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Numero do processo: 11516.004749/2007-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 04 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Exercício: 2004
Ementa:
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NORMAS PROCESSUAIS. PRELIMINAR. ARROLAMENTO DE BENS.
A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a
inconstitucionalidade de depósito ou arrolamento de bens diz respeito apenas à garantia de instância para proposição de recursos administrativos (§ 2º, do art. 33, do Decreto nº
70.235/72) não atingindo o arrolamento de bens a que se refere o artigo 64 da Lei nº 9.532, de 10/12/1997.
PRELIMINAR. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.
O direito de ampla defesa preconizada no artigo 5º, inciso LV, da
Constituição Federal protege os litigantes, ou seja, o sujeito passivo, com a instauração do litígio via apresentação da impugnação, na forma do artigo 14 do Decreto nº 70.235/72.
IRPJ. OMISSÃO DE RECEITAS. SUPRIMENTO DE CAIXA POR SÓCIOS. ORIGEM E EFETIVO TRÂNSITO NO NUMERÁRIO SUPRIDO.
Quando os sócios não comprovam a origem e o efetivo trânsito do
suprimento de caixa, o artigo 282 do RIR/99 autoriza a presunção de que aqueles recursos sejam receitas à margem da contabilidade da pessoa jurídica.
IRPJ. OMISSÃO DE RECEITAS. PASSIVO FICTÍCIO.
Caracteriza omissão de receitas, a manutenção no passivo, de obrigações cuja exigibilidade não seja comprovada, principalmente em forma de empréstimo de sócios, na forma do artigo 281, do RIR/99.
IRPJ. CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. JUROS PAGOS. EMPRÉSTIMOS REPASSADOS À EMPRESA INTERLIGADA OU COLIGADA. NECESSIDADE, NORMALIDADE E USUALIDADE DOS DISPÊNDIOS.
Não preenche os requisitos de necessidade, normalidade e usualidade, os juros pagos às instituições financeiras quando estes recursos são repassados para a empresa interligada e sem qualquer ônus financeiro.
IRPJ. POSTERGAÇÃO DE PAGAMENTO DE IMPOSTO. A tributação de uma receita operacional do ano-calendário de 2004 no ano-calendário
de 2006, sem a incidência de acréscimos legais relativas à multa e juros de mora, caracteriza postergação de pagamento de imposto e legitima a exigência da diferença de imposto.
LANÇAMENTOS REFLEXIVOS.
O decidido no lançamento principal estende-se aos lançamentos reflexivos fundados no mesmo fato objeto do lançamento matriz.
Numero da decisão: 1302-000.688
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso.
Matéria: IRPJ - AF - lucro real (exceto.omissão receitas pres.legal)
Nome do relator: IRINEU BIANCHI
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NORMAS PROCESSUAIS. PRELIMINAR. ARROLAMENTO DE BENS. A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a inconstitucionalidade de depósito ou arrolamento de bens diz respeito apenas à garantia de instância para proposição de recursos administrativos (§ 2º, do art. 33, do Decreto nº 70.235/72) não atingindo o arrolamento de bens a que se refere o artigo 64 da Lei nº 9.532, de 10/12/1997. PRELIMINAR. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. O direito de ampla defesa preconizada no artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal protege os litigantes, ou seja, o sujeito passivo, com a instauração do litígio via apresentação da impugnação, na forma do artigo 14 do Decreto nº 70.235/72. IRPJ. OMISSÃO DE RECEITAS. SUPRIMENTO DE CAIXA POR SÓCIOS. ORIGEM E EFETIVO TRÂNSITO NO NUMERÁRIO SUPRIDO. Quando os sócios não comprovam a origem e o efetivo trânsito do suprimento de caixa, o artigo 282 do RIR/99 autoriza a presunção de que aqueles recursos sejam receitas à margem da contabilidade da pessoa jurídica. IRPJ. OMISSÃO DE RECEITAS. PASSIVO FICTÍCIO. Caracteriza omissão de receitas, a manutenção no passivo, de obrigações cuja exigibilidade não seja comprovada, principalmente em forma de empréstimo de sócios, na forma do artigo 281, do RIR/99. IRPJ. CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. JUROS PAGOS. EMPRÉSTIMOS REPASSADOS À EMPRESA INTERLIGADA OU Fl. 1DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 359 2 COLIGADA. NECESSIDADE, NORMALIDADE E USUALIDADE DOS DISPÊNDIOS. Não preenche os requisitos de necessidade, normalidade e usualidade, os juros pagos às instituições financeiras quando estes recursos são repassados para a empresa interligada e sem qualquer ônus financeiro. IRPJ. POSTERGAÇÃO DE PAGAMENTO DE IMPOSTO. A tributação de uma receita operacional do anocalendário de 2004 no ano calendário de 2006, sem a incidência de acréscimos legais relativas à multa e juros de mora, caracteriza postergação de pagamento de imposto e legitima a exigência da diferença de imposto. LANÇAMENTOS REFLEXIVOS. O decidido no lançamento principal estendese aos lançamentos reflexivos fundados no mesmo fato objeto do lançamento matriz. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso MARCOS RODRIGUES DE MELLO Presidente. “documento assinado digitalmente” IRINEU BIANCHI Relator. “documento assinado digitalmente” Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Rodrigues de Mello (presidente da turma), Irineu Bianchi (vicepresidente), Daniel Salgueiro da Silva, Lavinia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira e Wilson Fernandes Guimarães. Relatório SOS CARDIO SERVIÇOS HOSPITALARES LTDA, devidamentee qualificada nos autos, inconformada com a decisão de 1° grau proferida 3ª Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis (SC), apresenta recurso voluntário a este Colegiado, objetivando à reforma da mesma. A exigência inicial dizia respeito aos seguintes tributos e contribuições: TRIBUTOS LANÇADO JUROS MULTAS TOTAIS Fl. 2DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 360 3 IRPJ 316.120,84 123.129,06 237.090,62 676.340,52 CSLL 108.555,26 42.282,27 81.416,44 232.253,97 PIS/FAT 6.786,33 3.111,74 5.089,72 14.987,79 COFINS 31.321,61 14.362,18 23.491,20 69.174,99 462.784,04 182.885,25 347.087,98 992.757,27 A autuada conformou com a exigência relacionada com a falta de escrituração de notas fiscais e considerada receita omitida no valor de R$ 12.254,40, apontadas as fls. 125 do Termo de Verificação Fiscal e recolheu os tributos devidos. Os valores originais de crédito tributário em litígio foram reduzidos para R$ 313.057,24 (IRPJ), R$ 6.706,67 (PIS/FATURAMENTO), R$ 107.452,37 (CSLL) e R$ 30.953,98 (COFINS) acrescidos de multa de 75% e de juros moratórios. Após a decisão de 1º grau, as bases de cálculo em litígio nestes autos podem ser sintetizadas no quadro demonstrativo abaixo, por período de fatos geradores para cada tributo. INFRAÇÕES APURADAS IRPJ CSLL PIS COFINS OMISSÃO DE RECEITAS 31/01/2004 14.000,00 14.000,00 Suprimento de Numerário por Sócios 29/02/2004 104.000,00 104.000,00 31/03/2001 50.000,,00 50.000,,00 30/04/2004 93.000,00 93.000,00 31/05/2004 110.000,00 110.000,00 30/06/2004 41.000,00 41.000,00 31/07/2004 154.000,00 154.000,00 31/10/2004 183.000,00 183.000,00 30/11/2004 90.000,00 90.000,00 SubTotal de Receitas Omitidas 31/12/2004 839.000,00 839.000,00 Passivo Ficticio 31/01/2004 58.199,47 58.199,47 31/07/2004 4.600,00 4.600,00 31/08/2004 10.000,00 10.000,00 30/09/2004 20.000,00 20.000,00 30/11/2004 100.000,00 100.000,00 SubTotal de Receitas Omitidas 31/12/2004 192.799,47 192.799,47 0 0 TOTAL DE RECEITAS OMITIDAS 1.031.799,47 1.031.799,47 CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS 31/12/2004 162.115,69 162.115,69 0 0 POSTERGAÇÃO NO PAGAMENTO 31/12/2004 199.921,10 199.921,10 0 0 TOTAIS 1.206.169,56 1.206.169,56 1.031.799,47 1.031.799,47 Conforme demonstrativo acima, foram imputadas duas infrações relativas a omissão de receitas por presunções estabelecidas nos artigo 281 e 282 do RIR/99 que podem ser sintetizadas nos seguintes termos: Fl. 3DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 361 4 1 omissão de receitas operacionais caracterizadas por recursos de caixa fornecidos pelos sócios, a título de empréstimos e cujas origens e efetiva entrega não foram comprovadas com documentação hábil no montante de R$ 839.000,00, correspondente à infração do artigo 282 do RIR/99; e, 2 omissão de receitas operacionais caracterizada como passivo fictício por se tratar de empréstimos realizados pelos sócios, sem comprovação da origem e nem da efetiva entrega do numerário no montante de R$ 192.799,50, correspondente à infração do artigo 281, do RIR/99. A terceira infração em litígio diz respeito a empréstimos bancários contratados pelo sujeito passivo e cujo numerário foi repassado a título de empréstimo para a coligada SOS CLINICA MÉDICA, onde os juros pagos foram apropriados como despesas operacionais e não foram computadas as receitas correspondentes de juros e, assim, a recorrente apropriouse de despesas de juros sobre numerários que não foram utilizados nas suas atividades operacionais. A outra infração referese a valores creditados como adiantamento para aumento de capital social, recebidos da empresa Anestesiologistas Associados Ltda, no ano calendário de 2004 e cujas obrigações não foram comprovadas apesar de intimado. Posteriormente este adiantamento foi estornado e tributado como receitas operacionais, no montante de R$ 199.921,10, no anocalendário de 2006. Face a esta constatação, a fiscalização entendeu que em verdade não se tratava de adiantamento para aumento de capital de futuro sócio, mas sim de receitas omitidas que foram contabilizadas como adiantamento para aumento de Capital Social e posteriormente, sob a alegação de que não foi realizado o aporte de capital e estornou o adiantamento a crédito de receitas operacionais que deveriam ter sido regulamente contabilizadas no anocalendário de 2002 e por esta razão, foi imputada a infração denominada postergação de pagamento de imposto, exigindose os respectivos encargos . Cientificada da decisão de 1º grau que houve por bem manter integralmente a exigência formulada, o sujeito passivo apresenta recurso voluntário (fls. 301/354), argüindo a nulidade da decisão de 1º grau tendo em vista que a autoridade julgadora não examinou os argumentos expostos na impugnação. Sustenta também a nulidade dos autos de infração por entender que a fiscalização não logrou identificar a infração e os fatos geradores dos tributos exigidos, insistindo que a fiscalização se originou de simples suspeita do Ministério Público Federal que, ao final se mostrou inteiramente inócua. Ainda na preliminar, argüi a ilegalidade do arrolamento de bens, por inobservância do disposto no artigo 64, da Lei nº 9.532/97 e, principalmente porque a exigibilidade do crédito tributário não foi confirmada por se encontrar em fase de discussão e, portanto, não foi constituído de forma definitiva. Ao final esclarece que consoante jurisprudência firmada pelo Supremo Tribunal Federal a autoridade administrativa não pode exigir arrolamento de bens como condição para o acesso a segunda instância administrativa. Fl. 4DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 362 5 No mérito, a recorrente insiste que a autoridade fiscal não demonstrou de forma clara e insofismável a ocorrência do respectivo fato gerador dos tributos na forma estabelecida no artigo 142, do CTN e, portanto, os autos contém vícios de lançamento ou de constituição do crédito tributário. Nestas condições, entende a recorrente que é inaplicável a tese da inversão do ônus da prova neste processo administrativo fiscal porque ofende aos princípios da capacidade contributiva e da vedação da cobrança de tributos com efeitos de confisco. A recorrente explicita que houve, no caso dos autos, ofensa ao principio da estrita legalidade porque aplicou a interpretação extensiva aos dispositivos legais e considerou como fatos geradores de tributação algumas operações nitidamente legais e justificadas. Faz veemente defesa de seu comportamento afirmando que simples suposição de irregularidade não é fato gerador de tributos e que a autoridade fiscal deve comprovar objetivamente a ocorrência dos respectivos fatos geradores, sob pena de arbitrariedade administrativa. Em seguida, especificamente sobre a omissão de receita caracterizada por suprimento de caixa, argumenta que a autoridade fiscal está equivocada posto que conforme a redação do artigo 282 do RIR/99, somente com a prova da omissão de receitas, a lei autoriza o arbitramento da receita considerada omitida e no caso destes autos, inexiste qualquer demonstração de qualquer irregularidade relacionada com a omissão de receitas. Esclarece que a contabilidade da recorrente comprova que os suprimentos foram efetuados e em estando regularmente contabilizado o ônus da prova da irregularidade cabe ao Fisco porquanto o livro Diário faz prova até prova em contrário. Relativamente à omissão de receitas caracterizada por passivo fictício, sustenta a recorrente que não se trata de manutenção no passivo de obrigações já pagas ou cuja exigibilidade não seja comprovada e, por conseqüência, não configura hipótese de omissão de registro de receita a que se refere o artigo 181, do RIR/99. Diz mais que a operação apesar de devidamente demonstrada e regularmente contabilizada, como pode ser verificado pelo extrato de conta corrente que se juntou aos autos, caracterizando efetivamente a saída de numerário da conta do sócio por meio de cheque compensado em 23 de dezembro de 2003. Quanto aos demais valores, todos restaram devidamente comprovados e contabilizados, o que afasta integralmente a autuação lavrada, tudo com base no direito particular de exercício de elisão fiscal lícita, da escrituração contábil regular, da impossibilidade de interpretação extensiva do fisco para a autuação e criação de novos fatos geradores não instituídos em lei, dos princípios constitucionais da presunção da inocência, do devido processo legal e da estrita legalidade, bem como por toda a documentação apresentada nos autos e a inexistência absoluta de qualquer meio de prova do fisco que possa refutar as alegações de registros contábeis efetuados. Relativamente ao adiantamento para aumento de Capital Social, a recorrente esclarece que todas as operações foram demonstradas por meio de provas contundentes e documentos hábeis tais como registros contábeis, livro razão, recibos de pagamentos e outros, perfazendo correta e legalmente o previsto no artigo 923 do RIR/99. Fl. 5DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 363 6 Quanto ao empréstimo contraído na instituição financeira e repassado para a coligada com a apropriação das despesas de juros, sem a contrapartida das receitas de juros, a recorrente insiste que as operações foram legítimas e regularmente contabilizadas de forma que a autoridade fiscal não pode desconsiderar o comportamento do sujeito passivo sob pena de cometimento de arbitrariedade não prevista em lei. É o relatório. Voto Conselheiro IRINEU BIANCHI O recurso voluntário reúne os pressupostos de admissibilidade devendo ser conhecido. A recorrente levanta diversas questões preliminares tais como a ilegalidade do arrolamento de bens, nulidade de decisão de 1º grau por falta de manifestação sobre matéria relevante argüida na impugnação, inobservância de preceitos constitucionais na formalização do lançamento e nulidade dos autos de infração por cerceamento do direito de ampla defesa, segurança jurídica e do devido processo legal. 1. PRELIMINARES 1.1 – Arrolamento de bens A preliminar de ilegalidade do arrolamento de bens não procede. O arrolamento de bens está prescrito nos artigos 64, 64A e 65, da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, cujos dispositivos não foram declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal. A recorrente deve ter confundido o arrolamento de bens previsto no artigo 64, da Lei nº 9.532/1997 com o arrolamento de bens para garantia de instância a que se referia o parágrafo 2º, do artigo 33, do Decreto nº 70.235, de 1972, que foi objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 1976 MC/DF, DE 06/10/1999, quando o Tribunal Pleno do Supremo Tribunal federal proferiu a sentença, conforme a seguinte ementa: O Tribunal, por unanimidade, julgou prejudicada a ação relativamente ao artigo 33, da Medida Provisória nº 1.699 41/1998, e rejeitou as demais preliminares. No mérito, o Tribunal julgou, por unanimidade, procedente a ação direta para declarar a inconstitucionalidade do artigo 32 da Medida Provisória nº 1.69941/1998, convertida na Lei nº 10.522/2002, que deu nova redação ao artigo 33, § 2º, do Decreto nº 70.235/1972, tudo nos termos do voto do Relator. No caso dos autos, o arrolamento de bens a que se refere o artigo 64, da Lei nº 9.532/1997, não acarretou qualquer prejuízo a recorrente posto que o recurso voluntário foi aceito e está sendo examinado por esta Turma e, portanto, o inciso LV, do artigo 5º da Constituição Federal está sendo observado. Fl. 6DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 364 7 1.2 – Nulidades e Cerceamento do Direito de Ampla Defesa O artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal de 1988 estabelece: LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo e, aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. A Constituição Federal assegura o contraditório e ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes para os litigantes, ou seja, quando estabelecido o litígio entre as partes que no caso dos autos correspondem ao Fisco e ao sujeito passivo. Conforme o disposto no artigo 14 do Decreto nº 70.235/1972, a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento e, portanto, não cabe argüição de cerceamento do direito de defesa na fase de apuração do crédito tributário. As hipóteses de nulidade do lançamento estão prescritas no artigo 59 do Decreto nº 70.235/1972 e restringemse a atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de ampla defesa e, no caso dos autos, a recorrente não logrou apresentar qualquer elemento de prova ou fatos que poderiam ensejar a nulidade dos autos de infração e nem do julgamento de 1º grau. Os argumentos de defesa e os esclarecimentos apresentados pelo sujeito passivo serão analisados minuciosamente principalmente no exame do mérito da exigência à luz da legislação tributária vigente e sem subterfúgios ou alegações supérfluas e infundadas. As alegações relativas a inconstitucionalidades de circunstâncias alegadas pelo sujeito passivo como inobservância do princípio da capacidade contributiva ou utilização de tributos com efeito de confisco não podem ser examinadas pelas autoridades administrativas tendo em vista que as determinações contidas em atos legais pressupõem a constitucionalidade porque editadas pelo Poder Legislativo regularmente constituído. A decisão de 1º grau observou todos os requisitos legais e apreciou todos os fundamentos relevantes levantados pelo sujeito passivo. A falta de exame de questões acessórias não tem o condão de anular a decisão porque não pode ser classificado como cerceamento do direito de defesa Nestas condições e, ainda, confirmando os fundamentos adotados pela autoridade julgadora de 1º grau, rejeito todas as preliminares suscitadas. 2. MÉRITO Quanto ao mérito da exigência, examinamse três tópicos: omissão de receitas operacionais, custos e despesas operacionais não necessários e postergação no pagamento de tributos. 2.1 – Omissão de Receitas A fiscalização imputou duas irregularidades relacionadas com receitas omitidas: suprimento de caixa por sócios e passivo fictício. Fl. 7DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 365 8 2.1.1 – Suprimento de Caixa pelos sócios Os suprimentos de caixa pelos sócios foram constatados no período compreendido entre 02 de janeiro a 11 de novembro de 2004, em valores variados, com a contabilização a débito da conta caixa e crédito de sócios e, embora intimado pela fiscalização o sujeito passivo não comprovou, não demonstrou e nem justificou o efetivo transito do numerário da conta de sócios para a conta caixa da pessoa jurídica. Nos esclarecimentos prestados limitouse a afirmar que as operações de suprimento estão regularmente contabilizadas e comprovadas com recibos firmados pela recorrente. Os suprimentos cujas origens foram comprovadas foram aceitos e não foram objetos de autuação. O fato foi imputado como omissão de receita com fundamento no artigo 282 do RIR/99, que tem a seguinte redação: Art. 282 – Provada a omissão de receita por indícios na escrituração do contribuinte ou qualquer outro elemento de prova, a autoridade tributária poderá arbitrála com base no valor dos recursos de caixa fornecidos à empresa por administradores, sócios da sociedade não anônima, titular da empresa individual, ou pelo acionista controlador da companhia, se a efetividade da entrega e a origem dos recursos não forem comprovadamente demonstradas. Os indícios de omissão de receitas por falta de escrituração nos livros fiscais e contábeis foram demonstrados pela autoridade fiscal e cuja irregularidade foi confessada pela autuada que efetuou o recolhimento dos tributos devidos como no caso da postergação de pagamento de imposto. Desta forma, está demonstrado o indício de omissão de receitas e, portanto, existem elementos de prova suficientes e autorização legal para a autoridade administrativa arbitrar a receita omitida com base nos recursos fornecidos à empresa pelos sócios de vez que a efetividade da entrega e a origem dos recursos não foram comprovadas. As provas documentais elaboradas ou produzidas pelos próprios interessados, no caso a pessoa jurídica autuada e os seus sócios, não servem como elementos de prova da efetiva entrega dos numerários. A jurisprudência administrativa já está devidamente assentada conforme diversas ementas reproduzidas pela fiscalização no Termo de Verificação Fiscal: acórdãos nº 10705.167, de 16/07/1998, 105131.058, de 25/01/2000, 10193.032, de 11/04/2000, e 101 93.961, de 19/09/2002. Este entendimento está amplamente consagrado, inclusive pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, em Acórdão nº CSRF/0105.722, de 11 de setembro de 2007, com a seguinte ementa: IRPJ. OMISSÃO DE RECEITA. SUPRIMENTO DE CAIXA POR SÓCIOS. A jurisprudência do Primeiro Conselho de Contribuintes, referendada pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, é firme no sentido de que a comprovação da entrega do Fl. 8DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 366 9 numerário à pessoa jurídica, bem como de que sua origem é externa aos recursos desta, são dois requisitos cumulativos e indissociáveis, cujo atendimento é ônus do sujeito passivo. Só a ocorrência concomitante dessas condições será capaz de elidir a presunção legal de omissão de receitas. Recurso Especial (PFN) provido. Diante da jurisprudência administrativa pacificamente assentada, entendo que cabe a imputação de omissão omitida no caso dos autos porquanto o sujeito passivo foi devidamente intimado para comprovar a origem e a efetiva entrega do numerário a título de suprimento de caixa e não houve comprovação. 2.1.2 – Passivo Fictício Foi imputada a omissão de receita caracterizada por passivo fictício as parcelas constantes do passivo cuja exigibilidade não foi comprovada pelo sujeito passivo a despeito de regularmente intimado e deferimento de duas prorrogações para o atendimento da intimação. O passivo considerado fictício foi o seguinte: Conta Original Conta Estruturada Nome do Sócio Data Lançamento Histórico Crédito 15065 2.2.1.03 Marcos Flavio Moellmann Ribeiro 02/01/2004 Vlr emprestado p/ pgto parte US$ 83.392,36 ref. 1 parcela de leasing + juros US 29,705.97 58.199,47 15562 2.1.2.02.0002 João José Buchele 16/11/2004 Vlr ref empréstimo do sócio 100.000,00 15154 2.1.2.02.0016 Joaquim Dutra Coelho 22/09/2004 Vlr ref empréstimo do sócio 20.000,00 15036 2.2.1.04 Sergio Lima de Almeida 06/07/2004 Vlr ref empréstimo do sócio 4.600,00 15036 2.2.1.04 Sergio Lima de Almeida 30/08/2004 Vlr ref empréstimo do sócio 10.000,00 TOTAL 192.799,47 A recorrente argumentou que todas as operações estão regularmente contabilizados no livro Diário e merece fé já que estão estribados em documentação hábil e idônea e ainda na fase impugnativa apresentou copia do extrato do Banco do Estado de Santa Catarina S/A (fls. 257), da conta conjunta de Marcos Flávio Moellman Ribeiro e Kazue Harada Ribeiro onde está registrado o débito de um cheque compensado no valor de R$ 58.199,47, compensado no dia 23 de dezembro de 2003 cujo valor coincide com o valor contabilizado pela recorrente no dia 02 de janeiro de 2004. A rigor o fundamento adotado pela decisão recorrida de que o sujeito passivo para eximirse da presunção de omissão de receita nos casos de suprimentos de caixa deve ser comprovado o efetivo trânsito de numerário da conta de sócios para a conta Caixa da pessoa jurídica e, inclusive a origem do numerário que abasteceu a conta corrente do sócio, está consoante com a jurisprudência administrativa consolidada. Aparentemente o cheque compensado em 23 de dezembro de 2003, no valor idêntico ao suprimento de caixa, comprova o efetivo transito do numerário bem como a origem vez que no dia anterior – 22 de dezembro de 2003, já que a conta conjunta recebeu uma transferência para crédito mediante TED de R$ 12.000,00 e de R$ 47.000,00 de outra Fl. 9DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 367 10 instituição financeira. Ao lado disto, as transferências comprovam a origem, enquanto que o extrato da conta corrente mostra tratarse de conta conjunta de Marcos Flávio Moellmann Ribeiro e Kazue Harada Ribeiro. Todavia, entendo que as provas apresentadas não bastam para comprovar os requisitos legais. O referido cheque sacado contra aquela conta conjunta foi compensado na data de 23 de dezembro de 2003, enquanto que a recorrente só contabilizou o ingresso do numerário nos primeiros dias do ano seguinte. Assim, era ônus da recorrente demonstrar que o cheque fôra por ela compensado, o que poderia ser feito pela exibição do extrato de conta bancária de sua titularidade e/ou, por fotocópia do mencionado cheque. Outrossim, pela falta de coincidência de datas entre a compensação e o registro contábil do ingresso, também era dever do sujeito passivo explicar a lacuna. Diante destas considerações, considero o lançamento procedente. 2.2 – Custos, Despesas Operacionais ou Encargos não Necessários Quanto à glosa de despesas relativas a juros pagos a instituição financeira e cujo empréstimo foi repassado para uma interligada, tem razão a autoridade julgadora de 1º grau. Efetivamente, os recursos financeiros tomados não foram utilizados para a obtenção de resultados operacionais do sujeito passivo e, portanto, consoante regras estabelecidas pela legislação do Imposto sobre a Renda, não se tratam de despesas necessárias para o desenvolvimento das atividades normais da empresa. Não existe qualquer regra legal ou ética que proíba o repasse de empréstimos para as coligadas ou interligadas, mas para que as despesas de juros pagos possam ser deduzidas como despesas operacionais, os recursos financeiros deve ser utilizados para o desenvolvimento das atividades operacionais do sujeito passivo. A decisão recorrida examinou com propriedade a legislação aplicável e demonstrou de forma clara que os dispêndios para serem deduzidas como despesas operacionais devem preencher os requisitos de necessidade, usualidade e normalidade para obtenção dos resultados operacionais e do desenvolvimento das atividades objeto da pessoa jurídica. Aliás, a jurisprudência administrativa já esta sedimentada no sentido preconizado pela autoridade julgadora de 1º grau entre inúmeros acórdãos pode ser transcrita a seguinte ementa: IRPJ. DESPESAS FINANCEIRAS. EMPRESTIMO REPASSADO. As despesas financeiras relativas a empréstimos repassados para outra pessoa jurídica, mesmo interligada, sem incidência de encargos financeiros, não se afiguram como despesas necessárias à atividade da empresa, porquanto não utilizados na manutenção da fonte produtora de rendimento. Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. (Ac. 103 21.632, de 14/05/2004 – DOU de 01/06/2004). Fl. 10DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 368 11 Assim, nego provimento ao recurso relativamente a este tópico. 2.3 – Postergação no pagamento de imposto de renda No decorrer do anocalendário de 2004, a pessoa jurídica contabilizou entrada de numerário com a contrapartida na conta Adiantamento para Aumento de Capital da empresa Anestesiologistas Associados Ltda. e no anocalendário de 2006, a recorrente estornou o adiantamento e, em vez de devolver o numerário ao credor, o contabilizou a crédito de Receita Operacional, ou seja, a própria recorrente confessa que se tratava de uma receita operacional que não foi apropriada no respectivo anocalendário. Tendo em vista o fato narrado, a fiscalização entendeu que o pagamento do imposto de renda foi postergado do anocalendário de 2004 para o anocalendário 2006 e foi apurada a postergação do pagamento de imposto no montante de R$ 22.907,80, como consta do Demonstrativo de Apuração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica – Lucro Real, de fls. 134/136. De fato, se era receita operacional em 2004, o pagamento do imposto no ano calendário de 2006 deveria ter sido calculado com a multa e com os juros de mora como determina a legislação vigente. Inexistindo os acréscimos acessórios, houve insuficiência de pagamento e, portanto, tratase efetivamente de postergação de pagamento de imposto e como tal, a exigência deve subsistir tal como consta do auto de infração. Pelas razões expostas, nego provimento ao recurso voluntário no que concerne a postergação de pagamento de imposto. 2.4 – Lançamentos Reflexivos Os lançamentos reflexivos e relativos a CSLL, COFINS e PIS/FATURAMENTO foram estribados no mesmo fato apurado para o Imposto de Renda de Pessoa Jurídica e, portanto o decidido no lançamento principal deve estender para os demais. De todo o exposto e tudo o mais que consta dos autos, conheço do recurso e oriento meu voto no sentido de rejeitar as questões preliminares suscitadas e, no mérito, negar lhe provimento. Sala das Sessões, em 4 de agosto de 2011. IRINEU BIANCHI Relator “documento assinado digitalmente” Fl. 11DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 11516.004749/200717 Acórdão n.º 130200.688 S1C3T2 Fl. 369 12 Fl. 12DF CARF MF Emitido em 17/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI Assinado digitalmente em 12/08/2011 por IRINEU BIANCHI, 17/08/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO
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Numero do processo: 15504.729560/2013-79
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 2010
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO.
O conhecimento do recurso está condicionado à satisfação do requisito de admissibilidade da tempestividade, estando ausente este, por interposição extemporânea, não se conhece o mérito recursal. Dicção dos arts. 5.º e 33 do Decreto n.º 70.235, de 1972.
É assegurado ao Contribuinte a interposição de Recurso Voluntário no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data da ciência da decisão recorrida, sendo válida a ciência da notificação por meio do domicílio tributário eletrônico, através da abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal e-CAC), via opção Consulta Comunicados/Intimações.
É obrigação do sujeito passivo, ao gerar solicitação de juntada eletrônica de documentos, fazer anexar os respectivos arquivos digitais, que possibilite a entrega tempestiva de seu recurso. A transmissão eletrônica é de responsabilidade exclusiva do contribuinte, de modo que a não anexação do recurso, configura ausência do cumprimento do dever de protocolo da peça recursal impedindo o cumprimento do prazo. Demonstrado nos autos que o recurso voluntário foi protocolado após vencido o termo ad quem, sem que tenha sido apresentado qualquer prova de ocorrência de eventual fato impeditivo, não é admissível o seu conhecimento por se qualificar como intempestivo.
Numero da decisão: 2301-005.309
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, por ser intempestivo.
João Bellini Júnior - Presidente.
Juliana Marteli Fais Feriato - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (presidente da turma), Juliana Martelli Fais Feriato (relatora); João Maurício Vital; Wesley Rocha; Antônio Sávio Nastureles; Marcelo Freitas de Souza Costa
Nome do relator: JULIANA MARTELI FAIS FERIATO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Ano-calendário: 2010 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. O conhecimento do recurso está condicionado à satisfação do requisito de admissibilidade da tempestividade, estando ausente este, por interposição extemporânea, não se conhece o mérito recursal. Dicção dos arts. 5.º e 33 do Decreto n.º 70.235, de 1972. É assegurado ao Contribuinte a interposição de Recurso Voluntário no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data da ciência da decisão recorrida, sendo válida a ciência da notificação por meio do domicílio tributário eletrônico, através da abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal e-CAC), via opção Consulta Comunicados/Intimações. É obrigação do sujeito passivo, ao gerar solicitação de juntada eletrônica de documentos, fazer anexar os respectivos arquivos digitais, que possibilite a entrega tempestiva de seu recurso. A transmissão eletrônica é de responsabilidade exclusiva do contribuinte, de modo que a não anexação do recurso, configura ausência do cumprimento do dever de protocolo da peça recursal impedindo o cumprimento do prazo. Demonstrado nos autos que o recurso voluntário foi protocolado após vencido o termo ad quem, sem que tenha sido apresentado qualquer prova de ocorrência de eventual fato impeditivo, não é admissível o seu conhecimento por se qualificar como intempestivo.
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RECURSO VOLUNTÁRIO. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. O conhecimento do recurso está condicionado à satisfação do requisito de admissibilidade da tempestividade, estando ausente este, por interposição extemporânea, não se conhece o mérito recursal. Dicção dos arts. 5.º e 33 do Decreto n.º 70.235, de 1972. É assegurado ao Contribuinte a interposição de Recurso Voluntário no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data da ciência da decisão recorrida, sendo válida a ciência da notificação por meio do domicílio tributário eletrônico, através da abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal eCAC), via opção Consulta Comunicados/Intimações. É obrigação do sujeito passivo, ao gerar solicitação de juntada eletrônica de documentos, fazer anexar os respectivos arquivos digitais, que possibilite a entrega tempestiva de seu recurso. A transmissão eletrônica é de responsabilidade exclusiva do contribuinte, de modo que a não anexação do recurso, configura ausência do cumprimento do dever de protocolo da peça recursal impedindo o cumprimento do prazo. Demonstrado nos autos que o recurso voluntário foi protocolado após vencido o termo ad quem, sem que tenha sido apresentado qualquer prova de ocorrência de eventual fato impeditivo, não é admissível o seu conhecimento por se qualificar como intempestivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 95 60 /2 01 3- 79 Fl. 89DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, por ser intempestivo. João Bellini Júnior Presidente. Juliana Marteli Fais Feriato Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (presidente da turma), Juliana Martelli Fais Feriato (relatora); João Maurício Vital; Wesley Rocha; Antônio Sávio Nastureles; Marcelo Freitas de Souza Costa Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fl. 43 e ss.) interposto em face da decisão da DRJ proferida pela 19ª Turma da DRJ/RJO, Acórdão 1280.350 de 13/04/2016, que indeferiu a Impugnação apresentada pelo Contribuinte e manteve o Crédito Tributário Lançado na NFLD 2011/869170329675250 pela SRF DRF Belo Horizonte, cuja ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. MOLÉSTIA GRAVE. A comprovação da moléstia grave deverá ser realizada mediante laudo pericial, assim entendido como documento emitido por médico legalmente habilitado ao exercício da profissão de medicina, integrante de serviço médico oficial da União, dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios, independentemente de ser emitido por médico investido ou não na função de perito, observadas a legislação e as normas internas especificas de cada ente. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Conforme consta da Impugnação juntada nas fls. 2 e ss., o Contribuinte, em 06/08/2013, apresentou Declaração Retificadora de n. 34.05.81.34.6405, pleiteando a restituição do valor de R$102.707,75 de Imposto de Renda retido na Fonte do Ano Calendário de 2010 por alegar ser portador de patologia grave, computando os rendimentos recebidos de aposentadoria como Isentos e Não Tributáveis – Cardiopatia grave. Na data de 19/08/2013, o Contribuinte foi intimado para apresentar os Comprovantes de rendimentos recebidos no Ano Calendário, a cópia da decisão que concedeu a aposentadoria e o Laudo Pericial que comprova a situação. Em 12/09/2013 a Autoridade Fl. 90DF CARF MF Processo nº 15504.729560/201379 Acórdão n.º 2301005.309 S2C3T1 Fl. 90 3 Fiscal expede a NFLD, apontando a omissão de rendimentos no valor de R$433.040,38 (aposentadoria da ALEP MG) e lança o crédito R$64.412,15 (R$32.875,09 de imposto suplementar; R$24.656,31 de multa de ofício e R$6.880,75 de juros), não aceitando os laudos periciais juntados, considerandoos como laudos de diagnósticos. Alega o Contribuinte na Impugnação que a médica que expediu o Laudo juntado é do Centro de Saúde Nossa Senhora de Fátima e que a unidade municipal é subordinada à Secretaria Municipal de Saúde sendo competente para emissão do laudo médico, conforme entendimento pela própria SRF na Solução de Consulta Interna n. 11 COSIT de 28/06/2012. Na decisão da DRJ, a Autoridade Fiscal indefere a restituição por conta de que a comprovação da condição de portador de moléstia grave “deverá ser realizada mediante laudo pericial, assim entendido como documento emitido por médico legalmente habilitado ao exercício da profissão de medicina, integrante de serviço médico oficial da União, dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios, independentemente de ser emitido por médico investido ou não na função de perito, observadas a legislação e as normas internas especificas de cada ente” e que o juntado pelo Contribuinte não atende tais formalidades. Nas fls. 43 e ss., o Contribuinte apresenta Recurso Voluntário afirmando que: Se submeteu, em janeiro de 2007, à cirurgia de Vascularização do miocárdio no Hospital Biocor de Belo Horizonte e que após perícia presencial e documental, em 15/10/2007, a médica Dra. Cláudia Drumond Guimarães Abreu — CRM/MG 24.470, atestou ser o contribuinte portador de cardiopatia grave — CID 125.1; A Solicitação de Consulta n° Cosit n°11, de 28 de junho de 2012, admite o laudo médico oficial para fins de comprovação da moléstia grave, independente da qualificação do profissional como perito, sendo que preenche este requisito o juntado pelo Contribuinte; O Parecer n°3949/2010 do Conselho Regional de Medicina — MG determina que "A qualificação necessária ao médico perito, nos termos da Lei n°3.268/57, é ter diploma de graduação em medicina, registrado no CRM.", sendo que preenche este requisito o juntado pelo Contribuinte; O Artigo 30 da Lei 9.250/95 é claro "a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios", ou seja, não necessita ser emitido pelo órgão julgador. O Art. 47 da Lei n° 7.713/1988 também confirma a desnecessidade de a perícia ser realizada por médico com atribuições de perito. Nas fls. 54 e ss. o Contribuinte junta despacho decisório da SRF DRF de BH em 22/04/2008, o qual afirma que “de acordo com os documentos da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte de fls. 02 e 17, o contribuinte é portador de moléstia especificada em lei. (...). Assim, considerado a data do pleito (29/10/2007), concluise que pe devida a restituição a parti de 29/10/2002”. Nas fls. 69 o Contribuinte junta uma Declaração da própria Receita Federal que alega que o mesmo é portador DEFINITIVO de moléstia grave desde 01/01/2002. Fl. 91DF CARF MF 4 Por fim, nas fls. 76, juntase decisão favorável ao Contribuinte, proveniente deste Conselho de Recurso Fiscal, emitida pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF nos autos 10680.722559/201105, Acórdão n. 2202004.072: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2010 MOLÉSTIA GRAVE. SÚMULA CARF 63. COMPROVAÇÃO. LAUDO PERICIAL. DATA DE INÍCIO DA MOLÉSTIA GRAVE. Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia grave deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Nos termos do § 5°, inciso III, do art. 39 do Decreto n° 3.000/99, a data de início da moléstia grave, para fins da isenção dos proventos de aposentadoria percebidos pelos portadores de moléstias graves, é aquela identificada em laudo pericial emitido por serviço médico oficial. ÔNUS DA PROVA. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. PROCEDÊNCIA. PROVAS APRESENTADAS. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Tendo o contribuinte apresentado documentação comprobatória de seu direito, deve ser afastada a autuação por rendimentos indevidamente considerados como isentos por moléstia grave. Recurso Voluntário Provido Este é o relatório. Voto Conselheira Relatora Juliana Marteli Fais Feriato Admissibilidade O Recurso Voluntário não atende ao pressuposto de admissibilidade extrínseco relativo a tempestividade, uma vez que foi interposto após o trintídio legal estabelecido no art. 33 do Decreto de n. 70.235/1972 sobre o processo administrativo fiscal. Verificase que o Contribuinte foi intimado por Caixa Postal, Módulo eCAC do Site da Receita Federal, disponibilizado em 26/04/2016. O Recurso Voluntário foi juntado no dia 19/08/2016. Fl. 92DF CARF MF Processo nº 15504.729560/201379 Acórdão n.º 2301005.309 S2C3T1 Fl. 91 5 Apesar de todos os atos do processo administrativo (envio da NFLD e da intimação Fiscal) ter sido efetuado via postal (fl. 17 e fl. 26) apenas a intimação da DRJ foi via eletrônica. Nas fls. 39 tem o registro da mensagem: "O destinatário recebeu mensagem com acesso aos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal na data de 26/04/2016 11:02:05." E nas fls. 40: “Foi dada ciência dos documentos relacionados abaixo por decurso de prazo de 15 dias ao destinatário a contar da disponibilização dos documentos através do Caixa Postal, Módulo eCAC do Site da Receita Federal. Data da disponibilização no Caixa Postal: 26/04/2016 11:02:05. Data da ciência por decurso de prazo: 11/05/2016”. Alega o Contribuinte que teve acesso ao resultado da DRJ apenas no dia 01/08/2016, mas não diz como teve acesso. O Decreto 70.235 de 1972, que dispõe dos regramentos do processo Administrativo determina: § 2° Considerase feita a intimação III se por meio eletrônico: a) 15 (quinze) dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; b) na data em que o sujeito passivo efetuar consulta no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, se ocorrida antes do prazo previsto na alínea a; ou c) na data registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo; § 5º O endereço eletrônico de que trata este artigo somente será implementado com expresso consentimento do sujeito passivo, e a administração tributária informarlheá as normas e condições de sua utilização e manutenção; Quando da realização do cadastro do Contribuinte perante o sistema eCAC, necessariamente há a sua concordância para que todas as intimações sejam feitas pelo sistema. Neste diapasão, demonstrado nos autos que o recurso voluntário foi protocolado após vencido o prazo, sem que tenha sido apresentado qualquer prova de ocorrência de eventual fato impeditivo, não é admissível o seu conhecimento por se qualificar como intempestivo, na dicção dos arts. 5.º e 33 do Decreto n.º 70.235, de 1972. De fato, o Decreto n.º 70.235, de 1972, é expresso ao determinar que os prazos são contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento (art. 5.º, caput) e que os prazos só se iniciam ou vencem no dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato (art. 5.º, parágrafo único). Repitase, pela oportunidade, que o recorrente não apresentou qualquer prova de ocorrência de eventual fato impeditivo ao manejo do seu recurso, a tempo e modo esperados. Fl. 93DF CARF MF 6 Por conseguinte, não há que se admitir recurso extemporâneo, caso contrário, estaria sendo declarada uma inconstitucionalidade incidenter tantum do Decreto n.º 70.235, de 1972, vedada no Regimento Interno do CARF (art. 62, Anexo II, aprovado pela Portaria MF n.º 343, de 2015) e pelo enunciado a seguir deste Egrégio Conselho: "Súmula CARF n.º 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." Ante ao exposto, voto por não conhecer do Recurso Voluntário. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por não CONHECER do Recurso Voluntário, por ser intempestivo. É como voto. (assinado digitalmente) Juliana Marteli Fais Feriato – Relatora. Fl. 94DF CARF MF
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Numero do processo: 10680.007987/2005-58
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/06/2000 a 31/12/2000
SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. OPERAÇÕES COM VEÍCULOS NOVOS. IPI NA BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DO CARF.
Sumula CARF nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. OPERAÇÕES COM VEÍCULOS NOVOS. IPI NA BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO.
As medidas provisórias que introduziram o regime de substituição tributária das contribuições ao PIS e COFINS nas operações com veículos automotores, cuidaram de estabelecer base de cálculo diferenciada para tal regime, correspondente ao preço de venda praticado pelo fabricante, o que mais tarde veio a ser melhor esclarecido pelas Instruções Normativas SRF nº 54/2000 e 247/2002, informando que o IPI faz parte do preço praticado pelas montadoras. Assim, o IPI compõe a base de cálculo da contribuição ao PIS recolhido por substituição tributária nas operações com veículos automotores novos.
DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE.
Não assistindo razão ao contribuinte quanto à existência de direito creditório, incabível a realização de diligência para apurar/confirmar o montante a ser ressarcido.
Numero da decisão: 3302-005.794
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Diego Weis Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), José Renato Pereira de Deus, Raphael Madeira Abad, Walker Araújo.
