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Numero do processo: 10980.720718/2014-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Jul 27 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ARTIGO 20-A DA LEI Nº 9.430/1996. O artigo 20-A, da Lei nº 9.430/1996, determina expressamente que sua aplicação deve ocorrer para fatos geradores ocorridos a partir do ano calendário de 2012. Afastar esta previsão sob o argumento de que tal lei teria violado o CTN implica análise de questão constitucional, análise esta cuja competência não detém este Conselho, conforme artigo 26-A do Decreto nº 70.235/1972 e Súmula CARF nº 2.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. APLICAÇÃO NO ANO CALENDÁRIO DE 2009. O método PRL com margem de lucro de 60% pode ser aplicado no ano calendário de 2009.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO MAIS FAVORÁVEL. A utilização do método mais favorável é uma faculdade do contribuinte, e não uma imposição à fiscalização.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. CRÉDITO PRESUMIDO DE ICMS. ERRO DE CÁLCULO. INOCORRÊNCIA. Os valores referentes aos créditos presumidos de ICMS, concedidos pelo Estado do Paraná, não são passíveis de redução do custo do produto vendido.
IRPJ. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PRL. PREÇO PRATICADO. ESTOQUE INICIAL. Na determinação do preço praticado devem ser computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração.
IRPJ. ESTIMATIVA NÃO RECOLHIDA EM DEZEMBRO. MULTA ISOLADA. A aplicação da multa isolada sobre estimativa não recolhida, ainda que em dezembro tem base legal, razão pela qual pode ser exigida.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. PREÇO PRATICADO. INCLUSÃO DE FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES SOBRE A IMPORTAÇÃO. Segundo o disposto no art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96, o preço praticado é o preço de aquisição da mercadoria (FOB), acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. A inclusão desses valores no cálculo do preço praticado em nada prejudica o direito do sujeito passivo em deduzi-los como despesa no levantamento do lucro líquido do exercício. Por outro lado, a não inclusão daqueles valores no cálculo do preço praticado prejudicaria a sua comparabilidade com o preço parâmetro levantado segundo o método PRL, uma vez que neste estão necessariamente incluídos os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. PREÇO PARÂMETRO. IN 243/2002. LEGALIDADE TRIBUTÁRIA. Legalidade tributária, de acordo com o disposto no art. 150, I, da Constituição da República, significa que nenhum tributo poderá ser instituído ou aumentado senão por intermédio de lei. Portanto, não afronta a idéia de legalidade tributária a instrução normativa expedida pela SRF que porventura exija tributo em montante inferior àquele previsto em lei. Restou provado que o preço parâmetro PRL60 calculado segundo o disposto na Instrução Normativa SRF nº 243/2002 resulta em IRPJ e CSLL em valores inferiores àqueles que seriam devidos segundo a Lei nº 9.430/96, daí porque não há que se falar, aqui, em violação ao princípio da legalidade tributária.
FALTA DE PAGAMENTO POR ESTIMATIVA. MULTA ISOLADA. CABIMENTO. Com o advento da Medida Provisória n. 351/2007, convertida na Lei n.11.488/2007, tornou-se juridicamente indiscutível o cabimento da incidência da multa isolada pela falta de pagamento das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, ainda que cumulativamente haja imposição da multa de ofício proporcional ao imposto e à contribuição devidos ao final do respectivo ano-calendário.
IRPJ. REFLEXO NA CSLL. O decidido quanto ao IRPJ deve ser aplicado à tributação reflexa (CSLL) decorrente dos mesmos elementos e fatos.
Numero da decisão: 1201-001.652
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares e, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos o Relator e os Conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado e Luiz Paulo Jorge Gomes que lhe davam parcial provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro José Carlos de Assis Guimarães.
(assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator
(assinado digitalmente)
José Carlos de Assis Guimarães - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães.
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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ARTIGO 20A DA LEI Nº 9.430/1996. O artigo 20A, da Lei nº 9.430/1996, determina expressamente que sua aplicação deve ocorrer para fatos geradores ocorridos a partir do ano calendário de 2012. Afastar esta previsão sob o argumento de que tal lei teria violado o CTN implica análise de questão constitucional, análise esta cuja competência não detém este Conselho, conforme artigo 26A do Decreto nº 70.235/1972 e Súmula CARF nº 2. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. APLICAÇÃO NO ANO CALENDÁRIO DE 2009. O método PRL com margem de lucro de 60% pode ser aplicado no ano calendário de 2009. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO MAIS FAVORÁVEL. A utilização do método mais favorável é uma faculdade do contribuinte, e não uma imposição à fiscalização. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. CRÉDITO PRESUMIDO DE ICMS. ERRO DE CÁLCULO. INOCORRÊNCIA. Os valores referentes aos créditos presumidos de ICMS, concedidos pelo Estado do Paraná, não são passíveis de redução do custo do produto vendido. IRPJ. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PRL. PREÇO PRATICADO. ESTOQUE INICIAL. Na determinação do preço praticado devem ser computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. IRPJ. ESTIMATIVA NÃO RECOLHIDA EM DEZEMBRO. MULTA ISOLADA. A aplicação da multa isolada sobre estimativa não recolhida, ainda que em dezembro tem base legal, razão pela qual pode ser exigida. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. PREÇO PRATICADO. INCLUSÃO DE FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES SOBRE A AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 07 18 /2 01 4- 97 Fl. 585DF CARF MF 2 IMPORTAÇÃO. Segundo o disposto no art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96, o preço praticado é o preço de aquisição da mercadoria (FOB), acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. A inclusão desses valores no cálculo do preço praticado em nada prejudica o direito do sujeito passivo em deduzilos como despesa no levantamento do lucro líquido do exercício. Por outro lado, a não inclusão daqueles valores no cálculo do preço praticado prejudicaria a sua comparabilidade com o preço parâmetro levantado segundo o método PRL, uma vez que neste estão necessariamente incluídos os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. PREÇO PARÂMETRO. IN 243/2002. LEGALIDADE TRIBUTÁRIA. Legalidade tributária, de acordo com o disposto no art. 150, I, da Constituição da República, significa que nenhum tributo poderá ser instituído ou aumentado senão por intermédio de lei. Portanto, não afronta a idéia de legalidade tributária a instrução normativa expedida pela SRF que porventura exija tributo em montante inferior àquele previsto em lei. Restou provado que o preço parâmetro PRL60 calculado segundo o disposto na Instrução Normativa SRF nº 243/2002 resulta em IRPJ e CSLL em valores inferiores àqueles que seriam devidos segundo a Lei nº 9.430/96, daí porque não há que se falar, aqui, em violação ao princípio da legalidade tributária. FALTA DE PAGAMENTO POR ESTIMATIVA. MULTA ISOLADA. CABIMENTO. Com o advento da Medida Provisória n. 351/2007, convertida na Lei n.11.488/2007, tornouse juridicamente indiscutível o cabimento da incidência da multa isolada pela falta de pagamento das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, ainda que cumulativamente haja imposição da multa de ofício proporcional ao imposto e à contribuição devidos ao final do respectivo anocalendário. IRPJ. REFLEXO NA CSLL. O decidido quanto ao IRPJ deve ser aplicado à tributação reflexa (CSLL) decorrente dos mesmos elementos e fatos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares e, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos o Relator e os Conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado e Luiz Paulo Jorge Gomes que lhe davam parcial provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro José Carlos de Assis Guimarães. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator (assinado digitalmente) José Carlos de Assis Guimarães Redator designado Fl. 586DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 586 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães. Relatório Tratase de processo administrativo decorrente de Autos de Infração de IRPJ e CSLL, acrescidos de acréscimos legais e multa isolada, referentes ao ano calendário de 2009, em razão de ajuste dos “preços de transferência” promovido pela fiscalização. Por bem descrever as razões da autuação, reproduzo parte do trecho do relatório constante da decisão de primeira instância (fls. 482/527): “Tratase de lançamentos que exigem do interessado acima as seguintes exações: IRPJ, no valor de R$ 5.979.147,03, acrescido da multa de ofício e dos juros de mora; e multa exigida isoladamente sobre estimativas de IRPJ não pagas, no valor de R$ 3.144.439,56 (fls. 321/328); CSLL, no valor de R$ 2.220.048,21, acrescido da multa de ofício e dos juros de mora; e multa exigida isoladamente sobre estimativas de CSLL não pagas, no valor de R$ 1.110.024,10 (fls. 329/336). Os fatos geradores lançados se referem ao anocalendário de 2009. As infrações assim se apresentam no auto de infração de IRPJ: 0001 ADIÇÕES PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. CUSTOS, DESPESAS, ENCARGOS BENS, SERVIÇOS, DIREITOS ADQUIRIDOS NO EXTERIOR PESSOA VINCULADA Valor de ajuste decorrente da aplicação de métodos de preços de transferências, relativamente a seus custos, despesas e encargos de importação de bens, serviços e direitos adquiridos de pessoa vinculada no exterior não adicionado ao Lucro Líquido do período, para a determinação do Lucro Real, conforme relatório fiscal em anexo. Fato Gerador Valor Apurado (R$) Multa (%) 31/12/2009 25.163.776,99 75,00 (...) 0002 MULTA OU JUROS ISOLADOS FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ SOBRE BASE DE CÁLCULO Fl. 587DF CARF MF 4 ESTIMADA Falta de pagamento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica, incidente sobre a base de cálculo estimada em função da receita bruta e acréscimos e/ou balanços de suspensão ou redução. Fato Gerador Multa 31/10/2009 1.073,55 31/12/2009 3.143.366,01 [...] O enquadramento legal pode ser visto no campo específico de cada lançamento. A apuração do IRPJ e da CSLL se deu com base no lucro real anual. Os fatos e circunstâncias que fundamentam o lançamento foram discriminados no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal TVF de fls. 338/353, o qual expõe o seguinte: (...) CÁLCULOS APRESENTADOS PELA PESSOA JURÍDICA Pelo que se verificou na análise da DIPJ Exercício 2010 apresentada pelo interessado, mais especificamente na sua Ficha 29A, Linha 15 (fl. 260), o contribuinte importou de pessoas vinculadas, naquele ano, o montante de R$ 50.098.841,96. A resposta ao TIPF, por sua vez, demonstrou terem sido importados 167 diferentes itens, sendo que, durante a fiscalização, foram trabalhados 88 deles (fls. 51 a 53), o que totalizou R$ 49.333.066,24 e representou 98% do total das importações. No trabalho de auditoria foram descartados todos os itens que, em seu conjunto, apresentavam importações em total inferior a R$ 30.000,00. Segundo as informações prestadas e as memórias de cálculo apresentadas pela empresa durante a ação fiscal, o método PRL 60 [Método do Preço de Revenda menos Lucro, com margem de lucro de 60% ] foi utilizado em 79 dos 88 itens fiscalizados; em outros 2 itens, por se tratar de importação para revenda, foi utilizado o método conhecido como PRL 20 [Método do Preço de Revenda Menos Lucro, com margem de lucro de 20%] e para outros 6 não houve revenda, sendo que, por consequência, nenhum ajuste deve ser feito. No item restante eram associadas todas as importações de produtos de menor valor, pelo que não foi possível fazer qualquer cálculo de forma segregada. Assim, verificouse que o método PRL60 foi utilizado para cálculo do preço parâmetro em importações no valor total de R$ 46.771.124,87, o que representou 93,4% do total importado de pessoas vinculadas. Por outro lado, a simples observação da memória de cálculo apresentada em resposta ao TIPF revelou que, para os casos em que empregado o PRL60, o contribuinte aplicou forma de cálculo baseada na interpretação literal do art. 18, inciso II, Fl. 588DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 587 5 alínea "d", item 1, da Lei n° 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei n° 9.959, de 2000. A interpretação utilizada, como anteriormente abordado, diverge da adotada pela IN SRF n° 243, de 2002, pelo que ficou o Fisco obrigado a efetuar os ajustes necessários nos cálculos de preços parâmetro elaborados pela empresa. Nos cálculos elaborados pelo contribuinte, os preços parâmetro são calculados a partir da média aritmética dos preços de revenda dos bens, diminuídos dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas e da margem de lucro de 60% (sessenta por cento), calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os impostos e contribuições incidentes sobre as vendas e o valor agregado. A metodologia de cálculo adotada pelo interessado segue as fórmulas a seguir: [...] Em outra observação, verificouse que o custo dos bens utilizado pela pessoa jurídica divergiu daquele previsto na legislação sobre o assunto, mais precisamente no art. 18, § 6°, da Lei n° 9.430, de 1996, em sua redação original, vigente no ano de 2009. § 6° Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. Nesse caso, as memórias de cálculo entregues pelo fiscalizado revelaram que o custo adotado contemplou, além do valor FOB dos bens, do seguro e do frete, o custo aduaneiro, o qual não encontra previsão legislativa e, portanto, teve que ser excluído, dando lugar ao Imposto de Importação II, único tributo não recuperável incidente nas operações de importação. AJUSTES REALIZADOS Custos Incorridos Inicialmente, nas memórias de cálculo entregues pelo contribuinte foi ajustado o custo unitário dos bens importados. Conforme informado no parágrafo precedente, em cada item, a soma do valor FOB, do seguro, do frete e do custo aduaneiro foi substituída, dando lugar a soma do valor FOB, do seguro, do frete e do II. Por sua vez, para atender ao que preconiza o art. 12, § 3°, da IN SRF n° 243, de 2002, os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração também foram computados na determinação do custo unitário dos bens importados. Assim, tal custo foi totalmente recalculado, passando a ser definido pela seguinte fórmula: [...] Fl. 589DF CARF MF 6 No que se refere aos preços parâmetro, os cálculos elaborados pelo Fisco seguiram a sistemática prevista no art. 12 da IN SRF n° 243, de 2002. [...] 28. No caso dos preços de venda do produto final, um único ajuste foi realizado nas informações iniciais apresentadas pelo contribuinte. 29. Com relação ao produto final de código JG301000590EXP, o fiscalizado, em sua planilha "Suporte 3" apresentada em resposta ao TIPF, informou receita total de R$ 9.421.557,00 (fl. 32). Para chegar ao valor líquido dessa receita, informação necessária para o cálculo dos preços parâmetro, foram deduzidas despesas com PIS, Cofins e ICMS, o que resultou na receita líquida de R$ 7.419.476,14. Por sua vez, por meio do item 2 do TIF n° 1, solicitouse que as receitas com vendas, inclusive a do produto de código JG301000590EXP, fossem segregadas entre exportações e vendas no mercado interno (fls. 40/41), ao que o contribuinte respondeu que todas as vendas daquele produto foram efetuadas para o exterior (arquivo anexado ao processo conforme Termo de fl. 50). Uma vez que sobre exportações não incidem PIS, Cofins e ICMS, por meio do item 3 do TIF n° 2 (fl. 54) o fiscalizado foi novamente intimado a segregar as receitas entre exportações e vendas no mercado interno, sendo alertado, dessa vez, a não incluir encargos de PIS, Cofins e ICMS sobre operações de exportação. Em sua resposta, a empresa informou que as operações de exportação em questão se referem a vendas com fim específico de exportação e, por equívoco, foram tributadas indevidamente em ICMS, PIS e Cofins (fl. 59). Portanto, tratandose de tributação indevida, tais valores são passíveis de restituição/compensação e, por não configurarem qualquer encargo, não podem ser deduzidos da receita do contribuinte. Assim, procedeuse à glosa desses valores no cálculo dos preços parâmetro, o que resultou na receita líquida apurada na planilha "Suporte 3 (corrigido)", juntada ao processo às fls. 288/289. Adições. Ajustes decorrentes dos métodos de controle de preços de transferência. Por fim, calculados os preços parâmetro para cada bem importado de pessoa vinculada, passouse aos cálculos dos ajustes devidos. Para isso, subtraiuse do custo unitário médio do bem importado, calculado conforme o item 24, o preço parâmetro, sendo esse valor, caso positivo, representativo do ajuste unitário de cada item. A seguir, tal valor foi multiplicado pela quantidade consumida no ano, limitada à quantidade importada no mesmo período, chegandose, assim, ao ajuste total para cada item. 34. A soma de todos os ajustes calculados para o PRL60 resultou em R$ 25.152.124,54, valor que, somado ao pequeno Fl. 590DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 588 7 ajuste calculado pelo método PRL20, resultou no total de R$ 25.163.776,99. 35. Todos os cálculos aqui mencionados encontramse demonstrados às fls. 284 a 292 do Processo Administrativo Fiscal PAF n° 10980.720718/201497, tendo sido o arquivo em formato .xls referente a esses cálculos anexado aos autos de acordo com o Termo de Anexação de Arquivo Nãopaginável de fl. 203. 36. Também no tocante aos cálculos, devese esclarecer que o custo unitário médio do bem importado foi recalculado, conforme exposto no item 24, apenas para fins de apuração do ajuste a ser efetuado. Todos os preços parâmetro, conforme demonstrado nos itens 25 a 27, foram recalculados mediante a utilização dos custos unitários médios informados nas planilhas fornecidas pelo próprio contribuinte. 37. Cabe ressaltar, ainda, que todos os cálculos aqui demonstrados foram elaborados a partir de dados e informações fornecidos pelo próprio interessado. MULTA ISOLADA PELO RECOLHIMENTO A MENOR DE ESTIMATIVAS 38. A apuração dos ajustes anteriormente descritos, uma vez que não adicionados pelo contribuinte ao lucro líquido do período, acabou por afetar as bases de cálculo sobre as quais são apuradas as antecipações obrigatórias do IRPJ e da CSLL. 39. Devese relembrar que os pagamentos mensais por estimativa são, por definição legal, antecipações de IRPJ e CSLL devidos na apuração anual, os quais ficam sujeitos a ajustes no final do período. Essas antecipações mensais são obrigatórias, mesmo que ao final do período seja apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL. 40. A diferença entre os tributos apurados nesta ação fiscal para o ano de 2009 e o recolhido ou confessado pelo contribuinte durante os mesmos períodos está sendo exigido em Auto de Infração próprio, conforme aqui relatado. Contudo, as diferenças mensais relativas às antecipações das estimativas mensais com base nos balancetes mensais, após os ajustes promovidos pelas autoridades fiscais, geram infrações passíveis de cobrança de multa isolada sobre as estimativas mensais não recolhidas, conforme determina o art. 43, parágrafo único, c/c o art. 44, inciso II, alínea "b", todos da Lei n° 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei n° 11.488, de 15 de junho de 2007. A base de cálculo da multa isolada em questão é, portanto, a diferença entre o valor devido mensalmente referente à estimativa mensal com base nos balancetes de redução ajustados pelas autoridades fiscais e o valor efetivamente recolhido a esse título, mês a mês, pelo contribuinte. 41. No presente caso, somente a base de cálculo referente ao mês de dezembro de 2009 sofreu impacto do ajuste adicionado Fl. 591DF CARF MF 8 pela Fiscalização na apuração do lucro real. A apuração detalhada da multa isolada pelo não recolhimento de IRPJ e de CSLL por estimativa mensal encontrase às fls. 318/319 do já citado PAF. [...]” A interessada apresentou impugnação (fls. 364/407) questionando os lançamentos, impugnação esta que foi julgada improcedente pela 15ª Turma da DRJ/RJO, nos termos do Acórdão nº 1271.872 (fls. 482/527), cuja ementa possui a seguinte redação: “PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL 60. AJUSTE. IN SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. Os critérios da IN SRF n° 243/2002 para aplicação do método do Preço de Revenda Menos Lucro (PRL) não subvertem os ditames do art. 18 da Lei n. 9.430/1996. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. INTIMAÇÃO. ESCOLHA DE NOVO MÉTODO. ART. 20A, LEI 9.430/96. Descabe a aplicação do artigo 20A da Lei n° 9430/96, quando o método para apuração do preço parâmetro adotado pela contribuinte não foi desqualificado. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PRL 60. EFEITOS NO TEMPO. REVOGAÇÃO. REPRISTINAÇÃO. LEI 9.959/2000. MP 472/2009. O método PRL com margem de lucro de 60% pode ser aplicado no anocalendário de 2009. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL. PREÇO PARÂMETRO. FRETES, SEGUROS E IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. Na apuração do preço parâmetro devem ser incluídos os valores correspondentes a frete e seguro cujos ônus tenham sido do importador. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO MAIS FAVORÁVEL. A escolha do método mais favorável ao contribuinte é prerrogativa do contribuinte, mas não uma imposição à fiscalização PREÇO PRATICADO. ESTOQUE INICIAL. Na determinação da média ponderada dos preços, serão computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário MULTA ISOLADA. ESTIMATIVA NAO PAGA. Constatada a falta ou a insuficiência de recolhimento mensal por estimativa, é devido o lançamento de multa exigida isoladamente. Fl. 592DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 589 9 MULTA ISOLADA. MULTA PROPORCIONAL. IMPOSTO NAO PAGO. CONCOMITÂNCIA. Aplicase a multa de 50% sobre os valores devidos por estimativa e não recolhidos, bem como a multa de ofício sobre o imposto não pago apurado em 31/12. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2009 CSLL. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Aplicase à tributação reflexa idêntica solução dada ao lançamento principal, em face da estreita relação de causa e efeito entre ambos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido.” Discordando do teor da decisão de primeiro grau, cuja ciência ocorreu em 30/01/2015 (fls. 530), a contribuinte, em 19/02/2015, interpôs recurso voluntário (fls. 532 a 579), argumentando, em síntese: (i) A ilegalidade do método de cálculo do PRL 60 previsto na IN RFB n° 243/2002 Aduz que a Instrução Normativa RFB n° 243/2002 é ilegal, uma vez que a Lei n° 9.959/00 determina que os 60% da margem de lucro incidam sobre o valor integral do preço líquido de venda do produto diminuído do valor agregado no país; Nesse sentido, a alteração promovida pela IN RFB n° 243/02, trazendo um novo método de cálculo do PRL 60, promoveu um rompimento da regra matriz da lei, extrapolando seus limites. Em vista de tal ilegalidade, os lançamentos devem ser cancelados; (ii) Nulidade por violação ao artigo 20A, Lei n° 9.430, de 1996. Aduz que o lançamento é nulo, pois não foi intimado a apresentar cálculo com base em outro método previsto na legislação, conforme norma processual introduzida pelo dispositivo legal acima indicado; (iii) Ilegalidade do PRL 60 no ano de 2009, em face da revogação do artigo 2o da Lei n° 9.959/00, pela MP n° 472/2009; (iv) Uso alternativo do PRL 20 Sustenta que, caso se rejeite o argumento do item anterior, deveria ao menos ter sido aplicado o PRL de 20%; (v) Aplicação do percentual de margem de lucro de 35% do PVL, previsto pela MP nº 478/2009 Entende a contribuinte que tem direito a calcular os preços de transferência aplicando o percentual de margem de lucro de 35% do Preço de Venda menos o Lucro (PVL), introduzido pela MP n° 478, de 2009, uma vez que se trata de norma mais benéfica; Fl. 593DF CARF MF 10 (vi) Impossibilidade de inclusão do Imposto de Importação — II, do frete e do seguro na base de cálculo do custo do produto importado; Nesse ponto, alega que o II deve ser excluído da base de cálculo do PRL 60, pois não integra o custo da mercadoria constante da Declaração de Importação (DI), bem como que o frete e o seguro, por terem sido contratados de partes independentes, não se sujeitam às normas dos preços de transferência; (vii) Desconsideração indevida do crédito presumido de ICMS de 9% no Estado do Paraná Alega que faz jus a créditos presumidos de ICMS de 9% do Estado do Paraná, devendo este crédito ser tratado como redutor do custo do produto vendido; (viii) – Equívocos no cômputo do estoque no ano de 2008 A fiscalização "... deveria ter calculado o valor do preço de transferência no ano de 2008 e apurado o valor utilizado naquele ano e o saldo que deveria ter sido diferido para 2009 (assim como apurou o valor de 2009 e o saldo que deveria ser transportado para o exercício seguinte de 2010)". E como consequência, "... deveria excluir do cálculo do preço de transferência do ano de 2009 a quantidade de bens relativos ao estoque final de 2008, para saber exatamente o valor de ajuste para o ano de 2009."; (ix) Ilegalidade da multa isolada por estimativa não paga em 31/12/2009 no caso de apuração de preços de transferência; e (x) Impossibilidade de cobrança de multa isolada cumulada com a multa de ofício. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli Relator O recurso voluntário é tempestivo e atende os pressupostos processuais de admissibilidade, razão pela qual dele conheço. Da ilegalidade do critério de cálculo do PLR60 previsto na IN nº 243/2002 Como dito anteriormente, a autoridade fiscal desconsiderou as memórias de cálculo apresentadas pela Recorrente referentes à aplicação dos métodos de controle de preços de transferência no ano base de 2008 e elaborou um novo cálculo, partindose do PRL60 de acordo com a metodologia prevista na Instrução Normativa SRF nº 243, de 11 de novembro de 2002 (“IN 243/02”). O método PRL (Preço de Revenda menos Lucro) com margem de 60% foi introduzido pela Lei nº 9.959/00, ao conferir a seguinte redação ao art. 18 da Lei nº 9.430/96: Fl. 594DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 590 11 “Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (...)” (grifei). Na fórmula construída a partir do artigo 18 da Lei nº 9.430/96 – anteriormente admitida pela própria Receita federal na revogada IN SRF nº 32/2001 , a margem de lucro corresponde a 60% do preço líquido de venda subtraído o valor agregado no país. Apesar do legislador fixar um alto percentual de lucratividade (60%), permitiu a subtração do valor agregado no país para efeito de determinação da margem de lucro. Em novembro de 2002, porém, sem que houvesse qualquer modificação legislativa atinente à matéria, a Receita Federal do Brasil revogou a IN SRF nº 32/01 e editou a IN 243, cujo art. 12, inciso IV, item ‘b’ e § 11, previam, à época dos fatos: “Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção (...) Fl. 595DF CARF MF 12 § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. (...)” (grifei). Da leitura dos dispositivos acima transcritos, notase, de imediato, a diferença existente entre as formas de cálculo preconizadas pela Lei nº 9.430/96 e pela IN nº 243/02. Enquanto a lei, ao dispor sobre a fórmula de cálculo do preço parâmetro, prescreve que o percentual de 60%, incidente sobre o valor do preço líquido de venda do produto diminuído do valor agregado no país, seja deduzido do valor líquido de venda integral, a IN 243 determina que o percentual de 60% seja excluído de uma base menor, qual seja, a parcela do preço líquido de venda do produto pela qual respondem os bens, serviços ou direitos importados, do que decorre um resultado invariavelmente menor. No método PRL60, tal como previsto na IN 243/02, a margem de lucro de 60% não mais deve ser apurada sobre a média aritmética dos preços de revenda dos bens, diminuídos dos descontos incondicionais, dos tributos sobre as vendas, das comissões e corretagens pagas e do valor agregado ao bem produzido no País, mas sim sobre a participação do bem ou serviço importado no preço de venda do produto. Com a edição da IN 243/02, então, percebese claramente que, para fins de quantificação do preço parâmetro, foi introduzida um novo método de cálculo da margem de lucro, que passou a ser definida mediante aplicação de 60% sobre a participação do bem ou serviço importado no preço de venda do bem produzido. A aplicação do PRL 60 segundo a IN 243/02 leva a resultado diverso daquele que decorre da sistemática legal. Isso pode ser verificado com base no exemplo demonstrado abaixo, o qual, partindose de premissas iguais, calcula o ajuste de preços de transferência apenas na sistemática desenhada pela IN 243/02: Fl. 596DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 591 13 Descrição Texto Legal (art. 18, da Lei 9.430) Valores Preço médio de venda Média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos a 138 Descontos, impostos e comissões/corretagens a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; b (18) Valor agregado no país c (35) Margem de 60% d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e o valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; d 60% de (a – b – c) (51) Preço parâmetro II – Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: ... d) da margem de lucro de sessenta por cento ... e a b d 69 PreçoPraticado 60 Ajuste o Descrição Texto da IN 243 (art. 12) Valores Preço médio de venda média aritmética ponderada dos preços de revenda diminuído a 138 Descontos, impostos e comissões/corretage ns I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; b (18) Custo do bem importado c 60 Custo agregado no país d 35 I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas e (a – b) 120 Margem de 60% II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa f c / (c + d) 63,16% III – participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total sobre o preço líquido de venda g (f x e) 75,79 Fl. 597DF CARF MF 14 IV 60% sobre a participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido h 60% de g 45,47 Preço parâmetro a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV i g – h 30,32 PreçoPraticado 60 Ajuste 29,68 Esse exemplo, quando menos, demonstra que a IN 243/02 acabou, na verdade, por instituir um critério jurídico de cálculo que proporciona tributação mais gravosa para os contribuintes. Ora, a divergência entre as sistemáticas da Lei nº 9.430/96 e da IN nº 243/02 geram resultados distintos para o mesmo cálculo de preço de transferência segundo o método PRL 60, afetando diretamente a composição do preço parâmetro. Como resultado, despesas que são dedutíveis segundo uma sistemática passam a ser indedutíveis segundo a outra. Aplicandose o PRL 60 pela sistemática prevista na Lei nº 9.430/96, o preço de mercado de um bem é apurado pela simples subtração, do preço líquido de revenda, de uma margem de lucro de 60%. A margem de lucro efetiva, por sua vez, varia conforme a agregação de valor no País. Bem diversa é a metodologia empregada na IN 243/02, que inegavelmente criou critério diferente da lei para apuração do PRL 60%, incluindo na sua fórmula o percentual de participação dos bens importados no custo total do bem produzido e a participação dos bens importados no preço de venda do bem produzido como fatores determinantes da margem de lucro e do preço parâmetro. Pelo critério da IN 243/02, partese do preço líquido de venda para identificar uma grandeza intermediária, não contemplada pelo texto legal, correspondente à participação do bem importado no produto revendido (proporcionalização do preço de revenda, portanto). E nem se diga que essa proporcionalização seria uma exigência lógica, decorrente de necessidade de correção de um erro no PRL 60. Isso porque, em matéria tributária, vige o princípio da legalidade, de forma que não cabe à Instrução Normativa “corrigir” o legislador. A lei, somente a lei, é que pode instituir ou majorar tributos. Nesse sentido se manifestou Hiromi Higuchi (Imposto de Renda das Empresas. São Paulo: IR Publicações. 36ª ed. 2011. pp 158 e 162): “[...] A seguir, será provada a ilegalidade da metodologia adotada pelo art. 12 da IN nº 243/2002, não merecendo ser cumprida pelos contribuintes. [...] O art. 12 da IN nº 243/2002 não considerou nos cálculos a totalidade do preço líquido de venda e nem a totalidade do valor agregado no país como determina a lei. A Instrução, sem base legal, apurou o percentual de participação dos bens importados na formação do custo total do bem produzido e aplicou esse percentual no preço líquido de venda e no valor agregado no País. Fl. 598DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 592 15 O critério adotado pela Instrução de não considerar a totalidade do custo agregado no País é absurdo porque toda indústria aplica o percentual de margem de lucro sobre o custo total do produto, sem indagar o percentual de participação de bens imprtados na formação do custo de produção. Se a metodologia da lei está incorreta, devese alterar a lei mas não é possível alterar a base de cálculo do IRPJ e da CSLL através de ato administrativo, contrariando a lei”. Ao estabelecer uma fórmula de cálculo do PRL 60 que se distancia daquela prevista na Lei (e reproduzida na IN 32/01), e que tem por reflexo o aumento do ajuste a título de preço de transferência (majoração de tributo, portanto), a IN 243/02 violou a estrita legalidade. A Exposição de Motivos da MP 563/12, convertida na Lei nº 12.715/12 (a qual incorporou à Lei nº 9.430/96 a metodologia de cálculo do PRL 60 prevista na IN 243), é elucidativa nesse ponto. Vejase: “56. (...) Destarte, a legislação relativa aos controles de preços de transferência aplicáveis a operações de importação, exportação ou de mútuo, empreendidas entre entidades vinculadas, ou entre entidades brasileiras e residentes ou domiciliadas em países ou dependências de tributação favorecida, ou ainda, que gozem de regimes fiscais privilegiados, restará atualizada e aperfeiçoada com as alterações propostas. 57. Os artigos 38 a 42 deste projeto de Medida Provisória promovem alteração na legislação de preços de transferência [...] 60. Vale frisar que a crescente internacionalização da atuação de agentes econômicos brasileiros, bem como a maior abertura à atuação desses agentes multinacionais em nosso território, conduzem ao risco tributário de esvaziamento da base imponível brasileira, razão pela qual propõese o aperfeiçoamento dos controles concernentes à matéria, inicialmente instituídos em 1996. 61. Como fruto de toda a experiência até então angariada no que concerne à aplicação de referidos controles, com o intuito de minimizar a litigiosidade FiscoContribuinte até então observada, e objetivando alcançar maior efetividade dos controles em questão, propõese alterações na legislação de regência. [...] 63. Como algumas das alterações introduzidas pelos arts. 38 e 40 da Medida Provisória podem implicar em aumento do tributo, em atenção ao princípio da anterioridade, foi estabelecido que a produção de efeitos ocorreria em 2013. O art. 42 do Projeto de Medida Provisória possibilita que a pessoa jurídica opte pela aplicação das disposições contidas nos arts. 38 e 40 na apuração das regras de preços de transferência relativas ao anocalendário de 2012. A opção implicará na obrigatoriedade Fl. 599DF CARF MF 16 de observância de todas as alterações introduzidas pelos arts. 38 e 40.” (grifos nossos) Os trechos acima não deixam dúvidas de que a MP 563/12 buscou instituir uma nova realidade e não convalidar uma préexistente. A MP, a propósito, deixa claro que a nova sistemática poderia ensejar aumento de tributo, razão pela qual fez questão de ressaltar a observância ao princípio da anterioridade. Ora, tal norma foi editada justamente porque a matéria demanda lei, não podendo ser disciplinada por ato infra legal, como uma instrução normativa. Isso significa dizer que a metodologia de cálculo prevista pela IN 243/02, quando muito, veio a possuir fundamento legal apenas com a MP 563/12 (convertida na Lei nº 12.715/2012). Entretanto, o mesmo não ocorre em relação ao período anterior à sua vigência, pois a MP nº 563/12 não poderia legalizar atos pretéritos, buscando, sobretudo, inovar a ordem jurídica, conforme descrito na exposição de seus motivos. Da análise da evolução legislativa da matéria, verificase que o critério de cálculo da IN 243/02 somente passou a ter base legal com a publicação da MP 563/12 (e sua posterior conversão na Lei nº 12.715/2012), o que ratifica a conclusão sobre sua inaplicabilidade até 2012. Do ponto de vista jurisprudencial, destacamse as seguintes decisões em prol da ilegalidade da metodologia de cálculo prevista na IN 243/02: “TRIBUTÁRIO. APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA. TRIBUTAÇÃO EM TRANSAÇÕES INTERNACIONAIS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS VINCULADAS. METODOLOGIA DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO PRL. IN Nº 243/2002. ILEGALIDADE. RECURSO PROVIDO. Tratandose de transações internacionais entre pessoas jurídicas vinculadas, a tributação dáse através do conceito "preço de transferência", sob a metodologia, no caso da impetrante, do "Preço de Revenda menos Lucro" (art. 18 da Lei nº 9.430/1996). À guisa de complementar a disposição legal regente do assunto, sobrevieram instruções normativas da Secretaria da Receita Federal, incluindo a de nº 243/2002, que extrapolou o poder regulamentar que lhe é imanente, daí se avistando ofensa ao princípio da reserva da lei formal. Necessidade de se garantir à impetrante a utilização dos critérios de apuração do preço de transferência pelo método PRL, conforme art. 18 da Lei nº 9.430/1996, afastadas as alterações trazidas pela IN nº 243/2002. Recurso provido”. (grifei). (TRF 3ª Região. AC 0034048 52.2007.4.03.6100/SP. Dj 14/09/2010). “PREÇO DE TRANSFERÊNCIA – PRL – 60% IN SRF 243/02 – ILEGALIDADE – A IN 243/02 buscou interpretar a Lei, porém excedeu seus limites ao presumir, sem autorização legal ou Fl. 600DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 593 17 suporte fático, o valor agregado no Brasil por uma regra de proporcionalidade. Para não resultar em ajuste, tal valor teria que ser no mínimo custo incorrido no Brasil agregado à margem de 150% (60%) do preço. As margens fixas determinadas pela Lei 9.430/96 aplicamse apenas aos custos importados de determinadas partes ou aos respectivos preços de revenda, não aos custos ou preços de itens nacionais e nem à margem ou ao valor agregado no Brasil. A IN 243/02 não está de acordo nem com o texto ou com o contexto da Lei. (...)” (Acórdão 1302 000.915. Sessão de 10/04/2012). “CÁLCULO DO PREÇO PARÂMETRO. MÉTODO PRL60 PREVISTO EM INSTRUÇÃO NORMATIVA. INAPLICABILIDADE. A função da instrução normativa é de interpretar o dispositivo legal, encontrandose diretamente subordinada ao texto nele contido, não podendo inovar para exigir tributos não previstos em lei. Somente a lei pode estabelecer a incidência ou majoração de tributos. A IN SRF nº 243, de 2002, trouxe inovações na forma do cálculo do preço parâmetro segundo o método PRL60%, ao criar variáveis na composição da fórmula que a lei não previu, concorrendo para a apuração de valores que excederam ao valor do preço parâmetro estabelecido pelo texto legal, o que se conclui pela ilegalidade da respectiva forma de cálculo.” (Acórdão 1202 000.835. Sessão de 07/08/2012). “PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. LEI. NORMAS COMPLEMENTARES. As normas postas pelo executivo para operacionalizar ou interpretar lei devem estar dentro do que a lei propõe e ser com ela compatível. FÓRMULAS PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PRL 60%. LEI N° 9.430. IN SRF N°32. IN SRF N°243. A IN SRF n° 32, de 2001, propõe fórmula idêntica a posta pela lei no 9.430, de 1996. A IN SRF n° 243, de 2002, desborda da lei, pois utiliza fórmula diferente da prevista na lei, inclusive mencionando variáveis não cogitadas pela lei. LANÇAMENTO. IN SRF N° 243. Os ajustes feitos com base na fórmula estabelecida na IN SRF n° 243, de 2002, que sejam maiores do que o determinado pela fórmula prevista na lei, não têm base legal e devem ser cancelados.” (Acórdão nº 1101 00.864. Sessão de 07/03/2013). “RECURSO VOLUNTÁRIO. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. ILEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. Restando reconhecida a ilegalidade das disposições da IN SRF 243/2002, especificamente no que se refere aos critérios por ela indicados para a quantificação do preçoparâmetro e os conseqüentes ajustes na aplicação do método PRL60 (sobretudo antes da publicação da Lei 12.715/2012), é de reconhecer, portanto, a completa invalidade do lançamento.” (Acórdão nº 1301001.235. Sessão de 09/10/2014). Caminhando nessa mesma direção, considero que o ajuste levado a cabo pela fiscalização no preço parâmetro para efeitos de PRL60, por ter sido feito com base na fórmula estabelecida na IN 243/02 (art. 12, IV, §11), em arrepio à Lei nº 9.430/96, deve ser cancelado. Fl. 601DF CARF MF 18 Ao contrário do que quer fazer crer a decisão de piso, havendo incompatibilidade entre uma instrução normativa e uma lei – como é o caso concreto – deve a lei prevalecer. Artigo 20A, da Lei nº 9.430/96 A Recorrente pede a nulidade do lançamento, sob o argumento de que não teria sido observada a “regra procedimental” prevista no art. 20A da Lei nº 9.430/1996, introduzido pela Lei nº 12.715/2012 da seguinte maneira: “Artigo 20A A partir do anocalendário de 2012, a opção por um dos métodos previstos nos arts. 18 e 19 será efetuada para o anocalendário e não poderá ser alterada pelo contribuinte uma vez iniciado o procedimento fiscal, salvo quando, em seu curso, o método ou algum de seus critérios de cálculo venha a ser desqualificado pela fiscalização, situação esta em que deverá ser intimado o sujeito passivo para, no prazo de 30 (trinta) dias, apresentar novo cálculo de acordo com qualquer outro método previsto na legislação. § 1o A fiscalização deverá motivar o ato caso desqualifique o método eleito pela pessoa jurídica. [...]” No entender da Recorrente, o procedimento previsto no artigo 20A acima deveria ter sido seguido, afinal a fiscalização ocorreu em momento no qual a referida lei já estava vigente. E, não tendo sido seguido tal procedimento, o Auto de Infração deve ser declarado nulo. Não vislumbro a nulidade arguida. De acordo com o quanto disposto no artigo 20A, da Lei nº 9.430/96, acima transcrito, a regra ali estabelecida deve ocorrer para fatos geradores ocorridos a partir do ano calendário 2012. Ou seja, o direito de o contribuinte ser intimado a, no prazo de 30 (trinta) dias, apresentar novo cálculo de acordo com qualquer outro método previsto na legislação, não alcança o período de apuração objeto dessa autuação (ano calendário de 2009), uma vez que a mencionada alteração legislativa somente é válida para as operações de importação ocorridas a partir de janeiro de 2012. Afastar tal previsão sob o argumento de que tal lei teria violado o CTN, como pretende a Recorrente, implicaria análise de questão constitucional (hierarquia de normas), análise esta cuja competência não detém este Conselho (cf. artigo 26A do Decreto nº 70.235/1972 e Súmula CARF nº 2). Ilegalidade do PRL 60 no ano de 2009, em face da revogação do artigo 2o da Lei n° 9.959/00, pela MP n° 472/2009 A Recorrente questiona a aplicação do método PRL60 para os fatos geradores ocorridos no ano calendário de 2009, por força da revogação do art. 2º da Lei nº 9.959/2000, pela MP nº 472/2009, com posterior, no mesmo ano, repristinação da norma revogada pela MP nº 476/2009. A DRJ, por sua vez, rejeitou tal argumento, fundamentandose no teor do Parecer Normativo nº 1/2012, o qual reproduzo parcialmente abaixo. “[...] Fl. 602DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 594 19 6. A Medida Provisória nº 472, de 2009, previu, em seu art. 61, inciso II, a revogação do art. 2º da Lei nº 9.959, de 2000, da seguinte forma: " Art. 61. Ficam revogados: (...) II O art. 2º da Lei nº 9.959, de 27 de janeiro de 2000: (...)" 