “toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento”. A exigência do dolo, nesse enunciado prescritivo, tem o condão de agregar ao conceito de fraude a intenção de ofender ao Direito, de cometer ato sabidamente ilícito, e não qualquer hipótese na qual o contribuinte realiza atos para reduzir a ocorrência de fato gerador. O dolo, no Direito Civil, remete ao “emprego de um artifício ou expediente astucioso para Fl. 19559DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.560 38 induzir alguém à prática de um ato que o prejudica e aproveita ao autor do dolo ou a terceiro”10. Dolo seria a própria intenção de causar dano a outrem, de contrariar o direito. 11 Quanto à simulação, pedra de toque para o presente julgamento, podese observar que as decisões do CARF, até o fim do século XX, apresentavam duas características fundamentais: (i) tratarseia de um vício de consentimento, cuja mácula consistiria na divergência entre a vontade interna, subjetiva, e a vontade declarada; (ii) seria exigida a demonstração dos atos realizados às escuras, divergentes daqueles levados ao público.12 Assim, no acórdão n. 0101857, de 15.05.95, julgado pela CSRF13, foram refutadas as alegações de simulação formuladas pela fiscalização, tendo em vista a inexistência de provas de que a vontade das partes, levada a cabo nos documentos formulados para uma incorporação, seria contraditória com a vontade intima efetivamente presente. Contudo, FABIO PIOVESAN BOZZA14 sugere que, desde meados de 2005, a concepção de simulação em diversos casos no âmbito do CARF teria se tornado preponderantemente causalista, com contraposição à postura voluntarista até então adotada. O elemento fundamental para a caracterização da simulação não seria mais a divergência subjetiva, entre a vontade interna das partes e a manifestada nos negócios realizados. O foco, a partir de então, passaria a ser a incompatibilidade objetiva entre o modelo adotado nas operações realizadas para o negócio supostamente pretendido pelas partes. A partir daí, em muitos julgamentos passaram a ser despiciendas as provas quanto à verdadeira vontade das partes (modelo subjetivo). Em vez disso, pelo modelo objetivo, passaram a ter lugar deduções lógicas decorrentes de indícios dos mais variados, vocacionados a demonstrar a divergência do negócio realizado com a sua causa típica. Paradoxalmente, observa FABIO PIOVESAN BOZZA15, muitas vezes o “conceito objetivo de simulação tornouse de aplicação subjetiva”. Notese que o legislador tributário não edificou um instituto distinto para a “simulação fiscal”, mas laborou com remissão normativa, acolhendo o conceito normativo de “simulação” prescrito pelo Direito privado. Por se tratar de questão fundamental, peço vênia para transcrever as seguintes constatações de HUMBERTO ÁVILA16, in verbis: 10 DINIZ, Maria Helena. Dicionário jurídico. São Paulo : Saraiva, 1998, p. 232. 11 PAULO AYRES BARRETO diferencia o dolo da simulação, na medida em que, naquele “apenas um dos interessados tem ciência do ato doloso, enquanto na simulação, ambas as partes têm participação na ação concertada”. A diferença de dolo e fraude residiria no fato de que esta “se consuma sem a intervenção pessoal do prejudicado. Além disso, enquanto o dolo geralmente antecede ou é concomitante à prática do negócio jurídico, a fraude é perpetrada posteriormente à sua celebração” (BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 157186) 12 Nesse sentido, vide: BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 214. 13 CARF, CSRF, acórdão n. 0101857, de 15.05.95. 14 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 218224. 15 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 228. 16 ÁVILA, Humberto. Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In Grumpenmacher, Betina Treiger (coord.) Direito Tributário e o novo Código Civil São Paulo: Quartier Latin, 2004, p. 6572. Fl. 19560DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.561 39 “A referência deve ser havida como conceitual. Sempre que a legislação tributária faz menção a um termo e este termo é conceituado, só pode haver uma referência conceitual na medida em que não teria nenhum propósito lingüístico fazer uma referência sem que essa referência estivesse relacionada a um conceito. A referência é sempre feita a conceitos ‘civilmente impregnados’. Mencionase ‘salário’ segundo o conceito que se tem de salário; fazse referência à ‘mercadoria’ de acordo com o conceito que se tem de mercadoria. O problema, todavia, não é apenas esse. A questão crucial é saber se, havendo conceitos impregnados pelo Direito Civil (...), eles podem ou não ser alterados pelo legislador tributário. Nesse caso, temos dois caminhos: ou a legislação tributária não pode mudar o conceito é o que se convencionou chamar de ‘primado do Direito Civil’ ou o legislador tributário pode alterar o conceito. No primeiro caso, temos a ‘tese da rigidez’: o legislador tributário não pode alterar o conceito de Direito Privado que se tornou rígido pela sua incorporação ao Direito Tributário. No segundo, temos a ‘tese da flexibilidade’: o legislador pode alterar o conceito de Direito Privado porque tem liberdade para fazêlo. “Em primeiro lugar, não havendo reserva constitucional, a atuação expressa do legislador implica modificações do conceito de Direito Privado é o que se chama de ‘precedência do legislador tributário’; em segundo lugar, se o legislador tributário silenciar, vale o conceito de Direito Privado é o chamado ‘primado do Direito Privado’.” Notese, ainda, que o art. 109 do CTN prescreve que “os princípios gerais de direito privado utilizamse para a pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários”. Daí decorre que, se determinado instituto do Direito privado compõe algum enunciado prescritivo de matéria tributária, ao menos duas hipóteses seriam possíveis: (i) pode o legislador tributário atribuir definição, conteúdo e alcance diversos do que se verifica no Direito privado (apenas o nome de batismo seria igual nas diferentes searas jurídicas), ou; (ii) caso o legislador tributário silencie quanto à questão, deve o instituto deve ser compreendido conforme o seu perfil no Direito privado. Conjugandose os artigos 109 e 110 do CTN, surge a questão: a lei tributária poderia utilizar o termo “simulação” para se referir a questão diversa da tutelada pelo Direito Civil, alterando a definição, o conteúdo e o alcance daquele instituto tradicional na seara privada? Em tese, sim, pois a expressão não fora utilizada, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. No entanto, o legislador tributário não alterou o sentido desse instituto, utilizandoo tal qual no Direito privado. No âmbito privado, o perfil jurídico da simulação foi revisto em decorrência da enunciação do novo Código Civil, de 2002. No Código Civil de 1916, a simulação correspondia a um defeito do negócio jurídico, decorrente de vício na vontade do agente, que poderia agir tanto de forma maliciosa, quando o negócio seria anulável (art. 102), como inocente (art. 103), em que o negócio subsistiria. O novo Código Civil tutela a simulação em seu art. 167, da seguinte forma: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; Fl. 19561DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.562 40 II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados. § 2o Ressalvamse os direitos de terceiros de boafé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado. A simulação trazida pelo novo Código Civil difere ao menos em dois pontos de sua conformação anterior. O negócio jurídico simulado será nulo (e não mais anulável), não surtindo efeitos desde a sua realização, bem como não se perpetuará no tempo, conforme o art. 169 do novo Código. Também não há mais menção à possibilidade de simulação inocente, pois a simulação deixa de se referir a um elemento subjetivo, configurando critério objetivo de validade do próprio negócio. No caso, então, a simulação a que se refere o art. 149, VII, do CTN, corresponderia à “mentira” quanto à prática de um ato relevante para fins tributários. Sonega se da Administração Fiscal a verdade dos fatos ocorridos. O ato simulado é um ato aparente, que não existe no mundo dos fatos, mas apenas de forma precária no mundo jurídico. Na simulação absoluta, o contribuinte buscaria construir determinado invólucro que, caso real, lhe atribuiria benefícios fiscais, embora nada exista. Na simulação relativa, a ocorrência do fato gerador de uma obrigação tributária seria ocultada pela oposição do ato simulado. Com a simulação absoluta, expõe TULIO ROSEMBUJ17, as partes criariam com a sua declaração uma aparência de negócio que não querem realizar e do qual não esperam nenhum efeito. Seria uma aparência sem qualquer conteúdo verdadeiro e, assim, juridicamente inexistente, como é o caso da fraude contra credores em que se cria um passivo inexistente ou se diminui o ativo, sem que nada realmente tenha sido realizado. Com a simulação relativa, as partes criariam a aparência para um negócio jurídico diverso daquele que efetivamente querem. Seria um disfarce, em que apenas aparentemente se realizaria um negócio jurídico, para, na verdade, realizarse outro negócio. Como exemplos de simulação, é possível cogitar a venda de bem imóvel por um valor abaixo do realizado, compatível com os limites exigidos pelo legislador para a adoção do lucro presumido ou a utilização de instrumentos antedatados de cessão gratuita do direito de uso de bem imóvel. Citese, ainda, o Recurso Especial n. 243.767MS, do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, para a distinção de simulação (absoluta) e dissimulação (relativa): “Duas situações, entretanto, podem verificarse. Uma, em que a simulação seja absoluta. As partes não pretenderam concluir negócio algum, como no exemplo acima mencionado. Isso reconhecido, não produzirá efeito. Pode, entretanto, ser relativa a simulação. As partes efetivamente desejavam a pratica de determinado contrato, mas esse ficou dissimulado por um outro. Assim, por exemplo, fezse uma doação, dissimulada em compra e venda. Em tal caso, prevalecerá o negócio real.” No Direito tributário brasileiro, então, a simulação se presta à sonegação, ou seja, ao ilícito. O que se combate não é a utilização de formas anormais, atípicas, para se alcançar determinado resultado. Combatese o ato doloso da evasão de tributos em que as 17 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 49. Fl. 19562DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.563 41 partes realizam um determinado negócio jurídico, mas declaram ao fisco que outro teria sido realizado. Notese que, para aferirse a ocorrência de simulação, não é relevante questionar a existência de razões extratributárias. Interessa demonstrar que, por meio dos negócios jurídicos apresentados pelo contribuinte, foram ocultadas do Fisco as verdadeira configuração dos atos praticados (dissimulação) ou, ainda, que nada realmente foi realizado (simulação absoluta). A apurada análise da questão exige que se diferencie a “simulação dos negócios jurídicos praticados” da “simulação da pessoa jurídica”. Nesse primeiro, reconhece se a personalidade jurídica das pessoas jurídicas envolvidas, mas evidenciase a simulação dos negócios jurídicos praticados por estas. Embora não descarte a priori a possibilidade de simulação da própria pessoa jurídica, pareceme tratarse de hipótese rara. A “pessoa jurídica” é ficção criada pelo Direito para segregar uma