Nome do relator: DIEGO WEIS JUNIOR
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H. VEICULOS S.A. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/06/2000 a 31/12/2000 SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. OPERAÇÕES COM VEÍCULOS NOVOS. IPI NA BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DO CARF. Sumula CARF nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. OPERAÇÕES COM VEÍCULOS NOVOS. IPI NA BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO. As medidas provisórias que introduziram o regime de substituição tributária das contribuições ao PIS e COFINS nas operações com veículos automotores, cuidaram de estabelecer base de cálculo diferenciada para tal regime, correspondente ao preço de venda praticado pelo fabricante, o que mais tarde veio a ser melhor esclarecido pelas Instruções Normativas SRF nº 54/2000 e 247/2002, informando que o IPI faz parte do preço praticado pelas montadoras. Assim, o IPI compõe a base de cálculo da contribuição ao PIS recolhido por substituição tributária nas operações com veículos automotores novos. DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. Não assistindo razão ao contribuinte quanto à existência de direito creditório, incabível a realização de diligência para apurar/confirmar o montante a ser ressarcido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 00 79 87 /2 00 5- 58 Fl. 144DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 145 2 (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Diego Weis Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), José Renato Pereira de Deus, Raphael Madeira Abad, Walker Araújo. Relatório Cuidase de Recurso Voluntário interposto contra acórdão da 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora / MG. (DRJ/JFA), que julgou improcedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório do contribuinte, cuja ementa segue transcrita. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2000 INCONSTITUCIONALIDADE A autoridade administrativa não possui competência para apreciar inconstitucionalidade de lei ou ato normativo. RESTITUIÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO. INOCORRÊNCIA. Ausente na legislação de regência da matéria dispositivo legal ou infralegal que permita a exclusão do IPI da base de cálculo do Pis, não merece reparos o indeferimento do respectivo pedido de restituição. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Na origem foi apresentado pedido de restituição, formulado por Recreio B. H. Veículos S.A., concessionária Volkswagen da região de Belo Horizonte/MG, com fulcro em suposta inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Instrução Normativa nº 54/2000, que disciplina a inclusão do IPI na base de cálculo do PIS e da COFINS nas operações de venda de veículos automotores pela montadora à concessionária. Em síntese o contribuinte alega que após a edição da MP nº 199115/00 (art. 44), com reedições posteriores e conversão na Lei nº 10.485/02 (art. 3º), as contribuições para o PIS e COFINS sobre o comércio varejista de veículos passaram a ser devidas na forma de substituição tributária, mediante recolhimento antecipado pelas montadoras (fabricantes), figurando as concessionárias como substituídas. Fl. 145DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 146 3 Aduz o contribuinte que a base de cálculo deveria ser o preço de venda do fabricante, sem a inclusão do IPI, o que teria sido erroneamente modificado por meio da IN nº 54, de 19.05.2000, em flagrante afronta ao artigo 150, I, da CF/1988, bem como ao artigo 97, IV, do CTN. Pugna pela restituição de R$ 120.980,49, relativa aos meses de 06.2000 a 12.2000, sendo R$21.544,47 a título de PIS (este processo) e R$99.436,02 a título de COFINS. O Despacho Decisório de fls. 44 a 46 que indeferiu o pedido, não reconhecendo o direito creditório, o fez sob a alegação de que as medidas provisórias tem força de lei, não competindo à Receita Federal analisar (in)constitucionalidade de atos normativos, bem como não caber ao SEORT decidir sobre a exclusão do IPI da base de cálculo do PIS e da COFINS. Em sede de manifestação de inconformidade (fls. 49 a 58), a concessionária insurgese contra uma suposta alegação de ilegitimidade que sequer foi ventilada no despacho decisório, defendendo ser ela parte legítima para pleitear a restituição, vez que é quem suporta o ônus da exação. Aduz ainda que não se pode exigir PIS sobre IPI, pede a homologação da "compensação" e que seja declarada a inexistência de "saldo devedor" (sic). Por fim, solicita diligência para conferência dos cálculos caso seja necessário. Preliminarmente, o acórdão recorrido declarou a incompetência da DRJ para avaliar inconstitucionalidade de normas. No mérito, a decisão guerreada aduz que: a) não há que se cotejar a Medida Provisória nº 2.03724/2000 com a Lei nº 9.718/1998, vez que a alteração na referida lei, no que tange ao inciso I, do §2º, do art. 3º, que versa sobre a exclusão do IPI da base do PIS e da COFINS, somente foi alterada pela MPv nº 627/2013, sendo que nem mesmo a MPv 1.99115/2000, mencionada pela contribuinte cuidou de alterar a exclusão do IPI da base de cálculo; b) de acordo com o art. 3º, §2º, I, da Lei nº 9.718/1998, o IPI só se exclui da receita bruta para fins de determinação da base de cálculo das contribuições para o PIS/COFINS quando cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário (sic). Desta forma, a Volkswagen não paga PIS/COFINS sobre o IPI embutido na receita da concessionária, mas apenas sobre aquele embutido em sua própria receita, não se podendo falar em exclusão do IPI sobre a receita do substituído por falta de previsão legal. Em recurso voluntário, a contribuinte se insurge novamente contra uma alegação de ilegitimidade que não foi ventilada nem no despacho decisório e nem no acórdão recorrido. Aduz que cobrar PIS sobre o IPI contraria a Constituição Federal e que o art. 3º, §2º da Lei nº 9.718/1998 autoriza a exclusão. Pede, ao fim, seja declarada a inexistência de saldo devedor e seja homologada a compensação (sic), bem como seja realizada diligência para novo cálculo caso assim se entenda necessário. É o relatório. Fl. 146DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 147 4 Voto Conselheiro Diego Weis Junior, Relator. O contribuinte tomou ciência do acórdão recorrido em 02.12.2014, tendo protocolado o Recurso Voluntário em 30.12.2014. Assim, é tempestivo o recurso em análise. Impende esclarecer que os pedidos a) e b), formulados pelo contribuinte na peça recursal não se coadunam com a discussão dos autos, vez que tratam de declaração de compensação, enquanto o presente PAF cuida de pedido de restituição. Ademais, o recorrente dedica a maior parte de sua argumentação para afastar suposta alegação de ilegitimidade que sequer foi ventilada, seja no despacho decisório ou seja no acórdão da DRJ/JFA. Por seu turno, a DRJ/JFA, fundou suas razões de decidir no art. 3º da Lei nº 9.718/1998, que determina que a base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS corresponde à receita bruta da pessoa jurídica, bem como alegou ainda que segundo o inciso I, do §2º do aludido dispositivo, excluise da receita bruta o valor do IPI e o ICMS, quando cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário, criando aparente confusão entre a decisão e as razões de decidir. O contribuinte nada disse a esse respeito. Em suma, dissonantes dos autos algumas das razões tanto do recorrente quanto da DRJ. Entretanto, em homenagem ao princípio da verdade material, e buscando cumprir o papel que cabe a este conselho, analisarseão os pedidos do contribuinte com base no que se pode inferir de todo o conjunto fático probatório, no sentido de que pretende ele ver reconhecido direito à restituição do valor do PIS sobre o IPI, embutido no preço por ele pago à montadora quando da aquisição de veículos para revenda. 1 Da suposta inconstitucionalidade da inclusão do IPI na base de cálculo do PIS nas operações de venda de veículos automotores por fabricantes e importadores. Preliminarmente, cumpre esclarecer que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Esse é o teor da Sumula CARF nº 2. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assim, não se pode conhecer, no âmbito deste tribunal administrativo, de matérias que envolvam tal tipo de análise. Entretanto, com o único intuito de esclarecer e informar as razões pelas quais não deve prosperar o pedido de restituição formulado pelo contribuinte, imperioso tecer alguns comentários sobre a legislação que instituiu o regime de substituição tributária de PIS e COFINS sobre as operações de compra e venda de veículos automotores. Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 148 5 A Medida Provisória nº 1.99115/2000 atribuiu aos fabricantes e importadores de veículos, na condição de substitutos tributários, a responsabilidade pela cobrança e recolhimento das contribuições ao PIS e COFINS devidas pelos comerciantes varejistas. Tal medida estabeleceu ainda que a base de cálculo da cobrança por substituição seria o preço de venda praticado pela pessoa jurídica fabricante. Art. 44. As pessoas jurídicas fabricantes e os importadores dos veículos classificados nas posições 8432, 8433, 8701, 8702, 8703, e 8711, e nas subposições 8704.2 e 8704.3, da TIPI, relativamente às vendas que fizerem, ficam obrigadas a cobrar e a recolher, na condição de contribuintes substitutos, a contribuição para o PIS/PASEP e a COFINS, devidas pelos comerciantes varejistas. Parágrafo único. Na hipótese de que trata este artigo, as contribuições serão calculadas sobre o preço de venda da pessoa jurídica fabricante. As reedições posteriores da MP 199115/2000 mantiveram a sistemática até a MP 2.15835/2001, que reproduziu o comando supracitado em seu art. 43. Com a edição da Instrução Normativa SRF nº 54, de 19.05.2000, o parágrafo único do art. 44 da medida provisória nº 1.99115/2000 foi regulamentado, passando a dispor expressamente que o Imposto sobre Produtos Industrializados IPI compõe o preço de venda do fabricante para efeitos da cobrança e arrecadação do PIS e da COFINS por substituição tributária. Art. 3º Para efeito do disposto no artigo anterior, as contribuições serão calculadas com base no preço de venda do fabricante ou importador. § 1º Considerase preço de venda do fabricante ou importador o preço do produto acrescido do valor do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI incidente na operação. A IN SRF nº 54/2000 foi revogada pela IN SRF nº247/2002, ainda vigente, permanecendo expressa a disposição de que o IPI deve ser incluído na base de cálculo do PIS substituição tributária, aplicável às operações com veículos automotores realizadas pelos fabricantes ou importadores. Art. 49. A base de cálculo da substituição prevista no art. 5º corresponde ao preço de venda do fabricante ou importador de veículos. § 1º Considerase preço de venda o valor do produto acrescido do IPI incidente na operação. Como é sabido, o regime de substituição tributária consiste em concentrar a arrecadação do tributo em uma etapa da cadeia de comercialização, responsabilizando o contribuinte que a realiza pelo recolhimento devido nas demais etapas, em consonância com o disposto no §7º do art. 150 da CF/1988. Nas operações com veículos automotores, a legislação instituidora do regime de substituição tributária do PIS atribuiu a responsabilidade pela cobrança e recolhimento da Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 149 6 contribuição aos fabricantes ou importadores, na condição de substitutos, alçando os comerciantes varejistas (concessionárias) à condição de substituídos. Não há dúvidas de que o IPI pago pelas concessionárias às montadoras, quando da aquisição de veículos para revenda, irá compor o custo do veículo a ser revendido e, conseqüentemente, será repassado ao preço praticado na operação de revenda ao consumidor final, compondo, portanto, o faturamento da concessionária. Não fosse o regime de substituição tributária, a base de cálculo sobre a qual a concessionária iria calcular o valor devido para o PIS seria o faturamento obtido, assim entendida a receita auferida com a revenda de veículos automotores, na qual, como já visto, estaria incluído o valor do IPI pago à concessionária quando da aquisição do veículo revendido. Assim, no regime normal de apuração das contribuições, os comerciantes varejistas têm como base de cálculo o preço de venda de seus produtos aos consumidores finais, no qual estão incluídos todos os custos vinculados ao produto, inclusive o valor do IPI recolhido pelo fabricante. Destarte, por ser a substituição tributária mera antecipação do recolhimento devido em operação futura, não se pode admitir que em razão de tal antecipação ocorra a alteração da regra matriz de composição da base de cálculo, reduzindo o montante devido. Se assim quisesse o legislador da norma instituidora do regime, teria expressamente consignado tal possibilidade. Ademais, não se pode confundir a base de cálculo do PIS e COFINS devidos por substituição tributária, com a base de cálculo das mesmas contribuições quando cobradas fora do regime constitucional de antecipação. Conquanto o IPI não componha a base de cálculo da contribuição devida pelo fabricante de produtos não alcançados pela substituição tributária, como já exposto, uma vez realizada a cobrança desse imposto, ele passa a compor o custo de aquisição da mercadoria, sendo repassado pelo comerciante ao preço de revenda e, conseqüentemente, representa uma parte do valor pago pelo consumidor final, passando a compor, indiretamente, a base de cálculo (receita) das contribuições ao PIS e a COFINS devidas pelos comerciantes varejistas. Por se tratar de antecipação do pagamento cujos fatos geradores ocorrerão posteriormente, deve a base de cálculo da substituição tributária ser a mais aproximada possível daquela que seria utilizada nas etapas que estão sendo substituídas. Nesse sentido, temse que as medidas provisórias que introduziram o regime de substituição tributária das contribuições ao PIS e COFINS nas operações com veículos automotores, cuidaram de estabelecer base de cálculo diferenciada para tal regime, qual seja, o preço de venda praticado pelo fabricante (e não somente a receita por ele auferida). O que mais tarde veio a ser melhor esclarecido pelas Instruções Normativas SRF nº 54/2000 e 247/2002 estabelecendo que o IPI faz parte do preço praticado pelas montadoras. No que tange ao disposto no §2º do art. 3º da Lei nº 9.718/1998, utilizado pela DRJ/JFA como fundamento para afastar a pretensão da recorrente, urge aclarar que se trata de norma aplicável à apuração normal das contribuições ao PIS e COFINS, não se Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 150 7 podendo aplicála indistintamente aos casos especiais, cuja disciplina se dá por lex specialis, tal como a substituição tributária. No mesmo sentido decidiu o STJ no julgamento do REsp 665126 SC. TRIBUTÁRIO. PIS. COFINS. REGIME DE SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. FABRICANTES E IMPORTADORES DE VEÍCULOS (SUBSTITUTOS) E COMERCIANTES VAREJISTAS (SUBSTITUÍDOS). BASE DE CÁLCULO. VALORES DEVIDOS A TÍTULO DE IPI DESTACADOS NA NOTA FISCAL. INCLUSÃO NO CONCEITO DE "PREÇO DE VENDA" EX VI DA INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 54/2000. LEGALIDADE. LEI 9.718/98 (ARTIGO 3º, § 2º, I). DEDUÇÕES DA BASE DE CÁLCULO. INAPLICABILIDADE AO CASO CONCRETO. 1. A Instrução Normativa SRF nº 54/2000, revogada pela IN SRF nº 247, de 21.11.2002, dispunha sobre o recolhimento da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, devidas pelos fabricantes (montadoras) e importadores de veículos, na condição de substitutos dos comerciantes varejistas (regime de substituição tributária instituído pela Medida Provisória nº 1.99115/2000, atual MP nº 2.15835/2001, editada antes da Emenda Constitucional nº 32). 2. A base de cálculo das aludidas contribuições, cujos contribuintes de fato são os comerciantes varejistas, é o preço de venda da pessoa jurídica fabricante ou do importador (artigo 44, parágrafo único, da MP 1.991 15/2000, e artigo 3º, caput, da IN SRF 54/2000), sendo certo que o ato normativo impugnado limitouse a definilo como o preço do produto acrescido do valor do IPI incidente na operação. 3. A insurgência especial dirigese ao reconhecimento da ilegalidade do artigo 3º, da Instrução Normativa SRF nº 54/2000, em virtude do disposto no inciso I,do § 2º, do artigo 8º, da Lei n.º 9.718/98, verbis: § 2º Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2º, excluemse da receita bruta: I as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos, o Imposto sobre Produtos Industrializados IPI e o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS, quando cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário;"4. A base de cálculo da COFINS e do PIS restou analisada pelo Eg. STF que, na sessão plenária ocorrida em 09 de novembro de 2005, no julgamento dos Recursos Extraordinários n.ºs 357.950/RS, 358.273/RS, 390840/MG, todos da relatoria do Ministro Março Aurélio, e n.º 346.0846/PR, do Ministro Ilmar Galvão, consolidou o entendimento da inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo das contribuições destinadas ao PIS e à COFINS, promovida pelo § 1º, do artigo 3º, da Lei n.º 9.718/98, o que implicou na concepção da receita bruta ou faturamento como o que decorra quer da venda de mercadorias, quer da venda de mercadorias e serviços, quer da venda de serviços, não se considerando receita bruta de natureza diversa. 5. Na mesma assentada, afastouse a argüição de inconstitucionalidade do artigo 8º, da Lei n.º 9.718/98, mantendose a higidez das deduções da base de Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 151 8 cálculo das contribuições em tela, elencadas em seu § 2º. 6. Deveras, à luz do supracitado dispositivo legal, as"vendas canceladas", os"descontos incondicionais", o"IPI"e o"ICMS"cobrado pelo vendedor do bem ou pelo prestador do serviço, na condição de substituto tributário, não integram a base de cálculo da COFINS e da contribuição destinada ao PIS. 7. Entrementes, as informações prestadas pelo órgão local da Secretaria da Receita Federal, coerentemente, elucidam a quaestio iuris:"... o regime de substituição tributária envolve uma presunção de fato gerador. O fato gerador presumido diz respeito às contribuições devidas pela concessionária, não se confundindo, pois, com as contribuições do próprio fabricante, a que alude o art. 3º, § 2º, I, da Lei nº 9.718/98, especialmente no que diz respeito à exclusão do IPI. Este dispositivo trata da base de cálculo usual do PIS e da COFINS vinculada a fato gerador praticado pelo fabricante ou importador, na condição de contribuinte do IPI. Exemplificando: o fabricante, contribuinte do IPI, tem de apurar o que ele fabricante deve a título de PIS e COFINS. Para isso, ele fabricante deve determinar o valor do seu faturamento, que é a base de cálculo dessas contribuições. Ora, por certo que o IPI devido pelo fabricante não poderia ser considerado para fins de determinação do faturamento dele (o valor destacado em nota fiscal é repassado aos cofres públicos), donde a exclusão prevista pelo tal dispositivo da Lei 9.718/98 que, repito, é comando dirigido ao fabricante (contribuinte do IPI). (...) tanto é verdade que o IPI está incluído no preço de venda do fabricante que o legislador teve de expressamente excluílo, para fins de determinar o faturamento do fabricante, pois, de outra forma, estarseia a considerar o IPI destacado na nota fiscal pelo fabricante como se fosse receita dele. Situação totalmente diversa é a apuração do faturamento do revendedor, que não é contribuinte do IPI (não há destaque na nota fiscal). Assim, esqueçamos, por ora, o regime de substituição tributária. Na situação acima proposta (sem substituição), o revendedor de automóveis não tem nem de pensar no IPI, que está embutido no custo da mercadoria e, ademais, será integralmente repassado ao consumidor final. Logo, quando se pergunta qual o faturamento do revendedor (base de cálculo do que ele revendedor deve a título de PIS e COFINS), é obvio que a resposta somente poderá ser o preço de venda do veículo ao consumidor final. Dizer, ou reclamar, que nesse preço está incluído o IPI é algo de tão esclarecedor quanto dizer que nele está incluído o custo do motor do carro e de todas as demais peças que o compõe. Ou seja, não é preciso dizer, É óbvio que todo o custo do produto, somado à margem de lucro do revendedor, integra o seu preço final, pago pelo consumidor. (...) O que parece ocorrer é que existe uma enorme dificuldade, por parte das impetrantes, em perceber a diferença entre as situações, deveras díspares, do fabricante (contribuinte do IPI) e do revendedor (não contribuinte do IPI), para fins de determinar o faturamento (base de cálculo) de cada um deles. (...) Nesse sentido, considerando o disposto no art. 3º, § 1º, I, da Lei 9.718/98, é importante, no caso em tela, ter em mente dois pontos básicos, a saber: 1. Os revendedores varejistas de Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10680.007987/200558 Acórdão n.º 3302005.794 S3C3T2 Fl. 152 9 veículos não são contribuintes de IPI, quer dizer, não destacam o valor do mesmo nas notas fiscais de venda; e 2. A exclusão do valor do IPI prevista no art. 3º, § 1º, I, referese apenas a pessoas jurídicas que são contribuintes do IPI, posto que apenas pode ser excluído o valor do IPI quando destacado em separado no documento fiscal."(fls. 71/73). 8. Destarte, a exclusão do IPI da base de cálculo do PIS e da COFINS somente aproveita o contribuinte do aludido imposto (o fabricante), quando da apuração de seu próprio faturamento, a fim de efetuar o recolhimento das contribuições devidas pelo mesmo. 9. Consectariamente, a referida dedução, prevista no artigo 3º, § 2º, I, da Lei 9.718/98, não se aplica aos comerciantes varejistas, não contribuintes do IPI, donde se dessume a legalidade da IN SRF 54/2000. 10. Recurso especial a que se nega provimento. (STJ REsp: 665126 SC 2004/00815763, Relator: Ministro LUIZ FUX, Data de Julgamento: 21/08/2007, T1 PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJ 01.10.2007 p. 214) Assim, têmse que a inclusão do IPI na base de cálculo do regime de substituição tributária do PIS e da COFINS nas operações com veículos está em perfeita consonância com a gênese do instituto antecipatório, não cabendo a este tribunal afastar a aplicação dos dispositivos que as instituíram e regulam, mormente sob o fundamento alegado pelo contribuinte. 2 Do Pedido de Diligência Por não assistir razão à recorrente quanto ao fundamento basilar da existência do direito creditório pleiteado, incabível a realização de diligência que objetiva a conferência/apuração do montante a ser ressarcido, razão pela qual não se acolhe tal pedido. Por todo o exposto, voto por conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Diego Weis Junior Relator Fl. 152DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10380.001102/2004-19
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/10/2003 a 31/12/2003
PEDIDOS DE RESSARCIMENTO RELATIVOS A TRIMESTRES-CALENDÁRIOS A PARTIR DO 4º DE 2003. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP NÃO-CUMULATIVA. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. DESCABIMENTO, POR EXPRESSA DISPOSIÇÃO LEGAL EM CONTRÁRIO.
Por expressa disposição legal, o aproveitamento de créditos solicitados em Pedidos de Ressarcimento da Contribuição para o PIS/Pasep não-cumulativa relativos a trimestres-calendáros a partir do 4º de 2003 não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores (art. 5º, § 2º, da Lei nº 10.637/2002, e art. 15, c/c art. 13, da Lei nº 10.833/2003).
Numero da decisão: 9303-007.136
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/10/2003 a 31/12/2003 PEDIDOS DE RESSARCIMENTO RELATIVOS A TRIMESTRES CALENDÁRIOS A PARTIR DO 4º DE 2003. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP NÃOCUMULATIVA. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. DESCABIMENTO, POR EXPRESSA DISPOSIÇÃO LEGAL EM CONTRÁRIO. Por expressa disposição legal, o aproveitamento de créditos solicitados em Pedidos de Ressarcimento da Contribuição para o PIS/Pasep nãocumulativa relativos a trimestrescalendáros a partir do 4º de 2003 não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores (art. 5º, § 2º, da Lei nº 10.637/2002, e art. 15, c/c art. 13, da Lei nº 10.833/2003). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 00 11 02 /2 00 4- 19 Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10380.001102/200419 Acórdão n.º 9303007.136 CSRFT3 Fl. 192 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pelo contribuinte (fls. 132 a 151), contra Acórdão proferido pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 3ª Sejul do CARF (fls. 118 a 124), sob a seguinte Ementa: Acórdão nº: 310100.943 Período de apuração: 01/10/2003 a 31/12/2003 PIS NÃO CUMULATIVO. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. Diferentemente da restituição, não há se falar em atualização monetária nem incidência de juros moratórios sobre créditos da contribuição para o PIS nos ressarcimentos decorrentes do regime da não cumulatividade: antes da vigência da Lei 10.833, de 29 de dezembro de 2003, não havia previsão legal; na vigência dessa norma jurídica, o artigo 13 c/c artigo 15, inciso VI, vedam expressamente tais majorações. Recurso voluntário negado. O Recurso Especial, inicialmente, foi protocolizado em 03/01/2012 (fls. 132), mas é datado de 02/11/2011 (fls. 141), e com outro número de Processo (10380.001101/2004 19). Depois, aparece repetido (fls. 146 a 151), subscrito com a mesma data, mas, desta feita, com o número do Processo correto. Certamente houve aí uma “confusão“ por parte de seus patronos, mas, no Recurso, ao qual foi dado seguimento (fls. 177 e 178 – já veremos que teve por base outro paradigma), o contribuinte diz que não conseguiu trazer os paradigmas que deseja, pois ainda não estavam disponíveis no site do CRF (coincidentemente, todos os Processos citados, da mesma empresa – mas com outro Nome Empresarial) estão na Pauta de Julgamento desta Sessão: [nº 10380.000374/200574 (Item 162), nº 10380.720315/200788 (Item 165), nº 10380.720316/200722 (Item 164) e nº 10380.720317/200777 (Item 161)]. Colaciona, efetivamente, somente o seguinte Acórdão (nº 930301.547, de 05/07/2011 – também da mesma empresa) procurando demonstrar a divergência: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2000 a 31/03/2000 CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS; ATUALIZAÇÃO SELIC. As decisões do Superior Tribunal de Justiça, em sede recursos repetitivos, por força do art. 62A do Regimento Interno do CARF, devem ser observadas no Julgamento deste Tribunal Administrativo. Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10380.001102/200419 Acórdão n.º 9303007.136 CSRFT3 Fl. 193 3 ................... No ressarcimento/compensação de crédito presumido de IPI, em que atos normativos infralegais obstaculizaram o creditamento por parte do sujeito passivo, é devida a atualização monetária, com base na Selic, desde o protocolo do pedido até o efetivo ressarcimento do crédito (recebimento em espécie ou compensação com outros tributos). Recurso Provido. Transcreve ainda a Súmula nº 411 do STJ e trechos das Ementas dos Acórdãos nos REsp nº 1.035.847/RS e nº 993.164/MG, todos também relativos ao IPI. Antes do Exame de Admissibilidade do Recurso (e no qual ele foi tomado por base), vem anexar o primeiro dos Acórdãos ao qual alegava não ter acesso na Internet (nº 3403001.290, Processo nº 10380.000374/200574 – repito, em julgamento na Pauta desta Sessão), com a seguinte Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL – COFINS (Correto: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP) Período de apuração: 01/04/2003 a 30/06/2003 (Correto: 01/10/2004 a 31/12/2004) PEDIDO DE RESSARCIMENTO. SALDO DE CRÉDITO DE PIS E COFINS NÃOCUMULATIVOS. ATUALIZAÇÃO ENTRE O PEDIDO E O DEFERIMENTO. CABIMENTO. O direito à atualização no período compreendido entre a data do protocolo do pedido de ressarcimento e a data em que se concretiza o ressarcimento ao contribuinte, decorre da demora a que dá causa a própria Administração Tributária em reconhecer o direito do contribuinte. Entendimento judicial consolidado a respeito do ressarcimento de IPI (STJ, EREsp 468926/SC, DJ 02/05/2005), inclusive em caráter de recurso repetitivo (STJ, REsp 1035847/RS, DJe 03/08/2009), que deve ser transportado para o PIS/Cofins não cumulativo. Recurso provido. A PGFN apresentou Contrarrazões (fls. 180 a 187), pedindo, em caráter preliminar, que o Recurso Especial não seja conhecido, pelo fato de a divergência jurisprudencial não ter sido demonstrada (faz referência ao “primeiro” Acórdão paradigma, ou seja, o da 3ª Tuma da CSRF, nº 930301.547), e, no Mérito, alega que havia, sim, previsão legal para a não aplicação da Taxa SELIC nos caso de Pedidos de Ressarcimento e créditos apurados no último trimestre de 2003, e que, além disto, “à Administração Tributária o princípio da legalidade exige que ela faça somente o que a lei permita”. É o Relatório. Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10380.001102/200419 Acórdão n.º 9303007.136 CSRFT3 Fl. 194 4 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O histórico do Processo leva a algumas dúvidas, mas, considerando que não são descartáveis problemas na digitalização de partes “em papel” com outras já originalmente digitais e, também, o consignado no Exame de Admissibilidade, conheço do Recurso Especial. No Mérito, há que se rechaçar a argumentação que inexistia dispositivo legal que vedasse a incidência de juros/correção monetária no ressarcimento da Contribuição para o PIS/Pasep nãocumulativa. Havia sim – não na Lei nº 10.637/2002, é verdade, mas na Lei nº 10.833/2003 (já em sua redação original – vigente a partir de 31/12/2002, no que interessa), a qual, apesar de, basicamente, reger a cobrança da Cofins, faz várias remissões à Contribuição para o PIS/Pasep: Art. 13. O aproveitamento de crédito na forma do § 4º do art. 3º, do art. 4º e dos §§ 1º e 2º do art. 6º, bem como do § 2º e inciso II do § 4º e § 5º do art. 12, não ensejará atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores. ................... Art. 15. Aplicase à contribuição para o PIS/PASEP não cumulativa de que trata a Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, o disposto ... nos arts. 7º, 8º, 10, incisos XI a XIV, e 13. Há Acórdãos recentes desta mesma Turma neste sentido, como exemplificado a seguir (este, inclusive, de minha lavra): Acórdão nº 9303006.305 (de 26/01/2008) .................... CONTRIBUIÇÃO SOCIAL NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. IMPOSSIBILIDADE. Por expressa disposição legal, é vedada a correção monetária ou o abono de juros sobre os valores de PIS e de Cofins aproveitados mediante ressarcimento. O Pedido de Ressarcimento original (fls. 002), foi protocolizado em 12/02/2004 (fls. 003), tendo sido corrigido em 16/03/2004 (fls. 004 e 005). É bem verdade que é relativo ao último trimestre de 2003 (quando ainda, até o último dia, não vigia a citada alteração legislativa), mas, vejamos o que reza o § 2º do art. 5º da Lei nº 10.637/2002 (também em sua redação original): Art. 5º A contribuição para o PIS/Pasep não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de ... Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10380.001102/200419 Acórdão n.º 9303007.136 CSRFT3 Fl. 195 5 ................... § 2º A pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1º, poderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. O ressarcimento, então, só poderia ter sido solicitado após o encerramento do trimestrecalendário, sendo plenamente aplicável, portanto, o art. 15, c/c art. 13 da Lei nº 10.833/2003. Como é cediço dizer, “a lei me basta”, mas, sabendo que há posições em contrário, utilizome, em caráter enfático, da mesma jurisprudência do STJ aventada no paradigma posteriormente trazido ao Processo, para demonstrar, com a devida vênia, que a relativa aos créditos do IPI não se aplica às contribuições, analisando, primeiramente, a contrario sensu, o que diz o Ministro Luiz Fux logo ao início da Ementa do Acórdão no REsp nº 1.035.847/RS: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. 1. A correção monetária não incide sobre os créditos de IPI decorrentes do princípio constitucional da nãocumulatividade (créditos escriturais), por ausência de previsão legal. 2. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito oriundo da aplicação do princípio da nãocumulatividade, descaracteriza referido crédito como escritural, assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil. Notese também, que a Súmula nº 411, do mesmo STJ, só fala do IPI: Súmula 411: É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco. Complementando (pois, conforme já dito, a lei me dá guarida, de forma expressa, ao não reconhecimento da aplicação da Taxa SELIC) as minhas razões de decidir, grifei o Item 2 da Ementa acima transcrita – e também parte da Súmula nº 411 –, para consignar que, ainda que aquele julgamento fosse aplicável também para PIS/Cofins, no caso concreto, não houve oposição estatal ilegítima (que se configura somente quando a decisão da Unidade de Origem foi revertida nas instâncias administrativas de julgamento). No Despacho Decisório (fls. 036) o Pedido de Ressarcimento foi deferido integralmente, tanto é que o contribuinte em sua Manifestação de Inconformidade (039 a 053), só fala em SELIC. Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10380.001102/200419 Acórdão n.º 9303007.136 CSRFT3 Fl. 196 6 Por derradeiro, afasto aqui o argumento de que o ressarcimento seria “espécie do gênero restituição". São dois institutos completamente distintos (pois senão não faria qualquer sentido a discussão em tela sobre a atualização monetária, pois, efetivamente, há determinação legal expressa para tal, tratandose de repetição do indébito). O direito à restituição é decorrência "automática" do pagamento indevido ou maior que o devido, conforme art. 165, I, do CTN. O ressarcimento tem que estar previsto em lei (a regra geral é só a possibilidade da compensação dos créditos da nãocumulatividade com débitos do próprio tributo). À vista do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 197DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.973279/2011-07
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/04/2007 a 30/06/2007
RESSARCIMENTO DO SALDO CREDOR DO IPI. ÔNUS DA PROVA.
O direito à utilização de créditos está subordinado ao cumprimento das condições estabelecidas para cada caso e das exigências previstas para a sua escrituração, sendo ônus processual da interessada fazer a prova de sua existência e montante.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-005.080
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Valcir Gassen - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: VALCIR GASSEN
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ÔNUS DA PROVA. O direito à utilização de créditos está subordinado ao cumprimento das condições estabelecidas para cada caso e das exigências previstas para a sua escrituração, sendo ônus processual da interessada fazer a prova de sua existência e montante. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 97 32 79 /2 01 1- 07 Fl. 124DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 125 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 110 a 120) interposto pelo Contribuinte, em 10 de abril de 2017, contra decisão consubstanciada no Acórdão nº 1460.330 (fls. 98 a 102), de 27 de abril de 2016, proferido pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP) – DRJ/RPO – que decidiu, por unanimidade de votos, julgar improcedente a Manifestação de Inconformidade (fls. 68 a 73). Visando a elucidação do caso e a economia processual adoto e cito o relatório do referido Acórdão: Tratase de manifestação de inconformidade apresentada pela requerente, ante Despacho Decisório Eletrônico de fl. 63, que indeferiu o crédito de IPI solicitado no valor de R$ 138.116,39, referente ao 2º trimestre de 2007, e, conseqüentemente, não homologou as compensações vinculadas ao presente processo. Conforme o Despacho Decisório Eletrônico, o pleito foi parcialmente deferido pela autoridade administrativa em razão da: a) constatação de que o saldo credor passível de ressarcimento é inferior ao valor pleiteado; b) ocorrência de glosa de créditos considerados indevidos, em procedimento fiscal. Os detalhamentos da apuração do saldo credor ressarcível e das compensações encontramse às fls. 66 e 67. Segundo o Termo de Informação Fiscal, disponível no endereço www.receita.fazenda.gov.br, menu “Onde Encontro”, opção “PERDCOMP”, item “PER/DCOMPDespacho Decisório”, os supostos créditos em questão originaram se de IPI destacados em notas decorrentes de aquisição de insumos utilizados no processo de Industrialização, o chamado crédito básico, porém não escriturados no trimestre próprio (créditos extemporâneos), assim entendido como o prazo em que o IPI deveria ter sido registrado nos livros fiscais nos termos do dispositivo legal vigente (art. 446 do Decreto n° 7.212/2010). Em relação a auditoria das notas fiscais que supostamente geraram os créditos extemporâneos de IPI, verificouse que em relação ao valor destacado de IPI a contribuinte informou no arquivo de notas fiscais ("PDCOMPIPINFCREDITOS EXTEMP.TXT" item 03.07 do termo fiscal) valores de IPI sistematicamente divergentes daqueles efetivamente destacados nas NF's selecionadas pela fiscalização. Desse modo, o arquivo em questão não se prestou para fins de apuração do correto valor de eventual crédito de IPI, o que justificou a glosa do IPI tendo em vista que o crédito lançado no livro de IPI não foi comprovado. Consta ainda no termo fiscal que por se tratar de crédito extemporâneo, tal crédito não é passível de ressarcimento por falta de previsão legal. Regularmente cientificada do despacho decisório, a contribuinte ingressou com a manifestação de inconformidade de fls. 68/73, instruída com os documentos de fls. 74/94, na qual alega, em síntese, que: 1. Ao solicitar o Pedido de Restituição/Ressarcimento dos créditos passíveis de compensação, para posteriormente utilizálo com a confecção da DCOMP, informou todos os seus créditos decorrentes das aquisições efetivadas e escrituradas em seus Fl. 125DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 126 3 registros, considerando o período prescricional de 5 (cinco) anos, como lhe faculta toda a legislação vigente; 2. O procedimento de apropriação de créditos fiscais como efetivado pela requerente, obedeceu regiamente os procedimentos escriturais contidos no art. 21 da IN 210/02 e IN 900/08, posto que se trata de crédito escritural de IPI oriundo da atividade da empresa que adquire insumos tributados e vende seus produtos incididos pela alíquota zero, gerando sempre ao final do período saldo credor, passível de utilização por compensação; 3. A Secretaria da Receita Federal do Brasil glosou todo o valor do crédito pretendido de R$ 138.116,39, porém, não se consegue depreender o porque desse indeferimento, uma vez que o texto legal citado no despacho (art. 11, da Lei 9779/99) labora na verdade a favor da Impugnante e jamais a favor do fisco; 4. Não há no despacho decisório explicações e transparência suficiente a informar à requerente, o porque do ocorrido. O site da RFB a que faz alusão o despacho decisório não se consegue acessar, impedindo a requerente de ter acesso às reais razões fundamentadas que originaram o indeferimento da compensação feita; 5. Ao final, requer o deferimento do crédito constante do PER/DCOMP, com a conseqüente homologação de toda a compensação declarada. Com a decisão contrária ao pleito, o Contribuinte ingressou com Recurso Voluntário. É o relatório. Voto Conselheiro Valcir Gassen Relator O Recurso Voluntário interposto em face da decisão consubstanciada no Acórdão nº 1460.330 é tempestivo e atende os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. O ora analisado Recurso Voluntário visa reformar decisão que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/2007 a 30/06/2007 RESSARCIMENTO DO SALDO CREDOR DO IPI. ÔNUS DA PROVA. O direito à utilização de créditos está subordinado ao cumprimento das condições estabelecidas para cada caso e das exigências previstas para a sua escrituração, sendo ônus processual da interessada fazer a prova de sua existência e montante. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido De forma preliminar, o Contribuinte alega que o processo administrativo que foi instaurado em janeiro de 2011 ultrapassou o prazo regulado no art. 24 da Lei nº 11.457 de Fl. 126DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 127 4 2007, que obriga a decisão administrativa em 360 dias a contar da data do protocolo de petições, defesas ou recursos administrativos do contribuinte. Fato esse que, segundo o Contribuinte, fere o seu direito ao contraditório, à ampla defesa e à razoável duração do processo. Em que pese as alegações do Contribuinte façam sentido e que, de fato, há legislação para que seja garantida a celeridade processual administrativa, devo trazer a tona o princípio da reserva do possível, que se resume como sendo a verificação de que o Estado, por vezes, não possui os meios necessários para efetivar alguns direitos garantidos pela legislação, o que leva a uma prestação limitada de alguns direitos, mas que de forma alguma acarretará em prejuízo na verificação dos direitos discutidos nesta lide. Portanto, nesses termos nego o pedido preliminar do Contribuinte. No mérito, por primeiro, o Contribuinte aduz que o direito ao crédito extemporâneo de IPI decorre do princípio da nãocumulatividade. Como forma de elucidar os argumentos trazidos pelo Contribuinte, cito aqui um trecho do Recurso Voluntário (fls. 112 a 115): Dentro desse conceito jurídico e lastreado na melhor Doutrina, bem como na Jurisprudência, os créditos apropriados pela Impugnante referems às aquisições de Insumos por ela empregados em seu processo industrial, relativamente, às entradas ocorridas no período de Março de 2000 até Janeiro/2005. Tratase de todo material adquirido e usado no processo de industrialização da empresa. Sua fundamentação legal está disciplinada na Constituição Federal/88, em seus arts. 153, inciso IV, § 3º, item II, e, 155, item II, § 2º inciso I, e, no Regulamento do IPI, em seu artigo 146 e seguintes. Tendo em vista que o aproveitamento do crédito deve ocorrer dentro do prazo prescricional e, como esse prazo tem seu marco inicial na data da emissão do documento fiscal, há que se proceder a sua atualização monetária, nos mesmos moldes daquele utilizado pelo Poder Público para atualizar os seus créditos, preservando assim, a expressão gráfica do valor passível de crédito, posto que esse evento (crédito) só se dá após a entrada da mercadoria no estabelecimento adquirente. O exercício desse direito, inclusive, está previsto no art. 150, § 4º. c/c. o art. 173, todos do Código Tributário Nacional, contados da data da emissão do documento fiscal. (...) Como é garantido pela Lei (CTN) ao contribuinte, exercer o seu direito ao crédito no prazo de 5 anos da ocorrência do fato gerador do imposto (entrada no estabelecimento das matérias primas, material de embalagem e produtos intermediários), pode ele, por conseqüência, utilizar esse direito e proceder a compensação dos seus débitos vencidos e não prescritos, ou dos débitos vincendos. Estes são, de forma resumida, os argumentos trazidos pelo Contribuinte para a discussão acerca da admissibilidade ou não dos créditos extemporâneos. Antes de se proceder Fl. 127DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 128 5 a sua análise cabe apresentar as demais questões relacionadas ao mérito no que pertine a PER/ DCOMP – Procedimento; da apropriação do crédito; do embasamento administrativo e da possibilidade do PER/DCOMP. O Contribuinte traz nestes pontos argumentos no sentido de que o IPI é um tributo com a característica da não cumulatividade e que a decisão ora recorrida cometeu o equívoco de indeferir a compensação pleiteada pelo fato de que o crédito não se referia ao trimestre imediatamente anterior ao período que o Contribuinte buscou compensar o crédito, conforme se verifica no seguinte trecho do Recurso (fls. 116 e seguintes): A requerente elaborou o PER/DCOMP em apreço, nos exatos termos e procedimentos descritos na IN 210/02, relativos ao programa, requerendo o Ressarcimento do valor do IPI creditado regularmente em sua escrita fiscal. Em sua atividade operacional, a requerente recebe insumos tributados pelo IPI, que vem destacado nos documentos fiscais dos seus fornecedores, lanca̧ndo esses valores do imposto no Livro Registro de Entradas. A saída dos seus produtos é incidida pela alíquota zero, fazendo com que ao final do período mensal, tenha ela saldo credor, o qual aumenta mês/mês. Face a legislação vigente e a natureza jurídica do IPI, que é tributo não cumulativo, pode a requerente proceder ao pagamento dos outros tributos e contribuições arrecadados pela Receita Federal do Brasil, nos exatos termos do art. 11, da Lei 9779/99. (...) No caso presente, a norma legal citada no Despacho Decisório proferido pela autoridade administrativa, é o art. 11 da Lei 9779/99, como sustentador do Indeferimento. Absurda essa conclusão, sendo aceita somente por quem não tenha formação em direito, ou não labute na área tributária. A autoridade administrativa no Despacho Decisório ora impugnado via Manifestação de Inconformidade, Indeferiu a compensação pleiteada sob o argumento de que o crédito deve necessariamente referirse a um trimestre calendário imediatamente anterior ao período seguinte que se pretende pagar via compensação de crédito e débito. Ora, o que o texto legal (art. 11, Lei 9779/99) diz, é que o crédito acumulado em cada trimestre calendário, decorrente das entradas de insumos tributadas, poderá ser utilizado para pagamento dos débitos do contribuinte arrecadados pela SRF. Não há no texto legal em questão, qualquer vinculação expressa de que o crédito acumulado em um determinado trimestre calendário, tem que necessariamente ser utilizado no seguinte sob pena de Indeferimento se assim for feito, como no caso presente. Dar guarida a esse entendimento é rasgar a Constituição Federal, o Código Tributário Nacional e os princípios de direito que consagram o instituto jurídico da Prescrição, como forma de aquisição de direitos e de perda do direito de ação de cobrança de débitos pela inércia do agente encarregado da cobrança. (...) O INDEFERIMENTO, efetuado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, glosou todo o valor do crédito pretendido de R$ 138.116,39, porém, não se consegue depreender o porque desse Indeferimento, uma vez que o texto legal citado no despacho (art. 11, da Lei 9779/99), como amplamente explicado nestas Fl. 128DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 129 6 considerações de Manifestação de Inconformidade, labora na verdade a favor da Impugnante e jamais a favor do fisco. Percebese que no Recurso Voluntário o Contribuinte repete os argumentos já expostos quando da Manifestação de Inconformidade e não apresenta argumentos contraditando a decisão ora recorrida com a apresentação de provas de seu direito. Cito trechos do voto do acórdão ora recorrido como razões para decidir (fls 100 e seguintes): (...) Primeiramente, cabe esclarecer que ao consultar o Despacho Decisório disponível no endereço www.receita.fazenda.gov.br, menu “Onde Encontro”, opção “PERDCOMP”, não foram encontrados problemas para realizar o download do arquivo “SCCdespachoREFLETIVA.PDF”, exatamente como demonstrado ao final do documento “PER/DCOMP Despacho Decisório – Análise de Crédito” de fl. 66. Referido arquivo contém o Termo de Informação Fiscal, conforme já exposto no Relatório do presente acórdão. Assim, não há qualquer discussão sobre impedimento de acesso às razões que originaram o Despacho Decisório em questão. A partir da redação conferida pela Lei no 10.637, de 30 de dezembro de 2002, ao art. 74 da Lei no 9.430, de 1996, a compensação tributária passou a ser implementada pelo sujeito passivo mediante a entrega de declaração de compensação (DCOMP), da qual constariam informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos. O efeito imediato da declaraçaõ é a extinção do crédito tributário, ainda que sob condicã̧o. Nesses termos, a DCOMP se presta a formalizar o encontro de contas entre o contribuinte e a Fazenda Pública, por iniciativa do primeiro a quem cabe, portanto, a responsabilidade pelas informações sobre os créditos e os débitos, cabendo à autoridade tributária a sua necessária verificação e validaçaõ. Encontradas conformes, sobrevém a homologação confirmando a extinção. Inconsistentes as informações prestadas pelo declarante, o inverso se verifica e a compensação não é homologada. Devese destacar que a parte que invoca direito resistido deve produzir as provas necessárias do respectivo fato constitutivo. No caso em concreto, o administrado deve carrear aos autos as provas que dão lastro ao direito creditório reclamado. Tratase de postulado do Código de Processo Civil, instituído pela Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973, e adotado de forma subsidiária na esfera administrativa tributária: Art. 333. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Art. 396. Compete à parte instruir a petição inicial (art. 283), ou a resposta (art. 297), com os documentos destinados a provarlhe as alegações. Assim, na hipótese de solicitação administrativa, recai sobre a interessada o ônus de provar a pretensão deduzida. Logo, o pedido administrativo deve ser instruído com todos os elementos hábeis a demonstrar o direito da requerente. Pois bem, considerando que o processo trata de pleito do interesse da contribuinte, a matéria em questão é regida pela Lei no 9.784/99, nos seguintes dispositivos: Fl. 129DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 130 7 Art. 39. Quando for necessária a prestacã̧o de informações ou a apresentacã̧o de provas pelos interessados ou terceiros, serão expedidas intimações para esse fim, mencionandose data, prazo, forma e condições de atendimento. Parágrafo único. Não sendo atendida a intimação, poderá o órgão competente, se entender relevante a matéria, suprir de ofício a omissão, não se eximindo de proferir a decisão. Art. 40. Quando dados, atuações ou documentos solicitados ao interessado forem necessários à apreciação de pedido formulado, o não atendimento no prazo fixado pela Administração para a respectiva apresentação implicará arquivamento do processo. Como se vê, o Despacho Decisório proferido pelo órgão competente, à luz da norma supracitada, não é insubsistente, nem improcedente, como quer a interessada, mas sim imposição legal. O Termo de Informação Fiscal, disponível no endereço www.receita.fazenda.gov.br, menu “Onde Encontro”, opção “PERDCOMP”, item “PER/DCOMPDespacho Decisório”, traz exposto no item 03.11, transcrito abaixo, as divergências encontradas na análise do direito creditório: 03.11. Da auditoria das Notas Fiscais (NF's) que Geraram Crédito de IPI e das NF's de SAÍDAS dos produtos Relativamente às Notas Fiscais (NF's) selecionadas as seguintes verificacõ̧es foram efetuadas: a) Validade das NF's: formato, presenca̧ de dados essenciais como a identificacã̧o do emitente e destinatário (CNPJ, razão social, endereço), n° série da NF, campos para identificação do destinatário, CFOP, data de emissão, data de saída, descrição dos produtos e outros exigidos por lei; b) Inclusão indevida de NF de ENTRADA que não seja relativa à aquisição de insumos para industrialização (por exemplo, aquisição de bens para o ativo permanente cujo crédito NÃO é passível de ressarcimento); c) Validade do CNPJ do emitente (NF de compra) e do destinatário (NF de V enda); d) Data de ENTRADA/SAÍDA (conforme o caso); e) Classificação Fiscal e alíquota dos produtos constantes da NF's assim como o valor destacado de IPI; f) Valor destacado de IPI. Em relação a essas verificações propostas observamos que em relação ao último item ("Valor destacado de IPI") o contribuinte informou no arquivo de notas fiscais (NF's) que supostamente geraram créditos extemporâneos ("PDCOMPIPI NFCREDITOSEXTEMP.TXT" vide item 03.07 anterior) valores de IPI sistematicamente divergentes daqueles efetivamente destacados nas NF's selecionadas por essa fiscalização. Desse modo, o arquivo em questão não se presta para fins de apuracã̧o do correto valor de eventual crédito de IPI o que, por si só, justifica a GLOSA do IPI tendo em vista que o crédito lanca̧do no livro de IPI não foi comprovado. O Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972, art. 16, III, com redação dada pela Lei no 8.748, de 9 de dezembro de 1993, art. 1 , e § 4 , introduzido pela Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997, art. 67, estabeleceu: Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 131 8 Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. (redação dada pela Lei no 8.748, de 1993) (...) § 4o A prova documental será apresentada na impugnacã̧o, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Adicionese que o direito alegado somente tem validade quando comprovado sua materialidade, ou seja, quando qualificado e quantificado. Não se trata aqui de inadequaçaõ do pedido, mas do ônus da prova. Portanto, não restou provado, no processo, o montante a se ressarcir. O voto da decisão ora recorrida é bastante preciso em apontar quais foram os motivos para a glosa efetuada, inclusive com trechos do Termo de Informação Fiscal em que se aponta as irregularidades cometidas desta forma: Em relacã̧o a essas verificações propostas observamos que em relacã̧o ao último item ("Valor destacado de IPI") o contribuinte informou no arquivo de notas fiscais (NF's) que supostamente geraram créditos extemporâneos ("PDCOMPIPI NFCREDITOSEXTEMP.TXT" vide item 03.07 anterior) valores de IPI sistematicamente divergentes daqueles efetivamente destacados nas NF's selecionadas por essa fiscalização. Desse modo, o arquivo em questão não se presta para fins de apuracã̧o do correto valor de eventual crédito de IPI o que, por si só, justifica a GLOSA do IPI tendo em vista que o crédito lanca̧do no livro de IPI não foi comprovado. O Contribuinte no processo, e mesmo já em fase recursal, não comprova a existência de créditos de IPI. Assim, de acordo com a legislação e os autos do processo, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo Contribuinte. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Fl. 131DF CARF MF Processo nº 10880.973279/201107 Acórdão n.º 3301005.080 S3C3T1 Fl. 132 9 Fl. 132DF CARF MF
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Numero do processo: 10935.004177/2010-78
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 31/01/2005 a 31/12/2008
SIMULAÇÃO. PROVA INDIRETA. INDÍCIOS CONVERGENTES. TERCEIRIZAÇÃO. EMPRESAS OPTANTES PELO SIMPLES. EVASÃO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA.
Há simulação quando a vontade declarada destoa da vontade real. A contratação de empresas optantes pelo Simples apenas para o fornecimento de serviços, mantidos com a contratante os elementos caracterizadores da relação empregatícia, configura simulação para evadir-se de obrigações previdenciárias.
SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA.
É o contribuinte quem possui relação pessoal e direta com a situação constitutiva do fato gerador. Havendo simulação, o contribuinte é aquele que emerge do desvelo dos fatos simuladores, no caso, a contratante dos serviços impropriamente terceirizados a empresas optantes pelo Simples.
CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. COMPETÊNCIA PARA O LANÇAMENTO. AUDITORES-FISCAIS DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. NORMA ANTIELISIVA GERAL. DESCONSIDERAÇÃO DE PERSONALIDADE JURÍDICA.
Compete privativamente aos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil a constituição, pelo lançamento de ofício, das contribuições previdenciárias. É etapa do lançamento a correta identificação do sujeito passivo, que não se confunde com a aplicação de norma antielisiva geral ou desconsideração de personalidade jurídica.
JULGADORES A QUO. ISENÇÃO. LIVRE CONVENCIMENTO.
A autoridade julgadora é livre para formar sua convicção diante de sua interpretação das provas. Identificados elementos convincentes e justificada a convicção, não cabe a alegação de falta de isenção do julgador.
SIMULAÇÃO. DECADÊNCIA.
Havendo simulação, a regra decadencial é a prevista no parágrafo único do art. 173 do CTN.
PAGAMENTOS DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA EFETUADOS PELAS EMPRESAS INTERPOSTAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE JULGADORA PARA RECONHECIMENTO DE CRÉDITOS FORA DA LIDE. ILEGITIMIDADE ATIVA PARA SOLICITAR INDÉBITO DE TERCEIROS.
O lançamento tributário requer a identificação do real sujeito passivo. A identificação dos sujeito passivo oculto pela simulação não implica desconsideração da personalidade jurídica das empresas interpostas, que permanecem titulares de direitos e deveres. Carece de legitimidade ativa ao sujeito passivo oculto para pleitear o indébito de terceiros. O reconhecimento do direito creditório, quando alheio à lide, não é competência da autoridade julgadora, mas da autoridade tributária, aplicando-se o rito típico da espécie. Os pagamentos ao Simples efetuados pelas empresas interpostas não podem ser aproveitados para compensação com débitos de contribuição previdenciária do verdadeiro sujeito passivo, por conta da limitação imposta pelo art. 89 da Lei nº 8.212, de 1991.
PERÍCIA. DESNECESSIDADE. ELEMENTOS PRESENTES NOS AUTOS. PLENO CONHECIMENTO DO REQUERENTE.
A autoridade julgadora poderá determinar as perícias necessárias para a formação de sua convicção. Presentes, nos autos, os elementos suficientes ao convencimento do julgador, prescindível é a perícia. Não assiste razão ao deferimento de pedido de perícia quando a defesa tem acesso às informações que pretenderia obter.
Numero da decisão: 2301-005.367
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (a) por unanimidade de votos, não conhecer do recurso na questão relativa à exigência de garantias e na questão dos pagamentos às cooperativas de trabalho; (b) por maioria de votos, conhecer do pedido de aproveitamento dos pagamento realizados por terceiras pessoas jurídicas, vencido o conselheiro João Bellini Júnior, que não o conhecia; (c) por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares e (d) por unanimidade de votos, denegar o pedido de perícia; (e) no mérito, (e.1) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso nas questões da decadência, legitimidade da recorrente e ao pagamento a empregados, cota dos segurados, (e.2) pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso na questão de aproveitamento dos pagamentos ao Simples por terceiras pessoas jurídicas; vencidos na questão os conselheiros Wesley Rocha, Alexandre Evaristo Pinto, Marcelo Freitas de Souza Costa e Fernanda Melo Leal. Impedida a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, sendo substituída pela conselheira Fernanda Leal.
(assinado digitalmente)
João Bellini Júnior - Presidente.
(assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada), Marcelo Freitas de Souza Costa, Fernanda Melo Leal (suplente convocada em substituição aos impedimentos da conselheira Juliana Marteli Fais Feriato) e João Bellini Júnior (Presidente).
