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Numero do processo: 10183.909883/2020-20
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 09 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 30 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2017 a 31/03/2017
NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO.
O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2017 a 31/03/2017
REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte.
NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010.
As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados.
NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO.
É vedada a apropriação de créditos da(e) COFINS em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos.
NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188.
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188.
CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE.
A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02.
NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217.
Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217.
NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE.
Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003.
NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE.
São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22.
NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232.
As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas.
NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190.
Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190.
NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ.
Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL.
A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE.
Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03.
CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231.
O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231.
Numero da decisão: 3101-004.478
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares de nulidade. No mérito, em dar provimento parcial ao recurso nos seguintes termos: a) Por unanimidade de votos, reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); b) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; c) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; d) Por maioria de votos, reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; e) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo; f) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira; g) Por maioria de votos, manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos. Vencidos Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Conselheira Neiva Aparecida Baylon que reverteram as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com rastreamento de veículos e o Conselheiro Ramon Silva Cunha que manteve as glosas referentes aos fretes de remessas das bonificações. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.465, de 9 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.909896/2020-07, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (substituto[a] integral), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO
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O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) COFINS em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-03-30T13:18:41Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-03-30T13:18:41Z; Last-Modified: 2026-03-30T13:18:41Z; dcterms:modified: 2026-03-30T13:18:41Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-03-30T13:18:41Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-03-30T13:18:41Z; meta:save-date: 2026-03-30T13:18:41Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-03-30T13:18:41Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-03-30T13:18:41Z; created: 2026-03-30T13:18:41Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 87; Creation-Date: 2026-03-30T13:18:41Z; pdf:charsPerPage: 1812; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-03-30T13:18:41Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10183.909883/2020-20 ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 9 de fevereiro de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE BOM FUTURO AGRICOLA LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2017 a 31/03/2017 NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2017 a 31/03/2017 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de Fl. 1311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 2 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) COFINS em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou s ujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo Fl. 1312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 3 vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição Fl. 1313DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 4 para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231. ACÓRDÃO Fl. 1314DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 5 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares de nulidade. No mérito, em dar provimento parcial ao recurso nos seguintes termos: a) Por unanimidade de votos, reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); b) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; c) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; d) Por maioria de votos, reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; e) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo; f) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira; g) Por maioria de votos, manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos. Vencidos Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Conselheira Neiva Aparecida Baylon que reverteram as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com rastreamento de veículos e o Conselheiro Ramon Silva Cunha que manteve as glosas referentes aos fretes de remessas das bonificações. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.465, de 9 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.909896/2020-07, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (substituto[a] integral), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Fl. 1315DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 6 Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2017 a 31/03/2017 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. HIPÓTESES. NÃO OCORRÊNCIA. Não é nulo o despacho decisório quando não se verifica a ocorrência das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRINCÍPIOS. BUSCA DA VERDADE MATERIAL. OBSERVÂNCIA. Considera-se respeitado o princípio processual da busca pela verdade material quando a autoridade fiscal se empenha no exame da documentação probatória, inclusive intimando a contribuinte a prestar esclarecimentos no caso de inconsistências. PROCESSO ADMINSTRATIVO FISCAL. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA. O ônus da comprovação da certeza e liquidez do direito creditório oposto contra a Fazenda Pública objeto de pedido de ressarcimento recai sobre a contribuinte que o invoca. A não comprovação do direito compromete o deferimento integral do pleito. NÃO CUMULATIVIDADE INSUMOS. CONCEITO. PROCESSO PRODUTIVO. ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. GLOSA. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Somente podem ser considerados insumos os bens ou serviços que sejam essenciais ou relevantes ao processo de fabricação ou à prestação de serviços. Não se enquadram nessa hipótese as despesas não vinculadas ao processo produtivo ou à prestação de serviços ou aquelas inerentes às etapas de comercialização do produto pronto. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. Fl. 1316DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 7 ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO CUMULATIVIDADE. GLOSA DE CRÉDITOS. PROPORCIONALIZAÇÃO. No regime da não cumulatividade, o rateio proporcional fundamentado em critérios racionais é recurso legítimo para a discriminação dos créditos relativos a bem ou serviços em função da natureza, origem e vinculação. A proporção entre a receita bruta e a receita de referência é a forma legítima para o cálculo do crédito vinculado à receita de referência (de mercado externo, interno não tributado, interno tributado, submetida a regime cumulativo, com suspensão, etc). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ROYALTIES. VEDAÇÃO. Os gastos com royalties não podem ser aproveitados como crédito no regime de incidência não-cumulativa do PIS/Pasep e da Cofins. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÃO. É vedada a apropriação de créditos em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE. POSSIBILIDADE. Somente dão direito a crédito no regime de incidência não-cumulativa os gastos com frete na operação de venda suportados pelo vendedor, aqueles que compõem o custo de insumo adquirido que também gere crédito e os relativos à movimentação interna de matéria-prima e produtos em elaboração, vedados os créditos referentes à movimentação de produtos acabados e fretes não relacionados à venda ou à produção. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. Os fretes incorridos na aquisição de insumos não estão abrangidos no conceito de insumos de forma autônoma. A possibilidade de creditamento deve ser analisada em relação aos bens adquiridos, e não em relação ao serviço de transporte considerado isoladamente. Não é permitido o creditamento sobre os fretes pagos na aquisição de bens sujeitos à alíquota zero, não incidência ou isentos. FRETES. INCONSISTÊNCIA DOCUMENTAL. COMPROVAÇÃO. GLOSA REVERSÃO. Fl. 1317DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 8 Revertem-se as glosas de créditos tomados sobre dispêndios com fretes por inconsistência de informações documentais uma vez apresentada documentação comprobatória em sede de manifestação de inconformidade que atestam que os fretes foram incorridos em operações hábeis ao creditamento (frete no território nacional quando da importação de insumos e máquinas e equipamento incorporados ao ativo imobilizado utilizados na produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE. BENS RECEBIDOS OU ADQUIRIDOS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. A empresa comercial exportadora não pode calcular créditos sobre despesas com frete relacionados a produtos recebidos ou adquiridos com fim específico de exportação. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE BENS. INSUMOS. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E OBRA CIVIL. Não são considerados insumos os materiais de construção quando a dimensão dos gastos e a característica dos bens denotam que não se vincularam a manutenção regular, mas a emprego em reformas e construções que impõem a ativação dos gastos por aumentarem a vida útil do bem em mais de um ano. NÃO CUMULATIVIDADE. SERVIÇOS. MANUTENÇÃO CIVIL. Não são considerados insumos dispêndios com serviços quando suas características extrapolam a mera manutenção predial e quando a dimensão dos gastos e a identidade dos prestadores, construtoras, impõem a ativação dos gastos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. SERVIÇOS NÃO RELACIONADOS AO PROCESSO PRODUTIVO. Não se qualificam no conceito de insumos os serviços que não sejam relevantes ou essenciais ao processo produtivo, a exemplo de serviços portuários e de despachante aduaneiro, alocados em etapa posterior à produção. NÃO CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. A despesa com locação de veículo não gera direito a desconto de créditos no regime não cumulativo. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. DESPESAS PARA VIABILIZAÇÃO DA MÃO DE OBRA. CLÍNICA MÉDICA. VALE-ALIMENTAÇÃO. Não são considerados insumos as despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de saúde e seguro de vida. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. TRATAMENTO. Fl. 1318DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 9 O aproveitamento de créditos não informados à época própria deve ser precedido da retificação da documentação fiscal relativa ao período de competência do crédito até o período em que o crédito está sendo utilizado ou passa a ser objeto de pedido de ressarcimento. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS NÃO RELACIONADOS AO PROCESSO PRODUTIVO. Não se qualificam no conceito de insumos os bens e serviços que não sejam relevantes ou essenciais ao processo produtivo, a exemplo de vigilância e segurança e serviços portuários NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ICMS-ST. IMPOSSIBILIDADE. O ICMS-Substituição Tributária que consta na nota fiscal emitida pelo vendedor- substituto da mercadoria não compõe a base de cálculo das contribuições devidas por ele vendedor. Não havendo incidência de contribuição sobre o valor do ICMS- ST na etapa anterior, a parcela não gera crédito em consonância com o princípio do regime não cumulativo. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se confi gura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. Comprovada a vinculação de edificações e benfeitorias às atividades de produção, admite-se a tomada de créditos. A recorrente BOM FUTURO AGRICOLA LTDA, interpôs Recurso Voluntário, reiterando os argumentos expostos em sede de manifestação de inconformidade e pleiteando, em breve síntese, o seguinte: A Recorrente pleiteia, inicialmente, a reunião dos Processos Administrativos mencionados no item III do presente recurso, devendo ser regularmente processados e julgados os recursos voluntários em conjunto. Ademais, diante de todo o exposto e, com base nos fundamentos de fato e de direito acima narrados, devidamente suportados pelos documentos comprobatórios de seu direito, bem como pela jurisprudência colacionada, a Recorrente pleiteia que se DÊ PROVIMENTO a este Recurso Voluntário, para que, preliminarmente, seja reconhecida a nulidade do despacho decisório e do acórdão recorrido, por violação à verdade material. Fl. 1319DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 10 Caso assim não entendam Vossas Senhorias, o que se admite a título meramente argumentativo, a Recorrente requer, no mérito, seja DADO PROVIMENTO ao presente Recurso Voluntário, para que seja reformado o Acórdão recorrido, reconhecendo-se a nulidade do despacho decisório que veiculou glosas em desacordo com atos normativos da SRFB e/ou, caso sejam superadas as nulidades, sejam acolhidos os argumentos de fato e de direito para que seja reconhecido o direito aos créditos pleiteados, com o ressarcimento integral dos valores, devidamente atualizados, pois comprovadamente os bens e serviços adquiridos são essenciais para as atividades da Recorrente. Por fim, caso Vossas Senhorias entendam que sejam necessários novos elementos, em respeito ao princípio da verdade real e, principalmente, pelas inovações aos critérios jurídicos das glosas no acórdão recorrido, a Recorrente pleiteia que o presente processo seja baixado em diligência e/ou que lhe seja assegurada a produção de provas por todos os meios em direito admitidos, em especial pela posterior juntada de novos documentos. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado no acórdão paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever a parte vencida do voto do relator, que pode ser consultada no acórdão paradigma e deverá ser considerada, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado. Quanto à tempestividade, conhecimento e ao mérito, ressalvado quanto em manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos , transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto do relator do acórdão paradigma: O Recurso Voluntário é tempestivo e cumpre com os requisitos formais de admissibilidade, devendo, por conseguinte, ser conhecido. No que se refere ao pedido de julgamento, em conjunto, dos Recursos Voluntários interpostos nos processos administrativos decorrentes do mesmo procedimento de fiscalização, cumpre informar que o presente processo é paradigma dos demais, que estão contemplados no lote de repetitivo, devendo ser aplicada a mesma decisão a todos os casos. Fl. 1320DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 11 DA PRELIMINAR DE AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO R. DESPACHO DECISÓRIO E DO V. ACÓRDÃO RECORRIDO. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que “[...] o indeferimento parcial do crédito se fundou em presunções sobre a atividade econômica desenvolvida e a forma de tributação eleita, diante das inúmeras especificidades das operações empreendidas pela Recorrente. Tais vícios foram ratificados pelo v. acórdão recorrido, que praticamente repisou os fundamentos da instância de origem, desconsiderando todas as provas e razões de direito exploradas pela Recorrente em sua Manifestação de Inconformidade, inclusive assumindo premissas com base em meras presunções”. Alegando não ter havido a adequada análise do seu processo produtivo, das provas colacionadas aos autos e da legislação que disciplina a matéria, ressalta que a fiscalização teria se apegado “[...] a questões formais e em presunções de hipotéticas irregularidades que afastariam os créditos postulados” e que o v. acórdão recorrido “[...] simplesmente desconsiderou o conjunto probatório então apresentado, assim como todos os fundamentos de direito e explicações detalhadas a respeito do processo produtivo da Recorrente, basicamente ratificando o teor do despacho decisório”. Por tais razões, defende que “[...] haja vista a afronta aos princípios da motivação, ampla defesa, contraditório e segurança jurídica, faz-se necessária a declaração de nulidade do v. acórdão recorrido (e do despacho decisório), na parcela glosada dos créditos postulados”. Ao apreciar tais alegações, em sede de manifestação de inconformidade, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: [...] não procede a alegação da requerente de que não haveria motivação para as glosas e de que a auditoria, desconhecendo o processo produtivo desenvolvido pela empresa, não teria se empenhado em cumprir com o princípio da busca pela verdade material. Toda a motivação para as glosas, sem que ainda se avalie sua legitimidade concordando-se ou não com elas, está clara no Relatório Fiscal que integra o Despacho Decisório. Tanto foi clara a fundamentação que o contribuinte exerceu plenamente sua defesa, construindo manifestação de inconformidade em que demonstra ter conhecido das motivações da fiscalização. A questão quanto a eventual desrespeito na procura pela verdade material é referida pela contribuinte de forma genérica para todo o trabalho de auditoria e mais especificamente em relação a duas matérias de glosa de créditos: aquisição de bovinos e aquisição de materiais de construção civil, cujas implicações serão examinadas mais adiante neste voto. Antes de que se inicie a avaliação do mérito, importante realçar que o trabalho fiscal está bem organizado, contendo relatório fiscal que se refere aos documentos analisados, às planilhas de cálculo elaboradas e à legislação acionada pela auditoria no exame da legitimidade do crédito demandado, documentação toda essa reunida no e-dossiê nº 10265.004190/2021-10, não havendo até aqui como Fl. 1321DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 12 acolher a alegação de inobservância do princípio da busca pela verdade material, uso de presunções não previstas em lei ou falta de motivação. É o que passo a apreciar. Sem adentrar no mérito da controvérsia, cumpre destacar que todas as glosas foram devidamente motivadas no Relatório de Auditoria do Crédito do Pis e da Cofins, colacionado ao e-Dossiê 10265.004190/2021-10 (fls. 2044/2116), em que a fiscalização expõe individualizadamente as razões para indeferimento dos créditos pleiteados. Ressalta-se que tais informações foram suficientemente completas a ponto de permitir à Recorrente, tanto em sua manifestação de inconformidade, quanto no próprio Recurso Voluntário, suscitar uma ampla discussão acerca do mérito, o que não se coaduna com a hipótese de falta de motivação, e vai de encontro com a tese de cerceamento do direito de defesa. Da mesma forma, o v. acórdão recorrido apreciou todas as alegações suscitadas pela recorrente na manifestação de inconformidade, observando o princípio da livre convicção fundamentada, sendo certo que o mero inconformismo da recorrente com o entendimento exarado não gera por si só a nulidade do Despacho Decisório e/ou do v. acórdão recorrido, devendo as suas razões de insurgência serem apreciadas quando do julgamento do mérito do pre sente recurso. Diante do exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade do Despacho Decisório e do v. acórdão recorrido. DA PRELIMINAR DE IMPOSSIBILIDADE DE GLOSA DE CRÉDITOS EM DESACORDO COM ATOS NORMATIVOS DA SRF – SOLUÇÕES DE CONSULTA E INSTRUÇÕES NORMATIVAS Neste tópico, a recorrente sustenta que, ao fundamentar as glosas combatidas, “[...] a Autoridade Fiscal deixou de observar o que dispõem os atos normativos da própria Receita Federal do Brasil, notadamente: (i) Parecer Normativo Cosit nº 5/2018; e (ii) Instrução Normativa RFB nº 1.911/2019; (iii) Soluções de Consulta — Disit nº 6.026/2021 e 6.027/2021, às quais vinculam a administração tributária, nos termos do disposto no art. 9º, da IN RFB nº 1.396, de 16/09/2013”, razão pela qual pleiteia a nulidade do Despacho Decisório. Não assiste razão à recorrente. Conforme já nos manifestamos, não se vislumbra nulidade no Despacho Decisório que motivou cada uma das glosas efetuadas, existindo mero inconformismo da recorrente com o entendimento exarado. Fl. 1322DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 13 Da mesma forma, não houve inobservância do Despacho Decisório aos atos normativos mencionados, existindo apenas divergência interpretativa acerca da aplicação das normas ao caso concreto. Diante disto, voto por rejeitar a preliminar de inobservância aos entendimentos vinculantes proferidos no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil. DOS CRÉDITOS DA NÃO-CUMULATIVIDADE E DA ATIVIDADE DESENVOLVIDA PELA RECORRENTE No julgamento do REsp nº 1.221.170, em sede de Recurso Repetitivo, o Superior Tribunal de Justiça, além de reconhecer a ilegalidade da disciplina de creditamento prevista pelas Instruções Normativas da RFB n° 247/2002 e 404/2004, fixou o entendimento de que “[...] o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, ou seja, considerando- se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela contribuinte”. Em breve síntese, a essencialidade consiste na imprescindibilidade do item do qual o produto ou serviço dependa, intrínseca ou fundamentalmente, de forma a configurar elemento estrutural e inseparável para o desenvolvimento da atividade econômica, ou, quando menos, que a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, com base no critério da relevância, o item pode ser considerado como insumo quando, embora não indispensável ao processo produtivo ou à prestação do serviço, integre o seu processo produtivo, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva, seja por imposição legal. Ainda, questão bastante relevante fixada no referido julgamento, mas nem sempre observada, se refere à dimensão temporal dentro da qual devem ser reconhecidos os bens e serviços utilizados como insumos. Pela clareza e didática, cumpre reproduzir a doutrina de Marco Aurélio Greco expressamente citada no julgamento do REsp nº1.221.170: De fato, serão as circunstâncias de cada atividade, de cada empreendimento e, mais, até mesmo de cada produto a ser vendido que determinarão a dimensão temporal dentro da qual reconhecer os bens e serviços util izados como respectivos insumos. [...] Cumpre, pois, afastar a idéia preconcebida de que só é insumo aquilo direta e imediatamente utilizado no momento final da obtenção do bem ou produto a ser vendido, como se não existisse o empreendimento nem a atividade econômica como um todo, desempenhada pelo contribuinte. (...) Fl. 1323DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 14 O critério a ser aplicado, portanto, apóia-se na inerência do bem ou serviço à atividade econômica desenvolvida pelo contribuinte (por decisão sua e/ou por delineamento legal) e o grau de relevância que apresenta para ela. Se o bem adquirido integra o desempenho da atividade, ainda que em fase anterior à obtenção do produto final a ser vendido, e assume a importância de algo necessário à sua existência ou útil para que possua determinada qualidade, então o bem estará sendo utilizado como insumo daquela atividade (de produção, fabricação), pois desde o momento de sua aquisição já se encontra em andamento a atividade econômica que – vista global e unitariamente – desembocará num produto final a ser vendido. 1 (Grifamos) Assim, não configura insumo apenas aquilo que é utilizado direta e imediatamente na prestação de serviços e/ou na produção de produtos, mas tudo aquilo que é essencial e relevante para o desempenho da atividade econômica que desembocará numa prestação de serviço ou na venda de um produto. Tal compreensão é imprescindível para análise de qualquer caso envolvendo direito creditório. Além disto, para fins de análise do direito ao creditamento, não podemos analisar a atividade exercida pela empresa de forma teórica, focando exclusivamente naqueles itens imprescindíveis para uma atividade genericamente considerada. Pelo contrário, devemos estar atentos às peculiaridades de cada atividade específica, analisando em cada situação aquilo que cumpre com os critérios de essencialidade e relevância no caso concreto. Por fim, cumpre ressaltar que, no voto vencedor, o Ministro Relator Napoleão Nunes Maia Filho ainda afasta expressamente a aplicação do artigo 111 do CTN aos casos envolvendo direito creditório, ressaltando que o creditamento não consiste em benefício fiscal, de modo que não há de ser interpretado de forma literal ou restritiva. Para afastar de vez a compreensão equivocada de que o direito creditório decorrente da não-cumulatividade configuraria benefício fiscal, cumpre reproduzir as diversas funções da não-cumulatividade, elencadas por André Mendes Moreira em seu “A não-cumulatividade dos tributos”2, que demonstram que tal princípio, e a correspondente sistemática de apuração, não busca um benefício individual, pelo contrário, persegue diversos objetivos coletivos d a sociedade, entre eles: (a) a translação jurídica do ônus tributário ao contribuinte de facto, não onerando os agentes produtivos; (b) a neutralidade fiscal, de modo que o número de etapas de circulação da mercadoria não influa na tributação sobre ela incidente; 1 Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS, in Revista Fórum de Direito Tributário - RFDT, Belo Horizonte, n. 34, jul./ago. 2008, p. 6 2 MOREIRA, André Mendes. A não-cumulatividade dos tributos. 4ªed., rev. e atual., São Paulo: Noeses, 2020, pg. 120. Fl. 1324DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 15 (c) o desenvolvimento da sociedade, pois a experiência mundial denota que a tributação cumulativa sobre o consumo gera pobreza, pois encarece a circulação de riquezas; (d) a conquista de mercados internacionais, permitindo-se a efetiva desoneração tributária dos bens e serviços exportados (impraticável no regime cumulativo de tributação); (e) a isonomia entre produtos nacionais e estrangeiros, pois a não-cumulatividade possibil ita a cobrança, na importação, de tributo em montante idêntico ao suportado pelo produtor nacional. Com base em tais premissas e considerando que a adoção dos critérios fixados pelo STJ demanda a análise da essencialidade e relevância do insumo ao desenvolvimento da atividade empresarial do contribuinte, pertinente trazer considerações acerca da atividade exercida pela recorrente. Por bem descrever o objeto social da recorrente, merece transcrição o artigo 3º do seu Contrato Social: CLÁUSULA TERCEIRA: A Sociedade tem por objeto social a exploração das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; a fabricação de rações balanceadas, concentrados, sais minerais e produtos de suplementação mineral e proteica, comercialização no mercado interno e externo mediante importação e exportação dos produtos retro mencionados; a comercialização no mercado interno mediante compra e venda dos produtos e subprodutos oriundos das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; a comercialização no mercado externo mediante importação e exportação dos produtos e subprodutos oriundos das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; o comércio e representação de adubos e fertil izantes, fungicidas, herbicidas, inseticidas, medicamentos, vacinas, produtos agrícolas, pecuários e veterinários em geral; o comércio atacadista e varejista de cereais, sementes, corretivos para o solo, algodão em pluma e em fardos e outros produtos agrícolas; transporte rodoviário de cargas, agenciamento de cargas; a locação de veículos, equipamentos e máquinas; a fabricação de óleos vegetais em bruto, a extração de óleo de caroço de algodão; extração, tratamento, beneficiamento e comércio de madeiras nativas e de reflorestamento; beneficiamento de algodão, caroço de algodão, sementes de algodão, sementes de soja, sementes de milho; secagem, l impeza, expurga de sementes e cereais em estado natural, ensacados ou a granel; armazenamento de sementes, cereais, fertil izantes, corretivos para o solo, algodão em pluma e em fardos e outros produtos agrícolas; piscicultura, criação, comercialização e exportação de peixes de água doce, in natura, frescos e congelados; e a participação como quotista ou acionista em outras empresas, comercio, armazenagem, manipulação, formulação, produção, fabricação, importação, controle de qualidade, transportes, pesquisa e desenvolvimento experimental de: agrotóxicos e seus componentes e afins (incluindo produtos de origem biológica), Fl. 1325DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 16 adubos, fertil izantes e inoculantes, importação, exportação, comercialização, fabricação, formulação, produção, manipulação, armazenagem, controle de qualidade, transporte, pesquisa e desenvolvimento de: inoculantes, fertil izantes, agrotóxicos seus componentes e afins (incluindo produtos de origem bioquímica e biológica para agricultura convencional e orgânica), reembalador de sementes, atividades após colheita. Por pertinente, transcrevo também excerto do Recurso Voluntário - corroborado por Laudo técnico elaborado internamente (juntado aos autos com a manifestação de inconformidade) e Parecer Técnico elaborado pela Pedrosa Consultores Associados (juntado aos autos com o Recurso Voluntário) - no qual a recorrente sintetiza o seu processo produtivo: [...] a Recorrente desenvolve, há mais de 40 anos, atividade econômica nas áreas da agricultura, pecuária, sementes e piscicultura, conforme se constata do seu contrato social. Eis uma fotografia de uma de suas unidades produtivas (extraída da página 13 do Parecer Técnico): Vale destacar que, conforme demonstrado no Parecer Técnico, há uma interligação entre tais atividades, “que reflete na apuração de créditos de PIS/COFINS. Uma atividade econômica pode resultar em produção de bens e serviços para mercado ou insumos para outra atividade desenvolvida” (página 10). Considerando os temas ora envolvidos, a seguir serão detalhadas as três primeiras atividades (agricultura, pecuária e sementes). A) AGRICULTURA Atualmente, a Recorrente é o maior produtor individual de soja no mundo e o maior na cultura do algodão no Brasil, possuindo uma área total aproximada de 583 mil hectares cultivados no Estado do Mato Grosso, na qual são produzidas cerca de 1,3 milhão de toneladas de soja e 300 mil toneladas de pluma de algodão por safra. Antes de prosseguir, é importante fazer uma contextualização. Considerando que pode ser difícil para quem não está familiarizado com o meio rural compreender o significado de 583 mil hectares, vale uma explicação. Para efeito de comparação, a cidade de São Paulo tem uma área de 1.521 km², o que corresponde a 152.100 hectares. Assim, a área cultivada pela Recorrente, somando a safra principal e a safrinha, é quase quatro vezes maior que a área da cidade de São Paulo. Essa comparação é feita para não apenas destacar as vastas dimensões da operação da Recorrente, mas também ressaltar a importância de se analisar Fl. 1326DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 17 cuidadosamente a essencialidade dos produtos utilizados nessa imensa indústria ao ar livre. Continuando. Conforme consta da página 24 do Parecer Técnico, a atividade operacional é dividida entre 38 unidades centralizadoras de produção; 21 unidades de beneficiamento e armazenamento de grãos; 09 unidades de beneficiamento de algodão; e 03 unidades de beneficiamento de sementes, distribuídas em diversos municípios do Estado de Mato Grosso. Registre-se que as referidas culturas levam, em média, 130 dias entre o plantio e o fruto pronto e disponível para a comercialização. O ciclo se inicia no preparo da terra, com a análise da boa qualidade física e estrutural e dos nutrientes presentes no solo e a implementação de medidas, se necessárias, para suprir as demandas nutricionais do local. E uma vez constatada a viabilidade do solo, segue-se para o plantio de sementes que, por sua vez, são previamente selecionadas e sujeitas a um processo de beneficiamento realizado com a utilização de avançada tecnologia genética de alta complexidade e relevância. Nesse contexto, insta salientar que, na atividade agrícola da Recorrente, a semente é o seu principal insumo. Isso pois, para um bom plantio, é imprescindível que as sementes utilizadas possuam boa qualidade física, fisiológica, sanitária e genética, de modo que todos os custos que são empreendidos para a sua aquisição e/ou beneficiamento, torna-se indispensável para a perfeita eficiência e realização da atividade agrária. Em outras palavras, sementes de baixa qualidade ou que não possuem traços genéticos adequados a possibilitar um bom plantio podem ser fontes de desenvolvimento de doenças, contribuindo para a inserção de pragas e doenças na lavoura, assim como representam um aumento significativo de mão de obra e recursos financeiros. A esse respeito, eis excerto do Parecer Técnico ora apresentado: “Diante das informações acima dispostas sobre o processo produtivo da BOM FUTURO, é possível constatar que para o desenvolvimento da atividade de agricultura, a empresa depende da aquisição de itens indispensáveis (a indispensabilidade desses itens está relacionada à ligação direta com a sua eficiência e capacidade produtiva), sendo eles: a) Sementes: Sementes de qualidade propiciam melhores características para culturas agrícolas plantadas. Semente tratadas possuem reguladores de crescimento, micronutriente e inoculantes, que contribuem para o desenvolvimento das plantas, deixando-as mais sadias e resistentes. Considerando que o grupo BOM FUTURO é um dos três maiores produtores agrícolas do Brasil, a utilização de sementes tratadas é fundamental para a realização de suas atividades agrícolas; b) Instalações diversas: As instalações possibilitam racionalizar a produção agrícola, ou seja, trazem eficiência e eficácia ao processo produtivo , protegendo os cultivos das intempéries. Essas instalações necessitam de Fl. 1327DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 18 manutenção constante. Portanto, materiais de construção são elementos imprescindíveis no dia a dia da empresa; c) Fertilizantes e Defensivos: A utilização de fertilizantes e defensivos tem como finalidade o aumento da produtividade e o controle de pragas que possam prejudicar o cultivo; d) Peças para manutenção de aeronaves: A utilização de aeronaves na agricultura tem como finalidade a pulverização de defensivos em propriedades de grande extensão (como a BOM FUTURO, que possui cerca de 583 mil hectares), além disso, pode ser utilizada no combate de possíveis incêndios.” (página 28 do Parecer Técnico – destacamos) Registre-se que, após alguns dias de vida da planta, ocorre o manejo com adubagem e pulverizações para o controle de insetos, fungos e ervas daninhas. E com aproximadamente 110 dias de extremos cuidados, a cultura passa à fase da maturação e, por conseguinte, da colheita, que só pode ocorrer quando a cultura atingir a maturação fisiológica e a umidade ideal para tanto, sob o risco de perda de produtividade. Com a finalização da colheita, os frutos são transportados para os armazéns ou para as unidades de beneficiamento da Recorrente para as etapas de limpeza, secagem, padronização e, por fim, armazenagem. Somente a partir de então é que os produtos estarão prontos para serem comercializados ou utilizados para a produção de rações especiais que serão destinadas para o uso interno da Recorrente (que, como visto, atua também no setor pecuário). B) SEMENTES Conforme acima mencionado, a semente utilizada pela Recorrente possui um processo produtivo próprio (anterior, portanto, ao processo agrícola), já que é responsável em boa parte pelo resultado da colheita. A cadeia produtiva da semente se inicia com as pesquisas de cruzamentos varietais e inserção genética de genes que podem proporcionar resistência a pragas e doenças, definição de ciclos e grupo de maturação, arquitetura de planta, produtividade entre outros inúmeros atributos. Acerca desse tema, foi apresentado com a Manifestação de Inconformidade um Laudo Técnico formulado pela equipe técnica da Recorrente, com a integralidade da descrição dos processos empreendidos nas sementes (doc. 01 da Manifestação de Inconformidade). De acordo com o referido trabalho, a Recorrente, enquanto produtora devidamente cadastrada junto das entidades reguladoras (MAPA e INDEA) e atenta às necessidades de plantio sustentável e eficaz, adquire sementes com melhoramento genético das obtentoras de tecnologia, mediante contratos de licenciamentos remunerados por royalties, dando início à produção segundo o fluxo abaixo: Fl. 1328DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 19 Note-se que, para a produção de sementes, é exigido o credenciamento junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), ao Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (INDEA) e, ainda, ter inscrição no Registro Nacional de Sementes E Mudas (RENASEM), com a indicação de um responsável técnico habilitado. Quanto ao credenciamento, somente é deferido quando comprovado o atendimento dos seguintes requisitos: ▪ Preenchimento de formulário padrão de inscrição de campos; ▪ Comprovante da taxa de recolhimento referente a área; ▪ Anotação de responsabilidade técnica com projeto técnico de execução; ▪ Croqui de localização dos campos seguidos de coordenadas georreferenciadas; ▪ Apresentação das Notas Fiscais (NFs) de origem das sementes com seus respectivos documentos (termos de conformidades para S1 e S2 ou certificado de sementes para C1, C2 e básica e o boletim de análise de semente); e ▪ A autorização do obtentor da cultivar e da tecnologia empregada nas sementes com direitos de patentes. Essa autorização de multiplicação é fornecida por meio de contratos de licenciamentos para fins de recolhimentos de royalties. Nesse cenário, a Recorrente adquire sementes com melhoramento genético (cultivares), destinando-as como matéria-prima para uma das unidades de beneficiamentos, processamento e armazenamento. UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES (FAZENDA FARTURA - CAMPO VERDE/MT) Já na unidade de beneficiamento processam-se as seguintes etapas: pesagem nas moegas recebedoras; separação de acordo com a cultivar presente em cada Fl. 1329DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 20 semente (traço genético obtido com a aplicação de tecnologia do germoplasma); recepção; classificação; avaliação de dano mecânico; e a descarga da massa de grãos. Na etapa seguinte, realiza-se a limpeza dos grãos, onde são retiradas as impureza e fragmentos de grãos que serão descartados do processo de produção de sementes. A limpeza dos grãos também é realizada de forma segregada por cada cultivar, sendo que as máquinas de secagem são previamente preparadas e configuradas para receber um tipo específico por vez. MÁQUINA DE PRÉ-LIMPEZA UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Quando do processo de secagem, é feita retirada do excesso de água, sendo o grão encaminhado para a etapa seguinte, de classificação por forma – realizado por um conjunto de espiral, selecionando os grãos redondos perfeitos; por diâmetro – realizado por um conjunto de peneiras, onde utiliza-se a circunferência em medida de milímetros para a seleção; e por peso, em que somente são os grãos pesado, descartando-se os leves. CONJUNTO DE ESPIRAL (ESQ.) E CONJUNTO DE PADRONIZADORES POR PENEIRAS (DIR.) PARA CLASSIFICAÇÃO DE GRÃOS – UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Fl. 1330DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 21 VISTA GERAL DO EQUIPAMENTO – UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Após a classificação, os grãos são envazados em bags ou sacos, devidamente identificados por peso, informações da cultivar, peneira, categoria produzida, safra e validade dos documentos oficiais de qualidade; sendo enviados na sequência para a armazenagem e controle de qualidade da produção. BAG DE ENVASAMENTO DAS SEMENTES, COM AS INFORMAÇÕES DA FORMAÇÃO DO LOTE ARMAZÉM DE SEMENTES BENEFICIADAS Por sua vez, na etapa de avaliação técnica são realizadas as averiguações da qualidade fisiologia (germinação e vigor) e da qualidade física por meio de testes específicos em laboratório próprio. Após a finalização das análises são emitidos documentos oficiais através do boletim de análises que geram os termos de conformidade e certificados conforme as categorias das sementes produzidas. Fl. 1331DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 22 LABORATÓRIO DE ANÁLISES DAS SEMENTES Cumpre registrar que a saída do armazém se dá mediante a emissão de Notas Fiscais, com a remessa das sementes aos campos produtivos para operação de plantio gerando grãos comerciais, ou podendo gerar uma nova geração de sementes, reiniciando a cadeia de produção de sementes descrita acima. EVOLUÇÃO DO GRÃO DESTINADO A PRODUÇÃO DE SEMENTE Após a emissão das NFs, comprova-se o uso das sementes e, consequentemente, do benefício das cultivares inseridas por melhoramento genético nesse insumo, gerando as quantidades (em toneladas ou quilos) de utilização da semente de cada cultivar e procedendo-se, assim, ao pagamento dos royalties pertinentes ao contrato de licenciamento junto ao detentor da tecnologia. C) PECUÁRIA De acordo com o Parecer Técnico ora anexado, “a BOM FUTURO atua dentro do seguimento da pecuária, com um rebanho bovino circulante de aproximadamente 130 mil cabeças de gados das raças Nelore e cruzamento industrial em sistemas de semiconfinamento e confinamento. A vasta experiência e o auxílio da tecnologia, permitiram a BOM FUTURO construir e implementar o maior projeto de integração lavoura-pecuária (ILP) do mundo, com uma área de 31 mil hectares para essa modalidade” (página 29) Assim, unindo uma vasta experiência no ramo e o auxílio de tecnologia, a Recorrente desenvolve um perfeito sistema de integração lavoura-pecuária (ILP), consistente na recuperação de áreas de pastagens degradadas, explorando no mesmo local, em rotação ou sucessão, diferentes sistemas de plantio, como o sistema de grãos, destinado a produção de alimentação para o próprio rebanho. Fl. 1332DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 23 Ou seja, na mesma área e em épocas diferentes, a Recorrente promove a exploração de atividades agrícolas e pecuárias, de forma a otimizar e intensificar o uso dos recursos naturais, causando menor impacto ao meio ambiente. Dito de outro modo, o processo produtivo empreendido pela Recorrente, em relação aos bovinos, engloba (i) a aquisição de novilhos; (ii) a realização de pesquisas e produção de ração de alta qualidade genética e nutricional, que é utilizada na recria e engorda (beneficiamento) do rebanho; e (iii) a venda do gado para abate. Ainda a respeito da pecuária, merece destaque o seguinte excerto do mencionado Parecer Técnico: “Para o desenvolvimento da pecuária em tamanha escala é indispensável itens tais como: a) Aquisição de bovinos: Atividade comum a todo e qualquer pecuarista de corte, devido à alta rotatividade do “estoque”. A aquisição de novos animais para engorda e reposição é essencial a prática pecuarista, sendo um dos principais insumos da atividade de engorda para venda do gado vivo. b) Instalações diversas: As instalações possibilitam o bom manejo do rebanho que, consequentemente, reduz possíveis custos veterinários, promovendo maior rentabilidade ao pecuarista. Essas instalações, necessitam de manutenção constante. Portanto, os materiais de construção são elementos imprescindíveis no dia a dia da empresa; c) Milho: Considerado o principal grão para a produção de rações destinadas à pecuária, o milho, além do cultivo “fácil”, dispõe de nutrientes e é livre de substâncias tóxicas aos rebanhos, o que o torna elemento indispensável na alimentação de criações (bovinos, suínos e aves).” (página 31 – destacamos) Cumpre esclarecer ainda que os novilhos adquiridos são submetidos ao Sistema Oficial de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos - SISBOV, por meio do qual são implantados chips e brincos nos animais, que possibilitam o monitoramento da evolução dos processos de recria e engorda, garantindo a procedência e a rastreabilidade bovina. Portanto, dentro do processo produtivo da Recorrente, destacam-se 03 (três) atividades básicas: (1) a recria; (2) a engorda; e (3) a fabricação da ração especial própria, para propiciar o beneficiamento do bovino, enquanto atividade industrial de transformação da matéria-prima. Atividade de Recria Conforme página 31 do Parecer Técnico, a fase de recria inicia-se no momento da aquisição, pela Recorrente, dos bezerros desmamados ou de animais com até 16 meses, com peso estimado entre 180 e 220 kg, encerrando-se na fase de engorda dos bovinos. Logo na entrada, os animais são submetidos com a uma triagem inicial em curral para pesagem, brincagem, inclusão no sistema SISBOV, conferência física, vacinação e tratos sanitários. Fl. 1333DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 24 Após a triagem, os animais são separados em lotes respeitando a idade, sexo, peso individual e raça, sendo destinados a estruturas de recria semi-intensiva, onde podem permanecer por até 05 meses, em processo de adaptação ao manejo alimentar, com o fornecimento de ração a pasto. Na fase de recria os animais recebem sal mineral e rações fabricadas pela própria Recorrente, garantindo o balanceamento energético proteico adequado ao crescimento e desenvolvimento da carcaça do animal. O principal objetivo nesse momento, assim, é o desenvolvimento do novilho, para que ele possa expressar ao máximo o seu potencial genético, ganhando estrutura e o peso ideal para a raça, no menor tempo possível. Nessa etapa do processo produtivo, são ofertados de 02 a 04 kg de ração por dia confeccionada pela própria Recorrente, permitindo a alta taxa de lotação das pastagens, chegando a 15 unidades animal por hectare, onde há o pastejo para oferta de volumoso e a oferta do concentrado energético / proteico em estrutura de cochos cobertos. Observe-se as ilustrações abaixo: CURRAL DE TRIAGEM DOS NOVILHOS BRINCAGEM PARA INCLUSÃO NO SISTEMA SISBOV E MONITORAMENTO DAS ETAPAS DE RECRIA E ENGORDA FASE DE RECRIA – NOVILHO EM ESTRUTURA SEMI-INTENSIVA, COM O FORNECIMENTO DE RAÇÃO CONFECCIONADA PELA BOM FUTURO EM ESTRUTURA DE COCHOS COBERTOS Fl. 1334DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 25 Ainda na recria, impõe-se a utilização de estruturas de dessedentação para fornecimento de água limpa, estruturas de cercas e divisões, bem como a manutenção de vias de acesso para fazer a suplementação diária dos animais. Vale mencionar também que as estruturas de cochos compõem parte da infraestrutura, ao passo que os currais de manejo são ferramentas de trabalho para embarque e desembarque, além da realização dos tratos sanitários e de rastreabilidade. Nesta fase o principal propósito é a obtenção de um animal saudável, com grande desenvolvimento da carcaça, saindo de cerca de 180/220kg para 300/320kg. A partir disso, o animal segue para a etapa de engorda, com grande performance e adaptação ao sistema de suplementação. Atividade de Engorda De acordo com o exposto na página 32 do Parecer Técnico, na fase de engorda os animais podem possuir duas origens: a remessa da etapa de recria, onde o animal já está inserido e adaptado ao manejo tecnológico da Recorrente; ou via aquisição de garrotes (animais de 18 a 24 meses), que entrarão direto no processo de engorda. Durante a fase de engorda, os bovinos recebem uma alimentação específica para aumento de peso e deposição de gordura, com o objetivo de produzir mais carne e de melhor qualidade, agregando o máximo de valor possível. Trata-se de etapa que demanda um maior tempo de pastagens e o oferecimento de suplementação com elevado custo nutricional, o que implica em dispêndios de maiores investimentos. Outrossim, sua consecução pode se dar mediante o fornecimento de alimentação/suplementação nas modalidades de semiconfinamento ou confinamento: ▪ Semiconfinamento: constituída por 215 pontos estruturais para oferta de ração e suplementação, denominadas “praças de alimentação”, referidas áreas podem ser utilizadas para implementação do sistema (ILP), ora ocupadas com agricultura ora para pastagens. Os animais são integrados a partir da finalização da atividade de recria, ao atingirem o peso intermediário de 300 a 320 kg, e podem permanecer nesta fase pelo período de 90 a 120 dias, sendo submetidos ao manejo e fornecimento de ração de 08 a 12kg diários. Para a dessedentação são utilizados grandes reservatórios destinados a distribuição de água. A oferta de volumoso é feita através do pastejo da gramínea cultivada. O ganho médio diário de peso nesta modalidade fica em torno de 1.200 a 1.400 gramas ao dia, possibilitando assim um melhor controle temporal da oferta do animal acabado ao frigorífico. Fl. 1335DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 26 VISÃO GERAL SEMICONFINAMENTO (ESQ.) E PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO (DIR.) – FASE ENGORDA CAMINHÃO REALIZANDO A DISTRIBUIÇÃO DA RAÇÃO NOS COCHOS – FASE ENGORDA/SEMICONFINAMENTO BOVINOS COMENDO A RAÇÃO OFERTADA EM COCHO – FASE ENGORDA/SEMICONFINAMENTO ▪ Confinamento: é constituído por 34 boxes destinados a engorda, com capacidade estática de cerca de 5.000 animais. As atividades se concentram no período de abril a novembro, tendo as condições climáticas de chuvas como limitação da atividade. Nesta modalidade os animais permanecem de 60 a 90 dias recebendo a dieta alimentar integral no cocho, sendo ofertado 10 kg de ração própria adequada e balanceada, e de 10 a 12 kg de volumoso (silagem de milho, de capim e/ou resíduos de algodoeiras) para complementar a dieta. Há um ganho médio de peso diário de 1.750 gramas por dia, sendo que o sucesso do processo de engorda está condicionado (i) à qualidade da ração; (ii) na quantidade de ração ofertada; e (iii) na ambiência e bem-estar proporcionado ao animal durante sua estadia nos boxes de confinamento de engorda. Por conta disto, tal modalidade demanda para além dos cuidados diários com a alimentação e nutrição, o dispêndio de custos com irrigação, limpeza, oferta de água renovável nos bebedouros e pela implantação de sombras artificias para conforto térmico. Sendo, portanto, uma modalidade muito mais onerosa para a Recorrente. Fl. 1336DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 27 Ao atingir a terminação (finalização da engorda), o animal é vendido para os frigoríficos, com finalidade de abate, com preceitos de acabamento de gordura e marmorização de carne desejada para atender o mercado consumidor. [...] VISÃO GERAL SISTEMA DE CONFINAMENTO – FASE ENGORDA [...] VOLUMOSO (SILAGEM DE MILHO, CAPIM E RESÍDUOS DE ALGODOEIRAS) PARA COMPLEMENTAR A DIETA Fabricação de Ração e Suplemento Mineral A Recorrente dispõe de 08 unidades de fabricação de ração para uso próprio, que compreende desde a elaboração dos núcleos e sais minerais a serem empregados nestas rações, até as fases de mistura, envase, armazenamento e efetiva oferta ao rebanho nas etapas de recria e engorda. Referida produção atinge a capacidade diária de 1.500 toneladas/dia, utilizando tanto elementos de produção própria, quanto de mercadoria adquiridas de terceiros, levando em conta a demanda da área de produção junto a recria e engorda e a quantidade de animais. A produção do suplemento mineral (aditivo minerais e aminoácidos) e formulação de núcleos utilizados na composição das rações são produzidos exclusivamente na planta fabril de Campo Verde, e deste local é realizada a remessa às demais fábricas e estabelecimentos da Recorrente, para uso como suplementos minerais e núcleos aditivos de rações. Dentre os insumos utilizados para a fabricação da ração especial bovina, destacam- se os itens de produção própria de origem vegetal, milho, sorgo e derivados de algodão (torta, caroço e briquete formado a partir da prensa de capulhos de algodão). Podem, ainda, serem agregados alguns produtos adquiridos de terceiros, como farelos e base de soja. Todos esses insumos são submetidos ao processo de transformação por meio de moagem e/ou esmagamento, oportunidade na qual passam a ser compatíveis com a formulação e os preceitos técnicos desejados de teores de proteína e energia para cada tipo de ração. [...] UNIDADE DE PRODUÇÃO DE SUPLEMENTOS MINERAIS E NÚCLEOS UTILIZADOS NA FORMULAÇÃO DE RAÇÕES [...] ESTOQUE DE SUPLEMENTOS MINERAIS E NÚCLEOS ACABADOS PARA INTEGRAÇÃO ÀS RAÇÕES [...] PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE RAÇÃO – INTEGRAÇÃO DOS INSUMOS AO MILHO MIX PÓS MOAGEM Fl. 1337DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 28 Após o processamento das matérias-primas, pesagem, e mistura, a produção segue para ser armazenada nos estoques de ração e/ou utilização nas etapas de recria e engorda dos animais (já abordadas anteriormente). [...] ARMAZÉM DE ESTOQUE DE RAÇÃO [...] REBANHO EM FASE DE TERMINAÇÃO, ONDE A CARCAÇA JÁ OBTEVE A TRANSFORMAÇÃO NECESSÁRIA ATRAVÉS DA ALIMENTAÇÃO OFERTADA DURANTE O CONFINAMENTO Com essas explicações, corroboradas com os demonstrativos fotográficos e pelo Parecer Técnico, chega-se à conclusão de que a pecuária intensiva explorada pela Recorrente demanda a edificação e a manutenção de estruturas civis expressivas, além de investimento em maquinários específicos, que demandam manutenção e por vezes substituição, a fim de que, desde o início do ciclo produtivo da cadeia de pecuária desenvolvido pela Recorrente, até a entrega ao frigorífico, que abaterá um animal que se converterá em alimento de qualidade. Ademais, a partir do detalhamento das etapas que compõem o complexo processo produtivo da Recorrente, tratadas, repita-se, de forma minuciosa pelo Parecer Técnico ora anexado, resta inquestionável a existência de um processo de industrialização, versado nos esforços e investimentos empregados para a transformação do novilho em um bovino que atenda a condições de peso, estrutura e variação genética requeridas pelo mercado. É importante destacar também que a comercialização dos bovinos se destina à continuação de outro processo industrial, o abate pelos frigoríficos. Sobre esse tema, revela-se imprescindível relembrar que, por industrialização, nos termos do art. 4º do RIPI/2010, entende-se qualquer operação que modifique a natureza, o funcionamento, o acabamento, a apresentação ou a finalidade do produto, ou o aperfeiçoe para consumo. Há, assim, nítida subsunção do conceito legal de industrialização ao caso concreto, haja vista que a produção da Recorrente representa, sem sombra de dúvidas, uma transformação e aperfeiçoamento da mercadoria (bovino). Ora, o produto bovino final em condições de abate só surgirá após a implementação de um processo de industrialização sobre todos os insumos adquiridos, unindo esforços, tecnologia e conhecimento para que a mercadoria final esteja modificada e aperfeiçoada para o abate. Com isso em vista, passamos a analisar as glosas combatidas no Recurso Voluntário. DO ESTORNO DO CRÉDITO RELATIVO ÀS RECEITAS DE VENDAS COM SUSPENSÃO Conforme supra relatado, a fiscalização identificou vendas realizadas pela recorrente em operações submetidas à suspensão da incidência das contribuições Fl. 1338DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 29 relativas a bovinos (NCM 0122990), caroço de algodão (NCM 52010090), milho (NCM 10059010), girassol (NCM 12060090) e arroz com casca (NCM 10061092). Mencionando os artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), artigos 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009 (bovinos vivos), art. 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010 (milho em grãos e arroz com casca), a fiscalização destaca que a venda desses produtos com suspensão da incidência das contribuições impede o aproveitamento dos créditos regulares ou presumidos associados às receitas correspondentes. Assim, não havendo verificado, nos ajustes de redução de crédito, os estornos de créditos básicos relativos às mencionadas vendas com suspensão, a autoridade reduziu os créditos básicos com base na proporção entre as receitas de vendas com suspensão dos citados produtos e a receita bruta total. Por sua vez, a recorrente defende que os dispositivos mencionados pela fiscalização tratam da concessão de crédito presumido a contribuintes que praticam negócio diverso da atividade por ela desenvolvida, não sendo aplicáveis ao caso concreto. Para fundamentar suas alegações, sustenta que ao vedarem o aproveitamento “de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo”, tais normas não se dirigem aos créditos básicos das contribuições, mas aos próprios créditos presumidos de que tratam os caputs dos dispositivos legais, não se podendo pretender interpretar o parágrafo de modo separado do caput, haja vista a relação necessária de sentido que deve existir entre esses elementos do texto legal, como, de resto, é exigido pela Lei Complementar nº 95/98. Desta forma, sustenta que as aquisições (entradas) que deram origem aos créditos glosados pela Autoridade Fiscal foram realizadas junto a pessoas jurídicas, e foram devidamente tributadas, não se lhes aplicando, de resto, a suspensão prevista nos dispositivos mencionados pela fiscalização e pelo v. acórdão recorrido, em razão da não observância dos requisitos ali previstos (a adquirente, no caso a Recorrente, não promove a venda dos produtos então relacionados). Assim, por se tratar justamente de um insumo, essencial ao processo produtivo da Recorrente, haveria direito ao crédito BÁSICO das contribuições ao PIS e da COFINS, que é autorizado na forma do artigo 3º da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, e não é vedado por qualquer disposição atinente ao regime geral de apuração dos créditos das contribuições. O mesmo ocorreria em relação aos demais insumos adquiridos, sem suspensão, pela Recorrente (milho, caroço de algodão, girassol e arroz com casca). Ademais, ainda que se pudesse estender a regra em questão aos créditos básicos, o que se admite apenas para argumentar, a vedação ao desconto dos créditos estaria condicionada à realização de operações com suspensão “às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo”. Vale dizer, não basta que as vendas sejam realizadas com suspensão das contribuições; é necessário que as vendas Fl. 1339DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 30 sejam realizadas às pessoas jurídicas que produzem as mercadorias classificadas nos códigos NCM citados no caput e que as destinem para as exportações – o que sequer teria sido objeto de análise pela Autoridade Fiscal. Por fim, ainda que se entenda pela procedência do estorno realizado pela fiscalização, a recorrente sustenta existir equívoco na metodologia de cálculo aplicada, uma que vez “[...] ao se utilizar da composição da receita da pecuária para amparar os estornos dos créditos, sem qualquer fundamento legal, a Autoridade Fiscal onerou as atividades da Recorrente, na medida que considerou o arquivo EFD Contribuição em sua integralidade, sem distinguir quais movimentações seriam de fato passíveis de tributação”. Entendo que não assiste razão à recorrente. Por entender que todas as alegações e matérias controvertidas foram devidamente dirimidas no v. acórdão recorrido, transcrevo os fundamentos expostos no r. decisum, adotando-os como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Neste ponto, importa transcrever os comandos em discussão. Trazem os arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004, primeiro diploma a conferir a possibilidade de geração de créditos presumidos relativos à atividade agropecuária, a seguinte redação: Lei nº 10.925, de 2004: Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.0 0, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições efetuadas de: I - cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e 18.01, todos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM); (Redação dada pela Lei nº 12.865, de 2013) II - pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura; e Fl. 1340DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 31 III - pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) ………. § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. ………. Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I - de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III - de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I - aplica-se somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) ………. § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal - SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) A contribuinte tem razão quando afirma que o caput do comando, autorizando a apuração de créditos presumidos não se dirige precipuamente a sua atividade econômica. No entanto, isso não significa que a contribuinte está imune aos efeitos do dispositivo. De fato, a interessada aloca-se no inciso III do parágrafo 1º do artigo transcrito na condição de pessoa jurídica que exerce atividade agropecuária. Nesse contexto, quando vende insumos que serão destinados a outra pessoa jurídica que os transformará nos produtos relacionados no caput, a operação deve ser feita com a suspensão da incidência das contribuições para o PIS/Pasep e para a Cofins, nos termos do art. 9º e ao adquirente é conferido do direito de apropriar-se de crédito presumido, conforme o art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004. Note-se, porém, que ao polo vendedor da operação é interditado aproveitamento de créditos, sejam eles presumidos ou regulares. O §4º do art. 9º acima reproduzido Fl. 1341DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 32 é bastante claro ao qualificar o crédito como presumido na redação do inciso I e ao retirar essa qualificação no inciso II, de forma que a restrição ao aproveitamento de créditos pela pessoa jurídica vendedora de produtos agropecuários para o destino referido no caput do art. 8º se estende para toda a sorte de créditos, presumidos ou regulares, como acerta a interpretação da autoridade fiscal. Nessa medida, quando a contribuinte vende caroço de algodão e girassol com a suspensão tratada no art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004, é de rigor que os créditos de quaisquer naturezas relativos às respectivas receitas sejam estornados. O mesmo raciocínio vale para as vendas com suspensão de bovinos, milho e arroz com casca. No que se refere às operações de venda de bovinos vivos, dizem os art. 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009: Lei nº 12.058/2009 (DOU 14/10/2009) Art. 32. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de: I - animais vivos classificados nas posições 01.02 e 01.04 da Nomenclatura Comum do Mercosul - NCM, quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.01, 02.02, 02.04, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0206.80.00, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM; (Redação dada pela Lei nº 12.839, de 2013) Parágrafo único. A suspensão de que trata este artigo: I - não alcança a receita bruta auferida nas vendas a varejo; (Redação dada pela Lei nº 12.431, de 2011). II - aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Art. 33. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.01, 02.02, 02.04, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0206.80.00, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM, destinadas a exportação, poderão descontar da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em cada período de apuração crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens classificados nas posições 01.02 e 01.04 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 12.839, de 2013) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições de pessoa jurídica que exercer atividade agropecuária ou cooperativa de produção agropecuária. ………. § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que trata o § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; Fl. 1342DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 33 II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. Assim, quando a contribuinte vende a exportadores de produtos de origem bovina os animais vivos de sua atividade agropecuária, a operação se dá com a suspensão da incidência das contribuições, nos termos do art. 32 transcrito, com a faculdade de apuração de crédito presumido pelo exportador, nos termos do art. 33, e o crédito relacionado às correspondentes receitas de venda dos animais deve ser estornado por conta do que diz o §4º do art. 33 do diploma que, da mesma forma que fez o §4º do art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004, pretendeu interditar indistintamente tanto o aproveitamento dos créditos presumidos quanto dos créditos regulares às pessoas jurídicas que exercem atividade agropecuária quando vendem insumos para certos setores da agroindústria. O entendimento se estende também para as vendas com suspensão de arroz com casca e milho, conforme dita a Lei nº 12.350, de 2010: Lei nº 12.350/2010 (DOU 21.12.2010): Art. 54. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de: I – insumos de origem vegetal, classificados nas posições 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e nas posições 12.01*, 23.04* e 23.06 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos: (Vide Lei nº 12.865, de 2013) (Vigência)*retirados pelo art. 34 da Lei nº 12.865, de 09/10/2013, com efeitos a partir de 01/02/2014 a) para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM; b) para pessoas jurídicas que produzam preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM; e c) para pessoas físicas; II – preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM; III – animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM, quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM; Parágrafo único. A suspensão de que trata este artigo: I – não alcança a receita bruta auferida nas vendas a varejo; II – aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Art. 55. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, Fl. 1343DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 34 02.07 e 0210.1 da NCM, destinadas a exportação, poderão descontar da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em cada período de apuração crédito presumido, calculado sobre: I – o valor dos bens classificados nas posições 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e nas posições 12.01*, 23.04* e 23.06 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física; (Vide Lei nº 12.865, de 2013) (Vigência)*retirados pelo art. 34 da Lei nº 12.865, de 09/10/2013, com efeitos a partir de 01/02/2014 II – o valor das preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física; III – o valor dos bens classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto nos incisos I a III do caput deste artigo aplica-se também às aquisições de pessoa jurídica. ………. § 5º É vedado às pessoas jurídicas de que trata o § 1º deste artigo o aproveitamento: I – do crédito presumido de que trata o caput deste ar6go; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo, exceto em relação às receitas auferidas com vendas dos produtos classificados nas posições 23.04 e 23.06 da NCM. (Redação dada pela Lei nº 12.431, de 2011). Na situação em que há venda de insumos à cadeia do frango e de suínos, fica suspensa a incidência do PIS/Pasep e da Cofins, nos termos do art. 54 da Lei nº 12.350, de 2010. Por sua vez, aos exportadores de produtos classificados nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM, a lei confere a possibilidade de apuração do crédito presumido calculado com base nos insumos adquiridos, nos termos do art. 55 da lei em foco. Em consonância com a sistemática dos demais insumos acima destacados, bovinos, caroço de algodão e girassol, também fica interditado o aproveitamento dos créditos relacionados às correspondentes vendas de milho e arroz com casca efetuadas com suspensão, de acordo com o transcrito §5º do artigo 55 da Lei nº 12.350, de 2010, aplicável à contribuinte que é a pessoa jurídica de quem os exportadores adquirem os insumos referidos no §1º do art. 55. Diante desse quadro, está correta a interpretação que a fiscalização deu aos dispositivos legais que, de fato, alcançam a atividade econômica da contribuinte e se referem a vedação ao aproveitamento de todo o crédito, presumido ou regular, relacionado às receitas de vendas feitas com suspensão da incidência das contribuições para o destino identificados no caput dos art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, art. 33 da Lei nº 12.058, de 2009 e art. 55 da Lei nº 12.350, de 2010. Alega a contribuinte que, mesmo que as interdições ao creditamento também se estendessem aos créditos regulares – o que, como se viu acima, é o que ocorre – Fl. 1344DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 35 não seriam todas as vendas com suspensão que motivariam o estorno. Isto porque a obrigatoriedade dos estornos estaria vinculada apenas nas vendas com suspensão às pessoas jurídicas que produzam as mercadorias tratadas no caput do art. 55 da Lei nº 12.350, de 2010, que as destinem à exportação, o que não teria sido objeto de análise pela autoridade fiscal que teria efetuado o estorno referente a todas as operações de vendas dos mencionados produtos em que houve a suspensão das contribuições. Examinando-se a aba <NFe de Vendas Suspensão (EFD-C)> da planilha <% Estorno do Crédito relativo às Receitas de Vendas efetuadas com Suspensão.xlsx> incluído no arquivo não-paginável anexo ao relatório fiscal, observa-se que a quase totalidade das vendas cujos créditos foram estornados são destinadas a empresas reconhecidamente exportadoras (BRF SA, Marfrig Global Foods SA, JBS SA, Minerva SA) o que aponta que, de fato, as vendas se destinaram a empresas que empregaram os insumos vendidos pela interessada na produção de bens destinados a exportação. Por outro lado, a contribuinte não traz aos autos nenhuma comprovação de que eventualmente algumas das vendas tenham se destinado a empresas cujos produtos foram direcionados ao mercado interno. Importante salientar que o ônus de comprovar direito de crédito oposto contra a Fazenda Pública recai sobre aquele que se diz dele detentor. Nesse passo, corretas as glosas praticadas pela fiscalização. METODOLOGIA DE CÁLCULO A contribuinte diz que, ainda que seja vencida na discussão sobre a legitimidade do estorno de créditos, teria havido erro na determinação do montante estornado, partindo da proporcionalização a que procedeu a fiscalização com base na relação entre as receitas de vendas com suspensão e a receita bruta total. Constrói a contribuinte argumento em que, ao final, conclui que os estornos fiscais recaíram sobre produtos creditados que seriam da atividade pecuária, não havendo que se falar em invalidação de crédito relativo a venda de bovinos para frigoríficos. Ao contrário do que afirma a interessada a proporcionalização efetuada pela fiscalização não se restringiu aos créditos relativos à atividade pecuária. Como anotado nos itens 255 e 256 do Relatório Fiscal, o ajuste de redução do crédito foi feito mês a mês com base na proporção entre a Receita de Vendas com Suspensão dos produtos na tabela 9 abaixo e a Receita Bruta Total. [...] Como se viu acima, também as receitas sujeitas à suspensão da incidência das contribuições relativas a vendas de bovinos a frigoríficos exportadores devem ter os créditos estornados. Por sua vez, a proporcionalização com base na relação entre parte e todo efetuada pela auditoria é procedimento chancelado pela legislação e jurisprudrudência nas situações em que não é possível determinar a contribuição de cada item específico na composição de determinada grandeza, sejam créditos decorrentes de insumos comuns a diferentes regimes de tributação (cumulativo e não cumulativo), receitas vinculadas (exportação, mercado interno), etc. Sobre o método de rateio de créditos, assim dispuseram os §8º dos art. 3º das Lei nº 10.637, de 2002 e nº 10.833, de 2003, com igual redação, exceto quando referenciam a contribuição que regulam: Fl. 1345DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 36 Lei nº 10.833, de 2003: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 7º Na hipótese de a pessoa jurídica sujeitar-se à incidência não-cumulativa [...], em relação apenas à parte de suas receitas, o crédito será apurado, exclusivamente, em relação aos custos, despesas e encargos vinculados a essas receitas. § 8º Observadas as normas a serem editadas pela Secretaria da Receita Federal, no caso de custos, despesas e encargos vinculados às receitas referidas no § 7º e àquelas submetidas ao regime de incidência cumulativa dessa contribuição, o crédito será determinado, a critério da pessoa jurídica, pelo método de: I - apropriação direta, inclusive em relação aos custos, por meio de sistema de contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração; ou II - rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita à incidência não-cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. § 9º O método eleito pela pessoa jurídica para determinação do crédito, na forma do § 8º, será aplicado consistentemente por todo o ano-calendário e, igualmente, adotado na apuração do crédito relativo à contribuição [...] não - cumulativa, observadas as normas a serem editadas pela Secretaria da Receita Federal. Observe-se que a regra está posta com relação à forma de rateio aplicável à pessoa jurídica submetida aos dois regimes de tributação, cumulativo e não cumulativo. Os dispositivos em comento, vale dizer, assim como a interpretação que deles se faz estendem-se ao necessário rateio dos custos, despesas e encargos comuns às receitas de exportação e aquelas vinculadas ao mercado interno. Isso porque a legislação dá tratamento diferenciado no que respeita à forma de aproveitamento entre os créditos vinculados às receitas do mercado interno e as de exportação. Apenas o saldo de créditos referente a estas últimas podem ser compensados ou pleiteados em dinheiro. A necessidade do rateio é decorrência dessa diferenciação. Confira-se o art. 6º da Lei nº 10.833, de 2003 (também aplicável ao PIS nos termos do art. 15 do mesmo diploma), especialmente o que vem escrito no §3º: Lei nº 10.833, de 2003: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I - exportação de mercadorias para o exterior; [...] Fl. 1346DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 37 § 1ºNa hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I - dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II - compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 2ºA pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1ºpoderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3ºO disposto nos §§ 1ºe 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8ºe 9ºdo art. 3º. [...] Nova hipótese de repartição veio integrar a legislação tendo em vista o disposto nos art. 17, da Lei nº 11.033, de 2004, sobre a possibilidade de manutenção dos créditos sobre vendas não tributadas, e art. 16 da Lei nº 11.116, de 2005, que franqueou o ressarcimento e a compensação dos saldos de créditos acumulados em virtude do disposto no citado art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004. A atual IN RFB nº 2.121, de 2022, reflete, em seu art. 244, §7º, a hipótese de proporcionalidade que viabiliza o disposto nos citados art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, e 16 da Lei nº 11.116, de 2005: IN RFB nº 2.121, de 2022: Art. 244. Na hipótese de a pessoa jurídica sujeitar-se ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, em relação a apenas parte de suas receitas, o crédito deve ser calculado, exclusivamente, em relação aos custos, despesas e encargos vinculados a essas receitas (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 7º; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 7º; e Lei nº 10.865, de 2004, art. 15, § 5º). [...] § 2º Para efeito do disposto neste artigo, o valor a ser registrado deve ser determinado, a critério da pessoa jurídica, pelo método de (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 8º, incisos I e II; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 8º, incisos I e II): I - apropriação direta, inclusive em relação aos custos, por meio de sistema de contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração; ou II – rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns, a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita ao regime de apuração não cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. Fl. 1347DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 38 § 3º Para apuração do crédito decorrente de encargos comuns, na hipótese prevista no inciso I do § 2º, devem ser aplicados sobre o valor de aquisição de insumos, dos custos e das despesas referentes ao mês de apuração, critérios de apropriação por rateio que confiram adequada distribuição entre os encargos vinculados às receitas submetidas ao regime de apuração não cumulativa e os encargos vinculados às receitas submetidas ao regime de apuração cumulativa. [...] § 5º O método eleito pela pessoa jurídica referido no § 2º deve ser aplicado consistentemente por todo o ano-calendário e igualmente adotado para a Contribuição para o PIS/Pasep e para a Cofins (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 9º; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 9º). § 6º As disposições deste artigo aplicam-se independentemente de os créditos serem decorrentes de operações relativas ao mercado interno ou do pagamento das contribuições incidentes na importação (Lei nº 10.865, de 2004, art. 15, § 5º). § 7º O disposto neste artigo aplica-se à apuração dos créditos vinculados às receitas de exportação e às receitas sujeitas a suspensão, isenção, alíquota de 0% (zero por cento) ou não incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 8º; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 8º, e art. 6º, § 3º; e Lei nº 11.033, de 2004, art. 17). Como visto, a forma de rateio proporcional é recurso amplamente empregado pela legislação na regulação da forma de repartição dos créditos da não cumulatividade, o que orientou os trabalhos fiscais ao proporcionalizar os estornos dos créditos tomados sobre os produtos relacionados na tabela 9 do Relatório Fiscal segundo a relação entre as vendas com suspensão daqueles produtos e a receita bruta total. Cumpre destacar que, no Recurso Voluntário, a recorrente se limita a repetir as razões expostas em sede de Manifestação de Inconformidade, sem apresentar qualquer argumento capaz de infirmar a conclusão adotada pelo v. acórdão recorrido, seja em relação à subsunção dos fatos às normas supramencionadas, seja em relação à metologia de cálculo aplicada. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. DESPESAS COM ROYALTIES Conforme supra relatado, a autoridade fiscal glosou créditos apropriados pela recorrente sobre o pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia), com base no entendimento de que tais dispêndios “[...] não são considerados aquisições de bens ou de serviços e, por conseguinte, não podem ser tratados como insumos para efeitos da apuração dos créditos de PIS/Cofins”. Para Fl. 1348DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 39 corroborar seu entendimento, menciona as Soluções de Consulta COSIT nº 116/21- Cosit e 71/15. Destaca, ainda, que, “[...] os royalties são calculados na etapa da colheita, conforme relata a contribuinte em sua resposta. Ou seja, ainda que fossem um serviço – e não o são -, não poderiam ser considerado insumo, posto que corresponderiam a um gasto incorrido após o encerramento das etapas produtivas (gastos após a produção)”. Da mesma forma, o v. acórdão recorrido manifestou o entendimento de que “os pagamentos feitos como contrapartida pela utilização dos direitos de propriedade sobre um bem, uma técnica, uma fórmula, não constituem remuneração por prestação de serviço ou se referem a aquisição de um bem, pelo que, a orientação da SC Cosit nº 116, de 2021, se aplica ao caso corrente”, de modo que “[...] não constituindo pagamentos correspondentes a prestação de serviços ou a aquisição de bens, aos dispêndios com royalties não se aplica a possibilidade de apuração de créditos da não cumulatividade nos termos dos art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003”. Por sua vez, a recorrente sustenta que tais dispêndios representam uma contrapartida a um direito de propriedade intelectual, que, para efeitos jurídicos, é tratado como bem móvel, à luz do art. 83, III, do Código Civil, destacando, ainda, que, o caso específico de sementes, inclusive, é protegido pela Lei nº 9.456/1997 (Lei de Proteção de Cultivares), que também confere a natureza jurídica de bem móvel ao direito de propriedade da tecnologia usada no desenvolvimento do produto, conforme prescrito em seu art. 2º. Assim, por se tratar de um instituto inerente ao direito privado, ressalta que a administração tributária se encontra impedida de promover distorções à definição e alcance, nos termos do artigo 110 do Código Tributário Nacional. Desta forma, mencionando jurisprudência deste e. CARF, defende que, ao contrário do que “sustentou a fiscalização (e o v. acórdão recorrido), os custos com royalties correspondem a aquisição de bens móveis como insumos da atividade produtiva, o que legitima o aproveitamento do crédito nos termos do art. 3º, II, das Leis nº 10.833/2003 e nº 10.637/2002”. No que se refere à essencialidade de tais custos ao seu processo produtivo, a recorrente tece os seguintes argumentos de fato e de direito: [...] a Recorrente celebrou contratos com terceiros para viabilizar a utilização de tecnologias relacionadas à produção de sementes (contratos de royalties) que, como visto, estão relacionadas ao seu principal processo produtivo – cultivo de grãos como a soja, milho e algodão. Tais tecnologias – TRAITS e germoplasma – foram exploradas no laudo técnico que instruiu a Manifestação de Inconformidade apresentada e são responsáveis por significativa melhora na qualidade genética das sementes. De acordo com o laudo, os atributos genéticos envolvem: Fl. 1349DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 40 • pureza varietal; • potencial de produtividade; • resistência a pragas e doenças; • precocidade; • qualidade do grão; • resistência a condições adversas de solo e clima; • resistência a nematoides; • tolerância a menor textura de solo e fertilidade; • melhor arquitetura de planta; e • seletividade a herbicidas Disso decorre um impacto direto no resultado da produção agrícola da Recorrente, com aumento de produtividade, melhora na qualidade do produto, maior adaptação a questões ambientais e redução na utilização de defensivos agrícolas (beneficiando a saúde da população e reduzindo os impactos ambientais). Nesse sentido, a tecnologia na produção de sementes, ainda de acordo com o laudo técnico apresentado no presente processo, é indispensável à atividade da Recorrente, à medida que, na agricultura sustentável, a biotecnologia permite produzir maior quantidade de alimentos, a um custo menor e sem necessidade de aumentar a área de cultivo. Na mesma linha é o Parecer Técnico ora anexado: “d) Para aquisição das sementes para plantio para multiplicar as sementes ou colher os grãos, a empresa é obrigada legalmente a pagar uma despesa intitulada royalties, ou seja, o item SEMENTES, por consistir em elemento “estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço” (COSIT 05/2018), é essencial; e) Ademais, por questões relacionadas ao fato que as sementes certificadas adquiridas possuem inúmeras vantagens, como proteção a insetos ou produtividade superior, a privação deste item SEMENTES no processo produtivo, priva o produto final de “qualidade, quantidade e/ou suficiência” (COSIT 05/2018); f) Por fim, entendendo como relevante o item SEMENTE, devido a características de b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva” e b.2) “por imposição legal”. (Parecer Cosit 5 de 17/12/2018), temos que esse item é relevante.” (páginas 102 e 103 – grifamos e destacamos) Aumenta-se, portanto, a produção agrícola, por meio da otimização do espaço e com plantas adaptadas às peculiaridades regionais. Também há significativa redução no uso de defensivos agrícolas, o que, além de aumentar a produtividade, traz benefícios à saúde da população. Tudo isso reflete, ainda, na redução do preço do produto, aumentando o acesso das pessoas aos alimentos. Fl. 1350DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 41 Pode-se concluir, assim, que os custos incorridos com a Recorrente relativamente aos royalties em comento são essenciais ao seu processo produtivo, dando-lhe contornos de sustentabilidade e tornando o seu produto competitivo no mercado. Tamanha é a importância do tema que se discute no presente item, que essa tecnologia integra o Sistema Nacional de Sementes e Mudas (SNSM), instituído pela Lei nº 10.711/03 e regulamentado, atualmente, pelo Decreto 10.586/20. Referidas normas, em apertada síntese, determinam que novos cultivares deverão ser previamente habilitados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sendo agrupados no Cadastro Nacional de Cultivares Registrada (CNCR). Merece destaque, ainda, que as sementes em questão são obtidas a partir da adoção de tecnologias desenvolvidas pelas referidas empresas. Essas, por sua vez, estão sujeitas a rígido controle de qualidade, fiscalização e auditoria, como evidenciam os contratos trazidos ao feito e mencionados pela fiscalização (fls. 1365 a 1848 dos autos do e-dossiê). É dizer, trata-se de atividade regulamentada e rigorosamente fiscalizada por órgão regulatório. Mais que isso, a adoção de tecnologias na produção de cultivares visa atender a especificações profundamente técnicas, que à luz da interpretação sedimentada pelo egrégio Superior Tribunal de Justiça – nos Temas nº 799 e 780, aqui já referendados –, são indispensáveis ao alcance da qualidade esperada dos produtos, motivo pelo qual é inquestionável a essencialidade da despesa. Nesse sentido, a essencialidade da tecnologia envolvida nas sementes é expressamente reconhecida pelo MAPA em seu site, como se pode verificar do trecho abaixo reproduzido: “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA estabeleceu mecanismos para a organização, sistematização e controle da produção e comercialização de sementes e mudas, e instituiu, por meio da Portaria n° 527, de 30 de dezembro de 1997, o Registro Nacional de Cultivares - RNC. Atualmente, o RNC é regido pela Lei n° 10.711, de 05 de agosto de 2003, e regulamentado pelo Decreto n° 5.153, de 23 de julho de 2004, tendo como preceito fundamental que a geração de novas cultivares se traduz em altas tecnologias transferidas para o agronegócio, indispensáveis ao sucesso deste, pelo aumento da produtividade agrícola e da qualidade dos insumos e dos produtos deles derivados. As cultivares são disponibilizadas ao agricultor com os mais recentes avanços da pesquisa em genética e melhoramento vegetal, transformadas em insumos, sob a forma de material de propagação. O RNC tem por finalidade habilitar previamente cultivares e espécies para a produção e a comercialização de sementes e mudas no País, independente do grupo a que pertencem - florestais, forrageiras, frutíferas, grandes culturas, olerícolas, ornamentais e outros. O RNC é de responsabilidade da Coordenação de Sementes e Mudas - CSM, do Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas - DFIA, da Secretaria de Defesa Agropecuária – DAS.” Como se vê, o próprio Ministério, que possui técnicos com conhecimento do setor agropecuário, e que é responsável pela regulamentação e cadastro das tecnologias Fl. 1351DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 42 envolvidas nas sementes, trata as cultivares como insumos essenciais à produção. Nesse sentido, inclusive, merece destaque o trecho abaixo, extraído do laudo ora apresentado: “As sementes são insumos com essencialidade dentro do processo agrícola. A agricultura inicia-se com o plantio, sem as sementes não há implantação da cultura, geração de plantas e sua produção. A representatividade dos insumos semente que carregam tecnologia do melhoramento genético estão presentes em 92 % da soja cultivada do Brasil, em 90% do milho e tem um crescimento grande na cultura do algodoeiro, tendo a estimativa de cerca de 47% de utilização de sementes transgênicas na cultura conforme dados de 2020. É observada a quantidade de TRAITs devidamente patenteadas e liberadas para uso no brasil para as culturas de soja, milho e algodão. Os eventos de transgenia são fundamentais para a agricultura. Estão incorporados dentro do insumo sementes através das técnicas de melhoramento genético. Ao utilizar o insumo que contêm essa genética, usufruímos dos benefícios essenciais que colocam o Brasil como celeiro da produção mundial. A tecnologia empregada no melhoramento traz benéficos diretos como resistência a pragas, doenças e seletividade a determinados herbicidas proporcionando uma agricultura sustentável, mais econômica e produtiva. As tecnologias inseridas no insumo sementes são pagas / comercializadas através de contratos de licenciamentos que estipulam a cobrança dos royalties. Os contratos de licenciamentos permitem o recolhimento as instituições que fazem os melhoramentos e as instituições que são as proprietárias da patente de TRAITs, permitindo que através do recurso que elas recebem possam dar continuidade ao desenvolvimento de novas cultivares e tecnologias de TRAITs, trazendo inovação, tecnologia, soluções e sustentabilidade ao processo produtivo agrícola brasileiro e mundial. Através do insumo sementes, gera-se e fundamenta-se a prática agrícola responsável em gerar alimentos saudáveis e que qualidade a população. Através dessa agricultura temos o reconhecimento do Brasil no cenário mundial como grande produtor. Fato esse que não seria possível essa produção sem o uso de tecnologias presentes no insumo sementes que foram melhorados e desenvolvidos através da transgenia e do melhoramento. Para a continuidade do processo é necessária realizar a remuneração, através dos royalties, para que não sessem as pesquisas, a produção de novas cultivares e tecnologias que trazem a inovação a agricultura brasileira.” (destacamos) Claro, portanto, que se trata de despesa que integra o custo das sementes e que é essencial ao processo produtivo da Recorrente, contrariando a fundamentação da glosa dos créditos a elas relacionadas. Veja-se o organograma abaixo, extraído da página 96 do Parecer Técnico que acompanha o presente: [...] Fl. 1352DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 43 Por fim, deve ser esclarecida a impropriedade cometida pela Autoridade Fiscal ao alegar que, mesmo que os royalties fossem pagamentos decorrentes de prestação de serviços, não seria possível o aproveitamento dos créditos, pois o gasto teria ocorrido após o encerramento das etapas produtivas: [...] Para elucidar esse ponto, é importante retomar o esclarecimento prestado durante a fiscalização: 51 “1º - Processo de licenciamento – etapa onde se firma contrato entre LICENCIANTE e LICENCIADO, autorização para produção, beneficiamento, multiplicação e comercialização das sementes; 2º - Aquisição das sementes melhoradas (algodão e soja) junto as LICENCIANTES (detentoras das tecnologias); 3º - Plantio - Inscrição de campo junto ao MAPA (ministério da Agricultura); 4º - Colheita – análise da semente, poderá ser utilizada para consumo/transferência BOM FUTURO ou venda para produtores. Nesta etapa calcula-se o Royalties pago a LICENCIANTE, este incidirá sobre o volume de sementes produzidas.” (p. 49, do Relatório de Auditoria) Como se pode perceber, o mercado em que a Recorrente atua exige, na grande maioria das vezes, a utilização de sementes melhoradas por germoplasmas e / ou tecnologias. O débito dos royalties nasce quando a Recorrente realiza a multiplicação das sementes, ou seja, quando envia/transfere as sementes já multiplicadas para nova multiplicação em campos registrados pelas unidades produtoras, podendo ser pago na vigência do ano safra. Acerca dessa questão, merece destaque o seguinte trecho das páginas 96 e 97 do Parecer Técnico que instrui o recurso: Sendo assim, o momento de pagamento dos royalties é questão contratual e está dentro da liberdade de contratar, podendo ser pago desde a aquisição da semente ou transferência dos já multiplicados para nova multiplicação, até ao momento da Fl. 1353DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 44 colheita das sementes. Não se trata, desta forma, de gastos após a produção, como foi alegado pela Autoridade Fiscal. Entendo que assiste razão à recorrente. Inicialmente, verificamos que, para glosar os créditos ora combatidos, a autoridade fiscal se baseou em três fundamentos: (i) a cessão de direito e/ou licença de propriedade (ou direito) não seria um bem; (ii) ainda que se tratasse de bens, não haveria propriamente a aquisição do bem, mas apenas o seu uso mediante pagamento acordado entre as partes (uma espécie de aluguel), o que não estaria contemplado pela legislação que prevê o direito ao creditamento; (iii) por fim, a cessão ou licenciamento de direitos relativos à propriedade intelectual também não poderia ser enquadrada como prestação de serviços, pois lhe faltaria o elemento essencial, qual seja, a efetiva prestação do serviço. A nosso ver, a questão se resume à análise dos dois primeiros fundamentos, afinal, como será demonstrado, os direitos relativos à propriedade intelectual realmente não se enquadram na condição de serviços, mas, por expressa disposição legal, são considerados bens móveis. Conforme previsto pelo artigo 2° da Lei n° 9.456/97, “[a] proteção dos direitos relativos à propriedade intelectual referente a cultivar se efetua mediante a concessão de Certificado de Proteção de Cultivar, considerado bem móvel para todos os efeitos legais e única forma de proteção de cultivares e de direito que poderá obstar a livre utilização de plantas ou de suas partes de reprodução ou de multiplicação vegetativa, no País”. No mesmo sentido, o artigo 83, inciso III, do Código Civil, estabelece que “[c]onsideram-se móveis para os efeitos legais: III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações”. Sem precisar tecer maiores considerações acerca da interpretação sistemática do ordenamento jurídico e da necessária correspondência entre a legislação civil e a legislação tributária, expressamente consagrada no artigo 110 do Código Tributário Nacional, é certo que tal dispositivo legal afasta qualquer tentativa de se desconsiderar o caráter de bem dos direitos relativos à propriedade intelectual. No que se refere à suposta inexistência de aquisição dos direitos relativos à propriedade intelectual, com a devida vênia, também não assiste razão à autoridade fiscal. Apesar de inexistir regramento específico na lei que trata da proteção de cultivares, as relações contratuais em análise observam disciplina idêntica àquela prevista para os direitos autorais. E, neste sentido, o artigo 49 da Lei n° 9.610/98 estabelece que “[o]s direitos de autor poderão ser total ou parcialmente transferidos a terceiros, por ele ou por seus sucessores, a título universal ou singular, pessoalmente ou por meio de representantes com poderes especiais, por meio de licenciamento, concessão, cessão ou por outros meios admitidos em Direito, [...]". Fl. 1354DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 45 Vejam que a legislação trata da transferência total ou parcial dos direitos, a título universal ou singular, de modo que se o cedente transfere o direito de um lado, a operação reversa é justamente a aquisição do direito pelo licenciado ou cessionário. Afinal, como incontroversamente demonstrado, o l icenciado ou cessionário adquire o direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia). Assim, com a devida vênia, não há como se falar em mero “uso mediante pagamento acordado entre as partes (uma espécie de aluguel)”, uma vez que as contratações firmadas pela recorrente não envolvem apenas o direito de uso do direito autoral, mas efetivas autorizações para exploração econômica daqueles direitos. Ademais, ainda que se afastasse a ocorrência de uma efetiva aquisição do direito relativo à propriedade intelectual – o que se discorda – é certo que o §3°, do artigo 3°, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03 e o artigo 15, inciso II, da lei nº 10.865/2004 não podem ser interpretados da forma restritiva pretendida pel a autoridade fiscal. Ora, os referidos dispositivos legais visam apenas assegurar que o aproveitamento de créditos – dentro da sistemática não-cumulativa – se dê em relação à bens e serviços que estejam sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS. Isto porque, ainda que sejam utilizados na condição de insumos, caso os bens e serviços não estejam sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS, no regime legal previsto em nosso ordenamento jurídico, não há que se falar em não-cumulatividade. No que se refere à subsunção de tais gastos ao conceito de insumo, restou devidamente demonstrado que tais contratações são essenciais para viabilizar a utilização de tecnologia na produção de sementes, o que está diretamente relacionado ao principal processo produtivo da recorrente – cultivo de grãos como a soja, milho e algodão. Ressalte-se que, conforme corroborado pelos laudos técnicos colacionados aos autos, a referida tecnologia é essencial para a melhora da qualidade genética das sementes, impactando diretamente no aumento de produtividade, melhora na qualidade do produto, maior adaptação a questões ambientais e redução na utilização de defensivos agrícolas. Ainda, restou devidamente demonstrado o equívoco incorrido pela fiscalização ao considerar tais gastos como posteriores ao processo produtivo, uma vez que analisou o momento do pagamento dos royalties e não da utilização da tecnologia no processo produtivo. Assim, os direitos relativos à propriedade intelectual em análise cumprem todos os requisitos exigidos pelo artigo 3°, inciso II, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03, para aproveitamento dos créditos da não-cumulatividade, uma vez que, como Fl. 1355DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 46 vimos, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens, e são utilizados como insumo na prestação de serviços da recorrente. Neste sentido, cita-se os seguintes julgados do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. TEMA STJ 779. PIS E COFINS. CONCEITO DE INSUMO. 1. O conceito de insumo, para fins de creditamento no regime não cumulativo das contribuições PIS e COFINS, consoante entendimento firmado pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, sob a sistemática dos recursos repetitivos, deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, considerando- se a imprescindibil idade ou a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 2. O contribuinte que exerce a atividade de produção de sementes certificadas tem o direito de deduzir crédito de contribuição ao PIS e de COFINS, no âmbito do regime não-cumulativo, dos valores que paga a título de royalties, à pessoa jurídica domiciliada no Brasil (pelo uso de patentes genéticas das sementes agrícolas), por constituírem insumo, nos termos do art. 3º, II, das Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, e da orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento, submetido ao regime de recursos repetitivos, do REsp nº 1.221.170/PR. (TRF4, AC 5010231-22.2019.4.04.7005, 1ª Turma, Relator LUCIANE A. CORRÊA MÜNCH, julgado em 18/09/2024) TRIBUTÁRIO. PIS/COFINS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEV NCIA. TEMA 779 DO STJ. 1. A sistemática de tributação não-cumulativa do PIS e da COFINS, prevista nas Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, confere ao sujeito passivo do tributo o aproveitamento de determinados créditos previstos na legislação, excluídos os contribuintes sujeitos à tributação pelo lucro presumido. 2. A aplicação do princípio da não-cumulatividade do PIS e da COFINS em relação aos insumos util izados na fabricação de bens e serviços não implica estender sua interpretação, de modo a permitir que sejam deduzidos, sem restrição, todos e quaisquer custos da empresa despendidos no processo de industrialização e comercialização do produto fabricado. 3. O Superior Tribunal de Justiça, em 22/02/2018, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR (Temas 779 e 780), sob a sistemática de recursos repetitivos, declarou, por maioria de votos, a i legalidade das Instruções Normativas 247/2002 e 404/2004 da Receita e concluiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 4. Hipótese em que, diante do Tema 779/STJ e da atividade-fim da requerente (empresa agroindustrial de produção de soja, milho, trigo, entre outras culturas, comércio de insumos agrícolas, adubos e fertilizantes), se reconhece o direito ao creditamento de PIS e COFINS sobre as despesas com royalties relativamente ao uso de sementes geneticamente modificadas, não se reconhecendo em relação às despesas com Fl. 1356DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 47 corretagem na venda de soja e despesas financeiras. 5. Apelação provida parcialmente. (TRF4, AC 5005849-69.2022.4.04.7105, 2ª Turma, Relatora MARIA DE FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE, julgado em 17/10/2023) (Grifamos) Em sentido análogo, merece referência excerto do v. acórdão nº 9303-008.742, de relatoria da i. ex-conselheira Vanessa Marini Cecconello: [...] o know-how que é fornecido à Recorrente nada mais é do que a transferência de toda a tecnologia, suporte, experiência e conhecimento necessários à produção dos pistões. É evidente que o know-how para produção é necessário e diretamente aplicado ao processo produtivo, constituindo, sem sombra de dúvidas, em insumo para a produção. Há de se acrescentar que os royalties tratados neste processo (transferência de tecnologia) devem ser considerados como bens móveis nos termos do artigo 83 do Código Civil e, consequentemente, enquadrados como "bens" nos termos do artigo 3º da Lei nº 10.833/2003. O know-how que é fornecido à Recorrente é a transferência de toda a tecnologia, suporte, experiência e conhecimento necessários à produção dos pistões, sendo essencial ao processo produtivo, constituindo-se em insumo para a produção. E também os seguintes julgados deste e. CARF: COFINS NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. DIREITOS AUTORAIS. Os critérios de essencialidade ou de relevância (REsp nº 1.221.170/PR) devem ser avaliados em relação ao processo produtivo em si, do qual origina o produto final ou atinente à execução do serviço prestado a terceiros. Os incisos II dos arts. 3º das Leis nos 10.833/2003 e 10.637/2002 contemplam o creditamento sobre bens ou de serviços util izados na atividade de prestação de serviços ou na produção ou fabricação de bens. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, é imprescindível à indústria fonográfica a aquisição de direitos autorais para a produção de suas obras, razão pela qual devem ser reconhecidos como insumos. (Processo nº 19515.721042/2017-62; Acórdão nº 3402-006.830; Relator Conselheiro Pedro Sousa Bispo; sessão de 21/08/2019) INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. INSUMOS. DIREITOS AUTORAIS. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, são imprescindíveis à indústria fonográfica a aquisição de direitos autorais para a produção d e suas obras, razão pela qual devem ser reconhecidos como insumos. (Processo nº 19515.722673/2013-75; Acórdão nº 9303-006.604; Relatora Conselheira Vanessa Marini Cecconello; sessão de 11/04/2018) NÃO-CUMULATIVIDADE. INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. DIREITOS AUTORAIS. Fl. 1357DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 48 Os direitos autorais pagos pela indústria fonográfica só dão direito a crédito da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativas se tiverem se sujeitado ao pagamento da Cofins-importação e da Contribuição para o PIS/Pasep importação. (Processo nº 15374.970011/2009-24; Acórdão nº 3801-003.639; Relator Conselheiro Paulo Antonio Caliendo Velloso Da Silveira; sessão de 22/07/2014) Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste tópico, para o fim de reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia). DAS AQUISIÇÕES E FRETES DE BENS SUJEITOS À ALIQUOTA ZERO, SUSPENSÃO OU NÃO INCIDÊNCIA Conforme supra relatado, a fiscalização glosou créditos sobre a aquisição de bovinos, nos seguintes termos: A aquisição de bovinos, por parte da contribuinte, só teria sentido para incorporar - se ao ativo imobilizado (animais reprodutores), ou para revenda. No caso, a descrição constante nas notas fiscais não indica se tratar de animais reprodutores. Acrescente-se que as saídas dos fornecedores foram registradas sem a apuração de pagamento de PIS/Cofins (CSTs 06, 07 e 49). Dessa forma, não sendo insumo do processo produtivo e tampouco sofrido pagamento das contribuições (art. 3º, caput e § 2º, II, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, reproduzido no tópico seguinte), não há previsão legal para o crédito dessas entradas. Ainda, a fiscalização manifestou o entendimento de que “em se tratando de aquisição de insumo não sujeito ao pagamento das contribuições (alíquota zero/suspensão/não incidência de PIS/Cofins), não há que se falar em crédito do frete de compra associado”, uma vez que o frete integra o custo de aquisição dos bens transportados, sendo admitido o seu creditamento apenas quando o bem adquirido for passível de gerar crédito, o que foi mantido pelo v. acórdão recorrido. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que “não apenas é legítimo o direito ao crédito relacionado às aquisições dos bens sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência, como também do respectivo frete”. Neste sentido, alega que “a interpretação da norma deve ser feita com base na integralidade do texto legal e dando o correto uso da conjunção alternativa “OU”. Ao assim proceder, não há outra interpretação possível senão a de que o inciso II do §2º do art. 3º das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03 veda o desconto de crédito Fl. 1358DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 49 sobre a aquisição de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e à COFINS quando a operação subsequente se sujeitar à alíquota zero, isenção ou não incidência das contribuições, o que não ocorre no caso da Recorrente”. Ainda, traz considerações acerca da sistemática não-cumulativa, para defender que “[...] da combinação dos arts. 3°, § 2°, inc. II, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03, com o art. 17, da Lei n° 11.033/04, sob a égide do princípio da não- cumulatividade, depreende-se que, quando a etapa anterior é desonerada e a subsequente também, não seria possível o creditamento, a contrário sensu, quando uma das etapas for tributada o crédito será possível”. No que se refere aos fretes, sustenta que se trata de relações jurídicas distintas, sendo que “[...] ainda que a mercadoria em si, por qualquer motivo, não esteja sujeita à incidência do PIS/COFINS, a empresa designada para o transporte se sujeita ao recolhimento das contribuições sobre sua receita, o que justifica o aproveitamento de crédito por quem pagou por esse serviço – no caso, a Recorrente – à luz do princípio da não-cumulatividade”, o que se aplica também ao frete de insumos. É o que passo a apreciar. Com a devida vênia, em relação ao presente tema, a legislação é clara ao estabelecer que as aquisições de produtos não sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS não permitem a apropriação de créditos pelo adquirente, nos termos do artigo 3º, §2º, inciso II, da Lei nº 10.833/03: Art. 3 o Do valor apurado na forma do art. 2 o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2 o Não dará direito a crédito o valor: (...) II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou util izados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição; (Grifamos) Neste sentido, a sujeição do produto à alíquota zero ou suspensão (ou, até mesmo, a não incidência) implica o não pagamento das contribuições, de modo que a subsunção das aquisições à norma que veda a apropriação de créditos pelo adquirente é inegável, sendo a jurisprudência deste e. Conselho pacífica sobre o tema. Nos mesmos termos, merece transcrição a ementa da Solução de Consulta COSIT nº 227/17: Fl. 1359DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 50 CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL – COFINS EMENTA: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações beneficiadas com isenção e posteriormente: a) revendidos; ou b) util izados como insumo na elaboração de produtos ou na prestação de serviços que sejam vendidos ou prestados em operações não sujei tas ao pagamento dessa contribuição. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº10.833/2003, arts. 3º, § 2º, II, e 6º, III. (Grifamos) Por outro lado, no que se refere aos fretes, tal matéria já foi amplamente analisada perante este e. Tribunal, tendo sido editada a Súmula CARF nº 188, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF), que assim dispõe: Súmula CARF nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Desta forma, este e. CARF reconhece o direito de apropriação de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre as despesas com serviços de frete, de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, o que alcança tanto bens adquiridos para revenda quanto insumos não onerados pelas contribuições (alíquota zero). Por tais razões, voto por dar parcial provimento ao recurso neste tópico, no sentido de reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência. FRETE DE MERCADORIA RECEBIDA COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO Conforme supra relatado, a fiscalização glosou os créditos apropriados pela recorrente, na condição de comercial exportadora, sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação, com base no §4º, inciso III, do artigo 6º da Lei nº 10.833/03, abaixo transcrito: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de : [...] III - vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Fl. 1360DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 51 § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I - dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II - compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. [...] § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8º e 9º do art. 3º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. (Grifamos) No mesmo sentido, o v. acórdão recorrido manteve as glosas, por entender que “[...] está vedada a apuração de créditos correspondentes às aquisições das mercadorias exportadas e, também, aos demais créditos acaso vinculados a tais operações, tais como custos, despesas e encargos incorridos até a colocação desta mercadoria no exterior”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que o dispositivo supratranscrito atingiria “[...] apenas o crédito decorrente das mercadorias adquiridas para fins de exportação, e não aos serviços (frete), contratados para o desempenho de suas atividades, uma vez que tais custos não estão abarcados pela isenção do tributo. Os prestadores do serviço de transporte das mercadorias são contribuintes do PIS/COFINS, motivo pelo qual é assegurado o direito de tomada de crédito relativo a estas despesas, em atendimento ao princípio da não cumulatividade dessas contribuições”. Ainda, destaca que “[...] o frete em questão, como foi mencionado pela própria fiscalização, é relacionado à operação de venda, sendo hipótese expressamente permitida pelo art. 3º, inciso IX c/c art. 15 da Lei 10.833/03, desde que o ônus seja suportado pelo vendedor, como ocorreu no presente caso”. Entendo que assiste razão à recorrente. Trata-se de matéria que vem sendo debatida perante este e. CARF, sendo que, por concordar com os seus argumentos, transcrevo os fundamentos do v. acórdão nº 3402-009.133, de lavra da i. ex- Conselheira Renata da Silveira Bilhim, que bem analisaram a controvérsia, os quais adoto como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Antes de tudo, parece-me que a intenção do legislador infraconstitucional é desonerar as exportações e gerar um superávit na balança comercial, assim como a Fl. 1361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 52 do legislador constitucional que, por meio da Emenda Constitucional nº 33/2001, incluiu o parágrafo segundo ao art. 149, da CF, assegurando a não incidência (imunidade) das contribuições sociais (PIS e COFINS) sobre as receitas decorrentes de exportação, ex vi do art. 149, § 2º, da CF, verbis: At. 149. (...) § 2º As contribuições sociais e de intervenção no domínio econômico de que trata o caput deste artigo: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001) I - não incidirão sobre as receitas decorrentes de exportação; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001) (grifou-se) Sendo certo que tal imunidade alcança também as exportações indiretas, por comerciais exportadoras e trading company, conforme já definiu o STF no julgamento do RE 759.244/SP, em 25/03/2020, ao qual se atribuiu os efeitos de repercussão geral (tema 674), resultando na fixação da seguinte tese: “A norma imunizante contida no inciso I do §2º do art. 149 da Constituição da República alcança as receitas decorrentes de operações indiretas de exportação caracterizadas por haver participação de sociedade exportadora intermediária”. O art. 6º, incisos I e III, da Lei nº 10.833/03, repetiu o comando constitucional e reiterou que a COFINS e o PIS não incidem sobre as receitas decorrente de exportação e aquelas derivadas de a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Apesar da impossibilidade da incidência das aludidas contribuições sobre as receitas de exportação, o legislador ordinário permitiu, em nome do princípio da não cumulatividade, a apropriação de créditos relativos aos custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação (§ 3º, do art. 6º, da Lei nº10.833/03), o que poderia ser realizado por meio de dedução de valores devidos de tais contribuições, decorrente das demais operações no mercado interno; compensações com débitos próprios, ou, na sua impossibilidade, mediante pedido de ressarcimento (§ 1º e 2º, do art. 6º, da Lei nº10.833/03). Ocorre que, no tocante às exportações por comerciais exportadoras que adquirem mercadorias com o fim específico de exportação, a legislação vedou a apropriação de créditos vinculados à receita de exportação: Art. 6º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. Veja-se, da leitura do dispositivo acima, não me parece que existe outra interpretação senão a de que a vedação nele contida diz respeito aos custos derivados da aquisição das mercadorias que serão exportadas com fim específico de exportação. Fl. 1362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 53 Noutras palavras, o legislador ordinário quando previu o benefício em questão tratou de ressalvar, expressamente, a hipótese em que a empresa comercial exportadora adquire mercadoria com o fim exclusivo de exportação, vedando, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação (art. 6º, §4º) - entenda-se decorrentes da venda da mercadoria. Não vejo, desta forma, como dar o alcance pretendido pela autoridade fazendária e pela DRJ ao § 4º, do art. 6ª, da Lei n. 10.833/2003. O que o legislador fez foi reafirmar didaticamente a regra dos art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nºs. 10.833/03 e 10.637/02, inviabilizando o crédito decorrente de aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, como é o caso da aquisição de mercadorias com fim específico de exportação. Melhor explicando: como os produtos adquiridos pela comercial exportadora para fins de exportação não foram onerados pelas contribuições ao PIS e à COFINS quando da saída da empresa produtora, consequentemente não irão gerar créditos em favor da comercial exportadora. Isso porque a empresa produtora representa o final do ciclo produtivo e, como tal, deve se beneficiar dos créditos das etapas anteriores tendo em vista que a saída do produto para exportação não será tributada. O que gera nenhum prejuízo à comercial exportadora, uma vez que sobre a saída destas mercadorias para a exportação não incidirão as referidas contribuições. É exatamente por esse motivo que o § 4º do art. 6º da Lei n. 10.833/2003 veda a apuração de crédito pela comercial exportadora referentemente aquisição de mercadorias destinadas à exportação. Se assim não o fosse, a comercial exportadora se beneficiaria de um crédito já utilizado pela empresa produtora no final do ciclo produtivo. Ou seja, o crédito seria utilizado em duplicidade. Essa duplicidade que a lei visa a proibir, não ocorre com relação aos custos e despesas indiretas que são suportados pela comercial exportadora, as quais geram o direito ao crédito ao exportador, conforme art. 3º, da Lei nº 10.833/03 e 10.637/02. Entendimento diverso, ou seja, o impedimento ao creditamento de despesas e custos indiretos vinculados à exportação e suportados pelo exportador, resultaria em onerar reflexamente as operações de exportação. Além de gerar violação direta ao princípio constitucional da não cumulatividade, cujo objetivo é desonerar a carga tributária, buscando evitar a cumulação da incidência dos tributos ao longo da cadeia econômica. Por exemplo, os custos com fretes na venda e armazenagem não são desonerados pelas contribuições ao PIS e à COFINS, portanto são suportados pela Recorrente (art. 3º, inciso IX), e, em obediência ao regime da não-cumulatividade, ela poderá aproveitar os créditos das etapas anteriores, pois, caso contrário, teria que arcar com o ônus da tributação de toda cadeia. Com efeito, entendo que o § 4º, do art. 6º, da Lei 10.833/2004, não tem aplicaçã o no caso concreto ora analisado, já que apenas proíbe que a exportadora se aproveite de créditos que pertenciam à produtora. Já os créditos decorrentes da contratação de fretes na venda, de armazenamento, insumos, entre outros, Fl. 1363DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 54 ocorridos por conta da exportadora, por essa podem ser aproveitados, conforme fundamentado acima. Ademais, não se pode olvidar que quanto as normas tributárias restritivas de direitos, como o caso em testilha, o Código Tributário Nacional, em seu art. 111, determina que se deve emprestar à norma interpretação restrita e literal. Ao meu sentir, se o legislador quisesse limitar o direito de crédito das comerciais exportadoras que adquirem mercadorias com fim específico de exportação a todos os custos e despesas a ela vinculados (diretos e indiretos), e não apenas àqueles atinentes diretamente à sua aquisição, o deveria ter realizado de forma expressa, não deixando margem à interpretação. Desta forma, fazendo um interpretação sistemática das normas legais, com atenção à vontade do legislador, associada à obediência ao princípio da não cumulatividade, entendo que a restrição do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, armazenagem, aquisição de insumos, aluguel, energia elétrica, dentre outros, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados na forma dos art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. No mesmo sentido, cita-se o seguinte julgado do e. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. PIS. COFINS. EXPORTADORA. DESPESAS DE FRETES NACIONAIS E INTERNACIONAIS E DESPESAS DE ARMAZENAMENTO. CREDITAMENTO. Hipótese em que a Impetrante, exportadora, adquire da produtora produtos para o fim exclusivo de exportação, nos termos do artigo 6º, III, da Lei 10.833/2003. O art. 6º da Lei n. 10.833/2003 prevê que não incidirá COFINS sobre as receitas decorrentes das operações de (I) exportação de mercadorias para o exterior e (III) vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Assim, A empresa produtora aproveita os créditos do PIS e da COFINS referentes às etapas anteriores e sobre a saída dos produtos para a comercial exportadora também não há incidência das contribuições, conforme lhe autoriza o parágrafo 1º do artigo 6º da Lei 10.833. Nesse caso, a Exportadora (ora Impetrante) não se credita de PIS e COFINS sobre o preço da mercadoria, eis que já estava desonerada de tais contribuições sociais a mercadoria na saída do estabelecimento produtor. Contudo, à Exportadora existe o direito de aproveitar créditos referentes às despesas com fretes contratados e despesas de armazenagem, nos termos do artigo 3º, IX, da Lei n. 10.833/2003. Não se aplica a estas circunstâncias a restrição prevista no §4º do art. 6º da Lei n. 10.833/2003, que se refere tão somente ao crédito decorrente das mercadorias adquiridas para fins de exportação, o que não é o caso. Isso porque a exportadora (Impetrante) pretende usufruir de créditos referentes às despesas de frete e armazenagem, constituídos após ter adquirido as mercadorias da produtora. (TRF4 5003026-48.2010.4.04.7201, 1ª Turma, Relator para Acórdão JOEL ILAN PACIORNIK, julgado em 21/05/2014) (Grifamos) Fl. 1364DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 55 Assim, voto por dar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. FRETES DIVERSOS Neste tópico, a recorrente contesta a glosa sobre (i) fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da pessoa jurídica, defendendo a possibilidade de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade com base nos incisos II e IX do artigo 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, e (ii) de devoluções de vasilhame ou sacaria ou de compra, bem como de compra ou transferência de imobilizado; sustentando se tratar de insumos relacionados à divulgação de seus produtos e despesas com a venda de bens. É o que passo a apreciar. No que se refere aos fretes de produtos acabados, este e. CARF editou a Súmula CARF nº 217, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): Súmula CARF nº 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Assim, independentemente do entendimento pessoal deste julgador, deve ser observado o entendimento sumulado, no sentido de manter a glosa sobre os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos. Por fim, considerando que a recorrente não traz argumentos ou provas com o fim de relacionar as remessas de devoluções de vasilhame ou sacaria ou de compra, bem como, de compra ou transferência de imobilizado, com as operações de venda, de modo a corroborar o suposto direito creditório pretendido, voto por manter a glosa sobre tais dispêndios. DAS AQUISIÇÕES DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMO MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E OBRA CIVIL Conforme supra relatado, a fiscalização efetuou a glosa de itens vinculados às contas contábeis analíticas de nº 1010522002 (‘Material de construção) e 5010306005 (‘Material de obra civil), como cimento, arame ovalado, chapas, areia, brita, tijolos, telhas, materiais elétricos como fios, lâmpadas, etc, sob o Fl. 1365DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 56 fundamento de que “os materiais aqui tratados, diferentemente de peças empregadas em máquinas e equipamentos do processo produtivo, não se subsomem no conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das contribuições. Falta-lhes preencher os critérios de essencialidade ou da relevância para a produção dos bens ou prestação do serviço”. Ressaltou, ainda, que o legislador reservou, para edificações e benfeitorias, o creditamento com base no valor de depreciação (art. 3º, caput e §1º, III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03), de modo que os gastos com materiais de construção e obras devem, portanto, primeiramente ser imobilizados para então usufruir do crédito com base no valor da depreciação do bem. No que se refere às alegações da recorrente (em sede de fiscalização) de que os materiais foram utilizados para manutenção nas estruturas operacionais, a autoridade fiscal manifestou o seguinte entendimento: As alegações de que os materiais foram utilizados para manutenção nas estruturas operacionais não justificam o alegado direito ao crédito. A uma, porque a estrutura de contas contábeis informada não permite distinguir se os materiais foram empregados em estruturas do processo produtivo ou em obras de finalidade administrativa. Pelo contrário, aponta-se para “GASTOS GERAIS”, conforme estrutura hierárquica de contas abaixo: [...] A duas, porque além de produtos de fabricação própria, a empresa comercializa produtos de terceiros, e não há apuração de créditos de insumo na atividade comercial (igualmente há contabilização de “Gastos Gerais”, sem distinção). A três, porque há uma série de bens ou grupo de bens que superam em muito, às vezes na casa de dezenas ou centenas de milhares de reais, o limite para bens de pequeno valor previsto no art. 15 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, bem como afiguram ter vida útil superior a um ano (chapas, vigas, estruturas metálicas, painéis, etc.): Art. 15. O custo de aquisição de bens do ativo não circulante imobilizado e intangível não poderá ser deduzido como despesa operacional, salvo se o bem adquirido tiver valor unitário não superior a R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais) ou prazo de vida útil não superior a 1 (um) ano. Não há, portanto, previsão legal de crédito com base inciso II do caput do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, como pretende a fiscalizada, devendo ser glosadas as aquisições de material de construção [...] Por sua vez, com base no Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, o v. acórdão recorrido manifestou o entendimento de que “diversamente do que dispôs a autoridade fiscal, é de se entender que, ainda que aplicados em edificações e Fl. 1366DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 57 benfeitorias, os dispêndios com a manutenção regular são geradores de créditos não cumulativos, desde que os ativos mantidos sejam empregados em qualquer etapa do processo produtivo e desde que os reparos e não confiram extensão à vida útil do bem superior a um ano” [sic]. Ressalta, ainda, que “[o] Parecer, citando legislação originária da tributação do imposto sobre a renda, acrescenta mais um elemento na caracterização do dispêndio como sendo de manutenção regular e, portanto, apto à geração de créditos não cumulativos diretamente, sem passar pelo ritmo dos encargos de depreciação. Cuida-se do pequeno valor do gasto, no caso, até R$ 1.200,00”. Entretanto, a D. DRJ entendeu pela manutenção das glosas ora combatidas, com base nos seguintes fundamentos: Voltando-se à situação dos autos, aponta a fiscalização para a ocorrência de gastos com materiais que, efetivamente, não configuram mera manutenção ordinária das instalações. Inspecionando-se a relação de itens glosados presente na planilha anexa ao Relatório Fiscal, verifica-se a recusa de créditos sobre a aquisição de transformadores, caixa de água, pias de mármore, portas de alumínio, coluna pré- moldada de concreto, janelas, pisos cerâmicos, telhas, tijolos entre outros itens que, além de superarem o valor de R$ 1.200,00, adotado como definição de gasto de pequeno valor, autorizam, de fato, o entendimento que não se trata de aquisição de bens vinculados à manutenção periódica de instalações, mas mais propriamente ao emprego em edificações novas ou em reformas que conferem aumento de vida útil superior a um ano. Adicionalmente, como anotou a autoridade fiscal, não se pode afastar o emprego dos materiais em edificações administrativas ou comerciais, não vinculadas à atividade produtiva e, portanto, fora do âmbito do creditamento no regime não cumulativo. Para se caracterizarem como geradores de créditos, os gastos com manutenção, devem estar comprovadamente atrelados a ativos responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda. Como essa comprovação não veio aos autos, não se pode afastar a hipótese de terem sido os itens alvo da glosa empregados em instalações administrativas. Ademais, tratando-se de materiais de construção e de manutenção predial, a apropriação do crédito correspondente diretamente sobre o custo de aquisição dependeria, uma vez confirmada a hipótese de manutenção de ativos relacionados a alguma etapa da produção, da comprovação de que o ganho com a conservação não estenderia por mais de um ano a vida útil das instalações, prova também não produzida pela interessada. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente contesta a conclusão adotada, pleiteando o reconhecimento do direito creditório pleiteado, com base nos seguintes argumentos de fato e de direito: In casu, conforme se extrai da descrição do processo produtivo constante do tópico “IV.1”, a Recorrente possui uma área total de aproximadamente 583 mil hectares Fl. 1367DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 58 cultivados, nas quais existem inúmeras edificações operacionais, voltadas a produção, beneficiamento e armazenamento de grãos, sementes, algodão e rebanho bovino. Ademais, proporcionalmente, as dependências destinadas às atividades administrativas são ínfimas, frente às dimensões da área produtiva. Nesse sentido, as dimensões dos empreendimentos da Recorrente, bem como a proporção entre áreas administrativas e operacionais fica evidente das imagens abaixo: • Sede da Fazenda Colorado (Diamantino/MT): [...] • Fazenda Fartura (Campo Verde-MT) [...] (pp. 49/50, do parecer técnico) A reduzida dimensão das áreas administrativas frente às produtivas foi, inclusive, observada pelo perito responsável pela elaboração do parecer técnico anexado ao presente recurso: [...] Isso fica ainda mais claro, se considerado o apontamento feito pelo parecerista, de que “não há estruturas administrativas relevantes que possam impactar, ou mesmo compor, as compras no mercado interno de material de construção e de obra civil, tampouco a empresa possui atividade comercial de revenda de produtos relevante.” (p. 52 do parecer técnico). Dito de outro modo, a Recorrente não opera como vendedora. Assim, não reflete a realidade dos fatos o fundamento utilizado pela DRJ, no sentido de que o crédito pleiteado careceria de liquidez e certeza, por falta de demonstração da Recorrente de que os materiais de construção foram utilizados na manutenção de bens relacionados à produção. [...] Ademais, para a perfectibilização da atividade econômica da Recorrente, todas as etapas devem ser realizadas com a máxima eficiência, uso de material de qualidade e um ambiente que atenda às condições de segurança dos recursos humanos e financeiros empregados nas operações. A título exemplificativo, na atividade desenvolvida no setor agrícola, é de rigor que todos os galpões destinados a estocagem dos insumos, produtos em elaboração e acabados, bem como os prédios utilizados nas etapas operacionais, estejam com suas manutenções em dia, visto que se referem a mercadorias frágeis e que não suportam a exposição a temperaturas extremas ou condições de umidade fora dos padrões exigidos. De igual sorte, os estabelecimentos destinados a atividade pecuária, os cochos das praças de alimentação, as unidades de fabricação e galpões de armazenagem das rações, devem permanecer íntegros, sem apresentar qualquer risco à saúde do rebanho e a qualidade da alimentação. Fl. 1368DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 59 Portanto, todas as infraestruturas físicas utilizadas pela Recorrente necessitam de constantes reparos e manutenções, para possibilitar a fabricação e comercialização do produto final. Logo, os gastos incorridos na aquisição dos materiais de construção e obra civil, tais como cimento, arame ovalado, chapas, vigas, estruturas metálicas, areia, brita, tijolos, telhas, materiais elétricos, fios e lâmpadas, entre outros, destinados à manutenção das referidas estruturas são essenciais e necessários, garantindo à Recorrente o direito ao aproveitamento dos créditos decorrentes. Para elucidar a questão, seguem algumas fotos das unidades da Recorrente que necessitam de reparo ou foram submetidas a manutenção recente: [...] PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO – ESSENCIAIS À PRODUÇÃO – QUE NECESSITAM DE REPARO [...] ARMAZÉM DE RAÇÃO DE BOVINO (ESQ.) E DEPÓSITO DE GRÃO (DIR.) QUE NECESSITAM DE REPAROS [...] UNIDADE FABRIL DE FABRICAÇÃO DAS RAÇÕES, RECÉM SUBMETIDA À MANUTENÇÃO, COM EMPREGO DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO, PARA REPARO ESTRUTURAL Adicionalmente a isso, o parecer técnico trouxe diversas evidências de que o material que deu origem ao direito creditório pleiteado pela Recorrente foi destinado à manutenção das áreas produtivas (páginas 52/55 do parecer técnico): Veja-se o produto “CHAPA GALVANIZADA”, que é um material cujos créditos de PIS/COFINS das aquisições foram glosados pelo Fisco, conforme planilha “Glosa Materiais de Construção”, parte integrante do RELATÓRIO DE AUDITORIA e-Dossiê 10265.004190/2021- 10. Foram R$ 919.693,65 adquiridos, e, notadamente, o seu uso é operacional, na manutenção de Silos, telhas de armazéns e calhas, com ou sem isolamento térmico (necessidade de se manter a temperatura controlada em ambientes de armazenamento de sementes). Observe-se algumas imagens de Chapas Galvanizadas: [...] Essas chapas são utilizadas em telhados ou paredes de Silos, Galpões etc. [...] Com efeito, é inequívoco que todo edifício sofre degradação ao longo do tempo, precisando de cuidados técnicos para preservar o seu bom desempenho, manutenção de condições compatíveis com as exigidas pelos órgãos regulamentadores, as boas condições técnicas e de segurança das construções. Para tanto, para a manutenção do ambiente em condições tais que possibilitem a efetivação da produção, livre de fatores de contaminação que colocariam em risco a segurança dos recursos envolvidos, a Recorrente se vê obrigada a arcar com os Fl. 1369DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 60 custos da aquisição dos materiais de construção e obras civis, sendo imperioso o reconhecimento do alcance do conceito de insumo para fins do aproveitamento dos créditos oriundos das contribuições. Nesse sentido, a Recorrente apropriou-se regular e legalmente dos créditos oriundos dos serviços destacados, em razão de sua essencialidade para a garantia da efetivação da produção da empresa, restando inequívoca a irregularidade das glosas ora combatidas. Por outro lado, também não procede o argumento da DRJ de que os materiais utilizados na manutenção das áreas produtivas superariam o valor individual de R$ 1.200,00 e/ou incrementariam a vida útil do bem em período superior a um ano (conforme entendimento extraído do PN Cosit nº 5, de 2018): [...] Nesse ponto, são valiosos os elementos trazidos pelo parecer técnico, o qual analisou cada um dos itens utilizados na manutenção das áreas produtivas e constatou que o limite individual de R$ 1.200,00 não foi extrapolado (pp. 59/61 do parecer técnico), contrariando a conclusão veiculada pelo acórdão recorrido. A título de exemplo, podemos destacar os trechos abaixo, extraídos do parecer em questão: Em relação ao limite de R$ 1.200,00, que permite a classificação como despesa operacional, o qual não foi ultrapassado (artigo 313 do RIR/2018). Para demonstrar esse ponto, utiliza-se os 10 maiores dispêndios, os quais, de antemão, não correspondem a dezenas ou milhares de reais, como consta do relatório da fiscalização. [...] Analisando as Notas Fiscais, obtidas em consulta ao site da Nota Fiscal eletrônica, https://www.nfe.fazenda.gov.br/portal/consultaRecaptcha.aspx?tipoConsul ta=resumo&tipoConteudo=7PhJ%20gAVw2g=, extrai-se a informação de que nenhum dos materiais acima, unitariamente, ultrapassou o limite de R$ 1.200,00, vejamos: [...] Resta claro, portanto, que também não procede a acusação da Fiscalização, referendada pela DRJ, de que teria sido desrespeitado o limite individual de R$ 1.200,00, estabelecido no Parecer COSIT 05/2018. De outra parte, ponderou o Fisco que “a estrutura de contas contábeis informada não permite distinguir se os materiais foram empregados em estruturas do processo produtivo ou em obras de finalidade administrativa”. Contudo, a glosa também não se sustenta sob tal argumento. Explica-se. Os gastos com essas reformas não são reconhecidos contabilmente como ativo imobilizado pelo fato de não refletir, para o bem objeto de manutenção, em acréscimo de vida útil superior a um ano, conforme determina o CPC 27 (comitê de pronunciamento contábil). Fl. 1370DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 61 O Pronunciamento Técnico, em seus itens 12 e 13, traz um tratamento próprio para os casos em apreço: “12. Segundo o princípio de reconhecimento do item 7 do CPC 27, a entidade não reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado os custos da manutenção periódica do item. Pelo contrário, esses custos são reconhecidos no resultado quando incorridos. Os custos da manutenção periódica são principalmente os custos de mão-de-obra e de produtos consumíveis, e podem incluir o custo de pequenas peças. A finalidade desses gastos é muitas vezes descrita como sendo para “reparo e manutenção” de item do ativo imobilizado. 13. Partes de alguns itens do ativo imobilizado podem requerer substituição em intervalos regulares. Por exemplo, um forno pode requerer novo revestimento após um número específico de horas de uso; ou o interior dos aviões, como bancos e equipamentos internos, pode exigir substituição diversas vezes durante a vida da estrutura. Itens do ativo imobilizado também podem ser adquiridos para efetuar substituição recorrente menos frequente, tal como a substituição das paredes interiores de edifício, ou para efetuar substituição não recorrente. Segundo o princípio de reconhecimento do item 7, a entidade reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado o custo da peça reposta desse item quando o custo é incorrido se os critérios de reconhecimento forem atendidos.” Logo, de acordo com o pronunciamento enunciado acima, a Receita Federal apenas reconhece o valor contábil das pequenas reformas como item do ativo imobilizado, quando a manutenção não tem finalidade de manutenção periódica, que se repete exercício após exercício. Nesse contexto, é importante mencionar novamente a conclusão contida no parecer técnico de que os créditos pleiteados pela Recorrente são relacionados a despesas com manutenção de prédios diretamente relacionados aos setores produtivos da Recorrente. Tal entendimento foi possível a partir do exame de toda a estrutura operacional, bem como dos assentamentos contábeis da Contribuinte, os quais realizam a segregação entre os materiais e serviços empregados na área operacional, daqueles aplicados na manutenção administrativa: “Ainda assim, a contabilidade da BOM FUTURO promove a segregação de apontamento das manutenções realizadas em unidade operacional (lançadas em conta contábil com o código 5 - formação de custo) daquelas relacionadas a manutenção administrativa (lançadas em conta contábil com o código 3). A partir de tudo isso, extrai-se a conclusão de que os materiais em questão foram empregados nas estruturas do processo produtivo da empresa.” (p. 51 do parecer técnico) Assim, resta incontroverso que a Recorrente cumpriu todas as regras tributárias e contábeis quanto ao enquadramento do dispêndio em referência como custo corrente. E, portanto, inquestionável que os gastos incorridos estão intrinsicamente vinculados ao seu complexo produtivo agropecuário, sendo-lhe essenciais, o que justifica o aproveitamento do crédito postulado. Fl. 1371DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 62 Destarte, fica evidente que os gastos com os reparos dos galpões, dos armazéns, e os materiais e serviços de manutenções inerentes, estão ligados diretamente à produção, ainda que não ativados em cumprimento ao CPC 27, devendo ser procedida a reforma do v. acórdão recorrido, com o consequente cancelamento das glosas e deferimento da integralidade do crédito. É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que a Receita Federal já reconheceu, no âmbito do Parecer Normativo Cosit nº 5/18, que “[...] são considerados insumos geradores de créditos das contribuições os bens e serviços adquiridos e utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço”. Neste sentido, merece menção também o artigo 176, § 1º inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2121/22: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). § 1º Consideram-se insumos, inclusive: [...] VII - bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano; Ademais, os fundamentos indicados pelo v. acórdão recorrido para manutenção da glosa, quais sejam, (i) tratar-se de gasto de pequeno valor (até R$ 1.200,00); (ii) ausência de emprego dos materiais em edificações administrativas ou comerciais, (iii) materiais atrelados ao ativo responsável pelo processo produtivo, e (iv) comprovação de que o ganho com a conservação não estenderia por mais de um ano a vida útil das instalações, foram todos refutados pela recorrente, com suporte no Parecer Técnico colacionado aos autos às fls. 1080/1193. Conforme supra reproduzido, o referido Parecer Técnico demonstrou que, nas propriedades da recorrente, a proporção das instalações operacionais corresponde à quase totalidade da estrutura, e há uma pequena sede administrativa, irrelevante em termos de construção. Ainda assim, ressaltou-se que “[...] a contabilidade da BOM FUTURO promove a segregação de apontamento das manutenções realizadas em unidade operacional (lançadas em Fl. 1372DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 63 conta contábil com o código 5 - formação de custo) daquelas relacionadas a manutenção administrativa (lançadas em conta contábil com o código 3). Ademais, analisando contabilmente os insumos adquiridos e utilizados na manutenção de estruturas operacionais, constatou-se “que os custos unitários não ultrapassam o valor de R$ 1.200,00 e possuem vida útil inferior a 1 ano, permitindo sua classificação como despesa operacional, na forma do artigo 313 do RIR/2018”, sendo destacado que, em relação à vida útil, o fator determinante é a utilização e não a descrição do bem. Por fim, demonstrou-se que os itens glosados são essenciais para manutenção das instalações produtivas da empresa, especialmente, na manutenção de Silos, telhas de armazéns e calhas, com ou sem isolamento térmico. Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo. DAS AQUISIÇÕES DE SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMO SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO CIVIL DE PRÉDIOS Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a fiscalização manifestou o entendimento de que “[a]ssim como os Materiais de Construção e de Obra Civil foram glosados (v. Item II.2.1.1), o “SERVICO DE MANUTENCAO CIVIL - PREDIOS OPERACIONAIS” também não se amolda ao conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das contribuições”. Ressaltou, ainda, que “[b]asta verificar as notas apresentadas que se constata, inclusive, que os serviços extrapolam em muito a mera manutenção de prédios, tratando-se em alguns casos de obras de construção civil, a exemplo de “...EXECUÇÃO DE SERVIÇOS DE TERRAPLENAGEM, PAVIMENTAÇÃO DE DRENAGEM REALIZADOS NA FAZENDA 3 IRMÃOS” (NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, CNPJ 02.837.996/0001-10, no valor de R$ 658.030,42, fls. 365); “...CONSTRUÇÃO DO BARRACÃO…” e “SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO PONTE…” (NFs nºs 60 e 65, de 20/04/2018 14/06/2018, emi7das por DAMIAO FIGUEIREDO EIRELI, CNPJ 25.191.377/0001-04, nos valores de R$ 39.300,00 e R$ 50.000,00, fls. 270 e 313); “FABRICACAO E MONTAGEM DE OFICINA E LANTERNIN TROCAR TELHA, FECHAMENTO FRONTAL, JANELAS BASCULANTE, COBERTURA DE CHIQUEI….” (NF 118, de 20/04/2018, emi7da por JC METALURGICA LTDA, CNPJ 24.538.950/0001-32, no valor de R$ 58.710,00, fls. 274), etc.. Não à toa, os participantes são, via de regra, construtoras: SANTOS CONSTRUTORA (fls. 246 e 349), VOIGT CONSTRUÇÕES (fls. 306 e 341), G2 CONSTRUTORA (fls. 311 e 321)”. Segundo a fiscalização, tais serviços, se preenchidos os critérios previstos no art. 3º, caput e §1º, III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, poderiam gerar crédito Fl. 1373DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 64 com base no valor mensal de depreciação, mas não com base na aquisição de insumos. No mesmo sentido, o v. acórdão recorrido entendeu por manter a glosa, reforçando “[...] a afirmativa da fiscalização de que os prestadores de serviços são empresas de construção indicando obras que ultrapassam os limites das despesas com manutenção regular de edificações”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera o exposto no tópico anterior, defendendo o direito ao aproveitamento de créditos, com base no entendimento de que “[...] é de rigor que todos os galpões destinados a estocagem dos insumos, produtos em elaboração e acabados, bem como os prédios operacionais utilizados pela Recorrente, estejam com suas manutenções em dia”. Ainda, destaca que a análise contida no parecer técnico anexado ao processo, em que foram examinados cada um dos serviços glosados pela fiscalização, concluiu que “[...] ao contrário do que foi alegado pelo Sr. Agente Fiscal e confirmado pela DRJ, os serviços são i) essenciais para que a estrutura operacional permaneça em funcionamento; e ii) caracterizam-se como de manutenção periódica dos ativos, prescindindo de ativação, por serem custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado”: Perante o exposto nesse tópico, os serviços de manutenção civil de prédios referem- se à manutenção periódica dos ativos que, conforme o item 12, do CPC 27, não devem ser reconhecidos como parte integrante do ativo, visto serem considerados como custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado. Vale reafirmar que toda a manutenção realizada foi essencial para manter a estrutura operacional em funcionamento; sem a devida conservação tornar-se-ia inviável a manutenção da cadeia produtiva. (fls. 76 do parecer técnico) Por tais razões, a recorrente sustenta que “[...] os gastos incorridos na aquisição dos serviços de manutenção das referidas estruturas são essenciais e necessários, devendo ser reformado o acórdão DRJ e revertidas as glosas ora combatidas, com o consequente deferimento integral do ressarcimento pleiteado”. É o que passo a apreciar. Inicialmente, reporta-se ao que foi decidido no tópico anterior, no que se refere à possibilidade de aproveitamento de serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo produtivo, cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do Parecer Normativo Cosit nº 5/18 e artigo 176, § 1º inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2121/22. No que se refere ao enquadramento de tais itens aos requisitos normativos exigidos para apropriação dos créditos da não-cumulatividade, cumpre transcrever excerto do Parecer Técnico colacionado aos autos, no qual é analisada a natureza e o objeto de tais contratações: Fl. 1374DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 65 Iniciando-se pela análise do documento fiscal “NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, CNPJ 02.837.996/0001-10, no valor de R$ 658.030,42, fls. 365”: [...] Constata-se que, dos R$ 658.030,42 do valor total da Nota Fiscal, o montante de R$ 394.818,25 refere-se a materiais e R$ 263.212,67 a prestação de serviços, como consta do rodapé e também do campo “Base de Cálculo do ISS”: [...] Primeiramente, destaca-se que, nos serviços de manutenção, há os materiais utilizados, ou seja, a análise deve ser restrita ao serviço, devido à natureza distinta entre a efetiva prestação de serviços e os materiais utilizados. O valor total de R$ 658.030,42 contempla serviços de manutenção de pavimentação, utilizados pela BOM FUTURO para o desenvolvimento de suas atividades, visto que apenas uma estrada particular da empresa localizada em Campo Verde/MT possui 8.2km asfaltados para se chegar à sede operacional da Fazenda (vide introdução deste Parecer). O valor envolvido é condizente com a natureza de insumo, de manutenção, visto que o valor não é suficiente nem para asfaltar 1 quilometro de rodovia 3 . Nesse contexto, o valor da nota fiscal, insuficiente para se pavimentar 1 km de estrada em relação à BOM FUTURO, que possui centenas de quilômetros pavimentados, permite concluir não se tratar de obra viária, mas sim de manutenção das estradas existentes. Prosseguindo na análise, algumas Notas Fiscais são da empresa G 2 CONSTRUTORA, que presta serviços de manutenção civil em “Fossa”. Vide, a seguir, o documento fiscal: [...] No campo “Serviços Prestados”, consta expressamente “Serviços de Manutenção Civil” em “Fossa”: [...] Trata-se de manutenção em fossa, que deve ser considerando com uma obra civil, contabilizada no ativo imobilizado. Além disso, não está sujeita à depreciação mensal, nos termos do CPC 27 (Comitê de Pronunciamento Técnico), o qual disciplina que não se deve reconhecer no ativo imobilizado os custos de manutenção periódica. Conforme Pronunciamento Técnico CPC 27, item 12: “Segundo o princípio de reconhecimento do item 7, a entidade não reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado os custos da manutenção periódica do item. Pelo contrário, esses custos são reconhecidos no resultado quando incorridos. Os custos da manutenção periódica são 3 Vide no site da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística – SINFRA, do Governo do Estado do Mato Grosso, a notícia que, para se construir 56,2 quilômetros de rodovia o estado do Mato Grosso está investindo R$ 65 milhões de reais Fl. 1375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 66 principalmente os custos de mão-de-obra e de produtos consumíveis, e podem incluir o custo de pequenas peças. A finalidade desses gastos é muitas vezes descrita como sendo para “reparo e manutenção” de item do ativo imobilizado.” Ademais, manutenção (especificamente em fossas), é de essencial importância, visto estar diretamente relacionada a: - Prevenção da contaminação do solo; - Impedir o surgimento de ratos, baratas, moscas etc; - Destinação correta da rede de esgoto; Seguindo as análises, veja-se outra Nota Fiscal, referente a serviços de pintura de maquinários da Algodoeira. [...] Em relação a Pintura de Algodoeira, constata-se que: - Não é um serviço passível de contabilização como ativo imobilizado, logo, não é depreciável; - Não é obra civil. A pintura de máquinas e implementos agrícolas é um serviço essencial de manutenção para o desenvolvimento das atividades da BOM FUTURO, visto que, com o desgaste natural da pintura, partes dos equipamentos ficam expostas a intempéries e agentes de corrosão. Observe-se ainda a Nota Fiscal 65, de 14/06/2018, emitida por DAMIAO FIGUEIREDO E/RELI, CNPJ 25.191.377/0001-04: [...] Constata-se que a descrição do serviço é “PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MANUTENÇÃO CIVIL – PREDIOS OPERACIONAIS – SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO DE PONTE – CONFORME PEDIDO DE COMPRA”. A descrição inicia-se com os dizeres “Manutenção Civil”, logo, entende-se que manutenção é a essência do serviço. A obra civil relacionada à construção de ponte corresponde a uma atividade mais aderente à manutenção: [...] Por fim, a descrição dos serviços na NF 679, é expressa: “SERVIÇO DE MANUTENÇÃO CIVIL PREDIOS OPERACIONAIS – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CONFORME CONTRATO”: [...] O documento fiscal em questão envolve a contratação de serviços de manutenção predial, e não obra civil, sujeita à depreciação. Para a manutenção da operação, é fundamental que se tenham plenas condições das instalações do processo produtivo; é essencial que toda a estrutura esteja apta para realização da produção e armazenagem. Fl. 1376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 67 Perante o exposto nesse tópico, os serviços de manutenção civil de prédios referem- se à manutenção periódica dos ativos que, conforme o item 12, do CPC 27, não devem ser reconhecidos como parte integrante do ativo, visto serem considerados como custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado. Vale reafirmar que toda a manutenção realizada foi essencial para manter a estrutura operacional em funcionamento; sem a devida conservação tornar-se-ia inviável a manutenção da cadeia produtiva. Com base no referido Parecer Técnico, que analisa os serviços glosados pela fiscalização, entendo que, na maior parte dos casos, restou demonstrado se tratar de serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobili zado utilizados no processo produtivo. No que se refere à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, demonstrou-se que se trata de serviço de manutenção de pavimentação e terraplanagem (o valor da nota fiscal é insuficiente para pavimentar uma estrada, sendo adequado se admitir que é utilizado exclusivamente na manutenção de estradas existentes), o que está envolvido no processo produtivo da empresa, que exige o transporte de máquinas, insumos e produtos ao longo das áreas rurais da empresa de vasta extensão. Da mesma forma, as Notas Fiscais da empresa G2 CONSTRUTORA, tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, sendo de essencial importância ao processo produtivo da empresa que envolve requisitos sanitários rígidos, ao prevenir a contaminação do solo, impedir o surgimento de ratos, baratas, moscas etc, e dar a destinação correta da rede de esgoto. No mesmo sentido, os serviços de Pintura de Algodoeira são essenciais para manutenção das atividades produtivas da empresa, uma vez que com o desgaste natural da pintura, partes dos equipamentos ficam expostas a intempéries e agentes de corrosão. Ademais, o Parecer Técnico bem aponta que, por se tratar de custos de manutenção periódica do ativo imobilizado, não são passíveis de contabilização como ativo imobilizado (e, por conseguinte, não são depreciáveis), o que reforça a possibilidade de aproveitamento dos créditos na condição de insumos. Por outro lado, a Nota Fiscal 65, de 14/05/2018, emitida por Damião Figueiredo, se refere expressamente a “Serviço de Construção de Ponte”, o que configura construção e não manutenção, além de não ser possível, com base nas provas juntadas, a individualização dos serviços para alcançar apenas aqueles de manutenção. Ainda, no que se refere à NF 679, que trata de “SERVIÇO DE MANUTENÇÃO CIVIL PREDIOS OPERACIONAIS – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CONFORME CONTRATO”, não há qualquer prova – como o contrato citado na descrição – que permita avaliar a natureza da contratação, o que impede o reconhecimento do crédito pleiteado. Por tais razões, voto por dar parcial provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, Fl. 1377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 68 emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira. SERVIÇOS PORTUÁRIOS E DESPACHO ADUANEIRO Conforme se extrai do Relatório Fiscal, a recorrente “[...] escriturou em suas EFD Contribuições, nas rubricas de crédito “Aquisição de serviços utilizados como insumo” (01/2016 a 06/2017) e “Armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda” (10/2017 a 10/2018), Serviços Portuários em Geral, a título de “SERVIÇO DE ARMAZENAGEM DE GRÃOS (GRÃOS/ALGODAO)” e “SERVIÇO FRETE SOB VENDAS””. Para justificar a glosa dos referidos itens, assim se manifestou a autoridade fiscal: 94. Verificando-se as notas apresentadas, temos as seguintes descrições para os serviços prestados: a) COMPANHIA BANDEIRANTES DE ARMAZENS GERAIS: “ESTUFAGEM ALGODAO” (v. NFs 10567, 11907 e 14034 às fls. 203, 205 e 245); b) LIBRA TERMINAL VALONGO S/A: “ADICIONAL DE SEGURO-CONS, REMOCAO DE CHEIOS MD – CNTR…...-CONSREMOCAO DE VAZIOS MD – CNTR….,-CONS,OCTE CONSOLID S/TRAN” e “REMOCAO DE CHEIOS MD – CNTR …, -CONS, ADICIONAL DE SEGURO-CONS,REMOCAO DE VAZIO MD – CNTR…, -CONS, PCTE CONSOLID S/ TRAN” (v. NFs 9601, 13190, 13290 às fls. 231, 240/241); c) SANTOS BRASIL LOGISTICA S.A.: “SERVIÇO DE POSICIONAMENTO EXPORTAÇÃO...ARMAZENAGEM APOS PERIODO...STUFFING MECANIZADO…”, “NAVIO CAPE SOUNIO VAGEM … STUFFING MECANIZADO CNTR 40 SERVICO DE POSICIONAMENTO EXPORTACAO ARMAZENAGEM APOS PERIODO CNTR 40” e “NAVIO KOTA LUKIS VIAGEM …. ARMAZENAGEM APOS PERIODO CONTR 40 STUFFING MECANIZADO CNTR 40” (v. NFs 93098, 100267 e 99902, fls. 268, 271 e 320); d) TCP - TERMINAL DE CONTEINERES DE PARANAGUA SA: “...FATURA: XX SERIE: YY NAVIO: VIAGEM: OBS; OVA EXPORTACAO TENDA HH ….BOOKING ….” (v. NFs 59218 e 82263 às fls. 226 e 229); e) EMBRAPORT EMPRESA BRASILEIRA DE TERMINAIS PORTUARIOS: “SERVIÇOS PORTUARIOS – ARMAZENAGEM DE QUALQUER NATUREZA E SERVICOS ACESSORIOS/ Draft: … / NAVIO: XX…..” (NFs 137461 e 140208, fls. 243/244); f) BRASIL TERMINAL PORTUARIO S.A.: “MAERSK LONDRINA …. ROLAGEM 40 CH EXPORT…….”, e “MAERSK LONDRINA …. POSIC. P/ VITORIA 40 – EXP QTDE: XX Preço: YY …..” (v. NFs 104018 e 90420, fls. 201 e 230); g) TRANSMODAL LOGISTICA EIRELI: “SERVIÇOS RETROPORTUÁRIOS / RETIRADA DE CNTR VAZIO ESTUFAGEM E ENTREGA DO CNTR CHEIO NO TERMINAL DE EMBARQUE” (v. NF 12864 às fls. 238); Fl. 1378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 69 h) CONCORDIA LOGISTICA S.A.: “SERVIÇO DE ESTUFAGEM E TRANSPORTE….BOOKING:…../ NAVIO: XX…..” (v. NFs 25085 e 25192 às fls. 219/220). 95. Da amostragem realizada, consta-se que são serviços portuários diversos, como movimentação de contêineres, posicionamento, rolagem, amarração, fixação e inspeção de cargas, etc. [...] 97. Os serviços portuários aqui tratados são gastos posteriores à finalização do processo de produção dos bens destinados a exportação, de forma que não se caracterizam como serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda (art. 3º, inc. II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003). 98. Em se tratando de produtos acabados, só é possível o creditamento na hipótese do inciso IX do art. 3° da Lei nº 10.833/03, ou seja, sobre armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor. 99. O conceito de armazenagem e frete, contudo, não alcança despesas de natureza completamente diversa, como são os serviços logísticos e de operação portuária (de movimentação, posicionamento e rolagem de contêineres, inspeção de carga, contratação de agenciadoras marítimas, etc). 100. Ainda que em algumas das notas fiscais apresentadas possa haver também serviço de armazenagem, este sim possível de creditamento, não há como distingui- lo dos demais serviços portuários praticados. 101. Não há, portanto, previsão legal de crédito para esses dispêndios, [...] Também foram glosados créditos tomados sobre serviços de Despachante Aduaneiro, nos seguintes termos: 103. De acordo com as EFD-C apresentadas, a contribuinte creditou-se de serviços de “ATIVIDADES DE DESPACHANTES ADUANEIRO”, sendo a empresa MEDITERRANEAN LOGISTICA ADUANEIRA, CNPJ 07.250.092/0001-07, que tem como atividade: “33.01 / 5250801 - Comissaria de despachos”, responsável por 95% do valor dos serviços prestados. 104. Verificando-se as notas apresentadas, a discriminação dos serviços é “Processo….” (NF 4484, fls. 263) e “...INSPEÇÃO NÃO INVASIVA…” (NF 301053, fls. 252). 105. Tais gastos são posteriores à finalização do processo produtivo, de modo que não podem ser considerados insumos, e tampouco se relacionam com operações de armazenagem e frete na operação de venda. 106. Não há, portanto, previsão legal de crédito para esses dispêndios, [...] Fl. 1379DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 70 Considerando que a glosa foi mantida pelo v. acórdão recorrido, a recorrente interpôs Recurso Voluntário, contestando a conclusão adotada, com base nos seguintes argumentos de fato e de direito: De acordo com o parecer técnico anexado ao presente recurso, os serviços portuários consistem na armazenagem, fretes e stuffing (serviço técnico de organização dos produtos no container para exportação): “Basicamente, nota-se que, majoritariamente, além de Armazenagem e Fretes, trata-se de Estufagem ou Stuffing, que é o procedimento técnico de organização dos produtos no container para exportação, com planejamento rigoroso e respeito a normas técnicas, visto que uma estufagem mal realizada pode prejudicar a qualidade do produto final devido a diversos fatores, tais como: • Deve respeitar os limites de capacidade, pois uma simples prensagem maior do algodão pode prejudicar a qualidade da fibra; • O material que acondiciona o algodão não pode ser danificado ou perfurado, pois a exposição do algodão ao ambiente pode danificar a fibra; • O algodão é altamente inflamável, pelo que seu acondicionamento deve respeitar normas rígidas para se evitar incêndio;” (fls. 77 do parecer técnico) Já com relação aos serviços prestados pelo despachante aduaneiro, as conclusões expostas no parecer técnico já mencionado deixam claro que se trata de despesa necessária à atividade da Recorrente, a qual, naturalmente, permite o creditamento das contribuições ao PIS/COFINS: “O serviço de comissária de despacho é realizado por profissional responsável pela vistoria e desembaraço aduaneiro, ou seja, é um dos profissionais que garante a qualidade da armazenagem do produto. Em linha com o abordado no capítulo anterior, em se tratando de cargas que, em seu transporte, são exigidos procedimentos técnicos para garantia da qualidade do produto, são essenciais ao processo produtivo da empresa.” (fls. 78 do parecer técnico) [...] Com efeito, não são necessárias maiores considerações para demonstrar a essencialidade dos serviços portuários e o desembaraço aduaneiro, afinal, para que os bens exportados cheguem ao seu destino, os produtos devem ser movimentados nas instalações alfandegárias, ser conferidos, carregados e descarregados, liberados, eventualmente armazenados e, por fim, transportados para o seu adquirente. Até porque os prestadores dos serviços em comento são contribuintes do PIS/COFINS, motivo pelo qual é assegurado o direito de tomada de crédito relativo a essas despesas, em atendimento ao princípio da não cumulatividade dessas contribuições. Trata-se, portanto, de serviços imprescindíveis para a perfectibilização da venda que irá gerar receita à Recorrente, motivo pelo qual deve ser reformado o acórdão recorrido e revertidas as glosas efetuadas pela fiscalização. Fl. 1380DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 71 Independentemente do entendimento pessoal deste julgador, este e. CARF editou a Súmula CARF nº 232, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. Assim, deve ser observado o entendimento sumulado, razão pela qual voto no sentido de manter a glosa sobre despesas portuárias e despachante aduaneiro. DEMAIS SERVIÇOS (ESTACIONAMENTO, ALUGUEL DE VEÍCULO, VALE- ALIMENTAÇÃO, RASTREAMENTO, EXPURGO DE CARGAS, CLÍNICA MÉDICA E SERVIÇOS DIVERSOS) No que se refere aos demais serviços glosados (Estacionamento, aluguel de veículo, vale-alimentação, expurgo de cargas, clínica médica e serviços diversos), a recorrente sustenta que “[...] é imperioso o reconhecimento do alcance do conceito de insumo para todos os gastos gerais que a pessoa jurídica precisa incorrer na produção de bens ou serviços, ainda que tais elementos não entrem em contato direto com os bens produzidos”. Especificamente com relação ao aluguel de veículos e estacionamento, destaca que o parecer técnico anexo aos autos ressalta que são despesas essenciais às atividades da recorrente, pois envolvem a movimentação de funcionários para a consecução das suas atividades: “Estacionamento e aluguel de veículos ➔ A empresa exerce atividades pulverizadas por toda a dimensão do estado do Mato Grosso, com fazendas se estendendo por milhares de hectares. Nesse contexto, o deslocamento de seus profissionais só é possível através de automóveis. Assim, impossível garanti r o bom funcionamento da operação, se seus agrônomos, por exemplo, não possam se deslocar entre as terras, o que está, intrínseca e fundamentalmente, relacionado ao processo produtivo, além da qualidade do produto final. O estacionamento destes veículos são consectários naturais.” (página 78 do parecer técnico) No que se refere às despesas com vale alimentação e despesas médicas glosadas pela fiscalização, sustenta que a IN RFB nº 1.911/2019 é expressa ao consignar que é possível o creditamento com vale-transporte, vale-refeição ou vale- alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica (artigo 172, §2º, VI). Ressalta, ainda, que as despesas com vale - alimentação decorrem de acordo coletivo, sendo que “[o]s instrumentos de negociação coletiva correspondem a imposições normativas que têm força de lei para as partes nela representadas, conforme decidiu o STF, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) nº 1.121.63/GO”. Fl. 1381DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 72 É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que este e. CARF editou a Súmula CARF nº 190, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas. Assim, independentemente do entendimento pessoal deste julgador, deve ser observado o entendimento sumulado, no sentido de manter a glosa sobre os gastos com locação de veículos. Quanto aos gastos com estacionamento, entendo não se tratar de despesa essencial ou relevante para o processo produtivo da empresa, em razão da ausência de comprovação da sua imprescindibilidade para o desenvolvimento da atividade econômica. No que se refere às despesas com vale-alimentação e despesas médicas, merece destaque que o artigo 172, §2º, inciso VI, da IN RFB nº 1.911/2019 mencionado pela recorrente, vai no sentido contrário ao pleiteado, ao expressamente consignar que “[n]ão são considerados insumos, entre outros: VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão-de-obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de seguro e seguro de vida, ressalvado o disposto no inciso VI do art. 181”. Tal dispositivo é repetido pelo artigo 176, §2º, inciso VI, da atual IN RFB nº 2.121/22, ex vi: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). [...] § 2º Não são considerados insumos, entre outros: [...] VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de saúde e seguro de vida; Fl. 1382DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 73 Quanto à alegação da recorrente de que os gastos com vale-transporte decorrem de acordo coletivo, ressalto que, com base no artigo 177 da IN RFB nº 2121/22, a Receita Federal reconhece que “[t]ambém se consideram insumos, os bens ou os serviços especificamente exigidos por norma legal ou infralegal para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades”. Por sua vez, no §1º, estabelece que “[o] disposto no caput não se aplica nas hipóteses em que a exigência dos bens ou dos serviços decorrem de celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho”. Com a devida vênia, entendo que, ao exercer sua competência de interpretar e aplicar a legislação tributária, editando instruções normativas necessárias à sua execução, a Receita Federal andou bem ao reconhecer que os bens e serviços exigidos, por norma legal ou infralegal, para viabilizar a mão-de-obra empregada nas atividades, devem ser considerados insumos, por outro lado, ultrapassou os limites estabelecidos em lei, inovando o ordenamento jurídico, ao excetuar as hipóteses em que a exigência decorre da celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho. Ora, a partir do momento em que se reconhece o caráter de insumo aos bens e serviços exigidos, por norma legal ou infralegal, para viabilizar a mão-de-obra empregada nas atividades de produção de bens ou de prestação de serviços, não vislumbro qualquer fundamento legal que permita a exclusão das exigências decorrentes de acordos e convenções coletivas de trabalho. Nos termos do artigo 611 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, a Convenção Coletiva de Trabalho configura acordo de caráter normativo, sendo que, conforme estabelece o artigo 611-A do mesmo diploma legal, a convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre diversas questões atinentes à relação de trabalho. Neste sentido, assim leciona o professor Maurício Godinho Delgado: As convenções coletivas, embora de origem privada, criam regras jurídicas (normas autônomas), isto é, preceitos gerais, abstratos e impessoais, dirigidos a normatizar situações ad futurum. Correspondem, consequentemente, à noção de lei em sentido material, traduzindo ato-regra (Duguit) ou comando abstrato. São, desse modo, do ponto de vista substantivo (ou seja, de seu conteúdo), diplomas desveladores de inquestionáveis regras jurídicas (embora existam também no seu interior cláusulas contratuais. Somado a isto, a Constituição Federal elenca, em seu artigo 7º, inciso XXVI, o reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho como direito dos trabalhadores urbanos e rurais. Ressalte-se que a relevância está na imposição da exigência – que deve ser observada no exercício da atividade do contribuinte – e não propriamente no instrumento jurídico que a impõe, até porque, a própria instrução normativa Fl. 1383DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 74 compreende que o conceito de insumo alcança exigências impostas tanto por norma legal quanto infralegal. Por tais razões, entendo que os bens ou serviços especificame nte exigidos por convenções e acordos coletivos de trabalho, para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades, também revestem o caráter de insumo. Ocorre que, no presente caso, a recorrente se limita a alegar que a obrigação decorre de acordo coletivo, sem trazer qualquer documento que permita a comprovação do alegado, o que impossibilita o reconhecimento do direito creditório pleiteado. DA GLOSA PARCIAL DE BASE DE CÁLCULO SUPOSTAMENTE INFORMADA A MAIOR – INTEGRAÇÃO DO ICMS-ST NO VALOR DOS INSUMOS ADQUIRIDOS Conforme se extrai do Relatório Fiscal, a fiscalização verificou que “[a] contribuinte, ao informar a Base de Cálculo (BC) do crédito de PIS/Cofins decorrente da aquisição de alguns insumos, por vezes integrou o ICMS sobre substituição tributária (ICMS-ST) ao seu valor, conforme se depreende do cotejo das NFe emitidas pelos respectivos fornecedores”. Mencionando a Solução de Consulta Cosit nº 99.041/17, o entendimento firmado pelo STJ no julgamento do Recurso Especial nº 1.456.648/RS e os artigos 26 e 167 da IN RFB nº 1.911/19, a autoridade fiscal efetuou a glosa da base de créditos informada a maior, ressaltando que o ICMS-ST “que consta na nota fiscal emitida pelo vendedor-substituto da mercadoria à fiscalizada não compõe a base de cálculo das contribuições devidas por ele vendedor, ou seja, não há incidência de PIS/Cofins sobre o valor do ICMS-ST na etapa anterior”, sendo indevido, portanto, o crédito calculo sobre o ICMS-ST destacado nas notas fiscais de aquisição. Ao manter a glosa efetuada, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: [...] evitando-se distorções na aplicação do regime da não cumulatividade, o valor do crédito passível de apuração pelos contribuintes substituídos deve ser calculado excluindo-se dos custos de aquisição a parcela do ICMS cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário, na medida em esta parcela é sacada da base de cálculo deste último. A situação não é alterada pelo julgamento, no STJ, do Tema Repetitivo nº 1.125 que entendeu que o valor correspondente ao ICMS-ST recolhido antecipadamente pelo substituto tributário não compõe a base de cálculo da Contribuição ao PIS/Pasep e da Cofins, devidas pelo contribuinte substituído. Note-se que o julgamento do STJ voltou-se para a formação da base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins devidos pelos adquirentes, contribuintes substituídos do ICMS, concluindo que nela não se inclui a parcela referente ao ICMS cobrado pelo vendedor na condição de substituto do ICMS. Fl. 1384DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 75 Esse entendimento só vem reforçar o acerto da fiscalização em glosar a tomada de créditos sobre o valor do ICMS-substituição tributária pela adquirente substituído. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente ressalta que “[...] o ICMS que é retido pelo substituto não entra no mecanismo de compensação entre débitos e créditos, inerente ao princípio da não cumulatividade, de tal sorte que todo o encargo é arcado, em última instância, pelo substituído tributário, reforçando o caráter de irrecuperabilidade do referido tributo”. Sustenta, ainda, ser inadequada a IN RFB nº 1.911/19 na parte em que pretende disciplinar a matéria, “[...] visto que o tema ainda se encontra pendente de julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esse Tribunal, sob o rito de recursos repetitivos, afetou os Recursos Especiais nº 1.896.678 e nº 1.958.265 (tema nº 1.125), no qual será oportunamente decidida a possibilidade ou não de exclusão do valor correspondente ao ICMS-ST da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS”. Por tais razões, defende que “[...] não há que se falar em redução ou glosa de créditos pautados na pretensa exclusão, devendo ser reformado o v. acórdão recorrido para determinar o ressarcimento integral com a inclusão do montante atinente ao ICMS-ST integrante da base de cálculo das contribuições”. É o que passo a apreciar. Trata-se tema decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231, no qual foram fixadas as seguintes teses: 1ª) Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77; 2ª) Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído. O acórdão do referido julgamento restou assim ementado: RECURSO REPETITIVO. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. VALORES REFERENTES AO ICMS-SUBSTITUIÇÃO (ICMS- ST). IMPOSSIBILIDADE. TRIBUTO RECOLHIDO EM SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. DESCARACTERIZAÇÃO COMO CUSTO DE AQUISIÇÃO PREVISTO NO ART. 13, DO DECRETO-LEI N. 1.598/77. 1. Indeferidos os os pedidos de ingresso no feito na condição de amicus curiae. Isto porque, em se tratando de processo que foi adiado de pauta anterior, os pedidos são extemporâneos, além do que realizados somente às vésperas do j ulgamento do recurso (Precedentes: EDcl nos EDcl no REsp. n. 1.143.677 / RS, Corte Especial, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 21.11.2012; EDcl no REsp. n. 1.143.677 / RS, Corte Especial, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 29.06.2010). Fl. 1385DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 76 2. Não sendo receita bruta do substituto tributário, o ICMS-ST não está na base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não cumulativas por si (pelo substituto) devidas e definida nos arts. 1º e §2º, das Leis ns. 10.637/2002 e 10.833/2003. 3. Como o princípio da não cumulatividade preconiza que o valor do tributo incidente sobre o bem na saída do vendedor é que irá gerar o valor do crédito na entrada do bem para o adquirente, se não houver tributação na saída do vendedor (substituto), não haverá creditamento na entrada para o adquirente (substituído) e qualquer crédito concedido nessa situação ou para além do valor do tributo pago na etapa anterior é crédito presumido ou fictício, carecedor de lei específica, na forma do art. 150, §6º, da CF/88. Precedentes : Súmula Vinculante n. 58/STF; Repercussão Geral Tema n. 844/STF; recurso repetitivo REsp. n. 1.894.741/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 27.04.2022. 4. No caso concreto, as contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não incidem sobre o ICMS-ST na etapa anterior (substituto), portanto, na ausência de lei expressa criadora do crédito presumido, não podem gerar crédito para ser util izado na etapa posterior (substituído). 5. Com o julgamento do TEMA n. 1125/STJ ("O ICMS-ST não compõe a base de cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS devidas pelo contribuinte substituído no regime de substituição tributária progressiva"), este Superior Tribunal de Justiça equiparou a situação econômica dos contribuintes de direito do ICMS normal àquela dos contribuintes de fato do ICMS-ST, em razão do princípio da isonomia, tornando a escolha do Estado em tributar determinada mercadoria via ICMS ou ICMS-ST economicamente neutra para as contribuições ao PIS/PASEP e COFINS e, por consequência, para as empresas. 6. Acaso fosse concedido na atualidade o creditamento pleiteado, a distorção existente entre o contribuinte de fato do ICMS-ST e o contribuinte de direito do ICMS normal voltaria, agora em prejuízo deste último, pois o primeiro, além de excluir o ICMS-ST da base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS por si devidas, também ganharia o direito ao crédito dos valores correspondentes ao ICMS-ST, caracterizando odioso duplo benefício (ganharia de volta o crédito sem ter o débito correspondente), sendo que o segundo nenhum benefício mais tem depois do advento dos os artigos 6º e 7º, da Lei n. 14.592/2023 (não tem crédito e não tem débito). 7. Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previ sto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77, isto porque: 7.1. A lei foi publicada em período onde não havia substituição tributária progressiva (substituição tributária "para frente") no Brasil, não podendo dar efeitos a algo que não existia, desta forma, sequer é possível instrução normativa que assim trate a matéria, sob pena de extrapolar a lei de regência; 7.2. Os tributos recolhidos em substituição tributária "para frente" são mera antecipação de um tributo que incidiria na venda (não na aquisição) a s er feita pelo substituído, ou seja, não são juridicamente uma oneração na aquisição, mas uma oneração antecipada da venda a ser futuramente feita; e 7.3. A classificação de Fl. 1386DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 77 "tributo recuperável" e "tributo não recuperável" não é aplicável aos casos de substituição tributária, porque monofásicos. 8. Ainda que o ICMS-ST integrasse o conceito de custo de aquisição, esta Corte tem posicionamento pacificado no sentido de que nem todo o custo de aquisição gera direito ao creditamento na sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS. Precedentes em recursos repetitivos: REsp. n. 1.221.170/PR, Primeira Seção, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 22.02.2018 e REsp. n. 1.894.741/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 27.04.2022. 9. Desta forma, seja em razão dos l imites impostos pelo princípio da não cumulatividade, seja em razão da impossibil idade de tratamento anti -isonômico entre os contribuintes, seja porque não configuram custo de aquisição e seja porque nem todo o custo de aquisição gera direito ao creditamento na sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os valores despendidos pelo contribuinte substituído, a título de reembolso ao contribuinte substituto pelo recolhimento do ICMS-ST, não geram créditos das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não cumulativas. 10. Teses propostas para efeito de repetitivo: 10.1. Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77; e 10.2. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído. 11. Embargos de divergência em recurso especial providos. (EREsp n. 1.959.571/RS, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 20/6/2024, DJe de 25/6/2024.) Desta forma, considerando que, nos termos do artigo 99 do Regimento Interno do CARF, “[a]s decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.”, voto por negar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de manter as glosas efetuadas pela fiscalização. DA GLOSA DE DESPESAS COM ALUGUEL (ARRENDAMENTO MERCANTIL) Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a recorrente apresenta contratos de arrendamento rural com valores mensais líquidos e certos, cujo crédito é apropriado de acordo com a competência do arrendamento, e contratos indexados, prefixados em quantidade de sacas de soja. Esses úl timos foram objeto de glosa. Fl. 1387DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 78 Apesar de reconhecer que o aproveitamento de créditos sobre arrendamento rural está autorizado pelo artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, por estar compreendido nos conceitos de “aluguel” e de “prédio”, a fiscalização entendeu que tais contratos não se caracterizam como contratos de arrendamento rural, por terem seus preços predefinidos em quantidade fixa de produtos (sacas de soja), o que violaria condição obrigatória em lei, descaracterizando a natureza da contratação. Ressaltou, ainda, que “ao estabelecer a remuneração em quantidades fixas de produto, no caso, sacas de soja (ou o equivalente em dinheiro no pagamento), o arrendador está submetido ao risco da variação do preço da soja, não existindo, quando da contratação, a certeza do valor a receber, que poderá oscilar para mais ou para menos conforme o valor de mercado do produto à época do pagamento ”, situação que se amolda aos contratos de parceria rural, em que o proprietário concorre apenas com a terra nua, e que a variação do preço, por si só, é o risco partilhado pelas partes contratantes. Para fundamentar o seu entendimento, mencionou os seguintes dispositivos da Lei nº 4.504/64 (Estatuto da Terra) e do Decreto nº 59.566/66, que regulamentou a referida lei: Lei nº 4.504/64 (Estatuto da Terra) Art. 95. Quanto ao arrendamento rural, observar-se-ão os seguintes princípios : [...] XI - na regulamentação desta Lei, serão complementadas as seguintes condições que, obrigatoriamente, constarão dos contratos de arrendamento: a) limites da remuneração e formas de pagamento em dinheiro ou no seu equivalente em produtos; (Redação dada pela Lei nº 11.443, de 2007). [...] Art. 96. Na parceria agrícola, pecuária, agro-industrial e extrativa, observar-se-ão os seguintes princípios: [...] VI - na participação dos frutos da parceria, a quota do proprietário não poderá ser superior a: a) 20% (vinte por cento), quando concorrer apenas com a terra nua; [...] § 1 o Parceria rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso específico de imóvel rural, de parte ou partes dele, incluindo, ou não, benfeitorias, outros bens e/ou facilidades, com o objetivo de nele ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agroindustrial, extrativa vegetal ou mista; e/ou lhe entrega animais para cria, recria, invernagem, engorda ou extração de matérias -primas de origem animal, mediante partilha, isolada ou cumulativamente, dos seguintes riscos: Fl. 1388DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 79 I - caso fortuito e de força maior do empreendimento rural; (Incluído pela Lei nº 11.443, de 2007). II - dos frutos, produtos ou lucros havidos nas proporções que estipularem, observados os l imites percentuais estabelecidos no inciso VI do caput deste artigo; (Incluído pela Lei nº 11.443, de 2007). III - variações de preço dos frutos obtidos na exploração do empreendimento rural. Decreto nº 59.566/66 Art 3º Arrendamento rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de imóvel rural, parte ou partes do mesmo, incluindo, ou não, outros bens, benfeitorias e ou facil idades, com o objetivo de nêle ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agro-industrial, extrativa ou mista, mediante, certa retri buição ou aluguel, observados os l imites percentuais da Lei. [...] Art 18. O preço do arrendamento só pode ser ajustado em quantia fixa de dinheiro, mas o seu pagamento pode ser ajustado que se faça em dinheiro ou em quantidade de frutos cujo preço corrente no mercado local, nunca inferior ao preço mínimo oficial, equivalha ao do aluguel, à época da liquidação. Parágrafo único. É vedado ajustar como preço de arrendamento quantidade fixa de frutos ou produtos, ou seu equivalente em dinheiro. (Grifamos) Diante disto, a fiscalização entendeu por glosar os referidos créditos, por ausência de previsão legal para o seu aproveitamento. Por fim, ainda ressaltou que cerca de 80% dos créditos oriundos de contratos indexados foram escriturados de forma extemporânea, o que também impediria o seu aproveitamento. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente defende que a celebração de contratos com previsão de pagamento em sacas de soja é comum no agronegócio e que o art. 18 do Decreto nº 59.566, de 1966, tem sua aplicabilidade restrita a quem explore a terra pessoal e diretamente, sendo conferido, aos demais, a liberdade de contratar. Não estaria, assim, descaracterizado o contrato, mas tão somente configurada a abdicação de uma proteção por parte da empresa rural. Menciona que o STJ já decidiu que “o contrato de arrendamento rural que estabelece pagamento em quantidade de produtos pode ser usado como prova escrita para aparelhar ação monitória com a finalidade de determinar a entrega de coisa fungível, porquanto é indício da relação jurídica material subjacente” (Recurso Especial nº 1.266.975, Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva, J: 10/03/2016), e colaciona excerto do Parecer Técnico no sentido de que, em tais Fl. 1389DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 80 contratações, os valores estabelecidos em moeda nacional podem ser convertidos em comodities como a seja, no momento do pagamento. Cita, ainda, decisões deste e. CARF que supostamente corroborariam a sua pretensão, além de defender que, superada a questão relativa à legitimidade do crédito (materialidade), inexistiria vedação legal ao aproveitamento de créditos em períodos posteriores ao do registro das operações, mencionando especialmente o artigo 3º, §4º, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, hipótese que estaria contemplada, inclusive, nas linhas de preenchimento do DACON. É o que passo a apreciar. No que se refere à legitimidade do crédito, entendo que a controvérsia foi adequadamente dirimida pelo v. acórdão recorrido, razão pela qual transcrevo os fundamentos expostos no r. decisum, adotando-os como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: [...] no caso de arrendamento rural, o arrendatário pode calcular créditos no regime da não cumulatividade sobre os valores pagos com contraprestação pelo aluguel do prédio rústico ou imóvel rural. Até esse ponto, não há dissenso entre contribuinte e auditoria. A disputa se instala no entendimento fiscal de que contratos alvo da glosa, chamados de arrendamento rural, não teriam essa natureza por conta da fixação do valor em quantidade de frutos, no caso, a sacas de soja. O núcleo da discussão gira em torno da forma como os riscos são partilhados entre o proprietário do imóvel rural e aquele que o explora, dele extraindo os produtos agropecuários. Observem-se os dispositivos do Estatuto da Terra, instituído pela Lei nº 4.504, de 1964, e do Decreto nº 59.566, de 1966, que o regulamentou em parte: [...] Vê-se que os conceitos se assemelham quanto à cessão de uso de imóvel rural. Entretanto, a diferença de base entre eles é que, na parceria rural, a remuneração do proprietário da terra está necessariamente atrelada à partilha do risco da atividade, enquanto, no arredamento rural, a remuneração do proprietário é certa. No âmbito tributário, prevê o art. 59 do Regulamento do Imposto sobre a Renda (RIR/99), aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 1999, na seção que trata de rendimentos da atividade rural: RIR, de 1999: Art. 59. Os arrendatários, os condôminos e os parceiros na exploração da atividade rural, comprovada a situação documentalmente, pagarão o imposto, separadamente, na proporção dos rendimentos que couberem a cada um (Lei nº 8.023, de 1990, art. 13) Parágrafo único. Na hipótese de parceria rural, o disposto neste artigo aplica-se somente em relação aos rendimentos para cuja obtenção o parceiro houver assumido os riscos inerentes à exploração da respectiva atividade. [destaque acrescido] Fl. 1390DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 81 Portanto, a questão que importa examinar no presente caso, para avaliar a natureza do contrato firmado entre o proprietário rural e a interessada é a da existência de risco na exploração. Na inexistência de risco, configura-se arrendamento rural, sendo tributado pelas contribuições o rendimento de aluguel recebido pelo proprietário fazendo jus, na mesma medida, o arrendatário, ao crédito não cumulativo referente à contraprestação. Não desmente a contribuinte que, nos contratos que firmou e cujas contraprestações foram alvo da glosa, o valor foi combinado em quantidade de sacas de soja. Ora, sendo assim, o proprietário rural acaba partilhando com o produtor o risco das variações de preço do fruto resultado da exploração rural, o que afasta do acordo a natureza de arrendamento rural. Veja-se não se está aqui impedindo que os particulares exerçam a pactuação de suas livres vontades. O que ocorre é que o pacto tem repercussões tributárias que não se submetem à nomeação que lhes deu os pactuantes, mas à natureza jurídica do contrato. A partilha do risco da variação dos preços do fruto, as sacas de soja, desnatura o caráter de aluguel do imóvel relativamente aos valores pagos pelo uso do imóvel rural. Não cabendo cogitar de pagamento de aluguel, não há a atração do disposto no inciso IV, art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Correta a glosa efetuada pela fiscalização, portanto. Para finalizar a discussão, é necessário assinalar que a auditoria atuou apenas aplicando à situação de fato as repercussões tributárias da legislação do PIS/Pasep e da Cofins no regime da não cumulatividade que apenas admitem, no caso, a tomada de créditos sobre aluguel de prédios em conformidade com o disposto no art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Na situação examinada, os valores não correspondem a aluguéis como contraprestação pelo uso do prédio rural, o que afasta possibilidade de creditamento. Não houve a desconsideração do negócio praticado pela contribuinte, não havendo que invocar o disposto no art. 116, do CTN. No que se refere ao aproveitamento extemporâneo de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, resta prejudicada a alegação em razão do não reconhecimento da legitimidade do crédito. Por tais razões, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. DOS BENS DO ATIVO IMOBILIZADO Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a autoridade fiscal glosou créditos apropriados sobre bens do ativo imobilizado, por falta de comprovação de que estariam relacionados com a atividade da contribuinte. Segundo a fiscalização, as glosas tiveram como alvo serviços e obras de construção civil, associados às contas 1030202100 (CONSTRUCOES EM TERCEIROS), 1030202200 (BENFEITORIAS EM TERCEIROS) e 1030201013 Fl. 1391DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 82 (BENFEITORIAS), cujos valores de aquisição foram, em sua maioria, aproveitados em 24 meses. Conforme narra a autoridade fiscal, a fiscalizada não ofereceu, na resposta à intimação, justificativa para ter apropriado o crédito de imobilizado de forma acelerada, não sendo possível aferir se as edificações são novas ou se trata de reformas, ou mesmo se todas se destinam à produção de bens, havendo entre elas ampliações, oficinas, casa de máquinas, banheiros, depósitos, almoxarifados, armazéns, etc. Tampouco, foi possível, nestes casos, estabelecer-se uma correlação precisa entre os itens/valores/meses das planilhas “Doc_Comprobatorios01” (resposta à intimação) e “Imobilizado -Valor de Aquisição” (dados EFD-C), de modo que, o direito ao crédito acelerado (integral ou em 24 meses) sobre tais edificações não restou comprovado. Ao apreciar a manifestação de inconformidade, o v. acórdão recorrido entendeu por reconhecer parcialmente o direito creditório pleiteado, nos seguintes termos: A despeito da informação presente no relatório, esta relatoria entende que alguns itens objeto da glosa relacionada a edificações e benfeitorias, estão sim vinculados a atividades produtivas. Ademais, a própria planilha que serviu para orientar a glosa fiscal (arquivo não paginável anexo ao relatório fiscal – Glosa Imobilizado (Edificações e Benfeitorias) – Aba -> Edificações e Benfeitoria EFD-C traz informações sobre a Descrição do Item, o nome da conta analítica e a descrição do Centro de Custos em que o gasto foi alocado. Os Centros de Custo são identificados como, entre outros, Apoio Produção, Unid. Benef. Algodão, Unid. Benf. E Armaz. De Graos, Psicultura Producao, Uni. Benef. Sementes. Tais nomenclaturas vistas em conjunto com os descritores complementares dos bens, permitem concluir que parte deles efetivamente se relaciona à atividade de produção. Trata-se de bens como poço artesiano (Centro de Custo: Apoio Producao), ampliação fabrica racao (Centro de Custo: Apoio Producao), cobertura da câmara fria, base civil para prensa de fibrilha (Centro de Custo: Unid. Benef. De Algodao). Em sua defesa a contribuinte junta ainda planilha com a identificação dos itens no imobilizado. Portanto, entende-se que parte das glosas deve ser revertida. Planilha juntada aos autos por este relator em arquivo indica em colorido as glosas mantidas por não se relacionarem a centro de custos relacionados a atividades produtivas (Transportadora) e/ou porque o item descrito não se vincula a atividades produtivas (banheiros, alojamentos, casas, instalações das sedes, escritórios). Nessa medida, os valores dos créditos trimestrais deverão levar em conta as glosas revertidas nesse item, conforme planilha <DRJ Revisão Glosa Imobilizado (Edificações e Benfeitorias).xlsx>. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera as razões expostas na manifestação de inconformidade, mencionando a possibilidade de apropriação de créditos sobre aquisição de bens destinados ao ativo imobilizado, na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, e, na forma regular, nos termos do artigo 3º, inciso VI e VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Fl. 1392DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 83 Ressalta, ainda, que o artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 alcançaria, no conceito de edificação, “[...] todos os bens incorporados à obra civil, bem como obras preliminares e complementares, a exemplo do canteiro de obras, alojamento para operários, banheiros, almoxarifados, entre outros”. Por fim, defende que “[...] ainda que sejam refutados os argumentos até aqui expostos, que levam à reversão das glosas em questão, o que se admite apenas a título de argumentação, o fato é que o procedimento adotado pela Recorrente, relativamente à tomada de crédito de bens do ativo imobilizado (máquinas, equipamentos e edificações), não causou qualquer prejuízo ao fisco, como se pode verificar do demonstrativo elaborado pela Recorrente (vide doc. 10 da Manifestação de Inconformidade). Ou seja, também por esse motivo, não merece prosperar a glosa realizada pela fiscalização”. É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que, mesmo diante da reversão parcial das glosas pelo v. acórdão recorrido, a recorrente reitera integralmente as razões expostas na manifestação de inconformidade, sem trazer argumentos específicos para contestar as glosas mantidas. Conforme supra relatado, o v. acórdão recorrido reverteu as glosas sobre itens que considerou relacionados ao processo produtivo da empresa, mantendo as glosas exclusivamente sobre itens que, no seu entendimento, não se referem “a centro de custos relacionados a atividades produtivas (Transportadora) e/ou porque o item descrito não se vincula a atividades produtivas (banheiros, alojamentos, casas, instalações das sedes, escritórios)”. Quanto à controvérsia remanescente, merecem transcrição o artigo 3º, inciso VII, c/c §1º, inciso III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 e o artigo 6º da Lei nº 11.488/07: Lei nº 10.833/03 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] VII - edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, util izados nas atividades da empresa; [...] § 1º Observado o disposto no § 15 deste artigo, o crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art. 2º desta Lei sobre o valor: [...] III - dos encargos de depreciação e amortização dos bens mencionados nos incisos VI, VII e XI do caput, incorridos no mês; Lei nº 11.488/07 Fl. 1393DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 84 Art. 6 o As pessoas jurídicas poderão optar pelo desconto, no prazo de 24 (vinte e quatro) meses, dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins de que tratam o inciso VII do caput do art. 3 o da Lei n o 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e o inciso VII do caput do art. 3 o da Lei n o 10.833, de 29 de dezembro de 2003, na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para util ização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Conforme se verifica da leitura dos referidos dispositivos, o contribuinte pode se apropriar de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre “edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa”, com base nos encargos de depreciação incorridos no mês. Por sua vez, “na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços”, o contribuinte poderá optar pelo desconto de tais créditos, no prazo de 24 (vinte quatro meses). Desta forma, para apropriação de créditos na forma acelerada, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Foi justamente este o fundamento da glosa. Assim, considerando que a glosa remanescente alcança edificações e benfeitorias que não são utilizadas no processo produtivo da empresa, entendo correta a manutenção parcial da glosa, em razão da inexistência de permissão legal para apropriação de créditos na forma acelerada sobre tais itens, o que, obviamente, não impede a apropriação dos créditos nos termos do artigo 3º, inciso VII, c/c §1º, inciso III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. Quanto às glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado do acórdão paradigma: Não obstante as consistentes e bem fundamentadas razões apresentadas pelo eminente Relator, permito-me divergir exclusivamente quanto à conclusão por ele adotado no tocante ao creditamento sobre fretes de remessas de amostra grátis, de doações, de brindes ou de demonstrações e sobre serviços de monitoramento de veículos. No que tange aos fretes relacionados a remessas de amostras grátis, doações, brindes ou materiais destinados à demonstração, entendo que tais envios não se Fl. 1394DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 85 caracterizam como operação de venda, por não envolverem negócio jurídico translativo com circulação onerosa de bens. Ademais, no âmbito do PIS e da COFINS, a venda corresponde ao ingresso de receita decorrente da atividade econômica da pessoa jurídica, constituindo a materialidade das contribuições — o que evidentemente não se verifica nas remessas de amostras, brindes ou materiais destinados exclusivamente à demonstração. Nessa medida, tais dispêndios não se inserem no escopo das hipóteses que autorizam a apropriação de créditos da não-cumulatividade, em particular no inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833/03. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre fretes de remessas de amostra grátis, doação ou brinde, ou para demonstração. Por outro lado, acompanho o entendimento do Relator para afastar as glosas relativas aos fretes incidentes sobre bonificações em mercadorias. Isso porque tais bonificações guardam vínculo direto com a operação de venda, consistindo na entrega adicional de produtos ao adquirente como extensão da própria operação comercial — seja por incentivos, fidelização ou política promocional. Cuida-se, portanto, de prática inserida em negócio jurídico translativo com circulação onerosa de bens (venda), razão pela qual o respectivo frete integra os custos da operação de venda e permite o aproveitamento dos créditos. Sobre serviços de monitoramento (rastreamento) de veículos, nota-se que a parte Recorrente não exerce a atividade de serviço de transporte, alegando apenas que o serviço de rastreamento serve para bom funcionamento dos veículos utilizados pelos funcionários para descolar dentro de sua propriedade rural. Senão, vejamos: “Estacionamento, aluguel de veículos e rastreamento ➔ A empresa exerce atividades pulverizadas por toda a dimensão do estado do Mato Grosso, com fazendas se estendendo por milhares de hectares. Nesse contexto, o deslocamento de seus profissionais só é possível através de automóveis. Assim, impossível garantir o bom funcionamento da operação, se seus agrônomos, por exemplo, não possam se deslocar entre as terras, o que está, intrínseca e fundamentalmente, relacionado ao processo produtivo, além da qualidade do produto final. O estacionamento e rastreamento destes veículos são consectários naturais.” (página 78 do parecer técnico) Pois bem. O conceito de insumo para fins de creditamento no regime não cumulativo do PIS e da COFINS deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade e da relevância. Sob tal ótica, somente se qualificam como insumos os bens e serviços cuja ausência comprometa, de forma significativa, a realização Fl. 1395DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 86 da atividade econômica ou a qualidade do produto ou serviço oferecido pela pessoa jurídica. A essencialidade revela-se quando o dispêndio se mostra necessário ao desenvolvimento da atividade fim, de modo que sua supressão inviabilizaria ou prejudicaria substancialmente o processo produtivo. A relevância, por sua vez, manifesta-se quando o item, ainda que não estritamente indispensável, interfere diretamente na qualidade ou adequação do produto ou serviço, constituindo elemento relevante para o resultado econômico da atividade. Tal compreensão decorre da aplicação do chamado teste de subtração, utilizado pelo STJ no referido julgamento, mediante o qual se examina se a retirada do item compromete a execução, o resultado ou a qualidade do processo produtivo. Nessa linha, verifico que os gastos com serviços de rastreamento apontados pela recorrente não se enquadram nos critérios estabelecidos pelo STJ. Tais dispêndios não se destinam à produção agrícola nem guardam relação direta com a obtenção ou melhoria do produto. Sua supressão não inviabiliza a atividade produtiva, tampouco interfere em sua qualidade. Assim, não atendidos os critérios de essencialidade ou relevância, os valores despendidos com rastreamento, no caso concreto, não se qualificam como insumos para fins do art. 3º, II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, devendo ser mantida a impossibilidade de creditamento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente ci tados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de afastar as preliminares de nulidade e no mérito, em dar provimento parcial ao recurso em (a) reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); (b) reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; (c) reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; (d) reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; (e ) reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo e (f) reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira. Assinado Digitalmente Fl. 1396DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.478 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909883/2020-20 87 Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Fl. 1397DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10768.002359/97-72
Turma: Segunda Câmara
Seção: Terceiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Fri Jul 06 00:00:00 UTC 2001
Data da publicação: Fri Jul 06 00:00:00 UTC 2001
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR - EXERCÍCIO DE 1992.
COMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO DE IMPUGNAÇÕES DE ITR EM PRIMEIRA INSTÂNCIA.
A partir de janeiro de 1997, a competência para julgamento de impugnações de ITR, em primeira instância, é da Delegacia da Receita Federal de Julgamento que jurisdiciona o município de localização do imóvel rural (Lei nº 9.393/96, art. 4º).
NULIDADE.
É nula a decisão proferida por autoridade incompetente (art. 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72)
Anulado o processo, a partir da decisão de primeira instância, inclusive.
Numero da decisão: 302-34.871
Decisão: ACORDAM os Membros da Segunda Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, anular o processo a partir da decisão de Primeira Instância, inclusive, na forma do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Matéria: ITR - notific./auto de infração eletrônico - valor terra nua
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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Numero do processo: 10183.909878/2020-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 09 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 30 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/2016 a 31/12/2016
NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO.
O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2016 a 31/12/2016
REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte.
NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010.
As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados.
NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO.
É vedada a apropriação de créditos da(e) COFINS em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos.
NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188.
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188.
CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE.
A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02.
NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217.
Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217.
NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE.
Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003.
NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE.
São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22.
NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232.
As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas.
NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190.
Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190.
NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ.
Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL.
A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE.
Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03.
CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231.
O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231.
Numero da decisão: 3101-004.473
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares de nulidade. No mérito, em dar provimento parcial ao recurso nos seguintes termos: a) Por unanimidade de votos, reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); b) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; c) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; d) Por maioria de votos, reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; e) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo; f) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira; g) Por maioria de votos, manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos. Vencidos Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Conselheira Neiva Aparecida Baylon que reverteram as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com rastreamento de veículos e o Conselheiro Ramon Silva Cunha que manteve as glosas referentes aos fretes de remessas das bonificações. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.465, de 9 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.909896/2020-07, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (substituto[a] integral), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/10/2016 a 31/12/2016 NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2016 a 31/12/2016 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) COFINS em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231.
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DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2016 a 31/12/2016 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de Fl. 1306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 2 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) COFINS em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo Fl. 1307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 3 vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição Fl. 1308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 4 para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231. ACÓRDÃO Fl. 1309DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 5 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares de nulidade. No mérito, em dar provimento parcial ao recurso nos seguintes termos: a) Por unanimidade de votos, reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); b) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; c) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; d) Por maioria de votos, reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; e) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo; f) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira; g) Por maioria de votos, manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos. Vencidos Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Conselheira Neiva Aparecida Baylon que reverteram as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com rastreamento de veículos e o Conselheiro Ramon Silva Cunha que manteve as glosas referentes aos fretes de remessas das bonificações. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.465, de 9 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.909896/2020-07, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (substituto[a] integral), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Fl. 1310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 6 Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2016 a 31/12/2016 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. HIPÓTESES. NÃO OCORRÊNCIA. Não é nulo o despacho decisório quando não se verifica a ocorrência das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRINCÍPIOS. BUSCA DA VERDADE MATERIAL. OBSERVÂNCIA. Considera-se respeitado o princípio processual da busca pela verdade material quando a autoridade fiscal se empenha no exame da documentação probatória, inclusive intimando a contribuinte a prestar esclarecimentos no caso de inconsistências. PROCESSO ADMINSTRATIVO FISCAL. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA. O ônus da comprovação da certeza e liquidez do direito creditório oposto contra a Fazenda Pública objeto de pedido de ressarcimento recai sobre a contribuinte que o invoca. A não comprovação do direito compromete o deferimento integral do pleito. NÃO CUMULATIVIDADE INSUMOS. CONCEITO. PROCESSO PRODUTIVO. ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. GLOSA. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Somente podem ser considerados insumos os bens ou serviços que sejam essenciais ou relevantes ao processo de fabricação ou à prestação de serviços. Não se enquadram nessa hipótese as despesas não vinculadas ao processo produtivo ou à prestação de serviços ou aquelas inerentes às etapas de comercialização do produto pronto. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. Fl. 1311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 7 ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO CUMULATIVIDADE. GLOSA DE CRÉDITOS. PROPORCIONALIZAÇÃO. No regime da não cumulatividade, o rateio proporcional fundamentado em critérios racionais é recurso legítimo para a discriminação dos créditos relativos a bem ou serviços em função da natureza, origem e vinculação. A proporção entre a receita bruta e a receita de referência é a forma legítima para o cálculo do crédito vinculado à receita de referência (de mercado externo, interno não tributado, interno tributado, submetida a regime cumulativo, com suspensão, etc). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ROYALTIES. VEDAÇÃO. Os gastos com royalties não podem ser aproveitados como crédito no regime de incidência não-cumulativa do PIS/Pasep e da Cofins. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÃO. É vedada a apropriação de créditos em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE. POSSIBILIDADE. Somente dão direito a crédito no regime de incidência não-cumulativa os gastos com frete na operação de venda suportados pelo vendedor, aqueles que compõem o custo de insumo adquirido que também gere crédito e os relativos à movimentação interna de matéria-prima e produtos em elaboração, vedados os créditos referentes à movimentação de produtos acabados e fretes não relacionados à venda ou à produção. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. Os fretes incorridos na aquisição de insumos não estão abrangidos no conceito de insumos de forma autônoma. A possibilidade de creditamento deve ser analisada em relação aos bens adquiridos, e não em relação ao serviço de transporte considerado isoladamente. Não é permitido o creditamento sobre os fretes pagos na aquisição de bens sujeitos à alíquota zero, não incidência ou isentos. FRETES. INCONSISTÊNCIA DOCUMENTAL. COMPROVAÇÃO. GLOSA REVERSÃO. Fl. 1312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 8 Revertem-se as glosas de créditos tomados sobre dispêndios com fretes por inconsistência de informações documentais uma vez apresentada documentação comprobatória em sede de manifestação de inconformidade que atestam que os fretes foram incorridos em operações hábeis ao creditamento (frete no território nacional quando da importação de insumos e máquinas e equipamento incorporados ao ativo imobilizado utilizados na produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE. BENS RECEBIDOS OU ADQUIRIDOS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. A empresa comercial exportadora não pode calcular créditos sobre despesas com frete relacionados a produtos recebidos ou adquiridos com fim específico de exportação. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE BENS. INSUMOS. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E OBRA CIVIL. Não são considerados insumos os materiais de construção quando a dimensão dos gastos e a característica dos bens denotam que não se vincularam a manutenção regular, mas a emprego em reformas e construções que impõem a ativação dos gastos por aumentarem a vida útil do bem em mais de um ano. NÃO CUMULATIVIDADE. SERVIÇOS. MANUTENÇÃO CIVIL. Não são considerados insumos dispêndios com serviços quando suas características extrapolam a mera manutenção predial e quando a dimensão dos gastos e a identidade dos prestadores, construtoras, impõem a ativação dos gastos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. SERVIÇOS NÃO RELACIONADOS AO PROCESSO PRODUTIVO. Não se qualificam no conceito de insumos os serviços que não sejam relevantes ou essenciais ao processo produtivo, a exemplo de serviços portuários e de despachante aduaneiro, alocados em etapa posterior à produção. NÃO CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. A despesa com locação de veículo não gera direito a desconto de créditos no regime não cumulativo. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. DESPESAS PARA VIABILIZAÇÃO DA MÃO DE OBRA. CLÍNICA MÉDICA. VALE-ALIMENTAÇÃO. Não são considerados insumos as despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de saúde e seguro de vida. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. TRATAMENTO. Fl. 1313DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 9 O aproveitamento de créditos não informados à época própria deve ser precedido da retificação da documentação fiscal relativa ao período de competência do crédito até o período em que o crédito está sendo utilizado ou passa a ser objeto de pedido de ressarcimento. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS NÃO RELACIONADOS AO PROCESSO PRODUTIVO. Não se qualificam no conceito de insumos os bens e serviços que não sejam relevantes ou essenciais ao processo produtivo, a exemplo de vigilância e segurança e serviços portuários NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ICMS-ST. IMPOSSIBILIDADE. O ICMS-Substituição Tributária que consta na nota fiscal emitida pelo vendedor- substituto da mercadoria não compõe a base de cálculo das contribuições devidas por ele vendedor. Não havendo incidência de contribuição sobre o valor do ICMS- ST na etapa anterior, a parcela não gera crédito em consonância com o princípio do regime não cumulativo. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. Comprovada a vinculação de edificações e benfeitorias às atividades de produção, admite-se a tomada de créditos. A recorrente BOM FUTURO AGRICOLA LTDA, interpôs Recurso Voluntário, reiterando os argumentos expostos em sede de manifestação de inconformidade e pleiteando, em breve síntese, o seguinte: A Recorrente pleiteia, inicialmente, a reunião dos Processos Administrativos mencionados no item III do presente recurso, devendo ser regularmente processados e julgados os recursos voluntários em conjunto. Ademais, diante de todo o exposto e, com base nos fundamentos de fato e de direito acima narrados, devidamente suportados pelos documentos comprobatórios de seu direito, bem como pela jurisprudência colacionada, a Recorrente pleiteia que se DÊ PROVIMENTO a este Recurso Voluntário, para que, preliminarmente, seja reconhecida a nulidade do despacho decisório e do acórdão recorrido, por violação à verdade material. Fl. 1314DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 10 Caso assim não entendam Vossas Senhorias, o que se admite a título meramente argumentativo, a Recorrente requer, no mérito, seja DADO PROVIMENTO ao presente Recurso Voluntário, para que seja reformado o Acórdão recorrido, reconhecendo-se a nulidade do despacho decisório que veiculou glosas em desacordo com atos normativos da SRFB e/ou, caso sejam superadas as nulidades, sejam acolhidos os argumentos de fato e de direito para que seja reconhecido o direito aos créditos pleiteados, com o ressarcimento integral dos valores, devidamente atualizados, pois comprovadamente os bens e serviços adquiridos são essenciais para as atividades da Recorrente. Por fim, caso Vossas Senhorias entendam que sejam necessários novos elementos, em respeito ao princípio da verdade real e, principalmente, pelas inovações aos critérios jurídicos das glosas no acórdão recorrido, a Recorrente pleiteia que o presente processo seja baixado em diligência e/ou que lhe seja assegurada a produção de provas por todos os meios em direito admitidos, em especial pela posterior juntada de novos documentos. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado no acórdão paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever a parte vencida do voto do relator, que pode ser consultada no acórdão paradigma e deverá ser considerada, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado. Quanto à tempestividade, conhecimento e ao mérito, ressalvado quanto em manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto do relator do acórdão paradigma: O Recurso Voluntário é tempestivo e cumpre com os requisitos formais de admissibilidade, devendo, por conseguinte, ser conhecido. No que se refere ao pedido de julgamento, em conjunto, dos Recursos Voluntários interpostos nos processos administrativos decorrentes do mesmo procedimento de fiscalização, cumpre informar que o presente processo é paradigma dos demais, que estão contemplados no lote de repetitivo, devendo ser aplicada a mesma decisão a todos os casos. Fl. 1315DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 11 DA PRELIMINAR DE AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO R. DESPACHO DECISÓRIO E DO V. ACÓRDÃO RECORRIDO. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que “[...] o indeferimento parcial do crédito se fundou em presunções sobre a atividade econômica desenvolvida e a forma de tributação eleita, diante das inúmeras especificidades das operações empreendidas pela Recorrente. Tais vícios foram ratificados pelo v. acórdão recorrido, que praticamente repisou os fundamentos da instância de origem, desconsiderando todas as provas e razões de direito exploradas pela Recorrente em sua Manifestação de Inconformidade, inclusive assumindo premissas com base em meras presunções”. Alegando não ter havido a adequada análise do seu processo produtivo, das provas colacionadas aos autos e da legislação que disciplina a matéria, ressalta que a fiscalização teria se apegado “[...] a questões formais e em presunções de hipotéticas irregularidades que afastariam os créditos postulados” e que o v. acórdão recorrido “[...] simplesmente desconsiderou o conjunto probatório então apresentado, assim como todos os fundamentos de direito e explicações detalhadas a respeito do processo produtivo da Recorrente, basicamente ratificando o teor do despacho decisório”. Por tais razões, defende que “[...] haja vista a afronta aos princípios da motivação, ampla defesa, contraditório e segurança jurídica, faz-se necessária a declaração de nulidade do v. acórdão recorrido (e do despacho decisório), na parcela glosada dos créditos postulados”. Ao apreciar tais alegações, em sede de manifestação de inconformidade, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: [...] não procede a alegação da requerente de que não haveria motivação para as glosas e de que a auditoria, desconhecendo o processo produtivo desenvolvido pela empresa, não teria se empenhado em cumprir com o princípio da busca pela verdade material. Toda a motivação para as glosas, sem que ainda se avalie sua legitimidade concordando-se ou não com elas, está clara no Relatório Fiscal que integra o Despacho Decisório. Tanto foi clara a fundamentação que o contribuinte exerceu plenamente sua defesa, construindo manifestação de inconformidade em que demonstra ter conhecido das motivações da fiscalização. A questão quanto a eventual desrespeito na procura pela verdade material é referida pela contribuinte de forma genérica para todo o trabalho de auditoria e mais especificamente em relação a duas matérias de glosa de créditos: aquisição de bovinos e aquisição de materiais de construção civil, cujas implicações serão examinadas mais adiante neste voto. Antes de que se inicie a avaliação do mérito, importante realçar que o trabalho fiscal está bem organizado, contendo relatório fiscal que se refere aos documentos analisados, às planilhas de cálculo elaboradas e à legislação acionada pela auditoria no exame da legitimidade do crédito demandado, documentação toda essa reunida no e-dossiê nº 10265.004190/2021-10, não havendo até aqui como Fl. 1316DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 12 acolher a alegação de inobservância do princípio da busca pela verdade material, uso de presunções não previstas em lei ou falta de motivação. É o que passo a apreciar. Sem adentrar no mérito da controvérsia, cumpre destacar que todas as glosas foram devidamente motivadas no Relatório de Auditoria do Crédito do Pis e da Cofins, colacionado ao e-Dossiê 10265.004190/2021-10 (fls. 2044/2116), em que a fiscalização expõe individualizadamente as razões para indeferimento dos créditos pleiteados. Ressalta-se que tais informações foram suficientemente completas a ponto de permitir à Recorrente, tanto em sua manifestação de inconformidade, quanto no próprio Recurso Voluntário, suscitar uma ampla discussão acerca do mérito, o que não se coaduna com a hipótese de falta de motivação, e vai de encontro com a tese de cerceamento do direito de defesa. Da mesma forma, o v. acórdão recorrido apreciou todas as alegações suscitadas pela recorrente na manifestação de inconformidade, observando o princípio da livre convicção fundamentada, sendo certo que o mero inconformismo da recorrente com o entendimento exarado não gera por si só a nulidade do Despacho Decisório e/ou do v. acórdão recorrido, devendo as suas razões de insurgência serem apreciadas quando do julgamento do mérito do presente recurso. Diante do exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade do Despacho Decisório e do v. acórdão recorrido. DA PRELIMINAR DE IMPOSSIBILIDADE DE GLOSA DE CRÉDITOS EM DESACORDO COM ATOS NORMATIVOS DA SRF – SOLUÇÕES DE CONSULTA E INSTRUÇÕES NORMATIVAS Neste tópico, a recorrente sustenta que, ao fundamentar as glosas combatidas, “[...] a Autoridade Fiscal deixou de observar o que dispõem os atos normativos da própria Receita Federal do Brasil, notadamente: (i) Parecer Normativo Cosit nº 5/2018; e (ii) Instrução Normativa RFB nº 1.911/2019; (iii) Soluções de Consulta — Disit nº 6.026/2021 e 6.027/2021, às quais vinculam a administração tributária, nos termos do disposto no art. 9º, da IN RFB nº 1.396, de 16/09/2013”, razão pela qual pleiteia a nulidade do Despacho Decisório. Não assiste razão à recorrente. Conforme já nos manifestamos, não se vislumbra nulidade no Despacho Decisório que motivou cada uma das glosas efetuadas, existindo mero inconformismo da recorrente com o entendimento exarado. Fl. 1317DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 13 Da mesma forma, não houve inobservância do Despacho Decisório aos atos normativos mencionados, existindo apenas divergência interpretativa acerca da aplicação das normas ao caso concreto. Diante disto, voto por rejeitar a preliminar de inobservância aos entendimentos vinculantes proferidos no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil. DOS CRÉDITOS DA NÃO-CUMULATIVIDADE E DA ATIVIDADE DESENVOLVIDA PELA RECORRENTE No julgamento do REsp nº 1.221.170, em sede de Recurso Repetitivo, o Superior Tribunal de Justiça, além de reconhecer a ilegalidade da disciplina de creditamento prevista pelas Instruções Normativas da RFB n° 247/2002 e 404/2004, fixou o entendimento de que “[...] o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, ou seja, considerando- se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela contribuinte”. Em breve síntese, a essencialidade consiste na imprescindibilidade do item do qual o produto ou serviço dependa, intrínseca ou fundamentalmente, de forma a configurar elemento estrutural e inseparável para o desenvolvimento da atividade econômica, ou, quando menos, que a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, com base no critério da relevância, o item pode ser considerado como insumo quando, embora não indispensável ao processo produtivo ou à prestação do serviço, integre o seu processo produtivo, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva, seja por imposição legal. Ainda, questão bastante relevante fixada no referido julgamento, mas nem sempre observada, se refere à dimensão temporal dentro da qual devem ser reconhecidos os bens e serviços utilizados como insumos. Pela clareza e didática, cumpre reproduzir a doutrina de Marco Aurélio Greco expressamente citada no julgamento do REsp nº1.221.170: De fato, serão as circunstâncias de cada atividade, de cada empreendimento e, mais, até mesmo de cada produto a ser vendido que determinarão a dimensão temporal dentro da qual reconhecer os bens e serviços utilizados como respectivos insumos. [...] Cumpre, pois, afastar a idéia preconcebida de que só é insumo aquilo direta e imediatamente utilizado no momento final da obtenção do bem ou produto a ser vendido, como se não existisse o empreendimento nem a atividade econômica como um todo, desempenhada pelo contribuinte. (...) Fl. 1318DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 14 O critério a ser aplicado, portanto, apóia-se na inerência do bem ou serviço à atividade econômica desenvolvida pelo contribuinte (por decisão sua e/ou por delineamento legal) e o grau de relevância que apresenta para ela. Se o bem adquirido integra o desempenho da atividade, ainda que em fase anterior à obtenção do produto final a ser vendido, e assume a importância de algo necessário à sua existência ou útil para que possua determinada qualidade, então o bem estará sendo utilizado como insumo daquela atividade (de produção, fabricação), pois desde o momento de sua aquisição já se encontra em andamento a atividade econômica que – vista global e unitariamente – desembocará num produto final a ser vendido. 1 (Grifamos) Assim, não configura insumo apenas aquilo que é utilizado direta e imediatamente na prestação de serviços e/ou na produção de produtos, mas tudo aquilo que é essencial e relevante para o desempenho da atividade econômica que desembocará numa prestação de serviço ou na venda de um produto. Tal compreensão é imprescindível para análise de qualquer caso envolvendo direito creditório. Além disto, para fins de análise do direito ao creditamento, não podemos analisar a atividade exercida pela empresa de forma teórica, focando exclusivamente naqueles itens imprescindíveis para uma atividade genericamente considerada. Pelo contrário, devemos estar atentos às peculiaridades de cada atividade específica, analisando em cada situação aquilo que cumpre com os critérios de essencialidade e relevância no caso concreto. Por fim, cumpre ressaltar que, no voto vencedor, o Ministro Relator Napoleão Nunes Maia Filho ainda afasta expressamente a aplicação do artigo 111 do CTN aos casos envolvendo direito creditório, ressaltando que o creditamento não consiste em benefício fiscal, de modo que não há de ser interpretado de forma literal ou restritiva. Para afastar de vez a compreensão equivocada de que o direito creditório decorrente da não-cumulatividade configuraria benefício fiscal, cumpre reproduzir as diversas funções da não-cumulatividade, elencadas por André Mendes Moreira em seu “A não-cumulatividade dos tributos”2, que demonstram que tal princípio, e a correspondente sistemática de apuração, não busca um benefício individual, pelo contrário, persegue diversos objetivos coletivos da sociedade, entre eles: (a) a translação jurídica do ônus tributário ao contribuinte de facto, não onerando os agentes produtivos; (b) a neutralidade fiscal, de modo que o número de etapas de circulação da mercadoria não influa na tributação sobre ela incidente; 1 Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS, in Revista Fórum de Direito Tributário - RFDT, Belo Horizonte, n. 34, jul./ago. 2008, p. 6 2 MOREIRA, André Mendes. A não-cumulatividade dos tributos. 4ªed., rev. e atual., São Paulo: Noeses, 2020, pg. 120. Fl. 1319DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 15 (c) o desenvolvimento da sociedade, pois a experiência mundial denota que a tributação cumulativa sobre o consumo gera pobreza, pois encarece a circulação de riquezas; (d) a conquista de mercados internacionais, permitindo-se a efetiva desoneração tributária dos bens e serviços exportados (impraticável no regime cumulativo de tributação); (e) a isonomia entre produtos nacionais e estrangeiros, pois a não-cumulatividade possibilita a cobrança, na importação, de tributo em montante idêntico ao suportado pelo produtor nacional. Com base em tais premissas e considerando que a adoção dos critérios fixados pelo STJ demanda a análise da essencialidade e relevância do insumo ao desenvolvimento da atividade empresarial do contribuinte, pertinente trazer considerações acerca da atividade exercida pela recorrente. Por bem descrever o objeto social da recorrente, merece transcrição o artigo 3º do seu Contrato Social: CLÁUSULA TERCEIRA: A Sociedade tem por objeto social a exploração das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; a fabricação de rações balanceadas, concentrados, sais minerais e produtos de suplementação mineral e proteica, comercialização no mercado interno e externo mediante importação e exportação dos produtos retro mencionados; a comercialização no mercado interno mediante compra e venda dos produtos e subprodutos oriundos das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; a comercialização no mercado externo mediante importação e exportação dos produtos e subprodutos oriundos das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; o comércio e representação de adubos e fertilizantes, fungicidas, herbicidas, inseticidas, medicamentos, vacinas, produtos agrícolas, pecuários e veterinários em geral; o comércio atacadista e varejista de cereais, sementes, corretivos para o solo, algodão em pluma e em fardos e outros produtos agrícolas; transporte rodoviário de cargas, agenciamento de cargas; a locação de veículos, equipamentos e máquinas; a fabricação de óleos vegetais em bruto, a extração de óleo de caroço de algodão; extração, tratamento, beneficiamento e comércio de madeiras nativas e de reflorestamento; beneficiamento de algodão, caroço de algodão, sementes de algodão, sementes de soja, sementes de milho; secagem, limpeza, expurga de sementes e cereais em estado natural, ensacados ou a granel; armazenamento de sementes, cereais, fertilizantes, corretivos para o solo, algodão em pluma e em fardos e outros produtos agrícolas; piscicultura, criação, comercialização e exportação de peixes de água doce, in natura, frescos e congelados; e a participação como quotista ou acionista em outras empresas, comercio, armazenagem, manipulação, formulação, produção, fabricação, importação, controle de qualidade, transportes, pesquisa e desenvolvimento experimental de: agrotóxicos e seus componentes e afins (incluindo produtos de origem biológica), Fl. 1320DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 16 adubos, fertilizantes e inoculantes, importação, exportação, comercialização, fabricação, formulação, produção, manipulação, armazenagem, controle de qualidade, transporte, pesquisa e desenvolvimento de: inoculantes, fertilizantes, agrotóxicos seus componentes e afins (incluindo produtos de origem bioquímica e biológica para agricultura convencional e orgânica), reembalador de sementes, atividades após colheita. Por pertinente, transcrevo também excerto do Recurso Voluntário - corroborado por Laudo técnico elaborado internamente (juntado aos autos com a manifestação de inconformidade) e Parecer Técnico elaborado pela Pedrosa Consultores Associados (juntado aos autos com o Recurso Voluntário) - no qual a recorrente sintetiza o seu processo produtivo: [...] a Recorrente desenvolve, há mais de 40 anos, atividade econômica nas áreas da agricultura, pecuária, sementes e piscicultura, conforme se constata do seu contrato social. Eis uma fotografia de uma de suas unidades produtivas (extraída da página 13 do Parecer Técnico): Vale destacar que, conforme demonstrado no Parecer Técnico, há uma interligação entre tais atividades, “que reflete na apuração de créditos de PIS/COFINS. Uma atividade econômica pode resultar em produção de bens e serviços para mercado ou insumos para outra atividade desenvolvida” (página 10). Considerando os temas ora envolvidos, a seguir serão detalhadas as três primeiras atividades (agricultura, pecuária e sementes). A) AGRICULTURA Atualmente, a Recorrente é o maior produtor individual de soja no mundo e o maior na cultura do algodão no Brasil, possuindo uma área total aproximada de 583 mil hectares cultivados no Estado do Mato Grosso, na qual são produzidas cerca de 1,3 milhão de toneladas de soja e 300 mil toneladas de pluma de algodão por safra. Antes de prosseguir, é importante fazer uma contextualização. Considerando que pode ser difícil para quem não está familiarizado com o meio rural compreender o significado de 583 mil hectares, vale uma explicação. Para efeito de comparação, a cidade de São Paulo tem uma área de 1.521 km², o que corresponde a 152.100 hectares. Assim, a área cultivada pela Recorrente, somando a safra principal e a safrinha, é quase quatro vezes maior que a área da cidade de São Paulo. Essa comparação é feita para não apenas destacar as vastas dimensões da operação da Recorrente, mas também ressaltar a importância de se analisar Fl. 1321DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 17 cuidadosamente a essencialidade dos produtos utilizados nessa imensa indústria ao ar livre. Continuando. Conforme consta da página 24 do Parecer Técnico, a atividade operacional é dividida entre 38 unidades centralizadoras de produção; 21 unidades de beneficiamento e armazenamento de grãos; 09 unidades de beneficiamento de algodão; e 03 unidades de beneficiamento de sementes, distribuídas em diversos municípios do Estado de Mato Grosso. Registre-se que as referidas culturas levam, em média, 130 dias entre o plantio e o fruto pronto e disponível para a comercialização. O ciclo se inicia no preparo da terra, com a análise da boa qualidade física e estrutural e dos nutrientes presentes no solo e a implementação de medidas, se necessárias, para suprir as demandas nutricionais do local. E uma vez constatada a viabilidade do solo, segue-se para o plantio de sementes que, por sua vez, são previamente selecionadas e sujeitas a um processo de beneficiamento realizado com a utilização de avançada tecnologia genética de alta complexidade e relevância. Nesse contexto, insta salientar que, na atividade agrícola da Recorrente, a semente é o seu principal insumo. Isso pois, para um bom plantio, é imprescindível que as sementes utilizadas possuam boa qualidade física, fisiológica, sanitária e genética, de modo que todos os custos que são empreendidos para a sua aquisição e/ou beneficiamento, torna-se indispensável para a perfeita eficiência e realização da atividade agrária. Em outras palavras, sementes de baixa qualidade ou que não possuem traços genéticos adequados a possibilitar um bom plantio podem ser fontes de desenvolvimento de doenças, contribuindo para a inserção de pragas e doenças na lavoura, assim como representam um aumento significativo de mão de obra e recursos financeiros. A esse respeito, eis excerto do Parecer Técnico ora apresentado: “Diante das informações acima dispostas sobre o processo produtivo da BOM FUTURO, é possível constatar que para o desenvolvimento da atividade de agricultura, a empresa depende da aquisição de itens indispensáveis (a indispensabilidade desses itens está relacionada à ligação direta com a sua eficiência e capacidade produtiva), sendo eles: a) Sementes: Sementes de qualidade propiciam melhores características para culturas agrícolas plantadas. Semente tratadas possuem reguladores de crescimento, micronutriente e inoculantes, que contribuem para o desenvolvimento das plantas, deixando-as mais sadias e resistentes. Considerando que o grupo BOM FUTURO é um dos três maiores produtores agrícolas do Brasil, a utilização de sementes tratadas é fundamental para a realização de suas atividades agrícolas; b) Instalações diversas: As instalações possibilitam racionalizar a produção agrícola, ou seja, trazem eficiência e eficácia ao processo produtivo, protegendo os cultivos das intempéries. Essas instalações necessitam de Fl. 1322DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 18 manutenção constante. Portanto, materiais de construção são elementos imprescindíveis no dia a dia da empresa; c) Fertilizantes e Defensivos: A utilização de fertilizantes e defensivos tem como finalidade o aumento da produtividade e o controle de pragas que possam prejudicar o cultivo; d) Peças para manutenção de aeronaves: A utilização de aeronaves na agricultura tem como finalidade a pulverização de defensivos em propriedades de grande extensão (como a BOM FUTURO, que possui cerca de 583 mil hectares), além disso, pode ser utilizada no combate de possíveis incêndios.” (página 28 do Parecer Técnico – destacamos) Registre-se que, após alguns dias de vida da planta, ocorre o manejo com adubagem e pulverizações para o controle de insetos, fungos e ervas daninhas. E com aproximadamente 110 dias de extremos cuidados, a cultura passa à fase da maturação e, por conseguinte, da colheita, que só pode ocorrer quando a cultura atingir a maturação fisiológica e a umidade ideal para tanto, sob o risco de perda de produtividade. Com a finalização da colheita, os frutos são transportados para os armazéns ou para as unidades de beneficiamento da Recorrente para as etapas de limpeza, secagem, padronização e, por fim, armazenagem. Somente a partir de então é que os produtos estarão prontos para serem comercializados ou utilizados para a produção de rações especiais que serão destinadas para o uso interno da Recorrente (que, como visto, atua também no setor pecuário). B) SEMENTES Conforme acima mencionado, a semente utilizada pela Recorrente possui um processo produtivo próprio (anterior, portanto, ao processo agrícola), já que é responsável em boa parte pelo resultado da colheita. A cadeia produtiva da semente se inicia com as pesquisas de cruzamentos varietais e inserção genética de genes que podem proporcionar resistência a pragas e doenças, definição de ciclos e grupo de maturação, arquitetura de planta, produtividade entre outros inúmeros atributos. Acerca desse tema, foi apresentado com a Manifestação de Inconformidade um Laudo Técnico formulado pela equipe técnica da Recorrente, com a integralidade da descrição dos processos empreendidos nas sementes (doc. 01 da Manifestação de Inconformidade). De acordo com o referido trabalho, a Recorrente, enquanto produtora devidamente cadastrada junto das entidades reguladoras (MAPA e INDEA) e atenta às necessidades de plantio sustentável e eficaz, adquire sementes com melhoramento genético das obtentoras de tecnologia, mediante contratos de licenciamentos remunerados por royalties, dando início à produção segundo o fluxo abaixo: Fl. 1323DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 19 Note-se que, para a produção de sementes, é exigido o credenciamento junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), ao Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (INDEA) e, ainda, ter inscrição no Registro Nacional de Sementes E Mudas (RENASEM), com a indicação de um responsável técnico habilitado. Quanto ao credenciamento, somente é deferido quando comprovado o atendimento dos seguintes requisitos: ▪ Preenchimento de formulário padrão de inscrição de campos; ▪ Comprovante da taxa de recolhimento referente a área; ▪ Anotação de responsabilidade técnica com projeto técnico de execução; ▪ Croqui de localização dos campos seguidos de coordenadas georreferenciadas; ▪ Apresentação das Notas Fiscais (NFs) de origem das sementes com seus respectivos documentos (termos de conformidades para S1 e S2 ou certificado de sementes para C1, C2 e básica e o boletim de análise de semente); e ▪ A autorização do obtentor da cultivar e da tecnologia empregada nas sementes com direitos de patentes. Essa autorização de multiplicação é fornecida por meio de contratos de licenciamentos para fins de recolhimentos de royalties. Nesse cenário, a Recorrente adquire sementes com melhoramento genético (cultivares), destinando-as como matéria-prima para uma das unidades de beneficiamentos, processamento e armazenamento. UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES (FAZENDA FARTURA - CAMPO VERDE/MT) Já na unidade de beneficiamento processam-se as seguintes etapas: pesagem nas moegas recebedoras; separação de acordo com a cultivar presente em cada Fl. 1324DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 20 semente (traço genético obtido com a aplicação de tecnologia do germoplasma); recepção; classificação; avaliação de dano mecânico; e a descarga da massa de grãos. Na etapa seguinte, realiza-se a limpeza dos grãos, onde são retiradas as impureza e fragmentos de grãos que serão descartados do processo de produção de sementes. A limpeza dos grãos também é realizada de forma segregada por cada cultivar, sendo que as máquinas de secagem são previamente preparadas e configuradas para receber um tipo específico por vez. MÁQUINA DE PRÉ-LIMPEZA UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Quando do processo de secagem, é feita retirada do excesso de água, sendo o grão encaminhado para a etapa seguinte, de classificação por forma – realizado por um conjunto de espiral, selecionando os grãos redondos perfeitos; por diâmetro – realizado por um conjunto de peneiras, onde utiliza-se a circunferência em medida de milímetros para a seleção; e por peso, em que somente são os grãos pesado, descartando-se os leves. CONJUNTO DE ESPIRAL (ESQ.) E CONJUNTO DE PADRONIZADORES POR PENEIRAS (DIR.) PARA CLASSIFICAÇÃO DE GRÃOS – UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Fl. 1325DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 21 VISTA GERAL DO EQUIPAMENTO – UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Após a classificação, os grãos são envazados em bags ou sacos, devidamente identificados por peso, informações da cultivar, peneira, categoria produzida, safra e validade dos documentos oficiais de qualidade; sendo enviados na sequência para a armazenagem e controle de qualidade da produção. BAG DE ENVASAMENTO DAS SEMENTES, COM AS INFORMAÇÕES DA FORMAÇÃO DO LOTE ARMAZÉM DE SEMENTES BENEFICIADAS Por sua vez, na etapa de avaliação técnica são realizadas as averiguações da qualidade fisiologia (germinação e vigor) e da qualidade física por meio de testes específicos em laboratório próprio. Após a finalização das análises são emitidos documentos oficiais através do boletim de análises que geram os termos de conformidade e certificados conforme as categorias das sementes produzidas. Fl. 1326DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 22 LABORATÓRIO DE ANÁLISES DAS SEMENTES Cumpre registrar que a saída do armazém se dá mediante a emissão de Notas Fiscais, com a remessa das sementes aos campos produtivos para operação de plantio gerando grãos comerciais, ou podendo gerar uma nova geração de sementes, reiniciando a cadeia de produção de sementes descrita acima. EVOLUÇÃO DO GRÃO DESTINADO A PRODUÇÃO DE SEMENTE Após a emissão das NFs, comprova-se o uso das sementes e, consequentemente, do benefício das cultivares inseridas por melhoramento genético nesse insumo, gerando as quantidades (em toneladas ou quilos) de utilização da semente de cada cultivar e procedendo-se, assim, ao pagamento dos royalties pertinentes ao contrato de licenciamento junto ao detentor da tecnologia. C) PECUÁRIA De acordo com o Parecer Técnico ora anexado, “a BOM FUTURO atua dentro do seguimento da pecuária, com um rebanho bovino circulante de aproximadamente 130 mil cabeças de gados das raças Nelore e cruzamento industrial em sistemas de semiconfinamento e confinamento. A vasta experiência e o auxílio da tecnologia, permitiram a BOM FUTURO construir e implementar o maior projeto de integração lavoura-pecuária (ILP) do mundo, com uma área de 31 mil hectares para essa modalidade” (página 29) Assim, unindo uma vasta experiência no ramo e o auxílio de tecnologia, a Recorrente desenvolve um perfeito sistema de integração lavoura-pecuária (ILP), consistente na recuperação de áreas de pastagens degradadas, explorando no mesmo local, em rotação ou sucessão, diferentes sistemas de plantio, como o sistema de grãos, destinado a produção de alimentação para o próprio rebanho. Fl. 1327DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 23 Ou seja, na mesma área e em épocas diferentes, a Recorrente promove a exploração de atividades agrícolas e pecuárias, de forma a otimizar e intensificar o uso dos recursos naturais, causando menor impacto ao meio ambiente. Dito de outro modo, o processo produtivo empreendido pela Recorrente, em relação aos bovinos, engloba (i) a aquisição de novilhos; (ii) a realização de pesquisas e produção de ração de alta qualidade genética e nutricional, que é utilizada na recria e engorda (beneficiamento) do rebanho; e (iii) a venda do gado para abate. Ainda a respeito da pecuária, merece destaque o seguinte excerto do mencionado Parecer Técnico: “Para o desenvolvimento da pecuária em tamanha escala é indispensável itens tais como: a) Aquisição de bovinos: Atividade comum a todo e qualquer pecuarista de corte, devido à alta rotatividade do “estoque”. A aquisição de novos animais para engorda e reposição é essencial a prática pecuarista, sendo um dos principais insumos da atividade de engorda para venda do gado vivo. b) Instalações diversas: As instalações possibilitam o bom manejo do rebanho que, consequentemente, reduz possíveis custos veterinários, promovendo maior rentabilidade ao pecuarista. Essas instalações, necessitam de manutenção constante. Portanto, os materiais de construção são elementos imprescindíveis no dia a dia da empresa; c) Milho: Considerado o principal grão para a produção de rações destinadas à pecuária, o milho, além do cultivo “fácil”, dispõe de nutrientes e é livre de substâncias tóxicas aos rebanhos, o que o torna elemento indispensável na alimentação de criações (bovinos, suínos e aves).” (página 31 – destacamos) Cumpre esclarecer ainda que os novilhos adquiridos são submetidos ao Sistema Oficial de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos - SISBOV, por meio do qual são implantados chips e brincos nos animais, que possibilitam o monitoramento da evolução dos processos de recria e engorda, garantindo a procedência e a rastreabilidade bovina. Portanto, dentro do processo produtivo da Recorrente, destacam-se 03 (três) atividades básicas: (1) a recria; (2) a engorda; e (3) a fabricação da ração especial própria, para propiciar o beneficiamento do bovino, enquanto atividade industrial de transformação da matéria-prima. Atividade de Recria Conforme página 31 do Parecer Técnico, a fase de recria inicia-se no momento da aquisição, pela Recorrente, dos bezerros desmamados ou de animais com até 16 meses, com peso estimado entre 180 e 220 kg, encerrando-se na fase de engorda dos bovinos. Logo na entrada, os animais são submetidos com a uma triagem inicial em curral para pesagem, brincagem, inclusão no sistema SISBOV, conferência física, vacinação e tratos sanitários. Fl. 1328DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 24 Após a triagem, os animais são separados em lotes respeitando a idade, sexo, peso individual e raça, sendo destinados a estruturas de recria semi-intensiva, onde podem permanecer por até 05 meses, em processo de adaptação ao manejo alimentar, com o fornecimento de ração a pasto. Na fase de recria os animais recebem sal mineral e rações fabricadas pela própria Recorrente, garantindo o balanceamento energético proteico adequado ao crescimento e desenvolvimento da carcaça do animal. O principal objetivo nesse momento, assim, é o desenvolvimento do novilho, para que ele possa expressar ao máximo o seu potencial genético, ganhando estrutura e o peso ideal para a raça, no menor tempo possível. Nessa etapa do processo produtivo, são ofertados de 02 a 04 kg de ração por dia confeccionada pela própria Recorrente, permitindo a alta taxa de lotação das pastagens, chegando a 15 unidades animal por hectare, onde há o pastejo para oferta de volumoso e a oferta do concentrado energético / proteico em estrutura de cochos cobertos. Observe-se as ilustrações abaixo: CURRAL DE TRIAGEM DOS NOVILHOS BRINCAGEM PARA INCLUSÃO NO SISTEMA SISBOV E MONITORAMENTO DAS ETAPAS DE RECRIA E ENGORDA FASE DE RECRIA – NOVILHO EM ESTRUTURA SEMI-INTENSIVA, COM O FORNECIMENTO DE RAÇÃO CONFECCIONADA PELA BOM FUTURO EM ESTRUTURA DE COCHOS COBERTOS Fl. 1329DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 25 Ainda na recria, impõe-se a utilização de estruturas de dessedentação para fornecimento de água limpa, estruturas de cercas e divisões, bem como a manutenção de vias de acesso para fazer a suplementação diária dos animais. Vale mencionar também que as estruturas de cochos compõem parte da infraestrutura, ao passo que os currais de manejo são ferramentas de trabalho para embarque e desembarque, além da realização dos tratos sanitários e de rastreabilidade. Nesta fase o principal propósito é a obtenção de um animal saudável, com grande desenvolvimento da carcaça, saindo de cerca de 180/220kg para 300/320kg. A partir disso, o animal segue para a etapa de engorda, com grande performance e adaptação ao sistema de suplementação. Atividade de Engorda De acordo com o exposto na página 32 do Parecer Técnico, na fase de engorda os animais podem possuir duas origens: a remessa da etapa de recria, onde o animal já está inserido e adaptado ao manejo tecnológico da Recorrente; ou via aquisição de garrotes (animais de 18 a 24 meses), que entrarão direto no processo de engorda. Durante a fase de engorda, os bovinos recebem uma alimentação específica para aumento de peso e deposição de gordura, com o objetivo de produzir mais carne e de melhor qualidade, agregando o máximo de valor possível. Trata-se de etapa que demanda um maior tempo de pastagens e o oferecimento de suplementação com elevado custo nutricional, o que implica em dispêndios de maiores investimentos. Outrossim, sua consecução pode se dar mediante o fornecimento de alimentação/suplementação nas modalidades de semiconfinamento ou confinamento: ▪ Semiconfinamento: constituída por 215 pontos estruturais para oferta de ração e suplementação, denominadas “praças de alimentação”, referidas áreas podem ser utilizadas para implementação do sistema (ILP), ora ocupadas com agricultura ora para pastagens. Os animais são integrados a partir da finalização da atividade de recria, ao atingirem o peso intermediário de 300 a 320 kg, e podem permanecer nesta fase pelo período de 90 a 120 dias, sendo submetidos ao manejo e fornecimento de ração de 08 a 12kg diários. Para a dessedentação são utilizados grandes reservatórios destinados a distribuição de água. A oferta de volumoso é feita através do pastejo da gramínea cultivada. O ganho médio diário de peso nesta modalidade fica em torno de 1.200 a 1.400 gramas ao dia, possibilitando assim um melhor controle temporal da oferta do animal acabado ao frigorífico. Fl. 1330DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 26 VISÃO GERAL SEMICONFINAMENTO (ESQ.) E PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO (DIR.) – FASE ENGORDA CAMINHÃO REALIZANDO A DISTRIBUIÇÃO DA RAÇÃO NOS COCHOS – FASE ENGORDA/SEMICONFINAMENTO BOVINOS COMENDO A RAÇÃO OFERTADA EM COCHO – FASE ENGORDA/SEMICONFINAMENTO ▪ Confinamento: é constituído por 34 boxes destinados a engorda, com capacidade estática de cerca de 5.000 animais. As atividades se concentram no período de abril a novembro, tendo as condições climáticas de chuvas como limitação da atividade. Nesta modalidade os animais permanecem de 60 a 90 dias recebendo a dieta alimentar integral no cocho, sendo ofertado 10 kg de ração própria adequada e balanceada, e de 10 a 12 kg de volumoso (silagem de milho, de capim e/ou resíduos de algodoeiras) para complementar a dieta. Há um ganho médio de peso diário de 1.750 gramas por dia, sendo que o sucesso do processo de engorda está condicionado (i) à qualidade da ração; (ii) na quantidade de ração ofertada; e (iii) na ambiência e bem-estar proporcionado ao animal durante sua estadia nos boxes de confinamento de engorda. Por conta disto, tal modalidade demanda para além dos cuidados diários com a alimentação e nutrição, o dispêndio de custos com irrigação, limpeza, oferta de água renovável nos bebedouros e pela implantação de sombras artificias para conforto térmico. Sendo, portanto, uma modalidade muito mais onerosa para a Recorrente. Fl. 1331DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 27 Ao atingir a terminação (finalização da engorda), o animal é vendido para os frigoríficos, com finalidade de abate, com preceitos de acabamento de gordura e marmorização de carne desejada para atender o mercado consumidor. [...] VISÃO GERAL SISTEMA DE CONFINAMENTO – FASE ENGORDA [...] VOLUMOSO (SILAGEM DE MILHO, CAPIM E RESÍDUOS DE ALGODOEIRAS) PARA COMPLEMENTAR A DIETA Fabricação de Ração e Suplemento Mineral A Recorrente dispõe de 08 unidades de fabricação de ração para uso próprio, que compreende desde a elaboração dos núcleos e sais minerais a serem empregados nestas rações, até as fases de mistura, envase, armazenamento e efetiva oferta ao rebanho nas etapas de recria e engorda. Referida produção atinge a capacidade diária de 1.500 toneladas/dia, utilizando tanto elementos de produção própria, quanto de mercadoria adquiridas de terceiros, levando em conta a demanda da área de produção junto a recria e engorda e a quantidade de animais. A produção do suplemento mineral (aditivo minerais e aminoácidos) e formulação de núcleos utilizados na composição das rações são produzidos exclusivamente na planta fabril de Campo Verde, e deste local é realizada a remessa às demais fábricas e estabelecimentos da Recorrente, para uso como suplementos minerais e núcleos aditivos de rações. Dentre os insumos utilizados para a fabricação da ração especial bovina, destacam- se os itens de produção própria de origem vegetal, milho, sorgo e derivados de algodão (torta, caroço e briquete formado a partir da prensa de capulhos de algodão). Podem, ainda, serem agregados alguns produtos adquiridos de terceiros, como farelos e base de soja. Todos esses insumos são submetidos ao processo de transformação por meio de moagem e/ou esmagamento, oportunidade na qual passam a ser compatíveis com a formulação e os preceitos técnicos desejados de teores de proteína e energia para cada tipo de ração. [...] UNIDADE DE PRODUÇÃO DE SUPLEMENTOS MINERAIS E NÚCLEOS UTILIZADOS NA FORMULAÇÃO DE RAÇÕES [...] ESTOQUE DE SUPLEMENTOS MINERAIS E NÚCLEOS ACABADOS PARA INTEGRAÇÃO ÀS RAÇÕES [...] PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE RAÇÃO – INTEGRAÇÃO DOS INSUMOS AO MILHO MIX PÓS MOAGEM Fl. 1332DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 28 Após o processamento das matérias-primas, pesagem, e mistura, a produção segue para ser armazenada nos estoques de ração e/ou utilização nas etapas de recria e engorda dos animais (já abordadas anteriormente). [...] ARMAZÉM DE ESTOQUE DE RAÇÃO [...] REBANHO EM FASE DE TERMINAÇÃO, ONDE A CARCAÇA JÁ OBTEVE A TRANSFORMAÇÃO NECESSÁRIA ATRAVÉS DA ALIMENTAÇÃO OFERTADA DURANTE O CONFINAMENTO Com essas explicações, corroboradas com os demonstrativos fotográficos e pelo Parecer Técnico, chega-se à conclusão de que a pecuária intensiva explorada pela Recorrente demanda a edificação e a manutenção de estruturas civis expressivas, além de investimento em maquinários específicos, que demandam manutenção e por vezes substituição, a fim de que, desde o início do ciclo produtivo da cadeia de pecuária desenvolvido pela Recorrente, até a entrega ao frigorífico, que abaterá um animal que se converterá em alimento de qualidade. Ademais, a partir do detalhamento das etapas que compõem o complexo processo produtivo da Recorrente, tratadas, repita-se, de forma minuciosa pelo Parecer Técnico ora anexado, resta inquestionável a existência de um processo de industrialização, versado nos esforços e investimentos empregados para a transformação do novilho em um bovino que atenda a condições de peso, estrutura e variação genética requeridas pelo mercado. É importante destacar também que a comercialização dos bovinos se destina à continuação de outro processo industrial, o abate pelos frigoríficos. Sobre esse tema, revela-se imprescindível relembrar que, por industrialização, nos termos do art. 4º do RIPI/2010, entende-se qualquer operação que modifique a natureza, o funcionamento, o acabamento, a apresentação ou a finalidade do produto, ou o aperfeiçoe para consumo. Há, assim, nítida subsunção do conceito legal de industrialização ao caso concreto, haja vista que a produção da Recorrente representa, sem sombra de dúvidas, uma transformação e aperfeiçoamento da mercadoria (bovino). Ora, o produto bovino final em condições de abate só surgirá após a implementação de um processo de industrialização sobre todos os insumos adquiridos, unindo esforços, tecnologia e conhecimento para que a mercadoria final esteja modificada e aperfeiçoada para o abate. Com isso em vista, passamos a analisar as glosas combatidas no Recurso Voluntário. DO ESTORNO DO CRÉDITO RELATIVO ÀS RECEITAS DE VENDAS COM SUSPENSÃO Conforme supra relatado, a fiscalização identificou vendas realizadas pela recorrente em operações submetidas à suspensão da incidência das contribuições Fl. 1333DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 29 relativas a bovinos (NCM 0122990), caroço de algodão (NCM 52010090), milho (NCM 10059010), girassol (NCM 12060090) e arroz com casca (NCM 10061092). Mencionando os artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), artigos 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009 (bovinos vivos), art. 