7. Em seguida, foi editada a MP nº 476, de 2009, que, em seu art. 6º, eliminou a revogação estabelecida pelo art. 61, inciso II, da MP nº 472, de 2009, e definiu expressamente o retorno da vigência do art. 2º da Lei nº 9.959, de 2000: "Art. 6º Fica revogado o inciso II do art. 61 da Medida Provisória nº 472, de 15 de dezembro de 2009, voltando a viger o art. 2º da Lei nº 9.959, de 27 de janeiro de 2000." 8. A MP nº 478, de 2009, reafirmou, em seu o art. 11, o intuito do Poder Executivo, de eliminar a revogação prevista pelo art. 61, inciso II, da MP nº 472, de 2009, ao estabelecer, expressamente, seu efeito repristinatório, deixando clara a possibilidade de aplicação do Método PRL, no exercício de 2009: Art. 11. Para os fatos geradores ocorridos em 2009, o contribuinte que optar pelo método do preço de revenda menos lucro (PRL) deverá observar o disposto no inciso II do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, com as alterações dadas pela Lei nº 9.959, de 27 de janeiro de 2000. [...] 12. Por decorrência, foram identificadas diferentes interpretações sobre os efeitos legais gerados por aquela MP. [...] 16. Sustentouse, ainda, que a MP nº 476, de 2009, teria criado um novo Método PRL, tendo em vista o lapso de tempo (de oito dias) entre a edição da MP nº 472, de 2009, e a MP nº 476, de 2009. Segundo esse entendimento, a edição da MP nº 476, de 2009, levaria a um potencial aumento do imposto de renda e da CSLL para fatos geradores ocorridos naquele período do exercício de 2009. A MP nº 476, de 2009, não deve ser interpretada como forma de elevar a carga tributária, vedada pelo Princípio da Anterioridade. A MP nº 476, de 2009, deve ser considerada como medida de retorno ao status quo ante à MP nº 472, de 2009, para, consequentemente, restabelecer a garantia de escolha do método de cálculo de preços parâmetros potencialmente mais favorável ao contribuinte, incluindose a possibilidade de aplicação do Método PRL20 ou PRL60. 17. É importante observar que a MP nº 478, de 2009, deixa claro o objetivo do legislador de restringir a aplicação do Método Fl. 603DF CARF MF 20 PRL ao exercício de 2009. Notase que da combinação do art. 9º com o art. 15 da MP nº 478, de 2009, resulta a previsão de criação de um novo método de cálculo o Método Preço de Venda menos Lucro (PVL) , em substituição ao Método PRL, com produção de efeitos, apenas a partir de 2010. [...] 18. Não deve prevalecer, portanto, o entendimento segundo o qual, com a repristinação, haveria nova lei em que se prevê "novo Método PRL". Nesse caso, cabe citar os comentários de Maria Helena Diniz sobre a aplicação do "princípio da retroatividade", segundo o qual "é retroativa a norma que atinge os atos jurídicos praticados sob império da norma revogada. E irretroativa a que não se aplica a qualquer situação jurídica constituída anteriormente.(...). O ato jurídico perfeito é aquele que já se consumou segundo a norma vigente ao tempo em que se efetuou ...".(1 Conforme Maria Helena Diniz em Direito Civil Brasileiro, vol 1, 22ª edição, págs. 99 e 100) 19. Convém sublinhar que, no que diz respeito ao seu efeito repristinatório, as Medidas Provisórias nº 476, de 2009, e nº 478, de 2009 estão de acordo com as disposições do art. 2º, §3º, da Lei de Introdução ao Código Civil, conforme sua redação a seguir reproduzida: "a lei revogadora não tem efeito repristinatório sobre a velha lei abolida, senão quando houver pronunciamento expresso do legislador a esse respeito." 20. Frisese que, da leitura de tais regras, tanto na redação da MP nº 476, de 2009, quanto nas disposições da MP nº 478, de 2009, o legislador pretendeu manter o direito de opção pelo método PRL, para o exercício de 2009, conforme dispunha o art. 2º da Lei nº 9.959, de 2000. Não cabe, portanto, o entendimento de que a MP nº 476 e a MP nº 478 possam resultar em aumento de imposto de renda ou da Contribuição Social sobre o Lucro, no exercício de 2009. [...] 41. Diante do exposto concluise que: 41.1. o método PRL com margem de lucro de 20% e com margem de lucro de 60% previsto na alínea "d" do inciso II do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, pode ser aplicado nos anos calendário de 2009 e 2010; [...]” Nesse contexto, entendo que a conclusão dada pelo Parecer, no sentido de considerar aplicável o PRL60 no ano calendário de 2009, não merece reparo, razão pela qual rejeito o argumento de nulidade invocado pela Recorrente nesse item. Consequentemente, isto é, partindo da premissa de que o PRL60 pode ser aplicado no ano base de 2009 (método este que, por sinal, foi usado pela própria Recorrente), também afasto a alegação de que o fisco deveria ter se valido do PRL20 ou percentual de 35% do PVL, previsto na MP 478/2009. A utilização do método mais favorável é uma faculdade do contribuinte, e não uma imposição à fiscalização. Fl. 604DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 595 21 Impossibilidade de inclusão do Imposto de Importação — II, do frete e do seguro na base de cálculo do custo do produto importado A Recorrente alega que a fiscalização incorreu em outro equívoco, qual seja, a inclusão de valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação na determinação do preço praticado (cálculo “CIF”). Já a DRJ entende que tal inclusão é legítima, uma vez que a IN 243 (artigo 4º, 4º) assim determina: “para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, calculado com base no método de que trata o art. 12, serão integrados ao preço praticado na importação os valores de transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e os tributos não recuperáveis, devidos na importação”. Com efeito, o artigo 18 da Lei n° 9.430/96 assim determina: "Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos [...]” Do artigo acima transcrito depreendese que a limitação na redução dos custos, despesas e encargos constantes dos documentos de importação ou de aquisição de bens somente apenas se aplica nas operações efetuadas com pessoa vinculada. Seja por não corresponderem a “importações” ou por não terem sido pagos a pessoa vinculada, os custos com frete, seguros e tributos devidos na importação não se sujeitam aos limites de dedutibilidade previstos pelo art. 18 da Lei nº 9.430/96. Logo, tais custos não poderiam ensejar ajuste por conta da aplicação desse dispositivo, devendo ser neutros para fins de aplicação do controle de preços de transferência. O legislador mostrouse atento ao estabelecer que as parcelas aqui comentadas devem ser dedutíveis, ainda que o custo da importação (o preço do produto propriamente dito) sofra limitações ante a aplicação dos métodos de preços de transferência. E isso nem poderia ser diferente: tais encargos não são abrangidos pelo escopo definido no caput do art. 18, notadamente porque não são pagos a partes vinculadas e, consequentemente, devem ser considerados dedutíveis. No julgamento do processo nº 16561.000042/200971, ocorrido em sessão do dia 25 de novembro de 2015, o relator do caso, Conselheiro Ricardo Marozzi Gregório, foi direto ao ponto ao afirmar que os valores pagos a título de frete e seguros, quando pagos a pessoas não vinculadas, e os tributos incidentes sobre a transação, não estão sujeitos ao controle dos preços de transferência. É o que se lê dessa passagem do acórdão nº 1102001.238 (Sessão de 25/11/2015): “Essa constatação fica mais clara quando se vê que o caput do mesmo artigo restringe o custo a que se refere às operações efetuados com pessoa vinculada, verbis: Fl. 605DF CARF MF 22 (...) Destarte, como os valores de frete e seguro são normalmente pagos a pessoas não vinculadas, eles, em regra, não estão sujeitos ao controle dos preços de transferência. Igualmente, os tributos incidentes sobre a importação. Não se pode, portanto, entender que a lei manda adicionar esses valores no cálculo da média aritmética ponderada representativa do “preço praticado”. Nem se pode alegar que, na hipótese de o frete ou o seguro ser pago a pessoa vinculada, o § 6º faria sentido porquanto haveria que se efetuar o controle do respectivo preço. Primeiro, porque os tributos incidentes na importação não poderiam ser incluídos nesta ilação. Depois, porque este seria um outro preço e seu controle pode ser feito separadamente.” Destacase, também, julgado da 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção do CARF, que entendeu que os valores de frete, seguro e imposto de importação não integram o preço praticado. Confirase: “IRPJ – CSLL – PREÇO DE TRANSFERÊNCIAS – MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO (PRL) – FRETES, SEGUROS E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO – Os valores de frete, seguro e imposto de importação são custos efetivos do contribuinte que não foram pagos diretamente a pessoas vinculadas e, deste modo, não podem fazer parte do preço parâmetro.” (Acórdão nº 110200.302. Sessão de 16/05/2011). Ressaltese, ainda, que, ao analisar a noção de “comparabilidade” entre preço parâmetro e preço praticado, a Câmara Superior de Recursos Fiscais chegou a afirmar expressamente que a exclusão dos valores de frete, seguros e impostos na determinação do preço praticado independe da sua consideração no cálculo do preço parâmetro, que é, por definição, uma presunção legal. É o que se nota do voto condutor do trecho do Acórdão nº 910101.166, proferido pela 1ª Turma da CSRF em Sessão de 12 de setembro de 2011, in verbis: “Na jurisprudência desta Corte Julgadora é possível encontrar entendimentos nos dois sentidos. Ou seja, tanto no sentido de que os valores do frete, seguro e impostos deveriam integrar a apuração do ‘preço parâmetro’, independentemente de a importação ter sido efetuada conforme cláusula FOB — Free on Board (Acórdão n° 10323.199 e acórdão recorrido), quanto no sentido de que se deve incluir o valor do frete e do seguro, somente quando o ônus tenha sido do importador (Acórdão nº 10809.763, dentre outros). Peço vênia para reproduzir os argumentos exarados nos votos condutores dos referidos acórdãos: [...] A despeito dos posicionamentos acima referidos, pareceme que o cerne da questão gira em torno de erro semântico na adoção dos termos ‘preço praticado’ e ‘preço parâmetro’. Pareceme, ‘data maxima venia’, que há equívoco na transposição da disposição acerca do preço praticado para parâmetro e vice versa. Fl. 606DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 596 23 Ora, preço parâmetro é aquele apurado segundo um dos métodos estipulados por presunção legal. Em se tratando de presunção legal, ao menos a princípio (a depender de prova contundente em contrário), e por princípio, vale o quanto estipulado para cada um dos métodos. Já o preço praticado é aquele submetido à revisão por um dos métodos de apuração do preço de transferência. Logicamente, quanto maior o preço parâmetro menor o ajuste, porque menor a diferença entre o valor do preço parâmetro e do preço praticado no caso da importação. Não há, portanto, que se falar em inclusão de frete e seguro no preço praticado a depender da inclusão no prego parâmetro, já que o preço parâmetro é presunção legal. Nessa toada, a despeito do moralmente irreparável entendimento que caminha no sentido de aproximar o método de apuração do preço parâmetro da realidade, fato é que a conclusão diverge do que determina o ordenamento jurídico.” (grifei) Feitas essas considerações, entendo que, por falta de previsão legal, devem ser excluídos os valores de frete, seguro e impostos que compuseram os preços praticados considerados pela fiscalização para aplicação do método PRL60. Ou seja, o preço praticado deve ser considerado levando em conta o custo FOB da operação, e não o custo CIF + II. Desconsideração indevida do crédito presumido de ICMS de 9% no Estado do Paraná A Recorrente entende que o montante dos créditos presumidos de ICMS de 9%, concedidos pelo Estado do Paraná, deve ser reduzido do custo do produto vendido. Entendo, porém, que a redução pretendida pela Recorrente não possui fundamento, acolhendo, nesse particular, o argumento invocado na decisão de piso, in verbis: “69. Nos termos o inciso II do caput do art. 12 da IN SRF 243/2002 c/c com o inciso II do §7° do mesmo artigo, o valor do ICMS incidente sobre a (re)venda, assim como os demais impostos e contribuições integrantes do preço de (re)venda, devem ser deduzidos para fins de determinação do preço líquido de (re)venda do produto. 70. O alegado benefício fiscal representa uma concessão de créditos presumidos de ICMS determinados a partir do valor da operação de saída da mercadoria à outra unidade da Federação. 71.Ocorre que, a concessão de créditos presumidos de ICMS não representa uma redução do imposto. Nesta última hipótese, há uma redução da alíquota do imposto, aumentando, por consequência, o valor líquido da venda e o resultado operacional da empresa. Naquela, a alíquota do imposto permanece inalterada, e assim, também, o valor líquido da venda e o resultado operacional; em contrapartida, o contribuinte recebe uma receita financeira, a título de crédito do imposto, que irá integrar seu resultado não operacional. Fl. 607DF CARF MF 24 72. De efeito, sendo o caso de restituição do ICMS decorrente da concessão de créditos presumidos, não há de se falar em redução do custo do produto vendido ou de aumento da receita liquida da venda. 73. E se isso não bastasse, a legislação do preço de transferência, já exaustiva e repetidamente mencionada neste voto, em nenhum ponto dá tratamento a crédito presumido de ICMS, igualandoa às figuras dos descontos concedidos, abatimentos, ou dos tributos incidentes sobre venda. Não cabe este órgão julgador se arvorar a criar exclusões ou deduções não expressamente previstas nas normas. 74. Em suma, rejeito igualmente essa pretensão lançada na peça impugnatória.”. Equívocos no cômputo do estoque no ano de 2008 A Recorrente afirma que a fiscalização "deveria excluir do cálculo do preço de transferência do ano de 2009 a quantidade de bens relativos ao estoque final de 2008, para saber exatamente o valor de ajuste para o ano de 2009." A decisão de primeiro grau, por sua vez, afirma que o fisco considerou, corretamente, os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração, como determina o artigo 12, §3º, da IN SRF nº 243/2002 (na determinação da média ponderada dos preços, serão computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração). De fato, conforme se verifica do TVF e planilhas suporte (fls. 78 e seguintes e 338/353), a autoridade fiscal considerou, na apuração do preço parâmetro do PLR do ano calendário de 2009, a existência do estoque final de 31/12/2008, que corresponde ao estoque inicial do ano base de 2009. Ora, como a quantidade de produtos revendidos afeta diretamente o controle de preços de transferência, é até de certo modo lógico a consideração do estoque inicial para fins de definição dos preços praticados. Logo, tem razão a decisão de piso ao ratificar que, na determinação da média ponderada do preço praticado, devem ser computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. Da multa isolada A aplicação da multa isolada sobre estimativa não recolhida, ainda que em dezembro, tem base legal (art. 44, II, da Lei 9.430/96). O cerne da questão diz respeito à legitimidade ou não de cobrança cumulativa de multa isolada e multa de ofício. Tratase, na verdade, de discussão não recente, mas que ainda gera debates. Com a aprovação da Súmula CARF nº 105, restou sedimentado que: “a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa Fl. 608DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 597 25 de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” Na prática, essa Súmula aplicase indubitavelmente para os fatos compreendidos até 31/12/2006. Dizemos indubitavelmente porque há corrente doutrinária e jurisprudencial que sustenta que, após a nova redação dada pela Lei nº 11.488/2007 ao art. 44 da Lei nº 9.430/96 (que passou a produzir efeitos a partir de 2007), não haveria mais espaço para interpretação diversa daquela que afirma a possibilidade da exigência de multa isolada, mesmo nos casos em que houver sido imposta a multa de ofício pela falta de pagamento anual do IRPJ e da CSLL. Vejamos, então, o que dispõe o art. 44 da Lei 9.430/96, com a redação dada pela Lei nº 11.488/2007: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.” Da leitura desses dispositivos, verificase que a multa do inciso I é aplicável nos casos de totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. A multa prevista no inciso II, porém, é passível de exigência sobre o valor do pagamento mensal de estimativa que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física e ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Fl. 609DF CARF MF 26 Adotando uma interpretação sistemática, me parece que o mais razoável é não admitir a cumulação das multas, devendo a infração prevista no inciso II ser absorvida quando o caso concreto também se enquadrar na hipótese de multa mais onerosa (inciso I). Com efeito, aplicar a multa de ofício de 75% sobre o valor apurado de IRPJ, juntamente com o principal, e, ao mesmo tempo, pretender exigir a multa de 50% sobre o IRPJ não antecipado no mesmo período de apuração, representa uma violação à razoabilidade e proporcionalidade. Vale dizer, a cobrança de multa de ofício de 75% sobre o tributo não pago supre a exigência da multa isolada de 50% sobre eventual estimativa (antecipação do tributo devido) não recolhida. Admitir o contrário permite que duas penalidades incidam sobre uma mesma base de cálculo (bis in idem), o que é vedado no sistema jurídico. Ao analisar essa matéria, destacase a seguinte passagem do voto condutor proferido pelo Sr. Ministro Humberto Martins, da 2ª Turma do STJ (Resp 1.496.354PR. Dje 24/03/2015): “Sistematicamente, notase que a multa do inciso II do referido artigo somente poderá ser aplicada quando não possível a multa do inciso I. Destacase que o inadimplemento das antecipações mensais do imposto de renda não implicam, por si só, a ilação de que haverá tributo devido. Os recolhimentos mensais , ainda que configurem obrigações a pagar, não representam, no sentido técnico, o tributo em si. Este apenas será apurado ao final do ano calendário, quando ocorrer o fato gerador. As hipóteses do inciso II, “a” e “b”, em regra, não trazem novas hipóteses de cabimento de multa. A melhor exegese revela que não são multas distintas, mas apenas formas distintas de aplicação da multa do art. 44, em consequência de, nos casos ali decritos, não haver nada a ser cobrado a título de obrigação tributária principal. As chamadas “multas isoladas”, portanto, apenas servem aos casos em que não possam ser exigidas juntamente com o tributo devido (inciso I), na medida em que são elas apenas formas de exigência das multas descritas no caput. Esse entendimento é corolário da lógica do sistema normativo tributário que pretende prevenir e sancionar o descumprimento de obrigações tributárias. De fato, a infração que se pretende repreender com a exigência isolada da multa (ausência de recolhimento mensal do IRPJ e CSLL por estimativa) é completamente abrangida por eventual infração que acarrete, ao final do ano calendário, o recolhimento a menor dos tributos, e que dê azo, assim, à cobrança da multa de forma conjunta.” Em decisão mais recente, a C. 2ª Turma do STJ ratificou seu posicionamento, conforme atesta a ementa do seguinte julgado: “TRIBUTÁRIO. [...]. CUMULAÇÃO DE MULTA DE OFÍCIO E ISOLADA. IMPOSSIBILIDADE. [...] Fl. 610DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 598 27 2. Nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos casos de declaração inexata, seria cabível a multa de ofício ou no percentual de 75% (inciso I), ou aumentada de metade (parágrafo 2º), não se cogitando da sua cumulação.” (Resp 1.567.289RS. Dje 27/05/2016). Sobre o tema, precisas as colocações do Conselheiro Marcos Takata em voto proferido no Acórdão nº 1103001097 (DOU28/11/2014): “É de cartesiana nitidez, para mim, que a aplicação da multa de ofício de 75% sobre o valor não pago do IRPJ e da CSL efetivamente devidos, cobráveis juntamente com esses, exclui a aplicação da multa de ofício de 50% (multa isolada) sobre o valor não pago do IRPJ e da CSL mensal por estimativa, do mesmo anocalendário. Isso, seja por interpretação lógica dos preceitos citados (aliás, para além disso, podese dizer que é corolário lógico), seja por interpretação finalística do aet. 44, I e II, da Lei n167 9.430/96. Apenando o continente, desnecessário e incabível apenar o conteúdo. Se já se penaliza o todo, não há sentido em se penalizar também a parte do todo. Noutros termos, é a aplicação do princípio da consunção em matéria penal. Como penalizar pelo todo e ao mesmo tempo pela parte do todo? Isso seria uma contradição de termos lógicos e axiológicos – e mesmo finalísticos (teleológicos).” (fls. 1.369). Por todo o exposto, afasto a aplicação da multa isolada. Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso e, no mérito, DARLHE PARCIAL PROVIMENTO, a fim de cancelar as exigências de IRPJ e CSLL decorrentes (i) da aplicação da fórmula do PRL60 prevista na IN SRF nº 243/2002 e (ii) da inclusão dos valores de frete, seguro e impostos (custo CIF + II) nos preços considerados pela autoridade fiscal responsável pelo lançamento, bem como (iii) cancelar a multa isolada. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Voto Vencedor Conselheiro José Carlos de Assis Guimarães, Redator Designado. Apesar da bem fundamentada exposição do ilustre relator, peço vênia para dele divergir quanto à ilegalidade da IN/SRF nº 243/2002 para efeito de ajustes de preços de transferência pelo método PRL60, da impossibilidade de inclusão do Imposto de Importação Fl. 611DF CARF MF 28 — II, do frete e do seguro na base de cálculo do custo do produto importado e do cancelamento da multa isolada. Da Inclusão dos Valores de Frete, Seguro e Tributos sobre a Importação: Ao auditar os cálculos dos preços de transferência segundo o método PRL, a autoridade verificou que a contribuinte deixara de agregar ao preço de aquisição (FOB) de cada produto importado os valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Por entender que tal conduta violou o disposto no art. 4º, § 4º, da Instrução Normativa SRF nº 243/2002, promoveu a inclusão daqueles valores no cálculo do preço praticado. Em sua defesa, a recorrente alega que na aplicação do método do PRL 60 não integra o custo de aquisição o valor do imposto de importação, pois ele não faz parte do custo da mercadoria constante na DI. Assevera a contribuinte que o §6º do artigo 18 da Lei nº 9.430/96 só poderia ser aplicado com o frete, seguro e tributo que estão vinculados à operação com pessoa interdependente. Pois bem, sobre o assunto o art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96 assim prescreve: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) § 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. (...) Fl. 612DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 599 29 O art. 18, caput, estabelece que o custo sujeito a ajuste em razão da regra de preços de transferência é o preço de aquisição do produto importado junto à pessoa vinculada residente no exterior. Por sua vez, o parágrafo 6º da norma estabelece que o preço praticado é o preço de aquisição do produto acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Isso posto, ao contrário do alegado pela recorrente, o art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96 expressamente estabelece que no preço praticado incluemse os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Argumenta a recorrente, também, que há um terceiro argumento para a exclusão dessas três verbas.baseado na interpretação conferida pela Instrução Normativa nº 243/2002, que regulamentou a Lei nº 9.430/96. Segundo o sujeito passivo, o § 6º do artigo 18 da Lei 9.430/96 não tem o condão de permitir a inclusão do II no custo de aquisição, frete e seguro, pois é norma de apuração do preço parâmetro. A IN nº 243/2002 exige a inclusão do frete, seguro e tributos na importação apenas no cálculo do preço parâmetro (§4º do artigo 4º) e não no cálculo do custo de aquisição. Por concordar com seus fundamentos, trago a colação o trecho do voto condutor proferido no Acórdão nº 1201001.161 2ª Câmara/1ª Turma Ordinária, na sessão de 05 de março de 2015, do Conselheiro Marcelo Cuba Netto, verbis: Quanto a essa alegação há que se dizer, em primeiro lugar, que a recorrente não logrou êxito em demonstrar adequadamente o papel que, em sua interpretação, desempenha o parágrafo 6º da norma o qual, como dito antes, expressamente estabelece que no preço praticado incluemse os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Dito de outro modo, a “interpretação” do art. 18 defendida pela recorrente, a meu ver, não se sustenta como interpretação propriamente dita, nos exatos termos em que esse vocábulo é compreendido no âmbito da Ciência do Direito. Mas digamos que, de fato, também seja possível interpretarse o art. 18 da Lei nº 9.430/96 do modo sustentado pela recorrente, ou seja, no sentido de que os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação não integram o preço praticado. Nesse hipótese teríamos, então, duas interpretações possíveis da mesma norma e, em sendo assim, haveríamos de verificar qual das duas é a interpretação “correta”. E será considerada “correta” aquela que melhor atender aos métodos de hermenêutica jurídica acolhidas pelo Direito. Passemos então a examinar as duas interpretações quanto à sua correção. No que concerne à interpretação proposta pela recorrente, percebese ser ela fruto de um componente finalístico, qual seja, que as normas de preço de transferência têm como finalidade regular operações realizadas entre pessoas residentes no país e pessoas a ela ligadas, residentes no exterior. Em assim sendo, não seria finalidade da norma regular operações de frete, seguro Fl. 613DF CARF MF 30 e tributos incidentes sobre a importação pois, via de regra, não são elas realizadas entre pessoas vinculadas. Ocorre que, ao contrário do afirmado pela defesa, a inclusão dos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação no cálculo do preço praticado não significa que tais operações estejam sendo submetidas às regras de preços de transferência. Mais especificamente, apesar de tais valores integrarem o preço praticado, não são eles objeto de adição ao lucro real. Não é demais lembrar que tanto o preço de aquisição do produto importado, quanto valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação, são custos integralmente dedutíveis na apuração do lucro líquido do período. A adição ao lucro real, a título de preços de transferência, limitarseá à diferença positiva verificada entre o preço praticado e o preço parâmetro. Como se verá adiante, os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação entram no cálculo do preço praticado apenas para fins de possibilitar sua comparação com o preço parâmetro calculado segundo o método PRL, pois neste também estão incluídos os mesmos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Isso posto, a interpretação proposta pela contribuinte não se sustenta pois a inclusão dos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação no cálculo do preço praticado de modo algum significa que tais operações estejam sendo submetidas a controle por preços de transferência. Por outro lado, a interpretação do art. 18 da Lei nº 9.430/96, albergada pelo art. 4º, § 4º, da Instrução Normativa SRF nº 243/2002, e empregada pela autoridade fiscal no caso sob exame, também é fundada em um componente finalístico, qual seja, possibilitar a comparação entre preço praticado e preço parâmetro, conforme já adiantado acima. A questão da comparabilidade entre o preço praticado na importação de produtos junto a pessoas vinculadas, e aquele que seria praticado em operações entre pessoas não vinculadas, está no cerne do princípio do arm’s lenght. Tanto é assim que o OECD Transfer Pricing Guidelines dedica todo o seu capítulo III ao exame desta matéria. De fato, o objetivo da comparação entre o valor de uma transação realizada entre pessoas vinculadas, e o valor da mesma transação realizada entre pessoas não vinculadas, é a identificação do quanto a vinculação afetou o valor da transação sob exame. Tendo sido inspirado no princípio do arm’s lenght, o art. 18 da Lei nº 9.430/96 não poderia ser corretamente interpretado acaso não fosse dada a devida importância à questão da comparabilidade entre o preço praticado e o preçoparâmetro. No caso do método PRL o preçoparâmetro inclui os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Tomemos, por exemplo, o método PRL aplicado à simples revenda de produtos importados junto a pessoas vinculadas (PRL20). As Fl. 614DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 600 31 conclusões a seguir, entretanto, valem igualmente para o caso de o bem importado ser empregado na industrialização de outro produto (PRL60). Pois bem, o pressuposto para o emprego do PRL20 é que o produto seja revendido a uma pessoa não vinculada, em condições de livre mercado. Em transações entre pessoas não vinculadas e em condições de livre mercado, é lícito pressupor que o revendedor (no caso, a contribuinte) procurará obter uma remuneração por sua atividade, ou seja, procurará obter lucro. O PRL20 estipula que a margem bruta de lucro em tais condições é de 20% o que, em verdade, é uma taxa bastante baixa pois implica uma margem de lucro líquido para o empresário bem inferior a 20%, haja vista a necessidade de dedução de despesas administrativas, despesas com vendas etc. A partir, então, do preço de revenda do produto, deduzido da margem bruta de lucro de 20% prevista em lei, chegase ao custo estimado de aquisição produto numa operação entre pessoas não vinculadas, ou simplesmente preçoparâmetro PRL20. Notese que, assim calculado, esse custo (o preço parâmetro PRL20) inclui não só o preço estimado de aquisição do produto (FOB), como também os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação deste produto. Resumindo, preçoparâmetro PRL20 é um preço CIF + Trib. s/imp. Isso posto, a comparação direta entre o preço de aquisição do produto junto à pessoa vinculada (preço da declaração de importação FOB) e o preçoparâmetro PRL20 (CIF + Trib. s/imp), como quer a recorrente, seria de todo inútil ao fim a que se destina a lei de preços de transferência, qual seja, verificar, mediante comparação entre aqueles preços, se a contribuinte está, ou não, reduzindo artificialmente o lucro apurado no Brasil por meio de aquisições de produtos junto a sua vinculada no exterior a preços superiores aos de mercado. Nesse sentido, para corretamente compararse o preço de aquisição com o preçoparâmetro PRL20, é necessário que ambos estejam em pé de igualdade. Para tanto, apenas para efeito dessa comparação, é necessário, adicionarse ao preço de aquisição (preço da declaração de importação FOB), os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Fazendo isso obteremos o preço praticado de que cuida o parágrafo 6º do art. 18 da Lei nº 9.430/96. O importante é ter em conta que, como dito antes, os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação não foram glosados pela autoridade. O que o auditor fez foi adicionar ao lucro líquido, para apuração do lucro real, a parcela do preço de aquisição do produto excedente ao preço que o produto seria adquirido em condições de mercado. Os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação integraram tanto o preço praticado como o preço parâmetro, com vistas a possibilitar a comparação entre ambos. Fl. 615DF CARF MF 32 Poderiam, ainda, não compor nem o preço praticado nem o preçoparâmetro, tal como recomendado pelo OECD Transfer Pricing Guidelines, que o resultado da adição ao lucro real seria o mesmo. O que não se admite, nem sob o ponto de vista jurídico, nem sob o ponto de vista lógico, é realizarse uma comparação entre preço praticado e preçoparâmetro em que os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação estejam incluídos neste, mas não naquele, ou viceversa. Ou bem são incluídos em ambos (como prevê o art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96), ou bem não são incluídos em nenhum dos dois (como sugerido no OECD Transfer Pricing Guidelines). Portanto, com fulcro no § 6º, art. 18, da Lei nº 9.430/96, o preço praticado é o preço de aquisição da mercadoria (FOB), acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Da ilegalidade do método de cálculo do PRL 60 previsto na IN RFB n° 243/2002 Aduz que a Instrução Normativa RFB n° 243/2002 é ilegal, uma vez que a Lei n° 9.959/00 determina que os 60% da margem de lucro incidam sobre o valor integral do preço líquido de venda do produto diminuído do valor agregado no país; Nesse sentido, a alteração promovida pela IN RFB n° 243/02, trazendo um novo método de cálculo do PRL 60, promoveu um rompimento da regra matriz da lei, extrapolando seus limites. Em vista de tal ilegalidade, os lançamentos devem ser cancelados; Quanto à ilegalidade do ato normativo que teria extrapolado o poder regulamentar face ao art. 18 da Lei nº 9.430/96, faço minhas as razões expostas pelo relator no voto condutor proferido no Acórdão nº 1201001.161, citado anteriormente, verbis: (...) 2.2.2) O PRL60 e a Lei nº 9.430/96 Antes mesmo de examinarmos a alegada ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 frente à Lei nº 9.430/96, questão essa que será objeto do item seguinte deste voto, é imprescindível identificarmos o que realmente estabelece a própria Lei nº 9.430/96 acerca do PRL60. Isso porque é impossível identificarmos a existência, ou não, de violação de uma lei por um ato normativo se sequer sabemos exatamente o que a lei prescreve. Partamos, então, do texto legal: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) Fl. 616DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 601 33 II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) Argumento Linguístico Para melhor compreendermos, sob o ponto de vista meramente linguístico, o art. 18 da Lei nº 9.430/96, é necessário recordarmos que, em sua redação original, essa norma não albergava o PRL60, mas tãosomente os métodos de cálculo do preçoparâmetro PIC (inciso I), PRL com margem de 20% (inciso II) e CPL (inciso III), senão vejamos: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda; Fl. 617DF CARF MF 34 III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescido dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. (...) O cálculo do preçoparâmetro PRL com margem de 60% só passou a ter existência jurídica a partir do advento da Lei nº 9.959/2000, que deu nova redação ao art. 18 da Lei nº 9.430/96. (...) Ocorre que uma leitura atenta do texto legal revela que o valor agregado no país não compõe a margem de lucro (...). Os trechos da norma abaixo negritados deixam clara essa afirmação: II Método do Preço de Revenda menos LucroPRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) De fato, se o valor agregado compusesse a margem de lucro, a expressão “valor agregado no País” contida no texto legal deveria estar precedida do artigo “o”, como abaixo simulado, e não da preposição “do”, como visto acima. II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e o valor Fl. 618DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 602 35 agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) Argumento LógicoEconômico Se sob a ótica linguística o equívoco da interpretação defendida pela contribuinte só pode ser constatado através de uma leitura mais atenta do texto legal, sob o ponto de vista lógico essa mesma interpretação revelase manifestamente equivocada. Veja que o art. 18 da Lei nº 9.430/96 estabelece as regras para apuração do preçoparâmetro, o qual é conceituado como o preço que seria praticado na importação de um determinado bem, acaso essa operação fosse realizada entre pessoas não vinculadas. No caso do PRL60, o preçoparâmetro do bem importado é apurado a partir do preço de venda de um determinado bem produzido no Brasil, bem esse em cujo processo produtivo foi empregado o referido bem importado, adquirido de uma pessoa vinculada no exterior. Em outras palavras, no preço de venda do bem produzido no país logicamente está incluído o custo de aquisição do bem importado (CIF + Trib. s/imp.), o valor agregado no país e a margem de lucro do empresário (Preço de Venda = Custo do Prod. Imp. + Valor Agreg. + Margem de Lucro). É uma lógica econômica do modelo capitalista que, na formação do preço de venda de um produto qualquer, o empresário embuta ali todos os custos incorridos, mais uma margem de lucro. Isso posto, é lógico que, para apurarse o preçoparâmetro do bem importado pelo PRL60, é necessário que, do preço de venda do bem produzido sejam subtraídas as parcelas referentes ao valor agregado no país e à margem de lucro, (...) Isso posto, seja com base no argumento linguístico, seja com fundamento no argumento lógicoeconômico, a correta interpretação do cálculo preçoparâmetro PRL60 previsto na Lei nº 9.430/96 é aquela aqui sustentada, (...). 2.2.3) Da Alegação de Ilegalidade da IN SRF 243/2002 Como dito anteriormente, a partir do advento da Instrução Normativa SRF nº 243/2002 o Fisco abandonou a interpretação que até então vinha emprestando ao art. 18 da Lei nº 9.430/96, no que toca ao cálculo do preçoparâmetro PRL60, passando a adotar uma nova interpretação. Alega a recorrente que essa nova interpretação é incompatível com os ditames art. 18 da Lei nº 9.430/96, devendo, portanto, ser afastada por este Conselho. Vejamos, então, o que prescreve o art. 12 da IN SRF 243/2002. Fl. 619DF CARF MF 36 Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. (...) § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de Fl. 620DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 603 37 lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. (..) Isso posto, em primeiro lugar cabe destacar que o cálculo do preçoparâmetro PRL60, conforme estabelecido na IN SRF 243/2002, resulta em adições ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real, sempre iguais ou inferiores àquelas exigidas pelo art. 18 da Lei nº 9.430/96, (...) Em segundo lugar é necessário recordar que o princípio da legalidade tributária contido no art. 150, I, da Constituição, abaixo transcrito, veda a exigência ou o aumento de tributo sem lei que o estabeleça, mas não veda a redução de tributo já instituído por lei. Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; (...) E esse é exatamente o caso em questão, pois, como a aplicação do PRL60, conforme estabelecido pela IN SRF 243/2002, resulta em exigência de IRPJ e CSLL sempre igual ou inferior àquela decorrente da correta interpretação do art. 18 da Lei nº 9.430/96, não há que se falar em aumento de tributo, daí porque também não há violação ao princípio da legalidade. Ainda em relação ao cálculo do preçoparâmetro PRL60 previsto na da IN SRF 243/2002, traz a defesa um segundo argumento para afirmar sua ilegalidade. Diz a recorrente que a Medida Provisória nº 478/2009 pretendeu incluir no corpo da Lei nº 9.430/96 a sistemática de cálculo do PRL60 prevista na IN SRF 243/2002. Explica que, como não se pode presumir que o legislador tenha criado norma jurídica desprovida de qualquer utilidade, está claro que seu intento foi o de criar uma disciplina jurídica nova para o PRL60, a qual por certo somente se aplicaria a fatos posteriores à sua publicação, observado ainda o princípio constitucional da anterioridade. Conclui, assim, que o cálculo do PRL60 previsto na IN 243 não encontrava amparo na Lei nº 9.430/96, e ademais continua sem amparo legal haja vista que a MP 478 não foi convertida em lei. A meu ver, também aqui não assiste razão à defesa. Conforme se observa em sua exposição de motivos, a MP 478 em momento algum considera ilegal o cálculo do preçoparâmetro PRL60 previsto na da IN SRF 243. O que está dito expressamente na exposição de motivos é que a razão de estabelecese, em lei, o cálculo até então previsto na IN SRF 243, é a redução da litigiosidade. Fl. 621DF CARF MF 38 Assim, não afronta a idéia de legalidade tributária a instrução normativa expedida pela SRF que porventura exija tributo em montante inferior àquele previsto em lei. Da Aplicação concomitante da Multa Isolada e da Multa de Ofício No que tange à aplicação concomitante da multa isolada e da multa de ofício, para fatos geradores posteriores a 2007, reproduzo excerto do voto do Conselheiro Roberto Caparroz de Almeida no Acórdão nº 1201001.489, na sessão de 13 de setembro de 2016, que espelha com fidelidade o pensamento da maioria dos Conselheiros desta Turma: Esta Turma tem decidido, a exemplo de outros colegiados do CARF, no sentido de que a multa isolada, na anterior redação do artigo 44 da Lei n. 9.430/96, deve ser afastada em observância ao princípio da consunção. Como se sabe, o princípio da consunção (também denominado princípio da absorção) aplicase quando há uma sucessão de condutas tipificadas que, em razão de um nexo de dependência intrínseco, permite que a infração mais grave absorva aquelas de menor intensidade, em razão do brocardo "lex consumens derogat lex consumptae", o que equivale a dizer que o crimefim absorve o crimemeio. Essa teoria encontra suas raízes na famosa "double jeopardy clause", preceito fixado pela 5ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que determina que ninguém poderá ser por duas vezes ameaçado em sua vida ou saúde pelo mesmo crime, o que se constitui, há tempos, na aplicação da clássica regra que veda a dupla punição em razão do mesmo fato, tal como garantida pelo princípio ne bis in idem, conforme a inteligência da Súmula 105 deste Conselho: Súmula CARF nº 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Contudo, o papel precípuo do julgador é o de analisar o conjunto normativo vigente e aplicável ao tempo dos fatos. Assim, na hipótese dos autos, convém destacar que houve alteração no comando original do artigo 44, oriunda da redação que lhe foi dada pela Lei n. 11.488/2007, fruto da conversão da Medida Provisória n. 351/2007. Penso que a alteração buscou afastar a dubiedade e a imprecisão do comando anterior, circunstâncias que levaram à elaboração da Súmula 105 deste Conselho, que conferiu, à luz do artigo 112, I, do CTN, interpretação jurídica mais favorável ao contribuinte. Ocorre que a partir da nova redação inexiste dúvida, vale dizer, não se vislumbra mais qualquer impedimento jurídico para a aplicação concomitante das multas previstas nos incisos I e II, "b", do artigo 44: Fl. 622DF CARF MF Processo nº 10980.720718/201497 Acórdão n.º 1201001.652 S1C2T1 Fl. 604 39 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Como no caso dos autos as multas isoladas se referem à falta de pagamento de estimativas mensais posteriores à vigência da nova redação do artigo 44, posto que relativas ao ano calendário de 2010, entendo como jurídica e obrigatória a aplicação concomitante das infrações nele previstas, vez que as multas são completamente distintas e autônomas. Assim, como no caso destes autos, as multas isoladas também se referem à falta de pagamentos de estimativas mensais posteriores à vigência da nova redação do artigo 44, posto que relativas ao anocalendário de 2009, claro está a legalidade da aplicação concomitante das multas. Conclusão: De todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Carlos de Assis Guimarães Fl. 623DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.902761/2010-35
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Exercício: 1999
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO.
