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Numero do processo: 10480.723383/2010-76
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jan 19 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Apr 11 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. IMPOSSIBILIDADE.
A subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/99, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material. Exclusivamente no caso em que a investida adquire a investidora original (ou adquire diretamente a investidora de fato) é que haverá o atendimento a esses aspectos, tendo em vista a ausência de normatização própria que amplie os aspectos pessoal e material a outras pessoas jurídicas ou que preveja a possibilidade de intermediação ou de interposição por meio de outras pessoas jurídicas.
Não há previsão legal, no contexto dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e dos artigos 385 e 386 do RIR/99, para transferência de ágio por meio de interposta pessoa jurídica da pessoa jurídica que pagou o ágio para a pessoa jurídica que o amortizar, que foi o caso dos autos, sendo indevida a amortização do ágio pela recorrida.
MULTA ISOLADA POR FALTA DE ESTIMATIVAS. RETORNO À TURMA A QUO PARA APRECIAÇÃO DE QUESTÕES CUJO EXAME RESTOU PREJUDICADO NAQUELA INSTÂNCIA.
Tendo sido restabelecidas as autuações fiscais, deverá haver julgamento quanto à multa isolada por falta de pagamento das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, fazendo-se necessário o retorno à Turma a quo para o julgamento dos pontos específicos suscitados em relação a esta matéria, que não foram apreciados por ocasião do julgamento do recurso voluntário da contribuinte em razão do posicionamento adotado anteriormente naquela instância.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA - CSLL - A decisão prolatada no lançamento matriz estende-se ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula.
Numero da decisão: 9101-002.187
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Decisão dos membros do colegiado: levantada a questão da distribuição por conexão do processo 19647.010151/2007-83, a Turma decidiu tratar-se de decorrência, mantendo o despacho de redistribuição por voto de qualidade. vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, André Mendes Moura, Lívia De Carli Germano (Suplente Convocada), Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez, ficando prevento o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. 1) Quanto ao conhecimento, por maioria de votos, Recurso Especial da Fazenda Nacional conhecido, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez. A Conselheira Lívia De Carli Germano (Suplente Convocada) votou pelas conclusões. 2) Quanto ao mérito do Tema Ágio, por maioria de votos, Recurso Especial da Fazenda Nacional provido, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez, mantendo as conseqüências em relação aos ajustes no estoque de prejuízos fiscais. A Conselheira Lívia De Carli Germano (Suplente Convocada) votou pelas conclusões. 3) Quanto às multas por estimativa, por unanimidade de votos, determinar o retorno dos autos à Turma a quo para julgamento. O Conselheiro Luís Flávio Neto apresentará declaração de voto.
(documento assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
Rafael Vidal De Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO, CRISTIANE SILVA COSTA, ADRIANA GOMES REGO, LUÍS FLÁVIO NETO, ANDRE MENDES DE MOURA, LIVIA DE CARLI GERMANO, RAFAEL VIDAL DE ARAÚJO, RONALDO APELBAUM, MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ (Vice-Presidente), CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado COMPANHIA ENERGÉTICA DE PERNAMBUCO CELPE ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008 PROCESSOS COM RELAÇÃO DE DECORRÊNCIA. DISTRIBUIÇÃO CONJUNTA PARA O RELATOR DO PROCESSO PRINCIPAL. O fato de a compensação de prejuízos nos anos subseqüentes (2007/2008 processo nº 10480.723383/201076) depender do estoque de prejuízos que remanescer nos autos que tratam dos anos anteriores (2001/2006 processo nº 19647.010151/200783) não deixa dúvida de que há relação de decorrência entre os processos relativos a esse conjunto de períodos. Havendo relação de decorrência, é correta a distribuição conjunta dos processos para o conselheiro que havia recebido aquele que deve ser considerado como processo principal. SOBRESTAMENTO DE PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão regimental para sobrestamento ou suspensão de processo administrativo fiscal. Na dinâmica do PAF, que é regido pelo princípio da oficialidade, as incongruências de julgamento são evitadas na medida em que, num mesmo nível de instância, a decisão sobre a questão prejudicial é proferida e depois incorporada ao processo dependente. Havendo reversão da decisão administrativa "principal" nas fases seguintes, dada a relação de dependência processual, a nova decisão produzirá os devidos reflexos nos processos que dela são dependentes, como vinha ocorrendo nas fases anteriores. Os fundamentos da decisão no processo principal e que se refletem no processo dependente podem igualmente ser questionados nas etapas processuais seguintes, havendo ainda a possibilidade de revisão de ofício pela unidade que fará a execução do julgado, de modo a evitar contradições entre as decisões nos processos conexos, com relação de dependência. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 72 33 83 /2 01 0- 76 Fl. 1713DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.714 2 Anocalendário: 2007, 2008 TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. IMPOSSIBILIDADE. A subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/99, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material. Exclusivamente no caso em que a investida adquire a investidora original (ou adquire diretamente a investidora de fato) é que haverá o atendimento a esses aspectos, tendo em vista a ausência de normatização própria que amplie os aspectos pessoal e material a outras pessoas jurídicas ou que preveja a possibilidade de intermediação ou de interposição por meio de outras pessoas jurídicas. Não há previsão legal, no contexto dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e dos artigos 385 e 386 do RIR/99, para transferência de ágio por meio de interposta pessoa jurídica da pessoa jurídica que pagou o ágio para a pessoa jurídica que o amortizar, que foi o caso dos autos, sendo indevida a amortização do ágio pela recorrida. MULTA ISOLADA POR FALTA DE ESTIMATIVAS. RETORNO À TURMA A QUO PARA APRECIAÇÃO DE QUESTÕES CUJO EXAME RESTOU PREJUDICADO NAQUELA INSTÂNCIA. Tendo sido restabelecidas as autuações fiscais, deverá haver julgamento quanto à multa isolada por falta de pagamento das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, fazendose necessário o retorno à Turma a quo para o julgamento dos pontos específicos suscitados em relação a esta matéria, que não foram apreciados por ocasião do julgamento do recurso voluntário da contribuinte em razão do posicionamento adotado anteriormente naquela instância. TRIBUTAÇÃO REFLEXA CSLL A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Decisão dos membros do colegiado: levantada a questão da distribuição por conexão do processo 19647.010151/200783, a Turma decidiu tratarse de decorrência, mantendo o despacho de redistribuição por voto de qualidade. vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, André Mendes Moura, Lívia De Carli Germano (Suplente Convocada), Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez, ficando prevento o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. 1) Quanto ao conhecimento, por maioria de votos, Recurso Especial da Fazenda Nacional conhecido, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez. A Conselheira Lívia De Carli Germano (Suplente Convocada) votou pelas conclusões. 2) Quanto ao mérito do Tema Ágio, por maioria de votos, Recurso Especial da Fazenda Nacional provido, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez, mantendo as conseqüências em relação aos ajustes no estoque de prejuízos fiscais. A Conselheira Lívia De Carli Germano (Suplente Convocada) votou pelas conclusões. 3) Quanto às multas por estimativa, por Fl. 1714DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.715 3 unanimidade de votos, determinar o retorno dos autos à Turma a quo para julgamento. O Conselheiro Luís Flávio Neto apresentará declaração de voto. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal De Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO, CRISTIANE SILVA COSTA, ADRIANA GOMES REGO, LUÍS FLÁVIO NETO, ANDRE MENDES DE MOURA, LIVIA DE CARLI GERMANO, RAFAEL VIDAL DE ARAÚJO, RONALDO APELBAUM, MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ (VicePresidente), CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) em 20/11/2012, fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), alegando divergência jurisprudencial em relação: (I) à aplicação de decisão proferida em processo conexo, não transitada em julgado, e (II) à despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários. A recorrente insurgiuse contra o Acórdão nº 1301000.999, de 07/08/2012, por meio do qual a 1a Turma Ordinária da 3a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF, por maioria de votos, deu provimento a recurso voluntário apresentado pela contribuinte acima identificada. O acórdão recorrido foi assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007 e 2008 DECADÊNCIA Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 e 2008 INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO – ARTIGOS 7º E 8º DA LEI Nº 9.532/97. INOCORRÊNCIA DE SIMULAÇÃO, ABUSO DE DIREITO OU ABUSO DE FORMA No contexto do programa de privatização, a efetivação da reorganização de que tratam os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, mediante a utilização de empresa veículo, desde que Fl. 1715DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.716 4 dessa utilização não tenha resultado aparecimento de novo ágio, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. TRIBUTAÇÃO REFLEXA – CSLL A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. A PGFN afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, especificamente quanto (I) à aplicação de decisão proferida em processo conexo, não transitada em julgado, e (II) à despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários. Para o processamento de seu recurso, a PGFN desenvolve os argumentos descritos abaixo: DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL EXISTENTE 1) Da aplicação de decisão em processo conexo (parcialmente) não “transitada em julgado” consta do voto condutor do acórdão recorrido: Quanto à infração apontada pela fiscalização a título de compensação indevida de prejuízos e de bases negativas da CSLL, a mesma resultou dos ajustes procedidos nos saldos de prejuízos fiscais e bases negativas, nos autos do processo nº 19647.010151/200783. Uma vez que em sessão de 11 de abril de 2012, a 1ª Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção de Julgamento deste CARF, pelo Acórdão 120100.689, deu provimento ao recurso voluntário do contribuinte naquele processo, e restabeleceu os prejuízos e bases negativas de CSLL, não prevalece à acusação de compensação indevida. Por todo o exposto, AFASTO a preliminar de decadência suscitada, para no mérito, DAR provimento ao recurso.” ocorre que o processo mencionado na decisão guerreada como pressuposto para o reconhecimento do direito creditório do contribuinte, e, por conseqüência, como condição para o provimento de seu recurso ainda se encontra em trâmite na seara administrativa; sobre a questão da análise de processo decorrente de outro feito administrativo, cuja análise seria prejudicial ao deslinde da questão ventilada no processo conexo, a e. Primeira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes determinou a anulação do acórdão e o sobrestamento do feito, até que seja proferida decisão administrativa definitiva no processo principal. Confirase a ementa do referido julgado, abaixo transcrita: Acórdão nº 30130.894 NORMAS PROCESSUAIS – ACÓRDÃO CONDICIONADO – NULIDADE – A atividade judicante não pode expressarse de forma condicionada a fato futuro e incerto, em especial de processo administrativo fiscal pendente de julgamento, sob pena de não solucionar a lide proposta ou promover Fl. 1716DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.717 5 solução que não pode ser açambarcada pela ocorrência futura. Na impossibilidade de ser prolatada decisão considerando a interdependência de processos ou decorrência, é cabível a suspensão do julgamento para aguardar a solução da lide principal. Embargos de Declaração Acolhidos e Providos para anular o Acórdão n.º 30130.894, de 01/12/2003, e suspender o julgamento até o trânsito em julgado do Processo Administrativo Fiscal nº 18336.000729/200220. EMBARGO ACOLHIDO E PROVIDO". diante do julgamento acima, há clara divergência jurisprudencial que, diante da mesma situação, qual seja, a aplicação de decisão proferida em processo vinculado, os órgãos julgadores decidiram de forma contrária; o acórdão recorrido se fundamentou em decisão proferida no processo de nº 19647.010151/200783, desconsiderando o fato de que a referida deliberação não é definitiva e que pode vir a ser reformada por força de recurso especial interposto pela União, enquanto que a e. Primeira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, acolheu a tese de que a decisão proferida num determinado processo somente poderia ser aplicada a outro a ele conexo após ter se tornado definitiva; ressaltese que a Primeira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes afirma que o trânsito em julgado da decisão proferida no processo seria condição, futura e incerta, para o julgamento da lide decorrente, razão pela qual configuraria um empecilho à atividade judicante no processo conexo; 2) Despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários conforme exposto no item 1, o acórdão recorrido vinculou o resultado do julgamento à sorte do que restou assentado nos autos nº 19647.010151/200783; assim, pedese vênia para fazer referência à divergência e aos fundamentos já perfilhados em recurso especial interposto naqueles autos (processo nº 19647.010151/2007 83); inicialmente, fazse necessário mencionar breve relato fático a fim de compreender a seqüência de operações societárias levadas a termo pelo autuado com a única e exclusiva finalidade de se furtar ao recolhimento de tributos; o ágio, cuja dedutibilidade ora se discute, decorre da aquisição da Companhia Energética de Pernambuco –CELPE, mediante processo licitatório de privatização, realizado em 17/02/2000; na oportunidade, os adquirentes da CELPE consistiam num consórcio de empresas, formado por ADL Energy S/A, PREVI – Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, BB – Banco de Investimentos S/A, resultando os mesmo com 89,60% do capital votante e 79,62% do capital total, tendo sido a aquisição efetuada com incorporação de expressivo ágio; nesse processo licitatório de privatização, ficou assegurada à empresa 521 Participações S.A., representante dos empregados da CELPE, a reserva da aquisição de parte Fl. 1717DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.718 6 das ações. Conjuntamente com as empresas acima mencionadas, a 521 – Participações S/A constituiu o Novo Grupo de Controle da CELPE, detentor de 94,94% do capital votante e 84,38% do seu capital total; como noticia a Fiscalização no Termo de Encerramento de Ação Fiscal, posteriormente, os adquirentes manifestaram o interesse de transferir o benefício fiscal de aproveitamento do referido ágio à empresa GUARANIANA S/A, sociedade da qual eram sócios e por meio da qual concentravam a participação societária em outras empresas concessionárias de energia elétrica (chamada pela Contribuinte Recorrente de holding operacional); interessante notar que a questão foi discutida em reunião do Conselho de Administração da empresa Guaraniana, em 27/12/2000, momento em que se registrou o interesse do Grupo adquirente em deduzir na própria CELPE a amortização do ágio pago na aquisição de suas ações, e que, para tanto, seria preciso que houvesse a incorporação das controladoras pela controlada, no caso a CELPE (incorporação às avessas). Isso porque, segundo justificativa do próprio contribuinte, “a estrutura societária do grupo não tornava viável economicamente o aproveitamento do ágio pela CELPE”, pois, para tanto, seria necessária a incorporação da Guaraniana S/A. Acrescenta que a empresa Guaraniana S/A também possuía investimento em outras companhias de energia elétrica, motivo pelo qual a sua incorporação pela impugnante também não seria “viável” nem “razoável”do ponto de vista econômico; a Fiscalização registra que, como não havia intenção de extinguir as empresas controladoras, o Conselho de Administração aprovou, por unanimidade, a adoção da seguinte estratégia: i) transferência à empresa Guaraniana das ações adquiridas, com ágio, da CELPE, mediante a integralização de aumento de capital na mesma; ii) transferência dessas mesmas ações para outra empresa – a Leicester, cujo patrimônio passa a ser formado apenas por essas ações; iii) incorporação da Leicester pela CELPE, possibilitando então o aproveitamento do ágio por esta empresa, reduzindose a carga fiscal (IRPJ e CSLL) em exercícios futuros; assim, em cumprimento ao que restou decidido, aprovouse aumento de capital na Guaraniana, mediante a emissão de ações ordinárias subscritas pelas empresas controladoras e integralizadas, à vista, com as ações de emissão da CELPE, que foram adquiridas com ágio; ato contínuo, a Guaraniana adquire 99,99% do capital da Leicester e subscreve o capital desta mediante integralização das ações de emissão da CELPE, de sua propriedade; em 30/06/2001, portanto, as ações de emissão da CELPE de titularidade da Guaraniana são transferidas para a Leicester, cujo patrimônio fica integrado apenas por essas ações. O valor do ágio transferido na integralização de aumento de capital foi amparado por laudo de avaliação de ações fornecido pela ACAL Consultoria e Auditoria S/C; no mês seguinte, em 31/07/2001, Assembléia Geral da Leicester aprovou os seguintes atos: i) protocolo de sua incorporação pela CELPE, firmado em 09/07/2001; ii) justificação da operação e iii) aprovação da incorporação com base nas condições constantes do protocolo; Fl. 1718DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.719 7 por fim, a CELPE incorpora a Leicester, sua controladora. Realizada a incorporação da Leicester, as ações de sua emissão que eram detidas pela sua controladora e única acionista, a Guaraniana, são substituídas por igual quantidade de ações de emissão de sua incorporadora (a CELPE) a serem recebidas pela Guaraniana; relata a fiscalização que, “em decorrência, o capital da CELPE foi aumentado e posteriormente reduzido em valores idênticos de R$ 1.019.601.299,47; com a emissão de 63.604.631.279 novas ações de titularidade da Guaraniana e cancelamento de 63.604.631.279 ações que integravam o patrimônio da sociedade incorporada (a Leicester)"; ademais, “essa operação de incorporação resultou, na CELPE, a constituição de um ativo diferido amortizável no valor de R$ 1.494.454.217,98, equivalente ao valor do ágio pago na aquisição de suas ações, em contrapartida de um passivo (ou conta redutora do ativo) titulado como Provisão para Manutenção da Integridade do Patrimônio Líquido (no valor de R$ 999.311.198,14) e de um patrimônio líquido, na conta de reserva especial de ágio (correspondente a diferença entre o ágio e a provisão constituída, igual a R$ 495.143.019,84)"; quanto à empresa Leicester, é preciso ressaltar ainda que durante toda a sua existência no mundo jurídico, sempre apresentou declarações ao Fisco como sendo inativa; neste sentido, o fato de a Leicester ter como patrimônio apenas as ações da CELPE, transferidas sem qualquer contrapartida; o fato de a Leicester terse mantido inativa durante toda sua existência; o fato de seu capital social ser de apenas R$ 100,00; o fato da utilização de uma “empresa veículo", bem como o fato de as operações societárias terem sido realizadas de maneira estruturada e em curto espaço de tempo, dentre outros indícios, demonstram não ter havido qualquer affectio societatis nas operações realizadas; em outras palavras, não houve qualquer justificativa fáticonegocial determinante das operações societárias que culminaram com a incorporação da LEICESTER pela CELPE; dessa forma, não se verifica propósito outro que não fosse obstaculizar o recolhimento de tributos, mediante a amortização do ágio pago quando do leilão de privatização da CELPE, ágio este, ressaltese, cujo pagamento, de forma alguma, se pode atribuir à Leicester; contudo, outro foi o entendimento do acórdão objurgado (processo nº 19647.01051/200783, Acórdão nº 120100.689); cumpre assentar que em casos análogos ao presente, as extintas Primeira e Terceira Câmaras do Primeiro Conselho de Contribuintes externaram conclusão jurídica diversa, em acórdãos cujas ementas seguem abaixo transcritas: Acórdão nº 10323.290 [...] INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE “EMPRESA VEÍCULO". Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a Fl. 1719DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.720 8 incorporação de pessoa jurídica, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária, especialmente quando a incorporada teve o seu capital integralizado com o investimento originário de aquisição de participação societária da incorporadora (ágio) e, ato contínuo, o evento da incorporação ocorreu no dia seguinte. Nestes casos, resta caracterizada a utilização da incorporada como mera “empresa veículo” para transferência do ágio à incorporadora. [...] Acórdão nº 10100.120 [...] Ementa: IRPJ — AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO — INCORPORAÇÃO DE EMPRESA — Operações estruturadas, realizadas em curto espaço de tempo, com abuso de forma e de direito, visando à constituição de ágio para posterior aproveitamento corno despesa dedutível quando da incorporação de empresa veiculo, subsumese a hipótese de simulação, não devendo, portanto, produzir o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo, qual seja, a sua dedução para efeitos fiscais. [...] a lide cingese à (im)possibilidade de dedução do ágio pago no cálculo do lucro real. Nos casos confrontados, tratavase de discutir a legalidade/legitimidade de operação societária mediante a qual, o ágio amortizado por determinada empresa nasceu mediante operação entre sociedades do mesmo grupo econômico, com utilização de empresa“veículo", sem importar em dispêndio de recursos, e resultando na projeção da sua própria rentabilidade. Ou seja, nas hipóteses vertentes, o valor amortizado por determinada empresa decorreu da rentabilidade dela própria, operação essa possibilitada por empresa “veículo", que não apresentou qualquer atividade operacional e extinta após curto intervalo de tempo; enquanto o acórdão recorrido (processo nº 19647.01051/200783 – acórdão nº 120100.689) não vislumbrou qualquer irregularidade nessas operações societárias, os paradigmas como procedente a glosa da amortização do ágio pago pela incorporada, na aquisição do investimento efetuado na incorporadora, quando provado que a incorporada não se constitui numa sociedade empresária, na medida em que não exerce qualquer atividade operacional, e que tem o seu patrimônio formado quase que exclusivamente pelo investimento na incorporadora e pelo ágio. Entenderam configurada a utilização e interposição de pessoa jurídica, nas operações de alienação de investimentos, para fins exclusivos de permitir a fruição do benefício fiscal da dedutibilidade da amortização do ágio pago pela incorporadora; registrese apenas a título de esclarecimento, que todos os argumentos do voto condutor (processo nº 19647.01051/200783 – acórdão nº 120100.689) apontados quanto à matéria relativa à (im)possibilidade, no caso, da dedução do ágio, cedem diante das conclusões e argumentos externados nos paradigmas; inquestionável, portanto, a caracterização da divergência jurisprudencial; Fl. 1720DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.721 9 3) Falta de adição na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL de despesa de amortização de ágio – redução do prejuízo fiscal o acórdão recorrido, quanto a essa matéria, subordinou inteiramente seu destino à sorte da (in)correção da dedutibilidade da despesa do ágio (item 2 acima), não indicando qualquer argumento autônomo para seu provimento; logo, cumpre da mesma forma, neste recurso especial, alinhavar quanto a esse item a mesma divergência e razões já apontadas para demonstrar a incorreção da dedutilidade do ágio no caso concreto; dessa forma, uma vez evidenciada a divergência jurisprudencial no que toca ao diploma legal a reger a aplicabilidade da multa no caso em testilha, passase a demonstrar doravante as razões pelas quais merece ser adotado o entendimento exarado nos paradigmas, reformandose, assim, o v. acórdão ora recorrido; DOS FUNDAMENTOS PARA REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO 1) Da aplicação de decisão em processo conexo (parcialmente) não “transitada em julgado” para que a Administração exonere o contribuinte dos gravames decorrentes do processo administrativo fiscal, ou reconheça o direito creditório com fulcro no que restou decidido em outro processo, é necessário que a decisão nele proferida tenha transitado em julgado. Antes disso, a exigência subsiste. É o que dispõe o art. 45 do Decreto 70.235/72, litteris: "Art. 45. No caso de decisão definitiva favorável ao sujeito passivo, cumpre à autoridade preparadora exonerálo, de ofício, dos gravames decorrentes do litígio”. enquanto a decisão não se tornar definitiva, não se deve proceder a qualquer exoneração ou mesmo o reconhecimento de créditos decorrentes da insubsistência da autuação em favor do contribuinte. A exigência persiste, até que a decisão que a tenha cancelado transite em julgado; o Decreto 70.235/72 define, em seu art. 42, quando as decisões administrativas se tornam definitivas; observese que a situação posta nos autos não se coaduna com nenhuma das hipóteses ali descritas, tendo em vista que a Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs recurso especial da decisão proferida no processo nº 19647.01051/200783 (acórdão nº 120100.689), recurso este que ainda se encontra pendente de julgamento; pois bem, somente após o julgamento da referida insurgência é que poderá a decisão referente se tornar imutável, apta a produzir seus efeitos de forma ampla, inclusive no que tange à sua aplicabilidade ao presente processo. Antes disso, o contribuinte possui apenas uma expectativa de direito; Fl. 1721DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.722 10 conforme muito bem explicitado pelo voto condutor do julgamento dos Embargos de Declaração no Acórdão 30130.894, a confirmação da decisão pela Câmara Superior de Recursos Fiscais no processo vinculado, por estar pendente de julgamento o recurso nele interposto, é evento futuro e incerto e, diante da impossibilidade de se efetivála na prática, não há como considerar existente o direito creditório em razão do entendimento veiculado no processo nº 19647.01051/200783 (acórdão nº 120100.689) sobre o desacerto da exigência tributária (essa por sua vez, consequência da glosa da despesa do ágio). Tal conclusão, como já salientado alhures, é equivocada, não podendo servir como parâmetro para decisão proferida nestes autos; na eventualidade de se ter reformada a decisão proferida no processo em trâmite na Câmara Superior de Recursos Fiscais, o mesmo não poderá acontecer no presente feito, tendo em vista a impossibilidade de reversão da decisão nele proferida, se não acolhido o presente recurso; a jurisprudência deste Conselho é pacífica no sentido de exigir que a decisão proferida em determinado processo tenha se tornado definitiva, para que possa ter repercussão em seus conexos (ementas transcritas); caso não acatado o pleito de anulação do acórdão recorrido e sobrestamento do presente feito até o "trânsito em julgado" da decisão a ser proferida (ou ainda a ser prolatada) nos autos nº 19647.01051/200783, e até mesmo em razão da conexão apenas parcial entre os feitos, passase aos fundamentos para a reforma do acórdão recorrido relacionados às demais matérias; 2) Despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários 2.a) Da indedutibilidade do ágio – generalidades o ágio computado pela CELPE em decorrência da incorporação da Leicester não é dedutível para fins de apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, seja pelos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (385 e 386 do RIR/99), seja por qualquer outra norma que autorize tal dedutibilidade; no que tange aos investimentos realizados em sociedade coligada ou controlada, de acordo com o artigo 385 do RIR/99, em função do método de avaliação com base na equivalência patrimonial, o correspondente preço do ágio ou deságio deverá ser registrado pela parte que o suporta em conta distinta daquela onde é escriturado o valor patrimonial do investimento (desdobramento do custo de aquisição); para existir, o ágio ou deságio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e, assim, um substrato econômico (transação comercial). Somente registros escriturais, por exemplo, não podem ensejar o nascimento dessa figura econômica e contábil; por propósito negocial, entendese a lógica econômica que levou ao surgimento do ágio ou deságio, ou seja, a razão negocial que ensejou a aquisição de um investimento por valor superior ou inferior àquele que custou originalmente ao alienante; o ágio ou deságio, dessa forma, deve sempre decorrer da efetiva aquisição de um investimento oriundo de um negócio comutativo, onde as partes contratantes, Fl. 1722DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.723 11 interdependentes entre si e ocupando posições opostas, tenham interesse em assumir direitos e deveres proporcionais; para que ocorra a efetiva aquisição de um investimento, com o correspondente surgimento do ágio ou deságio, é imprescindível a existência de substrato econômico à sua realização, ou seja, de transação econômica que materialize o valor de aquisição ao mesmo tempo pago pelo adquirente e recebido pelo alienante; a aquisição de um investimento, assim como de qualquer bem ou direito, deve sempre importar o dispêndio de um gasto (econômico ou patrimonial) pelo adquirente e o ganho (também econômico ou patrimonial) pelo alienante. Sem essa troca de riquezas e da titularidade do investimento, não há que se falar em aquisição, e, como conseqüência, no surgimento de ágio ou deságio; a Comissão de Valores Mobiliários – CVM emitiu o OfícioCircular/ CVM/SNC/SEP nº 01/2007. A CVM, ao esclarecer dúvidas sobre a aplicação das Normas Gerais de Contabilidade, chama atenção para os casos como o da presente lide, onde o ágio é criado artificialmente; onde, indevidamente, empresas de um mesmo grupo econômico geram ágio sem que haja o dispêndio de efetiva despesa (financeira ou patrimonial); ainda nesse sentido, registrase o item 50 da Orientação Técnica OCPC 02/2008 do Comitê de Pronunciamentos Contábeis: É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação. mostrase, assim, a necessidade de o ágio ou deságio suportado por uma empresa com a aquisição de uma participação societária ter como origem um propósito econômico real, assim como um efetivo substrato econômico. A presença concomitante desses dois requisitos é imprescindível ao reconhecimento da existência dessa figura econômica e contábil; a aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a sua real materialização no mundo econômico, não é hábil a gerar ágio ou deságio; definidos esses préconceitos, partese à lide em si; 2.b) “Ágio de si mesmo” o litígio envolve basicamente três acontecimentos. O primeiro concerne na aquisição da CELPE com ágio pelo Novo Grupo de Controle, mediante processo licitatório. Nesse ponto, não há divergência de que o Novo Grupo de Controle da CELPE efetivamente pagou ágio pela aquisição do investimento; o segundo acontecimento foi a subscrição, pelo Novo Grupo de Controle da CELPE, de ações da Guaraniana, com a entrega do investimento na CELPE; Fl. 1723DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.724 12 já o terceiro acontecimento, diz respeito à subscrição das ações da Leicester (99,99% do capital), pela Guaraniana, mediante integralização das ações de emissão da CELPE e sua avaliação pela rentabilidade futura; a fiscalização e o próprio contribuinte citaram durante o processo alguns documentos que atestam que a efetiva finalidade da segunda e da terceira operação era possibilitar a transferência, para a empresa operacional, do ágio pago pelo Novo Grupo de Controle na aquisição da CELPE, conforme ficou devidamente explicitado nos documentos e no Termo de Encerramento elaborado pela auditoria fiscal; ora, se a essência de todo o negócio jurídico em tela foi o de possibilitar a transferência do ágio pago pelo Novo Grupo de Controle para a CELPE, a segunda operação (a subscrição, pelo Novo Grupo de Controle da CELPE, de ações da Guaraniana, com a entrega do investimento na CELPE) e a terceira operação (subscrição das ações da Leicester, pela Guaraniana, mediante integralização das ações de emissão da CELPE) deveriam, em verdade, ser desconsideradas, pois representam mera formalidade. Não têm verdadeira substância econômica; e isso resta patente não apenas por todos os documentos existentes nos autos que demonstram a verdadeira causa negocial, como na própria utilização de "empresa veículo" (a Leicester, com existência efêmera, sem nenhuma atividade econômica – declarações de rendimentos não revelam nenhuma outra atividade a não ser a participação na CELPE, sem funcionários, com capital inicial de R$ 100,00 e que recebeu, em subscrição de capital, investimento com o impressionante valor de mais de dois bilhões de reais); todavia (e de forma contraditória), uma das alegações do contribuinte é o de que as referidas operações devem ser analisadas de forma independente. Ou seja, a segunda e a terceira operação não representariam uma seqüência da primeira, em que efetivamente houve dispêndio de recursos e efetivo pagamento de ágio, mas uma operação autônoma, que gerou um novo ágio; com efeito, considerar a segunda e a terceira operação como fatos distintos e autônomos em relação à primeira (aquisição da CELPE pelo Novo Grupo de Controle, com ágio), implica, portanto, em buscar o fundamento do ágio amortizado exclusivamente nessas últimas operações (subscrição de capital da Guaraniana pelo Novo Grupo de Controle e subscrição do capital da Leicester pela Guaraniana); na segunda operação, houve integralização do aumento de capital da Guaraniana com as ações de emissão da CELPE adquiridas com ágio pelo Novo Grupo de Controle, sem maiores justificativas; na terceira operação, o ágio amortizado decorreu da avaliação da CELPE para fins de subscrição de capital na Leicester, de acordo com os arts. 7º e 8º da Lei das S/A. O critério de avaliação utilizado foi o valor de rentabilidade futura da CELPE. Posteriormente, a Leicester foi incorporada pela própria CELPE, possibilitando a amortização; entretanto, nessa hipótese (analisandose exclusivamente a terceira operação), o ágio amortizado pela CELPE nasceu mediante operação entre sociedades do mesmo grupo econômico, com utilização de empresa veículo, não importou em dispêndio de recursos, e resultou da projeção da sua própria rentabilidade. Ou seja, o valor amortizado pela CELPE decorreu da rentabilidade da própria CELPE; Fl. 1724DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.725 13 ora, essa é exatamente a descrição do conhecido planejamento "ágio de si mesmo", que já foi devidamente proscrito pela jurisprudência do CARF; o Conselho vem decidindo que a despesa, quando tem por base a mais valia do patrimônio da própria sociedade que se beneficiará da amortização, aproveitada mediante operação com empresa veículo, na verdade está sendo "criada" sem uma base fática e, portanto, não pode ser amortizada, conforme o voto condutor do acórdão nº 130100.058; se a subscrição de capital pelo Novo Grupo de Controle na Guaraniana fosse mesmo um fato distinto e autônomo da aquisição das ações da CELPE, então o fundamento do ágio pago pelo Novo Grupo de Controle na aquisição da CELPE não seria o mesmo da subscrição de capital na Guaraniana e, posteriormente, na Leicester. E, se isso fosse procedente, o ágio amortizado pela CELPE teria origem num negócio jurídico entre empresas do mesmo grupo, com utilização de empresa veículo, em que não houve verdadeiro dispêndio de recursos, e seu fundamento seria a rentabilidade da própria CELPE. Tal descrição corresponde exatamente ao planejamento "ágio de si mesmo"; como explicar que uma pessoa jurídica passe a deduzir de seus próprios resultados a amortização de um ágio gerado na aquisição de suas próprias ações, notadamente se este tinha como fundamento uma rentabilidade futura destes mesmos resultados? Além de economicamente sem essência, a situação é rigorosamente ilógica; o argumento do contribuinte de que a subscrição de capital pelo Novo Grupo de Controle na Guaraniana, e desta na Leicester, seriam operações autônomas, independentes, da verdadeira aquisição da CELPE, com o pagamento de ágio, pelo Novo Grupo de Controle, não faz sentido. Tal argumento justifica, em verdade, a manutenção integral do lançamento; 2.c) O ágio cuja despesa de amortização foi deduzida pela CELPE não cumpre as condições e requisitos impostos pelo artigo 386 do RIR/99. ainda que se entendesse que o que houve na realidade foi a transferência do ágio do Novo Grupo de Controle para a CELPE, constatarseia que, nesse caso, não foram cumpridos os requisitos legais para a amortização da quantia; o Novo Grupo de Controle adquiriu as ações da CELPE com o pagamento de ágio. Entretanto, por razões particulares, não era possível às empresas integrantes do grupo incorporar ou serem incorporadas pela CELPE, para então possibilitar a amortização do ágio nos termos dos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97. Dessa forma, foi executada a operação societária já descrita, que possibilitou que o ágio fosse transferido para a CELPE sem a incorporação das empresas integrantes do Novo Grupo de Controle, e lá amortizado; o contribuinte apresenta razões que o impediram de realizar a operação nos moldes descritos nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97 (aquisição de um investimento com ágio e posterior incorporação), mas seu entendimento é que essa inadequação poderia ser contornada (mediante a subscrição em uma holding e posterior incorporação) porque o ágio foi efetivamente pago. Essa argumentação acabou, por fim, sendo acatada pela decisão guerreada (processo nº 19647.01051/200783 – Acórdão nº 120100.689); ocorre que, renovadas as vênias, nesse raciocínio há duas impropriedades. A primeira é entender que as operações intermediárias, que possibilitaram a transferência do ágio Fl. 1725DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.726 14 para a sociedade operacional, pudessem sanar a ausência dos requisitos formais para que o Novo Grupo de Controle e a CELPE pudessem amortizar o ágio mediante incorporação. A segunda impropriedade é confundir o disposto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97 com um "favor fiscal" concedido por lei, a ser fruído desde que o ágio fosse pago; i) Primeira impropriedade. O Novo Grupo de Controle não apresentou os requisitos para a amortização do ágio. no presente caso, em primeiro lugar, se está claro que o Novo Grupo de Controle pagou ágio pela aquisição da CELPE ao Estado de Pernambuco, não está claro qual a sua motivação, se valor de mercado de bens do ativo, fundo de comércio ou rentabilidade futura da CELPE. Isso porque não consta dos autos qualquer laudo de avaliação de tais ações; entretanto, o gozo do benefício aqui pretendido está condicionado ao cumprimento das normas de regência da matéria, que exige pelo menos a demonstração do fundamento econômico do ágio; ou seja, não se explicou qual o fundamento econômico para o pagamento de ágio pelo Novo Grupo de Controle; o contribuinte tentou contornar essa impropriedade mediante a apresentação do Laudo de Avaliação da CELPE (Doc. 25 do Auto de Infração) para subscrição de capital na Leicester, pela Guaraniana; o problema é que este é o laudo de avaliação da CELPE para fins de subscrição na Leicester. O laudo não se refere à operação de compra da CELPE pelo Novo Grupo de Controle, mas sim ao valor da CELPE para fins de subscrição na Leicester (terceira operação); o propósito do laudo não é explicar por qual motivo o Novo Grupo de Controle pagou ágio na aquisição da CELPE (se valor de mercado de bens do ativo, fundo de comércio ou rentabilidade futura). Mas, se a finalidade for a de explicar os motivos pelos quais o Novo Grupo de Controle pagou ágio na aquisição da CELPE, essa avaliação foi totalmente extemporânea, porque posterior à operação de compra da CELPE; o CARF analisou caso absolutamente idêntico ao presente, e manteve a autuação. Tratase do acórdão nº 10517.219, de interesse do contribuinte Ficap S/A; no caso apreciado pela antiga Quinta Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, a empresa alegou ter adquirido determinado investimento com ágio, mas à época do seu registro não demonstrou o fundamento econômico; posteriormente, em vista do benefício previsto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97, o contribuinte resolveu subscrever capital em uma empresa veículo para posterior incorporação, desta vez apresentando como fundamento da avaliação a rentabilidade futura do investimento; notese que, igualmente ao caso em análise, o contribuinte alegava ter pago ágio quando adquiriu o investimento. Entretanto, não fora demonstrado, pelo adquirente, o seu fundamento econômico. O contribuinte tentou sanar esse problema mediante a subscrição de ações. A Câmara julgou que, sem a demonstração do fundamento do ágio na época do seu Fl. 1726DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.727 15 pagamento, a operação equivaleria a uma reavaliação da própria empresa (o "ágio de si mesmo"), e negou provimento ao recurso; a decisão acima em tudo se aplica ao caso presente. Da mesma forma, não se sabe por que razão o Novo Grupo de Controle pagou o ágio. Não existe uma avaliação prévia da CELPE que explique os motivos pelo pagamento da quantia, ou se existe, não há nos autos qualquer cópia do referido documento. O contribuinte tentou solucionar esse problema mediante o laudo apresentado na subscrição de ações da Leicester. Mas esse laudo não é contemporâneo às operações realizadas pelo Novo Grupo de Controle, não faz menção às compras de ações, mas sim à subscrição de ações da Leicester, pela Guaraniana; por esse motivo, ao ostentar que todo o ágio pago se fundou em expectativas de rentabilidade futura (o que se apresenta absolutamente fictício), o grupo econômico ilicitamente aspirou ao benefício fiscal de amortizar todo o ágio pago, a despeito de a legislação vedar tal benesse em relação àquele estribado em outros fundamentos econômicos; dessa forma, não foi cumprido o requisito previsto no art. 20, §2º, alínea "b" do DecretoLei 1598/77, porque a pessoa jurídica que verdadeiramente adquiriu o investimento não indicou, por fundamento econômico do ágio, o valor de rentabilidade da controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros e fundada em laudo de avaliação contemporâneo à aquisição; ii) Segunda impropriedade. Ausência de incorporação do investimento. o segundo requisito para o gozo do benefício previsto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97 é a incorporação do investidor pela investida, ou da investida pelo investidor. Como fora ressaltado nas premissas teóricas apresentadas, a dedução autorizada pelo artigo 386 do RIR/99 decorre do encontro num mesmo patrimônio da participação societária adquirida e do ágio pago por essa participação. Em face dessa "confusão patrimonial", a legislação admite que o contribuinte considere perdido o seu capital investido com o ágio e, assim, deduza a despesa que ele teve quando da sua aquisição; todavia, para que haja esse encontro num mesmo patrimônio do ágio com o investimento que lhe deu origem, é imprescindível que a mais valia contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participa da "confusão patrimonial". O investidor deve se confundir com o seu investimento; qualquer situação diferente da hipótese aqui ventilada não admite a dedução da despesa com amortização do ágio. Uma incorporação, fusão ou cisão societária que envolva um ágio que não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da operação societária não permitirá a aplicação do benefício instituído pelo artigo 386 do RIR/99. O ágio pode até existir contabilmente, mas não será dedutível na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL; importante esclarecer que os arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97 não instituíram um favor fiscal nem subvenção àqueles que adquiriram investimentos com o pagamento de ágio; em verdade, desde o DecretoLei 1.598/77, ficou claro que a recuperação do valor pago a título de ágio não deve ser tributado pelo IRPJ. Segundo o DL 1.598/77, o ágio não seria amortizável da base de cálculo do IRPJ, mas comporia o custo do investimento na sua alienação (artigos 25 e 33); Fl. 1727DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.728 16 a finalidade do disposto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97 é regular o efeito fiscal da recuperação do ágio na aquisição do investimento, quando este é extinto mediante a incorporação; corroborando tal assertiva, a Exposição de Motivos da Lei nº 9.532/1997 consigna que a elaboração dos artigos 7º e 8º procurou justamente impedir a criação do ágio artificial, ou seja, a realização de um negócio fictício exclusivamente para fazer surgir um benefício fiscal, senão vejamos: O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas utilizando dos já referidos "planejamentos tributários”, vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em visto o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. vêse, assim, que a mens legis dos artigos 7ºe 8º da Lei nº 9.532/1997 foi de repudiar ações como a praticada pelo recorrente junto com o seu grupo econômico, no qual a finalidade única da operação era gerar ganhos de natureza tributária ao contribuinte; a mens legis dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foi exatamente o de repudiar ações como a praticada pelo autuado, onde a única finalidade da operação foi a de gerar ganhos de natureza tributária ao contribuinte. A finalidade do referido dispositivo legal é regular o efeito fiscal da recuperação do ágio na aquisição do investimento, quando este investimento é extinto mediante a incorporação; se é essa a finalidade do dispositivo legal, faz algum sentido permitir a amortização, quando não há extinção nem do investidor e nem da sociedade investida? Nessa hipótese, cabe dizer que o ativo adquirido não poderá mais ser recuperado e assim justificar a amortização? Com todas as vênias, a resposta somente pode ser negativa; contudo, essa é a pretensão do contribuinte encampada pelo acórdão recorrido, ao se perceber que, ao final de todo a operação, tanto a sociedade que efetivamente pagou o ágio (empresas componentes do Novo Grupo de Controle) quanto o investimento adquirido (CELPE) não foram extintos; como já argumentado, o propósito negocial e o substrato econômico que deram origem ao ágio registrado ao final pela CELPE se encontram na operação societária realizada entre o Novo Grupo de Controle e o Estado de Pernambuco; portanto, o ágio registrado pela CELPE com a incorporação da Leicester apresenta seus fundamentos de existência, validade e eficácia relacionados intrinsecamente à operação societária realizada pelo Novo Grupo de Controle quando da aquisição das ações da Fl. 1728DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.729 17 CELPE. Foi o Novo Grupo de Controle quem teve um propósito negocial ao pagamento do ágio, e quem de fato despendeu riquezas para a sua aquisição; a segunda e a terceira operação, referentes, respectivamente, à subscrição de ações realizadas na Guaraniana e na Leicester, apenas significou a transferência escritural desse ágio, não a sua criação, o seu surgimento. O propósito negocial e o substrato econômico do ágio estão presentes tãosomente na operação inicial; ora, se foi o Novo Grupo de Controle quem efetivamente pagou o ágio para a aquisição do investimento CELPE, o gozo do benefício previsto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97 decorreria da extinção da CELPE (ou do Novo Grupo de Controle) com a incorporação, de modo que restasse impossível recuperar o ágio pago mediante a venda do investimento; ocorre que a transferência do ágio do Novo Grupo de Controle à CELPE, pretendida pelo contribuinte, representa uma fraude à finalidade legal. Com a transferência, o ágio passa a ser amortizado na CELPE, reduzindo a base de cálculo do IRPJ e da CSSL. Por outro lado, o Novo Grupo de Controle permanece de posse do seu ativo, cujo valor corresponderá ao valor de patrimônio líquido da CELPE, o qual estará inflado pelo ágio. Assim, o Novo Grupo de Controle poderá alienar o seu investimento pelo mesmo valor pago na aquisição e recuperar o ágio sem incorrer em ganho de capital; vêse claramente como o planejamento tributário, longe de representar medida de "neutralidade fiscal", implica mesmo em uma fraude aos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97; as investidoras iniciais, na verdade, tentaram transformar o ágio pago por elas quando da aquisição das ações da CELPE em uma verdadeira "moeda de dedução" que poderia ser transmitida a quem elas quisessem. É evidente que esse não foi o intuito do legislador ao editar os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, conforme se depreende do trecho da exposição de motivos acima mencionada; a conclusão adotada pela Fiscalização é acertada e irretocável. Uma vez o ágio registrado pela CELPE não tendo sido efetivamente suportado nem pela CELPE nem pela Leicester que, digase de passagem, foi utilizada como empresa veículo, ele não é dedutível nos termos do artigo 386 do RIR/99; dessa forma, tendo em vista o não cumprimento das condições para a fruição do benefício previsto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97, descabe admitir a amortização do ágio pretendido pela CELPE, razão pela qual merece reparo o acórdão guerreado; 2.d) Da aprovação das operações societárias pela ANEEL convém, neste ponto, refutar ainda a conclusão do acórdão recorrido (processo nº 19647.01051/200783 – acórdão nº 120100.689) no sentido de que as operações societárias realizadas teriam recebido o aval da ANEEL, o que reforçaria a tese em favor do contribuinte quanto à transparência e licitude das operações; a submissão das operações societárias à ANEEL decorre de expressa determinação legal e, de forma alguma, pode representar uma decisão em matéria tributária. Tal agência carece desta competência; Fl. 1729DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.730 18 a obrigatoriedade de submissão das operações societária à ANEEL diz mais com o direito administrativo do que com o direito tributário. Isso porque as sociedades que contratam com o poder público, mais precisamente as sociedades empresárias que figuram como partes em contratos administrativos (do qual são espécies os contratos de concessão e permissão de serviços públicos), estão submetidas à disciplina jurídica diferente, no que tange às alterações e operações societárias ocorridas no bojo da sociedade; a legislação administrativa prevê uma série de mecanismos para amparar e garantir a execução dos contratos administrativos, tendo em vista que o licitante escolhido para firmar o contrato administrativo submetese, em regra, a rigoroso procedimento licitatório, no qual é escolhida a melhor proposta e o licitante mais idôneo e capacitado à sua consecução; qualquer anuência da ANEEL relativamente às operações societárias do autuado diz respeito à capacidade das empresas envolvidas permanecerem na prestação dos serviços públicos; qualquer ilação acerca da licitude das operações sob o ponto de vista tributário, pelo simples fato de anuência da referida agência reguladora, deve ser rechaçada; 2.e) Da jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais a fim de demonstrar a pertinência do entendimento exposto quanto à indedutibilidade do ágio criado de forma artificial e à fraude na simulação cometida, transcrevemse acórdãos deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, os quais analisaram situações fáticas em tudo parecida ao do presente caso (ementas e votos transcritos); 3) Falta de adição na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL de despesa de amortização de ágio redução do prejuízo fiscal nos autos do processo nº 19647.01051/200783, o Acórdão nº 1201 00.689, quanto a essa matéria, subordinou inteiramente seu destino à sorte da (in)correção da dedutibilidade da despesa do ágio, não indicando qualquer argumento autônomo para seu provimento; logo, cumpre da mesma forma alinhavar quanto a esse item as mesmas razões já apontadas para demonstrar a incorreção da dedutibilidade do ágio. E, uma vez demonstrada essa incorreção, cabe como conseqüência inexorável, manter o entendimento da fiscalização no sentido de que a compensação efetuada pela CELPE no ano de 2006 foi considerada indevida por inexistência de saldo de prejuízos fiscais de exercícios anteriores. Quando do exame de admissibilidade do recurso especial da PGFN, o Presidente da 3a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF, por meio do Despacho nº 317/2013, de 26/11/2013, admitiu o recurso especial fazendo as seguintes considerações sobre as divergências suscitadas: [...] O presente recurso especial atende aos pressupostos de tempestividade e legitimidade. Assim, passo a apreciação da admissibilidade das divergências. Fl. 1730DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.731 19 Examino o primeiro ponto do recurso. Para melhor compreensão da matéria, transcrevo abaixo a ementa do acórdão apresentado como paradigma, na parte que interessa ao presente exame: [...] Examinando o acórdão paradigma verificase que o mesmo anulou acórdão anterior que havia adotado como definitiva decisão não definitiva, proferida em processo conexo, por entender que a atividade judicante não pode ser condicional e que na impossibilidade de ser prolatada decisão considerando a interdependência de processos ou decorrência é cabível a suspensão do julgamento para aguardar a solução da questão conexa. De outra parte, o acórdão recorrido divergiu dessa conclusão ao decidir questão decorrente de processo conexo (compensação de prejuízos), adotando a decisão não definitiva proferida naquele processo. Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelamse divergentes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial apontada pela recorrente. Assim, entendo que deva ser dado seguimento ao recurso quanto ao primeiro ponto. Passo ao exame do segundo ponto. A recorrente apresenta como paradigmas os acórdãos abaixo, que têm as seguintes ementas sobre a matéria recorrida: [...] Examinando os acórdãos paradigmas verificase que eles trazem o entendimento de que a criação de empresas veículo com o único objetivo de aproveitamento de ágio na aquisição de participações societárias, mediante incorporação pela empresa investida, sem qualquer finalidade negocial ou societária, constitui abuso de forma ou de direito, não podendo produzir efeitos tributários perante o Fisco. O acórdão recorrido, por outro lado, entende que é legítima a incorporação de sociedade para fins de amortização de ágio, nos moldes previsto nos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, mediante a utilização de empresa veículos, desde que dessa utilização não tenha resultado aparecimento de novo ágio, podendo ser oponível ao Fisco. Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelamse divergentes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial apontada pela recorrente. Ante ao exposto, e tendo em vista que a uniformização da jurisprudência administrativa é o escopo do recurso especial, opino no sentido de que se DÊ SEGUIMENTO ao presente recurso. Em 14/01/2014, a contribuinte foi intimada do despacho que admitiu o recurso especial da PGFN, e em 27/01/2014 ela apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os argumentos descritos a seguir: Fl. 1731DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.732 20 DO NÃO PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS PARA ADMISSIBILIDADE E CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL DESPESA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO E SEUS REFLEXOS TRIBUTÁRIOS a fim de que se configure a divergência jurisprudencial pretendida pela Recorrente, fazse necessário que os acórdãos indicados como paradigmas tratem de situação fática idêntica à do acórdão recorrido. No entanto, conforme se detalhará abaixo, não é o que se infere da leitura dos relatórios/votos; a Recorrente utilizou o acórdão paradigma nº 10323.290 para justificar a divergência jurisprudencial e embasar o seu Recurso Especial; diferentemente do presente caso, o acórdão paradigma não se refere à ágio decorrente de processo de privatização em que houve o efetivo pagamento com ágio ao Estado de Pernambuco; além disso, como tem se verificado em vários julgamentos já realizados no CARF, nos casos de privatização, como muitas vezes o investimento era realizado por um consórcio com a participação de bancos, entidades de previdência privada e outros, não havia outra estrutura possível se não a que foi realizada pela CELPE que culminou com a possibilidade de amortização do ágio nos estritos termos da Lei; conforme mencionado, a Recorrida não poderia incorporar automaticamente suas controladoras, pois não é razoável a incorporação de empresas como a PREVI Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil e do BB Banco de Investimento S/A por uma concessionária de energia elétrica; é notório que os adquirentes da Recorrida (especialmente PREVI, BB Banco de Investimento) possuem outros ativos e exercem outras atividades em conformidade com seu objeto social, o que tornava inviável operacionalmente a incorporação pela CELPE; foi necessário criar legalmente uma estrutura societária que permitisse a segregação do investimento em uma sociedade que não tivesse outros ativos/atividades sociais que tornasse incompatível, economicamente, a incorporação da controladora pela controlada e, com isso, se transferisse o ágio para a controlada; a Recorrente também utilizou o acórdão paradigma nº 10100.120 para justificar a divergência jurisprudencial e embasar o seu Recurso Especial; no referido julgamento, o CARF examinou a amortização de ágio decorrente da extinção de investimentos adquiridos com ágio, em razão de processo de incorporação. Tratase de reorganização societária em que houve permuta de participação societária e de despesas financeiras relacionadas a contrato de empréstimo entre coligadas, portanto, situação fática totalmente distinta do caso ora em exame, que trata de ágio gerado na privatização de empresa domiciliada no Brasil e pago por consórcio formado por empresas domiciliadas no Brasil; NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL IMPOSSIBILIDADE DO REEXAME DE PROVA NA INSTÂNCIA ESPECIAL Fl. 1732DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.733 21 dúvidas não pairam quanto à possibilidade de amortização de ágio decorrente da extinção de investimentos adquiridos com ágio, em razão de processo de incorporação, na medida em que tal previsão encontrase expressa no inciso II do §6° do artigo 386 do RIR/99; logo, nas razões do Recurso Especial, a Recorrente discute tãosomente se a seqüência de operações societárias praticadas pela Recorrida possuem o propósito negocial e o fundamento econômico necessários para justificar o ágio e, conseqüentemente, autorizar a dedução de suas despesas; o que pretende a Recorrente é que esta C. Câmara averigüe se as operações de reestruturação societária praticadas pela Recorrida atendem às condições estabelecidas pela lei, ou seja, a divergência apontada pela Recorrente diz respeito à interpretação de fatos e não à interpretação da lei; para a análise dos argumentos suscitados pela Recorrente, a E. Câmara Superior de Recursos Fiscais precisará, necessariamente, revisitar as provas e fatos constantes dos autos; a análise do Recurso Especial demonstra que o que pretende a Recorrente é justamente a reanálise do conteúdo fáticoprobatório, não apenas para que lhe seja atribuído novo valor probante, mas também para que sejam apreciadas novas questões que sequer foram objeto da autuação fiscal e, conseqüentemente, do julgamento no Conselho Administrativo, como por exemplo, a existência ou não de laudo que embase o ágio das ações da CELPE quando da privatização; por estar baseado em pedido de alteração da valoração de provas, o Recurso Especial não cumpriu os requisitos de admissibilidade; DAS RAZÕES PARA MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO DA CONEXÃO ENTRE OS CASOS E O JULGAMENTO CONJUNTO conforme amplamente debatido ao longo do presente caso, em 24/09/07, foi lavrado, em face da Recorrida, o auto de infração que originou o processo administrativo n° 19647.010151/200783, por meio do qual a Fiscalização glosou as despesas com a amortização do ágio, nos anosbase de 2001 a 2006, sob a alegação de que a dedução dessas despesas teria origem em "planejamento tributário inválido"; tendo em vista que a Recorrida continuou a registrar as despesas de amortização de ágio nos períodos posteriores, em novembro de 2010, a D. Fiscalização lavrou o presente auto de infração, para exigência do IRPJ e CSLL relativos aos períodos de 2007 e 2008, pautada nos mesmos fundamentos utilizados no auto de infração que originou o processo administrativo n° 19647.010151/200783; a decisão da Turma pelo julgamento imediato do presente processo, conexo ao processo n° 19647.010151/200783, é pautada em premissa que não foi considerada pela Recorrente; é que o entendimento do E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais é no sentido de que não cabe sobrestamento de processo administrativo, em virtude do princípio da oficialidade; Fl. 1733DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.734 22 neste esteio, resta demonstrado que o acórdão recorrido, que aplicou o entendimento firmado no processo principal n° 19647.010151/200783 ao presente caso por serem conexos, não apenas cumpriu com as regras procedimentais, como prestigiou a orientação jurisprudencial firmada pelo E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais no sentido da impossibilidade de sobrestamento de processos administrativos; BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DA OPERAÇÃO QUE DEU ORIGEM AO ÁGIO OBJETO DE ANÁLISE NOS AUTOS DO PROCESSO ADMINISTRATIVO N° 19647.01051/200753 não há qualquer indício ou comprovação de que os atos praticados foram realizados de modo a encobrir, enganar ou impedir o conhecimento, pelo Fisco e por quaisquer de seus credores ou terceiros, de qualquer operação ou até mesmo da intenção de realizar o aproveitamento do ágio na Recorrida; ao contrário, todos os atos praticados pela Recorrida foram públicos (divulgados em jornais de grande circulação) e foram todos previamente submetidos à agência reguladora do setor de energia elétrica, a qual aprovou todas as operações pretendidas (Resolução ANEEL n° 459/00, Resolução ANEEL n° 539/00, Resolução ANEEL n° 192/01); Natureza do ágio e seu tratamento tributário Da existência de laudo de avaliação das ações Da necessidade de análise das operações em conjunto ("filme") o benefício fiscal de dedutibilidade do ágio pago na aquisição de sociedades tem como objetivo incentivar a prática de fusões e aquisições, especialmente quando se tratasse de estatais em processos de privatização. No presente caso, como já mencionado, tratase da aquisição de companhia estatal em processo licitatório de privatização. O processo de privatização foi completamente regular e todos os atos praticados estão de acordo com as normas de concessão do serviço público; um dos argumentos apresentados no Recurso Especial pela D. Procuradoria para reforma do acórdão recorrido é a suposta ausência de motivação do ágio pago pelo Novo Grupo de Controle, quando da aquisição das ações da CELPE por ocasião da privatização; no entanto, conforme claramente demonstrado nos autos e reiteradamente esclarecido, o fundamento econômico para o pagamento do ágio foi o valor de rentabilidade futura da Recorrida, o qual está devidamente comprovado pelos laudos de avaliação mencionados na impugnação DOC. 06 anexo à impugnação. Todo o procedimento é de conhecimento público por se tratar de processo licitatório de privatização; além disso, é sabido que em todo processo de privatização é elaborado um estudo que irá embasar o preço mínimo proposto no Edital de privatização; por ocasião da sessão de julgamento do recurso voluntário, a ora Recorrida apresentou o Edital de licitação n° CDCelpe/CN 0198 (DOC. ANEXO) a fim de refutar a alegação colocada pela D. Procuradoria na tribuna no sentido de que não existiria laudo de avaliação das ações da CELPE; no referido Edital de licitação n° CDCelpe/CN 0198 (DOC. ANEXO), assim como acontece em todas as privatizações, consta a avaliação econômicofinanceira e a Fl. 1734DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.735 23 metodologia utilizada na determinação do valor econômico da empresa privatizada, nesse caso, da CELPE; portanto, totalmente descabida a alegação da Procuradoria no sentido de que não existiria uma avaliação prévia da CELPE que explique os motivos pelo pagamento da quantia; a operação encontrase inserida no âmbito do Programa Nacional de Desestatização ("PND"), por meio do qual o Estado pretendia transferir para a iniciativa privada a prestação de diversos serviços públicos, que até então eram prestados pelo próprio Estado; o objetivo era aumentar a eficiência da prestação dos serviços e, com isso, obter uma redução das tarifas. As empresas privadas, por sua vez, adquiriam as empresas públicas com o pagamento de um ágio em função do potencial de lucratividade do segmento econômico em que começariam a atuar; a análise da operação como um todo demonstra o evidente fundamento econômico para a realização dos atos societários: o ágio legitimamente pago na aquisição da Recorrida no processo de privatização foi adquirido pela empresa Leicester, a qual foi absorvida pela Recorrida, que passou a amortizar esse valor com fundamento no artigo 386, § 6°, inciso II, do RIR/99; Motivo, Finalidade e Congruência do Negócio Jurídico Da necessidade de análise das operações em conjunto ("filme") a Recorrente alega que as operações realizadas pela Recorrida no presente caso não teriam propósito negocial, ou seja, não teriam um substrato econômico para a sua realização, já que, no seu entender, teriam sido realizadas apenas com o intuito de economizar tributos; no presente caso, admitindose os pressupostos dessa doutrina mais restrita, ainda assim, encontramse presentes o motivo, a finalidade e congruência dos atos, pelo que não se pode admitir o entendimento da Recorrente; todos os atos praticados tiveram por motivo a aquisição da CELPE em processo de privatização, para o conseqüente aproveitamento do benefício fiscal de dedução do ágio gerado nessa aquisição nos estritos termos da Lei. Inclusive, ao longo desta defesa, demonstrouse os motivos pelos quais foram adotadas outras estruturas ou outros caminhos quando da realização de todas as operações, tendo em vista as peculiaridades do caso; a finalidade da operação era a aquisição de uma instituição financeira de grande porte e participação no mercado brasileiro, como forma de expandir as atividades do grupo de empresas controladas pela Guaraniana S/A, atualmente denominada NEOENERGIA S/A; todos os atos societários praticados inseremse congruentemente neste contexto da aquisição de uma concessionária de energia por um grupo detentor de grandes empresas concessionárias de energia elétrica (geradoras e transmissoras): (i) a forma de participação no leilão; (ii) os fluxos de caixa ocorridos; (iii) a necessidade da constituição de Fl. 1735DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.736 24 todas as sociedades envolvidas; e (iv) todas as operações realizadas para reduzir estruturas desnecessárias e obter uma sinergia no grupo NEOENERGIA S/A; apesar da correlação entre as etapas acima ter sido minuciosamente esclarecida pela Recorrida em todos os seus recursos, a D. Procuradoria falaciosamente atribui à Recorrida assertiva que JAMAIS foi feita, no sentido de que as etapas deveriam ser interpretadas individualmente; o que a Recorrida sempre defendeu é que todos os atos devem ser interpretados como uma seqüência necessária à perfectibilização do propósito negocial; portanto, todos os atos praticados, analisados como um "filme", demonstram claramente a congruência do motivo e da finalidade da operação realizada pelo grupo NEOENERGIA S/A, os quais não eram predominantemente tributários. Dessa forma, não há que se falar em falta de propósito negocial ou ausência de pressuposto econômico, como originalmente afirmou o Sr. Agente Fiscal, estando presentes todos os requisitos exigidos pela nova corrente doutrinária; Da utilização de empresa veículo alega a D. Procuradoria em suas razões de recurso especial que todo o negócio jurídico teria sido para possibilitar a transferência do ágio, mediante inclusive a utilização de empresa veículo; nesse ponto a Recorrida se socorre das premissas postas no Acórdão nº 140200.802, de relatoria do Conselheiro Antônio José Praga de Souza (caso Santander), a fim de demonstrar que não há qualquer abusividade ou ilicitude na operação realizada com empresa veículo; Da correta interpretação da expressão "participação societária adquirida com ágio", contida no artigo 386 do RIR/99 a Recorrente defende em seu recurso especial que para o cumprimento dos requisitos para fruição do benefício previsto nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97, é necessário que haja a incorporação do investidor pela investida, ou da investida pelo investidor; a Recorrente sustenta que a Leicester Comercial S/A, empresa que teve seu capital social subscrito e integralizado com as ações da Recorrida, não poderia ser caracterizada como sendo a adquirente das ações em comento, já que somente as empresas compradoras das ações em leilão teriam essa condição; essa conclusão, contudo, não poderá prosperar. Vejase. O termo AQUISIÇÃO, que é o núcleo da expressão legal ora analisada, é aplicado para definir o ato ou fato pelo qual ocorre a transferência da propriedade de determinado bem, seja a título gratuito ou oneroso; é de suma importância registrar que a Leicester Comercial S/A, ao receber as ações e por isso ser legalmente considerada a adquirente dos valores mobiliários , contabilizou a operação nos exatos moldes do artigo 385 do RIR/99, vale dizer, desmembrando o valor do investimento em valor patrimonial contábil e ágio; Fl. 1736DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.737 25 nem poderia ser diferente, já que o dispositivo legal já mencionado determina que "O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (...) valor do patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e (...) ágio ou deságio na aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior"; notese, uma vez mais, que a legislação que rege a matéria disciplina que a aquisição das ações com ágio é suficiente para, no momento da incorporação, fusão ou cisão, autorizar o benefício legal da dedutibilidade da despesa correspondente à amortização. Não há qualquer qualificação legal, atribuída a essa aquisição, que justifique o entendimento da Recorrente, notadamente porque não cabe ao intérprete restringir algo que a lei não o fez; assim, é bem verdade que as empresas compradoras das ações da Recorrida em leilão figuraram, inicialmente, como adquirentes dos referidos valores mobiliários. Mas também é verdade que a Guaraniana e a Leicester, quando receberam, cada uma no seu momento, as ações como integralização de capital, igualmente figuraram como adquirentes das ações com ágio, notadamente porque ocorreu, na integralização, a inegável transferência do domínio ou propriedade de uma coisa, móvel ou imóvel a que fez alusão De Plácido e Silva ao definir o termo AQUISIÇÃO; analisandose o raciocínio desenvolvido pela D. Procuradoria no Recurso Especial, percebese que, na verdade, ao interpretar o artigo 386 do RIR/99, foi cometido grande equívoco de entendimento ao confundir o significado do termo "adquirida" com o do termo "comprada"; a lei tributária (artigo 386 do rir/99) não restringe a aplicação do benefício da amortização do ágio apenas aos casos em que a incorporação envolva o comprador das ações, mas sim aos casos em que esteja envolvido o adquirente!! é fato que a legislação tributária, para fins do benefício da dedutibilidade do ágio, exige apenas que a empresa incorporadora (ou incorporada, no caso do §6°, II, art. 386) detenha a participação societária adquirida (e não comprada) com ágio; claro está, portanto, que as ações podem ser adquiridas por meio de integralização de capital social (como ocorreu no presente caso), e não apenas por meio de contrato de compra e venda! assim, com base nas considerações acima, é correto afirmar que (i) para o legítimo aproveitamento fiscal do ágio, a legislação tributária exige apenas que a empresa incorporada (ou incorporadora) detenha ações adquiridas com ágio; e (ii) que é jurídico e plenamente legal adquirir ações mediante recebimento como integralização de capital, de modo que não pode prevalecer a alegação da Procuradoria no sentido de que apenas poderia ser considerada válida a aplicação do benefício fiscal do ágio caso a operação de incorporação envolvesse as empresas compradoras das ações; Da Inexistência de Excesso de Forma, do Abuso do Direito, Simulação e Fraude à Lei quanto à alegação de que foram as "Operações Estruturadas em Seqüência e em Curto Intervalo de Tempo", devese destacar que a Recorrida sempre apresentou ao Fisco Fl. 1737DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.738 26 todas as etapas que pretendia realizar, inclusive o objetivo final pretendido de aproveitamento do ágio. Conforme mencionado, essa situação final já era vislumbrada desde a realização do processo licitatório de privatização e decorre de benefício fiscal previsto em lei; quanto ao entendimento da D. Fiscalização, no sentido de que os atos praticados pela Recorrida caracterizamse como operação preocupante já que deles decorre o "Deslocamento da Base Tributável", igualmente não assiste razão à D. Fiscalização, pois a alegada transferência da base tributável está expressamente prevista no artigo 386 do RIR/99, como já mencionado, configurandose, pois, situação privilegiada por lei para incentivar determinadas práticas, dentre elas a valorização de empresas estatais em processo de privatização; Isonomia com Tratamento Fiscal do Deságio finalmente, é importante ressaltar o entendimento da Receita Federal no que tange à tributação do deságio gerado em operações societárias dentro do mesmo grupo, como as ocorridas no presente caso; de fato, caso a aquisição da participação societária tivesse se dado por valor inferior ao valor de patrimônio líquido, teria sido reconhecido um deságio, nos termos do art. 385 do RIR/99; este deságio (quando fundamentado na expectativa de rentabilidade futura inciso II do § 2º do artigo 386 do RIR/99) deveria ser amortizado e tributado durante os 5 anos subseqüentes à incorporação; com efeito, verificase que o deságio deverá ser amortizado, com a conseqüente tributação dessas receitas. Ressaltese, neste sentido, que a Receita Federal já manifestou entendimento de que este deságio deveria ser tributado mesmo que fosse gerado em uma operação interna, dentro do mesmo grupo, como ocorreu no presente caso. Este foi o objeto do Acórdão 10807.684; com efeito, conforme se percebe na manifestação da Receita Federal em casos análogos ao presente (aquisição de participação societária dentro do mesmo grupo), é entendimento do Fisco de que a aquisição de participação societária por valor inferior ao patrimônio líquido (deságio) é suficiente para que esse valor seja configurado como receita tributável, após um evento de incorporação; contudo, a Receita Federal pretende, no presente caso, não admitir a dedutibilidade do ágio gerado dentro do mesmo grupo econômico, por entender que não haveria motivo econômico para uma aquisição que não fosse a valor de patrimônio líquido. Tratase de evidente tratamento desigual para situações idênticas aquisição de participação societária a valor de mercado ("dois pesos, duas medidas"); DO PEDIDO diante do exposto, requerse, inicialmente, o não conhecimento do Recurso Especial, uma vez que, quanto à possibilidade da dedução das despesas de amortização de ágio, os acórdãos indicados como paradigmas se referem a contextos fáticos diferentes das operações societárias analisadas no presente caso, razão pela qual não se prestam para justificar a divergência jurisprudencial suscitada pela Recorrente; Fl. 1738DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.739 27 caso se entenda pelo conhecimento do Recurso Especial, requerse o seu desprovimento pelas razões de mérito aqui expostas, mantendose incólume o acórdão recorrido. É o relatório. Fl. 1739DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.740 28 Voto Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. PRELIMINAR DE NULIDADE TRAZIDA EM SESSÃO: Nesta sessão de julgamento de janeiro de 2016, em sede de Memoriais Complementares, a recorrida trouxe uma preliminar de nulidade, nos seguintes termos: “Processos: 19647.010151/200783 e 10480.723383/201076 Recorrida: COMPANHIA ENERGÉTICA DE PERNAMBUCO Recorrente: Procuradoria da Fazenda Nacional A Contribuinte/Recorrida teve ciência, em 15/01/2016, do despacho de fls. 1.710/1712, que determinou a redistribuição do Processo 10480.723383/201076 ao Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, por entender existir conexão/decorrência com o Processo 19647.010151/200783. Todavia, como se passa a demonstrar, ambos os Processos devem ficar com o Conselheiro Marco Aurélio Valadão, que primeiro recebeu o Processo 10480.723383/201076, que é conexo e não dependente ao PAF 19647.010151/2007 83. Isto porque, em 15 de maio de 2014, o Processo n° 10480.723383/201076 foi sorteado para a relatoria do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão. Posteriormente, em 17 de julho de 2014, o Processo 19647.010151/200783 foi distribuído ao Conselheiro Rafael Vidal. Em seguida, o Processo n° 10480.723383/201076 foi incluído em pauta de julgamento por 5 (cinco) vezes pelo Conselheiro Marco Aurélio Valadão, até que, em 23 de novembro de 2015, antes do reinício das atividades do CARF, foi redistribuído ao Conselheiro Rafael Vidal de Araújo, conforme despacho de fls. 1710/1712, em virtude da suposta relação de decorrência com o Processo 19647.010151/200783. No entanto, embora a relação de conexão seja clara e tenha sido reconhecida pela própria PGFN em seu Recurso Especial, constatase que os Processos não mantém a relação de decorrência, cujo conceito é indicado no inciso II, do §1º do art. 6º do RICARF. Isso porque, as autuações tratam dos mesmos fatos e no Processo nº 10480.723383/201076 foi realizada nova fiscalização, em que foi apurado que a Recorrida continuou a deduzir as despesas de amortização de ágio nos períodos subsequentes aos autuados no presente Processo. Fl. 1740DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.741 29 Ou seja, cada Processo é autônomo, independente e referemse a glosa de amortização de ágio em períodos distintos, logo, um não decorre do outro e sim são conexos. Assim, a realização de nova fiscalização para apuração dos fatos nos períodos subsequentes descaracteriza a relação de decorrência, mantendo, todavia, a conexão entre os Processos. Diante da conexão, a Recorrida entende que os Processos devem ser distribuídos ao conselheiro que primeiro recebeu o Processo principal ou conexo, nos termos do §2º do art. 6º do RICARF. Neste caso, o conselheiro que primeiro recebeu os autos foi o conselheiro Marcos Aurélio Valadão, que é, portanto, prevento para julgar tanto o Processo nº 10480.723383/201076 como o Processo 19647.010151/200783. Portanto, ambos os Processos devem ser redistribuídos ao Conselheiro Marcos Aurélio Valadão, prevento para relatoria dos casos, evitandose, assim, eventual nulidade de julgamento. Essa preliminar de nulidade foi submetida a julgamento (conforme se pode observar da parte dispositiva deste acórdão) e na própria sessão apresentei os fundamentos no sentido de que entre os processos acima referidos há relação de decorrência. O fato é que o lançamento constante do processo nº 19647.010151/200783 (julgado nesta mesma sessão), ao tratar da glosa de despesa de amortização de ágio nos anos calendário de 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 e 2006, resultou em ajustes (redução) no estoque de prejuízos fiscais apurados naqueles períodos. E tais ajustes afetaram a compensação de prejuízos fiscais realizada nos períodos seguintes (2007 e 2008), que foram objeto do lançamento constante do presente processo, de nº 10480.723383/201076. Não há dúvida de que, em relação a isso, o resultado do presente processo (processo decorrente) depende do que restar decidido no processo nº 19647.010151/200783 (processo principal), uma vez que a compensação de prejuízos nos anos subseqüentes (2007/2008) depende do estoque de prejuízos que remanescer nos anos anteriores (2001/2006). O exame, no presente processo, da questão do sobrestamento e também das conseqüências decorrentes da redução dos prejuízos nos anos anteriores, não deixa nenhuma dúvida de que há uma relação de dependência entre os mencionados processos, de modo que foi correta a distribuição conjunta dos mesmos para o conselheiro que havia recebido o processo que deve ser considerado como principal. CONHECIMENTO: Conforme relatado, a recorrida levantou duas preliminares de não conhecimento do recurso. Em relação à primeira preliminar, qual seja, a ausência de similitude em relação aos paradigmas que tratam de despesas de amortização de ágio e seus reflexos Fl. 1741DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.742 30 tributários, não assiste razão à recorrida. A meu ver, pretendese atribuir a questões de conhecimento o que na realidade são discussões de mérito. Tanto o acórdão recorrido quanto os dois acórdãos paradigmas trazidos, acórdãos nºs 10323.290 e 10100.120, tratam da transferência de ágio no âmbito dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, ou dos arts. 385 e 386 do Regulamento do Imposto de Renda RIR Decreto nº 3.000, de 26/03/1999. Os paradigmas trazem o entendimento de que a criação de empresa veículo com o único objetivo de aproveitamento de ágio na aquisição de participações societárias, mediante incorporação pela empresa investida, sem qualquer finalidade negocial ou societária, constitui abuso de forma ou de direito, não podendo produzir efeitos tributários perante o Fisco. O acórdão recorrido, por outro lado, entende que é legítima a incorporação de sociedade para fins de amortização de ágio, nos moldes previsto nos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, mediante a utilização de empresa veículo, desde que dessa utilização não tenha resultado aparecimento de novo ágio. As conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados realmente revelaramse divergentes, restando configurada a divergência jurisprudencial apontada pela recorrente. Em relação à segunda preliminar, qual seja: a impossibilidade do reexame de prova na instância especial, também indefiro esta preliminar. Quando do exame do mérito ficará bastante evidente que não se fará aqui reexame de prova, mas sim a interpretação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e das hipóteses de subsunção a estas normas. Assim, afastadas as preliminares de nãoconhecimento e preenchidos os demais requisitos de admissibilidade, CONHEÇO do Recurso Especial. MÉRITO: Em seu recurso especial, a PGFN suscita divergência sobre três matérias, assim identificadas: 1) Da aplicação de decisão em processo conexo (parcialmente) não “transitada em julgado”; 2) Despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários; 3) Falta de adição na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL de despesa de amortização de ágio – redução do prejuízo fiscal. É importante deixar claro que a decisão sobre o item 3 é mera decorrência do que restar decidido no processo nº 19647.010151/200783, uma vez que não há qualquer questão específica, autônoma, para esse último item do recuso especial da PGFN. 1) Da aplicação de decisão em processo conexo (parcialmente) não “transitada em julgado” Fl. 1742DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.743 31 Quanto à primeira divergência, cabe registrar que já havia sido lavrado anteriormente o auto de infração constante do processo administrativo nº 19647.010151/2007 83, por meio do qual a Fiscalização glosou as despesas com a amortização do ágio nos anos base de 2001 a 2006, sob a alegação de que a dedução dessas despesas teria origem em "planejamento tributário inválido". Como a recorrente continuou a registrar as despesas de amortização de ágio nos períodos posteriores, a Fiscalização lavrou em novembro de 2010 o presente auto de infração, para exigência do IRPJ e CSLL relativos aos períodos de 2007 e 2008, pautada nos mesmos fundamentos utilizados no auto de infração que originou o processo administrativo n° 19647.010151/200783. A autuação constante do presente processo foi cancelada, em parte, por decorrência direta do que restou decidido no processo nº 19647.010151/200783. A PGFN alega que enquanto a decisão naquele processo anterior não se tornar definitiva, não se pode proceder a qualquer exoneração ou mesmo o reconhecimento de créditos decorrentes da insubsistência da autuação em favor do contribuinte. Informa que interpôs recurso especial contra a decisão proferida no processo nº 19647.01051/200783 (acórdão nº 120100.689), e que esse recurso ainda se encontra pendente de julgamento. Destaca também que a jurisprudência deste Conselho é pacífica no sentido de exigir que a decisão proferida em determinado processo tenha se tornado definitiva, para que possa ter repercussão em seus conexos. A contribuinte, por seu turno, alega que o entendimento do CARF é no sentido de que não cabe sobrestamento de processo administrativo, em virtude do princípio da oficialidade. Assim, restaria demonstrado que o acórdão recorrido, que aplicou o entendimento firmado no processo principal n° 19647.010151/200783 ao presente caso, não apenas cumpriu com as regras procedimentais, como prestigiou a orientação jurisprudencial firmada pelo E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais no sentido da impossibilidade de sobrestamento de processos administrativos. Registro que, realmente, não há previsão regimental para sobrestamento ou suspensão de processo administrativo fiscal, como ocorre por exemplo com o processo civil (CPC, art. 265, IV, "a"). Esse debate envolvendo questões de sobrestamento/suspensão de processo em razão de conexão processual tem especial relevância quanto ao aspecto de se evitar decisões contraditórias sobre os mesmos fatos. Mas na dinâmica do PAF, que é regido pelo princípio da oficialidade, as incongruências de julgamento são evitadas na medida em que, num mesmo nível de instância, a decisão sobre a questão prejudicial é proferida e depois incorporada ao processo dependente. Fl. 1743DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.744 32 Havendo reversão da decisão administrativa "principal" nas fases seguintes, dada a relação de dependência processual, a nova decisão produzirá os devidos reflexos nos processos que dela são dependentes, como vinha ocorrendo nas fases anteriores. Também é importante registrar que os fundamentos da decisão no processo principal e que se refletem no processo dependente podem igualmente ser questionados nas etapas processuais seguintes, havendo ainda a possibilidade de revisão de ofício pela unidade que fará a execução do julgado, de modo a evitar contradições entre as decisões nos processos conexos, com relação de dependência. Foi exatamente o que ocorreu aqui. No nível de julgamento de recurso voluntário, houve provimento do recurso da contribuinte no processo nº 19647.010151/2007 83, para fins de se restabelecer os prejuízos fiscais e as bases negativas de CSLL nos anos objeto de autuação naquele processo (2001 a 2006). Tal decisão repercutiu diretamente na infração apontada pela Fiscalização para os anos de 2007 e 2008 (objeto dos presentes autos), a título de compensação indevida de prejuízos e de bases negativas da CSLL que vinham dos anos anteriores. Se os prejuízos fiscais e as bases negativas apurados pela contribuinte foram confirmados e restabelecidos nos autos que abrangiam os anos de 2001/2006, não havia como manter a autuação pela glosa na compensação destas rubricas em anos posteriores (2007/2008). Tal matéria se encontra agora na fase de julgamento de recurso especial, e a relação de dependência processual será novamente observada pelas decisões a serem proferidas nos respectivos processos, independentemente de serem favoráveis à contribuinte ou ao Fisco. Portanto, NEGO provimento ao recurso especial da PGFN, quanto ao pleito de anulação do acórdão recorrido e sobrestamento do presente feito até o "trânsito em julgado" da decisão a ser proferida no processo nº 19647.01051/200783. 2) Despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários Para o julgamento de mérito sobre a despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários, da mesma forma como fiz para o processo nº 19647.01051/200783, adoto a recente jurisprudência do CARF que considero mais adequada e que restou cinzelada no Acórdão nº 1103001.170, de 04/02/2015, da relatoria do nobre Conselheiro André Mendes de Moura. Seguem trechos do voto condutor: " Para se tratar em ágio, há que se, inicialmente, falar do investimento em sociedades coligadas e controladas avaliado pelo método de equivalência patrimonial (MEP), conforme previsto no art. 384 do RIR/99. A principal característica do método é de se permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. Esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Fl. 1744DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.745 33 Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Dentre os três critérios, assume relevância, para o caso concreto, aquele que consiste no fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. As variações no patrimônio líquido da investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela controladora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Fl. 1745DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.746 34 Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) É por isso que a investidora, ao registrar o ágio em conta de ativo, não promove a sua amortização para fins fiscais. Não poderia ser diferente, vez que a “mais valia”, decorrente da expectativa de rentabilidade futura, foi paga em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, e que serão tributados na própria investida. Por sua vez, a repercussão de tais lucros na investidora darseá pelo MEP, que não é objeto de tributação. Dessa maneira, como os lucros não são tributados na investidora, não há que se falar em amortização do ágio na investidora. Não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. Portanto, percebese que, na regra geral, para fins fiscais, o ágio não é dedutível na apuração do lucro real. Contudo, tal cenário está sujeito a mudanças. O investimento adquirido com ágio pode ser alienado, liquidado, ou mesmo ser objeto de uma transformação societária. Passam a ser tratadas as situações específicas, como se pode verificar nos arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; Fl. 1746DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.747 35 III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Verificase que o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa for objeto de alienação ou liquidação, oportunidade em que o ágio irá compor a apuração do custo de aquisição a ser considerado no ganho de capital auferido pelo alienante. Por sua vez, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação no art. 386 do RIR/99: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. A norma em debate tem repercussão direta na base de cálculo do tributo, o que permite a sua análise sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina (Geraldo Ataliba, Hipótese de Incidência Tributária). Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em debate se dirige à investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, sendo ela, e apenas ela a destinatária da prerrogativa de amortização do sobrepreço. A partir do momento em que o ágio é transferido ou repassado para outras pessoas (de A para B, de B para C, de C para D e assim Fl. 1747DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.748 36 sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora, a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. A respeito do aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Sobre o aspecto material, há que se observar que apenas o ágio com fundamento econômico no valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros é que tem a amortização autorizada em sessenta parcelas. Ainda, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...), ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento." Naquela assentada, tratavase de caso em que a incorporação se deu conforme o caput do art. 386 do RIR/99. Já no caso dos autos, tratase de incorporação nos moldes do §6º do art. 386 do RIR/99 (que é comumente conhecida como incorporação "às avessas"). Embora isso não vá impactar nas premissas de exegese da norma, fazse necessário tecer comentários adicionais quantos aos aspectos pessoal e material, de forma a adequálos a esse modelo de incorporação. § 6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. O §6º do art. 386 do RIR/99, na realidade o art. 8º da Lei nº 9.532/97 (do qual este é mera cópia), se utilizou de uma técnica legislativa que faz uso da propriedade transitiva, assim o que vale para o caput do art. 386 do RIR/99 vale para o §6º do mesmo artigo, fazendo se apenas a adaptação para contemplar a situação prevista. Portanto, o §6º do art. 386 do RIR/99, sob o significado pessoal, se dirige à investida que incorporar a investidora que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o valor do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação, pela investida, da investidora "original" ou investidora stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada a pessoa jurídica que paga o ágio Fl. 1748DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.749 37 e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco) é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço. Analisando as situações possíveis, sob a ótica dos dois tipos de incorporações, a partir do momento em que o ágio é transferido ou repassado para outras pessoas (de A para B, de B para C, de C para D e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora original (para, ao fim, incorporar a investida ou ser incorporada pela investida), a subsunção ao caput do art. 386 do RIR/99 ou ao §6º do mesmo artigo tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal (seja no caso de a investidora que tiver incorporado a investida seja outra investidora que não a original, seja no caso de a investida estar incorporando uma investidora que não a original). Da mesma forma que no aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material, para fins de enquadramento no §6º do art. 386 do RIR/99, consuma se quando, na investida, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendido os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investida e a investidora original, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que honrará a rentabilidade futura passa a ser detentora da mais valia (ágio) do investimento baseado na expectativa dessa rentabilidade. Por bem adequadas, transcrevo palavras da recorrente: "Dentre os aspectos que impedem o ágio registrado ... de ser dedutível, citase aquele que fora ressaltado pelo Termo de Verificação Fiscal, qual seja: ausência do encontro num mesmo patrimônio do ágio com o investimento que lhe deu origem. Por certo, tal como fora ressaltado nas premissas teóricas apresentadas neste recurso, a dedução autorizada pelo artigo 386 do RIR/99 decorre de o encontro num mesmo patrimônio da participação societária adquirida com o ágio com esse mesmo ágio. Em face dessa “confusão patrimonial”, a legislação admite que o contribuinte considere perdido o seu capital investido com o ágio e, assim, deduza a despesa que teve com a “mais valia”. Todavia, para que haja esse encontro num mesmo patrimônio do ágio com o investimento que lhe deu origem, é imprescindível que a “mais valia” contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participa da “confusão patrimonial”. O investidor deve se confundir com o seu investimento. Assim, em outras palavras, no caso de uma incorporação, para que o ágio registrado seja dedutível nos termos do artigo 386 do RIR/99, deve a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento incorporar esse investimento, ou ser incorporada por ele. O ágio deve ser de fato pago por alguma das pessoas jurídicas que participam da incorporação, fusão ou cisão societária. Se assim não for, será impossível o ágio ir de encontro com o investimento que lhe deu causa. De acordo com a previsão legal, qualquer situação diferente da hipótese aqui ventilada não admite a dedução da despesa com amortização do ágio. Uma incorporação, fusão ou cisão societária que envolva um ágio que não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da operação societária não permitirá a aplicação do benefício fiscal instituído pelo artigo 386 do RIR/99. O ágio pode até Fl. 1749DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.750 38 existir contabilmente, mas não será dedutível na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. ... Na situação estudada, nenhuma das duas empresas participantes da operação societária arcou de fato com o ágio pago na aquisição das referidas quotas. Não houve “confusão patrimonial” da “mais valia” com o investimento que lhe deu causa." Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/99, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material. Na atual redação destes dispositivos e para o caso de incorporação "às avessas", exclusivamente no caso em que a investida adquire a investidora original (ou adquire diretamente a investidora, nessa linha de raciocínio as intermediárias não seriam investidoras de fato, apenas de direito) é que haverá o atendimento a esses aspectos, tendo em vista a ausência de normatização própria que amplie os aspectos pessoal e material a outras pessoas jurídicas ou que preveja a possibilidade de intermediação ou de interposição por meio de outras pessoas jurídicas. No caso dos autos, esses aspectos não foram satisfeitos, em especial dos aspectos pessoal e material, vejamos: A utilização de uma pessoa jurídica interposta (Leicester Comercial S.A) para transferência do ágio, que veio a ser adquirida pela investida (CELPE), mas que não era a investidora original (investidora de fato, a que pagou o ágio), implica no desatendimento dos aspectos pessoal e material e, conseqüentemente, na descaracterização da aplicação dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e dos artigos 385 e 386 do RIR/99, que resulta na impossibilidade da amortização do ágio. A amortização do ágio seria devida apenas se a empresa investida (CELPE) tivesse incorporado a investidora original (investidora strico sensu), pois somente essa se enquadra nos aspectos pessoal e material. Pouco importa terem havido motivos de ordem societária, técnica ou mercadológica que impediam a CELPE de incorporar a real investidora: são as situações que devem se moldar à lei, para fins de aplicação da norma, e não a lei que tem que se moldar às situações, o que implicaria em substituir a coercitividade da regra pela conveniência dos regrados. Portanto, relativamente à despesa de amortização de ágio, voto por DAR provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. Da multa isolada por falta de estimativas Tendo sido restabelecidas as autuações fiscais, deverá haver julgamento quanto à multa isolada por falta de pagamento das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, fazendose necessário o retorno à Turma a quo para o julgamento dos pontos específicos suscitados em relação a esta matéria, que não foram apreciados por ocasião do julgamento do recurso voluntário da contribuinte. Entender diferentemente, ou seja, a Câmara Superior julgar essa questão, implicaria em supressão de instância e em extrapolação dos limites do Recurso Especial de Divergência, pois estarseia julgando matérias para as quais não houve oportunidade de configuração de divergência. Fl. 1750DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.751 39 Até que se poderia defender eventual aplicação do princípio da celeridade processual, mas essa alternativa, a meu ver, colocaria a Câmara Superior em situação de julgar uma matéria para a qual não há paradigma (o que portanto pretende a CSRF uniformizar), e, portanto, nem a recorrente desenvolveu o tema a contento nem tampouco à recorrida foi dada a possibilidade de levantar eventual não conhecimento. Ademais, ainda que exista súmula tratando dessa matéria, não é produtivo a Câmara Superior gastar seu tempo analisando situações de enquadramento em súmulas, quando não está em jogo a uniformidade da jurisprudência, ainda mais quando tal desiderato pode ser feito a contento pela Turma a quo. 3) Falta de adição na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL de despesa de amortização de ágio – redução do prejuízo fiscal. Como já mencionado anteriormente, a decisão sobre esse item "3" é mera decorrência do que restar decidido no processo nº 19647.010151/200783, pois não há qualquer questão específica, autônoma, para esse último item do recuso especial sob exame. De acordo com a PGFN, uma vez demonstrada a incorreção da dedutibilidade do ágio, cabe como conseqüência inexorável, manter o entendimento da Fiscalização no sentido de que as compensações efetuadas pela CELPE devem ser consideradas indevidas por inexistência de saldo de prejuízos fiscais de exercícios anteriores. A decisão proferida no processo nº 19647.01051/200783, também julgado nesta mesma sessão, foi no sentido de manter a glosa das despesas de amortização de ágio, confirmando os ajustes (redução) dos prejuízos fiscais acumulados nos períodos objeto daquele outro processo (2001/2006). Assim, resta apenas manter o entendimento da Fiscalização no sentido de que as compensações efetuadas pela CELPE devem ser consideradas indevidas por inexistência de saldo de prejuízos fiscais de exercícios anteriores. Desse modo, voto no sentido de: AFASTAR a preliminar de nulidade trazida em sessão relativa à ausência de decorrência entre os processos nº 19647.01051/200783 e nº 10480.723383/201076. NEGAR provimento ao recurso especial quanto ao pleito de anulação do acórdão recorrido e sobrestamento do presente feito até o "trânsito em julgado" da decisão a ser proferida no processo nº 19647.01051/200783 (item 1); CONHECER do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários (item 2); DAR PROVIMENTO para fins de restabelecer a autuação fiscal pela glosa da despesa de amortização de ágio (item 2); DETERMINAR o RETORNO dos autos à Turma a quo para prolação de nova decisão apenas quanto à multa isolada por falta de recolhimento de estimativas mensais (reflexo do item 2); e Fl. 1751DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.752 40 DAR PROVIMENTO ao recurso especial quanto à compensação de prejuízos fiscais e bases negativas de anos anteriores, em razão do que restou decidido no processo nº 19647.01051/200783, julgado nesta mesma sessão. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 1752DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/201076 Acórdão n.º 9101002.187 CSRFT1 Fl. 1.753 41 Declaração de Voto. Conselheiro Luís Flávio Neto. Na reunião de janeiro de 2016, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (doravante “CSRF”) analisou o recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN” ou “recorrente”), em que é recorrida a COMPANHIA ENERGÉTICA DE PERNAMBUCO (doravante “CELPE”, “recorrida”, “investida” ou “adquirida”), no processo n. 10480.723383/201076. Em tal recurso, a PFN requer a reforma do acórdão n. 1301000.999 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela r. 1a Turma Ordinária da 3a Câmara desta 1a Seção (doravante “Turma a quo”), entre outras coisas, no que concerne à legitimidade da amortização fiscal de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. O acórdão recorrido restou assim ementado: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007 e 2008 DECADÊNCIA Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano calendário: 2007 e 2008 INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO – ARTIGOS 7º E 8º DA LEI Nº 9.532/97. INOCORRÊNCIA DE SIMULAÇÃO, ABUSO DE DIREITO OU ABUSO DE FORMA No contexto do programa de privatização, a efetivação da reorganização de que tratam os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, mediante a utilização de empresa veículo, desde que dessa utilização não tenha resultado aparecimento de novo ágio, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. TRIBUTAÇÃO REFLEXA – CSLL A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. A Turma a quo compreendeu que a amortização fiscal do ágio realizada pela CELPE teria sido legítima, de forma a afastar a glosa de tais despesas pretendida na autuação fiscal. Tratase, no caso, da exigência de créditos tributários, referentes ao IRPJ e à CSL do período de 2007 e 2008, em contibuindade ao auto de infração discutidos no Processo no 19647.010151/200783, o qual se refere ao período de 2001 a 2006. A partir dos fatos e provas levados à sua análise, a Turma a quo assentou, à fl. 1383 e seg. do eprocesso, que: Fl. 1753DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.754 42 - Em 17/02/2000, houve aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, realizada entre partes independentes, com efeito fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição: em um processo licitatório de desestatização, a CELPE, anteriormente pertencente ao Estado de Pernambuco, foi adquirida por um grupo de entidades de direito privado (ADL ENERGY S.A., CAIXA DE PREVIDÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL - PREVI, BB - BANCO DE INVESTIMENTO S.A. e 521 PARTICIPAÇÕES S.A., doravante “Novo Grupo de Controle”), com efetivo pagamento de sobrepreço (ágio) com fundamento em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida (CELPE). - Adotando-se o Método de Equivalência Patrimonial (MEP), o custo de aquisição do investimento foi desdobrado no valor patrimonial da CELPE e no ágio suportado, justificado pela expectativa de futuros lucros trazidos por esta. - Em 27/12/2000, foi realizado restruturação societária pelas entidades componentes do “Novo Grupo de Controle” da CELPE, de forma que: - foi realizado aumento de capital na empresa GUARANIANA S.A. (doravante “GUARANIANA”), com a integração do investimento detido na CELPE (94,94% do seu capital votante e 84,38% do capital total), pelo mesmo valor de sua aquisição; - a GUARANIANA realizou aumento de capital na empresa LEICESTER COMERCIAL S.A. (doravante “LEICESTER ” ou “investidora”), pelo mesmo valor de sua aquisição, mediante a integralização do investimento que detinha na CELPE; - Em 09/07/2001, a LEICESTER foi incorporada pela CELPE. Desde a referida absorção patrimonial, passou a ser realizada a amortização fiscal do aludido ágio apurado contra os lucros da CELPE, cuja expectativa de lucratividade deu causa ao ágio pago quando de sua aquisição, com fundamento nos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97; - Não houve dolo, fraude, simulação ou “abuso de direito” ou “abuso de formas” nas operações praticadas pelo contribuinte. A multa aplicada pela fiscalização foi, inclusive, de 75%. No julgamento do recurso especial interposto pela PFN, a CSRF, por maioria de votos, decidiu reformar o acórdão recorrido, de forma a manter a cobrança de IRPJ, CSL, multa de 75% e juros de mora lançados no AIIM. Com isso, foi mantido o ato da administração fiscal de glosa da amortização das despesas de ágio, não obstante tenha sido reconhecido o ágio apurado pelo “Novo Grupo de Controle” na aquisição da CELPE. Fl. 1754DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.755 43 Nesta declaração de voto, permissa vênia, apresento os fundamentos que me fizeram votar pelo não provimento do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional no que pertine à questão da amortização fiscal das despesas de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, por compreender que a cobrança tributária em questão ofende as normas que tutelam a matéria, em especial aquelas que decorrem do art. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97. Tais fundamentos serão organizados do seguinte modo: 1. O conceito de “ágio” por expectativa de rentabilidade futura e o Método de Equivalência Patrimonial (“MEP”). 2. A evolução da legislação e do tratamento jurídico-tributário do “ágio”. 3. A norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. 4. Evidenciação analítica dos elementos componentes da norma dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura 5. O vício imputado pela fiscalização para a glosa das despesas de amortização de ágio no presente caso. 6. Conclusões finais quanto ao caso em análise. 1. O conceito de “ágio” por expectativa de rentabilidade futura e o Método de Equivalência Patrimonial (“MEP”). A palavra “ágio” conduz à ideia de um sobrepreço que se paga por algo, um valor superior àquele seria o parâmetro esperado. 1 Um exemplo simplificado é útil para situar essa ideia geral. Na década de 90, em plena transformação da indústria automobilística brasileira, era comum que as concessionárias levassem meses para receber os automóveis adquiridos por seus clientes. O cliente comum, ansioso para receber o automóvel em que empenhava as suas economias, era submetido a uma longa e angustiante espera mesmo após já ter concretizado a compra. As concessionárias, então, vislumbraram nisso uma oportunidade: adquiriam antecipadamente alguns automóveis novos, assumindo o risco (baixo, devido à elevada procura) de não os vender. Assim, aos clientes eram apresentadas duas possibilidades: (i) a aquisição do veículo pelo preço de tabela, com a espera de alguns meses até a entrega pela fábrica ou; (ii) a aquisição do veículo em estoque (entrega imediata), com o acréscimo um determinado valor sobre o preço da tabela, a título de “ágio”. 1 Vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 13 e seg. Fl. 1755DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.756 44 Note-se que, ao optar pelo veículo em estoque e o pagamento do “ágio” referido, o adquirente realizaria o pagamento de um sobrepreço com o objetivo de desfrutar da posse do veículo antecipadamente, ao que estaria destituído dessa fruição imediata caso optasse por desembolsar apenas o preço de tabela do bem. Já o vendedor, por sua vez, seria recompensado pelo risco assumido e pelo adiantamento à fábrica do custo do automóvel. O “ágio”, nesse simplório exemplo outrora corriqueiro no mercado automobilístico brasileiro do varejo, ilustra bem quão normal é o pagamento de sobrepreços, bem como que este pode ser justificado por motivos distintos sob as perspectivas dos dois polos do negócio jurídico (adquirente e alienante). O ágio analisado no presente processo administrativo se refere à aquisição de participação acionária relevante em empresas (investidas) por outras empresas (investidoras). Nesse caso, como se verá no tópico “2” a seguir, o legislador reconheceu como justificativa negocial para o pagamento de ágio (ou deságio) a expectativa de rentabilidade futura da empresa investida, o valor de mercado de bens do ativo empresa investida superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. No presente recurso especial, está em análise um caso concreto no qual uma pessoa jurídica adquiriu participação societária relevante em outra pessoa jurídica (investimento), com o pagamento de um sobrepreço (ágio) justificado pela expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. 1.2. A identificação do ágio pelo Método de Equivalência Patrimonial (“MEP) Quando uma pessoa jurídica possui participação societária relevante em outra pessoa jurídica (controlada ou coligada), deve refletir em sua contabilidade tal investimento avaliando- o conforme o método da equivalência patrimonial (doravante “MEP”). Por sua vez, “ágios” e “deságios” são itens evidenciados nas demonstrações contábeis pelo MEP: a companhia deve evidenciar que parte do investimento mantido em sua controlada ou coligada não se justifica pelo valor patrimonial desta, mas sim por uma ágio despendido quando de sua aquisição, considerando o fundamento pelo pagamento deste 2 . Nos idos de 1976, a Lei 6.404 (“Lei das SAs”) regulou a adoção do MEP, especialmente em seu art. 248: “Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão 2 Após a Lei 12.943/2014, que se aplica a período posterior ao dos presentes autos, o ágio por expectativa de rentabilidade futura se tornou residual ao valor justo dos ativos da investida. Fl. 1756DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.757 45 avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: (…)” A legislação brasileira passou a prever que as pessoas jurídicas que detenham investimentos em controladas ou coligadas devem, ao realizar sua escrituração pelo MEP, desdobrar o custo destas (i) no valor do patrimônio líquido existente no momento da aquisição da respectiva empresa investida e (ii) no ágio ou deságio eventualmente suportado para a aludida aquisição: Decreto-lei n. 1.598/77 Art. 20 - O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I - valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II - ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º - O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º - O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º - O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Avaliação do Investimento no Balanço Art 21 - Em cada balanço o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no artigo 248 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e as seguintes normas: I - o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até 2 meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda. II - se os critérios contábeis adotados pela coligada ou controlada e pelo contribuinte não forem uniformes, o contribuinte deverá fazer no balanço ou balancete da coligada ou controlada os ajustes necessários para eliminar as diferenças relevantes decorrentes da diversidade de critérios; III - o balanço ou balancete da coligada ou controlada levantado em data anterior à do balanço do contribuinte deverá ser ajustado para registrar os efeitos relevantes de fatos extraordinários ocorridos no período; Fl. 1757DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.758 46 IV - o prazo de 2 meses de que trata o item I aplica-se aos balanços ou balancetes de verificação das sociedades, de que trata o § 4º do artigo 20, de que a coligada ou controlada participe, direta ou indiretamente. V - o valor do investimento do contribuinte será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido ajustado de acordo com os números anteriores, da porcentagem da participação do contribuinte na coligada ou controlada. Note-se que, para fins meramente contábeis e sem consequências tributárias, na empresa investidora, o ágio (ou deságio) lançado no ativo permanente, na conta de investimento, como ativo diferido, devendo ser deverá ser amortizado mediante débito ou crédito ao seu lucro líquido. Na empresa investida, por sua vez, o ágio componente do preço de emissão de ações, lançado como reserva de capital, não está sujeito à amortização e não afeta de modo algum o resultado. 3 Ainda sob a perspectiva contábil, vale observar que, contabilmente, o desdobramento do referido ágio também pode ser observado sob a perspectiva da pessoa jurídica investida, embora tais registros contábeis não apresentem qualquer importância para a questão em análise. Supondo-se que uma pessoa jurídica (investidora) realize aumento de capital com sobrepreço em uma outra empresa (investida), referido ágio seria escriturado em conta do ativo, de investimento. Já as demonstrações financeiras da investida, em tese, deveriam evidenciar o ágio em questão em conta de reserva de capital 4 . A referida escrituração de ágio pela investida não possui relevância para a análise em tela, pois não há comunicação necessária com os lançamentos contábeis realizados pela empresa investidora. Por essa razão, em nenhum momento a legislação que rege a matéria se volta aos valores contabilizados como ágio pela empresa investida, sendo relevante, apenas, a conta de investimento presente nas demonstrações financeiras da empresa investidora. A apuração ou mesmo amortização contábil do aludido ágio por expectativa de rentabilidade futura, escriturados pela empresa investidora em função do MEP, sempre permaneceram neutros para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. No que é mais relevante ao presente caso, prescreve o Decreto-lei 1.598/77: Art. 25 - As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. Conforme será evidenciado nos tópicos “2” e “3” e “4” a seguir, as consequências tributárias apenas surgiram com a realização do investimento, com a apuração do ganho (ou 3 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual - Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 461. 4 Pode-se supor, ainda, a hipótese em que uma pessoa jurídica investidora adquira os investimentos em uma outra pessoa jurídica, adquirindo as suas ações diretamente das mãos de seus antigos detentores. Caso seja pago ágio nessa operação, tais valores sequer viriam a ser escriturados pela empresa investida. Fl. 1758DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.759 47 perda) de capital prescrita pelo art. 33 do Decreto-lei 1.598/77, ou com a amortização do ágio à fração 1/60 decorrente da implementação da fórmula operacional básica prescrita pelo art. 7 o da Lei n. 9.532/97. 2. A evolução da legislação e do tratamento jurídico-tributário do “ágio”. Os lançamentos tributários atinentes ao caso concreto se reportam ao período compreendido entre 2007 e 2008. A posição cronológica dos fatos em tela é relevante para que possamos identificar os regramentos jurídicos aplicáveis, diante alterações legislativas sobre a matéria. No período que antecedeu a Lei 12.973/2014, vigorou no sistema jurídico brasileiro dois regimes distintos relacionados ao ágio, dedicados a funções bastante distintas: um regime contábil e outro regime tributário. 5 Embora possuíssem pontos em comum, eram evidentes os seus distanciamentos. Sob a perspectiva do Direito tributário, as três grandes reformas atinentes ao ágio se deram em 1977, 1997 e 2014, como será brevemente explicitado abaixo. Já sob a ótica do Direito contábil, é possível identificar apenas dois períodos, um anterior e outro posterior à Lei 11.638/2007. Note-se que essa lei introduziu alterações marcantes à matéria contábil, com a convergência das normas brasileiras aos padrões internacionais, mas não afetou em nada a apuração do ágio para fins fiscais. 6 Tais alterações de métodos contábeis, contudo, permaneceram neutras para fins fiscais até a edição da Lei n. 12.973/2014. Nos subtópicos a seguir, com a necessária ênfase ao que importa para a solução do caso concreto, o tratamento tributário do ágio nos marcos temporais de 1977, 1997 e 2014 serão analisados com paralelos à contabilidade, de forma a evidenciar a comunicação e os distanciamentos dessas searas. 2.1. A legislação do período pré-1997. Conforme se expos acima, a apuração do ágio conforme os arts. 20 e 21 do Decreto-lei 1.598/77 jamais apresentou consequências tributárias imediatas. É realmente possível dizer que 5 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 355. 6 Nesse sentido, vide: DIAS, Karem Jureidini; LAVEZ, Raphael Assef. “Ágio interno” e “empresa-veículo” na jurisprudência do CARF: um estudo acerca da importância dos padrões legais na realização da igualdade tributária, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 328. Fl. 1759DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.760 48 a amortização contábil das despesas de ágio sempre permaneceu neutra para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. Até 1997, a única consequência tributária para o ágio por expectativa de rentabilidade futura, apurado na contabilidade da empresa investidora pela adoção MEP, se daria apenas em caso de futura realização do investimento (por exemplo, futura venda da empresa investida), no momento da apuração do ganho ou perda de capital então apurado. Foi o que prescreveu o art. 33 do Decreto-lei 1.598/77: Investimento Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido Art. 33 - O valor contábil, para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 20), será a soma algébrica dos seguintes valores: I - valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II - ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados, nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real. III - ágio ou deságio na aquisição do investimento com fundamento nas letras b e c do § 2º do artigo 20, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte IV - provisão para perdas (art. 32) que tiver sido computada na determinação do lucro real. § 1º - Os valores de que tratam os itens II a IV serão corrigidos monetariamente. § 2º - Serão computados na determinação do lucro real: � a) como ganho de capital, o acréscimo do valor de patrimônio líquido decorrente de aumento na porcentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, resultante de modificação do capital social desta com diluição da participação dos demais sócios; � b) como perda de capital, a diminuição do valor de patrimônio líquido decorrente de redução na porcentagem da participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, em virtude de modificação no capital social desta com diluição da participação do contribuinte. Dessa forma, desde a década de 70 até 1997, o ágio suportado pela investidora com fundamento em expectativa de rentabilidade futura teria relevância para fins tributários apenas no momento de eventual e posterior realização do investimento, com a redução proporcional da base de cálculo do ganho de capital então apurado. Em tal momento, tais despesas poderiam ser aproveitadas integralmente na apuração do ganho (ou perda) de capital, sem qualquer fracionamento. Essa possibilidade de aproveitamento fiscal integral do ágio pago conduziu a debates em torno de situações consideradas abusivas, à certa insegurança jurídica e, finalmente, à alteração de sua sistemática pela edição da Lei n. 9.532, de 10.12.1997 Fl. 1760DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.761 49 2.2. A legislação que perdurou de 1997 a 2014: aplicável ao caso dos autos, cujo período de apuração é 2007-2008. Com edição da Lei n. 9.532/97, o legislador ordinário alterou sensivelmente as consequências fiscais do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A partir de então, passou a ser possível o aproveitamento do ágio à fração 1/60 ao mês, desde o momento em que o ágio escriturado pela investidora viesse a ser confrontado, em um mesmo acervo patrimonial, com os lucros advindos da empresa investida que justificaram o pagamento desse sobrepreço por expectativa de rentabilidade futura. A possibilidade de amortização das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, da forma prescrita pela Lei n. 9.532/97, depende do cumprimento de uma fórmula operacional básica, que pressupõe o fenômeno societário da absorção patrimonial, com a reunião (por incorporação, fusão ou cisão) do patrimônio da pessoa jurídica investidora com a pessoa jurídica investida, a fim de que o aludido ágio registrado naquela seja emparelhado com os lucros gerados por esta. Concretizada a absorção patrimonial exigida pelo legislador, o ágio apurado em aquisição precedente pode ser amortizado, com a redução da base de cálculo do IRPJ e da CSL, no mínimo em 60 meses, nos balanços levantados após a ocorrência de um desses eventos, ainda que a incorporada ou cindida seja a investidora (incorporação reversa). É o que se observa dos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97: Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I - deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II - deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III - poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decreto-lei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração 7 ; IV - deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anos-calendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. 7 Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998. Fl. 1761DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.762 50 § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. Art. 8º. O disposto no artigo anterior aplica-se, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Há quem aponte que os arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97 veiculariam beneficio fiscal 8 . Para LUCIANO AMARO, tratar-se-ia de “estímulo a investimento na aquisição de empresas privadas com perspectivas de crescimento de rentabilidade, como incentivo à geração de riqueza, de empregos e, como consequência, de incrementar a própria arrecadação tributária” . Ainda que tais efeitos indutores possam ser observados em alguns casos, parece mais correto compreender que os arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97 enunciam mera norma de dedutibilidade para apuração do IRPJ e da CSL, que inclusive limita quantitativamente a amortização do ágio em questão à fração 1/60 ao mês (ao contrário de “ampliar”, ao que seria um benefício), antes consumada em um único ato 9 . 8 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 714. 9 No mesmo sentido, vide: FAJERSZTAJN, Bruno; COVIELLO FILHO, Paulo. “Transferência” de ágio por meio da chamada empresa-veículo. Reflexões sobre o tema à luz da lógica e da finalidade dos arts. 7 e 8 da Lei n. 9.532/1997, in Revista Dialética de Direito Tributário n. 231. São Paulo : Dialética, 2014, p. 25 e seg. Fl. 1762DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.763 51 De benefício fiscal não se trata. O legislador simplesmente impõe que o sobrepreço em questão seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Trata-se de norma que regula a amortização fiscal de despesas com ágio por meio de uma fórmula operacional básica, bem como limita quantitativamente o exercício de tal direito à fração 1/60 ao mês. Ainda que não seja determinante para a interpretação da norma em apreço, a exposição de motivos da Lei n. 9.532/97 é ilustrativa, in verbis 10 : “11. O art. 8 o estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já conhecidos ‘planejamentos tributários’, vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo”. A exposição de motivos reafirma algo que está claro no texto legislado: o legislador não pretendeu restringir o legítimo aproveitamento do ágio por expectativa de rentabilidade futura, mas sim regular a sua fruição aos casos em que realmente ocorra aquisição de investimento relevante em pessoa jurídica com efetivo sobrepreço. A decisão do legislador foi segregar situações em que há correta apuração do ágio por expectativa de rentabilidade futura de outras que, por corresponderem a operações fictícias, realmente não poderiam ser tratadas da mesma forma. Se algum “benefício” foi pretendido em 1997 pelo legislador ordinário, este consistiu no estabelecimento de ambiente de segurança jurídica para a realização de aquisições de empresas privadas brasileiras. Em franco plano econômico de desestatização aclamado pelo governo, seguido de período de intenso movimento econômico e investimentos em empresas brasileiras (“M&A”), seria relevante aos investidores ter ambiente jurídico seguro, com uma objetiva fórmula operacional básica a ser seguida. As discussões existentes sobre o ágio até 1997 poderiam fragilizar o ambiente de confiança jurídica e econômica com inevitável inibição de investimentos, o que foi remediado pelo legislador ordinário com a edição da Lei n. 9.532/97. 10 Note-se apenas que, no projeto de lei, o dispositivo era numerado como “8o”, mas na redação aprovada foi veiculado pelo art. “7o”. Fl. 1763DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.764 52 Em relação ao processo de desestatização – que é o caso dos autos –, o legislador achou por bem reafirmar a legitimidade de restruturações societárias realizadas após a aquisição das empresas privatizadas, como se observa da Lei n. 9.491/97: “Art. 4º As desestatizações serão executadas mediante as seguintes modalidades operacionais: I - alienação de participação societária, inclusive de controle acionário, preferencialmente mediante a pulverização de ações; II - abertura de capital; III - aumento de capital, com renúncia ou cessão, total ou parcial, de direitos de subscrição; IV - alienação, arrendamento, locação, comodato ou cessão de bens e instalações; V - dissolução de sociedades ou desativação parcial de seus empreendimentos, com a conseqüente alienação de seus ativos; VI - concessão, permissão ou autorização de serviços públicos. § 1º A transformação, a incorporação, a fusão ou a cisão de sociedades e a criação de subsidiárias integrais poderão ser utilizadas a fim de viabilizar a implementação da modalidade operacional escolhida.” (grifos acrescidos) No entanto, o presente julgamento, ocorrido aproximadamente 20 anos após a enunciação da Lei n. 9.532/97 e da 9.491/97, demonstra que a sua aplicação tem gerado uma série de outras incertezas. E, permissa vênia, a interpretação adotada pela fiscalização na lavratura do auto de infração em tela demonstra que uma enorme insegurança jurídica – justamente o contrário do pretendido com a Lei n. 9.532/97 – está sendo imposta à contribuinte, ora Recorrente, o que não deve prosperar. 2.3. Período pós 2014: alterações trazidas pela Lei n. 12.973 ao reconhecimento e aproveitamento fiscal do ágio. Desde a edição da Lei n. 12.973/2014, o tratamento fiscal do ágio sofreu algumas modificações, mas manteve-se em boa medida incólume. Note-se que, em 2014, o legislador mais uma vez manifestou a sua decisão sobre a apuração e o aproveitamento do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. O legislador teve a oportunidade para aprimorar o sistema jurídico de forma a reduzir o contencioso com nova regulamentação quanto às exigências para a amortização do ágio. Tal decisão legislativa restou bastante aclarada em relação a discussões como a demonstração do valor do ágio por expectativa de rentabilidade futura (agora a lei exige a elaboração de um laudo específico e em determinado prazo, o que não existia anteriormente) 11 e a validade do 11 Com as alterações introduzidas pela Lei n. 12.973/2014, o art. 20 do Decreto-lei 1.598/76 passou a contar com o seguinte dispositivo: “§ 3o O valor de que trata o inciso II do caput deverá ser baseado em laudo elaborado por perito independente que deverá ser protocolado na Secretaria da Receita Federal do Brasil ou cujo sumário deverá ser registrado em Cartório de Fl. 1764DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.765 53 “ágio interno” (agora a lei veda a apuração de ágio na aquisição de investimento relevante realizada entre partes dependentes, o que não existia anteriormente) 12 . O silêncio do legislador, na reforma de 2014, em relação a temas igualmente contenciosos, como o da transferência de investimento com ágio analisado nos presentes autos, pode ser compreendido como inexistência de oposição às possíveis restruturações societárias que o participar venha a sofrer. Referido silêncio pode ser considerado como reconhecimento do direito de auto-organização garantido ao particular pelo princípio da livre iniciativa, de forma que não haverá nenhuma sanção a isso no que concerne ao aproveitamento do ágio legitimamente apurado na operação originária de aquisição de investimento relevante. Trata-se de um silêncio eloquente. 3. A norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. A norma em questão prescreve que, na hipótese de aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, com a correta adoção do MEP para apuração pela investidora do patrimônio líquido da investida e do correspondente ágio, acompanhada da fórmula operacional básica estipulada em lei para a absorção, pela pessoa jurídica investidora, do acervo patrimonial da controlada ou coligada que justificou o ágio incorrido em sua aquisição (ou vice versa), então a consequência jurídico-tributária deverá ser a amortização da fração de 1/60 por mês do ágio por expectativa de rentabilidade futura contra as receitas da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição). 4. Evidenciação analítica dos elementos componentes da norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura Este tópico se dedica à exposição analítica da norma de amortização do ágio, com o isolamento de elementos essenciais à sua aplicação. Também serão suscitados fatores que, embora não sejam determinantes, corroboram para o reconhecimento da legitimidade das operações envolvidas, bem como outros que são indiferentes e não devem interferir na fruição da amortização das despesas com ágio. Registro de Títulos e Documentos, até o último dia útil do 13o (décimo terceiro) mês subsequente ao da aquisição da participação”. 12 Vide Lei n. 12.973/2014 prevê, art. 22: “Art. 22. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detinha participação societária adquirida com ágio por rentabilidade futura (goodwill) decorrente da aquisição de participação societária entre partes não dependentes, apurado segundo o disposto no inciso III do caput do art. 20 do Decreto-Lei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, poderá excluir para fins de apuração do lucro real dos períodos de apuração subsequentes o saldo do referido ágio existente na contabilidade na data da aquisição da participação societária, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período de apuração.”. Fl. 1765DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.766 54 A doutrina do Direito tributário há muito evidencia que, para que se desencadeiem as consequências jurídicas da norma, devem ser verificadas no mundo fenomênico todas as notas previstas em sua hipótese de incidência pelo legislador. O princípio da legalidade, explicado por essa formulação, se consubstancia na exigência de lei em sentido estrito para a eleição dos elementos essenciais tanto da hipótese de incidência do tributo quando do seu consequente normativo (obrigação tributária). A norma de amortização do ágio está sujeita a tais exigências, pois interfere diretamente na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSL. Desse modo, no subtópico “4.1” a seguir, serão identificados quais elementos são requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A jurisprudência do CARF, por sua vez, passou a consagrar fatores que corroborariam para que a estrutura jurídica adotada pelo contribuinte seja considerada “real”. Tais elementos não são requisitos essenciais, por não terem sido erigidos de tal forma pelo legislador, mas tem corroborado para a formação do convencimento em algumas decisões proferidas no âmbito do CARF, como uma espécie de safe harbour. Em homenagem a essa jurisprudência administrativa e à função de uniformização da CSRF, os aludidos fatores serão analisados no subtópico “4.2”. Por fim, não se pode deixar de sublinhar alguns elementos cuja ocorrência é completamente indiferente para que o contribuinte possa ou não amortizar do ágio na forma prescrita pelos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97, os quais serão analisados no subtópico “4.3”. 4.1. Elementos que são requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio. A hipótese de incidência da norma que atribui consequências tributárias ao ágio incorrido por expectativa de rentabilidade futura apresenta elementos cuja presença é essencial, como: - Aquisição de investimento relevante com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; - Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; - Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido; - A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição); - Absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou vice-versa). Fl. 1766DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.767 55 4.1.1. Aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; O art. 7 o da Lei n. 9.532/97 estabelece um marco originário para a apuração do ágio potencialmente dedutível da base de cálculo do IRPJ e da CSL: o momento da aquisição de investimento com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura. Essa operação é que será determinante para a apuração do ágio que, caso cumprida fórmula operacional básica prescrita pelo legislador, dará ensejo à amortização fiscal. Assim, é requisito essencial da norma analisada que seja realizada, por pessoa jurídica, uma operação (real, obviamente) de aquisição de investimento em outra pessoa jurídica, na qual haja contraprestação pela investidora de um sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura por parte da investida. 4.1.2. Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição. A Lei nº 9.532/97, em seu art. 7º, apenas faz referência à “participação societária adquirida com ágio ou deságio”, sem especificar a forma como deve ser implementada tal aquisição. A maneira mais obvia de aquisição seria o pagamento em moeda, embora seja muito comum que aquisições desse tipo ocorram, por exemplo, por meio de integralização de ações. O legislador não restringiu qualquer dessas possibilidades. Pelo contrário, o legislador utilizou de termos amplos o suficiente para abarcar aquisições realizadas por quaisquer formas de contraprestação: o pressuposto de aplicação da norma é a aquisição, por qualquer forma jurídica, na qual exista contraprestação com ágio, o que pressupõe a existência de fluxo financeiro ou quaisquer outras formas de sacrifícios econômicos envolvidos na operação. Do legado do Conselheiro MARCOS SHIGUEO TAKATA 13 , observa-se que “esse preço, repita-se, pode dar-se em ‘moeda’ diversa a dinheiro, como ações emitidas pela companhia incorporadora de ações, como já descrito, no caso de incorporação de ações”. 4.1.3. Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e ágio por expectativa de rentabilidade futura. A legislação brasileira dispõe sobre pessoas jurídicas obrigadas à adoção do MEP para refletir em suas demonstrações contábeis o valor do investimento mantido em sociedades 13 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídico-contábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 211-212. Fl. 1767DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.768 56 coligadas ou controladas pelo valor do patrimônio liquido destas. Por sua vez, também há pessoas jurídicas que, embora não possuam a priori tal obrigação, tornam-se igualmente obrigadas a adotar o MEP em situações específicas. No caso, a norma que se obtém da análise do art. 7 o c/c o art. 8 o da Lei n. 9.532/97 torna obrigatória a avaliação do investimento pelo MEP a toda pessoa jurídica que realizar aquisição, por qualquer forma jurídica, na qual exista contraprestação com ágio. O contribuinte que realizar a referida aquisição de investimento deverá, por ocasião desse evento, desdobrar o custo de aquisição em: (i) valor do patrimônio líquido da empresa investida verificado no momento de sua aquisição e; (ii) ágio por expectativa de rentabilidade futura incorrido na referida aquisição. Há determinação peremptória para que o contribuinte realize tal segregação, de tal forma que não lhe é dado seguir por outro caminho caso pretenda amortizar as fiscalmente tais despesas. 14 A decomposição do investimento nesses dois elementos é mandatória, apenas sendo facultativa a amortização do ágio para fins fiscais (IRPJ e CSL) na proporção máxima de 1/60 ao mês. Tratando-se de deságio, por sua vez, as suas consequências fiscais são naturalmente cogentes. 15 4.1.4. A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Analiticamente, enquanto os dois fatores anteriores (“4.1.1”, “ 4.1.2” e “4.1.3”) e o fator seguinte (“4.1.5”) compõem a hipótese de incidência da norma de amortização do ágio, o presente elemento compõe o seu consequente normativo. No entanto, para que se compreenda a razão da adoção pelo legislador da fórmula operacional básica analisada a seguir (“4.1.5”), é essencial compreender como o pareamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa adquirida com o ágio incorrido pela sua aquisição interfere na efetiva dedutibilidade do ágio (consequente normativo). A regra de amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura não traz ao contribuinte um benefício fiscal pela criação de “créditos presumidos” ou “fictícios”. O legislador simplesmente recorresse um sobrepreço efetivamente incorrido e impõe que este seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado 14 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual - Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 457-8. 15 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual - Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 457-8. Fl. 1768DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.769 57 causa ao ágio quando de sua aquisição. Ao conceber a amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura como mera norma de dedutibilidade em conformidade com o conceito de renda tributável, o legislador, então, prescreveu o necessário emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa adquirida com o ágio incorrido pela sua aquisição. O legislador se baseou no “princípio do emparelhamento das receitas e despesas” , que é decorrência princípio da competência, aplicável como regra geral para a apuração do IRPJ e da CSL 16 . Mais do que ter se baseado, é possível afirmar que o legislador tributário, ao tutelar a amortização fiscal do ágio, se manteve coerente com o regime de competência e com as normas que o regulam no Direito societário. Note-se o que prescreve o art. 177 da Lei n. 6.404/76: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. (grifos acrescidos) O legislador foi enfático, pois entre os “princípios de contabilidade geralmente aceitos” ou “princípios fundamentais da de contabilidade” 17 está justamente o princípio da competência, do qual decorre o “princípio do emparelhamento das receitas e despesas” . A adoção de tais princípios contábeis como regra geral para a apuração do resultado das companhias também foi prescrita de forma expressa no art. 187 da Lei n. 6.404/76: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: (...) § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. A Resolução CFC n. 750/93 também exprimiu ser decorrência necessária do princípio da competência a adoção do método (ou “princípio”) do confronto das receitas e despesas, como se observa do art. 9 o da aludida norma contábil: Art. 9º. As receitas e as despesas devem ser incluídas na apuração do resultado do período em que ocorrerem, sempre simultaneamente quando se correlacionarem, independentemente de recebimento ou pagamento. § 1º O Princípio da COMPETÊNCIA determina quando as alterações no ativo ou no passivo resultam em aumento ou diminuição no patrimônio líquido, 16 Há exceções ao princípio da competência, cabendo ao legislador ordinário optar entre este e o regime de caixa. Mas, aqui, aplica-se a regra geral do regime de competencia. 17 Vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Fundamentos do imposto de renda. São Paulo : Quartier Latin, 2008, p. 1038 e seg. Fl. 1769DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.770 58 estabelecendo diretrizes para classificação das mutações patrimoniais, resultantes da observância do Princípio da OPORTUNIDADE. § 2º O reconhecimento simultâneo das receitas e despesas, quando correlatas, é conseqüência natural do respeito ao período em que ocorrer sua geração. Com as alterações introduzidas pela Resolução CFC n. 1.282/10, o aludido dispositivo passou a constar com outra redação, sem alterar em nada o princípio do emparelhamento das receitas e despesas. Como nem poderia ser diferente, a norma contábil reafirma o método do emparelhamento de receitas e despesas como pressuposto para a concretização do princípio da competência: Art. 9º. O Princípio da Competência determina que os efeitos das transações e outros eventos sejam reconhecidos nos períodos a que se referem, independentemente do recebimento ou pagamento. Parágrafo único. O Princípio da Competência pressupõe a simultaneidade da confrontação de receitas e de despesas correlatas. No caso da amortização fiscal das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, o referido método (ou princípio) contábil é vivificado sob a premissa de que “despesas antecipadas devem ser ‘guardadas’ (ativadas) até que se verifiquem as receitas que lhe são correspondentes.” 18 , o que condiz com a observância do princípio da competência e do emparelhamento de receitas e despesas: a amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. A questão técnica imediatamente surgida ao legislador foi identificar, nas normas societárias e contábeis brasileiras, formas possíveis para operar o aludido emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa investida com o ágio apurado pela investidora quando de sua aquisição. Afinal, a despesa com o ágio por expectativa de rentabilidade futura se encontraria em um entidade (empresa investidora), enquanto que as receitas que ocasionariam a geração dos lucros futuros seriam gerados por outra entidade (empresa investida). Em alguns países, a exemplo dos Estados Unidos, em que o princípio da entidade é tratado de forma diversa e há a consolidação dos demonstrativos contábeis da controladora e de suas subsidiárias, é comum verificar-se o que se chama de “push down accounting”. Por meio desse, em hipótese, com a consolidação dos balanços da controladora e de suas subsidiárias, as despesas de ágio apuradas por aquela seriam trazidos para baixo e confrontados com lucros gerados por esta. Se o legislador tributário brasileiro estivesse imerso em tal tradição jurídica, certamente não teria qualquer desafio para implementar um permissivo legal à amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura: em razão da consolidação dos balanços e do 18 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 150-1. Fl. 1770DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.771 59 “push down accounting”, haveria comunicação natural das despesas com o ágio e as receitas cuja expectativa de geração futura justificou a sua assunção. No Brasil, no entanto, não há correspondente ao chamado “push down accounting”, com uma tradição societária e contábil firme no princípio da da entidade. O problema se mostrou evidente: como possibilitar que a empresa investidora amortize o ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, deduzindo-o dos aludidos lucros quando se concretizarem, se estes (ágio e lucro) se encontram em entidades distintas (controladora e controlada)? Assim, com base nas normas societárias e contábeis brasileiras, coube ao legislador tributário estabelecer uma fórmula operacional básica apta a emparelhar o ágio escriturado pela investidora com os efetivos lucros gerados pela empresa investida, cuja expectativa tenha dado causa ao ágio apurado quando de sua aquisição. 4.1.5. Fórmula operacional básica: absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou vice-versa). Caso se adote o sentido estrito da expressão “planejamento tributário” 19 , a questão do ágio estará fora de sua matéria. Ocorre que a regra expressa pelos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97 situa a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, em termos estritos, entre as “economias de opção” ou “opções fiscais” 20 . Nas chamadas opções fiscais, o sistema jurídico tributário oferece ao contribuinte mais de uma sistemática para que submeta os seus signos de riqueza à tributação: é garantida ao contribuinte a liberdade para optar pelo caminho que lhe parecer mais adequado, seja por praticidade ou por lhe proporcionar menor ônus tributário. Explorando o exemplo da DIRPF 21 , com opção pela sistemática simplificada ou completa, verifica-se que o legislador prescreveu ao contribuinte uma fórmula procedimental básica a ser seguida pela pessoa física: no programa de computador fornecido pela Receita Federal, o contribuinte deve pura e simplesmente optar pelo modelo simplificado ou completo. O programa de computador calcula para o contribuinte qual opção lhe trará o menor custo de IRPF e, caso se opte pelo modelo mais oneroso, o sistema não prossegue até que o contribuinte 19 Em meio às muitas divergências que o tema suscita na doutrina nacional, alguns autores incluem no conceito de planejamento tributário a utilização de opções fiscais e de normas tributárias indutoras, já que o contribuinte, ao praticar os referidos atos, certamente teria realizado prévio estudo, planejando-os. Nesse sentido, vide: ANDRADE FILHO, Edmar Oliveira. Planejamento tributário. São Paulo : Saraiva, 2009, p. 02. Outros, por sua vez, as excluem “do âmbito do planejamento, pois correspondem a escolhas que o ordenamento positivo coloca à disposição do contribuinte, abrindo expressamente a possibilidade de escolha” Nesse sentido, vide: GRECO, Marco Aurélio. Planejamento tributário. São Paulo : Dialética, 2008, p. 100. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária - limites normativos. Tese apresentada ao concurso de livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 240. 20 No mesmo sentido, vide: FAJERSZTAJN, Bruno; COVIELLO FILHO, Paulo. “Transferência” de ágio por meio da chamada empresa-veículo. Reflexões sobre o tema à luz da lógica e da finalidade dos arts. 7 e 8 da Lei n. 9.532/1997, in Revista Dialética de Direito Tributário n. 231. São Paulo : Dialética, 2014, p. 25 e seg. 21 DIRPF - Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física. Fl. 1771DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.772 60 confirme estar certo de que realmente irá optar por pagar mais (mensagem semelhante não aparece caso o contribuinte opte pelo caminho mais natural de poupar despesas tributárias). Neste exemplo, não estaria o contribuinte realizando um “planejamento tributário”, mas algo não apenas tolerado como regulado e incentivado pelo legislador: “opções fiscais” ou “economias de opção”. Por sua vez, com o objetivo de permitir expressamente a amortização fiscal (IRPJ e CSL) do ágio por expectativa de rentabilidade futura, o legislador tributário também forneceu a fórmula procedimental básica a ser seguida: - os lucros gerados pela pessoa jurídica investida devem ser confrontados com a fração de amortização do ágio apurado pela empresa (coerência do legislador com tradicional método do emparelhamento de receitas e despesas para a apuração do IRPJ e CSL). - como não há no sistema jurídico brasileiro norma de consolidação de balanços que conduza ao “push down accounting”, o legislador tributário prescreveu ao contribuinte a necessidade de reunião das pessoas jurídicas investidora e investida (absorção patrimonial), por meio de incorporação, fusão ou cisão. É necessário deixar claro que o legislador não buscou induzir a concentração de empresas por meio das normas do art. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97. Não há vestígios de discussões legislativas nesse sentido, não há indicações de tal jaez no texto legislação e também não se concebe plausividade em indução de concentração econômica das empresas. O legislador não buscou induzir a concentração de empresas pura e simplesmente, como se isso fosse algum valor a ser alcançado pela sociedade. Caso a tradição jurídica brasileira consagrasse norma geral consolidação de balanços, o referido “push down accounting” tornaria prescindível o fenômeno da absorção para a reunião patrimonial das empresas investida e investidora, pois a adoção deste método faria com que a empresa investida trouxesse para si (“para baixo”) as despesas de ágio apurado pela empresa investidora. A exigência normativa, portanto, reside simplesmente em uma necessidade técnica de reunião (i) do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com (ii) o acervo patrimonial em que estão registrados os sacrifícios do investimento realizado, com a segregação, pelo MEP, dos valores atinentes ao ágio e ao valor patrimonial da investida identificado quando de sua aquisição. A exigência do legislador consiste simplesmente no emparelhamento de receitas e despesas, o que se dá com “‘a realização’ do investimento, mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento” 22 . 22 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. Fl. 1772DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.773 61 Essa fórmula operacional básica é bem descrita por LUCIANO AMARO 23 , quando identifica que “o que autorizará a amortização do ágio é a operação de incorporação (ou fusão ou cisão) que implique a “confusão” na mesma entidade (investidora ou investida, ou terceira empresa resultante de fusão de ambas) do investimento societário e do acervo da investida que justificou o ágio pago na aquisição desse investimento”. Conclui esse professor, acertadamente, que “A lei não criou obstáculos. Pelo contrário, afastou-os expressamente” 24 . Para que a junção em uma mesma entidade do fluxo futuro de renda (gerado pelo acervo da investida) com as despesas de ágio para a aquisição do investimento (contabilizado na empresa investidora), a norma prevê amplas formas jurídicas, contemplando incorporações, fusões ou mesmo cisões. Assim, considerando que uma empresa (“X”) adquire investimento relevante de outra empresa (“Y”), com o pagamento de sobre preço (ágio) justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma conduz a situações como: - se a empresa investidora (“X”) incorporar a empresa investida (“Y”), esta deixaria de existir, passando a existir apenas aquela (“X”) com a sucessão universal de todos os direitos e obrigações desta (“Y”). Assim, das receitas da então empresa investida (“Y”) poderiam ser deduzidas, no limite de 1/60 mensais, as despesas de amortização de ágio apuradas pela investidora (“X”). O mesmo se daria com a incorporação reversa, na hipótese da empresa investida (“Y”) incorporar a investidora (“X”), por permissivo expresso do art. 8 o , “b” da Lei n. 9.532/97. - se a empresa investidora (“X”) for cindida, resultando na criação de nova empresa (“X2”) com o investimento detido na investida (“Y”) e, posteriormente, incorporar esta, a empresa investida (“Y”) deixará de existir, passando a existir apenas cindida (“X2”). Devido à sucessão universal de todos os direitos e obrigações, as receitas da então empresa investida (“Y”) poderão ser amortizadas, no limite de 1/60 mensais, com as despesas de ágio apuradas pela investidora (“X2”). A cisão parcial seguida da incorporação reversa também seria possível, por permissivo expresso do art. 8 o , “b” da Lei n. 9.532/97. - se a empresa investidora (“X”) e a investida (“Y”) forem fusionadas, deixando de existir para dar lugar ao nascimento da empresa fundida (“Z”), a qual receberá por sucessão universal todos os direitos e obrigações daquelas (“X” e “Y”), as receitas da então empresa investida (“Y”) poderão ser amortizadas, no 23 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 719. 24 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 718. Fl. 1773DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.774 62 limite de 1/60 mensais, com as despesas de ágio apuradas pela investidora (“X”). Nesse seguir, a mens legis ou ratio legis das regras em análise se torna evidente: o ágio decorrente da aquisição deverá ser amortizado do lucro obtida pela empresa adquirida, o que demanda comunicação entre ambas ou seja, “absorção”. É dizer: para que o objetivo da norma seja alcançado (qual seja, a amortização do ágio), o meio selecionado como requisito essencial foi a reunião, “absorção” das pessoas jurídicas investidora e investida. Permitam-me a transcrição das acertadas ponderações de RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA 25 , emitidas em âmbito acadêmico: “Destarte, para que esse objetivo legal seja atingido, é necessário trazer o lucro para dentro da pessoa jurídica que tenha adquirido a participação societária com a expectativa de rentabilidade da mesma, ou levar o ágio ou deságio para dentro da pessoa jurídica produtora do resultado esperado, o que se faz por incorporação ou cisão de uma delas e absorção pela outra. Ou, ainda, o mesmo objetivo pode ser alcançado levando-se o ágio ou deságio e o lucro para dentro de uma nova pessoa jurídica, o que se faz por fusão das duas pessoas jurídicas, que ficam absorvidas pela nova. Em suma, no contexto dos arts. 7 o e 8 o é essencial que haja absorção de patrimônio por via de incorporação, fusão ou cisão, de maneira a reunir ágio ou deságio e lucro numa única pessoa jurídica. É por isso mesmo – por ser acontecimento inerente ao tratamento objetivado pela lei – que a reunião das pessoas jurídicas é coisa natural e não deve ser vista com a desconfiança que tem caracterizado alguns procedimento fiscais, a qual é totalmente descabida quando efetivamente tenha ocorrido uma aquisição com ágio, eis que o passo subsequente inevitável, previsto na lei, é a incorporação, fusão ou cisão das pessoas jurídicas investidora e investida.” É importante observar que as operações referidas nos arts. 7 o e 8 o da Lei 9.532/97 não devem ser consideradas fora de seu contexto. Assim, se uma empresa (“X”) adquire investimento relevante de outra empresa (“Y”), com o pagamento de ágio justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma fiscal não autoriza a amortização do referido ágio, por exemplo, se a empresa investidora (“X”) for incorporada por uma terceira empresa (“Z”). Nesse caso, a referida empresa incorporadora (“Z”), por sucessão universal de todos os direitos e obrigações, passaria a deter o investimento da empresa cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o pagamento de ágio (“Y”). Ocorre a transferência do investimento e do respectivo ágio, o que é indiferente sob a perspectiva tributária, isto é, nem é vedado e nem gera o direito à amortização, conforme será melhor analisado no tópico “4.3.2” . Apenas se a aludida incorporadora (“Z”), por exemplo, incorporar, ser incorporada ou realizar fusão 25 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Revista Direito tributário atual - Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 459-0. Fl. 1774DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.775 63 com a empresa investida (“Y”), é que estaria autorizada a amortização fiscal do ágio em questão. 