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010 (milho em grãos e arroz com casca), a fiscalização destaca que a venda desses produtos com suspensão da incidência das contribuições impede o aproveitamento dos créditos regulares ou presumidos associados às receitas correspondentes. Assim, não havendo verificado, nos ajustes de redução de crédito, os estornos de créditos básicos relativos às mencionadas vendas com suspensão, a autoridade reduziu os créditos básicos com base na proporção entre as receitas de vendas com suspensão dos citados produtos e a receita bruta total. Por sua vez, a recorrente defende que os dispositivos mencionados pela fiscalização tratam da concessão de crédito presumido a contribuintes que praticam negócio diverso da atividade por ela desenvolvida, não sendo aplicáveis ao caso concreto. Para fundamentar suas alegações, sustenta que ao vedarem o aproveitamento “de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo”, tais normas não se dirigem aos créditos básicos das contribuições, mas aos próprios créditos presumidos de que tratam os caputs dos dispositivos legais, não se podendo pretender interpretar o parágrafo de modo separado do caput, haja vista a relação necessária de sentido que deve existir entre esses elementos do texto legal, como, de resto, é exigido pela Lei Complementar nº 95/98. Desta forma, sustenta que as aquisições (entradas) que deram origem aos créditos glosados pela Autoridade Fiscal foram realizadas junto a pessoas jurídicas, e foram devidamente tributadas, não se lhes aplicando, de resto, a suspensão prevista nos dispositivos mencionados pela fiscalização e pelo v. acórdão recorrido, em razão da não observância dos requisitos ali previstos (a adquirente, no caso a Recorrente, não promove a venda dos produtos então relacionados). Assim, por se tratar justamente de um insumo, essencial ao processo produtivo da Recorrente, haveria direito ao crédito BÁSICO das contribuições ao PIS e da COFINS, que é autorizado na forma do artigo 3º da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, e não é vedado por qualquer disposição atinente ao regime geral de apuração dos créditos das contribuições. O mesmo ocorreria em relação aos demais insumos adquiridos, sem suspensão, pela Recorrente (milho, caroço de algodão, girassol e arroz com casca). Ademais, ainda que se pudesse estender a regra em questão aos créditos básicos, o que se admite apenas para argumentar, a vedação ao desconto dos créditos estaria condicionada à realização de operações com suspensão “às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo”. Vale dizer, não basta que as vendas sejam realizadas com suspensão das contribuições; é necessário que as vendas Fl. 1334DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 30 sejam realizadas às pessoas jurídicas que produzem as mercadorias classificadas nos códigos NCM citados no caput e que as destinem para as exportações – o que sequer teria sido objeto de análise pela Autoridade Fiscal. Por fim, ainda que se entenda pela procedência do estorno realizado pela fiscalização, a recorrente sustenta existir equívoco na metodologia de cálculo aplicada, uma que vez “[...] ao se utilizar da composição da receita da pecuária para amparar os estornos dos créditos, sem qualquer fundamento legal, a Autoridade Fiscal onerou as atividades da Recorrente, na medida que considerou o arquivo EFD Contribuição em sua integralidade, sem distinguir quais movimentações seriam de fato passíveis de tributação”. Entendo que não assiste razão à recorrente. Por entender que todas as alegações e matérias controvertidas foram devidamente dirimidas no v. acórdão recorrido, transcrevo os fundamentos expostos no r. decisum, adotando-os como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Neste ponto, importa transcrever os comandos em discussão. Trazem os arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004, primeiro diploma a conferir a possibilidade de geração de créditos presumidos relativos à atividade agropecuária, a seguinte redação: Lei nº 10.925, de 2004: Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições efetuadas de: I - cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e 18.01, todos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM); (Redação dada pela Lei nº 12.865, de 2013) II - pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura; e Fl. 1335DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 31 III - pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) ………. § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. ………. Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I - de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III - de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I - aplica-se somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) ………. § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal - SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) A contribuinte tem razão quando afirma que o caput do comando, autorizando a apuração de créditos presumidos não se dirige precipuamente a sua atividade econômica. No entanto, isso não significa que a contribuinte está imune aos efeitos do dispositivo. De fato, a interessada aloca-se no inciso III do parágrafo 1º do artigo transcrito na condição de pessoa jurídica que exerce atividade agropecuária. Nesse contexto, quando vende insumos que serão destinados a outra pessoa jurídica que os transformará nos produtos relacionados no caput, a operação deve ser feita com a suspensão da incidência das contribuições para o PIS/Pasep e para a Cofins, nos termos do art. 9º e ao adquirente é conferido do direito de apropriar-se de crédito presumido, conforme o art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004. Note-se, porém, que ao polo vendedor da operação é interditado aproveitamento de créditos, sejam eles presumidos ou regulares. O §4º do art. 9º acima reproduzido Fl. 1336DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 32 é bastante claro ao qualificar o crédito como presumido na redação do inciso I e ao retirar essa qualificação no inciso II, de forma que a restrição ao aproveitamento de créditos pela pessoa jurídica vendedora de produtos agropecuários para o destino referido no caput do art. 8º se estende para toda a sorte de créditos, presumidos ou regulares, como acerta a interpretação da autoridade fiscal. Nessa medida, quando a contribuinte vende caroço de algodão e girassol com a suspensão tratada no art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004, é de rigor que os créditos de quaisquer naturezas relativos às respectivas receitas sejam estornados. O mesmo raciocínio vale para as vendas com suspensão de bovinos, milho e arroz com casca. No que se refere às operações de venda de bovinos vivos, dizem os art. 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009: Lei nº 12.058/2009 (DOU 14/10/2009) Art. 32. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de: I - animais vivos classificados nas posições 01.02 e 01.04 da Nomenclatura Comum do Mercosul - NCM, quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.01, 02.02, 02.04, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0206.80.00, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM; (Redação dada pela Lei nº 12.839, de 2013) Parágrafo único. A suspensão de que trata este artigo: I - não alcança a receita bruta auferida nas vendas a varejo; (Redação dada pela Lei nº 12.431, de 2011). II - aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Art. 33. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.01, 02.02, 02.04, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0206.80.00, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM, destinadas a exportação, poderão descontar da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em cada período de apuração crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens classificados nas posições 01.02 e 01.04 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 12.839, de 2013) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições de pessoa jurídica que exercer atividade agropecuária ou cooperativa de produção agropecuária. ………. § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que trata o § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; Fl. 1337DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 33 II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. Assim, quando a contribuinte vende a exportadores de produtos de origem bovina os animais vivos de sua atividade agropecuária, a operação se dá com a suspensão da incidência das contribuições, nos termos do art. 32 transcrito, com a faculdade de apuração de crédito presumido pelo exportador, nos termos do art. 33, e o crédito relacionado às correspondentes receitas de venda dos animais deve ser estornado por conta do que diz o §4º do art. 33 do diploma que, da mesma forma que fez o §4º do art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004, pretendeu interditar indistintamente tanto o aproveitamento dos créditos presumidos quanto dos créditos regulares às pessoas jurídicas que exercem atividade agropecuária quando vendem insumos para certos setores da agroindústria. O entendimento se estende também para as vendas com suspensão de arroz com casca e milho, conforme dita a Lei nº 12.350, de 2010: Lei nº 12.350/2010 (DOU 21.12.2010): Art. 54. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de: I – insumos de origem vegetal, classificados nas posições 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e nas posições 12.01*, 23.04* e 23.06 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos: (Vide Lei nº 12.865, de 2013) (Vigência)*retirados pelo art. 34 da Lei nº 12.865, de 09/10/2013, com efeitos a partir de 01/02/2014 a) para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM; b) para pessoas jurídicas que produzam preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM; e c) para pessoas físicas; II – preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM; III – animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM, quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM; Parágrafo único. A suspensão de que trata este artigo: I – não alcança a receita bruta auferida nas vendas a varejo; II – aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Art. 55. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, Fl. 1338DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 34 02.07 e 0210.1 da NCM, destinadas a exportação, poderão descontar da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em cada período de apuração crédito presumido, calculado sobre: I – o valor dos bens classificados nas posições 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e nas posições 12.01*, 23.04* e 23.06 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física; (Vide Lei nº 12.865, de 2013) (Vigência)*retirados pelo art. 34 da Lei nº 12.865, de 09/10/2013, com efeitos a partir de 01/02/2014 II – o valor das preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física; III – o valor dos bens classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto nos incisos I a III do caput deste artigo aplica-se também às aquisições de pessoa jurídica. ………. § 5º É vedado às pessoas jurídicas de que trata o § 1º deste artigo o aproveitamento: I – do crédito presumido de que trata o caput deste ar6go; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo, exceto em relação às receitas auferidas com vendas dos produtos classificados nas posições 23.04 e 23.06 da NCM. (Redação dada pela Lei nº 12.431, de 2011). Na situação em que há venda de insumos à cadeia do frango e de suínos, fica suspensa a incidência do PIS/Pasep e da Cofins, nos termos do art. 54 da Lei nº 12.350, de 2010. Por sua vez, aos exportadores de produtos classificados nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM, a lei confere a possibilidade de apuração do crédito presumido calculado com base nos insumos adquiridos, nos termos do art. 55 da lei em foco. Em consonância com a sistemática dos demais insumos acima destacados, bovinos, caroço de algodão e girassol, também fica interditado o aproveitamento dos créditos relacionados às correspondentes vendas de milho e arroz com casca efetuadas com suspensão, de acordo com o transcrito §5º do artigo 55 da Lei nº 12.350, de 2010, aplicável à contribuinte que é a pessoa jurídica de quem os exportadores adquirem os insumos referidos no §1º do art. 55. Diante desse quadro, está correta a interpretação que a fiscalização deu aos dispositivos legais que, de fato, alcançam a atividade econômica da contribuinte e se referem a vedação ao aproveitamento de todo o crédito, presumido ou regular, relacionado às receitas de vendas feitas com suspensão da incidência das contribuições para o destino identificados no caput dos art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, art. 33 da Lei nº 12.058, de 2009 e art. 55 da Lei nº 12.350, de 2010. Alega a contribuinte que, mesmo que as interdições ao creditamento também se estendessem aos créditos regulares – o que, como se viu acima, é o que ocorre – Fl. 1339DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 35 não seriam todas as vendas com suspensão que motivariam o estorno. Isto porque a obrigatoriedade dos estornos estaria vinculada apenas nas vendas com suspensão às pessoas jurídicas que produzam as mercadorias tratadas no caput do art. 55 da Lei nº 12.350, de 2010, que as destinem à exportação, o que não teria sido objeto de análise pela autoridade fiscal que teria efetuado o estorno referente a todas as operações de vendas dos mencionados produtos em que houve a suspensão das contribuições. Examinando-se a aba <NFe de Vendas Suspensão (EFD-C)> da planilha <% Estorno do Crédito relativo às Receitas de Vendas efetuadas com Suspensão.xlsx> incluído no arquivo não-paginável anexo ao relatório fiscal, observa-se que a quase totalidade das vendas cujos créditos foram estornados são destinadas a empresas reconhecidamente exportadoras (BRF SA, Marfrig Global Foods SA, JBS SA, Minerva SA) o que aponta que, de fato, as vendas se destinaram a empresas que empregaram os insumos vendidos pela interessada na produção de bens destinados a exportação. Por outro lado, a contribuinte não traz aos autos nenhuma comprovação de que eventualmente algumas das vendas tenham se destinado a empresas cujos produtos foram direcionados ao mercado interno. Importante salientar que o ônus de comprovar direito de crédito oposto contra a Fazenda Pública recai sobre aquele que se diz dele detentor. Nesse passo, corretas as glosas praticadas pela fiscalização. METODOLOGIA DE CÁLCULO A contribuinte diz que, ainda que seja vencida na discussão sobre a legitimidade do estorno de créditos, teria havido erro na determinação do montante estornado, partindo da proporcionalização a que procedeu a fiscalização com base na relação entre as receitas de vendas com suspensão e a receita bruta total. Constrói a contribuinte argumento em que, ao final, conclui que os estornos fiscais recaíram sobre produtos creditados que seriam da atividade pecuária, não havendo que se falar em invalidação de crédito relativo a venda de bovinos para frigoríficos. Ao contrário do que afirma a interessada a proporcionalização efetuada pela fiscalização não se restringiu aos créditos relativos à atividade pecuária. Como anotado nos itens 255 e 256 do Relatório Fiscal, o ajuste de redução do crédito foi feito mês a mês com base na proporção entre a Receita de Vendas com Suspensão dos produtos na tabela 9 abaixo e a Receita Bruta Total. [...] Como se viu acima, também as receitas sujeitas à suspensão da incidência das contribuições relativas a vendas de bovinos a frigoríficos exportadores devem ter os créditos estornados. Por sua vez, a proporcionalização com base na relação entre parte e todo efetuada pela auditoria é procedimento chancelado pela legislação e jurisprudrudência nas situações em que não é possível determinar a contribuição de cada item específico na composição de determinada grandeza, sejam créditos decorrentes de insumos comuns a diferentes regimes de tributação (cumulativo e não cumulativo), receitas vinculadas (exportação, mercado interno), etc. Sobre o método de rateio de créditos, assim dispuseram os §8º dos art. 3º das Lei nº 10.637, de 2002 e nº 10.833, de 2003, com igual redação, exceto quando referenciam a contribuição que regulam: Fl. 1340DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 36 Lei nº 10.833, de 2003: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 7º Na hipótese de a pessoa jurídica sujeitar-se à incidência não-cumulativa [...], em relação apenas à parte de suas receitas, o crédito será apurado, exclusivamente, em relação aos custos, despesas e encargos vinculados a essas receitas. § 8º Observadas as normas a serem editadas pela Secretaria da Receita Federal, no caso de custos, despesas e encargos vinculados às receitas referidas no § 7º e àquelas submetidas ao regime de incidência cumulativa dessa contribuição, o crédito será determinado, a critério da pessoa jurídica, pelo método de: I - apropriação direta, inclusive em relação aos custos, por meio de sistema de contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração; ou II - rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita à incidência não-cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. § 9º O método eleito pela pessoa jurídica para determinação do crédito, na forma do § 8º, será aplicado consistentemente por todo o ano-calendário e, igualmente, adotado na apuração do crédito relativo à contribuição [...] não- cumulativa, observadas as normas a serem editadas pela Secretaria da Receita Federal. Observe-se que a regra está posta com relação à forma de rateio aplicável à pessoa jurídica submetida aos dois regimes de tributação, cumulativo e não cumulativo. Os dispositivos em comento, vale dizer, assim como a interpretação que deles se faz estendem-se ao necessário rateio dos custos, despesas e encargos comuns às receitas de exportação e aquelas vinculadas ao mercado interno. Isso porque a legislação dá tratamento diferenciado no que respeita à forma de aproveitamento entre os créditos vinculados às receitas do mercado interno e as de exportação. Apenas o saldo de créditos referente a estas últimas podem ser compensados ou pleiteados em dinheiro. A necessidade do rateio é decorrência dessa diferenciação. Confira-se o art. 6º da Lei nº 10.833, de 2003 (também aplicável ao PIS nos termos do art. 15 do mesmo diploma), especialmente o que vem escrito no §3º: Lei nº 10.833, de 2003: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I - exportação de mercadorias para o exterior; [...] Fl. 1341DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 37 § 1ºNa hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I - dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II - compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 2ºA pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1ºpoderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3ºO disposto nos §§ 1ºe 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8ºe 9ºdo art. 3º. [...] Nova hipótese de repartição veio integrar a legislação tendo em vista o disposto nos art. 17, da Lei nº 11.033, de 2004, sobre a possibilidade de manutenção dos créditos sobre vendas não tributadas, e art. 16 da Lei nº 11.116, de 2005, que franqueou o ressarcimento e a compensação dos saldos de créditos acumulados em virtude do disposto no citado art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004. A atual IN RFB nº 2.121, de 2022, reflete, em seu art. 244, §7º, a hipótese de proporcionalidade que viabiliza o disposto nos citados art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, e 16 da Lei nº 11.116, de 2005: IN RFB nº 2.121, de 2022: Art. 244. Na hipótese de a pessoa jurídica sujeitar-se ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, em relação a apenas parte de suas receitas, o crédito deve ser calculado, exclusivamente, em relação aos custos, despesas e encargos vinculados a essas receitas (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 7º; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 7º; e Lei nº 10.865, de 2004, art. 15, § 5º). [...] § 2º Para efeito do disposto neste artigo, o valor a ser registrado deve ser determinado, a critério da pessoa jurídica, pelo método de (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 8º, incisos I e II; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 8º, incisos I e II): I - apropriação direta, inclusive em relação aos custos, por meio de sistema de contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração; ou II – rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns, a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita ao regime de apuração não cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. Fl. 1342DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 38 § 3º Para apuração do crédito decorrente de encargos comuns, na hipótese prevista no inciso I do § 2º, devem ser aplicados sobre o valor de aquisição de insumos, dos custos e das despesas referentes ao mês de apuração, critérios de apropriação por rateio que confiram adequada distribuição entre os encargos vinculados às receitas submetidas ao regime de apuração não cumulativa e os encargos vinculados às receitas submetidas ao regime de apuração cumulativa. [...] § 5º O método eleito pela pessoa jurídica referido no § 2º deve ser aplicado consistentemente por todo o ano-calendário e igualmente adotado para a Contribuição para o PIS/Pasep e para a Cofins (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 9º; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 9º). § 6º As disposições deste artigo aplicam-se independentemente de os créditos serem decorrentes de operações relativas ao mercado interno ou do pagamento das contribuições incidentes na importação (Lei nº 10.865, de 2004, art. 15, § 5º). § 7º O disposto neste artigo aplica-se à apuração dos créditos vinculados às receitas de exportação e às receitas sujeitas a suspensão, isenção, alíquota de 0% (zero por cento) ou não incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 8º; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 8º, e art. 6º, § 3º; e Lei nº 11.033, de 2004, art. 17). Como visto, a forma de rateio proporcional é recurso amplamente empregado pela legislação na regulação da forma de repartição dos créditos da não cumulatividade, o que orientou os trabalhos fiscais ao proporcionalizar os estornos dos créditos tomados sobre os produtos relacionados na tabela 9 do Relatório Fiscal segundo a relação entre as vendas com suspensão daqueles produtos e a receita bruta total. Cumpre destacar que, no Recurso Voluntário, a recorrente se limita a repetir as razões expostas em sede de Manifestação de Inconformidade, sem apresentar qualquer argumento capaz de infirmar a conclusão adotada pelo v. acórdão recorrido, seja em relação à subsunção dos fatos às normas supramencionadas, seja em relação à metologia de cálculo aplicada. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. DESPESAS COM ROYALTIES Conforme supra relatado, a autoridade fiscal glosou créditos apropriados pela recorrente sobre o pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia), com base no entendimento de que tais dispêndios “[...] não são considerados aquisições de bens ou de serviços e, por conseguinte, não podem ser tratados como insumos para efeitos da apuração dos créditos de PIS/Cofins”. Para Fl. 1343DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 39 corroborar seu entendimento, menciona as Soluções de Consulta COSIT nº 116/21- Cosit e 71/15. Destaca, ainda, que, “[...] os royalties são calculados na etapa da colheita, conforme relata a contribuinte em sua resposta. Ou seja, ainda que fossem um serviço – e não o são -, não poderiam ser considerado insumo, posto que corresponderiam a um gasto incorrido após o encerramento das etapas produtivas (gastos após a produção)”. Da mesma forma, o v. acórdão recorrido manifestou o entendimento de que “os pagamentos feitos como contrapartida pela utilização dos direitos de propriedade sobre um bem, uma técnica, uma fórmula, não constituem remuneração por prestação de serviço ou se referem a aquisição de um bem, pelo que, a orientação da SC Cosit nº 116, de 2021, se aplica ao caso corrente”, de modo que “[...] não constituindo pagamentos correspondentes a prestação de serviços ou a aquisição de bens, aos dispêndios com royalties não se aplica a possibilidade de apuração de créditos da não cumulatividade nos termos dos art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003”. Por sua vez, a recorrente sustenta que tais dispêndios representam uma contrapartida a um direito de propriedade intelectual, que, para efeitos jurídicos, é tratado como bem móvel, à luz do art. 83, III, do Código Civil, destacando, ainda, que, o caso específico de sementes, inclusive, é protegido pela Lei nº 9.456/1997 (Lei de Proteção de Cultivares), que também confere a natureza jurídica de bem móvel ao direito de propriedade da tecnologia usada no desenvolvimento do produto, conforme prescrito em seu art. 2º. Assim, por se tratar de um instituto inerente ao direito privado, ressalta que a administração tributária se encontra impedida de promover distorções à definição e alcance, nos termos do artigo 110 do Código Tributário Nacional. Desta forma, mencionando jurisprudência deste e. CARF, defende que, ao contrário do que “sustentou a fiscalização (e o v. acórdão recorrido), os custos com royalties correspondem a aquisição de bens móveis como insumos da atividade produtiva, o que legitima o aproveitamento do crédito nos termos do art. 3º, II, das Leis nº 10.833/2003 e nº 10.637/2002”. No que se refere à essencialidade de tais custos ao seu processo produtivo, a recorrente tece os seguintes argumentos de fato e de direito: [...] a Recorrente celebrou contratos com terceiros para viabilizar a utilização de tecnologias relacionadas à produção de sementes (contratos de royalties) que, como visto, estão relacionadas ao seu principal processo produtivo – cultivo de grãos como a soja, milho e algodão. Tais tecnologias – TRAITS e germoplasma – foram exploradas no laudo técnico que instruiu a Manifestação de Inconformidade apresentada e são responsáveis por significativa melhora na qualidade genética das sementes. De acordo com o laudo, os atributos genéticos envolvem: Fl. 1344DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 40 • pureza varietal; • potencial de produtividade; • resistência a pragas e doenças; • precocidade; • qualidade do grão; • resistência a condições adversas de solo e clima; • resistência a nematoides; • tolerância a menor textura de solo e fertilidade; • melhor arquitetura de planta; e • seletividade a herbicidas Disso decorre um impacto direto no resultado da produção agrícola da Recorrente, com aumento de produtividade, melhora na qualidade do produto, maior adaptação a questões ambientais e redução na utilização de defensivos agrícolas (beneficiando a saúde da população e reduzindo os impactos ambientais). Nesse sentido, a tecnologia na produção de sementes, ainda de acordo com o laudo técnico apresentado no presente processo, é indispensável à atividade da Recorrente, à medida que, na agricultura sustentável, a biotecnologia permite produzir maior quantidade de alimentos, a um custo menor e sem necessidade de aumentar a área de cultivo. Na mesma linha é o Parecer Técnico ora anexado: “d) Para aquisição das sementes para plantio para multiplicar as sementes ou colher os grãos, a empresa é obrigada legalmente a pagar uma despesa intitulada royalties, ou seja, o item SEMENTES, por consistir em elemento “estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço” (COSIT 05/2018), é essencial; e) Ademais, por questões relacionadas ao fato que as sementes certificadas adquiridas possuem inúmeras vantagens, como proteção a insetos ou produtividade superior, a privação deste item SEMENTES no processo produtivo, priva o produto final de “qualidade, quantidade e/ou suficiência” (COSIT 05/2018); f) Por fim, entendendo como relevante o item SEMENTE, devido a características de b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva” e b.2) “por imposição legal”. (Parecer Cosit 5 de 17/12/2018), temos que esse item é relevante.” (páginas 102 e 103 – grifamos e destacamos) Aumenta-se, portanto, a produção agrícola, por meio da otimização do espaço e com plantas adaptadas às peculiaridades regionais. Também há significativa redução no uso de defensivos agrícolas, o que, além de aumentar a produtividade, traz benefícios à saúde da população. Tudo isso reflete, ainda, na redução do preço do produto, aumentando o acesso das pessoas aos alimentos. Fl. 1345DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 41 Pode-se concluir, assim, que os custos incorridos com a Recorrente relativamente aos royalties em comento são essenciais ao seu processo produtivo, dando-lhe contornos de sustentabilidade e tornando o seu produto competitivo no mercado. Tamanha é a importância do tema que se discute no presente item, que essa tecnologia integra o Sistema Nacional de Sementes e Mudas (SNSM), instituído pela Lei nº 10.711/03 e regulamentado, atualmente, pelo Decreto 10.586/20. Referidas normas, em apertada síntese, determinam que novos cultivares deverão ser previamente habilitados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sendo agrupados no Cadastro Nacional de Cultivares Registrada (CNCR). Merece destaque, ainda, que as sementes em questão são obtidas a partir da adoção de tecnologias desenvolvidas pelas referidas empresas. Essas, por sua vez, estão sujeitas a rígido controle de qualidade, fiscalização e auditoria, como evidenciam os contratos trazidos ao feito e mencionados pela fiscalização (fls. 1365 a 1848 dos autos do e-dossiê). É dizer, trata-se de atividade regulamentada e rigorosamente fiscalizada por órgão regulatório. Mais que isso, a adoção de tecnologias na produção de cultivares visa atender a especificações profundamente técnicas, que à luz da interpretação sedimentada pelo egrégio Superior Tribunal de Justiça – nos Temas nº 799 e 780, aqui já referendados –, são indispensáveis ao alcance da qualidade esperada dos produtos, motivo pelo qual é inquestionável a essencialidade da despesa. Nesse sentido, a essencialidade da tecnologia envolvida nas sementes é expressamente reconhecida pelo MAPA em seu site, como se pode verificar do trecho abaixo reproduzido: “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA estabeleceu mecanismos para a organização, sistematização e controle da produção e comercialização de sementes e mudas, e instituiu, por meio da Portaria n° 527, de 30 de dezembro de 1997, o Registro Nacional de Cultivares - RNC. Atualmente, o RNC é regido pela Lei n° 10.711, de 05 de agosto de 2003, e regulamentado pelo Decreto n° 5.153, de 23 de julho de 2004, tendo como preceito fundamental que a geração de novas cultivares se traduz em altas tecnologias transferidas para o agronegócio, indispensáveis ao sucesso deste, pelo aumento da produtividade agrícola e da qualidade dos insumos e dos produtos deles derivados. As cultivares são disponibilizadas ao agricultor com os mais recentes avanços da pesquisa em genética e melhoramento vegetal, transformadas em insumos, sob a forma de material de propagação. O RNC tem por finalidade habilitar previamente cultivares e espécies para a produção e a comercialização de sementes e mudas no País, independente do grupo a que pertencem - florestais, forrageiras, frutíferas, grandes culturas, olerícolas, ornamentais e outros. O RNC é de responsabilidade da Coordenação de Sementes e Mudas - CSM, do Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas - DFIA, da Secretaria de Defesa Agropecuária – DAS.” Como se vê, o próprio Ministério, que possui técnicos com conhecimento do setor agropecuário, e que é responsável pela regulamentação e cadastro das tecnologias Fl. 1346DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 42 envolvidas nas sementes, trata as cultivares como insumos essenciais à produção. Nesse sentido, inclusive, merece destaque o trecho abaixo, extraído do laudo ora apresentado: “As sementes são insumos com essencialidade dentro do processo agrícola. A agricultura inicia-se com o plantio, sem as sementes não há implantação da cultura, geração de plantas e sua produção. A representatividade dos insumos semente que carregam tecnologia do melhoramento genético estão presentes em 92 % da soja cultivada do Brasil, em 90% do milho e tem um crescimento grande na cultura do algodoeiro, tendo a estimativa de cerca de 47% de utilização de sementes transgênicas na cultura conforme dados de 2020. É observada a quantidade de TRAITs devidamente patenteadas e liberadas para uso no brasil para as culturas de soja, milho e algodão. Os eventos de transgenia são fundamentais para a agricultura. Estão incorporados dentro do insumo sementes através das técnicas de melhoramento genético. Ao utilizar o insumo que contêm essa genética, usufruímos dos benefícios essenciais que colocam o Brasil como celeiro da produção mundial. A tecnologia empregada no melhoramento traz benéficos diretos como resistência a pragas, doenças e seletividade a determinados herbicidas proporcionando uma agricultura sustentável, mais econômica e produtiva. As tecnologias inseridas no insumo sementes são pagas / comercializadas através de contratos de licenciamentos que estipulam a cobrança dos royalties. Os contratos de licenciamentos permitem o recolhimento as instituições que fazem os melhoramentos e as instituições que são as proprietárias da patente de TRAITs, permitindo que através do recurso que elas recebem possam dar continuidade ao desenvolvimento de novas cultivares e tecnologias de TRAITs, trazendo inovação, tecnologia, soluções e sustentabilidade ao processo produtivo agrícola brasileiro e mundial. Através do insumo sementes, gera-se e fundamenta-se a prática agrícola responsável em gerar alimentos saudáveis e que qualidade a população. Através dessa agricultura temos o reconhecimento do Brasil no cenário mundial como grande produtor. Fato esse que não seria possível essa produção sem o uso de tecnologias presentes no insumo sementes que foram melhorados e desenvolvidos através da transgenia e do melhoramento. Para a continuidade do processo é necessária realizar a remuneração, através dos royalties, para que não sessem as pesquisas, a produção de novas cultivares e tecnologias que trazem a inovação a agricultura brasileira.” (destacamos) Claro, portanto, que se trata de despesa que integra o custo das sementes e que é essencial ao processo produtivo da Recorrente, contrariando a fundamentação da glosa dos créditos a elas relacionadas. Veja-se o organograma abaixo, extraído da página 96 do Parecer Técnico que acompanha o presente: [...] Fl. 1347DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 43 Por fim, deve ser esclarecida a impropriedade cometida pela Autoridade Fiscal ao alegar que, mesmo que os royalties fossem pagamentos decorrentes de prestação de serviços, não seria possível o aproveitamento dos créditos, pois o gasto teria ocorrido após o encerramento das etapas produtivas: [...] Para elucidar esse ponto, é importante retomar o esclarecimento prestado durante a fiscalização: 51 “1º - Processo de licenciamento – etapa onde se firma contrato entre LICENCIANTE e LICENCIADO, autorização para produção, beneficiamento, multiplicação e comercialização das sementes; 2º - Aquisição das sementes melhoradas (algodão e soja) junto as LICENCIANTES (detentoras das tecnologias); 3º - Plantio - Inscrição de campo junto ao MAPA (ministério da Agricultura); 4º - Colheita – análise da semente, poderá ser utilizada para consumo/transferência BOM FUTURO ou venda para produtores. Nesta etapa calcula-se o Royalties pago a LICENCIANTE, este incidirá sobre o volume de sementes produzidas.” (p. 49, do Relatório de Auditoria) Como se pode perceber, o mercado em que a Recorrente atua exige, na grande maioria das vezes, a utilização de sementes melhoradas por germoplasmas e / ou tecnologias. O débito dos royalties nasce quando a Recorrente realiza a multiplicação das sementes, ou seja, quando envia/transfere as sementes já multiplicadas para nova multiplicação em campos registrados pelas unidades produtoras, podendo ser pago na vigência do ano safra. Acerca dessa questão, merece destaque o seguinte trecho das páginas 96 e 97 do Parecer Técnico que instrui o recurso: Sendo assim, o momento de pagamento dos royalties é questão contratual e está dentro da liberdade de contratar, podendo ser pago desde a aquisição da semente ou transferência dos já multiplicados para nova multiplicação, até ao momento da Fl. 1348DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 44 colheita das sementes. Não se trata, desta forma, de gastos após a produção, como foi alegado pela Autoridade Fiscal. Entendo que assiste razão à recorrente. Inicialmente, verificamos que, para glosar os créditos ora combatidos, a autoridade fiscal se baseou em três fundamentos: (i) a cessão de direito e/ou licença de propriedade (ou direito) não seria um bem; (ii) ainda que se tratasse de bens, não haveria propriamente a aquisição do bem, mas apenas o seu uso mediante pagamento acordado entre as partes (uma espécie de aluguel), o que não estaria contemplado pela legislação que prevê o direito ao creditamento; (iii) por fim, a cessão ou licenciamento de direitos relativos à propriedade intelectual também não poderia ser enquadrada como prestação de serviços, pois lhe faltaria o elemento essencial, qual seja, a efetiva prestação do serviço. A nosso ver, a questão se resume à análise dos dois primeiros fundamentos, afinal, como será demonstrado, os direitos relativos à propriedade intelectual realmente não se enquadram na condição de serviços, mas, por expressa disposição legal, são considerados bens móveis. Conforme previsto pelo artigo 2° da Lei n° 9.456/97, “[a] proteção dos direitos relativos à propriedade intelectual referente a cultivar se efetua mediante a concessão de Certificado de Proteção de Cultivar, considerado bem móvel para todos os efeitos legais e única forma de proteção de cultivares e de direito que poderá obstar a livre utilização de plantas ou de suas partes de reprodução ou de multiplicação vegetativa, no País”. No mesmo sentido, o artigo 83, inciso III, do Código Civil, estabelece que “[c]onsideram-se móveis para os efeitos legais: III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações”. Sem precisar tecer maiores considerações acerca da interpretação sistemática do ordenamento jurídico e da necessária correspondência entre a legislação civil e a legislação tributária, expressamente consagrada no artigo 110 do Código Tributário Nacional, é certo que tal dispositivo legal afasta qualquer tentativa de se desconsiderar o caráter de bem dos direitos relativos à propriedade intelectual. No que se refere à suposta inexistência de aquisição dos direitos relativos à propriedade intelectual, com a devida vênia, também não assiste razão à autoridade fiscal. Apesar de inexistir regramento específico na lei que trata da proteção de cultivares, as relações contratuais em análise observam disciplina idêntica àquela prevista para os direitos autorais. E, neste sentido, o artigo 49 da Lei n° 9.610/98 estabelece que “[o]s direitos de autor poderão ser total ou parcialmente transferidos a terceiros, por ele ou por seus sucessores, a título universal ou singular, pessoalmente ou por meio de representantes com poderes especiais, por meio de licenciamento, concessão, cessão ou por outros meios admitidos em Direito, [...]". Fl. 1349DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 45 Vejam que a legislação trata da transferência total ou parcial dos direitos, a título universal ou singular, de modo que se o cedente transfere o direito de um lado, a operação reversa é justamente a aquisição do direito pelo licenciado ou cessionário. Afinal, como incontroversamente demonstrado, o licenciado ou cessionário adquire o direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia). Assim, com a devida vênia, não há como se falar em mero “uso mediante pagamento acordado entre as partes (uma espécie de aluguel)”, uma vez que as contratações firmadas pela recorrente não envolvem apenas o direito de uso do direito autoral, mas efetivas autorizações para exploração econômica daqueles direitos. Ademais, ainda que se afastasse a ocorrência de uma efetiva aquisição do direito relativo à propriedade intelectual – o que se discorda – é certo que o §3°, do artigo 3°, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03 e o artigo 15, inciso II, da lei nº 10.865/2004 não podem ser interpretados da forma restritiva pretendida pela autoridade fiscal. Ora, os referidos dispositivos legais visam apenas assegurar que o aproveitamento de créditos – dentro da sistemática não-cumulativa – se dê em relação à bens e serviços que estejam sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS. Isto porque, ainda que sejam utilizados na condição de insumos, caso os bens e serviços não estejam sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS, no regime legal previsto em nosso ordenamento jurídico, não há que se falar em não-cumulatividade. No que se refere à subsunção de tais gastos ao conceito de insumo, restou devidamente demonstrado que tais contratações são essenciais para viabilizar a utilização de tecnologia na produção de sementes, o que está diretamente relacionado ao principal processo produtivo da recorrente – cultivo de grãos como a soja, milho e algodão. Ressalte-se que, conforme corroborado pelos laudos técnicos colacionados aos autos, a referida tecnologia é essencial para a melhora da qualidade genética das sementes, impactando diretamente no aumento de produtividade, melhora na qualidade do produto, maior adaptação a questões ambientais e redução na utilização de defensivos agrícolas. Ainda, restou devidamente demonstrado o equívoco incorrido pela fiscalização ao considerar tais gastos como posteriores ao processo produtivo, uma vez que analisou o momento do pagamento dos royalties e não da utilização da tecnologia no processo produtivo. Assim, os direitos relativos à propriedade intelectual em análise cumprem todos os requisitos exigidos pelo artigo 3°, inciso II, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03, para aproveitamento dos créditos da não-cumulatividade, uma vez que, como Fl. 1350DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 46 vimos, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens, e são utilizados como insumo na prestação de serviços da recorrente. Neste sentido, cita-se os seguintes julgados do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. TEMA STJ 779. PIS E COFINS. CONCEITO DE INSUMO. 1. O conceito de insumo, para fins de creditamento no regime não cumulativo das contribuições PIS e COFINS, consoante entendimento firmado pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, sob a sistemática dos recursos repetitivos, deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, considerando- se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 2. O contribuinte que exerce a atividade de produção de sementes certificadas tem o direito de deduzir crédito de contribuição ao PIS e de COFINS, no âmbito do regime não-cumulativo, dos valores que paga a título de royalties, à pessoa jurídica domiciliada no Brasil (pelo uso de patentes genéticas das sementes agrícolas), por constituírem insumo, nos termos do art. 3º, II, das Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, e da orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento, submetido ao regime de recursos repetitivos, do REsp nº 1.221.170/PR. (TRF4, AC 5010231-22.2019.4.04.7005, 1ª Turma, Relator LUCIANE A. CORRÊA MÜNCH, julgado em 18/09/2024) TRIBUTÁRIO. PIS/COFINS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEV NCIA. TEMA 779 DO STJ. 1. A sistemática de tributação não-cumulativa do PIS e da COFINS, prevista nas Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, confere ao sujeito passivo do tributo o aproveitamento de determinados créditos previstos na legislação, excluídos os contribuintes sujeitos à tributação pelo lucro presumido. 2. A aplicação do princípio da não-cumulatividade do PIS e da COFINS em relação aos insumos utilizados na fabricação de bens e serviços não implica estender sua interpretação, de modo a permitir que sejam deduzidos, sem restrição, todos e quaisquer custos da empresa despendidos no processo de industrialização e comercialização do produto fabricado. 3. O Superior Tribunal de Justiça, em 22/02/2018, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR (Temas 779 e 780), sob a sistemática de recursos repetitivos, declarou, por maioria de votos, a ilegalidade das Instruções Normativas 247/2002 e 404/2004 da Receita e concluiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 4. Hipótese em que, diante do Tema 779/STJ e da atividade-fim da requerente (empresa agroindustrial de produção de soja, milho, trigo, entre outras culturas, comércio de insumos agrícolas, adubos e fertilizantes), se reconhece o direito ao creditamento de PIS e COFINS sobre as despesas com royalties relativamente ao uso de sementes geneticamente modificadas, não se reconhecendo em relação às despesas com Fl. 1351DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 47 corretagem na venda de soja e despesas financeiras. 5. Apelação provida parcialmente. (TRF4, AC 5005849-69.2022.4.04.7105, 2ª Turma, Relatora MARIA DE FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE, julgado em 17/10/2023) (Grifamos) Em sentido análogo, merece referência excerto do v. acórdão nº 9303-008.742, de relatoria da i. ex-conselheira Vanessa Marini Cecconello: [...] o know-how que é fornecido à Recorrente nada mais é do que a transferência de toda a tecnologia, suporte, experiência e conhecimento necessários à produção dos pistões. É evidente que o know-how para produção é necessário e diretamente aplicado ao processo produtivo, constituindo, sem sombra de dúvidas, em insumo para a produção. Há de se acrescentar que os royalties tratados neste processo (transferência de tecnologia) devem ser considerados como bens móveis nos termos do artigo 83 do Código Civil e, consequentemente, enquadrados como "bens" nos termos do artigo 3º da Lei nº 10.833/2003. O know-how que é fornecido à Recorrente é a transferência de toda a tecnologia, suporte, experiência e conhecimento necessários à produção dos pistões, sendo essencial ao processo produtivo, constituindo-se em insumo para a produção. E também os seguintes julgados deste e. CARF: COFINS NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. DIREITOS AUTORAIS. Os critérios de essencialidade ou de relevância (REsp nº 1.221.170/PR) devem ser avaliados em relação ao processo produtivo em si, do qual origina o produto final ou atinente à execução do serviço prestado a terceiros. Os incisos II dos arts. 3º das Leis nos 10.833/2003 e 10.637/2002 contemplam o creditamento sobre bens ou de serviços utilizados na atividade de prestação de serviços ou na produção ou fabricação de bens. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, é imprescindível à indústria fonográfica a aquisição de direitos autorais para a produção de suas obras, razão pela qual devem ser reconhecidos como insumos. (Processo nº 19515.721042/2017-62; Acórdão nº 3402-006.830; Relator Conselheiro Pedro Sousa Bispo; sessão de 21/08/2019) INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. INSUMOS. DIREITOS AUTORAIS. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, são imprescindíveis à indústria fonográfica a aquisição de direitos autorais para a produção de suas obras, razão pela qual devem ser reconhecidos como insumos. (Processo nº 19515.722673/2013-75; Acórdão nº 9303-006.604; Relatora Conselheira Vanessa Marini Cecconello; sessão de 11/04/2018) NÃO-CUMULATIVIDADE. INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. DIREITOS AUTORAIS. Fl. 1352DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 48 Os direitos autorais pagos pela indústria fonográfica só dão direito a crédito da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativas se tiverem se sujeitado ao pagamento da Cofins-importação e da Contribuição para o PIS/Pasep importação. (Processo nº 15374.970011/2009-24; Acórdão nº 3801-003.639; Relator Conselheiro Paulo Antonio Caliendo Velloso Da Silveira; sessão de 22/07/2014) Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste tópico, para o fim de reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia). DAS AQUISIÇÕES E FRETES DE BENS SUJEITOS À ALIQUOTA ZERO, SUSPENSÃO OU NÃO INCIDÊNCIA Conforme supra relatado, a fiscalização glosou créditos sobre a aquisição de bovinos, nos seguintes termos: A aquisição de bovinos, por parte da contribuinte, só teria sentido para incorporar- se ao ativo imobilizado (animais reprodutores), ou para revenda. No caso, a descrição constante nas notas fiscais não indica se tratar de animais reprodutores. Acrescente-se que as saídas dos fornecedores foram registradas sem a apuração de pagamento de PIS/Cofins (CSTs 06, 07 e 49). Dessa forma, não sendo insumo do processo produtivo e tampouco sofrido pagamento das contribuições (art. 3º, caput e § 2º, II, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, reproduzido no tópico seguinte), não há previsão legal para o crédito dessas entradas. Ainda, a fiscalização manifestou o entendimento de que “em se tratando de aquisição de insumo não sujeito ao pagamento das contribuições (alíquota zero/suspensão/não incidência de PIS/Cofins), não há que se falar em crédito do frete de compra associado”, uma vez que o frete integra o custo de aquisição dos bens transportados, sendo admitido o seu creditamento apenas quando o bem adquirido for passível de gerar crédito, o que foi mantido pelo v. acórdão recorrido. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que “não apenas é legítimo o direito ao crédito relacionado às aquisições dos bens sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência, como também do respectivo frete”. Neste sentido, alega que “a interpretação da norma deve ser feita com base na integralidade do texto legal e dando o correto uso da conjunção alternativa “OU”. Ao assim proceder, não há outra interpretação possível senão a de que o inciso II do §2º do art. 3º das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03 veda o desconto de crédito Fl. 1353DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 49 sobre a aquisição de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e à COFINS quando a operação subsequente se sujeitar à alíquota zero, isenção ou não incidência das contribuições, o que não ocorre no caso da Recorrente”. Ainda, traz considerações acerca da sistemática não-cumulativa, para defender que “[...] da combinação dos arts. 3°, § 2°, inc. II, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03, com o art. 17, da Lei n° 11.033/04, sob a égide do princípio da não- cumulatividade, depreende-se que, quando a etapa anterior é desonerada e a subsequente também, não seria possível o creditamento, a contrário sensu, quando uma das etapas for tributada o crédito será possível”. No que se refere aos fretes, sustenta que se trata de relações jurídicas distintas, sendo que “[...] ainda que a mercadoria em si, por qualquer motivo, não esteja sujeita à incidência do PIS/COFINS, a empresa designada para o transporte se sujeita ao recolhimento das contribuições sobre sua receita, o que justifica o aproveitamento de crédito por quem pagou por esse serviço – no caso, a Recorrente – à luz do princípio da não-cumulatividade”, o que se aplica também ao frete de insumos. É o que passo a apreciar. Com a devida vênia, em relação ao presente tema, a legislação é clara ao estabelecer que as aquisições de produtos não sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS não permitem a apropriação de créditos pelo adquirente, nos termos do artigo 3º, §2º, inciso II, da Lei nº 10.833/03: Art. 3 o Do valor apurado na forma do art. 2 o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2 o Não dará direito a crédito o valor: (...) II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição; (Grifamos) Neste sentido, a sujeição do produto à alíquota zero ou suspensão (ou, até mesmo, a não incidência) implica o não pagamento das contribuições, de modo que a subsunção das aquisições à norma que veda a apropriação de créditos pelo adquirente é inegável, sendo a jurisprudência deste e. Conselho pacífica sobre o tema. Nos mesmos termos, merece transcrição a ementa da Solução de Consulta COSIT nº 227/17: Fl. 1354DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 50 CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL – COFINS EMENTA: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações beneficiadas com isenção e posteriormente: a) revendidos; ou b) utilizados como insumo na elaboração de produtos ou na prestação de serviços que sejam vendidos ou prestados em operações não sujeitas ao pagamento dessa contribuição. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº10.833/2003, arts. 3º, § 2º, II, e 6º, III. (Grifamos) Por outro lado, no que se refere aos fretes, tal matéria já foi amplamente analisada perante este e. Tribunal, tendo sido editada a Súmula CARF nº 188, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF), que assim dispõe: Súmula CARF nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Desta forma, este e. CARF reconhece o direito de apropriação de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre as despesas com serviços de frete, de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, o que alcança tanto bens adquiridos para revenda quanto insumos não onerados pelas contribuições (alíquota zero). Por tais razões, voto por dar parcial provimento ao recurso neste tópico, no sentido de reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência. FRETE DE MERCADORIA RECEBIDA COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO Conforme supra relatado, a fiscalização glosou os créditos apropriados pela recorrente, na condição de comercial exportadora, sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação, com base no §4º, inciso III, do artigo 6º da Lei nº 10.833/03, abaixo transcrito: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: [...] III - vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Fl. 1355DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 51 § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I - dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II - compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. [...] § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8º e 9º do art. 3º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. (Grifamos) No mesmo sentido, o v. acórdão recorrido manteve as glosas, por entender que “[...] está vedada a apuração de créditos correspondentes às aquisições das mercadorias exportadas e, também, aos demais créditos acaso vinculados a tais operações, tais como custos, despesas e encargos incorridos até a colocação desta mercadoria no exterior”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que o dispositivo supratranscrito atingiria “[...] apenas o crédito decorrente das mercadorias adquiridas para fins de exportação, e não aos serviços (frete), contratados para o desempenho de suas atividades, uma vez que tais custos não estão abarcados pela isenção do tributo. Os prestadores do serviço de transporte das mercadorias são contribuintes do PIS/COFINS, motivo pelo qual é assegurado o direito de tomada de crédito relativo a estas despesas, em atendimento ao princípio da não cumulatividade dessas contribuições”. Ainda, destaca que “[...] o frete em questão, como foi mencionado pela própria fiscalização, é relacionado à operação de venda, sendo hipótese expressamente permitida pelo art. 3º, inciso IX c/c art. 15 da Lei 10.833/03, desde que o ônus seja suportado pelo vendedor, como ocorreu no presente caso”. Entendo que assiste razão à recorrente. Trata-se de matéria que vem sendo debatida perante este e. CARF, sendo que, por concordar com os seus argumentos, transcrevo os fundamentos do v. acórdão nº 3402-009.133, de lavra da i. ex- Conselheira Renata da Silveira Bilhim, que bem analisaram a controvérsia, os quais adoto como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Antes de tudo, parece-me que a intenção do legislador infraconstitucional é desonerar as exportações e gerar um superávit na balança comercial, assim como a Fl. 1356DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 52 do legislador constitucional que, por meio da Emenda Constitucional nº 33/2001, incluiu o parágrafo segundo ao art. 149, da CF, assegurando a não incidência (imunidade) das contribuições sociais (PIS e COFINS) sobre as receitas decorrentes de exportação, ex vi do art. 149, § 2º, da CF, verbis: At. 149. (...) § 2º As contribuições sociais e de intervenção no domínio econômico de que trata o caput deste artigo: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001) I - não incidirão sobre as receitas decorrentes de exportação; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001) (grifou-se) Sendo certo que tal imunidade alcança também as exportações indiretas, por comerciais exportadoras e trading company, conforme já definiu o STF no julgamento do RE 759.244/SP, em 25/03/2020, ao qual se atribuiu os efeitos de repercussão geral (tema 674), resultando na fixação da seguinte tese: “A norma imunizante contida no inciso I do §2º do art. 149 da Constituição da República alcança as receitas decorrentes de operações indiretas de exportação caracterizadas por haver participação de sociedade exportadora intermediária”. O art. 6º, incisos I e III, da Lei nº 10.833/03, repetiu o comando constitucional e reiterou que a COFINS e o PIS não incidem sobre as receitas decorrente de exportação e aquelas derivadas de a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Apesar da impossibilidade da incidência das aludidas contribuições sobre as receitas de exportação, o legislador ordinário permitiu, em nome do princípio da não cumulatividade, a apropriação de créditos relativos aos custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação (§ 3º, do art. 6º, da Lei nº10.833/03), o que poderia ser realizado por meio de dedução de valores devidos de tais contribuições, decorrente das demais operações no mercado interno; compensações com débitos próprios, ou, na sua impossibilidade, mediante pedido de ressarcimento (§ 1º e 2º, do art. 6º, da Lei nº10.833/03). Ocorre que, no tocante às exportações por comerciais exportadoras que adquirem mercadorias com o fim específico de exportação, a legislação vedou a apropriação de créditos vinculados à receita de exportação: Art. 6º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. Veja-se, da leitura do dispositivo acima, não me parece que existe outra interpretação senão a de que a vedação nele contida diz respeito aos custos derivados da aquisição das mercadorias que serão exportadas com fim específico de exportação. Fl. 1357DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 53 Noutras palavras, o legislador ordinário quando previu o benefício em questão tratou de ressalvar, expressamente, a hipótese em que a empresa comercial exportadora adquire mercadoria com o fim exclusivo de exportação, vedando, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação (art. 6º, §4º) - entenda-se decorrentes da venda da mercadoria. Não vejo, desta forma, como dar o alcance pretendido pela autoridade fazendária e pela DRJ ao § 4º, do art. 6ª, da Lei n. 10.833/2003. O que o legislador fez foi reafirmar didaticamente a regra dos art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nºs. 10.833/03 e 10.637/02, inviabilizando o crédito decorrente de aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, como é o caso da aquisição de mercadorias com fim específico de exportação. Melhor explicando: como os produtos adquiridos pela comercial exportadora para fins de exportação não foram onerados pelas contribuições ao PIS e à COFINS quando da saída da empresa produtora, consequentemente não irão gerar créditos em favor da comercial exportadora. Isso porque a empresa produtora representa o final do ciclo produtivo e, como tal, deve se beneficiar dos créditos das etapas anteriores tendo em vista que a saída do produto para exportação não será tributada. O que gera nenhum prejuízo à comercial exportadora, uma vez que sobre a saída destas mercadorias para a exportação não incidirão as referidas contribuições. É exatamente por esse motivo que o § 4º do art. 6º da Lei n. 10.833/2003 veda a apuração de crédito pela comercial exportadora referentemente aquisição de mercadorias destinadas à exportação. Se assim não o fosse, a comercial exportadora se beneficiaria de um crédito já utilizado pela empresa produtora no final do ciclo produtivo. Ou seja, o crédito seria utilizado em duplicidade. Essa duplicidade que a lei visa a proibir, não ocorre com relação aos custos e despesas indiretas que são suportados pela comercial exportadora, as quais geram o direito ao crédito ao exportador, conforme art. 3º, da Lei nº 10.833/03 e 10.637/02. Entendimento diverso, ou seja, o impedimento ao creditamento de despesas e custos indiretos vinculados à exportação e suportados pelo exportador, resultaria em onerar reflexamente as operações de exportação. Além de gerar violação direta ao princípio constitucional da não cumulatividade, cujo objetivo é desonerar a carga tributária, buscando evitar a cumulação da incidência dos tributos ao longo da cadeia econômica. Por exemplo, os custos com fretes na venda e armazenagem não são desonerados pelas contribuições ao PIS e à COFINS, portanto são suportados pela Recorrente (art. 3º, inciso IX), e, em obediência ao regime da não-cumulatividade, ela poderá aproveitar os créditos das etapas anteriores, pois, caso contrário, teria que arcar com o ônus da tributação de toda cadeia. Com efeito, entendo que o § 4º, do art. 6º, da Lei 10.833/2004, não tem aplicação no caso concreto ora analisado, já que apenas proíbe que a exportadora se aproveite de créditos que pertenciam à produtora. Já os créditos decorrentes da contratação de fretes na venda, de armazenamento, insumos, entre outros, Fl. 1358DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 54 ocorridos por conta da exportadora, por essa podem ser aproveitados, conforme fundamentado acima. Ademais, não se pode olvidar que quanto as normas tributárias restritivas de direitos, como o caso em testilha, o Código Tributário Nacional, em seu art. 111, determina que se deve emprestar à norma interpretação restrita e literal. Ao meu sentir, se o legislador quisesse limitar o direito de crédito das comerciais exportadoras que adquirem mercadorias com fim específico de exportação a todos os custos e despesas a ela vinculados (diretos e indiretos), e não apenas àqueles atinentes diretamente à sua aquisição, o deveria ter realizado de forma expressa, não deixando margem à interpretação. Desta forma, fazendo um interpretação sistemática das normas legais, com atenção à vontade do legislador, associada à obediência ao princípio da não cumulatividade, entendo que a restrição do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, armazenagem, aquisição de insumos, aluguel, energia elétrica, dentre outros, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados na forma dos art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. No mesmo sentido, cita-se o seguinte julgado do e. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. PIS. COFINS. EXPORTADORA. DESPESAS DE FRETES NACIONAIS E INTERNACIONAIS E DESPESAS DE ARMAZENAMENTO. CREDITAMENTO. Hipótese em que a Impetrante, exportadora, adquire da produtora produtos para o fim exclusivo de exportação, nos termos do artigo 6º, III, da Lei 10.833/2003. O art. 6º da Lei n. 10.833/2003 prevê que não incidirá COFINS sobre as receitas decorrentes das operações de (I) exportação de mercadorias para o exterior e (III) vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Assim, A empresa produtora aproveita os créditos do PIS e da COFINS referentes às etapas anteriores e sobre a saída dos produtos para a comercial exportadora também não há incidência das contribuições, conforme lhe autoriza o parágrafo 1º do artigo 6º da Lei 10.833. Nesse caso, a Exportadora (ora Impetrante) não se credita de PIS e COFINS sobre o preço da mercadoria, eis que já estava desonerada de tais contribuições sociais a mercadoria na saída do estabelecimento produtor. Contudo, à Exportadora existe o direito de aproveitar créditos referentes às despesas com fretes contratados e despesas de armazenagem, nos termos do artigo 3º, IX, da Lei n. 10.833/2003. Não se aplica a estas circunstâncias a restrição prevista no §4º do art. 6º da Lei n. 10.833/2003, que se refere tão somente ao crédito decorrente das mercadorias adquiridas para fins de exportação, o que não é o caso. Isso porque a exportadora (Impetrante) pretende usufruir de créditos referentes às despesas de frete e armazenagem, constituídos após ter adquirido as mercadorias da produtora. (TRF4 5003026-48.2010.4.04.7201, 1ª Turma, Relator para Acórdão JOEL ILAN PACIORNIK, julgado em 21/05/2014) (Grifamos) Fl. 1359DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 55 Assim, voto por dar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. FRETES DIVERSOS Neste tópico, a recorrente contesta a glosa sobre (i) fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da pessoa jurídica, defendendo a possibilidade de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade com base nos incisos II e IX do artigo 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, e (ii) de devoluções de vasilhame ou sacaria ou de compra, bem como de compra ou transferência de imobilizado; sustentando se tratar de insumos relacionados à divulgação de seus produtos e despesas com a venda de bens. É o que passo a apreciar. No que se refere aos fretes de produtos acabados, este e. CARF editou a Súmula CARF nº 217, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): Súmula CARF nº 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Assim, independentemente do entendimento pessoal deste julgador, deve ser observado o entendimento sumulado, no sentido de manter a glosa sobre os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos. Por fim, considerando que a recorrente não traz argumentos ou provas com o fim de relacionar as remessas de devoluções de vasilhame ou sacaria ou de compra, bem como, de compra ou transferência de imobilizado, com as operações de venda, de modo a corroborar o suposto direito creditório pretendido, voto por manter a glosa sobre tais dispêndios. DAS AQUISIÇÕES DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMO MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E OBRA CIVIL Conforme supra relatado, a fiscalização efetuou a glosa de itens vinculados às contas contábeis analíticas de nº 1010522002 (‘Material de construção) e 5010306005 (‘Material de obra civil), como cimento, arame ovalado, chapas, areia, brita, tijolos, telhas, materiais elétricos como fios, lâmpadas, etc, sob o Fl. 1360DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 56 fundamento de que “os materiais aqui tratados, diferentemente de peças empregadas em máquinas e equipamentos do processo produtivo, não se subsomem no conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das contribuições. Falta-lhes preencher os critérios de essencialidade ou da relevância para a produção dos bens ou prestação do serviço”. Ressaltou, ainda, que o legislador reservou, para edificações e benfeitorias, o creditamento com base no valor de depreciação (art. 3º, caput e §1º, III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03), de modo que os gastos com materiais de construção e obras devem, portanto, primeiramente ser imobilizados para então usufruir do crédito com base no valor da depreciação do bem. No que se refere às alegações da recorrente (em sede de fiscalização) de que os materiais foram utilizados para manutenção nas estruturas operacionais, a autoridade fiscal manifestou o seguinte entendimento: As alegações de que os materiais foram utilizados para manutenção nas estruturas operacionais não justificam o alegado direito ao crédito. A uma, porque a estrutura de contas contábeis informada não permite distinguir se os materiais foram empregados em estruturas do processo produtivo ou em obras de finalidade administrativa. Pelo contrário, aponta-se para “GASTOS GERAIS”, conforme estrutura hierárquica de contas abaixo: [...] A duas, porque além de produtos de fabricação própria, a empresa comercializa produtos de terceiros, e não há apuração de créditos de insumo na atividade comercial (igualmente há contabilização de “Gastos Gerais”, sem distinção). A três, porque há uma série de bens ou grupo de bens que superam em muito, às vezes na casa de dezenas ou centenas de milhares de reais, o limite para bens de pequeno valor previsto no art. 15 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, bem como afiguram ter vida útil superior a um ano (chapas, vigas, estruturas metálicas, painéis, etc.): Art. 15. O custo de aquisição de bens do ativo não circulante imobilizado e intangível não poderá ser deduzido como despesa operacional, salvo se o bem adquirido tiver valor unitário não superior a R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais) ou prazo de vida útil não superior a 1 (um) ano. Não há, portanto, previsão legal de crédito com base inciso II do caput do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, como pretende a fiscalizada, devendo ser glosadas as aquisições de material de construção [...] Por sua vez, com base no Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, o v. acórdão recorrido manifestou o entendimento de que “diversamente do que dispôs a autoridade fiscal, é de se entender que, ainda que aplicados em edificações e Fl. 1361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 57 benfeitorias, os dispêndios com a manutenção regular são geradores de créditos não cumulativos, desde que os ativos mantidos sejam empregados em qualquer etapa do processo produtivo e desde que os reparos e não confiram extensão à vida útil do bem superior a um ano” [sic]. Ressalta, ainda, que “[o] Parecer, citando legislação originária da tributação do imposto sobre a renda, acrescenta mais um elemento na caracterização do dispêndio como sendo de manutenção regular e, portanto, apto à geração de créditos não cumulativos diretamente, sem passar pelo ritmo dos encargos de depreciação. Cuida-se do pequeno valor do gasto, no caso, até R$ 1.200,00”. Entretanto, a D. DRJ entendeu pela manutenção das glosas ora combatidas, com base nos seguintes fundamentos: Voltando-se à situação dos autos, aponta a fiscalização para a ocorrência de gastos com materiais que, efetivamente, não configuram mera manutenção ordinária das instalações. Inspecionando-se a relação de itens glosados presente na planilha anexa ao Relatório Fiscal, verifica-se a recusa de créditos sobre a aquisição de transformadores, caixa de água, pias de mármore, portas de alumínio, coluna pré- moldada de concreto, janelas, pisos cerâmicos, telhas, tijolos entre outros itens que, além de superarem o valor de R$ 1.200,00, adotado como definição de gasto de pequeno valor, autorizam, de fato, o entendimento que não se trata de aquisição de bens vinculados à manutenção periódica de instalações, mas mais propriamente ao emprego em edificações novas ou em reformas que conferem aumento de vida útil superior a um ano. Adicionalmente, como anotou a autoridade fiscal, não se pode afastar o emprego dos materiais em edificações administrativas ou comerciais, não vinculadas à atividade produtiva e, portanto, fora do âmbito do creditamento no regime não cumulativo. Para se caracterizarem como geradores de créditos, os gastos com manutenção, devem estar comprovadamente atrelados a ativos responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda. Como essa comprovação não veio aos autos, não se pode afastar a hipótese de terem sido os itens alvo da glosa empregados em instalações administrativas. Ademais, tratando-se de materiais de construção e de manutenção predial, a apropriação do crédito correspondente diretamente sobre o custo de aquisição dependeria, uma vez confirmada a hipótese de manutenção de ativos relacionados a alguma etapa da produção, da comprovação de que o ganho com a conservação não estenderia por mais de um ano a vida útil das instalações, prova também não produzida pela interessada. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente contesta a conclusão adotada, pleiteando o reconhecimento do direito creditório pleiteado, com base nos seguintes argumentos de fato e de direito: In casu, conforme se extrai da descrição do processo produtivo constante do tópico “IV.1”, a Recorrente possui uma área total de aproximadamente 583 mil hectares Fl. 1362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 58 cultivados, nas quais existem inúmeras edificações operacionais, voltadas a produção, beneficiamento e armazenamento de grãos, sementes, algodão e rebanho bovino. Ademais, proporcionalmente, as dependências destinadas às atividades administrativas são ínfimas, frente às dimensões da área produtiva. Nesse sentido, as dimensões dos empreendimentos da Recorrente, bem como a proporção entre áreas administrativas e operacionais fica evidente das imagens abaixo: • Sede da Fazenda Colorado (Diamantino/MT): [...] • Fazenda Fartura (Campo Verde-MT) [...] (pp. 49/50, do parecer técnico) A reduzida dimensão das áreas administrativas frente às produtivas foi, inclusive, observada pelo perito responsável pela elaboração do parecer técnico anexado ao presente recurso: [...] Isso fica ainda mais claro, se considerado o apontamento feito pelo parecerista, de que “não há estruturas administrativas relevantes que possam impactar, ou mesmo compor, as compras no mercado interno de material de construção e de obra civil, tampouco a empresa possui atividade comercial de revenda de produtos relevante.” (p. 52 do parecer técnico). Dito de outro modo, a Recorrente não opera como vendedora. Assim, não reflete a realidade dos fatos o fundamento utilizado pela DRJ, no sentido de que o crédito pleiteado careceria de liquidez e certeza, por falta de demonstração da Recorrente de que os materiais de construção foram utilizados na manutenção de bens relacionados à produção. [...] Ademais, para a perfectibilização da atividade econômica da Recorrente, todas as etapas devem ser realizadas com a máxima eficiência, uso de material de qualidade e um ambiente que atenda às condições de segurança dos recursos humanos e financeiros empregados nas operações. A título exemplificativo, na atividade desenvolvida no setor agrícola, é de rigor que todos os galpões destinados a estocagem dos insumos, produtos em elaboração e acabados, bem como os prédios utilizados nas etapas operacionais, estejam com suas manutenções em dia, visto que se referem a mercadorias frágeis e que não suportam a exposição a temperaturas extremas ou condições de umidade fora dos padrões exigidos. De igual sorte, os estabelecimentos destinados a atividade pecuária, os cochos das praças de alimentação, as unidades de fabricação e galpões de armazenagem das rações, devem permanecer íntegros, sem apresentar qualquer risco à saúde do rebanho e a qualidade da alimentação. Fl. 1363DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 59 Portanto, todas as infraestruturas físicas utilizadas pela Recorrente necessitam de constantes reparos e manutenções, para possibilitar a fabricação e comercialização do produto final. Logo, os gastos incorridos na aquisição dos materiais de construção e obra civil, tais como cimento, arame ovalado, chapas, vigas, estruturas metálicas, areia, brita, tijolos, telhas, materiais elétricos, fios e lâmpadas, entre outros, destinados à manutenção das referidas estruturas são essenciais e necessários, garantindo à Recorrente o direito ao aproveitamento dos créditos decorrentes. Para elucidar a questão, seguem algumas fotos das unidades da Recorrente que necessitam de reparo ou foram submetidas a manutenção recente: [...] PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO – ESSENCIAIS À PRODUÇÃO – QUE NECESSITAM DE REPARO [...] ARMAZÉM DE RAÇÃO DE BOVINO (ESQ.) E DEPÓSITO DE GRÃO (DIR.) QUE NECESSITAM DE REPAROS [...] UNIDADE FABRIL DE FABRICAÇÃO DAS RAÇÕES, RECÉM SUBMETIDA À MANUTENÇÃO, COM EMPREGO DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO, PARA REPARO ESTRUTURAL Adicionalmente a isso, o parecer técnico trouxe diversas evidências de que o material que deu origem ao direito creditório pleiteado pela Recorrente foi destinado à manutenção das áreas produtivas (páginas 52/55 do parecer técnico): Veja-se o produto “CHAPA GALVANIZADA”, que é um material cujos créditos de PIS/COFINS das aquisições foram glosados pelo Fisco, conforme planilha “Glosa Materiais de Construção”, parte integrante do RELATÓRIO DE AUDITORIA e-Dossiê 10265.004190/2021- 10. Foram R$ 919.693,65 adquiridos, e, notadamente, o seu uso é operacional, na manutenção de Silos, telhas de armazéns e calhas, com ou sem isolamento térmico (necessidade de se manter a temperatura controlada em ambientes de armazenamento de sementes). Observe-se algumas imagens de Chapas Galvanizadas: [...] Essas chapas são utilizadas em telhados ou paredes de Silos, Galpões etc. [...] Com efeito, é inequívoco que todo edifício sofre degradação ao longo do tempo, precisando de cuidados técnicos para preservar o seu bom desempenho, manutenção de condições compatíveis com as exigidas pelos órgãos regulamentadores, as boas condições técnicas e de segurança das construções. Para tanto, para a manutenção do ambiente em condições tais que possibilitem a efetivação da produção, livre de fatores de contaminação que colocariam em risco a segurança dos recursos envolvidos, a Recorrente se vê obrigada a arcar com os Fl. 1364DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 60 custos da aquisição dos materiais de construção e obras civis, sendo imperioso o reconhecimento do alcance do conceito de insumo para fins do aproveitamento dos créditos oriundos das contribuições. Nesse sentido, a Recorrente apropriou-se regular e legalmente dos créditos oriundos dos serviços destacados, em razão de sua essencialidade para a garantia da efetivação da produção da empresa, restando inequívoca a irregularidade das glosas ora combatidas. Por outro lado, também não procede o argumento da DRJ de que os materiais utilizados na manutenção das áreas produtivas superariam o valor individual de R$ 1.200,00 e/ou incrementariam a vida útil do bem em período superior a um ano (conforme entendimento extraído do PN Cosit nº 5, de 2018): [...] Nesse ponto, são valiosos os elementos trazidos pelo parecer técnico, o qual analisou cada um dos itens utilizados na manutenção das áreas produtivas e constatou que o limite individual de R$ 1.200,00 não foi extrapolado (pp. 59/61 do parecer técnico), contrariando a conclusão veiculada pelo acórdão recorrido. A título de exemplo, podemos destacar os trechos abaixo, extraídos do parecer em questão: Em relação ao limite de R$ 1.200,00, que permite a classificação como despesa operacional, o qual não foi ultrapassado (artigo 313 do RIR/2018). Para demonstrar esse ponto, utiliza-se os 10 maiores dispêndios, os quais, de antemão, não correspondem a dezenas ou milhares de reais, como consta do relatório da fiscalização. [...] Analisando as Notas Fiscais, obtidas em consulta ao site da Nota Fiscal eletrônica, https://www.nfe.fazenda.gov.br/portal/consultaRecaptcha.aspx?tipoConsul ta=resumo&tipoConteudo=7PhJ%20gAVw2g=, extrai-se a informação de que nenhum dos materiais acima, unitariamente, ultrapassou o limite de R$ 1.200,00, vejamos: [...] Resta claro, portanto, que também não procede a acusação da Fiscalização, referendada pela DRJ, de que teria sido desrespeitado o limite individual de R$ 1.200,00, estabelecido no Parecer COSIT 05/2018. De outra parte, ponderou o Fisco que “a estrutura de contas contábeis informada não permite distinguir se os materiais foram empregados em estruturas do processo produtivo ou em obras de finalidade administrativa”. Contudo, a glosa também não se sustenta sob tal argumento. Explica-se. Os gastos com essas reformas não são reconhecidos contabilmente como ativo imobilizado pelo fato de não refletir, para o bem objeto de manutenção, em acréscimo de vida útil superior a um ano, conforme determina o CPC 27 (comitê de pronunciamento contábil). Fl. 1365DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 61 O Pronunciamento Técnico, em seus itens 12 e 13, traz um tratamento próprio para os casos em apreço: “12. Segundo o princípio de reconhecimento do item 7 do CPC 27, a entidade não reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado os custos da manutenção periódica do item. Pelo contrário, esses custos são reconhecidos no resultado quando incorridos. Os custos da manutenção periódica são principalmente os custos de mão-de-obra e de produtos consumíveis, e podem incluir o custo de pequenas peças. A finalidade desses gastos é muitas vezes descrita como sendo para “reparo e manutenção” de item do ativo imobilizado. 