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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PROVA INDIRETA. INDÍCIOS CONVERGENTES. TERCEIRIZAÇÃO. EMPRESAS OPTANTES PELO SIMPLES. EVASÃO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. Há simulação quando a vontade declarada destoa da vontade real. A contratação de empresas optantes pelo Simples apenas para o fornecimento de serviços, mantidos com a contratante os elementos caracterizadores da relação empregatícia, configura simulação para evadirse de obrigações previdenciárias. SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA. É o contribuinte quem possui relação pessoal e direta com a situação constitutiva do fato gerador. Havendo simulação, o contribuinte é aquele que emerge do desvelo dos fatos simuladores, no caso, a contratante dos serviços impropriamente terceirizados a empresas optantes pelo Simples. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. COMPETÊNCIA PARA O LANÇAMENTO. AUDITORESFISCAIS DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. NORMA ANTIELISIVA GERAL. DESCONSIDERAÇÃO DE PERSONALIDADE JURÍDICA. Compete privativamente aos AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil a constituição, pelo lançamento de ofício, das contribuições previdenciárias. É etapa do lançamento a correta identificação do sujeito passivo, que não se confunde com a aplicação de norma antielisiva geral ou desconsideração de personalidade jurídica. JULGADORES A QUO. ISENÇÃO. LIVRE CONVENCIMENTO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 5. 00 41 77 /2 01 0- 78 Fl. 495DF CARF MF 2 A autoridade julgadora é livre para formar sua convicção diante de sua interpretação das provas. Identificados elementos convincentes e justificada a convicção, não cabe a alegação de falta de isenção do julgador. SIMULAÇÃO. DECADÊNCIA. Havendo simulação, a regra decadencial é a prevista no parágrafo único do art. 173 do CTN. PAGAMENTOS DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA EFETUADOS PELAS EMPRESAS INTERPOSTAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE JULGADORA PARA RECONHECIMENTO DE CRÉDITOS FORA DA LIDE. ILEGITIMIDADE ATIVA PARA SOLICITAR INDÉBITO DE TERCEIROS. O lançamento tributário requer a identificação do real sujeito passivo. A identificação dos sujeito passivo oculto pela simulação não implica desconsideração da personalidade jurídica das empresas interpostas, que permanecem titulares de direitos e deveres. Carece de legitimidade ativa ao sujeito passivo oculto para pleitear o indébito de terceiros. O reconhecimento do direito creditório, quando alheio à lide, não é competência da autoridade julgadora, mas da autoridade tributária, aplicandose o rito típico da espécie. Os pagamentos ao Simples efetuados pelas empresas interpostas não podem ser aproveitados para compensação com débitos de contribuição previdenciária do verdadeiro sujeito passivo, por conta da limitação imposta pelo art. 89 da Lei nº 8.212, de 1991. PERÍCIA. DESNECESSIDADE. ELEMENTOS PRESENTES NOS AUTOS. PLENO CONHECIMENTO DO REQUERENTE. A autoridade julgadora poderá determinar as perícias necessárias para a formação de sua convicção. Presentes, nos autos, os elementos suficientes ao convencimento do julgador, prescindível é a perícia. Não assiste razão ao deferimento de pedido de perícia quando a defesa tem acesso às informações que pretenderia obter. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (a) por unanimidade de votos, não conhecer do recurso na questão relativa à exigência de garantias e na questão dos pagamentos às cooperativas de trabalho; (b) por maioria de votos, conhecer do pedido de aproveitamento dos pagamento realizados por terceiras pessoas jurídicas, vencido o conselheiro João Bellini Júnior, que não o conhecia; (c) por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares e (d) por unanimidade de votos, denegar o pedido de perícia; (e) no mérito, (e.1) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso nas questões da decadência, legitimidade da recorrente e ao pagamento a empregados, cota dos segurados, (e.2) pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso na questão de aproveitamento dos pagamentos ao Simples por terceiras pessoas jurídicas; vencidos na questão os conselheiros Wesley Rocha, Alexandre Evaristo Pinto, Marcelo Freitas de Souza Costa e Fernanda Melo Leal. Impedida a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, sendo substituída pela conselheira Fernanda Leal. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Presidente. Fl. 496DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 496 3 (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada), Marcelo Freitas de Souza Costa, Fernanda Melo Leal (suplente convocada em substituição aos impedimentos da conselheira Juliana Marteli Fais Feriato) e João Bellini Júnior (Presidente). Relatório Tratase do Auto de Infração nº 37.212.5034, constituído em 29/07/2010 (e fl. 363), para exigência de contribuições previdenciárias dos segurados empregados e contribuintes individuais, incidentes sobre suas remunerações, sob responsabilidade da Sperafico por caracterização de simulação para evasão de tributos. As contribuições são relativas ao período de 01/2005 a 12/2008. A Recorrente apresentou impugnação (efls. 365 a 440), que foi julgada improcedente nos termos do Acórdão nº 0632.044 (efls. 470 a 493). Na contestação, a Recorrente alegou, em suma: a) que não poderia ser considerada sujeito passivo da relação tributária; b) que alguns períodos lançados teriam sido alcançados pela decadência; c) que não foram aproveitados, no lançamento, os recolhimentos efetuados pelas "pessoas jurídicas desconsideradas", cujos valores requereu serem apurados por perícia; d) que as atividades transferidas às outras empresas não eram suas atividades econômicas principais e finalísticas; e) que os agentes fiscais teriam modificado o empregador nos contratos celebrados entre os trabalhadores e as "pessoas jurídicas desconsideradas"; f) que teriam sido aplicadas a "teoria da desconsideração da personalidade jurídica" e a "norma antielisiva geral", circunstâncias que seriam alheiras às competências do Fisco; g) que a terceirização de suas atividades aconteceu nos termos do Enunciado TST nº 331, pois tratavamse de atividadesmeio; h) que a Autoridade Autuante teria utilizadose de critérios subjetivos, sem provas contundentes, e chegado a conclusões equivocadas sobre a relação da Recorrente com as empresas contratadas; i) que não cabe ao Fisco alterar contratos e negócios jurídicos constituídos no âmbito do Direito Privado; Fl. 497DF CARF MF 4 j) que as terceirizações teriam ocorrido para proporcionar melhor gerenciamento administrativo das atividadesmeio; k) que não incidiria contribuição previdenciária sobre os pagamentos a cooperativas de trabalho; l) que são indevidos os juros com base na taxa Selic, que possui natureza de indenização, e não de remuneração; m) que o seja observada a conexão e a continência com outros processos resultantes da mesma ação fiscal e processos decorrentes de autos lavrados em desfavor das empresas contratadas, iniciandose o julgamento pelo auto de infração nº 37.212.5026 para que sua decisão repercuta nos demais. Foi, então, interposto recurso voluntário (efls. 458 a 466) no qual a Recorrente reafirmou os termos da impugnação e aduziu: a) a inconstitucionalidade da exigência de garantias como condição para o apelo recursal. b) a falta de isenção dos julgadores da primeira instância administrativa porquanto não vincularam os fundamentos jurídicos às provas dos autos. É o relatório. Voto Conselheiro João Maurício Vital Relator. 1 Do conhecimento O recurso é tempestivo, pelo que se constata em despacho da unidade preparadora (efl. 467). Deixo de conhecer a questão relativa à exigência de garantias porque não está na lide. Ademais, o recurso interposto não foi condicionado à prestação de qualquer garantia. Também não conheço do recurso quanto à incidência de contribuição previdenciária sobre pagamentos a cooperativas de trabalho, que não fazem parte deste processo. Conheço, entretanto, das demais matérias. Registrese que o auto de infração deste processo guarda estreita relação com o Processo nº 10935.004176/201023, ao qual se encontra apensado e onde estão a quase totalidade das provas juntadas pela Autoridade Lançadora, inclusive o Relatório Fiscal (efls. 518 a 738 do Processo nº 10935.004176/201023), e pela Recorrente. Portanto, neste voto serão feitas referências a partes do Processo nº 10935.004176/201023. Fl. 498DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 497 5 2 Das preliminares 2.1 DA ILEGITIMIDADE PASSIVA A Recorrente sustentou que, tendo as Autoridades Fiscais lançado a obrigação principal em seu nome e as penalidades relativas às obrigações acessórias em nome de outras empresas, as quais teriam sido desconsideradas pelo Fisco, configuraria a ilegitimidade passiva da Recorrente. O que arguiu foi que, se houve lançamento reflexo nas empresas desconsideradas, como poderia, a Recorrente, ser o sujeito passivo da obrigação principal? Para responder à questão, há que se adentrar no ponto mais determinante do Processo nº 10935.004176/201023 e deste processo, que é a identificação de quem tem relação pessoal e direta com a situação que constituiu os fatos geradores da exação. As Autoridades Lançadoras afirmaram, em síntese, que a Recorrente teria se utilizado de uma rede de empresas de fachada (KL, LDI, Olecargas, Plasma, PP, PPMS, RTC, Spartano, Tolecargas, Tolenorte, TPC, Transcar, VS e Wsul), que aqui serão genericamente referidas por empresas decorrentes, todas optantes pelo Simples, para evadirse das obrigações previdenciárias, na medida em que utilizava a mãodeobra de trabalhadores registrados formalmente naquelas empresas, mas que, em verdade, seriam trabalhadores da própria Recorrente. As circunstâncias nas quais o Fisco se baseou para concluir pela legitimidade passiva da Recorrente foram assim resumidas (Relatório Fiscal, efls. 514 e 515 do Processo nº 10935.004176/201023): Ficou constatado que as empresas não possuem existência de fato, sendo criadas apenas para possibilitar a obtenção de benefícios fiscais pois todas realizaram Opção Pelo Simples por parte da SPERAFICO; que as receitas auferidas pelas empresas provinham da própria SPERAFICO, o que em dados momentos foi inferior ou muito próximo às despesas com pessoal; que os segurados empregados registrados nas empresas trabalhavam nas dependências da SPERAFICO ou a serviço desta, desenvolvendo as atividades operacionais da mesma, mas cujos contratos de trabalho constam nas diversas empresas; que posteriormente os empregados remanescentes foram transferidos para a SPERAFICO; que são utilizadas pessoas que não detém a real qualidade de sócios nas diversas empresas, vulgarmente conhecidos como "laranjas", pessoas que mantêm/mantinham ou mantiveram vínculos com a SPERAFICO. A investigação fiscal identificou vários elementos que sustentaram a conclusão quanto à interposição de pessoas e o uso de empresas de fachada. Por serem essenciais ao deslinde da controvérsia jurídica, é importante enumerar os principais indícios e provas apontados pelo Fisco. Fl. 499DF CARF MF 6 2.1.1 Da criação e dos dados cadastrais das empresas decorrentes As empresas decorrentes informaram o mesmo endereço da Sperafico ou, em alguns casos, em imóveis a ela pertencentes. Em outras situações, o endereço era a residência do sócio (efls. 516 e 517 do Processo nº 10935.004176/201023). Observase no Quadro Anexo II Sócios (efls. 834 a 837 do Processo nº 10935.004176/201023) que os sócios das empresas decorrentes ou são sócios da Sperafico, ou possuem com ela vínculo empregatício, ou foram dela empregados, ou são empregados de outra empresa decorrente ou, de algum modo, possuem relações de parentesco com empregados da Sperafico. Sobre a questão, assim se pronunciou o Relatório Fiscal (efl. 518 do Processo nº 10935.004176/201023): No Quadro Anexo II (fls. 829/832) é apresentada a situação dos supostos quadros societários das empresas. É fácil visualizar a estreita vinculação entre todos, seja mediante emprego direto na SPERAFICO ou em outras das empresas, ou mesmo vínculo familiar. A subordinação à SPERAFICO das pessoas que figuram no quadro societário da maioria das empresas é evidente. Podese afirmar que a subordinação é tão evidente que em alguns casos a própria SPERAFICO assume a condição de sócio majoritário da empresa, conforme será relatado adiante. Os contadores das empresas decorrentes também possuíam algum vínculo com a Sperafico, como se constata no seguinte trecho do relatório fiscal (efl. 518 do Processo nº 10935.004176/201023) e, ainda no Quadro Anexo II Contadores (efls. 839 a 841 do Processo nº 10935.004176/201023) No Quadro III (fls. 833/836) é apresentada a vinculação entre empresas e contadores. Percebese também que a escrita contábil das empresas remete à vinculação com a SPERAFICO. No ano de 2005, esteve dividida entre os contadores Clerione Raquel Herther (LDI), Carlos Alberto Koval (KL, OLECARGAS, PP, RTC, TOLECARGAS, TOLENORTE, TRANSCAR, WSUL) e Neldo Danzer (PPMS, TPC, VS); já no período de 2006 a 2008 ficou apenas como Contador de todas as empresas o funcionário da SPERAFICO Luciano Vendramini Bassi. Na SPERAFICO atuou como Contadores no período de 2005 a 2008, além da Sra. Clerione Raquel Herther o Sr. Aloisio Antonio Bonemberger (sic.) Até mesmo as testemunhas que assinaram os contratos sociais e respectivas alterações eram vinculadas à Sperafico, como se observa no Quadro Anexo IV Testemunhas (efls. 844 e 845 do Processo nº 10935.004176/201023). 2.1.2 Das atividades das empresas decorrentes Consta dos documentos dos autos (efls. 765 do Processo nº 10935.004176/201023) que o objeto social da Sperafico coincide, em grande parte, com o objeto social das empresas decorrentes. Com base nas informações do processo, elaborouse a Tabela 1 Atividades, anexa a este voto, para bem ilustrar a compatibilidade das atividades. 2.1.3 Utilização de plano de contas em comum Segundo o Relatório Fiscal (efls. 518 e 519 do Processo nº 10935.004176/201023): Fl. 500DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 498 7 Ficou constatado que o PLANO DE CONTAS da SPERAFICO é o mesmo que foi utilizado pelas demais empresas no período de 2006 a 2008 (no ano de 2005, as empresas, à exceção da LDI, tiveram escrituração realizada em escritórios contábeis distintos da estrutura da SPERAFICO). Teoricamente, isto não deveria acontecer, já que se fossem empresas distintas, com administrações distintas e contabilidades diferentes, cada qual organizaria sua própria escrituração. No entanto, aconteceu e está comprovado com a juntada do Plano de Contas da SPERAFICO em anexo (fls. 772/785), o qual corresponde aos planos de contas das outras empresas, que também são juntados em anexo (cópias às fls. KL 968/985, LDI. 1292/1310, OLECARGAS 1532/1549, PLASMA 1734/1753 PP 1998/2018, PPMS 2355/2373, RTC 2610/2628, TOLECARGAS 2946/2964, TOLENORTE 3174/3191, TPC 3607/3625, TRANSCAR 3948/3960, VS 4172/4190, WSUL 4394/4414). De fato, o uso do mesmo plano de contas em todas as empresas, embora, isoladamente, não se constitua prova definitiva, é um indício que converge para a conclusão de que as empresas eram, em verdade, uma extensão da Sperafico. O plano de contas é elemento característico de uma entidade, pois reflete a organização patrimonial e os registros do resultado empresarial, que normalmente é diferente em cada empresa, sobretudo quando os objetos sociais são distintos. No caso, em que se tem empresas dos ramos de comercialização de peças e manutenção e reparo de veículos, de transporte rodoviário de cargas, de capatazia (carga e descarga de produtos), de industrialização, empacotamento e comércio de cereais, de fabricação de móveis, é no mínimo muito incomum que um mesmo plano de contas possa servir a todas as empresas. 2.1.4 Do local onde os trabalhadores das empresas decorrentes atuavam Conta do Relatório Fiscal (efls. 519 e 520 do Processo nº 10935.004176/201023) que as empresas decorrentes ou tinham o mesmo endereço das filiais e matriz da Sperafico ou mantinham funcionários nas suas dependências. O relatório descreve cada uma das situações, envolvendo cada empregado, cada filial e cada empresa decorrente, em que os empregados prestaram serviço diretamente nas filiais da Sperafico. A título de exemplo ilustrativo, reproduzse a situação encontrada na empresa KL (efl. 527 do Processo nº 10935.004176/201023): Não possui filial. No entanto, confirmando o que fora afirmado anteriormente, os trabalhadores desta "empresa" eram alocados em diversas filiais da SPERAFICO. Vejase a propósito "Relação de Empregados" (fls. 1101/1104), que evidencia o fato, como por exemplo, trabalhadores alocados na MATRIZ (TOLEDO), e filiais como Tupãssi , Vila Nova, Nova Aurora, Cascavel, Vila Ipiranga, São Luiz, Guaíra, Santa Inês, no setor de Transportes (Toledo), Braganey, São José, Indústria e Penha. Encontrase demonstrado na planilha (fls. 4688/4719) denominada de QUADRO ANEXO V NF PRESTADORAS X FILIAIS SPERAFICO que, em razão da filial da SPERAFICO tomadora do serviço de acordo com a Nota Fiscal, eram alocados trabalhadores registrados na KL a prestarem serviços Fl. 501DF CARF MF 8 a diversas filiais da SPERAFICO em diversas localidades diferentes da sede da KL, o que confirma a informação acima e realça o aspecto de que a subordinação desses empregados era de fato com a SPERAFICO já que as empregadoras (prestadoras de serviço) aparentes não se faziam presentes nos locais das prestações de serviços. A situação verificada na empresa KL se repetiu, com o mesmo modus operandi, em outras empresas decorrentes. 2.1.5 Do fornecimento de recursos financeiros às empresas decorrentes Segundo o Relatório Fiscal (efl. 521 do Processo nº 10935.004176/201023): As diversas empresas "prestadoras de serviços", registraram, no período fiscalizado, de forma contumaz, severos resultados negativos (prejuízos) ante um pequeno valor de capital social. Ou seja, não ostentavam condições econômicas de operar com normalidade, sua existência se justificava para o fim evidente de burlar a legislação tributária, com a obtenção indevida de benefícios fiscais através da indevida inclusão no SIMPLES. Em itens adiante será evidenciada a situação por empresa. Em face disso, para a existência das "prestadoras de serviços", mesmo que apenas na aparência, era a SPERAFICO quem fornecia recursos financeiros, seja na condição de único tomador de serviços, seja, por fim na condição de sócio majoritário, como em alguns casos, com a integralização de capital social com créditos seus junto à prestadora. O Fisco entendeu que, ao apresentarem prejuízos constantes e sobreviverem apenas de recursos oriundos da Sperafico, as empresas decorrentes não exerciam, na verdade, atividade econômica. Eram apenas extensões da própria Sperafico. Filiome, neste caso, ao entendimento do Fisco. Está demonstrado (efls. 527 e 528 do Processo nº 10935.004176/201023) que as empresas decorrentes acumularam prejuízos, isto porque a Sperafico, única cliente, transferia recursos suficientes apenas para pagar o custo dos serviços que foram prestados por aquelas empresas, sem possibilidade de gerar resultado positivo. A característica essencial da atividade empresarial produtiva é a busca pelo lucro, se as empresas decorrentes tinham suas receitas provenientes exclusivamente da Sperafico e seus prejuízos cobertos por aporte de capital desta empresa, sem que gerassem resultados positivos, resta bem evidenciado que elas não tinham propósito empresarial. 2.1.6 Das folhas de pagamento e demais atos de gestão de RH Consta do Relatório Fiscal (efl. 522 do Processo nº 10935.004176/201023): Além disso, no período de 2006 a 2008, o processamento da folha de pagamento, a organização e a realização de todas as tarefas atinentes ao RH das empresas estaria, como quer fazer crer a situação que foi apresentada à auditoría fiscal, a cargo de uma única pessoa responsável pelo parte contábil e de RH, na pessoa do contador (funcionário da SPERAFICO) Luciano Vendramini Bassi (que se apresenta como sendo profissional autônomo, desvinculado da SPERAFICO, para fins de atender às "prestadoras de serviços"). Seria evidentemente impossível que uma única pessoa realizasse todas as tarefas, desde controle de Fl. 502DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 499 9 freqüência, processamento dos diversos itens de folha de pagamento, controle e efetivação de pagamento de pessoal, controle de férias, licenças, FGTS, SEFIP/GFIP; Previdência Social, processamento e controle dos benefícios (mercado,farmácia, Unimed, gás), e além disso realizar a escrituração contábil de todas as empresas com todas as outras tarefas atinentes à área contábil e fiscal. Na realidade, os fatos apurados evidenciam que a folha de pagamento foi, como não podia ser diferente, processada dentro da SPERAFICO, no setor próprio de RH desta, com o pessoal desta. Isto fica demonstrado de modo mais claro por empresa em itens adiante, onde se vê que até determinados erros cometidos no processamento de uma folha de pagamento, o mesmo erro repercutia nas demais, como se fosse (como de fato é) apenas uma única folha de pagamento. Observese que, segundo foi apurado na investigação fiscal, a gestão de pessoal e a confecção da folha de pagamento dos empregados das empresas decorrentes acontecia dentro da Sperafico, por empregados do setor de recursos humanos desta empresa, sob a responsabilidade de seu contador. Verificase que os emails fornecidos nos documentos apresentados pelas empresas decorrentes eram sempre do domínio @sperafico.com.br. O acórdão recorrido bem apontou (efl. 7126 do Processo nº 10935.004176/201023) o exemplo das informações ao Caged em que consta eloi@sperafico.com.br. Mais uma vez corroboro o entendimento do Fisco de que essa condição denota uma incomum participação da Sperafico na gestão dos trabalhadores da empresas decorrentes, o que só se justifica se, como sustentado pelas Autoridades Lançadoras, os empregados fossem de fato da Sperafico, ainda que estivessem registrados em nome de outras empresas. 2.1.7 Da movimentação de empregados com o advento do Simples Nacional Ainda quanto à administração de recursos humanos, a Fiscalização Tributária observou a transferência de empregados das empresas decorrentes para a Sperafico. Isto porque, com o fim do Simples, em 2007, o modelo que teria sido criado pela Recorrente deixou de possibilitar o benefício tributário; não havia, pois, mais razões de seus trabalhadores estarem registrados nas empresas que foram criadas para optarem pelo Simples e, com isso, pagarem menos contribuição previdenciária (além de outros encargos e tributos). A Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, que passou a vigorar em 1º de julho de 2007, instituiu o Simples Nacional, que excetuou do modelo, no que se refere às contribuições previdenciárias, as microempresas e da empresas de pequeno porte que se dediquem às atividades de prestação de serviços. E foi exatamente a partir dessa data que as empresas decorrentes passaram a ser tributadas com base no lucro presumido (efl. 515, item 3.3, do Processo nº 10935.004176/201023). De fato, analisando as informações compiladas do Caged sobre a transferência de empregados (efl. 794 do Processo nº 10935.004176/201023), salta aos olhos a coincidência entre o fluxo de empregados e a vigência do Simples. Nos meses de julho e agosto de 2007, houve uma expressiva transferência dos trabalhadores que estavam na empresas decorrentes para a Sperafico. Isto, mais uma vez, demonstra inequivocamente que os Fl. 503DF CARF MF 10 trabalhadores sempre foram empregados, de fato, da Sperafico e apenas figuravam como empregados das empresas decorrentes em razão de um planejamento tributário deixou de fazer sentido com a alteração legislativa. 2.1.8 Dos descontos para a associação de funcionários Os Auditores Fiscais constataram (efl. 523 do Processo nº 10935.004176/201023) que, assim como na Sperafico, nas empresas decorrentes havia desconto da contribuição dos empregados para a Associação de Funcionários da Agrícola Sperafico (Afas). Pareceme lógica a conclusão do Fisco de que os empregados das empresas decorrentes eram, em verdade, empregados da Sperafico, do contrário, não haveria razão para deles descontar o valor da contribuição para a entidade. 2.1.9 Das atividades exercidas pelos empregados das empresas decorrentes O acórdão recorrido bem apontou outro ponto revelador da verdadeira intenção do planejamento tributário. Alguns funcionários foram registrados nas empresas decorrentes para funções que são incompatíveis com seus objetos sociais, mas absolutamente inerentes aos objetivos da Sperafico. É o que se observa no seguinte trecho (efl. 7126 do Processo nº 10935.004176/201023): Cabe acrescentar que a peça defensiva acabou se abstendo de rebater verificações/fatos ao meu ver fundamentais na análise do caso. Não há, por exemplo, qualquer justificativa para que uma empresa que tem por objeto a prestação de serviços de consertos e substituições de peças de caminhões, ônibus e outros veículos pesados possua um funcionário registrado como Classificador de Cereais. Da mesma forma, entre diversas outras incompatibilidades de funções descritas no relatório fiscal, a peça defensiva também não explica porque uma empresa que possui como objeto social serviços de carga e descarga de produtos agrícolas possui empregados nas funções de OPERADOR DE CALDEIRA, AJUDANTE DE SECADOR ou AUXILIAR DE LABORATÓRIO. Em resumo, a natureza dos serviços descritos não só se mostra incompatível com os objetos das empresas interpostas, como se afeiçoam necessárias às atividades da própria impugnante. A Recorrente, em seu favor, alegou que as atividades efetivamente realizadas pela empresa não foram as descritas em seu objeto social e apresentou, para comprovar, balancetes que indicariam que as fontes de suas receitas eram a comercialização e industrialização de produtos agrícolas. O fato de, no período, as receitas se concentrarem apenas em parte das atividades da Recorrente, ao meu ver, dá mais substância à tese da simulação. Ora, se a empresa transferiu atividades de seu objeto social para as empresas decorrentes, permanecendo apenas com algumas delas,. não haveria mesmo de ter qualquer receita contabilizada oriunda das atividades transferidas. Demonstra, na verdade, que parte de suas atividades finalísticas, porquanto compunham o seu objeto social, foram indevidamente terceirizadas, notadamente as que demandavam grande quantidade de mãodeobra. Esta é, na essência, a tese advogada pela Autoridade Lançadora e pelo acórdão a quo. Fl. 504DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 500 11 2.1.10 Dos benefícios pagos aos empregados da Sperafico Consta do Relatório Fiscal (efl. 523 do Processo nº 10935.004176/201023): Foi constatado que a SPERAFICO mantém uma certa conduta com relação a benefícios para empregados, concedendolhes algumas formas de benefícios que se traduzem em facilidades na aquisição de gêneros alimentícios, medicamentos e gás no comércio da cidade de Toledo PR. Idêntica situação ocorre nas empresas "prestadoras de serviços", seguindo o mesmo procedimento. Foi constatado também que a SPERAFICO funciona como intermediária na aquisição de plano de saúde UNIMED para seus empregados. Assim, desconta nas respectivas folhas de pagamento valores relativos a UNIMED. O mesmo ocorre nas "prestadoras de serviços", seguindo o mesmo procedimento. Tais fatos evidenciam que se trata de uma única administração de pessoal. Conforme o Fisco apurou, os empregados registrados nas empresas decorrentes usufruíam dos mesmo benefícios e do plano de saúde oferecidos aos empregados da Sperafico, o que mais uma vez caracteriza que o patrão, de fato, era esta empresa. 2.1.11 Do preenchimento das notas fiscais de prestação de serviços Conforme o Relatório Fiscal (efls. 523, 524, 702, 703 e 704 do Processo nº 10935.004176/201023), foi identificado que muito as notas fiscais de prestação de serviços das diversas empresas decorrentes eram preenchidas sempre com a mesma caligrafia. Conclui o Relatório Fiscal, neste ponto: Este elemento evidencia que não existiam empresas distintas, mas uma única empresa, que se utilizou do expediente de emissão de notas fiscais de prestação de serviços por supostas empresas "prestadoras de serviços" para justificar a alocação de mãodeobra fora de sua folha de pagamento. De fato, verificando as notas constantes dos autos (efls. 4492 a 4710 do Processo nº 10935.004176/201023) facilmente se constata, sem necessidade de profundos conhecimentos grafotécnicos, que as notas das diferentes empresas foram escritas com a mesma caligrafia. Este é um importante indício de que, na verdade, os blocos de notas estavam ali, à disposição da mesma pessoa, para preencher os documentos de acordo com a necessidade. É um expediente comum em casos de empresas de fachada ou empresasfantasma pois, obviamente, essas empresas não possuem setor de faturamento com faturistas para emissão das próprias notas fiscais, sendo isto uma atribuição da empresa oculta. 2.1.12 Do ativo imobilizado Os AuditoresFiscais constataram que todo o ativo imobilizado utilizado na prestação dos serviços pertencia à Sperafico, e não às empresas prestadoras (efl. 524 do Processo nº 10935.004176/201023): Fl. 505DF CARF MF 12 A SPERAFICO era e é a única detentora dos meios de produção utilizados no processo produtivo e no desenvolvimento dos diversos serviços que em seus estabelecimentos foram/são realizados. Assim, não é difícil perceber que as "empresas" que realizavam serviços de transportes não possuíam sequer um veículo no seu ativo permanente; as que realizavam atividades de carga e descarga não possuíam equipamentos para tal, como por exemplo carregadeiras, empilhadeiras, veículos, etc; as diversas "empresas" não tiveram/têm sede nem estrutura administrativa mínima. Este elemento evidencia que não existiam empresas distintas, mas uma única empresa, que se utilizou do expediente de criar empresas "prestadoras de serviços" para justificar a alocação de mãodeobra fora de sua folha de pagamento, sem o cuidado sequer de lhe fornecer meios próprios de operar. Ora, se as empresas decorrentes não tinham qualquer bem de produção e nem há registro de que os obtinha por intermédio de algum tipo de arrendamento, não haveria como se constituírem em legítimas empresas sem os meios para a realização de seus objetos sociais. 2.1.13 Das receitas e despesas das empresas decorrentes A investigação fiscal constatou que toda a receita das empresas decorrentes provinha exclusivamente da Sperafico ou de outra empresa do grupo (efl. 524 do Processo nº 10935.004176/201023): As empresas "prestadoras de serviços" não possuíam outra fonte de receita que não a própria SPERAFICO ou alguma empresa do GRUPO, conforme evidenciam em suas respectivas escriturações. Não existiam por si só, mas apenas e em função da SPERAFICO, que lhes deu a "suposta" existência. Ademais, suas receitas escrituradas eram apenas para cobrir despesas de pessoal, conforme fica evidenciado em itens adiante, por empresa. Nalguns (sic) casos, não havia receitas nem para cobrir tais despesas. O fato de as receitas das empresas decorrentes virem exclusivamente da Sperafico não seria, isoladamente, um elemento determinante para se concluir pela interposição. Porém, diante do contexto, somase aos demais indícios que demonstrar ser a Sperafico a real prestadora dos serviços, utilizandose de empresas de fachada. 2.1.14 Das despesas das empresas decorrentes A Fiscalização também constatou que as empresas não tinham despesas operacionais (efls. 524 e 525 do Processo nº 10935.004176/201023): Em se tratando de despesas, a situação apurada revela que as empresas não realizavam, apesar de comuns a qualquer organização empresarial, despesas com água, luz, telefone, aluguel, material de consumo, material de escritório, móveis, equipamentos. Fl. 506DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 501 13 Outro fato constatado, foi o expediente utilizado nas escriturações das diversas "prestadoras de serviços" de lançar valores em contas como DUPLICATAS A RECEBER e ADIANTAMENTO DE CLIENTES, que na verdade significavam valores de pagamentos que a SPERAFICO fazia para elas, ou seja, a SPERAFICO pagava diretamente as despesas e os valores eram apropriados como redutores de duplicatas a receber ou como adiantamento de clientes. Tais fatos serão demonstrados por empresa, em itens adiante. Este elemento evidencia que não existiam empresas distintas, mas uma única empresa, que se utilizou do expediente de criar empresas "prestadoras de serviços" para justificar a alocação de mãodeobra fora de sua folha de pagamento, sem o cuidado sequer de lhe fornecer meios próprios de operar. No meu entender, este é um elemento que prova a inexistência de fato das empresas decorrentes. É possível que haja uma empresa sem ativos, ou sem receitas, até mesmo sem diretores, mas não possível uma empresa sem despesas operacionais. A característica essencial de qualquer atividade empresarial é a transformação de algo em produto ou serviço colocado no mercado, nesse processo de transformação surgem, inexoravelmente, as despesas e, quase sempre, os custos diretos e indiretos. No caso, as despesas aconteciam, mas não eram registradas como tal, eram registradas como deduções dos valores a receber da Sperafico, ou seja, quem arcava com o ônus das despesas era a própria Sperafico. 2.1.15 Das reclamatórias trabalhistas Os agentes do Fisco se fundamentaram, também, na ações trabalhistas em que empregados da empresas decorrentes pleitearam o vínculo com a Sperafico (efls. 703 a 712 do Processo nº 10935.004176/201023). Foram declinadas várias petições iniciais em que os reclamantes atestaram trabalharem para a Sperafico, inclusive sob subordinação. Em alguns casos, foram encontradas anotações determinando que o pagamento decorrente das ações trabalhistas fosse efetuado pelo setor de RH da Sperafico. 2.1.16 Das apólices de seguro de vida No Relatório Fiscal consta (efl. 713 do Processo nº 10935.004176/201023): Foi constatado na análise de documentos referente a seguros de vida de empregados de diversas empresas das prestadoras de serviços à SPERAFICO, que na contratação de seguros de vida, as mesmas figuram nas apólices como subestipulantes, sendo a estipulante a SPERAFICO (cópias de does. de seguro às fls. 4721/4753). Mais uma evidência do vínculo com a SPERAFICO. Há caso em que figura como estipulante outra empresa do grupo SPERAFICO, a Clean Farm do Brasil Ltda. Entendeu, o Fisco, que o fato de a estipulante ser a a Sperafico (com e exceção do contrato envolvendo a WSul, cuja estipulante era a Clean Farm) representaria mais um indício de que as empresas decorrentes eram, de fato, a longa manus da Sperafico. Fl. 507DF CARF MF 14 2.1.17 Da simulação Os AuditoresFiscais entenderam que, diante das provas e indícios identificados, estavam diante de uma simulação. Assim asseveraram em seu Relatório Fiscal (efl. 714 do Processo nº 10935.004176/201023): Restou demonstrado que o desmembramento da organização empresarial em outras supostas sociedades empresariais consiste em estratégia de planejamento que caracteriza a evasão fiscal, pois busca usufruir indevidamente do tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela Lei nº 9.317/96 (Lei do SIMPLES). A simulação (criação de realidades inexistentes) utilizada, consubstanciada na constituição ou aquisição de empresas para serem, na aparência, distintas da empresa "mãe", retira toda a validade dos atos por ela viciados, devendo prevalecer a real situação fática, com base no princípio da verdade material. E, em decorrência desse princípio, temse como inexistente, para fins previdenciários, a contratação irregular de trabalhadores feita pelas empresas "prestadoras de serviços". Na realidade, a real e verdadeira contratação de empregados se deu para beneficiar a empresa SPERAFICO, que se beneficiou diretamente dos trabalhos executados pelos trabalhadores então contatados. Conclui, o Fisco, que teria havido simulação da Recorrente, mediante a criação de empresas optantes pelo Simples para, por intermédio delas, fazer uso da mãode obra necessária às suas atividades, evadindose dos compromissos previdenciários (efl. 514 e 515 do Processo nº 10935.004176/201023): Ficou constatado que esta empresa caracterizase como líder de um grupo empresarial, conhecido por SPERAFICO. A SPERAFICO AGROINDUSTRIAL LTDA, segundo se apurou, utilizouse do mecanismo da simulação, expediente este que consistiu na criação de diversas outras empresas que têm existência ou são criadas para lhe prestarem serviços, serviços estes que consistem atividades operacionais da própria SPERAFICO, haja vista a amplitude de seu objeto social, o que se verá demonstrado neste relatório. Ficou evidente, após as análises realizadas nas diversas empresas, neste relatório identificadas, o propósito de se criarem empresas para obtenção indevida do benefício da opção pelo Simples. Tais fatos evidenciam a prática da evasão fiscal, relativamente às contribuições previdenciárias, mediante o citado procedimento da simulação. A tese apresentada pelas Autoridades Lançadoras é a da ocorrência se simulação, ou seja, a vontade declarada (o que consta dos documentos formais) não corresponde à vontade real (a obtenção dos serviços dos trabalhadores com menor custo tributário, usufruindo de um regime fiscal favorecido). A Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 Código Civil, esclarece Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. Fl. 508DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 502 15 § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; É importante destacar que a comprovação de interposição de pessoas, do uso de empresas de fachada e da simulação dificilmente se dá com elementos documentais contundentes, pois a característica essencial desse tipo de conduta é a criação de uma situação aparente, formalmente amparada em documentos, para ocultar uma situação real. Portanto, para se desvendar o fato simulado, é necessário olhar por trás do fato simulador. Assim, a formalidade documental deve ser afastada quando presentes elementos circunstanciais que a contradizem. Ao contrário do que a recorrente sustentou no seu apelo, não se trata de desconsideração das pessoas jurídicas. Tratase da correta identificação do sujeito passivo da relação tributária. Os Fiscais não desconstituíram as empresas decorrentes, elas estavam lá, constituídas formalmente e praticando atos e fatos com efeitos no mundo jurídico. Mas os vínculos de trabalho, estes sim, foram desconsiderados para que o verdadeiro empregador, a Sperafico, pudesse surgir na relação tributária. Como bem estatuiu BOZZA1: A prova da simulação é normalmente uma prova por presunção relativa, isto é, indireta, por inferência, baseada em indícios que são colhidos no contexto no qual o ato ou negócio foi executado. Conforme esclarecido pelo conselheiro Marcos Neder, no voto proferido no Ac. CSRF/0106015, de 14 de outubro de 2008, "a prova por presunção pode assegurar ao julgador a certeza necessária para proferir sua decisão, desde que fundada num conjunto de indícios graves, precisos e convergentes. Esses fatos circunstanciais considerados isoladamente podem não alcançar a certeza, mas, ao serem examinados em conjunto, podem levar a uma comprovação confiável da ocorrência do fato jurídico tributário". Entendo que, diante da constelação de indícios, todos convergentes, que apontam para a Sperafico como a real contratante dos trabalhadores, a simulação resta comprovada. Na verdade, os elementos dos autos são absolutamente contundentes, quando vistos em seu conjunto. Os fatos constatados podem assim ser resumidos: a Sperafico detinha pleno controle das empresas decorrentes, os empregados trabalhavam nas dependências dela e sob suas ordens, as empresas decorrentes não possuíam finalidade econômica real, todas elas eram optantes pelo Simples e, quando a vantagem fiscal acabou em razão de mudança legislativa, os empregados foram transferidos para a Sperafico, revelando o verdadeiro propósito do arranjo empresarial, qual seja, manter os empregados em empresas optantes pelo Simples e, por conseguinte, evadirse dos encargos previdenciários. 1 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. Série Doutrina Tributária, vol. XV. São Paulo: Quartier Lantin, 2015, p. 233. Fl. 509DF CARF MF 16 A seu favor, a Recorrente sustenta que a terceirização de suas atividades encontra amparo legal e que as teria promovido para proporcionar melhor gerenciamento administrativo das atividadesmeio. De fato, a terceirização está prevista no ordenamento, mas existem claros critérios, como a vedação à transferência de atividades finalísticas e a vedação à pessoalidade e subordinação diretas. Ao observar as provas dos autos, o que mais se vê é a participação ativa da Sperafico na gestão de RH dos empregados registrados nas empresas decorrentes (que sequer possuíam estrutura administrativa). Atividades como controle de ponto, pagamento e outras providências de pessoal eram exercidas diretamente pela Sperafico. Além disso, os trabalhadores atuavam nas dependências dessa empresa em distintas cidades, executando as atividadesfim da Sperafico. O gerenciamento administrativo das atividades, que foi a alegada causa das terceirizações, permaneceu com a Sperafico. Como não admitir o vínculo direto? Vale, aqui, relembrar, mais uma vez, a lição de BOZZA2: Na interposição real, não simulada, a interposta pessoa dá lugar ao intermediário. Estabelecese, assim, um vínculo negocial efetivo, de um lado, entre o interpoente e o intermediário e, de outro lado, entre o intermediário e o terceiro contraente. O intermediário que realmente participa do contrato estabelece em seu nome a relação jurídica e tornase titular de direito e obrigações, ainda que ostente um vínculo obrigacional com o interpoente, resultando em uma combinação de atos jurídicos. Essa é a razão pela qual o intermediário não pode ser considerado interposta pessoa simulada. Isso já não ocorre na interposição fictícia ou simulada, pois existe apenas uma relação jurídica direta entre o interpoente e o terceiro contraente. A interposta pessoa não participa verdadeiramente do negócio, nem se beneficia de qualquer vantagem patrimonial. Apenas finge que faz, emprestando seu nome para ser aposto no documento. A sua eventual participação apenas será feita para dar verossimilhança ao engano. Resta claro que os contratos de trabalho ligavam diretamente os trabalhadores à Sperafico. Percebese a simulação, também, ao se analisar as relações contratuais entre a Sperafico e as empresas decorrentes. Não havia, ali, um motivo econômico, ou um propósito negocial. Aquelas empresas não geraram lucro, não tinham ativos, não tinham nem os equipamentos elementares para a prestação dos serviços para os quais teriam sido contratadas. Nos contratos juntados pela Recorrente (efls. 6522 a 6552 do Processo nº 10935.004176/201023) observase que as cláusulas eram praticamente idênticas, até os erros de Português eram os mesmos, independentemente do objeto contratado. Aliás, em todos os contratos se verifica a mesma cláusula 5ª (com exceção da empresa LDI Transportes, em que o texto está na cláusula 6ª) que deixa claro que o papel das empresas decorrentes era fornecer mãodeobra à Sperafico, que arcaria com todo o material e equipamento necessário aos serviços: A CONTRATADA obrigase a fornecer toda a mãodeobra necessária para a execução dos trabalhos contratados, assim como a administração, o pagamento das verbas remuneratórias 2 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. Série Doutrina Tributária, vol. XV. São Paulo: Quartier Lantin, 2015, p. 238. Fl. 510DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 503 17 e encargos sociais e a CONTRATANTE obrigase a entregar todos os materiais, insumos, veículos de transporte, máquinas e equipamentos necessários para a prestação de serviços objeto deste contrato. Na verdade, os contratos entre Sperafico e empresas decorrentes não eram verdadeiros, mas apenas simulacros. As empresas nem possuíam estrutura física e ativos para fornecerem os serviços, apenas serviram de meio para registrar os empregados livrando a Sperafico dos ônus previdenciários. Ainda segundo BOZZA3 A ausência de propósito negocial também surge diante da impossibilidade material de realização da atividade empresarial, como ficou decidido no Ac. 30332460, de 19 de outubro de 2005 (Caso CDR), em face da inexistência de móveis ou maquinários adequados para o empreendimento. O Ac. 101 95208, de 19 de outubro de 2005 (Caso CDR), considerou artificial a constituição de empresas entre pessoas ligadas para se beneficiar de regime de tributação favorecido, mas que não possuía meios materiais para a prestação de serviços. (Grifo do original.) Assim como consignado no relatório fiscal e no acórdão recorrido, eu também enxergo claramente o emprego do artifício usado para ocultar a verdadeira relação trabalhista entre a Sperafico e os empregados registrados nas empresas decorrentes. 2.1.18 Conclusão quanto à legitimidade passiva da Sperafico No início deste tópico, foi colocada a seguinte questão: se houve lançamento reflexo nas empresas desconsideradas, como poderia ser a Recorrente o sujeito passivo da obrigação principal? Quanto ao lançamento das multas sobre descumprimento de obrigações acessórias nas empresas decorrentes, a matéria não faz parte destes autos. Cabe, aqui, analisar se a Recorrente é o sujeito passivo das exações que constam deste processo, que derivaram de do pagamento a empregados. Ora, a resposta à questão central requer conhecer quem, de fato, mantinha a relação de emprego com os segurados empregados. O acórdão recorrido estatuiu: Ocorre que cabe ao fisco identificar se a conduta da notificada em conjunto com as empresas supracitadas desponta no caso em exame como planejamento tributário, assim entendida a medida adotada pela empresa, entre as várias alternativas não vedadas em lei, que resulte na diminuição de custos, inclusive os tributários. Todavia, de pronto essa possibilidade é rechaçada tendo em vista o vasto material probatório produzido pela autoridade lançadora, com a clara demonstração da ocorrência de evasão fiscal utilizandose de procedimento que buscou a ocultação do verdadeiro ato realizado. 3 Idem ibdem, p. 244. Fl. 511DF CARF MF 18 No caso, entendo que os elementos contidos nos autos são bastante persuasivos em retratar a ocorrência de simulacro empregado pela empresa, objetivando se esquivar de suas obrigações previdenciárias. Corroboro o que consta do acórdão recorrido, que reafirmou a tese de simulação e considerou a Recorrente a verdadeira contratante dos trabalhadores e, portanto, ela é parte legítima para figurar no pólo passivo da relação tributária. Observese que os indícios e provas indicados nos itens 2.1.1 a 2.1.15 talvez fossem, se analisados isoladamente, insuficientes para sustentar a tese de que teria havido simulação. Porém, tomando em conta o conjunto de elementos, não há como se esquivar que a Sperafico era a verdadeira empregadora, pois: a) havia subordinação, porquanto os empregados trabalhavam nas dependências da Sperafico, que lhes controlava os registros de ponto, em atividades atinentes ao seu objeto social, com cargos compatíveis com a estrutura organizacional da empresa e, inclusive, fazendo jus aos mesmos benefícios que os empregados registrados na própria Sperafico; b) o trabalho era habitual e contínuo, como bem descreveu o acórdão a quo: Mesmo a partir do dia seguinte à transferência dos empregados das empresas prestadoras (conforme relato supra), jamais houve qualquer interrupção na prestação de serviços à SPERAFICO, inclusive com a continuidade no mesmo cargo, restando, portanto, também configurado o caráter da não eventualidade; c) os recursos para pagamento dos salários aos empregados provieram sempre da Sperafico, o que evidencia a onerosidade da relação de trabalho; d) os empregados registrados nas empresas decorrentes exerciam funções próprias da Sperafico mesmo quando eram transferidos entre aquelas empresas ou daquelas para a Sperafico, caracterizando a pessoalidade. Não restam dúvidas, por todo os que foi evidenciado, que a Sperafico possuía relação pessoal e direta com as situações que constituíram os fatos geradores das contribuições sociais, revestindose, pois, da condição de sujeito passivo, na qualidade de contribuinte. nos termos do art. 121, parágrafo único, inciso I do CTN. Rejeito, pois, a preliminar de erro de ilegitimidade passiva e concluo pela ocorrência de simulação para ocultar os fatos geradores tributários. 2.2 DA CONEXÃO E DA CONTINÊNCIA ENTRE PROCESSOS Embora esta matéria não componha a lide, a Recorrente solicita que sejam consideradas, no julgamento administrativo, a conexão e continência com as referidas autuações seja declarada a conexão e continência entre estes autos e os autos de infração nºs 37.212.5034, 37.212.5042 e 37.212.5182 (efl. 6384 do Processo nº 10935.004176/201023). Solicita, também, que o julgamento dos processos se inicie pelos presentes autos do Processo nº 10935.004176/201023 para que a decisão repercuta nos demais, face à conexão e continência (efl. 6385 do Processo nº 10935.004176/201023). Fl. 512DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 504 19 A esse respeito, registrese que os processos resultantes da mesma ação fiscal foram distribuídos para o mesmo relator, de modo a, quando possível e necessário, presentes as iguais situações de fato e de direito e mesmos elementos de prova, procederse a conclusões convergentes. Também solicita, a Recorrente, que se considere a conexão e continência entre estes autos e autos com os autos de infração lavrados em desfavor das empresas decorrentes (autos de infração 37.289.6375, 37.289.6332, 37.289.6480, 37.289.6383, 37.289.6391, 37.289.6464, 37.289.6472, 37.289.6421, 37.289.6448, 37.289.6430, 37.289.6413, 37.289.6405, 37.289.6367, 37.289.6456, 37.289.6340 e 37.289.6359), considerando, no seu entender (efl. 6386 do Processo nº 10935.004176/201023): (...) a incompatibilidade de assunção da obrigação tributária principal pela Impugnante e, relativamente aos memos (sic) tributos, as penalidades pecuniárias por descumprimento de obrigações acessórias às "pessoas jurídicas desconsideradas" Não vejo possibilidade de atender ao apelo. Primeiramente, destacase que o art. 31 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 19724, delimita as decisões aos autos de infração que componham o processo, não sendo possível que se estenda o julgamento a outros processos, de outros contribuintes, ainda que, como alegado, possa haver conexão entre os fatos. Admitese, para efeito de convencimento do julgador, que os fatos e provas decorrentes de uma mesma ação fiscal, mas que foram dispersos em distintos processos do mesmo contribuinte, possam ser analisados em conjunto, mas sempre resultando em distinta decisão em cada processo. A análise de processos que provieram de outras ações fiscais, perpetradas em outros contribuintes, implicaria no julgamento conjunto de todos os fatos, o que não está previsto no regulamento processual administrativo. Ainda, a Recorrente não provou, nos autos, que haja conexão entre as matérias, apenas alegou que eventual decisão aqui proferida teria reflexos naqueles processos. Nada impediria que a Recorrente buscasse naqueles autos de infração os elementos que entendesse úteis à sua defesa, que aqui poderiam ser apreciados para efeito de decidir a presente controvérsia. Ademais, como descrito no item anterior, não houve desconstituição de pessoa jurídica, como afirmou a Recorrente, e, portanto, caberia àquelas empresas apresentarem tempestivamente suas inconformidades, que constituiriam litígio administrativo próprio. Por fim, as normas do processo civil têm aplicação apenas subsidiária e não podem ser invocadas no caso, quanto à conexão, pois o rito processual administrativo, notadamente o inc. I do § 1º do art. 6º do Regimento Interno do Carf (Ricarf) 5, já estabelece o 4 Art. 31. A decisão conterá relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referirse, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. 5 Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observandose a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: I conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; Fl. 513DF CARF MF 20 instituto no âmbito do tribunal administrativo. Quanto à continência, também não se aplica, por não haver identidade entre as partes. Indefiro, pois os pedidos de conexão e de continência. 2.3 DA COMPETÊNCIA PARA O LANÇAMENTO A Recorrente alegou que os AuditoresFiscais da Receita Federal ao estabelecerem vínculos empregatícios de forma irrestrita, teriam desconsiderado a personalidade jurídica da empresas decorrentes e a aplicado o art. 116, parágrafo único, do CTN (norma antielisiva geral). Desta forma, teriam extrapolado suas competências previstas na Lei nº 10.593, de 6 de dezembro de 2002, e na Lei nº 11.457, de 16 de março de 2007, avançando sobre competências próprias da Fiscalização do Trabalho e da Justiça do Trabalho. A Recorrente se equivoca. Não houve desconsideração de pessoa jurídica, o que ocorreu foi a correta identificação do sujeito passivo e dos fatos geradores, como determina o artigo 142 do CTN6, sendo o lançamento uma decorrência da imposição legal. Presente a simulação, autorizado estará o lançamento de ofício, como estabelece o inciso VI do art. 149 do CTN7. E a competência para a constituição de créditos tributários de contribuições previdenciárias está claramente disposta na alínea a do inc. I do art. 6º da Lei nº 10.593, de 20028. Destaco trecho do voto condutor do Acórdão nº 2402004.380, do Conselheiro Ronaldo de Lima Macedo, que adoto como razão de decidir: Insta mencionar ainda que, ao considerar o real sujeito passivo da relação tributária, o Fisco não está aplicando a regra prevista no art. 116 do CTN nem está realizando a desconsideração de pessoa jurídica prevista no art. 50 do Código Civil já que a sua ação não está voltada para fins relacionados exclusivamente ao direito civil, mas sim ao cumprimento fiel e irrestrito da legislação previdenciária e tributária, e encontra respaldo legal nesses artigos 142 e 149, inciso VII, do CTN. Portanto, no presente caso o Fisco não excedeu de suas competências ao efetuar o lançamento, tampouco adentrou em atribuições alheias, senão ficou adstrito ao encargo de laçar as contribuições previdenciárias. Destaquese que consta, nos Fundamentos Legais do Débito (efl. 155), toda a legislação que ampara a competência das Autoridades Fiscais no presente caso. Rejeito, pois, a preliminar de incompetência das Autoridades Lançadoras. 6 Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. 7 Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: .................................................................... VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; 8 Art. 6º São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil: I no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições; Fl. 514DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 505 21 2.4 DA IMPARCIALIDADE DOS JULGADORES A QUO No recurso voluntário, a Recorrente alegou a falta de isenção dos julgadores da primeira instância administrativa, porquanto não vincularam os fundamentos jurídicos às provas dos autos. Não assiste razão à Recorrente. O acórdão a quo foi diligente ao fartamente vincular sua conclusões, especialmente no que se refere à existência de simulação e do vínculo empregatício, aos elementos dos autos, inclusive indicando as respectivas folhas e fazendo citações ilustrativas. Ainda que, expressamente, o acórdão recorrido não houvesse feito a vinculação, não se trataria, no dizer da Recorrente, de falta de isenção de "animus" dos julgadores preliminares e nem de razão para a anulação da decisão, pois que a autoridade julgadora é livre para formar sua convicção diante de sua interpretação das provas9. 3 Da questão prejudicial à análise do mérito 3.1 DA DECADÊNCIA A Recorrente alegou que, ao caso, deveria ser aplicado o art. 150, §4º do CTN e não o artigo 173, inciso I, pois não houve fraude, dolo ou simulação. Alegou que tudo o que fez foi utilizarse legalmente de terceirização de serviços de suas atividadesmeio, em consonância com a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST) 10. Não é o que se observa nos autos. Segundo a Súmula nº 331 do TST, o vínculo empregatício não se forma quando a contratação se dá em atividadesmeio e inexista a pessoalidade e a subordinação direta. O que se vê no processo é que as atividades exercidas pelos profissionais registrados nas empresas decorrentes eram atividades finalísticas da Sperafico (item 2.1.2 deste voto); ademais, ficaram evidenciadas a pessoalidade e a subordinação (item 2.1.18 deste voto). A conclusão geral a que se chega é a de que houve simulação. Assim, não há como aplicar a regra decadencial contida no § 4º do art. 150 do CTN11. Filiome ao entendimento manifestado pelo STJ (AgRg no Recurso Especial nº 1.044.953/SP) segundo o qual, aplicandose o disposto no parágrafo único do art. 17312 do Estatuto Tributário, o prazo 9 Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972: Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. 10 III Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102, de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividademeio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta. 11 Art. 150. .......................................................................... § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. 12 Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. Fl. 515DF CARF MF 22 quinquenal se conta da data em que se iniciou a constituição do crédito tributário que, no caso, é 02/03/2009 (efl. 742). Tendo em conta que o lançamento se aperfeiçoou em 29/07/2010 (e fl. 6312) não há qualquer período alcançado pela decadência. Ainda que se aplicasse o inc. I do art. 173 do CTN, tendo em conta que o lançamento referese às competências a partir de 01/2005, também nenhum período estaria decaído. 4 Do mérito 4.1 QUANTO AOS AO PAGAMENTO A EMPREGADOS O argumento fundamental da Recorrente em sua impugnação, reafirmado no recurso voluntário, é que teria sido aplicada a norma antielisiva geral para desconsideração das pessoas jurídicas aqui genericamente referidas por empresas decorrentes. Também pousou sua contestação na afirmação de que a simulação não restaria provada, contestando cada um dos indícios para, então, afirmar que não constituiriam prova da simulação. Por fim, sustentou a regularidade da terceirização de serviços. Porém, entendo que não foi o que ocorreu. Como explicado nos tópicos anteriores, não houve desconsideração de pessoa jurídica, de negócio jurídico e nem aplicação de norma antielisiva. O que aconteceu foi a identificação do verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, oculto por detrás de empresas criadas por pessoas relacionadas para, apenas e tãosomente, transferir a elas as atividades que demandavam mãodeobra e, assim, usufruir indevidamente da tributação favorecida proporcionada pelo Simples, com prejuízo à previdência social. Ao contrário do que afirmou a Recorrente, há provas e elementos de convicção a sustentar a tese da simulação, descritos nos tópicos 2.1.1.a 2.1.17 deste voto e muito minuciosamente enumerados no Relatório Fiscal. Observese que a Recorrente não contestou o fato de que os empregados registrados nas empresas decorrentes lhes prestavam serviços. Também não contestou que as empresas tinham por sócios pessoas com vínculos familiares ou empregatícios com a Sperafico (embora tenha sustentado que careceria provas materiais de que tais pessoas estariam a atuar como laranja). Como já exposto, não existe prova material contundente, direta, da simulação acontecida. Não se registraria em nenhum documento o arranjo engendrado (criação de empresas em nome de pessoas relacionadas para apenas proporcionar à Recorrente uma vantagem tributária nos encargos previdenciários), de modo a comprovar que esse era mesmo o propósito. E, como já esclarecido, também não se pode tomar cada um dos indícios identificados como prova absoluta e suficiente. O que se tem, e em abundância, são indícios convergentes que demonstram, ao meu ver sem sombra de dúvidas, a simulação. E indícios, quando numerosos e convergentes, se constituem prova indireta apta a convencer o julgador. A Recorrente não se conformou com a consideração, na ação fiscal, de todos os empregados das empresas decorrentes como sendo a ela vinculados. Alegou que alguns talvez não exercessem atividades em seu proveito. Entendo diferente. Assumindo a tese da simulação, todas as relações empregatícias nas empresas simuladas não seriam mais do que parte da estrutura forjada para proporcionar e economia tributária indevida. Assim, mesmo um auxiliar de escritório que cuidasse da burocracia de uma das empresas decorrentes estaria, ao cabo, também a serviço da Recorrente. Por isso, entendo que não há como distinguir, dos Fl. 516DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 506 23 quadros de pessoal, aqueles que atuariam diretamente para a Recorrente; no final, todos estavam a seu serviço, fosse um técnico de laboratório, um motorista de caminhões, um porteiro, um auxiliar de escritório, um vigia , um diretor ou um mecânico. Afirmou, a Recorrente, que os seus registros contábeis e das empresas decorrentes estavam corretos. Ora, uma das características da simulação é que as formalidades em geral (contratos, registros contábeis e documentação) estejam de acordo com o que se pretende simular. O fato de a contabilidade ser escorreita, como afirma a Recorrente, não elide a simulação. O argumento da Recorrente, ao meu ver, não lhe socorre. Em outro ponto, a Recorrente disse que as empresas decorrentes teriam sido consideradas inexistentes pelo Fisco e, mesmo assim, teriam sido autuadas. Não há nisso qualquer irregularidade, porquanto, ao contrário do que afirmou a Recorrente, o Fisco não desconsiderou as pessoas jurídicas, apenas atribuiu à Recorrente os vínculos de trabalho para efeito de incidência da contribuição previdenciária. As empresas decorrentes continuam sendo sujeito de direitos e obrigações no mundo jurídico. Alegou, a Recorrente, que o lançamento carecia de fundamentação legal precisa, porquanto utilizouse de artigos da CLT, imprestáveis para efeito de atribuir responsabilidade tributária. Não foi isso que aconteceu, a utilização subsidiária de normas trabalhistas ocorreu apenas para caracterizar as relações de trabalho, e não as suas decorrências previdenciárias. O lançamento, no que se refere às contribuições previdenciárias, está corretamente fundamentado (efls. 155 a 157) em normas de natureza tributária. Sobre a incidência de Selic, a Recorrente entendeu serem incabíveis os juros calculados com base naquela taxa, pois ela teria natureza remuneratória e não moratória. Os juros são encargos estabelecidos no § 1º do art. 161 do CTN13 e no § 3º da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 199614. Não cabe ao julgador administrativo substituir o papel do legislador para suprimir, aumentar ou modificar a forma de cálculo dos juros. 4.2 DO APROVEITAMENTO DOS PAGAMENTOS AO SIMPLES E DO PEDIDO DE PERÍCIA A recorrente solicitou, por derradeiro, que, no insucesso de seu apelo, fossem compensadas, das contribuições previdenciárias lançadas, as contribuições pagas pelas empresas decorrentes a título de Simples e de previdência retida dos empregados (efls. 6320 e 6321 do Processo nº 10935.004176/201023). 13 Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. 14 Art. 61 Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação especifica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. ................................................................................. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Fl. 517DF CARF MF 24 Preliminarmente, destaquese que não cabe ao julgador administrativo a homologação ou autorização de compensação de tributos, sendo certo que o procedimento administrativo para esse fim está regulado na legislação tributária. A exceção ocorre quando a matéria está ligada à lide, ou seja, quando a compensação é o próprio objeto da controvérsia ou quando valores a compensar deveriam compor o cálculo dos valores lançados. No presente caso, em relação aos pagamentos ao Simples, entendo que a matéria não cabe na lide, pois tratase de outro regime tributário e eventuais indébitos devem ser objeto de requerimento à autoridade preparadora, nos termos da legislação própria, que analisará a existência de alegados créditos tendo em conta os fatos geradores de todos os tributos recolhidos em conjunto. Ademais, a compensação de diferentes espécies tributárias não se aplica às contribuições previdenciárias, para as quais o disciplinamento, quanto a compensações, continua a ser o art. 89 da Lei nº 8.212, de 199115, segundo o qual a compensação de débito das contribuições previdenciárias somente pode se dar com créditos de pagamentos ou recolhimentos indevidos ou a maior dessas mesmas contribuições, não sendo possível a utilização de créditos dos recolhimentos ao Simples. Por esta razão, indefiro o pedido de perícia para levantamento dos valores a compensar que estariam contidos nos recolhimentos ao Simples. Em relação, entretanto às contribuições recolhidas pelas empresas decorrentes, cujas GPS foram juntadas (efls. 6692 a 6868 do Processo nº 10935.004176/2010 23), os titulares dos prováveis direitos creditórios são as empresas que efetuaram os pagamentos e não a Recorrente. Não houve desconstituição das pessoas jurídicas, que permanecem titulares de direitos e obrigações. Não vejo óbice para que tais empresas pleiteiem, na via própria, a restituição dos valores com base nos argumentos deste voto, mas não é possível utilizarse do julgamento para substituir a autoridade tributária, sobretudo quando os créditos sequer pertencem à reclamante. A propósito, não há razão para deferimento de perícia para levantamento de tais valores porque já estão nos autos e são do pleno conhecimento da Recorrente, que inclusive juntos os comprovantes. 5 Conclusões Por todo o exposto, voto por não conhecer do recurso nas questões relativas à exigência de garantias e ao pagamento a cooperativas de trabalho e por rejeitar as preliminares de ilegitimidade passiva, conexão ou continência entre processos de distintos sujeitos passivos, incompetência das autoridades lançadoras e falta de isenção dos julgadores a quo. Voto também por negar o pedido de perícia. No mérito, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso. (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator 15 Art. 89. As contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, as contribuições instituídas a título de substituição e as contribuições devidas a terceiros somente poderão ser restituídas ou compensadas nas hipóteses de pagamento ou recolhimento indevido ou maior que o devido, nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Fl. 518DF CARF MF Processo nº 10935.004177/201078 Acórdão n.º 2301005.367 S2C3T1 Fl. 507 25 Tabela 1 Atividades Empresa Objeto Social Atividade Preponderante (CNAE) Sperafico (...) a exploração no ramo de serviços de transportes rodoviários nacionais e internacionais de cargas, produção, beneficiamento e comércio de sementes selecionadas, Indústria e comércio de cereais e seus derivados, comercialização de pneus, peças, máquinas e equipamentos, comércio de corretivos, defensivos agrícolas, água mineral, produtos alimentícios, indústria e comércio de fertilizantes químicos e fertilizantes organominerais, indústria de óleo de soja, armazenamento de cereais, representações comerciais, prestação de serviços fitossanitários, importação e exportação de produtos objeto do ramo social. 1041400 Fabricação de óleos vegetais em bruto, exceto óleo de milho 1062700 Moagem de trigo e fabricação de derivados 1066000 Fabricação de alimentos para animais 4622200 Comércio atacadista de soja 4623108 Comércio atacadista de matériasprimas agrícolas com atividade de fracionamento e acondicionamento associada 4623109 Comércio atacadista de alimentos para animais 4623199 Comércio atacadista de matériasprimas agrícolas não especificadas anteriormente 4632001 Comércio atacadista de cereais e leguminosas beneficiados 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional KL De 23/03/2004 em diante: serviços de consertos e substituição de peças de caminhões, ônibus e outros veículos pesados, e comércio a varejo de peças e acessórios novos para veículos automotores. 4530703 Comércio a varejo de peças e acessórios novos para veículos automotores LDI Serviço de transporte rodoviário de cargas e afins. 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional Olecargas Carga e descarga de produtos alimentícios e transporte 5212500 Carga e descarga Plasma Industrialização, empacotamento e o comércio de cereais e serviços relacionados. 1062700 Moagem de trigo e fabricação de derivados PP Exploração do ramo de Serviços de Carga e Descarga de Produtos Agrícolas. 5212500 Carga e descarga PPMS Serviços de Transporte Rodoviário de Cargas em Geral e Serviços de Cargas e Descargas em Geral. 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional RTC Carga, Descarga e Movimentação de Produtos Agrícolas e Transporte 5212500 Carga e descarga Spartano Fabricação e comércio de assentos com estrutura em mental, móveis e utensílios em geral. 5212500 Carga e descarga Tolecargas carga, descarga, movimentação de produtos agrícolas e transporte. 5212500 Carga e descarga Tolenorte Serviços de Carga e Descarga em transporte rodoviário e movimentação de produtos agrícolas em grãos e farelo e serviços de beneficiamento, moagem e preparação de outros produtos de origem vegetal, e transportes rodoviários dos mesmos. 5212500 Carga e descarga TPC Serviços de Transporte Rodoviário de Cargas em Geral e Serviços de Carga e Descargas em Geral 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional Transcar Carga, Descarga e Movimentação de Produtos Agrícolas e Transporte 5212500 Carga e descarga VS Comércio Varejista de: Defensivos Agrícolas, Corretivos, Fertilizantes, Sementes, Insumos Agropecuários, Aplicação de Agrotóxicos e a Prestação de Serviços de Carga e Descarga de Cereais e Manutenção de Armazéns 4789099 Comércio varejista de outros produtos não especificados anteriormente WSul Prestação de serviços de manutenção e reparos em veículos, caminhões, máquinas e equipamentos agrícolas, equipamentos industriais e equipamentos de armazenagem; comércio de peças e acessórios para equipamentos industriais 4520001 Serviços de manutenção e reparação mecânica de veículos automotores Fl. 519DF CARF MF 26 Fl. 520DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10865.003305/2010-37
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2011
ALEGAÇÃO DE CONTRARIEDADE A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 02
Aplicação da Súmula CARF nº. 02: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2011
ATO DECLARATÓRIO DE EXCLUSÃO. PARCELAMENTO. PRAZO LEGAL PARA REGULARIZAÇÃO. INOBSERVÂNCIA.