26 É correta, então, a afirmação de RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA 27 , de que “a condição legal de reunião das pessoas jurídicas não é simplesmente formal, vazia de conteúdo racional, pois a absorção, seja por via de fusão ou de incorporação ou de cisão, é verdadeiramente necessária para que se possa dar a reunião do ágio ou deságio e do lucro numa única pessoa jurídica.” A precisão dessa assertiva é confirmada com o requisito analisado no subtópico anterior, qual seja: o legislador impõe que o ágio em questão seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. 4.2. Elementos que não são requisitos essenciais, mas que corroboram para reconhecimento dos elementos da hipótese de incidência e, assim, com o desencadeamento da consequência tributária (amortização fiscal do ágio). Desde a edição da Lei n. 9.532/97, uma série de questionamentos passaram a ser suscitados diante de casos concretos. Em uma era farta de restruturações societárias (“M&A”) impulsionadas por ambiente econômico favorável ao investimento doméstico e estrangeiro, os contribuintes e seus consultores jurídicos precisaram analisar a aplicação das regras de amortização de ágio às peculiaridades dos mais variados negócios jurídicos. A administração tributária, por sua vez, passou a acompanhar e a identificar casos de possível “abuso” no aproveitamento do ágio fiscal. A jurisprudência administrativa, por sua vez, empiricamente gravou situações como indicativas de “abuso”, o que viciaria de tal modo as operações que lhe destituiriam o direito à amortização de “ágio” referido nos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97. Ao mesmo tempo, a pragmática do CARF também resultou em progressiva indicação de safe harbours, fatores que, quando presentes, evidenciariam à administração fiscal a legitimidade fiscal dos negócios praticados pelo contribuinte, colocando-o em um porto seguro. Muitas vezes, a presença de algum desses fatores resulta na consideração de uma operação como a priori legítima. Há um limite que deve ser observado em relação a tais critérios de análise colhidos da experiência e de julgados do CARF. Embora sejam importantes para a sistematização da forma como os casos são julgados em vista de elementos em comum, não podem descarrilhar para 26 Nesse sentido, vide: AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715-720. 27 OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual - Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 459-0. Fl. 1775DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.776 64 uma legislativa imprópria desse Tribunal, com enunciação de critérios não previstos nos enunciados legislativos vigentes à época dos fatos geradores. Alguns desses fatores são objetivos, como é o caso da aquisição realizada de partes não relacionadas (“4.2.1” , abaixo), da existência de minoritários que demandem medidas societárias de proteção (“4.2.2” , abaixo), da inexistência de “prejuízos” à Fazenda Pública decorrente das restruturações societárias realizadas (“4.2.3” , abaixo). Outros fatores, por sua vez, possuem natureza subjetiva, cujo maior exemplo é a verificação de propósitos negociais e extratributários (“4.2.4” , abaixo). Não se trata de lista exaustiva, pois tem como propósito a análise do caso concreto dos presentes autos, de forma que está sujeita a atualização e consideração de especificidades. 4.2.1. Aquisição de investimento de partes não relacionadas. Até a edição da Lei 12.973/2014, não havia, na legislação, vedação expressa ou mesmo qualquer referência à figura do “ágio interno”. Tal rótulo surgiu da experiência e do manejo de situações concretas e passou a ser regulada expressamente pelo legislador a partir produção da aludida lei. Por se tratar de um rótulo, é preciso compreender a sua extensão e as consequência jurídicas que emanam da qualificação de uma operação como “ágio interno”. Em termos muito gerais, o chamado “ágio interno” consiste em situações nas quais não se encontram presentes partes independentes, com a transmissão do investimento em uma pessoa jurídica para outra, pertencente ao mesmo grupo empresarial. Diz-se, então, que o ágio foi constituído “internamente”, sem a participação de nenhum participante externo. Em face de uma série de casos considerados abusivos, em que particulares constituiriam ágios internamente, sem qualquer causa, com o propósito exclusivo de reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSL, passou-se a considerar que a presença de um terceiro independente na operação originária de aquisição representaria um safe harbour ao contribuinte. Nesse contexto, as aquisições de investimento entre partes não relacionadas passaram a ser consideradas a priori legítimas para fins fiscais. Para KAREM JUREIDINI DIAS e RAPHAEL ASSEF LAVEZ 28 , nas situações em que operações são realizadas entre partes relacionadas, a fiscalização poderia contestar a apuração de ágio “se, e somente se, identificarem-se elementos com base nos quais o laudo ou demonstrativo do ágio possa ser questionado pela administração tributária – à parte disso, reputa-se arm’s length o ágio realizado entre partes dependentes, na condição de que amparado em laudo ou demonstrativo condizente com a legislação fiscal”. 28 DIAS, Karem Jureidini; LAVEZ, Raphael Assef. “Ágio interno” e “empresa-veículo” na jurisprudência do CARF: um estudo acerca da importância dos padrões legais na realização da igualdade tributária, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 331. Fl. 1776DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.777 65 Tal fator, embora possa ter elevada capacidade de influenciar a decisão do intérprete, não é, por si só, decisivo. Ocorre que outros fatores devem ser verificados, como, por exemplo, o requisito fundamental da existência de fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição. Além disso, quando se está diante de operações rotuladas de “ágio interno”, é necessário investigar as suas peculiaridades, a fim de atribuir-lhes a qualificante “válido” ou “inválido”. Enquanto o primeiro, válido, mantém incólume a possibilidade de amortização fiscal, este, inválido, não. Ocorre que, sob a perspectiva fiscal, as modalidades de ágios internos podem ser agrupadas em dois grupos: válidos ou inválidos. Nas palavras de MARCOS SHIGUEO TAKATA 29 , “há ágios internos e ‘ágios internos’”. 4.2.1.1. O “ágio interno” inválido perante o Direito tributário brasileiro. Os casos rotulados de “ágio interno inválido”, “ágio em si mesmo”, são operações societárias realizadas exclusivamente dentro dos muros do grupo econômico, consideradas sem causa legítima ou mesmo simuladas. Sua característica distintiva não se esgota apenas na realização de operações entre partes dependentes, também na ausência de fluxo financeiro ou de sacrifícios econômicos na aquisição do investimento, sendo comum que não haja alteração de controle ou, ainda, efetiva diluição de um dos sócios. A notória contribuição de MARCOS SHIGUEO TAKATA à evolução da jurisprudência do CARF ficou registrada em votos de sua lavra e em trabalhos por ele publicados. Em um destes, TAKATA 30 expõe: “Daí dizermos: é quando inexiste pagamento de preço e minoritários ou terceiros que se põe a condenação ao reconhecimento contábil do ágio interno, com ausência de geração de riqueza nova – à luz do Direito Contábil anterior à convergência às normas internacionais de contabilidade. É nesse contexto que se coloca o chamado ágio ‘de si mesmo’ ou ágio ‘consigo mesmo’. (...) O pagamento de preço com existência de minoritários, em regra. Conclusão que parece simples, mas que demandou caminhar o percurso de base em seus devidos termos, expurgando as ‘bordas’ ou arestas conceituais dessa base.” Nesse seguir, uma série de casos julgados pelo CARF vem considerando como ilegítimas algumas operações, em vista da inexistência de transação financeira entre as partes relacionadas, ausência de preço realmente estabelecido acompanhado de seu pagamento ou, 29 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídico-contábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 194. 30 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídico-contábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 198-211. Fl. 1777DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.778 66 ainda, troca efetiva de titularidade do investimento. O elemento da simulação também está presente em tais decisões. Vale observar os seguintes precedentes: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006 ACÓRDÃO RECORRIDO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Sendo a decisão devidamente motivada e fundamentada, não há que se falar em nulidade. O fato dela não ter rebatido ponto a ponto as razões da defesa não implica vício. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006 CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. SERVIÇOS. COMPROVAÇÃO DOS VALORES. Despesas operacionais são aquelas necessárias a atividade operacional da empresa e, no caso de prestação de serviços, devem ser comprovadas mediante documentos que permitam identificar os prestadores, sem o que procede a glosa fiscal. CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS. ENCARGO DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO GERADO COM UTILIZAÇÃO DE SOCIEDADE VEÍCULO. ÁGIO DE SI MESMO. ABUSO DE DIREITO. O ágio gerado em operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos econômicos efetivamente existentes. A geração de ágio de forma interna, ou seja, dentro do mesmo grupo econômico, sem a alteração do controle das sociedades envolvidas, sem qualquer desembolso e com a utilização de empresa inativa ou de curta duração (sociedade veículo) constitui prova da artificialidade do ágio e torna inválida sua amortização. A utilização dos formalismos inerentes ao registro público de comércio engendrando afeiçoar a legitimidade destes atos caracteriza abuso de direito. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 02/01/2009 JUROS SOBRE MULTA DE OFICIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de oficio, após o seu vencimento, está prevista pelos artigos 43 e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Subsistindo o lançamento principal, na seara do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica, igual sorte colhe o lançamento que tenha sido formalizado em legislação que toma por empréstimo a sistemática de apuração daquele. (CENTER AUTOMOVEIS LTDA. Acórdão n. 1103-000.501. Processo 10980.017128/2008-35) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Anos-calendário: 2001 e 2002 Ementas: NULIDADE- REEXAME DE FATOS JÁ VALIDADOS EM FISCALIZAÇÃO ANTERIOR- A Secretaria da Receita Federal não valida ou invalida fatos, mas analisa sua repercussão frente à legislação tributária e exige o tributo porventura deles decorrentes. No caso, a repercussão tributária dos fatos só surgiu com a amortização do suposto ágio. ATOS SIMULADOS. PRESCRIÇÃO PARA SUA DESCONSTITUIÇÃO. No campo do direito tributário, sem prejuízo da anulabilidade (que opera no plano da validade), a simulação nocente tem outro efeito, que se dá plano da eficácia: os atos simulados não têm eficácia contra o fisco, que não necessita, portanto, demandar judicialmente sua anulação. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE AÇÕES.. SIMULAÇÃO. A reorganização societária, para ser legítima, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. A caracterização dos atos como simulados, e não reais, autoriza a glosa da amortização do ágio contabilziado. MULTA QUALIFICADA A simulação justifica a aplicação da multa qualificada. COMPARTILHAMENTO DE Fl. 1778DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.779 67 DESPESAS- DEDUTIBILIDADE. Para que sejam dedutíveis as despesas com comprovante em nome de uma outra empresa do mesmo grupo, por terem sido as mesmas rateadas, é imprescindível que, além de atenderem os requisitos previstos no Regulamento do Imposto de Renda, fique justificado e comprovado o critério de rateio. BENS DE NATUREZA PERMANENTE DEDUZIDO COMO DESPESA. Não caracterizada a infração pelo fisco, não prospera a glosa das despesas contabilizadas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Se nenhuma razão específica justificar o contrário, aplica- se ao lançamento tido como reflexo as mesmas razões de decidir do lançamento matriz. Recurso voluntário e de ofício negados. (LIBRA TERMINAL 35 S/A. Acórdão n. 159.490. Processo n. 18471.000947/2006-33) 4.2.1.2. O “ágio interno” válido perante o Direito tributário brasileiro. Como se viu, “há ágios internos e ‘ágios internos’” 31 , sendo necessário reconhecer que alguns deles foram apurados legitimamente, de forma a não apresentar maiores distinções no que concerne a possibilidade de seu aproveitamento fiscal. 32 A análise dos precedentes do CARF demonstra que há casos de ágio interno reputado de válido, como se observa das ementas a seguir: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano- calendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ÁGIO. REQUISITOS DO ÁGIO. O art. 20 do Decreto-Lei n° 1.598, de 1997, retratado no art. 385 do RIR/1999, estabelece a definição de ágio e os requisitos do ágio, para fins fiscais. 0 ágio é a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor patrimonial das ações adquiridas. Os requisitos são a aquisição de participação societária e o fundamento econômico do valor de aquisição. Fundamento econômico do ágio é a razão de ser da mais valia sobre o valor patrimonial. A legislação fiscal prevê as formas como este fundamento econômico pode ser expresso (valor de mercado, rentabilidade futura, e outras razões) e como deve ser determinado e documentado. ÁGIO INTERNO. A circunstância da operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não descaracteriza o ágio, cujos efeitos fiscais decorrem da legislação fiscal. A distinção entre ágio surgido em operação entre empresas do grupo (denominado de ágio interno) e aquele surgido em operações entre empresas sem vinculo, não é relevante para fins fiscais. ÁGIO INTERNO. INCORPORAÇÃO REVERSA. AMORTIZAÇÃO. Para fins fiscais, o ágio decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre empresas sem vinculo. Ocorrendo a incorporação reversa, 31 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídico-contábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 194. 32 Vide, nesse sentido: SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 359-0. Fl. 1779DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.780 68 o ágio poderá ser amortizado nos termos previstos nos arts. 7° e 8° da Lei n° 9.532, de 1997. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ART. 109 CTN. ÁGIO. ÁGIO INTERNO. É a legislação tributária que define os efeitos fiscais. As distinções de natureza contábil (feitas apenas para fins contábeis) não produzem efeitos fiscais. O fato de não ser considerado adequada a contabilização de ágio, surgido em operação com empresas do mesmo grupo, não afeta o registro do ágio para fins fiscais. DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO. LANÇAMENTO. Não há base no sistema jurídico brasileiro para o Fisco afastar a incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso de direito. 0 conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão do Fisco utilizar tal conceito para efetuar lançamentos de oficio, ao menos até os dias atuais. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob alegações subjetivas de abuso de direito. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. ELISÃO. EVASÃO. Em direito tributário não existe o menor problema em a pessoa agir para reduzir sua carga tributária, desde que atue por meios lícitos (elisão). A grande infração em tributação é agir intencionalmente para esconder do credor os fatos tributáveis (sonegação). ELISÃO. Desde que o contribuinte atue conforme a lei, ele pode fazer seu planejamento tributário para reduzir sua carga tributária. O fato de sua conduta ser intencional (artificial), não traz qualquer vicio. Estranho seria supor que as pessoas só pudessem buscar economia tributária licita se agissem de modo casual, ou que o efeito tributário fosse acidental. SEGURANÇA JURÍDICA. A previsibilidade da tributação é um dos seus aspectos fundamentais. (GERDAU ACOMINAS S/A. Acórdão n. 1101-000.708 Processo n. 10680.724392/2010-28) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 DECADÊNCIA. NÃO-HOMOLOGAÇÃO DAS DECLARAÇÕES APRESENTADAS. Verificado que o lançamento tributário versou não-homologação às declarações apresentadas, cujas bases de cálculo foram impactadas pela despesa considerada indedutível, verifica-se que a insurgência fiscal não se dá no tocante à contabilização da despesa, mas, quanto à sua utilização. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. ERRO OU DEFICÊNCIA NO ENQUADRAMENTO LEGAL. NÃO OCORRÊNCIA. Tendo em vista que a Fiscalização discriminou detidamente os fatos imputados, permitindo à Recorrente exercitar, com plenitude e suficiência, sua defesa técnica e bem fundamentada, verifica-se a total ausência de prejuízo ao contribuinte, bem como de pecha capaz de inquinar de nulidade o feito. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. ARTIGOS 7º E 8º DA LEI Nº 9.532/97. PLANEJAMENTO FISCAL INOPONÍVEL AO FISCO. INOCORRÊNCIA. A efetivação da reorganização societária, mediante a utilização de empresa veículo, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. O “abuso de direito” pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a Fl. 1780DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.781 69 utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violá-los. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deu-se, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. LANÇAMENTO DECORRENTE - Repousando o lançamento da CSLL nos mesmos fatos e mesmo fundamento jurídico do lançamento do IRPJ, as decisões quanto a ambos devem ser a mesma. (BANCO GMAC S.A. Acórdão n. 1301-001.224. Processo n. 16327.001482/2010-52) Por fim, é curioso notar que ELISEU MARTINS e SÉRGIO DE IUDÍCIBUS 33 suscitam que a máxima contábil, de que “só se ativa o ágio por rentabilidade futura quando fruto de uma transação, jamais quando ele é criado pela própria entidade”, demanda a questão do que seja “entidade”. Enquanto países como EUA adotam como tradição a elaboração de balanços consolidados, como se viu acima, no Brasil e em uma série de outros países o balanço consolidado é exceção, sendo a regra o balanço individual. Como conclusão, então, seria possível o reconhecimento de ágio gerado em operação entre entidades distintas, ainda que pertencentes ao mesmo grupo econômico. O argumento contábil, então, pode restringir substancialmente a extensão de situações abrangidas pelo rótulo “ágio interno”. É a partir de tal constatação que LUÍS EDUARDO SCHOUERI e ROBERTO CODORNIZ LEITE PEREIRA 34 suscitam que “o substantivo ‘ágio’, para receber o adjetivo ‘interno’, teria que ser necessariamente gerado nas estritas fronteiras de uma entidade contábil o que, no Brasil, só ocorreria nas hipóteses de ágio interno artificial, desde que, evidentemente, resta caracterizada a simulação da operação, pois, neste caso, não mais haverá duas pessoas distintas participando da operação, mas, tão somente, uma”. De todo modo, é necessário concluir que nem todas as operações em que não existam terceiros envolvidos são necessariamente inaptas para a apuração de ágio por expectativa de rentabilidade futura. Quando se está diante de operações rotuladas de “ágio interno”, antes de se assumir o estigma que esse rótulo tem suscitado, é necessário investigar as peculiaridades do caso concreto, a fim de lhe atribuir o correto qualificante “válido” ou “inválido”. 4.2.2. Existência de minoritários que demandem medidas societárias de proteção. A jurisprudência do CARF também tem considerado como fator relevante, ou mesmo um safe harbour em casos de amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, a 33 MARTINS, Eliseu; IUDÍCIBUS, Sérgio de. Ágio interno é um mito?, in Controvérsias jurídico-contábeis: aproximações e distanciamentos (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2013. 34 SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 363. Fl. 1781DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.782 70 existência de sócios minoritários que demandem proteção e que justifiquem restruturações societárias. Assim vocacionadas, situações que seriam consideradas suspeitas pela fiscalização, como muitas vezes é o caso da utilização de empresa-veículo, passariam a ser aceitas como legítimas quando encontrassem justificativa na proteção de minoritários. É o que se observa do seguinte precedente deste Tribunal: “O ‘abuso de direito’ pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violá-los. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deu-se, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio”. (BANCO GMAC S.A. Acórdão n. 1301-001.224. Processo n. 16327.001482/2010-52) Nesse sentido, é conhecido o entendimento de MARCOS TAKATA 35 , de que “é quando inexiste pagamento de preço e minoritários ou terceiros que se põe a condenação ao reconhecimento contábil do ágio interno”. Em declaração de voto no acórdão 1103-000.501 36 , tal questão foi muito bem colocada, in verbis: “Para fins jurídico-tributários, o ágio interno, formado dentro do grupo societário, para ser real ou com causa, deve ter uma efetividade econômica ou um significado econômico. Suponha-se que haja aumento de capital de uma sociedade e um dos sócios ou acionistas não a subscreva, sendo integralmente subscrito pelo outro sócio ou acionista (por ex., o controlador). Como a empresa em que se organiza a sociedade vale mais que seu valor contábil, o sócio ou acionista que subscrever o aumento de capital daquela irá apurar ágio no aumento de sua participação societária, para que não haja diluição injustificada do outro sócio ou acionista. É um exemplo de ágio interno real ou com causa. Há efetividade ou significado econômico nesse ágio. Imagine-se que uma pessoa jurídica resolva incorporar as ações de uma controlada sua que possui minoritários. Aqui, também, se a investida vale mais que seu valor contábil, a relação de substituição de ações pode se dar com base no valor econômico da investida (e da investidora) e a incorporação de ações pode vir a ser feita por esse valor de econômico (um critério de avaliação) da investida. Haverá um ágio no investimento, pago pela incorporadora de ações, através da emissão de ações entregues aos 35 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídico-contábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 198-211. 36 CENTER AUTOMOVEIS LTDA. Acórdão n. 1103-000.501. Processo 10980.017128/2008-35. Fl. 1782DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.783 71 acionistas da incorporadora de ações. Outro exemplo de ágio interno real ou com causa. Há significado econômico nesse ágio. Há pagamento pela aquisição de ações (entrega de ações da incorporadora de ações): sua contrapartida é aumento do investimento com ágio”. Trata-se de elemento relevante e persuasivo, que corrobora para o reconhecimento da lisura das operações realizadas pelo contribuinte. No entanto, não se trata de um requisito essencial, de forma que a sua ausência não conduziria à inoponibilidade fiscal de tais operações. 4.2.3. Inexistência de “prejuízos” à Fazenda Pública decorrente das restruturações societárias realizadas. A crescente complexidade dos negócios é naturalmente refletida na organização societária das empresas. Por isso, não se pode atribuir à complexidade de operações realizadas pelo contribuinte qualquer pré-conceito que resvale em “ilegitimidade a priori” para fins fiscais, bem como não se pode esperar ser possível enquadrar todas as inumeráveis variáveis dos mais diversos negócios jurídicos em apenas algumas poucas caixas hermeticamente fechadas a revisões conceituais. Na verdade, há na Constituição Federal garantia à liberdade auto-organização. Como o particular possui liberdade de auto-organização, decorrente imediata do princípio da livre iniciativa, restruturações societárias realizadas no âmbito da empresa investidora ou em suas controladas/coligadas (investida) são plenamente possíveis. Se uma restruturação societária não conduzir à minoração de ônus tributário em comparação com aquele que seria suportado com a mais simples e direta absorção da empresa adquirida pela adquirente e, inclusive, não multiplicar ou de alguma forma ampliar o ágio, então a administração fiscal sequer teria interesse de agir. A inexistência de “prejuízos” à Fazenda Pública decorrente das restruturações societárias realizadas passou, então, a ser considerada como um safe harbour em acórdãos do CARF. Como exemplo, é possível observar a decisão a seguir, a qual confirmou a legitimidade da amortização fiscal do ágio: “A efetivação da reorganização societária, mediante a utilização de empresa veículo, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. O “abuso de direito” pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violá-los. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a Fl. 1783DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.784 72 utilização da empresa veículo deu-se, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio” (BANCO GMAC S.A. Acórdão n. 1301-001.224. Processo n. 16327.001482/2010-52) Como inflexão imediata desse safe harbour, é necessário reconhecer que também não é lícito à Fazenda Nacional tributar mais a renda em questão do que seria tributado em comparação com o ônus que seria suportado com a mais simples absorção da empresa adquirida pela adquirente. A máxima jurídica de que é preciso dar a cada um o que lhe pertence (“Suum Cuique Tribuere”) também se aplica ao Direito público e vale tanto para o contribuinte quanto para a fisco. É, então, defeso à administração fiscal sancionar o contribuinte pelo exercício de sua liberdade de auto-organização, apenas possuindo interesse de agir na hipótese das restruturações societárias implementadas de alguma forma majorarem a amortização das despesas de ágio que seria possível com a mais simples absorção da empresa adquirida pela adquirente. 4.2.4. A apuração de ganho de capital pelo alienante da empresa adquirida com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura. A jurisprudência do CARF, com contribuição digna de nota de MARCOS SHIGUEO TAKATA , caminhou para o estabelecimento de safe harbours em restruturações societárias que, embora não tivessem a participação de terceiros estranhos ao grupo econômico, poderiam apurar ágio potencialmente amortizável para fins de IRPJ e CSL. Surgiu a proposta para adoção de um requisito de grande influência para a validação de ágio apurado em operações com partes relacionadas (“ágio interno”): a apuração de ganho de capital por parte da empresa alienante do investimento. Em declaração de voto no acórdão 1103-000.501 37 , tal questão foi muito bem colocada, in verbis: “Mais um exemplo. Uma investida pode se encontrar com passivo a descoberto (PL negativo). Não obstante, sua controladora acredita na capacidade de recuperação e de rentabilidade da empresa. Para tanto, a controladora injeta dinheiro na empresa, por aumento de capital, revertendo o passivo a descoberto da investida (PL positivo), para a capacitar à sua recuperação e à geração de rentabilidade. O novo valor de investimento da controladora é o custo de aquisição no aumento de capital (valor em dinheiro aportado): a diferença entre o valor patrimonial da investida segundo o percentual de participação da controladora (equivalência patrimonial) e o custo de 37 CENTER AUTOMOVEIS LTDA. Acórdão n. 1103-000.501. Processo 10980.017128/2008-35. Fl. 1784DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.785 73 aquisição é ágio. Há efetividade econômica nesse ágio. Há pagamento em dinheiro pelo aumento de capital feito: sua contrapartida é aumento do investimento com ágio. O ágio interno é real ou efetivo”. 4.3. Elementos que são indiferentes e não interferem na amortização fiscal do ágio. Na mesma marcha para a interpretação e aplicação das regras da Lei 9.532/97 relacionadas à amortização do ágio fundado na expectativa de rentabilidade futura, alguns fatores passaram a ganhar atenção da jurisprudência administrativa. No entanto, “permissa maxima venia”, conforme explicitado nos subtópicos seguintes, tais fatores não apresentam qualquer relevância para a aplicação ou não da norma dos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97. Deve-se repetir a advertência de que os elementos a seguir não compõem uma lista exaustiva. Trata-se apenas de coleção de fatores corriqueiros no debate sobre o tema em análise e que estão presentes no caso concreto ora sob julgamento. 4.3.1. Aspectos temporais da norma de aproveitamento do ágio e as “entidades efêmeras”. Como se viu, buscando racionalidade no sistema jurídico brasileiro – que tem como premissa fundamental o emparelhamento de receitas e despesas, mas não possui regra geral e automática de consolidação de balanços que possibilite o chamado “push down accounting”, o legislador prescreveu como condição para a amortização do ágio a reunião do patrimônio da empresa investida com o da investidora, de forma que os lucros daquela possam ser amortizados com as despesas de ágio escriturados por esta. Em nenhum momento o legislador exigiu que o contribuinte aguardasse algum lapso temporal mínimo para levar a cabo as operações necessárias para o aproveitamento do ágio em questão. A fórmula operacional básica prescrita para viabilizar o aproveitamento fiscal do ágio simplesmente não estabelece exigências temporais: não consta qualquer prazo nos enunciados prescritivos da Lei 9.532/97, tal como não há prazos nas normas societárias que regulam aquisições, fusões e cisões societárias. Nessa mesma linha, RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA 38 apresenta ponderações relevantes não apenas em âmbito acadêmico, mas de grande valia para a adequada compreensão de casos concretos: “É ainda por isso que, nestes casos, se torna irrelevante como se processa a reunião das duas pessoas jurídicas, para o que a lei abre inúmeras alternativas, e 38 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Revista Direito tributário atual - Vol. 23. São Paulo: IBDT/Dialética, 2009, p. 460. Fl. 1785DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.786 74 nem mesmo é prejudicial aos efeitos da lei que essa reunião se tenha realizado em curto ou em largo prazo, podendo mesmo efetivar-se no próprio dia da aquisição investimento”. Dessa forma, não possui qualquer relevância para a análise do presente caso argumentos que demonstrem o decurso de longo lapso temporal entre as operações realizadas pelo contribuinte ou, ainda, que tenham sido utilizadas estruturas por curso espaço de tempo (“efêmeras”). 4.3.2. Reorganizações societárias que não consumam o encontro dos acervos patrimoniais da investidora e da investida: operações periféricas que não conduzem à absorção patrimonial requerida pela Lei n. 9.532/97. A Lei n. 9.532/97 estabeleceu uma fórmula operacional básica, segundo a qual, por meio de determinados atos societários, deverá haver a reunião do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com o acervo patrimonial em que se localiza o investimento realizado com o respectivo ágio: receitas e despesas devem ser emparelhadas, com “‘a realização’ do investimento, mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento” 39 . Ocorre que muitas outras operações podem ser realizadas no interim entre a aquisição de investimento com ágio e a absorção desta pela empresa investidora (ou vice- versa), o que exige que se compreenda qual a relevância tributária de tais operações intermediárias, periféricas, adjacentes. Exemplificando, se uma empresa (“A”) adquire investimento relevante de outra empresa (“B”), com o pagamento de ágio justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma fiscal não autoriza a amortização do referido ágio, por exemplo, se a empresa investidora for incorporada por uma terceira empresa (“C”). Essa operação será periférica neutra, indiferente para a norma prescrita pelo art. 7 o da Lei n. 9.532/97. A referida empresa incorporadora (“C”), por sucessão universal de todos os direitos e obrigações, passaria a deter o investimento da empresa cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o pagamento de ágio (“B”). Ocorre a transferência do investimento e do respectivo ágio, o que é indiferente sob a perspectiva tributária, isto é, nem é vedado e nem gera o direito à amortização fiscal do ágio. Apenas se a aludida incorporadora (“C”) vier, por exemplo, a incorporar, ser incorporada ou realizar fusão com a empresa investida (“B”), é que se daria se a absorção patrimonial exigida e seria autorizada a amortização fiscal do ágio em questão. 40 39 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. 40 Nesse sentido, vide: AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715-720. Fl. 1786DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.787 75 Nesse mesmo exemplo, se a empresa investida (“B”) viesse a ser incorporada por uma outra (“D”) também controlada pela empresa investidora (“A”), essa operação periférica seria neutra, indiferente para a norma prescrita pelo art. 7 o da Lei n. 9.532/97. É requisito essencial a reunião patrimonial da empresa que detém o investimento com ágio (“A”) com a empresa investida (“B”), pois a amortização do ágio deve se processar contra os lucros desta, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Apenas quando a empresa investidora (“A”) incorporar a empresa investida resultante da incorporação (“D”), que por sucessão universal passou a corresponder ao acervou patrimonial que justificou a expectativa de rentabilidade, seria legítima a amortização fiscal do ágio em questão. Nesse cenário, nos casos rotulados de “transferência de ágio”, ocorre uma operação de aquisição precedente, entre partes independentes, com a posterior transferência do investimento adquirido para outra empresa do grupo. Em outras palavras, após a aquisição de investimento em outra pessoa jurídica com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, este investimento é transferido para outra pessoa dentro do mesmo grupo econômico, previamente à operação de incorporação, cisão ou fusão que dá ensejo ao direito de amortização das despesas de ágio contra os lucros da empresa adquirira. A referida transferência do investimento com ágio pode se dar por diversas maneiras e por variados motivos. Assim, é comum que, por razões de mercado, regulatórias ou societárias, a pessoa jurídica que originalmente tenha adquirido investimento (investidora) em outra pessoa jurídica (investida) efetue subscrição de capital em outra sociedade do mesmo grupo econômico, mediante conferência das ações adquiridas a valor de custo, transferindo, além do investimento, o respectivo ágio. Restruturações societárias no nível da empresa investidora ou da empresa investida, que não ocasionem a reunião patrimonial destas, não gera qualquer efeito tributário, isto é, não enseja a amortização do ágio ou altera o potencial de amortização deste em caso de posterior operação de fusão, incorporação ou cisão que ocasione o aludido encontro. Por isso é correto afirmar que tais operações são neutras, não alterando a esfera de direitos dos contribuintes ou do fisco no que concerne a efetiva amortização do ágio. A Lei n. 9.532/97 não veda, expressamente ou implicitamente, a prática de tais operações intermediárias, que são permitidas e indiferentes. A neutralidade de tais reorganizações societárias em relação ao direito à amortização do ágio é evidenciada nos elementos textuais da aludida lei e pela análise sistemática do ordenamento jurídico brasileiro. Textualmente, se por um lado o legislador não inseriu na Lei n. 9.532/97 limitações ao direito de livre organização para a fruição do direito à amortização das despesas com ágio, por outro consignou que inclusive a absorção realizada mediante a prévia cisão da empresa incorporadora ou incorporada, seguida da posterior fusão ou incorporação que emparelhe o investimento com o a investida anteriormente cindidos, dá ensejo à legitima amortização do ágio. O texto legislado, então, não expressa vedação a operações intermediárias, focando Fl. 1787DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.788 76 apenas na operação que consume a derradeira absorção do patrimônio da investida com a investidora (ou vice-versa). Caso o legislador houvesse expressamente vedado, por meio de dispositivos específicos da Lei n. 9.532/97, que fossem realizadas reorganizações societárias periféricas e intermediárias ao evento de absorção por ele eleito para ensejar a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, aludida limitação às liberdades econômicas, especialmente à livre iniciativa e organização, poderia, em tese, estar sujeita ao competente controle de constitucionalidade. Aludida análise certamente estaria fora deste Tribunal administrativo 41 , de tal forma que a obediência a essa hipotética lei deveria ser cegamente seguida por seus julgadores, entre os quais me incluo. No entanto, não há lei expressa nesse sentido. O que há é uma tese sobre uma possível “interpretação” da Lei n. 9.532/97, pela qual a PFN sustenta a perda do direito do contribuinte à amortização do ágio em face de reorganizações societárias periféricas, como as exemplificadas acima. Como não há disposição expressa nesse sentido que dê ensejo a argumentos contundentes apoiados em interpretação literal, é necessário investigar se uma interpretação sistemática, teleológica ou mesmo histórica apoiariam tal tese. Parece fora de dúvida que, ausente manifestação clara e expressa do legislador para a limitação de liberdades fundamentais, qualquer interpretação que conduza a tal limitação deverá ser avaliada a partir das normas constitucionais que tutelam a liberdade que se pretende restringir. Na ausência de tal manifestação expressa de forma clara pelo legislador, a análise sistemática do ordenamento demanda, antes de tudo, verificar se a interpretação em questão contraria liberdade constitucional de empresa, de investimento, de organização e de contratação, me parece ser dever do julgador administrativo evitá-la. A razoabilidade dessa tese deve ser enfrentar esse teste fatal. A tese em questão evidencia duas interpretações do art. 25 da Lei n. 9.532/97: 1 a ) As reorganizações societárias que não ocasionem o encontro da entidade investida e da que detém o investimento são indiferentes e neutras para fins fiscais: por esta, não há ampliação ou redução de qualquer direito à amortização de ágio por parte do contribuinte e nem o Estado amplia ou reduz a sua esfera de direitos em relação à amortização de tais despesas; 2 a ) As reorganizações societárias em questão fazem com que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, ainda que este tenha sido legitimamente apurado: por esta, há restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da participação do Estado no patrimônio privado. 41 Não cabe no bojo deste processo administrativo analisar possíveis inconstitucionalidades, conforme o RICARF, art. 62: “Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade” Fl. 1788DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.789 77 É premissa inafastável que a atividade arrecadatória do Estado deve observar todo o repertório de direitos assegurados às pessoas físicas e jurídicas, o que evidentemente inclui as liberdades econômicas. Desrespeitado esse limite, a tributação perde legitimidade. E, no Brasil, a Ordem Econômica é amparada por normas constitucionais 42 geralmente suscitadas para fundamentar o direito do contribuinte à auto-organização de suas atividades sem a interferência do fisco: a garantia à livre iniciativa e à livre concorrência. A livre iniciativa foi erigida como fundamento da ordem econômica pelo caput do art. 170 da Constituição Federal 43 . Como observa EROS ROBERTO GRAU 44 , a livre iniciativa assume uma dupla feição, protegendo ao capital e ao trabalho. Na explicação de TERCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR 45 , trata-se de mandamento para que o Estado atue de forma negativa, no sentido de não interferir na expansão da criatividade do indivíduo e, ainda, positiva, de atuação para a valorização do trabalho humano. A esse propósito, leciona esse professor: “Não há, pois, propriamente, um sentido absoluto e ilimitado na livre iniciativa, que por isso não exclui a atividade normativa e reguladora do Estado. Mas há ilimitação no sentido de principiar a atividade econômica, de espontaneidade humana na produção de algo novo, de começar algo que não estava antes. Esta espontaneidade, base da 42 EROS ROBERTO GRAU apresenta longo repertório de princípios econômicos prestigiados pela Constituição Federal: “Cumpre neles identificar, pois, os princípios que conformam a interpretação de que se cuida. Assim, enunciando-os, teremos: — a dignidade da pessoa humana como fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1a, III) e como fim da ordem econômica (mundo do ser) (art. 170, caput); — os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa como fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, IV) e — valorização do trabalho humano e livre iniciativa — como fundamentos da ordem econômica (mundo do ser) (art. 170, caput); — a construção de uma sociedade livre, justa e solidária como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, I); — o garantir o desenvolvimento nacional como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, II); — a erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, III) — a redução das desigualdades regionais e sociais também como princípio da ordem econômica (art. 170, VII); — a liberdade de associação profissional ou sindical (art. 8º); — a garantia do direito de greve (art. 9º); — a sujeição da ordem econômica (mundo do ser) aos ditames da justiça social (art. 170, caput); — a soberania nacional, a propriedade e a função social da propriedade, a livre concorrência, a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente, a redução das desigualdades regionais e sociais, a busca do pleno emprego e o tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte, todos princípios enunciados nos incisos do art. 170; Além desses, outros, definidos como princípios gerais não positivados — isto é, não expressamente enunciados em normas constitucionais explícitas — são descobertos na ordem econômica da Constituição de 1988. Aí, particularmente, aqueles aos quais dão concreção as regras contidas nos arts. 7º e 201 e 202 do texto constitucional. (GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 194) 43 BRASIL, CF/88, Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I - soberania nacional; II - propriedade privada; III - função social da propriedade; IV - livre concorrência; V - defesa do consumidor; VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII - redução das desigualdades regionais e sociais; VIII - busca do pleno emprego; IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. 44 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 212-213. Conforme o autor: “não pode ser reduzida, meramente, à feição que assume como liberdade econômica, empresarial (isto é, da empresa, expressão do dinamismo dos bens de produção); pela mesma razão não se pode nela, livre iniciativa, visualizar tão-somente, apenas, uma afirmação do capitalismo”. 45 APUD GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 206-207. Fl. 1789DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.790 78 produção da riqueza, é o fator estrutural que não pode ser negado pelo Estado. Se, ao fazê-lo, o Estado a bloqueia e impede, não está intervindo, no sentido de normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindo-se a ela na estrutura fundamental do mercado”. A autonomia privada decorre do princípio da livre iniciativa, atribuindo aos particulares o direito à liberdade contratual, isto é, de livremente celebrar ou não um contrato (liberdade de celebração), bem como de eleger o tipo contratual mais adequado (liberdade de seleção do tipo contratual) e de preencher o seu conteúdo de acordo com os seus interesses (liberdade de fixação do conteúdo do contrato ou de estipulação). 46 Garante-se, por esse princípio, a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação 47 . A liberdade contratual, que garante ao particular a faculdade de contratar ou não contratar, de escolher como e com quem estabelecer uma relação contratual e, por óbvio, de decidir qual o conteúdo dos contratos, decorre da autonomia privada. 48 TULIO ROSEMBUJ 49 observa que a liberdade da empresa não se esgota no exercício da liberdade contratual, no exercício do direito de propriedade ou na atividade de produção de bens de terceiros no mercado livre: trata-se da garantia de se poder combinar fatores de produção e de utilizar de riqueza para produzir nova riqueza. Já o princípio da livre concorrência pode ser compreendido como garantia de oportunidades iguais a todos os agentes do mercado, de tal forma que o particular possui a faculdade de conquistar a clientela por seus próprios méritos e na expectativa de que sejam premiados os eficientes e excluídos os ineficientes, embora seja vedada a detenção do mercado e a prática de concorrência desleal. A livre concorrência tem como pressuposto a livre iniciativa e induz à distribuição de recursos a preços mais baixos ao consumidor. Não se exige, contudo, identidade de condições entre os partícipes do mercado, que, respeitados os limites prescritos pelo Direito econômico, podem se valer de todas as suas forças para conquistar a clientela 50 . Note-se que nenhuma dessas liberdades é absoluta. As liberdades econômicas, segundo EROS GRAU 51 , nem mesmo em sua formulação original (Édito de Turgot, de 1776) pretendiam a omissão total do Estado. Em trabalho publicado em 1969, LUIGI FERRI 52 já apontava que: “El 46 Cf. BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226-240. No mesmo sentido, TÔRRES, Heleno Taveira. O conceito constitucional de autonomia privada como poder normativo dos particulares e os limites da intervenção estatal, in Direito e poder: nas instituições e nos valores do público e do privado contemporâneos. Heleno Taveira Torres (coordenador). Barueri : Manole, 2005, p. 567. 47 Cf. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária - limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128-129. 48 Tais figuras, inclusive, podem inclusive com vir a confundir-se. Conforme BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226-227. 49 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 57. 50 Cf. GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 210. 51 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 203. 52 FERRI, Luigi. La autonomia privada. Madri : Editora Revista de Derecho Privado, 1969, p. 4-5. Fl. 1790DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.791 79 problema de la autonomia es ante de todo um problema de limites, y de limites que son siempre el reflejo de normas juridicas, a falta de las cuales el mismo problema no podría siquiera plantearse a menos que se quiera identificar la autonomia com la liberdad natural o moral del hombre”. O que se coloca em questão é a necessidade de manifestação expressa e clara do legislador para a restrição de tal liberdade ou, ao menos, a existência de razoabilidade na interpretação conduzida pela administração fiscal que conduza à tal restrição. Afinal, como ensina TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR 53 , a “intervenção que possa afetar a liberdade deve, antes de tudo, estar pautada por regras claras e públicas, que permitam ao indivíduo planejar seu curso de vida, ciente das consequências jurídicas de seus atos.” Resta evidenciado, então, que, a ausência de decisão clara do agente competente (Poder Legislativo) é realmente fator suficiente afastar restrição à liberdade de auto-organização consubstanciada na penalização de operações societárias periféricas, que em nada ampliam ou reduzem o montante do ágio que de todo modo poderiam vir a ser aproveitado. Não obstante, por esforço dialético, pode-se questionar se há norma implícita no sistema que conduza excepcionalmente à restrição apriorística de tal liberdade. Ao final desse exercício, somente se uma mensagem suficientemente clara e pública puder ser construída da análise sistemática do ordenamento é que se poderia cogitar em aceitar a tese proposta pela PFN. Contudo, por uma investigação sistemática, o cotejo analítico das aludidas normas constitucionais torna evidente não ser razoável a interpretação que, à revelia de lei em sentido estrito nesse sentido, conclua que as reorganizações societárias intermediárias ao encontro patrimonial da entidade investida com o investimento faz que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura legitimamente apurado. Seria proporcional ou razoável penalizar o contribuinte que realizou a transferência de um investimento, integralizando-o em outra empresa do grupo, com a perda completa do direito à amortização do ágio, ainda que uma série de fatores demonstrem a legitimidade de tal agir? Se a transferência do investimento detido por uma pessoa jurídica desencadear a perda de legítimo direito à amortização de ágio, haverá norma de desincentivo à realização de novas operações societárias. Mas o que justificaria a exigência, pela administração fiscal, da estagnação das estruturas societárias, com a penalização de restruturações e da adoção de outras formas lícitas de organização? 53 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 1791DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.792 80 Se há limites ao exercício da liberdade, também há limites à sua restrição, pois “a liberdade pode ser disciplinada, mas não pode ser eliminada” 54 . A exigência de congelamento completo da estrutura societária do grupo empresarial, sob pena de perda do direito à potencial amortização do ágio legitimamente apurado, sem dúvida consiste em uma liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação. Em linha com o quanto exposto acima, se uma liberdade econômica é bloqueada, ainda que por via obtusa, o Estado deixa de “normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindo-se a ela na estrutura fundamental do mercado”, o que é consentâneo com a Constituição. Ocorre que a liberdade de empresa, que pressupõe a livre contratação e auto- organização colocam em xeque a tese ora em análise, pela qual uma operação válida perante o Direito privado e que não traz qualquer “prejuízo” ao erário, seria sancionada com o perecimento do direito à amortização fiscal das despesas de ágio garantida pela Lei n. 9.532/97. A inexistência de vantagens extras ao contribuinte e a ausência de prejuízos ao fisco evidencia a ausência de razoabilidade e proporcionalidade dessa tese limitadora da transferência de investimento no qual haja registro, pelo MEP, de ágio por expectativa de rentabilidade futura. Afinal, porque seria válida interpretação que conduz à manifesta desigualdade tributária, autorizando a amortização do ágio a algumas empresas, mas negando-a para outras? O exemplo dos fundos de previdência é muito ilustrativo, pois geralmente há normas regulatórias que não permitem a absorção das empresas investidas ou, ainda, que sejam absorvidas por estas. Porque seria legítimo restringir o direito à livre iniciativa e de contratar de tais entidades, com a vedação da transferência de investimentos a outra empresa controlada que pudesse realizar os procedimentos societários necessários à amortização do ágio? Ou, com olhos ao princípio da livre concorrência, porque tais fundos deveriam ser submetidos a condições desiguais, com o cerceamento de seu direito à amortização do ágio? Tal consideração não se aplica apenas quando empresa adquirente do investimento seja um fundo de previdência, instituição bancaria ou outras entidades com normas regulatórias próprias. A interpretação proposta pela PFN imputaria à mais comum das empresas desigualdade em relação a outras que se encontrem em situação semelhante, o que redundaria em inevitável vilipendio do princípio da livre concorrência. Para que reste evidenciada a seriedade de tal constatação, suponha-se que dois grupos empresariais do mesmo seguimento econômico concorram por uma mesma fatia do mercado e que ambos realizaram recentes aquisições de participação relevante em controladas e coligadas. Se a tese proposta pela PFN for levada a termo, caso apenas um desses grupos passasse por restruturação societária que importasse em integralização dos aludidos investimentos em outras empresas do grupo (por motivos familiares e sucessórios, por exemplo), o referido grupo 54 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 1792DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.793 81 empresarial seria privado da possibilidade de se valer da economia de opção assegurada pelo legislador. Por sua vez, o outro grupo empresarial ficaria livre para se valer dessa opção fiscal, por exemplo com uma cisão parcial seguida de uma incorporação reversa, dando ensejo à amortização das despesas com ágio à fração de 1/60 mensais. O tratamento desigual e o desiquilíbrio concorrencial evidenciados nesse exemplo hipotético denunciam a desproporcionalidade e ausência de razoabilidade dessa interpretação que restringe direitos à revelia de lei que lhe dê suporte. Tal conclusão também é indicada por LUCIANO AMARO 55 , para quem “a mera utilização de uma empresa-veículo não vicia o ágio, especialmente se este poderia ser amortizado por outro caminho, sem a utilização da empresa-veículo”. Na receita procedimental básica prescrita pelo legislador para que o contribuinte opte (economia de opção) pela amortização fiscal do ágio em aquisição oneroso de investimento, a chamada empresa veículo funciona como instrumento para o emparelhamento das receitas (da empresa investida) com as despesas da amortização do ágio (apurados pela empresa investidora), o que, afinal, pressupõe alguma forma de “push down accounting”. Daí a assertiva de VICTOR BORGES POLIZELLI 56 : “Enfatiza-se: a ‘empresa veículo’ foi legalmente criada pela Lei n. 9.532/1997 como condição para o carregamento do ágio para baixo, para a empresa investida”. A restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da maior participação do Estado no patrimônio privado, encontra como obstáculo a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação, torna defesa à administração fiscal ingerências às lícitas decisões empresariais. Ausente lei em sentido estrito, sob pena de arbitrariedade, não pode a administração fiscal se opor às aludidas reorganizações societárias, especialmente quando tal ato conduza, por si só, à maior tributação do patrimônio privado. 4.3.3. Propósitos negociais e extratributários nas operações fiscalizadas. A existência de propósitos unicamente fiscais como locomotiva para o exercício de liberdades econômicas tem polarizado a doutrina brasileira. De um lado, por exemplo, PAULO AYRES BARRETO 57 , leciona que o contribuinte possui o direito de gerir as suas atividades com o menor ônus fiscal possível, desde que aja de forma lícita, ou seja, sem a prática de atos qualificados como ilícitos, simulados ou fraudulentos. Para esse professor, a tese que defende a 55 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 723. 56 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 157-8. 57 BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária - limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128-129. Fl. 1793DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.794 82 desqualificação dos negócios realizados exclusivamente para a redução da carga tributária conduziria à obrigação de o contribuinte sempre ter de escolher a forma mais onerosa em termos fiscais para a sua atividade. 58 Em outra direção, por exemplo, MARCO AURÉLIO GRECO 59 sustenta que “a atitude do Fisco no sentido de desqualificar e requalificar os negócios privados somente poderá ocorrer se puder demonstrar de forma inequívoca que o ato foi abusivo porque sua única ou principal finalidade foi conduzir a um menor pagamento de imposto”. No caso dos autos, a discussão ganha novas cores. Afinal, o legislador tributário prescreveu, por meio dos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97, uma receita operacional básica que deve ser seguida pelo contribuinte, que exige basicamente que seja realizada operação de absorção patrimonial (incorporação, fusão ou cisão) por razões exclusivamente tributárias: a amortização do ágio. Tratando-se de opção fiscal (ou economia de opção, conforme exposto no tópico “4.1.5”), o legislador abre caminhos diversos ao contribuinte, entre os quais este poderá escolher aquele que melhor lhe aprouver e assumidamente interessado na carga fiscal que lhe seja menos onerosa. Assim como uma pessoa física não precisa demonstrar por quais razões deseja adotar o modelo “simplificado” ou “completo” para sua DIRPF, a investidora e investida não precisam demonstrar quaisquer razões extratributárias para que procedam a absorção patrimonial necessária à operacionalizar a amortização fiscal do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. Uma operação realizada por determinado partilhar, que trilhe um caminho aberto por lei que prescreve opções fiscais, encontra-se legitimada imediatamente pelo legislador ordinário. Nesse caso, é impróprio inquirir do particular qualquer outra justificativa, sob pena subjugar-se a competência do Poder Legislativo. Se o legislador outorgou uma economia de opção às empresas que adquiram investimento em controladas ou coligadas com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, prescrevendo uma fórmula operacional básica para a implementação dessa opção fiscal, então aqueles que estiverem dispostos a implementar uma incorporação, fusão ou cisão (absorção patrimonial) estarão suficientemente legitimados pelo agente competente (Poder Legislativo) a fazê-lo ainda que exclusivamente para a implementação dessa condição. Se por qualquer motivo determinada empresa (investidora), que tenha adquirido investimento relevante em outra pessoa jurídica (investida) com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura, restar impossibilitada ou encontrar obstáculos para absorver o patrimônio da empresa investida (ou vice-versa), poderá, ainda que imbuída única e exclusivamente no propósito de se valer da economia de opção e aproveitar a amortização fiscal do ágio, realizar as restruturações societárias necessárias para desobstruir o seu caminho. Se a constituição de uma outra subsidiária para lhe transferir o investimento for a 58 BARRETO, Paulo Ayres. Imposto sobre a renda e preços de transferência. São Paulo : Dialética, 2001, p. 127. 59 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento tributário. São Paulo : Dialética, 2008, p. 200. Fl. 1794DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.795 83 solução, a operação estará suficientemente justificada pelo propósito de viabilizar a fórmula operacional básica prescrita pelos arts. 7 o e 8 o da Lei 9.532/97, não lhe sendo exigida a demonstração de qualquer outro propósito extratributário. Não há, nessa hipótese, qualquer óbice no Direito privado ou no Direito tributária para a realização da referida restruturação societária e transferência do investimento com ágio. De fato, o legislador tributário estabeleceu uma fórmula operacional básica para que fossem emparelhados o ágio escriturado pela investidora com os efetivos lucros gerados pela empresa investida, cuja expectativa tenha dado causa ao ágio apurado quando de sua aquisição. O propósito da realização das operações de absorção patrimonial é justamente cumprir com a necessidade técnica do emparelhamento de receitas e despesas observada pelo legislador para possibilitar a amortização do ágio. Nesse cenário, por ser impróprio inquirir do particular propósitos extratributários para a implementação de opção fiscal prescrita pelo legislador competente, o chamado “propósito negocial” nas operações para a implementação da fórmula operacional básica prescrita nos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97 é indiferente e não interfere na legitimidade da amortização fiscal do ágio. 5. O vício imputado pela fiscalização para a glosa das despesas de amortização de ágio no presente caso. O núcleo do recurso especial ora em análise consiste em saber se, com a aquisição de investimento com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura com a observância de todas as exigências da legislação tributária, contábil e societária, poderia o contribuinte transferir o aludido investimento em função de restruturação societária sem que, com isso, perca o direito à amortização das referidas despesas com ágio caso realize posterior reunião das entidades investida e investidora. Em linhas gerais, a tese sustentada pela PFN tem como consequência que a restruturação societária implementada pela contribuinte seja sancionada com a impossibilidade de futura amortização do ágio. Já o contribuinte, em linhas gerais, sustenta que o ágio legitimamente apurado na operação originária de aquisição do investimento permanece perfeitamente sujeito a amortização fiscal não obstante a realização das aludida reorganização societária anterior ao evento de absorção previsto pelos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97. Antes de prosseguir, no entanto, é preciso aclarar que o presente caso não envolve o chamado “ágio interno”. Fl. 1795DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.796 84 Há certo consenso quanto à fundamental distinção da chamada “transferência de ágio” (vide subtópico “4.3.2”) de casos de “ágio interno” 60 (vide subtópico “4.2.1”). E, no presente caso, realmente não se está diante de operação que possa ser rotulada de “ágio interno”, pois o ágio por expectativa de rentabilidade futura em questão foi apurado em operação originária de aquisição de investimento realizada com terceiro independente, com efetivo fluxo pagamento do preço (e do sobrepreço). Conforme restou assentado nos presentes autos, um grupo de entidades de direito privado (ADL ENERGY S.A., CAIXA DE PREVIDÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL - PREVI, BB - BANCO DE INVESTIMENTO S.A. e 521 PARTICIPAÇÕES S.A.) adquiriu a CELPE de um terceiro completamente independente (Estado de Pernambuco), com o pagamento efetivo de sobrepreço (ágio) fundado em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Não se pode, assim, imputar às operações realizadas pela CELPE o estigma suportado por casos de “ágio interno” ou “ágio em si mesmo”: conforme restou devidamente assentado pelo acórdão a quo, o caso concreto analisado nos presentes autos não envolve “ágio interno” ou “ágio em si mesmo”. Ainda que o presente caso viesse a ser confundido com aquilo que se rotula de “ágio interno” – o que, repita-se, já restou definitivamente afastado neste processo administrativo – ainda assim a validade para fins tributários das operações praticadas deveria ser verificada diante de cada um de seus elementos analisados no tópico “4” deste voto. Seria necessário investigar tratar-se de “ágio válido” ou “inválido”, não se admitindo conclusões apriorísticas pela consideração apressada de meros rótulos. Nesse cenário, para verificar se o auto de infração lavrado merece prosperar, é necessário testar como as operações realizadas pelo contribuinte reagem à norma de amortização fiscal do ágio, em cada um de seus elementos analisados no tópico “4” desta declaração de voto. 5.1. Elementos que são requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio. No caso, houve efetiva aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura: a CELPE, anteriormente pertencente ao Estado de Pernambuco, foi adquirida por um grupo de entidades de direito privado (“Novo Grupo de Controle”), com efetivo pagamento de sobrepreço (ágio) fundado em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Note-se que, no presente caso, não se questiona que o ágio por expectativa de rentabilidade futura da CELPE tenha sido devidamente apurado e demonstrado. Não há mais 60 Nesse sentido, vide: AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 719. Fl. 1796DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.797 85 dúvidas, neste processo administrativo, que as entidades adquirentes (ADL ENERGY S.A., CAIXA DE PREVIDÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL - PREVI, BB - BANCO DE INVESTIMENTO S.A. e 521 PARTICIPAÇÕES S.A.), acaso absorvessem ou fossem absorvidas pela CELPE, teriam plenamente garantido o direito à amortização do ágio em questão, à fração de 1/60 ao mês. Nesse seguir, o acórdão a quo assentou à fl. 1396 do e-processo: “O vício está na formação do ágio e não no seu aproveitamento posterior, quando da incorporação. Entretanto, é óbvio que o vício do ágio macula o seu próprio aproveitamento. Mas se o ágio é legítimo como no caso em tela, o seu aproveitamento deve seguir a causa típica estipulada no ordenamento para a incorporação de empresas.” É relevante repetir que, na aquisição em questão, houve efetivo pagamento em dinheiro ao Estado de Pernambuco, dividido em três parcelas. O requisito do efetivo fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição foi, portanto, plenamente cumprido. Também foi cumprida a exigência do efetivo desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e o ágio por expectativa de rentabilidade futura. Igualmente foi cumprida a exigência do art. 8 o , “b”, da Lei 9.532/97, com a absorção patrimonial da pessoa jurídica que detinha o investimento adquirido com ágio, qual seja, a LEICESTER, pela pessoa jurídica investida e cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o sobrepreço pago, qual seja, CELPE. Note-se que a LEICESTER, por sucessão universal de todos os direitos e obrigações do “Novo Grupo de Controle” (ADL ENERGY S.A., CAIXA DE PREVIDÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL - PREVI, BB - BANCO DE INVESTIMENTO S.A. e 521 PARTICIPAÇÕES S.A.), por sucessão universal, passou a deter legitimamente o investimento na CELPE, cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o pagamento de ágio na operação originária de aquisição, realizada com um terceiro independente, qual seja, o Estado de Pernambuco. O contribuinte, no caso, cumpriu adequadamente com a absorção patrimonial exigida na fórmula operacional básica prescrita pelo legislador, o que torna fora de dúvida a legitimidade do aproveitamento do ágio apurado. Também foi cumprido, no presente caso, a exigência de que a amortização do ágio apurado pela investidora se processe contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Fl. 1797DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.798 86 Aliás, a restruturação societária implementada, com a adoção da GUARANIANA e LEICESTER, teve como um de seus objetivos justamente possibilitar o emparelhamento dos lucros obtidos pela CELPE com as despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura verificadas no momento de sua aquisição e que se encontravam escriturados nos investidores. Ocorre que não seria possível às entidades participantes no processo licitatório de desestatização (fundos previdenciários, bancos de investimentos) absorverem diretamente a CELPE. Seria, do mesmo modo, impensável que a CELPE viesse a absorver as aludidas entidades. No presente caso, então, todos os requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio foram preenchidos. 5.2. Elementos que não são requisitos essenciais, mas que corroboram para reconhecimento do direito à amortização fiscal do ágio. Verificando-se que foram cumpridos todos os elementos essenciais, previstos pelos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532/97, já seria possível afirmar a legitimidade da amortização fiscal. Não obstante, em homenagem à jurisprudência deste Tribunal e ao papel de uniformização da CSRF, cumpre enfrentar o presente caso com vistas aos safe harbours expostos no subtópico “4.2”. Em primeiro lugar, é importante frisar que o ágio por expectativa de rentabilidade futura ora em contenda foi apurado em operação originária de aquisição de investimento realizada com terceiro independente. A CELPE, anteriormente pertencente ao Estado de Pernambuco, foi adquirida por um grupo de entidades de direito privado, quais sejam, ADL ENERGY S.A., CAIXA DE PREVIDÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL - PREVI, BB - BANCO DE INVESTIMENTO S.A. e 521 PARTICIPAÇÕES S.A., com pagamento do ágio acima descrito. Também é importante observar que CELPE não possuía como acionistas apenas as entidades citadas nesta declaração de voto, mas também possuía minoritários que demandavam medidas societárias de proteção. O controle adquirido no processo de licitação pelo “Novo Grupo de Controle” da CELPE correspondeu a 94,94% do capital votante e 84,38% do capital total. A análise conjunta das questões incontroversas nestes autos (efetivo pagamento de ágio à parte não relacionada fundado em expectativa de rentabilidade futura) e do núcleo do recurso especial em análise (a legitimidade ou não da transferência de investimento com ágio) denunciam que as operações realizadas pelo contribuinte e contestadas pela administração federal não importam em qualquer centavo de “prejuízo” à Fazenda Pública, ou melhor, nenhum tributo deixou de ser recolhido. Fl. 1798DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.799 87 A ausência de prejuízo ao fisco com a transferência do investimento e de respectivo ágio é argumento contundente, com acolhida doutrinária e na jurisprudência do CARF. Assim, LUCIANO AMARO 61 aduz que, “se a investidora original ‘A’ podia incorporar a investida e passar a amortizar o ágio, o mesmo se dá quando ‘A1’ incorpora a fatia do investimento que lhe tenha sido transferida por ‘A’”. A inexistência de economia tributária distinta daquela que seria obtida sem a transferência do ágio, como se daria com a duplicação do ágio, representa exigência coerente e razoável adotada na jurisprudência do CARF. O ágio deve ser legítimo em sua origem, de modo que a sua transferência não gere dedutibilidades maiores que aquelas que seriam percebidas pela entidade que o transfere. 62 E é justamente esse o caso dos autos! Na fl. 1.397 do e-processo, o acórdão a quo assentou que a restruturação societária realizada, com a transferência do investimento detido da CELPE para outras empresas do grupo (GUARANIANA e LEICESTER), não gerou qualquer vantagem tributária às empresas, sem a ampliação do montante do ágio efetivamente apurado na aquisição realizada em processo licitatório, in verbis: “Assim, por tudo que foi dito acima, entendo, sem nenhuma dúvida, não ter ocorrido, quer simulação, quer abuso de direito e/ou planejamento tributário em desacordo com a lei, mas tão somente a prática de conduta abarcada e induzida pelo ordenamento jurídico, por intermédio das regras estipuladas nos artigos 7 e 8 da Lei no 9.532/97, sem qualquer prejuízo para Fazenda Pública que pudesse caracterizar economia ilícita de imposto, pois a escolha de outras soluções legais e diretas produziria idêntica conseqüência tributária com relação à amortização de ágio feita por intermédio da empresa veículo”. No presente caso, então, militam a favor das operações realizadas pelo contribuinte todas as salvaguardas analisadas neste voto, o que corrobora para a evidenciação da legitimidade da amortização das despesas de ágio em tela. 5.3. Elementos que são indiferentes e não interferem na amortização fiscal do ágio por expectativa de rentabilidade futura. Conforme se verificou, a fórmula operacional básica prescrita pelo legislador para viabilizar o aproveitamento fiscal do ágio simplesmente não estabelece exigências temporais. Não consta qualquer prazo nos enunciados prescritivos da Lei 9.532/97, tal como não há prazos nas normas societárias que regulam aquisições, fusões e cisões societárias. Devem ser ignorados, então, questionamentos desse jaez para a solução do presente caso. 61 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 719. 62 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 371-2. Fl. 1799DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.800 88 Além disso, conforme verificado acima, também é indiferente toda uma gama de possíveis reorganizações societárias que não ocasionem a reunião patrimonial da entidade investida com a entidade investidora (absorção patrimonial). Não merece reparos o acórdão a quo, quando conclui que a restruturação societária implementada pelo “Novo Grupo de Controle”, com a adoção das empresas GUARANIANA e LEICESTER, em nada interferiu no direito à amortização do ágio legitimamente apurado com a aquisição da CELPE. Conclusão oposta à que chegou o acórdão recorrido não encontraria guarida no sistema jurídico. Afinal, diante de obstáculos negociais efetivamente reconhecidos para que o “Novo Grupo de Controle” (ADL, PREVI, BB e 521) absorvessem a CELPE ou fosse absorvido por esta, a consequência deveria ser a perda da possibilidade de aproveitamento de ágio por expectativa de rentabilidade futura efetivamente suportado no processo licitatório de desestatização? No presente caso, diante da impossibilidade do “Novo Grupo de Controle” implementar a fórmula operacional básica prescrita pelos arts. 7 o e 8 o da Lei n. 9.532, deve ser questionado por qual razão fundos de previdência, bancos de investimento ou outras entidades deveriam sofrer restrições ao direito de auto-organização, não lhes sendo permitida a transferência de seu investimento a empresas controladas que possam implementar a referida fórmula operacional básica. Ou, com olhos ao princípio da igualdade e da livre concorrência, porque tais entidades deveriam ser submetidas a condições desiguais em comparação com outras que não possuam os mesmos “obstáculos negociais” reconhecidos pelo acórdão a quo, com o cerceamento de seu direito à amortização fiscal do ágio? Tal questão foi observada pelo acórdão a quo, que identificou na necessidade de viabilizar a fruição da amortização fiscal do ágio propósito negocial suficiente para as operações em tela (fl. 1391 do e-processo): “A possibilidade de dedução da amortização é condicionada à junção dos patrimônios. Como os licitantes, na quase totalidade dos casos, são grupos de empresas dos mais diversos setores da economia (grandes construtoras, seguradoras, fundos de previdência, bancos de investimentos, etc.), a junção patrimonial direta, para utilização do beneficio, seria impossível. É curial que não era objetivo do PND extinguir as empresas concessionárias de serviços públicos. Por isso, a previsão expressa da possibilidade de operação invertida (a investida absorvendo a investidora). Por seu turno, as investidoras também não têm interesse em serem extintas, e mais, podem ter limitações regulatórias específicas, que impeçam a junção patrimonial. Assim, a única forma de viabilizar a utilização do benefício é concentrar a participação societária adquirida (com ágio) no leilão numa empresa veículo (sociedade com propósito específico), a qual seria incorporada pela investida. Fl. 1800DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.801 89 (...) A absorção do patrimônio de uma empresa por outra é a finalidade prática a que visam, necessária e objetivamente, quaisquer que sejam as empresas incorporadoras e incorporadas, constituindo, esta, por conseguinte, a sua causa típica. E foi exatamente esta causa típica, a pessoa jurídica absorver o patrimônio de outra, estipulada pelo artigo 7o, III, da Lei no 9.532/97, como condição para o contribuinte usufruir da regra do benefício fiscal oneroso. Neste caso, a lei concede o benefício fiscal, e condiciona o seu aproveitamento, isto é, a vantagem fiscal estipulada em lei, à pessoa jurídica absorver o patrimônio de outra. Trata-se de indução da norma fiscal à realização de absorção de patrimônio de empresa por intermédio de incorporação, cisão ou fusão, o que não passou despercebido do Poder Legiferante, que corroborou isso ao vetar o projeto de lei que pretendia revogar a norma isencional em tela”. Se havia normas, inclusive regulatórias, que impediam que a CELPE absorvesse ou fosse absorvida pelo “Novo Grupo de Controle”, não é demais advertir que não se pode exigir que os atos praticados transgredissem normas regulatórias. Trata-se de hipótese de inexigibilidade de conduta diversa. Assim, ainda que se trate de elemento prescindível para legitimar a amortização do ágio, é preciso reconhecer que a restruturação societária implementada, com a adoção das empresas GUARANIANA e LEICESTER, apresenta justificativas desse jaez reconhecidas pelo acórdão recorrido, o que deveria influenciar a decisão de julgadores que consideram tal fator relevante. 6. Conclusões finais quanto ao caso em análise. No recurso especial interposto pela PFN, ora em análise, foi requerido, entre outras coisas, que esta CSRF decidisse quanto à validade de operações de restruturação societária realizadas pelo contribuinte, rotuladas como transferência de investimento registrado, pelo MEP, com ágio por expectativa de rentabilidade futura. A PFN interpôs o referido recurso em face de acórdão unânime da Turma a quo, que reconheceu a legitimidade do ágio por expectativa de rentabilidade futura apurado na aquisição da CELPE, bem como o seu posterior aproveitamento fiscal. Na busca da melhor solução à presente demanda, foram analisados elementos prescritos pelo legislador como requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio: os aludidos requisitos foram atendidos pela contribuinte, o que já seria suficiente para manter incólume o acórdão recorrido, que considerou legítimos os atos praticados pelo contribuinte. Também foi analisada uma série de elementos que vêm sendo adotados pela jurisprudência do CARF como uma espécie de safe harbours em casos semelhantes ao ora em Fl. 1801DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO Processo nº 10480.723383/2010-76 Acórdão n.º 9101-002.187 CSRF-T1 Fl. 1.802 90 análise: o contribuinte apresenta características para se valer dos safe harbours em questão. Embora pessoalmente não considere os referidos elementos determinantes, é eloquente saber que o caso em julgamento preenche uma série de requisitos adotados por respeitados Conselheiros em diversos julgamentos do CARF, os quais militam a favor da legitimidade das operações realizadas pelo contribuinte. Por fim, foram investigados elementos que, embora adotados como fundamento em alguns julgados do CARF, são na verdade indiferentes e não interferem na amortização fiscal do ágio: ainda assim, o contribuinte apresenta características para se valer desses fundamentos que se prestariam a demonstrar a legitimidade de seus atos. Novamente, embora pessoalmente considere os referidos elementos não interfiram em nada para a aferição da legitimidade da amortização fiscal das despesas de ágio, é curioso saber que o caso em julgamento preenche também esses elementos, o que mais uma vez milita a favor da legitimidade das operações realizadas pelo contribuinte. Por todo o exposto, permissa venia à maioria que compreendeu de forma diversa, deve ser negado provimento ao recurso especial da PFN quanto à matéria analisada nesta declaração de voto, a fim de que se mantenha a acertada decisão da Turma a quo, que reconheceu a legitimidade e dedutibilidade das despesas de amortização de ágio pelo contribuinte. É como voto. Conselheiro Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Fl. 1802DF CARF MF Impresso em 11/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/04/20 16 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJ O, Assinado digitalmente em 28/03/2016 por LUIS FLAVIO NETO, Assinado digitalmente em 23/03/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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Numero do processo: 19515.001534/2010-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 25 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Fri Jul 22 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006, 2007
PRELIMINARES. ARGUIÇÃO GENÉRICA. REJEIÇÃO.