13. Partes de alguns itens do ativo imobilizado podem requerer substituição em intervalos regulares. Por exemplo, um forno pode requerer novo revestimento após um número específico de horas de uso; ou o interior dos aviões, como bancos e equipamentos internos, pode exigir substituição diversas vezes durante a vida da estrutura. Itens do ativo imobilizado também podem ser adquiridos para efetuar substituição recorrente menos frequente, tal como a substituição das paredes interiores de edifício, ou para efetuar substituição não recorrente. Segundo o princípio de reconhecimento do item 7, a entidade reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado o custo da peça reposta desse item quando o custo é incorrido se os critérios de reconhecimento forem atendidos.” Logo, de acordo com o pronunciamento enunciado acima, a Receita Federal apenas reconhece o valor contábil das pequenas reformas como item do ativo imobilizado, quando a manutenção não tem finalidade de manutenção periódica, que se repete exercício após exercício. Nesse contexto, é importante mencionar novamente a conclusão contida no parecer técnico de que os créditos pleiteados pela Recorrente são relacionados a despesas com manutenção de prédios diretamente relacionados aos setores produtivos da Recorrente. Tal entendimento foi possível a partir do exame de toda a estrutura operacional, bem como dos assentamentos contábeis da Contribuinte, os quais realizam a segregação entre os materiais e serviços empregados na área operacional, daqueles aplicados na manutenção administrativa: “Ainda assim, a contabilidade da BOM FUTURO promove a segregação de apontamento das manutenções realizadas em unidade operacional (lançadas em conta contábil com o código 5 - formação de custo) daquelas relacionadas a manutenção administrativa (lançadas em conta contábil com o código 3). A partir de tudo isso, extrai-se a conclusão de que os materiais em questão foram empregados nas estruturas do processo produtivo da empresa.” (p. 51 do parecer técnico) Assim, resta incontroverso que a Recorrente cumpriu todas as regras tributárias e contábeis quanto ao enquadramento do dispêndio em referência como custo corrente. E, portanto, inquestionável que os gastos incorridos estão intrinsicamente vinculados ao seu complexo produtivo agropecuário, sendo-lhe essenciais, o que justifica o aproveitamento do crédito postulado. Fl. 1366DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 62 Destarte, fica evidente que os gastos com os reparos dos galpões, dos armazéns, e os materiais e serviços de manutenções inerentes, estão ligados diretamente à produção, ainda que não ativados em cumprimento ao CPC 27, devendo ser procedida a reforma do v. acórdão recorrido, com o consequente cancelamento das glosas e deferimento da integralidade do crédito. É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que a Receita Federal já reconheceu, no âmbito do Parecer Normativo Cosit nº 5/18, que “[...] são considerados insumos geradores de créditos das contribuições os bens e serviços adquiridos e utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço”. Neste sentido, merece menção também o artigo 176, § 1º inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2121/22: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). § 1º Consideram-se insumos, inclusive: [...] VII - bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano; Ademais, os fundamentos indicados pelo v. acórdão recorrido para manutenção da glosa, quais sejam, (i) tratar-se de gasto de pequeno valor (até R$ 1.200,00); (ii) ausência de emprego dos materiais em edificações administrativas ou comerciais, (iii) materiais atrelados ao ativo responsável pelo processo produtivo, e (iv) comprovação de que o ganho com a conservação não estenderia por mais de um ano a vida útil das instalações, foram todos refutados pela recorrente, com suporte no Parecer Técnico colacionado aos autos às fls. 1080/1193. Conforme supra reproduzido, o referido Parecer Técnico demonstrou que, nas propriedades da recorrente, a proporção das instalações operacionais corresponde à quase totalidade da estrutura, e há uma pequena sede administrativa, irrelevante em termos de construção. Ainda assim, ressaltou-se que “[...] a contabilidade da BOM FUTURO promove a segregação de apontamento das manutenções realizadas em unidade operacional (lançadas em Fl. 1367DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 63 conta contábil com o código 5 - formação de custo) daquelas relacionadas a manutenção administrativa (lançadas em conta contábil com o código 3). Ademais, analisando contabilmente os insumos adquiridos e utilizados na manutenção de estruturas operacionais, constatou-se “que os custos unitários não ultrapassam o valor de R$ 1.200,00 e possuem vida útil inferior a 1 ano, permitindo sua classificação como despesa operacional, na forma do artigo 313 do RIR/2018”, sendo destacado que, em relação à vida útil, o fator determinante é a utilização e não a descrição do bem. Por fim, demonstrou-se que os itens glosados são essenciais para manutenção das instalações produtivas da empresa, especialmente, na manutenção de Silos, telhas de armazéns e calhas, com ou sem isolamento térmico. Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo. DAS AQUISIÇÕES DE SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMO SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO CIVIL DE PRÉDIOS Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a fiscalização manifestou o entendimento de que “[a]ssim como os Materiais de Construção e de Obra Civil foram glosados (v. Item II.2.1.1), o “SERVICO DE MANUTENCAO CIVIL - PREDIOS OPERACIONAIS” também não se amolda ao conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das contribuições”. Ressaltou, ainda, que “[b]asta verificar as notas apresentadas que se constata, inclusive, que os serviços extrapolam em muito a mera manutenção de prédios, tratando-se em alguns casos de obras de construção civil, a exemplo de “...EXECUÇÃO DE SERVIÇOS DE TERRAPLENAGEM, PAVIMENTAÇÃO DE DRENAGEM REALIZADOS NA FAZENDA 3 IRMÃOS” (NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, CNPJ 02.837.996/0001-10, no valor de R$ 658.030,42, fls. 365); “...CONSTRUÇÃO DO BARRACÃO…” e “SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO PONTE…” (NFs nºs 60 e 65, de 20/04/2018 14/06/2018, emi7das por DAMIAO FIGUEIREDO EIRELI, CNPJ 25.191.377/0001-04, nos valores de R$ 39.300,00 e R$ 50.000,00, fls. 270 e 313); “FABRICACAO E MONTAGEM DE OFICINA E LANTERNIN TROCAR TELHA, FECHAMENTO FRONTAL, JANELAS BASCULANTE, COBERTURA DE CHIQUEI….” (NF 118, de 20/04/2018, emi7da por JC METALURGICA LTDA, CNPJ 24.538.950/0001-32, no valor de R$ 58.710,00, fls. 274), etc.. Não à toa, os participantes são, via de regra, construtoras: SANTOS CONSTRUTORA (fls. 246 e 349), VOIGT CONSTRUÇÕES (fls. 306 e 341), G2 CONSTRUTORA (fls. 311 e 321)”. Segundo a fiscalização, tais serviços, se preenchidos os critérios previstos no art. 3º, caput e §1º, III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, poderiam gerar crédito Fl. 1368DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 64 com base no valor mensal de depreciação, mas não com base na aquisição de insumos. No mesmo sentido, o v. acórdão recorrido entendeu por manter a glosa, reforçando “[...] a afirmativa da fiscalização de que os prestadores de serviços são empresas de construção indicando obras que ultrapassam os limites das despesas com manutenção regular de edificações”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera o exposto no tópico anterior, defendendo o direito ao aproveitamento de créditos, com base no entendimento de que “[...] é de rigor que todos os galpões destinados a estocagem dos insumos, produtos em elaboração e acabados, bem como os prédios operacionais utilizados pela Recorrente, estejam com suas manutenções em dia”. Ainda, destaca que a análise contida no parecer técnico anexado ao processo, em que foram examinados cada um dos serviços glosados pela fiscalização, concluiu que “[...] ao contrário do que foi alegado pelo Sr. Agente Fiscal e confirmado pela DRJ, os serviços são i) essenciais para que a estrutura operacional permaneça em funcionamento; e ii) caracterizam-se como de manutenção periódica dos ativos, prescindindo de ativação, por serem custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado”: Perante o exposto nesse tópico, os serviços de manutenção civil de prédios referem- se à manutenção periódica dos ativos que, conforme o item 12, do CPC 27, não devem ser reconhecidos como parte integrante do ativo, visto serem considerados como custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado. Vale reafirmar que toda a manutenção realizada foi essencial para manter a estrutura operacional em funcionamento; sem a devida conservação tornar-se-ia inviável a manutenção da cadeia produtiva. (fls. 76 do parecer técnico) Por tais razões, a recorrente sustenta que “[...] os gastos incorridos na aquisição dos serviços de manutenção das referidas estruturas são essenciais e necessários, devendo ser reformado o acórdão DRJ e revertidas as glosas ora combatidas, com o consequente deferimento integral do ressarcimento pleiteado”. É o que passo a apreciar. Inicialmente, reporta-se ao que foi decidido no tópico anterior, no que se refere à possibilidade de aproveitamento de serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo produtivo, cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do Parecer Normativo Cosit nº 5/18 e artigo 176, § 1º inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2121/22. No que se refere ao enquadramento de tais itens aos requisitos normativos exigidos para apropriação dos créditos da não-cumulatividade, cumpre transcrever excerto do Parecer Técnico colacionado aos autos, no qual é analisada a natureza e o objeto de tais contratações: Fl. 1369DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 65 Iniciando-se pela análise do documento fiscal “NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, CNPJ 02.837.996/0001-10, no valor de R$ 658.030,42, fls. 365”: [...] Constata-se que, dos R$ 658.030,42 do valor total da Nota Fiscal, o montante de R$ 394.818,25 refere-se a materiais e R$ 263.212,67 a prestação de serviços, como consta do rodapé e também do campo “Base de Cálculo do ISS”: [...] Primeiramente, destaca-se que, nos serviços de manutenção, há os materiais utilizados, ou seja, a análise deve ser restrita ao serviço, devido à natureza distinta entre a efetiva prestação de serviços e os materiais utilizados. O valor total de R$ 658.030,42 contempla serviços de manutenção de pavimentação, utilizados pela BOM FUTURO para o desenvolvimento de suas atividades, visto que apenas uma estrada particular da empresa localizada em Campo Verde/MT possui 8.2km asfaltados para se chegar à sede operacional da Fazenda (vide introdução deste Parecer). O valor envolvido é condizente com a natureza de insumo, de manutenção, visto que o valor não é suficiente nem para asfaltar 1 quilometro de rodovia 3 . Nesse contexto, o valor da nota fiscal, insuficiente para se pavimentar 1 km de estrada em relação à BOM FUTURO, que possui centenas de quilômetros pavimentados, permite concluir não se tratar de obra viária, mas sim de manutenção das estradas existentes. Prosseguindo na análise, algumas Notas Fiscais são da empresa G 2 CONSTRUTORA, que presta serviços de manutenção civil em “Fossa”. Vide, a seguir, o documento fiscal: [...] No campo “Serviços Prestados”, consta expressamente “Serviços de Manutenção Civil” em “Fossa”: [...] Trata-se de manutenção em fossa, que deve ser considerando com uma obra civil, contabilizada no ativo imobilizado. Além disso, não está sujeita à depreciação mensal, nos termos do CPC 27 (Comitê de Pronunciamento Técnico), o qual disciplina que não se deve reconhecer no ativo imobilizado os custos de manutenção periódica. Conforme Pronunciamento Técnico CPC 27, item 12: “Segundo o princípio de reconhecimento do item 7, a entidade não reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado os custos da manutenção periódica do item. Pelo contrário, esses custos são reconhecidos no resultado quando incorridos. Os custos da manutenção periódica são 3 Vide no site da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística – SINFRA, do Governo do Estado do Mato Grosso, a notícia que, para se construir 56,2 quilômetros de rodovia o estado do Mato Grosso está investindo R$ 65 milhões de reais Fl. 1370DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 66 principalmente os custos de mão-de-obra e de produtos consumíveis, e podem incluir o custo de pequenas peças. A finalidade desses gastos é muitas vezes descrita como sendo para “reparo e manutenção” de item do ativo imobilizado.” Ademais, manutenção (especificamente em fossas), é de essencial importância, visto estar diretamente relacionada a: - Prevenção da contaminação do solo; - Impedir o surgimento de ratos, baratas, moscas etc; - Destinação correta da rede de esgoto; Seguindo as análises, veja-se outra Nota Fiscal, referente a serviços de pintura de maquinários da Algodoeira. [...] Em relação a Pintura de Algodoeira, constata-se que: - Não é um serviço passível de contabilização como ativo imobilizado, logo, não é depreciável; - Não é obra civil. A pintura de máquinas e implementos agrícolas é um serviço essencial de manutenção para o desenvolvimento das atividades da BOM FUTURO, visto que, com o desgaste natural da pintura, partes dos equipamentos ficam expostas a intempéries e agentes de corrosão. Observe-se ainda a Nota Fiscal 65, de 14/06/2018, emitida por DAMIAO FIGUEIREDO E/RELI, CNPJ 25.191.377/0001-04: [...] Constata-se que a descrição do serviço é “PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MANUTENÇÃO CIVIL – PREDIOS OPERACIONAIS – SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO DE PONTE – CONFORME PEDIDO DE COMPRA”. A descrição inicia-se com os dizeres “Manutenção Civil”, logo, entende-se que manutenção é a essência do serviço. A obra civil relacionada à construção de ponte corresponde a uma atividade mais aderente à manutenção: [...] Por fim, a descrição dos serviços na NF 679, é expressa: “SERVIÇO DE MANUTENÇÃO CIVIL PREDIOS OPERACIONAIS – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CONFORME CONTRATO”: [...] O documento fiscal em questão envolve a contratação de serviços de manutenção predial, e não obra civil, sujeita à depreciação. Para a manutenção da operação, é fundamental que se tenham plenas condições das instalações do processo produtivo; é essencial que toda a estrutura esteja apta para realização da produção e armazenagem. Fl. 1371DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 67 Perante o exposto nesse tópico, os serviços de manutenção civil de prédios referem- se à manutenção periódica dos ativos que, conforme o item 12, do CPC 27, não devem ser reconhecidos como parte integrante do ativo, visto serem considerados como custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado. Vale reafirmar que toda a manutenção realizada foi essencial para manter a estrutura operacional em funcionamento; sem a devida conservação tornar-se-ia inviável a manutenção da cadeia produtiva. Com base no referido Parecer Técnico, que analisa os serviços glosados pela fiscalização, entendo que, na maior parte dos casos, restou demonstrado se tratar de serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados no processo produtivo. No que se refere à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, demonstrou-se que se trata de serviço de manutenção de pavimentação e terraplanagem (o valor da nota fiscal é insuficiente para pavimentar uma estrada, sendo adequado se admitir que é utilizado exclusivamente na manutenção de estradas existentes), o que está envolvido no processo produtivo da empresa, que exige o transporte de máquinas, insumos e produtos ao longo das áreas rurais da empresa de vasta extensão. Da mesma forma, as Notas Fiscais da empresa G2 CONSTRUTORA, tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, sendo de essencial importância ao processo produtivo da empresa que envolve requisitos sanitários rígidos, ao prevenir a contaminação do solo, impedir o surgimento de ratos, baratas, moscas etc, e dar a destinação correta da rede de esgoto. No mesmo sentido, os serviços de Pintura de Algodoeira são essenciais para manutenção das atividades produtivas da empresa, uma vez que com o desgaste natural da pintura, partes dos equipamentos ficam expostas a intempéries e agentes de corrosão. Ademais, o Parecer Técnico bem aponta que, por se tratar de custos de manutenção periódica do ativo imobilizado, não são passíveis de contabilização como ativo imobilizado (e, por conseguinte, não são depreciáveis), o que reforça a possibilidade de aproveitamento dos créditos na condição de insumos. Por outro lado, a Nota Fiscal 65, de 14/05/2018, emitida por Damião Figueiredo, se refere expressamente a “Serviço de Construção de Ponte”, o que configura construção e não manutenção, além de não ser possível, com base nas provas juntadas, a individualização dos serviços para alcançar apenas aqueles de manutenção. Ainda, no que se refere à NF 679, que trata de “SERVIÇO DE MANUTENÇÃO CIVIL PREDIOS OPERACIONAIS – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CONFORME CONTRATO”, não há qualquer prova – como o contrato citado na descrição – que permita avaliar a natureza da contratação, o que impede o reconhecimento do crédito pleiteado. Por tais razões, voto por dar parcial provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, Fl. 1372DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 68 emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira. SERVIÇOS PORTUÁRIOS E DESPACHO ADUANEIRO Conforme se extrai do Relatório Fiscal, a recorrente “[...] escriturou em suas EFD Contribuições, nas rubricas de crédito “Aquisição de serviços utilizados como insumo” (01/2016 a 06/2017) e “Armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda” (10/2017 a 10/2018), Serviços Portuários em Geral, a título de “SERVIÇO DE ARMAZENAGEM DE GRÃOS (GRÃOS/ALGODAO)” e “SERVIÇO FRETE SOB VENDAS””. Para justificar a glosa dos referidos itens, assim se manifestou a autoridade fiscal: 94. Verificando-se as notas apresentadas, temos as seguintes descrições para os serviços prestados: a) COMPANHIA BANDEIRANTES DE ARMAZENS GERAIS: “ESTUFAGEM ALGODAO” (v. NFs 10567, 11907 e 14034 às fls. 203, 205 e 245); b) LIBRA TERMINAL VALONGO S/A: “ADICIONAL DE SEGURO-CONS, REMOCAO DE CHEIOS MD – CNTR…...-CONSREMOCAO DE VAZIOS MD – CNTR….,-CONS,OCTE CONSOLID S/TRAN” e “REMOCAO DE CHEIOS MD – CNTR …, -CONS, ADICIONAL DE SEGURO-CONS,REMOCAO DE VAZIO MD – CNTR…, -CONS, PCTE CONSOLID S/ TRAN” (v. NFs 9601, 13190, 13290 às fls. 231, 240/241); c) SANTOS BRASIL LOGISTICA S.A.: “SERVIÇO DE POSICIONAMENTO EXPORTAÇÃO...ARMAZENAGEM APOS PERIODO...STUFFING MECANIZADO…”, “NAVIO CAPE SOUNIO VAGEM … STUFFING MECANIZADO CNTR 40 SERVICO DE POSICIONAMENTO EXPORTACAO ARMAZENAGEM APOS PERIODO CNTR 40” e “NAVIO KOTA LUKIS VIAGEM …. ARMAZENAGEM APOS PERIODO CONTR 40 STUFFING MECANIZADO CNTR 40” (v. NFs 93098, 100267 e 99902, fls. 268, 271 e 320); d) TCP - TERMINAL DE CONTEINERES DE PARANAGUA SA: “...FATURA: XX SERIE: YY NAVIO: VIAGEM: OBS; OVA EXPORTACAO TENDA HH ….BOOKING ….” (v. NFs 59218 e 82263 às fls. 226 e 229); e) EMBRAPORT EMPRESA BRASILEIRA DE TERMINAIS PORTUARIOS: “SERVIÇOS PORTUARIOS – ARMAZENAGEM DE QUALQUER NATUREZA E SERVICOS ACESSORIOS/ Draft: … / NAVIO: XX…..” (NFs 137461 e 140208, fls. 243/244); f) BRASIL TERMINAL PORTUARIO S.A.: “MAERSK LONDRINA …. ROLAGEM 40 CH EXPORT…….”, e “MAERSK LONDRINA …. POSIC. P/ VITORIA 40 – EXP QTDE: XX Preço: YY …..” (v. NFs 104018 e 90420, fls. 201 e 230); g) TRANSMODAL LOGISTICA EIRELI: “SERVIÇOS RETROPORTUÁRIOS / RETIRADA DE CNTR VAZIO ESTUFAGEM E ENTREGA DO CNTR CHEIO NO TERMINAL DE EMBARQUE” (v. NF 12864 às fls. 238); Fl. 1373DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 69 h) CONCORDIA LOGISTICA S.A.: “SERVIÇO DE ESTUFAGEM E TRANSPORTE….BOOKING:…../ NAVIO: XX…..” (v. NFs 25085 e 25192 às fls. 219/220). 95. Da amostragem realizada, consta-se que são serviços portuários diversos, como movimentação de contêineres, posicionamento, rolagem, amarração, fixação e inspeção de cargas, etc. [...] 97. Os serviços portuários aqui tratados são gastos posteriores à finalização do processo de produção dos bens destinados a exportação, de forma que não se caracterizam como serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda (art. 3º, inc. II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003). 98. Em se tratando de produtos acabados, só é possível o creditamento na hipótese do inciso IX do art. 3° da Lei nº 10.833/03, ou seja, sobre armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor. 99. O conceito de armazenagem e frete, contudo, não alcança despesas de natureza completamente diversa, como são os serviços logísticos e de operação portuária (de movimentação, posicionamento e rolagem de contêineres, inspeção de carga, contratação de agenciadoras marítimas, etc). 100. Ainda que em algumas das notas fiscais apresentadas possa haver também serviço de armazenagem, este sim possível de creditamento, não há como distingui- lo dos demais serviços portuários praticados. 101. Não há, portanto, previsão legal de crédito para esses dispêndios, [...] Também foram glosados créditos tomados sobre serviços de Despachante Aduaneiro, nos seguintes termos: 103. De acordo com as EFD-C apresentadas, a contribuinte creditou-se de serviços de “ATIVIDADES DE DESPACHANTES ADUANEIRO”, sendo a empresa MEDITERRANEAN LOGISTICA ADUANEIRA, CNPJ 07.250.092/0001-07, que tem como atividade: “33.01 / 5250801 - Comissaria de despachos”, responsável por 95% do valor dos serviços prestados. 104. Verificando-se as notas apresentadas, a discriminação dos serviços é “Processo….” (NF 4484, fls. 263) e “...INSPEÇÃO NÃO INVASIVA…” (NF 301053, fls. 252). 105. Tais gastos são posteriores à finalização do processo produtivo, de modo que não podem ser considerados insumos, e tampouco se relacionam com operações de armazenagem e frete na operação de venda. 106. Não há, portanto, previsão legal de crédito para esses dispêndios, [...] Fl. 1374DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 70 Considerando que a glosa foi mantida pelo v. acórdão recorrido, a recorrente interpôs Recurso Voluntário, contestando a conclusão adotada, com base nos seguintes argumentos de fato e de direito: De acordo com o parecer técnico anexado ao presente recurso, os serviços portuários consistem na armazenagem, fretes e stuffing (serviço técnico de organização dos produtos no container para exportação): “Basicamente, nota-se que, majoritariamente, além de Armazenagem e Fretes, trata-se de Estufagem ou Stuffing, que é o procedimento técnico de organização dos produtos no container para exportação, com planejamento rigoroso e respeito a normas técnicas, visto que uma estufagem mal realizada pode prejudicar a qualidade do produto final devido a diversos fatores, tais como: • Deve respeitar os limites de capacidade, pois uma simples prensagem maior do algodão pode prejudicar a qualidade da fibra; • O material que acondiciona o algodão não pode ser danificado ou perfurado, pois a exposição do algodão ao ambiente pode danificar a fibra; • O algodão é altamente inflamável, pelo que seu acondicionamento deve respeitar normas rígidas para se evitar incêndio;” (fls. 77 do parecer técnico) Já com relação aos serviços prestados pelo despachante aduaneiro, as conclusões expostas no parecer técnico já mencionado deixam claro que se trata de despesa necessária à atividade da Recorrente, a qual, naturalmente, permite o creditamento das contribuições ao PIS/COFINS: “O serviço de comissária de despacho é realizado por profissional responsável pela vistoria e desembaraço aduaneiro, ou seja, é um dos profissionais que garante a qualidade da armazenagem do produto. Em linha com o abordado no capítulo anterior, em se tratando de cargas que, em seu transporte, são exigidos procedimentos técnicos para garantia da qualidade do produto, são essenciais ao processo produtivo da empresa.” (fls. 78 do parecer técnico) [...] Com efeito, não são necessárias maiores considerações para demonstrar a essencialidade dos serviços portuários e o desembaraço aduaneiro, afinal, para que os bens exportados cheguem ao seu destino, os produtos devem ser movimentados nas instalações alfandegárias, ser conferidos, carregados e descarregados, liberados, eventualmente armazenados e, por fim, transportados para o seu adquirente. Até porque os prestadores dos serviços em comento são contribuintes do PIS/COFINS, motivo pelo qual é assegurado o direito de tomada de crédito relativo a essas despesas, em atendimento ao princípio da não cumulatividade dessas contribuições. Trata-se, portanto, de serviços imprescindíveis para a perfectibilização da venda que irá gerar receita à Recorrente, motivo pelo qual deve ser reformado o acórdão recorrido e revertidas as glosas efetuadas pela fiscalização. Fl. 1375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 71 Independentemente do entendimento pessoal deste julgador, este e. CARF editou a Súmula CARF nº 232, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. Assim, deve ser observado o entendimento sumulado, razão pela qual voto no sentido de manter a glosa sobre despesas portuárias e despachante aduaneiro. DEMAIS SERVIÇOS (ESTACIONAMENTO, ALUGUEL DE VEÍCULO, VALE- ALIMENTAÇÃO, RASTREAMENTO, EXPURGO DE CARGAS, CLÍNICA MÉDICA E SERVIÇOS DIVERSOS) No que se refere aos demais serviços glosados (Estacionamento, aluguel de veículo, vale-alimentação, expurgo de cargas, clínica médica e serviços diversos), a recorrente sustenta que “[...] é imperioso o reconhecimento do alcance do conceito de insumo para todos os gastos gerais que a pessoa jurídica precisa incorrer na produção de bens ou serviços, ainda que tais elementos não entrem em contato direto com os bens produzidos”. Especificamente com relação ao aluguel de veículos e estacionamento, destaca que o parecer técnico anexo aos autos ressalta que são despesas essenciais às atividades da recorrente, pois envolvem a movimentação de funcionários para a consecução das suas atividades: “Estacionamento e aluguel de veículos ➔ A empresa exerce atividades pulverizadas por toda a dimensão do estado do Mato Grosso, com fazendas se estendendo por milhares de hectares. Nesse contexto, o deslocamento de seus profissionais só é possível através de automóveis. Assim, impossível garantir o bom funcionamento da operação, se seus agrônomos, por exemplo, não possam se deslocar entre as terras, o que está, intrínseca e fundamentalmente, relacionado ao processo produtivo, além da qualidade do produto final. O estacionamento destes veículos são consectários naturais.” (página 78 do parecer técnico) No que se refere às despesas com vale alimentação e despesas médicas glosadas pela fiscalização, sustenta que a IN RFB nº 1.911/2019 é expressa ao consignar que é possível o creditamento com vale-transporte, vale-refeição ou vale- alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica (artigo 172, §2º, VI). Ressalta, ainda, que as despesas com vale- alimentação decorrem de acordo coletivo, sendo que “[o]s instrumentos de negociação coletiva correspondem a imposições normativas que têm força de lei para as partes nela representadas, conforme decidiu o STF, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) nº 1.121.63/GO”. Fl. 1376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 72 É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que este e. CARF editou a Súmula CARF nº 190, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas. Assim, independentemente do entendimento pessoal deste julgador, deve ser observado o entendimento sumulado, no sentido de manter a glosa sobre os gastos com locação de veículos. Quanto aos gastos com estacionamento, entendo não se tratar de despesa essencial ou relevante para o processo produtivo da empresa, em razão da ausência de comprovação da sua imprescindibilidade para o desenvolvimento da atividade econômica. No que se refere às despesas com vale-alimentação e despesas médicas, merece destaque que o artigo 172, §2º, inciso VI, da IN RFB nº 1.911/2019 mencionado pela recorrente, vai no sentido contrário ao pleiteado, ao expressamente consignar que “[n]ão são considerados insumos, entre outros: VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão-de-obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de seguro e seguro de vida, ressalvado o disposto no inciso VI do art. 181”. Tal dispositivo é repetido pelo artigo 176, §2º, inciso VI, da atual IN RFB nº 2.121/22, ex vi: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). [...] § 2º Não são considerados insumos, entre outros: [...] VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de saúde e seguro de vida; Fl. 1377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 73 Quanto à alegação da recorrente de que os gastos com vale-transporte decorrem de acordo coletivo, ressalto que, com base no artigo 177 da IN RFB nº 2121/22, a Receita Federal reconhece que “[t]ambém se consideram insumos, os bens ou os serviços especificamente exigidos por norma legal ou infralegal para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades”. Por sua vez, no §1º, estabelece que “[o] disposto no caput não se aplica nas hipóteses em que a exigência dos bens ou dos serviços decorrem de celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho”. Com a devida vênia, entendo que, ao exercer sua competência de interpretar e aplicar a legislação tributária, editando instruções normativas necessárias à sua execução, a Receita Federal andou bem ao reconhecer que os bens e serviços exigidos, por norma legal ou infralegal, para viabilizar a mão-de-obra empregada nas atividades, devem ser considerados insumos, por outro lado, ultrapassou os limites estabelecidos em lei, inovando o ordenamento jurídico, ao excetuar as hipóteses em que a exigência decorre da celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho. Ora, a partir do momento em que se reconhece o caráter de insumo aos bens e serviços exigidos, por norma legal ou infralegal, para viabilizar a mão-de-obra empregada nas atividades de produção de bens ou de prestação de serviços, não vislumbro qualquer fundamento legal que permita a exclusão das exigências decorrentes de acordos e convenções coletivas de trabalho. Nos termos do artigo 611 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, a Convenção Coletiva de Trabalho configura acordo de caráter normativo, sendo que, conforme estabelece o artigo 611-A do mesmo diploma legal, a convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre diversas questões atinentes à relação de trabalho. Neste sentido, assim leciona o professor Maurício Godinho Delgado: As convenções coletivas, embora de origem privada, criam regras jurídicas (normas autônomas), isto é, preceitos gerais, abstratos e impessoais, dirigidos a normatizar situações ad futurum. Correspondem, consequentemente, à noção de lei em sentido material, traduzindo ato-regra (Duguit) ou comando abstrato. São, desse modo, do ponto de vista substantivo (ou seja, de seu conteúdo), diplomas desveladores de inquestionáveis regras jurídicas (embora existam também no seu interior cláusulas contratuais. Somado a isto, a Constituição Federal elenca, em seu artigo 7º, inciso XXVI, o reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho como direito dos trabalhadores urbanos e rurais. Ressalte-se que a relevância está na imposição da exigência – que deve ser observada no exercício da atividade do contribuinte – e não propriamente no instrumento jurídico que a impõe, até porque, a própria instrução normativa Fl. 1378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 74 compreende que o conceito de insumo alcança exigências impostas tanto por norma legal quanto infralegal. Por tais razões, entendo que os bens ou serviços especificamente exigidos por convenções e acordos coletivos de trabalho, para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades, também revestem o caráter de insumo. Ocorre que, no presente caso, a recorrente se limita a alegar que a obrigação decorre de acordo coletivo, sem trazer qualquer documento que permita a comprovação do alegado, o que impossibilita o reconhecimento do direito creditório pleiteado. DA GLOSA PARCIAL DE BASE DE CÁLCULO SUPOSTAMENTE INFORMADA A MAIOR – INTEGRAÇÃO DO ICMS-ST NO VALOR DOS INSUMOS ADQUIRIDOS Conforme se extrai do Relatório Fiscal, a fiscalização verificou que “[a] contribuinte, ao informar a Base de Cálculo (BC) do crédito de PIS/Cofins decorrente da aquisição de alguns insumos, por vezes integrou o ICMS sobre substituição tributária (ICMS-ST) ao seu valor, conforme se depreende do cotejo das NFe emitidas pelos respectivos fornecedores”. Mencionando a Solução de Consulta Cosit nº 99.041/17, o entendimento firmado pelo STJ no julgamento do Recurso Especial nº 1.456.648/RS e os artigos 26 e 167 da IN RFB nº 1.911/19, a autoridade fiscal efetuou a glosa da base de créditos informada a maior, ressaltando que o ICMS-ST “que consta na nota fiscal emitida pelo vendedor-substituto da mercadoria à fiscalizada não compõe a base de cálculo das contribuições devidas por ele vendedor, ou seja, não há incidência de PIS/Cofins sobre o valor do ICMS-ST na etapa anterior”, sendo indevido, portanto, o crédito calculo sobre o ICMS-ST destacado nas notas fiscais de aquisição. Ao manter a glosa efetuada, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: [...] evitando-se distorções na aplicação do regime da não cumulatividade, o valor do crédito passível de apuração pelos contribuintes substituídos deve ser calculado excluindo-se dos custos de aquisição a parcela do ICMS cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário, na medida em esta parcela é sacada da base de cálculo deste último. A situação não é alterada pelo julgamento, no STJ, do Tema Repetitivo nº 1.125 que entendeu que o valor correspondente ao ICMS-ST recolhido antecipadamente pelo substituto tributário não compõe a base de cálculo da Contribuição ao PIS/Pasep e da Cofins, devidas pelo contribuinte substituído. Note-se que o julgamento do STJ voltou-se para a formação da base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins devidos pelos adquirentes, contribuintes substituídos do ICMS, concluindo que nela não se inclui a parcela referente ao ICMS cobrado pelo vendedor na condição de substituto do ICMS. Fl. 1379DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 75 Esse entendimento só vem reforçar o acerto da fiscalização em glosar a tomada de créditos sobre o valor do ICMS-substituição tributária pela adquirente substituído. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente ressalta que “[...] o ICMS que é retido pelo substituto não entra no mecanismo de compensação entre débitos e créditos, inerente ao princípio da não cumulatividade, de tal sorte que todo o encargo é arcado, em última instância, pelo substituído tributário, reforçando o caráter de irrecuperabilidade do referido tributo”. Sustenta, ainda, ser inadequada a IN RFB nº 1.911/19 na parte em que pretende disciplinar a matéria, “[...] visto que o tema ainda se encontra pendente de julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esse Tribunal, sob o rito de recursos repetitivos, afetou os Recursos Especiais nº 1.896.678 e nº 1.958.265 (tema nº 1.125), no qual será oportunamente decidida a possibilidade ou não de exclusão do valor correspondente ao ICMS-ST da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS”. Por tais razões, defende que “[...] não há que se falar em redução ou glosa de créditos pautados na pretensa exclusão, devendo ser reformado o v. acórdão recorrido para determinar o ressarcimento integral com a inclusão do montante atinente ao ICMS-ST integrante da base de cálculo das contribuições”. É o que passo a apreciar. Trata-se tema decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231, no qual foram fixadas as seguintes teses: 1ª) Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77; 2ª) Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído. O acórdão do referido julgamento restou assim ementado: RECURSO REPETITIVO. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. VALORES REFERENTES AO ICMS-SUBSTITUIÇÃO (ICMS- ST). IMPOSSIBILIDADE. TRIBUTO RECOLHIDO EM SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. DESCARACTERIZAÇÃO COMO CUSTO DE AQUISIÇÃO PREVISTO NO ART. 13, DO DECRETO-LEI N. 1.598/77. 1. Indeferidos os os pedidos de ingresso no feito na condição de amicus curiae. Isto porque, em se tratando de processo que foi adiado de pauta anterior, os pedidos são extemporâneos, além do que realizados somente às vésperas do julgamento do recurso (Precedentes: EDcl nos EDcl no REsp. n. 1.143.677 / RS, Corte Especial, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 21.11.2012; EDcl no REsp. n. 1.143.677 / RS, Corte Especial, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 29.06.2010). Fl. 1380DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 76 2. Não sendo receita bruta do substituto tributário, o ICMS-ST não está na base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não cumulativas por si (pelo substituto) devidas e definida nos arts. 1º e §2º, das Leis ns. 10.637/2002 e 10.833/2003. 3. Como o princípio da não cumulatividade preconiza que o valor do tributo incidente sobre o bem na saída do vendedor é que irá gerar o valor do crédito na entrada do bem para o adquirente, se não houver tributação na saída do vendedor (substituto), não haverá creditamento na entrada para o adquirente (substituído) e qualquer crédito concedido nessa situação ou para além do valor do tributo pago na etapa anterior é crédito presumido ou fictício, carecedor de lei específica, na forma do art. 150, §6º, da CF/88. Precedentes: Súmula Vinculante n. 58/STF; Repercussão Geral Tema n. 844/STF; recurso repetitivo REsp. n. 1.894.741/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 27.04.2022. 4. No caso concreto, as contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não incidem sobre o ICMS-ST na etapa anterior (substituto), portanto, na ausência de lei expressa criadora do crédito presumido, não podem gerar crédito para ser utilizado na etapa posterior (substituído). 5. Com o julgamento do TEMA n. 1125/STJ ("O ICMS-ST não compõe a base de cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS devidas pelo contribuinte substituído no regime de substituição tributária progressiva"), este Superior Tribunal de Justiça equiparou a situação econômica dos contribuintes de direito do ICMS normal àquela dos contribuintes de fato do ICMS-ST, em razão do princípio da isonomia, tornando a escolha do Estado em tributar determinada mercadoria via ICMS ou ICMS-ST economicamente neutra para as contribuições ao PIS/PASEP e COFINS e, por consequência, para as empresas. 6. Acaso fosse concedido na atualidade o creditamento pleiteado, a distorção existente entre o contribuinte de fato do ICMS-ST e o contribuinte de direito do ICMS normal voltaria, agora em prejuízo deste último, pois o primeiro, além de excluir o ICMS-ST da base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS por si devidas, também ganharia o direito ao crédito dos valores correspondentes ao ICMS-ST, caracterizando odioso duplo benefício (ganharia de volta o crédito sem ter o débito correspondente), sendo que o segundo nenhum benefício mais tem depois do advento dos os artigos 6º e 7º, da Lei n. 14.592/2023 (não tem crédito e não tem débito). 7. Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77, isto porque: 7.1. A lei foi publicada em período onde não havia substituição tributária progressiva (substituição tributária "para frente") no Brasil, não podendo dar efeitos a algo que não existia, desta forma, sequer é possível instrução normativa que assim trate a matéria, sob pena de extrapolar a lei de regência; 7.2. Os tributos recolhidos em substituição tributária "para frente" são mera antecipação de um tributo que incidiria na venda (não na aquisição) a ser feita pelo substituído, ou seja, não são juridicamente uma oneração na aquisição, mas uma oneração antecipada da venda a ser futuramente feita; e 7.3. A classificação de Fl. 1381DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 77 "tributo recuperável" e "tributo não recuperável" não é aplicável aos casos de substituição tributária, porque monofásicos. 8. Ainda que o ICMS-ST integrasse o conceito de custo de aquisição, esta Corte tem posicionamento pacificado no sentido de que nem todo o custo de aquisição gera direito ao creditamento na sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS. Precedentes em recursos repetitivos: REsp. n. 1.221.170/PR, Primeira Seção, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 22.02.2018 e REsp. n. 1.894.741/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 27.04.2022. 9. Desta forma, seja em razão dos limites impostos pelo princípio da não cumulatividade, seja em razão da impossibilidade de tratamento anti-isonômico entre os contribuintes, seja porque não configuram custo de aquisição e seja porque nem todo o custo de aquisição gera direito ao creditamento na sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os valores despendidos pelo contribuinte substituído, a título de reembolso ao contribuinte substituto pelo recolhimento do ICMS-ST, não geram créditos das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não cumulativas. 10. Teses propostas para efeito de repetitivo: 10.1. Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77; e 10.2. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído. 11. Embargos de divergência em recurso especial providos. (EREsp n. 1.959.571/RS, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 20/6/2024, DJe de 25/6/2024.) Desta forma, considerando que, nos termos do artigo 99 do Regimento Interno do CARF, “[a]s decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.”, voto por negar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de manter as glosas efetuadas pela fiscalização. DA GLOSA DE DESPESAS COM ALUGUEL (ARRENDAMENTO MERCANTIL) Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a recorrente apresenta contratos de arrendamento rural com valores mensais líquidos e certos, cujo crédito é apropriado de acordo com a competência do arrendamento, e contratos indexados, prefixados em quantidade de sacas de soja. Esses últimos foram objeto de glosa. Fl. 1382DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 78 Apesar de reconhecer que o aproveitamento de créditos sobre arrendamento rural está autorizado pelo artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, por estar compreendido nos conceitos de “aluguel” e de “prédio”, a fiscalização entendeu que tais contratos não se caracterizam como contratos de arrendamento rural, por terem seus preços predefinidos em quantidade fixa de produtos (sacas de soja), o que violaria condição obrigatória em lei, descaracterizando a natureza da contratação. Ressaltou, ainda, que “ao estabelecer a remuneração em quantidades fixas de produto, no caso, sacas de soja (ou o equivalente em dinheiro no pagamento), o arrendador está submetido ao risco da variação do preço da soja, não existindo, quando da contratação, a certeza do valor a receber, que poderá oscilar para mais ou para menos conforme o valor de mercado do produto à época do pagamento”, situação que se amolda aos contratos de parceria rural, em que o proprietário concorre apenas com a terra nua, e que a variação do preço, por si só, é o risco partilhado pelas partes contratantes. Para fundamentar o seu entendimento, mencionou os seguintes dispositivos da Lei nº 4.504/64 (Estatuto da Terra) e do Decreto nº 59.566/66, que regulamentou a referida lei: Lei nº 4.504/64 (Estatuto da Terra) Art. 95. Quanto ao arrendamento rural, observar-se-ão os seguintes princípios: [...] XI - na regulamentação desta Lei, serão complementadas as seguintes condições que, obrigatoriamente, constarão dos contratos de arrendamento: a) limites da remuneração e formas de pagamento em dinheiro ou no seu equivalente em produtos; (Redação dada pela Lei nº 11.443, de 2007). [...] Art. 96. Na parceria agrícola, pecuária, agro-industrial e extrativa, observar-se-ão os seguintes princípios: [...] VI - na participação dos frutos da parceria, a quota do proprietário não poderá ser superior a: a) 20% (vinte por cento), quando concorrer apenas com a terra nua; [...] § 1 o Parceria rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso específico de imóvel rural, de parte ou partes dele, incluindo, ou não, benfeitorias, outros bens e/ou facilidades, com o objetivo de nele ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agroindustrial, extrativa vegetal ou mista; e/ou lhe entrega animais para cria, recria, invernagem, engorda ou extração de matérias-primas de origem animal, mediante partilha, isolada ou cumulativamente, dos seguintes riscos: Fl. 1383DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 79 I - caso fortuito e de força maior do empreendimento rural; (Incluído pela Lei nº 11.443, de 2007). II - dos frutos, produtos ou lucros havidos nas proporções que estipularem, observados os limites percentuais estabelecidos no inciso VI do caput deste artigo; (Incluído pela Lei nº 11.443, de 2007). III - variações de preço dos frutos obtidos na exploração do empreendimento rural. Decreto nº 59.566/66 Art 3º Arrendamento rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de imóvel rural, parte ou partes do mesmo, incluindo, ou não, outros bens, benfeitorias e ou facilidades, com o objetivo de nêle ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agro-industrial, extrativa ou mista, mediante, certa retribuição ou aluguel, observados os limites percentuais da Lei. [...] Art 18. O preço do arrendamento só pode ser ajustado em quantia fixa de dinheiro, mas o seu pagamento pode ser ajustado que se faça em dinheiro ou em quantidade de frutos cujo preço corrente no mercado local, nunca inferior ao preço mínimo oficial, equivalha ao do aluguel, à época da liquidação. Parágrafo único. É vedado ajustar como preço de arrendamento quantidade fixa de frutos ou produtos, ou seu equivalente em dinheiro. (Grifamos) Diante disto, a fiscalização entendeu por glosar os referidos créditos, por ausência de previsão legal para o seu aproveitamento. Por fim, ainda ressaltou que cerca de 80% dos créditos oriundos de contratos indexados foram escriturados de forma extemporânea, o que também impediria o seu aproveitamento. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente defende que a celebração de contratos com previsão de pagamento em sacas de soja é comum no agronegócio e que o art. 18 do Decreto nº 59.566, de 1966, tem sua aplicabilidade restrita a quem explore a terra pessoal e diretamente, sendo conferido, aos demais, a liberdade de contratar. Não estaria, assim, descaracterizado o contrato, mas tão somente configurada a abdicação de uma proteção por parte da empresa rural. Menciona que o STJ já decidiu que “o contrato de arrendamento rural que estabelece pagamento em quantidade de produtos pode ser usado como prova escrita para aparelhar ação monitória com a finalidade de determinar a entrega de coisa fungível, porquanto é indício da relação jurídica material subjacente” (Recurso Especial nº 1.266.975, Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva, J: 10/03/2016), e colaciona excerto do Parecer Técnico no sentido de que, em tais Fl. 1384DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 80 contratações, os valores estabelecidos em moeda nacional podem ser convertidos em comodities como a seja, no momento do pagamento. Cita, ainda, decisões deste e. CARF que supostamente corroborariam a sua pretensão, além de defender que, superada a questão relativa à legitimidade do crédito (materialidade), inexistiria vedação legal ao aproveitamento de créditos em períodos posteriores ao do registro das operações, mencionando especialmente o artigo 3º, §4º, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, hipótese que estaria contemplada, inclusive, nas linhas de preenchimento do DACON. É o que passo a apreciar. No que se refere à legitimidade do crédito, entendo que a controvérsia foi adequadamente dirimida pelo v. acórdão recorrido, razão pela qual transcrevo os fundamentos expostos no r. decisum, adotando-os como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: [...] no caso de arrendamento rural, o arrendatário pode calcular créditos no regime da não cumulatividade sobre os valores pagos com contraprestação pelo aluguel do prédio rústico ou imóvel rural. Até esse ponto, não há dissenso entre contribuinte e auditoria. A disputa se instala no entendimento fiscal de que contratos alvo da glosa, chamados de arrendamento rural, não teriam essa natureza por conta da fixação do valor em quantidade de frutos, no caso, a sacas de soja. O núcleo da discussão gira em torno da forma como os riscos são partilhados entre o proprietário do imóvel rural e aquele que o explora, dele extraindo os produtos agropecuários. Observem-se os dispositivos do Estatuto da Terra, instituído pela Lei nº 4.504, de 1964, e do Decreto nº 59.566, de 1966, que o regulamentou em parte: [...] Vê-se que os conceitos se assemelham quanto à cessão de uso de imóvel rural. Entretanto, a diferença de base entre eles é que, na parceria rural, a remuneração do proprietário da terra está necessariamente atrelada à partilha do risco da atividade, enquanto, no arredamento rural, a remuneração do proprietário é certa. No âmbito tributário, prevê o art. 59 do Regulamento do Imposto sobre a Renda (RIR/99), aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 1999, na seção que trata de rendimentos da atividade rural: RIR, de 1999: Art. 59. Os arrendatários, os condôminos e os parceiros na exploração da atividade rural, comprovada a situação documentalmente, pagarão o imposto, separadamente, na proporção dos rendimentos que couberem a cada um (Lei nº 8.023, de 1990, art. 13) Parágrafo único. Na hipótese de parceria rural, o disposto neste artigo aplica-se somente em relação aos rendimentos para cuja obtenção o parceiro houver assumido os riscos inerentes à exploração da respectiva atividade. [destaque acrescido] Fl. 1385DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 81 Portanto, a questão que importa examinar no presente caso, para avaliar a natureza do contrato firmado entre o proprietário rural e a interessada é a da existência de risco na exploração. Na inexistência de risco, configura-se arrendamento rural, sendo tributado pelas contribuições o rendimento de aluguel recebido pelo proprietário fazendo jus, na mesma medida, o arrendatário, ao crédito não cumulativo referente à contraprestação. Não desmente a contribuinte que, nos contratos que firmou e cujas contraprestações foram alvo da glosa, o valor foi combinado em quantidade de sacas de soja. Ora, sendo assim, o proprietário rural acaba partilhando com o produtor o risco das variações de preço do fruto resultado da exploração rural, o que afasta do acordo a natureza de arrendamento rural. Veja-se não se está aqui impedindo que os particulares exerçam a pactuação de suas livres vontades. O que ocorre é que o pacto tem repercussões tributárias que não se submetem à nomeação que lhes deu os pactuantes, mas à natureza jurídica do contrato. A partilha do risco da variação dos preços do fruto, as sacas de soja, desnatura o caráter de aluguel do imóvel relativamente aos valores pagos pelo uso do imóvel rural. Não cabendo cogitar de pagamento de aluguel, não há a atração do disposto no inciso IV, art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Correta a glosa efetuada pela fiscalização, portanto. Para finalizar a discussão, é necessário assinalar que a auditoria atuou apenas aplicando à situação de fato as repercussões tributárias da legislação do PIS/Pasep e da Cofins no regime da não cumulatividade que apenas admitem, no caso, a tomada de créditos sobre aluguel de prédios em conformidade com o disposto no art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Na situação examinada, os valores não correspondem a aluguéis como contraprestação pelo uso do prédio rural, o que afasta possibilidade de creditamento. Não houve a desconsideração do negócio praticado pela contribuinte, não havendo que invocar o disposto no art. 116, do CTN. No que se refere ao aproveitamento extemporâneo de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, resta prejudicada a alegação em razão do não reconhecimento da legitimidade do crédito. Por tais razões, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. DOS BENS DO ATIVO IMOBILIZADO Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a autoridade fiscal glosou créditos apropriados sobre bens do ativo imobilizado, por falta de comprovação de que estariam relacionados com a atividade da contribuinte. Segundo a fiscalização, as glosas tiveram como alvo serviços e obras de construção civil, associados às contas 1030202100 (CONSTRUCOES EM TERCEIROS), 1030202200 (BENFEITORIAS EM TERCEIROS) e 1030201013 Fl. 1386DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 82 (BENFEITORIAS), cujos valores de aquisição foram, em sua maioria, aproveitados em 24 meses. Conforme narra a autoridade fiscal, a fiscalizada não ofereceu, na resposta à intimação, justificativa para ter apropriado o crédito de imobilizado de forma acelerada, não sendo possível aferir se as edificações são novas ou se trata de reformas, ou mesmo se todas se destinam à produção de bens, havendo entre elas ampliações, oficinas, casa de máquinas, banheiros, depósitos, almoxarifados, armazéns, etc. Tampouco, foi possível, nestes casos, estabelecer-se uma correlação precisa entre os itens/valores/meses das planilhas “Doc_Comprobatorios01” (resposta à intimação) e “Imobilizado -Valor de Aquisição” (dados EFD-C), de modo que, o direito ao crédito acelerado (integral ou em 24 meses) sobre tais edificações não restou comprovado. Ao apreciar a manifestação de inconformidade, o v. acórdão recorrido entendeu por reconhecer parcialmente o direito creditório pleiteado, nos seguintes termos: A despeito da informação presente no relatório, esta relatoria entende que alguns itens objeto da glosa relacionada a edificações e benfeitorias, estão sim vinculados a atividades produtivas. Ademais, a própria planilha que serviu para orientar a glosa fiscal (arquivo não paginável anexo ao relatório fiscal – Glosa Imobilizado (Edificações e Benfeitorias) – Aba -> Edificações e Benfeitoria EFD-C traz informações sobre a Descrição do Item, o nome da conta analítica e a descrição do Centro de Custos em que o gasto foi alocado. Os Centros de Custo são identificados como, entre outros, Apoio Produção, Unid. Benef. Algodão, Unid. Benf. E Armaz. De Graos, Psicultura Producao, Uni. Benef. Sementes. Tais nomenclaturas vistas em conjunto com os descritores complementares dos bens, permitem concluir que parte deles efetivamente se relaciona à atividade de produção. Trata-se de bens como poço artesiano (Centro de Custo: Apoio Producao), ampliação fabrica racao (Centro de Custo: Apoio Producao), cobertura da câmara fria, base civil para prensa de fibrilha (Centro de Custo: Unid. Benef. De Algodao). Em sua defesa a contribuinte junta ainda planilha com a identificação dos itens no imobilizado. Portanto, entende-se que parte das glosas deve ser revertida. Planilha juntada aos autos por este relator em arquivo indica em colorido as glosas mantidas por não se relacionarem a centro de custos relacionados a atividades produtivas (Transportadora) e/ou porque o item descrito não se vincula a atividades produtivas (banheiros, alojamentos, casas, instalações das sedes, escritórios). Nessa medida, os valores dos créditos trimestrais deverão levar em conta as glosas revertidas nesse item, conforme planilha <DRJ Revisão Glosa Imobilizado (Edificações e Benfeitorias).xlsx>. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera as razões expostas na manifestação de inconformidade, mencionando a possibilidade de apropriação de créditos sobre aquisição de bens destinados ao ativo imobilizado, na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, e, na forma regular, nos termos do artigo 3º, inciso VI e VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Fl. 1387DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 83 Ressalta, ainda, que o artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 alcançaria, no conceito de edificação, “[...] todos os bens incorporados à obra civil, bem como obras preliminares e complementares, a exemplo do canteiro de obras, alojamento para operários, banheiros, almoxarifados, entre outros”. Por fim, defende que “[...] ainda que sejam refutados os argumentos até aqui expostos, que levam à reversão das glosas em questão, o que se admite apenas a título de argumentação, o fato é que o procedimento adotado pela Recorrente, relativamente à tomada de crédito de bens do ativo imobilizado (máquinas, equipamentos e edificações), não causou qualquer prejuízo ao fisco, como se pode verificar do demonstrativo elaborado pela Recorrente (vide doc. 10 da Manifestação de Inconformidade). Ou seja, também por esse motivo, não merece prosperar a glosa realizada pela fiscalização”. É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que, mesmo diante da reversão parcial das glosas pelo v. acórdão recorrido, a recorrente reitera integralmente as razões expostas na manifestação de inconformidade, sem trazer argumentos específicos para contestar as glosas mantidas. Conforme supra relatado, o v. acórdão recorrido reverteu as glosas sobre itens que considerou relacionados ao processo produtivo da empresa, mantendo as glosas exclusivamente sobre itens que, no seu entendimento, não se referem “a centro de custos relacionados a atividades produtivas (Transportadora) e/ou porque o item descrito não se vincula a atividades produtivas (banheiros, alojamentos, casas, instalações das sedes, escritórios)”. Quanto à controvérsia remanescente, merecem transcrição o artigo 3º, inciso VII, c/c §1º, inciso III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 e o artigo 6º da Lei nº 11.488/07: Lei nº 10.833/03 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] VII - edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; [...] § 1º Observado o disposto no § 15 deste artigo, o crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art. 2º desta Lei sobre o valor: [...] III - dos encargos de depreciação e amortização dos bens mencionados nos incisos VI, VII e XI do caput, incorridos no mês; Lei nº 11.488/07 Fl. 1388DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 84 Art. 6 o As pessoas jurídicas poderão optar pelo desconto, no prazo de 24 (vinte e quatro) meses, dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins de que tratam o inciso VII do caput do art. 3 o da Lei n o 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e o inciso VII do caput do art. 3 o da Lei n o 10.833, de 29 de dezembro de 2003, na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Conforme se verifica da leitura dos referidos dispositivos, o contribuinte pode se apropriar de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre “edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa”, com base nos encargos de depreciação incorridos no mês. Por sua vez, “na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços”, o contribuinte poderá optar pelo desconto de tais créditos, no prazo de 24 (vinte quatro meses). Desta forma, para apropriação de créditos na forma acelerada, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Foi justamente este o fundamento da glosa. Assim, considerando que a glosa remanescente alcança edificações e benfeitorias que não são utilizadas no processo produtivo da empresa, entendo correta a manutenção parcial da glosa, em razão da inexistência de permissão legal para apropriação de créditos na forma acelerada sobre tais itens, o que, obviamente, não impede a apropriação dos créditos nos termos do artigo 3º, inciso VII, c/c §1º, inciso III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. Quanto às glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado do acórdão paradigma: Não obstante as consistentes e bem fundamentadas razões apresentadas pelo eminente Relator, permito-me divergir exclusivamente quanto à conclusão por ele adotado no tocante ao creditamento sobre fretes de remessas de amostra grátis, de doações, de brindes ou de demonstrações e sobre serviços de monitoramento de veículos. No que tange aos fretes relacionados a remessas de amostras grátis, doações, brindes ou materiais destinados à demonstração, entendo que tais envios não se Fl. 1389DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 85 caracterizam como operação de venda, por não envolverem negócio jurídico translativo com circulação onerosa de bens. Ademais, no âmbito do PIS e da COFINS, a venda corresponde ao ingresso de receita decorrente da atividade econômica da pessoa jurídica, constituindo a materialidade das contribuições — o que evidentemente não se verifica nas remessas de amostras, brindes ou materiais destinados exclusivamente à demonstração. Nessa medida, tais dispêndios não se inserem no escopo das hipóteses que autorizam a apropriação de créditos da não-cumulatividade, em particular no inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833/03. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre fretes de remessas de amostra grátis, doação ou brinde, ou para demonstração. Por outro lado, acompanho o entendimento do Relator para afastar as glosas relativas aos fretes incidentes sobre bonificações em mercadorias. Isso porque tais bonificações guardam vínculo direto com a operação de venda, consistindo na entrega adicional de produtos ao adquirente como extensão da própria operação comercial — seja por incentivos, fidelização ou política promocional. Cuida-se, portanto, de prática inserida em negócio jurídico translativo com circulação onerosa de bens (venda), razão pela qual o respectivo frete integra os custos da operação de venda e permite o aproveitamento dos créditos. Sobre serviços de monitoramento (rastreamento) de veículos, nota-se que a parte Recorrente não exerce a atividade de serviço de transporte, alegando apenas que o serviço de rastreamento serve para bom funcionamento dos veículos utilizados pelos funcionários para descolar dentro de sua propriedade rural. Senão, vejamos: “Estacionamento, aluguel de veículos e rastreamento ➔ A empresa exerce atividades pulverizadas por toda a dimensão do estado do Mato Grosso, com fazendas se estendendo por milhares de hectares. Nesse contexto, o deslocamento de seus profissionais só é possível através de automóveis. Assim, impossível garantir o bom funcionamento da operação, se seus agrônomos, por exemplo, não possam se deslocar entre as terras, o que está, intrínseca e fundamentalmente, relacionado ao processo produtivo, além da qualidade do produto final. O estacionamento e rastreamento destes veículos são consectários naturais.” (página 78 do parecer técnico) Pois bem. O conceito de insumo para fins de creditamento no regime não cumulativo do PIS e da COFINS deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade e da relevância. Sob tal ótica, somente se qualificam como insumos os bens e serviços cuja ausência comprometa, de forma significativa, a realização Fl. 1390DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 86 da atividade econômica ou a qualidade do produto ou serviço oferecido pela pessoa jurídica. A essencialidade revela-se quando o dispêndio se mostra necessário ao desenvolvimento da atividade fim, de modo que sua supressão inviabilizaria ou prejudicaria substancialmente o processo produtivo. A relevância, por sua vez, manifesta-se quando o item, ainda que não estritamente indispensável, interfere diretamente na qualidade ou adequação do produto ou serviço, constituindo elemento relevante para o resultado econômico da atividade. Tal compreensão decorre da aplicação do chamado teste de subtração, utilizado pelo STJ no referido julgamento, mediante o qual se examina se a retirada do item compromete a execução, o resultado ou a qualidade do processo produtivo. Nessa linha, verifico que os gastos com serviços de rastreamento apontados pela recorrente não se enquadram nos critérios estabelecidos pelo STJ. Tais dispêndios não se destinam à produção agrícola nem guardam relação direta com a obtenção ou melhoria do produto. Sua supressão não inviabiliza a atividade produtiva, tampouco interfere em sua qualidade. Assim, não atendidos os critérios de essencialidade ou relevância, os valores despendidos com rastreamento, no caso concreto, não se qualificam como insumos para fins do art. 3º, II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, devendo ser mantida a impossibilidade de creditamento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de afastar as preliminares de nulidade e no mérito, em dar provimento parcial ao recurso em (a) reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); (b) reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; (c) reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; (d) reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; (e) reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo e (f) reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira. Assinado Digitalmente Fl. 1391DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.473 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909878/2020-17 87 Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Fl. 1392DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10120.728216/2015-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 11 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Apr 01 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012
PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE.
De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel.
Numero da decisão: 3202-003.416
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário.
Assinado Digitalmente
Juciléia de Souza Lima – Relatora
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: JUCILEIA DE SOUZA LIMA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
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RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). Fl. 157DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 2 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário contra indeferimento de pedido de ressarcimento veiculado por meio do formulário. O direito creditório alegado, no montante de R$ 269.646,54, a título de Contribuição para o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pis/Pasep), o que remontaria ao período compreendido entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. Ao indeferir o pleito, consigna a autoridade fiscal, uma vez não verificada a impossibilidade de utilização do programa gerador próprio (Per/Dcomp), que deveria tal pretensão ter sido veiculado por intermédio do preferido programa, no lugar do formulário de que teria lançado mão o contribuinte. Notificado, a Recorrente apresentou defesa administrativa, a qual foi julgada improcedente pela 3ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Belém/PA, formalizada através do acórdão 01-34.896, assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012 PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel. PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. TRIMESTRE-CALENDÁRIO ÚNICO. Consoante art. 32, §2o, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, cada pedido de ressarcimento deverá referir-se a um único trimestre-calendário, como também ser efetuado pelo saldo credor remanescente no referido trimestre, líquido das utilizações por desconto ou compensação. PIS. NÃO-CUMULATIVIDADE. DESCONTO. SALÁRIOS. PREVISÃO LEGAL. AUSÊNCIA. O legislador, por meio do art. 3o da Lei n. 10.637, de 2002, optou por oferecer relação exaustiva quanto às possibilidades de desconto do montante apurado a título de Pis. Não configura fonte de geração de crédito, destarte, a chamada “folha de salário”, porquanto inexistente previsão legal. AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. ATIVIDADE VINCULADA. ATOS NORMATIVOS. PRESUNÇÃO DE LEGALIDADE E DE CONSTITUCIONALIDADE. Fl. 158DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 3 A autoridade administrativa exerce atividade plenamente vinculada, encontrando-se limitada ao estrito cumprimento da legislação tributária, expressão que, consoante art. 96 do Código Tributário Nacional (CTN), compreende leis, tratados, convenções internacionais, decretos e normas complementares que versem, no todo ou em parte, sobre tributos e relações jurídicas a eles pertinentes. Mais, aos agentes administrativos não é dado apreciar questões que importem na negação da eficácia de preceitos normativos em face da consonância com a Constituição da República. Gozando os atos normativos de presunção de legalidade e de constitucionalidade, resta à autoridade fiscal aplicá-los, salvo, à evidência, quando haja, em benefício do interessado, decisão judicial em sentido diverso, ou nas hipóteses previstas nos §§4o, 5o e 7o ao art. 19 da Lei n. 10.522, de 2002. A interpretação assim qualificada, por excelência, compete ao Poder Judiciário. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada, a Recorrente apresenta Recurso Voluntário do CARF, no qual pugna pela homologação do crédito vindicado. É o que havia a ser relatado. VOTO Conselheira Juciléia de Souza Lima, Relatora O Recurso é tempestivo, bem como, atende aos demais pressupostos para sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Ante a existência da arguição de preliminares, passo a analisá-las. I- DAS PRELIMINARES 1.1- Da obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento Pugna a Recorrente pelo reconhecimento de nulidade do despacho decisório ante a obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento. Fl. 159DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 4 De início, observa-se que, somente, duas são as espécies de irregularidades, elencadas nos incisos do artigo 59 do PAF a ensejar nulidade “ab initio” as peças que o compõem: a incompetência do prolator do ato administrativo (ato, decisão ou despacho) e a preterição do direito de defesa. Primeiro, de acordo com Decreto nº 70.235, 06/03/1972, somente são nulos os atos administrativos proferidos por autoridade incompetente e/ ou com preterição do direito de defesa, assim dispondo: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Para arrematar, o ato ou despacho administrativo foi emitido por servidor competente, arrolando claramente todas as razões de fato e de direito que ensejaram o indeferimento do crédito vindicado. Segundo, a recorrente confunde preliminar com mérito, pois quanto à obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento trata-se de matéria de mérito que será tratada oportunamente neste Voto. Daí, a suscitada nulidade da decisão recorrida é equivocada, não encontrando amparo legal. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configuradas tais hipóteses não é de se declarar a Fl. 160DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 5 nulidade, pois não existem erros no tocante à descrição dos fatos capazes de trazer prejuízos ao exercício de defesa da Recorrente. Sendo assim, rejeito a preliminar arguida. II- DO MÉRITO Conforme relatado acima, a matéria controvertida neste feito é concernente à possibilidade de entrega de Pedido de Ressarcimento e Declaração de Compensação em formulário em papel após entrarem em vigor as alterações promovidas pela Lei nº 10.637/2002 no artigo 74 da Lei nº 9.430/96. Destaco os dispositivos do texto normativo relevantes para o deslinde da controvérsia: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pela sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. [...] § 14. A Secretaria da Receita Federal - SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) Do parágrafo 14 extrai-se que o legislador autorizou a Secretaria da Receita Federal a regulamentar o disposto no artigo. A autorização legal diz respeito às obrigações acessórias necessárias para a operacionalização dos pedidos de ressarcimento e as declarações de compensação. Tais obrigações acessórias, ao contrário do que entende a recorrente, não foram reservadas à lei em sentido estrito pelo artigo 97 do CTN. Assim, é cristalino que estava no âmbito da atribuição da administração tributária regulamentar os procedimentos necessários para a viabilização dos pedidos de ressarcimento e as declarações de compensação. Fl. 161DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 6 Entretanto, ao contrário do que defende a contribuinte, a decisão não afronta qualquer dispositivo da Constituição Federal ou mesmo a legislação de regência, que remete a regulamentação da matéria à Receita Federal, segundo o § 14 do art. 74 da Lei nº 9.430/1996: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) [...] § 14. A Secretaria da Receita Federal SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) A partir dessa alteração na Lei nº 9.430/96, a Receita Federal editou sucessivas INs que passaram a instituir regramentos nos moldes expressamente autorizado, mormente no que tange à forma de apresentação do requerimento (por meio do programa PER/DCOMP). Dessa forma, a exigência de que seja utilizado o meio eletrônico, não é mera formalidade da Administração, mas sobretudo a implementação de praticidade tributária na solução célere dos pleitos dos administrados, em cumprimento ao princípio da eficiência administrativa. Nesse sentido, na IN SRF nº 460, de 17/10/2004, surgiu a regulamentação e a vedação da interposição de manifestação de inconformidade em face de se considerar não formulado pedido de restituição/ressarcimento e não declarada a compensação, por inobservância da utilização do PER/DCOMP eletrônico, conforme seus artigos 31, caput, § 2º e 482 . Antes dessa data, na vigência da IN SRF 323/2003, considerava-se o pedido em papel não formulado e a compensação não declarada, mas inexistia previsão de vedação dos instrumentos de defesa administrativa do contribuinte. Sendo que, é importante mencionar que o contribuinte não trouxe aos autos qualquer elemento de prova ou alegação no sentido de que seu Pedido de Restituição deveria ser feito por meio de petição, sem sequer apresentar o formulário em via física em razão de alguma impossibilidade de solicitar pelo sistema PER/DCOMP devido à ausência de previsão de hipótese de ressarcimento ou por qualquer inviabilidade de acesso ao sistema. Pois bem. Fl. 162DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 7 No momento da entrega do Pedido de Restituição em formulário em papel, a regulamentação administrativa em vigor era veiculada por meio da Instrução Normativa 1.300, de 2012, art. 32, vigente à época da apresentação do formulário em testilha à administração tributária: Art. 32 . O pedido de ressarcimento a que se referem os arts. 27 a 30 será efetuado mediante a utilização do programa PER/DCOMP ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante formulário acompanhado de documentação comprobatória do direito creditório. A IN RFB n. 1.717, de 2017, sucessora da retro citada IN RFB n. 1.300, de 2012, não dispõe de forma diferente: Art. 56. O pedido de ressarcimento e a declaração de compensação devem ser efetuados mediante a utilização do programa PER/DCOMP ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição ou de Ressarcimento, constante do Anexo I desta Instrução Normativa, ou mediante o formulário Declaração de Compensação, constante do Anexo IV desta Instrução Normativa. Merece destaque o disposto no artigo 3º da IN SRF nº 600/2005: Art. 3º A restituição a que se refere o art. 2º poderá ser efetuada: I - a requerimento do sujeito passivo ou da pessoa autorizada a requerer a quantia; ou II - mediante processamento eletrônico da Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (DIRPF). § 1º A restituição de que trata o inciso I será requerida pelo sujeito passivo mediante utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP) ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição constante do Anexo I, ao qual deverão ser anexados documentos comprobatórios do direito creditório. § 2º Na hipótese de pedido de restituição formulado por representante do sujeito passivo, o requerente deverá apresentar à SRF procuração conferida por instrumento público ou por instrumento particular com firma reconhecida, termo de tutela ou curatela ou, quando for o caso, alvará ou decisão judicial que o autorize a requerer a quantia. Fl. 163DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 8 § 3º Tratando-se de pedido de restituição formulado por representante do sujeito passivo mediante utilização do Programa PER/DCOMP, os documentos a que se refere o § 2º serão apresentados à SRF após intimação da autoridade competente para decidir sobre o pedido. § 4º A restituição do imposto de renda apurada na DIRPF reger-se-á pelos atos normativos da SRF que tratam especificamente da matéria, ressalvado o disposto nos arts. 9º, 11 e 12. De fato, o procedimento exigido para pedido de ressarcimento e/ou compensação exigia, portanto, que o contribuinte requeresse seu direito por meio do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP). Somente no caso de ser impossível a utilização do programa é que o sujeito passivo estaria autorizado a utilizar o formulário em papel. A determinação da utilização do sistema informatizado do PER/DCOMP não é sem razão. A Lei nº Lei nº 10.637/2002 trouxe forte alteração na sistemática de ressarcimentos/restituições e compensações, pois passou a permitir que os sujeitos passivos apurassem seus créditos dos diversos tributos e os compensassem com tributos distintos, ampliando fortemente o aproveitamento dos créditos a que estes faziam jus. A apuração dos créditos e sua utilização em compensações não dependeriam mais de uma apreciação prévia por parte da administração. Destarte, o tratamento administrativo da matéria deveria ser massivo. Tal tarefa somente poderia ser desempenhada por meio de sistema informatizado. Daí a exigência da utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP). A exceção para a utilização do formulário em papel, quando a utilização do programa do PER/DCOMP fosse impossível, foi tratada no artigo 76 da Instrução Normativa citada abaixo: Art. 76. Ficam aprovados os formulários Pedido de Restituição, Pedido de Cancelamento ou de Retificação de Declaração de Importação e Reconhecimento de Direito de Crédito, Pedido de Ressarcimento de IPI - Missões Diplomáticas e Repartições Consulares, Declaração de Compensação e Pedido de Habilitação de Crédito Reconhecido por Decisão Judicial Transitada em Julgado constantes, respectivamente, dos Anexos I, II, III, IV e V. § 1º A SRF disponibilizará, no endereço http://www.receita.fazenda.gov.br, os formulários a que se refere o caput. § 2º Os formulários a que se refere o caput somente poderão ser utilizados pelo sujeito passivo nas hipóteses em que a restituição, o ressarcimento ou Fl. 164DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 9 a compensação de seu crédito para com a Fazenda Nacional não possa ser requerida ou declarada eletronicamente à SRF mediante utilização do Programa PER/DCOMP. § 3º A SRF caracterizará como impossibilidade de utilização do Programa PER/DCOMP, para fins do disposto no § 2º, no § 1º do art. 3º, no § 3º do art. 16, no § 1º do art. 22 e no § 1º do art. 26, a ausência de previsão da hipótese de restituição, de ressarcimento ou de compensação no aludido Programa, bem como a existência de falha no Programa que impeça a geração do Pedido Eletrônico de Restituição, do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou da Declaração de Compensação. § 4º A falha a que se refere o § 3º deverá ser demonstrada pelo sujeito passivo à SRF no momento da entrega do formulário, sob pena do enquadramento do documento por ele apresentado no disposto no art. 31. Merece destaque que incumbe ao sujeito passivo comprovar a impossibilidade de utilização do sistema informatizado para ter direito à entrega de Pedido de Ressarcimento em formulário em papel. É oportuno ressaltar que o pedido de restituição e a declaração de compensação são dois atos distintos, que produzem efeitos próprios na esfera do patrimônio dos sujeitos ativo e passivo. No primeiro, o sujeito passivo formaliza um crédito perante o sujeito ativo (no caso, a União). No segundo, utiliza o crédito para extinguir sob condição resolutória um débito de sua responsabilidade perante o sujeito ativo. Portanto, a norma administrativa, ao considerar como não formulado o pedido em papel feito em desacordo com o previsto no artigo 76 da IN SRF nº 600/2005, determina que a autoridade administrativa não reconheça o crédito pedido. Não se está a ampliar as hipóteses de compensação não declarada do parágrafo 12 do artigo 74 da Lei nº 9.430/96 simplesmente porque o efeito é impedir o surgimento do crédito e não a compensação propriamente dita. A consideração de compensação não declarada é apenas uma decorrência lógica da ausência de pedido de ressarcimento. Assim, entendo que o acórdão recorrido não merece reparos. 2.1- Da folha de salários como insumos Ante todo alegado no tópico anterior, todavia, a evitar a oposição de eventual embargos de declaração, adianto-me para defender que entendo ser descabida analisar a essencialidade e relevância dos itens glosados pela fiscalização por terem sido aproveitados pela Recorrente como insumos- da folha de salários como insumos, pois do texto legal, resta que não Fl. 165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 10 existe amparo legal para tomada de créditos de folha de salários como insumos como defende a Recorrente. Nos termos da sistemática de créditos de PIS/COFINS, no inciso II, do art. 3°, das Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003, trata-se de rol taxativo e não exemplificativo como entende a recorrente. De certo, a dar efetividade ao princípio da não cumulatividade, o legislador ordinário poderia não ter apresentado restrições ao direito de tomada de créditos a legitimar a creditamento de todas as despesas incorridas na atividade empresarial para auferir a receita (fato tributado pelas contribuições). Todavia, assim não ocorrera, pois a legislação do PIS e da COFINS ao apresentar um rol taxativo de direito de crédito, indubitavelmente, imputou o efeito cumulativo à algumas atividades. Existem limites legais impostos pela legislação vigente ao apresentar um rol taxativo de despesas passíveis de creditamento, bem como, exigindo que, para o creditamento com fulcro no art. 3º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, o insumo seja utilizado "na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda". Assim, considerando a seara administrativa na qual se insere essa discussão, não posso me desvincular dos termos da lei, na forma exigida pelo Regimento Interno deste Conselho. Ao contrário do que pretende a Recorrente, o julgamento do recurso repetitivo n.º 1.221.170 pelo Superior Tribunal de Justiça não reconheceu que o rol trazido pelas leis referenciadas não seria taxativo, não ampliando o rol de hipóteses passíveis de creditamento. O que aquele julgado buscou identificar é qual o conceito de insumo que deve ser considerado por aquelas pessoas jurídicas prestadoras de serviço e produtoras/fabricantes. Ressalte-se que não há previsão legal da tomada de créditos das despesas com salários e folha de pagamento como insumos, logo não há sequer que se aferir relevância ou essencialidade de tais dispêndios. Contudo, por ausência de previsão legal, mantenho as glosas com dispêndios com salários e folha de pagamento. E assim, voto por afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório arguida no presente recurso, para no mérito, negar-lhe provimento. É o voto. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima Fl. 166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.416 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728216/2015-15 11 Fl. 167DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10580.000693/2001-08
Turma: Terceira Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Thu Dec 04 00:00:00 UTC 2003
Data da publicação: Thu Dec 04 00:00:00 UTC 2003
Ementa: PIS. COMPENSAÇÃO COM PIS. A decadência do direito de pleitear a compensação/restituição tem como prazo inicial, na hipótese dos autos, a data da publicação da Resolução do Senado Federal nº 49, de 09/10/95, publicada em 10/10/95, que suspende a execução da norma declarada inconstitucional.
Assim, a partir da publicação, conta-se cinco anos até a data do protocolo do pedido (termo final). In casu, não ocorreu a decadência do direito postulado.
Excluída a prejudicial de decadência devem os argumentos do mérito ser apreciados pela Primeira Instância.
Recurso provido em parte.
Numero da decisão: 203-09.370
Decisão: ACORDAM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de
Contribuintes, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do voto da Relatora-Designada. Vencidos os Conselheiros César Piantavigna (Relator) e Mauro Wasilewslci, que davam provimento. Designada a Conselheira Maria Cristina Roza da Costa para redigir o Acórdão.
