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Numero do processo: 35540.001156/2005-06
Turma: Sexta Turma Especial
Câmara: Sexta Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Thu Oct 30 00:00:00 UTC 2008
Data da publicação: Thu Oct 30 00:00:00 UTC 2008
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Ano-calendário: 2005
EMENTA
PREVIDENCIÁRIO. CUSTEIO. AUTO DE INFRAÇÃO. Constitui infração ao artigo 30, inciso I, alínea “a”, da Lei nº 8.212/91, deixar a empresa de arrecadar mediante desconto das remunerações dos vereadores da Câmara Municipal. A partir de 21 de junho de 2004 - data da publicação da Lei nº 10.887, com eficácia a partir de 19 de setembro de 2004, é indiscutível a obrigatoriedade de contribuição previdenciária dos agentes políticos sobre seus subsídios para o INSS, desde que não vinculados a regime próprio de previdência.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 296-00.029
Decisão: Acordam os Membros da Sexta Turma Especial do Segundo Conselho de
Contribuintes, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Nome do relator: MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA
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CUSTEIO. AUTO DE INFRAÇÃO. Constitui infração ao artigo 30, inciso I, alínea "a", da Lei n° 8.212/91, deixar a empresa de arrecadar mediante desconto das remunerações dos vereadores da Câmara Municipal. A partir de 21 de junho de 2004- data da publicação da Lei n° 10.887, com eficácia a partir de 19 de setembro de 2004, é indiscutível a obrigatoriedade de contribuição previdenciária dos agentes politicos sobre seus subsídios para o INSS, desde que não vinculados a regime próprio de previdência. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.s . Processo n° 35540.001156/2005-06 Acórdão n.° 296-00.029 MF - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL f3r3silia, ?) / 9--- CCO2/T96 Fls. 42 Sine Oliveira Mat.: Siape 877162 Acordam os Membros da Sexta Turma Especial do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. ELIAS SAM ' KATO FREIRE Presidente MARCELO FREITAS DE/SOUZA COSTA Relator Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros Kleber Ferreira de Araújo e Cristiane Leme Ferreira (Suplente convocado). 2 Processo n° 35540.001156/2005-06 Acórdão n.° 296-00.029 Relatório CCO2a96 Fls. 43 MF - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL Brasilia. (2) 0 / / O _ Urns Oliveira Mat.: Simi° 871882 Trata-se de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte, Presidente da Câmara Municipal de Teolândia/BA, por ter deixado de arrecadar mediante desconto, as contribuições previdencidrias dos segurados empregados — Vereadores, conforme previsto no artigo 30, inciso I, alínea "a" da Lei n°8.212/91. De acordo corn o Relatório Fiscal da Infração (fls.06), foi constatado o não recolhimento das contribuições na competência 01/2005, tendo sido responsabilizado o presidente da câmara municipal em conformidade corn o art. 41 da Lei n° 8.212/91. 0 autuado não apresentou defesa. Cientificado da Decisão Notificação de fls. 20/23, o Recorrente apresentou recurso ao então Conselho de Recursos da Previdência Social — CRPS - (fls. 29/30), alegando que os recolhimentos que ensejaram a lavratura do presente Auto de Infração não são devidos ao INSS, Que o Supremo Tribunal Federal — STF — já julgou indevida a cobrança e o recolhimento de verbas previdencidrias sobre a remuneração dos agentes politicos; Que a Câmara Municipal de Teolândia impetrou Mandado de Segurança na Justiça Federal de Salvador pleiteando o direito de se livrar do recolhimento destas contribuições e ainda aguarda decisão daquela Corte; Requer o cancelamento da cobrança e o arquivamento do presente processo administrativo. 0 Recorrente não apresentou depósito recursal, pois trata-se de pessoa fisica. A Secretaria da Receita Previdencidria apresentou contra-razões, pugnando pela manutenção da decisão recorrida. o Relatório. Voto Conselheiro MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA, Relator 0 Recurso é tempestivo e estão presentes os pressupostos de admissibilidade. 0 Recorrente foi autuado por deixar de informar mensalmente ao INSS por meio da GFIP/GRFP, os dados cadastrais, todos os fatos geradores de contribuições previdencidrias e outras informações de interesse do mesmo, infringindo o disposto no art. 32, inciso IV da Lei n° 8.212/91. Acerca da contribuição previdencidria dos agentes politicos diante da polêmica gerada quando de sua instituição pela Lei n° 9506/97, bem como,.. da -eiiii-Sideração de sua 3 CCOIT96 Fls. 44 ME - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL :rslia, 30 / / Slime A1),Q de Ofiveina Mat.: Siape 877862 inconstitucionalidade conforme decisão pr-O" erWm --emirliribirrárre eral no RE no 351.717/PR e da suspensão de sua execução pela Resolução 26, de 21/06/2005, do Senado Federal, e ainda, da instituição, novamente, da mesma contribuição pela Lei 10.887, de 18/06/2004, traçamos um histórico para viabilizar um melhor entendimento. A Lei n° 9506/97 acrescentou, na época, a letra "h" no inciso I do artigo 12 da Lei 8212/91. Vejamos: "h) o exercente de mandato eletivo federal, estadual ou municipal, desde que não vinculado a regime próprio de previdência social;" O § 1 0 do artigo 13 da Lei n° 9.506, de 30 de outubro de 1997 deu, na época, nova redação ao artigo 12 da Lei n° 8.212, de 24 de julho de 1991, que trata do custeio da Previdência Social, dispondo como segurado obrigatório da Previdência Social o exercente de mandato eletivo federal, estadual ou municipal, desde que não vinculado a regime próprio de previdência social. Quando da edição da Lei Ordinária n° 9.506/97, a Constituição Federal, em seu artigo 195, Inciso II, dispunha que: "Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: - (..); II - dos trabalhadores;" Tendo em vista que o artigo 195 da CF não contemplou os agentes politicos por eles não serem considerados "trabalhadores", e como não se tratava de instituição de contribuição sobre "a folha de salários, o faturamento e os lucros", o disposto no artigo 13, § 1 0 da Lei n° 9.506/97 foi declarado inconstitucional, em 08.10.03, DJ de 21.11.2003, conforme Decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal no RE n° 351.717/PR (Esta decisão beneficiou, na época, somente o impetrante da ação). Corn base na decisão do STF/PR, foi suspensa pelo Senado Federal a execução da alínea "h" do Inciso I do Artigo 12 da Lei Federal n° 8212/91, conforme Resolução n° 26. Isso porque a criação de nova figura de segurado obrigatório da Previdência Social somente poderia ter ocorrido por meio de lei complementar. Corn o advento da Emenda Constitucional n° 20/98, o Inciso II do artigo 195 da Constituição Federal de 1988 passou a ter a seguinte redação: "Art 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos MUlliCipi0S, e das seguintes contribuições sociais: I — (..); - do trabalhador e dos demais segurados da previdência social, ...;" Processo n°35540.001156/2005-06 Acórdão n.° 296-00.029 ■•••• 4 CCO2a96 Fls. 45 Sima 01Ivetra Mat: skope 877862 A Emenda Constitucional n° 20198, incluiu, ainda, o -§ 1 3 no a go 40 da CF: "ks 13. Ao servidor ocupante, exclusivamente, de cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração bem como de outro cargo temporário ou de emprego público, aplica-se o regime geral de previdência social." Corn isso, os servidores ocupantes exclusivamente de cargos temporários — incluídos os agentes politicos estaduais e municipais - passaram a se sujeitar ao RGPS. A Lei n° 10.887/2004 acrescentou a letra "j" no inciso I do artigo 12 da Lei n° 8212/91: "j) o exercente de mandato eletivo federal, estadual ou municipal, desde que não vinculado a regime próprio de previdência social;" Com as alterações constitucionais trazidas pela EC n° 20/98, ficou afastada a reserva da lei complementar, possibilitando que nova lei ordinária, no caso, a Lei n ° 10.887, de 18 de junho de 2004, viesse a acrescentar a letra "j" ao inciso I do artigo 12 da Lei n° 8212/91, tornando os agentes politicos obrigados ao pagamento da contribuição previdencidria sobre seus subsídios. Esta Lei foi editada entre a declaração da inconstitucionalidade proferida pelo STF no RE no 351.717/PR, em 08/10/2003, e o Ato do Senado Federal, de 22/06/2005, que suspendeu a execução da alínea "h" do Inciso I do Artigo 12 da Lei Federal n° 8212/91, pela Resolução n° 26. Desta forma, a partir de 21 de junho de 2004 - data da publicação da Lei n° 10.887, com eficácia a partir de 19 de setembro de 2004, é indiscutível a obrigatoriedade de contribuição previdenciária dos agentes politicos sobre seus subsídios para o INSS, desde que não vinculados a regime próprio de previdência social. No entanto, é de salientar que, se a vinculação a regime próprio de previdência for concomitante com outras atividades remuneradas, situação bem comum no caso de vereadores, o agente politico será segurado obrigatório em relação a cada atividade desenvolvida, mesmo se a vinculação se der a regimes previdencidrios diferentes, podendo ser, como exemplo, contribuinte de regime próprio de previdência social na qualidade de servidor público titular de cargo efetivo e contribuinte do regime geral de previdência social, na qualidade de vereador. Considerando que a autuação ocorreu em maio de 2005 e a infração se referia a competência 01/2005, ou seja, após setembro de 2004, quando então estava em vigor a Lei n° 10.887/04, deveria o autuado ter efetuado os descontos dos agentes politicos. Considerando que o Auto de Infração foi lavrado de acordo corn as normas legais vigentes, uma vez que houve infringência ao artigo 30, inciso I, alínea "a", da Lei n° 8.212/91 e não foi comprovada a regularização da falta cometida, estando a multa aplicada de acordo com o artigo 283, inciso I, alínea "g" do Decreto n° 3.048/99. Considerando tudo mais que dos autos constam. Processo n°35540.001156/2005-06 Acórdão n.° 296-00.029 MF - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL t-trasilia, ;3 0 I 0-■ I Og CCO2r1-96 Fls. 46 DO RECURSO 4 Stale AI Oliveira Mat.: SiaPe 877862 CONCLUSÃO: Pelo exposto, voto no sentido de CONH para, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO. Sala das Sessões, em 30 de outubro de 2008 * - MARCEi:01- - R- EiTAS DE SOUZA COSTA ,/ Processo n°35540.001156/2005-06 Acórdão n.° 296-00.029 MF - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL 1 Rrasitia. 6
score : 1.0
Numero do processo: 11624.720070/2013-90
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2009, 2010
ITR. PRETENSÃO DE RECONHECIMENTO DE ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE (APP). ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA) DISPENSÁVEL POR ORIENTAÇÃO DOMINANTE DO STJ E PARECER PGFN/CRJ Nº 1.329/2016 COM MATÉRIA INCLUSA EM LISTA DE DISPENSA DE CONTESTAR E DE RECORRER DA PGFN. POSSIBILIDADE DE COMPROVAÇÃO DA APP POR OUTROS MEIOS DE PROVA QUE NÃO SEJA POR MEIO DA PRESUNÇÃO ESTABELECIDA PELO ADA EMITIDO PELO IBAMA.
Para fatos geradores anteriores ao Código Florestal de 2012, o ADA, emitido pelo IBAMA, não é requisito obrigatório para que ocorra o reconhecimento de APP, sendo possível a comprovação da referida área ambiental por outros meios de prova. Aplicação cogente de item da lista de dispensa de contestar e recorrer da PGFN, item 1.25 - ITR - “a”, incluso pelo Parecer PGFN/CRJ nº 1.329/2016. O STJ entende ser dispensável a apresentação do Ato Declaratório Ambiental pelo Ibama para o reconhecimento das áreas de preservação permanente, com vistas à concessão de isenção do ITR. A Nota SEI nº 35/2019/CRJ/PGACET/PGFN reafirma a posição dominante do STJ e a dispensa do ADA para reconhecimento de APP. Interpretação sistemática da legislação aplicável (§ 7º do art. 10 da Lei nº 9.393, de 1996, na redação dada pelo art. 3º da MP 2.166, de 2001, combinado com a alínea “a” do inciso II do § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393, combinado com o art. 17-O, § 1º, da Lei nº 6.938, de 1981, na redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000). Dispensada a apresentação do ADA, para fins de comprovação de Área de Preservação Permanente (APP), exige-se do contribuinte a apresentação de prova suficiente a demonstração da existência da área ambiental vindicada ao reconhecimento, o que pode ser efetivado através de laudo técnico ambiental de caracterização de área, que se apresente preponderante, de forma consistente e apto a finalidade probatória, sendo a prova obrigatoriamente analisada por instância ordinária.
No presente caso a autuação foi mantida por não terem sido apresentados outros elementos de prova.
Numero da decisão: 2001-007.925
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
Assinado Digitalmente
Lílian Cláudia de Souza – Relatora
Assinado Digitalmente
Raimundo Cassio Gonçalves Lima– Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite (substituto integral), Lílian Cláudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído pelo conselheiro Carlos Marne Dias Alves.
Nome do relator: LILIAN CLAUDIA DE SOUZA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR Exercício: 2009, 2010 ITR. PRETENSÃO DE RECONHECIMENTO DE ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE (APP). ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA) DISPENSÁVEL POR ORIENTAÇÃO DOMINANTE DO STJ E PARECER PGFN/CRJ Nº 1.329/2016 COM MATÉRIA INCLUSA EM LISTA DE DISPENSA DE CONTESTAR E DE RECORRER DA PGFN. POSSIBILIDADE DE COMPROVAÇÃO DA APP POR OUTROS MEIOS DE PROVA QUE NÃO SEJA POR MEIO DA PRESUNÇÃO ESTABELECIDA PELO ADA EMITIDO PELO IBAMA. Para fatos geradores anteriores ao Código Florestal de 2012, o ADA, emitido pelo IBAMA, não é requisito obrigatório para que ocorra o reconhecimento de APP, sendo possível a comprovação da referida área ambiental por outros meios de prova. Aplicação cogente de item da lista de dispensa de contestar e recorrer da PGFN, item 1.25 - ITR - “a”, incluso pelo Parecer PGFN/CRJ nº 1.329/2016. O STJ entende ser dispensável a apresentação do Ato Declaratório Ambiental pelo Ibama para o reconhecimento das áreas de preservação permanente, com vistas à concessão de isenção do ITR. A Nota SEI nº 35/2019/CRJ/PGACET/PGFN reafirma a posição dominante do STJ e a dispensa do ADA para reconhecimento de APP. Interpretação sistemática da legislação aplicável (§ 7º do art. 10 da Lei nº 9.393, de 1996, na redação dada pelo art. 3º da MP 2.166, de 2001, combinado com a alínea “a” do inciso II do § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393, combinado com o art. 17-O, § 1º, da Lei nº 6.938, de 1981, na redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000). Dispensada a apresentação do ADA, para fins de comprovação de Área de Preservação Permanente (APP), exige-se do contribuinte a apresentação de prova suficiente a demonstração da existência da área ambiental vindicada ao reconhecimento, o que pode ser efetivado através de laudo técnico ambiental de caracterização de área, que se apresente preponderante, de forma consistente e apto a finalidade probatória, sendo a prova obrigatoriamente analisada por instância ordinária. No presente caso a autuação foi mantida por não terem sido apresentados outros elementos de prova.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Lílian Cláudia de Souza – Relatora Assinado Digitalmente Raimundo Cassio Gonçalves Lima– Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite (substituto integral), Lílian Cláudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído pelo conselheiro Carlos Marne Dias Alves.
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PRETENSÃO DE RECONHECIMENTO DE ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE (APP). ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA) DISPENSÁVEL POR ORIENTAÇÃO DOMINANTE DO STJ E PARECER PGFN/CRJ Nº 1.329/2016 COM MATÉRIA INCLUSA EM LISTA DE DISPENSA DE CONTESTAR E DE RECORRER DA PGFN. POSSIBILIDADE DE COMPROVAÇÃO DA APP POR OUTROS MEIOS DE PROVA QUE NÃO SEJA POR MEIO DA PRESUNÇÃO ESTABELECIDA PELO ADA EMITIDO PELO IBAMA. Para fatos geradores anteriores ao Código Florestal de 2012, o ADA, emitido pelo IBAMA, não é requisito obrigatório para que ocorra o reconhecimento de APP, sendo possível a comprovação da referida área ambiental por outros meios de prova. Aplicação cogente de item da lista de dispensa de contestar e recorrer da PGFN, item 1.25 - ITR - “a”, incluso pelo Parecer PGFN/CRJ nº 1.329/2016. O STJ entende ser dispensável a apresentação do Ato Declaratório Ambiental pelo Ibama para o reconhecimento das áreas de preservação permanente, com vistas à concessão de isenção do ITR. A Nota SEI nº 35/2019/CRJ/PGACET/PGFN reafirma a posição dominante do STJ e a dispensa do ADA para reconhecimento de APP. Interpretação sistemática da legislação aplicável (§ 7º do art. 10 da Lei nº 9.393, de 1996, na redação dada pelo art. 3º da MP 2.166, de 2001, combinado com a alínea “a” do inciso II do § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393, combinado com o art. 17-O, § 1º, da Lei nº 6.938, de 1981, na redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000). Dispensada a apresentação do ADA, para fins de comprovação de Área de Preservação Permanente (APP), exige-se do contribuinte a apresentação de prova suficiente a demonstração da existência da área ambiental vindicada ao reconhecimento, o que pode ser efetivado através de laudo técnico ambiental de caracterização de área, que se apresente preponderante, de Fl. 137DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 2 forma consistente e apto a finalidade probatória, sendo a prova obrigatoriamente analisada por instância ordinária. No presente caso a autuação foi mantida por não terem sido apresentados outros elementos de prova. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Lílian Cláudia de Souza – Relatora Assinado Digitalmente Raimundo Cassio Gonçalves Lima– Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite (substituto integral), Lílian Cláudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído pelo conselheiro Carlos Marne Dias Alves. RELATÓRIO Por bem relatar os fatos desde a autuação até o julgamento da impugnação, valho- me do relatório da decisão da DRJ: “Por meio do Auto de Infração/anexos de fls. 70/80, lavrado em 21.06.2013, o contribuinte identificado no preâmbulo foi intimado a recolher o crédito tributário, no montante de R$35.869,97, referente ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), dos exercícios de 2009 e 2010, acrescido de multa lançada (75%) e juros de mora, tendo como objeto o imóvel denominado “Fazenda Serra Alta” (NIRF nº 4.410.413-8), com área declarada de 328,2 ha, localizado no município de Guaraqueçaba/PR. A ação fiscal decorrente dos trabalhos de revisão das DITR/2009 e 2010, iniciou-se com o Termo de Intimação Fiscal nº 09101/00033/2013, (às fls. 03/04), encaminhado ao contribuinte e recepcionado em 29.04.2013, às fls. 05, exigindo-se que fossem apresentados os seguintes documentos de prova: Fl. 138DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 3 Para o exercício 2009: 1º - Ato Declaratório Ambiental (ADA) requerido dentro do prazo legal junto ao IBAMA; 2º - documentos, tais como Laudo Técnico emitido por engenheiro agrônomo/florestal, acompanhado de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) registrada no CREA, que comprovem as áreas de preservação permanente declaradas, identificando o imóvel rural e detalhando a localização e dimensão das áreas declaradas a esse título, previstas nos termos das alíneas “a” até “h” do art. 2º da Lei nº 4.771/1965, que identifique a localização do imóvel rural através de um conjunto de coordenadas geográficas definidores dos vértices de seu perímetro, preferivelmente georeferenciadas ao sistema geodésico brasileiro; 3º - Certidão do órgão público competente, caso o imóvel ou parte dele esteja inserido em área declarada como de preservação permanente, nos termos do art. 3º da Lei nº 4.771/1965, acompanhado do ato do poder público que assim a declarou. Para o exercício 2010: 1º - Para comprovação de áreas com reflorestamento declaradas, apresentar os seguintes documentos referentes à área reflorestada no período de 01.01.2009 a 31.12.2009: Notas fiscais do produtor; Notas fiscais de insumos; laudo de acompanhamento de projeto fornecido por instituição competente; certidão de órgão oficial comprovando a área de reflorestamento; 2º - Para comprovar o Valor da Terra Nua (VTN) declarado: Laudo de Avaliação do Valor da Terra Nua emitido por engenheiro agrônomo/florestal, conforme estabelecido na NBR 14.653 da ABNT com grau de fundamentação e de precisão II, com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados e planilhas de cálculo e preferivelmente pelo método comparativo direto de dados do mercado. Alternativamente, o contribuinte poderá se valer de avaliação efetuada pelas Fazendas Públicas Estaduais (exatorias) ou Municipais, assim como aquelas efetuadas pela Emater, apresentando os métodos de avaliação e as fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel. Tais documentos devem comprovar o VTN na data de 1º de janeiro de 2010 a preço de mercado. A falta de comprovação do VTN declarado ensejará o arbitramento do VTN, com base nas informações do SIPT, nos termos do art. 14 da Lei nº 9.393/96, pelo VTN/ha do município de localização do imóvel para 1º de janeiro de 2010 no valor de R$: Mista mecanizada - R$7.500,00; Mista mecanizável – R$4.000,00; Mista não mecanizável - R$1.350,00 e Mista inaproveitável – R$800,00. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal, o contribuinte apresentou, em 09.05.2013, às fls. 38, a correspondência de fls. 38, requerendo a concessão do prazo de 90 (noventa) dias para a apresentação da documentação solicitada. Essa solicitação foi atendida, parcialmente, com a concessão do prazo de 20 ( dias), conforme Despacho manuscrito de fls. 38, com vencimento em 08.06.2013. O contribuinte, em 10.05.2013, apresentou a correspondência de fls. 43, acompanhada dos documentos de fls. 44/69. No procedimento de análise e verificação da documentação apresentada e das informações constantes nas DITR de 2009 e de 2010, a fiscalização resolveu lavrar o presente Auto de Infração para glosar integralmente a área de preservação permanente de 328,2 ha, no exercício de 2009, igual a área total do imóvel, e glosar integralmente a área com reflorestamento de 328,2 ha, no exercício de 2010, também, igual a área total do imóvel, além de entender que houve subavaliação do VTN declarado em 2010, alterando, com base no Sistema de Preços de Terras (SIPT), instituído pela Receita Federal, o Valor da Terra Nua (VTN) do imóvel, que passou de R$30.000,00 (R$91,41/ha), para R$262.480,00 (R$800,00/ha), no exercício de 2010, com aumento dos VTN Fl. 139DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 4 tributados, nos dois exercícios, e aumento da alíquota aplicada de 0,10% para 3,30%, em 2010, disto resultando o imposto suplementar de R$8.939,60 (2009) e R$8.631,84 (2010), conforme demonstrativos, respectivamente, de fls. 70/71 e 72/73, com um total de imposto suplementar de R$17.571,44, às fls. 75. A descrição dos fatos e os enquadramentos legais das infrações, da multa de ofício e dos juros de mora, encontram-se descritos às fls. 77/80. Da Impugnação Cientificado do lançamento, em 26.06.2013, às fls. 83, ingressou o contribuinte, em 25.07.2013, às fls. 86, com sua impugnação de fls. 86, instruída com os documentos de fls. 87/104, alegando e solicitando o seguinte, em síntese: - salienta que apresenta ADA e o Estudo de Localização, que comprova que a área glosada é de preservação permanente (APP), na qual não há desenvolvimento de atividades produtivas, razão pela qual o ITR apurado em revisão interna, nos exercícios de 2009 e 2010, não é devido.” Decisão da DRJ de fls. 110/119 manteve o lançamento em acórdão que restou assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR Exercício: 2009, 2010 DA REVISÃO DE OFÍCIO - DO ERRO DE FATO A revisão de ofício de dados informados pelo contribuinte na sua DITR somente cabe ser acatada quando comprovada nos autos, com documentos hábeis, a hipótese de erro de fato, observada a legislação aplicada a cada matéria. DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE E DE INTERESSE ECOLÓGICO As áreas de preservação permanente e de interesse ecológico, para fins de exclusão do ITR, cabem ser reconhecidas como de interesse ambiental pelo IBAMA, ou pelo menos, que seja comprovada a protocolização, em tempo hábil, do requerimento do competente ADA, além do Ato específico do órgão competente federal ou estadual reconhecendo as áreas do imóvel que são de interesse ecológico. DA ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL (APA) Para efeito de exclusão do ITR, não serão aceitas como de interesse ecológico as áreas declaradas ou pretendidas, em caráter geral, por região local ou nacional, como os situados em APA, mas, sim, apenas as declaradas, em caráter específico, para determinadas áreas da propriedade particular. DA MATÉRIA NÃO IMPUGNADA - VALOR DA TERRA NUA (VTN) ARBITRADO Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada, conforme legislação processual. Recurso voluntário de fls. 124/131 aduz que o ADA não seria um documento indispensável, bastando para fins do reconhecimento da isenção, que o contribuinte declare as áreas em sua DITR. Que haveria provas de que a área integral do imóvel seria de preservação permanente e que caberia à RFB provar que a área não se constitui como tal, o que não foi feito. Ao final, requer o cancelamento do auto de infração. É o relatório. Fl. 140DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 5 VOTO Conselheira Lílian Cláudia de Souza, Relatora I – ADMISSIBILIDADE DO RECURSO VOLUNTÁRIO Antes de adentrar ao mérito, é fundamental aferir o preenchimento dos pressupostos de admissibilidade do recurso voluntário apresentado pelo sujeito passivo. Referido recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos, razão pela qual, dele conheço. II – DO MÉRITO Trata-se de discussão relativa a glosas de áreas verdes declaradas pelo contribuinte como isentas em sua DITR sem que fossem acompanhadas dos documentos necessários para a sua comprovação e ainda alteração do VTN. O ponto relativo ao VTN não foi objeto de defesa desde a fase de impugnação, sendo, portanto, incontroverso, restando em discussão apenas o assunto referente às áreas verdes deduzidas da base de cálculo do imposto. Assim, passemos à análise de cada uma delas. Para o exercício de 2009 foi declarada a integralidade do imóvel como área de preservação permanente. Já no exercício de 2010 para o mesmo imóvel toda a sua área foi declarada como área de reflorestamento – fls. 12/20. O auto de infração de fls. 75/80 glosou as áreas verdes declaradas por ausência de comprovação. Juntamente com a impugnação foi apresentado pelo contribuinte às fls. 88/89 um estudo de localização relativo à APA Guaraqueçaba e o ADA do imóvel do exercício de 2013 que indica que sua área integral seria composta por área de preservação permanente – APP. Conforme já relatado, em seu recurso voluntário o contribuinte defendeu ser desnecessário o ADA e que bastaria para a dedução das áreas verdes da base de cálculo do ITR a sua declaração e que caberia ao Fisco provar que as áreas não se revestem das características declaradas. Ocorre que tais alegações não encontram guarida na legislação. Inicialmente importante identificarmos o que seria uma área de preservação permanente e salientar os requisitos legais para a sua constituição. De acordo com o disposto no Art. 3º da Lei 12.651/2012 – Código Florestal – considera-se área de preservação permanente: Fl. 141DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 6 Art. 3º Para os efeitos desta Lei, entende-se por: (...) II - Área de Preservação Permanente - APP: área protegida, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas; Trata-se de uma área que deve ser preservada sem exploração e ocupação. Assim e em razão de sua importância para o ecossistema e sua função ambiental específica destinada à proteção de recursos naturais e à manutenção do equilíbrio ecológico sem fins econômicos ou produtivos, a legislação do ITR permite que ela seja excluída da base de cálculo do imposto no momento de sua apuração. É ver ó Art. 10, §1º, II, “a” da Lei 9.393/1996: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitando-se a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerar-se-á: (...) II - área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei no 12.651, de 25 de maio de 2012; (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) (Vide art. 25 da Lei nº 12.844, de 2013) Ocorre que, para que a dedução seja lícita é necessário que o contribuinte comprove a sua existência. No tocante às APP’s a principal prova a ser considerada é o Ato Declaratório Ambiental (ADA), todavia, ao menos para fatos geradores ocorridos até o advento da Lei 12.651/2012, ele não é o único documento capaz de atestar a natureza da referida área verde, podendo ser comprovada por outros meios. A própria PGFN perfilha desse entendimento exposto no “Parecer PGFN/CRJ/N.º 1.329/2016”, segundo o qual, a partir da interpretação consolidada no Superior Tribunal de Justiça (STJ), para fatos geradores anteriores a vigência da Lei n.º 12.651, de 2012 (novo Código Florestal), aprovou a seguinte nova redação para o item 1.25, “a”, da Lista de dispensa de contestar e recorrer para os representantes daquele órgão: 1.25 - ITR a) Área de reserva legal e área de preservação permanente Precedentes: AgRg no Ag 1.360.788/MG, REsp 1.027.051/SC, REsp 1.060.886/PR, REsp 1.125.632/PR, REsp 969.091/SC, REsp 665.123/PR e AgRg no REsp 753.469/SP. Resumo: O STJ entendeu que, por se tratar de imposto sujeito a lançamento que se dá por homologação, dispensa-se a averbação da área de preservação permanente no registro de imóveis e a apresentação do Ato Declaratório Ambiental pelo Ibama para o reconhecimento das áreas de preservação permanente e de reserva legal, com vistas à concessão de isenção do ITR. Dispensa-se também, para a área de reserva legal, a prova da sua averbação (mas não a averbação em si) no Fl. 142DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12651.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12651.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12844.htm#art24 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12844.htm#art25 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 7 registro de imóveis, no momento da declaração tributária. Em qualquer desses casos, se comprovada a irregularidade da declaração do contribuinte, ficará este responsável pelo pagamento do imposto correspondente, com juros e multa. OBSERVAÇÃO 1: Caso a matéria discutida nos autos envolva a prescindibilidade de averbação da reserva legal no registro do imóvel para fins de gozo da isenção fiscal, de maneira que este registro seria ou não constitutivo do direito à isenção do ITR, deve-se continuar a contestar e recorrer. Com feito, o STJ, no EREsp 1.027.051/SC, reconheceu que, para fins tributários, a averbação deve ser condicionante da isenção, tendo eficácia constitutiva. Tal hipótese não se confunde com a necessidade ou não de comprovação do registro, visto que a prova da averbação é dispensada, mas não a existência da averbação em si. OBSERVAÇÃO 2: A dispensa contida neste item não se aplica para as demandas relativas a fatos geradores posteriores à vigência da Lei n.º 12.651, de 2012 (novo Código Florestal). Abaixo, trechos do citado parecer PGFN que melhor elucidam a questão: II.2 Considerações relacionadas ao questionamento à luz da legislação anterior à Lei n.º 12.651, de 25 de maio de 2012 – Novo Código Florestal. 17. Como dito anteriormente, a jurisprudência do STJ é firme no sentido de ser inexigível a apresentação do ADA para que se reconheça o direito à isenção do ITR em área de preservação permanente e de reserva legal, dado que tal obrigação constava em ato normativo secundário – IN SRF n.º 67, de 1997, sem o condão de vincular o contribuinte. 18. Contudo, a Lei n.º 10.165, de 2000, ao dar nova redação ao art. 17-O, caput e § 1.º, da Lei n.º 6.938, de 2000, estabeleceu expressamente a previsão do ADA, de modo que, a partir da sua vigência, o fundamento do STJ parecia estar esvaziado. Dispõe o referido dispositivo que: Art. 17-O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental – ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria. (Redação dada pela Lei n.º 10.165, de 2000) § 1.º A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (Redação dada pela Lei n.º 10.165, de 2000) 19. Ocorre que, logo após a entrada em vigor do artigo supra, a Medida Provisória n.º 2.166-67, de 24 de agosto de 20013, incluiu o § 7.º no art. 10 da Lei n.º 9.393, de 1996, o qual instituiu a não sujeição da declaração do ITR à prévia comprovação do contribuinte, para fins de isenção. Vejamos: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitando-se a homologação posterior. (...) § 7.º A declaração para fim de isenção do ITR relativa às áreas de que tratam as alíneas "a" e "d" do inciso II, § 1.º, deste artigo, não está sujeita à prévia comprovação por parte do declarante, ficando o mesmo responsável pelo pagamento do imposto correspondente, com juros e multa previstos nesta Lei, caso fique comprovado que a sua declaração não é verdadeira, sem prejuízo de outras sanções aplicáveis. 20. Os dispositivos transcritos eram, em tese, compatíveis entre si, podendo-se depreender que o § 7.º do artigo 10 da Lei n.º 9.393, de 1996, tão-somente desobriga o contribuinte de comprovar Fl. 143DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 8 previamente a existência do ADA, por ocasião da entrega da declaração de ITR, mas não excluiria a sua existência em si. 21. Em que pese tal possibilidade de interpretação, o STJ utilizou-se do teor do § 7.º no art. 10 da Lei n.º 9.393, de 1996, para reforçar a tese de que o ADA é inexigível, tendo, ao que tudo indica, desprezado o conteúdo do art. 17-O, caput e § 1.º, da Lei n.º 6.938, de 2000, pois não foram encontradas decisões enfrentando esse regramento. Além disso, registrou que, como o dispositivo é norma interpretativa mais benéfica ao contribuinte, deveria retroagir. 22. Essa argumentação consta no inteiro teor dos acórdãos vencedores que trataram do tema, bem como na ementa do REsp n.º 587.429/AL, senão vejamos: - Trecho do voto da Ministra Eliana Calmon, Relatora do REsp n.º 665.123/PR: Como reforço do meu argumento, destaco que a Medida Provisória 2.166-67, de 24/08/2001, ainda vigente, mas não prequestionada no caso dos autos, fez inserir o § 7.º do art. 10 da Lei 9.393/96 para deslindar finalmente a controvérsia, dispensando o Ato Declaratório Ambiental nas hipótese de áreas de preservação permanente e de reserva legal para fins de cálculo do ITR [...]. - Trecho do voto do Ministro Benedito Gonçalves, Relator do REsp n.º 1.112.283/PB: Assim, considerando a superveniência de lei mais benéfica (MP 2.166-67, de 24 de agosto de 2001), que prevê a dispensa de prévia apresentação pelo contribuinte do ato declaratório expedido pelo Ibama, impõe-se a aplicação do princípio insculpido no art. 106, do CTN. - Trecho do voto do Ministro Benedito Gonçalves, Relator do REsp n.º 1.108.019/SP: Assim, considerando a superveniência de lei mais benéfica (MP 2.166-67, de 24 de agosto de 2001), que prevê a dispensa de prévia apresentação pelo contribuinte do ato declaratório expedido pelo Ibama, impõe-se a aplicação do princípio insculpido no art. 106, do CTN. "PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. EXCLUSÃO. DESNECESSIDADE DE ATO DECLARATÓRIO DO IBAMA. MP. 2.166-67/2001. APLICAÇÃO DO ART. 106, DO CTN. RETROOPERÂNCIA DA LEX MITIOR. 1. Recorrente autuada pelo fato objetivo de ter excluído da base de cálculo do ITR área de preservação permanente, sem prévio ato declaratório do IBAMA, consoante autorização da norma interpretativa de eficácia ex tunc consistente na Lei 9.393/96. 2. A MP 2.166-67, de 24 de agosto de 2001, ao inserir § 7.º ao art. 10, da Lei 9.393/96, dispensando a apresentação, pelo contribuinte, de ato declaratório do IBAMA, com a finalidade de excluir da base de cálculo do ITR as áreas de preservação permanente e de reserva legal, é de cunho interpretativo, podendo, de acordo com o permissivo do art. 106, I, do CTN, aplicar-se a fator pretéritos, pelo que indevido o lançamento complementar, ressalvada a possibilidade da Administração demonstrar a falta de veracidade da declaração contribuinte. 3. Consectariamente, forçoso concluir que a MP 2.166-67, de 24 de agosto de 2001, que dispôs sobre a exclusão do ITR incidente sobre as áreas de preservação permanente e de reserva legal, consoante § 7.º, do art. 10, da Lei 9.393/96, veicula regra mais benéfica ao contribuinte, devendo retroagir, a teor disposto nos incisos do art. 106, do CTN, porquanto referido diploma autoriza a retrooperância da lex mitior. 4. Recurso especial improvido." (REsp 587.429/AL, Rel. Ministro Luiz Fux, PRIMEIRA TURMA, DJe de 2/8/2004) 23. A partir das colocações postas, conclui-se que, mesmo com a vigência do art. 17-O, caput e § 1.º, da Lei n.º 6.938, de 1981, com a redação dada pela Lei n.º 10.165, de 2000, até a entrada em Fl. 144DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 9 vigor da Lei n.º 12.651, de 2012, o STJ continuou a rechaçar a exigência do ADA com base no teor do § 7.º do art. 10 da Lei n.º 9.393, de 1996. 24. Consequentemente, caso a ação envolva fato gerador de ITR, ocorrido antes da vigência da Lei n.º 12.651, de 2012, não há motivo para discutir em juízo a obrigação de o contribuinte apresentar o ADA para o gozo de isenção do ITR, diante da pacificação da jurisprudência. II.3 Considerações relacionadas ao questionamento à luz do disposto na Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 - novo Código Florestal. 25. Destaca-se que com a entrada em vigor da Lei n.º 12.651, de 2012 (novo Código Florestal), o assunto objeto desta manifestação ganhou novos contornos. (...) 31. (...), considerando que a Instrução Normativa RFB n.º 1.651, de 10 de junho de 2016, aparentemente exige apenas o Ato Declaratório Ambiental – ADA (art. 6.º), bem como que a Lei n.º 12.651, de 2012, também revogou o § 7.º do art. 10 da Lei n.º 9.393 (art. 83 da Lei n.º 12.651, de 2012), mantendo o art. 17-O, caput e § 1.º, da Lei n.º 6.938, de 2000, o que é certo é que restou superada a tese do STJ quanto à inexigibilidade do ADA, de forma que, nas demandas que envolvam a desnecessidade de sua apresentação relativamente aos fatos geradores de ITR ocorridos após a entrada em vigor do novo Código Florestal, o Procurador da Fazenda Nacional deve suscitar em juízo a exigência de sua apresentação, à luz do disposto no art. 17-O, caput e § 1.º, da Lei n.º 6.938, de 2000. Aproveito para destacar trecho do voto de relatoria do Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros no acórdão de nº 2202-006.165: “Aliás, de acordo com a nova sistemática do art. 19-A, inciso III, da Lei n.º 10.522, de 2002, a vinculação da RFB às teses firmadas pelos Tribunais Superiores (e não mais passíveis de irresignação em juízo) dá-se com a manifestação da PGFN, sendo desnecessária a edição de ato administrativo específico ou aprovação ministerial para tanto. Ainda que se diga que o dispositivo precise de regulamentação para aplicação à RFB ou que se sustente que os Conselheiros do CARF não se vinculem a tal norma, pois são independentes da RFB, entendo, com respeito as posições em contrário, que deve prevalecer a segurança jurídica e se aplicar de modo incontinenti o entendimento esposado pela PGFN, sob pena de incentivo a litigância desfavorável a própria Fazenda Nacional. Ademais, cito o seguinte precedente unânime de outra Turma Ordinária deste Egrégio Conselho em recente julgamento (Acórdão n.º 2301-005.972, de 08/04/2019): Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR Exercício: 2005 ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA). NÃO EXIGÊNCIA. ORIENTAÇÃO DA PROCURADORIA- GERAL DA FAZENDA NACIONAL. PARECER PGFN/CRJ Nº 1.329/2016. Para fins de exclusão da tributação relativamente às áreas de preservação permanente e de reserva legal, é dispensável a protocolização tempestiva do requerimento do Ato Declaratório Ambiental (ADA) junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), ou órgão conveniado. Tal entendimento alinha-se com a orientação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para atuação dos seus membros em Juízo, conforme Parecer PGFN/CRJ nº 1.329/2016, tendo em vista a jurisprudência consolidada no Superior Tribunal de Justiça, desfavorável à Fazenda Nacional. Fl. 145DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 10 Dito isto, importa aferir os “outros elementos” que possam atestar a área vindicada para o imóvel. (...) Acrescento, ainda, que para reconhecimento de APP não se faz necessário averbação no registro de imóveis. Toda essa digressão para se concluir que outros elementos de prova além do ADA podem ser admitidos para se comprovar a natureza das áreas de preservação permanente. No mesmo sentido do meu entendimento destaco os seguintes precedentes: acórdãos de nº 2401-010.197, 2202-007.302, 2202-009.687, 2202-006.166 e entendimento da CSRF acórdão de nº 9202-011.591. Ocorre que, no presente caso o contribuinte se limitou a trazer aos autos ADA relativo ao exercício de 2013 no qual a integralidade da área foi declarada como APP – e mais nada! Muito embora tal documento seja um indício de suas alegações ele, por si só, não é suficiente para comprovar que no exercício de 2009 esse era a realidade do imóvel. A título exemplificativo poderiam ter sido trazidos outros elementos comprobatórios como laudo técnico, CAR e eventuais documentos emitidos pelo Poder Público, como decretos estaduais que sinalizam a natureza da área em questão. Ao invés disso, o Recorrente se limita a argumentar em seu recurso voluntário que a sua declaração seria o único requisito a ser considerado e que caberia ao Fisco a desconstituição da área, tese que não merece prosperar. Salienta-se ainda que os demais documentos trazidos pelo contribuinte quando da fase de fiscalização não seriam suficientes para se formar um conjunto probatório robusto, pelas razões já analisadas pela decisão da DRJ, abaixo transcrita: “Ainda, em relação à aventada pretensão do impugnante de que seja reconhecida como de interesse ecológico a área do imóvel, que estaria inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) Guaraqueçaba, conforme consta no Estudo de Localização, às fls. 88, cabe dizer, primeiramente, que não há como considerar, em caráter geral, todas as áreas localizadas dentro dos limites da referida APA, como de interesse ambiental, para fins de exclusão do cálculo do ITR. Enfim, não são aceitas como de interesse ecológico as áreas declaradas, em caráter geral, por região local ou nacional, como as situadas em APA, classificada como uma Unidade de Uso Sustentável, cujo objetivo básico é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais (art. 7º, § 1º, da Lei nº 9.985/2000), mas, sim, apenas as áreas assim declaradas, em caráter específico, para determinadas áreas do imóvel em particular, além de estarem devidamente informadas no ADA do respectivo exercício, o que no caso não ocorreu. Assim, mesmo que tivesse ocorrido a protocolização do ADA, para cada exercício abrangido pela ação fiscal, fazia-se necessário comprovar nos autos a existência de Ato específico do órgão ambiental competente, gestor da citada APA, atestando qual a área específica do imóvel, devidamente caracterizada e dimensionada, considerada de interesse ambiental para proteção do Fl. 146DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 11 referido ecossistema, de acordo com o disposto no art. 10, § 1º, inciso II, alíneas “b”, da Lei nº 9.393/96, in verbis: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitando-se a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerar-se-á: [...] II – área tributável, a área total do imóvel menos as áreas: [...] b) de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso prevista na alínea anterior; c) comprovadamente imprestáveis para qualquer exploração agrícola, pecuária, granjeira, aqüícola ou florestal, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual. (grifo nosso) Quanto ao Relatório de Vistoria da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – SEMA/PR, às fls. 54/56, juntado aos autos em resposta ao Termo de Intimação Fiscal, e não acatado pela fiscalização, como documento exigido nesse Termo, elaborado pelo Biólogo - Assessor Técnico/SEMA - Cbio Leverci Silveira Filho, em 05.06.2010, não é documento hábil para comprovação da existência (materialidade) da área ambiental declarada ou pretendida no imóvel do presente Processo, isso porque ele é não conclusivo quanto à área vistoriada, já que não a identifica, de forma inequívoca, e nem dimensiona a área de preservação permanente eventualmente nela existente, não obstante fazer menção à matrícula nº 7.056, às fls. 50/52, afirmando que as áreas vistoriadas seriam de 449,2 ha, dimensão essa maior do que a área total do imóvel de 328,2 ha. Assim, quanto à identificação da área, consta nesse documento que “[...] ficou evidente as divergências nos mapeamentos em toda região da Gleba 8. Quando algumas coordenadas batem em uma localidade, não condizem com outras localidades. Conclui-se que os mapeamentos da região apresentam problemas sérios de precisão enquanto a real localização das áreas. [...]” Ainda, quanto à falta de dimensionamento da área de preservação permanente, não obstante haver indícios de alguma área ambiental nas áreas vistoriadas, consta que [...] De maneira geral as regiões apresentam-se extremamente bem conservadas. Trata-se de áreas montanhosas de relevo ondulado e vegetação densa. [...] As coordenadas exatas destes lotes não foram possíveis de serem obtidas em função do difícil acesso e das referências não apresentarem precisão cartográfica.” Conclui-se, portanto, que tal Relatório não pode ser considerado como um Ato específico do órgão ambiental competente, nos termos da legislação transcrita anteriormente (art. 10, § 1º, “b”, da Lei nº 9.393/1996). Dessa forma, além de não haver o ADA protocolado em tempo hábil para cada exercício, também, não consta dos autos o Ato Específico reconhecendo eventual a área do imóvel como de interesse ecológico, em nenhum exercício, que não possa ser tributada. Esse entendimento está em consonância com as orientações da Receita Federal, conforme consta, especificamente, na Questão 090, dos Manuais de Perguntas e Respostas referentes as DITR, dos exercícios de 2009 e de 2010 (Pergunta nº 089), orientação essa, também, constante nos outros exercícios, a saber: Pergunta: 090 - Quais áreas do imóvel rural podem ser informadas na DITR como áreas de interesse ecológico? Fl. 147DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 12 Na Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (DITR) podem ser informadas como áreas de interesse ecológico, desde que atendam ao disposto na legislação pertinente, as áreas assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, que sejam: I - destinadas à proteção dos ecossistemas, e que ampliem as restrições de uso previstas para as áreas de preservação permanente e de reserva legal; e II - comprovadamente imprestáveis para a atividade rural. Para efeito de exclusão do ITR, apenas será aceita como área de interesse ecológico a área declarada em caráter específico para determinada área da propriedade particular. Não será aceita a área declarada em caráter geral. Portanto, se o imóvel rural estiver dentro de área declarada em caráter geral como de interesse ecológico, é necessário também o reconhecimento específico de órgão competente federal ou estadual para a área da propriedade particular. (Lei nº 9.393, de 1996, art. 10, § 1º, II, "b" e "c"; RITR/2002, art. 15; IN SRF nº 256, de 2002, art. 14) Assim, fica subtendido que eventuais áreas contidas nos limites da APA Guaraqueçaba, não podem ser, de maneira geral, automaticamente consideradas de interesse ecológico, para efeito de exclusão do ITR, dependendo do cumprimento das exigências legais previstas para cada tipo de área ambiental. Ainda, saliente-se que, além da exigência do ADA, para a comprovação da área de preservação permanente de que trata a Lei nº 4.771/1965, a fiscalização, no caso, intimou o contribuinte a apresentar Laudo Técnico, acompanhado de ART, devidamente anotada no CREA, atestando a existência de tais áreas no imóvel, devidamente discriminadas através de Memorial Descritivo (art. 2º), ou Ato do poder público que assim as tenham declarado (art. 3º). Em se tratando de áreas isentas, mister se faz que ao ser intimado, apresente todos os documentos exigidos pela autoridade fiscal, para comprová-las. Na atividade de revisão interna das declarações, pode a autoridade exigir a apresentação de elementos de prova necessários a firmar a convicção da veracidade das informações prestadas pelo contribuinte, até porque, no presente caso, a área de preservação permanente declarada de 328,2 ha, em 2009, e pretendida, em 2010, representa 100% da área total do imóvel, tornando, assim imprescindível à comprovação de sua real existência e dimensão. Não obstante a alegação do impugnante quanto à existência da área de preservação permanente no imóvel (materialidade), também, não consta dos autos Laudo Técnico comprovando a efetiva existência dessa área no imóvel, devidamente caracterizadas como de preservação permanente à luz do art. 2º da Lei 4.771/65 (Código Florestal) e nem Ato do poder público que assim as tenham declarado à luz do art. 3º desse mesmo Código Florestal. Por fim, cabe observar que a necessidade da protocolização do ADA tempestivo para todas as áreas ambientais (inclusive a de preservação permanente e de interesse ecológico) e da necessidade de apresentação do Ato de órgão competente federal ou estadual, para a área de interesse ecológico, consta em evidência nos Manuais de Preenchimento das DITR 2009 e 2010.” Ante o exposto, entendo pela manutenção da glosa relativa à APP. No que tange a declaração do exercício de 2010 a integralidade da área do mesmo imóvel, dessa vez, foi informada como área de reflorestamento. Fl. 148DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.925 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11624.720070/2013-90 13 Ora, estamos falando do mesmo imóvel, como é possível que em um exercício estejamos diante de uma APP e no ano seguinte a mesma área seja considerada de reflorestamento e, em 2013 novamente classificada como APP, como acima destacado? É claro que as classificações podem ser alteradas na DITR para se corrigir erros de declaração, todavia, a alteração precisa ser motivada, por exemplo, por meio de laudos – e ou outros documentos – que possam atestar que a natureza do imóvel era outra, ou para se corrigir um equívoco, de todo modo a alteração da declaração precisa estar baseada em algum lastro. E ainda que fosse o caso, nada foi trazido aos autos. III – DO DISPOSITIVO Ante o exposto, conheço do recurso, e, no mérito, NEGO provimento. Assinado Digitalmente Lílian Cláudia de Souza Fl. 149DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 15588.720318/2022-48
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019
NULIDADE. INOVAÇÃO NO ACÓRDÃO RECORRIDO. INOCORRÊNCIA.
A decisão de primeira instância que apresenta argumentos contrários às alegações de defesa suscitadas na peça impugnatória, sendo mantidas as razões da fiscalização, não implica em inovação. A autoridade julgadora pode expressar sua percepção dos fatos reunidos nos autos em resposta à defesa.
NULIDADE. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. AUSÊNCIA DE LAUDO TÉCNICO. INOCORRÊNCIA.
Se a autoridade fiscal não encontra complexidade na mercadoria, capaz de ensejar a necessidade de elaboração de laudo técnico, para dirimir eventual dúvida em relação à sua classificação fiscal (matéria jurídica), o lançamento pode ter como base os elementos constantes nos autos.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO ESPECÍFICA PARA A RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DE DETERMINADOS PRODUTOS. EXCLUSÃO DE PARTE DO LANÇAMENTO.
A falta de fundamentação específica para a reclassificação fiscal de determinados produtos impõe a exclusão do imposto lançado, atinente à reclassificação fiscal desses produtos, em razão de violação ao art. 142 do CTN – Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66) e ao art. 10, incisos III e IV, do Decreto 70.235/72.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA.
A legislação brasileira determina o cumprimento das normas internacionais sobre classificação fiscal de mercadorias, sendo tal atribuição exercida pelos Auditores-Fiscais da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil – RFB. Para fins tributários e aduaneiros, os entendimentos resultantes da aplicação da legislação do Sistema Harmonizado devem prevalecer sobre definições que tenham sido adotadas por órgãos públicos de outras áreas de competência.
Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ÁGUAS DE PERFUME. NCM 3303.00.10. RGI 4.
A subposição da NCM 3303.00 engloba os perfumes (extratos) e as águas-de-colônia. Conforme as NESH, as águas-de-colônia diferem dos perfumes propriamente ditos pela sua menor concentração de óleos essenciais, etc., e pelo título geralmente menos elevado de álcool utilizado. Portanto, em razão da sua maior concentração, por comparação por semelhança, conforme entendimento deste Conselho, as águas de perfume classificam-se no código 3303.00.10 da TIPI.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. PREPARAÇÃO PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE COM SUBSTÂNCIA DESODORANTE. SUBPOSIÇÃO NCM 3304.99. RGI 3B.
Preparações, cuja função essencial seja de conservação ou cuidado da pele, com substâncias adicionais de desodorantes, classificam-se na subposição 3304.99 da TIPI.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ESFOLIANTES. PREPARAÇÃO PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE. SUBPOSIÇÃO NCM 3304.99.
Cremes e géis para cuidados da pele, cuja função seja de esfoliante, possuindo, em sua composição, acessoriamente, substância antisséptica, classificam-se na subposição 3304.99 da TIPI.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. DEO-COLÔNIAS. SUBPOSIÇÃO NCM 3303.00.
Os desodorantes colônias enquadram-se como produtos de perfumaria e, através do critério da comparação por semelhança, conforme entendimento deste Conselho, os produtos que apresentem maiores concentrações aromáticas classificam-se como perfumes, no código 3303.00.10, e aqueles, com menores concentrações, no código 3303.00.20 da TIPI.
Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019
INSUFICIÊNCIA DO IMPOSTO. RECLASSIFICAÇÃO.
Diante da reclassificação fiscal, cabe a exigência das diferenças de alíquotas sobre as saídas dos produtos sujeitos à incidência do IPI, acompanhadas da multa de ofício e dos juros de mora.
FALTA DE LANÇAMENTO DO IPI. IMPOSTO COM COBERTURA DE CRÉDITO.
Correta a imposição de multa de ofício, proporcional ao valor do imposto que deixou de ser destacado na nota fiscal de saída (imposto não lançado), mesmo havendo créditos para abater parcela desse imposto.
Numero da decisão: 3202-002.990
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário, para, na parte conhecida, afastar as preliminares arguidas e, no mérito, por dar parcial provimento, para que sejam excluídos da autuação os valores de IPI concernentes aos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior, entre os discriminados pela recorrente nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10.713-10.717 (Doc. 5) e às fls. 10.879-10.880 (Doc. 08), e no documento juntado às fls. 10.885-10.952 (Doc. 09). Por maioria de votos, em negar provimento quanto às demais matérias do recurso voluntário. Vencida a Conselheira Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que dava provimento integral ao recurso.
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente
Assinado Digitalmente
Wagner Mota Momesso de Oliveira – Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Juciléia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: WAGNER MOTA MOMESSO DE OLIVEIRA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 NULIDADE. INOVAÇÃO NO ACÓRDÃO RECORRIDO. INOCORRÊNCIA. A decisão de primeira instância que apresenta argumentos contrários às alegações de defesa suscitadas na peça impugnatória, sendo mantidas as razões da fiscalização, não implica em inovação. A autoridade julgadora pode expressar sua percepção dos fatos reunidos nos autos em resposta à defesa. NULIDADE. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. AUSÊNCIA DE LAUDO TÉCNICO. INOCORRÊNCIA. Se a autoridade fiscal não encontra complexidade na mercadoria, capaz de ensejar a necessidade de elaboração de laudo técnico, para dirimir eventual dúvida em relação à sua classificação fiscal (matéria jurídica), o lançamento pode ter como base os elementos constantes nos autos. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO ESPECÍFICA PARA A RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DE DETERMINADOS PRODUTOS. EXCLUSÃO DE PARTE DO LANÇAMENTO. A falta de fundamentação específica para a reclassificação fiscal de determinados produtos impõe a exclusão do imposto lançado, atinente à reclassificação fiscal desses produtos, em razão de violação ao art. 142 do CTN – Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66) e ao art. 10, incisos III e IV, do Decreto 70.235/72. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA. A legislação brasileira determina o cumprimento das normas internacionais sobre classificação fiscal de mercadorias, sendo tal atribuição exercida pelos Auditores-Fiscais da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil – RFB. Para fins tributários e aduaneiros, os entendimentos resultantes da aplicação da legislação do Sistema Harmonizado devem prevalecer sobre definições que tenham sido adotadas por órgãos públicos de outras áreas de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ÁGUAS DE PERFUME. NCM 3303.00.10. RGI 4. A subposição da NCM 3303.00 engloba os perfumes (extratos) e as águas-de-colônia. Conforme as NESH, as águas-de-colônia diferem dos perfumes propriamente ditos pela sua menor concentração de óleos essenciais, etc., e pelo título geralmente menos elevado de álcool utilizado. Portanto, em razão da sua maior concentração, por comparação por semelhança, conforme entendimento deste Conselho, as águas de perfume classificam-se no código 3303.00.10 da TIPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. PREPARAÇÃO PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE COM SUBSTÂNCIA DESODORANTE. SUBPOSIÇÃO NCM 3304.99. RGI 3B. Preparações, cuja função essencial seja de conservação ou cuidado da pele, com substâncias adicionais de desodorantes, classificam-se na subposição 3304.99 da TIPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ESFOLIANTES. PREPARAÇÃO PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE. SUBPOSIÇÃO NCM 3304.99. Cremes e géis para cuidados da pele, cuja função seja de esfoliante, possuindo, em sua composição, acessoriamente, substância antisséptica, classificam-se na subposição 3304.99 da TIPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. DEO-COLÔNIAS. SUBPOSIÇÃO NCM 3303.00. Os desodorantes colônias enquadram-se como produtos de perfumaria e, através do critério da comparação por semelhança, conforme entendimento deste Conselho, os produtos que apresentem maiores concentrações aromáticas classificam-se como perfumes, no código 3303.00.10, e aqueles, com menores concentrações, no código 3303.00.20 da TIPI. Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 INSUFICIÊNCIA DO IMPOSTO. RECLASSIFICAÇÃO. Diante da reclassificação fiscal, cabe a exigência das diferenças de alíquotas sobre as saídas dos produtos sujeitos à incidência do IPI, acompanhadas da multa de ofício e dos juros de mora. FALTA DE LANÇAMENTO DO IPI. IMPOSTO COM COBERTURA DE CRÉDITO. Correta a imposição de multa de ofício, proporcional ao valor do imposto que deixou de ser destacado na nota fiscal de saída (imposto não lançado), mesmo havendo créditos para abater parcela desse imposto.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário, para, na parte conhecida, afastar as preliminares arguidas e, no mérito, por dar parcial provimento, para que sejam excluídos da autuação os valores de IPI concernentes aos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior, entre os discriminados pela recorrente nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10.713-10.717 (Doc. 5) e às fls. 10.879-10.880 (Doc. 08), e no documento juntado às fls. 10.885-10.952 (Doc. 09). Por maioria de votos, em negar provimento quanto às demais matérias do recurso voluntário. Vencida a Conselheira Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que dava provimento integral ao recurso. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Juciléia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
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INOVAÇÃO NO ACÓRDÃO RECORRIDO. INOCORRÊNCIA. A decisão de primeira instância que apresenta argumentos contrários às alegações de defesa suscitadas na peça impugnatória, sendo mantidas as razões da fiscalização, não implica em inovação. A autoridade julgadora pode expressar sua percepção dos fatos reunidos nos autos em resposta à defesa. NULIDADE. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. AUSÊNCIA DE LAUDO TÉCNICO. INOCORRÊNCIA. Se a autoridade fiscal não encontra complexidade na mercadoria, capaz de ensejar a necessidade de elaboração de laudo técnico, para dirimir eventual dúvida em relação à sua classificação fiscal (matéria jurídica), o lançamento pode ter como base os elementos constantes nos autos. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO ESPECÍFICA PARA A RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DE DETERMINADOS PRODUTOS. EXCLUSÃO DE PARTE DO LANÇAMENTO. A falta de fundamentação específica para a reclassificação fiscal de determinados produtos impõe a exclusão do imposto lançado, atinente à reclassificação fiscal desses produtos, em razão de violação ao art. 142 do CTN – Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66) e ao art. 10, incisos III e IV, do Decreto 70.235/72. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. COMPETÊNCIA. A legislação brasileira determina o cumprimento das normas internacionais sobre classificação fiscal de mercadorias, sendo tal atribuição exercida pelos Auditores-Fiscais da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil – RFB. Para fins tributários e aduaneiros, os entendimentos resultantes da Fl. 13456DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 2 aplicação da legislação do Sistema Harmonizado devem prevalecer sobre definições que tenham sido adotadas por órgãos públicos de outras áreas de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ÁGUAS DE PERFUME. NCM 3303.00.10. RGI 4. A subposição da NCM 3303.00 engloba os perfumes (extratos) e as águas- de-colônia. Conforme as NESH, as águas-de-colônia "diferem dos perfumes propriamente ditos pela sua menor concentração de óleos essenciais, etc., e pelo título geralmente menos elevado de álcool utilizado". Portanto, em razão da sua maior concentração, por comparação por semelhança, conforme entendimento deste Conselho, as águas de perfume classificam- se no código 3303.00.10 da TIPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. PREPARAÇÃO PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE COM SUBSTÂNCIA DESODORANTE. SUBPOSIÇÃO NCM 3304.99. RGI 3B. Preparações, cuja função essencial seja de conservação ou cuidado da pele, com substâncias adicionais de desodorantes, classificam-se na subposição 3304.99 da TIPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ESFOLIANTES. PREPARAÇÃO PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE. SUBPOSIÇÃO NCM 3304.99. Cremes e géis para cuidados da pele, cuja função seja de esfoliante, possuindo, em sua composição, acessoriamente, substância antisséptica, classificam-se na subposição 3304.99 da TIPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. DEO-COLÔNIAS. SUBPOSIÇÃO NCM 3303.00. Os desodorantes colônias enquadram-se como produtos de perfumaria e, através do critério da comparação por semelhança, conforme entendimento deste Conselho, os produtos que apresentem maiores concentrações aromáticas classificam-se como perfumes, no código 3303.00.10, e aqueles, com menores concentrações, no código 3303.00.20 da TIPI. Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 INSUFICIÊNCIA DO IMPOSTO. RECLASSIFICAÇÃO. Fl. 13457DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 3 Diante da reclassificação fiscal, cabe a exigência das diferenças de alíquotas sobre as saídas dos produtos sujeitos à incidência do IPI, acompanhadas da multa de ofício e dos juros de mora. FALTA DE LANÇAMENTO DO IPI. IMPOSTO COM COBERTURA DE CRÉDITO. Correta a imposição de multa de ofício, proporcional ao valor do imposto que deixou de ser destacado na nota fiscal de saída (imposto não lançado), mesmo havendo créditos para abater parcela desse imposto. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário, para, na parte conhecida, afastar as preliminares arguidas e, no mérito, por dar parcial provimento, para que sejam excluídos da autuação os valores de IPI concernentes aos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior, entre os discriminados pela recorrente nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10.713-10.717 (Doc. 5) e às fls. 10.879- 10.880 (Doc. 08), e no documento juntado às fls. 10.885-10.952 (Doc. 09). Por maioria de votos, em negar provimento quanto às demais matérias do recurso voluntário. Vencida a Conselheira Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que dava provimento integral ao recurso. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Juciléia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). RELATÓRIO Por bem descrever os fatos, adoto o relatório do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) 06, juntado às fls. 12972-13044: Trata-se de Auto de Infração lavrado contra a Interessada em epígrafe para exigir saldo devedor do IPI. Segundo a Fiscalização: Fl. 13458DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 4 (...) O estabelecimento matriz da fiscalizada, a Botica Comercial Farmacêutica Ltda., inscrita no CNPJ sob o nº 77.388.007/0001-57, com sede no município de São José dos Pinhais - PR, foi objeto de ação fiscal anterior, encerrada no ano-calendário 2021, que resultou em lavratura de AI para a cobrança de IPI lançado a menor por ERRO de CLASSIFICAÇÂO FISCAL, na Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados (TIPI), aprovada pelo Decreto nº 8.950, de 29 de dezembro de 2016, nas saídas de produtos tributados, conforme Processo Administrativo Fiscal (PAF) nº 10340.721.884/2021-75. (...) O presente procedimento fiscal, por sua vez, teve início em 03/01/2022, com a ciência ao Termo de Início do Procedimento Fiscal (TIPF) (doc. Anexo ao AI), no qual foi solicitado ao sujeito passivo, mediante juntada ao Dossiê Digital de Comunicação com o Contribuinte (DCC) n° 10271.550.707/2021- 69, os documentos e as informações que seguem: (...) Após sucessivos Termos de Ciência e de Continuação de Procedimento Fiscal, em 08/08/2022, no intuito de depurar cada saída efetuada sob os códigos TIPI/NCM 3307.20.10 e 3307.20.90, desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes, o fiscalizado, por meio do Termo de Intimação Fiscal Nº 01, doc. anexo ao AI, foi instado a: 1. “Informar se foi feita alguma consulta junto à Receita Federal e/ou Secretaria Estadual da Fazenda sobre classificação fiscal dos produtos fabricados sob os códigos TIPI/NCM 3307.20.10 e 3307.20.90. Caso positivo, apresentar a consulta e resposta do órgão público. 2. Descrição detalhada do processo produtivo dos produtos fabricados pela empresa, sob os códigos TIPI/NCM 3307.20.10 e 3307.20.90, informando os insumos utilizados em cada etapa (nomes comerciais e nomes constantes nas notas fiscais). 3. Informar todos os produtos fabricados pela empresa, sob os códigos TIPI/NCM 3307.20.10 e 3307.20.90, especificando o tipo, a descrição e aplicação do produto, o respectivo nome comercial e o código do produto. 4. Apresentar todos os catálogos comerciais emitidos pela empresa no período de 01/2018 a 12/2019. 5. Memória de cálculo, em formato XLS, com totalização mensal, de todas as saídas do estabelecimento com classificação fiscal TIPI/NCM 3307.20.10 e 3307.20.90, detalhando por CFOP, código do produto, descrição do produto (nome comercial) e valor total das saídas do mês de 01/01/2018 até 31/12/2019.” Fl. 13459DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 5 Em 17/10/2022, por meio do Termo de Intimação Fiscal Nº 02, doc. anexo ao AI, requereu-se do fiscalizado as mesmas informações e documentos contidos na intimação fiscal anterior, mas desta feita referentes as saídas realizadas sob o código TIPI/NCM 3303.00.20, águas-de-colônia. Em 27/10/2022, por fim, por meio do Termo de Intimação Fiscal Nº 03, doc. anexo ao AI, o sujeito passivo foi intimado a apresentar o Livro de Apuração do IPI (anos 2018 e 2019). Atendidas as solicitações da fiscalização, nos termos requerido nas intimações supramencionadas, necessárias a realização e conclusão dos trabalhos de auditoria, restou constatado, por inobservância de questões atinentes à classificação fiscal de mercadorias, a redução do IPI devido em decorrência da aplicação de alíquota inferior. 4. DAS CONSTATAÇÕES FISCAIS A partir da análise das notas fiscais eletrônicas de saídas de produtos vendidos e da Escrituração Fiscal Digital – EFD, apresentadas pelo contribuinte, e com base no cruzamento de informações fiscais e contábeis em posse do Fisco, detectou-se a utilização incorreta de classificação fiscal na TIPI para produtos fabricados e saídos do estabelecimento auditado no período em exame. Em síntese, o fiscalizado empregou os códigos fiscais TIPI/NCM 3307.20.10, 3307.20.90, alíquota fixada em 7%, e 3303.00.20, alíquota fixada em 12%, para diversos produtos, discriminados em demonstrativos anexos ao AI, que por suas características essenciais, entre outras, conforme posteriormente ilustrado, devem ser enquadrados nas posições TIPI/NCM que seguem: A conclusão fiscal pela reclassificação fiscal encontra amparo, além das informações que constam nos catálogos comerciais apresentados, nas justificativas técnicas e legais demonstradas nos itens que seguem. (...) 6. DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL A fiscalização entende que inúmeros produtos enquadrados pela empresa no NCM 3307.20 – Desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes, alíquota fixada em 7%, na verdade devem ser Fl. 13460DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 6 classificados na categoria Perfume, Água de Colônia e Creme Hidrante, alíquotas fixadas, respectivamente, em 42%, 12% e 22%. A fiscalização manteve entendimento igual para algumas saídas de produtos enquadrados pelo fiscalizado saídos sob NCM 3303.00.20 - Águas-de-colônia, alíquota fixada em 12%, que devem ser classificadas, conforme suas características essenciais, como Perfume (extrato) NCM 3303.00.10, alíquota fixada em 42%. A presente auditoria, pela similitude das averiguações e dentro da simetria dos trabalhos, procedeu a extração do Processo Administrativo Fiscal nº 10340.721.884/2021-75, citado anteriormente, AI lavrado em desfavor do estabelecimento matriz da fiscalizada, de peças processuais que, com uma análise minuciosa, justificam as razões das reclassificações de cada produto nesta ação fiscal com, entre outros: as suas características, sua composição, finalidade, rotulagem e a sua função essencial (documentos apensados ao AI). 7. DAS IMPLICAÇÕES FISCAIS DA RECLASSIFICAÇÃO A reclassificação produziu as seguintes implicações fiscais: 1ª - a reclassificação fiscal dos produtos originalmente classificados pelo contribuinte em NCM tributados com alíquota inferior para NCM com alíquotas mais elevadas resultou, no período analisado, num destaque a menor do IPI pela Botica Comercial Farmacêutica Ltda., inscrita no CNPJ sob o nº 77.388.007/0004-08. 2ª – Por outro lado, em decorrência da reclassificação fiscal, o autuado passou a ter direito ao estorno de débitos de IPI referentes às devoluções de venda no período, para os produtos reclassificados, sendo empregadas as mesmas alíquotas apuradas pela fiscalização. 3ª - com os valores apurados de IPI, inclusive com os referentes as devoluções de vendas, indicados em demonstrativos anexos ao AI, e os valores registrados nos Livros Registro de Apuração do IPI (RAIPI), elaborou- se um DEMONSTRATIVO DE RECONSTITUIÇÃO DA ESCRITA FISCAL, conforme autos do processo nº 15588.720.318/2022-48. 4ª – os valores não apurados do IPI e, consequentemente, não recolhidos nem declarados em DCTF, foram constituídos de ofício pela autoridade fiscal no presente trabalho. Inconformada, a autuada apresenta Impugnação, nos seguintes termos: (...) 23. Seja como for, no auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, a partir de ilações contraditórias, desprovidas de respaldo legal e também não amparadas em provas Fl. 13461DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 7 técnicas, foi promovida a reclassificação fiscal dos seguintes “grupos” de produtos: (I) Águas de Colônia: sob o particular entendimento de que os produtos com concentração aromática superior a 15% deveriam ser classificados na Posição NCM nº 3303.00.10 (e não na Posição NCM nº 3303.00.20), tendo em vista o disposto na RGI 4, pois, absurda e presumidamente, “a água de perfume está mais próxima do perfume do que da água-de-colônia”; (II) Desodorantes Colônia: mais uma vez invocando a descabida RGI 4, mas agora adotando como “limite de corte” percentual de concentração aromática (10%) diferente das águas de perfume (15%), foi aduzido que: (II.1) produtos com concentração aromática inferior a 10% deveriam ser classificados na Posição NCM nº 3303.00.20 (água-de-colônia); e (II.2) produtos com concentração aromática superior a 10% deveriam ser classificados na Posição NCM nº 3303.00.10 (perfume). E assim foi afastada a classificação fiscal adotada pela Impugnante (Posição NCM nº 3307.2010); e (III) Desodorantes Hidratantes e Esfoliantes: haveria “uma característica essencial para os produtos: a destinação para conservação ou cuidados da pele” (fl. 7.588), de modo que deveria ser observada a RGI 3.b, com o que os produtos devem ser classificados nas Posições NCM nºs 3304.99.10 ou 3304.99.90 (e não nas Posições NCM nºs 3307.20.10 e 3307.2090). 24. Os desodorantes axilares e os estojos, por sua vez, embora tenham sido reclassificados neste novo auto de infração, não foram objeto de reclassificação fiscal no auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, de modo que, para estas situações, não há qualquer motivação para que fosse procedida à reclassificação fiscal desse “grupo” de produtos. 25. Ademais, existem produtos que, embora tenham sido objeto de auditoria anterior, não foram objeto do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 e que, agora, estranhamente e sem qualquer motivo explicitado, foram reclassificados no contexto do auto de infração objeto do processo administrativo em referência, o que, por óbvio, é descabido. (...) IV – DO DIREITO IV.1 – DO EVIDENTE VÍCIO DE MOTIVAÇÃO (...) 32. Finalmente, foi lavrado o auto de infração vinculado ao processo em referência, já no mês de dezembro de 2022, por meio do qual a autoridade Fl. 13462DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 8 fiscal promoveu a reclassificação fiscal dos produtos industrializados pela Impugnante, evidentemente sem qualquer análise específica dos produtos. (...) 35. Em decorrência do precário procedimento fiscal, a autoridade autuante não detinha elementos concretos para promover a reclassificação fiscal dos produtos industrializados pela Impugnante, de forma que, possivelmente como alternativa para constituir o crédito tributário antes de atingido o prazo decadencial, sacou a ideia de tomar por empréstimo a motivação adotada para a lavratura de auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75. 36. Como se verifica, para tentar motivar este novo auto de infração, a autoridade fiscal se limitou a fazer mera referência aos motivos que haviam sido aduzidos no auto de infração lavrado em face do estabelecimento matriz da Impugnante, sem nem mesmo segregar os “grupos” de produtos para que fosse possível relacionar a motivação adotada naqueles autos com os produtos desta nova autuação. (...) 38. A suposta motivação utilizada pela autoridade fiscal para lavrar o auto de infração deixa cristalino o (ilegal e indevido) expediente adotado nesse caso concreto: simplesmente não foi efetivamente analisado qualquer dos produtos, adotando-se as razões utilizadas na lavratura do auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, sem qualquer critério. (...) 40. Na verdade, a autoridade autuante adotou a motivação aduzida no lançamento vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021- 75 como se fosse uma simples “tese” jurídica a respeito da classificação fiscal de produtos, o que não pode ser admitido. 41. Isso porque, e como sabido, a classificação fiscal de mercadorias não é matéria de cunho exclusivamente jurídico, mas questão que muita vez depende primordialmente da análise técnica das características de fato dos produtos. (...) 44. Ainda nesse sentido, e mais recentemente, a própria Receita Federal do Brasil consolidou esse posicionamento por meio do Parecer Normativo COSIT nº 06, de 20 de dezembro de 2018, que pontou a relevância das características de fato dos produtos no exercício da classificação fiscal. Confira-se: (...) Fl. 13463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 9 45. Assim, e antes da aplicação de qualquer regra jurídica que diga respeito à classificação fiscal de mercadorias, é imprescindível que sejam definidas as características de fato dos produtos, inclusive mediante a elaboração de laudos técnicos para avaliação dos itens por profissionais especializados. (...) 47. De nada adianta inadvertidamente tomar por empréstimo uma pretensa “tese” jurídica utilizada na lavratura de outro auto de infração para motivar a reclassificação fiscal. É indispensável que sejam declinadas as razões de fato, específicas e consistentes nas características dos produtos, para demonstrar que a motivação adotada em outro auto de infração seria aplicável ao caso concreto. 48. Tal vício se mostra ainda mais evidente nos casos dos produtos e, até mesmos, categorias que não foram sequer objeto de autuação no bojo do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75. (...) 52. A mera referência a “razões” adotadas no auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 definitivamente não é suficiente para que seja considerado como motivado o novo auto de infração. (...) 54. De fato, muito embora a autoridade fiscal tenha limitado a (suposta) motivação do auto de infração nas razões que haviam sido adotadas no lançamento fiscal objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, não foi sequer demonstrado que os produtos objeto de reclassificação naqueles autos correspondem aos produtos objeto deste novo auto de infração. 55. Ora, ao se limitar a referenciar as “razões” do auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, caberia à autoridade administrativa comprovar a correspondência entre os produtos objeto deste lançamento fiscal e as razões que haviam sido declinadas naqueles autos. 56. Sem isso, as razões aduzidas pela autoridade administrativa responsável pela lavratura do auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 não passam de alegações inaplicáveis aos produtos industrializados pela Impugnante. (...) 59. Ainda que as “razões” do auto de infração objeto do Processo Administrativo n 10340.721884/2021-75 pudessem representar a “motivação” do auto de infração ora impugnado, é certo que essa Fl. 13464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 10 “motivação” serviria, quando muito, apenas aos produtos que foram objeto de autuação naqueles autos. 60. Isso porque, naquele caso, a autoridade fiscal declinou as razões (ainda que equivocadas) pelas quais foi promovida a reclassificação fiscal em relação àquele estabelecimento, dividindo os produtos em “grupos”, e especificando as características de fato que conduziram à conclusão de que a posição NCM originalmente adotada pela empresa estaria equivocada. 61. Assim, as razões trazidas pela fiscalização no auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 se aplicariam apenas àqueles produtos que foram objeto de análise naquela ação fiscal, de forma que, quando muito, seriam aplicáveis aos produtos industrializados pela Impugnante que são idênticos àqueles industrializados pelo estabelecimento anteriormente autuado. 62. Contudo, ao compulsar as planilhas acostadas ao processo administrativo do auto de infração ora impugnado, constata-se que mais de 320 (trezentos e vinte) produtos, embora fiscalizados, não foram autuados pelo auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75! 63. Na planilha anexa (doc. 05), a Impugnante relaciona os produtos que não foram objeto de anterior reclassificação fiscal no auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, cujo correlato IPI exigido perfaz um montante de R$ 214.844.417,19, que corresponde a 37,95% de todo o IPI considerando como devido. 64. Com efeito, ao se limitar a simplesmente referenciar as razões que conduziram à lavratura do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 para, supostamente, motivar o auto de infração objeto do processo administrativo em referência, a autoridade fiscal simplesmente deixou de motivar a autuação em relação a mais de 320 (trezentos e vinte) produtos que foram objeto de reclassificação fiscal – produtos esses que não foram, todavia, reclassificados justamente no auto de infração anterior. (...) 69. Este vício decorrente do uso emprestado de “tese jurídica” se mostra ainda mais evidente em relação aos produtos que não foram objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 e que ora foram reclassificados para as posições 3303.00.10 (perfumes) e 3303.00.20 (águas de colônia). 70. Isso porque, para estas categorias de produtos, na autuação objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 adotou-se metodologia de classificação fiscal baseada na RGI 4, pela qual deve ser feito um comparativo, produto a produto, de concentração de substância Fl. 13465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 11 aromática, considerando cada produto a ser classificado frente aos demais produtos da mesma marca/linha ou, subsidiariamente, com os demais produtos fabricados pela empresa. 71. Esta metodologia (apesar de equivocada – registre-se) inevitavelmente requer a análise individual de cada produto frente aos demais produtos de mesma marca/linha, sendo certo que o uso “emprestado”, de forma genérica (e sem as devidas motivações), de uma espécie de “tese jurídica” acaba por resultar em autuação sem fundamentação para estes produtos. (...) 74. Nesta nova autuação foram objeto de reclassificação fiscal diversos estojos (doc. 06), que são sortidos acondicionados para venda a retalho, composto por diversos produtos e sujeitos à enquadramento fiscal único (doc. 07). 75. Ocorre que esta categoria de produtos simplesmente não foi incluída no anterior auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75. Ora, como tomar as “razões’ daquela autuação como “motivação”? Trata-se de outra gravíssima situação. (...) 77. Este vício se agrava quando a classificação fiscal de sortidos requer uma análise própria para fins de classificação fiscal, o que, obviamente, não foi feito. 78. Aliás, no presente caso, além destes estojos não terem sido objeto da autuação vinculada ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021- 75 – de forma que, a rigor, não existem motivação para estes produtos –, não foi apresentada qualquer razão pela qual a classificação fiscal adotada pela Impugnante para esta categoria de produtos estaria incorreta e, muito menos, os motivos pelos quais as posições eleitas pela autoridade fiscal seriam corretas. 79. Isto demonstra que, de fato, a autoridade fiscal realizou a reclassificação fiscal de forma completamente genérica e, até mesmo, aleatória para estes estojos, sem se atentar para as (necessárias) particularidades de cada produto autuado, restando uma vez mais demonstrada a completa precariedade do trabalho fiscal. 80. Outra inovação inexplicável e sem correlação com a autuação objeto do Processo Administrativo 10340.721884/2021-75 é a reclassificação fiscal dos desodorantes axilares (doc. 08) das posições 3307.20.10 e 3307.20.90 para 3303.00.20 (água de colônia) e 3304.99.10 (produtos para cuidados da pele). 81. A bem da verdade, de todas as reclassificações fiscais ora debatidas, esta é a que causa maior perplexidade, porquanto, sem qualquer Fl. 13466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 12 fundamento (nem mesmo “emprestada” da outra autuação), a autoridade fiscal alterou a classificação fiscal do desodorante mais elementar, básico, trivial e tradicional do mercado, o chamado desodorante axilar. 82. Inclusive, diversos destes produtos são os tradicionais desodorantes antitranspirantes, que estão expressamente indicados na posição 3307.20, evidenciando a generalidade e falta de motivação dos trabalhos fiscais. 83. Com efeito, trata-se de produto diverso dos demais reclassificados, para os quais não há a remota hipótese de se cogitar o enquadramento em qualquer uma das posições invocadas pela autoridade fiscal, porquanto têm por finalidade precípua a desodorização. (...) 87. Ocorre que, em relação aos desodorantes axilares, ao contrário dos desodorantes multifuncionais (tais como desodorantes colônias e desodorantes hidratantes), de fato, possuem função precípua de desodorização. Inclusive, diversos destes produtos possuem ação antitranspirante, que está expressamente indicada na posição 3307.20 – “Desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes”. 88. É dizer, seguindo a própria tese invocada pela autoridade fiscal, não haveria qualquer justificativa para se efetuar a reclassificação fiscal destes produtos. (...) 91. Por fim, ainda que fosse possível admitir o “empréstimo” de tese feito pela autoridade fiscal (que, frise-se, nem mesmo abarca todas as categorias de produtos ora autuados), é certo que a autoridade fiscal sequer a considerou para diversos produtos, promovendo reclassificações genéricas e sem a mínima observância dos próprios critérios adotados no auto de infração vinculado ao Processo Administrativo 10340.721884/2021-75. (...) 93. Ocorre que, (evidentemente) sem qualquer justificativa ou critério, a autoridade fiscal acabou por realizar as seguintes reclassificações fiscal que em nada se relacionam com as motivações invocadas no Processo Administrativo 10340.721884/2021-75: (I) Desodorantes Colônia classificados na posição 3307.20.10 (desodorantes líquidos) foram reclassificados para a posição 3304.99.10 (cremes de beleza e cremes nutritivos); (II) Desodorantes Hidratantes classificados na posição 3307.20.90 (outros desodorantes) foram reclassificados para a posição 3303.00.10 (perfumes); e Fl. 13467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 13 (III) Desodorantes Hidratantes classificados na posição 3307.20.90 (outros desodorantes) foram reclassificados para a posição 3303.00.20 (água de colônia); e (IV) Desodorantes Hidratantes em óleo classificados na posição 3307.20.10 (desodorantes líquidos) foram reclassificados para a posição 3303.00.20 (água de colônia). 94. Como se nota, os específicos produtos das mencionadas categorias (doc. 11) foram reclassificados para posições não adotadas no Processo Administrativo 10340.721884/2021-75 para estas categorias. 95. Não bastasse este distanciamento da “tese jurídica emprestada”, como asseverado, a autoridade fiscal não declinou quaisquer razões para esta específica reclassificação, reforçando a completa falta de motivação e critérios falhos dos trabalhos fiscais ora impugnados. 96. Note-se que numa avaliação gramatical já se nota que estas reclassificações não fazem qualquer sentido, pois os produtos destas categorias nem mesmo remetem àqueles enquadrados nas posições indicadas pela autoridade fiscal! 97. Há, inclusive, incompatibilidade física das formas de apresentação dos produtos em relação às reclassificações perpetradas. É o caso, por exemplo, desodorantes hidratantes, que possuem a forma de creme, e foram reclassificados para a posição das águas de colônia, nitidamente líquidas. A propósito, confira-se a apresentação do produto “EGEO MERNG MOUS HID DES CPO DOLC 250g V4” (código 28590), que se encontra nesta absurda situação: 98. O mesmo ocorre com os desodorantes hidratantes em óleo, que possuem forma oleosa e foram reclassificados para a posição das águas de colônia líquidas. Confira-se, por exemplo, a apresentação do produto “NSPA OL DES CPO BAUN 250ml” (código 772080). (...) 103. Neste tópico da defesa do mérito, a Impugnante demonstrará que, a exemplo do que já havia sido levado a efeito no auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, a autoridade fiscal não aprofundou a investigação dos fatos, não provou tecnicamente as acusações fiscais e não motivou de forma adequada e suficiente o lançamento tributário e, por violou abertamente o artigo 142 do CTN. (...) 110. Nesse cenário, e como se verá a seguir, são diversos os vícios (materiais e insanáveis) no lançamento, além das alegações invocadas de forma emprestada pela autoridade fiscal não serem adequadas e Fl. 13468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 14 suficientes para motivar a autuação fiscal, furtando-se ao seu dever de aprofundar o trabalho fiscal e provar as acusações fiscais. IV.2.1 – Da ausência de prova técnica para promover a reclassificação fiscal dos produtos industrializados e comercializados nos períodos fiscalizados. (...) 115. Para que as Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado (“RGI/SH”) sejam corretamente aplicadas, no entanto, é imprescindível que o intérprete tenha pleno conhecimento das características técnicas dos produtos, de forma a enquadrá-los na correta Posição NCM. 116. Em muitos casos, as características dos produtos objeto da atividade de classificação fiscal são simples, bastando o conhecimento empírico do intérprete a respeito do produto e do mercado em que está inserido para que se chegue à correta Posição NCM. 117. Porém, em outros casos, a determinação da natureza e características dos produtos é bastante complexa, devendo a autoridade fiscal recorrer a profissionais especializados para que, a partir de laudos técnicos e pareceres a respeito das características dos produtos, seja possível aplicar a Regra Geral de Interpretação do Sistema Harmonizado (“RGI/SH”) para o enquadramento na Posição NCM. (...) 120. A esse respeito, é de se notar que, curiosamente, a autoridade fiscal invocou o Parecer Normativo COSIT nº 06/2018, para suscitar a sua competência para realizar a classificação fiscal, todavia, deixou de reconhecer que esta mesma orientação fiscal (que, como a própria autoridade administrativa reconhece, lhe é vinculante) é categórica em limitar sua atuação aos aspectos jurídicos, deixando os aspectos técnicos para profissionais qualificados. (...) 122. No entanto, no caso concreto, a autoridade administrativa não produziu qualquer prova técnica exigida pelo Parecer Normativo COSIT nº 06/2018 (que, frise-se, tem efeito vinculativo na esfera administrativa), para promover a reclassificação fiscal dos produtos. (...) 124. De fato, as ilações da autoridade fiscal estão baseadas em transcrições (parciais) de textos acadêmicos (que, aliás, não analisaram de forma específica os produtos industrializados pela Impugnante), em informações extraídas aleatoriamente da Internet e, por incrível que pareça, em opinião pessoal sobre a matéria, o que, evidentemente, não constitui a prova técnica exigida pelo Parecer Normativo COSIT nº 06/ 2018. Fl. 13469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 15 (...) 133. Relembre-se, ademais, que no presente caso, há ainda uma gama de mais de 300 (trezentos) produtos que não foram sequer objeto de considerações pela autoridade fiscal no Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 e outros cujas categorias nem mesmo foram debatidas naquele caso, notadamente, os desodorantes axilares e os estojos. (...) IV.2.1.1 – Da ausência de prova técnica de que supostamente os produtos teriam uma função principal (ou essencial) 136. No Relatório Fiscal produzido nos autos do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, e adotado para a lavratura do auto de infração ora impugnado, aduziu a autoridade fiscal que: (I) desodorantes hidratantes e esfoliantes teriam uma característica essencial, qual seja, “a destinação para conservação ou cuidados da pele” (fl. 7.588); e (II) desodorantes colônia teriam “fragrâncias com característica essencial de perfumar a pele” (fl. 7.600). 137. Contudo, mais uma vez, trata-se alegações vazias, desprovidas de prova técnica e desconectadas da realidade do mercado. 138. Ainda, reiterando a ausência de motivação para diversos produtos, a Impugnante ressalta que ora foram autuados diversos desodorantes axilares, muitos dos quais com efeitos antitranspirantes, que, de fato, possuem função precípua de desodorização. É dizer, seguindo a própria tese invocada pela autoridade fiscal, estes produtos nem mesmo poderiam ter sido reclassificados. (...) 140. Assim, é evidente que a autoridade fiscal deveria comprovar, tecnicamente, que os produtos teriam as funções principais (ou essenciais) aduzidas no Relatório Fiscal, o que não ocorreu. (...) 143. Em relação à reclassificação fiscal dos desodorantes colônia e águas de colônia, o vício de fundamentação observado no Relatório Fiscal relativo ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 (juntado nestes autos) é mais patente. A esse respeito: (I) em relação às águas de colônia, sem análise técnica dos produtos (mas apenas com base em convicções pessoais), alegou que “a água de perfume poderia ser classificada tanto como água-de-colônia como perfume, Fl. 13470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 16 atraindo a aplicação da Regra 3. Porém, água de perfume não é água-de- colônia, nem é perfume (extrato)” (fl. 7.572); e (II) em relação aos desodorantes colônia, e também sem análise técnica dos produtos, a autoridade fiscal alegou que “a existência de um agente bacteriostático não é suficiente para a classificação de um produto de perfumaria como desodorante. Destarte, essa classificação mostra-se imprecisa para fins de classificação fiscal e deve ser abolida, mantendo-se, no caso em tela, apenas eau de cologne (água-de-colônia) e eau de parfum (água de perfume)” (fl. 7.591). 144. Com efeito, a autoridade fiscal recusou a aplicação da RGI 3 para os referidos produtos por entender – sem qualquer prova técnica – que (I) águas de colônia não seriam água de colônia ou perfume, mas um terceiro produto, e (II) que a presença de um agente bactericida nos desodorantes colônia (apesar de lhe conferirem eficácia desodorante) não os tornariam desodorantes. 145. Contudo, estranhamente, a autoridade fiscal invocou para esses produtos a RGI 4, que pressupõe a identificação do produto a classificar, para concluir que não é nenhum dos produtos indicados nas posições da NCM. (...) 147. Além disso, no Relatório Fiscal produzido nos autos do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, a autoridade fiscal desprezou solenemente as informações apresentadas pela Impugnante no curso da fiscalização, no sentido de que, conforme comprovado tecnicamente, os desodorantes colônia, os desodorantes hidratantes e os esfoliantes são produtos multifuncionais (portanto, não existe função principal ou essencial). 148. De fato, nos produtos multifuncionais não há preponderância de funções. Nesse aspecto, os desodorantes colônia têm as funções de perfumar e desodorizar, mas não há preponderância de função. Já os desodorantes hidratantes cuidam da pele e desodorizam, também não havendo preponderância. (...) IV.2.1.2 – Da ausência de prova técnica de que o ingrediente bactericida seria apenas um aditivo com eficácia meramente conservante 153. No curso do procedimento de fiscalização que culminou com a lavratura do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, cujo Relatório Fiscal foi adotado neste caso, demonstrou e comprovou a Impugnante que desodorantes colônia, desodorantes hidratantes e esfoliantes possuem na sua composição Fl. 13471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 17 química ativos (triclosan, caprilato de poliglicerila ou caprilil glicol) com ação antibacteriana e efeito desodorante reconhecidos por bancos de dados internacionais, pela literatura especializada e comprovados tecnicamente (inclusive por “Testes de Halo de Inibição”, doc. 04), caracterizando os produtos como multifuncionais. (...) 155. E, em relação ao triclosan, a MAPRIC (que é pessoa jurídica especializada no fornecimento de ativos para as indústrias cosmética, farmacêutica e nutracêutica), atestou no Relatório Técnico anexo que (doc. 13): (...) 156. Por sua vez, e sem prova técnica e com base em transcrições (parciais e descontextualizadas) de informações extraídas da Internet e de textos acadêmicos, aduziu a autoridade fiscal no Relatório Fiscal adotado nestes autos que o triclosan, o caprilato de poliglicerila e o caprilil glicol seriam “aditivos, que conferem características adicionais, necessárias ou desejadas pelos consumidores, mas que não alteram a característica essencial” 157. Além disso, a autoridade fiscal mencionou a Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 29, de 1º de junho de 2012, da ANVISA, alegando que “há um entendimento de que os agentes antissépticos são utilizados para conservação de cosméticos e perfumes. Como consequência, haverá uma redução ou eliminação das bactérias e dos odores desagradáveis que poderiam aparecer, mas sem que isso altere a finalidade ou o modo de usar do produto” (fl. 7.577). (...) 159. Com efeito, as citações da autoridade fiscal estão desatualizadas e desconectadas com a realidade do mercado de produtos cosméticos e de higiene pessoal, que evoluiu e se desenvolveu tecnologicamente, demandando produtos com múltiplas funções e que contenham a propriedade desodorante para aplicação no corpo inteiro, principalmente no Brasil, onde predomina o clima tropical e regiões sujeitas a temperaturas elevadas. 160. Os produtos multifuncionais proporcionam ao consumidor maior eficiência também nos cuidados com higiene pessoal, além de atender a requisitos de sustentabilidade por usarem menos componentes em sua formulação e minimizarem o consumo de embalagens. E, justamente para atender ao mercado consumidor, é que os produtos multifuncionais não possuem apenas uma finalidade de uso, sendo este justamente o diferencial que o consumidor procura ao adquirir essa categoria de produtos. Fl. 13472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 18 161. Por isso, tecnicamente, o triclosan, o caprilato de poliglicerila e o caprilil glicol constituem princípio ativo da fórmula de desodorantes colônia, desodorantes hidratantes e esfoliantes, entregando a ação antibacteriana e o efeito desodorante no corpo humano, caracterizando os produtos como multifuncionais. (...) 166. Como se vê, o triclosan, o caprilato de poliglicerila e o caprilil glicol podem ser utilizados com finalidade de conservação e, também, para conferir a eficácia desodorizante dada a sua multifuncionalidade, como ocorre exatamente nos produtos autuados. IV.2.1.3 – Informações divulgadas na Internet e no site da empresa comercial, dados comerciais e modo de usar não constituem provas técnicas para fins de reclassificação fiscal de produtos (...) 171. Com efeito, a classificação fiscal depende de regras legais, que levam em conta os aspectos técnicos dos produtos a serem classificados. Portanto, a classificação fiscal de produtos é matéria técnica e jurídica, tendo, a rigor, nenhuma relevância as estratégias comerciais dos contribuintes (nomenclatura, anúncio, disposição no site, apresentação, posicionamento no mercado, etc). (...) 173. Sob nenhuma regra de classificação fiscal há o aspecto comercial do produto como critério norteador de interpretação da NCM, como sugerido pela autoridade administrativa. Considerar os aspectos comerciais do produto objeto de classificação fiscal é um critério atécnico e inadequado para tais fins. 174. De fato, lastrear a classificação fiscal em critérios comerciais seria, no mínimo, temerário e discricionário, pois retiraria qualquer grau de objetividade e segurança que as RGI e a NESH trazem, possibilitando verdadeira manipulação de classificação fiscal com base, por exemplo, na alteração de embalagens. (...) 181. Ora, tivessem os aspectos comerciais a relevância pretendida pela autoridade fiscal, seria impossível imaginar que o chocolate branco não fosse classificado na Posição NCM destinada ao chocolate comum. Aliás, nem mesmo faria sentido existir uma posição específica e alheia destinada ao chocolate branco. (...) Fl. 13473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 19 186. Já em relação aos desodorantes colônia, desodorantes hidratantes e esfoliantes, o fato de poderem ser aplicados em outras regiões do corpo que não nas axilas e nos pés não afasta a classificação fiscal adotada pela Impugnante, como atecnicamente sugerido pela autoridade administrativa. 187. Com efeito, quando se consulta repertório especializado na matéria, constata-se que o corpo humano é capaz de exalar suor por todas as suas glândulas sudoríparas (e não apenas pelas axilas e pelos pés) e, havendo a proliferação de bactérias, também ensejará o mau odor, como, aliás, atestado no Parecer Técnico anexo (doc.14). 188. Portanto, desodorantes são produtos aplicados topicamente em qualquer região do corpo humano e são capazes de reduzir o desenvolvimento do mau odor. Assim, a ilação da autoridade fiscal de que desodorante somente se aplicaria nas axilas e nos pés não tem sustentação teórica, técnica e científica. (...) IV.2.1.4 – Textos em língua estrangeira desacompanhados de tradução juramentada não constituem elementos de prova 195. Para tentar subsidiar o critério jurídico “criado” (percentual de concentração aromática do produto) para reclassificar fiscalmente as águas de perfume e os desodorantes colônia, a autoridade fiscal responsável pela lavratura do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, se baseou em textos no idioma inglês, que foram traduzidos livremente para a língua portuguesa. (...) 199. Por consequência, a ausência de tradução juramentada retira a força probatória do documento redigido em língua estrangeira e, desse modo, não serve de motivação da acusação fiscal. (...) IV.2.2 – A reclassificação fiscal das águas de colônia e dos desodorantes colônia não tem amparo legal (ausência de motivação adequada e específica) 203. No Relatório Fiscal produzido nos autos do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, aduziu a autoridade administrativa que: “A TIPI apresenta apenas duas possibilidades de classificação para os produtos de perfumaria: perfumes (extratos) e águas-de-colônia. Não há menção ou enquadramento específica para as águas de perfume (eau de parfum).” 204. Também reconheceu a autoridade fiscal naqueles autos que: “Todavia, não há especificação expressa acerca dos percentuais mínimos ou máximos de concentração das essências para diferenciar os produtos como perfumes ou águas-de-colônia.” Fl. 13474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 20 (...) 206. Assim, e nos termos do próprio Relatório Fiscal produzido nos autos do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, os seguintes fatos são incontroversos: (I) na TIPI não há enquadramento específico para a água de perfume; (II) a legislação tributária de regência não prevê os percentuais de concentração aromática do produto para fins de classificação fiscal; e (III) no mercado mundial de perfumaria há divergência sobre o percentual de concentração aromática para fins de caracterização e diferenciação dos produtos. 207. É neste cenário de completa incerteza e insegurança, o que é absolutamente incompatível com o princípio da legalidade em matéria tributária e afronta o artigo 142 do CTN, que foi lavrado um auto de infração bilionário! 208. Ante a incontroversa ausência de lei específica e da comprovada divergência no mercado mundial de perfumaria, a autoridade fiscal decidiu exercer, conjuntamente, as funções de Poder Legislativo e de expert em perfumaria, criando “faixas de percentual de concentração aromática” para reclassificar produtos. 209. Em relação às águas de colônia (repita-se, sem prova técnica, conforme exigido pelo Parecer Normativo COSIT nº 06/ 2018), a autoridade fiscal simplesmente assumiu que os produtos com percentual de concentração aromática superior a 15% seriam perfumes (e não águas- de-colônia). 210. E, de forma absolutamente contraditória com o critério adotado para as águas de colônia e também sem prova técnica, a autoridade fiscal estabeleceu para os desodorantes colônia como “limite de corte” o percentual de concentração aromática de 10%, de modo que (I) produtos com concentração aromática inferior a 10% foram reclassificados como água-de-colônia; e (II) produtos com concentração aromática superior a 10% foram reclassificados como perfumes. 211. É surpreendente e inaceitável o que ocorre. As acusações fiscais estão desprovidas de provas técnicas, são contraditórias entre si e estão baseadas em percentuais de concentração aromática que não estão previstos na legislação de regência para fins de classificação fiscal. Claramente, o auto de infração afronta o art. 142 do CTN e é desprovido de motivação adequada e específica. (...) 217. Cabe ainda registrar que, diferentemente de outros processos com discussões similares, a autoridade fiscal não indicou no Relatório Fiscal Fl. 13475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 21 objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-74 (e, muito menos, no pertinente a este processo) o Decreto nº 79.094/1977, as Soluções de Consulta da RFB e a Nota Coana/Cotac/Dinon nº 2006/00344, editadas com base no referido Decreto. (...) 222. Na realidade, não poderia ter sido outra a posição da ANVISA sobre o tema. Além da ausência de comprovação técnica e científica, os percentuais de concentração aromática previstos no inciso II do art. 49 do Decreto nº 79.094/77 (reproduzidos em Soluções de Consulta da RFB e na Nota Coana/Cotac/Dinon nº 2006/00344) também não encontravam amparo legal. Ou seja, não encontravam amparo na Lei nº 6.360/76, na Lei nº 9.782/99 e nas NESH. (...) 225. Sendo assim, os precedentes da 3ª Turma da CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS afastam o critério adotado pela autoridade fiscal para reclassificação fiscal das águas de colônia e dos desodorantes colônia, não servindo de motivação para a lavratura do auto de infração. 226. Note-se, a propósito, que na reclassificação fiscal dos desodorantes colônias, onde foi estabelecido o “limite de corte de 10%”, a rigor, a autoridade fiscal buscou resgatar o que estava disposto no inciso II do artigo 49 do Decreto nº 79.094/77, o que é inadmissível. Como já salientado, o referido Decreto já estava revogado nos períodos autuados e, ainda, o mencionado percentual de concentração aromática não tinha amparo legal e respaldo técnico e científico. (...) IV.3 – DA DESCONFORMIDADE DO LANÇAMENTO COM A ORIENTAÇÃO GERAL DA RFB 229. Em 16/06/2021, os representantes da Impugnante participaram da “Reunião de Conformidade Tributária” promovida pela Receita Federal do Brasil (na qual, a propósito, apenas Auditores Fiscais puderam se pronunciar), e que teve por objeto matérias inerentes à apuração do IPI, dentre as quais, a classificação fiscal dos produtos das fabricantes de cosméticos e perfumaria. 230. Sob a perspectiva da Receita Federal do Brasil, a “Reunião de Conformidade Tributária” teve por objetivo orientar os contribuintes no cumprimento de suas obrigações tributárias, de modo que foram indicadas as supostas “inconformidades tributárias” e foi apresentado o posicionamento formal do referido Órgão sobre as 2 (duas) matérias em questão. Fl. 13476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 22 231. Evidentemente, pois, a “Reunião de Conformidade Tributária” expôs a prática reiterada das autoridades administrativas no tocante à apuração do IPI relativamente à classificação fiscal de produtos. 232. Após a “Reunião de Conformidade Tributária”, a Receita Federal do Brasil intimou a Impugnante, informando que a classificação fiscal de perfumes, águas-de-colônia e hidratantes estaria em desacordo com o seu entendimento, conforme exposto no referido evento, e relacionando os procedimentos que deveriam ser adotados para a “regularização tributária” 233. No referido evento – que integra um programa chamado “CONFIA” –, a Administração Tributária Federal expressou, formal e categoricamente, a classificação fiscal de perfumes, águas-de-colônia e desodorantes colônia, deve ser feita à luz da RGI 3. Mais especificamente, a Receita Federal do Brasil demonstrou inclinação pela RGI 3b. 234. Contudo, em momento algum, suscitou a aplicabilidade da RGI 4. De fato, naquela ocasião, a Receita Federal do Brasil se mostrou convicta da aplicabilidade da RGI 3 para estes produtos. 235. É dizer, nenhum contexto, conjectura ou papel orientativo a Receita Federal do Brasil cogitou que os produtos seriam sui generis e sem enquadramento específico na NCM, de modo que a residual RGI 4 não foi nem mesmo mencionada. (...) 239. De forma absolutamente desconforme com as orientações oficiais (e incorreta), a autoridade fiscal acaba por “motivar” a reclassificação fiscal das águas de colônia e dos desodorantes colônias na excepcional RGI 4, que nem mesmo foi mencionada na “Reunião de Conformidade Tributária”. 240. Nesse sentido, a corroborar a existência de clara afronta ao que havia sido fixado na “Reunião de Conformidade Tributária” promovida pela própria Receita Federal do Brasil, a Impugnante registra que a pessoa jurídica “K & G Indústria e Comércio Ltda.”, importante player no mercado de terceirização da produção de produtos cosméticos e de higiene pessoal, prestando serviços para diversos e importantes empresas do setor, teve lavrado contra si auto de infração questionando justamente a classificação fiscal adotada para desodorantes colônia. 241. Com efeito, nos autos do Processo Administrativo nº 10855.723072/2017-88 (de interesse da “K & G Indústria e Comércio Ltda.”), a autoridade fiscal não concordou com a classificação fiscal dos desodorantes colônia na Posição NCM nº 3307.20.10, alegando que os referidos produtos teriam a função principal de perfume, de modo que, com base na RGI 3b, foram reclassificados fiscalmente na Posição NCM nº 3303.00.20 (água-de-colônia). Fl. 13477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 23 242. Curiosamente, a autoridade fiscal no relatório fiscal do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, que ora embasou esta autuação, que conseguiu identificar processo administrativo da Impugnante sobre o tema em questão, furtou-se de identificar o Processo Administrativo nº 10855.723072/2017-88, que envolve produtos da Impugnante. 243. Possivelmente o fez porque, ao se deparar com o Processo Administrativo nº 10855.723072/2017-88, teria constatado que a 4ª Turma da DRJ/JFA, em 26/02/2019, exarou o v. Acórdão nº 09-69.851, no qual afastou a reclassificação fiscal de desodorantes colônias com base na RGI 3b. 244. Assim, e percebendo a improcedência da reclassificação fiscal de desodorantes colônia para produtos de perfumaria, a autoridade administrativa teria buscado novo (porém inadequado) critério jurídico. 245. Apesar de os desodorantes colônia serem produtos de mesma categoria dos ora autuados, a motivação da autoridade administrativa para a reclassificação fiscal é, agora, totalmente diferente: (I) neste processo administrativo, foi invocada a RGI 4; e (II) nos autos do Processo Administrativo nº 10855.723072/2017-88, foi invocada a RGI 3b. (...) IV.4 – DA IMPROCEDÊNCIA DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL (...) IV.4.1 – Do erro grosseiro quanto à reclassificação de produtos que não foram objeto do auto de infração anterior 248. Como já dito, a motivação adotada para a lavratura do auto de infração ora impugnado é restrita à menção ao Relatório Fiscal no Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, em que foram objeto de reclassificação fiscal vários produtos industrializados pelo estabelecimento matriz da Impugnante. 249. De fato, conforme destacado em tópico específico, a autoridade fiscal não trouxe qualquer razão adicional para promover a reclassificação fiscal dos produtos industrializados pela Impugnante, tendo apenas feito mera referência às razões utilizadas pela Receita Federal do Brasil no contexto da lavratura do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75. 250. Diante dessa situação, e muito embora a Impugnante discorde veementemente das razões utilizadas para promover a reclassificação fiscal no contexto do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, conforme será demonstrado nos tópicos a seguir, é certo que esta foi a motivação utilizada para lavratura deste auto de infração. Fl. 13478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 24 251. E, em sendo adotada a motivação que foi utilizada para lavratura do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, deveria a autoridade administrativa ter, ao menos, verificado à quais produtos aquela motivação seria aplicável. Isso nem mesmo foi feito. (...) 254. E, pior, para além de ter autuado produtos que não foram objeto do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, a autoridade fiscal ora reclassificou, supostamente com base nas razões daquela autuação, categorias inteiras que nunca foram objeto de discussão, notadamente os estojos e os desodorantes axilares. 255. Essa questão evidencia gritante erro da autoridade administrativa: quase 40% do IPI exigido neste auto de infração diz respeito a produtos que foram objeto de fiscalização anterior – no contexto do procedimento que culminou com a lavratura do auto de infração vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 –, e que não foram reclassificados naquela oportunidade. (...) 260. É dizer, trata-se de produtos que foram (presumivelmente) avaliados pelas autoridades fiscais, tendo sido concluído que não houve erro de classificação fiscal! E, adotando a mesma motivação utilizada naquele procedimento, esses produtos foram, desta vez, objeto de reclassificação fiscal. 261. Ora, não faz o menor sentido o expediente adotado pela autoridade fiscal neste caso concreto! Como é possível que, sob uma mesma (idêntica) motivação, um produto seja objeto de reclassificação fiscal em relação a um estabelecimento, e não seja objeto de reclassificação fiscal em relação a outro estabelecimento? Pois, creia-se, é isso que se verifica no caso concreto. (...) 264. Ainda que houvesse, é certo que essa (nova) motivação não poderia ser utilizada, nesse momento, para promover o lançamento fiscal de IPI em decorrência da reclassificação fiscal destes produtos, porquanto configuraria flagrante alteração de critério jurídico, o que esbarraria no impedimento do artigo 146 do Código Tributário Nacional. (...) IV.4.2 – Os produtos industrializados e comercializados pela Impugnante (...) Fl. 13479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 25 272. E, para obtenção do registro perante a ANVISA, a Impugnante apresenta informações dos seus produtos, por exemplo: características e grupo do produto, apresentação, rotulagem, fórmula, função dos componentes da fórmula, eficácia da finalidade a que se destina, modo de usar, análise físico-química, análise microbiológica, dados de estabilidade e estudo de segurança. 273. Sendo assim, e para refutar os registros dos produtos na ANVISA, também se faz necessária a produção de prova técnica e específica, inclusive conforme exigido no Parecer Normativo COSIT nº 06/2018. IV.4.3 – As regras de classificação fiscal de mercadorias (...) 277. Passa-se, agora, a demonstrar a total improcedência das classificações fiscais escolhidas pela autoridade administrativa sob o aspecto da interpretação das regras do sistema harmonizado. IV.4.4 – Improcedência da reclassificação fiscal dos desodorantes axilares (...) 279. Com efeito, a autoridade fiscal promoveu a reclassificação fiscal de desodorantes axilares (alguns, inclusive, antitranspirantes) industrializados pela Impugnante, originalmente enquadrados na posição NCM 3307.20.10, para a posição NCM 3303.00.20 (águas-de-colônia), e os classificados na posição NCM 3307.20.90 para a posição NCM 3304.99.10 (cremes de beleza). 280. Nessa situação, a autuação fiscal é absolutamente inexplicável, uma vez que não foi apresentado qualquer motivo para a reclassificação fiscal dos desodorantes axiliares. Ao que parece, a autoridade fiscal promoveu a reclassificação fiscal de todos os desodorantes, de forma absolutamente indiscriminada. 284. De fato, estes produtos, são produtos com a finalidade exclusiva de desodorizar, que combinam inclusive a ação antiperspirante, visando a reduzir a produção de suor, onde as bactérias causadoras do mau odor se desenvolvem. 285. Não há, pois, como cogitar que esses produtos teriam uma suposta função preponderante de perfumar ou qualquer outra, para reclassificá-los como águas-de-colônia ou de cremes para a pele. Aliás, é inexplicável que se cogite que produtos vendidos na forma de aerossol ou roll-on sejam águas-de-colônia. 286. A propósito, a fim de encerrar qualquer discussão sobre a indevida reclassificação dos desodorantes axilares, são colacionadas abaixo imagens exemplificativas dos produtos que a autoridade administrativa julgou se tratar de águas-de-colônia, extraídas da internet: Fl. 13480DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 26 287. A Impugnante apresenta, também, as artes relativas a diversos outros produtos desta categoria (doc. 09), que corroboram a improcedência da reclassificação fiscal perpetrada pela autoridade fiscal. 288. Note-se que, no caso desses produtos, não é possível sequer invocar aspectos comerciais dos produtos para fins de classificação fiscal, porquanto os produtos são vendidos apenas como desodorantes. 289. Inclusive, a própria Receita Federal do Brasil considera correto enquadrar desodorante corporal (axilar) e creme desodorante axilar, com ou sem efeito antitranspirante, nas posições NCM 3307.20.10 e 3307.20.90: 290. Além disso, para aqueles produtos que possuem função antitranspirante, a reclassificação fiscal se mostra ainda mais descabida, porquanto a posição 3307.20 é específica para “Desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes”. 291. Diante do exposto, e considerando-se não haver qualquer dúvida sobre a classificação fiscal dos desodorantes axilares (doc. 08), deve ser acolhida a presente impugnação, para cancelar o auto de infração. IV.4.5 – Improcedência da reclassificação fiscal das águas de colônia Fl. 13481DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 27 292. Como já demonstrado, a autoridade fiscal não provou, tecnicamente, que águas de colônia industrializadas pela Impugnante seriam produtos mais próximos do perfume. Portanto, a autoridade administrativa não observou o disposto no art. 142 do CTN e no Parecer Normativo COSIT nº 06/2018. 293. Além disso, no Relatório Fiscal vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75, adotado como (suposta) motivação deste auto de infração, a própria autoridade fiscal reconheceu que: (I) na TIPI não há enquadramento específico para águas de perfume; (II) a legislação tributária de regência não estabelece os percentuais de concentração aromática para fins de classificação fiscal como perfume ou como água de colônia; e (III) no mercado mundial de perfumaria há divergência sobre o percentual de concentração aromática para fins de caracterização do produto como perfume ou água-de-colônia. 294. Assim, a alegação da autoridade fiscal de que as águas de colônia com concentração aromática superior a 15% deveriam ser classificadas como perfume é absolutamente desprovida de prova técnica, não tem embasamento legal, não é admitida de forma unânime no mercado internacional de perfumes e afronta a firme jurisprudência da 3ª Turma da CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS sobre a matéria (v.g. Acórdãos nºs 9303- 01.516 e 9303-010.682, indicados no Relatório Fiscal). (...) IV.4.5.1 – Inaplicabilidade da Regra 4 da RGI/SH: as águas de colônia industrializadas pela Impugnante devem ser classificadas fiscalmente na posição NCM nº 3303.00.20 298. A Posição NCM nº 3303.00 compreende 2 (dois) produtos: perfumes e águas-de-colônia. Por sua vez, as NESH estabelecem que: “33.03 – Perfumes e águas-de-colônia. A presente posição compreende os perfumes que se apresentem nas formas de líquido, de creme ou de sólido (compreendendo os bastões (sticks)), e as águas-de-colônia, cuja função principal seja a de perfumar o corpo. Os perfumes propriamente ditos, também chamados extratos, consistem geralmente em óleos essenciais, essências concretas de flores, essências absolutas ou em misturas de substâncias odoríferas artificiais, dissolvidas em álcool de título elevado. Usualmente, estas composições contêm ainda adjuvantes (aromas suaves) e um fixador ou estabilizador. As águas-de-colônia (por exemplo, água-de- colônia propriamente dita, água de lavanda), que não devem confundir-se com águas destiladas aromáticas e soluções aquosas de óleos essenciais da posição 33.01, diferem dos perfumes propriamente ditos pela sua mais fraca concentração em óleos essenciais, etc., e pelo título geralmente menos elevado de álcool empregado. Fl. 13482DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 28 Esta posição não compreende: a) Os vinagres de toucador (posição 33.04). b) As loções para após a barba e os desodorantes (desodorizantes) corporais (posição 33.07).” (destaques da Impugnante) 299. Como se vê, a TIPI estabelece de forma expressa e objetiva que a água de colônia deve ser classificada fiscalmente na Posição NCM nº 3303.00.20, de modo que a autoridade administrativa não pode alterar tal determinação com base em uma singela interpretação subjetiva. 300. Além disso, e de acordo com as NESH: (I) os perfumes possuem óleos/essências dissolvidas em elevado teor de álcool e um fixador (ou estabilizador); e (II) as águas-de-colônia possuem a função principal de perfumar o corpo e concentração aromática mais suave do que o perfume. 301. Nesse aspecto, a autoridade administrativa também não provou, tecnicamente, que as águas de colônia teriam em sua formulação um fixador (ou estabilizador), de modo a aproximá-las dos perfumes. 302. Além disso, a reclassificação fiscal das águas de colônia promovida pela autoridade administrativa desafia a advertência realizada pela ANVISA já no ano 2000 (Fax nº 490/00, doc. 17), no sentido de que: “classificá-los como extrato ou perfume estaríamos enganando o consumidor.”. 303. Realmente, no caso concreto, o consumidor sabe que não comprou um perfume, pois, técnica e comercialmente, o produto não é um perfume e também não é ofertado no mercado como tal. Neste caso, portanto, os dados comerciais das águas de colônia depõem contra a sua classificação fiscal como perfume. (...) 305. Como já amplamente abordado, não há critério objetivo na legislação tributária de regência estabelecendo o percentual de concentração aromática para fins de diferenciação do perfume e da água de colônia. Além disso, e como já igualmente demonstrado, a ANVISA reconhece que existem produtos com mais de 30% de concentração aromática e que não são perfumes (doc. 17). (...) 