personalidade jurídica dotada de direitos, inclusive patrimoniais, e apta a assumir deveres, com autonomia em relação ao seus sócios. A existência da pessoa jurídica, portanto, é questão mais de direito que de fato. Parece mais factível a ocorrência de simulação de negócios jurídicos, em que se atribuam a pessoas jurídicas existentes rendimentos que não decorram, verdadeiramente, de suas atividades. É preciso que a solução deste julgamento se mantenha coerente com esses fundamentos. No âmbito do Direito privado e, por remissão do legislador complementar, também no Direito tributário, são reais e existentes atos de transmissão que efetivamente façam com que seja alterado o titular de direitos e obrigações de um determinado acervo patrimonial. Ainda que uma reorganização patrimonial possa ser verificada documentalmente, pode ser irrelevante para fins tributários caso tais documentos contenham declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira capaz de qualificar as operações como simuladas. Operações que apenas simulam a segregação de fontes produtoras de rendimentos devem ser transparentes aos olhos da fiscalização tributária: inoponível, a operação dissimulada, por transparente aos olhos do fisco, conduz a que se desvende a operação verdadeira que se procurou ocultar, à qual devem ser aplicadas as consequências tributárias correspondentes à espécie. O contribuinte que simular a segregação de fontes produtoras de receitas, submetendo indevidamente parte ou todos os seus rendimentos à tributação mais branda aplicável a uma outra pessoa jurídica (decorrente do lucro presumido, por exemplo), estará sujeito ao lançamento de ofício da diferença do tributo que seria devido conforme o regime que lhe seria verdadeiramente aplicável (lucro real, por exemplo). Caso não seja possível a apuração do lucro real, deve ser apurado, nos termos da legislação, o lucro arbitrado. Diante de simulação, com o dolo específico da evasão de tributos, deverá, ainda, ser imposta multa qualificada. A aferição da simulação, contudo, parece requerer considerações distintas diante de empresas com rendimentos ativos (indústria, por exemplo), daquelas que apresentam apenas rendimentos passivos (aplicações financeiras, por exemplo). Enquanto muitas vezes a obtenção dos primeiros (rendimentos ativos) pressupõe estrutura operacional robusta, a Fl. 19563DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.564 42 condução das atividades relacionados aos últimos (rendimentos passivos) pode exigir, por natureza, estrutura operacional mínima. No caso dos autos, as empresas do grupo empresarial desenvolvem atividades geradores de rendimentos primordialmente ativos. Nesse caso, em geral, alguns fatores podem ser considerados determinantes para qualificarse uma reestruturação societária como simulada, enquanto outros relevantes, por corroborar com o acervo probatório, mas não necessariamente determinantes. A relevância de cada fator dependerá do particular contexto presente no caso específico, não se descartando a relativização de todos eles em vista de situações concretas. Em uma relação que não pretende ser exaustiva, é possível identificar alguns desses fatores, com especial enfoque na estrutura negocial, na estrutura contábil e financeira e, ainda, na estrutura física e operacional das empresas segregadas: A. ESTRUTURA NEGOCIAL § Assunção de efetiva responsabilidade pela atividade alegadamente desenvolvida. Gastos com folha de pagamento, com a manutenção da estrutura básica ou aquisição de insumos para as atividades específicas de uma das empresas, suportados aleatoriamente por outras empresas do grupo, na ausência de justificativa plausível, podem evidenciar, de forma determinante, confusão das unidades segregadas e simulação. § Assunção, pela pessoa jurídica segregada, dos riscos e das benesses sobre os ativos recebidos como contribuição ao capital social. Na reestruturação societária em análise, pode haver a contribuição de parcela do patrimônio outrora concentrado em uma pessoa jurídica, para a composição do capital social da pessoa jurídica que conduzirá a atividade segregada. Caso se declare ter transferido ativos a essa nova empresa para a integralização de seu capital, é plausível que esta assuma a responsabilidade, o risco e as benesses geradas por tais ativos. § Coerência negocial. É natural que operações que não apresentem, ao menos de forma aparente, coerência com os padrões normais de gestão, demandem certa atenção. Não se pode, contudo, punir fiscalmente um particular por adotar uma estrutura ineficiente ou com padrões não ortodoxos. Por essa razão, geralmente esse fator apresentarse como não determinante ou mesmo irrelevante. § Prática de preços de mercado entre as partes segregadas. A manipulação dos preços praticados entre partes relacionadas pode ser uma evidência contundente quanto ao dolo da evasão de tributos. Além de poder atrair legislação própria para a regência de certos casos, como os de distribuição disfarçada de lucros, esse fator esse elemento também pode ser relevante para a evidenciar a vícios de regregação de atividades societárias. Assim como os demais, contudo, esse elemento pode ser relativizado: da mesma forma que a prática de preços de mercado não é, por si só, fator suficiente para legitimar as operações, a prática de preços menores que o de mercado também não conduz necessariamente a vícios no negócio jurídico. B. ESTRUTURA FINANCEIRA E CONTÁBIL Fl. 19564DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.565 43 § Confusão de titularidade dos recebíveis e dos passivos, capaz de evidenciar ausência de autonomia das partes e a unidade de empresas apenas formalmente segmentadas. A utilização injustificada e indiscriminada de contas bancárias centralizadas e outras sistemáticas de compensação financeira para o recebimento de receitas e o cumprimento de obrigações, mantidas por empresas do grupo empresarial diferentes daquela a que são imputadas para fins tributários, corresponde a uma evidência contundente. Certamente empréstimos entre empresas do mesmo grupo empresarial, respeitados os ditames legais, são lícitos. O que evidencia a simulação da segregação societária é a confusão e o descontrole financeiro entre as unidades supostamente segmentadas da entidade empresarial, que deve manter a assunção dos riscos e as benesses do negócio; § Informes financeiros devidamente formalizados. A contabilidade é instrumento hábil para descrever as mutações patrimoniais das empresas segregadas. Informes financeiros devidamente formalizados vinculam tanto o fisco como o contribuinte a assumir o ônus de provar que a realidade dos fatos é diversa daquela retratada pela contabilidade. As demonstrações contábeis, portanto, representam valioso instrumento para se aferir a existência de entidades segregadas. Há casos em que os vícios presentes na contabilidade tornam os informes financeiros imprestáveis, ou mesmo em que estes não foram escriturados, o que não conduz necessariamente à presunção de fraude. Inexistente esse importante meio probatório, outros meios de prova podem ser utilizados para evidenciar a realidade dos fatos. Certamente haveria ensejo ao arbitramento dos lucros, mas se este deve ser realizado de forma segregada ou aglutinada dependerá de outros fatores presentes no caso. Caso a fiscalização demonstre ter a contabilidade sido utilizada para simular uma determinada situação fática, o repertório probatório necessário para tanto possivelmente será suficiente para que a segregação fictamente alegada se torne inoponível. C. ESTRUTURA FÍSICA E OPERACIONAL. § Localização contígua das empresas. A adoção de endereços contíguos não conduz à presunção de irregularidades. A depender da dimensão da estrutura física de uma das empresas do grupo empresarial, pode ser plausível que a pessoa jurídica segregada utilize parte desta e, assim, ser justificável a manutenção de endereços contíguos. Outras evidências devem ser verificadas, a fim de que se possa aferir se há confusão entre as empresas. § Estrutura operacional capaz de suprir toda a demanda da fonte produtora dos rendimentos: A aparente incompatibilidade da estrutura da empresa segregada com as receitas que lhe são atribuídas é um fator relevante e que suscita maiores cuidados. A partir daí, a fiscalização deve aprofundar a análise do caso concreto, de forma a corroborar com mais evidências quanto à validade ou a inoponibilidade da alegada segregação. Contudo, a relevância dessa evidência pode ser relativizada, pois não se pode deixar de cogitar hipóteses em que a segregação de atividades se justifica pela exploração de método Fl. 19565DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.566 44 negocial inovador, mais enxuto e eficiente, com a adoção, por exemplo, do modelo da terceirização de etapas produtivas. § Centralização de atividades administrativas. A centralização de departamentos administrativos, como um mesmo departamento de contas a pagar e a receber para diversas empresas ou um contrato único com empresas de cartão de crédito, pode ser indício de manutenção de uma unidade não segregada. No entanto, a questão demanda a investigação de outros aspectos, pois a existência de estrutura operacional compartilhada entre as empresas do grupo empresarial, com contrato de rateio de despesas (Cost Sharing), é sabidamente legítimo no Direito brasileiro. § Existência de operações realizadas fora do grupo empresarial: A segregação de atividades desenvolvidas interna corporis não impede que as empresas segregadas também desenvolvam as suas atividades em benefício de unidades do mesmo grupo empresarial. A obtenção de receitas por operações realizadas com agentes estranhos ao grupo econômico pode, contudo, evidenciar efetiva exploração do mercado pela empresa segregada e, assim, afastar suspeitas de simulação da exploração econômica da atividade empresarial. § Inexistência dos estabelecimentos declarados ao fisco. Nos ramos que pressupõem a condução de atividades em estabelecimentos físicos, a inexistência de fato dos estabelecimentos declarados formalmente corresponde a evidência contundente de simulação da condução de tais atividades pela empresa em questão. Os fatores em questão serão mais relevantes quanto mais estreito for o nexo entre o elemento simulado e o fato gerador do tributo que dolosamente se procurou ocultar. Este Tribunal administrativo mantém longa tradição ao tratar da segregação operacional e societária de fontes produtoras, com correta intolerância a reestruturações meramente simuladas, sujeitandoas, inclusive por dever funcional do agente fiscal (ato vinculado e não discricionário), às multas qualificadas. Um dos mais emblemáticos julgamentos sobre a matéria se deu em 25.02.1986 (Caso Grendene, acórdão n. 10307260), em que o Primeiro Conselho de Contribuintes proferiu decisão assim ementada: IRPJ – TRANFERÊNCIA DE RECEITAS – EVASÃO FISCAL. Há evasão ilegal de tributos quando se criam oito sociedades de uma só vez, com os mesmos sócios que, sob a aparência de servirem à revenda dos produtos da recorrente, têm, na realizada, o objetivo admitido de evadir tributo, ao abrigo de regime de tributação mitigada (lucro presumido). Nesse julgamento, não se decidiu que a segregação operacional e societária de fontes de rendimentos seria algo intolerável. Pelo contrário, a referida decisão reagiu a operações que apenas simulavam tal segregação, mas que na verdade apenas esconderiam a manutenção