A simples argumentação genérica da contribuinte, em seu Recurso Voluntário, sobre possíveis ofensas aos princípios da legalidade, da oficialidade, da informalidade, da busca pela verdade material e da razoabilidade não são aptas a inquinar de inválida qualquer providência fiscal. A eventual inobservância das específicas normas de regência devem ser objetivamente indicadas e comprovadas, sem o que, por certo, apresentam-se como meros argumentos retóricos.
LANÇAMENTO FISCAL. OBSERVÂNCIA AO ART. 142 DO CTN.
Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível.
DÉBITO TRIBUTÁRIO. APURAÇÃO EM DIPJ. FALTA DE REGISTRO NA DCTF. REGULARIDADE DO LANÇAMENTO.
Sendo apurado débito pela contribuinte em sua DIPJ, não havendo o competente registro na DCTF, regular se mostra o lançamento promovidos pelas autoridades fiscalizadoras.
MULTA ISOLADA. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA.
A jurisprudência da CSRF consolidou-se no sentido de que não cabe a aplicação da multa isolada após o encerramento do período. Ante esse entendimento, não se sustenta a decisão que mantém a exigência da multa sobre o valor total das estimativas não recolhidas.
MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO PROPORCIONAL. CONCOMITÂNCIA. INAPLICABILIDADE.
É inaplicável a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas quando há concomitância com a multa de oficio proporcional sobre o tributo devido no ajuste anual, mesmo após a vigência da nova redação do art. 44 da Lei 9.430/1996 dada pela Lei 11.488/2007.
JUROS DE MORA. TAXA SELIC. SÚMULA CARF N. 04
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais
Numero da decisão: 1301-001.680
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, DAR PROVIMENTO PARCIAL AO RECURSO. Vencidos os Conselheiros Wilson Fernandes Guimarães e Paulo Jakson da Silva Lucas.
(Assinado digitalmente)
VALMAR FONSECA DE MENEZES - Presidente.
(Assinado digitalmente)
CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Valmar Fonseca de Menezes (Presidente), Carlos Augusto de Andrade Jenier, Paulo Jakson da Silva Lucas, Wilson Fernandes Guimarães, Valmir Sandri, Edwal Casoni de Paula Fernandes Junior.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER
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ARGUIÇÃO GENÉRICA. REJEIÇÃO. A simples argumentação genérica da contribuinte, em seu Recurso Voluntário, sobre possíveis ofensas aos princípios da legalidade, da oficialidade, da informalidade, da busca pela verdade material e da razoabilidade não são aptas a inquinar de inválida qualquer providência fiscal. A eventual inobservância das específicas normas de regência devem ser objetivamente indicadas e comprovadas, sem o que, por certo, apresentamse como meros argumentos retóricos. LANÇAMENTO FISCAL. OBSERVÂNCIA AO ART. 142 DO CTN. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. DÉBITO TRIBUTÁRIO. APURAÇÃO EM DIPJ. FALTA DE REGISTRO NA DCTF. REGULARIDADE DO LANÇAMENTO. Sendo apurado débito pela contribuinte em sua DIPJ, não havendo o competente registro na DCTF, regular se mostra o lançamento promovidos pelas autoridades fiscalizadoras. MULTA ISOLADA. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA. A jurisprudência da CSRF consolidouse no sentido de que não cabe a aplicação da multa isolada após o encerramento do período. Ante esse AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 15 34 /2 01 0- 61 Fl. 409DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 2 entendimento, não se sustenta a decisão que mantém a exigência da multa sobre o valor total das estimativas não recolhidas. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO PROPORCIONAL. CONCOMITÂNCIA. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas quando há concomitância com a multa de oficio proporcional sobre o tributo devido no ajuste anual, mesmo após a vigência da nova redação do art. 44 da Lei 9.430/1996 dada pela Lei 11.488/2007. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. SÚMULA CARF N. 04 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, DAR PROVIMENTO PARCIAL AO RECURSO. Vencidos os Conselheiros Wilson Fernandes Guimarães e Paulo Jakson da Silva Lucas. (Assinado digitalmente) VALMAR FONSECA DE MENEZES Presidente. (Assinado digitalmente) CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Valmar Fonseca de Menezes (Presidente), Carlos Augusto de Andrade Jenier, Paulo Jakson da Silva Lucas, Wilson Fernandes Guimarães, Valmir Sandri, Edwal Casoni de Paula Fernandes Junior. Fl. 410DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 3 3 Relatório Por bem descrever as circunstâncias fáticas contidas nos autos, transcrevo aqui o relatório apresentado pela r. decisão de primeira instância: 1. Tratase de créditos constituídos pela Fiscalização, contra a empresa acima identificada, referentes ao IRPJ e a CSLL devidos em 31/12/2006 e 31/12/2007, bem como a multas isoladas, incidentes, à aliquota de 50% (cinqüenta por cento) sobre as importâncias devidas e não pagas, a titulo de estimativas de IRPJ e CSLL, dos anos calendário 2006 e 2007. 1.1. Os Autos de Infração de IRPJ e CSLL, que totalizam R$ 13.144.360,94, têm a seguinte composição: 1.2. Esclarece o Termo de Verificação Fiscal, às fls. 125/127, que: Intimado através de Termo de Intimação Fiscal, enviado por via postal com AR (aviso de recebimento), cuja ciência se fez 26/04/2010, a apresentar documentos e esclarecimentos quanto à folio de recolhimento do IRPJ relativos aos AC 2.006 e AC 2.007 e do IRPJ por estimativa mensal, nos mesmos períodos, enviou correspondência, datada de 11/04/2010, informando que não efetuou os recolhimentos de IRPJ devidos conforme informado na DIPJ — Ficha I2A, Cálculo do Imposto de Renda sobre o Lucro Real — PJ em Geral e na Ficha 11 Cálculo do Imposto de Renda Mensal por Estimativa. Verificamos nos extratos extraídos do Sistema de Informações Eletrônicos da Receita Federal do Brasil —SIEF e nos documentos e informações prestadas pelo contribuinte, que o valor do IRPJ apurados com base nos Balancetes de Suspensão/Redução Mensais foram recolhidos PARCIALMENTE e que IRPJ apurado ao final do ano calendário de 2.006 e 2.007 não utilizavam o valor acumulado de imposto de renda mensal pago por estimativa (efetivamente não recolhidos), ao mesmo tempo em que o montante relativo ao IRPJ apurado para os anos calendários de 2.006 e 2.007, não constam das DCTF entregues pelo contribuinte. 1.3. O cálculo detalhado das multas isoladas, aplicadas mensalmente, bem como da insuficiência de pagamentos do IRPJ e da CSLL, devidos em 31/12/2006 e 31/12/2007, constam do Termo de Verificação Fiscal. Fl. 411DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 4 1.4. O lançamento das obrigações principais (IRPJ e CSLL) está fundamentado no art. 841, I, III e IV, do RIR11999 (Decreto 3.000/99), enquanto que a imposição de multa isolada, nos artigos 222 e 843, do RIR199, c/c art. 44, § 1 0, inciso IV, da Lei 9.430/96, alterado pelo art. 14, da Lei 11.488/07, c/c art. 106, II, "c", da Lei 5.172/66 (CTN). 2. Por meio do instrumento, de fls. 159/192, acompanhado dos documentos, de fls. 193/236, a Autuada impugnou os lançamentos, onde alega, em síntese, que: 2.1. em 14/04/2010, o Auditor Fiscal encaminhou Termo de Intimação Fiscal, em revisão da DIPJ 2007/2006 tendo sido prestados os esclarecimentos, em 11/05/2010. 2.2. Desconhecendo o conteúdo das informações prestadas nas DIPJ, DCTF e parcelamento nos moldes da Lei 11.941/2009, foram lavrados os Autos de Infração ora impugnados. 2.3. todos os débitos, nos termos da Lei 11.941/2009, devidamente declarados foram objetos do Pedido de Parcelamento em 13/11/2009, sendo que o Pedido foi deferido em 12/12/2009 e novamente confirmado em 14/06/2010, conforme Recibo da Declaração de Não Inclusão da Totalidade dos Débitos no Parcelamento da Lei 11.941/2009. 2.4. a Impugnação é tempestiva e deve ser acolhida. 2.5.o procedimento fiscal, regrado pelo CTN, pelo Decreto 70.235/72 e, subsidiariamente, pela Lei 9.784/99, como atividade administrativa que 6, deve obediência aos princípios que regem a administração pública, previstos na Constituição Federal, a saber: a) da Legalidade ou da Legalidade Objetiva; b) da Oficialidade; c) da Informalidade; d) da Verdade Material e; e) da Razoabilidade. 2.6. em razão da inobservância desses princípios, impõemse a decretação de nulidade dos Autos de Infração em questão; 2.7. a ação fiscal se iniciou pelo Termo de Intimação Fiscal, de 14/04/2010, com ciência por via postal no inicio de maio 2010, porém, sem analisar o conteúdo das Informações Econômico Fiscais transmitidas anteriormente á. ação fiscal, conforme Relatório Situação Fiscal em 13/05/2010, Recibos das DCTF, em 11/2009, Recibos DIPJ 2008 E 2007, juntados aos autos, o que viola o principio da oficialidade. 2.8. mesmo na fase inquisitória, não se pode negar o direito de acesso a todos os documentos e provas colhidas na investigação,como não se pode olvidar todas as informações prestadas à revelia do devido processo legal; 2.9. houve afronta à Lei 9.784/99 LGAPF, que determina o direito do administrado a ter ciência da tramitação dos processos administrativos em que tenha a condição de interessado; 2.10. o que existe no processo são simplesmente informações prestadas pelo próprio contribuinte em suas declarações levadas à Receita Federal, antes do inicio da ação fiscal, que não possuem, por si s6, certeza e liquidez para imputar ao contribuinte um crédito tributário de oficio e com multas de oficio de 75% sobre os tributos e multas isoladas de 50%; 2.11. nos termos do art. 142, do CTN, as autoridades fiscais tem verdadeiro dever de lançar os créditos tributários que entenderem devidos, sob pena de violação ao principio da verdade material; 2.12.o que se fez foi identificar os valores já declarados, confessados, parcelados e autuar crédito tributário já constituído pelo contribuinte; Fl. 412DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 4 5 2.13. a presunção in casu não encontra amparo legal dentro dos princípios do contraditório e da ampla defesa, norteados os Princípios e Garantias Constitucionais (art. 5°, da CF); 2.14. o Fisco não trouxe as provas de que os valores constituídos espontaneamente pelo contribuinte não seriam válidos, ou se válidos, não teriam sido espontâneos ou suficientes. 2.15. para ocorrer um novo lançamento ("exofficio"), teriam de ser canceladas "ex officio", os créditos constituídos pelo contribuinte, evitandose a dupla cobrança. 2.16. no mérito, esclarecese que dentre os débitos parcelados encontramse os valores dos tributos de IRPJ e CSL, relativos As apurações mensais realizadas nos Balanços de Suspensão/Redução dos anoscalendário 2006 e 2007, declarados em DCTF, que absorvem os débitos dos fatos geradores acumulados em 31/12/2006 e 31/12/2007 (transcreve relatório "Informações Fiscais do Contribuinte, emitido pela RFB); 2.17. portanto, os débitos de estimativa, que absorvem todo o débito apurados ao final dos anoscalendário 2006 e 2007, não são objeto da lide, e devem ser incluídos no Parcelamento da Lei 11.941/2009, segundo os procedimentos a serem adotados pelo Comitê Gestor da Receita Federal/PGFN no momento da consolidação, juntamente com as penalidades e juros que os acompanham. 2.18 os valores mensais, declarados em DCTF, totalizam um valor superior aos consolidados no final do ano, como informado nas DIPJ. 2.19 não foi observado que o preenchimento da DCTF é uma obrigação acessória instituída pelo Decreto Lei 2.124/84, e os efeitos declaratórios desse documento, constam da IN SRF n° 126/1998; 2.20. na correspondência de 11/05/2010, em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal, alertouse quanto ao risco de se constituir créditos em duplicidade; 2.21. a partir desse ponto a Impugnante passa a demonstrar por meio das Fichas 11 e 12A, para o IRPJ e das Fichas 16 e 17, das DIPJ dos anoscalendário 2006 e 2007, que as somas das estimativas, apuradas mediante balanço de Suspensa/Redução, se houvessem sido pagas, suplantariam os valores devidos, de IRPJ e CSLL, apurados em 31 de dezembro de 2006 e 2007, gerando crédito em favor do contribuinte; 2.22. obedeceuse As instruções para o preenchimento da DIPJ, em não informar os valores dos Tributos da Estimativa Mensal, apesar de constituídos por DCTF e confessados em parcelamento; 2.23. desta forma são devidos apenas os valores discriminados no Quadro V (IRPJ 2006 e 2007) e Quadro VI (CSLL 2007 e 2006), deduzidos dos valores pagos mensalmente; 2.24. os valores demonstrados nos quadros V e VI (tributos consolidados ao final do ano calendário) já estão incluídos nos valores mensais dos quadros I, II, III e IV (valores da estimativa mensal); 2.25. apresenta planilhas demonstrativas dos excessos que teriam ocorrido na constituição dos créditos; 2.26. todos os tributos gerados nos anos 2006 e 2007, corretamente apurados pelo Lucro Real Anual, não importando a forma de constituição (espontânea ou de oficio) foram objeto de confissão de divida no Parcelamento da Lei 11.941/2009, e não poderiam ser objeto do litígio e nem objeto do lançamento. Fl. 413DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 6 2.27.o que se discute é a dupla cobrança tributária para os mesmos fatos geradores, com aplicação de multa de oficio a procedimentos espontâneos e multas isoladas sobre débitos declarados (constituídos por DCTF); 2.28. não cabe a aplicação de multa isolada de 50% sobre as estimativas declaradas em DCTF e confessadas em parcelamentos; 2.29. nos termos do art. 5°, da Lei 11.941/2009, os valores já estavam confessados, e não poderiam ser objeto de Auto de Infração. 2.30. considerando o art. 957, do Decreto 3.000/99, não há que se admitir o lançamento de oficio com multa de oficio de 75%, conjuntamente com multa isolada de 50%, em débito confessado espontaneamente em DCTF, já penalizado com multa de mora e incluído em parcelamento. 2.31. a multa isolada só seria cabível, caso a Impugnante não houvesse apurado as antecipações mensais, por balanço de redução/suspensão, e somente oferecido à tributação o saldo consolidado em 31/12. 2.32. Transcreve textos da jurisprudência administrativa; 2.33. nos termos do art. 1°, XIII, da Portaria SRF n° 4.980/94, consubstanciada no art. 149, do CTN, o lançamento está sujeito à revisão de oficio; 2.34. no endereço eletrônico da RFB ,consta que a pessoa jurídica optou pelos Parcelamentos da Lei 11.941/2009; 2.35. consta também nos arquivos da RFB o Demonstrativo de Pagamentos Mensais do Parcelamento e o Demonstrativo dos Débitos Declarados, transmitidos à RFB, o que foi desconsiderado no lançamento; 2.36. a multa de oficio, prevista no art. 44, da Lei 9.430/96, só poderia ser aplicada caso houvesse uma parte residual de valores tributáveis apurados de oficio, mas somente após deduzidos os tributos outrora confessados espontaneamente e objeto de parcelamento; 2.37. caso o lançamento não seja retificado de oficio requerse a exclusão dos valores incluídos no Parcelamento Especial da Lei 11.941/2009 e cancelada a multa de oficio incidente sobre estes valores; 2.38. não existe norma legal que autorize a cobrança de multa de mora e multa de oficio ao mesmo tempo; 2.39. o parcelamento pela Lei 11.941/2009, deuse antes do inicio da ação fiscal, sendo que todos os créditos tributários devidos tributos, juros e multa) foram incluídos no parcelamento, conforme extrato anexo; 2.40. reproduz o art. 1 0, da IN RFB n° 1.049, de 30/06/2010; 2.41. os juros de mora calculados à taxa Selic tem caráter remuneratório e não podem ser aplicados aos débitos tributários, devendose excluilos do lançamento mediante a aplicação da taxa de 1% (um por cento), prevista no art. 161, § 10, do CTN; 3. Por todo e exposto, requer: 3.1. o acolhimento da Impugnação, por ser tempestiva; 3.2. a consideração das preliminares, julgando nulo o lançamento; 3.3. encaminhamento do processo ao Comitê Gestor, nos termos da Portaria Conjunta PGFN/RFB no 13/2010, para ratificação da inclusão dos débitos dos fatos geradores de 2006 e 2007, no Parcelamento da Lei 11.941/2009; Fl. 414DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 5 7 3.4. alternativamente se inclua os valores dos tributos, já declarados, com seus acessórios (multas e juros, no Parcelamento da Lei 11.941/2009; 3.5. no mérito, declare a improcedência do lançamento; 3.6. apliquese juros de mora taxa de 1%, ao mês; 3.7 anexação "a posteriori" de outros documentos para elucidação dos fatos em respeito ao principio da verdade material. Ao analisar as razões de defesa apresentadas pela contribuinte, concluiu a douta 3a Turma da DRJ/SP1 pela total improcedência da impugnação, apontando, na ementa do acórdão proferido, os seguintes excertos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007 LUCRO REAL ANUAL. IRPJ E CSLL DEVIDOS EM 31 DE DEZEMBRO E NÃO RECOLHIDOS. MULTA DE OFÍCIO. ESTIMATIVAS MENSAIS NÃO PAGAS NO DECORRER DO ANOCALENDÁRIO. MULTA ISOLADA. Verificada a falta de pagamento das estimativas devidas, após o término do ano calendário, o lançamento de oficio abrangerá a multa isolada sobre os valores devidos por estimativa e não recolhidos, bem como o IRPJ e a CSLL devidos com base no lucro real apurado em 31 de dezembro e não recolhidos, acrescidos de multa de oficio e juros de mora contados do vencimento da quota única. PROCEDIMENTO FISCAL. FASE INVESTIGATÓRIA. IMPUGNAÇÃO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. DIREITO À AMPLA DEFESA E AO CONTRADITÓRIO. O direito à ampla defesa e ao contraditório deve ser observado a partir do início do processo administrativo fiscal, ou seja, a partir da impugnação tempestiva ao lançamento, não podendo tais princípios serem aplicados de forma irrestrita, no curso do procedimento fiscal, que tem natureza investigatória. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADES E/OU ILEGALIDADES. A apreciação de alegações de inconstitucionalidades e/ou ilegalidades é de exclusiva competência do Poder Judiciário. Matérias que as questionam não são apreciadas na esfera administrativa. JUROS MORATÓRIOS. INCIDÊNCIA A TAXA SELIC. PREVISÃO LEGAL. Os tributos e contribuições administrados pela RFB, não pagos na data de vencimento, ficam sujeitos A incidência de juros de mora, calculados mediante a aplicação da taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC, a que se refere o art. 13 da Lei n° 9.065/95. PRODUÇÃO DE PROVAS APÓS 0 PRAZO DE IMPUGNAÇÃO. O momento adequado para a produção de provas dáse dentro do prazo de impugnação, exceção feita as situações previstas nas normas que regem o contencioso administrativo. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Fl. 415DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 8 Regularmente intimada a contribuinte, por ela foi então interposto o seu competente recurso voluntário, aduzindo, em suas razões, o seguinte: Que todos os débitos da contribuinte foram inseridos no parcelamento de que trata o Art. 1o da Lei 11.941/2009, conforme documentos que junta; Diante dessas considerações, a matéria mantida em litígio no presente feito, segundo aponta, estaria fundado em relação aos seguintes pontos: a) A invalidade da cobrança d multa isolada aplicada sobre os valores mensais de IRPJ/CSLL calculados nos Balanços de Suspensão/Redução Mensal, dado a forma de apuração do Lucro Real Anual, conforme informado nas DIPJ’s 2008 e 2007; b) A indevida e dupla constituição do crédito tributário de IRPJ/CSLL sobre os fatos geradores acumulados em 31/12/2006 e 31/12/2007, sendo que os valores tinham sido apurados mensalmente por Balanço de Suspensão/Redução informados nas DIPJ’s 2008 e 2007 e já constituídos por DCTF’s (Art. 5o do Decretolei 2.124/84). Que os procedimentos contidos nos autos feririam os princípios norteadores das garantias processuais existentes em nosso ordenamento jurídico pátrio; Que teria havido nos autos ofensa ao “princípio da legalidade estrita”, ao “princípio da oficialidade”; Que, o processo administrativo fiscal federal deve ser orientado pelo “princípio da informalidade”; da busca pela “verdade material” e pelo “princípio da razoabilidade”; Que a ofensa ao “princípio da oficialidade” seria decorrente do fato de que teria sido expedido o MPF sem a observância das Declarações Fiscais apresentadas pela contribuinte; Que, entretanto, mesmo na fase inquisitória, não poderia ser negada à contribuinte o acesso aos elementos que teriam fundamentado a ação fiscal; Que a ofensa ao “princípio da verdade material” estaria no fato de que todos os fatos contidos nestes autos seriam decorrentes das informações prestadas pela própria contribuinte; No mérito, sustenta a recorrente que os montantes objeto de lançamento a título de IRPJ/CSLL, relativos às apurações mensais efetivadas nos Balanços de Suspensão/Redução dos nos 2006 e 2007 teriam sido declarados em DCTF; Que os valores apurados a título de IR/CS, relativos aos anos de 2007 e 2007 (que absorvem todo o débito tributário apurado ao final dos respectivos anos calendários) devem ser cancelados do presente auto de infração, e, por conseqüência, devem ser incluídos no Parcelamento da Lei 11.941/2009. Que a fiscalização não poderiam ter desconsiderado os montantes declarados pela contribuinte em sua DCTF, regularmente apreentada; Fl. 416DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 6 9 Ademais, as apurações promovidas pelos agentes da fiscalização não observou das regras próprias de apuração pelo Lucro Real Anual, nos termos do Artigo 222 do RIR/99; Pela mesma razão, indevida também seria a exigência de Multa de Ofício e de Multa Isolada dos os montantes declarados, confessados e parcelados; Ainda, os montantes incluídos no parcelamento de que trata o art. 11.941/2009 (tributos, juros e multa) não podendo assim ser exigidos no presente feito; Por fim, que é indevida a cobrança da taxa SELIC como taxa de juros moratórios. Vindo os autos, na primeira oportunidade, para a apreciação e julgamento quando na 2a Turma Ordinária nesta 3a Câmara da Primeira Seção de Julgamento, à época, em proposta de voto da Conselheira Dra. LAVÍNIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEIRA JUNQUEIRA, foi determinada a Conversão do Julgamento em Diligência, especificamente pela seguinte razão: Para tanto, voto por converter este julgamento em diligência para que a autoridade fiscal preparadora possa, por favor, executar as seguintes atividades: (i) verificar os valores dos débitos de IRPJ e CSLL dos anoscalendários de 2006 e 2007 da contribuinte que foram efetivamente parcelados nos termos da Lei 11.941/2009 tendo em conta a consolidação final dos débitos correspondentes: informar códigos de recolhimento, mês/ano de competência, vencimentos, valores; (ii) verificar se A. altura do lançamento fiscal a contribuinte estava em situação regular nesse parcelamento; (iii) anexar os documentos correspondentes a (i) e (ii) neste processo; (iv) intimar a contribuinte para que se pronuncie sobre as diligências realizadas e os documentos anexados no prazo de 30 (trinta) dias; (v) acostar a manifestação da contribuinte caso recebida e remeter o processo novamente para este Conselho para que possamos prosseguir o julgamento. Baixados o feito em diligência, após as providências respectivas, pelos agentes responsáveis, por eles foi então indicado que a contribuinte não teria pretendido o parcelamento da totalidade dos seus débitos – da forma como por ela afirmado , havendo, inclusive, determinação expressa de sua exclusão daquela sistemática, não se podendo aqui, portanto, de forma alguma amparar as alegações apresentadas. Intimada a contribuinte, mantevese silente, retornando, então, os autos para julgamento. Esse é o relatório. Fl. 417DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 10 Voto Conselheiro CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, relator. Sendo tempestivo o Recurso Voluntário interposto, dele conheço. Da rejeição das Preliminares arguidas Inicialmente, cumpre aqui destacar que, conforme apontado no relatório apresentado, a recorrente, nas razões de seu recurso voluntário, desenvolve longos arrazoados a respeito de possíveis desrespeitos aos princípios “da estrita legalidade”, “da oficialidade”, “da informalidade”, da “busca pela verdade material” e do “princípio da razoabilidade”, em todos os casos, fazendoo de formas genéricas sem apontar, especificamente, qual seria o ato especificamente faltoso capaz de impor a necessária desconstituição do lançamento. As considerações desenvolvidas pela recorrente no sentido de que a fiscalização teria partido das informações por ela própria declaradas, com toda a certeza, não representam, por si, qualquer possibilidade de configuração de qualquer conduta ofensiva a quaisquer dos apontados princípios, sobretudo porque, com toda a certeza, às autoridades fiscais compete, especificamente, analisar os fatos praticados pela contribuinte, com toda a certeza, partindo das informações que por ela própria – por força de lei, inclusive – é obrigada a fornecer aos agentes da fiscalização. Se, diante do quadro fático descrito, verificam os agentes fiscais a possibilidade de configuração de possíveis condutas faltosas pela contribuinte, legítima se apresenta a instauração do procedimento fiscal, promovendo todas as averiguações devidas, nos termos, inclusive, expressamente determinados e autorizados pelas disposições do Art. 142 do CTN que, enfaticamente, assim inclusive expressamente destaca: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Em que pese todos os esforços retóricos desenvolvidos pela recorrente, não identifico nos autos qualquer conduta que se mostre ofensiva ou contrária a qualquer disposição especifica do ordenamento jurídico pátrio, não vislumbrando aqui, portanto, qualquer possibilidade de argüição de quaisquer das preliminares argüidas. Ademais, a própria recorrente chega a afirmar, nas suas argumentações, a inaplicabilidade do contraditório na fase inquisitória do procedimento fiscal. No âmbito do processo administrativo fiscal federal, nunca é demais destacar, que o pronunciamento de nulidades possui especifico regramento na legislação de regência, valendo a esse ponto, sempre, o destaque às disposições do Art. 59 do Decreto 70.235/72, que assim assenta: Art. 59. São nulos: Fl. 418DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 7 11 I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) No presente caso, mais uma vez, além de não vislumbrar a prática de qualquer ato faltoso pelos agentes da fiscalização no que tange ao regramento próprio dos procedimentos por eles aplicados, também não encontro qualquer apontamento a respeito de eventuais prejuízos ao regular desenvolvimento da defesa, razão porque rejeito, de plano, todas as preliminares argüidas pela recorrente em relação às supostas ofensas aos princípios “da estrita legalidade”, “da oficialidade”, “da informalidade”, da “busca pela verdade material” e do “princípio da razoabilidade”. DO MÉRITO Ultrapassada a análise das preliminares abordadas pela recorrente, cumpre agora analisar, especificamente, as questões de mérito abordadas no recurso. Em primeiro lugar, insta destacar que, conforme aqui antes apontado, trata se, nos presentes autos, de lançamentos realizados pelos agentes da fiscalização, decorrente das análises desenvolvidas em relação aos registros de receitas e tributos devidos/recolhidos pela contribuinte em relação aos anoscalendário 2006 e 2007. Inicialmente, cumpre destacar que, nos presentes autos, não se trata de lançamento de estimativas não recolhidas. Tratase, na verdade, de constatação de efetivo inadimplemento, pela contribuinte, dos montantes por ela indicados como devidos em sua DIPJ ao final dos respectivos anoscalendário. A base da constatação fiscal, encontrase no seguinte trecho destacado do TVF: Verificamos nos extratos extraídos do Sistema de Informações Eletrônicos da Receita Federal do Brasil —SIEF e nos documentos e informações prestadas pelo contribuinte, que o valor do IRPJ apurados com base nos Balancetes de Suspensão/Redução Mensais foram recolhidos PARCIALMENTE e que IRPJ apurado ao final do ano calendário de 2.006 e 2.007 não utilizavam o valor acumulado de imposto de renda mensal pago por estimativa (efetivamente não recolhidos), ao mesmo tempo em que o montante relativo ao IRPJ apurado para os anos calendários de 2.006 e 2.007, não constam das DCTF entregues pelo contribuinte. (Destaque nosso) Assim, cumpre destacar que, ao contrário do que afirma a recorrente, os valores contidos no lançamento apontado não constavam nas DCTF’s por ela apresentas, Fl. 419DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 12 sendo por essa razão, inclusive, que inexiste qualquer dedução/compensação a ser aqui realizada. Apenas para reforço argumentativo, penso relevante reproduzir aqui as análises desenvolvidas pelos doutos julgadores da DRJ a respeito deste ponto. Vejamos: 4.2. Ressaltese que, de acordo com as DIPJ dos anoscalendário 2006 e 2007 e, conforme alegado pela Impugnante, que diz ter seguido as instruções de preenchimento das DIPJ, as estimativas de IRPJ e CSLL (Fichas 11 e 16), por não terem sido pagas no decorrer do anocalendário, não foram deduzidas do IRPJ e da CSLL, devidos em 31 de dezembro (Fichas 12A e 17), os quais foram declarados, conforme quadro abaixo: 4.3. Tais valores não foram declarados em DCTF, conforme informado nos Termos de Verificação Fiscal As fls. 125/127 e 140/142. 4.4. Ao constituir os créditos, a Fiscalização levou em conta as estimativas parcialmente recolhidas, deduzindoas dos valores de IRPJ e CSLL, devidos em 31 de dezembro e aplicou multa de oficio de 75%, bem como juros de mora, sobre as diferenças apuradas. 0 quadro abaixo demonstra o lançamento dos valores principais: Além dessas considerações, afirma ainda a recorrente que teria promovido o parcelamento da integralidade de seus créditos por meio da sistemática apontada pelas disposições da Lei 11.941/2009, o que, inclusive, motivou a Conversão do Julgamento em Diligência, conforme mencionado na parte final do relatório aqui apresentado. Entretanto, ao contrário do que pretende fazer crer a contribuinte, a realidade verificada no resultado da diligência determinada é deveras distinta do que por ela firmado. Vejamos: Trata o presente de Auto de Infração para exigência de valores de IRPJ e CSLL, apurados no período de 31/12/2006 a 31/12/2007, além da multa isolada de 50% sobre as importâncias devidas e não pagas, a título de estimativa de IRPJ e CSLL, dos anoscalendários de 2006 e 2007. Em impugnação apresentada em 07/07/2010, o contribuinte afirma que “todos os débitos, nos termos da Lei 11.941/2009, devidamente declarados foram objetos do Pedido de Parcelamento em 13/11/2009, sendo que o Pedido foi deferido em 12/12/2009 e novamente confirmado em 14/06/2010, conforme Recibo da Declaração de Não Inclusão da Totalidade dos Débitos no Parcelamento da Lei 11.941/2009.”. Mais especificamente, o contribuinte alega que “os débitos de estimativa, que absorvem todo o débito apurados ao final dos anoscalendário 2006 e 2007, Fl. 420DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 8 13 não são objeto da lide, e devem ser incluídos no Parcelamento da Lei 11.941/2009, segundo os procedimentos a serem adotados pelo Comitê Gestor da Receita Federal/PGFN no momento da consolidação, juntamente com as penalidades e juros que os acompanham” e que “todos os tributos gerados nos anos 2006 e 2007, corretamente apurados pelo Lucro Real Anual, não importando a forma de constituição (espontânea ou de ofício), foram objeto de confissão de dívida no Parcelamento da Lei 11.941/2009, e não poderiam ser objeto do litígio e nem objeto do lançamento” O julgamento foi convertido em diligência para: ∙ Verificar os valores dos débitos de IRPJ e CSLL dos anoscalendários de 2006 e 2007 do contribuinte que foram efetivamente parcelados nos termos da Lei 11.941/2009 tendo em conta a consolidação final dos débitos correspondentes; ∙ Verificar se à altura do lançamento fiscal o contribuinte estava em situação regular nesse parcelamento; ∙ Intimar o contribuinte para que pronuncie sobre as diligências realizadas no prazo de 30 dias. Através de consulta aos sistemas da RFB, notase que o contribuinte formalizou pedido de parcelamento nos termos da Lei 11.941/2009 em 13/11/2009. Em 14/06/2010, o contribuinte manifestouse pela não inclusão da totalidade dos débitos no referido parcelamento. Em 16/08/2010, o contribuinte protocolou o Anexo III no qual informa apenas o intuito de parcelar os débitos controlados através do PA 19515001501/200716 que, aliás, não possui qualquer débito de IRPJ ou CSLL dos anoscalendário 2006 ou 2007. Assim sendo, diferentemente do afirmado pelo contribuinte em sua impugnação do presente Auto de Infração não foram indicados em nenhum momento pelo mesmo como passíveis de inclusão no parcelamento da Lei 11.941/2009. Deixase claro que além da necessária indicação dos débitos através do Anexo III o contribuinte, caso realmente desejasse parcelar os débitos aqui discutidos no referido parcelamento, deveria apresentar desistir expressamente e de forma irrevogável da impugnação e, cumulativamente, renunciar a quaisquer alegações de direito sobre as quis se fundam o processo administrativo, nos termos do art. 13º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 06/2009. Em nenhum momento tal desistência foi efetuada para o presente processo. Finalmente, deixase claro que o pedido de parcelamento da Lei 11.941/2009, na modalidade RFBDEMAISART1 (modalidade em que os débitos seriam passíveis de inclusão), foi cancelado em 29/12/2011 pela não apresentação das informações necessárias a consolidação, conforme §3º do art. 15º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 06/2009. Além disso, o pedido de consolidação manual do parcelamento da Lei 11.941/2009 efetuado pelo contribuinte através do PA 18186726.471/201147 também foi indeferido em 25/10/2011, com ciência ao contribuinte se dando em 02/05/2012. Deixandose claro que em tal pedido, protocolado em 27/07/2011, novamente o contribuinte em nenhum momento manifestouse pelo desejo de incluir os débitos aqui discutidos no referido parcelamento, mas apenas os controlados pelo PA 19515 001.501/200716. Portanto, verificase que em nenhum momento os débitos de IRPJ e CSLL dos anoscalendário 2006 e 2007 foram objeto do pedido de parcelamento na Lei 11.941/2009 por falta de indicação, necessária, do próprio contribuinte. Fl. 421DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 14 Efetuados os esclarecimentos necessários, intimese o contribuinte sobre o teor deste despacho e, não havendo qualquer tipo de pronunciamento sobre o presente no prazo de 30 dias de sua ciência, retornase o presente ao CARF para que o conselho possa prosseguir no julgamento. (Todos os destaques são nossos) A partir dessas informações (em relação às quais, inclusive, apesar de regularmente intimada, não se verifica nos autos qualquer oposição da contribuinte), verificase que, ao contrário do que reiteradamente afirmado no recurso voluntário interposto, nunca aconteceu a pretensão de parcelamento, pela contribuinte, dos créditos tratados nestes autos, sendo, portanto, completamente vazias todas as argumentações por ela então apresentadas a esse respeito. Não bastassem essas considerações, destaca ainda a recorrente que a fiscalização não teria observado a sistemática própria de apuração do Lucro Real Anual, o que, além de apresentarse, mais uma vez, como mera argüição retórica, não indica qualquer fundamento para essa conclusão, não podendo aqui, também por isso, ser então admitida. A douta DRJ, ao afirmar a correção da atuação dos agentes da fiscalização, em síntese conclusiva, inclusive, assim expressamente destaca: 4.14. Do exposto até aqui não há dúvida de que a Fiscalização agiu com acerto ao constituir os créditos da forma como fez, pelas seguintes razões: 4.15. O IRPJ e a CSLL, devidos em 31 de dezembro e informados nas DIPJ, não foram declarados em DCTF, documento que, nos termos da legislação tributária, é instrumento hábil e suficiente para constituir o crédito tributário, fato esse que evidencia, conforme foi comentado, divergência de dados injustificáveis e a necessidade de se constituir referidos créditos pelo lançamento, com a imposição de multa de oficio de 75%. 4.16. Ademais, embora a DCTF seja instrumento legalmente hábil e suficiente para a constituição do crédito tributário, as citadas divergências comprometem a certeza e liquidez das estimativas declaradas nesse documento, uma vez que, numa eventual cobrança judicial, abrirseia a possibilidade da Impugnante alegar a veracidade das informações prestadas na DIPJ, em detrimento do que consta nas DCTF, sendo certo que não lhe faltariam fortes argumentos jurídicos nesse sentido. 4.17. Sim, porque no entender desse relator, não há sentido em parcelar estimativas, após o encerramento do ano calendário, mas, juridicamente, haveria todo o sentido em parcelar o IRPJ e a CSLL apurados, em 31 de dezembro, com base no lucro real anual. Em sendo as estimativas antecipações obrigatórias do imposto e da contribuição devidos no final do ano, elas perdem sua razão de ser, quando não pagas no decorrer do anocalendário. 4.18. Ademais, A época dos lançamentos, não havia, e, pelo o que consta nos autos, ainda não há, a certeza quanto A inclusão das estimativas no parcelamento. Ademais, restando expressamente registrado nos autos a inexistência do referido parcelamento, mantémse, assim, então, a conclusão atingida da perfeita regularidade do lançamento efetivado. Da cobrança da multa isolada após o encerramento do ano calendário A par de todas as considerações aqui apresentadas, relevante destacar que, na parte final de suas razões, sustenta a recorrente a invalidade da exigência de multas isoladas Fl. 422DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 9 15 após o encerramento do anocalendário, da forma como promovido, então, no lançamento efetivado. A respeito dessa questão, aqui se faz necessário o registro de que, conforme tenho já há tempos me manifestado, considerando o recolhimento de estimativas mensais como simples antecipações do pagamento dos tributos devidos ao final do exercício – no caso das empresas sujeitas à apuração do lucro real anual , além de considerar indevida a cobrança das próprias estimativas não pagas após o encerramento do anocalendário (nos termos da Súmula CARF no 82), entendo que também indevida se apresenta a exigência da multa isolada. Essa matéria, relevante destacar, encontrase consolidada no entendimento da CSRF, valendo, a esse respeito inclusive, o destaque ao seguinte precedente, da lavra do ilustre Conselheiro MARCOS AURELIO PEREIRA VALADÃO: Número do Processo 10980.013727/200537 Contribuinte CRONUS FOMENTO MERCANTIL LTDA Tipo do Recurso RECURSO ESPECIAL DO PROCURADOR Data da Sessão 17/07/2014 Relator(a) MARCOS AURELIO PEREIRA VALADAO Nº Acórdão 9101001.950 Tributo / Matéria Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Votou pelas conclusões o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Ausentes, momentaneamente, os Conselheiros Valmir Sandri e Karem Jureidini Dias. (Assinado digitalmente) OTACÍLIO DANTAS CARTAXO Presidente (Assinado digitalmente) MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO Relator EDITADO EM: 25/07/2014 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Otacílio Dantas Cartaxo (Presidente), Marcos Aurélio Pereira Valadão, Valmir Sandri, Valmar Fonseca de Menezes, Karem Jureidini Dias, Jorge Celso Freire da Silva, Marcos Vinicius Barros Ottoni (Suplente Convocado), Rafael Vidal de Araújo, Orlando Jose Gonçalves Bueno (Suplente Convocado) e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado). Ausente, Justificadamente, o Conselheiro João Carlos de Lima Junior. Ementa Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Exercício: 2000, 2001, 2002, 2003 ESTIMATIVAS. FALTA DE RECOLHIMENTO DE CSLL POR ESTIMATIVA MENSAL. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA. Não é cabível a cobrança de multa isolada de CSLL por estimativa não recolhida, quando já lançada a multa de ofício, após o encerramento do anocalendário, nos termos da pacífica jurisprudência desta Turma da CSRF, para fatos geradores ocorridos antes da vigência da Medida Provisória n.º 351/2007 (posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007), que impôs nova redação ao tratar da matéria. Recurso Especial do Procurador da Fanzenda NacionalNegado. Aplicando esse entendimento, destaco, também, o seguinte precedente da lavra do ilustre Sr. Conselheiro PLINIO RODRIGUES LIMA: Fl. 423DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 16 Número do Processo 13971.002135/200759 Contribuinte AMERICANA COMERCIAL EXPORTADORA E IMPORTADORA LTDA Tipo do Recurso RECURSO VOLUNTARIO Data da Sessão Relator(a) PLINIO RODRIGUES LIMA Nº Acórdão 1202001.127 Tributo / Matéria Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros João Bellini Junior e Carlos Alberto Donassolo. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto Donassolo – Presidente em Exercício. (documento assinado digitalmente) Plínio Rodrigues Lima Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto Donassolo, Plínio Rodrigues Lima, João Bellini Junior (suplente), Nereida de Miranda Finamore Horta, Geraldo Valentim Neto e Orlando José Gonçalves Bueno. Ementa Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2003 CAPITULAÇÃO LEGAL — NULIDADE INEXISTENTE O estabelecimento autuado defende se dos fatos a ele imputados, e não do dispositivo legal mencionado na acusação fiscal. MULTA ISOLADA — IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA. A jurisprudência da CSRF consolidouse no sentido de que não cabe a aplicação da multa isolada após o encerramento do período. Ante esse entendimento, não se sustenta a decisão que mantém a exigência da multa sobre o valor total das estimativas não recolhidas. Em face desses entendimentos, entendo, também no presente caso, incabível a exigência de multa isolada pelo não recolhimento de estimativas, sobretudo em se tratando de lançamento formalizado após o encerramento do respectivo anocalendário, razão porque, em relação a este específico item, entendo assistir razão à recorrente. Não bastasse isso, relevante observar que, no presente caso, verificase a imputação de incidência concomitante das apontadas multas isoladas e a respectiva multa de ofício, o que, conforme o pacífico entendimento deste Conselho, não se pode manter. Nesse sentido, destacase o seguinte precedente: Número do Processo 19515.008031/200801 Contribuinte DALLURE DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS DE HIGIENE LTDA Tipo do Recurso RECURSO VOLUNTARIO Data da Sessão 30/07/2014 Relator(a) FREDERICO AUGUSTO GOMES DE ALENCAR Nº Acórdão 1402001.742 Tributo / Matéria Fl. 424DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES Processo nº 19515.001534/201061 Acórdão n.º 1301001.680 S1C3T1 Fl. 10 17 Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade e, no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigência da multa isolada. Vencidos os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto e Leonardo de Andrade Couto que votaram por negar provimento integralmente. (assinado digitalmente) LEONARDO DE ANDRADE COUTO Presidente. (assinado digitalmente) FREDERICO AUGUSTO GOMES DE ALENCAR Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Frederico Augusto Gomes de Alencar, Carlos Pelá, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Paulo Roberto Cortez e Leonardo de Andrade Couto. Ementa Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2005 ILEGALIDADE OU INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. APRECIAÇÃO. COMPETÊNCIA DA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. INEXISTÊNCIA. Salvo nos casos de que trata o artigo 26A, do Decreto nº 70.235, de 1972, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, não tem competência para conhecer de matéria que sustente a insubsistência do lançamento sob o argumento de que a autuação se deu com base norma inconstitucional ou ilegal. MULTA DE OFÍCIO. CONFISCO. INCONSTITUCIONALIDADE OU ILEGALIDADE DE NORMAS. AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. INCOMPETÊNCIA PARA APRECIAR. Os percentuais da multa de ofício, exigíveis em lançamento de ofício, são determinados expressamente em lei, não dispondo as autoridades administrativas de competência para apreciar a constitucionalidade de normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO PROPORCIONAL. CONCOMITÂNCIA. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas quando há concomitância com a multa de oficio proporcional sobre o tributo devido no ajuste anual, mesmo após a vigência da nova redação do art. 44 da Lei 9.430/1996 dada pela Lei 11.488/2007. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Nesse sentido, por quaisquer dos argumentos aqui apontados, entendo incabível a manutenção das referidas multas isoladas. Validade de aplicação da SELIC Por fim, destaca ainda a recorrente a invalidade da aplicação da taxa SELIC como instrumento para a cobrança dos juros moratórios. Esse assunto, é relevante destacar, encontrase hoje já pacificado na jurisprudência deste Conselho, aplicandose, no caso, o enunciado da Súmula CARF no 4, que, a seu respeito, assim pontifica: Súmula CARFnº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais Assim, com esse fundamento, rejeito também essa pretensão do recurso analisado. Fl. 425DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES 18 Conclusão Em face de todas essas considerações, encaminho o meu voto no sentido de DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário interposto, reconhecendo, especifica e exclusivamente, a invalidade da exigência das multas isoladas pelo nãorecolhimento de estimativas após o encerramento do exercício respectivo, mantendo o crédito tributário em relação a todos os demais elementos, conforme aqui, então, especificamente apontado. É como voto. (Assinado digitalmente) CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER Relator Fl. 426DF CARF MF Impresso em 22/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente e m 27/01/2015 por CARLOS AUGUSTO DE ANDRADE JENIER, Assinado digitalmente em 26/05/2015 por VALMAR FO NSECA DE MENEZES
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Numero do processo: 16643.000331/2010-02
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 02 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon May 02 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006, 2007
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. LEGALIDADE DA IN SRF 243/2002.
A IN SRF nº 243/2002 conforma-se à disposição do artigo 18, da Lei nº 9.430/1996, com redação conferida pela Lei nº 9.959/2000, ao proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência.
Numero da decisão: 9101-002.263
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, e, no mérito, dar provimento ao recurso, determinando o retorno dos autos à Turma Ordinária para julgamento da alegação a respeito de juros SELIC sobre o principal e sobre a multa, por maioria de votos, vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez. O Conselheiro Luís Flávio Neto apresentará declaração de voto.
(Assinado digitalmente)
CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO - Presidente.
(Assinado digitalmente)
CRISTIANE SILVA COSTA - Relatora.