308. Assim, e com base nas melhores práticas do mercado e na literatura técnica especializada (doc. 03), a Impugnante considera que: (I) perfumes ou extratos: são produtos no mercado com maior percentual de concentração aromática (acima de 25,1%); e (II) águas de colônia: são produtos no mercado com concentração aromática mais suave (até 25%). 309. Nesse cenário, e considerando-se que a água de colônia industrializada pela Impugnante: (I) é um produto de perfumaria; (II) possui concentração Fl. 13483DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 29 aromática mais suave do que o perfume, não atingindo 25,1% de óleo/essência; e (III) técnica e comercialmente, não é perfume, então, deve ser classificada fiscalmente na Posição NCM nº 3303.00.20, nos termos da RGI 3. 310. Assim, é óbvia e nitidamente inaplicável, no caso concreto, a RGI 4, como equivocadamente invocada pela autoridade administrativa. A invocação da RGI 4 é medida excepcional e que se justificaria unicamente na hipótese de não ser possível a classificação fiscal do produto (geralmente, inédito no mercado) com base nas RGIs 1, 2 e 3, o que não ocorre no caso concreto. (...) IV.4.5.2 – No máximo, haveria dúvida razoável, de modo que deve prevalecer a da interpretação mais favorável à Impugnante 314. Como é incontroverso nos autos, não há consenso no mercado mundial sobre o percentual de concentração aromática para fins de diferenciação dos produtos da linha de perfumaria. Por decorrência, não há certeza e segurança quanto ao critério utilizado pela autoridade fiscal para reclassificação fiscal das águas de colônia, o que é incompatível com o disposto no art. 142 do CTN. (...) 317. Nesse cenário de incerteza, insegurança, contradição e divergência, não é crível alegar que a Impugnante teria descumprido a legislação de regência e classificado fiscalmente as águas de colônia de forma equivocada. No limite, o que se constata no caso concreto é a existência de dúvida razoável, de modo que deve prevalecer a interpretação mais favorável à Impugnante, nos termos do artigo 112 do CTN, que assim dispõe: (...) IV.4.6 – Improcedência da reclassificação fiscal dos desodorantes colônia 321. Como demonstrado, a autoridade fiscal não provou, tecnicamente, que (I) desodorantes colônia industrializados pela Impugnante teriam característica essencial perfumar a pele e, pois, não seriam produtos multifuncionais; e (II) o triclosan, o caprilato de poliglicerila e o caprilil glicol seriam apenas aditivos com função meramente conservante do produto. Portanto, a autoridade fiscal não observou o art. 142 do CTN e no Parecer Normativo COSIT nº 06/2018. (...) 323. Assim, a alegação da autoridade fiscal de que (I) os produtos com concentração aromática inferior a 10% deveriam ser classificados fiscalmente como água de colônia e (II) os produtos com concentração Fl. 13484DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 30 aromática superior a 10% deveriam ser classificados fiscalmente como perfume, é desprovida de prova técnica, não tem embasamento legal, não é admitida de forma unânime no mercado internacional de perfumes e afronta a jurisprudência da 3ª Turma da CSRF sobre o tema. (...) IV.4.6.1 – As NESH determinam, de forma objetiva e específica, a classificação fiscal dos desodorantes corporais na Posição NCM nº 3307 326. Com efeito, no caso concreto, a própria autoridade administrativa reconheceu no Relatório Fiscal (fls. 7.591 e 7.599) que os produtos industrializados pela Impugnante são “desodorantes colônias, conhecidos também como deo colônias”, “a diferença entre desodorante colônia e os demais se dá em razão da existência de um agente bacteriostático em sua formulação” e “O modo de usar mais comum sugere a aplicação nos locais com maior fluxo sanguíneo”. 327. Portanto, é fato absolutamente incontroverso nos autos que os desodorantes colônia industrializados pela Impugnante são desodorantes corporais. (...) 329. Nesse sentido, as NESH da Posição NCM nº 33.03 não autorizam a classificação fiscal dos desodorantes corporais como perfume ou água de colônia. Confira-se: (...) 331. Como se vê, de forma clara, objetiva e textual, as NESH determinam a classificação fiscal dos desodorantes corporais (como é o caso do desodorante colônia) na Posição NCM nº 33.07, não impondo qualquer ressalva ou restrição. Assim, é inadmissível a classificação fiscal de desodorantes corporais como perfume ou água de colônia. 332. A esse respeito, note-se que, por uma opção normativa, determinou- se que produtos com comprovada eficácia desodorante não podem ser classificados fiscalmente como perfume ou água de colônia da Posição 3303, ainda que também possuam função de perfumar. 333. A rigor, para estes produtos, torna-se irrelevante a investigação quanto à preponderância de funções, porquanto a própria NESH direciona a classificação fiscal diante da comprovada eficácia desodorante. (...) IV.4.6.2 – Os desodorantes colônia são produtos multifuncionais, cuja classificação fiscal deve observar a Regra 3c 339. No Relatório Fiscal, a autoridade administrativa reconheceu que os desodorantes colônias possuem agente bactericida na sua formulação, Fl. 13485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 31 dispensando maiores comentários. No entanto, sem prova técnica, aduziu a autoridade administrativa que o agente bactericida seria apenas um aditivo com função meramente conservante dos produtos cosméticos, de higiene pessoal e de toucador. (...) 341. Com efeito, os ativos (triclosan, caprilato de poliglicerila ou caprilil glicol) presentes na formulação dos desodorantes colônia possuem comprovada ação antibacteriana e efeito desodorante, reconhecidos por bancos de dados internacionais, pela literatura especializada e comprovados tecnicamente, caracterizando os produtos como multifuncionais. (...) 345. Por isso, tecnicamente, o triclosan, o caprilato de poliglicerila e o caprilil glicol constituem princípio ativo da fórmula dos desodorantes colônia, entregando a ação antibacteriana e o efeito desodorante no corpo humano, e caracterizando os referidos produtos como multifuncionais. (...) 355. Nesse cenário, os produtos são caracterizados justamente por possuírem múltiplos benefícios, e não uma função preponderante, principal ou essencial. É a característica do produto ser multifuncional. 356. Inclusive, e considerando que a característica do produto ser multifuncional, é plenamente possível que determinada pessoa considere uma das funções como a “principal” e, outra pessoa, considere a outra função como “principal”. (...) 358. Por evidente, as finalidades dos desodorantes colônia não podem ser sobrepostas umas às outras, uma vez que perder-se-ia a característica multifuncional do produto, que é tão valorizada pelo moderno mercado consumidor. Sendo assim, e diferentemente do presumido pela autoridade administrativa, os desodorantes colônia não possuem função principal (ou essencial). (...) 368. Tendo em vista que, tecnicamente, os desodorantes colônia são produtos multifuncionais, não havendo preponderância das funções de desodorizar e perfumar, a Regra 3b das NESH não se aplica para fins de classificação fiscal dos referidos produtos. Resta, então, a aplicação da Regra 3c das NESH, que determina a classificação fiscal na Posição NCM nº 3307.20.10. (...) Fl. 13486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 32 372. Assim, é absolutamente inaplicável, no caso concreto, a RGI 4, como equivocadamente invocada pela autoridade fiscal. Como já salientado, a invocação da Regra 4 das NESH é medida excepcional e que se justifica na hipótese de não ser possível a classificação fiscal do produto (geralmente, inédito no mercado) com base nas Regras 1, 2 e 3 das NESH, o que não ocorre no caso concreto. (...) IV.4.6.3 – Do Acórdão nº 201-66.571, proferido em caso da própria Impugnante, a respeito dos desodorantes colônia 375. A fortalecer todos os argumentos aduzidos até aqui a respeito da correta classificação fiscal dos desodorantes colônia, vale mencionar que essa discussão já foi apreciada anteriormente, no contexto de auto de infração lavrado em face da própria Impugnante, em que o antigo CONSELHO DE CONTRIBUINTES decidiu pela improcedência da reclassificação promovida pela fiscalização. 376. Com efeito, no ano de 1985, a Impugnante foi autuada pela Receita Federal do Brasil, que formalizou a exigência de IPI justamente em decorrência da reclassificação fiscal de desodorante colônia e lenços desodorantes industrializados à época, no qual existia o agente antimicrobiano em sua formulação. 377. Naquele caso, o sustentáculo da autuação fiscal residia justamente no fundamento de que a presença do agente antimicrobiano não atribuiria ao produto a característica desodorante, de forma que as deo-colônias foram reclassificadas para a posição destinada às águas-de-colônia, e os lenços desodorantes, reclassificados para a posição destinada à artigos de toucador. 378. No entanto, a exemplo do que é feito neste caso, a Impugnante demonstrou tecnicamente a presença do agente antimicrobiano na formulação dos produtos, o que lhes atribui características desodorantes, o que foi reconhecido por ocasião do julgamento de seu recurso voluntário, e cancelada a exigência fiscal. (...) 383. E a relevância desse precedente reside no fato de que foram avaliados desodorantes colônia da própria Impugnante. De fato, naquele caso, a autuada foi justamente a Impugnante. (...) IV.4.7 – Improcedência da reclassificação fiscal dos desodorantes hidratantes 385. Antes de mais nada, em relação a estes produtos, a autoridade fiscal acabou se valendo da RGI 3 para perpetrar a reclassificação fiscal Fl. 13487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 33 combatida. Curiosamente, e igualmente sem qualquer prova técnica, a autoridade fiscal entendeu ter identificado perfeitamente estes produtos e encontrado enquadramentos específicos, tornando-se desnecessária a aplicação da RGI 4 que, para os desodorantes colônia, igualmente multifuncionais, lhe pareceu claramente aplicável. (...) 387. Além disso, e conforme também já demonstrado, as informações divulgadas na Internet e no site da empresa comercial, os dados comerciais e o modo de usar dos produtos não constituem provas técnicas, inclusive conforme o disposto no Parecer Normativo COSIT nº 06, de 20/12/2018, e, portanto, não amparam a reclassificação fiscal promovida no auto de infração. 388. Portanto, somente por estes argumentos, deve ser cancelada a reclassificação fiscal promovida pela autoridade administrativa. 389. Ademais, cabe reiterar que, diferentemente do alegado pela autoridade administrativa, é inaplicável a Regra 3.b na classificação fiscal de produtos multifuncionais. IV.4.7.1 – Os desodorantes hidratantes são produtos multifuncionais, cuja classificação fiscal deve observar a Regra 3c 390. Inicialmente, é importante registrar que a alegação da autoridade administrativa no Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 de que “a Botica apresenta os produtos para o consumidor com uma função principal” (fl. 7.582), com o devido e respeito, não é verdade. (...) 392. Além disso, parece que a autoridade administrativa não compreendeu muito bem a diferença entre desodorante corporal e antiperspirante que, como indicado na própria Posição NCM nº 3307.20, são 2 (dois) produtos diferentes, embora classificados fiscalmente na mesma posição. Tanto é assim que o texto da posição faz expressa menção aos dois tipos de produtos: “Desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes”. (...) 394. Sendo isso, e nos termos da literatura mencionada no próprio Relatório Fiscal adotado como motivação deste auto de infração e da Posição NCM nº 3307.20, de fato, os referidos produtos são diferentes e, justamente por serem diferentes, formam o kit indicado pela autoridade fiscal e, nos termos da Posição NCM nº 3307.20, nada impede que os referidos produtos tenham a mesma classificação fiscal (um como desodorante corporal e o outro como antiperspirante). Sinceramente, a Impugnante não entende o que motivou a autoridade administrativa a fazer tal ilação. Fl. 13488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 34 395. De toda forma, o que efetivamente importa é que a própria autoridade fiscal reconhece que os desodorantes hidratantes possuem “uma função desodorante”, tendo em vista a presença dos princípios ativos triclosan, caprilato de poliglicerila ou caprilil glicol na formulação dos produtos. (...) 397. Sendo assim, são produtos misturados e não possuem característica essencial, pois, além de hidratar a pele, também possuem agentes bactericidas utilizados para a anulação dos odores naturais do corpo. Por isso, são tecnicamente considerados produtos multifuncionais. (...) 400. Tendo em vista que, tecnicamente, os desodorantes hidratantes são produtos multifuncionais, não havendo preponderância das funções de desodorizar e perfumar, a RGI 3b não se aplica para fins de classificação fiscal dos referidos produtos. Resta, então, a aplicação da Regra 3c das NESH, que determina a classificação fiscal nas Posições NCM nºs 3307.20.10 e 3307.20.90. (...) 403. Nesse mesmo sentido, a Receita Federal do brasil já teve a oportunidade de avaliar uma locação desodorante hidratante – inclusive com triclosan em sua composição – e concluiu, com base na Regra 3c, que o produto seria classificado fiscalmente na posição NCM 3307.20.10. Confira- se: (...) IV.4.8 – Improcedência da reclassificação fiscal dos esfoliantes 412. Como já demonstrado, a autoridade administrativa não provou, tecnicamente, que (I) os esfoliantes industrializados pela Impugnante teriam por característica essencial a conservação ou cuidados da pele e, portanto, não seriam produtos multifuncionais; e (II) o triclosan, o caprilato de poliglicerila e o caprilil glicol seriam apenas aditivos com função meramente conservante do produto. Portanto, a autoridade administrativa não observou o disposto no artigo 142 do CTN e no PN COSIT nº 06/2018, não provando a acusação fiscal. 413. Além disso, o esfoliante possui ingrediente bactericida na sua composição, de modo que é um produto misturado e multifuncional (sem preponderância de funções). Sendo assim, e como já amplamente demonstrado, a Regra 3b das NESH não se aplica para fins de classificação fiscal dos referidos produtos. Resta, então, a aplicação da Regra 3c das NESH, que determina a classificação fiscal nas Posições NCM nºs 3307.20.10 e 3307.20.90. (...) Fl. 13489DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 35 415. Com efeito, se os esfoliantes realmente tivessem uma característica essencial, esta não seria de conservar ou cuidar da pele, mas sim a de possuir agentes tensoativos para a lavagem da pele, enquadrando-se perfeitamente na Posição NCM nº 3401.30.00. (...) 417. Portanto, e tendo em vista que a característica essencial dos esfoliantes é, efetivamente, a limpeza da pele, então, nos termos da Regra 3 “a” e “b”, os produtos deveriam ser classificados fiscalmente na Posição NCM nº 3401.30.00. IV.6 – QUESTÕES SUCESSIVAS IV.6.1 – Ofensa ao art. 146 do CTN: produtos que não foram objeto de reclassificação fiscal no auto de infração lavrado em face da matriz (...) 430. Nesse sentido, no mínimo, a reclassificação fiscal de produtos que não foram objeto de autuação no lançamento fiscal vinculado ao Processo Administrativo nº 10340.721884/2021-75 e aqueles que não observaram os critérios deste lançamento representam indevida mudança do critério jurídico, a atrair a aplicação do art. 146 do Código Tributário Nacional, in verbis: (...) 433. De fato, o artigo 146 do CTN impõe ao Fisco regra limitadora de ação, na medida em que veda a lavratura de auto de infração em relação a fatos consolidados no passado e sob à égide de um determinado entendimento encampado pela autoridade administrativa, tendo por fundamento nova e superveniente interpretação, como ocorreu exatamente no caso concreto. (...) 442. Assim, e diante da abrupta e inovadora mudança de entendimento da autoridade administrativa, a autuação relacionada a produtos cuja posição NCM fora confirmada no procedimento de fiscalização que culminou com a lavratura do auto de infração objeto do Processo Administrativo nº 10340.721884/2021- 75, bem como aqueles que ora foram reclassificados em dissonância com as razões daquela autuação, ofende ao artigo 146 do Código Tributário Nacional, de forma que o crédito tributário correspondente deve ser cancelado. IV.6.2 – Improcedência da exigência da multa prevista no caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64 443. No auto de infração, a autoridade administrativa também aplicou a multa de 75%, prevista no caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64. Fl. 13490DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 36 444. Contudo, em qualquer hipótese, a exigência da multa de 75%, prevista no caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64, deve ser prontamente cancelada, pois não caracterizada a sua hipótese de incidência no caso concreto. 445. Com efeito, dispõe o caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64 que: “A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido.” 446. Ocorre, porém, que, especificamente no caso concreto, a Impugnante não foi acusada de ter deixado de destacar em nota fiscal o IPI incidente nas operações tributáveis. Da mesma forma, a Impugnante também não foi acusada de ter deixado de recolher o IPI destacado em nota fiscal. (...) 448. Não bastasse, a multa de 75%, prevista no caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64, não está atrelada à exigência de IPI (obrigação tributária principal), tendo em vista a cobertura por créditos da não cumulatividade. Nesse aspecto, a referida penalidade está desacompanhada de tributo devido. 449. Ora, se mesmo com a (improcedente) acusação de classificação fiscal incorreta de produtos industrializados não há imposto exigido, tendo em vista os saldos credores de IPI, com mais razão, não se verifica a menor possibilidade de a Impugnante ser apenada. (...) 451. Ademais, a desproporcionalidade da multa de 75%, prevista no caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64, é evidente. Em primeiro lugar, porque apena fato que, a rigor, não gerou qualquer prejuízo ao Erário (tendo em vista a existência de saldo credor do imposto). 452. Em segundo lugar, porque parte de uma infração meramente formal (ausência de escrituração) para exigir valores equivalentes ao próprio montante de imposto supostamente devido, em nítida feição confiscatória, ao arrepio do inciso IV do artigo 150 da Constituição Federal de 1988. (...) 457. Ademais, por se tratar de multa aplicada sobre valor “coberto por crédito”, a imposição de penalidade poderá resultar em bis in idem, tendo que vista que esses créditos deverão – a prevalecer a autuação fiscal – ser glosados da escrita fiscal da Impugnante, gerando, por consequência, novos débitos de IPI a pagar, acrescidos de juros e, novamente, de multa. 458. Assim, indevida a aplicação da multa sobre o valor apurado de IPI coberto por créditos do imposto, inclusive a teor do artigo 112 do CTN, que Fl. 13491DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 37 estabelece uma diretriz interpretativa favorável aos contribuintes, de forma a consagrar, ainda, os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, evitando-se o nefasto caráter confiscatório da multa. 459. Portanto, e considerando-se que a multa de 75%, prevista no caput do artigo 80 da Lei nº 4.502/64, não está atrelada a qualquer valor a título de imposto devido pela Impugnante, a exigência da referida penalidade deve ser prontamente cancelada. É o que cabe relatar. Por meio do acórdão acima mencionado, a DRJ julgou improcedente a impugnação e manteve o crédito tributário, conforme a ementa a seguir reproduzida: Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 PERFUME. ÁGUA DE COLÔNIA. DISTINÇÃO. No que se refere à essência de perfume, a Secretaria da Receita Federal do Brasil adota como limite de distinção a quantidade de 10%. Produtos que contenham percentual inferior a 10% de essência, são enquadrados como água de colônia (3303.00.20); acima desse percentual, os produtos se classificam como perfumes (3303.00.10) PERFUME COM SUBSTÂNCIA DESODORANTE. FUNÇÃO PRINCIPAL DE PERFUMAR O CORPO. TIPI 3303.00.10. Os perfumes com desodorante classificam-se no código 3303.00.10 da TIPI, por terem como característica essencial perfumar o corpo. ÁGUA DE COLÔNIA COM SUBSTÂNCIA DESODORANTE. FUNÇÃO PRINCIPAL DE PERFUMAR O CORPO. TIPI 3303.00.20. As Águas de Colônia com desodorante, classificam-se no código 3303.00.20 da TIPI, por terem como característica essencial perfumar o corpo. HIDRATANTE E ÓLEOS CORPORAIS, COM SUBSTÂNCIA DESODORANTE. FUNÇÃO PRINCIPAL DE TRATAMENTO DO CORPO. Os produtos denominados loção hidratante e óleos corporais classificam-se nos códigos 3304.99.10 e 3304.99.90 da TIPI, por terem como característica essencial a conservação e o cuidado da pele do corpo, ainda que possuam propriedade de desodorante. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 MULTA DE OFÍCIO. FALTA DE DESTAQUE E DE RECOLHIMENTO. APLICABILIDADE. Fl. 13492DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 38 Nos termos da legislação de regência, aplica-se a multa de ofício pela falta de destaque e de recolhimento do imposto, ainda que parte dos débitos seja coberta pela existência de créditos legítimos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A recorrente interpôs recurso voluntário em face do sobredito acórdão (fls. 13054- 13195), por meio do qual, em apertada síntese, repisa os argumentos apresentados na impugnação. Esta Turma de julgamento, por meio da Resolução n. 3202-000.393, prolatada na sessão de 17 de setembro de 2024, às fls. 13370-13407, converteu o julgamento em diligência, à Unidade de Origem, para que a autoridade fiscal apresentasse as seguintes providências: 1. Indicar a fundamentação para a reclassificação de produtos não reclassificados na autuação anterior e para a reclassificação fiscal de produtos distinta da autuação anterior, mencionados pela recorrente na peça recursal (itens 319-334, às fls. 13136-13139, itens 412-423, às fls. 13166-13169) e discriminados nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10713-10717 (Doc. 5) e às fls. 10879-10880 (Doc. 08), e ainda no documento juntado às fls. 10885-10952 (Doc. 09); 2. Elaborar demonstrativos mensais, nos moldes dos da autuação (juntados às fls. 33-1608), com a discriminação mensal dos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior; 3. Apresentar Relatório Conclusivo a respeito da controvérsia em questão. A Fiscalização se manifestou por meio do Termo de Informação Fiscal, acostado às fls. 13413-13414, e a recorrente apresentou manifestação juntada às fls. 13420-13441. Após, os autos retornaram a este Conselho, para julgamento do recurso voluntário. É o relatório. VOTO Conselheiro Wagner Mota Momesso de Oliveira, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razões pelas quais o conheço, em parte, consoante a seguir fundamentado. Conforme visto, se trata de auto de infração de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), juntado às fls. 4-24, demonstrativos acostados às fls. 33-1642, lavrado em Fl. 13493DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 39 1º/12/2022, em face do estabelecimento filial cadastrado no CNPJ sob o número 77.388.007/0004-08, consistente no montante de R$ 1.115.992.365,96 (um bilhão, cento e quinze milhões, novecentos e noventa e dois mil, trezentos e sessenta e cinco reais e noventa e seis centavos). A autuação fora lavrada em razão da reclassificação fiscal de vários produtos, efetuada pela autoridade fiscal, com base na fundamentação constante do auto de infração de IPI, lavrado em 30/12/2021, em face do estabelecimento matriz (CNPJ 77.388.007/0001-57), atinente ao processo n. 10340.721.884/2021-75, cujo Relatório Fiscal e Anexos foram juntados às fls. 7557-10146. Quanto à alegada nulidade da decisão de primeira instância, notadamente porque, segundo a recorrente, não analisou documentos juntados aos autos referentes aos produtos objeto de reclassificação fiscal pela autoridade fiscal, cumpre assinalar que não merece acolhida, uma vez que a decisão está devidamente motivada, no sentido de manter a reclassificação fiscal dos produtos em questão, com base na fundamentação apresentada pela Fiscalização, não havendo nenhum vício capaz de impor a decretação de sua nulidade. Com efeito, a legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa, conforme art. 59 do Decreto 70.235/1972. No presente caso, não restam configuradas tais hipóteses. No que diz respeito à documentação apresentada pela recorrente acerca dos produtos objeto de reclassificação fiscal, importante destacar que, caso a autoridade fiscal tenha todas as informações e características de determinado produto para analisar a sua classificação fiscal, é desnecessária a análise de outros documentos ou laudos, bastando a fundamentação apresentada pela autoridade fiscal, com base nos documentos por ela indicados. Os laudos se prestam apenas para apresentar as características do produto, não tendo nenhuma força vinculante, cabendo à autoridade fiscal efetuar a classificação fiscal do produto, de acordo com as normas aplicáveis ao caso. Logo, afasto a preliminar de nulidade do acórdão recorrido. Quanto à conversão do julgamento em diligência, para produção de prova pericial técnica, aludido pela recorrente na peça recursal, tenho que é desnecessária, uma vez que a Fiscalização, no curso da ação fiscal anterior, referente ao aludido processo n. 10340.721884/2021-75, efetivou a reclassificação fiscal com base em documentos idôneos, notadamente com base nos dossiês eletrônicos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que consiste em, segundo a Fiscalização, “um documento obtido a partir do processo de cadastramento do produto naquele órgão, que fornece diversas informações úteis para a classificação fiscal, tais como forma física, componentes da fórmula do produto, finalidade e modo de usar”, além de informações prestadas pela própria recorrente à autoridade fiscal e no seu próprio site na internet. Fl. 13494DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 40 Logo, rejeito à conversão do julgamento em diligência, para a produção de prova pericial técnica. Em 23 de agosto de 2024, por meio do acórdão n. 3202-001.959, sob a relatoria do eminente conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, esta Turma julgou o recurso voluntário interposto pelo estabelecimento matriz da recorrente nos autos do sobredito processo n. 10340.721.884/2021-75. Acordaram os membros deste colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, em parte, do recurso voluntário, para, na parte conhecida, afastar as preliminares arguidas e, no mérito, negar-lhe provimento. Parte da matéria julgada por esta Turma em razão do recurso voluntário interposto nos autos do processo n. 10340.721.884/2021-75 é a mesma matéria sob julgamento. A parte distinta se refere, notadamente, à reclassificação fiscal de produto que não fora objeto de reclassificação fiscal na autuação referente ao processo n. 10340.721.884/2021- 75, a qual será analisada posteriormente. Sendo assim, considerando que parte das razões recursais apresentadas no recurso voluntário sob julgamento são as mesmas apresentadas no recurso voluntário do mencionado processo, adoto, como razões de decidir, parte da fundamentação constante no mencionado acórdão proferido por esta Turma em 23 de agosto de 2024, a seguir transcrita: PRELIMINARES 1. DA ALEGAÇÃO DE INSUBSISTÊNCIA DO AUTO DE INFRAÇÃO POR OFENSA AO ARTIGO 142 DO CTN 1.1 DA ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE PROVA TÉCNICA PARA PROMOVER A RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DOS PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS PELA RECORRENTE A recorrente alega que autoridade administrativa não aprofundou a investigação dos fatos, não provou tecnicamente as acusações fiscais e não motivou de forma adequada e suficiente o lançamento tributário, o que afronta ao art. 142 do CTN. Sustenta que a reclassificação fiscal está escorada em presunções, como: (I) “a água de perfume está mais próxima do perfume do que da água-de-colônia” (fl. 46); (II) “todos os desodorantes colônias são, em verdade, produtos de perfumaria” (fl. 74); e (III) os desodorantes hidratantes e esfoliantes teriam a função principal (ou essencial) de “conservação ou cuidados da pele” (fl. 62), bem como a autuação fiscal não se municiou de peça técnica pericial. Entende que não se fez prova técnica de que (i) os produtos teriam uma função principal ou essencial, em desobediência ao Parecer Normativo COSIT nº 06, de 2018, e (2) o ingrediente bactericida seria apenas um aditivo com eficácia meramente conservante. Não assiste razão à recorrente. Como ela mesma reconhece, “a classificação fiscal é atividade jurídica consistente no enquadramento de produto na Posição NCM, a partir da aplicação das Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado Fl. 13495DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 41 (“RGI/SH”), cuja competência é atribuída aos agentes fiscais vinculados à Receita Federal do Brasil”. Se a autoridade fiscal não encontra qualquer dúvida da finalidade e das características essenciais dos produtos da recorrente, capaz de ensejar a necessidade de elaboração de laudo técnico, para dirimir eventual dúvida em relação à sua classificação fiscal (matéria jurídica), o lançamento terá como base os demais elementos constantes no autos, aptos a utilização das Regras de Interpretação do Sistema Harmonizado, como ocorreu no caso, de modo a proporcionar convicção sobre a classificação correta. Nesse sentido: “CLASSIFICAÇÃO FISCAL. PERÍCIA. ATIVIDADES DISTINTAS. A classificação de mercadorias é atividade jurídica, a partir de informações técnicas. O perito, técnico em determinada área (mecânica, elétrica etc.) informa, se necessário, quais são as características e a composição da mercadoria, especificando-a, e o especialista em classificação (conhecedor das regras do SH e outras normas complementares), então, classifica a mercadoria, seguindo tais disposições normativas.” (Processo nº 10480.721363/2016-56, Acórdão nº 3301-009.025, sessão de 21.10.2020, Conselheiro Marco Antonio Marinho Nunes) Com efeito, a competência para efetuar a classificação fiscal é do Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, não se tratando de aspecto a ser dirimido mediante laudo técnico pericial. A recorrente busca a nulidade por não concordar com a classificação fiscal determinada pela autoridade tributária. Tal questão resolve-se na análise de mérito, do que resta rejeitar tal tema em preliminar. Em relação ao uso de informações divulgadas na internet e no sítio eletrônico da empresa comercial, dados comerciais e “modo de usar” não poderem constituir elementos de prova técnica para fins de reclassificação fiscal dos produtos, não encontra socorro tal pretensão. “DOCUMENTOS. TRADUÇÃO PARA VERNÁCULO E REGISTRO EM CARTÓRIO. DESNECESSIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não são obrigatoriamente sujeitos a tradução juramentada e registro em cartório os documentos de uso cotidiano pelo próprio contribuinte na instrução do despacho aduaneiro, declarações prestadas por sócio- administrador em língua estrangeira ou mesmo publicações disponíveis em sítios virtuais da rede mundial de computadores, utilizados como elementos do processo, quando relacionados à atividade da empresa, não representando cerceamento de defesa quando não demonstrado concretamente de que forma o desconhecimento da língua estrangeira tenha prejudicado o contraditório.” Fl. 13496DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 42 (Processo nº 12457.727521/2015-13, Acórdão nº 3401-004.419, sessão de 20 de março de 2018, Conselheiro Robson José Bayerl) Os textos em língua inglesa juntados aos autos, extraídos da rede mundial de computadores são ricamente ilustrados e auto-explicativos, não necessitando de profundos conhecimentos daquela língua para entender o seu significado, demais disso, sua colação teve como mote principal a demonstração de que a recorrente buscou classificar seus produtos em uma posição com alíquota de imposto mais favorável, em desrespeito a como efetivamente são identificados. Afasto a nulidade proposta. 1.2 DA ALEGAÇÃO DE CARÊNCIA DE MOTIVAÇÃO ADEQUADA E ESPECÍFICA PARA A RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DAS ÁGUAS-DE-COLÔNIA E DOS DESODORANTES COLÔNIA A recorrente defende que não descumpriu a legislação tributária atinente à classificação de fiscal de mercadorias e roga pela nulidade, por afronta ao art. 142 do CTN e por ausência de motivação adequada e específica. Sustenta que pela possibilidade de se aplicarem os produtos “desodorantes colônia”, “desodorantes hidratantes” e “esfoliantes” em outras regiões do corpo, que não somente nas axilas e nos pés, não afasta a sua classificação fiscal adotada. Tais aspectos referem-se aos critérios estabelecidos pelas regras de interpretação, logo, trata-se de questão de mérito. Segue entoando que, de forma arbitrária, a autoridade tributária estabeleceu-que “águas-de-colônia” possuem concentração aromática inferior a 15% e que, acima disso, seriam perfumes. E em relação aos “desodorantes colônia”, a concentração aromática seria inferior a 10%. Alega que a ANVISA, que é o órgão competente para conceder o registro dos produtos, não reconhecia o percentual de composição aromática como critério para diferenciação dos produtos. Inicialmente, quanto à alegada carência de motivação, é entendimento consolidado neste Conselho de que não há nulidade do lançamento quando não presente vício que possa resultar em prejuízo à eficácia do ato ou ao exercício do contraditório e ampla defesa. Os elementos do Relatório Fiscal são suficientemente motivados para o exercício do direito da recorrente, logo não há vício que permita o acolhimento da nulidade. O procedimento administrativo foi cumprido sem incorreções, em vista que a autoridade fiscal reuniu as provas necessárias para seu convencimento e para materializar a infração descrita na peça acusatória fiscal, quais sejam pesquisas, documentos fiscais, informações e documentos fornecidos pela própria recorrente, inclusive a partir de respostas às intimações feitas pela autoridade fiscal, trazendo detalhes da composição de cada produto e explicações de sua principal característica. Em segundo lugar, quanto às classificações fiscais dos produtos, inclusive sobre as questões de concentração aromática, a nulidade dar-se-ia, somente, na situação Fl. 13497DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 43 de indicação de código fiscal inexistente ou incompleto ou ausência da classificação que a autoridade fiscal indicasse como correta. A discordância da interpretação das normas para determinação da classificação é matéria de mérito, o que de nenhuma maneira ensejaria a declaração de nulidade do lançamento. Por fim, a competência para efetuar a classificação fiscal é do Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, nos termos do Parecer Normativo nº 6, de 2018: “Assunto: Normas de Administração Tributária CLASSIFICAÇÃO FISCAL DE MERCADORIAS. TRATAMENTO TRIBUTÁRIO E ADUANEIRO. COMPETÊNCIA DA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. A legislação brasileira determina o cumprimento das normas internacionais sobre classificação fiscal de mercadorias. Nos países que internalizaram em seu ordenamento jurídico a Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, a interpretação das normas que regulam a classificação fiscal de mercadorias é de competência de autoridades tributárias e aduaneiras. No Brasil, tal atribuição é exercida pelos Auditores-Fiscais da RFB. As características técnicas (assim entendidos aspectos como, por exemplo, matérias constitutivas, princípio de funcionamento e processo de obtenção da mercadoria) descritas em laudos ou pareceres elaborados na forma prescrita nos artigos 16, inciso IV, 18, 29 e 30 do Decreto nº 70.235, de 1972, devem ser observadas, salvo se comprovada sua improcedência, devendo ser desconsideradas as definições que fujam da competência dos profissionais técnicos. Para fins tributários e aduaneiros, os entendimentos resultantes da aplicação da legislação do Sistema Harmonizado devem prevalecer sobre definições que tenham sido adotadas por órgãos públicos de outras áreas de competência, como, por exemplo, a proteção da saúde pública ou a administração da concessão de incentivos fiscais. Dispositivos Legais: Constituição Federal, art. 37, XVIII, e art. 237; Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, art. 96, art. 98, art. 108, art. 142, art. 194 e art. 196; Decreto-Lei nº 37, de 18 de novembro de 1966, art. 154 e art. 155; Decreto-Lei nº 1.154, de 1º de março de 1971; Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, arts. 16 a 18 e art. 30; Decreto Legislativo nº 71, de 11 de outubro de 1988; Decreto Legislativo nº 197, de 25 de setembro de 1991; Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999, art. 8º; Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” (destaquei) Especificamente em relação ao papel da ANVISA, o Parecer assim analisa: “56. Primeiramente, cabe lembrar que incumbe à Anvisa, “respeitada a legislação em vigor, regulamentar, controlar e fiscalizar os produtos e serviços que envolvam risco à saúde pública” (art. 8º da Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999). Fl. 13498DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 44 57. Assim, a RFB e a Anvisa são órgãos que administram matérias completamente diferentes, sendo natural que existam alguns casos em que a OMA/RFB e a ANVISA adotem entendimentos distintos sobre uma mesma mercadoria. Para defesa da saúde pública, deve prevalecer o entendimento da Anvisa. Para a definição de classificação fiscal, deve prevalecer o entendimento da OMA e da RFB. (...) 59. O tratamento tributário do produto (decorrência direta da classificação fiscal) não poderia ser determinado pela Anvisa porque, como já visto, tal matéria está “Assunto: Normas de Administração Tributária CLASSIFICAÇÃO FISCAL DE MERCADORIAS. TRATAMENTO TRIBUTÁRIO E ADUANEIRO. COMPETÊNCIA DA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. A legislação brasileira determina o cumprimento das normas internacionais sobre classificação fiscal de mercadorias. Nos países que internalizaram em seu ordenamento jurídico a Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, a interpretação das normas que regulam a classificação fiscal de mercadorias é de competência de autoridades tributárias e aduaneiras. No Brasil, tal atribuição é exercida pelos Auditores-Fiscais da RFB. As características técnicas (assim entendidos aspectos como, por exemplo, matérias constitutivas, princípio de funcionamento e processo de obtenção da mercadoria) descritas em laudos ou pareceres elaborados na forma prescrita nos artigos 16, inciso IV, 18, 29 e 30 do Decreto nº 70.235, de 1972, devem ser observadas, salvo se comprovada sua improcedência, devendo ser desconsideradas as definições que fujam da competência dos profissionais técnicos. Para fins tributários e aduaneiros, os entendimentos resultantes da aplicação da legislação do Sistema Harmonizado devem prevalecer sobre definições que tenham sido adotadas por órgãos públicos de outras áreas de competência, como, por exemplo, a proteção da saúde pública ou a administração da concessão de incentivos fiscais. Dispositivos Legais: Constituição Federal, art. 37, XVIII, e art. 237; Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, art. 96, art. 98, art. 108, art. 142, art. 194 e art. 196; Decreto-Lei nº 37, de 18 de novembro de 1966, art. 154 e art. 155; Decreto-Lei nº 1.154, de 1º de março de 1971; Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, arts. 16 a 18 e art. 30; Decreto Legislativo nº 71, de 11 de outubro de 1988; Decreto Legislativo nº 197, de 25 de setembro de 1991; Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999, art. 8º; Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, arts.” (destaquei) Neste sentido, rejeita-se a preliminar. Fl. 13499DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 45 (...) 2. DA ALEGAÇÃO DE ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO 2.1 DA ALEGAÇÃO DE ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO NO ATO DE LANÇAMENTO FISCAL A recorrente participou de Reunião de Conformidade Tributária, no âmbito do Projeto “Confia”, que informou que a classificação fiscal de perfumes, águas-de- colônia e desodorantes colônia, deve ser feita à luz da RGI 3b. Deste modo, a utilização excepcional da RGI 4 pela autoridade tributária representa alteração de critério jurídico. Além disso, argumenta que, no âmbito do Processo nº 10855.723072/2017-88, que envolve a reclassificação de produtos da recorrente, fora invocada a RGI 3b e, como houve afastamento da autuação, infere que a autoridade fiscal utilizou a RGI 4 como novo e inadequado critério jurídico. A reunião de conformidade alegada pela recorrente fora infrutífera, nesse sentido, o resultado não vincula a autoridade que lavrou a autuação. Caso a recorrente aderisse à conformidade e houvesse a lavratura de auto de infração com entendimento diferente sobre o mesmo tema haveria alteração do critério jurídico. (...) Nesse sentido, não há vício para acolhimento da nulidade, o que há, novamente, é a discordância da recorrente, o que se resolve no mérito. 2.2 DA ALEGAÇÃO DE ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO DO LANÇAMENTO PELA DECISÃO RECORRIDA A recorrente alega que a decisão recorrida manteve o auto de infração por motivação diversa da utilizada na autuação. Argumenta que a DRJ acabou por inovar ao afirmar que “os produtos possuiriam função essencial de perfumar/hidratar a pele ou, ainda, que a função desodorizante seria meramente acessória”, definições que se fundam na RGI 3b, diferentemente da RGI 4 utilizada na autuação fiscal. Não assiste razão à recorrente. Não houve inovação ou alteração do critério jurídico. (...) Para caracterizar alteração de critério jurídico, necessário se faria que a Administração Tributária tivesse um posicionamento consolidado, no sentido de que um fato não se enquadraria à hipótese de caracterização de infração e, posteriormente, sem motivação alguma, adviesse entendimento a se considerar que houve fato gerador de tributos. Diante da ausência de evidência de que houve modificação no entendimento, descabe, nesse ponto, a alegação de nulidade por inobservância ao art. 146 do CTN. Outrossim, a decisão de primeira instância que apresenta argumentos contrários às alegações de defesa suscitadas na peça impugnatória, sendo mantidas as Fl. 13500DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 46 razões da fiscalização, não implica em inovação. A autoridade julgadora pode expressar sua percepção dos fatos reunidos nos autos em resposta à defesa. Rejeita-se tal preliminar. 2.3 DA DÚVIDA RAZOÁVEL E A INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL À RECORRENTE A recorrente pondera que, “em relação às águas-de-colônia, no limite, há de ser reconhecida a existência de dúvida razoável, a aplicar o disposto no art. 112 do CTN, prevalecendo a interpretação mais favorável ao contribuinte”. Argumenta que “não há consenso no mercado mundial sobre o percentual de concentração aromática para fins de diferenciação dos produtos da linha de perfumaria”, com isso, “não há certeza e nem segurança em relação ao critério utilizado pela autoridade administrativa para fins de reclassificação fiscal das águas-de-colônia”, o que seria incompatível com o disposto no art. 142 do CTN. Os artigos citados assim determinam: Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpreta-se da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I - à capitulação legal do fato; II - à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III - à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV - à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação. (...) Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Em primeiro lugar, não se encontra presente, seja no Relatório Fiscal, seja na decisão recorrida, qualquer dúvida sobre a capitulação legal do fato, nem tampouco existe imprecisão quanto à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos. A mera divergência de direito acerca da interpretação das normas afeitas à classificação fiscal não enseja a aplicação do art. 112 do CTN. Quanto à ausência de certeza e segurança quanto aos critérios adotados na autuação, a recorrente parece requerer uma eventual nulidade por cerceamento Fl. 13501DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 47 do direito de defesa. Contudo, ela demonstrou, durante todo procedimento e nas fases impugnatórias, conhecimento do fato gerador, da matéria tributável e do montante de tributo constituído, apresentando extenso arrazoado. Outrossim, caso a busca fosse, de fato, por certeza e segurança, a recorrente deveria recorrer ao processo administrativo de consulta, nos termos dos arts. 48 a 50, da Lei nº 9.430, de 1996, que vincularia o órgão fiscalizatório e se, após a consulta, a administração alterar o entendimento nela expresso, a nova orientação atingirá, apenas, os fatos geradores que ocorram após dado ciência ao consulente ou após a sua publicação pela imprensa oficial (§ 12). Afasto a preliminar de nulidade. MÉRITO 1. DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL (...) deve-se esclarecer que a classificação fiscal se embasa na legislação que rege a Nomenclatura Comum do Mercosul, e não em legislações outras, como a do controle e vigilância sanitária. As posições de órgãos técnicos, como a ANVISA, podem ser consideradas como subsídios, contudo, a definição quanto a classificação fiscal adequada fica sempre a cargo da correta aplicação das Regras Gerais e Complementares de Interpretação do Sistema Harmonizado e das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias. Neste sentido, o Acórdão nº 302-38.651, em sessão de 22.05.2007, de relatoria da Conselheira Judith do Amaral Marcondes Armando, determinou: “Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 30/04/2000 a 31/10/2004 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. LANÇAMENTO EFETUADO COM BASE EM BULA E REGISTRO JUNTO À ANVISA. A bula de um produto e o seu respectivo registro junto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) não constam, como itens de determinação de classificação fiscal, na TIPI (ou mesmo da NESH). Nesse esteio, os mesmos não podem ser considerados como requisitos definidores da classificação fiscal de mercadorias, pois, se assim fosse, bastaria ao contribuinte definir neste ou em outros documentos (nota fiscal, etc.) a classificação fiscal (mediante definição de natureza jurídico- sanitária, etc.) que entenda interessante aos seus interesses para, assim, impor ao Fisco Federal a obrigação de aceitá-la.” (destaquei) Destaco as definições utilizadas pela autoridade tributária, expostas no Relatório Fiscal: “A Lei nº 6.360, de 1976, que dispõe sobre a Vigilância Sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos, as drogas, os insumos farmacêuticos e Fl. 13502DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 48 correlatos, cosméticos, saneantes e outros produtos, traz as seguintes definições nos incisos III a V de seu art. 3º, com grifos nossos: Art. 3º - Para os efeitos desta Lei, além das definições estabelecidas nos incisos I, II, III, IV, V e VII do Art. 4º da Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973, são adotadas as seguintes: (...) III - Produtos de Higiene: produtos para uso externo, antissépticos ou não, destinados ao asseio ou à desinfecção corporal, compreendendo os sabonetes, xampus, dentifrícios, enxaguatórios bucais, antiperspirantes, desodorantes, produtos para barbear e após o barbear, estípticos e outros; IV - Perfumes: produtos de composição aromática obtida à base de substâncias naturais ou sintéticas, que, em concentrações e veículos apropriados, tenham como principal finalidade a odorização de pessoas ou ambientes, incluídos os extratos, as águas perfumadas, os perfumes cremosos, preparados para banho e os odorizantes de ambientes, apresentados em forma líquida, geleificada, pastosa ou sólida; V - Cosméticos: produtos para uso externo, destinados à proteção ou ao embelezamento das diferentes partes do corpo, tais como pós faciais, talcos, cremes de beleza, creme para as mãos e similares, máscaras faciais, loções de beleza, soluções leitosas, cremosas e adstringentes, loções para as mãos, bases de maquilagem e óleos cosméticos, ruges, "blushes", batons, lápis labiais, preparados anti- solares, bronzeadores e simulatórios, rímeis, sombras, delineadores, tinturas capilares, agentes clareadores de cabelos, preparados para ondular e para alisar cabelos, fixadores de cabelos, laquês, brilhantinas e similares, loções capilares, depilatórios e epilatórios, preparados para unhas e outros; (...) Quanto à organização dos componentes químicos utilizados numa preparação cosmética para o fim buscado pelo produto, colacionam-se os ensinamentos de MATOS (MATOS, Simone Pires de. Cosmética aplicada. São Paulo: Érica, 2014. p. 45-48.) para suporte à correta classificação fiscal ora realizada. De uma forma geral, MATOS classifica os componentes em quatro grupos, ou quatro tipos básicos de matérias primas: 4.1.1 Princípio ativo Em qualquer formulação, seja ela cosmética ou medicamentosa, o princípio ativo é a substância que tem efeito mais acentuado ou a substância que confere ao produto a ação final a que se destina. Uma formulação cosmética pode conter mais de um princípio ativo, cada um com sua finalidade principal. Fl. 13503DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 49 (...) 4.1.2 Aditivos São substâncias que complementam a formulação cosmética, contribuindo com o marketing do produto e/ou aumentando seu tempo de vida útil. Como aditivos cosméticos são utilizados: Corantes e pigmentos: de origem natural ou sintética, produzem sensações visuais ao usuário. (...) Fragrâncias: compostas de diversos compostos aromáticos naturais ou sintéticos capazes de impressionar as vias olfativas. Conservantes: protegem o cosmético de contaminações microbianas e de oxidações indesejáveis, assegurando seu prazo de validade e oferecendo segurança ao usuário. Podem ser classificados em bactericidas, fungicidas ou oxidantes. Muitas empresas fabricantes ou revendedoras de matérias-primas consideram os produtos de correção e os veículos como aditivos, pois entendem que eles são apenas complementares para a ação do ativo utilizado, não utilizando essa subdivisão para produtos de correção nem para veículos. No entanto, como têm funções específicas para ajustar a formulação, torna-se mais adequado o uso da classificação produtos de correção ou ajustamento, assim como, para os veículos, também é mais adequada uma classificação independente. 4.1.3 Produtos de correção São matérias-primas que corrigem ou ajustam alguma característica da formulação cosmética de acordo com os padrões esperados. Considerando suas finalidades, os produtos de correção (ou produtos de ajustamento) são classificados em: Corretor de pH: corrige o pH da formulação, deixando-o adequado ao uso do produto e seu local de aplicação. Emoliente: evita ou atenua o ressecamento da pele e dos cabelos. O emoliente é responsável pelo toque final do produto cosmético. Emulsionante: promove a mistura entre as fases aquosa e oleosa. ( ) Fl. 13504DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 50 Espessante ou estabilizante: impede a mobilidade da fase aquosa, alterando sua viscosidade e auxiliando o emulsionante, impedindo o rompimento da emulsão. Sequestrante ou quelante: retira os íons indesejáveis da formulação. ( ) Solubilizante: promove a solubilização de uma substância em meio a um dispersante. Muito utilizado para dissolver corantes e conservantes. Umectante: capaz de reter a água na formulação cosmética, ao mesmo tempo em que mantém a superfície da pele umedecida. Apresenta propriedade higroscópica (absorve a água do meio ambiente). 4.1.4 Veículo O veículo, também chamado de excipiente, constitui a base na qual o produto é formulado, como água, álcool, óleo, propilenoglicol, gel, sérum, suspensão, emulsão ou pó. Pode-se dizer que é o meio utilizado para carrear os demais componentes de um cosmético para a pele. O dossiê eletrônico da Anvisa é um documento obtido a partir do processo de cadastramento do produto naquele órgão, que fornece diversas informações úteis para a classificação fiscal, tais como forma física, componentes da fórmula do produto, finalidade e modo de usar. Para se chegar à função essencial de cada produto foram analisadas as informações de cada dossiê eletrônico da Anvisa, levando em conta as definições de tipo (produto de higiene, perfume ou cosmético), apresentação (forma física), conjunto dos componentes químicos (princípio ativo, aditivos e produtos de correção), finalidade e modo de usar, considerando também, de forma suplementar, as informações divulgadas pelo sujeito passivo em suas embalagens e na Internet .” (destaques no original) A partir disso, passa-se a analisar cada um dos produtos reclassificados. 1.1 DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DAS ÁGUAS DE PERFUME DE ÁGUAS-DE- COLÔNIA NCM 3303.00.20 PARA PERFUME NCM 3303.00.10 A recorrente classificou as águas de perfume (eau de parfum) no NCM 3303.00.20, reservado à água-de-colônia, enquanto a fiscalização entendeu que a classificação correta seria no NCM 3303.00.10, reservado ao perfume. Assim encontram-se os códigos na TIPI, na qual se verifica que não há enquadramento específico para as águas de perfume. Fl. 13505DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 51 Em consulta às Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, quanto à posição 33.03, tem-se que: “33.03 - Perfumes e águas-de-colônia. A presente posição compreende os perfumes que se apresentem nas formas de líquido, de creme ou de sólido (compreendendo os bastões (batons)), e as águas-de-colônia, cuja função principal seja a de perfumar o corpo. Os perfumes propriamente ditos, também denominados extratos, consistem geralmente em óleos essenciais, essências concretas de flores, essências absolutas ou em misturas de substâncias odoríferas artificiais, dissolvidas em álcool de título elevado. Usualmente, estas composições contêm ainda adjuvantes (aromas suaves) e um fixador ou estabilizador. As águas-de-colônia - por exemplo, água-de-colônia propriamente dita, água de lavanda - (que não devem confundir-se com águas destiladas aromáticas e soluções aquosas de óleos essenciais da posição 33.01) diferem dos perfumes propriamente ditos pela sua menor concentração de óleos essenciais, etc., e pelo título geralmente menos elevado de álcool utilizado.” (destaques no original) No Relatório Fiscal, a fiscalização traz referências bibliográficas sobre as concentrações aromáticas (óleo de perfume) praticadas no mercado de perfumaria para perfume (parfum), água de perfume (eau de parfum), água de banho (eau de toilette) e água-de-colônia (eau de cologne), sendo o padrão universalmente aceito nos seguintes percentuais: • Perfumes (extratos): 15-30% • Águas de perfume 15-18% • Águas de banho 4-8% • Águas-de-colônia 3-5% A recorrente, em resposta à intimação, informou que as águas de perfume possuem concentração entre 17 e 25% de essência em sua composição expressa em Massa/Massa. A autoridade fiscal constatou que, nos registros juntos à Anvisa, os percentuais variam entre 15% a 23,6%, e assim motivou sua decisão a respeito da nova classificação: Fl. 13506DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 52 “A Regra 1 determina que a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo. No caso das águas de perfume, isso não é suficiente para resolver o problema, pois água de perfume é um produto diferente de água-de- colônia e de perfume. A Regra 2 não é aplicável ao caso, pois não se trata de artigo incompleto ou inacabado, nem de artigo desmontado ou por montar. A Regra 3 trata da mercadoria que pode ser classificada em duas ou mais posições. Uma interpretação deturpada poderia concluir que a água de perfume poderia ser classificada tanto como água-de-colônia como perfume, atraindo a aplicação da Regra 3. Porém, água de perfume não é água-de-colônia, nem é perfume (extrato). E isso é claro nas classificações de perfumaria. Ressalta-se também que a Regra 3c não é aplicável, uma vez que só poderiam ser avaliadas as Regras 3a e 3b se a mercadoria pudesse ser classificada em duas ou mais posições, o que não é o caso, pois não há posição específica para água de perfume. Assim sendo, recorre-se à Regra 4, que determina que as mercadorias que não possam ser classificadas por aplicação das Regras anteriores classificam-se na posição correspondente aos artigos mais semelhantes. Nas NESH, o texto da nota explicativa da Regra traz (grifos nossos): I) Esta Regra refere-se às mercadorias que não possam ser classificadas por aplicação das Regras 1 a 3. Esta Regra estabelece que essas mercadorias se classificam na posição correspondente aos artigos mais semelhantes. II) A classificação de conformidade com a Regra 4 exige a comparação das mercadorias apresentadas com mercadorias semelhantes, de maneira a determinar quais as mercadorias mais semelhantes às mercadorias apresentadas. Estas últimas devem classificar-se na posição correspondente aos artigos mais semelhantes. III) A analogia pode, naturalmente, basear-se em vários elementos, tais como a denominação, as características, a utilização. Realizando a exigência de comparação por semelhança, volta-se à classificação dos produtos de perfumaria. Nota-se uma grande diferença entre água-de-colônia e água de perfume. Em qualquer classificação, pode- se inferir que a água de perfume está mais próxima do perfume do que da água-de-colônia.” (grifos no original) Inegável que as águas de perfume possuem faixa de concentração contida nos perfumes, portanto, evidente a semelhança. Isso é reforçado pela informação, Fl. 13507DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 53 prestada pela recorrente, de que as suas águas-de-colônia possuem concentração aromática entre 3 a 10%. A Receita Federal, através da Coordenação-Geral de Tributação, reiteradamente decidiu, conforme exposto nas Soluções de Consulta nº 98.465, 98.473, 98.474, todas de 2017, que as águas de perfume se classificam no código NCM 3303.00.10: Solução de Consulta nº 98.465 - Cosit “10. No âmbito da Secretaria da Receita Federal e do Ministério da Fazenda, decisões anteriores enquadraram no código tarifário 3303.00.10 (perfumes ou extratos) produtos com composição aromática (óleo de perfume) em concentração superior a 10%. Diante disso, o produto com 8 %, em peso, de óleo de perfume (composição aromática), classifica-se no código NCM 3303.00.20 (Águas-de-colônia), enquanto os demais produtos que apresentam respectivamente 15 %, 20% e 13%, em peso, de óleo de perfume (composição aromática), classificam-se no código NCM 3303.00.10 (Perfumes - extratos).” (destaquei) Nesta seara, a 8ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal, no julgamento do Processo nº 1085775-48.2021.4.01.3400, confirmou o entendimento da Receita Federal, em decisão assim motivada: “Inicialmente, é importante salientar que a NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul) é um instrumento fiscal de classificação de mercadorias para determinação dos tributos incidentes nas operações de comércio exterior (importação e exportação) e de saída de produtos industrializados. Internalizada no Brasil pelo Decreto nº 97.409/88, a Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, conhecida como Sistema Harmonizado (SH), atribui às autoridades tributárias e aduaneiras dos países signatários a competência para interpretar as normas que regulam a classificação fiscal de mercadorias, mediante aplicação das regras gerais e das notas explicativas do Sistema Harmonizado, das regras complementares do Mercosul e da TIPI e dos pareceres de classificação do Comitê do Sistema Harmonizado da Organização Mundial de Aduanas (OMA), alcançando-se, com isso, uma uniformização mundial sobre a correta posição ou subposição de uma mercadoria na NCM. Portanto, para fins tributários e aduaneiros, a classificação fiscal aplicada pela Receita Federal do Brasil tem prevalência sobre todos os conceitos e definições adotados por outros órgãos ou entidades públicas em suas respectivas áreas de atuação, isso porque o Brasil tem a obrigação de cumprir as normas internacionais previstas no Sistema Harmonizado (SH) e, nesse ponto, a autoridade aduaneira é quem tem exclusiva competência para, em procedimento de fiscalização no Siscomex, verificar o correto Fl. 13508DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 54 enquadramento da mercadoria no código da NCM, não sendo possível dar primazia à classificação dada pela Anvisa no registro do produto. Vale destacar que eventuais dúvidas ou divergências sobre a classificação de mercadorias devem ser resolvidas em processo administrativo de consulta, nos termos dos artigos 48 a 50 da Lei nº 9.430/96, os quais conferem legitimidade tanto ao contribuinte como à própria Anvisa para questionar a correta classificação na NCM, como dispõe o art.46, parágrafo único, do Decreto nº 70.235/72, verbis: Os órgãos da administração pública e as entidades representativas de categorias econômicas ou profissionais também poderão formular consulta. (...) No caso dos autos, as mercadorias importadas estão descritas nas DI’s como “EAU de Parfum” e “EAU de Toilette”, todas com NCM 3303.00.20 (água-de-colônia), mas sem a indicação da concentração (ID 847823546, pp. 63-65), razão pela qual a fiscalização solicitou documentação complementar quando do procedimento fiscal. Atendendo a solicitação, a empresa (...) juntou dossiês eletrônicos da Anvisa que informavam a concentração das mercadorias, qual seja, 14,135% para os “EAU de Parfum”, conforme relatado pela fiscalização no ID 957887665, p. 44 (o documento da Anvisa não foi juntado pela autora no ID 847823546 – cópia integral do processo). Tal percentual, aliado ao entendimento manifestado pela Cosit nas referidas soluções de consulta, configura “perfume”, sendo cabível o enquadramento no NCM 3303.00.10. Assim, correta a fiscalização aduaneira ao promover o ajuste no NCM relacionado às mercadorias contidas nas DI’s de produtos de perfumaria.” A recorrente traz a decisão formalizada no Acórdão nº 9303-010.682, no julgamento do Processo nº 12466.003142/2007-15, que entende ser favorável a ela. Reproduzo a ementa da decisão: “ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 02/01/2003 a 04/11/2003 PERFUME (EXTRATO) OU ÁGUA-DE-COLÔNIA. Os limites da concentração da composição aromática fixados nas alíneas “a” e “b” do inciso II do artigo 49 do Decreto 79.094, de 5 de janeiro de 1977, são específicos para o fim de registro dos perfumes (extratos, águas-de- colônia etc.) no sistema de vigilância sanitária. Na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), a classificação dos perfumes (extratos) e das águas-de- colônia independe dos valores absolutos da concentração da composição aromática. É o confronto da concentração de um com a do outro que define qual deles é perfume (extrato) e qual deles é água-de-colônia.” (destaquei) Fl. 13509DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 55 A decisão, que se deu por determinação do então vigente art. 19-E da Lei nº 10.522, de 2002, incluído pela Lei nº 13.988, de 2020, entretanto, dá suporte, no presente, ao entendimento da autoridade tributária, já que a reclassificação fiscal não se deu com fulcro nos “valores absolutos da concentração da composição aromática” e, sim, no “confronto da concentração” de perfume (extrato) e água- de-colônia. Não há como acolher o pedido da recorrente, do que nego provimento neste tema. 1.2 DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DOS DESODORANTES NCM 3307.20 PARA PREPARAÇÕES PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE NCM 3304.99 A recorrente argumenta que as classificações fiscais para os desodorantes corporais são 3307.20.10 (líquidos) e 3307.20.90 (outros), ambas com alíquota de 7% de IPI. Contudo, a fiscalização atribuiu as classificações fiscais 3304.99.10 (cremes de beleza e cremes nutritivos; loções tônicas) ou 3304.99.90 (outros), a qual determina a incidência de alíquota de 22% a título de IPI. A recorrente suscita que a classificação adotada pela fiscalização é errônea, pois os produtos apresentam, efetivamente, a função de desodorantes corporais. Defende que as Notas Explicativas determinam a classificação dos desodorantes corporais na posição 33.07, não impondo qualquer ressalva ou restrição. Como exemplos dos produtos classificados, pela recorrente, como preparações para conservação ou cuidados da pele, a fiscalização relacionou no Relatório Fiscal (fls. 52/53): “Nome comercial: Hidratante Multiprotetor Diurno Make B. Sim, 60g Classificação NCM: 3304.99.10 Categoria: Cuidados para Pele > Rosto > Protetor Solar Facial Observações: Como Usar / Conselho de Aplicação: Pela manhã, com o rosto limpo e seco, aplique o produto em movimentos circulares até absorção completa. Você pode aplicar sua base preferida de Make B. após o uso do Hidratante Multiprotetor Diurno.” “Nome comercial: Hidratante Labial Cuide-se Bem Morango e Leite, 6,2g Classificação NCM: 3304.99.90 Categoria: Cuidados para Pele > Lábios > Hidratante Observações: Como Usar / Conselho de Aplicação: retire a tampa do Hidratante Labial e com a boca limpa, aplique em todo o lábio superior e inferior. Repita o processo sempre que necessário.” Fl. 13510DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 56 “Nome comercial: Coffee Woman Sense Gel Hidratante Corporal 200g Classificação NCM: 3304.99.90 Categoria: Corpo e Banho > Hidratante Observações: O Coffee Gel Corporal Hidratante Woman Sense pode ser usado no corpo como hidratante e também como gel massageador, proporcionando uma sensação agradável na pele. Como Usar / Conselho de Aplicação: Aplique em todo o corpo com movimentos circulares sempre que quiser manter a hidratação da pele.” “Nome comercial: Loção Hidratante de Banho e Pós Banho Boti Baby, 150g Classificação NCM: 3304.99.90 Categoria: Cuidados para Pele > Corpo > Hidratante Observações: Como Usar / Conselho de Aplicação: Coloque um pouco do hidratante em uma das mãos e espalhe por todo o corpinho do seu bebê durante o banho ou após o banho.” Em seguida, a fiscalização relacionou os produtos classificados, pela recorrente, como desodorante, do que a autoridade fiscal entendeu que se tratava, efetivamente, de preparações para conservação ou cuidados da pele (fls. 53/54): “Nome comercial: Loção Hidratante Desodorante Corporal Nativa SPA Ameixa 400ml Classificação NCM: 3307.20.90 Categoria: Corpo e Banho > Hidratante Observações: Como Usar / Conselho de Aplicação Abra o frasco e sinta a fragrância. Agora aplique um pouco de loção nas mãos e espalhe pelo corpo inteiro, em movimentos circulares, fazendo uma leve massagem. Capriche nas partes mais secas como cotovelos e joelhos. Faça isso todos os dias ou sempre que quiser sentir sua pele hidratada e desodorizada.” “Nome comercial: Creme Acetinado Hidratante Desodorante Corporal Lily, 250g Classificação NCM: 3307.20.90 Categoria: Corpo e Banho > Hidratante Observações: Lily Creme Acetinado Hidratante Desodorante Corporal possui textura com toque acetinado que hidrata a pele intensamente por até 48 horas, proporcionando ainda perfumação prolongada com a mesma sofisticada fragrância Lily Eau de Parfum, envolvendo você durante todo o dia. Fl. 13511DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 57 O Lily Creme Acetinado Hidratante possui uma textura única que protege a sua pele com uma película protetora, que além de promover uma hidratação intensa, também ajuda a evitar o ressecamento causado pelo sol e pelo clima frio e seco. Lily Creme Acetinado Hidratante Corporal possui em sua composição manteiga de karité, que é reconhecida pelas suas propriedades emolientes naturais, que são de rápida absorção e ultra hidratantes.” “Nome comercial: Loção Hidratante Desodorante Corporal Malbec Club, 250ml Classificação NCM: 3307.20.90 Categoria: Corpo e Banho > Hidratante Observações: Malbec Loção Hidratante Desodorante Corporal Club foi especialmente desenvolvida para a pele masculina. Repara o aspecto esbranquiçado e áspero da pele seca. A loção hidratante possui textura leve e de rápida absorção, deixando a pele hidratada, aveludada e sedosa, sem aquela sensação oleosa. Como Usar / Conselho de Aplicação Aplicar a quantidade desejada em todo o corpo, principalmente nas áreas mais ressecadas como cotovelos, joelhos e pés.” “Nome comercial: Óleo Desodorante Corporal Hidratante Nativa SPA Amêndoas e Quinoa 250ml Classificação NCM: 3307.20.10 Categoria: Corpo e Banho > Hidratante Observações: Tenha uma hidratação poderosa para a pele e uma textura incrível com o Óleo Desodorante Corporal Hidratante Nativa SPA Amêndoas e Quinoa. Com óleo 100% puro de Quinoa, tenha todos os benefícios desse grão, um dos componentes mais completos e nutritivos da natureza. Com rápida absorção, ele hidrata intensamente enquanto também previne o aparecimento das estrias. O Óleo Desodorante Corporal Hidratante possui ação antioxidante que defende a pele dos efeitos dos radicais livres que causam envelhecimento da pele. Com a perfumação marcante das Amêndoas, é perfeito para ter em casa e usar durante o banho ou após, para intensificar ainda mais seu efeito ação desodorante. Deixe seus momentos de relaxamento ainda mais revigorantes. Ah! Esse produto é vegano! Como Usar / Conselho de Aplicação Massageie a pele com o óleo durante o banho, com a pele ainda úmida. Em seguida enxágue e sinta o conforto das amêndoas e da quinoa.” Fl. 13512DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 58 Por fim, demonstra como são apresentados e descritos os demais produtos classificados como desodorantes, cuja classificação fiscal encontra-se correta, sob o entendimento da fiscalização (fls. 55/56): Nome comercial: Desodorante Antitranspirante Aerosol Malbec 75g 125ml “Classificação NCM: 3307.20.10 Categoria: Corpo e Banho > Cuidados Pós-Banho > Desodorante Observações: O Malbec Desodorante Antitranspirante Aerosol oferece 48 horas de proteção, mantendo a pele hidratada e perfumada. Com secagem rápida e toque seco, o desodorante antitranspirante possui nova fórmula com óleos essenciais e mentol que proporcionam uma sensação refrescante e perfumação intensiva. Conselho de Aplicação Agitar bem antes de usar. Depois, girar no sentido anti-horário até travar o atuador e aplicar a uma distância de 15 centímetros das axilas.” “Nome comercial: Desodorante Aerosol Antitranspirante Nativa SPA Ameixa 75g Classificação NCM: 3307.20.10 Categoria: Corpo e Banho > Cuidados Pós-Banho > Desodorante Observações: Todo mundo gosta de estar com a axila sequinha o dia todo, e o Nativa SPA Ameixa Desodorante Aerosol Antitranspirante, além de proteger a pele, ainda deixa com um aroma intenso e vibrante de Ameixa. O antitranspirante oferece 48 horas de proteção, deixando a pele seca por muito mais tempo. Sua fórmula sem álcool e com jato seco possui micropartículas da fragrância de Ameixa que se rompem ao longo do dia para deixar um cheiro que desperta e, ao mesmo tempo, dá vontade de fechar os olhos. Conselho de Aplicação Após o banho ou com a pele limpa, aplique o Desodorante. Agitar bem antes de usar. Depois, girar no sentido anti-horário até travar o atuador e aplicar a uma distância de 15 centímetros das axilas.” “Nome comercial: Antitranspirante em Creme Cuide Se Bem Rosa e Algodão, 80g Classificação NCM: 3307.20.90 Categoria: Corpo e Banho > Cuidados Pós-Banho > Desodorante Fl. 13513DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 59 Observações: O Cuide Se Bem Antitranspirante em Creme Rosa e Algodão 80g oferece proteção por até 48 horas contra o odor e a transpiração. Conta com o aplicador inteligente para facilitar o uso. Formulado com extratos de rosa e algodão, o creme antitranspirante deixa uma sensação calmante na pele após a depilação, além de não possuir álcool etílico. Conselho de Aplicação Aplique o antitranspirante em creme diretamente nas axilas secas. É importante lembrar de usar somente na área indicada.” Nesse sentido, a autoridade fiscal observou que “os produtos citados são misturas de componentes químicos, mas não são misturas de um desodorante com uma loção hidratante ou um perfume. São produtos bem definidos, que podem ter sido aprimorados para conter funções secundárias, sem que haja dúvida sobre o que realmente são”. Com efeito, a fiscalização constatou que a recorrente “apresenta os produtos para o consumidor com uma função principal (categoria), enquanto as funções secundárias (adicionais) estão apresentadas como valores agregados”. Reproduzo a interpretação que motivou a reclassificação dos produtos: “A Regra 1, aplicável a todos os casos, determina que a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2 a 5. Tem-se nas notas do Capítulo 33 das NESH: 3.- As posições 33.03 a 33.07 aplicam-se, entre outros, aos produtos, misturados ou não, próprios para serem utilizados como produtos daquelas posições e acondicionados para venda a retalho tendo em vista o seu emprego para aqueles usos, exceto águas destiladas aromáticas e soluções aquosas de óleos essenciais. (...) CONSIDERAÇÕES GERAIS (...) As posições 33.03 a 33.07 compreendem os produtos, misturados ou não (exceto águas destiladas aromáticas e soluções aquosas de óleos essenciais) próprios para utilização como produtos daquelas posições e acondicionados para venda a retalho, tendo em vista o seu emprego para esses usos (ver a Nota 3 do Capítulo). Os produtos das posições 33.03 a 33.07 permanecem classificados nestas posições mesmo que contenham, acessoriamente, determinadas substâncias empregadas em farmácia ou como Fl. 13514DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 60 desinfetantes e mesmo que possuam, acessoriamente, propriedades terapêuticas ou profiláticas (ver a Nota 1 e) do Capítulo 30). Todavia, os desodorantes (desodorizantes) de ambientes preparados, permanecem classificados na posição 33.07 mesmo que possuam propriedades desinfetantes que não sejam meramente acessórias. Nas Notas da posição 33.04, tem-se (grifos nossos): 33.04 - Produtos de beleza ou de maquiagem preparados e preparações para conservação ou cuidados da pele (exceto medicamentos), incluindo as preparações antissolares e os bronzeadores; preparações para manicuros e pedicuros. 3304.10 - Produtos de maquiagem para os lábios 3304.20 - Produtos de maquiagem para os olhos 3304.30 - Preparações para manicuros e pedicuros 3304.9 - Outros: 3304.91 -- Pós, incluindo os compactos 3304.99 -- Outros A. - PRODUTOS DE BELEZA OU DE MAQUILAGEM PREPARADOS E PREPARAÇÕES PARA CONSERVAÇÃO OU CUIDADOS DA PELE, INCLUINDO AS PREPARAÇÕES ANTISSOLARES E OS BRONZEADORES Incluem-se na presente posição: (...) 3) Os outros produtos de beleza ou de maquilagem preparados e as preparações para conservação ou cuidados da pele (exceto os medicamentos), tais como: os pós-de-arroz e as bases para o rosto, mesmo compactos, os talcos para bebês (incluindo o talco não misturado, nem perfumado, acondicionado para venda a retalho), os outros pós e pinturas para o rosto, os leites de beleza ou de toucador, as loções tônicas ou loções para o corpo; a vaselina acondicionada para venda a retalho e própria para os cuidados da pele, os cremes de beleza, os cold creams, os cremes nutritivos (incluindo os que contêm geleia real de abelha); os cremes de proteção para evitar as irritações da pele; os géis administráveis por injeção subcutânea para eliminação de rugas e realce dos lábios (incluindo aqueles que contêm ácido hialurônico); as preparações para o tratamento da acne (exceto os sabões da posição 34.01) próprios para limpeza de pele e que não contenham ingredientes ativos em quantidades suficientes para que se considerem como Fl. 13515DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 61 tendo uma ação essencialmente terapêutica ou profilática sobre a acne; os vinagres de toucador, que são misturas de vinagre ou de ácido acético com álcool perfumado. Este grupo compreende igualmente as preparações antissolares (filtros solares) e os bronzeadores. Estão sob análise produtos que são preparações para conservação ou cuidados da pele, com a função desodorante, conforme afirma o sujeito passivo, que poderiam ser classificados na 33.04 ou na 33.07. A Regra 2a não é aplicável ao caso, pois não se trata de artigo incompleto ou inacabado, nem de artigo desmontado ou por montar. A Regra 2b diz respeito às matérias misturadas ou associadas a outras matérias, e às obras constituídas por duas ou mais matérias, determinando que a classificação dos produtos misturados se efetua conforme a Regra 3. Chegando à Regra 3, “quando pareça que a mercadoria pode classificar-se em duas ou mais posições por aplicação da Regra 2 b) ou por qualquer outra razão”, partimos para as Regras 3a e 3b. A Regra 3a diz que a posição mais específica prevalece sobre as mais genéricas. No entanto, essa regra ainda não soluciona, porque são específicas as posições para desodorantes corporais e “cremes de beleza e cremes nutritivos; loções tônicas”. A Regra 3b diz que os produtos misturados, cuja classificação não se possa efetuar pela aplicação da Regra 3a, classificam-se pela matéria ou artigo que lhes confira a característica essencial, quando for possível realizar esta determinação. (...) Assim, com base na Regra 3b, esses produtos estão incluídos na posição 33.04. (...) A Regra Geral de Interpretação nº 6, em sua primeira parte, dispõe que a classificação de mercadorias nas subposições de uma mesma posição é determinada, para efeitos legais, pelos textos dessas subposições e das Notas de Subposição respectivas. Não sendo produtos de maquilagem para os lábios ou os olhos, nem mesmo preparações para manicuros e pedicuros, a subposição de 1º nível aplicável é a residual 3304.9. Em não se tratando de “pós”, a subposição de 2º nível também é a residual, 3304.99. Por aplicação da Regra Geral Complementar nº 1, que, em sua primeira parte, prevê que as Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado se aplicarão, mutatis mutandis, para determinar dentro de Fl. 13516DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 62 cada subposição, o item aplicável e, dentro deste último, o subitem correspondente, na posição 3304.99.10 são classificados os cremes de beleza, os cremes nutritivos e as loções tônicas. As outras preparações para conservação ou cuidados da pele, quando não apresentadas sob a forma de creme de beleza ou creme nutritivo, enquadram-se na posição residual. É o caso das preparações em forma de loção, gel, emulsão, óleo, sérum, manteiga, entre outras, que devem ser classificadas na posição 3304.99.90.” (destaques no original) Deste modo, a fiscalização entendeu que a função essencial é de conservação ou cuidado da pele, com característica adicional de desodorante, o que seria insuficiente para alterar a classificação fiscal para “desodorantes” da posição 3307, classificando tais produtos na subposição 3304.99. Avançando no tema, a fiscalização aprofundou-se na questão da função desodorante (fls. 48/51). Trouxe as características de antiperspirantes e desodorantes, bem como adentrou nos agentes antissépticos contidos nos produtos reclassificados, a saber, triclosan, caprilato de poliglicerila e caprilil glicol, do que concluiu: “Contudo, o mero fato de um componente da fórmula possuir a característica de reduzir ou evitar o desenvolvimento de odores corporais desagradáveis não é suficiente para classificá-lo com um desodorante, para fins de tributação de IPI. O sabonete, o xampu, as emulsões e os produtos para barbear não se convertem em desodorantes em virtude da adição de substâncias antissépticas em concentrações usuais. Nos cosméticos hidratantes, as fragrâncias e os conservantes/desodorizantes são aditivos, que conferem características adicionais, necessárias ou desejadas pelos consumidores, mas que não alteram a característica essencial, qual seja, limpeza, conservação e/ou embelezamento da pele. A utilização de agentes que inibem o crescimento de bactérias é condição necessária para a fabricação de cosméticos. Assim se pronuncia BARATA (BARATA, Eduardo A. F. A Cosmetologia: Princípios Básicos. São Paulo: Tecnopress Editora, 2013. p. 40) quanto ao uso de conservantes em formulações cosméticas, com grifos nossos: Todos os métodos de preservação têm como finalidade impedir ou diminuir alterações prejudiciais provocadas pela ação de microrganismos ou fungos. Quando um microrganismo se introduz numa preparação cosmética, no decorrer da fabricação, encontra aí as condições ideais para o seu desenvolvimento e multiplicação. Fl. 13517DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 63 Se não forem tomadas providências, o desenvolvimento será rápido, decompondo e alterando as características do produto, pois vai retirar os elementos nutritivos indispensáveis ao seu metabolismo, rejeitando, em contrapartida, os resíduos tóxicos que vão modificar as características de uma preparação cosmética. Essas modificações manifestam-se de formas muito variadas: - As emulsões, qualquer que seja o tipo considerado, podem sofrer alteração, com separação e cobrirem-se de uma camada de fungos; - Aparecimento de colorações indesejáveis; - Preparados límpidos, podem passar a apresentar aspecto opalescente; - Fenômenos de fermentação com desenvolvimento de gases, podem promover deformações e originarem frascos quebrados; - O perfume fica profundamente alterado; - E finalmente, não podemos esquecer que produtos degradados podem ser causa de perturbações futuras na pele; Concluindo: o emprego de um preservante no produto acabado é de necessidade fundamental, sob pena deste se tornar rapidamente inutilizável ou de a sua aplicação vir a ser menos aconselhável. Dessa forma, os agentes antissépticos são necessários na produção de cosméticos para a conservação do produto, sendo capazes de reduzir ou evitar a aparição de odores desagradáveis, em razão de reduzirem a contaminação microbiológica. Porém, não alteram a característica básica do produto quando utilizados dessa forma, pois apenas conservam o produto para que seja comercializado de forma segura. Na mesma linha, CORRÊA (CORRÊA, Marcos Antonio. Cosmetologia: Ciência e Técnica. Livraria e Editora Medfarma, 2012; 1ª edição, pág. 359.) trata a função dos conservantes nas preparações cosméticas, especialmente os conservantes antimicrobianos: “São produtos cuja função é inibir a proliferação de bactérias e fungos no produto acabado. São imprescindíveis nas formulações, uma vez que, via de regra, as emulsões são facilmente contamináveis, seja por sua própria composição, seja durante o processo de preparação e manipulação, seja durante o manuseio pelo usuário, constituindo um verdadeiro meio de cultura”. Não há dúvida de que a indústria de cosméticos necessita incorporar, muitas vezes, conservantes em seus produtos. Fl. 13518DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 64 A Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 29, de 1º de junho de 2012, da Anvisa, vigente na época dos fatos geradores, que aprovou o Regulamento Técnico Mercosul sobre “Lista de Substâncias de Ação Conservante permitidas para Produtos de Higiene Pessoal, Cosméticos e Perfumes”, traz o entendimento sobre CONSERVANTES em seu Adendo II: “são substâncias que são adicionadas como ingredientes aos Produtos de Higiene Pessoal, Cosméticos e Perfumes com finalidade de inibir o crescimento de microrganismos durante sua fabricação e estocagem, ou para proteger os produtos da contaminação inadvertida durante o uso”. Entre os conservantes permitidos por essa RDC, temos o Triclosan. Dessa forma, há um entendimento de que os agentes antissépticos são utilizados para conservação de cosméticos e perfumes. Como consequência, haverá uma redução ou eliminação das bactérias e dos odores desagradáveis que poderiam aparecer, mas sem que isso altere a finalidade ou o modo de usar do produto.” (destaques no original) A recorrente defende que não é possível determinar a característica essencial do produto, por ausência de preponderância entre as funções desodorante e hidratante, o que atrairia a classificação para a Regra 3c. Não assiste razão a recorrente. As NESH, aprovadas pelo Decreto n° 435, de 1992, com textos consolidados pela Instrução Normativa RFB n° 807, de 2008, alterada pela IN RFB n° 1.072, de 2010, e pela IN RFB n° 1.260, de 2012, trazem, quando se referem à posição 33.07, o seguinte: “Esta posição compreende: I) As preparações para barbear (antes, durante ou após), como por exemplo os cremes e espumas para barbear, mesmo contendo sabão ou outros agentes de superfície orgânicos (ver Nota 1 c) do Capítulo 34); as loções para após a barba, as pedras-umes (pedras de alume) e os lápis hemostáticos. Os sabões para a barba em blocos incluem-se na posição 34.01. II) Os desodorantes corporais e os antiperspirantes (anti-sudoríficos). III) As preparações para banho tais como os sais perfumados e as preparações para banho de espuma, mesmo contendo sabão ou outros agentes de superfície orgânicos (ver Nota 1 c) do Capítulo 34). As preparações para lavagem da pele, em que o componente ativo é constituído parcial ou inteiramente por agentes orgânicos tensoativos de síntese que podem ser associados a sabão em qualquer proporção, apresentadas na forma de líquido ou de creme e acondicionadas para venda a retalho, são classificadas na posição Fl. 13519DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 65 34.01. Quando não sejam acondicionadas para venda a retalho, essas preparações são incluídas na posição 34.02. IV) Preparações para perfumar ou para desodorizar ambientes, incluídas as preparações odoríferas para cerimônias religiosas: 1) As preparações utilizadas para perfumar ambientes e as preparações odoríferas para cerimônias religiosas. Atuam, em geral, por evaporação ou combustão, tais como o “Agarbate” e podem apresentar-se sob a forma de líquidos, de pós, de cones, de papéis impregnados, etc. Algumas destas preparações utilizam-se para disfarçar cheiros. As velas perfumadas excluem-se desta posição (posição 34.06). 2) Os desodorantes de ambientes, preparados, mesmo não perfumados, tendo ou não propriedades desinfetantes. Os desodorantes de ambientes preparados são constituídos, essencialmente, por substâncias (metacrilato de laurila, por exemplo) que atuam por via química sobre os cheiros a eliminar ou outras substâncias destinadas a absorver fisicamente os cheiros pelas forças de Van der Waal, por exemplo. Acondicionados para venda a retalho, estas preparações, em geral, apresentam-se em recipientes aerossóis. Os produtos, tais como o carvão ativado, acondicionados para venda a retalho como desodorantes para refrigeradores (frigoríficos*), automóveis, etc., incluem-se igualmente na presente posição. V) Outros produtos, tais como: 1) Os depilatórios. 2) Os saquinhos (sachês) contendo partes de plantas aromáticas e que se empregam para perfumar armários de roupas. 3) Os papéis perfumados e os papéis impregnados ou revestidos de cosméticos. 4) As soluções para lentes de contato ou para olhos artificiais. Podem tratar-se de soluções desinfetantes, de limpeza, de umedecimento ou para aumentar o conforto durante o uso. 5) As pastas (ouates), feltros e falsos tecidos, impregnados, revestidos ou recobertos de perfume ou de cosméticos. 6) Os produtos de toucador preparados para animais, tais como os xampus para cães e banhos para embelezar a plumagem dos pássaros.” (destaquei) Fl. 13520DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 66 A IN RFB nº 807, de 2008, foi posteriormente revogada pela IN RFB nº 1.788, de 2018, contudo, manteve-se a essência do item II acima destacado, alterando a redação da forma que também se encontra na sexta (2017) e na sétima (2022) edições das Notas Explicativas: “II) Os desodorantes (desodorizantes) corporais e os antiperspirantes (antissudoríficos)” Assim, resta claro que os subitens 3307.20.10 ou 3307.20.90 caberiam somente para os produtos que são configurados como desodorantes corporais e os antiperspirantes, que tem como função combater o suor, conhecidos como antissudoríficos. Pela explicação acima colacionada e pelos elementos do Relatório Fiscal, os produtos classificam-se como preparações para conservação ou cuidados da pele, e não podem ser classificados desodorantes corporais ou antiperspirantes, como pretendeu a recorrente, do que entendo como correta a classificação fiscal atribuída pela autoridade tributária, não merecendo reforma o acórdão recorrido. 1.2.1 DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DE DESODORANTES NCM 3307.20.10 PARA ESFOLIANTES NCM 3304.99 A recorrente classificou seus produtos esfoliantes como desodorante corporal, sob o código 3307.20.10. Por sua vez, a fiscalização entende que se trata de preparações para conservação ou cuidados da pele, da posição 33.04. Argumenta a recorrente que não houve prova técnica, por parte do órgão autuante, (i) de que os esfoliantes teriam característica essencial de cuidados da pele e (ii) de que os agentes antissépticos seriam apenas aditivos para conservação do produto. Conforme já exposto, a classificação fiscal trata-se de atividade jurídica. Segue a defesa expondo que “o esfoliante possui ingrediente bactericida na sua composição, de modo que é um produto misturado e multifuncional (sem preponderância de funções)”, do que entende que se aplica a Regra 3c das NESH. Bem esclareceu o Relatório Fiscal (fl. 63): “Basicamente, a esfoliação é um procedimento realizado para eliminação das células mortas da pele, com o intuito de estimular a produção de células novas. Os esfoliantes não são produtos para lavagem da pele, mas sim preparações para conservação ou cuidados da pele. Devem ser aplicados com a pele úmida, antes ou depois de sua higienização, conforme as orientações do fabricante. Poderiam até ser confundidos com produtos para lavagem da pele, mas, considerando que a função essencial do produto é esfoliar a pele, e não a Fl. 13521DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 67 lavar, devem ser classificados como preparações para conservação ou cuidados da pele, na posição 33.04 – “Produtos de beleza ou de maquiagem preparados e preparações para conservação ou cuidados da pele (exceto medicamentos), incluindo as preparações antissolares e os bronzeadores; preparações para manicuros e pedicuros.” (destaquei) Ademais, entende a defesa que “se os esfoliantes realmente tivessem uma característica essencial, esta não seria de conservar ou cuidar da pele, mas sim a de possuir agentes tensoativos para a lavagem da pele, enquadrando-se perfeitamente na Posição NCM nº 3401.30.00”. Assim encontra-se a posição sugerida pela recorrente nas NESH: “III. – PRODUTOS E PREPARAÇÕES ORGÂNICOS TENSOATIVOS DESTINADOS À LAVAGEM DA PELE, NA FORMA DE LÍQUIDO OU DE CREME, ACONDICIONADOS PARA VENDA A RETALHO, MESMO CONTENDO SABÃO Esta parte compreende as preparações para lavagem da pele em que o componente ativo é constituído parcial ou inteiramente por agentes orgânicos tensoativos de síntese que podem ser associados a sabão em qualquer proporção, contanto que sejam apresentados na forma de líquido ou de creme e acondicionados para venda a retalho. Quando não sejam condicionadas para venda a retalho, essas preparações estão incluídas na posição 34.02.” Não há como adotar tal classificação, como constatou a fiscalização, a função esfoliante refere-se à remoção tecido morto, permitindo a produção de novas células da pele. Deste modo, não se trata de “preparações para lavagem da pele”. Como ilustração, a autoridade fiscal constatou a classificação indevida do produto NATIVA SPA PITAYA AÇÚCAR ESFOLIANTE, na qual a recorrente classificou como desodorante corporal. De acordo com os registros juntos à Anvisa, o produto deve ser aplicado durante o banho, com remoção do produto pelo enxágue: “Durante o banho, espalhe o açúcar esfoliante desodorante pelo corpo, em movimentos suaves. Enxágue em seguida.” Portanto, não há qualquer referência à limpeza da pele. A Solução de Consulta nº 98.531 – Cosit, de 2019, definiu que os esfoliantes enquadram-se sob o código NCM 3304.99.90: “ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Código NCM: 3304.99.90 sem enquadramento nos Ex da Tipi Mercadoria: Gel esfoliante para cuidados da pele, aplicado em sacos de plástico em formato que imita meias, próprio para reduzir calosidades e aspereza dos pés (peeling químico), possuindo em sua composição, acessoriamente, substância antisséptica, apresentado em cartucho de cartolina que contém um par, peso líquido de 15 g. Fl. 13522DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 68 Dispositivos Legais: RGI 1 (Notas 1 e) do Capítulo 30 e 3 do Capítulo 33), RGI 6 e RGC 1 da NCM constante da TEC, aprovada pela Res. Camex nº 125, de 2016, e da Tipi, aprovada pelo Dec. nº 8.950, de 2016, e alterações posteriores. Subsídios extraídos das Nesh, aprovadas pelo Decreto nº 435, de 1992, e consolidadas pela IN RFB nº 1.788, de 2018.” De tal modo, correto o procedimento de reclassificação dos cremes esfoliantes, por se tratar de preparações para cuidado da pele, sob o código 3304.99.10, e dos esfoliantes apresentados nas formas de gel, óleo de açúcar ou mel, no código 3304.99.90 da TIPI. 1.3 DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL DOS DESODORANTES COLÔNIA NCM 3307 PARA PERFUMES NCM 3303.00.10 E ÁGUAS-DE-COLÔNIA NCM 3303.00.20 A autoridade fiscal identificou produtos de perfumaria classificados como “desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes – líquidos”, sob o NCM 3307.20.10, enquanto, no seu entender, deveriam ser classificados como águas-de-colônia, no código NCM 3303.00.20, ou perfumes (extratos), no código NCM 3303.00.10. Os produtos referem-se a desodorantes colônia, também denominados deo-colônias, e body splash (ou body spray), caracterizados como “cuidados pós-banho” e “perfumaria”. Em introdução sobre o tema, o Relatório Fiscal traz as diferenciações entre desodorização e perfumação: “Ao passo que desodorizar é retirar odor, perfumar é conferir odor. A aplicação mais comum de um desodorante é nas axilas ou nos pés, mesmo admitindo-se a aplicação em outras partes do corpo. Isso porque são as áreas mais sensíveis à ocorrência de odores desagradáveis. A função principal de um desodorante é retirar esses odores. Fl. 13523DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 69 Já o perfume, recomenda-se aplicar em áreas de maior circulação sanguínea, como atrás das orelhas, pescoço e pulsos. Isso para que a finalidade principal seja maximizada, com o cheiro mais intenso e duradouro. Assim, percebemos que desodorante e perfume possuem finalidades e modos de usar diferentes.” (destaques no original) O primeiro ponto a se analisar, portanto, é se a classificação dos produtos como desodorante está correta. Deste modo expõe o Relatório Fiscal: “Voltando à classificação adotada pelo sujeito passivo para seus produtos de perfumaria, a diferença entre desodorante colônia e os demais se dá em razão da existência de um agente bacteriostático em sua formulação. Nesse caso, a concentração aromática é ignorada pelo sujeito passivo para definir a classificação comercial dos produtos, uma vez que há uma variação de 4 (quatro) a 18% (dezoito por cento) nos desodorantes colônia, o que permitiria enquadrar alguns produtos como água-de-colônia e outros como água de perfume. Isso significa que a classificação “desodorante colônia” se sobrepõe às demais, na visão do sujeito passivo. Como já explicado, a existência de um agente bacteriostático não é suficiente para a classificação de um produto de perfumaria como desodorante. (...)” Em respeito às decisões deste Conselho, a autoridade tributária confrontou as concentrações produto a produto para determinação das classificações entre água-de-colônia e perfume (extrato), conforme posição 33.03 da NCM. De acordo com as informações de registro junto à Anvisa, a concentração aromática dos body splash varia de 1,3% a 9,4% da composição total, portanto, a fiscalização os considerou como águas-de-colônia, nos casos em que a finalidade principal for perfumar a pele. Em seguida, passou a comparar os desodorantes colônia. A recorrente entende que “de forma absolutamente contraditória com o critério adotado para as águas- de-colônia e também sem prova técnica, a autoridade administrativa estabeleceu para os desodorantes colônia como “limite de corte” o percentual de concentração aromática de 10%”. No entanto, a fiscalização esclareceu o critério adotado: “(...) levando-se em conta que as classificações existentes permitem leves variações nesses percentuais e ainda, não menos importante, a jurisprudência existente no CARF, realizou-se a análise individual dos produtos, utilizando-se o percentual de 10% (dez por cento) como a referência inicial a ser seguida.” Este mesmo percentual encontra-se nas decisões das Soluções de Consulta nº 98.465, 98.473 e 98.474, de 2017: Fl. 13524DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 70 “10. No âmbito da Secretaria da Receita Federal e do Ministério da Fazenda, decisões anteriores enquadraram no código tarifário 3303.00.10 (Perfumes (extratos)) produtos com composição aromática (óleo de perfume) em concentração superior a 10% e na posição 3303.00.20 (Águas- de-colônia) produtos com composição aromática em concentração igual ou inferior a 10%.” Não houve estabelecimento de “limite de corte” arbitrário, mas, sim, obediência a um critério objetivo e recorrente do órgão competente para definição sobre normas de classificação de mercadorias. Pois bem. A fiscalização relacionou as marcas comerciais dos desodorantes colônia e suas respectivas concentrações aromáticas. A partir disso, e observando as decisões deste Conselho, no sentido de que apenas a concentração em si, de cada produto em separado, não seria o suficiente para determinar o código mais correto da NCM, restando ao classificador comparar os produtos entre eles para se obter a classificação mais adequada, por meio da semelhança, utilizou-se da Regra Geral de Interpretação 4. Com efeito, os produtos com maior percentual de composição aromática assemelharam-se aos perfumes, enquanto aqueles com concentração de fragrância mais baixa foram classificados como água-de-colônia. Cumpre ressaltar que a fiscalização também observou a proporção de água, de etanol, as instruções de utilização, a capacidade das embalagens (frascos) e os valores comerciais. Pertinente a reprodução das conclusões do Relatório Fiscal sobre a matéria, com destaque para a reclassificação, em alíquota menor do IPI, dos produtos que cujas concentrações aromáticas não foram disponibilizadas, mas que foram inequivocamente identificados como produtos de perfumaria (fls. 73/74): “Pelo modo de usar de cada um dos produtos relacionados, não há dúvidas de serem produtos de perfumaria, classificados no NCM 3303. Os percentuais de concentração aromática, quando superiores a 10% (dez por cento), assemelham-se aos dos eau de parfum comercializados pelo sujeito passivo, uma vez que esses possuem concentrações a partir de 15% (quinze por cento), e devem ser classificados como perfumes, como já explicado. As linhas MALBEC, EGEO, EUDORA KISS ME, EUDORA CHIC e BOTICOLLECTION ANNI possuem produtos com concentração aromática inferior e superior a 10% (dez por cento). Nas linhas EUDORA KISS ME, EUDORA CHIC e BOTICOLLECTION ANNI, a semelhança entre os produtos não permitiu uma diferenciação inequívoca com base na concentração aromática, de modo que todos os produtos dessas linhas devem ser classificados como águas-de-colônia. Fl. 13525DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 71 Alguns “desodorantes colônias”, em razão de não estarem disponíveis todas as informações de concentração aromática, foram classificados como águas-de-colônia. Na linha EGEO, os produtos com concentração aromática a partir de 11,7% (onze inteiros e sete décimos por cento) assemelham-se mais a perfumes, enquanto os produtos até 10% (dez por cento) assemelham-se mais a águas-de-colônia, devendo-se classificá-los dessa forma. A linha MALBEC já foi analisada em detalhes, mantendo-se o Malbec Desodorante Colônia Play 50ml, da linha infantil, e o Malbec Desodorante Colônia Body Splash Black 200ml como as únicas águas-de-colônia. As linhas exclusivamente de águas-de-colônia ou de águas de perfume/perfumes estão segregadas no próprio Anexo III. Todos os desodorantes colônias são, em verdade, produtos de perfumaria. Os produtos em que não havia informação sobre a concentração aromática foram classificados como águas-de-colônia. Diante do exposto, com a comparação inicial das linhas e depois a análise individual de cada uma delas, conclui-se a classificação fiscal dos “desodorantes colônias”, de acordo com a Regra 1, a Regra Geral Complementar 1, a Regra 4 e o texto da posição 33.03 das NESH.” (destaquei) Nesse sentido, nego provimento ao recurso, mantendo integralmente a exigência fiscal derivada da reclassificação dos produtos da recorrente. (...) 2.2 DA EXIGÊNCIA DA MULTA PREVISTA NO CAPUT DO ARTIGO 80 DA LEI Nº 4.502, DE 1964 (...) Oportuno transcrever o que dispõe o art. 80 da Lei nº 4.502, de 1964, a respeito do caso: Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) § 8º A multa de que trata este artigo será exigida: (Incluído pela Lei nº 11.488, de 2007) I - juntamente com o imposto quando este não houver sido lançado nem recolhido; (Incluído pela Lei nº 11.488, de 2007) Fl. 13526DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 72 II - isoladamente nos demais casos. (Incluído pela Lei nº 11.488, de 2007) (destaquei) Vê-se que o caput do dispositivo é bem claro quando pune com a aplicação da multa a falta de lançamento do imposto, o que de fato não ocorreu, estabelecendo, o parágrafo 8º, que a multa será exigida junto com o imposto, quando este não tiver sido lançado ou recolhido (inciso I), porém, cobra-se a multa isoladamente nos demais casos (inciso II), tal qual o presente, quando inexiste imposto a ser lançado ou recolhido, em decorrência da cobertura de créditos. (...) Deste modo, uma vez verificado o erro na classificação fiscal dos produtos, caso constatada a cobertura de crédito do IPI, comina-se a multa prevista no art. 80 da Lei nº 4.502, de 1964, a ser exigida, por desígnio do § 8º do dispositivo em referência, isoladamente, no presente caso. (...) Em relação à desproporcionalidade e ao cunho confiscatório da multa, trata-se de matéria que não pode ser apreciada no âmbito do processo administrativo fiscal, conforme dispõe o Decreto nº 70.235, de 1972, com redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009: Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Tal entendimento encontra-se consolidado neste Conselho, através da Súmula Carf nº 2: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. (...) Desta maneira, deixo de conhecer, em parte, dos argumentos e nego provimento, quanto ao mérito, em relação à aplicação da multa do art. 80 da Lei nº 4.502, de 1964, exigida isoladamente. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por conhecer, em parte, do recurso voluntário, para, na parte conhecida, afastar as preliminares de nulidade e, no mérito, negar-lhe provimento. Fl. 13527DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 73 Logo, alinho-me às razões de decidir acima transcritas e, dessa forma, conheço, em parte, do recurso, para, na parte conhecida, afastar as preliminares arguidas e, no mérito, negar- lhe provimento. No mais, passo a analisar as demais alegações recursais concernentes à reclassificação de produtos que não foram objeto de reclassificação na autuação anterior, bem como à reclassificação de produtos distinta da efetuada na autuação anterior. De acordo com o TVF – Termo de Verificação Fiscal – do auto de infração sob análise, juntado às fls. 27-32, a autoridade fiscal lavrou a autuação em apreço com base na fundamentação constante da aludida autuação anterior (processo n. 10340.721.884/2021-75), consoante a seguir reproduzido: (...) 6. DA RECLASSIFICAÇÃO FISCAL A fiscalização entende que inúmeros produtos enquadrados pela empresa no NCM 3307.20 – Desodorantes (desodorizantes) corporais e antiperspirantes, alíquota fixada em 7%, na verdade devem ser classificados na categoria Perfume, Água de Colônia e Creme Hidrante, alíquotas fixadas, respectivamente, em 42%, 12% e 22%. A fiscalização manteve entendimento igual para algumas saídas de produtos enquadrados pelo fiscalizado saídos sob NCM 3303.00.20 - Águas-de-colônia, alíquota fixada em 12%, que devem ser classificadas, conforme suas características essenciais, como Perfume (extrato) NCM 3303.00.10, alíquota fixada em 42%. A presente auditoria, pela similitude das averiguações e dentro da simetria dos trabalhos, procedeu a extração do Processo Administrativo Fiscal nº 10340.721.884/2021-75, citado anteriormente, AI lavrado em desfavor do estabelecimento matriz da fiscalizada, de peças processuais que, com uma análise minuciosa, justificam as razões das reclassificações de cada produto nesta ação fiscal com, entre outros: as suas características, sua composição, finalidade, rotulagem e a sua função essencial (documentos apensados ao AI). (...) Do exame dos autos, constata-se que a autoridade fiscal não apresentou nenhuma outra fundamentação para a reclassificação de outros produtos que não foram objeto de reclassificação fiscal na autuação anterior nem apresentou fundamentação para justificar a reclassificação fiscal de produtos distinta da considerada pela Fiscalização na autuação anterior. Na peça recursal, juntada às fls. 13054-13195, a recorrente aduz que mais de 320 (trezentos e vinte) produtos reclassificados por meio da autuação em apreço não haviam sido reclassificados na autuação anterior, como os estojos e os desodorantes axilares, e, dessa forma, considerando que a Fiscalização utilizou apenas a fundamentação da autuação anterior, não existe motivação específica para a reclassificação fiscal desses mais de 320 (trezentos e vinte) produtos Fl. 13528DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 74 (vide, notadamente, as razões elencadas na peça recursal, nos itens 5-20, às fls. 13057-13059, e nos itens 81-128, às fls. 13075-13085). A recorrente apresenta exemplos de produtos reclassificados sem motivação específica para tal reclassificação, como o desodorante hidratante “EGEO MERNG MOUS HID DES CPO DOLC 250g V4” (código 28590), que possui a forma de creme, reclassificado para a posição de água de colônia, forma nitidamente líquida; bem como o desodorante hidratante em óleo “NSPA OL DES CPO BAUN 250ml” (código 772080), que possui forma em óleo, reclassificado para a posição de água de colônia. Segundo a recorrente, ambos os produtos, segundo os critérios “emprestados” do auto de infração vinculado ao processo n. 10340.721884/2021-75, deveriam ser reclassificados nas posições 3304.99.10 e 3304.99.90, relativos a produtos para cuidados da pele (fl. 13083). Nos itens 93 a 94 do recurso, a recorrente destaca que os mais de 320 (trezentos e vinte) produtos que não foram objeto de reclassificação fiscal na autuação anterior, relacionados na planilha juntada às fls. 10713-10717 (Doc. 05), perfaz o montante de R$ 214.844.417,19 (duzentos e quatorze milhões, oitocentos e quarenta e quatro mil, quatrocentos e dezessete reais e dezenove centavos), o que corresponde a 37,95% de todo o IPI considerado como devido. Nos itens 319-334 da peça recursal, às fls. 13136-13139, a recorrente sustenta que a reclassificação fiscal dos itens relacionados nessa aludida planilha (Doc. 5) devem ser cancelados, uma vez que não foram objeto de reclassificação fiscal na autuação anterior. Nos itens 412-423 do recurso, atinente aos desodorantes axilares, a recorrente assinala que devem ser canceladas as reclassificações desses produtos, efetuadas apenas na autuação em questão, indicados no Doc. 08, às fls. 10879-10880. No Doc. 09, às fls. 10885-10952, há mais informações e fotos dos produtos em questão. Do exame dos demonstrativos mensais da autuação em tela, elaborados pela autoridade fiscal, juntados às fls. 33-1608, denominados “DEMONSTRATIVO MENSAL DAS SAÍDAS RECLASSIFICADAS POR PRODUTO: IPI LANÇADO, APURADO E A LANÇAR”, juntamente com a planilha que contém a relação dos produtos que foram reclassificados na autuação anterior (processo n. 10340.721884/2021-75), denominada Anexo II – Classificação Fiscal, juntada à fl. 7605, constata-se que, de fato, há a inclusão de produtos que não foram objeto da autuação anterior, vale dizer, há reclassificação fiscal de produtos que não foram reclassificados na autuação anterior. Considerando o elevado número de produtos objeto da autuação em apreço e a alegação da recorrente no sentido de que há inúmeros produtos (mais de 320) reclassificados por meio da autuação em comento sem motivação específica, esta Turma de Julgamento, por meio da Resolução n. 3202-000.393, prolatada na sessão de 17 de setembro de 2024 (fls. 13370-13407), entendeu que é imprescindível manifestação da autoridade fiscal acerca do ocorrido, e, por isso mesmo, converteu o julgamento em diligência, à Unidade de Origem, para que a autoridade fiscal apresentasse as seguintes providências: Fl. 13529DF CARF MF Original https://eprocesso.suiterfb.receita.fazenda/ControleVisualizarProcesso.asp?psAcao=exibir&psNumeroProcesso=15588720318202248 https://eprocesso.suiterfb.receita.fazenda/ControleVisualizarProcesso.asp?psAcao=exibir&psNumeroProcesso=15588720318202248 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 75 1- Indicar a fundamentação para a reclassificação de produtos não reclassificados na autuação anterior e para a reclassificação fiscal de produtos distinta da autuação anterior, mencionados pela recorrente na peça recursal (itens 319-334, às fls. 13136-13139, itens 412-423, às fls. 13166-13169) e discriminados nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10713-10717 (Doc. 5) e às fls. 10879-10880 (Doc. 08), e ainda no documento juntado às fls. 10885-10952 (Doc. 09); 2- Elaborar demonstrativos mensais, nos moldes dos da autuação (juntados às fls. 33-1608), com a discriminação mensal dos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior; 3- Apresentar Relatório Conclusivo a respeito da controvérsia em questão. No entanto, a autoridade fiscal se limitou a sustentar que as ações fiscais são autônomas e, por isso mesmo, segundo ela, restou prejudicado o atendimento ao solicitado por meio da aludida Resolução, conforme Termo de Informação Fiscal (fls. 13413-13414). A recorrente se manifestou, conforme petição juntada às fls. 13420-13441, por meio da qual, em síntese, pleiteia o provimento do recurso voluntário, para cancelamento do auto de infração, em razão, notadamente, de vício material de motivação, ou o retorno dos autos à Unidade de Origem, pata efetivo cumprimento da Resolução n. 3202-000.393. De fato, as ações fiscais referentes ao IPI executadas em estabelecimentos da recorrente são autônomas. No entanto, no caso sob julgamento, após a leitura do Termo de Verificação Fiscal, constata-se que a Fiscalização utilizou tão somente a fundamentação de outra ação fiscal para proceder à reclassificação de vários produtos, alguns objeto da ação fiscal anterior e outros não. Com base nos produtos discriminados pela recorrente nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10713-10717 (Doc. 5) e às fls. 10879-10880 (Doc. 08), e no documento juntado às fls. 10885-10952 (Doc. 09), e por meio da análise dos produtos que foram objeto de reclassificação fiscal na autuação anterior (processo n. 10340.721.884/2021-75), discriminados na planilha denominada Anexo II – Classificação Fiscal, juntada aos autos à fl. 7605, e dos produtos que foram objeto de reclassificação fiscal na autuação em apreço, discriminados nos arquivos denominados DEMONSTRATIVO MENSAL DAS SAÍDAS RECLASSIFICADAS POR PRODUTO: IPI LANÇADO, APURADO E A LANÇAR, acostados às fls. 33-1608, constata-se que, realmente, há produtos que foram reclassificados na autuação em tela e não foram reclassificados na autuação anterior, bem como que há produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior. Como exemplo, constata-se que a classificação fiscal do produto com código da mercadoria 70668, denominado SOPHIE COL HELLO 100ml, classificado pela recorrente no código Fl. 13530DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 76 3303.00.20 – Águas de Colônia – alíquota de IPI de 12%, foi considerada correta na autuação anterior, conforme consta na mencionada planilha denominada Anexo II – Classificação Fiscal, juntada aos autos à fl. 7605, a seguir reproduzido: Na autuação em apreço, sem nenhuma fundamentação específica, a Fiscalização reclassificou esse produto no código 3303.00.10 – Perfumes (extratos), com alíquota de IPI de 42%, e exigiu a diferença de IPI, conforme discriminado no citado DEMONSTRATIVO MENSAL DAS SAÍDAS RECLASSIFICADAS POR PRODUTO: IPI LANÇADO, APURADO E A LANÇAR, à fl. 1564, abaixo reproduzido: A mencionada diligência determinada por esta Turma era exatamente para a autoridade fiscal se manifestar acerca do ocorrido e para, sobretudo, elaborar demonstrativos mensais, nos moldes dos da autuação, com a discriminação mensal dos produtos reclassificados na autuação em comento e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior, para, dessa forma, possibilitar a prolação de decisão com, eventualmente, a especificação de valores lançados que devem ser excluídos do lançamento. No entanto, conforme já assinalado, a autoridade fiscal se limitou a sustentar que as ações fiscais são autônomas e, por isso mesmo, segundo ela, restou prejudicado o atendimento ao solicitado por meio da Resolução n. 3202-000.393. Mesmo assim, entendo que é possível analisar a matéria em tela e julgar o recurso interposto pela recorrente, cabendo à Unidade de Origem a execução do decidido por esta Turma, Fl. 13531DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 77 notadamente a elaboração de demonstrativo com os valores de IPI que, eventualmente, devem ser excluídos da autuação, exatamente nos termos consignados na referida diligência. Passo, então, a analisar a matéria. A classificação fiscal de mercadorias fundamenta-se nas Regras Gerais para a Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH) da Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, nas Regras Gerais Complementares do Mercosul (RGC/NCM), nas Regras Gerais Complementares da Tipi (RGC/TIPI-1), nos pareceres de classificação do Comitê do Sistema Harmonizado da Organização Mundial das Aduanas (OMA) e nos ditames do Mercosul, e, subsidiariamente, nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (NESH). Infere-se que a autoridade fiscal seguiu corretamente as normas aplicáveis à classificação fiscal de mercadorias em relação aos produtos que foram objeto da aludida autuação anterior, ao utilizar, como fundamento para a reclassificação, a fundamentação constante da sobredita autuação anterior. Com efeito, por meio do Relatório Fiscal da autuação referente ao processo 10340.721884/2021-75, juntado às fls. 7257-7602, a Fiscalização, de forma muito bem fundamentada, procedeu à reclassificação de diversos produtos, seguindo corretamente a metodologia disposta na legislação para a classificação fiscal de produtos, notadamente as 6 (seis) Regras Gerais Interpretativas do Sistema Harmonizado (RGI/SH). Além disso, especificou os produtos objeto de reclassificação fiscal, com a apresentação de fotos dos produtos, suas características, como nome comercial, categoria, fragrância, preço e fonte de consulta, apresentou os documentos comprobatórios acerca das características dos produtos (como as informações constantes dos dossiês eletrônicos da Anvisa, fornecidas pela própria recorrente, as informações constantes do sítio da própria recorrente - https://www.boticario.com.br/perfumaria/, doutrina a respeito de classificação fiscal aplicável aos produtos de perfumaria - Perfumes: The A-Z Guide - TURIN, Luca; SANCHEZ, Tania. Profile Books Ltd, 2010), de sorte que há fundamentação consistente para a reclassificação fiscal dos produtos objeto da autuação referente ao 10340.721884/2021-75, tanto que, no julgamento do recurso voluntário interposto nos autos desse processo, na sessão de 23/08/2024, mediante o acórdão n. 3202-001.959, sob a relatoria do eminente conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, esta Turma negou-lhe provimento, conforme já assinalado. Mediante a leitura do Relatório Fiscal da autuação referente ao processo 10340.721884/2021-75, juntado às fls. 7257-7602, infere-se que há fundamentação própria e consistente e, dessa forma, não procede a alegação da recorrente, apresentada na manifestação da diligência (fls. 13429-13434), no sentido de que a autuação referente a esse processo foi fundamentada com base no processo anterior n. 10980.724314/2018-04, cujo recurso voluntário interposto foi julgado pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção deste Conselho, por meio do acórdão n. 3402-012.340, na sessão de 16/10/2024, no sentido de, por maioria, declarar a Fl. 13532DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 78 nulidade da autuação por vício de motivação. A Fiscalização, no Relatório Fiscal do processo n. 10340.721884/2021-75 apenas cita a existência do processo 10980.724314/2018-04, bem como que nesse processo há reclassificação fiscal de produtos com infrações semelhantes às que foram encontradas no processo n. 10340.721884/2021-75, de forma que não utiliza a fundamentação do processo n. 10980.724314/2018-04, ao contrário, apresenta, conforme já destacado, fundamentação própria e consistente para a reclassificação dos produtos especificados. Sendo assim, conclui-se que, na autuação em apreço, os produtos que foram objeto da referida ação fiscal anterior (processo n. 10340.721884/2021-75) foram fundamentados com base na fundamentação constante dessa autuação anterior e, portanto, há fundamentação específica para a reclassificação fiscal desses produtos. Já os que não foram objeto da autuação anterior, não há fundamentação específica para a reclassificação fiscal. Para esses produtos, a Fiscalização se limitou a incluir e realizar a reclassificação fiscal sem nenhuma fundamentação específica. A reclassificação fiscal de cada produto deve ser feita de forma fundamentada, não sendo possível a simples inclusão de determinado produto, sem nenhuma fundamentação específica. É necessário um percurso argumentativo que demonstre de forma clara a razão da reclassificação fiscal de um ou de determinados produtos, como a fundamentação concernente ao processo n. 10340.721884/2021-75. A recorrente apontou detalhadamente na peça recursal os inúmeros produtos incluídos pela Fiscalização sem nenhuma fundamentação específica. Além de produtos reclassificados pela autoridade fiscal por meio da autuação em comento que não foram objeto de reclassificação fiscal na autuação anterior, há ainda produtos que foram reclassificados de forma distinta da mencionada autuação anterior, sem a apresentação, pela autoridade fiscal, de fundamentação específica para essa reclassificação distinta da autuação anterior. Logo, há ausência de fundamentação de parte do lançamento em apreço. Por isso mesmo, em relação apenas à parte do lançamento atinente à reclassificação fiscal de produtos sem apresentação de fundamentação específica pela Fiscalização, há inequívoca violação ao art. 142 do CTN (Código Tributário Nacional), vale dizer, há falta da demonstração do fato gerador da obrigação tributária; ao art. 10, incisos III e IV, do Decreto 70.235/72, ou seja, falta da descrição do fato, disposição legal infringida e penalidade aplicável, e, por fim, evidente preterição ao direito de defesa da autuada (art. 59, inciso II, do Decreto 70.235/72), decorrente da reclassificação fiscal de produtos realizada pela autoridade fiscal sem apresentação de fundamentação específica para tanto. Diante do exposto, dou parcial provimento ao recurso para que sejam excluídos da autuação os valores de IPI concernentes à reclassificação fiscal dos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior, entre os discriminados pela recorrente nas Fl. 13533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.990 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15588.720318/2022-48 79 planilhas juntadas aos autos, às fls. 10713-10717 (Doc. 5) e às fls. 10879-10880 (Doc. 08), e no documento juntado às fls. 10885-10952 (Doc. 09). Conclusão Diante do exposto, conheço, em parte, do recurso voluntário, para, na parte conhecida, afastar as preliminares arguidas e, no mérito, dar parcial provimento, para que sejam excluídos da autuação os valores de IPI concernentes aos produtos reclassificados na autuação em tela e não reclassificados na autuação anterior, bem como dos produtos com reclassificação fiscal distinta da autuação anterior, entre os discriminados pela recorrente nas planilhas juntadas aos autos, às fls. 10713-10717 (Doc. 5) e às fls. 10879-10880 (Doc. 08), e no documento juntado às fls. 10885-10952 (Doc. 09). É como voto. Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira Fl. 13534DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16327.720961/2023-96
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 21 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2018
NULIDADE NÃO EVIDENCIADA.
As garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes foram observadas, de modo que não restou evidenciado o cerceamento do direito de defesa para caracterizar a nulidade dos atos administrativos por vício de motivação,
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2018
PREJUÍZO DE CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPENSAÇÃO.
Os prejuízos acumulados de controlada no exterior poderão ser compensados com os seus lucros futuros, nos termos do art. 77, caput e § 2º, da Lei nº 12.973/2014. Saldos de prejuízo informados na forma e prazo previstos no art. 38 da Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014.
Numero da decisão: 1402-007.493
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, i), por unanimidade de votos, i.i) rejeitar a preliminar de nulidade suscitada; i.ii) negar provimento ao recurso de ofício. ii) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, mantendo os lançamentos, vencido o Conselheiro Ricardo Piza Di Giovanni que dava provimento. O Conselheiro Ricardo Piza Di Giovanni manifestou intenção de apresentar declaração de voto.
Assinado Digitalmente
Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça – Relatora
Assinado Digitalmente
Paulo Mateus Ciccone – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Alexandre Iabrudi Catunda, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonca, Rafael Zedral, Ricardo Piza di Giovanni, Alessandro Bruno Macedo Pinto, Paulo Mateus Ciccone (Presidente).
Nome do relator: MAURITANIA ELVIRA DE SOUSA MENDONCA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2018 NULIDADE NÃO EVIDENCIADA. As garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes foram observadas, de modo que não restou evidenciado o cerceamento do direito de defesa para caracterizar a nulidade dos atos administrativos por vício de motivação, Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018 PREJUÍZO DE CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPENSAÇÃO. Os prejuízos acumulados de controlada no exterior poderão ser compensados com os seus lucros futuros, nos termos do art. 77, caput e § 2º, da Lei nº 12.973/2014. Saldos de prejuízo informados na forma e prazo previstos no art. 38 da Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014.