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Aplicação da Súmula CARF nº 91.
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PROVA DO DIREITO ALEGADO. ÔNUS DA PROVA.
O ônus da prova recai sobre quem alega o direito. No caso concreto, não restou comprovada, nos autos, a identidade entre a pessoa jurídica interessada no processo administrativo e aquela que figurava como litisconsorte no processo judicial, nem a existência de eventos societários que permitissem considerar a primeira como sucessora da segunda em direitos e obrigações.
Numero da decisão: 1301-002.324
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
[assinado digitalmente]
Waldir Veiga Rocha Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha.
Nome do relator: WALDIR VEIGA ROCHA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Exercício: 1999 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO. Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Aplicação da Súmula CARF nº 91. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PROVA DO DIREITO ALEGADO. ÔNUS DA PROVA. O ônus da prova recai sobre quem alega o direito. No caso concreto, não restou comprovada, nos autos, a identidade entre a pessoa jurídica interessada no processo administrativo e aquela que figurava como litisconsorte no processo judicial, nem a existência de eventos societários que permitissem considerar a primeira como sucessora da segunda em direitos e obrigações. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. [assinado digitalmente] Waldir Veiga Rocha – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 90 27 61 /2 01 0- 35 Fl. 230DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 3 2 BANCO VOLKSWAGEN S.A., já devidamente qualificada nestes autos, recorre a este Conselho contra a decisão prolatada pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo I / SP, que indeferiu os pedidos veiculados através de manifestação de inconformidade apresentada contra a decisão da DEINF/SP. Trata a lide de Pedido de Restituição (PER/DCOMP), no qual o alegado direito creditório é decorrente de pagamento indevido ou a maior da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Posteriormente, o contribuinte usou esse alegado direito creditório para a compensação com débito de sua titularidade, mediante a Declaração Eletrônica de Compensação (PER/DCOMP), transmitida em 2008. Consta dos autos intimação, informando ao contribuinte que o DARF por ele especificado não teria sido localizado nos sistemas da RFB e instandoo à regularização. Não consta do processo qualquer resposta ou providência do contribuinte. A unidade administrativa que primeiro analisou os pedidos formulados pela empresa (DEINF/SP) negou homologação à compensação. O motivo foi a não localização do DARF nos sistemas da RFB, mesmo após a intimação acima referida. Em sua manifestação de inconformidade contra o Despacho Decisório, a interessada, inicialmente, junta comprovante de arrecadação obtido no sítio eletrônico da Receita Federal. Na sequência, esclarece: Esse recolhimento foi indevidamente efetuado pelo Recorrente, uma vez que ele dispunha de decisão judicial definitiva, proferida nos autos do Mandado de Segurança n° 89.00112058, que o exonerava do recolhimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, no período de 1988 a 09/1997 (data do trânsito em julgado da decisão judicial). Nem se alegue que o pagamento foi efetuado após o trânsito em julgado da decisão judicial exoneratória e com os benefícios previstos na Lei n° 9779/99, tendo em vista que, além desses fatos não servirem de fundamento para a negativa do pedido de restituição, o recolhimento se deu porque a própria Secretaria da Receita Federal, mesmo em face da decisão judicial favorável ao Recorrente, insistia na cobrança de tais valores, ao argumento de que os efeitos da decisão judicial alcançavam apenas a CSLL relativa ao exercício de 1989. Apenas com a decisão do 1º Conselho de Contribuintes (acórdão n° 101 93.610), proferida em 19/09/01, com acórdão formalizado em 11/12/01, que reconheceu expressamente o direito de um dos litisconsortes do ora Recorrente, no Mandado de Segurança n° 89.00112058, de não recolher a CSLL, no período de 1990 a 1997, ou seja, desde a propositura da medida judicial até o trânsito em julgado da decisão favorável, o que se deu em 02/09/97, é que o Recorrente obteve a comprovação de que também estava desobrigado do recolhimento da CSLL nesse período e que, portanto, tinha direito de reaver os montantes indevidamente recolhidos: "Ementa: IRPJ Normas Gerais. Lançamento Tributário. Sentença Judicial. Trânsito em Julgado. Efeitos. A sentença judicial reconhecendo a inconstitucionalidade dos artigos 1º, 2º, 3º e 8º, da Lei n° 7689, de 1988, e, de consequência, desobrigando a pessoa jurídica do recolhimento da CSLL, irradia seus efeitos jurídicos até o período no qual tenha ocorrido seu trânsito em julgado. Fl. 231DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 4 3 Recurso conhecido e provido. Trecho do Voto do Conselheiro Sebastião Rodrigues Cabral — Relator: Nesta linha de raciocínio, e considerando que no presente caso: i) A sentença judicial que acolheu a pretensão da Recorrente, no sentido de desobrigála do recolhimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido instituída pela Lei n° 7689, de 1988, transitou em julgado em 02 de setembro de 1997, tal qual atestado na Certidão fornecida pela 10ª Vara Federal, anexa aos autos às fls.; ii) O Mandado de Segurança interposto pela Recorrente, em 1989, objetivou a dispensa do recolhimento da referida Contribuição sob alegação de inconstitucionalidade da lei que a instituiu (n° 7689, de 1988), o que foi integralmente reconhecido pela referida sentença transitada em julgado; iii) O auto de infração guerreado no presente processo pretende exigir da Recorrente a Contribuição Social relativa aos períodosbase de 1990 a 1994, portanto, anteriores ao trânsito em julgado da sentença judicial; só nos resta concluir que referidos períodos estão albergados pela 'coisa julgada', sendo defeso ao Fisco exigir a Contribuição em causa relativamente àqueles períodosbase." Assim, deve ser prontamente revisto o despachodecisório, ora recorrido, ante a comprovação do recolhimento indevido, a ensejar o direito à restituição, nos termos do artigo 165, I, do Código Tributário Nacional. A 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo I / SP analisou a manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte e indeferiu a solicitação. Ciente da decisão de primeira instância e com ela inconformada, a interessada apresentou recurso voluntário, mediante o qual oferece, em apertada síntese, os seguintes argumentos: Acerca do prazo para pleitear o indébito, a recorrente se reporta ao Pedido Eletrônico de Restituição, ao Pedido de Restituição protocolado na Deinf e sustenta que estaria plenamente respeitado, no caso, o prazo prescricional de cinco anos, previsto no art. 168, I, do CTN. A recorrente afirma ter anexado aos autos cópia do Mandado de Segurança nº 89.00112058, em que foi proferida a decisão transitada em julgado que a exonerava do recolhimento da CSLL de 1988 até 09/1997 (data do trânsito em julgado). Da mesma forma, anexa documentos que comprovam ser a recorrente a sucessora de Autolatina Financiadora S/A, que foi parte no processo judicial. A interessada reitera, ainda, os argumentos trazidos na Manifestação de Inconformidade, acerca da decisão proferida pelo 1º Conselho de Contribuintes em 2001. Conclui com o pedido de provimento de seu recurso e homologação da compensação declarada. É o Relatório. Voto Fl. 232DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 5 4 Conselheiro Waldir Veiga Rocha, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 1301002.287, de 12/04/2017, proferido no julgamento do processo 16327.900370/201248, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 1301002.287): O recurso voluntário e tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. Gira a lide em torno de pedido de restituição, posteriormente cumulado com declaração de compensação. No atual estágio da discussão administrativa, o alegado direito creditório não foi reconhecido por dois fundamentos autônomos, ou seja, cada um deles é suficiente, por si só, para o não reconhecimento do direito creditório. O primeiro fundamento adotado pelo julgador de primeira instância, de caráter preliminar, foi o transcurso do prazo para pleitear o indébito. Alega a recorrente que deveria ter sido considerado o período transcorrido entre a data do recolhimento, em 1999, e a data do protocolo do pedido de restituição, em 2004. Com isso, restaria atendido o prazo de cinco anos de que trata o art. 168, I, do CTN. Examinando a decisão recorrida, constatase que, efetivamente, houve um equívoco do julgador ao não considerar o pedido de restituição originalmente formulado em 2004. Isso fica evidenciado na afirmação de que “... observase que somente em 2008 veio pleitear compensação do referido crédito, ou seja, cerca de sete anos após ‘obter a comprovação’, e nove após a extinção do débito, pelo pagamento”. Ora, a declaração de compensação é datada de 2008, mas reportase ao anterior pedido de restituição, e é esse pedido que deve ser considerado, para fins da contagem do prazo para a repetição de indébito. No entanto, como se verá a seguir, a correção desse equívoco não trará modificação na conclusão. Esse prazo, se de cinco ou dez anos, bem assim a determinação dos termos inicial e final para a contagem, já foram objeto de acirrados debates, tanto no âmbito administrativo quanto no judicial. A inovação legislativa (arts. 3º e 4º da Lei Complementar nº 118/2005) tentou pacificar a questão, mas somente aumentou as divergências, tanto doutrinárias quanto jurisprudenciais. Finalmente, a questão foi pacificada pelo Poder Judiciário. De especial interesse, o Recurso Especial nº 1.002.932, de 25/11/2009, prolatado pelo STJ no regime do art. 543C do CPC então vigente, e o Recurso Extraordinário nº 566.321, de 04/08/2011, proferido pelo STF no regime do art. 543B do mesmo diploma legal. A reiterada aplicação administrativa dessas decisões conduziu à aprovação, em 09/12/2013, pelo Pleno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, da súmula CARF nº 91, a seguir reproduzida. Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Fl. 233DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 6 5 As súmulas CARF são de observância obrigatória pelos membros deste órgão administrativo, a teor do art. 72 do Anexo II do Regimento Interno, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 e alterações supervenientes. No caso concreto, o pedido de restituição foi protocolado em 2004, antes da data limite prevista na súmula, aplicandose, portanto, o prazo prescricional de dez anos. O termo inicial da contagem é, também nos termos da súmula, a data do fato gerador. O fato gerador foi fixado pela própria interessada no pedido de restituição. Desta forma, para fatos geradores completados anteriormente a 12/02/1994 o prazo prescricional já se encontrava encerrado no momento do pedido de restituição. Observese que a data do recolhimento não é considerada para este fim, muito menos a circunstância alegada pela interessada acerca do julgamento administrativo de um auto de infração no qual o sujeito passivo seria um dos litisconsortes na ação judicial. Não se vislumbra qual a relação entre aquele julgamento administrativo e o prazo para a formulação do pedido de restituição aqui discutido. A constatação que se impõe é de que o decurso do prazo prescricional impede que seja atendido o pleito da interessada, independentemente de quaisquer considerações de mérito, negandose provimento ao recurso voluntário. O segundo fundamento adotado pelo julgador de primeira instância para o indeferimento do pleito foi a falta de comprovação do direito. O seguinte excerto do voto condutor do acórdão recorrido é elucidativo: Observese que a empresa não trouxe a petição inicial e nenhuma peça do processo judicial que afirma amparala, de forma a se poder verificar a correção de sua alegação central de mérito, o que, como demonstrado acima, seria ônus da empresa. E, em consulta ao sítio do TRF da 3ª Região, utilizandose do número de processo judicial fornecido pela Interessada, na opção “Consulta Processual – Visualizar Processo” a empresa não aparece como parte, mas sim as seguintes empresas: Consórcio Nacional Ford Ltda., Autolatina S/A, Autolatina Financiadora S/A Crédito Financiamento e Investimentos e Ford Brasil S/A. Junto com o recurso voluntário, a interessada faz acostar aos autos peças do processo judicial, e documentos que, segundo ela, comprovariam ser a recorrente sucessora da Autolatina Financiadora S/A, que foi parte no processo judicial. Compulsando os autos, especialmente as peças processuais do Mandado de Segurança nº 89.112058, constato que a impetrante foi Consórcio Nacional Ford Ltda., e que posteriormente foram admitidos como litisconsortes: (i) Autolatina S/A; (ii) Autolatina Financiadora S/A – Crédito, Financiamento e Investimentos; e (iii) Ford Brasil S/A. Prosseguindo na análise, encontro Ata da AGE de 31/05/1996 de Banco Autolatina S.A., na qual se registra a cisão parcial dessa pessoa jurídica, com a versão de parcela de seu patrimônio para o Banco Ford S/A e a mudança do nome da parcela remanescente da cisão do Banco Autolatina S/A para Banco Volkswagen S/A (a interessada). Na sequência, encontro também o Protocolo da cisão e versão do patrimônio. No entanto, não encontro prova de que Banco Autolatina S/A fosse parte da ação judicial. No documento datado de 17/02/2004, dirigido à DEINF/SP, a interessada se identifica como “BANCO VOLKSWAGEN S/A., atual denominação de BANCO AUTOLATINA S.A., anteriormente denominado AUTOLATINA Fl. 234DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 7 6 FINANCIADORA S.A., ...”. Mas tratase de mera afirmação, da qual não encontro prova documental nos autos. Apesar de saber que esse ponto foi um dos fundamentos adotado pelo julgador de primeira instância para negar seu pedido, a interessada apresentou apenas o documento da cisão parcial de Banco Autolatina S/A e posterior mudança de nome da parcela remanescente para Banco Volkswagen S/A, não se preocupando em rastrear e comprovar os eventos societários desde a litisconsorte na ação judicial (Autolatina Financiadora S/A – Crédito, Financiamento e Investimentos) até a atual pessoa jurídica, nem os direitos que teriam sido transmitidos em cada um desses eventos. Em se tratando de pedido de restituição, é ônus de quem alega o direito creditório comprovar o que alega, especialmente, no caso sob análise, que a pessoa jurídica que efetuou o recolhimento seria a sucessora em todos os direitos e obrigações da pessoa jurídica que foi parte na ação judicial. Ao não se encontrar nos autos essa comprovação, também por esse motivo o recurso voluntário há que ser negado. Os dois fundamentos autônomos anteriormente discutidos já seriam (e são) suficientes para que o recurso voluntário seja desprovido. Penso, entretanto, que uma consideração adicional há de ser feita. É que o pagamento em questão foi feito em 1999, ao amparo do art. 17 da Lei nº 9.779/1999. Confirase seu teor (grifos não constam do original): Art.17.Fica concedido ao contribuinte ou responsável exonerado do pagamento de tributo ou contribuição por decisão judicial proferida, em qualquer grau de jurisdição, com fundamento em inconstitucionalidade de lei, que houver sido declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal, em ação direta de constitucionalidade ou inconstitucionalidade, o prazo até o último dia útil do mês de janeiro de 1999 para o pagamento, isento de multa e juros de mora, da exação alcançada pela decisão declaratória, cujo fato gerador tenha ocorrido posteriormente à data de publicação do pertinente acórdão do Supremo Tribunal Federal.(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) §1oO disposto neste artigo estendese:(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 2158 35, de 2001) Iaos casos em que a declaração de constitucionalidade tenha sido proferida pelo Supremo Tribunal Federal, em recurso extraordinário;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIa contribuinte ou responsável favorecido por decisão judicial definitiva em matéria tributária, proferida sob qualquer fundamento, em qualquer grau de jurisdição;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIIaos processos judiciais ajuizados até 31 de dezembro de 1998, exceto os relativos à execução da Dívida Ativa da União.(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Fl. 235DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 8 7 §2oO pagamento na forma do caput deste artigo aplicase à exação relativa a fato gerador:(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Iocorrido a partir da data da publicação do primeiro Acórdão do Tribunal Pleno do Supremo Tribunal Federal, na hipótese do inciso I do § 1o;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIocorrido a partir da data da publicação da decisão judicial, na hipótese do inciso II do § 1o;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIIalcançado pelo pedido, na hipótese do inciso III do § 1o.(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) §3oO pagamento referido neste artigo:(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Iimporta em confissão irretratável da dívida;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIconstitui confissão extrajudicial, nos termos dos arts. 348, 353 e 354 do Código de Processo Civil;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) [...] Insisto: os pagamentos nesses termos são confissão irretratável da dívida e confissão extrajudicial. Ou seja, ainda que pudessem ser superados os dois fundamentos anteriormente expostos, o pedido de restituição encontraria obstáculo inarredável na disposição expressa da lei acima transcrita. Supondose, como hipótese argumentativa, que a interessada fosse, como afirma, sucessora da litisconsorte na ação judicial, o fato é que espontaneamente decidiu abrir mão do direito conquistado na ação judicial (possivelmente por vêlo ameaçado por reiteradas manifestações do STF no sentido da inconstitucionalidade da CSLL apenas para o primeiro ano de sua vigência) e parcelar o valor da contribuição para os anos subsequentes. A recorrente afirma que somente fez os pagamentos porque a Receita Federal insistia na cobrança, mesmo em face da decisão judicial que havia obtido. Ora, esse era o entendimento administrativo à época, atualmente ainda mais reforçado, tanto pelo sucesso obtido em ações rescisórias diversas propostas perante o Poder Judiciário, quanto por Pareceres da douta PGFN. Se a interessada tivesse plena convicção de seu direito, seu procedimento teria sido o de aguardar o lançamento e discutilo administrativa e judicialmente, nunca o de se antecipar, confessando a dívida de forma irretratável e recolhendo o tributo. A recorrente reclama, ainda, que esse aspecto não teria sido fundamento para a negativa do pedido de restituição, pelo que não poderia, agora, ser abordado. Observese que a DEINF/SP originalmente negou o pedido porque o pagamento (DARF) não foi identificado nos sistemas da RFB. Apesar de intimada, a interessada não se preocupou em trazer aos autos os esclarecimentos que Fl. 236DF CARF MF Processo nº 16327.902761/201035 Acórdão n.º 1301002.324 S1C3T1 Fl. 9 8 permitissem essa correta identificação. Essa questão foi plenamente superada em primeira instância. Somente então foi possível avançar e questionar outros aspectos, a saber, o prazo para pleitear o indébito e a comprovação do direito alegado. Quanto a este último aspecto, o julgador a quo se deteve na falta das peças do processo judicial e na falta de comprovação de que a interessada no processo administrativo fosse também uma das partes do processo judicial. Penso que as considerações aqui tecidas sobre esse ponto nada mais são do que um aprofundamento acerca da análise de mérito do pedido. Seriam, talvez, dispensáveis, como dito anteriormente, mas em nada prejudicam, antes reforçam a conclusão. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. [assinado digitalmente] Waldir Veiga Rocha Fl. 237DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.902867/2012-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu May 18 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3402-001.002
Decisão: ACORDAM os membros da 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária da Terceira Seção de Julgamento, por maioria de votos, em converter julgamento em diligência. Vencidos os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra e Maria Aparecida Martins de Paula, quanto à diligência. Designado o Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Sustentou pela recorrente o Sr. Sílvio Gomes Cardozo, RG 721.555 -SDS/PE, procurador da recorrente.
Antonio Carlos Atulim - Presidente.
Jorge Olmiro Lock Freire - Relator.
Diego Diniz Ribeiro - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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score : 1.0
Numero do processo: 35564.003772/2006-04
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jun 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/2001 a 31/07/2005
DECADÊNCIA.
O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91. Tratando-se de tributo sujeito ao lançamento por homologação, que é o caso das contribuições previdenciárias, devem ser observadas as regras do Código Tributário Nacional - CTN. Assim, comprovado nos autos o pagamento parcial, aplica-se o artigo 150, §4°; caso contrário, aplica-se o disposto no artigo 173, I. No caso de autuação pelo descumprimento de obrigação acessória, a constituição do crédito é de ofício e a regra aplicável é a contida no artigo 173, I.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DA EMPRESA - PLR. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA. IMUNIDADE.
A Participação nos Lucros e Resultados - PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7o, inciso XI, da CF, sobretudo por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho. Somente nas hipóteses em que o pagamento da verba intitulada de PLR não observar os requisitos legais insculpidos na legislação específica - artigo 28, § 9°, alínea "j", da Lei n° 8.212/91-, mais precisamente MP n° 794/1994, c/c Lei n° 10.101/2000, é que incidirão contribuições previdenciárias sobre tais importâncias, em face de sua descaracterização como Participação nos Lucros e Resultados, o que não se vislumbra no pagamento à parte dos segurados empregados da empresa, tendo em vista a inexistência de disposição legal expressa exigindo a sua extensão à totalidade dos funcionários, sendo defeso ao aplicador da lei coarctar os ditames daquela norma, conferindo interpretação que não decorre literalmente do seu próprio bojo, a partir de meros subjetivismos.
AUXÍLIO-BOLSA ESTUDOS. HIPÓTESE DE ISENÇÃO NÃO CONFIGURADA. INOBSERVÂNCIA REQUISITOS LEGAIS
De conformidade com o artigo 28, § 9º, alínea "t", da Lei n° 8.212/91, os valores concedidos aos funcionários e diretores da empresa a título de Plano Educacional, in casu, Auxílio-Bolsa de Estudos, conquanto que guarde consonância com as atividades por ela desenvolvidas e extensivo a totalidade dos empregados e diretores, estão fora do campo de incidência das contribuições previdenciárias. Tendo a contribuinte pago aludida verba somente a parte de seus segurados empregados e/ou diretores, caracteriza-se como salário indireto, sujeitando-se, assim, à incidência das contribuições previdenciárias. (Ementas reproduzidas dos processos de obrigação principal)
GFIP. OMISSÕES. INCORREÇÕES. INFRAÇÃO. PENALIDADE MENOS SEVERA. RETROATIVIDADE BENIGNA. CRITÉRIO. FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EM GFIP.
Aos processos de lançamento fiscal dos fatos geradores ocorridos antes da vigência da MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, e não declarados em GFIP, aplica-se a multa mais benéfica, obtida pela comparação do resultado da soma da multa vigente à época da ocorrência dos fatos geradores e a multa por falta de declaração em GFIP, vigente à época da materialização da infração, com o resultado da incidência de multa de 75%.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 2301-005.018
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para negar provimento quanto à decadência e dar provimento parcial para excluir as contribuições sobre o PLR, mantendo a autuação com relação às demais matérias; Quanto às multas relacionadas à GFIP, submetida a questão ao rito do art. 60 do Regimento Interno do CARF, foram apreciadas as seguintes teses: a) aplicação da regra do artigo 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009; b) aplicação das regras estabelecidas pela Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 2009; c) aplicação da regra do artigo 32-A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009; em primeira votação, se manifestaram pela tese "a" os Conselheiros Fabio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Fernanda Melo Leal; pela tese "b" os Conselheiros Jorge Henrique Backes e Andrea Brose Adolfo; e pela tese "c" o Conselheiro Julio Cesar Vieira Gomes. Excluída a tese "c" por força do disposto no art. 60, parágrafo único, do RICARF; em segunda votação, por voto de qualidade, restou vencedora a tese "b", vencidos os conselheiros Fabio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Fernanda Melo Leal. Designada para redigir o voto vencedor, com relação à multa, a Conselheira Andrea Brose Adolfo.
(assinado digitalmente)
Andrea Brose Adolfo - Presidente em Exercício e Redatora
(assinado digitalmente)
Julio Cesar Vieira Gomes - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e FERNANDA MELO LEAL.
Nome do relator: JULIO CESAR VIEIRA GOMES
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/03/2001 a 31/07/2005 DECADÊNCIA. O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91. Tratando-se de tributo sujeito ao lançamento por homologação, que é o caso das contribuições previdenciárias, devem ser observadas as regras do Código Tributário Nacional - CTN. Assim, comprovado nos autos o pagamento parcial, aplica-se o artigo 150, §4°; caso contrário, aplica-se o disposto no artigo 173, I. No caso de autuação pelo descumprimento de obrigação acessória, a constituição do crédito é de ofício e a regra aplicável é a contida no artigo 173, I. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DA EMPRESA - PLR. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA. IMUNIDADE. A Participação nos Lucros e Resultados - PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7o, inciso XI, da CF, sobretudo por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho. Somente nas hipóteses em que o pagamento da verba intitulada de PLR não observar os requisitos legais insculpidos na legislação específica - artigo 28, § 9°, alínea "j", da Lei n° 8.212/91-, mais precisamente MP n° 794/1994, c/c Lei n° 10.101/2000, é que incidirão contribuições previdenciárias sobre tais importâncias, em face de sua descaracterização como Participação nos Lucros e Resultados, o que não se vislumbra no pagamento à parte dos segurados empregados da empresa, tendo em vista a inexistência de disposição legal expressa exigindo a sua extensão à totalidade dos funcionários, sendo defeso ao aplicador da lei coarctar os ditames daquela norma, conferindo interpretação que não decorre literalmente do seu próprio bojo, a partir de meros subjetivismos. AUXÍLIO-BOLSA ESTUDOS. HIPÓTESE DE ISENÇÃO NÃO CONFIGURADA. INOBSERVÂNCIA REQUISITOS LEGAIS De conformidade com o artigo 28, § 9º, alínea "t", da Lei n° 8.212/91, os valores concedidos aos funcionários e diretores da empresa a título de Plano Educacional, in casu, Auxílio-Bolsa de Estudos, conquanto que guarde consonância com as atividades por ela desenvolvidas e extensivo a totalidade dos empregados e diretores, estão fora do campo de incidência das contribuições previdenciárias. Tendo a contribuinte pago aludida verba somente a parte de seus segurados empregados e/ou diretores, caracteriza-se como salário indireto, sujeitando-se, assim, à incidência das contribuições previdenciárias. (Ementas reproduzidas dos processos de obrigação principal) GFIP. OMISSÕES. INCORREÇÕES. INFRAÇÃO. PENALIDADE MENOS SEVERA. RETROATIVIDADE BENIGNA. CRITÉRIO. FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EM GFIP. Aos processos de lançamento fiscal dos fatos geradores ocorridos antes da vigência da MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, e não declarados em GFIP, aplica-se a multa mais benéfica, obtida pela comparação do resultado da soma da multa vigente à época da ocorrência dos fatos geradores e a multa por falta de declaração em GFIP, vigente à época da materialização da infração, com o resultado da incidência de multa de 75%. Recurso Voluntário Provido em Parte
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para negar provimento quanto à decadência e dar provimento parcial para excluir as contribuições sobre o PLR, mantendo a autuação com relação às demais matérias; Quanto às multas relacionadas à GFIP, submetida a questão ao rito do art. 60 do Regimento Interno do CARF, foram apreciadas as seguintes teses: a) aplicação da regra do artigo 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009; b) aplicação das regras estabelecidas pela Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 2009; c) aplicação da regra do artigo 32-A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009; em primeira votação, se manifestaram pela tese "a" os Conselheiros Fabio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Fernanda Melo Leal; pela tese "b" os Conselheiros Jorge Henrique Backes e Andrea Brose Adolfo; e pela tese "c" o Conselheiro Julio Cesar Vieira Gomes. Excluída a tese "c" por força do disposto no art. 60, parágrafo único, do RICARF; em segunda votação, por voto de qualidade, restou vencedora a tese "b", vencidos os conselheiros Fabio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Fernanda Melo Leal. Designada para redigir o voto vencedor, com relação à multa, a Conselheira Andrea Brose Adolfo. (assinado digitalmente) Andrea Brose Adolfo - Presidente em Exercício e Redatora (assinado digitalmente) Julio Cesar Vieira Gomes - Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e FERNANDA MELO LEAL.