EDITADO EM: 18/04/2016
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão, Cristiane Silva Costa, Adriana Gomes Rego, Luís Flávio Neto, Andre Mendes de Moura, Livia De Carli Germano (Suplente Convocada), Rafael Vidal de Araújo, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocada), Maria Teresa Martinez Lopes (Vice-Presidente) e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: CRISTIANE SILVA COSTA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006, 2007 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. LEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. A IN SRF nº 243/2002 conforma-se à disposição do artigo 18, da Lei nº 9.430/1996, com redação conferida pela Lei nº 9.959/2000, ao proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, e, no mérito, dar provimento ao recurso, determinando o retorno dos autos à Turma Ordinária para julgamento da alegação a respeito de juros SELIC sobre o principal e sobre a multa, por maioria de votos, vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez. O Conselheiro Luís Flávio Neto apresentará declaração de voto. (Assinado digitalmente) CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO - Presidente. (Assinado digitalmente) CRISTIANE SILVA COSTA - Relatora. EDITADO EM: 18/04/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão, Cristiane Silva Costa, Adriana Gomes Rego, Luís Flávio Neto, Andre Mendes de Moura, Livia De Carli Germano (Suplente Convocada), Rafael Vidal de Araújo, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocada), Maria Teresa Martinez Lopes (Vice-Presidente) e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 38; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2201; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 1.668 1 1.667 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16643.000331/201002 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9101002.263 – 1ª Turma Sessão de 03 de março de 2016 Matéria IRPJ Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado LABORATÓRIOS PFIZER LTDA. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. LEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. A IN SRF nº 243/2002 conformase à disposição do artigo 18, da Lei nº 9.430/1996, com redação conferida pela Lei nº 9.959/2000, ao proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, e, no mérito, dar provimento ao recurso, determinando o retorno dos autos à Turma Ordinária para julgamento da alegação a respeito de juros SELIC sobre o principal e sobre a multa, por maioria de votos, vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocado) e Maria Teresa Martinez Lopez. O Conselheiro Luís Flávio Neto apresentará declaração de voto. (Assinado digitalmente) CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 00 03 31 /2 01 0- 02 Fl. 1668DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 2 (Assinado digitalmente) CRISTIANE SILVA COSTA Relatora. EDITADO EM: 18/04/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão, Cristiane Silva Costa, Adriana Gomes Rego, Luís Flávio Neto, Andre Mendes de Moura, Livia De Carli Germano (Suplente Convocada), Rafael Vidal de Araújo, Ronaldo Apelbaum (Suplente Convocada), Maria Teresa Martinez Lopes (VicePresidente) e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de processo originado pela lavratura de Auto de Infração de IRPJ e CSLL relativas ao anocalendário de 2006, constatandose as seguintes infrações: (i) ausência de ajustes por força de regras de preços de transferência; (ii) compensação indevida de prejuízos fiscais e de bases de cálculo negativas de CSLL. Consta do Termo de Constatação Fiscal (fls. 516/531 – volume 3): Após a análise dos dados fornecidos pelo Contribuinte, esta Fiscalização selecionou de acordo com o método PRL (PRL 20 e PRL 60), os itens passíveis de ajuste para fins de preços de transferência” (...) Nos termos da legislação, foi utilizado o método PRL com margem de 20% para os itens objeto de revenda simples e o método PRL com margem de 60% para os itens aplicados à produção, com base nas próprias informações do Contribuinte. Nesse sentido, os itens empregados na produção constam da tabela "InsumoProduto", entregue pela empresa e certificada digitalmente, cujo CDROM se encontra anexo ao presente processo. Nos casos em que os itens foram empregados na produção e também objeto de revenda ou, ainda, aplicados na produção de vários produtos distintos, esta fiscalização realizou a ponderação dos preços em função das respectivas quantidades. Durante os trabalhos de finalização e readequação dos lucros e prejuízos acumulados, constatamos, a partir da base de dados da Receita Federal do Brasil, Sistema SAPLI, que o Contribuinte efetuou, no anocalendário de 2006, compensações indevidas, a maior, em relação a prejuízos acumulados, no valor de R$ 24.959.865,83 (Vinte e quatro milhões, novecentos e cinquenta e nove mil, oitocentos e sessenta e cinco reais e oitenta e três centavos), o que ensejou a lavratura de infração específica para tal ocorrência, cujas planilhas e documentos constam do presente processo. No mesmo sentido, o Sistema SAPLI também apurou compensações indevidas da Base de cálculo negativa da CSLL, para o anocalendário de 2007, no valor de R$ 14.297.980,89 (quatorze milhões, duzentos e noventa e Fl. 1669DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.669 3 sete mil, novecentos e oitenta reais e oitenta e nove centavos), razão pela qual foi lavrado Auto de Infração específico, cujas planilhas e documentos também foram anexados ao presente processo. Por determinação da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo, os autos baixaram em diligência, que explicitou que: Convém ressaltar que foram utilizados exatamente os mesmos dados e critérios de apuração da versão anterior, à exceção da planilha de Vendas, que foi substituída pela versão entregue pelo Contribuinte durante esta diligência, com as alterações nos valores unitários de PIS e COFINS. Houve significativa redução no montante dos ajustes decorrentes das alterações nos preçosparâmetro e, ainda, do fato de que vários itens, com base nas novas margens, deixaram de ser ajustados em relação à versão anterior” A Delegacia da Receita Federal em São Paulo acolheu parcialmente a impugnação administrativa apresentada (fls. 1.113/1.133), cancelando grande parte da autuação, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Tendo sido o lançamento efetuado com observância dos pressupostos legais, rejeitase a preliminar argüida pela impugnante. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. PREÇOPARÂMETRO. ILEGALIDADE/ INCONSTITUCIONALIDADE DA INSTRUÇÃO NORMATIVA. Não compete à esfera administrativa a análise da legalidade ou inconstitucionalidade de normas jurídicas. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRODUTOS IMPORTADOS A GRANEL. AGREGAÇÃO DE VALOR. VEDAÇÃO DE UTILIZAÇÃO DO MÉTODO PRL20. O método do PRL20 não pode ser aplicado nas hipóteses em que haja, no País, agregação de valor ao custo dos bens, não configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ERRO DE FATO. EXONERAÇÃO PARCIAL. Constatado erro de fato na apuração dos ajustes a título de preços de transferência, exonerase parcialmente a exigência. COMPENSAÇÃO INDEVIDA. DUPLICIDADE. EXONERAÇÃO TOTAL. Constatado que a matéria tributável objeto do presente processo relativa à compensação indevida de resultados negativos já foi objeto de autuação em outro processo administrativo, exatamente no mesmo montante, exonerase integralmente a exigência. MULTA DE OFÍCIO E JUROS DE MORA À TAXA SELIC. A aplicação da multa de ofício e o cálculo dos juros de mora com base na taxa SELIC têm Fl. 1670DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 4 previsão legal, não competindo à esfera administrativa a análise da legalidade ou inconstitucionalidade de normas jurídicas. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplicase à tributação decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova A 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara deste Conselho negou provimento ao recurso de ofício e deu provimento ao recurso voluntário, em acórdão cuja ementa se transcreve a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2007 RECURSO DE OFÍCIO. EXONERAÇÕES PROCEDENTES. Não é digna de reparo a decisão que, amparada por diligência fiscal efetuada pela própria autoridade autuante, acolhe argumento da contribuinte acerca da ocorrência de erro de fato no fornecimento de dados utilizados na determinação da matéria tributável, e, por meio de controles internos, apura que parte das exigências formalizadas já são objeto de outro feito administrativo, caracterizando, assim, duplicidade de lançamento. RECURSO VOLUNTÁRIO. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. ILEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. Restando reconhecida a ilegalidade das disposições da IN SRF 243/2002, especificamente no que se refere aos critérios por ela indicados para a quantificação do preçoparâmetro e os conseqüentes ajustes na aplicação do método PRL60 (sobretudo antes da publicação da Lei 12.715/2012), é de reconhecer, portanto, a completa invalidade do lançamento. A Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs recurso especial em 11/11/2014, no qual sustenta divergência quanto à ilegalidade da Instrução Normativa SRF nº 243/2002, constando como paradigma os acórdãos: (i) 110200610, que expressa o entendimento que “Descabe a arguição de ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 cuja metodologia busca proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção.”; (ii) 1401000848, no qual constou que “A normatização do denominado método “PRL60”, empreendida no art. 12 da IN SRF nº. 243/2002, se analisada sob o prisma de uma interpretação gramatical, lógica, finalística e sistemática se mostra em perfeita consonância com as normas veiculadas no art. 18 da Lei nº. 9.430/97, com a redação estatuída pelo art. 2º da Lei nº. 9.959/2000. ” O recurso especial foi admitido, por despacho às fls. 1.335/1.338. A contribuinte recebeu em 03/06/2016 intimação em sua caixa postal quanto ao acórdão da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara e quanto ao recurso especial, acessando tal intimação na mesma data. Em prosseguimento, a contribuinte apresentou contrarrazões em 18/06/2015 (fls. 1347/1.374) requerendo seja negado provimento ao recurso especial, sustentando a ilegalidade da IN SRF 243. Alega, ainda, que “restam definitivamente canceladas quaisquer exigências fiscais consubstanciadas nesses autos com relação a outras matérias, como é o caso da utilização do método PRL 20 para bens sujeitos a acondicionamento no Brasil” (fls. Fl. 1671DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.670 5 1352). E, por fim, requer seja cancelada a exigência de juros SELIC tanto sobre o tributo, quanto sobre a multa. Voto Conselheira Cristiane Silva Costa O recurso preenche os requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. Em suas contrarrazões, a contribuinte sustenta que “restam definitivamente canceladas quaisquer exigências fiscais consubstanciadas nesses autos com relação a outras matérias, como é o caso da utilização do método PRL 20 para bens sujeitos a acondicionamento no Brasil” (fls. 1352). O dispositivo do acórdão recorrido foi no seguinte sentido: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso de ofício e DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário para excluir da matéria tributária apurada o montante de R$ 189.960,16, nos termos do relatório e voto proferidos pelo relator; por maioria de votos, DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário quanto às demais matérias, vencidos os Conselheiros Wilson Fernandes Guimarães e Paulo Jakson da Silva Lucas. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Carlos Augusto de Andrade Jenier. Declarouse impedido o Conselheiro Valmir Sandri. ” Com efeito, a 1ª Turma da 3ª Câmara da Primeira Seção deste Conselho decidiu, à unanimidade, por negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do voto do Relator, conselheiro relator, Wilson Fernandes Guimarães: RECURSO DE OFÍCIO O recurso necessário foi interposto em razão de a autoridade julgadora de primeiro grau ter exonerado a contribuinte de parte do crédito tributário constituído relativamente ao ajuste de preços de transferência originalmente apurado, e da totalidade do que decorreu das compensações indevidas de prejuízos fiscais e de bases negativas de CSLL. A exoneração relativa ao ajuste de preços de transferência tomou por base confirmação, por meio de diligência fiscal, da ocorrência de erro na prestação de informações pela contribuinte à autoridade fiscal, relativamente aos valores de PIS e COFINS incidentes sobre as vendas. Refazendo o cálculo dos preçosparâmetro a partir das informações corrigidas, a autoridade fiscal responsável pela diligência fiscal (a mesma que promoveu os lançamentos tributários) apurou um ajuste de R$ 5.426.007,44. Fl. 1672DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 6 Diante de tal fato, a autoridade julgadora de primeira instância apurou um ajuste tributável adicional de R$ 1.906.341,96, eis que deduziu do valor apurado por meio da diligência fiscal (R$ 5.426.007,44) o montante declarado pela contribuinte (R$ 3.519.665,48). Relativamente a tal questão, não identifico reparo a ser feito na decisão a quo, vez que o crédito tributário encontrase lastreado em verificações empreendidas pela própria autoridade autuante, por meio de diligência fiscal. No que diz respeito às compensações de prejuízos fiscais e de bases negativas, o cancelamento das exigências decorreu da constatação de duplicidade de autuação, visto que no processo nº 16643.000032/200926 a matéria tributável compreendeu, da mesma forma do que no presente, a compensação indevida de prejuízos fiscais no anocalendário de 2006 no montante de R$ 24.959.865,83 e de bases negativas de CSLL no valor de R$ 14.297.980,89. Correto, pois, o decidido pela Turma Julgadora de primeira instância. Assim, conduzo meu voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao recurso de ofício. Além disso, por unanimidade, a Turma decidiu pela exclusão do montante de R$ 189.960,16 da matéria tributável apurada. Sobre tal ponto destacamse trechos do voto do conselheiro relator: RECURSO VOLUNTÁRIO INCLUSÃO DE PRODUTOS NÃO PRESENTES NA AUTUAÇÃO Alega a Recorrente que, dos vinte e sete produtos apontados pela Fiscalização na diligência fiscal como tendo sido objeto de ajustes incorretos, dois deles não constavam da lista inicial de cento e oitenta e cinco produtos que constituiu o objeto do auto de infração (ITEM 1003720, GELFOAM, AJUSTE DE R$ 189.810,94 e ITEM 240036, APLICADOR PARA CIDR OVINOS, AJUSTE DE R$ 149,22). Destaca que as exigências relacionadas a esses dois produtos referemse ao anocalendário de 2006, de modo que, independentemente do prazo decadencial que se pretenda aplicar, tais débitos já se encontram decaídos. Os produtos passíveis de ajuste apurados por meio do procedimento de diligência fiscal encontramse discriminados no quadro de fls. 1.081. Ali, constatase a inclusão dos produtos mencionados pela Recorrente em sua peça de defesa, quais sejam: código 1003720 e código 240036. A autuação original, por sua vez, foi promovida com base no quadro de fls. 429/433, que integra o TERMO DE CONSTATAÇÃO FISCAL. Promovendo a comparação entre os referidos quadros, verifico que, de fato, os produtos de códigos 1003720 e 240036 não fizeram parte da autuação, isto é, não foi constituído crédito tributário relativo a ajustes de qualquer natureza. Fl. 1673DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.671 7 Penso que os argumentos da Recorrente relativamente ao presente item devam ser acolhidos. À evidência, a diligência fiscal requerida na instância a quo deveria limitarse à revisão dos ajustes relacionados aos produtos (itens) que constaram da exigência inicial, revelando inovação a eventual inclusão, por meio do referido procedimento, de qualquer produto ou item que dela (da exigência inicial) não constavam. Na linha do sustentado pela Recorrente, a eventual constatação de produto/item não incluído no lançamento original deveria obedecer as prescrições do parágrafo 3º do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, abaixo reproduzido. Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. [...] § 3º Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será lavrado auto de infração ou emitida notificação de lançamento complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. Com o devido respeito, não vejo como acolher a argumentação do ilustre Representante da Fazenda Nacional no sentido de que o fato de a contribuinte ter sido intimada do resultado da diligência supre a ausência da constituição do crédito tributário ora questionada. Nos exatos termos do disposto no art. 9º do Decreto nº 70.235/72, a exigência de crédito tributário deve ser formalizada em autos de infração ou notificações de lançamento os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Discordo, também, de que, no caso, estamos diante de mero vício de forma, o que possibilitaria a aplicação do disposto no inciso II do art. 173 do Código Tributário Nacional, vez que, inexistente lançamento anterior, não há de se falar em vício de qualquer natureza, mas, sim, de absoluta ausência de constituição de crédito tributário. Sou, pois, pela exclusão do montante de R$ 189.960,16 da matéria tributável apurada. Portanto, a 1ª Turma da 3ª Câmara da Primeira Seção deste Conselho decidiu, à unanimidade, por negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do voto do Relator, conselheiro relator, Wilson Fernandes Guimarães: Fl. 1674DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 8 Quanto a estes dois pontos julgados pelo acórdão recorrido, acolhidos à unanimidade, efetivamente não foi interposto recurso especial pela Procuradoria da Fazenda Nacional, a despeito da decisão ter sido favorável à contribuinte. De toda forma, não conheço da matéria, eis que não devolvida a esta Câmara Superior de Recursos Fiscais, por não ter sido apresentado recurso especial. A Recorrida pleitea, ainda, que seja reconhecido que "restam definitivamente canceladas quaisquer exigências fiscais consubstanciadas nesses autos com relação a outras matérias, como é o caso da utilização do método PRL 20 para bens sujeitos a acondicionamento no Brasil" A esse respeito, consta do recurso voluntário alegação da aplicação do PRL 20 quanto aos produtos importados a granel, quais sejam Aracytin 100 gramas (item 100404), Farmorubicina (item 102830) e Medrol (itens 106704 e 106747) (fls. 1.156/1.163). A questão havia sido apreciada pela Delegacia da Receita Federal em acórdão então recorrido. Em que pese conste tal alegação no recurso voluntário, não constou no voto vencedor do acórdão qualquer menção a esta questão. O redator deste voto, Conselheiro Carlos Augusto de Andrade Jenier, teceu longas considerações a respeito do PRL 60, sem motivar as razões pelas quais teria entendido – sendo acompanhado pela maioria da Turma – que o PRL 20 seria aplicável aos produtos importados a granel. Ressalto que, como mencionei anteriormente, o recurso voluntário foi acolhido à unanimidade para excluir da tributação o montante de R$ 189.960,16, sendo acolhido por maioria de votos quanto ao restante do seu conteúdo, como consta de seu dispositivo. No voto vencido – nesse ponto – a matéria foi abordada pelo conselheiro relator, da forma seguinte: PRODUTOS IMPORTADOS A GRANEL Alega a Recorrente que, no que tange aos quatro produtos importados em sua forma final, calculou seus ajustes pelo Método PRL 20, por entender não ter havido qualquer produção no Brasil que impusesse a necessidade de aplicação do Método PRL 60. Diz que a Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, excede dos limites de legalidade no que tange à definição de quais bens importados de partes vinculadas devem sujeitarse ao método PRL 20 e quais devem sujeitarse ao PRL 60. A meu ver, descabe falar em ilegalidade da Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, na situação em que ela estabelece a circunstância em que pode ser aceita a aplicação do PRL 20 (hipótese em que, no País, não haja agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados). No caso, o ato normativo complementou, em absoluta conformidade com o art. 100 do Código Tributário Nacional, a disposição de lei, esclarecendo a amplitude dos termos “revenda” e “produção” por ela utilizados. Assim, quando a referida Instrução Normativa estabelece que o método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento não pode ser aplicado quando há agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados (parágrafo 9º do art. 12), não inova em relação ao disposto na lei de suporte, apenas explicita, em perfeita Fl. 1675DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.672 9 consonância com a teoria econômica e contábil, o significado das expressões “produção” e “revenda” utilizados por ela. Com efeito, na “revenda” o que temos são encargos necessários à comercialização dos bens, serviços ou direitos, que não se agregam ao custo; na “produção”, diferentemente, os gastos são incorridos no processo interno de geração de bens por parte da empresa, sendo eles agregados ao custo. No caso, não se trata, como parecer crer a Recorrente, de buscar na lei o conceito de “agregação de valor”, mas de investigar se nela existe tal elemento como indicador da diferença entre as atividades de PRODUÇÃO e REVENDA. Não me parece restar dúvida de que a Lei nº 9.430, de 1996, ao determinar a exclusão do valor agregado na determinação do preçoparâmetro com base no método PRL 60, deixa claro que, ressalvadas obviamente as margens de lucro fixadas, este é o elemento de diferenciação dos métodos, isto é, se existe AGREGAÇÃO DE VALOR AO CUSTO, estamos diante de PRODUÇÃO, se não existe referida agregação, mas, sim, encargos (despesas) de comercialização, tratase de mera REVENDA. Cabe destacar que, nos termos em que restou consignado pela Fiscalização, os itens considerados aplicados à produção foram levantados com base em informações prestadas pela própria contribuinte e constavam de tabela INSUMOPRODUTO por ela entregue, não se tratando o processo, portanto, de simples acondicionamento e embalagem de produtos. Embora eu tenha integrado o Colegiado por ocasião do julgamento do processo nº 16327.001248/200568 (acórdão nº 10517.210), momento em que se decidiu em sentido diverso do agora esposado, hoje, após densos debates acerca da matéria, tenho a firme convicção de que o marco divisório estampado na Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, para fins de utilização do método PRL 60, qual seja, “agregação de valor”, como já dito, além de não contrariar a lei que lhe serviu de fundamento, encontra respaldo no que a teoria econômica e a contábil entende por “produção” e por “revenda”. (...) Pelas razões expostas, sou pela manutenção das exigências relacionadas ao presente item. A falta de motivação do voto redator do acórdão a respeito do julgamento de um dos pontos do recurso voluntário, para lhe dar provimento, poderia acarretar a nulidade do julgamento, a ser reconhecida de ofício por este Colegiado. No entanto, não há qualquer alegação da contribuinte – a quem aproveitaria tal nulidade – a esse respeito; como tampouco foi apresentado recurso pela Procuradoria da Fazenda Nacional sobre tal ponto. Nesse panorama, entendo que não cabe a este Colegiado enfrentar tema que não lhe foi levado ao conhecimento pelas partes. Aliás, só enfrento tal questão em meu voto diante de expressa manifestação sobre tal matéria em contrarrazões da contribuinte. Passo a enfrentar o mérito do recurso especial, devidamente conhecido pelo despacho de fls. Esta Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais recentemente decidiu pela legalidade da IN SRF 243, nos autos do processo nº 10283.720715/200872, conforme Fl. 1676DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 10 acórdão nº 9101002.175 de relatoria do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão. Adoto as razões de decidir daquele acórdão, para confirmar a legalidade desta Instrução Normativa, dando provimento ao recurso especial da Procuradoria da Fazenda Nacional: PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. AJUSTE, IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. Descabe a argüição de ilegalidade na IN SRF nº 243/2002 cuja metodologia busca proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência. Por tais razões, dou provimento ao recurso especial da Procuradoria, restabelecendo o Auto de Infração lavrado nestes autos. Pondero que a impossibilidade de exigência de juros SELIC sobre o principal e sobre a multa foi tratada pela contribuinte em sua impugnação (fls. 562/604) e recurso voluntário (fls. 1.140/1.179). A questão foi tratada, ainda, pelo voto vencido, de lavra do Conselheiro Wilson Fernandes Guimarães, como a seguir reproduzido: MULTA DE OFÍCIO E JUROS SELIC Para Recorrente, há excesso na exigência de multa de ofício de 75%, motivo pelo qual ela deve ser reduzida a um percentual razoável. Diz que, na forma aplicada, a multa configura uma situação abusiva, extorsiva, expropriatória, além de confiscatória e em total confronto com o art. 150, inciso VI, da Constituição Federal. Argumenta a Recorrente que a jurisprudência tem reconhecido a inaplicabilidade da taxa SELIC aos créditos tributários, uma vez que a referida taxa não foi criada por lei para fins tributários. No que diz respeito à suposta violação a princípios constitucionais por parte da norma que serviu de suporte para a aplicação da penalidade, cabe observar que, nos termos da súmula CARF nº 2, abaixo reproduzida, este Colegiado não é competente para se pronunciar sobre tal matéria. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Na mesma linha, a questão da aplicação dos juros selic já se encontra pacificada no âmbito deste Colegiado, conforme súmula CARF nº 4 abaixo transcrita. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Fl. 1677DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.673 11 Sustenta a Recorrente que não é possível a cobrança de juros à taxa selic sobre a multa de ofício aplicada. No que tange à incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, em que pese a existência manifestações em sentido diverso, mantenho o entendimento de que a expressão “ ...débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal” assinalada pelo artigo 61 da Lei nº 9.430/96, não dá respaldo para que, com base no parágrafo 3º do mesmo artigo, possa ser cobrado juros SELIC sobre a multa de ofício. Diante de tais circunstâncias, inclinome no sentido de acolher os argumentos trazidos pela ilustre Conselheira Sandra Maria Farone no acórdão nº 10194.441, de 03 de dezembro de 2003. (...) Por todo o exposto, conduzo meu voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO DE OFÍCIO E DAR PROVIMENTO PARCIAL ao RECURSO VOLUNTÁRIO para excluir da matéria tributável apurada o montante de R$ 189.960,16, e para determinar que na execução da presente decisão sejam cobrados juros de mora de 1% sobre a multa de ofício lançada. Ocorre que, tendo sido o Conselheiro Relator vencido, preponderou no julgamento da Turma a quo, o entendimento expresso no voto do redator designado, ex conselheiro Carlos Augusto de Andrade Jenier, que não enfrentou a alegação de incidência da SELIC, seja sobre o principal, seja sobre a multa. Provavelmente, não foi enfrentada a matéria porque foi integralmente cancelada a exigência de tributos (débito principal) pela Turma, restando prejudicada a análise das demais matérias. Diante disso, entendo que os autos devem retornar à Turma Ordinária, evitandose a supressão de instância, para julgamento das alegações a respeito da incidência de juros SELIC sobre o principal e sobre a multa. Pelas razões expostas, voto por dar provimento ao recurso especial da Procuradoria da Fazenda Nacional, determinando o retorno dos autos à Turma Ordinária para julgamento da alegação a respeito de juros SELIC sobre o principal e sobre a multa. É como voto. (Assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Relatora Fl. 1678DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 12 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto Na reunião de março de 2016, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (doravante “CSRF”) analisou o recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN” ou “recorrente”), no processo n. 16643.000331/201002, em que é interessado LABORATÓRIOS PFIZER LTDA (doravante “PFIZER”, “recorrida” ou “contribuinte”). Em tal recurso, a recorrente requer a reforma do acórdão n. 1301001.235 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela r. 1a Turma Ordinária da 3a Câmara desta 1a Seção (doravante “Turma a quo”), em especial no que concerne à legalidade da fórmula estabelecida pela IN 243/2002 para o cálculo do Método do Preço de Revenda menos Lucro com a margem de lucro de 60% (doravante “PRL60”), utilizado para o controle dos preços de transferência, sob a regência do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. O acórdão recorrido foi assim ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2007 RECURSO DE OFÍCIO. EXONERAÇÕES PROCEDENTES. Não é digna de reparo a decisão que, amparada por diligência fiscal efetuada pela própria autoridade autuante, acolhe argumento da contribuinte acerca da ocorrência de erro de fato no fornecimento de dados utilizados na determinação da matéria tributável, e, por meio de controles internos, apura que parte das exigências formalizadas já são objeto de outro feito administrativo, caracterizando, assim, duplicidade de lançamento. RECURSO VOLUNTÁRIO. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. ILEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. Restando reconhecida a ilegalidade das disposições da IN SRF 243/2002, especificamente no que se refere aos critérios por ela indicados para a quantificação do preçoparâmetro e os conseqüentes ajustes na aplicação do método PRL60 (sobretudo antes da publicação da Lei 12.715/2012), é de reconhecer, portanto, a completa invalidade do lançamento. No julgamento do recurso especial interposto, a CSRF, por maioria de votos, decidiu reformar a decisão da Turma a quo. Nesta declaração de voto, permissa venia, apresento os fundamentos que me fizeram votar por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial, de forma a manter o acórdão recorrido. 1. A evolução legislativa do método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL). A legislação brasileira dos preços de transferência deve ser observada por pessoas jurídicas nacionais que realizem operações com pessoas jurídicas vinculadas residentes no exterior. Suas normas encontram fundamento especialmente nos princípios da igualdade e da capacidade contributiva, de forma a estabelecer, por meio de fórmulas prédeterminadas pelo legislador ordinário, um preço que seria praticado por partes independentes (“preço parâmetro” ou “preço arm’s length”), de tal forma que operações realizadas entre partes vinculadas que destoem desse padrão, sejam tributadas como se houvessem praticado o preço parâmetro. Assim, por exemplo, se em uma operação de importação entre partes vinculadas o importador brasileiro realizar o pagamento de $25,00 por um bem cujo preço Fl. 1679DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.674 13 parâmetro seja de $10,00, a legislação dos preços transferência determinará um ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL, de forma a se adicionar a parcela excedente ($15,00) e, assim, acrescer a base tributável e consequentemente aumentar o montante dos tributos devidos. O preço parâmetro, nesse exemplo, corresponde ao limite da dedutibilidade do custo do bem, serviço ou direito importado de parte vinculada. Por meio do controle dos preços de transferência, o sistema jurídico não procura majorar o percentual de tributos cobrados da sociedade, mas simplesmente garantir, nas operações internacionais, tratamento tributário isonômico, de forma que, independente de relações societárias mantidas entre as partes, todos que se encontrem em situação semelhante tenham a sua capacidade contributiva tributada de forma equivalente. A matriz legal da legislação brasileira dos preços de transferência é a Lei n. 9.430/96, com as sucessivas alterações que lhe foram realizadas. Nela estão contemplados os diferentes métodos de controle dos preços de transferência, que consistem em fórmulas e regras para a determinação se deve ou não ser realizado ajustes na base de cálculo do IRPJ e da CSL e, ainda, de quanto seria o referido ajuste. Entre os referidos métodos, interessa ao recurso especial em julgamento o Preço de Revenda menos Lucro (PRL). Em sua redação original, o art. 18. II, da Lei n. 9.430/96, previa apenas a margem de lucro de 20% para o cálculo do preço parâmetro conforme o método PRL (doravante “PRL20”): Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda; Em 1999, por meio da Medida Provisória nº 2.0134, convertida na Lei n. 9.959/2000, foi introduzida alteração na alínea “d” desse dispositivo, que passou a dispor quanto à possibilidade da adoção da margem de lucro de 60% para o cálculo do método PRL dos preços de transferência (PRL60), com especial destaque à parte em negrito: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) Fl. 1680DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 14 II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. Na sequência, foi editada pela Secretaria da Receita Federal (doravante “SRF”) a IN 113/2000, que dispunha “sobre as hipóteses de utilização do Método do Preço de Revenda menos Lucro”. Em 2001, foi editada a IN 32, que incorporou os enunciados da IN 113/2000 ao indicar a adoção da seguinte fórmula para o cálculo do PRL 60, com especial destaque à parte em negrito: Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens; b) sessenta por cento, na hipótese de bens importados aplicados na produção. § 1º Os preços de revenda, a serem considerados, serão os praticados pela própria empresa importadora, em operações de venda a varejo e no atacado, com compradores, pessoas físicas ou jurídicas, que não sejam a ela vinculados. § 2º Os preços médios de aquisição e revenda serão ponderados em função das quantidades negociadas. § 3º Na determinação da média ponderada dos preços, serão computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. § 4º Para efeito desse método, a média aritmética ponderada do preço será determinada computandose as operações de revenda praticadas desde a data da aquisição até a data do encerramento do período de apuração. § 5º Se as operações consideradas para determinação do preço médio contiverem vendas à vista e a prazo, os preços relativos a estas últimas deverão ser escoimados dos juros neles incluídos, calculados à taxa praticada pela própria empresa, quando comprovada a sua aplicação em todas as vendas a prazo, durante o prazo concedido para o pagamento. § 6º Na hipótese do parágrafo anterior, não sendo comprovada a aplicação consistente de uma taxa, o ajuste será efetuado com base na taxa: I referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), para títulos federais, proporcionalizada para o intervalo, quando comprador e vendedor forem domiciliados no Brasil; II Libor, para depósitos em dólares americanos pelo prazo de seis meses, acrescida de três por cento anuais a título de spread, proporcionalizada para o intervalo, quando uma das partes for domiciliada no exterior. § 7º Para efeito deste artigo, serão considerados como: I incondicionais, os descontos concedidos que não dependam de eventos futuros, ou seja, os que forem concedidos no ato de cada revenda e constar da respectiva nota fiscal; Fl. 1681DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.675 15 II impostos, contribuições e outros encargos cobrados pelo Poder Público, incidentes sobre vendas, aqueles integrantes do preço, tais como ICMS, ISS, Pis/Pasep e Cofins; III comissões e corretagens, os valores pagos e os que constituírem obrigação de pagar, a esse título, relativamente às vendas dos bens, serviços ou direitos objeto de análise. § 8º A margem de lucro a que se refere o inciso IV, alínea "a" do caput será aplicada sobre o preço de revenda, constante da nota fiscal, excluídos, exclusivamente, os descontos incondicionais concedidos. § 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que não haja agregação de valor no País ao custo dos bens , serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados. § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens aplicados à produção. § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerandose, para este fim: I preço líquido de venda, a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II margem de lucro, o resultado da aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas, das comissões e corretagens pagas e do valor agregado ao bem produzido no País. Em 2002, embora não tenha sido realizada nenhuma reforma por meio de Lei, a IN 243 tornou público que a SRF conduziria uma ampla mudança na metodologia de cálculo do PRL60, com o abandono das fórmulas anteriormente adotadas na IN 113/2000 e na IN 32/2001. Esse é o cerne do recurso especial em análise. Os enunciados da IN 243/2002 relativos à matéria seguem transcritos, com destaque à parte em negrito: MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO (PRL) Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. § 1º Os preços de revenda, a serem considerados, serão os praticados pela própria empresa importadora, em operações de venda a varejo e no atacado, com compradores, pessoas físicas ou jurídicas, que não sejam a ela vinculados. Fl. 1682DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 16 § 2º Os preços médios de aquisição e revenda serão ponderados em função das quantidades negociadas. § 3º Na determinação da média ponderada dos preços, serão computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. § 4º Para efeito desse método, a média aritmética ponderada do preço será determinada computandose as operações de revenda praticadas desde a data da aquisição até a data do encerramento do período de apuração. § 5º Se as operações consideradas para determinação do preço médio contiverem vendas à vista e a prazo, os preços relativos a estas últimas deverão ser escoimados dos juros neles incluídos, calculados à taxa praticada pela própria empresa, quando comprovada a sua aplicação em todas as vendas a prazo, durante o prazo concedido para o pagamento. § 6º Na hipótese do § 5º, não sendo comprovada a aplicação consistente de uma taxa, o ajuste será efetuado com base na taxa: I referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), para títulos federais, proporcionalizada para o intervalo, quando comprador e vendedor forem domiciliados no Brasil; II Libor, para depósitos em dólares americanos pelo prazo de seis meses, acrescida de três por cento anuais a título de spread, proporcionalizada para o intervalo, quando uma das partes for domiciliada no exterior. § 7º Para efeito deste artigo, serão considerados como: I incondicionais, os descontos concedidos que não dependam de eventos futuros, ou seja, os que forem concedidos no ato de cada revenda e constar da respectiva nota fiscal; II impostos, contribuições e outros encargos cobrados pelo Poder Público, incidentes sobre vendas, aqueles integrantes do preço, tais como ICMS, ISS, PIS/Pasep e Cofins; III comissões e corretagens, os valores pagos e os que constituírem obrigação a pagar, a esse título, relativamente às vendas dos bens, serviços ou direitos objeto de análise. § 8º A margem de lucro a que se refere a alínea "a" do inciso IV do caput será aplicada sobre o preço de revenda, constante da nota fiscal, excluídos, exclusivamente, os descontos incondicionais concedidos. § 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que, no País, não haja agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados. § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o Fl. 1683DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.676 17 inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. Em 2012, por sua vez, por meio da Medida Provisória nº 563, convertida na Lei n. 12.715/2012, foram introduzidas amplas alterações na Lei n. 9.430/96, contemplando todo o inciso II desse dispositivo e tornandoo mais apto a fundar a fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo do PRL60. Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética ponderada dos preços de venda, no País, dos bens, direitos ou serviços importados, em condições de pagamento semelhantes e calculados conforme a metodologia a seguir: a) preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem, direito ou serviço produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; b) percentual de participação dos bens, direitos ou serviços importados no custo total do bem, direito ou serviço vendido: a relação percentual entre o custo médio ponderado do bem, direito ou serviço importado e o custo total médio ponderado do bem, direito ou serviço vendido, calculado em conformidade com a planilha de custos da empresa; c) participação dos bens, direitos ou serviços importados no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido: aplicação do percentual de participação do bem, direito ou serviço importado no custo total, apurada conforme a alínea b, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com a alínea a; d) margem de lucro: a aplicação dos percentuais previstos no § 12, conforme setor econômico da pessoa jurídica sujeita ao controle de preços de transferência, sobre a participação do bem, direito ou serviço importado no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido, calculado de acordo com a alínea c; e 1. (revogado); 2. (revogado); e) preço parâmetro: a diferença entre o valor da participação do bem, direito ou serviço importado no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido, calculado conforme a alínea c; e a "margem de lucro", calculada de acordo com a alínea d; e (…) Fl. 1684DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 18 É evidente a distinção dos textos adotados, de um lado, pela IN 243/2002, e de outro lado, pela IN 32/2001 e especialmente pela Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000. O quadro a seguir compara os dispositivos mais dessas três fontes do Direito mais relevantes à solução do presente caso concreto: FONTE PRIMÁRIA: Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000 FONTE SECUNDÁRIA: IN 32/2001 FONTE SECUNDÁRIA: IN 243/2002 II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: (...) d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerandose, para este fim: § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: (...) V preço parâmetro: a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. As diferenças textuais em questão são relevantes para a solução do recurso especial em análise, conforme tópicos abaixo. 2. As fórmulas adotadas em cada etapa dessa evolução legislativa para o cálculo do PRL 60. O inciso II do art. 18 da Lei n. 9.430/96, conforme a sua redação mantida entre 2000 e 2012 por força da Lei n. 9.959/2000, prescrevia de forma imediata a adoção da seguinte fórmula para o cálculo do preço parâmetro, para fins de possíveis ajustes no cálculo do IRPJ e da CSL: PP = PR – L L = 60% (PR − VA) Em que: PP à preço parâmetro, preço arm’s lenght. PR à preço de revenda líquido. VAà valor agregado na produção nacional L à lucro Considerando o conhecido valor líquido da operação de revenda (PR) e a margem de lucro (L) apurada conforme a fórmula legal, determinase o preço parâmetro (PP), Fl. 1685DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.677 19 que será o valor limite para que o correspondente bem, serviço ou direito importado de parte vinculada seja dedutível da base de cálculo do IRPJ ou da CSL. Notese que cada um desses fatores possui uma função determinante na fórmula prescrita no art. 18. II, da Lei n. 9.430/96, o que evidencia a decisão consciente do legislador ordinário ao enunciar a Lei n. 9.959/2000, sendo relevante destacar que: quanto maior o valor agregado no Brasil (“VA”), menor será “L” (lucro). Como o lucro deverá ser subtraído do preço de revenda (“PR”) para a composição preço parâmetro (“PP”), quanto menor “L”, maior será “PP”. E , quanto maior “L” e, portanto, o lucro tributável, menor será o “PP”. para a composição de “L”, o percentual de 60%, adotado pelo legislador ordinário para o cálculo do PLR, deveria ser aplicado sobre a totalidade do preço de venda do bem ao qual tenha sido agregado o insumo importado e sujeito ao controle dos preços de transferência. Nesse seguir, quanto maior for o preço parâmetro (“PP”), mais liberdade terá o contribuinte para negociar com a empresa fornecedora (relacionada) sem o controle da administração tributária dos preços de transferência. Quanto maior for “PP”, menor serão as chances do contribuinte necessitar realizar ajustes nas bases de cálculo do IRPJ e da CSL para adicionar parcelas dos custos de bens, serviços e direitos que, por ultrapassar o preço parâmetro, passam a ser indedutíveis. Essa fórmula foi acatada pela administração fiscal na IN 113/2000 e na IN 32/2001, (vide tópico “1”, acima) e encontrou justificativas por diferentes perspectivas, a saber: Equilíbrio. A adoção de uma margem de lucro de elevada, de 60%, seria balanceada pela subtração do valor agregado no Brasil dessa base; Indução positiva. O legislador ordinário teria aliado o controle de preços de transferência com medidas indutoras de comportamento e de incentivo à produção nacional, de forma que: quanto maior for a agregação de valor no Brasil, maior será o preçoparâmetro e, consequentemente, menor será o ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL. A referida fórmula estabelecida pela da Lei n. 9.959/2000 foi submetida a críticas, em especial por não considerar a proporção do insumo importado de parte vinculada aplicada ao bem produzido no Brasil. Como se evidenciou no tópico “1”, acima, o legislador ordinário apenas realizou uma reforma legal para incorporar essa “melhoria” em 2012, com a edição da Lei n. 12.715. Fl. 1686DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 20 Por sua vez, em 2002, a IN 243 indicou a necessidade da adoção de uma outra fórmula para o cálculo do PRL60, diferente daquela que até então se compreendia a correta decorrência da Lei n. 9.959/2000. Analiticamente, o “Estudo comparativo dos normativos da legislação brasileira para o cálculo do preço parâmetro de bem importado usado em produção” (fls. 1227 e seg. do eprocesso), elaborado por VLADIMIR BELITSKY, “Ph.D em Matemática Aplicada pelo Instituto Tecnológico de Israel, Professor Associado do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, USP”, abstrai a seguinte fórmula da IN 243/2002: PP =VDBI * 100% * PR – L60% * VDBI * 100% * PR) VDBI + VA VDBI + VA Em que: VDBI à valor declarado do bem importado PP à preço parâmetro, preço arm’s lenght. PR à preço de revenda líquido. VAà valor agregado na produção nacional L à lucro Como se pode observar, a fórmula indicada pela IN 243/2002 alterou fatores na fórmula abstraída dos enunciados prescritivos do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 e pela IN 32/2001. Supõese que a intenção da SRF seria possibilitar a verificação da proporcionalidade do insumo importado agregado à produção nacional, pois isso não teria sido contemplado pelo legislador. A partir da publicação da IN 243/2002, sem que nenhuma alteração legal tenha sido realizada, a PFN também passou a sustentar que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, possibilitaria a construção de uma segunda fórmula, diversa daquela que até então seria de aceitação geral: PP = PR − L − VA L = 60% PR A fórmula da IN 243/2002, conforme alegado, expressaria com maior clareza e, ainda, imprimiria melhorias a essa segunda fórmula que supostamente seria possível abstrair do texto do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. Conforme a fórmula que se abstrai imediatamente da Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000, na linha do que indicava a IN n. 32/2001, o percentual de 60% deve ser aplicado sobre a totalidade do preço de venda do bem ao qual o insumo importado tenha sido agregado. Já a “segunda fórmula”, que supostamente fundamentaria a IN 243/2002, estabeleceria que a margem de lucro de 60% deveria incidir apenas sobre a parte do preço líquido de venda do produto referente à participação do bem, serviço ou direito importados: o percentual legal em questão seria aplicável tão somente sobre a parcela do preço líquido de venda proporcional ao custo do bem importado. Conforme citado estudo elaborado pelo Prof. Dr. VLADIMIR BELITSKY, in verbis: Fl. 1687DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.678 21 “Constatação 4. O cálculo de PP segundo a fórmula da IN 243 pode ser visto como um procedimento de duas etapas consecutivas, sendo que: (i) a primeira etapa baseiase, plena e exclusivamente, no princípio da proporcionalidade em participação ao lucro; e (ii) a segunda baseiase, plena e exclusivamente, no postulado de que a margem de lucro em cima de bem importado é de 60%”. O quadro a seguir procura sistematizar algumas características das normas, a fim de evidenciar a diferença entre elas: Primeira interpretação da Lei 9.430/96 e IN 32/01 Segunda interpretação da Lei 9.430/96 (IN 243/2002) Fórmula de cálculo do PRL60 ü PP = PR – L ü L = 60% (PR − VA) ü PP = PR − L − VA ü L = 60% * PR Analítico da fórmula para o cálculo da “margem de lucro” 60% sobre o valor integral do preço líquido de venda diminuído do valor agregado no Brasil. 60% apenas da parcela do preço líquido de venda do produto proporcional à participação dos bens, serviços ou direitos importados. Analítico da fórmula para o cálculo do “preço parâmetro” Totalidade do valor líquido de venda diminuído da margem de lucro de 60%. Percentual da parcela dos insumos importados no preço líquido de venda diminuído da margem de lucro de 60%. Um exemplo poderá tornar mais clara a distinção entre essas duas fórmulas. Para tanto, considerese que um determinado produto, produzido no Brasil a partir de insumos nacionais e outros importados de partes vinculadas, seja vendido por R$ 100,00 (ou seja, PR = 100,00) e que o valor agregado no Brasil seja de R$ 50,00 (ou seja, VA = 50,00). Aplicandose as duas fórmulas, chegaremos a resultados muito distintos: Primeira interpretação da Lei 9.430/96 e IN 32/01 Segunda interpretação da Lei 9.430/96 (IN 243/2002) Fórmula de cálculo do PRL60: ü PP = PR – L ü L = 60% (PR − VA) ü PP = PR − L − VA ü L = 60% * PR Aplicação das fórmulas ao exemplo proposto: L = 60% (100,00 – 50,00) PP = 100,00 – 30,00 L = 60% * 100,00 PP = 100,00 – 60,00 – 50,00 RESULTADO 70,00 10,00 A função de tais fórmulas é determinar se deverá ser realizado ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL. Se o custo do bem, serviço ou direito importado de parte vinculada for superior aos valores em questão, a parcela excedente deverá ser adicionada à base de cálculo do IRPJ e da CSL, pois não seria considerada dedutível. O exemplo demonstra que as referidas fórmulas conduzem a preços parâmetro muito distintos, de forma as operações Fl. 1688DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 22 consideradas arm’s length, conforme a primeira fórmula, seriam aquelas praticadas até o limite de “R$ 70,00”, enquanto que, para a segunda fórmula, possivelmente todas as importações estariam sujeitas a ajustes, pois o valor resultante como “PP” seria negativo, qual seja, “ R$ 10,00”, como se o importador pudesse, em condições de mercado, deixar de pagar pelos bens, serviços ou direitos e, ainda, receber troco. A doutrina há tempos denuncia essa divergência entre a IN 243/2002 e a Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, como se observa da análise de LUÍS EDUARDO SCHOUERI1, em obra de referência sobre o tema dos preços de transferência: “7.8.2.2. A diferença pode ser explicada pelos seguintes motivos: Cálculo da ‘margem de lucro’: a divergência dos resultados da Lei n. 9.959/00 e da IN n. 243/02 decorre, em parte, porque a Lei, ao prescrever a fórmula de cálculo da ‘margem de lucro’, determina que o percentual de 60% incida sobre o valor integral do preço líquido de venda do produto diminuído do valor agregado no país. Já a Instrução Normativa, para o cálculo da mesma ‘margem de lucro’, determina que o percentual de 60% seja calculado apenas sobre a parcela do preço líquido de venda do produto referente à participação dos bens, serviços ou direitos importados, atingindo um resultado invariavelmente menor. Atua assim a IN n. 243/02 de forma inovadora e em flagrante excesso à Lei. Cálculo do ‘preçoparâmetro’: a expressão ‘preçoparâmetro’ é utilizada na legislação dos preços de transferência para denominar o preço obtido através do cálculo de um dos métodos prescritos e com o qual se deverá comparar o preço efetivamente praticado entre as partes relacionadas, na transação denominada ‘controlada’. O ‘preçoparâmetro’ é obtido de forma diversa na Lei n. 9.959/00 e na IN n. 243/02. Enquanto na Lei o limite do preço é estabelecido tomandose por base a totalidade do preço líquido de venda, a Instrução Normativa pretende que o limite seja estabelecido a partir, apenas, do percentual da parcela dos insumos importados no preço líquido de venda, o que claramente acaba por restringir o resultado almejado pelo legislador.” Do mesmo modo, as evidentes distinções em relação a essas fórmulas foram bem sintetizadas por LUCIANA ROSANOVA GALHARDO e ANA CAROLINA MONGUILOD2, in verbis: “(i) enquanto a Lei n. 9.959/00 estabelece o cálculo da margem de lucro de 60% sobre o valor do preço líquido de venda, diminuindose o valor agregado, a IN 243/02 determinou a incidência da margem de 60% sobre a parcela do preço líquido de venda do produto referente à participação do bem importado; e (ii) enquanto a Lei determina que o preçoparâmetro corresponde à diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de 60%, a IN 243/02 estabeleceu que corresponde à diferença entre o valor da participação do bem importado no preço de venda do bem produzido e a margem de lucro de 60%. Assim, o preço parâmetro calculado sob a sistemática da IN 243/02 será menor, resultando em maior risco de ajustes nos lucros tributáveis da empresa brasileira, tendo em vista o provável excesso de preço pago no exterior”. 1 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo : Dialética, 2006, p. 169. 2 GALHARDO, Luciana Rosanova; MONGUILOD, Ana Carolina. A ilegalidade do mecanismo de aplicação do método PRL sob a IN 243/02, in Manual dos Preços de Transferência – celebração dos 10 anos de vigência da lei. São Paulo : MP, 2007, p. 241. Fl. 1689DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.679 23 Restando evidenciado que a IN 243/02 veicula fórmula diversa, supostamente vocacionada a “melhor” tratar do problema da proporcionalidade do insumo utilizado na produção do produto nacional, surge a questão crucial do presente recurso especial: a referida Instrução Normativa possui legitimidade para tanto e agiu nos lindes de sua competência regulamentar? É o que será analisado no tópico seguinte do deste voto. 3. As fontes formais do Direito tributário e o extravasamento das funções da IN 243/2002. O tema das fontes é fundamental ao Direito tributário pátrio. Nosso ordenamento apresenta peculiar complexidade, com elevado número de espécies normativas, cada qual com uma função própria, vocacionadas à impressão juridicidade, eficiência, segurança jurídica, inteligibilidade, coesão, coerência e completude ao sistema jurídico. Sob uma perspectiva formalística3, as referidas espécies normativas podem ser organizadas em fontes primárias4 e fontes secundárias5 do Direito tributário. A Lei n. 9.430/96 é fonte primária do Direito tributário. Em face do princípio da reserva legal, o legislador ordinário possui competência privativa para estabelecer o método de cálculo do preço parâmetro para possíveis ajustes à base de cálculo do IRPJ e da CSL, adotando como diretriz fundamental a tributação da renda conforme o acréscimo patrimonial. Como a fórmula de cálculo do PRL60 irá influenciar na composição da base de cálculo desses tributos, com potencial de redução dos custos dedutíveis na apuração do acréscimo patrimonial tributável, tratase de matéria sob a competência privativa do legislador ordinário. É o que se depreende da Constituição Federal, art. 150, I, e do Código Tributário Nacional, art. 97. A IN 243/2002, por sua vez, é fonte secundária do Direito Tributário, cuja função subalterna é de aclarar ou atribuir maior operacionalidade à norma prescrita pela Lei n. 9.430/96, que é a fonte primária. Notese que nenhuma das partes discorda da função limitada e secundária das Instruções Normativas: essa é uma questão de direito incontroversa nesse processo administrativo. A questão que realmente desafia antagônicas posições neste processo administrativo é saber se a IN 243/02 extravasou os limites da Lei n. 9.430/96, descumprindo a sua função e restando despida de validade. De um lado, a administração fiscal atualmente argumenta que do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, seria possível abstrair ao mesmo tempo duas diferentes fórmulas, ainda que estas possam conduzir a resultados muito diferentes: a primeira fórmula seria aquela admitida pela IN 32/2001 e, a segunda, que supostamente daria fundamento à IN 243/2002. De outro lado, o contribuinte argumenta que apenas a fórmula indicada pela IN 32/2001 seria compatível com o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00. 3 As fontes do Direito tributário podem também ser observada por uma perspectiva material, a qual não contribui imediatamente para o tema em análise. 4 Em especial: Constituição Federal, Lei Complementar, Lei Ordinária, Medida Provisória, Tratados Internacionais, Decreto legislativo, Decreto (casos especiais), Convênio, Resolução. 5 Em especial: Decreto regulamentar; Instruções Normativas; Portarias; Normas complementares. Fl. 1690DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 24 Assim, nenhuma das partes discorda que as normas prescritas pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com as alterações da Lei n. 9.959/2000, comportam a fórmula indicada pela IN 32/2001 para o cálculo do preço parâmetro apurado pelo método PRL60. A discordância se dá apenas em relação à fórmula prevista pela IN 243/2002, que é diferente. A discordância em questão exige o enfrentamento das seguintes questões: O legislador ordinário poderia outorgar à administração fiscal a escolha de uma entre diversas fórmulas para o cumprimento do método PRL60 de controle de preços de transferência? Se a resposta à questão precedente for positiva, o legislador ordinário efetivamente conferiu à administração fiscal tal outorga na vigência da Lei n. 9.430/96 com as alterações que lhe foram introduzidas com a Lei n. 9.959/2000? Se a resposta à questão precedente for positiva, a IN 243/2001 teria ou não adotado uma das possíveis fórmulas matemáticas comportadas pelos enunciados prescritivos do 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00? 3.1. A (im)possibilidade da outorga de discricionariedade à administração para o preenchimento de regras legais e a Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00. O princípio da legalidade em matéria tributária não requer que todos e quaisquer elementos necessários à operacionalização de uma norma tributária estejam expressa e exaustivamente previstos em lei ordinária. A adoção de cláusulas gerais ou conceitos indeterminados não representa uma ofensa a priori a esse princípio, pois não se pode exigir do legislador ordinário o fechamento da totalidade dos conceitos6. Também não se pode afastar, a priori, a possibilidade de o legislador ordinário outorgar à administração fiscal dispor sobre elementos que favoreçam a aplicação da norma tributária, com procedimentos que lhe tornem mais operacionais, palatáveis e socialmente mais eficazes. No entanto, não pode o Poder Legislativo delegar ao Poder Executivo a competência para a seleção dos elementos componentes da hipótese de incidência ou do consequente normativo (obrigação tributária). A indelegabilidade da competência tributária, norma constitucional tão bem delineada na obra de ROQUE ANTONIO CARRAZZA7, impede que o legislador ordinário transfira à administração fiscal a eleição dos critérios componentes da base de cálculo do tributo ou de outros elementos atinentes à ocorrência do fato gerador do tributo, à sua quantificação ou à identificação do sujeito passivo. 6 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo : Saraiva, 2012, p. 290 e seg. 7 CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de direito constitucional. São Paulo : Ed. Malheiros, 2003, p. 425. “As competências tributárias são indelegáveis. Cada pessoa política recebeu da Constituição a sua, mas não a pode renunciar, nem delegar a terceiros. É livre, até, para deixar de exercitala; não lhe é dado, porém, permitir, mesmo que por meio de lei, que terceira pessoa a encampe.” Fl. 1691DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.680 25 Como a fórmula de cálculo do PRL60 irá tutelar o controle dos preços de transferência e influenciar na composição do lucro real (IRPJ) e da base de cálculo da CSL, apenas a lei ordinária é competente para prescrever os seus termos. Aceita essa premissa, qualquer divergência de uma instrução normativa em relação à lei deverá ser resolvida com a vitória da lei, pois o legislador ordinário possui a competência privativa e indelegável de decidir sobre o matéria. Logo, diante de uma divergência entre a IN 243/2002 e a Lei n. 9.430/96, esta última deveria ser aplicada sem questionamentos. Uma observação é necessária por dever de ofício: ainda que a assertiva do parágrafo anterior possa ser inconteste, caso o legislador ordinário descumpra o seu dever e delegue a sua competência à administração fiscal para a eleição dos elementos da base de cálculo do IRPJ e da CSL, em tese, os julgadores do CARF, por força regimental, poderiam vir a ser constrangidos ao acatamento dessa lei ordinária e ao cumprimento da norma infralegal, editada diretamente pelo fisco. Ocorre que o RICARF8 reserva ao Poder Judiciário reconhecer inconstitucionalidades. Ao aceitarse tal situação em tese, tornase imediatamente relevante ao julgador administrativo a análise do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, para verificar se, no caso concreto, há em seus enunciados a decisão clara do legislador ordinário de outorgar à administração fiscal a escolha da fórmula inerente ao método PRL60. No entanto, não há outorga expressa do legislador ordinário no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, para que a administração fiscal compusesse uma fórmula que “melhor” se prestasse ao controle dos preços de transferência. Pelo contrário, a referida fórmula foi expressamente prescrita pelo legislador ordinário no aludido dispositivo. Conforme evidenciado no tópico “2”, acima, o legislador ordinário conscientemente elegeu a função de cada um dos fatores componente da fórmula para o cálculo do PRL60, não deixando espaço de discricionariedade para a administração fiscal. As normas da Lei n. 9.430/96 que prescrevem a fórmula para o cálculo do PRL60 são autoaplicáveis, não tendo a sua eficácia condicionada a instruções normativas ou outros atos infralegais. Por consequência, a administração fiscal tem o dever observar a fórmula compreendida imediatamente da Lei n. 9.430/96 para o cálculo do PRL60. 3.1.1. A tese da pluralidade semântica da Lei 9.430/96 e do papel integrativo da IN 243/2002. Se não houve outorga expressa do legislador ordinário à SRF, o intérprete persistente poderia cogitar da adoção, pelo legislador ordinário, de termos dotados de indeterminação semântica que implicitamente conferiria à administração fiscal a prerrogativa de arquitetar uma nova forma de cálculo do PLR60. Naturalmente tal expediente poderia ser questionado mesmo no âmbito do CARF, pois coerentes argumentos poderiam colocar em dúvida uma delegação implícita de tal nível. Ainda assim, não me furto de expor essa investigação, pois o seu resultado corrobora com a conclusão do presente voto: os enunciados prescritivos da Lei n. 9.430/96 seriam 8 RICARF, art. 62: “Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade” Fl. 1692DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 26 eivados de dubiedade suficiente para comportar pluralidade de fórmulas matemáticas capazes de conduzir a resultados muito diferentes o método PRL60? Um único elemento de dúvida parece surgir dos enunciados prescritivos do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com as alterações que lhe foram introduzidas pela Lei n. 9.959/2000. Ocorre que o legislador ordinário acresceu ao artigo “o” a preposição “de”, no seguinte trecho abaixo sublinhado: “d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção;” Ao que tudo indica, tal fator não altera a conclusão de que a fórmula que decorre imediatamente do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com as alterações da Lei n. 9.959/2000, é aquela indicada pela IN 32/01. Tratase de mero erro de grafia do legislador, que não enseja pluralidade de sentidos quanto aos enunciados em questão. No entanto, a administração fiscal passou a suscitar que a preposição “de” teria o mérito de assegurar que a parcela do valor agregado fosse deduzida do próprio preço de venda e não da base de cálculo da margem de lucro. O passo seguinte a essa assunção seria a restruturação do enunciado prescritivo, para “melhorálo” e tornálo compatível com a fórmula adotada pela IN 243/2002. Notese que o acatamento desse argumento, para a legitimação da IN 243/2001, demanda que o intérprete reordene a forma como as alíneas foram dispostas pelo legislador ordinário no art. 18, II, da Lei n. 9430/96, de modo a excluir a participação de parte do texto do item 1 da alínea “d” e, assim, “criar” uma nova alínea “e”, inexistente no texto aprovado pelo Congresso Nacional. Ou seja, para que a fórmula proposta pela IN 243/2001 pudesse ser suportada pela Lei n. 9.430/96 vigente à época dos fatos, o seu art. 18, II, deveria ser visualizado como se possuísse a seguinte redação: (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (…) e) do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; A referida tese não esconde a sua complexidade. Concluída essa restruturação do texto da art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, ainda não chegaria à fórmula da IN 243/2002, pois novas concessões ainda deveriam ser feitas para acomodar as inovações na fórmula indicada pela SRF. Fl. 1693DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.681 27 A IN 243/2002 não assumiria apenas a função que originalmente lhe seria rotineira, de imprimir maior operacionalidade, tornar palatável a sua compreensão aos agentes fiscais. Essa instrução normativa teria função mais sofisticada, de traduzir uma linguagem do legislador ordinário que a todos se apresenta como inteligível, de forma a expressar, de forma escorreita, a verdadeira mensagem que, embora de dificílima compreensão para a sociedade em geral, não teria passado desapercebida aos olhos da SRF. Tal como um oráculo, a IN 243/2002, então, conduz um rearranjo do art. 18, II, da Lei n. 9430/96, com a reconstrução estrutural do texto legal, uma série de novos fatores nas fórmulas “traduzidas” pela IN 243/2002. Em uma espiada muito brusca, o referido exercício pode aparentar tratarse de “interpretação” ou mesmo assumir o propósito de “integração”. Em teoria, no caso, o expediente da integração, tutelado pelo art. 108 do CTN, “pressupõe uma lacuna a ser preenchida, i.e., a falta de decisão do legislador acerca de determinada situação”9. Com isso, uma análise mais acurada evidencia que a IN 243/02 NÃO leva a cabo qualquer expediente de integração, mas realmente inova em matéria inserida no âmbito de competência privativa do legislador ordinário. Não há verdadeira lacuna no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. O legislador ordinário efetivamente manifestou decisão consciente quanto à formula a ser adotada para o cálculo do PRL60. A IN 243/02, em verdade, veicula uma segunda fórmula, capaz de alcançar resultados diversos da primeira e, com isso, desviase do plano normativo. Notese que um mero fator textual (acréscimo da preposição “de” ao objeto “o”), não é suficiente para se cogitar que esteja presente uma atribuição do legislador à SRF para que arquitetasse uma fórmula “melhor” ou de qualquer outra forma “diversa” daquela que se pode construir imediatamente do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. É relevante repetir que a referida construção argumentativa, que supostamente daria suporte à IN 243/2002, conduz a uma fórmula muito distinta, com resultados extremamente dispares. Merece destaque o seguinte trecho, do acima referido estudo elaborado por VLADIMIR BELITSKY, in verbis: “3. Quesito. A Procuradoria da Fazenda Nacional argumenta que a fórmula da Lei 9.430 é plurívoca e sugere que a IN 243 apenas decorre de uma das interpretações possíveis da Lei 9.430. Do ponto de vista da matemática, é possível afirmar que a IN 243 apenas interpreta a Lei 9.430? É possível deduzir a fórmula da IN 243 dos comandos contidos na Lei 9.430? Conforme já afirmamos na Constatação 3, não é verdade que a IN 243 é uma interpretação possível da Lei 9.430. Em sua defesa, a Fazenda Nacional emprega a fórmula em situações hipotéticas e dessas situações extrai conclusões genéricas. Essas conclusões são incorretas do ponto de vista matemático.” 9 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo : Saraiva, 2012, p. 675 e seg. Fl. 1694DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 28 Na doutrina nacional, uma série de autores se opõe a essa (re)construção. Nesse sentido, LUÍS EDUARDO SCHOUERI10 leciona, in verbis: “7.8.3.5.1. De imediato, devese notar que tal entendimento contrariaria a própria literalidade do método. Afinal, o legislador da Lei n. 9.430/96, com a redação da Lei n. 9.959/00, não acrescentou um quarto método àqueles aceitos para a apuração dos preços de transferência. Ou seja: o artigo 18 da referida Lei continuou contemplando, em seus três incisos, apenas três métodos. Nesse sentido, o que se teve foi, apenas, um desdobramento de um mesmo método: o método denominado, pelo próprio legislador, ‘Preço de Revenda menos Lucro’. Assim, pressupõese, pela literalidade do método, que se apure o preço parâmetro pela fórmula ‘preço de revenda (líquido de tributos, descontos e comissões) menos margem de lucro’. Tivesse o legislador a intenção de modificar a fórmula, para passar a ser fórmula ‘preço de revenda (líquido de tributos, descontos e comissões) menos margem de lucro menos valor agregado’, então no mínimo deveria ele, por coerência, deixar de chamar o método de ‘Preço de Revenda menos Lucro’.” Assim, ainda que se considere possível abstrair mais do que uma fórmula do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, as seguintes constatações são suficientes para a desconsideração da fórmula indicada pela IN 243/2002: não há decisão expressa ou mesmo implícita do legislador ordinário para que a SRF procurasse arquitetar uma fórmula “melhor” do aquela que se compreende imediatamente do texto legal; a interpretação sustentada, que daria suporte à IN 243/2002, parte de uma construção argumentativa complexa, que por si só coloca em dúvida a sua correção; os limites da IN 243/2002 estão adstritos à regulamentação administrativa da aplicação do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, para tornálo mais operacional, possibilitar uma mais palatável intelecção pelos agentes fiscais, esclarecer à sociedade interpretações específicas e, assim, dotar a norma legal de maior eficácia social. Qualquer previsão presente na IN 243/2002 que conduza ao incremento de ônus tributário, que não decorra da precedente decisão do legislador ordinário, devem ser desconsideradas. No subtópico seguinte, será analisada sob uma série de perspectivas a (in)compatibilidade da fórmula indicada pela IN 243/2002 com a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. 3.2. A (in)compatibilidade da fórmula indicada pela IN 243/2002 com a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação da Lei n. 9.959/2000. 10 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo : Dialética, 2006, p. 169. Fl. 1695DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.682 29 A fórmula indicada pela IN 243/2002, para o cálculo do método PRL60, é considerada por alguns como uma “melhoria” ao texto veiculado pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96: supostamente, terseia uma fórmula “melhor” para regular a aplicação da legislação de preços de transferência. Tais “melhorias”, no caso, converteriam os “preços de revenda menos lucro” (“PRL”) em “PRLVA” (preço de revenda menos lucro menos valor agregado). Ainda que se considere, por hipótese, que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, comporta mais do que uma fórmula matemática, seria preciso verificar se a IN 243/2002 teria adotado alguma destas (como sustenta a PFN) ou se teria extravasado os limites a que estaria adstrita (como sustenta o contribuinte). Os subtópicos seguintes apresentam fundamentos que conduzem à conclusão de que a fórmula indicada pela IN 243/96 para o cálculo dos preços de transferência é incompatível com a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação da Lei n. 9.959/2000. 3.2.1. Incompatibilidades formais e a ofensa ao princípio da legalidade aferida por critérios objetivos. Não vem ao caso, nesse subtópico, saber se o comparativo de superioridade que adjetiva a fórmula indicada pela IN 243/02 seria “melhor” ou “pior”. Interessa, aqui, constatar que ambos os adjetivos comparativos pressupõem que a fórmula indicada pela IN 243/02 seja de algum modo ou grau diferente daquela estabelecida no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. É por si só relevante ou mesmo decisivo ao julgador aferir que a fórmula indicada pela IN 243/2002 é “diferente” daquela veiculada no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. Ocorre que a Instrução Normativa deveria assumir tão somente a função de tornar mais operacional a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, possibilitar uma mais palatável intelecção pelos agentes fiscais e dotar a norma legal de maior eficácia social. Diante do monopólio reservado ao legislador ordinário para a decisão quanto à fórmula que deve ser adotada para o método PLR60, os pontos de distinção da IN 243/02 em relação à Lei 9.430/96 têm a validade fulminada de plano, reclamando desconsideração pelos aplicadores do Direito. Como se pôde observar no tópio “1”, acima, a Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000, NÃO autoriza uma série de elementos constantes na IN 243/2001, em especial: a exclusão do valor agregado no Brasil no cálculo do preço parâmetro. Conforme decisão do legislador ordinário, o valor agregado no País deveria ser subtraído do preço líquido de venda apenas para o cálculo da margem de lucro; atribuirse relevância ao percentual de participação dos bens importados no custo total do bem produzido e participação dos bens importados no preço Fl. 1696DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 30 de venda do produzido como fatores determinantes da margem de lucro e do preço parâmetro. Não obstante, por meio da IN 243/2002, a SRF não só tomou a decisão de eleger como fator determinante o percentual de participação dos bens importados no custo total do bem produzido na composição da fórmula de cálculo do PRL60, como também estipulou qual seria esse percentual de participação. Merece destaque o seguinte trecho, do já referido estudo elaborado por VLADIMIR BELITSKY, in verbis: “Constatação 3. A IN não pode seguir como uma direta interpretação da Lei 9.430/96; é inevitável o acréscimo de alguns postulados, pressupostos ou comandos à lei para que desta possa ser derivada a IN 243. Do ponto de vista da lógica matemática, esta constatação é a consequência da combinação de dois fatos já provados acima: de um lado, sabemos (cf. Constatação 2) que a fórmula da IN 243 é diferente da da Lei 9.430/96; de outro lado, sabemos (cf. Constatação 1 e sua demonstração) que cada fórmula é expressão algébrica, única e fiel, do respectivo normativo. Logo, nenhum dos normativos pode ser derivado do outro”. Como o tema em análise envolve fórmulas matemáticas, é contundente o parecer do referido Ph.D em Matemática Aplicada pelo Instituto Tecnológico de Israel e Professor Associado do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Se os matemáticos derivam uma determinada fórmula do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, mas uma outra fórmula da IN 243/2002, bem como afirmam que, sob o ponto de vista matemático, “nenhum dos normativos pode ser derivado do outro”, há evidência eloquente de que a Instrução Normativa divergiu da Lei, extravasando o seu âmbito de competência e infringindo a reserva legal. A IN 243/2001, como fonte secundária, teria a função de apenas atribuir maior operacionalidade, clareza e, assim, executar com fidelidade a fonte primária, que é a Lei 9.430/96. No entanto, a IN 243/2002 claramente nega eficácia à decisão do legislador ordinário, que supostamente não teria sido técnico o suficiente e dado ensejo a desequilíbrios. Correta ou não, cabe ao Poder Legislativo o monopólio da decisão sobre como será o controle dos preços de transferência no Direito tributário brasileiro. Antes de 1996, precisamente por decisão do legislador ordinário, sequer havia, no Brasil, qualquer controle sobre os preços de transferência. A ele, legislador ordinário, cabe tratar privativamente sobre a tema em discussão. Dessa forma, por obstaculizar que os agentes fiscais executem adequadamente a decisão do legislador ordinário, veiculada pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000, a IN 243/2001 merece imediata repulsa. Como julgador administrativo, não afastar a aplicação da IN 243/2001 redundaria igualmente em negar eficácia à decisão enunciada pelo único agente competente para prescrever a fórmula de cálculo do PRL60, que é o legislador ordinário. Recusome a isso. Não se trata de saber qual das fórmulas é “melhor”: tratase de respeitar o monopólio da decisão detido pelo legislador ordinário. Esse entendimento encontra Fl. 1697DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.683 31 fundamento na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, como se observa desse trecho do conhecido voto do Min. ALIOMAR BALEEIRO, no RE 69784, in verbis: “A justiça é uma idéiaforça, no sentido de FOUILLÉ, mas varia no tempo e no espaço, senão de indivíduo. Fixao o legislador e o juiz há de aceitála como um autômato. Inúmeros Acórdãos do Supremo Tribunal Federal, declaram que lhe não é lícito corrigir a justiça intrínseca na lei, substituindose as escolhas do legislador.” A IN 243/2002 realmente violou o princípio da legalidade. Ao adotar fórmula diversa daquela prevista pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 e extravasar a sua função secundária e meramente regulamentar, a IN 243/2002 majorou tributos com o cerceamento da dedutibilidade do custo de bens, direitos e serviços importados de partes relacionadas e aplicados à produção em território brasileiro. Como a função precípua da CSRF é uniformizar entendimentos divergentes adotados pelas Turmas Ordinárias do CARF, insta observar que há uma série de decisões deste Tribunal que também concluíram ser ilegal a fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo do método PLR60, como se observa das seguintes ementas: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2004 Ementa: AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. NÃO CONHECIMENTO DA MATÉRIA. A propositura de ação judicial, com o mesmo objeto do processo administrativo, implica na desistência de discutir essa matéria na esfera administrativa. Aplicação da Súmula CARF nº 1. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. DEFINITIVIDADE. Considerase definitiva, na esfera administrativa, matéria não expressamente contestada. CÁLCULO DO PREÇO PARÂMETRO. MÉTODO PRL60 PREVISTO EM INSTRUÇÃO NORMATIVA. INAPLICABILIDADE. A função da instrução normativa é de interpretar o dispositivo legal, encontrandose diretamente subordinada ao texto nele contido, não podendo inovar para exigir tributos não previstos em lei. Somente a lei pode estabelecer a incidência ou majoração de tributos. A IN SRF nº 243, de 2002, trouxe inovações na forma do cálculo do preço parâmetro segundo o método PRL60%, ao criar variáveis na composição da fórmula que a lei não previu, concorrendo para a apuração de valores que excederam ao valor do preço parâmetro estabelecido pelo texto legal, o que se conclui pela ilegalidade da respectiva forma de cálculo. (CARF, Acórdão 1202000.835, sessão de 07.08.2012) NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. LEI. NORMAS COMPLEMENTARES. As normas postas pelo executivo para operacionalizar ou interpretar lei devem estar dentro do que a lei propõe e ser com ela compatível. FÓRMULAS PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PRL 60%. LEI N° 9.430. IN SRF N°32. IN SRF N°243. A IN SRF n° 32, de 2001, propõe fórmula idêntica a posta pela lei no 9.430, de 1996. A IN SRF n° 243, de 2002, desborda da lei, pois utiliza fórmula diferente da prevista na lei, inclusive mencionando variáveis não cogitadas pela lei. LANÇAMENTO. IN SRF N° 243. Os ajustes feitos com base na fórmula estabelecida na IN SRF n° 243, de 2002, que sejam maiores do que o determinado pela fórmula prevista na lei, não têm base legal e devem ser cancelados. Fl. 1698DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 32 (CARF, Acórdão 1101000.864, sessão de 07.03.2013) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2006 PESSOAS JURÍDICAS. EXTINÇÃO. RESULTADOS NEGATIVOS ACUMULADOS. COMPENSAÇÃO. LIMITE DE 30%. Os arts. 15 e 16 da Lei n° 9.065/95 autorizam a compensação de prejuízos fiscais e de bases de cálculo negativas da CSLL acumulados em períodos anteriores, desde que o lucro líquido do período, ajustado pelas adições e exclusões previstas nas legislações daqueles tributos, não seja reduzido em mais de 30%. O limite à compensação aplicase, inclusive, ao período em que ocorrer a extinção da pessoa jurídica, haja vista a inexistência de norma, ainda que implícita, que o excepcione. Assunto: Normas de Administração Tributária Anocalendário: 2006 SUCESSÃO. MULTA DE OFÍCIO. IMPOSIÇÃO. Devese afastar a multa de ofício imposta por infração cometida pela sucedida, mas lançada somente após ocorrida a sucessão, quando o Fisco não demonstra que sucedida e sucessora estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. (CARF, Acórdão 1201000.803, sessão de 07.05.2013) Nesse mesma linha, a própria decisão recorrida restou assim ementada: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2007 RECURSO DE OFÍCIO. EXONERAÇÕES PROCEDENTES. Não é digna de reparo a decisão que, amparada por diligência fiscal efetuada pela própria autoridade autuante, acolhe argumento da contribuinte acerca da ocorrência de erro de fato no fornecimento de dados utilizados na determinação da matéria tributável, e, por meio de controles internos, apura que parte das exigências formalizadas já são objeto de outro feito administrativo, caracterizando, assim, duplicidade de lançamento. RECURSO VOLUNTÁRIO. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. ILEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. Restando reconhecida a ilegalidade das disposições da IN SRF 243/2002, especificamente no que se refere aos critérios por ela indicados para a quantificação do preçoparâmetro e os conseqüentes ajustes na aplicação do método PRL60 (sobretudo antes da publicação da Lei 12.715/2012), é de reconhecer, portanto, a completa invalidade do lançamento. (CARF, Acórdão 1301001.235, sessão de 13.06.2013) Nesse mesmo sentido, há substancial consenso doutrinário quanto ao extravasamento da IN 243/2001 na regulamentação do PLR60. Citese, por exemplo, LUCIANA ROSANOVA GALHARDO e ANA CAROLINA MONGUILOD11, que suscitam, in verbis: “As disposições trazidas pela IN 243/02 têm implicações significativas, provocando um aumento substancial no valor dos ajustes tributáveis (...). Uma alteração na sistemática de cálculo do PRL implica mudança na determinação da base de cálculo do tributo e, consequentemente, do próprio montante tributável. A nosso ver, uma alteração de tal natureza só poderia ser implementada por lei, e não por meio de instrução normativa, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade. As instruções normativas são normas secundárias cuja única função é esclarecer as disposições contidas em lei, não podendo nunca inoválas ou contrariálas. A IN 243/02 não poderia 11 GALHARDO, Luciana Rosanova; MONGUILOD, Ana Carolina. A ilegalidade do mecanismo de aplicação do método PRL sob a IN 243/02, in Manual dos Preços de Transferência – celebração dos 10 anos de vigência da lei. São Paulo : MP, 2007, p. 237. Fl. 1699DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.684 33 validamente alterar o critério legal de apuração do PRL ou contrariar as disposições da Lei n. 9.959/00, mas assim o fez” No mesmo seguir, assim se posiciona GILBERTO DE CASTRO MOREIRA JR.12, in verbis: “Se compararmos as fórmulas acima, é possível verificar que a Instrução Normativa SRF 243/2002 reduziu consideravelmente o preço parâmetro que configura o limite de dedutibilidade para fins de IRPJ e CSLL, o que aumenta a base de cálculo das exações, sem qualquer fundamentação legal, ocasionando uma total incongruência com as disposições contidas na Lei n. 9.430/1996”. Por todos esses fundamentos já expostos, parece certo que a fórmula de cálculo do PRL60 indicada pela IN 243/2002 deve ser desconsiderada. 3.2.2. Incompatibilidades formais e o princípio da anterioridade em matéria tributária. Com o reforma de 2012, empreendida pela Lei n. 12.715 (dez anos após a edição da IN 243/2002), o legislador ordinário finalmente adotou enunciados que claramente prescrevem a adoção de uma fórmula diversa daquela adotada com a Lei n. 9.959/2000, mais apta a lidar com a proporção do insumo importado aplicado na produção nacional. Desse modo, somente após 10 anos da publicação da IN 243/2002 é possível identificar maior respaldo à fórmula então indicada pela SRF. Conforme dispõe a Constituição Federal e o Código Tributário Nacional, alterações legislativas: Como regra, devem respeitar o princípio da irretroatividade sempre que houver agravamento de ônus fiscal (CF, art. 150, III, “a”); Como regra, devem respeitar o princípio da anterioridade sempre que houver agravamento de ônus fiscal (CF, art. 150, III, “b”); Excepcionalmente, podem ter eficácia retroativa “quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados” ou, ainda, quando forem benéficas ao contribuinte (CTN, art. 106). A Lei n. 12.715/2012 inaugurou uma nova sistemática de cálculo do método PLR, com a decisão consciente do legislador de inovar o regime até então vigente e com o assumido potencial de aumento da carga tributária. Diante desse cenário, a fórmula para o cálculo do PRL que se obtém da norma enunciada pelo legislador ordinário na Lei n. 12 MOREIRA JR., Gilberto de Castro. Método do preço de revenda menos lucro no caso de agregação de valor no país. Confronto entre a Lei n. 9.430/1996 e a Instrução Normativa n. 243/2002, in Tributos e Preços de Transferência – 3o Volume. São Paulo : Dialética, 2009, p. 105. Fl. 1700DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 34 12.715/2012 deverá se submeter a dois corolários básicos do princípio da segurança jurídica: os princípios da anterioridade e da irretroatividade. O art. 78, da Lei n. 12.715/2012, expressamente resguardou a vigência da novel fórmula de cálculo do PLR para o dia 01.01.2013, fazendo referência específica à alteração que introduzira por meio seu art. 48 ao art. 18 da Lei n. 9.430/1996. É o que se observa textualmente na Lei n. 12.715/2012: Art. 48. Os arts. 12, 18, 19 e 22 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passam a vigorar com a seguinte redação: (…) Art. 78. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos: (…) § 1. Os arts. 48 e 50 entram em vigor em 1 de janeiro de 2013. Caso a Lei n. 12.715/2012 apenas confirmasse a norma introduzida pela Lei n. 9.959/2000, ratificando os método PLR60 até então vigente sem qualquer incrementar a obrigação tributária, então não seria necessário observar o princípio da anterioridade. Além disso, referida norma poderia ser considerada interpretativa, com efeitos retroativos. Mas não é o caso: por tratarse de decisão consciente do legislador ordinário em alterar a metodologia do PLR com potencial de aumentar o ônus tributário imposto à sociedade, a referida deve respeitar a anterioridade e não pode ser aplicada retroatividade. A exposição de motivos da MP n. 563/2012, que foi convertida na aludida Lei n. 12.715/12, demonstra com nitidez a decisão do legislador em alterar a norma até então vigente para o cálculo do PLR e adotar vacatio legis em respeito ao princípio da anterioridade, de aplicação obrigatória na hipótese de majoração do ônus de IRPJ e CSL: “56. A medida proposta também visa a aperfeiçoar a legislação aplicável ao Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas IRPJ e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL no tocante a negócios transnacionais entre pessoas ligadas, visando a reduzir litígios tributários e a contemplar hipóteses e mecanismos não previstos quando da edição da norma, atualizandoa para o ambiente jurídico e de negócios atual. Destarte, a legislação relativa aos controles de preços de transferência aplicáveis a operações de importação, exportação ou de mútuo, empreendidas entre entidades vinculadas, ou entre entidades brasileiras e residentes ou domiciliadas em países ou dependências de tributação favorecida, ou ainda, que gozem de regimes fiscais privilegiados, restará atualizada e aperfeiçoada com as alterações propostas. (...) 61. Como fruto de toda a experiência até então angariada no que concerne à aplicação de referidos controles, com o intuito de minimizar a litigiosidade FiscoContribuinte até então observada, e objetivando alcançar maior efetividade dos controles em questão, propõese alterações na legislação de regência. (...) 63. Como algumas das alterações introduzidas pelos arts. 38 e 40 da Medida Provisória podem implicar em aumento do tributo, em atenção ao princípio da anterioridade, foi estabelecido que a produção de efeitos ocorreria em 2013. O art. 42 do Projeto Medida Provisória possibilita que a pessoa jurídica opte pela aplicação das disposições contidas nos arts. 38 e 40 na apuração das regras de Fl. 1701DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.685 35 preços de transferência relativas ao anocalendário de 2012. A opção implicará na obrigatoriedade de observância de todas as alterações introduzidas pelos arts. 38 e 40.” Assim, se a Lei n. 12.715/2012 apresenta alguma eficácia interpretativa, seria a de esclarecer que a fórmula adotada pela IN 243/2002 não encontravam fundamento de validade na vigência do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000, devendo ser mantida a incontroversa fórmula indicada pela IN 32/2001. No caso concreto sob julgamento, o período de apuração relevante é 2007, não sendo de forma alguma aplicáveis as normas da Lei n. 12.715/2012, o que atentaria contra o princípio da irretroatividade da lei tributária. Para o período relevante, é preciso reconhecer que a IN 243/2002 extravasou os limites a que estaria adstrita. É necessário aplicar diretamente a norma prescrita pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000, tal como interpretada pela IN 32/2001, que restou incontroversa. 3.2.3. Incompatibilidades materiais e a ofensa ao princípio da igualdade e da capacidade contributiva. Embora evidências matemáticas e demais constatações expostos nos subtópicos anteriores sejam suficientes para o afastamento da fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo do PRL60, há ainda outras evidências jurídicas que justificam a desconsideração do ato infralegal. Tais evidências defluem de seu conteúdo, representando incompatibilidades materiais da IN 243/02 em face da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000. A administração fiscal deve agir nos estritos limites normativos atinentes à matéria dos preços de transferência, respeitando os princípios e regras consagrados pelo legislador ordinário. E há, no caso da legislação dos preços de transferência, princípios e regras que não podem ser ignorados, especialmente pertinente à igualdade tributária e à capacidade contributiva. Nesse ponto, é importante fazer referência à seguinte passagem do estudo de LUÍS EDUARDO SCHOUERI13, que bem sintetiza alguns dos elementos essenciais para a solução do recurso especial em análise, in verbis “1.3.9. É, pois, sob pena de caracterizar o arbítrio, que o legislador se vê obrigado a eleger princípios e, uma vez escolhidos, aplicálos conscientemente. 1.3.10. Especialmente em matéria tributária, surge como princípio parâmetro, escolhido pelo próprio constituinte, a capacidade contributiva. Nesse sentido, deve a tributação partir de uma comparação das capacidades econômicas dos potenciais contribuintes, exigindose tributo igual de contribuinte em equivalente situação. Por óbvio, tal princípio somente se concretiza quando é possível compararemse os contribuintes. 13 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo : Dialética, 2006, p. 1415. Fl. 1702DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 36 1.3.11. No caso de transações entre pessoas vinculadas, entretanto, as realidades econômicas comparadas são diversas, frustrandose qualquer comparação. 1.3.12. A diversidade acima apontada resulta da circunstância de as transações entre partes vinculadas não terem passado pelo mercado, como o fizeram as empresas independentes. 1.3.13. Assim, podese dizer que enquanto a moeda constante nas contas das empresas com transações controladas está expressa em unidades ‘reais de grupo’, empresas independentes têm seus resultados expressos em ‘reais de mercado’. 1.3.14. Nesta perspectiva, o papel da legislação de preços de transferência é apenas ‘converter’ valores expressos em ‘reais de grupo’ para ‘reais de mercado’, possibilitando, daí, uma efetiva comparação entre contribuintes com igual capacidade econômica. 1.3.15. Nesse sentido, verificase que a legislação de preços de transferência não distorce resultados da empresa. Apenas ‘converte’ para uma mesma unidade de referência (‘reais de mercado’) a mesma realidade expressa noutra unidade. 1.3.16. Nesse contexto, as disposições de controle de preços de transferência da Lei n. 9.430/96 somente se justificam caso corroborem essa conversão acima referida, o que se dá mediante a aplicação do princípio arm’s length, que será verificado mais profundamente nos capítulos posteriores. Vale dizer, caso a aplicação da lei ou de sua regulamentação em um caso concreto extrapole os limites dessa conversão, isso deverá ser considerado uma desobediência ao princípio constitucional da igualdade e da capacidade contributiva e, portanto, a aplicação nesse caso deverá ser corrigida ou até mesmo desconsiderada.” (negrito acrescido ao original) É fundamental para a matéria em análise, então, compreender que a legislação brasileira dos preços de transferência busca precisamente neutralizar a desigualdade nas operações entre partes vinculadas. Nos casos em que o método PLR60 seriam aplicáveis, a aludida norma se voltaria exclusivamente às operações de importação realizadas por empresas vinculadas e que, por meio de ajuste de preços de venda de bens, serviços ou direitos, apresentassem a potencialidade de transferir resultados ao exterior sem a correspondente tributação. Se era esse o objetivo do legislador ordinário, é de difícil aceitação que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 teria prescrito critérios de eliminação de desigualdades tão voláteis e indeterminados que possibilitassem à administração fiscal exigir ajustes a partir preços parâmetros compreendidos em um intervalo de “ R$10,00” a “R$ 70,00”. Ocorre que o princípio da igualdade vivificado pelo padrão arm’s length, pressupõe a eleição consciente, pelo legislador ordinário, de critérios de distinção aptos a tratar semelhantes de forma equivalente, com os ajustes que se façam necessários na base de cálculo do IRPJ e CSL para a corrigir diferenciações injustificadas. A tese de que, dos enunciados do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, seria possível abstrair duas fórmulas capazes de conduzir a preços parâmetros tão dispares (“10,00” ou “70,00”, por exemplo), conflita por si só com o princípio da igualdade, pois torna insustentável a sua concretização. Na verdade, o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, efetivamente elegeu expressamente os critérios de distinção que, conforme a sua decisão, seriam aptos para vivificar o princípio da igualdade e da capacidade contributiva. A “segunda fórmula” indicada pela IN 243/2002, então, enfraquece arbitrariamente o princípio da igualdade, pois nega eficácia jurídica ao critérios de distinção eleitos pelo legislador ordinário (art. 18, II, da Lei n. Fl. 1703DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO Processo nº 16643.000331/201002 Acórdão n.º 9101002.263 CSRFT1 Fl. 1.686 37 9.430/96), a quem compete o monopólio da decisão quanto à fórmula que deve ser adotada para o método PLR60. Nesse seguir, ao advogar que a Lei n. 9.430/96 teria concedido tamanha discricionariedade à administração, a PFN pode estar suscitando a ocorrência de delegação de competência tributária, o que é vedado pela Constituição Federal (art. 150) e pelo CTN (art. 97). Se a lei tivesse permitido a adoção de fórmulas que tão dispares, possivelmente a constitucionalidade de tal lei poderia inclusive vir a ser questionada perante o Poder Judiciário. 3.2.4. Incompatibilidades materiais e a falácia dos “fins” que justificariam os “meios”. O julgamento do presente recurso especial pode dar ensejo a um deslize no processo de concretização do Estado de Direito: relativizar o princípio da legalidade (meio), para que o Brasil conte com uma norma de preço de transferência supostamente “melhor” e vocacionada a aferir adequadamente os preços de mercado, inclusive com a consideração proporcional dos insumos importados de partes vinculadas (fins). Como já se constatou acima, esse argumento de que “os fins justificam os meios” esbarra no princípio da estrita legalidade em matéria tributária. No entanto, tendo em vista a importância do tema, não se pode deixar de investigar se os referidos “fins” apregoados para a legitimação da IN 243/2002 realmente teriam potencial de concretização. Sob a perspectiva matemática, o estudo desenvolvido pelo Prof. Dr. VLADIMIR BELITSKY, acima citado, apresentou as seguintes conclusões: “2. Quesito. A Fazenda Nacional alega que a fórmula da IN 243 corrige defeitos da Lei 9.430. Essa afirmação é correta do ponto de vista da matemática? Não. Essa manobra é parecida com os argumentos desvendados no quesito anterior, mas ela precisa ser tratada separadamente pois a derivação de sua conclusão é mais complexa. Na essência do método, mostrase que a fórmula da Lei 9.430 apresenta falhas as quais são corrigidas na fórmula da IN 243. A inadequação deste método como argumento em prol da eficácia da IN 243 está na omissão do fato de que a fórmula definida por esse normativo possui falhas semelhantes às da fórmula da Lei 9.430.” Também merece destaque o seguinte trecho, colhido da citada “Constatação 5” do mesmo estudo, in verbis: “(i) a fórmula da IN 243 resulta no valor de PP menor que o valor declarado do bem importado se e somente se a margem de lucro em cima de todos os insumos em conjunto for de 60%; (ii) a fórmula da IN 243 resulta no valor de PP igual ao valor declarado do bem importado se e somente se a margem de lucro em cima de todos os insumos em conjunto for menor que 60%; (iii) a fórmula da IN 243 resulta no valor de PP maior que o valor declarado do bem importado se e somente se a margem de lucro em cima de todos os insumos em conjunto for maior que 60%;” Fl. 1704DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO 38 Notese, ainda, a conclusão do mesmo matemático em relação a esse outro quesito que lhe foi apresentado, in verbis: “1. Quesito. A Fazenda Nacional alega que a aplicação da IN 243 pode ser benéfica aos contribuintes. Essa afirmação tem sustentação matemática? A alegação da Fazenda Nacional de que ‘... a metodologia prevista na IN SRF n. 243/2002 pode ser considerada benéfica ao importador’ (...) está errada pois sabemos, conforme provado em minha Constatação 5, que a fórmula da IN 243 acarreta ajuste tributário e, consequentemente, tributação, toda vez que a lucratividade da produção for inferior a 60%. (...)” Conclui o matemático que “a fórmula da IN 243 falha em apurar o valor justo do Preço Parâmetro a partir de valores de produtos corretamente declarados pelo contribuinte quando a margem de lucro efetiva sobre o PLV for menor que 60%”. A evidência matemática, então, aclara que a fórmula indicada pela IN 243/2002 não soluciona problemas presentes na fórmula legal, imediatamente construída a partir do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000. Além disso, como evidenciou o matemático, a fórmula da IN 243/2002 tem o potencial de agravar o ônus fiscal sobre o contribuinte. Assim, se a IN 243/02 apresenta outros vícios, inclusive formais, que justificam a sua desconsideração para a apuração do PRL60, também é possível observar vícios materiais que a tornam imprópria para o controle dos preços de transferência. 4. Conclusões Por todo o exposto, há evidências mais do que suficientes para se afirmar que a fórmula indicada pela IN 243/2002 descumpre com o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. Se há uma “segunda fórmula” alternativa àquela da IN 32/2001, que se adeque à moldura prescrita pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, não se trata da fórmula indicada pela IN 243/2002. Voto, assim, para que seja NEGADO PROVIMENTO ao recurso especial do PFN quanto à matéria analisada nesta declaração de voto. (Assinado digitalmente) Conselheiro Luís Flávio Neto. Fl. 1705DF CARF MF Impresso em 02/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/04/2016 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 18/04/201 6 por CRISTIANE SILVA COSTA, Assinado digitalmente em 26/04/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por LUIS FLAVIO NETO
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Numero do processo: 13819.003080/98-97
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 28 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Jun 13 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/1992 a 30/06/1992, 01/08/1992 a 31/08/1994, 01/05/1995 a 31/10/1996, 01/01/1997 a 31/01/1997, 01/04/1997 a 30/04/1997, 01/07/1997 a 31/07/1997, 01/12/1997 a 31/12/1997
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ACOLHIMENTO.