Mantém-se o ato declaratório de exclusão se não elidido o fato que lhe deu causa.
PARCELAMENTO DA LEI Nº 11.941/2009. SIMPLES NACIONAL. NÃO CABIMENTO.
A Lei nº 11.941/2009 não previu o parcelamento dos débitos apurados na forma do Simples Nacional, que inclui tributos cuja competência para instituição é dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Dessa forma, a União não tem competência para editar leis que prevejam reduções para tais tributos.
Numero da decisão: 1001-000.765
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 02 Aplicação da Súmula CARF nº. 02: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2011 ATO DECLARATÓRIO DE EXCLUSÃO. PARCELAMENTO. PRAZO LEGAL PARA REGULARIZAÇÃO. INOBSERVÂNCIA. Mantémse o ato declaratório de exclusão se não elidido o fato que lhe deu causa. PARCELAMENTO DA LEI Nº 11.941/2009. SIMPLES NACIONAL. NÃO CABIMENTO. A Lei nº 11.941/2009 não previu o parcelamento dos débitos apurados na forma do Simples Nacional, que inclui tributos cuja competência para instituição é dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Dessa forma, a União não tem competência para editar leis que prevejam reduções para tais tributos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 00 33 05 /2 01 0- 37 Fl. 92DF CARF MF Processo nº 10865.003305/201037 Acórdão n.º 1001000.765 S1C0T1 Fl. 93 2 Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 9ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Ribeirão Preto (SP), mediante o Acórdão nº 1442.016, de 15/05/2013 (efls. 42/43), objetivando a reforma do referido julgado. Por bem descrever o ocorrido, valhome do relatório elaborado por ocasião do julgamento em primeira instância, a seguir transcrito: Tratase de manifestação de inconformidade apresentada pelo contribuinte acima identificado em relação ao Ato Declaratório Executivo DRF/LIM nº 442.918, de 01 de setembro de 2010, o qual determinou a exclusão da empresa do Simples Nacional a partir de 01/01/2011, em virtude de possuir débitos desse Regime Especial, com exigibilidade não suspensa. O contribuinte aduz que a sua exclusão do Simples Nacional em virtude de débitos é inconstitucional, por violar os princípios constitucionais da isonomia, da igualdade tributária, da legalidade tributária, da hierarquia das leis e da capacidade contributiva, bem como os artigos 170, IX e 179 da CF, que prevêem tratamento favorecido, diferenciado e simplificado às microempresas e empresas de pequeno porte; que os incisos IX e X do artigo 29 da Lei Complementar nº 123/2006 também são inconstitucionais; que a Receita Federal possui outros meios para cobrar o crédito tributário, como a execução fiscal, sem que seja necessária a exclusão de uma empresa do Simples Nacional. Requer o cancelamento do ato de exclusão do Simples Nacional, bem como que seja cientificada do resultado do julgamento ainda dentro do exercício em que apresentada a sua manifestação. A DRJ considerou improcedente a manifestação de inconformidade, cujo voto condutor do acórdão recorrido transcrevo a seguir, in verbis: A manifestação de inconformidade apresentada atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto n° 70.235/72. Assim sendo, dela conheço. O contribuinte foi excluído do Simples Nacional pelo Ato Declaratório Executivo DRF/LIM nº 442918, de 01 de setembro de 2010, com efeitos a partir de 01/01/2011, em virtude de possuir débitos desse Regime Especial, com exigibilidade não suspensa. As argüições de inconstitucionalidade não devem ser acatadas, vez que é vedado, a esta autoridade julgadora, afastar, por inconstitucionalidade, a aplicação Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10865.003305/201037 Acórdão n.º 1001000.765 S1C0T1 Fl. 94 3 de leis, decretos e atos normativos, ante o disposto no artigo 26A do Decreto nº 70.235/72. O pedido para que o processo seja julgado e o contribuinte seja dele cientificado dentro do exercício em que apresentada a manifestação de inconformidade deve ser indeferido, por falta de previsão nesse sentido na legislação aplicável ao caso. DIANTE DO EXPOSTO, voto pela improcedência da manifestação de inconformidade. O acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Exercício: 2011 SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. A empresa que possuir débito com o Instituto Nacional do Seguro Social INSS, ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa, deve ser excluída do Simples Nacional. INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. É vedado a autoridade julgadora afastar a aplicação de leis, decretos e atos normativos por inconstitucionalidade. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio Ciente da decisão de primeira instância em 11/06/2013, conforme Aviso de Recebimento à efl. 46, a Recorrente apresentou recurso voluntário em 08/07/2013 (efls. 48/59), conforme carimbo aposto à efl. 48. É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Relator O recurso apresentado atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que regula o processo administrativofiscal (PAF). Dele conheço. Todos os argumentos do recurso voluntário giram em torno da solicitação de parcelamento de débitos pela Lei 11.941 de 2009. Da Preliminar Fl. 94DF CARF MF Processo nº 10865.003305/201037 Acórdão n.º 1001000.765 S1C0T1 Fl. 95 4 Em preliminar a recorrente alega que devido às inconstitucionalidades presentes no ADE, o mesmo não pode ser julgado pelo Carf "em razão de que não é foro de competência legal". Alega que a nulidade do ADE é cabível pois "considerando que os artigos 101 e 106 do CTN estabelece o direito à retroatividade da norma quando mais benéfica é direito constitucional do contribuinte em função da existência de parcelamento de débito nos termos da lei 11.941/2009, solicitado em 24/11/2009, ...." Em relação às supostas inconstitucionalidades alegadas, apesar da boa posição sobre o assunto no voto condutor transcrito, importante acrescentar que é vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade. O tema é pacificado no âmbito deste Conselho Administrativo, nos termos da Súmula CARF nº. 02: Súmula CARF nº. 02: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de Lei Tributária”. A autoridade administrativa é vinculada à legalidade estrita, seja nos termos da Lei 8.112 de 1990, em seu artigo 116, III, seja pelo artigo 41, inciso IV, do Anexo II, do atual Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 e o mesmo se verifica quanto às doutrinas citadas. Assim, a partir do momento em que a norma é inserida em nosso sistema legislativo, é obrigação da autoridade administrativa a sua aplicação, não cabendo ao julgador administrativo expressar seu juízo de valor por eventuais injustiças que esta norma tenha causado, papel este incumbido aos tribunais competentes. A hipótese colocada, sem dúvida alguma, configura aquela a situação prevista na Súmula acima mencionada, desta forma, entendo que a decisão recorrida não merece ser reformada quanto ao ponto alegado pela recorrente. Como órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), tem por finalidade julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância, bem como os recursos de natureza especial, que versem sobre a aplicação da legislação referente a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB). Portanto, rejeito a preliminar suscitada de incompetência do Carf para o julgamento do presente recurso. Do Mérito No mérito, a recorrente reitera os argumentos apresentados em sede de primeira instância, ou seja, em suma, que solicitou o parcelamento de débitos da Lei 11.941 de 2009 sendolhe vedada a adesão, que isto se reveste de uma ilegalidade; que a sua exclusão do Simples Nacional em virtude de débitos é inconstitucional, por violar os princípios constitucionais da isonomia, da igualdade tributária, da legalidade tributária. Esses argumentos foram fundamentadamente afastados em primeira instância com os quais adiro, porém, importante acrescentar que, como se vê, no p. processo não há litígio sobre a existência dos débitos indicados no ato de exclusão. Fl. 95DF CARF MF Processo nº 10865.003305/201037 Acórdão n.º 1001000.765 S1C0T1 Fl. 96 5 Alega, ainda, o contribuinte que teria parcelado referidos débitos consoante a Lei nº 11.941 de 2009 antes da emissão do ADE, no entanto, a referida Lei, que trata do parcelamento de débitos com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, ou com a Secretaria da Receita Federal do Brasil, não contempla os débitos apurados na sistemática do Simples, conforme o dispositivo legal a seguir transcrito, verbis: Seção I Dos Débitos Objeto de Parcelamento ou Pagamento Art. 1º Os débitos de qualquer natureza junto à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) ou à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), vencidos até 30 de novembro de 2008, que não estejam nem tenham sido parcelados até o dia anterior ao da publicação da Lei n º 11.941, de 27 de maio de 2009 , poderão ser excepcionalmente pagos ou parcelados, no âmbito de cada um dos órgãos, na forma e condições previstas neste Capítulo. (...) § 3º O disposto neste Capítulo não contempla os débitos apurados na forma do Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional) de que trata a Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006 . (...) Por seu turno, o Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN), órgão que regulamenta o tratamento diferenciado, simplificado e favorecido denominado Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional), editou a legislação geral, ou seja, a Portaria PGFN/RFB nº 6, de 22 de julho de 2009, que regulamenta os arts. 1º a 13 da Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, onde, expressamente não contempla o parcelamento dos débitos apurados na forma do Simples Nacional, conforme vedação normativa de conhecimento do manifestante, verbis: CAPÍTULO I DO PAGAMENTO À VISTA OU DO PARCELAMENTO DE DÍVIDAS NÃO PARCELADAS ANTERIORMENTE Seção I Dos Débitos Objeto de Parcelamento ou Pagamento Art. 1º Os débitos de qualquer natureza junto à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) ou à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), vencidos até 30 de novembro de 2008, que não estejam nem tenham sido parcelados até o dia anterior ao da publicação da Lei n º 11.941, de 27 de maio de 2009 , poderão ser excepcionalmente pagos ou parcelados, no âmbito de cada um dos órgãos, na forma e condições previstas neste Capítulo. Fl. 96DF CARF MF Processo nº 10865.003305/201037 Acórdão n.º 1001000.765 S1C0T1 Fl. 97 6 (...) § 3º O disposto neste Capítulo não contempla os débitos apurados na forma do Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional) de que trata a Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006 . (...) Por outro lado, o Comitê Gestor de Tributação das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (CGSN) estabeleceu que a pessoa jurídica poderá permanecer no regime especial se comprovar ter regularizado, no prazo de trinta dias a partir da ciência da exclusão, os débitos motivadores da exclusão, nos termos do § 5º do art. 6º da Resolução CGSN nº 15, de 23 de julho de 2007: Art. 6º A exclusão das ME e das EPP do Simples Nacional produzirá efeitos: (...) § 5º Na hipótese do inciso V do caput, será permitida a permanência da ME e da EPP como optante pelo Simples Nacional mediante a comprovação da regularização do débito no prazo de até 30 (trinta) dias contado a partir da ciência da exclusão. Assim, forçoso concluir que o parcelamento a que alude o recorrente, sob a égide da Lei nº 11.941 de 2009, foi indeferido por impedimento legal. Ou seja, os débitos apurados na forma do SIMPLES NACIONAL não podiam ser pagos à vista ou parcelados de acordo com a Lei nº 11.941/2009. A razão para a não aplicabilidade da Lei nº 11.941/2009 a esses débitos residiu na abrangência do SIMPLES NACIONAL, que inclui tributos cuja competência para instituição é dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Dessa forma, a União não tem competência para editar leis que prevejam reduções para tais tributos, assim como para a aplicação de descontos sobre a multa e juros de mora para os contribuintes que perderam o Refis da crise e para a aplicação do princípio da isonomia quanto ao parcelamento da Lei nº 11.941/2009 para as empresas do Simples Nacional. Além da aplicação da Súmula CARF nº 2, transcrita acima, que vergasta qualquer alegação de supostas inconstitucionalidades levantadas pela recorrente, quanto à alegação de ofensa ao princípio de legalidade, cabe esclarecer que a autoridade administrativa é vinculada à legalidade estrita, seja nos termos da Lei 8.112 de 1990, em seu artigo 116, III, seja pelo artigo 41, inciso IV, do Anexo II, do atual Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015. Assim, a partir do momento em que a norma é inserida em nosso sistema legislativo, é obrigação da autoridade administrativa a sua aplicação, não cabendo ao julgador Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10865.003305/201037 Acórdão n.º 1001000.765 S1C0T1 Fl. 98 7 administrativo expressar seu juízo de valor por eventuais injustiças que esta norma tenha causado, papel este incumbido aos tribunais competentes. Pelo exposto, voto por REJEITAR a PRELIMINAR suscitada de incompetência do Carf para o julgamento do presente recurso, devido às inconstitucionalidades do ADE, e, no mérito, considerando que os débitos motivadores da exclusão continuaram pendentes de regularização ultrapassado o prazo de 30 (trinta) dias da ciência do ADE, voto por NEGAR PROVIMENTO, mantendose a exclusão da empresa do Simples Nacional, consoante Ato Declaratório Executivo DRF/LIM nº 442.918. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Fl. 98DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13605.720154/2012-04
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
NÃO CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL.
Não se vislumbra a existência de divergência quando há aplicabilidade de decisão de cunho obrigatório emanada da Suprema Corte, na decisão recorrida, mas o acórdão paradigma, por ser de momento anterior, não se manifesta acerca da aplicação da decisão judicial.
Numero da decisão: 9202-007.074
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Pedro Paulo Pereira Barbosa e Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em Exercício.
(assinado digitalmente)
Ana Cecília Lustosa da Cruz - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ
1.0 = *:*
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AUSÊNCIA DE DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. Não se vislumbra a existência de divergência quando há aplicabilidade de decisão de cunho obrigatório emanada da Suprema Corte, na decisão recorrida, mas o acórdão paradigma, por ser de momento anterior, não se manifesta acerca da aplicação da decisão judicial. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Pedro Paulo Pereira Barbosa e Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 5. 72 01 54 /2 01 2- 04 Fl. 119DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional contra o Acórdão n.º 2202003.500 proferido pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF, em 21 de setembro de 2016, no qual restou consignada a seguinte ementa, fls. 80: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2010 IRPF. RENDIMENTO RECEBIDO ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. O Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a exigência do imposto de renda com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Recurso Voluntário Provido O Recurso Especial referido anteriormente, fls. 88 a 93, foi admitido, por meio do Despacho de fls. 102 a 104, para rediscutir a decisão recorrida no tocante à tributação de Rendimentos recebidos acumuladamente (RRA). Aduz a Procuradoria da Fazenda, em síntese, que: a) considerando a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal em 23 de outubro de 2014 nos autos do RE 614.406/RS, restou sedimentado o entendimento quanto à aplicação do regime de competência à matéria objeto dos autos; b) a autuação seja mantida, determinando o colegiado o retorno dos autos à DRF apenas para a retificação contábil relativa à alíquota incidente sobre os rendimentos recebidos a destempo; c) tal alteração não acarreta qualquer prejuízo ao contribuinte ou mácula ao lançamento, na medida em que impõe tão somente o recálculo do montante devido, sem majoração da exigência tributária. d) diante de simples incorreção no lançamento, não há necessidade de nova autuação, bastando o ajuste que se fizer necessário, em privilégio do aproveitamento dos atos, cuja repetição deve ser evitada, quando claramente se mostra prescindível, como é o caso dos autos; e) inexiste irregularidade que fundamente o cancelamento da exigência, mostrandose adequada sua manutenção com a realização das retificações cabíveis. Fl. 120DF CARF MF Processo nº 13605.720154/201204 Acórdão n.º 9202007.074 CSRFT2 Fl. 3 3 Intimada, a Contribuinte não apresentou contrarrazões. Conforme o Despacho de fls. 117, o contribuinte foi incluído no parcelamento, mas apenas no que se refere à parte não litigiosa. É o relatório. Voto Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Relatora 1. Do conhecimento. Embora não argüida pelo Recorrido a questão atinente ao conhecimento do recurso interposto pela Procuradoria, importante se faz apreciar, de ofício, a matéria, tendo em vista os fundamentos que passo a expor. Não deve ser conhecido o presente recurso, pois a decisão vergastada utilizou como fundamento de decidir o REsp n.º 1.118.429/SP e, principalmente, o RE n.º 614.406, para a interpretação do art. 12 da Lei n.º 7.713/88, sendo que a decisão paradigma não tratou da aplicação do referido RE, razão pela qual não se mostra possível vislumbrar que, caso aplicada a decisão do STF, a Turma se posicionaria da maneira ocorrida. Portanto, o acórdão paradigma não serve como parâmetro para a presente análise (aplicação da norma oriunda da decisão proferida nos autos do RE n.º 614.406). Diante do exposto, voto por não conhecer do Recurso Especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional, por ausência de demonstração da divergência jurisprudencial. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz. Fl. 121DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.727169/2014-80
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2010
DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, em não havendo a antecipação de pagamento, a contagem do prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.
ITR. IMÓVEL RURAL. ÁREA CONTÍNUA.
Para o fim de apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR, considera-se imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município, ainda que sujeitas a mais de uma matrícula no Registro de Imóveis competente.
LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. ANULAÇÃO DA AUTUAÇÃO INDEVIDA. CORREÇÃO DA FALTA.
Constatado a existência de lançamento voltado para imóvel rural abrangido no Auto de Infração, a anulação daquela autuação mostra-se suficiente para a correção da falta apontada.
AUTUAÇÃO. INTIMAÇÃO IMPROFÍCUA. EDITAL. VALIDADE.
Resultado improfícua a intimação de autuação por via postal, essa poderá ser efetuada por via postal no domicílio tributário do sujeito passivo
ITR. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. MUNICÍPIO DE LOCALIZAÇÃO DO IMÓVEL.
O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro.
ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO.
Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal.
ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO.
A dedução da Área de Reserva Legal da base de cálculo do ITR está condicionada à sua averbação, à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador.
VALOR DA TERRA NUA - VTN. SUBAVALIAÇÃO. ARBITRAMENTO PELO SIPT.
Caracterizada a subavaliação no VTN/ha informado na DITR e constatado que o valor apurado pelo contribuinte, mediante laudo de avaliação, é superior ao aferido pela Fiscalização com base no no Sistema de Preços de Terras - SIPT, deve ser mantido VTN/ha indicado no Auto de Infração, sob pena de agravamento da exigência fiscal.
Numero da decisão: 2402-006.513
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário exclusivamente para reduzir a área aproveitável do imóvel rural para 1330,0 ha. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Gregório Rechmann Junior que reconheceram a existência de APP e área de floresta nativa em relação ao imóvel denominado Fazenda Salto da Lontra
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho Presidente e Relator.
Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR Exercício: 2010 DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, em não havendo a antecipação de pagamento, a contagem do prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. ITR. IMÓVEL RURAL. ÁREA CONTÍNUA. Para o fim de apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR, considera-se imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município, ainda que sujeitas a mais de uma matrícula no Registro de Imóveis competente. LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. ANULAÇÃO DA AUTUAÇÃO INDEVIDA. CORREÇÃO DA FALTA. Constatado a existência de lançamento voltado para imóvel rural abrangido no Auto de Infração, a anulação daquela autuação mostra-se suficiente para a correção da falta apontada. AUTUAÇÃO. INTIMAÇÃO IMPROFÍCUA. EDITAL. VALIDADE. Resultado improfícua a intimação de autuação por via postal, essa poderá ser efetuada por via postal no domicílio tributário do sujeito passivo ITR. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. MUNICÍPIO DE LOCALIZAÇÃO DO IMÓVEL. O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal. ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO. A dedução da Área de Reserva Legal da base de cálculo do ITR está condicionada à sua averbação, à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador. VALOR DA TERRA NUA - VTN. SUBAVALIAÇÃO. ARBITRAMENTO PELO SIPT. Caracterizada a subavaliação no VTN/ha informado na DITR e constatado que o valor apurado pelo contribuinte, mediante laudo de avaliação, é superior ao aferido pela Fiscalização com base no no Sistema de Preços de Terras - SIPT, deve ser mantido VTN/ha indicado no Auto de Infração, sob pena de agravamento da exigência fiscal.
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INOCORRÊNCIA. Em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, em não havendo a antecipação de pagamento, a contagem do prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. ITR. IMÓVEL RURAL. ÁREA CONTÍNUA. Para o fim de apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, considerase imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município, ainda que sujeitas a mais de uma matrícula no Registro de Imóveis competente. LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. ANULAÇÃO DA AUTUAÇÃO INDEVIDA. CORREÇÃO DA FALTA. Constatado a existência de lançamento voltado para imóvel rural abrangido no Auto de Infração, a anulação daquela autuação mostrase suficiente para a correção da falta apontada. AUTUAÇÃO. INTIMAÇÃO IMPROFÍCUA. EDITAL. VALIDADE. Resultado improfícua a intimação de autuação por via postal, essa poderá ser efetuada por via postal no domicílio tributário do sujeito passivo ITR. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. MUNICÍPIO DE LOCALIZAÇÃO DO IMÓVEL. O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 71 69 /2 01 4- 80 Fl. 316DF CARF MF 2 Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal. ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO. A dedução da Área de Reserva Legal da base de cálculo do ITR está condicionada à sua averbação, à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador. VALOR DA TERRA NUA VTN. SUBAVALIAÇÃO. ARBITRAMENTO PELO SIPT. Caracterizada a subavaliação no VTN/ha informado na DITR e constatado que o valor apurado pelo contribuinte, mediante laudo de avaliação, é superior ao aferido pela Fiscalização com base no no Sistema de Preços de Terras SIPT, deve ser mantido VTN/ha indicado no Auto de Infração, sob pena de agravamento da exigência fiscal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário exclusivamente para reduzir a área aproveitável do imóvel rural para 1330,0 ha. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Gregório Rechmann Junior que reconheceram a existência de APP e área de floresta nativa em relação ao imóvel denominado Fazenda Salto da Lontra (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho – Presidente e Relator. Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 03069.397, da 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília/DF – DRJ/BSA (fls. 167/189) que julgou improcedente impugnação apresentada em face de Auto de Infração de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), exercício de 2010, cujo objeto foi o imóvel denominado “Fazenda 3 Barras”, cadastrado na RFB sob o nº 1.089.9014, com área declarada de 1.330,0 ha, localizado no Município de Riachão das Neves/BA. A seguir reproduzse trechos do relatório da decisão recorrida, que retratam adequadamente o contexto em que se deu a autuação, bem assim as razões trazidas na impugnação: Fl. 317DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 3 3 Ação Fiscal A ação fiscal, proveniente dos trabalhos de revisão das DITR/2010 incidentes em malha valor, iniciouse com o Termo de Intimação Fiscal nº 3825/00036/2014 de fls. 15/17, lavrado em 22.07.2014 e recepcionado em 31.07.2014, às fls. 18, para o contribuinte apresentar, no prazo de 20 dias a contar da sua ciência, o seguinte documento de prova: Laudo de Avaliação do Valor da Terra Nua emitido por engenheiro agrônomo/florestal, conforme estabelecido na NBR 14.653 da ABNT com grau de fundamentação e de precisão II, com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados e planilhas de cálculo e preferivelmente pelo método comparativo direto de dados do mercado. Alternativamente, o contribuinte poderá se valer de avaliação efetuada pelas Fazendas Públicas Estaduais (exatorias) ou Municipais, assim como aquelas efetuadas pela Emater, apresentando os métodos de avaliação e as fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel. Tais documentos devem comprovar o VTN na data de 1º de janeiro de 2010, a preço de mercado. A falta de comprovação do VTN declarado ensejará o arbitramento do VTN, com base nas informações do SIPT, nos termos do art. 14 da Lei nº 9.393/96, pelo VTN/ha do município de localização do imóvel para 1º de janeiro de 2010 no valor de R$: · outras R$1.307,50. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal, o contribuinte apresentou, em 07.08.2014, a correspondência de fls. 19, na qual solicitou cópia do processo. O contribuinte, em 20.08.2014, requereu a prorrogação do prazo por mais 30 (trinta) dias, por meio da correspondência de fls. 24, para o atendimento ao Termo de Intimação Fiscal. A fiscalização lavrou, em 27.08.2014, o Termo de Prorrogação de Prazo de fls. 29, no qual foi prorrogado o prazo para resposta ao Termo de Intimação Fiscal por mais 20 (vinte) dias. O Termo de Prorrogação de Prazo foi recepcionado pelo contribuinte em 09.09.2014, às fls. 30. Em 09.09.2014, o contribuinte apresentou a correspondência de fls. 31, para juntar aos autos a cópia das Matrículas do Imóvel, às fls. 37/43. Por meio da correspondência de fls. 44, protocolada em 26.09.2014, o contribuinte requereu a prorrogação do prazo para atendimento ao Termo de Intimação Fiscal por mais 90 (noventa) dias. Tal requerimento foi indeferido por meio do Termo de fls. 48, lavrado em 28.10.2014 e recepcionado pelo contribuinte em 05.11.2014, às fls. 49. A fiscalização lavrou, em 29.10.2014, o Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 38725/00099/2014, às fls. 50/53, que foi enviado para o mesmo endereço para o qual foram encaminhados os Termos anteriores, contudo os Correios devolveram o Aviso de Recebimento (AR) ao remetente, às fls. 54/55. Posteriormente, esse mesmo Termo foi reencaminhado ao mesmo endereço e encaminhado para um segundo endereço do contribuinte, sendo esses Termos recepcionados pelo contribuinte em 04.12.2014, às fls. 60/61, nos dois endereços. Por não ter sido apresentado o documento de prova exigido e procedendose a análise e verificação dos dados constantes na DITR/2010 e nas Matrículas do Imóvel, às fls. 37/43, apresentadas pelo contribuinte, a fiscalização resolveu alterar a Fl. 318DF CARF MF 4 área total declarada do imóvel de 1.330,0 ha para 1.468,4 ha e o Valor da Terra Nua (VTN) declarado de R$0,00 para o arbitrado de R$1.919.933,00 (R$1.307,50/ha), com base em valor constante no SIPT, com consequente aumento do VTN tributável, e disto resultando imposto suplementar de R$165.104,23, conforme demonstrado às fls. 06. A descrição dos fatos e os enquadramentos legais da infração, da multa de ofício e dos juros de mora constam às fls. 04/05 e 07. Impugnação Cientificado do lançamento, em 04.04.2015, às fls. 12/14, ingressou o contribuinte, em 04.05.2015, às fls. 64, com sua impugnação de fls. 64/76, instruída com os documentos de fls. 77/157, alegando e solicitando o seguinte, em síntese: considera que a fiscalização preferiu promover a Notificação de Lançamento por Edital, mesmo dispondo da informação do seu domicílio e já tendo utilizado o mesmo endereço para intimações anteriores e sendo assim tal fato é inconcebível, gerando nulidade, e cita e transcreve Ementa de Decisão Judicial para embasar sua tese; acentua que a intimação editalícia caracterizase como modalidade extraordinária de intimação, apenas devendo ser aplicada quando comprovado que houve o esgotamento das vias ordinárias, o que exige para tanto prova de que pessoa esteja efetivamente em lugar incerto e desconhecido; destaca que, no caso, tanto o Termo de Intimação Fiscal como o envelope em que foi postado e os pedidos de prorrogação revelam que o Fisco tinha totais condições de dispor do seu endereço para promover a regular notificação do lançamento via postal, bastava verificar no sistema informatizado da RFB o endereço atualizado do contribuinte; entende ser imperioso, diante dos fatos, reconhecer que houve precipitação da Administração, de modo a evidenciar a nulidade da via editalícia, posto que, à míngua de qualquer justificativa, é patente a nulidade do Edital pela falta de prova das razões da frustração da notificação anterior; considera que, além do exposto, a publicação do Edital foi feita na cidade de Riachão das Neves/BA, quando teria que ser realizada em Brasília/DF, que é a circunscrição do seu domicílio; registra que o art. 23, § 4º, I, do Decreto nº 70.235/72 é inequívoco ao dispor que considerase o domicílio tributário o endereço postal por ele fornecido; acentua que, ainda que se legitimasse a intimação pela via do Edital, por eventual frustração da tentativa de intimação pela via postal, esta via apenas seria válida se tivesse sido procedida no domicílio tributário do sujeito passivo; destaca que não pode haver dúvida de que o Fisco tem que adotar por domicílio tributário aquele local constante no cadastro do contribuinte, conforme deixa claro o entendimento do CARF, e transcreve Ementas desse Colegiado, para embasar sua tese, e da mesma forma Ementa de Decisão Judicial, enfatizando que, por isso, deve ser considerada nula de pleno direito a notificação promovida por Edital fora do domicílio fiscal do contribuinte; entende que o ocorrido, no caso, implica em patente violação ao seu direito de defesa, violando o princípio constitucional da ampla defesa e, também, o disposto no art. 2º, VII e X, da Lei nº 9.784/99; Fl. 319DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 4 5 enfatiza que o art. 26, § 5º, da Lei nº 9.784/99 dispõe que “as intimações serão nulas quando feitas sem observância das prescrições legais”; considera que a motivação central do Auto de Infração (sic) se ancorou na suposta falta de prestação de esclarecimento pelo contribuinte, o que não pode prevalecer diante do fato de que a sua notificação para apresentar defesa é nula de pleno direito, por ter sido promovido pela via editalícia e fora do seu domicílio fiscal, sendo de rigor, pois, que se anule o Auto de Infração (sic); entende que houve ilegalidade do Auto de Infração (sic) por erro na determinação da matéria tributável, isso porque foi lavrado um único lançamento fiscal em relação a dois imóveis distintos, tal como se tratasse de um mesmo fato gerador, ou seja, como se fosse um único imóvel supostamente com área de 1.468,4 ha, o que não corresponde à realidade dos fatos; transcreve excerto da “Descrição dos Fatos” e diz ser patente nas declarações que não houve “unificação” de dois imóveis, mesmo porque isso não seria possível, visto tratarse de imóveis de proprietários diferentes e, como visto, a fiscalização tinha ciência de que se trata de dois imóveis distintos; diz que a Fazenda Salto do Lontra e a Fazenda São Joaquim são duas propriedades distintas, cada qual com a sua respectiva matrícula e com proprietários diferentes e que não pode a fiscalização promover o lançamento unificando as duas fazendas como se tratasse de um único imóvel; considera que a Fazenda Três Barras é a antiga denominação da Fazenda Salto do Lontra, que estava matriculada no Cartório de Barreiras e foi posteriormente averbada no Cartório de Riachão das Neves, localizado no município de Riachão das Neves/BA; reitera que a fiscalização lavrou o Auto de Infração (sic) tributando toda a área como se fosse um único imóvel, não levando em consideração que são dois imóveis distintos e com proprietários diferentes; entende que deve ser anulado o Auto de Infração (sic), diante do erro na apuração da matéria tributável, que conduziu ao erro na determinação da alíquota aplicável e, também, da base de cálculo, tornando imprestável o lançamento; alega a extinção do crédito tributário pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN, por tratarse de lançamento por homologação e, no caso, a ciência do lançamento ocorreu em 04.04.2015 (doc. 4), referindose ao ITR/2010, cujo fato gerador remete a 1.01.2010, evidenciando que a constituição do lançamento foi realizada mais de 5 anos após a ocorrência do fato gerador e, por isso, deve ser anulado o Auto de Infração (sic) em razão da extinção do crédito tributário pela decadência, na forma do art. 156, VII, do CTN; diz que o lançamento toma como suporte fático a confusão de dois imóveis distintos, de proprietários distintos, o que o torna imprestável e mesmo que se cogitasse em mantêlo em relação a um dos imóveis, deveria ser ajustado o valor para a realidade do imóvel Fazenda Três Barras, hoje denominada Salto da Lontra; informa que, pelo levantamento constante no Laudo técnicopericial, o imóvel, na verdade, tem área de 285,815 ha (item 2.4 do Laudo anexo – doc. 5) e que foi identificado equívoco no georreferenciamento anterior, conforme explica o Laudo, cujos fundamentos se requer sejam considerados parte integrante da impugnação; Fl. 320DF CARF MF 6 entende que deve ser tomada como área total de 285,815 ha, bem como as áreas de preservação permanente e reserva legal apuradas no Laudo; destaca que, sendo a área efetiva do imóvel de 285,815 ha, a alíquota aplicável é de, no máximo, 3,30%, por força de lei (art. 11 da Lei nº 9.393/1996); enfatiza que os VTN arbitrados são absurdos e não correspondem à realidade e diz que em recente pesquisa aos Cartórios de Notas e Registro de Imóveis, não houve sequer uma operação de compra e venda nesse valor/ha, para as terras da região; entende que a fiscalização não demonstrou a configuração de hipótese de arbitramento do valor do imóvel e salienta que o arbitramento da base de cálculo dos tributos é procedimento previsto no art. 148 do CTN, que dispõe que somente poderá arbitrar ou o preço dos bens em duas hipóteses: (a) se o contribuinte omitir tal informação, ou (b) se demonstrado que a declaração do contribuinte não merece fé; registra que o art. 10, § 1º, I, da Lei nº 9.393/96 especifica, para efeitos de apuração do ITR, como será considerado o VTN e o seu art. 14 não pode ser interpretado em sentido que extravase os limites delineados pelo art. 148 do CTN, posto que o art. 14 não diz que o valor do SIPT passaria a ser considerado como valor mínimo para a base de cálculo; acentua que a subavaliação não pode ser presumida pelo simples fato do valor indicado pelo contribuinte for inferior ao valor do SIPT; diz que o art. 148 do CTN exige que o arbitramento aconteça por meio de um “processo regular”, o que significa que devem ser respeitados o contraditório e a ampla defesa e cita e transcreve ementa de Decisão Judicial para referendar seu argumento; salienta que o arbitramento é medida excepcional cabível em razão da omissão ou da infidelidade do contribuinte e deverá ser realizado em processo administrativo próprio, garantidos o contraditório e a ampla defesa do contribuinte e que no caso concreto não pode ser aplicado, pois não houve omissão alguma por parte do contribuinte; considera que o fato de não ter conseguido apresentar a tempo, para a fiscalização, o Laudo de Avaliação, não configura omissão e nem afasta a idoneidade das informações prestadas; requer, seja pela não configuração das hipóteses de arbitramento ou pela ausência do respectivo processo regular, requer a anulação da exigência fiscal; pelo exposto, requer o reconhecimento da nulidade da notificação feita por Edital em local diferente do seu domicílio, anulandose o Auto de Infração (sic); ou, requer seja anulado o Auto de Infração (sic), em razão da extinção do crédito tributário pela decadência, na forma do art. 156, VII, do CTN, tendo em vista que o direito do Fisco já havia decaído quando houve a publicação do Edital, com fundamento no art. 150, § 4º, do CTN; ou, caso superada a nulidade, requer que seja integralmente cancelada a exigência fiscal, em razão do erro na apuração da matéria tributável, da ilegalidade do arbitramento, bem como em razão do erro na determinação da alíquota; ou, caso não se entenda pela anulação, requer que o ITR seja apurado exclusivamente em relação ao imóvel Fazenda Três Barras (Fazenda Salto da Lontra), tomando como critério os dados constantes no Laudo de Avaliação anexo. Fl. 321DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 5 7 Decisão de Primeira Instância A DRJ/BSA considerou o lançamento procedente, conforme se depreende a ementa da decisão recorrida: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL – ITR Exercício: 2010 DA DECADÊNCIA No caso de falta de pagamento ou pagamento em atraso da quota única ou da 1ª quota do ITR, após o exercício de apuração do imposto, aplicase a regra geral prevista no art. 173, I, do Código Tributário Nacional (CTN), para efeito de contagem do prazo decadencial. DA NULIDADE DO LANÇAMENTO. DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Tendo o contribuinte compreendido a matéria tributada e exercido de forma plena o seu direito de defesa, não há que se falar em NULIDADE do lançamento, que contém todos os requisitos obrigatórios previstos no Processo Administrativo Fiscal (PAF). A intimação feita por Edital é o procedimento legal previsto nos casos em que não é possível intimar o interessado pessoalmente ou por via postal, não sendo razão para a nulidade do lançamento, por cerceamento do direito de defesa. DA REVISÃO DE OFÍCIO. DO ERRO DE FATO A revisão de ofício de dados informados pelo contribuinte na sua DITR somente cabe ser acatada quando comprovada nos autos, com documentos hábeis, a hipótese de erro de fato, observada a legislação aplicada a cada matéria. DA ÁREA TOTAL DO IMÓVEL Incabível a redução da área total do imóvel tendo em vista a ausência de documentação hábil para tanto, qual seja, Certidão ou Matrícula do Registro de Imóveis na qual conste, para o imóvel em questão, a retificação da área total. DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE, DE RESERVA LEGAL E COBERTA POR FLORESTAS NATIVAS As áreas de preservação permanente, de reserva legal e cobertas por florestas nativas, para fins de exclusão do ITR, cabem ser reconhecidas como de interesse ambiental pelo IBAMA, ou pelo menos, que seja comprovada a protocolização, em tempo hábil, do requerimento do competente Ato Declaratório Ambiental (ADA), além da Fl. 322DF CARF MF 8 averbação tempestiva da área de reserva legal à margem da matrícula do imóvel. DO VALOR DA TERRA NUA (VTN). SUBAVALIAÇÃO Deve ser mantido o VTN por hectare arbitrado pela fiscalização, caracterizada a subavaliação do VTN, com base no SIPT, posto que o Laudo de Avaliação apresentado pelo contribuinte possui um VTN por hectare maior que o arbitrado pela fiscalização e o seu acatamento implicaria no agravamento da exigência. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Recurso Voluntário Inconformado o contribuinte apresentou recurso voluntário, cujas alegações são resumidas na referida peça nos seguintes termos: I. em relação à decadência, o entendimento categórico deste E. Conselho Administrativo de Recurso Fiscais (CARF) na linha do que foi firmado pelo E. Superior Tribunal de Justiça (STJ) em sede de Recurso Repetitivo é de que a configuração do lançamento por homologação ocorre pelo adiantamento do pagamento, nada influindo que isto ocorra antes ou depois da data de vencimento do tributo, nisto atraindo a aplicação do art. 150, §§ 1° e 4° do CTN; II. é grosseiro o erro da Fiscalização em aglutinar dois imóveis distintos, de proprietários distintos, no mesmo lançamento fiscal, quando a DITR apenas se referia a um único imóvel (doc. 2); e ainda por cima realizando a Fiscalização um segundo lançamento em relação ao mesmo imóvel ! (doc. 3), o que implica na nulidade da exigência fiscal por falta de segurança na definição da matéria tributável; III. ainda que se cogitasse da manutenção do lançamento fiscal, a área total efetiva do imóvel em questão era de 285,82 hectares, conforme já fazia o Laudo Técnico apresentado nestes autos (fl. 97), e também o Cadastro Ambiental Rural CAR (fl. 153 e doc. 4), bem como o Certificado de Inscrição no Inema CEFIR (fl. 151) – sendo que recentemente o imóvel foi objeto de georeferenciamento, já homologado pelo Sigef/Incra sem nenhuma ressalva (doc. 5), por meio do qual se comprova que a verdade material é de que a área tem 286,01 hectares, conforme apurado por instrumentos de alta precisão, o que também já foi objeto de emissão do Certificado CCIR pelo INCRA com efeito inclusive para 2010 (doc. 6) transcrição na Matrícula do Imóvel (doc. 7), também levando o contribuinte a realizar novo levantamento, ajustando o Laudo Técnico para este parâmetro (doc. 8) – razão pela qual, por força da verdade dos fatos, tem de ser considerada a área real do imóvel para a apuração do imposto; IV. não se pode ignorar que a integralidade da área do imóvel é coberta por floresta nativa que configura a hipótese alínea "e" do art. 10, §1°, II, da Lei n° 9.393/96, para o efeito de apuração do imposto, conforme aferido de forma objetiva e categórica pelo Laudo Técnico; V. a área de Reserva Legal (RL) é aferida de forma objetiva tanto pelo Laudo Técnico quanto pela inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR) a qual já foi, aliás, averbada na matrícula do imóvel –, o que tem de ser considerado para fins de apuração do ITR; Fl. 323DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 6 9 VI. o Laudo Técnico é categórico em demonstrar a existência, dimensão e localização da Área de Preservação Permanente (APP) no imóvel sob fiscalização, de tal modo que recusar sua existência também é recusar a verdade dos fatos; VII. a Medida Provisória n° 2.16667/2001, que incluiu no art. 10 da Lei n° 9.393/96 o parágrafo 70, não exigia nenhuma comprovação prévia de RL e APP nas declarações apresentadas até o ano de 2012 (quando o dispositivo foi revogado pela Lei n° 12.651/2012), razão pela qual devem ser reconhecidas as áreas de RL e APP conforme demonstra o contribuinte; VIII. é ilegal o arbitramento da base de cálculo quando ausente o respectivo processo regular para demonstrar a configuração da hipótese de arbitramento do valor do imóvel, de modo que tal ausência macula o lançamento, razão pela qual devese anular a exigência fiscal; IX. é nula de pleno direito a intimação editalícia quando realizada em local diverso do domicílio do contribuinte constante no cadastro da RFB. Requer, por fim que seja o recurso voluntário provido em razão da ocorrência de decadência ou, alternativamente, que a exigência fiscal seja cancelada: a) em razão: do reconhecimento da existência de vício material no lançamento, por erro na determinação da matéria tributável, que conduziu ao erro na determinação da base de cálculo e do montante devido, em flagrante violação aos arts. 142 e 145 do CTN; de ilegalidade no arbitramento da base de cálculo; da nulidade do edital publicado em local diverso do domicílio eleito pelo Contribuinte; da efetiva existência de ARL e de APP conforme aferido de maneira conclusiva por meio de Laudo Técnico b) ou ainda, na hipótese de subsistir o lançamento, seja o ITR apurado sobre o tamanho efetivo do imóvel e que seja considerado o VTN apurado conforme o Laudo Técnico de Avaliação. É o relatório Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho – Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto dele conheço. Decadência Segundo o recorrente, a DRJ rejeitou a decadência pelo fato de entender que lançamento por homologação não se configuraria quando o adiantamento do pagamento ocorresse depois da data fixada na legislação como prazo para o recolhimento do imposto, Fl. 324DF CARF MF 10 visto que equipara as situações de falta de recolhimento e de recolhimento realizado após a data de vencimento fixada na legislação, para o efeito de recusar, também neste último caso, a configuração do lançamento por homologação, afastando assim a aplicação do § 4º do art. 150 do CTN. Segundo alega o sujeito passivo: No presente caso houve o recolhimento do valor declarado antes de qualquer fiscalização, configurandose o lançamento por homologação, tal como é expressamente reconhecido pelo lançamento fiscal, que realizou a constituição do crédito tributário para a exigência de "Imposto a pagarSuplementar". De fato, o acórdão recorrido considera que a falta de recolhimento de tributo sujeito a lançamento por homologação, bem assim seu recolhimento em atraso, “realizado “após o exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, no que diz respeito ao ITR” dá causa à aplicação do inciso I do art. 173 do CTN para a contagem do prazo decadencial. Senão vejamos trecho da decisão a quo a esse respeito: a constatação da inexistência do cumprimento da obrigação principal ou, ainda, de pagamento em atraso realizado após o exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, no que diz respeito ao ITR, desloca a contagem do prazo decadencial para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado regra geral em se tratando de decadência , conforme disposto no art. 173, inciso I, do CTN Ocorre que, diferentemente do que aduz o recorrente, o fundamento arguido na decisão recorrida para decidir pela aplicação inciso I do art. 173 do CTN à situação sob exame não foi o pagamento em atraso, mas a absoluta ausência de recolhimento. Confirase excerto do acórdão fustigado sobre o assunto: No presente caso, o imposto apurado pelo contribuinte na sua DITR/2010, de R$10,00, às fls. 06, não foi pago, posto que não consta nos Sistemas da RFB nenhum pagamento referente ao imóvel de NIRF nº 1.089.9014, que é o imóvel do presente processo, para esse exercício. A respeito do argumento recursal de que teria havido o recolhimento do valor declarado antes mesmo do início da fiscalização, em razão de constar da Notificação de Lançamento (fls. 228/232) a expressão “Imposto a pagar – Suplementar”, impende esclarecer que referida expressão não atesta a ocorrência de pagamentos, mas somente que o crédito lançado resultou da diferença entre o valor informado na declaração pelo contribuinte e o montante apurado pelo Fisco. Essa constatação pode ser facilmente aferida a partir do quadro denominado “Cálculo do Imposto” que integra o Demonstrativo de Apuração do Imposto Devido (fl. 231): Cálculo do Imposto (RS) Declarado Apurado 25 Valor da Terra Nua Tributável (09/01 ) – 24 0,00 776.158,58 26 Alíquota 4,70 4,70 27 Imposto Devido (25*26)/100 10,00 36.479,45 Diferença de Imposto (Apurado – Declarado) 36.469,45 Para desconstituir a informação contida na decisão de piso acerca da ausência de pagamento de qualquer parcela referente ao ITR em relação ao exercício 2010, deveria o Fl. 325DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 7 11 contribuinte fazer prova nesse sentido, conforme preceitua a alínea “c” do § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/1972, in verbis: Art. 16. [...] [...] § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que:(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) [...] c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. [...] Assim, não tendo sido carreados aos autos sequer indícios de provas quanto à efetivação de pagamentos antecipados não há como considerar válidas as assertivas trazidas no recurso voluntário. Por conseguinte, consoante entendimento pacificado no âmbito deste Conselho, a regra decadencial aplicável ao caso é aquela prevista no inciso I do art. 173 do CTN. Nesse sentido é o entendimento consubstanciado no Acórdão 9202006.301, de 12/12/2017, da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Confirase: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL – ITR Exercício: 2000, 2001, 2002, 2003, 2004 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO ANTECIPADO. INEXISTÊNCIA. Quando, antes de qualquer procedimento fiscal, há pagamento antecipado de tributo sujeito ao lançamento por homologação, aplicase o critério de contagem do prazo decadencial de cinco anos a partir da data da ocorrência do fato gerador. Caso contrário, o início da contagem passa a ser no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Hipótese em que o contribuinte efetuou pagamento após o início da ação fiscal. [...] Inexistindo pagamento antecipado à ação fiscal, a regra aplicável é de fato a do art. 173, inc. I, do CTN, como requer o Procurador em seu recurso especial de divergência, não havendo porque reduzir o lançamento do crédito no exercício de 2000 para além daquele resultante do restabelecimento do valor glosado de R$ 360.000,00, já reconhecido no acórdão a quo. Em vista disso, não merece reparos o entendimento da DRJ/BSA, segundo o qual: Considerando que o pagamento do ITR/2010, cuja quota única ou 1ª parcela venceu em 30.09.2010, não foi realizado e sabendose que o fato gerador do ITR do exercício de 2010 ocorreu em 1º.01.2010, o termo inicial para a contagem do prazo decadencial, no caso, deslocase para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido Fl. 326DF CARF MF 12 realizado, (regra geral do art. 173, I, do CTN), ou seja, 1º.01.2011, estendendose o direito de a Autoridade Fiscal expressamente homologar o pagamento feito ou constituir crédito tributário suplementar até 31 de dezembro de 2015. Em sendo caso de lançamento, é sabido que o mesmo apenas se torna perfeito e acabado com a ciência, ao sujeito passivo, do seu instrumento materializador, qual seja, a Notificação de Lançamento, como no caso, ou o Auto de Infração. Tendo em vista que o lançamento só foi concretizado, com a ciência do autuado, em 04 de abril de 2015, às fls. 12/14, ou seja, ou seja, antes do término do prazo referido anteriormente (31.12.2015), é de se concluir que tal procedimento administrativo foi tempestivo, não havendo dúvidas de que o direito de efetuar o lançamento ainda não havia decaído, não obstante alegação da impugnante em contrário. Dessarte, afasto a decadência. Nulidade por Erro na Determinação da Matéria Tributável Sobre esse ponto, o reclamante aduz que “foi lavrado um único lançamento fiscal em relação a dois imóveis distintos, tal como se se tratasse de um mesmo fato gerador e de uma mesma base de cálculo”, ou seja, de um único imóvel supostamente com a área de 1.468,40 ha – o que não corresponderia à realidade dos fatos. Ainda de acordo com a peça recursal, a motivação trazida no Auto de Infração é falsa, pois a DITR/2010 referese a um único imóvel, sem que conste nenhuma agregação de área contígua e que seria impossível realizar esse tipo de anexação, visto que os imóveis rurais pertencem a coproprietário diversos. De acordo com a peça recursal: Conforme se verifica dos autos, a matrícula n° 2854 (fl. 38) trata de imóvel de propriedade de Romildo Sousa Ribeiro, Ueliton Baltasar Caetano e Artur Ribeiro Jarnalo, cuja averbação AV 52854 (fl. 39) informa que o nome da Fazenda é Salto da Lontra. Já a matrícula n° 2855 (fl. 41) tratase de imóvel de propriedade de Ueliton Baltasar Caetano, Selma Resende Jornal e Romildo Sousa Ribeiro, cuja averbação AV2 2855 (fl. 42) informa que o nome da Fazenda é São Joaquim. Segundo informa o recorrente a DITR/2010 não foi por ele apresentada, mas por outro dos coproprietário e apenas com relação a um dos imóveis. Argumenta ainda o sujeito passivo que a DRJ/BSA teria alterado a fundamentação do Auto de Infração. Segundo infere: A motivação do Auto de Infração, como visto, foi de que os imóveis teriam sido unificados na DITR2010, o que, como é patente, é falso. A DRJ, agora, pretende sustentar o lançamento unificado dos dois imóveis a pretexto de que seriam áreas contíguas de um mesmo proprietário. Examinandose os documentos de fls. 37/43 constatase que o argumento de que os imóveis objeto do lançamento pertenceriam a proprietários diferentes, não se sustenta. Fl. 327DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 8 13 Vejase que o recurso voluntário informa que, com relação o imóvel de matrícula n° 2854 figuram com os coproprietários as seguintes pessoas físicas: Romildo Sousa Ribeiro, Ueliton Baltasar Caetano e Artur Ribeiro Jarnalo. Já os coproprietários do imóvel matriculado sob o número 2855 são Ueliton Baltasar Caetano, Selma Resende Jarnalo e Romildo Sousa Ribeiro. Ocorre que as informações insertas no registro R42854 (fl. 38) do imóvel de matrícula nº 2854 dão conta de que Artur Ribeiro Jarnalo e Selma Resende Jarnalo são casados. Confirase: Com isso, em razão da sociedade conjugal, Artur e Selma Jarnalo têm a propriedade em comum de um terço de cada um dos imóveis. E isso pode ser facilmente verificado a partir da averbação efetuada em 15/08/2013 na matrícula de ambos os imóveis, conforme trechos a seguir transcrito, onde Selma Jarnalo figura, em relação a esses dois imóveis, entre os coproprietária (fls. 39 e 42): Verificase, pois, a improcedência do argumento recursal de que os imóveis rurais em relação aos quais foi realizado o lançamento do tributo pertencem a coproprietários diversos. Fl. 328DF CARF MF 14 Sobre a asserção recursal de que os imóveis não seriam contíguos, também não há como conferir razão ao recorrente, pois os dados registrados na matrículas dos dois imóveis são absolutamente claros no sentido de que as propriedades rurais fazem limite entre si. De modo a espancar qualquer dúvida a esse respeito, reproduzo, mais uma vez, trechos das matrículas dos imóveis: Dessarte, ainda que a informação contida na DITR/2010 dissesse respeito a apenas um dos imóveis, como alegado no recurso voluntário, o lançamento deveria ser feito em relação a ambos, em vista dos disposto § 2º do art. 1º da Lei nº 9.393/1996 Art. 1º O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, de apuração anual, tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de imóvel por natureza, localizado fora da zona urbana do município, em 1º de janeiro de cada ano. § 1º O ITR incide inclusive sobre o imóvel declarado de interesse social para fins de reforma agrária, enquanto não transferida a propriedade, exceto se houver imissão prévia na posse. § 2º Para os efeitos desta Lei, considerase imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município. § 3º O imóvel que pertencer a mais de um município deverá ser enquadrado no município onde fique a sede do imóvel e, se esta não existir, será enquadrado no município onde se localize a maior parte do imóvel. (Grifouse) Do mesmo modo, a assertiva de que a decisão de primeira instância administrativa teria alterado os fundamentos do lançamento não resiste a uma análise, ainda que superficial, das razões trazidas no Auto de Infração e na decisão de piso. Esclareçase que o Auto de Infração traz como fundamento o inciso I do § 1º do art. 10 e o art. 14 da Lei nº 9.393/1996, ou seja, encontrase pautado no fato de o Valor da Terra Nua – VTN declarado pelo contribuinte para os imóveis de matrícula 2854 e 2855 está em desacordo com o que estabelece a legislação e de que a área dos imóveis (somadas por serem contíguas e terem sido declaradas de forma unificada na DITR/2010) ser maior do que o informado nessa declaração. Asseverese que, em momento algum, a DRJ afastouse de tais fundamentos ao proferir sua decisão. Fl. 329DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 9 15 Além do que, tivesse o representante da recorrente analisado de forma mais detida a decisão atacada, perceberia que o argumento trazido pelo Fisco foi inclusive reproduzido na decisão fustigada nos seguintes termos: Quanto às alegações de ilegalidade da autuação porque a fiscalização teria promovido o lançamento unificando duas fazendas (Fazenda Salto do Lontra e a Fazenda São Joaquim) como se tratasse de um único imóvel, afirmando que seriam duas propriedades distintas, cada qual com a sua respectiva Matrícula e com proprietários diferentes, e que a Fazenda Três Barras é a antiga denominação da Fazenda Salto do Lontra, verificase nos autos que elas não procedem, como observou, inclusive, a Autoridade Fiscal, às fls. 157, posto que as Matrículas nº 2854 e nº 2855 referemse a imóveis contínuos, de propriedade do impugnante, com áreas totais, respectivamente de 728,17 ha, às fls. 39, e 740,29 ha, às fls. 42, que perfazem um imóvel, para fins de ITR, de área total de 1.468,4 ha, como apurado corretamente pela fiscalização. Registrese que não foi a fiscalização que unificou os imóveis de propriedade do impugnante, como fazem prova as referidas Matrículas, já que foi o próprio contribuinte que o fez corretamente, com erro apenas na soma da área total, que foi declarada equivocadamente como de 1.330,0 ha. Ademais, ainda que o recorrente tivesse alguma razão com relação a esse ponto, é absolutamente pacífico na jurisprudência deste Conselho que o julgador não está adstrito às razões invocadas pelas partes, podendo, à luz dos elementos fáticos e da legislação afeta à matéria objeto de litígio, formar livremente sua convicção. Sobre a indicação de que a DITR/2010 fora apresentada não pelo autuado, mas por outro coproprietário dos imóveis relacionados ao Auto de Infração, não vejo em que isso possa interferir no litígio. É que o recorrente e os demais proprietários dos imóveis rurais, por terem interesse comum na situação que constitui o fato gerador tributo, são solidários entre si. Implica dizer que, independentemente de quem tenha apresentado a DITR/2010, o lançamento pode ser efetuado contra qualquer dos coproprietários, sem benefício de ordem, de conformidade com o art. 124 do CTN, in verbis: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; [...] Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Outra questão apresentada em sede de recurso voluntário é de que também houve lançamento de ITR voltado especificamente para a Fazenda São Joaquim (matrícula 2855), referente ao exercício 2010, o que configuraria bis in idem e macularia o lançamento, reclamando a decretação de sua nulidade. De fato, a autoridade autuante incorreu em equívoco ao formalizar o presente lançamento, além de um outro voltado para um dos imóveis já abrangido na presente Notificação de Lançamento. Porém, como visto no início deste tópico, para fim de tributação Fl. 330DF CARF MF 16 pelo ITR, o § 2º do art. 1º da Lei nº 9.393/1996 estatui que, para o fim de apuração do ITR, considerase imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras. Desse modo, não há qualquer vício que seja apto a invalidar o presente lançamento. Além disso, como bem sabe o recorrente, a Notificação de Lançamento voltada exclusivamente para a Fazenda São Joaquim (matrícula nº 2855) para o exercício 2010 (Processo nº 10530.725772/201516) foi anulada, pela decisão consubstanciada no Acórdão nº 03072.275, da 1ª Turma da DRJ/BSA, nos seguintes termos: Acordam os membros da 1ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, rejeitar a prejudicial de decadência suscitada e considerar procedente a impugnação apresentada pelo Contribuinte, acolhendo a preliminar de nulidade, por duplicidade, do lançamento consubstanciado na Notificação nº 3825/00123/2015 de fls. 03/07, desconsiderandose a exigência, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Por essa razão, resta insubsistente a alegação do recorrente quanto a eventual lançamento em duplicidade ou ainda de ofensa a princípios como o da legalidade ou da moralidade administrativa Assim sendo, afasto essa preliminar de nulidade. Intimação Editalícia e a Nulidade do Edital Publicado em Local Diverso do Domicílio do Contribuinte A despeito de toda a cantilena apresentada no apelo recursal, de que a notificação feita por edital seria nula, o que implicaria a nulidade do Auto de Infração, e de que a “Administração dispondo da informação do domicílio do contribuinte – e já tendo utilizado este mesmo endereço para notificações anteriores –, preferiu promover a Notificação de Lançamento por edital”, o fato é que tais alegações não encontram suporte na verdade dos autos. É que, diferentemente do se aduz no apelo, foram feitas três tentativas de entrega da notificação de lançamento no endereço informado para tal pelo contribuinte, conforme se depreende do Aviso de Recebimento de fl. 11, que a seguir se reproduz: Fl. 331DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 10 17 Por outro lado, como restou esclarecido na decisão a quo, o parágrafo único do art. 4º da Lei nº 9.393/1996 é taxativo no que diz respeito a domicílio tributário em se tratando de ITR, apontando ser esse o município de localização do imóvel. Confirase: Art. 4º [...] Parágrafo único. O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro. Em virtude disso, carece de razão a alegação trazida em sede de recurso quanto à nulidade do edital que deu ciência ao recorrente do lançamento fiscal. Além do mais, o recorrente apresentou impugnação tempestiva, defendendo se de todos fatos arrolados na autuação. Desta feita, ainda que se verificasse qualquer irregularidade no procedimento de notificação, temse que a apresentação da peça impugnatória supriria eventuais nulidades da citação, a teor do § 1º do art. 239 do Código de Processo Civil, aplicável subsidiariamente ao Processo Administrativo Fiscal: Art. 239. Para a validade do processo é indispensável a citação do réu ou do executado, ressalvadas as hipóteses de indeferimento da petição inicial ou de improcedência liminar do pedido. § 1º O comparecimento espontâneo do réu ou do executado supre a falta ou a nulidade da citação, fluindo a partir desta data o prazo para apresentação de contestação ou de embargos à execução. Quanto as decisões administrativas e judiciais acostadas aos autos, essas, além de não vincularem o julgador administrativo, retratam contextos fáticos diversos do ora analisado. Desse modo, acolho os argumentos suscitados na decisão de piso, adotando os como razão de decidir, o que impõe o afastamento da presente preliminar. Fl. 332DF CARF MF 18 Erro da Área Tributável Outra questão aventada no recurso é que o laudo inicialmente apresentado atestaria ser a área total do imóvel de 285,82 ha. Inferese ainda que, “conforme aferido em georeferenciamento por meio de instrumentos de alta precisão, verificouse que a área real do imóvel é de 286,0077 ha”. Referido georeferenciamento, informa, encontrase homologado pelo Incra/Sigef e registrado na matrícula do Imóvel, tendo ainda demandado a atualização do laudo técnico, acosta às fls. 248/307. De início, importa rememorar que o lançamento em questão se reporta a dois imóveis rurais contíguos, matriculados no Registro de Imóveis sob os números 2854 e 2855. Contudo, as informações aferidas no georeferenciamento e reproduzidas no novo laudo apresentado fazem referência somente ao imóvel de matrícula 2854, denominado atualmente “Fazenda Salta da Lontra”, onde foi gravada a informação acerca da área aferida, de acordo com o documento de fls. 243/247 (Av62854). Asseverese que não houve qualquer alteração nos registros da fazenda São Joaquim (matrícula nº 2855), cuja área totaliza 740,2988 ha. De outra parte, não cabe ao julgador administrativo retificar a área do imóvel rural registrada na DITR do contribuinte, tal providência deveria ter sido adotada pelo próprio sujeito passivo e antes da perda da espontaneidade em razão do início do procedimento fiscal. Não obstante, mesmo tendo sido apresentados somente por ocasião do recurso voluntário, como os documentos trazidos aos autos, inclusive com o registro efetuado no cartório competente, reduzindo a área total de um dos imóveis abrangidos na autuação, decorreu de manifestação contida no acórdão recorrido, entendo pela possibilidade de restabelecer a informação contida na DITR/2010, reduzindo a área total dos imóveis para 1330 ha. Sobre a alíquota aplicável, para a área aqui considerada, essa permanece em 8,60%, de conformidade com o Anexo à Lei nº 9.393/1996, não cabendo atender a solicitação do recorrente, de redução para 3,30%. Áreas Não Tributáveis pelo ITR O sujeito passivo apresenta diversas considerações a respeito de áreas de floresta nativa (área de interesse ecológico), reserva legal e de preservação permanente que, no seu entender, deveriam ser excluídas do cômputo da área tributável. Cabe esclarecer, de início, que não foram informadas quaisquer dessas áreas quando da apresentação da DITR/2010, consoante se pode observar do quadro extraído da Notificação de Lançamento, denominado “Distribuição da Área Utilizada pela Atividade Rural (ha)”, de fl. 6: Fl. 333DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 11 19 Desta feita, o lançamento está fundado exclusivamente no fato de a DITR/2010 do contribuinte apresentar área inferior à incluída nas matrículas dos imóveis e de o VTN mostrarse subavaliado. Vejase que questões relacionadas a áreas não tributáveis não têm nenhuma relação com o lançamento e, consequentemente, não são objeto de litígio e não deveriam, no meu entender, sequer ter sido conhecidas pela DRJ. Contudo, como o acórdão recorrido traz considerações a esse respeito, entendo que tais matérias também devem ser debatidas pela segunda instância de julgamento administrativo. A respeito desse assunto, o caput e o § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393/1996, na redação vigente à época do fato gerador, estabelecem: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; [...] e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; (Incluído pela Lei nº 11.428, de 2006) [...] § 7º A declaração para fim de isenção do ITR relativa às áreas de que tratam as alíneas "a" e "d" do inciso II, § 1º, deste artigo, não está sujeita à prévia comprovação por parte do declarante, Fl. 334DF CARF MF 20 ficando o mesmo responsável pelo pagamento do imposto correspondente, com juros e multa previstos nesta Lei, caso fique comprovado que a sua declaração não é verdadeira, sem prejuízo de outras sanções aplicáveis. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) (Grifouse) No apelo recursal asseverase que o § 7º art. 10 da Lei nº 9.393, de 1996, com as alterações promovidas pela Medida Provisória nº 2.16667/ 2001, teria dispensado qualquer comprovação prévia para fins de sua exclusão de áreas ambientais, como APP e ARL, da tributação pelo ITR. Entretanto, dito dispositivo legal não teve tal escopo, visando tãosomente sedimentar a alteração da modalidade de lançamento anterior do ITR (por declaração, conforme a Lei nº 8.847/1994) para lançamento por homologação. Assim, a dispensa de comprovação prévia nada tem a ver com dispensa de ADA ou de averbação, e sim com a sistemática de lançamento, igualandoo à modalidade dos demais tributos administrados pela Receita Federal. De mais a mais, as disposições acima destacadas deixam claro que, independentemente de comprovação prévia, as áreas de preservação permanente e de reserva legal, além daquelas cobertas por florestas nativas, estão excluídas da tributação pelo ITR. Nada obstante, a partir do exercício 2001, com a inclusão do art. 17O na Lei nº 6.938/1981, para se beneficiar das isenções previstas no § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393/1996, fazse necessário, via de regra, a informação tempestiva das áreas respectivas ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por meio do ADA, nos prazos definidos na legislação. Vejamos o teor do dispositivo: Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria. (Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) [...] § 1º A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) (Grifouse) [...] A seguir, serão analisadas se áreas em questão podem ou não ser excluídas da tributação. Área de Floresta Nativa e Área de Preservação Permanente (APP) Segundo já se esclareceu, não foram especificadas na DITR/2010 áreas suscetíveis de exclusão da área tributável, em particular “áreas ambientais de preservação permanente” e “áreas de florestas nativas”, fato evidenciado no quadro “Distribuição da Área Utilizada pela Atividade Rural (ha)”, reproduzido alhures. Ainda assim, à luz dos normativos acima referenciados, a decisão de primeira instância administrativa realizou um minucioso exame acerca da postulação dessas áreas (requeridas somente na fase contenciosa), com fundamento em Laudo Técnico e Cadastro Ambiental Rural apresentado pelo contribuinte, relativo a apenas um dos imóveis abrangidos no lançamento. Fl. 335DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 12 21 Referida decisão foi expressa quanto à não comprovação do cumprimento da exigência legalmente prevista para justificar a exclusão APP e da área de floresta nativa do cálculo do ITR/2010. Porém, o recorrente insiste na tese de que o laudo técnico seria suficiente para comprovar a existência das indigitadas áreas, sendo desnecessária a apresentação de Ato Declaratório Ambiental – ADA para sua exclusão da área total tributável do imóvel. Portanto, neste ponto, a discussão gira em torno da possibilidade de, em sede de recurso voluntário, admitir a exclusão da área tributável pelo ITR no exercício de 2010 aquelas descritas como APP e área coberta por floresta nativa, com base nos documentos acostados aos autos, quais sejam: Cadastro Ambiental Rural – CAR (fls. 234/236); Certificado do georeferencimento (fls. 237/240); Certificado de Cadastro de Imóvel Rural – CCIR (fl. 241); Matrícula atualizada do Imóvel (fls. 242/247); e Laudo Técnico atualizado (fls. 248/312). Convém reiterar que, conquanto inexistisse, até o exercício de 2000, qualquer fundamento para a exigência do ADA como requisito para a fruição da isenção, com o advento da Lei n° 10.165/2000, e a respectiva alteração do § 1º do art. 17O da Lei nº 6.938/1981, o gozo benefício fiscal ficou condicionado à entrega dessa declaração. Apercebase que, como o lançamento se reporta à data de ocorrência do fato gerador do tributo (art. 144 do CTN) e, no que tange ao ITR, esta foi fixado em 1º de janeiro de cada ano (art. 1º da Lei nº. 9.393, de 1996), resta claro que a fruição do benefício está condicionada à preservação da APP, bem assim da área de floresta nativa, quando for o caso, em referida data. Nessa perspectiva, a Secretaria da Receita Federal do Brasil, utilizandose da prerrogativa de regulamentar a forma e os prazos para cumprimento de obrigações acessórias consubstanciada na entrega do ADA, especificou para tanto o prazo de seis meses após a data de entrega da DITR. Nada obstante, a jurisprudência consolidada no âmbito desse Conselho é no sentido de aceitar o ADA protocolado antes do início da ação fiscal, em respeito à espontaneidade do Contribuinte. Senão vejamos decisões da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais nesse sentido: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2005 ITR. ISENÇÃO. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA). OBRIGATORIEDADE A PARTIR DE LEI 10.165/00. TEMPESTIVIDADE. INÍCIO DA AÇÃO FISCAL A partir do exercício de 2001, tornouse requisito para a fruição da redução da base de cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural a apresentação de Ato Declaratório Ambiental – ADA, protocolizado junto ao Ibama. A partir de uma interpretação teleológica do dispositivo instituidor, é de se admitir a apresentação do ADA até o início da ação fiscal. No caso em questão o ADA foi apresentado em 21/12/2007, assim, Fl. 336DF CARF MF 22 após o início da ação fiscal, ocorrido em 04/10/2007. Destarte, não é possível a exclusão da área de APP declarada da base de cálculo do ITR. (Acórdão nº 9202005.679, de 27/07/2017) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2002 [...] APP ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. GLOSA. ADA ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL TEMPESTIVO. Cabível o acolhimento de Área Preservação Permanente cujo ADA foi protocolado antes do início da ação fiscal. [...]. (Acórdão nº 9202005.606, de 29/06/2017) (Grifouse) Temse ainda, com relação a APP e área de florestas nativas, dentre outras, a seguinte decisão: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2007 ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE RESERVA LEGAL. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente, de reserva legal e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido tempestivamente ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal. (Acórdão nº 9202005.598, de 29/07/2017) (Grifouse) Asseverese a jurisprudência administrativa colacionada pelo recorrente a esse respeito, além de não vincular o julgador administrativo, traz entendimento semelhante do aqui esposado, não o acudindo em suas pretensões recursais. No caso concreto, a despeito do disposto no art. 17O da Lei nº 6.938/1981, que condiciona a exclusão da APP e das áreas cobertas por vegetação nativa à apresentação de ADA com informações a seu respeito, e da jurisprudência pacífica no âmbito deste Conselho quanto à necessidade de que, para o fim de gozo do benefício fiscal, o Ato Declaratório tenha sido protocolado no órgão ambiental competente até o início da ação fiscal, não se tem notícias sobre a existência de tal documento. Em virtude das considerações encimadas, e tendo em vista a não apresentação de ADA até o presente momento, nego provimento ao recurso em relação à APP e áreas de florestas nativas. Área de Reserva Legal (ARL) A respeito desse tema, impende ressaltar que, consoante § 8º do art. 16 do antigo Código Florestal (vigente à época da ocorrência do fato gerador), há requisito específico quanto a exclusão da ARL na determinação do valor do ITR, qual seja, a averbação no registro de imóveis competente. Confirase: Fl. 337DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 13 23 Art. 16. As florestas e outras formas de vegetação nativa, ressalvadas as situadas em área de preservação permanente, assim como aquelas não sujeitas ao regime de utilização limitada ou objeto de legislação específica, são suscetíveis de supressão, desde que sejam mantidas, a título de reserva legal, no mínimo:(Redação dada pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) [...] § 8º A área de reserva legal deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, sendo vedada a alteração de sua destinação, nos casos de transmissão, a qualquer título, de desmembramento ou de retificação da área, com as exceções previstas neste Código.(Grifouse) De se esclarecer que, diferentemente da APP, a Reserva Legal não se trata de área préexistente, ao revés disso, consiste em um percentual legalmente estabelecido do imóvel rural cuja localização é sugerida pelo seu proprietário e aprovada pelo órgão ambiental competente. Vejase que, até que seja averbada no registro competente, a ARL sequer pode ser tida como existente, ou seja, somente após a efetiva averbação é que determinada área pode ser considerada, de fato, como Reserva Legal. Portanto, a averbação é ato constitutivo em relação à ARL e, tendo sido efetuada antes da ocorrência do fato gerador do ITR, supre, no meu entender, a necessidade de apresentação de ADA. Ademais, é também nesse sentido que a jurisprudência administrativa tem se consolidado. Vejase: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2002 [...] ARL ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO. A averbação da Área de Reserva Legal à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador, autoriza a sua exclusão da tributação do ITR, independentemente do protocolo do ADA. (Acórdão nº 9202005.606, de 29/06/2017) (Grifouse) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Anocalendário: 2003 [...] ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO NO REGISTRO DE IMÓVEIS ANTES DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. NECESSIDADE. APRESENTAÇÃO TEMPESTIVA DE ADA. DISPENSÁVEL. Para ser possível a dedução da área de reserva legal da base de cálculo do ITR, basta sua averbação à margem da inscrição de Fl. 338DF CARF MF 24 matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, antes da ocorrência do fato gerador do tributo, sendo dispensável a apresentação tempestiva de Ato Declaratório Ambiental ADA. No caso, a averbação ocorreu antes da ocorrência do fato gerador, assim, não é de se manter a glosa. (Acórdão nº 9202 006.824, de 19/04/2018) (Grifouse) Sobre asserção trazida no apelo do sujeito passivo de que “de que já consta averbada na matrícula do imóvel a alteração da área total da Fazenda Salto da Lontra para 286,0077 ha”, talvez o representante do recorrente ainda não tenha conseguido compreender, mas não é qualquer registro que está apto a excluir a Reserva Legal da área tributável do imóvel. Somente quando o registro atesta que determinada área tratase efetivamente de ARL é que essa área pode ser considerada como tal. Não é necessário grande esforço interpretativo para se concluir que a averbação referenciada no recurso (Av62854 – fl. 246) não faz referência a ARL. Uma leitura, mesmo que perfunctória, de citado registro leva qualquer um a essa compreensão. Referida averbação prestase tãosomente a ajustar a área total do imóvel. Ainda que se estivesse diante da averbação de ARL, o registro foi efetuado somente em relação a um dos imóveis envolvidos na autuação e apenas em 12 de janeiro de 2016, ou seja, muito depois de ocorrido o fato gerador da exação. Implica dizer que mesmo que se tratasse de registro de ARL, com base na legislação de regência e na jurisprudência do CARF, a averbação não teria o condão de suplantar o lançamento, posto que o fato gerador do imposto ocorreu em 1º de janeiro de 2010. O mesmo se pode dizer do registro efetuado no Cadastro Ambiental Rural – CAR que, além de não atestar a existência de ARL, reportase a fato ocorrido em data posterior à de surgimento da exigência fiscal. Neste ponto, cabe esclarecer, por oportuno, que uma norma publicada em 2012 (como é o caso da Lei nº 12.651/2012 que possibilita a substituição do registro da ARL na matrícula do imóvel pela informação prestada no CAR) não retroage para alcançar fatos ocorridos em 2010 como devaneia o recorrente. Dito isso, nego provimento ao apelo também neste ponto. Ilegalidade do Arbitramento da Base de Cálculo Recalcitrase o apelante em razão de, no seu entender, a DRJ/BSA ter desconsiderado o VTN apresentado no laudo técnico sob o fundamento de que tal valor seria superior ao que foi arbitrado pela Autoridade Fiscal. Segundo infere, “o VTN/ha arbitrado pela fiscalização somente foi inferior ao VTN/ha demonstrado no Laudo pois baseouse em uma área surreal de 1.468,4 ha”, mas que a área do imóvel é de 286,0077 ha. Reitera que o VTN por hectare corresponde a R$ 1.332,93, de acordo com o a laudo técnico. Adverte que, com base no art. 148 do CTN, “o Fisco somente poderá arbitrar o valor ou o preço dos bens em duas hipóteses: (a) se o contribuinte omitir tal informação, ou (b) se demonstrado que a declaração do contribuinte não merece fé” e que a autoridade autuante “não logrou demonstrar a configuração de hipótese de arbitramento do valor do imóvel”. Segundo afirma: “Não se pode aplicar no caso concreto o arbitramento, pois não houve omissão alguma por parte do contribuinte”. Consigna que o fato de não ter conseguido apresentar a tempo, para a Fiscalização, o laudo de avaliação, não configura omissão nem afasta a idoneidade das informações prestadas. Fl. 339DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 14 25 Inicialmente, cumpre evidenciar que o apelo em exame não faz oposição ao Valor da Terra Nua por hectare (VTN/ha) aferido pelo Fisco, até porque, como muito bem evidenciado na decisão vergastada, a Fiscalização considerou que o VTN/ha equivaleria a R$ 1.307,50 e o valor estabelecido nos laudos técnicos foi superior, ou seja, R$ 1.332,93. Esclareçase que o Sistema de Preços de Terras – SIPT, utilizado pelo Fisco para o cálculo do tributo, fornece o VTN por hectare, ou seja, as ruidosas inferências ostentadas pelo recorrente de que o dispositivo legal a respeito desse tema “não diz que o valor do sistema de preços passaria a ser considerado como o valor mínimo para a base de cálculo” não têm nenhuma razão de ser, pois, em hipótese alguma lhe favorecem. Além do mais, restou fartamente esclarecido em tópico específico que, em razão do disposto no art. 1º da Lei nº 9.393/1996, para o fim de incidência de ITR, “considera se imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município”. Do mesmo modo, tendo em conta que os imóveis registrados sob as matrículas 2804 (Fazenda Salto da Lontra) e 2805 (Fazenda São Joaquim) são contíguos e pertencem aos mesmos coproprietários (o que também já se atestou em item próprio), o que deve ser considerado para fins de incidência do imposto é o somatório das áreas dos dois imóveis, consoante declarado na DITR/2010, que corresponde a 1.330,0 ha e não de 286,0077 ha (área somente da Fazenda Salto da Lontra, de conformidade com o laudo apresentado conjuntamente com o recurso voluntário). No que respeita as asserções exibidas pelo sujeito passivo de que o arbitramento do VTN não encontraria amparo na legislação de regência, os documentos acostados aos autos, inclusive os laudos técnicos trazidos na impugnação e no recurso voluntário, demonstram exatamente o contrário. Restou patente nos autos que sujeito passivo, de forma absolutamente deliberada, e com o fim específico de reduzir o valor do tributo devido, ao arrepio das normas que disciplinam a matéria, declarou que o imóvel de sua propriedade valia R$ 0,00. O Documento de Informação e Apuração do ITR, integrante da DITR/2010 (fl. 246) registra esse fato: Fl. 340DF CARF MF 26 Verificase, portanto, que a informação prestada na DITR/2010 não tem credibilidade alguma. Aliás, reiterese, os próprios laudos técnicos apresentados pelo recorrente corroboram a tese de que o sujeito passivo, ao incluir tal informação na declaração do imposto, laborou no intuito de dissimular o valor do tributo visto que tais documentos atribuíram R$ 1.332,93 a cada a cada hectare de um dos imóveis em questão, e não R$ 0,00 como consta da declaração. Não restam dúvidas de que o comportamento reprovável adotado pelo contribuinte justificou o arbitramento levado a efeito pelo Fisco, o qual está em absoluta consonância com o art. 148 do CTN, a seguir transcrito: Art. 148. Quando o cálculo do tributo tenha por base, ou tome em consideração, o valor ou o preço de bens, direitos, serviços ou atos jurídicos, a autoridade lançadora, mediante processo regular, arbitrará aquele valor ou preço, sempre que sejam omissos ou não mereçam fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado, ressalvada, em caso de contestação, avaliação contraditória, administrativa ou judicial. O caput e o § 2º do art. 8º da Lei nº 9.393/1996, impõem ao contribuinte o dever de entregar o Documento de Informação e Apuração do ITR – DIAT anualmente, declarando VTN que deve refletir o preço de mercado das terras: Art. 8º O contribuinte do ITR entregará, obrigatoriamente, em cada ano, o Documento de Informação e Apuração do ITR DIAT, correspondente a cada imóvel, observadas data e condições fixadas pela Secretaria da Receita Federal. § 1º O contribuinte declarará, no DIAT, o Valor da Terra Nua VTN correspondente ao imóvel. § 2º O VTN refletirá o preço de mercado de terras, apurado em 1º de janeiro do ano a que se referir o DIAT, e será considerado autoavaliação da terra nua a preço de mercado. § 3º O contribuinte cujo imóvel se enquadre nas hipóteses estabelecidas nos arts. 2º e 3º fica dispensado da apresentação do DIAT. (Grifouse) Por seu turno, a falta da declaração ou a subavaliação dos valores constantes da declaração, mediante informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, como se verificou no presente caso, dão ensejo à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constante do SIPT, consoante expressamente previsto no art. 14 da mesma lei: Art. 14. No caso de falta de entrega do DIAC ou do DIAT, bem como de subavaliação ou prestação de informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, a Secretaria da Receita Federal procederá à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constantes de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização. § 1º As informações sobre preços de terra observarão os critérios estabelecidos no art. 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, e considerarão levantamentos realizados pelas Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos Municípios. Fl. 341DF CARF MF Processo nº 10530.727169/201480 Acórdão n.º 2402006.513 S2C4T2 Fl. 15 27 § 2º As multas cobradas em virtude do disposto neste artigo serão aquelas aplicáveis aos demais tributos federais. (Grifou se) Verificase, pois, estar correto o procedimento adotado pelo Fisco, visto que em absoluta consonância com a legislação que rege a matéria, razão pela qual não acolho as pretensões recursais neste ponto. CONCLUSÃO Por todo o exposto voto por afastar as preliminares e, no mérito, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário exclusivamente para reduzir a área aproveitável do imóvel rural para 1330,0 ha. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 342DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13896.001144/2007-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/10/2000 a 30/10/2000
VÍCIOS DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEGISLAÇÃO QUE AMPARA O LANÇAMENTO.
Nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. INAPLICABILIDADE.
É inaplicável ao processo administrativo fiscal a prescrição intercorrente, uma vez que esta pressupõe uma pretensão exigível, somente verificável quando da constituição definitiva do crédito tributário, consumada pelo exaurimento do contencioso administrativo tributário.
LANÇAMENTO. SUJEITO PASSIVO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. GRUPO ECONÔMICO DE FATO. INTERESSE COMUM QUANTO AOS FATOS GERADORES. PERTINÊNCIA DA LEGITIMAÇÃO.
Configuram-se hipóteses de responsabilidade solidária, de forma independente ou conjunta, a constatação da existência de grupo econômico de fato e a verificação de flagrante interesse comum entre um contribuinte e outro constituído como de fachada em relação aos fatos geradores formalmente praticados por este último.
ATIVIDADE EMPRESÁRIA. IRREGULARIDADES DE CONSTITUIÇÃO DE FATO. AUSÊNCIA DE AUTONOMIA FINANCEIRA, ADMINISTRATIVA E OPERACIONAL POR TERCEIROS. CONFIGURAÇÃO DA HIPÓTESE DE EMPRESA DE FACHADA.
A atividade empresária pressupõe a autonomia administrativa, financeira e operacional da conjugação dos fatores da produção, não se admitindo a ingerência indevida de terceiros neste âmago de atuação. A verificação de que uma pessoa jurídica, embora sob o aspecto formal validamente constituída, não subsiste como tal no plano dos fatos, servindo somente como roupagem formal à atuação de outra empresa, no interesse desta, configura a empresa interposta como empresa de fachada, atribuindo as responsabilidades desta à empresa efetiva, que a gerencia, controla, administra e financia.
AUTO DE INFRAÇÃO. RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. CABIMENTO.
Constitui prerrogativa da fiscalização o reconhecimento da qualidade de segurado empregado em face de pessoa física que atua como sócio laranja de empresas de fachada constituídas pelo efetivo contribuinte autuado.
Numero da decisão: 2301-005.435
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer em parte do recurso voluntário, não conhecendo das alegações de inconstitucionalidade, para, na parte conhecida, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
João Bellini Junior - Presidente
(assinado digitalmente)
Alexandre Evaristo Pinto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alexandre Evaristo Pinto, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada), Reginaldo Paixão Emos (suplente convocado) e João Bellini Júnior (Presidente). Ausente justificadamente o conselheiro João Maurício Vital.