da unidade empresarial original. Os silogismos adotados na decisão restaram claros: como as operações praticadas pelo contribuinte foram simuladas, então a economia de tributos gerada pela reestruturação societária não deveria ser reconhecida; mas se a segregação fosse verdadeira, então os seus efeitos jurídicos deveriam ser reconhecidos pela administração fiscal e o correspondente planejamento tributário respeitado. Fl. 19566DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.567 45 Na mesma linha, no acórdão n. 10195.208, de 19.10.2005, o Primeiro Conselho de Contribuintes, de forma harmônica com o até aqui exposto, compreendeu que as segregações artificiais, com o propósito exclusivo de simular a legitimidade à opção pelo lucro presumido pelas partes, não poderia ser reconhecida para fins tributários. A decisão reconheceu o direito do contribuinte à reorganização societária e operacional de suas atividades e os efeitos tributários daí decorrente, mas se voltou contra a situação concreta, reputada como simulada. A referida decisão administrativa restou assim ementada: NULIDADE – INEXISTÊNCIA MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL – PRORROGAÇÃO – REGISTRO ELETRÔNICO NA INTERNET – A prorrogação do MPF, à luz do que determina o artigo 13 da Portaria 3007/2001, se dá mediante registro eletrônico, disponível na Internet. IRPJ – CSL – CONSTITUIÇÃO DE EMPRESA COM ARTIFICIALISMO – DESCONSIDERAÇÃO DOS SERVIÇOS PRETENSAMENTE PRESTADOS – MULTA QUALIFICADA – NECESSIDADE DA RECONSTITUIÇÃO DE EFEITOS VERDADEIROS – Comprovada a impossibilidade fática da prestação de serviços por empresa pertencente aos mesmos sócios, dada a inexistente estrutura operacional, resta caracterizado o artificialismo das operações, cujo objetivo foi reduzir a carga tributária da recorrente mediante a tributação de relevante parcela de seu resultado pelo lucro presumido na pretensa prestadora de serviços. Assim sendo, devem ser desconsideradas as despesas correspondentes. Todavia, se ao engendrar as operações artificiais, a empresa que pretensamente prestou os serviços sofreu tributação, ainda que de tributos diversos, há de se recompor a verdade material, compensandose todos os tributos já recolhidos. IRPJ – CSL – PIS – COFINS SALDO CREDOR DE CAIXA – Não se tratando de empréstimos derivados de sócios ou administradores, mas restando os mesmos sem a devida comprovação, a glosa dos encargos deduzidos seria o procedimento correto. Optando a fiscalização por expurgar tais valores da conta caixa, para fins de apuração de saldo credor, deve fazêlo tanto para os recebimentos quanto para os pagamentos dos empréstimos. Recurso voluntário parcialmente provido. Como regra a ser seguida, então, deve ser desconsiderada a segregação de fontes produtoras de rendimentos que se comprove simulada, respeitandose, por sua vez, os efeitos tributários de legítimas reestruturações socitárias implementadas pelo particular. 3. Aplicação das normas jurídicas ao caso concreto: inexistência de elementos de prova quanto à simulação de segregação das fontes produtoras de rendimentos. O acórdão a quo assentou questões fáticas que, aliadas às normas jurídicas acima expostas, permitem encontrar uma solução para o presente caso. 3.1. Evidência de vícios na estrutura negocial do contribuinte. O acórdão recorrido constatou não haver provas nos autos de que restaria desvirtuada a assunção de efetiva responsabilidade pela atividade alegadamente desenvolvida por cada uma das empresas do grupo, in verbis: “Quanto a haver ou não uma vontade própria de cada empresa, a análise feita pela fiscalização do quadro social da ML do Nordeste, empresa da qual teriam se originado as quatro empresas, em nada respalda a tese do lançamento. De fato, tal análise apenas apontaria os membros da direção da ML como possíveis Fl. 19567DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.568 46 membros da direção das quatro empresas, já que estas são resultantes do desmembramento da ML. Restaria que a fiscalização conseguisse demonstrar que as quatro empresas tinham órgãos de direção compostos por membros da direção da ML e que todas as empresas perseguiam em conjunto um mesmo objetivo social. A análise do fiscal do quadro social da MK, ME, e MC (AlphaPro), também não traz nenhum esclarecimento. Ela apenas indica os nomes dos sócios formais como potenciais membros da direção da aventada empresa única. (...) Também a informação da fiscalização de que participaram do quadro social inicial da ML, Mondial e MC (AlphaPro) pessoas ligadas A. contadora das quatro empresas, não corrobora a tese base do lançamento, porque isso não refuta o quadro social e a direção das quatro empresas nos períodos autuados, nem indica uma determinada composição societária nas quatro empresas, nem demonstra confusão de objetivos sociais. Em resumo, mesmo tomadas em conjunto, estas análises da fiscalização não conseguem de modo algum refutar o quadro social e direção das quatro empresas formalmente registrados. Muito menos conseguem demonstrar a existência de uma mesma direção em todas as quatro empresas atuando para a realização de um objetivo social único.” Ainda com vistas à coerência negocial das estruturas analisadas neste recurso especial, o acórdão recorrido destacou, in verbis: “Outro ponto levantado pelo Fisco para sustentar suas conclusões é que a MK, ME e a AlphaPró têm por principal atividade a fabricação, montagem e comércio de eletrodomésticos e eletrônicos e a Mondial tem por atividade principal o comércio atacadista de eletrodomésticos e eletrônicos, sendo que todas comercializam os produtos e mercadorias sob a marca Mondial. A fiscalização explica que marca é de titularidade de empresas ligadas (Crowland SA e Silman Internacional SA) e que o logo da Mondial aparece no teto dos galpões. Com base nisso, conclui que não existe distinção entre a MK, ME, AlphaPró e Mondial, pois tudo é Mondial. Por sua vez o contribuinte explica que se trata de um grupo econômico e que cada uma das empresas tinha uma linha de produto e atividade especifica. Explica que: 1) a ME importa alguns tipos de produtos da China, diferentes dos produzidos pelas outras empresas; 2) a MK produz a linha de cozinha e importa alguns produtos afins; 3) a AlphaPro produz a linha de ventilação e aquecedores; 4) a Mondial comercializa os produtos das três empresas quando os cliente são de outro estado. Enfatiza que cada empresa possui seu próprio maquinario e moldes, que compram sua própria matéria prima, e que não existe partilhamento na fabricação dos produtos. Insiste que o uso da mesma marca não faz as empresas perderem a personalidade. Quanto a estes aspectos, cabem algumas ponderações. Inicialmente, vale notar que o uso da mesma marca pelas quatro empresas não permite concluir que elas seriam uma só. As empresas podem vender produtos com uma mesma marca sem perder sua personalidade. Inclusive, a própria fiscalização destaca, que a titularidade da marca é de outras empresas (Crowland SA e Si'man Internacional SA) que não foram afetadas pelo lançamento. Isso fragiliza a tese do lançamento, pois de um lado a própria.” O acórdão recorrido analisou as provas dos autos e concluiu, ainda, pela inexistência de demonstração quanto à prática preços de estranhos ao mercado entre as partes segregadas: “Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para Fl. 19568DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.569 47 alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial.” 3.2. Evidência de vícios na estrutura financeira e contábil do contribuinte. O acórdão recorrido também evidenciou inexistir demonstração de confusão de titularidade dos recebíveis e dos passivos, capaz de evidenciar ausência de autonomia das partes e a unidade de empresas apenas formalmente segmentadas, in verbis: “Além disso, as empresas pagavam aluguel pelo uso do espaço fisico, sendo irrelevante que os galpões fossem de propriedade de uma delas. Quanto à efetividade desses alugueis, a fiscalização teve acesso aos livros que registram esses aluguéis e não fez qualquer exame adicional para verificar se foram ou não pagos. Inclusive, sequer mencionou que as empresas pagavam alugueis pelos galpões que ocupavam. Portanto, não é possível falar em confusão de espaço físico e nem em empréstimo gracioso de espaço. Até onde esta demonstrado nos autos, cada empresa ocupava um galpão e arcava com os custos deste imóvel. Por oportuno, a alegação da fiscalização de que as empresas rateavam a conta de energia, também é explicada pelo aluguel dos galpões. Ou seja, se as empresas alugavam os galpões da ME, é razoável que a energia fosse rateada entre elas. Além disso, é a própria fiscalização que diz que cada empresa pagava sua despesa, já que a conta era rateada, e não põe em cheque o critério de rateio, obrigando que este seja aceito como correto. Por outro lado, o contribuinte explica que a dona do terreno (ME) é a titular do contrato com a Coelba e que divide as despesas com a MK. Também, informa que a AlphaPró tem seu próprio contrato com a Coelba, em relação ao seu galpão alugado. O acórdão recorrido também evidenciou inexistir demonstração de vícios capazes de macular efetivamente a contabilidade das empresas relacionadas e os informes financeiros elaborados, in verbis: “O Fisco também diz haver confusão na contabilidade das empresas. Sustenta esta posição dizendo que a contadora é a mesma e que a contabilidade apresenta a mesma estrutura. A fiscalização também diz que intimou o contribuinte a consolidar a contabilidade das quatro empresas e que o contribuinte apresentou tal consolidação, embora apenas fazendo a soma de cada conta. Afirma que este compartilhamento de dados, que seriam sigilosos, mostra a ligação entre as empresas. O contribuinte diz que isso não demonstra nenhuma confusão entre as empresa e que é comum um grupo empresarial ter um mesmo escritório de contabilidade e ter contabilidade com estrutura semelhante. Também, transcreve texto de intimação no qual o Fisco exige a apresentação da consolidação das quatro contabilidades sob pena de aplicação de multa e explica que apenas atendeu ao exigido pela fiscalização. Ora, salta aos olhos que o fato das empresas terem o mesmo responsável pela contabilidade e mesma estrutura de contas não implica em qualquer confusão. No caso, o que a fiscalização poderia ter pesquisado era se as empresas assumiam cada uma o custo do escritório de contabilidade ou se este era arcado por apenas uma delas ou por um caixa comum. Mas, este trabalho não foi feito. Quanto ao fato das empresas apresentarem a consolidação exigida pelo Fisco, isso também não comprova a existência de uma empresa única, mas sim de um Fl. 19569DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.570 48 grupo com acesso a informações uma das outras, fato admitido pelo contribuinte.” Como se pode constatar, além da inexistência de evidência relevantes quanto à ocultação da verdadeira estrutura negocial do contribuinte, também não há evidência de vícios na sua estrutura financeira e contábil capaz de tornar inoponível ao fiscal a segregação societária e operacional implementada. 