Matéria: PIS - ação fiscal (todas)
Nome do relator: CESAR PIANTAVIGNA
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Ministério da Fazenda , P ..iblicado no Diário Oficial da Uno 29 CC-MF Z3frj 't Segundo Conselho de Contribuintes De li / o )... /Si Fl. • AL:r6"------Processo n° : 10580.000693/2001-08 Recursos n° : 121.931 Acórdão n° : 203-09.370 Recorrente : VRV — VIAÇÃO RIO VERMELHO LTDA. Recorrida ; DRJ em Salvador- BA PIS. COMPENSAÇÃO COM PIS. A decadência do direito de pleitear a compensação/restituição tem como prazo inicial, na hipótese dos autos, a data da publicação da Resolução do Senado Federal n° 49, de 09/10/95, publicada em 10/10/95, que suspende a execução da nona declarada inconstitucional. Assim, a partir da publicação, conta-se cinco anos até a data do protocolo do pedido (termo final). In casu, não ocorreu a decadência do direito postulado. Excluída a prejudicial de decadência devem os argumentos do mérito ser apreciados pela Primeira Instância. Recurso provido em parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto por: VRV VIAÇÃO RIO VERMELHO LTDA. ACORDAM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do voto da Relatora-Designada. Vencidos os Conselheiros César Piantavigna (Relator) e Mauro Wasilewslci, que davam provimento. Designada a Conselheira Maria Cristina Roza da Costa para redigir o Acórdão. Sala a.. - ssões, em 04 de dezembro de 2003 w:.\\ V , Otacilio Da . Cartaxo Presidente itstu _ es„ Mana Cristina Roza 'à/Cl-o:tia 6/1 elatora-Designada ‘. Participaram, ainda, do presente julgamento os Conselheiros Maria Teresa Martinez López, Valmar Fonsei ca de Menezes, Luciana Pato Peçanha Martins e Francisco Mauricio R. de Albuquerque Silva. Eaal/ovrs 1 Ma Elit FAZENnA - 2." CC CONFERE C7A O OR GIN EIRASILIAQ . .. 1 e 124' n i eir . VI i. .4 ., v sio 1 •t—bi.si22 CC-MF ••.5:-..r.,. Ministério da Fazenda Fl.ztr:17; ‹ Segundo Conselho de Contribuintes.:~5 Processo n° : 10580.000693/2001-08 Recursos n° : 121.931 Acórdão n° : 203-09.370 Recorrente : VRV VIAÇÃO RIO VERMELHO LTDA. RELATÓRIO O auto de infração (fls. 03/05), lavrado em 29/01/01, imputou debito de PIS à Recorrente, referente aos meses de 03/99 a 09/00, no montante de R$54.855,36, que acrescido de juros e multa alcançou a cifra de R$99.596,59. A pendência retratada no auto de infração decorreria de insuficientes recolhimentos da contribuição aludida (fl. 04). Impugnação "parcial" (fls. 61/81), que admitiu a procedência da cobrança referente ao período de 03/99 a 01/00 (fls. 242/245), centrou-se sobre o período de 02/00 a 09/00, sustenta que a ação fiscal não poderia prosperar em razão de crédito de PIS que a Recorrente teria para compensar, ao qual deveria ser admitido o cômputo de plena correção monetária. O encontro de contas deveria ser efetivado levando em consideração que o PIS devido pela Recorrente seria calculado com a aliquota de 5% incidente sobre o valor devido a título de Imposto sobre a Renda. Alegou que o processo ressentia-se de perícia, cuja utilidade seria a averiguação da exatidão dos cálculos contidos no auto de infração, e a aferição da origem e legitimidade dos créditos que sustentou ter, decorrentes de indébito de PIS (I 74), ventilando, por último, a inexigibilidade da multa aplicada, por entendê-la confiscatória. A decisão (fls. 246/256) da DRJ em Salvador - BA confirma integralmente a exigência fiscal contida no auto de infração, valendo dizer-se que entendeu que os créditos de indébito de PIS afiguravam-se caducos à época em que invocados pela Recorrente para compensação. O recurso voluntário (fls. 264/270) investe contra a posição adotada no julgado de piso, consistente na decadência imputada aos créditos provenientes de indébito de PIS. 0,8É o relatório. 1 PMN. IA FAZENPA • 2,' CC COIME OSM O O 101P14, 6RASILI“)./ / ,/ vy nins 2 , ... 22 CC-MF :"' ri Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes Fl. Processo n° : 10580.000693/2001-08 Recursos n° : 121.931 Acórdão n° : 203-09.370 VOTO VENCIDO DO CONSELHEIRO-RELATOR CÉSAR PIANTAVIGNA Primeiramente compete registrar que a compensação cogitada pela Recorrente não fora reputada inocorrente pelo Fisco, que se restringiu a dizer que apesar de haver sido intentada não se tinha aproveitado de créditos válidos à oportunidade. Cumpre, nesse espaço, transcrever o entendimento deste Conselho a respeito do termo a guo de contagem do prazo decadencial para postular o reconhecimento de créditos de indébito de PIS, pautado na inconstitucionalidade dos Decretos-Leis n ets 2.445 e 2.449, ambos de 1988: "NORMAS PROCESSUAIS. DECADÊNCIA .PRAZO. Aplica-se aos pedidos de compensação/restituição de PIS/Faturamento cobrado com base em lei declarada 1 inconstitucional pelo STF o prazo decadencial de 05 (cinco) anos contados da publicado da Resoluctio do Senado Federal n° 49/95. conforme reiterada e predominante jurisprudência deste Conselho e dos nossos tribunais. Recurso negado." 1 (Recurso Voluntário n° 121727. 1 1 Câmara. Processo n° 10768.011679/2001-33. Sessão de 03/12/02. Rel. Cons. Antônio Mário de Abreu Pinto. Acórdão n°201-76583. Unânime. Grifo da transcrição) Como visto, a contagem inicia-se a partir da data da publicação da Resolução n° 49/95, isto é, 10/10/95, o que implica dizer-se que o prazo decadencial somente operou-se em 10/10/00, quando a Recorrente já tinha promovido os encontros de contas (fl. 270). Ante ao exposto, dou provimento ao recurso voluntário acolhendo a postulação nele deduzida, reputando inocorrida a decadência considerada na decisão do Colegiado a quo, devendo os autos retomarem à instância inferior para que toda a matéria de impugnação seja apreciada e enfrentada. Sala das Sessões, em 04 de dezembro de 2003 CES P A TAVIGNA I 1 MIN. DA ?ATENDA - 2. CC CONFERE. q9M õ' '*RIGIN4 EIRASILIA o r • O1 LOLI t ite os • i . ;aro 3 - ,;:9:Ni."",• Ministério da Fazenda r CC-MF Fl. Segundo Conselho de Contribuintes -4.'>''',. Processo o° : 10580.000693/2001-08 Rectirsos n° : 121.931 Acórdão n° : 203-09.370 VOTO DA CONSELHEIRA MARIA CRISTINA ROZA DA COSTA RELATORA-DESIGNADA Reporto-me ao relatório e voto da lavra do ilustre Conselheiro César Piantavigna. O objeto da presente controvérsia é a exigência fiscal da Contribuição para o Programa de Integração Social — PIS. O ilustre relator enfrentando as alegações de inocorrência da decadência considerada na decisão do Colegiado, a quo, entendeu que devem os autos retomar à instância inferior para que toda a matéria de impugnação seja apreciada e enfrentada. Este também foi o entendimento desta Câmara. Porém, relativamente ao resultado do julgamento decidiu diferentemente do conselheiro-relator, que entendeu comportar provimento total ao recurso voluntário. • No entendimento da Câmara, deve ser dado provimento parcial ao recurso para retomar o processo à Delegacia da Receita Federal em Salvador — BA, para que proceda à 1 análise das demais matérias de mérito postas na impugnação, com expedição do respectivo acórdão. Sala das Sessões, em 04 de dezembro de 2003 ARI-A CRISTINAROgZer DA COSTA4 ,coNFERE ,,,, O SRIGINAL, BRASIL IA Q.-.1- O t" lin- isto 4
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Numero do processo: 10831.723615/2013-10
Turma: Quarta Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 02 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2012, 2013
RETIFICAÇÃO E COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS RELATIVOS À DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO.
O deferimento do pedido de compensação de tributos, cuja configuração de pagamento indevido decorra da alteração de dados da declaração de importação, pressupõe o prévio deferimento da retificação das respectivas informações.
Numero da decisão: 3004-000.139
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário.
Assinado Digitalmente
Semíramis de Oliveira Duro – Relatora
Assinado Digitalmente
Rosaldo Trevisan – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Dionisio Carvallhedo Barbosa, Semíramis de Oliveira Duro, Tatiana Josefovicz Belisário e Rosaldo Trevisan (Presidente).
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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O deferimento do pedido de compensação de tributos, cuja configuração de pagamento indevido decorra da alteração de dados da declaração de importação, pressupõe o prévio deferimento da retificação das respectivas informações. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário. Assinado Digitalmente Semíramis de Oliveira Duro – Relatora Assinado Digitalmente Rosaldo Trevisan – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Dionisio Carvallhedo Barbosa, Semíramis de Oliveira Duro, Tatiana Josefovicz Belisário e Rosaldo Trevisan (Presidente). RELATÓRIO Por bem relatar os fatos, adoto o relatório da decisão recorrida: A interessada AVERY DENNISON DO BRASIL LTDA, CNPJ nº 43.999.630/0001-24 protocolou às fls.02/06 pedido de retificação de Declaração de Importação e restituição de Fl. 715DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3004-000.139 – 3ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10831.723615/2013-10 2 tributos, argumentando que as mercadorias importadas enquadravam-se em Ex-tarifário que reduziu a alíquota do Imposto de Importação de 25% para 16%. Juntou os documentos de fls.07/2019. Às fls.221/222 consta o Termo de Intimação SAORT de nº 191/2016, solicitando do interessado os documentos ali detalhados. Às fls.264/271 consta o Despacho Decisório de nº 317/2016, da lavra da Alfândega do Aeroporto Internacional de Vira Copos – Campinas, indeferindo o pedido em epígrafe relativo às Declarações de Importação de nº 13/1218002-3, 13/1221233-2, 13/1221616-8, 13/1223312-7, 13/1259533-9, 13/1271888-0, 13/1302583-8, 13/1302590-0, 13/1302608-7, 13/1481936-6, 13/1481944-7, 13/1496259-2, 13/1506148-3 e 13/1517180- 7. Às fls. 276/300 consta recurso da interessada contra a decisão que denegou sua pretensão de retificação das DIs e reconhecimento de direito creditório. Anexou os documentos de fls.302/348. À fl.350 consta despacho da Alfândega de Vira Copos indeferindo o recurso em testilha. Às fls.352/355 consta informação fiscal da Alfândega do Aeroporto Internacional de Vira Copos. Às fls.356/359 consta o Despacho Decisório de nº 67/2016, exarado pelo Inspetor da Alfândega do Aeroporto Internacional de Vira Copos – Campinas, rejeitando o recurso interposto pela interessada. À fl.363 consta despacho de encaminhamento enviando o processo à Alfândega do Porto de Santos - SP. À fl.364 consta o Terno de Intimação Fiscal de nº 126/2016, da Alfândega do Porto de Santos – SP, solicitando do interessado os documentos ali especificados, referentes às Declarações de Importação de nº 13/1285470-9, 13/1380460-8,13/1289933-8, 13/1498736-6, 13/1370110-8 e 13/1501061-7. A interessada apresentou os documentos de fls.370/435. Às fls.437/438 consta o Despacho Decisório da Alfândega do Porto de Santos negando o pedido de retificação de DI/ restituição formulado pela interessada. Às fls.445/446 consta o Despacho Decisório SEORT DRF/CPS/54/17, de 26/01/2017, da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Campinas, não homologando a compensação realizada pelo interessado, aduzindo para tanto a seguinte fundamentação, in verbis: “O art. 74, da Lei nº 9.430/96 faculta ao sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo ou contribuição administrado pela RFB, passível de restituição ou de ressarcimento, a utilização desse indébito na compensação de débitos próprios, relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. Nessa linha, a autoridade administrativa somente homologa uma compensação declarada quando não Fl. 716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3004-000.139 – 3ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10831.723615/2013-10 3 pairam dúvidas acerca da certeza e liquidez do crédito oposto à Fazenda Nacional. Como já citado acima, todos os pedidos de retificação das DI analisados nessa peça foram indeferidos, ou seja, o direito creditório que lastrearia as compensações preconizadas não foi reconhecido pelas autoridades aduaneiras. Isto posto, como não há crédito reconhecido, não há se falar em homologação das consecutivas DComp apresentadas.” Às fls.452/474 consta recurso do interessado contra o Despacho Decisório da Alfândega dos Porto de Santos - SP que denegou sua pretensão de retificação de Declaração de Importação/ reconhecimento de direito creditório. Às fls.478/484 consta manifestação de inconformidade contra o Despacho Decisório SEORT DRF/CPS/54/17, de 26/01/2017, da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Campinas, que não homologou a compensação realizada pelo interessado por meio de DCOMP. Inicia sua peça irresignatória propalando sua tempestividade, após o que faz um breve relato dos fatos. O tópico seguinte (3), intitulado “O DESPACHO DECISÓRIO E NECESSIDADE DE REFORMA” argumenta que a causa do indeferimento de seu pleito se deu em razão do entendimento do Fisco de que a documentação por ele apresentada seria insuficiente para comprovar o enquadramento das mercadorias no Ex-tarifário. Sustenta que uma simples diligência aos seus estabelecimentos para a análise dos produtos seria suficiente para a comprovação do alegado. O tópico subsequente (4), denominado “DA NECESSIDADE DE RECONHECIMENTO DO PEDIDO DE COMPENSAÇÃO” encontra-se assim redigido: “Como já exposto acima, a Manifestante apresentou pedido de compensação relativo ao recolhimento a maior do Imposto de Importação. Este ocorreu porque a Manifestante não inseriu em sua Declaração a informação necessária para aplicação da alíquota correta. Com efeito, a Manifestante observou, por meio da Resolução CAMEX nº 44/2013, que a alíquota ad valorem do Imposto de Importação do produto classificado no Código NCM 3920.20.19 (“filme polipropileno biasilmente orientado” – BOPP, com revestimento acrílico), havia passado de 25% para 16%, a partir de 20 de julho de 2013. Para regularizar as operações realizadas à época da vigência da norma, a Manifestante requereu a retificação das Declarações de Importação e também a restituição do Imposto de Importação, nos termos previstos pelo artigo 109 do Decreto 4.543/02 e artigos 13 e 14 da IN SRF nº 600/2005. Não obstante, os Srs. Fiscais entenderam por indeferir o pleito, pois como não houve averiguação física da mercadoria, que passou no sinal verde, o NCM não poderia ser comprovado de outra maneira. Dessa forma, o chamado “Ex-Tarifário” não poderia ser aplicado. Tal entendimento, no entanto, não deve prevalecer, visto que independentemente do momento em que for reconhecido o enquadramento do produto no “Ex-Tarifário”, este Fl. 717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3004-000.139 – 3ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10831.723615/2013-10 4 deve ser aplicado, devendo ser utilizada a alíquota reduzida desde a requisição da exceção tarifária – mesmo que esta seja posterior ao desembaraço aduaneiro. O fato é que a Resolução CAMEX nº 44/2013 estava em vigor à época das operações em pauta, contemplando os produtos importados naquele período. Sendo assim, não se trata de uma faculdade do importador a aplicação da alíquota reduzida. Aliás, a desobediência à referida norma implica em grave violação às regras de direito administrativo, uma vez que o agente administrativo somente pode agir nos termos da previsão legal. Neste sentido, não há como negar que a Manifestante faz jus ao benefício. Principalmente porque a concessão da redução de alíquota não está condicionada à verificação física da mercadoria, mas aos requisitos que identificam e se enquadram na referida resolução e que podem ser atestados pelo laudo técnico apresentado pela Manifestante. Ora E. Julgadores, a Manifestante prossegue importando referido produto e a Fiscalização possui plenas condições de verificar sua natureza e características, mas não o fez por conveniência. Um direito adquirido pelo contribuinte não pode ser arbitrariamente afastado, de acordo com a conveniência do poder administrativo. Sendo assim, imprescindível que seja feita a apreciação do presente pleito de acordo com os fatos trazidos à baila. Isso implicará, necessariamente, no cancelamento da r. decisão e homologação integral dos pedidos de compensação apresentados.” No último tópico requer que seja cancelado o Despacho Decisório, dando provimento aos pedidos de retificação das Declarações de Importação e a consequente homologação da compensação realizada. A 8ª Turma da DRJ04, Acórdão n° 104-001.460, julgou IMPROCEDENTE a manifestação de inconformidade, com decisão assim ementada: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercícios 2012 e 2013 EX-TARIFÁRIO. ENQUADRAMENTO. REQUISITOS ESSENCIAIS. A alíquota diferenciada do imposto de importação prevista em Ex-tarifário somente é aplicável quando comprovada a perfeita identidade entre a mercadoria importada e a descrita no texto correspondente ao “Ex”. Em Recurso Voluntário, a Recorrente sustenta: Nulidade do Despacho Decisório da ALF/VCP por Cerceamento do Direito de Defesa; Possibilidade de Pedido de Restituição de Imposto de Importação Pós- Despacho Aduaneiro; Fl. 718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3004-000.139 – 3ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10831.723615/2013-10 5 Correto Enquadramento dos bens importados “filme de polipropileno biaxialmente orientado (BOPP) (NCM 3920.20.19)”, com a alíquota de 16%; e Necessidade de Prova Pericial dos produtos importados (dos quais serão enviadas amostras pelo correio para a Alfândega de Campinas e, posteriormente, colacionado Aviso de Recebimento aos autos). Ao final, pede o provimento do seu recurso. É o relatório. VOTO Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo, contudo não será conhecido. Na origem, a Recorrente apresentou pedido de retificação de uma série de Declarações de Importação, registradas nas Alfândegas de Viracopos e Santos (e-fls. 2/206), sustentando que as mercadorias importadas se enquadravam em Ex-tarifário que reduziu a alíquota do Imposto de Importação de 25% para 16%. Em seguida, em razão desse suposto pagamento a maior, entendeu ter direito a crédito para compensação. Por isso, apresentou as DCOMPs objeto do processo nº 10830.726201/2013-44, que fora apensado ao presente processo (e-fl. 220). Todavia, os pedidos de retificação das DI em comento foram analisados de forma definitiva pelas unidades aduaneiras competentes, resultando no indeferimento de todos os pleitos, conforme e-fls. 264/271, 356/359 e 437/438. A compensação prevista no art. 74, da Lei nº 9.430/96 e art. 170 do CTN pressupõe créditos líquidos e certos contra a Fazenda Pública. Como todos os pedidos de retificação das DI analisados foram indeferidos, isso implica na inexistência de direito creditório objeto da compensação. Esta Turma já analisou caso idêntico, tendo concluído pelo não conhecimento do Recurso Voluntário. Trata-se do Acórdão n° 3004-000.104, julgado em 18 de novembro de 2025, Relatora Tatiana Josefovicz Belisário, cujas razões adoto a seguir: Nos termos da Instrução Normativa nº 1300/2012, vigente à época da apresentação do presente Pedido de Restituição: Seção V Da Restituição Decorrente de Cancelamento ou de Retificação de Declaração de Importação (DI) Fl. 719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3004-000.139 – 3ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10831.723615/2013-10 6 Art. 15. Os valores recolhidos a título de tributo administrado pela RFB, por ocasião do registro da Declaração de Importação (DI), poderão ser restituídos ao importador caso se tornem indevidos em virtude de: I - cancelamento de DI em decorrência de registro de mais de uma declaração para uma mesma operação comercial, de ofício ou a requerimento do importador ou de seu representante legal, eleito com poderes específicos; II - demais hipóteses de cancelamento de ofício de DI; e III - retificação de DI, de ofício ou a requerimento do importador ou de seu representante legal. Art. 16. A restituição dos valores a que se refere o art. 15 será requerida à unidade da RFB responsável pela retificação ou pelo cancelamento da DI, mediante o formulário Pedido de Reconhecimento de Direito de Crédito Decorrente de Cancelamento ou de Retificação de Declaração de Importação e Reconhecimento de Direito, constante do Anexo III a esta Instrução Normativa. A referida Instrução Normativa estabelecia que a Manifestação de Inconformidade apresentada em face da negativa do pedido de restituição seguiria o rito processual do Decreto nº 70.235/72 (art. 77, §4º). Todavia, como já alertado pela Autoridade Julgadora de primeira instância, o Pedido de Retificação da Declaração de Importação é regido pela IN 680/2006, que “Disciplina o despacho aduaneiro de importação”: IN RFB 680/2006 Art. 45. A retificação da declaração após o desembaraço aduaneiro, qualquer que tenha sido o canal de conferência aduaneira ou o regime tributário pleiteado, será realizada: I - de ofício, na unidade da RFB onde for apurada, em ato de procedimento fiscal, a incorreção; ou (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1759, de 13 de novembro de 2017) II - pelo importador, que registrará diretamente no Siscomex as alterações necessárias, e efetuará o recolhimento dos tributos apurados na retificação, calculados pelo próprio Sistema, por meio de débito automático em conta ou Darf. (Redação dada pelo(a)Instrução Normativa RFB nº 1813, de 13 de julho de 2018)(...) Art. 46. Os valores recolhidos a título de tributo administrado pela RFB, por ocasião do registro da DI, poderão ser restituídos ao importador, caso se tornem indevidos em virtude de retificação. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1759, de 13 de novembro de 2017) Na hipótese dos autos, não há comprovação de que o Pedido de Retificação tenha sido deferido pela Autoridade Competente, condição essencial para que se verifique a liquidez e certeza do crédito que se pretende restituir. Fl. 720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3004-000.139 – 3ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10831.723615/2013-10 7 Ou seja, uma vez negado o Pedido de Retificação, o instrumento de defesa adequado não é a manifestação de Inconformidade regida pelo decreto nº 70.235/72, sendo vedado que os órgãos julgadores integrantes deste contencioso administrativo realizem tal análise, por absoluta ausência de competência. Desse modo, tanto as alegações preliminares de “cerceamento de direito de defesa” como as de mérito, quanto à necessidade de se reconhecer os equívocos no preenchimento das Declarações de Importação, trazidas em Recurso Voluntário, dizem respeito exclusivamente ao exame do Pedido de Retificação, não podendo ser examinada nesta esfera recursal, em sede de procedimento administrativo regido pelo Decreto nº 70.235/72. O Pedido de Restituição ora apresentado apenas seria cabível na hipótese de os valores informados nas Declarações de Importação terem se tornado indevidos em razão de retificação de DI devidamente processada pela Autoridade Competente, nos termos do já transcrito art. 15 da Instrução Normativa nº 1300/2012. Inexistindo tal retificação prévia, inviável a conformação do Pedido de Restituição. Conclusão Do exposto, voto por não conhecer do Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Semíramis de Oliveira Duro Fl. 721DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10120.728084/2015-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 11 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Apr 01 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012
PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE.
De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel.
Numero da decisão: 3202-003.421
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário.
Assinado Digitalmente
Juciléia de Souza Lima – Relatora
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: JUCILEIA DE SOUZA LIMA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012 PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
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RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). Fl. 157DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 2 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário contra indeferimento de pedido de ressarcimento veiculado por meio do formulário. O direito creditório alegado, no montante de R$ 7.419.532,10, a título de Contribuição para o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pis/Pasep), o que remontaria ao período compreendido entre janeiro de 2008 e dezembro de 2012. Ao indeferir o pleito, consigna a autoridade fiscal, uma vez não verificada a impossibilidade de utilização do programa gerador próprio (Per/Dcomp), que deveria tal pretensão ter sido veiculado por intermédio do preferido programa, no lugar do formulário de que teria lançado mão o contribuinte. Notificado, a Recorrente apresentou defesa administrativa, a qual foi julgada improcedente pela 3ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Belém/PA, formalizada através do acórdão 01-34.890, assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2012 PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. OBRIGATORIEDADE. De acordo com o art. 32, caput, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, o pedido de ressarcimento deverá ser efetuado por meio do programa PER/DCOMP, salvo, na excepcional impossibilidade de sua utilização, mediante formulário em papel. PIS. RESSARCIMENTO. PER/DCOMP. TRIMESTRE-CALENDÁRIO ÚNICO. Consoante art. 32, §2o, da Instrução Normativa RFB n. 1.300, de 2012, cada pedido de ressarcimento deverá referir-se a um único trimestre-calendário, como também ser efetuado pelo saldo credor remanescente no referido trimestre, líquido das utilizações por desconto ou compensação. PIS. NÃO-CUMULATIVIDADE. DESCONTO. SALÁRIOS. PREVISÃO LEGAL. AUSÊNCIA. O legislador, por meio do art. 3o da Lei n. 10.637, de 2002, optou por oferecer relação exaustiva quanto às possibilidades de desconto do montante apurado a título de Pis. Não configura fonte de geração de crédito, destarte, a chamada “folha de salário”, porquanto inexistente previsão legal. AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. ATIVIDADE VINCULADA. ATOS NORMATIVOS. PRESUNÇÃO DE LEGALIDADE E DE CONSTITUCIONALIDADE. Fl. 158DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 3 A autoridade administrativa exerce atividade plenamente vinculada, encontrando-se limitada ao estrito cumprimento da legislação tributária, expressão que, consoante art. 96 do Código Tributário Nacional (CTN), compreende leis, tratados, convenções internacionais, decretos e normas complementares que versem, no todo ou em parte, sobre tributos e relações jurídicas a eles pertinentes. Mais, aos agentes administrativos não é dado apreciar questões que importem na negação da eficácia de preceitos normativos em face da consonância com a Constituição da República. Gozando os atos normativos de presunção de legalidade e de constitucionalidade, resta à autoridade fiscal aplicá-los, salvo, à evidência, quando haja, em benefício do interessado, decisão judicial em sentido diverso, ou nas hipóteses previstas nos §§4o, 5o e 7o ao art. 19 da Lei n. 10.522, de 2002. A interpretação assim qualificada, por excelência, compete ao Poder Judiciário. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada, a Recorrente apresenta Recurso Voluntário do CARF, no qual pugna pela homologação do crédito vindicado. É o que havia a ser relatado. VOTO Conselheira Juciléia de Souza Lima, Relatora O Recurso é tempestivo, bem como, atende aos demais pressupostos para sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Ante a existência da arguição de preliminares, passo a analisá-las. I- DAS PRELIMINARES 1.1- Da obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento Pugna a Recorrente pelo reconhecimento de nulidade do despacho decisório ante a obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento. Fl. 159DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 4 De início, observa-se que, somente, duas são as espécies de irregularidades, elencadas nos incisos do artigo 59 do PAF a ensejar nulidade “ab initio” as peças que o compõem: a incompetência do prolator do ato administrativo (ato, decisão ou despacho) e a preterição do direito de defesa. Primeiro, de acordo com Decreto nº 70.235, 06/03/1972, somente são nulos os atos administrativos proferidos por autoridade incompetente e/ ou com preterição do direito de defesa, assim dispondo: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Para arrematar, o ato ou despacho administrativo foi emitido por servidor competente, arrolando claramente todas as razões de fato e de direito que ensejaram o indeferimento do crédito vindicado. Segundo, a recorrente confunde preliminar com mérito, pois quanto à obrigatoriedade da utilização de programa eletrônico de pedido de restituição/ressarcimento trata-se de matéria de mérito que será tratada oportunamente neste Voto. Daí, a suscitada nulidade da decisão recorrida é equivocada, não encontrando amparo legal. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configuradas tais hipóteses não é de se declarar a Fl. 160DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 5 nulidade, pois não existem erros no tocante à descrição dos fatos capazes de trazer prejuízos ao exercício de defesa da Recorrente. Sendo assim, rejeito a preliminar arguida. II- DO MÉRITO Conforme relatado acima, a matéria controvertida neste feito é concernente à possibilidade de entrega de Pedido de Ressarcimento e Declaração de Compensação em formulário em papel após entrarem em vigor as alterações promovidas pela Lei nº 10.637/2002 no artigo 74 da Lei nº 9.430/96. Destaco os dispositivos do texto normativo relevantes para o deslinde da controvérsia: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pela sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. [...] § 14. A Secretaria da Receita Federal - SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) Do parágrafo 14 extrai-se que o legislador autorizou a Secretaria da Receita Federal a regulamentar o disposto no artigo. A autorização legal diz respeito às obrigações acessórias necessárias para a operacionalização dos pedidos de ressarcimento e as declarações de compensação. Tais obrigações acessórias, ao contrário do que entende a recorrente, não foram reservadas à lei em sentido estrito pelo artigo 97 do CTN. Assim, é cristalino que estava no âmbito da atribuição da administração tributária regulamentar os procedimentos necessários para a viabilização dos pedidos de ressarcimento e as declarações de compensação. Fl. 161DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 6 Entretanto, ao contrário do que defende a contribuinte, a decisão não afronta qualquer dispositivo da Constituição Federal ou mesmo a legislação de regência, que remete a regulamentação da matéria à Receita Federal, segundo o § 14 do art. 74 da Lei nº 9.430/1996: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) [...] § 14. A Secretaria da Receita Federal SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) A partir dessa alteração na Lei nº 9.430/96, a Receita Federal editou sucessivas INs que passaram a instituir regramentos nos moldes expressamente autorizado, mormente no que tange à forma de apresentação do requerimento (por meio do programa PER/DCOMP). Dessa forma, a exigência de que seja utilizado o meio eletrônico, não é mera formalidade da Administração, mas sobretudo a implementação de praticidade tributária na solução célere dos pleitos dos administrados, em cumprimento ao princípio da eficiência administrativa. Nesse sentido, na IN SRF nº 460, de 17/10/2004, surgiu a regulamentação e a vedação da interposição de manifestação de inconformidade em face de se considerar não formulado pedido de restituição/ressarcimento e não declarada a compensação, por inobservância da utilização do PER/DCOMP eletrônico, conforme seus artigos 31, caput, § 2º e 482 . Antes dessa data, na vigência da IN SRF 323/2003, considerava-se o pedido em papel não formulado e a compensação não declarada, mas inexistia previsão de vedação dos instrumentos de defesa administrativa do contribuinte. Sendo que, é importante mencionar que o contribuinte não trouxe aos autos qualquer elemento de prova ou alegação no sentido de que seu Pedido de Restituição deveria ser feito por meio de petição, sem sequer apresentar o formulário em via física em razão de alguma impossibilidade de solicitar pelo sistema PER/DCOMP devido à ausência de previsão de hipótese de ressarcimento ou por qualquer inviabilidade de acesso ao sistema. Pois bem. Fl. 162DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 7 No momento da entrega do Pedido de Restituição em formulário em papel, a regulamentação administrativa em vigor era veiculada por meio da Instrução Normativa 1.300, de 2012, art. 32, vigente à época da apresentação do formulário em testilha à administração tributária: Art. 32 . O pedido de ressarcimento a que se referem os arts. 27 a 30 será efetuado mediante a utilização do programa PER/DCOMP ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante formulário acompanhado de documentação comprobatória do direito creditório. A IN RFB n. 1.717, de 2017, sucessora da retro citada IN RFB n. 1.300, de 2012, não dispõe de forma diferente: Art. 56. O pedido de ressarcimento e a declaração de compensação devem ser efetuados mediante a utilização do programa PER/DCOMP ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição ou de Ressarcimento, constante do Anexo I desta Instrução Normativa, ou mediante o formulário Declaração de Compensação, constante do Anexo IV desta Instrução Normativa. Merece destaque o disposto no artigo 3º da IN SRF nº 600/2005: Art. 3º A restituição a que se refere o art. 2º poderá ser efetuada: I - a requerimento do sujeito passivo ou da pessoa autorizada a requerer a quantia; ou II - mediante processamento eletrônico da Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (DIRPF). § 1º A restituição de que trata o inciso I será requerida pelo sujeito passivo mediante utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP) ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição constante do Anexo I, ao qual deverão ser anexados documentos comprobatórios do direito creditório. § 2º Na hipótese de pedido de restituição formulado por representante do sujeito passivo, o requerente deverá apresentar à SRF procuração conferida por instrumento público ou por instrumento particular com firma reconhecida, termo de tutela ou curatela ou, quando for o caso, alvará ou decisão judicial que o autorize a requerer a quantia. Fl. 163DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 8 § 3º Tratando-se de pedido de restituição formulado por representante do sujeito passivo mediante utilização do Programa PER/DCOMP, os documentos a que se refere o § 2º serão apresentados à SRF após intimação da autoridade competente para decidir sobre o pedido. § 4º A restituição do imposto de renda apurada na DIRPF reger-se-á pelos atos normativos da SRF que tratam especificamente da matéria, ressalvado o disposto nos arts. 9º, 11 e 12. De fato, o procedimento exigido para pedido de ressarcimento e/ou compensação exigia, portanto, que o contribuinte requeresse seu direito por meio do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP). Somente no caso de ser impossível a utilização do programa é que o sujeito passivo estaria autorizado a utilizar o formulário em papel. A determinação da utilização do sistema informatizado do PER/DCOMP não é sem razão. A Lei nº Lei nº 10.637/2002 trouxe forte alteração na sistemática de ressarcimentos/restituições e compensações, pois passou a permitir que os sujeitos passivos apurassem seus créditos dos diversos tributos e os compensassem com tributos distintos, ampliando fortemente o aproveitamento dos créditos a que estes faziam jus. A apuração dos créditos e sua utilização em compensações não dependeriam mais de uma apreciação prévia por parte da administração. Destarte, o tratamento administrativo da matéria deveria ser massivo. Tal tarefa somente poderia ser desempenhada por meio de sistema informatizado. Daí a exigência da utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP). A exceção para a utilização do formulário em papel, quando a utilização do programa do PER/DCOMP fosse impossível, foi tratada no artigo 76 da Instrução Normativa citada abaixo: Art. 76. Ficam aprovados os formulários Pedido de Restituição, Pedido de Cancelamento ou de Retificação de Declaração de Importação e Reconhecimento de Direito de Crédito, Pedido de Ressarcimento de IPI - Missões Diplomáticas e Repartições Consulares, Declaração de Compensação e Pedido de Habilitação de Crédito Reconhecido por Decisão Judicial Transitada em Julgado constantes, respectivamente, dos Anexos I, II, III, IV e V. § 1º A SRF disponibilizará, no endereço http://www.receita.fazenda.gov.br, os formulários a que se refere o caput. § 2º Os formulários a que se refere o caput somente poderão ser utilizados pelo sujeito passivo nas hipóteses em que a restituição, o ressarcimento ou Fl. 164DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 9 a compensação de seu crédito para com a Fazenda Nacional não possa ser requerida ou declarada eletronicamente à SRF mediante utilização do Programa PER/DCOMP. § 3º A SRF caracterizará como impossibilidade de utilização do Programa PER/DCOMP, para fins do disposto no § 2º, no § 1º do art. 3º, no § 3º do art. 16, no § 1º do art. 22 e no § 1º do art. 26, a ausência de previsão da hipótese de restituição, de ressarcimento ou de compensação no aludido Programa, bem como a existência de falha no Programa que impeça a geração do Pedido Eletrônico de Restituição, do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou da Declaração de Compensação. § 4º A falha a que se refere o § 3º deverá ser demonstrada pelo sujeito passivo à SRF no momento da entrega do formulário, sob pena do enquadramento do documento por ele apresentado no disposto no art. 31. Merece destaque que incumbe ao sujeito passivo comprovar a impossibilidade de utilização do sistema informatizado para ter direito à entrega de Pedido de Ressarcimento em formulário em papel. É oportuno ressaltar que o pedido de restituição e a declaração de compensação são dois atos distintos, que produzem efeitos próprios na esfera do patrimônio dos sujeitos ativo e passivo. No primeiro, o sujeito passivo formaliza um crédito perante o sujeito ativo (no caso, a União). No segundo, utiliza o crédito para extinguir sob condição resolutória um débito de sua responsabilidade perante o sujeito ativo. Portanto, a norma administrativa, ao considerar como não formulado o pedido em papel feito em desacordo com o previsto no artigo 76 da IN SRF nº 600/2005, determina que a autoridade administrativa não reconheça o crédito pedido. Não se está a ampliar as hipóteses de compensação não declarada do parágrafo 12 do artigo 74 da Lei nº 9.430/96 simplesmente porque o efeito é impedir o surgimento do crédito e não a compensação propriamente dita. A consideração de compensação não declarada é apenas uma decorrência lógica da ausência de pedido de ressarcimento. Assim, entendo que o acórdão recorrido não merece reparos. 2.1- Da folha de salários como insumos Ante todo alegado no tópico anterior, todavia, a evitar a oposição de eventual embargos de declaração, adianto-me para defender que entendo ser descabida analisar a essencialidade e relevância dos itens glosados pela fiscalização por terem sido aproveitados pela Recorrente como insumos- da folha de salários como insumos, pois do texto legal, resta que não Fl. 165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 10 existe amparo legal para tomada de créditos de folha de salários como insumos como defende a Recorrente. Nos termos da sistemática de créditos de PIS/COFINS, no inciso II, do art. 3°, das Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003, trata-se de rol taxativo e não exemplificativo como entende a recorrente. De certo, a dar efetividade ao princípio da não cumulatividade, o legislador ordinário poderia não ter apresentado restrições ao direito de tomada de créditos a legitimar a creditamento de todas as despesas incorridas na atividade empresarial para auferir a receita (fato tributado pelas contribuições). Todavia, assim não ocorrera, pois a legislação do PIS e da COFINS ao apresentar um rol taxativo de direito de crédito, indubitavelmente, imputou o efeito cumulativo à algumas atividades. Existem limites legais impostos pela legislação vigente ao apresentar um rol taxativo de despesas passíveis de creditamento, bem como, exigindo que, para o creditamento com fulcro no art. 3º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, o insumo seja utilizado "na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda". Assim, considerando a seara administrativa na qual se insere essa discussão, não posso me desvincular dos termos da lei, na forma exigida pelo Regimento Interno deste Conselho. Ao contrário do que pretende a Recorrente, o julgamento do recurso repetitivo n.º 1.221.170 pelo Superior Tribunal de Justiça não reconheceu que o rol trazido pelas leis referenciadas não seria taxativo, não ampliando o rol de hipóteses passíveis de creditamento. O que aquele julgado buscou identificar é qual o conceito de insumo que deve ser considerado por aquelas pessoas jurídicas prestadoras de serviço e produtoras/fabricantes. Ressalte-se que não há previsão legal da tomada de créditos das despesas com salários e folha de pagamento como insumos, logo não há sequer que se aferir relevância ou essencialidade de tais dispêndios. Contudo, por ausência de previsão legal, mantenho as glosas com dispêndios com salários e folha de pagamento. E assim, voto por afastar a preliminar de nulidade do despacho decisório arguida no presente recurso, para no mérito, negar-lhe provimento. É o voto. Assinado Digitalmente Juciléia de Souza Lima Fl. 166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.421 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.728084/2015-21 11 Fl. 167DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16682.902980/2020-47
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon May 11 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2016 a 31/03/2016
ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. CRÉDITO. INSUMO.
O critério da essencialidade, requer que o bem ou serviço creditado constitua elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço realizado pelo contribuinte; já o critério da relevância é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção do sujeito passivo por imposição legal ou singularidade da cadeia produtiva. Neste contexto deve ser apreciado.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. CONTRAPRESTAÇÕES DE ARRENDAMENTO MERCANTIL. REQUISITOS DA LEI Nº 6.099/1974.
Não geram direito a crédito na modalidade arrendamento mercantil os dispêndios decorrentes de contratos que não preencham os requisitos do art. 5º da Lei nº 6.099/1974.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. INSUMO. LOCAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
A locação não se confunde com prestação de serviços ou produção de bens e, portanto, não pode ser considerada insumo para fins de creditamento da contribuição.
DESCONTO DE CRÉDITOS. EXISTÊNCIA DO CRÉDITO ALEGADO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE.
O ressarcimento de créditos tributários está condicionado à comprovação da certeza e liquidez do direito pleiteado, cujo ônus é do contribuinte.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E OUTROS BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO.
O aproveitamento de créditos decorrente de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado restringe-se àqueles adquiridos ou construídos para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços.
NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. LEI Nº 11.488/2007. EDIFICAÇÕES. ATIVIDADE PRODUTIVA.
O desconto de créditos no prazo de 24 (vinte e quatro) meses previsto no art. 6º da Lei nº 11.488/2007 restringe-se às edificações incorporadas ao ativo imobilizado adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços.
DESPESAS COM FRETES. BENS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N° 188.
Nos termos da legislação de regência devem ser revertidas as glosas com as despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumo. Vide Súmula Carf n° 188.
Devem ser revertidas aas glosas com as despesas com frete nacional na aquisição de bens importados, excetuando-se os fretes de escavadeiras.
NÃO-CUMULATIVADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DE DEMONSTRATIVOS. NECESSIDADE.
A utilização de créditos extemporâneos na apuração da Cofins no regime não cumulativo, exige a retificação de declarações e demonstrativos aplicáveis, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que será utilizado
Numero da decisão: 3202-003.579
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em afastar as preliminares de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário para reverter as glosas de despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumos(Glosas com motivação “Aquisição pela Vale de mercadoria ou bem não sujeita ao pagamento da contribuição” no DEMONSTRATIVO E), nos termos da Súmula Carf nº 188, e (b) reverter as glosas de despesas com frete nacional na aquisição de bens importados (Glosas com motivação “Frete nacional de aquisição de bem importado” no DEMONSTRATIVO E), excetuando-se os fretes de escavadeiras. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre os (a)créditos da infraestrutura logística para escoamento da produção, (b) créditos relativos aos contratos de arrendamento, e (c) créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado da infraestrutura logística. Vencidas as Conselheiras Aline Cardoso de Faria (Relatora) e Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que davam provimento ao recurso nas matérias. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha.
Assinado Digitalmente
Aline Cardoso de Faria – Relatora
Assinado Digitalmente
Rafael Luiz Bueno da Cunha – Redator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Jucileia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe.
Nome do relator: ALINE CARDOSO DE FARIA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2016 a 31/03/2016 ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. CRÉDITO. INSUMO. O critério da essencialidade, requer que o bem ou serviço creditado constitua elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço realizado pelo contribuinte; já o critério da relevância é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção do sujeito passivo por imposição legal ou singularidade da cadeia produtiva. Neste contexto deve ser apreciado. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. CONTRAPRESTAÇÕES DE ARRENDAMENTO MERCANTIL. REQUISITOS DA LEI Nº 6.099/1974. Não geram direito a crédito na modalidade arrendamento mercantil os dispêndios decorrentes de contratos que não preencham os requisitos do art. 5º da Lei nº 6.099/1974. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. INSUMO. LOCAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. A locação não se confunde com prestação de serviços ou produção de bens e, portanto, não pode ser considerada insumo para fins de creditamento da contribuição. DESCONTO DE CRÉDITOS. EXISTÊNCIA DO CRÉDITO ALEGADO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. O ressarcimento de créditos tributários está condicionado à comprovação da certeza e liquidez do direito pleiteado, cujo ônus é do contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E OUTROS BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO. O aproveitamento de créditos decorrente de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado restringe-se àqueles adquiridos ou construídos para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. LEI Nº 11.488/2007. EDIFICAÇÕES. ATIVIDADE PRODUTIVA. O desconto de créditos no prazo de 24 (vinte e quatro) meses previsto no art. 6º da Lei nº 11.488/2007 restringe-se às edificações incorporadas ao ativo imobilizado adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. DESPESAS COM FRETES. BENS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N° 188. Nos termos da legislação de regência devem ser revertidas as glosas com as despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumo. Vide Súmula Carf n° 188. Devem ser revertidas aas glosas com as despesas com frete nacional na aquisição de bens importados, excetuando-se os fretes de escavadeiras. NÃO-CUMULATIVADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DE DEMONSTRATIVOS. NECESSIDADE. A utilização de créditos extemporâneos na apuração da Cofins no regime não cumulativo, exige a retificação de declarações e demonstrativos aplicáveis, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que será utilizado
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2016 a 31/03/2016 ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. CRÉDITO. INSUMO. O critério da essencialidade, requer que o bem ou serviço creditado constitua elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço realizado pelo contribuinte; já o critério da relevância é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção do sujeito passivo por imposição legal ou singularidade da cadeia produtiva. Neste contexto deve ser apreciado. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. CONTRAPRESTAÇÕES DE ARRENDAMENTO MERCANTIL. REQUISITOS DA LEI Nº 6.099/1974. Não geram direito a crédito na modalidade arrendamento mercantil os dispêndios decorrentes de contratos que não preencham os requisitos do art. 5º da Lei nº 6.099/1974. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. INSUMO. LOCAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. A locação não se confunde com prestação de serviços ou produção de bens e, portanto, não pode ser considerada insumo para fins de creditamento da contribuição. DESCONTO DE CRÉDITOS. EXISTÊNCIA DO CRÉDITO ALEGADO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. O ressarcimento de créditos tributários está condicionado à comprovação da certeza e liquidez do direito pleiteado, cujo ônus é do contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E OUTROS BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO. Fl. 3177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 2 O aproveitamento de créditos decorrente de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado restringe-se àqueles adquiridos ou construídos para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. LEI Nº 11.488/2007. EDIFICAÇÕES. ATIVIDADE PRODUTIVA. O desconto de créditos no prazo de 24 (vinte e quatro) meses previsto no art. 6º da Lei nº 11.488/2007 restringe-se às edificações incorporadas ao ativo imobilizado adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. DESPESAS COM FRETES. BENS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N° 188. Nos termos da legislação de regência devem ser revertidas as glosas com as despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumo. Vide Súmula Carf n° 188. Devem ser revertidas aas glosas com as despesas com frete nacional na aquisição de bens importados, excetuando-se os fretes de escavadeiras. NÃO-CUMULATIVADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DE DEMONSTRATIVOS. NECESSIDADE. A utilização de créditos extemporâneos na apuração da Cofins no regime não cumulativo, exige a retificação de declarações e demonstrativos aplicáveis, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que será utilizado ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em afastar as preliminares de nulidade do despacho decisório, para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário para reverter as glosas de despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumos(Glosas com motivação “Aquisição pela Vale de mercadoria ou bem não sujeita ao pagamento da contribuição” no DEMONSTRATIVO E), nos termos da Súmula Carf nº 188, e (b) reverter as glosas de despesas com frete nacional na aquisição de bens importados (Glosas com motivação “Frete nacional de aquisição de bem importado” no DEMONSTRATIVO E), excetuando-se os fretes de escavadeiras. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre os (a)créditos da infraestrutura Fl. 3178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 3 logística para escoamento da produção, (b) créditos relativos aos contratos de arrendamento, e (c) créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado da infraestrutura logística. Vencidas as Conselheiras Aline Cardoso de Faria (Relatora) e Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que davam provimento ao recurso nas matérias. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha. Assinado Digitalmente Aline Cardoso de Faria – Relatora Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha – Redator Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Jucileia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe. RELATÓRIO Trata o presente de Recurso Voluntário interposto contra Acórdão proferido pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento DRJ/05, que julgou PROCEDENTE EM PARTE A MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE, em desfavor da Recorrente VALE S/A. Por bem descrever os fatos, adota-se o relatório do Acórdão recorrido: Trata-se de Despacho Decisório emitido pela DEMAC-RJO, que deferiu parcialmente Pedido de Ressarcimento Eletrônico (PER), e homologou parcialmente as Declarações de Compensação vinculadas até o limite do crédito reconhecido. A análise do direito creditório foi realizada no âmbito do procedimento de fiscalização instaurado pelo TDPF-F 07.1.85.00-2019-00166-0, que teve por objetivo analisar os créditos da não cumulatividade da contribuição para PIS/Pasep e da Cofins, apurados em relação às operações ocorridas no período de 01/01/2016 a 31/12/2016. Conforme Relatório Fiscal anexo, o deferimento parcial do PER se deu em função da glosa de créditos em relação às aquisições não sujeitas ao pagamento das contribuições de PIS/Cofins; às despesas extemporâneas; às contraprestações de arrendamento mercantil; às despesas de insumos na infraestrutura logística (etapas posteriores ao processo produtivo); às despesas com fretes não dedutíveis; às aquisições de bens incorporados ao ativo imobilizado; aos créditos deduzidos em duplicidade. Fl. 3179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 4 Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade em que argumenta, ilustrando com doutrina e jurisprudência que entende a seu favor, que: II – DO DIREITO II.1 – DO DIREITO AOS CRÉDITOS DE PIS E DE COFINS – DO CONCEITO DE INSUMO PREVALECENTE NOS TRIBUNAIS 1. O r. despacho decisório proferido no presente caso, apesar de fazer parecer que os seus fundamentos encontrariam guarida no entendimento consubstanciado pelo STJ em sede de recurso repetitivo (Resp 1.221.170/PR), em verdade reduz a abrangência conceito de insumo fixado pela Corte Superior, não levando em consideração as peculiaridades do processo produtivo da Impugnante para análise dos insumos empregados. 2. Determinada atividade - como a desenvolvida pela Impugnante - pode ser exercida em etapas, mas todas fazem parte integrante de um único processo. Portanto, o conceito de insumos para fins de apuração do PIS e da COFINS não é um conceito formulado em abstrato, mas deve-se atentar para o pressuposto de fato que envolve as contribuições em questão, bem como a “dimensão funcional” do processo produtivo da Impugnante. 3. Contrariando o entendimento fixado pelo E. STJ, o fisco apresenta argumentos genéricos e estanques, não analisando o contexto do processo produtivo da Impugnante, que possui particularidades que o distingue do apresentado por aqueles que desempenham outras atividades. 4. A necessidade de se analisar o conceito de insumo a partir de cada caso concreto é ponto de relevo no acórdão proferido no Resp nº 1.221.170. É dizer, o que é essencial e relevante para determinada cadeia produtiva pode não ser para outra. Há que se verificar o contexto produtivo, nos termos do MM Relator do aludido Resp nº 1.221.170. 5. Destaque-se que, em nenhum momento, o acórdão proferido nos autos do Resp nº 1.221.170 vedou a apropriação de créditos nas etapas posteriores à produção, como pretende fazer parecer a fiscalização. 6. Ocorre que, a fiscalização, no presente caso, não considerou as singularidades da cadeia produtiva da Impugnante, glosando os bens e serviços utilizados nas etapas “Ferrovia” e “Porto”. 7. Entretanto, considerando-se a complexidade e unicidade do processo produtivo da Impugnante, que abrange a tríade mina/ferrovia/porto, devem ser considerados todos os insumos (bens e serviços) utilizados desde a extração do minério até o embarque nos navios, uma vez que se trata de itens relevantes e essenciais para o desenvolvimento da atividade econômica da Impugnante, exatamente nos termos do que restou decidido no REsp 1.221.170/PR. II.2 - DO PROCESSO PRODUTIVO DA IMPUGNANTE – DO TRINÔMIO INDISSÓCIAVEL: MINA/FERROVIA/PORTO 8. A atividade da Impugnante tem início com a perfuração do solo, passando por um processo integrado, que envolve o desmonte ou escavação, o carregamento e transporte, o beneficiamento, o empilhamento, a recuperação, o deslocamento via ferrovias, a pelotização e a estocagem, para, finalmente, concluir-se no porto, com o carregamento dos navios com destino ao exterior. 9. Nesse contexto, o processo produtivo se deflagra ainda nas jazidas, tem sequência com a exploração da mina, com todas as despesas incorridas na industrialização e beneficiamento dessa fase produtiva, e a conclusão se dá com o carregamento do minério aos porões dos navios com destino à exportação, após o transporte do minério pela ferrovia, até o porto. Fl. 3180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 5 10. Trata-se de trinômio indissociável que inclui os processos integrados envolvendo a mina, a ferrovia e o porto, sem os quais não se consuma sua atividade e resta bem evidenciado no objeto social da Impugnante, conforme se verifica do art. 2º e incisos do Estatuo Social. 11. Observa-se, portanto, a existência de um processo integrado, uno, em que todas as etapas estão indissociavelmente articuladas. Cabe destacar que não só a Impugnante projeta e desenvolve suas atividades a partir da tríade mina-ferrovia-porto, como também o setor de mineração mundial. Trata-se de dinâmica necessária, visto que no mais das vezes as minas se encontram em locais isolados e de difícil acesso. 12. No caso em análise, considerando-se a extensão territorial do Brasil e a expressiva distância entre as minas e o mercado consumidor, é fato que a ausência do trinômio em questão inviabilizaria o escoamento do minério e interromperia o fluxo do processo produtivo da Impugnante. 13. Com efeito, a Impugnante é a maior exportadora brasileira. Não haveria como realizar esta exportação se os produtos, extraídos das minas, não fossem transportados aos portos. 14. O processo produtivo da Impugnante e os insumos geradores de créditos de PIS e de COFINS já foi estudado com profundidade por renomados profissionais independentes e habilitados, sendo que a Impugnante traz aos autos trabalhos elaborados pela Unicamp, PwC, Tyno e LCA, todos unanimes ao registrar que o processo produtivo em questão efetivamente é composto pelo aludido trinômio indissociável, o que será demonstrado mais adiante. II.3 - DA VIABILIDADE DO CREDITAMENTO DE BENS E SERVIÇOS INCORRIDOS NAS FASES DE FERROVIA E PORTO (INCLUSIVE ATIVO IMOBILIZADO) 15. A fiscalização, a todo o custo, faz parecer que os dispêndios com bens e serviços ferroviários e portuários para escoamento da produção não seriam passíveis de créditos, afirmando, equivocadamente, que estariam atrelados a fases pós produtivas. 16. Dúvidas não restam, entretanto, de que as alegações da fiscalização não encontram amparo nos fatos e nem no direito, uma vez que as etapas da ferrovia e do porto são, efetivamente, junto com a da mineração, fases do processo produtivo da Impugnante. 17. Ainda que se tratasse de fases pós produtivas, o que se admite apenas por amor à argumentação, o fato é que, em sentido diametralmente oposto a afirmado pela fiscalização, tanto a decisão proferida pelo STJ, em sede de recurso repetitivo, quanto o mencionado Parecer Normativo Cosit nº 05/2018, reconhecem expressamente a possibilidade de creditamento após a produção, quando se tratar de imposição legal ou por singularidades da cadeia. Também por esse critério, o direito da Impugnante aos créditos resta inequivocamente caracterizado. II.3.1 - DA EFETIVA INCLUSÃO DAS FASES DA FERROVIA E PORTO NO PROCESSO PRODUTIVO E DA RELEVÂNCIA E ESSENCIALIDADE DOS BENS E SERVIÇOS A ELA ATRELADOS 18. Conforme amplamente demonstrado pela Impugnante na presente manifestação de inconformidade, todo o trinômio indissociável (mina- ferrovia- porto) compõem o processo produtivo da empresa. 19. De fato, não deve prevalecer a tentativa da fiscalização de caracterizar como processo produtivo apenas a etapa da mineração, de modo a alçar as fases da ferrovia e porto, partes integrantes do processo produtivo, como etapas “pós-produção”. Fl. 3181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 6 20. Note-se que a Impugnante encomendou estudos de renomadas empresas independentes, sendo que todos eles chegaram à inarredável de que as etapas da ferrovia e porto fazem parte indissociável do processo produtivo da Impugnante, ao contrário do que afirma a fiscalização, que não possui expertise para sustentar as suas alegações (Doc. 02 - Unicamp; Doc. 03 – PricewaterhouseCoopers; Doc. 04 – LCA; Doc. 05 – Tyno Consultoria. 21. Deve-se ressaltar que, não se trata de agilizar e tornar mais eficiente o escoamento da produção, conforme afirma a fiscalização. Trata-se da própria viabilidade da atividade, inserindo-se, tais fases, no processo produtivo. De fato, sem a fase da ferrovia e do porto, não existe processo produtivo do minério. A produção resta inviável, totalmente prejudicada, notadamente no que diz respeito ao mercado externo. 22. E não se pode comparar tais fases da produção com atividades administrativas, jurídicas, contábeis, destacadas no aludido Parecer Cosit nº 05/2018, pois as etapas da ferrovia e porto compõe o processo produtivo do minério, que é uno e indissociável, conforme amplamente demonstrado. Isto é, a fiscalização não compreendeu o fato de o processo produtivo em questão ser único, peculiar, sui generis, e que não pode ser comparado com processos produtivos menos complexos. 23. E o que se entende por produto acabado, na mineração, não pode ser comparado com o produto acabado em outras áreas do comércio e indústria. Sem a ferrovia e o porto, a atividade da mineração resta inviável, impraticável. 24. A título de exemplo, destaca a Impugnante, serviços essenciais por ela utilizados para a viabilização do aludido processo produtivo, tais como serviços de logística, estudos, serviços portuários, serviços com guindaste, serviços de manutenção em máquinas e equipamentos, dentre outros serviços incorridos após a fase da mineração. 25. Os serviços de manutenção são primordiais. Como poderia a Impugnante continuar a exercer suas atividades sem que haja a manutenção dos britadores, caminhões, viradores de vagão dentre tantos outros equipamentos necessários à produção dos minerais e seu escoamento até o porto de destino? Também a manutenção das embarcações é de fundamental relevo para as atividades perseguidas pela Impugnante, bem assim a manutenção da extensa malha ferroviária utilizada pela Impugnante, única via de transporte do minério de ferro, por seu porte representativo. 26. Igualmente os serviços portuários são de fundamental importância para a Impugnante. A movimentação de carga dos portos (capatazia), a rebocagem e os demais serviços portuários são partes indissociáveis do processo produtivo. Sem tais etapas, o processo produtivo da Impugnante não cumpre os seus objetivos. II.3.2 - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO DE DESPESAS SUPOSTAMENTE INCORRIDAS APÓS O PROCESSO PRODUTIVO 27. Conforme amplamente demonstrado, as fases “ferrovia” e “porto” são efetivamente integrantes do processo produtivo da Impugnante, diferentemente do que assevera a fiscalização. Entretanto, ainda que se tratasse de fases pós processo produtivo, o que se admite ad argumentandum tantum, também seria viável o creditamento. 28. Veja-se que mesmo o Parecer Normativo Cosit nº 5/2018 - por meio do qual a SRFB apresenta interpretação bastante restritiva sobre o entendimento emanado pelo E. STJ - apoiado na aludida decisão reconhece que, embora o processo de produção de bens, em regra, encerra-se com a finalização das etapas produtivas do bem, os bens e serviços empregados posteriormente à finalização do processo de produção ou de prestação podem ser considerados insumos, quando integram o processo por singularidades da cadeia ou por imposição legal. Fl. 3182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 7 29. Registre-se ainda que os itens 57 e 58 do Parecer Normativo Cosit nº 5/2018 viabilizam o creditamento em relação aos dispêndios efetuados no escoamento da produção da Impugnante, vez que a previsão de rodovias e estradas de ferro, e o transporte no beneficiamento da produção decorrem de expressa disposição regulatória do Código Minerário, que impõe a todo projeto minerário nacional a previsão das formas de escoamento de sua produção, sob pena de não autorização da lavra (artigos 38, III e 39). 30. Ademais, conforme restou amplamente comprovado nos autos, o processo produtivo da Impugnante apresenta diversas singularidades. Da mesma forma que, fazendo menção ao acórdão proferido na sistemática dos recursos repetitivos, o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria, o papel do transporte do minério aos portos e do escoamento da produção nos navios, para posterior exportação, bem como os bens e serviços aplicados nestas etapas, são particulares e próprios, diferindo radicalmente da função destas atividades em outras linhas de produção. 31. Resta claro que a fiscalização, no presente caso, não considerou as singularidades da cadeia produtiva da Impugnante, perpetrando indevidas cobranças de gastos que afirma serem posteriores à finalização do processo de produção, mas que, pela singularidade da cadeia produtiva (trinômio mina, ferrovia e porto), devem ser considerados no presente caso como geradores de créditos. 32. À medida que o insumo depende do contexto produtivo para ser avaliado, resta claro que, ao não se aprofundar nos elementos do caso concreto, a fiscalização não realizou a interpretação correta, não merecendo prevalecer a assertiva de que não poderiam ser considerados como créditos compensáveis os gastos posteriores à finalização do processo de produção. 33. Além disso, soma-se a própria alegação do fisco no relatório fiscal em comento, quando corrobora o exposto acima pela Impugnante, em que reconhece “a importância de tais atividades nos negócios da empresa” (pág. 14/15). Além disso, ainda cita que foi confirmado no curso da fiscalização que “os dispêndios com serviços portuários e ferroviários tem como principal finalidade o eficiente e ágil escoamento da produção da VALE.” 34. Ora, se o próprio relatório fiscal reitera que tais atividades são importantes e possibilitam a eficácia do processo produtivo da Impugnante, sequer discutindo a essencialidade e relevância da ferrovia e do porto, resta conflitante e diametralmente oposto glosar sob alegação de que tais itens seriam aplicados em etapas posteriores ao processo produtivo. 35. Nada obstante, visando a eliminar quaisquer dúvidas acerca do processo produtivo da Impugnante e a garantia do seu direito de crédito, requer a Impugnante, além da juntada dos anexos Pareceres Técnicos, seja deferida prova pericial nos autos do presente feito. A referida prova deve ser realizada visando o pleno conhecimento de seu processo produtivo, insumos, serviços e ativo imobilizado utilizado glosados, inerentes às atividades desenvolvidas pela Impugnante, afastando qualquer dúvida que possa advir do exame da prova documental. II.4 - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NOS CONTRATOS DE ARRENDAMENTO II.4.1 - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NA MODALIDADE ALUGUEL 36. Assevera o fisco, em seu relatório, que não seria possível o creditamento das despesas em questão com base no inc. IV, art. 3º, das 10.637/2002 e 10.833/2003, eis que os contratos em comento não caracterizariam aluguel. Fl. 3183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 8 37. Veja-se que no caso em tela, a figura do aluguel se subsome à natureza dos contratos firmados, que tiveram como objeto prédios máquinas e equipamento, pagos à pessoa jurídica e utilizados nas atividades da empresa, bem como tiveram como objeto direitos minerários e de bens voltados a essa atividade, como é o caso das plantas de pelotização. 38. Com efeito, citamos, como exemplo, os contratos com a Hispanobras e Kobrasco, (aluguel de usinas de pelotização); a Itabrasco (aluguel de uma fábrica de peletização e fabricação de pelotas de minério de ferro), a Baovale, a MSG (aluguel de maquinário, veículos, dentre outros). São todas situações que se enquadram no art. 3º, inciso IV da Lei nº 10.637/2002, reproduzido na Lei nº 10.833/2003, motivo pelo qual a glosa não se sustenta. 39. Entretanto, a fiscalização tenta descaracterizar a possibilidade de creditamento da locação de tais bens, ao argumento de que não teriam como objeto, em sua inteireza, prédios, máquinas e equipamentos. Cita como exemplo o aluguel de veículos, que seria vedado. 40. Ora, dúvidas não restam de que, no tocante aos arrendamentos de estabelecimentos, estes indubitavelmente incluem prédios, máquinas e equipamentos. 41. Todos os bens objetos do contrato são passíveis de inclusão nessas categorias, não havendo como segregar os bens individualmente, como pretende a fiscalização. É dizer, todos os bens objeto dos contratos são passíveis de creditamento. 42. Deveras, o conceito de prédios, máquinas e equipamento é amplo, nele se inserindo diversos bens, sobretudo os objetos dos contratos em tela, ao contrário do que pretende a fiscalização, ao tentar reduzir o escopo do creditamento. 43. Em seu relatório a fiscalização assevera que para além de uma parcela fixa, os valores para locação dos bens eram acrescidos de parcelas variáveis. Com base no aludido argumento, afirma que o valor pago pela Impugnante seria estabelecido em função da produção e não em função do acervo dos bens a ela entregues. 44. Cabe salientar que, a forma do pagamento contratualmente estipulada, composta por valores fixos, com critérios de atualização pré-fixados, acrescidos de parcela variável, é plenamente aceita na relação locatícia, nos termos do art. 565, do Código Civil. 45. Irrelevante, outrossim, a alegação de que consta no contrato da Kobrasco que a usina está localizada em imóvel pertencente à Impugnante. Isso, porque, o que se está alugando é a usina, enquanto edifício, devendo as despesas com tal locação deflagrar o direito ao crédito. 46. Ademais, ainda que houvesse bens, constantes dos contratos, que não se enquadrassem no amplo conceito de prédios, máquinas e equipamentos, o que se admite por amor à argumentação, jamais poderia prevalecer o argumento da fiscalização no sentido de que nenhum crédito seria devido, por suposta impossibilidade de segregação dos bens. 47. Ora, tal raciocínio, amparado pela ilegal Solução de Consulta nº 80/2012, revela-se pernicioso e enseja o locupletamento ilícito do fisco, que reconhece a existência de valores passíveis de créditos, mas os nega pois não seriam segregáveis. Deveria, sim, o fiscal, com base no entendimento que apresenta, proporcionalizar as despesas, e não glosar a totalidade dos créditos sob o inverídico argumento de que seria impossível a segregação. 48. Por fim, deve-se destacar que, ainda que no contrato haja menção à arrendamento mercantil, bem como tenham tais operações sido contabilizadas na conta “353031010- Arrendamento” tais elementos formais não são aptos a modificar a substância dos contratos. Se materialmente se trata de locação, como evidencia o próprio fisco ao Fl. 3184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 9 desconstituir o negócio jurídico de arrendamento mercantil, o tratamento tributário deve ensejar a permissão de apropriação de créditos com fulcro no art. 3, IV, das Leis nº 10.637/2002, na Lei nº 10.833/2003. II.4.2 - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NA MODALIDADE ARRENDAMENTO 49. Para afirmar que os contratos em questão não abarcariam a figura do arrendamento mercantil, a fiscalização utiliza como base as disposições da Lei nº 6.099/1974. Entretanto, o posicionamento apresentado pela fiscalização não merece prosperar, eis que tal entendimento é excessivamente restritivo. 50. Com efeito, a Lei nº 6.099/1974 não veicula um conceito amplo que tenha pretensões de aplicabilidade irrestrita no ordenamento jurídico, mas apenas um conceito de arrendamento mercantil “para os efeitos desta Lei”. Não há, dessa forma, como desconstituir a natureza de arrendamento mercantil apenas com fulcro na referida Lei, devendo restar afastados todos os argumentos veiculados no relatório fiscal com base nesta. 51. Além disso, como já dito, a expressão “arrendamento mercantil” não é limitada ao chamado arrendamento mercantil financeiro, que tem as características descritas na Lei nº 6.099/74, mas também abarca o arrendamento operacional. 52. Nesse sentido, vejam-se as definições constantes do Pronunciamento Técnico CPC 06 Operações de Arrendamento Mercantil (R1). Esse diploma regulamentar contábil foi revogado em 2018 e substituído pela versão R2, que não mais emprega a terminologia “arrendamento mercantil”, mas fala apenas em “arrendamento”, de modo a abranger tanto os antigos arrendamentos mercantis financeiros como os arrendamentos mercantis operacionais. Portanto, a expressão arrendamento mercantil pode ser empregada de maneira indistinta para albergar não somente os arrendamentos mercantis financeiros como também os operacionais. 53. Aliás, considerando-se que as contraprestações de arrendamento mercantil operacional são regularmente tributadas pelas contribuições, não há qualquer sentido em se negar o direito de crédito relativamente ao arrendatário. Além de importar quebra na lógica da não cumulatividade, essa interpretação viola o princípio da igualdade (CF/88, art. 150, II), pois estabelece tratamento distinto entre os arrendatários em arrendamento financeiro e aqueles em arrendamento operacional, sem que exista qualquer justificativa para tanto. II.4.3 - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NA MODALIDADE INSUMOS 54. Na remota hipótese de não se legitimar a tomada dos créditos em questão com base no aluguel ou no arrendamento mercantil, o enquadramento das despesas em comento na condição de insumo é o que se impõe. 55. No que tange à possibilidade de creditamento das despesas envolvidas nos contratos em questão como sendo insumos, o fisco assevera que as relações previstas contratualmente não consubstanciariam prestação de serviço. Alega que o objeto dos contratos seria a cessão do direito de uso de ativos, que não caracterizariam prestação de serviço, o qual demandaria uma obrigação de dar. 56. Ocorre que, razão não assiste à fiscalização. Ao regulamentar esses dispositivos em pretensa conformidade com a decisão do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.221.170/PR, além de limitar os critérios de pertinência e relevância ao processo produtivo, a IN RFB nº 1.911/2019 veiculou definição bastante abrangente de serviços, que abarca também mesmo as contraprestações de arrendamento. Fl. 3185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 10 II.5 - DA EQUIVOCADA GLOSA DE CRÉDITOS RELATIVOS AOS BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO 57. Inicialmente, no que se refere às Edificações e Benfeitorias – Fluxos Ferrovia e Porto, verifica-se que, a i. fiscal prosseguiu com a respectiva glosa em análise, sob o fundamento de que: (i) o art. 6º da Lei nº 11.488/2007 restringiria o desconto acelerado dos créditos na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços, (ii) de modo que, para as edificações da área logística da VALE (fluxos Ferrovia e Porto), caberia o aproveitamento de crédito tão somente sobre o valor da depreciação das edificações, tendo sido aplicados percentuais de rateio para a manutenção da parcela do crédito referente aos serviços ferroviários e portuários a terceiros, prestados de forma residual pela VALE com a utilização da infraestrutura logística. 58. Novamente, cabe aqui destacar que a fiscalização se mostrou completamente omissa quanto à observância das etapas que formam o processo produtivo da Impugnante e a necessária verificação da presença dos requisitos de relevância e/ou essencialidade da presença de tais edificações, objeto da glosa em questão na cadeia produtiva da Impugnante. 59. De fato, conforme visto, o processo produtivo da Impugnante é altamente complexo, integrado e indissociável sendo que o trinômio mina-ferro-porto conformador do processo produtivo da Impugnante, devendo haver o cumprimento das respectivas etapas desde a extração do minério até o embarque. 60. Nota-se que, de forma contraditória, em que pese a total desconsideração do aprofundamento do processo produtivo da Impugnante para fins de reconhecimento da totalidade do direito creditório e de atenção aos critérios para aproveitamento de créditos de PIS/COFINS, determinados pelo E. STJ em sede de pedido repetitivo - ao descrever a glosa no despacho decisório, a fiscalização trouxe, entretanto, mesmo que de maneira sintetizada, a menção da importância das edificações e benfeitorias. 61. A extração de minério denominada no despacho pela fiscalização como escoamento de produção, realizada em suas edificações (estruturas portuárias e ferroviárias), é apenas uma das etapas essenciais do exercício da atividade produtiva. 62. Desse modo, evidente a presença dos requisitos legais necessários ao deferimento de crédito de PIS/COFINS, visto que tais edificações não só são relevantes como essenciais às atividades da Impugnante, dentre elas a atividade de escoamento da sua produção. 63. Ademais, sem prejuízo da análise legal do dispositivo citado pela fiscalização, verifica- se que, não prospera tampouco a menção da fiscalização sobre a suposta aplicação da restrição trazida na previsão do art. 6º da Lei nº 11.488/2007. 64. É dizer, da leitura do referido artigo e assim, da expressa observância da norma, não se constata a suposta restrição alegada pela fiscalização de que para as edificações, caberia o aproveitamento de crédito tão somente sobre o valor da depreciação das edificações. 65. Não há tal limitação do crédito na previsão supratranscrita, a qual conforme é possível observar, sequer aduz sobre depreciação/deterioração/desgaste de edificações, ou qualquer termo ou intenção similar. 66. Em adição, no que diz respeito às máquinas e equipamentos glosados sob o fundamento de suposta não utilização em áreas do processo produtivo da Impugnante, verifica-se que assim como ocorreu quanto às edificações, a respectiva glosa se deu também, em razão do mesmo entendimento, todavia, equivocado prevalecente no subitem acima. Fl. 3186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 11 67. Conforme observado, a fiscalização reconhece expressamente o emprego e inclusive a relevância de tais itens (máquinas e equipamentos) no processo produtivo da empresa Impugnante, entendendo, entretanto, pela glosa novamente sob o único argumento de que tais créditos não poderiam ser aproveitados, pois seriam empregados em fases posteriores do processo produtivo - atividades de escoamento ou distribuição do que foi produzido, em áreas que supostamente não seriam parte do processo produtivo. 68. Há que se observar que, ainda que a Impugnante não pudesse utilizar todo o crédito existente em seu favor de uma só vez - o que se frise, se admite apenas para fins de argumentação, uma vez que já demonstrado o total descabimento da glosa realizada - ainda assim, evidente que deveria ser resguardado o recebimento aos créditos que faz jus, também dos períodos subsequentes. Afinal, com observado no despacho decisório, quanto ao tema, a fiscalização se insurgiu no que diz respeito à forma de creditamento, devendo ser viabilizado o recebimento do crédito, mesmo que fracionado. II.6 - A IMPOSSIBILIDADE DAS GLOSAS DE DESPESAS COM FRETES 69. A Autoridade fiscal aduz que não haveria que se falar em crédito de frete, nas situações em que as mercadorias transportadas não tivessem sido tributadas na saída. No caso vertente, a Impugnante apurou créditos sobre as despesas de frete quando contratou serviços de transporte de produtos sujeitos à desoneração de alíquota. 70. Ocorre, I Julgador, que não existe vedação legal para que a Impugnante apure créditos em tais circunstâncias. A uma porque o fato de sobre o insumo incidir norma desonerativa (independentemente de ser alíquota zero, suspensão, isenção etc.) do pagamento de tributo, não desconstituiu a sua própria natureza jurídica de insumo, ou seja, tais custos continuam sendo relevantes e essenciais à sua atividade produtiva. Em segundo, porque se trata da incidência fatos jurídicos distintos, que derivam da regra-matriz de incidência dessas contribuições que tange ao ingresso de receita. Não há, portanto, como “unificar” tais operações quando se trata de fatos jurídicos distintos. 71. Ademais, observa-se que o crédito foi com relação aos valores referentes às despesas de fretes dos produtos, e não os valores de aquisição dos insumos adquiridos com alíquota zero das contribuições. 72. No que diz respeito aos créditos de frete em decorrência de aquisição de insumos importados--- e consequentemente objeto de tributação --- melhor sorte não merecem as assertivas fiscais, calcadas no frágil argumento de “ausência de previsão legal”. Ora, é de hialina clareza a presença de hipótese autorizativa, nos moldes da legislação em vigor, tendo em vista que as leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03 que regem a não cumulatividade do PIS e da COFINS permitem a tomada de créditos de diante da presença de insumos e respectivo frete, sem qualquer distinção à origem do produto (se nacional ou importado). II.7 DA IMPOSSIBILIDADE DAS GLOSAS DE CRÉDITOS REFERENTES AOS BENS DO ATIVO IMOBILIZADO – EDIFICAÇÕES E BENS DO PROCESSO 73. Verifica-se que, a título de bens do “ativo imobilizado”, o DD. Fiscal faz glosas a título de bens incorporados à infraestrutura logística da Impugnante (que já foram objeto, nessa manifestação de inconformidade, da argumentação constante do item II.5), bem como das edificações e benfeitorias em áreas “administrativas”. 74. O DD. Fiscal autuante reclassificou o aproveitamento do crédito sobre o valor da depreciação das edificações nas áreas administrativas e de infraestrutura logística, desconsiderando a apropriação realizada pela Impugnante, em 24 meses, para reclassificar na amortização em 25 anos (“prazo da vida útil do bem”). Contudo, tal glosa não pode prevalecer, como será demonstrado a seguir. Fl. 3187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 12 75. Além da previsão “geral “de creditamento de bens e serviços utilizados como insumo na produção do inciso II do art. 3º, das Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03, a disciplina normativa do creditamento de PIS/COFINS sobre bens do ativo/edificações é especificamente disposta nos incisos VI e VII do referido dispositivo. 76. Após o advento da Lei nº 10.865/04, foi inserido o §14 na Lei nº 10.833/03, segundo o qual é facultada ao contribuinte a opção pelo cálculo do crédito de “forma acelerada”, em 04 anos, à razão de 1/48 avos do valor de aquisição, em relação às máquinas e equipamentos destinados ao ativo, de acordo com regulamentação da RFB. 77. Com o advento da Lei nº 11.488/07, as aquisições relativas às edificações efetuadas a partir de janeiro de 2007, construídas para os setores de produção das empresas, também passaram a gerar crédito na proporção de 1/24, desde que apropriado com base nas disposições constantes. 78. Assim, o que temos de disciplina legislativa quanto às edificações é pela apropriação dos créditos a 1/24 (se vinculado às edificações operacionais posteriores a janeiro de 2007 - §5º, como é o caso das edificações das áreas operacionais, uma vez que a “infraestrutura logística, como assevera o DD. Fiscal, é parte do processo produtivo, assim como a infraestrutura administrativa). 79. Vale frisar que o próprio Fisco vem legitimando a possibilidade de apropriação dos créditos relativos às edificações destinadas à produção na proporção de 1/24 (Solução de Consulta COSIT 423/17). 