Nome do relator: ALEXANDRE EVARISTO PINTO
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Nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. INAPLICABILIDADE. É inaplicável ao processo administrativo fiscal a prescrição intercorrente, uma vez que esta pressupõe uma pretensão exigível, somente verificável quando da constituição definitiva do crédito tributário, consumada pelo exaurimento do contencioso administrativo tributário. LANÇAMENTO. SUJEITO PASSIVO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. GRUPO ECONÔMICO DE FATO. INTERESSE COMUM QUANTO AOS FATOS GERADORES. PERTINÊNCIA DA LEGITIMAÇÃO. Configuramse hipóteses de responsabilidade solidária, de forma independente ou conjunta, a constatação da existência de grupo econômico de fato e a verificação de flagrante interesse comum entre um contribuinte e outro constituído como “de fachada” em relação aos fatos geradores formalmente praticados por este último. ATIVIDADE EMPRESÁRIA. IRREGULARIDADES DE CONSTITUIÇÃO DE FATO. AUSÊNCIA DE AUTONOMIA FINANCEIRA, ADMINISTRATIVA E OPERACIONAL POR TERCEIROS. CONFIGURAÇÃO DA HIPÓTESE DE “EMPRESA DE FACHADA”. A atividade empresária pressupõe a autonomia administrativa, financeira e operacional da conjugação dos fatores da produção, não se admitindo a ingerência indevida de terceiros neste âmago de atuação. A verificação de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 89 6. 00 11 44 /2 00 7- 72 Fl. 642DF CARF MF 2 que uma pessoa jurídica, embora sob o aspecto formal validamente constituída, não subsiste como tal no plano dos fatos, servindo somente como roupagem formal à atuação de outra empresa, no interesse desta, configura a empresa interposta como “empresa de fachada”, atribuindo as responsabilidades desta à empresa efetiva, que a gerencia, controla, administra e financia. AUTO DE INFRAÇÃO. RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. CABIMENTO. Constitui prerrogativa da fiscalização o reconhecimento da qualidade de segurado empregado em face de pessoa física que atua como sócio laranja de empresas de fachada constituídas pelo efetivo contribuinte autuado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer em parte do recurso voluntário, não conhecendo das alegações de inconstitucionalidade, para, na parte conhecida, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) João Bellini Junior Presidente (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alexandre Evaristo Pinto, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada), Reginaldo Paixão Emos (suplente convocado) e João Bellini Júnior (Presidente). Ausente justificadamente o conselheiro João Maurício Vital. Relatório Tratase de lançamento de crédito tributário previdenciário abrangendo imposição de penalidade pecuniária consistente no Auto de Infração DEBCAD nº 35.155.267 7. A fiscalização, com fundamento no artigo 33 da Lei nº 8.212/91, e do artigo 293 da Regulamento, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, lavrou o Auto de Infração relativo ao descumprimento da obrigação acessória consubstanciada na inscrição de segurado empregado, conforme previsto no artigo 17 da Lei nº 8.213/91, c/c art. 18, inciso I, parágrafo 12, do RPS. Segundo consulta à Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP e folhas de pagamento da empresa Frigolider Ind. e Comércio de Fl. 643DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 3 3 Alimentos Ltda, CNPJ 00.897.034/000120, foi constatado que a empresa deixou de inscrever, no Regime Geral de Previdência Social RGPS, o segurado empregado Sr. Pedro Olinto Ribeiro. O Auto de Infração foi lavrado na firma Frigorifico Quatro Marcos Ltda, empresa realmente existente, uma vez que esta, através de seus sócios e diretores, administrava financeiramente e gerencialmente a empresa Frigolider Ind. Com . de Alimentos Ltda. Diante disso, o Auto de Infração foi lavrado nos termos do instituto da solidariedade. Todos os fatos que comprovam a existência do Grupo Quatro Marcos foram relatados no Relatório Geral. Esclarece que o fato da empresa Frigolider ter deixado de inscrever o segurado no RGPS, caracteriza intenção de burlar a Fazenda Pública, uma vez que o segurado não inscrito emprestou o seu nome para aparecer como sócio laranja na firma Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda. Ainda, afirma que em ações fiscais anteriores, foi lavrado o Auto de Infração nº 32.344.9816 de 28/11/96, na empresa Frigolider Ind. Con. de Alimentos Ltda, por infração ao artigo 31, parágrafo 2o da Lei nº 8.212/91, com decisão administrativa de procedência da autuação, que se tornou definitiva em 20/05/97, sendo a autuada, portanto, reincidente. A fiscalização traz um longo e farto trabalho sobre os fatos e circunstâncias verificados no procedimento fiscal, seja em relação ao sujeito passivo autuado, seja em relação às empresas a ele ligadas, denominandoo de Relatório Geral. Este Relatório (fls. 25/57), contém o contexto de fato em relação ao qual se apurou os institutos do lançamento por solidariedade e afastamento do fenômeno da personificação jurídica. Assim se manifesta a fiscalização: TÓPICO “INTRODUÇÃO” Ficou constatado através de provas documentais que as empresas envolvidas constituem entre si grupo econômico de fato. Há, porém, duas particularidades: a primeira diz respeito à constituição de empresas de "fachada" (ou fantasmas); e a segunda diz respeito aos sócios "laranja" das empresas de fachada. Os trabalhos foram desenvolvidos nos estabelecimentos das empresas que estavam em atividades comercias, que são: Frigorífico Quatro Marcos Ltda, Frialto Ind. E Comércio de Alimentos Ltda (encerrou suas atividades de fato em 05/2000), Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda e O.C.A. Comercial Ltda. No município de Vila Rica, apesar da empresa Frigorífico Vila Rica Ltda ter paralisado suas atividades, a sua documentação em parte foi apresentada aos Auditor Fiscal da Previdência Social AFPS. As demais empresas situadas nos Municípios de São José dos Quatro Marcos, Alta Floresta, Colider, Cuiabá e Vila Rica desapareceram misteriosamente sem deixar qualquer paradeiro da sua documentação, juntamente com os seus respectivos sócios. Houve a apreensão, pelos Auditores da Secretaria da Fazenda do Mato Grosso, de vários documentos das empresas Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, Flamingo Alimentos Ltda e Amazonas Comércio Ind. Imp. e Exportação Ltda. Foram constatados, também, durante as ações fiscais, os fatos abaixo elencados: Fl. 644DF CARF MF 4 a) empresas de fachada e seus respectivos sócios "laranja"; b) diretor empregado sem registro; e, c) segurados empregados e sócio de empresa ao mesmo tempo. TÓPICO “CONSTATAÇÃO DO GRUPO QUATRO MARCOS” Da análise de vários documentos encontrados em poder dos Fiscais de Tributos EstadualFTE/MT e de outros documentos posteriormente apreendidos e verificados pela fiscalização previdenciária, esta última afirma os seguintes aspectos relativos ao funcionamento de um "esquema" montado pelo Grupo Quatro Marcos: O Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, conhecido como Sr. Douglas, é sócio gerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda e o Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos (conhecido como "Sr. Luís Olavo"), pessoa de sua inteira confiança, é empregado do Frigorífico Quatro Marcos Ltda na função de Diretor, conforme constatação documental e in loco através de várias diligências fiscais realizadas pelos AuditoresFiscais da Previdência Social AFPS. O Sr. Sebastião Bueno Xavier, conhecido na região como "SR. CHICO", é pai de Sebastião Douglas Sorge Xavier e fundador do Frigorífico Quatro Marcos Ltda; a família "BIRTCHE" exerce suas atividades comerciais exclusivamente nos Municípios de Colider/MT e de Alta Floresta/MT, por intermédio do Sr. Creudevaldo Birtche, conhecido na região como “TUCURA". O "esquema" do Grupo Quatro Marcos assim funcionava, segundo a fiscalização: a) Preliminarmente, os sócios e diretores do FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA escolheram quatro Municípios do Estado de Mato Grosso, provavelmente onde existia uma grande concentração de rebanho de bovinos, sendo eles os Municípios de Alta Floresta, Colider, Vila Rica e São José dos Quatros Marcos; posteriormente, em cada local desses, constituíam uma unidade frigorífica (empresa), normalmente tendo como sóciogerente efetivo o Sr. Douglas e/ou Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos. Estas empresas são denominadas pela fiscalização de empresas "quentes", ou seja, empresas que realmente existiram ou existem tanto de fato como de direito. b) Ao mesmo tempo, o Grupo Quatro Marcos constituía paralelamente as essas unidades frigoríficas outras empresas que atuavam no ramo de frigorífico, sem, no entanto, possuir qualquer instalação frigorífica nem capital de giro e financeiro para a prática comercial de suas atividades. A fiscalização chama estas empresas como empresas de "fachada" ou "fantasmas". Estas empresas "de fachada" simulam um contrato de arrendamento com as empresas que realmente construíram as unidades frigoríficas, as quais estão em nome do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier e/ou do Sr. Luís Olavo Sabino dos Santos. c) Entretanto, os sócios das empresas "de fachada" (ou fantasmas) são pessoas que apenas emprestam o nome para fazerem parte do contrato social, denominados pela fiscalização de sócios "laranjas", sem jamais exercerem qualquer atividade de gestão, comercial ou administrativa nestas empresas. Constatouse que geralmente os sócios "laranjas" são empregados de outra empresa do Grupo Quatro Marcos. Além disso, os supostos sócios (laranjas) residem em localidade diversa da sede (ou estabelecimento) das empresas de fachada (ou fantasmas), na maioria dos casos verificados. d) A administração e a direção das empresas de "fachada" (ou fantasmas), na realidade, eram exercidas pelos sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, com a Fl. 645DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 4 5 ajuda de uma empresa no Estado de São Paulo, a Phoenix Administração e Participações Ltda, onde o Sr. Luiz Carlos Caldereli Nanni enviava instruções de operação para todas as empresas do Grupo Quatro Marcos, tanto "as de fachadas" (ou fantasmas) como as verdadeiras (quentes), indistintamente. Com essa forma de funcionamento, as operações que geravam fatos geradores de contribuições sociais previdenciárias eram realizadas pelas empresas de fachada que, após qualquer procedimento de fiscalização, encerravam de fato suas atividades e seus sócios desapareciam misteriosamente, bem como sua documentação fiscal. Observa a fiscalização o curioso fato de que, tão logo encerrada a atividade da empresa, imediatamente era constituída outra empresa de fachada, com o mesmo objeto mercantil de atividade, mesmo quadro pessoal, mesma administração e gerência da empresa de fachada anterior, inclusive instalada no mesmo local. Este procedimento tornava inviável e infrutífera qualquer tentativa de satisfação do débito tributário. Cita o exemplo da empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, CNPJ 00.897.034/000120, que firmou um parcelamento junto ao INSS em 1996, decorrente da NFLD n° 32.344.9883, e, após a fiscalização iniciar seus procedimentos de auditoria fiscal, a empresa desapareceu misteriosamente, consequentemente a partir da competência 09/1999 até o momento de conclusão dos trabalhos não pagou mais nenhuma parcela daquele parcelamento. O Cartório de Registro de Imóveis em Colider/MT, este informou que não existia Registro de imóveis em nome de Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda. O Grupo Quatro Marcos utilizouse das empresas de fachadas (ou fantasmas) com o intuito de efetivar a supressão ou redução dos tributos, então arrecadados pelo INSS, principalmente a contribuição social decorrente da comercialização dos produtos rurais referente à subrogação, usandose de ações ou omissões desonestas e contrárias às leis de regência, ou seja, tinha a vontade ou a consciente aceitação de lesar, total ou parcialmente, o Erário, ludibriando a Administração Tributária (INSS) e a fé pública, através da falta da verdade em declarações, documentos e atos, como, por exemplo, as figuras dos sócios "laranjas". Tal fato tinha o intuito de sonegar informações de conteúdo econômico, e, portanto, esconder da fiscalização o verdadeiro responsável pelos atos e fatos sujeito à incidência de normas de tributação, até mesmo mediante falsificação e alteração de documentos, como ocorreu na adulteração das formalidades extrínsecas de Livros Contábeis na empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda (Livro Diário) verificado pelas fiscalizações anteriores do INSS (NFLD n° 32.345.3368/1996). TÓPICO “COMPOSIÇÃO DO GRUPO QUATRO MARCOS” A fiscalização traz a seguinte composição geral do Grupo Quatro Marcos: · FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA – FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA CNPJ 01.311.661/000109; · AMAZONAS COM. IND. IMP. E EXPORTAÇÃO LTDA – CNPJ 00.923.654/000197; · FLAMINGO ALIMENTOS LTDA FILIAL 1 CNPJ 02.291.563/000292; · FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA FILIAL – CNPJ 01.311.661/000605; Fl. 646DF CARF MF 6 · PHOENIX ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES LTDA – CNPJ 62.400.247/000152; · FLAMINGO ALIMENTOS LTDA FILIAL 2 CNPJ 02.291.563/000454; · FLAMINGO ALIMENTOS LTDA – MATRIZ CNPJ 00.291.563/000101; · ALTA FLORESTA IND. FRIGORÍFICA LTDA – CNPJ 01.994.076/000142; · FRIALTO IND. E COM. DE ALIMENTOS LTDA – CNPJ 02.630.132/000122; · IND. FRIGORÍFICA NORTE COLIDENSE LTDA FILIAL 1 – CNPJ 02.974.627/000250; · FRIGORÍFICO COLIDER LTDA CNPJ 00.135.198/000110; · FRIGOLIDER IND. E COM. DE ALIMENTOS LTDA – CNPJ 00.897.034/000120; · IND. FRIGORÍFICA NORTE COLIDENSE LTDA – CNPJ 02.974.627/000179; · VILA RICA ALIMENTOS LTDA CNPJ 02.399.553/000194; · FRIGORÍFICO VILA RICA LTDA CNPJ 02.977.200/000124. TÓPICO “DAS AÇÕES FISCAIS” FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA (FRIGORÍFICO QUENTE) Após análise da documentação da empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA foi constatado pela fiscalização que esta empresa vinha praticando atos de sonegação de tributos, ao criar no Município de São José Dos Quatro Marcos/MT duas empresas fantasmas: Flamingo Alimentos Ltda e Amazonas Comércio Ind. Imp. e Exportação Ltda, que funcionavam na realidade com suas atividades comerciais paralelas à empresa FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA, constituído, tecnicamente na gíria contábil, um caixa "2" do FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA. Para confirmar tal fato, a fiscalização procedeu a várias diligências fiscais nesse Município (São José dos Quatro Marcos), onde se situavam as empresas fantasmas, conforme Contrato Social, e, em nenhum momento, conseguiu detectar os sócios das supostas empresas Flamingo Alimentos Ltda e Amazona Comércio Ind. Imp. e Exportação Ltda, sendo que no endereço do Contrato Social os vizinhos informaram que jamais funcionaram tais empresas, inclusive, uma boa parte da população desse Município nos informou que as empresas procuradas pela fiscalização funcionaram dentro da unidade frigorífica da empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Além do mais, os vários depoimentos (Termo de Declaração) prestados aos Ministérios Públicos de Mato Grosso, Federal e Estadual, por exempregados e outras pessoas ligadas ao Grupo Quatro Marcos, confirmam o entendimento da fiscalização. Fl. 647DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 5 7 Verificouse também que os sócios dessas empresas fantasmas eram geralmente empregados de uma das empresas do Grupo Quatro Marcos. Outro fato marcante é que as empresas fantasmas exerciam suas atividades comerciais apenas por um lapso de tempo muito curto, em torno de 2 (dois) anos, sem nenhuma instalação frigorífica para realização de abate dos animais, firmando apenas um contrato de prestação de serviço entre as empresas fantasmas e a empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Ademais, os sócios laranjas jamais promoveram a dissolução de direito das empresas fantasmas perante a Junta Comercial nem comunicaram ao INSS a paralisação das empresas. Existiam outras empresas "fantasmas" (de fachada) estabelecidas no Município de São José dos Quatro Marcos/MT, que foram verificadas pela ação fiscal desenvolvida pelo INSS, ano 1996, ensejando inclusive um crédito tributário, o qual foi objeto da lavratura NFLD n° 32.345.3368, lançada no próprio Frigorífico Quatro Marcos Ltda, CNPJ 01.311.661/000109. As empresas Flamingo Alimentos e Amazonas, assim como as empresas fantasmas antecedentes, foram constituídas para funcionarem apenas por um período de tempo, onde uma substituía a outra, e com a finalidade exclusiva de burlar a arrecadação e a fiscalização do INSS. Portanto, a empresa fantasma que aparentemente estava em atividade comercial, de acordo com cada período de tempo, forjava a operação de compra de bovinos e venda de sua respectiva carne, e, posteriormente, depois de praticar a sonegação dos tributos, desaparecia misteriosamente sem deixar qualquer paradeiro da documentação contábil ou de seus sócios. Diante disso, a carga tributária incidente sobre a produção rural, decorrente da sub rogação das contribuições sociais devidas à Seguridade Social e as destinadas aos terceiros, incidentes sobre a comercialização do produto rural proveniente do produtor rural pessoa física e, na época, do produtor rural pessoa jurídica, era parcialmente sonegada, já que a empresa fantasma realizava um recolhimento pequeno para o INSS, apenas para constar nos arquivos do conta corrente desta instituição e, com esse expediente, não deixava qualquer suspeita de procedimento que ensejasse uma fiscalização. Coincidentemente as empresas fantasmas constituídas no Município de São José dos Quatro Marcos possuíam o mesmo objeto mercantil da empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda e não possuíam capital de giro (conforme Contrato Social), no mínimo, condizente que respaldasse a grande movimentação de abate que empreenderam na sua curta existência, verificada nas Notas Fiscais de Simples Remessas e nos registros do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso INDEA/MT (Guia de Trânsito de Animais GTA). TÓPICO “PROVAS E FATOS QUE COMPROVAM OS RELATOS EXPOSTOS NESTE RELATÓRIO GERAL NO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO Q. MARCOS” a) o abate dos animais das empresas fantasmas era feito com exclusividade nas instalações do Frigorífico Quatro Marcos Ltda; b) as autorizações para a emissão de cheques da Flamingo Alimentos, Amazonas e do Frigorífico Quatro Marcos Ltda são idênticas, pois todas essas empresas utilizam documentos de controle idênticos, além do mais eram assinados pelas mesmas pessoas, sendo pelo "DIRETOR" Sr. Luís Olavo Sabino dos Santos e pelo "FINANCEIRO" Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin, ficando evidenciado que as empresas eram administradas financeira e gerencialmente pelos mesmos diretores do SX Frigorífico Quatro Marcos LTDA. Fl. 648DF CARF MF 8 c) as despesas da empresa Flamingo Alimentos Ltda são autorizadas também pelo Sr. Varderlei Roberto Stropp Martin e pelo Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos, que são diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, inclusive os pagamentos das despesas relativas à remuneração dos empregados, do pro labore dos sócios, dos fornecedores etc. d) em 28/07/97, o Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin e o Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos, respectivamente, gerente financeiro e diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, autorizaram o pagamento de despesa da empresa Amazonas, referente aos serviços do Sr. Franklin, no valor de R$ 900,00. e) as testemunhas que aparecem nos contratos (contrato social e alterações; contrato de locação de imóveis) firmados pelas empresas Flamingo Alimentos Ltda e Amazonas são empregados do Frigorífico Quatro Marcos Ltda: Sr. Dalmo Macedo Chaves, Sr. Nilton Carvalho Júnior, Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos e Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin. f) o Sr. Nilton de Carvalho Júnior era procurador da empresa Amazonas e, ao mesmo tempo, era empregado do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. g) o Sr. Vagner Alberto Gouveia era procurador da empresa Flamingo Alimentos Ltda e, ao mesmo tempo, era empregado do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. h) as empresas fantasmas não possuem quaisquer bens imobilizados para realização de suas atividades. i) tanto a Flamingo Alimentos quanto a Amazonas, sempre estiveram com endereços ignorados, conforme diligências realizadas in loco e nos órgãos públicos municipais e estaduais. j) as duas empresas fantasmas sempre utilizavam as instalações físicas do Frigorífico Quatro Marcos Ltda para a realização de seus próprios atos comerciais, inclusive para a compra de bovinos. k) o Sr. Luís Olavo Sabino dos Santos, diretorempregado do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, assinou notas promissórias rurais da empresa fantasma Flamingo Alimentos Ltda, e era, ao mesmo tempo, a pessoa que tomava as decisões comerciais em nome Frigorífico Quatro Marcos Ltda. l) em 09/04/99, o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, apôs sua assinatura em documento com o logotipo (emblema; marca) da empresa Flamingo Alimentos Ltda, autorizando inclusive um desconto no preço da carne. m) o Sr. Nilton Carvalho Júnior era quem também fazia as vendas das mercadorias (carnes) relacionadas com a Amazonas Comércio Ind. Imp. e Exportação, inclusive utilizandose do telefone do Frigorífico Quatro Marcos Ltda 2511201. n) o capital social integralizado de constituição das empresas fantasmas é imensamente desproporcional para o volume de compras de animais realizados mensalmente, caracterizando um fato contábil muito vultoso em relação ao seu próprio capital de giro, ficando evidenciado que tanto a Flamingo Alimentos Ltda como a Amazonas Comércio Ind. Imp. e Exportação Ltda não possuíam patrimônio mínimo que lhes permitissem desenvolver as suas atividades. Fl. 649DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 6 9 o) as empresas fantasmas não possuíam bens imobilizados para realização de suas atividades, nem ao menos um veículo, um telefone etc, tendo utilizado todos os bens imobilizados do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. p) as duas empresas fantasmas utilizavam sempre as instalações físicas do Frigorífico Quatro Marcos Ltda para a realização de seus próprios atos comerciais, inclusive para a compra de bovinos e venda de carnes; q) os supostos empregados da empresa fantasma Flamingo Alimentos Ltda, Sr. José Zagui e Sr. Jadir José de Oliveira, recebiam salário indireto Cesta Básica – do próprio Frigorífico Quatro Marcos Ltda. r) o sócio "laranja" da empresa fantasma Amazonas Comércio Ind. Imp. E Exportação Ltda, Sr. Pedro Olinto Ribeiro, era na realidade empregado de outras empresas do Grupo Quatro Marcos, na cidade de Colider/MT. s) em depoimento prestado ao Ministério Público Estadual (Termo de Declarações), datado de 05/04/00, a Sra. Rosa Pianezzer Ribeiro, que é esposa do Sr. Pedro Olinto Ribeiro, declarou desconhecer completamente que seu marido era sócio da empresa Amazonas, sendo que a empresa esteve formalmente ativa por mais de dois anos. t) em 06/12/96, a empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, ao apresentar contestação da NFLD n° 32.344.9816, lançada pelos auditores fiscais do INSS, explica o fato do "sumiço" de documentos da empresa, afirmando a função de motorista do Sr. Pedro Olinto Ribeiro. u) em Termo de Declarações, a Sra. Rosimar Hoesker, expatroa do outro proprietário da firma Amazonas (Sr. Nelson Francisco Barbieri), declarou que ele foi seu funcionário por aproximadamente um ano e recebia um salário em torno de R$ 500,00; e no início de 1998 deixou a empresa. Afirmou, ainda, que conhece o Sr. Nelson Francisco Barbieri desde criança e que sua atual esposa trabalhava para ela como empregada doméstica; disse ainda que nunca tomou conhecimento que o Sr. Nelson tivesse sido proprietário de um Frigorífico, mas sim que ele tinha sido empregado de um Frigorífico; sabe, no entanto, que ele leva uma vida modesta e não tem bens em seu nome. v) foi constatado pela fiscalização que no período de 1997, quando o Sr. Nelson Francisco Barbieri trabalhava para Sra. Rosimar Hoesker, a empresa que estava em seu nome, Amazonas, fez a maior movimentação de compra de bovinos. Constatação verificada nas Notas Fiscais de simples remessa para o Frigorífico Quatro Marcos Ltda: v.1) em 31/01/2000, a empresa Atlântica Brasil Industrial Ltda, CNPJ 60.398.914/000184, compradora de carne do Grupo Quatro Marcos, informou ao Ministério Público Federal e Estadual de Mato Grosso que o responsável pelos contatos para compra de carnes das empresas Amazonas era o Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos, diretorempregado do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, e o telefone de contato era 251 1201, também de propriedade do Frigorífico Quatro Marcos Ltda; v.2) em 20/08/97, o Sr. Luiz Nanni, controlador das empresas do Grupo Quatro Marcos, enviou um Relatório Preliminar ao Sr. Douglas (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) e ao Sr. Luís Olavo S. dos Santos (diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), mencionando claramente o movimento de caixa da empresa Amazonas AM, com seus Fl. 650DF CARF MF 10 respectivos relatos da conciliação bancária, explicitando inclusive as contas movimentadas pela Amazonas. Neste mesmo documento, também, contém instruções de procedimentos para o Frigorífico Quatro Marcos Ltda; v.3) em 07/03/97, o Sr. Luiz Nanni, administrador e controlador do Grupo Quatro Marcos, enviou ao Sr. Vanderlei, diretor financeiro do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, uma solicitação de um boletim financeiro completo, incluindo claramente as empresas: Amazonas e Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Este mesmo documento foi enviado por cópia para o Sr. Douglas Direção SP, sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Os fatos narrados demonstram que as relações comerciais entre as empresas Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda, Flamingo Alimentos Ltda e Frigorífico Quatro Marcos Ltda possuem a essência, de fato, de um Grupo Econômico, onde as duas primeiras possuem dependência econômica fática em relação ao Frigorífico Quatro Marcos Ltda, dependência esta observada em diversos campos: dependência física/operacional, financeira e de recursos humanos, compreendidas as pessoas responsáveis pela administração, principalmente na pessoa do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, mantendo ligação administrativa umas com as outras, vinculandose aos negócios e aos interesses em comum das empresas envolvidas. TÓPICO “ALTA FLORESTA IND. FRIGORÍFICA LTDA (EMPRESA QUE TEM COMO SÓCIO O SR, DOUGLAS); E FRIALTO IND. E COM. DE ALIMENTOS LTDA (EMPRESA DE FACHADA)” Foi constituída, no Município de Alta Floresta/MT, a empresa Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda, em 24/07/97, como uma unidade frigorífica para o abate de bovinos e, paralelamente, em 01/06/98, foi constituída uma empresa de fachada, a Frialto Ind. E Comércio de Alimentos Ltda. Esta firmou um contrato de arrendamento de toda a unidade frigorífica daquela. A empresa Alta Floresta jamais exerceu a atividade do objeto mercantil estabelecido no Contrato Social e assim que a empresa terminou a construção civil da obra da sua unidade frigorífica, surgiu imediatamente uma outra empresa (Frialto), com o mesmo objetivo mercantil, com o mesmo endereço e sob administração financeira e gerencial do Grupo Quatro Marcos. Diante disso, a fiscalização verificou que, na realidade, a Frialto foi constituída para servir de anteparo para a empresa Alta Floresta, ou seja, aquela era apenas uma empresa de fachada, com a finalidade exclusiva de burlar a fiscalização, ao chamar a carga tributária sobre si e desaparecendo posteriormente. Nesse contexto, apresenta os seguintes elementos de provas: 1) na empresa Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda consta no seu contrato social, como um dos sócios fundadores, o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda). 2) apesar de existir um contrato de arrendamento somente das unidades frigoríficas, a firma Frialto é quem paga as várias despesas da Alta Floresta, evidenciando que na realidade eram uma única empresa, administrada pelos sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. 3) em Romaneio de Abate, 30/11/98, da empresa Frialto, houve simulação de venda de 357 cabeças de bovinos para o Sr. Newton Vieira Barbosa; porém, o pagamento foi feito ao Sr. Luiz Olavo Sabino dos Santos (diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), como adiantamento de R$ 47.946,40 e ao Sr. Sebastião Bueno Xavier, Sr. Chico (pai do Sr. Douglas, sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), no valor de R$ 57.558,58. Esse é outro fato Fl. 651DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 7 11 que evidencia a dependência da Frialto com o Frigorífico Quatro Marcos Ltda, intitulada nas pessoas do seu diretor e do seu sócio. 4) na administração da empresa fantasma Frialto o Grupo Quatro Marcos tinha a ajuda do Sr. Clodiomar Birtche (conhecido na região como "KOI"), que aparece ao mesmo tempo como sócio no contrato social da Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda. Diante disso, constatouse que a empresa Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda faz parte de um grupo econômico de fato (Grupo Quatro Marcos), no qual há a lesão aos cofres públicos, utilizandose da criação de empresas de "fachada" ("fantasmas"), juntamente com os seus respectivos sócios "laranjas", com o fim exclusivo de servir de anteparo para a incidência de tributos e que após algum tempo se esvaem misteriosamente sem arcar com as contribuições sociais devidas à União. TÓPICO “O.C.A. COMERCIAL LTDA (NOVA DENOMINAÇÃO SOCIAL DO FRIGORÍFICO COLIDER LTDA), EMPRESA EM NOME DO DIRETOR E SÓCIO DO FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA; FRIGOLIDER IND. E COMÉRCIO DE ALIMENTOS LTDA (EMPRESA DE FACHADA); IND. FRIGORÍFICA NORTE COLIDENSE LTDA (EMPRESA DE FACHADA)” A empresa Frigorífico Colider Ltda foi constituída no Município de Colider/MT, em 04/08/94, como uma unidade frigorífica para o abate de bovinos e, paralelamente, em 01/12/95, foi constituída uma outra empresa de fachada a Frigolider Ind. E Comércio de Alimentos Ltda. A primeira empresa firmou um contrato de arrendamento de toda a sua unidade frigorífica com a segunda. A empresa Frigorífico Colider Ltda jamais exerceu a atividade do objeto mercantil estabelecido no seu contrato social e assim que a empresa terminou a construção civil da obra da unidade frigorífica, surgiu imediatamente a empresa de fachada (Frigolider) com o mesmo objetivo mercantil, com o mesmo endereço e sobre administração financeira e gerencial do Grupo Quatro Marcos. Na realidade, a Frigolider foi constituída para servir de anteparo ao Frigorífico Colider Ltda e ao Frigorífico Quatro Marcos Ltda, com a finalidade exclusiva de burlar a fiscalização. No Município de Colider, assim que começaram a desenvolver as ações fiscais da Secretaria de Fazenda, acompanhadas pelo Ministério Público Estadual de Mato Grosso, no Grupo Quatro Marcos, em 04/99, a empresa de fachada Frigolider desapareceu imediatamente, juntamente com os seus sócios laranjas, sem deixar qualquer paradeiro, surgindo imediatamente outra empresa de fachada, a Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda Fricol, com mesmo objeto mercantil, mesmo endereço, mesmo quadro pessoal de empregados e com os mesmos diretores e administradores das anteriores, ou seja, o Grupo Quatro Marcos, com a ajuda da família "Birtche" (Sr. Creudevaldo Birtche), era quem administrava financeira e gerencialmente a Frigolider e a Fricol. Apresenta as seguintes provas sobre os fatos: 1) no período de 12/95 a 03/99 atuava uma empresa de fachada, Frigolider Indústria e Com. de Alimentos Ltda, que desapareceu misteriosamente, juntamente com os sócios, após o início dos trabalhos do fisco estadual SEFAZ/MT. O seu sócio laranja, Sr. Edson Carlos Padilha, continuou recebendo remuneração (salário e cesta básica) da firma Fricol. 2) de 04/99 em diante, após o desaparecimento da Frigolider Ind. e Com de Alimentos Ltda, surgiu imediatamente uma outra empresa de fachada, a Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda Fricol sendo que os seus sócios fazem parte da família Birtche que Fl. 652DF CARF MF 12 pelos elementos levantados, podese considerálos como "testa de ferro" do Grupo Quatro Marcos. 3) o Sr. Pedro Olinto Ribeiro, sócio laranja da empresa fantasma Amazonas, que funcionou como um "CAIXA 2" do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, sempre recebeu, no Município de Colider, remuneração das duas empresas de fachada do Grupo Quatro Marcos, quais sejam: Frigolider e Fricol. 4) as despesas do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, referente à Fazenda Santa Laura eram pagas pela empresa de fachada Fricol. 5) o Sr. Carlos Roberto Dutra Bandeira, que desapareceu misteriosamente com a documentação da Frigolider, na qual era sócio laranja, recebeu dinheiro da Fricol referente à venda de bovinos. Os bovinos são de propriedades de outras pessoas, alternando entre pessoa física e jurídica, mas quem recebe o dinheiro é o Sr. Carlos Roberto Dutra Bandeira. 6) Em 27/09/99, o Sr. Carlos R. D. Bandeira recebeu R$ 22.566,03 da firma Fricol, referente à venda de bovinos de propriedade da Agropecuária Vale Carapa Ltda. 7) Em 27/09/99, o Sr. Carlos R. D. Bandeira recebeu R$ 3.648,97 da firma Fricol, referente à venda de bovinos de propriedade do Sr. Roberto Calozari e outros. 8) Em 06/01/00, novamente o Sr. Carlos R. D. Bandeira recebeu R$ 5.000,00 da firma Fricol, referente à venda de bovinos de propriedade do Sr. Oscar Nunes da Silva. Após verificação dos documentos da Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda, encontrouse um "cartão" da empresa “Círculo Quatro Compra e Transporte de Bovinos” onde se percebe que o Sr. Carlos Roberto Dutra Bandeira mora no mesmo endereço da Sra. Cleonice Birtche Bandeira. O mesmo foi um comprador de bovinos na região de Colider, provavelmente do Grupo Quatro Marcos, e jamais dono de qualquer Frigorífico. A firma Fricol, ao pagar os fornecedores de bovinos, deposita o dinheiro diretamente na conta do Sr. Luís Olavo Sabino Santos, diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, caracterizando simulação do Grupo Quatro Marcos, pois uma pessoa empresta o nome para aparecer na nota fiscal e outra recebe o dinheiro. Estes documentos constatados pela fiscalização totalizaram um valor de R$ 183.964,36 depositados diretamente na conta do Sr. Luís Olavo. Novamente, a firma Fricol, ao pagar os fornecedores de bovinos, deposita o dinheiro diretamente na conta do Sr. Sebastião Bueno Xavier, pai do Sr. Douglas sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Em 04/10/99, a firma Fricol pagou as despesas de carne do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, filial de Jandira/SP, depositando o dinheiro diretamente na conta do Sr. Tupanangil Tricai Magalhães, na época Diretor desta filial. Em 09/11/99, a firma Fricol, realizou novo pagamento de despesas diversas do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, filial Jandira/SP, depositando o dinheiro diretamente na conta corrente do Sr. Tupanangil Tricai Magalhães, na época Diretor desta filial. Estes dois documentos (doc. 6.2.g e doc. 6.2.h) evidenciam claramente que os diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, além de exercerem um controle na parte gerencial, também exerciam um controle na parte financeira das empresas de fachada. Ademais, esses documentos também comprovam que a contabilidade do Frigorífico Quatro Marcos Ltda jamais espelhou a realidade, pois o fato do dinheiro ser depositado diretamente na conta corrente do diretor e não na conta corrente da empresa, Fl. 653DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 8 13 evidencia um fato completamente contrário à legislação fiscal e comercial, constituindo motivo de desconsideração da contabilidade do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, como deflui do § 6º do artigo 33 da Lei nº 8.212/91, e do art. 235 do Regulamento da Previdência Social RPS aprovado pelo Decreto nº 3.048/99. A firma Fricol, em 15/07/99, efetuou o pagamento de despesas de locomoção à cidade de SINOP/MT para o Escritório Universal, relacionando todas as empresas do Grupo Quatro Marcos no Município de Colider/MT, inclusive pagando despesas de todas elas indistintamente. Em diligência fiscal realizada em 05/04/2000, juntamente com os Fiscais de Tributos Estadual FTE/MT, encontrouse nas dependências da empresa Fricol vários documentos referentes aos Certificados de Registros e Licenciamentos de Veículos das Sras. Susete Jorge Xavier e Rosana Jorge Xavier e do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, sócios dos Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Em 09/09/99, o Sr. Luiz Olavo Sabino dos Santos, diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, determinou ao Sr. Tucura (Creudevaldo Birtche), um dos sócios da Fricol, que este efetuasse o depósito na conta corrente do Sr. Pedro Bernardo dos Santos, o mais rápido possível. Para explicar o fato de que uma empresa precede a outra, no caso em tela, a firma Fricol sucede à Frigolider; as despesas desta, referente ao mês de abril, foram pagas pela primeira. O fato comprovado nestes documentos é que as empresas de fachada foram constituídas para funcionarem apenas por um lapso de tempo e desaparecem misteriosamente, surgindo imediatamente outra empresa de fachada. Exemplificando, no início do mês abril/99 de fato a Frigolider deixou de exercer suas atividades comerciais e surge a Fricol, no mesmo endereço, mesmo objeto mercantil, mesmo quadro pessoal e administrada pelos sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Em 07/04/99, a firma Fricol depositou diretamente na conta corrente do Sr. Nilton do Amaral, empregado do Grupo Quatro Marcos, o valor de R$ 1.080,00 referente à despesa de manutenção do P.A.B.X. realizada pela empresa Telefonia Engenharia de Telecomunicações Ltda, comprovando que o Sr. Nilton do Amaral pagava as despesas das empresas de fachada na cidade de Cuiabá/MT e, posteriormente, prestava conta ao controlador do Grupo Quatro Marcos (Sr. Luiz Nanni) que autorizava o ressarcimento. No período de 16/09/99 a 30/09/99, os empregados do Grupo Quatro Marco dos Municípios de São Paulo e Alta Floresta prestaram serviços em Colider/MT, na firma Fricol. Este fato demonstra de maneira clara que se trata de um grupo econômico de fato, pois os empregados de uma localidade são deslocados para prestar serviços em outra unidade frigorífica, no setor de desossa. Alerta a fiscalização que a firma Fricol iniciou suas atividades comerciais a partir do mês 04/99 e o documento demonstra que os empregados foram admitidos no ano de 1998. O Sr. Ronaldo A. dos Santos da Rocha, empregado do Frigorífico Colider Ltda (posteriormente denominado de O.C.A. Comercial Ltda) enviou documentos da firma Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda Fricol para o Sr. Paulo Medeiros, o Sr. Gerson Medeiros e Audicontabil Auditores Independentes S/C, respectivamente, advogados e prestador de serviço da Fricol, caracterizando mais uma vez que tanto a Fricol como a O.C.A. Comercial Ltda pertencem aos mesmos sócios. Fl. 654DF CARF MF 14 A empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos foi constituída em nome de sócios laranjas, ou seja, pessoas físicas que emprestaram o nome para fazer parte do contrato social da empresa, quando, na realidade, eram apenas empregados da própria Frigolider ou de outra empresa do Grupo Quatro Marcos. O suposto sócio Sr. Edson Carlos Padilha sempre foi empregado do Grupo Quatro Marcos. No notebook (máquina de informática) apreendido pelos Fiscais de Tributos Estadual MT existem arquivos onde pode se ver claramente que as suas despesas de remuneração (salários) estão registradas junto com os demais empregados da empresa; neste mesmo arquivo também existem registros específicos de pro labore para o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier juntamente com o seu pai Sr. Sebastião Bueno Xavier (Sr. Chico), que, de fato, eram sócios do Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda. Em 01/04/1996, o suposto sócio, Sr. Edson Carlos Padilha, foi admitido na empresa Frigolider com uma remuneração mensal de R$ 395,87, e em 02/12/1996 aparece como sócio dessa mesma empresa, onde, observando o princípio da primazia da realidade, verificase como sócio "laranja". Ademais, no período de 05/1993 até 02/1996 esse sócio "laranja" trabalhou na empresa Indústria de Móveis 3 Irmãos, CNPJ 82.767.641/000130, como empregado na função de auxiliar de produção e de lustrador, sendo que o seu último salário foi de R$ 314,60 mensais. Outro fato marcante foi a constatação de que após a paralisação de fato da empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, o Sr. Edson Carlos Padilha continuou recebendo remuneração (salário em pecúnia e salário indireto) de outra empresa de fachada, Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda – Fricol, como segurado não inscrito no Regime Geral de Previdência Social RGPS, utilizando o artifício de "FRICOL U", sendo que na competência 12/1999 recebeu R$ 1.035,00 e apôs sua assinatura no recibo de pagamento; os salários indiretos foram constatados na listagem do sacolão (cesta básica) onde também apôs sua assinatura. Os sócios efetivos das empresas relatadas no Tópico VI do Relatório Geral são: o Sr. Sebastião Bueno Xavier, o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier e o Sr. Creudevaldo Birtche. Diante disso, conclui a fiscalização que as empresas Frigorífico Colider Ltda (hoje O.C.A. Comercial Ltda), Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda e a Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda (Fricol) fazem parte de um mesmo grupo econômico de fato (Grupo Quatro Marcos), no qual há a lesão os cofres públicos, utilizandose de empresas de "fachada" ("fantasmas"), juntamente com os seus respectivos sócios "laranjas". TÓPICO “VILA RICA ALIMENTOS LTDA (EMPRESA QUE TEM COMO UM DOS SÓCIOS O SR. DOUGLAS) E FRIGORÍFICO VILA RICA LTDA (EMPRESA DE FACHADA)” Foi constituída no Município de Vila Rica/MT a empresa Vila Rica Alimentos Ltda, em 01/01/98, como uma unidade frigorífica para o abate de bovinos e, paralelamente, em 10/02/99, foi constituída a empresa de fachada Frigorífico Vila Rica. Aquela empresa firmou um contrato de arrendamento de toda sua unidade frigorífica com esta. A empresa Vila Rica Alimentos Ltda jamais exerceu a atividade do objeto mercantil estabelecido no contrato social e, assim que a empresa terminou a construção civil da obra da sua unidade frigorífica, surgiu imediatamente a empresa de fachada (Frigorífico Vila Rica Ltda), com o Fl. 655DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 9 15 mesmo objetivo mercantil, com o mesmo endereço e sobre administração financeira e gerencial do Grupo Quatro Marcos. Diante disso, a fiscalização verificou que na realidade a empresa Frigorífico Vila Rica Ltda foi constituída para servir de anteparo à Vila Rica Alimentos Ltda, com a finalidade exclusiva de burlar a fiscalização, já que aquela não tem qualquer bem econômico registrado em seu nome para pagar os tributos sonegados. Constatouse, através de diligência fiscal realizada no Município de Vila Rica/MT, que a empresa Vila Rica Alimentos Ltda nunca funcionou no endereço do seu contrato social. O proprietário do imóvel (Sr. José Manoel Garcia, RG: 11.636.844 SSP/SP) onde deveria funcionar a empresa informou "que apenas manteve um contato com os proprietários desta empresa em 1998, mas jamais a mesma funcionou neste endereço: Avenida Brasil 38 A, Centro, Vila Rica/MT, nem em outro endereço dentro da cidade de Vila Rica". TÓPICO “PROVAS GERAIS DO GRUPO QUATRO MARCOS” Depois de várias diligências fiscais nos Municípios de atuação do Grupo Quatro Marcos, arrecadouse diversos documentos que comprovam, de maneira lúcida e transparente, o envolvimento dos sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, com as empresas de fachadas (ou fantasmas) Amazonas, Frigolider, Flamingo, Fricol, Frialto e Frigorifico Vila Rica. Além disso, existem diversos documentos apreendidos pelos Fiscais de Tributos Estadual de Mato Grosso FTE/MT, aos quais teve acesso a fiscalização do INSS, que confirmam os fatos relatados no Relatório Geral. A fiscalização lista as seguintes provas: 1) As despesas de manutenção das empresas de fachada (ou fantasmas) eram administradas pelo Sr. Luis Nanni (controlador do Grupo Quatro Marcos). Em documento aprendido pelos FTE/MT (doc. 8.1), o Sr. Nilton do Amaral, empregado do Grupo Quatro Marcos, apresenta ao Sr. Luiz Nanni Relação de Prestação de Contas, mês 05/99, das despesas que teriam sido efetuadas com as seguintes empresas: Flamingo: aluguel da sala 403, R$ 500,00 (05/05/99); pagamento de telefone, R$ 449,93 (10/05/99); Frigolider: pagamento de telefone, R$ 42,42 (10/05/99); Amazonas: aluguel da sala, R$ 301,59 (03/05/99); Sr. Douglas, sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda: pagamento de registro de arma, R$ 686,00 (14/05/99); Sra. Rosana Jorge Xavier: despesas de sedex, R$ 14,70 (14/05/99). Nesta mesma relação de prestação de contas há a provisão de pagamento dos salários da Sra. Sandra e Sra. Celiane, respectivamente, empregadas da Flamingo e Frigolider, e também provisão do pagamento de energia elétrica das empresas Amazonas, Flamingo e Frigolider, e também da energia do Edifício Marselha, onde o Sr Sebastião Douglas Sorge Xavier reside. 2) A empresa Phoenix, através do controlador Sr. Luiz Nanni, envia aos empregados do Grupo Quatro Marcos, o Sr. Vanderlei (na época diretor financeiro do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) e o Sr. Nilton do Amaral (na época empregado na função de Contador do Frigorífico Colider Ltda), instruções de procedimentos às firmas Amazonas e Frigolider, ambas empresas de fachada (ou fantasmas). Assim, considerando que o Sr. Nilton do Amaral era empregado do Frigorífico Colider Ltda, não há como entender o fato dele receber instruções do Sr. Luiz Nanni orientando na elaboração de Relatórios Financeiros e de Vendas (doc. 8.2.a e doc. 8.2.b) da firma Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, com a qual o Sr. Nilton do Amaral não possuía qualquer vínculo empregatício. Em 24/02/97, o Sr. Luiz Nanni enviou carta ao Sr. Vanderlei e ao Sr . Nilton do Amaral, contendo instruções de como proceder na elaboração de Boletim Financeiro. Fl. 656DF CARF MF 16 No rodapé do documento consta a observação de que foi enviada cópia ao Sr. Douglas Direção SP, sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda (doc. 8.2.a.). Salta aos olhos da fiscalização que a empresa Frigolider recebe instruções de preenchimento de documentos da Phoenix de São Paulo, porém não está constituída em nome do Sr. Douglas ou qualquer outra pessoa de sua família. Diante disso, só existiria uma explicação : a Frigolider é uma empresa de fachada, sendo efetivamente administrada pelo Sr. Douglas. Em 07/03/97, o Sr. Luiz Nanni enviou carta ao Sr. Vanderlei Chefia de Escritório FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA contendo instruções de como proceder na elaboração de Boletim Financeiro, solicitando inclusive que a separação deve englobar as empresas Frigorífico Quatro Marcos Ltda e Amazonas. No rodapé consta a informação de que foi enviada cópia ao Sr. Douglas Direção –SP (doc. 8.2.b.). Em carta datada de 01/04/97, proveniente da empresa Phoenix de Jandira/SP, consta o seguinte: "DE: Luiz Nanni Administração SP" para "Srs. Vanderlei Ger. Adm. Financeira FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA/AM e Newton – Depto Contabilidade Frigolider", envia instruções de como proceder no Relatório de Vendas. Em anexo a essa carta, o Sr. Luiz Nanni envia um modelo contendo as vendas do dia 29/03/97 da firma Amazonas. Neste documento (doc. 8.2.c), além de instruir a firma de fachada Frigolider, a Phoenix passa instruções para a Amazonas, representada pelo Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin, Diretor e Gerente Financeiro do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Novamente, no rodapé consta a informação de que foi enviada cópia para o Sr. Douglas. Em 09/07/97, o Sr. Vanderlei enviou ao Sr. Luiz Nanni um documento, através de facsímile, com uma minuta de contrato a ser firmado com o Carrefour e, em letra manuscrita, escreveu um bilhete "A/C Sr. LUIZ NANNI FAVOR VERIFICAR SE DEVE SER ASSINADO ENTRE AMAZONAS X CARREFOUR" (constatação do Sr. Vanderlei pela assinatura). Em outro bilhete apenso, manuscrito e assinado pelo Sr. Luiz Nanni, a resposta: "VANDERLEI: ASSINAR 10/07 Douglas autorizou". Em suma, o Diretor e Gerente Financeiro do Frigorífico Quatro Marcos Ltda pergunta ao Controlador do Grupo Quatro Marcos se a Amazonas deve assinar o Contrato com Carrefour (doc. 8.2.d.). 3) A extelefonista da Frigolider e exsecretária da Flamingo, Sra. Adriana Guedes, afirmou que os sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, juntamente com a família Birtche (Sr. Creudevaldo Birtche), administravam efetivamente as empresas de fachada e confirmou também a relação com o Sr. Luiz Nanni (doc. 8.3). 4) A exsecretária da Frigolider, Sra. Celiane da Costa Bispo, afirma em Termo de Declaração que o Sr. Nilton do Amaral administrava a Frigolider e a Flamingo (doc. 8.4). O Sr. Nilton do Amaral é funcionário contratado pelas empresas do Grupo Quatro Marcos. 5) O Sr. Napoleão Mendes Neto, empregado da Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, CNPJ 00.897.034/000120, afirmou em Termo de Declarações também o envolvimento do Sr. Sebastião Xavier ("Chico"), Sr. Douglas e da família Birtche com as empresas de fachada. 6) Em vários depoimentos constantes nos Termos de Declarações, prestados ao Ministério Público Estadual, os Srs. Antonio Claudemir Zirondi, Jose Alves Barbosa, Ricardo Rezende e Maria Ester da Paz Silva confirmam a constatação e composição do Grupo Fl. 657DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 10 17 Quatro Marcos. Também afirmam nos Termos de Declarações quem são os efetivos proprietários das empresas de fachada (doc. 8.6). 7) Os contatos para compra de carnes das empresas que fazem parte do Grupo Quatro Marcos, ou seja, os clientes do grupo, eram feitos através de sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Em diligência fiscal realizada na firma Frigorífico Quatro Marcos Ltda, constatouse na documentação contábil da empresa que o telefone (011) 7929 3588 pertencia à firma Phoenix Adm. e Participações Ltda, que tem como sócias as irmãs do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda). Porém, as despesas desse telefone são pagas pela filial do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, em Jandira/SP. Em ofício datado de 17/12/99, a COOP Cooperativa de Consumo, CNPJ 57.508.426/000144, afirmou que o contato para compra de carnes do Grupo Quatro Marcos, do qual fariam parte os seguintes frigoríficos: Frigorífico Quatro Marcos Ltda, Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda, Pontal do Araguaia Alim. Ltda, Flamingo Alimentos Ltda, Frialto Ind. Com. de Alimentos Ltda, Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda e Frigorífico Vila Rica Ltda, era efetuado com o Sr. Tupanangil Tricai Magalhães (conhecido como "Tupã" ou "Tupã Magalhães"), que era Diretor da filial do Frigorífico Quatro Marcos Ltda em Jandira/SP e, ao tempo da fiscalização, Diretor da matriz Frigorífico Quatro Marcos Ltda, no telefone (011) 79293588 (doc. 8.7.a). Em ofício datado de 25/02/2000, a empresa Saito & Saito Supermercado Ltda afirma que as compras de carne tanto da Flamingo como da Frigolider eram realizadas com o vendedor Sr. Tupanangil Magalhães (fone: 011 79293588) (doc.8.7.b). Em ofício de 28/02/2000, a empresa Ralimar Distribuidora de Miúdos Ltda atesta que as compras de carne das firmas Fricol, Frigolider e Frigorífico Quatro Marcos Ltda eram realizadas no mesmo telefone (011 79293588), com as seguintes pessoas: Cláudia, Davilson e Tupã (doc. 8.7.c). A empresa Carrefour atestou que o próprio Sr, Sebastião Douglas Sorge Xavier (sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) era o contato para as compras de carne que realizou com as firmas Amazonas, Frigolider e Frigorífico Quatro Marcos Ltda, no telefone (011) 79293588. Já as compras do Flamingo Alimentos e as algumas do Frigorífico Quatro Marcos Ltda foram realizadas com Sr. Tupã, no mesmo telefone (doc.8.7.d). Em 09/03/2000, a firma Espetinho Churra Bom Ltda atestou que o entreposto das empresas Frigorífico Quatro Marcos Ltda, Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, Frialto Ind. Com. Alimentos Ltda e Amazonas Com. Ind. Imp. Exp. Ltda era realizado no mesmo endereço (Rua Pureza Marques de Oliveira, 83 Distrito Industrial Pres. Wilson, Jandira/SP) (doc. 8.7.e). Este endereço é o da filial do Frigorífico Quatro Marcos Ltda e o mesmo endereço onde funcionou uma filial da firma Flamingo Alimentos Ltda. Em 29/02/2000, a firma Olhos D'Agua Ind. e Comércio de Carnes Ltda atestou que as compras de carne dos Frigoríficos: Guaray Comércio Ind. Exp. e Imp. Ltda, Frigorífico Quatro Marcos Ltda, Flamingo Alimentos Ltda, Amazonas Com. Ind. Imp. E Exportação Ltda, Frigolider Industria Comércio de Alimentos Ltda, Frialto Ind. e Comércio de Alimentos Ltda, Fricol Industria Frigorífica Norte Colidense Ltda e Frigorífico Vila Rica Ltda eram efetuadas diretamente no frigorífico em seu escritório em São Paulo através do telefone (11) 79293588 com as seguintes pessoas: Claudia, Jose Roberto, Douglas, Freitas, Dante e Tupã (doc 8.7.f). 8) Em carta datada de 27/05/98, o Sr. Luiz Nanni (controlador do Grupo Quatro Marcos) afirmou para o Sr. Vanderlei Gerente Administrativo e financeiro GAF do Fl. 658DF CARF MF 18 FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA que estava enviandolhe a alteração contratual da empresa Guaray novo endereço feita na JUCEMAT. (doc. 8.8). A Guaray (CNPJ 74.075.268/000129) é empresa fantasma antecessora da Amazonas que também desapareceu misteriosamente após a fiscalização do INSS em 1996 (NFLD DEBCAD nº 32.345.3368). É inexplicável o fato do Sr. Vanderlei e do Sr Douglas receberem alteração contratual original de empresa que está com suas atividades de fato encerradas, não tendo nenhum vinculo com Frigorífico Quatro Marcos Ltda. No rodapé desta carta consta que foi enviada cópia para arquivo (Sr. Douglas). 9) A confusão entre as empresas que compõem o Grupo Quatro Marcos era tão grande que o Frigorífico Colider, CNPJ 00.135.198/000110, identificase com o CNPJ da Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda (CNPJ 00.897.034/000120), ao apresentar demonstrativos contábeis para a obtenção de Certidão Negativa de Débitos CND junto ao INSS. (doc. 8.9). Neste mesmo documento o Sr. Nilton do Amaral assina como contador do Frigorífico Colider Ltda. 10) Em ofício de 04/07/2000, o Sr. Franklin Nogueira Hoyer, Cmt. Do CINDACTA I, atestou que a aeronave PTWSX de propriedade do Frigorífico Quatro Marcos Ltda realizou vários vôos para Alta Floresta/MT, no período de 01/01/97 a 31/12/99 (doc. 8.10). A aeronave era utilizada pelo Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) para a realização das visitas e vistorias das empresas de fachada nos Municípios de Alta Floresta/MT e Colider/MT. Neste Município não há aeroporto para pouso de aeronaves, por isso que no relatório do CINDACTAI não o consta. Ficou evidenciado que no mínimo uma ou duas vezes o Sr. Douglas e/ou algum Diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda iam a Alta Floresta e Colider. Corroborando este entendimento a respeito do uso da aeronave, o Sr. Napoleão Mendes Neto afirmou em Termo de Declarações (doc. 8.5) que: o Sr. Douglas e o Sr. Chico vinha para esta cidade (Colider) de avião. 