3.3. Evidência de vícios na estrutura física e operacional do contribuinte. As questões quanto à localização geográfica e possíveis confusões estruturais foram verificadas pelo o acórdão a quo, que assentou, in verbis: “O ponto de partida do relatório fiscal é sustentar que as quatro empresa "funcionavam no mesmo endereço". Para manter a acusação, a fiscalização informa a localização inicial da sede de cada empresa e conta que elas se transferiram para Conceição do Jacuipe. Indica o endereço de cada empresa dizendo que: a MK se localizava na Estrada da Volta, 1200, galpão 2; a ME, na Estrada da Volta, 1200; a Alpha, na Try. da Volta, 155, galpão 2; e a Mondial, na Estrada da Volta, 1200, galpão 3B. Já o contribuinte explica que as empresas ocupavam galpões vizinhos, construidos em terreno da ME, e que pagavam alugueis pelo uso do espaço. Para comprovar suas alegações, juntou o registro contábil dos alugueis pagos por diversas empresas (MK, MC, AlphaPró, M Service, Margel, Global, Mondial, SPD) para a ME (proc. fls. 18893 a 18899). Também, juntou copia dos cartões CNPJ, que mostram os endereços cadastrados (proc. fls. 19010 a 19014). Portanto, percebese que a fiscalização e o contribuinte concordam em que as empresas estavam localizadas em galpões vizinhos. Mas, se as empresas ocupam cada uma um galpão diferente, não é possível dizer que dividem um mesmo espaço físico. Ou seja, mesmo admitindose que o endereço do terreno onde estão localizados os galpões pudesse ser um só, cada empresa tem suas instalações em um local (galpão) diferente. Assim, não se pode falar em compartilhamento de espaço fisico.” Também constatou o acórdão a quo, in verbis: “Além disso, o contribuinte informa que a MK e a AlphaPró compraram todas as máquinas e moldes da ML. Isso mostra que cada empresa tinha no seu galpão os seus próprios maquindrios e equipamentos, necessários para sua atividade. Assim, não se pode falar em compartilhamento de instalações. De outra banda, a fiscalização teve acesso as instalações, livros e documentos. Portanto, é de supor que tenha verificado se as máquinas, moldes e demais ativos haviam sido adquiridos por cada uma das empresas, se estavam registrados na contabilidade, e se estavam instalados no galpão correto. Logo, se a fiscalização nada disse sobre este aspecto tão importante, é necessário admitir como verdadeira a informação do contribuinte de que as instalações de cada empresa era da própria empresa. A fiscalização também não efetuou qualquer diligência para demonstrar que as empresas dividiam maquindrio na fabricação de seus produtos. Portanto, também é preciso supor que não existe partilharnento de equipamentos na produção. Assim, se os bens são das empresa, se estão instalados nos seus respectivos galpões, e se cada empresa usa suas próprias máquinas, o fato das empresas usarem a mesma marca para comercializar seus produtos apenas indica tratarse Fl. 19570DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.571 49 de um grupo econômico, e não de uma única empresa. De qualquer modo, cabe continuar a análise das demais afirmações do Fisco”. Quanto às questões estruturais pertinentes aos funcionários de cada uma das empresas do grupo, a decisão recorrida também apresentou constatações decisivas, in verbis: “Outro ponto levantado pela fiscalização para sustentar suas conclusões é a divisão de empregados. Para sustentar esta posição a fiscalização diz que analisou a folha de pagamento e concluiu que as empresas dividiam alguns quadros gerenciais, pela construção da hipótese de que alguns cargos seriam necessários nas duas empresas industriais. Para informar quais gerentes seriam compartilhados, o Fisco apresenta uma tabela. Mas, tal tabela não permite compreender quais gerencias seriam divididas, nem a descrição dos fatos traz qualquer explicação. Além disso, a falta de indicação da localização nos autos dos elementos comprobatórios impede a verificação do afirmado e um maior esforço de compreensão da posição da fiscalização. Portanto, este ponto da acusação fica parcialmente prejudicado. Também para comprovar esta acusação de compartilhamento de empregados, a fiscalização diz que "as empresas ME, MK, Mondial e Alpha figuram em vários processos trabalhistas como `plfirima réu', ou seja, partes que tinham relação com o fato/empresa reclamada" e que "em um dos processos, há uma sentença declarando a existência do mesmo grupo econômico, e reconhecendo a solidariedade entre as empresas". No entanto, a simples menção a aches trabalhistas, onde as empresas teriam relações com a reclamada, não é suficiente para se concluir que o processo trabalhista indique uma ou várias pessoas que trabalhassem para as quatro empresas. Se acaso algum destes processos tivessem elementos que demonstrassem a utilização do mesmo empregado pelas 4 empresas, a fiscalização deveria ter detalhado tal situação. Do mesmo modo, a existência de sentença reconhecendo o grupo econômico ou a solidariedade entre as empresas não obra em favor da tese da fiscalização. Ao contrário, tal sentença confirma que existe um grupo econômico e não uma empresa. Por sua vez, o contribuinte afirma que cada empresa tem seus próprios funcionários e junta a folha de pagamento das quatro empresas (proc. fls. 18962 a 19009). Ora, se a fiscalização examinou as folhas de pagamentos e os locais de trabalho, e se não encontrou empregados de uma empresa trabalhando no espaço fisico de outra, não é razoável afirmar que haveria divisão de empregados. De fato, a fiscalização poderia ter feito diligências nas sedes das empresas e anotado os nomes das pessoa que la se encontravam, para verificar se eram ou não empregadas pela empresa onde estavam atuando. Mas, tal exame não foi feito e o Fisco pretende dizer que existe divisão de empregados pela construção da hipótese de que alguns cargos seriam necessários nas duas empresas industriais. Mesmo supondo a hipótese de que alguns cargos seriam necessários nas duas empresas fabris e que as duas empresas compartilhariam gerentes nesses postos (o que não restou provado), seria preciso ponderar a significância desta circunstância com o total da mão de obra empregada em cada empresa. Mas, esta ponderação não foi apresentada pelo Fisco. Por isso este ponto do relatório não é apto a comprovar a tese da fiscalização. Ao contrário, a juntada das folhas de pagamento pelo contribuinte e a ausência de exames fundamentais, que poderiam ser feitos pela fiscalização, demonstram não haver divisão ou confusão no uso da mão de obra. Deste modo, cabe Fl. 19571DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.572 50 analisar se as outras acusações da fiscalização têm o condão de comprovar a tese do lançamento”. Diante de todo o exposto, resta evidenciado que a autoridade fiscal não se desincumbiu do ônus de provar a simulação, a fraude ou o dolo da evasão de tributos. Considerando o que consta nos autos, a forma de organização societária e negocial das empresas relacionadas nos presentes autos não se desviou da causa típica atinente à espécie, à “função prática que caracteriza o negócio jurídico, em garantia da qual o direito concede a sua tutela”18. Nesse cenário, compreendo não merecer reparo o acórdão a quo, razão pela qual, quanto ao mérito do recurso especial da PFN, voto pelo seu não provimento. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto 18 VANONI, Ezio. Natureza e interpretação das leis tributarias. Trad. Rubens Gomes de Souza. Rio de Janeiro : Ed Financeiras, 1932, p. 128. Fl. 19572DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.573 51 Declaração de Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Histórico A PGFN apresentou recurso especial defendendo a existência de divergência jurisprudencial acerca de duas matérias: I) erro na identificação dos sujeitos passivos; II) qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação. Para comprovar a existência de divergência jurisprudencial a respeito da primeira matéria discutida, a PGFN indicou o Acórdão nº 240100.056. Já no que diz respeito à segunda matéria, foram apontados como paradigmas os acórdãos nº 240100.056 (novamente) e nº 110200.667. Ao desenvolver a defesa a respeito da existência de dissenso jurisprudencial concernente à segunda matéria, a PGFN confrontou o acórdão recorrido com as decisões paradigma em relação a alguns pontos específicos que foram elencados pela Fiscalização como indicadores da existência de planejamento tributário ilícito. O acórdão recorrido foi comparado com o Acórdão nº 240100.056 no que diz respeito à existência de direção comum das empresas de um grupo econômico e à utilização de um mesmo contador por todas elas. Já o Acórdão nº 110200.667 foi cotejado com a decisão recorrida tendo como pano de fundo as questões da comunhão de objetos sociais entre as empresas de um grupo e a utilização de um mesmo espaço físico por todas elas. Finalizada a defesa do atendimento do requisito recursal da existência de divergência jurisprudencial, a PGFN apresentou argumentos de mérito que, no seu entender, deveriam provocar a reforma do acórdão recorrido, no que se refere tanto à declaração de ilegitimidade passiva dos sujeitos apontados quanto à conclusão de que inexistiria planejamento tributário ilícito no caso analisado nos autos. O recurso especial da PGFN foi submetido à análise de admissibilidade e obteve seguimento total. A contribuinte foi intimada a respeito da interposição do recurso pela Fazenda Nacional e apresentou contrarrazões tempestivas. Argumentou a contribuinte: I) que o recurso não pode ser conhecido no que atine à primeira matéria contestada (erro na identificação dos sujeitos passivos) porque inexistiria similitude fática entre o acórdão recorrido e o paradigma nº 240100.056. Fl. 19573DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.574 52 II) também não pode ser admitido o recurso no que diz respeito à segunda matéria guerreada (qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação), por dois motivos: a) A pretensão da recorrente é de rediscussão de provas e fatos, o que não se admite em sede de recurso especial; b) Inexiste similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas. Além das arguições preliminares de não conhecimento do recurso fazendário, a contribuinte apresentou argumentos pela manutenção da decisão recorrida. Posteriormente a contribuinte apresentou memoriais em que apresenta novos argumentos em seu pleito da declaração de não conhecimento do recurso especial ou da negativa de seu provimento e manutenção do acórdão recorrido. Análise 1) Preliminar de não conhecimento da matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos" em razão da ausência de similitude fática O acórdão recorrido não é muito claro a respeito do que considerou como erro na identificação do sujeito passivo: "Quanto á identificação do contribuinte, existe um erro evidente, pois não é possível considerar que a aventada sociedade de fato, formada pelas quatro empresas formais, seja identificada com urna destas empresas, a MK. Caberia ao Fisco colocar no pólo passivo a sociedade de fato que lograsse comprovar. Além disso, deveria identificar e apontar cada um dos sócios de fato, que responderiam ilimitadamente nos termos legais. Também, não é possível apontar como responsável solidário as empresas que o Fisco considera fazer parte de uma única empresa. Se as empresas são partes da sociedade de fato, elas não podem ser responsáveis." No seu recurso especial, a PGFN faz afirmação que leva ao entendimento de que o Conselheiro Relator do acórdão recorrido quis se referir a uma suposta necessidade de desconsideração das personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas que, segundo a Fiscalização, atuavam como uma só: "Segundo argumentação desenvolvida