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O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91. Tratandose de tributo sujeito ao lançamento por homologação, que é o caso das contribuições previdenciárias, devem ser observadas as regras do Código Tributário Nacional CTN. Assim, comprovado nos autos o pagamento parcial, aplicase o artigo 150, §4°; caso contrário, aplicase o disposto no artigo 173, I. No caso de autuação pelo descumprimento de obrigação acessória, a constituição do crédito é de ofício e a regra aplicável é a contida no artigo 173, I. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DA EMPRESA PLR. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA. IMUNIDADE. A Participação nos Lucros e Resultados PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7o, inciso XI, da CF, sobretudo por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho. Somente nas hipóteses em que o pagamento da verba intitulada de PLR não observar os requisitos legais insculpidos na legislação específica artigo 28, § 9°, alínea "j", da Lei n° 8.212/91, mais precisamente MP n° 794/1994, c/c Lei n° 10.101/2000, é que incidirão contribuições previdenciárias sobre tais importâncias, em face de sua descaracterização como Participação nos Lucros e Resultados, o que não se vislumbra no pagamento à parte dos segurados empregados da empresa, tendo em vista a inexistência de disposição legal expressa exigindo a sua extensão à totalidade dos funcionários, sendo defeso ao aplicador da lei coarctar os ditames daquela AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 35 56 4. 00 37 72 /2 00 6- 04 Fl. 1363DF CARF MF 2 norma, conferindo interpretação que não decorre literalmente do seu próprio bojo, a partir de meros subjetivismos. AUXÍLIOBOLSA ESTUDOS. HIPÓTESE DE ISENÇÃO NÃO CONFIGURADA. INOBSERVÂNCIA REQUISITOS LEGAIS De conformidade com o artigo 28, § 9º, alínea "t", da Lei n° 8.212/91, os valores concedidos aos funcionários e diretores da empresa a título de Plano Educacional, in casu, AuxílioBolsa de Estudos, conquanto que guarde consonância com as atividades por ela desenvolvidas e extensivo a totalidade dos empregados e diretores, estão fora do campo de incidência das contribuições previdenciárias. Tendo a contribuinte pago aludida verba somente a parte de seus segurados empregados e/ou diretores, caracterizase como salário indireto, sujeitandose, assim, à incidência das contribuições previdenciárias. (Ementas reproduzidas dos processos de obrigação principal) GFIP. OMISSÕES. INCORREÇÕES. INFRAÇÃO. PENALIDADE MENOS SEVERA. RETROATIVIDADE BENIGNA. CRITÉRIO. FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EM GFIP. Aos processos de lançamento fiscal dos fatos geradores ocorridos antes da vigência da MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, e não declarados em GFIP, aplicase a multa mais benéfica, obtida pela comparação do resultado da soma da multa vigente à época da ocorrência dos fatos geradores e a multa por falta de declaração em GFIP, vigente à época da materialização da infração, com o resultado da incidência de multa de 75%. Recurso Voluntário Provido em Parte Fl. 1364DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.364 3 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para negar provimento quanto à decadência e dar provimento parcial para excluir as contribuições sobre o PLR, mantendo a autuação com relação às demais matérias; Quanto às multas relacionadas à GFIP, submetida a questão ao rito do art. 60 do Regimento Interno do CARF, foram apreciadas as seguintes teses: a) aplicação da regra do artigo 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009; b) aplicação das regras estabelecidas pela Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 2009; c) aplicação da regra do artigo 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009; em primeira votação, se manifestaram pela tese "a" os Conselheiros Fabio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Fernanda Melo Leal; pela tese "b" os Conselheiros Jorge Henrique Backes e Andrea Brose Adolfo; e pela tese "c" o Conselheiro Julio Cesar Vieira Gomes. Excluída a tese "c" por força do disposto no art. 60, parágrafo único, do RICARF; em segunda votação, por voto de qualidade, restou vencedora a tese "b", vencidos os conselheiros Fabio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Fernanda Melo Leal. Designada para redigir o voto vencedor, com relação à multa, a Conselheira Andrea Brose Adolfo. (assinado digitalmente) Andrea Brose Adolfo Presidente em Exercício e Redatora (assinado digitalmente) Julio Cesar Vieira Gomes Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e FERNANDA MELO LEAL. Fl. 1365DF CARF MF 4 Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado em 16/11/2006 com fundamento na inobservância da obrigação tributária acessória prevista no art. 32, inciso IV e § 5º, da Lei 8.212/1991, acrescentados pela Lei 9.528/1997, c/c o art. 225, inciso IV e § 4º do Decreto 3.048/1999, que consiste em a empresa apresentar a Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP) com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias. Segue transcrição da decisão recorrida, fls. 1208: O Mandado de Procedimento Fiscal MPF poderá ser emitido pelo Chefe do Serviço de Fiscalização das Delegacias da Receita Previdenciária. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Constatada a ocorrência de infração a dispositivo do Regulamento de Previdência Social, a fiscalização do Instituto Nacional do Seguro Social Iavrará, de imediato, Auto de Infração com discriminação clara e precisa da infração e das circunstâncias em que foi praticada, dispositivo legal infringido e a penalidade aplicada e os critérios de sua gradação, indicando local, dia, hora de sua lavratura, observadas as normas fixadas pelos Órgãos competentes. Extinguese em dez anos o direito da Seguridade Social apurar e constituir seus créditos. Somente a participação nos lucros ou resultados da empresa paga ou creditada de acordo com lei específica não integra o saláriodecontribuição para os fins da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991. Somente o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do Art. 21 da Lei n 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo não integra o saláriodecontribuição para os fins da Lei nº 8.212/91. AUTUAÇÃO PROCEDENTE. ... 4. Para esse tipo de infração, o valor da multa corresponde a 100% dos valores devidos relativos a contribuição previdenciária não declarada, limitada aos valores previstos no Art. 32, IV, § 49 da Lei nº 8.212/91. O recorrente reitera as alegações em impugnação, em síntese: Fl. 1366DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.365 5 10.1 que foi nula a fiscalização por deficiência no Mandado de Procedimento Fiscal, assinado por pessoa que não demonstrou ter competência para o ato; 10.2 que foi ilegal a lavratura do Auto de Infração por não ter havido dolo da impugnante em ocultar remunerações; 10.3 que não foi observado o correto enquadramento legal da infração cometida; 10.4 que a impugnante apresentou sua folha de salários com dados precisos que correspondem aos fatos geradores, sendo assim, não teve a intenção ou dolo de omitir remunerações e que a penalidade administrativa tem a intenção de punir quem age com dolo em fraudar ou sonegar informações para a fiscalização e não foi o que ocorreu no caso em tela; 10.5 que o §5º do Art. 32 da Lei ng 8.212/91 não estabelece qual o documento com omissão de fatos geradores, ao contrário dos demais §§ do mesmo artigo e os valores foram declarados na folha de pagamentos, sendo ilegal a lavratura, conforme legislação, doutrina e jurisprudência; 10.6 que não estão os autos instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova, conforme legislação e doutrina que colaciona; 10.7 que se operou a decadência do débito, ora guerreado, referente às competências 3 a 7/2001, pois entende que em cinco anos se extingue o direito do fisco de fazer lançamentos; 10.8 que havendo alta rotatividade dos trabalhadores temporários, não são estes beneficiados com a Participação nos Resultados e com a Bolsa Auxílio Estudo, e que essas verbas não integram o saláriodecontribuição 11. Requer, por fim, que seja dado provimento à defesa pelas preliminares argüidas ou que se extinga a multa referente às competências 3 a 7/2001 por terem sido definitivamente homologados e extintos pela decadência e afastadas as multas decorrentes do pagamento da Bolsa Auxilio Educação e da Participação nos Lucros. Em aditivo ao recurso voluntário, em 31/08/2009, fls. 1278, o recorrente veio a requerer a redução da multa nos termos do artigo 32A da Lei nº 8.212/91: 9. Isto posto, reiterase todos os termos da peça recursal de n° 165924, e no caso de ainda persistirem a obrigatoriedade em relação às multas apontadas, que sejam aplicadas em consonância com a Lei 11.941/09, artigo 32A, inciso I que prevê a aplicação de multa resultante em R$ 20,00 (Vinte Reais) para cada grupo de dez informações incorretas ou omitidas, atendendose aos ditames do artigo 106, alínea c, do Código Tributário Nacional, para reduzir a multa em beneficio ao contribuinte. Fl. 1367DF CARF MF 6 Da análise das peças que compõem os autos, em especial a decisão recorrida, verificase que as contribuições incidentes sobre os fatos geradores não declarados em GFIP foram objeto de lançamento em outros documentos (Auto de Infração da Obrigação Principal AIOP), resultando em quatro processos distintos, fls. 13. No caso, os supostos fatos geradores omitidos e que foram objeto de lançamento tributário da obrigação principal e autuação fiscal por não declaração em GFIP são: participação nos lucros ou resultados, bolsa de estudo e remuneração a segurados. Assim, o julgamento foi convertido em diligência para que se buscassem as informações sobre os processos de obrigação principal. Como resultado, foram juntadas cópias dos acórdãos deste CARF, fls.1298 a 1359: Processo nº 16327.000717/200874 matéria: COMPENSAÇÃO Acordam os membros do colegiado, acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento aos recursos de ofício e voluntário, nos termos do voto do relator. ... Assim, considerando o presente caso, comprovado nos autos que a recorrente efetuou pagamentos sobre a base de cálculo que entenderá pertinente, houve, portanto, pagamento parcial das contribuições, o que conduz à aplicação da regra no artigo 150, §4º do CTN, não merecendo reparos a decisão recorrida, a qual nego provimento. Processo nº 35564.003771/200651 matérias: PLR e BOLSA DE ESTUDOS Foi provido em parte o recurso voluntário para excluir as parcelas a título de PLR Processo nº 35564.003770/200615 e Processo nº 35564.003768/200638 matéria: FOLHA DE SALÁRIOS: GILRAT E TERCEIROS Negado provimento por unanimidade O recorrente não se manifestou sobre o resultado da diligência. É o Relatório. Fl. 1368DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.366 7 Voto Vencido Conselheiro Julio Cesar Vieira Gomes, Relator Comprovado nos autos o cumprimento dos pressupostos de admissibilidade do recurso, passo ao exame das questões preliminares. Quanto ao procedimento da fiscalização e formalização do lançamento também não se observou qualquer vício. Foram cumpridos todos os requisitos dos artigos 10 e 11 do Decreto n° 70.235, de 06/03/72, verbis: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Art. 11. A notificação de lançamento será expedida pelo órgão que administra o tributo e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do notificado; II o valor do crédito tributário e o prazo para recolhimento ou impugnação; III a disposição legal infringida, se for o caso; IV a assinatura do chefe do órgão expedidor ou de outro servidor autorizado e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. O recorrente foi devidamente intimado de todos os atos processuais que trazem fatos novos, assegurandolhe a oportunidade de exercício da ampla defesa e do contraditório, nos termos do artigo 23 do mesmo Decreto. Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, Fl. 1369DF CARF MF 8 no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 10.12.1997) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 10.12.1997) III por edital, quando resultarem improfícuos os meios referidos nos incisos I e II. (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) A decisão recorrida também atendeu às prescrições que regem o processo administrativo fiscal: enfrentou as alegações pertinentes do recorrente, com indicação precisa dos fundamentos e se revestiu de todas as formalidades necessárias. Não contém, portanto, qualquer vício que suscite sua nulidade, passando, inclusive, pelo crivo do Egrégio Superior Tribunal de Justiça: Art. 31. A decisão conterá relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referirse, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 9.12.1993). “PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. NULIDADE DO ACÓRDÃO. INEXISTÊNCIA. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SERVIDOR PÚBLICO INATIVO. JUROS DE MORA. TERMO INICIAL. SÚMULA 188/STJ. 1. Não há nulidade do acórdão quando o Tribunal de origem resolve a controvérsia de maneira sólida e fundamentada, apenas não adotando a tese do recorrente. 2. O julgador não precisa responder a todas as alegações das partes se já tiver encontrado motivo suficiente para fundamentar a decisão, nem está obrigado a aterse aos fundamentos por elas indicados “. (RESP 946.447RS – Min. Castro Meira – 2ª Turma – DJ 10/09/2007 p.216). Portanto, em razão do exposto e nos termos das regras disciplinadoras do processo administrativo fiscal, não se identificam vícios capazes de tornar nulo quaisquer dos atos praticados: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Todas as alegações em preliminar de nulidade já foram enfrentadas nos processos principais, assim, para que não resultem decisões conflitantes, deve ser adotado aqui o mesmo entendimento sobre todas as questões suscitadas pelo recorrente. Reproduzindo o julgamento dos processos principais, rejeito as preliminares suscitadas. Decadência Fl. 1370DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.367 9 Nas sessões plenárias dos dias 11 e 12/06/2008, respectivamente, o Supremo Tribunal Federal STF, por unanimidade, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91 e editou a Súmula Vinculante n° 08. Seguem transcrições: Parte final do voto proferido pelo Exmo Senhor Ministro Gilmar Mendes, Relator: Resultam inconstitucionais, portanto, os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/91 e o parágrafo único do art.5º do Decretolei n° 1.569/77, que versando sobre normas gerais de Direito Tributário, invadiram conteúdo material sob a reserva constitucional de lei complementar. Sendo inconstitucionais os dispositivos, mantémse hígida a legislação anterior, com seus prazos qüinqüenais de prescrição e decadência e regras de fluência, que não acolhem a hipótese de suspensão da prescrição durante o arquivamento administrativo das execuções de pequeno valor, o que equivale a assentar que, como os demais tributos, as contribuições de Seguridade Social sujeitamse, entre outros, aos artigos 150, § 4º, 173 e 174 do CTN. Diante do exposto, conheço dos Recursos Extraordinários e lhes nego provimento, para confirmar a proclamada inconstitucionalidade dos arts. 45 e 46 da Lei 8.212/91, por violação do art. 146, III, b, da Constituição, e do parágrafo único do art. 5º do Decretolei n° 1.569/77, frente ao § 1º do art. 18 da Constituição de 1967, com a redação dada pela Emenda Constitucional 01/69. É como voto. Súmula Vinculante n° 08: “São inconstitucionais os parágrafo único do artigo 5º do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário”. Os efeitos da Súmula Vinculante são previstos no artigo 103A da Constituição Federal, regulamentado pela Lei n° 11.417, de 19/12/2006, in verbis: Art. 103A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004). Lei n° 11.417, de 19/12/2006: Regulamenta o art. 103A da Constituição Federal e altera a Lei no 9.784, de 29 de janeiro de 1999, disciplinando a edição, a Fl. 1371DF CARF MF 10 revisão e o cancelamento de enunciado de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal, e dá outras providências. ... Art. 2o O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, editar enunciado de súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma prevista nesta Lei. § 1o O enunciado da súmula terá por objeto a validade, a interpretação e a eficácia de normas determinadas, acerca das quais haja, entre órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública, controvérsia atual que acarrete grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre idêntica questão. Como se constata, a partir da publicação na imprensa oficial, todos os órgãos judiciais e administrativos ficam obrigados a acatarem a Súmula Vinculante. Assim sendo, independente de meu entendimento pessoal sobre a matéria, manifestado em meus votos anteriores, inclinome à tese jurídica na Súmula Vinculante n° 08. Afastado por inconstitucionalidade o artigo 45 da Lei n° 8.212/91, resta verificar qual regra de decadência prevista no Código Tributário Nacional CTN se aplicar ao caso concreto. O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento no sentido da imprescindibilidade de pagamento parcial do tributo para que seja aplicada a regra decadencial do artigo 150, §4° do CTN; caso contrário, aplicase o artigo 173, I do CTN que transfere o termo a quo de contagem para o exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído. Também atribuiu status de repetitivos a todos os processos que se encontram tramitando sobre a matéria. E, por força do artigo 62A do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF n° 256, de 22/06/2009, a decisão deve ser reproduzida nas turmas deste Conselho. Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Considerando o presente caso, deve ser aplicada a regra do artigo 173, I do CTN. Não se trata de lançamento por homologação. E considerando que o período da autuação é de 01/03/2001 a 31/07/2005, tendo o autuado tomado ciência em 16/11/2006, não ocorreu a decadência. Ressaltase que o fato de nos processos principais ter sido aplicado o artigo 150, §4º do CTN não modifica esse entendimento. A conexão se dá pela coincidência fática, sem correlação com a regra decadencial diferenciada pelo próprio codex tributário. Conexão com os processos principais Fl. 1372DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.368 11 Todos os processos relativos às obrigações principais decorrentes dos mesmos fatos, conforme indicados pela fiscalização em resposta à diligência, foram julgados pelo CARF, tendo resultado em relação às parcelas consideradas omitidas para fins de autuação, em exame no presente processo, que somente foram excluídos os valores relativos ao PLR. Resulta, assim, que deve ser adotado aqui o mesmo entendimento sobre todas as questões suscitadas pelo recorrente, que é a jurisprudência pacífica desta turma ordinária. Multa aplicada GFIP É direito da recorrente a retroatividade benéfica prevista no artigo 106 do Código Tributário Nacional e em face da regra trazida pelo artigo 26 da Lei n° 11.941, de 27/05/2009 que introduziu na Lei n° 8.212, de 24/07/1991 o artigo 32A. Passo, então, ao seu exame, sobretudo para explicar porque não deve ser aplicada ao caso a regra no artigo 44 da Lei n° 9.430/1996. Seguem transcrições: Art.26. A Lei no 8.212, de 1991, passa a vigorar com as seguintes alterações: ... Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitar seá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e Fl. 1373DF CARF MF 12 II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Código Tributário Nacional: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática.” Podemos identificar nas regras do artigo 32A os seguintes elementos: a) é regra aplicável a uma única espécie de declaração, dentre tantas outras existentes (DCTF, DCOMP, DIRF etc): a Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social – GFIP; b) é possibilitado ao sujeito passivo entregar a declaração após o prazo legal, corrigila ou suprir omissões antes de algum procedimento de ofício que resultaria em autuação; c) regras distintas para a aplicação da multa nos casos de falta de entrega/entrega após o prazo legal e nos casos de informações incorretas/omitidas; sendo no primeiro caso, limitada a vinte por cento da contribuição; d) desvinculação da obrigação de prestar declaração em relação ao recolhimento da contribuição previdenciária; e) reduções da multa considerando ter sido a correção da falta ou supressão da omissão antes ou após o prazo fixado em intimação; e f) fixação de valores mínimos de multa. Inicialmente, esclarecese que a mesma lei revogou as regras anteriores que tratavam da aplicação da multa considerando cem por cento do valor devido limitado de acordo com o número de segurados da empresa: Art. 79. Ficam revogados: I – os §§ 1o e 3º a 8º do art. 32, o art. 34, os §§ 1º a 4º do art. 35, os §§ 1º e 2º do art. 37, os arts. 38 e 41, o § 8º do art. 47, o § 2º do art. 49, o parágrafo único do art. 52, o inciso II do caput do art. 80, o art. 81, os §§ 1º, 2º, 3º, 5º, 6º e 7º do art. 89 e o parágrafo único do art. 93 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991; Fl. 1374DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.369 13 Para início de trabalho, como de costume, devese examinar a natureza da multa aplicada com relação à GFIP, sejam nos casos de “falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo” ou “informações incorretas ou omitidas”. No inciso II do artigo 32A em comento o legislador manteve a desvinculação que já havia entre as obrigações do sujeito passivo: acessória, quanto à declaração em GFIP e principal, quanto ao pagamento da contribuição previdenciária devida: II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. Portanto, temos que o sujeito passivo, ainda que tenha efetuado o pagamento de cem por cento das contribuições previdenciárias, estará sujeito à multa de que trata o dispositivo. Comparandose com o artigo 44 da Lei n° 9.430, de 27/12/1996, que trata das multas quando do lançamento de ofício dos tributos federais, vejo que as regras estão em outro sentido. As multas nele previstas incidem em razão da falta de pagamento ou, quando sujeito a declaração, pela falta ou inexatidão da declaração, aplicandose apenas ao valor que não foi declarado e nem pago. Ao declarado e não pago é aplicada apenas multa de mora. Melhor explicando essa diferença, apresentamos o seguinte exemplo: o sujeito passivo, obrigado ao pagamento de R$ 100.000,00 apenas declara R$ 80.000,00, embora tenha efetuado o pagamento/recolhimento integral dos R$ 100.000,00 devidos, qual seria a multa aplicável? Somente a prevista no artigo 32A. E se houvesse pagamento/recolhimento parcial de R$ 80.000,00? Incidiria a multa de 75% (considerando a inexistência de agravamento) sobre a diferença de R$ 20.000,00 e, independentemente disso, a multa do artigo 32A em relação ao valor não declarado. Isto porque a multa de ofício existe como decorrência da constituição do crédito pelo fisco, isto é, de ofício através do lançamento. Caso todo o valor de R$ 100.000,00 houvesse sido declarado, ainda que não pagos, a declaração constituiria o crédito tributário por confissão; portanto, sem necessidade de autuação. A diferença reside aí. Quanto à GFIP não há vinculação com o pagamento. Ainda que não existam diferenças de contribuições previdenciárias a serem pagas, estará o contribuinte sujeito à multa do artigo 32A da Lei n° 8.212, de 24/07/1991: LEI Nº 9.430, DE 27 DE DEZEMBRO DE 1996. Dispõe sobre a legislação tributária federal, as contribuições para a seguridade social, o processo administrativo de consulta e dá outras providências. ... Seção V Normas sobre o Lançamento de Tributos e Contribuições ... Multas de Lançamento de Ofício Fl. 1375DF CARF MF 14 Art.44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. A DCTF tem finalidade exclusivamente fiscal, diferentemente do caso da multa prevista no artigo 32A, em que independentemente do pagamento/recolhimento da contribuição previdenciária, o que se pretende é que, o quanto antes (daí a gradação em razão do decurso do tempo), o sujeito passivo preste as informações à Previdência Social, sobretudo os salários de contribuição percebidos pelos segurados. São essas informações que viabilizam a concessão dos benefícios previdenciários. Quando o sujeito passivo é intimado para entregar a GFIP, suprir omissões ou efetuar correções, o fisco já tem conhecimento da infração e, portanto, já poderia autuálo, mas isso não resolveria um problema extrafiscal: as bases de dados da Previdência Social não seriam alimentadas com as informações corretas e necessárias para a concessão dos benefícios previdenciários. Por essas razões é que não vejo como se aplicarem as regras do artigo 44 aos processos instaurados em razão de infrações cometidas sobre a GFIP. E no que tange à “falta de declaração e nos de declaração inexata”, parte também do dispositivo, além das razões já expostas, devese observar o Princípio da Especificidade a norma especial prevalece sobre a geral: o artigo 32A da Lei n° 8.212/1991 traz regra aplicável especificamente à GFIP, portanto deve prevalecer sobre as regras no artigo 44 da Lei n° 9.430/1996 que se aplicam a todas as demais declarações a que estão obrigados os contribuintes e responsáveis tributários. Pela mesma razão, também não se aplica o artigo 43 da mesma lei: Auto de Infração sem Tributo Art.43.Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Em síntese, para aplicação de multas pelas infrações relacionadas à GFIP devem ser observadas apenas as regras do artigo 32A da Lei n° 8.212/1991 que regulam exaustivamente a matéria. É irrelevante para tanto se houve ou não pagamento/recolhimento e, nos casos que tenha sido lavrada NFLD (período em que não era a GFIP suficiente para a constituição do crédito nela declarado), qual tenha sido o valor nela lançado. E, aproveitando para tratar também dessas NFLD lavradas anteriormente à Lei n° 11.941, de 27/05/2009, não vejo como lhes aplicar o artigo 35A, que fez com que se Fl. 1376DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.370 15 estendesse às contribuições previdenciárias, a partir de então, o artigo 44 da Lei n° 9.430/1996, pois haveria retroatividade maléfica, o que é vedado; nem tampouco a nova redação do artigo 35. Os dispositivos legais não são interpretados em fragmentos, mas dentro de um conjunto que lhe dê unidade e sentido. As disposições gerais nos artigos 44 e 61 são apenas partes do sistema de cobrança de tributos instaurado pela Lei n° 9.430/1996. Quando da falta de pagamento/recolhimento de tributos são cobradas, além do principal e juros moratórios, valores relativos às penalidades pecuniárias, que podem ser a multa de mora, quando embora a destempo tenha o sujeito passivo realizado o pagamento/recolhimento antes do procedimento de ofício, ou a multa de ofício, quando realizado o lançamento para a constituição do crédito. Essas duas espécies são excludentes entre si. Essa é a sistemática adotada pela lei. As penalidades pecuniárias incluídas nos lançamentos já realizados antes da Lei n° 11.941, de 27/05/2009 são, por essa nova sistemática aplicável às contribuições previdenciárias, conceitualmente multa de ofício e pela sistemática anterior multa de mora. Do que resulta uma conclusão inevitável: independentemente do nome atribuído, a multa de mora cobrada nos lançamentos anteriores à Lei n° 11.941, de 27/05/2009 não é a mesma da multa de mora prevista no artigo 61 da Lei n° 9.430/1996. Esta somente tem sentido para os tributos recolhidos a destempo, mas espontaneamente, sem procedimento de ofício. Seguem transcrições: Art.35.Os débitos com a União decorrentes das contribuições sociais previstas nas alíneas “a”, “b” e “c” do parágrafo único do art. 11, das contribuições instituídas a título de substituição e das contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, não pagos nos prazos previstos em legislação, serão acrescidos de multa de mora e juros de mora, nos termos do art. 61 da Lei no 9.430, de 1996. Art.35A.Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 1996. Seção IV Acréscimos Moratórios Multas e Juros Art.61.Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. §1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. §2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. Redação anterior do artigo 35: Fl. 1377DF CARF MF 16 Art. 35. Sobre as contribuições sociais em atraso, arrecadadas pelo INSS, incidirá multa de mora, que não poderá ser relevada, nos seguintes termos: I para pagamento, após o vencimento de obrigação não incluída em notificação fiscal de lançamento: a) oito por cento, dentro do mês de vencimento da obrigação; b) quatorze por cento, no mês seguinte; c) vinte por cento, a partir do segundo mês seguinte ao do vencimento da obrigação; II para pagamento de créditos incluídos em notificação fiscal de lançamento: a) vinte e quatro por cento, em até quinze dias do recebimento da notificação; b) trinta por cento, após o décimo quinto dia do recebimento da notificação; c) quarenta por cento, após apresentação de recurso desde que antecedido de defesa, sendo ambos tempestivos, até quinze dias da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS; d) cinqüenta por cento, após o décimo quinto dia da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS, enquanto não inscrito em Dívida Ativa; Retomando os autos de infração de GFIP lavrados anteriormente à Lei n° 11.941, de 27/05/2009, há um caso que parece ser o mais controvertido: o sujeito passivo deixou de realizar o pagamento das contribuições previdenciárias (para tanto foi lavrada a NFLD) e também de declarar os salários de contribuição em GFIP (lavrado AI). Qual o tratamento do fisco? Por tudo que já foi apresentado, não vejo como bis in idem que seja mantida na NFLD a multa que está nela sendo cobrada (ela decorre do falta de pagamento, mas não pode retroagir o artigo 44 por lhe ser mais prejudicial), sem prejuízo da multa no AI pela falta de declaração/omissão de fatos geradores (penalidade por infração de obrigação acessória ou instrumental para a concessão de benefícios previdenciários). Cada uma das multas possuem motivos e finalidades próprias que não se confundem, portanto inibem a sua unificação sob pretexto do bis in idem. Agora, temos que o valor da multa no AI deve ser reduzido para ajustálo às novas regras mais benéficas trazidas pelo artigo 32A da Lei n° 8.212/1991. Nada mais que a aplicação do artigo 106, inciso II, alínea “c” do CTN: Código Tributário Nacional: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: ... II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; Fl. 1378DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.371 17 b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática.” De fato, nelas há limites inferiores. No caso da falta de entrega da GFIP, a multa não pode exceder a 20% da contribuição previdenciária e, no de omissão, R$ 20,00 a cada grupo de dez ocorrências: Art. 32A. (...): I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. Certamente, nos eventuais casos em a multa contida no autodeinfração é inferior à que seria aplicada pelas novas regras (por exemplo, quando a empresa possui pouquíssimos segurados, já que a multa era proporcional ao número de segurados), não há como se falar em retroatividade. Outra questão a ser examinada é a possibilidade de aplicação do §2° do artigo 32A: § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Deve ser esclarecido que o prazo a que se refere o dispositivo é aquele fixado na intimação para que o sujeito passivo corrija a falta. Essa possibilidade já existia antes da Lei n° 11.941, de 27/05/2009. Os artigos 291 e 292 que vigeram até sua revogação pelo Decreto nº 6.727, de 12/01/2009 já traziam a relevação e a atenuação no caso de correção da infração. E nos processos ainda pendentes de julgamento neste Conselho, os sujeitos passivos autuados, embora pudessem fazêlo, não corrigiram a falta no prazo de impugnação; do que resultaria a redução de 50% da multa ou mesmo seu cancelamento. Entendo, portanto, Fl. 1379DF CARF MF 18 desnecessária nova intimação para a correção da falta, oportunidade já oferecida, mas que não interessou ao autuado. Resulta daí que não retroagem as reduções no §2°: Art.291.Constitui circunstância atenuante da penalidade aplicada ter o infrator corrigido a falta até o termo final do prazo para impugnação. §1oA multa será relevada se o infrator formular pedido e corrigir a falta, dentro do prazo de impugnação, ainda que não contestada a infração, desde que seja o infrator primário e não tenha ocorrido nenhuma circunstância agravante. ... CAPÍTULO VI DA GRADAÇÃO DAS MULTAS Art.292. As multas serão aplicadas da seguinte forma: ... V na ocorrência da circunstância atenuante no art. 291, a multa será atenuada em cinqüenta por cento. Retornando à aplicação do artigo 32A da Lei n° 8.212, de 24/07/1991, devem ser comparadas as duas multas, a aplicada pela fiscalização com a prevista no artigo 32 A da Lei n° 8.212, de 24/07/1991, prevalecendo a menor. Por tudo, voto pelo provimento parcial para que sejam excluídos da multa aplicada os valores a título de PLR e, após, sejam comparadas as duas multas, a aplicada pela fiscalização com a prevista no artigo 32A da Lei n° 8.212, de 24/07/1991, prevalecendo a menor. É como voto. Julio Cesar Vieira Gomes Fl. 1380DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.372 19 Voto Vencedor Conselheira Andrea Brose Adolfo Redatora Designada Retroatividade benigna. Multa por descumprimento de obrigação acessória GFIP. O instituto das multas em matéria previdenciária foi profundamente alterado pela Medida Provisória nº 449, de 03/12/2008, convertida na Lei 11.941/2009. De acordo com o relatório fiscal, o presente processo trata de lançamento de multa por descumprimento de obrigação acessória (apresentar GFIP sem todos os fatos geradores de contribuições previdenciárias período de 03/2001 a 07/2005), sendo que o contribuinte também foi autuado em relação às contribuições previdenciárias parte patronal (obrigação principal) referente ao mesmo período de apuração. Portanto não é aplicável a sistemática da multa para falta de pagamento espontâneo. Nesses casos, a multa mais benéfica deve ser apurada mediante a comparação entre o valor resultante do cálculo vigente à época dos fatos geradores (da obrigação principal cumulada com a obrigação acessória) e o valor resultante da multa calculada com base no art. 35A da Lei 8.212/91, com a redação da MP 449/2008, convertida na Lei 11.941/2009. Este entendimento está explicitado no art. 476A da Instrução Normativa RFB nº 971/2009: Art. 476A. No caso de lançamento de oficio relativo a fatos geradores ocorridos: (Incluído pela Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 20 de abril de 2010) I até 30 de novembro de 2008, deverá ser aplicada a penalidade mais benéfica conforme disposto na alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 1966 (CTN), cuja análise será realizada pela comparação entre os seguintes valores: (Incluído pela Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 20 de abril de 2010) a) somatório das multas aplicadas por descumprimento de obrigação principal, nos moldes do art. 35 da Lei n º 8.212, de 1991 , em sua redação anterior à Lei n º 11.941, de 2009 , e das aplicadas pelo descumprimento de obrigações acessórias, nos moldes dos §§ 4º, 5º e 6º do art. 32 da Lei n º 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009; e (Incluído pela Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 20 de abril de 2010) b) multa aplicada de ofício nos termos do art. 35A da Lei n º 8.212, de 1991 , acrescido pela Lei n º 11.941, de 2009 . (Incluído pela Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 20 de abril de 2010) II a partir de 1º de dezembro de 2008, aplicamse as multas previstas no art. 44 da Lei n º 9.430, de 1996 . (Incluído pela Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 20 de abril de 2010) Fl. 1381DF CARF MF 20 Também a Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009, explicita em seus artigos 2º e 3º o critério de cálculo para fins de aplicação da retroatividade benigna, verbis: Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a Fl. 1382DF CARF MF Processo nº 35564.003772/200604 Acórdão n.º 2301005.018 S2C3T1 Fl. 1.373 21 publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Portanto, para fins de aplicação do princípio da retroatividade benigna, consoante o disposto no artigo 106, II, c, do CTN, a multa mais benéfica deve ser calculada no momento do pagamento ou do parcelamento (pela RFB) ou no momento do ajuizamento da execução fiscal (pela PGFN), de acordo com os dispositivos legais acima transcritos. Conclusão Pelo exposto, voto por dar provimento parcial para que seja aplicado o princípio da retroatividade benigna, nos termos dos arts. 2º e 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009. É como voto. (assinado digitalmente) Andrea Brose Adolfo Fl. 1383DF CARF MF
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Numero do processo: 11762.720079/2015-88
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Jul 20 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3402-001.022
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos converter o julgamento do recurso em diligência nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Relator
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Esteve presente ao julgamento a Dra. Viviane Ferreira Zica, OAB/MG nº 64.145, representante da Recorrente.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos converter o julgamento do recurso em diligência nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente em exercício (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Esteve presente ao julgamento a Dra. Viviane Ferreira Zica, OAB/MG nº 64.145, representante da Recorrente. Relatório Trata o presente processo de Auto de Infração (fls. 2/9), lavrado em 07/10/2015, em face da Recorrente em epígrafe, formalizando a exigência de multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria (100% do V.A.), no montante de R$ 164.802,00, em virtude dos fatos a seguir descritos. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 17 62 .7 20 07 9/ 20 15 -8 8 Fl. 610DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 611 2 O Fisco apurou que a pessoa jurídica CALL IMPORTADORA, EXPORTADORA E DISTRIBUIDORA S/A, CNPJ 07.709.346/000102, efetuou em nome próprio, operações de comércio exterior de terceiros, ocultando o REAL COMPRADOR do Fisco, caracterizando assim a interposição fraudulenta de pessoas. Alega a fiscalização que restou comprovado que a empresa importadora não é a real adquirente das mercadorias importadas e que a mesma operava como interposta pessoa em comércio exterior, praticando assim infração à legislação aplicável à matéria com previsão de pena de perdimento às mercadorias transacionadas. Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3º, do DecretoLei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias, uma vez já foram consumidas/revendidas. Considerando o exposto na Descrição dos Fatos e o constante no Relatório de Fiscalização Anexo ao presente Auto de Infração (fls. 10/30), a fiscalização caracterizou o Termo de Responsabilidade de que trata os arts. 22, 121 e 124 da Lei nº 5.172/66 (CTN), bem como nos art. 94 e 95 do DecretoLei nº 37/66, de 18/11/1966 e art. 674, V, do Decreto nº 6.759/2009 (RA), à empresa CALL IMPORTADORA, EXPORTADORA E DISTRIBUIDORA S A, CNPJ 07.709.346/000102, na condição de responsável conjunto da Infração (fl. 29). Por bem descrever os fatos, adoto o relatório objeto da decisão recorrida, nº 16 071.572 de 31/03/2106, prolatada pela 23ª Turma da DRJ em São Paulo (SP), a seguir transcrito (fls. 474/549): "(...) A empresa SALA ESTOFADOS LTDA foi cientificada do auto de infração, por via eletrônica, em 21/10/2015 (fls. 285) e protocolizou impugnação, tempestivamente em 21/11/2015, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 289 à 341, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: ⊙ DO CERCEAMENTO À AMPLA DEFESA EM NENHUM MOMENTO consta os dados básicos para se fazer o procedimento de lançamento, maiormente a base de cálculo e tampouco o cálculo da multa. Tampouco consta o documento em que a multa teria se embasado, posto que em nenhuma folha do processo consta a referida Dl, nem a nota fiscal de venda da mercadoria, nem um documento sequer da importação, tornando IMPOSSÍVEL a defesa do auto de infração. Houve manifesta violação ao devido processo legal, porque não observou as normas procedimentais, houve violação a ampla defesa porque a empresa está impossibilitada de se defender, já que não tem do que se defender, não se sabe de qual operação se trata. Ora, se não participou da operação de importação não tem conhecimento nem acesso à Dl nem aos documentos da importação, não sabe de qual operação de venda da CALL para a Sala se trata ( e a defesa aqui será apenas um exercício de raciocínio para não perecer seu direito de Fl. 611DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 612 3 defesa porque não existe possibilidade de precisar qual operação de venda da CALL para a autuada realmente se trata o presente auto de infração), enfim, natimorto o auto de infração pela sua total NULIDADE. Não tem base de cálculo, nem cálculo algum. Não se sabe como se chegou ao spielbergiano valor do auto de infração. No mérito outras razões não socorrem a autuação, impondo que seja julgado improcedente o lançamento. DO DIREITO ⊙ NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA E FALTA DOS REQUISITOS DO LANÇAMENTO ( VIOLAÇÃO AO ART. 142 DO CTN) Leve perpassar d’olhos pelo auto de infração verificase que não existe demonstrativo do cálculo da multa. Não se sabe como a Fiscalização chegou ao valor da multa aplicada. Eis as ÚNICAS E EXCLUSIVAS informações que tivemos que garimpar para tentar fazer uma tentativa de defesa: do auto de infração sobressaise que foi aplicada multa no valor de R$ 164.802,00. Para não parecer que estamos sendo intolerantes, volvemos os olhos para a intimação da fiscalização à Impugnante. Ela intimou a Impugnante a apresentar documentos referentes à Nota Fiscal 000020. Em nenhum momento a fiscalização juntou tal nota fiscal nos autos. Mas tudo bem. A Impugnante juntou!... Porém, a nota fiscal tem valor total de R$ 634.921,00. A multa aduaneira é no valor de 164.802,00. Portanto, não é a mesma operação. Não pode ser. A multa equivale ao valor aduaneiro. Nesse caso não são coincidentes os valores. Assim, Doutos Julgadores, faltam todos os documentos e dados necessários para que seja possível à Impugnante apresentar defesa e exercer seu insofismável direito de ampla defesa. Restou indefectivelmente violado o direito ao contraditório e à ampla defesa consagrado constitucionalmente. Não é possível exercer o direito de defesa se não há do que se defender. Não há cálculo da multa para se efetivar a defesa. Não há base de cálculo da multa. Não há operação imputada. A nulidade do auto de infração é gritante e grotesco o erro cometido pelo agente fiscalizador. Não tem outra alternativa a não ser a decretação da nulidade do auto de infração. Impossível salvar o lançamento. O processo não tem documento para embasar o lançamento nem cálculo que conduza ao valor a que se chegou à conclusão da imposição da multa. Em síntese: do que se trata o auto de infração? Do que se defender? O auto de infração não tem outra alternativa senão ser anulado porque não se sabe qual operação se trata e o processo não contém Fl. 612DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 613 4 documentos imprescindíveis para embasar o lançamento fiscal e a imposição de multa. O Fisco tem que provar os fatos constitutivos do lançamento. Não há prova embasando o lançamento. Nem demonstrativo do calculo da multa! ⊙ VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL O Princípio do devido processo legal é uma das garantias constitucionais mais festejadas, pois dele decorrem todos os outros princípios e garantias constitucionais. Ele é a base legal para aplicação de todos os demais princípios, independente do ramo do direito processual, inclusive no âmbito do direito material ou administrativo. Assim, o devido processo legal garante inúmeros outros postulados como os princípios do contraditório, da ampla defesa e da motivação (apesar de autônomos e independentes entre si), integrandose totalmente os incisos LIV e LV, ambos do artigo 5º da Carta Magna de 1988. Tais princípios ajudam a garantir a tutela dos direitos e interesses individuais, coletivos e difusos. O devido processo legal possibilita o maior e mais amplo controle dos atos jurídicoestatais, nos quais se incluem os atos administrativos, gerando uma ampla eficácia do princípio do Estado Democrático de Direito, no qual o povo não só sujeitase a imposição de decisões como participa ativamente delas. Para a manutenção do Estado Democrático de Direito e efetivação do princípio da igualdade, o Estado deve atuar sempre em prol do público, através de um processo justo e com segurança nos tramites legais do processo, proibindo decisões voluntaristas e arbitrárias. No presente caso, houve violação ao devido processo legal, haja vista que não foi observado pelo fisco, ao fazer o lançamento da multa aduaneira, as normas processuais indispensáveis para a aplicação da sanção, maiormente se considerarmos que estamos diante de uma multa confiscatória, já que a exigência é no importe de 100% do valor aduaneiro. Assim, deve ser observado com rigor todos os trâmites e ritos processuais previstos na lei, sob pena de haver confisco de propriedade sem o devido processo legal. O artigo 73 da Lei 10.833/2003 dispõe sobre o rito processual que deve ser seguido. Inferese ao analisar o dispositivo legal acima citado, que a autoridade fiscal deveria, antes da aplicação da multa prevista no Decretolei n° 1.455/76, com a redação dada pelo art. 59 da Lei n° 10.637/2002, constatar a impossibilidade de apreensão da mercadoria sujeita a pena de perdimento, extinguir o processo administrativo instaurado para apuração da infração capitulada como dano ao erário e, logo após INSTAURAR novo processo para aplicação da multa, que somente pode se dar em novo processo. No presente processo não há registros ou documentos que comprovem que a autoridade lançadora tenha instaurado processo prévio para aplicação da pena de perdimento e, após sua extinção instaurado novo Fl. 613DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 614 5 processo para aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro, ou pena substitutiva. Configurouse, desta forma, a supressão do procedimento previsto no art.73 da Lei 10.833/2003, revelandose, assim, que a aplicação da pena substitutiva foi totalmente irregular o que nulifica o lançamento. É inquestionável, que, a partir de 2003, toda e qualquer multa decorrente da impossibilidade do cumprimento da pena de perdimento deve ser formalizada através de lançamento de ofício (auto de infração), onde deve ser garantido ao importador os meios de defesa inerentes ao processo administrativo tributário federal, ou seja, deve ser obrigatoriamente respeitadas as regras existentes no Decreto n.