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As garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes foram observadas, de modo que não restou evidenciado o cerceamento do direito de defesa para caracterizar a nulidade dos atos administrativos por vício de motivação, Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018 PREJUÍZO DE CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPENSAÇÃO. Os prejuízos acumulados de controlada no exterior poderão ser compensados com os seus lucros futuros, nos termos do art. 77, caput e § 2º, da Lei nº 12.973/2014. Saldos de prejuízo informados na forma e prazo previstos no art. 38 da Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, i), por unanimidade de votos, i.i) rejeitar a preliminar de nulidade suscitada; i.ii) negar provimento ao recurso de ofício. ii) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, mantendo os lançamentos, vencido o Conselheiro Ricardo Piza Di Giovanni que dava provimento. O Conselheiro Ricardo Piza Di Giovanni manifestou intenção de apresentar declaração de voto. Fl. 5370DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 2 Assinado Digitalmente Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça – Relatora Assinado Digitalmente Paulo Mateus Ciccone – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Alexandre Iabrudi Catunda, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonca, Rafael Zedral, Ricardo Piza di Giovanni, Alessandro Bruno Macedo Pinto, Paulo Mateus Ciccone (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto em desfavor do Acórdão nº 101-028.643, pela 8ª Turma da DRJ/SPO que julgou procedente em parte a impugnação para efetuar o ajuste nos valores de Prejuízos Fiscais e Base de Cálculo Negativa de CSLL e nas multas regulamentares, e declarar definitivamente julgado no âmbito do contencioso administrativo federal o resultado apurado nas infrações tributárias. Por bem relatar os fatos, adoto o relatório do acórdão de piso: “Trata-se de impugnação (e-fls. 4989/5021) apresentada por BANCO DO BRASIL S.A .(“Impugnante”) em face dos autos de infração de IRPJ, CSLL e Multa Regulamentar (e-fls. 4906/4979) lavrado na Delegacia de Instituições Financeiras da RFB – DEINF – São Paulo, Ano-calendário 2018, com redução de Prejuízos Fiscais (R$517.095.691,89) e Base de Cálculo Negativa de CSLL (R$517.095.691,89) e Multa Regulamentar no valor de R$ 121.572.468,50. Os autos de infração tipificaram as seguintes infrações tributárias: - (1) IRPJ/CSLL: falta de adição ao lucro líquido, para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de resultados auferidos por filiais, sucursais e controladas domiciliadas no exterior. Enquadramento Legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, inciso II, 277 e 278 do RIR/99; arts. 251 e 394 do RIR/99, combinado com o art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/01; art. 1º da Lei nº 9.532/97, com as alterações introduzidas pelo art. 3º da Lei nº 9.959/00 e pelo art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/01; arts. 258, 259, 260, inciso II, 289 e 290 do RIR/18; arts. 265 e 446 do RIR/18, combinado com o art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/01. Enquadramento Legal para a CSLL: art. 2º da Lei nº 7.689/88 com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Lei nº 8.034/90; art. 28 da Lei nº 9.430/96, com redação dada pelo art. 49 da Lei nº 12.715/12; art. 3º, Inciso I, da Lei nº 7.689/88, com redação dada pelo art. 1º da Lei nº 13.169/2015. Fl. 5371DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 3 - (2) Multa pela apresentação da ECF com informações inexatas, incorretas ou omitidas. Enquadramento Legal: art. 16 da Lei nº 9.779/99; .artigo 8º-A do Decreto Lei nº 1.598, de 1977, inc. II (incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) com a redução de 50% prevista no inc. II do § 3º do mesmo artigo. A auditoria fiscal consistiu: 1) na averiguação dos resultados de todas as vinte e nova investidas da Impugnante, que compuseram, ou não, a linha 9.05 -00 Lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, em 2018, tendo sido analisados os saldos dos resultados negativos acumulados, utilizados no abatimento do lucro oferecido à tributação; e 2) no exame da demonstração dos valores nos registros da ECF, criados especificamente para revelar os resultados e controlar os estoques de prejuízos das investidas domiciliadas no exterior A Contribuinte apresentava o seguinte organograma para o Ano-calendário de 2018: Nas intimações efetuadas, foram solicitados à Impugnante a apresentação de Balanços Patrimoniais e Demonstrações de Resultado do Exercício, do Ano- calendário de 2018, de todas as investidas estrangeiras (diretas e indiretas), preferencialmente auditados, quando houvesse, nas respectivas moedas locais, bem como tradução de acordo com a nossa legislação contábil. Para averiguação dos prejuízos, a apresentação de demonstrativo de prejuízos acumulados e utilizados em 2018, contendo memória de cálculo (em moeda estrangeira) de Fl. 5372DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 4 todos os Ano-calendário cujos prejuízos compuseram o saldo considerado para cada investida estrangeira, inclusive para aquelas em relação às quais a fiscalizada optou pela consolidação, e demonstrações financeiras (em moeda original), preferencialmente auditadas, referentes a todos os anos calendário em que houve apuração de prejuízos os quais compuseram os saldos acumulados, utilizados em 2018. Houve pedido de prorrogação do prazo por três vezes, tendo o atendimento integral das intimações ocorrido em 18/10/2022. Foram assim descritas as intimações, respostas da Impugnante e conclusões da autoridade autuante sobre a documentação apresentada: Como resposta à solicitação de entrega de Balanço Patrimonial e Demonstração de Resultado do Exercício, foram entregues relatórios ou balancetes que não seguem a estrutura de demonstração financeira, com contas e subcontas não classificadas e agrupadas para fins de demonstração do lucro ou prejuízo do exercício. Ditas demonstrações estão em idioma estrangeiro, algumas sequer apresentam nome ou descrição das contas, conta de resultado ou totalizadores e, excetuando apenas duas, não apresentam o resultado antes dos tributos sobre o lucro. Além disso, há diversos casos em que, nas “demonstrações”, sequer constam os nomes das investidas ou a informação das moedas em que foram elaboradas. A princípio, não houve entrega de qualquer documento relativo à controlada direta Banco Patagônia S.A. e a suas controladas Banco Patagônia Uruguai, GPAT Compañía Financiera S.A., Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa e Patagônia Inversora S.A. Foram elaborados Termos de Constatação e Intimação Fiscal, por meio dos quais foram relatadas as inconsistências e novamente solicitadas as apresentações de BPs e de DREs, em 31/01/2023, 14/02/2023 e 04/04/2023. Em resumo, as respostas dadas se limitaram a: - Nomear as investidas de acordo com as páginas do dossiê fiscal (resposta de 08/02/2023); - Apresentar o resultado antes dos tributos numa planilha Excel e no registro da ECF (resposta de 08/02/2023); - Alegar procedimento licitatório para tradução, contudo sem informar uma data estimada para cumprimento ou para quais investidas (resposta de 08/02/2023, 22/02/2023, 27/02/2023, 06/03/2023). Em 12/04/2023, houve entrega satisfatória de demonstrações auditadas para as investidas BB Nova Iorque, BB Miami, BB Asset Management e BB USA Service Center. No mesmo ofício, foram dados dois prazos para entrega dos demais documentos pendentes, sem, contudo, especificar quais seriam. Fl. 5373DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 5 Tendo em vista que a Fiscalizada trazia a afirmação de que estava providenciando a tradução, de que havia diligência em curso e procedimento de licitação para atendimento sem, contudo, mencionar para quais e o que estava sendo providenciado, o Termo de Constatação de 27/04/2023 teve por finalidade narrar, resumidamente, as respostas dadas pela Fiscalizada às intimações realizadas no curso da auditoria, para as quais foram constatados atendimento incompleto, incoerências ou inexatidões, bem como consignar os documentos que, até aquela data, ainda não haviam sido entregues. Em 28/04/2023, houve entrega satisfatória de demonstrações auditadas para as controladas indiretas Banco Patagônia Uruguai, GPAT Compañía Financiera S.A., Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa e Patagônia Inversora S.A., e para a subsidiária BB Santiago, referentes ao ano de 2018. Para outras investidas, foi prevista uma data, conforme segue: Em que pese a data prevista para apresentação, posteriormente houve negativa de atendimento para algumas investidas, sob alegação de que “não há obrigatoriedade de apresentação de demonstração auditada pelo regulador local”. Para as investidas BB Lisboa, BB Madri, BBAG Viena, BB Milão, BB Grand Cayman, BAMB e Banco Patagônia, foram juntadas demonstrações consolidadas. Vale salientar que a obrigatoriedade da apresentação de Fl. 5374DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 6 demonstrações de forma individualizada está prevista na Lei n.º 12.972/2014. Transcrevi algumas respostas: Como visto nos dispositivos legais transcritos no tópico 2.1, ainda que não haja normas expressas que regulem a elaboração de demonstrações financeiras no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada, a Fiscalizada não está dispensada de elaborá-las com observância dos princípios contábeis geralmente aceitos, segundo as normas da legislação brasileira, para fins de determinação do lucro real da controladora. Há que se frisar, ainda, que resultados apontados nas ditas “demonstrações” que foram entregues num primeiro momento, e que validavam os valores considerados pela Fiscalizada na determinação do lucro fiscal, não foram corroborados por Demonstrações de Resultado auditadas. É o caso, por exemplo, das investidas BB Santiago, BB Securities Asia Pte. Ltd. e BB América Flóridas. Considerando o que foi exposto, esta auditoria considerou insuficientes e inadequados os documentos entregues como demonstrações financeiras de algumas investidas no exterior, por falta de atendimento aos requisitos legais. Destarte, não foram aceitas como demonstrações financeiras os documentos juntados em 26/08/2022, 05/05/2023, 12/05/2023, 30/05/2023, 16/06/2023 e 19/06/2023, com exceção unicamente das demonstrações auditadas. As irregularidades constatadas foram fartamente relatadas, de forma individualizada, no Termo de Constatação e Intimação Fiscal de 28/08/2023. No que concerne ao demonstrativo com a memória de cálculo dos saldos de prejuízos utilizados, igualmente solicitado em 13/07/2022, e à comprovação Fl. 5375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 7 da existência dos mesmos, parte dos documentos foram apresentados com inconsistências, relatadas no Termos de Constatação e Intimação Fiscal de 10/02/2023 e 18/04/2023, por meio dos quais foram solicitadas novas memórias de cálculo de utilização dos saldos de prejuízos, sendo encaminhado modelo para preenchimento. Tendo em vista as incoerências das informações prestadas nas três planilhas, a omissão ou incorreção nos registros da ECF de 2014 a 2018, especialmente o registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados) e, para tornar ainda mais confuso, o uso indevido da parte B do LALUR, com valores conflitantes dos prejuízos com aqueles das planilhas, não restou alternativa a esta auditoria senão analisar os resultados adicionados ao lucro líquido, no registro M300 da ECF, entre 2014 e 2017, para que se averiguasse a origem e utilização dos saldos de prejuízos em consolidação ou compensação com os próprios lucros. A resposta, de 01/06/2023, mostra irregularidades no preenchimento dos registros da ECF em todos esses anos, bem como o descontrole dos saldos em moeda estrangeira passíveis de serem utilizados em compensações futuras, que serão detalhados mais adiante. Cito exemplos da confusão: a primeira memória de cálculo, entregue em 26/08/2022, indica que a origem do prejuízo da investida Londres seria o ano de 2017, no valor de R$ -305.350.699,64. A segunda memória de cálculo, entregue em 22/02/2023, indica o ano de 2008 como o da apuração do prejuízo utilizado, e que teria sido insuficiente para as compensações feitas em 2017 e 2018. A terceira memória de cálculo, entregue em 05/05/2023, indica que a origem da apuração do prejuízo utilizado estaria no ano de 2016, no valor de $ 288.301.261,89 em moeda local, e que teria havido a utilização de $ 172.348.747,93 em moeda local, o que não confere com o valor considerado na consolidação do mesmo período, que foi de $ 167.337.257,91. Outro exemplo: a investida Madri teria um saldo remanescente de prejuízo apurado em 2015, no valor de R$ 5.034.409,91 na primeira memória de cálculo. Já na segunda, os prejuízos apurados em 2015, 2016 e 2017, não teriam sido utilizados e foram parcialmente compensados em 2018. Já na terceira memória de cálculo, não consta a investida Madri, e a Fiscalizada respondeu que não teria havido compensação de prejuízo desta investida (Resposta de 05/05/2023), em que pese a planilha de 2018 claramente mostrar que o resultado positivo foi anulado por compensação, com saldo de resultado negativo de períodos anteriores. Último exemplo: a investida Santiago, que aparece com um saldo negativo remanescente em 2018 de R$ -10.419.898,37 ($ 1.863.691.355,93 em moeda local), na primeira memória de cálculo, originado nos anos de 2005, 2007 e 2008. A segunda memória de cálculo aponta que, antes de 2005, já Fl. 5376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 8 haveria saldo negativo remanescente, parcialmente utilizado, inclusive para compensar integralmente os resultados de 2012 e 2013, e não aponta utilização dos prejuízos de 2014 e de 2017 em consolidação nos mesmos exercícios, restando, em 2018, $ 4.561.468.498,94 em moeda local. Por fim, a terceira memória de cálculo traz prejuízo a partir de 2005, exaurido em 2012, não mostra as compensações em 2012 e 2013, e mostra utilização dos resultados negativos de 2014 e de 2017 em consolidação, remanescendo saldo zero em 2018. Além dos problemas de provas juntadas pela Fiscalizada, há que se observar que, diante de certos questionamentos e solicitações, no esforço para se tentar compreender os fatos e aceitar a documentação trazida, não foram dadas respostas ou apresentadas provas, por exemplo: de que haveria licitação em andamento, motivo dado desde 26/08/2022 para os inúmeros pedidos de dilação de prazo (Termo de 04/04/2023); acerca da insuficiência de prejuízo apurado pela investida Londres (Termo de 18/04/2023); acerca da não entrega da demonstração financeira da investida Londres referente ao ano de 2015 (Termo de 18/04/2023); acerca da divergência do saldo de prejuízo demonstrado em moeda local e em Reais para todas as investidas (Termo de 18/04/2023), não entrega de demonstrativos assinados pelo Contador ou Representante Legal, apesar de conter campo específico no modelo encaminhado, e a anexação ao dossiê como “cópia simples”, não como documento original (Termo de 18/04/2023); e sobre a não identificação da moeda utilizada nos demonstrativos, em que pese a solicitação contida na planilha modelo (Termo de 18/04/2023). Visando a apuração com segurança dos resultados tributáveis pela controladora no Brasil, foram solicitados, em 28/08/2023, documentos que tivessem amparo nas formalidades exigidas por lei, quais sejam: i) Demonstrações financeiras que mostrem a apuração dos lucros antes e depois da tributação no exterior sobre o lucro, segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio, com identificação da investida e da moeda utilizada; ii) Demonstrações financeiras com contas e subcontas traduzidas em idioma nacional, com valores convertidos para Reais e classificadas segundo as normas da legislação comercial brasileira; iii) Demonstrações financeiras elaboradas com observância dos princípios contábeis geralmente aceitos, segundo as normas da legislação brasileira, caso não haja normas expressas que regulem a elaboração de demonstrações financeiras no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada; para as seguintes investidas: Fl. 5377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 9 Assim, foram entregues, em 18/09/2023, Balanços Patrimoniais e Demonstrações de Resultado do Exercício para as investidas listadas na tabela acima e, apesar de não solicitado, para as investidas BB América, Banco Patagônia Uruguai, GPAT Compañía Financiera S.A., Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa e Patagônia Inversora S.A. Os documentos seguem o mesmo padrão, com identificação da investida, da moeda, com valores na moeda local e em reais, assinadas pelo Contador Geral do Banco do Brasil, Eduardo Cesar Pasa. No que concerne às subsidiárias ou àquelas empresas nas quais a participação da Fiscalizada corresponde a cem por cento, constatou-se que, em alguns casos, os resultados antes dos tributos, nas demonstrações entregues em 18/09/2023 referentes a 2018, não estão de acordo com os valores considerados na ECF e oferecidos à tributação no Brasil. Tais divergências, para mais ou para menos, residem especialmente nos valores dos impostos corrente e diferido. O lucro antes dos tributos sobre a renda da investida BB Américas, apresentado em demonstração financeira auditada, também diverge do lucro apresentado na DRE derradeira entregue em 18/09/2023. Por sua vez, em relação à investida Banco Patagônia e suas controladas (Banco Patagônia Uruguai, GPAT Compañía Financiera S.A., Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa e Patagônia Inversora S.A.), verificou-se que o resultado de cada investida considerado pela Fiscalizada, ao calcular a proporção do lucro ou prejuízo no regime de tributação em bases universais, diverge completamente dos resultados apresentados em demonstrações financeiras auditadas. Fl. 5378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 10 Como visto no tópico 2.1, o lucro a ser considerado é aquele apurado seguindo as normas da legislação do país de domicílio da investida, devendo ocorrer somente uma tradução, em idioma nacional, das contas e subcontas, bem como a classificação segundo as normas da legislação brasileira. Não se trata, portanto, de nova apuração de lucro seguindo critérios nacionais, e sim somente a tradução e classificação de modo que a demonstração seja compreensível pela auditoria fiscal brasileira. Dessa forma, em relação a essas investidas, no presente lançamento serão considerados os resultados apresentados em demonstrações financeiras auditadas, apurados de acordo com a legislação de regência do país de domicílio, nos termos do consignado pelos auditores externos signatários dos relatórios. Por fim, cumpre adiantar que, até a data limite de 30/09/2015, a Fiscalizada demonstrou saldo zero de prejuízo apurado em anos anteriores a 2014, no registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados, artigo 10, IN RFB n.º 1.520/2014). De igual forma, nos prazos estabelecidos para entrega da ECF, a Fiscalizada não demonstrou a acumulação de resultado negativo originado nos anos de 2014 a 2017, no registro X354, passível de ser utilizado em compensações com resultados futuros (artigo 11, § 6º, artigo 14, inciso II, § 1º). Em resumo, para fins de prova, foram aceitas as demonstrações financeiras seguintes, com respectivas traduções, quando for o caso: a) Demonstrações de Resultado auditadas das investidas BB Asset Management Ireland Limited (fl. 1.972); BB Miami (fl. 2.020); BB Nova Iorque (fl. 2.058); BB USA Service Center (fl. 2.108); Banco Patagonia Uruguay SAI.F.E. (fl. 2.226); BB Santiago (fl. 2.265); GPAT Compañía Financiera (fl. 2.350); Patagonia Inversora S.A. (fl. 2.475); Patagonia Valores S.A. (fl. 2.521); BB Americas (fl. 3.402); e Securities Asia Pte. Ltd. (fl. 3.368); Banco Patagônia S.A. (fl. ) b) Demonstrações de Resultado assinadas pelo senhor Eduardo Cesar Pasa, entregues em 18/09/2023, para as demais investidas. No tocante aos saldos acumulados de prejuízos apurados em anos anteriores, diante das inconsistências das memórias de cálculo juntadas pela Fiscalizada (conforme pontuado nos TIFs já mencionados), e no registro X354 das ECFs, adotou-se os seguintes critérios: a) Para as investidas BB Buenos Aires e BB Santiago, referente ao saldo acumulado de prejuízos apurados em anos anteriores a 2014, as afirmações de saldo negativo acumulado divergente ou utilizado em montante superior ao existente estão baseadas na terceira memória de cálculo, apresentada em 05/05/2023, com valores em moeda local; Fl. 5379DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 11 b) De acordo com a terceira memória de cálculo, nenhuma outra investida teria saldo de resultado negativo anterior a 2014 e utilizado em 2018; c) Para o cálculo de saldos de prejuízos remanescentes em 2018, apurados a partir de 2014, foram ignoradas as memórias de cálculo; d) Para o cálculo de saldos de prejuízos remanescentes em 2018, apurados a partir de 2014, foram considerados os resultados positivos da coluna “Total do lucro/prejuízo apurado e disponibilizado” diminuído dos valores da coluna “Valor adicionado ao lucro real em reais –LALUR parte A”, para se obter o saldo de prejuízo eventualmente utilizado para compensar os próprios lucros da investida, em Reais, das planilhas com a composição do valor adicionado no LALUR, a título de resultados auferidos pelas investidas no exterior, entre 2014 e 2017, entregue em 01/06/2023; e) Para o cálculo de saldos de prejuízos remanescentes em 2018, apurados a partir de 2014, foram verificados os resultados negativos da coluna “Total do lucro/prejuízo apurado e disponibilizado” e se ele foi utilizado na consolidação mostrada na coluna “Valor adicionado ao lucro real em reais – LALUR parte A”, em Reais, das planilhas com a composição do valor adicionado no LALUR, a título de resultados auferidos pelas investidas no exterior, entre 2014 e 2017, entregue em 01/06/2023; f) Para as situações dos itens “d” e “e” acima, os valores foram convertidos com a taxa de câmbio mostrada nas mesmas planilhas na coluna “Câmbio”, para se obter o valor em moeda local e, a partir deste, realizar o controle dos saldos, quando existentes; g) Dessa forma, foram ignoradas as informações das colunas “(Prejuízo) Exerc. Anteriores Parte B-LALUR” e “(Prejuízo) Saldo após compensação” da planilha “Composição da linha de adição 9.05 – M300 – 2018”, entregue em Excel em 31/05/2022. Cabe aqui sublinhar que a abordagem dos saldos acumulados de prejuízos, no presente TVF, importa exclusivamente para comprovar que as informações inseridas na ECF, especificamente nos registros X354 e na parte B do LALUR, estão incorretas, posto que foram confrontadas com os próprios controles da Fiscalizada, reproduzidos em planilhas, e não foram originadas em divergência de interpretação da legislação tributária. No que concerne à apuração do IRPJ e da CSLL, para a infração falta de adição ao lucro líquido, para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de resultados auferidos por filiais, sucursais e controladas domiciliadas no exterior, restaram identificadas as seguintes situações: (1) compensação indevida de prejuízos referentes a anos anteriores; (2) valores de resultado não oferecidos à tributação ou oferecidos em valores inferiores; e (3) consolidação de resultado negativo de investida que não atende aos critérios da lei, que serão detalhadas no Quadro 1. Fl. 5380DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 12 Em relação às multas acessórias, para a infração multa pela apresentação da ECF com informações inexatas, incorretas ou omitidas, discorre a autoridade fiscal que a Impugnante entregou ao Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) arquivo relativo à Escrituração Contábil Fiscal (ECF), correspondente ao Ano-calendário de 2018, com informações incorretas no tocante aos resultados registrados e aos estoques de prejuízos fiscais de suas investidas estrangeiras, no que concerne aos registros X351 (Demonstrativo de Resultados), X353 (Demonstrativo de Consolidação) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), divergentes com os valores constantes nos registros com as Demonstrações Financeiras das investidas do ano de 2018 e de anos anteriores, com as planilhas contendo a memória de cálculo da utilização dos saldos de prejuízos, e com as planilhas que detalham a composição dos valores adicionados ao lucro líquido entre 2014 a 2018, na linha “Lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior”. Constatou-se que: a) Para algumas investidas, os resultados positivos ou negativos informados em ECF, do Ano-calendário 2018, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados), não estão de acordo com os lucros ou prejuízos antes dos tributos sobre o lucro das Demonstrações de Resultado entregues a esta auditoria, para mais ou para menos; b) Para todas as investidas indicadas para consolidação dos resultados no registro X340, não foram informados os resultados positivos ou negativos no registro X353 (Demonstrativo de Consolidação) da ECF do Ano-calendário 2018; c) Os resultados negativos de períodos anteriores a 2014 (considerando a opção da Fiscalizada nos termos dos artigos 5º e 6º da IN RFB n.º 1.520/2014), em reais e moeda local, de qualquer investida, não foram declarados até 30/09/2015, no Registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), como determina o artigo 38, § 1º, da IN RFB n.º 1.520/2014; d) Os resultados negativos de períodos anteriores a 2014 não estão sequer de acordo com os próprios registros da Fiscalizada entregues no curso desta auditoria; e) Os saldos negativos acumulados a partir de 2014, em moeda local, não foram declarados no Registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados) no prazo limite para entrega da ECF do respectivo Ano- calendário em que apurados, conforme determina o artigo 38, § 2º, da IN RFB n.º 1.520/2014; f) Os saldos negativos acumulados, em moeda local, não estão sequer de acordo com os próprios registros da Fiscalizada entregues no curso desta auditoria. Fl. 5381DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 13 Apurou-se ainda que a Impugnante teria utilizado indevidamente a parte B do Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR) para “controle” do saldo de prejuízo das investidas no exterior, uma vez que a legislação permite: i) o aproveitamento de resultado negativo somente com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior e, neste caso, antes da conversão em reais, ou ii) excepcionalmente, em consolidação com os resultados de outras investidas indicadas pelo contribuinte, mas em hipótese alguma abater diretamente o lucro apurado no Brasil e, ademais, iii) os saldos de resultados negativos devem ser controlados no registro próprio da ECF (X354). Assim, restou tipificada a multa regulamentar prevista no artigo 8º-A do Decreto Lei nº 1.598, de 1977, inc. II (incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) com a redução de 50% prevista no inc. II do § 3º do mesmo artigo, conforme aduzido pela autoridade fiscal: Por meio do Termo de Constatação e de Intimação de 13/11/2023, a Fiscalizada foi cientificada de todas as inconsistências observadas na mencionada ECF. Com base nos artigos 971 e 972 do RIR/2018, e unicamente para os efeitos do disposto no artigo 8º-A, inciso II do caput, e inciso II, § 3º, do Decreto-Lei n.º 1.598/76, o sujeito passivo foi intimado a retificar a ECF, do Ano-calendário 2018, para corrigir os registros X351 (Demonstrativo de Resultados), X353 (Demonstrativo de Consolidação) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados). A Fiscalizada prontamente atendeu à intimação na íntegra, o que não significa que esteja de acordo com os valores a serem retificados, ou que não discutiria administrativamente, conforme ressalvado no Termo. As tabelas dos Anexos mostram os valores incorretos e aqueles corrigidos por esta auditoria, que foram retificados pelo sujeito passivo, fazendo jus à redução da multa para o percentual de 1,5%. O mesmo Termo de 13/11/2023 cientificou a Fiscalizada da necessidade de excluir os valores referentes aos saldos de prejuízos apurados pelas investidas no exterior informados na parte B do LALUR. De acordo com mensagens enviadas por e-mail, não foi possível zerar os saldos iniciais, tão somente os saldos finais. Dessa forma, será concedida a redução da multa mesmo que a Fiscalizada não tenha conseguido eliminar os valores da parte B do LALUR. Cumpre observar que, para algumas investidas, a Fiscalizada havia entregue ECF retificadora referente a 2017 zerando os saldos finais de algumas contas de controle no LALUR, mas que não foi acompanhado da ECF retificadora referente a 2018, para, igualmente, alterar o saldo inicial para zero, em desrespeito ao artigo 7º, parágrafo 3º, da IN RFB n.º 2.004/2021, que determina que “caso a ECF retificadora altere os saldos das contas da parte B do e-Lalur ou do e-Lacs, a pessoa jurídica deverá retificar as ECF dos anos calendário posteriores, quando necessário para a adequação dos saldos.” Fl. 5382DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 14 O Quadro 1 a seguir apresenta, para cada investida da Impugnante, as infrações tipificadas, relatadas nos correspondentes tópicos do Termo de Verificação Fiscal: Fl. 5383DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 15 Fl. 5384DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 16 Fl. 5385DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 17 Foram lavrados os autos de infração de IRPJ (redução de Prejuízos Fiscais de R$517.095.691,89); CSLL (redução de Base de Cálculo Negativa de CSLL de R$517.095.691,89) e Multa Regulamentar no valor de R$121.572.468,50. Foi dada ciência dos lançamentos de ofício à Impugnante em13/12/2023 (e- fls. 4982). Foi apresentada impugnação em 12/01/2024, com os seguintes tópicos: I. SÍNTESE DOS FATOS II. UTILIZAÇÃO DE PREJUÍZO NÃO INFORMADO NA FORMA E NO PRAZO DADO PELA FISCALIZAÇÃO II.A) BB Buenos Aires II.B) BB Londres II.C) BB Grand Cayman II.D) Brasilian American Merchant Bank - BAMB (ou BBCI Holding) III. COMPENSAÇÃO COM PREJUÍZO INEXISTENTE BB Santiago IV. RESULTADOS DE DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS DIVERGENTES IV. A) Securities Asia Pte. Ltda VI. B) BB Américas VI.C) Banco Patagônia e controladas V. MULTA REGULAMENTAR V.A) Hipótese de cabimento da sanção - Divergência de interpretação - Art. 112 do CTN V.B) Base de cálculo da multa a) Informações registradas na Parte B do LALUR: Multa de R$13.725.104,52 e de R$3.899.328,69 b) Informações na Parte B do LALUR: Multa de R$ 5.185.158,14 (fls. 4976) c) Informações na Parte B do LALUR: Multas de R$ 13.725.104,52, R$ 3.899.328,69 e R$ 5.185.158,14 Fl. 5386DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 18 d) Informação no registro X354 referente à BB Londres e) Informação nos registros X351 e X353 para Banco Patagônia e controladas f) Erro na definição da base de cálculo da multa para o registro referente ao Banco Patagônia Uruguai S.A.I.F.E g) Informações registradas no X351 e X354 i) Do bis in idem - registros X351, X353, X354 e Parte B do LALUR V.C) DA MULTA DE 75% V.D) PRINCÍPIO DO NÃO-CONFISCO No Pedido, manifestou-se a Impugnante: VI. CONCLUSÃO ANTE O EXPOSTO, requer seja acolhida a presente Impugnação para julgar improcedentes os autos de infração objeto do presente processo administrativo e declarar a insubsistência do crédito tributário.” Por sua vez, a 8ª Turma da DRJ/SPO julgou procedente em parte a impugnação, cuja decisão restou assim ementadaꓽ Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018 LUCROS NO EXTERIOR. IRPJ. CSLL. UNIVERSALIDADE. LUCROS. PREJUÍZOS E PERDAS. O art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, afastou o princípio da territorialidade, e introduziu o princípio da universalidade para a tributação dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por investidas (controladas, coligadas, filiais e sucursais), para o IRPJ. O § 5º do mesmo art. 25 dispôs sobre aproveitamento de prejuízos e perdas na apuração dos resultados das investidas no estrangeiro, que, no entanto, não podem ser compensados com lucros auferidos no Brasil. A apuração da CSLL adotou o princípio de universalidade na tributação dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior a partir do art. 21 da MP nº 2.158-35, de 2001. RESULTADOS AUFERIDOS NO EXTERIOR. INVESTIDAS. CONTABILIZAÇÃO. Na contabilização dos resultados auferidos no exterior, a pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil ou a ela equiparada, deverá registrar em subcontas da conta de investimentos em controlada direta no exterior, de forma individualizada, o resultado contábil na variação do valor do investimento equivalente aos lucros ou prejuízos auferidos pela própria controlada direta e suas controladas, direta ou indiretamente, no Brasil ou no exterior, relativo ao Fl. 5387DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 19 Ano-calendário em que foram apurados em balanço, observada a proporção de sua participação em cada controlada, direta ou indireta. INVESTIDAS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS. APROVEITAMENTO DE PREJUÍZOS. FORMA INDIVIDUALIZADA. CONSOLIDAÇÃO EXCEPCIONAL ATÉ ANO- CALENDÁRIO DE 2024. PROCEDIMENTOS ESTABELECIDOS PELA RFB. I - A parcela do ajuste do valor do investimento em controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior equivalente aos lucros por ela auferidos antes do imposto sobre a renda, excetuando a variação cambial, deverá ser computada na determinação do lucro real e na base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil, de forma individualizada. II - O prejuízo acumulado da controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior referente aos anos calendário anteriores à produção de efeitos desta Lei poderá ser compensado com os lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, de forma individualizada, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB, com apresentação de Demonstrativo de Prejuízos Acumulados, cujo descumprimento impede o aproveitamento para compensação com lucros futuros. III - Até o Ano-calendário de 2024, os resultados auferidos por investidas no exterior, opcionalmente, poderão ser considerados de forma consolidada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil, excepcionadas as parcelas referentes às pessoas jurídicas investidas dispostas nos incisos I, II, III e IV do art. 78 da Lei nº 12.973, de 2014, com redação dada pela Lei nº 14.547, de 2023. A consolidação deverá conter a demonstração individualizada em subcontas e a demonstração das rendas ativas e passivas na forma e prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, cujo descumprimento impede o aproveitamento para compensação com lucros futuros. IV - Quando não houver consolidação, a parcela do ajuste do valor do investimento em controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior equivalente aos lucros ou prejuízos por ela auferidos deverá ser considerada de forma individualizada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil. Sendo negativo o resultado, poderá ser compensado, exclusivamente, com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados na forma e prazo estabelecidos pela RFB, cujo descumprimento impede o aproveitamento para compensação com lucros futuros. CSLL. MESMOS FATOS E PROVAS. Amparado no mesmo suporte fático e elementos de prova, o decidido para IRPJ deve ser aplicado à CSLL. Fl. 5388DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 20 Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2018 MULTA REGULAMENTAR. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DECLARAÇÃO. PRESTAÇÃO INCORRRETA DE INFORMAÇÕES EM DECLARAÇÃO. INTIMAÇÃO ATENDIDA PARA APRESENTAR RETIFICADORA. REDUÇÃO DA PENALIDADE. I - A multa regulamentar vem tutelar o devido cumprimento da obrigação acessória, impondo sanções para quem não cumprir ou cumprir inadequadamente (entrega com atraso, omissões, incorreções, dentre outros) o encargo. II - A imputação da norma tributária em análise é de ordem objetiva, e não comporta aspecto subjetivo de conduta, não cabendo apreciação de culpabilidade, ou existência de boa-fé. Para a tipificação da conduta, basta a sua ocorrência, concretizando-se plenamente a hipótese de incidência. III - O envio de Escrituração Contábil Fiscal com inexatidões, incorreções ou omissões nos registros X351, X353 e X354 e controle indevido da Parte B do LALUR materializam conduta que deve ser sancionada. IV - Dispõe o art. 8º-A, caput, inciso II, do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, incluído pela Lei nº 12.973, de 2014, que o sujeito passivo que apresentar com inexatidões, incorreções ou omissões o livro de apuração do lucro real entregue em meio digital, ficará sujeito à imposição de multa regulamentar no percentual de 3% (três por cento), não inferior a R$ 100,00 (cem reais), sobre o valor omitido, inexato ou incorreto. O inciso II do § 3º do art. 8º-A, do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, incluído pela Lei nº 12.973, de 2014, predica que a penalidade será reduzida em 50% (cinquenta por cento) se forem corrigidas as inexatidões, incorreções ou omissões no prazo fixado em intimação encaminhada no decorrer da ação fiscal. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2018 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Ausência de contestação constitui-se em matéria não impugnada, vez que não foi expressamente contestada, consoante art. 17 do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF). Resta definitivamente julgada no âmbito do processo administrativo tributário federal. CONSTITUCIONALIDADE. LEGALIDADE. CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO FEDERAL. PRONUNCIAMENTO. INCOMPETÊNCIA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Fl. 5389DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 21 Discordando parcialmente da decisão, a Recorrente apresentou recurso voluntário aduzindo a ocorrência de nulidade, em sede de preliminar, e, no mérito, reproduzindo os argumentos veiculados em sede de impugnação, requerendo-se o provimento do presente recurso, para fins de, reformando a decisão recorrida, declarar a improcedência do lançamento e a consequente insubsistência do crédito tributário. É o relatório. VOTO Conselheiro Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça, Relator DA ADMISSIBILIDADE RECURSAL Recurso Voluntário O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, inclusive para os fins do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional. Portanto, dele tomo conhecimento. Recurso de Ofício Conforme já relatado, o acórdão de piso julgou procedente em parte a impugnação, para: 1) Alterar a glosa do ajuste no Prejuízo Fiscal (IRPJ) e do ajuste na Base de Cálculo Negativa (CSLL) conforme Quadro 9: 2) Alterar as multas regulamentares conforme Quadro 10: Fl. 5390DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 22 3) declarar definitivamente julgado no âmbito do contencioso administrativo federal o resultado apurado nas infrações tributárias relacionadas no Quadro 2 e Quadro 3, abaixo reproduzidos: Fl. 5391DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 23 Fl. 5392DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 24 Portanto, verifico que o crédito tributário cancelado nestes autos, supera o montante definido na Portaria MF nº 2/2023, D.O.U de 18/01/2023 (seção 1, página 14 - R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais)1. Deste modo, o Recurso de Ofício deve ser conhecido. DELIMITAÇÃO DA LIDE Considerando as matérias não impugnadas e a decisão da DRJ que deu provimento parcial à impugnação da Recorrente, a matéria controvertida refere-se às glosas mantidas de parte dos valores referentes à suposta falta de adição ao lucro líquido dos resultados auferidos pela Recorrente no exterior, por meio de suas filiais e controladas, relativos ao Ano-calendário de 2018, para fins de determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, bem como à multa pela entrega de ECF contendo informações supostamente incorretas. 1 Sobre o limite de alçada, tem-se que sua verificação em face de Decisão da DRJ favorável ao contribuinte, ocorre em dois momentos: primeiro na Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ),para fins de interposição de Recurso de Ofício, no momento da prolação de decisão favorável ao contribuinte, observando-se a legislação da época, e segundo no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), para fins de conhecimento do Recurso de Ofício, quando da apreciação do recurso, em Preliminar de Admissibilidade, aplicando-se o limite de alçada então vigente. É o que está sedimentado pela Súmula Carf nº 103, assim ementada: “Súmula CARF nº 103: Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância”. Fl. 5393DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 25 SÍNTESE DOS FATOS Conforme já relatado, trata-se de lançamento relativo a lucros no exterior, sob a vigência da Lei nº 12.973, de 2014, ante constatação da ocorrência das seguintes infrações apuradas para o ano-calendário 2018: a) IRPJ/CSLL: falta de adição ao lucro líquido, para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de resultados auferidos por filiais, sucursais e controladas domiciliadas no exterior; b) Multa pela apresentação da ECF com informações inexatas, incorretas ou omitidas. Nesse contexto, a auditoria se resumiu na averiguação dos resultados de todas as 29 investidas, que compuseram, ou não, a linha 9.05 – Lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, em 2018, o que implicou na análise de saldos dos resultados negativos acumulados, utilizados no abatimento do lucro oferecido à tributação. A auditoria também examinou a demonstração dos valores nos registros da ECF, criados especificamente para revelar os resultados e controlar os estoques de prejuízos das investidas domiciliadas no exterior. Destaque-se que, para cada investida, a fiscalização apresentou os resultados que divergem dos valores originalmente adicionados – ou não – ao lucro líquido na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Nessa toada, em suma, conforme o TVF, a Recorrente não teria adicionado à base de cálculo do IRPJ e CSLL parte do resultado de filiais, sucursais e controladas no exterior, incorrendo no descumprimento da Lei 12.973/2014, dando origem à lavratura de auto de infração para exigir o respectivo pagamento de IRPJ/CSLL correspondente a fatos geradores ocorridos em 2018. Houve, ainda, o lançamento de multa por apresentação de ECF com informações inexatas, incorretas ou omitidas. A Recorrente apresentou impugnação parcial ao auto de infração. De acordo com a decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento, as infrações relativas às seguintes filiais e controladas não foram objeto de impugnação: BB Assunção (Paraguai), BB Asset Management Ireland, BB Madri, BB Securities LLC NY, BB USA Holding Company, BB Santa Cruz (Bolívia), BB Nova Iorque, BB Frankfurt, BB Tóquio, BB Miami, BB USA Service Center, BB Lisboa, BB Viena, BB Milão, BB Paris, BB Securities LTD, BB Xangai. Restaram as infrações relativas às seguintes filiais e controladas: BB Buenos Aires; BB Londres; BB Grand Cayman; BBCI Holding (ou Brazilian American Merchant Bank – BAMB); BB Santiago; Securities Asia Pte Ltd; BB Americas Florida; Banco Patagônia S.A. e Controladas Diretas: Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa. Fl. 5394DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 26 Após análise da impugnação, a DRJ, por meio do Acórdão recorrido, julgou-a parcialmente procedente para determinar ajustes nos valores de prejuízos fiscais, na base de cálculo negativa da CSLL e nas multas regulamentares aplicadas, nos seguintes termos já mencionados. Dessa maneira, restaram mantidas as glosas de parte dos valores referentes à suposta falta de adição ao lucro líquido dos resultados auferidos pela Recorrente no exterior, por meio de suas filiais e controladas, relativos ao ano-calendário de 2018, para fins de determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; assim como mantida, parcialmente, a imposição de multa pela entrega de ECF contendo informações supostamente incorretas. Em síntese, acórdão de piso, com relação à alegada falta de adição dos resultados auferidos no exterior, ratificou-se parcialmente as conclusões da Auditoria da RFB no sentido de que a Recorrente: i) teria efetuado compensações indevidas de prejuízos acumulados de anos anteriores; ii) não teria oferecido valores à tributação ou oferecido menos do que o devido; iii) teria consolidado resultados de investidas em desconformidade com os critérios da lei. Quanto à multa acessória, confirmou-se parcialmente o lançamento, ao argumento de que a ECF referente ao Ano-calendário de 2018 apresentaria informações incorretas acerca dos resultados e dos estoques de prejuízos das investidas estrangeiras, identificadas nos Registros X351 (Demonstrativo de Resultados), X353 (Demonstrativo de Consolidação) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados). Ainda em relação à sanção pecuniária, aponta a utilização supostamente indevida da Parte B do o Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR) para controle do saldo de prejuízos acumulados das investidas no exterior. Em sede recursal, argumentou a Recorrente que a manutenção do lançamento, contudo, decorrera de equívocos na interpretação da legislação tributária e na interpretação da prova documental apresentado nos autos, a ensejar a limitação ilegítima no aproveitamento de créditos líquidos e certos, bem como na penalização injusta, desproporcional e desarrazoada do Sujeito Passivo. Isso porque, de acordo com a Recorrente, em 2019, entregou declaração retificadora, no qual teria demonstrado a existência de estoques de prejuízos do período de 2005 a 2013, ao contrário do afirmado pela fiscalização (e mantido pela DRJ) de que (i) não houve declaração de prejuízos acumulados anteriores a 2014 até a data limite de 30/9/2015 e (ii) houve prejuízo em 2016, que foi consumido. Às e-fls. 5340-5356, a PGFN apresentou suas contrarrazões ao recurso voluntário, pugnando pela manutenção integral da decisão de primeira instância. Fl. 5395DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 27 ANÁLISE DO RECURSO VOLUNTÁRIO Para melhor compreensão da matéria em discussão, elaborei o seguinte quadro com a síntese dos argumentos elencados pela Recorrente, em sede recursal, e pela PGFN em suas contrarrazões: Tese Argumentos do Contribuinte (Banco do Brasil) em-RV BB Contrarrazões da PGFN (CR PGFN BB) Aproveitamento de Prejuízos Acumulados no Exterior Anteriores à Lei nº 12.973/2014 O caráter preclusivo do prazo (Art. 38 IN RFB nº 1520/2014 é ilegal não se coaduna com a faculdade de retificação de obrigações acessórias (Art. 147, parágrafo 1º do CTN) e com o princípio da primazia da verdade material. A supressão do direito por um mero vício formal é desproporcional e contrária à finalidade da TBU de evitara a bitributação internacional. Os prejuízos foram informados via declaração retificadora, validando os aspectos materiais e formais. O Art. 77 parágrafo 2º da Lei nº 12.973/2014 e o Art. 38 da In RFB nº 1520/2014 estabelecem uma regra de direito material que cria um limite de forma e tempo para o aproveitamento dos prejuízos. A falta de informação no prazo determinado pela RFB impede o aproveitamento sendo uma medida de política fiscal constitucional. Apuração de Lucros/Prejuízos (Provisões para perdas de Crédito A metodologia de classificação de operações de crédito (Resolução CMN nº 2.682/1999 é aceita pelas autoridades fiscais locais (e.g. Reino Unido). Não houve modificação do balanço para as normas brasileiras, mas sim apuração conforme os critérios aceitos na jurisdição de domicílio. Ilhas Cayman reconhecem padrões contábeis internacionais (inclusive BR GAAP) e a supervisão consolidada implica aceitação do padrão da controladora. Os lucros dever ser apurados estritamente pelas normas da legislação comercial do país de domicílio (ART. 25, parágrafo7º da Lei 9245/95). A Resolução CMN nº 2.682/1999 é norma brasileira e não se aplica a filiais no exterior. A aceitação da declaração pela autoridade local não prova conformidade com a legislação comercial para fins de tributação brasileira. A política de supervisão (CIMA) não determina a apuração do lucro conforme as regras brasileiras. Multas Regulamentares (Incorreções na ECF e Uso Indevido da Parte B do LALUR) A metodologia do contribuinte para apuração do lucro a ser tributado considera o lucro líquido da DRE acrescido dos tributos correntes e exclui os valores de tributos diferidos em conformidade com o Art. 9º da IN RFB nº 1520/2014 A fiscalização cumpriu o Art. 9 da IN RFB nº 1520/2014 ao considerar o lucro antes do imposto de renda, conforme apurado e demonstrado pelo contribuinte em balanços auditados. A PGFN não refuta diretamente a exclusão de tributos diferidos como um erro, mas sim a divergência dos valores finais apresentados pelo contribuinte em relação aos aditados. Multas Regulamentares (Incorreções na ECF e Uso Indevido da A multa cabe para informação “desconectada da realidade dos fatos”, não por divergência de entendimento jurídico sobre o tratamento tributário. A ECF deve A multa é de ordem objetiva, ou seja, a tipificação da conduta basta pela sua ocorrência não havendo apreciação de culpabilidade ou boa fé. As inconsistências nos registros X351, X353 e X354 da EDF e o Fl. 5396DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 28 Parte B do LALUR) refletir a contabilidade do contribuinte, a “realidade imposta pela fiscalização”. A multa é uma sanção política e inconstitucional, violando os princípios da proporcionalidade e razoabilidade. Há bis in idem e deve-se aplicar o princípio da consunção para penalidades sobre o mesmo fato (ex. registros X354 e Parte B do LALUR) e sobre a mesma base (IRPJ e CSLL). O registro de prejuízos na Parte B do LALUR para controle não é vedado e encontra previsão no RIR/2018 (Art. 277) uso indevido da Parte B do LALUR são inconsistências factuais (conflito entre a ECF e os próprios controles internos do contribuinte), e não “questões interpretativas”. O cumprimento da obrigação acessória é legalmente obrigatório e a multa visa estimular tal cumprimento. Falta de Motivação da Decisão de Primeira Instância A DRJ não analisou as alegações da impugnação, apenas transcrevemos o relatório fiscal, o que configura vício de motivação (art. 50 da Lei nº 9.784/90) demarcando o retorno dos autos para novo julgamento. (As contrarrazões da PGFN não se manifestam diretamente sobre a alegação de falta de motivação da DRJ, concentrando-se não se na defesa do mérito da decisão e alegando que o contribuinte não infirmou os fatos apontados pela fiscalização. PRELIMINARMENTE Preliminarmente, alega a Recorrente que as referências à prova documental (especialmente as DRE´s e ECFs) e as planilhas de cálculo apresentados na Impugnação foram completamente ignoradas na decisão recorrida., tendo a DRJ se limitado a transcrever trechos do TVF, na e-fls. 5.215, para concluir pela adequação da conclusão da fiscalização. Entendeu a Recorrente que, dessa forma, a DRJ não teria se desincumbido do seu dever de motivação, previsto no art. 50, da Lei nº 9.784/1990, vez que deixara de enfrentar os argumentos do sujeito passivo (reproduzidos acima), suprimindo a dialética (que marca o processo em contraditório) e deixando de apresentar as razões do seu convencimento. Porém, tal alegação não se enquadra nas hipóteses de nulidade no art. 59, inciso II, do Decreto nº 70.235, de 1972, que rege a matéria: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam consequência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. Fl. 5397DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 29 § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (Destacou-se) Ora, pela análise da decisão de piso e do próprio recurso voluntário, é possível constatar que em momento algum houve preterição do seu direito de defesa e do exercício do contraditório na medida em que todos os documentos foram analisados, bem como os argumentos da Recorrente devidamente examinados, tanto é que foi dado provimento parcial à sua impugnação. De fato, o enfrentamento das questões na peça de defesa denota perfeita compreensão da descrição dos fatos e dos enquadramentos legais que ensejaram os procedimentos de ofício, que foi regularmente analisado pela autoridade de primeira instância (inciso LIV e inciso LV do art. 5º da Constituição Federal, art. 6º da Lei nº 10.593, de 06 de dezembro de 2001, art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 59, art. 60 e art. 61 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Ademais, a decisão administrativa não precisa enfrentar todos os argumentos trazidos na peça recursal sobre a mesma matéria, principalmente quando os fundamentos expressamente adotados são suficientes para afastar a pretensão da Recorrente e arrimar juridicamente o posicionamento adotado. Sobre a matéria, cabe indicar o entendimento emanado em algumas oportunidade pelo Supremo Tribunal Federal : Não há falar em negativa de prestação jurisdicional quando, como ocorre na espécie vertente, "a parte teve acesso aos recursos cabíveis na espécie e a jurisdição foi prestada (...) mediante decisão suficientemente motivada, não obstante contrária à pretensão do recorrente" (AI 650.375 AgR, rel. min. Sepúlveda Pertence, DJ de 10-8-2007), e "o órgão judicante não é obrigado a se manifestar sobre todas as teses apresentadas pela defesa, bastando que aponte fundamentadamente as razões de seu convencimento" (AI 690.504 AgR, rel. min. Joaquim Barbosa, DJE de 23-5-2008).[AI 747.611 AgR, rel. min. Cármen Lúcia, j. 13-10-2009,1ª T, DJE de 13-11-2009.] =AI 811.144 AgR, rel. min. Rosa Weber, j. 28-2-2012, 1ª T, DJE de 15-3-2012 = AI 791.149 ED, rel. min. Ricardo Lewandowski, j. 17-8-2010, 1ª T, DJE de 24-9-2010 (grifos do original) Verifica-se, pois, que as garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes foram observadas, de modo que não restou evidenciado o cerceamento do direito de defesa para caracterizar a nulidade da decisão recorrida O que se pode concluir é que a Recorrente está inconformada com a decisão administrativa no mérito, mas tal questão não dá azo à declaração de nulidade de sua nulidade. MÉRITO Consoante sobejamente explicado, foram mantidas, pelo acórdão de piso, as glosas de parte dos valores referentes à suposta falta de adição ao lucro líquido dos resultados auferidos Fl. 5398DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 30 pela Recorrente no exterior, por meio de suas filiais e controladas (Investida Consolidada (Buenos Aires, Londres, , Grand Cayman, Brasilian American Merchant Bank – BAMB (ou BBCI Holding), Santiago, Securities Asia Pte Ltd., BB Americas Florida), relativos ao ano-calendário de 2018, para fins de determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; assim como mantida a imposição de multa pela entrega de ECF contendo informações supostamente incorretas. Outrossim, no tocante à falta de adição dos resultados auferidos no exterior, ratificou-se parcialmente as conclusões da Auditoria da RFB de que Recorrente: a) teria efetuado compensações indevidas de prejuízos acumulados de anos anteriores; b) não teria oferecido valores à tributação ou oferecido menos do que o devido; c) teria consolidado resultados de investidas em desconformidade com os critérios da lei. Dessa forma, a fiscalização desconsiderou compensações de prejuízos em diversos casos (como BB Buenos Aires, BB Londres, BB Grand Cayman, BBCI Holding, BB Santiago) justamente pela falta de informação desses saldos na forma e prazo previstos. Em alguns casos, a glosa também se deu pela apuração dos prejuízos com base em normas contábeis brasileiras (Resolução CMN nº 2.682/1999) e não na legislação comercial do país de domicílio da investida, conforme exigido pela Lei nº 9.249/95, Art. 25, § 7º. Assim sendo, constatou a autoridade fiscal que a Recorrente, na apuração do resultado da investidas consolidadas, mencionadas anteriormente, incorreu na infração tributária Saldo de prejuízos não informado de acordo com os artigos 10, 11, § 6°, e 38, IN RFB n° 1.520, de 2014: “Art. 10. O prejuízo acumulado da controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior, referente aos anos-calendário anteriores à 1º de janeiro de 2015 poderá ser compensado com os lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que sejam informados na forma e prazo previstos no art. 38. § 1º A pessoa jurídica que fizer a opção prevista na Seção II do Capítulo I poderá utilizar o prejuízo acumulado referente aos anos-calendário anteriores à 1º de janeiro de 2014. § 2º O valor do prejuízo acumulado passível de compensação com lucros futuros será proporcional à participação em cada controlada no exterior. § 3º A compensação do prejuízo acumulado com os lucros futuros da mesma controlada no exterior será efetuada antes de sua conversão em Reais. § 4º A compensação de prejuízo acumulado no exterior com lucros futuros da mesma pessoa jurídica não está sujeita ao limite previsto no art. 15 da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. Art. 11. Até o ano-calendário de 2022, as parcelas de que trata o art. 9º poderão ser consideradas de forma consolidada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil. Fl. 5399DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 31 (...) § 6º Após a consolidação, o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deram origem, desde que sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior conforme art. 38. (...) Art. 38. O Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior conterá, no mínimo, as seguintes informações: I - identificação de cada controlada, direta ou indireta, ou equiparada; II - o país de domicílio da controlada, direta ou indireta, e da equiparada; III - o resultado negativo, em moeda do país de domicílio e em Reais, da controlada de períodos anteriores a: a) 2014, para os optantes nos termos da Seção II do Capítulo I; e b) 2015, para os demais; IV - o valor do resultado negativo do período em Reais e na moeda do país de domicílio da controlada; V - o resultado negativo acumulado de anos anteriores da própria controlada utilizado na compensação na moeda do país de domicílio; VI - o resultado negativo do período utilizado na consolidação na moeda do país de domicílio; e VII - o saldo de resultado negativo acumulado na moeda do país de domicílio”. Foi apurado resultado positivo pela investida, que não foi adicionado ao lucro líquido para a apuração do lucro real porque a Impugnante efetuou compensação de prejuízos de anos anteriores da própria investida. Ocorre que, para se dar o aproveitamento dos prejuízos acumulados de anos- calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015, caberia a transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior (previsto no art. 38 da IN RFB nº 1.520, de 2014) ao SPED (Sistema Público de Escrituração Digital) até 30 de setembro de 2015 (§1º do art. 38 da IN RFB nº 1.520, de 2014). O prazo estabelecido pela instrução normativa encontra previsão legal no § 2º do art. 77 da Lei nº 12.973, de 2014, que determina que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. Na mesma medida, dispõe o § 6º do art. 11 da mesma instrução normativa que, após a consolidação das investidas (autorizada até o ano-calendário de 2024), o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deram origem, desde que sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior. Fl. 5400DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 32 Fl. 5401DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 33 E, nos presentes autos, é fato incontroverso que a Recorrente não encaminhou, até a data limite de 30/09/2015, os Demonstrativos de Prejuízos Acumulados no Exterior ao SPED. Portanto, a questão cinge-se à discussão, principalmente, do art. 77, caput e § 2º, da Lei nº 12.973/2014, que dispõe a respeito da compensação dos lucros futuros da controlada com os estoques de prejuízos, da seguinte forma: Art. 77. A parcela do ajuste do valor do investimento em controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior equivalente aos lucros por ela auferidos antes do imposto sobre a renda, excetuando a variação cambial, deverá ser computada na determinação do lucro real e na base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil, observado o disposto no art. 76. § 2º O prejuízo acumulado da controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior referente aos anos-calendário anteriores à produção de efeitos desta Lei poderá ser compensado com os lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. Veja-se que o § 2º do art. 77 do diploma normativo autorizou a utilização do “prejuízo acumulado da controlada” para compensar os lucros futuros da mesma pessoa jurídica, “desde que os estoques de prejuízos” fossem informados de acordo com o estabelecido pela Receita Federal. A apresentação desta informação foi regulamentada pelos arts. 10, 11, § 6° e 38 da Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014, segundo os quais o contribuinte deve preencher, na sua Escrituração Contábil Fiscal (ECF), o Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior (DPAE): Assim, como bem constatado pela fiscalização e pelo julgador de primeira instância, no presente caso, não entrega da informação referente ao prejuízo acumulado antes de 2015 no prazo estabelecido na Instrução Normativa nº 1.520/2014 – independentemente da existência do prejuízo, do controle do seu estoque e da entrega da informação em retificadora – teria ensejado a perda do direito de compensação. Eis o trecho da decisão em comento (e-fls. 5212): “Não lhe assiste razão. O prazo para entrega dos saldos de prejuízos acumulados de anos-calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015, tem previsão legal. A lei tributária delegou expressamente competência à Receita Federal o estabelecimento da forma e prazo para disponibilização das informações, cabendo a transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior para a ECF até 30/09/2015 (Tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais” do presente voto). Não se trata de rigor ou excesso. Pelo contrário. Trata-se de cumprimento à legislação tributária, que determina a forma e prazo para cumprimento de obrigações acessórias. A liberalidade da Impugnante de descumprir, de maneira Fl. 5402DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 34 voluntária e injustificada, disposição literal da norma, não encontra amparo no sistema jurídico”. Em suma, a Lei nº 12.973/2014, em seu art. 77, § 2º, estabeleceu que o prejuízo acumulado de controladas ou coligadas no exterior poderia ser compensado com os lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. Por seu turno a Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014, em seu art. 38, § 1º, especificou que para prejuízos acumulados anteriores a 1º de janeiro de 2015, o Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior (DPAE) deveria ser transmitido ao SPED até 30 de setembro de 2015. O § 3º do mesmo artigo foi categórico ao afirmar que "a falta de informação dos estoques de prejuízos acumulados na forma e prazo estabelecidos neste artigo impede o seu aproveitamento para compensação com lucros futuros". Portanto, o prazo de 30/09/2015 é uma condição material para o aproveitamento dos prejuízos, e não meramente uma regra processual. Repise-se: o art. 77 parágrafo 2º da Lei nº 12.973/2014 e o art. 38 da In RFB nº 1520/2014 estabeleceram uma regra de direito material que criaram um limite de forma e tempo (prazo peremptório, para o aproveitamento dos prejuízos. A falta de informação no prazo determinado pela RFB impede o aproveitamento sendo uma medida de política fiscal constitucional. Logo, não há razão para reforma do acórdão de piso. Inclusive, em 18 de fevereiro de 2025, este Tribunal no mesmo sentido: PREJUÍZO DE CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPENSAÇÃO. Os prejuízos acumulados de controlada no exterior poderão ser compensados com os seus lucros futuros, nos termos do art. 77, caput e § 2º, da Lei nº 12.973/2014. Saldos de prejuízo informados na forma e prazo previstos no art. 38 da Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014. Inexistência de lucros no exterior. (Acórdão nº 1301-007.737, Relator: Rafael Taranto Malheiros, Data da Sessão: 18/02/2025) Outro ponto que milita em desfavor da Recorrente é a ausência de comprovação de prejuízos no exterior. Ora, planilhas que não batem umas com as outras e com os valores declarados, demonstrações sem a menor formalidade, sem tradução, sem indicação da moeda, etc., não corroboram para a necessária comprovação dos prejuízos em questão. Ademais, não se pode deixar de frisar questão da utilização de regras brasileiras, quando a norma determina a utilização das normas da jurisdição da coligada/controlada. De fato, a legislação de TBU prevê que o lucro da controlada/coligada deverá ser apurado conforme as regras contábeis da jurisdição da coligada/controlada. O que a Recorrente alega é que, no caso de Cayman, a legislação local admite a possibilidade de o lucro contábil daquela entidade ser apurado conforme a legislação da jurisdição da controladora. Fl. 5403DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 35 Isso abriria a possibilidade de lançar provisões para créditos em despesa. No auto de infração, a fiscalização deixou consignado: “Mesmo que o suposto prejuízo houvesse sido declarado na forma e no prazo determinados em norma, importa destacar que a DRE de 2016 aponta que o prejuízo superior a R$ 1 bilhão de reais teria origem em provisão para perdas associadas ao risco de crédito. Intimada a apresentar documentação de suporte para referida provisão, tendo em vista a atipicidade do resultado em relação a outros períodos, a Fiscalizada afirmou que a dependência BB Cayman seguiria à Resolução CMN n.º 2.682/1999, que estabelece critérios para as IFs no Brasil classificarem as operações de crédito conforme o risco, e constituírem respectivas provisões (Resposta de 28/11/2023). Destarte, tal resultado de 2016 não foi apurado seguindo as normas da legislação do país de domicílio. Por outro lado, caso inexista norma regional expressa para regular a demonstração no país de domicílio, as normas brasileiras não permitem a sua dedutibilidade para fins fiscais. A questão é que, como se trata de lucro contábil e não de lucro fiscal, o fato de ser indedutível para fins fiscais não é relevante. É preciso lembrar que o que se traz do exterior é o lucro contábil e não o lucro fiscal. Mas, mesmo que se admita, nesse caso, a possibilidade de apuração de acordo com a norma brasileira, caso o documento de Cayman confirmasse essa possibilidade, isso não afasta os demais problemas: falta de declaração dentro do prazo, falta de comprovação, inconsistência entre as demonstrações e os valores declarados. Pelo exposto, não há razão para reforma da decisão recorrida nesta parte, devendo prevalecer a decisão recorrido, nos seguintes termos: “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais. IRPJ. CSLL. Trata-se de autuação fiscal, relativa a lucros no exterior, sob a vigência da Lei nº 12.973, de 2014. A acusação formulada pela autoridade autuante identificou a ocorrência das seguintes situações: (1) compensação indevida de prejuízos referentes a anos anteriores; (2) valores de resultado não oferecidos à tributação ou oferecidos em valores inferiores; e (3) consolidação de resultado negativo de investida que não atende aos critérios da legislação tributária. Passo ao exame da legislação vigente. O art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, afastou o princípio da territorialidade, e introduziu o princípio da universalidade para a tributação dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por investidas (controladas, coligadas, filiais e sucursais), para o IRPJ: Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas Fl. 5404DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 36 correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. (Vide Medida Provisória nº 2158-35, de 2001) § 1º Os rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na apuração do lucro líquido das pessoas jurídicas com observância do seguinte: (...) § 2º Os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I - as filiais, sucursais e controladas deverão demonstrar a apuração dos lucros que auferirem em cada um de seus exercícios fiscais, segundo as normas da legislação brasileira; II - os lucros a que se refere o inciso I serão adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora, na proporção de sua participação acionária, para apuração do lucro real; III - se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, até a data do balanço de encerramento; IV - as demonstrações financeiras das filiais, sucursais e controladas que embasarem as demonstrações em Reais deverão ser mantidas no Brasil pelo prazo previsto no art. 173 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966. § 3º Os lucros auferidos no exterior por coligadas de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I - os lucros realizados pela coligada serão adicionados ao lucro líquido, na proporção da participação da pessoa jurídica no capital da coligada; II - os lucros a serem computados na apuração do lucro real são os apurados no balanço ou balanços levantados pela coligada no curso do período-base da pessoa jurídica; III - se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido, para apuração do lucro real, sua participação nos lucros da coligada apurados por esta em balanços levantados até a data do balanço de encerramento da pessoa jurídica; IV - a pessoa jurídica deverá conservar em seu poder cópia das demonstrações financeiras da coligada. Fl. 5405DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 37 § 4º Os lucros a que se referem os §§ 2º e 3º serão convertidos em Reais pela taxa de câmbio, para venda, do dia das demonstrações financeiras em que tenham sido apurados os lucros da filial, sucursal, controlada ou coligada. § 5º Os prejuízos e perdas decorrentes das operações referidas neste artigo não serão compensados com lucros auferidos no Brasil. § 6º Os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, continuarão a ter o tratamento previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º. § 7º Os lucros serão apurados segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio. Além da tributação em bases universais (TBU) do lucros no exterior, o art. 25 dispôs, no § 5º, autorização para aproveitamento de prejuízos e perdas na apuração dos resultados das investidas no estrangeiro, que, no entanto, não poderiam ser compensados com lucros auferidos no Brasil. A apuração da CSLL adotou o princípio de universalidade na tributação dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior com a edição da MP nº 2.158-35, de 2001, no art. 21: Art. 21. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior sujeitam-se à incidência da CSLL, observadas as normas de tributação universal de que tratam os arts. 25 a 27 da Lei n º 9.249, de 1995, os arts. 15 a 17 da Lei n º 9.430, de 1996, e o art. 1º da Lei no 9.532, de 1997. Parágrafo único. O saldo do imposto de renda pago no exterior, que exceder o valor compensável com o imposto de renda devido no Brasil, poderá ser compensado com a CSLL devida em virtude da adição, à sua base de cálculo, dos lucros oriundos do exterior, até o limite acrescido em decorrência dessa adição. Hodiernamente, a TBU encontra-se regida pela sistemática trazida pela Lei nº 12.973, de 2014, que revogou o disposto no art. 74 da MP nº 2.158, de 2001. O art. 76 da Lei n º 12.973, de 2014, dispõe sobre o procedimento de contabilização a ser seguido pela investidora do Brasil sobre os lucros das investidas no exterior: Art. 76. A pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil ou a ela equiparada, nos termos do art. 83, deverá registrar em subcontas da conta de investimentos em controlada direta no exterior, de forma individualizada, o resultado contábil na variação do valor do investimento equivalente aos lucros ou prejuízos auferidos pela própria controlada direta e suas controladas, direta ou indiretamente, no Brasil ou no exterior, relativo ao ano-calendário em que foram apurados em balanço, observada Fl. 5406DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 38 a proporção de sua participação em cada controlada, direta ou indireta. (Vigência) § 1º Dos resultados das controladas diretas ou indiretas não deverão constar os resultados auferidos por outra pessoa jurídica sobre a qual a pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil mantenha o controle direto ou indireto. § 2º A variação do valor do investimento equivalente ao lucro ou prejuízo auferido no exterior será convertida em reais, para efeito da apuração da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, com base na taxa de câmbio da moeda do país de origem fixada para venda, pelo Banco Central do Brasil, correspondente à data do levantamento de balanço da controlada direta ou indireta. § 3º Caso a moeda do país de origem do tributo não tenha cotação no Brasil, o seu valor será convertido em dólares dos Estados Unidos da América e, em seguida, em reais. (Grifei) Assim, cabe à investidora proceder com a escrituração, em subcontas da contra investimentos, de forma individualizada, do resultado contábil na variação do valor do investimento equivalente aos lucros ou prejuízos auferidos pela própria controlada direta e suas controladas, direta ou indiretamente, no Brasil ou no exterior, devendo ser observada a proporção de sua participação em cada controlada, direta ou indireta. Os arts. 77 a 80 da Lei nº 12.973, de 2014, dispõem sobre a tributação dos lucros das controladas no exterior, regramento aplicável também às filiais e sucursais fora do Brasil (art. 92). Transcrevo art. 77: (...) Observa-se que o § 2º do art. 77 dispõe sobre aproveitamento do prejuízo acumulado da controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior referente aos anos-calendário anteriores à produção de efeitos da lei, trazendo possibilidade de compensação com os lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. No caso, a autorização é que a compensação ocorra apenas no âmbito da empresa, ou seja, lucros e prejuízos apurados pela mesma investida no exterior. Contudo, o art. 78 trouxe ao ordenamento uma regra de exceção, vigente até o ano-calendário de 2024 (com redação dada pela Lei nº 14.547, de 2023): Art. 78. Até o ano-calendário de 2024, as parcelas de que trata o art. 77 desta Lei poderão ser consideradas de forma consolidada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil, excepcionadas as parcelas referentes às pessoas jurídicas investidas que Fl. 5407DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 39 se encontrem em, pelo menos, uma das seguintes situações: (Redação dada pela Lei nº 14.547, de 2023) I - estejam situadas em país com o qual o Brasil não mantenha tratado ou ato com cláusula específica para troca de informações para fins tributários; II - estejam localizadas em país ou dependência com tributação favorecida, ou sejam beneficiárias de regime fiscal privilegiado, de que tratam os arts. 24 e 24-A da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, ou estejam submetidas a regime de tributação definido no inciso III do caput do art. 84 da presente Lei; III - sejam controladas, direta ou indiretamente, por pessoa jurídica submetida a tratamento tributário previsto no inciso II do caput ; ou IV - tenham renda ativa própria inferior a 80% (oitenta por cento) da renda total, nos termos definidos no art. 84. § 1º A consolidação prevista neste artigo deverá conter a demonstração individualizada em subcontas prevista no art. 76 e a demonstração das rendas ativas e passivas na forma e prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil - RFB. § 2º O resultado positivo da consolidação prevista no caput deverá ser adicionado ao lucro líquido relativo ao balanço de 31 de dezembro do ano- calendário em que os lucros tenham sido apurados pelas empresas domiciliadas no exterior para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil. § 3º No caso de resultado negativo da consolidação prevista no caput , a controladora domiciliada no Brasil deverá informar à RFB as parcelas negativas utilizadas na consolidação, no momento da apuração, na forma e prazo por ela estabelecidos. § 4º Após os ajustes decorrentes das parcelas negativas de que trata o § 3º , nos prejuízos acumulados, o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros das mesmas pessoas jurídicas no exterior que lhes deram origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. § 5º O prejuízo auferido no exterior por controlada de que tratam os §§ 3º , 4º e 5º do art. 77 não poderá ser utilizado na consolidação a que se refere este artigo. § 6º A opção pela consolidação de que trata este artigo é irretratável para o ano-calendário correspondente. § 7º Na ausência da condição do inciso I do caput , a consolidação será admitida se a controladora no Brasil disponibilizar a contabilidade societária em meio digital e a documentação de suporte da escrituração, Fl. 5408DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 40 na forma e prazo a ser estabelecido pela RFB, mantidas as demais condições. (Grifei) A exceção, trazida para apuração até o ano-calendário de 2024 (conforme redação dada pela Lei nº 14.547, de 2023), possibilita que o resultado apurado (lucro ou prejuízo) seja consolidado na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil. A apuração consolidada não poderá ser efetuada no caso das hipótese delineadas nos incisos I, II, III e IV do caput do art. 78 (investidas ou controladoras das investidas localizadas em países com tributação favorecida, ou regime fiscal privilegiado, ou regime de subtributação; investidas com renda ativa própria inferior a 80% da renda total; e investida situadas em país com o qual o Brasil não mantenha tratado ou ato com cláusula específica para troca de informações para fins tributários, exceto se a investidora no Brasil disponibilizar a escrituração digital com documentação de suporte na forma e prazo da legislação tributária). A consolidação autorizada no art. 78 deverá conter a demonstração individualizada em subcontas e a demonstração das rendas ativas e passivas; e, no caso de resultado negativo, a controladora domiciliada no Brasil deverá informar à RFB as parcelas negativas utilizadas na consolidação, no momento da apuração, na forma e prazo previstos pela legislação tributária. Nesse contexto, em atendimento a expressa disposição legal, a Receita Federal editou a IN RFB nº 1.520, de 2014, versando sobre procedimentos afetos à tributação em bases universais trazida pelos arts. 76 a 92 da Lei nº 12.973, de 2014. Os registros em subcontas encontram-se estabelecidos no art. 3º da IN RFB nº 1.520, de 2014: (...) Os arts. 8º e 9º da IN RFB nº 1.520, de 2014, predicam sobre a disponibilização dos resultados positivos: Seção IV Da Disponibilização dos Resultados Positivos Art. 8º Os resultados positivos auferidos no exterior, por intermédio de filiais, sucursais, controladas, direta ou indireta, ou coligadas serão computados para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL no balanço levantado em 31 de dezembro do ano-calendário em que tiverem sido disponibilizados para a pessoa jurídica domiciliada no Brasil. § 1º O resultado auferido no exterior de que trata o caput deve ser apurado segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio e antes da tributação no exterior sobre o lucro. § 2º Nos casos de inexistência de normas expressas que regulem a elaboração de demonstrações financeiras no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada, estas deverão ser elaboradas com Fl. 5409DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 41 observância dos princípios contábeis geralmente aceitos, segundo as normas da legislação brasileira. § 3º No caso de encerramento do processo de liquidação da empresa no Brasil, os resultados positivos auferidos no exterior por intermédio de suas filiais, sucursais, controladas, diretas ou indiretas, e coligadas serão considerados disponibilizados na data do balanço de encerramento, devendo, nessa mesma data, serem computados para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. § 4º No caso de encerramento de atividades da filial, sucursal, controlada, direta ou indireta, ou coligada, domiciliadas no exterior, os lucros auferidos por seu intermédio, ainda não tributados no Brasil, serão considerados disponibilizados, devendo ser computados para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL no balanço levantado em 31 de dezembro do respectivo ano-calendário ou na data do encerramento das atividades da empresa no Brasil. § 5º Ocorrendo a absorção do patrimônio da filial, sucursal, controlada, direta ou indireta, ou coligada por empresa sediada no exterior, os lucros ainda não tributados no Brasil, apurados até a data do evento, serão considerados disponibilizados, devendo ser computados para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil, no balanço levantado em 31 de dezembro do ano-calendário do respectivo evento. § 6º Na hipótese de alienação do patrimônio da filial ou sucursal, ou da participação societária em controlada, direta ou indireta, ou coligada, no exterior, os lucros ainda não tributados no Brasil deverão ser considerados para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da alienante no Brasil, no balanço levantado em 31 de dezembro do ano- calendário em que ocorrer a alienação. CAPÍTULO II DAS CONTROLADORAS Art. 9º A parcela do ajuste do valor do investimento em controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior equivalente aos lucros por ela auferidos antes do imposto sobre a renda, excetuando a variação cambial, deverá ser computada na determinação do lucro real e na base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil, observado o disposto no art. 2º. § 1º A parcela do ajuste de que trata o caput compreende apenas os lucros auferidos no período, não alcançando as demais parcelas que influenciaram o patrimônio líquido da controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior. Fl. 5410DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 42 § 2º A parcela do ajuste de que trata o caput deve ser apurada segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio e antes da tributação no exterior sobre o lucro, com observância do disposto no § 2º do art. 8º. A compensação de prejuízos acumulados anteriores ao ano-calendário de 2015 encontra-se prevista no art. 10 da IN RFB nº 1.520, de 2014: Art. 10. O prejuízo acumulado da controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior, referente aos anos-calendário anteriores à 1º de janeiro de 2015 poderá ser compensado com os lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que sejam informados na forma e prazo previstos no art. 38. § 1º A pessoa jurídica que fizer a opção prevista na Seção II do Capítulo I poderá utilizar o prejuízo acumulado referente aos anos-calendário anteriores à 1º de janeiro de 2014. § 2º O valor do prejuízo acumulado passível de compensação com lucros futuros será proporcional à participação em cada controlada no exterior. § 3º A compensação do prejuízo acumulado com os lucros futuros da mesma controlada no exterior será efetuada antes de sua conversão em Reais. § 4º A compensação de prejuízo acumulado no exterior com lucros futuros da mesma pessoa jurídica não está sujeita ao limite previsto no art. 15 da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. Por sua vez, a consolidação trazida pelo art. 78 da Lei nº 12.973, de 2014, do resultado apurado (lucro ou prejuízo) na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil (para apuração até o ano-calendário de 2024, conforme redação dada pela Lei nº 14.547, de 2023), encontra-se disposta no art. 11 da IN RFB nº 1.520, de 2014, no qual predica no § 6º que, após a apuração na forma consolidada, o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deram origem, desde que sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior: Art. 11. Até o ano-calendário de 2022, as parcelas de que trata o art. 9º poderão ser consideradas de forma consolidada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil. (...) § 6º Após a consolidação, o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deram origem, desde que sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior conforme art. 38. Fl. 5411DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 43 Por outro lado, quando não houver consolidação, o art. 14 da IN RFB nº 1.520, de 2014, dispõe sobre regra geral: Art. 14. Quando não houver consolidação, nos termos da Seção II deste Capítulo, a parcela do ajuste do valor do investimento em controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior equivalente aos lucros ou prejuízos por ela auferidos deverá ser considerada de forma individualizada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil, nas seguintes formas: I - se positiva, deverá ser adicionada ao lucro líquido relativo ao balanço de 31 de dezembro do ano-calendário em que os lucros tenham sido apurados pela empresa domiciliada no exterior; e II - se negativa, poderá ser compensada, exclusivamente, com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deu origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma do art. 38. § 1º A parcela negativa de que trata o inciso II deverá ser informada no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados de que trata o art. 38. § 2º A falta de informação da parcela negativa na forma e prazo estabelecida no art. 38 impede o seu aproveitamento para compensação com lucros futuros. (Grifei) A instrução normativa determina o procedimento de forma direta e objetiva. Não havendo consolidação, caberá ser efetuada a apuração de forma individualizada. Tendo o resultado apurado sido negativo, poderá ser compensado exclusivamente com lucros futuros da mesma investida no exterior, sob determinadas condições, previstas no art. 38, no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados, sendo que a falta de informação da parcela negativa na forma e prazo estabelecida no art. 38 impede o seu aproveitamento para compensação com lucros futuros. O art. 38 da IN RFB nº 1.520, de 2014, determina as informações necessárias para o Demonstrativo de Prejuízos Acumulados: Art. 38. O Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior conterá, no mínimo, as seguintes informações: I - identificação de cada controlada, direta ou indireta, ou equiparada; II - o país de domicílio da controlada, direta ou indireta, e da equiparada; III - o resultado negativo, em moeda do país de domicílio e em Reais, da controlada de períodos anteriores a: a) 2014, para os optantes nos termos da Seção II do Capítulo I; e b) 2015, para os demais; IV - o valor do resultado negativo do período em Reais e na moeda do país de domicílio da controlada; Fl. 5412DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 44 V - o resultado negativo acumulado de anos anteriores da própria controlada utilizado na compensação na moeda do país de domicílio; VI - o resultado negativo do período utilizado na consolidação na moeda do país de domicílio; e VII - o saldo de resultado negativo acumulado na moeda do país de domicílio. § 1º Para o aproveitamento dos prejuízos acumulados anteriores previstos na Seção I do Capítulo II, o demonstrativo de que trata o caput deve ser transmitido ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped) até 30 de setembro de 2015. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1577, de 31 de julho de 2015) § 2º Para o aproveitamento de resultados negativos apurados a partir de 1º de janeiro de 2015 ou a partir de 1º de janeiro de 2014 para as pessoas jurídicas optantes nos termos da Seção II do Capítulo I, o valor do resultado negativo apurado no período deve ser informado no demonstrativo a ser entregue até a data estabelecida no art. 3º da Instrução Normativa RFB nº 1.422, de 19 de dezembro de 2013. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1577, de 31 de julho de 2015) § 3º A falta de informação dos estoques de prejuízos acumulados na forma e prazo estabelecidos neste artigo impede o seu aproveitamento para compensação com lucros futuros. (Grifei) No âmbito da Escrituração Contábil Fiscal, foram criados registros específicos visando operacionalizar os procedimentos normatizados, descritos pelo Termo de Verificação Fiscal: (...) Como se pode observar, a legislação tributária dispôs, de maneira clara e objetiva, sobre os requisitos necessários para a apresentação das demonstrações contábeis das investidas no exterior, sob pena de não validação dos lucros ou prejuízos apurados, e, por consequência, do aproveitamento dos eventuais resultados negativos em exercícios futuros. Assim, diante das premissas apresentadas, passa-se ao exame do caso concreto, para cada uma das investidas analisadas pela acusação fiscal, e as correspondentes manifestações da defesa (se for o caso). (...) I.2. Investida Consolidada. Buenos Aires. Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida consolidada BB Buenos Aires, incorreu na infração tributária Saldo de prejuízos não informado de acordo com os artigos 10, 11, § 6°, e 38, IN RFB n° 1.520, de 2014. Foi apurado resultado positivo pela investida, que não foi adicionado ao lucro líquido para a apuração do lucro real porque a Impugnante efetuou compensação de prejuízos de anos anteriores da própria investida. Fl. 5413DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 45 Ocorre que, para se dar o aproveitamento dos prejuízos acumulados de anos-calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015, caberia a transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior (previsto no art. 38 da IN RFB nº 1.520, de 2014) ao SPED (Sistema Público de Escrituração Digital) até 30 de setembro de 2015 (§1º do art. 38 da IN RFB nº 1.520, de 2014). O prazo estabelecido pela instrução normativa encontra previsão legal no § 2º do art. 77 da Lei nº 12.973, de 2014, que determina que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. Na mesma medida, dispõe o § 6º do art. 11 da mesma instrução normativa que, após a consolidação das investidas (autorizada até o ano-calendário de 2024), o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deram origem, desde que sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior. E, nos presentes autos, é fato incontroverso que a Impugnante não encaminhou, até a data limite de 30/09/2015, o Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior ao SPED. Sobre os anos-calendário posteriores, relata a autoridade autuante que houve prejuízo apurado em 2016, mas que foi completamente consumido no mesmo ano, ao se efetuar a consolidação com resultados de outras investidas. Foram apuradas ainda inconsistências nos registros da ECF: Em relação aos registros da ECF do ano 2018, a Fiscalizada erroneamente declarou, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados), que utilizou, no mesmo ano, o valor de $19.976.481,10 Pesos Argentinos, a título de saldo negativo acumulado de anos anteriores, o que não seria possível já que o lucro apurado nesse ano pela investida foi bastante inferior ($ 5.905.837,00). Por sua vez, no Registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), como mencionado alhures, não declarou a existência de qualquer resultado negativo anterior a 2014, até a data limite de 30/09/2015 (artigo 38, §1º, IN RFB n.º1.520/2014). No mesmo registro, informou um saldo negativo acumulado, a partir de 2014, de $ 188.071.472,13, em moeda local, o que igualmente não seria possível já que somente houve prejuízo em 2016 e que foi totalmente utilizado em consolidação no mesmo ano. Tais informações fazem parte das planilhas solicitadas para que se detalhasse a composição do valor adicionado no LALUR, a título de resultados auferidos pelas investidas no exterior, entre 2014 e 2017. Alega a Impugnante que o saldo de prejuízos estaria informado na Ficha 35 da DIPJ, e que tais saldos, apesar de não terem sido informados no Registro X354 da ECF, foram incluídos em retificadora encaminhada em 06/06/2019. Entende Fl. 5414DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 46 que teria direito à retificação e que teria a Fiscalização incorrido em excessivo rigor formal e cerceamento de prerrogativa legítima do Sujeito Passivo. Não lhe assiste razão. O prazo para entrega dos saldos de prejuízos acumulados de anos-calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015, tem previsão legal. A lei tributária delegou expressamente competência à Receita Federal o estabelecimento da forma e prazo para disponibilização das informações, cabendo a transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior para a ECF até 30/09/2015 (Tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais” do presente voto). Não se trata de rigor ou excesso. Pelo contrário. Trata-se de cumprimento à legislação tributária, que determina a forma e prazo para cumprimento de obrigações acessórias. A liberalidade da Impugnante de descumprir, de maneira voluntária e injustificada, disposição literal da norma, não encontra amparo no sistema jurídico. Sobre o resultado positivo apurado, a autoridade autuante cumpriu com rigor o disposto no art. 9º da IN RFB nº 1.520, de 2014, tomando a apuração efetuada pela Impugnante segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio e antes da tributação no exterior sobre o lucro, em consonância com o demonstrativo apresentado na peça de defesa (e-fls. 4992): O valor apurado pela autoridade autuante foi precisamente de $5.905.837,00 (na moeda local), que com a taxa de câmbio de 0,102900 resultou no principal de R$607.710,63. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria. I.3. Investida Consolidada. Londres. Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida consolidada BB Londres, incorreu na infração tributária Saldo de prejuízos não informado de acordo com os artigos 10, 11, § 6°, e 38, IN RFB n° 1.520, de 2014. Foi apurado resultado positivo pela investida, que não foi adicionado ao lucro líquido para a apuração do lucro real porque a Impugnante efetuou compensação de prejuízos de anos anteriores da própria investida. Ocorre que, para se dar o aproveitamento dos prejuízos acumulados de anos-calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015, caberia a transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior (previsto no art. 38 da IN RFB Fl. 5415DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 47 nº 1.520, de 2014) ao SPED (Sistema Público de Escrituração Digital) até 30 de setembro de 2015 (§1º do art. 38 da IN RFB nº 1.520, de 2014). O prazo estabelecido pela instrução normativa encontra previsão legal no § 2º do art. 77 da Lei nº 12.973, de 2014, que determina que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. Na mesma medida, dispõe o § 6º do art. 11 da mesma instrução normativa que, após a consolidação das investidas (autorizada até o ano-calendário de 2024), o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior que lhes deram origem, desde que sejam informados no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior. E, nos presentes autos, é fato incontroverso que a Impugnante não encaminhou, até a data limite de 30/09/2015, (Tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais” do presente voto), o Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior ao SPED. Transcrevo excerto do TVF: Em relação à compensação com prejuízos que anularam o resultado positivo que deveria ser adicionado ao lucro líquido da Fiscalizada, verificou- se que o prejuízo apurado em 2016 teria sido utilizado parcialmente no mesmo ano, consoante detalhamento elaborado pela própria fiscalizada nas planilhas que evidenciam o valor que compôs a adição ao lucro real entre 2014 e 2017. Não obstante, o aproveitamento de resultados negativos apurados a partir de 01/01/2014, para as pessoas jurídicas optantes, está condicionado à informação no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados até a data estabelecida para entrega da ECF, mediante SPED, do respectivo exercício em que apurado. O registro X354 da ECF referente ao ano de 2016, entregue em 27/07/2016, aponta o valor de $ 20.938.543,54 (moeda local) como saldo negativo acumulado. Tal valor corresponde, na verdade, ao resultado negativo de 2015, de $ 14.601.741,01 libras esterlinas, multiplicado pelo câmbio de 2015 (5,7881), dividido pelo câmbio de 2016 (4,0364), o que resulta em $ 20.938.543,54. Não bastasse a própria incorreção no cálculo, o prejuízo de 2015 ($ 14.601.741,01) foi totalmente consumido no mesmo ano em consolidação. Dessa forma, a falta de informação dos estoques de prejuízos acumulados na forma e no prazo estabelecidos impede o seu aproveitamento para compensação com lucros futuros. A Impugnante insiste na tese de se relativizar a aplicação da legislação tributária: Fl. 5416DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 48 Não lhe assiste razão. Não poderia ser mais clara e objetiva a condição determinada pelo § 4º da Lei nº 12.973, de 2014: Art. 78. Até o ano-calendário de 2024, as parcelas de que trata o art. 77 desta Lei poderão ser consideradas de forma consolidada na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da controladora no Brasil, excepcionadas as parcelas referentes às pessoas jurídicas investidas que se encontrem em, pelo menos, uma das seguintes situações: (Redação dada pela Lei nº 14.547, de 2023) (...) § 4º Após os ajustes decorrentes das parcelas negativas de que trata o § 3º , nos prejuízos acumulados, o saldo remanescente de prejuízo de cada pessoa jurídica poderá ser utilizado na compensação com lucros futuros das mesmas pessoas jurídicas no exterior que lhes deram origem, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. (Grifei) Não se exige nenhum esforço hermenêutico para se entender o disposto na lei. O aproveitamento do saldo de prejuízos anteriores pode ser efetuado, desde que os estoques de prejuízos sejam informados na forma e prazo estabelecidos pela RFB. Nesse contexto, por si só, o descumprimento do prazo já se mostra suficiente para desconsiderar o aproveitamento dos prejuízos acumulados até o ano-calendário de 2014. E, sobre as informações dos registros da ECF, não se trata de mero erro formal, conforme aduzido na peça de defesa. Foram constatadas ainda inconsistências na informações dos registros X351 (Demonstrativo de Resultados) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados) da ECF: Em relação aos registros da ECF do ano 2018, a Fiscalizada erroneamente declarou, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados), além de valor inferior aos lucros disponibilizados, que o saldo de prejuízos de anos anteriores utilizado em 2018 foi de $ 461.130.960,34 libras esterlinas, o que Fl. 5417DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 49 não é possível diante de um lucro evidenciado, primeiramente, de $ 31.396.549,71 libras esterlinas, ou R$ 155.780.260,70. Por sua vez, no registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), não declarou a existência de qualquer resultado negativo anterior a 2014, até a data limite de 30/09/2015 (artigo 38, §1º, IN RFB n.º 1.520/2014). No mesmo registro, informou um saldo negativo acumulado, a partir de 2014, de $ 61.541.548,19, em moeda local, o que igualmente não seria possível ainda que a Fiscalizada tivesse declarado os resultados negativos no prazo e na forma determinados por ato normativo, já que: i) a segunda planilha, juntada em 22/02/2023, contendo memória de cálculo da utilização dos valores de prejuízo apurados a partir de 2014, mostra que teriam sido integralmente consumidos com os próprios lucros e, ii) as planilhas solicitadas para que se detalhasse a composição do valor adicionado na linha 8 ou 9 do LALUR, a título de resultados auferidos pelas investidas no exterior, entre 2014 e 2017, expõem a seguinte situação (com base apenas no demonstrativo da Fiscalizada): Nesse contexto, mostra-se irretocável a conclusão da autoridade autuante: Não se trata, portanto, de divergência de interpretação da legislação tributária já que, ainda que a Fiscalizada tivesse declarado os saldos de prejuízos na forma e no prazo previstos na IN RFB n.º 1.520/2014, os valores por ela informados em planilhas e demonstrações contradizem a informação que foi prestada na ECF, e não afastaria a multa devida por incorreção. Mais um motivo autônomo apontado pela autoridade autuante foi que a apuração dos prejuízos teve origem em provisão para perdas associadas ao risco de crédito, que foram calculados conforme Resolução CMN nº 2.682, de 1999, que estabelece critérios para as instituições financeiras no Brasil classificarem as operações de crédito conforme o risco. Ou seja, consumou-se outro descumprimento à legislação tributária, uma vez que o resultado da investida no exterior deve ser apurado conforme a legislação comercial do país de domicílio, no caso, Inglaterra (art. 25 da Lei nº 9.249, de 19954, § 7º; art. 9º, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014). Na peça de defesa, a Impugnante tergiversou, ao alegar: revela-se impertinente a discussão acerca do critério de classificação do risco das operações de crédito adotado pela investida, para constituição ou não de provisão, uma vez que isso diz respeito à apuração do resultado a ser tributado no exterior - relação jurídica entre a investida e o ente local. Fl. 5418DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 50 Não se trata de relação jurídica entre a investida e o ente local, mas sim de cumprimento à expressa condição da norma tributária: apuração conforme a legislação comercial do país de domicílio. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria. I.4. Investida Não Consolidada. Grand Cayman. Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida não consolidada BB Grand Cayman, incorreu na infração tributária Saldo de prejuízos não informado de acordo com os artigos 14, § 1°, e 38, IN RFB n° 1.520, de 2014. O resultado positivo apurado pela investida não foi incluído na consolidação, no montante de R$ 417.509.612,47, porque se localiza em país que goza de regime fiscal privilegiado. De qualquer forma, na condição de investida não consolidada, o resultado foi adicionado ao lucro líquido para apuração do lucro real, contudo em montante parcial, uma vez que a Impugnante efetuou compensação com saldo de prejuízo de R$164.032.082,76 que remanesceria da própria investida de anos anteriores. Ao analisar os documentos apresentados pela Impugnante, constatou a autoridade fiscal que os registros X354 de todas as ECFs entregues para os anos de 2014 a 2017 não informaram qualquer resultado negativo acumulado, tendo sido preenchidos os campos com valor zero. Como visto no tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais”, o art. 14, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014, determina que o resultado negativo apurado pela investida não consolidada deverá ser informado no Demonstrativo de Prejuízos Acumulados, que deve ser transmitido ao SPED até 30 de setembro de 2015 (Tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais” do presente voto), o que não foi feito pela Impugnante. Na peça de defesa, não há manifestação, sendo fato incontroverso. Nesse contexto, por si só, o descumprimento do prazo já se mostra suficiente para desconsiderar o aproveitamento dos prejuízos acumulados para os anos-calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015. No que concerne aos anos-calendário posteriores, a análise da ECF e das planilhas encaminhadas pela Impugnante não socorre a Impugnante. Sobre a ECF do ano-calendário de 2018, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados) foi informado saldo de prejuízos utilizados de $164.032.082,76 dólares, que teriam tido origem em prejuízos de anos anteriores. O registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados) informou o mesmo saldo de prejuízos, com origem a partir do ano-calendário de 2014. Ocorre que, ao apreciar as planilhas apresentadas pela Impugnante para detalhar a composição do LALUR, apurou a autoridade fiscal que haveria um saldo de apenas $10.693.354,66, conforme quadro: Fl. 5419DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 51 A impugnação alega que teria apresentado os registros X351 e X354 preenchidos, mas não se contrapõe às inconsistências apresentadas pela acusação fiscal. Insiste que o saldo acumulado de prejuízo no cano calendário de 2016 teria sido integralmente aproveitado na compensação dos resultados de 2018, desconsiderando a apuração efetuada pela autoridade fiscal, que demonstrou que no ano-calendário de 2018 havia remanescido saldo negativo de prejuízos anteriores de apenas $10.693.354,66. Mais um motivo autônomo apontado pela autoridade autuante foi que a apuração dos prejuízos teve origem em provisão para perdas associadas ao risco de crédito, que foram calculados conforme Resolução CMN nº 2.682, de 1999, que estabelece critérios para as instituições financeiras no Brasil classificarem as operações de crédito conforme o risco. Ou seja, consumou-se outro descumprimento à legislação tributária, uma vez que o resultado da investida no exterior deve ser apurado conforme a legislação comercial do país de domicílio (art. 9º, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014). Na peça de defesa, a Impugnante alegou que, em relação ao prejuízo fiscal de 2016, não cabe questionar a sua origem, como pretendido pela fiscalização, ao exigir apresentação de “documentação suporte para referida provisão”, uma vez que o Fisco brasileiro não tem prerrogativa para auditar informações da controlada no exterior. Demonstra a peça de defesa completo desconhecimento da legislação vigente. A disposição da norma é literal, e não demanda esforço hermenêutico (art. 25 da Lei nº 9.249, de 19955, § 7º; art. 9º, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014). Se o resultado deve ser apurado segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio, cabe à autoridade autuante verificar se a condição expressa em lei foi cumprida. E, tendo restado demonstrado que a Impugnante ignorou o dispositivo legal, e valeu-se de normas do Brasil para a apuração do resultado negativo, e não do país de domicílio da investida, cabe ser desconsiderado o procedimento adotado pela investidora. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria. I.5. Investida Não Consolidada. Brasilian American Merchant Bank – BAMB (ou BBCI Holding). Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida não consolidada BBCI Holding6 , incorreu na infração tributária Saldo de prejuízos não informado de acordo com os artigos 14, § 1°, e 38, IN RFB n° 1.520, de 2014. Fl. 5420DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 52 O resultado positivo apurado pela investida não foi incluído na consolidação, no montante de R$ 21.606.543,63, porque se localiza em país que goza de regime fiscal privilegiado. De qualquer forma, na condição de investida não consolidada, o resultado deveria ter sido adicionado ao lucro líquido para apuração do lucro real. Contudo, não se deu a adição, porque a Impugnante efetuou compensação total com saldo de prejuízos da própria investida de anos anteriores. Constatou a autoridade fiscal, no que concerne aos prejuízos apurados até o ano-calendário de 2014, não houve transmissão ao SPED do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados até o prazo previsto pela legislação tributária, 30 de setembro de 2015, nos termos do art. 14, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014 (Tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais” do presente voto). Trata-se de fato incontroverso. Nesse contexto, por si só, o descumprimento do prazo já se mostra suficiente para desconsiderar o aproveitamento dos prejuízos para os anos- calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015. No que concerne aos anos-calendário posteriores, a análise da ECF e das planilhas encaminhadas pela Impugnante não socorre a Impugnante. A ECF do ano-calendário de 2018 foi transmitida com várias inconsistências apuradas pela autoridade autuante. Apurou-se que não há correspondência de valores entre o que foi apurado nas planilhas que detalham a composição do valor adicionado no LALUR entre 2014 e 2017, e o registro X354 da ECF. Concluiu acertadamente a autoridade fiscal: “Em relação aos registros da ECF do ano 2018, a Fiscalizada erroneamente declarou, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados), saldo utilizado em 2018, de $79.423.076,71 Dólares Americanos, de prejuízos de anos anteriores, o que não seria possível, diante de um lucro apurado nesse ano de $5.614.107,00 Dólares Americanos. Por sua vez, no registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), a Fiscalizada informou o valor de $ 4.341.281,47 Dólares Americanos a Fl. 5421DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 53 título de saldo negativo acumulado, no campo para saldos anteriores a 2014, e de $ 14.921.165,76 no campo para saldo acumulado a partir de 2014. Ainda que a Fiscalizada tivesse declarado os resultados negativos no prazo e na forma determinados por ato normativo, tal valor ainda estaria incorreto já que as planilhas solicitadas para que se detalhasse a composição do valor adicionado no LALUR, a título de resultados auferidos pelas investidas no exterior, entre 2014 e 2017, denotam que deveria haver um saldo negativo acumulado entre 2014 e 2017 de $ 21.911.187,97, em moeda local, e nulo antes de 2014, conforme reproduzido nos parágrafos precedentes. A impugnação relata os valores que foram trazidos nos registros X354. Contudo, não se manifesta sobre as inconsistências apuradas pela acusação fiscal. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria. I.6. Investida Consolidada. Santiago. Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida consolidada Santiago , incorreu na infração tributária Saldo de prejuízos não informado de acordo com os artigos 10, 11, § 6°, e 38, IN RFB n° 1.520, de 2014. Foi apurado resultado positivo pela investida, que não foi adicionado ao lucro líquido para a apuração do lucro real porque a Impugnante efetuou compensação de prejuízos de anos anteriores da própria investida. Constatou a autoridade fiscal, no que concerne aos prejuízos apurados até o Ano-calendário de 2014, não houve transmissão ao SPED do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados até o prazo previsto pela legislação tributária, 30 de setembro de 2015, nos termos do art. 14, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014. Trata- se de fato incontroverso. A Impugnante aduz que teria sido encaminhada declaração retificadora em 06/06/2019, e que seria desarrazoado e desproporcional o tratamento conferido pelo Fisco ao desconsiderar a retificação. Não lhe assiste razão. O prazo para entrega dos saldos de prejuízos acumulados de anos calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015, tem previsão legal. A lei tributária delegou expressamente competência à Receita Federal o estabelecimento da forma e prazo para disponibilização das informações, cabendo a transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior para a ECF até 30/09/2015 (Tópico “I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais” do presente voto). Não se trata de rigor ou excesso. Pelo contrário. Trata-se de cumprimento à legislação tributária, que determina a forma e prazo para cumprimento de Fl. 5422DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 54 obrigações acessórias. A liberalidade da Impugnante de descumprir, de maneira voluntária e injustificada, disposição literal da norma, não encontra amparo no sistema jurídico. Nesse contexto, por si só, o descumprimento do prazo já se mostra suficiente para desconsiderar o aproveitamento dos prejuízos para os anos calendário anteriores a 1º de janeiro de 2015. E, no caso, ainda que se pudesse superar a questão temporal, a análise das planilhas e documentos encaminhadas pela Impugnante não lhe socorreriam. Apurou a autoridade fiscal que, em relação aos anos calendário de 2014 a 2017, os prejuízos fiscais foram completamente utilizados dentro do correspondente Ano-calendário, não havendo saldo a remanescer para o Ano-calendário de 2018. E, no que concerne Ano-calendário de 2018, foram informados valores incorretos nos registros da ECF. Transcrevo constatações da autoridade autuante: “Em relação aos registros da ECF do ano 2018, a Fiscalizada erroneamente declarou, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados), que utilizou, em 2018, saldo de resultado negativo acumulado de anos anteriores, de $12.183.012,00 Pesos Chilenos, valor que diverge do valor deduzido do próprio lucro, apontado na planilha da composição do valor adicionado ao lucro líquido ($315.348.529,80 Pesos Chilenos ou R$ 1.763.113,63). Por sua vez, no registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), não informou qualquer resultado negativo apurado antes de 2014, até a data limite de 30/09/2015 (artigo 38, §1º, IN RFB n.º 1.520/2014). No mesmo registro, informou um saldo negativo acumulado, a partir de 2014, de $1.863.691.355,93, em moeda local, o que igualmente não seria possível ainda que a Fiscalizada tivesse declarado os resultados negativos no prazo e na forma determinados por ato normativo, já que os valores de prejuízo apurados em 2014 e em 2017 foram integralmente compensados em consolidação ou com os próprios lucros. Tais informações fazem parte das planilhas solicitadas para que se detalhasse a composição do valor adicionado no LALUR, a título de resultados auferidos pelas investidas no exterior, dos anos calendário 2014 a 2017. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria. I.7. Investida Não Consolidada. Securities Asia Pte Ltd. Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida não consolidada Securities Asia Pte. Ltd, informou lucro inferior ao auferido pela investida. Trata-se de investida que se localiza em país que goza de regime fiscal privilegiado. Dessa forma, na condição de investida não consolidada, o resultado Fl. 5423DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 55 positivo deveria ter sido adicionado ao lucro líquido para apuração do lucro real. Contudo, a adição deu-se em valor inferior ao apurado pelas demonstrações financeiras auditadas. Em intimação inicial, a Impugnante apresentou demonstração financeira, documento denominado “Profit & Loss Statement”, no qual os rendimentos de juros não fizeram parte do Lucro antes dos impostos (“Net Operating Profit before Tax”). E foi precisamente tal valor (R$ 1.023.943,95, U$321,156), que foi informado ao Fisco. Ocorre que, sendo demonstração financeira não auditada, foi desconsiderada pela autoridade autuante. Posteriormente, deu-se a entrega de demonstração financeira auditada (e- fls. 3368/3399), conforme resposta encaminhada pela Impugnante (e-fls. 3366): Fl. 5424DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 56 A demonstração financeira auditada, encaminhada pela Impugnante, apresenta a apuração do Lucro Antes dos Impostos à e-fls. 3375: O valor de U$501,611 foi precisamente o adotado pela autoridade fiscal: A impugnação insiste que o valor correto seria da demonstração financeira não auditada, de U$321,156. Não lhe assiste razão. Primeiro, porque o valor é contraditório com documento apresentado pela própria Impugnante posteriormente (demonstração financeira auditada de e-fls. 3368/3399). Segundo, porque o resultado auferido no exterior deve ser apurado segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio e antes da tributação no exterior sobre o lucro, conforme art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995 (redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) 7 e art. 8º, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014, precisamente o critério adotado pela demonstração financeira auditada apresentada pela Impugnante (e-fls. 3369): Fl. 5425DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 57 Como se pode observar, a demonstração financeira auditada foi elaborada conforme as disposições da Lei das Sociedades por Ações de Cingapura, Capítulo 50 e Normas de Relato Financeiro de Cingapura. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria. I.8. Investida Consolidada. BB Americas Florida. Apurou a autoridade fiscal que a Impugnante, na apuração do resultado da investida consolidada BB America, informou lucro inferior ao auferido pela investida. Em intimação inicial, a Impugnante apresentou demonstração financeira, documento denominado “Balance Sheet”, no qual não conta com registro de contas patrimoniais e de resultado, e somente apresentou o total de receita e total de despesa, cuja diferença resultou no valor informado pela Impugnante (R$16.329.008,41) na determinação do lucro real. Ocorre que, sendo demonstração financeira não auditada, foi desconsiderada pela autoridade autuante. Posteriormente, deu-se a entrega de demonstração financeira auditada (e- fls. 3402/3434), conforme resposta encaminhada pela Impugnante (e-fls. 3366): Fl. 5426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 58 A demonstração financeira auditada, encaminhada pela Impugnante, apresenta a apuração do Lucro Antes dos Impostos à e-fls. 3406: O valor de U$5,645 milhares de dólares foi precisamente o adotado pela autoridade fiscal: Na defesa, alega a Impugnante que o registro X351 informa que não teria havido pagamento de tributo no período de 2018 (na origem), razão pela qual o Fl. 5427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 59 lucro líquido depois do imposto de renda teria o mesmo valor do lucro líquido antes do imposto de renda. Reclama que não teria indicação no TVF de que linha do balanço a autoridade autuante teria considerado para determinar o resultado devido, o que teria prejudicado a defesa do Sujeito Passivo. Não lhe assiste razão. A autoridade autuante descreveu, claramente, que o valor a ser considerado seria o lucro líquido antes do imposto de renda, e que adotou o montante informado na demonstração financeira auditada que foi fornecida pela própria Impugnante. Causa espanto a Impugnante alegar que não entendeu que linha do balanço teria sido utilizada pelo lançamento de ofício. Não saberia interpretar a demonstração financeira encomendada e aprovada por ela mesma? Não se faz necessário maior esforço para compreender que a linha do balanço é precisamente a que indica o valor do lucro líquido antes do imposto de renda, que se encontra na “DEMONSTRAÇÃO DE RESULTADO E RESULTADOS ABRANGENTES” (e-fls. 3406, conforme já demonstrado), na linha “Rendimentos antes do imposto de renda”. Foi apurado o resultado auferido no exterior segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio e antes da tributação no exterior sobre o lucro, conforme art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995 (redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) 8 e art. 8º, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014, precisamente o critério adotado pela demonstração financeira auditada (e-fls. 3404): Como se pode observar, a demonstração financeira auditada foi elaborada em conformidade com os princípios contábeis geralmente aceitos nos Estados Unidos da América. Portanto, deve-se manter a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e negar provimento à Impugnação em relação à matéria”. (...) II. Multas Regulamentares. Obrigações Acessórias. A acusação fiscal trata da imputação de penalidade em razão do envio de declarações à Receita Federal com informações incorretas (inexatidões, incorreções ou omissões). Fl. 5428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 60 Foram apuradas as multas regulamentares: Relata a autoridade autuante: Durante a presente fiscalização, revelou-se que o sujeito passivo entregou ao Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) arquivo relativo à Escrituração Contábil Fiscal (ECF), correspondente ao Ano-calendário de 2018, com informações incorretas no tocante aos resultados registrados e aos estoques de prejuízos fiscais de suas investidas estrangeiras. As irregularidades dizem respeito aos valores declarados nos registros X351 (Demonstrativo de Resultados), X353 (Demonstrativo de Consolidação) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), confrontados com as Demonstrações Financeiras das investidas do ano de 2018 e de anos anteriores, as planilhas contendo a memória de cálculo da utilização dos saldos de prejuízos, e as planilhas que detalham a composição dos valores adicionados ao lucro líquido entre 2014 a 2018, na linha “Lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior”. Em resumo, porquanto as irregularidades foram detalhadamente expostas nos itens precedentes, para cada investida, verificou-se que: a) Para algumas investidas, os resultados positivos ou negativos informados em ECF, do ano-calendário 2018, no registro X351 (Demonstrativo de Resultados), não estão de acordo com os lucros ou prejuízos antes dos tributos sobre o lucro das Demonstrações de Resultado entregues a esta auditoria, para mais ou para menos; Fl. 5429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 61 b) Para todas as investidas indicadas para consolidação dos resultados no registro X340, não foram informados os resultados positivos ou negativos no registro X353 (Demonstrativo de Consolidação) da ECF do Ano- calendário 2018; c) Os resultados negativos de períodos anteriores a 2014 (considerando a opção da Fiscalizada nos termos dos artigos 5º e 6º da IN RFB n.º 1.520/2014), em reais e moeda local, de qualquer investida, não foram declarados até 30/09/2015, no Registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados), como determina o artigo 38, § 1º, da IN RFB n.º 1.520/2014; d) Os resultados negativos de períodos anteriores a 2014 não estão sequer de acordo com os próprios registros da Fiscalizada entregues no curso desta auditoria; e) Os saldos negativos acumulados a partir de 2014, em moeda local, não foram declarados no Registro X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados) no prazo limite para entrega da ECF do respectivo Ano- calendário em que apurados, conforme determina o artigo 38, § 2º, da IN RFB n.º 1.520/2014; f) Os saldos negativos acumulados, em moeda local, não estão sequer de acordo com os próprios registros da Fiscalizada entregues no curso desta auditoria. Ademais, foi constatado que a Fiscalizada utilizou indevidamente a parte B do Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR) para “controle” do saldo de prejuízo das investidas no exterior. Infere-se que houve uso incorreto do LALUR já que a legislação permite: i) o aproveitamento de resultado negativo somente com lucros futuros da mesma pessoa jurídica no exterior e, neste caso, antes da conversão em reais, ou ii) excepcionalmente, em consolidação com os resultados de outras investidas indicadas pelo contribuinte, mas em hipótese alguma abater diretamente o lucro apurado no Brasil e, ademais, iii) os saldos de resultados negativos devem ser controlados no registro próprio da ECF (X354), conforme previsão em ato normativo. As inconsistências e omissões tornaram impossível determinar quais seriam os valores corretos dos saldos de prejuízos acumulados e o impacto na diminuição do lucro tributável da Fiscalizada em 2018, o que exigiu a análise dos resultados considerados de 2014 a 2017, e que compuseram ou não o valor adicionado no LALUR a título de lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior. Como foi bem destacado para cada investida, as multas pelas incorreções são devidas, posto que a obrigação acessória não reflete os valores que são de controle e conhecimento da Fiscalizada, atestado pelas planilhas Fl. 5430DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 62 elaboradas em atendimento às intimações. Ou seja, a Fiscalizada não fez constar, em sua obrigação acessória, a realidade dos fatos. Além do uso indevido da parte B do LALUR, já que a norma prevê claramente o uso do registro X354, os valores ali “controlados” não refletem as utilizações dos prejuízos em consolidações, a partir de 2014, mostrando, de fato, um saldo inexistente, como explicado nos tópicos individualizados. A inexatidão no valor dos saldos acumulados foi inclusive taxativamente reconhecida pela Fiscalizada para algumas investidas, consoante Resposta de 01/06/2023. Os registros da ECF visam não só trazer mais transparência a dados que podem impactar significativamente os resultados tributáveis da Fiscalizada, mas também auxiliá-la no efetivo controle da compensação com prejuízos. A planilha elaborada por esta auditoria, juntada à folha 4.532, evidencia o dano ao trabalho de apuração dos saldos diante de resultados tão conflitantes para algumas investidas. As inconsistências das memórias de cálculo e dos registros da ECF impossibilitaram que se chegasse a qualquer conclusão quanto a materialidade dos prejuízos, o que exigiu a averiguação dos valores dos resultados das investidas apurados de 2014 a 2017, e que compuseram ou não o lucro fiscal. E não foram erros pontuais, referentes somente ao ano de 2018, tendo em conta que aferição dos saldos de prejuízos acumulados demandou a análise das ECFs referentes a anos anteriores. Constatou-se que os erros e as omissões cometidos pela Fiscalizada foram recorrentes. Passaram-se cinco anos desde a entrada em vigor da Lei n.º 12.973/2014 e da IN RFB n.° 1.520/2014, até a data de entrega da ECF do ano fiscalizado, tempo suficiente para entender e cumprir os novos normativos reguladores da matéria. A multa como sanção administrativa tem por finalidade estimular o cumprimento da obrigação tributária e tem caráter didático quando aplicada, para evitar futuras incorreções. Não se trata, no presente caso, de impor posicionamento ao contribuinte diverso de seu entendimento. Muito pelo contrário, já que a conclusão de que houve erro baseia-se nos seus próprios controles, revelados em planilhas, que resultam em valores divergentes aos declarados em ECF, independentemente de se filiar ou não aos prazos exigidos em norma para utilização dos prejuízos no futuro. Os saldos dos registros e da parte B do LALUR continuarão incorretos nos montantes em que informados na ECF, ainda que, em eventual discussão administrativa, os prazos normativos sejam julgados irrelevantes e haja concordância com o uso da parte B para controles de resultados de terceiros apurados no exterior. A Receita Federal, por meio das IN RFB nº 1.422, de 2013 12 (redação dada ao art. 6º pela Instrução Normativa RFB nº 1574, de 24 de julho de 2015, e posteriormente pela sucessora IN RFB nº 2.004, de 2021), manifestou-se sobre a Fl. 5431DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 63 norma aplicável para sancionar a conduta relativa a descumprimento de envio da Escrituração Contábil Fiscal (ECF). No caso concreto, sendo a Impugnante submetida ao regime de tributação do lucro real, cabe o disposto nos arts. 8º e 8º-A do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977. Dispõe o art. 6º-A, caput e § 2º da IN RFB nº 1.422, de 2013: Art. 6º A não apresentação da ECF pelos contribuintes que apuram o Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica pela sistemática do Lucro Real, nos prazos fixados no art. 3º, ou a sua apresentação com incorreções ou omissões, acarretará a aplicação, ao infrator, das multas previstas no art. 8º-A do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, com redação dada pela Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1574, de 24 de julho de 2015) (Grifei) A sucessora IN RFB nº 2.004, de 2021, manteve o entendimento, sobre a aplicação da penalidade às pessoas jurídicas que não apuram o IRPJ pela sistemática do lucro real: Art. 6º A não apresentação da ECF pelas pessoas jurídicas nos prazos fixados no art. 3º, ou a sua apresentação com incorreções ou omissões, acarretará a aplicação, ao infrator: I - das multas previstas no art. 8º-A do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, para as pessoas jurídicas que apuram o IRPJ pela sistemática do lucro real; (...) (Grifei) Transcrevo os arts. 8º e 8º-A do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977: Art 8º - O contribuinte deverá escriturar, além dos demais registros requeridos pelas leis comerciais e pela legislação tributária, os seguintes livros: I - de apuração do lucro real, que será entregue em meio digital, e no qual: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) a) serão lançados os ajustes do lucro líquido do exercício, de que tratam os §§ 2º e 3º do artigo 6º; b) será transcrita a demonstração do lucro real e a apuração do Imposto sobre a Renda; (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014)c) serão mantidos os registros de controle de prejuízos a compensar em exercícios subsequentes (art. 64), de depreciação acelerada, de exaustão mineral com base na receita bruta, de exclusão por investimento das pessoas jurídicas que explorem atividades agrícolas ou pastoris e de outros valores que devam influenciar a determinação do lucro real de exercício futuro e não constem de escrituração comercial (§ 2º). II - razão auxiliar em ORTN (art. 42). (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) Fl. 5432DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 64 § 1º Completada a ocorrência de cada fato gerador do imposto, o contribuinte deverá elaborar o livro de que trata o inciso I do caput, de forma integrada às escriturações comercial e fiscal, que discriminará: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) a) o lucro líquido do exercício do período-base de incidência; b) os registros de ajuste do lucro líquido, com identificação das contas analíticas do plano de contas e indicação discriminada por lançamento correspondente na escrituração comercial, quando presentes; (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) c) o lucro real. d) a apuração do Imposto sobre a Renda devido, com a discriminação das deduções, quando aplicáveis; e (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) e) demais informações econômico-fiscais da pessoa jurídica. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) § 2º Para fins da escrituração contábil, inclusive da aplicação do disposto no § 2º do art. 177 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, os registros contábeis que forem necessários para a observância das disposições tributárias relativos à determinação da base de cálculo do imposto de renda e, também, dos demais tributos, quando não devam, por sua natureza fiscal, constar da escrituração contábil, ou forem diferentes dos lançamentos dessa escrituração, serão efetuados exclusivamente em: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I – livros ou registros contábeis auxiliares; ou (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – livros fiscais, inclusive no livro de que trata o inciso I do caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) § 3º O disposto neste artigo será disciplinado em ato normativo da Secretaria da Receita Federal do Brasil. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) § 4º Para fins do disposto na alínea “b” do § 1º, considera-se conta analítica aquela que registra em último nível os lançamentos contábeis. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) Art. 8º-A. O sujeito passivo que deixar de apresentar o livro de que trata o inciso I do caput do art. 8º, nos prazos fixados no ato normativo a que se refere o seu § 3º, ou que o apresentar com inexatidões, incorreções ou omissões, fica sujeito às seguintes multas: (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) Fl. 5433DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 65 I - equivalente a 0,25% (vinte e cinco centésimos por cento), por mês- calendário ou fração, do lucro líquido antes do Imposto de Renda da pessoa jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, no período a que se refere a apuração, limitada a 10% (dez por cento) relativamente às pessoas jurídicas que deixarem de apresentar ou apresentarem em atraso o livro; e (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) II - 3% (três por cento), não inferior a R$ 100,00 (cem reais), do valor omitido, inexato ou incorreto. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (...) (Grifei) No caso concreto, uma vez intimada, a Impugnante efetuou as retificações nas declarações, conforme relata a autoridade autuante: “Por meio do Termo de Constatação e de Intimação de 13/11/2023, a Fiscalizada foi cientificada de todas as inconsistências observadas na mencionada ECF. Com base nos artigos 971 e 972 do RIR/2018, e unicamente para os efeitos do disposto no artigo 8º-A, inciso II do caput, e inciso II, § 3º, do Decreto-Lei n.º 1.598/76, o sujeito passivo foi intimado a retificar a ECF, do Ano-calendário 2018, para corrigir os registros X351 (Demonstrativo de Resultados), X353 (Demonstrativo de Consolidação) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados). A Fiscalizada prontamente atendeu à intimação na íntegra, o que não significa que esteja de acordo com os valores a serem retificados, ou que não discutiria administrativamente, conforme ressalvado no Termo. As tabelas dos Anexos mostram os valores incorretos e aqueles corrigidos por esta auditoria, que foram retificados pelo sujeito passivo, fazendo jus à redução da multa para o percentual de 1,5%. (Grifos originais)” Nesse contexto, beneficiou-se a Impugnante da redução de 50% da multa aplicada, tendo sido aplicada sobre a base de cálculo o percentual de 1,5%, em vez de 3%, consoante caput do art. 8º-A, inciso II c/c § 3º, inciso II, do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, incluídos pela Lei nº 12.973, de 2014: Art. 8º -A. (...) § 3º A multa de que trata o inciso II do caput: (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) (...) II - será reduzida em 50% (cinquenta por cento) se forem corrigidas as inexatidões, incorreções ou omissões no prazo fixado em intimação. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Grifei) Protesta a Impugnante que a multa não caberia como instrumento de coação dos sujeitos passivos para que convirjam com os entendimentos adotados pelo Fisco, situação qualificada como sanção política – isto é, de injustificada Fl. 5434DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 66 restrição ao exercício da atividade econômica ou profissional, que implica afronta aos princípios da proporcionalidade, da razoabilidade e do devido processo – repudiada na Jurisprudência. Pugna pela aplicação do art. 112 do CTN, menciona decisão do CARF (Acórdão nº 1302-006.413, de 15/03/2023), e sustenta que as divergências teriam sido decorrentes de questão interpretativa, uma vez que as informações prestadas teriam refletido o seu critério na apuração dos resultados das investidas. Entende que a Lei nº 9249/1995, artigo 25, em seus §2º, incisos I e II, definem que os lucros auferidos por filiais e sucursais no exterior serão demonstrados segundo as normas da legislação brasileira. Sobre a base de cálculo da multa, aduz que o registro voluntário na parte B do LALUR dos prejuízos verificados para controle não seria vedado. Alega que o Fisco sancionou duas vezes a mesma conduta, ao imputar a multa em face do preenchimento do registro X354 e da parte B do LALUR (Multas de R$ 13.725.104,52 e de R$ 3.899.328,69) e em face de diferenças de valores na apuração do IRPJ e da CSLL (Multa de R$ 5.185.158,14). Ainda, entende que a manutenção dos registros na Parte B do LALUR encontraria previsão no art. 277, inc. III do RIR/2018. Reclama que para a imposição da multa regulamentar o registro de saldo acumulado deveria ser confrontado com a realidade de fato (contabilidade), ainda que o Fisco entenda que não poderiam ser utilizados em razão de registro extemporâneo, com ocorreu com o registro X354 referente à BB Londres. Protesta a ocorrência de bis in idem na medida em que o Fisco considerou como sendo distintas o mesmo fato referente à informação que se encontra replicada nos registros da ECF (X351, X353, X354 ou Parte B do LALUR). Não lhe assiste razão. Trata-se de fato incontroverso o envio de ECF com informações incorretas nos registros X351, X353 e X354 e controle indevido da Parte B do LALUR. A conduta incorrida pela Impugnante mereceu qualificação no mundo jurídico, sendo editada lei com a correspondente tipificação e sanção, devidamente elaborada pelo Poder Legislativo e aprovada pelo Poder Executivo, gozando de legalidade a constitucionalidade. A imputação da norma tributária em análise é de ordem objetiva, e não comporta aspecto subjetivo de conduta, não cabendo apreciação de culpabilidade, ou de existência ou não de boa-fé. Para a tipificação da conduta, basta a sua ocorrência, concretizando-se plenamente a hipótese de incidência. O cumprimento de obrigação acessória não é uma faculdade. É uma obrigação prevista em lei. A multa regulamentar trata de sanção em face de descumprimento de obrigação acessória, no caso, prestação positiva (encaminhar ECF para a Administração Tributária), prevista no art. 113 do CTN: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. Fl. 5435DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 67 § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extingue-se juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, converte-se em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. (Grifei) O art. 115 determina o fato gerador da obrigação acessória: Art. 115. Fato gerador da obrigação acessória é qualquer situação que, na forma da legislação aplicável, impõe a prática ou a abstenção de ato que não configure obrigação principal. A multa regulamentar, por sua vez, vem tutelar o devido cumprimento da obrigação acessória, no caso, encaminhar declaração (ECF). Para isso, impõe sanções para quem não cumprir ou cumprir inadequadamente (entrega com atraso, omissões, incorreções, dentre outros) a obrigação. Não há que se falar em aplicação do art. 112 do CTN, vez que não há dúvidas sobre interpretação. Restou exaustivamente demonstrado nos autos o descumprimento das obrigações acessórias pela Impugnante. Optou por apresentar ao Fisco informações divergentes, sem correspondência nenhuma, conflitando dados de contabilidade, demonstrativos de resultados e documentos de suporte (por ex., planilhas). A apresentação de informações incorretas em ECF restou plenamente comprovada, tendo sido a Impugnante intimada reiteradamente a retificar os dados. O ordenamento jurídico não fornece amparo a conduta negligente. Não se trata de “questão interpretativa”. No caso, as questões interpretativas mostraram-se tão amplas que, mesmo no escopo dos documentos apresentados pela Impugnante, foram apuradas divergências. Contabilidade sem correspondência com Demonstrativos de Resultados, Demonstrativos Financeiros, que por sua vez não guardam correspondência com planilhas de apuração elaboradas pela própria fiscalizada, dentre outros. A autoridade autuante descreveu com detalhes, no tópico 2.2. Auditoria (e- fls. 4930/4938) do Termo de Verificação Fiscal, as inúmeras inconsistências das informações prestadas pela Impugnante. Primeiro, inúmeros pedidos de prorrogação de prazo e várias respostas evasivas, com entrega de documentos com informações incompletas, não auditadas e sem nenhum padrão: Houve pedido de prorrogação do prazo por três vezes e o atendimento integral do referido TIF ocorreu em 18/10/2022. Fl. 5436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 68 Como resposta à solicitação de entrega de Balanço Patrimonial e Demonstração de Resultado do Exercício, foram entregues relatórios ou balancetes que não seguem a estrutura de demonstração financeira, com contas e subcontas não classificadas e agrupadas para fins de demonstração do lucro ou prejuízo do exercício. Ditas demonstrações estão em idioma estrangeiro, algumas sequer apresentam nome ou descrição das contas, conta de resultado ou totalizadores e, excetuando apenas duas, não apresentam o resultado antes dos tributos sobre o lucro. Além disso, há diversos casos em que, nas “demonstrações”, sequer constam os nomes das investidas ou a informação das moedas em que foram elaboradas. A princípio, não houve entrega de qualquer documento relativo à controlada direta Banco Patagônia S.A. e a suas controladas Banco Patagônia Uruguai, GPAT Compañía Financiera S.A., Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa e Patagônia Inversora S.A. Foram elaborados Termos de Constatação e Intimação Fiscal, por meio dos quais foram relatadas as inconsistências e novamente solicitadas as apresentações de BPs e de DREs, em 31/01/2023, 14/02/2023 e 04/04/2023. Em resumo, as respostas dadas se limitaram a: - Nomear as investidas de acordo com as páginas do dossiê fiscal (resposta de 08/02/2023); - Apresentar o resultado antes dos tributos numa planilha Excel e no registro da ECF (resposta de 08/02/2023); - Alegar procedimento licitatório para tradução, contudo sem informar uma data estimada para cumprimento ou para quais investidas (resposta de 08/02/2023, 22/02/2023, 27/02/2023, 06/03/2023). Transcrevo exemplo referente à BB Londres: “Cito exemplos da confusão: a primeira memória de cálculo, entregue em 26/08/2022, indica que a origem do prejuízo da investida Londres seria o ano de 2017, no valor de R$ - 305.350.699,64. A segunda memória de cálculo, entregue em 22/02/2023, indica o ano de 2008 como o da apuração do prejuízo utilizado, e que teria sido insuficiente para as compensações feitas em 2017 e 2018. A terceira memória de cálculo, entregue em 05/05/2023, indica que a origem da apuração do prejuízo utilizado estaria no ano de 2016, no valor de $ 288.301.261,89 em moeda local, e que teria havido a utilização de $ 172.348.747,93 em moeda local, o que não confere com o valor considerado na consolidação do mesmo período, que foi de $ 167.337.257,91”. Como se pode observar, a Impugnante apresentou informações discrepantes em três oportunidades, cada qual com uma “interpretação”. Fl. 5437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 69 Reclama a Impugnante para se considere a “realidade dos fatos”. Qual das três realidades? Transcrevo ocorrências sobre as investidas em Madrid e Santiago: Fl. 5438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 70 “Outro exemplo: a investida Madri teria um saldo remanescente de prejuízo apurado em 2015, no valor de R$ 5.034.409,91 na primeira memória de cálculo. Já na segunda, os prejuízos apurados em 2015, 2016 e 2017, não teriam sido utilizados e foram parcialmente compensados em 2018. Já na terceira memória de cálculo, não consta a investida Madri, e a Fiscalizada respondeu que não teria havido compensação de prejuízo desta investida (Resposta de 05/05/2023), em que pese a planilha de 2018 claramente mostrar que o resultado positivo foi anulado por compensação, com saldo de resultado negativo de períodos anteriores. Último exemplo: a investida Santiago, que aparece com um saldo negativo remanescente em 2018 de R$ -10.419.898,37 ($ 1.863.691.355,93 em moeda local), na primeira memória de cálculo, originado nos anos de 2005, 2007 e 2008. A segunda memória de cálculo aponta que, antes de 2005, já haveria saldo negativo remanescente, parcialmente utilizado, inclusive para compensar integralmente os resultados de 2012 e 2013, e não aponta utilização dos prejuízos de 2014 e de 2017 em consolidação nos mesmos exercícios, restando, em 2018, $ 4.561.468.498,94 em moeda local. Por fim, a terceira memória de cálculo traz prejuízo a partir de 2005, exaurido em 2012, não mostra as compensações em 2012 e 2013, e mostra utilização dos resultados negativos de 2014 e de 2017 em consolidação, remanescendo saldo zero em 2018’. As provas inconsistentes e respostas incompletas foram relatadas pela autoridade fiscal: ‘Além dos problemas de provas juntadas pela Fiscalizada, há que se observar que, diante de certos questionamentos e solicitações, no esforço para se tentar compreender os fatos e aceitar a documentação trazida, não foram dadas respostas ou apresentadas provas, por exemplo: de que haveria licitação em andamento, motivo dado desde 26/08/2022 para os inúmeros pedidos de dilação de prazo (Termo de 04/04/2023); acerca da insuficiência de prejuízo apurado pela investida Londres (Termo de 18/04/2023); acerca da não entrega da demonstração financeira da investida Londres referente ao ano de 2015 (Termo de 18/04/2023); acerca da divergência do saldo de prejuízo demonstrado em moeda local e em Reais para todas as investidas (Termo de 18/04/2023), não entrega de demonstrativos assinados pelo Contador ou Representante Legal, apesar de conter campo específico no modelo encaminhado, e a anexação ao dossiê como “cópia simples”, não como documento original (Termo de 18/04/2023); e sobre a não identificação da moeda utilizada nos demonstrativos, em que pese a solicitação contida na planilha modelo (Termo de 18/04/2023)’. Fl. 5439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 71 Não há justificativa para tamanha negligência. São investidas no exterior cuja apuração dos lucros encontra-se devidamente normatizada, com lei e instruções normativas editadas no ano de 2014 e 2015. Os fatos geradores analisados no caso em tela tratam do Ano-calendário de 2018. A legislação é cristalina no sentido de que os resultados são apurados segundo as normas da legislação comercial do país de domicílio (art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, com redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) 13 e art. 8º, § 1º da IN RFB nº 1.520, de 2014. E mais, o art. 25 dispôs, no § 5º, autorização para aproveitamento de prejuízos e perdas na apuração dos das investidas no estrangeiro, que, no entanto, não poderiam ser compensados com lucros auferidos no Brasil, evidenciando a impropriedade dos registros na Parte B do LALUR da Impugnante. Conforme tópico I. Principal. Lucros no Exterior. Resultados Apurados. Considerações Iniciais, os arts. 77 a 80 e 92 da Lei nº 12.973, de 2014, dispuseram sobre regras claras a respeito da tributação dos lucros das investidas no exterior, delegando expressamente às instruções normativas o encargo de dispor sobre procedimentos e prazos aplicáveis, dentre os quais, a elaboração e entrega de declarações e consolidação de lucros e prejuízos e o controle da Parte B do LALUR. Ignorar prazos e procedimentos estipulados em legislação não é “questão interpretativa”, mas sim ignorar lei aprovada pelo Poder Legislativo e sancionada pelo Poder Executivo. Descreve a autoridade autuante os danos decorrentes do descumprimento das obrigações acessórias e do uso indevido da Parte B do LALUR: As inconsistências e omissões tornaram impossível determinar quais seriam os valores corretos dos saldos de prejuízos acumulados e o impacto na diminuição do lucro tributável da Fiscalizada em 2018, o que exigiu a análise dos resultados considerados de 2014 a 2017, e que compuseram ou não o valor adicionado no LALUR a título de lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior. Como foi bem destacado para cada investida, as multas pelas incorreções são devidas, posto que a obrigação acessória não reflete os valores que são de controle e conhecimento da Fiscalizada, atestado pelas planilhas elaboradas em atendimento às intimações. Ou seja, a Fiscalizada não fez constar, em sua obrigação acessória, a realidade dos fatos. Além do uso indevido da parte B do LALUR, já que a norma prevê claramente o uso do registro X354, os valores ali “controlados” não refletem as utilizações dos prejuízos em consolidações, a partir de 2014, mostrando, de fato, um saldo inexistente, como explicado nos tópicos individualizados. A inexatidão no valor dos saldos acumulados foi inclusive taxativamente reconhecida pela Fiscalizada para algumas investidas, consoante Resposta de 01/06/2023. Fl. 5440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 72 Os registros da ECF visam não só trazer mais transparência a dados que podem impactar significativamente os resultados tributáveis da Fiscalizada, mas também auxiliá-la no efetivo controle da compensação com prejuízos. A planilha elaborada por esta auditoria, juntada à folha 4.532, evidencia o dano ao trabalho de apuração dos saldos diante de resultados tão conflitantes para algumas investidas. As inconsistências das memórias de cálculo e dos registros da ECF impossibilitaram que se chegasse a qualquer conclusão quanto a materialidade dos prejuízos, o que exigiu a averiguação dos valores dos resultados das investidas apurados de 2014 a 2017, e que compuseram ou não o lucro fiscal. E não foram erros pontuais, referentes somente ao ano de 2018, tendo em conta que aferição dos saldos de prejuízos acumulados demandou a análise das ECFs referentes a anos anteriores. Constatou-se que os erros e as omissões cometidos pela Fiscalizada foram recorrentes. Passaram-se cinco anos desde a entrada em vigor da Lei n.º 12.973/2014 e da IN RFB n.° 1.520/2014, até a data de entrega da ECF do ano fiscalizado, tempo suficiente para entender e cumprir os novos normativos reguladores da matéria. Nesse contexto, a materialidade em relação à prestação de informações incorretas em relação aos registros X351 (Demonstrativo de Resultados), X353 (Demonstrativo de Consolidação) e X354 (Demonstrativo de Prejuízos Acumulados) da ECF, e da Parte B do LALUR, encontra-se objetivamente delineada pela autuação fiscal.” Assim, oriento meu voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. DA ANÁLISE DO RECURSO DE OFÍCIO Por outro lado, no tocante ao recurso de ofício, também, em meu pensar, deve permanecer inalterada a parte da decisão de piso de deu provimento parcial à impugnação para efetuar o ajuste nos valores de Prejuízos Fiscais e Base de Cálculo Negativa de CSLL, em relação aos principal no tocante às seguintes empresas: Investida Consolidada. Banco Patagônia S.A. e Controladas Diretas: Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa e quanto nas multas regulamentares relativas aos registros X351 e X353 do Banco Patagônia e controladas, visto não poder se falar em incorreção nas informações prestadas em declaração. Dessa forma, nego provimento recurso de ofício, devendo prevalecer a decisão de piso a seguir transcrita: (...) “I.9. Investida Consolidada. Banco Patagônia S.A. e Controladas Diretas: Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa. Fl. 5441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 73 O Banco Patagônia S.A. e suas controladas diretas são as únicas investidas não subsidiárias integrais do Banco do Brasil que foram objeto da ação fiscal. As controladas diretas são Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa. Após intimações às investidas, no qual foram apresentados documentos pela Impugnante que não foram considerados pela autoridade autuante, foram aceitas, para fins de prova, as demonstrações financeiras auditadas relacionadas à e-fls. 4937 do Termo de Verificação Fiscal: “Em resumo, para fins de prova, foram aceitas as demonstrações financeiras seguintes, com respectivas traduções, quando for o caso: a) Demonstrações de Resultado auditadas das investidas BB Asset Management Ireland Limited (fl. 1.972); BB Miami (fl. 2.020); BB Nova Iorque (fl. 2.058); BB USA Service Center (fl. 2.108); Banco Patagonia Uruguay SAI.F.E. (fl. 2.226); BB Santiago (fl. 2.265); GPAT Compañía Financiera (fl. 2.350); Patagonia Inversora S.A. (fl. 2.475); Patagonia Valores S.A. (fl. 2.521); BB Americas (fl. 3.402); e Securities Asia Pte. Ltd. (fl. 3.368); Banco Patagônia S.A. (fl. ) (sic) (Grifei) Ainda informou a Impugnante que, no decorrer do Ano-calendário de 2018, houve alteração no seu percentual de participação societária no Banco Patagônia S.A. e controladas. Até o dia 31/08/2018, a participação societária foi de 58,9731%. A partir de 01/09/2018, a participação societária foi alterada para 80,3894%. Nesse contexto, nos demonstrativos financeiros auditados pela Impugnante, a apuração do resultado no decorrer do Ano-calendário de 2018 deu-se de maneira proporcional. Os lucros/prejuízos auferidos pelo Banco Patagônia S.A. e controladas até 31/08/2018 foram reconhecidos proporcionalmente no percentual de 58,9731%, e os lucros/prejuízos auferidos de 01/09/2018 até 31/12/2018 foram reconhecidos proporcionalmente no percentual de 80,3894%. Ocorre que a autoridade autuante entendeu estar incorreto o procedimento de apuração adotado pela Impugnante. Transcrevo excertos do Termo de Verificação Fiscal no qual são tecidas considerações a respeito do Banco Patagônia S.A. (e-fls. 4950/4951): Fl. 5442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 74 A autoridade autuante aplicou o mesmo entendimento para as controladas diretas do Banco Patagônia S.A.: Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E, GPAT Compañía Financiera S.A, Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa. Assim, para a apuração dos lucros auferidos pelo Banco Patagônia S.A. e controladas diretas, a autoridade fiscal apurou o resultado do Ano-calendário de 2018, e aplicou o percentual da participação societária da Impugnante nas investidas vigente em 31/12/2018, de 80,3894%. Na peça de defesa, a controvérsia trazida reside precisamente no percentual de participação societária adotado pela autoridade fiscal para a apuração do resultado do Banco Patagônia S.A. e controladas diretas (e-fls. 5009): “70. Como houve mudança no percentual de participação do Sujeito Passivo nas investidas, a partir de setembro de 2018, de 58,9731% para 80,3894%, o resultado conferido às investidas para o exercício deve corresponder à “parcela do ajuste do valor do investimento em controlada” (art. 77, caput, da Lei nº 12.973/2014), o que não condiz com os montantes apontados pela Fiscalização. 71. Ora, a participação societária do Sujeito Passivo nas investidas foi majorada para 80,38% apenas no terceiro trimestre de 2018, como comprovado no Fato Relevante anexo, o que significa que, até então, por óbvio, a parcela do ajuste do valor do investimento correspondia a 58,97% do lucro antes do imposto sobre a renda. 72. Dessa senda, o critério adotado no lançamento, para considerar os 80,3894% do resultado durante todo o exercício, não corresponde à realidade dos fatos, tampouco com a contabilidade da Controladora, mas decorre de desarrazoada interpretação do art. 76 c/c art. 77 do diploma supracitado”. Passo ao exame. Assiste razão à Impugnante. Transcrevo os arts. 76 e 77 da Lei nº 12.973, de 2014, na parte que interessa ao litígio: Art. 76. A pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil ou a ela equiparada, nos termos do art. 83, deverá registrar em subcontas da conta de investimentos em controlada direta no exterior, de forma individualizada, o resultado contábil na variação do valor do investimento equivalente aos lucros ou prejuízos auferidos pela própria controlada direta e suas controladas, direta ou indiretamente, no Brasil ou no exterior, relativo ao Ano-calendário em que foram apurados em balanço, observada a proporção de sua participação em cada controlada, direta ou indireta. (...) Fl. 5443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 75 Art. 77. A parcela do ajuste do valor do investimento em controlada, direta ou indireta, domiciliada no exterior equivalente aos lucros por ela auferidos antes do imposto sobre a renda, excetuando a variação cambial, deverá ser computada na determinação do lucro real e na base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL da pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil, observado o disposto no art. 76. (...) (Grifei) Não há que se confundir a temporalidade com a materialidade. A hipótese de incidência tributária se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade2. No caso, cabe apreciar os aspectos temporal e material. Para se consumar a hipótese de incidência, há que se concretizar a ocorrência de todos os aspectos previstos na norma3. O art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe que a inclusão do resultado auferido pelas investidas no exterior deve ocorrer em 31 de dezembro de cada ano: Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. (Vide Medida Provisória nº 2158-35, de 2001) Trata-se do aspecto temporal, o momento em que o contribuinte deve consolidar o resultado tributável. A depender o tributo, a temporalidade pode ser mensal, trimestral, anual, ou outra determinada pelo legislador. Por sua vez, dentro do período estabelecido pelo aspecto temporal (no caso concreto, de 01/01/2018 a 31/12/2018), cabe verificar qual é a materialidade que foi qualificada pelo legislador como tributável. Trata-se da determinação da matéria tributável predicada no art. 142 do CTN11 . E, em se tratando do resultado auferido pelas investidas no exterior, determina o art. 76 da Lei nº 12.973, de 2014, que caberá à controladora do Brasil observar a proporção de sua participação em cada controlada, direta ou indireta. Entender que caberia aplicar a proporção da participação societária apenas na data de fechamento do balanço de 31/12 seria captar um instantâneo da materialidade tributável vigente apenas no último dia do ano, e generalizar sua aplicação para todo o Ano-calendário restante. Numa situação limite, poder-se-ia trazer caso no qual a investidora tem participação de 1% até 30 de novembro, e passa a deter 100% da participação da sociedade a partir de 1º de dezembro. Então caberia a tributação de 100% dos lucros no exterior auferidos no decorrer 2 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. 3 Daí designarmos os aspectos essenciais da hipótese de incidência tributária por: a) aspecto pessoal; b) aspecto material; c) aspecto temporal e d) aspecto espacial. (ATALIBA, 2010, p. 78) Fl. 5444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 76 de todo o Ano-calendário? Como se pode observar, trata-se de interpretação que não encontra sustentação jurídica. Nesse sentido, tomando-se por referências as demonstrações financeiras auditadas relacionadas à e-fls. 4937 do Termo de Verificação Fiscal, consideradas válidas, para fins de prova, pela autoridade autuante, cabe ser efetuada a alteração do lançamento de ofício, para que se possa refletir a materialidade prevista pela norma tributária: apurar o resultado de 01/01/2018 até 31/08/2018 com base no percentual de 58,9731%, e o resultado de 01/09/2018 a 31/12/2018 com base no percentual de 80,3894%. Os cálculos efetuados refletindo a alteração da base tributável serão apresentados no ANEXO I – MEMÓRIA DE CALCULO. Portanto, deve-se alterar a apuração efetuada pela autoridade fiscal, e dar provimento à Impugnação em relação à matéria, para considerar na apuração do resultado das investidas Banco Patagônia S.A.; Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa; a participação societária de 58,9731% para o período de 01/09/2018 a 31/08/2018, e a participação societária de 80,3894% para o período de 01/09/2018 a 31/12/2018. II. Multas Regulamentares. Obrigações Acessórias. A acusação fiscal trata da imputação de penalidade em razão do envio de declarações à Receita Federal com informações incorretas (inexatidões, incorreções ou omissões). Foram apuradas as multas regulamentares: Fl. 5445DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 77 (...) Assim, agiu corretamente a autoridade autuante, com única ressalva em relação aos resultados do Banco Patagônia e controladas, no qual a Impugnante manifestou-se sobre os registros X351 e X353. Transcrevo excerto da impugnação: e) Informação nos registros X351 e X353 para Banco Patagônia e controladas 119. Para as investidas não subsidiárias integrais, a divergência apurada na auditoria sustenta-se no entendimento de que a parcela do ajuste do valor do investimento (a ser consolidado) deve corresponder à participação societária na data do balanço de encerramento do exercício – numa interpretação do disposto nos arts. 76 e 77, da Lei nº 12.973, que diverge da posição adotada pelo Sujeito Passivo. 120. Na sua consolidação, o Contribuinte considerou os lucros auferidos na proporção efetiva de participação societária no decorrer do exercício (tendo em vista a alteração do percentual de participação). (...) f) Erro na definição da base de cálculo da multa para o registro referente ao Banco Patagônia Uruguai S.A.I.F.E 122. Ao cotejar os resultados registrados para a investida, a fiscalização equivocou-se no cálculo das diferenças. Fl. 5446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 78 123. A diferença em reais totalizou R$ 3.645.017,92, e a aplicação de 1,5% sobre essa diferença resultaria em R$ 54.480,51, ou seja, valor bem inferior ao montante apurado no Anexo 1 do TVF ($3.645.071,92), conforme imagens a seguir: De fato, conforme tópico I.9. Investida Consolidada. Banco Patagônia S.A. e Controladas Diretas: Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa; do presente voto, que apreciou a acusação principal em relação ao principal do IRPJ e da CSLL, não há reparos a fazer nas informações prestadas pela Impugnante. Por consequência, não há que se falar em incorreção nas informações prestadas em declaração. Nesse contexto, em relação ao pedido formulado pela Impugnante, deve-se afastar as multas regulamentares relativas aos registros X351 e X353 do Banco Patagônia e controladas. Na medida em que estão sendo afastadas integralmente as multas regulamentares dos registros X351 e X353 do Banco Patagônia e controladas, resta prejudicado o pedido da impugnação f) Erro na definição da base de cálculo da multa para o registro referente ao Banco Patagônia Uruguai S.A.I.F.E, vez que se insere na materialidade afastada pelo presente voto. Fl. 5447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 79 Os cálculos efetuados refletindo o afastamento parcial das multas regulamentares serão apresentados no ANEXO I – MEMÓRIA DE CALCULO. Portanto, deve-se manter parcialmente as multas regulamentares, para afastar as multas regulamentares relativas aos registros X351 e X353 do Banco Patagônia S.A.; Banco Patagônia Uruguai S.A. I.F.E.; GPAT Compañía Financiera S.A.; Patagônia Inversora S.A. Sociedad Gerente Fondos Comunes de Inversión; e Patagônia Valores S.A. Sociedad de Bolsa; e dar provimento parcial à impugnação em relação à matéria. III. Multa de 75%. Princípio do Não Confisco. Protesta a Impugnante sobre a aplicação da multa de 75% e entende que a multa violaria o princípio do não confisco (art. 150, inc. IV da Lei Maior). Sobre a multa de 75%, prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 14, não se aplica na autuação fiscal do caso concreto. Isso porque a revisão de ofício efetuada pela autoridade autuante em relação aos principais de IRPJ e de CSLL teve como resultado a redução de Prejuízos Fiscais – IRPJ (R$517.095.691,89) e da Base de Cálculo Negativa de CSLL (R$517.095.691,89): Na medida em que não há resultado positivo na apuração (tributo a lançar), e sim ajuste no resultado dos prejuízos apurados no período fiscalizado, não há que se falar em imputação da multa de ofício de 75%. Fl. 5448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 80 Em relação ao princípio do não confisco, trata-se de matéria que escapa da competência do julgamento do contencioso administrativo tributário federal, conforme enunciado da Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Portanto, deve-se negar provimento em relação à matéria. IV. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de julgar procedente em parte a impugnação para: 1) Alterar a glosa do ajuste no Prejuízo Fiscal (IRPJ) e do ajuste na Base de Cálculo Negativa (CSLL) conforme Quadro 9: (...) 2) Alterar as multas regulamentares conforme Quadro 10: (...) 3) declarar definitivamente julgado no âmbito do contencioso administrativo federal o resultado apurado nas infrações tributárias relacionadas no Quadro 2 e Quadro 3.” Portanto, oriento meu voto no sentido de negar provimento ao recurso do ofício. CONCLUSÃO Ante o exposto, oriento meu voto no sentido de: a) rejeitar a preliminar de nulidade, b) negar provimento ao recurso de ofício, e, c) negar provimento ao recurso de voluntário. Assinado Digitalmente Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Ricardo Piza Di Giovanni Em que pese o brilhantismo da análise da ilustre relatora, tenho opinião diferente com relação ao Recurso Voluntário. O auto de infração apontou que ocorreu falta de adição ao lucro líquido, para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de resultados auferidos por meio de filiais e controladas domiciliadas no exterior, em decorrência de compensações de prejuízos acumulados de anos anteriores consideradas indevidas. Fl. 5449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 81 No julgamento do CARF, restaram mantidas as glosas de parte dos valores referentes à suposta falta de adição ao lucro líquido dos resultados auferidos pelo Sujeito Passivo no exterior, por meio de suas filiais e controladas, relativos ao ano-calendário de 2018, para fins de determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; assim como mantida a imposição de multa pela entrega de ECF contendo informações supostamente incorretas. No presente caso os resultados negativos acumulados das investidas em períodos anteriores ao ano de 2014 não foram declarados na ECF até a data de 30-09-2015, prazo definido no art. 38, § 1º, da IN RFB nº 1.520/2014. De igual modo, os saldos negativos acumulados a partir de 2014 também não foram declarados até a data limite prevista no § 2º do mesmo art. 38. Em virtude disso, concluiu a Autoridade Fiscal que a falta da informação (no Registro X354 da ECF) nos referidos prazos inviabilizaria o aproveitamento do estoque de prejuízos. No entanto, assumir que a Lei nº 12.973/2014 (arts. 77 e 78) tenha conferido à Receita Federal a prerrogativa de definir prazo preclusivo para compensação de prejuízos importaria reconhecer ao Fisco competência para alterar ou revogar a norma geral prevista no § 1º do art. 147 do CTN, que assegura a retificação de obrigação acessória pelo próprio declarante, sem perda de direito. Nessa perspectiva, é necessário observar que a retificação de obrigação acessória foi positivada no CTN (art. 147, § 1º) para assegurar ao Declarante o direito de reduzir ou excluir tributo, ostentando característica de norma geral, que serve de fundamento de validade material e parâmetro de interpretação para a legislação ordinária. Portanto, ao Contribuinte não restaria vedado retificar os saldos de prejuízos acumulados no exterior ou de aproveitá-los, por conta da inobservância dos deveres de informação estabelecidos na IN nº 1.520/2014. Ora, o regime de Tributação em Bases Universais compreende as disposições da Lei nº 9.249/1995, complementadas pela Lei nº 12.973/2014, que revogou o disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.158/2001. Ocorre que a decisão enfatizou os novos procedimentos previstos para a contabilização dos resultados auferidos pela Controladora, no Brasil, por meio de filiais ou controlados domiciliadas no exterior (art. 76 da Lei nº 12.973), além de destacar as regras referentes à tributação dos lucros auferidos nessa situação (artigos 77 a 80 da referida lei), tendo prevalecido o entendimento de que os resultados negativos acumulados das investidas no exterior referentes a períodos anteriores à vigência da nova disciplina seriam passíveis de aproveitamento se os estoques estivessem declarados na forma e no prazo estabelecidos pela Receita Federal, entendendo que a utilização dos estoques de prejuízos anteriores ao ano de 2015 estaria condicionada à transmissão do Demonstrativo de Prejuízos Acumulados no Exterior ao Sistema Público de Escrituração Digital (SPED), impreterivelmente até 30 de setembro de 2015 (conforme regulamentado no art. 38¸caput e §1º da IN RFB nº 1.520/2014), sob pena de inviabilizar o aproveitamento dos prejuízos em períodos posteriores. Fl. 5450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.493 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720961/2023-96 82 Logo, a interpretação sistemática do disposto art. 77, §2º, da Lei nº 12.973/2014indica que a transmissão de informações ao SPED após o prazo regulamentar de 30 de setembro de 2015 poderia ser aceita para utilização do direito de aproveitamento dos prejuízos acumulados anteriores ao referido exercício. Entendo que deveria ser reconhecido o direito de aproveitar os estoques de prejuízos acumulados de investidas no exterior, prevalecendo para tal o afastamento de empecilhos de meros equívocos formais de preenchimento de obrigação acessória, tanto em relação aos erros que tenham sido retificados (mediante entrega de declaração retificadora, antes do aproveitamento do valor), quanto daqueles evidenciados por meios idôneos de prova. Assinado Digitalmente Ricardo Piza Di Giovanni Fl. 5451DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto
score : 1.0
Numero do processo: 13884.905840/2020-66
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Nov 10 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Dec 31 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Data do fato gerador: 01/01/2016, 31/03/2016
PER/DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. SALDO NEGATIVO FORMADO POR IRRF. SÚMULAS CARF NºS 80 E 143.
Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos.
Numero da decisão: 1002-004.033
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
Assinado Digitalmente
Maria Angélica Echer Ferreira Feijó – Relatora
Assinado Digitalmente
Ailton Neves da Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente).
Nome do relator: MARIA ANGELICA ECHER FERREIRA FEIJO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 01/01/2016, 31/03/2016 PER/DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. SALDO NEGATIVO FORMADO POR IRRF. SÚMULAS CARF NºS 80 E 143. Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó – Relatora Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente).
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DIREITO CREDITÓRIO. SALDO NEGATIVO FORMADO POR IRRF. SÚMULAS CARF NºS 80 E 143. Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó – Relatora Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva – Presidente Fl. 36DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.033 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13884.905840/2020-66 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário (e-fls. 30-31) interposto por NOVAER CRAFT EMPREENDIMENTOS AERONÁUTICOS LTDA. contra a decisão da 5ª Turma da DRJ São Paulo (Acórdão nº 102-004.346, de 24/07/2023 – e-fls. 17-21), que julgou improcedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório de IRPJ, decorrente do PER/DCOMP nº 35833.74502.170217.1.3.02-5003 (e-fls. 6-10), referente ao 1º trimestre de 2016. A contribuinte transmitiu Declaração de Compensação (PER/DCOMP) em 17/02/2017, informando crédito de R$ 128.978,75, oriundo de saldo negativo de IRPJ – 2º trimestre/2016, composto de imposto de renda retido na fonte (IRRF) sobre aplicações financeiras de renda fixa informadas na DIRF do Itaú Unibanco S.A. (CNPJ 60.701.190/0001-04). O despacho decisório nº 2961918 (e-fls. 11-13) não homologou a compensação, sob o fundamento de que não havia saldo negativo a restituir ou compensar, tendo a ECF do ano-calendário 2016 demonstrado IRPJ a pagar no valor de R$ 1.269.443,75, e não saldo negativo. Após a apresentação da Manifestação de Inconformidade, a DRJ, entretanto, manteve a decisão de não homologação, destacando que os rendimentos de aplicações financeiras não foram declarados na ECF/2017 (registro P200) e, portanto, o IRRF correspondente não poderia compor saldo negativo de IRPJ. Inconformada, a contribuinte interpôs o presente recurso voluntário (e-fls. 30-31), reiterando que as receitas financeiras foram apuradas sob regime de caixa e que o imposto retido não foi deduzido na apuração, pleiteando o reconhecimento do crédito e consequente homologação da compensação. Juntou ao recurso planilha de apuração do lucro presumido no período, de elaboração própria (e-fls. 32-33). O processo foi a mim distribuído e pautado para a presente sessão de julgamento. É o relatório. VOTO Conselheira Maria Angélica Echer Ferreira Feijó, Relatora I – Admissibilidade Conheço do recurso, pois estão presentes os seus requisitos de admissibilidade. Fl. 37DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.033 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13884.905840/2020-66 3 II – Da análise do direito creditório O ponto central da controvérsia é a existência (ou não) de crédito de IRPJ a título de saldo negativo no 2º trimestre/2016, decorrente de retenção na fonte sobre aplicações financeiras, passível de utilização em declaração de compensação (PER/DCOMP). Nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/1996, a compensação de tributos federais pressupõe crédito líquido e certo do sujeito passivo, devidamente comprovado. Assim, para que o contribuinte possa utilizar como crédito o saldo negativo de IRPJ formado por meio de pagamentos de IRRF, ele deve apresentar documentação robusta e coerente, que inclua comprovantes de pagamento, declarações fiscais, registros contábeis, e outros documentos relevantes que comprovem que (i) realmente foram realizadas as retenções e que (ii) as receitas oriundas foram ofertadas à tributação. Tal conclusão é a que se extrai a partir da Súmula CARF nº 80: Súmula CARF nº 80 Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto Súmula CARF nº 143 A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. No caso dos impostos retidos na fonte, o direito creditório somente se aperfeiçoa se as receitas correspondentes forem computadas na base de cálculo do imposto devido. Portanto, a mera retenção na fonte – tal como afirmado pelo contribuinte em suas defesas - não confere, por si só, direito ao crédito; é imprescindível o oferecimento da receita à tributação. Da análise da ECF 2017 (ano-calendário 2016), verificou-se que a contribuinte não declarou rendimentos e ganhos líquidos de aplicações de renda fixa (linha 11, registro P200) no 1º trimestre/2016, conforme consignado pela DRJ. A DIRF 2017 apresentada pelo Itaú Unibanco indicava retenção de R$ 129.355,14, calculada sobre R$ 467.463,90 de rendimentos de renda fixa. Contudo, tais rendimentos não constam da apuração da base de cálculo do IRPJ, conforme o próprio relatório fiscal. Embora a recorrente alegue erro de linha na ECF (informação em “demais receitas e ganhos de capital”), não há nos autos documentação contábil que demonstre o efetivo cômputo dos rendimentos tributáveis — tampouco o registro contábil de tais aplicações na base de cálculo presumida.Assim, o valor do IRRF alegado como crédito não está vinculado a receita tributada, o que inviabiliza o reconhecimento do saldo negativo. Fl. 38DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.033 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13884.905840/2020-66 4 A ausência de correlação entre o rendimento tributável e o imposto retido afasta a liquidez do crédito, tornando inviável sua utilização para compensação. É necessário frisar que a Recorrente tentou provar o seu direito, contudo, o fez mediante a simples juntada de planilhas elaboradas por ela mesma, sem lastro contábil idôneo, o torna inviável a aferição das apurações às e-fls. 32-33 como verdadeiras: Ao lado dessas apurações feitas de forma unilateral, a contribuinte sustenta que adota o regime de caixa, conforme art. 770 do RIR/1999, segundo o qual os rendimentos de aplicações financeiras devem ser adicionados ao lucro presumido apenas por ocasião do resgate ou alienação. Entretanto, a fiscalização e a DRJ corretamente observaram que o regime de caixa Fl. 39DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.033 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13884.905840/2020-66 5 não se aplica ao IRPJ apurado trimestralmente no lucro presumido, salvo se comprovada a adoção contábil consistente e permanente desse método – o que não ocorreu. Além disso, a análise documental (ECF e registros auxiliares) revela que a contribuinte não demonstrou os fluxos de caixa correspondentes, tampouco apresentou livros auxiliares ou extratos que comprovassem o momento do resgate das aplicações. Portanto, a alegação de regime de caixa não encontra respaldo fático nem documental, sendo inaplicável como fundamento para reconhecer crédito tributário. III – Conclusão Ante o exposto, conheço do recurso voluntário e, no mérito, nego-lhe provimento. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó Fl. 40DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10932.720017/2015-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 24 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2010, 2011
PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DE RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS DURANTE O PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
A ausência de intimação dos responsáveis solidários durante o procedimento preparatório de fiscalização não configura, por si só, cerceamento do direito de defesa, desde que assegurado o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa na fase contenciosa, com acesso integral aos elementos de prova e oportunidade para apresentação de impugnação. Igualmente, a Súmula CARF nº 29 é inaplicável quando os corresponsáveis não figuram como cotitulares das contas investigadas.
PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS PARA COMPROVAR A ORIGEM DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Nos termos do art. 42, §5º, da Lei nº 9.430/1996, a intimação de terceiros se restringe à hipótese de o titular da conta bancária alegar que os valores pertencem a outrem, o que não se verificou no caso concreto.
PRELIMINAR DE NULIDADE. SÚMULA Nº 29 DO CARF. AUSÊNCIA DE COTITULARIDADE DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS. INAPLICABILIDADE.
Descabe invocar a aplicação da Súmula nº 29 do CARF, quando resta comprovado que nenhum dos responsáveis solidários consta como cotitular da conta corrente bancária mantida em instituição financeira pela empresa autuada.
PRELIMINAR DE NULIDADE. INDEFERIMENTO DE PROVA PERICIAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. DISCRICIONARIEDADE DO JULGADOR.
O indeferimento da produção de prova pericial no processo administrativo fiscal não configura cerceamento do direito de defesa quando ausente demonstração de prejuízo e quando o julgador, no exercício de sua discricionariedade, entende que os elementos constantes dos autos são suficientes à formação de sua convicção, nos termos do art. 29 do Decreto nº 70.235/1972. A mera alegação genérica da necessidade da perícia, desacompanhada da devida exposição dos motivos que a justifiquem, não preenche integralmente os requisitos do art. 16, inciso IV, do mesmo diploma legal, o que afasta a obrigatoriedade de sua realização.
SIGILO BANCÁRIO. REQUISIÇÃO DE MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA. INDÍCIOS DE OMISSÃO DE RECEITAS. INTIMAÇÕES NÃO ATENDIDAS. LEGALIDADE DO ATO FISCAL.
É legítima a expedição de Requisição de Movimentação Financeira (RMF), com base no art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001 e no art. 3º, VII, do Decreto nº 3.724/2001, quando precedida de intimação não atendida pelo contribuinte, em procedimento fiscal regularmente instaurado, e fundada na constatação de expressiva divergência entre o volume de operações comerciais e as declarações apresentadas. Caracterizado o embaraço à fiscalização, a medida é indispensável e se encontra em conformidade com o entendimento do Supremo Tribunal Federal no RE nº 601.314/SP (Tema 225), não configurando quebra ilegal de sigilo bancário.
DECADÊNCIA. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, § 4º, DO CTN. AUSÊNCIA DE ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. CONFIGURAÇÃO DE DOLO. SÚMULA CARF Nº 72.
Nos termos do art. 173, inciso I, do CTN, na ausência de pagamento antecipado do tributo, o prazo decadencial para constituição do crédito tributário inicia-se no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Inviável a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN quando não há recolhimento anterior do tributo ou confissão da dívida pelo contribuinte. Ademais, comprovada a ocorrência de dolo, conforme fundamentos consignados na autuação e reconhecidos na instância de origem, aplica-se a orientação firmada na Súmula CARF nº 72, que expressamente afasta a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN nessas hipóteses.
ARBITRAMENTO DE LUCRO. INAPLICABILIDADE.