nos fundamentos do acórdão recorrido, o reconhecimento da simulação importaria desconsiderar as personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas, que seriam substituídas pela entidade única identificada (designada como sociedade de fato), em face de quem deveria ser pomovida a autuação. Nesse linha, conclui que, ao indicar uma das pessoas jurídicas como devedora principal e as demais como responsáveis solidárias a autuação incorreu em vício na sujeição passiva, eivando de nulidade o lançamento." Fl. 19574DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.575 53 Pois bem. De qualquer forma, o que se sabe é que a decisão recorrida entendeu como nulos os lançamentos tributários em razão de erro na identificação dos sujeitos passivos. No seu entendimento, não poderiam figurar no polo passivo a MK ELETRODOMÉSTICOS como contribuinte e as empresas ME INDÚSTRIA ELETRÔNICA DO NORDESTE, ALPHAPRO CUIDADOS PESSOAIS e MONDIAL ELETRODOMÉSTICOS como responsáveis tributárias. A PGFN trouxe como paradigma atinente a esta matéria apenas um acórdão: nº 240100.056. De relevante para a análise aqui realizada, podemos extrair as seguintes passagens daquele julgado: "Relatório (...) A auditoria fiscal desenvolveu ação fiscal em empresas, cuja composição societária é composta por membros da família Cechinel, conforme se verifica à folha 51. Tais empresas seriam a Confecções Roscel Ltda (administração), Roscel Indústria do Vestuário Ltda (fábrica), Industria e Comércio de Confecções Cechinel (Posto de vendas) e Roscel Administração de Imóveis Ltda (administração de bens próprios). A despeito da apresentação formal de sociedades empresárias aparentemente distintas, constatouse a efetiva existência de uma única empresa, sujeito passivo do presente lançamento. Foi verificado que a existência formal da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, que na prática representa o setor de industrialização ou fábrica do sujeito passivo, somente se justifica como artificio para a obtenção indevida de tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela lei do SIMPLES. A Indústria o Comércio de Confecções Cechinel Ltda comercializa os produtos da Roscel. Tal empresa possui parcelamento especial (REFIS). (...) A notificada apresentou impugnação (fls. 392/448 Vol II) onde alega que a presente notificação pautouse exclusivamente em suposições e levantamentos infundados. (...) Considera que houve erro na identificação do sujeito passivo, eis que em nenhum momento fica demonstrada a responsabilidade da requerente para com a empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda. (...) Voto (...) Observase que o recurso apresentado, seja em sede de preliminar quando alega erro na identificação do sujeito passivo ou ausência de motivação para o lançamento, seja quanto ao mérito, quando aduz que o lançamento tomou por base indícios inverídicos fundados em meras suposições, tem como cerne o inconformismo da recorrente pela responsabilização da mesma pelas contribuições patronais incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados Fl. 19575DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.576 54 formalmente vinculados à Roscel Industrial do Vestuário Ltda, optante pelo SIMPLES, os quais a auditoria fiscal entendeu estarem verdadeiramente vinculados à recorrente. (...) Escudada no Princípio da Verdade Material e pelo poderdever de buscar o ato efetivamente praticado pelas partes, a Administração, ao verificar a ocorrência de simulação, pode superar o negócio jurídico simulado para aplicar a lei tributária, aos verdadeiros participantes do negócio pois, de acordo com o art. 118, inciso I do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Não restam dúvidas de que todos os expedientes utilizados tinham por objetivo simular negócio jurídico, no qual a intentio facti se divorcia da intentio iuris, ou seja, a intenção das partes é uma, a forma jurídica adotada é outra." (grifouse) Inicialmente, observese que a contribuinte que figura no acórdão paradigma apresentou arguição de erro na identificação do sujeito passivo. A alegação foi refutada no voto condutor da decisão, sob o argumento de que ele representava mero inconformismo da contribuinte com a responsabilização que lhe foi atribuída. Apesar de não haver no acórdão paradigma discussão explícita acerca da questão da correta sujeição passiva a ser apontada em casos de planejamento tributário em que várias empresas formalmente distintas agem coordenadamente como se fossem uma só, com a exclusiva finalidade de redução artificial da carga tributária, é seguro afirmar que aquela decisão entendeu como perfeito o apontamento de uma das empresas integrantes do grupo econômico como contribuinte dos tributos lançados por meio do auto de infração. No entendimento do acórdão recorrido, nenhuma das empresas integrantes do grupo econômico poderia constar no polo passivo, mas apenas os sócios de fato, cuja identificação caberia à Fiscalização. Assim, constatase que efetivamente existe divergência de entendimentos entre os dois acórdãos contrapostos, em relação à matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos". Dos trechos transcritos do Acórdão nº 240100.056, é de fácil verificação a existência de similitude fática entre os julgados, no que interessa à divergência suscitada. Em ambos os casos, tratouse de um conjunto de empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, formalmente independentes, que atuavam de forma coordenada como se fossem uma só pessoa jurídica, com o intuito de reduzir a carga tributária suportada pela universalidade do grupo. O planejamento tributário apontado pela Fiscalização, em ambos os processos, dizia respeito a uma artificial segregação de atividades que normalmente são realizadas pela mesma empresa, de forma a possibilitar que algumas destas empresas pudessem gozar de regimes tributários mais favorecidos. Assim, buscavase, também de forma artificial, a concentração das despesas do grupo naquelas empresas tributadas pelo lucro real e das receitas em outras, optantes por regimes tributários mais insensíveis ao acréscimo dos rendimentos (SIMPLES, no acórdão paradigma; regime de lucro presumido, no caso do acórdão recorrido). Fl. 19576DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.577 55 Assim, considero existente a similitude fática entre os acórdãos cotejados e configurada a divergência jurisprudencial a respeito da correta indicação do sujeito passivo em casos de grupos econômicos que têm suas atividades submetidas a tributação como se fossem uma só empresa, diante da constatação, pela Fiscalização, de planejamento tributário ilícito. Deve ser, portanto, rejeitada a arguição preliminar da recorrida de não conhecimento do recurso especial no que atine à matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos". 2) Preliminar de não conhecimento da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" em razão da pretensão de reexame fático Em contrarrazões e memoriais, a contribuinte alega que a PGFN, ao propor a discussão a respeito da qualificação jurídica dos fatos relatados nos autos, estaria, na realidade, pretendendo a reapreciação dos fatos, o que é vedado em sede de julgamento de recurso especial. Os fatos a serem apreciados não seriam, ao contrário do que argumenta a recorrente, incontroversos. Assim, tratarseia efetivamente de reexame dos fatos e valoração das provas. Considero improcedentes tais alegações. Em grande parte dos casos julgados pela CSRF, é impossível, na prática, desviar totalmente o olhar do conjunto probatório reunido nos autos e restringir a discussão à pura abstração jurídica. A não ser em discussões já consagradas, como por exemplo aquela que diz respeito ao cabimento da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, as deliberações empreendidas pela Câmara quase sempre resvalam na verificação do conjunto probatório coligido no processo, sem que isso possa ser considerado um "reexame" de fatos ou provas. Tal fato é particularmente verdadeiro quando se trata de julgamentos acerca de planejamentos tributários, que normalmente envolvem mais de uma empresa, várias etapas, múltiplos atos societários e diversos efeitos tributários. A completa avaliação destes cenários, ainda que em julgamento pela instância especial do contencioso administrativo, não pode dispensar totalmente a verificação, ainda que superficial, dos fatos e provas retratados no processo. A correta aplicação do direito ao caso sob discussão demanda necessariamente que se entenda como os fatos se desenrolaram no mundo real, o que só pode ser alcançado por meio do olhar lançado sobre os fatos e provas. E a aplicação do direito é justamente o que se espera de uma instância recursal. Em que pese tratar de recursos judiciais, é justamente esta a inteligência do art. 1.034 do Novo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015): Art. 1.034. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial, o Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça julgará o processo, aplicando o direito. Parágrafo único. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial por um fundamento, devolvese ao tribunal superior o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado. Fl. 19577DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.578 56 Assim, a aplicação do direito ao caso concreto não pode e não deve ignorar todo o contexto fático e acervo probatório que foi construído na devida fase processual. Julgo ser exatamente este o caso da presente lide. Da análise do processo, não vislumbro discussão relevante acerca de provas produzidas ou de fatos relatados. Assim, tem se um conjunto probatório estabelecido e passível de valorização jurídica. A Fiscalização e a autoridade julgadora de primeira instância consideraram que tal conjunto probatório era suficiente para se concluir pela invalidade tributária dos atos negociais praticados, propondo a desconsideração de seus efeitos fiscais. A Turma a quo, a partir da análise do mesmo conjunto probatório, construiu entendimento diverso, no sentido que não existiriam indícios relevantes de vícios que pudessem mitigar a regularidade formal dos atos negociais, permanecendo inalterados os efeitos tributários pretendidos pela contribuinte e pelas demais empresas pertencentes ao seu grupo econômico. Diante disso, verifico que o recurso especial sob análise, caso conhecido, não tem a pretensão de revolver e rediscutir a coleção de provas reunidas, mas simplesmente de debater a melhor valoração jurídica a ser dada a um conjunto de atos negociais que já são, na presente fase processual, incontroversos. A parte que permanece controvertida, na minha opinião, já se localiza no campo da diversidade de qualificações jurídicas que diferentes mentes podem dar aos mesmos fatos. Com base nestes argumentos, entendo que deve ser rejeitada a preliminar da contribuinte recorrida de não conhecimento do recurso especial em relação à matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", por alegada pretensão de reexame de provas. 