Constatada a existência de omissão no Acórdão exarado pelo Conselho, correto o acolhimento dos embargos de declaração visando sanar o vicio apontado. Embargos acolhidos para rerratificar o Ac. CSRF/02-02.018.
PIS - CORREÇÃO MONETÁRIA - Importa renuncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Súmula CARF nº 1.
Numero da decisão: 9303-003.830
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial aos embargos de declaração para suprir a omissão e alterar o resultado do acórdão embargado de "recurso especial provido" do contribuinte para recurso especial provido em parte, declarando a concomitância em relação ao índice de correção dos créditos do PIS.
CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO - Presidente.
MARIA TERESA MARTÍNEZ LÓPEZ - Relatora.
EDITADO EM: 30/05/2016
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Tatiana Midori Migiyama, Júlio César Alves Ramos (Substituto convocado), Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Érika Costa Camargos Autran, Rodrigo da Costa Pôssas e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ
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conteudo_txt : Metadados => date: 2016-05-30T16:14:36Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2016-05-30T16:14:36Z; Last-Modified: 2016-05-30T16:14:36Z; dcterms:modified: 2016-05-30T16:14:36Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; xmpMM:DocumentID: uuid:71eac46c-9e00-48bb-b56b-31de26582292; Last-Save-Date: 2016-05-30T16:14:36Z; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2016-05-30T16:14:36Z; meta:save-date: 2016-05-30T16:14:36Z; pdf:encrypted: true; modified: 2016-05-30T16:14:36Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2016-05-30T16:14:36Z; created: 2016-05-30T16:14:36Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 13; Creation-Date: 2016-05-30T16:14:36Z; pdf:charsPerPage: 2147; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2016-05-30T16:14:36Z | Conteúdo => CSRFT3 Fl. 1.013 1 1.012 CSRFT3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 13819.003080/9897 Recurso nº Embargos Acórdão nº 9303003.830 – 3ª Turma Sessão de 28 de abril de 2016 Matéria Embargos Embargante FAZENDA NACIONAL Interessado FREUDENBERGNOK COMPONENTES BRASIL LTDA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/1992 a 30/06/1992, 01/08/1992 a 31/08/1994, 01/05/1995 a 31/10/1996, 01/01/1997 a 31/01/1997, 01/04/1997 a 30/04/1997, 01/07/1997 a 31/07/1997, 01/12/1997 a 31/12/1997 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ACOLHIMENTO. Constatada a existência de omissão no Acórdão exarado pelo Conselho, correto o acolhimento dos embargos de declaração visando sanar o vicio apontado. Embargos acolhidos para rerratificar o Ac. CSRF/0202.018. PIS CORREÇÃO MONETÁRIA Importa renuncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Súmula CARF nº 1. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial aos embargos de declaração para suprir a omissão e alterar o resultado do acórdão embargado de "recurso especial provido" do contribuinte para recurso especial provido em parte, declarando a concomitância em relação ao índice de correção dos créditos do PIS. CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 00 30 80 /9 8- 97 Fl. 1014DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO 2 MARIA TERESA MARTÍNEZ LÓPEZ Relatora. EDITADO EM: 30/05/2016 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Tatiana Midori Migiyama, Júlio César Alves Ramos (Substituto convocado), Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Érika Costa Camargos Autran, Rodrigo da Costa Pôssas e Vanessa Marini Cecconello. Relatório A Contribuinte, cientificada do Acórdão CSRF/0202.018 (fls. 751/776) retorna aos autos com os embargos declaratórios de fls. 809/814, suscitando irregularidade material consistente em omissão e/ou contradição no julgado. Segundo a embargante, a omissão teria ocorrido pelo fato de Câmara Superior não ter se manifestado sobre a correção monetária dos indébitos do PIS, inclusive, sobre a inclusão dos expurgos inflacionários. Transcreve a Embargante a ementa prolatada, no Acórdão CSRF/0202.018, como seguinte teor: COFINS DECADÊNCIA O prazo para a Fazenda Nacional lançar o crédito pertinente à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS é de dez anos, contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito tributário poderia ser constituído pelo lançamento. CORREÇÃO MONETÁRIA RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO PRINCÍPIO DA MORALIDADE CONSTITUIÇÃO FEDERAL, ARTIGO 37 EXPURGOS INFLACIONÁRIOS STJ IPC PRECEDENTES A correção de indébito há de ser plena, mediante a aplicação dos índices representativos da real perda de valor da moeda, não se admitindo a adoção de índices inferiores expurgados, sob pena de afronta ao princípio da moralidade administrativa e de se permitir enriquecimento ilícito do Estado. Recursos especiais provido. Suscita a Embargante que o Relator designado para redigir o Voto Vencedor assentou: "Dou provimento ao recurso do contribuinte quanto aos índices de atualização monetária, na restituição e compensação de indébito tributário referente ao FINSOCIAL, conforme norma de Execução Conjunta SRF/COSIT/COSAR n° 08, de 27/06/97, acrescido dos seguintes percentuais (...). Alega a Embargante em momento seguinte, a não manifestação do Fl. 1015DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO Processo nº 13819.003080/9897 Acórdão n.º 9303003.830 CSRFT3 Fl. 1.014 3 tema frente ao PIS, existindo uma inexatidão material, erro que conduz a omissão no julgado ou até mesmo contradição diante do próprio teor do voto vencedor. Ao final, requer sejam acolhidos os embargos objetivando saneamento da omissão/contradição do julgado, reconhecendo a aplicação dos percentuais de correção também aos créditos de PIS a serem compensados com parte dos débitos lançados. Requer, ainda, a aplicação da Súmula Vinculante STF n° 08/2008, para reconhecer a decadência dos valores lançados anteriores a novembro de 1993. Designada esta Conselheira "Ad Hoc", para me manifestar sobre os embargos de declaração. Em tempo, em sustentação feita pelo patrono e memorial entregue, alega que: (...) Apesar da clareza da ementa quanto à aplicação dos índices de correção monetária, a DRF em São Bernardo do Campo opôs embargos de declaração, alegando divergência entre os percentuais indicados às fls. 684 e 700, os quais deviam ser aplicados na correção dos créditos da embargante. Embora a divergência alegada estivesse circunscrita às informações do relatório, o Presidente da CSRF determinou a alteração do último parágrafo do voto condutor, o qual foi modificado pelo Despacho nº 116/2008 (fl. 750), nos termos abaixo: Redação original: Com base nesses mesmos fundamentos, dou provimento ao recurso do contribuinte, acompanhando o Relator ao também prover o recurso da douta Procuradoria. Redação modificada: Com base nesses fundamentos acompanho o Relator ao prover o recurso da douta Procuradoria. Dou provimento ao recurso do contribuinte quanto aos índices de atualização monetária, na restituição e compensação de indébito tributário referente ao FINSOCIAL, conforme norma de Execução Conjunta SRF/COSIT/COSAR nº 08, de 27/06/97, acrescido dos seguintes percentuais (1) jan/89: 70,28%; (2) mar/90: 30,46%; (3) abr/90: 44,80; (4) mai/90: 2,36% e (5) a partir de janeiro de 1996, a SELIC. Considerando que o recurso especial da Embargante, conforme consta expressamente em seu pedido, requer a atualização dos créditos de FINSOCIAL e de PIS pelos índices pertinentes, o acórdão embargado – se mantida a retificação acima descrita – passaria a apresentar evidente contradição, uma vez que sua parte dispositiva de modo algum seria conciliável com o teor do voto condutor. Ademais, cumpre salientar que em seu recurso especial a Embargante requereu que os mesmos índices de atualização Fl. 1016DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO 4 fossem indistintamente aplicados ao PIS e à COFINS. Consequentemente, a alteração promovida pelo Despacho nº 116/2008 tornou o acórdão embargado omisso, pois excluiu da decisão a atualização dos créditos de PIS, matéria objeto de pedido no Recurso Especial da Embargante. 3. A relação entre Ação de Repetição de Indébito com o Processo Administrativo Na seção de julgamento dos presentes Embargos, ocorrida em março de 2016, foi levantada a hipótese de renúncia à instância administrativa com relação à aplicação dos índices de atualização monetária sobre os créditos de PIS, sob a justificativa de que essa matéria já teria sido discutida em processo judicial. A fim de elucidar essa questão, a embargante apresenta abaixo o histórico das decisões proferidas na Ação de Repetição de Indébito nº 92.00704387 (Doc. 1), e correlatos Embargos à Execução nº 96.00324204 (Doc. 2), processos judiciais transitados em julgado que tratam do reconhecimento dos créditos de PIS da embargante. Ação de Repetição de Indébito nº 92.00704387 3.1. Sentença: 20/06/1994 Na sentença de primeiro grau da ação de conhecimento (fls. 55 a 60) (doc. 3), decidiuse pela inconstitucionalidade dos Decretos Leis nº 2.445 e 2.449, ambos de 1988, pois não configurariam meio hábil para modificar matéria restrita a lei complementar. Também foi reconhecido o decurso do prazo de 180 dias para apreciação dos referidos decretos pelo Congresso Nacional, razão pela qual eles teriam tido a sua vigência interrompida. Com base nesta decisão, foi reconhecida a existência de créditos de PIS decorrentes de pagamentos a maior entre junho/1988 a fevereiro/1992, ajustados pela correção monetária conforme o quanto segue: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da data da decisão. 3.2. Acórdão do TRF (remessa oficial): 15/02/1995 O acórdão proferido pela Terceira Turma do TRF3 (fls. 67 a 126) (doc. 4) manteve a decisão de 1º grau, asseverando que os juros de mora aplicáveis a partir da decisão de primeira instância devem ser de 1% ao mês. A sentença não havia mencionado a taxa de juros aplicável ao caso. Desse modo, os créditos de PIS seriam atualizados da seguinte forma: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da decisão de 1% ao mês. Fl. 1017DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO Processo nº 13819.003080/9897 Acórdão n.º 9303003.830 CSRFT3 Fl. 1.015 5 Esta decisão transitou em julgado em 08/11/1995, conforme certidão à fl. 128. Embargos à Execução nº 96.00324204 3.3. Sentença: 19/05/2003 Somente em 2003 a 1ª Vara Cível da Justiça Federal proferiu sentença de julgamento dos embargos à execução (fls. 195 a 198) (doc. 5) para confirmar o valor dos honorários advocatícios calculados pela Contadoria Judicial nas fls. 153 a 170 (doc. 6). Referido cálculo adotou as seguintes premissas: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da decisão de 1% ao mês. 3.4. Acórdão TRF: 27/04/2005 Em fase de apelação, a Terceira Turma do TRF3 proferiu acórdão (fls. 245 a 247) (doc. 7) alterando as premissas do cálculo de atualização dos créditos de PIS, ajustando o percentual do expurgo de janeiro/1989 para 42,72% e substituindo a correção dos créditos pelo IPCA(E), passando a aplicar a UFIR. Transitada em julgado em 14/11/2005 (fl. 250), esta decisão fixou o cálculo conforme o quanto segue: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE e UFIR; substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 42,72%; substituição do IPCA (E) para atualização do crédito pela UFIR mais 1% ao mês a título de juros de mora, aplicados até outubro/2000; e de novembro/2000 em diante, aplicação da Selic apenas. (...) 4. Razões para o acolhimento dos embargos de declaração 4.1. Preclusão processual da revisão dos índices de atualização monetária Conforme estatuído no Regimento Interno do CARF vigente e no anterior, cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciarse a turma. Não constituem os embargos de declaração meio competente para avaliar questão de mérito, exceto quanto a matéria de ordem pública, conforme a jurisprudência desta CSRF: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 28/02/1999 a 28/02/2003 Embargos de Declaração Enfrentamento de matéria não devolvida ao Colegiado. Fl. 1018DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO 6 Improcedência À exceção das matérias de ordem pública, não é lícito ao órgão julgador de instâncias revisoras ou especial manifestarse sobre matéria não devolvidas ao Colegiado, quer por não terem sido objeto de prequestionamento, quer por não terem sido trazidas pelas partes. Na ausência de devolutividade de determinada matéria, não há como imputar ao Colegiado o vício de procedimento consiste na omissão de ponto sobre o qual deveria haverse pronunciado. Embargos improvidos. (Acórdão nº 9309002.298 – original sem destaques) A renúncia à instância administrativa é questão prejudicial de mérito que deve ser analisada na fase processual competente, uma vez que referida apreciação não se basta em identificar a existência de ação judicial ajuizada pelo contribuinte contra o Fisco. Com efeito, uma vez que a eventual concomitância pode ser total ou somente parcial, cabe ao julgador administrativo analisar de forma cuidadosa os limites da discussão judicial, a fim de evitar o cerceamento do direito de defesa no âmbito administrativo (Acórdão 107117.706). No caso em tela, a suposta concomitância entre as instâncias administrativa e judicial não foi apontada por quaisquer das partes, e nem mesmo pelo julgador administrativo. Com efeito, na decisão embargada, esta CSRF se debruçou sobre o direito da embargante de ter os seus créditos de PIS atualizados com a inclusão dos expurgos inflacionários, sem que eventual concomitância impusesse qualquer obstáculo a este pleito. Tendo em vista que os presentes Embargos não podem ser utilizados como expediente para dar início a uma nova discussão de mérito, concluise que a discussão sobre a eventual renúncia à instância administrativa foi alcançada pela preclusão consumativa. (...) 4.4. Princípio da não surpresa A renúncia à instância administrativa é questão que foi levantada pela primeira vez na seção de julgamento dos presentes Embargos, sem a abertura de prazo para a Embargante nem a Fazenda se manifestarem sobre essa matéria. Nos termos do artigo 10 do Novo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), o julgador não pode decidir, em qualquer grau de jurisdição, com base em fundamento sobre o qual as partes não puderam se manifestar: Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício. O artigo acima transcrito aplicase ao processo administrativo fiscal federal, por força do artigo 15 do Novo CPC. Destarte, esta CSRF não deve negar provimento aos presentes embargos com fundamento na existência de ação judicial discutindo a correção monetária dos créditos de PIS, em Fl. 1019DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO Processo nº 13819.003080/9897 Acórdão n.º 9303003.830 CSRFT3 Fl. 1.016 7 observância ao princípio da “não surpresa”, consubstanciado no artigo 10 no Novo CPC, reproduzido acima. (...) 4.5. Subsidiariamente: aplicação dos índices transitados em julgado. Somente caso não se admitam os argumentos acima, o reconhecimento da renúncia à instância administrativa quanto à atualização monetária dos créditos de PIS deve ter como consequência a sua atualização nos exatos termos decididos na decisão proferida pelo TRF3 transitada em julgado na ação de repetição de indébito (fls. 67 a 126) (doc. 4), que fixou o cálculo da atualização conforme o quanto segue: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da decisão de 1% ao mês. Dessa feita, ainda que se conclua ter havido concomitância entre a esfera administrativa e judicial, é medida cabível e recomendável que o acórdão dos presentes embargos reproduzam os índices acima, a fim de que não surjam novas dúvidas na unidade de origem, e não se perpetue o presente processo (que já dura quase 20 anos), inclusive com o manejo de novos embargos de declaração. (...) É o relatório. Voto Conselheira Maria Teresa Martínez López Tratase de análise de embargos de declaração interpostos tempestivamente pelo contribuinte. DOS FATOS Estabelece o artigo 65 do RICARF: “Art. 65. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma." Fl. 1020DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO 8 Consta dos autos que: 1. O presente processo decorre de auto de infração lavrado em 26 de novembro de 1998 com base na insuficiência de recolhimento da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS nos períodos de apuração de abril de 1992 a novembro de 1993, dezembro de 1993 a agosto de 1994, maio de 1995 a outubro de 1996 e janeiro, abril, julho e dezembro de 1997. 2. Os débitos em questão foram quitados pela Recorrente mediante compensação com créditos seus de FINSOCIAL e de PIS, decorrentes estes últimos de recolhimento a maior realizado nos períodos de apuração de julho de 1998 a dezembro de 1994, feitos com base nos DecretosLei n° 2.445188 e 2.449188, posteriormente declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal — STF e retirados do ordenamento jurídico através de Resolução do Senado Federal. 3. Ocorre que a d. fiscalização e, posteriormente, os julgadores de primeira instância não reconheceram integralmente esses créditos da Recorrente, por terem calculado erroneamente o PIS que foi recolhido a maior, considerando não o faturamento do sexto mês anterior, como era correto, e sim o faturamento do mês anterior ao de recolhimento. Além disso, não foi atribuída aos créditos em questão a correção monetária integral devida, com inclusão dos expurgos inflacionários havidos no período. 4. Na apreciação do Recurso Voluntário interposto contra a decisão administrativa de primeira instância que manteve integralmente o lançamento, a E. Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes houve por bem reconhecer a decadência de parte dos débitos lançados, bem como a exatidão do critério da Recorrente quanto ao cálculo do PIS com base no faturamento do sexto mês anterior ao recolhimento, com conseqüente apuração de crédito de PIS em relação aos períodos acima mencionados. Todavia, os Ilustres Conselheiros entenderam ser incabível considerar, na correção monetária dos créditos da Recorrente, os expurgos inflacionários havidos naquele período. O Contribuinte e a Fazenda Nacional, dessa decisão, apresentaram recurso especial. Ambos os recursos foram providos. A ementa possui a seguinte redação: COFINS DECADÊNCIA O prazo para a Fazenda Nacional lançar o crédito pertinente à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS é de dez anos, contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito tributário poderia ser constituído pelo lançamento. CORREÇÃO MONETÁRIA — RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO — PRINCÍPIO DA MORALIDADE CONSTITUIÇÃO FEDERAL, ARTIGO 37 EXPURGOS INFLACIONÁRIOS STJ IPC PRECEDENTES A correção de indébito há de ser plena, mediante a aplicação Fl. 1021DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO Processo nº 13819.003080/9897 Acórdão n.º 9303003.830 CSRFT3 Fl. 1.017 9 dos índices representativos da real perda de valor da moeda, não se admitindo a adoção de índices inferiores expurgados, sob pena de afronta ao princípio da moralidade administrativa e de se permitir enriquecimento ilícito do Estado. Recursos especiais providos. Suscita a Embargante que o Relator designado para redigir o Voto Vencedor assentou: "Dou provimento ao recurso do contribuinte quanto aos índices de atualização monetária, na restituição e compensação de indébito tributário referente ao FINSOCIAL, conforme norma de Execução Conjunta SRF/COSIT/COSAR n° 08, de 27/06/97, acrescido dos seguintes percentuais (...). " Alega a Embargante em momento seguinte, a não manifestação do tema frente ao PIS, existindo uma inexatidão material, erro que conduz a omissão no julgado ou até mesmo contradição diante do próprio teor do voto vencedor. Do exame do recurso especial do sujeito passivo, fls. 617/628, verificase que o contribuinte questionou a correção monetária integral, tanto para os créditos (indébitos) do Finsocial quanto do PIS. Contudo, o acórdão embargado manifestouse somente sobre os indébitos do Finsocial gerando a apresentação dos embargos. Estabelece o artigo 65 do RICARF: “Art. 65. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma." Diante dos fatos, conheço do recurso, diante da omissão verificada. Uma vez conhecidos os embargos passo ao seu exame. CORREÇÃO MONETÁRIA; Ressaltese que, embora a embargante tenha suscitada a correção monetária dos indébitos do PIS, em seu recurso especial, verificase que a repetição de tais indébitos lhe foi reconhecida na esfera judicial (vide PROCESSO nº 207740 REGISTRO Nº 94.03.0809701 TRF) cuja decisão transitada em julgado determinou de forma expressa os índices de correção monetária e taxa de juros compensatórios a serem aplicados para apuração do montante a ser repetido/compensado (fls. 211 e 216). Nesse sentido, o próprio contribuinte traz a seguinte informação em memorial aditivo: A fim de elucidar essa questão, a embargante apresenta abaixo o histórico das decisões proferidas na Ação de Repetição de Indébito nº 92.00704387 (Doc. 1), e correlatos Embargos à Execução nº 96.00324204 (Doc. 2), processos judiciais transitados em julgado que tratam do reconhecimento dos créditos de PIS da embargante. Ação de Repetição de Indébito nº 92.00704387 3.1. Sentença: 20/06/1994 Fl. 1022DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO 10 Na sentença de primeiro grau da ação de conhecimento (fls. 55 a 60) (doc. 3), decidiuse pela inconstitucionalidade dos Decretos Leis nº 2.445 e 2.449, ambos de 1988, pois não configurariam meio hábil para modificar matéria restrita a lei complementar. Também foi reconhecido o decurso do prazo de 180 dias para apreciação dos referidos decretos pelo Congresso Nacional, razão pela qual eles teriam tido a sua vigência interrompida. Com base nesta decisão, foi reconhecida a existência de créditos de PIS decorrentes de pagamentos a maior entre junho/1988 a fevereiro/1992, ajustados pela correção monetária conforme o quanto segue: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da data da decisão. 3.2. Acórdão do TRF (remessa oficial): 15/02/1995 O acórdão proferido pela Terceira Turma do TRF3 (fls. 67 a 126) (doc. 4) manteve a decisão de 1º grau, asseverando que os juros de mora aplicáveis a partir da decisão de primeira instância devem ser de 1% ao mês. A sentença não havia mencionado a taxa de juros aplicável ao caso. Desse modo, os créditos de PIS seriam atualizados da seguinte forma: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da decisão de 1% ao mês. Esta decisão transitou em julgado em 08/11/1995, conforme certidão à fl. 128. Embargos à Execução nº 96.00324204 3.3. Sentença: 19/05/2003 Somente em 2003 a 1ª Vara Cível da Justiça Federal proferiu sentença de julgamento dos embargos à execução (fls. 195 a 198) (doc. 5) para confirmar o valor dos honorários advocatícios calculados pela Contadoria Judicial nas fls. 153 a 170 (doc. 6). Referido cálculo adotou as seguintes premissas: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE, UFIR e IPCA(E); substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 70,28%; e juros de mora a partir da decisão de 1% ao mês. 3.4. Acórdão TRF: 27/04/2005 Em fase de apelação, a Terceira Turma do TRF3 proferiu acórdão (fls. 245 a 247) (doc. 7) alterando as premissas do cálculo de atualização dos créditos de PIS, ajustando o percentual do expurgo de janeiro/1989 para 42,72% e substituindo a correção dos créditos pelo IPCA(E), passando a Fl. 1023DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO Processo nº 13819.003080/9897 Acórdão n.º 9303003.830 CSRFT3 Fl. 1.018 11 aplicar a UFIR. Transitada em julgado em 14/11/2005 (fl. 250), esta decisão fixou o cálculo conforme o quanto segue: correção monetária pelo BTN, INPCIBGE e UFIR; substituição do BTN de janeiro/1989 pelo IPC de 42,72%; substituição do IPCA (E) para atualização do crédito pela UFIR mais 1% ao mês a título de juros de mora, aplicados até outubro/2000; e de novembro/2000 em diante, aplicação da Selic apenas. A eleição da via judicial anterior ou posterior ao procedimento fiscal importa renúncia à esfera administrativa, uma vez que o ordenamento jurídico brasileiro adota o princípio da jurisdição una, estabelecido no artigo 5º, inciso XXXV, da Carta Política de 1988. Inexiste dispositivo legal que permita a discussão paralela da mesma matéria em instâncias diversas, sejam elas administrativas ou judiciais ou uma de cada natureza. Nesse sentido, comprova o Parecer da Procuradoria da Fazenda Nacional publicado no DOU de 10/07/1978, pág. 16.431, e cujas conclusões são as seguintes: “32.Todavia, nenhum dispositivo legal ou princípio processual permite a discussão paralela da mesma matéria em instâncias diversas, sejam administrativas ou judiciais ou uma de cada natureza. 33. Outrossim, pela sistemática constitucional, o ato administrativo está sujeito ao controle do Poder Judiciário, sendo este último, em relação ao primeiro, instância superior ou autônoma . SUPERIOR, porque pode rever, para cassar ou anular, o ato administrativo; AUTÔNOMA, porque a parte não está obrigada a percorrer as instâncias administrativas, para ingressar em juízo. Pode fazêlo diretamente. 34. Assim sendo, a opção pela via judicial importa em princípio, em renúncia às instâncias administrativas ou desistência de recurso acaso formulado. 35. Somente quando a pretensão judicial tem por objeto o próprio processo administrativo (v.g. a obrigação de decidir de autoridade administrativa; a inadmissão de recurso administrativo válido, dado por intempestivo ou incabível por falta de garantia ou outra razão análoga) é que não ocorre renúncia à instância administrativa, pois aí o objeto do pedido judicial é o próprio rito do processo administrativo. 36. Inadmissível, porém, por ser ilógica e injurídica, é a existência paralela de duas iniciativas, dois procedimentos, com idêntico objeto e para o mesmo fim.” (Grifos originais) Nesse sentido, foi editada a Súmula CARF nº 1, cujo teor a seguir reproduzo: Importa renuncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade Fl. 1024DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO 12 processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Portanto, matéria discutida no âmbito do Poder Judiciário (atualização monetária), não cabe sua apreciação na via administrativa. Recurso do contribuinte negado quanto à matéria submetida ao poder judiciário. Decadência Súmula ato superveniente: Em sede de embargos, pede a contribuinte a aplicação da Súmula vinculante nº 8 do Supremo Tribunal Federal, de forma a afastar o prazo de 10 anos inicialmente previsto na Lei nº 8.212/91, resultante do provimento ao recurso da Fazenda. 1 Oportuno observar que a Súmula vinculante nº 8 do Supremo Tribunal Federal (12/06/2008) de forma a afastar o prazo de 10 anos inicialmente previsto na Lei nº 8.212/91, veio muito após o julgamento do recurso interposto pela Fazenda Nacional. Desta forma, a decisão embargada (Ac. CSRF/0202.018, de 5 de julho de 20052 ) não padece de vício a ser sanado por este E. Tribunal. No entanto, nada impede que em havendo Súmula, de obrigatoriedade do órgão executor, e sendo a decadência matéria de ordem pública, seja esta reconhecida na execução do acórdão, de forma a ser aplicado o art. 150, parágrafo 4º do CTN e repetitivo do STJ 3, combinado com o art. 62 do Regimento do CARF. 4 Diante do acima exposto, a ementa da decisão embargada passa a ter a seguinte redação: COFINS DECADÊNCIA O prazo para a Fazenda Nacional lançar o crédito pertinente à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS é de dez anos, contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito tributário poderia ser constituído pelo lançamento. (Recurso da Fazenda) PIS CORREÇÃO MONETÁRIA Importa renuncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a 1 O presente processo decorre de auto de infração lavrado e ciência em 26 de novembro de 1998 com base na insuficiência de recolhimento da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS nos períodos de apuração de abril de 1992 a novembro de 1993, dezembro de 1993 a agosto de 1994, maio de 1995 a outubro de 1996 e janeiro, abril, julho e dezembro de 1997. em razão de a autuada haver realizado deduções não permitidas na apuração de base de cálculo, bem como haver compensado créditos indevidos de FINSOCIAL e de PIS. 2 Ementa: COFINS — DECADÊNCIA — O prazo para a Fazenda Nacional lançar o crédito pertinente à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social — COFINS é de dez anos, contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito tributário poderia ser constituído pelo lançamento. 3 REsp 973733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009 4 Conforme Termo de Verificações Fiscais: "(...) insuficiências constatadas nos períodos de apuração de abril/92 a novembro/93, houve também insuficiência de recolhimento da COFINS nos períodos de dezembro/93 a agosto/94 e de maio/95 a outubro/96, além dos períodos de janeiro, abril, julho e dezembro de 1997". Fl. 1025DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO Processo nº 13819.003080/9897 Acórdão n.º 9303003.830 CSRFT3 Fl. 1.019 13 apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Súmula CARF nº 1. FINSOCIAL CORREÇÃO MONETÁRIA RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO PRINCÍPIO DA MORALIDADE CONSTITUIÇÃO FEDERAL, ARTIGO 37 EXPURGOS INFLACIONÁRIOS STJ IPC PRECEDENTES A correção de indébito há de ser plena, mediante a aplicação dos índices representativos da real perda de valor da moeda, não se admitindo a adoção de índices inferiores expurgados, sob pena de afronta ao princípio da moralidade administrativa e de se permitir enriquecimento ilícito do Estado. Recurso especial da Fazenda provido e o do contribuinte parcialmente provido. CONCLUSÃO Embargos acolhidos para rerratificar o Ac. CSRF/0202.018, de forma a que o resultado final passe a ser o seguinte: Recurso especial da Fazenda Recurso da Fazenda provido (decadência). Recurso especial do Contribuinte: Recurso parcialmente provido apenas em relação à correção dos créditos do FINSOCIAL. É como voto Maria Teresa Martínez López Fl. 1026DF CARF MF Impresso em 13/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 30/ 05/2016 por MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, Assinado digitalmente em 07/06/2016 por CARLOS ALBERTO FREI TAS BARRETO
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Numero do processo: 10920.721671/2014-93
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 05 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Jul 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO
O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre. (STJ - Primeira Seção de Julgamento, Resp 973.733/SC, Relator Ministro Luiz Fux, julgado em 12/08/2009, DJ 18/09/2009).
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Descabe a argüição de nulidade da decisão de primeira instância quando demonstrado nos autos que o acórdão recorrido abordou todas as razões de defesa, ainda que de forma objetiva.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010
LUCRO ARBITRADO. CABIMENTO.
Conforme previsão expressa em lei, a apuração do lucro deve ser feita na sistemática do arbitramento quando não são apresentados os elementos da escrituração comercial e fiscal.
Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Ano-calendário: 2009, 2010
PIS/COFINS. LUCRO ARBITRADO. REGIME CUMULATIVO.
Conforme previsto no inciso I, do art. 8º, da Lei nº 10.637/2003 e no inciso II, do art. 10, da Lei nº 10.833/2003 as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro arbitrado são contribuintes do PIS e da Cofins no regime cumulativo.
PIS.COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO.
Por se tratar de imposto próprio, que não comporta a transferência do encargo, a parcela relativa ao ICMS inclui-se na base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS. Precedentes do STJ (Súmulas n°s 68 e 94). Às autoridades administrativas e tribunais - que não dispõem de função legislativa - não podem conceder, ainda que sob fundamento de isonomia, benefícios de exclusão da base de cálculo do crédito tributário em favor daqueles a quem o legislador não contemplou com a vantagem.A mesma conclusão se estende à Contribuição ao PIS.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 1402-002.226
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância e a argüição de decadência e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
LEONARDO DE ANDRADE COUTO Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto.
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2009, 2010, 2011 DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre. (STJ - Primeira Seção de Julgamento, Resp 973.733/SC, Relator Ministro Luiz Fux, julgado em 12/08/2009, DJ 18/09/2009). Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009, 2010, 2011 DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Descabe a argüição de nulidade da decisão de primeira instância quando demonstrado nos autos que o acórdão recorrido abordou todas as razões de defesa, ainda que de forma objetiva. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010 LUCRO ARBITRADO. CABIMENTO. Conforme previsão expressa em lei, a apuração do lucro deve ser feita na sistemática do arbitramento quando não são apresentados os elementos da escrituração comercial e fiscal. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Ano-calendário: 2009, 2010 PIS/COFINS. LUCRO ARBITRADO. REGIME CUMULATIVO. Conforme previsto no inciso I, do art. 8º, da Lei nº 10.637/2003 e no inciso II, do art. 10, da Lei nº 10.833/2003 as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro arbitrado são contribuintes do PIS e da Cofins no regime cumulativo. PIS.COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO. Por se tratar de imposto próprio, que não comporta a transferência do encargo, a parcela relativa ao ICMS inclui-se na base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS. Precedentes do STJ (Súmulas n°s 68 e 94). Às autoridades administrativas e tribunais - que não dispõem de função legislativa - não podem conceder, ainda que sob fundamento de isonomia, benefícios de exclusão da base de cálculo do crédito tributário em favor daqueles a quem o legislador não contemplou com a vantagem.A mesma conclusão se estende à Contribuição ao PIS. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2009, 2010, 2011 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009, 2010, 2011 DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre. (STJ Primeira Seção de Julgamento, Resp 973.733/SC, Relator Ministro Luiz Fux, julgado em 12/08/2009, DJ 18/09/2009). ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010, 2011 DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Descabe a argüição de nulidade da decisão de primeira instância quando demonstrado nos autos que o acórdão recorrido abordou todas as razões de defesa, ainda que de forma objetiva. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 LUCRO ARBITRADO. CABIMENTO. Conforme previsão expressa em lei, a apuração do lucro deve ser feita na sistemática do arbitramento quando não são apresentados os elementos da escrituração comercial e fiscal. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Anocalendário: 2009, 2010 PIS/COFINS. LUCRO ARBITRADO. REGIME CUMULATIVO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 0. 72 16 71 /2 01 4- 93 Fl. 1135DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 2 Conforme previsto no inciso I, do art. 8º, da Lei nº 10.637/2003 e no inciso II, do art. 10, da Lei nº 10.833/2003 as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro arbitrado são contribuintes do PIS e da Cofins no regime cumulativo. PIS.COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO. Por se tratar de imposto próprio, que não comporta a transferência do encargo, a parcela relativa ao ICMS incluise na base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS. Precedentes do STJ (Súmulas n°s 68 e 94). Às autoridades administrativas e tribunais que não dispõem de função legislativa não podem conceder, ainda que sob fundamento de isonomia, benefícios de exclusão da base de cálculo do crédito tributário em favor daqueles a quem o legislador não contemplou com a vantagem.A mesma conclusão se estende à Contribuição ao PIS. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2009, 2010, 2011 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância e a argüição de decadência e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. LEONARDO DE ANDRADE COUTO – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto. Fl. 1136DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10920.721671/201493 Acórdão n.º 1402002.226 S1C4T2 Fl. 1.136 3 Relatório Por bem resumir a controvérsia, adoto o relatório da decisão recorrida que abaixo transcrevo: A abertura da Fiscalização foi motivada por relatório elaborado pela Equipe de Acompanhamento dos Maiores Contribuintes da DRF Joinville apontando possíveis irregularidades tributárias praticadas pelo contribuinte acima identificado. A Distribuidora de Alimentos Sardagna Ltda., CNPJ 00.056.685/000198, tributou o lucro das operações realizadas nos anoscalendário 2009 a 2011, exercícios 2010 a 2012, no regime do lucro real. O período fiscalizado é o dos anos calendários de 2009 a 2011 e os tributos verificados são IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. O termo de início data de 15 de outubro de 2013, onde foi iniciado o Procedimento Fiscal na empresa, e a contribuinte foi intimada a apresentar: 1 Cópia do estatuto social e suas alterações nos últimos cinco anos, que identifiquem os responsáveis pela Cooperativa; 2 Apresentação dos Balancetes Mensais referentes aos anos calendários 2009 a 2010; 3 Informar se a empresa é parte em ação judicial em face da União para eximirse ou reduzir o pagamento de tributos federais. Em caso positivo, apresentar os principais documentos pertinentes ao feito, tais como petição inicial, decisões proferidas, depósitos judiciais Em 22 de outubro de 2013, a contribuinte entregou os documentos e balancetes solicitados relativos ao ano calendário de 2010, alega não ser possível entregar os balancetes referentes ao ano calendário de 2009, devido ao incêndio ocorrido em fevereiro de 2010 e informa não ser parte em Ação judicial para se eximir ou reduzir o pagamento de tributos federais. Em 04 de novembro de 2013, a contribuinte solicitou prorrogação de prazo para entrega dos arquivos em meio magnético referente ao ano calendário de 2010. Na mesma data, reafirmou a sua impossibilidade de entregar balancetes ou arquivos referentes ao ano calendário de 2009 e entregou documentos e reportagens comprovando o incêndio ocorrido em fevereiro de 2010. Em 04 de dezembro de 2013, a contribuinte entregou os arquivos magnéticos referentes ao anocalendário de 2010, bem como reafirmou a impossibilidade de apresentação dos dados referentes ao anocalendário de 2009. Considerando que a contribuinte entregou as DACON Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais, relativas a apuração do PIS e COFINS "zeradas" ou deixou de entregálas. nos anos calendários de 2010 e 2011, a fiscalização intimou a empresa em 12 de novembro de 2013 a apresentar as referidas DACONs com as planilhas de apuração preenchidas. Na mesma Intimação a contribuinte foi cientificada da conversão do Procedimento Fiscal em Fiscalização e ampliação do prazo do mesmo para incluir o anocalendário de 2011: Fl. 1137DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 4 1 Apresentar as DACON Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais, referentes aos anoscalendário de 2010 e 2011, com as planilhas de apuração preenchidas com os valores apurados. 2 Apresentação dos Balancetes Mensais referentes ao anocalendário 2011. Em 17 de dezembro de 2013, a contribuinte entregou copias das Dacons já entregues (zeradas) e solicitou novo prazo para entrega das planilhas de apuração preenchidas. Na mesma data entregou os balancetes mensais referentes ao ano calendário de 2011. Em 14 de janeiro de 2014 a contribuinte entregou as planilhas de apuração com valores referentes aos anoscalendário de 2010 (a partir de fevereiro) e 2011. Em 14 de março de 2014 a contribuinte foi intimada a apresentar memória de calculo dos dados que deram origem aos valores calculados pelo contribuinte como Base de calculo de créditos da Planilha entregue em 14 de janeiro de 2014, assim como complementar a planilha com os dados referentes a Janeiro de 2010. Em 27 de março de 2014, a contribuinte apresentou a memória de cálculo contendo CFOPs das notas fiscais que deram origem aos valores calculados como base de cálculo de créditos na planilha entregue. Com relação ao item 02 da intimação (Apuração do PIS e COFINS devido em janeiro de 2010) nada informa e se compromete a complementar a resposta. Em 01 de abril de 2014, em mensagem eletrônica o representante da empresa informou: "Cfe combinado segue posicionamento quanto ao item "2" da MPF 09.2.02.002013 008478 de 14/03/14, a empresa não apresentou arquivos fiscais de Janeiro/2010 que comprovasse movimentos na escrita fiscal para fins de levantamento de memória de calculo para apuração de Pis e Cofins, baseado no BO de incêndio ocorrido nas dependências da empresa". Em 05 de maio de 2014, a contribuinte é intimada a apresentar os LALURs referentes aos anoscalendário de 2009 a 2011 e a explicar valor constante de sua DIPJ referente ao ano calendário de 2011. Em 19 de maio de 2014, a contribuinte entregou os Livros de apuração do Lucro Real LALURs referentes aos anos calendários de 2010 e 2011, informou não ser possível a entrega do Livro referente ao anocalendário de 2009, em função do incêndio ocorrido em fevereiro de 2010 e retifica a informação constante na DIPJ do anocalendário de 2010 Demonstração do Lucro RealPJ em Geral na Linha 02 Ajuste do Regime Tributário de TransiçãoRTT que deixa de ser o valor de 20.378.094,98 para passar a ser zero. A fiscalização informou que Distribuidora de Alimentos Sardagna Ltda., CNPJ 00.056.685/000198, não efetuou qualquer pagamento referente aos tributos em Fiscalização no anocalendário de 2009. A DIPJ 2010, anocalendário 2009, foi entregue zerada. DO ARBITRAMENTO Para o anocalendário de 2009, e o primeiro trimestre de 2010, a fiscalização baseado no art. 530, inciso III do RIR/99, procedeu o arbitramento, pois, a fiscalizada não apresentara livros e documentos. Por decorrência, a base de cálculo do PIS e da Cofins foram apuradas pelo regime de incidências cumulativa. INFRAÇÕES APURADAS Fl. 1138DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10920.721671/201493 Acórdão n.º 1402002.226 S1C4T2 Fl. 1.137 5 Anocalendário de 2009: No anocalendário de 2009, a contribuinte entregou a DIPJ zerada; não possui o Livro Registro de Apuração do Lucro Real LALUR; Não efetuou nenhum pagamento referente aos tributos em Fiscalização; Não possui nenhum documento Fiscal; Não possui nenhum Livro Fiscal. Intimada, respondeu por diversas vezes, não ser capaz de apresentar a escrituração contábil/fiscal. A Receita Bruta da empresa foi apurada através dos dados informados pela contribuinte a Secretaria da Fazenda do Estado de SC e obtidos através de convênio. Os dados informados foram retirados da Declaração de ICMS e Movimento Econômico DIME, anexadas ao processo. O percentual de arbitramento utilizado foi o de 9,6% sobre a Receita Bruta conhecida. A contribuinte entregou DCTF com valores declarados de PIS e Cofins no período.Tais valores foram considerados pela fiscalização e deduzidos daqueles calculados sob o regime de apuração cumulativa, conforme demonstrado no Auto de Infração. Anocalendário de 2010: No anocalendário de 2010, a contribuinte entregou a DIPJ, apurando Lucro anual; Apresentou LALUR, apurando Prejuízo anual; não efetuou nenhum pagamento referente aos tributos em Fiscalização; não possui nenhum documento Fiscal relativo ao mês de Janeiro; não possui nenhum Livro Fiscal com dados referentes ao mês de janeiro. Intimada, respondeu não ser capaz de apresentar a escrituração contábil/fiscal do mês de janeiro. A Receita Bruta da empresa foi apurada através dos dados informados pela contribuinte a Secretaria da Fazenda do Estado de SC e obtidos através de convênio. Os dados informados foram retirados da Declaração de ICMS e Movimento Econômico DIME, anexadas ao processo. O percentual de arbitramento utilizado foi o de 9,6% sobre a Receita Bruta conhecida. Conforme já adiantado em relação ao PIS e COFINS no primeiro trimestre passa necessariamente a ser efetuada pelo regime de incidência cumulativa. No período de abril a dezembro, de acordo com a escrituração contábil apresentada, a fiscalização não apurou Lucro a ser tributado. Com relação ao PIS e COFINS, no período de abril a dezembro, o contribuinte apresentou planilhas de calculo com os valores devidos que estão sendo cobrados através de infração própria no Auto de Infração. Anocalendário de 2011 No anocalendário de 2011, a contribuinte: Entregou a DIPJ apurando Prejuízo anual; apresentou LALUR, apurando Prejuízo anual contábil de R$ 193.748,35 e Prejuízo anual Real de R$ R$ 65.300,79; não efetuou nenhum pagamento referente aos tributos em Fiscalização; Com base na escrituração contábil digital entregue pela contribuinte a fiscalização apurou o resultado anual da empresa, conforme TVF. Fl. 1139DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 6 Assim, consta no Auto a Infração, a infração referente ao Lucro Real recalculado com a adição das despesas não dedutíveis e o seu consequente reflexo na apuração do IRPJ e CSLL. Com relação ao PIS e COFINS, a contribuinte apresentou planilhas de calculo com os valores devidos que estão sendo cobrados através de infração própria no Auto de Infração. A contribuinte apresentou suas razões (resumo): DA DECADÊNCIA A impugnante alega que estaria decaído o PIS/Cofins de 02/2009 a 06/2009 (notificação em 16/06/2014), pois, nos demonstrativos anexos aos autos de infração no campo “contribuição devida”, indicam expressamente a existência de deduções relativas aos meses de competência de 02/2009 a 06/2009. Assim, a decadência se daria pelo art. 150, § 4º, do CTN. Também alega, que a retenção na fonte se equipara ao pagamento para efeitos da decadência. DO ARBITRAMENTO Alega que em relação a 2009 ficou impossibilitada de fornecer informações à fiscalização devido ao incêndio ocorrido. Também alega que achou que a fiscalização se sensibilizaria com sua situação, e concluiria que a empresa era deficitária. Questiona o percentual do arbitramento (confisco), e tece comentários sobre o conceito de renda do art. 43 do CTN. Alega que o arbitramento tem fundamento no art. 148 do CTN. Que ela deveria ter sido avisada do arbitramento, assim, ela escolheria o lucro real. Demonstra despesas possíveis de abater se tivesse optado pelo lucro real. Quanto ao ano de 2010, a empresa conta com escrita regular para o período de fevereiro a dezembro, que apontou um prejuízo de R$ 5.313.160, 08. Sendo certo o prejuízo com a inclusão de janeiro de 2010. Ainda quanto ao arbitramento para o 1º trimestre de 2010, não há como ser mantido, pois, a falta de documentação foi apenas em relação a janeiro. PIS/COFINS CUMULATIVOS – VENDAS DE PRODUTOS MONOFÁSICOS – EXCLUSÃO Alega que em razão das DACONs (ficha 07 Aitem 5) a empresa comercializa bebidas frias sujeitas à tributação monofásica do PIS/COFINS, na forma do art. 58 A e 58 V da Lei nº 10.833/03. Assim, alega que nem todas as receitas informadas em DIME podem ser tributadas por essas contribuições. Em acréscimo, a contribuinte acosta aos autos relatórios indicando saídas não oneradas por PIS/Cofins no período de 2010 a 2013, Doc. 05. PIS/COFINS NÃOCUMULATIVOS Alega que quanto ao PIS/Cofins de 01/2009 a 03/2010 teria direito à sistemática nãocumulativa, pois, teria feito a opção na DIPJ pelo lucro real. Alega que quanto ao PIS/Cofins de 04/2010 a 12/2011, teria direito a amplo crédito. O rol de créditos contidos nas Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03, art. 3, seria Fl. 1140DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10920.721671/201493 Acórdão n.º 1402002.226 S1C4T2 Fl. 1.138 7 meramente exemplificativo. Indica outras despesas como alimentação, cursos manutenção de veículos etc. Todos os itens que integram o custo deveriam geram deduções para o PIS/Cofins. Alega que em uma outra linha de raciocínio, para se manter a não cumulatividade deve se outorgar créditos sobre todas as mercadorias, insumos custos e demais despesas incorridas ou pagas que se mostrem necessárias à obtenção dos recursos tributáveis. EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO Alega que para o PIS/Cofins de todo o período deve ser procedida a exclusão do ICMS da base de cálculo. O ICMS não constitui receita própria, mas sim do Estado. Anexa opiniões doutrinárias. Alega que quanto ao IRPJ e CSLL arbitrados, estes devem também ter excluídos de sua base de cálculo o ICMS. JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Alega o não cabimento. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília prolatou o Acórdão 0368.299 negando provimento à impugnação apresentada. Devidamente cientificada, a interessada recorre a esta Corte ratificando as razões expedidas na peça impugnatória. Acrescenta preliminar de nulidade da decisão de primeira instancia. É o relatório. Fl. 1141DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 8 Voto Conselheiro Leonardo de Andrade Couto O recurso é tempestivo e foi interposto por signatário devidamente legitimado, motivo pelo qual dele conheço. Em preliminar, a interessada suscita a nulidade da decisão recorrida que, alega, teria sido lacônica em relação a diversos argumentos apresentados na defesa e, no que se refere à solicitação para que as contribuições ao PIS/Cofins fossem exigidas pela sistemática não cumulativa no período de 01/2009 a 03/2010 , sequer se manifestou. Acrescenta ainda que, quanto às hipóteses de creditamento, a decisão é nula por estar desprovida de fundamentação clara e específica. O fato da decisão ser lacônica é uma característica do relator e não pode de per si dar azo à argüição de nulidade. Quanto às hipóteses de creditamento o acórdão pronunciouse pela ausência de previsão legal que atendesse às razões de defesa. Em relação ao pleito para apuração do PIS e da Cofins pela sistemática não cumulativa entre 01/2009 e 03/2010 a matéria foi sim enfrentada pela decisão hostilizada: [...] Quanto ao PIS/Cofins cumulativos lançados, estes o foram de acordo com a legislação (art. 8º, II da Lei nº 10.637/02 e art. 10, II da Lei nº 10.833/03) apurados na forma cumulativa devido ao arbitramento (01/2009 a 03/2010). [...] Rejeitase, portanto, a argüição de nulidade. Quanto à decadência, a interessada não questiona a aplicação da regra definida pelo inciso I, do art, 173, do CTN, aos casos em que não é realizado pagamento, simplesmente alega que o pagamento foi realizado no que se refere ao PIS e à Cofins para os fatos geradores ocorridos entre 02/2009 e 06/2009, pagamentos esses que teriam sido deduzidos pelo Fisco na apuração da exigência. Na verdade, a Fiscalização deduziu valores que estavam lançados em DCTF pois a princípio não se justificaria a cobrança desses valores com multa de ofício. Entretanto, a autoridade lançadora deixou claro que não houve qualquer pagamento. Correta, portanto, a contagem do prazo sob a égide do inciso I, do art. 173, do CTN, implicando na inocorrência da caducidade. Em relação à apuração do resultado por arbitramento no anocalendário de 2009 e no 1º trimestre de 2010 as alegações do sujeito passivo são totalmente infundadas. De imediato , registrese que não há que se falar em surpresa ou ausência de advertência prévia na adoção do procedimento. O Termo de Intimação Fiscal lavrado em 12/11/2013 é taxativo: Fl. 1142DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10920.721671/201493 Acórdão n.º 1402002.226 S1C4T2 Fl. 1.139 9 Conforme narrado no Termo de Verificação, foram efetuadas várias solicitações para apresentação dos elementos da escrituração concernente ao períodos sob exame. A legislação é claríssima em determinar o arbitramento do lucro nos casos em que o sujeito passivo deixar de apresentar os livros e documentos da escrituração (art. 530, III, do RIR/99). O argumento quanto à aplicação do art. 148, do CTN foi bem enfrentado pela decisão recorrida. Abstraindome de replicar aqui todos os argumentos lá expedidos, os quais endosso, limitome a ratificar a idéia principal pela qual o dispositivo em questão é previsto em situações diversas, como por exemplo a aferição do preço de um bem, sem aplicabilidade ao caso aqui sob exame. A apuração seguiu as normas em vigor, com aplicação do percental previsto em lei. Não cabe ao órgão administrativo avaliar argüições de confisco ou alegações supervenientes quanto à possibilidade de apuração do lucro real que não foram trazidas durante o procedimento fiscal. Especificamente em relação ao mês de janeiro de 2010, não há como “separa lo” dos meses de fevereiro e março pois a apuração do lucro arbitrado é trimestral. Assim, a ausência de escrituração regular num determinado mês compromete o resultado de todo o período de apuração. A sistemática de apuração do lucro arbitrado, através da aplicação de um percentual sobre a receita, o que impede a exclusão de valores da base de cálculo sem previsão legal, como é o caso do ICMS. A solicitação de exclusão, na base de cálculo do PIS e da Cofins, das vendas de produtos sujeito à tributação monofásica não merece guarida. Em primeiro lugar porque tais vendas, se ocorreram, não estão indicada nas DACONS, conforme ressaltado pela decisão recorrida. Em segundo lugar porque tampouco podem ser identificadas na planilhas apresentadas na impugnação, sem apresentação de outros elementos que corroborem os valores ali indicados. E, por fim, mesmo que fossem identificadas nas planilhas, ainda assim tais documentos não teriam valor probante nesse item da defesa, pois tratam das contribuições não cumulativas o que pode ser atestado pela utilização das alíquotas de 1,65% para o PIS e 7,65% para a Cofins. Em relação ao direito à sistemática da não cumulatividade do PIS e da Cofins para o período de 01/2009 a 03/2010, a pretensão da recorrente vai de encontro às normas de regência. Conforme previsto no inciso I, do art. 8º, da Lei nº 10.637/2003 e no inciso II, do art. 10, da Lei nº 10.833/2003 as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro arbitrado são contribuintes do PIS e da Cofins no regime cumulativo. Ainda com relação à sistemática da não cumulatividade do PIS e da Cofins mas agora em relação ao período de 04/2010 a 12/2011, a interessada pleiteia o que seria o Fl. 1143DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 10 “direito amplo de crédito”. Não há como acatar o pedido pelo simples fato de que os valores cobrados do PIS e da Cofins no período em questão foram aqueles informados pelo sujeito passivo e portanto, deveriam conter os créditos a que a recorrente faz jus. Como os valores não foram questionados pela autoridade lançadora, não há que se falar em créditos não considerados. Quanto à exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins, a matéria ainda não está pacificada no âmbito do Poder Judiciário, apesar da manifestação do STF. Algumas manifestações em sentido contrário ao pleito do sujeito passivo: Súmula TFR nº 258: “Incluise na base de calculo do PIS a parcela relativa ao ICM.”; STJ – Súmula 68: “A parcela do ICM incluise na base de cálculo do PIS”. STJ – Súmula 94: “A parcela do ICMS incluise na base de cálculo do Finsocial”. Por oportuno, destaco entendimento de fundamental relevância na edição da Súmula 68 do STJ contido no voto condutor do aresto no REsp 16841/DF, de lavra do Ministro Garcia Vieira: Estabelece o art. 3º da Lei Complementar 07/70 constituir o Fundo de Participação de duas parcelas, a primeira mediante dedução do imposto de renda e a segunda com recursos próprios da empresa, calculados com base no faturamento. O ICM incide sobre valor da mercadoria, compõe o seu preço e integra o faturamento da empresa. Deste faz parte também as despesas com impostos e outras despesas, pagas pelo comprador. Assim, a contribuição social da empresa, calculada com base no seu faturamento, nos termos da citada Lei Complementar nº 07/70, é calculada sobre o total das vendas, de sua receita bruta, composta também do ICM. Se este está incluído no preço da mercadoria, não se pode excluir da base de cálculo do PIS. [grifo nosso] As recentes decisões do STJ sobre a matéria, como não poderiam deixar de ser, traduzem a sedimentação sobre o melhor entendimento da controvérsia: 1ª Turma AgRg no Ag 1069974 PR DECISÃO:17/02/2009 (unânime) Relator Minisrto FRANCISCO FALCÃO. MANDADO DE SEGURANÇA. ICMS. INCLUSÃO. BASE DE CÁLCULO. PIS E COFINS.SÚMULAS 68 E 94 DO STJ. LEGALIDADE. RECURSO ESPECIAL. SÚMULA 83/STJ. I O acórdão recorrido encontrase em perfeita consonância com a jurisprudência desta Corte, que firmou o entendimento de que se inclui na base de cálculo da COFINS e do PIS a parcela relativa ao ICMS, consoante se depreende das Súmulas 68 e 94 do STJ. II Incidência do óbice sumular 83/STJ ao trânsito do recurso especial. III Agravo regimental improvido. (AgRg no Ag 1069974/PR, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA, 17/02/2009, DJe 02/03/2009) No mesmo sentido podese citar também os acórdãos AgRg no Ag 1005267 RS (1ª Turma), REsp 881370 RJ (2ª Turma), AgRg no Ag 1018355 RS (2ª Turma), todos decididos, de forma unânime, a partir de 2008. Fl. 1144DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10920.721671/201493 Acórdão n.º 1402002.226 S1C4T2 Fl. 1.140 11 No âmbito do STJ, não há sequer uma decisão, nas últimas duas décadas, em sentido diverso. Cumpre ainda esclarecer que os dispositivos legais que regem a matéria (Leis números 9.718/1998, 10.637/2002 e 10.833/2003) trazem artigos específicos que tratam das exclusões permitidas para fins de determinação da receita bruta/faturamento, base de cálculo de tais contribuições. No art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, consta que: Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. § 1º [revogado] § 2º Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2º, excluemse da receita bruta: I as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos, o Imposto sobre Produtos Industrializados IPI e o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS, quando cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário; [grifo nosso] II as reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido e os lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita; III – [revogado] IV a receita decorrente da venda de bens do ativo permanente. V a receita decorrente da transferência onerosa a outros contribuintes do ICMS de créditos de ICMS originados de operações de exportação, conforme o disposto no inciso II do § 1o do art. 25 da Lei Complementar nº 87, de 13 de setembro de 1996. Conforme se observa, o dispositivo legal em comento prevê que a única parcela de ICMS que poderá ser excluída da receita bruta é a que se refere à substituição tributária. Ora, entender que o ICMS cobrado na condição de contribuinte possa ser também excluído da base de cálculo do PIS e da Cofins por não corresponder ao conceito de receita bruta, implica, a uma só vez, utilizarse de exclusões não previstas em lei, bem como que interpretar que o legislador empregou “expressões supérfluas” ao permitir a exclusão do ICMS cobrado na condição de substituto tributário, uma vez que, se o ICMS cobrado do vendedor na condição de contribuinte embutido no preço da mercadoria – não compusesse o conceito de receita bruta, mais razão ainda assistiria a não inclusão do ICMS cobrado em razão da “substituição tributária” na base de cálculo de tais contribuições. Contudo, se o legislador previu expressamente a exclusão do ICMS “substituição tributária” da receita bruta tornase imperioso entender que tal parcela estaria compreendida em seu conceito, sob pena de considerar tal norma inócua. Fl. 1145DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO 12 É princípio basilar de hermenêutica jurídica que a lei não contém palavras inúteis. Ou seja, as palavras devem ser compreendidas como tendo alguma eficácia, pois, conforme leciona Caros Maximiliano, não se presumem, na lei, palavras inúteis (Hermenêutica e Aplicação do Direito, 8. ed., Freitas Bastos, 1965, p. 262). De modo semelhante, não há nas Leis nº 10637/2002 e nº 10.833/2003 dispositivos prevendo a exclusão do ICMS cobrado do vendedor, na condição de contribuinte, das bases de cálculo do PIS e Cofins não cumulativos (faturamento, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil). A respeito das questões constitucionais envolvendo a matéria, seu mérito não pode ser analisado por este Colegiado. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que, em regra, não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico nacional. Devese observar que as supostas ofensas aos princípios constitucionais levam a discussão para além das possibilidades de juízo desta autoridade. No âmbito do procedimento administrativo tributário, cabe, tão somente, verificar se o ato praticado pelo agente do fisco está, ou não, conforme à lei, sem emitir juízo de constitucionalidade das normas jurídicas que embasam aquele ato. Ademais, o próprio Regimento Interno do CARF, em seu art. 62, dispõe que “Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.” O caso concreto não se enquadra nas exceções elencada no parágrafo único de tal dispositivo regimental, portanto, as normas atacadas são de aplicação cogente aos membros do CARF. Na esfera administrativa consolidouse o entendimento pelo descabimento da exclusão, por ausência de previsão legal. A CSRF é taxativa (Acórdão 9303003.549): Por se tratar de imposto próprio, que não comporta a transferência do encargo, a parcela relativa ao ICMS incluise na base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS. Precedentes do STJ (Súmulas n°s 68 e 94). Às autoridades administrativas e tribunais que não dispõem de função legislativa não podem conceder, ainda que sob fundamento de isonomia, benefícios de exclusão da base de cálculo do crédito tributário em favor daqueles a quem o legislador não contemplou com a vantagem.A mesma conclusão se estende à Contribuição ao PIS. Desse modo, voto por negar provimento à exclusão do ICMS das bases de cálculo do PIS e da Cofins. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício também é matéria amplamente consolidada nesta Corte no âmbito das três turmas da CSRF: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão 9101002.180, CSRF, 1ª Turma) Fl. 1146DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 10920.721671/201493 Acórdão n.º 1402002.226 S1C4T2 Fl. 1.141 13 JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC.A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu inadimplemento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão 9202003.821, CSRF 2ª Turma) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão 9303003.385, CSRF, 3ª Turma). Em resumo de todo o exposto, conduzo meu voto no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância e arguição de decadência e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Leonardo de Andrade Couto Relator Fl. 1147DF CARF MF Impresso em 25/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/07/2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 22/07 /2016 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO
score : 1.0
Numero do processo: 10510.723334/2013-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 14 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Apr 26 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2011
CARF. COMPETÊNCIA RECURSAL. AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA.