80. Desse modo, podemos concluir que, para fins de creditamento relativo à “depreciação acelerada” de PIS e COFINS, os bens objeto de creditamento devem ser apropriados da forma tal qual realizada pela Impugnante. 81. No entanto, apenas por amor à argumentação, caso não se reconheça que os créditos poderiam ser tomados da forma tal qual realizados pela Impugnante e prevaleça o entendimento fiscal, requer a Impugnante, visando a resguardar o seu direito creditório, que o fisco garanta, nos exercícios futuros, a apropriação desses créditos, inclusive em eventuais glosas de períodos posteriores à 2016. II.8. DAS GLOSAS DE CRÉDITOS “EXTEMPORÂNEOS” 82. A Fiscalização realizou a glosa de créditos denominados “extemporâneos” sob a alegação de que haveria a necessidade de retificação das escriturações a que o contribuinte se encontra obrigado. No entanto, tal glosa não pode prevalecer. 83. Sobre a possibilidade de creditamento, cabe destacar, de início, que a utilização de créditos extemporâneos de PIS e COFINS possui respaldo no art. 3º, §4º, das Leis nº 10.833/03 e nº 10.637/20, desde que observado o prazo decadencial (5 anos) e não tendo havido o aproveitamento em outros períodos. 84. Nesse contexto, dúvidas não pairam sobre a possibilidade da tomada de créditos extemporâneos, dentro do prazo de 5 anos, tendo em vista a expressa autorização legal. 85. E para a fruição desses créditos, desnecessário se faz a retificação das declarações, de acordo com decisões proferidas pelo CARF. 86. Portanto, quer seja pelo disposto na legislação ou na jurisprudência do CARF, não se pode impedir a tomada de créditos extemporâneos pela suposta ausência de retificação dos deveres instrumentais. Sendo assim, mais essa glosa não pode prevalecer. II.9 – DAS GLOSAS REFERENTES ÀS AQUISIÇÕES NÃO SUJEITAS AO RECOLHIMENTO DA CONTRIBUIÇÃO AO PIS E A COFINS Fl. 3188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 13 87. Nesse tópico, promoveu a DD. Fiscalização a glosa de créditos por supostamente os itens elencados não terem sido objeto de tributação pela Contribuição ao PIS e a COFINS, bem como a existência de notas canceladas. 88. Com efeito, a impossibilidade de creditamento referente às aquisições desoneradas do pagamento das contribuições em tela equivale a mero diferimento do tributo para etapa subsequente da cadeia produtiva, esvaziando-se de sentido o emprego da técnica da não- cumulatividade em patente desvio de finalidade do modelo fiscal adotado nas Leis em comento. 89. Ademais, no que diz respeito às notas canceladas, não perquiriu o fisco se houve a emissão de novas notas sem que a Impugnante tivesse tomado o devido crédito, sendo que o ônus da prova, nesse caso, é do fisco. II.10 EXCLUSÃO DOS CRÉDITOS DEDUZIDOS EM DUPLICIDADE 90. Aduziu a fiscalização que a Impugnante realizou a dedução de créditos em duplicidade que supostamente estariam no demonstrativo “h” e, consequentemente, glosou os referidos montantes. 91. Ocorre que, da análise do mencionado demonstrativo não se consegue extrair o que seriam a dedutibilidade dessas glosas em duplicidade. Referido demonstrativo aponta alguns números de PER em suposto confronto com a EFD, mas não há como apurar o que seriam essas duplicidades. 92. Nesse contexto, por ausência de fundamentação e precisa demonstração das glosas perpetradas, estas não devem prevalecer. Por fim, a recorrente requer a nulidade do Despacho Decisório na parte em que lhe foi desfavorável e protesta pela produção de todas as provas em direito admitidas, inclusive a juntada de novos documentos e a realização de perícia. Em decisão por unanimidade, a 4ª TURMA/DRJ/05 votou para JULGAR PROCEDENTE EM PARTE A MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE, em acórdão assim ementado: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2016 a 31/03/2016 NÃO CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. No regime não cumulativo, o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam essenciais ou relevantes para a produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade, e atendidos os requisitos legais. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. GASTOS POSTERIORES AO PROCESSO PRODUTIVO. IMPOSSIBILIDADE. O processo de produção de bens encerra-se, em geral, com a finalização das etapas produtivas do bem e o processo de prestação de serviços geralmente se encerra com a finalização da prestação ao cliente, excluindo-se do conceito de insumo bens e/ou serviços, inclusive do imobilizado, utilizados posteriormente à finalização dos referidos processos, como no caso do transporte destinado ao escoamento da produção. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ARRENDAMENTO. Não geram direito a crédito na modalidade arrendamento mercantil os dispêndios decorrentes de contratos firmados entre partes coligadas/interdependentes, contratos em que a arrendadora não é instituição financeira ou pessoa jurídica cujo objeto principal é a Fl. 3189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 14 prática de operações de arrendamento mercantil e aqueles sem opção de compra/renovação como faculdade do arrendatário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. LOCAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. A locação não se confunde com prestação de serviços ou produção de bens e, portanto, não pode ser considerada insumo para fins de creditamento da contribuição. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES. DEPRECIAÇÃO ACELERADA. O aproveitamento de crédito decorrente de depreciação acelerada de edificações incorporadas ao ativo imobilizado restringe-se àquelas adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços, o que não contempla a depreciação de edificações utilizadas nas demais áreas. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. O aproveitamento de créditos decorrente de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado restringe-se àqueles adquiridos ou construídos para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços, o que não contempla a depreciação daqueles utilizados nas demais áreas. NÃO-CUMULATIVADE. CRÉDITOS. SERVIÇO DE TRANSPORTE. MANUTENÇÃO PERIÓDICA. POSSIBILIDADE. A remessa e retorno para conserto/reparo de peças e componentes de máquinas, equipamentos e veículos da área produtiva são considerados insumos por representarem serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados no processo de produção de bens. NÃO-CUMULATIVADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÕES NÃO SUJEITAS AO RECOLHMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. A aquisição de insumos poderá dar direito a créditos a serem descontados da contribuição, desde que a aquisição desse insumo esteja sujeita ao pagamento dessas contribuições, observados os demais requisitos legais relativos ao desconto de crédito. NÃO-CUMULATIVADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DE DEMONSTRATIVOS. NECESSIDADE. A utilização de créditos extemporâneos na apuração da Cofins no regime não cumulativo, exige a retificação de declarações e demonstrativos aplicáveis, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que será utilizado. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2016 a 31/03/2016 COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. No âmbito da análise de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, o ônus da prova incumbe ao contribuinte, o qual deve demonstrar, por meio de documentos comprobatórios hábeis e idôneos, a efetiva existência do direito creditório. Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte Cientificada, a Recorrente repisou os argumentos contidos na Impugnação, requerendo que se reforme a decisão da Delegacia de Julgamento, em Recurso Voluntário. I – DOS FATOS II-PRELIMINARMENTE II.1 – DO DESCABIMENTO DAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS TRAZIDAS PELO ACÓRDÃO III – DO DIREITO Fl. 3190DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 15 III.1 – DO DIREITO AOS CRÉDITOS DE PIS E DE COFINS – DO CONCEITO DE INSUMO III.2 - DA APLICAÇÃO DO CONCEITO DE INSUMO AO PROCESSO PRODUTIVO DA RECORRENTE (TRINÔMIO INDISSÓCIAVEL: MINA/FERROVIA/PORTO) III.3 – DA NÍTIDA AUSÊNCIA DE EFETIVA ANÁLISE DOS LAUDOS APRESENTADOS PELA RECORRENTE - VIABILIDADE DO CRÉDITAMENTO DE BENS E SERVIÇOS INCORRIDOS NAS FASES DE FERROVIA E PORTO - RELEVÂNCIA E ESSENCIALIDADE III.4 - DA EFETIVA INCLUSÃO DAS FASES DA FERROVIA E PORTO NO PROCESSO PRODUTIVO E DA RELEVÂNCIA E ESSENCIALIDADE DOS BENS E SERVIÇOS A ELA ATRELADOS – JURISPRUDÊNCIA DA PRÓPRIA RECORRENTE FAVORÁVEL AO AFASTAMENTO DE TAIS GLOSAS III.5 DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO DE DESPESAS SUPOSTAMENTE INCORRIDAS APÓS O PROCESSO PRODUTIVO (FLUXOS DE FERROVIA/PORTO) III.6 - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NO QUE DIZ RESPEITO AOS CRÉDITOS RELACIONADOS A SITUAÇÃO DE ARRENDAMENTO III.6.A - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO DOS CRÉDITOS RELACIONADOS A SITUAÇÃO DE ARRENDAMENTO MERCANTIL III.6.B – DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NA MODALIDADE CONTRATO DE ALUGUEL III.6.C - DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO NA MODALIDADE INSUMOS 91 III.7 - DA EQUIVOCADA GLOSA DE CRÉDITOS RELATIVOS AOS BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO – JURISPRUDÊNCIA DA PRÓPRIA RECORRENTE FAVORÁVEL AO AFASTAMENTO DE TAIS GLOSAS III.8 - DA IMPOSSIBILIDADE DAS GLOSAS DE DESPESAS COM FRETES ... 108 III.9. DAS GLOSAS DE CRÉDITOS <EXTEMPORÂNEOS III.10 – DAS GLOSAS REFERENTES ÀS AQUISIÇÕES NÃO SUJEITAS AO RECOLHIMENTO DA CONTRIBUIÇÃO AO PIS E A COFINS III.11 EXCLUSÃO DOS CRÉDITOS DEDUZIDOS EM DUPLICIDADE IV – DO PEDIDO É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Aline Cardoso de Faria, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. Fl. 3191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 16 I – Das preliminares A Recorrente alega que o Acórdão recorrido não merece prosperar no tocante ao indeferimento do pedido de realização da perícia e eventual posterior juntada de documentos e, também, naquela parte que não reconhece a nulidade do despacho decisório. Afirma que anexou diversos laudos técnicos para melhor conhecimento do seu processo produtivo e da relevância e essencialidade dos itens então glosados, contudo, os documentos não foram objeto do esperado exame pela DRJ. Adicionalmente, alega que visando a eliminar quaisquer dúvidas acerca do processo produtivo e a garantia do seu direito de crédito integral, requer o aludido deferimento de prova pericial nos autos do presente feito a fim de que qualquer ponto controvertido seja sanado em eventual perícia. É consabido que a possibilidade de realização de perícia ou diligência, embora seja uma faculdade que goza a Recorrente, sujeita-se a análise da autoridade julgadora, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972senão vejamos: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observado o disposto no art. 28, in fine.” (Redação dada pelo art. 1º da Lei n.º 8.748/1993) Ademais, nos termos da Súmula CARF nº 163 o indeferimento de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis. No caso dos presentes autos, não subsiste dúvida de ordem técnica ou obscuridade a ser esclarecida em relação ao conjunto probatório apresentado pela Recorrente, motivo pelo qual, deve ser indeferido o pedido de perícia/diligência formulado no Recurso Voluntário. Quanto a alegação de nulidade do Acórdão recorrido, a Recorrente sustenta que o despacho decisório é insuficiente para fundamentar as glosas. Tal conclusão decorre do fato de que ao tratar da dedução de créditos em duplicidade foram realizadas consultas ao sistema interno da RFB com objetivo de identificar as contribuições em duplicidade apontadas pela fiscalização. O argumento da Recorrente não merece prosperar. Verifica-se que o Despacho Decisório foi proferido por autoridade competente e atende todos os requisitos formais e materiais para sua validade, contendo todos os elementos necessários ao exercício do direito de defesa da Recorrente, trazendo a fundamentação legal, a identificação da declaração de compensação enviada pelo sujeito passivo, o tipo e período de apuração do crédito. Ou seja, preenche todos os requisitos estabelecidos no Decreto nº 70.235, de 1972. Feito este esclarecimento, conforme se depreende, no caso em tela não se vislumbra a ocorrência da nulidade na forma do art. 59, I e II do Decreto n° 70.235/72 conforme sustentado pela Recorrente. Isto posto, rejeita-se a preliminar de nulidade do despacho decisório arguida pela Recorrente. Fl. 3192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 17 II – Do mérito A matéria controversa em sede de Recurso Voluntário se assenta sobre a (im)possibilidade de homologação de pedidos de ressarcimento sobre créditos oriundos de bens e serviços considerados não relacionados à atividade produtiva da Recorrente, sobretudo os aplicados em logística (porto/ferrovia), em etapas que o fisco alega serem posteriores à produção, assim como contratos de arrendamento mercantil e bens incorporados ao ativo imobilizado da Recorrente. A Recorrente é uma empresa dedicada a produção e exportação de minério de ferro; com base no Estatuto Social acostado aos autos, observa-se que a empresa pode desenvolver um amplo rol de atividades, a saber: a) realizar o aproveitamento de jazidas minerais no território nacional e no exterior, através da pesquisa, exploração, extração, beneficiamento, industrialização, transporte, embarque e comércio de bens minerais; b) construir ferrovias, operar e explorar o tráfego ferroviário próprio ou de terceiros; c) construir e operar terminais marítimos próprios ou de terceiros, bem como explorar as atividades de navegação e de apoio portuário; d) prestar serviços de logística integrada de transporte de carga, compreendendo a captação, armazenagem, transbordo, distribuição e entrega no contexto de um sistema multimodal de transporte; e) produzir, beneficiar, transportar, industrializar e comercializar toda e qualquer fonte de energia, podendo, ainda, atuar na produção, geração, transmissão, distribuição e comercialização de seus produtos derivados e subprodutos; f) exercer, no País ou no exterior, outras atividades que possam interessar, direta ou indiretamente, à realização do objeto social, inclusive pesquisa, industrialização, compra e venda, importação e exportação, bem como a exploração, industrialização e comercialização de recursos florestais e a prestação de serviços de qualquer natureza; e g) constituir ou participar, sob qualquer modalidade, de outras sociedades, consórcios ou entidades cujos objetos sociais sejam, direta ou indiretamente, vinculados, acessórios ou instrumentais ao seu objeto social. Desta feita, repetidas vezes, a Recorrente chama atenção para a complexidade do processo produtivo que abrange a tríade mina/ferrovia/porto, razão pela qual, devem ser considerados todos os insumos (bens e serviços) utilizados desde a extração do minério até o embarque nos navios, uma vez que se trata de itens relevantes e essenciais para o desenvolvimento de sua atividade econômica. Neste particular, é consabido que no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR pelo rito dos recursos repetitivos, o STJ decidiu no sentido de que o conceito de insumo deveria ser aferido segundo os critérios de essencialidade ou da relevância para o processo produtivo da contribuinte, bem como de que há ilegalidade no conceito de insumo previsto nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e Nº 404/2004. Por sua vez, os critérios da essencialidade e relevância a serem considerados são aqueles delimitados no Voto da Ministra Regina Helena Costa, conforme observação que constou na Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF: Fl. 3193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 18 35. O STJ, seguindo o voto da Ministra Regina Helena Costa adotou a posição intermediária quanto ao conceito de insumo, ao adotar os critérios de relevância e essencialidade – também adotadas no CARF – e afastando o conceito de insumo da legislação do IPI e IRPJ. De acordo com o voto da Ministra Regina Helena estabeleceu-se o critério de relevância – mais abrangente que o de pertinência adotado pelo Ministro Mauro Campbell Marques. Os Ministros Mauro Campbell Marques e Napoleão Nunes Maia Filho realinharam os seus votos para acompanhar Ministra Regina Helena Costa. (...) Observação 1. Observa-se que o STJ adotou a interpretação intermediária acerca da definição de insumo, considerando que seu conceito deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância. Vale destacar que os critérios de essencialidade e relevância estão esclarecidos no voto da Ministra Regina Helena Costa, de maneira que se entende como critério da essencialidade aquele que “diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou serviço”, a)” constituindo elemento essencial e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço” ou “b) quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”. Por outro lado, o critério de relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja: a) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva” b) seja “por imposição legal.” Destarte, mediante a interpretação do conceito abstrato de insumo delineado pelo STJ, a Receita Federal do Brasil trouxe critérios mais específicos através do Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05, de 17 de dezembro de 2018. No caso em comento, sobreveio a Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, da Procuradoria da Fazenda Nacional, com a aprovação da dispensa de contestação e recursos sobre o tema abordado no REsp nº 1.221.170/PR, com fulcro no art. 19, IV, da Lei nº 10.522, de 2002, c/c o art. 2º, V, da Portaria PGFN nº 502, de 2016, que vincula a Receita Federal nos atos de sua competência. Com efeito, o conceito de insumo delimitado no REsp nº 1.221.170/PR não diverge muito do entendimento que já vinha sendo adotado predominantemente neste Carf sobre a matéria, a qual reclamava há muito tempo uniformização na jurisprudência, razões pelas quais este Colegiado tem se curvado a esse entendimento do STJ antes do seu trânsito em julgado conforme orienta a Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF. Feitas tais considerações, registre-se agora, que a fiscalização analisou a tomada de créditos da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas conforme a disciplina dos artigos 3º, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, quando relacionam os bens, os serviços e as condições para desconto de créditos, bem como dos artigos 66 e 67 da Instrução Normativa SRF nº 247, de 21 de novembro de 2002, com a redação dada pela Instrução Normativa SRF nº 358, de 9 de setembro de 2003, e dos artigos 8º e 9º da Instrução Normativa SRF nº 404, de 12 de março de 2004. As glosas empreendidas pela fiscalização foram objeto de reanálise pela DRJ, sendo oportuno destacar que o Acórdão recorrido registra que fora observado o disposto no Parecer Normativo Cosit nº 05, de 17 de dezembro de 2018. Fl. 3194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 19 Irresignada com a decisão prolatada, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário, requerendo a reforma do Acórdão recorrido para reconhecer seu direito ao ressarcimento pleiteado e, consequentemente, a homologação integral das Dcomp, alegando no mérito, que faz jus ao desconto dos créditos das contribuições sobre os custos/despesas glosadas em razão das particularidades de seu processo produtivo alinhavadas a nova interpretação do Superior Tribunal de Justiça. Isto posto, passa-se à análise da relevância e essencialidade dos bens e serviços entendidos como insumo no processo produtivo realizado pela Recorrente e da possibilidade de direito ao creditamento perquirido à luz da hermenêutica empreendida com advento do REsp nº 1.221.170/PR. II. 1 – Do direito ao crédito na infraestrutura logística para escoamento da produção. Incialmente, cumpre esclarecer a evidente distinção entre o presente caso e os entendimentos firmados por este e. Tribunal Administrativo nas Súmulas CARF nº 217 1 e 232 2 , uma vez que, enquanto as Súmulas tratam de gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados e despesas portuárias incorridas na exportação de produtos acabados pelo exportador, no presente caso, como demonstrado de forma inequívoca, a Recorrente é quem executa as atividades ferroviária e portuária, o que lhe permite o aproveitamento dos créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, sobre os bens e serviços utilizados como insumo no desenvolvimento de tais atividades, razão pela qual entende-se pela não subsunção do caso concreto ao entendimento sumulado, inexistindo, por conseguinte, inobservância ao enunciado de súmula do CARF, nos termos do artigo 85, inciso VI, do RICARF. Neste tópico, o presente voto debruçar-se-á sobre a argumentação desenvolvida para a manutenção das glosas tratadas no item “VIII.4. DAS GLOSAS DAS AQUISIÇÕES DE INSUMOS PARA A INFRAESTRUTURA LOGÍSTICA” do Relatório Fiscal. Na peça recursal (Fls. 12 – 50), a Recorrente aborda o conceito de insumo e discorre sobre as características inerentes ao seu processo produtivo. Vide itens: “III.1 – DO DIREITO AOS CRÉDITOS DE PIS E DE COFINS – DO CONCEITO DE INSUMO; III.2 - DA APLICAÇÃO DO CONCEITO DE INSUMO AO PROCESSO PRODUTIVO DA RECORRENTE (TRINÔMIO INDISSÓCIAVEL: MINA/FERROVIA/PORTO; III.3 – DA NÍTIDA AUSÊNCIA DE EFETIVA ANÁLISE DOS LAUDOS APRESENTADOS PELA RECORRENTE - VIABILIDADE DO CRÉDITAMENTO DE BENS E SERVIÇOS INCORRIDOS NAS FASES DE FERROVIA E 1 Súmula CARF nº 217 Aprovada pelo Pleno da 3ª Turma da CSRF em sessão de 26/09/2024 – vigência em 04/10/2024. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Acórdãos Precedentes: 9303-014.190; 9303-014.428; 9303-015.015. 2 SÚMULA CARF Nº 232. Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 05/09/2025 – vigência em 16/09/2025. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. Acórdãos Precedentes: 9303-015.131, 9303-015.265, 9303-015.949. Fl. 3195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 20 PORTO -RELEVÂNCIA E ESSENCIALIDADE; III.4 - DA EFETIVA INCLUSÃO DAS FASES DA FERROVIA E PORTO NO PROCESSO PRODUTIVO E DA RELEVÂNCIA E ESSENCIALIDADE DOS BENS E SERVIÇOS A ELA ATRELADOS – JURISPRUDÊNCIA DA PRÓPRIA RECORRENTE FAVORÁVEL AO AFASTAMENTO DE TAIS GLOSAS; III.5 DA POSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO DE DESPESAS SUPOSTAMENTE INCORRIDAS APÓS O PROCESSO PRODUTIVO (FLUXOS DE FERROVIA/PORTO)”. Em síntese, nos parágrafos seguintes descrever-se-á o processo produtivo da Recorrente visando compreender sua atividade produtiva para fins de análise do creditamento dos insumos objeto do (peculiar) processo administrativo ora examinado: A atividade da Recorrente tem início com a perfuração do solo, passando por um processo integrado, que envolve o desmonte ou escavação, o carregamento e transporte, o beneficiamento, o empilhamento, a recuperação, o deslocamento via ferrovias, a pelotização e a estocagem, para, finalmente, concluir-se no porto, com o carregamento dos navios com destino ao exterior. Nesse contexto, o processo produtivo se deflagra ainda nas jazidas, tem sequência com a exploração da mina, com todas as despesas incorridas na industrialização e beneficiamento dessa fase produtiva, e a conclusão se dá com o carregamento do minério aos porões dos navios com destino à exportação, após o transporte do minério pela ferrovia, até o porto. Trata-se de trinômio indissociável que, conforme dito, inclui os processos integrados envolvendo a mina, a ferrovia e o porto, sem os quais não se consuma sua atividade, ilustrada graficamente no quadro abaixo: Fluxo Operacional de Produção do Minério Nesse sentido, o trinômio Mina/Ferrovia/Porto resta bem evidenciado no objeto social da Recorrente, conforme se verifica do art. 2º e incisos do Estatuto Social: I. realizar o aproveitamento de jazidas minerais no território nacional e no exterior, através da pesquisa, exploração, extração, beneficiamento, industrialização, transporte, embarque e comércio de bens minerais; II. construir ferrovias, operar e explorar o tráfego ferroviário próprio ou de terceiros; III. construir e operar terminais marítimos próprios ou de terceiros, bem como explorar as atividades de navegação e de apoio portuário; (...) V. produzir, beneficiar, transportar, industrializar e comercializar toda e qualquer fonte e forma de energia, podendo, ainda, atuar na produção, geração, transmissão, distribuição e comercialização de seus produtos, derivados e subprodutos; Fl. 3196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 21 (grifamos)Observa-se, portanto, a existência de um processo integrado, uno, em que todas as etapas estão indissociavelmente articuladas. Cabe destacar que não só a Recorrente projeta e desenvolve suas atividades a partir da tríade mina-ferrovia-porto, como também o setor de mineração mundial8. Trata-se de dinâmica necessária, visto que no mais das vezes as minas se encontram em locais isolados e de difícil acesso. (Fl. 3015/3017). Feitos estes esclarecimentos, o Acórdão recorrido não se atenta para a relevância da questão, sendo certo que a desconsideração do trinômio (mina-ferrovia-porto) inviabilizaria o escoamento do minério e interromperia o fluxo do processo produtivo da Recorrente. Aludido fluxo produtivo encontra-se exaustivamente detalhado às fls. 1.206 – 1.386 (Documentos Comprobatórios – Outros – Doc. 1 – Fluxo Produtivo Negócios Vale). Conforme se extraí do Relatório Fiscal (Fls. Fl. 2272 – 2316), por meio do item 08 do TIPF a Recorrente apresentou o documento denominado “Fluxo Produtivo Negócios Vale”, no qual detalha os seguintes fluxos produtivos: “Minério de Ferro”, “Pelota de Ferro”, “Cobre”, “Porto”, “Ferrovia Carga” e “Ferroníquel e Ferro Gusa”, assim sintetizados pela fiscalização: Fl. 3197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 22 Por melhor detalhar as fases dos fluxos produtivos em análise, transcreve-se também os seguintes excertos do Despacho Decisório: Já o negócio FERROVIA (fluxo E), segundo o mesmo documento denominado “Fluxo Produtivo Negócios Vale”, envolve as fases 37, 38 e 39, detalhadas a seguir: “37. Carga e Descarga de produtos e mercadorias - Diz respeito ao carregamento/descarregamento dos produtos na planta, terminal e porto. Nessa etapa, o contratante do transporte e/ou unidade produtora são os responsáveis pelo carregamento/descarregamento dos produtos/mercadorias os pátios, terminais e portos. 38. Transporte – Nesta etapa ocorre o transporte dos produtos/mercadorias carregados e descarregados nos pátios, terminais e portos. 39. Oficinas, pontos de abastecimento e entrepostos.” (...) Segundo o documento denominado “Fluxo Produtivo Negócios Vale”, apresentado em resposta ao TIPF, o negócio PORTO (fluxo D) envolve as fases 33, 34, 35 e 36, detalhadas a seguir: “33. Recepção e despachos dos produtos e mercadorias - Diz respeito à chegada/saída dos produtos nº porto, que pode ocorrer por meio do transporte rodoviário ou ferroviário. Nessa etapa, o embarcador e/ou o transportador são os responsáveis pela entrega/retirada dos produtos no porto. 34. Operação portuária de movimentação de cargas nas dependências – está relacionada com a movimentação dos produtos/mercadorias nas dependências do porto. Compete à Administração do Porto, entre outras atribuições previstas na Lei 8.630/93 fiscalizar as operações portuárias, zelando para que os serviços se realizem com regularidade, eficiência, segurança e respeito ao meio ambiente. 35. Atracação e desatracação de navios – Nesta etapa ocorre a atracação/desatracação do navio com o auxílio da praticagem e os rebocadores. Nessa etapa, o armador, independente de ser ou não proprietário da embarcação, deve promover a equipagem do navio e demais procedimentos, disponibilizando-o apto para navegação. É ação de se “estacionar” a embarcação no cais do porto para que se possa realizar a operação (carregar e descarregar mercadorias). Finalizada a operação, a embarcação será desatracada e seguirá viagem. 36. Pátios de estocagem, Píeres e armazéns.” Neste contexto, o processo produtivo iniciado nas jazidas, tem sequência com a exploração da mina, com todas as despesas incorridas na industrialização e beneficiamento dessa fase produtiva, e a conclusão se dá com o carregamento do minério aos porões dos navios com destino à exportação, após o transporte do minério pela ferrovia, até o porto. Conforme se depreende, da análise da cadeia produtiva da Recorrente, não haveria como realizar a atividade de exportação se os produtos, extraídos das minas, não fossem transportados aos portos, o que implica reconhecer que o processo produtivo da deve ser concebido de forma indissociável (mina-ferrovia-porto). Desta feita, passa-se à análise das glosas combatidas no Recurso Voluntário. De plano, não passa desapercebido que os autos versam sobre Pedido de Ressarcimento, no importe de R$ 47.284.314,55, a título de crédito do PIS de incidência não- Fl. 3198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 23 cumulativa, atinente à receita de exportação, apurado no 1º trimestre-calendário de 2016. O direito ao crédito foi reconhecido apenas parcialmente quanto à quantia de R$17.536.034,88, com a consequente não homologação de compensações efetuadas, ou seja, 63% das despesas qualificadas como insumos não foram consideradas pela fiscalização. Consta no Relatório Fiscal que embasa o Despacho Decisório, que sobre os “dispêndios dos negócios FERROVIA e PORTO, não há o que se discutir quanto à essencialidade ou relevância dos bens ou serviços, posto que as fases em que são aplicados ocorrem posteriormente à finalização do processo de produção”. O mesmo racional foi aplicado pela DRJ ao concluir que “não há como considerar os fluxos “Ferrovia” e “Porto” como etapas produtivas de forma a acatar o argumento da recorrente de que seu processo produtivo é composto pela tríade minas-ferrovias-portos. Para fins de creditamento das contribuições no regime não cumulativo, há que se diferenciar as etapas produtivas das demais etapas operacionais desenvolvidas pela empresa.” Em que pesem os argumentos extraídos da previsão contida no Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, utilizado como principal fundamento pela fiscalização para realizar as glosas examinadas, é de se ressaltar que de acordo com a alínea “b” do inciso II, do artigo 98 do atual Regimento Interno do Carf este Conselho está vinculado a aplicação do Acórdão proferido pelo STJ nos autos do Recurso Especial nº 1.221.170. Neste contexto, a essencialidade consiste na imprescindibilidade do item do qual o produto ou serviço dependa, intrínseca ou fundamentalmente, de forma a configurar elemento estrutural e inseparável para o desenvolvimento da atividade econômica, ou, quando menos, que a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, com base no critério da relevância, o item pode ser considerado como insumo quando, embora não indispensável ao processo produtivo ou à prestação do serviço, integre o seu processo produtivo, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva, seja por imposição legal. Não se pode olvidar que o caso concreto demanda uma análise da unicidade do processo produtivo da Recorrente, sob pena de se incorrer, como verificado no Acórdão recorrido, em uma interpretação incompleta da atividade produtiva, o que resultaria em uma decisão em desacordo com a determinação contida no próprio Parecer Normativo Cosit nº 05, de 17 de dezembro de 2018, abaixo reproduzida: Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Consoante a tese acordada na decisão judicial em comento: (...) b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. (Grifos nossos). É de se ressaltar que a matéria tratada nos presentes autos foi objeto de amplo escrutínio fiscal durante a fase fiscalizatória, tendo a Recorrente apresentado todos os Fl. 3199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 24 esclarecimentos e documentos solicitados, inclusive, anexando laudos elaborados por mais de uma entidade (PWC, LCA, TYNO e UNICAMP). Nesse sentido, destacam-se os apontamentos extraídos do Parecer Técnico – Relatório Final - CENPRO – Centro de Pesquisa em Engenharia de Produção FCA- Faculdade de Ciências Aplicadas UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas: A expedição e efetivação da venda do minério de ferro se dá pela responsabilidade da empresa objeto de estudo finalizar o processo de entrega do produto final ao cliente (comprador) carregado no navio de transporte do minério ao seu destino. Esse tipo de acordo comercial obriga o vendedor a manter uma infraestrutura para descarregamento do minério dos trens de transferência para os portos e na sequencias carregar os silos para abastecimentos dos navios por correias transportadoras. (...) Assim, nesse cenário é possível responder a questão se a logística é essencial ou relevante, ou ainda, imprescindível e importante para o desenvolvimento económico da empresa objeto de estudo? É possível responder e afirmar que todas as operações logística na produção de minério de ferro, incluindo principalmente as operações de carregamento, abastecimento, transferência, transportes, empilhamento, estocagem e expedição são essenciais e relevantes para a execução dos processos produtivos da empresa objeto de estudo, consideradas imprescindíveis e importantes para evitar a ruptura do fluxo operacional para lavra, extração, beneficiamento, transformação e expedição do minério de ferro. Sem a logística, não se configura a efetividade das relações comerciais e negociações com o mercado. (Fl. 1950 – Parecer Técnico – Relatório Final - CENPRO – Centro de Pesquisa em Engenharia de Produção FCA- Faculdade de Ciências Aplicadas UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas). No Parecer elaborado pela empresa LCA Consultores destaca-se o seguinte excerto: Para verificar a essencialidade ou relevância dessas atividades, considera-se também o Teste da Subtração, sugerido no voto do Ministro Mauro Campbell no REsp. 1.221.170/PR. Nesse sentido, para demonstrar a importância do trinômio na atividade produtiva da empresa deve-se considerar a interdependência da integração entre as etapas, ou seja, se são essenciais e relevantes para a atividade ou, pelo contrário, se são apenas etapas acessórias, sem impacto sobre a atividade produtiva. Essa avaliação depende de características determinantes da atividade mineradora, tais como, a especificidade dos ativos utilizados, o volume elevado de investimentos necessários, o caráter esgotável, e o fato de o produto vendido se tratar de uma commodity, isto é, um produto com baixo (ou nenhum) nível de diferenciação entre os diversos produtores. (...) Mais uma evidência da importância da infraestrutura logística para a atividade da empresa se encontra no volume de recursos direcionado a estas etapas. Em 2008, os negócios de ferrovia e porto representavam juntos 30% do total de gastos com insumos da empresa (Figura 3). Isso significa que, de todos os gastos incorridos pela Vale com insumos, praticamente 1/3 se destinava às atividades de ferrovia e porto. (...) Esse nível de gastos com logística se traduz em elevado grau de eficiência das ferrovias e terminais portuários operados pela empresa. De fato, como se observa no Gráfico 3, as Fl. 3200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 25 ferrovias operadas pela Vale – EFVM e EFC – apresentam indicadores de qualidade muito acima dos exigidos pela regulação, e garantem à empresa resultados como velocidade média superior à observada pela malha paulista, bem como índice muito inferior de acidentes por milhão de trem.km. (...) Não haveria racionalidade em dedicar quantidade vultuosa de recursos em todas as etapas de mina, ferrovia e porto se qualquer uma delas fosse apenas acessória para a execução da atividade produtiva da empresa. Isso é especialmente válido no contexto de ativos específicos, que têm pouca (ou nenhuma) finalidade em outras atividades e que, portanto, têm capacidade de redirecionamento limitada para outras cadeias (via venda, por exemplo). (Parecer Técnico elaborado pela LCA Consultores. Fls. Fl. 1955 - Fl. 1976) Conforme se denota, os gastos com ferrovia e porto representam insumos indispensáveis a realização da atividade produtiva da recorrente, inclusive com níveis superiores de qualidade exigidos pela legislação. O Parecer elaborado pela PWC Consultoria é bastante detalhado e confirma a particularidade do processo produtivo da Recorrente, conforme trecho abaixo reproduzido: • A atividade de exploração mineral é caracterizada pela unicidade do processo produtivo, nº qual as etapas são interligadas e dependentes entre si e a eventual subtração de qualquer uma dessas fases implicaria na interrupção das atividades da VALE S.A. ou, até mesmo, inviabilizaria o processo de extração do minério e a colocação do produto à disposição do cliente. • O processo produtivo do minério é longo, continuo e complexo, dotado de particularidades exclusivas da indústria mineradora, as quais requerem conhecimento técnico e específico, sem o qual dificultaria uma análise quanto à classificação de determinados itens/serviços como parte integrante do processo produtivo ou não. (Parecer Técnico PWC Consultoria. Documentos Comprobatórios – Outros – Doc_comprobatorios 01 – 07. Fls. 2507 – 2932). (Grifos nossos). Por todo o exposto, diversamente do entendimento da DRJ de que os laudos anexados na Manifestação de Inconformidade são uma “visão ampliada” do processo produtivo da Recorrente, ao reexaminar a questão, entende-se que os Laudos e Pareceres Técnicos apontam para a inarredável conclusão de que a cadeia produtiva da Recorrente além de singular, deriva de imposição legal. É de se notar, que recentemente, no Acórdão nº 3101-004.409 datado de 11 de dezembro de 2025, 1ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara, da Terceira Seção de Julgamento deste Conselho teve oportunidade de se manifestar sobre matéria fática e probatória idêntica a discutida nos presentes autos, em processo em que a mesma contribuinte figura como Recorrente. Na ocasião, restou assente pelo Colegiado que as despesas relacionadas aos fluxos “Ferrovia” e “Porto” são indissociáveis das atividades desenvolvidas pela Recorrente, autorizando, portanto, o aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao Pis e da Cofins, conforme se extraí da ementa abaixo colacionada: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2015 a 30/09/2015 Fl. 3201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 26 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. O conceito de insumos, para fins de apuração de créditos da não cumulatividade do PIS/Pasep e da COFINS, deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços realizados pela pessoa jurídica. ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. O critério da essencialidade, requer que o bem ou serviço creditado constitua elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço realizado pelo contribuinte; já o critério da relevância é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção do sujeito passivo por imposição legal ou singularidade da cadeia produtiva. PIS E COFINS. NÃO-CUMULATIVIDADE. ATIVIDADE DE MINERAÇÃO. FLUXO FERROVIA E PORTO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS NA CONDIÇÃO DE INSUMOS. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA PRÓPRIA EMPRESA. TRÍADE MINA-FERROVIA-PORTO. POSSIBILIDADE. Considerando que as atividades relativas aos fluxos “Ferrovia” e “Porto” são desenvolvidas pela própria empresa, bem como, que há uma inegável indissociação entre as atividades desenvolvidas a partir da tríade mina-ferrovia-porto, deve ser reconhecido o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre os bens e serviços utilizados como insumo no desenvolvimento de tais atividades, com base no artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. ALUGUEL. USINAS DE PELOTIZAÇÃO. INSTALAÇÕES. ESTABELECIMENTOS. POSSIBILIDADE. ATIVOS PERTENCENTES AO ESTABELECIMENTO E DIREITOS MINERÁRIOS. UNIVERSALIDADE DE FATO. Gera direito ao desconto de crédito das contribuições não cumulativas a locação de usinas de pelotização, instalações e estabelecimentos inteiros, utilizados nas atividades da empresa, nos termos do artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02, o que pode contemplar, inclusive, os ativos pertencentes aos referidos estabelecimentos necessários a suas operações, e os direitos minerários, por configurarem uma universalidade de fato, conforme estabelecido no artigo 90 do Código Civil. PIS E COFINS. NÃO-CUMULATIVIDADE. ATIVIDADE DE MINERAÇÃO. FLUXO FERROVIA E PORTO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS SOBRE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA PRÓPRIA EMPRESA. TRÍADE MINA-FERROVIA-PORTO. POSSIBILIDADE. Considerando que as atividades relativas aos fluxos “Ferrovia” e “Porto” são desenvolvidas pela própria recorrente, bem como, que há uma inegável indissociação entre as atividades desenvolvidas a partir da tríade mina-ferrovia-porto, deve ser reconhecido o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre edificações, máquinas e equipamentos, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/2007 (desconto acelerado), artigo 3º, §14, da Lei nº 10.833/03 (depreciação acelerada) e na forma do artigo 1º da Lei nº 11.774/2008, com a redação dada pela Lei nº 12.546/2011 (imediato). Por oportuno, reproduz-se a linha de raciocínio explanada no voto vencedor pelo Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, ao qual o presente voto se alinha integralmente: Fl. 3202DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 27 Em breve síntese, a fiscalização verificou que as estruturas e serviços portuários e ferroviários são utilizados pela VALE tanto para escoamento da sua produção (principal) quanto para o escoamento da produção de terceiros (residual), entendendo pelo direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade apenas em relação aos gastos relativos aos serviços prestados a terceiros. Com a devida vênia, tal entendimento não merece subsistir. Conforme restou demonstrado, os fluxos FERROVIA e PORTO se referem às atividades desenvolvidas pela VALE para transporte do minério pela ferrovia até o seu efetivo carregamento aos porões dos navios com destino à exportação. Assim, não se trata de meras despesas suportadas pela empresa, mas de efetivas atividades desenvolvidas pela VALE para possibilitar e executar o transporte, estocagem e carregamento do minério até o porto. Neste sentido, o Estatuto Social da empresa é claro ao apontar que o aproveitamento de jazidas minerais envolve pesquisa, exploração, extração, beneficiamento, industrialização, transporte, embarque e comércio de bens minerais, sendo que o objeto social da VALE compreende não só a extração, beneficiamento e industrialização do minério, mas também a construção de ferrovias, com operação e exploração do tráfego ferroviário próprio ou de terceiros; a construção e operação de terminais marítimos próprios ou de terceiros, bem como, exploração das atividades de navegação e de apoio portuário; e a prestação de serviços de logística integrada de transporte de carga, compreendendo a captação, armazenagem, transbordo, distribuição e entrega no contexto de um sistema multimodal de transporte. Ademais, restou incontroversamente demonstrado, com base em prova documental e pericial, que as atividades de ferrovia, estocagem e carregamento são efetivamente desenvolvidas pela VALE, sendo os créditos apropriados sobre os gastos com bens e serviços incorridos para a sua execução, como óleo combustível, óleo lubrificante, manutenção preventiva e/ou corretiva, logística estrutural, entre vários outros. Vejam que transporte, estocagem e carregamento são atividades que permitem o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, com base no artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, por se enquadrarem no tipo “prestação de serviço”, o que gerou, inclusive, o reconhecimento pela própria fiscalização do direito à apropriação de créditos sobre insumos no que se refere ao exercício de tais atividades para terceiros. Ainda que não seja correto falar em negócio consigo mesmo3 ou prestação de serviço a si próprio, é certo que, para fins do direito ao aproveitamento de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, o que interessa é a atividade exercida e o caráter essencial e relevante dos bens e serviços utilizados para sua execução, até porque tais atividades culminarão inequivocamente numa receita a ser auferida pela empresa posteriormente. Interpretação em sentido contrário, com a devida vênia, ofende os princípios da neutralidade e da isonomia tributária, ao criar distinção entre empresas que desenvolvem a mesma atividade, desincentivando a verticalização da atividade econômica (fator que, com base no princípio da livre iniciativa, deve ser exercido livremente pelas empresas e não condicionado pela tributação). Como vimos, o creditamento não configura benefício fiscal, mas direito decorrente da sistemática da não-cumulatividade, que busca assegurar a não-incidência dos tributos em cascata, de modo a não onerar reiteradamente a mesma capacidade contributiva já manifestada e tributada. Ao onerar as receitas consumidas e tornar a incidir sobre a receita obtida a partir delas, o encargo tributário é aumentado vertical e substancialmente, razão Fl. 3203DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 28 pela qual foram instituídas as sistemáticas da não-cumulatividade, buscando onerar apenas aquela parcela da receita que realmente representa capacidade contributiva nova. Sobre a técnica da não-cumulatividade instituída para as contribuições cuja base de cálculo é a receita bruta ou o faturamento, denominada de “base sobre base” (ainda que com certas particularidades da sistemática de “imposto contra imposto”), pertinente é a doutrina de Ricardo Lodi Ribeiro, expressamente mencionada no julgamento do REsp nº 1.221.170: Assim, se em relação às mercadorias e produtos, a não-cumulatividade significa que o imposto a ser pago na operação de saída é a diferença entre o mesmo imposto incidente nesta e os que foram pagos nas operações anteriores, o mesmo não acontece quando o instituto é transmutado para os tributos incidentes sobre a receita bruta ou faturamento. Nestes, não-cumulatividade significa que o tributo a pagar é encontrado pela aplicação da alíquota sobre a diferença entre as receitas auferidas e as receitas necessariamente consumidas pela fonte produtora (despesas necessárias)4. (Grifamos) Merece destaque também que, no julgamento do RE nº 841.979, em sede de Repercussão Geral, o STF fixou a tese que “[o] legislador ordinário possui autonomia para disciplinar a não cumulatividade a que se refere o art. 195, § 12, da Constituição, respeitados os demais preceitos constitucionais, como a matriz constitucional das contribuições ao PIS e COFINS e os princípios da razoabilidade, da isonomia, da livre concorrência e da proteção à confiança”. Assim, se a matriz constitucional das contribuições ao PIS e da COFINS e os princípios da razoabilidade, da isonomia, da livre concorrência e da proteção à confiança são de observância obrigatória ao legislador ordinário, ainda mais forte é a cogência de tais princípios na aplicação das hipóteses de creditamento arroladas nas Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 no caso concreto. Somado a isto, reiterando que a análise do direito ao aproveitamento de créditos da não cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS deve observar as particularidades de cada atividade econômica individualmente examinada, verificamos que, no presente caso, há uma inegável indissociação entre as atividades desenvolvidas a partir da tríade mina-ferrovia-porto. Isto porque, em razão de diversas características específicas da mineração, como a localização das minas em locais isolados e de difícil acesso, a necessidade de investimento maciço em infraestrutura e a concentração do mercado, cumuladas com a extensão territorial brasileira, a atividade desenvolvida pela VALE estaria obstada caso ela não investisse diretamente no desenvolvimento da estrutura ferroviária e portuária e na execução do transporte, estocagem e carregamento do minério por conta própria, de modo que não há como se analisar o seu processo produtivo de forma linear, uma vez que diversos gastos relativos à estrutura e aos serviços portuários e ferroviários acabam por anteceder o próprio processo de extração do minério. Neste sentido, merecem referência os seguintes dispositivos do Decreto-lei nº 227, de 28 de fevereiro de 1967 (Código de Minas): Art. 6º-A. A atividade de mineração abrange a pesquisa, a lavra, o desenvolvimento da mina, o beneficiamento, o armazenamento de estéreis e rejeitos e o transporte e a comercialização dos minérios, mantida a responsabilidade do titular da concessão diante das obrigações deste Decreto-Lei até o fechamento da mina, que deverá ser obrigatoriamente convalidado pelo órgão regulador da mineração e pelo órgão ambiental licenciador. Fl. 3204DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 29 [...] Art. 36. Entende-se por lavra o conjunto de operações coordenadas objetivando o aproveitamento industrial da jazida, desde a extração das substâncias minerais úteis que contiver, até o beneficiamento das mesmas. [...] Art. 38. O requerimento de autorização de lavra será dirigido ao Ministro das Minas e Energia, pelo titular da autorização de pesquisa, ou seu sucessor, e deverá ser instruído com os seguintes elementos de informação e prova: [...] III - denominação e descrição da localização do campo pretendido para a lavra, relacionando-o, com precisão e clareza, aos vales dos rios ou córregos, constantes de mapas ou plantas de notória autenticidade e precisão, e estradas de ferro e rodovias, ou , ainda, a marcos naturais ou acidentes topográficos de inconfundível determinação; suas confrontações com autorização de pesquisa e concessões de lavra vizinhas, se as houver, e indicação do Distrito, Município, Comarca e Estado, e, ainda, nome e residência dos proprietários do solo ou posseiros; [...] Art. 39. O plano de aproveitamento econômico da jazida será apresentado em duas vias e constará de: I - Memorial explicativo; II - Projetos ou anteprojetos referentes; [...] c) ao transporte na superfície e ao beneficiamento e aglomeração do minério; [...] Art. 50 O Relatório Anual das atividades realizadas no ano anterior deverá conter, entre outros, dados sobre os seguintes tópicos: I - Método de lavra, transporte e distribuição no mercado consumidor, das substâncias minerais extraídas; (Grifamos)Tal indissociabilidade também foi reforçada pelo Parecer Técnico elaborado pela PricewaterhouseCoopers – PwC e anexado aos autos pela recorrente, do qual transcrevemos as seguintes conclusões: Face ao abordado no presente parecer técnico, concluímos que: racterizada pela unicidade do processo produtivo, no qual as etapas são interligadas e dependentes entre si e a eventual subtração de qualquer uma dessas fases implicaria na interrupção das atividades da VALE S.A. ou, até mesmo, inviabilizaria o processo de extração do minério e a colocação do produto à disposição do cliente. particularidades exclusivas da indústria mineradora, as quais requerem conhecimento técnico e específico, sem o qual dificultaria uma análise quanto à classificação de determinados itens/serviços como parte integrante do processo produtivo ou não. locacional, a necessidade de investimento maciço em infraestrutura, a concentração do mercado, a elevada internacionalização da atividade, o exaurimento das reservas de Fl. 3205DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 30 minérios, a variação das especificidades físicas e químicas do minério em função da reserva em que se encontra. ade da estrutura operacional integrada desenhada na VALE S.A. é ainda mais evidente quando se considera a extensão do território brasileiro e as consideráveis distâncias existentes entre as minas e o mercado consumidor. onível no país, as empresas de mineração se veem obrigadas a investir em infraestrutura logística própria para viabilizar a produção e venda do minério, surgindo a necessidade de verticalização do seu negócio. de cada natureza de glosa efetuada pela autoridade fazendária no TVF, é possível identificar a essencialidade dos itens, bens e serviços glosas dentro do processo produtivo único, complexo e integrado da VALE. elo agente fiscalizador em determinadas ocasiões. E, ainda que o Auditor fiscal tenha reconhecido a essencialidade do item no processo da VALE, a autoridade mantém a glosa desses itens. (Grifamos)Desta forma, deve ser reconhecida a legitimidade da apropriação de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, sobre os gastos com bens e serviços utilizados na condição de insumos nas atividades desenvolvidas pela recorrente nas fases “Ferrovia” e “Porto”, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Neste sentido, cito o seguinte julgado deste e. CARF: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. CONCEITO. SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, isto é, levando em consideração a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - seja um bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. Para fins de classificação como insumo, os bens ou serviços utilizados na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, além de serem essenciais e relevantes ao processo produtivo, devem estar intrinsicamente relacionados ao exercício das atividades-fim da empresa, não devendo corresponder a meros custos administrativos e não podendo figurar entre os itens para os quais haja vedação ou limitação de creditamento prevista em lei. (Processo nº 16682.900617/2016-19; Acórdão nº 3302-013.765; Relator Conselheiro José Renato Pereira de Deus; sessão de 28/09/2023)Por pertinente, reproduzo também o dispositivo do acórdão: Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar preliminarmente o pedido para realização de diligência ou perícia e, no mérito, dar parcial provimento para reverter a glosa de bens e serviços utilizados nas etapas "Ferrovia" e "Porto"; dos bens utilizados como insumo listados no anexo II do despacho decisório presente nos autos; de bens do ativo imobilizado, constantes dos anexos XIX e XX do despacho decisório, que se referem a locomotivas, vagões, dormentes ferroviários, caminhões, barcos, entre outros bens; de custos relativos à aquisição de bens importados - máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, constantes dos anexos XXIII e XXIV do despacho decisório. Ainda nesse sentido, destaca-se as seguintes decisões favoráveis a Recorrente que afastaram as glosas em exame: Acórdãos nº 3302-014.115, 3302-014.116, 3302-014.117, 3302- 014.118 e 3302-014.119. Fl. 3206DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 31 Para não restarem dúvidas sobre o direito creditório a ser reconhecido no caso em tela, importa esclarecer que não se trata de apropriação sobre gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados, nem com despesas portuárias incorridas na exportação de produtos acabados, mas com bens e serviços utilizados pela VALE para desenvolver tais atividades por conta própria, em razão das peculiaridades da atividade de mineração. Por todo exposto, impõe-se a reforma do Acórdão recorrido para reverter as glosas referentes às fases “Ferrovia” e “Porto” (discriminadas no item VIII.4. do Relatório Fiscal) II. 2 – Da (im)possibilidade de creditamento dos créditos relacionados aos contratos de arrendamento Consta no Relatório Fiscal que a Recorrente apurou créditos referente a contraprestações de arrendamento mercantil, com fundamento no inciso V do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002 e nº 10.833, de 2003, das seguintes empresas: Nada obstante, a fiscalização desconsiderou o aproveitamento dos respectivos créditos oriundos dos contratos de arrendamento mercantil acima identificados, sob argumento de que o legislador restringiu a definição de arrendamento mercantil nos termos da Lei nº 6.099, de 1974, alterada pela Lei nº 7.132, 1983, in verbis: Art 1º O tratamento tributário das operações de arrendamento mercantil reger-se-á pelas disposições desta Lei. (...) Art 2º Não terá o tratamento previsto nesta Lei o arrendamento de bens contratado entre pessoas jurídicas direta ou indiretamente coligadas ou interdependentes, assim como o contratado com o próprio fabricante. § 1º O Conselho Monetário Nacional especificará em regulamento os casos de coligação e interdependência. § 2º Somente farão jus ao tratamento previsto nesta Lei as operações realizadas ou por empresas arrendadoras que fizerem dessa operação o objeto principal de sua atividade ou que centralizarem tais operações em um departamento especializado com escrituração própria. Art 5º Os contratos de arrendamento mercantil conterão as seguintes disposições: (...) c) opção de compra ou renovação de contrato, como faculdade do arrendatário; d) preço para opção de compra ou critério para sua fixação, quando for estipulada esta cláusula. (...) Assim, além de não ter sido reconhecido o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS na condição de arrendamento mercantil Fl. 3207DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 32 e de insumo, a fiscalização também se manifestou pela impossibilidade de aproveitamento dos créditos na condição de aluguel de prédios, máquinas ou equipamentos. De acordo com o Despacho decisório “considerando que os contratos não se referem unicamente a aluguel de prédios, máquinas e equipamentos e que não há como separar os dispêndios relativos aos contratos daqueles referentes ao pagamento pelos direitos de mineração ou pelos bens não enquadrados nestas categorias, como os veículos, por exemplo, não cabe o aproveitamento de crédito das contribuições relativamente a tais gastos”. Ao reexaminar a questão, a DRJ verificou que o objeto dos contratos firmados pela Recorrente compreendia bens (equipamentos, veículos, mobiliários), direitos minerários, instalações fixas (prédios industriais, galpões e edificações em geral – escritórios, plantas de beneficiamento etc.), usina de pelotização e diversos bens considerados partes integrantes da usina (discriminados no Anexo I do contrato) etc. Inconformada, a Recorrente sustenta que “no caso em tela, a figura do aluguel se subsome à natureza dos contratos firmados, que tiveram como objeto prédios, máquinas e equipamento, pagos à pessoa jurídica e utilizados nas atividades da empresa, bem como direitos minerários e de bens voltados a essa atividade, como é o caso das plantas de pelotização”. Cita, ainda, como exemplo, os contratos firmados com a Hispanobras e Kobrasco, (aluguel de usinas de pelotização); a Itabrasco (aluguel de uma fábrica de pelotização e fabricação de pelotas de minério de ferro), a Baovale e a MSG (aluguel de maquinário, veículos, dentre outros), para ressaltar que “[s]ão todas situações que se enquadram no art. 3º, inciso IV da Lei nº 10.637/02, reproduzido na Lei nº 10.833/03, motivo pelo qual a glosa também não se sustenta”. Portanto, a questão preliminar a ser apreciada nos presentes autos diz respeito a possiblidade de creditamento das despesas de locação decorrentes de contratos de arrendamento mercantil à luz do art. 3º, inciso IV da Lei nº 10.637/02 e Lei nº 10.833/03. Neste aspecto, a Recorrente destaca que no julgamento do RE 592.905/SC (Rel. Min. Eros Grau, J. 02/12/2009), o leasing operacional (como é o caso dos autos) é uma modalidade de arrendamento mercantil, conforme abaixo reproduzido: Ressalte-se que, no julgamento do RE 592.905/SC (Rel. Min. Eros Grau, J. 02/12/2009), no qual se decidiu que incide ISS sobre operações de leasing financeiro, argumentou o Relator que o leasing operacional se assemelha a um contrato de locação. Em seu entendimento, no leasing operacional, modalidade de arrendamento mercantil, <o fabricante de um bem o dá em locação a quem dele fará uso=, sendo que <o arrendante é o próprio produtor industrial=. Para sustentar essa posição, o Relator baseou-se nos ensinamentos de Jorge Pereira Andrade e Athos Gusmão Carneiro, segundo os quais nº leasing operacional prevalece o aspecto de locação, diferentemente do que se vê nº leasing financeiro, em que prepondera o fator "financiamento". Veja-se: "Esse tipo é muito usado principalmente nos Estados Unidos da América do Norte, especialmente pelos fabricantes de automóvel, sendo arrendatárias as grandes locadoras, tipo Avis ou Hertz. Estas empresas de grande porte através do renting alugam inúmeras vezes a clientes diversos o mesmo veículo, cujo uso constante e ininterrupto logo o torna Fl. 3208DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 33 obsoleto, e por isso a manutenção é feita pela arrendante. Muito usado também pelos fabricantes de equipamentos eletrônicos." (cf. Jorge Pereira Andrade. Contratos Nominados. Coordenador Yussef Said Cahali et el. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 217)"Vê-se que no leasing financeiro prepondera o fator 'financiamento', enquanto no leasing operacional sobreleva o aspecto 'locação'" (Athos Gusmão Carneiro. Leasing: O Contrato de 'Leasing' financeiro e as ações revisionais. Revista Jurídica, n. 237, Julho/1997, p. 5-18) (grifos acrescidos). Com efeito, da ementa do julgado supracitado é possível extrair com clareza que o arrendamento mercantil compreende três modalidades, a saber: [i] o leasing operacional, [ii] o leasing financeiro e [iii] o chamado lease-back, senão vejamos: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO TRIBUTÁRIO. ISS. ARRENDAMENTO MERCANTIL. OPERAÇÃO DE LEASING FINANCEIRO. ARTIGO 156, III, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. O arrendamento mercantil compreende três modalidades, [i] o leasing operacional, [ii] o leasing financeiro e [iii] o chamado lease-back. No primeiro caso há locação, nos outros dois, serviço. A lei complementar não define o que é serviço, apenas o declara, para os fins do inciso III do artigo 156 da Constituição. Não o inventa, simplesmente descobre o que é serviço para os efeitos do inciso III do artigo 156 da Constituição. No arrendamento mercantil (leasing financeiro), contrato autônomo que não é misto, o núcleo é o financiamento, não uma prestação de dar. E financiamento é serviço, sobre) o qual o ISS pode incidir, resultando irrelevante a existência de uma compra nas hipóteses do leasing financeiro e do lease-back. Recurso extraordinário a que se nega provimento. (RE 592905, Relator(a): EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 02/12/2009, REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-040 DIVULG 04-03-2010 PUBLIC 05-03-2010 EMENT VOL-02392-05 PP-00996 LEXSTF v. 32, n. 375, 2010, p. 187-204 JC v. 36, n. 120, 2010, p. 161-179) Em sentido semelhante, a Segunda Turma do TRF-4 equiparou o leasing operacional à locação de bens no seguinte acórdão: CONSTITUCIONAL E TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. IPI. LEASING FINANCEIRO. IMPORTAÇÃO. TRIBUTOS DEVIDOS. 1. Se o arrendatário assume a condição de importador direto do equipamento objeto de leasing mercantil do tipo financeiro assume o status de importador e arca com os tributos (II e IPI) decorrentes do desembaraço aduaneiro. 2. O leasing financeiro não se confunde com o leasing operacional porque inexistente no primeiro a prestação de serviços, geralmente ligado a instituições financeiras. No leasing operacional ocorre uma locação de bens, com cláusula de prestação de serviços, porque o arrendante é o próprio fabricante dos bens arrendados e presta assistência técnica ao arrendatário, fornecendo treinamento e reparando consertos e cuidando da manutenção periódica, assumindo inclusive, os riscos tecnológicos à obsolescência e ao mercado. Tratando-se de leasing financeiro incabe aplicação do instituto da admissão temporária de que trata o Regulamento Aduaneiro (art. 290 e 313 do Decreto 91.030/95). (...) 4. Apelações improvidas. Fl. 3209DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 34 (TRF4, AMS 2000.04.01.040455-7, Segunda Turma, Relator Alcides Vettorazzi, publicado em 06/02/2002). (grifos acrescidos). Embora não mencionado no Acórdão recorrido, a Solução de Consulta nº 67 – COSIT também se manifesta favorável ao reconhecimento da situação de arrendamento como sendo semelhante ao de uma locação para fins de reconhecimento creditório: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ARRENDAMENTO. ALUGUEL. IMÓVEL RURAL. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. POSSIBILIDADE. A remuneração paga pela arrendatária em relação a bem arrendado é considerada aluguel para os fins do art. 3º, IV, da Lei nº 10.833, de 2003; consequentemente, o pagamento por parte da arrendatária a pessoa jurídica arrendadora pelo uso de imóvel rural, bem como pelo uso de máquinas e equipamentos destinados a gerar energia elétrica para consumo empresarial próprio, podem gerar créditos da não cumulatividade da Cofins. SOLUÇÃO DE CONSULTA PARCIALMENTE VINCULADA À SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 331, DE 21 DE JUNHO DE 2017, PUBLICADA NO DOU DE 30 DE JUNHO DE 2017. Dispositivos Legais: Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, inc. IV. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ARRENDAMENTO. ALUGUEL. IMÓVEL RURAL. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. POSSIBILIDADE. A remuneração paga pela arrendatária em relação a bem arrendado é considerada aluguel para os fins do art. 3º, IV, da Lei nº 10.637, de 2002; consequentemente, o pagamento por parte da arrendatária a pessoa jurídica arrendadora pelo uso de imóvel rural, bem como pelo uso de máquinas e equipamentos destinados a gerar energia elétrica para consumo empresarial próprio, podem gerar créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep. SOLUÇÃO DE CONSULTA PARCIALMENTE VINCULADA À SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 331, DE 21 DE JUNHO DE 2017, PUBLICADA NO DOU DE 30 DE JUNHO DE 2017. Dispositivos Legais: Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, IV. (grifos acrescidos); A Recorrente rememora que na seara administrativa, a equiparação de arrendamento operacional a contrato de aluguel também foi registrada Acórdão nº 1301-000.923 (Vide voto do Conselheiro Relator “estamos diante de arrendamento operacional (o despacho decisório fala em arrendamento operacional sem opção de compra), que, como se sabe, caracteriza-se em essência, como uma operação de aluguel”). Portanto, legislação, doutrina e jurisprudência (judicial e administrativa) não deixam margem para conceber que “para fins tributários, o legislador restringiu a definição de arrendamento mercantil, nos termos da Lei nº 6.099, de 1974, alterada pela Lei nº 7.132, 1983” tal como consignado no Despacho Decisório e no Acórdão recorrido. (Fl. 2965). Superada esta questão, este E. Conselho tem se manifestado favorável ao creditamento das despesas oriundas da locação de prédios, máquinas e equipamentos utilizados no Fl. 3210DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 35 processo produtivo, desde que, possuam relação de essencialidade e relevância com a atividade produtiva desenvolvida da Recorrente. Nessa esteira, seguem colacionados os seguintes acórdãos: Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2017 AUTO DE INFRAÇÃO(LANÇAMENTO). NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O Auto de Infração lavrado por Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, com a indicação expressa das infrações imputadas ao sujeito passivo e das respectivas fundamentações, constitui instrumento legal e hábil à exigência do crédito tributário. PERÍCIA/DILIGÊNCIA. PEDIDO. (...) ALUGUEL. DUTOS E TERMINAIS. NATUREZA DE PRÉDIO. CRÉDITOS. DESCONTO. POSSIBILIDADE. A interpretação do disposto nº art. 1º da Lei nº 11.774/2008, que permite a apropriação imediata de crédito sobre o valor de aquisição do ativo, comporta a inclusão de quaisquer máquinas e equipamentos, o que inclui as embarcações, desde que utilizadas para a prestação de serviços ou produção de bens. Inadequação da classificação fiscal da TIPI sobre máquinas e equipamentos para a restrição interpretativa, devendo-se buscar um sentido próprio na legislação do PIS e da COFINS. ALUGUEL. DUTOS E TERMINAIS. NATUREZA DE PRÉDIO. CRÉDITOS. DESCONTO. POSSIBILIDADE. Por incorporarem-se ao solo para sua utilização, os dutos e terminais têm a natureza de prédio, permitindo a apuração de crédito com fundamento no inciso IV, do art. 3°, da Lei n° 10.833/2003. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS (REEMBOLSO DE DESPESAS, INDENIZAÇÕES DE SINISTROS, DISPONIBILIZAÇÃO DE GARAGENS). EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. A base de cálculo das contribuições é a receita bruta auferida pela da pessoa jurídica, assim entendido o total de suas receitas, independentemente sua denominação ou classificação contábil, com as exclusões expressamente previstas nas leis que instituíram o regime não cumulativo do PIS e da Cofins. As receitas decorrentes de reembolso de reembolso de despesas, de indenizações de sinistros e da disponibilização de garagens não estão elencadas dentre aquelas passíveis de exclusão da base de cálculo da contribuição. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. EFDCONTRIBUIÇÕES NÃO RETIFICADA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos está condicionado à retificação da escrituração digital das contribuições (EFDContribuições)e, nos casos em que a retificação altere valores informados na DIPJ e na DCTF, estas declarações também deverão ser retificadas. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2017 LEGISLAÇÃO CORRELATA. APLICAÇÃO. Dada a correlação entre as normas que regem as contribuições, aplicam-se, na íntegra, a mesma ementa e conclusões do PIS à Cofins. Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito de encargos de depreciação de gastos com docagens e paradas programadas para manutenção de navios e de aquisição de embarcações, com apropriação imediata dos créditos. Vencidos os Conselheiros José Adão Vitorino de Morais (Relator); Semíramis de Oliveira Duro e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negam provimento ao recurso voluntário nessas matérias. Designado para redação do voto Fl. 3211DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 36 vencedor o Conselheiro Laércio Cruz Uliana Junior. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário quanto ao aproveitamento de créditos extemporâneos. Vencida a Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa que dava provimento ao recurso voluntário neste tópico. Por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para reverter as glosas de aluguéis/arrendamentos de dutos e terminais terrestres, aquaviários e portuários e, negar provimento ao recurso voluntário quanto à exclusão das receitas decorrentes de reembolso de despesas, de indenizações de sinistros e da disponibilização de garagens da base de cálculo das contribuições. (documento assinado digitalmente) Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe -Presidente (documento assinado digitalmente) José Adão Vitorino de Morais – Relator (documento assinado digitalmente) Laércio Cruz Uliana Júnior -Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Jose Adão Vitorino de Morais, Laércio Cruz Uliana Júnior, Lara Moura Franco Eduardo (suplente convocada), Juciléia de Souza Lima, Marcos Antônio Borges (suplente convocado), Sabrina Coutinho Barbosa, Semíramis de Oliveira Duro, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). Ausente o conselheiro Ari Vendramni, substituído pela conselheira Lara Moura Franco Eduardo. (Processo nº 16682.720868/2021-71 Recurso Voluntário Acórdão nº 3301-012.360 – 3ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 21 de março de 2023 – Publicado em 21/06/2023. Recorrente PETROBRÁS TRANSPORTE S.A - TRANSPETRO Interessado FAZENDA NACIONAL) (grifos acrescidos) (...) Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/10/2017 a 31/12/2017 DILIGÊNCIA. PERÍCIA. DESNECESSIDADE. Se os documentos constantes dos autos permitem um adequado julgamento, torna-se prescindível a realização de perícia ou diligência para a solução da controvérsia. CRÉDITOS DE INSUMOS. SERVIÇOS E PEÇAS DE MANUTENÇÃO DE VEÍCULOS, MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. Os serviços e bens utilizados na manutenção de veículos, máquinas e equipamentos utilizados no processo produtivo geram direito a crédito das contribuições para o PIS e a COFINS não-cumulativos. CRÉDITO. DESPESAS COM ARMAZENAGEM E FRETES NA OPERAÇÃO DE VENDA. Concede-se direito à apuração de crédito às despesas de armazenagem e frete contratado relacionado a operações de venda, desde que amparado em documentos fiscal e o ônus tenha sido suportado pela pessoa jurídica vendedor e pago à pessoa jurídica beneficiária domiciliada no País. CRÉDITO. LOCAÇÃO DE CAMINHÕES E TRATORES. Desde que utilizados no processo produtivo, por força do previsto no inciso IV, do Art. 3.º, das Leis 10.833/2003 e 10.637/2002, os dispêndios geram direito ao crédito. CRÉDITO. SERVIÇOS DE CONSULTORIA. Os serviços de consultoria, considerando a atividade produtiva da contribuinte, mostram-se como essenciais e pertinentes à produção, devendo ser reconhecido como insumo. CRÉDITO. TRANSPORTE DE FUNCIONÁRIOS PARA ZONA RURAL EM ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. Considerando a atividade agroindustrial desenvolvida, o deslocamento dos seus funcionários para zonas rurais, de difícil acesso, onde deverão ser Fl. 3212DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 37 necessariamente realizadas as atividades de plantio/colheita/corte da cana-de-açúcar, diferentemente de outras situações, não configura um pagamento de um benefício ao empregado, mas sim um custo essencial à própria viabilização do processo produtivo em si, amoldando-se, portanto, aos critérios fixados pelo STJ no REsp nº 1.221.170/PR, julgado em sede de recurso repetitivo. (Numero da decisão: 3401-010.873 - Processo nº 10410.900670/2019-78 Recurso Voluntário Acórdão nº 3401-010.873 – 3ª Seção de Julgamento / 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 28 de setembro de 2022 – Publicado em 02/01/2023 - Recorrente TRIUNFO AGROINDUSTRIAL LTDA - EM RECUPERACAO JUDICIAL Interessado FAZENDA NACIONAL). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/06/2013 a 30/06/2013 DOCAGENS E PARADAS PROGRAMADAS. INSUMO. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. É possível a tomada de créditos em relação a valores de despesas de depreciação havidas com gastos realizados com manutenção das embarcações ("docagens") e dos dutos e terminais ("paradas programadas") quando estes comprovadamente desempenharem funções-chave na atividade produtiva da empresa na condições equivalente a máquinas e equipamentos. ALUGUEL DE DUTOS/TERMINAIS E EMBARCAÇÕES. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. Diante da inexistência de definição clara e fechada na legislação sobre o conceito de máquinas, equipamentos e prédios, a verificação das hipóteses creditáveis com base no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/03, deve ser analisada caso a caso, tendo em vista a função dos bens indicados no processo produtivo e seu modo de funcionamento. No caso dos autos, restou demonstrada a possibilidade de creditamento frente ao tipo de utilização dos dutos, terminais e embarcações alugados enquanto ferramentas essenciais para execução das atividades do objeto social da recorrente. (...) Decisão: Acordam os membros do colegiado em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos: (I) por unanimidade de votos, (i)para afastar o lançamento referente à devolução de medições de serviços e (ii) para reverter a glosa (a) sobre os aluguéis/arrendamento de dutos, terminais e (b) sobre as despesas com serviços de manutenção, docagem e paradas programadas, apropriada via encargos de depreciação; e (II) por maioria de votos, para reverter a glosa (i) sobre embarcações e (ii) sobre encargos de depreciação de embarcações, para que seja apurada na forma da Lei n 11774/2008, vencido, nesses tópicos, o Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertia as glosas. (documento assinado digitalmente)Arnaldo Diefenthaeler Dornelles - Presidente (documento assinado digitalmente) Fernanda Vieira Kotzias - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Gustavo Garcia Dias dos Santos, Oswaldo Goncalves de Castro Neto, Winderley Morais Pereira, Fernanda Vieira Kotzias, Renan Gomes Rego, Carolina Machado Freire Martins, Leonardo Ogassawara de Araujo Branco e Arnaldo(Processo nº 16682.721030/2018-07 Recurso Voluntário Acórdão nº 3401-011.577 – 3ª Seção de Julgamento / 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 23 de março de 2023 Recorrente PETROBRAS TRANSPORTE S/A -TRANSPETRO Interessado FAZENDA NACIONAL – Decisão Publicada em 18/05/2023). (grifos acrescidos). Fl. 3213DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 38 Pelo exposto, infere-se que as despesas relativas à locação de prédios, máquinas e equipamentos decorrentes de contratos de arrendamento mercantil são passíveis de creditamento à luz do art. 3º, inciso IV da Lei nº 10.637/02 e Lei nº 10.833/03. Concernente ao discutido nos autos do presente processo administrativo, importa esclarecer que o Parecer elaborado pelo Professor Fabio Ulhoa Coelho – Titular de Direito da PUC São Paulo, é categórico ao reconhecer que para fins de direito privado, os contratos de arrendamento de usina de pelotização se classificam como locação cujo objeto é uma universalidade de fato, cumprindo os requisitos da legislação tributária, que autorizam o desconto dos aluguéis em razão das obrigações contraídas no âmbito desses negócios jurídicos. (fl. 3153). Isto decorre do fato de que, ao analisar os contratos de arrendamento mercantil firmados pela Recorrente – Usina de Pelotização, foi possível constatar o que segue abaixo reproduzido: 28. Especificamente, a Usina de Pelotização é o complexo de bens empregado nas sucessivas etapas do processo industrial de fabricação de pelotas de minério de ferro, que são: (i) recuperação de finos (transporte dos finos do pátio de finos para as correias, feito pelo equipamento “recuperador de finos”); (ii) moagem (realizada pelo “moinho de bolas” e “mesa rotativa”); (iii) hidrociclonagem (separação das partículas por centrifugação no “hidrociclones”); (iv) espessamento (sedimentação destinada à separação sólido-líquido e desaguamento da polpa de minério e da polpa de rejeito, realizada no “tanque espessador”); (v) homogeneização (processo resultante da agitação da polpa de concentrado gerado pelo espessamento nos “tanques homogeneizadores”); (vi) filtragem (que se utiliza do “filtro a disco” e “bomba de vacuo”); (vii) prensagem de rolos (redução do tamanho das partículas minerais com o emprego da “prensa de rolos”); (viii) mistura (etapa que demanda os instrumentos “misturador”, “filtro de mangas” e “balança dosadora”); (ix) pelotamento (formação da pelota de minério de ferro por meio dos “discos de pelotamento”); (x) peneiramento de pelotas cruas (classificação das pelotas para destinar as unidades de granulometria adequada para a queima e retorno das demais à etapa anterior, procedida pela “peneira de rolos duplo deck” e pelos “desagregadores”): (xi) queima e resfriamento (tratamento térmico das pelotas para conferir-lhes propriedades mecânicas e metalúrgicas, etapa realizada no “forno de grelha móvel”, nos “carros de grelha”, nos “ventiladores axial”, no “radial” e no “precipitador eletrostático”); (xii) peneiramento de pelotas queimadas (classificação granulométrica das pelotas queimadas conforme a especificação dos adquirentes, realizada em “peneiras vibratórias” e “balança/célula de carga”); (xiii) empilhamento (formação das pilhas de pelotas classificadas no pátio de estocagem, 29 6e. por meio da “empilhadeira de pelotas”, “pá carregadeira” e “trator de esteiras”). 29. Nessas etapas da produção das pelotas, são empregados outros meios como “transportadores de correia”, “detector de metais”, “extrator de metais”, bombas, tanques, compressores de ar, pontes rolantes, guindaste etc. Nessa esteira, todos estes bens que integram o complexo constitutivo de uma Usina de São Pelotização são bens infungíveis indispensáveis à operacionalização da atividade econômica de produção de pelotas de minério de ferro. (Fl. 3160). Ademais, o conceito de universalidade de fato art. 90 do Código Civil prescreve que “Constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária. Parágrafo único. Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de relações jurídicas próprias.” Fl. 3214DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 39 Portanto, forçoso concluir o que se segue: 38. A Usina de Pelotização é também uma universalidade de fato. Ela atende inteiramente à característica desta categoria de bens coletivos, que é a preservação da individualidade de cada bem integrante da universalidade: um bem específico deixa de integrar o todo (uma ferramenta que se inutilizou, por exemplo), a Usina de Pelotização continua existir; se algo é acrescido ao conjunto (uma nova ferramenta), ela se mantém como a mesma universalidade de fato de antes. (...) 41. Cumprem-se, desta maneira, os dois requisitos legais para configuração da universalidade de fato — todos os equipamentos reunidos pela sociedade mineradora para a exploração de sua atividade econômica estão referenciados a ela como objeto de direito real ou pessoal (requisito da pertinência); e todos eles foram e se mantêm reunidos com o único propósito de viabilizar a referida atividade econômica empresarial. 