Incabível o arbitramento do lucro quando não comprovados os requisitos taxativos do art. 530 do RIR/99 e for possível apurar o lucro real a partir da movimentação financeira, obtida em documentação amealhada junto aos bancos.
PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. OMISSÃO DE RECEITAS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. PRESUNÇÃO LEGAL RELATIVA. AUSÊNCIA DE PROVA IDÔNEA PELO CONTRIBUINTE. MANUTENÇÃO DOS LANÇAMENTOS.
Nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, caracterizam-se como receitas operacionais omitidas os valores creditados em contas bancárias cuja origem o contribuinte, regularmente intimado, não comprove mediante documentação hábil e idônea. Tais valores integram a base de cálculo do PIS e da Cofins, conforme o art. 24, §2º da Lei nº 9.249/1995, com a redação conferida pela Lei nº 11.941/2009.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM NO FATO GERADOR. CONFIGURAÇÃO. FRAUDE FISCAL. PARTICIPAÇÃO CONJUNTA E BENEFÍCIO ECONÔMICO.
É cabível a responsabilização solidária prevista no art. 124, inciso I, do CTN, quando demonstrada a existência de interesse jurídico comum na realização do fato gerador, evidenciado por meio de atuação conjunta, coordenada ou complementar dos coobrigados na prática de condutas fraudulentas, ainda que de forma indireta, mediante confusão patrimonial, interposição de pessoas, simulação ou conluio. Comprovado que o responsáveis solidários participaram da estruturação do esquema fraudulento por meio de gestão de empresas noteiras, beneficiaram-se direta ou indiretamente de recursos ilicitamente distribuídos pela contribuinte autuada e contribuíram para a realização dos fatos geradores dos tributos exigidos, revela-se legítima a sua inclusão no polo passivo da obrigação tributária.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. FRAUDE, CONLUIO E SONEGAÇÃO. COMPROVAÇÃO.
É legítima a qualificação da multa de ofício quando comprovada a existência de conduta dolosa, com intuito deliberado de fraudar o Fisco, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964. A apresentação reiterada de declarações zeradas, em conjunto com a omissão de movimentação financeira relevante e a simulação de operações comerciais fictícias, configura fraude fiscal e justifica a majoração da penalidade.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. EFEITO CONFISCATÓRIO. INAPLICABILIDADE DE ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE NA ESFERA ADMINISTRATIVA. REDUÇÃO DO PERCENTUAL. LEI Nº 14.689/2023. RETROATIVIDADE BENIGNA.
A apreciação de alegação de inconstitucionalidade não compete à esfera administrativa, conforme dispõe a Súmula CARF nº 2. Todavia, em razão da superveniência da Lei nº 14.689/2023, que alterou o art. 44, §1º, inciso VI, da Lei nº 9.430/1996, o percentual da multa qualificada deve ser reduzido de 150% para 100%, aplicando-se o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106, inciso II, alínea “c”, do CTN.
Numero da decisão: 1301-007.868
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e, (ii) no mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso, vencidos a Conselheira Eduarda Lacerda Kanieski (Relatora) e o Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, que reconheceram vício no lançamento por falta de arbitramento. Decidiu-se, por unanimidade de votos, que o percentual da multa qualificada será reduzido de 150% para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional.
Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Taranto Malheiros.
Assinado Digitalmente
Eduarda Lacerda Kanieski – Relatora
Assinado Digitalmente
Rafael Taranto Malheiros – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto integral), José Eduardo Dornelas Souza, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: EDUARDA LACERDA KANIESKI
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2010, 2011 PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DE RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS DURANTE O PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. A ausência de intimação dos responsáveis solidários durante o procedimento preparatório de fiscalização não configura, por si só, cerceamento do direito de defesa, desde que assegurado o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa na fase contenciosa, com acesso integral aos elementos de prova e oportunidade para apresentação de impugnação. Igualmente, a Súmula CARF nº 29 é inaplicável quando os corresponsáveis não figuram como cotitulares das contas investigadas. PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS PARA COMPROVAR A ORIGEM DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Nos termos do art. 42, §5º, da Lei nº 9.430/1996, a intimação de terceiros se restringe à hipótese de o titular da conta bancária alegar que os valores pertencem a outrem, o que não se verificou no caso concreto. PRELIMINAR DE NULIDADE. SÚMULA Nº 29 DO CARF. AUSÊNCIA DE COTITULARIDADE DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS. INAPLICABILIDADE. Descabe invocar a aplicação da Súmula nº 29 do CARF, quando resta comprovado que nenhum dos responsáveis solidários consta como cotitular da conta corrente bancária mantida em instituição financeira pela empresa autuada. PRELIMINAR DE NULIDADE. INDEFERIMENTO DE PROVA PERICIAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. DISCRICIONARIEDADE DO JULGADOR. O indeferimento da produção de prova pericial no processo administrativo fiscal não configura cerceamento do direito de defesa quando ausente demonstração de prejuízo e quando o julgador, no exercício de sua discricionariedade, entende que os elementos constantes dos autos são suficientes à formação de sua convicção, nos termos do art. 29 do Decreto nº 70.235/1972. A mera alegação genérica da necessidade da perícia, desacompanhada da devida exposição dos motivos que a justifiquem, não preenche integralmente os requisitos do art. 16, inciso IV, do mesmo diploma legal, o que afasta a obrigatoriedade de sua realização. SIGILO BANCÁRIO. REQUISIÇÃO DE MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA. INDÍCIOS DE OMISSÃO DE RECEITAS. INTIMAÇÕES NÃO ATENDIDAS. LEGALIDADE DO ATO FISCAL. É legítima a expedição de Requisição de Movimentação Financeira (RMF), com base no art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001 e no art. 3º, VII, do Decreto nº 3.724/2001, quando precedida de intimação não atendida pelo contribuinte, em procedimento fiscal regularmente instaurado, e fundada na constatação de expressiva divergência entre o volume de operações comerciais e as declarações apresentadas. Caracterizado o embaraço à fiscalização, a medida é indispensável e se encontra em conformidade com o entendimento do Supremo Tribunal Federal no RE nº 601.314/SP (Tema 225), não configurando quebra ilegal de sigilo bancário. DECADÊNCIA. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, § 4º, DO CTN. AUSÊNCIA DE ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. CONFIGURAÇÃO DE DOLO. SÚMULA CARF Nº 72. Nos termos do art. 173, inciso I, do CTN, na ausência de pagamento antecipado do tributo, o prazo decadencial para constituição do crédito tributário inicia-se no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Inviável a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN quando não há recolhimento anterior do tributo ou confissão da dívida pelo contribuinte. Ademais, comprovada a ocorrência de dolo, conforme fundamentos consignados na autuação e reconhecidos na instância de origem, aplica-se a orientação firmada na Súmula CARF nº 72, que expressamente afasta a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN nessas hipóteses. ARBITRAMENTO DE LUCRO. INAPLICABILIDADE. Incabível o arbitramento do lucro quando não comprovados os requisitos taxativos do art. 530 do RIR/99 e for possível apurar o lucro real a partir da movimentação financeira, obtida em documentação amealhada junto aos bancos. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. OMISSÃO DE RECEITAS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. PRESUNÇÃO LEGAL RELATIVA. AUSÊNCIA DE PROVA IDÔNEA PELO CONTRIBUINTE. MANUTENÇÃO DOS LANÇAMENTOS. Nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, caracterizam-se como receitas operacionais omitidas os valores creditados em contas bancárias cuja origem o contribuinte, regularmente intimado, não comprove mediante documentação hábil e idônea. Tais valores integram a base de cálculo do PIS e da Cofins, conforme o art. 24, §2º da Lei nº 9.249/1995, com a redação conferida pela Lei nº 11.941/2009. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM NO FATO GERADOR. CONFIGURAÇÃO. FRAUDE FISCAL. PARTICIPAÇÃO CONJUNTA E BENEFÍCIO ECONÔMICO. É cabível a responsabilização solidária prevista no art. 124, inciso I, do CTN, quando demonstrada a existência de interesse jurídico comum na realização do fato gerador, evidenciado por meio de atuação conjunta, coordenada ou complementar dos coobrigados na prática de condutas fraudulentas, ainda que de forma indireta, mediante confusão patrimonial, interposição de pessoas, simulação ou conluio. Comprovado que o responsáveis solidários participaram da estruturação do esquema fraudulento por meio de gestão de empresas noteiras, beneficiaram-se direta ou indiretamente de recursos ilicitamente distribuídos pela contribuinte autuada e contribuíram para a realização dos fatos geradores dos tributos exigidos, revela-se legítima a sua inclusão no polo passivo da obrigação tributária. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. FRAUDE, CONLUIO E SONEGAÇÃO. COMPROVAÇÃO. É legítima a qualificação da multa de ofício quando comprovada a existência de conduta dolosa, com intuito deliberado de fraudar o Fisco, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964. A apresentação reiterada de declarações zeradas, em conjunto com a omissão de movimentação financeira relevante e a simulação de operações comerciais fictícias, configura fraude fiscal e justifica a majoração da penalidade. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. EFEITO CONFISCATÓRIO. INAPLICABILIDADE DE ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE NA ESFERA ADMINISTRATIVA. REDUÇÃO DO PERCENTUAL. LEI Nº 14.689/2023. RETROATIVIDADE BENIGNA. A apreciação de alegação de inconstitucionalidade não compete à esfera administrativa, conforme dispõe a Súmula CARF nº 2. Todavia, em razão da superveniência da Lei nº 14.689/2023, que alterou o art. 44, §1º, inciso VI, da Lei nº 9.430/1996, o percentual da multa qualificada deve ser reduzido de 150% para 100%, aplicando-se o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106, inciso II, alínea “c”, do CTN.
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E OUTROS INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2010, 2011 PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DE RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS DURANTE O PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. A ausência de intimação dos responsáveis solidários durante o procedimento preparatório de fiscalização não configura, por si só, cerceamento do direito de defesa, desde que assegurado o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa na fase contenciosa, com acesso integral aos elementos de prova e oportunidade para apresentação de impugnação. Igualmente, a Súmula CARF nº 29 é inaplicável quando os corresponsáveis não figuram como cotitulares das contas investigadas. PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS PARA COMPROVAR A ORIGEM DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Nos termos do art. 42, §5º, da Lei nº 9.430/1996, a intimação de terceiros se restringe à hipótese de o titular da conta bancária alegar que os valores pertencem a outrem, o que não se verificou no caso concreto. PRELIMINAR DE NULIDADE. SÚMULA Nº 29 DO CARF. AUSÊNCIA DE COTITULARIDADE DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS. INAPLICABILIDADE. Descabe invocar a aplicação da Súmula nº 29 do CARF, quando resta comprovado que nenhum dos responsáveis solidários consta como cotitular da conta corrente bancária mantida em instituição financeira pela empresa autuada. PRELIMINAR DE NULIDADE. INDEFERIMENTO DE PROVA PERICIAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. DISCRICIONARIEDADE DO JULGADOR. Fl. 5601DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 2 O indeferimento da produção de prova pericial no processo administrativo fiscal não configura cerceamento do direito de defesa quando ausente demonstração de prejuízo e quando o julgador, no exercício de sua discricionariedade, entende que os elementos constantes dos autos são suficientes à formação de sua convicção, nos termos do art. 29 do Decreto nº 70.235/1972. A mera alegação genérica da necessidade da perícia, desacompanhada da devida exposição dos motivos que a justifiquem, não preenche integralmente os requisitos do art. 16, inciso IV, do mesmo diploma legal, o que afasta a obrigatoriedade de sua realização. SIGILO BANCÁRIO. REQUISIÇÃO DE MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA. INDÍCIOS DE OMISSÃO DE RECEITAS. INTIMAÇÕES NÃO ATENDIDAS. LEGALIDADE DO ATO FISCAL. É legítima a expedição de Requisição de Movimentação Financeira (RMF), com base no art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001 e no art. 3º, VII, do Decreto nº 3.724/2001, quando precedida de intimação não atendida pelo contribuinte, em procedimento fiscal regularmente instaurado, e fundada na constatação de expressiva divergência entre o volume de operações comerciais e as declarações apresentadas. Caracterizado o embaraço à fiscalização, a medida é indispensável e se encontra em conformidade com o entendimento do Supremo Tribunal Federal no RE nº 601.314/SP (Tema 225), não configurando quebra ilegal de sigilo bancário. DECADÊNCIA. INAPLICABILIDADE DO ART. 150, § 4º, DO CTN. AUSÊNCIA DE ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. CONFIGURAÇÃO DE DOLO. SÚMULA CARF Nº 72. Nos termos do art. 173, inciso I, do CTN, na ausência de pagamento antecipado do tributo, o prazo decadencial para constituição do crédito tributário inicia-se no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Inviável a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN quando não há recolhimento anterior do tributo ou confissão da dívida pelo contribuinte. Ademais, comprovada a ocorrência de dolo, conforme fundamentos consignados na autuação e reconhecidos na instância de origem, aplica-se a orientação firmada na Súmula CARF nº 72, que expressamente afasta a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN nessas hipóteses. ARBITRAMENTO DE LUCRO. INAPLICABILIDADE. Incabível o arbitramento do lucro quando não comprovados os requisitos taxativos do art. 530 do RIR/99 e for possível apurar o lucro real a partir da Fl. 5602DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 3 movimentação financeira, obtida em documentação amealhada junto aos bancos. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. OMISSÃO DE RECEITAS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/1996. PRESUNÇÃO LEGAL RELATIVA. AUSÊNCIA DE PROVA IDÔNEA PELO CONTRIBUINTE. MANUTENÇÃO DOS LANÇAMENTOS. Nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, caracterizam-se como receitas operacionais omitidas os valores creditados em contas bancárias cuja origem o contribuinte, regularmente intimado, não comprove mediante documentação hábil e idônea. Tais valores integram a base de cálculo do PIS e da Cofins, conforme o art. 24, §2º da Lei nº 9.249/1995, com a redação conferida pela Lei nº 11.941/2009. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM NO FATO GERADOR. CONFIGURAÇÃO. FRAUDE FISCAL. PARTICIPAÇÃO CONJUNTA E BENEFÍCIO ECONÔMICO. É cabível a responsabilização solidária prevista no art. 124, inciso I, do CTN, quando demonstrada a existência de interesse jurídico comum na realização do fato gerador, evidenciado por meio de atuação conjunta, coordenada ou complementar dos coobrigados na prática de condutas fraudulentas, ainda que de forma indireta, mediante confusão patrimonial, interposição de pessoas, simulação ou conluio. Comprovado que o responsáveis solidários participaram da estruturação do esquema fraudulento por meio de gestão de empresas noteiras, beneficiaram-se direta ou indiretamente de recursos ilicitamente distribuídos pela contribuinte autuada e contribuíram para a realização dos fatos geradores dos tributos exigidos, revela-se legítima a sua inclusão no polo passivo da obrigação tributária. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. FRAUDE, CONLUIO E SONEGAÇÃO. COMPROVAÇÃO. É legítima a qualificação da multa de ofício quando comprovada a existência de conduta dolosa, com intuito deliberado de fraudar o Fisco, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964. A apresentação reiterada de declarações zeradas, em conjunto com a omissão de movimentação financeira relevante e a simulação de operações comerciais fictícias, configura fraude fiscal e justifica a majoração da penalidade. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. EFEITO CONFISCATÓRIO. INAPLICABILIDADE DE ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE NA Fl. 5603DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 4 ESFERA ADMINISTRATIVA. REDUÇÃO DO PERCENTUAL. LEI Nº 14.689/2023. RETROATIVIDADE BENIGNA. A apreciação de alegação de inconstitucionalidade não compete à esfera administrativa, conforme dispõe a Súmula CARF nº 2. Todavia, em razão da superveniência da Lei nº 14.689/2023, que alterou o art. 44, §1º, inciso VI, da Lei nº 9.430/1996, o percentual da multa qualificada deve ser reduzido de 150% para 100%, aplicando-se o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106, inciso II, alínea “c”, do CTN. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e, (ii) no mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso, vencidos a Conselheira Eduarda Lacerda Kanieski (Relatora) e o Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, que reconheceram vício no lançamento por falta de arbitramento. Decidiu-se, por unanimidade de votos, que o percentual da multa qualificada será reduzido de 150% para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Taranto Malheiros. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski – Relatora Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto integral), José Eduardo Dornelas Souza, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO Fl. 5604DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 5 Tratam-se de Recursos Voluntários interpostos por responsáveis solidários do Auto de Infração lavrado contra o contribuinte ALUMIBRAS INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE ALUMÍNIO E METAIS LTDA. E OUTROS, decorrente de lançamento de ofício de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e de reflexos de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e de Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS), referentes aos anos-calendário 2010 a 2012, com crédito tributário total de R$ 192.495.997,19. Para uma análise detalhada dos fatos, adoto o relatório elaborado pela DRJ, nos termos que seguem: “Lançamentos 2. Os lançamentos decorreram de apuração de omissão de receitas com base no disposto no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, correspondente a depósitos bancários de origem não comprovada. Consoante Termo de Verificação e Constatação Fiscal (TVF) às fls. 2974 a 2996, parte integrante dos autos de infração, os procedimentos, fatos e verificações que ensejaram a exigência fiscal foram os seguintes: 2.1. a ação fiscal decorreu de desdobramentos da fiscalização efetuada no contribuinte Transforme Indústria e Comércio de Metais e Papéis Ltda, onde foi constatada a existência de esquema delituoso constituído por diversas "empresas de papel", as quais possuíam existência apenas documental e seus sócios eram, em sua maior parte, interpostas pessoas (laranjas), que tinha por objetivo gerar créditos tributários fictícios (de IPI e ICMS) mediante a emissão de notas fiscais fraudulentas (empresas noteiras) e acobertar a aquisição de bens móveis e imóveis em favor dos reais beneficiários, caracterizando-se, dessa forma, a lavagem de dinheiro. O modus operandi do esquema está descrito e demonstrado no Relatório Geral de Auditorias (fls. 2 a 116); 2.2. em 13/08/2013 foi lavrado o Termo de Início de Ação Fiscal (fls. 236 a 237), o qual foi encaminhado ao domicílio fiscal do contribuinte (Estrada das Nogueiras, S/N, Lotes 17 e 18, QD 13, Chácara Rio Petrópolis – Duque de Caxias – RJ) presente no cadastro CNPJ (fl. 234). Entretanto, após oito tentativas frustradas em razão da inexistência do número, a correspondência foi devolvida pelos Correios. Em vista disso, a ciência do termo de início do procedimento fiscal foi dada via Edital nº 61/2013, publicado no Diário Oficial da União (DOU) (fls. 235, 238 a 239, e 258 a 261); 2.3. ante a não apresentação dos elementos solicitados (extratos bancários), elaborou-se a Requisição de Movimentação Financeira (RMF) (fls. 263 a 268) aos bancos Itaú Unibanco S/A e Bradesco. Após o exame dos elementos apresentados pelos bancos, foi lavrado o Termo de Intimação Fiscal às fls. 1235 a 1290, onde foi solicitada ao contribuinte a comprovação da origem dos créditos efetuadas nas contas correntes dos referidos bancos. A ciência deste termo se deu via Edital nº 78/2014 (fls. 1233 e 1234), que foi publicado no DOU; Fl. 5605DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 6 2.4. o contribuinte permaneceu inerte, incorrendo na infração de omissão de receitas por presunção legal de depósito bancário de origem não comprovada, nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, passível de lançamentos de IRPJ e de CSLL, PIS e Cofins; 2.5. alguns fatores conduziram à conclusão de que a Alumibras é inexistente de fato, utilizando interpostas pessoas como sócios: 2.5.1. apresentou Declarações de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) referentes aos anos-calendário 2010 a 2012 (fls. 117 a 233) com os campos zerados, inclusive os de receita e aqueles relativos ao número de empregados no início e término do período. Entretanto, apresentou movimentação financeira elevada, totalizando nos três anos mencionados um montante de R$ 182.625.860,40 (sendo, R$ 63.276,186,02 no ano 2010; R$ 52.919.537,50 no ano 2011; e R$ 66.430.136,88 no ano 2012); 2.5.2. a Declaração do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (DIRPF) entregue pelo sócio Alexandre Paiva referente ao ano 2010 (fls. 252 a 257) indicou um rendimento de R$ 31.450,00 pago pela Alumibras, não havendo informação quanto a patrimônio. Já o sócio Alex Medeiros da Silva (que se manteve na sociedade até 04/07/2013) é omisso de entrega de declarações a partir do ano-calendário 2009, sendo que na declaração referente a 2008 os dados estão zerados, salvo no campo "Bens e Direitos", onde consta a participação societária de 50% da Alumibras (fls. 244 a 251); 2.5.3. a primeira correspondência enviada ao domicílio fiscal presente no cadastro da Receita Federal retornou, sendo informado pelos Correios que o número seria inexistente. Posteriormente o contribuinte alterou seu endereço, para onde foram encaminhados os autos de infração; 2.6. o relacionamento da Alumibras com as demais empresas e pessoas físicas no esquema delituoso pode ser verificada a partir das constatações abaixo indicadas, que demonstram que esta empresa é um dos elos fundamentais do esquema, pois distribuía os recursos amealhados aos reais beneficiários, seja por transferências bancárias a outras pessoas físicas ou jurídicas (cujos sócios são os reais beneficiários), seja mediante aquisição de bens (móveis e imóveis) em nome dos reais beneficiários: 2.6.1. por meio de rastreamento financeiro e dos registros contábeis das poucas empresas que mantinham sua escrituração, foram identificadas vinte e duas pessoas jurídicas que se relacionavam entre si, cujos recursos financeiros orbitavam junto à empresa Transforme, conforme fluxograma dos recursos financeiros; 2.6.2. a partir deste fluxograma verifica-se que a Transforme enviou em 2009 R$ 4.736.942,28 à Alumibras. Esta, por sua vez, remeteu à Transforme em 2010 e 2011 o valor de R$ 2.612.861,12, bem assim recebeu da mesma o valor de R$ 8.051.983,08. Detalhando-se o fluxograma da Alumibras (fls. 1292 a 1293), verifica-se, a título de exemplo, que nos anos 2010 e 2011 recebeu recursos financeiros das empresas abaixo indicadas, e repassou recursos para as empresas e pessoas físicas também detalhadas abaixo: Fl. 5606DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 7 2.6.3. além dos extratos bancários que demonstram claramente os vínculos entre as empresas citadas, foi anexado o relatório de transferências bancárias (do Bradesco – fls. 1313 a 1322), que registra DOCs e TEDs existentes. A análise dos documentos recebidos das instituições financeiras permitiram fazer as seguintes verificações: 2.6.3.1. o relatório de movimentação eletrônica de recursos fornecido pelo Bradesco, que registra as transferências entre contas deste banco, demonstra que a Alumibras recebeu no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2012 créditos eletrônicos no total de R$ 70.686.926,76, cujas maiores quantias foram transmitidas por empresas já identificadas como integrantes do esquema delituoso no Relatório Geral de Auditorias: Metaliso, Koprum, Star Metals, Transforme, Prime, Hspambiet, Lemnos, RPM, Sul Ligas, Prince, Luckmetais, AMP, Selta, Almeida, Cimeeli, Polimet, Mundau, Alumev, CSL, Ecco, CRC e Cmet; 2.6.3.2. um dos meios utilizados pela Alumibras para distribuir os recursos amealhados consistia na emissão de cheques nominais do Bradesco a si própria, descontandoos no caixa e depositando-os em outras contas de interesse no próprio Bradesco. Foram identificadas as contas que eram alimentadas com tais recursos, as quais pertenciam ao esquema delituoso e/ou aos reais beneficiários deste: Empório de Metais, João Natatl Cerqueira, Paulo Henrique Escobar Cerqueira, Helur, Lemnos, Lorusso Processamento, Lorusso Factoring, Transforme, Perfibras, Ansesil, Star Metals, Ingaí, Fraga e Metalazul; Fl. 5607DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 8 2.6.3.3. foram efetuados vários saques em dinheiro da conta da Alumibras no Bradesco por Alex Medeiros da Silva no período de janeiro de 2010 a dezembro de 202, no montante de R$ 38.413.138,31, sem que fosse identificados outros beneficiários destes saques que não o próprio Alex. No verso dos cheques constam as seguintes expressões: "Confirmado com Rafael", "Conf. Gerson", "Conf. Rafael" e "Conf. Sumara"; 2.6.3.4. constatou-se que os recursos da Alumibras foram utilizados por terceiros na aquisição de bens. A operação consistia na emissão de cheques pela Alumibras em favor dos vendedores dos referidos bens. As informações foram obtidas por meio de circularização junto aos vendedores: 2.6.4. os reais beneficiários do esquema delituoso estão identificados a seguir: 2.6.4.1. João Natal Cerqueira e Paulo Cesar Verly da Cruz – beneficiaram-se, em conjunto e indiretamente, pelos recursos recebidos da Alumibras por meio de conta mantida no Bradesco em nome da empresa Empório de Metais, onde ambos figuraram como sócios, mas que atualmente o quadro social é ocupado por interposta pessoa; 2.6.4.2. João Natal Cerqueira – beneficiou-se isolada e diretamente pelos recursos recebidos por meio de conta no Bradesco mantida em seu nome; 2.6.4.3. Paulo Henrique Escobar Cerqueira – beneficiou-se indiretamente pelos recursos da Alumibras por meio de contas mantidas no Bradesco das empresas Lemnos Ind. de Metais Ltda e Helur Indústria e Comércio Ltda, em que figurou como sócio. Atualmente tais empresas possuem em seus quadros sociais interpostas pessoas. Além disso, beneficiou-se diretamente mediante depósitos em sua conta de pessoa física no Bradesco; 2.6.4.4. Alex Medeiros da Silva – sócio interposta pessoa da Alumibras, que efetuou saques no montante de R$ 38.43.138,31; 2.6.4.5. Alexandre Paiva – sócio interposta pessoa da Alumibras, que consta como responsável pelo preenchimento das DIPJs dos anos-calendário 2010 a 2012, e, por conseguinte responsável solidário pelas informações fraudulentas prestadas; 2.6.4.6. Gerson Lorusso, Leila Lorusso, Sabina Lorusso, Sumara Lorusso e Rafael Baick Sant Ana1 – originariamente Gerson e Leila Lorusso eram sócios da empresa Lorusso Processamento de Dados e Traduções Ltda, vindo a transferir suas cotas às filhas Sabina e Sumara Lorusso em 24/08/2006 e 19/11/2007, respectivamente. Gerson Lorusso e Rafael Sant Ana eram sócios da empresa Lorusso Factoring Fomento Com. Ltda, vindo a transferir suas cotas a Sabina e Sumara Lorusso em 29/11/2007 e 21/08/2006, respectivamente. Na ficha cadastral da Alumibras junto ao Bradesco consta como "fonte de referência" para abertura da conta corrente o nome Gerson Lorusso. Além disso, diversos cheques Fl. 5608DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 9 emitidos pela Alumibras, principalmente os de maiores valores (acima de R$ 200.000,00), continham anotações no verso feitas pelo funcionário do Bradesco com as seguintes expressões: "Confirmado com Rafael", "Conf. Gerson", "Conf. Rafael" e "Conf. Sumara", demonstrando que, diante do alto valor dos cheques, o funcionário do banco contatava a empresa Alumibras para confirmar a emissão e obter autorização para efetuar o pagamento ou a compensação. Tal procedimento torna evidente que a conta corrente da Alumibras era administrada de fato por Gerson e Rafael, mesmo após terem deixado de ser sócios da Lorusso Factoring. Inclusive a filha Sumara Lorusso também autorizou pagamentos dos cheques da Alumibras. Constatou-se que foram emitidos cheques para aquisições de bens para Gerson, Leila, Sumara e Sabina Lorusso (pacotes turísticos e veículos de luxo). Devido destacar que em 2011 as empresas Lorusso Factoring e Lorusso Processamento não receberam recursos da Alumibras conforme DIPJ. Em 2012, somente a Lorusso Factoring declarou em sua DIPJ ter recebido R$ 36.000,00 da Alumibras. Tal valor é insuficiente para justificar as aquisições antes mencionadas feitas com cheques da Alumibras, que representaram R$ 17.952,35 em 2011 e R$ 113.675,36 em 2012. É possível concluir que a família Lorusso se beneficiou diretamente dos recursos da Alumibras; 2.7. a multa foi qualificada em razão de estar caracterizado o evidente intuito de fraude visando omissão de dados tributários para suprimir ou reduzir tributo, como previsto nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 1964, e art. 1º da Lei n º 8.137, de 1990. Os fatos que conduziram a estar conclusão são os seguintes: 2.7.1. ter sido apurada movimentação financeira de R$ 182.625.860,40 nos anos 2010, 2011 e 2012, mas o contribuinte ter apresentado DIPJs com valores zerados, omitindo as receitas auferidas e demais informações obrigatórias para não ser tributado; 2.7.2. o sujeito passivo ser inexistente de fato e seu quadro social ser composto por interpostas pessoas, visando ocultar os reais beneficiários do esquema delituoso no qual a empresa está inserida, e transferir eventuais responsabilidades às interpostas pessoas; 2.8. foi elaborada representação fiscal para fins penais nos autos do processo nº 10.932.000003/2014-90; 2.9. foram responsabilizadas solidariamente as pessoas físicas abaixo indicadas em virtude dos seus relacionamentos com a Alumibras já tratados anteriormente: Fl. 5609DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 10 Impugnações 3. O contribuinte, Alumibras, após infrutíferas tentativas de ciência por via postal, conforme documentos às fls. 2969 a 297, foi cientificado dos lançamentos por meio do Edital nº 33/2015, publicado no DOU de 10 de abril de 2015. Não foi apresentada impugnação. Já o Sr. Alex Medeiros da Silva, responsável solidário, foi cientificado dos lançamentos por via postal no endereço do cadastro, tendo retornado o AR com marcação de endereço desconhecido (fl. 3148). Foi realizada, então, intimação por Edital nº 48/2015, publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 20 de maio de 2015, conforme fl. 3150. Este sujeito passivo não apresentou impugnação. A) ALEXANDRE PAIVA 4. Cientificado do auto de infração em 08 de maio de 2015, conforme Aviso de Recebimento (AR) à fl. 3147, em 09 de junho de 2015 o Sr. Alexandre Paiva apresentou a impugnação às fls. 3209 a 3224, instruída com os documentos às fls. 3225 a 3238, onde argumentou o que segue: 4.1. tempestividade; 4.2. nulidade do auto de infração – 4.2.1. o lançamento administrativo-fiscal deve se pautar pelo princípio da estrita legalidade e observar as garantias constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Ele se forma através de procedimento administrativo de caráter instrutório, correspondendo a uma série de atos coordenados à produção da prova. Este procedimento administrativo que conduz ao lançamento é regido por três grandes princípios: da verdade material, oficioso e da imparcialidade. No presente caso, a ação fiscal se deu de forma inválida, não atendeu ao disposto no art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, e violou os princípios constitucionais, pois, somente há verdade material se for comprovado nos autos, por meio de provas lícitas e cabíveis, as presunções e conjecturas elencadas pela autoridade fiscal. O lançamento se baseou em provas decorrentes de procedimento inconstitucional e ilegal pelas razões a seguir detalhadas: 4.2.2. a CF garante a inviolabilidade dos dados, nestes compreendidos os dados bancários (art. 5º, XII). Tal inviolabilidade do sigilo bancário não é absoluta, havendo previsão na CF, em caráter excepcional, de acesso a tais dados na hipótese de ordem judicial e para fins de investigação criminal ou instrução processual penal. A autoridade fiscal tomou por base o Decreto nº 3.724, de 2001, que regulamentou o art. 6º da LC nº 105, de 2001, para violar o sigilo bancário do contribuinte, o qual afronta a CF conforme já decidido pelo STF no RE 389.808/PR). A requisição de acesso aos dados bancários do contribuinte pela própria parte interessada na investigação viola o princípio da imparcialidade. Ainda que se entenda cabível a quebra do sigilo bancário em casos que não tratam de investigação criminal ou instrução processual penal, há a necessidade de que a violação seja realizada e autorizada pelo judiciário ou nos casos de Comissões Parlamentares de Inquérito. Caso contrário a administração pública estará interferindo no campo da privacidade, direito fundamental resguardado pela CF. Todos os atos decorrentes da quebra de sigilo bancário efetuada no procedimento fiscal estão, portanto, eivados de ilegalidade e nulidade. Uma vez que a responsabilização do impugnante decorre de tais atos, resta clara a ilegitimidade passiva; 4.2.3. houve cerceamento do direito de defesa do contribuinte, Alumibras, visto que a intimação foi direcionada ao antigo endereço da empresa, conforme atesta o protocolo perante a Junta Comercial comunicando a alteração do endereço, impossibilitando o Fl. 5610DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 11 recebimento e ciência do procedimento instaurado e a conseqüente defesa e devida produção de provas; 4.2.4. o lançamento está comprometido pela ilegalidade, vez que não obedeceu aos princípios basilares previstos na Lei nº 9.784, de 1999, tais como legalidade, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório e segurança jurídica, por se utilizar de provas ilícitas angariadas por meio inconstitucional, bem como por não respeitar o devido contraditório e ampla defesa. B) SABINA LORUSSO, SUMARA LORUSSO, GERSON LORUSSO e LEILA LORUSSO 5. Cientificados dos autos de infração em 6 de maio de 2015, conforme ARs às fls. 3143 a 3146, em 5 de junho de 2015 as Sras. Sabina Lorusso, Sumara Lorusso e Leila Lorusso, e o Sr. Gerson Lorusso apresentaram as impugnações às fls. 3241 a 3259, 3268 a 3286, 3322 a 3340 e 3295 a 3313, respectivamente, instruídas com os documentos às fls. 3260 a 3265, 3287 a 3292, 3341 a 2246 e 3314 a 2219, com mesmo conteúdo, o qual está resumido a seguir: 5.1. tempestividade; 5.2. nulidade da autuação em virtude de cerceamento do direito de defesa – durante o período em que perdurou a fiscalização denominada "Operação Corrosão", quase dois anos, nunca foi informado da sua existência, muito menos intimado para prestar esclarecimentos, violando-se os princípios constitucionais do devido processo legal (art. 5º, LIV da Constituição Federal – CF) e do contraditório (art. 5º, LV da CF); 5.3. as duas pretensões que fizeram a autoridade fiscal incluir o impugnante no pólo passivo são: i) que na ficha de abertura da conta corrente da Alumibras no Bradesco há o nome Gerson Lorusso escrito à mão (pai de Sabina Lorusso e de Sumara Lorusso, e esposo de Leila Lorusso), sem qualquer assinatura dele, sendo que o mesmo ocorreria no verso dos cheques emitidos; e ii) a aquisição de bens com cheques de emissão da Alumibras; 5.3.1. dos nomes apócrifos na ficha de abertura de conta e nos cheques da Alumibras – 5.3.1.1. a autoridade fiscal não menciona que a fonte de referência indicada na ficha cadastral é a própria Alumibras, conforme fls. 275 a 277, e que o nome Gerson Lorusso foi colocado à mão, ou seja, inserido por alguém que não se sabe quem é, em um momento que não se pode precisar. Ou seja, qualquer pessoa pode ter escrito o nome na ficha, inclusive depois de instaurado o procedimento fiscal. Se fosse o contrário, ou seja, se o impugnante apresentasse como prova um documento que contivesse observações à caneta, estas jamais seriam aceitas como provas. Não pode haver o dúbio padrão na hora de analisar os documentos juntados. Documento apócrifo não pode servir como prova de que o impugnante é sócio de fato da sociedade; 5.3.1.2. a fiscalização teria constatado cheques de emissão da Alumibras com anotações no verso com as expressões "Conf. Gerson", "Conf. Rafael", "Conf. Sumara" e o carimbo "Confirmado com Rafael", o que tornaria evidente, a seu ver, que a conta da Alumibras seria administrada por Gerson e Rafael, antigos sócios da Lorusso Factoring Fomento Com. Ltda, pois tais anotações teriam sido feitas por funcionário do Bradesco em contato com a Alumibras para confirmar a emissão do cheque e obter autorização para efetuar o pagamento ou a compensação. As cópias de tais chequem não foram disponibilizadas, não se encontrando nos autos, o que dificulta o exercício do seu direito ao contraditório e à ampla defesa. Supondo que tais expressões e carimbo estivessem no verso dos cheque, tal situação incorreria na mesma possibilidade de inserção à mão de nomes na ficha Fl. 5611DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 12 cadastral. É de estranhar que não tenha ocorrido a ideia de verificar se as ligações para confirmar a emissão dos cheques realmente ocorreram, ou de intimar para prestar esclarecimentos as pessoas que teriam "confirmado" a emissão dos referidos cheques; 5.2.1.3. ante o exposto, a ficha de abertura e os cheques (aos quais não teve acesso) não fazem prova da ligação do impugnante com a Alumibras, de tal forma a ensejar responsabilidade solidária; 5.2.1.4. ainda que fossem provas suficientes, há que se considerar que as informações sobre a conta bancária e os cheques foram obtidos mediante RMF encaminhada ao Bradesco. Acontece que decisão proferida pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) nos autos do RE nº 389.808/PR, com repercussão geral e efeito vinculante, julgou inconstitucional a quebra de sigilo bancário unilateral por parte da Receita Federal com fulcro na Lei Complementar nº 105, de 2001. Nos termos do art. 1º, parágrafo primeiro do Decreto nº 2.346, de 1997, ante tal decisão definitiva do STF, a quebra do sigilo não poderia ter sido feita. Assim, impõe-se a nulidade da autuação por ter sido efetuada com base na produção de elemento probatório contaminado por inconstitucionalidade; 5.3.2. da aquisição de bens com cheques de emissão da Alumibras – 5.3.2.1. segundo a autoridade fiscal, teria sido constatado que cheques da Alumibras foram utilizados por Gerson, Sumara, Leila e Sabina Lorusso na aquisição de bens, conforme segue: (i) R$ 38.755,36 – em 18/05/2011 – pacotes turísticos junto à Rextur Viagens e Turismo, que acusou o recebimento do cheque; (ii) R$ 17.952,35 – 22/07/2011 – cheque utilizado como parte do pagamento de veículo Mercedes-Benz E250 CGI adquirido por Sabina Lorusso junto à concessionária Itatiaia Distribuidor de Veículos Ltda (valor total de R$ 225.000,00 pago mediante entrega de Mercedes-Benz C200K mais R$ 130.000,00), cujo recebimento foi acusado por esta empresa; (iii) cheque que compôs pagamento de 74.000,00 por veículo Mercedes-Benz B200 Turbo Sport, junto à mesma concessionária, no valor total de R$ 129.900,00, cujo complemento do valor (R$ 55.000,00) foi feito com entrega de outro veículo usado, adquirido em nome de Sumara Lorusso; 5.3.2.2. contudo, Sumara e Sabina Lorusso são sócias da empresa Lorusso Factoring Comercial Ltda, que possui atividade de factoring, ou seja, um mecanismo de fomento mercantil que possibilita à empresa fomentada vender seus créditos, gerados por suas vendas à prazo, a uma empresa de factoring. O resultado é o recebimento imediato, pela empresa fomentada, desses créditos futuros. Os clientes repassam à empresa de factoring, inclusive, cheques que receberam de terceiros. O fato de a empresa de factoring ter recebido cheque de emissão da Alumibras significa que os cheques foram enviados por outro cliente que tinha negócios com a Alumibras. Assim, o que pode ter ocorrido é que, ao invés de depositar o cheque em conta corrente da factoring, este tenha sido utilizado diretamente para efetuar aquisição dos bens mencionados. Pode-se discutir o procedimento adotado como não ideal em termos de escrituração, mas isso não quer dizer que as sócias (Sumara e Sabina) e o ex-sócio (Gerson) tivessem gerência sobre os negócios da Alumibras; 5.3.2.3. em momento algum, além de mencionar a utilização dos cheques na aquisição dos bens, a autoridade fiscal relaciona a omissão de rendimentos da Alumibras com qualquer Fl. 5612DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 13 conduta fraudulenta efetuada pelo impugnante. Ilação baseada apenas em pequenos indícios não pode incorrer na responsabilização pretendida; 5.4. multa qualificada – 5.4.1. trata-se de presunção de fraude por utilização de interposta pessoa na gerência da Alumibras, no entanto, a autoridade fiscal não produziu qualquer prova robusta de intuito fraudulento. Como os ilícitos tipificados nos art. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, são as únicas hipóteses prevista em lei como caracterizadoras do evidente intuito de fraude, justificador da qualificação da multa, e já que estes não são objeto da lide, a multa como aplicada é indevida; 5.4.2. além de comprovar que fraude ou sonegação realmente ocorreram, é dever do Fisco comprovar que o impugnante teve participação nos ilícitos a fim de lhe exigir o cumprimento da obrigação tributária; 5.5. pede, ao fim, a anulação do procedimento em virtude do cerceamento do direito de defesa, bem como que seja reconhecida a ilegitimidade passiva do impugnante. Caso não cancelada a autuação com relação ao impugnante, que seja reduzida a multa para 75%. C) PAULO CESAR VERLY DA CRUZ 6. Cientificado do lançamento em 07 de maio de 2015, conforme AR à fl. 3153, em 8 de junho de 2015 o Sr. Paulo Cesar Verly da Cruz apresentou a impugnação às fls. 3349 a 3391, instruída com os documentos às fls. 3392 a 3458, onde argumentou o que segue: 6.1. decadência em relação aos fatos geradores ocorridos de janeiro a abril de 2010, haja vista que os lançamentos foram cientificados ao impugnante em maio de 2015, ou seja, após o decurso do prazo de cinco anos fixado no art. 150, §4º do Código Tributário Nacional (CTN). Resta afastada a aplicação do art. 173, I do CTN, vez que a autoridade fiscal não logrou comprovar a efetiva participação do impugnante no suposto esquema fraudulento, muito menos qualquer ato pelo mesmo praticado com dolo, fraude ou simulação; 6.2. nulidade dos lançamentos por estarem baseados em prova ilícita, obtida ilegalmente por quebra de sigilo bancário sem autorização judicial. Violação dos princípios da intimidade, privacidade e do sigilo de dados resguardados pelos incisos X e XII do art. 5º da CF. Nesse sentido é a posição do STF (RE 389808/PR, de 10/05/2011), do Superior Tribunal de Justiça (STJ) (RESP 1361174, de 2014) e dos Tribunais Regionais Federais; 6.3. ilegitimidade passiva – 6.3.1. para configurar a responsabilidade solidária com base no art. 124, I do CTN é imprescindível que o interesse comum recaia sobre a realização do fato tributável e que esta só pode existir entre sujeitos que ocupem o mesmo lado da relação jurídica. Mesmo que um terceiro tenha interesse financeiro na realização daquele fato gerador, mas não o praticou, não resta configurada a hipótese referido dispositivo. Nesse sentido, cita entendimento do STJ. Não há no TVF situação que demonstre qual seria a ligação direta supostamente existente entre a devedora principal e o impugnante, sendo que jamais se relacionou com aquela. Também não há nos autos a necessária comprovação do benefício econômico que o impugnante pudesse ter auferido a partir da devedora principal. Jamais teve qualquer participação nos fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2009; 6.3.2. o TVF discorre que o impugnante, em conjunto com o coobrigado João Natal Cerqueira, teria se beneficiado indiretamente pelos recursos recebidos da devedora Fl. 5613DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 14 principal (Alumibras) por meio de conta bancária mantida no Bradesco, de titularidade da empresa Empório Metais Ltda, da qual o impugnante teria figurado como sócio, sendo que atualmente seu quadro societário seria supostamente composto por interposta pessoa; 6.3.2.1. faz alusão ao Relatório Geral de Auditorias para sustentar a inverídica tese de que o impugnante e o mencionado coobrigado seriam responsáveis há anos pela constituição de empresas inexistentes de fato, fundamentando-se unicamente em uma inverídica notícia veiculada na mídia no ano de 2004, que não guarda qualquer relação com os fatos fiscalizados; 6.3.2.2. não é mencionado qualquer recebimento de recursos da Alumibras, seja através de depósito ou transferência bancária para conta de sua titularidade, seja através de cheque ou saque, decorrendo a imputação de responsabilidade solidária exclusivamente do fato da empresa Empório de Metais Ltda ter sido destinatária de recursos daquela empresa; 6.3.2.3. a autoridade fiscal não demonstrou o modus operandi do suposto redirecionamento ao impugnante dos recursos financeiros teoricamente recebidos pela Empório. Não há comprovação de que tais supostos recursos foram destinados, em seqüência, ao impugnante; 6.3.2.4. conforme documentação anexa – Terceira Alteração Contratual da Empório de Metais Ltda –, o impugnante se retirou totalmente da sociedade em 2002, muitos anos antes do período fiscalizado. Não há prova de que o impugnante seria sócio da Empório, ainda que de fato, nos anos fiscalizados, ou que tivesse ingerência nesta. O TVF simplesmente sugere uso de interpostas pessoas nesta empresa, sem indicar os atuais sócios e quais seriam os indícios e provas da utilização de interposição de pessoas por parte do impugnante; 6.3.2.5. estranhamente a autoridade fiscal deixou de imputar a responsabilidade tributária à Empório, beneficiária direta dos recursos, uma vez que a pessoa física do sócio e a pessoa jurídica possuem personalidade e patrimônio próprios e independentes. Esta empresa é que deveria ter sido responsabilizada e não o impugnante. Em momento algum a existência de fato e de direito da Empório foi questionada, não se verificando hipóteses legais de despersonalização da empresa, o que poderia autorizar a inclusão do sócio em seu lugar. Contudo, nem mesmo esta despersonalização teria o condão de autorizar a inclusão do impugnante, haja vista ter se retirado da sociedade antes dos fatos geradores do crédito tributário; 6.3.2.6. ausente a comprovação do interesse comum do impugnante na suposta fraude, é devido o afastamento da responsabilidade. Nesse sentido se posiciona o STJ. No caso, como visto, a inclusão do impugnante no rol dos devedores solidários está baseada em frágeis e equivocadas presunções, contudo, a responsabilidade solidária não se presume, conforme vasta jurisprudência judicial. O Carf entende que a prova indiciária não tem o condão de apontar efetivamente a autoria da infração, subsistindo, nesta hipótese, a ilegitimidade passiva; 6.3.2.7. ainda que estivesse correta a arbitrária inclusão do impugnante no rol dos responsáveis tributários solidários, na qualidade de suposto beneficiário indireto dos recursos enviados à Empório, seria imperiosa a aplicação do princípio da insignificância, Fl. 5614DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 15 face à cabal desproporção entre os altos valores transacionados no suposto "esquema delituoso" e o montante dos recursos recebidos pela referida pessoa jurídica; 6.3.3. pairando dúvida quanto à efetiva participação do impugnante no suposto esquema fraudulento, deve ser aplicado o disposto no art. 112 do CTN para sua exclusão do pólo passivo da autuação fiscal, conforme jurisprudência do Carf; 6.4. nulidade dos lançamentos pela falta de arbitramento do lucro – nos termos do art. 530 do RIR/99, a autoridade fiscal tinha a obrigação de proceder ao arbitramento do lucro para apurar os valores exigidos a título de IRPJ e de CSLL, desclassificando a escrita contábil/fiscal da Alumibras, eivada de vícios e deficiências, que a tornaram imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira ou determinar o lucro real. Nesse sentido estão entendimentos de algumas DRJs. Todavia, a autoridade fiscal, de forma arbitrária, gravou como se lucro fosse a totalidade dos valores depositados nas contas bancárias da devedora principal, configurando patente erro de direito, que torna nulos os lançamentos efetuados; 6.5. nulidade dos lançamentos de PIS e de Cofins por inobservância dos critérios legais na determinação da base de cálculo e por violação ao princípio da verdade material – 6.5.1. ao tributar todos os valores creditados em contas bancárias da Alumibras, a autoridade fiscal agiu em desconformidade com o disposto nos arts. 2º e 3º da Lei nº 9.718, de 1998 (com redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014), que estabelece que a base de cálculo dessas contribuições é o faturamento, assim compreendida a receita bruta auferida no mês; 6.5.2. no caso, a afronta à legislação decorre do fato de que, comumente, verifica-se a existência de créditos em extratos bancários que não se enquadram no conceito de receita bruta tributável, como, por exemplo, aqueles com origem em empréstimos, financiamentos, mútuos e outros, fato não considerado pela autoridade fiscal. A autoridade fiscal não pode transmutar a natureza dos valores percebidos para ampliar a sua competência arrecadatória, em face da vedação do art. 110 do CTN; 6.5.3. assim, ao tributar 100% dos valores creditados, fazendo incidir as contribuições sobre o simples ingresso de capital, quando este não constitui o seu efetivo faturamento, ocorreu violação ao princípio da verdade material. Devida, pois, a desconstituição dos lançamentos de PIS e de Cofins, haja vista a equivocada apuração das bases de cálculo, que conduziu a valores indevidos, irreais e exorbitantes, em patente erro de direito e desrespeito à verdade material, o que torna nulos de pleno direito os lançamentos; 6.6. nulidade dos lançamentos por erro na determinação das bases de cálculo – 6.6.1. a autoridade fiscal sustentou que o suposto esquema delituoso era operado mediante uma "verdadeira ciranda" de dinheiro entre as empresas envolvidas na fraude. Conforme laudo elaborado por perícia contábil contratada, em anexo, restou caracterizado um movimento circular de dinheiro, ou seja, foi comprovada a existência de movimentação de valores entre contas de titularidade da Alumibras, os quais não correspondem a ingresso de receita passível de tributação nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Contudo, a autoridade fiscal considerou nas bases de cálculo dos tributos todos os valores creditados nas contas bancárias, que sabidamente não correspondiam a ingressos de novas receitas, configurando erro de direito que torna nulos os lançamentos; 6.7. inaplicabilidade da multa qualificada – Fl. 5615DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 16 6.7.1. sendo parte ilegítima para figurar no pólo passivo, resta afastada a aplicação da multa qualificada; 6.7.2. tem caráter confiscatório, tendo em vista que o acessório ultrapassa o principal, em nítida afronta ao art. 150, inciso IV da CF. Nesse sentido está entendimento do STF, que assim decidiu em ação direta de inconstitucionalidade, razão pela qual produz eficácia contra todos e vincula a administração pública nos termos do art. 102, parágrafo 2º da CF. Além disso, a multa de 150% viola o princípio da isonomia previsto no inciso I do art. 5º da CF, por impor discriminação entre os providos de bens e aqueles que estejam passando por dificuldades financeiras. Assim, devida a exclusão da multa qualificada, ou, no mínimo, que seja determinada a redução para 100%; 6.8. requer perícia contábil, apresentando os quesitos para tanto e indicando o assistente técnico, bem assim protesta, ao final, pela juntada ulterior de documentos por aplicação do princípio da verdade material. E) PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA e JOÃO NATAL CERQUEIRA – 7. Cientificados dos lançamentos em 7 de maio de 2015, consoante ARs às fls. 3151 e 3152, em 8 de junho de 2015 os Srs. Paulo Henrique Escobar Cerqueira e João Natal Cerqueira apresentaram as impugnações às fls. 3461 a 3499 e 3549 a 3586, respectivamente, instruídas com os documentos às fls. 3500 a 3545 e 3587 a 3630, com conteúdos idênticos, onde argumentaram, em síntese, o que segue: 7.1. preliminar de decadência – necessário reconhecer a ocorrência de decadência nos termos do art. 150, §4º do CTN, em relação aos créditos tributários constituídos após o prazo de cinco anos contados da ocorrência do fato gerador, tendo como referência que a ciência dos lançamentos ocorreu em maio de 2015; 7.2. preliminar de nulidade devido à ausência de intimação durante o procedimento fiscal – havendo pluralidade de coobrigados, todos devem ser intimados na fase investigatória para comprovar a origem das receitas em relação às quais serão responsabilizados solidariamente. Todavia, no caso, o impugnante não foi intimado para tanto, contrariando entendimento da Súmula Carf nº 29; 7.3. preliminar de nulidade dos lançamentos em virtude de falta de individualização e delimitação da base tributável imputada a cada sujeito passivo solidário – 7.3.1. ainda que a fiscalização estivesse correta em sua presunção de que os valores creditados nas contas bancárias da pessoa jurídica pertenceriam, na verdade, a terceiros, a imputação dos referidos valores a esses deveria obedecer ao disposto no art. 42, § 5º da Lei nº 9.430, de 1996, que determina ser imputado ao terceiro exclusivamente os créditos que lhe pertencem, comprovadamente; 7.3.2. adicionalmente, conforme o §6º do mesmo artigo, no caso de interposição de pessoas, havendo mais de um terceiro, e não sendo possível segregar os valores de cada um, a tributação deve se dar mediante a divisão da soma dos recursos pelo número de titulares. Nesse sentido está entendimento do Carf; 7.3.3. no caso, é indicado no TVF o valor que teria sido supostamente depositado na conta bancária do impugnante. Assim, como o rastreamento possibilitou identificar os recursos destinados a cada sujeito passivo solidário, a base de cálculo dos tributos deveria ser individualizada e limitada, o que não ocorreu no presente caso, eivando os lançamentos de nulidade por descumprimento da legislação de regência; Fl. 5616DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 17 7.4. ilegitimidade passiva – 7.4.1. para que se configure a responsabilidade solidária decorrente do art. 124, I do CTN, fundada no interesse comum, não é suficiente apenas que se participe das ações que acarretem a ocorrência do fato gerador. É fundamental que se realize, pessoalmente, em conjunto com outras (no mesmo lado da relação obrigacional), a materialidade do próprio fato gerador, pois somente nesta hipótese estará caracterizado o interesse jurídico capaz de acarretar a responsabilidade solidária. Nesse sentido está jurisprudência do Carf e do TRF. Também o STJ reconhece que eventual interesse econômico de uma pessoa no fato gerador não é suficiente para a caracterização da solidariedade do art. 124, I do CTN, sendo necessária a existência de interesse jurídico, o que pressupõe a participação no fato gerador; 7.4.2. no caso, quando a Alumibras fez circular, mesmo que ficticiamente, a mercadoria, ou quando auferiu renda, não se pode considerar que o impugnante teria também, pessoalmente, realizado a materialidade tributária. Quem praticou os atos foi apenas a pessoa jurídica, ainda que terceiros tenham recebido benefícios econômicos advindos desta prática; 7.4.3. no Relatório Geral de Auditorias é sustentado, sem prova robusta, que o impugnante João Cerqueira seria um dos beneficiários e principal articulador do suposto esquema investigado através da "Operação Corrosão". Além disso, no TVF é sustentado que os impugnantes seriam uns dos reais beneficiários da suposta fraude fiscal praticada pela Alumibras, seja: (i) indiretamente, com recursos recebidos desta empresa por meio de contas mantidas no Bradesco pelas empresas Lemnos Ind. de Metais Ltda e Helur Indústria e Comércio Ltda (Paulo Cerqueira), e Empório de Metais (João Cerqueira), das quais figuraram como sócios2 , mas que atualmente mantêm em seus quadros sociais interpostas pessoas; e (ii) diretamente, mediante depósitos em suas contas correntes de pessoa física no Bradesco. Tais argumentos são equivocados e imprestáveis, senão vejamos: 7.4.3.1. no Relatório Geral de Auditorias é trazida à colação notícia veiculada há mais de dez anos na mídia, de maneira totalmente sensacionalista e mentirosa. Nada de concreto foi apurado em desfavor de João Cerqueira relacionado ao conteúdo dessa notícia, o que impediu a fiscalização de trazer dados que pudessem desabonar a imagem do impugnante. Tal notícia cita tão somente uma vez o nome do impugnante, ao qual teria feito alusão um empresário paulista, e nada mais. Ainda que se pudesse dar qualquer credibilidade aos fatos narrados na notícia publicada em 2004, os mesmos não guardariam qualquer relação com os fatos fiscalizados, relativos aos anos 2010 a 2012; 7.4.3.2. inexistência de participação Paulo Cerqueira na empresa Helur e de João Cerqueira na empresa Empório de Metais nos anos fiscalizados – a própria fiscalização reconhece que a participação dos impugnantes nas referidas empresas se deu muitos anos antes das mencionadas remessas de valores realizadas no período entre 2010 e 2012. Paulo Cerqueira foi mero sócio quotista (sem poder de administração) da Helur por um período curto de tempo conforme pode ser visto nas quinta e sétima alterações contratuais em anexo. Já João Cerqueira se retirou do quadro societário da Empório em 2002, conforme terceira alteração contratual. Provado que os impugnantes não possuíam qualquer vínculo, seja de fato ou de direito, com as empresas mencionadas. Em relação à alegada interposição de pessoas, não há comprovação da mesma pela fiscalização, bem Fl. 5617DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 18 assim não é estabelecido o liame entre os impugnantes e as sociedades Helur (Paulo Cerqueira) e Empório (João Cerqueira); 7.4.3.3. incomunicabilidade entre o patrimônio da pessoa jurídica e o patrimônio do sócio – Princípio da Entidade – apurado, por hipótese, que a pessoa jurídica Lemnos teria se beneficiado por suposta fraude fiscal, quem deveria ter figurado no rol dos devedores solidários seria a mesma, mas jamais a pessoa física de um de seus sócios e, menos ainda, sócio que já se retirou da sociedade. Em momento algum o Fisco questionou a existência de fato e de direito da Lemnos, não se verificando qualquer das hipóteses legais de despersonalização da pessoa jurídica, o que poderia autorizar a inclusão de seu sócio em seu lugar. Além disso, não existe a comprovação, em todo o trabalho fiscal, de que os recursos financeiros que supostamente ingressaram na empresa Lemnos foram destinados, em seqüência, ao impugnante, razão pela qual cabe considerar que a fiscalização não logrou demonstrar a aferição de efetivo benefício por parte do impugnante. O mesmo também se pode dizer em relação às supostas remessas à Helur e ao Empório de Metais; 7.4.3.4. a fiscalização indica tão somente cinco depósitos que têm Paulo Cerqueira como beneficiário direto e que somam R$ 28.537,03, bem assim três depósitos com João Cerqueira como beneficiário direto, que somam R$ 178.960,10, valores estes proporcionalmente irrisórios quando considerado o montante do crédito tributário apurado e o volume da movimentação financeira da Alumibras. Em vista disso, cai por terra a fantasia fiscal de que o impugnante seria um dos reais beneficiários do "esquema delituoso", vez que nenhuma pessoa se daria ao trabalho e estaria disposto ao risco e às penalidades fiscais e penais inerentes à construção de esquema supostamente fraudulento, se não fosse em prol de um benefício efetivo e de grande monta. Ainda que assim não fosse, os créditos tributários exigidos teriam que ter sido quantificados para cada coobrigado conforme o suposto proveito econômico auferido; 7.4.5. aplicação do art. 112 do CTN – conforme reiteradamente decidido pelo Carf, ao Fisco compete fazer prova dos fatos. Nesse sentido, não se pode presumir a responsabilidade tributária. Para que um indício seja passível de consideração, deve ter as seguintes características: (i) propiciar um convencimento seguro, que não comporte dúvida razoável; (ii) não permitir que se extraia mais de uma conseqüência possível, isto é, impossibilidade de existir alternativa; e (ii) apontar diretamente para o fato conhecido de forma a não ser possível alcançar qualquer outro fato. Nesse contexto, cumpre esclarecer que não se compreende a aplicação de penalidade quando não há certeza e segurança da autoridade e/ou materialidade do ilícito tributário, conforme art. 112 do CTN. No caso, tendo em vista que a imputação da responsabilidade foi baseada em meras presunções e indícios, nada havendo de concreto para fundamentá-la, está patente a ilegitimidade passiva. Devida a aplicação do mencionado dispositivo; 7.5. nulidade dos lançamentos em virtude da inobservância do art. 530 do RIR/99 – conforme TVF, ao confrontar as DIPJs, todas zeradas, com a movimentação financeira da Alumibras, o Fisco concluiu pela existência de fraudes e vícios na escrituração, que se mostrou imprestável, tanto que, sob tal fundamento, e sem autorização judicial, procedeu à quebra do sigilo bancário dessa empresa, mediante RMFs. Em vista disso, nos termos do art. 530 do RIR/99 o Fisco tinha o dever de proceder ao arbitramento do lucro. Contudo, ao contrário, adotou, ilegalmente, como base de cálculo a integralidade dos valores creditados nas contas bancárias da empresa, considerando como lucro tributável toda a movimentação financeira. O arbitramento não pode configurar a totalidade da receita ou Fl. 5618DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 19 da movimentação financeira do contribuinte, mas apenas a renda efetiva deste, mediante a aplicação do percentual legalmente estabelecido para a atividade da empresa. Nesse sentido, decisões da DRJ São Paulo. Patente a ocorrência de erro de direito na determinação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, ao não proceder ao arbitramento do lucro, sendo devida a nulidade dos respectivos lançamentos, bem assim dos lançamentos reflexos de PIS e de Cofins. O Carf entende ser devida a nulidade quando presente erro de direito; 7.6. nulidade dos lançamentos de PIS e de Cofins por impropriedade da base de cálculo adotada – ao tributar todos os valores creditados em contas bancárias da Alumibras, a autoridade fiscal agiu em desconformidade com o disposto nos arts. 2º e 3º da Lei nº 9.718, de 1998 (com redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014), que estabelece que a base de cálculo dessas contribuições é o faturamento, assim compreendida a receita bruta auferida no mês. Comumente se verifica a existência de créditos em extratos bancários que não se enquadram no conceito de receita bruta tributável, como, por exemplo, aqueles com origem em empréstimos, financiamentos, mútuos e outros, fato não considerado pela autoridade fiscal. Caracterizada a impropriedade da base de cálculo adotada, resta evidenciado erro de direito nos lançamentos, sendo nulos de pleno direito, não cabendo sequer revisão; 7.7. nulidade dos lançamentos por erro procedimental na determinação das bases de cálculo – 7.7.1. a autoridade fiscal sustentou que as empresas envolvidas na suposta fraude fiscal transacionavam recursos entre si, sem que estas movimentações financeiras estivessem lastreadas por efetivas operações mercantis. Constatou que a Alumibras seria um dos "elos fundamentais do esquema", justamente porque "distribuía os recursos amealhados aos reais beneficiários do esquema"; 7.7.2 considerando, por hipótese, correta a tese do Fisco de que as operações não tinham respaldo em compra e venda de mercadoria, fica caracterizado o movimento circular do dinheiro, conforme ilustração do laudo pericial contábil em anexo, parte integrante a impugnação: 7.7.3. ao assumir a existência do movimento circular do dinheiro, a fiscalização reconheceu expressamente e inúmeras vezes que houve apenas transferência monetária de uma conta bancária para outra, sem ingresso de nova receita. Contudo, adotou como base de cálculo a somatória de todos os depósitos e transferências mensais realizadas, sem considerar as circularizações havidas, conforme demonstrado no laudo pericial anexo, Fl. 5619DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 20 ou seja, não promoveu o necessário expurgo dos recursos sabidamente movimentados mais de uma vez entre contas, configurando erro procedimental grosseiro; 7.7.4. o art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, determina a exclusão dos valores movimentados em decorrência de transferência entre contas bancárias de mesma titularidade. Até mesmo os recursos circulares às contas de mesma titularidade foram considerados como receitas omitidas, em ofensa a tal dispositivo. O laudo pericial em anexo comprovou a existência de transferências bancárias entre contas da Alumibras que foram incluídas na base tributável ilegalmente; 7.7.5. para a melhor aplicação do direito, a determinação contida no referido dispositivo deve ser estendida ao caso de créditos decorrentes de depósitos e transferências realizadas entre empresas envolvidas no suposto "esquema delituoso", posto que concluído que se tratavam de meras movimentações circulares de recursos, não correspondendo a efetivo ingresso de receita; 7.8. necessidade de aplicação do princípio da insignificância, haja vista que a desproporção entre, de um lado, o montante supostamente envolvido no "esquema delituoso" e movimentado nas contas bancárias da Alumibras, e, de outro, o somatório dos valores depositados nas contas bancárias de titularidade dos impugnantes (R$ 28.537,03 – Paulo Cerqueira; R$ 178.960,10 – João Cerqueira), revela a inexpressividade da eventual lesão, a mínima ofensividade da suposta infração e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento, caso assim se considere, o que também tem o condão de afastar a legitimidade da exigência fiscal. A aplicação de tal princípio no Direito Tributário vem sendo aceita pelo Carf, pelo STJ e pelo STF; 7.9. ilegitimidade da multa qualificada em relação ao impugnante – 7.9.1. o fato que enseja a qualificação da multa é situação personalíssima vinculada à pessoa jurídica autuada, que não se comunica com os responsáveis tributários solidários. Assim, estes não respondem por esta parcela do crédito tributário em virtude do princípio da personalização da pena, segundo o qual somente aquele que deu ensejo ao ilícito pode se sujeitar às suas sanções, o que não poderia ser diferente ante o disposto no art. 5º, inciso XLV da CF. A esse respeito, julgado do TRF da Quarta Região; 7.9.2 o impugnante nunca participou do quadro societário e, muito menos, da administração do contribuinte autuado, não tendo o mesmo, portanto, qualquer comando no cumprimento das suas obrigações tributárias. Na falta de comprovação do vínculo entre o autuado e o responsável solidário, devida a exclusão da qualificação da multa conforme entendimento do Carf; 7.9.3. há que se considerar que a multa no percentual de 150% é confiscatória, padecendo de constitucionalidade, vez que superior ao próprio tributo exigido. Nesse sentido decisão recente do STF; 7.9.4. caso se entenda que a multa não deve ser afastada com base no princípio da personalização da pena ou na sua inconstitucionalidade (confiscatória), entende devida sua redução ao percentual máximo de 100% do valor do tributo; 7.10. requer a realização de perícia técnica, apresentando, para tanto, os quesitos a serem esclarecidos, e indicando o assistente técnico. Protesta pela juntada, desde já, do laudo pericial contábil preliminar que corrobora as alegações efetuadas. 8. Tendo em vista o disposto na Portaria RFB nº 453, de 2013, e no art. 2º da Portaria RFB nº 1.006, de 2013, Fl. 5620DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 21 em 11 de setembro de 2015 os autos foram remetidos a esta DRJ/Recife para proceder ao julgamento da lide (fl. 43). 9. É o relatório.” A DRJ declarou revéis a Contribuinte, Alumibras, e o responsável solidário Alex Medeiros da Silva, ante a ausência de impugnação, mantendo-se a sujeição passiva e as imputações a ele atribuídas. No mais, julgou improcedentes as impugnações apresentadas pelos demais responsáveis solidários, nos termos da ementa a seguir colacionada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 INTIMAÇÃO POR VIA POSTAL PARA ENDEREÇO ANTIGO. ALTERAÇÃO DE ENDEREÇO PREMEDITA POR EMPRESA INEXISTENTE DE FATO. NOVO ENDEREÇO FALSO. INTIMAÇÃO POR EDITAL VÁLIDA. É válida a intimação por edital ainda que a correspondência tenha sido previamente enviada para endereço antigo do contribuinte, desde que a alteração deste se demonstre premeditada para inviabilizar a fiscalização, caracterizada tal intenção pelo fato de que o novo endereço também é falso, sendo a empresa inexistente de fato, de papel, sem funcionários e sem estabelecimento efetivo. Nesta hipótese, em intimações posteriores, a sua realização prévia por via postal é despicienda, podendo ser realizada diretamente por edital. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS PARA COMPROVAR A ORIGEM DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS QUESTIONADOS. À ausência de qualquer alegação por parte da autuada de que os depósitos bancários questionados pertenceriam a terceiros, justificada está a ausência de intimação dos responsáveis solidários com vistas a comprovar a origem do numerário. SÚMULA Nº 29 DO CARF. INAPLICABILIDADE AO CASO SOB ANÁLISE. Descabe invocar a aplicação da Súmula nº 29 do CARF ao caso sob análise, quando resta comprovado que nenhum dos nominados responsáveis solidários pelo crédito em discussão, consta como co-titular da conta corrente bancária mantida em instituição financeira pela empresa autuada. SIGILO BANCÁRIO. EXAME INDISPENSÁVEL. PROCEDIMENTO INSTAURADO. Tendo sido instaurado procedimento fiscal e demonstrado que o exame das informações bancárias do contribuinte é indispensável, não se considera violado o sigilo bancário quando as instituições financeiras transferem tais informações à Receita Federal. SIGILO BANCÁRIO. Inexistindo decisão do Supremo Tribunal Federal estabelecendo efeito vinculante em relação a julgado que considerou inconstitucional a quebra do sigilo bancário, deve a Autoridade Administrativa, em obediência ao princípio da legalidade, seguir os ditames da legislação vigente. DECADÊNCIA. REGRA GERAL. INAPLICABILIDADE Para os tributos sujeitos a Fl. 5621DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 22 lançamento por homologação, o prazo decadência de cinco anos conta-se a partir da data da ocorrência do fato gerador, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN. Esta regra é excepcionada quando presente ao menos uma das seguintes hipóteses: (i) for constatada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação; e (ii) não tenha havido recolhimento de qualquer valor do tributo. Nessas situações o prazo de cinco anos é contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, conforme prescreve o art. 173, I, do CTN. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. ARBITRAMENTO. INAPLICÁVEL. Em que pese a obrigatoriedade em tese do arbitramento na hipótese de falta de apresentação de livros contábeis e fiscais, há que se considerar que este regramento não se aplica ao caso em função da situação específica do contribuinte, qual seja, a sua inexistência de fato e a ausência de atividade operacional determinada e de despesas e custos incorridos por ele, vez que tal forma de tributação ensejaria, na espécie, a determinação de uma base de cálculo incompatível com a realidade dos fatos. O objetivo do arbitramento do lucro é ao mesmo tempo (i) permitir ao Fisco a determinação da base de cálculo do tributo quando atitudes específicas do contribuinte inviabilizam a apuração com base na regra geral, lucro real, e (ii) garantir ao fiscalizado que a base de cálculo obtida é compatível com sua atividade e com o lucro praticado no mercado. Todavia, desta medida não pode resultar um favorecimento ao contribuinte mediante a concessão de um fator de redução de 90,4% da receita bruta conhecida, correspondente a despesas/custos sabidamente inexistentes. O aplicador da norma deve sempre interpretá-la de forma a buscar a finalidade pretendida pelo legislador. OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS BANCÁRIOS SEM COMPROVAÇÃO DE ORIGEM. Caracterizam-se como receitas operacionais omitidas os valores creditados em conta de depósito ou investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Trata-se de presunção legal que inverte o ônus probatório. OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS DE MESMA TITULARIDADE. EXCLUSÃO. COMPROVAÇÃO NECESSÁRIA. Para que sejam excluídos na determinação da receita omitida os créditos decorrentes de transferências entre contas, é necessário que cada crédito seja apontado individualizadamente e que haja comprovação documental de que as contas envolvidas pertencem ao contribuinte. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA INAPLICABILIDADE AO DIREITO TRIBUTÁRIO. A lei não confere discricionariedade à autoridade julgadora administrativa para aplicar, no âmbito do Direito Tributário, institutos próprios do Direito Penal, face tratar-se de atividade vinculada e obrigatória, estando subordinado aos comandos que estiverem expressamente previstos em lei. IMPOSSIBILIDADE DE DELIMITAÇÃO DA BASE TRIBUTÁVEL À VANTAGEM AUFERIDA PELO SUJEITO PASSIVO SOLIDÁRIO. Verificada a sujeição passiva Fl. 5622DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 23 solidária, a responsabilização imputada abrange todo o crédito tributário constituído, independentemente do volume da vantagem auferida com a operação. A norma não autoriza restringir a sujeição passiva solidária à parcela do crédito tributário constituído proporcional ao benefício; ao contrário, estabelece que o sujeito passivo responde solidariamente por toda obrigação principal, correspondente aos tributos e seus acessórios. DELIMITAÇÃO DA BASE TRIBUTÁVEL. INAPLICABILIDADE DO §5º DO ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96 O §5º estabelece que o lançamento será efetuado em nome de terceiro quando restar provado que os valores creditados na conta de depósito lhe pertencem. Isto porque este terceiro passa a ser considerado, de fato, o titular da conta. Esta situação não corresponde ao caso presente, vez que os impugnantes não foram acusados de fazerem a sua movimentação financeira na conta da empresa, mas tão somente de serem beneficiários de repasses fraudulentos efetuados por esta. DELIMITAÇÃO DA BASE TRIBUTÁVEL. INAPLICABILIDADE DO §6º DO ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96 O §6º trata da situação em que uma conta corrente possui mais de um titular (conta conjunta) e estes titulares apresentaram declarações de rendimento ou de informações em separado. O caso concreto não se subsume a esta hipótese, pois os sujeitos passivo solidários não são cotitulares da conta corrente da empresa. MULTA QUALIFICADA. FRAUDE, SONEGAÇÃO E CONLUIO.CABIMENTO. Caracterizada a ocorrência de sonegação, fraude e conluio, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, é devida a qualificação da multa. MULTA QUALIFICADA. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO. É o administrador um mero executor de leis não lhe cabendo questionar a legalidade ou constitucionalidade do comando legal. A análise de teses contra a legalidade ou a constitucionalidade de normas é privativa do Poder Judiciário, conforme competência conferida constitucionalmente. RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS. CONSTITUIÇÃO DA SOCIEDADE MEDIANTE UTILIZAÇÃO DE INTERPOSTAS PESSOAS. Tendo sido verificado que a constituição da sociedade fiscalizada se deu mediante utilização de interpostas pessoas (“laranjas”), é lícito atribuir responsabilidade tributária, em caráter solidário, a todas as pessoas que tiveram interesse comum nas situações que deram origem aos fatos geradores das respectivas obrigações. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis as pessoas físicas que participem efetivamente do processo decisório para engendrar operações com o objetivo de reduzir a carga tributária, demonstrando o interesse comum ao auferir, direta ou indiretamente, os benefícios delas decorrentes. PEDIDO DE PERÍCIA CONTÁBIL. PRESCINDIBILIDADE INDEFERIMENTO. Indefere-se pedido de perícia que, apesar de que apresente seus motivos e contenha a Fl. 5623DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 24 formulação de quesitos e a indicação do perito, seja prescindível para a composição da lide. LANÇAMENTOS DECORRENTES. CSLL. PIS. COFINS. O decidido para o lançamento de IRPJ, no que couber, estende-se aos lançamentos que com ele compartilham o mesmo fundamento factual e para os quais não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. LANÇAMENTOS DE PIS E COFINS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. RECEITA OPERACIONAL. ADEQUAÇÃO AO CONCEITO DE FATURAMENTO. Os créditos com origem não comprovada correspondem a receita operacional do contribuinte, que se enquadra perfeitamente no conceito de faturamento estabelecido no art. 3º da Lei nº 9.718, de 1999, inclusive na forma mais restritiva fixada pela redação posteriormente dada pela Lei nº 11.941, de 2009 Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificados, os responsáveis solidários, SABINA LORUSSO, SUMARA LORUSSO, GERSON LORUSSO, LEILA LORUSSO, PAULO CESAR VERLY DA CRUZ, PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA e ESPÓLIO DE JOÃO NATAL CERQUEIRA apresentaram Recursos Voluntários reproduzindo as alegações suscitadas em sede de impugnação. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Eduarda Lacerda Kanieski, Relatora | DA ADMISSIBILIDADE Cientificados em 23/09/2023 (AR’s – e-fls. 4768, 4766, 4767 e 4765), os Responsáveis Solidários SABINA LORUSSO, SUMARA LORUSSO, GERSON LORUSSO, LEILA LORUSSO apresentaram Recursos Voluntários (e-fls. 4777/4804, 4807/4834, 4837/4865, 4868/4964), com o mesmo conteúdo, em 25/09/2020, cumprindo, portanto, o prazo de 30 (trinta) dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1977. Verificada a regularidade da representação processual, e o preenchimento dos demais pressupostos de admissibilidade recursal, conheço os Recursos Voluntários. Fl. 5624DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 25 O Responsável Solidário PAULO CÉSAR VERLY DA CRUZ foi cientificado em 03/09/2020, vindo a apresentar seu Recurso Voluntário (e-fls. 4898/4968) em 28/09/2020, de forma tempestiva. Preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade recursal, conheço do presente Recurso Voluntário. O Responsável Solidário PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA, cientificado em 31/10/2020, apresentou tempestivo Recurso Voluntário (e-fls. 4974/5037), acompanhado de documentos comprobatórios (e-fls. 5038 a 5246), em 06/11/2020. Preenchidos os requisitos de admissibilidade, conheço o recurso voluntário. Por fim, JOÃO NATAL CERQUEIRA foi cientificado em 01/10/2016 (e-fls. 4763), sendo o Recurso Voluntário apresentado por ESPÓLIO DE JOÃO NATAL CERQUEIRA em 20/11/2020, fora, portanto, do prazo legal de 30 dias. Em que pese a alegada preliminar de nulidade da intimação do v. Acórdão, ao argumento de que o Sr. João Natal Cerqueira veio a óbito em 21/11/2016, de modo que a intimação deveria ser direcionada ao Espólio do de cujus, verifico que a condição de espólio foi noticiada nos autos somente nesta fase recursal, com a interposição do recurso voluntário, em 20/11/2020. Nos termos da jurisprudência do CARF, o erro de intimação na pessoa do de cujus é escusável quando a Autoridade Fiscal ou, no caso, Julgadora, não tem conhecimento do seu falecimento. A esse respeito: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2008, 2009 PESSOA JURÍDICA. INTIMAÇÃO. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE NULIDADE As intimações devem ser endereçadas à pessoa jurídica, no seu endereço cadastrado nos sistemas da Receita Federal, e não ao seu representante legal. Na hipótese de a intimação postal restar improfícua, deve ser realizada por meio de edital, nos termos do art. 23, §1º do Decreto nº 70.235/72. RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO. FALECIMENTO. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DO INVENTARIANTE OU HERDEIROS. NULIDADE DO LANÇAMENTO. Somente é escusável o erro de intimação na pessoa do de cujus, não acarretando a nulidade do procedimento, quando a Autoridade Fiscal não tem conhecimento do falecimento do sujeito passivo. A contrario sensu, é nulo o lançamento lavrado contra o de cujus, quando a Autoridade Fiscal tem conhecimento do seu falecimento; ou em nome do inventariante, quando sabia já estar concluído o inventário e homologada a partilha. (...) (Acórdão nº 1301-006.368, Rel. Cons. Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Sessão de 20/06/2023) Fl. 5625DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 26 À falta de comprovação de que a Autoridade Julgadora tinha conhecimento tinha conhecimento sobre o óbito do Sr. João Natal Cerqueira, e considerando a interposição do Recurso Voluntário pelo Espólio após o prazo de 30 (trinta) dias, não conheço do Recurso Voluntário. 1 DAS PRELIMINARES 1.1 DO ALEGADO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA POR AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DO RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS DURANTE O PROCEDIMENTO FISCAL Os Recorrentes SABINA LORUSSO, SUMARA LORUSSO, GERSON LORUSSO, LEILA LORUSSO E PAULO HENRIQUE ESCOBAR suscitam preliminar de nulidade dos lançamentos por cerceamento de defesa, ao argumento de que não foram intimados sobre o procedimento de fiscalização, tampouco para comprovar a origem dos créditos que deram ensejo à autuação. SABINA LORUSSO, SUMARA LORUSSO, GERSON LORUSSO, LEILA LORUSSO argumentam que não obstante a Fiscalização ter diligenciado à Concessionária Itatiaia Distribuidor de Veículos Ltda. e à empresa de turismo Rextur Viagens e Turismo para investigar compras feitas pelos membros da família Lorusso, não intimou nenhum membro da família para apresentar qualquer esclarecimento sobre os fatos investigados, violando os princípios do contraditório e ampla defesa. PAULO HENRIQUE ESCOBAR argumenta, ainda, que havendo pluralidade de coobrigados, todos devem ser intimados na fase investigatória para comprovar a origem das receitas em relação às quais estão sendo responsabilizados, invocando a Súmula CARF nº 29. O procedimento fiscal constitui a fase inicial do processo administrativo fiscal, destinada a verificar a ocorrência do fato gerador e à formação da convicção do Auditor-Fiscal sobre eventual obrigação tributária. Conforme destacam Marcos Vinícius Neder e Thaís de Laurentiis, tal fase “Assenta-se num procedimento, mas não traz, como consequência, a instauração de um contencioso.”1 1 NEDER, Marcos Vinícius; De Laurentiis, Thaís. Processo administrativo fiscal federal comentado. 4. ed. São Paulo: Editora Edda, 2024. E-book. Fl. 5626DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 27 Os atos administrativos emitidos nessa etapa, como o Termo de Ciência e Encerramento Total do Procedimento Fiscal, são instrumentos de controle interno e execução das atividades fiscais. Assim, eventuais irregularidades em sua emissão, alteração ou prorrogação não configuram, por si só, nulidade do lançamento tributário. Nesse contexto, a ausência de intimação prévia dos Recorrentes não implica cerceamento de defesa, pois, com a lavratura do Auto de Infração, foi-lhes assegurado amplo acesso aos elementos de convicção da autoridade fiscal, bem como a oportunidade de apresentar impugnação e juntar documentos em sua defesa. A robustez dos argumentos trazidos em suas manifestações comprova que não houve restrição ao exercício do contraditório. Cumpre esclarecer, ademais, que a intimação de terceiros prevista no § 5º do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, somente ocorre quando o titular da conta bancária, intimado a comprovar a origem dos recursos, alega que os valores não lhe pertencem, atribuindo a terceiros a sua titularidade. Nessa hipótese, tais terceiros são chamados a se manifestar. No presente caso, não houve alegação desse tipo, uma vez que a empresa Alumibras não compareceu aos autos para atribuir a outrem a propriedade dos valores, razão pela qual não se cogita da intimação dos ora Recorrentes com base nesse dispositivo. No que toca à Súmula CARF nº 29, transcrita pelos Recorrentes, o seu alcance restringe-se às hipóteses em que se constata a existência de co-titulares de conta bancária, os quais devem ser intimados a comprovar a origem dos depósitos nela efetuados, sob pena de nulidade do lançamento. Todavia, no caso em análise, nenhum dos Recorrentes figura como co- titular das contas bancárias em nome da Alumibras, de modo que não se aplica a orientação sumulada. À vista dessas considerações, não há fundamento para acolher a preliminar de nulidade, razão pela qual deve ser rejeitada. Fl. 5627DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 28 1.2 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INDEFERIMENTO DA PRODUÇÃO DE PROVA PERICIAL Paulo Henrique Escobar suscita preliminar de nulidade por cerceamento de defesa, ante o indeferimento da produção de prova pericial pelo v. Acórdão Recorrido. Argumenta que, não obstante a Autoridade Julgadora confirmar que a Recorrente observou os requisitos previstos no art. 16, inciso IV do Decreto nº 70.235/1972, indeferiu o pleito pericial sob o fundamento de que a prova pericial não seria necessária. Segundo o Recorrente, a improcedência de sua impugnação fundamentou-se na ausência de provas quanto ao alegado, ao passo que a prova pericial visa justamente comprovar suas alegações e em especial que não foi beneficiado com o produto da suposta fraude fiscal. A meu ver, razão não lhe assiste. O deferimento do pedido de perícia está sujeito ao cumprimento dos requisitos do art. 16, inciso IV do Decreto nª 70.235/1972, in verbis: Art. 16. A impugnação mencionará: (...) IV - as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. Do que se observa da Impugnação apresentada pelo Recorrente, verifico que tais requisitos foram cumpridos de forma parcial. Isso porque não obstante ter informado o nome, endereço e a qualificação profissional do perito, não apresentou os motivos que as justifiquem. Ademais disso, a Autoridade Julgadora formará livremente sua convicção na apreciação das provas, podendo determinar as diligências ou, ainda, a realização de perícia, quando entender necessárias, nos termos do art. 29 do referido decreto. Assim, se o Julgador a quo se convenceu acerca da desnecessidade da realização de perícia, sendo possível firmar sua convicção com os elementos probatórios constantes dos autos, não há o que se falar em nulidade da decisão de primeira instância. Fl. 5628DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 29 1.3 OMISSÃO DE RECEITAS. PLURALIDADE DE SUJEITOS PASSIVOS. NECESSIDADE DE INDIVIDUALIZAÇÃO E DELIMITAÇÃO DA BASE TRIBUTÁVEL IMPUTADA A CADA SUJEITO PASSIVO SOLIDÁRIO Neste ponto, alegam os Recorrentes que ainda que a fiscalização estivesse correta em sua presunção de que os valores creditados nas contas bancárias da pessoa jurídica pertenceriam, na verdade, a terceiros, como foram identificados no TVF os recursos destinados a cada sujeito passivo solidário, a base de cálculo dos tributos deveria ser individualizada e limitada, em cumprimento ao disposto nos §§ 5º e 6º do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Vejamos o que dispõe os dispositivos citados: Art. 42 (...) § 5o Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. § 6o Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares. O §5º estabelece que o lançamento será efetuado em nome de terceiro quando restar provado que os valores creditados na conta de depósito lhe pertencem, ou de outra forma, a movimentação financeira lhe pertença. Isto porque este terceiro passa a ser considerado, de fato, o titular da conta. Esta situação não corresponde ao caso presente, vez que os Recorrentes não foram acusados de fazer a sua movimentação financeira na conta da Alumibras, mas tão somente de serem beneficiários de repasses fraudulentos efetuados por esta empresa. Em relação ao §6º, este trata da situação em que uma conta corrente possui mais de um titular (conta conjunta) e estes titulares apresentaram declarações de rendimento ou de Fl. 5629DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 30 informações em separado. O caso concreto não se subsume a esta hipótese, pois os Recorrentes não são co-titulares da conta corrente da Alumibras. 1.4 NULIDADE POR SUPOSTA VIOLAÇÃO AO SIGILO BANCÁRIO Os Recorrentes defendem a nulidade do lançamento de ofício por quebra do sigilo bancário sem autorização judicial, violando os princípios da intimidade, privacidade e do sigilo de dados resguardados pelos incisos X e XII do art. 5º da Constituição Federal. As alegações não procedem, contudo. O procedimento encontra-se amparado na Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, em especial no art. 6º, § 2º, que dispõe: LEI COMPLEMENTAR Nº 105/2006 Art. 6º. As autoridades e agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, no interesse da arrecadação ou da fiscalização de tributos, poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os relativos a contas de depósitos e aplicações financeiras do contribuinte. § 2º Não constitui violação do dever de sigilo a prestação de informações pelas instituições financeiras às autoridades competentes na forma prevista neste artigo. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 601.314/SP, sob a sistemática da repercussão geral (Tema 225), firmou entendimento no sentido da constitucionalidade do art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001, que admite o acesso, pela Administração Tributária, às informações bancárias sem necessidade de autorização judicial, desde que respeitados os requisitos legais e assegurado o sigilo funcional: “I - O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal; II - A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, § 1º, do CTN.” Fl. 5630DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 31 (grifamos) Sendo a RMF expedida por autoridade competente, e precedida de intimação ao Contribuinte para apresentar os extratos bancários de sua titularidade (e-fls. 236/237), bem como demonstrada a sua imprescindibilidade, restam preenchidos os requisitos do art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001. Por fim, registre-se que eventuais alegações de inconstitucionalidade das normas aplicadas à espécie não podem ser objeto de apreciação por este Conselho, nos termos da Súmula CARF nº 2: Súmula CARF nº 2 “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” Acórdãos Precedentes: Acórdãos nºs 101-94.876, 103-21.568, 105-14.586, 108- 06.035, 102-46.146, 203-09.298, 201-77.691, 202-15.674, 201-78.180 e 204- 00.115. Diante do exposto, afasto a preliminar de nulidade do Auto de Infração. 1.5 DA DECADÊNCIA Os Recorrentes alegam, ainda, a decadência do direito de o fisco constituir o crédito tributário, em relação aos fatos geradores ocorridos de janeiro a abril de 2010, porquanto a ciência do lançamento se deu em maio de 2015 e, portanto, após o decurso do prazo de cinco anos fixado no art. 150, §4º do CTN. Nesse sentido, defende-se a inaplicabilidade do art. 173, inciso I do CTN, eis que a Autoridade Fiscal não logrou comprovar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. A Autoridade Julgadora de primeira instância rejeitou a alegação, nos seguintes termos: 49. Consoante Parecer PGFN/CAT nº 1617/2008, aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, mediante despacho datado de 18/08/2008, em caso de pagamento do tributo relativo a determinado fato gerador, independentemente do montante recolhido/confessado, aplica-se o disposto no art. 150, § 4º, do Fl. 5631DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 32 Código Tributário Nacional (CTN) para fins de contagem do prazo decadencial, contudo, na falta de pagamento, deve ser utilizado o art. 173, I, do mesmo código. 50. Na espécie, não consta nos autos que o contribuinte tenha recolhido qualquer valor a título de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, situação que enseja, conforme acima, a aplicação do art. 173, I do CTN. Assim sendo, considerando-se o fato gerador mais antigo objeto dos lançamentos (PIS e Cofins), 31/01/2010, caso extremo, o termo final do prazo decadencial seria 31/12/2015, data posterior à ciência dos lançamentos. Portanto, não há que se falar em decadência dos fatos geradores de janeiro a abril de 2010. 51. Não bastasse isso, na hipótese de ocorrência de dolo, como no presente caso (o que será analisado em tópico específico relativo à multa qualificada), o art. 150, §4º do CTN autoriza a aplicação do art. 173, I do mesmo código para fins de determinação do termo inicial de contagem do prazo decadencial. Logo, ainda que houvesse algum recolhimento dos tributos objetos dos autos de infração, a contagem do prazo decadencial seguiria a regra do art. 173, I.” A decisão está em total consonância com o entendimento deste e. CARF, nos termos da Súmula CARF nº 72: Súmula CARF nº 72 Aprovada pelo Pleno em 10/12/2012 Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Acórdãos Precedentes: Acórdão nº 104-22564, de 14/06/2007 Acórdão nº 2401-00249, de 08/09/2009 Acórdão nº 1402-00506, de 31/03/2011 Acórdão nº 2102-01186, de 18/03/2011 Acórdão nº 105- 17083, de 25/06/2008 Acórdão nº 1103-00486, de 29/06/2011. Desta forma, rejeito a preliminar de decadência, mantendo a decisão por seus próprios fundamentos. 2 DO MÉRITO 2.1 DA NECESSIDADE DE ARBITRAMENTO DO LUCRO Inicialmente, cumpre registrar que todos os Recorrente alegaram a necessidade de arbitramento do Lucro, requerendo, portanto, o cancelamento do Auto de Infração, de modo que Fl. 5632DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf http://idg.carf.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 33 o que vier a ser concluído a respeito da matéria ora controvertida será aplicável à todos os Recorrentes. Pois bem. Os Recorrentes defendem a indevida apuração do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS pela sistemática do Lucro Real, porquanto a situação fática dos autos exige o arbitramento do lucro de forma mandatória, nos termos do art. 530 do RIR/99. A DRJ, por sua vez, afastou tal alegação, sob os seguintes argumentos: “53. Necessária a transcrição do disposto no art. 530 antes mencionado: Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano-calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): I - o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real; III - o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527; IV - o contribuinte optar indevidamente pela tributação com base no lucro presumido; V - o comissário ou representante da pessoa jurídica estrangeira deixar de escriturar e apurar o lucro da sua atividade separadamente do lucro do comitente residente ou domiciliado no exterior (art. 398); VI - o contribuinte não mantiver, em boa ordem e segundo as normas contábeis recomendadas, Livro Razão ou fichas utilizados para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no Diário. 54. Em princípio, sem uma análise mais aprofundada do caso concreto, poderse-ia considerar que o mesmo se enquadraria na situação tipificada no inciso III, vez que o Fl. 5633DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 34 contribuinte, devidamente intimado via termo de início do procedimento fiscal, deixou de apresentar os livros e documentos de sua escrituração. 55. Assim, uma vez que no caput do art. 530 acima transcrito há um comando para a realização do arbitramento lucro para a apuração do IRPJ e da CSLL3 quando configuradas uma ou mais das hipóteses listadas nos seus incisos, conforme se depreende da expressão "será determinado", o entendimento inicial a que se poderia chegar é que o impugnante estaria correto em seu argumento de erro na determinação da base de cálculo de tais tributos. 56. Não obstante isso, devem ser levadas em consideração as seguintes questões ao interpretarmos o mencionado dispositivo: 56.1. o estabelecido no inciso III tem o objetivo de permitir à autoridade fiscal determinar as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL na hipótese de um contribuinte, existente de fato e de direito, com atividade(s) operacional(is) determinada(s), com custos (e/ou despesas) incorridos, ciente de irregularidades em sua contabilidade, recusar-se a apresentar seus livros contábeis e fiscais. Visa evitar que o tributo deixe de ser exigido em virtude de má fé do contribuinte cuja conduta inviabilize a determinação da base de cálculo pela regra geral – lucro real; 56.2. todavia, tais características do contribuinte (existência, atividade determinada e custos/despesas incorridos) não estão presentes no caso: 56.2.1. trata-se de empresa inexistente de fato, sem estabelecimento e sem funcionários; 56.2.2. em função da inexistência de fato do fiscalizado, e tendo em vista que restou comprovado que os recursos não decorreram das operações de venda, vez que simuladas, não é possível identificar a origem das receitas, ainda que conhecidas, e, em consequência, não é viável determinar o coeficiente de presunção a ser aplicado para a determinação do lucro arbitrado. Não se alegue que a atividade que teria originado as receitas poderia ser verificada no contrato social da empresa, em seu objeto, vez que este não corresponde à realidade dos fatos por se tratar de empresa de fachada; 56.2.3. sendo a empresa inexistente de fato, sem estabelecimento efetivo, sem funcionários, funcionando simplesmente como repassador de recursos fraudulentos aos beneficiários do esquema delituoso, mediante a emissão de notas fiscais falsas, extrai-se que a mesma não incorreu em qualquer despesa ou custo, nem ao menos os custos relativos à impressão de tais notas e da manutenção de contas bancárias, os quais foram assumidos sem qualquer dúvida pelos responsáveis pelo esquema. No presente caso, em função disso, todos os recursos ingressados representam lucro da atividade. Assim, ainda que se pudesse identificar o coeficiente de presunção apropriado (e, por conseguinte, o coeficiente de arbitramento), o que não é o caso, a sua aplicação não seria justificável, vez que este coeficiente objetiva a determinação de um lucro compatível com a atividade do contribuinte, deduzindo-se por presunção, despesas e custos que seriam padrões e aceitáveis para esta atividade. Não havendo despesas e custos, não há que se falar em coeficiente de presunção, pois tal medida representaria erro na determinação da base de cálculo dos tributos. Fl. 5634DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 35 57. Em vista do exposto, em que pese a obrigatoriedade, em tese, do arbitramento na hipótese de falta de apresentação de livros contábeis e fiscais, há que se considerar que este regramento não se aplica ao caso em função da situação específica do contribuinte, qual seja, a sua inexistência de fato e a ausência de atividade operacional determinada e de despesas e custos incorridos por ele, vez que tal forma de tributação ensejaria, na espécie, a determinação de uma base de cálculo incompatível com a realidade dos fatos. 58. O objetivo do arbitramento do lucro é ao mesmo tempo (i) permitir ao Fisco a determinação da base de cálculo do tributo quando atitudes específicas do contribuinte inviabilizam a apuração com base na regra geral, lucro real, e (ii) garantir ao fiscalizado que a base de cálculo obtida é compatível com sua atividade e com o lucro praticado no mercado. Todavia, desta medida não pode resultar um favorecimento ao contribuinte mediante a concessão de um fator de redução de 90,4% da receita bruta conhecida, correspondente a despesas/custos sabidamente inexistentes. O aplicador da norma deve sempre interpretá-la de forma a buscar a finalidade pretendida pelo legislador. 59. Considero, pois, improcedente a alegação apresentada.” Com esse raciocínio não se pode concordar, contudo. À luz do disposto no art. 1º da Lei nº 9.430/1996, a apuração do IRPJ e CSLL é realizada “com base no lucro real, presumido, ou arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada ano- calendário”. Constatada a ocorrência de uma das hipóteses previstas no art. 42 da Lei nº 8.981/95 ou no art. 530 do RIR/992, é mandatório o arbitramento do lucro para fins de apuração do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. 2 Decreto nº 3.000/99 (RIR/99) Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano-calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando: I - o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real; III - o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527; IV - o contribuinte optar indevidamente pela tributação com base no lucro presumido; V - o comissário ou representante da pessoa jurídica estrangeira deixar de escriturar e apurar o lucro da sua atividade separadamente do lucro do comitente residente ou domiciliado no exterior (art. 398); VI - o contribuinte não mantiver, em boa ordem e segundo as normas contábeis recomendadas, Livro Razão ou fichas utilizados para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no Diário. Fl. 5635DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3000.htm#art527 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3000.htm#art398 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 36 Neste ponto, deve prevalecer o entendimento expresso na declaração de voto apresentada pelo julgador Aloysio José Percínio da Silva, para registrar sua divergência em relação ao que restou decidido no voto vencedor: “(...) Com efeito, encontra-se no art. 530 do RIR/1999 fundamento para o arbitramento do lucro. Há no caput do dispositivo legal ordem para arbitramento nos casos lá discriminados, sem condicionamento a juízo de oportunidade e conveniência da autoridade lançadora. Dito de outra forma, a lei não autorizou a autoridade lançadora a escolher o regime de tributação de acordo com a carga tributária individual resultante dos regimes que entendesse aplicáveis. Na execução do lançamento de ofício, só há um regime de tributação aplicável: aquele eleito pelo contribuinte, se atendidos os requisitos legais, ou o arbitramento. A norma não confere ao seu aplicador qualquer possibilidade de "flexibilização" ou "relativização" em razão de possível favorecimento ao sujeito passivo. Em suma, o arbitramento ex officio é obrigatório sempre que presentes os pressupostos especificados na lei, como ocorreu no caso concreto, em que a fiscalizada não apresentou os livros e documentos de escrituração contábil e fiscal, fato impeditivo do exame pelo Fisco da correção da sua apuração pelo regime de tributação com base nas normas do lucro real. No lançamento em questão, houve distorção das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, resultando em tributação da receita omitida e não do lucro. A base de cálculo do imposto de renda pessoa jurídica é o lucro, definido conforme as suas três formas de apuração: real, arbitrado ou presumido, de acordo com o art. 44 do CTN. Segundo o art. 6º do Decreto-lei 1.598/1977 (art. 247 do RIR/1999), o lucro real é o lucro líquido do exercício, ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas pela legislação própria. Por sua vez, o lucro líquido deve ser apurado com observância das disposições da lei comercial (art. 248 do RIR/1999). A base de cálculo da CSLL é o lucro líquido ajustado de acordo com as prescrições da legislação específica. O regime de tributação pelo lucro arbitrado, em que parcela de custos e despesas é implícita e automaticamente computada mediante a aplicação dos coeficientes de arbitramento sobre a receita da pessoa jurídica, revela-se apropriado, legal e mais realista para a determinação da correta base de cálculo do IRPJ e da CSLL, evitando a mera e ilegal incidência direta desses tributos sobre a receita e não sobre o resultado. O referido regime dispensa comprovação de custos e despesas pelo sujeito passivo. Mesmo que se admitisse a necessidade de comprovação de custos e despesas, o que se faz apenas para fins de argumentação, a suposta inexistência de tais valores, considerada pelo Relator, nem mesmo foi comprovada, tendo em vista a ausência de livros e documentos de escrituração para exame. Segundo o comando do art. 42 da Lei 9.430/1996, presume-se a receita omitida, e não o lucro. Observe-se: Fl. 5636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 37 “Art.42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.” (Destaque acrescido) Na linguagem do Código Tributário Nacional, o lançamento tributário está definido, no art. 142, como o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo o caso, propor a aplicação da penalidade cabível. A fiscalização calculou incorretamente o montante do tributo devido ao fazê-lo pelo regime do lucro real, considerando receita como se lucro fosse, em desatenção ao comando do art. 142 do CTN. A respeito da argumentada inexistência de fato da pessoa jurídica, tal constatação poderia projetar conseqüências diretas acerca da identificação do sujeito passivo, mas não sobre a definição ex officio do regime de tributação aplicável, por falta de previsão legal para tal. São essas as razões da minha divergência do brilhante entendimento adotado pelo Relator. Voto pelo cancelamento do lançamento nesse aspecto em razão do erro cometido na identificação do regime de tributação.” Nesse sentido já se manifestou o colegiado desta e. Turma Ordinária: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2016 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IRRF SOBRE PAGAMENTOS SEM CAUSA. MULTA REGULAMENTAR PELA APRESENTAÇÃO DA ECF COM INFORMAÇÕES INEXATAS, INCORRETAS OU OMITIDA. Considera-se não impugnada as infrações que não tenham sido expressamente contestada pelo sujeito passivo, tornando-se tal matéria incontroversa no âmbito administrativo. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. APRESENTAÇÃO DE IMPUGNAÇÃO EXCLUSIVAMENTE PELA PESSOA JURÍDICA CONTRIBUINTE. FALTA DE INTERESSE E LEGITIMIDADE. A pessoa jurídica autuada não possui interesse nem legitimidade processual para contestar a atribuição de responsabilidade tributária a terceiros. Não tendo sido apresentada impugnação pelos próprios responsáveis tributários, considera-se não impugnada a matéria relativa à responsabilidade tributária. A falta de apresentação de impugnação não pode ser corrigida pela apresentação posterior de recurso voluntário subscrito pelo contribuinte e por todos os responsáveis. Aplicação da Súmula Carf nº 172. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2016 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano- calendário: 2016 MULTA QUALIFICADA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. POSSIBILIDADE. A verificação da utilização de pessoas interpostas com a finalidade de omitir o conhecimento, por parte da Fiscalização, do fato tributável, legitima a qualificação da multa de ofício. Fl. 5637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 38 (Acórdão nº 1301-006.285) Cumpre ressaltar que o argumento utilizado no voto vencedor, no sentido de que não seria possível determinar o coeficiente de presunção a ser aplicado para a determinação do lucro arbitrado, perde força frente a Súmula CARF nº 97: Súmula CARF nº 97 Aprovada pela 1ª Turma da CSRF em 09/12/2013 O arbitramento do lucro em procedimento de ofício pode ser efetuado mediante a utilização de qualquer uma das alternativas de cálculo enumeradas no art. 51 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, quando não conhecida a receita bruta. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Acórdãos Precedentes: Acórdão nº 107-07.325, de 10/09/2003; Acórdão nº 105-14.330, de 18/03/2004; Acórdão nº 101-94.964, de 18/05/2005; Acórdão nº 107-08419, de 25/01/2006; Acórdão nº 1202- 00.074, de 17/06/2009; Acórdão nº 1803-001.578, de 07/11/2012 Pelo exposto, deve ser cancelado o auto de infração. 2.2 PIS E COFINS – IMPROPRIEDADE DA BASE DE CÁLCULO ADOTADA Os Recorrentes sustentam que os lançamentos relativos ao PIS e à Cofins estariam maculados por erro de direito, uma vez que a base de cálculo utilizada pela fiscalização teria sido composta pela totalidade dos valores creditados em contas bancárias da empresa autuada, em descompasso com o disposto nos arts. 2º e 3º da Lei nº 9.718/1998. Alegam que tais dispositivos definem como base de cálculo dessas contribuições o faturamento, entendido como a receita bruta auferida no mês, e que nem todos os créditos bancários teriam essa natureza jurídica, citando, a título exemplificativo, valores decorrentes de empréstimos, mútuos e financiamentos. Com a devida vênia, não lhes assiste razão. A metodologia empregada pela fiscalização encontra respaldo no art. 42 da Lei nº 9.430/1996, o qual estabelece presunção legal de omissão de receitas quando verificados créditos bancários cuja origem não tenha sido devidamente comprovada pelo contribuinte, regularmente intimado para tanto. Trata-se de presunção relativa, que admite prova em contrário. Fl. 5638DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 39 No presente caso, os sujeitos passivos foram formalmente intimados a justificar a origem dos valores depositados nas contas bancárias da empresa. No entanto, deixaram de apresentar documentação hábil e idônea que demonstrasse tratar-se de ingressos financeiros alheios à receita, limitando-se a alegações genéricas sobre a existência de operações de empréstimo ou financiamento, sem individualizar os lançamentos ou apresentar qualquer suporte probatório. Assim, tendo sido observadas as formalidades legais e não afastada a presunção legal estabelecida pelo art. 42 da Lei nº 9.430/1996, é legítima a inclusão dos valores de origem não comprovada na base de cálculo do PIS e da Cofins, por se tratarem, para fins legais, de receitas operacionais omitidas, as quais se subsumem ao conceito de faturamento previsto no art. 3º da Lei nº 9.718/1998. Por conseguinte, rejeitam-se as alegações dos Recorrentes. 2.3 DA RESPONSABILIZAÇÃO POR OFENSA AO ART. 124, INCISO I DO CTN. MERA SUPOSIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO DOS RECORRENTES NO ESQUEMA DELITUOSO Todos os Recorrentes alegam que não seria possível imputar a responsabilidade solidária com base no art. 124, inciso I do CTN, uma vez que não restou comprovada a relação direta existente com a devedora principal, que tenha gerado benefício econômico aos Recorrentes. Entendem que o conceito de “interesse comum”, para fins de aplicação do art. 124, inciso I do CTN, deve ser pautado por relação jurídica de natureza obrigacional de finalidade mútua e que possua interferência direta na prática do fato gerador do tributo, não bastando mero interesse factual de resultado econômico. Nessa linha, aduzem que as presunções apresentadas pela autoridade administrativa estão lastreadas em documentações apócrifas e insuficientes para comprovar qualquer elo direto e mútuo com a devedora principal, que diga respeito a prática do fato gerador. De fato, a responsabilização solidária com fundamento no art. 124, I, do CTN pressupõe a existência de interesse jurídico comum na realização do fato gerador, o qual não se Fl. 5639DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 40 confunde com o mero interesse econômico subsequente. Tal interesse jurídico decorre da atuação simultânea, coordenada ou complementar de dois ou mais sujeitos na configuração do núcleo da hipótese de incidência tributária. Essa participação pode ocorrer de forma direta — mediante prática conjunta do fato gerador — ou indireta, como nas hipóteses de confusão patrimonial, interposição de pessoas, fraude ou conluio. Nesse sentido, colacionam-se precedentes representativos da jurisprudência desta Turma Ordinária: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2013 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. O artigo 124, I, do CTN trata de solidariedade que pode atingir o contribuinte (pessoa que tem relação com o fato gerador) ou o responsável (pessoa assim indicada por lei), a depender da configuração do interesse comum (e, no caso do responsável, da pressuposta previsão legal que o indique como tal). O interesse comum deve ser jurídico e não meramente econômico. Para que se configure o interesse jurídico comum é necessária a presença de interesse direto, imediato, no fato gerador, que acontece quando as pessoas atuam em conjunto na situação que o constitui, isto é, quando participam em conjunto da prática da hipótese de incidência. Essa participação comum na realização da hipótese de incidência pode ocorrer tanto de forma direta, quando as pessoas efetivamente praticam em conjunto o fato gerador, quanto indireta, em caso de confusão patrimonial e/ou quando dele se beneficiam em razão de sonegação, fraude ou conluio. (CARF, Acórdão nº 1301-007.745, Rel. Cons. Eduardo Monteiro Cardoso, julgado em 18/02/2025) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2012, 2013 RESPONSABILIDADE DE TERCEIROS. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA. SÓCIO- ADMINISTRADOR. O art. 135, III, do CTN determina serem responsáveis pelos créditos tributários as pessoas que tenham poder de gestão que atuem com excesso de poder ou infração à lei. O referido dispositivo não se restringe aos sócios diretos da pessoa jurídica autuada, em especial quando há interposição de pessoa jurídica para formalmente não figurar em sentido estrito como sócio-administrador, em especial quando resta demonstrado que o terceiro exercia controle sobre as operações ilícitas praticadas pela pessoa jurídica administrada. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. O art. 124, I, do CTN determina serem solidariamente responsáveis as pessoas que tenha interesse comum no fato gerador da obrigação principal. O referido dispositivo não tem efeito extensivo para incluir qualquer pessoa que tenha simples interesse econômico no fato gerador, como ocorre, por exemplo, com o eventual sócio que recebe de boa-fé os resultados majorados em decorrência do descumprimento da legislação tributária pela companhia investida. Por outro lado, inexistindo boa-fé, isto é, havendo concorrência para Fl. 5640DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 41 a execução do fato que resultou em evasão tributária, resta configurada a situação prevista de interesse econômico e jurídico. (Acórdão nº 1301-006.801, Rel. Cons. Iágaro Jung Martins, Sessão de Julgamento 12/03/2024) Nessa linha, doutrina e jurisprudência convergem sobre o entendimento de que a configuração de grupo econômico de fato — caracterizado por comando único, confusão patrimonial e atuação conjunta ou interdependente — pode ensejar a solidariedade prevista no art. 124, I, do CTN, desde que demonstrado o vínculo jurídico entre os sujeitos na constituição do fato gerador. O conceito de interesse comum, nessa hipótese, decorre de uma colaboração na realização do fato imponível, pressupondo atuação simultânea ou concatenada entre os coobrigados, com vistas à produção do evento tributável, ainda que a referida colaboração se dê de modo indireto, como ocorre em situações de interposição de pessoas, fraude, simulação, sonegação ou conluio. A esse respeito, transcrevo trecho do voto condutor Acórdão nº 1401- 002.654, de relatoria da i. Ex-Conselheira Lívia de Carli Germano: “(...) Sobre o inciso I do artigo 124, existe um certo consenso de que o “interesse comum” referido no dispositivo deve ser jurídico e não meramente econômico. O alcance de tal interesse jurídico é que causa maiores discussões. (...) Assim, para que se configure o interesse jurídico comum é necessária a presença de tal interesse direto, imediato, no fato gerador, que acontece quando as pessoas atuam em comum na situação que constitui o fato imponível, ou seja, quando participam em conjunto da conduta descrita na hipótese de incidência, naturalmente cada uma atuando em nome próprio. Esta participação comum na realização da hipótese de incidência ocorre seja de forma direta, quando as pessoas efetivamente praticam em conjunto o fato gerador, seja indireta, em caso de confusão patrimonial e/ou quando dele se beneficiam em razão de sonegação, fraude ou conluio. Nesses termos, Kiyoshi Harada, fazendo referência a trecho de obra de Sampaio Costa: "Ensina Carlos Jorge Sampaio Costa: ... a solidariedade dos membros de um mesmo grupo econômico está condicionada a que fique devidamente comprovado: a) o interesse imediato e comum de seus membros nos resultados decorrentes do fato gerador; e⁄ou b) fraude ou conluio entre os componentes do grupo. Fl. 5641DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 42 Há interesse comum imediato em decorrência do resultado do fato gerador quando mais de uma pessoa se beneficiam diretamente com sua ocorrência. Por exemplo, a afixação de cartazes de propaganda de empresa distribuidora de derivados de petróleo em postos de gasolina é, geralmente, um fato gerador de taxa municipal cuja ocorrência interessa não somente à empresa distribuidora, beneficiária direta da propaganda, como também ao posto de gasolina, que é solidário com aquela no pagamento da taxa. (...) Na fraude ou conluio, o interesse comum se evidencia pelo próprio ajuste entre as partes, almejando a sonegação. A solidariedade passiva no pagamento de tributos por aqueles que agiram fraudulentamente é pacífica. (...) (Solidariedade passiva e o interesse comum no fato gerador, Revista de Direito Tributário, Ano II, nº 4. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1978, p. 304)" (...)” (Acórdão nº 1401-002.654, Rel. Cons. Livia de Carli Germano, Sessão de 12/06/2018) GERSON LORUSSO, LEILA LORUSSO, SUMARA LORUSSO E SABINA LORUSSO Em relação à Família Lorusso, a Autoridade Fiscal imputou responsabilidade tributária aos Recorrentes com base no art. 124, I do CTN, ao apurar os seguintes fatos: Que Gerson Lorusso e Leila Lorusso eram sócios originários da empresa Lorusso Processamento de Dados e Traduções Ltda, que transferiram suas cotas às filhas Sabina Lorusso (em 24/08/2006) e Sumara Lorusso (em 19/11/2007). Tal empresa foi beneficiária de recursos da Alumibras; Que Gerson Lorusso consta na ficha cadastral da Alumibras junto ao Bradesco como fonte de referência para abertura de conta corrente; Que Gerson Lorusso autorizava o pagamento de cheques de alto valor da Alumibras em consulta realizada pelo caixa do banco; Que Gerson Lorusso e Leila Lorusso foram beneficiários diretos de recursos da Alumibras, por intermédio de aquisição de pacote turístico da Rextur Turismo em seus nomes e de suas filhas, pagos com cheque da conta da Alumibras; Que Sumara Lorusso, sócia Lorusso Processamento de Dados e Traduções Ltda à época das transferências da Alumibras para essa empresa, autorizava o pagamento de cheques de alto valor da Alumibras em consulta realizada pelo caixa do banco; Que Sumara Lorusso beneficiou-se diretamente de recursos da Alumibras, mediante aquisição de veículo de luxo junto à Itatiaia Distribuidor de Veículos Ltda, com parte do valor quitado por cheque emitido pela Alumibrasç Fl. 5642DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 43 Que foi beneficiária direta de recursos da Alumibras, por intermédio de aquisição de pacote turístico da Rextur Turismo em seus nome, de sua irmã e de seus pais, pagos com cheque da conta da Alumibras; Que Sabina Lorusso – sócia Lorusso Processamento de Dados e Traduções Ltda à época das transferências da Alumibras para essa empresa -, beneficiou-se diretamente de recursos da Alumibras, mediante aquisição de veículo de luxo junto à Itatiaia Distribuidor de Veículos Ltda, com parte do valor quitado por cheque emitido pela Alumibras. Que foi beneficiária direta de recursos da Alumibras, por intermédio de aquisição de pacote turístico da Rextur Turismo em seus nome, de sua irmã e de seus pais, pagos com cheque da conta da Alumibras. Para refutar as constatações acima, os Recorrentes alegam que o nome de Gerson Lorusso, como fonte de referência para abertura de conta corrente na ficha cadastral da Alumibras junto ao Bradesco, foi escrito à mão, “por alguém que não se sabe quem é, em um momento que não se pode precisar”. O mesmo ocorreu em relação aos cheques emitidos em nome da Alumibrás, com anotações no verso com expressões “Conf. Gerson”, “Conf. Rafael”, “Conf. Sumara”, e o carimbo “Confirmado Rafael”. Segundo os Recorrentes, os documentos utilizados pela fiscalização para lhe atribuir a responsabilidade solidaria não fazem prova efetiva da ligação com a Alumibrás. Em relação à aquisição de bens com cheques de emissão da Alumibras, esclarecem que Sumara e Sabina são sócias da empresa Lorusso Factoring Comercial Ltda, que possui atividade de factoring, fazendo com que receba cheques de terceiros (no caso Alumibras) repassados por seus clientes. Assim, no seu entender, o que pode ter ocorrido é que, ao invés de depositar o cheque em conta corrente da empresa Lorusso, esta tenha sido utilizado diretamente na aquisição de bens. A DRJ analisou todos os argumentos listados acima de forma irretocável. Veja-se: “(...) 110. Não procedem os argumentos trazidos contra a sujeição passiva solidária procedida pela autoridade fiscal em função dos motivos que passo a expor: 110.1. de início é devido frisar que as provas carreadas pela autoridade fiscal, que demonstram claramente o envolvimento dos impugnantes com a administração financeira da Alumibras, bem assim comprovam que os mesmos se beneficiaram de recursos desta Fl. 5643DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 44 empresa obtidos em esquema fraudulento, não devem ser analisadas de forma isolada, mas conjuntamente. Ainda que individualmente possam ser considerados indícios os fatos e provas que instruem os autos de infração, conforme defendido pelos impugnantes, a sucessão destes, todos na mesma direção, têm o poder de convencimento do julgador; 110.2. efetivamente, a referência ao Sr. Gerson na ficha cadastral da conta corrente da Alumibras no Bradesco está anotada a lápis como afirmado pelos impugnantes. Por outro lado, não se pode pretender que terceiro, funcionário do banco ou outro qualquer, tenha agido de má-fé para implicar os impugnantes no esquema fraudulento: 110.2.1. (i) primeiro, porque se trata de documento fornecido pelo Bradesco em resposta a intimação fiscal, em virtude do que se supõe, por óbvio, que tenha sido submetido ao crivo do responsável antes de sua remessa. Nesse sentido, qualquer irregularidade na anotação seria questionada e averiguada pela própria instituição antes de sua apresentação; 110.2.2. (ii) segundo, porque seria imputar a uma incrível coincidência o fato de que, cumulativamente, os impugnantes foram beneficiários de bens adquiridos por meio de cheques emitidos pela Alumibras, foram beneficiários indiretos de recursos da Alumibras via empresa Lorusso Processamento de Dados, e constavam no verso de diversos cheques de elevado valor como responsáveis pela confirmação desses documentos para sua liquidação e, sem querer, ou por ato de terceiro, um deles, o Sr. Gerson, teve seu nome propositalmente colocado na ficha cadastral da referida empresa, com a qual alegam não possuir qualquer relação; 110.3. os cheques, onde constam as expressões "Conf. Gerson", "Conf. Rafael", "Conf. Sumara" e "Confirmado com Rafael" em seus versos, foram devidamente juntados aos autos, conforme pode ser visto às fls. 2600, 2609, 2612, etc. A título de exemplo, colei abaixo cópia do cheque à fl. 2612 com a expressão "Conf. Gerson": (...) 110.3.1. em virtude dos valores dos cheques envolvidos e das anotações realizadas no versos dos cheques pelos caixas, está evidente, a meu ver, que tais cheques somente foram pagos após confirmação com as pessoas que seriam de fato responsáveis pela administração financeira da Alumibras. Novamente aqui não se pode imputar tais anotações a mera coincidência ou um conluio entre o funcionário do banco e a empresa Alumibras de envolver indevidamente a família Lorusso nas irregularidades, até porque, se assim fosse, qual seria o motivo da escolha deles como "bodes expiatórios", já que, conforme alegado, eles não teriam qualquer relação negocial com a empresa, além do que tal qualificação não se justificaria em virtude do fato deles terem efetivamente sido beneficiados com bens, o que não foi questionado. Ora, "bodes expiatórios", para assim se enquadrarem, não podem ser beneficiários de viagens, de carros de luxo e de depósitos em dinheiro em suas empresas; 110.3.2. em relação à alegada necessidade de verificar se as ligações para a confirmação dos cheques realmente ocorreram e de intimar as pessoas que deram autorização para o pagamento dos mesmos, entendo que tais medidas somente seriam justificadas na Fl. 5644DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 45 hipótese de não haver qualquer outra prova do envolvimento da família Lorusso nas operações fraudulentas da Alumibras, o que não é o caso; 110.4. caberia aos impugnantes comprovarem, mediante a apresentação de provas documentais hábeis e idôneas, que os cheques foram recebidos de clientes seus em razão da atividade de factoring. Todavia, limitaram-se a trazer argumentos sem alicerce em provas; 110.5. não houve qualquer tentativa de esclarecer a que título a empresa Lorusso Processamento de Dados teria recebido recursos da Alumibras, vez que esta não é empresa de factoring; 110.6. ao demonstrar que a família Lorusso era responsável pela movimentação financeira da Alumibras, bem assim beneficiária direta e indireta de recursos desta, a autoridade fiscal evidenciou serem tais pessoas responsáveis solidários nos termos do art. 124 do CTN, por terem interesse comum na situação que constituiu fato gerador da obrigação, bem assim, nos termos do art. 135, III do CTN, por terem praticado atos com infração à lei. (...) À luz dos elementos trazidos pela Autoridade Fiscal, confirmados pela DRJ, e considerando a ausência de provas capazes de infirmar a conclusão acima, resta demonstrada a participação dos Recorrentes no esquema delituoso e o interesse comum do art. 124, inciso I do CTN. PAULO CESAR VERLY DA CRUZ E PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA Os Recorrentes sustentam que não há comprovação do recebimento de recursos da Alumibras em contas de sua titularidade, sendo a imputação baseada unicamente em supostos repasses às empresas Empório de Metais (em que Paulo César Verly da Cruz figura como sócio) e Lemnos e Helur (em que Paulo Henrique Escobar Cerqueira figura como sócio), sem prova de que tais valores lhes tenham sido redirecionados. Argumentam, ainda, que não figuravam como sócios dessas pessoas jurídicas nos anos fiscalizados, conforme demonstram as alterações contratuais acostadas aos autos, e que não foi comprovada a utilização de interpostas pessoas. Nesse raciocínio, se houve algum benefício com recursos provenientes da Alumibras, quem deveria ter sido chamado ao polo passivo seriam as próprias empresas destinatárias, por serem as beneficiárias diretas. Fl. 5645DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 46 Afirmam, também, que foi a Alumibras quem participou diretamente das operações reputadas fraudulentas e que, ainda que houvesse alguma vantagem econômica obtida pelos impugnantes, tal circunstância não caracterizaria o interesse jurídico comum exigido pelo art. 124, I, do CTN. Defendem que não existe prova robusta de que João Cerqueira teria sido beneficiário ou articulador do esquema, ressaltando que os depósitos identificados em suas contas e nas de Paulo Cerqueira são irrisórios quando comparados ao montante do crédito tributário apurado e ao volume de movimentação financeira da Alumibras. Acrescentam que ninguém se exporia aos riscos de sanções fiscais e penais de um esquema dessa natureza para auferir valores de expressão tão reduzida. Por fim, sustentam que, ainda que se admitisse a responsabilização, seria imprescindível a quantificação do crédito em relação a cada coobrigado, em proporção ao proveito econômico efetivamente auferido, e invocam a aplicação do art. 112 do CTN, de modo a interpretar a legislação de forma mais favorável ao contribuinte diante de qualquer dúvida. Consoante relatado no Termo de Verificação Fiscal e no Relatório Geral de Auditorias, restou, entretanto, delineada a existência de uma engenharia fraudulenta que envolvia dezenas de empresas. Parte delas operava como geradoras de créditos, simulando aquisições de mercadorias com base em documentos fiscais sem lastro, para gerar créditos fictícios de IPI e ICMS, com reflexos em demais exações. Outra parte, a grande maioria, consistia em empresas ditas “noteiras”, entre as quais se insere a Alumibras, constituídas sem estrutura real, sem endereço certo, sem funcionários ou escrituração contábil regular, sob titularidade de interpostas pessoas, e que tinham por função emitir notas fiscais fictícias e distribuir os recursos obtidos. Esses valores eram repassados por meio de cheques, transferências, aquisição de bens ou aportes em novos negócios, em benefício de pessoas físicas ou jurídicas a elas ligadas, à margem da contabilidade e das declarações fiscais correspondentes. Fl. 5646DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 47 As operações eram registradas como compras e vendas fictícias, mas os cheques emitidos para quitação das faturas desses falsos fornecedores tinham como destinação final o pagamento de terceiros, inclusive por meio de aquisição de bens em favor dos beneficiários, revelando que tais empresas funcionavam apenas como instrumentos de dispersão de recursos da organização. Nesse contexto, a subsunção jurídica das condutas evidencia a pertinência da aplicação do art. 124, I, do CTN, que exige a demonstração de interesse jurídico comum na realização do fato gerador, não se confundindo com mera vantagem econômica subsequente. Tal interesse se configura quando há atuação conjunta, coordenada ou complementar de sujeitos na conformação do núcleo da hipótese de incidência, inclusive de forma indireta, em situações de confusão patrimonial, interposição de pessoas, fraude, simulação ou conluio. À luz dessas premissas, andou bem a decisão de primeira instância, razão pela qual a fundamentação utilizada pela Autoridade Julgadora a quo passa a integrar os fundamentos deste voto, como razões de decidir: “(...) 91.1. João Natal Cerqueira e Paulo Cesar Verly da Cruz – beneficiaram-se, me conjunto e indiretamente, pelos recursos recebidos da Alumibras por meio da conta mantida no Bradesco em nome da empresa Empório de Metais, em que ambos figuraram como sócios, mas que atualmente mantém em seu quadro social interposta pessoa: Fl. 5647DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 48 (...) 91.3. Paulo Henrique Escobar Cerqueira – beneficiou-se indiretamente dos recursos da Alumibras por meio de contas mantidas no Bradesco das empresas Lemnos e Helur, em que figurou como sócio, mas que atualmente mantêm em seu quadro social interpostas pessoas; bem assim, beneficiou-se diretamente por meio de depósitos efetuados em sua conta corrente de pessoa física mantida no Bradesco. Devido ressaltar que o valor do cheque às vezes não coincide com o valor recebido pelo favorecido, pois houve fracionamento para mais de um destinatário/finalidade ou o valor ao favorecido decorre de outras origens adicionais (outros cheques, DOC, TED): (...) 116. O Clã Cerqueira buscou sempre manter ocultos os nomes das empresas sob a titularidade das famílias, tendo em vista que os investimentos realizados tinham como origem recursos advindos das empresas noteiras. Ao abastecerem as empresas inidôneas com os aportes necessários para a simulação das transações comerciais, estes valores retornavam ao caixa da organização, em forma de transferências bancárias ou depósitos em algumas das empresas com sede em Minas Gerais onde a organização tinha sua base operacional. Os recursos também podiam retornar em forma de investimento em outra empresa, utilizando-se de uma SCP, que intervinha como sócia ostensiva desta (proprietária do negócio), enquanto as empresas do clã permaneciam como sócias ocultas, porque, por se utilizarem de recursos de empresas inidôneas, não poderiam aparecer. 117. Tais fatos são suficientes para responsabilizar solidariamente os impugnantes vez que restou demonstrado que, como possuidores do domínio de fato de toda a operação fraudulenta por eles criada, foram os responsáveis efetivos pelas operações realizadas pela Alumibras. Com o apoio da família Lorusso e das interpostas pessoas (Alexandre Paiva e Alex Medeiros), estes últimos claramente cônscios da situação e colaboradores ativos, seja na entrega de declarações, seja na realização de saques vultosos com destinação incerta, os impugnantes tiveram participação ativa nas decisões administrativas e Fl. 5648DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 49 comerciais da Alumibras. Além disso, restou também demonstrado o benefício econômico obtido por eles em razão da prática dos atos que geraram os créditos bancários, considerados como receitas omitidas para fins de determinação da base de cálculo dos tributos. 118. Não procede o argumento de que os atos foram praticados unicamente e diretamente pela Alumibras, empresa com a qual não mantinham qualquer relação, sendo esta o único sujeito passivo das relações jurídicas. Isto porque, conforme consta dos autos, o fundamento para que os impugnantes fossem erigidos à condição de responsáveis solidários não está amparado na hipótese de participarem do quadro societário da Alumibras, mas sim porque os impugnantes, como reais planejadores e gestores de todas as empresas envolvidas no esquema fraudulento, foram efetivamente os responsáveis pelos fatos geradores dos tributos, obtendo vantagens econômicas das operações por elas realizadas. 119. Consoante ensinamento de Rubens Gomes de Souza (in Compêndio de Legislação Tributária – 3ª edição, RJ, Ed. Financeiras, 1964, p. 67), é solidária a pessoa física ou jurídica que realiza conjuntamente com outra ou outras pessoas a situação que constitui o fato gerador, ou que, em comum com outras pessoas, esteja em relação econômica com o ato, fato ou negócio que dá origem à tributação, ou seja, todas as pessoas que tiram uma vantagem econômica do ato, fato ou negócio tributado. Estas características estão presentes nos impugnantes. 120. No que se refere às alegações de que não faziam parte do quadro societário das empresas Empório, Lemnos e Helur no período fiscalizado e de que não teria restado comprovado o uso de interpostas pessoas por eles, permito-me discordar das mesmas vez que o fato do clã Cerqueira ter criado diversas empresas além destas (Damp, XPTO, Nature, PRJ, Cimeeli, Koprum etc.), todas "coincidentemente" beneficiárias finais dos recursos decorrentes das operações fraudulentas, já demonstra claramente que essas continuavam de fato sob a administração dos impugnantes, ainda que não mais presentes no quadro societário por direito. 121. Não vislumbro a alegada necessidade de comprovação da saída dos recursos fraudulentos das empresas Empório, Lemnos e Helur para os impugnantes, uma vez que tal fato é consequência direta da comprovação nos autos de que o clã Cerqueira, em especial nas pessoas de Paulo Cesar Verly da Cruz e João Natal Cerqueira, foram os responsáveis e principais beneficiários de toda a operação. 121.1. Se o objetivo único de tais empresas não fosse arrecadar recursos decorrentes de operações fraudulentas para repassá-los aos seus criadores, planejadores de todo o esquema, mantendo-os ocultos nas transações para dificultar o rastreamento financeiro até eles, qual seria a motivação para o envolvimento destas no recebimento de recursos da Alumibras sem qualquer amparo em documentos idôneos e em operações reais? Trata- se de questionamento que somente pode ser respondido se considerarmos que tais empresas foram criadas para dificultarem o rastreamento dos recursos às pessoas físicas principais beneficiárias de toda a organização criminosa. 122. Não prospera o entendimento dos impugnantes de que as provas apresentadas pela autoridade fiscal carecem de robustez. Se não constitui prova robusta o fato de as pessoas indicadas como responsáveis, bem como as pessoas jurídicas de cujo quadro social fazem parte, de direito ou de fato, auferirem vantagem econômica advinda de operações fraudulentas plenamente demonstradas, representadas pelos ingressos de Fl. 5649DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 50 valores nas contas pessoais e nas contas das empresas, tudo comprovado por extenso trabalho desenvolvido pelas autoridades fiscais envolvidas, baseado em documentos juntados no presente processo, bem assim no processo formalizado em relação à empresa Transforme (Docs 1 a 185 antes mencionados), aos quais os impugnantes tiveram acesso por terem sido imputados responsáveis solidários quanto ao crédito tributário lá constituído; então, que prova pretendem ver constituída? 123. O argumento de que as empresas Empório, Helur e Lemnos deveriam ter figurado no pólo passivo e não os impugnantes também não procede, vez que o objetivo de trazer terceiros à relação jurídico-tributária na condição de responsáveis solidários pelo crédito tributário é o de garantir, ao fim, o seu pagamento. Tal resultado não seria alcançado se, ao invés de imputar os principais beneficiários dos recursos, detentores efetivos de patrimônio suficiente para a garantia pretendida, fossem trazidos ao pólo passivo empresas nitidamente de fachada, com uso de interpostas pessoas. 124. Em relação à alegação de que os valores creditados nas contas correntes das pessoas físicas são irrisórios se comparados à movimentação financeira da Alumibras, e que, para se beneficiar de tais montantes ninguém se arriscaria às penalidades fiscais e penais inerentes à construção de todo o esquema fraudulento, é devido lembrar aos impugnantes que (i) esta empresa é apenas um dos elos de distribuição dos recursos até os destinatários finais, havendo outras que adotaram o mesmo modus operandi como visto, multiplicando-se, assim, o montante de valores recebidos pelas outras empresas noteiras envolvidas no esquema; e que (ii) os benefícios recebidos não se restringem aos créditos em conta de pessoa física, mas incluem também créditos em contas bancárias de pessoas jurídicas por eles administradas de fato e investimentos em negócios na condição de sócios ocultos, que correspondem a valores muito superiores aos creditados diretamente em contas das pessoas físicas. 124.1. Em razão disso, se considerarmos todos os recursos advindos de todas as empresas inexistentes de fato (noteiras, em relação às quais foram lavrados autos de infração), creditados nas contas correntes das pessoas físicas e das pessoas jurídicas a eles ligadas (maiores beneficiárias de recursos), bem assim investidos em negócios novos em favor dessas pessoas físicas, o montante dos benefícios já deixa de ser irrisório. 125. Acerca da necessidade de quantificação dos créditos tributários para cada coobrigado conforme o proveito econômico auferido, esclareço que a responsabilização estabelecida no art. 124, bem assim no art. 135, III do CTN, tem caráter de solidariedade por todo o crédito tributário decorrente das operações a que deram causa e a partir das quais se beneficiaram economicamente. 126. Por fim, em relação à aplicação do disposto no art. 112 do CTN, cabe considerar não estar presente qualquer dúvida quanto à natureza dos fatos praticados e seus efeitos, quanto à autoria das irregularidades, à imputabilidade da responsabilidade por estas, e à penalidade a ser aplicada, razão pela qual não é caso de interpretação mais favorável aos acusados.” Pelo exposto, nego provimento aos Recursos Voluntários neste ponto. Fl. 5650DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 51 2.4 DA MULTA QUALIFICADA Os Recorrentes insurgem-se contra a qualificação da multa aplicada, pleiteando seu afastamento. Argumentam, em síntese, que não possuem legitimidade para figurar no polo passivo e que, de todo modo, a penalidade fixada em 150% teria caráter confiscatório, devendo ser reduzida a 100% ou a 75%, conforme a tese de cada impugnante. Sustentam, ainda, que os responsáveis solidários não poderiam ser compelidos ao pagamento dessa parcela do crédito tributário, em razão do princípio da pessoalidade da sanção, pelo qual somente aquele que efetivamente deu causa ao ilícito pode ser sujeito às penalidades correspondentes. Assim, competiria à fiscalização comprovar a participação individual de cada impugnante nas condutas irregulares, o que, em seu entender, não ocorreu, diante da ausência de prova do vínculo direto entre a Alumibras e os corresponsáveis. Por fim, afirmam que não teria sido produzida qualquer prova robusta do intuito fraudulento. Tais alegações, entretanto, não merecem prosperar. Conforme bem delimitado pela decisão de piso, o “simples fato” de a empresa autuada ter omitido integralmente da Receita Federal movimentação financeira da ordem de cento e oitenta milhões de reais, mediante a apresentação reiterada de declarações zeradas nos anos-calendário de 2010 a 2012, revela de maneira inequívoca a intenção de ocultar a ocorrência do fato gerador e, consequentemente, autoriza a qualificação da multa. Não se pode admitir que omissão dessa magnitude, repetida por três exercícios consecutivos, seja considerada mero lapso ou equívoco. Ressalte-se, ademais, que os Recorrentes não enfrentaram diretamente a fundamentação adotada pela autoridade fiscal para justificar a majoração da multa. A par disso, as irregularidades apuradas e devidamente comprovadas no processo, envolvendo a Alumibras e demais empresas vinculadas ao esquema, evidenciam conduta dolosa, caracterizada pela atuação de seus dirigentes e beneficiários em conluio. Ficou demonstrado que houve a simulação de operações comerciais fictícias e a execução de atos conscientemente Fl. 5651DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 52 planejados e direcionados à redução indevida da carga tributária. Tais práticas, concebidas e implementadas de forma deliberada pelos agentes envolvidos, apenas podem ser compreendidas como atos dolosos, aptos a modificar a essência dos fatos geradores, com o claro objetivo de fraudar o Fisco. Nessas circunstâncias, resta plenamente configurada a prática de sonegação, fraude e conluio, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, o que justifica a aplicação da multa qualificada. Cumpre salientar que, uma vez reconhecida a responsabilidade solidária dos Recorrentes, nos termos dos arts. 124 do CTN, essa responsabilidade alcança a integralidade do crédito tributário, compreendendo não apenas o tributo, mas também a multa lançada, nos moldes dos arts. 113, § 1º, e 142 do mesmo diploma legal. Quanto à alegação de caráter confiscatório da penalidade de 150% e de afronta ao princípio da isonomia, verifica-se tratar-se de questionamento de natureza constitucional, cuja apreciação escapa à competência deste Conselho, reservado que está ao Poder Judiciário o exame de teses de inconstitucionalidade, nos termos da Súmula CARF nº 2. Com base no exposto, nego provimento aos recursos voluntários para manter a qualificação da multa, ressalvado o percentual aplicado de 150%, que deverá ser reduzido para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. | CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por rejeitar as preliminares e, no mérito, dar provimento aos recursos voluntários para cancelar o auto de infração, ante o vício no lançamento por falta de arbitramento. Tendo sido vencida neste ponto, nego provimento aos Recursos Voluntários, mantendo-se o lançamento do crédito tributário, ressalvado o percentual da multa qualificada, que deverá reduzido de 150% para 100%, nos termos do art. 44, § 1º, IV, da Lei nº 9.430, de 1996, Fl. 5652DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 53 na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. É como voto. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski VOTO VENCEDOR Conselheiro Rafael Taranto Malheiros, redator designado Em que pese o voto sempre bem fundamentado da I. Relatora, quando da realização da sessão de julgamento, a maioria da Turma discordou, por maioria, na qual me incluo, quanto ao mérito, da sua conclusão pela ocorrência de vício no lançamento por falta de lançamento. 2. Seu entendimento, em síntese, foi o seguinte: (...) Constatada a ocorrência de uma das hipóteses previstas no art. 42 (rectius, art. 47) da Lei nº 8.981/95 ou no art. 530 do RIR/99, é mandatório o arbitramento do lucro para fins de apuração do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. Neste ponto, deve prevalecer o entendimento expresso na declaração de voto apresentada pelo julgador Aloysio José Percínio da Silva [na DRJ], para registrar sua divergência em relação ao que restou decidido no voto vencedor: “(...) Com efeito, encontra-se no art. 530 do RIR/1999 fundamento para o arbitramento do lucro. Há no caput do dispositivo legal ordem para arbitramento nos casos lá discriminados, sem condicionamento a juízo de oportunidade e conveniência da autoridade lançadora. Dito de outra forma, a lei não autorizou a autoridade lançadora a escolher o regime de tributação de acordo com a carga tributária individual resultante dos regimes que entendesse aplicáveis. Na execução do lançamento de ofício, só há um regime de tributação aplicável: aquele eleito pelo contribuinte, se atendidos os requisitos legais, ou o arbitramento. A norma não confere ao seu aplicador qualquer possibilidade de "flexibilização" ou "relativização" em razão de possível favorecimento ao sujeito passivo. Em suma, o arbitramento ex officio é obrigatório sempre que presentes os pressupostos especificados na lei, como ocorreu no caso concreto, em que a fiscalizada não apresentou os livros e documentos de escrituração contábil e fiscal, fato impeditivo do exame pelo Fl. 5653DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.868 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10932.720017/2015-12 54 Fisco da correção da sua apuração pelo regime de tributação com base nas normas do lucro real. (...) A fiscalização calculou incorretamente o montante do tributo devido ao fazê-lo pelo regime do lucro real, considerando receita como se lucro fosse, em desatenção ao comando do art. 142 do CTN. (...)”. 3. Discordou-se da posição adotada. No caso, a Fiscalização não deu a contabilidade por imprestável ou algo do gênero. Não têm razão os Recorrentes, portanto, em razão de a opção realizada pela tributação pelo lucro real anual, conforme DIPJs dos anos-calendário 2010 (e-fls. 117 e ss.), 2011 (e-fls. 156 e ss.) e 2012 (e-fls. 195 e ss.), ter sido respeitada pela autoridade autuante, ante a falta de subsunção dos fatos às hipóteses de arbitramento de que trata o art. 530 do RIR/1999, adotado somente em casos excepcionais. 3.1. O arbitramento do lucro é uma alternativa legal para a determinação da base tributável quando restar comprovado o descrédito da escrituração contábil e dos documentos que a embasaram. Salvaguarda a Fazenda, desde que se mostre incabível a apuração do resultado mediante a sistemática do lucro real, o que não foi o caso, pois foi possível quantificá-lo a partir da análise de extratos bancários, de movimentação financeira etc., apurado junto a instituições financeiras, não justificadas. 3.2. Ademais, não cabe ao sujeito passivo invocar a necessidade do arbitramento para a constituição de créditos tributários decorrentes de ilícitos verificados no exame da escrita fiscal, ainda que esta, eventualmente, possa conter equívocos, pois a ninguém é dado se beneficiar da própria torpeza. 4. Pelo exposto, voto por rejeitar as preliminares e, no mérito, em negar provimento ao recurso. O percentual da multa qualificada será reduzido de 150% para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Taranto Malheiros. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros Fl. 5654DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido 1 DAS PRELIMINARES 1.1 Do Alegado Cerceamento Do Direito De Defesa Por Ausência De Intimação Do Responsáveis Solidários Durante O Procedimento Fiscal 1.2 Nulidade. Cerceamento De Defesa. Indeferimento Da Produção De Prova Pericial 1.3 Omissão De Receitas. Pluralidade De Sujeitos Passivos. Necessidade De Individualização E Delimitação Da Base Tributável Imputada A Cada Sujeito Passivo Solidário 1.4 Nulidade Por Suposta Violação Ao Sigilo Bancário 1.5 Da Decadência 2 DO MÉRITO 2.1 Da Necessidade de Arbitramento do Lucro 2.2 PIS e Cofins – Impropriedade da base de cálculo adotada 2.3 Da Responsabilização Por Ofensa Ao Art. 124, Inciso I Do Ctn. Mera Suposição De Participação Dos Recorrentes No Esquema Delituoso 2.4 Da Multa Qualificada Voto Vencedor
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Numero do processo: 12448.724146/2014-88
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 06 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010
ISENÇÃO. ENTIDADE FILANTRÓPICA. AUSÊNCIA DE CEBAS.