11) A Sra. Adna Pereira da Silva, exsecretária do Sr. Paulo Pitaluga e ex empregada da Flamingos Alimentos Ltda, afirma em Termo de Declaração que "...a empresa Flamingo aparentemente não desenvolvia nenhuma atividade comercial, pois não vendia nada e nem comprava, não recebia mercadoria e nem despachava...” (doc. 7.11). Neste mesmo documento a Sra. Adna Pereira da Silva afirmou que a empresa Flamingo era de propriedade do Frigorífico Quatro Marcos Ltda e que o Sr. Luiz Nanni trabalhava junto com o Sr. Douglas e por vezes vinha ao escritório em Cuiabá. Também afirmou que o Sr. Paulo Pitaluga, Sr. Nilton do Amaral e o Sr. Luiz Nanni diziam claramente que o proprietário de todas as empresas era o Sr. Douglas juntamente com o seu pai conhecido por "Chico". 12) A imobiliária Âncora Locação de Imóveis Ltda, representada pelo Sr. Marco Antônio Tolentino de Barros, afirmou que a funcionária da Flamingo era quem fazia o pagamento do aluguel da Amazonas e da Frigolider. Em depoimento à Delegacia Especializada de Polícia Fazendária, o gerente de locação da Imobiliária Ancora declara que os aluguéis da sala da Amazonas e outros problemas eram resolvidos com a funcionária da Flamingo Alimentos Ltda, Sra. Adriana, e que era ela também que mantinha contato sobre qualquer problema com a sala alugada para a empresa Frigolider (doc.8.12). Neste mesmo documento, o referido gerente declarou, ainda, que quem procurou a Âncora para alugar uma sala para funcionamento da firma Amazonas foi Sr. Paulo Pitaluga e que jamais conheceu os seus respectivos sócios, como também não conheceu os sócios da Frigolider. Fl. 659DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 11 19 13) Vários boletins financeiros, cartas e atas de reuniões, aprendidos pelos Fiscais de Tributos Estadual/MT, comprovam o relacionamento do Sr. Luiz Nanni na controladoria do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, bem como o seu relacionamento direto com Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier no controle do Grupo Quatro Marcos (doc 8.13). 14) Outro fato que deixa transparente a formação do Grupo Quatro Marcos grupo econômico de fato foram dois fax urgentes enviados pela empresa Audicontábil, datados de 08/08/97 e 13/08/97, para a empresa Frigorífico Colider Ltda, à atenção do Sr. Nilton do Amaral Contabilidade, que era empregado da Ind. de Couros e Insumos Colider Ltda, onde o mesmo recebeu informações sigilosas referente aos projetos da SUDAM tanto do Frigorífico Quatro Marcos Ltda como também do Frigorífico Colider Ltda (doc. 8.14). 15) Em fiscalização realizada pelo INSS na empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, ano 1996, NFLD DEBCAD no 32.344.9883, o Sr. Nilton do Amaral já informava a dependência e o envolvimento desta empresa com Frigorífico Quatro Marcos Ltda, quando no Relatório Fiscal os Srs. Auditores Fiscais discorrem: "...entramos em contato com o Sr. Nilton do Amaral e este nos informou de que iria contactar com o Frigorífico Quatro Marcos para saber quem havia retirado tais documentos e onde estavam." (doc. 8.15). 16) Durante diligência fiscal desenvolvida pelos Fiscais de Tributos Estadual FTE/MT, realizada em 27/05/99, o Sr. Nilton do Amaral foi flagrado tentando fugir com documentos das empresas Amazonas, Frigolider e Flamingo. A FTE Sra. Wilce flagrou o Sr. Nilton do Amaral, acompanhado de outra pessoa não identificada, tentando fugir com diversos documentos que já estavam no porta malas do carro que se encontrava no estacionamento ao lado do Edifício Master Center, onde a Amazonas alugava uma sala. Estranhamente, havia documentos de 03 firmas, aparentemente distintas, Amazonas, Frigolider e Flamingo (doc. 8.16). 17) Durante diligência fiscal realizada em 25/05/99 pela fiscalização estadual MT, na sala alugada pela firma Flamingo, também foi feita a apreensão de uma máquina de informática (notebook), que estava em poder do Sr. Nilton do Amaral, a qual tinha um programa específico para a contabilidade da empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda (doc. 8.17). 18) As empresas que compõem o Grupo Quatro Marcos utilizam o mesmo modus operandi para dar sumiço misteriosamente em sua documentação fiscal. Em 30/07/1996, o Sr. Carlos Eduardo de Oliveira Sebim registrou um Boletim de Ocorrência afirmando que toda a documentação da Amazonas foi furtada de um veículo, sendo que este era de propriedade do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. É inexplicável o fato da documentação estar dentro de um veículo do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. (doc. 8.18). Em 11/05/99, o Sr. José Zagui compareceu ao Departamento de Polícia Militar DPM de São José dos Q. Marcos e relatou que todos os documentos da Flamingo foram furtados de um veículo. (doc. 8.18). No Relatório Fiscal da NFLD DEBCAD no 32.344.9883, os Srs. Auditores Fiscais relatam que a firma Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda também não apresentou qualquer documentação fiscal (doc. 8.15). Fl. 660DF CARF MF 20 Em 20/12/96, a firma Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda tornou público, em Diário Oficial de Mato Grosso, que foram furtados do interior de um veículo vários documentos fiscais e contábeis (doc. 8.18). Em 21/01/91, o Sr. Moisés Ferreira Borges, empregado do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, compareceu à Delegacia de Polícia de São J. Q. Marcos e registrou uma Ocorrência Policial n° 20/91. Na época, afirmou que os documentos da empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda tinham sido destruídos em acidente de veículo, seguido de incêndio (doc. 8.18). 19) Corroborando ainda mais com entendimento de que os diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda também administravam as empresas de fachada (ou fantasmas), em 28/10/98, a Sra. Adriana "DRI", exsecretária da firma Flamingo, mandou um bilhete ao Sr. Vanderlei (diretor financeiro do FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA), para que o mesmo providenciasse o pagamento da energia elétrica da firma Amazonas (doc. 8.19). 20) A participação do Sr. Douglas (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), no comando das empresas de fachada do Grupo Quatro Marcos, é tão evidente que, em 18/12/97, o Fundo de Aperfeiçoamento dos Serviços Jurídicos da Procuradoria Geral do Estado de Mato Grosso FUNJUS ao receber a importância de R$ 50,00 da firma Frigolider Ind. Com. de Alimentos Ltda, incluiu também claramente o nome do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier e da sua irmã Sra. Rosana Jorge Xavier (doc. 8.20). 21) Os elementos que comprovam o grupo econômico de fato (Grupo Quatro Marcos) são tão evidentes, que a firma Fricol chega a pagar as despesas de estadas do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) e do Sr. Francisco Sérgio B. Figueiredo (suposto sócio do Frigorífico Vila Rica Ltda) na cidade de Colider, quando estes vão administrar as unidades frigoríficas da região. Inclusive, no movimento de caixa (Banco c/c 06384), aparece de maneira expressa o débito dessas despesas (Saídas) referente às Despesas Adm. Viagens e Estadas, lançamento 6147 (doc. 8.21.a). Em 02/10/99, a firma Fricol pagou as despesas de estadas do Sr. Douglas (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), referente aos dias: 26 a 27/08/99 e 23 a 24/09/99; neste mesmo dia também pagou as despesas de estadas do Sr. Francisco S. B. Figueiredo (Frigorífico Vila Rica Ltda) referente aos dias 21 a 22/09/99 (doc. 8.21.b). Este documento demonstra uma agravante, uma vez que referente as despesas de estadas do Sr. Douglas passaram corretivo (tipo liquid paper) em cima do campo hóspede Palace Hotel para ocultar e alterar o seu nome, mas se colocar o documento em visualização sobre a luz percebese que está escrito "SR. DOUGLAS". Esta prática de ato é contrária aos princípios fundamentais da contabilidade e a legislação fiscal. 22) As despesas do Sr. Aguiar Coelho do Amaral (piloto do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), como da aeronave PTVKW, referente aos vôos para cidade de Colider, levando o Sr. Douglas (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), também são pagas pela firma Fricol. Em 20/09/99, a firma Fricol pagou as despesas de combustíveis (doc. 8.22.a) e de táxi aéreo (doc. 8.22.b) da aeronave PTVKW de propriedade do Frigorífico Colider Ltda, pilotada pelo Sr. Aguiar C. Amaral, em viagens do Sr. Douglas. Em 27/09/99, a firma Fricol pagou as despesas de combustíveis da aeronave PTVKW de propriedade do Frigorífico Colider (O.C.A. Comercial Ltda), pilotada pelo Sr. Aguiar C. Amaral em viagem do Sr. Douglas (doc. 8.22.c). Em 03/02/00, a firma Fricol pagou as despesas com alimentação do Piloto Sr. Aguiar Coelho do Amaral referente à Nota Fiscal 7615 Churrascaria Kaskata's (doc. 8.22.d). Fl. 661DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 12 21 Em 27/09/99, a Fricol pagou as despesas de combustíveis da aeronave PTVKW no valor de R$ 539,97 (doc. 8.22.e). Em 17/12/99, novamente a firma Fricol pagou as despesas de combustíveis da aeronave PTVKW de propriedade da O.C.A. Comercial Ltda, a qual era pilotada pelo Sr. Aguiar Coelho do Amaral (piloto do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) (doc. 8.22.f). 23) As despesas de combustíveis em vôos realizados pela aeronave PTVKW, em viagens do Sr. Luís Olavo Sabino dos Santos (diretor geral do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) à cidade de Colider, também foram pagas pela firma Fricol (doc. 8.23), caracterizando mais uma vez que se trata de um grupo econômico de fato (Grupo Quatro Marcos), que administra a empresa Fricol. 24) As despesas aéreas do Sr. Nilton do Amaral, que sempre foi contador do Grupo Quatro Marcos, também são pagas pela firma Fricol. Em 12/11/99, a firma Fricol pagou as passagens aéreas do Sr. Nilton do Amaral, cujo itinerário foi: SINOP/Cuiabá e Cuiabá/Sinop (doc. 8.24). Neste documento a firma, na pessoa dos seus responsáveis, cometeu um ilícito ao passar corretivo (tipo liquid paper) sobre o "nome" do boleto da empresa Passaredo e, por sua vez, alterando e ocultando o nome do Sr. Nilton do Amaral. Colocando este documento sobre a visualização da luz, percebese claramente o seguinte nome "AMARAL/NILTON". Esta prática de ato é contrária aos princípios fundamentais de contabilidade e a legislação fiscal. 25) Em 19/10/99, a firma Fricol recebeu dos fornecedores a matériaprima bovinos, e, ao realizarlhes o pagamento, depositou o valor pecuniário diretamente na conta corrente da empresa de fachada Frialto (docs. 8.25), caracterizando uma permuta do credor e evidenciando a composição de um grupo econômico de fato (Grupo Quatro Marcos), pois tal ato depende no mínimo de uma autorização expressa. 26) A situação é tão confusa que uma empresa de fachada chegou a pagar a sua despesa referente ao Frigorífico Quatro Marcos Ltda em outra firma de fachada. Em 04/10/99, a firma Fricol, ao pagar despesas de fornecedores, referente ao Frigorífico Quatro Marcos Ltda (SP), depositou o dinheiro diretamente na conta da firma Frialto (doc. 8.26). Este ato é contrário aos Princípios Fundamentais de Contabilidade (princípio da entidade e princípio da competência Resolução n° 750/93CRC) e, também, contrário à própria legislação fiscal e à comercial. 27) Outro fato que deixa transparecer a composição do Grupo Quatro Marcos é um depósito em dinheiro, realizado pela firma Fricol, diretamente na conta corrente da Ind. de Couros Insumos Colider Ltda, uma vez que aquela é quem fornece os couros (matéria prima) para esta. Diante disso, evidencia que a segunda também faz parte das empresas que compõe o Grupo Quatro Marcos (doc. 8.27). 28) O Sr. Milton Zana Corbalan, que se diz sócio das empresas de fachada Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda e do Frigorífico Vila Rica Ltda, as quais fazem parte do Grupo Quatro Marcos, foi empregado sempre no setor de construção civil em outras empresas do Grupo Quatro Marcos, a seguir detalhado: período de 06/96 a 09/97 no Frigorífico Colider Ltda, onde a maior remuneração mensal recebida foi em 08/96 no valor de R$ 717,25 (docs. 8.28.a); no período de 03/98 a 05/98 na Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda, onde a maior remuneração mensal recebida foi em 05/98 no valor de R$ 596,74 (docs. 8.28.b). Estas duas últimas empresas onde o Sr. Milton Zana Corbalan trabalhou tinha como sócio o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos Ltda). Diante disso, percebese claramente que o Sr. Milton Zana Corbalan é mais uma pessoa que apenas Fl. 662DF CARF MF 22 emprestou o nome para fazer parte no contrato social das empresas de fachada explicitadas no item 8.28 do Relatório Geral. Durante a diligência fiscal realizada no município de Vila Rica, na empresa Frigorífico Vila Rica Ltda, o próprio empregado Sr. Willian (departamento pessoal do Frigorífico) não conhecia o seu Sr. Milton Zana Corbalan. Além disso, nos documentos analisados, não se encontrou qualquer documento de ato do comércio assinado pelo mesmo (docs. 8.28.c), sendo que o contrato social dispõe na cláusula VIII que: "A sociedade será administrada pelo sócio Milton Zana Corbalan, na qualidade de gerente o qual assinará todos os atos relativos aos interesses da sociedade ..." (doc. 8.28.d). Dentre os fatos evidenciados e relatados, fica evidenciado que se trata de um grupo econômico de fato Grupo Quatro Marcos , o qual foi articulado e montado pelos sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Assim, o próprio Código Tributário Nacional CTN (Lei n° 5.172/66) estabelece, nos incisos I e II do seu art. 124, que existe responsabilidade solidária entre pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Além disso, a Lei de Custeio da Seguridade Social – Lei n° 8.212/91, em seu inciso IX do art. 30, também prevê expressamente a solidariedade entre si das empresas componentes de Grupo Econômico, sendo lícito ao Fisco cobrar de qualquer delas. Portanto, o Fisco, baseado no instituto da solidariedade, tem o direito de cobrar o crédito fiscal (crédito previdenciário) de qualquer pessoa que compõe o "Grupo Quatro Marcos", uma vez que na seara das obrigações tributárias não se comporta benefício de ordem. TÓPICO “CONCLUSÃO DO ESQUEMA DE FUNCIONAMENTO DO GRUPO QUATRO MARCOS" O Grupo Quatro Marcos, pelas evidências apresentadas, vem sonegando contribuições sociais à Fazenda Pública ao longo dos últimos anos, pois abre uma empresa "fantasma" ou de "fachada" (empresas que não existem de fato) em cada Município, onde já possui as suas unidades frigoríficas "quentes" (empresas em nome dos sócios ou dos diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda) e, após um determinado lapso de tempo de funcionamento comercial, a empresa de fachada (ou fantasma) desaparece, repentinamente, sem deixar qualquer paradeiro. Portanto, o esquema de sonegação fiscal funciona com a simulação da criação de uma empresa de fachada (ou fantasma), onde os empregados das empresas do Grupo Quatro Marcos, às vezes registrados em livro ou fichas de registro de empregados, ou não, são levados a emprestar seus nomes e passam a figurar como supostamente sóciosproprietários do frigorífico de fachada (ou fantasma), mas nunca praticam qualquer ato de gerência ou administração nesta empresa. Na realidade este ato é realizado pelos diretores e sócios do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Ocorre que a empresa de fachada (ou fantasma) geralmente recolhe apenas um valor simbólico dos tributos, passando então a praticar a sonegação e, a mesmo tempo, utilizandose de meios fraudulentos para a realização de tal intento, uma vez que essas empresas na realidade constituem um verdadeiro "CAIXA 2" do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, o qual possui uma movimentação financeira diferente da contabilidade apresentada ao fisco. De um modo geral, as empresas de fachada (ou fantasmas) funcionam ativamente em torno de 02 (dois) anos e, após este lapso de tempo, desaparecem, inclusive seus sócios, e imediatamente são substituídas por outras empresas de fachada (ou fantasmas), mudando a razão social e o CNPJ. Consequentemente aparecem novos sócios. Outro fato marcante é que, quando a fiscalização inicia seus trabalhos, geralmente a empresa de "fachada" (ou fantasma) desaparece, seus sócios não são encontrados e todos os documentos e livros contábeis são misteriosamente furtados ou queimados. Fl. 663DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 13 23 Portanto, fica caracterizado que duas ou mais pessoas, no intuito de enganar o fisco, recorrem a um ato simulado, quer para esconder um outro negócio que se pretende dissimular, com a criação de empresas de fachada (ou fantasmas), quer para fingir de uma relação jurídica com o fato gerador da obrigação tributária, com a criação de sócios laranja. Tratase, portanto, de burla intencionalmente construída em conluio pelas partes que almejam disfarçar a realidade, enganando a Fazenda Pública e fraudando a legislação fiscal. Portanto, o Grupo Quatro Marcos utilizase de condutas dolosas e fraudulentas com fito específico de driblar a arrecadação dos Tributos (contribuição social), lesando simultaneamente a fé pública e a Administração Tributária desenvolvida pelo INSS. TÓPICO “NOTAS GERAIS” A empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda sofreu anteriormente ações fiscais pelo INSS, abrangendo até a competência 07/1996, no qual foram levantados débitos correlacionados com as empresas: Guaray Com. Ind. de Exp. e Importação Ltda, CNPJ 74.075.268/000129; e Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda, CNPJ 00.923.654/0001 97. Porém, este levantamento feito pela fiscalização encontrase consolidado no DEBCAD no 32.345.3368/1996. Também foi verificado pela fiscalização anterior do INSS os mesmos fatos explicitados nos itens 4.1, 4.2, 4.3, 4.4 e 4.7 do Relatório Geral. Corroborando com o entendimento desta fiscalização, que se trata de um grupo econômico de fato (Grupo Quatro Marcos) constituído com fim específico de burlar à Fazenda Pública, é que as empresas de fachada (ou fantasmas), que têm como sócios a figura dos laranjas, jamais apresentaram os Livros Contábeis (Livros Diário e Livros Razão) à fiscalização, sendo que as empresas são obrigadas a têlos, já que pagam o Imposto de Renda com base no lucro real. As empresas de fachada (ou fantasmas) Amazonas Com. Ind. Imp. E Exportação Ltda, Flamingo Alimentos Ltda e a Frigolider Ind. Com. de Alimentos Ltda, que desapareceram misteriosamente sem deixar qualquer paradeiro da documentação fiscal e comercial, sempre alegam a mesma desculpa de que os Livros Contábeis e sua respectiva documentação foram furtados ou roubados de um veículo. As empresas de fachada Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda, Frigorífico Vila Rica Ltda e a Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda Fricol , também não apresentaram os Livros Contábeis (Livro Razão e Livro Diário), sempre com as mesmas alegações de que tiveram algum problema na informática ou que estão apontandoos e brevemente vão entregálos. Tendo apenas uma única exceção, a empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda, que também compõe o Grupo Quatro Marcos, foi a única a apresentar a contabilidade (Livro Razão e Livro Diário), porém, esta não espelha a realidade financeira nem contábil da empresa, já que existem várias irregularidades em seus documentos fiscais, conforme alguns relatos no Relatório Geral e conforme constatação de diligência fiscal anterior, realizada pelo INSS em 11/09/98, que na época evidenciaram a adulteração nas formalidades extrínsecas dos Livros Contábeis (Livros Diários) n° 24, 25, 26 e 27 do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, os quais foram encobertos com tinta corretora (tipo liquid paper) (doc. 11.1.a). O Laudo de Exame Documentoscópio n° 437/98 Departamento de Polícia Federal/MJ Instituto Nacional de Criminalística Seção de Criminalística/MT, confirmou as adulterações explicitadas anteriormente nos Livros Contábeis (doc. l l . l .b). Fl. 664DF CARF MF 24 A seguir, apresenta notas estatísticas referentes à unidade frigorífica de São Jose dos Quatro Marcos, quais sejam: 1) Aumento expressivo dos valores das contribuições sociais rural ocorridas após o início das ações fiscais desenvolvidas pelos Fiscais de Tributos Estadual FTE/MT , em 04/99. Constatouse através da análise do gráfico que as contribuições decorrentes da subrogação (comercialização de produtos rurais por pessoa física) efetuadas mensalmente no período de 01/99 a 04/99 não ultrapassam a casa dos R$ 17.000,00 (dezessete mil reais) de contribuições, e, a partir da competência 05/99 a 12/99, os valores das contribuições chegaram a ultrapassar a casa dos R$ 119.000,00 (cento e dezenove mil reais) mensais, havendo, portanto, um acréscimo de 700 % no mês 12/99. Diante disso, a empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda utilizandose praticamente do mesmo número de empregados (na média), setor de matança, onde no período de 08/96 a 05/00 observase uma constante de 76 empregados e as mesmas instalações, aumentou sua capacidade de abate repentinamente na escala em que foi constatado. 2) Através de dados levantados na própria empresa, no mês 07/99, foi constatado que foram abatidos 19.669 (dezenove mil seiscentos e sessenta e nove) cabeças de bovinos, o que dá uma média diária de 819 (oitocentos de dezenove) animais abatidos, no caso em tela, considerando a semana de 06 (seis) dias, como foi constatado in loco durante as ações fiscais desenvolvidas na empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Em suma, a capacidade de abate de bovinos na unidade frigorífica do Frigorífico Quatro Marcos Ltda é em torno de 800 a 900 cabeças diariamente. 3) Fazendo um cotejamento no ano de 2000, até a competência 05/00, a menor contribuição ocorreu no mês 02/2000, onde o valor de R$ 71.726,77 (setenta um mil, setecentos e vinte e seis reais e setenta e sete centavos) foi recolhido ao INSS decorrente da contribuição social referente à subrogação da comercialização dos bovinos por pessoa física, com um volume de comercialização (compra de bovinos de pessoas físicas feita pelo Frigorífico Quatro Marcos Ltda) na ordem de R$ 3.260.307,72 (três Milhões, duzentos e sessenta mil e trezentos e sete reais e setenta e dois centavos), foram abatidos 7.484 cabeças, sendo 6.224 cabeças decorrente da compra à pessoa física e 1.260 de pessoa jurídica; e, em tempo, no mês 05/2000 foram recolhidos R$ 119.242,03 (cento dezenove mil, duzentos e quarenta e dois reais e três centavos) com um volume de comercialização (compra de bovinos de pessoa física feita pelo Frigorífico Quatro Marcos Ltda) na ordem de R$ 5.420.092,27 (cinco milhões, quatrocentos e vinte mil, noventa e dois reais e vinte e sete centavos), foram abatidos 14.541 cabeças, sendo 11.271 cabeças compra de pessoa física e 3.270 compra de pessoa jurídica. 4) Constatouse também que no período de 08/96 a 04/99, a maior contribuição social rural da empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda ocorreu no mês 10/98, no valor de R$ 19.694,40 (dezenove mil, seiscentos e noventa e quatro reais e quarenta centavos), com um volume de comercialização (compra de bovinos de pessoa física feita pelo Frigorífico Quatro Marcos Ltda) na ordem de R$ 865.199,79 (oitocentos e sessenta e cinco mil, cento e dezenove reais e setenta e nove centavos), neste mês foram abatidos 2.172 cabeças (compras exclusivamente de pessoa física), o que corresponde ao abate diário de 91 cabeças de bovinos. Neste período (08/96 a 04/99), o número de empregados do setor de matança é semelhante ao número de empregados dos meses 05/99 a 05/00, os quais foram constatados durante as ações fiscais. Além disso, na competência 07/99, maior mês de abate de bovinos verificado pela fiscalização (19.669 animais abatidos), o número de empregados do setor matança é praticamente igual ao número de empregados do mês 05/97, menor mês de abate de bovinos constatado pela fiscalização (419 animais abatidos) (doc. 12.e.). Fl. 665DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 14 25 5) No período de 04/96 a 02/98, há participação de uma empresa considerada e constatada pela fiscalização como de fachada (ou fantasma) Amazonas Ind. Com. Imp. e Exportação Ltda, constituída pelo Frigorífico Quatro Marcos Ltda. A firma Amazonas alega que se utiliza os serviços do próprio Frigorífico Quatro Marcos Ltda no abate de animais. Mas a realidade é outra, sabendo muito bem disfarçar o verdadeiro objetivo para o qual foi constituída, objetivo este que é o de ludibriar à Fazenda Pública, recolhendo apenas parte dos valores devidos para que o conta corrente do mesmo, ao ser analisado, não denunciasse qualquer procedimento de fiscalização, no entanto, o verdadeiro volume de comercialização era outro. Ao analisarse os números de animais abatidos pela firma Amazonas (doc. 12.f), no período de 04/96 a 02/98 (período de sua existência), constatouse que o maior volume de abate de animais ocorreu no mês 12/97, onde 6.201 (Seis mil duzentos e um) animais foram abatidos, o que dá uma média de 258 animais abatidos por dia; no mesmo mês, o número de abate do Frigorífico Quatro Marcos Ltda foi de 1.331 (512 pessoa física e 819 pessoa jurídica), o que dá uma média diária de 55 animais. Portanto, no mês 12/97 no total foram abatidos 7.532 animais, dentro das instalações do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, o que corresponde a uma média diária de abate de 314 animais. 5.1) Ao se trabalhar com estes dados em relação aos abates de animais feitos dentro das instalações do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, onde este já chegou a abater no mês 07/99 a quantia de 19.669 animais, percebese claramente que do potencial de abate existente, apenas parte dele foi utilizado, ficando grande parte dos equipamentos em ociosidade, o que acreditase não ter ocorrido, e, portanto, conferindo maior segurança quanto ao levantamento do crédito fiscal com base nas informações do órgão oficial que controla o trânsito de animais que são encaminhados ao abate para o Frigorífico Quatro Marcos Ltda, no caso, o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso INDEA/MT (doc. 12.h). 6) Outra empresa que foi criada após a paralisação ou sumiço da Amazonas foi a Flamingo Alimentos Ltda, cujo início de atividade é 03/98, coincidência ou não, foi constituída com os mesmos prérequisitos da Amazonas e teve sua paralisação em torno do mês 05/99. O modus operandi da Flamingo foi idêntico ao utilizado pela Amazonas, ou seja, compra de bovinos em seu nome e o abate feito sob a forma de prestação de serviço pelo Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Forma esta que desde o início, quando detectados pela fiscalização do INSS em ações fiscais realizadas no ano de 1996, não foi aceita e veementemente repudiada naquela ocasião. No período em que a Flamingo esteve em atividade 03/98 a 06/99 (doc. 12.g), ela afirma que o maior número de abate de animais ocorreu no mês 02/99, onde foram abatidos 9.304 (nove mil trezentos e quatro), média diária de 388 animais; no mesmo mês, o Frigorífico Quatro Marcos Ltda afirma que só abateu, decorrente de sua compra, 2.361 (dois mil trezentos e sessenta e um) animais, média diária de 98. Portanto, no mês 02/99 foram abatidos 11.665 animais, com uma média diária de 486 bovinos abatidos. Diante disso, aparentemente o Frigorífico Quatro Marcos Ltda estava com boa parte dos seus equipamentos e mãodeobra (setor matança) em ociosidade e com isso causando prejuízo para o mesmo, consideração lógica se analisarmos a capacidade dos equipamentos na demonstração da movimentação ocorrida a partir do mês 05/99. O contribuinte apresentou impugnação inicial (fls. 104/106), ainda sob a égide da Secretaria da Receita Previdenciária, aduzindo, em síntese: 1) Foi indevida a descaracterização da personalidade jurídica das empresas, pois manteve com elas relações temporárias estritamente comerciais. Fl. 666DF CARF MF 26 2) Solicitou às empresas citadas providências necessárias junto a esse Órgão; 3) Todos os documentos contábeis e fiscais foram apreendidos e remetidos para o MPF e MPE em Cuiabá, em atendimento aos Mandados de Busca e Apreensão emitido pelo Juízo da 2a Vara da Justiça Federal do Mato grosso, nos autos dos processos 1999.36.00.0043865 (15/06/1999 MT) e 1999.36.00.00051937 (13/06/1999SP); 4) Os documentos foram disponibilizados de forma totalmente desorganizada e misturados entre si, praticamente impossibilitando sua conferência e reorganização. Porém foi detectada a falta de vários documentos, que ficaram sob a guarda do MPF/MPE, os quais segundo informações preliminares estariam extraviados. 5) Postulou pela suspensão da exigibilidade da exação; reabertura do prazo de defesa, depois de decorridos 90 dias da efetiva devolução dos documentos apreendidos; e, produção de prova pericial. Processado o feito, sobreveio o julgamento pela procedência do lançamento, consubstanciado na DecisãoNotificação nº 10.104.4/0193/2001, de fls. 256/260. Contudo, sobreveio a sentença n° 801/2002, exarada pelo julgamento da ação de Mandado de Segurança nº 2002.36.00.0020087, cujo objeto era a nulidade dos processos administrativos fiscais, em razão de cerceamento de defesa. Referido ato judicial assim determinou: Ante o exposto, CONCEDO A SEGURANÇA, declarando a nulidade dos processos administrativos fiscais... 35.166.2650, 35.166.2677, 35.166.2618, 35.166.2596, 35.166.2626, 35.011.3734, 35.166.2553, 35.166.2642, 35.011.3742, 35.166.2669, 35.011.3777, 35.011.3769, 35.011.3750, 35.166.2570, 35.166.2685, 35.166.2634, 35.166.2588, 35.166.2600 ... Caso os documentos já tenham sido devolvidos, o Impetrado poderá reiniciar de pronto os processos administrativos fiscais ora anulados, caso não, deverá aguardar tal devolução. Para evitar futuras nulidades, a data da devolução deve ser comprovada nos processos administrativos pela juntada da certidão emitida pela 2a. Vara de Justiça Federal, a qual estão afetos os processos de busca e apreensão que originaram a presente lide. Interposto recurso de apelação pelo INSS, ao mesmo foi negado provimento. Os autos, que se encontravam inscritos em Dívida Ativa da União, então, retornaram à fase administrativa em 11/01/2007, para que o processo administrativo fosse reiniciado, tendo em vista a ausência de condições para o exercício do contraditório e da ampla defesa, atendendo a determinação judicial, a fim de que seja concedido o prazo legal de defesa/impugnação ao devedor. A Seção de Contencioso Administrativo em Cuiabá/MT, encaminhou os autos referenciados no Mandado de Segurança 2002.36.00.0020087 à Seção de Contencioso Administrativo, em Osasco, tendo em vista a mudança do estabelecimento centralizador do sujeito passivo para o CNPJ 01.311.661/000605, localizado à Rua Pureza Marques de Oliveira, 83, Jandira/SP; A Delegacia da Receita Previdenciária DRP, em Osasco reabriu o prazo para apresentação de defesa. O contribuinte apresentou impugnação em 15/05/2007, onde informa que “os documentos administrativos, contábeis e fiscais, apreendidos, ainda não foram devolvidos”. Fl. 667DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 15 27 Requer, ainda, que a impugnação seja admitida com efeito suspensivo “e, na sequência, a anulação das intimações questionadas e a devolução do prazo integral previsto em lei para a futura defesa de mérito, uma vez decorridos os 90 dias da efetiva entrega pelo MPF/DPF de todos os documentos de sua propriedade, prazo este imprescindível para a conferência, tentativa de reorganização e de análise dos mesmos, objetivando o oferecimento da Impugnação cabível.” Conforme Despacho, emitido pela 10a Turma de Julgamento DRJSPOII, em 07/01/2008, os autos retomaram à DRF jurisdicionante “para providenciar o cumprimento da ordem judicial e demais providencias.” Em 28/07/2011, os autos retornaram a DRJ Campinas. A então competente 7a. Turma de Julgamento exarou a Resolução de fls. 358/363, devolvendo os autos à DRF de origem e determinando que: Visto que, por força de sentença judicial, o lançamento fiscal está em fase de ciência ao contribuinte e, este procedimento só poderá ocorrer quando todos os documentos apreendidos forem devolvidos à empresa autuada; a DRF, em Osasco, por dever de ofício, deverá promover a devolução desses documentos à empresa, quer seja solicitando diligência fiscal ao Juízo 3a Vara da Seção Judiciária do Estado de Mato Grosso, quer seja acionando a Procuradoria da Fazenda Nacional PGFN. Após a ciência do lançamento ao contribuinte, na forma da sentença prolatada pelo Juízo da 3a Vara da Seção Judiciária do Estado de Mato Grosso nos autos do Mandado de Segurança 2002.36.00.0020087, os autos deverão retornar à DRJ em Campinas somente quando estiver comprovado nos autos que os documentos foram totalmente devolvidos e findo o novo prazo concedido à empresa para a impugnação, reitero, após ela estar com a posse dos documentos apreendidos. Ainda, atendidas as solicitações do parágrafo anterior, deverão ser cientificadas as empresas componentes do referido grupo econômico, sendolhes concedido prazo regular para impugnar este lançamento. (grifos no original) Aos autos foram juntados os elementos de fls. 401/413, consubstanciados em cópias dos elementos constantes dos autos dos processos judiciais nº 99.51937, ação cautelar preparatória de busca e apreensão em trâmite pela 2a Vara Federal da Seção Judiciária da Justiça Federal do Mato Grosso, e, 1999.36.00.0051937, ação penal em curso perante a 5a. Vara Federal da mesma Seção Judiciária. Ao contribuinte e devedor solidário foi dada nova ciência quanto ao lançamento, agora sob a égide da Receita Federal do Brasil, concedendolhe prazo de 30 dias para apresentação de impugnação administrativa, na forma do Decreto nº 70.235/72. Somente o autuado compareceu aos autos pelo instrumento de fls. 473/480, aduzindo, em síntese: Da Prescrição Intercorrente no Âmbito Administrativo A prescrição pode ser conceituada como “a perda do direito da Fazenda Pública de ajuizar ação de cobrança, mais propriamente execução fiscal, relativamente a crédito não pago, pelo decurso do tempo". Fl. 668DF CARF MF 28 No caso em tela, verificase que os créditos ora impugnados são originários do Auto de Infração n° 35.166.2677, datado de 02/10/2000, cujos fatos geradores referemse aos períodos de 06/99 a 12/99. Ocorre que estes créditos foram objetos de Ação Mandamental n° 2002.36.00.0020087, a qual pleiteava a nulidade de procedimentos administrativos fiscais, em razão de cerceamento de defesa. Menciona que em 15/10/2002 foi proferida sentença nos autos do Mandado de Segurança, sendo concedida a segurança, declarando a nulidade dos processos administrativos fiscais. A decisão foi questionada, por meio de recurso de apelação, o qual teve seu provimento negado. Salienta que em 13/09/2006 ocorreu o trânsito em julgado da decisão, oportunidade esta em que o INSS deveria aguardar a devolução integral dos documentos apreendidos e posteriormente, iniciar o processo administrativo, notificando o contribuinte do lançamento e oportunizando o contraditório e a ampla defesa. Ocorre que somente no corrente ano, por meio do Edital 18/2015, foi reiniciado o procedimento, administrativo, conforme determinou sentença proferida nos autos da Ação Mandamental n° 2002:36.00.0020087, com trânsito em julgado em 13/09/2006. Desta forma vislumbrase a existência da prescrição do crédito ora impugnado, uma vez que o fisco autuante deixou transcorrer o lapso temporal superior a cinco anos, contados da data do trânsito em julgado da Ação Mandamental, ou seja, 13/09/2006, até a expedição do Edital n° 108/2015, o qual determina a reabertura de prazo de 30 (trinta) dias para impugnação ou pagamento do Auto de Infração. Logo, caracterizado o desinteresse do autuante pela demanda. Conforme acima descrito, resta comprovado que o processo permaneceu pelo prazo superior a cinco anos aguardando diligência do fisco para ser reiniciar toda a fase administrativa, porquanto, consumada está a prescrição. Do Mérito Da Suposta Formação de Grupo Econômico e da Ilegitimidade Passiva Primeiramente, cumpre esclarecer que no caso em tela a fiscalização autuou a impugnante por fato supostamente cometido pela empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda. Alegando suposta solidariedade ante a formação de grupo econômico o fisco pretendeu ver a impugnante responsável pela quitação dos débitos. No entanto, nos autos não possuem provas robustas capazes de comprovar a formação deste suposto grupo, logo, os atos praticados pela empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, não podem ser imputados à empresa Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Ademais, o instituto da solidariedade prescinde da concorrência de dois ou mais devedores ou dois ou mais credores na mesma obrigação. No caso em tela, a impugnante não detinha a mesma obrigação vinculada a empresa que supostamente cometeu o ilícito motivo pelo qual não pode ser considerada responsável solidária pelo débito. Assim ante a ilegitimidade passiva da impugnante deve o Auto de Infração ser anulado. Da Ausência de Vínculo Empregatício Fl. 669DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 16 29 Consta, ainda do Auto de infração, que a empresa supostamente deixou de inscrever no Regime Geral da Previdência o nome do senhor Pedro Olinto Ribeiro, no entanto, estes argumentos não possuem qualquer fundamento, eis que a empresa impugnante sempre cumpriu com todas as suas obrigações, principalmente no que concerne aos Registros de seus empregados no Regime Geral de Previdência Social. Frisase que até o presente momento o Fisco não foi capaz de comprovar, qualquer vínculo envolvendo a pessoa de Pedro Olindo Ribeiro com empresa Frigorifico Quatro Marcos ou mesmo com a Frigolider, quer seja a prestação do serviço, a continuidade da prestação, a subordinação, a onerosidade da relação ou, ainda o caráter pessoal da suposta prestação de serviço, conforme prescreve o art. 3o da CLT. Em suma o fisco, não foi capaz de comprovar a existência de qualquer vínculo empregatício entre o senhor Pedro Olindo Ribeiro e o Frigorífico Quatro Marcos nem com a Frigolider. Diante do exposto não resta argumentos para a manutenção do Auto de Infração. Quanto à Aplicação da Multa Exigida A multa aplicada mediante o indigitado Auto de Infração não pode prosperar. Nossos tribunais têm reconhecido a impossibilidade de cobrança de multas que se apresentem desproporcionais em relação ao valor do tributo. A título ilustrativo, transcreve julgado rechaçando a cobrança de multa acima de 60% (sessenta por cento), por ser confiscatória e desproporcional. Sendo assim, não pode subsistir a cobrança da multa em aplicada na autuação, por esta possuir caráter confiscatório. Mas ainda que se assim não se entenda, o percentual da multa deve ser reduzido para, no máximo, 2%. A jurisprudência de nossos tribunais não mais vem admitindo a imposição de multas em percentual exorbitante. Temse fixado que a multa a ser paga pelo contribuinte/responsável tributário não deverá ser superior a 2% (dois por cento). Nesse sentido, transcreve decisão proferida pelo MM. Juiz da 2a Vara Cível da Comarca de Ijuí, nos autos dos Embargos à Execução no 62.935/2000. Portanto, a seguir a corrente jurisprudencial, cujo entendimento se encontra consolidado na decisão anteriormente transcrita, não deve prevalecer o percentual de multa imposto à ora impugnante, sendo imperiosa a sua redução a, no máximo, 2%. Em suma, por todos os caminhos e a todos os títulos fica patenteada a improcedência da autuação, impondo se, por conseguinte, seu cancelamento. O Acórdão 1459.191 (fls. 496) julgou a impugnação improcedente, recebendo a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/10/2000 a 30/10/2000 LANÇAMENTO. INSTRUÇÃO PROBATÓRIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Fl. 670DF CARF MF 30 Confirmado nos autos que ao contribuinte foram concedidas várias oportunidades para recuperação de documentos apreendidos pela Justiça Federal, de forma a produzir, em tempo hábil, a instrução de seu instrumento de impugnação, não há que se falar em nulidade por cerceamento do direito de defesa. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROVA DOCUMENTAL. OPORTUNIDADE DA SUA PRODUÇÃO. PRECLUSÃO. Caracteriza a preclusão temporal o decurso do prazo previsto em ato normativo para que o contribuinte junte aos autos os documentos que entender cabíveis, não havendo que se falar, fora das hipóteses previstas no Decreto no 70.235/72, na concessão de nova oportunidade para o cumprimento tardio de seu ônus probatório. A preclusão é confirmada pela verificação, a partir de elementos dos autos, de que o contribuinte teve oportunidade de resgatar os documentos apreendidos, deixandoos serem destruídos pela Justiça Federal. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. MOROSIDADE NA SUA INSTAURAÇÃO. FATO ALHEIO À ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. IRRELEVÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não configura hipótese de nulidade a morosidade na instauração de novo processo administrativo fiscal quando esta demora seja decorrente de atos e fatos externos, alheios à responsabilidade da Administração Pública Fazendária. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. INAPLICABILIDADE. É inaplicável ao processo administrativo fiscal a prescrição intercorrente, uma vez que esta pressupõe uma pretensão exigível, somente verificável quando da constituição definitiva do crédito tributário, consumada pelo exaurimento do contencioso administrativo tributário. LANÇAMENTO. SUJEITO PASSIVO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. GRUPO ECONÔMICO DE FATO. INTERESSE COMUM QUANTO AOS FATOS GERADORES. PERTINÊNCIA DA LEGITIMAÇÃO. Configuramse hipóteses de responsabilidade solidária, de forma independente ou conjunta, a constatação da existência de grupo econômico de fato e a verificação de flagrante interesse comum entre um contribuinte e outro constituído como “de fachada” em relação aos fatos geradores formalmente praticados por este último. ATIVIDADE EMPRESÁRIA. IRREGULARIDADES DE CONSTITUIÇÃO DE FATO. AUSÊNCIA DE AUTONOMIA FINANCEIRA, ADMINISTRATIVA E OPERACIONAL POR TERCEIROS. CONFIGURAÇÃO DA HIPÓTESE DE “EMPRESA DE FACHADA”. A atividade empresária pressupõe a autonomia administrativa, financeira e operacional da conjugação dos fatores da produção, não se admitindo a ingerência indevida de terceiros neste âmago de atuação. A verificação de que uma pessoa jurídica, embora sob o aspecto formal validamente Fl. 671DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 17 31 constituída, não subsiste como tal no plano dos fatos, servindo somente como roupagem formal à atuação de outra empresa, no interesse desta, configura a empresa interposta como “empresa de fachada”, atribuindo as responsabilidades desta à empresa efetiva, que a gerencia, controla, administra e financia. AUTO DE INFRAÇÃO. RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. CABIMENTO. Constitui prerrogativa da fiscalização o reconhecimento da qualidade de segurado empregado em face de pessoa física que atua como sócio laranja de empresas de fachada constituídas pelo efetivo contribuinte autuado. CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI FEDERAL. RECONHECIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Descabe às autoridades que atuam no contencioso administrativo proclamar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal em vigor, posto que tal mister incumbe tão somente aos órgãos do Poder Judiciário. MULTA DE OFÍCIO APLICADA AO AUTO DE INFRAÇÃO. MOMENTO DA AUTUAÇÃO. PENALIDADE PREVISTA EM REGULAMENTO. ILEGALIDADE. INOCORRÊNCIA. Em se tratando de descumprimento de obrigação acessória, a multa a ser aplicada é a vigente ao tempo da lavratura do Auto de Infração, ainda que a infração se refira a período anterior. Não há ilegalidade da previsão de multas e detalhamentos de obrigações acessórias por Regulamento, uma vez que o mesmo integra a “legislação tributária” e não visa prever comportamentos não constantes da lei em vigor ao tempo dos fatos Lei nº 8.212/91. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PERÍCIA. NÃO ATENDIMENTO DOS REQUISITOS. INDEFERIMENTO. É passível de indeferimento o requerimento de perícia que não atende ao disposto no artigo 16, inciso IV, do Decreto nº 70.235/72. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em 4 de dezembro de 2015, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls. 571 e seguintes), reiterando os argumentos trazidos na impugnação, isto é: (i) prescrição do crédito tributário; (ii) inexistência de prova de formação de grupo econômico; (iii) ausência de vínculo empregatício; e (v) inconstitucionalidade da multa aplicada. É o relatório. Fl. 672DF CARF MF 32 Voto Conselheiro Alexandre Evaristo Pinto O recurso voluntário é tempestivo, no entanto, o Recorrente argui a inconstitucionalidade da multa aplicada. Nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Diante do exposto, conheço em parte do recurso voluntário, não conhecendo da alegação de inconstitucionalidade supramencionada. Da Questão da Prescrição Intercorrente A Recorrente argumenta que teria ocorrido a prescrição no âmbito do processo administrativo fiscal, uma vez que decorreu o prazo de cinco anos entre a data do trânsito em julgado da ação de mandado de segurança no. 2002.36.00.0020087 (13/09/2006) e a data da intimação para apresentar novo instrumento de impugnação, após anulação do processo administrativo anterior pela referida ação mandamental. A prescrição consiste no decurso do tempo em relação ao exercício do direito de ação em face da pretensão titularizada pelo sujeito passivo. No âmbito tributário, a pretensão sobre a qual recai a prescrição consiste na execução do crédito tributário, promovendose a sua inscrição em Dívida Ativa da União. Nesse sentido, o contribuinte, em face de peculiaridades ocorridas em ações fiscais múltiplas às quais esteve sujeito, impetrou mandado de segurança, gerando o processo judicial nº 2002.36.00.0020087. Nesta ação, o contribuinte obteve provimento jurisdicional favorável, determinando a nulidade dos processos administrativos fiscais instaurados pelo então competente INSS, e, dentre tais, o processo administrativo anteriormente instaurado em face da exigência tributária contida nos presentes autos. Nesse sentido, eis as palavras da decisão: Ante o exposto, CONCEDO A SEGURANÇA, declarando a nulidade dos processos administrativos fiscais 35.166.2570, 35.166.2588, 35.166.2553, 35.166.2685, 35.166.2642, 35.166.2618, 35.166.2626, 35.166.2600, 35.166.2596, 35.166.2634, 35.166.2669, 35.166.2677, 35.166.2650, 35.011.3750, 35.011.3785, 35.011.3734, 35.011.3742, 35011.3793 35.011.3777 e 3576171 determinando ao Impetrado que reinicie esses processos, desta feita concedendo o prazo legal de defesa/impugnação APÓS a devolução integral dos documentos que foram apreendidos. Caso os documentos já tenham sido devolvidos, o Impetrado poderá reiniciar de pronto os processos administrativos fiscais ora anulados, caso não, deverá aguardar tal devolução. Para evitar futuras nulidades, a data da devolução deve ser comprovada nos processos administrativos pela juntada da certidão emitida pela 2° Vara da Justiça Federal, a qual estão afetos os processos de busca e apreensão que originaram a presente lide. É importante observar que a decisão não anulou o lançamento do crédito tributário em si mesmo, mas, somente, o processo administrativo instaurado a partir da ciência Fl. 673DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 18 33 do contribuinte quanto ao próprio lançamento, justamente pelo fato de que o contribuinte não dispunha, à época, dos elementos materiais necessários ao pleno exercício de sua ampla defesa e contraditório. Assim, a decisão não subordinou a instauração de novo processo administrativo em face do mesmo lançamento à observância de qualquer interregno temporal; ao contrário, condicionou a sua instauração à demonstração efetiva da devolução dos documentos ao contribuinte. De outro lado, a demora quanto à nova intimação para apresentação de novo instrumento de impugnação não deve ser oposta à Administração Tributária. Com efeito, ao longo dos anos, vários foram os expedientes enviados à Justiça Federal como forma de se saber se houve ou não a devolução integral ao contribuinte dos documentos apreendidos. A certeza quanto a esta devolução somente veio ao conhecimento da Administração Fazendária em 01/10/2014, conforme elementos fls 1.937, de forma que somente a partir de então o Fisco poderia dar andamento ao processo administrativo, como o fez. Por fim, de rigor reconhecerse que a prescrição intercorrente não tem cabimento no âmbito do processo administrativo por duas razões. A primeira de ordem legal, no sentido de que não há previsão normativa de qualquer espécie que permita a sua adoção. A segunda, de ordem lógica, pois, a prescrição pressupõe a definitividade do lançamento do crédito tributário e enquanto pendente a esfera administrativa, não há esta definitividade, de forma que não há que se falar sequer da possibilidade de ajuizamento da execução fiscal, daí advindo a impossibilidade de transcurso do prazo prescricional. Este entendimento tem seu fundamento no artigo 151, inciso III do Código Tributário Nacional – CTN que prevê a suspensão da exigibilidade (na verdade, inexistência preliminar dela) quando pendente recurso administrativo: Diante da ausência de exigibilidade do crédito tributário, uma vez que ainda não constituído definitivamente, não há que se falar em pretensão do Fisco, e, dessa forma, não se pode cogitar da prescrição, sequer sob a forma intercorrente. Vale citar ainda a Súmula CARF n. 11 que estabelece que a prescrição intercorrente não é aplicável no processo administrativo fiscal, conforme pode ser observado abaixo: Súmula CARF nº 11: Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. Ante o exposto, não carece razão à Recorrente no tocante à prescrição intercorrente. Da Questão do Grupo Econômico Ainda que a questão contida nestes autos de processo administrativo não se refira diretamente à existência do grupo econômico de fato, em relação ao qual o contribuinte notificado configura nítido administrador e gerenciador de todas as empresas de fachada, mas sim à condição de segurado empregado do Sr. Pedro Olinto Ribeiro, o contexto no qual restou apurada a condição deste depende da colação das circunstâncias que levaram a fiscalização a entender que o Sr. Pedro Olinto Ribeiro é, na verdade, empregado do Frigorífico Quatro Fl. 674DF CARF MF 34 Marcos Ltda. Assim, trago os argumentos já apresentados nos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, com as referências de páginas daqueles autos. Assim, a grande questão que se põe nos autos consiste em saber se os fatos narrados pela fiscalização encontram respaldo em elementos de prova nele constantes, de forma a caracterizar a situação de grupo econômico de fato entre o antigo Frigorífico Quatro Marcos, atual Quatro Marcos Ltda, e as empresas indicadas pela fiscalização, em torno do qual gravitam praticamente todas as lavraturas fiscais, enquanto um contexto de abuso da personalidade jurídica de empresas criadas com o fim específico de afastamento dos efeitos tributários em relação aos fatos geradores praticados por elas. A par das considerações feitas pela fiscalização em relação a cada documento de constituição de crédito fiscal (Notificações Fiscais de Lançamento de Débito – NFLD e Autos de Infração – AI) a fiscalização apresentou Relatório Geral onde traz, de uma forma geral, todos os fatos e fundamentos pertinentes à conclusão pelo reconhecimento de grupo econômico de fato entre o contribuinte Quatro Marcos Ltda e empresas por ele criadas, algumas com atividade comercial efetiva, mas sob administração exclusiva do próprio contribuinte; outras, com existência apenas no plano formal. Segundo a fiscalização, as empresas envolvidas nas operações do Grupo Quatro Marcos são estas: Tal qual exposto no Acórdão da DRJ, é importante notar que a Recorrente não traz qualquer elemento de convicção em seu favor. Ao contrário, limitouse a aduzir cerceamento ao seu direito de defesa, diante da impossibilidade de acesso aos documentos apreendidos. Ocorre, contudo, que o contexto dos autos permite uma conclusão mais abrangente. Ainda que a Justiça Federal tenha possibilitado ao contribuinte, desde 24/10/2000, ou seja, pouco tempo após a lavratura fiscal, datada de 02/10/2000, inúmeras oportunidades de acesso e retirada dos documentos apreendidos, verificase que o contribuinte, que seria o maior interessado naqueles elementos apreendidos, simplesmente remanesceu inerte diante do seu direito de retirada e permite, pela omissão, que os mesmos sejam destruídos pelo Poder Judiciário. No presente caso, cumpre ressaltar que a fiscalização traz longo e exaustivo arrazoado em relação a cada empresa verificada, vinculando as suas constatações a documentos nos autos. Fl. 675DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 19 35 Assim, a fiscalização aponta a ausência de autonomia financeira e administrativa das empresas de fachada. Com relação às empresas AMAZONAS E FLAMINGO, verificase que os autos estão recheados de elementos que permitem concluir pela absoluta ausência de autonomia financeira e administrativa das empresas integrantes do Grupo Quatro Marcos. Com efeito, conforme elementos de fls. 1.195/1.211 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 as autorizações para a emissão de cheques da Flamingo Alimentos, Amazonas e do Frigorífico Quatro Marcos Ltda são idênticas, pois todas essas empresas utilizam documentos de controle idênticos. Em tais casos, as autorizações foram assinados pelas mesmas pessoas, o Sr. Luis Olavo Sabino Santos, na qualidade de diretor, e pelo Sr. Vanderlei Roberto Stropp, na qualidade de gerente administrativo, ambos do Frigorífico Quatro Marcos. Às fls. 1.158/1.159 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 constam documentos comprobatórios de pagamentos de despesas da empresa Amazonas firmados pelos mesmos sujeitos vinculados ao Frigorífico Quatro Marcos (Sr. Luis Olavo Sabino Santos e Sr. Vanderlei Roberto Stropp). À fl. 1.161/1.162 consta autorização de pagamento emitida assinada pelos Srs. Luis Olavo Sabino Santos e Vanderlei Roberto Stropp quanto ao depósito relativo ao FGTS de dois segurados vinculados à empresa Flamingo Alimentos Ltda (R$ 104,00 – José Sagui e Jadir José de Oliveira – competência 04/1999). Às fls. 1.163/1.164 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta autorização de pagamento subscrita pelos mesmos Sr. Luis Olavo Sabino Santos e Sr. Vanderlei Roberto Stropp relativamente ao pagamento de salário do Sr. Jadir José de Oliveira, na função de auxiliar administrativo da empresa Flamingo Alimentos Ltda, na competência 04/1999. Ainda em relação aos Srs. Jadir José de Oliveira e José Sagui, às fls. 1.129/1.130 constam documentos que demonstram inequivocamente que os referidos segurados, que eram vinculados à empresa Flamingo, receberam do Frigorífico Quatro Marcos, cestas básicas em várias competências entre 1996 a 2000. O mesmo fato transparece em relação às despesas da empresa Flamingo Alimentos Ltda, autorizadas também pelo Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin e pelo Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos, inclusive os pagamentos das despesas de remuneração dos empregados, do prólabore dos sócios, dos fornecedores etc, conforme elementos juntados às fls. 1.166/1.193 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745. Neste mesmo plexo documental, consta que em 28/07/97, o Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin e o Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos, autorizaram o pagamento de despesa da empresa Amazonas. Assim, por estes fatos comprovados, resta induvidoso que as empresas tinham sua administração financeira nas mãos de pessoas físicas vinculadas ao Frigorífico Quatro Marcos. Ademais, conforme os elementos juntados às fls. 1.147/1.156 