68. Direitos minerários como bens móveis infungíveis Direitos minerários integram o complexo de bens constitutivo da universalidade de fato objeto dos Contratos de Arrendamento firmados com a MBR e a BAOVALE. (fl. 3163). Pelo exposto, conclui-se que os contratos de arrendamento mercantil operacional (item VIII.3.1 do Relatório Fiscal) contemplam uma universalidade indissociável de bens e serviços utilizados para exploração da atividade mineradora com propósito exclusivo de viabilizar o desenvolvimento da atividade produtiva da Recorrente. Em sentido análogo, registra-se o entendimento extraído do voto vencedor no Acórdão nº 3101-004.409 (julgamento realizado em 11 de dezembro de 2025 pela 1ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara, da Terceira Seção de Julgamento deste Conselho): (...) Entendo que assiste razão à recorrente. Inicialmente, cumpre destacar que o artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 expressamente assegura o direito à apropriação de créditos relativos a “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa” (Grifamos). Sobre se tratar de locação, parece inexistir controvérsia, vez que plenamente demonstrado se tratar de contratos em que uma das partes se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de coisa não fungível, mediante certa retribuição, configurando, por conseguinte, locação de coisas, nos termos do artigo 565 do Código Civil. No que se refere à interpretação dos vocábulos “prédios”, “máquinas” e “equipamentos”, é fato que toda lei, como norma geral e abstrata que é, não consegue trazer nas minúcias as características individuais e concretas de todas as situações que pretende disciplinar. Ainda, convive com as dificuldades decorrentes de toda e qualquer linguagem, no que se refere à polissemia, vagueza e ambiguidade dos termos. Quanto às hipóteses de creditamento previstas pelo legislador ordinário, tal polissemia gerou grande debate em relação ao termo “insumo”, mas também se revela presente em discussões, como a presente, quanto à interpretação dos termos “prédio”, “máquina” e “equipamento”. Fl. 3215DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 40 Exercendo sua atividade de índole geral e abstrata, o legislador buscou assegurar o direito ao creditamento para as mais variadas empresas, com suas mais distintas especificidades, sobre aquilo que representa um “prédio”, uma “máquina” e um “equipamento”, numa atividade genericamente considerada. Ou seja, tudo aquilo que exerce a função de “prédio”, de “máquina” e de “equipamento” numa atividade específica, deve ser considerado passível de creditamento. E isso não significa ampliar o alcance da norma, mas tão somente dar-lhe uma interpretação sistemática, em observância ao princípio da isonomia, razoabilidade e segurança jurídica. Afinal, todos os contribuintes que locam “imóveis” para realização de suas atividades, têm a sua receita consumida com tais despesas, assim como, todo “aparelho” utilizado na atividade da empresa para realizar uma tarefa específica também exige o consumo da receita do contribuinte para obtenção da sua receita tributável. A alteração dos termos foi realizada de modo proposital apenas para reforçar que não cabe interpretação literal dos dispositivos que disciplinam as hipóteses de creditamento na sistemática da não-cumulatividade, assim como, para demonstrar que o que interessa ao aplicador do direito, nestes casos, é a função daqueles itens elencados, dentro de cada atividade específica, de modo a assegurar o direito ao creditamento de despesas necessárias consumidas pela fonte produtora de receita. Assim, pelo próprio objeto da norma, é certo que não estamos falando de conceitos rígidos, numericamente definidos, mas de tipos, como ordens flexíveis e graduáveis7. No tipo, a relação entre a premissa maior e a menor não precisa ser de subsunção. Como ensina Karl Larenz, “[a] caracterização antecipada na lei, que não impõe uma definição definitiva e suficientemente precisa, necessita de ser completada com uma multiplicidade de traços, que resultam por dedução da definição legal. Esta “dedução” está subordinada ao pressuposto de que as regras legais se adequam ao tipo pensado, que “se ajustam” a ele”8, situação que, a meu ver, se adequa perfeitamente ao direito creditório na sistemática da não- cumulatividade. No presente caso, os créditos foram apropriados sobre contratos relativos à direitos minerários, instalações e estabelecimentos inteiros, usinas de pelotização e todos os ativos pertencentes aos referidos estabelecimentos necessários a suas operações. No que se refere aos contratos relativos às usinas de pelotização, instalações e estabelecimentos inteiros, com todos os ativos pertencentes aos referidos estabelecimentos necessários a suas operações, nos parece claro se tratar de locação de “prédio”, no caso, usinas de pelotização, instalações e estabelecimentos inteiros, a qual engloba também “máquinas” e “equipamentos”, indispensáveis à operacionalização da atividade econômica exercida naquela unidade. Com a devida vênia, não nos parece adequado exigir a segregação de todo e qualquer bem que compõe tais contratos, especialmente, diante do disposto no artigo 90 do Código Civil, que estabelece que “[c]onstitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária”. Assim, em se tratando de bens pertencentes à mesma pessoa e que tenham destinação unitária, não há vedação para que sejam considerados conjuntamente, especialmente, quando incontroversamente demonstrado se tratar de bens relacionados ao exercício da atividade econômica a ser exercida em tais estabelecimentos. Por bem demonstrar se tratar de uma universalidade de fato, que é tratada pelas partes de forma conjunta, em razão de sua destinação unitária, transcrevemos, em tradução livre, a cláusula 1 do contrato firmado entre a recorrente e a Coligada Brasco: Fl. 3216DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 41 "LOCADOR e LOCATÁRIO concordam mutuamente com a locação (a 'Locação") da Usina de Pelotização, de acordo com os termos e condições estabelecidos neste documento, que inclui a lista de todas as instalações, ativos e equipamentos registrados e existentes na Usina de Pelotização. As partes também concordaram que todos os investimentos na Usina de Pelotização, incluindo os atuais e os que podem ser aprovados no futuro, farão parte do Anexo I assim que se registrarem como propriedade do LOCADOR/arrendador." (Grifamos)Questão que poderia gerar maior controvérsia se refere aos direitos minerários, entretanto, se trata de direito umbilicalmente vinculado à operação de lavra de minério, uma vez que o arrendamento/locação dos bens e instalações de complexos minerais pressupõe o direito de lavra do minério de ferro, compondo, portanto, aquela universalidade de fato. Neste sentido, merece transcrição excerto do Contrato de Arrendamento de Direitos Minerários, Bens e Instalações celebrado entre a recorrente e a empresa BAOVALE: CLÁUSULA PRIMEIRA - OBJETO DO ARRENDAMENTO 1.1. Constitui objeto do presente instrumento o arrendamento dos direitos minerários do Complexo Mineiro de Água Limpa, bem como dos bens e das instalações fixas especificadas no Anexo I, que é parte integrante do presente contrato. 1.1.1. Entende-se por instalações fixas todos os prédios industriais, galpões e edificações em geral (tais como escritórios, plantas de beneficiamento, oficinas, rede de abastecimento de água e energia elétrica, incluindo-se as estações de bombeamento e sub-estações, conforme o Anexo I). 1.1.2. Entende-se como bens todos os equipamentos, veículos, mobiliários e demais bens móveis necessários à operação de lavra do complexo Mineiro de Água Limpa, relacionados no Anexo I. 1.2. Neste ato e na melhor forma de direito, a ARRENDANTE dá em arrendamento à CRVD, que declara expressamente aceitar, (i) o direito de lavrar minério de ferro no Complexo Mineiro de Água Limpa, (ii) a propriedade do minério extraído do Complexo Mineiro, e (iii) o uso de todos os bens e instalações especificados no Anexo I, nos termos e condições do presente contrato. Diante do exposto, entendemos pela legitimidade dos créditos apropriados sobre contratos relativos à direitos minerários, instalações e estabelecimentos inteiros, usinas de pelotização e todos os ativos pertencentes aos referidos estabelecimentos necessários a suas operações, com base no artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Em sentido análogo, mencionamos os seguintes julgados deste e. CARF: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. ALUGUEL. DUTOS. TERMINAIS. AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES. POSSIBILIDADE. Gera direito ao desconto de crédito das contribuições não cumulativas o aluguel de dutos e terminais, e o afretamento de embarcações, utilizados nas atividades da empresa, nos termos do artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. (Processo nº 16682.720737/2020-11; Acórdão nº 3102-002.709; Relator Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues; sessão de 21/08/2024) NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. ALUGUEL OU ARRENDAMENTO. DUTOS. TERMINAIS. PRÉDIOS. TERRENOS. POSSIBILIDADE. Gera direito ao desconto de crédito das contribuições não cumulativas o arrendamento ou aluguel de dutos e terminais aquaviários, além de prédios, terrenos e bases e outros bens utilizados nas atividades da empresa, observados os demais requisitos da lei. Fl. 3217DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 42 (Processo nº 16682.720968/2018-00; Acórdão nº 3201-009.950; Relator Conselheiro Hélcio Lafetá Reis; sessão de 26/10/2022)ALUGUEL DE DUTOS/TERMINAIS E EMBARCAÇÕES. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. Diante da inexistência de definição clara e fechada na legislação sobre o conceito de máquinas, equipamentos e prédios, a verificação das hipóteses creditáveis com base no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/03, deve ser analisada caso a caso, tendo em vista a função dos bens indicados no processo produtivo e seu modo de funcionamento. No caso dos autos, restou demonstrada a possibilidade de creditamento frente ao tipo de utilização dos dutos, terminais e embarcações alugados enquanto ferramentas essenciais para execução das atividades do objeto social da recorrente. (Processo nº 16682.720974/2018-59; Acórdão nº 3401-007.462; Relatora Conselheira Fernanda Vieira Kotzias; sessão de 17/03/2020) Pelo exposto, voto por reverter as glosas referentes aos contratos de arrendamento – creditamento na modalidade aluguel. Por todo exposto, infere-se que as despesas decorrentes dos contratos de arrendamento mercantil contemplados nos presentes autos são passíveis de creditamento das contribuições ao Pis/Pasep e Cofins à luz do art. 3º, inciso IV da Lei nº 10.637/02 e Lei nº 10.833/03. Desse modo, devem ser revertidas as glosas realizadas sobre os contratos de arrendamento mercantil (discriminadas no item VIII.3 do Relatório Fiscal. II. 3 – Da glosa de créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado Conforme Relatório Fiscal, a Recorrente se creditou de edificações e benfeitorias no prazo de apropriação de 24 meses, previsto no art. 6º da Lei nº 11.488, de 2007, in verbis: Art. 6º As pessoas jurídicas poderão optar pelo desconto, no prazo de 24 (vinte e quatro) meses, dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins de que tratam o inciso VII do caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e o inciso VII do caput do art. 3º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (grifou-se) Consta, ainda, que os créditos se referem a imobilizações em edificações nas áreas administrativas e na infraestrutura logística, isto é, em ativos empregados nas atividades de escoamento ou distribuição da produção (fluxos “PORTO” e “FERROVIA”), contrariando o disposto no art. 6º da Lei nº 11.488, de 2007, que restringe a depreciação acelerada ao imobilizado utilizado na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. A Recorrente sustenta que as glosas (i) dos créditos de edificações e benfeitorias nas áreas administrativas ou de infraestrutura logística e (ii) dos créditos de bens incorporados à infraestrutura logística só foram mantidas “pela indevida exclusão das etapas de PORTO e FERROVIA como sendo partes integrantes do processo produtivo da Recorrente, contrariando novamente assim, tantos os laudos, pareceres técnicos e documentos apresentados, bem como o próprio entendimento deste E. CARF inclusive como demonstrado, em casos em que é parte a própria Recorrente”. Fl. 3218DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 43 Considerando que em relação aos dois itens, a glosa foi pautada exclusivamente na interpretação da fiscalização de que as edificações, máquinas e equipamentos relativas aos fluxos PORTO e FERROVIA não seriam utilizados no processo produtivo da empresa (consoante disposto no art. 6º da Lei nº 11.488, de 2007), consoante ao entendimento já externado no presente voto, e fazendo remissão às razões apresentadas nos tópicos anteriores, seja em razão de ser a recorrente quem desenvolve as atividades relativas aos fluxos PORTO e FERROVIA, seja em razão da indissociabilidade da tríade mina-ferrovia-porto no caso concreto, entende-se que foi correta a apropriação de créditos da não-cumulatividade realizada pela Recorrente em relação a tais bens do ativo imobilizado, razão pela qual devem ser revertidas as glosas efetuadas pela fiscalização. Pelo exposto, devem ser revertidas as glosas relativas aos bens incorporados ao ativo imobilizado referentes às fases “Ferrovia” e “Porto” (discriminadas no item VIII.6 do Relatório Fiscal) II. 4 – Da glosa das despesas com fretes Neste item, a Recorrente esclarece que o Acórdão recorrido afastou as glosas dos serviços de transporte referentes a remessa e retorno de mercadoria ou bem para conserto ou reparo, no entanto, quanto as demais glosas o v. acórdão se limitou ainda, a tratar especificamente apenas dos itens 02 e 07 em sua fundamentação. Desta forma, a Recorrente afirma que permanecem injustificadas a manutenção das seguintes glosas: 1) Transferência de materiais ou bens da VALE entre suas unidades (frete interno); 2) Transferência interna (frete nacional) referente a aquisição de materiais ou bens importados pela VALE: (...) 7) Aquisição de mercadoria ou bem pela VALE não sujeitas ao pagamento da contribuição de Pis/Cofins; 8) Remessa simples de mercadoria ou bem pela VALE para terceiros não sujeitas ao pagamento da contribuição de Pis/Cofins; 9) Frete entre terceiros; 10) Realização de mudanças ou transporte de veículos; Em relação as glosas sobre os fretes, a Recorrente argumenta: No que tange às glosas de fretes, em decorrência de Transferência de materiais ou bens da VALE entre suas unidades (frete interno), Transferência interna (frete nacional) referente a aquisição de materiais ou bens importados pela VALE e 10) e Realização de mudanças ou transporte de veículos, constata-se que são dispêndios de operações de transferência internas(intercompany) de produtos acabados”. (Fl. 3105). Já em relação as glosas a título de aquisição de mercadoria, registra o que se segue: Veja-se, que, tampouco prosperam as glosas a título de Aquisição de mercadoria ou bem pela VALE e Remessa simples de mercadoria ou bem pela VALE, as quais, todavia, foram Fl. 3219DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 44 mantidas pelo v. acórdão sob o suposto fundamento de que não estariam sujeitas a tais recolhimentos da contribuição de Pis/Cofins. (Fl. 3113). Por derradeiro, sobre os creditamento realizado sobre frete entre terceiros pontua o seguinte: Outrossim, no que diz respeito também ao creditamento decorrente de frete entre terceiros, como pontuado acima, contrariamente ao entendimento consignado pelo v. acórdão, este órgão tem entendido ser passível de crédito os custos com capatazia e despachante (descarregamento, movimentação, acondicionamento e armazenagem das matérias-primas no armazém alfandegado), emissão notas fiscais de armazenamento/importação e serviços de medição de equipamentos portuários e o frete efetuado em território nacional. Ou seja, todas as despesas (tidas como aduaneiras ou não) necessárias para a disponibilização do produto ao estabelecimento do cliente por meio portuário ou ferroviário dão direito de crédito de PIS e COFINS. Conforme se verifica, em que pese o alegado no Recurso Voluntário, o Acórdão recorrido se manifestou sobre todas as glosas objeto do presente tópico, senão vejamos: Por fim, a recorrente defende que nenhuma das situações de glosa descritas no Relatório Fiscal (itens 1 a 10 listados acima) pode configurar hipótese proibitiva da fruição do direito creditório a título de frete. Em que pese a alegação genérica feita pela recorrente, entende-se que dentre os fretes glosados, os serviços de transporte para Remessa e Retorno de mercadoria ou bem para conserto ou reparo podem atender aos critérios definidos pelo Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, para se enquadrarem no conceito de insumos utilizados na produção de bens. (...) Nada obstante, cumpre assinalar que este E. Carf através da edição da Súmula Carf n° 188 reconheceu o direito de aproveitamento de créditos de Cofins sobre despesas com frete na aquisição de insumos sujeitos à alíquota zero, desde que o serviço de transporte tenha sido contratado separadamente e tenha sido tributado pelas próprias contribuições. Feitas essas considerações, compulsando os autos, verifica-se que devem ser revertidas as glosas de a) despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumos (Glosas com motivação “Aquisição pela Vale de mercadoria ou bem não sujeita ao pagamento da contribuição” no DEMONSTRATIVO E), nos termos da Súmula Carf nº 188, e (b) reverter as glosas de despesas com frete nacional na aquisição de bens importados (Glosas com motivação “Frete nacional de aquisição de bem importado” no DEMONSTRATIVO E), excetuando-se os fretes de escavadeiras. Finalmente, em relação aos fretes com produtos acabados, a Súmula Carf nº 217 veda a apropriação de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas provenientes de gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa. Pelo exposto, devem ser revertidas as seguintes glosas: a) de despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumos (Glosas com motivação “Aquisição pela Vale de mercadoria ou bem não sujeita ao pagamento da contribuição” no DEMONSTRATIVO E), nos termos da Súmula Carf nº 188, e (b) de despesas com frete Fl. 3220DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 45 nacional na aquisição de bens importados (Glosas com motivação “Frete nacional de aquisição de bem importado” no DEMONSTRATIVO E), excetuando-se os fretes de escavadeiras. II. 3 – Dos créditos extemporâneos Neste item, a Recorrente assevera que o v. acórdão entendeu ainda pela mantença de glosas dos créditos sob o mero argumento de extemporaneidade, uma vez que supostamente as parcelas poderiam ter sido deduzidas mensalmente nos anos anteriores à 2016 (2014 e 2015). Sobre a possibilidade de creditamento, em que pese a fundamentação do acórdão, a Recorrente argumenta que a utilização de créditos extemporâneos de PIS e COFINS possui sim, respaldo no art. 3º, §4º, das Leis nº 10.833/2003 e nº 10.637/2020, desde que observado o prazo decadencial (5 anos) e não tendo havido o aproveitamento em outros períodos. Nada obstante, entende que para a fruição desses créditos, desnecessário se faz a retificação das declarações como defendido pelo acórdão sob a alegação de suposto respaldo a Solução de COSIT nº 32/2021. Não assiste razão à Recorrente. Para tanto, importa registrar que nos termos da Súmula Carf nº 231 o aproveitamento de créditos extemporâneos de PIS/Pasep e Cofins exige a apresentação de DCTF e Dacon retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. II. 5 – Das glosas referentes às aquisições não sujeitas ao recolhimento da contribuição ao PIS/Pasep e Cofins Conforme o Relatório Fiscal, a partir das notas fiscais eletrônicas extraídas do SPED, foram constatadas diversas aquisições em que o fornecedor registrou como operação não sujeita ao recolhimento das contribuições (CST 06 – Alíquota Zero; CST 08 – Operação Sem Incidência da Contribuição e CST 09 – Operação com Suspensão da Contribuição), contrariando a regra de vedação de creditamento estabelecida no inciso II do § 2º do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. A Recorrente argumenta que a glosa perpetrada se revela descabida, porquanto eivada de ilegalidade, à medida que desconfigura a técnica da não cumulatividade aplicada ao PIS e a COFINS apurados sob a égide das Leis n. 10.637/02 e 10.833/03. Cita a doutrina e jurisprudência e conclui afirmando que no caso em debate, o fiscal ter glosado os créditos apurados pela Recorrente, advindos de aquisições não oneradas pelo tributo, tampouco tal glosa ter sido mantida pelo acórdão. Não assiste razão à Recorrente. O § 2º, inciso II, do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, é expresso em determinar que “não dará direito a crédito o valor da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não Fl. 3221DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 46 alcançados pela contribuição”, deve ser interpretado de forma literal nos casos como o aqui tratado, relativos a pedidos de ressarcimento e compensação que equivalem a uma renúncia de receita. No que se refere a alegação de que “não perquiriu o acórdão se houve a emissão de novas notas sem que a Recorrente tivesse tomado o devido crédito, sendo que o ônus da prova, nesse caso, é do fisco.” é consabido que é atribuição do contribuinte/pleiteante a demonstração da efetiva existência do direito creditório alegado, nos termos do art. 373 do Código de Processo Civil - CPC (Lei nº 13.105, de 2015), aplicável supletiva e subsidiariamente ao Decreto nº 70.235, de 1972, por força do art. 15 do mesmo Código. Pelo exposto, devem ser mantidas as glosas. II. 6 – Da exclusão dos créditos em duplicidade Conforme descrito no Relatório Fiscal, pela análise das EFD-Contribuições, constatou-se que em relação aos créditos acumulados em virtude de aquisições de importações vinculadas às receitas de exportação (código 308), a interessada além de deduzir os créditos apurados das contribuições devidas, também pleiteou o ressarcimento desses valores para o período de 01/2016 a 03/2016. Por conseguinte, os valores já deduzidos das contribuições apuradas no período, vinculados ao código 308, foram excluídos dos valores passíveis de ressarcimento. A Recorrente alega que não se conseguiu extrair o que seriam a dedutibilidade dessas glosas em duplicidade. Neste contexto, segue reproduzido o detalhamento realizado pela DRJ acerca da exclusão dos créditos em duplicidade dos valores passíveis de ressarcimento: Os créditos glosados encontram-se demonstrados na planilha “Créditos Deduzidos Duplicidade”, constante no arquivo “DEMONSTRATIVO H – Apuração da Fiscalização”. (...) Por meio de consulta no sistema interno da RFB - EFD- Controle – Consulta de contribuições – foi possível corroborar que nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2016 a interessada apurou os seguintes valores de crédito no tipo 308, tendo descontado integralmente os valores das contribuições apuradas no período: Uma vez que os créditos do tipo 308 apurados no trimestre foram integralmente descontados, correto o procedimento da fiscalização em desconsiderar tais créditos que Fl. 3222DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 47 foram também incluídos no pedido de ressarcimento/compensação em análise, portanto, utilizados em duplicidade pela interessada. Considerando que a Recorrente não trouxe aos autos nenhum elemento probatório para comprovar que os créditos acima identificados não haviam sido deduzidos das contribuições apuradas no período, a alegada ausência de fundamentação alegada na peça recursal não merece prosperar. Desta feita, não há reversão a ser feita nas glosas. CONCLUSÃO Pelo exposto, superadas as preliminares de nulidade do despacho decisório, voto por conhecer do recurso voluntário, para, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas (i) relativas as fases “Ferrovia” e “Porto”; (ii) decorrentes dos contratos de arrendamento mercantil; (iii) ao ativo imobilizado referentes às fases “Ferrovia” e “Porto”; (iv) de despesas com fretes de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições e utilizados como insumos (Glosas com motivação “Aquisição pela Vale de mercadoria ou bem não sujeita ao pagamento da contribuição” no DEMONSTRATIVO E), nos termos da Súmula Carf nº 188, e (v) de despesas com frete nacional na aquisição de bens importados (Glosas com motivação “Frete nacional de aquisição de bem importado” no DEMONSTRATIVO E), excetuando-se os fretes de escavadeiras. É como voto. Assinado Digitalmente Aline Cardoso de Faria VOTO VENCEDOR Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha, redator designado Em que pese o bem fundamentado voto da i. Relatora, divirjo em relação às seguintes matérias: i) créditos da infraestrutura logística para escoamento da produção, ii) créditos relativos aos contratos de arrendamento e iii) créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado. Vejamos. 1. Créditos de insumos para a infraestrutura logística para escoamento da produção Fl. 3223DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 48 Uma das principais matérias sob discussão nestes autos diz respeito à aquisição de insumos para a infraestrutura logística, que consta do item “VIII.4 Das glosas das aquisições de insumos para a infraestrutura logística(etapas posteriores ao processo produtivo)” do Relatório Fiscal. Os valores dessas glosas, por sua vez, estão detalhados no anexo “DEMONSTRATIVO D - Aquisições de Insumos para a Infraestrutura Logística”. Como se trata de crédito apropriado pela recorrente com fundamento no inciso II do art. 3º da Lei nº 10.833/2003, para o qual o conceito de insumo é fundamental, pertinente fazermos algumas considerações propedêuticas a seu respeito. 1.1. Do conceito de insumo Antes de analisar os itens glosados, importante sintetizar os critérios a partir dos quais o conceito de insumo contido no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003 deve ser aferido para fins de creditamento da Contribuição para o PIS e da COFINS. O tema foi apreciado pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial (REsp) nº 1.221.170/PR, que se deu sob a sistemática dos recursos repetitivos e em que foram firmadas as seguintes teses (Temas Repetitivos 779 e 780): (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não- cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. Portanto, os critérios determinantes para que um bem ou serviço denote o conceito de insumo para fins de creditamento das contribuições deve levar em conta sua essencialidade ou relevância para a prestação de serviços ou para a produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Sobre esses critérios, oportuno transcrever trecho do voto-vista da Ministra Regina Helena Costa, cuja tese foi acolhida pela maioria dos Ministros no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. [...] tem-se que o critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, a relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação Fl. 3224DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 49 de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. (grifo nosso) É importante frisar que a essencialidade e a relevância referidas pela decisão do STJ relacionam-se à atividade produtiva, e não a qualquer atividade no âmbito de uma empresa, em consonância com o que prevê o art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003, abaixo transcrito. Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (grifo nosso) É nesse sentido a Nota SEI nº 63/2018, editada pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional com o fim de analisar a decisão do STJ. [...] tal aferição deve se dar considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item para o desenvolvimento da atividade produtiva, consistente na produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. 15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. Também nesse sentido é o Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05/2018, editado pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil (RFB). 15. Neste ponto já se mostra necessário interpretar a abrangência da expressão “atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto essa expressão, por sua generalidade, possa fazer parecer que haveria insumos geradores de crédito da não cumulatividade das contribuições em qualquer atividade desenvolvida pela pessoa jurídica (administrativa, jurídica, contábil, etc.), a verdade é que todas as discussões e conclusões buriladas pelos Ministros circunscreveram-se ao processo de produção de bens ou de prestação de serviços desenvolvidos pela pessoa jurídica. Fl. 3225DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 50 16. Aliás, esta limitação consta expressamente do texto do inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, que permite a apuração de créditos das contribuições em relação a “bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda”. 17. Das transcrições dos excertos fundamentais dos votos dos Ministros que adotaram a tese vencedora resta evidente e incontestável que somente podem ser considerados insumos itens relacionados com a produção de bens destinados à venda ou com a prestação de serviços a terceiros, o que não abarca itens que não estejam sequer indiretamente relacionados com tais atividades. (grifo nosso) Assentadas essas premissas interpretativas, pertinente trazer algumas considerações a respeito da atividade desenvolvida pela recorrente. Conforme consta dos autos, nos termos do art. 2º de seu Estatuto Social, a recorrente tem como objeto social: 1. realizar o aproveitamento de jazidas minerais no território nacional e no exterior, através da pesquisa, exploração, extração, beneficiamento, industrialização, transporte, embarque e comércio de bens minerais; 2. construir ferrovias, operar e explorar o tráfego ferroviário próprio ou de terceiros; 3. construir e operar terminais marítimos próprios ou de terceiros, bem como explorar as atividades de navegação e de apoio portuário; 4. prestar serviços de logística integrada de transporte de carga, compreendendo a captação, armazenagem, transbordo, distribuição e entrega no contexto de um sistema multimodal de transporte; 5. produzir, beneficiar, transportar, industrializar e comercializar toda e qualquer fonte de energia, podendo, ainda, atuar na produção, geração, transmissão, distribuição e comercialização de seus produtos derivados e subprodutos; 6. exercer, no País ou no exterior, outras atividades que possam interessar, direta ou indiretamente, à realização do objeto social, inclusive pesquisa, industrialização, compra e venda, importação e exportação, bem como a exploração, industrialização e comercialização de recursos florestais e a prestação de serviços de qualquer natureza; 7. constituir ou participar, sob qualquer modalidade, de outras sociedades, consórcios ou entidades cujos objetos sociais sejam, direta ou indiretamente, vinculados, acessórios ou instrumentais ao seu objeto social. Fl. 3226DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 51 A recorrente, reconhecidamente uma das maiores produtoras de minérios de mundo, destaca em seu recurso voluntário que: Além do minério de ferro, as atividades da Recorrente envolvem a produção de níquel, cobre e manganês. Opera mais de 10 mil Km de ferrovias no Brasil para o escoamento de sua produção. A atividade da Recorrente tem início com a perfuração do solo, passando por um processo integrado, que envolve o desmonte ou escavação, o carregamento e transporte, o beneficiamento, o empilhamento, a recuperação, o deslocamento via ferrovias, a pelotização e a estocagem, para, finalmente, concluir-se no porto, com o carregamento dos navios com destino ao exterior. Tendo isso em vista, passemos à análise dos itens sob discussão. 1.2. Da impossibilidade de crédito de insumo na infraestrutura logística para escoamento da produção Foram glosados pela autoridade fiscal créditos escriturados nos registros A100, C190, C195, D100 e F100 da EFD-Contribuições que, conforme consta do Relatório Fiscal (tópico VIII.4), relacionam-se a “dispêndios de bens e serviços utilizados como insumos na sua infraestrutura logística, que compreende os serviços ferroviários e portuários, cuja finalidade é o escoamento dos produtos a serem comercializados”. Relata a autoridade que, a partir de planilhas apresentadas pela recorrente em resposta à intimação, foi possível identificar na EDF-Contribuições créditos sobre “dispêndios associados aos fluxos ‘D – PORTO’ e ‘E – FERROVIA’”, que abarcam as seguintes atividades: Concluindo que: [...] relativamente aos dispêndios dos negócios FERROVIA e PORTO, não há o que se discutir quanto à essencialidade ou relevância dos bens ou serviços, posto que as fases em que são aplicados ocorrem posteriormente à finalização do processo de produção. Os gastos com tais bens e serviços, ainda que incorridos às custas da VALE, não podem ser considerados insumos do processo produtivo para fins de crédito da contribuição para o PIS e da Cofins. A recorrente contesta as glosas, mantidas pelo acórdão recorrido, argumentando que as etapas de ferrovia e porto são, efetivamente, fases do processo produtivo. Sustenta sua posição com as seguintes alegações: Sem a fase da ferrovia e do porto, não existe processo produtivo do minério. A produção resta inviável, totalmente prejudicada, notadamente no que diz respeito ao mercado externo; Fl. 3227DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 52 Seu processo produtivo é único, peculiar, sui generis, e não pode ser comparado com processos produtivos menos complexos; O que se entende por produto acabado, na mineração, não pode ser comparado com o produto acabado em outras áreas do comércio e indústria. Sem a ferrovia e o porto, a atividade da mineração resta inviável, impraticável; A movimentação de carga dos portos, a rebocagem e os demais serviços portuários são partes indissociáveis do processo produtivo. Sem tais etapas, o processo produtivo da Impugnante não cumpre os seus objetivos; Pareceres e Laudos Técnicos (Unicamp, PwC, LCA e Tyno) apresentados concluíram que as atividades de ferrovia e porto fazem parte do processo produtivo da recorrente; Há jurisprudência que lhe é favorável. Argumenta ainda que, ainda que se entendesse que as despesas em questão são incorridas após o encerramento da etapa produtiva, possui direito a descontar créditos em relação a elas, pois: [...] tanto a decisão proferida pelo STJ em sede de recurso repetitivo, quanto o Parecer Cosit/RFB nº 05/2018, registram esta possibilidade. [...] [...] os itens 57 e 58 do PN 05/18 transcritos pelo próprio acórdão ora proferido, viabilizam o creditamento em relação aos dispêndios efetuados no escoamento da produção da Recorrente, vez que a previsão de rodovias e estradas de ferro, e o transporte no beneficiamento da produção decorrem de expressa disposição regulatória do Código Minerário, que impõe a todo projeto minerário nacional a previsão das formas de escoamento de sua produção, sob pena de não autorização da lavra (arts. 38, III e 39). [...] [...] os gastos relativos ao cumprimento das exigências legais estão inseridos no contexto produtivo da Recorrente, conforme demonstrado, quer seja na fase da mineração, quer seja nas etapas da ferrovia e porto. Pois bem, entendo que não tem razão a recorrente. Vejamos. Antes de passar à análise da matéria propriamente dita, impõe-se a precisa delimitação da matéria objeto de análise, a fim de assegurar clareza quanto ao escopo da discussão. Como visto, consta do objeto social da recorrente a construção e a operação de ferrovias e de terminais marítimos. Nesse sentido, consignou-se no Relatório Fiscal que: Fl. 3228DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 53 [...] as estruturas e serviços portuários e ferroviários também são por ela utilizados, de forma auxiliar, para a prestação de serviços de logística a terceiros: transporte ferroviário de carga de terceiros; transporte ferroviário de passageiros; atividade de movimentação portuária e demais atividades portuárias e ferroviárias residuais. Assim, existem nos referidos fluxos operacionais (FERROVIA e PORTO) prestação de serviços a terceiros, ou seja, existem bens de utilização mista, de forma que uma parcela pode ser considerada insumo gerador de créditos para a atividade de prestação de serviços da VALE. Diante disso, para apuração do montante de créditos passíveis de apropriação, empregou-se o percentual das receitas brutas de atividade em logística em relação ao total de receita bruta da empresa para o rateio. Assim, o despacho decisório reconheceu o crédito, a título de insumo, de despesas relacionadas às ferrovias e aos portos quando estes são utilizados para prestação de serviços a terceiros, e não para escoamento de produção própria. Dessa forma, o que se debate aqui são dispêndios com bens e serviços relacionados à infraestrutura logística, que compreende as ferrovias e os portos, quando utilizada para o escoamento dos produtos comercializados pela recorrente, principalmente minério de ferro, mas também níquel, cobre e manganês. Consequentemente, a análise da subsunção das despesas com bens e serviços ao conceito de insumo, no presente caso, tem por escopo a produção de minério de ferro e de outros produtos minerais produzidos pela recorrente. Não é objeto da lide o creditamento de insumos na prestação de serviços ferroviários ou portuários pela recorrente. Isso porque, quando um cliente celebra um contrato para adquirir o minério de ferro ou o cobre produzidos pela recorrente, o bem produzido para venda é justamente o minério de ferro ou o cobre. Com isso, estabeleço como premissa fundamental deste voto a de que a ‘produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda’ a que se refere o inciso II do art. 3º da Lei nº 10.833/2003, que denomino fase produtiva, se encerra no momento em que o bem ou produto adquire as características finais com as quais é remetido/entregue ao adquirente. Pois bem. Analisando-se as aquisições de bens e serviços glosados constantes do “DEMONSTRATIVO D - Aquisições de Insumos para a Infraestrutura Logística”, verifica-se que cerca de 75% se referem a óleo diesel, biodiesel, óleo lubrificante e óleo hidráulico. Outros itens de grande relevância são rodas ferroviárias e correias transportadoras. Todas as glosas dizem respeito, como visto, a bens e serviços utilizados nas etapas de ferrovia e porto. Em documento apresentado pela recorrente, denominado “Fluxo Produtivo Negócios Vale” (fls. 1206-1386), os fluxos ‘D – PORTO’ e ‘E – FERROVIA’, anteriormente mencionados, foram detalhadas da seguinte forma: D Porto 33. Recepção e despachos dos produtos e mercadorias - Diz respeito à chegada/saída dos produtos no porto, que pode ocorrer por meio do transporte rodoviário ou Fl. 3229DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 54 ferroviário. Nessa etapa, o embarcador e/ou o transportador são os responsáveis pela entrega/retirada dos produtos no porto. 34. Operação portuária de movimentação de cargas nas dependências – Está relacionada com a movimentação dos produtos/mercadorias nas dependências do porto. Compete à Administração do Porto, entre outras atribuições previstas na Lei 8.630/93 fiscalizar as operações portuárias, zelando para que os serviços se realizem com regularidade, eficiência, segurança e respeito ao meio ambiente. 35. Atracação e desatracação de navios – Nesta etapa ocorre a atracação/desatracação do navio com o auxílio da praticagem e os rebocadores. Nessa etapa, o armador, independentemente de ser ou não proprietário da embarcação, deve promover a equipagem do navio e demais procedimentos, disponibilizando-o apto para navegação. É ação de se “estacionar” a embarcação no cais do porto para que se possa realizar a operação (carregar e descarregar mercadorias). Finalizada a operação, a embarcação será desatracada e seguirá viagem. 36. Pátios de estocagem, Píeres e armazéns E Ferrovia 37. Carga e Descarga de produtos e mercadorias - Diz respeito ao carregamento/descarregamento dos produtos na planta, terminal e porto. Nessa etapa, o contratante do transporte e/ou unidade produtora são os responsáveis pelo carregamento/descarregamento dos produtos/mercadorias os pátios, terminais e portos. 38. Transporte – Nesta etapa ocorre o transporte dos produtos/mercadorias carregados e descarregados nos pátios, terminais e portos. 39. Oficinas, pontos de abastecimento e entrepostos Como as descrições deixam claro, trata-se de etapas que envolvem a logística de transporte e de exportação dos produtos minerais comercializados pela recorrente, em especial o minério de ferro; as atividades envolvendo ferrovias e portos, em que pese inegavelmente fundamentais para o escoamento da produção, não são parte da etapa produtiva. Em laudo encomendado pela recorrente à consultoria LCA (fls. 1955 e ss.), lê-se que: Na prática, a estrutura de ferrovia e porto que é utilizada para o escoamento do minério de cada mina é a única economicamente viável, considerando os volumes elevados a serem transportados e a necessidade de manter controlado o custo de logística. Além disso, no Parecer Técnico da UNICAMP juntado aos autos (Doc. 1 da Manifestação de Inconformidade), na parte relativa aos Terminais Ferroviários, em diversos pontos, ressalta-se a relevância dos trens para a “transferência do minério de ferro beneficiado”, pois sua ausência provocaria “uma ruptura e cessão de todo o sistema operacional da empresa”. O mesmo Parecer Técnico da UNICAMP deixa claro que o transporte ferroviário é o meio de escoamento até os portos para fins de expedição ao cliente. Fl. 3230DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 55 Portanto, está claro, inclusive na documentação técnica acostadas aos autos pela própria recorrente, que as despesas incorridas com o transporte ferroviário não fazem parte da etapa produtiva do minério, mas são posteriores a ela. Não se contesta a essencialidade do transporte ferroviário para a viabilidade da atividade econômica desempenhada pela recorrente. A questão relevante para fins de creditamento a título de insumo, no entanto, encerra-se com a análise da essencialidade ou relevância para a atividade produtiva do minério de ferro, não abrangendo outras etapas necessárias à realização de sua atividade. O escoamento é justamente o transporte, a movimentação do produto do ponto de produção até outra localidade de interesse, no caso os portos, para exportação dos produtos. Por sua vez, com relação às operações portuárias, consta do referido Parecer Técnico que: Ainda, as figuras 33a e 33b do Parecer deixam claro que as operações portuárias se tratam de operações de recebimento, descarregamento, transferência, estocagem temporária e embarque do minério de ferro. Fl. 3231DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 56 Como se vê, assim como no caso do transporte ferroviário, trata-se de operações logísticas relacionadas à expedição do produto ao cliente, por meio de exportações, nada tendo a ver com o processo produtivo do minério de ferro em si. Em essência, trata-se de despesas portuária na operação de exportação, em relação às quais não cabe desconto de créditos. Nesse sentido: Acórdão 9303-015.265, de 10/06/2024, Rel. Cons. Alexandre Freitas Costa Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 [...] CRÉDITOS. DESPESAS PORTUÁRIAS. OPERAÇÕES DE EXPORTAÇÃO. NÃO CABIMENTO. Não há como caracterizar que esses serviços portuários de exportação seriam insumos do processo produtivo para a produção de açúcar e álcool. Não se encaixarem no conceito quanto aos fatores essencialidade e relevância, na linha em que decidiu o STJ. Tais serviços não decorrem nem de imposição legal e nem tem qualquer vínculo com a cadeia produtiva do Contribuinte. Por fim, o Parecer Técnico da UNICAMP deixa claro que a empresa desenvolve um modelo de negócios integrando as etapas de produção e beneficiamento do minério com a sua expedição, conforme excerto abaixo, retirado das conclusões do parecer. Fl. 3232DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 57 Repise-se: não se nega o fato de a empresa incorrer em relevantes despesas com o transporte ferroviário e com operações portuárias na exportação do minério de ferro que produz. No entanto, como foi visto, a legislação prevê a apropriação de créditos das contribuições, a título de insumo, apenas em relação a despesas com bens e serviços utilizados na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. A etapa de expedição do minério de ferro beneficiado, por meio de ferrovias e terminais portuários, é posterior à produção do produto destinado à venda, qual seja, o minério de ferro. Nesses casos, a recorrente não presta serviços ferroviários ou portuários, a mercadoria objeto de comercialização é o minério de ferro. O que a recorrente pretende é a ampliação do conceito etapa produtiva para abarcar também a logística envolvida em sua operação, a qual entendo não ser possível em vista da clareza da legislação de regência. A 3ª Turma da Câmara Superior deste Conselho já teve a oportunidade de apreciar caso semelhante da mesma recorrente em 2023, tendo sido negado o direito ao crédito, em decisão assim ementada: Acórdão 9303-013.921, de 11/04/2023, Rel. Cons. Vanessa Marini Cecconelo, Red. Desig. Cons. Rosaldo Trevisan CRÉDITOS. DESPESAS COM FRETES. TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS. IMPOSSIBILIDADE. JURISPRUDÊNCIA ASSENTADA E PACÍFICA DO STJ. Conforme jurisprudência assentada, pacífica e unânime do STJ, e textos das leis de regência das contribuições não cumulativas (Leis no 10.637/2002 e no 10.833/2003), não há amparo normativo para a tomada de créditos em relação a fretes de transferência de produtos acabados entre estabelecimentos. CRÉDITOS. DESPESAS COM SERVIÇOS PORTUÁRIOS NA EXPORTAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. RAZÕES SEMELHANTES ÀS ADOTADAS EM JURISPRUDÊNCIA ASSENTADA E PACÍFICA DO STJ, PARA FRETES DE TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS. Conforme jurisprudência assentada, pacífica e unânime do STJ, e textos das leis de regência das contribuições não cumulativas (Leis no 10.637/2002 e no 10.833/2003), não há amparo normativo para a tomada de créditos em relação a fretes de transferência de produtos acabados entre estabelecimentos, visto que tais despesas não constituem insumos ao processo produtivo, por ocorrerem posteriormente a tal processo, e nem constituem fretes de venda. A mesma razão de decidir se presta aos serviços portuários na exportação, que são despesas incorridas após o processo produtivo, não se enquadrando nem como insumos à atividade produtiva, nem como fretes de venda. Vale dizer que a etapa de transferência ferroviária do minério até o porto, na ocasião, foi abordada justamente sob a perspectiva de frete de produto acabado, portanto a Fl. 3233DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 58 premissa adotada à época foi a que se tratava de fase posterior à finalização do processo produtivo. Por fim, com relação ao argumento da recorrente de que, mesmo que se entendesse que as despesas incorridas com as etapas “ferrovia” e “porto” são posteriores à produção, o crédito seria devido, pois a existência de estradas de ferro e rodovias seriam requisitos legais, previstos no Código Minerário, para a autorização da lavra, o que enquadraria as referidas despesas na exceção mencionada nos itens 57 e 58 do Parecer Normativo Cosit nº 05/2018, entendo que não é o caso. Em que pese o Parecer Normativo excepcione algumas despesas incorridas em momento posterior à produção por imposição legal, trazendo, como exemplos “exigência de testes de qualidade a serem realizados por terceiros (por exemplo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – Inmetro), aposição de selos, lacres, marcas, etc., pela própria pessoa jurídica ou por terceiro”, ele expressamente exclui a possibilidade de creditamento de despesas com transporte de produtos acabados, consignando que: [...] em regra somente podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins bens e serviços utilizados pela pessoa jurídica no processo de produção de bens e de prestação de serviços, excluindo-se do conceito os dispêndios realizados após a finalização do aludido processo, salvo exceções justificadas. 56. Destarte, exemplificativamente não podem ser considerados insumos gastos com transporte (frete) de produtos acabados (mercadorias) de produção própria entre estabelecimentos da pessoa jurídica, para centros de distribuição ou para entrega direta ao adquirente [...] (grifo nosso) Ante o exposto, nego provimento ao capítulo recursal relativo à tomada de crédito em relação às despesas ferroviárias e portuárias para o escoamento de produção. 2. Créditos relativos aos contratos de arrendamento A autoridade fiscal também glosou créditos relativos a contraprestações de arrendamento mercantil escriturados no registro F100 da EFD-Contribuições. Conforme consta do Relatório Fiscal, trata-se de operações escrituradas, na contabilidade da recorrente, na conta “5030500012 - Arrendamento (Leasing) Operacional”, contratadas com as seguintes pessoas jurídicas: Fl. 3234DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 59 A glosa se deu em função de a autoridade ter entendido que os negócios jurídicos em questão não preenchem os requisitos estipulados nos arts. 2º e 5º da Lei nº 6.099/1974 e nos arts. 1º e 7º da Resolução BACEN nº 2.309/1996, de maneira que não podem ser considerados arrendamento mercantil para fins tributários. De maneira complementar, o Auditor-Fiscal verificou a possibilidade de as despesas relativas às operações em questão gerarem créditos a título insumos (art. 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003) ou de aluguel de prédios, máquinas e equipamentos (art. 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003), concluindo negativamente para ambas as hipóteses. Com relação à primeira hipótese – insumos - concluiu que “nos contratos em questão, o objeto é a cessão do direito de uso de ativos [...] Assim, por não representar uma aquisição de bens ou de serviços, não há que se falar em insumos”. Já em relação à possibilidade de tomada de crédito a título de alugueis, afirmou que: [...] os contratos apresentados têm como objeto direitos mineratórios, instalações e estabelecimentos inteiros, usinas de pelotização e todos os ativos pertencentes aos referidos estabelecimentos necessários a suas operações. [...] O aluguel desses estabelecimentos em geral ("universalidades de bens") engloba muitos bens que não se subsumem ao conceito de prédios, máquinas e equipamentos, como pode ser observado nos contratos apresentados, tais como os direitos mineratórios e muitos dos bens relacionados nos anexos dos contratos, como móveis, licenças de software, linhas telefônicas e veículos. [...] Desta forma, considerando que os contratos não se referem unicamente a aluguel de prédios, máquinas e equipamentos e que não há como separar os dispêndios relativos aos contratos daqueles referentes ao pagamento pelos direitos de mineração ou pelos bens não enquadrados nestas categorias, como os veículos, por exemplo, não cabe o aproveitamento de crédito das contribuições relativamente a tais gastos. A recorrente impugnou tais glosas em sua, argumentando favoravelmente a seu direito em relação às três hipóteses de creditamento: arrendamento, aluguel e insumo. 2.1. Da impossibilidade de crédito na hipótese de arrendamento mercantil Em sua manifestação de inconformidade, a recorrente alegou que o entendimento de que os contratos não preenchiam os requisitos dos arts. 2º e 5º da Lei nº 6.099/1974 e nos arts. 1º e 7º da Resolução BACEN nº 2.309/1996, utilizados pela autoridade fiscal, seria “excessivamente restritivo” e que a referida lei “não veicula um conceito amplo que tenha pretensões de aplicabilidade irrestrita no ordenamento jurídico”. O acórdão recorrido não acatou os argumentos. Após fazer uma análise dos contratos celebrados pela recorrente, conclui que: Fl. 3235DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 60 [...] os contratos celebrados possuem cláusulas que os descaracterizam como contrato de arrendamento mercantil para fins de creditamento das contribuições. Os referidos contratos foram firmados entre partes coligadas ou interdependentes e as arrendadoras não são instituições financeiras ou pessoas jurídicas cujo objeto principal é a prática de operações de arrendamento mercantil, contrariando a Lei nº 6.099, de 1974 [...] Diferentemente do que argumenta a recorrente, o conceito de arrendamento mercantil dado pelo art. 1º da Lei nº 6.099, de 1974, é amplo [...] [...] o conceito de arrendamento mercantil dado pelo art. 1º da Lei nº 6.099, de 1974 aplica-se tanto ao financeiro quanto ao operacional Em seu recurso voluntário, a recorrente volta a se insurgir, alegando: 1. Que já havia sido fiscalizada em período anterior e que o mesmo crédito fora aceito, de maneira que teria havido inovação ou mudança de critério jurídico; 2. Que a Lei nº 6.099/1974 e Resolução BACEN 2.309/1996 não veiculam um conceito amplo de arrendamento mercantil. Esses diplomas tratariam do arrendamento mercantil financeiro, porém o caso dos autos é de arrendamento mercantil operacional; Entendo que não prosperam as alegações. Não há que falar em mudança de critério jurídico entre atos administrativos distintos e relativos a fatos também distintos, que dizem respeito a períodos de apuração anteriores ao analisado nestes autos. Além disso, equivoca-se a recorrente ao afirmar que a Lei nº 6.099/1974 não veicula um conceito amplo de arrendamento, de maneira que se referiria apenas ao arrendamento mercantil financeiro. A referida lei é clara em seu art. 1º ao dispor que “o tratamento tributário das operações de arrendamento mercantil reger-se-á pelas disposições desta Lei”. Ademais, o §1º do mesmo artigo 1º traz a seguinte definição de arrendamento mercantil: Considera-se arrendamento mercantil, para os efeitos desta Lei, o negócio jurídico realizado entre pessoa jurídica, na qualidade de arrendadora, e pessoa física ou jurídica, na qualidade de arrendatária, e que tenha por objeto o arrendamento de bens adquiridos pela arrendadora, segundo especificações da arrendatária e para uso próprio desta. Não há qualquer distinção entre arrendamento mercantil financeiro e arrendamento mercantil operacional, ambos são espécies do gênero arrendamento mercantil, disciplinado pela Lei nº 6.099/1974, de maneira que os requisitos de seus arts. 5º e 6º são plenamente aplicáveis para fins do aproveitamento de crédito com base no art. 3º, inciso V, da Lei nº 10.833/2003. Fl. 3236DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 61 Assim, não há reforma a fazer na decisão recorrida. 2.2. Da impossibilidade de crédito na hipótese de insumos A autoridade fiscal analisou a possibilidade de as despesas relativas às operações denominadas pela recorrente como “arrendamento mercantil” gerarem créditos a título insumos (art. 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003), mas concluiu que: [...] por não representar uma aquisição de bens ou de serviços, não há que se falar em insumos e nem mesmo nos critérios aplicados aos mesmos pela já mencionada decisão do STJ (essencialidade ou relevância). A recorrente defende que: [...] verifica-se a subsunção dos arrendamentos operacionais de estabelecimentos e de direitos minerários como serviços utilizados como insumos, uma vez que se trata de atividade prestada por uma pessoa jurídica a outra pessoa jurídica mediante retribuição. Continua em seu recurso para defender que a cessão de direito de uso, como é o caso, poderia caracterizar prestação de serviço. Traz decisão do Supremo Tribunal Federal para corroborar sua alegação e concluir que, em sendo serviço, o objeto da glosa também daria direito a crédito sob o prisma de insumo. Por esse ângulo, também não vejo assistir razão à recorrente. Como se infere dos contratos de fls. 1412-1701, trata-se de verdadeiros contratos de locação. Na locação de bens, a obrigação do locador é de ceder ao locatário, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de coisa não fungível, mediante certa retribuição. Não se trata, portanto, de prestação de serviço, em que o prestador assume com o tomador uma obrigação de fazer, tampouco de produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Também é esse o entendimento esposado na Solução de Consulta COSIT nº 218/2019: 12. A esse respeito, o entendimento do STF tem sido no sentido de que a simples locação de bens móveis, desacompanhada da prestação de serviços, não caracteriza obrigação de fazer, ou seja, não se trata de prestação de serviço. Assim, a simples locação de bem móvel não poderia ser enquadrada como prestação de serviços, pois lhe faltaria o elemento essencial, qual seja, a efetiva prestação do serviço. Na locação que não envolve, cumulativamente, a prestação de serviços, a obrigação do locador consiste na entrega da coisa ao locatário (obrigação de dar). Assim, não há que falar em insumo em relação aos objetos dos referidos contratos. Dessa forma, não há reforma a fazer na decisão recorrida relativamente a este tópico. 2.3. Da impossibilidade de crédito na hipótese de aluguel Fl. 3237DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 62 A autoridade fiscal também verificou a possibilidade de as despesas relacionadas aos contratos denominados de “arrendamento mercantil” serem passíveis de apropriação de crédito com base no art. 3º, inciso IV, da Lei nº 10.833/2003, que prevê o desconto de crédito em relação às despesas com “aluguel de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”. A autoridade fiscal entendeu que a natureza dos contratos é de aluguel, mas eles têm como objeto uma universalidade de bens que “engloba muitos bens que não se subsumem ao conceito de prédios, máquinas e equipamentos, [...] como os direitos mineratórios e muitos dos bens relacionados nos anexos dos contratos, como móveis, licenças de software, linhas telefônicas e veículos”. Dessa forma, como “[...] os contratos não se referem unicamente a aluguel de prédios, máquinas e equipamentos e que não há como separar os dispêndios relativos aos contratos daqueles referentes ao pagamento pelos direitos de mineração ou pelos bens não enquadrados nestas categorias, como os veículos, por exemplo [...]”, o direito ao crédito não foi reconhecido no despacho decisório. A recorrente impugnou também esse ponto, alegando que “[...] no tocante aos arrendamentos de estabelecimentos, estes indubitavelmente incluem prédios, máquinas e equipamentos” e que, ainda que houvesse bens que não se enquadram nessas categorias, a fiscalização deveria ter reconhecido o crédito proporcionalmente aos bens que a elas se subsomem. O acórdão recorrido, no entanto, não acatou as razões de defesa apresentadas e manteve as glosas. Inconformada, a recorrente voltou a se insurgir contra as glosas no Recurso Voluntário sob julgamento, afirmando que “a hipótese de tomada de crédito é amparada tanto no inciso IV, do art. 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, quanto nos incisos II e V”. Argumentou que: A recorrente despende páginas argumentando que o arrendamento objeto dos contratos equivaleria a um aluguel. Registre-se, no entanto, que isso sequer é matéria controversa nos autos; o indeferimento do crédito a título de aluguel se deveu não pelo fato dos contratos não terem natureza de aluguel, mas sim por haver bens que não se enquadram nas categorias de “prédios, máquinas e equipamentos”, únicas em relação às quais a locação enseja o creditamento. Novamente, a recorrente repisa o argumento de que: [...] ainda que houvesse bens, constantes dos contratos, que não se enquadrassem no amplo conceito de prédios, máquinas e equipamentos, jamais poderia prevalecer o argumento da fiscalização no sentido de que nenhum crédito seria devido, por suposta impossibilidade de segregação dos bens. Fl. 3238DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 63 [...] Deveria, sim, o fiscal, com base no entendimento que apresenta, proporcionalizar as despesas, e não glosar a totalidade dos créditos sob o inverídico argumento de que seria impossível a segregação. Pois bem. Analisando os contratos anexados às fls. 1412-1701, verifica-se que, de fato, eles têm por objeto uma “universalidade de bens”, como menciona o Relatório Fiscal. Vejamos. O contrato da com a Baovale tem por objeto “direitos minerários do Complexo Mineiro de Água Limpa, bem como dos bens e das instalações fixas especificadas no Anexo I”. Além de fazer menção a direitos minerários, não foi encontrado o referido anexo I, que traria a especificação dos bens e das instalações que fariam parte do contrato. Já o contrato com a Hispanobras tem por objeto uma Usina de Pelotização com “todas as instalações, bens e equipamentos, materiais, peças, peças sobressalentes e outros itens registrados e existentes na Usina de Pelotização na data de transferência, todos identificados no Anexo I”. Analisando-se o referido anexo, constata-se que há na lista itens como “Apartamento – Praia do Canto”, banheira com hidromassagem, diversos itens descritos genericamente como “imobilizações”, vídeo cassete, cadeiras etc. O contrato com a Itabrasco segue a mesma linha, com a relação de bens objeto de “arrendamento” em um anexo ao final. Nela, encontra-se itens como correção monetária, alimentação outros gastos, estocagem outros gastos, filtragem outros gastos, variação cambial, telefone etc. Por sua vez, o contrato com a Kobrasco, tem como anexo uma relação de bens que em que se lê na parte superior direita “Kobrasco_Inventário_Ativo_Imobilizado_em_31_05_2008”. Analisando a relação dos bens, encontra-se itens como veículos, licenças de software, mesas, aparelho de ar condicionado, mesa de jantar, freezer etc. Outros itens de inventário causam estranheza, pois estão registrados como “demais despesas pré-operacionais”, “modernização parque automação sala”, “obras civis – moagem”, “obras civis – filtragem”, “montagem – subestação forno”. Já o contrato com a MBR tem por objeto os “estabelecimentos identificados no Anexo I”. Por fim, o contrato com a Nibrasco, da mesma forma que os anteriores, possui ao final um anexo com a relação dos bens objeto do contrato. Nesse caso, a descrição dos bens está em inglês, mas é possível verificar na lista computadores, mobiliário, itens referentes a instalações industriais etc. Fl. 3239DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 64 Como se vê, tem razão a autoridade fiscal ao afirmar que os contratos tem por objeto uma universalidade de bens e que é inviável fazer a segregação e a proporcionalização com base nos documentos apresentados. Em todos os casos, há, claramente, bens que não se subsomem aos conceitos de prédios, máquinas e equipamentos. Nesse contexto, releva destacar que o ônus de comprovar o direito creditório pleiteado é da recorrente, nos termos do art. 36 da Lei nº 9.784/1999 e do art. 373, inciso I, do CPC, aplicável subsidiariamente ao processo administrativo fiscal. Nesse sentido: Acórdão 9303-015.440, de 13/06/2024, Relatora Cons. Liziane Angelotti Meira ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 [...] DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. Em se tratando de direito creditório, é do interessado o ônus da prova, conforme previsto na legislação processual administrativa e civil (art. 36 da Lei 9.784/99 e art. 333, I, do antigo CPC). (grifo nosso) Dessa forma, correto o entendimento do acórdão recorrido de que Caberia à manifestante ter segregado os dispêndios com o aluguel de prédios, máquinas e equipamentos daqueles tais como os direitos minerários e outros bens relacionados nos anexos dos contratos. Isso se faz necessário ante o ônus que toca ao contribuinte de demonstrar minudentemente a natureza e origem do crédito que pleiteia, incabível a inversão de tal ônus, como pretende a manifestante. Ante o exposto, nego provimento ao recurso nesse tópico recursal. 3. Créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado Também houve glosa de créditos relacionados a bens incorporados ao ativo imobilizado e escriturados nos registros F120 (Operações Geradoras de Créditos com base nos Encargos de Depreciação/Amortização) e F130 (Operações Geradoras de Créditos com base no Valor de Aquisição) da EFD-Contribuições. Os itens glosados dizem respeito a i) crédito de bens incorporados à infraestrutura logística (não utilizados em áreas do processo produtivo – Fluxos FERROVIA e PORTO), e ii) parcela relativa à diferença de prazo de apropriação do crédito relativo a edificações e benfeitorias realizadas em áreas administrativas ou na infraestrutura logística. 3.1. Créditos de bens incorporados à infraestrutura logística Trata-se aqui de glosas de créditos relativos a máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, apurados pela recorrente sobre o valor integral de aquisição, no caso das máquinas e equipamentos, com base no art. 1º da Lei nº 11.774/2008 Fl. 3240DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 65 (registros F130), ou sobre o valor dos encargos de depreciação mensais, no caso dos demais bens (registros F120). A partir de informações prestadas pela recorrente, a autoridade fiscal constatou que essas máquinas, equipamentos e outros bens são utilizados na infraestrutura logística da empresa, que, como já visto, compreende as etapas de ferrovia e porto de sua atividade. Por isso, entendeu que não são empregados na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços quando a referida infraestrutura é utilizada para escoamento de produção própria, requisito para a tomada do crédito. Vale dizer, no entanto, que, como a infraestrutura logística é utilizada de forma residual para a prestação de serviços a terceiros, foram aplicados percentuais de rateio, validando-se o crédito de maneira proporcional, conforme detalhado no DEMONSTRATIVO F, anexo ao Relatório Fiscal. A recorrente impugnou as glosas, argumentando em sua Manifestação de Inconformidade que a fiscalização procedeu “sem que fosse observado novamente o processo produtivo da Impugnante”, defendendo que as etapas de ferrovia e porto são etapas do processo produtivo de minério. O acórdão recorrido, por sua vez, manteve as glosas sob o mesmo entendimento do despacho decisório, enfatizando que dispositivo com base no qual a recorrente pretende se creditar “não se aplica para os ativos utilizados nos fluxos “Porto” e “Ferrovia” que, conforme já fundamentado este Voto, não são etapas do processo de produção de minério”. Em seu recurso voluntário, a recorrente volta a se insurgir contra as glosas, alegando que: [...] as referidas glosas são resultantes tão somente do entendimento equivocado quanto ao processo produtivo da Recorrente e a desconsideração das etapas referentes às fases de FERROVIA/PORTO. [...] [...] o processo produtivo da Recorrente é altamente complexo, integrado e indissociável sendo que o trinômio mina-ferro-porto conformador do processo produtivo da Recorrente, devendo haver o cumprimento das respectivas etapas desde a extração do minério até o embarque. Como se vê, a matéria de fundo determinante para o deslinde aqui é a mesma da que já foi discutida no tópico “1.2 Da impossibilidade de crédito de insumo na infraestrutura logística para escoamento da produção”, qual seja: a compreensão ou não das etapas ferrovia e porto, que compõem a infraestrutura logística da recorrente, como etapas de seu processo produtivo. A matéria já foi explorada no tópico 1.2 acima, de maneira que, a fim de evitar repetições desnecessárias, faço remissão aos fundamentos expostos naquele tópico, em que restou concluído que a infraestrutura logística, em que pese sua importância na atividade econômica da empresa, não está inserida na etapa de produção de bens da recorrente. Fl. 3241DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 66 Assim, nego provimento a este tópico recursal. 3.2. Créditos de edificações e benfeitorias nas áreas administrativas ou de infraestrutura logística Foram glosados, ainda, créditos apurados sobre edificações e benfeitorias com base no art. 6º da Lei nº 11.488/2007, que prevê o desconto do crédito no prazo de 24 meses na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Conforme consta do Relatório Fiscal, a autoridade constatou que que se trata de “imobilizações em edificações nas áreas administrativas e na infraestrutura logística da empresa, isto é, em ativos empregados nas atividades de escoamento ou distribuição da produção (“negócios” PORTO e FERROVIA, fluxos “D” e “E”)”. Dessa forma, entendeu, da mesma forma que as máquinas e equipamentos do tópico anterior, que as edificações e benfeitorias não eram utilizadas na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviço. Vale dizer que a fiscalização, embora tenha desconsiderado o desconto em 24 parcelas dos créditos das contribuições sobre tais edificações e benfeitorias, concedeu os créditos com base na depreciação usual. A recorrente impugnou as glosas em sua Manifestação de Inconformidade, alegando que a autoridade fiscal não teria analisado seu processo produtivo, “o qual não se esgota no escoamento (extração), mas apenas com a exportação final”. O acórdão recorrido, por seu turno, manteve as glosas, entendendo que “mais uma vez, não procede a pretensão da recorrente de considerar as atividades realizadas nos fluxos “Ferrovia” e “Porto” como etapas integrantes do processo produtivo de mineração”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente repisa os argumentos trazidos na Manifestação de Inconformidade, e alega que: [...] contrariamente ao que defendido pelo acórdão, tais edificações, benfeitorias, infraestrutura logística, ativos empregados nas atividades de escoamento ou distribuição da produção, máquinas e equipamentos não só são relevantes, como essenciais as atividades da Recorrente, dentre elas a de escoamento da sua produção. Mais uma vez, considero que não merecem acolhida os argumentos da recorrente. No caso sob análise, o desconto de créditos foi efetuado com base no regime do art. 6º da Lei nº 11.488/2007, que permite o desconto mensal de créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS calculados sobre o valor correspondente a 1/24 (um vinte e quatro avos) do custo de aquisição ou de construção da edificação. Art. 6º As pessoas jurídicas poderão optar pelo desconto, no prazo de 24 (vinte e quatro) meses, dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins de que tratam o inciso VII do caput do art. 3º da Lei no 10.637, de 30 de dezembro de Fl. 3242DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-003.579 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.902980/2020-47 67 2002, e o inciso VII do caput do art. 3º da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003, na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (Vide Lei Complementar nº 214, de 2025) § 1º Os créditos de que trata o caput deste artigo serão apurados mediante a aplicação, a cada mês, das alíquotas referidas no caput do art. 2º da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, ou do art. 2º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, conforme o caso, sobre o valor correspondente a 1/24 (um vinte e quatro avos) do custo de aquisição ou de construção da edificação. Como se vê, trata-se de regime aplicável especificamente a edificações utilizadas na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços, que, por isso mesmo, é mais benéfico do que regra geral do art. 3º, inciso VII e §1º, inciso III, da Lei nº 10.833/2003, que prevê o creditamento sobre o valor do encargos de depreciação das edificações e benfeitorias utilizadas em imóveis utilizados nas atividades da empresa. Mais uma vez, tem-se como matéria de fundo determinante para o deslinde aqui a compreensão ou não das etapas ferrovia e porto, que compõem a infraestrutura logística da recorrente, como etapas de seu processo produtivo. Dessa forma, a fim de evitar repetições desnecessárias, faço, mais uma vez, remissão aos fundamentos expostos no tópico 1.2 deste voto, em que restou concluído que a infraestrutura logística não está inserida na etapa de produção de bens da recorrente. Assim, nego provimento também a este tópico recursal. É como voto. Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha Fl. 3243DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor 1. Créditos de insumos para a infraestrutura logística para escoamento da produção 1.1. Do conceito de insumo 1.2. Da impossibilidade de crédito de insumo na infraestrutura logística para escoamento da produção 2. Créditos relativos aos contratos de arrendamento 2.1. Da impossibilidade de crédito na hipótese de arrendamento mercantil 2.2. Da impossibilidade de crédito na hipótese de insumos 2.3. Da impossibilidade de crédito na hipótese de aluguel 3. Créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado 3.1. Créditos de bens incorporados à infraestrutura logística 3.2. Créditos de edificações e benfeitorias nas áreas administrativas ou de infraestrutura logística
score : 1.0
Numero do processo: 10805.906865/2020-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Mar 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed May 13 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2016
COMPENSAÇÃO. IRRF. COMPROVAÇÃO POR MEIOS ALTERNATIVOS. SÚMULA CARF Nº 143.
É admissível a comprovação do IRRF por meios diversos do comprovante emitido pela fonte pagadora, conforme dispõe a Súmula CARF nº 143. Apresentado acervo probatório consistente, deve-se buscar a verdade material. Determina-se o retorno a unidade de origem para emissão de despacho complementar que considere as provas apresentadas pela Recorrente.
Numero da decisão: 1102-001.962
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que a autoridade fiscal, a par da documentação probatória reunida no processo, manifeste-se, mediante prolação de despacho decisório complementar, sobre o direito creditório reclamado, retomando-se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, tudo nos termos do voto condutor. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.956, de 27 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 10805.900765/2021-72, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires McNaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva(Presidente).
Nome do relator: FERNANDO BELTCHER DA SILVA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2016 COMPENSAÇÃO. IRRF. COMPROVAÇÃO POR MEIOS ALTERNATIVOS. SÚMULA CARF Nº 143. É admissível a comprovação do IRRF por meios diversos do comprovante emitido pela fonte pagadora, conforme dispõe a Súmula CARF nº 143. Apresentado acervo probatório consistente, deve-se buscar a verdade material. Determina-se o retorno a unidade de origem para emissão de despacho complementar que considere as provas apresentadas pela Recorrente.
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IRRF. COMPROVAÇÃO POR MEIOS ALTERNATIVOS. SÚMULA CARF Nº 143. É admissível a comprovação do IRRF por meios diversos do comprovante emitido pela fonte pagadora, conforme dispõe a Súmula CARF nº 143. Apresentado acervo probatório consistente, deve-se buscar a verdade material. Determina-se o retorno a unidade de origem para emissão de despacho complementar que considere as provas apresentadas pela Recorrente. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que a autoridade fiscal, a par da documentação probatória reunida no processo, manifeste- se, mediante prolação de despacho decisório complementar, sobre o direito creditório reclamado, retomando-se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, tudo nos termos do voto condutor. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.956, de 27 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 10805.900765/2021-72, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires McNaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva(Presidente). Fl. 18332DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.962 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10805.906865/2020-21 2 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que acolhera em parte o(s) Pedido(s) de Compensação(ões) apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de IRPJ. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2016 COMPROVAÇÃO DE RETENÇÃO NA FONTE. DOCUMENTAÇÃO NECESSÁRIA. NÃO OCORRÊNCIA. É imprescindível que o meio de prova tenha o lastro em informações de terceiros, como os comprovantes de rendimentos, ou, na falta destes, de documentação bancária lastreada na escrita fiscal que demonstre que o contribuinte recebeu os valores, contabilizando-os corretamente, receitas e os tributos a recuperar. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2016 DILIGÊNCIA. PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. Indefere-se o pedido de diligência ou perícia, cuja realização revela ser prescindível para o deslinde do contencioso. Cientificado do acórdão recorrido, o Sujeito Passivo interpôs Recurso Voluntário solicitando, em síntese: Diante de todo exposto, requer seja o presente recurso recebido e julgado TOTALMENTE PROVIDO para: i) declarar que a Recorrente comprovou cabalmente as retenções (extratos bancários com o líquido recebido – Súmula 143, do CARF), bem como que as receitas que deram origem as retenções foram incluídas no cômputo do imposto a pagar no ano-calendário de 2016 (Súmula 80, do CARF), razão pela qual a compensação aqui debatida deve ser homologada na integralidade. Fl. 18333DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.962 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10805.906865/2020-21 3 É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e atende ao demais requisitos legais para sua admissibilidade. Assim, dele conheço. Mérito Nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional, a compensação de créditos tributários pode ser autorizada por lei, desde que respeitadas as condições e garantias nela estipuladas ou atribuídas à autoridade administrativa. Dentre os requisitos para o exercício desse direito pelo contribuinte, destacam-se a certeza e a liquidez do crédito alegado. Nesse sentido, a Súmula nº 80 do CARF, embora trate de IRPJ, mas perfeitamente aplicável no caso da CSLL, possibilita a dedução dos valores retidos na fonte quando comprovado o cômputo das receitas na base de cálculo da contribuição: Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. No que concerne ao Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), a comprovação tradicionalmente exigida consiste na apresentação do comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora. Contudo, reconhece-se a dificuldade prática enfrentada por contribuintes para obtenção desse documento, especialmente quando a fonte pagadora é relutante em fornecê-lo. Diante disso, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) consolidou o entendimento mais flexível por meio da Súmula nº 143, que dispõe: A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido dos rendimentos. Esse enunciado reflete evolução jurisprudencial orientada à busca da verdade material, sem descurar da segurança jurídica e da higidez do crédito tributário. A prova do IRRF, portanto, pode ser feita por outros meios, desde que idôneos, Fl. 18334DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.962 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10805.906865/2020-21 4 consistentes e suficientes à demonstração da ocorrência da retenção e do efetivo recolhimento do tributo. No caso concreto, observo que a Recorrente apresentou vasta documentação composta por: PER/DCOMP, ECF, livro razão analítico, balancete contábil, SPED, DCTF, informe de rendimentos, relatório de faturamento, extratos bancários com a informação do líquido recebido, notas fiscais de prestação dos serviços na ordem do despacho decisório para facilitar análise do valor bruto, do líquido recebido e comprovado pelos extratos bancários. E para facilitar a devida análise, a Recorrente elaborou planilha analítica com o nome do tomador, CNPJ, número da nota, valor bruto, valores retidos e o líquido recebido. Tal acervo probatório não apenas denota esforço diligente da defesa – como, inclusive, reconhecido pela própria DRJ – como também se mostra robusto o suficiente para justificar uma apuração mais aprofundada da correspondência entre os valores efetivamente retidos e aqueles informados na Declaração de Compensação (DCOMP). A rejeição automática dessas provas apenas pela ausência dos comprovantes formais emitidos pela fonte pagadora vai de encontro à ratio decidendi da Súmula nº 143 do CARF, bem como aos princípios do contraditório e da ampla defesa. Considerando a complexidade fática e documental dos autos, com centenas de documentos apresentados, e a prudência de se evitar a supressão de instância, entendo que o juízo sobre a suficiência e a regularidade dessas provas exige atuação técnica da unidade de origem. Assim, voto para dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para que o processo retome a unidade de origem para que esta, analisando o acervo probatório dos autos e, se for o caso, solicitando outros, emita despacho complementar, retomando o processo seu curso desde o início. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que a autoridade fiscal, a par da documentação probatória reunida no processo, manifeste-se, mediante prolação de despacho decisório complementar, sobre o direito creditório reclamado, retomando- se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, nos termos do voto. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Fl. 18335DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.962 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10805.906865/2020-21 5 Fl. 18336DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10880.945172/2013-22
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 10 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue May 12 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/07/2012 a 30/09/2012
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES.
Sendo identificada, na decisão embargada, vício a ser sanado, os embargos devem ser acolhidos e a contradição deve ser sanada.
Numero da decisão: 3101-004.517
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos para sanar o vício identificado, nos termos do voto condutor. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.510, de 10 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10880.905053/2016-80, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (Substituta), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO
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E FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/07/2012 a 30/09/2012 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES. Sendo identificada, na decisão embargada, vício a ser sanado, os embargos devem ser acolhidos e a contradição deve ser sanada. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos para sanar o vício identificado, nos termos do voto condutor. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.510, de 10 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10880.905053/2016-80, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (Substituta), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Fl. 822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.517 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.945172/2013-22 2 Trata-se de Embargos formalizados pelo DELEGADO DA DERAT EM SÃO PAULO/SP ao amparo do art. 116 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023. Os Embargos foram opostos em desfavor do Acórdão de Recurso Voluntário nº 3101-002.022, com a seguinte Ementa e decisão: RESSARCIMENTO. CRÉDITO NÃO ANALISADO EM SUA INTEGRALIDADE. DESPACHO DECISÓRIO NULO. Os atos e termos lavrados por pessoa incompetente, e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa ensejam nulidade. Demonstrado nos autos que o crédito indicado no PER possui diversas naturezas, cabe à fiscalização segregar as parcelas do crédito e manifestar-se indicando as razões para concessão ou negativa ao crédito, inclusive nº caso de concomitância, quando indicará o valor e matéria do crédito alcançado pela demanda judicial. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para determinar o retorno dos autos à Unidade de Origem para que seja proferido despacho decisório complementar com a análise dos créditos básicos e presumidos sobre os insumos (bens e serviços), adquiridos pela Recorrente, independente das decisões proferidas favoráveis ou desfavoráveis ao contribuinte nas ações judiciais relativas às questões da exclusão do ICMS e ISS na base de cálculo do PIS e da COFINS. O embargante alega a existência de vício que, em seu entender, deveria ser sanado por meio desses aclaratórios, em razão de inexatidão material. A questão é como deve ser a nova análise pela Unidade de Origem, pois verifica-se uma contradição sobre o tratamento a ser dado ao despacho decisório existente: se deve ser anulado totalmente ou apenas complementado. Isso porque o trecho final do voto e conclusão do acórdão declaram nulo o despacho decisório, assim como a ementa do acórdão. No entanto o Acórdão determina o retorno dos autos a unidade de origem para que seja proferido despacho decisório complementar. É o relatório. Fl. 823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.517 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.945172/2013-22 3 VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Admissibilidade Conforme explicita o Despacho de Admissibilidade, o processo foi encaminhado à Receita Federal em 19/12/2024 e retornaram ao CARF em 28/02/2025, com os Embargos. De acordo com o disposto no art. 116, §9º, inciso V do RICARF, a intimação presumida da autoridade embargante ocorreu em 17/01/2025, de modo que os Embargos de Declaração são intempestivos. Ocorre que a embargante caracteriza a peça também como Embargos Inominados, nos termos do art. 117 do RICARF, para o qual não há previsão regimental de prazo para interposição. Desta forma, recebidos os embargos inominados, deles tomo conhecimento. Analisando de forma mais detalhada o caso, verifico que há realmente uma contradição a ser sanada entre o dispositivo e o fundamento expresso na ementa quanto ao procedimento a ser adotado, se anulação ou complementação do Despacho Decisório. Observa-se que o trecho final do voto e conclusão do acórdão declaram nulo o despacho decisório: Para sanar esse vício identificado, o teor do acórdão deverá ser modificado, para que sua redação possa expressar, com clareza, o entendimento do Colegiado. Assim, a nova redação deverá ser a seguinte: ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso Fl. 824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.517 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.945172/2013-22 4 voluntário para ANULAR O ACÓRDÃO RECORRIDO E determinar o retorno dos autos à Unidade de Origem para que seja proferido novo despacho decisório, com a análise dos créditos básicos e presumidos sobre os insumos (bens e serviços), adquiridos pela Recorrente, independente das decisões proferidas favoráveis ou desfavoráveis ao contribuinte nas ações judiciais relativas às questões da exclusão do ICMS e ISS na base de cálculo do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por conhecer e acolher os Embargos para sanar o vício identificado na decisão embargada. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de acolher os embargos para sanar o vício identificado, nos termos do voto. Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Fl. 825DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