O benefício da isenção das contribuições sociais, previsto no art. 195 da Constituição Federal, pressupõe o preenchimento dos requisitos objetivos estabelecidos na legislação específica (Lei nº Lei 8.212/91 e posteriores), dentre os quais o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência social (CEBAS).
Numero da decisão: 2102-004.018
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Presidente
(documento assinado digitalmente)
José Márcio Bittes – Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Jose Marcio Bittes, Vanessa Kaeda Bulara de Andrade, Yendis Rodrigues Costa, Cleberson Alex Friess (Presidente).
Nome do relator: JOSE MARCIO BITTES
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ENTIDADE FILANTRÓPICA. AUSÊNCIA DE CEBAS. O benefício da isenção das contribuições sociais, previsto no art. 195 da Constituição Federal, pressupõe o preenchimento dos requisitos objetivos estabelecidos na legislação específica (Lei nº Lei 8.212/91 e posteriores), dentre os quais o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência social (CEBAS). ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess - Presidente (documento assinado digitalmente) José Márcio Bittes – Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Jose Marcio Bittes, Vanessa Kaeda Bulara de Andrade, Yendis Rodrigues Costa, Cleberson Alex Friess (Presidente). RELATÓRIO Fl. 1786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 2 Trata-se de RECURSO VOLUNTÁRIO interposto em face do Acórdão 14-75.678 - 12ª Turma da DRJ/RPO de 28 de dezembro de 2017 que, por unanimidade, considerou improcedente a impugnação apresentada. Por bem descrever os fatos e as razões da impugnação, adoto excertos do relatório da decisão de primeira instância (processo digital, fls.1372 a 1376): Trata-se de crédito lançado contra o contribuinte identificado em epígrafe, relativo ao período de 01 a 12/2010, compreendendo as contribuições da empresa (artigo 22, incisos I, II e III, da Lei nº 8.212/91), contribuições destinadas a terceiros (FNDE, Incra, Senac, Sesc e Sebrae), conforme consta do relatório fiscal, fls. 26/39. Compõem o lançamento os autos de infração abaixo discriminados: Debcad Referência Valor total 51.055.442-3 art 22 incisos I, II e III da Lei nº 8.212/91 5.585.205,25 51.055.443-1 contribuições destinadas a terceiros 1.446.861,12 A base de cálculo relativa aos segurados empregados foi apurada nos resumos de Folhas de Pagamento meio papel e digital e foram confrontadas com as últimas GFIP exportadas antes do início da ação fiscal e com as Guias de Recolhimento/GPS. A base de cálculo relativa aos segurados contribuintes individuais não declarados nas GFIP foram apuradas no Razão, contas 4621199000001 “Serviços Médicos PF” e 4621199000003 –“Serviços de Terceiros PF”. A empresa não transmitiu a Escrituração Contábil Digital/ECD ao Sistema Público de Escrituração Digital/SPED mas forneceu a Contabilidade e as Folhas de Pagamento no Padrão Manad. Segundo relata a fiscalização, a empresa enviou a Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica/DIPJ do ano calendário de 2010 como Imune do Imposto de Renda, e, na Ficha 01 declarou ser desobrigada da apuração da CSLL. Na Ficha 70 declarou que a Entidade é Imune/Isenta das Contribuições Previdenciárias. Constatou-se nas GFIP exportadas do ano de 2010 antes do início da ação fiscal que a Sociedade Espanhola de Beneficência se auto-enquadrou como Entidade Beneficente de Assistência Social, informando os códigos de FPAS 639 (Entidades Beneficentes de Assistência Social com Isenção), código de recolhimento 115, código de recolhimento GPS 2305 (Filantrópica com Isenção) e código de Terceiros 000, alíquota RAT 0, FAP 1 e RAT Ajustado 0. Em relação aos pedidos de renovação do Certificado de Entidade Beneficente/CEAS/CEBAS a fiscalização constatou: - o Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS indeferiu o pedido de renovação do CEBAS, processo número 71010.002417/2003-97, por não atender o artigo 3º Fl. 1787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 3 inciso VI do Decreto nº 2.536/98 e o artigo 5º, § 2º do Decreto nº 3.504/2000, conforme Resolução nº 64 de 26/04/2007; - o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, através do Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS, publicou o deferimento do pedido de renovação do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, para a Sociedade Espanhola de Beneficência, com período de validade de 01/01/2007 a 31/12/2009, conforme Resolução nº 03 de 23/01/2009; - a Sociedade Espanhola de Beneficência protocolou no CNAS/MPAS – Brasília/DF, em 03/12/2009, pedido de renovação do CEBAS, processo número 71010.005045/2009-46, que tomou o número 25000.052827/2010-18 no Ministério da Saúde, com protocolo datado de 05/04/2010, sendo indeferido o pedido do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social na Área de Saúde por não ter atendido os requisitos constantes no inciso I do artigo 8º da Lei nº 12.101/2009, do Decreto nº 7.237/2010, da NBCT 10.19.2.2, conforme Portaria nº 597/2011 do Ministério da Saúde. Houve interposição de Recurso ao Ministério da Saúde que se encontra pendente de decisão conforme consulta fornecida pela empresa e realizada pela Fiscalização, em 16/05/2014, no site do Ministério da Saúde/SIPAR relativamente aos processos 71010.005045/2009-46 (original) e 25000.052827/2010-18. Conclui a fiscalização que no ano calendário de 2010, a Sociedade Espanhola de Beneficência não faz jus à isenção das contribuições sociais previstas nos artigos 22 e 23 da Lei nº 8.212/91, por descumprimento do caput do artigo 29 da Lei nº 12.101 de 27/11/2009 e do caput do artigo 40 do Decreto nº 7.237/2010, ou seja, não possui a Certificação concedida pelo Ministério da Saúde desde 01/01/2010, uma vez que o pedido de renovação foi indeferido em 27/09/2011, e a validade do Certificado havia vencido em 31/12/2009. A multa de ofício foi aplicada no percentual de 75% de acordo com o artigo 35-A da Lei nº 8.212/91. Constam como anexos do relatório fiscal os seguintes documentos: Documento fls Estatutos 50/75 Atas Reuniões 76/85 Termos de Inicio e continuidade 86/94 TEPF 95/96 Validação arquivos digitais 97/98 Folha Analítica 99/123 Fl. 1788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 4 Tabela de incidência 124/128 GFIP valor a recolher 129/142 GFIP/SEFIP 143/1.068 CCORGFIP 1.069/1.070 DIPJ exercício 2011 e 2013 1.071/1.087 Consulta CNAS/SICNAS 1.088/1.091/1.097 Certificados Fins Filantrópicos 1.089/1.090 Mandado Segurança 1.092/1.093 Portaria CNAS/DOU 1.094/1.097 Documentos Renovação CEBAS 1.098/1.120 Doc imóveis empresa 1.121/1.158 Da Impugnação Após ciência pessoal da autuação em 27/05/2014, o contribuinte apresentou defesa aos autos de infração Debcad nº 51.055.443-1 e Debcad nº 51.055.442-3, fls.1.143/1.155 e fls. 1.250/1.262, de idêntico teor, alegando o que segue em síntese. Aduz a tempestividade da impugnação e pleiteia a suspensão da exigibilidade do crédito tributário nos termos do artigo 26 da Lei nº 12.101/2009 e do § 7º, do artigo 14 do Decreto n° 8.242/2014. Alega que a autuação foi lavrada com o único fundamento do indeferimento do pedido de Renovação do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social/CEBAS pelo Ministério da Saúde (Portaria 597/2011 - DOU de 27/09/2011), porém a entidade interpôs recurso administrativo ao Ministro de Estado pendente de julgamento até a presente data. Descreve o histórico dos fatos que levaram ao indeferimento do pedido de renovação do CEBAS para ao final demonstrar que não se confunde com o direito da entidade permanecer no gozo da imunidade das contribuições previdenciárias a cargo do empregador (imunidade patronal). Esclarece que os pedidos de renovações eram trienais e formalizados com documentação dos três anos anteriores ao pleito, no caso foi protocolado junto ao Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS, processo originário n° 71010.005045/2009-46, contendo documentação dos exercícios de 2006, 2007 e 2008. Fl. 1789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 5 Com o advento da Lei nº 12.101 de 11/2009 a competência para análise e julgamento dos processos de certificação passou para os Ministérios da Saúde, Educação e o da Assistência Social e Combate à Fome, conforme área de atuação da entidade. Ocorre que o Ministério da Saúde, por equívoco, ao analisar a documentação do ano de 2008 indeferiu o pedido de renovação com base na legislação posterior, qual seja, Lei nº 12.101/2009, Decreto n° 7.237/2010 e Portaria n° 3.355/2010, quando deveria ter analisado com base na legislação anterior, qual seja, Decreto n° 2.536/1998. Acrescenta que o indeferimento do pedido de renovação ocorreu porque segundo o Ministério da Saúde a impugnante teria deixado de cumprir os 20% (vinte por cento) de gratuidades no exercício de 2008, deixando também de demonstrar as provisões de perdas em suas demonstrações contábeis. Porém a impugnante recorreu tempestivamente e protocolou em 27/10/2011 recurso administrativo perante o Ministro de Estado, demonstrando com documentação contábil que atendeu as exigências legais à época, ressaltando que o recurso encontra-se pendente de julgamento, não podendo ser punida antes do julgamento em última instância administrativa, ainda porque, em caso de deferimento da renovação esta será por 05 anos, a contar do protocolo do pedido no processo n° 71010.005045/2009-46 em 03/12/2009, na forma determinada no artigo 38-A da Lei nº 12.101/2009. Aduz que o lançamento do crédito tributário extrapolou o período disposto no artigo 9º da Lei nº 12.868/2013, pois só poderia ocorrer após o julgamento do recurso administrativo e, em caso desfavorável à entidade, deverá retroagir a apenas 180 dias a contar da publicação do indeferimento no Diário Oficial da União. Sustenta que a fiscalização não comprovou o descumprimento dos requisitos constantes no artigo 29 da Lei nº 12.101/2009 para o gozo da isenção das contribuições previdenciárias patronal, tampouco dos requisitos constantes do § 2º do artigo 12 da Lei n° 9.532/97. Assevera que a impugnante é instituição centenária e portadora de diplomas que comprovam se tratar de uma entidade beneficente de assistência social hospitalar, sem fins lucrativos, atendendo os requisitos legais, com reconhecimento no âmbito federal, estadual e municipal, conforme documentos que arrola e junta (anexos 3 a 8). Acrescenta que os diplomas apresentados foram deferidos com base em minuciosa verificação e fiscalização realizada pelos órgãos competentes, confirmando que a entidade não distribui lucros, presta seus serviços assistenciais em respeito ao que dispõe seus estatutos e ao artigo 14, incisos I, II, III e IV do Código Tributário Nacional. Fl. 1790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 6 A demonstrar a seriedade da instituição extrai o histórico da Sociedade Espanhola de Beneficência/SEB desde sua fundação até os dias atuais, rememorando as ações sociais que desenvolveu junto a comunidades carentes em todo o Estado e visando demonstrar que é instituição de renomado caráter assistencial, junta contrato de Gestão n° 007/2012 (anexo 9) firmado com a Secretaria Municipal da Saúde e Defesa Civil do Município do Rio de Janeiro para atender o público em geral/carente de forma totalmente gratuita. Conclui que há que se considerar: - O Recurso ao Ministro que encontra-se pendente de julgamento; - O caráter suspensivo do crédito tributário; - Os débitos tributários serão restritos a 180 (cento e oitenta) dias; - O caráter assistencial da impugnante; - Os diplomas ora acostados e o atendimento pela impugnante a todos os requisitos para usufruir da imunidade das contribuições a cargo do empregador. Requereu ao final que a impugnação seja conhecida para anular as autuações por serem nulas de pleno direito. Juntou documentos de fls. 1.156/1.247 e fls. 1.263/1.357. À fl. 1.359, Despacho de saneamento para apresentação da documentação do representante legal da impugnante, posteriormente juntada à fl. 1.360. Acórdão 1ª Instância (fls.1371/1384) No Acórdão recorrido consta decisão cuja ementa é transcrita a seguir: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 CERTIFICADO DE ENTIDADE BENEFICENTE/CEBAS. INEXISTÊNCIA. LANÇAMENTO. A Constituição Federal isenta de contribuição para a Seguridade Social as entidades que atendam às exigências estabelecidas em lei, dentre as quais destaca-se a necessidade de a interessada ser certificada como entidade beneficente de assistência social. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PENDÊNCIA DE RECURSO CONTRA INDEFERIMENTO DE CERTIFICAÇÃO DE ENTIDADE BENEFICENTE. POSSIBILIDADE. Não há impedimento legal para o lançamento de ofício das contribuições devidas ainda que pendente recurso administrativo contra o indeferimento da renovação do certificado de entidade beneficente. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. Fl. 1791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 7 A apresentação de impugnação tempestiva suspende a exigibilidade do crédito tributário nos termos da legislação que rege o processo administrativo fiscal federal. APLICAÇÃO DE DISPOSITIVO DA LEI nº 12.101/2009. Os processos de renovação de certificação pendentes de julgamento de que trata o artigo 35 da Lei nº 12.101/2009 dizem respeito a processos protocolados sob a égide da legislação anterior, não se aplicando a pedidos de renovação protocolados após a vigência da referida Lei. IMUNIDADE TRIBUTÁRIA. IMPOSTOS. A imunidade tributária prevista no art. 150, inciso VI, alínea “c”, da Constituição Federal diz respeito a impostos sobre patrimônio, renda ou serviços, não abarcando contribuições sociais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Recurso Voluntário (fls.1403/1408) Irresignado o contribuinte interpôs Recurso Voluntário em 19/06/2018 no qual sustenta o direito à imunidade tributária conforme previsto na Constituição Federal e legislação complementar, alegando, em síntese: 1. A tempestividade do recurso e o seu caráter suspensivo; com base no art. 26, §2º da Lei 12.101/2009 e art. 14, §7º do Decreto 8.242/2014, que determinam a suspensão do crédito tributário enquanto pendente julgamento do recurso administrativo relativo à certificação da entidade beneficente (CEBAS); 2. A demonstração de que o processo de renovação do CEBAS encontra-se pendente de decisão administrativa e judicial, não podendo a entidade ser penalizada antes do trânsito em julgado; 3. A RECORRENTE comprovou atender todos os requisitos do art. 14 do CTN, conforme seus estatutos e documentos apresentados, incluindo a escrituração regular de receitas e despesas; 4. Decisões em ADIs 2028, 2036, 2228 e 2621 declararam inconstitucionais exigências impostas pela Lei 9.732/98 para o gozo da imunidade, firmando que requisitos para imunidade devem estar previstos exclusivamente em lei complementar; 5. Conclui afirmando que o indeferimento administrativo do CEBAS está sob judice, não podendo ser utilizado para descaracterizar a imunidade constitucional. Além disso, demonstra cumprir rigorosamente os requisitos Fl. 1792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 8 legais e constitucionais, reafirmando sua condição de entidade beneficente e o direito à imunidade tributária. Finaliza, pedindo: 1. O Reconhecimento do direito à imunidade tributária para contribuições previdenciárias e a terceiros, nos termos do art. 195, §7º da Constituição Federal e art. 14 do CTN. 2. A Anulação dos lançamentos fiscais (DEBCADs nº 51.055.442-3 e 51.055.443-1), com a manutenção da imunidade patronal da SEB. 3. A Garantia de boa-fé na análise de eventuais petições e provas adicionais. Informa ainda que o processo de renovação do CEBAS encontra-se em fase de processo judicial, pendente de julgamento final (processo n° 2007.3400031694-1/DF). Resolução (fls.1491/1498) Em sessão realizada em 05/12/2024 a 2ª Seção de Julgamento / 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, proferiu a Resolução nº 2102-000.210, convertendo o julgamento do Recurso Voluntário apresentado em diligência para que: ... a UNIDADE DE ORIGEM intime o contribuinte a juntar aos autos a integralidade do processo judicial de nº 2007.3400031694-1/DF conforme informado em sede de RECURSO VOLUNTÁRIO, no prazo de 30 dias. Tal diligência se fez necessária para verificação de uma eventual CONCOMITÂNCIA JUDICIAL. Devidamente intimado em 13/05/2024, o CONTRIBUINTE juntou aos autos, em 27/05/2025, cópia integral do processo solicitado. Não houve contrarrazões por parte da PGFN. Eis o relatório. VOTO Conselheiro José Márcio Bittes, Relator Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Deve, portanto, ser conhecido. Preliminar Fl. 1793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 9 Questão preliminar que se impõe é a análise da ocorrência ou não da CONCOMITÂNCIA JUDICIAL. Para tanto, faz-se necessário ressaltar os motivos e fundamentos do auto de infração guerreado e o que foi levado a apreciação judicial. Como mencionado no Acórdão recorrido (fl. 1379/1384): Conforme se verifica nos autos, fls. 1.095, em publicação no DOU de 26/01/2009, a Sociedade Espanhola de Beneficência obteve a renovação do certificado de entidade beneficente na forma do artigo 37 da Medida Provisória nº 446 de 07/11/2008, mediante a Resolução CNAS nº 3, de 23/01/2009, processo nº 71010.04504/2006-21, para o período de 01/01/2007 a 31/12/2009. Posteriormente, em protocolo datado de 03/12/2009, a entidade ingressou com o pedido de renovação do CEBAS, fls. 1.098, que foi indeferido conforme Portaria nº 597, de 26/09/2011 (DOU de 27/09/2011), fls. 1.099, sendo este o motivo para o lançamento das contribuições previdenciárias no período de 01/2010 a 12/2010. ..... Desta forma, resta evidenciado que a autuada no período de 01/01/2010 a 31/12/2010 não tinha direito à isenção em relação às contribuições previdenciárias, independentemente da análise do cumprimento dos demais requisitos previstos nos incisos I a VIII do artigo 29 da Lei nº 12.101/2009, tendo em vista que nem devidamente certificada estava. Entretanto, nos termos dos parágrafos 2º e 3º do artigo 26, da Lei nº 12.101/2009, o processo administrativo fiscal deverá ter seguimento até decisão de segunda instância do contencioso administrativo federal, quando então aguardará decisão final do processo de renovação da certificação por parte do Ministério da Saúde, aplicando-se em caso de decisão favorável ao pedido de renovação o disposto n § 4º do referido dispositivo, verbis:... ... Do exposto, o fato de a autuada não possuir o CEBAS válido para o período da presente autuação é suficiente para determinar que ela não faz jus à isenção/imunidade em relação às contribuições previdenciárias, devendo, por conseguinte, ser mantida a autuação. Ressalte-se ainda que o art. 14 do Código Tributário Nacional/CTN citado pela impugnante dispõe sobre a imunidade relativa a impostos incidentes sobre o patrimônio, a renda ou serviços dos partidos políticos, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, prevista no art. 150, VI, “c”, da Constituição Federal, não sendo aplicável às contribuições devidas à seguridade social, que não são impostos, muito menos incidentes sobre o patrimônio, a renda e serviços. Assim, verifica-se que o auto de infração guerreado teve como fundamento único a ausência de CEBAS válido, e teve como objetivo a prevenção da decadência. Fl. 1794DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 10 Contudo, do processo judicial juntado aos autos, depreende-se, de forma sucinta, que a situação final do Mandado de Segurança (Processo Judicial nº 0031553-41.2007.4.01.3400) é de extinção sem resolução do mérito por desistência tácita da Sociedade Espanhola de Beneficência (SEB). Embora a apelação da SEB tenha sido provida em 08 de julho de 2024 pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, determinando o retorno dos autos à origem para análise do mérito, e esse acórdão tenha transitado em julgado em 27 de agosto de 2024, ao retornar à Vara de origem, o juízo, em 27 de setembro de 2024, questionou o interesse da SEB na continuidade do feito, devido ao longo tempo transcorrido desde o pedido liminar. Como a SEB não se manifestou dentro do prazo de 5 dias, a juíza da 8ª Vara Federal proferiu, em 12 de novembro de 2024, sentença homologando a desistência tácita e, consequentemente, extinguindo o processo sem resolução do mérito. Essa decisão transitou em julgado em 09 de janeiro de 2025. Isso significa que, apesar de ter obtido uma vitória em segunda instância, a SEB não seguiu com o processo na fase de origem, resultando em sua extinção definitiva sem que o mérito sobre a renovação do CEBAS fosse analisado judicialmente. Desta feita, conclui-se que não há que se falar em concomitância judicial, uma vez que a matéria do presente processo não tem como objeto o cancelamento da condição de imune da RECORRENTE, e sim a cobrança das contribuições previdenciária com o fim de se prevenir a decadência. A suportar esta conclusão, tem-se o trânsito em julgado da ação judicial sem resolução de mérito. Logo, por se tratarem de objetos distintos e pela ação judicial ter sido extinta, rejeita-se a preliminar de concomitância. Mérito Quanto ao mérito a lide consiste em avaliar se a RECORRENTE fazia jus ou não a imunidade previdenciária. Como já demonstrado, a RECORRENTE não dispunha de CEBAS válido para o período fiscalizado, por sua vez, este foi o único fundamento utilizado pela fiscalização para a autuação. Observa-se que a existência de CEBAS válido é uma das condições para fruição do benefício constitucional almejado, sendo a sua ausência suficiente para o afastamento de tal benesse. Vide antecedentes: Numero do processo: 13136.720197/2021-46 Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção Câmara: Primeira Câmara Seção: Segunda Seção de Julgamento Data da sessão: Thu May 09 00:00:00 UTC 2024 Data da publicação: Wed Jun 12 00:00:00 UTC 2024 Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Fl. 1795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 11 Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2018 APRECIAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA. INCOMPETÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 2. IMUNIDADE ENTIDADES BENEFICENTES. EXIGÊNCIAS CUMULATIVAS. AUSÊNCIA DO CEBAS. IMPOSSIBILIDADE DE FRUIÇÃO DO BENEFÍCIO FISCAL. O Supremo Tribunal Federal já externou o entendimento de que aspectos meramente procedimentais referentes à certificação, à fiscalização e ao controle administrativo das entidades beneficentes serem passíveis de definição em lei ordinária. Assim, para caracterização da condição de entidade imune às Contribuições Previdenciárias, deve ser demonstrado o cumprimento cumulativo dos requisitos previstos no art. 14 do CTN e das formalidades prevista na lei ordinária correlata, inclusive a necessidade de ser portadora do CEBAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM (ART.124, I DO CTN). EXISTÊNCIA. Para a aplicação da regra hipotético-condicional do art. 124, I, do CTN, é necessária a demonstração do interesse comum da autuada na situação que constitui o fato gerador da obrigação principal. O interesse comum a que se refere o Código é revelado pelo interesse jurídico em comum. Numero da decisão: 2102-003.358 Numero do processo: 19515.720714/2014-70 Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção Câmara: Primeira Câmara Seção: Segunda Seção de Julgamento Data da sessão: Thu Jan 30 00:00:00 UTC 2025 Data da publicação: Thu Mar 06 00:00:00 UTC 2025 Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 ISENÇÃO. ENTIDADE FILANTRÓPICA. AUSÊNCIA DE CEBAS. O benefício da isenção das contribuições sociais, previsto no art. 195 da Constituição Federal, pressupõe o preenchimento dos requisitos objetivos estabelecidos na legislação específica (Lei nº Lei 8.212/91 e posteriores), dentre os quais o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência social (CEBAS) Numero da decisão: 2101-003.014 Assim, não há reparos a serem feitos quanto ao Acórdão recorrido. Conclusão Diante do exposto, conheço do RECURSO VOLUNTÁRIO INTERPOSTO rejeito a preliminar suscitada e, no mérito, NEGO PROVIMENTO. É como voto. Assinado Digitalmente Fl. 1796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.018 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 12448.724146/2014-88 12 José Márcio Bittes Fl. 1797DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10855.727613/2021-23
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 23 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2016
GRUPO ECONÔMICO. CONFIGURAÇÃO.
Decanta a existência de efetivo grupo econômico, a apresentação de arcabouço indiciário robusto, não desconstituído pelo sujeito passivo, demonstrando o fato das empresas dele integrantes aparecerem comercialmente como um efetivo grupo econômico, com comprovada unicidade de controle e direção, confusão patrimonial e ajustes de vontades entre as elas.
IRPJ E CSLL. ARBITRAMENTO DO LUCRO. GLOSA DE PARTE SUBSTANCIAL DOS CUSTOS. DESCLASSIFICAÇÃO DA ESCRITA CONTÁBIL/FISCAL.
Efetuada pela Fiscalização a glosa de parte significativa dos custos auferidos pelo contribuinte vis a vis os valores declarados, incumbe-lhe desclassificar a escrita contábil/fiscal apresentada por ser esta evidentemente inservível para apuração do lucro real. Nesses casos, deve a Autoridade arbitrar o lucro da pessoa jurídica, sob pena de fazer incidir os citados tributos sobre valores que sabidamente não caracterizam renda (lucro) do contribuinte. O arbitramento considera, por ficção legal, as despesas incorridas pelo contribuinte para a geração da receita.
LUCRO ARBITRADO. BASE DE CÁLCULO. RECEITA BRUTA.
O lucro arbitrado das pessoas jurídicas, quando conhecida a receita bruta, será determinado mediante a aplicação dos percentuais relativos ao lucro presumido, acrescidos de vinte por cento.
NULIDADE. INOCORRÊNCIA DE OMISSÃO DO JULGADOR DE PRIMEIRA INSTÂNCIA NA APRECIAÇÃO DA MATÉRIA ALEGADA NA IMPUGNAÇÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NÃO OBSERVADO.Configura-se cerceamento do direito de defesa a falta de análise e pronunciamento pela autoridade julgadora dos argumentos apresentados em sede de impugnação pelo sujeito passivo, o que gera, em consequência, a nulidade da decisão, com base no artigo 59, inciso II, do Decreto 70.235/1972. A decisão foi fundamentada, não havendo que se falar em nulidade quando o julgador proferiu decisão devidamente motivada, explicitando as razões pertinentes à formação de sua livre convicção. Ademais, o órgão julgador não está obrigado a se manifestar sobre todos os pontos alegados pela parte, mas somente sobre os que entender necessários ao deslinde da controvérsia, de acordo com o livre convencimento motivado.
Numero da decisão: 1102-001.726
Decisão: Acordam os membros do colegiado: (i) por maioria de votos, em negar o pedido de sobrestamento apresentado pelo contribuinte, vencida a Conselheira Cristiane Pires McNaughton, que o acolhia; (ii) por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade da decisão recorrida - vencidas as Conselheiras Cristiane Pires McNaughton e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que a acolhiam; (iii) por voto de qualidade, em negar provimento quanto às exigências de IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IRRF – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que davam provimento nessas matérias, cancelando as exigências; (iv) por voto de qualidade, em negar provimento quanto às responsabilidades imputadas a terceiros, vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que afastavam as responsabilidades; (v) por voto de qualidade, em dar parcial provimento aos recursos, para reduzir a multa qualificada do patamar de 150% para 100%, dada a retroatividade benigna de lei, vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que davam provimento em maior extensão, para afastar a qualificação. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton e Roney Sandro Freire Correa. Julgamento iniciado em 12 de dezembro de 2024, ocasião em que participaram os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa, Fredy José Gomes de Albuquerque, Fenelon Moscoso de Almeida, Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Fernando Beltcher da Silva. Julgamento continuado em 29 de julho de 2025 e concluído em 23 de setembro de 2025, ocasiões em que participaram os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires McNaughton, Roney Sandro Freire Correa, Gustavo Schneider Fossati, Ana Claudia Borges de Oliveira e Fernando Beltcher da Silva.
Assinado Digitalmente
Lizandro Rodrigues de Sousa – Relator
Assinado Digitalmente
Fernando Beltcher da Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Roney Sandro Freire Correa, Gustavo Schneider Fossati, Ana Claudia Borges de Oliveira (substituto[a] integral), Fernando Beltcher da Silva (Presidente), a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária. Ausente(s) o conselheiro(a) Gabriel Campelo de Carvalho, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Ana Claudia Borges de Oliveira. Participaram, ainda os Conselheiros Fredy José Gomes de Albuquerque e Fenelon Moscoso de Almeida, na sessão de 12 de dezembro de 2024.
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
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CONFIGURAÇÃO. Decanta a existência de efetivo grupo econômico, a apresentação de arcabouço indiciário robusto, não desconstituído pelo sujeito passivo, demonstrando o fato das empresas dele integrantes aparecerem comercialmente como um efetivo grupo econômico, com comprovada unicidade de controle e direção, confusão patrimonial e ajustes de vontades entre as elas. IRPJ E CSLL. ARBITRAMENTO DO LUCRO. GLOSA DE PARTE SUBSTANCIAL DOS CUSTOS. DESCLASSIFICAÇÃO DA ESCRITA CONTÁBIL/FISCAL. Efetuada pela Fiscalização a glosa de parte significativa dos custos auferidos pelo contribuinte vis a vis os valores declarados, incumbe-lhe desclassificar a escrita contábil/fiscal apresentada por ser esta evidentemente inservível para apuração do lucro real. Nesses casos, deve a Autoridade arbitrar o lucro da pessoa jurídica, sob pena de fazer incidir os citados tributos sobre valores que sabidamente não caracterizam renda (lucro) do contribuinte. O arbitramento considera, por ficção legal, as despesas incorridas pelo contribuinte para a geração da receita. LUCRO ARBITRADO. BASE DE CÁLCULO. RECEITA BRUTA. O lucro arbitrado das pessoas jurídicas, quando conhecida a receita bruta, será determinado mediante a aplicação dos percentuais relativos ao lucro presumido, acrescidos de vinte por cento. NULIDADE. INOCORRÊNCIA DE OMISSÃO DO JULGADOR DE PRIMEIRA INSTÂNCIA NA APRECIAÇÃO DA MATÉRIA ALEGADA NA IMPUGNAÇÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NÃO OBSERVADO. Fl. 22504DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 2 Configura-se cerceamento do direito de defesa a falta de análise e pronunciamento pela autoridade julgadora dos argumentos apresentados em sede de impugnação pelo sujeito passivo, o que gera, em consequência, a nulidade da decisão, com base no artigo 59, inciso II, do Decreto 70.235/1972. A decisão foi fundamentada, não havendo que se falar em nulidade quando o julgador proferiu decisão devidamente motivada, explicitando as razões pertinentes à formação de sua livre convicção. Ademais, o órgão julgador não está obrigado a se manifestar sobre todos os pontos alegados pela parte, mas somente sobre os que entender necessários ao deslinde da controvérsia, de acordo com o livre convencimento motivado. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado: (i) por maioria de votos, em negar o pedido de sobrestamento apresentado pelo contribuinte, vencida a Conselheira Cristiane Pires McNaughton, que o acolhia; (ii) por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade da decisão recorrida - vencidas as Conselheiras Cristiane Pires McNaughton e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que a acolhiam; (iii) por voto de qualidade, em negar provimento quanto às exigências de IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IRRF – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que davam provimento nessas matérias, cancelando as exigências; (iv) por voto de qualidade, em negar provimento quanto às responsabilidades imputadas a terceiros, vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que afastavam as responsabilidades; (v) por voto de qualidade, em dar parcial provimento aos recursos, para reduzir a multa qualificada do patamar de 150% para 100%, dada a retroatividade benigna de lei, vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Ana Cláudia Borges de Oliveira, que davam provimento em maior extensão, para afastar a qualificação. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton e Roney Sandro Freire Correa. Julgamento iniciado em 12 de dezembro de 2024, ocasião em que participaram os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa, Fredy José Gomes de Albuquerque, Fenelon Moscoso de Almeida, Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Fernando Beltcher da Silva. Julgamento continuado em 29 de julho de 2025 e concluído em 23 de setembro de 2025, ocasiões em que participaram os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires McNaughton, Roney Sandro Freire Correa, Gustavo Schneider Fossati, Ana Claudia Borges de Oliveira e Fernando Beltcher da Silva. Assinado Digitalmente Fl. 22505DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 3 Lizandro Rodrigues de Sousa – Relator Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Roney Sandro Freire Correa, Gustavo Schneider Fossati, Ana Claudia Borges de Oliveira (substituto[a] integral), Fernando Beltcher da Silva (Presidente), a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária. Ausente(s) o conselheiro(a) Gabriel Campelo de Carvalho, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Ana Claudia Borges de Oliveira. Participaram, ainda os Conselheiros Fredy José Gomes de Albuquerque e Fenelon Moscoso de Almeida, na sessão de 12 de dezembro de 2024. RELATÓRIO Trata-se de recursos voluntários em que BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERACAO JUDICIAL e responsáveis solidários insurgem-se contra decisão no Acórdão da DRJ (n. 105-007.482 – 1ª TURMA/DRJ05, e-fls. 21401 e ss) que considerou procedente o lançamento de ofício e manteve as responsabilidades solidárias. Assim dispôs em relatório a decisão recorrida: 1 Trata-se de Impugnações, às fls. nº. 11588/11658, 20842/20870, 20948/20976, 21054/21090, 21099/21137, 21175/21195 e 21223/21241, apresentadas pela parte Interessada e pelos demais sujeitos passivos responsabilizados contra a lavratura de Autos de Infração, às fls. 11368/11474, em desfavor da BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERACAO JUDICIAL (doravante denominada BRASCOPPER), para a exigência de crédito tributário no montante de R$ 203.156.913,06 (duzentos e três milhões, cento e cinquenta e seis mil, novecentos e treze reais e seis centavos), estando assim distribuído: Imposto Sobre a Renda da Pessoa Jurídica -IRPJ R$ 6.005.079,75 Juros de Mora (calculados até 08/2021) R$ 1.900.371,53 Multa Proporcional (Passível de Redução) R$ 9.007.619,61 Valor do Crédito Tributário R$ 16.913,070,89 Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido – CSLL R$ 2.713.085,88 Juros de Mora (calculados até 08/2021) R$ 858.492,77 Multa Proporcional (Passível de Redução) R$ 4.069.628,82 Valor do Crédito Tributário R$ 7.641.207,47 Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social R$ 7.536.349,67 Juros de Mora (calculados até 08/2021) R$ 2.468.643,35 Multa Proporcional (Passível de Redução) R$ 11.304.524,47 Valor do Crédito Tributário R$ 21.309.517,49 Contribuição para o Pis/Pasep R$ 1.632.875,71 Juros de Mora (calculados até 08/2021) R$ 534.872,67 Fl. 22506DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 4 Multa Proporcional (Passível de Redução) R$ 2.449.313,55 Valor do Crédito Tributário R$ 4.617.061,93 Imposto de Renda Retido na Fonte R$ 53.660.997,89 Juros de Mora (calculados até 08/2021) R$ 18.523.561,08 Multa Proporcional (Passível de Redução) R$ 80.491.496,31 Valor do Crédito Tributário R$ 152.676.055,28 2 De acordo com os Autos de Infração do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ, da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido – CSLL, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS, da Contribuição para o Pis/Pasep, do Imposto de Renda Retido na Fonte - IRRF e Termo de Verificação Fiscal - TVF, às fls. 11086/11367, respectivamente, os créditos tributários lançados foram constituídos em razão da Fiscalização verificar que a Contribuinte, no ano-calendário de 2016, teria cometido infrações, as quais, podem ser assim resumidas: 2.1 IRPJ - RECEITAS DA ATIVIDADE. INFRAÇÃO: RECEITA BRUTA NA VENDA DE PRODUTOS DE FABRICAÇÃO PRÓPRIA Arbitramento do lucro realizado com base na receita bruta da venda de produtos de fabricação própria, conforme relatório fiscal em anexo. 2.2 CSLL - FALTA/INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DA CSLL OU DO ADICIONAL INFRAÇÃO: FALTA/INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DA CSLL O contribuinte procedeu com inexatidão à apuração da CSLL devida E/OU não efetuou ou efetuou com inexatidão o pagamento ou recolhimento da CSLL devida, e não declarou ou declarou a menor o valor a pagar, conforme relatório fiscal em anexo. 2.3 COFINS - INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. INFRAÇÃO: INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO Valor apurado conforme relatório fiscal em anexo. 2.4 PIS/PASEP - INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. INFRAÇÃO: INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO Valor apurado conforme relatório fiscal em anexo. 2.5 IRRF - IRRF - PAGAMENTO SEM CAUSA OU BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. INFRAÇÃO: IMPOSTO DE RENDA NA FONTE SOBRE PAGAMENTOS SEM CAUSA OU DE OPERAÇÃO NÃO COMPROVADA Valor do Imposto de Renda na Fonte, incidente sobre pagamento(s) sem causa ou de operação(ões) não comprovada(s), contabilizadas ou não, no(s) valor(es) abaixo especificado(s). 3 As sobreditas infrações acarretaram lançamentos de ofício no montante de R$ 203.156.913,06 (duzentos e três milhões, cento e cinquenta e seis mil, novecentos e treze reais e seis centavos), envolvendo o ano-calendário de 2016, fatos geradores trimestrais para o IRPJ e CSLL, mensais para a COFINS e PIS/PASEP e diários para o IRRF, conforme discriminado no TVF, às fls. 11086/11367, tendo como enquadramentos legais, principalmente: 3.1 IRPJ – art. 3º da Lei nº 9.249/95 e art. 532 do RIR/99; 3.2 CSLL - Art. 2° da Lei n° 7.689/88 com as alterações introduzidas pelo art. 2° da Lei n° 8.034/90; Art. 2° da Lei n° 9.249/95; Art. 29 da Lei nº 9.430/96; Art. 22 da Lei nº 10.684/03; Art. 3º da Lei nº 7.689/88, com redação dada pelo art. 17 da Lei nº 11.727/08; e Art. 28 da Lei nº 9.430/96, com redação dada pelo art. 49 da Lei nº 12.715/12; 3.3 COFINS - Art. 8º da Lei nº 9.718/1998; Art. 1º da Lei Complementar nº 70/91; art. 2º da Lei nº 9.718/98; Art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas Fl. 22507DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 5 pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09; 3.4 PIS/PASEP - Arts. 1º da Lei Complementar nº 7/70; Arts. 2º, inciso I, e 9º da Lei nº 9.715/98; Arts. 2º da Lei nº 9.718/98; Art. 8º, inciso I, da Lei nº 9.715/98; Art. 79, da Lei nº 11.941/2009; Art. 3º, da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09; e 3.5 IRRF - Art. 61, caput e parágrafos 1º, 2º e 3º da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995; Art. 674 e 675 do RIR/99. 4 Observando-se que, no referido TVF, às fls. 11086/11367, a Fiscalização efetivou o lançamento do IRPJ, pelo lucro arbitrado trimestral, com base na receita bruta conhecida da venda de produtos de fabricação própria, visto que a escrituração contábil do Contribuinte revelou evidentes indícios de fraudes, dentre elas, registro de notas fiscais inidôneas (as chamadas “notas frias”) referente a 89,98% do custo apurado no período, com correspondente reflexos nas autuações da CSLL, COFINS e PIS/PASEP, bem como o lançamento do IRRF incidente sobre pagamentos a beneficiários não identificados, sem causa ou operação não comprovada, merecendo destaque, principalmente: Da Introdução 4.1 A partir da identificação de empresas de fachada, sem existência de fato, que emitiram aproximadamente R$ 130,60 milhões em notas fiscais inidôneas em benefício da BRASCOPPER, no ano de 2016, foi realizada fiscalização em desfavor desta pessoa jurídica do ramo de metais não ferrosos, uma vez que se utilizava dessa organização para o aumento artificial dos custos e geração de créditos indevidos; Dos Procedimentos Fiscais 4.2 A fiscalização da BRASCOPPER CBC Brasileira de Condutores Ltda em Recuperação Judicial, CNPJ 53.606.869/0001-40, sucedeu-se conjuntamente com as das principais empresas de fachada: COPPER GREEN: Copper Green Metais – EIRELI, CNPJ 22.911.596/0001-14; METALOX: Massa falida de Metalox Metais Ltda, CNPJ 01.455.616/0001-10; R3: R3 Metais EIRELI, CNPJ 08.482.709/0001- 82; GLOBAL: Global Metais Ltda, CNPJ 23.300.517/0001-00; COPAR: Copar Condutores Elétricos Eireli, CNPJ 17.344.440/0001-69; PROCOBRE: Procobre Condutores Elétricos Eireli, CNPJ 10.247.382/0001-06; SUPER ZINCO: Super Zinco Tratamento em Metais Comércio e Indústria LTDA em recuperação judicial, CNPJ 45.265.014/0001-21; GCP: GCP Administração EIRELI, CNPJ 20.419.242/0001-21; 4.3 Em síntese, das fiscalizações realizadas nas empresas ditas de fachada emissoras de notas fiscais inidôneas, destaca-se: estabelecimentos fechados ou não localização; não obtenção de informações; lavratura de Representação para Baixa de Ofício do CNPJ; necessidade de Requisição de Informação Sobre Movimentação Financeira (RMF); sócios com histórico de ocupações pretéritas ou de DIRPF incompatíveis com altas movimentações financeiras das empresas; declarações GFIP sem empregados; algumas com situação cadastral com o status de “inapta – localização desconhecida”; 4.4 No caso da Fiscalização da BRASCOPPER, apesar do termo de início do procedimento fiscal – TIPF e diversos termos de intimação fiscal - TIF, vários ficaram sem resposta ou os atendimentos foram insatisfatórios. Ademais, após o TIF nº 05, deixou de atender aos requerimentos da Autoridade Fiscal; Do Grupo Econômico BRASCOPPER 4.5 (...) Foi verificado que a BRASCOPPER em conjunto com as empresas de fachada e seus controladores coordenaram sua atuação para reduzir a carga tributária de forma fraudulenta, obtendo vantagem competitiva de forma ilícita; Fl. 22508DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 6 4.6 (...) No decorrer do ano calendário 2016 a BRASCOPPER adquiriu notas fiscais fraudulentas das empresas COPPER GREEN, GLOBAL, METALOX e R3 que totalizaram R$ 130.606.336,90. Estas últimas são empresas de fachada, popularmente conhecidas como NOTEIRAS. Empresas criadas com o objetivo de emitir notas fiscais frias para geração de crédito tributário de tributos não- cumulativos e diminuir o lucro tributável das reais beneficiárias; 4.7 (...) percebe-se que formalmente há um vínculo aparente entre as empresas de fachada GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN, COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO, GCP e a beneficiária BRASCOPPER. Além disso, há fatos que apontam a existência de direção única e confusão patrimonial que permitem afirmar a existência de um grupo econômico de fato, formado para a prática reiterada da fraude fiscal;(g.n.) 4.8 (...) listamos como empresas do GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER diretamente relacionadas à fraude envolvendo a BRASCOPPER: COPPER GREEN METAIS – EIRELI, CNPJ 22.911.596/0001-14; MASSA FALIDA DE METALOX METAIS LTDA, CNPJ 01.455.616/0001-10; R3 METAIS EIRELI, CNPJ 08.482.709/0001-82; GLOBAL METAIS LTDA, CNPJ 23.300.517/0001-00; TRAK INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE METAIS LTDA, CNPJ 19.397.745/0001-64; BRITH IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO, COMÉRCIO DE METAIS, CNPJ 06.223.789/0001-26; RG ALVES TRANSPORTE ME, CNPJ 20.307.879/0001-26; RBS SILVA E CIA EPP (também denominada METAIS TRANSPORTES RODOVIÁRIO LTDA – EPP), CNPJ 23.788.728/0001-25; COPAR CONDUTORES ELÉTRICOS EIRELI, CNPJ 17.344.440/0001-69; PROCOBRE CONDUTORES ELÉTRICOS EIRELI, CNPJ 10.247.382/0001-06; BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, CNPJ 53.606.869/0001-40; TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ 18.025.621/0001-95; SUPER ZINCO TRATAMENTO DE METAIS IND COM LTDA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, CNPJ 45.265.014/0001-75; GCP ADMINISTRAÇÃO EIRELI, CNPJ 20.419.242/0001-21; NÚMERO UM PART’S VEÍCULOS EIRELI, CNPJ 07.342.672/0001-24; CIRELA PARTICIPAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO PATRIMONIAL LTDA, CNPJ 27.569.770/0001-06; ORIO INDÚSTRIA & COMÉRCIO DE METAIS LTDA, CNPJ 19.862.451/0001-66; CONDEL COMÉRCIO DE MATERIAL ELÉTRICO LTDA, CNPJ 23.409.019/0001- 91; IFE INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CABOS ESPECIAIS DE LOUVEIRA - EIRELI, CNPJ 50.141.100/0001-06; 4.9 (...) Estas empresas apresentaram unicidade de controle e direção, sendo geridas pela FAMÍLIA MARTINS, pelos sócios e administradores da BRASCOPPER e por outras pessoas abaixo listadas: (g.n.) 4.9.1 (...) A FAMÍLIA MARTINS é composta pelos seguintes membros: SYRIO MARTINS NETO, CPF 693.597.501-82; GABRIELA EMER, CPF 026.769.509-83; JOSÉ RICARDO PASSOS MARTINS, CPF 017.150.311-21; MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS, CPF 907.806.391-20; 4.9.2 (...) Também participaram da gestão os sócios e administradores da BRASCOPPER: CLEDER CORRAL PROVÊNCIO, CPF 020.248.878-05; CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTISS, CPF 005.441.868-26; 4.9.3 (...) Ainda, a participação na gestão das empresas as seguintes pessoas: FABIO CZERKES SANTANA, CPF 294.032.458-16; MARIA TEREZA NOGUEIRA, CPF 037.657.648-09; RENATO MEGGIOLARO JUNIOR ou RENATO MEGIOLARO JUNIOR, CPF 035.656.818-02; RONALDO MEGIOLARO, CPF 029.276.498-71; THOR GREGORI MEGIOLARO, CPF 410.133.278-96; 4.9.4 (...) Por fim, é possível listar as seguintes pessoas como “testas de ferro”, pois possuem a aparência de líder, mas não detém o poder da organização, sendo meros executores a mando dos controladores de fato: Fl. 22509DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 7 ROOSIVELT JARA PINTO, CPF 001.947.531-40; ROBSON BATISTA DE SOUZA E SILVA, CPF 822.224.101-00; FRANCISCO ÁTILA COSTA PALOSQUI, CPF 896.773.741-68; RONALDO GONÇALVES ALVES, CPF 481.244.861-15; ALVARO AUGUSTO PINHO E SILVA, CPF 922.702.631- 20; 4.10 Ainda sobre o tema à epígrafe, a Autoridade Fiscal discorreu sobre: 4.10.1 O quadro societário das noteiras METALOX, R3, GLOBAL, COPPER GREEN entre outras empresas, notadamente no que concerne ao envolvimento dos sócios ROOSIVELT JARA PINTO, doravante chamado apenas por ROOSIVELT, e ROBSON BATISTA DE SOUZA SILVA, doravante chamado apenas por ROBSON BATISTA, onde destaca que são recorrentes na prática de interposição fraudulenta de pessoas no quadro societário; 4.10.2 A Identificação no site da JUCESP de procurações das empresas TRAK e COPPER GREEN, representadas pelo Sr. ROOSIVELT, concedendo amplos poderes ao Senhor SYRIO MARTINS NETO para gerenciar contas correntes em instituições financeiras, caracterizando-o como gestor financeiro destas empresas de fachada; 4.10.3 As diligências fiscais da SEFAZ/SP nos estabelecimentos da METALOX e da GLOBAL, que apontou o Sr. SYRIO como sócio de fato; 4.10.4 A utilização do mesmo estabelecimento pela BRASCOPPER / METALOX / GLOBAL em São Luis-MA, denotando para Autoridade Fiscal prova de ajuste de vontades entre os diferentes participantes e, principalmente, o conhecimento da BRASCOPPER sobre a situação fática das noteiras. Ademais, intermediação da compra de sucata pelas empresas de fachada e cujo destinatário de fato é a BRASCOPPER, tendo-se em vista a coincidência do endereço de São Luís/MA, bem como a GFIP da GLOBAL indicar inatividade operacional e não ter sido entregue a da METALOX; 4.10.5 A participação da Sra. GABRIELA EMER, esposa do Sr. Syrio, como uma das beneficiárias do esquema arquitetado pelo grupo para cometimento da fraude tributária, dado que, com base nos extratos bancários das empresas de fachada, recebeu, em 2016, através de transferências bancárias das empresas: R3, GLOBAL, METALOX e COPPER GREEN. Sob a ótica da fiscalização, tal fato demonstra a confusão patrimonial, o favorecimento de SYRIO e GABRIELA pela operacionalização da fraude tributária. Além disso, ela pode ser considerada uma das executoras do esquema fraudulento, pois se observou que foi utilizado seu serviço de internet para emissão de notas fiscais das noteiras: R3 e METALOX; 4.10.6 A participação de JOSÉ RICARDO PASSOS MARTINS, CPF 017.150.311-21 que é irmão de SYRIO e do Sr. MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS, CPF 907.806.391-20. Segundo a Fiscalização, o Sr. José é administrador da empresa FUNDI LIGAS INDÚSTRIA METAIS LTDA, CNPJ 07.342.672/0001-24, a qual entre os períodos de 08/2015 a 03/2020 tinha como razão social NÚMERO UM PART’S VEÍCULOS EIRELI. Esta empresa recebeu das empresas de fachada (R3 e GLOBAL) valores relevantes; comprou veículos perante RIO CENTRO que foram pagos pela COPPER GREEN; e transferiu imóvel para CIRELA, cuja sócia administradora é a Sra. GABRIELA EMER. Acrescente-se ao sobredito, a ligação de Sr. JOSÉ com a conta corrente da noteira GLOBAL, mantida na SICREDI UNIÃO MS/TO, posto que aparece como procurador para movimentá-la. Destarte, inferiu que pode ser considerado um dos gestores financeiros do GRUPO BRASCOPPER, posto que foi a GLOBAL quem Fl. 22510DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 8 pagou a empresa BRUSCHI pela sucata que foi entregue no estabelecimento da BRASCOPPER em São Luís - MA; 4.10.7 O Contrato de Arrendamento de Maquinário e Locação de Planta Industrial firmado entre CONDEL e BRASCOPPER, o qual foi assinado por: CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, sócio da BRASCOPPER; JOSÉ RICARDO PASSOS MARTINS, sócio da CONDEL à época dos fatos; MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS como testemunha; SYRIO MARTINS NETO como testemunha (sem assinatura): 4.10.7.1 Trata-se de mais uma prova da vinculação entre BRASCOPPER e a FAMÍLIA MARTINS. Ademais, apesar do sobredito acordo prever pagamentos mensais da CONDEL em favor da BRASCOPPER, no montante de R$ 10.000,00, por depósitos ou transferências na conta corrente mantida na agência 895-8 da instituição financeira BRADESCO, compulsados os dados de movimentação financeira detalhada, não se verificou transferências financeiras da CONDEL para a BRASCOPPER. Pelo contrário, foram encontrados apenas transferências da BRASCOPPER para CONDEL; e 4.10.7.2 As mencionadas constatações somadas ao fato que não há informação na GFIP da CONDEL de empregados atuando na área fabril, bem como a informação, obtida em depoimento de um dos empregados da CONDEL, que a BRASCOPPER realizava as solicitações de compra para CONDEL, reforçam a inferência que o instrumento particular apontado nunca se concretizou, bem como demonstra claramente o ajuste de vontades entre as partes para cometimento de ilícitos; 4.10.8 A participação do Sr. MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS, irmão de SYRIO MARTINS NETO, que intitulado dono da METALOX e estranho ao quadro societário da BRASCOPPER, apareceu, de forma reiterada, envolvendo diversos períodos do ano-calendário de 2016, como solicitante de pagamentos de boletos e de transferências bancárias da conta corrente da Fiscalizada, mantida no Banco SICREDI UNIÃO MS/TO, agência 0911. Tal fato, demonstrou à Autoridade Autuante o envolvimento da FAMÍLIA MARTINS no gerenciamento financeiro do real beneficiário, indicando não só o interesse comum na fraude tributária, mas também participação direta dos dois lados na prática da fraude, visto os sócios e administradores da BRASCOPPER terem concordado com a administração financeira promovida pela FAMÍLIA MARTINS em conta corrente da BRASCOPPER. (...) Ou seja, MARCOS era dono da METALOX, junto aos seus irmãos, e ainda movimentava a conta corrente da BRASCOPPER, principal “fornecedor” de vergalhão de cobre desta última, o que monstra a confusão patrimonial entre as empresas;(g.n.) 4.10.9 A participação da Sra. AYLA DE ALMEIDA SANTOS, funcionária do Sr. RENATO MEGIOLARO JUNIOR: 4.10.9.1 Segundo ficha cadastral da BRASCOPPER na SICREDI UNÃO MS/TO, há indicação de duas pessoas para contato estranhas ao quadro social da titular: RENATO MEGIOLARO e AYLA (estas duas pessoas também se encontram na ficha cadastral da empresa R3 na SICREDI); 4.10.9.2 AYLA, consoante informações previdenciárias, foi empregada da BRITH, COPAR e, a partir de 05/2018, da TFF, todas empresas relacionadas a fraude em questão. Constam como sócios da TFF, NATALIA NOGUEIRA MEGGIOLARO (filha do casal RENATO e MARIA TEREZA), e sua mãe MARIA TEREZA NOGUEIRA, e como ex-sócios ROSANA MEGIOLARO (irmã de Fl. 22511DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 9 RENATO) e FABIO CZERKES SANTANA. Destaca-se que na ficha cadastral de várias empresas encontra-se o telefone de MARIA TEREZA; 4.10.9.3 Reforça a sua participação no esquema ilícito, em decorrência da movimentação financeira realizada através da aplicação de internet bank, na qual, como funcionária de RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, NATALIA NOGUEIRA MEGGIOLARO e MARIA TEREZA NOGUEIRA, realizava operações financeiras, como o pagamento de boletos da PROCOBRE; e 4.10.9.4 Constou no cartão de assinaturas da conta da COPAR no Banco Santander como procuradora. (...) Isso demonstra a gerência financeira exercida pela FAMILIA MEGGIOLARO sobre a fraude fiscal; 4.10.10 A participação de RENATO MEGIOLARO JUNIOR: 4.10.10.1 Vincula-se a FAMÍLIA MARTINS, visto que, por ser o responsável financeiro da BRASCOPPER junto a instituição financeira SICREDI, há registros que muitas movimentações financeiras ocorreram com solicitações realizadas por MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS; 4.10.10.2 Era o responsável pelo setor financeiro da BRASCOPPER, COPAR, R3, COPPER GREEN, PROCOBRE, METALOX perante a instituição financeira SICREDI. Ademais, esta informou ao COAF que se tratava de um INVESTIDOR que realizava a “alavancagem” das empresas com maquinário e expertise, sem, contudo, constar nos seus contratos sociais; 4.10.10.3 Desempenhou papel fundamental na elaboração e operacionalização da fraude tributária, pois agiu em conluio com a BRASCOPPER, a FAMÍLIA MARTINS e outras pessoas citadas; e 4.10.10.4 É possível considerá-lo o mentor intelectual da fraude tributária, dado que as movimentações financeiras de alto valor eram autorizadas por ele, nas contas correntes da BRASCOPPER, COPAR, PROCOBRE, R3, COPPER GREEN, METALOX, mantidas na instituição financeira SICREDI, quer dizer era o homem do dinheiro do GRUPO BRASCOPPER; 4.10.11 A intimação à CBL e à RECIFE FERROS, de onde inferiu que: 4.10.11.1 RENATO era um dos administradores da R3, 4.10.11.2 a COPPER GREEN sucede às operações comerciais da BRITH, cujo sócio responsável era e THOR GREGORI MEGIOLARO, filho de RONALDO MEGIOLARO, irmão de RENATO; e 4.10.11.3 o imóvel ocupado pela COPPER GREEN, BRITH e GLOBAL é de propriedade de NATALIA NOGUEIRA MEGGIOLARO, filha de RENATO; 4.10.12 Vários fatos constatados em decorrência da diligência da SEFAZ/SP ao estabelecimento COPPER GREEN: 4.10.12.1 (...) constatado que a empresa não possuía funcionários, máquinas e equipamentos. A fiscalização foi recebida por RONALDO MEGIOLARO, e que os atendeu em nome da empresa BRITH. (g.n.) 4.10.12.2 (...) RENATO era o representante financeiro da BRASCOPPER, R3, COPPER GREEN, COPAR e PROCOBRE. Detalhe importante, FABIO CZERKES SANTANA é sócio administrador da PROCOBRE; (g.n.) Fl. 22512DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 10 4.10.12.3 (...) Há uma farta quantidade de provas que vinculam os administradores da BRASCOPPER, FAMILIA MEGGIOLARO e FAMILIA MARTINS no planejamento e operacionalização da fraude tributária; (g.n.) 4.10.12.4 (...) Conclui-se pelos fatos narrados que a COPAR foi sucedida em suas atividades pela empresa PROCOBRE, tendo como administrador FABIO CZERKES SANTANA. Esta introdução foi necessária, pois verificou-se que a COPAR foi destinatária de recursos financeiros vindos das empresas de fachada; 4.10.12.5 (...) A R3 enviou à COPAR o total de R$ 17.273.565,00 utilizando-se sua conta na SICREDI UNIÃO MS/TO, agência 0911, conta corrente 52729-7 no decorrer do ano de 2016. Já a COPPER GREEN enviou à COPAR a quantia de R$ 35.169.200,00 utilizando sua conta corrente na SICREDI UNIÃO MS/TO, agência 0911, conta corrente 52340-2 no decorrer do ano de 2016. (...) Detalhe importante, a COPAR no ano de 2016 não emitiu uma única nota fiscal; 4.10.12.6 (...) A BRASCOPPER é empresa em recuperação judicial desde 08/10/2014, conforme ficha cadastral completa da JUCESP. Supõe-se então a existência de um acordo entre a BRASCOPPER e os seus credores, por meio do Poder Judiciário. Mas há transferências de milhões de reais para empresas de fachada, sem capacidade operacional, e estas utilizando-se dos recursos recebidos da BRASCOPPER os repassam para outras empresas do grupo ou realizam pagamentos pulverizados a terceiros sem o amparo de documentos fiscais (em sua maioria); e (g.n.) 4.10.12.7 (...) A BRASCOPPER enviou à METALOX R$ 80.355.562,06, à COPPER GREEN R$ 15.638.108,56, à GLOBAL R$ 3.200.666,95. Total próximo de R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais) em um único ano calendário. Parte destes recursos foi utilizado para o pagamento de sucateiros (aprofundado no tópico 6 deste TVF), repasses da R3 (R$ 17.273.565,00) e COPPER GREEN (R$ 32.153.200,00) à COPAR. Após isso, é possível verificar que a COPAR também remete recursos à sucateiros; (g.n.) 4.10.13 As Transportadoras contratadas pelas noteiras e BRASCOPPER, posto que, com base nas notas fiscais obtidas, 98% das entregas das empresas de fachada para BRASCOPPER foram realizadas pelas transportadoras: RG ALVES TRANSPORTE ME, CNPJ 20.307.879/0001-26 (doravante chamada apenas por RG ALVES); RBS SILVA E CIA EPP (também denominada METAIS TRANSPORTES RODOVIÁRIO LTDA – EPP), CNPJ 23.788.728/0001-25 (a partir deste momento denominada por RBS). Ademais: 4.10.13.1 (...) Independentemente do valor da carga ou da quantidade de mercadoria transportada os valores do frete pouco variavam, fato no mínimo estranho. Ainda, os endereços do remetente das mercadorias correspondem aos endereços das empresas de fachada; (g.n.) 4.10.13.2 (...) A RG ALVES tem como sócio RONALDO GONÇALVES ALVES, CPF 481.244.861-15, mencionado anteriormente. Por sua vez, RONALDO GONÇALVES é ligado a SYRIO MARTINS NETO, FABIO CZERKES SANTANA, ROBSON BATISTA DE SOUZA SILVA e ROOSIVELT JARA PINTO, os dois primeiros, SYRIO e FABIO, podem ser considerados como OPERADORES da fraude tributária, enquanto os dois últimos são EXECUTORES da fraude tributária, além de testas de ferro das empresas de fachada; 4.10.13.3 (...) Portanto, 5.622.541,54 kg de vergalhão de cobre supostamente vendidos pelas empresas de fachada METALOX, Fl. 22513DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 11 GLOBAL, COPPER GREEN e R3 para a BRASCOPPER, de um total de 6.222.840,54 kg, foram transportados por empresas do próprio grupo econômico; (g.n.) 4.10.13.4 (...) A utilização dessas transportadoras de fachada foi uma forma de dar credibilidade à suposta entrega dessas mercadorias na BRASCOPPER. Uma maneira encontrada de apresentar um conhecimento de transporte que poderia dar alguma credibilidade; 4.10.13.5 (...) Como se percebe, a fraude fiscal somente ocorreu pelo conluio entre diferentes pessoas que aceitaram de livre e espontânea vontade simular quadros societários, operações comerciais que nunca existiram, como as emissões de notas fiscais das noteiras e o seu transporte entre as empresas pelas transportadoras de fachada; (g.n.) 4.10.14 Os depoimentos dos sócios da CONDEX onde apareceu como destinatária de notas fiscais da PROCOBRE, IFE, GLOBAL, SUPER ZINCO e COPPER GREEN. Informaram que estas empresas pertencem a RENATO MEGGIOLARO, e que negociavam com este ou MAURICIO ROBERTO RALDI. Este último era representante comercial de RENATO que, além de também gerir o departamento financeiro destas empresas, era também o gestor comercial. Conclui que independente se o termo para nomear RENATO, é “proprietário” ou “gestor comercial” das empresas GLOBAL METAIS, da COPAR, da PROCOBRE, da COPPER GREEN, da SUPER ZINCO e da IFE, fato é que a própria CONDEX afirmou que ele era a pessoa que estava à frente das operações fraudulentas; 4.10.15 A diligência em desfavor do contribuinte ENERGY CONDUTORES DO BRASIL, CNPJ 02.171.371/0001-61, onde obteve a informação que a TFF era responsável pelo pedido de elaboração das notas fiscais às noteiras; 4.10.16 O Sr. FRANCISCO ATILA COSTA PALOSQUI, que era sócio da empresa MASSA FALIDA DE METALOX METAIS LTDA, CNPJ 01.455.616/0001-10. (...) Somente pela análise da vida pregressa de FRANCISCO, é pouco factível ter se tornado sócio da METALOX; 4.10.17 O contrato de aluguel que estava em nome da COPAR, mas o imóvel era ocupado pela TFF; 4.10.18 Ao final resume: 4.10.18.1 (...) RENATO MEGGIOLARO JUNIOR é responsável financeiro de contas bancárias das empresas BRASCOPPER, COPAR, PROCOBRE, R3 e COPPER GREEN. Também é listado como gestor comercial da GLOBAL, COPAR, SUPER ZINCO, IFE, PROCOBRE e COPPER GREEN. Outros membros da FAMÍLIA MEGGIOLARO participaram da fraude, como MARIA TEREZA NOGUEIRA, RONALDO MEGIOLARO e THOR MEGIOLARO; (g.n.) 4.10.18.2 (...) MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS realizou movimentações financeiras na conta corrente da BRASCOPPER e é listado como responsável financeiro da COPAR; (g.n.) 4.10.18.3 (...) SYRIO MARTINS NETO possui procuração pública em que recebe amplos poderes para gerir contas bancárias da COPPER GREEN e TRAK. Quando da diligência da SEFAZ/SP no estabelecimento da METALOX em Santa Branca/SP informou ser o responsável pelo estabelecimento; (g.n.) 4.10.18.4 (...) GABRIELA EMER, cônjuge de SYRIO, recebeu recursos financeiros das empresas de fachada e emitiu notas fiscais das empresas de fachada utilizando-se do serviço de internet contratado por ela; (g.n.) 4.10.18.5 (...) JOSÉ RICARDO PASSOS MARTINS é responsável financeiro da GLOBAL, e recebeu recursos das empresas de fachada em conta corrente de pessoa jurídica da qual é sócio; (g.n.) 4.10.18.6 (...) METALOX, BRASCOPPER e GLOBAL fizeram uso do mesmo estabelecimento localizado em São Luís/MA. (g.n.) Fl. 22514DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 12 Das Empresas Envolvidas na Fraude 4.11 (...) A BRASCOPPER é empresa existente de fato, que possui estabelecimento comercial e apresenta atividade econômica. Se utiliza das notas fiscais frias emitidas pelas empresas de fachada para obter créditos tributários indevidos e diminuir o lucro tributável; (g.n.) 4.12 (...) Já as empresas de fachada, popularmente conhecidas como NOTEIRAS, são empresas criadas com o objetivo de emitir notas frias para geração de crédito tributário e diminuir o lucro tributável da BRASCOPPER, real beneficiária. (...) Um fato que aponta para esta constatação, do ponto de vista técnico da auditoria fiscal, é a falta do lastro fiscal na cadeia de suprimentos das empresas de fachada GLOBAL, R3, METALOX e COPPER GREEN; 4.13 (...) sob o enfoque individual de cada CNPJ, a organização tenta ludibriar o Fisco fazendo uma noteira emitir nota fiscal para a outra de forma que esta noteira de segundo nível tenha lastro fiscal para que esta possa emitir expressivo valor em notas fiscais. Neste caso temos a noteira de primeiro nível emitindo notas fiscais para a noteira de segundo nível; (g.n.) 4.14 (...) A fraude permitia simular a entrada de vergalhão para a geração de crédito de ICMS e de PIS/COFINS na BRASCOPPER. (...) Por fim, há ainda operação de industrialização por encomenda, envolvendo a R3, a BRASCOPPER e empresas laminadoras; (g.n.) 4.15 Das principais conclusões da Autoridade Fiscal sobre as atuações das ditas noteiras: 4.15.1 COPPER GREEN 4.15.1.1 (...) As operações entre COPPER GREEN e JJE não ocorreram efetivamente, uma vez que o único rastro de existência desta última reside nas notas fiscais emitidas – totalizando R$ 434 milhões e movimentando mais de 23 milhões de quilogramas em mercadorias. Ademais, (...) a JJE apresenta o quadro societário formado por interpostas pessoas, sem capacidade financeira para operacionalizar uma organização que movimentou valor tão expressivo em notas fiscais, bem como apresenta movimentação financeira para o ano de 2016, denotando que (...) emitiu notas fiscais fraudulentas, sem a respectiva circulação das mercadorias, visto a falta de lastro fiscal. Serviu apenas para dar lastro fiscal a outras empresas da organização; (g.n.) 4.15.1.2 (...) A COPPER GREEN adquiriu sucata para o real beneficiário BRASCOPPER, conforme análise das transferências realizadas em suas contas bancárias e diligências fiscais; (g.n.) 4.15.1.3 (...) A SEFAZ/SP em procedimento fiscal apontou a simulação do estabelecimento ou da empresa, e tornou nula a inscrição estadual da COPPER GREEN; 4.15.1.4 (...) O quadro societário da COPPER GREEN é formado por interposta pessoa, como forma de afastar uma possível responsabilidade tributária e/ou penal; 4.15.1.5 Embora o faturamento milionário a (...) COPPER GREEN não apresentou GFIPs no período de 2015 a 2016, indicação da falta de mão de obra para transformar sucata em vergalhão, ou outra atividade comercial, devendo ter atuado apenas como repassadora da sucata adquirida para terceiros. (...) Pagamentos realizados pela BRASCOPPER e a simultânea saída desses recursos, da conta Fl. 22515DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 13 corrente da COPPER GREEN, para sucateiros, bem como as diligências realizadas e apresentadas confirmam esta hipótese; (g.n.) 4.15.2 R3 4.15.2.1 Empresa cujo sócio com 90% do capital social era ROBSON BATISTA DE SOUZA SILVA. Tratou-se de empresa de fachada, constituída com fins de emissão de notas fiscais inidôneas. Nessa senda, ao (...) verificarmos as compras realizadas pela R3 no decorrer do ano de 2016, constatamos que mais de 83% delas decorrem de operações comerciais com o contribuinte TRAK INDUSTRIAL E COMÉRCIO DE METAIS LTDA. (...) No período de 07/2015 a 06/2019 a TRAK informou operar no mesmo endereço da empresa SUPER ZINCO, contudo conforme diligência realizada pela SEFAZ/SP não foi encontrada neste local; (g.n.) 4.15.2.2 (...) principal fornecedor da TRAK é a empresa JJE. Conforme intensamente demonstrado em tópico anterior, a JJE é noteira de primeiro nível, criada para dar lastro fiscal para noteiras de segundo nível. Desse modo, a cadeia de notas fiscais indica que a JJE emitia notas fiscais para a TRAK, que por sua vez, emitia documentos fiscais para a R3. Percebe-se a criação de lastro fiscal artificial na TRAK e consequentemente na R3, ratificado pela movimentação financeira da TRAK em 2016 que foi muito inferior ao informado como venda para R3; (g.n.) 4.15.2.3 Destaca o crescimento incomum do faturamento, visto que (...) logo no primeiro ano de operação consegue um faturamento de quase R$ 15 milhões, em 2016 salta para R$ 76 milhões e em 2017 mais um salto, alcançando R$ 107,82 milhões. Em 2018 não há emissão de notas fiscais. Além disso, a movimentação financeira da R3 foi incompatível, em 2016, diante dos valores informados de vendas e compras, sem olvidar que o principal fornecedor, a TRAK, (...) não recebeu recursos financeiros em conta corrente em volume compatível às notas fiscais de vendas emitidas por ela contra a R3, significa que esta última não pagou aquela empresa de fachada. Mais do que isso, a R3 pagou terceiros sem ter um documento fiscal para amparar a operação; (g.n.) 4.15.2.4 (...) Apesar do montante comprado e revendido de vergalhão de cobre, a R3 não apresentou GFIPs, indicativo da falta de mão de obra. Mais ainda, pelas informações acima, a R3 deveria ter um estoque final em 2016 de 7.435.502,41 kg de vergalhão de cobre. Fato impossível de ter ocorrido, tendo-se em vista a estrutura dos estabelecimentos informados nos cadastros da empresa. (...) Adicionalmente, trabalho fiscal realizado pela SEFAZ/SP constatou a inexistência do estabelecimento da R3 no Estado de SP. Diante do exposto, (...) é possível concluir que a R3 era: i. Intermediária na aquisição de sucatas para BRASCOPPER ao desamparo do documento fiscal correspondente; ii. De repassadora de pagamentos aos sucateiros; iii. Emitente de notas fiscais fraudulentas aos reais beneficiários, geradora de créditos do ICMS, da Contribuição para o PIS e da Cofins de forma artificial; (g.n.) 4.15.2.5 Registra a (...) operação de industrialização por encomenda realizada pela BRASCOPPER. Neste caso a R3, supostamente, envia matéria prima (sucata) para a BRASCOPPER, e esta, após o processo produtivo, supostamente, devolve vergalhão de cobre para R3. (...) Entretanto, após análise mais detalhada percebe-se que a BRASCOPPER não industrializou a sucata recebida da R3. Em Fl. 22516DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 14 momento seguinte ao recebimento da sucata de cobre da R3, a BRASCOPPER emitia uma nota fiscal para uma terceira empresa com capacidade operacional e técnica para industrializar vergalhão de cobre a partir da sucata (anexo 12B). O caso mais emblemático é o da CBL LAMINAÇÃO BRASILEIRA DE COBRE, CNPJ 57.686.404/0002-89, que no ano fiscalizado recebeu R$ 106.544.658,46 de sucata de cobre, na quantidade total de 6.554.947,31 kg, para realizar industrialização por conta e ordem da BRASCOPPER. Ou seja, apesar da R3 enviar sucata de cobre para a BRASCOPPER, quem de fato industrializava era a CBL; (g.n.) 4.15.2.6 (...) Todas as NFe relativas às remessas entre a R3 e a BRASCOPPER não tem indicação de transportador. (...) Não é coerente que a R3 encaminhe sucatas de cobre para a BRASCOPPER em São Luís do Maranhão, que depois envia para a CBL em São João da Boa Vista/SP e ao transformar em vergalhão faça todo o caminho de retorno;(g.n.) 4.15.2.7 Uma vez recebido os produtos industrializados, a R3 vende parte destes para a METALOX e terceiros. (...) Não faz sentido o preço praticado pela METALOX ao vender o vergalhão para a BRASCOPPER, ao compararmos com os valores com que comprou da R3. (...) Mas como mencionado, está comprovado que estas duas empresas, R3 e METALOX (tópico 6.4 deste TVF) são de fachada e a vantagem de a BRASCOPPER adquirir da METALOX seria o crédito de 18% de ICMS, enquanto as aquisições diretas da R3 rendiam 12%, considerando que o preço praticado era praticamente o mesmo; 4.15.2.8 (...) A BRASCOPPER enviou para a R3 5.020.220,10 kg de vergalhão de cobre, porém a R3 deu saída a apenas 2.762.521,00 kg mantendo em estoque 2.257.699,10 kg de vergalhão no fim do exercício de 2016. Fato impossível, tendo-se em vista o estabelecimento informado no CNPJ; 4.15.2.9 (...) Os valores que a SFERA TRANPORTES e a ANDRÉ LUIZ GIZOLDI EIRELI cobraram pela prestação de serviços de transportes da CBL, São João da Boa Vista/SP, para a Brascopper de Três Lagoas e de São Luís não são compatíveis com as distâncias entre as cidades, mais compatível com o endereço matriz da BRASCOPPER em Ribeirão Preto/SP; (g.n.) 4.15.2.10 (...) podemos concluir que as operações de industrialização por encomenda entre a R3 e a BRASCOPPER serviram para dissimular o encomendante da industrialização por encomenda realizada pelas laminadoras e dificultar o olhar do Fisco Federal e Estadual sobre o esquema fraudulento. (...) Serviram apenas como cortina de fumaça nos olhos da fiscalização, para que o vergalhão industrializado pela CBL e por outras laminadoras parecessem que não eram destinadas à BRASCOPPER. Fizeram aparentar pelas NFe emitidas e recebidas que o fornecedor de vergalhão de cobre ao processo fabril da BRASCOPPER eram as noteiras R3, METALOX, GLOBAL METAIS e COPPER GREEN. Esta armação tinha com o intuito obter créditos de ICMS, PIS e COFINS já que a aquisição de sucata de cobre pela BRASCOPPER, o que de fato aconteceu, não daria direito a crédito fiscais; (g.n.) 4.15.2.11 (...) Pelas informações anteriormente apresentadas, temos que a CBL emitiu notas fiscais para BRASCOPPER, representativas de industrialização por encomenda e informando o produto vergalhão de cobre, em um total de 5.869.167,00 kg (anexo 13B). Entretanto, conforme o anexo 29B, parte, efetivamente, nunca chegou a ter o destino da BRASCOPPER tendo sido desviado a terceiros; Fl. 22517DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 15 4.15.2.12 (...) Além da SUPER ZINCO outras empresas do grupo econômico emitiram NFe na mesma data que as emitidas pela CBL para a BRASCOPPER, com quantidades idênticas ou quase idênticas (anexo 29B). METALOX, IFE, PROCOBRE e TRAK agiram com modus operandi semelhante à SUPER ZINCO no desvio de vergalhões de cobre que deveriam ter como destino a BRASCOPPER; (g.n.) 4.15.2.13 (...) Pelo apresentado no anexo 29B é possível estimar que os desvios de vergalhões de cobre representaram aproximadamente 2.300.000,00 kg ou quase 40% do total das notas fiscais de industrialização por encomenda emitidas pela CBL para a BRASCOPPER, quantidade próxima do que a R3 deveria manter em estoque ao final do período de 2016; 4.15.3 SUPER ZINCO 4.15.3.1 (...) a noteira TRAK possuía o mesmo endereço cadastral que a SUPER ZINCO; (g.n.) 4.15.3.2 Os fatos apurados corroboram em favor de um único entendimento, a SUPER ZINCO foi utilizada para emissão de documentos fiscais inidôneos; 4.15.3.3 O Relatório da SEFAZ/SP. (...) a inscrição da SUPER ZINCO foi declarada nula, por simulação de existência do estabelecimento ou da empresa. (g.n.) 4.15.4 METALOX 4.15.4.1 Durante o período objeto da fiscalização, detinha 100% do capital social o Sr. FRANCISCO ATILA COSTA PALOSQUI. Em 02/06/2016, abriu filial em São Luis/MA no mesmo endereço ocupado pela filial da BRASCOPPER. (...) No dia 06/07/2016 a METALMAIS INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA foi admitida como sócia com 90% do capital social, remanescendo FRANCISCO. ROOSIVELT JARA PINTO foi nomeado administrador da METALOX, representando a METALMAIS. Contudo, consoante apontado pelo fisco estadual de São Paulo, o suposto sócio de fato é SYRIO MARTINS NETO; (g.n.) 4.15.4.2 Considerando que, quanto aos principais fornecedores de notas fiscais da METALOX - TRAK, JJE, COPPER GREEN e R3, constatou-se a inexistência de fato, R$ 260.602.408,90 das notas fiscais de vendas recebidas são fraudulentas, demonstrando o lastro fiscal artificial desta empresa de fachada; 4.15.4.3 Pelas informações e documentações obtidas, infere-se que a (...) METALOX é empresa de fachada e as notas fiscais emitidas pela noteira não representam a realidade. Ademais, atualmente (...) a situação cadastral da METALOX no CADESP encontra-se inapta, com ocorrência fiscal de cassada por participação em organização ou associação constituída para prática de fraude fiscal estruturada; 4.15.4.4 (...) A grande divergência entre créditos em conta bancária e notas fiscais de venda é um demonstrativo de que a empresa emitiu notas fiscais em valores muito superiores à entrada de recursos financeiros em conta corrente. Da mesma forma as saídas de recursos da conta bancária possuem valores muito inferiores às suas compras. (...) Como a TRAK, principal fornecedor da R3 e da METALOX, não recebeu recursos financeiros em conta corrente em volume compatível às notas fiscais de vendas emitidas por ela contra a METALOX, significa que esta última não pagou aquela empresa de fachada. Mais do que isso, a METALOX pagou terceiros sem ter um documento fiscal para amparar a venda. Essa mesma observação vale para o fornecedor JJE; (g.n.) Fl. 22518DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 16 4.15.4.5 (...) Apesar da falta de capacidade operacional da METALOX, ela foi utilizada para adquirir sucata para a BRASCOPPER sem a correspondente emissão de nota fiscal. Recebeu recursos financeiros do real adquirente da sucata, BRASCOPPER. Repassou estes recursos financeiros aos sucateiros pela mercadoria. Emitiu notas fiscais fraudulentas para o real beneficiário, a fim de reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, bem como gerou créditos indevidos do ICMS, da Contribuição para o PIS e da Cofins. Além disso, fluxograma das operações comerciais com a BRASCOPPER (...) demonstra a falta de lastro fiscal de todos os envolvidos. (g.n.) 4.15.5 GLOBAL 4.15.5.1 Quando foi fundada ocupava o mesmo endereço onde estavam localizadas a PROCOBRE e a COPAR no mesmo período, outras empresas do GRUPO BRASCOPPER. Ademais, em janeiro de 2016, o sócio era ROBSON BATISTA e ocupava o mesmo endereço da COPPER GREEN, também relacionada ao apontado grupo. Como as demais apresentadas, ao analisar a evolução do faturamento, infere- se que se trata de crescimento pouco comum; 4.15.5.2 Principais fornecedores são METALOX, JJE e TRAK, quer dizer faz parte do lastro fiscal formado na cadeia de suprimentos da BRASCOPPER. (...) Assim como as outras empresas de fachada apresentadas neste TVF, a GLOBAL possui curto tempo de atividade, tendo emitido notas fiscais apenas em 2016 e 2017. (...) Trabalho realizado pela SEFAZ/SP resultou na nulidade da inscrição estadual deste estabelecimento por simulação de existência (anexo 62A); (g.n.) 4.15.5.3 No que diz respeito à movimentação financeira, a (...) grande divergência entre créditos em conta bancária e notas fiscais de venda é um demonstrativo de que a empresa emitiu notas fiscais em valores muito superiores à entrada de recursos financeiros em conta corrente. Da mesma forma as saídas de recursos da conta bancária possuem um valor muito inferior às suas compras; (g.n.) 4.15.5.4 O endereço localizado em São Luís/MA a partir de 10/2016 é o mesmo do estabelecimento da METALOX e da BRASCOPPER, conforme verificado em tópico anterior. (...) Isso demonstra a estreita relação entre as empresas de fachada e a BRASCOPPER, como forma de utilizar documentos fiscais inidôneos a fim de obter benefícios fiscais; (g.n.) 4.15.5.5 (...) Portanto, temos a mesma situação narrada anteriormente quando tratamos da COPPER GREEN, R3 e METALOX. Os recebimentos da GLOBAL realizados pela BRASCOPPER foram utilizados para aquisição de sucata para esta última; 4.16 BRASCOPPER 4.16.1 (...) Portanto, em apenas um ano calendário a BRASCOPPER “adquiriu” produtos de empresas de fachada no valor total de R$ 130.606.336,88 e na quantidade total de 6.222.840,54 kg de vergalhão de cobre, produto impossível de ser produzido pelas ditas empresas; 4.16.2 (...) Praticamente, 90% das compras da BRASCOPPER no período decorrem de operações cujos documentos fiscais devem ser considerados inidôneos; 4.16.3 (...) Uma alternativa para que a BRASCOPPER tenha adquirido vergalhões de cobre foi através das aquisições de sucata de cobre se Fl. 22519DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 17 utilizando das noteiras e a consequente remessa para industrialização dessa sucata às laminadoras, conforme apresentado no subtópico 6.2.4. Assim, a BRASCOPPER conseguiria obter matéria prima utilizando-se de simulação; 4.16.4 (...) não era a BRASCOPPER quem industrializava a sucata em vergalhão de cobre. A fiscalizada encaminhava a matéria prima às laminadoras, em especial à CBL. Após a industrialização a CBL emitia uma nota fiscal de retorno da sucata, bem como uma nota fiscal de industrialização por encomenda, com o valor do serviço de industrialização prestado. A BRASCOPPER por sua vez emitia uma nota fiscal de devolução da sucata e uma nota de industrialização por encomenda para R3; (g.n.) 4.16.5 (...) Tendo-se em vista que a sucata não é tributada pela contribuição para o PIS e pela Cofins, e o adquirente da sucata de cobre não pode tomar créditos dessas contribuições. Ao criar empresas fantasmas a fim de ludibriar a fiscalização, realizando simulações de circulação de mercadorias através de notas fiscais fictícias, obtendo notas fiscais de vergalhão de cobre, produto industrializado e que dá direito ao crédito das contribuições, a BRASCOPPER obteve vantagem competitiva ao não apurar devidamente seus tributos. (g.n.) Da Fraude Fiscal – O Modus Operandi 4.17 (...) No curso desta fiscalização foram obtidos diversos indícios e provas que, se isoladamente levantam suspeitas sobre um esquema de fraude tributária envolvendo empresas de fachada, em conjunto têm a capacidade de estabelecer elevada certeza de que BRASCOPPER, na figura de seus administradores e integrantes, agiu com dolo no intuito de iludir o Fisco utilizando-se destas empresas NOTEIRAS para esquivar-se de suas obrigações tributárias;(g.n.) 4.18 (...) As noteiras de segundo nível utilizam-se de notas fiscais de noteiras de primeiro nível para obter lastro fiscal na aquisição de vergalhão de cobre, dando ares de veracidade na operação de fornecimento de vergalhão, mas na verdade as noteiras de segundo nível servem como intermediárias para que o real comprador de sucatas de cobre, BRASCOPPER, permaneça oculto para o Fisco Federal. Estas aquisições em sua maioria ocorrem sem o amparo de documento fiscal idôneo, realizadas com pessoas atuantes no ramo de materiais recicláveis denominados sucateiros; 4.19 (...) As noteiras de segundo nível emitem notas fiscais de vergalhão de cobre para a BRASCOPPER, esta realiza o pagamento pela suposta mercadoria adquirida, mas na verdade recebe sucata. As noteiras de segundo nível apenas realizam um repasse dos valores recebidos da BRASCOPPER aos sucateiros; 4.20 (...) Com base na Lei nº 11.196/200514, há a suspensão da incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins nas vendas de desperdícios, resíduos e aparas especificados no art. 48 para pessoa jurídica que apure o Imposto Sobre a Renda com base no lucro real. O art. 47 da Lei nº 11.196/2005 impede a utilização do crédito decorrente dessas compras. (...) Isto significa que ao adquirir sucata e transformá-la em vergalhão de cobre o industrializador arca com a carga tributária da Contribuição para o PIS e da Cofins, sem direito ao crédito pela aquisição da sucata. Mais ainda, a escrituração como custo das notas fiscais emitidas pelas empresas de fachada, corrompeu a contabilidade da BRASCOPPER, sendo possível afirmar que o valor apurado como custo não goza de exatidão ou veracidade, podendo até ter sido inflado a fim de gerar prejuízo no exercício. Esta última afirmação decorre da comprovação da relação promíscua entre BRASCOPPER e as empresas de fachada, inclusive com explicita confusão patrimonial, conforme discorrido no tópico 5; (g.n.) 4.21 (...) Conforme diligências realizadas pela SEFAZ/SP e o trabalho realizado por esta equipe fiscal ficou claro que as noteiras de segundo nível não possuíam Fl. 22520DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 18 capacidade para transformar sucata em vergalhão de cobre. A autoridade fiscal do Estado de SP considerou a inscrição estadual da R3, GLOBAL e COPPER GREEN nulas por simulação/inexistência de estabelecimento ou da empresa. A inscrição estadual da METALOX foi cassada por participação em organização constituída para a prática de fraude fiscal estadual; (g.n.) 4.22 (...) Por outro lado, para que tenha ocorrido a entrada do produto “vergalhão de cobre” no estabelecimento da BRASCOPPER é necessária empresa capaz de produzir este produto. Tanto a R3, COPPER GREEN, GLOBAL e METALOX não possuíam capacidade operacional e técnica para produzir “vergalhão de cobre”, conforme demonstrado neste TVF. Pelos dados coletados e analisados temos que: (g.n.) 4.23 (...) A BRASCOPPER adquiriu a sucata (operação 1). A BRASCOPPER remete a sucata para ser industrializada nas laminadoras (operação 2). As laminadoras devolvem vergalhão de cobre para a BRASCOPPER (operação 3). Isto representa que a BRASCOPPER não teria como se creditar da contribuição para o PIS e da Cofins pela aquisição de sucata em nenhum momento; 4.24 (...) Para poder levar os créditos para apuração das contribuições, a BRASCOPPER montou o grupo econômico com empresas de fachada e a partir de documentos fiscais inidôneos montou a fraude fiscal; 4.25 (...) Portanto, as noteiras de primeiro nível dão lastro fiscal para as noteiras de segundo nível, indicando a aquisição de vergalhão de cobre (operação 1). As noteiras de segundo nível emitem notas fiscais, cujo produto nelas estampado é o vergalhão de cobre, para a BRASCOPPER, assim gerando créditos da contribuição para o PIS e da Cofins (operação 2). Por fim, ocorre a industrialização por encomenda, cujo primeiro encomendante é a R3; 4.26 (...) Dessa forma, a R3 envia sucata de cobre à BRASCOPPER (operação 3). A BRASCOPPER encaminha a sucata de cobre à industrializadora CBL ou à JF Fl. 22521DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 19 PASQUA (operação 4). A laminadora “devolve” o produto industrializado vergalhão de cobre à BRASCOPPER (operação 5). E por fim, a BRASCOPPER “devolve” o vergalhão de cobre à R3 (operação 6). “Devolve”, pois parte deste vergalhão é desviado para terceiros (operações 7 e 8), conforme demonstrado no subtópico 6.2.5; (g.n.) 4.27 (...) No retorno da mercadoria da CBL para a BRASCOPPER (anexo 13B) há o destaque na nota fiscal eletrônica da contribuição para o PIS e da Cofins apenas sobre o serviço de industrialização por encomenda (CFOP 6124). No retorno da sucata de cobre da CBL para a BRASCOPPER continua sem a tributação das contribuições (CFOP 6902 e 6903); 4.28 (...) Portanto, se a BRASCOPPER operacionalizasse a industrialização por encomenda sem a utilização das NOTEIRAS continuaria sem direito ao crédito do ICMS, contribuição para o PIS e Cofins sobre a sucata de cobre adquirida. Ao adquirir sucata de cobre por meio das noteiras e recebendo notas fiscais destas informando vergalhão de cobre a BRASCOPPER consegue utilizar-se de créditos fictícios da contribuição para o PIS e da Cofins e do ICMS. Há ainda o fato de parte do vergalhão de cobre que deveria retornar da laminadora após a industrialização por encomenda ser desviada para terceiros conforme relatado no tópico 6.2.5; (g.n.) 4.29 (...) Considerando o modus operandi apresentado no fluxograma 3, por todas as provas e indícios apresentados, não seria possível aceitar a teoria de adquirente de boa-fé, conforme súmula 509 do Superior Tribunal de Justiça: (g.n.) 4.29.1 (...) O inegável ajuste de vontades entre BRASCOPPER e NOTEIRAS, como forma de reduzir a carga tributária da cadeia produtiva, todos, sem exceção são copartícipes na execução da fraude apresentada; (g.n.) 4.29.2 (...) O relacionamento entre BRASCOPPER e as empresas de fachada amplamente demonstrado no decorrer deste trabalho fiscal, inclusive com gerencia financeira de conta corrente bancária da autuada por integrantes da FAMÍLIA MARTINS e da FAMÍLIA MEGIOLARO (tópico 5), utilização do mesmo estabelecimento pela BRASCOPPER e pelas empresas de fachada, repasses de valores recebidos da BRASCOPPER pelas empresas de fachada aos sucateiros (simulação dos pagamentos), entre outros elementos apresentados anteriormente, demonstram de forma clara e direta o conluio entre as partes para o cometimento do ilícito, inclusive podendo-se afirmar a existência de verdadeiro grupo econômico com fartas provas de confusão patrimonial; 4.29.3 (...) A omissão ou idoneidade das notas fiscais que circularam entre os sucateiros, as empresas de fachada e a BRASCOPPER, impedem conhecer os aspectos qualitativos e quantitativos dos produtos (sucata ou vergalhão de cobre, quantidade e valor) de forma correta e que afetam sobremaneira o cálculo do lucro real, além dos créditos e débitos da Contribuição para o PIS e da Cofins. A título exemplificativo, a empresa de fachada poderia ter emitido notas fiscais em valores e quantidades duplicadas em comparação ao que foi entregue pelas laminadoras, permitindo o prejuízo fiscal apurado pela BRASCOPPER em 2016. Além disso, parte do vergalhão de cobre que deveria retornar à BRASCOPPER após a industrialização por encomenda nas laminadoras foi desviado para terceiras empresas; (g.n.) 4.29.4 (...) Da inegável vantagem competitiva, decorrente da economia tributária obtida com a fraude tributária, operacionalizada pelo GRUPO BRASCOPPER com a utilização das laminadoras para aquisição de vergalhão de cobre. 4.30 (...) Ora, apesar do Fisco constatar a inidoneidade das notas fiscais posteriormente à utilização dos créditos pelo comprador, conforme a súmula 509 do STJ, foi verificado e apresentado neste TVF o fato do comprador conhecer de antemão a inidoneidade das notas fiscais das empresas de fachada. Muito embora o Fl. 22522DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 20 cadastro das emitentes de notas fiscais estivesse regular à época da realização dos negócios, a BRASCOPPER mais do que ter ciência dos ilícitos, era participante ativa da fraude tributária; (g.n.) 4.31 (...) Fato é, ocorreu fraude fiscal estruturada. A BRASCOPPER tinha ciência da falta de capacidade operacional e econômica da GLOBAL, R3, METALOX e COPPER GREEN e mesmo assim as utilizou com o intuito de obter créditos fraudulentos e superfaturar seus custos. (g.n.) 4.32 (...) A tabela acima demonstra a má fé do GRUPO ECONÔMICO, pois apesar dos milhões de reais emitidos em notas fiscais, não ocorreu a constituição ou o pagamento de tributos em valores condizentes; Da Contabilidade Imprestável e o Arbitramento do Lucro 4.33 (...) Conforme ficou demonstrado, foram escrituradas na contabilidade da BRASCOPPER muitas notas fiscais que relatam operações fictícias (notas frias), referentes a operações que não tiveram a efetiva saída ou entrada de mercadorias nos estabelecimentos envolvidos. Praticamente 90% do custo informado é proveniente de notas fiscais inidôneas; (g.n.) 4.34 (...) Conforme visto no decorrer deste TVF, as empresas de fachada GLOBAL, METALOX, R3 e COPPER GREEN sistematicamente e reiteradamente por todo período fiscalizado emitiram notas fiscais fraudulentas informando vendas de vergalhão de cobre para a BRASCOPPER. Receberam pelas notas fiscais e quase que simultaneamente repassaram esses recursos aos sucateiros. Além disso, foi utilizada empresas do próprio grupo econômico para o “transporte” dos vergalhões de cobre, RG ALVES e RBS; 4.35 (...) O que está escriturado na contabilidade da BRASCOPPER são pagamentos para as empresas de fachada pela compra de vergalhão de cobre. O que de fato ocorreu foi a compra de sucata pela BRASCOPPER. O real fornecedor é a sucateira. O real pagador da sucata é a BRASCOPPER. As empresas de fachada eram intermediárias para emissão de documentos fiscais inidôneos e repasse dos recursos financeiros oriundos da BRASCOPPER; (g.n.) 4.36 (...) Igualmente, vemos documentalmente e escriturado na contabilidade da fiscalizada que o encomendante da industrialização por conta e ordem é a R3. Mas de fato, todas as provas apontam que o real encomendante é a BRASCOPPER; 4.37 (...) Isto representaria um incremento brutal da base de cálculo do IRPJ, e a possibilidade de que a tributação deixasse de alcançar apenas o lucro real, e passasse a alcançar parte da receita bruta da empresa. Impossível precisar, dada a imprestabilidade da contabilidade. Desse modo, a glosa dos custos inidôneos implicaria em distorção da base de cálculo, que pode deixar de ser apenas o lucro, e passaria a incluir parte das receitas do contribuinte. Para eliminar essa distorção, é correto a utilização do arbitramento para encontrar a base de cálculo do tributo; (g.n.) 4.38 Ora, a contabilidade da empresa indica pagamentos pela compra de vergalhão de cobre, mas a realidade fática colhida pelas provas e indícios agrupados não demonstra isso. Portanto, o fluxo financeiro expresso na contabilidade não representa a realidade fática comprovada por diligências fiscais, dados e informações coletadas nos sistemas da RFB, dados compartilhados com o Fisco Estadual de São Paulo, entre outros; (g.n.) 4.39 (...) Por todo o exposto, constatado que as informações contábil-financeiras não representam com fidedignidade a realidade dos fatos e das operações comerciais da BRASCOPPER, a mesma não pode ser utilizada para as verificações necessárias à presente auditoria-fiscal, sendo considerada imprestável. (...) Nestes termos, a impossibilidade de comprovação direta da base cálculo originária é condição necessária e suficiente para a aplicação do arbitramento; (g.n.) 4.40 (...) A existência das fraudes apontadas no decorrer deste trabalho torna a contabilidade e a escrituração de seus livros imprestáveis, fato que impossibilita o Fl. 22523DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 21 Fisco verificar com exatidão o lucro real oferecido à tributação. Quer pela inveracidade da escrituração apresentada, quer pela impossibilidade de sua reconstituição pela inexistência de documentação idônea, fato é que o lucro deverá ser arbitrado; (g.n.) Da Receita Bruta da Empresa 4.41 (...) Para determinar a Receita Bruta da empresa, tomaremos como base as notas fiscais emitidas pela BRASCOPPER, e expurgaremos as notas fiscais que relatam operações fictícias identificadas no presente Termo de Verificação Fiscal. Logo, serão desconsideradas todas as industrializações por encomenda e vendas que a BRASCOPPER realizou para as empresas do GRUPO ECONÔMICO. Isso se deve ao fato que o real industrializador foram as empresas laminadoras; (g.n.) 4.42 (...) chegamos ao valor da receita bruta conhecida de R$ 251.211.657,76 em 2016 para BRASCOPPER, a ser utilizada no cálculo dos tributos devidos. Na tabela a seguir procedemos à demonstração mensal dos valores apurados: 4.43 (...) Determinada a receita bruta conhecida da empresa, passamos então à apuração dos tributos devidos. (...) Em relação ao IRPJ, o contribuinte está sujeito ao percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta para apuração da base de cálculo (...). Este percentual deverá, ainda, ser acrescido de 20% (vinte por cento) (...). (...) Em consequência do arbitramento do lucro, por apresentar escrituração com evidentes indícios de fraudes que a tornaram imprestável, será utilizado o percentual de 12% (doze por cento) sobre a receita bruta para fins de apuração da base de cálculo da CSLL, bem como adoção do regime cumulativo para apuração da Contribuição para o PIS e da Cofins (alíquotas de 0,65% e 3,00%, respectivamente, sobre a receita bruta). Por fim, resta informar que a BRASCOPPER não declarou débitos do IRPJ, da CSLL, da contribuição para o PIS e da Cofins no período fiscalizado; Dos Pagamentos à Beneficiários Não Identificados ou Sem Comprovação da Operação/ Causa 4.44 (...) os pagamentos realizados pela BRASCOPPER a integrantes do grupo econômico (noteiras) não possui causa (no sentido econômico), pois não correspondem a pagamentos realizados pela compra da mercadoria estampada nas notas fiscais (vergalhão de cobre) recebidas das noteiras. Além disso, os reais beneficiários destes pagamentos não são as emitentes de notas fiscais (noteiras), Fl. 22524DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 22 mas sim os sucateiros. Portanto, as noteiras realizaram meros repasses dos recursos financeiros recebidos da BRASCOPPER;(g.n.) Da Infração à Lei 4.45 (...) Verifica-se, de forma inequívoca, que o contribuinte se utilizou dos seguintes artifícios para reduzir os tributos devidos, infringindo à legislação vigente: 4.45.1 (...) Criação de empresas de fachadas para emissão de notas frias (FRAUDE); 4.45.2 (...) Utilização de notas frias de entrada para aproveitamento de crédito tributário indevido (FRAUDE); 4.45.3 (...) Simulação de pagamento a fornecedores de notas frias, sucedida de emissão de notas frias de industrialização por encomenda para retorno de parte do dinheiro da simulação (FRAUDE); 4.45.4 (...) GRUPO ECONÔMICO com participação ativa dos administradores da BRASCOPPER, FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO (CONLUIO); Da Sujeição Passiva 4.46 (...) o GRUPO BRASCOPPER era mais do que um grupo econômico de fato. Trata-se de uma organização, nos termos da Lei nº 12.850/2013, que funcionava de forma estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas para operacionalizar os crimes planejados, sempre com o objetivo de fraudar o Fisco; 4.47 (...) No GRUPO BRASCOPPER, a estrutura e divisão de tarefas obedecia a esta hierarquia piramidal, composta por três níveis: chefes, operadores e executores. No topo da pirâmide, atuando como mentores intelectuais de todo o esquema de fraude, foram identificados quatro chefes, todos eles sócios da todos eles envolvidos na gerência operacional e financeira: CLEDER CORRAL PROVÊNCIO, CPF 020.248.878-05; CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, CPF 005.441.868-26; RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, CPF 035.656.818-02; MARIA TEREZA NOGUEIRA, CPF 037.657.648-09; 4.48 (...) Conforme a instituição financeira SICREDI MS/TO, RENATO era o responsável financeiro da BRASCOPPER, e de outras empresas de fachada. Como representante financeiro era ele quem autorizava as operações de valores mais relevantes. (...) Para obter essa posição de controle financeiro da conta corrente pertencente a BRASCOPPER, contou com a autorização dos sócios administradores da empresa. (...) Ainda, outros indícios apontam que o escritório onde era operacionalizada a fraude fiscal localizava-se em Jundiaí/SP; 4.49 (...) Abaixo dos chefes da organização foram identificados cinco operadores, todos com funções definidas e ligadas à fraude de emissão e escrituração de notas frias. São eles: SYRIO MARTINS NETO, CPF 693.597.501-82; GABRIELA EMER, CPF 026.769.509-83; MARCOS VINICIUS PASSOS MARTINS, CPF 907.806.391- 20; JOSÉ RICARDO PASSOS MARTINS, CPF 017.150.311-21; FABIO CZERKES SANTANA, CPF 294.032.458-16; RONALDO MEGIOLARO, CPF 029.276.498-71; THOR GREGORI MEGIOLARO, CPF 410.133.278-96; 4.50 (...) SYRIO, seu cônjuge GABRIELA EMER e seus irmãos JOSÉ RICARDO e MARCOS VINICIUS tinham função ligada à parte administrativa de emissão de notas frias, ou seja, ajudavam os chefes a administrar as empresas de fachada R3, METALOX, COPPER GREEN, IFE e GLOBAL. Eles eram responsáveis, dentre outras tarefas, por aliciar sócios-laranjas para compor o quadro societário das noteiras, e por locar os imóveis e montar toda a estrutura de fachada destas empresas, incluindo a contratação de funcionários para manter a operação de fachada e/ou emitir notas frias. MARCOS VINÍCIUS ainda era responsável por movimentar a conta corrente da BRASCOPPER mantida na instituição financeira SICREDI, através da funcionalidade de internet bank; Fl. 22525DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 23 4.51 (...) Já FABIO CZERKES também ajudava os chefes na parte administrativa das noteiras mistas PROCOBRE, IFE e COPAR. 18 Administrava a emissão de notas fiscais inidôneas dessas empresas. FABIO é sócio administrador da PROCOBRE e ex-sócio administrador da COPAR e da IFE; 4.52 (...) RONALDO MEGIOLARO e THOR GREGORI MEGIOLARO eram os responsáveis pela administração da empresa de fachada COPPER GREEN. Isso é perceptível pela presença de RONALDO durante diligência da SEFAZ/SP no estabelecimento da COPPER GREEN. Durante a diligência RONALDO afirmou representar a empresa BRITH, cujo sócio administrador é seu filho THOR. No estabelecimento da COPPER GREEN foram encontrados apenas funcionários, maquinários e equipamentos da empresa BRITH; 4.53 (...) Ainda, foram identificados vários executores. Dentre os identificados, destacamos os quatro listados a seguir, por terem ligação direta às irregularidades fiscais cometidas pela BRASCOPPER: ROOSIVELT JARA PINTO, CPF 001.947.531-40; ROBSON BATISTA DE SOUZA E SILVA, CPF 822.224.101-00; FRANCISCO ÁTILA COSTA PALOSQUI, CPF 896.773.741-68; RONALDO GONÇALVES ALVES, CPF 481.244.861-15; ALVARO AUGUSTO PINHO E SILVA, CPF 922.702.631-20; 4.54 (...) Estas pessoas ainda que aparecessem nos quadros societários de algumas destas empresas de fachada, não possuíam poder de comando, servindo como “boi de piranha” para os órgãos fiscalizatórios, como a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo e para Receita Federal do Brasil. Apesar disso, elas tiveram participação ativa na fraude fiscal, e algumas delas receberam valores relevantes das empresas de fachada; DA IMPUGNAÇÃO IMPETRADA PELA BRASCOPPER EM CONJUNTO COM CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS 5 Cientes da autuação a Autuada em 20/09/2021, Aviso de Recebimento – AR, às fls. 11.556, e o Responsável Solidário Sr. CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, CPF 005.441.868-26, em 21/09/2021, AR, às fls. 11.557, no dia 19/10/2021 impugnaram, através de única peça, os lançamentos, às fls. 11588/11657, e, citando doutrina e jurisprudências administrativas e judiciais, arguiram, além da tempestividade, os seguintes pedidos e causa de pedir sintetizados: Da Síntese da Demanda 5.1 (...) Segundo a Fiscalização, a alegada infração decorre de suposto planejamento tributário abusivo, com a utilização de empresas criadas apenas com a finalidade de emitir notas fiscais inidôneas, que permitiria à BRASCOPPER aumentar artificialmente seus custos e levantar créditos de PIS/COFINS e ICMS e, por conseguinte, reduzir indevidamente sua carga tributária; 5.2 (...) a Contribuinte não pode considerar válida, tampouco legítima, a acusação fiscal de formação de grupo econômico e de adquirente de má-fé de mercadorias (a) fundamentada nas frágeis premissas fáticas relacionadas no item 9 acima; e (b) que negam dados de realidade absolutamente inafastáveis, quais sejam: 5.2.1 (...) a BRASCOPPER estava, como ainda está, em processo de recuperação judicial e, como tal, está submetida a rigoroso acompanhamento administrativo e judicial de suas operações, o que é, por definição e princípio, torna inverossímil a alegada formação de grupo econômico e a prática de fraude superior a R$130 Milhões em um único ano- calendário. Em outros termos, não seria possível sequer em tese à BRASCOPPER preceder a fraudes e irregularidades de monta aproximada de 90% das suas aquisições de cobre, tal como é afirmado pela Fiscalização; 5.2.2 (...) a BRASCOPPER não tinha (como ainda não tem) maquinário e capacidade operacional para transformar sucata em vergalhões de cobre, conforme reconhecido pela própria Fiscalização e é também ratificado pelo inventário constante do referido processo de recuperação judicial. Portanto, Fl. 22526DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 24 com a devida vênia, não faria o menor sentido econômico à BRASCOPPER adquirir a quantidade de sucata especulada pela Fiscalização. A industrialização por encomenda de “sucata” referida no TVF (a) abrange somente parte das operações da BRASCOPPER e (b) está perfeitamente identificada na contabilidade da Contribuinte como tal (industrialização de sucata por encomenda), nas quantidades indicadas pela Fiscalização no TVF; 5.2.3 (...) a BRASCOPPER realizou a venda de 6.456.161,30kg de vergalhões de cobre e produtos acabados (fios e cabos elétricos) a terceiros, o que não apenas não foi controvertido pela Fiscalização como, ao contrário, serviu de base para o arbitramento de lucro e lançamento das contribuições ao PIS/COFINS. Ora, é até intuitivo que, se vendeu produtos à base de cobre sem prévia industrialização própria, é porque antes os adquiriu perante terceiros, conforme adequadamente retratado em seus lançamentos contábeis. Como se disse, a operação de industrialização de sucata por encomenda não explica a entrada da quantidade de vergalhões de cobre revendida pela BRASCOPPER, pois essa industrialização é bastante inferior e encontra registro específico e destacado na contabilidade da Contribuinte, registro esse distinto daquele relativo ao vergalhão de cobre adquirido para revenda. Data vênia, mais absurda ainda é a especulação fiscal de que essas notas poderiam ter superdimensionado as compras da Contribuinte, considerada a evidente necessidade de compra do total dessas mercadorias para fazer frente à quantidade revendida; 5.2.4 (...) Diferentemente das demais empresas relacionadas no TVF, que se verificou a posteriori terem sócios “laranjas” e não terem mercado consumidor cativo, a BRASCOPPER é empresa existente de fato desde 1984 e com quadro societário estável, conforme reconhecido pela Fiscalização. Não interessa comercial e/ou juridicamente à BRASCOPPER e a seus sócios realizar operações simuladas nos volumes citados para mera apropriação de créditos de ICMS e PIS/COFINS. Fosse esse o intuito, a BRASCOPPER teria simplesmente tomado tais créditos e, se o caso, discutido eventual indeferimento de seu aproveitamento em instâncias administrativas e judiciais. A propósito, diga-se que não é procedente sequer a alegação de que a aquisição de sucata jamais daria créditos de PIS/COFINS à BRASCOPPER, conforme reconhecido pelo Plenário do C. STF no RE 607.109; 5.2.5 (...) tivessem efetivamente arquitetado e se beneficiado de “esquema” de R$ 130 Milhões em apenas um ano-calendário, a BRASCOPPER e seus sócios certamente estariam em situação econômica bastante mais vantajosa do que a atual. Tanto a BRASCOPPER como seus sócios estavam em 2016 (como ainda estão em 2021) em precária situação financeira, com cobranças administrativas e judiciais e risco de perda da integralidade de seu patrimônio, conforme fazem prova os documentos em anexo (Doc. 3). Em momento algum a Fiscalização apontou (a) “circulação/retorno” de dinheiro proveniente das empresas em favor da BRASCOPPER ou, ainda, (b) a fruição, pelos sócios da Contribuinte, de recursos que tenham sido recebidos por essas empresas, provenientes ou não da BRASCOPPER; 5.2.6 (...) as empresas tidas como “noteiras” pela Fiscalização (a) não foram constituídas pelos sócios da BRASCOPPER, (b) não tiveram mínima ingerência administrativa ou financeira deles (sócios da Contribuinte) e (c) celebravam outros negócios jurídicos com terceiros, sem que isso trouxesse qualquer benefício financeiro direto ou indireto à BRASCOPPER. As 3 (três) circunstâncias citadas são constatáveis da leitura do TVF. 5.3 (...) Claramente não há grupo econômico entre citadas empresas (seja por ausência de unidade de gestão, seja por inexistência de confusão patrimonial, já que os valores recebidos pelas empresas jamais beneficiaram a BRASCOPPER ou Fl. 22527DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 25 seus sócios). Obviamente houve a aquisição de vergalhões de cobre para revenda nas quantidades e pelos preços informados pela BRASCOPPER. Do contrário, seria forçoso admitir como inexistentes também as vendas (desses mesmos vergalhões e de cabos produzidos a partir destes) e a receita delas decorrente. Desde já, portanto, a BRASCOPPER pede vênia para reafirmar que as “evidências de realidade” acima apresentadas não podem ser desconsideradas, pois são tão ou mais contundentes do que as evidências colhidas (a posteriori) pela Fiscalização sobre a ausência de substância operacional das empresas citadas; Da Síntese dos Argumentos da BRASCOPPER 5.4 A BRASCOPPER protesta em favor da insubsistência dos lançamentos, pelas seguintes razões: 5.4.1 (...) não há formação de grupo econômico entre Brascopper e as demais empresas arroladas no TVF. A BRASCOPPER e seus sócios jamais se beneficiaram dos recursos auferidos por tais empresas, como também jamais praticaram atos de gestão em relação a essas pessoas jurídicas. Os estabelecimentos (da BRASCOPPER e das empresas) sempre foram distintos e autônomos entre si; 5.4.2 (...) a BRASCOPPER é adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre revendidos a terceiros, com ou sem transformação em cabos, revendas essas que jamais foram colocadas em dúvida pela Fiscalização. Citada aquisição e a emissão dos documentos fiscais correspondentes ocorreram em data bastante anterior à decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas. Além disso, o processo de produção da BRASCOPPER – (descrito em laudo pericial anexado aos autos – Doc. 4) - é indício seguro e suficiente de que não seria possível a ela realizar citadas revendas sem que tivesse feito a aquisição respectiva, considerada sua incapacidade operacional para transformar sucata de cobre em vergalhões. A industrialização de sucata por encomenda referida no TVF – tida como única operação realizada pela BRASCOPPER em 2016 - representa em verdade apenas parte de suas operações e está expressamente registrada na contabilidade da Contribuinte pelas mesmas quantidades indicadas pela Fiscalização no TVF; 5.4.3 (...) ainda que a infração principal imputada à BRASCOPPER fosse procedente, o que se admite apenas para argumentar, o arbitramento seria nulo, seja por representar medida excepcional inadequada ao caso (conforme precedentes do CARF que estabelecem que a glosa de 51,43% dos custos não é suficiente para esse procedimento), seja por ter sido apurada com base em elementos extraídos da contabilidade da Contribuinte paradoxalmente tida como imprestável pela Fiscalização. A “receita bruta conhecida” utilizada para fins de arbitramento foi auferida por meio de contas contábeis de receita da Contribuinte e notas fiscais, e não por meio de seus extratos bancários, como seria de rigor, que comprovariam os ingressos de recursos no período; 5.4.4 (...) a exigência de IRRF sob alegado pagamento sem causa também seria improcedente, (a) seja pelo fato de a causa do pagamento ter sido indicada pela própria Fiscalização (aquisição de cobre para revenda), (b) seja pela impossibilidade de se exigir esse tributo quando concomitante à exigência de IRPJ e CSLL decorrente da glosa dos custos correspondentes; 5.4.5 (...) ainda subsidiariamente, considerada a inexistência de grupo econômico entre as empresas referidas e o fato incontroverso de que a BRASCOPPER efetivamente adquiriu a quantidade de vergalhão de cobre contabilizada para revenda a terceiro ou industrialização de fios e cabos elétricos, seria ao menos de se admitir que não há fraude ou simulação suficiente para a qualificação da penalidade de ofício e a imposição de responsabilidade solidária em relação a seus sócios administradores, notadamente o Sr. Carlos Eduardo. Fl. 22528DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 26 Do Mérito – Considerações Preliminares sobre a BRASCOPPER e sua Condição Econômica 5.5 No que se refere à demanda pela matéria prima cobre, uma das principais utilizadas no processo produtivo de condutores elétricos, a Defesa admite que a cadeia logística internacional formatada pela BRASCOPEER e o relacionamento com a CARAÍBA/PARANAPANEMA, restou inviabilizados devido autuação fiscal lavrada pela SEFAZ-SP e pedido de recuperação judicial em 23/05/2014 (processo n. 1016103-17.2014.8.26.0506). Diante deste fato (...) a BRASCOPPER foi obrigada a obter suprimento de cobre no mercado interno, como a maior parte das fabricantes de condutores elétricos nacionais. (...) Por razões técnicas e econômicas, a BRASCOPPER não foi capaz de realizar elevado investimento necessário para construir uma unidade de transformação do cobre no seu estado bruto em vergalhões, seja pela transformação de cátodos de cobre eletrolítico (processo upcasting), seja pela transformação de sucatas de cobre (o chamado processo de laminação a quente de cobre “refinado a fogo” - RAF); (g.n.) 5.6 (...) Nestas circunstâncias, se de um lado a BRACOPPER tinha a ALCOA como sua fornecedora de alumínio, haja vista o contrato de fornecimento firmado pelo período de 15 (quinze) anos, no mercado de cobre a BRASCOPPER foi obrigada a adquirir o material de empresas sem o mesmo renome, mas que vinham atuando fortemente no mercado interno, atendendo grande parte da indústria nacional, inclusive os concorrentes da BRASCOPPER na indústria de fios e cabos de energia. (...) Com as informações que detinha à época, não se poderia imaginar que se tratava de empresas inidôneas; Do Mérito – Da inexistência de grupo econômico entre a BRASCOPPER e as empresas arroladas no AI: improcedência dos “indícios” apontados pela Fiscalização 5.7 (...) Com o devido respeito à Fiscalização, em que pese a BRASCOPPER ter (assim como diversas outras indústrias de laminação e fabricação de condutores elétricos) adquirido vergalhão de cobre das empresas declaradas inidôneas e ter se relacionado com pessoa de MARCOS VINICIUS MARTINS, concedendo-lhe poderes para movimentar conta bancária no SICREDI e não se opondo à abertura de filial da empresa METALOX em seu endereço em São Luís, tais circunstâncias estão longe de caracterizar “GRUPO BRASCOPPER”, expressão visivelmente utilizada como força de expressão argumentativa. (...) Se algum grupo pode ser deduzido dos elementos trazidos no TVF, esse grupo é o “GRUPO MEGIOLARO” ou ainda “GRUPO MARTINS-MEGIOLARO”, jamais “GRUPO BRASCOPPER”, como se esta capitaneasse um esquema fraudulento que parece ter abastecido todo o mercado nacional de cobre oriundo de sucatas. (g.n.) 5.8 (...) A METALOX é empresa constituída na década de 1990 e que possui longo e antigo relacionamento comercial com a BRASCOPPER. (...) Logo se vê que a atuação da METALOX na recuperação de metais é antiga, bem como seu relacionamento com a BRASCOPPER, de modo que não havia motivos para a BRASCOPPER suspeitar da idoneidade da METALOX; (g.n.) 5.9 (...) Ainda como prova da capacidade técnica da METALOX, ressalta-se que, por muitos anos, ela foi cadastrada no BNDES como fabricante de equipamento “finamizável”, isto é, passível de financiamento pelo programa Finame do BNDES. Tratava-se do produto “linha de fundição e laminação contínua de alumínio” (Doc. 05). (...) Cumpre observar ainda que, nos anos de 2015 e 2016, a empresa METALOX se encontrava em recuperação judicial, o que reforçava a aparência de legalidade das atividades por ela realizadas; 5.10 (...) Nada obstante, sustenta a autoridade fiscal que a METALOX foi utilizada pela BRASCOPPER para adquirir sucata sem a correspondente emissão de nota fiscal. (...) A realidade, contudo, é diversa. A BRASCOPPER de fato adquiriu, pagou e recebeu vergalhões de cobre da METALOX, material este que revendeu ou inseriu em seu processo produtivo, transformando o insumo em condutores elétricos. Consoante observado supra, historicamente a METALOX atuava no setor Fl. 22529DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 27 metalúrgico e possuía notória capacidade técnica, ao contrário do que supôs a Fiscalização; 5.11 (...) a BRASCOPPER arrendou o bloco E de sua unidade em Três Lagoas à CONDEL, empresa que se mostrava idônea, com sócios que residiam no estado do Mato Grosso do Sul e que aparentavam possuir plena capacidade financeira para explorar a fábrica arrendada. (...) Cumpre observar que, inicialmente, a CONDEL realizou reformas no bloco arrendado e, por isso, a BRASCOPPER tolerou por algum período a ausência de pagamentos devidos pelo arrendamento. (...) No entanto, embora tenha realizado reformas no local, a inadimplência da CONDEL perdurou, até que a BRASCOPPER exigiu a saída da empresa do local; 5.12 No tocante à inferência sobre direção única e confusão patrimonial que sustentou a afirmativa da existência de um grupo econômico de fato entre a BRASCOPPER e as empresas GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN, COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO e GCP, a Defesa assevera (...) que inexiste grupo econômico entre citadas empresas e a BRASCOPPER. Esta, repita-se, limitou-se a adquirir vergalhões de cobre de algumas das empresas citadas, bem como a encomendar perante a CBL a transformação de sucatas em vergalhões, a pedido da empresa R3. 5.13 (...) A bem da verdade, a Fiscalização não comprovou, em realidade sequer descreveu, atos de direção e/ou controle praticados por sócios ou funcionários da BRASCOPPER sobre as empresas R3, METALOX, COPPER GREEN, GLOBAL, ou ainda sobre os membros das famílias MARTINS e MEGIOLARO. (...) Não há no TVF qualquer menção a ordens, controles, determinações ou gestões dos sócios da BRASCOPPER (CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS e CLEDER CORRAL PROVENCIO) ou mesmo funcionários seus, sobre as empresas “de fachada” ou “noteiras”, seus sócios, operadores ou executores. (...) Isto é, inexiste qualquer depoimento ou elemento indiciário no sentido de que os sócios da BRASCOPPER (CARLOS EDUARDO e CLEDER) ou ainda algum funcionário da BRASCOPEPR, tenham realizado qualquer forma de direcionamento, condução, orientação ou coordenação, sobre as atividades das empresas inidôneas, seus sócios, executores ou coordenadores. Mesmo porque isso jamais ocorreu. (...) Outrossim, o TVF não descreve intermediações com sucateiros ou ganhos pessoais de sócios da BRASCOPPER, tampouco suscita a utilização de pessoas interpostas, como familiares ou “laranjas”, para movimentar “empresas de fachada”, ao contrário do que foi amplamente descrito quanto às empresas “noteiras”, a família MARTINS e a família MEGIOLARO; 5.14 (...) Para demonstrar a contradição consistente na afirmação da Fiscalização de que haveria um “GRUPO BRASCOPPER”, veja-se que o TVF menciona que “empresas listadas como integrantes do grupo econômico BRASCOPPER foram utilizadas para beneficiar outras empresas além da BRASCOPPER”. (...) Ora, como poderia se tratar de um “GRUPO BRASCOPPER” se as empresas chamadas “noteiras” se relacionaram com diversas outras indústrias do setor em atividades que não guardaram qualquer relação com a BRASCOPPER? 5.15 Ressalva que o depoimento da CONDEX, única empresa existente de fato, desqualifica a existência do multicitado grupo econômico, ao citar que o Sr. RENATO MEGIOLARO era “gestor comercial” de várias empresas – aqui destaca que a BRASCOPPER e tampouco seus sócios não são mencionados -. (...) Além disso, a CONDEX informa que negociava com o mesmo RENATO MEGIOLARO, e com seu representante MAURICIO ROBERTO RALDI, a compra de cobre proveniente da PLASINCO, CBL, JF PASQUA e CECIL LANGONE. (...) Aqui fica claro que RENATO MEGIOLARO não negociava materiais provenientes da BRASCOPPER, embora negociasse a venda de vergalhões de cobre provenientes de grandes indústrias nacionais. (g.n.) 5.16 (...) Outrossim, os elementos trazidos no TVF não demonstram qualquer “confusão patrimonial” entre as empresas. Com efeito, o relato não aponta Fl. 22530DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 28 transferências de bens de capital entre as empresas, assunção de despesas de outras despesas pela BRACOPPER, transferências de recursos financeiros desvinculados com a movimentação de mercadorias, ou ainda qualquer forma de benefício econômico final por parte da BRASCOPPER ou seus sócios. (...) Em realidade, pela BRASCOPPER transitaram apenas os valores de compras e vendas de vergalhões, bem como os valores referentes às industrializações por encomenda realizadas junto à CBL, em favor da R3; 5.17 Em relação à procuração concedida a Marcos Vinícius para realizar pagamentos a fornecedores, a Fiscalizada afirma que (...) concedeu procuração a MARCOS VINICIUS MARTINS para que este realizasse alguns pagamentos a fornecedores por meio de conta aberta perante o SICREDI MS TO. Acrescenta que não detinha capital de giro e toda a atividade era financiada por capital de terceiros, que se tornaram agentes de crédito que concediam financiamento à BRASCOPPER (mediante fomento de matéria prima e/ou antecipação de recebíveis/duplicatas), contudo exigiam (...) conhecimento absoluto e diuturno sobre a aplicação dos recursos financeiros que era antecipados para o giro do negócio; 5.18 Em favor de viabilizar o pleno conhecimento dos agentes financiadores sobre as movimentações financeiras da BRASCOPPER, dois expedientes eram frequentemente utilizados: contas Escrow e consultorias especializadas em reestruturação. (...) Foi neste contexto que sobreveio a autorização para que MARCOS VINICIUS MARTINS realizasse pagamentos a fornecedores por contas da BRASCOPPER junto ao Sicredi MS TO e, com isso, pudesse realizar algumas movimentações financeiras relacionadas às operações de compra e venda de cobre, bem como de remessa para transformação. Afinal de contas, para uma empresa que trabalhava com Contas Escrow, não parecia inusual autorizar um terceiro a realizar determinadas movimentações financeiras; 5.19 Dentre as afirmações sobre MARCOS VINICIUS, a Defesa sustenta que o mesmo demonstrou articulação no setor de cobre e no setor de condutores elétricos, bem como (...) que sabia de uma dívida da BRASCOPPER junto à SUPER ZINCO, no montante histórico de R$ 607.587,552, e que poderia viabilizar numa solução; que estava em tratativas para comprar a empresa METALOX, onde realizaria investimentos para que esta voltasse a trabalhar com laminação de cobre; que tinha interesse em arrendar parte da fábrica da BRASCOPPER no Mato Grosso do Sul; que conhecia interessados em arrendar a fábrica de São Luís, Maranhão; e que poderia reposicionar a BRASCOPER no mercado de cobre, seja para revender vergalhão de cobre, seja para acessar tal matéria prima a custo competitivo; 5.20 (...) Acreditando na idoneidade e boa-fé de MARCOS VINICIUS, a BRASCOPPER concedeu procuração para que MARCOS VINICIUS realizasse alguns pagamentos por meio de contas correntes abertas no SICREDI, justamente em favor de fornecedores que eram de seu relacionamento; 5.21 Quanto à utilização do endereço da BRASCOPPER em São Luís para abertura de filial da Metalox, (...) afora a abertura do CNPJ filial pela METALOX no mesmo endereço, fato que independe de autorização ou ciência da BRASCOPPER, o único elemento que a Fiscalização traz com relação ao Maranhão é o depoimento da empresa BRUSCHI & RODRIGUES LTDA, acerca de um suposto contato com a pessoa de ROBSON SILVA, da empresa GLOBAL; (g.n.) 5.22 (...) Soma-se a isso o fato de que qualquer um que visitasse a Rua 12, s/n, Distrito Industrial, São Luís / MA, saberia que ali havia uma indústria de grande porte, facilmente identificada como BRASCOPPER. Assim, é pouco crível que a BRUSCHI tenha entregado sucatas em tal endereço e depois informado que a empresa ali alocada era a GLOBAL. (...) Se houve esta venda para a GLOBAL, certamente não houve entrega na filial da BRASCOPPER em São Luís/MA, onde nenhum funcionário jamais teve qualquer autorização para receber materiais em nome de terceiros (como já ressaltado alhures, se qualquer funcionário da BRACOPPER tivesse atuado em benefício de empresa distinta, certamente Fl. 22531DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 29 existiriam ações trabalhistas relatando tais fatos e alocando tal empresa no polo passivo); Do Mérito – Da boa-fé da BRASCOPPER na aquisição das mercadorias contabilizadas. Descrição de seu processo de produção e evidências sobre a compra de vergalhões de cobre 5.23 (...) afirma a Fiscalização que as fornecedoras da BRASCOPPER não teriam capacidade para transformar sucata de cobre em vergalhão, sendo na realidade empresas de fachada (R3, GLOBAL, COOPERGREEN) ou fraudulentas (METALOX). Daí é que a Fiscalização presume que a BRASCOPPER teria comprado exclusivamente sucata de cobre em 2016, com o intuito de tomar ilegalmente crédito de ICMS, da Contribuição ao PIS e da COFINS, vedados pelo artigo 48 da Lei n. 11.196/2005; 5.24 (...) Ressalte-se que a BRASCOPPER não pretende ir de encontro com as afirmações da Fiscalização no sentido de que a METALOX, GLOBAL, COPPER GREEN e R3 não possuíam capacidade operacional para produzir o material estampado nas notas fiscais por elas emitidas (vergalhão de cobre). A BRASCOPPER não teve e não tem relacionamento próximo com tais empresas, não tem qualquer ingerência de gestão ou financeira sobre elas, de modo que nem poderia pugnar pela sua idoneidade. Assim, a BRASCOPPER não sabe ao certo como essas empresas conseguiam o vergalhão de cobre, mas é fato que este foi efetivamente vendido à BRASCOPPER e efetivamente revendido a terceiros, que efetivamente pagaram pelos bens adquiridos; 5.25 (...) Embora não possa afirmar categoricamente como tais empresas possuíam vergalhão para disponibilizar ao mercado, vê-se que no TVF a CONDEX - em sua resposta às Fiscalização, que foi tomada como verídica para a lavratura do auto -, afirma que as empresas representadas pelo Sr. RENATO MEGIOLARO lhe disponibilizavam vergalhão de cobre para compra. Ou seja, há prova no próprio TVF que outras empresas, sadias como a BRASCOPPER, compravam vergalhão de cobre daquelas consideradas “noteiras” pela Fiscalização. Outrossim, a prática da industrialização por encomenda realizada pela própria BRASCOPPER – como se discorrerá com bastante detalhes a seguir -, com retorno do vergalhão de cobre à R3, é exemplo claro de forma de suprimento de mercadoria das empresas auditadas para fins de disponibilização de vergalhão de cobre ao mercado; 5.26 (...) a Fiscalização não compreendeu as duas formas de negócio praticadas pela Impugnante durante o ano de 2016, relativamente à matéria prima cobre, quais sejam: ii.1) entrada de sucata para intermediação de industrialização por encomenda por meio de laminação na CBL, na qual a BRASCOPPER nunca tomou crédito da contribuição ao PIS e da COFINS; a uma porque não se tratava de compra de matéria prima; a duas justamente em razão da vedação legal para tanto; ii.2) compra de vergalhão para revenda ou como matéria prima para seu processo industrial para produção de fios de cobre. Nessa linha, a Defesa infere que tal incompreensão levou a Fiscalização assumir que todas as compras da BRASCOPPER eram de sucata, as quais passariam por processo de industrialização por encomenda na CBL e, ainda, que haveria desvio de mercadorias na saída dos vergalhões da CBL; 5.27 Aqui a Fiscalizada afirma que, por não deter parque industrial para transformação de sucata de cobre em vergalhão, conforme laudo técnico trazidos aos autos, o desenho montado pela Fiscalização é absolutamente impraticável no contexto das suas atividades. Assim, considerando que as suas vendas não foram desqualificadas, a análise destas (...) permitirá responder a seguinte pergunta e demonstrar o ponto da defesa: para que pudesse promover as vendas que efetuou em 2016, poderia a BRASCOPPER ter dado entrada em seu estabelecimento unicamente sucata de cobre, como afirma ter ocorrido a autoridade lançadora?