À 2ª (segunda) Seção do CARF cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância que versem sobre aplicação da legislação relativa a: I - Imposto sobre a Renda da Pessoa Física. (Art. 3º, Anexo II, do Ricarf.). Se admitidas provas novas, sobre as quais não há manifestação da instância ad quem, essas devem ser encaminhadas para a sua apreciação.
Numero da decisão: 2301-004.641
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. Vencida a Conselheira Luciana de Souza Espíndola Reis, que negava provimento ao recurso voluntário.
JOÃO BELLINI JÚNIOR Presidente e Relator.
EDITADO EM: 25/04/2016
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (Presidente), Júlio César Vieira Gomes (Presidente Substituto), Alice Grecchi, Ivacir Júlio de Souza, Luciana de Souza Espíndola Reis, Gisa Barbosa Gambogi Neves, Fábio Piovesan Bozza e Amilcar Barca Teixeira Junior (suplente).
Nome do relator: JOAO BELLINI JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2011 CARF. COMPETÊNCIA RECURSAL. AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA. À 2ª (segunda) Seção do CARF cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância que versem sobre aplicação da legislação relativa a: I - Imposto sobre a Renda da Pessoa Física. (Art. 3º, Anexo II, do Ricarf.). Se admitidas provas novas, sobre as quais não há manifestação da instância ad quem, essas devem ser encaminhadas para a sua apreciação.
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COMPETÊNCIA RECURSAL. AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA. À 2ª (segunda) Seção do CARF cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância que versem sobre aplicação da legislação relativa a: I Imposto sobre a Renda da Pessoa Física. (Art. 3º, Anexo II, do Ricarf.). Se admitidas provas novas, sobre as quais não há manifestação da instância ad quem, essas devem ser encaminhadas para a sua apreciação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. Vencida a Conselheira Luciana de Souza Espíndola Reis, que negava provimento ao recurso voluntário. JOÃO BELLINI JÚNIOR – Presidente e Relator. EDITADO EM: 25/04/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (Presidente), Júlio César Vieira Gomes (Presidente Substituto), Alice Grecchi, Ivacir Júlio de Souza, Luciana de Souza Espíndola Reis, Gisa Barbosa Gambogi Neves, Fábio Piovesan Bozza e Amilcar Barca Teixeira Junior (suplente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 51 0. 72 33 34 /2 01 3- 81 Fl. 35DF CARF MF Impresso em 26/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR 2 Relatório Tratase de recurso voluntário em face do Acórdão 0734689, exarado pela 6ª Turma da DRJ em Florianópolis (fls. 21 a 23 – numeração dos autos eletrônicos). A notificação de lançamento (fls. 04 a 07) é referente imposto sobre a renda da pessoa física (IRPF), e diz respeito à omissão de rendimentos recebidos pelo Banco do Brasil, referentes a ação da Justiça Federal, no valor de R$15.603,82. Na apuração do imposto devido, foi compensado o IRRF sobre rendimentos omitidos, no valor de R$468,11. São citados como enquadramento legal os arts. 1º a 3º e §§ da Lei 7.713, de 1988; arts. 1º a 3º da Lei 8.134, de 1990; arts. 1º e 15 da Lei 10.451, de 2002; art. 27 da Lei 10811, de 2003 e arts. 43 e 718 do Decreto 3.000, de 1999 (RIR 99). Consta do relatório do acórdão recorrido: Inconformado com a notificação, o contribuinte interpôs instrumento de impugnação, por meio da qual sustenta que o valor considerado omitido referese à devolução de Imposto de Renda pela Fazenda Pública, determinada pela Justiça Federal, Processo nº 200585000050297, por ter considerado recolhimentos realizados a título de Imposto de Renda indevidos. A DRJ julgou a impugnação improcedente em acórdão que não recebeu ementas. A ciência dessa decisão ocorreu em 22/05/2014 (aviso de recebimento EBCT, fl. 26). Em 04/06/2014, foi apresentado recurso voluntário, sendo reiterados os argumentos apresentados por ocasião da impugnação, e juntando cópia de petição da PGFN que fez referência à ação judicial já citada. Pediu o cancelamento do débito fiscal. O processo foi distribuído para este relator em 09/12/2015 (fl. 34). É o relatório. Voto Conselheiro João Bellini Júnior O recurso voluntário é tempestivo e aborda matéria de competência desta Turma. Portanto, dele tomo conhecimento. O contribuinte, para comprovar o seu direito, juntou, por ocasião da apresentação de seu recurso voluntário, o documento das fls. 31 e 32. Entendo que, no caso concreto, tal documento pode ser conhecido pelas instâncias julgadoras, forte no art. 16, § 4º, “c” do Decreto nº 70.235, de 1972, uma vez que o contribuinte é pessoa física, não é profissional do direito tributário, e nem está representado por um, e foi alertado no acórdão exarado pela DRJ que era necessário provar o que afirma. Fl. 36DF CARF MF Impresso em 26/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR Processo nº 10510.723334/201381 Acórdão n.º 2301004.641 S2C3T1 Fl. 36 3 Porém, o CARF não possui competência originária, mas recursal, face ao disposto no art. 1º e 3º do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 2015 (Ricarf) e art. 25, II, do Decreto nº 70.235, de 1972. Assim sendo, não é possível conhecer originariamente do citado documento, pelo que voto por dar PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para que a mencionada prova seja valorada, em novo julgamento, pela instância a quo, preservandose, assim, o princípio do julgador natural e a própria estrutura de competências do processo administrativo fiscal. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Relator Fl. 37DF CARF MF Impresso em 26/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR, Assinado digitalmente em 25/04/2016 por JOAO BELLINI JUNIOR
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Numero do processo: 10580.726064/2009-51
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jun 22 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Aug 04 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2006, 2007
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. DIFERENÇAS DE URV. MINISTÉRIO PÚBLICO DA BAHIA. NATUREZA TRIBUTÁVEL
Sujeitam-se à incidência do Imposto de Renda, conforme o regime de competência, as verbas recebidas acumuladamente pelos membros do Ministério Público do Estado da Bahia, denominadas "diferenças de URV", inclusive os juros remuneratórios sobre elas incidentes, por absoluta falta de previsão legal para que sejam excluídas da tributação.
Recurso Especial do Contribuinte conhecido e provido parcialmente
Numero da decisão: 9202-004.238
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral.
(assinado digitalmente)
CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO - Presidente.
(assinado digitalmente)
MARIA HELENA COTTA CARDOZO - Relatora.
EDITADO EM: 01/07/2016
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO (Presidente), HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, ANA PAULA FERNANDES, ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA, MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, MARIA HELENA COTTA CARDOZO, PATRICIA DA SILVA, LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI e GERSON MACEDO GUERRA.
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. DIFERENÇAS DE URV. MINISTÉRIO PÚBLICO DA BAHIA. NATUREZA TRIBUTÁVEL Sujeitam-se à incidência do Imposto de Renda, conforme o regime de competência, as verbas recebidas acumuladamente pelos membros do Ministério Público do Estado da Bahia, denominadas "diferenças de URV", inclusive os juros remuneratórios sobre elas incidentes, por absoluta falta de previsão legal para que sejam excluídas da tributação. Recurso Especial do Contribuinte conhecido e provido parcialmente
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DIFERENÇAS DE URV. MINISTÉRIO PÚBLICO DA BAHIA. NATUREZA TRIBUTÁVEL Sujeitamse à incidência do Imposto de Renda, conforme o regime de competência, as verbas recebidas acumuladamente pelos membros do Ministério Público do Estado da Bahia, denominadas "diferenças de URV", inclusive os juros remuneratórios sobre elas incidentes, por absoluta falta de previsão legal para que sejam excluídas da tributação. Recurso Especial do Contribuinte conhecido e provido parcialmente Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral. (assinado digitalmente) CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Presidente. (assinado digitalmente) MARIA HELENA COTTA CARDOZO Relatora. EDITADO EM: 01/07/2016 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 60 64 /2 00 9- 51 Fl. 438DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO (Presidente), HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, ANA PAULA FERNANDES, ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA, MARIA TERESA MARTINEZ LOPEZ, MARIA HELENA COTTA CARDOZO, PATRICIA DA SILVA, LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS, RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI e GERSON MACEDO GUERRA. Relatório Tratase de Auto de Infração relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física dos anoscalendário de 2004, 2005 e 2006, acrescido de multa de ofício no percentual de 75% e juros de mora, tendo em vista a reclassificação, como tributáveis, de rendimentos declarados como isentos, recebidos do Ministério Público do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em trinta e seis parcelas, no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, em decorrência da Lei Complementar do Estado da Bahia nº 20, de 08/09/2003, editada em virtude do objeto da Ação Ordinária de nº 140.975921531, julgada pelo Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, e em consonância com os precedentes do Supremo Tribunal Federal, especialmente nas Ações Ordinárias nºs 613 e 614. A citada verba corresponde a diferenças de remuneração verificadas quando da conversão de Cruzeiro Real para URV, em 1994. Na apuração da exigência não foram considerados valores com origem em décimo terceiro salário e em abono de férias. A forma de cálculo aplicada foi a determinada no Parecer PGFN/CRJ nº 287/2009, aprovado pelo Ministro da Fazenda no DOU de 11/05/2009, que dispõe sobre rendimentos recebidos acumuladamente, levando em conta as tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se referem os rendimentos, seno o cálculo mensal e não global (fls. 2 a 11). Em sessão plenária de 26/07/2011, foi julgado o Recurso Voluntário, exarandose o Acórdão nº 220201.299 (fls. 237 a 250), assim ementado: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2004, 2005, 2006 IRPF RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção (Súmula CARF nº 12). ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE O CARF não é competente para se pronunciar sobre inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). IR COMPETÊNCIA CONSTITUCIONAL A repartição do produto da arrecadação entre os entes federados não altera a competência tributária da União para instituir, arrecadar e fiscalizar o Imposto sobre a Renda. RENDIMENTOS TRIBUTÁVEIS. ABONO VARIÁVEL NATUREZA INDENIZATÓRIA MINISTÉRIO PÚBLICO Fl. 439DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 439 3 ESTADUAL. VEDAÇÃO À EXTENSÃO DE NÃOINCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA. Inexistindo dispositivo de lei federal atribuindo às verbas recebidas pelos membros do Ministério Público Estadual a mesma natureza indenizatória do abono variável previsto pela Lei n° 10477, de 2002, descabe excluir tais rendimentos da base de cálculo do imposto de renda, haja vista ser vedada a extensão com base em analogia em sede de não incidência tributária. MULTA DE OFÍCIO ERRO ESCUSÁVEL Se o contribuinte, induzido pelas informações prestadas pela fonte pagadora, incorreu em erro escusável quanto à tributação e classificação dos rendimentos recebidos, não deve ser penalizado pela aplicação da multa de ofício. JUROS DE MORA Não comprovada a tempestividade dos recolhimentos, correta a exigência, via auto de infração, nos termos do art. 43 e 44 da Lei nº. 9.430, de 1996." A decisão foi assim registrada: "Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares suscitadas pelo Recorrente e, no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para excluir da exigência a multa de ofício, por erro escusável. Vencidos os Conselheiros Pedro Anan Júnior (Relator) e Rafael Pandolfo, que proviam o recurso. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Antonio Lopo Martinez" O processo foi enviado à PGFN, que não interpôs Recurso Especial (fls. 253). Cientificado do acórdão em 12/04/2013 (fls. 307), o Contribuinte opôs, em 18/04/2013, os Embargos de Declaração de fls. 269 a 284, rejeitados conforme o Despacho de Admissibilidade de Embargos de fls. 311/312. Intimado da rejeição de seus Embargos Declaratórios em 09/09/2013 (fls. 449), o Contribuinte interpôs, em 23/09/2013, o Recurso Especial de fls. 318 a 352, fundamentado no art. 67, do Anexo II, do RICARF, visando rediscutir as seguintes matérias: não incidência do Imposto de Renda sobre diferenças de URV, que teriam natureza indenizatória e, caso assim não se entenda, não incidência de Imposto de Renda sobre a rubrica correspondente a juros de mora. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme despacho de 29/06/2015 (fls. 401 a 406). Em seu Recurso Especial, o Contribuinte alega, em síntese: Natureza indenizatória das diferenças da URV. Não incidência do Imposto de Renda a URV nasceu com a MP 434/94, como medida necessária ao controle inflacionário à época e substituta do padrão monetário até então vigente; Fl. 440DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 4 assim preceitua o art. 1º da Medida Provisória n. 434/94: Art. 1° Fica instituída a Unidade Real de Valor (URV), dotada de curso legal para servir exclusivamente como padrão de valor monetário, de acordo com o disposto nesta medida provisória. § I o A URV, juntamente com o cruzeiro real, integra o Sistema Monetário Nacional, continuando o cruzeiro real a ser utilizado como meio de pagamento dotado de poder liberatório, de conformidade com o disposto no art. 3o. § 2o A URV, no dia I o de março de 1994, corresponde a CR$ 647,50 (seiscentos e quarenta e sete cruzeiros reais e cinqüenta centavos). a função a ser exercida pela URV era de compensar a perda do poder aquisitivo resultante da inflação desenfreada, verificada à época, como dispõe a própria Medida Provisória: Art. 4o O Banco Centrai do Brasil, até a emissão do Real, fixará a paridade diária entre o cruzeiro real e a URV, tomando por base a perda do poder aquisitivo do cruzeiro real. [...] § 2o A perda de poder aquisitivo do cruzeiro real, em relação à URV, poderá ser usada como índice de correção monetária. assim, começa a definirse a moldura das parcelas em exame; a norma legal tinha por intuito conferir segurança à economia, garantindo que a nova moeda não restasse contaminada pelo ciclo inflacionário, sendo caracterizada a URV como expressão da perda do poder aquisitivo da moeda antiga cruzeiro real; há, portanto, evidente caráter compensatório da URV desde a sua gênese, o que certamente conduz à conclusão pela não incidência do Imposto de Renda, como bem adotado pelo Primeiro Acórdão; as parcelas referentes às diferenças de URV não representam qualquer acréscimo patrimonial, produto do capital ou do trabalho, mas constituem ressarcimento pelo erro no cálculo da remuneração, na oportunidade da conversão de cruzeiro real para URV e, consequentemente, reposição de quantias que deveriam integrar a remuneração ao longo do tempo passado, na tentativa de reparar prejuízos; assim sendo, os valores obtidos das diferenças de URV tiveram a finalidade de ressarcir o Recorrente pela reposição de quantias que deveriam integrar a remuneração, e que não integraram, causandolhe dano material, cuja reparação somente veio a ocorrer posteriormente quando, após o julgamento de uma Ação Ordinária no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, foi editada a Lei Complementar baiana n° 20/2003; desse modo, a URV é indenização e não salário; aqui, vale registrar que o acordo para o pagamento das diferenças de remuneração do Recorrente que ocorreu quando houve a conversão do Cruzeiro Real em URV, em 36 parcelas, para os membros do Ministério Público do Estado da Bahia, se deu através da Lei Estadual Complementar n° 20/2003, não correspondendo a qualquer permuta do trabalho/serviço por moeda, o que tornaria clara a natureza salarial; Fl. 441DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 440 5 configura, isto sim, permuta de um direito por moeda, ou seja, a realização de um direito de forma diversa da sua natureza, o que consubstancia a natureza indenizatória da verba; possuindo a URV o caráter de verba indenizatória, não se afigura legal a incidência da exação tributária; não por outro motivo que o Supremo Tribunal Federal editou a Resolução n. 245, com o propósito de conferir tratamento definitivo à controvérsia, deixando claro que se cuida de verba indenizatória os abonos conferidos aos magistrados federais em razão das diferenças de URV e, por esse motivo, isentos da contribuição previdenciária do imposto de renda: RESOLUÇÃO N° 245, DE 12 DE DEZEMBRO DE 2002 Dispõe sobre a forma de cálculo do abono de que trata o artigo 2o e §§ da Lei n° 10.474, de 27 de junho de 2002. Art. I o É de natureza jurídica indenizatória o abono variável e provisório de que trata o artigo 2o da Lei n° 10.474, de 2002, conforme precedentes do Supremo Tribunal Federal. Art. 2o Para os efeitos do artigo 2o da Lei n° 10.474, de 2002, e para que se assegure isonomia de tratamento entre os beneficiários, o abono será calculado individualmente, observandose, conjugadamente, os seguintes critérios: I apuração, mês a mês, de janeiro/98 a maio/2002, da diferença entre os vencimentos resultantes da Lei n° 10.474, de 2002 (Resolução STF n° 235, de 2002), acrescidos das vantagens pessoais, e a remuneração mensal efetivamente percebida pelo Magistrado, a qualquer título, o que Inclui, exemplificativamente, as verbas referentes a diferenças de URV, PAE, 10,87% e recalculo da representação (194%); [...] Art. 3o Serão recalculados, mês a mês, no mesmo período definido no Inciso I do artigo 2o, o valor da contribuição previdenciária e o do imposto de renda retido na fonte, expurgandose da base de cálculo todos e quaisquer reajustes percebidos ou incorporados no período, a qualquer título, ainda que pagos em rubricas autônomas, bem como as repercussões desses reajustes nas vantagens pessoais, por terem essas parcelas a mesma natureza conferida ao abono, nos termos do artigo 1º, observados os seguintes critérios: [...](grifos aditados) ressaltese que o Ministério Público da União, por força da simetria verificada pela Lei n. 10.477/2002, também é contemplado com a isenção que cuida a Resolução n. 245/2002, senão vejase o art. 2o da mencionada Lei, que dispõe sobre a remuneração dos membros do Ministério Público Federal: Art. 2o O valor do abono variável concedido pelo art. 6o da Lei nº 9.655. de 2 de iunho de 1998. é aplicável aos membros do Ministério Público da União, com efeitos financeiros a partir da data nele mencionada e passa a corresponder à diferença entre a remuneração mensal percebida pelo membro do Ministério Fl. 442DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 6 Público da União, vigente à data daquela Lei, e a decorrente desta Lei. [...] (grifos nossos) ademais, salientese que o ProcuradorGeral da República, Geraldo Brindeiro, adotou o mesmo entendimento da Excelsa Corte, autorizando, em 23 de dezembro de 2002, em despacho que ora transcrevese, que fosse dado ao pagamento do abono variável, no qual se incluem as diferenças de URV, devidos do Ministério Público da União, a mesma interpretação conferida pelo Supremo Tribunal Federal na Resolução n. 245/2002: Considerando a Resolução n° 245, de 12 de dezembro de 2002, do Supremo Tribunal Federal, encaminhada a esta Procuradoria Geral da República pelo Presidente daquela Corte, pela qual ficou definida como indenizatória a natureza jurídica do abono variável de que trata o art. 2o da Lei 10.474/2002, bem como estabelecia a sistemática de restituição da contribuição previdenciária e do imposto de renda retido na fonte sobre o referido abono, entre janeiro de 1998 e maio de 2002; considerando que a Lei 10.474/02 guarda estreita correlação com a Lei 10.477/02, determinando, em seu art. 2o o pagamento do abono variável para os membros do Ministério Público da União, de forma análoga àquele estabelecida para os membros da magistratura; considerando a equivalência entre a remuneração dos membros do Poder Judiciário e do Ministério Público da União; considerando, ainda, a , manifestação da Secretaria de Pessoal do Ministério Público Federal no Processo n° 1.00.000.011735/200283, aprovada pela SecretarlaGeral do Ministério Público Federal, AUTORIZO que se dê ao pagamento do abono variável devido aos membros do Ministério Público da União a mesma interpretação conferida pelo Colendo Supremo Tribunal Federal ao abono variável da magistratura por meio da Resolução n° 245, de 12 de dezembro de 2002. (grifos aditados) embora a Resolução voltese para a magistratura federal e, como exposto, para o Ministério Público da União, a equiparação do tema é impositiva e legítima para o caso em tela, como bem exposto no Primeiro Acórdão Paradigma. tanto é assim que, na hipótese da categoria do membro do Ministério Público da Bahia, como é o caso do Recorrente, houve a edição da Lei Complementar nº 20/2003, determinando a natureza indenizatória das parcelas referentes às diferenças de Cruzeiro Real para URV: Art. 3o São de natureza indenizatória as parcelas de que trata o art. 2o desta Lei. como se vê, a Lei Complementar n. 20/2003 mais completa que as demais leis federais previu expressamente a natureza indenizatória da parcela recebida, pelos membros do Ministério Público do Estado da Bahia a título de diferenças de URV. neste ponto, importa saber se o Fisco Federal pode afastar a qualificação jurídica desta verba que tenha sido atribuída por lei estadual, e a resposta é não; como é cediço, toda lei goza de presunção de constitucionalidade, portanto, enquanto subsistir o preceito normativo, falece competência ao Fisco Federal para afastar a qualificação jurídica ali contida; Fl. 443DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 441 7 para afastála, portanto, é preciso, previamente, buscar a declaração da sua inconstitucionalidade, o que não ocorreu com a Lei Complementar nº 20/2003; é evidente que esta razão exclusivamente formal presunção de constitucionalidade poderia ser objetada com o argumento de que, ainda que se trate de lei, se o preceito nela contido for manifestamente inconstitucional por dispor sobre matéria que não cabe ao Estado regular ou se seu conteúdo contiver disciplina inequivocadamente conflitante com o ordenamento, a ponto de configurar aquilo que a jurisprudência denomina de "ato teratológico", então o Fisco federal poderia ser recusar a acatar a qualificação jurídica contida em Lei estadual (cita doutrina de Marco Aurelio Greco); ademais, se o diferencial de URV estava incluído no chamado abono variável e se este tem caráter indenizatório em relação aos Magistrados e Procuradores da República como efetivamente o tem , não se pode negar que tenham o mesmo caráter em relação aos membros do Ministério Público dos Estados; como brilhantemente sustentado pelos Conselheiros da 2a Turma Ordinária da 1a Câmara da 2a Seção de Julgamento do CARF, no Primeiro Acórdão Paradigma, tratase, em verdade, de normas que versam exatamente sobre a mesma matéria, mas que se distinguem tão somente porque emanadas de entes políticos diversos União e Estado da Bahia e produzidas em favor de destinatários diversos; se a interpretação conferida às diferenças auferidas pelos Membros do MPF, com base no ar. 2o da Lei n° 10.477/2002, foi de que tais parcelas possuem natureza indenizatória, igual entendimento deve ser adotado em relação às diferenças auferidas pelos Membros do Ministério Público da Bahia, com base na Lei complementar n° 20/2003, pois onde há a mesma razão, deve necessariamente haver o mesmo direito; este, inclusive, é o posicionamento adotado pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça, que reconhece a natureza indenizatória das verbas recebidas pelos membros do Ministério Público dos Estados: TRIBUTÁRIO PROCESSO CIVIL CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL INCOMPETÊNCIA DO STJ IMPOSTO SOBRE A RENDA URV DIFERENÇAS RESOLUÇÃO N. 245/STF APLICAÇÃO. 1. Falece competência ao Superior Tribunal de Justiça para conhecer de alegações de ofensa à Constituição Federal. 2. A utilização de fundamento constitucional pelo tribunal local impede a admissão do recurso especial quanto à questão controvertida. 3.Cuidandose de remuneração percebida por magistrado estadual, aplicase na resolução da controvérsia a Resolução n. 245/STF, que considerou de natureza jurídica indenizatória o abono variável e provisório de que trata o artigo 2° da Lei n° 10.474, de 2002. 4.Recurso especial conhecido em parte e não provido. (grifos aditados) Fl. 444DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 8 por fim, esclareçase que a natureza indenizatória da verba não foi, em momento algum, reconhecida no bojo de qualquer lei, seja esta referente à Magistratura Federal (Lei n° 10.474/2002) ou ao Ministério Público Federal (Lei n° 10.477/2002), mas sim pelo órgão jurisdicional supremo, através da edição de Resolução, o que afasta, de logo, a argumentação de que estender a natureza indenizatória às verbas recebidas pelos membros do Ministério Público dos Estados seria promover uma afronta ao princípio da legalidade tributária. entendimento diverso do aqui exposto consubstanciaria literal afronta ao princípio constitucional da isonomia, segundo o qual não se pode dispensar tratamento diferenciado àqueles que se encontram na mesma situação fática, como se demonstrará a seguir. Princípio constitucional da isonomia o caso em tela nos remete ao conceito aristotélico de igualdade, cautelosamente dilapidado e inserido no contexto social ao longo dos séculos, tratando igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida das suas desigualdades; este é o ponto crucial da presente questão, inclusive tendo sido abordado pelo Primeiro Acórdão Paradigma, pois os descontos tributários pretendidos pela autoridade fiscal representam uma afronta ao princípio isonômico constitucionalmente garantido no art. 5o da Carta Magna; digase mais: haveria uma ofensa dupla ao mencionado princípio, pois, além de dispensar tratamento diferenciado entre os membros da Magistratura Federal e dos Ministérios Públicos Estaduais, em face de situações fáticas iguais, referentes à não tributação de verbas da mesma natureza, ou seja, natureza indenizatória similar do mesmo fato reposição do percentual de 11.98% aos vencimentos dos magistrados federais e promotores de justiça , estaria também dispensando tratamento não isonômico entre os membros do Ministério Público da União e Estadual; ora, o simples fato de possuírem âmbitos de atuação distintos não pode levar à conclusão de que, quando do recebimento das mesmas verbas, os membros do Ministério Público da União sejam beneficiados com a isenção da contribuição previdenciária e do imposto de renda, enquanto que os membros do Ministério Público do Estado sejam apenados com a tributação; conceituase o Ministério Público, de acordo com o art. 127 da Constituição Federal de 1988, como a "instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindolhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis"; entretanto, porque essencial ao exercício da jurisdição, as funções do Ministério Público são exercidas perante todos os organismos judiciários do país; desse modo, há o Ministério Público Federal, ramo que oficia perante cada uma das Justiças da União e perante os Tribunais de superposição (Supremo Tribunal Federal de Superior Tribunal de Justiça) e os Ministérios Públicos dos Estados e do Distrito Federal e Territórios, que atuam junto às respectivas Justiças; Fl. 445DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 442 9 tratase de ramos diferentes da mesma instituição, Ministério Público, com a mesma missão constitucional, teleologicamente definida pela fórmula contida no art. 127 e pelas funções institucionais arroladas no art. 129 da Constituição Federal; como aceitar, sem pisar na Constituição da República, que para a mesma instituição. Ministério Público, se adote um tratamento mais benéfico para um ramo, já que os procuradores da república não pagam imposto sobre a verba ora em discussão, em detrimento de um tratamento mais gravoso para outro ramo da mesma instituição, onde se encontra alocado o Recorrente, Procurador de Justiça aposentado do Estado da Bahia? ora, se a verba é a mesma repisese, ressarcimento pelo erro no cálculo da remuneração, na oportunidade da conversão do cruzeiro real para URV e consequentemente reposição de quantias (diferenças) que deveriam integrar a remuneração ao longo do tempo passado, na tentativa de reparar prejuízos , por óbvio, a natureza só pode ser a mesma indenizatória e, assim sendo, escapa a incidência tributária; se os Magistrados federais e Procuradores da República foram isentados do recolhimento do Imposto de Renda na fonte e da contribuição previdenciária, tendo incluído as parcelas das diferenças de URV, o tratamento igualitário se impõe em face da ordem constitucional, ao membro do Ministério Público estadual, como é o caso do Recorrente, em razão da mesma natureza indenizatória entre as verbas, não se pode impor tratamento tão desigual; não se pode admitir que a tributação a que uns estejam submetidos seja diferente daquela a que submetidos todos os que se encontrem em situação equivalente no âmbito público, em razão da função por eles exercida; mais que isso: não se pode imaginar que a União pretenda tributar os agentes estaduais e municipais de forma diversa da que o faz para „us agentes, pois isso seria clara hipótese de discriminação odiosa violadora da isonomia ad interno da Administração Pública; isto significa afirmar, por exemplo, que o Imposto federal sobre a Renda não pode alcançar rendimentos auferidos por agentes estaduais que exerçam função judicante, diferentemente do que ocorrer em relação a rendimentos da mesma natureza auferidos por aqueles que exerçam as mesmas funções no âmbito federal; e mais: que os critérios utilizados para qualificar juridicamente certas verbas não sejam diferentes quando se tratar de agente federal ou estadual, pois esta é, também, uma forma de discriminação. tratandose de isonomia tributária, cumpre deixar claro que viola a isonomia não apenas cobrar de uns e não de outros (pessoas ou rendimentos), mas também reconhecer inexistir incidência em relação a uns e não reconhecêla em relação a outros; desonerar uns e não fazêlo em relação a outros é tão discriminatório quanto aumentar a exigência apenas de uns; dessa forma, os descontos que a autoridade fiscal pretende implementar ao Recorrente, membro do Ministério Público Estadual, não há dúvidas, viola o art. 150 da Fl. 446DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 10 Constituição Federal de 1988 que proíbe expressamente o tratamento desigual entre os contribuintes: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] II instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos: (grifos aditados) do dispositivo acima transcrito se extrai a impossibilidade de tratamento desigual entre os membros do Ministério Público da União e dos Estados, ainda que as parcelas recebidas pelos mesmos possuam denominações distintas, já que, como demonstrado, a proibição de distinção se mantém independentemente da denominação jurídica dos rendimentos recebidos; na verdade, a denominação da verba é irrelevante, é, isto sim, a natureza jurídica de determinada verba que importa para fins de incidência tributária; nestes termos, se uma verba é remuneratória de um serviço, ainda que receba outra denominação, haverá a incidência do Imposto federal; de igual sorte, possuindo a verba natureza indenizatória, não haverá a incidência do Imposto de Renda, independentemente da denominação adotada; no caso em tela, pouco importa se os membros do Ministério Público da União recebem "abono variável" montante que engloba as diferenças de URV e os membros do Ministério Público da Bahia recebem "valores indenizatórios de URV", já que, em que pese a denominação seja distinta, a verba é a mesma e , portanto, deve receber o mesmo tratamento; apenas dessa forma, equiparandose todos os que se encontram diante da mesma situação fática, magistrados/procuradores federais e promotores de justiça, estaria obedecendo ao princípio constitucional da isonomia, tão prestigiado pela nossa Constituição; admitir o contrário como fez o acórdão ora recorrido, divergindo do posicionamento adotado pela 2a Turma Ordinária da 1a Câmara da 2a Seção de Julgamento do CARF é atribuir apenas à Magistratura Federal e ao Ministério Público da União uma vantagem exclusiva e casuística, o que é discutível sob o ponto de vista ético, legal e moral; pelos fundamentos aqui expostos, resta mais do que clarificada a divergência entre os acórdãos cotejados, razão pela qual o acórdão recorrido deve ser imediatamente reformado, para declarar a não incidência do Imposto de Renda sobre os rendimentos recebidos pelo ora Recorrente à título de "diferenças de URV", seja porque tais rendimentos possuem natureza indenizatória e, portanto, não estão inseridos no campo de incidência do imposto federal, seja em razão o necessário tratamento isonômico entre os membros dos Ministérios Públicos da União e do Estado, o que se requer desde já. Da não incidência do imposto de renda sobre juros moratórios. o acórdão ora recorrido se pronuncia de forma sucinta acerca da manutenção dos juros moratórios, mantendo o valor correspondente. Fl. 447DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 443 11 nessa senda, a ausência de enfrentamento da matéria pelo acórdão recorrido, apenas mantendo a parcela correspondente aos juros moratórios, diverge frontalmente daquele adotado pela 1a Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF, constante do Acórdão n. 280102.264 (paradigma); em idêntica situação fática, a 1a Turma Especial da 2a Seção de julgamento do CARF entendeu dar provimento parcial ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte, para excluir da base de cálculo lançada tanto a multa de ofício de 75%, quanto a parcela referente aos iuros moratórios, enquanto que manteve as parcelas de juros de mora na decisão recorrida; neste ponto, vale a transcrição de trecho do voto proferido no Acórdão nº 280102.264 (paradigma), já que o mesmo contraria diretamente o quantum sustentado no acórdão recorrido, senão vejase: Por outro lado, com base no posicionamento da Primeira Seção do STJ no julgamento do Resp n° 1.227.133/RS, submetido à sistemática do art. 543C do CPC e Res. N° 8, de 2008/STJ, que tratam dos recursos repetitivos, verificase que foi negado provimento ao recurso interposto pela Fazenda Nacional e manteve o acórdão da 4a Região, o qual havia decidido que não cabe a tributação pelo Imposto de Renda Pessoa Física sobre os juros moratórios incidentes sobre valores recebidos acumuladamente em decorrência de sentença judicial, por se tratarem de verbas indenizatórias. Respaldado nesse entendimento, entendo que devem ser refeitos os cálculos de fls. 10, que embasam o lançamento, de modo a contemplar a exclusão dos valores recebidos a título de iuros, identificados nos documentos de fls. 19/21 (considerados no demonstrativo de fls. 10). (grifos aditados) vêse que os Conselheiros da mencionada Turma Especial utilizaram, em seus fundamentos, o acórdão proferido pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Recurso Especial n. 1.227.133/RS, cuja ementa segue abaixo transcrita: RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZA TÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla. Recurso especial, julgado sob o rito do art. 543C do CPC, improvido. (grifos aditados) fez bem a 1a Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF em adotar o posicionamento do STJ acima transcrito, já que, conforme art. 62A do Regimento Interno do Conselho de Administrativo de Recursos Fiscais, as decisões definitivas de mérito proferidas por aquele Tribunal, na sistemática prevista no art. 543B e 543C, do CPC, devem necessariamente ser reproduzidas pelos Conselheiros, em seus julgamentos, senão vejase: Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça Fl. 448DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 12 em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei n° 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. § 1 o Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543B. § 2o O sobrestamento de que trata o § 1o será feito de ofício pelo relator ou por provocação das partes. (grifos aditados) nessa senda, havendo matéria julgada pelos Tribunais Superiores sob o rito dos artigos 543B e 543C, os quais reconhecem, respectivamente, a repercussão geral do tema e a repetitividade deste, o posicionamento consolidado deverá ser adotado por este Ilustre Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, conforme transcrito acima; assim, as decisões administrativas devem obedecer e acatar a jurisprudência consolidada acerca de determinada matéria, objetivando uniformizar a aplicação e o entendimento sobre uma matéria no caso concreto há, no caso, como já demonstrado, Recurso Especial n° 1.227.133/RS, julgado sob o rito do artigo 543C do CPC, o qual reconhece a natureza indenizatória dos juros de mora, excluindoos da incidência do Imposto de Renda; o referido entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça reconheceu a natureza indenizatória dos juros de mora, haja vista que estes representam uma indenização pelos danos emergentes do não uso do patrimônio pela mora do devedor, não havendo incidência do Imposto de Renda; seguindo a tradicional divisão dos juros em compensatórios/ remuneratórios e moratórios, podese dizer que o juro de mora é um fruto civil consistente no valor auferido pelo uso do dinheiro alheio, decorrente da privação do credor de seu uso durante um determinado período; no caso, observese que os juros de mora constantes do cálculo da diferença de URV, realizado pelo Ministério Público do Estado da Bahia, visaram recompor o patrimônio do agente público, lesado pela demora na percepção de seus direitos, privado durante o período em que não foram oportuna e mensalmente pagos os valores devidos; os juros de mora representam, portanto, tradicionalmente, uma indenização pelos danos emergentes do não uso do patrimônio, àquilo que perdeu o credor (agente público) pela mora do devedor (Estado da Bahia); hoje, entretanto, com a evolução jurisprudencial, legislativa e doutrinária pertinente à proteção dos direitos, sobretudo personalíssimos, impõese que tais indenizações, para serem completas, abarquem os bens materiais e imateriais; com isso, devese considerar que o conteúdo indenizatório dos juros moratórios abarca não só a reparação do período de tempo em que o credor, com profunda insatisfação, permaneceu privado da posse do bem que lhe seria devido por direito, mas, também, os possíveis e eventuais danos morais, ainda que remotos, os quais não precisam sequer ser alegados, tampouco provados. abrangendo os juros moratórios, em tese, de forma abstrata e heterogênea, eventuais danos materiais, ou apenas imateriais, que não precisam ser discriminados ou Fl. 449DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 444 13 provados, não se pode conceber que aqueles representem simples renda ou acréscimo patrimonial, não se enquadrando na forma do art. 43 do Código Tributário Nacional; não é por outra razão que o Min. Cesar Asfor Rocha, em voto proferido no julgamento do Recurso Especial n° 1.227.133/RS, considera derrogado o art. 16 da Lei n. 4.506/1964 que estabelece serem, os juros de mora, classificados como rendimentos do trabalho. Pela importância, as lições do Nobre Ministro: O parágrafo único do dispositivo aqui reproduzido [art. 16 da Lei n. 4.506/1964], a meu ver, encontrase derrogado, tendo em vista que, na linha do que afirmei acima, destinandose atualmente os juros de mora a indenizar, de forma ampla e heterogênea, danos materiais e imateriais, é incompatível com o art. 43 do Código Tributário Nacional e com o atual Código Civil, ambos diplomas posteriores à Lei n. 4.506/1964. [...] In casu, a tributação dos juros de mora pagos juntamente com as diferenças de URV, desnatura o perfil constitucional do Imposto sobre a Renda, pois a variação em comento não aumenta ou acresce o patrimônio do contribuinte, sendo evidente desde logo o seu caráter indenizatório; por estas razões, tais valores não podem ser base de cálculo para o imposto em debate, posto que referida aquisição de disponibilidade não representa, de forma alguma, acréscimo patrimonial ou renda, mas uma recomposição do que não foi pago no momento oportuno; assim sendo, não havendo acréscimo patrimonial, mas apenas uma recomposição dos valores pagos em momento diverso do devido, não é justificável a incidência do tributo sobre os juros de mora; tal entendimento vem sendo, inclusive, aplicado pelo próprio Superior Tribunal de Justiça em recursos que versam sobre a incidência de Imposto de Renda sobre iuros moratórios decorrentes de diferença de URV, conforme segue: PROCESSUAL CIVIL, ADMINISTRATIVO E TRIBUTÁRIO. DIFERENÇAS SALARIAIS. URV. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA IN DE NIZA TÓRIA. IMPOSTO DE RENDA. NÃO INCIDÊNCIA. ERRO DE PREMISSA. RECONHECIMENTO. IMPOSSIBILIDADE DE EFEITOS INFRINGENTES. 1. Discutese nos autos a incidência do imposto de renda sobre os juros moratórios sobrevindos de diferenças salariais decorrentes da conversão dos vencimentos em URV no ano de 1994. 2. A despeito de o caso dos autos não se enquadrar na hipótese de reclamatória trabalhista prevista no REsp 1.227.133/RS, julgado sob o regime do art. 543C do CPC, há orientação nesta Corte no sentido de que o valor oaao em pecúnia, a título de iuros moratórios, tem por finalidade a recomposição do patrimônio e , por isso, natureza indenizatória por forca de dívida não quitada, o que afasta a incidência do imposto de renda. Fl. 450DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 14 Embargos de declaração acolhidos, sem efeitos infringentes, para sanar a omissão apontada, mantendo o não conhecimento do recurso especial, por outro fundamento (grifos aditados). admitir o contrário como fez o acórdão ora recorrido, divergindo do posicionamento adotado pela Ia Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF é permitir a incidência de imposto de rend? sobre parcela que não representa acréscimo patrimonial, em flagrante violação à Constituição Federal de 1988; apenas por amor ao debate, vale registrar o quantum sustentado pelo Rel. Min. Teori Albino Zavascki quando do julgamento do Recurso Especial n° 1.227.133/RS, que teve o seu voto vencido; segundo o renomado Ministro, a conclusão acerca da incidência do Imposto de Renda sobre a parcela referente aos juros moratórios requer uma verificação da natureza jurídica da verba principal (se indenizatória ou remuneratória) sobre a qual os juros incidem a fim de se estabelecer a natureza jurídica dos juros e a sua submissão ao imposto de renda ou não; data máxima vénia, equivocase o Ministro, razão pela qual, inclusive, o seu voto restou vencido pelos demais Ministros; com o respeito que lhe é devido, urge esclarecer que, no âmbito do Direito Tributário, para fins de tributação da renda, a relação existente entre o principal e o acessório deve ser examinada com cautela, sobretudo tendo em vista o art. 43, §1°, do Código Tributário Nacional, in verbis: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: [...] § 1° A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. diante da circunstância de que o rendimento ou receita independe da denominação, da origem ou da forma de percepção para ser oferecida à tributação, a parcela objeto de estudo deve ser aferida de forma autônoma, no pendente, para fins da verificação da hipótese de incidência; nesta linha de raciocínio, o Min. Arnaldo Esteves Lima, em voto proferido no julgamento do Recurso Especial n° 1.227.133/RS, sustenta: Se a verba principal for de natureza remuneratória ou indenizatória, para efeitos de exigência do imposto de renda, não terá relevância para o acessório. Não há falar em extensão. Nesse contexto, os juros de mora, quanto ao aspecto tributário, não obstante seu caráter acessório, não podem seguir a sorte da prestação principal a que se referem, (grifos aditados) desse modo, ainda que se entenda tributável, para fins de Imposto de Renda, as parcelas recebidas a título de "diferenças de URV" o que não se espera não há que se falar em extensão de tal entendimento aos juros moratórios, vez que, em âmbito tributário, o acessório não segue a sorte do principal; Fl. 451DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 445 15 por fim, é imperioso observar que, neste caso específico, não se trata apenas de apresentação da divergência existente entre as Turmas do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, mas, também, de demonstração da necessidade de adoção do entendimento exposto pelo Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial n° 1.227.133/RS, julgado sob o rito do artigo 543C do CPC, por força do art. 62A do Regimento Interno do CARF; sendo assim, ainda que os Nobres Conselheiros entendam, em seu íntimo, pela incidência do imposto de renda sobre a parcela referente aos juros moratórios o que se admite apenas por debate, já que sabe, o Recorrente, da boa técnica dos membros deste Conselho estes deverão reproduzir o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça, em prestígio ao art. 62A do Regimento Interno do CARF. Ao final, a Contribuinte pede: seja reformado in totum o acórdão recorrido, declarando a não incidência do Imposto de Renda sobre os rendimentos recebidos pelo ora Recorrente à título de "diferenças de URV", conforme posicionamento exposto no acórdão n. 210201.687 pela 2a Turma Ordinária da Ia Câmara da 2a Seção de Julgamento do CARF ou, caso assim não entenda este Ilustre Conselho, seja parcialmente reformado o acórdão ora vergastado, para determinar a exclusão da parcela referente aos juros moratórios, em consonância com o exposto no acórdão n. 280102.264 pela Ia Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF, seja porque tal montante não representa acréscimo patrimonial apto a ensejar a incidência do imposto federal, seja em observância ao art. 62A do Regimento Interno do CARF. O processo foi encaminhado à PGFN em 30/06/2015 (Despacho de Encaminhamento de fls. 4076) e, em 10/07/2015, a Fazenda Nacional ofereceu as Contrarrazões de fls. 422 a 435 (Despacho de Encaminhamento de fls. 436), alegando, em síntese: Preliminar de não conhecimento do recurso o Despacho nº s/n – 2ª Câmara reconheceu como comprovada a caracterização da divergência jurisprudencial em relação ao Acórdão n. 2801 02.264, alegadamente quanto à “não incidência de Imposto de Renda sobre a rubrica correspondente a juros de mora”; todavia, o recorrente não logrou êxito na demonstração da divergência jurisprudencial; em primeiro lugar, observase que a recorrente sequer pleiteia a demonstração de divergência quanto à “não incidência de Imposto de Renda sobre a rubrica correspondente a juros de mora”, como assentou o referido despacho de admissibilidade; na verdade, objetivou a recorrente a exclusão dos juros de mora do presente lançamento, confirase trecho do recurso especial: 2.8. Na remota hipótese deste Conselho entender de forma diversa daquela sustentada pelo primeiro paradigma apresentado, impõese a verificação da divergência existente Fl. 452DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 16 entre a decisão recorrida e aquela proferida pela 1a Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF, constante do Acórdão n. 280102.264 (Segundo Acórdão Paradigma) (Doc. 04), que, em similar hipótese, excluiu do débito tanto a multa de ofício, quanto a parcela referente aos juros moratórios, conforme Ementa abaixo: (...) 2.9 Também aqui o cotejo das Ementas revela clara divergência sobre o tema. Enquanto que o acórdão recorrido manteve a autuação e juros de mora, excluindo apenas a multa de ofício, o segundo acórdão paradigma proferido pela Ia Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF, a contrario sensu. defende a exclusão tanto da multa de ofício, quanto dos juros moratórios. na verdade, objetivou a recorrente a exclusão dos juros de mora do presente lançamento; portanto, a pretensão da recorrente nada tem a ver com a “não incidência de Imposto de Renda sobre a rubrica correspondente a juros de mora”, pretende apenas a exclusão dos juros de mora do lançamento. nesse passo, o acórdão nº 280102.264 não se mostra com apto à configuração do dissenso, pois trata de outra questão totalmente estranha e diversa da discutida nestes autos e sequer se reporta à possibilidade de exclusão dos juros do lançamento, como quer a recorrente. noutro passo, a exigência dos juros de mora, além de encontrar amparo na lei, não é alvo de divergências jurisprudenciais que possam justificar o manejo de recurso especial cujo fim precípuo é a uniformização de teses jurídicas. Para comprovar seguem dois enunciados da Súmula de Jurisprudência deste Eg. Conselho: Súmula CARFnº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. logo, como o recorrente não logrou êxito em demonstrar a diversidade das teses jurídicas contrapostas, não ficou comprovada a divergência jurisprudencial suscitada; ante os argumentos expendidos, em sede preliminar, devese negar seguimento ao recurso especial manejado, diante da ausência de demonstração da divergência jurisprudencial. Mérito do recurso a não incidência do IRPF sobre os valores percebidos a título de “valores indenizatórios de URV” aos membros da Magistratura Federal e do MPU constitui isenção e como tal deve ter sua aplicação analisada sob o prisma mais restritivo possível; Fl. 453DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 446 17 nos termos do art. 153, III, da Constituição Federal, compete à União instituir imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. em face do que dispõe o art. 146, III, a, da Constituição Federal, a Lei nº 5.172/66 assim definiu o fato gerador do Imposto de Renda: “Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior.” em conformidade com o § 1º do artigo transcrito, incluído pela Lei Complementar nº 104/2001, e também o § 4º do art. 3º da Lei nº 7.713/88, a tributação independe da denominação dos rendimentos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título; em consonância ainda com o art. 16 da Lei nº 4.506/64, serão classificados como rendimentos do trabalho assalariado, para fins de incidência do Imposto de Renda, todas as espécies de remuneração por trabalho ou serviços prestados no exercício de empregos, cargos ou funções; a partir da interpretação sistemática das normas jurídicas acima, temos que os valores recebidos a título de diferenças no cálculo da URV possuem natureza salarial e estão sujeitas ao imposto de renda; desta forma, a regra é a tributação destes valores e, somente, nas situações excepcionalmente elencadas nas Leis nºs 9.665/98 e 10.477/2002, conforme Resolução 245/2002 do STF, encampada pelo Ministro da Fazenda por meio do Parecer PGFN nº 923/2003, é que a incidência de IRPF deve ser afastada, e não é este o caso dos autos; a instituição de benefício fiscal desonera a carga tributária, causando uma exceção ao entendimento de que tal carga deve ser suportada por todos os sujeitos passivos previstos em lei a fim de que o Estado possa atingir seus objetivos e cumprir suas obrigações, e, portanto, sua análise deve ser a mais cautelosa possível (cita doutrina de Ives Gandra da Silva Martins); desta forma, qualquer benefício que reduza o ingresso de divisas nos cofres públicos deve ser interpretado restritivamente, ou seja, a interpretação deve ser literal; as principais normas jurídicas que tratam de isenção (tributária), estabelecendo os contornos fundamentais do instituto, são as seguintes: Constituição "Art. 150. (...) Fl. 454DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 18 §6 Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativas a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto no artigo 155, § 2º, XII, g." Código Tributário Nacional “Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. (...) Art. 176. A isenção, ainda quando prevista em contrato, é sempre decorrente de lei que especifique as condições e requisitos exigidos para a sua concessão, os tributos a que se aplica e, sendo caso, o prazo de sua duração. Parágrafo único. A isenção pode ser restrita a determinada região do território da entidade tributante, em função de condições a ela peculiares.” diante dos comandos constitucionais e legais transcritos não subsiste dúvida: a isenção é exceção feita expressamente à regra jurídica de tributação e deve ser veiculada por meio de lei; como exceção à regra, a isenção comporta interpretação e aplicação restritivas, portanto somente as hipóteses clara e explicitamente consagradas pelo legislador podem gozar do “favor tributário” da isenção; estas premissas foram e são sufragadas veementemente na ordem jurídica nacional: “RESP RECURSO ESPECIAL – 529577 Relator(a) FRANCISCO FALCÃO Sigla do órgão STJ Órgão julgador PRIMEIRA TURMA Fonte DJ DATA:14/03/2005 PG:00201 TRIBUTÁRIO. IPI. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE. RECONHECIMENTO DO DIREITO AO RESSARCIMENTO DE CRÉDITO PRESUMIDO. ART. 1º DA LEI 9.363/96. BENEFÍCIO FISCAL QUE ATINGE SOMENTE AS MERCADORIAS INTEGRADAS NO PROCESSO PRODUTIVO DE PRODUTO FINAL DESTINADO À EXPORTAÇÃO. INTERPRETAÇÃO LITERAL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356 DO C. STF. RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL NÃO CONHECIDO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. Fl. 455DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 447 19 SÚMULAS 282 E 356 DO C. STF. I O art. 1º da Lei 9.363/96 disciplina o reconhecimento do direito ao ressarcimento do crédito presumido do IPI somente em relação às mercadorias agregadas em processo produtivo a produto final destinado à exportação. II A desoneração da carga tributária, como benefício fiscal, e em exceção à regra geral que é a incidência dos tributos que gerarão o crédito presumido, deve ser interpretada nos exatos termos da previsão legal, sem ampliação ou redução de seu alcance.(...)” “Processo AGRESP AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL 1093720 Relator(a) HUMBERTO MARTINS Sigla do órgão STJ Órgão julgador SEGUNDA TURMA Fonte DJE DATA:04/05/2009 PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO – VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC – INEXISTÊNCIA – IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO – MÁQUINA IMPRESSORA OFFSET – BENEFÍCIO FISCAL – REGIME DE ALÍQUOTA ZERO – REQUISITOS – INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA – ART. 111, INCISO II, DO CTN. 1. Inexiste violação do art. 535 do CPC quando a prestação jurisdicional é dada na medida da pretensão deduzida. 2. As isenções, diante da inteligência do art. 111, inciso II, do CTN, devem ser interpretadas literalmente, ou seja, restritivamente, pois sempre implicam renúncia de receita. 3. A aplicação de alíquota zero na importação da máquina impressora offset em comento é concedida apenas quando preenchidos os requisitos previstos na Portaria MF n. 279/96, o que, segundo o Tribunal de origem, não ocorreu, afastandose a violação do art. 111, II, do CTN. Agravo regimental improvido. Indexação VEJA A EMENTA E DEMAIS INFORMAÇÕES. Data da Decisão 14/04/2009 Data da Publicação 04/05/2009.” “AgRg no REsp 1093720 / RJ AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL 2008/01970838 Relator(a) Ministro HUMBERTO MARTINS (1130) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 14/04/2009 Data da Publicação/Fonte DJe 04/05/2009 PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO – VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC – INEXISTÊNCIA – IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO – MÁQUINA IMPRESSORA OFFSET – BENEFÍCIO FISCAL – REGIME DE ALÍQUOTA ZERO – REQUISITOS – INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA – ART. 111, INCISO II, DO CTN. 1. Inexiste violação do art. 535 do CPC quando a prestação jurisdicional é dada na medida da pretensão deduzida. 2. As isenções, diante da inteligência do art. 111, inciso II, do CTN, devem ser interpretadas literalmente, ou seja, restritivamente, pois sempre implicam renúncia de receita. 3. A aplicação de alíquota zero na importação da máquina impressora offset em comento é concedida apenas quando preenchidos os requisitos previstos na Portaria MF n. 279/96, o que, segundo o Tribunal Fl. 456DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 20 de origem, não ocorreu, afastandose a violação do art. 111, II, do CTN. Agravo regimental improvido.” no que se refere à Resolução STF nº 245/2002 cabe observar, que a mesma restringese ao abono variável aplicável aos membros da Magistratura da União; esse abono, especificamente, foi considerado de natureza indenizatória pelo STF e, por determinação expressa do Parecer PGFN n° 923/2003, aprovado pelo Ministro da Fazenda, está fora da incidência tributária do imposto de renda; em momento algum, houve pronunciamento do STF ou do Ministro da Fazenda acerca das naturezas jurídica e tributária dos rendimentos recebidos com fulcro na referida Lei Estadual que criou a isenção; nesta seara, atribuir aos rendimentos em análise a mesma natureza do abono variável das Leis n°s 10.477/2002 e 9.655/98 seria alargar as fronteiras da nãoincidência tributária sem previsão de Lei Federal para tanto; não se trata, no caso concreto, de mera equiparação de benefício previsto em lei federal (competente para reger a matéria) para a Magistratura Federal a membro da Magistratura Estadual/Ministério Público Estadual, mas sim de elastecer a concessão de uma isenção por analogia, diante da inexistência de previsão legal, o que não se pode permitir; neste sentido colacionamse os seguintes julgados: "ADMINISTRATIVO E TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. REMUNERAÇÃO DE SERVIDORES. CONVERSÃO DA URV PARA O REAL. PARCELA RESULTANTE DAS DIFERENÇAS APURADAS. NATUREZA SALARIAL. RESOLUÇÃO 245/STF. INAPLICABILIDADE. ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA. ART. 4º DA LEI 1.060/50. INDEFERIMENTO EXPRESSO DO PEDIDO PELO TRIBUNAL A QUO. PRESUNÇÃO JURIS TANTUM. 1. As verbas percebidas por servidores públicos, resultantes da diferença apurada na conversão de sua remuneração da URV para o Real, têm natureza salarial, por isso que estão sujeitas à incidência de imposto de renda e de contribuição previdenciária. (Precedentes: EDcl no RMS 27.336/RS, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/03/2009, DJe 14/04/2009; RMS 27.338/RS, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em 03/03/2009, DJe 19/03/2009; AgRg no RMS 25.995/RS, Rel. Ministra DENISE ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 03/03/2009, DJe 01/04/2009; RMS 28.241/RS, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 18/12/2008, DJe 18/02/2009; AgRg no RMS 27.614/RS, Rel. Ministro HERM HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/12/2008, DJe 13/03/2009) 2. A Resolução Administrativa 245 do Supremo Tribunal Federal é inaplicável in casu, porquanto versa sobre as diferenças Fl. 457DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 448 21 da URV referentes, especificamente, ao abono variável concedido aos magistrados pela Lei 9.655/98, sendo certo o reconhecimento da natureza indenizatória da aludida verba no bojo da mencionada Resolução. (Precedentes: AgRg no RMS 27.577/RS, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 16/12/2008, DJe 11/02/2009; AgRg no RMS 27.614/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/12/2008, DJe 13/03/2009; RMS 19.088/DF, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 10/04/2007, DJ 20/04/2007) 3. A mera declaração do interessado acerca da hipossuficiência é bastante à concessão da gratuidade da justiça, sendo certo certo que referido documento revestese de presunção relativa de veracidade, suscetível de ser elidida pelo julgador que entenda haver fundadas razões para crer que o requerente não se encontra no estado de miserabilidade declarado. (Precedentes: RMS 27.338/RS, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em 03/03/2009, DJe 19/03/2009; RMS 27.582/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 18/11/2008, DJe 09/03/2009; RMS 26.588/MS, Rel. Ministro FERNANDO GONÇALVES, QUARTA TURMA, julgado em 02/09/2008, DJe 15/09/2008; AgRg no AgRg no Ag 978.821/DF, Rel. Ministro MASSAMI UYEDA, TERCEIRA TURMA, julgado em 21/08/2008, DJe 15/10/2008) 4. In casu, restou assente nas instâncias ordinárias (fls. 43/44) que, in verbis: "(...) pelo disposto no § 1º do referido artigo, "presumese pobre, até prova em contrário, quem afirmar essa condição nos termos desta lei, sob pena de pagamento até o décuplo das custas judiciais". Isto é, a lei consagra a presunção juris tantum de pobreza. No caso vertente, entretanto, inicialmente não foi indeferido o benefício da Assistência Judiciária Gratuita, mas tão somente se determinou que apresentasse comprovante de rendimentos e/ou cópia da declaração de imposto de renda/isento. Tal determinação, por sua vez, apresentase justificada à medida que houver dúvida sobre a sinceridade do pedido e/ou sobre a necessidade da parte demandante. Com a apresentação do documento requerido às fls. 41, temse agora sim por indeferir o pedido de Assistência Judiciária, visto que o montante das custas é reduzido, e tal documento revela rendimentos superiores a R$ 6.000,00 mensais." 5. Exclusão da multa imposta com base no art. 538, parágrafo único, do CPC, ante a ausência de intuito protelatório por parte da recorrente, porquanto ausente provimento jurisdicional a ensejar interesse em procrastinar do feito. 6. Recurso ordinário parcialmente provido, para excluir a multa imposta com base no art. 538 do CPC.” Fl. 458DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 22 ROMS 200900116260. Luiz Fux. 1ª Turma. STJ. Publicado em 03/08/2010 “TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INCIDÊNCIA SOBRE DIFERENÇAS PAGAS A TÍTULO DE URV. 1. Afastase a alegada ofensa ao princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa, pois o acórdão denegatório do mandado de segurança está claro e suficientemente fundamentado, muito embora o Tribunal de origem tenha decidido de forma contrária aos interesses do impetrante. Isso, contudo, não significa omissão, mormente por terem sido abordados todos os pontos necessários para a integral resolução da controvérsia. Da mesma forma, é cabível a aplicação de multa por oposição protelatória de embargos de declaração na espécie, tendo em vista a inexistência de omissão, contradição ou obscuridade e a sucessiva utilização do incidente processual. Nesse sentido: RMS 28.241/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, DJe de 18.2.2009. 2. Quanto à alegada ofensa ao art. 4º, § 1º, da Lei 1.060/50, o recurso ordinário nem sequer deve ser conhecido. Isto porque, de acordo com o art. 169, V, do Regimento Interno do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, compete ao Relator processar e julgar os pedidos de assistência judiciária, ressalvada a competência do 1º Vice Presidente para, nos termos do art. 44, III, do mesmo Regimento, processar e julgar os pedidos de assistência judiciária antes da distribuição e quando se tratar de recurso extraordinário ou especial. E ressalvadas as exceções previstas nesse Regimento, o seu art. 233 dispõe que caberá agravo regimental, no prazo de cinco (5) dias, de decisão do Presidente, dos VicePresidentes ou do Relator, que causar prejuízo ao direito da parte. No caso, contra a decisão que indeferiu o pedido de assistência judiciária o impetrante não interpôs agravo regimental, ficando preclusa, portanto, a discussão da matéria perante este Tribunal Superior. Por outro lado, embora seja possível a renovação, no ato de interposição do recurso, do pedido de assistência judiciária que, formulado na petição inicial, vem a ser denegado na instância de origem, fazse necessária a comprovação, no segundo pedido de gratuidade da justiça, da mudança na situação econômica do recorrente que não lhe permita pagar as custas processuais, sem prejuízo do sustento próprio ou da família. 3. Este Tribunal Superior firmou sua jurisprudência no sentido de que os valores recebidos a título de diferenças no cálculo da URV possuem natureza salarial e estão sujeitas ao imposto de renda e à contribuição previdenciária. 4. A jurisprudência desta Corte também se firmou no sentido de que a Resolução Administrativa nº 245, do Supremo Tribunal Federal, não se aplica a casos como o dos presentes autos, pois tal resolução faz referência ao abono variável concedido aos magistrados pela Lei 9.655/98. Ademais, não se trata Fl. 459DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 449 23 de decisão proferida em ação com efeito erga omnes, de modo que não pode ser considerada como fato constitutivo, modificativo ou extintivo de direito suficiente para influir no julgamento da presente ação mandamental. 5. Recurso ordinário parcialmente conhecido, porém não provido.” ROMS 200801608971. Min. Mauro Campbell. STJ. 2ª Turma. Publicado em 30/09/2010. logo, deve ser mantido o acórdão recorrido, rejeitandose o pleito de sua reforma demandado pela recorrente; quanto aos juros de mora, melhor sorte não merece a pretensão da recorrente; com efeito, sobre tributo pago em atraso incidem juros de mora conforme previsão legal e uníssona jurisprudência deste Eg. Conselho: Súmula CARFnº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. desse modo, deve ser mantido o acórdão atacado, negandose provimento ao recurso especial da contribuinte. Ao final, a Fazenda Nacional pede seja negado seguimento ao recurso especial interposto pela contribuinte e, caso não seja este o entendimento sufragado, requer que, no mérito, seja negado provimento ao recurso, mantendose o acórdão recorrido por seus próprios fundamentos, bem como com fundamento nas razões expendidas acima. Voto Conselheira MARIA HELENA COTTA CARDOZO O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte é tempestivo e visa rediscutir as seguintes matérias: não incidência do Imposto de Renda sobre diferenças de URV, que teriam natureza indenizatória e, caso assim não se entenda, não incidência de Imposto de Renda sobre a rubrica correspondente a juros de mora. Fl. 460DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 24 Em sede de Contrarrazões, a Fazenda Nacional pede o não conhecimento do apelo, no que tange à segunda matéria, alegando que, ao se mencionar "juros de mora", a Contribuinte estaria se referindo aos juros Selic incidentes sobre o crédito tributário, e não sobre a verba de juros por ela recebida. Entretanto, o Recurso Especial é por demais claro, no sentido de que os "juros de mora" referidos são efetivamente aqueles recebidos juntamente com os rendimentos acumulados, mormente na parte em que se demonstra a divergência, mediante a indicação na ementa do paradigma. Confirase: "2.8. Na remota hipótese deste Conselho entender de forma diversa daquela sustentada pelo primeiro paradigma apresentado, impõese a verificação da divergência existente entre a decisão recorrida e aquela proferida pela 1a Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF, constante do Acórdão n. 280102.264 (Segundo Acórdão Paradigma) (Doc. 04), que, em similar hipótese, excluiu do débito tanto a multa de ofício, quanto a parcela referente aos juros moratórios, conforme Ementa abaixo: (...) Acórdão n. 280102.264 (...) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007. NULIDADE. LANÇAMENTO. ACÓRDÃO DRJ. INOCORRÊNCIA Não procedem as alegações de nulidade quando não se vislumbra nos autos nenhuma uma das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto n° 70.235, de 1972. COMPETÊNCIA INSTITUCIONAL A repartição da receita tributária pertencente à União com outros entes federados não afeta a competência tributária da União para instituir, arrecadar e fiscalizar o Imposto sobre a Renda. Portanto, não implica transferência da condição de sujeito ativo. ILEGITIMIDADE PASSIVA. SÚMULA CARF N° 12. Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. RENDIMENTOS TRIBUTÁVEIS. VALORES INDENIZATÓRIOS DE URV. VEDAÇÃO À EXTENSÃO DE NÃOINCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA As verbas recebidas por membros do Ministério Público do Estado da Bahia não têm natureza indenizatória do abono variável previsto pelas Leis n° 10.474 e 10.477, de 2002, sendo incabível excluir tais rendimentos da base de cálculo do imposto de renda. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. JUROS MORATÓRIOS. AÇÃO TRABALHISTA. Os juros moratórios recebidos Fl. 461DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 450 25 acumuladamente em decorrência de sentença judicial, não se sujeitam à incidência do Imposto de Renda. MULTA DE OFÍCIO. ERRO ESCUSÁVEL Não comporta multa de ofício o lançamento constituído com base em valores espontaneamente declarados pelo contribuinte que, induzido pelas informações prestadas pela fonte pagadora, incorreu em erro escusável no preenchimento da declaração de rendimento. Preliminares Rejeitadas. Recurso Voluntário Provido em Parte, (grifos aditados) 2.9 Também aqui o cotejo das Ementas revela clara divergência sobre o tema. Enquanto que o acórdão recorrido manteve a autuação e juros de mora, excluindo apenas a multa de ofício, o segundo acórdão paradigma proferido pela Ia Turma Especial da 2a Seção de Julgamento do CARF, a contrario sensu. defende a exclusão tanto da multa de ofício, quanto dos juros moratórios. Com efeito, o trecho destacado na ementa do paradigma não deixa dúvidas acerca da matéria suscitada, que é "juros de mora recebidos acumuladamente". Não bastasse isso, nas razões de recurso, ao tratar desta matéria, a Contribuinte assim a intitula: "4.1. DA NÃO INCIDÊNCIA DO IMPOSTO DE RENDA SOBRE JUROS MORATÓRIOS." No mais, as razões de recurso seguem focando no Recurso Especial 1.227.133/RS, que nada tem a ver com juros Selic incidente sobre o crédito tributário, mas sim com a matéria efetivamente suscitada, que é a verba de juros recebida acumuladamente. Diante do exposto, conheço integralmente do recurso e passo à sua análise. A matéria não é nova neste Colegiado. Tratase de Auto de Infração relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física dos anoscalendário de 2004, 2005 e 2006, acrescido de multa de ofício no percentual de 75% e juros de mora, tendo em vista a reclassificação, como tributáveis, de rendimentos declarados como isentos, recebidos do Ministério Público do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em trinta e seis parcelas, no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, em decorrência da Lei Complementar do Estado da Bahia nº 20, de 08/09/2003, editada em virtude do objeto da Ação Ordinária de nº 140.975921531, julgada pelo Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, e em consonância com os precedentes do Supremo Tribunal Federal, especialmente nas Ações Ordinárias nºs 613 e 614. . As verbas ora analisadas constituem diferenças salariais verificadas na conversão da remuneração do servidor público, quando da implantação do Plano Real, portanto tais valores referemse a salários (vencimentos) não recebidos ao longo dos anos. Nesse passo, o objetivo da ação judicial e/ou da lei do estado da Bahia foi simplesmente pagar à Fl. 462DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 26 Contribuinte aquilo que antes deixou de ser pago, que nada mais é que salário, portanto de natureza tributável. Assim, o recebimento da verba ora tratada configura acréscimo patrimonial e, consequentemente, sujeitase à incidência do Imposto de Renda, consoante dispõe o art. 43 do CTN: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. O dispositivo legal acima não deixa dúvidas acerca da abrangência da tributação do Imposto de Renda, abarcando qualquer evento que se traduza em aumento patrimonial, independentemente da denominação que seja dada ao ganho. Seguindo esta linha, a Lei nº 7.713, de 1988, assim dispõe: Art. 1º Os rendimentos e ganhos de capital percebidos a partir de 1º de janeiro de 1989, por pessoas físicas residentes ou domiciliados no Brasil, serão tributados pelo imposto de renda na forma da legislação vigente, com as modificações introduzidas por esta Lei. Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (...) § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. (...) § 4º A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. (...)” (grifei) Quanto à alegação de violação ao princípio da isonomia, a Contribuinte traz à baila o fato de que o Supremo Tribunal Federal, em sessão administrativa, atribuiu natureza indenizatória ao Abono Variável concedido aos membros da Magistratura da União pela Lei nº Fl. 463DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 451 27 10.474, de 2002. Ademais, a ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, por meio do Parecer PGFN nº 529, de 2003, manifestou entendimento no sentido de que a verba em tela não estaria sujeita à tributação. Entretanto, a Resolução nº 245, do STF, bem como o Parecer da PGFN, se referem especificamente ao abono concedido aos Magistrados da União pela Lei nº 10.474, de 2002; e o que se discute no presente processo é se tal entendimento deve ser aplicado à verba recebida pelos membros da Ministério Público do Estado da Bahia. Primeiramente, verificase que a posição do Supremo Tribunal Federal – STF sobre a natureza do Abono Variável atribuído aos Magistrados da União foi definida em sessão administrativa e expedida por meio de Resolução, e não em sessão de julgamento daquela Corte e, assim, não se trata de uma decisão judicial, cujos efeitos são bem distintos dos de uma resolução administrativa. Destarte, obviamente que a Resolução do STF nunca vinculou a Administração Tributária da União. Com o advento do Parecer PGFN/Nº 529, de 2003, da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, aprovado pelo Ministro da Fazenda, portanto com força vinculante em relação aos Órgãos da Administração Tributária, concluiuse que o Abono Variável de que trata o art. 2º da Lei nº 10.474, de 2002, teria natureza indenizatória. Entretanto, dito parecer é claro quanto aos limites desse entendimento, conforme será demonstrado na seqüência. O parecer destaca que o Superior Tribunal de Justiça – STJ consolidou entendimento no sentido de que abonos recebidos em substituição a aumentos salariais sofrem a incidência do Imposto de Renda. Após, faz a ressalva de que, segundo entendimento dessa mesma Corte, nos casos de abono concedido como reparação pela supressão ou perda de direito, ele tem natureza indenizatória. Ainda segundo o parecer da PGFN, seria este o entendimento do STF, manifestado por meio da Resolução nº 245, de 2002, relativamente ao abono variável e provisório previsto no art. 6º da Lei nº 9.655, de 1998, com a alteração estabelecida no art. 2º da Lei nº 10.474, de 2002. Assim, claro está que o Parecer da PGFN somente reconheceu a natureza indenizatória do Abono Variável, previsto nas Leis nºs 9.655, de 1998, e 10.474, de 2002, acolhendo entendimento do STF, no sentido de que tal verba destinarseia a reparar direito. Destarte, a Resolução nº 245, do STF, não possui efeitos de decisão judicial, e o Parecer PGFN/Nº 529, de 2003, apenas reconhece a natureza indenizatória do abono concedido aos Magistrados da União, acatando interpretação do STF quanto à natureza reparatória, especificamente para esse abono. Portanto, ambos os atos alcançam apenas o abono previsto no art. 6º da Lei nº 9.655, de 1998, com a alteração estabelecida no art. 2º da Lei nº 10.474, de 2002. Ademais, a Resolução nº 245, do STF, excluiu do abono a verba referente à diferença de URV, o que evidencia que esta não tem natureza indenizatória, mas sim de recomposição salarial. Confirase a manifestação Superior Tribunal de Justiça, por meio de voto da Ministra Eliana Calmon, reconhecendo a falta e identidade entre o abono salarial tratado na Resolução e as diferenças de URV: “Na jurisprudência desta Casa, colho os seguintes precedentes, que sempre distinguiram as hipóteses de percepção das diferenças remuneratórias da URV do abono identificado na Fl. 464DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 28 Resolução 245/STF: (...)” (STJ, Recurso Especial n.º 1.187.109/MA, Segunda Turma, Ministra Relatora Eliana Calmon, julgado em 17/08/2010) E também o Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, em decisão no Recurso Extraordinário n.º 471.115: “Os valores assim recebidos pelo recorrido decorrem de compensação pela falta de oportuna correção no valor nominal do salário, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. As parcelas representativas do montante que deixou de ser pago, no momento oportuno, são dotadas dessa mesma natureza jurídica e, assim, incide imposto de renda quando de seu recebimento. No que concerne à Resolução no. 245/02, deste Supremo Tribunal Federal, utilizada na fundamentação do acórdão recorrido, temse que suas normas a tanto não se aplicam, para o fim pretendido pelo recorrido (...)” (STF, Recurso Extraordinário n.º 471.115, Ministro Relator Dias Toffoli, julgado em 03/02/2010) Assim, não há como estenderse o alcance dos atos legais acima referidos para verbas distintas, concedidas para outro grupo de servidores, por meio de ato específico, diverso daqueles referidos na Resolução do STF e no Parecer da PGFN. Com efeito, a norma que concede isenção deve ser interpretada sempre literalmente, conforme inciso II, do art. 111, do CTN. Ademais, o mesmo código veda o emprego da analogia ou de interpretações extensivas para alcançar sujeitos passivos em situação supostamente semelhante, o que implicaria concessão de isenção sem lei federal própria, o que ofenderia o § 6º, do art. 150, da Constituição Federal, e o art. 176, do CTN. Destarte, a verba em exame deve ser efetivamente tributada. Quanto à alegada inexigibilidade de Imposto de Renda incidente sobre a verba recebida pela contribuinte a título de juros de mora, a decisão do STJ, no julgamento do REsp 1.227.133/RS, sob o rito do art. 543C, do CPC, é no sentido de que estaria restrita aos casos de pagamento a destempo de verbas trabalhistas de natureza indenizatória, oriundas de condenação judicial, por força da norma isentiva prevista no inciso V, do art. 6º, da Lei nº 7.713, de 1988. Confirase: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. INCIDÊNCIA. JUROS DE MORA. CARÁTER REMUNERATÓRIO. TEMA JULGADO PELO STJ SOB A SISTEMÁTICA DO ART. 543C DO CPC. 1. Por ocasião do julgamento do REsp 1.227.133/RS, pelo regime do art. 543C do CPC (recursos repetitivos), consolidou se o entendimento no sentido de que 'não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla.' Todavia, após o julgamento dos embargos de declaração da Fazenda Nacional, esse entendimento sofreu profunda alteração, e passou a prevalecer entendimento menos abrangente. Concluiuse neste julgamento que 'os juros de mora pagos em virtude de decisão judicial proferida em ação de natureza trabalhista, devidos no Fl. 465DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO Processo nº 10580.726064/200951 Acórdão n.º 9202004.238 CSRFT2 Fl. 452 29 contexto de rescisão de contrato de trabalho, por se tratar de verba indenizatória paga na forma da lei, são isentos do imposto de renda, por força do art. 6º, V, da Lei 7.713/88, até o limite da lei'. 2. Na hipótese, não sendo as verbas trabalhistas decorrentes de despedida ou rescisão contratual de trabalho, assim como por terem referidas verbas (horas extras) natureza remuneratória, deve incidir o imposto de renda sobre os juros de mora. Agravo regimental improvido.(AgRg no REsp 1235772 RS – julgado em 26/06/2012) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. IMPOSTO DE RENDA. JUROS DE MORA DECORRENTES DO PAGAMENTO EM ATRASO DE VERBAS TRABALHISTAS. NÃO INCIDÊNCIA. MATÉRIA JÁ PACIFICADA PELA PRIMEIRA SEÇÃO. RECURSO ESPECIAL REPETITIVO 1.227.133/RS. 1. A Primeira Seção, por ocasião do julgamento do REsp 1.227.133/RS, sob o rito do art. 543C do CPC, fixou orientação no sentido de que é inexigível o imposto de renda sobre os juros de mora decorrentes do pagamento a destempo de verbas trabalhistas de natureza indenizatória, oriundas de condenação judicial. 2. Agravo regimental não provido.” (AgRg nos REsp 1163490 SC – julgado em 14/03/2012) Da análise do julgamento do Recurso Repetitivo 1.227.133/RS, verificase que são isentos do imposto de renda os juros de mora decorrentes do pagamento a destempo de verbas trabalhistas de natureza indenizatória, oriundas de condenação judicial, conforme a regra do “accessorium sequitur suum principale”. Assim, não sendo as verbas trabalhistas de natureza indenizatória, o imposto de renda deve incidir também sobre os juros de mora. Ressaltese que as verbas ora analisadas já foram objeto de julgamento pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, oportunidade em que se deu provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, por meio do Acórdão nº 9202003.585, de 03/03/2015, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 IRPF. VALORES INDENIZATÓRIOS DE URV, CLASSIFICADOS A PARTIR DE INFORMAÇÕES PRESTADAS PELA FONTE PAGADORA. INCIDÊNCIA. Incide o IRPF sobre os valores indenizatórios de URV, em virtude de sua natureza remuneratória. Fl. 466DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO 30 Precedentes do STF e do STJ. Recurso especial provido." A decisão foi assim registrada: "Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso especial da Fazenda, determinando o retorno dos autos à turma a quo, para analisar as demais questões trazidas no recurso voluntário do contribuinte. Vencido o Conselheiro Marcelo Oliveira, que votou por negar provimento ao recurso. Fez sustentação oral o Dr. Marcio Pinto Teixeira, OAB/BA nº 23.911, patrono da recorrida. Defendeu a Fazenda Nacional a Procuradora Dra. Patrícia de Amorim Gomes Macedo." Assentada a natureza tributável dos rendimentos objeto da autuação, resta esclarecer que o tributo devido deve ser calculado de acordo com as tabelas vigentes à época em que os rendimentos deveriam ter sido pagos ao Contribuinte. Salientese que a questão já foi decidida pelo STF, no RE 614.406/RS, com trânsito em julgado em 11/12/2014, e repercussão geral previamente reconhecida, em 20/10/2010, na sistemática do art. 543B, do Código de Processo Civil. Destarte, os Conselheiros do CARF devem reproduzir o entendimento do citado julgado, prolatado pelo STF em 23/10/2014, conforme determina o art. 62, § 2º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015. Nesse passo, a decisão vinculante é no sentido de aplicarse o regime de competência, vedada a aplicação do regime de caixa. Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte e, no mérito, doulhe provimento parcial, para que o cálculo do Imposto de Renda seja efetuado com base no regime de competência. (assinado digitalmente) MARIA HELENA COTTA CARDOZO Relatora Fl. 467DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO, Assinado digitalmente em 04/0 7/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 01/07/2016 por MARIA HELENA COTT A CARDOZO
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Numero do processo: 13884.721333/2014-23
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 28 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Apr 19 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2013
ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. SÚMULA N.º 63 DO CARF.