° 70.235/72 que dispõe sobre essa espécie de processo administrativo em âmbito federal. Porém, a decretação da pena de perdimento, acontece em um procedimento administrativo prévio, onde é apurado a existência de dano ao erário (subsunção do fato concreto a uma das hipóteses dos artigos 23 e 24 do Decreto n.° 1.455/76) e, apenas após a sua conclusão, poderão as operações nele apuradas, serem passíveis de sujeição de penalidade ( pena de perdimento ou se for o caso, pena pecuniária) Verificase, assim, que não ocorreu o procedimento administrativo instaurado vara apuração da infração capitulada como dano ao Erário. nos termos do art.73 da Lei 10.833/03, e, portanto, não foi apurado o pretenso dano ao erário, nas operações praticadas pela CALL e, portanto, a aplicação da pena de perdimento não foi aplicada, não podendo ser aplicada a pena substitutiva. Para as operações ( que sequer sabemos quais são, porque o auto de infração não descreveu quais são) NÃO EXISTIU procedimento administrativo instaurado previamente vara apuração da infração capitulada como dano ao Erário, e, portanto, não pode ser imposta pena de perdimento nem pena substitutiva. procedimental está previsto na lei 10.833/2003 e IN 228/2006, que deve ser aplicada na medida em que passou a ser imputada a interposição fraudulenta de pessoas, deve a Autoridade Administrativa observálo sob pena de nulidade dos atos administrativos, já que o ato administrativo é vinculado à lei de regência, impõese que não sejam aplicadas pena de perdimento e sequer pena substitutiva, nas spielberguianas e fantasmagóricas operações, que por enquanto não sabemos quais são, sejam elas quais forem que o fisco tinha a intenção de penalizar. ⊙ EXISTÊNCIA DE CAPACIDADE FINANCEIRA – DA EMPRESA CALL Registrese e chamamos a atenção para o fato de que o Fisco presumiu que a operação foi por encomenda sob a falsa premissa de que a CALL não tinha capacidade financeira para importar. Alega o Fisco que a “CALL não comprovou a origem, disponibilidade e efetiva entrega dos recursos utilizados nas operações de comércio exterior auditados”. Fl. 614DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 615 6 Doutos Julgadores, a SALA quando intimada a apresentar os pagamentos que realizou à CALL, abriu mão até mesmo do seu sigilo bancário e apresentou extratos bancários e comprovou irrefutavelmente que todas as operações que realizou com a CALL (não se sabe qual delas é objeto do presente auto de infração, mas fezse prova genérica, absoluta e total) foram liquidadas após a mercadoria ser entregue, em 10 parcelas ( entrada + 9 parcelas). Lado outro, malgrado o fisco não tenha juntado aos autos cópia do contrato de câmbio e da fatura comercial e a Impugnante deles não têm conhecimento, é notório e comum nestas operações que o importador sempre pague ao exportador antecipadamente ou à vista. Assim, o fato de a empresa CALL ter pago ao exportador à vista ou antecipadamente e ter recebido do seu comprador no mercado interno em 10 parcelas comprova que ela tinha capacidade financeira, disponibilidade financeira para comercializar no mercado estrangeiro e que não utilizou recursos da SALA para liquidar as obrigações que contraiu. Junta textos da jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. ⊙ NÃO HOUVE IMPORTAÇÃO POR ENCOMENDA NÃO HÁ PROVA NENHUMA NOS AUTOS DE QUE HOUVE ENCOMENDA ANTES DA IMPORTAÇÃO OU DA CHEGADA DA MERCADORIA EM TERRITÓRIO NACIONAL. Doutos julgadores, o Fisco distorceu as palavras da Impugnante, fez MAL USO delas e usou para o seu beneficio e para tirar conclusões equivocadas e falsas. Ludibriou a boa fé do contribuinte fazendo pergunta maldosa para que ele caísse numa armadilha e depois usasse suas palavras contra ele próprio. Isso não dignifica o ente arrecadador. Alega o fisco que “pelo relato do encomendante, o pedido ( ou encomenda) teria ocorrido em contato pessoal, em meados de dezembro de 2010”. O que ocorreu no processo foi que o fisco indagou qual o primeiro contato que a Impugnante manteve com o representante legal da empresa CALL. Veja bem, Doutos Julgadores, QUAL O "PRIMEIRO CONTATO”!. A empresa com a maior boafé, informou que “o primeiro contato” foi em meados de dezembro de 2010. O pedido somente foi realizado DEPOIS QUE A MERCADORIA chegou em território nacional. Nesse momento, a empresa CALL entrou novamente em contato informando que tinha disponibilidade de estoque de determinada mercadoria e a empresa SALA se interessou pelas mercadorias oferecidas. A mercadoria não era mais estrangeira, era nacionalizada. Já era nacional. Já havia sido realizado o desembaraço. Tanto isso é verdade, que conforme informado no Relatório de Fiscalização e consta nos autos, em 21/01/2011 ( registrese que a Dl é de 13/01) houve a confirmação do pedido por meio de email, tendo Fl. 615DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 616 7 ocorrido ordem de compra interna da empresa em 27/01/2011. Isso ocorreu quase 15 dias depois da mercadoria ter sido nacionalizada. Induvidosamente a mercadoria era nacional, não era estrangeira. A venda ocorreu no mercado interno. Ora, se a encomenda tivesse ocorrido antes da importação, para que teria havido email de “confirmação do pedido”? Bastava ter enviado a mercadoria, já que estava encomendada!!!! ( como quer parecer o fisco!) Assim, doutos julgadores, não há uma prova sequer que houve encomenda da mercadoria. A única prova que o fisco tenta atribuir à ocorrência da pretensa encomenda é a resposta à intimação que a própria empresa deu à fiscalização no sentido de que o primeiro contato feito com o representante comercial da empresa foi em meados de dezembro de 2010. Distorcendo as palavras da Impugnante, ele buscou fazer disso a ÚNICA E EXCLUSIVA PROVA DE QUE HOUVE ENCOMENDA DA MERCADORIA antes da importação. O fato de ter sido vendido toda mercadoria importada, também não restou comprovado nos autos. Não tem fatura comercial da empresa exportadora. Não tem cópia da DI. Não se sabe qual nota fiscal de venda está se referindo, já que não há venda que equivale a R$ 164.802,00!... Portanto, não pode ser considerado esta imputação contra a empresa. ⊙ INOCORRÊNCIA DE DANO AO ERÁRIO AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO FISCO A pena de perdimento na legislação citada no auto de infração, tem como finalidade a reparação do dano eventualmente causado. Isso significa que um dos pressupostos para aplicação da pena de perdimento é a existência de dano ao erário, já que esta tem natureza de restituição, e não simples retribuição. Tendose em conta que as penas têm diversas funções e caracteres, dependendo da função que lhes é dada pelo legislador, percebese que o perdimento de bens possui unicamente a função de restituir o que deveria ser de propriedade do poder público. Ou seja, o ilícito e a reação do Estado, quando lesado, devem ser perfeitamente proporcionais, sob pena de existir enriquecimento sem causa da Fazenda Pública. Junta textos da jurisprudência. Como efeito, para que o dano ao Erário e a sonegação possam ser caracterizados (i) é necessário identificar a conduta infracional tributária ou financeira, como lesiva ao patrimônio público e quem a cometeu; (ii) o resultado infracional há de ser quantificado e, tanto quanto o imposto, expresso em pecúnia, elemento definidor da intensidade do dano causado e; (iii) tal dano ou prejuízo fiscal há de ser constituído no mundo das obrigações e nesta condição ser exigível, além de identificar o sujeito passivo que cometeu.” A interpretação sistemática da legislação que rege a matéria, a jurisprudência e a doutrina citada demonstra o entendimento de que a Fl. 616DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 617 8 pena de perdimento só terá aplicação quando efetivamente comprovada a ocorrência de prejuízo pecuniário ao erário, ou seja, o dano ao erário. O auto de infração exige tãosomente multa de 100% do valor aduaneiro em substituição à pena de perdimento. Constatase que a Impugnante recolheu todos os tributos referentes à importação e que a pretensa ocultação do importador na Dl não causou prejuízo algum aos cofres públicos. Em tal contexto, presumese, pois, de boafé a conduta do adquirente, mesmo porque não buscou o fisco, em nenhum momento, demonstrar a inexistência desse elemento subjetivo, limitandose apenas a insistir na tese de dano ao erário. Assim, não houve qualquer prejuízo ao Erário em decorrência da operação em tela, na medida em que os tributos incidentes na importação foram integralmente recolhidos o que, além de ser requisito para registro da Declaração de Importação no SISCOMEX, nunca foi questionado. Ou seja, tal como não foi apontada uma conduta dolosa específica por parte das empresas envolvidas, igualmente não foi demonstrada a existência de um prejuízo real e efetivo (e não meramente hipotético) ao Erário. Nessa senda, poderseia definir interposição fraudulenta de terceiros como todo ato em que uma pessoa física ou jurídica aparenta ser o responsável por uma operação de comércio exterior pela qual de fato não foi, tendo apenas tentado fazer parecer que seria o seu beneficiário, de modo a interporse entre a União (sujeito ativo) e o real sujeito passivo, com o objetivo central de ocultar este último da relação obrigacional tributária. A fiscalização deveria demonstrar, de forma quantitativa o dano ao Erário, de maneira a não restarem dúvidas no sentido de lesão aos cofres públicos em termos pecuniários, ocasionado pela ocultação do sujeito passivo. ⊙ AUSÊNCIA DE FRAUDE OU SIMULAÇÃO E DE INTERPOSIÇÃO DE PESSOA Claro está que não houve interposição fraudulenta de terceiros, eis que a importação praticada pela CALL é a denominada “importação direta”, conforme declaração na Dl ( qual?!). No caso em tela, a fiscalização buscou tipificar o perdimento pela existência de dano ao erário configurado pela ocultação do real comprador (responsável pela operação), mediante fraude ou simulação. Porém, o auto de infração é carente de provas que conduzam a conclusão da autoridade fiscal. Nos termos da redação do art. 23, inciso V, c/c §1° do Dec.Lei 1.455, o conteúdo do dispositivo citado, prevê a possibilidade de configurar interposição de pessoa, se ocorrer fraude ou simulação, deixando evidente a necessidade do dolo na conduta do agente para que haja a aplicação da pena de perdimento. O que se reprime, através da aplicação da pena de perdimento, é a fraude ou simulação; o artifício malicioso para a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela Fl. 617DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 618 9 operação, que poderá se realizar, inclusive, pela interposição fraudulenta de terceiros. De sapiência antiquíssima, fraude é um esquema criado para obter ganhos pessoais, apesar de ter, juridicamente, outros significados legais mais específicos. Portanto, necessitase de dois requisitos para ocorrência de fraude: o locupletamento ilícito; utilização de via indireta em razão da vedação pela via normal. Conceituase fraude como o ãolo utilizado para lograr à execução de um ato, como artifício, maquinação, ou astúcia tendente a frustrar, impedir ou iludir um interesse legitimo de terceiros de obter um resultado contrário ao direito sob a aparência de legalidade. Em outras palavras, a fraude é o conluio entre pessoas para frustrar direitos de terceiros. Utilizandose de um meio aparentemente legal, visa frustrar interesses legítimos de outros credores. Sabese que a fraude ou simulação, inclusive interposição fraudulenta de terceiros, visa ocultarse da relação obrigacional tributária, ludibriar a ação fiscalizatória da RFB, no afã de deixar de recolher os tributos incidentes e proteger seu patrimônio de eventual execução fiscal. Dessa forma, não há de se falar em fraude ou simulação, pois, diante da ausência de documentos que comprovem o dolo ou a intenção de se simular a operação, visando impedir a obrigatoriedade da Impugnante em recolher todos os tributos da operação, beneficiandose ou beneficiando terceiro, é ilógico atribuir a prática de infração aduaneira por pífios indícios e presunções. Junta textos da jurisprudência. Devese ter como princípio o brocado de direito que prevê que “fraude não se presume, se prova”. Assim, para desclassificar a importação direta e considerála como se fosse por conta e ordem o Fisco deve demonstrar que toda e qualquer atitude foi premeditada no sentido de ocultar o real adquirente no afã de reduzir o tributo a recolher. Vejase que a premeditação é no sentido de ocultar o adquirente, ou seja, planejar antecipadamente a ocultação, não planejar antecipadamente a venda, buscar antecipadamente um comprador. Deve o fisco detectar o beneficio final da importação previamente intencionado. Fato importantíssimo deve ser verificado por V. Sas. No mesmo período das aquisições, a empresa adquiriu de outros fornecedores TAMBÉM NO MERCADO INTERNO mercadorias idênticas. De alguns fornecedores, o valor da mercadoria era menor do que o da CALL, o que a levou a pedir descontos à CALL, que lhe concedeu. Portanto: a aquisição das mercadorias da CALL ao invés de ter sido mais vantajosa e trazerlhe benefícios, foi mais onerosa e, portanto, não teve vantagem financeira com a dita operação. Ora, Doutos Julgadores, para que a Impugnante faria uma operação desta Fl. 618DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 619 10 envergadura, “utilizando interposta pessoa” correndo riscos de ser autuada, para comprar uma mercadoria mais cara que compraria no mercado interno? Isso seria ininteligível. Não é condizente com negócios comerciais. É claro que ela não faria toda essa engenharia ilícita para sofrer prejuízos... Não tem razoabilidade. Isso comprova que a compra realizada pela empresa SALA foi no mercado interno e que não importou mercadoria por meio de interposta pessoa. Junta textos da jurisprudência. ⊙ PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABIIDADE O princípio da proporcionalidade consubstanciase na necessidade e adequação dos meios empregados para que se atinja os desideratos que a lei almeja. O princípio da proporcionalidade da pena, impõe justa medida entre o bem jurídico violado e a sanção. Como punição, a multa, além da obediência estrita à lei, deve obrigatoriamente tomar como parâmetro “a natureza, a gravidade e a característica do ilícito, de modo a desestimular a inobservância das obrigações legalmente previstas. Por isso, a aplicação de penalidades deve corresponder exatamente ao fato legalmente tipificado, podendo sofrer temperamentos à luz das circunstâncias peculiares de cada caso, pois, do contrário, a exigência se afigurará desarrazoada, contrariando o princípio da proporcionalidade da pena. A aplicação de pena equivalente a 100% do valor da mercadoria é, ao lado do próprio perdimento, a mais grave das penas administrativas, razão pela qual somente tem cabimento em hipóteses excepcionais. No presente caso, diante da ausência de dano ao erário, ausência de fraude ou simulação, deve haver uma flexibilização da pena imposta. Junta textos da jurisprudência. O princípio da proporcionalidade e da razoabilidade são princípios não escritos, cuja observância independe de explicitação em texto constitucional, porquanto pertencem à natureza e essência do Estado de Direito. Portanto, são direito positivo em nosso ordenamento constitucional. Embora não hajam sido ainda formulados como "normas jurídicas globais", fluem do espírito que anima em todo sua extensão e profundidade o § 2o do artigo 5o, o qual abrange a parte não expressa dos direitos e garantias da Constituição, a saber, aqueles direitos e garantias cujo fundamento decorre da natureza do regime, da essência impostergável do Estado de Direito e dos princípios que esta consagra e que fazem inviolável a unidade da Constituição. Os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade são cânones do Estado de Direito, bem como regras que tolhem toda ação ilimitada do poder do Estado no quadro de juridicidade de cada sistema legítimo de autoridade. A eles não poderia ficar estranho o Direito Constitucional brasileiro. Sendo, como são, princípios que embargam "o próprio alargamento dos limites do Estado ao legislar sobre matéria que abrange direta ou indiretamente o exercício da liberdade e dos direitos fundamentais, mister se faz proclamar a força cogente de sua normatividade." Fl. 619DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 620 11 A doutrina, ao se pronunciar sobre o princípio da razoabilidade, ora enfoca a necessidade de sua observância pelo Poder Legislativo, como critério para reconhecimento de eventual inconstitucionalidade da lei, ora o apresenta como condição de legitimidade dos atos administrativos, ora aponta sua importância para o Judiciário quando da aplicação da norma ao caso concreto. Isto demonstra de forma cristalina que a razoabilidade é essencial ao sistema jurídico como um todo e que sua utilização é essencial à concretização do direito posto. ⊙ AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA APLICAÇÃO DA PENA DE PERDIMENTO E CONSEQUENTE MULTA SUBSTITUTIVA O art. 23, V e §§1° e 2o, do DecretoLei 1.455/76 dispõe sobre a penalização da interposição fraudulenta de terceiros no comércio exterior, com o perdimento das mercadorias, sendo este o fundamento do auto de infração ora atacado. Ocorre que com o advento do artigo 33 da Lei 11.488/2007, deixou de existir a possibilidade de imputação de pena de perdimento no caso de suposto ilícito de interposição fraudulenta de terceiros, já que estabeleceu uma pena mais branda para a conduta e não ressalvou a possibilidade de aplicação concomitante de outras penas já previstas em lei aduaneira. A partir da publicação desta lei, não mais é possível a aplicação ao importador da multa de 100% prevista no artigo 23, inciso V do DecretoLei 1455/76, uma vez que a novel legislação não ressalvou a possibilidade de aplicação concomitante de outras penas já previstas em lei. Assim, não existe legislação que prevê, para o caso dos autos, pena de perdimento e consequente imposição de pena substitutiva no importe de 100% do valor aduaneiro das mercadorias. Junta textos da jurisprudência. ⊙ DOS PEDIDOS Destarte, diante de todo o exposto na precedência, o Impugnante roga sejalhe dispensado julgamento condigno com os ditames legais e morais que devem nortear a Administração Pública, para que, ao final seja : 1. Anulado o lançamento por carecer de todos os requisitos necessários e imprescindíveis, mormente pela total ausência de demonstração da apuração da multa aplicada, por não ter sido instruído o processo com os documentos imprescindíveis e por não ter obedecido o devido processo legal; 2. Julgado improcedente o lançamento pelas razões expostas, maiormente porque não está em vigor norma que prevê a penalidade aplicada, não houve interposição fraudulenta de pessoas, não houve importação por encomenda e não houve dano ao erário, já que não houve lesão ao fisco. Fl. 620DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 621 12 É o Relatório. Os argumentos aduzidos pelo sujeito passivo, no entanto, não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão abaixo transcrito: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 13/01/2011 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido 1) A Recorrente (SALA ESTOFADOS LTDA) foi regularmente intimada em 25/04/2016 (doc. fl. 551), por meio de sua Caixa Postal, considerada seu Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) eleito perante a RFB. Verificase que em 23/05/2016 (protocolo fls. 553 e 608), apresentou seu Recurso Voluntário de fls. 554/606. 2) Já quanto ao sujeito passivo solidário: CALL IMPORTADORA, EXPORTADORA E DISTRIBUIDORA S/A (CNPJ n.º 07.709.346/000102 ), o mesmo não apresentou a respectiva Impugnação, conforme Despacho da IRF/RJO fl. 472, nem seu Recurso Voluntário. Não encontramos nos autos a respectiva intimação do Acórdão DRJ. A Recorrente SALAS ESTOFADOS, repisa os argumentos descritos em sede de Impugnação, que basicamente resumese aos seguintes tópicos: Em PRELIMINAR, alega a NULIDADE do Auto de Infração, uma vez que EM NENHUM MOMENTO consta os dados básicos para se fazer o procedimento de lançamento, maiormente a base de cálculo e tampouco o cálculo da multa. Tampouco consta o documento em que a multa teria se embasado, posto que em nenhuma folha do processo consta a referida DI, nem a nota fiscal de venda da mercadoria, nem um documento equer da Fl. 621DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 622 13 importação, tornando IMPOSSÍVEL a defesa do auto de infração; (a) que houve o cerceamento à ampla defesa; (b) fragrante violação ao princípio do devido processo legal; (c) da existência de capacidade financeira da empresa CALL; (d) da inocorrência de importação por encomenda; (e) da inocorrência de dano ao erário; (f) ausência de prejuízo ao fisco; (g) da ausência de fraude ou simulação e de interposição de pessoa; (h) da aplicação do princípio da proporcionalidade e da razoabilidade, (i) da ausência de previsão legal para aplicação da pena de perdimento e consequente multa substitutiva. Ao final, aduz que diante de todo o exposto, o Recorrente requer que seja dispensado julgamento condigno com os ditames legais que devem nortear a Administração Pública, para que, ao final seja reformada a decisão de primeira instância e seja (i) anulado o lançamento por carecer de todos os requisitos necessários e imprescindíveis, mormente pela total ausência de demonstração da apuração da multa aplicada, por não ter sido instruído o processo com os documentos imprescindíveis e por não ter obedecido o devido processo legal e (ii) julgado improcedente o lançamento pelas razões expostas, maiormente porque não está em vigor norma que prevê a penalidade aplicada, não houve interposição fraudulenta de pessoas, não houve importação por encomenda e não houve dano ao erário, já que não houve lesão ao fisco. É o relatório. VOTO / RESOLUÇÃO Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator 1. Da admissibilidade dos recursos Dada a hipótese de solidariedade na responsabilidade por infração à legislação aduaneira apontada na autuação fiscal (à empresa CALL IMPORTADORA, que quando da decisão DRJ foi intimada por Edital, fl. 280, e não apresentou sua Impugnação e nem o Recurso Voluntário), as razões de contestação apresentadas por um dos acusados em princípio aproveitam ao outro autuado, com exceção de eventuais alegações de caráter pessoal que possam importar na caracterização de dolo específico. Posto isto, passo ao exame do recurso voluntário apresentado pela SALA ESTOFADOS, que é tempestivo e atende os pressupostos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2. Contextualização dos fatos Em procedimento de fiscalização realizado na empresa SALA ESTOFADOS, o Fisco alega que foram apurados fatos que demonstraram que a empresa efetuou, utilizando interposta pessoa jurídica, operações de comércio exterior atuando como encomendante; que as referidas operações foram efetuadas sem a observância da legislação pertinente (em especial as IN SRF nº 225/2002 e 634/2006), caracterizando, assim, a situação de ocultação do sujeito passivo responsável pela operação, mediante a interposição fraudulenta de terceiros (dano ao Erário); com isso, foi lavrado o Auto de Infração, com base no inciso V do artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/76, aplicandose o disposto no parágrafo 3º, que prevê a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, pela impossibilidade de localização dos bens importados. Fl. 622DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 623 14 A fiscalização selecionou a Recorrente para o procedimento fiscal, tendo em vista auditoria anteriormente efetuada na empresa CALL IMPORTADORA, EXPORTADORA E DISTRIBUIDORA S A., CNPJ 07.709.346/000102, que teve como resultado da auditoria, a lavratura de auto de infração, cuja cópia do Relatório Fiscal foi anexado aos autos (fls. 30/62) e formalizado o PAF nº 10073.720514/201570. Vejase trecho da conclusão do referido Relatório Fiscal (fl. 62): "(...) Com os elementos coletados podese afirmar, de forma peremptória, que as operações do Anexo 1 se deram com a ocultação de seus reais beneficiários, porquanto não e crível que uma sociedade sem capacidade econômica (DIPJ zeradas em 2010 e 2011), sem capacidade operacional (sediada em uma sala comercial no centro de Volta Redonda e com apenas um funcionário registrado), conseguisse importar, por conta e risco próprios, o volume de mercadorias comercializadas, revendendo quase que instantaneamente todos os produtos importados". O lançamento na empresa CALL, foi efetuado com base no disposto no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 2007, que prevê multa de 10% do valor da operação, aplicável à pessoa jurídica que cede o nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, com objetivo de ocultar os reais intervenientes ou beneficiários. 3. Necessidade de realização de Diligência saneamento do processo Antes de se adentrar a análise das questões preliminares suscitada e do mérito, entendo ser necessário o saneamento do presente processo, a fim de dar prosseguimento ao julgamento. Explico. Não foi possível encontrar nos autos, a Intimação do resultado da decisão DRJ à empresa CALL IMPORTADORA, que foi arrolada pela fiscalização como solidária responsável, com base no art. 124, I do CTN, arts. 94 e 95 do Decreto Lei nº 37/66 e 674, V do Regulamento Aduaneiro. Vejase a conclusão do item 7, do Relatório de Fiscalização (anexo ao AI) fl. 7/9: "(...) Por todo o exposto, são responsáveis solidários pela infração a pessoa jurídica CALL IMPORTADORA, EXPORTADORA E DISTRIBUIDORA S A, CNPJ 07.709.346/000102 e a pessoa jurídica SALA ESTOFADOS LTDA, CNPJ 04.755.388/0001 91" (grifei). A referida empresa (CALL IMPORTADORA), apontada pela fiscalização como responsável solidária, foi intimada do Auto de Infração, conforme consta do Edital de fl. 280. Ressaltase que o lançamento foi mantido em sua integralidade pela decisão a quo e como não houve apresentação de impugnação pela empresa CALL IMPORTADORA, restou a responsabilidade atribuída em relação ao sujeito passivo. No entanto, verificase nos autos, que somente existe comprovação de que a Contribuinte (SALA ESTOFADOS) foi cientificado da decisão de primeira instância e manifestouse, apresentando o referido recurso. Em 23/05/2016, conforme Despacho da IRF/Belo Horizonte MG (fl. 609), os autos foram encaminhados a este CARF para prosseguimento e não localizamos nos autos, o comprovante de que o responsável solidário relacionado pelo Fisco (e mantidos pela decisão a quo), tenham sido intimado/cientificado Fl. 623DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 624 15 acerca da decisão da DRJ. Também não se localiza nos autos a interposição do recurso voluntário por parte da CALL IMPORTADORA. É cediço que ao deixar de intimar todos os responsáveis tributários acerca da decisão recorrida, a Administração Tributária pode incorrer em vício, por deixar de atender aos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa. E é dessa forma que se encontra estabelecido pela Súmula CARF nº 71 e devem ser observado pelos julgares deste CARF: Súmula CARF nº 71: Todos os arrolados como responsáveis tributários na autuação são parte legítima para impugnar e recorrer acerca da exigência do crédito tributário e do respectivo vínculo de responsabilidade. Em face do acima exposto, nos termos dos artigos 18 e 29 do Decreto n° 70.235, de 1972, proponho a realização de diligência para que a autoridade fiscal da IRF BELO HORIZONTE (MG), proceda as seguintes providências: (i) junte nos autos os comprovantes, AR (Correios) ou o Edital afixado, da intimação do responsável solidário (CALL IMPORTADORA, EXPORTADORA E DISTRIBUIDORA S A, CNPJ 07.709.346/000102), em relação a decisão da DRJ, e no caso de inexistir a intimação deles, que seja efetuada a intimação respectiva, com abertura de prazo de 30 (trinta) dias para interposição do recurso voluntário; (ii) seja anexado cópia (extrato) da DI nº 11/00773292, objeto da presente autuação, bem como fazer nova juntada "impressa" ou arquivo não paginável das planilhas demonstrativas de fls. 63/78, que a meu sentir, por força da digitalização do eprocesso, não restou com sua plena visualização e identificação para o perfeito manuseio de seus dados; (iii) consta dos autos o Relatório de Fiscalização referente o resultado da auditoria na empresa CALL IMPORTADORA (fls. 30/62) e o mesmo faz referência alguns anexos. Assim, solicito a juntado de cópia do referido PAF nº 10073.720514/201570, que foi citado no Relatório Fiscal à fl. 11 deste eprocesso, e (iv) demonstrar/justificar, a razão que, em relação a Nota Fiscal nº 20 (fl. 93) citada no Termo de Intimação (fl. 79), objeto da autuação, emitida pela empresa CALL IMPORTADORA para a empresa SALA ESTOFADOS no valor total de R$ 634.921,00, sendo que o lançamento da multa sobre o valor aduaneiro das mercadorias aplicada foi no valor de R$ 164.802,00. Ao término dos trabalhos, a autoridade fiscal da IRF/BELO HORIZONTE (MG), deverá elaborar o Relatório Conclusivo, devendo manifestarse sobre todos os fatos apurados na referida diligência. Encerrada a instrução processual os Interessados (SALA ESTOFADOS e CALL IMPORTADORA), deverão ser intimados para manifestarse sobre o resultado da diligência no prazo de 30 (trinta) dias, antes da devolução do processo a este CARF, para prosseguimento do julgamento. É como voto a presente Resolução. Fl. 624DF CARF MF Processo nº 11762.720079/201588 Resolução nº 3402001.022 S3C4T2 Fl. 625 16 (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator Fl. 625DF CARF MF
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Numero do processo: 13830.901110/2013-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jul 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 2007
ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA TRIBUTÁRIA. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO.INTELIGÊNCIA SÚMULA CARF N.2.
É vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade em sede de recurso administrativo. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico.
ALEGAÇÕES GENÉRICAS. APLICAÇÃO DO ART. 17, DO DEC. N.° 70.235/72. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA.
Em processo administrativo tributário, o poder instrutório da defesa compete, em princípio, ao sujeito passivo, o que lhe exige carrear aos autos provas capazes de amparar convenientemente seu direito, o que não ocorreu no presente caso.
Inexistindo a insurgência específica com relação à fundamentação da decisão recorrida ou à motivação do próprio lançamento tributário, aplicável o art. 17, do Dec. n.° 70.235/72.
Numero da decisão: 1302-002.264
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO.INTELIGÊNCIA SÚMULA CARF N.2. É vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade em sede de recurso administrativo. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. APLICAÇÃO DO ART. 17, DO DEC. N.° 70.235/72. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Em processo administrativo tributário, o poder instrutório da defesa compete, em princípio, ao sujeito passivo, o que lhe exige carrear aos autos provas capazes de amparar convenientemente seu direito, o que não ocorreu no presente caso. Inexistindo a insurgência específica com relação à fundamentação da decisão recorrida ou à motivação do próprio lançamento tributário, aplicável o art. 17, do Dec. n.° 70.235/72. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 0. 90 11 10 /2 01 3- 92 Fl. 74DF CARF MF Processo nº 13830.901110/201392 Acórdão n.º 1302002.264 S1C3T2 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório Tratam os autos de análise eletrônica de Pedido de Restituição, por intermédio do qual o contribuinte pretende a restituição de suposto crédito de pagamento indevido ou a maior de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ). Como resultado da análise foi proferido despacho decisório que decidiu pelo indeferimento do pedido de restituição, haja vista que o montante recolhido pelo Darf apontado como origem do crédito foi integralmente utilizado para liquidar débito confessado em Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF). Cientificado da decisão o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade onde argumenta, em síntese, que os créditos de PIS e Cofins nãocumulativos não devem afetar a determinação do lucro real, nem a base de cálculo da CSLL. A exigência de IRPJ e CSLL sobre tais créditos desrespeita o princípio constitucional da neutralidade tributária. A DRJ ao apreciar a matéria assim decidiu, litteris: ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA TRIBUTÁRIA. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO. É o administrador um mero executor de leis não lhe cabendo questionar a legalidade ou constitucionalidade do comando legal. A análise de teses contra a legalidade ou a constitucionalidade de normas é privativa do Poder Judiciário, conforme competência conferida constitucionalmente. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformado com o decisium, o recorrente interpôs Recurso Voluntário, alegando, em síntese, os mesmos argumentos da impugnação, acrescentando que a Administração não pode eximirse da competência sobre o controle de constitucionalidade das leis, decretos e portarias, bem como o fato de não ser razoável que a Administração Pública desconsidere as informações prestadas pelo Contribuinte na DCOMP, as quais apresentam presunção de legitimidade. É o relatório. Voto Fl. 75DF CARF MF Processo nº 13830.901110/201392 Acórdão n.º 1302002.264 S1C3T2 Fl. 4 3 Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1302002.134, de 18.05.2017, proferido no julgamento do processo nº 13830.900610/201226, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1302002.134): O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Conforme depreendese da leitura do Relatório acima, o Recorrente sustenta seus argumentos com base em supostas inconstitucionalidades perpetradas pela autoridade fiscal e ratificadas pela decisão recorrida. Contudo, é vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade em sede de recurso administrativo. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico. As autoridades administrativas, enquanto responsáveis pela execução das determinações legais, devem sempre partir do pressuposto de que o legislador tenha editado leis compatíveis com a Constituição Federal e Código Tributário Nacional. Assim, não há que se cogitar de desobediência aos dispositivos legais elencados, no âmbito da Administração Tributária, quando esta, no exercício da sua atividade de fiscalização, logre efetuar o lançamento de crédito tributário, lastreado em fatos e atos atribuídos ao sujeito passivo, que ensejam a exigência de tributos e dos acréscimos legais pertinentes, desde que referido lançamento seja devidamente fundamentado em regular procedimento de ofício e de acordo com os dispositivos legais que regem a espécie. O tema é pacificado no âmbito deste Conselho Administrativo, nos termos da Súmula 02: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de Lei Tributária”. Afasto, portanto, o presente argumento, por não ser o CARF competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Noutra banda, verificase que o recorrente sem acostar documentos comprobatórios aos presentes autos, em seu recurso voluntário, faz referências genéricas aos fatos que motivaram a presente autuação, bem como em relação a decisão proferida em Fl. 76DF CARF MF Processo nº 13830.901110/201392 Acórdão n.º 1302002.264 S1C3T2 Fl. 5 4 primeira instância, sem com isto trazer objetivamente os fundamentos e provas com base nas quais pede para que seja homologado o seu pedido de compensação. Para esse Relator fica claro que o Recorrente se insurge contra decisão proferida pela DRJ de forma genérica, fazendo mera referência parte das razões apresentadas em sede da impugnação e a necessidade de observação das provas já juntadas aos autos, não merecendo prosperar e, por conseguinte, não surte o efeito pretendido em alterar a decisão do julgador a quo. Nesse sentido já decidiu esta Corte Administrativa, conforme se extrai do decidido nos autos do processo nº 10935.720364/2013 45 que teve como relator Amílcar Barca Teixeira Júnior, como segue: "(...) 1. O contribuinte, em seu recurso, no concernente à obrigação principal, limitas se a prestar informações genéricas e não ataca o mérito, situação que não o favorece, enquadrando se, assim, na disciplina do art. 17 do Decreto nº 70.235, de 1972 (Acórdão nº 2803003.497. Rel. Amílcar Barca Teixeira Júnior. Sessão de 12/08/2014)." Diante do exposto, NEGO provimento ao Recurso Voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 77DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13888.900066/2014-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jun 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jul 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 25/10/2010
NULIDADE. AUSÊNCIA. MOTIVAÇÃO EXISTENTE NO DESPACHO DECISÓRIO. INOCORRÊNCIA DO CERCEAMENTO DE DEFESA.
É incabível a argüição de nulidade do despacho decisório por cerceamento de defesa quando presente a motivação para o indeferimento do pedido de compensação.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. ÔNUS DA PROVA
Incumbe à interessada o ônus processual de provar o direito resistido.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.455
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DIREITO DE CRÉDITO. Recorrente FISCHER INDÚSTRIA MECÂNICA LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 25/10/2010 NULIDADE. AUSÊNCIA. MOTIVAÇÃO EXISTENTE NO DESPACHO DECISÓRIO. INOCORRÊNCIA DO CERCEAMENTO DE DEFESA. É incabível a argüição de nulidade do despacho decisório por cerceamento de defesa quando presente a motivação para o indeferimento do pedido de compensação. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. ÔNUS DA PROVA Incumbe à interessada o ônus processual de provar o direito resistido. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 90 00 66 /2 01 4- 19 Fl. 60DF CARF MF Processo nº 13888.900066/201419 Acórdão n.º 3302004.455 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de declaração de compensação, não homologada em razão de o DARF informado na Dcomp ter sido utilizado para quitar outros débitos da recorrente, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP, conforme despacho decisório constante nos autos. Em manifestação de inconformidade, a recorrente alegou que: 1. O despacho decisório é nulo, pois sem maiores esclarecimentos, indeferiu a compensação sem se dar ao trabalho de intimar a recorrente para esclarecer os fatos, considerando o pagamento indisponível, sem motivar o porquê da indisponibilidade, causando cerceamento de defesa por ausência de motivação; 2. O despacho deveria explicar o significado da expressão "disponibilidade do crédito", pois o que parece à recorrente é que se trata de encontro de contas entre o débito recolhido mediante DARF e o crédito declarado em DCTF; 3. No mérito, a recorrente defendeu que incluiu na base de cálculo do IPI não somente receitas de faturamento, mas também outras que não compuseram o faturamento, conforme teses abarcadas pelo STF sobre a ampliação do conceito de faturamento, tendo o pedido como base a declaração de inconstitucionalidade, em consonância com o disposto na Lei nº 9.430/1996; 4. Necessária a produção posterior de provas, uma vez que, de acordo com o artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972, não foi possível à recorrente entender a motivação do indeferimento do despacho, razão pela qual não produziu as provas na impugnação. A DRJ indeferiu a manifestação de inconformidade nos termos do Acórdão 14050.574. O fundamento adotado, em síntese, foi a inexistência de nulidade e a necessidade de comprovação pelo contribuinte do direito creditório pretendido. Inconformada, a recorrente interpôs recurso voluntário, reiterando as razões aduzidas na impugnação, quanto à falta de motivação do despacho decisório, da decisão da DRJ, causando cerceamento de defesa. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.452, de Fl. 61DF CARF MF Processo nº 13888.900066/201419 Acórdão n.º 3302004.455 S3C3T2 Fl. 4 3 30 de junho de 2017, proferido no julgamento do processo 13888.900063/201485, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.452): O recurso voluntário interposto atende aos pressupostos de admissibilidade e dele tomo conhecimento. A recorrente alega apenas nulidades em seu recurso voluntário, nada referindo ao mérito, como fizera em manifestação de inconformidade. Concernente à nulidade do despacho, está claro que o indeferimento foi causado pela indisponibilidade do valor pleiteado pela recorrente, referente ao DARF de julho/2008 uma vez que fora utilizado no PA de julho/2008, conforme e fls. 38, não restando assim saldo disponível, restando evidente a motivação do indeferimento. Em manifestação, a recorrente alegou, no mérito, que se tratava de erro na base de cálculo do IPI, em razão de a tese do alargamento da base de cálculo ter sido declarada inconstitucional pelo STF. Inicialmente, esclareçase que a matéria de direito, superficialmente levantada pela recorrente em sua manifestação, se referia à PIS/Pasep e Cofins faturamento, pelo que se pode depreender, não se aplicando ao IPI, cujos fatos geradores estavam dispostos no artigo 341 do Decreto nº 4.544/2002 (vigente à época dos fatos) e não referiam a faturamento, mas a saídas dos estabelecimentos industriais, ou equiparados a industrial, e ao desembaraço aduaneiro de produto de procedência estrangeira. Quanto à alegação de nulidade da decisão da DRJ, não há reparos a se fazer na decisão que já havia exposto a motivação do despacho, acrescentando que caberia à recorrente a produção de prova de eventual pagamento indevido ou a maior que devido. O procedimento correto a ser tomado pela recorrente seria a retificação da DCTF, gerando assim um saldo credor, ou, na fase de manifestação de inconformidade, ter apresentado as provas de seu direito, como preceitua o artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972 e o artigo 333 da Lei nº 5.869/1973 (antigo CPC) vigente à época dos fatos. Ocorre que a recorrente não se desincumbiu de tal ônus, restando não comprovadas suas alegações. Diante do exposto, voto para negar provimento ao recurso voluntário. Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o contribuinte não logrou comprovar o crédito que alega fazer jus, em razão do pagamento indevido ou a maior de Imposto sobre Produtos Industrializados IPI. 1 Art. 34. Fato gerador do imposto é (Lei nº 4.502, de 1964, art. 2º): I o desembaraço aduaneiro de produto de procedência estrangeira; ou II a saída de produto do estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial. Fl. 62DF CARF MF Processo nº 13888.900066/201419 Acórdão n.º 3302004.455 S3C3T2 Fl. 5 4 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 63DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15983.001250/2009-64
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri May 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/12/2003 a 31/12/2004
RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS
É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusão díspares. Sendo distintas as situações fáticas, não se admite o recurso apresentado.
RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS
Não tendo o colegiado recorrido analisado a matéria de que se pretende recorrer, não se pode admitir recurso que a pretenda discutir por falta de prequestionamento.
Numero da decisão: 9303-004.712
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional.
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício.
Júlio César Alves Ramos - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício)
Nome do relator: JULIO CESAR ALVES RAMOS
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/12/2003 a 31/12/2004 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusão díspares. Sendo distintas as situações fáticas, não se admite o recurso apresentado. RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS Não tendo o colegiado recorrido analisado a matéria de que se pretende recorrer, não se pode admitir recurso que a pretenda discutir por falta de prequestionamento.