(g.n.) Fl. 22532DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 30 5.28 (...) A resposta é negativa. Caso a BRASCOPPER adquirisse sucata de cobre de seus fornecedores, ao invés de vergalhão (como diz a acusação fiscal), não poderia ter atendido seus clientes e vendido 6.456.161,30 kg de produto final a base de cobre. Isto porque, consoante laudo carreado aos autos, (...) a fabricação de fios condutores de eletricidade depende da utilização de cobre como matéria prima. O cobre pode se apresentar com diversos níveis de pureza, sendo que, para que possa ser utilizado em indústria de condutores elétricos, como a BRASCOPPER, somente estando com cerca de 99,9% de pureza será admissível como matéria prima. (...) A sucata de cobre, em nenhuma circunstância, apresenta esse nível de pureza. (...)A não ser que a indústria, ela própria, tenha todo o aparato necessário para executar também esse processo industrial prévio, de transformação de sucata de cobre em vergalhão, pois é esse último que tem as características físico-químicas necessárias (99,9% de pureza) para servir como condutor elétrico; (g.n.) 5.29 No que tange aos negócios jurídicos praticados entre a BRASCOPPER e a CBL: intermediação de industrialização por encomenda, a Defesa declara que a Impugnante (...) prestou serviço de industrialização por encomenda, na qual a R3 requereu que a BRASCOPPER realizasse a transformação da sucata de cobre em vergalhão. Ocorre que a BRASCOPPER não detém o aparato industrial para tanto, conforme amplamente tratado no tópico acima. Apesar disso, a BRASCOPPER tinha condições de terceirizar essa encomenda na CBL Laminação, e ganhar com essa intermediação de industrialização por encomenda; (g.n.) 5.30 Nessa linha, a Defesa discorre sobre as cotas de laminação da BRASCOPPER na CBL, afirmando que o (...) relacionamento entre BRASCOPPER e CBL não se iniciou em 2016, ano sobre o qual se ateve a fiscalização no presente caso. Muito pelo contrário. Já nos anos de 2012 e 2013, a BRASCOPPER realizou remessas de sucata de cobre para industrialização por encomenda no estabelecimento da CBL em São João da Boa Vista. Devido à baixa oferta de indústrias laminadoras de cobre, a CBL disponibilizava à terceiros “cotas” de laminação do cobre. Como a BRASCOPPER tinha acesso a estas cotas, disponibilizou para R3, em troca obteve uma margem de ganho no preço cobrado pela transformação. (g.n.) 5.31 (...) Fica evidenciado que a utilização da capacidade de transformação da CBL pela BRASCOPPER era muito anterior ao esquema ilícito imputado às empresas mencionadas no lançamento tributário, em especial a R3. Ou seja, não se trata de arquitetura operacional singular e desenhada especialmente para servir a encomendas que a R3 fez à BRASCOPPER, a qual, por sua vez, terceirizou à CBL. Ao contrário. Pelo fato de a BRASCOPPER habitualmente se utilizar dessa forma negocial, impecável e lícita, dentro de seu escopo social, em nenhum momento poderia imaginar que eventualmente poderia ser utilizada por empresas que lhe supriam de material para obter qualquer vantagem ilegal, como o desvio de mercadorias depois da laminação, que a fiscalização alega existir no presente caso; 5.32 Quanto ao alegado desvio de vergalhões de cobre industrializados na CBL e simulação de prestação de serviço, a Impugnante sustenta que a quantidade desviada foi ínfima frente o volume de operações realizadas. Consoante TVF, 209.478 kg (3,9% do total de 5.358.817 kg) de vergalhão de cobre não tiveram como destino real a R3, tendo sido transportado para IBÉRICA. Todavia, (...) a operação de intermediação de industrialização por encomenda entre R3 e CBL, pela BRASCOPPER, era corriqueira e não apresentava qualquer ilicitude; 5.33 (...) Por isso que aqui se reafirma que a Fiscalização muito bem investigou e buscou comprovar a existência de um esquema fraudulento no mercado de cobre. Seu único erro foi levar suas conclusões para a Impugnante, pessoa jurídica que, infelizmente, em alguma medida se relacionou com as empresas elencadas como inidôneas pelo Fisco, mas nunca tendo configurado como partícipe do esquema; 5.34 (...) Nesse contexto, foi prestado o serviço de industrialização por encomenda à R3, para que a BRASCOPPER pudesse: i) se utilizar da cota de laminação que Fl. 22533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 31 detinha perante da CBL (vide item supra), a qual é fundamental justamente para, nesse e em tantos outros negócios praticados, gerar matéria prima essencial para o setor de industrialização de fios e condutores elétricos, vale dizer, o vergalhão de cobre, haja vista que a própria Impugnante não tem as máquinas, funcionários e demais requisitos necessários para a transformação de sucata em vergalhão de cobre (Doc. 4); ii) receber por esse serviço de industrialização por encomenda prestado à R3, obtendo lucro que era tão importante para a Impugnante no momento de crise econômica em que se encontrava (Doc. 9); (g.n.) 5.35 (...) Insista-se, nesse ponto, que a Fiscalização não trouxe uma única afirmação ou prova aos autos no sentido de que a BRASCOPPER tivesse qualquer conhecimento ou, ao menos, fosse conivente, com o aludido desvio de mercadorias. Nem poderia, pois a BRASCOPPER não teria ganho algum com essa aventada irregularidade, de modo que nem faria sentido com ela colaborar. Ademais, a mercadoria não era e nunca foi de propriedade da BRASCOPPER, afinal, frise-se, ela atuava como intermediadora de industrialização por encomenda, sendo fantasioso pensar que poderia determinar o destino final das mercadorias em questão; 5.36 (...) De tudo quanto exposto, percebe-se que os registros contábeis da BRASCOPPER são precisos e válidos, espelhando a intermediação da industrialização por encomenda para a qual foi contratada. Nessa, sua função era simplesmente garantir a transformação da sucata em vergalhão pela CBL, nunca tendo ficado a seu cargo os fretes envolvidos na operação, tampouco o destino das mercadorias depois de finalizado o processo da CBL, inclusive porque não eram de sua propriedade. Portanto, seja documentalmente ou fisicamente, a atribuição do desvio de mercadorias objeto do presente lançamento tributário à BRASCOPPER não faz sentido algum (vale lembrar que, como demonstrado acima, de toda a operação do ano de 2016, a Fiscalização alega que teria ocorrido o desvio de somente 3,9% da mercadoria). Nenhum ganho fiscal ou econômico teria com isso, o que inviabiliza qualquer tentativa de atribuição a conduta de simulação à Impugnante; 5.37 Em favor de protestar contra a impraticabilidade da acusação fiscal a respeito da entrada de sucatas na BRASCOPPER, carreou aos autos relatório de faturamento de saída, em valor e peso, de matéria prima cobre em 2016. (...) Outrossim, a BRASCOPPER apresenta a comparação dessas vendas com as compras de matéria prima a base de cobre em 2016 (Doc. 13), pelo qual se percebe que as compras de sucata foram ínfimas, enquanto a compra de vergalhão de cobre chegou a 6.029.702,44 kg – note-se que as compras de sucatas, ínfimas, foram devidamente reconhecidas como tal, o que reforça a veracidade dos lançamentos contábeis da BRASCOPPER; 5.38 Ao analisar o multicitado laudo anexado aos autos, sustenta que (...) fica claro que a BRASCOPPER só pôde vender a todos os seus clientes (e.g. FIO COPPERSTIC CL1 750 V 6,00 mm2 para a ELETROPAULO, de acordo com as notas fiscais organizadas por compra e venda de cobre no período - Doc. 14), porque comprou vergalhão de cobre, e não sucata; 5.39 (...) Para que não restem dúvidas sobre as operações de industrialização na CBL se aterem às remessas para industrialização por encomenda da R3, a Impugnante teve o cuidado de requerer cópia do Razão Analítico da CBL, referente ao período de 01/01/2016 a 31/12/2016 (Doc. 15), onde consta o histórico de todas as operações com a BRASCOPPER. Tal documentação bate fielmente com a contabilidade da BRASCOPPER. Tomou-se esse cuidado porque, no TVF, em nenhum momento a CBL foi indicada como participante do esquema fraudulento levantado pela Fiscalização, de modo que seus livros fazem prova a respeito das operações ali descritas, conforme dispõem os arts 378 e 379 do CPC4, e o art. 923 do RIR/995 vigente à época dos fatos. 5.40 (...) De tudo isso, tem-se que: a. é fato incontroverso que em 2016 a BRASCOPPER vendeu fios e cabos de cobre aos seus clientes, bem como revendeu vergalhão de cobre a outros clientes; b. o laudo técnico afirma que a quantidade de Fl. 22534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 32 kg de produtos à base de cobre vendidos em 2016 pela BRASCOPPER é compatível com o que se requer no processo industrial a partir da compra de vergalhão de cobre, e não de sucata; c. a BRASCOPPER não tem capacidade de transformar sucata em vergalhão; d. não ocorreu, na CBL, qualquer industrialização de sucata de cobre pertencente à BRASCOPPER, mas sim de sucatas remetidas originalmente pela R3; (g.n.) 5.41 (...) Por tudo quanto exposto, demonstra-se a hialina boa-fé da BRASCOPPER, que praticou suas operações na exata forma que foram lançadas em seus registros fiscais. Vale dizer, comprou vergalhão de cobre das empresas que foram objeto de auditoria fiscal, o qual entrou em seus estabelecimentos, sendo revendido com lucro ou transformado em produto acabado (condutores elétricos). Tais operações de compra de vergalhão de cobre deram origem a custos destinados ao processo produtivo da BRASCOPPER e, por conseguinte, ao direito ao crédito da Contribuição ao PIS e da COFINS nos termos do artigo 3º, inciso II das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003. Incabível, portanto, a imputação de simulação pretendida pela autoridade lançadora, a qual, sendo descabida, torna inválida a cobrança de tributos (IRPJ/CSLL/PIS/COFINS) com base no arbitramento, bem como a pretensão de cobrança de IRRF por pagamento sem causa; (g.n.) Do Mérito: Da Nulidade Do Arbitramento 5.42 (...) os lançamentos de IRPJ e CSLL realizados por arbitramento (e os AI´s de PIS e COFINS deles decorrentes) seriam nulos, ante o não cabimento do arbitramento na hipótese e o erro na apuração da “receita bruta conhecida” adotado no procedimento; (g.n.) 5.43 (...) Sobre o primeiro aspecto – não cabimento do arbitramento – é entendimento assente em seara administrativa o de que o arbitramento é medida excepcional e apenas seria legítimo quando a contabilidade do contribuinte fosse completamente imprestável para a apuração do lucro real, tal como ocorre, por exemplo, nos casos em que praticamente a totalidade dos custos do contribuinte são desconsiderados por ausência de adequada comprovação. Afirma que no presente caso, conforme TVF, (...) os custos da Contribuinte que foram objeto de glosa corresponderiam a apenas 51,43% de seus custos totais. (...) Conforme remansosa jurisprudência administrativa, a glosa de aproximadamente 50% dos custos do contribuinte não deve levar a Fiscalização ao arbitramento do lucro, considerada a referida excepcionalidade do procedimento; (g.n.) 5.44 (...) o arbitramento é nulo também por ter sido realizado com fundamento em elementos da contabilidade que paradoxalmente foi tida como não confiável pela própria Fiscalização. Do Mérito – Da Improcedência do Lançamento de IRRF 5.45 Quanto à impossibilidade de manutenção dos lançamentos IRRF por identificação da causa dos pagamentos realizados pela própria Fiscalização, a Defesa testifica que (...) Conforme se verifica do TVF, a Fiscalização identifica longamente a causa e os beneficiários dos pagamentos realizados pela BRASCOPPER no ano-calendário de 2016, todos eles relacionados à (necessária) aquisição de cobre para a (incontroversa) a seus clientes. A Fiscalização não coloca (e nem poderia colocar) em dúvida fato. A questão posta pela Fiscalização é que a Contribuinte não teria adquirido “vergalhões de cobre” prontos para revenda, mas sim “sucata de cobre” para viabilizar a de créditos de PIS/COFINS e ICMS e reduzir sua carga tributária. Não tivesse adquirido o cobre nas quantidades e períodos registrados em sua contabilidade, a Contribuinte não teria realizada a venda desse mesmo cobre nas mesmas quantidades e períodos informados em seus registros contábeis, vendas essas, como se disse, que serviram de base de incidência do próprio arbitramento.(g.n.) 5.46 Em favor de subsidiar sua acepção, a Defesa colaciona jurisprudências do CARF, relativas à interpretação do art. 61 da Lei n. 8981/95, nas quais resta a Fl. 22535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 33 inferência que só se aplica o dispositivo quando a real causa ou beneficiário não são identificados. Inclusive cita decisão onde embora tenha sido configurada ocorrência de simulação do negócio, não haveria que se falar na inexistência de causa para o pagamento, culminando afastada a incidência do IRRF à 35%. 5.47 (...) Não bastasse, a alegação trazida pela Fiscalização de que os atos seriam tidos como simulados ou mesmo a existência de “planejamento abusivo” não poderia desencadear a cobrança do IRRF a 35%. O art. 3º do CTN é claro ao estabelecer que o tributo é toda a prestação pecuniária compulsória que não constitua sanção de ato ilícito – isto é o IRRF a 35% jamais poderia configurar penalidade a qualquer prática de ilicitude por parte do contribuinte, devendo somente incidir quando verificada manifestação de acréscimo patrimonial dentro dos limites definidores do seu fato gerador (o que não se percebe na hipótese, já que a Fiscalização perfeitamente identificou a causa dos pagamentos); 5.48 (...) O IRRF instituído pela Lei n. 8.981/95, justamente por sua natureza de tributo, não permite que sua hipótese de incidência seja a ilicitude de um ato. Em verdade, a própria legislação tributária estabelece que, quando diante de um ilícito deve-se aplicar sanções específicas, independentes do tributo em si (ainda que eventualmente mensuradas de acordo com o valor exigido) como é o caso da imputação de multa qualificada no patamar de 150%. (...) Em conclusão, tem-se que é ilegítima a manutenção do lançamento do IRRF quando inconteste que a Fiscalização, dentro de suas próprias convicções, perfeitamente estabeleceu a causa do pagamento, qual seja: a aquisição de mercadorias para revenda, e pretende utilizar-se do IRRF como clara imposição de penalidade ao contribuinte. 5.49 Ainda no que toca ao lançamento de IRRF, refuta-o arguindo sobre a ilegalidade da sua exigência concomitante à glosa de custos que justificaram a lavratura dos autos de IRPJ e da CSLL. Nessa seara, sustenta que (...) a aplicação do art. 61, historicamente, seria somente desencadeada no momento em que normas especiais de regência da matéria não lhe sobrepusessem. No caso, a norma especial a que faz remissão o caput do artigo é aquela trazida pelo art. 44, da Lei n. 8.541/92. (...) Da leitura conjunta destes dispositivos, verifica-se que o legislador, historicamente, concebeu o art. 61, da Lei n. 8.981/95 visando alcançar uma gama de hipóteses que não fosse alcançada pelo art. 44 da Lei n. 8.541/92, tanto é que teve a cautela de redigir em seu caput a ressalva de aplicação preponderante de regra especial;(g.n.) 5.50 (...) Nesse cenário, cada dispositivo legal contava com alcance específico para fins de lançamento de ofício do Fisco: (i) o art. 44, da Lei n. 8.541/92, alcançava os cenários de redução efetiva do lucro líquido, devendo à base de cálculo das empresas de lucro real ser adicionado o valor da despesa e tributado o IRPJ e CSLL correspondente, devendo também sobre o montante incidir o IRRF, agora, também, com alíquota de 35% (conforme redação do art. 62, da Lei n. 8.981/95); e (ii) o art. 61 da Lei n. 8.981/95 alcançaria todas as demais hipóteses em que não se verificasse tal redução do lucro líquido (tanto o é, que até pagamentos “não contabilizados” e que não influenciariam a apuração da base de cálculo do IRPJ e CSLL também estariam adstritos a retenção na fonte com fulcro neste dispositivo, conforme destacado em seu § 1º); 5.51 (...) Todavia, com a publicação da Lei n. 9.249/95, em 27.12.1995, o art. 44 da Lei n. 8.541/92 foi revogado (conforme se verifica de seu art. 36, inc. IV), sem que qualquer outro dispositivo lhe substituísse com o mesmo permissivo que historicamente surgira na década de 60, conforme cronologia apresentada nos parágrafos precedentes. (...) Nessa esteira, verifica-se, portanto, que o animus do legislador foi justamente retirar do ordenamento jurídico a hipótese de se exigir de ofício concomitantemente (i) o IRPJ e a CSLL decorrentes da glosa da despesa e (ii) o IRRF devido à alíquota de 35% sobre o mesmo montante. Em prol de reforçar a sua ilação, colacionou a peça impugnatória jurisprudência do CARF; Do Mérito – Da Ausência dos Elementos Configuradores da Multa Qualificada Fl. 22536DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 34 5.52 Para contrapor, a Defesa arguiu os seguintes motivos para não qualificação da multa. Em breve síntese, que a BRASCOPPER e seus sócios: (...) (a) não foram responsáveis pela criação, operacionalização ou gerência das empresas tidas como “noteiras” pela Fiscalização, como também não se beneficiaram dos recursos que ingressaram em citadas empresas; (b) não se utilizaram de notas frias relativas à aquisição de mercadorias, ao menos não consciente e dolosamente. A BRASCOPPER é adquirente de boa-fé das mercadorias que foram indiscutivelmente revendidas a terceiros; (c) não praticaram simulação de pagamento; (d) encontravam-se à época, como ainda se encontram, em processo de recuperação judicial e, nessa condição, tem todas as suas operações submetidas à rigorosa apreciação e fiscalização dos credores e órgãos atuantes no processo (Administração Judicial, Ministério Público, Procuradorias; (e) não formam grupo econômico com as demais empresas arroladas no TVF; (f) não conferiram a terceiros poderes de representação ou autonomia para realizar atos de gestão; (g) não praticaram o que se costuma chamar na jurisprudência administrativa de “reiteração de conduta”. Os fatos arrolados pela Fiscalização ocorreram em período delimitado, inexistindo há anos qualquer relacionamento com tais empresas. Do Mérito – Da Ausência de Responsabilidade Solidária do Sr. Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis 5.53 (...) A acusação de responsabilidade solidária do Sr. Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis fundamenta-se no art. 135, III do CTN, que versa sobre a responsabilidade dos administradores do sujeito passivo quando constatada a prática de atos fraudulentos ou realizados em confronto com os atos constitutivos da pessoa jurídica. (...) É entendimento tranquilo na doutrina brasileira que a responsabilização tributária solidária, não carece tão somente da ocorrência de uma infração, mas tem-se como necessária também a execução de ato doloso por parte do suposto responsável solidário, que age de maneira intencional, visando a ocorrência daquele ilícito. (...) Nesse sentido, bem vem decidindo as colendas câmaras do CARF; 5.54 (...) Trazendo tais elementos para o caso concreto, vê-se que a Fiscalização não foi capaz de apresentar qualquer conduta dolosa especificamente imputável ao Sr. Carlos Eduardo. Não há trocas de e-mails, telefonemas, ou qualquer outro meio de correspondência entre ele e as empresas da Família Martins e da Família Megiolaro. Em nenhuma passagem do extenso TVF não é possível encontrar qualquer indício de que o Sr. Carlos Eduardo tinha conhecimento, que participou intencionalmente, ou mesmo que foi conivente com a fraude ali descrita; 5.55 (...) Ademais, como se disse à exaustão nesta petição, não houve prática de atos irregulares, fraudulentos ou com afronta aos estatutos da Contribuinte. A BRASCOPPER é adquirente de boa-fé de bens destinados à revenda que, de fato, foram revendidos ou industrializados no próprio ano-calendário de 2016. Não há formação de grupo econômico entre a BRASCOPPER e as empresas relacionadas no TVF e, frise-se, o Sr. Carlos Eduardo jamais se beneficiou de qualquer quantia que foi paga a essas pessoas jurídicas em contraprestação às mercadorias que foram entregues à Contribuinte. 5.56 (...) Nesse sentido, considerados os fundamentos aduzidos nos itens anteriores sobre o cotidiano da Contribuinte e a manifesta improcedência da acusação fiscal de que o Sr. Carlos Eduardo tenha se beneficiado da alegada (e inexistente) fraude de centenas de milhões de reais, requer-se seja afastada a responsabilidade solidária do Sr. Carlos Eduardo na remota hipótese de serem mantidos os lançamentos em face da Contribuinte. Fl. 22537DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 35 IMPETRADAS PELOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS: SR. RONALDO MEGIOLARO E SR. THOR GREGORI MEGIOLARO 6 Fiscalização inferiu que (...) o GRUPO BRASCOPPER era mais do que um grupo econômico de fato. Trata-se de uma organização, nos termos da Lei nº 12.850/2013, que funcionava de forma estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas para operacionalizar os crimes planejados, sempre com o objetivo de fraudar o Fisco. Nessa toada, destacou que (...) a estrutura e divisão de tarefas obedecia a esta hierarquia piramidal, composta por três níveis: chefes, operadores e executores, os quais foram responsabilizados solidariamente pelo crédito tributário lançado, incluindo-os no polo passivo da obrigação tributária sob combate. 7 Assim, além da responsabilização tributária solidária do Sr. CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, identificado como um dos chefes do suposto GRUPO BRASCOPPER, relatada no item anterior, outros foram arrolados, dentre eles, os impugnantes: RONALDO MEGIOLARO, CPF 029.276.498-71; e THOR GREGORI MEGIOLARO, CPF 410.133.278-96, considerados pelos Agentes Fiscais como operadores, que detinham funções definidas e ligadas à fraude de emissão e escrituração de notas frias. Destarte, cientes da autuação em 20/09/2021, ARs, às fls. 11.581 e 11.583, apresentaram, em 20/10/2021, em peças separadas, as respectivas Defesas, às fls. 20.842/20.870 e 20.948/20976. Considerando que os conteúdos são semelhantes, em favor de evitar a repetição, resumiremos, de forma conjunta, os pontos guerreados, destacando quando se referir especificamente a um dos responsáveis solidários. Nessa quadra, citando doutrina e jurisprudência administrativa e judicial, protestaram em favor da tempestividade e dos seguintes pedidos e causa de pedir abaixo sintetizados: 7.1 Inicialmente, requerem que seja determinada suspenção da exigibilidade do crédito tributário e de forma genérica arguem nulidade do lançamento do crédito tributário; Da Síntese dos Fatos do Lançamento - 7.2 Dentre as empresas integrantes do GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER, interessa para as impugnações à epígrafe, a empresa BRITH IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO, COMÉRCIO DE METAIS E SUCATAS EM GERAL LTDA., CNPJ sob nº 06.223.789/0001-26. Thor G. Megiolaro era sócio da BRITH e a administração desta sempre foi, de fato e de direito, exercida pelo seu pai Ronaldo Megiolaro, (...) o que se constata pela procuração pública ora anexada, e também pelo próprio relatório de fiscalização. (...) Portanto, Thor Megiolaro é parte totalmente ilegítima para figurar no polo passivo da autuação, como responsável solidário, pois, a administração da Brith foi exercida por Ronaldo Megiolaro; 7.3 (...) Ocorre que a fiscalização tentou a todo custo vincular a empresa Brith, Ronaldo e Thor às demais empresas envolvidas na fiscalização, unicamente pelo vínculo de parentesco entre Ronaldo e Thor, com Renato Meggiolaro Júnior, irmão do primeiro e tio do segundo, e pelo fato do irmão e sobrinhos atuarem também no ramo de metais, assim como Renato. (...) Entretanto, NÃO EXISTE UMA ÚNICA PROVA de que a Brith Importação, Exportação, Comércio de Metais tenha formado grupo econômico com qualquer das demais empresas fiscalizadas. E muito menos demonstração de como o ora Impugnante e seu filho teriam atuado na fraude fiscal; 7.4 A única relação comercial envolvendo a BRITH efetivada com a empresa Recife Ferros, participante do suposto grupo econômico, não tem relação com os fatos apurados pela fiscalização. (...) A outra suposta causa para reconhecimento de grupo econômico foi a coincidência de endereço, sendo que a Brith foi estabelecida em imóvel que hoje pertence à sobrinha do impugnante e onde funcionou outra empresa do ramo. (...) Tal fato, por si só, não enseja o reconhecimento de grupo econômico. Ademais, sequer (...) há menção de participação do Impugnante e seu filho nas decisões da BRASCOPPER e demais empresas envolvidas na alegada fraude. Fl. 22538DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 36 Das Razões De Insubsistência Do Lançamento Fiscal - Da Ausência de Fraude e Responsabilidade Pessoal do Impugnante 7.5 (...) Segundo a fiscalização, valendo-se de prova emprestada, obtida por meio de auditoria realizada pela SEFAZ/SP, por ocasião daquela fiscalização o Impugnante se apresentou como administrador da Brith, e que a empresa foi encontrada onde “deveria” funcionar a empresa Copper Green. (...) Que este esclareceu que a Brith na ocasião prestava serviços para a Copper. (...) E com base nessa premissa, de administrador da Britih, o fisco imputou ao Impugnante a Responsabilidade Tributária Solidária por Interesse Comum, com fulcro no inciso I do art. 124 da Lei nº 5.172/1966 (CTN). (...) Ocorre, porém, que não há mínima descrição de como e qual seria a participação da Brith Importação e qual seu interesse na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; (g.n.) 7.6 (...) No presente caso não há mínimo detalhamento de como a empresa Brith e seu administrador e sócio, teriam supostamente interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Resumindo, não é possível entender qual o posicionamento da RFB sobre a participação da Brith e do Impugnante na sonegação que descreve no relatório fiscal. (...) Ao passo em que descreve a participação da BRASCOPPER e Outras empresas e pessoas físicas, num estratagema de manipulação de dados e Notas Fiscais, não existe mínima descrição e prova de participação da Brith e seus administradores no investigado esquema de sonegação. (...) Têm-se que a responsabilização do Impugnante, assim, foi declarada ilegalmente com base em presunções. (g.n.) 7.7 Aqui, é importante registrar que, embora as responsabilidades tributárias solidárias em questão tenham sido fundamentadas com base no interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, prevista no inciso I, do art. 124, do CTN, as Defesas imbuíram esforços direcionados a combater a preceituada no art. 135, III, do CTN, que trata dos pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, na condição de diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Em breve síntese, protesta que tal responsabilização (...) não pode ser aleatória, dependendo da comprovação de que houve conduta praticada com intuito doloso ou fraudulento, do qual resultou infração à lei tributária, mesmo em situações em que não há pagamento da obrigação tributária. Entretanto, no TVF, não existe qualquer menção de conduta do impugnante que lhe renderia a condição de solidário no tocante a atos praticados com os excessos tipificados no citado normativo, tampouco nessa seara há espaço para presunção; 7.8 No tocante a responsabilidade solidária fundada no art. 124, I, do CTN, as Defesas asseveram que a norma (...) exige a comprovação de práticas comuns e conjunta do fato gerador o que não se constata no presente caso. (...) A premissa da fiscalização é totalmente equivocada e não dá aso à conclusão de dolo ou fraude, sendo calcada apenas em presunções, o que não se admite. Em favor das suas acepções, colacionaram às peças impugnatórias jurisprudências administrativas e judiciais; (g.n.) 7.9 Outrossim, (...) o CARF já manifestou entendimento de que se houver qualquer dúvida em torno da materialidade ou da autoria da conduta apontada na Fiscalização, deve ser aplicado o disposto no art. 112, inciso III, do CTN. (...) Referido dispositivo do CTN impõe que a legislação sancionatória deve ser interpretada de maneira mais favorável ao contribuinte, em caso de dúvida, quanto à capitulação legal do fato, à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; (g.n.) 7.10 (...) Assim, como não há qualquer comprovação efetiva por parte da Fiscalização de que o Impugnante tenha atuado com dolo, intuito fraudulento ou excesso de poderes em relação às supostas infrações imputadas à empresa BRITH (Por suposta participação no esquema fraudulento de terceiros), bem como pelo Fl. 22539DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 37 fato de não haver prova de que o Impugnante tenha atuado com dolo, intuito fraudulento ou excesso de poderes em relação às infrações imputadas às empresas, não resta dúvida de que o Impugnante deve ser excluído do AIIM, por inexistir fundamento para a sua responsabilização pessoal e solidária em relação ao lançamento fiscal ora impugnado; 7.11 Ao final requereram: (...) seja integralmente acolhida a presente Impugnação, a fim de que seja julgado improcedente o Lançamento Fiscal, afastando, portanto, a atribuição de pessoal e solidária do Impugnante nos termos dos arts. 124, I e 135, III, do CTN, haja vista a inexistência de descrição da conduta do impugnante e de qualquer comprovação de conduta dolosa, com excesso de poderes ou infracional à lei, ressaltando o teor da farta jurisprudência colacionada no sentido de que o mero inadimplemento ou questionamento em torno da obrigação tributária não tem o condão de, por si só, responsabilizar pessoalmente o administrador de sociedade empresária, impondo ponderar a devida observância do comando do art. 112 do CTN, o qual prevê a interpretação mais favorável ao contribuinte, no caso de existência de qualquer dúvida quanto à capitulação legal do fato, à extensão das circunstâncias materiais do fato, da autoria ou da natureza da penalidade aplicável. IMPETRADA PELO RESPONSÁVEL SOLIDÁRIO SR. FÁBIO CZERKES SANTANA 8 Dando prosseguimento ao relato das impugnações dos responsáveis solidários, o Sr. FÁBIO CZERKES SANTANA, CPF nº 294.032.458-16, considerado pelos Agentes Fiscais como operador do suposto Grupo Econômico BRASCOPPER, em razão de deter funções definidas e ligadas à fraude de emissão e escrituração de notas frias, ciente da autuação em 20/09/2021, AR, às fls. 11.559, apresentou impugnação, às fls. 21.054/21.090, em 20/10/2021. Através desta peça, citando doutrina e jurisprudência administrativa e judicial, protestou em favor da tempestividade e dos seguintes pedidos e causa de pedir abaixo sintetizados: 8.1 Inicialmente, requerem que seja determinada suspenção da exigibilidade do crédito tributário e de forma genérica arguem nulidade do lançamento do crédito tributário; Da Síntese dos Fatos do Lançamento - 8.2 (...) O ora impugnante foi incluído como sujeito passivo da obrigação tributária, como responsável solidário por Infração de Lei e por Interesse Comum, na condição de sócio de empresas envolvidas no período e participação de fato na administração do suposto esquema de sonegação. (...) Segundo a fiscalização o Impugnante era o responsável pela parte administrativa das “noteiras” IFE, COPAR e PROCOBRE, cujo trabalho era a emissão de notas fiscais inidôneas. Que em 08/2015, o Impugnante assume a sociedade IFE. 8.3 (...) Segundo o fisco a empresa PROCOBRE da qual o Impugnante é sócio administrador, é a empresa que sucede as operações da COPAR. Inclusive o Impugnante foi sócio administrador da COPAR no período de 16/10/2012 a 14/07/2014. O imóvel ocupado pela COPAR/PROCOBRE pertence à TFF. Já o imóvel ocupado pela TFF a partir de 05/2016 foi locado pela COPAR. (...) Que o Impugnante também é um dos fundadores da empresa TFF e, portanto, ex-sócio da cônjuge de RENATO MEGGIOLARO, MARIA TEREZA NOGUEIRA; 8.4 (...) A fiscalização informa como as empresas IFE, COPAR e PROCOBRE teriam, em tese, participado do esquema, mas não esclarecem, nem de forma sucinta, qual a conduta do Impugnante. (...) E nesse passo cabe ser destacado que o Impugnante deixou o quadro societário da COPAR em julho de 2014, muito tempo antes do período fiscalizado e objeto do lançamento; Das Razões De Insubsistência Do Lançamento Fiscal - Da Ausência de Responsabilidade Pessoal do Impugnante – 8.5 De acordo com o TVF, a principal razão para imputar responsabilidade solidária ao impugnante, foi a constatação de que foi sócio das empresas COPAR, IFE e PROCOBRE, envolvidas num suposto esquema de fraude fiscal. (...) Constata-se, Fl. 22540DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 38 assim, que a responsabilização solidária do Impugnante é decorrente e não direta. Não existe no relatório fiscal qualquer menção quanto a um ato só praticado pelo Impugnante em excesso ou contrário à lei ou ao estatuto social das empresas. (...) Têm-se que a responsabilização do Impugnante, assim, foi feita com base em presunções; (g.n.) 8.6 (...) É NECESSÁRIO O DETALHAMENTO E A DESCRIÇÃO DA CONDUTA e no que consiste o ato infracional à Lei ou Estatutos, imputado ao sócio. O que não se verifica do lançamento fiscal. (...) A mera indicação do responsável solidário não induz em responsabilização solidária. 8.7 Aqui, é importante registrar que, embora a responsabilidade tributária solidária em questão tenha sido fundamentada com base no interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, prevista no inciso I, do art. 124, do CTN, a Defesa imbuiu esforços direcionados a combater a preceituada no art. 135, III, do CTN, que trata dos pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, na condição de diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Em breve síntese, protesta que tal responsabilização (...) não pode ser aleatória, dependendo da comprovação de que houve conduta praticada com intuito doloso ou fraudulento, do qual resultou infração à lei tributária, mesmo em situações em que não há pagamento da obrigação tributária. Entretanto, no TVF, não existe qualquer menção de conduta do impugnante que lhe renderia a condição de solidário no tocante a atos praticados com os excessos tipificados no citado normativo, tampouco nessa seara há espaço para presunção. No tocante a responsabilidade solidária fundada no art. 124, I, do CTN, a Defesa colaciona apenas à peça impugnatória jurisprudência administrativa; 8.8 Outrossim, (...) o CARF já manifestou entendimento de que se houver qualquer dúvida em torno da materialidade ou da autoria da conduta apontada na Fiscalização, deve ser aplicado o disposto no art. 112, inciso III, do CTN. (...) Referido dispositivo do CTN impõe que a legislação sancionatória deve ser interpretada de maneira mais favorável ao contribuinte, em caso de dúvida, quanto à capitulação legal do fato, à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; (g.n.) 8.9 (...) Dessa forma, como não há qualquer comprovação efetiva por parte da Fiscalização de que o Impugnante tenha atuado com dolo, intuito fraudulento ou excesso de poderes em relação às supostas infrações imputadas à empresa COPAR, IFE e PROCOBRE (Por suposta participação no esquema fraudulento de terceiros), bem como pelo fato de não haver prova de que o Impugnante tenha atuado com dolo, intuito fraudulento ou excesso de poderes em relação às infrações imputadas às empresas, não resta dúvida deque o Impugnante deve ser excluído do AIIM, por inexistir fundamento para a sua responsabilização pessoal e solidária em relação ao lançamento fiscal ora impugnado; Das Razões De Insubsistência Do Lançamento Fiscal - Da Nulidade do Arbitramento do Lucro 8.10 (...) O arbitramento do lucro, por conseguinte, não pode configurar totalidade da receita, ou da movimentação financeira, mas apenas a renda efetiva obtida a partir destas. (...) O entendimento é pacífico, desde longa data, perante a própria Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo, no sentido de que, em casos como o presente, o valor da receita omitida apurada pela autoridade tributária a partir de depósitos bancários e não declarada ao Fisco deve ser, sim, computado para a determinação da base de cálculo do tributo devido. Entretanto, não deve ser confundido com a própria base de cálculo do tributo; 8.11 (...) Verifica-se, por todo o exposto, não ser admitido fazer coincidir a receita supostamente omitida, com o próprio lucro arbitrado. A receita omitida detectada pela fiscalização deve compor a receita bruta, base para apuração do lucro arbitrado, porém, não pode ser considerada como sendo o próprio lucro arbitrado. Fl. 22541DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 39 (...) Assim, como o lançamento está eivado de nulidade, deve ser desconstituído, independentemente de este poder ser ou não revisto. Caso haja a possibilidade de sua revisão, é imprescindível que ocorra a edição de novo lançamento, se ainda não houver decorrido o prazo decadencial para a sua realização. Das Razões De Insubsistência Do Lançamento Fiscal - Da Multa Qualificada – Improcedência 8.12 (...) A fiscalização impôs ao Impugnante multa qualificada de 150% sobre o tributo exigido. (...) Entretanto, não há nos autos qualquer indício, muito menos comprovação de intuito fraudulento ou doloso por parte do Impugnante, a se justificar o agravante da multa qualificada. Dado que (...) o intuito doloso, fraudulento ou de sonegação fiscal do contribuinte não pode ser meramente alegado pelo Agente Fiscal, devendo ser, na realidade, cabalmente comprovadas, consoante jurisprudência judicial e decisões e súmula nº 14 do CARF. Ademais, a (...) multa qualificada tem reflexos jurídicos tão relevantes, sobretudo, em relação aos seus efeitos confiscatórios, que a matéria teve a repercussão geral reconhecida pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal (“STF”); 8.13 (...) No caso dos autos, as afirmações de manobras visando fraudar o fisco com o propósito de sonegação, são meras alegações, desacompanhadas de qualquer comprovação de que o Impugnante realmente agiu com o intuito doloso ou de sonegação em suas operações. (...) Assim, essa acusação por si só não é suficiente para demonstrar a ocorrência do dolo, consistente na vontade consciente de praticar a conduta contrária ao ordenamento tributário. (...) Portanto, não há qualquer elemento plausível que possa justificar a aplicação da multa qualificada em percentual de 150% sobre o valor dos tributos em relação ao impugnante. (...) Ante a ausência de comprovação de dolo, fraude ou simulação, que não se presume, deve ser reconhecido e declarado: O completo afastamento da multa qualificada de 150%, tendo em vista que, nos termos do art. prevista no artigo 44, § 1º da Lei n.º 9.430/1996, a qualificação só é cabível nos casos de fraude, sonegação ou conluio, devidamente comprovados pelo Fisco; 8.14 (...) Sem prejuízo das nulidades acima arguidas, na remota hipótese de prevalecer o lançamento fiscal, a multa aplicada, além de ter afastada a condição qualificada, deverá ser reduzida ao patamar de 25% sobre a contribuição, a fim de se evitar o efeito confiscatório. 8.15 Ao final requereu: 8.15.1 (...) Seja integralmente acolhida a presente Impugnação, a fim de que seja julgado improcedente o Auto de Infração, afastando, portanto, a atribuição de responsabilidade pessoal e solidária do Impugnante nos termos dos arts. 124, I e 135, III, do CTN, haja vista a inexistência de descrição da conduta do impugnante e de qualquer comprovação de conduta dolosa, com excesso de poderes ou infracional à lei, ressaltando o teor da farta jurisprudência colacionada no sentido de que o mero inadimplemento ou questionamento em torno da obrigação tributária não tem o condão de, por si só, responsabilizar pessoalmente o dirigente de sociedade empresária, impondo ponderar a devida observância do comando do art. 112 do CTN, o qual prevê a interpretação mais favorável ao contribuinte, no caso de existência de qualquer dúvida quanto à capitulação legal do fato, à extensão das circunstâncias materiais do fato, da autoria ou da natureza da penalidade aplicável; 8.15.2 (...) Superada a ilegitimidade de parte do Impugnante, o que se admite por argumento apenas, não deve prevalecer o AIIM, pela nulidade em relação à base de cálculo – Lucro por Arbitramento – conforme acima exposto, devendo ser anulado o lançamento fiscal; 8.15.3 (...) Ainda para a remota hipótese de manutenção do Lançamento Fiscal, de rigor seja afastada a multa qualificada e determinada a redução da multa imposta, para que não supere 25% do valor do débito apurado, Fl. 22542DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 40 após regular arbitramento do Lucro que não deverá considerar todo o faturamento ou os valores depositados em conta corrente como o próprio Lucro tributável. IMPETRADAS PELOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS: SR. RENATO MEGIOLARO JUNIOR, TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA E SRA. MARIA TERESA NOGUEIRA 9 A Fiscalização considerou como responsáveis tributários solidários: RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, CPF nº 035.656.818-02 e MARIA TERESA NOGUEIRA, CPF nº 037.657.648-09, identificados como mentores intelectuais – ou chefes - do suposto esquema de fraude, juntamente com os senhores: CLEDER Corral PROVÊNCIO, CPF 020.248.878-05; e CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, CPF 005.441.868- 26. Além disso, algumas empresas também foram responsabilizadas por terem interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal, prevista no inciso I, do art. 124, do CTN, dentre elas a TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ nº 18.025.621/0001-95. Destarte, cientes da autuação em 20/09/2021, ARs, às fls. 11.570, 11.571 e 11.579, apresentaram, em 20/10/2021, consoante protocolo dos Correios, às fls. 21.097, 21.173 e 21.221, em peças separadas, as respectivas Defesas, às fls. 21.099/21.137, 21175/21.195 e 21.223/21.241. Considerando que os conteúdos são semelhantes, em favor de evitar a repetição, resumiremos, de forma conjunta, os pontos guerreados, destacando quando se referir especificamente a um dos responsáveis solidários. Nessa quadra, protestaram em favor da tempestividade e dos seguintes pedidos e causa de pedir abaixo sintetizados: Da Preliminar de Nulidade do Processo Administrativo por Cerceamento de Defesa e Ofensa à Ampla Defesa 9.1 (...) Compulsando o VF e os documentos que o acompanham, fácil verificar que o direito à ampla defesa do defendente, na fase de fiscalização, não foi observado. (...) Com efeito, todo o procedimento de fiscalização tramitou à revelia do defendente, vale dizer: NÃO FOI DADO AO DEFENDENTE QUALQUER POSSIBILIDADE DE DEFESA. (...) Todo o procedimento de fiscalização tramitou sem que o ora defendente tivesse conhecimento que, contra si, tramitava um procedimento administrativo, embora o domicílio tributário fosse certo e sabido; 9.2 (...) Ao que parece o comportamento dos Senhores Auditores Fiscais revela que intencionavam retirar do requerente o seu sagrado direito à ampla defesa, o que, data máxima vênia, não se pode admitir, e eiva de nulidade todo o procedimento. (...) Percebe-se, assim, claramente, GRAVE OFENSA AOS PRINCIPIOS DA AMPLA DEFESA E CONTRADITÓRIO. (...) Conclui-se, portanto, que, em sendo certo e conhecido o domicílio do contribuinte, outra conclusão não é possível senão a de nulidade de todo o procedimento de fiscalização e, consequentemente, a nulidade do auto de infração, eis que realizado em desrespeito ao devido processo legal, princípio aplicado tanto na esfera administrativa como na judicial. Do Mérito - Do Responsável Tributário Solidário RENATO MEGGIOLARO JUNIOR 9.3 A Fiscalização, no item 14.3 do TVF, qualificou como administrador o responsável à epígrafe e imputou responsabilidade tributária por infração de lei e interesse comum, com fundamento no inciso III, do art. 135, do CTN, combinado com a infração descrita no art. 72, da Lei n° 4.502/64 (Fraude); 9.4 Nessa seara, em breve síntese, no que tange ao item citado, o Impugnante declara que jamais fez parte dos quadros sociais da BRASCOPPER, de direito e de fato, tampouco teve qualquer participação ou relacionamento. Não teve qualquer relação com o suposto grupo econômico ou conhecimento, bem como relativamente as empresas e pessoas citadas no item e em todo o procedimento fiscal. (...) Não há qualquer indício de movimentação financeira ou proveito econômico do defendente nas operações da empresa autuada; Fl. 22543DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 41 9.5 No tocante à ficha cadastral da conta corrente da BRASCOPPER na SICREDI, assevera que a (...) fiscalização, baseada em premissas falsas, afirma que o defendente seria o responsável financeiro da empresa autuada. (...) Esclarece o defendente que jamais teve qualquer participação ativa na administração da empresa autuada. (...) Jamais assinou qualquer documento ou contrato, sendo certo que jamais foi responsável pela movimentação dos recursos da empresa autuada. (...) É pessoa conhecida no mercado, razão pela qual seu nome, por vezes, foi usado tão somente como "referência comercial", nada mais. (...) O defendente não foi gerente ou mentor de qualquer operação com a autuada, até pela sua capacidade econômica, financeira e patrimonial; 9.6 (...) Natália, filha do defendente, não era sócia da empresa TFF Consultoria no ano-calendário de 2016, período das apurações, sendo certo que reside na Austrália há mais de 12 anos; 9.7 (...) O nome do defendente foi indevidamente citado em depoimento do representante da empresa Condex, no entanto, em ato posterior, os mesmos depoentes retificaram a informação anteriormente dada, esclarecendo que o defendente atuava como representante comercial; 9.8 (...) O defendente jamais foi responsável por qualquer conta bancária. (...) Jamais agiu por mandato e jamais foi beneficiário de recursos financeiros movimentados pelas empresas listadas no procedimento. (...) Se seu nome constou de algumas fichas de crédito, ou algo do gênero, ocorreu tão somente como "referência comercial". (...) Não há qualquer prova de participação ou de ganho financeiro em qualquer ato ilícito ou esquema de fraude; 9.9 Quanto à infração a lei, afirma que não cometeu, não tem e nunca teve qualquer relação com os fatos, bem como a “família Meggiolaro”, não fez parte ou teve qualquer relação com a empresa BRASCOPPER; 9.10 Em relação às pessoas físicas e jurídicas citadas no TVF, desconhece e não tem qualquer vínculo, salvo Maria Teresa que (...) é sócia da empresa TFF Consultoria, e ex-convivente do defendente, mas não tem qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com as empresas citadas nesse item, bem como Ronaldo Meggiolaro e Thor Meggiolaro que são irmão e sobrinho, mas não teve relação comercial com os mesmos; 9.11 Ao final, demonstrada ao seu entender a ausência de prática de qualquer ato de infração à lei, ou de administração, requereu: 9.11.1 (...) Seja acolhida a preliminar de nulidade no processo de fiscalização, em razão do evidente cerceamento de defesa do defendente, que sequer foi fiscalizado. Com efeito, como mencionado em sede de preliminar, a defendente sequer tomou conhecimento de que tramitava contra si um procedimento de fiscalização, em grave afronta à ampla defesa e ao contraditório constitucionalmente assegurados (art. 52, LV); 9.11.2 (...) Sejam os pedidos formulados na presente impugnação Administrativa julgados totalmente procedentes para o fim de excluir a responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado contra defendente, impugnado, nos termos do artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972; 9.11.3 (...) Seja declarada a inexistência de relação com os fatos, pessoas e empresas mencionados no Termo de Verificação Fiscal pelos motivos citados nesta Impugnação. Do Mérito - Da Responsável Tributária Solidária MARIA TERESA NOGUEIRA 9.12 A Fiscalização, no item 14.5 do TVF, qualificou como administradora a responsável à epígrafe e imputou responsabilidade tributária por infração de lei, com fundamento no inciso III, do art. 135, do CTN, combinado com a infração descrita no art. 72, da Lei n° 4.502/64 (Fraude); 9.13 Nessa seara, em breve síntese, no que tange ao item citado, a Impugnante declara que jamais teve qualquer relação, conhecimento ou participação com suposto Grupo Econômico, ou com as empresas e pessoas mencionadas na Fl. 22544DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 42 fiscalização, bem como jamais praticou qualquer ato de compra e venda de mercadorias ou esteve envolvida em qualquer tipo de esquema fraudulento. Em suma, as conclusões do trabalho fiscal são baseadas em premissas falsas. Salienta que nada foi apontado como movimentação financeira em suas contas correntes; 9.14 No tocante à ficha cadastral da conta corrente da BRASCOPPER na SICREDI, assevera que (...) não teve qualquer relação com as empresas citadas nesse item, tendo sido sócia da TFF Consultoria, sendo certo que se seu nome apareceu em algum documento interno da instituição financeira o foi como simples referência comercial, sendo certo que jamais movimentou contas da empresa autuada; 9.15 Em relação à Renato Meggiolaro Junior, informa que conviveu maritalmente, mas nunca tiveram envolvimento empresarial. (...) Renato prestou serviços como representante comercial, atuando na área de vendas, e durante o convívio, sabe que foi utilizada uma linha telefônica que estava registrada em seu nome, mas esse fato não prova envolvimento da defendente em absolutamente nada! 9.16 No que tange à PROCOBRE e COPAR, assevera que é sócia administradora da empresa TFF Consultoria, desde 29/04/2013 até a presente data, a qual prestou serviços para a empresa Procobre, inclusive foi proprietária de imóvel utilizado por essa empresa em relação contratual de simples locação – contrato entregue à fiscalização. (...) Os serviços prestados foram devidamente contabilizados e entregues à fiscalização, bem como os tributos foram recolhidos aos cofres públicos. (...) Fora isso, não tem qualquer relacionamento com o Sr. Fábio, dono das referidas empresas, e não participou de qualquer esquema de fraude; 9.17 No que toca à infração a lei, declara que (...) jamais criou qualquer empresa "de fachada" ou teve qualquer relação com esses fatos. (...) O suposto envolvimento da citada "família Meggiolaro" trata-se de ilação e conclusão baseada em premissas falsas. (...) A defendente foi sócia de Rosana Megiolaro, mas esta sequer possui poderes de gestão na administração da TFF, que jamais teve qualquer participação em esquema ilegal ou fraudulento. (...) A defendente não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com a empresa Brascopper. (...) Desconhece a acusação de utilização de "notas frias". (...) Jamais determinou a produção "por encomenda", tendo atuado, tão somente, como prestadora de serviços, através da empresa TFF, além de administrar bens próprios. (...) Não participou de qualquer grupo econômico, pagou ou recebeu quaisquer valores da empresa Brascopper; 9.18 Quanto à TFF Consultoria, informa que é sócia, (...) que prestou serviços e não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com as empresas citadas. No mais não participou de qualquer grupo econômico; 9.19 Em relação a Fabio Czerkes Santana, afirma que foi sócio da empresa TFF apenas na abertura. (...) Foi proprietário de empresas que figuraram como locatária da empresa TFF, e tomadora de serviços da mesma, mas não possui relação com as atividades empresariais desenvolvidas por Fábio. (...) A relação locatícia e de prestação de serviços foi devidamente escriturada e entregue à fiscalização, tendo os tributos regularmente recolhidos; 9.20 Relativamente a Ronaldo Meggiolaro e Thor Meggiolaro, são irmão e sobrinho de Renato, mas não teve qualquer relação comercial e desconhece suas atividades profissionais; 9.21 (...) Não há qualquer prova de proveito econômico da defendente no suposto esquema, que, aliás, desconhecia a existência até ser surpreendida com a presente autuação. (...) A defendente não praticou qualquer infração, como amplamente já mencionado nesta defesa. 9.22 Ao final, demonstrada ao seu entender a ausência de prática de qualquer ato de infração à lei, ou de administração, requereu: 9.22.1 (...) Seja acolhida a preliminar de nulidade no processo de fiscalização, em razão do evidente cerceamento de defesa do defendente, que sequer foi fiscalizado. Com efeito, como mencionado em sede de preliminar, a defendente sequer tomou conhecimento de que tramitava contra si um Fl. 22545DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 43 procedimento de fiscalização, em grave afronta à ampla defesa e ao contraditório constitucionalmente assegurados (art. 52, LV); 9.22.2 (...) Sejam os pedidos formulados na presente impugnação Administrativa julgados totalmente procedentes para o fim de excluir a responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado contra defendente, impugnado, nos termos do artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972; 9.22.3 (...) Seja declarada a inexistência de relação com os fatos, pessoas e empresas mencionados no Termo de Verificação Fiscal pelos motivos citados nesta Impugnação. Do Mérito - Da Responsável Tributária Solidária TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA 9.23 (...) A empresa TFF Consultoria nunca foi fiscalizada, intimada o notificada a apresentar documentos ou prestar informações ou esclarecimentos sobre operações envolvendo a fiscalização executada contra a empresa Brascopper no ano- calendário de 2016. (...) Igualmente, não efetuou pagamentos, recebimentos ou movimentação bancária de valores sobre tais operações, tanto para a empresa TFF Consultoria, como para suas sócias; 9.24 (...) A empresa TFF Consultoria, tem como atividade a prestações de serviços, não comercializou mercadorias por impedimento da sua própria atividade, bem como da sua capacidade econômica e financeira e de suas sócias, como prova a Declaração do Imposto de Renda da Empresa e de suas sócias, todas apresentadas à Receita Federal. (...) Não houve qualquer participação da TFF Consultoria e de suas sócias com as empresas ou pessoas mencionadas neste item; 9.25 Nesse sentido, a Impugnante declara que jamais teve qualquer movimentação financeira, relação, conhecimento ou participação com suposto Grupo Econômico, ou com as empresas e pessoas mencionadas na fiscalização, (...) pela sua capacidade econômica e financeira, como nada foi apontada como movimentação financeiras em suas contas bancárias. (...) A defendente desconhece os motivos que levaram a fiscalização a incluí-la no presente processo, eis que não restou comprovado qualquer proveito econômico. 9.26 No que tange à PROCOBRE e COPAR, assevera que prestou serviços para a empresa Procobre, os quais (...) foram devidamente contabilizados e entregues à fiscalização, bem como os tributos foram recolhidos aos cofres públicos. (...) Fora isso, não tem qualquer relacionamento com o Sr. Fábio, dono das referidas empresas, e não participou de qualquer esquema de fraude; 9.27 Quanto ao imóvel utilizado pela COPAR/PROCOBRE declara que (...) foi proprietária do imóvel utilizado pela empresa Procobre, em relação contratual de simples locação. (...) O contrato foi entregue à fiscalização, quando exigido, e a relação foi devidamente declarada, com os tributos recolhidos. (...) Foi o imóvel locado ao Sr Fábio, que era o responsável pelas citadas empresas, e é esse a única relação envolvendo a defendente e as empresas citadas nesse item; 9.28 (...) A Defendente jamais criou qualquer empresa "de fachada" ou teve qualquer relação com esses fatos. (...) O suposto envolvimento da citada "família Meggiolaro" trata-se de ilação e conclusão baseada em premissas falsas. (...) Rosana Megiolaro foi sócia da defendente, mas esta sequer possui poderes de gestão na administração da TFF, que jamais teve qualquer participação em esquema ilegal ou fraudulento. (...) A defendente não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com a empresa Brascopper. (...) Desconhece a acusação de utilização de "notas frias". (...) Jamais determinou a produção "por encomenda", tendo atuado, tão somente, como prestadora de serviços, através da empresa TFF, além de administrar bens próprios. (...) Não participou de qualquer grupo econômico, pagou ou recebeu quaisquer valores da empresa Brascopper; 9.29 Renato Meggiolaro conviveu maritalmente com uma das sócias e nunca pertenceu aos quadros sociais da Impugnante. (...) Maria Teresa é sócia da Fl. 22546DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 44 defendente, que é prestadora de serviços e não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com as empresas citadas nesse item. (...) Não participou de qualquer grupo econômico, pagou o recebeu quaisquer valores das empresas mencionadas. Já Fábio Santana foi sócio da Impugnante apenas na abertura e durante o período que permaneceu no quadro social sequer houve movimentação financeira. (...) Fábio foi ou é proprietário de empresas que figuraram como locatária da empresa TFF, e tomadora de serviços da mesma, mas Fábio não possui relação com as atividades empresariais desenvolvidas pela defendente. (...) A relação locatícia e de prestação de serviços foi devidamente escriturada e entregue à fiscalização, tendo os tributos regularmente recolhidos. No que toca Ronaldo Meggiolaro e Thor Meggiolaro, são irmão e sobrinho de Renato, mas não teve qualquer relação comercial e desconhece suas atividades profissionais; 9.30 (...) Não há qualquer prova de proveito econômico da defendente no suposto esquema, que, aliás, desconhecia a existência até ser surpreendida com a presente autuação. (...) A defendente não praticou qualquer infração, como amplamente já mencionado nesta defesa. 9.31 Ao final, demonstrada ao seu entender a ausência de prática de qualquer ato de infração à lei, ou de administração, requereu: 9.31.1 (...) Seja acolhida a preliminar de nulidade no processo de fiscalização, em razão do evidente cerceamento de defesa do defendente, que sequer foi fiscalizado. Com efeito, como mencionado em sede de preliminar, a defendente sequer tomou conhecimento de que tramitava contra si um procedimento de fiscalização, em grave afronta à ampla defesa e ao contraditório constitucionalmente assegurados (art. 52, LV); 9.31.2 (...) Sejam os pedidos formulados na presente impugnação Administrativa julgados totalmente procedentes para o fim de excluir a responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado contra defendente, impugnado, nos termos do artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972; 9.31.3 (...) Seja declarada a inexistência de relação com os fatos, pessoas e empresas mencionados no Termo de Verificação Fiscal pelos motivos citados nesta Impugnação. DA DECLARAÇÃO DE GABRIELA EMER 10 A Sra. GABRIELA EMER, CPF 026.769.509-83, identificada pelos agentes fiscais como um dos operadores do grupo econômico BRASCOPPER, notadamente com função definida e ligada à fraude de emissão e escrituração de notas frias, ciente da autuação em 13/10/2021, Edital Eletrônico nº 011438841, publicado em 27/09/2021, carreou aos autos, em 20/12/2021, a seguinte declaração, às fls. 21.279: “EU GABRIELA EMER VENHO POR MEIO DESTA, INFORMAR A ESTA RECEITA FEDERAL, EM QUE SE TRATANDO DO PROCESSO N º 15746.722664/2021-10, DO DIA 24/11/2021, NO QUE SE TRATA DE INFORMAÇÕES REFERENTES ÀS CONTAS CORRENTES: BANCO 748, AGENCIA 0913, CONTA CORRENTE 34339 E BANCO 001, AGENCIA 33814, CONTA CORRENTE 321605, DECLARO AQUI QUE NA DATA CERTA DESTAS MOVIMENTAÇÕES ESTA CONTA ERA USADA E ADMINISTRADA COM MINHA PERMISSAO, MAS NÃO CONSIENTE DAS MOVIMENTAÇÕES PELO SR. SYRIO MARTINS NETO, PORTADOR DO CPF: 693.597.501-82, SENDO QUE O MESMO É MEU EX MARIDO, CONSTANDO EM ANEXO O TERMO DE DIVORCIO, UMA VEZ QUE AS CONTAS ERAM UTILIZADAS PELO MESMO, POIS NA EPOCA DESTAS OPERAÇÕES FINANCEIRAS, O MESMO SE ENCONTRAVA IMPOSSIBILITADO DE POSSUIR OU MOVIMENTAR CONTA CORRENTE EM SEU NOME, FICA AQUI TAMBEM DECLARADO QUE ESTOU A DISPOSIÇÃO DESTA RECEITA FEDERAL PARA O QUE NECESSARIO FOR DE MAIS ESCLARECIMENTOS SOBRE O QUE AQUI ESTOU SENDO INTIMADA”. É o relatório. Os autos de infração lavrados identificaram como contribuinte a empresa BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERACAO Fl. 22547DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 45 JUDICIAL (BRASCOPPER). Foram ainda arrolados como responsáveis tributários as seguintes pessoas físicas e jurídicas (em resumo do AC n. 105-007.482, e-fls. 21401 e ss): 11.1 CLEDER CORRAL PROVÊNCIO, CPF nº 020.248.878-05 – Base legal: art. 135, III, do CTN; 11.2 CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTISS, CPF nº 005.441.868-26 – Base legal: art. 135, III, do CTN; 11.3 SYRIO MARTINS NETO, CPF nº 693.597.501-82 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.4 GABRIELA EMER, CPF nº 026.769.509-83 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.5 MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS, CPF nº 907.806.391-20 – Base legal: art. 124, I, e 135, III, ambos do CTN; 11.6 FUNDI LIGAS INDUSTRIA METAIS LTDA, CNPJ nº 07.342.672/0001-24 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.7 RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, CPF nº 035.656.818-02 – Base legal: art. 135, III, do CTN; 11.8 FABIO CZERKES SANTANA, CPF nº 294.032.458-16 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.9 ROOSIVELT JARA PINTO, CPF nº 001.947.531-40 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.10 ROBSON BATISTA DE SOUZA E SILVA, CPF nº 822.224.101-00 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.11 FRANCISCO ÁTILA COSTA PALOSQUI, CPF nº 896.773.741-68 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.12 TFF CONSULTORIA E PARTICIPACOES LTDA, CNPJ nº 18.025.621/0001-95 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.13 MARIA TEREZA NOGUEIRA, CPF nº 037.657.648-09 – Base legal: art. 124, I, e 135, III, ambos do CTN; 11.14 THOR GREGORI MEGIOLARO, CPF nº 410.133.278-96 – Base legal: art. 124, I, do CTN; 11.15 RONALDO MEGIOLARO, CPF nº 029.276.498-71 – Base legal: art. 124, I, do CTN; Foram apresentadas impugnações tempestivas pela Brascopper e pelos seguintes responsáveis solidários: Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiss, conjuntamente com a Brascopper; Ronaldo Megiolaro; Thor Gregori Megiolaro; Fábio Czerkes Santana; Renato Meggiolaro Junior; Maria Teresa Nogueira e TFF Consultoria E Participações Ltda. Os demais responsáveis tributários não apresentaram Defesa. Acórdão da DRJ (n. 105-007.482 – 1ª TURMA/DRJ05, e-fls. 21401 e ss) rejeitou a preliminar de nulidade e, no mérito, manteve integralmente o crédito tributário em litígio e as responsabilidades tributárias das pessoas físicas e jurídicas relacionadas. Assim dispôs em ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2016 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPUGNAÇÃO INTEMPESTIVA. O prazo legal para apresentação de impugnação ao lançamento é de trinta dias a contar da intimação regularmente efetivada, não se conhecendo de petição extemporânea. PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O procedimento administrativo de lançamento do crédito tributário deve observar os preceitos do artigo 142, do CTN, combinado com os preceitos constantes dos artigos 9º e 10º do Decreto nº 70.235/72. Os casos de nulidade do auto de infração estão previstos no Fl. 22548DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 46 artigo 59 do Decreto nº 70.235/72. Portanto, ensejam a nulidade apenas os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa, não havendo vício no lançamento e nem afronta ao art. 142, do CTN, quando os fatos que motivaram a autuação estão precisamente descritos no relatório de fiscalização, demonstrados, acompanhados da fundamentação legal e efetivado por autoridade competente. CERCEAMENTO. DIREITO DE DEFESA. FASE PROCEDIMENTAL. CARÁTER INQUISITÓRIO. No processo administrativo fiscal, a Impugnação instaura a fase litigiosa ou procedimental, não encontrando amparo jurídico a alegação de cerceamento do direito de defesa ou da inobservância ao devido processo legal, durante o procedimento fiscalizatório, o qual tem caráter meramente inquisitório. ARGÜIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO VEDADA. ENTENDIMENTO ADMINISTRATIVO. A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a argüição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade dos preceitos legais que embasaram o ato de lançamento. As leis regularmente editadas segundo o processo constitucional gozam de presunção de constitucionalidade e de legalidade até decisão em contrário do Poder Judiciário. As alegações de inconstitucionalidade ou de ilegalidade somente são apreciadas nos julgamentos administrativos quando houver expressa autorização. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2016 GRUPO ECONÔMICO. CONFIGURAÇÃO. Decanta a existência de efetivo grupo econômico, a apresentação de arcabouço indiciário robusto, não desconstituído pelo sujeito passivo, demonstrando o fato das empresas dele integrantes aparecerem comercialmente como um efetivo grupo econômico, com comprovada unicidade de controle e direção, confusão patrimonial e ajustes de vontades entre as elas. IRPJ E CSLL. ARBITRAMENTO DO LUCRO. GLOSA DE PARTE SUBSTANCIAL DOS CUSTOS. DESCLASSIFICAÇÃO DA ESCRITA CONTÁBIL/FISCAL. Efetuada pela Fiscalização a glosa de parte significativa dos custos auferidos pelo contribuinte vis a vis os valores declarados, incumbe-lhe desclassificar a escrita contábil/fiscal apresentada por ser esta evidentemente inservível para apuração do lucro real. Nesses casos, deve a Autoridade arbitrar o lucro da pessoa jurídica, sob pena de fazer incidir os citados tributos sobre valores que sabidamente não caracterizam renda (lucro) do contribuinte. O arbitramento considera, por ficção legal, as despesas incorridas pelo contribuinte para a geração da receita. LUCRO ARBITRADO. BASE DE CÁLCULO. RECEITA BRUTA. O lucro arbitrado das pessoas jurídicas, quando conhecida a receita bruta, será determinado mediante a aplicação dos percentuais relativos ao lucro presumido, acrescidos de vinte por cento. Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Ano-calendário: 2016 PAGAMENTO SEM CAUSA - CARACTERIZAÇÃO DO ATO - ÔNUS DA PROVA. Fl. 22549DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 47 A caracterização pela fiscalização, mediante provas, de que ocorreu pagamento é pressuposto material para o lançamento do Imposto de Renda Retido na Fonte incidente sobre pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado, de que trata o caput do art. 61 da Lei 8.981/95. PAGAMENTO A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO OU EFETUADO SEM COMPROVAÇÃO DA OPERAÇÃO OU CAUSA - LEI Nº 8.981, DE 1995, ART. 61 – CARACTERIZAÇÃO. A pessoa jurídica que efetuar pagamento a beneficiário não identificado ou não comprovar a operação ou a causa do pagamento efetuado ou recurso entregue a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, bem como não comprovar o pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos ou mercadorias ou a utilização dos serviços referida em documentos emitidos por pessoa jurídica considerada ou declarada inapta, sujeitar-se-á à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, a título de pagamento a beneficiário não identificado ou pagamento sem comprovação da operação ou causa. IRRF. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS. NATUREZA DE PENALIDADE. NÃO CONFIGURAÇÃO. PRINCÍPIO DA PRATICABILIDADE TRIBUTÁRIA. O IRRF cobrado em face da não identificação do beneficiário ou da não comprovação da operação ou sua causa decorre da presunção legal de que a fonte pagadora assumiu o ônus pelo pagamento do imposto que deixou de reter e recolher em face de pagamentos comprovadamente efetuados a terceiros, sendo erigido pela lei, nestes casos, à condição de responsável pelo seu pagamento. Esta previsão legal não tem a natureza de sanção por ato ilícito e se coaduna com o princípio da praticabilidade tributária. IRPJ/CSLL PELA GLOSA DE DESPESAS. IRRF SOBRE PAGAMENTOS SEM CAUSA. EXIGÊNCIA SIMULTÂNEA. POSSIBILIDADE. Sujeita-se à incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, abarca todos os pagamentos efetuados por pessoa jurídica a beneficiário não identificado, bem assim os pagamentos efetuados ou os recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa. A sobredita tributação do IRRF, não exclui a incidência de IRPJ e CSLL resultante da glosa das despesas fictícias, as quais são indedutíveis por previsão legal expressa. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2016 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. PROCEDÊNCIA A multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, será aplicada sempre que ficar caracterizada a prática de sonegação ou fraude definida na forma da lei e comprovada em procedimento fiscal, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. PAGAMENTOS A EMPRESAS INEXISTENTES DE FATO. FORNECEDORES DE BENS. COMPROVAÇÃO DOS PAGAMENTOS. VALORES VULTOSOS. RECORRENTE NÃO LOGRA COMPROVAR O NEXO CAUSAL ENTRE OS PAGAMENTOS E OS PRODUTOS ADQUIRIDOS. MANUTENÇÃO DA TRIBUTAÇÃO NA FORMA DO ART. 61 DA LEI N° 8.981/95. NOTAS FISCAIS DE MERCADORIA SEM SUPORTE IDEOLÓGICO. MANUTENÇÃO DA MULTA QUALIFICADA. Fl. 22550DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 48 Comprovado por diligências in loco nos pretensos domicílios tributários dos fornecedores das mercadorias de que estes não existem ou não detém capacidade operacional, aliado à movimentação financeira incompatível dessas empresas e de seus sócios, à ausência de comprovação do nexo causal entre os pagamentos e as mercadorias adquiridas, tudo isso faz robusta prova de que os pagamentos não tiveram causa. Nessa senda, a apresentação de notas fiscais de mercadorias sem suporte ideológico e a inexistência de fato ou incapacidade operacional dos fornecedores justificam a qualificação da multa de ofício lançada. MULTA DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO – CARÁTER CONFISCATÓRIO – INOCORRÊNCIA. A falta ou insuficiência de recolhimento do imposto dá causa a lançamento de ofício, para exigir o tributo com acréscimos e penalidades legais, sendo inaplicável a estas o princípio do confisco. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PESSOAL DOS SÓCIOS-ADMINISTRADORES. CARACTERIZAÇÃO. Demonstrado que os sócios administradores incorreram na conduta prevista no artigo 135, III, do CTN, os mesmos serão incluídos no polo passivo da exação fiscal na condição de responsáveis tributários. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. GRUPO ECONÔMICO. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. A imputação da responsabilidade solidária exige a constituição de crédito tributário e decorre de expressa previsão legal. O Código Tributário Nacional, por meio de seu artigo 124, I, determina a responsabilização daqueles que possuem interesse comum na ocorrência do fato gerador. Demonstrado que foi engendrado uma estrutura empresarial formada por diversas empresas entre as quais se verifica um grande fluxo de mercadorias e recursos, da qual resulta submissão a uma mesma cadeia de direção/operacionalização, confusão patrimonial, ajustes de vontades e, por conseguinte, geração indevida de créditos tributários, as pessoas jurídicas e físicas integrantes do aludido grupo econômico terão interesse comum nas situações que constituíram os fatos geradores e deverão ser incluídas no rol de responsáveis pelo pagamento dos tributos sonegados. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PESSOAL/SOLIDÁRIA. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO. A ausência de impugnação do sujeito passivo solidário acarreta, contra o revel, a preclusão temporal do direito de praticar os atos impugnatórios, prosseguindo o litígio administrativo em relação aos demais. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Ano-calendário: 2016 LANÇAMENTO DO IRPJ. MESMOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS. RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO. Em se tratando dos mesmos pressupostos fáticos que motivaram o lançamento do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica, como idêntica é a contestação, mutatis mutandis, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento aos relativos à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL, Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS e Contribuição para o PIS/Pasep em decorrência da relação Fl. 22551DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 49 de causa e efeito existente entre as matérias, salvo se houver razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. Cientificados da Decisão de Primeira instância, a contribuinte e os responsáveis solidários abaixo especificados apresentaram Recursos Voluntários nas seguintes datas: Ciência do AC DRJ Protocolo do Recurso Vol BRASCOPPER 01/09/2022 fl. 21578 30/09/2022 (fl. 21834) fls. 21835/21916 CARLOS EDUARDO 19/09/2022 fl. 21615 30/09/2022 (fl. 21765) fls. 21766/21782 GABRIELA EMER 28/09/2022 fl. 21621 11/01/2023 (fl. 22350) fls. 22352/22365 RENATO MEGGIOLARO 21/09/2022 fl. 21614 13/09/2022 (fl. 21733) fls. 21734/21743 21/11/2022 (fl. 22105) fls. 22106/22219 FABIO CZERKES 23/02/2023 fl. 22396 30/09/2022 (fl. 21786) fls. 21787/21832 AR (recusado) (fl. 21633) TFF CONSULTORIA 21/11/2022 fl. 22223 13/09/2022 (fl. 21722) fl. 21723/21731 23/02/2023 fl. 22402 21/11/2022 (fl. 22224) fl. 22224/22346 MARIA TERESA 19/09/2022 fl. 21620 13/09/2022 (fl. 21744) fl. 21745/21753 18/11/2022 (fl. 21988) fl. 21988/22101 RONALDO MEGIOLARO 21/09/2022 fl. 21619 09/09/2022 (fl. 21640) fl. 21641/21680 THOR MEGIOLARO 21/09/2022 fl. 21618 09/09/2022 (fl. 21681) fl. 21682/21720 Cientificado da Decisão de Primeira instância, a contribuinte BRASCOPPER apresentou Recurso Voluntário (fls. 21835/21916), em que repete os argumentos da impugnação, requer a decretação da nulidade do Acórdão Recorrido; ou, alternativamente, que fosse reconhecida a improcedência dos AI´s ou, subsidiariamente, a insubsistência da imposição de multa de ofício qualificada, e aduz: (...) 33. Com o devido respeito ao julgamento em questão, é patente que: i) é eivado de nulidade, por preterição ao direito de defesa de BRASCOPPER e do Sr. CARLOS EDUARDO, pois não analisa minimamente os argumentos e provas sobre o núcleo dos fundamentos de defesa apresentados em impugnação, os quais, por si, se acolhidos, seriam capazes de desconstituir a cobrança ora em apreço; ii) caso essa C. Turma julgadora não reconheça a nulidade, o que se aventa simplesmente pelo princípio da eventualidade, a decisão de mérito mereceria ser revista, uma vez que inexiste o suposto grupo econômico de fato, além de que há prova irrefutável de que a BRASCOPPER comprou matéria prima para seu processo produtivo e de revenda nos exatos termos em que constam de sua contabilidade, conforme também demonstrado via laudo técnico pericial do IPT, sendo, portanto, materialmente impossível a sustentação das acusações fiscais. (...) a BRASCOPPER não poderia ter fabricado a quantidade de produtos por ela comercializada sem que tivesse previamente adquirido matérias primas no montante indicado em sua contabilidade. (...) Fl. 22552DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 50 39. Em outras palavras, o Acórdão não gastou uma linha sequer para de fato avaliar as razões e provas didaticamente apresentadas em sua impugnação. Veja-se que, com o devido respeito, o ponto posto pela DRJ é uma obviedade: a autuação tem como ponto fulcral as compras realizadas pelas Brascopper, e não suas vendas. 40. Ocorre que as provas são mecanismos processuais que visam tangenciar a realidade dos eventos do mundo que se encontram em discussão. Assim, por ter a Fiscalização considerado o conjunto probatório apresentado pela empresa, relativamente às suas compras, insuficientes para lhe dar razão, busca-se aqui outra forma de comprovar os mesmos fatos: de que a BRASCOPPER, exatamente como consta de sua contabilidade, comprou vergalhões de cobre em grande quantidade e não sucata. A forma de se comprovar isso é por meio das revendas e vendas de produtos fabricados com essa matéria prima no período em questão. (...) 41. Retomando às omissões na decisão recorrida, tem-se que a preterição ao direito de defesa da contribuinte é mais grave: toda a documentação que a BRASCOPPER se esmerou em produzir para sustentar sua defesa não foi sequer mencionada no acórdão recorrido. Com efeito, em sede de impugnação, foram apresentados os seguintes documentos, sendo que nenhum foi objeto de qualquer consideração por parte do Acórdão da DRJ: “DOC. 4 - Laudo técnico sobre o processo industrial da BRASCOPPER com cobre; DOC. 5 – Documentação relativa às antigas transações com METALOX; DOC. 6 – Contrato de conta escrow com o Grupo Athena; DOC. 7 - Livro razão com pagamento das empresas de consultoria financeira que gerenciaram a BRASCOPPER desde o pedido de recuperação judicial; DOC. 8 – Documentação relativa às antigas transações com a CBL; DOC. 9 - Demonstrativo do lucro da Brascopper com a intermediação da industrialização por encomenda; DOC. 10 - Demonstrativo das remessas de industrialização de sucata de "cobre"; DOC. 11 - Comprovantes de pagamento da R3 à Brascopper pela intermediação industrialização por encomenda (Razão, notas fiscais e extratos bancários); DOC. 12 - Relatório de faturamento (saída) - matéria prima cobre; DOC. 12-A - Relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima; DOC. 12-B – Demonstrativo de “receita bruta” e “custo bruto” – produtos acabados e para revenda; DOC. 13 - Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre; DOC. 14 - Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre - detalhado por nota fiscal eletrônica; DOC. 15 - Razão Analítico da CBL – histórico BRASCOPPER, referente ao período de 01/01/2016 a 31/12/2016; DOC. 16 – Extratos bancários com os registros dos pagamentos feitos pela BRASCOPPER a seus fornecedores).” 42. Os documentos acostados pela Recorrente, como se percebe, são fundamentais para que se compreenda a incorreção do trabalho fiscal, pois demonstram cabalmente que, caso a acusação fiscal fosse verdadeira, vale dizer, caso a BRASCOPPER tivesse comprado sucata ao invés de vergalhão de cobre – realidade essa que teria sido ocultada para fins de fraudulentamente tomar créditos de PIS/COFINS e ICMS -, nunca teria sido capaz de entregar as centenas de toneladas de cabos elétricos para seus clientes naquele período, conforme atestado por laudo técnico elaborado por renomado Sr. Engenheiro Técnico e ora reforçado por outro laudo técnico pericial elaborado pelo IPT. Para que seja possível entender a clareza dessa conclusão, é necessário avaliar toda a documentação Fl. 22553DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 51 supramencionada. A r. decisão recorrida, portanto, não poderia simplesmente ignorar tais documentos! (...) 47. Entre as decisões carentes de motivação são aquelas que não enfrentam o núcleo dos fundamentos de defesa da parte ou, mais literalmente, quando não cuidam dos argumentos que, por si, seriam suficientes para levar o julgador ao sentido contrário do quanto restou decidido. Com o devido acatamento, é o caso dos autos, pois, admitidas como regulares as compras de matéria prima pela BRASCOPPER no volume indicado em sua contabilidade (as quais necessariamente merecem ser admitidas como tal para fazer frente às incontroversas vendas), os autos de infração (que impõem glosa de custos, alteração do regime original de tributação e tributação na fonte por pagamentos tidos como sem causa) será óbvia e reflexamente cancelado. (...) a BRASCOPPER é adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre revendidos a terceiros, com ou sem transformação em cabos, revendas essas que jamais foram colocadas em dúvida pela Fiscalização. Citada aquisição e a emissão dos documentos fiscais correspondentes ocorreram em data bastante anterior à decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas. Além disso, o processo de produção da BRASCOPPER – (descrito em laudo pericial anexado aos autos – Doc. 4 da Impugnação e retratado com mais detalhamento no laudo técnico pericial elaborado pelo IPT) - é indício seguro e suficiente de que não seria possível a ela realizar citadas revendas sem que tivesse feito a aquisição respectiva, considerada sua incapacidade operacional para transformar sucata de cobre em vergalhões. A industrialização de sucata por encomenda referida no TVF – tida como única operação realizada pela BRASCOPPER em 2016 - representa em verdade menor parte de suas operações e está expressamente registrada na contabilidade da Contribuinte pelas mesmas quantidades indicadas pela Fiscalização no TVF; (...) ainda que a infração principal imputada à BRASCOPPER fosse procedente, o que se admite apenas para argumentar, o arbitramento seria nulo, seja por representar medida excepcional inadequada ao caso (conforme precedentes do CARF que estabelecem que a glosa de 51,43% dos custos não é suficiente para esse procedimento), seja por ter sido apurada com base em elementos extraídos da contabilidade da Contribuinte paradoxalmente tida como imprestável pela Fiscalização. A “receita bruta conhecida” utilizada para fins de arbitramento foi auferida por meio de contas contábeis de receita da Contribuinte e notas fiscais, e não por meio de seus extratos bancários, como seria de rigor, que comprovariam os ingressos de recursos no período; (...) a exigência de IRRF sob alegado pagamento sem causa também seria improcedente, (a) seja pelo fato de a causa do pagamento ter sido indicada pela própria Fiscalização (aquisição de cobre para revenda), (b) seja pela impossibilidade de se exigir esse tributo quando concomitante à exigência de IRPJ e CSLL decorrente da glosa dos custos correspondentes; (v) ainda subsidiariamente, considerando a inexistência de grupo econômico entre as empresas referidas e o fato incontroverso de que a BRASCOPPER efetivamente adquiriu a quantidade de vergalhão de cobre contabilizada para revenda a terceiro ou industrialização de fios e cabos elétricos, seria ao menos de se admitir que não há fraude ou simulação suficiente para a qualificação da penalidade de ofício e a imposição de responsabilidade Fl. 22554DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 52 solidária em relação a seus sócios administradores, notadamente o Sr. Carlos Eduardo. Outrossim, a multa qualificada em 150% é, por definição e princípio, incompatível com o lançamento do IRRF por mera não identificação da causa da operação, o que impõe a sua redução para o patamar de 75%. (...) Fraudes eventualmente perpetradas por outras empresas, que podem ter sido deflagradas pelas autoridades fiscais, não devem de forma alguma resvalar na BRASCOPPER, empresa sadia, tradicional e produtiva, como se verá a seguir (item V.2). 62. Reitere-se: sem a aquisição de vergalhões de cobre, na forma e quantidade registradas na contabilidade, não haveria fabricação e venda de produtos acabados (e, por conseguinte, inexistente seria a receita que serviu de base para a própria autuação fiscal). Esse dado de realidade jamais pode ser desconsiderado (como o foi) pelo Acórdão recorrido. (...) 63. O que se tem verificado até o momento é a interpretação deturpada de dois singelos eventos (da procuração concedida a Marcos Vinícius para realizar pagamentos a fornecedores; e da utilização do endereço da BRASCOPPER em São Luís para abertura de filial da Metalox). Esses são os únicos fatos (regulares, diga-se) que relacionam a BRASCOPPER às empresas relacionadas às FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO. Tais eventos, contudo, são absolutamente incapazes de sustentar a acusação fiscal de existência de grupo econômico com a BRASCOPPER e da fraude na compra de produtos de cobre (conforme demonstrado nos tópicos V.3.3.1 e V.3.3.2 abaixo). Os indícios de irregularidades praticadas por referidas pessoas física e jurídica em nada se relacionam à BRASCOPPER. (...) No parágrafo 44.12 da decisão ora guerreada, a DRJ afirma que a Recorrente insiste em tese não questionada nos autos, vale dizer, a venda de produtos de cobre. Vê-se aí que, claramente, a DRJ não compreendeu a defesa: sim, as acusações baseiam-se nas compras da BRASCOPPER e como elas foram consideradas fraudulentas. Justamente para infirmar essa acusação, a defesa demonstra que não é materialmente possível acontecer o que diz ter acontecido a fiscalização, em razão das vendas de produtos, a partir da matéria prima comprada, efetuadas em 2016. Isto porque os produtos, incontestavelmente vendidos no período em questão, não poderiam ter sido fabricados com matéria prima (leia-se: vergalhões de cobre) caída do céu. (...) 67. O segundo ponto que merece destaque consta do parágrafo 44.13 do r. Acórdão recorrido. Também aqui se vê, com a devida vênia, a má compreensão do caso pela DRJ. A Recorrente não ratifica a acusação relativamente ao seu relacionamento com a CBL. Justamente o contrário. A recorrente explica e comprova os antigos relacionamentos comerciais na área de condutores elétricos com a CBL, os quais, não se sabe o porquê, foram omitidos em todas as análises sobre o modus operandi a BRASCOPPER no TVF. O que se busca, com isso, é demonstrar como existiam duas operações distintas com produtos de cobre no período objeto da autuação – vide tópico V.3.2. abaixo -, que não foram percebidas pela fiscalização, causando uma visão totalmente míope sobre operações de industrialização por encomenda entre BRASCOPPER e CBL. 68. No que tange ao parágrafo 44.11 da r. decisão recorrida (a respeito da procuração concedida a Marcos Vinícius Martins para realizar pagamentos a fornecedores através da Fl. 22555DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 53 conta bancária da BRASCOPPER perante o SICREDI MS/TO), há claro lapso no julgamento. Conforme descrito nos parágrafos 117 e 118 da impugnação (fls. 11617 e 11618), quem estava em tratativas para compra da METALOX era o Sr. MARCOS VINÍCIUS, e não a Recorrente. 69. Finalmente, é impossível deixar de comentar que a r. decisão recorrida confirma que à época dos fatos as empresas das quais a BRASCOPPER comprava suas matérias primas eram consideradas idôneas, mas repete, sem maior cuidado, as infundadas alegações fiscais de que a BRASCOPPER participava do esquema fraudulento. E pior. Faz ainda afirmações, mais uma vez usando fórmulas retóricas, que não tem comprovação nos autos, e.g., quando afirma que “é INDISCUTÍVEL que a BRASCOPPER tinha ciência da falta de capacidade operacional e econômica da GLOBAL, R3, METALOX e COPPER GREEN (...)” (...) 71. Com relação aos demais fundamentos apresentados como razão de decidir da DRJ a respeito dos fatos (fls 21471 a 21474), basta uma simples leitura para se constatar que, efetivamente, os argumentos da defesa são afastados (a) ou por simples reafirmações dos termos do TVF (b) ou por fórmulas genéricas (e.g. “diante da vasta documentação e detalhamento dos cruzamentos entre os envolvidos .... é plenamente plausível inferir que se efetivou o esquema fraudulento exaurido neste processo”; ou “ao compulsarmos os autos, é irrefutável o arcabouço fático-probatório que nos levou a aduzir pela existência: da unicidade de controle e direção, da confusão patrimonial e dos ajustes de vontades entre as partes envolvidas, para cometimento do ilícito fiscal em apreço”). (...) 81. Quanto à matéria-prima alumínio, a BRASCOPPER construiu uma fábrica de vergalhões e condutores de alta e média tensão no Estado do Maranhão, a uma distância de apenas 15 km da ALUMAR (consórcio entre as empresas Alcoa, Rio Tinto e South32), até então uma das três únicas plantas nacionais com capacidade de produzir alumínio primário a partir da bauxita no país. Neste contexto, firmou contrato de fornecimento de alumínio por 15 anos com a principal membro do consórcio, a empresa americana ALCOA Alumínio S.A. (...) 83. Por outro lado, para suprir sua demanda pela matéria prima cobre, a BRASCOPPER definiu uma estratégia que envolvia a aquisição de cátodos de cobre eletrolítico no Chile (um dos maiores produtores mundiais), a transformação em vergalhões pelo processo upcasting no Paraguai, onde o custo de energia é notoriamente baixo, e a subsequente internalização do vergalhão de cobre para sua unidade localizada no Estado de Mato Grosso do Sul, a qual realizava a produção de condutores elétricos, ou então remetia o material para fabricação de cabos na unidade matriz de Ribeirão Preto - SP. 84. Quando tal logística não supria a demanda de cobre, a BRASCOPPER adquiria o material da empresa CARAÍBA/PARANAPANEMA, a qual concedia crédito para aquisição do material a prazo. 85. Entretanto, no final de 2012 a BRASCOPPER se viu obrigada a se desfazer dessa estrutura, em função de autuação fiscal lavrada pela Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, que glosou incentivos fiscais concedidos pelo Estado de Mato Grosso do Sul (AIIM 4.005.224-2, de 11/10/2012) sob o fundamento de não terem sido previamente aprovados pelo CONFAZ (“guerra fiscal”). Essa situação colocou a BRASCOPPER sob uma situação de grave insegurança jurídica e deu início a uma grave crise financeira - o risco inerente à autuação reduziu drasticamente a capacidade da BRASCOPPER de captar crédito e investimento no mercado financeiro. (...) Fl. 22556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 54 87. Inviabilizada a cadeia logística internacional formatada pela BRASCOPPER e extinto o relacionamento com a PARANAPANEMA em decorrência de sua inclusão no processo de recuperação judicial, a BRASCOPPER foi obrigada a obter suprimento de cobre no mercado interno, como a maior parte das fabricantes de condutores elétricos nacionais. 88. Por razões técnicas e econômicas, a BRASCOPPER não foi capaz de realizar elevado o investimento necessário para construir uma unidade de transformação do cobre no seu estado bruto em vergalhões, seja pela transformação de cátodos de cobre eletrolítico (processo upcasting), seja pela transformação de sucatas de cobre (o chamado processo de laminação a quente de cobre “refinado a fogo” - RAF). 89. Nestas circunstâncias, se de um lado a BRACOPPER tinha a ALCOA como sua fornecedora de alumínio, haja vista o contrato de fornecimento firmado pelo período de 15 (quinze) anos, no mercado de cobre a BRASCOPPER foi obrigada a adquirir o material de empresas sem o mesmo renome, mas que vinham atuando fortemente no mercado interno, atendendo grande parte da indústria nacional, inclusive os concorrentes da BRASCOPPER na indústria de fios e cabos de energia. 90. Com as informações que detinha à época, não se poderia imaginar que se tratava de empresas inidôneas. V.3 Da inexistência de grupo econômico entre a BRASCOPPER e as empresas arroladas no AI: improcedência dos “indícios” apontados pela Fiscalização 91. Com o devido respeito à Fiscalização, em que pese a BRASCOPPER ter (assim como diversas outras indústrias de laminação e fabricação de condutores elétricos) adquirido vergalhão de cobre das empresas declaradas inidôneas e ter se relacionado com pessoa de MARCOS VINICIUS MARTINS, concedendo-lhe poderes para movimentar conta bancária no SICREDI e não se opondo à abertura de filial da empresa METALOX em seu endereço em São Luís, tais circunstâncias estão longe de caracterizar “GRUPO BRASCOPPER”, expressão visivelmente utilizada como força de expressão argumentativa. 92. Se algum grupo pode ser deduzido dos elementos trazidos no TVF, esse grupo é o “GRUPO MEGIOLARO” ou ainda “GRUPO MARTINS-MEGIOLARO”, jamais “GRUPO BRASCOPPER”, como se esta capitaneasse um esquema fraudulento que parece ter abastecido todo o mercado nacional de cobre oriundo de sucatas. (...) V.3.1. Metalox 96. A METALOX, pelo que é de conhecimento público, é empresa constituída na década de 1990 e que possui longo e antigo relacionamento comercial com a BRASCOPPER. (...) 99. A título exemplificativo, nos anos de 2006 e 2007 a METALOX forneceu à BRASCOPPER 1 torcedeira p/ cabos, 1 trefila intermediária com puxador, 1 compressor, 1 torcedeira planetária 7 fios, 1 máquina de moldagem, 1 espectômetro e 1 empilhadeira (Doc. 05 da Impugnação). 100. No ano de 2012, a BRASCOPPER vendeu à METALOX uma linha de fundição e laminação contínua (Doc. 05 da Impugnação). (...) 107. Em síntese, sustenta a Fiscalização que a METALOX não tinha “capacidade operacional” e foi utilizada pela BRASCOPPER para adquirir sucatas travestidas de vergalhões, o que permitiria o creditamento de impostos (ICMS, Pis e Cofins) e a redução da base de cálculo de IRPJ e CSLL. Fl. 22557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 55 108. A realidade, contudo, é diversa. A BRASCOPPER de fato adquiriu, pagou e recebeu vergalhões de cobre da METALOX, material este que revendeu ou inseriu em seu processo produtivo, transformando o insumo em condutores elétricos. Consoante observado supra, historicamente a METALOX atuava no setor metalúrgico e possuía notória capacidade técnica, ao contrário do que supôs a Fiscalização. (...) V.3.2. Condel 109. Diante do quadro de crise financeira que culminou no pedido de recuperação judicial ajuizado em 23/05/2014, a BRASCOPPER não possuía capital de giro para explorar todas as suas unidades. Por esta razão, a BRASCOPPER arrendou sua unidade de Três Lagoas / MS a outras empresas do setor, a exemplo de Coppersteel e da Cable & Cable, ambas indicadas na figura 21 do TVF. 110. Neste mesmo contexto, a BRASCOPPER arrendou o bloco E de sua unidade em Três Lagoas à CONDEL, empresa que se mostrava idônea, com sócios que residiam no estado do Mato Grosso do Sul e que aparentavam possuir plena capacidade financeira para explorar a fábrica arrendada. (...) 114. No que tange à ação trabalhista n. 0012404-37.2016.5.15.0113, ajuizada por Denis Wilians Giraffa contra BRASCOPPER e CONDEL, observa-se que não chegou a ser produzida prova testemunhal acerca da responsabilidade solidária entre as empresas. Em realidade, o autor simplesmente afirmou que “no desenrolar do contrato de trabalho, a prestação também ocorreu em prol das demais recdas, o que se prova por emails destas ao recte., onde pedem que o mesmo efetue compra de materiais”. Entretanto, o reclamante não juntou email algum comprovando a afirmação. V.3.3. Ausência de gestão compartilhada ou confusão patrimonial com qualquer empresa objeto da fiscalização 115. Como decorrência dos elementos reproduzidos no tópico anterior, sustentou a Fiscalização que haveria “direção única e confusão patrimonial que permitem afirmar a existência de um grupo econômico de fato entre a BRASCOPPER e as empresas GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN, COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO e GCP” (pg. 18). 116. Em que pese o extenso trabalho realizado pela Fiscalização, que parece ter revelado uma intrincada relação entre empresas e pessoas físicas que atuaram de forma inidônea no mercado de cobre, o fato é que inexiste grupo econômico entre citadas empresas e a BRASCOPPER. Esta, repita-se, limitou-se a adquirir vergalhões de cobre de algumas das empresas citadas, bem como a encomendar perante a CBL a transformação de sucatas em vergalhões, a pedido da empresa R3. 117. A bem da verdade, a Fiscalização não comprovou, em realidade sequer descreveu, atos de direção e/ou controle praticados por sócios ou funcionários da BRASCOPPER sobre as empresas R3, METALOX, COPPER GREEN, GLOBAL, ou ainda sobre os membros das famílias MARTINS e MEGIOLARO. 118. Não há no TVF qualquer menção a ordens, controles, determinações ou gestões dos sócios da BRASCOPPER (CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS e CLEDER CORRAL PROVENCIO) ou mesmo funcionários seus, sobre as empresas “de fachada” ou “noteiras”, seus sócios, operadores ou executores. (...) 120. Outrossim, o TVF não descreve intermediações com sucateiros ou ganhos pessoais de sócios da BRASCOPPER, tampouco suscita a utilização de pessoas interpostas, como familiares ou “laranjas”, para movimentar “empresas de fachada”, ao contrário do que foi Fl. 22558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 56 amplamente descrito quanto às empresas “noteiras”, a família MARTINS e a família MEGIOLARO. (...) 124. Outro ponto importante do TVF, que desqualifica a existência de um suposto grupo econômico entre a BRASCOPPER e as empresas inidôneas relatadas, é o depoimento da empresa CONDEX. Trata-se de depoimento importante à medida que é o único depoimento, juntado ao TVF, de uma indústria existente de fato que adquiriu materiais vendidos ou intermediados por RENATO MEGIOLARO. 125. Em mencionado depoimento, fica claro que as empresas GLOBAL, COPAR, PROCOBRE, COPPER GREEN, SUPER ZINCO e IFE eram representadas por RENATO MEGIOLARO, que se apresentava como “gestor comercial” de tais empresas (vale destacar que a BRASCOPPER não é mencionada pela CONDEX, tampouco seus sócios CARLOS EDUARDO e CLEDER). (...) 130. Outrossim, os elementos trazidos no TVF não demonstram qualquer “confusão patrimonial” entre as empresas. Com efeito, o relato não aponta transferências de bens de capital entre as empresas, assunção de despesas de outras despesas pela BRACOPPER, transferências de recursos financeiros desvinculados com a movimentação de mercadorias, ou ainda qualquer forma de benefício econômico final por parte da BRASCOPPER ou seus sócios. (...) 136. O que existiu, e será esclarecido a seguir, foi um ponto de conexão entre a BRASCOPPER e a pessoa de MARCOS VINICIUS MARTINS e um ponto de conexão entre a BRACOPPER e a METALOX, pontos estes que estão muito longe de caracterizar grupo econômico. V.3.3.1. Da procuração concedida a Marcos Vinícius para realizar pagamentos a fornecedores 137. É fato que a BRASCOPPER concedeu procuração a MARCOS VINICIUS MARTINS para que este realizasse alguns pagamentos a fornecedores por meio de conta aberta perante o SICREDI MS TO. Contudo, tal fato não configura ilícito per se. Ademais, diante das informações e circunstâncias que se apresentavam à época, tais autorizações em nada pareciam ilícitas aos olhos da BRASCOPPER e seus administradores. Muito pelo contrário, a participação de terceiros em movimentações financeiras da BRASCOPPER tornou-se algo comum desde que a BRASCOPPER ajuizou pedido de recuperação judicial, em 23 de maio de 2014. 138. Por circunstâncias diversas que vinham se arrastando desde 2012, a BRASCOPPER chegou a 2014 com três unidades fabris de reconhecida capacidade produtiva (em Três Lagoas – MS, São Luís – MA e Ribeirão Preto - SP), mas sem qualquer capital de giro próprio – toda a atividade vinha sendo financiada por capital de terceiros, que se tornaram credores da recuperação judicial. (...) 161. Por tudo isso, conclui-se que a autorização concedida a MARCOS VINICIUS para que fizesse alguns pagamentos a fornecedores estava muito longe de caracterizar GRUPO ECONÔMICO com outras empresas a ele relacionadas. Tratava-se, apenas e tão somente, de autorização para que MARCOS VINICIUS operacionalizasse pagamentos a fornecedores de cobre que eram de seu relacionamento. V.3.3.2. Da utilização do endereço da BRASCOPPER em São Luís para abertura de filial da Metalox Fl. 22559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 57 162. Com relação à movimentação que a METALOX teve, ou simulou ter, em sua filial, a BRASCOPPER não tem qualquer conhecimento. Em verdade, sabe apenas que a METALOX jamais chegou a se instalar de fato em São Luís, Maranhão. 163. No mais, é preciso destacar que o TVF não trouxe qualquer elemento de prova quanto a um suposto “ajuste de vontades” entre BRASCOPPER e METALOX para a prática de atos fraudulentos no Estado do Maranhão. 164. Basicamente, afora a abertura do CNPJ filial pela METALOX no mesmo endereço, fato que independe de autorização ou ciência da BRASCOPPER, o único elemento que a Fiscalização traz com relação ao Maranhão é o depoimento da empresa BRUSCHI & RODRIGUES LTDA, acerca de um suposto contato com a pessoa de ROBSON SILVA, da empresa GLOBAL. (...) 166. Intimada a prestar esclarecimentos, a empresa BRUSCHI & RODRIGUES LTDA afirmou que recebeu pagamentos da GLOBAL em razão da venda de sucatas. Novamente intimada para prestar informações acerca do contato da GLOBAL, a BRUSCHI respondeu que a pessoa de contato era ROBSON SILVA, o telefone era 098 99119-7638 e o endereço era Rua 12, s/n, Distrito Industrial, São Luís, Maranhão. Com o devido respeito à Fiscalização, a BRUSCHI não afirmou ter entregado sucatas em mencionado endereço, muito menos que a sucata tenha sido entregue à BRASCOPPER. 167. Observe-se que tal empresa de Rio Branco/AC é totalmente desconhecida da BRASCOPPER, assim como qualquer atividade da GLOBAL no mesmo endereço da BRASCOPPER, em São Luís/MA. (...) V.4. Da boa-fé da BRASCOPPER na aquisição das mercadorias contabilizadas. Descrição de seu processo de produção e evidências sobre a compra de vergalhões de cobre 171. Da leitura do TVF, um fato é incontroverso: todas as acusações da Fiscalização relativas às empresas que foram consideradas inidôneas, no sentido de não possuírem capacidade operacional, em nenhum momento foram direcionadas à BRASCOPPER. Pelo contrário. A própria Fiscalização assume que a BRASCOPPER é uma empresa de porte e que atua com consistência no setor, conforme se depreende do seguinte trecho de fls 11.318: “Reafirmamos que a BRASCOPPER é empresa existente de fato, com capacidade operacional e atuante no ramo de cabos e fios elétricos. Isso pode ser visto em vídeo na plataforma Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=lDzytLZu-YM – acesso em 14/10/2020), tendo inclusive recebido visita da governadora Roseane Sarney, à época, em seu estabelecimento localizado no Maranhão (https://www.youtube.com/watch?v=uur91iqV3yE – acesso em 14/10/2020).” 172. Porém, afirma a Fiscalização que as fornecedoras da BRASCOPPER não teriam capacidade para transformar sucata de cobre em vergalhão, sendo na realidade empresas de fachada (R3, GLOBAL, COOPERGREEN) ou fraudulentas (METALOX). Daí é que a Fiscalização presume que a BRASCOPPER teria comprado exclusivamente sucata de cobre em 2016, com o intuito de tomar ilegalmente crédito de ICMS, da Contribuição ao PIS e da COFINS, vedados pelo artigo 48 da Lei n. 11.196/2005. (...) 174. Muito embora possam existir questões envolvendo a licitude das empresas arroladas pela Fiscalização - das quais a BRASCOPPER nunca teve a menor ciência, vale ressaltar Fl. 22560DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 58 mais uma vez -, as operações com a BRASCOPPER foram reais e aconteceram exatamente nos termos postos em sua contabilidade. 175. Ressalte-se que a BRASCOPPER não pretende ir de encontro com as afirmações da Fiscalização no sentido de que a METALOX, GLOBAL, COPPER GREEN e R3 não possuíam capacidade operacional para produzir o material estampado nas notas fiscais por elas emitidas (vergalhão de cobre). A BRASCOPPER não teve e não tem relacionamento próximo com tais empresas, não tem qualquer ingerência de gestão ou financeira sobre elas, de modo que nem poderia pugnar pela sua idoneidade. Assim, a BRASCOPPER não sabe ao certo como essas empresas conseguiam o vergalhão de cobre, mas é fato que este foi efetivamente vendido à BRASCOPPER e efetivamente revendido a terceiros, que efetivamente pagaram pelos bens adquiridos. 176. A demonstração da afirmativa da BRASCOPPER sobre suas operações será feita neste item, comprovando que ela: i) é adquirente de boa-fé da matéria prima vergalhão, tendo revendido ou transformado em condutores elétricos o material de cobre adquirido em 2016, qual seja, vergalhão de cobre; ii) também operou com sucata em 2016, mas mediante operação distinta, de intermediação de industrialização por encomenda, perfeitamente identificada em sua contabilidade. Essa operação representa somente uma parte de suas atividades. 177. Far-se-á tal prova mediante diversos elementos que poderão, conjuntamente, demonstrar que é digna de absoluta fé a contabilidade da BRASCOPPER, tendo sido indevidamente desconsiderada pela Fiscalização. (...) 179. Em razão da infeliz falta de elementos apresentados durante o processo de fiscalização pela Recorrente - o que se explica por ter ocorrido durante o ano de 2020, em que os funcionários da empresa trabalhavam em número reduzido e à distância em razão da pandemia que assolou a todos; bem como pela constante luta que vive a empresa para cumprir o plano de recuperação judicial e adimplir as suas obrigações quotidianas, inclusive fiscais e trabalhistas – a Fiscalização não compreendeu as duas formas de negócio praticadas pela Recorrente durante o ano de 2016, relativamente à matéria prima cobre, quais sejam: ii.1) entrada de sucata para intermediação de industrialização por encomenda por meio de laminação na CBL, na qual a BRASCOPPER nunca tomou crédito da contribuição ao PIS e da COFINS; a uma porque não se tratava de compra de matéria prima; a duas justamente em razão da vedação legal para tanto; ii.2) compra de vergalhão para revenda ou como matéria prima para seu processo industrial para produção de fios de cobre. 180. Por não ter compreendido que existiam essas duas operações diferentes, a Fiscalização assumiu que todas as compras da BRASCOPPER eram de sucata e, ao que tudo indica, que passariam por processo de industrialização por encomenda na CBL e, ainda, que haveria desvio de mercadorias na saída dos vergalhões da CBL. (...) V.4.1. Da falta de parque industrial para transformação de sucata de cobre em vergalhão pela BRASCOPPER A BRASCOPPER buscará aqui esclarecer o porquê de o desenho montado pela Fiscalização ser absolutamente impraticável no contexto das suas atividades. 183. A forma mais límpida para fazê-lo é pela análise do que, com a devida vênia, ficou de fora das considerações da autoridade fiscal, a saber: as vendas praticadas pela BRASCOPPER em 2016 de produtos acabados (fios e cabos elétricos de cobre) e as revendas de vergalhão de cobre. Fl. 22561DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 59 184. Diz-se que é límpida porque, como já mencionado, a BRASCOPPER é fornecedora de condutores elétricos para diversos clientes, dentre os quais estão grandes concessionárias de energia que efetuam suas compras por meio de licitação, com todos os requisitos de homologação de produtos necessários para tanto, terminando com a instalação de redes de energia elétrica em todo o Brasil. Assim, tais vendas não poderiam ser desqualificadas, como não foram pelo TVF. Afinal, entender que as vendas da BRASCOPPER para seus clientes são fraudulentas significaria continuar ad infinitum, e sem qualquer respaldo fático ou jurídico, a equivocada tentativa da Fiscalização de estender uma fraude deflagrada dentre aquelas empresas próximas aos sucateiros, para outras pessoas jurídicas que os sucedem na cadeia econômica. 185. A análise das vendas praticadas permitirá responder a seguinte pergunta e demonstrar o ponto da defesa: para que pudesse promover as vendas que efetuou em 2016, poderia a BRASCOPPER ter dado entrada em seu estabelecimento unicamente sucata de cobre, como afirma ter ocorrido a autoridade lançadora? 186. A resposta é negativa. Caso a BRASCOPPER adquirisse sucata de cobre de seus fornecedores, ao invés de vergalhão (como diz a acusação fiscal), não poderia ter atendido seus clientes e vendido 6.456.161,30 kg de produto final a base de cobre. 187. Veja-se. 188. Conforme laudo elaborado pelo Professor Doutor Alessandro Fraga Farah8 (Doc. 4 da Impugnação), a fabricação de fios condutores de eletricidade depende da utilização de cobre como matéria prima. O cobre pode se apresentar com diversos níveis de pureza, sendo que, para que possa ser utilizado em indústria de condutores elétricos, como a BRASCOPPER, somente estando com cerca de 99,9% de pureza será admissível como matéria prima. 189. A sucata de cobre, em nenhuma circunstância, apresenta esse nível de pureza. 190. Daí porque, para a BRASCOPPER ou qualquer outra indústria de condutores elétricos, ter toneladas de sucata de cobre em seu pátio é o mesmo que nada, pois esse material não pode ser levado ao processo de trefilação e extrusão e, ao fim, resultar no produto acabado (fios e cabos elétricos). A não ser que a indústria, ela própria, tenha todo o aparato necessário para executar também esse processo industrial prévio, de transformação de sucata de cobre em vergalhão, pois é esse último que tem as características físico-químicas necessárias (99,9% de pureza) para servir como condutor elétrico. 191. Conforme consta do laudo técnico juntado aos autos (Doc. 4 da Impugnação), a BRASCOPPER não tinha em 2016 (período de apuração ora sob análise) condições (máquinas, funcionários, licença ambiental, laboratório de análise, entre outros itens fundamentais) “que permitissem a produção de fios condutores de cobre a partir de sucata.” Ou seja, a BRASCOPPER não detinha em seu parque fabril a capacidade de transformação de sucata em vergalhão. 192. Em síntese, a BRASCOPPER não possui hoje, não possuía em 2016, e na realidade nunca possuiu, parque industrial para a transformação de sucata de cobre em vergalhão. V.4.2. Dos negócios jurídicos praticados entre a BRASCOPPER e a CBL: intermediação de industrialização por encomenda 193. Como sobredito, a BRASCOPPER em 2016 praticou duas operações distintas com cobre. Na primeira delas, comprou vergalhão para revenda ou fabricação de cabos em sua unidade em Ribeirão Preto. Na segunda, prestou serviço de industrialização por Fl. 22562DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 60 encomenda, na qual a R3 requereu que a BRASCOPPER realizasse a transformação da sucata de cobre em vergalhão. Ocorre que a BRASCOPPER não detém o aparato industrial para tanto, conforme amplamente tratado no tópico acima. Apesar disso, a BRASCOPPER tinha condições de terceirizar essa encomenda na CBL Laminação, e ganhar com essa intermediação de industrialização por encomenda. (...) 198. Conforme demonstra documentação anexa (Doc. 8 da Impugnação), no período que vai de março de 2012 a abril de 2013, a BRASCOPPER encomendou a industrialização (transformação) de 2.249,12 kg de sucatas de cobre, cuja origem advinha de diversas outras empresas que em nada se relacionam com aquelas objeto da atribuição de fraude nos presentes autos (nestas operações, conforme determina a legislação, a BRASCOPPER não se creditou de qualquer tributo). (...) 202. Dada a tradição da BRASCOPPER e seu antigo relacionamento com a CBL, a BRASCOPPER tinha acesso a “cotas” de produção na CBL. Foi justamente o acesso a cotas de laminação na CBL que a BRASCOPPER disponibilizou à R3, visando obter uma margem de ganho no preço cobrado pela transformação. Pode-se dizer, portanto, que a BRASCOPPER vendeu seu direito ao uso das cotas de laminação na CBL à R3 em 2016. (...) 203. Com efeito, a BRASCOPPER cobrava da R3 o preço de R$ 1,90 por kg de transformação, ao passo que a CBL cobrava da BRASCOPPER o preço de R$ 1,73 por kg. Ou seja, a BRASCOPPER usufruía de um ganho de R$ 0,17 (dezessete centavos) por kg transformado. Ou seja, a BRASCOPPER tinha um de R$ 170 por tonelada. 204. A planilha anexa (Doc. 9 da Impugnação) indica mencionado ganho. (...) V.4.2.2. Do alegado desvio de vergalhões de cobre industrializados na CBL e simulação de prestação de serviço 208. Em primeiro lugar, o universo de notas fiscais relativas a mercadorias que a Fiscalização alega terem sido desviadas é mísera frente ao volume de operações que existiram à época, de maneira lícita e perfeitamente refletidas na contabilidade da BRASCOPPER (como atestado no TVF, onde consta a remessa e o retorno das mercadorias industrializadas pela encomendante R3), no seguinte esquema: (...) 209. Na tabela 82 do TVF (fls 11.277) consta que 209.478 kg de vergalhão de cobre (soma da coluna “quantidade”) não tiveram como destino real a R3, tendo sido transportado para IBÉRICA. Veja-se: (...) 210. Contudo, no ano de 2016, a operação de intermediação de industrialização por encomenda em que a BRASCOPPER enviava a sucata da R3 para laminação na CBL importou na circulação de 5.358.817 kg de cobre (Doc. 10 da Impugnação). Fl. 22563DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 61 (...) 219. Em suma, não há respaldo para salvaguardar a afirmação de que ocorreu a simulação na industrialização por encomenda. 220. Não poderia ser diferente, pois a BRASCOPPER é empresa de tradição no ramo da industrialização de condutores elétricos e praticou as operações que foram escrituradas em sua contabilidade, indevidamente desconsideradas pela autoridade fiscal. (...) 223. Tal mercado tem características fortes de informalidade, razão pela qual a BRASCOPPER não detém contratos que corporifiquem os negócios que praticou com a R3, encomendante da industrialização. Esse fato, porém, pode ser suprido pelos demais elementos de prova a seguir organizados. 224. Em primeiro lugar, os registros contábeis da BRASCOPPER mostram claramente os recebimentos da R3, como pagamento pelo serviço de industrialização por encomenda (Doc. 11 da Impugnação). (...) 228. Ou seja, a BRASCOPPER não tem nenhuma responsabilidade ou conhecimento a respeito do destino que era dado ao vergalhão de cobre depois de sua industrialização na CBL. Se foi levado à R3, à SUPERZINCO, ou qualquer outro local. É por essa razão que são vazias as imputações de participação na fraude descrita no TVF à BRASCOPPER, pois sua base é o desvio de mercadorias saídas da CBL, sobre as quais a BRASCOPPER não tinha qualquer ingerência. (...) V.4.3. Da impraticabilidade da acusação fiscal a respeito da entrada de sucatas na BRASCOPPER 233. Por tudo quanto até agora visto, já é possível apresentar as devidas conclusões a respeito da impraticabilidade da acusação fiscal, quando afirma que a BRASCOPPER teria comprado sucata e não vergalhão de seus fornecedoras (R3, Global, CooperGreen e Metalox). 234. A Recorrente junta aos autos Relatório de faturamento de saída, em valor e em peso, de matéria prima cobre em 2016 (Doc. 12 da Impugnação). Tal demonstrativo esclarece que no ano de 2016 a BRASCOPPER faturou R$ 143.937.343,61 pela venda de 6.456.161,30 kg de produtos à base de cobre, sendo eles 3.990.019,00 kg de vergalhão de cobre e 2.437.244,30 de produto acabado. Nos doc. 12-A e 12-B da Impugnação pode-se ver “Relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima” e “Demonstrativo de receita bruta e custo bruto – produtos acabados e para revenda”, respectivamente. 235. Outrossim, a BRASCOPPER apresenta a comparação dessas vendas com as compras de matéria prima a base de cobre em 2016 (Doc. 13 da Impugnação), pelo qual se percebe que as compras de sucata foram ínfimas, enquanto a compra de vergalhão de cobre chegou a 6.029.702,44 kg – note-se que as compras de sucatas, ínfimas, foram devidamente reconhecidas como tal, o que reforça a veracidade dos lançamentos contábeis da BRASCOPPER (...) 236. Sobre o cotejamento entre tais compras e vendas, destaque-se o seguinte trecho do laudo técnico (Doc. 4 da Impugnação) que avaliou a processo produtivo da BRASCOPPER: “Na tabela DOC. 02 (Demonstrativo de compra e venda de matéria prima e produtos a base de cobre), vê-se que o peso comprado de matéria prima (compra total de 6.165.394,44 kg) e o peso de venda (venda total de 6.456.161,30 kg) de produto durante o ano de 2016 está dentro do esperado para a produção da Brascopper. A diferença (290.766,86 kg) pode ser explicada pela quantidade de matéria prima em Fl. 22564DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 62 estoque, uma vez que essa não foi determinada, bem como pela adição de PVC ou polietileno para o isolamento dos fios e condutores, o que agrega peso ao produto final (fios e cabos elétricos). A produção encontra-se dentro do padrão industrial esperado tendo em vista que foram comprados 6.029.702,44 kg de vergalhão de cobre...(...)” (...) 237. Disto fica claro que a BRASCOPPER só pôde vender a todos os seus clientes (e.g. FIO COPPERSTIC CL1 750 V 6,00 mm2 para a ELETROPAULO, de acordo com as notas fiscais organizadas por compra e venda de cobre no período - Doc. 14 da Impugnação), porque comprou vergalhão de cobre, e não sucata. (...) 240. De tudo isso, tem-se que: a. é fato incontroverso que em 2016 a BRASCOPPER vendeu fios e cabos de cobre aos seus clientes, bem como revendeu vergalhão de cobre a outros clientes; b. o laudo técnico afirma que a quantidade de kg de produtos à base de cobre vendidos em 2016 pela BRASCOPPER é compatível com o que se requer no processo industrial a partir da compra de vergalhão de cobre, e não de sucata; c. a BRASCOPPER não tem capacidade de transformar sucata em vergalhão; d. não ocorreu, na CBL, qualquer industrialização de sucata de cobre pertencente à BRASCOPPER, mas sim de sucatas remetidas originalmente pela R3. 241. Então pergunta-se, novamente: de onde vieram todas as mais de 6 toneladas de vergalhão de cobre que a BRASCOPPER utilizou em 2016 para fabricar e revender os produtos que deu saída? 242. Ora, a resposta só pode ser uma: das compras de vergalhão que foram sempre postas na contabilidade da BRASCOPPER, pelas quais houve efetivo pagamento (Doc. 16 da Impugnação), tendo entrado em seu estabelecimento industrial. (...) 244. Todos eles elementos são ratificados por laudo técnico elaborado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (“IPT”), que será juntado aos presentes autos. 245. Por tudo quanto exposto, demonstra-se a hialina boa-fé da BRASCOPPER, que praticou suas operações na exata forma que foram lançadas em seus registros fiscais. (...) V.5. Subsidiariamente: da nulidade do arbitramento realizado 246. Conforme salientado linhas acima, ainda que fossem improcedentes os argumentos anteriores e não fossem reconhecidos como válidos os custos aferidos pela BRASCOPPER com a aquisição de vergalhões de cobre para revenda e aplicação em seu processo industrial, o que se admite apenas para argumentar, diga-se que os lançamentos de IRPJ e CSLL realizados por arbitramento (e os AI´s de PIS e COFINS deles decorrentes) seriam nulos, ante o não cabimento do arbitramento na hipótese e o erro na apuração da “receita bruta conhecida” adotado no procedimento. 247. Sobre o primeiro aspecto – não cabimento do arbitramento – é entendimento assente em seara administrativa o de que o arbitramento é medida excepcional e apenas seria legítimo quando a contabilidade do contribuinte fosse completamente imprestável para a apuração do lucro real, tal como ocorre, por exemplo, nos casos em que praticamente a totalidade dos custos do contribuinte são desconsiderados por ausência de adequada comprovação. 248. Esse não é o caso dos autos. 249. Conforme se depreende do exame do TVF e dos demonstrativos de receita e custos da BRASCOPPER utilizados pela própria Fiscalização, a aquisição de “cobre” corresponde a Fl. 22565DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 63 57,14% dos custos totais da Contribuinte, considerado o fato de que, além de vergalhões de cobre, a BRASCOPPER também compra alumínio para produção e venda de cabos de média e alta tensão. 250. Considerada a própria informação fiscal de que 90% desses custos com a aquisição de cobre seriam irregulares – afirmação essa que se admite apenas para argumentação, os custos da Contribuinte que foram objeto de glosa corresponderiam a apenas 51,43% de seus custos totais. 251. Conforme remansosa jurisprudência administrativa, a glosa de aproximadamente 50% dos custos do contribuinte não deve levar a Fiscalização ao arbitramento do lucro, considerada a referida excepcionalidade do procedimento. Veja-se, a título ilustrativo, os precedentes abaixo do CARF, verbis: (...) 256. Não fosse suficiente ser incabível na hipótese, o arbitramento é nulo também por ter sido realizado com fundamento em elementos da contabilidade que paradoxalmente foi tida como não confiável pela própria Fiscalização. 257. De fato, como já se disse e ora se reitera, a “receita bruta conhecida” utilizada pela Fiscalização como base do arbitramento foi obtida exclusivamente com base em informações colhidas nas contas contábeis de receita da Contribuinte e em notas fiscais por ela emitidas. Não foram verificados, tal como seria de rigor, os efetivos ingressos de recursos nas contas bancárias da BRASCOPPER, esses sim “receita bruta” na forma da legislação (Lei n. 9.430/96, art. 42). (...) V.6. Ainda subsidiariamente: da improcedência da exigência de IRRF 260. Como se verá nos itens que se seguem, o IRRF não é passível de exigência pois: (a) a Fiscalização identificou a causa dos pagamentos realizados e seus respectivos beneficiários, o que, por definição e princípio, permitiria à RFB buscar a tributação da renda perante o beneficiário respectivo e não sobre a fonte pagadora (que experimenta decréscimo, e não acréscimo, patrimonial); (b) os valores em referência implicaram redução do lucro líquido/real da Recorrente (com consequente lançamento de IRPJ/CSLL pela Fiscalização), o que, na forma da lei, desautoriza a aplicação do art. 61 da Lei n. 8.981/95 para a hipótese concomitante à cobrança dos tributos sobre a renda e respectivas penalidades. (...) V.6.2. Da ilegitimidade da exigência de IRRF concomitantemente à glosa de custos que justificaram a lavratura de IRPJ e CSLL 278. Além da identificação da causa que teria dado origem aos pagamentos e/ou seus respectivos beneficiários, o que por si só já figuraria como elemento hábil a elidir a cobrança do IRRF à alíquota de 35%, verifica-se a existência de outra questão relevante que também coloca em xeque a cobrança, qual seja: o fato de que o art. 61 da Lei n. 8.981/95 não escora a hipótese de lançamento concomitante de IRPJ e CSLL da pessoa jurídica na apuração do lucro real, não subsistindo hoje e, também, à época dos fatos geradores, qualquer norma que permita tal exigência fiscal conjunta. (...) V.7. Também subsidiariamente: da ausência dos elementos configuradores da multa qualificada (...) Fl. 22566DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 64 305. Sem que novamente fosse oferecida contradita às razões de defesa da Recorrente, as alegações do TVF acima transcritas foram meramente sintetizadas pelo Acórdão recorrido para justificar a manutenção da qualificação da penalidade aplicada, nos seguintes termos: (...) 306. Nesse sentido, por representar mera reiteração dos fundamentos do TVF, pede-se vênia para sustentar novamente que a BRASCOPPER e seus sócios: (a) não foram responsáveis pela criação, operacionalização ou gerência das empresas tidas como “noteiras” pela Fiscalização, como também não se beneficiaram dos recursos que ingressaram em citadas empresas. Citados recursos beneficiaram exclusivamente terceiros (pessoas físicas e jurídicas arroladas pela Fiscalização no TVF); (b) não se utilizaram de notas frias relativas à aquisição de mercadorias, ao menos não consciente e dolosamente. A BRASCOPPER é adquirente de boa-fé das mercadorias que foram indiscutivelmente revendidas a terceiros. É comprovação segura da impossibilidade de aquisição de “sucata de cobre” pela BRASCOPPER (nas quantidades alegadas pela Fiscalização) a incapacidade de industrialização dessa sucata e as particularidades do processo de produção da Contribuinte, descritas detalhadamente em laudo pericial específico; (c) não praticaram simulação de pagamento. Houve pagamento por força de mercadorias efetivamente adquiridas (vergalhões de cobre). Não seria possível sequer em tese que a BRASCOPPER realizasse a transformação de sucata em vergalhões na quantidade insinuada no TVF. A intermediação de industrialização de sucata de cobre por encomenda representava apenas parte do processo de produção da Contribuinte no ano de 2016, e não o todo como pressupôs a Fiscalização. Essa parte encontra-se devidamente registrada em sua contabilidade conforme as próprias quantidades informadas no TVF. Não há, portanto, irregularidade ou abuso nesse processo de industrialização por encomenda, o qual, como se reitera, encontra adequado registro contábil; (d) encontravam-se à época, como ainda se encontram, em processo de recuperação judicial e, nessa condição, tem todas as suas operações submetidas à rigorosa apreciação e fiscalização dos credores e órgãos atuantes no processo (Administração Judicial, Ministério Público, Procuradorias. Portanto, é até inverossímil a alegação da Fiscalização de que a Contribuinte poderia ter praticado fraude em montante superior a R$130Milhões em um único ano-calendário sem que o fato fosse notado; (e) não formam grupo econômico com as demais empresas arroladas no TVF. A BRASCOPPER nunca se beneficiou dos resultados econômicos dessas empresas, como também nunca praticou qualquer ato de gestão que pudesse embasar essa acusação. Essas empresas também praticavam atos com terceiros e esses atos jamais trouxeram qualquer benefício à Contribuinte. Não bastasse, a BRASCOPPER possui ampla autonomia administrativa, financeira, patrimonial e de força de trabalho (empregados) em relação a essas pessoas jurídicas. O relacionamento existente entre a Contribuinte e essas empresas restringiu-se à (i) prestação de serviço de intermediação de industrialização por encomenda; (ii) aquisição de bens (vergalhão de cobre) para revenda e industrialização de produtos acabados (fios e cabos elétricos), revenda essa, reitere-se, jamais questionada pela Fiscalização; (f) não conferiram a terceiros poderes de representação ou autonomia para realizar atos de gestão. O único ato indicado pela Fiscalização a esse respeito refere-se à outorga temporária, pela BRASCOPPER, de procuração ao Sr. Marcos Vinícius Martins e à existência do contato do Sr. Renato Megiolaro na ficha cadastral em relação a uma de suas contas mantidas no Banco Sicredi. Essa procuração foi outorgada exclusivamente como meio de garantia relativo às operações feitas com essas pessoas físicas. Esses Srs. jamais se apresentaram como sócios ou administradores da BRASCOPPER, conforme informação prestada pela própria Sicredi à Fiscalização. (g) não praticaram o que se costuma chamar na jurisprudência administrativa de “reiteração de conduta”. Os fatos arrolados pela Fiscalização ocorreram em período delimitado, inexistindo há anos qualquer relacionamento com tais empresas. (...) Fl. 22567DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 65 308. Mas não é só. No que tange ao IRRF, especificamente, a natureza de penalidade da exigência (tema que o Acórdão recorrido recusou-se a analisar com a indevida aplicação da Súmula CARF n. 2) e os próprios fundamentos do Acórdão recorrido deveriam levar (a) se não ao cancelamento da integralidade da multa de ofício aplicada em relação ao IRRF (já que o montante principal do IRRF já seria de per si penalidade suficiente para punir a conduta da Recorrente tida como irregular pela Fiscalização, não podendo ser cumulada com mais uma pena, agora a de multa); (b) ao menos à redução da multa qualificada para o seu patamar regular de 75%, seja pelo conceito da dupla penalidade acima referido, seja pela circunstância de que o tipo “tributário” sequer admite a prática de uma das condutas previstas nos artigos 71 a 73 da Lei n. 4.502/64 (sonegação, fraude ou conluio). (...) 311. Ainda sobre o item (b) do parágrafo 307 supra, é de conhecimento geral que as condutas dolosas referidas na Lei n. 4.502/64 devem ser apuradas individualizadamente, por sujeito passivo e por tributo lançado, para permitir validamente a aplicação da multa de ofício em seu percentual qualificado em relação a cada um deles (tributos). É intuitivo que uma circunstância pode levar ao retardo no conhecimento ou na ocorrência do fato gerador de determinado tributo, mas não necessariamente de outro. A qualificadora que serve para um, não serve obrigatoriamente para outro. (...) 313. Trata-se, o IRRF instituído pelo art. 61 da Lei n. 8.981/95, de tributo que não possui, por definição e princípio, apuração espontânea que permita a prática de sonegação ou fraude, razão inclusive da constante aplicação do art. 173, I do CTN para fins decadenciais, em virtude da ausência da possibilidade qualquer recolhimento inerente ao imposto. Cientificado da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário e sócio administrador (art. 135, III, do CTN) da BRASCOPPER, Sr. CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, apresentou Recurso Voluntário (fls. 21766/21782), em que repete os argumentos da impugnação (na oportunidade impetrada em conjunto com a BRASCOPPER), requer a decretação da nulidade do Acórdão Recorrido; ou, alternativamente, que fosse reconhecida a improcedência dos AI´s ou, subsidiariamente, a insubsistência da imposição de multa de ofício qualificada e o cancelamento da atribuição de responsabilidade solidária pelos créditos tributários lançados contra a Contribuinte BRASCOPPER, e aduz: (...) 6. Especificamente no que se refere a CARLOS EDUARDO, sem que tenha indicado qualquer conduta individual e específica do Recorrente na prática da pretensa fraude, o TVF (fls. 11347), sustenta a acusação de responsabilidade solidária nos seguintes termos: “14.2 CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS – CPF 005.441.868-26 Responsabilidade Tributária: Solidária por Infração de Lei Qualificação do Responsável: Sócio Administrador Base Legal: inciso III do art. 135 da Lei nº 5.172/1966 (CTN), combinado com a infração descrita no art. 72 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964 (Fraude). Ao longo do TVF constatamos a formação de grupo econômico com a participação ativa da BRASCOPPER, por meio de seus administradores. Os administradores concederam acesso à FAMÍLIA MARTINS e à FAMÍLIA MEGGIOLARO para controlarem contas correntes da BRASCOPPER na instituição financeira SICREDI MS TO. Permitiu que METALOX e GLOBAL utilizassem o endereço da BRASCOPPER em São Luís/MA para cadastro de filiais. Fl. 22568DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 66 Permitiu a aquisição de produtos sem origem comprovada, supostas entradas de mercadorias amparadas por notas fiscais inidôneas, emitidas por empresas de fachada e com quadro societário alaranjado. Mesmo sua empresa em processo de recuperação judicial, permitiu a transferência de praticamente R$ 100 milhões para empresas de fachada, em um único ano calendário, cuja motivação são notas fiscais inidôneas. Ao rastrear parte destes recursos, comprovamos o pagamento a sucateiros que trabalham na informalidade. Também há o processo de industrialização por encomenda relatado neste TVF, e que envolveram além da BRASCOPPER a empresa CBL e a noteira R3. Inclusive com parte do retorno da industrialização por encomenda sendo desviado para terceiro. Ora, tais fatos somente ocorreram pela concordância dos sócios em permitirem a ingerência da FAMÍLIA MEGGIOLARO e da FAMÍLIA MARTINS na fraude tributária apresentada. CARLOS é sócio administrador da empresa fiscalizada e organizou-a para receber notas fiscais inidôneas de pessoas jurídicas inexistentes de fato. Sem o dolo dos administradores da BRASCOPPER a fraude não teria ocorrido. Por fim, seu filho LUCAS CATIB DE LAURENTIIS, CPF 222.638.278-03 recebeu R$ 29.800,00 da METALOX e sua filha BRUNA CATIB DE LAURENTISS, CPF 407.546.178-58 foi beneficiária de R$ 28.100,00 da METALOX”. (...) 7. Contra essa genérica acusação fiscal o Recorrente apresentou impugnação demonstrando que a Fiscalização não foi capaz de apresentar qualquer conduta dolosa especificamente imputável a CARLOS EDUARDO para atribuir-lhe responsabilidade na forma do art. 135, III do CTN. Em nenhuma passagem do extenso TVF é possível encontrar qualquer indício de que o Sr. Carlos Eduardo tinha conhecimento, que participou intencionalmente, ou mesmo que atuou de forma conivente com a fraude ali descrita. (...) IV. DA IMPROCEDÊNCIA DA IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA A CARLOS EDUARDO 17. Com a devida vênia, não procede a imputação de responsabilidade solidária ao Recorrente, seja (a) pela ausência de identificação de ato concreto e individualizado de sua conduta que permita realizar essa imputação; (b) seja pela inaplicabilidade ao caso do disposto no art. 135, III do CTN. (...) 19. Conforme o já citado trecho do TVF que imputou a responsabilidade ao Sr. Carlos Eduardo (fls. 11347), as razões para tanto seriam as seguintes: i) a BRASCOPPER, por meio de seus administradores, teria concedido acesso à FAMÍLIA MARTINS e à FAMÍLIA MEGGIOLARO para controlarem conta corrente da BRASCOPPER na instituição financeira SICREDI MS TO; ii) a BRASCOPPER teria permitido que a METALOX utilizasse o seu endereço em São Luís/MA para cadastro de filial; iii) teria permitido a aquisição de produtos sem origem comprovada; iv) teria participado de desvio de recursos para terceiros no contexto de industrialização por encomenda com a CBL; v) o Sr. CARLOS EDUARDO é sócio administrador da empresa autuada; vi) os filhos do Sr. Carlos Eduardo teriam recebido valores de R$ 29.800,00 e de R$ 28.100,00 da METALOX. 20. Começando pelo último ponto levantado pela autoridade fiscal, saliente-se que a afirmação (vi) sobre suposto recebimento de valores pelos filhos do Recorrente é inverídica e não encontra mínimo respaldo nas provas e documentos dos autos. Não fosse o bastante, os valores, além de não recebidos, são absolutamente inexpressivos vis a vis os valores autuados e não representam confusão patrimonial. Não por outra razão a alegação fiscal nem mesmo foi mencionada como razão de decidir no Acórdão ora recorrido. Fl. 22569DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 67 (...) 