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, as testemunhas que aparecem nos contratos social e alterações e contrato de locação de imóveis firmados pelas empresas Flamingo Alimentos Ltda e Amazonas são empregados do Frigorífico Quatro Marcos. Efetivamente, são elas: Sr. Dalmo Macedo Chaves, Sr. Nilton Carvalho Júnior, Sr. Luis Olavo Sabino dos Santos e Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin. À fl. 1.143 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, consta instrumento público de outorga de mandato (procuração) Fl. 676DF CARF MF 36 constituindo o Sr. Nilton de Carvalho Junior como procurador da empresa Amazonas, não obstante o mesmo ser empregado do Frigorífico Quatro Marcos. O mesmo Sr. Nilton consta como testemunha em contrato social da empresa Flamingo (fls. 1.142/1.152 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). O mesmo aconteceu em relação ao Sr. Vagner Alberto Gouveia, empregado não registrado no Frigorífico Quatro Marcos, recebendo outorga de poderes para agir em nome da empresa Flamingo (fls. 1.144/1.145 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). À fl. 1.138 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta solicitação de desconto emitida em papel timbrado da Flamingo, constando manualmente o nome do Sr. Vanderlei, como vinculado à referida empresa, destinada ao Sr. Julio Borges e ao Sr. Douglas. Às fls. 1.132/1.133 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta relação de empresas fornecedoras de carne para a empresa Proquimio Produtos Químicos Opoterápicos Ltda. No anexo a esta informação enviada ao Ministério Público do Estado do Mato Grosso, consta o nome das empresas fornecedoras e os contatos a elas respectivos. As empresas Amazonas e Flamingo aparecem na relação, vinculadas ao nome do Sr. Nilton Carvalho Junior com telefone de contato (065) 251.1201. À fl. 1.136 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta a fatura relativa ao número indicado, e à fls. 1.135 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta lançamentos contábeis de despesas relativas a telefonia do Frigorífico Quatro Marcos, e, embora com relativo prejuízo de leitura, o décimo primeiro lançamento corresponde ao valor da fatura constante à fl. 1.136, ou seja, R$ 2.952,45. No tocante às empresas FRIALTO IND. E COM. DE ALIMENTOS LTDA E ALTA FLORESTA, verificase que a empresa Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda tem em seu quadro social, como um dos sócios, o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, que também é sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda (fls. 1.251/1.253 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). Às fls. 1.217/1.249 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 fica demonstrado que empresa firma Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda era a responsável pelo pagamento de várias despesas da empresa Alta Floresta, evidenciando que na realidade eram uma única empresa, administrada pelos sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Às fls. 1.214/1.215 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta documento denominado de “romaneio de abate”, datado de 30/11/98, onde há a simulação de compra de cabeças de gado do Sr. Newton Vieira Barbosa, na qualidade de pecuarista. Ocorre que no mesmo documento há manuscritos relativos a pagamentos feito, na realidade, ao Sr. Luis Olavo em 14/12/98, a título de adiantamento, no valor de R$ 47.946,40, e outro saldo de R$ 57.558,58 ao Sr. Chico, alcunha atribuída ao Sr. Sebastião Bueno Xavier, sendo que ao Sr. Newton, somente seria devido o valor de R$ 6.523,45, de um total de R$ 105.504,98. Ora, em primeiro lugar a data de “adiantamento” ao Sr. Luis Olavo encontrase dissociada da data do próprio documento, datado de 30/11/98. Além disso, não há explicação minimamente plausível que uma compra de cabeças de gado de uma pessoa, seja paga quase que 93,82 % a outras duas pessoas distintas (45,44 % ao Sr. Luis Olavo – sócio do Frigorífico Colider Ltda entre 03/08/1994 a 09/02/1998 e do Frigorífico Quatro Marcos Ltda entre 02/03/1993 a 23/08/1993 e 54,56 % ao Sr. Sebastião Bueno Xavier – sócio do Frigorífico Quatro Marcos desde 01/12/1985, sócio da empresa Quatro Marcos Adm. E Particip. Ltda desde 23/12/1992, sócio da empresa Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda entre 15/01/1997 a 02/08/1999, e sócio do Frigorífico Colider Ltda entre 10/02/1998 a 03/08/1999), Fl. 677DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 20 37 e, somente 6,18 % àquele que supostamente seria o vendedor das cabeças de gado (Sr. Newton Vieira Barbosa). Outrossim, em relação à mesma operação, a cópia de cheque constante da fl. 1.215 demonstra que o lançamento a ser feito na contabilidade seria em nome de Newton Vieira Barbosa, no valor de R$ 57.558,59, quando o favorecido pelo cheque nº 639093 contra o então existente Banco Bamerindus foi “Bras Factoring”, supostamente uma empresa de fomento mercantil. Com relação às empresas FRIGOLIDER IND. E COMÉRCIO DE ALIMENTOS LTDA E IND. FRIGORÍFICA NORTE COLIDENSE LTDA, notase que as relações das empresas de fachada se relacionam com o Frigorífico Colider Ltda, cuja razão social foi posteriormente alterada para OCA Comercial Ltda. Inicialmente, os documentos de fls. 1.404/1.413 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 demonstram que o sócio laranja, Sr. Edson Carlos Padilha, continuou recebendo remuneração (salário e cesta básica) da firma Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda FRICOL. A Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda FRICOL – é composta por sócios que fazem parte da mesma família (família “Birtche”), estando vinculados ao Frigorífico Quatro Marcos. Conforme elementos de fls. 1.377/1.385 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, o Sr. Carlos Roberto Dutra Bandeira, recebeu quantias da empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda FRICOL relativamente à compra de bovinos, muito embora os documentos demonstrem que as rezes, em realidade, eram adquiridas de outras pessoas físicas e jurídicas, citandose como exemplo: (i) em 27/09/99, o Sr. Carlos R.D. Bandeira recebeu R$ 22.566,03 da firma FRICOL, referente à compra de bovinos de propriedade da Agropecuária Vale Carapa Ltda.; (ii) em 27/09/99, ocorreu outro recebimento da mesma empresa, no valor de R$ 3.648,97, referente à compra de bovinos de propriedade do Sr. Roberto Calozari e outros; e (iii) em 06/01/00, novo pagamento ao Sr. Carlos R. D. Bandeira, no valor de R$ 5.000,00, relativamente à compra de cabeças de gado do Sr. Oscar Nunes da Silva. À fl. 1.385 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta pagamento no valor de R$ 4.715,98 feito pela empresa Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda a Cleonice Birtche Bandeira ME. Ao lado do pagamento consta um controle de fretes. À fl. 1.383, consta um "cartão" da empresa CÍRCULO QUATRO COMPRA E TRANSPORTE DE BOVINOS, encontrado dentre os documentos da empresa Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda. A fiscalização apurou que o Sr. Carlos Roberto Dutra Bandeira mora no mesmo endereço da Sra. Cleonice Birtche Bandeira. O Sr. Carlos Roberto Dutra Bandeira foi um comprador de bovinos na região de Colider e jamais dono de qualquer Frigorífico. Ademais, há diversos documentos nos autos demonstrando que a empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL, ao pagar os fornecedores de bovinos, deposita o dinheiro diretamente na conta do Sr. Luís Olavo Sabino Santos, diretor do Frigorífico Quatro Marcos, caracterizando mais uma simulação do Grupo Quatro Marcos, de forma que uma pessoa empresta o nome para aparecer na Nota Fiscal e a outra recebe o dinheiro (fls. 1.330/1356, 1.358/1.376 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). Fl. 678DF CARF MF 38 Nestes documentos tornase flagrante os desvios de recursos que, embora formalmente sejam devidos aos pecuaristas que alienam suas cabeças de gado (Sr. Hygino H. Pitelli Junior, Newton Vieira Barbosa, Lenicio Pacheco Ferrira, Carlos A. Rios da Cruz), na verdade, são destinados a pessoas físicas integrantes do Frigorífico Quatro Marcos Ltda (Sr. Sebastião Bueno Xavier). Os autos também demonstram a existência de vários pagamentos feitos pela empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL relativamente a despesas do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, pagamentos estes feitos diretamente na conta do Sr. Tupanangil Tricai Magalhães, então diretor da unidade de Jandira – SP (fls. 1.323/1.328 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745), evidenciando uma completa ingerência administrativa e uma forte vinculação financeira entre as unidades que faziam com que seus recursos circulassem entre si, sem atenção à independência contábil e financeira de cada uma, demonstrandose, evidentemente, que a FRICOL nada mais era do que uma extensão administrativa do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Cumpre notar ainda outro aspecto interessante, que consiste nos documentos juntados às fls. 1.320/1.321 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745. Efetivamente, a Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL, em 15/07/99, realizou o pagamento de despesas de locomoção à cidade de SINOP/MT para o Escritório Universal, relacionando todas as empresas do Grupo Quatro Marcos no Município de Colider/MT, inclusive pagando todas as despesas indistintamente. A fiscalização informa que em diligência fiscal realizada em 05/04/2000, juntamente com a fiscalização estadual, foram encontrados nas dependências da empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL vários Certificados de Registros e Licenciamentos de Veículos das Sras. Susete Jorge Xavier e Rosana Jorge Xavier e do Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier, sócios do Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Estes documentos foram juntados aos autos às fls. 1.309/1.318 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, comprovando a utilização das pessoas físicas de veículos cujas despesas eram custeadas pelo Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Mais um elemento que afasta a existência de autonomia gerencial da empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL é o fato de, em 09/09/99, o Sr. Luiz Olavo Sabino dos Santos, diretor do Frigorífico Quatro Marcos Ltda, determinar ao Sr. Creudevaldo Birtche, cuja alcunha atribuída é de “Tucunha”, um dos sócios da FRICOL, que efetuasse um depósito na conta corrente do Sr. Pedro Bernardo dos Santos, o mais rápido possível (fls. 1.304/1.307 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). Ora, se a empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL fosse efetivamente independente quanto ao seu gerenciamento operacional, não haveria como um terceiro, absolutamente estranho ao quadro social, e, ao contrário, expressamente vinculado ao Frigorífico Quatro Marcos Ltda, determinar que a primeira pagasse diferença de frete. É dizer, quem teria sido o contratante efetivo do frete: a empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL ou o Frigorífico Quatro Marcos Ltda? Pelo contexto dos autos, resta induvidoso que este último utilizouse da formal constituição da empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL para as operações inerentes ao seu objeto social, administrando e gerindo financeiramente a pessoa jurídica somente existente no plano formal. Ainda, há que se ter em mente que a empresa Indústria Frigorífica Norte Colidense Ltda – FRICOL é sucessora da empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda., isto resta demonstrado às fls. 1.266/1.274 e 1.283/1.302 dos autos do processo Fl. 679DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 21 39 administrativo nº 13896.001171/200745 onde a firma FRICOL realizou os pagamentos de despesas da empresa Frigolider. Os documentos de fls. 1.279/1.281 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 demonstram que no período de 16/09/99 a 30/09/99, os empregados do Grupo Quatro Marco dos Municípios de São Paulo e Alta Floresta prestaram serviço em Colider/MT, na empresa Fricol, demonstrando de maneira clara a existência de um grupo econômico de fato, pois os empregados de uma localidade são deslocados para prestar serviços em outra unidade frigorífica, no setor de desossa. Contudo, a firma Fricol somente suas atividades comerciais a partir de 04/99 e os documentos demonstram que os empregados foram admitidos no ano de 1998, ou seja, perante o Frigorífico Quatro Marcos Ltda. Outrossim, o documento de fl. 1.258 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, qual seja, página 169 do Razão Analítico da empresa Frigolider, demonstra que o Sr. Edson Carlos Padilha percebeu remuneração salarial na competência 12/1998. No mesmo documento ainda consta o pagamento de remuneração aos Srs. Cleonir Birtche (R$ 3.000,00), Creudevaldo Birtche (R$ 3.000,00) e Cláudio Birtche (R$ 1.200,00). Ocorre, contudo, que (a) o Sr. Cláudio Birtche foi sócio da empresa Frigolider somente até 02/12/1996; (b) o Sr. Cleonir Birtche, em 12/1998, era sócio das empresas Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda e Frigorífico Quatro Marcos Ltda; e, (c) o Sr. Creudevaldo Birtche, na competência seguinte ao pagamento, ou seja, em 01/1999, passou a integrar os quadros sociais da empresa Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda, e, em 10/02/1999, os quadros sociais da empresa Ind. Frigorífica Norte Colidense LTDA – FRICOL. E mais interessante ainda é o fato do documento de fl. 1.255 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 (página 005 do Razão Analítico da empresa Frigolider Ind. e Com. de Alimentos Ltda) registrar, nas competências 01 a 04/1999 vários pagamentos de retirada pro labore ao Sr. Sebastião Douglas S. Xavier. Ocorre que, como se vê do quadro abaixo, o Sr. Sebastião era sócio de várias outras “empresas” no período, mas não da empresa Frigolider: Diante do exposto, notase flagrante comunhão de participações das empresas, de forma a não se respeitar a distinção adequada entre vínculos de emprego e societário, havendo uma absoluta confusão quanto às responsabilidades pelos pagamentos. É dizer, qualquer empresa formalmente constituída realiza pagamentos a pessoas físicas, sem qualquer atenção se o favorecido é seu empregado, seu sócio, ou empregado ou sócio de outra empresa, de forma a provar que, na verdade, todas não passam de uma empresa só, formalmente separada por razões sociais e CNPJ tão somente no plano formal. Ademais, os elementos carreados aos autos (fls. 1.392/1.402 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745) demonstram que após a paralisação de fato da empresa Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, o Sr. Edson Carlos Padilha continuou Fl. 680DF CARF MF 40 recebendo remuneração, seja sob a forma de salário em pecúnia, seja sob a forma de salário indireto (cestas básicas) de outra empresa de fachada, qual seja, a Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda – Fricol, de forma a se reconhecer o mesmo na condição de segurado não inscrito no Regime Geral de Previdência Social RGPS, utilizando o “código” de "FRICOL U", tendo recebido, na competência 12/1999, a quantia de R$ 1.035,00, e, ainda, salário indireto consubstanciado em cestas básicas, conforme assinatura aposta em controles de retiradas feita pela empresa. Diante disso, resta evidente que empresas Frigorífico Colider Ltda (posteriormente alterada sua razão social para OCA Comercial Ltda), Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda e a Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda – Fricol, constituem nítido grupo econômico de fato, denominado Grupo Quatro Marcos, tendo se utilizado de empresas formalmente constituídas, mas sem existência real no mundo dos fatos. Os autos contam com vários outros elementos de prova que demonstram claramente a relação indistinta entre as empresas integrantes do Grupo Quatro Marcos, de forma a validar as conclusões fiscais, ou seja: 1) Às fls. 1.666/1.671 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, constam várias despesas de manutenção das empresas de fachada, administradas pelo Sr. Luis Nanni (controlador do Grupo Quatro Marcos). Pois: (i) o Sr. Nilton do Amaral, que sempre foi empregado do Grupo Quatro Marcos, em 05/99, apresenta ao Sr. Luiz Nanni Relação de Prestação de Contas, mês 05/99, das despesas que teriam sido efetuadas com as seguintes empresas: Flamingo: aluguel da sala 403, R$ 500,00 (05/05/99); pagamento de telefone, R$ 449,93 (10/05/99); Frigolider: pagamento de telefone, R$ 42,42 (10/05/99); Amazonas: aluguel da sala, R$ 301,59 (03/05/99); Sr. Douglas, sócio do FQM: pagamento de registro de arma, R$ 686,00 (14/05/99); Sra. Rosana Jorge Xavier: despesas de sedex, R$ 14,70 (14/05/99). Nesta mesma Relação de Prestação de Contas relaciona inclusive a provisão de pagamento dos salários da Sra. Sandra e Sra. Celiane, que são respectivamente empregadas da Flamingo e Frigolider, e também provisão do pagamento de energia elétrica das empresas Amazonas, Flamingo e Frigolider, e também da energia do Edifício Marselha, onde o Sr Sebastião Douglas Sorge Xavier reside. 2) A empresa Phoenix, através do controlador Sr. Luiz Nanni, enviou aos empregados do Grupo Quatro Marcos, o Sr. Varderlei (na época diretor financeiro do Frigorífico Quatro Marcos) e o Sr. Nilton do Amaral (na época empregado na função de Contador do Frigorífico Colider Ltda), instruções de procedimentos às firmas Amazonas e Frigolider, ambas empresas de fachada conforme documentos juntados às fls. 1.662/1.664 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745. Assim, considerando que o Sr. Nilton do Amaral era empregado do Frigorífico Colider Ltda, não se pode compreender o fato dele receber instruções do Sr. Luiz Nanni orientando na elaboração de Relatórios Financeiros e de Vendas da firma Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, com a qual o Sr. Nilton do Amaral não possuía qualquer vínculo empregatício. Em 24/02/97, o Sr. Luiz Nanni enviou carta ao Sr. Vanderlei e ao Sr. Nilton do Amaral contendo instruções de como proceder na elaboração de Boletim Financeiro. No rodapé do documento consta a observação de que foi enviado cópia ao Sr. Douglas DIREÇÃO SP (sócio do Frigorífico Quatro Marcos). Em 07/03/97, o Sr. Luiz Nanni enviou carta ao Sr. Vanderlei CHEFIA DE ESCRITÓRIO FQM contendo instruções de como proceder na elaboração de Boletim Financeiro, solicitando inclusive que a separação deve englobar as empresas FQM e AMAZONAS. No rodapé consta a informação de que foi enviada cópia ao Sr. DOUGLAS DIREÇÃO –SP. Fica claro que a empresa Frigolider recebe instruções de preenchimento de documentos da Phoenix de São Paulo. Fl. 681DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 22 41 3) Em carta datada de 01/04/97, a empresa Phoenix de Jandira/SP assim se manifesta: "DE: Luiz Nanni ADMINISTRAÇÃO SP" para "Srs. VANDERLEI GER.ADM.FINANCEIRA FQM/AM e NEWTON DEPTO CONTABILIDADE FRIGOLIDER", enviando instruções de como proceder no Relatório de Vendas. Em anexo a essa carta, o Sr. Luiz Nanni envia um modelo contendo as vendas do dia 29/03/97 da firma Amazonas. Neste documento, além de instruir a firma de fachada Frigolider, a Phoenix passa instruções para a Amazonas, representada pelo Sr. Vanderlei Roberto Stropp Martin, Diretor e Gerente Financeiro do Frigorífico Quatro Marcos. Novamente, no rodapé consta a informação de que foi enviada cópia para o Sr. Douglas (fls. 1.659/1.660 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 4) Às fls. 1.654/1.657 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta fac símile datado de 09/07/97, onde o Sr. Vanderlei envia ao Sr. Luiz Nanni uma minuta de contrato a ser firmado com o Carrefour e, em letra manuscrita, escreve um bilhete "A/C Sr. LUIZ NANNI FAVOR VERIFICAR SE DEVE SER ASSINADO ENTRE AMAZONAS X CARREFOUR" (constatação do Sr. Vanderlei pela assinatura). Em outro bilhete apenso, manuscrito e assinado pelo Sr. Luiz Nanni, a resposta: "VANDERLEI: ASSINAR 10/07 Douglas autorizou". Em suma, o Diretor e Gerente Financeiro do Frigorífico Quatro Marcos pergunta ao Controlador do Grupo Quatro Marcos se a Amazonas deve assinar o Contrato com CARREFOUR. 5) Às fls. 1.643/1.646 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta depoimento prestado à polícia do estado do Mato Grosso da ex telefonista da Frigolider e exsecretária da Flamingo, Sra. Adriana Guedes, afirmando que os sócios e diretores do Frigorífico Quatro Marcos, juntamente com a família Birtche (Sr. Creudevaldo Birtche) administravam efetivamente as empresas de fachada e confirmou também a relação com o Sr. Luiz Nanni. 6) A exsecretária da Frigolider, Sra. Celiane da Costa Bispo, afirma em Termo de Declaração prestada à polícia do estado do Mato Grosso (fls 1.650/1.651 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745) que o Sr. Nilton do Amaral administrava a Frigolider e a Flamingo. 7) O Sr. Napoleão Mendes Neto, empregado da Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, CNPJ 00.897.034/000120, afirmou em Termo de Declarações (fls. 1.624/1.636 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745) o envolvimento do Sr. Sebastião Xavier (" Chico "), Sr. Douglas e da família Birtche com as empresas do Grupo Quatro Marcos. 8) Em vários depoimentos constantes nos Termos de Declarações de fls. 1.626/1.632 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, prestados ao Ministério Público Estadual do Mato Grosso, os Srs.: Antonio Claudemir Zirondi, Jose Alves Barbosa, Ricardo Rezende e Maria Ester da Paz Silva confirmam de maneira lúcida a constatação e composição do Grupo Quatro Marcos. Também afirmam nos Termos de Declarações quem são os efetivos proprietários das empresas de fachada e evidenciam a presença de sócios laranjas. 9) Às fls. 1.623/1.624 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta ofício datado de 17/12/99 pela COOP Cooperativa de Consumo, CNPJ 57.508.426/000144, afirmando que o contato para compra de carnes do Grupo Quatro Marcos, do qual faria parte os seguintes frigoríficos: Frigorífico Quatro Marcos Fl. 682DF CARF MF 42 Ltda, Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda, Pontal do Araguaia Alim Ltda, Flamingo Alimentos Ltda, Frialto Ind. Com. De Alimentos Ltda, Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda e Frigorífico Vila Rica Ltda, era efetuado com o Sr. Tupanangil Tricai Magalhães (conhecido como "Tupã" ou "Tupã Magalhães"), que era Diretor da filial Frigorífico Quatro Marcos em Jandira/SP e Diretor da matriz do mesmo frigorífico, no telefone (011) 79293588. 10) Às fls. 1.616/1617 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 a empresa Carrefour atesta que o Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (sóciogerente do Frigorífico Quatro Marcos) era o contato para as compras de carne que realizou com as firmas Amazonas, Frigolider e Frigorífico Quatro Marcos, no telefone 011 79293588. Já as compras da Flamingo Alimentos e as algumas do Frigorífico Quatro Marcos eram realizadas com Sr. Tupã, no mesmo telefone. 11) Às fls. 1.609/1.614 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta correspondência datada de 09/03/2000, pela firma Espetinho Churra Bom Ltda atesta que o entreposto das empresas: Frigorífico Quatro Marcos, Frigolider Ind. Comércio de Alimentos Ltda, Frialto Ind. Com. Alimentos Ltda e Amazonas Com. Ind. Imp. Exp. Ltda era realizado no mesmo endereço (Rua Pureza Marques de Oliveira, 83 Distrito Industrial Pres. Wilson, Jandira/SP). Este endereço acima explicitado é o da filial do Frigorífico Quatro Marcos e o mesmo endereço onde funcionou uma filial da firma Flamingo Alimentos Ltda. 12) À fl. 1.607 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/2007 45 consta correspondência firmada em 29/02/2000 pela firma Olhos D'Agua Ind. e Comércio de Carnes Ltda atesta que as compras de carne dos Frigoríficos: Guaray Comércio Ind. Exp. E Imp. Ltda, Frigorífico Quatro Marcos Ltda, Flamingo Alimentos Ltda, Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda, Frigolider Industria Comércio de Alimentos Ltda, Frialto Ind. e Comércio de Alimentos Ltda, Fricol Industria Frigorífica Norte Colidense Ltda e Frigorífico Vila Rica Ltda eram efetuadas diretamente no frigorífico em seu escritório em São Paulo através do telefone 11 79293588 com as seguintes pessoas: Claudia, Jose Roberto, Douglas, Freitas, Dante e Tupã. 13) À fl. 1.605 consta carta datada de 27/05/98 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, onde o Sr. Luiz Nanni (controlador do Grupo Quatro Marcos) afirma para o Sr. Vanderlei Gerente Administrativo e financeiro GAF do FQM que lhe está enviando a alteração contratual da empresa Guaray novo endereço feita na JUCEMAT. Inclusive, neste mesmo documento (rodapé) consta o seguinte: com anexo original. A Guaray (CNPJ 74.075.268/000129) é empresa fantasma antecessora da Amazonas que também desapareceu misteriosamente após a fiscalização do INSS em 1996. No rodapé desta carta consta que foi enviada cópia para arquivo (Sr. Douglas). 14) O depoimento de fls. 1.590/1.591 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, prestado pela Sra. Adna Pereira da Silva, exsecretária do Sr. Paulo Pitaluga e exempregada da Flamingos Alimentos Ltda, afirmou que "... a empresa Flamingo aparentemente não desenvolvia nenhuma atividade comercial, pois não vendia nada e nem comprava, não recebia mercadoria e nem despachava”. No mesmo depoimento a Sra. Adna Pereira da Silva afirma que a empresa Flamingo era de propriedade do FQM e que o Sr. Luiz Nanni trabalhava junto com o Sr. Douglas e por vezes vinha ao escritório em Cuiabá. Também afirmou que o Sr. Paulo Pitaluga, Sr. Nilton do Amaral e o Sr. Luiz Nanni diziam claramente que o proprietário de todas as empresas era o Sr. Douglas juntamente com o seu pai conhecido por "Chico". Fl. 683DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 23 43 15) Depoimento de fls. 15.86/1.588 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745, prestado à Polícia Fazendária do Mato Grosso por Marco Antônio Tolentino de Barros, representando a imobiliária Âncora Locação de Imóveis Ltda, afirmando que a funcionária da Flamingo, Sra. Adriana, era quem fazia o pagamento do aluguel da Amazonas e da Frigolider e resolvia todas as questões. Ainda, quem procurou a imobiliária para alugar a sala da Amazonas foi o Sr. Paulo Putaluga, não tendo conhecido os sócios da Frigolider. 16) Informação dirigida para o Sr. Nilton do Amaral informando sobre o envolvimento de várias empresas em projetos de incentivos fiscais (Frigorífico Colider e Frigorífico Quatro Marcos) (fls. 1.553/1.557 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 17) Demonstrativo manuscrito de fls. 1.510/1.511 com carimbo da empresa Flamingo Alimentos Ltda, demonstrando valores devidos a título de energia da empresa Amazonas. Ainda, consta a apuração da então vigente, CPMF devida, no percentual de 0,20 % sobre o valor da conta. Ora, a CPMF era devida por quem realizada uma movimentação financeira, neste conceito incluído o pagamento de uma conta. Assim, na medida em que a Flamingo apura a CPMF devida sobre uma conta, e adicionalhe o resultado, reconhece ser o sujeito responsável pelo pagamento da conta de outra empresa. 18) Vários pagamentos de despesas com uso da aeronave PTVKW, e despesas de estada, decorrentes de viagens realizadas pelo Sr. Douglas (sócio do Frigorífico Quatro Marcos Ltda), pagas pela empresa Fricol (fls. 1.475/1.506 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 19) Pagamento de despesas de combustíveis em vôos realizados pela aeronave PTVKW, em viagens do Sr. Luís Olavo Sabino dos Santos (diretor geral do FQM) à cidade de Colider, pela firma Fricol (fls 1.468/1.473 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 20) Pagamento de despesas aéreas do Sr. Nilton do Amaral, contador do Grupo Quatro Marcos, pagas pela firma Fricol (fls. 1.465/1466 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 21) Pagamento, realizado em 04/10/99, pela Fricol (carimbo aposto na cópia do cheque) relativamente a despesas de fornecedor (Frigorífico Quatro Marcos Ltda) da empresa Frialto (fl. 1.453). O mesmo acontece em pagamento realizado em 19/10/99, relativamente a despesas de aquisição de bovinos de pecuaristas pessoas físicas (fl. 1.455/1.461 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 22) Depósito em dinheiro, realizado pela firma Fricol, diretamente na conta corrente da Ind. de Couros Insumos Colider Ltda, uma vez que esta fornece os couros (matéria prima) àquela, ambas constituindo empresas do mesmo grupo econômico (fl. 1.451 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). 23) O Sr. Milton Zana Corbalan, suposto sócio das empresas de fachada Frialto Ind. e Com. de Alimentos Ltda e do Frigorífico Vila Rica Ltda, integrantes do Grupo Quatro Marcos, foi empregado sempre no setor de construção civil em outras empresas do Grupo Quatro Marcos: período de 06/96 a 09/97 no Frigorífico Colider Ltda, onde a maior remuneração mensal recebida foi em 08/96 no valor de R$ 717,25; no período de 03/98 a 05/98 Fl. 684DF CARF MF 44 na Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda, onde a maior remuneração mensal recebida foi em 05/98 no valor de R$ 596,74. Na empresa Frigorífico Vila Rica Ltda, o empregado Sr. Willian (departamento pessoal do Frigorífico) não conhecia o seu Sr. Milton Zana Corbalan, apesar de constar vários recibos de retiradas pro labore em nome do suposto sócio (fls. 1.439/1.449 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). Em arremate, convém transcrever a manifestação da Fiscalização do Estado do Mato Grosso (fls. 1.531/1.546 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/2007 45) quanto ao contexto verificado: Em 25.05.99, em cumprimento ao estabelecido no Termo de Compromisso firmado com a Procuradoria da República e o Ministério Público Estadual, comparecemos à sala n° 403, do Edifício Conjunto Nacional, situada a Av. Isaac Póvoas, 1.177, no Centro de Cuiabá, endereço este que constava do SIC Sistema de Informações Cadastrais da Secretaria de Fazenda/SEFAZ, como sendo o da Matriz da firma FLAMINGO ALIMENTOS LTDA, Inscrição Estadual n° 13.178.9970. Nesse endereço fomos atendidas pelo Sr. NILTON DO AMARAL, que se apresentou como prestador autônomo de serviços de assessoria e auditoria. No local encontramos documentos que se referiam a diversas outras empresas, além da FLAMINGO ALIMENTOS, quais sejam: FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA, FRIGORÍFICO COLÍDER LTDA, PHOENIX ADM E PARTICIPAÇÕES LTDA, FRIALTO IND COM ALIMENTOS LTDA, IND COUROS E INSUMOS COLÍDER LTDA, IND FRIGORÍFICA NORTE COLIDENSE LTDA, FRIGOLÍDER IND COM DE ALIMENTOS LTDA, VILA RICA ALIMENTOS LTDA, FRIGORÍFICO VILA RICA LTDA, ALTA FLORESTA IND FRIGORÍFICA LTDA e AMAZONAS COM IND IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. Em um primeiro momento, não compreendemos a razão de tais documentos se encontrarem no interior do escritório da FLAMINGO ALIMENTOS vez que, no Cadastro da SEFAZ, elas pertenciam a pessoas distintas e, aparentemente, não possuíam qualquer relação entre si, a não ser o fato de possuírem o mesmo ramo de atividade. No entanto, encontramos documentos que provavam que os donos do FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA é que bancavam as despesas da FLAMINGO ALIMENTOS, da FRIGOLÍDER e da AMAZONAS, muito embora, seus nomes não constassem do Contrato Social de nenhuma delas. A partir da análise dessa documentação, pudemos constatar que a FLAMINGO ALIMENTOS era uma empresa fictícia ("fantasma"), de fachada, constituída em nome de terceiros para burlar a fiscalização. Descobrimos, também, que ela não era a primeira: outras firmas fantasmas a precederam e sumiram misteriosamente, bem como, a sua documentação. Todas do ramo de frigoríficos e, de alguma forma, relacionadas com o FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA. Apesar disso, o FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS alegou manter apenas uma relação contratual de prestação de serviços de abate com essas empresas. Mas, estranhamente, todas as firmas com quem ele havia mantido Fl. 685DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 24 45 Contrato de Prestação de Serviços de Abate sumiam, ninguém encontrava os donos, ninguém conseguia ver os documentos fiscais... ... omissis ... I – DO ESQUEMA DE FUNCIONAMENTO DO GRUPO: O esquema de sonegação do Grupo funciona da seguinte forma: O FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA constitui uma firma fantasma, que só existe no papel, em nome de terceiros. Regra geral, esses terceiros são funcionários de um dos Frigoríficos do Grupo que se prestam a isso , muito provavelmente, para não perder o emprego. Como, para a constituição de um frigorífico (ou de qualquer outra empresa), não é necessária a comprovação de propriedade de bens, da existência de Unidade Frigorífica, ou algo compatível com essa atividade, fica muito fácil criar empresas que só existem no papel e cujos sócios não têm condição econômicafinanceira para serem seus proprietários. De posse do Instrumento de Contrato da empresa fantasma e de uma providencial procuração com amplos poderes em favor de uma pessoa de confiança do Grupo, passada pelo suposto proprietário da firma, o FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS firma um também fictício Contrato de Prestação de Serviços de Abate. A partir de então, a maior parte do abate realizado nas dependências do FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS é tratado como mera prestação de serviço e a carne resultante desse abate passa a ser comercializada com os documentos fiscais da firma fantasma. Ocorre que a firma fantasma recolhe, aproximadamente, 10% do imposto que deve ao Estado, praticando altíssimos índices de sonegação e utilizando se de artifícios fraudulentos para a realização desse intento. Este é o caso da AMAZONAS COM IND IMP EXP LTDA. Quando a Fiscalização dá inicio aos seus trabalhos, a firma fantasma desaparece, seus sócios não são mais encontrados e todos os documentos fiscais são misteriosamente "roubados". Essas empresas fantasmas atuam por aproximadamente 02 anos. Após o seu desaparecimento, são imediatamente substituídas por outras e, assim, o esquema continua sem que o Estado nunca consiga se ressarcir dos tributos sonegados. ... omissis ... No entanto, os documentos apreendidos nos mostram que as despesas de manutenção da AMAZONAS COM IND IMP EXP LTDA (tais como despesas de aluguel, condomínio do 'prédio onde está situada a sala da firma, conta Fl. 686DF CARF MF 46 de telefone, ...) são pagas pelo mesmo "caixa" que paga as despesas pessoais do Sr. DOUGLAS e suas irmãs, ROSANA e SUSETE. O Sr. SEBASTIÃO DOUGLAS SORGE XAVIER, mais conhecido como DOUGLAS é sócio proprietário do FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS LTDA e suas irmãs (ROSANA e SUSETE), são sócias dele em outras empresas, também ligadas a esse FRIGORÍFICO. Esse esquema não funciona apenas com o FRIGORÍFICO QUATRO MARCOS, mas com todos os outros Frigoríficos do Grupo que existem em Mato Grosso (nos Município de São José dos Quatro Marcos, Colíder, Alta Floresta e Vila Rica): todos eles possuem uma firmafantasma paralela, para acobertar a saída da carne sem pagamento de imposto, como veremos mais adiante. Dessa forma, há manifesta ingerência administrativa e financeira do contribuinte, por intermédio das pessoas físicas que nele atuam, sobre as atividades das demais empresas. Assim, a questão que se demonstra impede que se reconheça a autonomia administrativa das pessoas jurídicas, porquanto suprimidas pela atuação de pessoa externa. Ora, como já afirmado, o fenômeno da personificação assume relevância no contexto moderno justamente por conferir personalidade e distinção de existência ao ente formado a partir da convergência de interesses entre pessoas que celebram contrato de sociedade. Assim, se estas pessoas decidem unirse para a exploração de uma atividade empresária, tornase implícito que somente elas, as pessoas que celebram contrato de sociedade, possam gerir, dentro de seus interesses, como se dará a atividade empresária. Dessa forma, a outorga ou mesmo a permissão tácita de que pessoa alheia aos quadros sociais, não revestida da condição de administrador, passe a interferir nos negócios e atividades da pessoa jurídica, demonstra que, à margem do aspecto formal do contrato social, há uma ingerência de fato que contraria em essência o princípio da personificação a partir da inexistência de autonomia administrativa da própria pessoa jurídica. É dizer, partindose da premissa de que as pessoas que a compõem se constituem em sujeitos que atuam em nome e por conta da pessoa jurídica, representandoa, admitirse que terceiro a ela estranho o faça, sem a devida formalização efetiva destes poderes, é afirmar que, em realidade, o quadro social da pessoa jurídica não demonstra a realidade dos interesses nela depositados por aqueles que o compõem, mas sim, de terceiros, que buscam na pessoa jurídica apenas um acobertamento formal da sua efetiva responsabilidade patrimonial. Admitir que uma pessoa jurídica seja dirigida ou atue de acordo com os comandos de pessoas vinculadas a outra pessoa jurídica é suprimir por completo a autonomia administrativa da primeira, de forma a impedir que, no plano dos fatos, haja efetividade da personificação, disto decorrendo, como corolário, que a imputação da responsabilidade pelos atos praticados pela pessoa existente meramente no plano formal seja feita na pessoa que efetivamente praticam os atos. O mesmo se diga quanto à assunção, por parte de outra pessoa jurídica, da responsabilidade por diversos pagamentos de despesas realizadas pela pessoa jurídica constituída como empresa sob o plano meramente formal. Ora, revelase sobremaneira relevante que a pessoa jurídica tenha idoneidade e capacidade financeira para honrar as despesas por ela assumidas, pois isto revela justamente a autonomia financeira quanto ao exercício da atividade empresária de forma independente. É ilógico e absurdo admitirse que uma pessoa jurídica que se considere como tal no plano dos fatos, isto é, uma pessoa jurídica independente, tenha sua atuação financeira dependente de outra. Fl. 687DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 25 47 Quanto ao aspecto das atividades das empresas constituídas os fatos narrados pela fiscalização chamam a atenção pela sua estranheza. Explico. O exercício de uma atividade empresária pressupõe em sua essência a organização dos fatores da produção, de forma habitual e com intuito especulativo. Assim, lhe é inato que o objeto social seja por ela exercido em seu estabelecimento. A fiscalização informa que as empresas constituídas não tinham qualquer patrimônio capaz de permitir o exercício das suas atividades, fato este comprovado pelos inúmeros aportes financeiros de outras empresas nas despesas das empresas de fachada. Dessa maneira, na medida em que o empresário pessoa jurídica não dispõe dos mínimos atributos materiais capazes de desempenhar seu objeto social, fazendoo, ainda que em seu próprio nome, nas dependências físicas de outrem, sem qualquer relação comercial que legitime este comportamento, resta induvidoso que à empresa falta a autonomia produtiva, enquanto esta se verifique impossibilitada faticamente de concretizar seu objeto social. A ausência de um patrimônio e uma estrutura mínima à consecução do objeto social retira da empresa validamente constituída sob o ponto de vista formal a sua real essência, transformandoa em nada mais do que uma mera repartição administrativa de outra, da qual depende. A isto se soma os aspectos já abordados e devidamente provados pela fiscalização quanto à ingerência administrativa e financeira de terceiros na condução da empresa constituída com idêntico objeto. Os depoimentos colhidos extraautos pelas autoridades do Ministério Público e da polícia deixam claro que as empresas nada mais eram do que meras fachadas para a realização do efetivo objeto social do contribuinte, que, adotando várias empresas normalmente constituídas com idêntico objeto social ao constante de seu contrato social, simplesmente atuavam como pessoas interpostas na qualidade de unidades administrativas de um conglomerado empresarial muito maior, este sim, o real sujeito passivo quanto aos fatos geradores praticados pelas empresas constituídas. Os relatos da fiscalização no sentido do inexplicável desaparecimento das empresas após curto período de constituição, a inexistência de bens rastreáveis em nome delas, e, ainda, os vários eventos de desaparecimento de documentação e contabilidade tornam a questão muito mais evidente. Ora, não é crível que (i) empresas nitidamente vinculadas a outra simplesmente desapareçam em circunstâncias tão parecidas, e (ii) que sempre haja a perda da documentação contábil e fiscal a ela pertinente. O encerramento de atividade de uma empresa pode acontecer, sem sombra de dúvida, pelos mais variados motivos, até porque o insucesso de uma atividade econômica constitui o próprio risco do negócio; mas aceitar como normal que em vários casos, ligados a um mesmo grupo de empresas, este fato se torne corriqueiro é absolutamente inadmissível. Por exemplo, no município de São José dos Quatro Martos – MT, a empresa efetiva era o Frigorífico Quatro Marcos Ltda – FQM – CNPJ 01.311.661/000109. Nesta localidade, foram constituídas duas empresas: Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda CNPJ 00.923.654/000197 (constituída formalmente em 01/11/95 mas sem atividade), tendo atuado efetivamente de 03/1996 a 02/1998. Curiosamente, cessadas as atividades da Amazonas, começou a realizar as atividades do objeto social do Grupo Quatro Marcos a empresa Flamingo Alimentos Ltda – CNPJ 02.291.563/000292 que, embora criada formalmente em 01/11/1997, tem suas atividades materialmente realizadas de 03/1998 a 06/1999. Fl. 688DF CARF MF 48 No município de Jandira – SP o mesmo acontece. Nesta localidade existe a empresa efetiva Frigorífico Quatro Marcos Ltda Filial CNPJ 01.311.661/000605, constituída em 23/02/1999, com início de atividade em 05/1999, justamente a ocasião onde começou as atividades da empresa Flamingo Alimentos Ltda – Filial 2 – CNPJ 02.291.563/000454, apesar desta já estar constituída desde 23/12/1997. Interessante que no município de Alta Floresta – MT também ocorreu isto, ou seja, a empresa Frialto Ind. e Com. De Alimentos Ltda CNPJ 02.630.132/000122, embora constituída desde 06/1998, iniciou suas atividades em 10/1998 e as encerrou em 05/2000, justamente na oportunidade em que foi constituída a empresa Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda – Filial 1, constituída formalmente em 10/05/2000 e com início de suas atividades em 01/06/2000. No município de Colíder – MT, o Frigorífico Colider Ltda – CNPJ 00.135.198/000110, constituído formalmente em 01/08/1994, teve sua razão social alterada para O.C.A. Comercial Ltda em 25/08/1999, justamente a empresa que incorporou, por sua filial, no município de Alta Floresta, a empresa Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda. Ainda, a empresa Frigolider Ind.e Com. de Alimentos Ltda CNPJ 00.897.034/000120, constituída formalmente em 01/12/1995, encerrou suas atividades em 03/1999, justamente quando do início de atividade da empresa Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda, em 04/1999, tendo sido esta constituída formalmente em 10/02/1999. Assim, o Grupo Quatro Marcos se utilizou de várias outras pessoas jurídicas para a prática do objeto social, seja constituindoas sucessivamente ao encerramento das atividades das anteriores, seja utilizandose de ente formalmente já criado em momento anterior. Com relação aos sucessivos sinistros em relação à escrita contábil e fiscal e outros documentos, a fiscalização junta aos autos (fls. 1.513/1.527 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745) vários atos policiais que registram o relato dos sinistros. 1) 17/07/1996 –Boletim de Ocorrência 076/96 – Sinistro relatado: furto de documentos na Rua 15 de junho – São José dos Quatro Marcos – MT. Não consta descrição da res furtiva. 2) 10/05/1999 – Boletim de Ocorrência 095/99 – Sinistro relatado: furto em estabelecimento comercial Av. Mato Grosso, 999 – Centro. Empresa: Flamingo Alimentos Ltda. Objetos subtraídos: notas fiscais de 03/1998 a 08/05/99, livros fiscais. 3) 21/01/91 – Boletim de Ocorrência 020/91 –Sinistro relatado: capotamento de veículo e incêndio. Empresa: Frigorífico Quatro Marcos. Cumpre salientar, tal qual bem exposto no Acórdão da DRJ, o seguinte trecho: Em primeiro lugar, é sabido que a comunicação de um fato à autoridade policial não prova a efetiva ocorrência do mesmo, mas somente que alguém fez a comunicação à autoridade policial. Assim, em que pese a validade dos atos oficiais emanados da autoridade policial, os mesmos não têm qualquer cunho probatório quanto aos fatos nele narrados, até porque, a vingar entendimento contrário, terseia a produção de uma prova pela própria parte sem qualquer lastro em outros elementos. Fl. 689DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 26 49 Em segundo lugar, os fatos são curiosos. Efetivamente, indivíduos afeiçoados ao patrimônio alheio não se interessam, na esmagadora maioria dos casos, em subtrair livros contábeis e fiscais e talões de notas, pois, convenhamos, não há qualquer utilidade nestes documentos ao fim a que se destina a atividade criminosa. Há, sim, interesse por equipamentos que podem ser alienados ou trocados, em flagrante proveito da empreitada criminosa, mas não consta que estes tenham sido subtraídos. Em terceiro lugar, neste contexto “criminoso” em relação ao qual as empresas foram “vítimas”, é bastante interessante um relato feito pela fiscalização estadual do estado do Mato Grosso, o qual se reproduz (fls. 1.532/1.533 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/2007 45): Dentre a documentação apreendida no escritório da FLAMINGO em Cuiabá, havia um comprovante de pagamento de aluguel de uma sala no Edifício Master Center, em nome de uma firma chamada AMAZONAS COM IND IMP E EXP LTDA. Como suspeitávamos que a documentação da FLAMINGO ALIMENTOS iria desaparecer, resolvemos investigar esse endereço que seria da AMAZONAS, pois os documentos poderiam estar escondidos nesse local e então nos dirigimos para lá no dia 27/05/99, no período da manhã, tendo encontrado esse escritório fechado". Nesse mesmo dia, aproximadamente às 11:00 horas, atendemos uma ligação telefônica de uma pessoa que se identificou como Dr. HUMBERTO de tal, Advogado da FLAMINGO ALIMENTOS nos pediu um prazo para entregar os documentos fiscais da FLAMINGO , os quais já estavam vindo de São José dos Quatro Marcos. Concordamos em aguardar, mas, entre nós, resolvemos continuar com nossas diligências, pois não acreditamos no que havia dito o Advogado. Decidimos, então, voltar às 14:30 horas, na sala que era alugada para a firma AMAZONAS. Ao chegar ao local, minutos antes do combinado, a FTE WILCE flagrou o Sr. NILTON DO AMARAL saindo do prédio, acompanhado de uma pessoa que não foi identificada, carregando algumas caixas de documentos e colocandoas no portamalas de um veiculo que se encontrava no estacionamento ao lado. Imediatamente, a FTE WILCE abordou o Sr. NILTON sobre que documentos eram aqueles e o que ele pretendia levando os para o carro, ao que o Sr. NILTON e a pessoa que o acompanhava fugiram correndo, a pé, do local, abandonando o carro com chave e tudo, bem como, as caixas que carregavam. Contactamos, então a Promotora, Dra. Ana Cristina que acionou a Delegacia Especializada da Fazenda. Fl. 690DF CARF MF 50 As caixas continham documentos das firmas FRIGOLÍDER, alguns da FLAMINGO ALIMENTOS e grande quantidade de Notas Fiscais ,e os Livros da AMAZONAS. Os fatos narrados pela fiscalização do Estado do Mato Grosso são dignos de risos. Ora, se a fiscalização não chegasse a tempo, talvez fosse relatado à autoridade policial outro “furto de documentos”. Assim, percebese que o comportamento do contribuinte em relação às empresas que compõe o grupo econômico Quatro Marcos é flagrantemente de se subtrair a todos os efeitos tributários decorrentes das atividades empresárias, seja constituindo pessoas jurídicas que somente existem formalmente, seja sumindo com livros e documentos e depois alegando meros sinistros, como se fosse crível que criminosos tivessem interesses nestes elementos. O que se percebe nitidamente é que o proveito econômico auferido com o “empreendimento” das empresas de fachada é manifestamente proveitoso a quem dele se utiliza. Vale ressaltar que há outros fatos que merecem ser considerados. Às fls. 1.674/1.677 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta Laudo de Exame Documentoscópico no 437/98, emitido pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal. Neste laudo as autoridades policiais concluem ter ocorrido adulteração nos seguintes livros periciados: Livro Diário 23, Livro Diário 24, Livro Diário 25 e Livro Diário 26. Em cada um destes Livros a autoridade policial relata fatos que demonstram que os livros não conferem à realidade que a princípio se espera de um livro de tamanha importância como o Livro Diário de uma empresa. Assim, os autos demonstram: (i) os supostos sinistros em documentação fiscal e contábil de empresas do Grupo Quatro Marcos; (ii) o desaparecimento misterioso das empresas, sem que se tenha bens à garantia de seus deveres; (iii) o flagrante, pela fiscalização estadual, de tentativa de subtração velada de documentação; (iv) a adulteração de Livros Diários; e, (iv) o farto conjunto de provas que demonstram a inexistência de autonomia administrativa, operacional e financeira das empresas de fachada. Estes aspectos já constituem elementos suficientes a formar a convicção no sentido de que o contribuinte efetivamente adotou um grupo de empresas de fachada como forma de se subtrair aos efeitos da lei, objetivando lograr benefício próprio mediante a adoção de expedientes destinados a impedir que as Administrações Fazendárias (federal e estadual) pudessem efetivamente apurar sua regularidade tributária. Por fim, a partir da análise da composição societária das empresas que integram o grupo, é possível observar que há nítida confusão societária entre as pessoas físicas sócias das empresas, principalmente, no que tange às pessoas integrantes da família Birtche (Cláudio, Claudenir, Cleonir, Clodiomar, Creudevaldo e Manoel), de forma que cada qual deles aparece como sócio de mais de uma empresa no período considerado, no todo ou em parte. É interessante observar o plexo de vínculos societários mantidos pelo Sr. Sebastião Douglas Sorge Xavier (comumente chamado de Sr. Douglas), figurando como sócio do contribuinte autuado e de outras três empresas vinculadas ao grupo no mesmo período entre 1992 a 1999 (Alta Floresta Ind. Frigorífica Ltda, Vila Rica Alimentos Ltda e Frigorífico Colider Ltda – OCA Comercial Ltda). Diante de todo o exposto, fica clara a existência de grupo econômico, sendo que nos termos do artigo 124, II, do Código Tributário Nacional, a solidariedade tributária pode decorrer de lei, tal qual acontece na regra de solidariedade das empresas que integram o mesmo grupo econômico prevista no artigo 30, IX, da Lei n. 8.212/91. Da Questão da Ausência de Vínculo Empregatício Fl. 691DF CARF MF Processo nº 13896.001144/200772 Acórdão n.º 2301005.435 S2C3T1 Fl. 27 51 A Recorrente alega que as autoridades fiscais não foram capazes de comprovar qualquer vínculo envolvendo Pedro Olindo Ribeiro com o Frigorífico Quatro Marcos ou mesmo com a Frigolider, isto é, a prestação serviço, a continuidade da prestação, a subordinação, a onerosidade da relação ou, ainda o caráter pessoa da suposta prestação de serviço, conforme prescreve o art. 3º da CLT. Ocorre que, tal qual exposto no Acórdão da DRJ, os documentos constantes dos autos demonstram que o mesmo recebia cestas básicas da empresa Frigolider Ind. e Com. De Alimentos Ltda nos anos de 1997 a 1999 (fls. 131/151, 154/160 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745). Assim, na condição de sócio da empresa Amazonas Com. Ind. Imp. E Exportação Ltda, desde o período de 01/11/1995, não é razoável que ele receba cestas básicas, tipo de contrapartida geralmente fornecida a empregados com salários mais baixos. Ademais, ainda, à fl. 152 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta pagamento de adiantamento na competência 08/1998 ao Sr. Pedro Olinto Ribeiro, que possuía cartão de nº 0006, no valor de R$ 376,00 pela empresa Frigorífico Colider Ltda. O mesmo consta à fl. 153. Os elementos de fls. 1.100/1.104 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 (Livro de Registro de Empregado e recibos de pagamento) demonstram a vinculação do Sr. Pedro Olinto Ribeiro à empresa Frigorífico Colider Ltda no período de 11/1996 em diante. À fl. 1.105/1.108 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta recebimento de complemento salarial (12/1999), salário (12/1999) e 13o salário (1999) pelo Sr. Pedro Olinto Ribeiro da empresa FRICOL – Ind. Frigorífica Norte Colidense Ltda. Outro aspecto relevante, ainda no que diz respeito à suposta participação societária do Sr. Pedro Olinto Ribeiro, está no depoimento dado pela sua esposa, Sra. Rosa Pianezzer Ribeiro, ao Ministério Público do Estado do Mato Grosso (fls. 1.097/1.098 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745): seu marido nunca teve frigorífico, ao menos nunca foilhe dito por ele: aliás declara que mora em uma casa de madeira muito simples, sendo que os únicos bens que tem e sua casa de madeira, que foi construída sobre um terreno que lhe fora doado por sua irmã que foi para o Japão trabalhar por dois anos, isto há 08 anos atrás; que não possui nenhum automóvel, mas tão somente três bicicletas; que seu marido nunca lhe falou que trabalhasse para algum frigorífico, muito menos para a Frigolider ou Fricol; que neste ato reconheceu a assinatura de seu marido no documento "COMPLEMENTO ADIANTAMENTO SALARIAL DEZEMBRO DE 1999", à frente do código "FRICOL L"; que não tinha conhecimento que seu marido recebia salários do frigorífico Fricol; que seu marido nunca levou sacolão para casa; que não tem conhecimento onde seu marido arruma dinheiro para comprar gado; (...) que nunca tomou conhecimento que seu marido tivesse sociedade com qualquer pessoa; que nunca ouviu falar o nome destas pessoas; que seu marido nunca comenta nada de sua vida particular u profissional dentro de casa; que a única coisa que de fala que compra ou vende gado; que a declarante nunca viu nenhuma vaca que ele tenha comprado; Fl. 692DF CARF MF 52 À fl. 130 dos autos do processo administrativo nº 13896.001171/200745 consta relação de empregados da empresa Frigolider Ind. e Com. de Alimentos Ltda. Na posição 32 consta o Sr. Pedro Olinto Ribeiro, na função de motorista no período de 01/11/1996 e 01/07/97, período no qual o mesmo consta como sócio da empresa Amazonas Com. Ind. E Exportação Ltda (desde 01/11/1995). Assim, resta claro que o Sr. Pedro Olinto Ribeiro, embora conste formalmente como sócio, nada mais foi do que um empregado do contribuinte servindo de sócio laranja à constituição da empresa Amazonas Com. Ind. Imp. e Exportação Ltda. Isto porque: a) não tinha patrimônio minimamente suficiente para tal investimento; e, b) era vinculado à empresa Amazonas apenas formalmente, recebendo salários, em pecúnia e utilidades de outras empresas. Ante o exposto neste Voto, concluise que a Sr. Pedro Olinto Ribeiro sempre esteve na condição de segurado empregado do contribuinte autuado, tendo agido, sob a roupagem formal de sócio de outras pessoas jurídicas existentes somente no plano formal, sempre à disposição do Frigorífico Quatro Marcos, submetendose a ordens e comandos deste, percebendo dele e de empresas a ele ligadas remuneração direta e indireta, motivo pelo qual há que se ter como reconhecida, em efetivo, a condição de segurado empregado. Conclusão Com base no exposto, voto por conhecer em parte do Recurso Voluntário, não conhecendo da alegação de inconstitucionalidade, e na parte conhecida, negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Relator Fl. 693DF CARF MF
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