Para gozo de isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico ofício da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios
Numero da decisão: 2201-002.825
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI- Presidente em exercício.
Assinado digitalmente.
ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ- Relator.
Assinado digitalmente.
NOME DO REDATOR - Redator designado.
EDITADO EM: 25/02/2016
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto Mees Stringari (Presidente em exercício), Eduardo Tadeu Farah, Ivete Malaquias Pessoa Monteiro, Marcelo Vasconcelos de Almeida, Carlos César Quadros Pierre, Marcio de Lacerda Martins (Suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada). Ausente, justificadamente, o Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior (Presidente).
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ
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MOLÉSTIA GRAVE. SÚMULA N.º 63 DO CARF. Para gozo de isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico ofício da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Presidente em exercício. Assinado digitalmente. ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ Relator. Assinado digitalmente. NOME DO REDATOR Redator designado. EDITADO EM: 25/02/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto Mees Stringari (Presidente em exercício), Eduardo Tadeu Farah, Ivete Malaquias Pessoa Monteiro, Marcelo Vasconcelos de Almeida, Carlos César Quadros Pierre, Marcio de Lacerda Martins (Suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Maria Anselma Coscrato dos Santos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 4. 72 13 33 /2 01 4- 23 Fl. 92DF CARF MF Impresso em 19/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 25/ 02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 2 (Suplente convocada). Ausente, justificadamente, o Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra decisão primeira instância que negou provimento à impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Em 26/05/2014, foi lavrada notificação de lançamento referente ao exercício de 2013, anocalendário 2012, na qual foi constatado que os rendimentos da contribuinte foram indevidamente considerados isentos, em decorrência da não comprovação do acometimento de moléstia grave ou da sua condição de aposentada, pensionista ou reformada. A fim de comprovar o acometimento de moléstia grave pela contribuinte, foi juntado aos autos laudo pericial oficial emitido pela Junta Superior de Saúde do Comando da Aeronáutica (serviço médico oficial) dispondo que a contribuinte era portadora de alienação mental. O mencionado laudo, datado de 04/09/2013, expressamente dispôs que a sua validade retroagiria à data do Parecer da Psiquiatria do GIASJ, em 11/12/2012, estando, assim, abrangidos pela isenção apenas os rendimentos recebidos a partir dessa data. Inconformado com a notificação apresentada, que se refere a período anterior a 11/12/2012, o espólio da contribuinte protocolizou impugnação alegando que os rendimentos em análise eram isentos e que não foram considerados os documentos apresentados em 16 de maio de 2014. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve o crédito tributário em parte, determinando o cancelamento da multa de 75% e mantendo o imposto suplementar acrescido de multa de mora de 10% e juros legais, com a seguintes considerações: a) embora o sujeito passivo do presente lançamento seja o espólio e não o "de cujus" identificado na autuação, pois a contribuinte era falecida, quando da notificação de lançamento, o vício foi sanado pela inexistência de prejuízo para a defesa, que, tempestivamente, apresentou impugnação, afastando a nulidade do ato; b) a multa aplicável é a prevista no art. 49 do DecretoLei n.º 5.844/1943, que fixa o percentual de 10%, e não a multa do art. 44 da Lei 9.430/1996; c) em razão da alienação mental da contribuinte diagnosticada no Laudo Médico Pericial emitido por serviço médico oficial, datado de 20/02/2013, com data retroativa a dezembro de 2012, e, paralelamente a isso, por não ter havido à época a interdição da interessada, em face da doença (alienação mental), resta concluir que não ficou evidenciada a condição de alienada mental antes de dezembro de 2012, sendo, portanto, tributáveis os rendimentos recebidos a título de pensão. Fl. 93DF CARF MF Impresso em 19/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 25/ 02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Processo nº 13884.721333/201423 Acórdão n.º 2201002.825 S2C2T1 Fl. 93 3 Posteriormente, dentro do lapso temporal legal, foi interposto recurso voluntário, no qual o espólio da contribuinte alegou que a contribuinte havia sido diagnosticada como portadora de alienação mental, em 11/12/2012, conforme exames, mas a doença tinha se manifestado há mais de cinco anos, como demonstram os atestados e exames acostados aos autos (atestados médicos datados de 25/10/2010, de 04/12/2010 e de 24/01/2013; certidão de óbito de 21/03/2014 e demais laudos médicos, fls. 72/76). Além disso, sustentou o espólio que, diante do fato de a doença ser degenerativa, evidentemente a contribuinte já estava acometida há vários anos, razão pela qual foi retificada a declaração de imposto de renda referente ao exercício 2010 para a solicitação de restituição do imposto. É o relatório. Voto Conselheiro ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Cuida o presente lançamento de omissão de rendimentos tributáveis, no valor de R$ 84.862, 15 (oitenta e quatro mil oitocentos e sessenta e dois reais e quinze centavos), recebidos de Pessoa Jurídica indevidamente declarados como isentos ou nãotributáveis, em razão de a contribuinte não ter comprovado ser portadora de moléstia considerada grave ou sua condição de aposentada, pensionista ou reformada, nos termos da legislação em vigor, para fins de isenção do imposto de renda. Acerca da matéria, os incisos XIV e XXI, art. 6º, da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com redação dada pelas Leis n.º 8.541, de 23 de dezembro de 1992, e n.º 11.052, de 29 de dezembro de 2004, assim determinam: Art. 6o Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas: (...) XIV os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Pagel (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma; (...) Fl. 94DF CARF MF Impresso em 19/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 25/ 02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 4 XXI os valores recebidos a título de pensão quando o beneficiário desse rendimento for portador das doenças relacionadas no inciso XIV deste artigo, exceto as decorrentes de moléstia profissional, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída após a concessão da pensão. Por sua vez, o art. 30 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, passou a veicular a exigência de que a moléstia fosse comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, nos termos a seguir: Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6° da Lei n" 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com redação dada pelo art. 47 da Lei n°8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 1º O serviço médico oficial fixará o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. § 2º Na relação das moléstias a que se refere o inciso XIV do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, fica incluída a fibrose cística (mucoviscidose). Observase que a isenção por moléstia grave, quando estabelecida em 1988 pela Lei 7.713, não fazia referência quanto à forma de sua comprovação. Contudo, com a superveniência da Lei 9.250, em 1995, foi instituída forma específica para reconhecimento da moléstia pelas autoridades tributárias. A partir da edição da mencionada lei, tornouse indispensável a apresentação do laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Assim, a isenção sob análise requer a consideração do binômio: moléstia (grave) e natureza específica do rendimento (provenientes de aposentadoria, reforma ou pensão), sendo o laudo pericial oficial requisito objetivo para a demonstração da moléstia grave. Inexistindo dúvida acerca da natureza dos rendimentos percebidos pela contribuinte (pensão), fazse necessário analisar o aspecto relativo à caracterização da patologia. Verificase que o cerne da controvérsia em questão é a possibilidade de comprovação da alienação mental da contribuinte falecida, por meio de atestados médicos e demais laudos não oficiais, anteriores a 12/2012, que foi o marco inicial do reconhecimento da moléstia grave, mediante a apresentação do laudo médico oficial, conforme a legislação regente da matéria. Cumpre esclarecer que, embora os atestados médicos particulares datados de períodos anteriores a 12/2012 (25/10/2010, 04/12/2010 e 24/01/2013) indiquem indícios da existência da patologia grave, não há laudo pericial oficial referente ao período integral Fl. 95DF CARF MF Impresso em 19/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 25/ 02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Processo nº 13884.721333/201423 Acórdão n.º 2201002.825 S2C2T1 Fl. 94 5 pleiteado pelo espólio, pois o laudo oficial declara expressamente a sua retroatividade para 12/2012. Assim, considerando a ausência de apresentação do laudo oficial referente ao período pleiteado, resta descumprido o requisito formal necessário ao reconhecimento jurídico da doença, conforme o disposto no art. art. 30 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, bem como em consonância com o Enunciado de Súmula n.º 63 do CARF, abaixo transcrito: “Súmula nº 63 – Para gozo de isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.” Observando a legislação de regência, bem como a mencionada súmula, tem se a seguinte jurisprudência desse Conselho: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Ano calendário:2003 IRPF. PRELIMINAR DE NULIDADE DO LANÇAMENTO Rejeitase a preliminar de nulidade do lançamento quando este obedeceu a todos os requisitos formais e materiais necessários para a sua validade. ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. SÚMULA Nº 63 DO CARF. Conforme se denota do teor da Súmula Vinculante nº 63, havendo laudo médico pericial, elaborado por peritos oficiais, reconhecendo a moléstia grave a decorrendo o provento de pensão ou aposentadoria, faz jus o contribuinte à isenção do Imposto sobre a Renda. Preliminar rejeitada e Recurso Provido. (CARF, 1ª Turma Especial, Acórdão n.º 2801002.428, de 15 de maio de 2012, Rel. Sandro Machado dos Reis.) Desse modo, em obediência ao disposto no art. 30 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e ao conteúdo do Enunciado de Súmula n.º 63 do CARF, por ausência do cumprimento do requisito legal de apresentação do laudo pericial oficial referente ano calendário objeto da autuação, impõese a manutenção do lançamento. Tais as razões expendidas, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. Assinado digitalmente. ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ Relator Fl. 96DF CARF MF Impresso em 19/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 25/ 02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 6 Fl. 97DF CARF MF Impresso em 19/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 25/ 02/2016 por ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI
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Numero do processo: 10580.726643/2009-01
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 21 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Aug 04 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2006, 2007
DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA.
As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pela contribuinte. Compõem a renda auferida, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional, por caracterizarem rendimentos do trabalho.
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. MOMENTO DA TRIBUTAÇÃO.
As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais, ainda que recebidas acumuladamente pela contribuinte, devem ser tributadas pelo imposto sobre a renda com a aplicação das tabelas progressivas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência, consoante decidido pelo STF no âmbito do RE 614.406/RS.
INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS.
Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, trata-se de juros tributáveis.
Numero da decisão: 9202-004.217
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, , por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral..
(Assinado digitalmente)
Heitor de Souza Lima Junior Relator
(Assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente), Maria Teresa Martinez Lopez (Vice-Presidente), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Gérson Macedo Guerra.
Nome do relator: HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR
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NATUREZA. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pela contribuinte. Compõem a renda auferida, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional, por caracterizarem rendimentos do trabalho. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. MOMENTO DA TRIBUTAÇÃO. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais, ainda que recebidas acumuladamente pela contribuinte, devem ser tributadas pelo imposto sobre a renda com a aplicação das tabelas progressivas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência, consoante decidido pelo STF no âmbito do RE 614.406/RS. INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS. Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, tratase de juros tributáveis. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 66 43 /2 00 9- 01 Fl. 260DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 261 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, , por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral.. (Assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior – Relator (Assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente), Maria Teresa Martinez Lopez (VicePresidente), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Gérson Macedo Guerra. Relatório Em litígio, o teor do Acórdão nº 2201001.86, prolatado pela 1a Turma Ordinária da 2a Câmara da 2a Seção de Julgamento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais na sessão plenária de 15 de agosto de 2012 (efls. 139 a 145). Ali, por maioria de votos, deuse parcial provimento ao Recurso Voluntário de forma a se excluir a multa de ofício do lançamento, na forma de ementa e decisão a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 Ementa: NULIDADE. LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. Comprovada a regularidade do procedimento fiscal, fundamentalmente porque atendeu aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, bem como os requisitos do art. 10 do Decreto n° 70.235/1972, não há que se cogitar em nulidade da exigência. IMPOSTO DE RENDA NA FONTE. RESPONSABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 12. Fl. 261DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 262 3 Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. IMPOSTO DE RENDA. DIFERENÇAS SALARIAIS. URV. Os valores recebidos por servidores públicos a título de diferenças ocorridas na conversão de sua remuneração, quando da implantação do Plano Real, são de natureza salarial e, por essa razão, estão sujeitos aos descontos de Imposto de Renda. ISENÇÃO. NECESSIDADE DE LEI. Inexistindo lei federal reconhecendo a alegada isenção, incabível a exclusão dos rendimentos da base de cálculo do Imposto de Renda (art. 176 do CTN). IRPF. MULTA. EXCLUSÃO. Deve ser excluída do lançamento a multa de ofício quando o contribuinte agiu de acordo com orientação emitida pela fonte pagadora, um ente estatal que qualificara de forma equivocada os rendimentos por ele recebidos .Decisão: por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares arguidas pelo recorrente. No mérito, por maioria de votos, DAR provimento PARCIAL ao recurso para excluir a multa de ofício. Vencidos os Conselheiros RODRIGO SANTOS MASSET LACOMBE (Relator) e RAYANA ALVES DE OLIVEIRA FRANÇA, que deram provimento integral, e PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA e MARIA HELENA COTTA CARDOZO, que negaram provimento ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor quanto ao mérito o Conselheiro EDUARDO TADEU FARAH. Enviados os autos ao contribuinte para fins de ciência do decisum, ciência esta ocorrida em 20/03/2014 (efl. 153), o autuado apresentou, em 02/04/2014 (efl. 155) Recurso Especial, com fulcro nos arts. 64, II e 67 do anexo II ao Regimento Interno deste Conselho Administrativo Fiscal aprovado pela Portaria MF no. 256, de 22 de julho de 2009, então em vigor quando da propositura do pleito recursal (efls. 155 a 177 e anexos). Após caracterizar o prequestionamento das matérias objeto de recurso, o recorrente alega, no pleito: a) Que os julgadores a quo, ao desconsiderar o teor de Lei Complementar Estadual para fins de definição ou não da incidência do IRPF sobre as verbas em análise, a tendo considerado incompatível com dispositivo constitucional, teriam violado o art. 62 do Regimento Interno deste Conselho e a Súmula CARF no. 02, estabelecida aqui divergência em relação ao decidido no âmbito do Acórdão 101 94.876, da 1a. Câmara do então 1o. Conselho de Contribuintes; b) O lançamento, uma vez que realizado através da reconstituição de bases anuais e não mensais, apresentaria "erro na construção" e, assim, ao não se anular o crédito Fl. 262DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 263 4 tributário em questão, teria se estabelecido posicionamento divergente em relação ao Acórdão 19200.015, de lavra da 2a. Turma Especial do 1o. Conselho de Contribuintes; c) Ressalta terem decorrido os pagamentos sob análise de ações ordinárias que findaram desfavoráveis à Fazenda Pública Baiana e que foram quitados com receita originária do Estado da Bahia, retomando uma vez mais o argumento, já exaustivamente descrito em sede de impugnação e Recurso Voluntário, no sentido de entender não ser legítima a exigência pela Receita Federal do Brasil do Tributo em questão. Utiliza, ainda, do mesmo item para alegar divergência interpretativa em relação ao Acórdão CARF 2.10201.746; d) Defende como incabível a incidência de IR sobre os juros recebidos, tendo em vista entender que as verbas principais tem natureza indenizatória, colacionando diversos julgados do STF e STJ que suportariam sua pretensão de não incidência, pugnando pela observância do art. 62A do Regimento Interno deste CARF então em vigor e concluindo pela existência de divergência em relação ao decidido no Acórdão CARF 2.80102.138; e) Encerra seu recurso com nova defesa do argumento de ilegitimidade ativa da União para cobrança do tributo sob análise, sem indicação de paradigmas. Resumidamente, destarte, requer que o recurso seja conhecido e provido. para que seja declarado totalmente improcedente o lançamento, seja pela forma equivocada de sua constituição, seja pela natureza indenizatória da parcela em exame, que foi expressamente prevista por lei estadual plenamente válida e eficaz. O recurso foi parcialmente admitido pelos despachos de efls. 228 a 237, exclusivamente quanto às matérias tratadas no item "c" e "d", supra, a saber, "diferenças remuneratórias de URV" e "não incidência de IR sobre os juros moratórios/compensatórios". Foram encaminhados os autos ao autuado, para fins de ciência dos despachos de admissibilidade recursal, ocorrida em 22/10/2015 (efl. 240). Posteriormente, quando encaminhados os autos à PGFN em 21/01/2016, esta apresenta contrarrazões tempestivas, datadas de 25/01/2016 (efls. 243 a 258), onde: a) Traça histórico legislativo do abono variável em questão, ressaltando que só caberia discutir ofensa ao princípio da isonomia caso, uma vez reconhecida a não incidência para os membros de determinada carreira (p. ex. do MPF), algum Procurador da República se visse excluído do benefício, não pertencendo, todavia, a autuada a qualquer das duas carreiras para os quais se reconheceu a não incidência tributária, através dos Pareceres PGFN 529/2003 e 923/2003. Entende que a pretensão do contribuinte no sentido de não incidência violaria os arts. 150, §6o. da CRFB, 97 e 111 do CTN, bem como o disposto nos arts. 3o. c/c 9o. a 14 da Lei no. 7.713, de 22 de dezembro de 1988. Ainda, ressalta a Fazenda Nacional a impossibilidade de lei estadual dispor acerca da incidência ou não de IRPF, sob pena de violação ao art. 153, III da CRFB, caracterizada, nesta hipótese, invasão da esfera de competência tributária da União; b) Quanto à incidência do IRPF sobre os juros moratórios, ressalta que o disposto no mencionado REsp 1.227.133/RS foi esclarecido, também em sede de recurso repetitivo, através do decidido no âmbito do REsp 1.089.720/RS, restando ali determinado que o imposto de renda somente não incide sobre os juros de mora em duas hipóteses: A primeira é Fl. 263DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 264 5 condenação judicial no contexto de perda de emprego ou rescisão contratual. A segunda hipótese ocorre quando a verba principal for isenta ou estiver fora do campo de incidência do imposto de renda. Segue a Fazenda Nacional que, no caso em questão, a verba principal tem nítido caráter salarial, uma vez que corresponde a diferenças de remuneração ocorridas na conversão de Cruzeiro Real para URV. Assim, considerandose ainda o disposto no art. 92 da Lei no. 10.406, de 10 de janeiro de 2002, nos arts. 43, §3o. e 55, XIV do Decreto no. 3.000, de 26 de março de 1999 (em especial, a matriz legal do referido art. 55, XIV, a saber, o art. 16, parágrafo único da Lei no. 4.506, de 30 de novembro de 1964), bem assim o teor dos art. 97, II e 111, II do CTN e do art. 150 § 6o. da CRFB, os juros moratórios, acessórios da verba principal recebida (de natureza salarial), devem, por expressa disposição legal, sofrer incidência do IRPF, não se podendo cogitar de isenção aplicável a tal parcela. Requer, assim, a Fazenda Nacional que seja mantido o inteiro teor do recorrido, com o não provimento do Recurso Especial da contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior Pelo que consta no processo quanto à sua tempestividade, prequestionamento, às devidas apresentação de paradigma consistente e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço quanto às matérias para as quais se deu seguimento. Passandose à análise de mérito, o litígio será abordado através de itens que enfrentam de forma integral, os argumentos apresentados pelo recorrente, respeitandose, ainda, a ordem dos quesitos apresentada : a) Quanto à não incidência do IRPF pela natureza supostamente indenizatória das verbas recebidas, à aplicação da Lei Complementar Estadual no. 20, de 2003, e da Resolução STF no. 245, de 2002. Reitero aqui, inicialmente, considerações que teci quando do julgamento de feito semelhante no âmbito da 1a. Turma Ordinária 1a. Câmara da 2a. Seção deste CARF (Acórdão no. 2.101002.724), mantendo de forma integral meu posicionamento acerca do assunto, que assim se resume: a.1) Da natureza das verbas recebidas e da Lei Complementar Estadual 80, de 2003 Cumpre, primeiramente, salientar que os rendimentos de que trata o presente processo foram recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, a título de "Valores Indenizatórios de URV", em atendimento ao disposto pela Lei do Estado da Bahia n° 8.730, de 2003, a qual, dentre outras disposições, preceitua que a verba em questão é de natureza indenizatória. Para melhor entendimento, transcrevemos, a seguir, os artigos 4° e 5° da Lei Complementar do Estado da Bahia n° 8.730, de 2003: Fl. 264DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 265 6 Art. 4º As diferenças decorrentes do erro na conversão da remuneração de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor URV, objeto das Ações Ordinárias n os. 613 e 614, julgadas procedentes pelo Supremo Tribunal Federal, serão ap uradas, mês a mês, de 1º de abril de 1994 a 31 de julho de 2001, e o montante correspondente a cada Magistrado será dividido em 36 parcelas iguais, para pagamento nos meses de janeiro de 2004 a dezembro de 2006. Art. 5º São de natureza indenizatória as parcelas de que trata o art. 4º desta Lei. Com efeito, da leitura dos dispositivos acima reproduzidos, é possível concluir, tal como concluiu a parte recorrente, que foi atribuída, pelo Estado da Bahia, natureza indenizatória às diferenças decorrentes de erro na conversão da remuneração dos magistrados, de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor URV, objeto da Ação Ordinária em questão. Todavia, do exame desses dispositivos isoladamente, é impertinente inferir que se tratam de rendimentos isentos do Imposto sobre a Renda de Pessoa física. Em primeiro lugar, a competência para legislar sobre o imposto sobre a renda é da União, e a lei acima transcrita é estadual, o que restringe a aplicação da referida Lei Estadual na seara de interesse. Todavia, notese que não se trata, aqui, quando da consequente conclusão de não aplicação da referida Lei, para fins de definição da natureza tributária das verbas sob análise e da incidência ou não do IRPF, de invasão de competência do STF pela União para declarar a inconstitucionalidade a referida Lei Complementar Estadual (o que caracterizaria a violação alegada à Súmula CARF no. 02 e ao art. 62 do Regimento Interno deste CARF então em vigor quando da propositura do recurso), mas, sim, de interpretar o diploma de acordo com a competência tributária constitucionalmente estabelecida, de forma que os efeitos da referida Lei Estadual, no que tange ao caráter indenizatório das verbas recebidas, se limitem a matérias cuja competência seja do Estado da Bahia, visto que, de outra forma, se estaria a validar a possibilidade de invasão de competência tributária da União por este mesmo Estado. Não se está a afastar, aqui, a constitucionalidade do dispositivo de forma a afastar sua aplicação, mas tão somente verificase sua impossibilidade de produção de efeitos na seara tributária, em se tratando de IRPF. Assim, imprescindível a análise da natureza dessas verbas, no contexto de todo o direito positivo aplicável ao tributo em questão, para se concluir pela sua tributação ou não pelo imposto sobre a renda. A propósito, chama a atenção o fato de que as diferenças de URV pagas à contribuinte pelo Tribunal de Justiça do Estado da Bahia não se destinam à recomposição de um prejuízo, ou dano material por ela sofrido. Diferentemente, as verbas recebidas pela contribuinte repõem a atualização monetária dos salários do período considerado. Nesse sentido, observase que o artigo 4° da Lei do Estado da Bahia n° 8.730, de 2003, deixa claro que se trata de diferenças de remuneração quando da conversão de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor URV. Desta forma, é incontornável a constatação que tais diferenças integram a remuneração mensal percebida pela contribuinte, em decorrência do seu trabalho, constituindo Fl. 265DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 266 7 parte integrante de seus vencimentos. As verbas assim auferidas integram, portanto, a definição de renda, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional. Por fim, de se reproduzir uma vez mais a jurisprudência do STJ, que sustenta tal posicionamento, no sentido de se rejeitar o caráter indenizatório das verbas em questão. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE. IMPORTÂNCIAS PAGAS EM DECORRÊNCIA DE SENTENÇA TRABALHISTA. NATUREZA REMUNERATÓRIA. RESPONSABILIDADE PELA RETENÇÃO E RECOLHIMENTO DO IMPOSTO. FONTE PAGADORA. ALÍQUOTA APLICÁVEL. EXCLUSÃO DA MULTA. 1. O recebimento de remuneração em virtude de sentença trabalhista que determinou o pagamento da URP no período de fevereiro de 1989 a setembro de 1990 não se insere no conceito de indenização, constituindose complementação de caráter nitidamente remuneratório, ensejando, portanto, a cobrança de imposto de renda. (...) 5. Recurso especial parcialmente provido (REsp 383.309/SC, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJU de 07.04.06); Eram, portanto, as verbas em questão tributáveis, independentemente da denominação a elas conferida pela Lei do Estado da Bahia n° 8.730, de 2003, conclusão em perfeita consonância e respaldada pelos dispositivos legais mencionados no auto de infração à efl. 07. a.2) Da Resolução n.° 245 do STF O recorrente traz à baila a Resolução n.° 245 do STF, que, uma vez estendida aos membros do Ministério Público da União, por força do artigo 2° da Lei n° 10.477, de 2002, de despacho do PGR no âmbito do Processo Administrativo 1.00.000.011735/2002 e Pareceres PGFN nos. 529 e 923, de 2003, aplicarseia também aos membros do Poder Judiciário dos Estados, de forma a que se afastasse a incidência do IRPF sobre as verbas em discussão. A respeito, verifico que a questão da aplicabilidade da Resolução n° 245 do STF aos valores recebidos a título de diferenças de URV foi exaustivamente analisada pelo Conselheiro Alexandre Naoki Nishioka no voto condutor da decisão proferida pela mesma 1a. Turma Ordinária da 1a Câmara da Segunda Seção de Julgamento deste Conselho, no Acórdão n° 2101002.388, de 18 de fevereiro de 2014. Por se aplicar ao caso que aqui se analisa, e por refletir o entendimento deste Relator, adotase o quanto manifestado naquele voto. Vejase: “(...) Buscando reforçar o argumento, requer a contribuinte a aplicação da Resolução n.° 245 do STF, assim como de consulta administrativa realizada pela Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, os quais disporiam acerca da remuneração dos magistrados. No entanto, mencionadas normas não se aplicam ao fim pretendido pela Recorrente. Fl. 266DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 267 8 Inicialmente, cumpre salientar que a dita resolução dispôs acerca da forma de cálculo do abono salarial variável e provisório de que trata o art. 2° e parágrafos da Lei n.° 10.474/2002, considerandoo como de natureza indenizatória. Neste sentido, o inciso I do art. 1° trouxe a forma de cálculo deste abono: "I apuração, mês a mês, de janeiro/98 a maio/2002, da diferença entre os vencimentos resultantes da Lei n° 10.474, de 2002 (Resolução STF n° 235, de 2002), acrescidos das vantagens pessoais, e a remuneração mensal efetivamente percebida pelo Magistrado, a qualquer título, o que inclui, exemplificativamente, as verbas referentes a diferenças de URV, PAE, 10,87% e recálculo da representação (194%)". A própria redação da Resolução excluiu do valor integrante do abono as verbas referentes à diferença de URV, de onde se interpreta que esta não tem natureza indenizatória, mas de recomposição salarial. Tal tema inclusive já foi enfrentado Egrégio Superior Tribunal de Justiça, tendo este reconhecido as diferenças entre a abono salarial tratado pela norma e a diferença da URV, conforme se verifica de voto da Ministra Eliana Calmon: "Na jurisprudência desta Casa, colho os seguintes precedentes, que sempre distinguiram as hipóteses de percepção das diferenças remuneratórias da URV do abono identificado na Resolução 245/STF: (...)" (STJ, Recurso Especial n.° 1.187.109/MA, Segunda Turma, Ministra Relatora Eliana Calmon, julgado em 17/08/2010)" E tal também foi o entendimento do Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, em decisão monocrática proferida nos autos do Recurso Extraordinário n.° 471.115, do qual se colaciona o seguinte excerto: "Os valores assim recebidos pelo recorrido decorrem de compensação pela falta de oportuna correção no valor nominal do salário, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. As parcelas representativas do montante que deixou de ser pago, no momento oportuno, são dotadas dessa mesma natureza jurídica e, assim, incide imposto de renda quando de seu recebimento. No que concerne à Resolução n° 245/02, deste Supremo Tribunal Federal, utilizada na fundamentação do acórdão recorrido, tem se que suas normas a tanto não se aplicam, para o fim pretendido pelo recorrido (...)" (STF, Recurso Extraordinário n.° 471.115, Ministro Relator Dias Toffoli, julgado em 03/02/2010)" Adicionalmente, mesmo caso se tenha leitura diversa da Resolução STF no. 245, de 2002, entendo de se aceder, ainda, à argumentação de se cingirem os efeitos da referida Resolução e dos despachos PGR e Pareceres PGFN em questão aos membros das carreiras mencionadas no âmbito das Leis no. 10.474 e 10.477, ambas de 27 de julho de 2002 (às quais, ressaltese, não pertence, o recorrente), vedados: Fl. 267DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 268 9 a) o estabelecimento de isenção por analogia a partir do disposto nos arts. 97, VI e 111, I e II do CTN e 150 §6o. da CRFB; b) o afastamento da hipótese de incidência, delineada pelos dispositivos legais de efl. 07, por violação ao princípio constitucional da isonomia, uma vez que é expressamente vedado a este Conselho afastar a aplicação da lei tributária com base em argumentação de violação a preceitos constitucionais, consoante dispõe o art. 62 do Regimento já mencionado e Súmula CARF no. 02. Concluise, portanto, pelo caráter salarial dos valores recebidos acumuladamente pela Recorrente, razão pela qual deverão compor a base de cálculo do Imposto sobre a Renda de Pessoa Física, nos termos do art. 43 do Código Tributário Nacional e dispositivos legais de efl. 07 que fundamentaram o auto de infração, descartado o afastamento da incidência do IRPF seja pelo disposto na Lei do Estado da Bahia no. 8.730, de 2003, seja pelo teor da Resolução STF no. 245, de 2002. a.3) Quanto aos efeitos do decidido no âmbito do RE 614.406/RS ao feito Reitero, também aqui, com a devida vênia ao posicionamento diverso de alguns Conselheiros desta casa, meu entendimento, já manifestado também na instância ordinária, de desnecessidade de observância obrigatória do decidido pelo STJ no âmbito do REsp 1.118.429/SP no caso sob análise, uma vez se estar a tratar ali, da tributação de benefícios previdenciários recebidos acumuladamente, situação fática notadamente diversa da dos presentes autos, onde não está a ser tratar de qualquer rubrica de benefício, mas sim de diferença remuneratória perceptível quando do servidor na ativa. Todavia, reconhecese aqui que a matéria sob litígio foi objeto de análise recente pelo STF, no âmbito do RE 614.406/RS, objeto de trânsito em julgado em 11/12/2014, feito que teve sua repercussão geral previamente reconhecida (em 20 de outubro de 2010), obedecida assim a sistemática prevista no art. 543B do Código de Processo Civil vigente. Obrigatória, assim, a observância, por parte dos Conselheiros deste CARF dos ditames do Acórdão prolatado por aquela Suprema Corte em 23/10/2014, a partir de previsão regimental contida no art. 62, §2o. do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF no. 343, de 09 de junho de 2015. Reportandome a este último julgado vinculante, noto que, ali, se acordou, por maioria de votos, em manter a decisão de piso do STJ acerca da inconstitucionalidade do art. 12 da Lei no. 7.713, de 1988, devendo ocorrer a "incidência mensal para o cálculo do imposto de renda correspondente à tabela progressiva vigente no período mensal em que apurado o rendimento percebido a menor regime de competência (...)", afastandose assim o regime de caixa. Todavia, de se ressaltar aqui também que em nenhum momento se cogita, no Acórdão, de eventual cancelamento integral de lançamentos cuja apuração do imposto devido tenha sido feita obedecendo o art. 12 da referida Lei no. 7.713, de 1988, notese, diploma plenamente vigente na época em que efetuado o lançamento sob análise, o qual, ainda, em meu entendimento, guarda, assim, plena observância ao disposto no art. 142 do Código Tributário Nacional. A propósito, de se notar que os dispositivos legais que embasaram o lançamento constantes de efl. 07, em nenhum momento foram objeto de declaração de inconstitucionalidade ou de decisão em sede de recurso repetitivo de caráter definitivo que pudesse lhes afastar a aplicação ao caso in concretu. Fl. 268DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 269 10 Deflui daquela decisão da Suprema Corte, em meu entendimento, inclusive, o pleno reconhecimento do surgimento da obrigação tributária que aqui se discute o qual, repita se, obedeceu os estritos ditames da legalidade à época da ação fiscal realizada. Da leitura do inteiro teor do decisum do STF, é notório que, ainda que se tenha rejeitado o surgimento da obrigação tributária somente no momento do recebimento financeiro pela pessoa física, o que a faria eventualmente mais gravosa, entendese, ali, inequivocamente, que se mantém incólume a obrigação tributária oriunda do recebimento dos valores acumulados pela contribuinte pessoa física, mas agora a ser calculada em momento pretérito, quando a contribuinte fez jus à percepção dos rendimentos, de forma, assim, a restarem respeitados os princípios da capacidade contributiva e isonomia. Assim, com a devida vênia ao posicionamento esposado por alguns membros deste Conselho, entendo que, a esta altura, ao se defender a exoneração integral do lançamento, se estaria, inclusive, a contrariar as razões de decidir que embasam o decisum vinculante, no qual, reitero, em nenhum momento, notese, se cogita da inexistência da obrigação tributária/incidência do Imposto sobre a Renda decorrente da percepção de rendimentos tributáveis de forma acumulada. Se, por um lado, manterse a tributação na forma do referido art. 12 da Lei no. 7.713, de 1988, conforme decidido de forma definitiva pelo STF, violaria a isonomia no que tange aos que receberam as verbas devidas "em dia" e ali recolheram os tributos devidos, exonerar o lançamento por completo a esta altura significaria estabelecer tratamento anti isonômico (também em relação aos que também receberam em dia e recolheram devidamente seus impostos), mas em favor daqueles que foram autuados e nada recolheram ou recolheram valores muito inferiores aos devidos, ao serem agora consideradas as tabelas/alíquotas vigentes à época, o que deve, em meu entendimento, também se rechaçar. Feita tal digressão, verifico porém, que, no caso em questão, a autoridade fiscal já optou por tributar os valores com base nas alíquotas vigentes nos períodos que apurados o rendimento percebido a menor regime de competência (os rendimentos percebidos a menor referemse aos períodos de abril de 1994 a agosto de 2001) Acerca das tabelas progressivas/alíquotas aplicáveis aos meses de referência, de se consultar o resumo que se segue, que respalda a tabela utilizada de efl. 10: Fl. 269DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 270 11 Todavia, ainda que se tenha utilizado as alíquotas corretas, não há como se garantir que estivesse a autuada na faixa superior de recebimentos mensais para cada um dos meses de competência, uma vez que, notese, não se retroagiu, no lançamento, o momento de incidência aos meses dos anoscalendário de 1994 a 2001, constantes do demonstrativo detalhado de efls. 27 a 29. Assim, diante de tais motivos, voto no sentido de, nesta matéria, dar parcial provimento ao Recurso da Contribuinte, no sentido de determinar a retificação do montante do crédito tributário com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, tudo de acordo com o regime de competência. b) Quanto à incidência do IRPF sobre os juros de mora Para fins de solução do litígio quanto à esta matéria, de se perquirir a extensão dos efeitos da aplicação, ao presente feito, do decidido pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça, no âmbito do REsp 1.227.133/RS, quanto à incidência de juros de mora sobre rendimentos recebidos acumuladamente. Tratase, notese, também de decisum de aplicação obrigatória neste Conselho, consoante art. 62A do Anexo II do Regimento Interno deste CARF em vigor quando da prolação da decisão recorrida, aprovado pela Portaria MF no 256, de 22 de junho de 2009 e, ainda, conforme o art. 62, §1o. do atual Regimento Interno, aprovado pela Portaria MF no 343, de 09 de junho de 2015. A propósito, creio, em linha com o argumentado pela Fazenda Nacional em sede de contrarrazões, que o melhor esclarecimento da amplitude da decisão vinculante em Fl. 270DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 271 12 questão (REsp 1.227.133/RS) pode ser obtido em outro feito daquele Egrégio Tribunal, a saber, no REsp 1.089.720/RS, cujo relator foi o Ministro Mauro Campbell Marques e cuja cristalina ementa decisória, datada de 10/10/12 e publicada em 16/10/12 estabelece: REsp 1.089.720/RS PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA N. 284/STF. IMPOSTO DE RENDA DA PESSOA FÍSICA IRPF. REGRA GERAL DE INCIDÊNCIA SOBRE JUROS DE MORA. PRESERVAÇÃO DA TESE JULGADA NO RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA RESP. N. 1.227.133/RS NO SENTIDO DA ISENÇÃO DO IR SOBRE OS JUROS DE MORA PAGOS NO CONTEXTO DE PERDA DO EMPREGO. ADOÇÃO DE FORMA CUMULATIVA DA TESE DO ACCESSORIUM SEQUITUR SUUM PRINCIPALE PARA ISENTAR DO IR OS JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE VERBA ISENTA OU FORA DO CAMPO DE INCIDÊNCIA DO IR (grifei), 1. Não merece conhecimento o recurso especial que aponta violação ao art. 535, do CPC, sem, na própria peça, individualizar o erro, a obscuridade, a contradição ou a omissão ocorridas no acórdão proferido pela Corte de Origem, bem como sua relevância para a solução da controvérsia apresentada nos autos. Incidência da Súmula n. 284/STF: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia". 2. Regra geral: incide o IRPF sobre os juros de mora, a teor do art. 16, caput e parágrafo único, da Lei n. 4.506/64, inclusive quando reconhecidos em reclamatórias trabalhistas, apesar de sua natureza indenizatória reconhecida pelo mesmo dispositivo legal (matéria ainda não pacificada em recurso representativo da controvérsia). 3. Primeira exceção: são isentos de IRPF os juros de mora quando pagos no contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho, em reclamatórias trabalhistas ou não. Isto é, quando o trabalhador perde o emprego, os juros de mora incidentes sobre as verbas remuneratórias ou indenizatórias que lhe são pagas são isentos de imposto de renda. A isenção é circunstancial para proteger o trabalhador em uma situação sócioeconômica desfavorável (perda do emprego), daí a incidência do art. 6°, V, da Lei n. 7.713/88. Nesse sentido, quando reconhecidos em reclamatória trabalhista, não basta haver a ação trabalhista, é preciso que a reclamatória se refira também às verbas decorrentes da perda do emprego, sejam indenizatórias, sejam remuneratórias (matéria já pacificada no recurso representativo da controvérsia REsp no 1.227.133RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel .p/acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011). Fl. 271DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 272 13 4. Segunda exceção: são isentos do imposto de renda os juros de mora incidentes sobre verba principal isenta ou fora do campo de incidência do IR, mesmo quando pagos fora do contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho (circunstância em que não há perda do emprego), consoante a regra do "accessorium sequitur suum principale". (grifei) (...) 7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido." Assim, com base no posicionamento constante do julgado acima, que adoto integralmente, uma vez entender que foi esse o julgado a sedimentar e esclarecer a correta forma de aplicação do julgado vinculante aqui discutido (REsp 1.227.133/RS), é de se perquirir, em cada caso concreto: 1) se os juros de mora foram auferidos no contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho e 2) se se está diante de verba principal isenta ou fora do campo de incidência do IR. Somente no caso de resposta afirmativa a um dos dois questionamentos acima deve não incidir o IR sobre os juros de mora recebidos acumuladamente, de forma a que se obedeça o julgado vinculante, restando incidente a tributação sobre os juros de mora nas demais situações. Aplicandose o acima disposto ao caso em questão: 1) Conforme já anteriormente delineado, entendo que não se está a tratar, aqui, de verba indenizatória, tendose concluído, no âmbito do presente voto, pela natureza remuneratória da verba principal de diferenças quando da conversão de Cruzeiro Real para URV sob análise, caracterizada, assim, a incidência do IRPF sobre tais verbas; 2) Verifico, também, que não se está a tratar de verbas recebidas no contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho; Concluo, assim, pela incidência do Imposto de Renda sobre os juros de mora em questão quando da aplicação do decisum vinculante constante do REsp 1.227.133/RS, a partir de sua interpretação detalhadamente estabelecida no âmbito do REsp 1.089.720/RS e, desta forma, nego provimento ao Recurso Especial da contribuinte também quanto a esta matéria. Destarte, diante do exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao Recurso da Contribuinte, para determinar a retificação do montante do crédito tributário com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. É como voto. Fl. 272DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Processo nº 10580.726643/200901 Acórdão n.º 9202004.217 CSRFT2 Fl. 273 14 (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior Relator Fl. 273DF CARF MF Impresso em 04/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/ 07/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO, Assinado digitalmente em 15/07/2016 por HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR
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Numero do processo: 19515.005628/2008-95
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2012
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS
Data do fato gerador: 15/01/2004, 30/09/2004
DECADÊNCIA. CRÉDITO BÁSICO. GLOSA
Nos termos do art. 175, I, do CTN, decai em 05 (cinco) anos o direito de a Fazenda Nacional constituir crédito tributário de IPI pelo lançamento, inclusive no caso de glosa de crédito escriturado e aproveitado indevidamente.
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. SISTEMA ALTERNATIVO.
A opção pelo cálculo do credito presumido de IPI pelo sistema alternativo previsto na Lei n° 10.276/01 deve ser, obrigatoriamente, formalizada através da DCTF, até março de 2003, e através do DCP, a partir de março de 2003, não existindo previsão legal para alteração da opção regularmente
formalizada.
DIREITO AO CRÉDITO. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL.
A equiparação a estabelecimento industrial prevista no inciso IX, do art. 9º do RIPI/2002 está condicionada á comprovação de que a importação dos produtos por intermédio de trading foi realizada por conta e ordem do estabelecimento.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3302-001.480
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. O conselheiro Alexandre Gomes declarou-se impedido. Os conselheiros Gileno Gurjão Barreto e Fabiola Cassiano Keramidas acompanharam o relator pelas conclusões.
Nome do relator: WALBER JOSÉ DA SILVA
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ementa_s : CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Data do fato gerador: 15/01/2004, 30/09/2004 DECADÊNCIA. CRÉDITO BÁSICO. GLOSA Nos termos do art. 175, I, do CTN, decai em 05 (cinco) anos o direito de a Fazenda Nacional constituir crédito tributário de IPI pelo lançamento, inclusive no caso de glosa de crédito escriturado e aproveitado indevidamente. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. SISTEMA ALTERNATIVO. A opção pelo cálculo do credito presumido de IPI pelo sistema alternativo previsto na Lei n° 10.276/01 deve ser, obrigatoriamente, formalizada através da DCTF, até março de 2003, e através do DCP, a partir de março de 2003, não existindo previsão legal para alteração da opção regularmente formalizada. DIREITO AO CRÉDITO. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. A equiparação a estabelecimento industrial prevista no inciso IX, do art. 9º do RIPI/2002 está condicionada á comprovação de que a importação dos produtos por intermédio de trading foi realizada por conta e ordem do estabelecimento. Recurso Voluntário Negado
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CRÉDITO BÁSICO. GLOSA Nos termos do art. 175, I, do CTN, decai em 05 (cinco) anos o direito de a Fazenda Nacional constituir crédito tributário de IPI pelo lançamento, inclusive no caso de glosa de crédito escriturado e aproveitado indevidamente. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. SISTEMA ALTERNATIVO. A opção pelo cálculo do credito presumido de IPI pelo sistema alternativo previsto na Lei n° 10.276/01 deve ser, obrigatoriamente, formalizada através da DCTF, até março de 2003, e através do DCP, a partir de março de 2003, não existindo previsão legal para alteração da opção regularmente formalizada. DIREITO AO CRÉDITO. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. A equiparação a estabelecimento industrial prevista no inciso IX, do art. 9º do RIPI/2002 está condicionada á comprovação de que a importação dos produtos por intermédio de trading foi realizada por conta e ordem do estabelecimento. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. O conselheiro Alexandre Fl. 1872DF CARF MF Impresso em 27/06/2016 por EMANOEL WERCELENS PINHEIRO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA, Assinado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 2 Gomes declarouse impedido. Os conselheiros Gileno Gurjão Barreto e Fabiola Cassiano Keramidas acompanharam o relator pelas conclusões. (assinado digitalmente) WALBER JOSÉ DA SILVA Presidente e Relator. EDITADO EM: 24/03/2012 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Walber José da Silva, José Antonio Francisco, Fabiola Cassiano Keramidas, Francisco da Sales Ribeiro de Queiroz, Alexandre Gomes e Gileno Gurjão Barreto. Relatório Contra a empresa recorrente foi lavrado auto de infração para exigir o pagamento de IPI relativo a fatos geradores ocorridos entre dezembro de 2003 e setembro de 2004, tendo em vista que a Fiscalização constatou que a empresa escriturou, indevidamente, os seguintes créditos: 1) créditos básicos relativos à aquisição de insumos isentos, de alíquota zero e não tributável; 2) créditos básicos relativos a produtos adquiridos sem crédito de IPI; e 3) crédito presumido de IPI da matriz transferido para a filial Inconformada com a autuação a empresa interessada impugnou o lançamento, cujas razões estão sintetizadas no relatório do acórdão recorrido, que leio em sessão. A 2a Turma de Julgamento da DRJ em Ribeirão Preto SP julgou procedente o lançamento, nos termos do Acórdão no 1421.834, de 11/12/2008, cuja ementa abaixo se transcreve. DECADÊNCIA. Na ausência de pagamento antecipado não há que se falar cm homologação, regendose o instituto da decadência pelos ditames do art. 173 do CTN. DIREITO AO CRÉDITO. INSUMOS NÃO ONERADOS PELO IPI. É inadmissível, por total ausência de previsão legal, a apropriação, na escrita fiscal do sujeito passivo, de créditos do imposto alusivos a insumos sujeitos à alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. SISTEMA ALTERNATIVO. Fl. 1873DF CARF MF Impresso em 27/06/2016 por EMANOEL WERCELENS PINHEIRO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA, Assinado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA Processo nº 19515.005628/200895 Acórdão n.º 330201.480 S3C3T2 Fl. 1.873 3 A opção pelo cálculo do credito presumido de IPI pelo sistema alternativo previsto na Lei n° 10.276/01 deve ser, obrigatoriamente, formalizada através da DCTF, até março de 2003, e através do DCP, a partir de março de 2003. 411 DIREITO AO CRÉDITO DE IPI. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. A equiparação a estabelecimento industrial prevista no inciso IX, do art. 90 do RIPI/2002 está condicionada á comprovação de que a importação dos produtos por intermédio de pessoa jurídica importadora foi realizada por conta e ordem do estabelecimento. Antes da ciência do lançamento, no dia 31/03/2009, a empresa autuada apresentou pedido de desistência parcial da impugnação, para os efeitos da MP nº 449/2008, reconhecendo como indevidos os créditos básicos de IPI nas aquisições de insumo isento, de alíquota zero e não tributável, conforme requerimento de fl. 595. Ciente da decisão de primeiro grau, a interessada ingressou, no dia 05/06/2009, com o recurso voluntário de fls. 611/633, no qual alega, em síntese, que: 1 – preliminarmente, a decisão recorrida é nula porque não se posicionou sobre a nulidade da autuação argüida pela recorrente quanto aos créditos relacionados à transferência de crédito presumido do IPI; 2 – a transferência do crédito presumido foi efetuada com a observância de todos os preceitos legais de regência. É do estabelecimento matriz a responsabilidade pela existência do crédito e não do estabelecimento recorrente. O estabelecimento matriz efetuou corretamente o recalculo do crédito presumido; 3 ocorreu a decadência do direito da Fazenda Nacional efetuar a glosa dos créditos básicos relativos às operações realizadas com trading companies. A ciência da autuação ocorreu no dia 23/09/2008, seis meses após o período de 5 (cinco) anos contados da data do creditamento; 4 a Fiscalização fez exame aleatório de notas fiscais para concluir que nas mesmas não foi lançado o IPI nas saídas, quando na verdade houve o referido lançamento, a exemplo das 4 (quatro) notas fiscais que relaciona. Logo, o débito destas operações autoriza o crédito pela recorrente. Na forma regimental, o recurso voluntário foi distribuído a este Conselheiro. Na sessão realizada no dia 29/09/2010, o Colegiado resolver converter o julgamento em diligência à repartição da RFB de origem para juntar prova da data da ciência do acórdão recorrido. Em resposta, foi juntado cópia do AR como prova de que a Recorrente tomou ciência da decisão recorrida no dia 06/05/2009. É o Relatório. Fl. 1874DF CARF MF Impresso em 27/06/2016 por EMANOEL WERCELENS PINHEIRO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA, Assinado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 4 Voto Conselheiro Walber José da Silva, Relator. Como relatado, o julgamento do recurso voluntário teve início na sessão do dia 29/09/2010, quando o Colegiado resolveu converter o julgamento em diligência para que fosse informado a data da ciência da decisão recorrida, informação indispensável para apurar se a tempestividade do recurso voluntário. Retornam os autos com a informação de que a Recorrente tomou ciência da decisão recorrida no dia 06/05/2009. O recurso voluntário foi apresentado no dia 05/06/2009 e, portanto, é tempestivo e merece ser conhecido e apreciado os seus fundamentos. Após a desistência parcial do recurso voluntário, a lide restringese aos seguintes fatos: 1 glosa do crédito presumido de R$ 2.300.000,00, relativo a transferência de crédito do estabelecimento matriz para a filial. Este crédito referese a recalculo pela matriz do crédito presumido de que trata a Lei n° 9.363/96, do período de outubro de 2001 a agosto de 2003. Porém, a contribuinte não teria comprovado qualquer alteração na opção da apuração do referido crédito. O recalculo seria para alterar a opção de apuração para o método previsto na Lei nº 10.276/01. 2 glosa do crédito extemporâneo no valor de R$ 428.752,92, relativos a produtos acabados importados através de tradings. O IPI das mercadorias adquiridas foi incorporado ao custo, e os produtos foram revendidos sem o destaque de IPI. Antes de entrar no mérito da lide, é necessário fazer um esclarecimento importante para o deslinde da questão. O valor das duas infrações acima, mais o valor da infração relativa ao crédito básico de insumos de alíquota zero, foram escriturados pela Recorrente sem seu livro RAIPI como “outros créditos” em dois lançamentos: o primeiro no 3º decêndio de dezembro 2003 (R$ 3.735.446,55) e o segundo na 2ª quinzena de agosto de 2004 (R$ 1.046.493,30), glosados integralmente pela Fiscalização, conforme Planilha de Recalculo acostada às fls. 461/462, resultado na apuração de saldo devedores, não declarados em DCTF, nos valores lançados no Auto de Infração. Muito embora as operações que resultaram nos créditos objeto da lide tenham ocorrido em data anterior aos 05 (cinco) anos da ciência do lançamento, os créditos foram escriturados extemporaneamente antes dos 05 (cinco) anos da ciência do lançamento, ou seja, foram escriturados em dezembro de 2003 e agosto de 2004 e a ciência do lançamento ocorreu em setembro de 2008. Nestas condições, não há que se falar em decadência do direito de o Fisco efetuar a glosas dos referidos créditos, seja qual for o entendimento sobre o critério de contagem do prazo decadencial. Adotando, adicionalmente, os argumentos da decisão recorrida, voto no sentido de rejeitar a preliminar de decadência suscitada pela Recorrente. Fl. 1875DF CARF MF Impresso em 27/06/2016 por EMANOEL WERCELENS PINHEIRO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA, Assinado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA Processo nº 19515.005628/200895 Acórdão n.º 330201.480 S3C3T2 Fl. 1.874 5 Sobre a argüição de nulidade da decisão recorrida por não ter apreciado os argumentos da recorrente de nulidade do lançamento quanto aos créditos relacionados à transferência de crédito presumido melhor sorte não tem a Recorrente. A Recorrente enganase quanto às razões da glosa: tenta fazer crê que a mesma deuse porque referese a crédito de transferência da matriz. Em nenhum momento a Fiscalização afirma ser esta a razão da glosa e sim o fato do próprio crédito ser indevido em face a impossibilidade do contribuinte alterar a opção de cálculo do crédito presumido que fez tempestivamente: só isto e nada mais. Como o crédito resultou da mudança do cálculo do incentivo, temse como indevido. Matérias estranhas à lide não precisam ser apreciadas pela decisão porque sobre elas não foi estabelecido o contraditório. No caso dos autos, embora de forma indireta, a nulidade do lançamento foi enfrentada perfeitamente pela decisão recorrida na medida em que analisou os argumentos da recorrente para concluir da ilegitimidade do crédito presumido apropriado e glosado pela Fiscalização e, conseqüentemente, da legalidade do lançamento. Concluiu a decisão recorrida: Por estar completamente irregular o recalculo efetuado, não havia necessidade da fiscalização revisar o novo cálculo, glosando corretamente a transferência de um crédito inexistente. (grifei). Pelo exposto, voto no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade da decisão recorrida. Quanto ao mérito, também não vejo reformas a fazer na decisão recorrida. Em relação a glosa de créditos básicos na aquisições de produtos para revenda, realizadas junto a trading, devese deixar bem claros alguns fatos importantes para o deslinde da questão. Primeiro, os ditos créditos básicos foram apropriados como custo pela Recorrente e, extemporaneamente, escriturados no Livro RAIPI, sem que fosse realizado o seu estorno como custo; Segundo, não foi juntado aos autos a Declaração de Importação dos produtos estrangeiros adquiridos, como prova de que as importações foram realizadas pela trading vendedora por conta e ordem da Recorrente, conforme prevê o RIPI/02 (art. 9º, inciso IX). Não há provas, portanto, de que a Recorrente, nestas operações, seja equiparada a estabelecimento industrial; Terceiro, das notas fiscais de venda dos produtos importados apresentadas pela Recorrente, como prova de que ocorreu o destaque do IPI na saída desses produtos, em apenas três delas (fls. 166/168) tem o destaque do IPI. Nas demais não há o destaque do IPI. Portanto, não há prova de que todas as mercadorias adquiridas de trading saíram com o lançamento do imposto. Estes fatos são suficientes para ratificar a conclusão da decisão recorrida de que: Fl. 1876DF CARF MF Impresso em 27/06/2016 por EMANOEL WERCELENS PINHEIRO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA, Assinado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 6 Deste modo, não estão caracterizados nas operações de revenda, nem o destaque do IPI, nem a equiparação a estabelecimento industrial. Entretanto, mesmo que a impugnante comprovasse o lançamento do imposto e a sua condição de equiparada, somente seria possível o creditamento do imposto se a contribuinte demonstrasse que estornou os valores contabilizados como custos, com a conseqüente redução dos custos e recolhimento da diferença dos impostos. Em respeito aos princípios contábeis, um mesmo crédito de IPI não pode ser contabilizado duplamente, como custos e como crédito de IPI recuperável. Com relação à glosa do crédito presumido transferido pela matriz, está provado nos autos que a empresa fez a opção pelo cálculo previsto na Lei nº 9.363/96 e, conforme estabelecido nas normativas (IN SRF nº 69/2001 e 315/2003), esta opção não pode ser alterada. Como a recorrente informa que as diferenças resultaram da mudança do cálculo do incentivo o previsto na Lei 9.363/96 par a o previsto na Lei nº 10.276/01, não resta dúvida que o procedimento da Recorrente é ilegal e correto o procedimento da Fiscalização de efetuar a glosa, sem nenhuma necessidade de verificar se os cálculos estão ou não de acordo com o estabelecido na Lei nº 10.276/01, como bem disse a decisão recorrida. Apenas para reafirmar o que se disse no início deste voto, a possibilidade de transferência de crédito presumido legítimo do estabelecimento matriz para a filial autuada, não foi questionada pela Fiscalização e, portanto, desconheço dos argumento da Recorrente a este respeito. No mais, com fulcro no art. 50, § 1o, da Lei no 9.784/19991, adoto e ratifico os fundamentos do acórdão de primeira instância. Por tais razões, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Walber José da Silva 1 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: [. . .] § 1o A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 1877DF CARF MF Impresso em 27/06/2016 por EMANOEL WERCELENS PINHEIRO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA, Assinado digitalmente em 24/03/2012 por WALBER JOSE DA SILVA
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