3) Preliminar de não conhecimento da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" em razão da ausência de similitude fática A contribuinte recorrida refuta a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os dois paradigmas (nº 240100.056 e nº 110200.667), no que diz respeito à qualificação jurídica dada aos fatos relacionados nos autos, sob o argumento de que inexistiria similitude fática entre os julgados. Em seu intuito, a contribuinte questiona argumentos específicos trazidos pela PGFN em seu recurso especial, apontando aspectos que impediriam o adequado cotejo entre as decisões no que diz respeito a estes pontos. Assim, defende que, apesar de o acórdão recorrido e o paradigma nº 2401 00.056 tratarem de empresas submetidas a direção comum e que utilizam os serviços do mesmo contador, a comparação pretendida pela recorrente é impossível diante da consideração da distinção de outras características dos casos concretos, tais como a identidade de objetos sociais, a confusão de recursos humanos e financeiros, presença de gestor "oculto" e o vínculo empregatício do contador. Já o confronto entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 110200.667, sugerido pela recorrente em relação à comunhão de objetos sociais e à identidade/proximidade do espaço físico, tampouco seria possível se levarse em conta a existência de diferenças Fl. 19578DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.579 57 fáticas relevantes relativas à redação dos contratos sociais, à confusão de recursos e despesas e ao correto rateio de custos e despesas compartilhados. Dessa forma, defende a contribuinte que nenhum dos dois paradigmas elencados pela recorrente se prestaria à tarefa de comprovar a ocorrência de divergência jurisprudencial frente ao acórdão recorrido. Entendo que, quando a autuação fiscal é fundamentada em planejamento tributário considerado pela Fiscalização como ilícito ou abusivo, sua análise deve ser feita sempre sobre o conjunto de suas características, evitandose o cotejo entre recortes que podem ser retirados de seu real contexto. Assim, creio que a comparação entre os arcabouços fáticos da decisão recorrida e dos acórdãos paradigmas deve ser feita tendose em perspectiva a totalidade de suas características. Esta é a única forma de se verificar se os casos concretos analisados são similares o suficiente para que as distintas conclusões jurídicas dali derivadas possam ser consideradas como verdadeiras divergências jurisprudenciais. Isso posto, examinemse os trechos retirados do Acórdão nº 240100.056 que discorrem sobre as características do planejamento tributário constatado pela Fiscalização: "Relatório (...) A auditoria fiscal desenvolveu ação fiscal em empresas, cuja composição societária é composta por membros da família Cechinel, conforme se verifica à folha 51. Tais empresas seriam a Confecções Roscel Ltda (administração), Roscel Indústria do Vestuário Ltda (fábrica), Industria e Comércio de Confecções Cechinel (Posto de vendas) e Roscel Administração de Imóveis Ltda (administração de bens próprios). A despeito da apresentação formal de sociedades empresárias aparentemente distintas, constatouse a efetiva existência de uma única empresa, sujeito passivo do presente lançamento. Foi verificado que a existência formal da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, que na prática representa o setor de industrialização ou fábrica do sujeito passivo, somente se justifica como artificio para a obtenção indevida de tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela lei do SIMPLES. A Indústria o Comércio de Confecções Cechinel Ltda comercializa os produtos da Roscel. Tal empresa possui parcelamento especial (REFIS). O que levou a auditoria fiscal à conclusão de que o conjunto das empresas formalizadas na verdade representa uma simulação com o objetivo de elidir a contribuição previdenciária patronal são as seguintes constatações. • Com exceção da administradora dos bens próprios, as demais empresas dedicamse à exploração de uma só atividade econômica, qual seja, a confecção e comércio de peças de vestuário (...) • Não se trata de empresas distintas funcionando de "per si", mas de um empreendimento econômico desenvolvendo a mesma atividade e sob a mesma Fl. 19579DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.580 58 administração de fato, bem como funcionando no mesmo local (uma com endereço na frente do imóvel, acesso pela Rodovia Luiz Rosso, e outra nos fundos, acesso pela rua Raimundo Pucker). (...) • Há trabalhadores formalmente registrados e pessoa jurídica diversa daquela em que efetivamente prestam serviços. • A Confecções Roscel Ltda figurou como reclamada em ação trabalhista juntamente com a indústria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda. (...) • O expediente adotado pela empresa resulta na situação em que o faturamento e o patrimônio ficam reservados para a verdadeira empresa e o quadro funcional com os respectivos encargos de folha para a empresa optante pelo SIMPLES. • Embora a contabilidade apresentada pelas empresas contivesse várias irregularidades, verificouse a inexistência de contabilização de despesas necessárias á manutenção da atividade da Roscel Indústria do Vestuário Lula, como assistência técnica de máquinas e equipamentos, fornecimento de água e esgoto, bem como de patrimônio. (...) Voto (...) As empresas envolvidas pertencem a membros da família Cechinel. O arranjo realizado pelas empresas consiste em manter três empresas separadas. A notificada Confecções Roscel Ltda concentra a administração das empresas e o faturamento, além de possuir pequeno número de empregados. A empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda responde pela fabricação das confecções, concentra grande número de empregados, é optante pelo sistema diferenciado de tributação SIMPLES, não possui patrimônio, faturamento inexpressivo e, em alguns períodos, ausente. As operações de venda são realizadas por uma terceira empresa, a Industria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda. Embora a recorrente tente fazer transparecer que se trata de empresas independentes entre si, não é o que se verifica. As empresas Confecções Roscel Ltda e Roscel Indústria do Vestiário Ltda funcionam no mesmo local e possuem empregados registrados em uma empresa prestando serviços em outra. Segundo a auditoria fiscal, as empresas têm como administrador, embora não conste atualmente do quadro societário, o fundador do grupo, Sr. Celso Cechinel. Ao contrário do que alega a recorrente não é absolutamente natural que uma pessoa que não participe mais formalmente da gestão de uma empresa possa falar em nome da mesma ou substituir os responsáveis formais, ainda que sejam seus filhos. Fl. 19580DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.581 59 No que concerne ao fato dos contadores de uma empresa aparecerem assinando documentos contábeis das duas empresas, a recorrente alega que nada impede que seus contadores pudessem prestar serviços a outras empresas. Tratase de mais uma alegação desprovida de comprovação. Da análise dos fatos apresentados, é possível concluir que a conduta descrita se revela verdadeira simulação. O Código Civil Brasileiro instituído pela Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 regula a questão da simulação no Capítulo que trata da Invalidade do Negócio Jurídico e no inciso I do § ra do artigo 167 temos o exato enquadramento da situação verificada pela auditoria fiscal, in verbis: (...) Escudada no Princípio da Verdade Material e pelo poderdever de buscar o ato efetivamente praticado pelas partes, a Administração, ao verificar a ocorrência de simulação, pode superar o negócio jurídico simulado para aplicar a lei tributária, aos verdadeiros participantes do negócio pois, de acordo com o art. 118, inciso I do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Não restam dúvidas de que todos os expedientes utilizados tinham por objetivo simular negócio jurídico, no qual a intentio facti se divorcia da intentio iuris, ou seja, a intenção das partes é uma, a forma jurídica adotada é outra. (...) Nesse diapasão, podese citar o entendimento de Heleno Urres em sua obra Direito Tributário e Direito Privado — Autonomia Privada, Simulação, Elusão Tributária — Ed. Revista dos Tribunais —2003 — pág. 371: "Como é sabido, a Administração Tributária não tem nenhum interesse direto na desconstituição dos atos simulados, salvo para superarlhes a forma, visando a alcançar a substância negociai, nas hipóteses de simulação absoluta. Para a Administração Tributária, como bem recorda Alberto Xavier, é despiciendo que tais atos sejam considerados válidos ou nulos, eficazes ou ineficazes nas relações privadas entre os simuladores, nas relações entre terceiros ou nas relações entre terceiros com interesses conflitantes. Eles são simplesmente inoponíveis à Administração, cabendo a esta o direito de superação. pelo regime de desconsideração do ato negociai, da personalidade jurídica ou da forma apresentada, quando em presença do respectivo "motivo" para o ato administrativo: o ato simulado"" É de fácil constatação a existência de várias coincidências entre os indícios apontados pela Fiscalização nos autos em que foram proferidos o acórdão recorrido e o paradigma nº 240100.056. Em cada um dos dois casos, a Fiscalização considerou que empresas integrantes de um grupo econômico, submetidas à gestão das mesmas pessoas, atuavam de forma coordenada como se fossem uma só pessoa jurídica. As empresas compartilhavam a mesma localização física (espaços contíguos, com comunicação direta). As suas contabilidades estavam entregues ao mesmo contador ou Fl. 19581DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.582 60 escritório de contabilidade. Elas figuravam juntas como reclamadas em diversas ações trabalhistas. Havia empregados que, embora formalmente ligados a apenas uma das empresas, prestavam serviços às demais. Nos dois casos concretos, a Fiscalização entendeu que o arranjo orquestrado entre as empresas tinha o único propósito de reduzir, de forma artificial, a carga tributária total devida pelas empresas integrantes dos grupos econômicos. Com este intuito, as empresas simulavam uma segregação das atividades componentes de seu processo produtivo, deslocando despesas e receitas para as empresas que teriam sua tributação mais favoravelmente impactada por estes valores. Obviamente existem diferenças fáticas entre os dois casos concretos (como seria esperado, diante da improbabilidade de se encontrar configurações fáticas exatamente iguais). Todavia, diante da contemplação da plenitude dos quadros comparados, as semelhanças, para os fins aqui propostos, se mostram significativamente mais relevantes do que os aspectos distintos. Assim, diante da existência de similitude fática entre os acórdãos recorridos e paradigma (nº 240100.056) e do fato de as interpretações jurídicas adotadas por eles, diante de quadro similar, serem diversas (o acórdão paradigma entendeu configurada simulação e manteve a tributação lançada sobre uma das empresas participantes do grupo, enquanto a decisão recorrida considerou não configurado planejamento tributário e determinou o cancelamento da autuação lavrada contra uma das empresas integrantes do grupo), considero que foi suficientemente demonstrada a existência de divergência jurisprudencial entre as decisões cotejadas. A recorrente indicou ainda, quando defendeu a existência de dissídio jurisprudencial acerca da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", um segundo acórdão paradigma, de nº 110200.667. Desta segunda decisão, podemos extrair as seguintes passagens de interesse para a análise ora realizada: "Inicialmente, registrese que não há dúvidas de que as empresas SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS partilham de uma única área