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REQUISITOS Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO SANTA CECÍLIA ISESC ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/12/2003 a 31/12/2004 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusão díspares. Sendo distintas as situações fáticas, não se admite o recurso apresentado. RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS Não tendo o colegiado recorrido analisado a matéria de que se pretende recorrer, não se pode admitir recurso que a pretenda discutir por falta de prequestionamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício. Júlio César Alves Ramos Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 3. 00 12 50 /2 00 9- 64 Fl. 1542DF CARF MF 2 Relatório Opõe a Fazenda Nacional recurso contra decisão que apontou a nulidade de lançamento realizado por auditor fiscal já aposentado no momento em que concluiu os trabalhos e deu ciência do auto de infração ao sujeito passivo, consoante a decisão recorrida: O AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil Eráclito de Oliveira Jordão, subscreveu o Auto de Infração em 23/12/2009. O sujeito passivo do ato pela via postal em 29/12/2009. Consta dos autos que a Portaria nº 573, de 10/12/2009, do Gerente Regional de Administração do Ministério da Fazenda em São Paulo, publicada na Seção 2 do D.O.U. de17/12/2009, concedeu aposentadoria ao servidor Eráclito de Oliveira Jordão. Assim, constatado que, na data da lavratura do AI, o servidor em questão já não mais estava no pleno e regular exercício das atribuições inerentes ao cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil e, portanto, não dispunha de competência legal para proceder a lançamentos de ofício e constituir créditos tributários, é nulo, nos termos do art. 59, inc. I, do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 PAF, o Auto de Infração por ele lavrado. Nada a reparar na decisão da 2ª Turma da DRJ/CPS. Conclusão Nego provimento ao recurso de ofício. Para comprovar a divergência, traz a representação fazendária acórdão que possui a seguinte ementa, transcrita na íntegra no corpo da decisão: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. NULIDADE. LANÇAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. VÍCIO FORMAL. INCOMPETÊNCIA. Padece de nulidade o auto de infração lavrado em decorrência de lançamento feito por autoridade incompetente. Inobservância das formalidades legais na constituição do crédito tributário. Vício insanável. A Administração deve anular seus atos quando eivados de vícios de legalidade. Observância das hipóteses de nulidade elencadas no art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Recurso de Ofício Negado Além de juntar a ementa, a PFN juntou o inteiro teor do acórdão. Dele se extrai: Da Nulidade do Ato Declaratório Fl. 1543DF CARF MF Processo nº 15983.001250/200964 Acórdão n.º 9303004.712 CSRFT3 Fl. 3 3 A Lei n° 12.101/2009, ao tratar das autoridades competentes à verificação de prática de irregularidades por entidade beneficiada pela isenção de contribuições em razão de seu caráter beneficente, prevê: Art. 27. Verificado prática de irregularidade na entidade certificada, são competentes para representar, motivadamente, ao Ministério responsável pela sua área de atuação, sem prejuízo das atribuições do Ministério Público: I o gestor municipal ou estadual do SUS ou do SUAS, de acordo com a sua condição de gestão, bem como o gestor da educação municipal, distrital ou estadual; II a Secretaria da Receita Federal do Brasil; III os conselhos de acompanhamento e controle social previstos na Lei n° 11.494, de 20 de junho de 2007, e os Conselhos de Assistência Social e de Saúde; e IV o Tribunal de Contas da União. Em complemento, a Lei n° 9.430/96, no parágrafo 3° do artigo 32, dispõe que cabe ao Delegado ou ao Inspetor da Receita Federal decidir sobre a procedência das alegações, expedindo o ato declaratório suspensivo do benefício: Art. 32. A suspensão da imunidade tributária, em virtude de falta de observância de requisitos legais, deve ser procedida de conformidade com o disposto neste artigo. § 1º Constatado que entidade beneficiária de imunidade de tributos federais de que trata a alínea c do inciso VI do art. 150 da Constituição Federal não está observando requisito ou condição previsto nos arts. 9º, § 1º, e 14, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, a fiscalização tributária expedirá notificação fiscal, na qual relatará os fatos que determinam a suspensão do benefício, indicando inclusive a data da ocorrência da infração. §2º A entidade poderá, no prazo de trinta dias da ciência da notificação, apresentar as alegações e provas que entender necessárias. §3º O Delegado ou Inspetor da Receita Federal decidirá sobre a procedência das alegações, expedindo o ato declaratório suspensivo do benefício, no caso de improcedência, dando, de sua decisão, ciência à entidade. No caso em tela, o Ato Declaratório de n° 42, de 17 de julho de 2008, que declarou suspensa a imunidade da Recorrente, foi assinado pelo Chefe do Serviço de Orientação e Análise Tributária – SEORT (fls. 119 dos autos do PAF n° 10380.001142/200967), que justificou sua conduta invocando o Fl. 1544DF CARF MF 4 quanto previsto pelo art. 7°, III, da Portaria n° 74/2007 (DRF/Fortaleza), que assim prevê: Das atribuições específicas Art., 7° Ao Chefe do Serviço de Orientação e Análise Tributária – Seort, para: I – decidir sobre a inclusão e exclusão de contribuintes em regimes de tributação diferenciados, exceto regime de tributação simplificada; II – decidir sobre restituição, compensação, ressarcimento e reembolso de tributos até o montante de R$ 500.000,00; III – decidir sobre o reconhecimento de imunidades e isenções; IV – negar o seguimento de manifestação de inconformidade do sujeito passivo quando não atendidos os requisitos legais; V – decidir sobre pedidos de cancelamento ou reativação de declarações, no âmbito de sua competência. Conforme se observa, entretanto, a competência atribuída ao Chefe do SEORT pela Portaria DRF, no que tange às imunidades e isenções, limitase ao reconhecimento dos benefícios, não havendo previsão quanto a eventuais suspensões ou cancelamentos, enquanto que a Lei n° 9.430/96, no parágrafo 3° do artigo 32 (transcrita acima) concede expressamente ao Delegado ou Inspetor da Receita Federal a competência para tanto. Pois bem. O Decreto n° 70.235/72, descrevendo as hipóteses de nulidade do auto de infração impõe: (...) Ou seja, todo e qualquer ato administrativo emitido por autoridade que não possua competência para tanto deve ser considerado nulo e, nos termos do § 1° do art. 59, a decretação de nulidade prejudicará todos os atos a ele posteriores, que dele dependa ou seja conseqüência. Desta forma, tendo em vista que o auto de infração sob análise está totalmente pautado no Ato Declaratório Executivo n° 42/2008, necessário seja reconhecida a nulidade do mesmo, em respeito ao disposto no § 1°, art. 59, do Decreto n° 70.235/72. Conclusão Por todo o exposto, conheço do recurso de ofício e a ele nego provimento em razão do reconhecimento da nulidade formal do auto de infração. É como voto. Fl. 1545DF CARF MF Processo nº 15983.001250/200964 Acórdão n.º 9303004.712 CSRFT3 Fl. 4 5 Thiago Taborda Simões. Em tempestivas contrarrazões, pedese a não admissibilidade do recurso, tanto por ausência de prequestionamento quanto por dessemelhança entre as situações fáticas. E, no mérito, pela manutenção da decisão que teria reconhecido a nulidade material do lançamento. É o Relatório. Voto Conselheiro JÚLIO CÉSAR ALVES RAMOS Procurei deixar claro já no relatório porque entendo não deva ser admitido o recurso. Deveras, não enxergo a necessária similitude entre as situações fáticas enfrentadas nos acórdãos. Com efeito, o recorrido tratou de caso em que a autoridade que lavrou o auto de infração já não mais possuía poderes para tanto quando de sua ultimação, visto ter sido, alguns dias antes, aposentado. Já o pretendido paradigma reconheceu a nulidade, não originariamente do auto de infração e, muito menos, porque seu autor não possuísse poderes pessoais para tanto. Lá, o lançamento foi atingido como decorrência de outro ato, anterior, que lhe era imprescindível, qual seja, ato declaratório de suspensão de imunidade que fora assinado por quem, este sim, era incompetente para tanto. Ou seja, a semelhança entre os acórdãos se limita a que ambos apontam o art. 59 do Decreto 70.235 como base para a nulidade reconhecida e ambos fazem referência a incompetência de autoridade. Mas a autoridade incompetente, bem como os motivos dessa incompetência são completamente distintos. Além disso, o vício apontado no paradigma parece restrito às contribuições previdenciárias, que não são objeto deste processo. Ademais dessa circunstância, também acolho o argumento posto em contrarrazões no que tange à ausência de prequestionamento. É que, como bem afirmado, o acórdão recorrido realmente nada diz explicitamente sobre a natureza do vício, se material ou formal. Vejase que ele, após relatar os fatos, limitase a reconhecer a incompetência da autoridade, afirma a nulidade e nega provimento ao recurso de ofício. Como consequência, parece, ratifica a conclusão da primeira instância sobre a natureza daquele vício. Ocorre que, mesmo na decisão da DRJ também não está claro ao menos não está explícito se o vício é mesmo material. Com efeito, lá se faz um relato detalhado dos fatos relacionados à aposentadoria do servidor, esclarecendo que eles chegaram ao conhecimento dos julgadores de primeiro grau por iniciativa da própria delegacia de origem, que, com isso, explicitamente pretendiam o reconhecimento do vício formal do lançamento. Apesar disso, como disse, a DRJ nada diz explicitamente sobre a natureza do vício. Por isso, entendo, a matéria deveria ter sido questionada pela Fazenda Nacional por meio de embargos de declaração que objetivassem obter da instância ora recorrida um pronunciamento formal sobre a natureza do vício que macula o lançamento. Fl. 1546DF CARF MF 6 Ainda que se depreenda, como ela parece ter feito, que lá se apontou ser ele material, certo é que não há no voto qualquer motivação para tanto, ou melhor, nada que diga por que não é formal. Com essas considerações, voto por não conhecer do recurso da Fazenda. JÚLIO CÉSAR ALVES RAMOS Relator Fl. 1547DF CARF MF
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Numero do processo: 11020.003464/2003-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Jul 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/1998 a 31/10/1999
COOPERATIVAS AGRÍCOLAS. BASE DE CALCULO.
As sociedades cooperativas são isentas da contribuição, quanto aos atos cooperativos próprios de sua finalidade (Lei Complementar n° 70/91, art. 6°, inciso I), as demais submetem-se a tributação normal. Restando o fisco demonstrado, a partir da contabilidade mantida pela cooperativa, a parcela efetivamente sujeita à tributação, deve prosperar o lançamento.
PIS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO
Constatado que, em alguns meses, a base de cálculo apurada pela Recorrente revelou-se inferior à apurada pelo Fisco, não abalada pelo recurso trazido, correto o lançamento de ofício das diferenças apontadas.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-004.260
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentará declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Relator
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/1998 a 31/10/1999 COOPERATIVAS AGRÍCOLAS. BASE DE CALCULO. As sociedades cooperativas são isentas da contribuição, quanto aos atos cooperativos próprios de sua finalidade (Lei Complementar n° 70/91, art. 6°, inciso I), as demais submetemse a tributação normal. Restando o fisco demonstrado, a partir da contabilidade mantida pela cooperativa, a parcela efetivamente sujeita à tributação, deve prosperar o lançamento. PIS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO Constatado que, em alguns meses, a base de cálculo apurada pela Recorrente revelouse inferior à apurada pelo Fisco, não abalada pelo recurso trazido, correto o lançamento de ofício das diferenças apontadas. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentará declaração de voto. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente em exercício (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 00 34 64 /2 00 3- 15 Fl. 627DF CARF MF 2 Waldir Navarro Bezerra Relator Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Contra a empresa qualificada nos autos, foi formalizado processo de lançamento de oficio da Contribuição para o PIS (fls. 04/13) para os períodos de apuração de janeiro de 1998 a outubro de 1999, no valor total de R$ 323.587,82, tendo em vista que tais valores não foram declarados como devidos nem pagos pela interessada, sendo decorrentes da incidência da aliquota do PIS sobre o faturamento obtido na execução de atos não cooperativos, conforme consta do RPF Relatório de Procedimento Fiscal de fls. 14/21 e demonstrativo de fl. 22, observada a legislação vigente a época dos fatos geradores. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 4.190, de 05/08/2004 da DRJ/Porto Alegre (RS), a seguir transcrito na sua integralidade (fls. 455/460): Trata o presente processo do lançamento de oficio da Contribuição para o PIS (lis. 04/06) dos períodos de apuração de janeiro de 1998 a outubro de 1999, no valor total de R$ 323.587,82 (trezentos c vinte c três mil, quinhentos e oitenta e sete reais e oitenta e dois centavos), tendo em vista que tais valores não foram declarados corno devidos nem pagos pela interessada, sendo decorrentes da incidência da aliquota do PIS sobre o faturamento obtido na execução de atos não cooperativos, conforme consta no Relatório de Procedimento Fiscal de lis. 13/20 e Demonstrativo de fl. 21, observada a legislação vigente a época dos fatos geradores. A interessada impugna tempestivamente o lançamento (li s. 212/231),alegando que todas as operações realizadas pela cooperativa são isentas do pagamento do PIS, por trataremse de atos cooperativos praticados pela cooperativa de produção, exercendo papel de mediadora entre o produtor (cooperado) c o mercado. Alega tratarse de cooperativa de prestação de serviços. O preço contratado entre os compradores dos produtos 6 o mesmo repassado ao associado. Afirma que não procede a afirmação constante do auto de infração de que as receitas decorrentes das operações com não associados constituiriam base de cálculo da contribuição já que tratase de prestação de serviços, e o resultado positivo destas operações não se constitui em receita da cooperativa pois será repassada aos cooperados, aos quais pertence. Alega também que a tributação pretendida fere princípios constitucionais (artigos 5", XVIII, 170, 174, § 2', e 146, "c", III, da Constituição Federal). Cita c transcreve Acórdãos do Conselho de Contribuintes todos versando sobre cooperativas de serviços médicos. Analisa a legislação do PIS, alegando que a Medida Provisória n" 1.212, posteriormente convertida na Lei n" 9.715, de 1998, estabeleceu que as cooperativas seriam contribuintes do PIS sobre a folha de pagamento mensal e também com base no Fl. 628DF CARF MF Processo nº 11020.003464/200315 Acórdão n.º 3402004.260 S3C4T2 Fl. 628 3 faturamento mensal em relação as receitas decorrentes de operação praticadas como não associados. A Lei n" 9.718, de 1998, que passou a disciplinar o PIS, ampliou ainda mais o campo de incidência da contribuição, porém sem alterar a isenção sobre os atos cooperativos. A partir da Medida Provisória n° 1.858/99, foi revogada a isenção estabelecida pela Medida Provisória n" 1.212 com relação ao PIS/faturamento sobre os atos cooperativos. Alega que, com as exclusões da base de cálculo introduzidas pela Lei 10.676, de 22/05/2003 e pela Lei no 10.684, de 30/08/2003, e vigentes a partir de novembro de 1999, mesmo sem a isenção, resulta em saldo zero a tributar. Protesta pela apresentação de provas, inclusive a pericial. Os argumentos aduzidos pelo sujeito passivo, no entanto, não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão abaixo transcrito: Assunto: Contribuição para o P1S/Pasep Período de apuração: 01/01/1998 a 31/10/1999 Ementa: COOPERATIVAS BASE DE CALCULO É devida a contribuição pela Cooperativa nas operações de venda a terceiros que esta realiza, obedecida a legislação de regência c de acordo com os elementos juntados. INCONSTITUCIONALIDADE A autoridade administrativa 6 incompetente para decidir sobre a constitucionalidade e a legalidade dos atos baixados pelos Poderes Legislativo e Executivo. PEDIDO DE PERÍCIA É de ser negado pedido de perícia, formulado de forma gen6rica, sem os requisitos da legislação, cuja realização seja prescindível para o deslinde do processo administrativo. Lançamento Procedente Contra essa decisão foi interposto o recurso voluntário (fls. 478/502), para reiterar os argumentos da peça impugnatória e preliminarmente, discorrendo sobre os fundamentos que caracterizam o Ato Cooperativo e no Mérito discorre sobre a Tributação do Pis e da Cofins e o Ato Cooperativo; da Nãoincidência da Tributação do Ato Cooperativo até o advento da MP n° 1.858, de 1999. Em suma, após discorrer sobre a natureza jurídica do ato cooperativado, alega que tratase de cooperativa singular de produção, caracterizandose pela prestação direta de serviços aos associados, tendo por objeto "prestar serviços a seus cooperados, recebendo sua produção para armazenar, classificar beneficiar, padronizar, industrializar, registrar para ao final vendêla". Elabora um exemplo de operação, reproduzindo o que consta da peça impugnatória. Ou seja, ela receberia a produção do associado, venderia a um terceiro não associado por determinado preço contratado e posteriormente repassaria tal valor aos associados, excluindo os valores do Funrural, bem como taxas administrativas "necessárias a Fl. 629DF CARF MF 4 manutenção da entidade cooperativa". Em resumo, alega atuar "apenas como representante de seus associados na comercialização de seus produtos", pelo que entende que a comercialização no mercado dos produtos entregues pelos cooperados à Cooperativa não pode ser considerada como operações com não associados, "eis que...estas operações comerciais nada mais são que a prestação do serviço a que se destina a sociedade cooperativa, qual seja, representar seus associados nas relações de mercado, o que demonstra ser claramente a real substância do ato cooperativo". Ao final requer que seja acolhido o recurso e as razões expostas, declarando a insubsistência do auto de infração face ao direito da recorrente excluir da base de cálculo para a tributação de PIS e COFINS os valores atinentes aos rendimentos obtidos nas atividades desenvolvidas com seus associados, decorrentes do ato cooperativo. Pois bem. O recurso chegou a este Conselho e em 20/11/2007, e o então Segundo Conselho de Contribuintes (Quarta Câmara), resolvem converter o julgamento em DILIGÊNCIA, conforme Resolução nº 204000.500, nos seguintes termos (fls. 591/593): "(...) Alega a empresa ser uma cooperativa de produção, entendendo que as vendas que faz no mercado são operações cooperativadas e, portanto, isenta do PIS. Contudo, compulsando os autos não encontrei as notas de vendas que o Fisco entende serem operações de mercado e a recorrente como atos cooperativados, apenas balancetes. Assim, de modo a formar minha convicção, resolvo baixar o processo em diligência para que o órgão local, em relação às vendas inclusas na base de cálculo da contribuição sob cobrança, as segregue por período de apuração e por CFOP (código fiscal de operações e prestações), informando, também, o CFOP das mercadorias "enviadas" pelos cooperativados à autuada. Juntada aos autos a informação solicitada nesta Resolução, deve o contribuinte ser intimado para que, em querendo, se manifeste exclusivamente sobre os elementos que vierem a ser anexados". Os autos, então, foram encaminhados à IRF em Porto Alegre (RS), para cumprimento da referida Resolução (fl. 594). Quanto ao atendimento da diligência solicitada na Resolução, a IRF em Porto Alegre, em sua Informação Fiscal às fls. 600/607, cumpriu e procedeu as seguintes considerações iniciais: "(...) Em respeito à solicitação de diligência requerida pelo Conselheiro Jorge Freire do CARF, manifestome no sentido de explicar o procedimento fiscal, a partir do qual houve o lançamento ora em discussão. Com respeito, exponho que, para o perfeito entendimento da ação fiscal, bem como para sua correta análise nos colegiados administrativos, é imprescindível conheceremse e se entenderem os conceitos que envolvem as sociedades cooperativas. No Relatório de Procedimento Fiscal de PIS folhas numeradas a mão de 13 a 20 , juntado aos autos nas folhas eletrônicas de 14 a 21, constam todos os conceitos coadunados à fiscalização, bem como os respectivos enquadramentos legais (Lei das Cooperativas)". Cientificada da conclusão da Diligência (Termo com cópia da Informação Fiscal à fl. 617 e Cópia AR Correios às fls. 618, 621 e 622), a Recorrente NÃO se manifestou, conforme Despacho de fl. 625: "Transcorrido o prazo sem manifestação do contribuinte acerca das diligências realizadas, devolvo o processo para prosseguimento do julgamento". Fl. 630DF CARF MF Processo nº 11020.003464/200315 Acórdão n.º 3402004.260 S3C4T2 Fl. 629 5 Após o cumprimento do disposto na Resolução nº 204000.500, o processo retornou a este CARF para prosseguimento. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra Relator 1. Da Admissibilidade dos Recursos Como já verificado quando da Resolução, o recurso satisfaz os requisitos legais de admissibilidade, por isso dele deve ser conhecido. 2. Da relação entre o cooperado e a cooperativa O cerne da questão é a definição do quais seriam os Atos realizados entre a cooperativa e seus associados atosfim (ato cooperativo x atos não cooperativos). A venda praticada pela cooperativa dos produtos recebidos de seus associados é ou não uma operação de mercado? Para ajudar a elucidar esta lide, temos que, conforme define o art. 79 da Lei nº 5.764, de 1971, atos cooperativos são aqueles realizados entre a cooperativa e seus associados ou entre cooperativas, quando associadas, para a consecução dos objetivos sociais da sociedade; são igualmente conhecidos por atosfim, operações internas, operações privativas dos associados ou negócios cooperativos. Embora impliquem transferência patrimonial, não caracterizam compra e venda ou operação de mercado, não gerando, portanto, resultados positivos (sobras). Vejase: Art. 79. Denominamse atos cooperativos os praticados entre as cooperativas e seus associados, entre estes e aquelas e pelas cooperativas entre si quando associados, para a consecução dos objetivos sociais. Parágrafo único. O ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria. Conforme consta do Relatório de Procedimento Fiscal (RPF fls. 14/21), sobras é definido como resultado positivo auferido da prática dos atos nãocooperativos intrínsecos, também chamados atosmeio, através dos quais a cooperativa interage no mercado, de acordo com seu objetivo social e perseguindo seu fim (prestação de serviços a associados). Na cooperativa em apreço, por exemplo, originará sobras a colocação, no mercado, dos produtos grãos), comercializados pela cooperativa. Nos arts. 3º e 4º da Lei nº 5.764/71, as cooperativas são sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, tendo por finalidade a prestação de serviços aos associados para o exercício de um atividade comum, econômica, sem objetivo de lucro. Fl. 631DF CARF MF 6 Como bem pontuado pela Informação Fiscal (diligência) elaborada pela fiscalização, que desta forma definiu como Atos Não Cooperativos: "São operações com não associados previstas ou não na Lei n° 5.764/71. São atos jurídicos de natureza civil ou comercial com não associados, correlacionados indiretamente com o objetivo social ou com a finalidade da sociedade (prestação de serviços ao associado para a melhoria da sua situação econômica); geram lucros, portanto, à medida que a sociedade interage no mercado. Esses resultados positivos deverão ser destinados a um dos Fundos constituídos pela sociedade, previstos no artigo 28 da Lei n 9 5.764/71, jamais distribuídos aos associados, sob pena de a cooperativa tornarse uma "sociedade geral", tendo assim tributados seus resultados integralmente. A titulo de exemplificação, citamse as receitas financeiras e ou variações monetárias ativas ou a extinção de uma obrigação sem a correspondente realização de um direito ou ativo da sociedade". Às Cooperativas, não é por outro motivo que a Constituição Federal lhes confere apoio e incentivo na forma da lei (art. 174, § 2°.). É que esse seu objetivo confundese mesmo com os do próprio Estado, afirmados no art. 3° do texto maior. Não obstante, a Carta Magna não especifica como se deva processar esse apoio e esse incentivo, remetendoos à regulamentação por lei. Em especial no tocante aos tributos, ela apenas cria (art. 146, III, c) a necessidade de que tratamento diferenciado, também a ser disciplinado em lei, agora complementar. Consta do RPF que a Recorrente está registrado, no CNPJ, como cooperativa tritícola mista. Recebe os grãos de seus associados (ato cooperativo; de natureza interna, portanto sem qualquer relação com o "mercado", ou seja, com "compra e venda", visando à classificação, beneficiamento, armazenagem e "venda" (aqui sim, comercialização, ato de comércio e ou de "mercado). O fisco tem entendido que desse modo, nestas operações estaria a cooperativa obtendo receitas. Na ausência de norma desonerativa Constitucional, caberia, desse modo, a tributação pelo PIS. Para desqualificar tal pretensão fiscal, tem defendido alguns juristas não haver nestas operações verdadeira operação de mercado; tudo se passaria como se a cooperativa operasse, tal uma corretora, vendendo, em nome dos seus associados, a produção deles recebida. Vão mais longe alguns defendendo que mesmo essa entrega, embora tradição seja, não configura transferência de propriedade dos produtores para a cooperativa. Ocorre que o exame dos demonstrativos contábeis (Listagem de Balancete fls. 33/347) e do Estatuto da sociedade trazidos aos autos (fl. 403/420) não nos permite chegar às conclusões pretendidas pelas cooperativas em suas defesas Assim, vemos que as cooperativas são pessoas jurídicas que operam em seus próprios nomes. Não há qualquer contrato, como nos casos de corretagem, nem disposição estatutária, em que o proprietário da mercadoria autorize a cooperativa a vendêla em seu nome; ao contrário, as vendas são praticadas em nome da cooperativa, que, inclusive, registra as mercadorias recebidas em seu ativo (estoques), baixados quando da efetiva venda praticada. O que assume a entidade é a obrigação de repassar determinados valores previamente acertados com seus associados. Desta forma configuradas as operações da instituição, não vejo como desqualificar os valores recebidos da condição de receitas, como aliás elas mesmas os registram em suas peças contábeis. Igualmente sem base, a meu sentir, que tais operações finais não constituam operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto, a teor do parágrafo único do art. 79, acima transcrito. Fl. 632DF CARF MF Processo nº 11020.003464/200315 Acórdão n.º 3402004.260 S3C4T2 Fl. 630 7 Assim, o favorecimento do ato cooperado, preconizado pela CF, pode sim estar perfeitamente garantido pela não incidência de IRPJ e CSLL sobre a parcela que passa a ser de direito dos produtores, estatuída na legislação de regência. Estender essa não incidência ao PIS seria facultado ao legislador; não o fazer, nenhum confronto promoveria ao texto maior. Por conseguinte, as operações finais praticadas pelas cooperativas, consistentes na venda no mercado dos produtos recebidos de seus associados, geram receitas para as instituições que as praticam em seu próprio nome. E como receitas, resta averiguar se são tributáveis. Isto porque, como já disse, a Constituição Federal não previu qualquer norma desonerativa. É, então, a própria legislação reguladora da incidência do PIS que deve dispor sobre a incidência ou não da contribuição sobre as receitas obtidas pela cooperativa. E assim expressamente o fez por meio do art. 6°, I da Lei Complementar (LC) nº 70/91. Efetivamente, sob tal ordenamento jurídico entendemos inteiramente incabível a exigência do PIS sobre as vendas dos produtos recebidos dos seus associados. Para melhor compreensão, transcrevo o citado artigo (grifei): Art. 6° São isentas da contribuição: I as sociedades cooperativas que observarem ao disposto na legislação especifica, quanto aos atos cooperativos próprios de suas finalidades. Apenas em reforço, lembrese que a LC 70/91 define como base de cálculo da contribuição o produto da venda de mercadorias ou serviços. Logo, a isenção de que fala tem que, necessariamente, atingir tais receitas específicas. Ora, a isenção acima é, indubitavelmente, direcionada aos atos cooperativos e, sabemos todos, a lei não contém palavras vazias. Entendo que a interpretação do dispositivo é reconhecer que a venda de produtos (receita, portanto) recebidos de seus associados (ato cooperativo) é isenta. Em outras palavras, a isenção alcança a receita que provém da venda de produtos recebidos de seus associados. Em junho de 1999, mediante a 6ª (sexta) reedição da Medida Provisória n° 1.858, com vigência a partir do dia 30 daquele mês, revogouse expressamente essa isenção. Desse modo, entendo que até 30 de junho de 1999, quando entra em vigor a sexta edição da MP n° 1.858, aplicase às cooperativas a isenção conferida pelo inciso I do art. 6° da Lei Complementar n° 70/91. Após essa data, não há mais isenção, sendo tributáveis as receitas obtidas pela cooperativa na venda dos bens recebidos, seja dos cooperados seja de não cooperados. Tal situação volta, no entanto, a mudar, com a edição da 10ª (décima) reedição da mesma MP nº 1.858. É que seu art. 15 previu a exclusão da base de cálculo da contribuição da parcela relativa à venda dos produtos recebidos dos seus associados. Ela entra em vigor em 26 de outubro de 1999; portanto, a partir do mês de novembro de 1999, aquelas cooperativas de produção que venderem apenas bens recebidos de seus associados, embora não mais isentas, não terão o que recolher a título de PIS por força da exclusão conferida. Em decorrência da Medida Provisória nº 1.8587, de 1999, atual Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, foram expedidos os Atos Declaratórios nºs 70, de 1999, e 088, de 1999, estabelecendo o primeiro, em relação as receitas decorrentes de operações praticadas com não associados, que a base de cálculo para as contribuições para o PIS/Pasep e Cofins Fl. 633DF CARF MF 8 seria determinada conforme o disposto no art. 15 da MP nº 18577, e, o segundo que, as disposições da referida medida provisória seriam aplicadas sobre os fatos geradores ocorridos a partir do mês de novembro de 1999. Argumenta em seu recurso a Recorrente que, "(...) Destacase, ainda, mais uma vez, como relevante ao entendimento do caso em concreto, o fato de que a Autoridade Administrativa procedeu com a fiscalização não apenas do período compreendido pelos anos de 1998 e 1999 (objeto dos Autos de Infração, ora impugnados), mas também do período de 2000, 2001 e 2002". Notase que, certamente pelo motivo acima exposto, o auto de infração aqui tratado engloba apenas os períodos de apuração até outubro de 1999. Já quanto a alegadas exclusões introduzidas pelas Leis nºs 10.676 e 10.684, ambas de 2003, tiveram efeitos somente a partir da edição da Medida Provisória nº 1.85810, de 26 de outubro de 1999, não alcançando, também, os fatos geradores dos períodos objeto do lançamento que ora se analisa. Em resumo, temos que (i). entre abril de 1992 e 29 de junho de 1999, as cooperativas de produção são isentas do PIS, com respeito às receitas provenientes da venda dos produtos recebidos de seus associados (ATOS COOPERATIVOS) e apenas em relação a estas; (ii). entre 30 de junho de 1999 e 26 de outubro de 1999, não há mais isenção, incidindo a contribuição sobre toda receita das cooperativas, independentemente da origem dos produtos por elas vendidos, e (iii). a partir de 1° de novembro de 1999, continua não havendo isenção, mas as receitas provenientes da venda de produtos recebidos dos associados são excluídas das bases de cálculo da contribuição, o que, na prática, equivale a retornar à situação anterior a julho de 1999. Posto isto, para melhor elucidar a questão, vejase o que a fiscalização consignou em sua Informação Fiscal, quando da solicitação de diligência fls. 606/607 (grifei): "(...) Chamo à atenção que, no demonstrativo da base de cálculo a ser tributada folhas 28 e 29 numeradas à mão e 30 e 31 numeradas eletronicamente , não foram considerados, pelo FISCO, os itens de valores recebidos dos associados, embora registrados como receitas pela cooperativa, por não se caracterizarem como VENDAS e ou RECEITAS da cooperativa, haja vista os atos terem sido praticados "com associados" (natureza interna). A seguir, exponho as rubricas não tributadas pelo PIS: VENDA DE INSUMOS; RECEITAS DE SECAGEM E LIMPEZA; OUTROS SERVIÇOS: análises (...). Ressalto que esses "itens de receita contábil", bem como outros, cujas operações ocorreram entre a "cooperativa e seus associados" não sofreram a incidência do PIS, uma vez que não caracterizam atos de comércio, mas atos cooperativos. Diante do exposto, solicitando atenção e compreensão para os conceitos, antes referidos, e considerando que a constituição tributária formalizada nestes autos foi da CONTRIBUIÇÃO PIS, reitero que a base de cálculo do PIS, além das receitas financeiras, é formada principalmente pelas "vendas". Essas vendas somente aconteceram quando a cooperativa interagiu no mercado ao comercializar seus produtos com não associados, logo, neste procedimento fiscal, as VENDAS DE PRODUTOS AGRÍCOLAS, na sua totalidade, ocorreram para "não associados". Fl. 634DF CARF MF Processo nº 11020.003464/200315 Acórdão n.º 3402004.260 S3C4T2 Fl. 631 9 Portanto não há "vendas por atos cooperativos" a serem separadas, mas somente vendas em operações de mercado". Portanto, o faturamento decorrente destes atos (vendas em operações de mercado com não associados) é que foram tributados pelo PIS. Correto, portanto, o procedimento da fiscalização, que tomou como base de cálculo faturamento proveniente da venda dos produtos agrícolas, único ato praticado com terceiros, já que, de acordo com os elementos contábeis cujas cópias foram juntadas, bem como consignado na Informação Fiscal de diligência (da qual a Recorrente não se manifestou, mesmo sendo intimada), os demais resultados obtidos pela interessada foram resultantes de suas atividades com os associados. Do Ato Cooperativo entendimento deste CARF Aduz a Recorrente em seu recurso que, "(...) Contudo, contrariamente à previsão legal, a autoridade fiscal procedeu ao lançamento de valores a título de PIS e COFINS sobre o montante relativo ao ato cooperativo, devendo, pois, ser desconsiderada, neste aspecto. Salientese que procedeu em contrariedade ao entendimento adotado pelo próprio Conselho de Contribuintes. Reproduz ementas de Acórdãos julgados. De outra parte, os Acórdãos que a interessada reproduziu, referemse todos a Cooperativas de serviços médicos e dão conta que, a época dos fatos geradores dos lançamentos a que se referiam, os resultados das atividades com não cooperados seria tributável. Repisese que a definição do que constituise cm ato não cooperativo consta com clareza do Relatório de Procedimento Fiscal. Ressaltese que a interessada definese como cooperativa de prestação de serviços, esta não é a realidade. De acordo com o seu Estatuto Social tem como um dos objetivos a venda da produção agrícola ou pecuária de seus associados. Numa cooperativa agrícola, como é o caso da Recorrente, essa atividade configurase na colocação do produto do associado (soja, milho, feijão, etc) no mercado, vendendoo, em nome do produtor, a quem estiver interessado em comprálo. Assim, as peças que instruem os autos, quais sejam, os elementos contábeis cujas cópias foram juntadas aos autos, dão conta perfeitamente da identificação das atividades comerciais com terceiros c da base de cálculo da contribuição. E, tendo o Fisco demonstrado, a partir da contabilidade mantida pela cooperativa, o valor da parcela efetivamente sujeita à tributação (conforme consta na Informação Fiscal resultante da diligência fls. 600/607), tais informações são suficientes para o deslinde do litígio, concluindose que o lançamento deve prosperar. Da constitucionalidade da legislação Quanto à alegação de que o lançamento atacaria princípios constitucionais, temse que este CARF não tem competência legal para decidir sobre tal questão, e o contencioso administrativo não é o foro próprio para discussões desta natureza. Fl. 635DF CARF MF 10 É vedado ao CARF se manifestar sobre a inconstitucionalidade de lei, nos termos da Súmula CARF nº 2, de observância obrigatória por parte deste colegiado. Conclusão Face ao todo acima exposto, VOTO por negar provimento ao recurso voluntário, mantendose na íntegra a decisão recorrida. É como voto. (Assinatura Digital) Waldir Navarro Bezerra Fl. 636DF CARF MF Processo nº 11020.003464/200315 Acórdão n.º 3402004.260 S3C4T2 Fl. 632 11 Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Peço vênia ao ilustre relator para divergir do seu entendimento, a respeito da configuração de ato cooperado nos casos em que a cooperativa recebe valores de terceiros (nãocooperados) em razão da comercialização de produtos e mercadorias ou da prestação de serviços por seus associados e a eles repassa. Nessas hipóteses, a cooperativa age como plataforma de operações dos seus cooperados, centralizando a comercialização dos bens e serviços prestados por estes, e a eles repassando os valores auferidos, em conformidade com o art. 79 da lei nº 5764/71. Também, no mesmo sentido, é o entendimento da Receita Federal do Brasil, versado no seu conhecido "Perguntão", que compila o entendimento do órgão para orientar os contribuintes: O ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria. Assim, podemos citar como exemplos de atos cooperativos, dentre outros, os seguintes: 1) a entrega de produtos dos associados à cooperativa, para comercialização, bem como os repasses efetuados pela cooperativa a eles, decorrentes dessa comercialização, nas cooperativas de produção agropecuárias; (...) Notas: O Superior Tribunal de Justiça STJ, no Recurso Especial nº 1.081.747 PR (2008/01797077), tendo como recorrente a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional e recorrido a Unimed Guarapuava Cooperativa de Trabalho Médico, tendo como Relatora a Exma. Ministra Eliana Calmon, assim concluiu: 1) equivocados a doutrina e os precedentes do STJ que entendem como ato cooperativo, indistintamente, todo aquele que atende às finalidades institucionais da cooperativa; 2) constituise ato cooperativo típico ou próprio, nos termos do art. 79 da Lei 5.764/71, o serviço prestado pela cooperativa diretamente ao cooperado, quando: a) a cooperativa estabelece, em nome e no interesse dos associados, relação jurídica com terceiros (nãocooperados) para viabilizar o funcionamento da própria cooperativa (com a locação ou a aquisição de máquinas e equipamentos, contratação de empregados para atuarem na áreameio, por exemplo) visando à concretização do objetivo social da cooperativa; e b) a cooperativa recebe valores de terceiros (não cooperados) em razão da comercialização de produtos e mercadorias ou da prestação de serviços por seus associados e a eles repassa. 3) estão excluídos do conceito de atos cooperativos a prestação de serviços por nãoassociado (pessoa física ou jurídica) através da cooperativa a terceiros, ainda que necessários ao bom desempenho da atividadefim ou, ainda, a prestação de serviços estranhos ao seu objeto social; e 4) os atos cooperativos denominados "auxiliares", quando a cooperativa necessita realizar gastos com terceiros, como hospitais, laboratórios e outros mesmo que decorrentes do atendimento médico cooperado, não se inserem no conceito de ato cooperativo típico ou próprio. Fl. 637DF CARF MF 12 Normativo: Lei nº 5.764, de 1971, art. 79 e art.2º da LC nº 130, de 2009; Parecer Normativo CST nº 38 de 01.11.1980, item 3.1. (https://www.receita.fazenda.gov.br/publico/perguntao/dipj2013/Capitulo_XVII_So ciedadesCooperativas_2013.pdf , com acesso em 27/06/2017) No mesmo sentido, o Parecer Normativo CST nº 38/1980, em seu item 3.1, deixa absolutamente claro que estão abrigadas da incidência tributária os valores recebidos pela cooperativa decorrentes da prestação de serviços aos seus associados, inclusive recebimento de honorários (já que trata de prestação de serviços), como também pelo recebimento do montante referente à venda de mercadorias produzidas pelo associado, desde que haja o rateio dos custos dessas atividades e repasse dos montantes de acordo com os serviços prestados ou mercadorias vendidas por cada associado. Ora, foi exatamente isso que se deu no caso em tela. Desse modo, a autuação não merece prosperar por duas razões distintas e autônomas: I) Por se tratar a presente situação de ato cooperativo, nos termos da legislação pertinente e diversos pronunciamentos da RFB; e II) Por estar presente no caso hipóteses de nulidade do auto de infração por estar em desacordo com a interpretação oficial da Receita Federal, que deveria ser obedecida e observada pelo fiscal, como condição de validade de sua atividade de fiscalização e lavratura da autuação, visto que sua própria competência se encontra integrada por tais disposições normativas infralegais. Desse modo, voto por DAR PROVIMENTO INTEGRAL ao Recurso Voluntário. É como voto. Fl. 638DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10983.720194/2015-95
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 28/05/2010
PROCEDIMENTO ESPECIAL DE FISCALIZAÇÃO. IN SRF 228/2002. AUSÊNCIA DE NECESSIDADE.
Quando todas as provas já estão presentes para a elaboração do auto de infração, não há necessidade do procedimento especial.
NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL NÃO CORRIGIDO.
Não é possível a submissão dos mesmos fatos, razões e documentos já apreciados definitivamente pela instância administrativa para novo julgamento pela mesma instância administrativa, sem que haja correção do vício material anteriormente reconhecido.
Recurso Voluntário Provido.
Crédito Tributário Exonerado.
Numero da decisão: 3302-004.122
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em afastar a preliminar de imprescindibilidade de instauração do procedimento de fiscalização estabelecido na IN 228/02 para exigência da multa de conversão da pena de perdimento, vencida a Conselheira Lenisa Prado, Relatora. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Walker Araújo (item 1.1. do voto). Por unanimidade de votos, em afastar a preliminar de vício procedimental pelo fato de a Fiscalização ter instaurado o procedimento por meio de Mandado de Procedimento Fiscal e não Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal. Decreto n. 8.303/2014 (item 1.2. do voto). Por maioria de votos, em afastar a preliminar de nulidade de auto de infração por falta de intimação às empresas para apresentação das mercadorias, vencida a Conselheira Lenisa Prado, Relatora. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, e, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar de nulidade da autuação por vício material não corrigido. O Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède fará declaração de voto.
(assinatura digital)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente
(assinatura digital)
Lenisa Rodrigues Prado - Relatora
(assinatura digital)
Walker Araújo - Redator designado
(assinatura digital)
Paulo Guilherme Déroulède - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Walker Araújo, Paulo Ricardo Paulo Rosa, Paulo Guilherme Dérouledè, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Lenisa Prado.