21. No que tange à afirmação (v), de que o Sr. CARLOS EDUARDO era sócio administrador da BRASCOPPER, trata-se de fato inconteste. Todavia, contesta-se com toda veemência o poder que esse dado isoladamente teria para sustentar a sua responsabilização com fulcro no art. 135, III do CTN, como se verá a seguir nos próximos itens do presente recurso voluntário. (...) 24. Dessarte, dos sete pontos trazidos no TVF para justificar a responsabilidade tributária do Sr. Carlos Eduardo, os dois únicos que foram efetivamente comprovados pela Fiscalização dizem respeito à (i) a outorga temporária, pela BRASCOPPER, de procuração em relação a uma de suas contas mantidas no Banco Sicredi; e (ii) a permissão para que a METALOX utilizasse o endereço da BRASCOPPER em São Luís/MA para cadastro de filiais. 25. Todavia, tais fatos são absolutamente incapazes de levar à conclusão de existência de um grupo econômico ou da conivência da BRASCOPPER ou de seu sócio com qualquer esquema fraudulento. Nos tópicos V.3.3.1. (“Da procuração concedida a Marcos Vinícius para realizar pagamentos a fornecedores”) e V.3.3.2. (“Da utilização do endereço da BRASCOPPER em São Luís para abertura de filial da Metalox”) do recurso voluntário apresentado pela contribuinte BRASCOPPER, encontram-se detalhadamente descritas a origem e a licitude de tais atos, que, repita-se, são totalmente incapazes de sustentar a acusação fiscal de fraude na compra de produtos de cobre. (...) 36. Trazendo tais elementos para o caso concreto, vê-se que a Fiscalização não foi capaz de apresentar qualquer conduta dolosa especificamente imputável ao Sr. Carlos Eduardo. Não há trocas de e-mails, telefonemas, ou qualquer outro meio de correspondência entre ele e as empresas da Família Martins e da Família Megiolaro. No extenso TVF não é possível encontrar qualquer indício de que CARLOS EDUARDO tinha conhecimento, que participou intencionalmente, ou mesmo que foi conivente com a fraude ali descrita. (...) não há e-mails, não há comunicações, não há ordens e, especialmente, não há mínimo fluxo financeiro (à exceção do razoável pro labore de R$20.000,00 mensais que o Recorrente aufere) entre o Recorrente e quaisquer das empresas referidas (dentre elas a própria BRASCOPPER). (...) 40. A realidade é que, paradoxalmente, a própria autoridade fiscal afirma que RENATO MEGIOLARO seria o “mentor intelectual da fraude tributária” (fls 11.153). E contra esse, sim, traz muitíssimos elementos no intuito de evidenciar sua conduta dolosa. 41. Em sentido diametralmente ao oposto, impossível deixar de insistir, não existe um único elemento atribuído a CARLOS EDUARDO para demonstrar que ele sabia, compactuava ou se beneficiava de qualquer ilícito. (...) 44. Como se disse à exaustão na impugnação e na petição de recurso voluntário apresentada pela BRASCOPPER, a cujos fundamentos ora se reporta, não houve prática de atos irregulares, fraudulentos ou com afronta aos estatutos da pessoa jurídica. A BRASCOPPER é adquirente de boa-fé de bens destinados à revenda que, de fato, foram revendidos ou industrializados no próprio ano-calendário de 2016 (fato inclusive novamente atestado via laudo técnico do IPT). Não há formação de grupo econômico entre a BRASCOPPER e as empresas relacionadas no TVF. (...) Fl. 22570DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 68 Cientificado em 21/09/2022 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 135, III, do CTN), Sr. RENATO MEGGIOLARO JÚNIOR, apresentou Recursos Voluntários em 13/09/2022 (fls. 21734/21743) e 21/11/2022, (fls. 22106/22219), em que, no Recurso tempestivo, repete os argumentos da impugnação e requer (em seus termos): acolhida da preliminar de nulidade no processo de fiscalização, em razão de cerceamento de defesa do Recorrente, que não foi fiscalizado; ofensa ao princípio do contraditório, eis que o V. Acórdão não enfrentou toda a tese de defesa do Recorrente; exclusão da responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado, pois não efetuou pagamentos, recebimentos ou movimentação bancária de valores sobre tais operações destacadas no TVF; o reconhecimento de que a fiscalização não logrou êxito em demonstrar ter o Recorrente obtido qualquer vantagem financeira com o suposto esquema envolvendo a empresa Brascooper. Aduz ainda o Recorrente: (...) Mas questão, no entanto, foi enfrentada e sanada pelo I. Juízo da 9ª Vara Federal de Ribeirão Preto. Com efeito, nos autos da Medida Cautelar Fiscal, proposta pela Procuradoria da Fazenda Nacional, processo que tramita com o n.º 5004068-41.2022.4.03.6102, na R. Decisão encartada às fls. (Num. 257072745 - Pág. 4), o I. Juízo assim decidiu: No caso em apreço, estou convencido da presença desses requisitos. O grupo econômico encabeçado pela Brascopper é responsável por criar empresas de fachada que, somente em 2016, emitiram R$ 130,6 milhões em notas fiscais inidôneas (frias ou falsas) para beneficiá-la através do aumento artificial dos custos e geração de créditos indevidos. Essas empresas de fachada, chamadas pela requerente de “noteiras”, foram constituídas sem qualquer patrimônio, empregado, ativo, ou seja, sem substrato econômico para as atividades desempenhadas pelos sócios efetivos e ocultos da Brascopper, em nome pessoas sem capacidade econômico-financeira compatível com o volume de vendas, com o específico objetivo de emitir notas frias ou sem lastro que as acompanhe, para a geração de crédito tributário e diminuir o lucro tributável da Brascopper, real beneficiária (Id 254560889). Essas “noteiras” emitiam nota fiscal de venda de vergalhão de cobre para a Brascopper, quando, na verdade havia a transferência de sucata de cobre, produto que não enseja créditos de ICMS, PIS e COFINS. A Brascopper dava entrada na sucata como vergalhão de cobre para obter créditos indevidos de PIS, COFINS e ICMS na entrada das mercadorias, e diminuía a sua base de cálculo de CSLL e IRPJ, pois o vergalhão entrava como custo de aquisição. Para a industrialização dessa sucata de cobre, mandava para empresas laminadoras, dentre elas a CBL, que transformavam a sucata no vergalhão de cobre, matéria- prima utilizada para a produção de fios e cabos elétricos, e mandava de volta para a Brascopper ou até parte para a Super Zinco. Temos, pois, o reconhecimento, pelo Poder Judiciário, de que a empresa BRASCOOPER é a real (e única) beneficiária, eis que reduziu seu lucro tributável, reduzindo, por consequência, os tributos devidos. Ora, sendo a empresa BRASCOOPER a real (e única) beneficiária do suposto esquema, não há como manter a exação em face do recorrente, eis que não demonstrado qualquer benefício econômico. Aliás, sequer há a demonstração de participação do recorrente no suposto esquema. Cientificado em 23/02/2023 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 124, I, do CTN), Sr. FABIO CZERKES SANTANA, apresentou Recurso Voluntário em 30/09/2022 (fls. 21787/21832), em que repete os argumentos da impugnação e Fl. 22571DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 69 requer (em seus termos): seja declarado insubsistente o Auto de Infração, afastando a atribuição de responsabilidade pessoal e solidária do Recorrente, haja vista a inexistência de descrição da conduta e de qualquer comprovação de ato doloso, com excesso de poderes ou infracional à lei ressaltando o teor da farta jurisprudência colacionada no sentido de que o mero inadimplemento ou questionamento em torno da obrigação tributária não tem o condão de, por si só, responsabilizar pessoalmente o dirigente de sociedade empresária, impondo ponderar a devida observância do comando do art. 112 do CTN, o qual prevê a interpretação mais favorável ao contribuinte, no caso de existência de qualquer dúvida quanto à capitulação legal do fato, à extensão das circunstâncias materiais do fato, da autoria ou da natureza da penalidade aplicável. Aduz ainda o Recorrente: (...) A fiscalização informa como as empresas IFE, COPAR e PROCOBRE teriam, em tese, participado do esquema, mas não esclarecem, nem de forma sucinta, qual a conduta do recorrente. E nesse passo cabe ser destacado que o recorrente, conforme já alegado, deixou o quadro societário da COPAR em julho de 2014, muito tempo antes do período fiscalizado e objeto do lançamento. (...) No presente caso, a responsabilidade solidária atribuída ao recorrente, conforme consta de todo relatório fiscal, decorre unicamente de suposta participação em "Fraude Fiscal". Ou seja, resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do artigo 135, III, do CTN. A solidariedade prevista no artigo 124 do CTN, pressupõe a existência de lei que tenha previsão expressa ou que haja o interesse comum na relação. Este "comum" surge a partir da existência de direitos e deveres idênticos entre pessoas situadas no mesmo polo da relação jurídica de direito privado tomada pelo legislador como suporte factual da incidência do tributo. (...) Assim, diante do que seria o "interesse comum na situação fato gerador da obrigação principal", se entende que a solidariedade prevista no artigo 124, inciso I, do CTN somente pode ser atribuída aos sujeitos que tenham interesse jurídico no fato descrito no antecedente da regra-matriz de incidência, dentre os quais podemos destacar os seguintes: auferir renda, prestar serviços, obter receita, e demais coisas nestes termos. (...) Têm-se, assim, que o mero interesse social, moral ou econômico no pressuposto fático do tributo não autoriza a aplicação do Art. 124, I, CTN, devendo as situações serem analisadas de maneira clara e objetiva para que o terceiro venha ser enquadrado como responsável solidário de uma relação jurídica. E não existe no relatório de fiscalização uma única linha descrevendo qual a conduta do recorrente e que em tese lhe renderia a condição de solidário, resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. (...) O CARF já manifestou entendimento de que se houver qualquer dúvida em torno da materialidade ou da autoria da conduta apontada na Fiscalização, deve ser aplicado o disposto no art. 112, inciso III, do CTN: (...) Embora o recorrente seja parte ilegítima para figurar no polo passivo da autuação e não tenha como impugnar alegações que digam respeito à gestão da empresa autuada e suas eventuais coligadas (BRASCOPPER) pela ausência de qualquer participação nessa empresa, existem nulidades que podem ser aferidas do próprio relatório da fiscalização, como é o caso do arbitramento do lucro de forma ilegal. Fl. 22572DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 70 (...) não há nos autos qualquer indício, muito menos comprovação de intuito fraudulento ou doloso por parte do recorrente, a se justificar o agravante da multa qualificada. (...) os entes estatais não podem utilizar a extraordinária prerrogativa político-jurídica de que dispõem em matéria tributária, para, em razão dela, exigirem prestações pecuniárias de valor excessivo que comprometam, ou, até mesmo, aniquilem o patrimônio dos contribuintes. Cientificado em 21/11/2022 e 23/02/2023 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 124, I, do CTN), TFF CONSULTORIA, apresentou Recursos Voluntários em 13/09/2022 (fls. fl. 21723/21731) e 21/11/2022 (fls. 22224/22346), em que repete os argumentos da impugnação. No primeiro Recurso Voluntário, requer que sejam os pedidos formulados na impugnação Administrativa apresentada julgados totalmente procedentes para o fim de excluir a responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado contra a recorrente, impugnado, nos termos do artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972. E que seja declarada a inexistência de relação com os fatos, pessoas e empresas mencionados no Termo de Verificação Fiscal. Aduz ainda o Recorrente: (...) A empresa TFF Consultoria nunca foi fiscalizada, intimada ou notificada a apresentar documentos ou prestar informações ou esclarecimentos sobre operações envolvendo a fiscalização executada contra a empresa Brascopper no ano-calendário de 2016. Igualmente, não efetuou pagamentos, recebimentos ou movimentação bancária de valores sobre tais operações, tanto para a empresa TFF Consultoria, como para suas sócias. A empresa TFF, bem como suas sócias não tiveram qualquer oportunidade de defesa para esclarecer os fatos mencionados neste Termo de Verificação Fiscal: A impugnação apresentada pela empresa BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, foi indeferida conjuntamente com as impugnações das demais pessoas arroladas na autuação, sem que a impugnação da Recorrente fosse apreciada e proferida decisão com a devida ciência à Recorrente. Como se depreende da impugnação apresentada pela recorrente, a fiscalização não logrou êxito em demonstrar ter a recorrente obtido qualquer vantagem financeira com o suposto esquema envolvendo a empresa Brascooper. No entanto, no V. Acórdão ora recorrido, não há sequer uma linha em que os Srs. Julgadores tenham enfrentado essa tese (...)Com efeito, nos autos da Medida Cautelar Fiscal, proposta pela Procuradoria da Fazenda Nacional, processo que tramita com o n.º 5004068- 41.2022.4.03.6102, na R. Decisão encartada às fls. (Num. 257072745 - Pág. 4), o I. Juízo assim decidiu: (...) Temos, pois, o reconhecimento, pelo Poder Judiciário, de que a empresa BRASCOOPER é a real (e única) beneficiária, eis que reduziu seu lucro tributável, reduzindo, por consequência, os tributos devidos. Ora, sendo a empresa BRASCOOPER a real (e única) beneficiária do suposto esquema, não há que se falar em manter a exação em face da recorrente, eis que não demonstrado qualquer benefício econômico. No segundo Recurso Voluntário, requer a reforma do acórdão n° 105-007.482 - 1 a Turma/DRJ05, com o cancelamento das autuações fiscais ou a redução da multa qualificada Fl. 22573DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 71 aplicada indevidamente de 150% (cento e cinquenta por cento) para 75% (setenta e cinco por cento), pela inexistência de dolo, e o cancelamento da RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA imputada à TFF. Aduz ainda o Recorrente: (...) A r. decisão recorrida não examinou pormenorizadamente os argumentos de defesa em sede de impugnação, a qual é nula, por cerceamento do direito de defesa, (...) A TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA prestou serviços a BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL. No bojo do Termo de Verificação Fiscal constam diligências fiscais, tomada de termos de depoimentos, pesquisas, planilhas e etc, as quais foram feitas sem o conhecimento/participação da ora recursante, em flagrante desrespeito ao direito constitucional do contraditório e da ampla defesa. (...) A conduta dolosa de quem se pretende responsabilizar a TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA, empresa esta que outrora prestara serviços a BRASCOOPER, deveria ser apurada em prévio processo fiscal, em que deveria ser assegurado a contribuinte o direito ao contraditório e o exercício da ampla defesa. (...) De outra forma, os Auditores Fiscais utilizaram-se de informações de outros processos fiscais para fazer insinuações e considerações malévolas, desacreditadas e sem fundamentação legal a respeito do suposto comprometimento da TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES nas supostas operações ilícitas da BRASCOPPER, sem juntar aos autos cópias de documentos que, em tese, comprovariam tais cometimentos, dando publicidade às partes, em detrimento ao devido processo legal. (...) Parecer Normativo COSIT n° 4 de 2018 (...) A responsabilidade solidária por interesse comum decorrente de ato ilícito demanda que a pessoa a ser responsabilizada tenha vínculo com o ato e com o pessoa do contribuinte ou do responsável por substituição. Deve-se comprovar o nexo causal em sua participação comissiva ou omissiva, mas consciente, na configuração do ato ilícito com o resultado prejudicial ao Fisco dele advindo. São atos ilícitos que ensejam a responsabilidade solidária: (i) abuso da personalidade jurídica em que se desrespeita a autonomia patrimonial e operacional das pessoas jurídicas mediante direção única ("grupo econômico irregular"); (ii) evasão e simulação e demais atos deles decorrentes; (iii) abuso de personalidade jurídica pela sua utilização para operações realizadas com o intuito de acarretar a supressão ou a redução de tributos mediante manipulação artificial do fato gerador (planejamento tributário abusivo). O grupo econômico Irregular decorre da unidade de direção e de operação das atividades empresariais de mais de uma pessoa jurídica, o que demonstra a artificialidade da separação jurídica de personalidade; esse grupo irregular realiza indiretamente o fato gerador dos respectivos tributos e, portanto, seus integrantes possuem interesse comum para serem responsabilizados. Contudo, não é o caracterização em si do grupo econômico que enseja a responsabilização solidária, mas sim o abuso da personalidade jurídica. (...) Nos casos em que se constata o cometimento de um ilícito, o referido Parecer esclareceu que o ilícito em si não possuí o condão de atrair a responsabilidade tributária solidária, o que ocorre somente nos casos em que há nexo causal entre o ato conscientemente realizado e o resultado prejudicial ao Fisco. (...) Fl. 22574DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 72 Sobre esse questionamento deve ser esclarecido que a única ligação da TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA com a BRASCOPPER é somente de prestação de serviços da primeira para a segunda. (...) Portanto, o interesse jurídico é aquele interesse -seja econômico ou moral - que deriva de uma relação jurídica da qual o sujeito de direito seja parte integrante, e que interfira em sua esfera de direitos e deveres, e que o legitima a postular em juízo em defesa do seu interesse. "O interessado juridicamente deve ser, portanto, partícipe da relação jurídica questionada, entendendo-se relação jurídica como o conflito de interesses regulado pelo Direito" (SANTOS, 1998, p. 06). Em suma, o interesse jurídico se caracteriza pela existência de direitos e deveres iguais entre pessoas que ocupam o mesmo lado da relação jurídica que consista no fato gerador do tributo. Apenas o partícipe de uma relação jurídica que tem um direito seu ameaçado terá interesse jurídico nesta situação. (...) Crucial destacar que a responsabilidade solidária decorrente do artigo 124, I do CTN só poderá subsistir quando todos os sujeitos passivos houverem realizado conjuntamente o fato gerador, porque esta é a única hipótese em que todas as pessoas possuem interesse jurídico comum neste fato que originou a tributação. (...) 3) DA APLICAÇÃO INDEVIDA DA MULTA QUALIFICADA. (...) 4) DA EXTINÇÃO PARCIAL DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO PELA DECADÊNCIA (...) Nesse sentido, de acordo com a regra contida no artigo 150, § 4 o , do Código Tributário Nacional, a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir crédito tributário dos tributos IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, relativo ao PERÍODO DE APURAÇÃO compreendido entre 31/01/2016 a 30/09/2016 e, de acordo com visto que já se passaram mais de cinco anos entre a data do fato gerador e a ciência do crédito tributário, que foi notificada em fins de Outubro/2022. (...) 5) DO NÃO CABIMENTO DO ARBITRAMENTO DE LUCROS (...) 6) DAS CONTRADIÇÕES E EQUÍVOCOS DESCRITOS NO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL COM SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA PASSIVA No "TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL", a fiscalização objetiva denegrir a imagem das pessoas físicas e jurídicas, relacionando-a a supostos fatos ocorridos ou não há muitos anos. Os nobres Auditores Fiscais mencionam informações obtidas de pessoas diversas em seu Termo de Verificação Fiscal, que sequer foram juntadas aos autos e, por isso, por não terem sido observado o regular rito processual estabelecido na Lei n° 9.784, de 1999, devem ser desconsideradas, sob pena de nulidade processual, por vício de forma. (...) Quando da efetivação da diligência ou da tomada da oitiva das testemunhas, a fiscalização não procedeu à intimação da ora recursante para que pudesse acompanhá-la, em flagrante desrespeito ao disposto no art. 26 da Lei n° 9.784, de 1999, ferindo-se o contraditório e a ampla defesa. Da mesma forma, são inusitados os comentários e ilações de procedimentos fiscais sobre empresas com as quais a TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES teria qualquer relação comercial e/ou financeira, cujas inserções de meras consultas, sem trazer aos autos os respectivos processos administrativos, não fazem prova de suas alegações, e ao que se percebe, vieram com objetivo de denegrir, tumultuar e confundir o processo de autuação, dada a fragilidade dos motivos e embasamento legal que ensejaram a autuação fiscal. (...) 7) DA ANULAÇÃO DO AUTO DE INFRAÇÃO DE IRRF PELA OCORRÊNCIA DO BIS-IN-IDEM TRIBUTÁRIO (...) Fl. 22575DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 73 Cientificada em 19/09/202 da Decisão de Primeira instância, a responsável solidária (art. 124, I, e 135, III, ambos do CTN), MARIA TERESA NOGUEIRA, apresentou Recursos Voluntários em 13/09/2022 (fls. fl. 21745/21753) e 18/11/2022 (fls. 21988/22101), nos mesmos termos do responsável solidário Sr. RENATO MEGGIOLARO JÚNIOR, e, no Recurso Voluntário tempestivo, repete os argumentos da impugnação e requer (em seus termos): a) Sejam os pedidos formulados na impugnação Administrativa apresentada julgados totalmente procedentes para o fim de excluir a responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado contra o Recorrente, impugnado, nos termos do artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972. b) Seja declarada a inexistência de relação com os fatos, pessoas e empresas mencionados no Termo de Verificação Fiscal pelos motivos citados no presente recurso. Cientificado em 21/09/202 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 124, I do CTN), RONALDO MEGGIOLARO, apresentou Recurso Voluntário em 09/09/2022 (fls. 21641/21680), repete os argumentos da impugnação e requer (em seus termos): seja declarado insubsistente o Auto de Infração, afastando a atribuição de responsabilidade pessoal e solidária do Recorrente, haja vista a inexistência de descrição da conduta e de qualquer comprovação de ato doloso, com excesso de poderes ou infracional à lei, ressaltando o teor da farta jurisprudência colacionada no sentido de que o mero inadimplemento ou questionamento em torno da obrigação tributária não tem o condão de, por si só, responsabilizar pessoalmente o dirigente de sociedade empresária, impondo ponderar a devida observância do comando do art. 112 do CTN, o qual prevê a interpretação mais favorável ao contribuinte, no caso de existência de qualquer dúvida quanto à capitulação legal do fato, à extensão das circunstâncias materiais do fato, da autoria ou da natureza da penalidade aplicável. Aduz ainda o Recorrente: (...) Além dessas empresas que foram fiscalizadas, outras também foram relacionadas como integrantes do GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER, diretamente relacionadas à fraude. Dentre elas, interessa para a presente impugnação, a empresa BRITH IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO, COMÉRCIO DE METAIS E SUCATAS EM GERAL LTDA., que era inscrita no CNPJ sob nº 06.223.789/0001-26. Isso porque, segundo a fiscalização, participaram da gestão das empresas envolvidas no esquema fraudulento, entre outros, RONALDO MEGIOLARO, inscrito no CPF/MF sob nº 029.276.498-71 e THOR GREGORI MEGIOLARO, inscrito no CPF/MF 410.133.278-96. Thor G. Megiolaro era sócio da BRITH IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO, COMÉRCIO DE METAIS LTDA. e Ronaldo Megiolaro é seu pai e administrador da BRITH, conforme se comprova através da inclusa procuração pública. Ocorre que a fiscalização tentou a todo custo vincular a empresa Brith, Ronaldo e Thor às demais empresas envolvidas na fiscalização, unicamente pelo vínculo de parentesco entre Ronaldo e Thor, com Renato Meggiolaro Júnior, irmão do primeiro e tio do segundo, e pelo fato do irmão e sobrinhos atuarem também no ramo de metais, assim como Renato. Entretanto, NÃO EXISTE UMA ÚNICA PROVA de que a Brith Importação, Exportação, Comércio de Metais tenha formado grupo econômico com qualquer das demais empresas fiscalizadas. E muito menos demonstração de como o ora recorrente e seu filho teriam atuado na fraude fiscal. Fl. 22576DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 74 A fiscalização relata a existência de relação comercial entre a Brith Importação e a empresa Recife Ferros, tendo sido reconhecido por esta última a existência de relação comercial, entre elas. E que houve entrega de mercadorias à Brith Importação, a pedido de outra empresa. Essa a única relação comercial retratada com outra empresa do suposto grupo econômico, entretanto, NENHUMA RELAÇÃO há com os fatos apurados na fiscalização, no sentido de fraude fiscal. (...) A outra suposta causa para reconhecimento de grupo econômico foi a coincidência de endereço, sendo que a Brith foi estabelecida em imóvel que hoje pertence à sobrinha do recorrente e onde funcionou outra empresa do ramo. (...) E nesse ponto é oportuno destacar que a administração da Brith Importação, de fato e de direito, sempre foi exercida por Ronaldo Megiolaro, pai de Thor Megiolaro, desde antes de se chamar Brith Importação, o que se constata pela procuração pública que foi carreada aos autos, e também pelo próprio relatório de fiscalização, donde se afere que o administrador da Brith é Ronaldo Megiolaro, e não Thor. (...) O v. acórdão ora impugnado, na parte que julga a Impugnação do recorrente, assim estabelece: (...) 152 No mais, nos autos há elementos cabais que demonstram o intrínseco imo entre COPPER GREEN – inquestionavelmente empresa de fachada e destinatária de R$ 15.638.108,56 advindos da BRASCOPPER - e a BRITH, uma vez que restou resplandecente a sucessão das operações comerciais da segunda pela primeira, como também do envolvimento de ambos contraditores com as empresas do Grupo Econômico BRASCOPPER, demonstrando clarividente interesse de ambos nas situações que constituíram os fatos geradores das obrigações principais guerreadas. Corroboram com esta ilação, a saber: 152.1 Declaração da RECIFE FERROS fornecedora da BRITH, da qual se infere que a COPPER GREEN sucedeu às operações comerciais da BRITH; 152.2 O fato da COPPER GREEN e a GLOBAL – noteiras comprovadas -, terem o mesmo domicílio tributário da BRITH. Ademais, não podemos esquecer da extrema coincidência do imóvel onde se estabeleceram pertencer a NATALIA MEGGIOLARO, filha de RENATO MEGGIOLARO e irmão de RONALDO MEGGIOLARO, doado por MARIA ZOPPI GREGORI, mãe de BRUNA MEGIOLARO, esposa de RONALDO e mãe de THOR; 152.3 Durante diligência, in loco, da Sefaz-SP na COPPER GREEN, RONALDO ter recebido os fiscais estaduais e atendido em nome da BRITH!!!. Além do mais, somente foram encontrados no local funcionários, máquinas e equipamentos da BRITH; 152.4 Além do sobredito, a relação com RENATO MEGIOLARO também se revela pelo fato deste ter sido o representante financeiro da Autuada, COPPER GREEN e de outras empresas de fachada; Fl. 22577DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 75 152.5 Em 2016, RONALDO recebeu da COPPER GREEN o montante de R$ 14.900,00. Já a BRITH recebeu da COPAR, PROCOBRE e COPPER GREEN – noteiras envolvidas na fraude fiscal em comento - o total de R$ 529.033,00; e (...) O V. acórdão, em que pese a boa lavra, não deve prevalecer. O disposto no artigo 124, I, do CTN não tem o alcance pretendido pelo Fisco. (...) diante do que seria o "interesse comum na situação fato gerador da obrigação principal", se entende que a solidariedade prevista no artigo 124, inciso I, do CTN somente pode ser atribuída aos sujeitos que tenham interesse jurídico no fato descrito no antecedente da regra-matriz de incidência, dentre os quais podemos destacar os seguintes: auferir renda, prestar serviços, obter receita, e demais coisas nestes termos. (...) 4. DAS RAZÕES DE INSUBSISTÊNCIA DO LANÇAMENTO FISCAL DA AUSÊNCIA DE FRAUDE E RESPONSABILIDADE PESSOAL DO RECORRENTE Ainda que a autoridade julgadora afirme que a solidariedade imposta ao recorrente é aquela prevista no artigo 124, I, do CTN, o que se constata na prática e dos autos é a responsabilização decorrente de fraude fiscal, que pressupõe atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, pelos administradores. Conforme já exposto, verifica-se do relatório constante do Termo de Verificação Fiscal que a principal alegação do D. Auditor para a imputação de responsabilidade solidária ao recorrente, foi a constatação de que é sócio e foi sócio de empresas envolvidas num suposto esquema de fraude fiscal. Assim, a responsabilização solidária do recorrente é decorrente e não direta, ou seja, aquela prevista no artigo 135, III, do CTN. (...) Segundo a fiscalização, valendo-se de prova emprestada, obtida por meio de auditoria realizada pela SEFAZ/SP, por ocasião daquela fiscalização o recorrente se apresentou como administrador da Brith, e que a empresa foi encontrada onde “deveria” funcionar a empresa Copper Green. Que este esclareceu que a Brith na ocasião prestava serviços para a Copper. E com base nessa premissa, de administrador da Britih, o fisco imputou ao recorrente a Responsabilidade Tributária Solidária por Interesse Comum, com fulcro no inciso I do art. 124 da Lei nº 5.172/1966 (CTN), conforme se afere do tópico 14.11 do Relatório Fiscal. (...) Ou seja, sua responsabilização decorre do encerramento da Brith, tendo o recorrente exercido cargo de administrador da empresa, por meio de público instrumento de procuração. Ocorre, porém, que não há mínima descrição de como e qual seria a participação da Brith Importação e qual seu interesse na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. (...) Fl. 22578DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 76 Não existe grupo econômico, não existe confusão societária ou patrimonial, muito pelo contrário, não existe vínculo algum entre o recorrente e a extinta BRITH, com as demais empresas relacionadas no relatório fiscal, nem com o contribuinte/sujeito passivo, nem com as empresas que supostamente operavam conjuntamente na emissão de Notas Frias. A solidariedade prevista no artigo 124, I, do CTN exige a comprovação de práticas comuns e conjunta do fato gerador o que não se constata no presente caso. A premissa da fiscalização é totalmente equivocada e não dá aso à conclusão de dolo ou fraude, sendo calcada apenas em presunções, o que não se admite. Dessa forma, fica evidente que não existe no caso em apreço o intuito fraudulento e doloso, pois, não se conhece qual a conduta do recorrente que poderia ensejar tal reconhecimento. (...) Cientificado em 21/09/202 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 124, I do CTN), THOR GREGORI MEGIOLARO, apresentou Recurso Voluntário em 09/09/2022 (fls. 21682/21720), repete os argumentos da impugnação e requer (em seus termos): seja declarado insubsistente o Auto de Infração, afastando a atribuição de responsabilidade pessoal e solidária do Recorrente, considerando, principalmente, que não exercia a administração da BRITH, que era de inteira responsabilidade de Ronaldo Megiolaro, conforme procuração pública já acostada aos autos, e também pela inexistência de descrição da conduta e de qualquer comprovação de ato doloso, com excesso de poderes ou infracional à lei, ressaltando o teor da farta jurisprudência colacionada no sentido de que o mero inadimplemento ou questionamento em torno da obrigação tributária não tem o condão de, por si só, responsabilizar pessoalmente o dirigente de sociedade empresária, impondo ponderar a devida observância do comando do art. 112 do CTN, o qual prevê a interpretação mais favorável ao contribuinte, no caso de existência de qualquer dúvida quanto à capitulação legal do fato, à extensão das circunstâncias materiais do fato, da autoria ou da natureza da penalidade aplicável. Aduz ainda o Recorrente: (...) Ocorre que a fiscalização tentou a todo custo vincular a empresa Brith, Ronaldo e Thor às demais empresas envolvidas na fiscalização, unicamente pelo vínculo de parentesco entre Ronaldo e Thor, com Renato Meggiolaro Júnior, irmão do primeiro e tio do segundo, e pelo fato do irmão e sobrinhos atuarem também no ramo de metais, assim como Renato. (...) E nesse ponto é oportuno destacar que a administração da Brith Importação, de fato e de direito, sempre foi exercida por Ronaldo Megiolaro, pai do recorrente, desde antes de se chamar Brith Importação, o que se constata pela procuração pública que foi carreada aos autos, e também pelo próprio relatório de fiscalização, donde se afere que o administrador da Brith é Ronaldo Megiolaro, e não Thor. Portanto, o recorrente é parte totalmente ilegítima para figurar no polo passivo da autuação, como responsável solidário, pois, a administração da Brith foi exercida pelo seu pai, Ronaldo. (...) Fl. 22579DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 77 Em 26/10/2022 (e-fl. 21932) foi registrada a Solicitação de Juntada de Documento (Parecer datado de 7 de outubro de 2022, e-fls. 21935/21985). Requereu a Recorrente: Trata-se de Parecer técnico de n. 21 591-301 o qual discorre sobre as etapas de processamento da Brascopper e avaliação técnica sobre a compra, venda e produção de produtos de cobre da unidade de Ribeirão Preto no ano de 2016, elaborado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT. Tal parecer complementa a documentação já acostadas aos autos e reforça os argumentos de que a Brascopper não realiza, tampouco realizou, neste intervalo, atividades de refusão de sucatas, refino e laminação de cobre. O processo atual e o laudo de avaliação de bens apontam que todo reforço argumentativo ao já impugnado a produção dessa fábrica se inicia com a matéria-prima vergalhão, comprada de fornecedores externos, classificando as atividades da empresa apenas como de transformação mecânica do tipo trefilação, sem fusão de sucatas e laminação de lingotes Afirmando que a produção da fábrica “se inicia com a matéria-prima vergalhão, comprada de fornecedores externos”, conclui aquele Parecer de 2022,: (...) A análise dos documentos de patrimônio em 2014 no item 4 e a análise dos relatórios de compra e venda de matérias primas e produtos de cobre em 2016 no item 5 indicam que a matéria prima processada pela empresa Brascopper é vergalhão de cobre. 7 CONCLUSÕES As conclusões deste parecer técnico são: 1. Não foram encontrados indícios na linha de produção atual da Brascopper Ribeirão Preto, tampouco no laudo de avaliação de bens de 2014, de que esta fábrica realiza ou realizou, neste intervalo, atividades de refusão de sucatas, refino e laminação. O processo atual e o laudo de avaliação de bens apontam que toda a produção dessa fábrica se inicia com a matéria-prima vergalhão, comprada de fornecedores externos, classificando as atividades da empresa apenas como de transformação mecânica do tipo trefilação, sem fusão de sucatas e laminação de lingotes; 2. A comparação do teor de polímeros médio calculado nos produtos de cobre acabados vendidos pela empresa em 2016 com o teor de polímeros médio calculado através do balanço de massa de produtos de cobre comprados e vendidos pela Brascopper no mesmo ano permite concluir que a matéria prima comprada para o processo de fabricação de produtos acabados é composta de vergalhão de cobre; 3. Não há, portanto, nenhum indício técnico de que a matéria prima comprada e declarada como vergalhão de cobre seja composta de sucata de cobre. Em 29/07/2024 a BRASCOPPER, em conjunto com o responsável solidário CARLOS EDUARDO, apresentou petição de 19/04/2024 (e-fls. 22441/22444) em que requer o sobrestamento do processo administrativo em epígrafe. Informa que um dos responsáveis solidários, mais precisamente FABIO CZERKES SANTANA, ajuizou ação judicial (Processo n. 1057476- 27.2022.4.01.3400) visando a anulação do auto de infração fundador do presente caso e que a tutela requerida perante o Poder Judiciário teria sido acolhida, tendo sido reconhecida a procedência do pedido lá formulado. Na fundamentação do pedido judicial afirmou FABIO CZERKES SANTANA que seriam ilegais prorrogações de prazos da fiscalização MPF 08.1.10.00-2019-00138-8 por 120 Fl. 22580DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 78 dias, contrariando a legislação vigente (Decretos 70.235/72 e 7.574/2011) que determina o prazo máximo de 60 dias para prorrogações de procedimentos fiscais. Aduz o peticionante Bracopper na petição referida: A necessidade de sobrestamento dos processos administrativos em casos em que haja prejudicialidade externa é reconhecida por este Conselho, conforme se depreende da Resolução n. 3402-001.698 e na Resolução n. 3402-001.362. Veja-se, I. Conselheiro, que não se trata de hipótese de concomitância, a qual ensejaria a perda do direito ao contencioso administrativo, a teor da Súmula CARF n. 1. Isto porque a ação judicial, como se depreende da sua petição exordial, tem objeto (partes, pedido e causa de pedir, conforme Acórdão CARF n. 2402-006.002) absolutamente restrito à questão da nulidade por excesso de prorrogação dos prazos da fiscalização. Ou seja, toda a defesa do mérito, além das nulidades específicas, e a defesa pessoal dos responsáveis solidários pessoas físicas, não consta da ação judicial, de modo que permanece sob apreciação do âmbito administrativo. Pois bem. No presente caso, o processo judicial ainda está em andamento, e o prosseguimento deste processo administrativo depende de eventual decisão judicial do TRF 1 que venha, ou não, a reformar a decisão do Exmo. Juízo da 4ª Vara Federal do TRF 1 e declare a existência da relação jurídica tributária que foi anulada. Hoje, para todos os efeitos legais, o auto de infração que redundou no PAF 10855- 727.613/2021-23 é NULO por decisão judicial proferida no Processo n. 1057476- 27.2022.4.01.3400, da lavra do Exmo. Juízo da 4ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal. Ante o exposto, requer-se a suspensão do presente Processo, de n. 10855-727.613/2021-23, haja vista a prejudicialidade externa decorrente da anulação de referido auto de infração em processo judicial (1057476-27.2022.4.01.3400) proposto por terceiro, retomando-se o curso do contencioso administrativo apenas quando sobrevier decisão judicial final da referida contenda judicial. Anexa sentença (e-fls. 22460) em que se lê: Fábio Czerkes Santana propôs a presente ação em face de UNIÃO FEDERAL objetivando: "A procedência da presente ação, para o fim de declarar a nulidade de todos os atos praticados pela Fiscalização, e por consequência lógica e jurídica, o cancelamento de todo e qualquer “lançamento tributário” (auto de infração / lançamento de ofício) dele decorrente, com base nos elementos perfilhados acima, notificando a autoridade administrativa para a devida extinção e arquivamento lançamento fiscal nº 10855- 727.613/2021-23 que é proveniente do MPF nº 08.1.10.00-2019-00138-8." Alega, em síntese, que n.º 08.1.10.00-2019-00138-8 seria nulo, pelas intempestividades das prorrogações de seus prazos, visto que para cada ato, o prazo máximo seria de 60 dias e não 120 dias, como observado no referido MPF, o que fere o disposto no Decreto n.º 70.235/72 (artigo 7º, § 2º) e Decreto n.º 7.574/2011 (artigo 33º, § 3º),- ambos recepcionados como Lei Ordinária (por tratarem de processo administrativo fiscal), no qual as prorrogações sempre se darão de 60 em 60 dias. Decisão que indeferiu o pedido de antecipação os efeitos da tutela (id. 1306645292). Contestação em que a União defende a improcedência dos pedidos (id. 1544893349). Réplica (id. 1733482551). É o breve relato. Decido. Trata-se de pedido de anulação de processo nº 08.1.10.00-2019-00138-8, com intuito de fiscalizar o IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IRRF da empresa BRASCOOPER CBC Fl. 22581DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 79 BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA, que resultou no lançamento fiscal nº 10855- 727.613/2021- 23. No mérito, assiste razão ao autor. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região tem prestigiado o cumprimento das regras do MPF ao decretar a nulidade do procedimento fiscal, tendo em vista que a prorrogação do ato ocorreu intempestivamente. (...) Ante o exposto, julgo PROCEDENTE o pedido formulado pela parte autora, e resolvo o mérito para condenar a ré a fazer cessar em definitivo os descontos a título de imposto de renda no benefício de aposentadoria do autor, bem como para declarar a inexigibilidade de imposto de renda sobre seus proventos de aposentadoria. Condeno a ré ainda ao ressarcimento dos descontos realizados a partir de setembro de 2015, respeitada a prescrição quinquenal e com atualização pelo Manual de Cálculos do CJF. Ratifico a antecipação da tutela deferida para que a isenção em comento seja observada de imediato pela União (PFN). Deixo de condenar a UNIÃO no pagamento dos honorários advocatícios, com fulcro no art. 19, § 1º, I, da Lei nº 10522/2002, eis que preenchidos os pressupostos de cabimento. Sem custas. Sentença não sujeita ao reexame necessário. 1. Intimem-se. 2.Havendo apelação, intime-se a parte contrária para contrarrazões, no prazo legal. Após, remetam-se os autos ao egrégio TRF da 1ª Região (§ 3º, art. 1.010, do CPC). DATADO E ASSINADO DIGITALMENTE Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO - 19/04/2024 10:09:33 Em consulta ao mesmo processo judicial 1057476-27.2022.4.01.3400 extrai-se decisão interlocutória (de 06/09/2022), em que foi indeferido pedido de suspensão do processo administrativo correlato (e-fls. 22497) e decisão integrativa de (18/09/2024) da sentença (e-fls. 22495): DECISÃO O processo administrativo impugnado pelo autor está em curso, não havendo razão para sua suspensão. Caso do mesmo decorra conclusão que prejudique eventual direito do autor, aí sim, haverá risco de dano, que poderá ser combatido em ação própria. Indefiro o pedido de tutela. Procedam-se as comunicações de praxe. Datado e assinado eletronicamente. BRASÍLIA, 6 de setembro de 2022. Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO 06/09/2022 16:24:04 ______________________________ Fl. 22582DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 80 ______________________________ SENTENÇA INTEGRATIVA Trata-se de embargos de declaração opostos pela Autora e Ré em face da sentença de id 2126047642 que julgou procedente o pedido. Sustentam, em suma, que a sentença incorreu em contradição entre a fundamentação do decisum e sua parte dispositiva (ids 2126047642 e 2126985750) Contrarrazões apresentadas. É o relatório necessário. DECIDO. Com razão as embargantes. Portanto, dou efeito integrativo retificador em parte da fundamentação e no dispositivo da sentença para fazer constar (entre aspas): "Desse modo, o procedimento administrativo nº 08.1.10.00-2019-00138-8 está eivado de nulidade absoluta, ante a existência de vício de procedimento de fiscalização. Ante o exposto, julgo PROCEDENTE o pedido formulado pela parte autora, e resolvo o mérito a fim de declarar a nulidade o procedimento administrativo nº 08.1.10.00-2019- 00138-8 em sua integralidade e, por consequência, o cancelamento de todo e qualquer lançamento tributário dele decorrente. Condeno a Fazenda Nacional em honorários advocatícios, que fixo em dez por cento sobre o valor da causa, nos termos do art. 85, §§ 1º, 2º e 3º, I, do CPC. Custas em ressarcimento." Assim, ACOLHO os embargos de declaração passando esta decisão a integrar a sentença recorrida. Os demais termos permanecem inalterados. 1. Intimações realizadas eletronicamente. DATADA E ASSINADA ELETRONICAMENTE Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO 18/09/2024 09:27:57 Adicione-se a última movimentação do processo judicial citado: 22/10/2024 00:07:54 - Decorrido prazo de FABIO CZERKES SANTANA em 21/10/2024 23:59. 18/09/2024 09:27:59 - Processo devolvido à Secretaria 18/09/2024 09:27:58 - Juntada de Certidão 18/09/2024 09:27:58 - Expedida/certificada a comunicação eletrônica 18/09/2024 09:27:57 - Embargos de Declaração Acolhidos Fl. 22583DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 81 O contribuinte anexou em 25/07/2025 petição aos autos (e-fl. 22500) repisando argumento de que se suas vendas existiram, então suas compras de matéria prima necessária à produção dos produtos vendidos também existiram, em linha com o já argumentado em Impugnação e em Recurso voluntário. Aduz o Recorrente: “...conforme bem esclarecido no laudo e no Recurso Voluntário, caso a Brascopper adquirisse apenas sucata em vez de vergalhão (como aduz a acusação fiscal), em razão do processo produtivo dos cabos elétricos e da composição das matérias primas necessárias para tanto, não poderia ter atendido seus clientes e vendido aos seus clientes 2.437.244,30 kg de produto acabado à base de cobre, conforme indicado em relatório de faturamento(Doc. 12 da Impugnação – fls. 14.098/14.226): É o relatório VOTO Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, Relator Cientificados da Decisão de Primeira instância, o contribuinte e os responsáveis solidários abaixo especificados apresentaram Recurso Voluntário nas seguintes datas: Ciência do AC DRJ Protocolo do Recurso Vol BRASCOPPER 01/09/2022 fl. 21578 30/09/2022 (fl. 21834) fls. 21835/21916 CARLOS EDUARDO 19/09/2022 fl. 21615 30/09/2022 (fl. 21765) fls. 21766/21782 GABRIELA EMER 28/09/2022 fl. 21621 11/01/2023 (fl. 22350) fls. 22352/22365 RENATO MEGGIOLARO 21/09/2022 fl. 21614 13/09/2022 (fl. 21733) fls. 21734/21743 21/11/2022 (fl. 22105) fls. 22106/22219 FABIO CZERKES 23/02/2023 fl. 22396 30/09/2022 (fl. 21786) fls. 21787/21832 AR (recusado) (fl. 21633) TFF CONSULTORIA 21/11/2022 fl. 22223 13/09/2022 (fl. 21722) fl. 21723/21731 23/02/2023 fl. 22402 21/11/2022 (fl. 22224) fl. 22224/22346 MARIA TERESA 19/09/2022 fl. 21620 13/09/2022 (fl. 21744) fl. 21745/21753 18/11/2022 (fl. 21988) fl. 21988/22101 RONALDO MEGIOLARO 21/09/2022 fl. 21619 09/09/2022 (fl. 21640) fl. 21641/21680 THOR MEGIOLARO 21/09/2022 fl. 21618 09/09/2022 (fl. 21681) fl. 21682/21720 Apesar de intempestivos, conheço do teor da segunda petição apresentada pelo Sr. RENATO MEGGIOLARO JÚNIOR e da segunda petição apresentada pela Sra. MARIA TERESA NOGUEIRA, por trazerem somente reforço argumentativo ao já contido nos seus recursos voluntários. Isto por que cientificado em 21/09/2022 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 135, III, do CTN), Sr. RENATO MEGGIOLARO JÚNIOR, apresentou Fl. 22584DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 82 Recursos Voluntários em 13/09/2022 (fls. 21734/21743) e 21/11/2022, (fls. 22106/22219), sendo o segundo, intempestivo. No mesmo sentido, cientificada em 19/09/202 da Decisão de Primeira instância, a responsável solidária (art. 124, I, e 135, III, ambos do CTN), MARIA TERESA NOGUEIRA, apresentou Recursos Voluntários em 13/09/2022 (fls. fl. 21745/21753) e 18/11/2022 (fls. 21988/22101), sendo a segunda petição intempestiva. No mesmo sentido, conheço do Parecer (e-fls. 21935/21985) apresentado pela Recorrente Brascoper em 26/10/2022 (e-fl. 21932), por representar reforço argumentativo ao já apresentado em Recurso voluntário tempestivo, afirmando (o parecerista), referindo-se à linha de produção da Brascopper Ribeirão Preto, que “a produção dessa fábrica se inicia com a matéria- prima vergalhão, comprada de fornecedores externos”. Desta forma, e da mesma forma que o Recurso Voluntário, tenta contrapor o entendimento dos autos, que afirmou que 90% das notas fiscais de compra de vergalhões de cobre de fornecedores externos no ano calendário 2016 são notas fiscais fraudadas, sendo esta uma questão central para a autuação por arbitramento, para a qualificação da multa e para as responsabilizações imputadas. Preliminar 1: Processo Judicial n. 1057476- 27.2022.4.01.3400, ajuizado pelo responsável solidário FABIO CZERKES SANTANA. Em 29/07/2024 a BRASCOPPER, em conjunto com o responsável solidário CARLOS EDUARDO, apresentou petição de 19/04/2024 (e-fls. 22441/22444) em que requer o sobrestamento do processo administrativo em epígrafe. Informa que um dos responsáveis solidários, mais precisamente FABIO CZERKES SANTANA, ajuizou ação judicial (Processo n. 1057476- 27.2022.4.01.3400) visando a anulação do auto de infração fundador do presente caso e que a tutela requerida perante o Poder Judiciário teria sido acolhida, tendo sido reconhecida a procedência do pedido lá formulado. Na fundamentação do pedido judicial afirmou FABIO CZERKES SANTANA que seriam ilegais prorrogações de prazos da fiscalização MPF 08.1.10.00-2019-00138-8 por 120 dias, contrariando a legislação vigente (Decretos 70.235/72 e 7.574/2011) que determina o prazo máximo de 60 dias para prorrogações de procedimentos fiscais. Aduz o peticionante Bracopper na petição referida: A necessidade de sobrestamento dos processos administrativos em casos em que haja prejudicialidade externa é reconhecida por este Conselho, conforme se depreende da Resolução n. 3402-001.698 e na Resolução n. 3402-001.362. Veja-se, I. Conselheiro, que não se trata de hipótese de concomitância, a qual ensejaria a perda do direito ao contencioso administrativo, a teor da Súmula CARF n. 1. Isto porque a ação judicial, como se depreende da sua petição exordial, tem objeto (partes, pedido e causa de pedir, conforme Acórdão CARF n. 2402-006.002) absolutamente restrito à questão da nulidade por excesso de prorrogação dos prazos da fiscalização. Ou seja, toda a defesa do mérito, além das nulidades específicas, e a defesa pessoal dos responsáveis solidários pessoas físicas, não consta da ação judicial, de modo que permanece sob apreciação do âmbito administrativo. Pois bem. No presente caso, o processo judicial ainda está em andamento, e o prosseguimento deste processo administrativo depende de eventual decisão judicial do TRF 1 que venha, ou não, a reformar a decisão do Exmo. Juízo da 4ª Vara Federal do TRF 1 e declare a existência da relação jurídica tributária que foi anulada. Hoje, para todos os efeitos legais, o auto de infração que redundou no PAF 10855- Fl. 22585DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 83 727.613/2021-23 é NULO por decisão judicial proferida no Processo n. 1057476- 27.2022.4.01.3400, da lavra do Exmo. Juízo da 4ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal. Ante o exposto, requer-se a suspensão do presente Processo, de n. 10855-727.613/2021-23, haja vista a prejudicialidade externa decorrente da anulação de referido auto de infração em processo judicial (1057476-27.2022.4.01.3400) proposto por terceiro, retomando-se o curso do contencioso administrativo apenas quando sobrevier decisão judicial final da referida contenda judicial. Anexa sentença (e-fls. 22460) em que se lê: Fábio Czerkes Santana propôs a presente ação em face de UNIÃO FEDERAL objetivando: "A procedência da presente ação, para o fim de declarar a nulidade de todos os atos praticados pela Fiscalização, e por consequência lógica e jurídica, o cancelamento de todo e qualquer “lançamento tributário” (auto de infração / lançamento de ofício) dele decorrente, com base nos elementos perfilhados acima, notificando a autoridade administrativa para a devida extinção e arquivamento lançamento fiscal nº 10855- 727.613/2021-23 que é proveniente do MPF nº 08.1.10.00-2019-00138-8." Alega, em síntese, que n.º 08.1.10.00-2019-00138-8 seria nulo, pelas intempestividades das prorrogações de seus prazos, visto que para cada ato, o prazo máximo seria de 60 dias e não 120 dias, como observado no referido MPF, o que fere o disposto no Decreto n.º 70.235/72 (artigo 7º, § 2º) e Decreto n.º 7.574/2011 (artigo 33º, § 3º), ambos recepcionados como Lei Ordinária (por tratarem de processo administrativo fiscal), no qual as prorrogações sempre se darão de 60 em 60 dias. Decisão que indeferiu o pedido de antecipação os efeitos da tutela (id. 1306645292). Contestação em que a União defende a improcedência dos pedidos (id. 1544893349). Réplica (id. 1733482551). É o breve relato. Decido. Trata-se de pedido de anulação de processo nº 08.1.10.00-2019-00138-8, com intuito de fiscalizar o IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IRRF da empresa BRASCOOPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA, que resultou no lançamento fiscal nº 10855- 727.613/2021- 23. No mérito, assiste razão ao autor. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região tem prestigiado o cumprimento das regras do MPF ao decretar a nulidade do procedimento fiscal, tendo em vista que a prorrogação do ato ocorreu intempestivamente. (...) Ante o exposto, julgo PROCEDENTE o pedido formulado pela parte autora, e resolvo o mérito para condenar a ré a fazer cessar em definitivo os descontos a título de imposto de renda no benefício de aposentadoria do autor, bem como para declarar a inexigibilidade de imposto de renda sobre seus proventos de aposentadoria. Condeno a ré ainda ao ressarcimento dos descontos realizados a partir de setembro de 2015, respeitada a prescrição quinquenal e com atualização pelo Manual de Cálculos do CJF. Ratifico a antecipação da tutela deferida para que a isenção em comento seja observada de imediato pela União (PFN). Deixo de condenar a UNIÃO no pagamento dos honorários advocatícios, com fulcro no art. 19, § 1º, I, da Lei nº 10522/2002, eis que preenchidos os pressupostos de cabimento. Fl. 22586DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 84 Sem custas. Sentença não sujeita ao reexame necessário. 1. Intimem-se. 2.Havendo apelação, intime-se a parte contrária para contrarrazões, no prazo legal. Após, remetam-se os autos ao egrégio TRF da 1ª Região (§ 3º, art. 1.010, do CPC). DATADO E ASSINADO DIGITALMENTE Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO - 19/04/2024 10:09:33 Em consulta ao mesmo processo judicial 1057476-27.2022.4.01.3400 extrai-se decisão interlocutória (de 06/09/2022), em que foi indeferido pedido de suspensão do processo administrativo correlato (e-fls. 22497) e decisão integrativa de (18/09/2024) da sentença (e-fls. 22495): DECISÃO O processo administrativo impugnado pelo autor está em curso, não havendo razão para sua suspensão. Caso do mesmo decorra conclusão que prejudique eventual direito do autor, aí sim, haverá risco de dano, que poderá ser combatido em ação própria. Indefiro o pedido de tutela. Procedam-se as comunicações de praxe. Datado e assinado eletronicamente. BRASÍLIA, 6 de setembro de 2022. Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO 06/09/2022 16:24:04 ______________________________ ______________________________ SENTENÇA INTEGRATIVA Trata-se de embargos de declaração opostos pela Autora e Ré em face da sentença de id 2126047642 que julgou procedente o pedido. Sustentam, em suma, que a sentença incorreu em contradição entre a fundamentação do decisum e sua parte dispositiva (ids 2126047642 e 2126985750) Contrarrazões apresentadas. É o relatório necessário. DECIDO. Com razão as embargantes. Portanto, dou efeito integrativo retificador em parte da fundamentação e no dispositivo da sentença para fazer constar (entre aspas): "Desse modo, o procedimento administrativo nº 08.1.10.00-2019-00138-8 está eivado de nulidade absoluta, ante a existência de vício de procedimento de fiscalização. Fl. 22587DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 85 Ante o exposto, julgo PROCEDENTE o pedido formulado pela parte autora, e resolvo o mérito a fim de declarar a nulidade o procedimento administrativo nº 08.1.10.00-2019- 00138-8 em sua integralidade e, por consequência, o cancelamento de todo e qualquer lançamento tributário dele decorrente. Condeno a Fazenda Nacional em honorários advocatícios, que fixo em dez por cento sobre o valor da causa, nos termos do art. 85, §§ 1º, 2º e 3º, I, do CPC. Custas em ressarcimento." Assim, ACOLHO os embargos de declaração passando esta decisão a integrar a sentença recorrida. Os demais termos permanecem inalterados. 1. Intimações realizadas eletronicamente. DATADA E ASSINADA ELETRONICAMENTE Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO 18/09/2024 09:27:57 A respeito, impõe-se resolver preliminarmente duas questões: (i) se há concomitância entre o litígio judicial e o litígio administrativo, o que redundaria no não conhecimento dos recursos voluntários apresentados; e (ii) se procede o pedido da Recorrente Bracoper, que entendeu não haver concomitância, mas solicitou o sobrestamento deste processo administrativo , nos seus termos “haja vista a prejudicialidade externa decorrente da anulação de referido auto de infração em processo judicial (1057476-27.2022.4.01.3400) proposto por terceiro, retomando-se o curso do contencioso administrativo apenas quando sobrevier decisão judicial final da referida contenda judicial”. A concomitância (i) é tratada no âmbito deste CARF na Súmula de sua jurisprudência de nº 1: Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Vejamos o que prescreve o atual texto do parágrafo único, do art. 38, da Lei nº 6.830/1980 (Lei de Execuções Fiscais - LEF): Art. 38 ... (...) Parágrafo Único - A propositura, pelo contribuinte, da ação prevista neste artigo importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto. Fl. 22588DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 86 Sobre a definição do que seria o “mesmo objeto”, vale transcrever a interpretação do Parecer Normativo Cosit Nº 7, de 22/08/2014 (grifei): Da identidade de objetos dos processos administrativo e judicial 9. Poder-se-ia questionar quanto à definição da expressão “mesmo objeto” a que se reportam o ADN Cosit nº 3, de 1996, a Súmula nº 1 do CARF e a Portaria MF nº 341, de 2011. Aqui, faz-se mister diferenciar o objeto da relação jurídica substancial ou primária do objeto da relação jurídica processual. Aquele consiste no bem da vida sobre o qual recaem os interesses em conflito, in casu, o patrimônio do contribuinte; este, por sua vez, diz respeito ao serviço que o Estado tem o dever de prestar, e nos procedimentos de que este se utiliza para tanto, resultando no proferimento de decisões administrativas ou judiciais em cada processo, guardando relação de instrumentalidade com a real demanda do autor (JUNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Constituição Federal Comentada. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009. p. 179). 9.1. Assim, só produz o efeito de impedir o curso normal do processo administrativo a existência de processo judicial para o julgamento de demanda idêntica, assim caracterizada aquela em que se verificam as mesmas partes, a mesma causa de pedir (fundamentos de fato – ou causa de pedir remota - e de direito – ou causa de pedir próxima) e o mesmo pedido (postulação incidente sobre o bem da vida) - a chamada teoria dos três eadem, conforme definida no art. 301, § 2º da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil – CPC), o qual ora se aplica por analogia. 9.2. Leva-se em consideração o objeto da relação jurídica substancial; se a discussão judicial se refere a questões instrumentais do processo administrativo, contra as quais se insurge o sujeito passivo da obrigação tributária, não há que se falar em desistência da instância administrativa nem em definitividade da decisão recorrida, quando nesta se discute alguma questão de direito material. Se, no entanto, a discussão administrativa gira em torno de alguma questão processual, como a tempestividade da impugnação, por exemplo, questão esta também levada à apreciação judicial, configura-se a renúncia à esfera administrativa quanto a este ponto específico. 9.3. Seguindo esse raciocínio, encontra-se entendimento na doutrina e na jurisprudência de que só se caracteriza a identidade de ações quando se verificam as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir: 19. Identidade de ações: caracterização. As partes devem ser as mesmas, não importando a ordem delas nos pólos das ações em análise. A causa de pedir, próxima e remota [...], deve ser a mesma nas ações, para que se as tenha como idênticas. O pedido, imediato e mediato, deve ser o mesmo: bem da vida e tipo de sentença judicial. Somente quando os três elementos, com suas seis subdivisões, forem iguais é que as ações serão idênticas. (JUNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado. 11. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. p. 595) Litispendência. Identidade de pedidos. A identidade de pedidos não caracteriza a litispendência. Somente se verifica a litispendência com a identidade de ações: as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir. (TRF-5ª, 1ª T., Ap 17299-RN, rel. Juiz Ridalvo Costa, v.u., j. 10.12.1992, JSTJ 47/583) 9.4. Vale reproduzir o seguinte excerto do Parecer PGFN/Cocat nº 2/2013: 49. Dito disso, conferimos ao instituto da concomitância no PAF o mesmo tratamento da litispendência no processo civil, pois a verificação da ausência desses dois pressupostos negativos tem como finalidade precípua evitar o processamento de causas iguais quando houver: (i) identidade das partes, (ii) da causa de pedir e (iii) do pedido (art. 301, §§ 1º e 2º, do CPC; e Súmula nº 1/CARF). Fl. 22589DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 87 Desta forma, só produziria o efeito de impedir o curso normal deste processo administrativo a existência de processo judicial para o julgamento de demanda idêntica, assim caracterizada aquela em que se verificam as mesmas partes, a mesma causa de pedir (fundamentos de fato – ou causa de pedir remota - e de direito – ou causa de pedir próxima) e o mesmo pedido (postulação incidente sobre o bem da vida). Decidiu pela inocorrência da concomitância, quando demonstrado que a decisão judicial somente alcançou parte da matéria impugnada, decisão desta Turma de outubro de 2024, Acórdão 1102-001.523 CONCOMITÂNCIA PARCIAL. DECISÃO ADMINISTRATIVA RECORRIDA. NÃO APRECIAÇÃO DE MATÉRIA NÃO CONCOMITANTE. NULIDADE. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. Decisão da autoridade julgadora a quo que não apreciou matéria não concomitante, enseja a declaração de nulidade da decisão de primeiro grau, com o retorno do processo à Delegacia de Julgamento para a sua devida apreciação, sob pena de supressão de instância e cerceamento de defesa. Recorrente: CAMARA DE COMERCIALIZACAO DE ENERGIA ELETRICA – CCEE No que interessa para a análise do caso concreto, constato que a demanda do processo judicial, em curso ainda na primeira instância da 4ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal (SJDF), resumiu-se em ação anulatória que tem como pedido a nulidade do lançamento, por um dos sujeitos passivo solidários (art. 124, I do CTN), por alegada irregularidade procedimental (MPF). A demanda judicial teve como causa de pedir “ilegais prorrogações de prazos da fiscalização MPF 08.1.10.00-2019-00138-8 por 120 dias, contrariando a legislação vigente (Decretos 70.235/72 e 7.574/2011) que determina o prazo máximo de 60 dias para prorrogações de procedimentos fiscais”. Já a causa de pedir dos recursos destes autos administrativos concentra-se em questões de nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa, tanto do procedimento fiscal quanto da decisão de primeira instância, além de questões de mérito, em que os Recorrentes tentam desconstituir o lançamento ou as imputações de responsabilidade solidárias, sem que qualquer dos recorrentes tenha aventada a questão acerca do MPF. Ou seja, não há concomitância entre as demandas administrativa e judicial. Assim também entendeu a própria Recorrente e o responsável solidário peticionante (Bracoppper e Sr. Carlos Eduardo): Veja-se, I. Conselheiro, que não se trata de hipótese de concomitância, a qual ensejaria a perda do direito ao contencioso administrativo, a teor da Súmula CARF n. 1. Isto porque a ação judicial, como se depreende da sua petição exordial, tem objeto (partes, pedido e causa de pedir, conforme Acórdão CARF n. 2402-006.002) absolutamente restrito à questão da nulidade por excesso de prorrogação dos prazos da fiscalização. Ou seja, toda a defesa do mérito, além das nulidades específicas, e a defesa pessoal dos responsáveis solidários pessoas físicas, não consta da ação judicial, de modo que permanece sob apreciação do âmbito administrativo. Fl. 22590DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 88 Mesmo entendendo não haver concomitância, a Recorrente e o responsável solidário peticionante (Bracoppper e Sr. Carlos Eduardo) peticionantes solicitaram a esta Turma o sobrestamento deste processo administrativo, nos seguintes termos: Muito embora estes Peticionários (BRASCOPPER e CARLOS EDUARDO) não tenham ajuizado qualquer medida judicial em face do auto de infração 10855-727.613/2021-23 e pretendam exaurir as instâncias administrativas, o fato é que referido o processo administrativo de fiscalização e, por consequência, os autos de infração, foi anulado judicialmente por motivo comum a todos os autuados (contribuinte e responsáveis solidários), circunstância esta que acarreta a necessária suspensão do presente processo administrativo. (...) Pois bem. No presente caso, o processo judicial ainda está em andamento, e o prosseguimento deste processo administrativo depende de eventual decisão judicial do TRF 1 que venha, ou não, a reformar a decisão do Exmo. Juízo da 4ª Vara Federal do TRF 1 e declare a existência da relação jurídica tributária que foi anulada. Hoje, para todos os efeitos legais, o auto de infração que redundou no PAF 10855- 727.613/2021-23 é NULO por decisão judicial proferida no Processo n. 1057476- 27.2022.4.01.3400, da lavra do Exmo. Juízo da 4ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal. Ante o exposto, requer-se a suspensão do presente Processo, de n. 10855-727.613/2021-23, haja vista a prejudicialidade externa decorrente da anulação de referido auto de infração em processo judicial (1057476-27.2022.4.01.3400) proposto por terceiro, retomando-se o curso do contencioso administrativo apenas quando sobrevier decisão judicial final da referida contenda judicial. Entendo que a prejudicialidade aqui tratada não se resolve pelo sobrestamento, devendo os dois processos (este administrativo e o judicial citado) seguirem seus cursos procedimentais previstos em lei. Deve-se apenas garantir que não haja qualquer ato executório decorrente deste processo administrativo que colida que o determinado judicialmente. Ou seja, se os Recorrentes forem vencidos nas instâncias administrativas, cabe às autoridades administrativas executoras, e na oportunidade da cobrança, averiguar se daquela demanda judicial advém ordem de sobrestamento do processo, suspensão ou cancelamento da cobrança. Entendo que neste sentido decidiu o próprio juiz do feito, em decisão interlocutória: DECISÃO O processo administrativo impugnado pelo autor está em curso, não havendo razão para sua suspensão. Caso do mesmo decorra conclusão que prejudique eventual direito do autor, aí sim, haverá risco de dano, que poderá ser combatido em ação própria. Indefiro o pedido de tutela. Procedam-se as comunicações de praxe. Datado e assinado eletronicamente. BRASÍLIA, 6 de setembro de 2022. Assinado eletronicamente por: ITAGIBA CATTA PRETA NETO 06/09/2022 16:24:04 Fl. 22591DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 89 Observo, por fim, que não há previsão regimental no CARF que autorize o sobrestamento requerido neste processo administrativo pelo Recorrente. A título exemplificativo, reproduzo a seguir as normas regimentais que autorizam sobrestamento (arts. 47 e 100 da portaria MF n. 1.634, de 21 de dezembro de 2023): Art. 47 Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observando-se o disposto neste artigo. (...) § 5º Na impossibilidade de distribuição, ao mesmo relator, dos processos principal e decorrente ou reflexo, será determinada a vinculação dos autos e o sobrestamento do julgamento do processo decorrente ou reflexo, até que seja proferida decisão de mesma instância relativa ao processo principal. (...) Art. 100. A decisão pela afetação de tema submetido a julgamento segundo a sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos não permite o sobrestamento de julgamento de processo administrativo fiscal no âmbito do CARF, contudo o sobrestamento do julgamento será obrigatório nos casos em que houver acórdão de mérito ainda não transitado em julgado, proferido pelo Supremo Tribunal Federal e que declare a norma inconstitucional ou, no caso de matéria exclusivamente infraconstitucional, proferido pelo Superior Tribunal de Justiça e que declare ilegalidade da norma. Parágrafo único. O sobrestamento do julgamento previsto no caput não se aplica na hipótese em que o julgamento do recurso puder ser concluído independentemente de manifestação quanto ao tema afetado. O primeiro caso regimental (art. 47) é de prejudicialidade entre dois processos administrativos fiscais vinculados, nas condições reguladas. Não é o caso aqui analisado. O segundo caso trata de específica situação em que há a prejudicialidade entre um processo administrativo e um processo judicial, no âmbito dos tribunais superiores STJ e STF. E mesmo havendo prejudicialidade, e o sobrestamento for obrigatório, ele é desautorizado na hipótese em que o julgamento do recurso (administrativo) puder ser concluído independentemente de manifestação (judicial), quanto à tema afetado no STJ e STF, ou seja, não se subsumir às (nas condições restritas impostas pelo art. 100 do Ricarf. Ou seja, se há temas diferentes discutidos nas esferas administrativa e judicial o sobrestamento está desautorizado, a não ser que se trate de tema afetado submetido a julgamento segundo a sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivo e que haja acórdão de mérito ainda não transitado em julgado, proferido pelo Supremo Tribunal Federal e que declare a norma inconstitucional ou, no caso de matéria exclusivamente infraconstitucional, proferido pelo Superior Tribunal de Justiça. No caso presente não há qualquer notícia de matéria discutida nestes autos e, ao mesmo tempo, no STF ou STJ, nas condições previstas no citado art. 100 do Ricarf. Desta forma, não cabe o sobrestamento requerido. Ainda sob a regência do RICARF anterior, decidiu este CARF (AC n. 9101-005.923 – CSRF / 1ª Turma, de 03/12/2021) que a proposição de ação anulatória não pode, por suposta prejudicialidade externa, determinar o sobrestamento do processo administrativo conexo: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL PREJUDICIAL ENCERRADO. AÇÃO ANULATÓRIA PROPOSTA. SOBRESTAMENTO DO PROCESSO ADMINISTRATIVO DECORRENTE OU CONEXO. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 22592DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 90 O princípio da oficialidade impõe impulsionar o andamento do processo administrativo ao seu fim, garantindo-se sua duração razoável. Tendo o processo administrativo fiscal tido como prejudicial já encerrado o contencioso administrativo, a mera proposição de ação anulatória não pode, por suposta prejudicialidade externa, determinar o sobrestamento do processo administrativo conexo/decorrente, uma vez que o art. 6º, §§ 4º a 6º do Anexo II do RICARF não determina a suspensão do feito nessa hipótese, mas sim ou o julgamento conjunto dos processos ou a continuidade do julgamento do processo conexo/decorrente quando já tenha sido proferida decisão administrativa de mesma instância no processo prejudicial. Preliminar 2: Da nulidade da decisão Recorrida. O Recorrente principal (Brascopper) e os demais Recorrentes alegam ter havido nulidade na Decisão Recorrida, por preterição do direito de defesa, por entenderem os Recorrentes que documentos apresentados em Impugnação não foram analisados. Aduzem que a forma de comprovar que as compras aconteceram (e na forma que documentou) seria “por meio das revendas e vendas de produtos fabricados com essa matéria prima no período em questão”. Justifica que “considerando que admitidas como regulares as compras de matéria prima pela BRASCOPPER no volume indicado em sua contabilidade (as quais necessariamente merecem ser admitidas como tal para fazer frente às incontroversas vendas), os autos de infração serão cancelados”. Neste tópico analisaremos estas alegações quando não puderem ser caracterizadas somente como questões de mérito. A contribuinte BRASCOPPER apresentou Recurso Voluntário (fls. 21835/21916), em que, entre outros pleitos, requer a decretação da nulidade do Acórdão Recorrido nos seguintes termos: (...) 33. Com o devido respeito ao julgamento em questão, é patente que: i) é eivado de nulidade, por preterição ao direito de defesa de BRASCOPPER e do Sr. CARLOS EDUARDO, pois não analisa minimamente os argumentos e provas sobre o núcleo dos fundamentos de defesa apresentados em impugnação, os quais, por si, se acolhidos, seriam capazes de desconstituir a cobrança ora em apreço; (...) 39. Em outras palavras, o Acórdão não gastou uma linha sequer para de fato avaliar as razões e provas didaticamente apresentadas em sua impugnação. Veja-se que, com o devido respeito, o ponto posto pela DRJ é uma obviedade: a autuação tem como ponto fulcral as compras realizadas pelas Brascopper, e não suas vendas. 40. Ocorre que as provas são mecanismos processuais que visam tangenciar a realidade dos eventos do mundo que se encontram em discussão. Assim, por ter a Fiscalização considerado o conjunto probatório apresentado pela empresa, relativamente às suas compras, insuficientes para lhe dar razão, busca-se aqui outra forma de comprovar os mesmos fatos: de que a BRASCOPPER, exatamente como consta de sua contabilidade, comprou vergalhões de cobre em grande quantidade e não sucata. A forma de se Fl. 22593DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 91 comprovar isso é por meio das revendas e vendas de produtos fabricados com essa matéria prima no período em questão. (...) 41. Retomando às omissões na decisão recorrida, tem-se que a preterição ao direito de defesa da contribuinte é mais grave: toda a documentação que a BRASCOPPER se esmerou em produzir para sustentar sua defesa não foi sequer mencionada no acórdão recorrido. Com efeito, em sede de impugnação, foram apresentados os seguintes documentos, sendo que nenhum foi objeto de qualquer consideração por parte do Acórdão da DRJ: “DOC. 4 - Laudo técnico sobre o processo industrial da BRASCOPPER com cobre; DOC. 5 – Documentação relativa às antigas transações com METALOX; DOC. 6 – Contrato de conta escrow com o Grupo Athena; DOC. 7 - Livro razão com pagamento das empresas de consultoria financeira que gerenciaram a BRASCOPPER desde o pedido de recuperação judicial; DOC. 8 – Documentação relativa às antigas transações com a CBL; DOC. 9 - Demonstrativo do lucro da Brascopper com a intermediação da industrialização por encomenda; DOC. 10 - Demonstrativo das remessas de industrialização de sucata de "cobre"; DOC. 11 - Comprovantes de pagamento da R3 à Brascopper pela intermediação industrialização por encomenda (Razão, notas fiscais e extratos bancários); DOC. 12 - Relatório de faturamento (saída) - matéria prima cobre; DOC. 12-A - Relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima; DOC. 12-B – Demonstrativo de “receita bruta” e “custo bruto” – produtos acabados e para revenda; DOC. 13 - Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre; DOC. 14 - Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre - detalhado por nota fiscal eletrônica; DOC. 15 - Razão Analítico da CBL – histórico BRASCOPPER, referente ao período de 01/01/2016 a 31/12/2016; DOC. 16 – Extratos bancários com os registros dos pagamentos feitos pela BRASCOPPER a seus fornecedores).” 42. Os documentos acostados pela Recorrente, como se percebe, são fundamentais para que se compreenda a incorreção do trabalho fiscal, pois demonstram cabalmente que, caso a acusação fiscal fosse verdadeira, vale dizer, caso a BRASCOPPER tivesse comprado sucata ao invés de vergalhão de cobre – realidade essa que teria sido ocultada para fins de fraudulentamente tomar créditos de PIS/COFINS e ICMS -, nunca teria sido capaz de entregar as centenas de toneladas de cabos elétricos para seus clientes naquele período, conforme atestado por laudo técnico elaborado por renomado Sr. Engenheiro Técnico e ora reforçado por outro laudo técnico pericial elaborado pelo IPT. Para que seja possível entender a clareza dessa conclusão, é necessário avaliar toda a documentação supramencionada. A r. decisão recorrida, portanto, não poderia simplesmente ignorar tais documentos! (...) 47. Entre as decisões carentes de motivação são aquelas que não enfrentam o núcleo dos fundamentos de defesa da parte ou, mais literalmente, quando não cuidam dos argumentos que, por si, seriam suficientes para levar o julgador ao sentido contrário do quanto restou decidido. Com o devido acatamento, é o caso dos autos, pois, admitidas como regulares as compras de matéria prima pela BRASCOPPER no volume indicado em sua contabilidade (as quais necessariamente merecem ser admitidas como tal para fazer frente às Fl. 22594DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 92 incontroversas vendas), os autos de infração (que impõem glosa de custos, alteração do regime original de tributação e tributação na fonte por pagamentos tidos como sem causa) será óbvia e reflexamente cancelado. (...) A Recorrente reclama que a DRJ não analisou minimamente os argumentos e provas sobre o núcleo dos fundamentos de sua defesa, referentes ao intento de afastar o arbitramento: busca a Recorrente/Impugnante nesta parte da defesa e com estes documentos que teriam sido ignorados, segundo suas palavras, outra forma de comprovar a ocorrência das compras glosadas (glosa que redundou no arbitramento), diferente da forma usada pela Fiscalização, que se concentrou nos documentos fiscais de compras. A Fiscalização, de fato, concentrou-se nas notas fiscais de compras e sua inidoneidade, nos pagamentos referentes às compras alegadas e demais documentos relacionados às compras que poderiam respaldar ou desqualificar a escrita contábil e fiscal. Mas, segundo a Recorrente, a forma de comprovar que a BRASCOPPER comprou vergalhões de cobre em grande quantidade e não sucata, exatamente como consta de sua contabilidade, é por meio da análise das revendas e vendas de produtos fabricados com aquela matéria prima (vergalhões de cobre) que consta nas notas fiscais inidôneas, no período em questão. E os documentos que não teriam sido analisados teriam como intento justamente esta “comprovação de existência” do que foi vendido. A Recorrente/Impugnante fundamenta sua empreitada (justificar as compras declaradas com a análise das vendas) afirmando acreditar que “as provas são mecanismos processuais que visam tangenciar a realidade dos eventos do mundo”. Por isso a procura por meios alternativos para convencer sobre os fatos a serem comprovados. Ora, todas as movimentações existentes no patrimônio de uma entidade devem ser registradas pela Contabilidade, mas interessa ao presente pleito (na parte inicial em que se decide se o lucro deve ser arbitrado) uma parte específica destes registros: registros das compras. Mais especificamente: o evento que interessa comprovar para se confirmar ou não o arbitramento são as compras registradas (respectivos notas fiscais, e, se houver, comprovantes de pagamentos, contratos, ordens de compra, documentos que comprovem a pesagem das mercadorias, preço de frete, e a idoneidade dos documentos eventualmente apresentados). E foram os lançamentos contábeis e fiscais referentes às compras que restaram não comprovados e para os quais o Recorrente/Impugnante carreou aos autos montanha de documentos falsos durante a fiscalização. É sobre estes documentos que se deve debruçar, aqui e na análise do mérito (a seguir). Deste contexto conclui-se que os documentos efetivamente apresentados em impugnação/recurso, em sua essência sobre vendas, se afastam do mérito da autuação (glosa de compras/inidoneidade das notas fiscais de compras). A quem interessa desviar a marcha processual para a análise, por exemplo, de dois laudos encomendados pela Recorrente/Impugnante, que intentam comprovar (em 2022) a capacidade instalada da recorrente/Impugnante (em 2016) para vender e “entregar as centenas de toneladas de cabos elétricos para seus clientes”, neste último período citado, e comprovar a dependência do processo produtivo de vergalhões de cobre já processados? A lógica do Fl. 22595DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 93 Recorrente/Impugnante é: se preciso de vergalhões de cobre no meu processo produtivo, e não consigo processar sucata para produzi-los (laudos técnicos assim atestariam), é por que precisei (de vergalhões de cobre) e não os produzi em 2016. E se precisei e não produzi em 2016: comprei! Logo as compras (de vergalhões de cobre) são verdadeiras exatamente como constam das notas fiscais! Mesmos que emitidas por empresas fantasmas! Nos termos da recorrente: “Os produtos, incontestavelmente vendidos no período em questão, não poderiam ter sido fabricados com matéria prima (leia-se: vergalhões de cobre) caída do céu.”. Afirma ainda a Recorrente: 42. Os documentos acostados pela Recorrente, como se percebe, são fundamentais para que se compreenda a incorreção do trabalho fiscal, pois demonstram cabalmente que, caso a acusação fiscal fosse verdadeira, vale dizer, caso a BRASCOPPER tivesse comprado sucata ao invés de vergalhão de cobre – realidade essa que teria sido ocultada para fins de fraudulentamente tomar créditos de PIS/COFINS e ICMS -, nunca teria sido capaz de entregar as centenas de toneladas de cabos elétricos para seus clientes naquele período, conforme atestado por laudo técnico elaborado por renomado Sr. Engenheiro Técnico e ora reforçado por outro laudo técnico pericial elaborado pelo IPT. Para que seja possível entender a clareza dessa conclusão, é necessário avaliar toda a documentação supramencionada. A r. decisão recorrida, portanto, não poderia simplesmente ignorar tais documentos! (...) Fraudes eventualmente perpetradas por outras empresas, que podem ter sido deflagradas pelas autoridades fiscais, não devem de forma alguma resvalar na BRASCOPPER, empresa sadia, tradicional e produtiva, como se verá a seguir (item V.2). 62. Reitere-se: sem a aquisição de vergalhões de cobre, na forma e quantidade registradas na contabilidade, não haveria fabricação e venda de produtos acabados (e, por conseguinte, inexistente seria a receita que serviu de base para a própria autuação fiscal). Esse dado de realidade jamais pode ser desconsiderado (como o foi) pelo Acórdão recorrido. (...) No parágrafo 44.12 da decisão ora guerreada, a DRJ afirma que a Recorrente insiste em tese não questionada nos autos, vale dizer, a venda de produtos de cobre. Vê-se aí que, claramente, a DRJ não compreendeu a defesa: sim, as acusações baseiam-se nas compras da BRASCOPPER e como elas foram consideradas fraudulentas. Justamente para infirmar essa acusação, a defesa demonstra que não é materialmente possível acontecer o que diz ter acontecido a fiscalização, em razão das vendas de produtos, a partir da matéria prima comprada, efetuadas em 2016. Isto porque os produtos, incontestavelmente vendidos no período em questão, não poderiam ter sido fabricados com matéria prima (leia-se: vergalhões de cobre) caída do céu. (...) Não se confirma a nulidade do Acórdão recorrido apontada pela Recorrente. O motivo para confirmação ou não da idoneidade das notas fiscais de compras e pagamentos correlatos (tidos como fraudados pela Fiscalização) é a necessidade de confirmação da procedência do arbitramento. E só se confirmada a opção de ofício pelo arbitramento, o Fisco deverá buscar uma forma de apurar o lucro arbitrado, já que o cálculo do lucro real foi inviabilizado pela contabilidade apresentada. Fl. 22596DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 94 Em outros termos, se confirmado que a contabilidade é imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira (art. 530, I “a” do RIR/99) ou determinar o lucro real (art. 530, I “b” do RIR/99), o arbitramento é confirmado, segundo as letras “a” e “b” do art. 530, I “a” do RIR/99. E este foi o enquadramento legal utilizado no auto de infração contestado – “art. 530, I do RIR/99” (e-fl. 11.329). Logo, é importante se ater à contabilidade apresentada na parte tida como fraudada (compras) e aos documentos fiscais que a sustentariam. As vendas não foram contestadas pelo Fisco ou pelo Recorrente, nos montantes que serviram para o cálculo do lucro arbitrado. Mas, sim as compras (90% estão escoradas por documentos inidôneos). Ou seja, houve a necessidade de averiguar a capacidade instalada, mas das noteiras, e não da Recorrente. Desta forma, a DRJ, em voto, fundamentou a desnecessidade de adentrar na análise das vendas no intuito (da Recorrente) de justificar as compras: (...) 31 Em brevíssima síntese, o procedimento fiscal em comento decorreu da constatação, por parte da Fiscalização, que, no ano-calendário de 2016, a BRASCOPPER efetivou aquisição de notas fiscais fraudulentas das empresas COPPER GREEN, GLOBAL, METALOX e R3 que totalizaram a transferência de R$ 130.606.336,90, correspondendo a quantidade total de 6.222.840,54 kg de vergalhão de cobre. Tal ilação baseou-se no fato de, a partir de diligências da Sefaz-SP e fiscalizações realizadas nas apontadas empresas, inferir que seria impossível que o produto fosse fabricado por elas, uma vez que se tratava de empresas de fachada, popularmente conhecidas como NOTEIRAS, quer dizer sem qualquer capacidade operacional, criadas com intuito de emitir notas fiscais frias para geração de crédito tributário de tributos não-cumulativos e diminuir o lucro tributável das reais beneficiárias. (...) 44.7 (...) Concordamos que os fatos geradores ocorreram antes da decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas, no entanto, as diligências efetuadas nos domicílios tributários dos fornecedores e a vasta gama de provas e indícios denotam que, à época dos fatos, não detinham capacidade operacional para fabricar vergalhões de cobre. Outrossim, apesar dos valores e do volume envolvidos, não há qualquer contrato, outros documentos, que seja simples e-mails ou talvez comprovantes de pesagem das mercadorias recebidas dos fornecedores que comprovassem as negociações realizadas; (...) 44.12 A Defesa afirma que a indústria de condutores elétricos requer cobre com cerca de 99,9% de impureza e a sucata deste, em nenhuma circunstância, apresenta esse nível de impureza, portanto nunca poderia ter comprado sucata ao invés de vergalhão. (...)A não ser que a indústria, ela própria, tenha todo o aparato necessário para executar também esse processo industrial prévio, de transformação de sucata de cobre em vergalhão, pois é esse último que tem as características físico-químicas necessárias (99,9% de pureza) para servir como condutor elétrico. A Interessada insiste em uma tese que a Fiscalização não contraditou, ou seja, não se questiona nestes autos as vendas dos vergalhões de cobre e de cabos condutores, mas a existência de um esquema de compra de sucata pela BRASCOPPER, por intermédio de empresas nitidamente de fachada, transformação desta sucata em vergalhão de cobre através de empresas laminadoras, repasse destes vergalhões, por meio das noteiras, para BRASCOPPER que se beneficiava dos créditos tributários federais e estaduais relacionadas a essas simuladas aquisições, além da majoração dos custos. Todas as provas e fatos produzidos nos autos, inquestionavelmente, demonstram que as fornecedoras não detinham capacidade operacional para produzir vergalhões; que se relacionaram com sucateiros; que as movimentações financeiras eram incompatíveis; maioria não declarou GFIP; e relações com pessoas ligadas as multicitadas famílias e os sócios da BRASCOPPER; (...) Fl. 22597DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 95 Desta forma, não se confirma a nulidade aventada pela Recorrente. Os documentos anexados pela Impugnante foram apreciados na análise do mérito, se e quando diretamente relacionados com o núcleo da acusação fiscal: glosa de compras justificadas com notas fiscais fraudadas, arbitramento, agravamento de multa, IRRF, formação de grupo com o intuito de fraude, solidariedade/responsabilidade. Em outro trecho, assim dispôs a DRJ, aduzindo que os documentos “não estão relacionados aos fatos geradores considerados na autuação; ou de naturezas contábeis e fiscais da própria lavra que não demonstram de forma clara o acontecido, e por si só, não são suficientes para justificar qualquer dúvida quanto à efetividade da infração que lhe é imputada”: 74 A Impugnante não explicou e nem comprovou através de documentação hábil e idônea, de forma convincente, o nexo causal que a levou efetuar pagamentos para tais beneficiários, apresenta somente alegações estribadas por documentos: que não estão relacionados aos fatos geradores considerados na autuação; ou de naturezas contábeis e fiscais da própria lavra que não demonstram de forma clara o acontecido, e por si só, não são suficientes para justificar qualquer dúvida quanto à efetividade da infração que lhe é imputada, uma vez se tratarem de meras alegações sem ajuntada de qualquer comprovante convincente que as alicercem - diante dos valores e volumes envolvidos, é inconcebível admitir que não existam: contratos ou outros documentos semelhantes; formalização dos pedidos dos vergalhões de cobre por meio de e-mails da BRASCOPPER aos fornecedores relacionados à fraude; ou comprovantes de pesagem das mercadorias recebidas dos fornecedores. O órgão julgador não está obrigado a se manifestar sobre todos os pontos alegados pela parte, mas somente sobre os que entender necessários ao deslinde da controvérsia, de acordo com o livre convencimento motivado. Neste sentido, exemplificadamente, alguns acórdãos desta casa: AC 1302-007.093, de 11/04/2024 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2010 NULIDADE DO ACÓRDÃO. FALTA DE APRECIAÇÃO DE ARGUMENTOS DE DEFESA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. DESNECESSIDADE DE ANÁLISE DE TODOS OS ARGUMENTOS DE DEFESA. DECISÃO FUNDAMENTADA. A DRJ analisou pormenorizadamente os fatos e os argumentos de defesa, não sendo necessário que o julgador analise todas as razões e fundamentos indicados pelas partes, bastando que analise as questões que entender suficientes para sua convicção e fundamentar sua decisão. (...) (...) AC 2101-002.897, de 27/09/2024 NULIDADE. INOCORRÊNCIA DE OMISSÃO DO JULGADOR DE PRIMEIRA INSTÂNCIA NA APRECIAÇÃO DA MATÉRIA ALEGADA NA IMPUGNAÇÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NÃO OBSERVADO. Configura-se cerceamento do direito de defesa a falta de análise e pronunciamento pela autoridade julgadora dos argumentos apresentados em sede de impugnação pelo sujeito passivo, o que gera, em consequência, a nulidade da decisão, com base no artigo 59, inciso II, do Decreto 70.235/1972. A decisão foi fundamentada, não havendo que se falar em nulidade quando o julgador proferiu decisão devidamente motivada, explicitando as razões pertinentes à formação de sua livre convicção. Ademais, o órgão julgador não está obrigado Fl. 22598DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 96 a se manifestar sobre todos os pontos alegados pela parte, mas somente sobre os que entender necessários ao deslinde da controvérsia, de acordo com o livre convencimento motivado. Mesmo que se entendesse pela análise de cada documento anexados aos autos, a confirmação da desimportância de cada documento referido pode ser feita a seguir, no julgamento do mérito. Isto porque se referem a temas que permeiam a fundamentação da autuação, amplamente discutidos pelo acórdão da DRJ, como os relacionados a transações com a METALOX (DOC. 5 – Documentação relativa às antigas transações com METALOX) – uma das principais noteiras; ou a transações com a CBL (DOCs 08 a 11 e 14/15), empresa que efetuou a laminação por encomenda; ou os Docs. 12 e 13, que seriam relatórios de produção elaborados unicamente pela própria Recorrente, e por isso desconsiderados expressamente pela DRJ (item 74 do Acórdão contestado). Quanto aos Docs 06 e 07, também trazidos em impugnação, tratam de confirmação da autorização para a administração bancária de conta da Brascopper pelo Sr. Marcus Vinicius, e servem mais para confirmar o já constatado expressamente e amplamente pela DRJ, quando da apreciação da responsabilidade do Sr. Carlos Eduardo, de que aquele Responsável Solidário (Marcus Vinicius) agia como gerente financeiro da fraude, tanto em nome de noteiras como da Brascopper. Assim dispôs a DRJ: 145 Muito pelo contrário, as milhares de laudas só nos levam a corroborar que os responsáveis pela Fiscalizada capitanearam o ilícito fiscal, com intuito de beneficiá-la e ocultá-los, pois, conquanto o gerenciamento e coordenação da fraude tenham sido executados em conluio com pessoas relacionadas às famílias Martins e Megiolaro, seria impossível a concretização sem conhecimento ou consentimento dos sócios da BRASCOPPER, uma vez que se comprovou: (...) 145.5 O pleno conhecimento e concordância no que se refere a atuação do Sr. Marcus Vinicius Passos Martins – dono da METALOX, principal fornecedor de vergalhão de cobre da BRASCOPPER -, que, ao longo do ano-calendário de 2016, apesar de estranho ao quadro social, atuou como gerente financeiro da fraude, posto que solicitava pagamentos de boletos e de transferência bancárias da conta corrente da Auditada na instituição financeira SICREDI; Desta forma, voto por afastar a alegação de nulidade por preterição do direito de defesa. Do Recurso da Brascopper - IRPJ/CSLL A Recorrente Bracopper continua seu Recurso Voluntário analisando o mérito da autuação. Diz que é adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre processados e revendidos a terceiros; que as citadas aquisições e a emissão dos documentos fiscais correspondentes ocorreram em data bastante anterior à decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas; que não há fraude ou simulação suficiente para a qualificação da penalidade de ofício e a imposição de responsabilidade solidária; que o que há é “a interpretação deturpada de dois singelos eventos (da procuração concedida a Marcos Vinícius para realizar pagamentos a fornecedores; e da utilização do Fl. 22599DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 97 endereço da BRASCOPPER em São Luís para abertura de filial da Metalox). Esses são os únicos fatos (regulares, diga-se) que relacionam a BRASCOPPER às empresas relacionadas às FAMÍLIAS MARTINS e MEGGIOLARO”; que os fundamentos da DRJ se limitam em simples reafirmações dos termos do TVF; que se algum grupo pode ser deduzido dos elementos trazidos no TVF, esse grupo é o “GRUPO MEGIOLARO” ou ainda “GRUPO MARTINS-MEGIOLARO”, jamais “GRUPO BRASCOPPER”; Continua a Recorrente: (...) 118. Não há no TVF qualquer menção a ordens, controles, determinações ou gestões dos sócios da BRASCOPPER (CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS e CLEDER CORRAL PROVENCIO) ou mesmo funcionários seus, sobre as empresas “de fachada” ou “noteiras”, seus sócios, operadores ou executores. (...) 174. Muito embora possam existir questões envolvendo a licitude das empresas arroladas pela Fiscalização - das quais a BRASCOPPER nunca teve a menor ciência, vale ressaltar mais uma vez -, as operações com a BRASCOPPER foram reais e aconteceram exatamente nos termos postos em sua contabilidade. 175. Ressalte-se que a BRASCOPPER não pretende ir de encontro com as afirmações da Fiscalização no sentido de que a METALOX, GLOBAL, COPPER GREEN e R3 não possuíam capacidade operacional para produzir o material estampado nas notas fiscais por elas emitidas (vergalhão de cobre). A BRASCOPPER não teve e não tem relacionamento próximo com tais empresas, não tem qualquer ingerência de gestão ou financeira sobre elas, de modo que nem poderia pugnar pela sua idoneidade. Assim, a BRASCOPPER não sabe ao certo como essas empresas conseguiam o vergalhão de cobre, mas é fato que este foi efetivamente vendido à BRASCOPPER e efetivamente revendido a terceiros, que efetivamente pagaram pelos bens adquiridos. (...) 193. Como sobredito, a BRASCOPPER em 2016 praticou duas operações distintas com cobre. Na primeira delas, comprou vergalhão para revenda ou fabricação de cabos em sua unidade em Ribeirão Preto. Na segunda, prestou serviço de industrialização por encomenda, na qual a R3 requereu que a BRASCOPPER realizasse a transformação da sucata de cobre em vergalhão. Ocorre que a BRASCOPPER não detém o aparato industrial para tanto, conforme amplamente tratado no tópico acima. Apesar disso, a BRASCOPPER tinha condições de terceirizar essa encomenda na CBL Laminação, e ganhar com essa intermediação de industrialização por encomenda. (...) 198. Conforme demonstra documentação anexa (Doc. 8 da Impugnação), no período que vai de março de 2012 a abril de 2013, a BRASCOPPER encomendou a industrialização (transformação) de 2.249,12 kg de sucatas de cobre, cuja origem advinha de diversas outras empresas que em nada se relacionam com aquelas objeto da atribuição de fraude nos presentes autos (nestas operações, conforme determina a legislação, a BRASCOPPER não se creditou de qualquer tributo). (...) 202. Dada a tradição da BRASCOPPER e seu antigo relacionamento com a CBL, a BRASCOPPER tinha acesso a “cotas” de produção na CBL. Foi justamente o acesso a cotas de laminação na CBL que a BRASCOPPER disponibilizou à R3, visando obter uma Fl. 22600DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 98 margem de ganho no preço cobrado pela transformação. Pode-se dizer, portanto, que a BRASCOPPER vendeu seu direito ao uso das cotas de laminação na CBL à R3 em 2016. (...) 203. Com efeito, a BRASCOPPER cobrava da R3 o preço de R$ 1,90 por kg de transformação, ao passo que a CBL cobrava da BRASCOPPER o preço de R$ 1,73 por kg. Ou seja, a BRASCOPPER usufruía de um ganho de R$ 0,17 (dezessete centavos) por kg transformado. Ou seja, a BRASCOPPER tinha um de R$ 170 por tonelada. 204. A planilha anexa (Doc. 9 da Impugnação) indica mencionado ganho. (...) V.4.3. Da impraticabilidade da acusação fiscal a respeito da entrada de sucatas na BRASCOPPER 233. Por tudo quanto até agora visto, já é possível apresentar as devidas conclusões a respeito da impraticabilidade da acusação fiscal, quando afirma que a BRASCOPPER teria comprado sucata e não vergalhão de seus fornecedoras (R3, Global, CooperGreen e Metalox). 234. A Recorrente junta aos autos Relatório de faturamento de saída, em valor e em peso, de matéria prima cobre em 2016 (Doc. 12 da Impugnação). Tal demonstrativo esclarece que no ano de 2016 a BRASCOPPER faturou R$ 143.937.343,61 pela venda de 6.456.161,30 kg de produtos à base de cobre, sendo eles 3.990.019,00 kg de vergalhão de cobre e 2.437.244,30 de produto acabado. Nos doc. 12-A e 12-B da Impugnação pode-se ver “Relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima” e “Demonstrativo de receita bruta e custo bruto – produtos acabados e para revenda”, respectivamente. 235. Outrossim, a BRASCOPPER apresenta a comparação dessas vendas com as compras de matéria prima a base de cobre em 2016 (Doc. 13 da Impugnação), pelo qual se percebe que as compras de sucata foram ínfimas, enquanto a compra de vergalhão de cobre chegou a 6.029.702,44 kg – note-se que as compras de sucatas, ínfimas, foram devidamente reconhecidas como tal, o que reforça a veracidade dos lançamentos contábeis da BRASCOPPER (...) 237. Disto fica claro que a BRASCOPPER só pôde vender a todos os seus clientes (e.g. FIO COPPERSTIC CL1 750 V 6,00 mm2 para a ELETROPAULO, de acordo com as notas fiscais organizadas por compra e venda de cobre no período - Doc. 14 da Impugnação), porque comprou vergalhão de cobre, e não sucata. (...) 241. Então pergunta-se, novamente: de onde vieram todas as mais de 6 toneladas de vergalhão de cobre que a BRASCOPPER utilizou em 2016 para fabricar e revender os produtos que deu saída? 242. Ora, a resposta só pode ser uma: das compras de vergalhão que foram sempre postas na contabilidade da BRASCOPPER, pelas quais houve efetivo pagamento (Doc. 16 da Impugnação), tendo entrado em seu estabelecimento industrial. (...) Não há sustentação para a afirmação da recorrente de que é “adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre”. A inidoneidade das notas fiscais apresentadas e a falta de comprovação da causa dos pagamentos correspondentes é patente e incontestável, não só por constatações como a completa falta de capacidade de produzir tais mercadorias das empresas de fachada. Cite-se a constatação de ausência de qualquer documento que corroborasse as compras de vergalhões na forma registradas, como contratos de fornecimento, documentos de pesagens etc. Também, como Fl. 22601DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 99 bem descrito no item 5.16 do TVF, a constatação de que 98% dos vergalhões de cobre supostamente vendidos pelas empresas de fachada (METALOX, GLOBAL, COPPER GREEN e R3) para a BRASCOPPER teriam sido transportados por empresas do próprio grupo econômico BRASCOPPER /noteiras. A participação da Recorrente Brascopper e seus administradores na montagem da fraude resulta comprovada através de várias constatações, já destacadas no TVF, como exemplo a gestão financeira de noteiras pelos operadores financeiros da própria Brascopper, senhores Marcos Vinicius Martins e Renato Megiolaro. Adianto que entre estas constatações incluem-se ainda os dois não tão singelos eventos citados pela Recorrente: a procuração/autorização concedida pela Brascopper a Marcos Vinícius Martins (procurador da Metalox) para realizar pagamentos a fornecedores da Bracopper; e a utilização do endereço da BRASCOPPER em São Luís como sede de filial da Metalox. Mas, nem de longe estes são os únicos fatos que relacionam a BRASCOPPER às empresas de fachada e às FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO, como se verá a seguir na apreciação, por exemplo, da solidariedade do Sr. Renato Meggiolaro, outro “procurador de fato”, que detinha ampla ingerência na movimentação financeira da Brascopper em 2016 e, ao mesmo tempo, de noteiras, ou na transcrição das ações do Sr. Syrio Martins Neto, administrador de fato da Metalox e procurador de muitas das noteiras. Quanto à procuração (TVF, e-fl. 11.142) ao Sr. Marcos Vinícius Martins, trata-se de comprovada ingerência no dia a dia da Brascopper, demonstrando a importância do citado Sr. na condução do negócio e na prática da fraude, autorizando justamente os pagamentos que tentavam dar aparência de fidedignidade às compras simuladas. Contrasta com esta constatação o fato de o mesmo Sr. aparecer como gestor ou sócio de fato de noteiras (TVF, e-fl. 11.143 (Metalox), e-fl. 11.149 (Copar) e e-fl. 11.361 (Fundi Ligas)). Retomaremos à esta análise quando da apreciação da procedência da solidariedade do Sr. Marcos Vinícius Martins. Quanto à Metalox, trata-se de uma das emitentes de maior montante de notas fiscais frias. Resume o TVF (e-fl. 11.296): Adicionalmente, em 2016 a METALOX emitiu notas fiscais de vendas de vergalhão de cobre no montante de R$ 236.343.805,98 e na quantidade de 11.556.052,29 kg (anexo 01B– planilha 5. METALOX). Por sua vez, foram emitidas contra ela o total de R$ 268.892.150,82 (anexo 02B – planilha 5. METALOX) em notas fiscais de venda na quantidade total de 15.069.735,02 kg de vergalhão de cobre. Isso faria com que a empresa mantivesse em estoque ao final de 2016 o total de 3.513.679,73 kg de vergalhão de cobre no estabelecimento localizado no Estado de São Paulo.). A SEFAZ/SP realizou diligência fiscal no estabelecimento da METALOX em São Paulo no próprio ano de 2016, e lavrou o Termo de Diligência Fiscal evidenciando sua não existência de fato (TVF, e-fl. 11.295) e a administração de fato pelo Sr. Syrio Martins Neto, detentor de procuração de diversas noteiras (Cooper Green, Trak, IFE etc..) para empreender os atos que compunham a fraude (TVF, e-fl. 11.112). É esta mesma Metalox que divide sua filial no mesmo endereço da Bracopper em São Luís, sendo que somente esta última (Brascopper) detém funcionários registrados em GFIP Fl. 22602DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 100 naquele endereço (TVF, e-fl. 11.122). E é esta mesma filial da Metalox que emitiu notas fiscais de venda à Brascoppper no montante de R$ 65 milhões (e-fl. 11.295). Importante destacar aqui que a noteira Metalox tinha como sócio-administrador no ano de 2016 (conforme procuração que assina, TVF - e-fl. 11.194) o Sr. Francisco Átila Costa Palosqui, que não demonstrava capacidade financeira, pois condenado por furto qualificado (duas vezes), furto qualificado tentado e roubo à mão armada (TVF - e-fl. 11.295). Ou seja, não são fatos tão singelos, mas sim fatos que comprovam a emissão fraudulenta das notas fiscais de compra e a participação dolosa da própria Brascopper no esquema. Reclama a Recorrente Bracopper ao negar a acusação fiscal de que teria comprado sucata (ou que haveria compra residual de sucata). Nos termos da Recorrente: V.4.3. Da impraticabilidade da acusação fiscal a respeito da entrada de sucatas na BRASCOPPER 233. Por tudo quanto até agora visto, já é possível apresentar as devidas conclusões a respeito da impraticabilidade da acusação fiscal, quando afirma que a BRASCOPPER teria comprado sucata e não vergalhão de seus fornecedoras (R3, Global, CooperGreen e Metalox). 234. A Recorrente junta aos autos Relatório de faturamento de saída, em valor e em peso, de matéria prima cobre em 2016 (Doc. 12 da Impugnação). Tal demonstrativo esclarece que no ano de 2016 a BRASCOPPER faturou R$ 143.937.343,61 pela venda de 6.456.161,30 kg de produtos à base de cobre, sendo eles 3.990.019,00 kg de vergalhão de cobre e 2.437.244,30 de produto acabado. Nos doc. 12-A e 12-B da Impugnação pode-se ver “Relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima” e “Demonstrativo de receita bruta e custo bruto – produtos acabados e para revenda”, respectivamente. 235. Outrossim, a BRASCOPPER apresenta a comparação dessas vendas com as compras de matéria prima a base de cobre em 2016 (Doc. 13 da Impugnação), pelo qual se percebe que as compras de sucata foram ínfimas, enquanto a compra de vergalhão de cobre chegou a 6.029.702,44 kg – note-se que as compras de sucatas, ínfimas, foram devidamente reconhecidas como tal, o que reforça a veracidade dos lançamentos contábeis da BRASCOPPER (...) Afora a compra de sucata residual registrada na contabilidade, que não é fundamento da autuação, conclui a DRJ que houve omissão de compras de sucata (em valor não quantificado) no ano de 2016. Como esta compra de sucata, não quantificada, não geraria créditos de Cofins/PIS e ICMS à Recorrente, esta empreendeu esquema de uso de notas fiscais frias de compra de vergalhões (e não de sucata). A comprovação de que compra de sucata existiu, de forma simulada e sem notas fiscais (usando a estrutura formal das noteiras), consta do TVF. A respeito, assim dispôs a DRJ: Todas as provas e fatos produzidos nos autos, inquestionavelmente, demonstram que as fornecedoras não detinham capacidade operacional para produzir vergalhões; que se relacionaram com sucateiros; que as movimentações financeiras eram incompatíveis; maioria não declarou GFIP; e relações com pessoas ligadas as multicitadas famílias e os sócios da BRASCOPPER; e (...) 79 No presente caso, repisamos que, quanto aos comprovantes existentes indicando como beneficiário a pessoa indicada na contabilidade, verificou-se que se tratava de meros repasses para os sucateiros – reais beneficiários -, bem como pela evidente incapacidade Fl. 22603DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 101 operacional dos fornecedores, não restou comprovada a operação ou causa efetiva dos pagamentos realizados, razão pela qual a Fiscalização, acertadamente considerou ilícitos os procedimentos, porque, entendeu que estes revelavam a intenção clara da Impugnante em omitir a verdadeira intenção do repasse dos recursos. A respeito, tentando comprovar que pelo menos parte dos pagamentos efetuados pela Brascopper foi desviada imediatamente pelas noteiras para sucateiras, assim dispôs o TVF, por exemplo, com relação à noteira Copper Green (TVF, e-fl. 11214 e ss): Conforme consulta ao e-Financeira, as contas correntes mantidas em instituições financeiras (anexo 10B) indicam os seguintes créditos e débitos em comparação às notas fiscais de vendas emitidas pela COPPER GREEN e contra esta empresa de fachada. (...) A tabela indica os valores recebidos em conta corrente, denominado de “Crédito – conta bancária” em comparação às notas fiscais de venda da COPPER GREEN. A grande divergência entre créditos em conta bancária e notas fiscais de venda é um demonstrativo de que a empresa emitiu notas fiscais em valores muito inferiores à entrada de recursos financeiros em conta corrente. Da mesma forma as saídas de recursos da conta bancária possuem um valor muito superior às suas compras. Como a JJE não recebeu recursos financeiros em conta corrente, significa que a COPPER GREEN não pagou aquela empresa de fachada. Mais do que isso, a COPPER GREEN pagou terceiros sem ter um documento fiscal para amparar a venda. Esta informação fica clara com a análise da conta corrente da COPPER GREEN mantida na instituição financeira Banco Cooperativo SICREDI UNIÃO MS/TO (banco 748, agência 0911, conta corrente 52344-5). Abaixo, parte do extrato bancário como forma de ilustrar o fato ocorrido: (...) O que se percebe pelos extratos é o recebimento de valores oriundos da BRASCOPPER e sucessivas transferências para terceiros. Ao consultar alguns dos cadastros dos destinatários de recursos da COPPER GREEN percebe-se pessoas incapazes de processar sucata em vergalhão de cobre (processo de laminação). (...;) Por exemplo, a RESIPE METAIS LTDA recebeu R$ 30.000,00 em 05/01/2016. Em breve consulta ao seu CNPJ nos deparamos com uma empresa no CNAE de comércio atacadista de resíduos ou sucatas. (...) O mesmo pode ser dito de LAYS RAFAELA FRANCA DA SILVA, RAINHA DA SUCATA, MYRIA MARIA LUCAS, FERNANDES METAIS, MUNDO DAS SUCATAS e METAIS SÃO FRANCISCO: (...) Assim, como forma de comprovar que os pagamentos realizados pela COPPER GREEN se referiam a pagamentos por compras de sucata pela BRASCOPPER foram realizadas circularizações em alguns dos destinatários destes recursos. i. Intimação ao Sr. WILDEMBERG Fl. 22604DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 102 (...) No ano de fiscalização, o Sr. WILDEMBERG SAMPAIO CASSAN – CPF 797.879.913- 15, recebeu da COPPER GREEN o montante de R$ 1.093.630,20: (...) O Sr. WILDEMBERG é sócio de empresa que trabalha no ramo de sucata, conforme o cadastro: (...) Inclusive o Sr. WILDEMBERG participou de notícia sobre o setor em que atua e dá motivos para entender a informalidade do setor: (...) (...) ii. Intimação à METAIS FORTES Foi encaminhado à METAIS FORTES EIRELI – CNPJ 15.525.921/0001-45 Termo de Intimação Fiscal a fim de verificar os motivos dos recebimentos de valores através de transferências bancárias feitas pela COPPER GREEN (anexo 43A). Em sua resposta o contribuinte METAIS FORTES afirma tratar-se de operações comerciais sem o amparo de documento fiscal, inclusive informou valores recebidos de outras empresas, como a METALOX, R3 e GLOBAL. Procedeu com a retificação das obrigações acessórias. A METAIS FORTES EIRELI é empresa que também atua no ramo de sucata. (...) Volto a ressaltar a inexistência de outros elementos que poderiam comprovar que as compras de quase 87 % da matéria prima dos produtos de cobre existiram como declaradas nas inidôneas notas fiscais de compras. Neste sentido o TVF: O TIF no 02 solicitou que o contribuinte apresentasse comprovantes de operações comerciais (contratos comerciais de fornecimento, troca de mensagens eletrônicas (e-mail) e outros documentos que comprovem as negociações, definições de preços e as formalizações dos respectivos pedidos; cópias dos pedidos e respectivas associações com as notas fiscais elencadas na listagem em anexo; outros documentos aptos a demonstrar a Fl. 22605DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 103 efetiva negociação comercial), comprovantes de entregas de mercadorias (ordem de carregamento e boletos de pesagem associados com as respectivas notas fiscais elencadas no anexo; comprovante do recebimento da carga pelo comprador, outros documentos aptos a demonstrar o efetivo transporte e a entrega das mercadorias) e comprovantes de pagamentos de operações elencadas no anexo do TIF. O contribuinte respondeu a esta intimação apresentando apenas comprovantes de pagamentos realizados à transportadoras e fornecedoras. Ou seja, as notas fiscais de compra e os pagamentos foram atos simulados e não se destinaram às compras de vergalhões que registram, e pelo menos parte dos pagamentos efetuados pela Brascopper foi desviada imediatamente pelas noteiras/Brascoopper para sucateiras, por aparentes operações de compra de sucata, sem emissão de qualquer nota fiscal. Desta forma, deve-se confirmar o lançamento por arbitramento de IRPJ e reflexos. Da exigência de IRRF por pagamento sem causa (art. 61 da Lei n. 8.981/95). Da exigência de IRRF por pagamento sem causa (art. 61 da Lei n. 8981/95). Entenderam os autuantes que os pagamentos realizados pela BRASCOPPER a integrantes do grupo econômico (noteiras) não possuem causa (no sentido econômico), pois “não correspondem a pagamentos realizados pela compra da mercadoria estampada nas notas fiscais (vergalhão de cobre) recebidas das noteiras. Além disso, os reais beneficiários destes pagamentos não são as emitentes de notas fiscais (noteiras), mas sim os sucateiros. Portanto, as noteiras realizaram meros repasses dos recursos financeiros recebidos da BRASCOPPER. “ Defenderam os recorrentes que a exigência de IRRF sob alegado pagamento sem causa seria improcedente, (a) seja pelo fato de a causa do pagamento ter sido indicada pela própria Fiscalização (aquisição de cobre para revenda), (b) seja pela impossibilidade de se exigir esse tributo quando concomitante à exigência de IRPJ e CSLL decorrente da glosa dos custos correspondentes. No intuito de subsidiar suas razões, a Defesa colaciona jurisprudências do CARF relativas à interpretação do art. 61 da Lei n. 8.981/95, nas quais resta a inferência que só se aplica o dispositivo quando a real causa ou beneficiário não são identificados. Defenderam, ainda, como terceiro argumento contra a autuação, que o legislador, historicamente, concebeu o art. 61, da Lei n. 8.981/95 visando alcançar uma gama de hipóteses que não fosse alcançada pelo art. 44 da Lei n. 8.541/92, como a omissão de receitas. Entendo que restou comprovado que não existiram as compras de vergalhões na forma como registrado nas notas fiscais emitidas por noteiras. Desta forma, os pagamentos correspondentes são pagamentos sem causa mercantil comprovada, razão pela qual os autuantes, acertadamente, consideraram ilícitos os procedimentos, pois estes revelaram a intenção clara da Recorrente em omitir dolosamente a verdadeira intenção do repasse dos recursos, dando ensejo à tributação de IRRF com multa qualificada. Cabe repetir que: Fl. 22606DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 104 i) todas as provas e fatos produzidos nos autos, inquestionavelmente, demonstram que as noteiras mantinham relações com pessoas ligadas às multicitadas famílias Martins, Megiolaro e aos sócios da BRASCOPPER; que a BRASCOPPER não foi adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre das noteiras; que as fornecedoras/noteiras não detinham capacidade operacional para produzir vergalhões; que repassavam recursos recebidos para sucateiros, e não às pessoas indicadas na contabilidade; que a maioria das noteiras não declarou GFIP; ii) nenhum outro elemento, como contratos comerciais de fornecimento, documentos de pesagem de mercadorias, comprovantes de entregas de mercadorias, ordem de carregamento, que poderiam comprovar que as compras existiram como declaradas em notas fiscais não foram apresentados. iii) que 98% dos vergalhões de cobre supostamente vendidos pelas empresas de fachada (METALOX, GLOBAL, COPPER GREEN e R3) para a BRASCOPPER teriam sido transportados por empresas do próprio grupo econômico BRASCOPPER /noteiras. A participação da Recorrente Brascopper e seus administradores na montagem da fraude resulta comprovada através de várias constatações, já destacadas no TVF, como a gestão financeira de noteiras pelos operadores financeiros da própria Brascopper, senhores Marcos Vinicius Martins e Renato Megiolaro. Entre estas constatações incluem-se ainda os dois não tão singelos eventos admitidos pela Recorrente: a procuração/autorização concedida pela Brascopper a Marcos Vinícius Martins (procurador da Metalox) para realizar pagamentos a fornecedores da Bracopper; e a utilização do endereço da BRASCOPPER em São Luís como sede de filial da Metalox. Mas, nem de longe estes são os únicos fatos que relacionam a BRASCOPPER às empresas de fachada e às FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO, como se verá a seguir na apreciação, por exemplo, da solidariedade do Sr. Renato Meggiolaro, outro “procurador de fato”, que detinha ampla ingerência na movimentação financeira da Brascopper em 2016 e, ao mesmo tempo, de noteiras, ou na transcrição das ações do Sr. Syrio Martins Neto, administrador de fato da Metalox e procurador de muitas das noteiras. Ou seja, as notas fiscais de compra de vergalhões de cobre e os pagamentos correspondentes foram atos simulados e não se destinaram ao pagamentos das compras que registraram, e pelo menos parte dos pagamentos efetuados pela Brascopper foi desviada imediatamente pelas noteiras/Brascoopper para sucateiras, por operações de compra de sucata, sem emissão de qualquer nota fiscal. No que se refere ao segundo argumento da defesa, que alega a impossibilidade de se exigir esse IRRF concomitante à exigência de IRPJ e CSLL, decorrente da glosa dos custos correspondentes, não há o alegado bis in idem. O IRRF previsto no art. 61 da Lei nº 8981/1995 alcança todos os pagamentos efetuados a beneficiários não identificados ou cuja operação ou causa não é comprovada, independente de quem seja o real beneficiário dele (sócios/acionistas ou terceiros, contabilizados ou não) ou se há glosa de despesa correspondente ao pagamento. Elegeu a lei a pessoa jurídica pagante como sujeito passivo responsável pelo recolhimento do imposto de renda devido pelo beneficiário, presumindo-se que assumiu o ônus quando do referido pagamento. Já o IRPJ/CSLL sobre a base de cálculo arbitrada alcança o acréscimo patrimonial auferido pelo sujeito passivo como contribuinte (e Fl. 22607DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 105 não como responsável), que mantém relação direta com os fatos geradores, por expressa disposição legal. Quanto ao terceiro argumento de defesa, infiro que, com a publicação da Lei n. 9.249/95, revogando o art. 44 da Lei n. 8.541/92, sem que qualquer outro dispositivo lhe substituísse, verifica-se, que a intenção do legislador foi justamente retirar do ordenamento jurídico a hipótese de se exigir, de ofício, concomitantemente, o IRRF sobre pagamentos sem causa (art. 61, da Lei n. 8.981/95) e IRRF sobre valores omitidos da tributação e considerados automaticamente recebida pelos sócios, acionistas ou titular da empresa individual e tributada exclusivamente na fonte (art. 44 da Lei n. 8.541/92). Desta forma, deve-se confirmar o lançamento de IRRF, na forma do art. 61 da Lei n. 8981/95, com a multa qualificada. Da Responsabilidade Solidária do Sr. Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis (art. 135, III, do CTN) / nulidade Cientificado da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário e sócio administrador (art. 135, III, do CTN) da BRASCOPPER, Sr. Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis, apresentou Recurso Voluntário (fls. 21766/21782), em que repete os argumentos da impugnação (na oportunidade impetrada em conjunto com a BRASCOPPER), onde requer a decretação da nulidade do Acórdão Recorrido; ou, alternativamente, que fosse reconhecida a improcedência dos AI´s ou, subsidiariamente, a insubsistência da imposição de multa de ofício qualificada e o cancelamento da atribuição de responsabilidade solidária pelos créditos tributários lançados contra a Contribuinte BRASCOPPER. Aduziu: (...) IV. DA IMPROCEDÊNCIA DA IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA A CARLOS EDUARDO 17. Com a devida vênia, não procede a imputação de responsabilidade solidária ao Recorrente, seja (a) pela ausência de identificação de ato concreto e individualizado de sua conduta que permita realizar essa imputação; (b) seja pela inaplicabilidade ao caso do disposto no art. 135, III do CTN. (...) 19. Conforme o já citado trecho do TVF que imputou a responsabilidade ao Sr. Carlos Eduardo (fls. 11347), as razões para tanto seriam as seguintes: i) a BRASCOPPER, por meio de seus administradores, teria concedido acesso à FAMÍLIA MARTINS e à FAMÍLIA MEGGIOLARO para controlarem conta corrente da BRASCOPPER na instituição financeira SICREDI MS TO; ii) a BRASCOPPER teria permitido que a METALOX utilizasse o seu endereço em São Luís/MA para cadastro de filial; iii) teria permitido a aquisição de produtos sem origem comprovada; iv) teria participado de desvio de recursos para terceiros no contexto de industrialização por encomenda com a CBL; v) o Sr. CARLOS EDUARDO é sócio administrador da empresa autuada; vi) os filhos do Sr. Carlos Eduardo teriam recebido valores de R$ 29.800,00 e de R$ 28.100,00 da METALOX. 20. Começando pelo último ponto levantado pela autoridade fiscal, saliente-se que a afirmação (vi) sobre suposto recebimento de valores pelos filhos do Recorrente é inverídica Fl. 22608DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 106 e não encontra mínimo respaldo nas provas e documentos dos autos. Não fosse o bastante, os valores, além de não recebidos, são absolutamente inexpressivos vis a vis os valores autuados e não representam confusão patrimonial. Não por outra razão a alegação fiscal nem mesmo foi mencionada como razão de decidir no Acórdão ora recorrido. (...) 21. No que tange à afirmação (v), de que o Sr. CALOS EDUARDO era sócio administrador da BRASCOPPER, trata-se de fato inconteste. Todavia, contesta-se com toda veemência o poder que esse dado isoladamente teria para sustentar a sua responsabilização com fulcro no art. 135, III do CTN, como se verá a seguir nos próximos itens do presente recurso voluntário. (...) 24. Dessarte, dos sete pontos trazidos no TVF para justificar a responsabilidade tributária do Sr. Carlos Eduardo, os dois únicos que foram efetivamente comprovados pela Fiscalização dizem respeito à (i) a outorga temporária, pela BRASCOPPER, de procuração em relação a uma de suas contas mantidas no Banco Sicredi; e (ii) a permissão para que a METALOX utilizasse o endereço da BRASCOPPER em São Luís/MA para cadastro de filiais. Não cabe atender o pedido de nulidade do acórdão da DRJ, visto que a responsabilidade do Sr. Carlos foi efetivamente apreciada pelo Acórdão Recorrido. O próprio Recorrente confirma a administração e a veracidade de eventos relevantes, como dito, que indicam que participava ativamente da condução do Grupo Brascopper (Brascopper + noteiras). São, segundo seus termos, “i) a outorga temporária, pela BRASCOPPER, de procuração em relação a uma de suas contas mantidas no Banco Sicredi; e (ii) a permissão para que a METALOX utilizasse o endereço da BRASCOPPER em São Luís/MA para cadastro de filiais. “. E, como já ressaltado, nem de longe estes são os únicos fatos que demonstram o conluio entre a BRASCOPPER, as empresas de fachada e as FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO. Destaco, por exemplo, as ações do Sr. Renato Meggiolaro, outro “procurador de fato”, que detinha ampla ingerência na movimentação financeira da Brascopper em 2016 e, ao mesmo tempo, de noteiras, ou as ações do Sr. Syrio Martins Neto, administrador de fato da Metalox e procurador de outras noteiras. Impossível imaginar que se trata de estranhos ao Recorrente Carlos Eduardo. Como sócio administrador da Brascopper, tamanha ingerência nos negócios do Grupo Brascopper pelos senhores Renato Meggiolaro, Syrio Martins Neto, Marcos Vinícius Martins, entre outros, passou evidentemente pela permissão (expressa ou não) do Sr. Carlos Eduardo. Sobre a responsabilidade, assim dispôs a DRJ: Da Impugnação do Responsável Tributário Pessoal Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis 143 Feitas as sobreditas considerações, citando jurisprudência administrativa, o responsabilizado pessoalmente Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiss apresentou, em conjunto com a Autuada, sua peça impugnatória, e requereu afastamento da atribuição de responsabilidade, posto que, sob sua ótica, a Fiscalização não foi capaz de apresentar qualquer conduta dolosa especificamente imputável de sua autoria, tampouco, prática de atos irregulares, fraudulentos ou com afronta aos estatutos da BRASCOPPER, ou indício de que tinha conhecimento, que participou intencionalmente, ou mesmo que foi conivente com a fraude multicitada. Fl. 22609DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 107 144 Diante da robustez fática-probatória carreada aos autos e diligentemente revelada pelas Autoridades Autuante, aliada a tudo que foi profundamente deslindado neste voto, não há como aceitar que os sócios administradores da BRASCOPPER – dentre eles o refutador – não tiveram participação essencial no esquema fraudulento de emissão de notas fiscais frias exteriorizado. 145 Muito pelo contrário, as milhares de laudas só nos levam a corroborar que os responsáveis pela Fiscalizada capitanearam o ilícito fiscal, com intuito de beneficiá-la e ocultá-los, pois, conquanto o gerenciamento e coordenação da fraude tenham sido executados em conluio com pessoas relacionadas às famílias Martins e Megiolaro, seria impossível a concretização sem conhecimento ou consentimento dos sócios da BRASCOPPER, uma vez que se comprovou: 145.1 O pagamento, mesmo se encontrando em processo de recuperação judicial, de R$ 130.606.336,90 - correspondendo a quantidade total de 6.222.840,54 kg de vergalhão de cobre – sem causa efetiva ou legal, em razão de ter sido efetivado em favor de empresas que não detinham capacidade operacional para fabricação desses produtos e com quadros sociais alaranjados, quer dizer se tratava de empresas de fachada, popularmente conhecidas como NOTEIRAS, e muitas delas com estreitas ligações com a Autuada; 145.2 Que apesar dos valores e do volume envolvidos, não foram carreados aos autos pela Defesa, apesar das oportunidades, quaisquer contratos ou documentos com mesmo valor probante, quiçá simples e-mails ou talvez comprovantes de pesagem das mercadorias recebidas dos fornecedores, aptos a comprovar as negociações realizadas. Por outro lado, ao serem rastreados, observou-se que parte dos recursos serviram de pagamentos a sucateiros que trabalham na informalidade em prol da compra de sucatas; 145.3 Permissão para que METALOX – neste caso admitida pela Defesa - e GLOBAL utilizassem o endereço da BRASCOPPER em São Luis/MA para cadastro de filiais; 145.4 A formação de vínculo aparente entre as empresas de fachada GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN, COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO, GCP e a beneficiária BRASCOPPER, demonstrando a existência de um GRUPO ECONÔMICO DE FATO, engendrado para a prática reiterada da fraude fiscal, dado que essas relações apontaram: unidade de controle e direção, confusão patrimonial e ajustes de vontades entre as partes para cometimento de ilícito; e 145.5 O pleno conhecimento e concordância no que se refere a atuação do Sr. Marcus Vinicius Passos Martins – dono da METALOX, principal fornecedor de vergalhão de cobre da BRASCOPPER -, que, ao longo do ano-calendário de 2016, apesar de estranho ao quadro social, atuou como gerente financeiro da fraude, posto que solicitava pagamentos de boletos e de transferência bancárias da conta corrente da Auditada na instituição financeira SICREDI; e a do Sr. Renato Megiolaro Junior, tido como mentor intelectual da fraude, dado que, segundo o citado banco, foi designado pelos proprietários da BRASCOPPER como responsável pela parte financeira da empresa e definido como “investidor” sem contudo constar no contrato social. Ademais, restou constatado que as movimentações financeiras de alto valor eram autorizadas pelo Sr. Renato nas contas correntes da BRASCOPPER, COPAR, PROCOBRE, R3, COPPER GREEN e METALOX, mantidas, coincidentemente, na mencionada instituição bancária. 146 Ora, considerando que para se subsumir ao tipo em questão há necessidade do associado deter poder de decisão, à época da ocorrência do fato gerador e, concomitante, estar caracterizado que praticou atos com excesso de poderes ou infração ao estatuto, não assiste razão ao Impugnante em asseverar que a sua inclusão no polo passivo da referida demanda tributária é indevida, pois vimos que os dois requisitos foram preenchidos, seja em razão de ser administrador da Autuada, seja pela prática ou assentimento de tais atos configurar infração ao contrato social da BRASCOPPER e às normas tributárias que Fl. 22610DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 108 disciplinavam a tributação da contribuição para o PIS, da COFINS e do ICMS, à época dos fatos geradores envolvidos no caso sob julgo. Da Responsabilidade Solidária do Sr. Renato Meggiolaro Júnior (art. 135, III, do CTN) / nulidade Cientificado em 21/09/2022 da Decisão de Primeira instância, o responsável solidário (art. 135, III, do CTN), Sr. RENATO MEGGIOLARO JÚNIOR, apresentou Recursos Voluntários em 13/09/2022 (fls. 21734/21743) e 21/11/2022, (fls. 22106/22219), em que, no Recurso tempestivo, repete os argumentos da impugnação e requer (em seus termos): acolhida da preliminar de nulidade no processo de fiscalização, em razão de cerceamento de defesa do Recorrente, que não foi fiscalizado; ofensa ao princípio do contraditório, eis que o V. Acórdão não enfrentou toda a tese de defesa do Recorrente; exclusão da responsabilidade imputada em razão do lançamento efetuado, pois não efetuou pagamentos, recebimentos ou movimentação bancária de valores sobre tais operações destacadas no TVF; o reconhecimento de que a fiscalização não logrou êxito em demonstrar ter o Recorrente obtido qualquer vantagem financeira com o suposto esquema envolvendo a empresa Brascooper. Quer fazer ainda crer o Recorrente que nos autos de medida Cautelar Fiscal, proposta pela Procuradoria da Fazenda Nacional, processo que tramita com o n.