geográfica. Comprovam este fato as fotos anexas aos autos, e os relatos feitos de que o acesso a ambas as empresas, em que pese uma conste nos cadastros da RFB como sediada no nº 18.500, e a outra no nº 18.550, se dá pela mesma portaria, que há uma única recepção, que as instalações de direção e administração são comuns, que os funcionários da contabilidade são os mesmos, e que a máquina que emite as notas fiscais é a mesma. Estas são constatações feitas in loco pela fiscalização, e que em nenhum momento foram contraditadas pela recorrente. Por outro lado, até este ponto podese considerar tais providências como simples racionalização de operações com vistas a uma redução dos seus custos administrativos. (...) Segundo a recorrente, as empresas não dividiriam instalações e equipamentos. Cada uma delas possui fornecedores, funcionários, equipamentos e instalações próprias, e desenvolve as suas atividades de forma independente uma da outra, conquanto complementares. Conforme já relatado, afirma a recorrente que a KIWI BOATS fabrica somente os cascos de fibra de vidro de acordo com a encomenda de clientes, e a SCHAEFER Fl. 19582DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.583 61 YACHTS apenas promove a instalação, nesses cascos, dos equipamentos que são adquiridos no mercado pelos seus clientes. (...) Tampouco a alegação da recorrente de que cada empresa teria seus próprios fornecedores se confirma. (...) Assim, o que as notas fiscais emitidas pelas empresas em questão demonstram é tão somente uma “repartição” do faturamento pela venda do produto final, em que a KIWI BOATS emite diretamente em nome do adquirente da embarcação uma nota fiscal de venda do casco nu, e a SCHAEFER YACHTS emite outra nota fiscal para o mesmo adquirente, contendo a seguinte segregação: materiais montados no casco, e prestação de serviços. Diante de tais constatações, perfeitamente correto o procedimento fiscal de tributá las como uma única entidade, consolidando as suas escritas fiscais e contábeis, e aproveitando os recolhimentos, eventualmente por elas feitos, na apuração dos tributos lançados. Além das empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, há que se falar, no ano de 2005, na participação de uma terceira empresa envolvida no negócio. Tratase da empresa SPA Comércio de Embarcações e Equipamentos Náuticos Ltda (SPA), constituída em agosto de 2004, pelos Srs. Márcio Luz Schaefer e Pedro Odílio Phelippe, que também são os mesmos sócios da empresa SCHAEFER YACHTS, sendo que o Sr. Márcio Luz Schaefer também é o sócio majoritário da KIWI BOATS, com 95% de participação. Esta empresa, conforme as alegações da recorrente, tem por finalidade a prestação de serviços de assessoria e administração na compra de embarcações, administrando todas as fases envolvidas na aquisição de uma embarcação, verificando o material empregado e os acessórios que compõe a embarcação encomendada. (...) Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. (...) Por fim, considerese ainda os seguintes indícios complementares de inexistência da alegada segregação de fato das operações entre as três empresas fiscalizadas. Em primeiro lugar, destaquese que os contratos sociais das empresas SCHAEFER YACHTS e a KIWI BOATS não evidenciam a alegada segregação de atividades entre elas, senão antes uma quase total identidade destas. Vejamos quais eram os seus objetivos sociais à época dos fatos (2005): (...) Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem Fl. 19583DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.584 62 na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. (...) Quanto à aplicação da multa qualificada (150%), por todo o exposto, creio estar suficientemente demonstrado a presença de simulação nos atos praticados pelas empresas formalmente constituídas, ao tentar dar a aparência de que uma única atividade na verdade segregarseia em três distintas empresas, localizadas todas de fato no mesmo espaço geográfico (embora uma delas declarasse ter sua sede em outro local, também naquele espaço comum desenvolveria suas atividades)." A exemplo do que ocorreu no exame da primeira decisão paradigma indicada pela PGFN a respeito da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", verifico que também o conteúdo do Acórdão nº 110200.667 configura dissídio jurisprudencial frente ao acórdão recorrido. A decisão também estuda planejamento tributário operacionalizado por um grupo de empresas submetidas a gerência comum. Naqueles autos, a exemplo do contatado no processo em que foi exarado o acórdão recorrido, a Fiscalização elencou nos autos de infração os seguintes indícios de que as empresas atuavam como se fossem uma só entidade: i) mesmo endereço (espaços contíguos, com comunicação interna direta); ii) exercício das mesmas atividades; iii) artificial segregação de atividades; iv) deslocamento de receitas de uma empresa para outra, submetida a regime de tributação mais favorável. Assim, como ocorreu no caso discutido no acórdão recorrido, também no acórdão paradigma tratouse de lançamento realizado pela Fiscalização contra uma das empresas integrantes do grupo econômico, de forma centralizada. Diante de conjuntos fáticos semelhantes, o acórdão recorrido e o Acórdão nº 110200.667 efetivamente concluíram de forma divergente. Enquanto a decisão paradigma considerou inoponíveis ao Fisco os efeitos do planejamento tributário levado a efeito e configurada a simulação (lá houve, inclusive a aplicação de multa de ofício qualificada), o acórdão recorrido considerou lícita a atuação do grupo econômico da contribuinte). Portanto, também frente ao segundo paradigma trazido pela PGFN, Acórdão nº 110200.667, restou comprovada a existência de divergência jurisprudencial apta a provocar o conhecimento do recurso especial, nos termos do art. 67, do Anexo II do RICARF/2015. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 19584DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.585 63 Declaração de Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Antes de trazer as razões que me levaram a divergir do I. Relator acerca da matéria em exame, registro meu respeito pelos fundamentos declinados, inclusive pela aprofundada técnica com que conduziu seu voto. Tratase de processo administrativo, para exigência de IRPJ e de CSLL, relativos ao anocalendário de 2007, 2008 e 2009, alem de multa de ofício de 75% e dos juros de mora. De acordo com a fiscalização, o contribuinte apurou incorretamente IRPJ e CSLL, em face da adoção de base de cálculo menor que a apurada na sua escrituração fiscal, com enquadramento legal nos artigos 247, 249 e 250, do RIR/99. Em síntese, o Termo de Verificação Fiscal esclarece o seguinte: "Durante o trabalho fiscal, foi constatado que, no período sob fiscalização, existiam 04 empresas que, na prática, funcionavam como uma só". Nesse passo, a fiscalização indica a MK como contribuinte e, nos termos do art. 124 do CTN, elege como responsáveis solidários as seguintes empresas: i) Mondial Eletrodomésticos Ltda, CNPJ 08.002.985/000104; ii) ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda, CNPJ 06.272.816/000150; e, iii) AlphaPro Cuidados Pessoais, CNPJ 08.387.026/0001 46. A discussão gira em torno da desqualificação por parte da fiscalização das operações tributáveis das quatro empresas, consolidandoas, e apurando os tributos federais incidentes como empresa única, sob a premissa de que estas empresas teriam sido constituídas de forma simulada, para o usufruto do benefício fiscal propiciado pelo regime do lucro presumido. O contribuinte, por sua vez, sustenta a inexistência de simulação, enfatizando ser falsa a afirmação de que estas empresas inexistem, lembra que o que é vedado pelo ordenamento jurídico é a utilização do formal pelo formal, cita doutrina autorizada em apoio a sua afirmação, e enfatiza que as empresas em questão possuem sedes próprias, funcionários próprios, contabilidades próprias e finalidades específicas, e por isso, não há que se falar em "ausência de exercício de atividade empresarial autônoma" ou "falta de propósito negocial". Além disso, enfatiza que todas as empresas funcionam em endereços diversos, pois apesar de estarem localizadas lado a lado, formando um parque industrial, cada empresa tem o seu galpão; que não exercem a mesma atividade, pois cada empresa é responsável, isoladamente, pela fabricação/importação de produtos específicos e acabados, ou seja, enquanto uma empresa fabrica ventiladores, outra fabrica liquidificadores e espremedores de fruta, por exemplo; não há, portanto, qualquer partilhamento na fabricação dos produtos para montagem posterior. Para comprovar suas alegações, trouxe documentos. Enfim, alega que todos os atos e decisões administrativas adotadas pelo grupo tinham uma motivação negocial, e que não se deveria confundir, como o fez a fiscalização, o instituto da evasão fiscal (conduta ilícita, que visa ao não pagamento de tributo) Fl. 19585DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.586 64 com o da elisão fiscal (conduta lícita, que visa promover uma economia tributária por meio de planejamento fiscal da empresa). Sob o ponto, em sede de Recurso Especial, sustenta a Fazenda Nacional que a fiscalização teria comprovado que as quatro empresas são dirigidas pelas mesmas pessoas, e que os 2 principais dirigentes são os antigos proprietários da empresa ML do Nordeste, percussora da marca "Mondial" na Bahia, conluindo haver a mesma direção. Afirma que, apesar da aparente diferença nos endereços, o documento de folha 910 mostra que a empresa está instalada no mesmo terreno, funcionando em uma única estrutura (galpão), com portaria e recepção únicas, e que o galpão da empresa tem o logo "mondial" pintado no teto, além do que não haver internamente divisão entre as empresas, mas, tão somente, setores de produção (parque de injetores, engenharia, fabricação de moldes, tampografia, etc.). Enfatiza que as empresas MK eletrodomésticos, ME Industria Eletrônica e Alpha Pro Cuidados Pessoais, em seus contratos sociais, têm como principal atividade a fabricação, importação, montagem e comércio de eletrodomésticos, e aponta documentos nos autos (fls 770 a 812 e 909 a 914), que comprovam que um mesmo tipo de produto é faricado pela MK e ME (liquidificador), e também produtos da mesma linha são fabricados por empresas diferentes (fls. 8 e 9 do Termo de Verificação Fiscal). Ressalta ainda restar demonstrado que a divisão de empregados entre as quatro empresas era apenas aparente, pois os funcionários trabalhavam no mesmo espaço físico, desempenhando funções idênticas, ressaltando que os cargos mais relevantes foram divididos entre as empresas, pois existia apenas um gerente de engenharia, um gerente de suprimento, um coordenador de recurso humanos, etc. Pontua ainda que os documentos colacionados aos autos evidenciam compartilhamento de conta de consumo e que as empresas possuem a mesma contadora. Conclui que a partir dos fatos examinados, juntamente com as provas colacionadas, não haver autonomia da vontades, pois as empresas reunidas formam um ente de natureza econômica, submetido à direção comum e destinado a um único objeto social: a importação, industrialização e comercialização de produtos da marca MONDIAL, e por isso, a autonomia das personalidades jurídicas deve ser considerada simulada. Colocada a questão, passo a examinar as alegações da recorrente, no que concerne à acusação de que as quatro empresas teriam sido