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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IN SRF 228/2002. AUSÊNCIA DE NECESSIDADE. Quando todas as provas já estão presentes para a elaboração do auto de infração, não há necessidade do procedimento especial. NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL NÃO CORRIGIDO. Não é possível a submissão dos mesmos fatos, razões e documentos já apreciados definitivamente pela instância administrativa para novo julgamento pela mesma instância administrativa, sem que haja correção do vício material anteriormente reconhecido. Recurso Voluntário Provido. Crédito Tributário Exonerado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em afastar a preliminar de imprescindibilidade de instauração do procedimento de fiscalização estabelecido na IN 228/02 para exigência da multa de conversão da pena de perdimento, vencida a Conselheira Lenisa Prado, Relatora. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Walker Araújo (item 1.1. do voto). Por unanimidade de votos, em afastar a preliminar de vício procedimental pelo fato de a Fiscalização ter instaurado o procedimento por meio de Mandado de Procedimento Fiscal e não Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal. Decreto n. 8.303/2014 (item 1.2. do voto). Por maioria de votos, em afastar a preliminar de nulidade de auto de infração por falta de intimação às empresas para apresentação das mercadorias, vencida a Conselheira Lenisa Prado, Relatora. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, e, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar de nulidade AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 3. 72 01 94 /2 01 5- 95 Fl. 897DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 898 2 da autuação por vício material não corrigido. O Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède fará declaração de voto. (assinatura digital) Ricardo Paulo Rosa Presidente (assinatura digital) Lenisa Rodrigues Prado Relatora (assinatura digital) Walker Araújo Redator designado (assinatura digital) Paulo Guilherme Déroulède Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Walker Araújo, Paulo Ricardo Paulo Rosa, Paulo Guilherme Dérouledè, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Lenisa Prado. Relatório A questão tem início na fiscalização promovida sobre as Declarações de Importação registradas pela contribuinte Open Market Comércio Exterior no ano de 2011. A Autoridade Fiscal concluiu que a Open Market (ora recorrente) não era a adquirente dos produtos importados; a real beneficiária das importações seria a contribuinte Glazetech Indústria e Comércio de Produtos Cerâmicos Ltda, solidária nos autos de infração sob julgamento porque teria permanecida oculta ao longo do processo de importação. Por muito bem retratar os fatos narrados nos autos, transcrevo os trechos essenciais constantes do relatório apresentado na sessão de julgamento da impugnação: "A fiscalização apurou que a empresa em epígrafe não é a real adquirente das mercadorias importadas e que a mesma operava como interposta pessoa em comércio exterior, praticando assim infração à legislação aplicável à matéria com previsão de pena de perdimento às mercadorias transacionadas. A fiscalizada OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA, registrou durante o período fiscalizado as Declarações de Importação relacionadas às folhas 11 do processo digital. Ao final da ação fiscal restou caracterizado que o real adquirente e beneficiário destas importações foi a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS, responsável solidário no Auto de Infração. Fl. 898DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 899 3 Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3°, do Decreto Lei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias. A empresa OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA foi cientificada, por via eletrônica, em 05/03/2015 ( folhas 613). A empresa OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA protocolizou impugnação, tempestivamente em 13/03/2015, na forma do artigo 56 do Decreto n° 7.574/2011, de fls. 617 à 651, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. Foi alegado que: DO AUTO DE INFRAÇÃO NULO 120121 PAF 10983 721.283/201214 Em 06/06/2012, a Autoridade Fiscal motivou o lançamento em suposto "dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador da mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta, prática punível com a pena de perdimento das mercadorias. No entendimento da Autoridade Fiscal, a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS, que teria permanecido oculta, seria a encomendante das mercadorias objeto da DI acima citada, e o motivo para tal ocultação seria o fato dessa empresa não possuir habilitação no S1SCOMEX, para operar no comércio exterior. O lançamento foi devidamente impugnado pelo contribuinte, em 20/07/2012 e pelo responsável solidário, em 30/07/2012. Em julgamento administrativo de 1ª Instância ocorrido em 12/09/2013, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE deu provimento às impugnações e exonerou o crédito tributário exigido, tendo em vista a ocorrência da nulidade por vício material no lançamento, ante a ausência de análise contábil e financeira das operações que demonstrassem a origem ilícita dos recursos aplicados. Sem recursos, o Processo Administrativo 10983.721283/201214 foi encerrado e arquivado. * O AUTO DE INFRAÇÃO ORA IMPUGNADO (2015) PAF 10983720.194/201595 A Inspetoria da Receita Federal do Brasil em Florianópolis/SC instaurou procedimento fiscal de diligência, conforme Mandado de Procedimento Fiscal Diligência (MPFD) n. 09252002014 000367. Em cumprimento à intimação, a Impugnante apresentou, de pronto, os documentos contábeis no formato físico, tendo, posteriormente, os apresentado no formato digital e padronizado Fl. 899DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 900 4 exigido pela Receita Federal do Brasil. Quanto aos documentos financeiros, a Impugnante solicitou prorrogação de prazo, porquanto teriam os mesmos de ser confeccionados pelas Instituições Financeiras em uma padronagem específica exigida pela Receita Federal do Brasil, o que impedia o imediato cumprimento da apresentação. Não obstante, foram estes, também, devidamente apresentados e/ou justificados à Autoridade Autuante. Encerradas as diligências, a Inspetoria da Receita Federal do Brasil em Florianópolis/SC instaurou, em 16/01/2015, procedimento fiscal de fiscalização, conforme Mandado de Procedimento Fiscal — Fiscalização (MPFF) n. 09252002015 000018. Não obstante a regularidade das operações perpetradas pela Impugnante, a mesma teve, novamente, contra si, pela Inspetoria da Receita Federal do Brasil em Florianópolis/SC, auto de infração lavrado. O referido auto de infração lançou o mesmo crédito tributário objeto da decretação de nulidade por acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE, contando, ainda, com os mesmos fatos e fundamentação legal. A Autoridade Fiscal motivou o lançamento em suposto 'dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador da mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta', prática punível com a pena de perdimento das mercadorias que no caso de seu substituise pelo lançamento de ofício de 100% do Valor Aduaneiro das mesmas. Tal como no auto anulado, a Autoridade Fiscal entendeu que a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS, que teria permanecido oculta, seria a encomendante das mercadorias objeto das Dl acima citadas, e o motivo para tal ocultação seria o fato dessa empresa não possuir habilitação no SISCOMEX, para operar no comércio exterior. Conquanto de posse de inúmeros documentos contábeis e financeiros da Impugnante e da empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS , a Autoridade Autuante limitouse a basear o relatório fiscal nos seguintes indícios: proximidade entre as datas de desembaraço, entrada e saída das mercadorias; possível inexistência de conhecimentos de transporte que comprovassem a remessa da mercadoria da Impugnante para a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS; e falta de habilitação desta última empresa nos sistemas da Receita Federal do Brasil para operar no comércio exterior. Fl. 900DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 901 5 Impende mencionar que não foi carreado ao novo auto de infração a análise contábil e financeira ou qualquer narrativa acerca da origem, disponibilidade e transferência dos recursos, muito embora sua falta tenha sido apontada como vício material no lançamento anulado. A comprovação da suposta infração deuse pelos mesmos indícios levantados na autuação anterior. Em que pesem os argumentos expostos pela fiscalização, o Auto de Infração e o lançamento da penalidade pecuniária não merecem subsistir, pois permanece eivado de vícios que determinam a sua nulidade — materiais e formais; bem como porque, no mérito, a importação realizada não configura importação por encomenda de terceiros, e sim importação direta da Impugnante. A Autoridade Fiscal não se desincumbiu do ônus de provar as suas alegações e não houve efetivo dano ao erário, sendo descabida a aplicação da pena de perdimento da mercadoria (e a sua conversão em multa equivalente ao valor aduaneiro), tudo consoante razões de fato e de direito que se passa a expor. PRELIMINARMENTE * DO VÍCIO MATERIAL NÃO CORRIGIDO O presente auto de infração foi lavrado em substituição a lançamento nulo de credito tributário ocorrido em 2012 acerca dos mesmos fatos ora fiscalizados. A nulidade decretada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Fortaleza acórdão 0826.653 decorreu de vício material pela ausência de análise contábil e financeira das operação de comercio exterior, necessária à conclusão sobre a origem dos recursos empregados nas importações e sobre a natureza da participação dos agentes nas operação de importação. Transcreve trecho do acórdão exarado no julgamento administrativo de la Instância ocorrido em 12/09/2013. Desta feita, percebese que foi determinante para a decretação da nulidade do lançamento realizado em 2012, relativo aos mesmos fatos objeto da autuação ora impugnada, o fato de a Autoridade Autuante não ter realizado ou exposto a análise contábil e financeira detalhando a relação das partes e dos recursos empregados, sem o que, o lançamento esvaziouse, pois restou apoiado em meros indícios. Não obstante a decretação da nulidade pela ocorrência do vício material, o Órgão Julgador ressalvou o direito do Fisco em lavrar novo auto abrangendo os mesmos fatos fiscalizados — não atingidos pela decadência. E, de fato, novo auto de infração foi lavrado. Todavia, permanece este eivado com o mesmo vício material apontado no passado, posto que a necessária análise contábil e financeira que motivou a decretação da nulidade não foi, novamente, Fl. 901DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 902 6 apresentada, muito embora a autuação seja idêntica àquela que restou anulada. A Autoridade Autuante, após discorrer genericamente sobre as modalidades de importação, procedimento fiscal, ocultação do real comprador, bem como sobre a fiscalização anterior, anulada, e sobre os fatos apurados na presente fiscalização, encerra o relatório fiscal com a constituição de crédito tributário, dispondo expressamente que o lançamento dáse em decorrência de suposto 'dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta'. Ou seja, pelas mesmas razões do auto anterior, anulado. Notese, ademais, que as provas carreadas ao novo auto são as mesmas norteadoras daquele anulado, dentre as quais não se incluiu a análise contábil e financeira, balizadora da decretação de nulidade no passado. No entanto, é evidente que quando o Órgão Julgador ressalvou a lavratura de novo auto de infração, com relação aos fatos não decaídos, tinha se por pressuposto básico que o novo ato considerasse o vício apontado no julgamento anterior, corrigindoo. sob pena de receber o mesmo tratamento dado ao lançamento precedente. Logo, a identidade das autuações (anulada e nova), atrelada à ausência de correção do vício material que no passado ocasionou a nulidade do lançamento, contaminam, de per si, o auto de infração ora impugnado, cujo destino não deve ser diferente: a decretação da nulidade. em respeito à desejável estabilidade dos critérios utilizados pela administração para a interpretação dos textos legais, à confiança e à segurança jurídica! Julgar causas idênticas de forma desigual acarreta imensurável insegurança jurídica, desconfiança e imprevisibilidade na ordem administrativa operante, principalmente considerando que as alterações inseridas no novo auto prestaramse tãosomente a adaptar o relatório fiscal às informações atualizadas dos procedimentos fiscais de diligência e de fiscalização realizados a posteriori do lançamento anulado e dar conta da decretação de nulidade do auto anterior. Diante do exposto e estando o presente auto de infração vinculado ao julgamento do acórdão 0826.653, em especial ao vício material lá apontado e aqui não corrigido, a decretação da nulidade pela mesma razão é medida que se impõe, face à desejável estabilidade dos critérios utilizados pela administração para a interpretação dos textos legais, hem como aos princípios da confiança e segurança jurídica. * A FALTA DO PROCEDIMENTO ESPECIAL DE FISCALIZAÇÃO PREVISTO NA INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF N° 228/2002 Fl. 902DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 903 7 Notase do relatório fiscal que a Autoridade Autuante lançou o presente crédito tributário por suposto 'Dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta'. Sendo assim, deparandose a fiscalização com a suspeita da prática, em tese, do ilícito tipificado no inciso V do artigo 23 do DecretoLei n° 1.455/76 ('ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros'), impõese, por determinação legal, a instauração do procedimento de que trata a Instrução Normativa SRF n 228/2002 (procedimento especial de verificação da origem dos recursos aplicados em operações de comércio exterior e combate à interposição fraudulenta de pessoas). Notese que, uma vez revelados os indícios referidos pela legislação, a instauração do procedimento especial de fiscalização é obrigatória ('ficarão sujeitas'), com a finalidade de proceder a uma verificação aprofundada dos fatos, não se tratando, pois, de uma faculdade da Autoridade Fiscalizadora. Instaurado o procedimento especial de fiscalização, oportuniza se ao contribuinte fiscalizado demonstrar a regularidade das suas operações de comércio exterior, mediante intimação para comprovar: o seu efetivo funcionamento e a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias, mediante o comparecimento de sócio com poder de gerência ou diretor, acompanhado da pessoa responsável pelas transações internacionais e comerciais; e a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações (artigo 4o da Instrução Normativa SRF n°228/2002). Nessa linha, cumpre ressaltar o disposto no caput do artigo 11 da Instrução Normativa SRF n° 228/2002, que só permite aplicar a pena de perdimento das mercadorias com fundamento no inciso V do artigo 23 do DecretoLei n° 1.455/1976 depois de concluído o procedimento especial de fiscalização. No caso em apreço não houve a prévia instauração do procedimento especial de fiscalização previsto na Instrução Normativa SRF n° 228/2002 restando a Impugnante cerceada no seu direito ao contraditório e à ampla defesa, o que determina a nulidade do lançamento. É certo que, se a Autoridade Fiscal tivesse instaurado o procedimento especial de fiscalização, de modo a exaurir a verificação fiscal, não haveria autuação, pois, consoante será demonstrado ao longo desta Impugnação Administrativa, não se configurou simulação, dano ao erário, tampouco interposição fraudulenta, já que não havia o menor interesse ou vantagem na ocultação de quem quer que fosse. * DA FALTA DE INTIMAÇÃO PARA APRESENTAÇÃO DAS MERCADORIAS SUJEITAS A PENA DE PERDIMENTO Fl. 903DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 904 8 Embora conste no processo administrativo fiscal prova da intimação realizada à Impugnante para apresentar as mercadorias, o mesmo não ocorre quanto à empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS ., não obstante a Autoridade Autuante tenha a intimado para outras inúmeras providências, como a apresentação de extratos, notas fiscais, comprovantes de pagamentos, dentre outros. Ou seja, conquanto a fiscalização soubesse da revenda das mercadorias no mercado interno para a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS, pois estava de posse das notas fiscais de saída e, embora esta empresa tenha sido igualmente fiscalizada e responsabilizada solidariamente à infração, não foi a mesma intimada a apresentar as mercadorias ou indicar sua localização. Ao menos, não foi feita prova de tal intimação no processo administrativo fiscal. Desta feita, sem que tenham se esgotado as tentativas de localização das mercadorias, ante a intimação das pessoas jurídicas fiscalizadas, aguardandose suas respectivas respostas dando conta da revenda ou o consumo dos bens (ou inércia), não há que se falar em aplicação da multa substitutiva equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias. Feitas tais considerações e verificada existência de vício material pela falta de intimação para apresentação das mercadorias sujeitas à pena de perdimento, aplicandose de imediato a multa substitutiva, há que ser declarada a nulidade do auto de infração, até porque, se o Fisco houvesse intimado a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS e esta ainda estivesse de posse das mercadorias fiscalizadas, os efeitos da autuação seriam totalmente distintos, seja em seus aspectos materiais, seja nos processuais. * DO VÍCIO NA FORMAÇÃO DO PROCEDIMENTO FISCAL DE FISCALIZAÇÃO Consoante exposto nos fatos, o presente auto de infração emanou da procedimento fiscal de fiscalização materializado no Mandado de Procedimento Fiscal — Fiscalização (MPFF) n. 09252002015000018, instaurado em 16/01/2015. Ocorre que o referido procedimento não observou a forma legal prevista na legislação de regência. É que a partir de 4 de setembro de 2014, os procedimentos fiscais devem ser instaurados por meio de Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal — TDPF, e não mais através de Mandado de Procedimento Fiscal. Desta feita, o procedimento fiscal de fiscalização instaurado em face da Impugnante em 16/01/2015. por meio de MPF, não possui a forma legal prevista pela legislação, posto que naquela data a figura do MPF já havia sido excluída do ordenamento jurídico, substituída por forma distinta. Fl. 904DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 905 9 Ante o exposto e tendo em vista que o presente auto de infração é proveniente de ato administrativo que não observou a forma legal prevista na legislação, deve ser o mesmo anulado. DO MÉRITO * A INFRAÇÃO IMPUTADA À IMPUGNANTE A mera ocultação de sujeitos sem prova de fraude ou simulação poderia, no máximo, configurar inexatidão de declaração, punível com multa de 1% (um por cento), disposta no art. 711, inciso III c/c § 1°, do Regulamento Aduaneiro. É de extrema relevância esta distinção, uma vez que nas atividades comerciais um dos principais valores de uma companhia são os seus segredos de negócio, ou trade secrets, os quais, exatamente pelo seu grau de confidencialidade e por serem desconhecidos do público em geral, lhe confere vantagens econômicas legais sobre a concorrência, fornecedores e clientes. O mais protegido trade secret de uma companhia é certamente sua lista de clientes e de fornecedores, pessoas sem as quais o negócio se toma inviável. Como os trade secrets são insuscetíveis de registro em Órgãos próprios, pois não se enquadram nos conceitos das Leis de Propriedade Intelectual e Industrial, resta às companhias mantê los reservados e inacessíveis do público em geral, mas, principalmente, da concorrência, dos fornecedores e dos clientes. Logicamente que se o fornecedor conhecer a lista de clientes da companhia, lhe será mais vantajoso economicamente a feitura de negócios diretamente com estes, eliminandose um elo da cadeia e aplicando maiores ganhos. O mesmo se daria se os clientes da companhia conhecessem seus fornecedores — não precisariam mais do intermédio desta, podendo trabalhar com margens mais vantajosas. A fraude pressupõe dolo representado pela vontade de impedir ou atrasar o fato gerador tributário, para obtenção de vantagem pelo agente, seja para evitar o pagamento do tributo, seja para atrasálo. Em outras palavras, só há fraude no âmbito tributário se o sujeito passivo,intencionou não pagar tributo, pagar menos tributo ou retardar o pagamento do tributo, por meio de ação ou omissão dolosa acoimada de fraudulenta. A simulação está legalmente definida no § 1° do art. 167 do Código Civil, mostrandose presente nos negócios jurídicos que 'I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas as quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados'. Fl. 905DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 906 10 Mero procedimento imperfeito praticado (de acordo, entretanto, com a realidade comercial vivida entre as partes), sem que reste evidente a intenção consciente de locupletamento, não se configura como fraude ou simulação. Ou seja, deve estar presente, de forma clara e insofismável, o elemento finálistico e de conexão: a intenção deliberada e dolosa de enganar terceiro. Cabe breve ressalva à parte final do inciso V do art. 23 do Decreto Lei 1.455/76 que trata da interposição fraudulenta como uma das formas possíveis de ocultação mediante fraude ou simulação, com foco nos recursos aplicados no comércio exterior (e reais detentores dos recursos). A interposição fraudulenta tipifica conduta dolosa lesiva ao Estado Aduaneiro concernente na não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. Se restar demonstrado que o Importador não detinha capacidade econômica, financeira e operacional para adquirir mercadorias estrangeiras, arcar com o custo da compra internacional e dos tributos, sendo financiado por um terceiro oculto, cuja ocultação é necessária para encobrir crime(s) antecedentes (s), como sonegação, lavagem de dinheiro e/ou descaminho, por exemplo, fica demonstrada a hipótese de interposição fraudulenta comprovada. Na interposição fraudulenta comprovada, o Fisco tem conhecimento de quem é o importador ostensivo e quem é o terceiro oculto, amparandose pelos documentos contábeis e financeiros dos sujeitos, os quais evidenciam que (i) a origem dos recursos era do terceiro oculto; (ii) que o importador ostensivo não detinha disponibilidade sobre tais recursos e; (iii) que a transferência dos mesmos para o exterior/exportador foi promovida pelo terceiro oculto. A legislação previu, ainda, a hipótese de interposição fraudulenta presumida, conforme disposição contida no § 2º do art. 23 do DecretoLei 1.455/76, quando, embora o Fisco não saiba quem é o terceiro oculto, o importador ostensivo não consegue comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. Ou seja, para a caracterização de interposição fraudulenta de pessoas no comércio exterior, há de ser assegurado ao contribuinte procedimento especial de fiscalização, onde o mesmo, ciente que o objeto da fiscalização é o recurso aplicado na importação, tem a oportunidade de comprovar a regularidade da operação. No caso concreto dos autos, a Autoridade Autuante motivou o lançamento do crédito tributário e a lavratura do auto de infração ora impugnado no 'Dano ao Erário causado peto ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta', prática punível com a pena de perdimento das mercadorias que no caso de seu Fl. 906DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 907 11 consumo substituise pelo lançamento de ofício de 100% do Valor Aduaneiro das mesmas. Percebese que a Autoridade Autuante não inseriu o uso de fraude na descrição infração, ou seja, descartou a ocorrência de conduta da fraudulenta por parte da Impugnante e, como conseqüência lógica, descartou, também, a hipótese de supressão ou redução de tributo na operação de comércio exterior. Em que pesem os argumentos da Autoridade Autuante na tentativa de demonstrar a alegada 'ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta', verificarseá que as provas trazidas no auto de infração não são suficientes para caracterizar os elementos do tipo penal da infração imputada à Impugnante, porquanto não existem provas lúcidas e concretas de efetiva ocultação, tal como inexiste prova ou qualquer outra indicação de simulação, dolo e máfé. Ademais, quanto à suposta interposição fraudulenta, além de não se ter respeitado procedimento especial de fiscalização previsto na legislação, como já alegado nas preliminares, a Autoridade Autuante não logrou êxito em comprovar que irregularidade nos recursos empregados nas operações de comércio exterior. * DA FALTA DE PROVAS DA OCULTAÇÃO / DA REGULARIDADE DA IMPORTAÇÃO POR CONTA PRÓPRIA Consoante exposto nos fatos, a Autoridade Autuante concluiu que a Impugnante teria ocultado a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS. Ignorando toda a relação comercial existente entre a Impugnante, seus fornecedores e clientes, entendeu a digníssima fiscalização que as importações tratavamse de uma encomenda de terceiros, e não de uma importação direta da Impugnante, como declarado ao Fisco. Ocorre que a conclusão da Autoridade Fiscal encontrase totalmente equivocada, decorrendo de interpretação distorcida da operação efetivamente praticada e declarada. É inquestionável que todos os contatos com o fornecedor foram sempre feitos pela Impugnante, que negociava preço, descontos, prazo, dentre outras condições comerciais. Fornecedor este prospectado exclusivamente pela Impugnante, desconhecido da empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS , a qual desconhecia, igualmente, os preços praticados na compra e venda internacional e, por conseguinte, a margem de lucro operada pela Impugnante. Dito isso, cumpre destacar que o auto de infração elenca três razões isoladas a fundamentar a aplicação da pesada penalidade, com repercussões, inclusive, na esfera penal: (i) proximidade entre as datas de desembaraço, entrada e saída das mercadorias; (ii) possível inexistência de conhecimentos de transporte que comprovassem a remessa da mercadoria da Fl. 907DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 908 12 Impugnante para a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS, e; (iii) falta de habilitação desta última empresa nos sistemas da Receita Federal do Brasil para operar no comércio exterior ( item 6.3, fls. 20 a 23 do auto de infração). Ora, não parece coerente que uma questão de expropriação do patrimônio do particular em virtude de uma acusação de fraude e simulação, como é o caso do presente processo, seja baseada em indícios, como é o caso das três 'razões' fundamentadoras do auto, sem o mínimo suporte de provas. Para tanto, outros elementos devem ser, obrigatoriamente, considerados. De qualquer forma, os próprios indícios apresentados pela Autoridade Autuante demonstram fragilidade e incerteza quanto ao correto pronunciamento fiscal. Relembrese que a legislação civil exalta que o conhecimento de embarque constitui efetiva prova da propriedade das mercadorias, o que é reconhecido pela própria Receita Federal do Brasil. Isto é, a partir da data de embarque de mercadorias adquiridas através do INCOTERM FCA, as mesmas são de propriedade do importador, que legalmente as adquiriu e sem qualquer ordem anterior. Investido nesta qualidade, pode, ele, exercer todos os direitos de propriedade; ainda que as mercadorias estejam em trânsito (transit time). Sendo assim, tão logo transferida a propriedade dos bens, que, no caso de compra internacional promovida pelo INCOTERM FCA, ocorre quando a mercadoria é entregue ao transportador contratado pelo importador, pode este último, a partir deste momento, dispor da coisa como lhe aprouver, no exercício dos direitos civis da propriedade. No caso dos autos, impende salientar que o embarque, ou seja a efetiva transferência de propriedade da carga para a Impugnante, ocorreu em data anterior (quase um mês antes) à venda das mercadorias no mercado interno, conforme se constata no Conhecimento de Embarque anexado ao processo administrativo pela Autoridade Autuante. A proximidade das datas de entrada e saída das mercadorias importadas no estabelecimento da Impugnante não caracteriza, necessariamente, a existência de encomenda prévia, porquanto só se admite a encomenda antes da aquisição junto ao fornecedor, e não antes do desembaraço. Ao contrário do que faz crer a Autoridade Autuante, a venda pulverizada nunca foi indicativo de operação mercantil desvinculada de ordem ou encomenda. O vendedor, na qualidade de proprietário dos bens, pode vender um lote integral ou parcial de mercadorias, sem que isso prove ordem ou encomenda anterior. E que apesar de a importação através da modalidade encomenda não se tratar de uma prestação de serviços (assim Fl. 908DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 909 13 compreendida no sentido literal), mas de efetiva operação mercantil de venda de mercadorias, o pagamento do encomendante ao importador normalmente se dá através de uma 'comissão' em percentual equivalente ao valor (FOB ou CIF) das mercadorias, semelhante à contraprestação/remuneração de um serviço. Conquanto não exista um percentual padrão/único, sabese que não costuma atingir mais de 5% (cinco por cento) do valor da mercadoria/operação, até porque se a contratação de importador terceiro acrescer demais o valor da mercadoria a terceirização não será economicamente viável tampouco vantajosa. Considerando o exposto neste tópico, resta evidente que a Impugnante adquiriu diretamente as mercadorias do exportador, suportando os bônus e os ônus de uma importação por conta própria, inexistindo um adquirente prédeterminado para os bens ou mesmo ocultação de quem quer que seja, sendo que nada foi comprovado em sentido contrário. * DA FALTA DE PROVAS DA SIMULAÇÃO. DO DOLO E DA MÁFÉ No caso em enfoque, equivale dizer que a não identificação da empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS haveria de ser dada através de artifício doloso, utilizado pela Impugnante e pela ocultada visando alguma vantagem, um possível ganho tributário, ou, ainda, acobertando uma operação revestida de ilicitude, o que de fato configuraria o dano ao Erário, justificando a pena de perdimento às mercadorias. Se considerado que a vantagem buscada pelas partes seria a ocultação de uma delas do controle aduaneiro, para se 'esquivar' da habilitação nos sistemas da Receita Federal para operar no comércio exterior, como alegou a Autoridade Autuante ('Por meio desse artifício, o verdadeiro adquirente das mercadorias importadas em nome da fiscalizada, pretende afastar obrigações tributárias principais e acessórias, entre elas não se submeter a procedimentos fiscais de habilitação para atuar no comércio exterior (v. item 1, fl. 8 do auto de infração), é evidente que a mesma Autoridade deve indicar as razões pelas quais uma das partes recearia sofrer tal controle, como por exemplo, o fato de a mesma não possuir capacidade econômica, não possuir capital integralizado, ser empresa de fachada, ter sócios ocultos, ou qualquer outra caracterizadora de irregularidade fiscal). De fato, não se identifica referebilidade entre o que a Autoridade Autuante afirma (ocultação mediante simulação e interposição fraudulenta) e as evidências da ocorrência do fato imputado. Em outras palavras, não é possível verificar no relato fiscal quais seriam as evidências ou documentos que o levaram a concluir que a GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS teria motivos para não se submeter aos Fl. 909DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 910 14 procedimentos de habilitação para atuar no comércio exterior como adquirente. Ademais disso, destaquese que a Autoridade Autuante não cogitou outras 'vantagens' que a Impugnante e a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS buscavam ao encobrir uma a outra, como sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, etc.. E nem teria como, pois não existem elementos nos inúmeros documentos contábeis e financeiras das empresas (de posse da Autoridade Autuante) para fundamentar qualquer irregularidade. Não basta apenas ocultar o sujeito passivo, mas há de se fazer mediante fraude ou simulação, que pode se dar por qualquer meio (o legislador não o predeterminou), inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. E, para enquadrarse determinado fato nos conceitos de fraude ou simulação, devese observar, rigorosamente, o âmbito de alcance e aplicabilidade dos institutos. A Impugnante e a empresa o apresentaram ao Fisco sua escrituração contábil regular, mantida com a observância das disposições legais, bem como todos os aspectos contábeis e financeiros da operação engedrada entre as partes. Cabia ao Fisco apontar, com base nestes mesmos documentos, em que momento ocorreu a fraude, a simulação e o dolo dos agentes. Não pode o Fisco, diante de casos que classifica como 'interposição fraudulenta', olvidarse de produzir elementos probatórios conclusivos. Devem os elementos de prova não somente insinuar que tenha havido nas operações um prévio acordo doloso, mas comprovar as condutas imputadas, o que não se vê no presente processo. Portanto, é obrigação do Fisco comprovar os fatos que embasaram o lançamento tributário, que não pode ser baseado apenas em presunções e/ou indícios, incapazes de determinar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Ocorre que, no caso em apreço, a fiscalização aduaneira não logrou infirmar a legalidade e a regularidade da operação de comércio exterior praticada pela Impugnante, calcando o Auto de Infração em meras presunções e indícios divorciados de provas das acusações fiscais, de modo que o lançamento não merece subsistir. Com efeito, para concluir que a impugnante teria ocultado a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS , a qual seria a encomendante das mercadorias objeto das Dl fiscalizadas, a Autoridade Fiscal amparouse em meras ilações/conjecturas, furtandose ao ônus da prova que lhe incumbia. Finalmente, urge esclarecer que a inobservância do ônus da prova pela Autoridade Fiscal ganha particular relevo no caso sob análise, eis que a infração prevista no inciso V do artigo 23 Fl. 910DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 911 15 do DecretoLei n° 1.455/1976 (dano ao erário por ocultação do sujeito passivo) pressupõe a fraude ou simulação, eis que descartada a hipótese de interposição fraudulenta presumida prevista no § 2" do mesmo dispositivo, posto que o referido parágrafo não constou na capitulação da infração na autuação. * DESPROPORCIONALIDADE E DESARRAZOABILIDADE DA PENA DE PERDIMENTO A própria Autoridade Autuante descartou a possibilidade de supressão ou redução de tributo na operação de comércio exterior quando consignou que a suposta infração não foi realizada mediante fraude, mas tãosomente simulação. Além dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade que devem nortear a Administração Pública em todos os seus atos, resta violado no caso em apreço também o princípio do não confisco em matéria tributária. A restrição da aplicação da pena de perdimento da mercadoria aos casos em que houver efetivo dano ao erário decorre também da própria garantia individual fundamental do direito de propriedade, insculpida no artigo 5º, caput e inciso XXII, da Constituição Federal. Em verdade, tem se verificado uma certa banalização da pena de perdimento pela fiscalização aduaneira, um verdadeiro desvio de curso na aplicação da norma, vez que, atualmente, qualquer indício de proximidade ente o importador e seus clientes no mercado interno cai na vala comum da interposição fraudulenta" ou "ocultação dos reais intervenientes da operação", com a apreensão e desapropriação das mercadorias da empresa, todas suscetíveis a interpretação. Não é possível aplicar indiscriminadamente a legislação, sem ter em conta a sua finalidade específica, como forma de arrecadar mais, lançandose penalidades confiscatórias em hipóteses que estão fora do campo das práticas que a legislação buscou coibir. Desse modo, inexistindo qualquer prova de fraude, simulação e de dolo, bem como inexistindo qualquer vantagem econômica ou fiscal, o lançamento baseado na infração capitulada no art. 23, V do DecretoLei 1.455/76 não possui base para subsistir. * DA RELEVAÇÃO DA PENA DE PERDIMENTO Subsidiariamente, para o caso de os argumentos expostos nos itens anteriores não serem acolhidos, o que realmente não se espera, admitindose apenas por cautela, cumpre lembrar que o artigo 737 do Regulamento Aduaneiro (Decreto n° 6.759/2009) prevê a relevação da pena de perdimento nos casos em que a infração não tenha resultado em falta ou insuficiência de recolhimento de tributos federais, como ocorre no caso sob análise. Fl. 911DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 912 16 Verificado no caso em apreço que não há intuito doloso, eis que a impugnante e a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS . não auferiram qualquer espécie de vantagem tributária com a operação realizada, é plenamente cabível a relevação da pena de perdimento, aplicandose em seu lugar a multa referida no artigo 712 do mesmo diploma. Portanto, se a conclusão das autoridades julgadoras for pela existência de irregularidade na operação de importação realizada por meio da Declaração de Importação fiscalizada, o que se admite apenas para fins de argumentação, é medida que se impõe a relevação da pena de perdimento (e, conseqüentemente, da multa substitutiva equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria), já que não ocorreu falta ou insuficiência de recolhimento de tributos federais, bem como não houve intuito doloso, substituindose a penalidade aplicada pela multa correspondente a 1 % (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria. * DA PENALIDADE ESPECÍFICA E MENOS ONEROSA Subsidiariamente, para o caso de os argumentos expostos nos itens anteriores não serem acolhidos, o que se admite apenas a título de argumentação, devese destacar que o ordenamento jurídico prevê a penalidade específica a ser aplicada ao importador que realiza operação com ocultação de terceiros. Desta feita, a penalidade aplicada à Impugnante, caso constatada a efetiva prática de infração, o que não se espera, deve ser reduzida para o patamar de 10%, porquanto com o advento da Lei 11.488/2007, esta passou a ser a norma menos onerosa para o contribuinte, amoldandose, a situação e o pleito, à disposição contida na alínea c, do inciso II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Em se tratando de dispositivos legais que tipificam uma única conduta — "ocultação" de intervenientes do comércio exterior fica evidenciado o conflito de normas, uma prevista no Decreto Lei 1.455/76 (art. 23, V) e a outra na Lei 11.488/07 (art. 33), fazendose necessária a observância do princípio da especialidade, o qual impõe a prevalência da norma especial em detrimento da geral. Não bastassem os argumentos baseados do princípio da penalidade menos onerosa, e na mais específica, cabe rememorar que o art. 100 do DecretoLei 37/66 é bastante claro ao impor nas infrações praticadas por mais de uma pessoa, a cada qual deve ser aplicada sua específica penalidade prevista na legislação. Não cabe, portanto, sob a alegação de responsabilidade solidária, penalizar o importador com a penalidade prevista para o adquirente. Portanto, se na interposição fraudulenta (e ocultação mediante fraude ou simulação) exigese a presença de mais de uma pessoa uma ostensiva e outra oculta; se a legislação prevê uma penalidade para o responsável pela operação, o sujeito que Fl. 912DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 913 17 beneficiouse ocultamento, e outra penalidade para o que facilitou a ocultação, fazse mister aplicar o art. 100 do Decreto Lei 37/66 e separar as pessoas e suas penalidades. * DOS REQUERIMENTOS Ante o exposto, requer o recebimento e o processamento da presente Impugnação para que seja declarado nulo o Auto de Infração pelas razões acima expostas, especialmente: I. pela falta de correção de vício material apontado em julgamento de lançamento de penalidade sobre fatos idênticos ao dos autos, por não ter sido oportunizado à Impugnante fazer prova da regularidade da origem, disponibilidade e transferência dos recursos, bem como do vínculo com a pessoa seguinte da cadeia de circulação, procedimento assegurado na IN SRF 228/02; pela falta de intimação do responsável solidário para a apresentação das mercadorias sujeitas à pena de perdimento, antes de ser o perdimento substituído pela multa de 100%; por vício formal no procedimento fiscal de fiscalização, que desrespeitou forma prevista em norma legal e infralegal. Na remota hipótese de interpretarse que os vícios da autuação não o contaminam de absoluta nulidade, o que se admite apenas a título de argumentação, requerse seja o mesmo julgado improcedente e desconstituído o crédito tributário, pelas inúmeras razões expostas acima, quais sejam, de forma resumida: I. pela regularidade da importação por conta própria; II. pela falta de provas de encomenda de terceiros; pelo fato de todo o auto de infração basearse em frágeis indícios isolados; III. pela ausência de prova de simulação ou fraude, bem como da existência de dolo; IV. pela ausência de dano ao Erário; V. pela inexistência de vantagens econômicas ou fiscais em suposta ocultação, e; VI. pela desproporcionalidade e desarrazoabilidade da pena de perdimento. Na remota possibilidade de os argumentos de mérito não serem acolhidos, requerse, a relevação da pena de perdimento, com a aplicação de multa limitada ao percentual de 1% (um por cento), posto que a os fatos narrados na autuação não resultaram e insuficiência de recolhimento de tributos federais. Subsidiariamente, requerse a aplicação de pena máxima de 10% (dez por cento), prevista especificamente para o importador ostensivo. Fl. 913DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 914 18 A Impugnante requer, ainda, que lhe seja assegurada a produção de todos os meios de prova admitidos em Direito, inclusive a posterior juntada de documentos porventura não localizados dentro do prazo legal, na forma do artigo 17 do Decreto n° 70.235/1972. A empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS foi cientificada, via eletrônica, em 19/02/2015 ( folhas 819). A empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS não apresentou impugnação. É o Relatório". A Delegacia da Receita Federal do Brasil negou provimento a impugnação apresentada pelo contribuinte, em julgamento que recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 28/05/2010 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Conforme atesta a certidão acostada à folha 849 dos autos, considerase intimado o contribuinte sobre o teor do acórdão proferido pela instância de origem em Fl. 914DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 915 19 17/9/2015, ante o transcurso do prazo da disponibilização do documento na caixa postal do contribuinte Portal eCAC (Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte). Interposto tempestivamente o recurso voluntário em 5/10/2015 (fl.895), os autos do processo administrativo em tela ascenderam a este Conselho. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Lenisa Rodrigues Prado Em seu recurso voluntário a contribuinte alega, em preliminar, que a autuação padece de vício material insanável, já que existindo apenas indícios de suposta prática delitiva, deveria ter sido instaurado o procedimento especial de fiscalização definido na IN SRF n. 228/2002, para que a origem dos recursos empregados nas importações fossem analisadas e delimitadas as condutas dos agentes das operações. Não atendidos os requisitos específicos do procedimento especial de investigação, é nula a autuação. O recorrente sustenta que a identidade das autuações (a lavrada em 2012 e a que se submete a julgamento), atrelada a ausência de correção do vício material apontado (que ocasionou a decretação de nulidade da autuação passada) ensejam a uniformização das decisões, sob pena de se ferir a confiança e segurança jurídica. Nas palavras da recorrente: "Julgar causas idênticas de forma desigual acarreta imensurável insegurança jurídica, desconfiança e imprevisibilidade na ordem administrativa operante, principalmente considerando que as alterações inseridas no novo auto prestaramse tãosomente a (i) adaptar o relatório fiscal às informações atualizadas dos procedimentos fiscais de diligência e de fiscalização realizados a posteriori do lançamento anulado; (ii) para dar conta da decretação de nulidade do auto anterior, e; (iii) para justificar a discordância à anulação". A contribuinte requer a anulação da autuação no que se refere a incidência da multa substitutiva equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, diante do fato que a empresa Glazetech Indústria e Comércio de Produtos Cerâmicos Ltda não foi intimada a apresentar as mercadorias sujeitas à pena de perdimento. A recorrente alega que o procedimento de fiscalização instaurado em 16/01/2015 não deveria ter sido inaugurado pelo Mandado de Procedimento Fiscal, mas sim pelo Termo de Distribuição do Procedimento Fiscal (TDPF), conforme determina o Decreto n. 8.303/2014 e regulamentado pela Portaria RFB n. 1.687/2014, que dispõe: "Art. 2º (Port. RFB 1.687/2014) Os procedimentos fiscais relativos a tributos e ao controle aduaneiro de comércio exterior administrativo pela RFB serão instaurados e executados pelos Fl. 915DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 916 20 AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil, na forma do art. 7º do Decreto n. 70.235/1972, observada a emissão de: I Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Fiscalização (TDPFF), para instauração de procedimento de fiscalização; II Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Diligência (TDPFD), para realizaçaõ de diligência; e III Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal Especial (TDFPE), para prevenção de risco de subtração de prova. Art. 4º. Os procedimentos fiscais serão instaurados após sua distribuição por meio de instrumento administrativo específico denominado Termo de Distribuição do Procedimento Fiscal (TDPF), previsto no art. 2º do Decreto n. 3.724, de 10 de janeiro de 2001". Quanto ao mérito, a recorrente repisa o argumento que a letra do art. 23, V do DecretoLei n. 1.455/1976 impõe a decretação de pena pela infração que ocorre quando o real importador (ou real adquirente) ocultase propositalmente da fiscalização aduaneira através da facilitação de um importador ostensivo, utilizandose de meio fraudulento ou simulação. Na hipótese dos autos não existe comprovação de dolo, sequer há provas sobre a obtenção de vantagens indevidas em razão da ocultação do real importador. Em suas palavras: "77. Diante do expostos, afirmar que a interposição fraudulenta foi praticada na via efetiva ou direta, com a imputação da infração e respectiva penalidade, significa que o Fisco detém provas inequívocas da ocultação e do dolo (exigível na fraude ou simulação elementos nucleares do tipo infracional), posto que através desta modalidade de apuração o cometimento da infração não é presumível. (...) 82. No entanto, não é exatamente esta a realidade probatória do auto de infração recorrido, em que se verifica a adoção de fundamentos questionáveis para justificar o fim pretendido pela Autoridade Fiscal aplicação de multa substitutiva de 100%, sem o necessário respaldo probatório". A Fiscalização adota a interpretação que a importação tem início no registro da Declaração de Importação. Sobre esse tema, a contribuinte se insurge, pois entende que a operação de importação é composta por várias etapas que precedem o registro, sendo a Declaração de Importação apenas o momento do lançamento do Imposto de Importação. Na opinião da recorrente, a questão temporal para a apuração da infração pela qual foi autuada é irrelevante, porque este aspecto isolado não atesta a ocultação por simulação fraudulenta. O fator apto a determinar punível a conduta da contribuinte está relacionado ao risco empresarial da operação de importação, uma vez que a norma prevista no art. 23 do Decreto Lei n. 1.455/76 presume ocorrida a infração quando não há comprovação de origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. Daí conclui que: Fl. 916DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 917 21 "106. Logicamente que, se não há aporte de capital na operação pelo importador ostensivo, a concretização de qualquer dos fatores de risco não lhe será prejudicial, mas sim a quem efetivamente aportou o recurso na operação". Sustenta que a partir da data de embarque de mercadorias adquiridas através da INCOTERM FCA, as mesmas são de propriedade do importador, que legalmente as adquiriu e sem qualquer ordem ou encomenda anterior. Investido nesta qualidade, pode, ele, exercer todos os direitos de propriedade, ainda que as mercadorias estejam em trânsito (transit time) e ainda não tenham sido efetivamente nacionalizadas. Por esse motivo a recorrente aduz que as provas angariadas pela Autoridade Fiscal não são suficientes para demonstrar a efetiva ocultação, pois indicam condutas compatíveis com o ordenamento jurídico e asseguradas pelo direito de propriedade. A recorrente pondera que não há nos autos qualquer esclarecimento sobre os motivos pelos quais a empresa Glazetech Indústria e Comércio de Produtos Cerâmicos não pudesse se habilitar no SISCOMEX, motivo que esclareceria a interposição fraudulenta alegada. A ausência desses esclarecimentos torna inválida a autuação. A resposta da recorrente sobre esse tópico foi: "137. A empresa GLAZETECH Indústria e Comércio de Produtos Cerâmicos Ltda, não possuía habilitação no SISCOMEX pela razão única de não operar no comércio exterior, pois adquiria mercadorias de fornecedores brasileiros, o que é plenamente compatível com o ordenamento jurídico". E continua a prestar os seguintes esclarecimentos: "143. Conquanto sejam nulos os fundamentos inovadores do auto de infração, mas com o intuito de evitar a perpetração do argumento, ressaltamos que a empresa GLAZETECH Indústria e comércio de Produtos Cerâmicos é industrial, o que inviabiliza a alegada quebra na cadeia do IPI. O tributo incidiu na (i) entrada da importação por equiparação industrial; (ii) na saída da Recorrente por equiparação a industrial (mas em vias de ser extinto, ante os recentes julgados de não incidência de IPI na saída de produtos importados) e, (iii) na saída da GLAZETECH (se é que foi dado saída) não por equiparação, mas por ser propriamente empresa industrial, tal como incidiria se esta figurasse como adquirente, quando se equipararia a industrial (momento em que o julgador a quo alega ter sido quebrada a cadeia)". A linha de argumentação subsidiária da contribuinte é pela aplicação do art. 737 do Regulamento Aduaneiro (Decreto n. 6.759/2009) que prevê a relevação da pena de perdimento nos casos em que a infração não tenha resultado em falta ou insuficiência de recolhimento dos tributos federais. Traz a conhecimento precedentes lavrados na esfera judicial que determinam, em situações análogas às dos autos, a substituição da pena de perdimento pela multa correspondente a 1% sobre o valor aduaneiro da mercadoria. Requer, por fim, a cominação de penalidade específica para o importador ostensivo, nos moldes previstos no art. 33 da Lei n. 11.488/2007, cancelandose a sanção prevista no art. 23, V, do DecretoLei n. 1.455/76. Fl. 917DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 918 22 Passamos a avaliar os argumentos contidos no recurso voluntário sob julgamento. 1. PRELIMINARES 1.1. VÍCIO INSANÁVEL. PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO ESPECÍFICO IN SRF 228/2002 A recorrente se insurge contra a autuação fiscal sofrida, arrimada no art. 23, inciso V, parágrafo 3º do DecretoLei n. 1.455/1976, com a redação conferida pelo art. 59 da Lei n. 10.637.2002 e art. 73 da Lei n. 10.833/2003, os quais transcrevo: Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 2º Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3º. As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto n. 70.235/1972. A norma transcrita espelha a existência de duas presunções, que são: a) presunção de dano ao erário, já que consta no caput do artigo transcrito que presumese a existência de dano ao erário o simples fato de haver a interposição fraudulenta por meio de ocultação do real adquirente da mercadoria importada ou exportada, e; b) a presunção da interposição fraudulenta, esta presumida quando não comprovada a origem, a disponibilidade e a transferência dos recursos utilizados nas operações de mercado exterior. Portanto, para que haja dano ao erário, basta a ocultação do real adquirente, que necessariamente deve se concretizar mediante fraude ou simulação, ou então, também presumirseá dano ao erário a interposição fraudulenta, admitida nas hipóteses em que não se consegue comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos valores necessários para as operações1. Na hipótese dos autos, estamos diante da imputação da prática do ilícito consistente na ocultação do real adquirente das mercadorias importadas, mediante fraude ou simulação. Para que tal presunção passe do plano da investigação e possa, acertadamente, resultar na sanção imposta ao contribuinte, é necessário que o acervo probatório este de 1 Neste ponto concordamos com a interpretação apresentada pelo Cons. João Carlos Cassuli Júnior, na oportunidade do julgamento do Processo Administrativo n. 10925.721819/201369, que resultou no Acórdão n. 3402002.560. Fl. 918DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 919 23 responsabilidade da Autoridade Fiscal Autuante indiquem que efetivamente o real adquirente das mercadorias não seja aquele indicado nos registros próprios das operações de importação. Esta turma de julgamentos acolhe o entendimento que a "Instrução Normativa n. 228/2002 é um procedimento investigatório para a obtenção de provas para comprovação de eventual interposição fraudulenta de pessoas"2. O referido procedimento especial de fiscalização tem por escopo constatar a eventual ocorrência de fraude nas importações, pelos indícios de incompatibilidade entre os valores transacionados e capacidade econômica do importador, com a eventual culminação da pena de perdimento, ou do lançamento da multa substitutiva de perda, nos casos de impossibilidade de localização das mercadorias ou o seu consumo. Por este motivo, me distancio da conclusão adotada pela instância de origem, que limita a importância do Procedimento Especial de Fiscalização nos seguintes contornos: "O procedimento especial de fiscalização escorado na Instrução Normativa n. 228/2002 não é pressuposto para uma autuação fiscal e sim um instrumento para a retenção de mercadorias ao longo do despacho aduaneiro de importação". Em que pese a conclusão da instância de origem ter sido adotada pela unanimidade dos julgadores, entendo que não é possível assentir com a premissa que um Procedimento de Fiscalização tenha por objetivo imediato a retenção de mercadorias, e não a busca pela verdade material dos fatos que resultaram na importação ou exportação dos produtos. A IN SRF 228/2002, além de indicar os deveres da Autoridade Fiscal, também condiciona o acervo probatório mínimo para a efetiva condenação dos investigados. A saber: Art. 4º. Durante o procedimento especial de fiscalização, a empresa será intimada a comprovar as seguintes informações, no prazo de 20 (vinte) dias: I o seu efetivo funcionamento e a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias, mediante o comparecimento de sócio com poder de gerência ou diretor, acompanhado da pessoa responsável pelas transações internacionais e comerciais; e II a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações. § 1º Os elementos de prova deverão ser apresentados à unidade da SRF de fiscalização aduaneira com jurisdição sobre o domicílio fiscal do estabelecimento matriz da empresa. (...) Parágrafo único. Para fins de comprovar a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias, as pessoas que 2 Definição contida no Acórdão n. 3302003.506, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 13971.722501/201176, julgado por esta 2ª Turma da 3ª Câmara da 3ª Seção em 24/01/2017. Fl. 919DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 920 24 comparecerem à SRF deverão demonstrar, ainda, que possuem conhecimento dos detalhes das operações em curso e poder decisório para sua realização, bem assim relacionar os nomes das pessoas de contato junto aos fornecedores estrangeiros, indicando os respectivos números de telefone, faz ou endereço eletrônico. Art. 6º Para efeito de cumprimento do disposto no inciso II do caput do art. 4º, além dos registros e demonstrações contáveis, poderão ser apresentados, dentre outros, elementos de prova de: I integralização do capital social; II transmissão de propriedade de bens e direitos que lhe pertenciam e do recebimento do correspondente preço; III financiamento de terceiros, por meio de instrumento de contrato de financiamento ou empréstimo, contendo: a) identificação dos participantes da operação: devedor, fornecedor, financiador, garantidor e assemelhados; b) descrição das condições de financiamento: prazo de pagamento do principal, juros e encargos, margem adicional, valor de garantia, respectivos valoresbase para cálculo, e parcelas não financiadas e; c) forma de prestação e identificação dos bens oferecidos em garantia. Da leitura dos artigos e incisos, percebese que a intenção do criador da Instrução Normativa n. 228/2002 é garantir a constitucionalidade de um procedimento de fiscalização, tendo em vista os preceitos constitucionais da ampla defesa e a indispensável conclusão que só se pode apenar alguém mediante a existência de provas da prática do ilícito punível. E essa interpretação é reforçada pela recente edição da IN 1.678/2016, que atesta que o objetivo da IN 228/2002 é fiscalizar operações de comércio exterior que apresente indícios de interposição fraudulenta, pela incompatibilidade dos volumes transacionados com a capacidade financeira e econômica dos agentes. A instrução normativa de 2016 determina que a autuação deve ser calcada em motivação específica portanto, amparada por provas e não permite mais a motivação genérica admitida na instrução de 2002. São conclusões que apresento sobre o que até agora foi exposto: (i) a IN SRF 228/2002 regulamenta a metodologia específica a ser observada pela Autoridade Fiscal na investigação de ocorrência de interposição fraudulenta de pessoas nas operações de comércio exterior; (ii) nesta norma também estão indicadas as provas indispensáveis para a eventual condenação da contribuinte, e que; (iii) a contribuinte foi autuada pela prática de interposição fraudulenta, porém sem ter sido submetida ao Procedimento Especial de Fiscalização. Fl. 920DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 921 25 Entendo que tal condenação não deve prevalecer, diante da ausência das provas indicadas como essenciais pela IN SRF 228/2002. Essa falha da Autoridade Fiscal leva a indissociável conclusão que há perecimento ao direito a ampla defesa (inciso LV, do artigo 5ª da Constituição Federal de 1988), bem como afastouse do primado da seara administrativa que é a busca pela verdade material. Existem outras questões relacionadas ao procedimento de fiscalização realizado pela Autoridade Fiscal que serão abordadas no mérito da contenda. 1.2. VÍCIO PROCEDIMENTAL. FISCALIZAÇÃO INSTAURADA POR MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL E NÃO TERMO DE DISTRIBUIÇÃO DE PROCEDIMENTO FISCAL. DECRETO N. 8.303/2014. PORTARIA RFB N. 1.687/2014. Em que pese a lógica perfilhada pela contribuinte que ensejou a conclusão acima, entendo que não merece destaque. Isso porque a lavratura sob julgamento não foi resultado do Procedimento Especial de Fiscalização, como já tratado no tópico anterior. E a utilização indispensável do Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Fiscalização (TDPFF) de que trata a Portaria RFB n. 1.687/2014, é previsto no art. 3º da IN SRF 228/2002. Assim, por não ter sido adotado o procedimento previsto na IN SRF 228/2002, não é possível exigirse a utilização de um instrumento próprio daquela forma de investigação. 1.3. INEXISTÊNCIA DE INTIMAÇÃO VÁLIDA PARA APLICAR A MULTA SUBSTITUTIVA DA PENA DE PERDIMENTO. A instância de origem considerou que: "A adequada interpretação do § 3º do artigo 23 do Decreto Lei n. 1.455/1976 deve ser aquela que preste efetividade à norma: intimar o importador/exportador para que o apresente, ou pelo menos que indique a localização do bem apenado com o perdimento, já que é quem tem ou teve sua posse, além de ser responsável direto ou indireto pela irregularidade na operações de comércio exterior". Há, nos autos, o Termo de Intimação n. 005/2012 (fls. 499/500), endereçado a Open Market Comércio Exterior, para que esta apresente em 20 dias (i) as mercadorias importadas através das Declarações de Importação contidas na tabela lá reproduzida, ou: (ii) na impossibilidade de entrega destas mercadorias, por qualquer motivo, que apresente declaração por escrito dos motivos que justifiquem esta falta. Em resposta (fls. 501) a ora recorrente esclarece que não é possível entregar as mercadorias, porque já haviam sido vendidas no mercado interno. Tal resposta é um resultado lógico de toda defesa promovida pela contribuinte: que importou os produtos e, assim Fl. 921DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 922 26 que esses foram desembaraçados, os vendeu para a contribuinte Glazetech Indústria e, por esse motivo, não detém mais a posse dos produtos importados. E, seguindo esta linha de raciocínio, entendo que o procedimento de desembaraço aduaneiro é uma etapa do controle aduaneiro, que resulta na nacionalização do produto, sendo possível a venda desses produtos ainda dentro do recinto alfandegário. Com bem colocado pelo Cons. Cassuli; "A partir do desembaraço a mercadoria, que já é do importador, passa a ser nacionalizada e pode ser entregue ao seu dono, que passa a ter também a sua posse direta e a respectiva propriedade, que se operou pela tradição da coisa adquirida"3. Assim, não há como se exigir que a importadora Open Market pudesse apresentar as mercadorias por ela importadas mas entregue a quem as adquiriu no mercado interno. Se tal conclusão pudesse ser admitida, chegarseia a inevitável "exigência do impossível", já que a recorrente não detém a posse dos objetos desde o momento em que as vendeu. A inexistência de intimação destinada a Glazetech Indústria e Comércio de Produtos Cerâmicos macula a autuação fiscal porque, apesar de presumir que esta é a real encomendante dos produtos importados, o Fiscal não a intima para apresentar as mercadorias, o que impossibilita a apresentação das mesmas e defesa da contribuinte contra a sanção a que foi apenada. Entendo, por esse motivo, que é de rigor o cancelamento da multa equivalente ao valor aduaneiro, prevista no § 3º do art. 23 do DecretoLei n. 1.455/1976. 1.4. DO VÍCIO MATERIAL NÃO CORRIGIDO. A recorrente afirma que o auto de infração sob julgamento foi lavrado em substituição ao lançamento de crédito tributário declarado nulo pela autoridade administrativa da julgamento em 2012. Afirma que a decretação de nulidade pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza decorreu do vício material pela ausência de análise contábil e financeira das operações de comércio exterior. E assim esclarece: "7. Percebese que foi determinante para a decretação da nulidade do lançamento realizado em 2012, relativo aos mesmos fatos objeto da autuação de cuja decisão de 1º grau ora se recorre, o fato de a Autoridade Autuante não ter realizado ou exposto a análise contábil e financeira detalhando a relação das partes e dos recursos empregados, sem o que, o lançamento esvaziouse, pois restou apoiado em meros indícios. (...) 9. Não obstante a decretação da nulidade pela ocorrência do vício material, o Órgão Julgador ressalvou o direito do Fisco em lavrar novo auto abrangendo os mesmos fatos fiscalizados não atingidos pela decadência. 3 Acórdão n. 3402002.560, já citado. Fl. 922DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 923 27 10. E, de fato, novo auto de infração foi lavrado. Todavia, permanece este eivado com o mesmo vício material apontado no passado, posto que a necessária análise contábil e financeira que motivou a decretação da nulidade não foi, novamente, apresentada, muito embora a autuação seja idêntica àquela que restou anulada. (...) 13. Logo, a identidade das autuações (anulada e nova), atrelada à ausência de correção do vício material que no passado ocasionou a nulidade do lançamento, contaminam, de per si, o auto de infração de cuja decisão ora se recorre, cujo destino não deve ser diferente: a decretação da nulidade, em respeito à desejável estabilidade dos critérios utilizados pela administração para a interpretação dos textos legais, à confiança e à segurança jurídica!" (grifos no original) Com efeito, os documentos acostados aos autos remetem à inexorável conclusão que a autuação fiscal sob julgamento corresponde aos mesmos fatos já julgados pela DRJ de Fortaleza no ano de 2012. Naquela oportunidade, a turma julgadora acolheu a impugnação da contribuinte ao constatar a existência de vício material insanável. Por esse motivo, apesar de ser direito do Fisco promover nova fiscalização pelos fatos já sepultados, deveria a nova autuação contar com novos fundamentos jurídicos e mais elementos fáticos aptos a subsidiar a pretensão fiscal. É defeso à autoridade fiscal simplesmente repetir o lançamento, sem que apresente nova e suficiente motivação. A decisão proferida pela Delegacia de Fortaleza tornou os fatos já examinados impossíveis de serem reeditados. Nesse sentido é o Parecere Cosit n. 21/2003, do qual apresento ementa e fragmentos: Ementa: DECISÃO DEFINITIVA PROFERIDA POR ÓRGÃO JULGADOR ADMINISTRATIVO DE 1a INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE DE CONSULTA AO ÓRGÃO JULGADOR PARA CORREÇÃO DE EVENTUAL INEXATIDÃO MATERIAL. PELO PROSSEGUIMENTO DA COBRANÇA DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO MANTIDO PELA DECISÃO. Não cabe revisão, no âmbito da Administração Tributária Federal, do mérito de decisão definitiva proferida por órgão julgador administrativo de primeira instância. Inexistindo a possibilidade de consulta ao órgão julgador que proferiu a decisão definitiva no processo administrativo fiscal, para esclarecimento de eventual inexatidão material na decisão, em face de modificação na estrutura e na competência dos órgãos julgadores administrativos de primeira instância, a unidade competente da Secretaria da Receita Federal Fl. 923DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 924 28 deve dar prosseguimento à cobrança do crédito tributário mantido pela decisão. Excertos: 13. Aliás, o parágrafo único do art. 42 do Decreto no 70.235, de 1972, é cristalino ao afirmar que são também definitivas as decisões de primeira instância administrativa na parte que não estiver sujeita a recurso de ofício. 14. É verdade que o art. 32 do Decreto no 70.235, de 1972, chega a prever a possibilidade de a decisão proferida pelo órgão julgador administrativo ser revista, de ofício ou a requerimento do sujeito passivo, a fim de que sejam corrigidas inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e a erros de escrita ou de cálculo [...] 17. A revisão do mérito de decisão administrativa definitiva, além de desprovida de fundamentação legal, ofende o princípio da segurança jurídica que, aplicado ao processo administrativo tributário, proíbe que decisões administrativas finais em matéria tributária, sejam elas favoráveis ou desfavoráveis ao sujeito passivo, possam ser revistas a qualquer tempo. 18. Acerca dessa irretratabilidade das decisões administrativas finais, convém transcrever os ensinamentos do Professor Hely Lopes Meirelles (Direito Administrativo Brasileiro, 25a Edição, Malheiros Editores, São Paulo, 2000, pág. 626), in verbis: “..., o que ocorre nas decisões administrativas finais é, apenas, preclusão administrativa, ou a irretratabilidade do ato perante a própria Administração. É sua imodificabilidade na via administrativa, para estabilidade das relações entre as partes. Por isso, não atinge nem afeta situações ou direitos de terceiros, mas permanece imodificável entre a Administração e o administrado destinatário da decisão interna do Poder Público.” (grifouse) 19. Marcos Vinicius Neder de Lima e Maria Teresa Martínez López (Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado, 1a Edição, Dialética, São Paulo, 2002, págs. 353 e 354), ao discorrerem sobre o tema, afirmam o seguinte: “De fato, boa parte da doutrina sustenta que a decisão final no processo administrativo vincula a Administração, mas não o contribuinte que, ainda, pode recorrer ao Poder Judiciário para o controle da legalidade do ato. É por isto que se diz que a decisão formalmente válida que encerra o processo administrativo faz ‘coisa julgada administrativa’, não podendo ser revogada pela Administração.” (grifouse) De maneira similar, Parecer Cosit 8/2014, ao tratar da revisão de ofício, dispôs em seu item 20, o seguinte: Fl. 924DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 925 29 "O verdadeiro fundamento da limitação da revisão do lançamento à hipótese de erro de fato resulta do caráter taxativo dos motivos da revisão do lançamento enumerados no artigo 149 do Código Tributário Nacional e que, como vimos, são, além da fraude e do vício de forma, dever apreciarse “fato não conhecido ou não provado por ocasião de lançamento anterior” (inciso VIII). Significa isto que, se só pode haver revisão pela invocação de novos fatos e novos meios de prova referentes à matéria que foi objeto de lançamento anterior, essa revisão é proibida no que concerne a fatos completamente conhecidos e provados. Assim, acolho o argumento de nulidade apresentado pela Recorrente em preliminar, de modo a concluir não ser possível a submissão dos mesmos fatos e argumentos já decididos para novo julgamento pela mesma instância administrativa. Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e darlhe provimento. Lenisa Rodrigues Prado Relatora Fl. 925DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 926 30 Voto Vencedor Conselheiro Walker Araujo Redator Designado. Em que pese as razões arroladas pela ilustre Relatora, peço licença para divergir quanto a necessidade de instauração do procedimento da IN 228/2002 (item 1.1). Isto porque, o escopo da IN 228 é o combate à interposição fraudulenta antes do desembaraço ou da entrega da mercadoria, devendo ser prestada garantia ou retida a mercadoria, nos termos do artigo 7º da IN. Deste modo, o procedimento especial não é pressuposto de fiscalização em revisão aduaneira, mas sim antes da entrega da mercadoria importada ao destinatário. Essa matéria já foi objeto de análise nos autos do processo 13971.722501/201176 (acórdão 3302 003.506), cuja ementa segue abaixo: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2006, 2007 DECADÊNCIA. OCORRÊNCIA PARCIAL. PENALIDADES. Verificase que o art. 753, do Decreto nº 6.759/2009, prevê o prazo de cinco anos a contar da data da ocorrência da infração para impor penalidade. PROCEDIMENTO ESPECIAL DE FISCALIZAÇÃO. IN SRF 228/2002. AUSÊNCIA DE NECESSIDADE.Quando todas as provas já estão presentes para a elaboração do auto de infração, não há necessidade do procedimento especial. Assunto: Normas de Administração Tributária Anocalendário: 2006, 2007 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. Quando há envio de depósitos para fechamentos de câmbio, emails e outras provas robustas, fica configurada a interposição fraudulenta de terceiros nas operações de importação. SUBFATURAMENTO/ SUPERFATURAMENTO. O subfaturamento e o superfaturamento ocorre quando os preços declarados nas faturas comerciais não consubstanciam a realidade, sendo que elas passaram por falsificações e há provas, nesse sentido, como a existência de carimbos de fornecedores, emails, notas de débito e de crédito. MULTA PROPORCIONAL AGRAVADA. DOLO. EXISTÊNCIA. O dolo de sonegação fica configurado quando expressamente provado por uma série de provas cabais. Assunto: Imposto sobre a Importação II Anocalendário: 2006, 2007 MULTA REGULAMENTAR DO IPI. VALOR COMERCIAL DA MERCADORIA. AFASTAMENTO. Afastase a multa regulamentar do IPI, equivalente ao valor comercial da mercadoria, quando houver no Regulamento Aduaneiro Decreto 6.759/09 multa com tipificação mais específica. No caso concreto, é o dispositivo que prevê a multa contida no § 1º, do inciso XXII, do artigo Fl. 926DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 927 31 689 do Regulamento, tipificada como infração por dano ao erário, por interposição fraudulenta No mais, adoto como fundamento as razões já explicitadas no acórdão recorrido (vide abaixo), no sentido de que "o procedimento especial de fiscalização escorado na Instrução Normativa n° 228/02 não é pressuposto para uma autuação fiscal e sim um instrumento para a retenção de mercadorias ao longo do despacho aduaneiro de importação": Para o adequado deslinde da questão colocada, é propício uma outra explanação sobre o conceito do procedimento especial de fiscalização normatizado pela IN SRF nº 228/02 e os seus efeitos. Como visto, o objeto de investigação do procedimento especial de fiscalização é a empresa e as operações de comércio exterior por ela realizadas que revelar indícios de incompatibilidade entre os volumes por ela transacionados no comércio exterior e a sua capacidade econômicofinanceira. Destarte, se a fiscalização aduaneira detecta indícios de incompatibilidadentre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira da empresa importadora ou outros indícios ou incongruências, o procedimento a ser instaurado é o procedimento especial de fiscalização, implicando na retenção de todos os despachos aduaneiros de importação efetuados pela empresa. O inicio do procedimento especial de fiscalização então é registrado no Sistema de Rastreamento de Atuação de Intervenientes Aduaneiros RADAR para que todas as unidades aduaneiras tenham ciência disso e procedam com a retenção de todo e qualquer desembaraço aduaneiro da empresa a partir desse registro, condicionando o desembaraço ou a entrega das mercadorias na importação à prestação de garantia, até a conclusão do procedimento especial. Cabe destacar que, no que tange à aplicação do procedimento especial de fiscalização (IN SRF n° 228/02), o foco da fiscalização é a prevenção quanto à possível ocorrência de ocultação dolosa do sujeito passivo oculto responsável pela importação. Para tanto, as repartições aduaneiras poderão determinar a submissão da empresa importadora a esse procedimento, em face de premissas claramente definidas, tais como: Cessar imediatamente a atuação das pessoas jurídicas que se utilizam dessa prática irregular, de modo a impedir que os bens, direitos, ou valores oriundos da prática dos crimes relacionados à lavagem de dinheiro venham a se tornar lícitos, por meio de operações de comércio exterior. Esse procedimento possibilitará a reunião dos demais elementos de prova com maior profundidade em momento posterior (inclusive, pela Polícia Federal) ao serem tratados sob o enfoque penal; e Como não é possível definir o universo dos delitos encobertos pela ação de interpostas pessoas, punese o meio de execução (paralisação da operação de importação e empresa), sempre no intuito de atingir o maior número possível de infratores, conforme o fundamento descrito no item acima. Esse é o escopo do procedimento especial de fiscalização. Um instrumento legal à disposição da fiscalização aduaneira para repressão de operações de importação oriundas da prática de interposição fraudulenta de terceiros. Fl. 927DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 928 32 As intimações à empresa importadora feitas no âmbito do procedimento especial de fiscalização tem por objetivo confirmar ou não às suspeitas da fiscalização aduaneira quanto a existência de prática de interposição fraudulenta de terceiros que tem o dever de combater. Entendendo que essas irregularidades são presentes, por força do artigo 11 da IN SRF nº 228/02, será proposta a pena de perdimento: Art. 11. Concluído o procedimento especial, aplicarseá a pena de perdimento das mercadorias objeto das operações correspondentes, nos termos do art. 23, V do Decretolei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, na hipótese de: I ocultação do verdadeiro responsável pelas operações, caso descaracterizadaa condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias; II interposição fraudulenta, nos termos do § 2º do art. 23 do Decretolei nº 1.455, de 1976, com a redação dada pela Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, em decorrência da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, inclusive na hipótese do art. 10. Parágrafo único. Nas hipóteses previstas nos incisos I e II do caput, será ainda instaurado procedimento para declaração de inaptidão da inscrição da empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). (Grifo Nosso) A incidência da pena de perdimento e posterior substituição pela incidência da multa equivalente ao valor aduaneiro não está atrelada ao prazo do procedimento especial de fiscalização. Pelo contrário, só ocorrem após sua conclusão, a luz do artigo 11 da IN SRF nº 228/02. Proposta a pena de perdimento e a sua consequente substituição pela multa equivalente ao valor aduaneiro, na forma do §3º, do artigo 23, do Decreto Lei n° 1.455/76 – procedimento que será explanado alhures , a exigência do crédito tributário seguirá o rito do Decreto nº 7.574, de 29/09/2011 ( que substituiu o Decreto n.º 70.235/72). Essa explanação foi necessária para evidenciar também que o prazo estabelecido no artigo 9º da IN SRF nº 228/02 – noventa dias – diz respeito à conclusão do procedimento especial de fiscalização, e não ao rito da propositura da pena de perdimento em decorrência de determinação expressa do artigo 11 da IN SRF nº 228/02. Assim, a ação da fiscalização aduaneira responsável pela aplicação do procedimento especial de fiscalização (IN SRF n° 228/02) tem por fulcro a retenção de despacho aduaneiro de importação sob suspeita de prática de interposição fraudulenta de terceiros. Caso as suspeitas da fiscalização se confirmem, a Instrução Normativa n° 228/02 disciplina o modo de agir com vistas à aplicação da pena de perdimento, conforme o artigo 11 acima transcrito Por conseguinte, o procedimento especial de fiscalização escorado na Instrução Normativa n° 228/02 não é pressuposto para uma autuação fiscal e sim um instrumento para a retenção de mercadorias ao longo do despacho aduaneiro de importação. Atrelar a presente ação fiscal – que por si só já trouxe elementos próprios para a lavratura do Auto de Infração – à realização da Instrução Normativa n° 228/02 é desconhecer o real propósito desse instituto. Fl. 928DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 929 33 Por tais motivos, negase a preliminar suscitada no tópico "1.1" . É como voto. (assinado digitalmente) Walker Araujo Redator designado. VOTO VENCEDOR Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Redator Designado. Com devido respeito às razões da ilustre relatora, divirjo quanto à conclusão sobre os efeitos da inexistência de intimação válida à Glazetech para apresentação de mercadorias sujeitas à pena de perdimento. Conforme exposto no Relatório de Ação Fiscal, houve intimação à importadora e primeira adquirente das mercadorias para apresentação das referidas, tendo sido respondida pela ora recorrente, que as mercadorias já foram consumidas no mercado interno, de acordo com a resposta abaixo: “Com relação a solicitação no TERMO DE INTIMAÇÃO No. 005/2012 MPF No. 0925200.2011.0001672: informarmos que as mercadorias referentes as DI mencionadas no item 2, não estão em nosso estoque em virtude de terem sidos vendidas, de acordo com as notas fiscais de venda enviadas a esta fiscalização nas intimações anteriores. As mercadorias inclusive já foram consumidas no mercado interno Sendo o que tínhamos, nos colocamos a disposição para eventuais esclarecimentos.” A respeito, esclareceu a decisão recorrida: "A redação do §3º, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76 autoriza o entendimento de que se o importador não tem mais a posse do bem devido a sua revenda pode se dizer que é uma situação análoga ao consumo desse bem ou até mesmo a sua não localização, nos moldes dado pela redação do caput do o artigo 73 da Lei nº 10.833/03, não exigindo o legislador qualquer outra cautela por parte da fiscalização para que se tenha a alternância de ritos procedimentais." A fiscalização afirmou a impossibilidade de se apreender as mercadorias, fato este que não foi contestado pela Glazetech, que era, segundo a recorrente, quem poderia deter a posse dos bens, reputandose verdadeira a impossibilidade de apreensão, fato alegado e não contestado por quem competia opor tal argumento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Declaração de Voto Fl. 929DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 930 34 Concernente à preliminar II.I.I VÍCIO MATERIAL NÃO CORRIGIDO, razão cabe à recorrente. A primeira fiscalização, que gerou a autuação declarada nula pela DRJ pelo Acórdão 0826.653 por vício material, foi alicerçada no relatório de efls. 673 a 690, juntado na impugnação, no qual se constata que os tópicos 5.2 Dos Procedimentos de Ocultação do Real Comprador, 5.2.1 Proximidade das datas de desembaraço, entrada e saída de mercadorias, 5.2.2 Entrega da mercadoria diretamente no adquirente, 5.2.3 Falta de habilitação para operar no comércio exterior das adquirentes, 6. Das infrações apuradas e penalidades aplicáveis, 7 Da responsabilidade por infrações e solidariedade possuem, praticamente, o mesmo conteúdo acusatório do Relatório Fiscal produzido na autuação deste processo ora em julgamento, cujos tópicos, de mesma nomenclatura, correspondem aos itens 6.3, 6.3.1, 6.3.2, 6.3.3, 7 e 8 Para exemplificar, transcrevese excerto do item 6 relatório de 2012: "Com base nas informações constantes nas DI’s da Tabela 1 registradas no SISCOMEX em nome da fiscalizada, nas notas fiscais de entrada e de saída das mercadorias importadas, nos extratos das contas correntes bancárias da fiscalizada e adquirente, nos livros e demonstrações contábeis da fiscalizada, nas bases de dados da RFB (SISCOMEX, e RADAR), restou por demonstrado que a empresa OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA, mediante simulação e interposição, importou por encomenda de terceiro oculto das relações obrigacionais tributárias formadas. Cabe asseverar que a fiscalizada não cumpriu nenhum dos requisitos legais para realizar importações por encomenda predeterminada de terceiros. Desse modo, na medida em que constou no Siscomex e em toda documentação analisada como se tivesse realizado importações por conta própria, ocultou da fiscalização aduaneira a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS CERAMICOS LTDA, real adquirente das mercadorias objeto das DI’s constantes na Tabela 1, registradas em seu nome." O item 7 do relatório deste processo reproduziu o mesmo conteúdo: 7. DAS INFRAÇÕES APURADAS E PENALIDADES APLICÁVEIS Com base nas informações constantes nas DI’s da Tabela 1 registradas no SISCOMEX em nome da fiscalizada, nas notas fiscais de entrada e de saída das mercadorias importadas, nos extratos das contascorrentes bancárias da fiscalizada e adquirente, nos livros e demonstrações contábeis da fiscalizada, nas bases de dados da RFB (SISCOMEX, e RADAR), restou por demonstrado que a empresa OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA, mediante simulação, importou por encomenda de terceiro oculto das relações obrigacionais tributárias formadas. Cabe asseverar que a fiscalizada não cumpriu nenhum dos requisitos legais para realizar importações por encomenda Fl. 930DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 931 35 predeterminada de terceiros. Desse modo, na medida em que constou no Siscomex e em toda documentação analisada como se tivesse realizado importações por conta própria, ocultou da fiscalização aduaneira a empresa GLAZETECH INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS CERAMICOS LTDA, real adquirente das mercadorias objeto das DI’s constantes na Tabela 1, registradas em seu nome." Verificase, na realidade, que a única diferença entre os relatórios é que no atual, o auditor rebateu as conclusões obtidas no processo anterior anulado, quanto à necessidade de comprovação da origem dos recursos empregados na operação, sem, contudo, alterar os fatos e as razões da acusação anterior. Em que pese ter ficado evidente para mim que a acusação não foi de importação por conta e ordem, mas sim de importação por encomenda, e, portanto, seria, em princípio, desnecessária a prova da transferência de recursos, já que em nenhum momento houve acusação de adiantamento de recursos, os fatos novamente autuados correspondem aos mesmos fatos já julgados no processo anterior, que fora anulado por vício material, sendo imperioso que uma nova autuação tivesse sido lastreada em novos fundamentos fáticos e/ou jurídicos, sendo defeso à autoridade fiscal simplesmente repetir o lançamento sem que tenha havido nova motivação. Houve coisa julgada material administrativa quanto à interpretação dos fatos objeto do lançamento, ainda que, a meu ver, equivocada. Em sentido semelhante, Parecer Cosit nº 21/2.003: Ementa: DECISÃO DEFINITIVA PROFERIDA POR ÓRGÃO JULGADOR ADMINISTRATIVO DE 1a INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE DE CONSULTA AO ÓRGÃO JULGADOR PARA CORREÇÃO DE EVENTUAL INEXATIDÃO MATERIAL. PELO PROSSEGUIMENTO DA COBRANÇA DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO MANTIDO PELA DECISÃO. Não cabe revisão, no âmbito da Administração Tributária Federal, do mérito de decisão definitiva proferida por órgão julgador administrativo de primeira instância. Inexistindo a possibilidade de consulta ao órgão julgador que proferiu a decisão definitiva no processo administrativo fiscal, para esclarecimento de eventual inexatidão material na decisão, em face de modificação na estrutura e na competência dos órgãos julgadores administrativos de primeira instância, a unidade competente da Secretaria da Receita Federal deve dar prosseguimento à cobrança do crédito tributário mantido pela decisão. Excertos: 13. Aliás, o parágrafo único do art. 42 do Decreto no 70.235, de 1972, é cristalino ao afirmar que são também definitivas as decisões de primeira instância administrativa na parte que não estiver sujeita a recurso de ofício. 14. É verdade que o art. 32 do Decreto no 70.235, de 1972, chega a prever a possibilidade de a decisão proferida pelo Fl. 931DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 932 36 órgão julgador administrativo ser revista, de ofício ou a requerimento do sujeito passivo, a fim de que sejam corrigidas inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e a erros de escrita ou de cálculo [...] 17. A revisão do mérito de decisão administrativa definitiva, além de desprovida de fundamentação legal, ofende o princípio da segurança jurídica que, aplicado ao processo administrativo tributário, proíbe que decisões administrativas finais em matéria tributária, sejam elas favoráveis ou desfavoráveis ao sujeito passivo, possam ser revistas a qualquer tempo. 18. Acerca dessa irretratabilidade das decisões administrativas finais, convém transcrever os ensinamentos do Professor Hely Lopes Meirelles (Direito Administrativo Brasileiro, 25a Edição, Malheiros Editores, São Paulo, 2000, pág. 626), in verbis: “..., o que ocorre nas decisões administrativas finais é, apenas, preclusão administrativa, ou a irretratabilidade do ato perante a própria Administração. É sua imodificabilidade na via administrativa, para estabilidade das relações entre as partes. Por isso, não atinge nem afeta situações ou direitos de terceiros, mas permanece imodificável entre a Administração e o administrado destinatário da decisão interna do Poder Público.” (grifouse) 19. Marcos Vinicius Neder de Lima e Maria Teresa Martínez López (Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado, 1a Edição, Dialética, São Paulo, 2002, págs. 353 e 354), ao discorrerem sobre o tema, afirmam o seguinte: “De fato, boa parte da doutrina sustenta que a decisão final no processo administrativo vincula a Administração, mas não o contribuinte que, ainda, pode recorrer ao Poder Judiciário para o controle da legalidade do ato. É por isto que se diz que a decisão formalmente válida que encerra o processo administrativo faz ‘coisa julgada administrativa’, não podendo ser revogada pela Administração.” (grifouse) De maneira similar, o Parecer Cosit nº 8/2.014, ao tratar da revisão de ofício, dispôs em seu item 20, o seguinte: "O verdadeiro fundamento da limitação da revisão do lançamento à hipótese de erro de fato resulta do caráter taxativo dos motivos da revisão do lançamento enumerados no artigo 149 do Código Tributário Nacional e que, como vimos, são, além da fraude e do vício de forma, dever apreciarse “fato não conhecido ou não provado por ocasião de lançamento anterior” (inciso VIII). Significa isto que, se só pode haver revisão pela invocação de novos fatos e novos meios de prova referentes à matéria que foi objeto de lançamento anterior, essa revisão é proibida no que concerne a fatos completamente conhecidos e provados. Fl. 932DF CARF MF Processo nº 10983.720194/201595 Acórdão n.º 3302004.122 S3C3T2 Fl. 933 37 [...] Diante do exposto, voto para dar provimento à preliminar de nulidade alegada pela recorrente, discordando da possibilidade de nova apreciação sobre os mesmos fatos e razões já definitivamente apreciados na via administrativa. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 933DF CARF MF
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