constituídas de forma simulada, vício esse que macularia, por conseqüência, os negócios jurídicos realizados pelo contribuinte. Para tanto, é necessário examinar se cada uma das empresas perseguia seus objetivos sociais com recursos físicos e humanos próprios. Ou seja, cabe examinar se as empresas: tinham vontade própria; tinham um espaço físico especifico, mantido as suas custas; possuíam maquinários próprios ou alugados; adquiriam seus próprios insumos ou mercadorias; eram as contratantes de seus empregados; efetuavam suas vendas; respondiam por seus contratos, produtos, empréstimos e atos; etc. Quanto a haver ou não uma vontade própria de cada empresa, não encontro nos autos provas para chegar a mesma conclusão a que chegou a fiscalização. Isso porque é verdade que elas (as provas) demonstram haver um grupo econômico, e a existência de uma única gestão, isso não quer significar que as quatro empresas formam uma única empresa. Fl. 19586DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.587 65 O fato das empresas em questão fazer parte de um mesmo grupo econômico e que são administrados pela mesma pessoa, não implica haver identidade ou confusão de objetivos sociais das empresas e confusão de recursos com os quais estes objetivos são perseguidos. Além do que o uso da mesma marca pelas quatro empresas também não permite concluir que elas seriam uma só. Obviamente, as empresas podem vender produtos com uma mesma marca sem perder sua personalidade. Com referência ao espaço físico específico, a fiscalização sustenta que as quatro empresas funcionavam no mesmo endereço, ao passo que o contribuinte explica que as empresas ocupavam galpões vizinhos, construídos em terreno da ME, e que pagavam alugueis pelo uso do espaço, em conformidade com as provas trazidas para sustentar suas alegações. Ora, não há como prevalecer a acusação de que as empresas funcionavam em um mesmo endereço se está demonstrado nos autos que as empresas ocupavam cada um dos galpões, ainda que estes galpões sejam vizinhos. A meu ver, o fato das empresas pagarem alugueis pelo uso do espaço físico reforça a tese de que elas não se encontravam localizadas em um mesmo espaço físico. Para descaracterizar os alugueis, deveria a fiscalização verificar se eles foram ou não pagos, o que não foi feito. É de se ver ainda que o contribuinte comprova que cada empresa tem seus próprios funcionários, encontrandose, assim, sujeita ao recolhimento de encargos trabalhistas e contribuições previdenciárias. Ora, se a fiscalização teve acesso a documentação fiscal e contábil do contribuinte e não fez alguma ponderação sobre as folhas de pagamentos, e ainda, tendo acesso às dependências físicas das empresas, não fez qualquer comentário sobre eventuais empregados de uma empresa trabalhando no espaço físico de outra, entre outros fatos que poderiam embasar sua acusação, não há como prevalecer sua tese. De fato, a fiscalização poderia ter feito algum exame adicional sobre estes documentos e fatos, mas não fez, inclusive apontando eventualmente o uso dos mesmos maquinários por cada empresa em questão. Por fim, com referência à economia tributária gerada com a criação de tais empresas, não vejo que tal fato possa concorrer para a simulação apontada. Neste aspecto, transcrevo doutrina a seguir: "ilicitude na escolha de um caminho fiscalmente menos oneroso, desde que a menor onerosidade seja a única razão da escolha desse caminho", sob pena de se ter de admitir "o absurdo de que o contribuinte seria sempre obrigado a escolher o caminho de maior onerosidade fiscal" (Luciano Amaro). Da Constituição Federal advém o direito "à utilização de estruturas jurídicas válidas, sem violação da lei, que sejam capazes de evitar incidências tributárias, ou de minorar os seus ônus" (Ricardo Mariz de Oliveira). Todos os meios e formas licitas de que se vale o contribuinte para evitar a ocorrência do fato gerador do tributo, reduzindo ou impedindo o surgimento do dever ou da obrigação tributária são designados pelo nome de elisão fiscal, cuja distinção básica Fl. 19587DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.588 66 da evasão ilícita reside nos meios empregados, como ensina SAMPAIO DÓRIA: "O primeiro aspecto substancial que as extrema é a natureza dos meios eficientes para sua consecução: na fraude, atuam meios ilícitos (falsidade) e, na elisão, a licitude dos meios é condição sine qua non de sua realização efetiva". (Elisão e Evasão Fiscal, São Paulo, José Bushataky, Editor, p. 58). Por tais razões, voto por negar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, mantendose a decisão recorrida em todos os seus fundamentos. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 19588DF CARF MF Processo nº 10530.721612/201166 Acórdão n.º 9101002.795 CSRFT1 Fl. 19.589 67 Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa. Não tendo sido apresentada no prazo regimental19, considerase não formulada a declaração de voto. 19 RICARF, Anexo II: Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 19589DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16151.000544/2006-81
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 25 00:00:00 UTC 2011
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano calendário:2006
INTEMPESTIVIDADE MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. LITÍGIO NÃO INSTAURADO.
Não se pode conhecer do recurso interposto quando a turma de julgamento constatou a preclusão do direito da contribuinte em se defender do ato administrativo de exclusão do Simples, por intempestivo o seu exercício, não sendo objeto do recurso a matéria do acórdão proferido em primeira instância. Litígio administrativo não instaurado.
Numero da decisão: 1801-000.579
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por precluso o direito da recorrente nos termos do voto da relatora.
Matéria: Simples- proc. que não versem s/exigências cred.tributario
Nome do relator: Ana de Barros Fernandes
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LITÍGIO NÃO INSTAURADO. Não se pode conhecer do recurso interposto quando a turma de julgamento constatou a preclusão do direito da contribuinte em se defender do ato administrativo de exclusão do Simples, por intempestivo o seu exercício, não sendo objeto do recurso a matéria do acórdão proferido em primeira instância. Litígio administrativo não instaurado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por precluso o direito da recorrente nos termos do voto da relatora. (documento assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes – Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento, os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Magda Azario Kanaan Polanczyk, Edgar Silva Vidal e Ana de Barros Fernandes. Relatório Fl. 1DF CARF MF Emitido em 31/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES 2 A empresa em epígrafe foi excluída do Simples pelo Ato Declaratório Executivo (ADE) n. 478.376, fls. , por entender a autoridade a quo que pratica atividade vedada nos termos do inciso XIII do artigo 9o da lei n 9.317/96. Na Solicitação de Revisão do ato de exclusão, fls. 08, a empresa esclarece que executa trabalhos de filmes e vídeos às suas próprias expensas, não configurando prestação de serviços, mas mera venda, não estando a atividade que exija habilitação profissional legalmente exigida, vedada nem pela Lei do Simples Federal, nem elencada no parágrafo 1o do artigo 663 do RIR/94 e, ainda, possuindo resposta de consulta favorável a si sobre a possibilidade de aderir ao Simples – n. 757, em 14/07/1997, e desde a sua abertura ter apresentando declarações e efetuando pagamentos observando este regime de tributação simplificado. Indeferida a solicitação de revisão, a empresa manifestouse às fls. 01 a 06 reprisando a argumentação e alertando que a exclusão do Simples inviabiliza seu negócio forçandoa a encerrar as atividades. Esclarece que exerce atividade meio de arte gráfica na produção de filmes e fitas de vídeos. Defende que: (i) o ADE de exclusão, interpretativo, fere frontalmente o princípio constitucional da legalidade, sendo uma invasão do poder público no patrimônio do contribuinte, vedada pelo artigo 97 da Constituição Federal e 150 do Código Tributário Nacional (CTN); (ii) não pode ter efeitos retroativos; (iii) ofensa ao princípio da isonomia em vista de várias empresas no mesmo ramo permanecerem no Simples; (iv) ofensa ao princípio da capacidade contributiva; (v) verdadeiro confisco ao excluíla do Simples, por criar um ônus insuportável e inviabilizar a atividade; (vi) descabimento de penalidade contra a contribuinte por ter agido de uma forma, permitida por interpretação ao dispositivo legal vigente, estando amparada pelo art. 106, do CTN, entre outras arguições. A Primeira Turma de Julgamento da DRJ em São Paulo/SP exarou o Acórdão n. 1620.247/09 no qual resta registrado que não tomou conhecimento da impugnação interposta pela contribuinte por haver extrapolado o prazo legal para apresentála – fls. 94 a 98 A turma julgadora de primeira instância observou que a empresa recebeu a decisão da solicitação de revisão de exclusão do Simples em 21/08/06, conforme Aviso de Recebimento (AR) de fls. 86, e somente protocolizou a manifestação de inconformidade em 22/09/06, quando o prazo legal findouse em 20/09. A empresa apresentou, tempestivamente, o Recurso Voluntário de fls. 101 a reprisando as argumentações de defesa iniciais, argüindo que a Lei Complementar 123/06 veio a admitir as empresas que desempenham esta atividade no Simples e colacionando à peça recursal decisões administrativas em SR de exclusão do Simples de empresas que desempenham as mesmas atividades e reintegradas ao Simples (pareceres procedentes). Não tece qualquer comentário sobre a intempestividade declarada pela turma julgadora de primeira instância. É o relatório. Passo ao voto. Voto Conselheira Ana de Barros Fernandes, Relatora Fl. 2DF CARF MF Emitido em 31/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 16151.000544/200681 Acórdão n.º 180100.579 S1TE01 Fl. 127 3 Não é possível conhecer do presente recurso, pois o litígio sequer instaurou se em primeira instância dada a intempestividade declarada e inconteste da defesa interposta às fls. 01 a 06. O recurso administrativo voluntário é peça que contesta o acórdão proferido em primeira instância. E o acórdão sequer adentrou ao mérito da questão trazida ora em segundo grau, por manifestamente intempestiva a peça de defesa. O direito de discutir a exclusão do Simples neste órgão de julgamento de segunda instância está precluso para a empresa nos termos da legislação processual que rege a matéria e já transcrita no acórdão de fls. 94 a 98, salientandose o teor dos artigos 14 e 15 do Decreto n. 70.235/72, que disciplina o processo administrativo fiscal – PAF. No âmbito administrativo resta à empresa solicitar apenas revisão de ofício do ato de exclusão à própria autoridade que o emanou, em vista das decisões dissonantes apresentadas, conforme alegada, ficando ao crivo daquela revisar ou não o seu próprio ato, ou socorrerse do Poder Judiciário. Voto por não conhecer do recurso interposto, por precluso o direito de defesa da recorrente já em primeira instância. (documento assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes – Relatora Fl. 3DF CARF MF Emitido em 31/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 31/05/2011 por ANA DE BARROS FERNANDES
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