º 5004068- 41.2022.4.03.6102, aquele Juízo teria fixado que a empresa BRASCOOPER é a real (e única) beneficiária do esquema (esquema, aliás, muito bem descrito pelo Meritíssimo juiz). Logo, o Recorrente não teria auferido proveito econômico, o que o exoneria da responsabilidade tributária. Vale repetir os termos do Recurso Voluntário: Mas questão, no entanto, foi enfrentada e sanada pelo I. Juízo da 9ª Vara Federal de Ribeirão Preto. Com efeito, nos autos da medida Cautelar Fiscal, proposta pela Procuradoria da Fazenda Nacional, processo que tramita com o n.º 5004068-41.2022.4.03.6102, na R. Decisão encartada às fls. (Num. 257072745 - Pág. 4), o I. Juízo assim decidiu: No caso em apreço, estou convencido da presença desses requisitos. O grupo econômico encabeçado pela Brascopper é responsável por criar empresas de fachada que, somente em 2016, emitiram R$ 130,6 milhões em notas fiscais inidôneas (frias ou falsas) para beneficiá-la através do aumento artificial dos custos e geração de créditos indevidos. Essas empresas de fachada, chamadas pela requerente de “noteiras”, foram constituídas sem qualquer patrimônio, empregado, ativo, ou seja, sem substrato econômico para as atividades desempenhadas pelos sócios efetivos e ocultos da Brascopper, em nome pessoas sem capacidade econômico-financeira compatível com o volume de vendas, com o específico objetivo de emitir notas frias ou sem lastro que as acompanhe, para a geração de crédito tributário e diminuir o lucro tributável da Brascopper, real beneficiária (Id 254560889). Essas “noteiras” emitiam nota fiscal de venda de vergalhão de cobre para a Brascopper, quando, na verdade havia a transferência de sucata de cobre, produto que não enseja créditos de ICMS, PIS e COFINS. A Brascopper dava entrada na sucata como vergalhão de cobre para obter créditos indevidos de PIS, COFINS e ICMS na entrada das mercadorias, e diminuía a sua base de cálculo de CSLL e IRPJ, pois o vergalhão entrava como custo de aquisição. Para a industrialização dessa sucata de cobre, mandava para empresas laminadoras, dentre elas a CBL, que transformavam a sucata no vergalhão de cobre, matéria- Fl. 22611DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 109 prima utilizada para a produção de fios e cabos elétricos, e mandava de volta para a Brascopper ou até parte para a Super Zinco. Temos, pois, o reconhecimento, pelo Poder Judiciário, de que a empresa BRASCOOPER é a real (e única) beneficiária, eis que reduziu seu lucro tributável, reduzindo, por consequência, os tributos devidos. Ora, sendo a empresa BRASCOOPER a real (e única) beneficiária do suposto esquema, não há como manter a exação em face do recorrente, eis que não demonstrado qualquer benefício econômico. Aliás, sequer há a demonstração de participação do recorrente no suposto esquema. Primeiro há de destacar que o objetivo de uma medida cautelar fiscal, a cargo da Procuradoria da Fazenda Nacional, difere do objeto do presente processo administrativo fiscal. Aqui se aprecia, no âmbito administrativo, o lançamento tributário e a determinação dos sujeitos passivos. Lá, como o nome aponta, trata-se de instrumento judicial cautelar, instituído pela Lei nº 8.397/1992 que busca impedir o devedor do crédito tributário de se desfazer dos seus bens ou diminuir sua capacidade financeira com o fim de não adimplir com a sua obrigação tributária. Neste sentido, eventual indeferimento da medida cautelar fiscal não obsta a que a Fazenda Pública intente a execução judicial da Dívida Ativa, conforme art. 15 da Lei nº 8.397/1992: Art. 15. O indeferimento da medida cautelar fiscal não obsta a que a Fazenda Pública intente a execução judicial da Dívida Ativa, nem influi no julgamento desta, salvo se o Juiz, no procedimento cautelar fiscal, acolher alegação de pagamento, de compensação, de transação, de remissão, de prescrição ou decadência, de conversão do depósito em renda, ou qualquer outra modalidade de extinção da pretensão deduzida. Segundo, percebo que aquele Juízo atesta ser “ o grupo econômico encabeçado pela Brascopper”, numa clara constatação de que a empresa não estava sozinha na empreitada fraudulenta de (também, nos termos daquele Juízo) “ criar empresas de fachada que, somente em 2016, emitiram R$ 130,6 milhões em notas fiscais inidôneas (frias ou falsas) para beneficiá-la através do aumento artificial dos custos e geração de créditos indevidos”. Como a imputação de responsabilidade deu-se através do art. 135, III do CTN, para se confirmar a subsunção dos fatos ao prescrito, entendo suficiente a demonstração empreendida nestes autos administrativos, conforme teor do TVF, confirmado pela DRJ, de que o Recorrente Renato Meggiolaro Júnior desempenhou papel fundamental na elaboração e operacionalização da fraude tributária em apreço (compras fraudadas). Desta forma, reproduzo a seguir o voto da DRJ, como razão de decidir: Da Impugnação do Responsável Tributário Renato Meggiolaro Junior 157 O Impugnante RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, CPF 035.656.818-02, foi considerado pelo Fisco como um dos chefes do Grupo Econômico BRASCOPPER, em razão de estar envolvido na gerência operacional e financeira e ter atuado como mentor intelectual de todo o esquema de fraude. Destarte, arrolaram-no como responsável tributário pessoal, subsumindo ao preceituado no art. 135, III, do CTN, combinado com a infração descrita no art. 72, da Lei n° 4.502/64 (Fraude). 158 Ciente dos lançamentos de ofício e da sua inclusão no polo passivo como responsável pessoal, apresentou Impugnação requerendo exclusão da responsabilidade tributária imputada e declarada a inexistência da sua relação com os fatos, pessoas e empresas relacionados aos autos em apreço, dado que: Fl. 22612DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 110 158.1 Jamais fez parte dos quadros sociais da BRASCOPPER, de direito e de fato, tampouco teve qualquer participação ou relacionamento. Não teve qualquer relação com o suposto grupo econômico ou conhecimento, bem como relativamente as empresas e pessoas citadas no item e em todo o procedimento fiscal. (...) Não há qualquer indício de movimentação financeira ou proveito econômico do defendente nas operações da empresa autuada; 158.2 No tocante à ficha cadastral da conta corrente da BRASCOPPER na SICREDI, assevera que a conclusão da Fiscalização de que seria responsável financeiro da empresa autuada foi baseada em premissas falsas, pois quanto à BRASCOPPER JAMAIS: teve participação na administração; assinou qualquer documento ou contrato; movimentou recursos; gerenciou ou foi mentor de qualquer operação com a autuada, até pela sua capacidade econômica, financeira e patrimonial; responsável por qualquer conta bancária; agiu por mandato ou foi beneficiário de recursos financeiros movimentados pelas empresas listadas no procedimento; 158.3 (...) O nome do defendente foi indevidamente citado em depoimento do representante da empresa Condex, no entanto, em ato posterior, os mesmos depoentes retificaram a informação anteriormente dada, esclarecendo que o defendente atuava como representante comercial; 158.4 (...) Não há qualquer prova de participação ou de ganho financeiro em qualquer ato ilícito ou esquema de fraude; e 158.5 Em relação às pessoas físicas e jurídicas citadas no TVF, desconhece e não tem qualquer relação, salvo Maria Teresa que (...) é sócia da empresa TFF Consultoria, e ex-convivente do defendente, mas não tem qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com as empresas citadas nesse item, bem como Ronaldo Meggiolaro e Thor Meggiolaro que são irmão e sobrinho, mas não teve relação comercial com eles. 159 Nos presentes autos, restou demonstrado que RENATO desempenhou papel fundamental na elaboração e operacionalização da fraude tributária em apreço, pois agiu em conluio com a BRASCOPPER, as FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO e outras pessoas citadas, não sendo exagerada a qualificação consignada pela Fiscalização como “mentor intelectual”. Tais ilações estão alicerçadas nas seguintes razões: 159.1 Fichas cadastrais das empresas BRASCOPPER, COPAR, R3, COPPER GREEN e PROCOBRE mantidas na instituição financeira SICREDI MS/TO indicam que o Impugnante foi designado pelos proprietários como responsável pela parte financeira das empresas, embora não fizesse parte do quadro social delas. Ademais, a instituição financeira informou que RENATO era um investidor nessas empresas, bem como autorizava as transações de alto valor, denotando controle financeiro sobre as movimentações realizadas; 159.2 Vincula-se à FAMÍLIA MARTINS, visto que, por ser o responsável financeiro da BRASCOPPER junto a instituição financeira SICREDI, há registros que muitas movimentações financeiras ocorreram com solicitações realizadas por MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS; 159.3 Do depoimento dos administradores da CONDEX INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CONDUTORES ELÉTRICOS LTDA, infere-se que RENATO era proprietário das empresas PROCOBRE, IFE, GLOBAL, SUPER ZINCO e COPPER GREEN, constituindo-se, além de responsável financeiro, também comercial de ambas; 159.4 Em resposta à intimação, a CBL LAMINAÇÃO BRASILEIRA DO COBRE aponta RENATO como pessoa que negociava os contratos firmados entre a CBL e a R3; 159.5 Em depoimento, o Sr. OTACÍLIO REZENDE informou que recebeu pagamentos da GCP pela venda de sucatas de cobre à COPAR, sendo esta transação negociada com RENATO. Inclusive, apresentou e-mail trocado com a Sra. ROSANA MEGIOLARO, irmã de RENATO; Fl. 22613DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 111 159.6 (...) Em resposta à intimação encaminhada por esta equipe fiscal, o contribuinte ENERGY CONDUTORES DO BRASIL apresentou e-mails trocadas com AYLA ALMEIDA e ROSEMARA FRANCATTO (funcionárias de RENATO na TFF, conforme informações da CONDEX e de seus administradores). Ou seja, obteve-se a informação que a TFF era responsável pelo pedido de elaboração das notas fiscais às noteiras; e 159.7 (...) Em declaração, ALVARO AUGUSTO PINHO E SILVA, sócio formal da COPAR, afirma que o endereço do escritório financeiro da COPAR localiza-se em Jundiaí/SP, mesma cidade da TFF. E através da TFF, RENATO recebeu R$ 836.790,00 da PROCOBRE, apenas em 2016; 160 Pelo exposto, BRASCOPPER, GLOBAL, METALOX, COPPER GREEN, COPAR, SUPER ZINCO, GCP, entre outras empresas movimentaram milhões de reais em recursos financeiros, sendo a maior parte originada da BRASCOPPER que pagou/transferiu/disponibilizou recursos para empresas inexistentes de fato (E.g.: COPAR, COPPER GREEN, METALOX). Ora, como RENATO consistia no controlador financeiro, as movimentações nada mais foram que artifícios para ludibriar os fiscos federal e paulista, em prol de operacionalizar a fraude fiscal examinada profundamente neste voto. 162 Outro ponto a destacar e que será mais aprofundado no tópico a seguir, é que o fluxo financeiro envolvendo os recursos da BRASCOPPER eram controlados por RENATO, utilizando-se da estrutura da TFF, empresa cuja sócia administradora é MARIA TEREZA NOGUEIRA. Isso apenas demonstra que embora ambos não constem do quadro societário da BRASCOPPER, foram responsáveis pela movimentação financeira desta empresa e operacionalização da fraude com ciência e concordância dos sócios-administradores da BRASCOPPER. 163 Assim, é possível concluir que a maioria das empresas envolvidas no GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER possui em comum o mesmo gestor financeiro e comercial – RENATO -, mesmo este não possuindo qualquer vínculo formal com elas. Entretanto, trata- se de competências típicas daqueles que gerenciam e ditam os rumos de uma Pessoa Jurídica. Nesse diapasão, uma vez que restou elucidada a fraude fiscal, densificada está a prática do ato ilícito prestigiado no art. 135, III, do CTN, permitindo, assim, a inclusão do Impugnante como responsável tributária pessoal pelos créditos aqui discutidos. Desta forma, mantenho a responsabilidade do Sr. Renato Meggiolaro Júnior. Dos responsáveis solidários TFF Consultoria e Maria Teresa Nogueira Os responsáveis solidários TFF Consultoria (art. 124, I, do CTN) e Maria Teresa Nogueira (art. 124, I, e 135, III do CTN) apresentaram Recursos Voluntários em que repetem os argumentos do Sr. Renato, em impugnação. Em Recurso Voluntário: A impugnação apresentada pela empresa BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, foi indeferida conjuntamente com as impugnações das demais pessoas arroladas na autuação, sem que a impugnação da Recorrente fosse apreciada e proferida decisão com a devida ciência à Recorrente. Diferente do que afirma a Recorrente, a DRJ apreciou expressamente os reclamos apresentados, vinculando a solidariedade da TFF Consultoria (art. 124, I do CTN) e da Sra Maria Teresa Nogueira (art. 124, I, e 135, III do CTN), às ações da Sra. Maria Teresa Nogueira e do Sr. Renato, tendo-se em vista que o empreendimento (TFF) era o instrumento através do qual os Fl. 22614DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 112 senhores citados participavam ativamente do esquema fraudulento perpetrado pelo grupo de fato, conforme atesta o excerto a seguir: Das Impugnações dos Responsáveis Tributários: Maria Tereza Nogueira e TFF Consultoria e Participações Ltda 164 A Fiscalização considerou como responsável pessoal pelo crédito tributário atacado MARIA TERESA NOGUEIRA, CPF nº 037.657.648-09, por considerá-la um dos chefes do esquema de fraude desvendado. Além disso, arrolou como responsável solidária a sua empresa TFF CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ nº 18.025.621/0001- 95, na qual é sócia-administradora. 165 Cientes das autuações e das atribuições das responsabilidades, protocolaram, em peças separadas, as respectivas Defesas. Nessa quadra, protestaram requerendo exclusão das responsabilidades tributárias imputadas e declaração da inexistência das suas relações com os fatos, pessoas e empresas mencionadas no TVF. No tocante, a responsabilização de MARIA TERESA, defende-se arguindo que: 165.1 JAMAIS teve qualquer relação, conhecimento ou participação com suposto Grupo Econômico, ou com as empresas e pessoas mencionadas na fiscalização; praticou qualquer ato de compra e venda de mercadorias; esteve envolvida em qualquer tipo de esquema fraudulento; ou foi apontado qualquer movimentação financeira em suas contas correntes; 165.2 Quanto a ficha cadastral da conta corrente da BRASCOPPER na SICREDI, seu nome apareceu apenas como referência comercial; 165.3 Em relação à: 165.3.1 Renato Meggiolaro Junior, conviveu maritalmente, mas nunca tiveram envolvimento empresarial; 165.3.2 TFF Consultoria, informa que é sócia, (...) que prestou serviços e não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com as empresas citadas; 165.3.3 Fabio Czerkes Santana, afirma que foi sócio da empresa TFF apenas na abertura. (...) Foi proprietário de empresas que figuraram como locatária da empresa TFF, e tomadora de serviços da mesma, mas não possui relação com as atividades empresariais desenvolvidas por Fábio. (...) A relação locatícia e de prestação de serviços foi devidamente escriturada e entregue à fiscalização, tendo os tributos regularmente recolhidos; e 165.3.4 Ronaldo Meggiolaro e Thor Meggiolaro, são irmão e sobrinho de Renato, mas não teve qualquer relação comercial e desconhece suas atividades profissionais; e 165.4 Em relação a infração a lei, (...) jamais criou qualquer empresa "de fachada" ou teve qualquer relação com esses fatos. (...) O suposto envolvimento da citada "família Meggiolaro" trata-se de ilação e conclusão baseada em premissas falsas. (...) A defendente não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com a empresa Brascopper. (...) Desconhece a acusação de utilização de "notas frias". (...) Jamais determinou a produção "por encomenda", tendo atuado, tão somente, como prestadora de serviços, através da empresa TFF, além de administrar bens próprios. (...) Não participou de qualquer grupo econômico, pagou ou recebeu quaisquer valores da empresa Brascopper; 166 No que tange à responsabilização da TFF, a Defesa contesta afirmando que: 166.1 (...) nunca foi fiscalizada, intimada ou notificada a apresentar documentos ou prestar informações ou esclarecimentos sobre operações envolvendo a fiscalização executada contra a empresa Brascopper no ano-calendário de 2016. (...) Igualmente, não efetuou pagamentos, recebimentos ou movimentação bancária de Fl. 22615DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 113 valores sobre tais operações, tanto para a empresa TFF Consultoria, como para suas sócias; 166.2 Não há registro de movimentação financeira, relação, conhecimento ou participação com suposto Grupo Econômico, ou com as empresas e pessoas mencionadas na fiscalização; 166.3 Quanto a PROCOBRE e COPAR, prestou serviços para a empresa Procobre, devidamente contabilizados e os respectivos tributos recolhidos aos cofres públicos. Ademais, alugou imóvel para PROCOBRE, sendo o contrato de locação simples assinado pelo Sr. Fábio, que era o responsável pelas citadas empresas, e é esse a única relação envolvendo a defendente e as empresas citadas; 166.4 (...) não teve qualquer relação de negociação de mercadorias ou produtos com a empresa Brascopper. (...) Desconhece a acusação de utilização de "notas frias". (...) Jamais determinou a produção "por encomenda", tendo atuado, tão somente, como prestadora de serviços. (...) Não participou de qualquer grupo econômico, pagou ou recebeu quaisquer valores da empresa Brascopper; e 166.5 Em relação à: 166.5.1 Renato Meggiolaro Junior, conviveu maritalmente, mas nunca pertenceu aos quadros sociais da Impugnante; 166.5.2 Fabio Czerkes Santana, foi sócio da Impugnante apenas na abertura e durante o período que permaneceu no quadro social sequer houve movimentação financeira; 166.5.3 Ronaldo Meggiolaro e Thor Meggiolaro, são irmão e sobrinho de Renato, mas não teve qualquer relação comercial e desconhece suas atividades profissionais. 167 Similar aos demais responsabilizados, há vasto material probante nos autos demonstrando que MARIA TERESA e a sua empresa TFF participaram ativamente da fraude. Ora, não podemos olvidar que MARIA TERESA era sócia administradora da TFF e é inadmissível que não tinha pleno conhecimento de que a sua empresa era utilizada como escritório central por RENATO – seu cônjuge, inclusive na última DIRPF apresentada pelo casal, informam o mesmo domicílio fiscal – para: gerir a operação de emissão de notas fiscais fraudulentas; promover o fluxo financeiro entre a BRASCOPPER e as empresas de fachada; e negociar a compra de sucatas, posto que: 167.1 A funcionária de RENATO, Sra. AYLA DE ALMEIDA SANTOS, que foi empregada da empresa BRITH (pertencente a seu sobrinho THOR MEGIOLARO), da COPAR e atualmente da TFF, aparecia, juntamente com RENATO, como responsável financeiro das empresas R3, COPPER GREEN, BRASCOPPER, COPAR - mesmo estando inativa a COPAR continuou movimentando suas contas correntes durante o ano de 2016 - e PROCOBRE na instituição financeira SICREDI MS/TO, na qual o telefone de MARIA TEREZA é indicado para contato; 167.2 Os administradores da CONDEX, em depoimento, afirmaram que RENATO MEGGIOLARO era pelo menos o gestor comercial das empresas PROCOBRE, IFE, GLOBAL e COPPER GREEN, o escritório ficava em Jundiaí, e lá trabalhavam AYLA, MAURICIO ROBERTO RALDI, ROSEMARA FRANCATTO, ROSANGELA ABLA, RENATO e MARIA TEREZA; 167.3 Em declaração de ALVARO AUGUSTO PINHO E SILVA, sócio formal da COPAR, afirma que o endereço do escritório financeiro da COPAR localiza-se em Jundiaí/SP, mesma cidade da TFF, sendo o contato a Sra. AYLA; 167.4 Através da PROCOBRE, empresa que sucede as operações da COPAR – lembrar que esta recebeu recursos da BRASCOPPER por meio da METALOX e R3, a fim de comprar sucata de cobre -, a TFF recebeu R$ 836.790,00, apenas em 2016, sendo parte (R$ 630.000,00), pela prestação de serviços de assessoria e consultoria financeira. Portanto, a TFF ajudava a gerir a vida financeira da PROCOBRE, inclusive da COPAR, R3, COPPER GREEN, BRASCOPPER, entre outras Fl. 22616DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 114 empresas, mesmo não possuindo contrato ou notas fiscais de serviços em relação a essas últimas empresas; 167.5 Verificou-se que a COPAR era quem alugou o imóvel utilizado pela TFF durante o ano de 2016, denotando o conjunto dos fatos apresentados a confusão patrimonial entre a TFF e outras empresas do grupo diretamente utilizadas na fraude fiscal; e 167.6 A ENERGY CONDUTORES DO BRASIL apresentou e-mails trocados com a Sra. AYLA e a Sra. ROSEMARA FRANCATTO (funcionárias da TFF, conforme depoimento dos administradores da CONDEX). Inclusive em um desses e-mails, há a solicitação de ROSEMARA para que a SUPER ZINCO emita nota fiscal contra a ENERGY. Outro e-mail encaminhado pela Sra. AYLA solicita que a ENERGY efetue o pagamento na conta corrente da GCP. 168 Em suma, por tudo demonstrado é indubitável que MARIA TERESA, auxiliando RENATO, envolveu-se no gerenciamento financeiro e comercial das empresas envolvidas no GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER, embora não tenham qualquer vínculo formal com elas. Neste sentido, conforme já nos posicionamos, desempenhou competências típicas daqueles que gerenciam e ditam os rumos de uma Pessoa Jurídica, e por ter sido a fraude fiscal revelada, a constatação subsumiu-se ao disposto no art. 135, III, do CTN, possibilitando a atribuição de responsável tributária pessoal pelos créditos aqui discutidos. Quanto a TFF, comprovou-se que fez parte do grupo econômico apresentado, por conseguinte, teve interesse comum, juntamente à Autuada, nas situações que constituíram os fatos geradores das obrigações principais impugnadas. A responsabilidade solidária por interesse comum que o artigo 124, I, do CTN prescreve também decorre de ato ilícito do qual a pessoa responsabilizada tenha conhecimento ou dele participe, de forma consciente e que traga resultado prejudicial ao Fisco, que é o maior interessado, no caso (Acórdão CARF n. 1402-007.160). Na jurisprudência deste Tribunal Administrativo Tributário Federal, importante referir-se ao Acórdão da Câmara Superior de Recursos Fiscais nº 9101-003.378, Rel. designado Rafael Vidal de Araújo, sessão de 05/02/2018: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. ASPECTOS ECONÔMICO E JURÍDICO. São solidariamente obrigadas aquelas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Pessoas atuando de maneira concorrente, valendo-se de construções artificiais e ardilosas para se esquivar de obrigações tributárias, são atraídas para o pólo passivo da obrigação tributária, vez que se caracteriza o interesse tanto econômico quanto jurídico, implicando na solidariedade prevista no art. 124, inciso I do CTN. (...)No caso em debate, a fratura é tão exposta que se mostra suficiente, por si só, a imputação com base no art. 124, inciso I do CTN. Não se pode ignorar que o interesse econômico, por si só, não se mostra suficiente para a inclusão no pólo passivo da relação obrigacional tributária. Também há que restar demonstrado o vínculo jurídico, consubstanciado na atuação em conjunto, concorrente, que se amolda à hipótese de incidência prevista na norma tributária. E a atuação em conjunto pode se materializar de diversas maneiras, dentre as quais no caso tratado nos presentes autos, no qual se demonstra claramente que as pessoas físicas valeram-se de artifícios para se esquivar das obrigações tributárias, com utilização de estratagemas ardilosos e construções fictícias, (...). Fl. 22617DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 115 O interesse jurídico resta caracterizado na medida em que a construção empreendida pelas pessoas físicas foi em conjunto, concorrente, visando deliberadamente revestir os rendimentos auferidos de uma imunidade tributária inexistente, e repassar tais recursos aos reais beneficiários, sócios de diferentes empresas de um mesmo grupo familiar. Restou comprovada nos autos, para além de qualquer dúvida, a participação ativa, individual e concatenada dos responsáveis solidários na prática dos ilícitos tributários. Desta forma, deve-se confirmar a responsabilidade de TFF Consultoria (art. 124, I, do CTN) e Maria Teresa Nogueira (art. 124, I, e 135, III do CTN). Quanta à apreciação das demais alegações recursais (incluindo as contidas nos recursos voluntários de Ronaldo Megiolaro, Thor Gregori Megiolaro e Fábio Czerkes Santana), reproduzo a seguir, por aderir aos seus termos, as razões da DRJ. Enfim, concordo com a Decisão de Primeira instância que entendeu: que deve prevalecer a glosa das compras embasadas em documentos inidôneos e o arbitramento do lucro no ano calendário 2016; que os documentos apresentados comprovam uma fraude capitaneada pela Brascopper, seus administradores de fato e de direito e parceiros na trama, através da formação efetiva de um grupo econômico que funcionava como um só empreendimento com a intenção de fraudar o Fisco. Confirma-se também a tributação do IRRF por pagamentos sem causa ou para beneficiários não identificados e imputação das responsabilidades solidárias daqueles que apresentaram recurso voluntário. Nos termos da DRJ: (...) Das Contestações dos Lançamentos de Ofício Da Introdução 30 Iniciando a análise do âmbito meritório, trataremos da parte do presente processo administrativo fiscal relacionada ao lançamento de ofício, relativo ao ano-calendário de 2016, envolvendo IRPJ e CSLL, apurados de acordo com o regime de lucro arbitrado, PIS e COFINS, pelo regime acumulativo reflexo do arbitramento do lucro, e IRRF fundado em pagamentos sem causa ou a beneficiário não identificado. Nessa senda, para melhor elucidação dos fatos e demonstração das conclusões, entendemos salutar desenvolvermos o julgamento do tópico em três pontos elementares e complementares: 30.1 Do Grupo Econômico Irregular BRASCOPPER; 30.2 Do Arbitramento do Lucro; 30.3 Dos Pagamentos Sem Causa ou a Beneficiário Não Identificado. Do Grupo Econômico Irregular BRASCOPPER 31 Em brevíssima síntese, o procedimento fiscal em comento decorreu da constatação, por parte da Fiscalização, que, no ano-calendário de 2016, a BRASCOPPER efetivou aquisição de notas fiscais fraudulentas das empresas COPPER GREEN, GLOBAL, METALOX e R3 que totalizaram a transferência de R$ 130.606.336,90, correspondendo a quantidade total de 6.222.840,54 kg de vergalhão de cobre. Tal ilação baseou-se no fato de, a partir de diligências da Sefaz-SP e fiscalizações realizadas nas apontadas empresas, inferir que seria impossível que o produto fosse fabricado por elas, uma vez que se tratava de empresas de fachada, popularmente conhecidas como NOTEIRAS, quer dizer sem qualquer Fl. 22618DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 116 capacidade operacional, criadas com intuito de emitir notas fiscais frias para geração de crédito tributário de tributos não-cumulativos e diminuir o lucro tributável das reais beneficiárias. 32 Outro ponto destacado pela Autoridade Autuante foi a formação de vínculo aparente entre as empresas de fachada GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN, COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO, GCP e a beneficiária BRASCOPPER. Estas relações apontaram: existência de unidade de controle e direção no planejamento e operacionalização da fraude tributária – envolvendo conluio dos sócios e administradores da BRASCOPPER, FAMÍLIA MARTINS, FAMÍLIA MEGIOLARO e outras pessoas listadas -; confusão patrimonial – utilização de mesmo estabelecimento da BRASCOPPER por outras empresas ditas de fachada, bem como entre estas, e responsabilidade financeira e movimentações, em instituição bancária, realizadas por pessoas estranhas ao quadro social da Autuada, mas relacionadas às empresas inidôneas -; e ajustes de vontades entre as partes para cometimento de ilícios - contrato de arrendamento que nunca se concretizou envolvendo pessoas ligadas as ditas noteiras, utilização de transportadoras de fachada e identificação de operações estruturadas entre BRASCOPPER e as noteiras para perpetrar a fraude -, elementos que lhes permitiram afirmar a existência de um GRUPO ECONÔMICO DE FATO, formado para a prática reiterada de fraude fiscal. 33 Para demonstrar o modus operandi da multicitada fraude, inicialmente os Agentes Fiscais destacam a falta do lastro fiscal na cadeia de suprimentos das empresas de fachada GLOBAL, R3, METALOX e COPPER GREEN. Destarte, a organização tentava iludir o Fisco estabelecendo procedimentos, consoante fluxograma abaixo, onde: Operação 1 - as noteiras de primeiro nível dão lastro fiscal para as noteiras de segundo nível, indicando a aquisição de vergalhão de cobre; Operação 2 - as noteiras de segundo nível emitem notas fiscais, cujo produto nelas estampado é o vergalhão de cobre, para a BRASCOPPER, assim gerando créditos da contribuição para o PIS e da Cofins -; Operação 3 - ocorre a industrialização por encomenda, cujo primeiro encomendante é a R3, o qual envia sucata de cobre à BRASCOPPER; Operação 4 - a BRASCOPPER encaminha a sucata de cobre às industrializadoras CBL ou à JF PASQUA; Operação 5 - as laminadoras “devolvem” o produto industrializado vergalhão de cobre à BRASCOPPER; e Operação 6 - a BRASCOPPER “devolve” o vergalhão de cobre à R3. “Devolve”, pois parte deste vergalhão é desviado para terceiros (Operações 7 e 8). 34 Indignada a Defesa protesta em favor da insubsistência dos lançamentos, por entender que claramente não há formação de grupo econômico entre a Autuada e as demais empresas arroladas no TVF, visto que é adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre revendidos a terceiros, com ou sem transformação em cabos - revendas essas que jamais foram colocadas Fl. 22619DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 117 em dúvida pela Fiscalização -; as aquisições e emissões dos documentos fiscais correspondentes ocorreram em data bastante anterior à decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas; e a acusação fiscal foi fundada em premissas fáticas frágeis e negam dados da realidade absolutamente inafastáveis que demonstram que: 34.1 (...) a BRASCOPPER estava, como ainda está, em processo de recuperação judicial e, como tal, está submetida a rigoroso acompanhamento administrativo e judicial de suas operações, o que é, por definição e princípio, torna inverossímil a alegada formação de grupo econômico e a prática de fraude superior a R$130 Milhões em um único ano-calendário. Em outros termos, não seria possível sequer em tese à BRASCOPPER preceder a fraudes e irregularidades de monta aproximada de 90% das suas aquisições de cobre, tal como é afirmado pela Fiscalização; 34.2 (...) a BRASCOPPER não tinha (como ainda não tem) maquinário e capacidade operacional para transformar sucata em vergalhões de cobre, conforme reconhecido pela própria Fiscalização e é também ratificado pelo inventário constante do referido processo de recuperação judicial. Portanto, com a devida vênia, não faria o menor sentido econômico à BRASCOPPER adquirir a quantidade de sucata especulada pela Fiscalização. A industrialização por encomenda de “sucata” referida no TVF (a) abrange somente parte das operações da BRASCOPPER e (b) está perfeitamente identificada na contabilidade da Contribuinte como tal (industrialização de sucata por encomenda), nas quantidades indicadas pela Fiscalização no TVF; 34.3 (...) a BRASCOPPER realizou a venda de 6.456.161,30kg de vergalhões de cobre e produtos acabados (fios e cabos elétricos) a terceiros, o que não apenas não foi controvertido pela Fiscalização como, ao contrário, serviu de base para o arbitramento de lucro e lançamento das contribuições ao PIS/COFINS. Ora, é até intuitivo que, se vendeu produtos à base de cobre sem prévia industrialização própria, é porque antes os adquiriu perante terceiros, conforme adequadamente retratado em seus lançamentos contábeis. Como se disse, a operação de industrialização de sucata por encomenda não explica a entrada da quantidade de vergalhões de cobre revendida pela BRASCOPPER, pois essa industrialização é bastante inferior e encontra registro específico e destacado na contabilidade da Contribuinte, registro esse distinto daquele relativo ao vergalhão de cobre adquirido para revenda. Data vênia, mais absurda ainda é a especulação fiscal de que essas notas poderiam ter superdimensionado as compras da Contribuinte, considerada a evidente necessidade de compra do total dessas mercadorias para fazer frente à quantidade revendida; 34.4 (...) Diferentemente das demais empresas relacionadas no TVF, que se verificou a posteriori terem sócios “laranjas” e não terem mercado consumidor cativo, a BRASCOPPER é empresa existente de fato desde 1984 e com quadro societário estável, conforme reconhecido pela Fiscalização. Não interessa comercial e/ou juridicamente à BRASCOPPER e a seus sócios realizar operações simuladas nos volumes citados para mera apropriação de créditos de ICMS e PIS/COFINS. Fosse esse o intuito, a BRASCOPPER teria simplesmente tomado tais créditos e, se o caso, discutido eventual indeferimento de seu aproveitamento em instâncias administrativas e judiciais. A propósito, diga-se que não é procedente sequer a alegação de que a aquisição de sucata jamais daria créditos de PIS/COFINS à BRASCOPPER, conforme reconhecido pelo Plenário do C. STF no RE 607.109; 34.5 (...) tivessem efetivamente arquitetado e se beneficiado de “esquema” de R$130 Milhões em apenas um ano-calendário, a BRASCOPPER e seus sócios certamente estariam em situação econômica bastante mais vantajosa do que a atual. Tanto a BRASCOPPER como seus sócios estavam em 2016 (como ainda estão em 2021) em precária situação financeira, com cobranças administrativas e judiciais e risco de perda da integralidade de seu patrimônio, conforme fazem prova os documentos em anexo (Doc. 3). Em momento algum a Fiscalização apontou (a) Fl. 22620DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 118 “circulação/retorno” de dinheiro proveniente das empresas em favor da BRASCOPPER ou, ainda, (b) a fruição, pelos sócios da Contribuinte, de recursos que tenham sido recebidos por essas empresas, provenientes ou não da BRASCOPPER; 34.6 (...) as empresas tidas como “noteiras” pela Fiscalização (a) não foram constituídas pelos sócios da BRASCOPPER, (b) não tiveram mínima ingerência administrativa ou financeira deles (sócios da Contribuinte) e (c) celebravam outros negócios jurídicos com terceiros, sem que isso trouxesse qualquer benefício financeiro direto ou indireto à BRASCOPPER. As 3 (três) circunstâncias citadas são constatáveis da leitura do TVF. 35 Antes de mergulharmos na análise da existência factual do grupo econômico em questão, é essencial discorremos sobre o que a jurisprudência e a doutrina denominam “grupo econômico”, notadamente quando se verifica abuso da personalidade jurídica corporificada pelo desrespeito a autonomia patrimonial e operacional das pessoas jurídicas envolvidas mediante direção única. Nessa vereda, pedimos venia para trazermos à lume excertos do Parecer Normativo Cosit/RFB nº 04, de 10 de dezembro de 2018 que com maestria tratou do tema: (...) 20.2. Todavia, a terminologia "grupo econômico" deve ser lida com cuidado, pois é plurívoca. O seu conceito não pode ser dado de forma aleatória, genérica, para qualquer situação. É a regra-matriz específica que determina o antecedente jurídico que gera uma sanção como consequente jurídico. Pode ocorrer de em uma determinada situação os requisitos para a configuração do que se denomina "grupo econômico" sejam mais restritos, ou mesmo distintos, do que em outra. 21. Já se adianta que os grupos econômicos formados de acordo com os Capítulos XX e XXI da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, em que há pleno respeito à personalidade jurídica de seus integrantes (mantendo-se a autonomia patrimonial e operacional de cada um deles), não podem sofrer a responsabilização solidária, salvo cometimento em conjunto do próprio fato gerador. Vide o seguinte julgado do STJ: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OFENSA AO ART. 535 DO CPC CONFIGURADA. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 124 E 174 CTN. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. GRUPO ECONÔMICO. CONFUSÃO PATRIMONIAL. PRESCRIÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. SÚMULA 7 DO STJ. 1. Os Embargos de Declaração merecem prosperar, uma vez que presentes um dos vícios listados no art. 535 do CPC. Na hipótese dos autos, o acórdão embargado não analisou a tese apresentada pela ora embargante. Dessa forma, presente o vício da omissão. 2. No caso dos autos, o Tribunal de origem assentou que: não merece reproche a conclusão do juízo a quo no que tange à responsabilização solidária de pessoas físicas (por meio da desconsideração da personalidade jurídica) e jurídicas integrantes do mesmo grupo econômico de empresas devedoras, quando existe separação societária apenas formal e pessoas jurídicas do grupo são usadas para blindar o patrimônio dos sócios em comum, como é o caso das excipientes, e de outras empresas do grupo." 3. O Superior Tribunal de Justiça entende que a responsabilidade solidária do art. 124 do CTN não decorre exclusivamente da demonstração da formação de grupo econômico, mas demanda a comprovação de práticas comuns, prática conjunta do fato gerador ou, ainda, quando há confusão patrimonial. 4. O Tribunal ordinário entendeu pela responsabilidade solidária da empresa não pela simples circunstância de a sociedade pertencer ao mesmo grupo econômico do sujeito passivo originário. Antes, reconheceu a existência de confusão patrimonial, considerando haver entre as sociedades evidente identidade de endereços de sede e filiais, objeto social, denominação social, quadro societário, contador e contabilidade. 5. Fl. 22621DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 119 As questões foram decididas com base no suporte fático-probatório dos autos, de modo que a conclusão em forma diversa é inviável no âmbito do Recurso Especial, ante o óbice da Súmula 7 do STJ. 6. Embargos de Declaração acolhidos com efeitos integrativos. (grifou-se)8 22. Desta feita, não é a caracterização em si do grupo econômico que enseja a responsabilização solidária, mas sim o abuso da personalidade jurídica de pessoa jurídica, a qual existe apenas formalmente, uma vez que inexiste autonomia patrimonial e operacional. Nesta hipótese, a divisão de uma empresa em diversas pessoas jurídicas é fictícia. A direção e/ou operacionalização de todas as pessoas jurídicas é única. O que se verifica nesta hipótese é a existência de um grupo econômico irregular, terminologia a ser utilizada no presente Parecer Normativo. 23. Pelo art. 123 do CTN, "as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes." O seu objetivo é exatamente impedir que uma convenção particular possa alterar um aspecto da regra-matriz de incidência tributária ou de responsabilidade tributária. Vale dizer, contratos ou estatutos sociais que não refletem a essência dos negócios não podem ser óbice à responsabilização tributária solidária. 23.1. A unidade de direção e de operação das atividades empresariais de mais de uma pessoa jurídica demonstra a artificialidade da existência de distintas personalidades jurídicas. E é essa empresa real, unificada, que realiza o fato gerador dos respectivos tributos. 23.2. Mesmo parcela da doutrina reticente com a possibilidade de responsabilização solidária do grupo econômico legítimo reconhece sua possibilidade quando ocorre a hipótese ora tratada. Segundo Betina Grupenmacher: Acreditamos ser irrelevante que o grupo econômico tenha sido juridicamente constituído, ou que a sua existência seja apenas factual, o que é relevante é o propósito para o qual se deu a criação de estrutura tendente a prática de atos de cooperação empresariais. Certamente em havendo confusão patrimonial, fraudes comprovadas, abuso de direito e má-fé com prejuízo a terceiros - credores privados ou públicos -, neste caso sim poder-se-á admitir a existência de planejamento tributário ilícito, impondo-se a solidariedade quanto à responsabilidade pelo recolhimento do tributo. 9 (grifou-se) 24. Por fim, uma variável para a criação do grupo irregular é a corriqueira situação de confusão patrimonial com o intuito de fraude a credores, principalmente à Fazenda Nacional. Seu objetivo é não só a manipulação da ocorrência dos fatos geradores futuros, mas também ocultar os reais sócios do empreendimento e/ou esvaziar o patrimônio referente ao passivo tributário. Como o ilícito tributário não precisa ser diretamente o cometimento do fato jurídico, mas sim a ele vinculado, trata-se de hipótese de existência de grupo a ensejar a responsabilização solidária de seus integrantes, conforme já decidido pelo STJ: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. OFENSA AO ART. 1.022 DO CPC NÃO CONFIGURADA. EXECUÇÃO FISCAL. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO DE REDIRECIONAMENTO. INOCORRÊNCIA. GRUPO ECONÔMICO DE FATO E CONFUSÃO EMPRESARIAL EM FRAUDE AO FISCO. CONFIGURAÇÃO. ABUSO DE PERSONALIDADE. PESSOAS JURÍDICAS QUE PERTENCEM AO MESMO GRUPO. EXISTÊNCIA DE CONGLOMERADO FINANCEIRO. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICOPROBATÓRIO DOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 124, 128 E 174 DO CTN E 50 DO CC. NÃO OCORRÊNCIA. FUNDAMENTO NÃO IMPUGNADO. SÚMULA 283/STF. Fl. 22622DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 120 1. A solução integral da controvérsia, com fundamento suficiente, não caracteriza ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015.2. O Tribunal de origem, soberano na análise das circunstâncias fáticas e probatórias da causa, concluiu que as empresas e pessoas físicas envolvidas no caso constituem uma única sociedade de fato, submetida a uma mesma cadeia de comando, além da ocorrência de confusão patrimonial com o objetivo de fraudar o Fisco. Rever tais entendimentos, que estão atrelados aos aspectos fático- probatórios da causa, é inviável em Recurso Especial, tendo em vista a circunstância obstativa decorrente do disposto na Súmula 7/STJ.3. A existência de fundamento do acórdão recorrido não impugnado - quando suficiente para a manutenção de suas conclusões - impede a apreciação do Recurso Especial. Aplicação, por analogia, da Súmula 283/STF.10 25. Nessa toada, há que se ter a comprovação pela fiscalização da existência de grupo irregular, que, repita-se, não se confunde com o grupo econômico de fato legítimo. Deve-se comprovar o cometimento do ilícito societário, mesmo que por prova indireta ou indiciária, pois mero interesse econômico no lucro não é passível de responsabilização solidária. Não obstante, cabe observar que a distribuição disfarçada de lucros a que se referem os arts. 60 e 61 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 197711, denota a existência de abuso de personalidade jurídica a caracterizar grupo econômico irregular. (...) 36 Retomando a análise da contenda no que concerne à formação do grupo econômico irregular BRASCOPPER suscitado pela fiscalização, é indiscutível que da atenta leitura do suporte fático-probatório carreado aos autos - especialmente o que denota a unicidade de controle e direção, confusão patrimonial e ajustes de vontades entre as partes envolvidas para cometimento do ilícito fiscal – resulta hialina a inexistência da plena autonomia patrimonial e operacional esperada das pessoas jurídicas envolvidas; a ocorrência de um esquema fraudulento de emissão de notas fiscais frias capitaneado pela BRASCOPPER e seus sócios, com intuito de beneficiá-la e ocultá-los; e a comprovação da fraude à Fazenda Nacional. Dessa forma, qualquer conclusão diversa das exposadas pelas Autoridades Fiscais se revela incabível, a ver. 37 Quanto à unidade de controle, direção e operacionalização das pessoas jurídicas envolvidas, revelando a artificialidade existencial das noteiras e estreitas ligações com a Autuada, são extremamente robustas as provas diretas, indiretas e indiciárias que revelam uma organização formada, em particular, pelas FAMÍLIAS MARTINS e MEGIOLARO, e pelos sócios e administradores da Autuada, que funcionava de forma estruturalmente ordenada – é patente o vínculo entre as empresas GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN (emissoras das notas fiscais fraudulentas na monta de R$ 130.606.336,90), COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO e GCP, e a beneficiária BRASCOPPER -, caracterizada pela divisão de tarefas para operacionalizar a fraude explanada, sempre com o objetivo de geração indevida de crédito tributário de tributos não-cumulativos, e diminuição do lucro tributável mediante majoração dos custos em favor da Fiscalizada. 38 Com respeito à testificação da confusão patrimonial, igualmente o lastro probante é vasto, merecendo registro: interposições fraudulentas observadas nos quadros societários dos principais fornecedores, por pessoas relacionadas às famílias Martins e Megiolaro; utilização de mesmo estabelecimento da BRASCOPPER, em São Luis-MA, pela METALOX e GLOBAL, bem como se verificou prática similar dentre as empresas de fachada; compras de mercadorias, transferência de imóvel, emissão de notas fiscais envolvendo as empresas de fachada e membros ou pessoas relacionadas às citadas famílias; e indicações para contato, responsabilidade e movimentações financeiras, em conta bancária da SICREDI UNIÃO MS/TO, agência 0911, de titularidade da Autuada, vinculadas a pessoas estranhas – integrantes ou relacionadas às multicitadas famílias - ao quadro social da Autuada, como também das fornecedoras GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN. 39 Neste ponto, é essencial registrar que a própria Fiscalizada confirmou parte das sobreditas ilações ao afirmar (...) em que pese a BRASCOPPER ter (assim como diversas Fl. 22623DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 121 outras indústrias de laminação e fabricação de condutores elétricos) adquirido vergalhão de cobre das empresas declaradas inidôneas e ter se relacionado com pessoa de MARCOS VINICIUS MARTINS, concedendo-lhe poderes para movimentar conta bancária no SICREDI e não se opondo à abertura de filial da empresa METALOX em seu endereço em São Luís. 40 Além do mais, ao compulsarmos os autos, corroboramos com a dedução do Fisco sobre o pleno conhecimento e concordância dos sócios e administradores da BRASCOPPER no que se refere a atuação do Sr. Marcus Vinicius Passos Martins – dono da METALOX, principal fornecedor de vergalhão de cobre da BRASCOPPER -, ao longo do ano- calendário de 2016, como gerente financeiro da fraude, uma vez que solicitava pagamentos de boletos e de transferência bancárias da conta corrente da Auditada na instituição financeira SICREDI, e a do Sr. Renato Megiolaro Junior, como mentor intelectual da fraude, posto que, segundo o apontado banco, foi designado pelos proprietários da BRASCOPPER como responsável pela parte financeira da empresa e o definia como “investidor” sem contudo constar no contrato social; e restou constatado que as movimentações financeiras de alto valor eram autorizadas por ele, nas contas correntes da BRASCOPPER, COPAR, PROCOBRE, R3, COPPER GREEN e METALOX, mantidas, coincidentemente, na mencionada instituição bancária. 41 Com relação à caracterização dos ajustes de vontades entre as partes – conluio entre diferentes personagens - com intuito de dar credibilidade ao ilícito, também são fartas as provas e os fatos que vinculam os administradores da BRASCOPPER e integrantes das famílias Martins e Megiolaro, consubstanciando o planejamento e operacionalização da fraude tributária em comento. Nesta seara, merecem citação: a utilização de empresas do grupo econômico para transportar 98% do vergalhão de cobre supostamente vendidos pelas empresas de fachada GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN para BRASCOPPER; e o Contrato de Arrendamento de Maquinário e Locação de Planta Industrial firmado entre CONDEL – cujo proprietário é integrante da família Martins – e a BRASCOPPER que nunca se efetivou, dado que restou verificado: apenas transferências financeiras, esdruxulamente, do arrendador para o arrendatário, inexistência em GFIP de empregados atuando na área fabril do arrendatário, e informação de empregado da CONDEL que a BRASCOPPER realizava as solicitações de compra para empresa que laborava. 42 Além do sobredito, constatações e comportamentos típicos de integrantes de grupo econômico irregular que reforçam as sobreditas ilações, foram detectados pelos Agentes Fazendários, ao longo dos procedimentos fiscais empreendidos tanto na Autuada, como nas empresas de fachada. Quer dizer, no que tange a BRASCOPPER, houve nítida resistência em atender às intimações, inclusive, após o TIF nº 05, simplesmente ignorou-as. Já em relação às empresas ditas de fachada registre-se: estabelecimentos fechados ou não localizados - algumas com situação cadastral com o status de “inapta – localização desconhecida” -; não obtenção de informações; necessidade de lavratura de Representação para Baixa de Ofício do CNPJ; movimentações financeiras incompatíveis; sócios com histórico de ocupações pretéritas ou DIRPFs incompatíveis com altas transações bancárias das empresas; declarações GFIP sem empregados; e crescimento incomum dos faturamentos. 43 Apesar das multicitadas evidências, é louvável o esmero da Defesa em buscar demonstrar a invalidade e ilegitimidade da acusação fiscal de formação de grupo econômico irregular e de adquirente de má-fé por parte da Autuada. Contudo, conforme demonstraremos, a compulsão em justificar ou contestar todas as fraturas expostas, resultou na produção de argumentações pouco críveis e, em algumas situações, até contraditórias. 44 Nesse diapasão, diante da apreciação de todos os elementos carreados aos autos, em particular a análise com atenção das argumentações da BRASCOPPER, estes não foram suficientes para infirmar a nossa decisão em favor da procedência das deduções do Fisco, pelos seguintes motivos: 44.1 (...) a BRASCOPPER estava, como ainda está, em processo de recuperação judicial e, como tal, está submetida a rigoroso acompanhamento administrativo e judicial de suas operações. Concordamos que é surpreendente, entretanto, Fl. 22624DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 122 convenhamos que todo esquema foi arquitetado para justamente ocultar os reais beneficiários – gerenciamento e coordenação da fraude executados por integrantes das famílias Martins e Megiolaro, mas sempre com autorização dos sócios da BRASCOPPER - ou, ao menos, dar veracidade às transações – registros contábeis, produção de lastro fiscal para cadeia de fornecedores, presença de transportadoras, contrato de arrendamento, industrialização por encomenda de vergalhões, etc; 44.2 (...) a BRASCOPPER não tinha (como ainda não tem) maquinário e capacidade operacional para transformar sucata em vergalhões de cobre, conforme reconhecido pela própria Fiscalização e é também ratificado pelo inventário constante do referido processo de recuperação judicial. Ora, diante da vasta documentação e detalhamento dos cruzamentos entre os envolvidos, somada as questões do objeto da Autuada abarcar comercialização de vergalhão de cobre e cabos condutores, e da potencial geração de créditos tributários federais e estaduais, e redução de custos envolvidos, é plenamente plausível inferir que se efetivou o esquema fraudulento exaurido neste processo; 44.3 (...) a BRASCOPPER realizou a venda de 6.456.161,30kg de vergalhões de cobre e produtos acabados (fios e cabos elétricos) a terceiros, e a (...) a operação de industrialização de sucata por encomenda não explica a entrada da quantidade de vergalhões de cobre revendida pela BRASCOPPER, pois essa industrialização é bastante inferior e encontra registro específico e destacado na contabilidade da Contribuinte, registro esse distinto daquele relativo ao vergalhão de cobre adquirido para revenda. Conforme expomos, o registro contábil da industrialização por encomenda requerida pela R3 fez parte do estratagema arquitetado em prol de dar um contexto de veracidade ao esquema. Todavia, a constatação da incapacidade operacional dos fornecedores de 6.222.840,54 kg, aliada ao fato que a R3, em 2016, era empresa de fachada, cujo sócio era interposta pessoa ligada a família Martins, 83% das suas compras adviam de noteira de segundo nível, apresentou crescimento incomum de faturamento e vendeu parte dos vergalhões de cobre industrializados para METALOX – também empresa de fachada – e principal fornecedor da BRASCOPPER, dispensa-se demais comentários; 44.4 (...) a BRASCOPPER é empresa existente de fato desde 1984 e com quadro societário estável, conforme reconhecido pela Fiscalização. Justamente por essas características adicionadas a estar submetida a um processo de recuperação judicial, a ocultação era mais do que previsível; 44.5 (...) Em momento algum a Fiscalização apontou (a) “circulação/retorno” de dinheiro proveniente das empresas em favor da BRASCOPPER ou, ainda, (b) a fruição, pelos sócios da Contribuinte, de recursos que tenham sido recebidos por essas empresas, provenientes ou não da BRASCOPPER. Restou hialino da doutrina e dogmática evidenciada neste voto, que é possível a configuração do que se denomina grupo econômico irregular dimanar de requisitos distintos, por exemplo, dos elencados pela Defesa. Não obstante, nos autos foram extenuados à exaustão outros que demonstram claramente que a Autuada se beneficiou de um esquema fraudulento em prejuízo da Fazenda Nacional e Estadual; 44.6 (...) as empresas tidas como “noteiras” pela Fiscalização (a) não foram constituídas pelos sócios da BRASCOPPER, (b) não tiveram mínima ingerência administrativa ou financeira deles (sócios da Contribuinte) e (c) celebravam outros negócios jurídicos com terceiros, sem que isso trouxesse qualquer benefício financeiro direto ou indireto à BRASCOPPER. Diferente do que pensa a Defesa, ao compulsarmos os autos, é irrefutável o arcabouço fático-probatório que nos levou a aduzir pela existência: da unicidade de controle e direção, da confusão patrimonial e dos ajustes de vontades entre as partes envolvidas, para cometimento do ilícito fiscal em apreço; Fl. 22625DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 123 44.7 (...) a BRASCOPPER é adquirente de boa-fé de vergalhões de cobre revendidos a terceiros, com ou sem transformação em cabos, revendas essas que jamais foram colocadas em dúvida pela Fiscalização. Citada aquisição e a emissão dos documentos fiscais correspondentes ocorreram em data bastante anterior à decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas. Concordamos que os fatos geradores ocorreram antes da decretação de inidoneidade das pessoas jurídicas, no entanto, as diligências efetuadas nos domicílios tributários dos fornecedores e a vasta gama de provas e indícios denotam que, à época dos fatos, não detinham capacidade operacional para fabricar vergalhões de cobre. Outrossim, apesar dos valores e do volume envolvidos, não há qualquer contrato, outros documentos, que seja simples e-mails ou talvez comprovantes de pesagem das mercadorias recebidas dos fornecedores que comprovassem as negociações realizadas; e a Defesa, ao expor a alteração dos procedimentos relativos à aquisição da matéria prima cobre, demonstra fragilidades no processo de seleção dos fornecedores após a decretação da recuperação judicial, pois passou a enfrentar dificuldades de logísticas e de crédito; 44.8 Quando a Impugnante afirma que detinha longo e antigo relacionamento comercial com a METALOX – principal fornecedor no presente caso -, não cita, dentre as negociações que realizou com esta empresa, a compra de vergalhões de cobre. Sem embargo, no período fiscalizado, restou constatado que os sócios da apontada fornecedora se tratava de interpostas pessoas relacionadas com a família Martins; os seus principais fornecedores eram inexistentes de fato; a falta de capacidade operacional; movimentação financeira incompatível; e, atualmente, (...) a situação cadastral da METALOX no CADESP encontra-se inapta, com ocorrência fiscal de cassada por participação em organização ou associação constituída para prática de fraude fiscal estruturada;(g.n.) 44.9 (...) a BRASCOPPER arrendou o bloco E de sua unidade em Três Lagoas à CONDEL, empresa que se mostrava idônea, com sócios que residiam no estado do Mato Grosso do Sul e que aparentavam possuir plena capacidade financeira para explorar a fábrica arrendada. (...) Cumpre observar que, inicialmente, a CONDEL realizou reformas no bloco arrendado e, por isso, a BRASCOPPER tolerou por algum período a ausência de pagamentos devidos pelo arrendamento. (...) No entanto, embora tenha realizado reformas no local, a inadimplência da CONDEL perdurou, até que a BRASCOPPER exigiu a saída da empresa do local. Em conformidade com o pontuado, além do argumento ser pouco convincente frente ao porte da BRASCOPPER, denota, no mínimo, que assumiu o risco de se relacionar com fraudadores, visto que o signatário e sócio por parte da CONDEL era um integrante da família Martins e não podemos olvidar que neste contrato só houve transferências da BRASCOPPER para CONDEL, quando normalmente seria o contrário, indicando, pelo conjunto da obra, que nunca se concretizou; 44.10 (...) A bem da verdade, a Fiscalização não comprovou, em realidade sequer descreveu, atos de direção e/ou controle praticados por sócios ou funcionários da BRASCOPPER sobre as empresas R3, METALOX, COPPER GREEN, GLOBAL, ou ainda sobre os membros das famílias MARTINS e MEGIOLARO. (...) Outrossim, os elementos trazidos no TVF não demonstram qualquer “confusão patrimonial” entre as empresas. Em consonância com o até aqui demonstrado, o cabedal probante carreado aos autos não nos deixa dúvidas quanto a umbilical relação entre os sócios da BRASCOPPER e os representantes das famílias Martins e Megiolaro, revelando uma estruturada organização em prol da prática da fraude perpetrada; 44.11 Em relação a procuração concedida a Marcos Vinícius Martins para realizar pagamentos a fornecedores através da conta bancária da BRASCOPPER perante o SICREDI MS/TO, a Defesa afirma que se tratava de um agente financiador, que demonstrou articulação no setor de cobre e no setor de condutores elétricos; viabilizaria uma solução para dívida da Fiscalizada com a SUPER ZINCO – uma das empresas de fachada -; que se encontrava em tratativa para aquisição da Fl. 22626DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 124 METALOX – principal fornecedor da BRASCOPPER e também noteira -; conhecia arrendatários; e poderia reposicionar a BRASCOPER no mercado de cobre. Trata- se de afirmações pouco críveis, especialmente por ser relacionada a um dos principais articuladores da família Martins, considerado pelo Fisco como gerente financeiro da fraude. Ademais, embora a METALOX se apresente como maior fornecedor da BRASCOPPER de vergalhão de cobre no presente caso, contraditoriamente, a Defesa admite que não vendia esta mercadoria, segunda passagem a seguir reproduzida: “que estava em tratativas para comprar a empresa metalox, onde realizaria investimentos para que esta voltasse a trabalhar com laminação de cobre”; 44.12 A Defesa afirma que a indústria de condutores elétricos requer cobre com cerca de 99,9% de impureza e a sucata deste, em nenhuma circunstância, apresenta esse nível de impureza, portanto nunca poderia ter comprado sucata ao invés de vergalhão. (...)A não ser que a indústria, ela própria, tenha todo o aparato necessário para executar também esse processo industrial prévio, de transformação de sucata de cobre em vergalhão, pois é esse último que tem as características físico-químicas necessárias (99,9% de pureza) para servir como condutor elétrico. A Interessada insiste em uma tese que a Fiscalização não contraditou, ou seja, não se questiona nestes autos as vendas dos vergalhões de cobre e de cabos condutores, mas a existência de um esquema de compra de sucata pela BRASCOPPER, por intermédio de empresas nitidamente de fachada, transformação desta sucata em vergalhão de cobre através de empresas laminadoras, repasse destes vergalhões, por meio das noteiras, para BRASCOPPER que se beneficiava dos créditos tributários federais e estaduais relacionadas a essas simuladas aquisições, além da majoração dos custos. Todas as provas e fatos produzidos nos autos, inquestionavelmente, demonstram que as fornecedoras não detinham capacidade operacional para produzir vergalhões; que se relacionaram com sucateiros; que as movimentações financeiras eram incompatíveis; maioria não declarou GFIP; e relações com pessoas ligadas as multicitadas famílias e os sócios da BRASCOPPER; e 44.13 No que tange aos negócios jurídicos praticados entre a BRASCOPPER e a CBL - intermediação de industrialização por encomenda -, a Defesa declara que a Impugnante mantinha um relacionamento antigo com essa laminadora e que (...) prestou serviço de industrialização por encomenda, na qual a R3 requereu que a BRASCOPPER realizasse a transformação da sucata de cobre em vergalhão. Neste ponto, além de ratificar a ilação da Fiscalização sobre o esquema, posto que comumente comprava sucata e encaminhava para transformação em vergalhão de cobre nas laminadoras, não podemos obliterar que restou demonstrando nos autos a condição da R3 de empresa de fachada, cujo sócio era uma interposta pessoa ligada a família Martins, e que o suposto negócio entre elas serviu (...) para dissimular o encomendante da industrialização por encomenda realizada pelas laminadoras e dificultar o olhar do Fisco Federal e Estadual sobre o esquema fraudulento; 45 Prosseguindo, embora os Fiscos Estadual e Federal tenham constatado a inidoneidade das notas fiscais posteriormente à utilização dos créditos pelo comprador, desencadeando uma situação passível de invocar a súmula 509 do Superior Tribunal de Justiça - STJ8, diante dos elementos fático-probatórios acostados aos autos não há como acatar a veracidade da compra e venda de vergalhões de cobre sob julgo, tampouco que a BRASCOPPER se tratava de adquirente de boa-fé, pois ainda que o cadastro das emitentes de notas fiscais estivesse regular à época da realização dos negócios, restou cristalino que a BRASCOPPER mais do que tinha ciência dos ilícitos, era participante ativa da fraude tributária constatada. 46 Reforça a sobredita acepção, o fato de que as diligências realizadas pela SEFAZ/SP e pelo Fisco Federal terem detectado que as noteiras de segundo nível não possuíam capacidade para transformar sucata em vergalhão de cobre. Outrossim, o Fisco Paulista considerou a inscrição estadual da R3, GLOBAL e COPPER GREEN nulas por simulação/inexistência de estabelecimento ou da empresa, sem esquecer que a inscrição Fl. 22627DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 125 estadual da METALOX – com a qual a BRASCOPPER declarou ter antiga relação comercial - foi cassada por participação em organização constituída para a prática de fraude fiscal estadual. Ademais, a má-fé do GRUPO ECONÔMICO também pode ser demonstrada quando se coteja os milhões de reais emitidos em notas fiscais e a constituição ou os pagamentos ínfimos de tributos no ano-calendário fiscalizado, conforme tabela abaixo: 47 Em suma, é INDISCUTÍVEL que a BRASCOPPER tinha ciência da falta de capacidade operacional e econômica da GLOBAL, R3, METALOX e COPPER GREEN e mesmo assim as utilizou com o intuito de obter créditos fictícios da contribuição para o PIS e da Cofins e do ICMS, além de superfaturar seus custos; e, por conseguinte, a fraude fiscal estruturada existiu seja pelas empresas e pessoas físicas envolvidas no caso - sócios da BRASCOPPER em conjunto com os representantes das NOTEIRAS (pessoas relacionadas as FAMÍLIAS MARTINS e MEGIOLARO) - constituírem uma única sociedade de fato, submetida a uma mesma cadeia de direção/operacionalização, pela confusão patrimonial ou pelo ajustes de vontades. 48 Isto significa que, com a confirmação que houve formação de grupo econômico irregular, consumou-se a regra-matriz específica que determina o antecedente jurídico, fundamento basilar para as seguintes consequências jurídicas: arbitramento do lucro; lançamento de ofício do IRRF em decorrência de pagamentos sem causa ou a beneficiários não identificados, qualificação da multa de ofício e responsabilidade tributária solidária dos envolvidos com base no preceituado nos arts. 124, I, e 135, III, ambos do CTN, os quais serão tratados a seguir. Do Arbitramento do Lucro 49 De acordo com o relatado, as Autoridades Fiscais constataram que praticamente 90% do custo informado pela BRASCOPPER em sua contabilidade sobrevieram de notas fiscais inidôneas em face da relação promíscua entre a AUTUADA e as empresas de fachada, inclusive com explicita confusão patrimonial, em conformidade com o exaurido neste voto. Nesse sentido, asseveraram que os aspectos qualitativos e quantitativos dos custos das mercadorias vendidas – sucata ou vergalhão de cobre, quantidade e valor) não gozavam de exatidão ou veracidade, podendo até terem sido inflados a fim de gerar prejuízo no exercício, afetando significativamente a apuração do lucro real, além dos créditos e débitos da Contribuição para o PIS e da COFINS. 50 Acrescenta que, nesta situação, a glosa dos sobreditos custos implicaria em distorção na apuração dos tributos, uma vez que (...) representaria um incremento brutal da base de cálculo do IRPJ, e a possibilidade de que a tributação deixasse de alcançar apenas o lucro real, e passasse a alcançar parte da receita bruta da empresa. Assim, (...) constatado que as informações contábil-financeiras não representam com fidedignidade a realidade dos fatos e das operações comerciais da BRASCOPPER, a mesma não pode ser utilizada para as verificações necessárias à presente auditoria-fiscal, sendo considerada imprestável. (...) Nestes termos, a impossibilidade de comprovação direta da base cálculo originária é condição necessária e suficiente para a aplicação do arbitramento. (g.n.) 51 Indignada a Autuada protestou asseverando que o arbitramento seria nulo. Primeiro, ante ao não cabimento na hipótese, pois, por se tratar de medida excepcional, o entendimento Fl. 22628DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 126 assente na seara administrativa é que (...) seria legítimo quando a contabilidade do contribuinte fosse completamente imprestável para a apuração do lucro real, tal como ocorre, por exemplo, nos casos em que praticamente a totalidade dos custos do contribuinte são desconsiderados por ausência de adequada comprovação. Segundo, (...) por ter sido realizado com fundamento em elementos da contabilidade que paradoxalmente foi tida como não confiável pela própria Fiscalização. 52 Ademais, o responsável tributário FÁBIO CZERKES SANTANA aduziu em defesa da nulidade do arbitramento em apreço, posto que (...) não pode configurar totalidade da receita, ou da movimentação financeira, mas apenas a renda efetiva obtida a partir destas. (...) O entendimento é pacífico, desde longa data, perante a própria Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo, no sentido de que, em casos como o presente, o valor da receita omitida apurada pela autoridade tributária a partir de depósitos bancários e não declarada ao Fisco deve ser, sim, computado para a determinação da base de cálculo do tributo devido. Entretanto, não deve ser confundido com a própria base de cálculo do tributo. 53 Dando continuidade ao julgamento, antes de aprofundarmos a análise se, no presente caso, houve ou não respaldo para que as Autoridades Fazendárias arbitrassem o lucro, é salutar tecermos alguns comentários sobre a essa sistemática de apuração. 54 É cediço que o arbitramento do lucro é medida extrema, somente devendo ser aplicada em caso de evidente excepcionalidade. Não deve ser entendido como uma penalidade, sanção ou regime de exceção, mas como um instrumento, um método de apuração, posto à disposição da administração tributária, a ser adotado naquelas situações em que a fiscalização encontra-se impossibilitada de apurar os resultados tributáveis em decorrência da ausência de escrituração contábil, ou que a escrituração mantida pela contribuinte não mereça fé e esteja em desacordo com a forma estabelecida pelas leis comerciais e fiscais, além da ausência absoluta de outro elemento que tenha condições de aproximar-se do efetivo lucro líquido do período. 55 Melhor dizendo, diante da obrigação legal do fisco de exigir os devidos créditos tributários, a fim de impedir que ele fique de mãos atadas, por falta de acesso aos resultados do contribuinte, o legislador autoriza-o a arbitrar o lucro. É assim que deve ser interpretado o artigo 530 do RIR/999, que define as hipóteses legais de arbitramento. Ou seja, depreende-se da sua leitura que as condições positivadas simbolizam situações nas quais a fiscalização ou não tem acesso à contabilidade, ou a rejeita. 56 Retomando, quanto ao argumento em favor da legitimidade da contabilidade da Fiscalizada, segundo o convencimento firmado neste, restou manifesto que, no ano- calendário de 2016, a BRASCOPPER efetivou aquisição de notas fiscais fraudulentas das empresas COPPER GREEN, GLOBAL, METALOX e R3. Partindo desta premissa, consoante extrato da Escrituração Contábil Fiscal – ECF abaixo, verifica-se que a Fiscalizada indica na conta contábil de custos 4110100000 – CUSTO DE MATERIA PRIMA - lançamentos a débito no total de R$ 149.694.046,38. Desse total, R$ 130.082.268,38 teve como contrapartida lançamentos a crédito das contas contábeis 2110104760 – COPPER GREEN METAIS EIRELI, 2110101742 – METALOX METAIS DERIVADOS LTDA, 2110301875 – R3 METAIS EIRELI EPP, 2110104839 – GLOBAL METAIS LTDA EPP. Isto equivale que aproximadamente 87% do custo informado da BRASCOPPER teve origem em notas fiscais inidôneas, valor bem significativo. Fl. 22629DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 127 57 Ora, considerando que, no ano-calendário de 2016, o Sujeito Passivo estava sujeito à apuração do Lucro Real (anual), conforme ECF 2016, ao se verificar a necessidade de glosas tão abrangentes, correta a atitude da Autoridade Autuante em considerar a escrita da Interessada imprestável para a apuração do lucro real e recorrido ao arbitramento. Pensar diferente, quer dizer, glosar montante tão expressivo, significaria impor indevidamente regime de tributação mais gravoso à BRASCOPPER, o que é repudiado, de forma veemente, pela jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF. Inclusive, a Defesa do solidário, embora equivocada, em razão do presente embate não se referir à omissão de receita, muito menos à depósitos bancários, em seus argumentos inclina-se em favor da sobredita dedução ao mencionar: “não pode configurar totalidade da receita, ou da movimentação financeira, mas apenas a renda efetiva obtida a partir destas”. 58 Nesse sentido, são os precedentes da jurisprudência do CARF, cujas ementas de acórdãos transcrevo, in verbis: ASSUNTO: ARBITRAMENTO DO LUCRO DESCLASSIFICAÇÃO DA ESCRITA CONTÁBIL. Correta a desclassificação da escrita contábil e o conseqüente arbitramento do lucro se o contribuinte escritura de forma resumida, por partidas mensais, sem o uso de livros auxiliares e, intimado, não providencia o refazimento da escrituração, impossibilitando a aferição, por parte do Fisco, do lucro real. (1° CC, 5ª Câmara, Acórdão 105 17.090, DOU 06/03/2009). ASSUNTO: IRPJ E CSLL. ARBITRAMENTO DO LUCRO. GLOSA DE PARTE SUBSTANCIAL DOS CUSTOS. DESCLASSIFICAÇÃO DA ESCRITA CONTABIL/ FISCAL. Efetuada pela Fiscalização a glosa de parte significativa dos custos auferidos pelo contribuinte vis a vis os valores declarados, incumbe lhe desclassificar a escrita contábil/fiscal apresentada por ser esta evidentemente inservível para apuração do lucro real. Nesses casos, deve a Autoridade arbitrar o lucro da pessoa jurídica, sob pena de fazer incidir os citados tributos sobre valores que sabidamente não caracterizam renda (lucro) do contribuinte. O arbitramento considera, por ficção legal, as despesas incorridas pelo contribuinte para a geração da receita omitida. (1° CC, 3ª Câmara, Acórdão 103-22.973, DOU 24/07/2008) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano- calendário: 2002 OBRIGATORIEDADE DO ARBITRAMENTO GLOSA SUBSTANCIAL DOS CUSTOS DO PERÍODO Não é cabível o lançamento pelo regime do lucro real, se a Fiscalização glosou montante expressivo dos custos do período. Nesse caso, impõe-se o arbitramento do lucro. (Acórdão nº 1401002.162 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, sessão de 19/02/2018, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA E OUTROS Anos-calendário: 2003 a 2005 (...) GLOSA TOTAL DE CUSTOS E DE DESPESAS. IMPOSSIBILIDADE. Não cabe glosar a totalidade dos custos e das despesas, sem aprofundamento da investigação pela Fiscalização. Hipótese que demanda o arbitramento do lucro exacionável. (Acórdão 110100.805 – 1ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, sessão de 13/09/2012, Relator BENEDICTO CELSO BENÍCIO JÚNIOR). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano- calendário: 2002 GLOSA TOTAL DE CUSTOS E DESPESAS, NÃO CABIMENTO. Não é cabível a glosa total de custos e/ou despesas da pessoa jurídica por falta de comprovação. Se a escrituração da empresa não possui lastro em documentos hábeis e idôneos, a sua contabilidade não se presta a apurar o lucro real, de modo que o arbitramento do lucro deve ser adotado como forma de apuração dos tributos devidos. (Acórdão 110200.366 — 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, sessão de 16/12/2010, JOÃO OTÁVIO OPPERMANN THOME Relator). Fl. 22630DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 128 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano- calendário: 2004, 2005, 2006, 2007 GLOSA DE CUSTOS. ARBITRAMENTO. Incabível a preservação da tributação pelo lucro real quando a autoridade fiscal procede à glosa da totalidade dos custos dos bens e serviços vendidos. Não sendo possível identificar quais os custos passíveis de glosa, deve o Fisco arbitrar o lucro da pessoa jurídica, pois a tributação pelo lucro real pressupõe a existência de escrituração regular, assim entendida aquela que tem seus lançamentos lastreados por documentos hábeis e idôneos, registrados em livros comerciais e fiscais, tendo como ponto de partida o lucro líquido, que é a soma algébrica de receitas, custos e despesas. (Acórdão nº 1301-001.260 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, sessão de 11/06/2013, Relator Edwal Casoni de Paula Fernandes Junior). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano- calendário: 1999 LUCRO REAL. GLOSA DA TOTALIDADE DOS CUSTOS E DESPESAS POR INOBSERVÂNCIA DOS PRESSUPOSTOS PARA SUA APURAÇÃO. ARBITRAMENTO DO LUCRO. A glosa da quase totalidade dos custos e das despesas operacionais, por falta de comprovação com documentação hábil e idônea, denota que a contabilidade do contribuinte é imprestável para se apurar o lucro real, devendo ser aplicado o regime do arbitramento. (Acórdão 120200.418 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, sessão de 10/11/2010, Nereida de Miranda Finamore Horta Relatora). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano- calendário: 2003, 2004, 2005 GLOSA DE CUSTOS/DESPESAS. DOCUMENTOS INIDÔNEOS. OPERAÇÕES NÃO COMPROVADAS. Procede a glosa de custos/despesas relativos a documentos inidôneos ou cujas operações não foram comprovadas. ARBITRAMENTO DE LUCRO POSTULADO EM IMPUGNAÇÃO DE LANÇAMENTO. O arbitramento de lucros pela autoridade fiscal deve ser medida constatada nas hipóteses do artigo 530 do RIR, sendo que eventual glosa de custo de 20% e 30% em relação ao Lucro apurado pela fiscalização não permite afirmarmos que a contabilidade da empresa era imprestável. (Acórdão 1201 00.601 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, sessão de 20/10/2011, RAFAEL CORREIA FUSO Relator). IRPJ/CSLL GLOSA DO TOTAL DAS CONTAS DE CUSTOS/DESPESAS NÃO CABIMENTO Este Colegiado tem reiteradamente decidido que lançamentos calçados na glosa pura e simples dos totais da contas de custos ou despesas operacionais não reúnem os necessários requisitos de liquidez e certeza. A resistência do contribuinte em apresentar comprovantes de custos ou despesas deve ser enfrentada com as ferramentas legais disponíveis, entre elas o arbitramento dos lucros e o agravamento da penalidade por descumprimento do dever geral de se submeter à auditoria fiscal. (Acórdão 107 08.308, sessão de 20/10/2005, Relator Luiz Martins Valero). DESPESAS/CUSTOS — GLOSA — A glosa praticamente integral dos custos e despesas haverá de ensejar quando muito a aplicação da tributação sob a forma do chamado arbitramento em face da então imprestabilidade da escrita. Nunca porém a sua glosa sob pena da subversão do fato gerador dentro do chamado "lucro real" onde as despesas/custos devem ser abatidas da receita, assim apurandose a base de cálculo imponível. (Acórdão 10321.494, sessão de 29/01/2004, VICTOR LUIS DE SALLES FREIRE RELATOR). RECURSO EX OFFÍCIO. IRPJ GLOSA DA (QUASE) TOTALIDADE DE CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS — FALTA DE APRESENTAÇÃO DOS DOCUMENTOS CORRESPONDENTES — LUCRO REAL— IMPOSSIBILIDADE — A glosa de 95% dos custos e despesas operacionais declarados pelo contribuinte, impossibilita a apuração do lucro real, por falta dos requisitos essenciais da tributação com base no lucro real, qual seja, a escrituração contábil respaldada em livros e documentação hábil e idônea. Nestas circunstâncias, o procedimento adequado é o arbitramento do lucro. (Acórdão 01-95.900, sessão de 06/12/2006, Relator Paulo Roberto Cortez). Fl. 22631DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 129 IRPJ GLOSA DA TOTALIDADE DOS CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS — NÃO-ACEITAÇÃO PELO FISCO DE CÓPIA MICROFILMADA DOS DOCUMENTOS — ARBITRAMENTO DO LUCRO OBRIGATÓRIO. A glosa da totalidade dos custos e despesas operacionais, em face da não aceitação pelo Fisco de cópia microfilmado dos documentos que os comprovem, implica a desconsideração da escrituração contábil e impõe o arbitramento do lucro. Na falta do arbitramento, não subsiste o lançamento. (Acórdão 101 92.949, sessão de 25/01/2000, Edison Perreira Rodrigues, Presidente e Relator). 59 Uma vez que restou correta a adoção do arbitramento do lucro pela Fiscalização, também sobejou adequada a utilização da receita bruta registrada na contabilidade da BRASCOPPER, em respeito ao disposto no art. 532, do RIR/9910(para o IRPJ) e no art. 29, inciso I, da Lei nº 9.430/9611 (para a CSLL). 60 Isto porque, conforme explanado, o lucro arbitrado caracteriza-se como uma base de cálculo excepcional e subsidiária do imposto sobre a renda da pessoa jurídica, com os devidos efeitos sobre os tributos decorrentes. Nessa linha cognitiva, o arbitramento do lucro é obrigatório e vinculado à Administração Tributária, quando incidentes as hipóteses legais que determinam o feito, como ocorreu no presente caso. 61 Assim, de modo inverso ao pretendido pela Interessada, não poderia a autoridade fiscal tentar reconstituir analiticamente o lucro real. Trata-se de aplicação do princípio da segurança jurídica na esfera tributária e, por conseguinte, de cumprimento do determinado nos preceitos legais, onde se subsome a adoção da metodologia prevista na legislação vigente à época dos fatos, quer dizer levantamento da receita bruta conhecida do Contribuinte, como base de cálculo do lançamento de ofício do IRPJ, mediante a aplicação dos percentuais fixados no art. 519 do RIR/9912, acrescidos de vinte por cento, e no caso da CSLL, a soma dos valores de que trata o art. 20, da Lei nº 9.249/9513. 62 No caso concreto, para determinar a receita bruta, os Agentes Fiscais tomaram como base as notas fiscais emitidas pela Impugnante, e excluíram as relacionadas às operações fictícias identificadas no procedimento inquisitorial. Quer dizer, desconsideraram todas as industrializações por encomenda e vendas que a BRASCOPPER realizou para as empresas do GRUPO ECONÔMICO, dada que resultou definido que o real industrializador foram as empresas laminadoras. 63 Nessa senda, chegaram à receita bruta conhecida de R$ 251.211.657,76, em 2016, para BRASCOPPER, a ser utilizada no cálculo dos tributos devidos, demonstrada mensalmente na tabela abaixo: 64 Quanto ao PIS e à COFINS, em face da apuração do IRPJ pelo lucro arbitrado, acertada foi a apuração com base no regime de incidência cumulativa (com alíquotas de 0,65% e 3%, respectivamente), nos termos do art. 8º, inciso II, da Lei nº 10.637/0214 (PIS) e art. 10, inciso II, da Lei nº 10.833/0315 (COFINS). 65 Pelo exposto, irretocável o arbitramento do lucro, nos exatos termos em que realizado no procedimento fiscal guerreado. Fl. 22632DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 130 Dos Pagamentos Sem Causa ou a Beneficiário Não Identificado 66 Em relação ao lançamento de ofício do IRRF, em respeito a exigência do art. 61, da Lei nº 8.981/9516, em breve síntese, a Fiscalização inferiu que (...) os pagamentos realizados pela BRASCOPPER a integrantes do grupo econômico (noteiras) não possui causa (no sentido econômico), pois não correspondem a pagamentos realizados pela compra da mercadoria estampada nas notas fiscais (vergalhão de cobre) recebidas das noteiras. Além disso, os reais beneficiários destes pagamentos não são as emitentes de notas fiscais (noteiras), mas sim os sucateiros. Portanto, as noteiras realizaram meros repasses dos recursos financeiros recebidos da BRASCOPPER.(g.n.) 67 Insatisfeita a BRASCOPPER protestou em favor da impossibilidade de manutenção da autuação à epígrafe, com base nas seguintes argumentações: 67.1 Em razão da Fiscalização ter identificado a causa/operação e os beneficiários dos pagamentos realizados; 67.2 Em decorrência da incidência do IRRF a 35% jamais poder configurar penalidade a qualquer prática de ilicitude por parte do contribuinte, devendo somente incidir quando verificada manifestação de acréscimo patrimonial dentro dos limites definidores do seu fato gerador; e 67.3 Devido a ilegalidade da exigência do IRRF à epígrafe, concomitante com a glosa de custos que justificaram a lavratura dos autos de IRPJ e da CSLL, visto que: 67.3.1 (...) a aplicação do art. 61, historicamente, seria somente desencadeada no momento em que normas especiais de regência da matéria não lhe sobrepusessem. No caso, a norma especial a que faz remissão o caput do artigo é aquela trazida pelo art. 44, da Lei n. 8.541/92; 67.3.2 (...) Da leitura conjunta destes dispositivos, verifica-se que o legislador, historicamente, concebeu o art. 61, da Lei n. 8.981/95 visando alcançar uma gama de hipóteses que não fosse alcançada pelo art. 44 da Lei n. 8.541/92, tanto é que teve a cautela de redigir em seu caput a ressalva de aplicação preponderante de regra especial; 67.3.2 (...) Todavia, com a publicação da Lei n. 9.249/95, em 27.12.1995, o art. 44 da Lei n. 8.541/92 foi revogado (conforme se verifica de seu art. 36, inc. IV), sem que qualquer outro dispositivo lhe substituísse com o mesmo permissivo; e 67.3.4 (...) Nessa esteira, verifica-se, portanto, que o animus do legislador foi justamente retirar do ordenamento jurídico a hipótese de se exigir de ofício concomitantemente (i) o IRPJ e a CSLL decorrentes da glosa da despesa e (ii) o IRRF devido à alíquota de 35% sobre o mesmo montante. 68 É essencial preceder à análise do tema, trazermos à baila a hermenêutica prevalente relacionada ao positivado no art. 61, da Lei nº 8.981/95. Por meio do seu caput, instituiu-se a tributação exclusiva na fonte sobre rendimentos pagos a beneficiários não identificados. Igualmente, o seu § 1º aplica a mesma tributação quando há constatação do pagamento/entrega de recursos a terceiros, mas não for comprovada a operação ou a sua causa, ou seja, se o Fisco se depara com pagamentos cujas operações ou a sua causa não forem comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, sujeitará o Sujeito Passivo à incidência do imposto de renda (que deveria ter sido retido na fonte), exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, a título de pagamento sem causa. 69 Destarte, de acordo com a norma apontada, a lei estabelece 3 (três) hipóteses distintas de incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, a saber: 69.1 Pagamentos efetuados a beneficiários não identificados — quando a Pessoa Jurídica, devidamente intimada, não logra êxito em identificar para quem efetuou o pagamento, ou se o Fisco fizer prova de que o beneficiário que a Pessoa Jurídica registrou e aponta como recebedor do pagamento, de fato, nada tenha recebido; Fl. 22633DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 131 69.2 Pagamentos sem causa — a Pessoa Jurídica não logra êxito em comprovar a efetividade da operação relacionada ao pagamento, ou se o Fisco fizer prova de sua inidoneidade, ou seja, de que a operação não se realizou. No caso de pagamentos efetivos de operações inexistentes, lastreados em documentação inidônea, além do lançamento do IRF, é cabível a glosa dos custos/despesas, tratando-se de Pessoa Jurídica optante pelo lucro real; 69.3 Concessão de benefícios indiretos de que tratam o artigo 74 da Lei no. 8.383, de 1991 — se o valor correspondente ao benefício for tratado como remuneração dos beneficiários para fins de incidência do imposto de renda. Neste caso, além do pagamento, cabe ao fisco fazer prova da ocorrência dos benefícios indiretos. 70 Em relação às hipóteses "69.1" e "69.2", infere-se que cabe ao fisco, antes de qualquer coisa, assegurar-se de que os pagamentos foram realizados, pois o fato gerador ocorre justamente pela percepção desses valores pelos beneficiários. A ocorrência do pagamento deve estar provada. Todavia, essa prova pode ser feita com a própria contabilidade da empresa. Nesse caso, se houver erro nos registros contábeis, o ônus da prova é do interessado. No que tange ao item "69.3", cabe ao fisco fazer prova da ocorrência dos benefícios indiretos. 71 É de se esclarecer, que é cristalina a diversidade dos pressupostos de incidência, ou seja, "quando não for indicada a operação", "quando não for indicada a causa", "quando o comprovante do pagamento não individualizar o beneficiário", e “quando ocorrer a hipótese de que trata o § 2º, do art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991”. Como também é evidente que as hipóteses de incidência previstas na multicitada norma não são cumulativas, ou seja, basta ocorrer uma delas para que flore o fato gerador do imposto de renda na fonte. Além disso, é importante frisar que o que está sendo tributado, exclusivamente na fonte, são os rendimentos recebidos pelos terceiros, sócios ou pessoas não identificadas. O interessado é o sujeito passivo da obrigação tributária por ter realizado o pagamento irregular. Não se trata de tributação dos recursos utilizados nos pagamentos, até porque, em princípio, o ingresso de tais recursos se deu de forma regular. 72 Todavia, em que pese tudo isso, data máxima vênia, entendo que ficou perfeitamente definido o fato gerador do IRF com base no artigo 61 da Lei n.° 8.981/95. Já que o seu aparente nó górdio se situa na fronteira entre a ocorrência ou não da efetuação do pagamento dos valores lançados, pressuposto material para o necessário enquadramento naquele tipo legal. 73 Retomando a apreciação do caso concreto, no que toca a primeira argumentação da Defesa, verifica-se que, nos autos, restou devidamente comprovado que os pagamentos existiram, inclusive a própria Interessada os carreou aos autos juntamente com a peça impugnatória, e que não possuíam causa legal ou efetiva, visto que não mantém justa relação com a suposta compra de vergalhão de cobre das noteiras, integrantes do grupo econômico irregular. Ademais, por elas não deterem capacidade operacional para fornecer tais mercadorias, caracterizaram-se beneficiários aparentes, em razão dos reais terem sido os sucateiros não identificados, quer dizer os fornecedores indicados pela Defesa, em verdade se tratava de meros repassadores de recursos financeiros recebidos da BRASCOPPER. 74 A Impugnante não explicou e nem comprovou através de documentação hábil e idônea, de forma convincente, o nexo causal que a levou efetuar pagamentos para tais beneficiários, apresenta somente alegações estribadas por documentos: que não estão relacionados aos fatos geradores considerados na autuação; ou de naturezas contábeis e fiscais da própria lavra que não demonstram de forma clara o acontecido, e por si só, não são suficientes para justificar qualquer dúvida quanto à efetividade da infração que lhe é imputada, uma vez se tratarem de meras alegações sem ajuntada de qualquer comprovante convincente que as alicercem - diante dos valores e volumes envolvidos, é inconcebível admitir que não existam: contratos ou outros documentos semelhantes; formalização dos pedidos dos vergalhões de cobre por meio de e-mails da BRASCOPPER aos fornecedores relacionados à fraude; ou comprovantes de pesagem das mercadorias recebidas dos fornecedores. Fl. 22634DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 132 75 Ao contrário de suas alegações, exatamente no que competia à empresa é que o Fisco encontrou irregularidades, pois os documentos que lhe foram apresentados são inidôneos e não hábeis para justificar os registros contábeis efetuados, e isso é fruto das irregularidades. 76 É fato que o direito processual consagrou o princípio de que a prova incumbe a quem afirma. Porém, é igualmente sabido que não se pode apresentar prova inconteste de fato negativo, como por exemplo, no caso da lide, que os pagamentos não existiram. Nesses casos admite-se que a prova se faça por meios dos lançamentos contábeis existentes, cabendo à parte demandada a contraprova de que os pagamentos efetuados se destinaram a beneficiário identificado, comprovando a respectiva operação e causa. 77 É remansoso nos autos que houve a realização dos pagamentos. Entretanto, se a Defesa não trouxe aos autos documentação comprobatória que os pagamentos se destinaram a beneficiário identificado, indicando a causa e comprovando a operação, está evidente, que os recursos foram repassados para alguém não identificado, ou, quando identificado, não ficou comprovada a operação ou a sua causa. 78 Ora, só no fato de não haver a identificação de quais são os beneficiários dos recursos providos pelo Sujeito Passivo, ou, caso haja a identificação, não restando comprovada a operação ou a sua causa, já estariam caracterizadas com perfeição as hipóteses previstas no artigo 61, da Lei n° 8.981/95. 79 No presente caso, repisamos que, quanto aos comprovantes existentes indicando como beneficiário a pessoa indicada na contabilidade, verificou-se que se tratava de meros repasses para os sucateiros – reais beneficiários -, bem como pela evidente incapacidade operacional dos fornecedores, não restou comprovada a operação ou causa efetiva dos pagamentos realizados, razão pela qual a Fiscalização, acertadamente considerou ilícitos os procedimentos, porque, entendeu que estes revelavam a intenção clara da Impugnante em omitir a verdadeira intenção do repasse dos recursos. (multa qualificada) 80 Não nos parece relevante o argumento baseado exclusivamente no fato de que os discutidos valores estavam devidamente registrados em notas fiscais, escriturados na ECD e na ECF e a existência física da empresa, já que não há discussão sobre este fato, e sim que não houve comprovação que aquelas mercadorias constantes do documentário fiscal foram entregues. 81 Indiscutivelmente, a escrituração só é válida quando legitimada por documentos hábeis e idôneos. Entendo, que é inútil examinar se a escrituração era regular ou não, ou se o valor se encontrava ou não escriturado, pois o artigo 61, § 1°, da Lei n°. 8.981, de 1995, é claro ao dispor que "a incidência prevista no caput se aplica, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa.". No caso sob exame a contribuinte, com ou sem escrituração regular, não logrou provar a causa do pagamento objeto da autuação. 82 Entendo que está perfeitamente caracterizada a hipótese descrita na lei — a falta de comprovação da causa do pagamento realizado -, por lado, são, totalmente, descabidas as alegações de que o pagamento está escriturado regularmente com a emissão do documentário fiscal relativo às operações, já que não foi comprovada a operação ou a sua causa. 83 Ora, o efeito da presunção "juris tantum" é de inversão do ônus da prova. Portanto, cabia ao sujeito passivo se o quisesse apresentar provas da efetiva operação ou causa. Oportunidade que lhe foi proporcionada tanto durante o procedimento inquisitorial, através de intimação, como na impugnação, na fase ora contenciosa. Nada ou quase nada foi acostado que afastasse a presunção legal autorizada de que os pagamentos foram realizados a beneficiário não identificados ou sem causa. 84 Em abono a sobredita interpretação, veja-se precedentes do CARF, consoante ementas, verbis: IRRF - PAGAMENTO SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO - RESPONSABILIDADE DA FONTE PAGADORA - A pessoa jurídica que efetuar pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado sujeitar-se-á ao pagamento Fl. 22635DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 133 do Imposto sobre a Renda, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%. (Acórdão 104-21.900, sessão de 21/09/2006, Relator Pedro Paulo Pereira Barbosa). PAGAMENTO A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO OU PAGAMENTO EFETUADO SEM COMPROVAÇÃO DA OPERAÇÃO OU CAUSA - LEI n o. 8.981, DE 1995, ART. 61 -CARACTERIZAÇÃO - A pessoa jurídica que efetuar pagamento a beneficiário não identificado ou não comprovar a operação ou a causa do pagamento efetuado ou recurso entregue a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, bem como não comprovar o pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos ou mercadorias ou a utilização dos serviços referida em documentos emitidos por pessoa jurídica considerada ou declarada inapta, sujeitar-se-á à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, a título de pagamento a beneficiário não identificado &ou pagamento a beneficiário sem causa. O ato de realizar o pagamento é pressuposto material para a ocorrência da incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte, conforme o disposto no artigo 61, da Lei n°. 8.981, de 1995. (Acórdão 104-22.944, sessão de 22/01/2008, Relator Nelson Mallmann). PAGAMENTOS A EMPRESAS INEXISTENTES DE FATO — REPRESENTANTES COMERCIAIS DO RECORRENTE E FORNECEDORES DE BENS - COMPROVAÇÃO DOS PAGAMENTOS, INCLUSIVE COM OS CHEQUES EMITIDOS, NOMINAIS E CRUZADOS, ÀS REPRESENTANTES COMERCIAIS — VALORES VULTOSOS — AUSÊNCIA DE MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA EM NOME DAS EMPRESAS REPRESENTANTES E DE SEUS SÓCIOS — REPRESENTANTES E SÓCIOS DESTAS NÃO COMPROVAM A RELAÇÃO COMERCIAL COM O RECORRENTE — RECORRENTE NÃO LOGRA COMPROVAR O NEXO CAUSAL ENTRE OS PAGAMENTOS E OS SERVIÇOS E PRODUTOS ADQUIRIDOS — MANUTENÇÃO DA TRIBUTAÇÃO NA FORMA DO ART. 61 DA LEI N° 8.981/95 — NOTAS FISCAIS DE SERVIÇO SEM SUPORTE IDEOLÓGICO - MANUTENÇÃO DA MULTA QUALIFICADA - Comprovado por diligências in loco nos pretensos domicílios tributários dos representantes comerciais de que estes não existem, aliado à inexistência de movimentação financeira dessas empresas representantes e de seus sócios, à ausência de comprovação do nexo causal entre os pagamentos e os serviços adquiridos, à presença de empresa com objeto social no segmento de construção civil, tudo isso faz robusta prova de que os pagamentos não tiveram causa. Nessa senda, a apresentação de notas fiscais de serviço sem suporte ideológico e a inexistência de fato dos fornecedores justificam a qualificação da multa de ofício lançada. (Acórdão 106-17.005, sessão de 06/08/2008, Relator Geovanni Christian Nunes Campos). 85 Pelo exposto, afasto as alegações da Impugnante, visto que restou constatado que foram realizados pagamentos a beneficiários aparentes – noteiras -, ao invés dos reais – sucateiros -, bem como devido a irrefutável incapacidade operacional dos fornecedores, não foi comprovada a operação ou causa efetiva dos pagamentos realizados. 86 Subsidiariamente, primeiro a BRASCOPPER alegou o caráter de penalidade do IRRF previsto no art. 61 da Lei nº 8.981/95. Sobre tal alegação, cumpre observar, inicialmente, que a Impugnante busca, por via transversa, que este colegiado deixe de aplicar a lei vigente, aplicada ao caso concreto pelo Fisco, o que é vedado pelas normas legais e pela Súmula CARF nº 2, verbis: Súmula CARF n° 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. 87 Não obstante, como dito alhures, o IRRF cobrado nesta situação do sujeito passivo tem a natureza de uma presunção legal de que o mesmo deixou de reter e recolher o IRRF devido em face de pagamentos comprovadamente efetuados a terceiros, não identificados ou cuja causa ou operação não se comprova, assumindo o ônus pelo pagamento do imposto, sendo erigido pela lei à condição de responsável pelo seu pagamento. Fl. 22636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 134 88 Esta previsão legal nada tem de extraordinária ou atípica e se coaduna com o princípio da praticabilidade tributária, conforme bem analisou o i. Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada, ao proferir o voto condutor no Acórdão nº 2202-003.475, verbis: (...) Convém citar, então, o princípio da praticabilidade tributária, na lição de Regina Helena Costa: “A praticabilidade, também conhecida como praticidade, pragmatismo ou factibilidade, pode ser traduzida, em sua acepção jurídica, no conjunto de técnicas que visam a viabilizar a adequada execução do ordenamento jurídico. (...) O princípio da praticabilidade tributária constitui limite objetivo destinado à realização de diversos valores, podendo ser apresentado com a seguinte formulação: as leis tributárias devem ser exeqüíveis, propiciando o atingimento dos fins de interesse público por elas objetivado – qual seja, o adequado cumprimento de seus comandos pelos administrados, de maneira simples e eficiente, e a devida arrecadação dos tributos. Em conseqüência, os atos estatais de aplicação de tais leis – administrativos e jurisdicionais – ficam jungidos aos ditames da praticabilidade, de modo a não frustrar a finalidade pública estampada na lei.” (COSTA, Regina Helena. Praticabilidade e Justiça Tributária. Malheiros: 2007, p. 388/390) Ensina ainda a Autora que a praticabilidade manifesta-se como princípio difuso por meio de diversos instrumentos como as chamadas abstrações, presunções, indícios e cláusulas gerais. O artigo 674 do RIR/1999, utilizado pela fiscalização para embasar este lançamento, entendo, enseja dar praticabilidade ao devido recolhimento do imposto de renda, exatamente em casos como este, em que se faz um repasse a terceiro e, regularmente intimado, não se presta informação sobre os efetivos beneficiários dos pagamentos ou sua causa. Quando uma pessoa jurídica faz pagamentos a outra, está obrigada a efetuar a retenção do imposto correspondente, na fonte, e repassá-lo, depois, ao Erário. Mas se sua escrita contábil é inexistente ou inconsistente e não é possível determinar a quem pagou e por que pagou? Aplicam-se os dispositivos da lei e do regulamento, aqui em caso. Obviamente que quando a lei diz que fica sujeito à incidência do imposto todo pagamento a beneficiário não identificado, o sujeito passivo desse imposto só pode ser quem efetuou o pagamento. Claramente é ele quem tem o dever de identificar o beneficiário e a causa do pagamento, não o Fisco, como alude o recurso. (...) 89 Ainda, na mesma linha acima, o Acórdão n° 1302-002.087, sessão de 23 de março de 2017, relator o Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado, que restou assim ementado: IRRF. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS. NATUREZA DE PENALIDADE. NÃO CONFIGURAÇÃO. PRINCÍPIO DA PRATICABILIDADE TRIBUTÁRIA. O IRRF cobrado em face da não identificação do beneficiário ou da não comprovação da operação ou sua causa decorre da presunção legal de que a fonte pagadora assumiu o ônus pelo pagamento do imposto que deixou de reter e recolher em face de pagamentos comprovadamente efetuados a terceiros, sendo erigido pela lei, nestes casos, à condição de responsável pelo seu pagamento. Esta previsão legal não tem a natureza de sanção por ato ilícito e se coaduna com o princípio da praticabilidade tributária. 90 Assim, afasto as alegações da Impugnante no sentido de que a exigência do IRRF, nestes casos, teria o caráter de penalidade. 91 Por fim, a terceira argumentação e segunda alegativa subsidiária da Defesa referiu-se à inexistência de amparo legal para o lançamento do IRRF sobre pagamentos a beneficiários Fl. 22637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 135 não identificados ou sem causa quando tais pagamentos foram objeto de glosa de custos e despesas. Nessa senda, embora o caso em apreço não trate em particular de glosa de custos, visto que a Fiscalização efetivou o arbitramento dos lucros, concordamos que há relação, pois nos convencemos que aproximadamente 87% do custo escriturado pela BRASCOPPER teve origem em notas fiscais inidôneas e, conforme vimos, a adoção da consequente glosa se apresentou inviável devido a relevância quando cotejado ao total do custo da matéria prima no período fiscalizado; como também pelo amor ao debate, apreciaremos a argumentação em questão. 92 Em brevíssima síntese, a Impugnante sustenta que o art. 44, da Lei nº 8.541/92 era a norma especial, ressalvada ao final do caput do art. 61, da Lei nº 8.981,95, que prevalecia sobre o conteúdo deste, tanto que, além de não a revogar, a mesma norma - Lei nº 8.981/95 - equiparou as alíquotas, colocando-as no patamar de 35%. Conclui asseverando que a revogação do art. 44, pela Lei nº 9.249/95, que trouxe nova sistemática à tributação dos lucros, não permite que o art. 61, da Lei nº 8.981/95 alcance situação que antes era tratada pelo art. 44, da Lei nº 8.541/92 (Presunção de distribuição automática de lucros aos sócios, tributada exclusivamente na fonte), por conseguinte, extraiu-se do ordenamento jurídico a (...) hipótese de se exigir de ofício concomitantemente (i) o IRPJ e a CSLL decorrentes da glosa da despesa e (ii) o IRRF devido à alíquota de 35% sobre o mesmo montante. 93 Entendo, que o raciocínio empreendido pela Interessada, ainda que apoiado em decisões administrativas dos órgãos fazendários, exige um maior aprofundamento. 94 Examinando as normas citadas pela Defesa, verifica-se que foram editadas num contexto em que os lucros apurados pelas pessoas jurídicas quando distribuídos aos sócios e acionistas eram tributados e em que determinadas situações eram consideradas como distribuição disfarçada de lucros, sujeitas à tributação exclusiva na fonte. 95 É com este pano de fundo que o Parecer Normativo - PN CST nº 4/94 analisou a continuidade da vigência ou não do art. 8º do DL. nº 2065/1983, em face do art. 35 da Lei nº 7.713/1988, que instituiu o Imposto de Renda na Fonte sobre o Lucro Líquido. 96 Este é o objeto do referido parecer que, an passant, aborda a incidência do IRRF, com base no art. 8º do Decreto-Lei nº 2.065/83 e no art. 44 da Lei nº 8.541/92, sobre a receita omitida ou diferença verificada na determinação do lucro líquido, em decorrência de procedimentos irregulares de distribuição de valores aos sócios. 97 Também as decisões colacionadas referem-se à legislação aplicada no contexto da tributação dos lucros distribuídos, sejam eles apurados contabilmente, sejam os considerados automaticamente distribuídos quando apurados em lançamento de ofício. 98 Naquele contexto, me parece bastante razoável que não se cogitasse da tributação exclusiva na fonte dos lucros considerados automaticamente distribuídos aos sócios e ao mesmo tempo fosse aplicada, no caso de glosa de custos e despesas consideradas inidôneas, a cobrança do IRRF sobre pagamentos sem causa ou a beneficiários cuja origem não fosse identificada, pois configuraria, claramente, uma exigência em duplicidade ou bis in idem. 99 A Combatente alega que o disposto no art. 44, da Lei nº 8.541/92 seria a regra especial, prevista no art. 61, da Lei n° 8.981/95, que atrairia a tributação na fonte dos rendimentos (lucros) apurados em face destas glosas e que, uma vez revogada pela Lei nº 8.981/1995, não poderia ser aplicada ou substituída pela tributação prevista no art. 61, da Lei nº 8.981/95. 100 Entendo que se equivoca a BRASCOPPER, pois a ressalva contida na parte final do art. 61, da Lei nº 8981/95 visava exatamente a não tributação em duplicidade dos mesmos rendimentos em face de duas legislações distintas que previam regras similares. 101 De outra parte, o art. 44, da Lei nº 8.541/199217 alcançava as situações em que restasse configurado o benefício direto dos sócios ou acionistas. 102 O art. 61 da Lei nº 8981/1995, por sua vez, é mais abrangente e alcança todos os pagamentos efetuados a beneficiários não identificados ou cuja operação ou causa não é comprovada, independente de quem seja o real beneficiário dele (sócios/acionistas ou terceiros, contabilizados ou não), elegendo a pessoa jurídica responsável pelo pagamento Fl. 22638DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 136 efetivamente comprovado como responsável pelo recolhimento do imposto de renda devido pelo beneficiário, presumindo-se que assumiu o ônus pelo referido pagamento. 103 No mesmo sentido da aplicabilidade do dispositivo, transcrevo o voto vencedor da i. Conselheira Edeli Pereira Bessa, no Acórdão nº 1101-000.825, verbis: O presente voto expressa os fundamentos para manutenção das exigências de IRRF, uma vez que restou vencido o I. Relator em sua proposta de exoneração de tais créditos tributários. Argumentou o I. Relator que os lançamentos de IRPJ e CSLL aqui veiculados não poderiam coexistir com o lançamento de IRRF em razão dos mesmos glosados na apuração daqueles tributos, reportando-se a julgados deste Conselho que somente admitem a exigência de IRRF desde que o mesmo fato/valor que servir de base, não caracterize hipótese de redução do lucro líquido, quer por receita omitida, que por glosa de custos e/ou despesas, situações tipicamente submetidas ao IRPJ segundo as normas pertinentes à tributação pelo lucro real, em razão de disposição legal específica aplicável nesta segunda hipótese, veiculada no art. 44 da Lei nº 8.541/92. Isto porque, como demonstrado no voto do I. Relator, o art. 44 da Lei nº 8.541/92 determinava a exigência de IRRF à alíquota de 25% nos casos de redução indevida do lucro líquido, presumindo de forma absoluta que esta diferença fora automaticamente recebida pelos sócios. Todavia, a dúvida acerca da aplicabilidade do art. 61 da Lei nº 8.981/95 somente existiria, na forma exposta, enquanto vigente o art. 44 da Lei nº 8.541/92, revogado pela Lei nº 9.249/95. A partir daí (como é o caso destes autos), ausente a presunção legal de distribuição daqueles valores aos sócios, nenhum impedimento existiria para a caracterização da hipótese fixada no art. 61 da Lei nº 8.981/95, que na verdade parte do fato provado de entrega de recursos a um terceiro não identificado, ou por razões não demonstradas, e erige a presunção, apenas, de que tais rendimentos seriam passíveis de tributação na pessoa do beneficiário. No presente caso, portanto, há duas incidências distintas: 1) o IRRF exigido da autuada na condição de responsável (fonte pagadora de rendimentos) que não se desincumbiu de seu dever de identificar o beneficiário e/ou a causa do pagamento e, por conseqüência, permitir ao Fisco confirmar a regular tributação de eventual rendimento auferido por este beneficiário, e 2) o IRPJ exigido da autuada na condição de contribuinte que auferiu lucro, mas o declarou em montante menor que o devido, em razão da dedução de despesas que não foram regularmente provadas. Em outras palavras, a incidência do IRPJ decorrente de uma despesa que não reúne os requisitos legais para sua dedutibilidade não converte esta parcela em rendimento da própria da pessoa jurídica, a dispensar a incidência que poderia existir em desfavor do beneficiário do pagamento. É certo que a base de cálculo do IRPJ resta majorada e, por consequência, há renda tributável no seu sentido próprio, qual seja, resultado líquido de acréscimos e decréscimos patrimoniais num mesmo período de apuração. Mas este resultado líquido não se confunde com o conceito de rendimento, acréscimo individualmente auferido, no caso, por outro sujeito passivo, em razão de uma operação específica, que poderia sujeitar-se a tributação isolada, a qual é presumida pela lei em razão da omissão de informações por parte da fonte pagadora. Considerando que, nos termos do voto do I. Relator, os beneficiários e a causa dos pagamentos subsistiram incomprovados, deve-se NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário relativamente às exigências de IRRF. 104 Na mesma linha intelectiva do presente voto, assim também já decidiu o CARF, consoante os precedentes a seguir transcritos, verbis: IRRF. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS. EXIGÊNCIA CUMULADA COM IRPJ E CSSL APURADOS EM FACE DA GLOSA DE CUSTOS E DESPESAS CONSIDERADAS INIDÔNEAS. CABIMENTO. Fl. 22639DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 137 O art. 61 da Lei nº 8.981/1995, alcança todos os pagamentos efetuados a beneficiários não identificados ou cuja operação ou causa não é comprovada, independente de quem seja o real beneficiário dele (sócios/acionistas ou terceiros, contabilizados ou não), elegendo a pessoa jurídica responsável pelo pagamento efetivamente comprovado com responsável pelo recolhimento do imposto de renda devido pelo beneficiário, presumindo-se que assumiu o ônus pelo referido pagamento. (Acórdão 1302 002.087, sessão de 23/03/2017, Relator Luiz Tadeu Matosinho Machado). IRPJ/CSLL PELA GLOSA DE DESPESAS. IRRF SOBRE PAGAMENTOS SEM CAUSA. EXIGÊNCIA SIMULTÂNEA. POSSIBILIDADE Sujeita-se à incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado por pessoa jurídica a beneficiário não identificado, bem assim os pagamentos efetuados ou os recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa. A tributação pelo do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, em relação a pagamentos a beneficiários não identificados ou quando não for comprovada a operação ou a sua causa, não exclui a incidência de IRPJ e CSLL resultante da glosa das despesas fictícias, as quais são indedutíveis por previsão legal expressa. (Acórdão 9292-009.237, sessão de 23/00/2021, Relator Mário Pereira de Pinho Filho). CONCOMITÂNCIA DE INCIDÊNCIA DE IRPJ/CSLL PELA GLOSA DE DESPESAS E DE IRRF SOBRE PAGAMENTOS SEM CAUSA Quando não for comprovada a causa do pagamento, incide o IRRF. Por outro lado, uma despesa fictícia deve ser glosada, para que IRPJ e CSLL incidam sobreas bases de cálculo corretas. Consequentemente, se um contribuinte efetua pagamento por serviço e o deduz na apuração dos lucros tributáveis, mas não prova a efetiva prestação, incidem IRPJ/CSLL pela glosa da despesa e IRRF devido à ausência de causa para o pagamento. (Acórdão 1402-002.210, sessão de 08/06/2016, relator Fernando Brasil de Oliveira Pinto) IRRF. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS. EXIGÊNCIA CUMULADA COM IRPJ E CSSL APURADOS EM FACE DA GLOSA DE CUSTOS E DESPESAS CONSIDERADAS INIDÔNEAS. CABIMENTO. O art. 61 da Lei nº 8.981/1995, alcança todos os pagamentos efetuados a beneficiários não identificados ou cuja operação ou causa não é comprovada, independente de quem seja o real beneficiário dele (sócios/acionistas ou terceiros, contabilizados ou não), elegendo a pessoa jurídica responsável pelo pagamento efetivamente comprovado com responsável pelo recolhimento do imposto de renda devido pelo beneficiário, presumindo-se que assumiu o ônus pelo referido pagamento. (...) CSLL. BASE DE CÁLCULO. GLOSA DE DESPESAS. INEXISTÊNCIA DE FATO DA DESPESA. CABIMENTO. A base de cálculo da CSLL tem como ponto de partida o resultado líquido apurado na contabilidade. Assim, as despesas comprovadamente inexistentes não podem compor o resultado líquido do exercício, do qual parte a apuração tanto do IRPJ quanto da CSLL. Os atos ilícitos não podem produzir quaisquer efeitos tributários na apuração do resultado dos exercícios fiscalizados. É remansosa a jurisprudência administrativa no sentido de dar o mesmo efeito à CSLL na glosa de despesas fictícias da base de cálculo do IRPJ . (Acórdão 1302-002.210, sessão de 15/05/2018, relator Luiz Tadeu Matosinho Machado) 105 Diante do exposto, rejeito a terceira alegação da Impugnante, por entender que o lançamento realizado encontra suporte legal no art. 61, da Lei nº 8.981/1995. Rejeito as alegações da Impugnante neste tema. Fl. 22640DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 138 Das Multas de Ofício Qualificadas Do Princípio Constitucional do Não Confisco 106 A Autoridade Fiscal justificou a qualificação da multa explanando que a BRASCOPPER se utilizou de condutas fraudulentas – abaixo sintetizadas – para reduzir tributos devidos e majorar os custos, sem olvidar que envolveu também a realização de pagamentos à beneficiários aparentes ou cujas causas não foram efetivas, infringindo às legislações vigentes: 106.1 (...) Criação de empresas de fachadas para emissão de notas frias (FRAUDE); 106.2 (...) Utilização de notas frias de entrada para aproveitamento de crédito tributário indevido (FRAUDE); 106.3 (...) Simulação de pagamento a fornecedores de notas frias, sucedida de emissão de notas frias de industrialização por encomenda para retorno de parte do dinheiro da simulação (FRAUDE); e 106.4 (...) GRUPO ECONÔMICO com participação ativa dos administradores da BRASCOPPER, FAMÍLIA MARTINS e MEGGIOLARO (CONLUIO). 107 Nesse sentido, em respeito ao disposto no § 1º, do art. 44, da Lei nº 9.430/96, inferiu que a Autuada se sujeitou à duplicação da multa prevista no inciso I, do caput, do apontado artigo, ou seja, com o percentual da multa passando de 75% (setenta e cinco por cento) para 150% (cento e cinquenta por cento). 108 Insatisfeita, a Impugnante contestou que, juntamente com seus sócios: (...) (a) não foram responsáveis pela criação, operacionalização ou gerência das empresas tidas como “noteiras” pela Fiscalização, como também não se beneficiaram dos recursos que ingressaram em citadas empresas; (...) (b) não se utilizaram de notas frias relativas à aquisição de mercadorias, ao menos não consciente e dolosamente. A BRASCOPPER é adquirente de boa-fé das mercadorias que foram indiscutivelmente revendidas a terceiros; (...) (c) não praticaram simulação de pagamento; (...) (d) encontravam-se à época, como ainda se encontram, em processo de recuperação judicial e, nessa condição, tem todas as suas operações submetidas à rigorosa apreciação e fiscalização dos credores e órgãos atuantes no processo (Administração Judicial, Ministério Público, Procuradorias; (...) (e) não formam grupo econômico com as demais empresas arroladas no TVF; (...) (f) não conferiram a terceiros poderes de representação ou autonomia para realizar atos de gestão; (...) (g) não praticaram o que se costuma chamar na jurisprudência administrativa de “reiteração de conduta”. Os fatos arrolados pela Fiscalização ocorreram em período delimitado, inexistindo há anos qualquer relacionamento com tais empresas. Em razão do exposto, requereu a redução da multa qualificada de 150% para 75%. 109 Outrossim, o responsável solidário Sr. Sr. FÁBIO CZERKES SANTANA, CPF nº 294.032.458-16, em sua defesa protestou em favor da improcedência da qualificação à epígrafe, dado que não há comprovação nos autos do intuito doloso, fraudulento ou de sonegação fiscal por parte do contribuinte, em relação aos quais não cabe presunção. Ademais, a (...) multa qualificada tem reflexos jurídicos tão relevantes, sobretudo, em relação aos seus efeitos confiscatórios, que a matéria teve a repercussão geral reconhecida pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal (“STF”). Dessarte, conclui requerendo que (...) na remota hipótese de prevalecer o lançamento fiscal, a multa aplicada, além de ter afastada a condição qualificada, deverá ser reduzida ao patamar de 25% sobre a contribuição, a fim de se evitar o efeito confiscatório. (g.n.) 110 Antes de avaliarmos as razões da combatida qualificação da multa de ofício e em prol de manter a práxis adotada neste voto condutor, é salutar trazermos entendimentos dogmáticos e doutrinários sobre o assunto. 111 Inicialmente, é importante registrar que a multa qualificada se encontra regulada pelo art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430, de 199618, com a redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. Portanto, o percentual de 150% (cento e cinquenta por cento) deve ser Fl. 22641DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 139 aplicado apenas nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 196419, ou seja, o intuito de fraude foi aí aludido em seu sentido amplo, devendo para seu entendimento serem observadas as definições dos indigitados dispositivos. 112 Como se percebe, o conluio não chega a ser uma terceira hipótese qualificadora autônoma, pois se refere à possibilidade de a sonegação e/ou a fraude serem orquestradas por meio de ajuste doloso entre duas ou mais pessoas (físicas ou jurídicas). 113 A qualificação da multa proporcional de ofício deve ser feita quando e apenas quando a autoridade fiscal identificar e comprovar a ocorrência de sonegação e/ou fraude. E apenas pode ser considerado sonegação ou fraude, para essa finalidade, aquilo que esteja em conformidade com o modelo arquetípico estabelecido pelos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 1964. 114 Analisando-se as características textuais das definições empreendidas pelos artigos 71 e 72, a primeira premissa indispensável é a de que sonegação e fraude são condutas dolosas. Isso se depreende da expressão “(...) toda ação ou omissão dolosa tendente (...)”, que é repetida em ambos os artigos. 115 Portanto, sonegação e fraude são condutas dolosas (dolo direto ou eventual). Para qualificar a multa proporcional de ofício, a autoridade fiscal deve identificar e comprovar a ocorrência da conduta dolosa do sujeito passivo, mediante apresentação de conjunto probatório suficiente. 116 Dando prosseguimento a análise do caso concreto, é cediço que a imposição de multa qualificada é tema sempre muito espinhoso, mesmo porque tal cominação prescinde da demonstração de um “algo mais”, no procedimento do agente fiscalizado, que transcenda a conduta objetiva descrita no tipo tributário, sendo preciso que haja a efetiva comprovação da intenção da prática do fato delituoso. Nesse sentido, é o entendimento firmado pelo CARF nas Súmulas nsº 14 e 25: Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Súmula CARF nº 25: A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. 117 Nessa linha intelectiva, pelo que se extrai do TVF, a Fiscalização além de comprovar o evidente intuito de fraude aos Fiscos federal e paulista, estribado em documentação inidônea e na formação de grupo econômico irregular, utilizado como fundamento para qualificação da multa de ofício relativa aos lançamentos do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, ressalta a evidência de que a contribuinte tinha consciência de que realizava pagamentos à empresas inexistentes de fato ou carentes de capacidade operacional - noteiras - para qualificar a multa na exigência relativa ao IRRF. 118 Tal distinção revela-se importante, pois a consciência da ilicitude (dolo) por parte do agente é fundamental para a qualificação da multa. Desta feita, não se trata de simples cobrança do IRRF sobre pagamentos a beneficiários não identificados ou cuja causa/operação não foi suficientemente comprovada pela contribuinte, mas sim sobre pagamentos dolosamente efetuados a terceiros, ocultados sob a roupagem de empresas formalmente constituídas, mas que não tinham, de fato, existência real ou capacidade operacional para fornecer os ditos vergalhões de cobre, condição esta de pleno conhecimento da BRASCOPPER, conforme exaustivamente demonstrou a fiscalização na documentação acostada aos autos. 119 Nessa senda, insistimos que restou sobejamente comprovada as seguintes fraudes: criação de empresas de fachada para atuarem como noteiras em diversos níveis, em benefício da formação de lastros fiscais entre elas; utilização de notas fiscais inidôneas objetivando obter créditos fictícios da contribuição para o PIS, da COFINS e do ICMS, além de superfaturar seus custos, em razão da indubitável falta de capacidade operacional e Fl. 22642DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 140 econômica da GLOBAL, R3, METALOX e COPPER GREEN – principais fornecedores de vergalhão de cobre; a simulação de pagamentos à noteira METALOX, sucedida de emissão de notas frias de industrialização por encomenda à R3, para retorno de parte do dinheiro da simulação; além do conluio corporificado na formação de GRUPO ECONÔMICO IRREGULAR, onde se verificou submissão a uma mesma cadeia de direção/operacionalização, confusão patrimonial e ajustes de vontades, envolvendo a participação ativa dos administradores da BRASCOPPER e de pessoas vinculadas às famílias MARTINS e MEGGIOLARO. 120 Reforça o entendimento retro, ementas de decisões emanadas do CARF, abaixo transcritas: MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430/96, restando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo enquadra-se, em tese, nas hipóteses tipificadas no art. 71, inciso I, da Lei nº 4.502/64. (Acórdão nº 1201-001.763, publicado em 26/07/2017) PAGAMENTOS A EMPRESAS INEXISTENTES DE FATO — REPRESENTANTES COMERCIAIS DO RECORRENTE E FORNECEDORES DE BENS - COMPROVAÇÃO DOS PAGAMENTOS, INCLUSIVE COM OS CHEQUES EMITIDOS, NOMINAIS E CRUZADOS, ÀS REPRESENTANTES COMERCIAIS — VALORES VULTOSOS — AUSÊNCIA DE MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA EM NOME DAS EMPRESAS REPRESENTANTES E DE SEUS SÓCIOS — REPRESENTANTES E SÓCIOS DESTAS NÃO COMPROVAM A RELAÇÃO COMERCIAL COM O RECORRENTE — RECORRENTE NÃO LOGRA COMPROVAR O NEXO CAUSAL ENTRE OS PAGAMENTOS E OS SERVIÇOS E PRODUTOS ADQUIRIDOS — MANUTENÇÃO DA TRIBUTAÇÃO NA FORMA DO ART. 61 DA LEI N° 8.981/95 — NOTAS FISCAIS DE SERVIÇO SEM SUPORTE IDEOLÓGICO - MANUTENÇÃO DA MULTA QUALIFICADA - Comprovado por diligências in loco nos pretensos domicílios tributários dos representantes comerciais de que estes não existem, aliado à inexistência de movimentação financeira dessas empresas representantes e de seus sócios, à ausência de comprovação do nexo causal entre os pagamentos e os serviços adquiridos, à presença de empresa com objeto social no segmento de construção civil, tudo isso faz robusta prova de que os pagamentos não tiveram causa. Nessa senda, a apresentação de notas fiscais de serviço sem suporte ideológico e a inexistência de fato dos fornecedores justificam a qualificação da multa de ofício lançada. (Acórdão 106-17.005, sessão de 06/08/2008, Relator Geovanni Christian Nunes Campos).(g.n.) 121 Do mesmo modo, tampouco não cabe redução da multa em questão, por carência de previsão legal, ou prospera a alegação no sentido que o percentual aplicado teria o caráter confiscatório (vedado pela Constituição Federal), pelos seguintes motivos: 121.1 A Constituição Federal de 1988, em seu art. 145, § 1º, determina que os impostos serão graduados em função da capacidade contributiva do contribuinte. E mais, em seu artigo 150, inciso IV, veda a utilização de tributo com efeito de confisco. Deduz-se, então, que o princípio em questão é direcionado exclusivamente ao tributo e este não deve ser confundido com penalidade, equívoco cometido pelo Impugnador; 121.2 A vedação ao confisco é dirigida ao legislador. Tal princípio orienta a elaboração legislativa, que deve observar a capacidade econômica do contribuinte (art. 145, § 1o da CF), bem como não pode dar ao tributo conotação de confisco; 121.3 Afastar a aplicação da multa por considerá-la atentatória as garantias constitucionais exigiriam o exame da norma legal em face de disposições constitucionais, o que, sem dúvida, caracterizaria controle de constitucionalidade da lei, que é atividade inserta no âmbito de competência exclusiva do Poder Judiciário; 121.4 Conforme já afirmamos, o contencioso administrativo não é o foro próprio para examinar questões de tal natureza; e Fl. 22643DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 141 121.5 Por fim, o princípio que norteia a imputação penal, cujo caráter é agressivo, tem o condão de compelir o contribuinte a se afastar de cometer atos ou atitudes lesivos à coletividade. 122 As sobreditas razões seguem orientações consolidadas do antigo Conselho de Contribuintes, atual CARF: “CONFISCO - A multa constitui penalidade aplicada como sanção de ato ilícito, não se revestindo das características de tributo, sendo inaplicável o conceito de confisco previsto no inciso V do artigo 150 da Constituição Federal”. (Ac. 102- 42741, sessão de 20/02/1998). “MULTA DE OFÍCIO - A vedação ao confisco, como limitação ao poder de tributar, restringe-se ao valor do tributo, não extravasando para o percentual aplicável às multas por infrações à legislação tributária. A multa deve, no entanto, ser reduzida aos limites impostos pela Lei n.º 9.430/96, conforme preconiza o art. 112 do CTN”. (Ac. 201-71102, sessão de 15/10/1997). 123 Perante o apresentado, percebe-se claramente que a administração tributária apenas exerceu o poder/dever de tributar, conferido pela Constituição Federal e institucionalizado pela legislação infraconstitucional de regência da matéria, na qual habita a devida fundamentação normativa da aplicação de multa de ofício qualificada (art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/96). 124 Logo, a alegação de ofensa ao princípio de vedação ao confisco não pode ser oponível às autoridades administrativas, posto que estas se encontram totalmente vinculadas aos ditames legais (art. 116, inciso III, da Lei n.º 8.112/1990), mormente quando do exercício do controle de legalidade do lançamento tributário (art. 142, do Código Tributário Nacional - CTN). 125 Em verdade, de acordo com o parágrafo único, do art. 142 do CTN, a autoridade fiscal encontra-se limitada ao estrito cumprimento da legislação tributária, estando impedida de ultrapassar tais restrições para examinar questões outras como as suscitadas na impugnação em exame. Cabe ao julgador administrativo simplesmente seguir a lei e obrigar seu cumprimento. Assinale-se que tal é a determinação do Parecer Normativo da COSIT/SRF nº 329/1970, verbis: Iterativamente tem esta Coordenação se manifestado no sentido de que a argüição de inconstitucionalidade não pode ser oponível na esfera administrativa, por transbordar os limites de sua competência o julgamento da matéria, do ponto de vista constitucional. 126 Por fim, o art. 7.º da Portaria MF nº 58/2006 determina que a autoridade julgadora administrativa deve observar o conteúdo das disposições legais, bem como o entendimento da Receita Federal expresso em atos tributários. 127 Por tudo elucidado, obrigado está este colegiado a manter a cobrança dos tributos lançados com a multa qualificada, posto que se encontra respaldada pelos elementos dos autos e pela conduta descrita no Termo de Verificação Fiscal. Rejeito as alegações dos Impugnantes neste tema. Das Responsabilidades Tributárias Pessoais e Solidárias Da Introdução 127 A Autoridade Fiscal inferiu que o GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER tratava-se de uma organização que funcionava de forma estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas para operacionalizar as fraudes planejadas em detrimento dos Fiscos Federal e Paulista. A suposta estrutura e divisão de tarefas respeitava uma hierarquia piramidal, composta por três níveis: chefes, operadores e executores. Nessa toada, identificou como: Fl. 22644DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 142 127.1 Chefes – em razão de estarem envolvidos na gerência operacional e financeira e terem atuado como mentores intelectuais de todo o esquema de fraude, as seguintes pessoas físicas, com os respectivos fundamentos legais: CLEDER CORRAL PROVÊNCIO, CPF 020.248.878-05 (art. 135, III, do CTN20); CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, CPF 005.441.868-26 (art. 135, III, do CTN); RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, CPF 035.656.818-02 (art. 135, III, do CTN); e MARIA TEREZA NOGUEIRA, CPF 037.657.648-09 (135, III, do CTN); 127.2 Operadores – por estarem em posição hierárquica abaixo dos chefes, entretanto todos com funções definidas e ligadas à fraude de emissão e escrituração de notas frias, são eles, com os respectivos fundamentos legais: SYRIO MARTINS NETO, CPF 693.597.501-82 (art. 124, I, do CTN21); GABRIELA EMER, CPF 026.769.509-83 art. 124, I, do CTN; MARCOS VINICIUS PASSOS MARTINS, CPF 907.806.391-20 (arts. 124, I, e 135, III, ambos do CTN); FABIO CZERKES SANTANA, CPF 294.032.458-16 (art. 124, I, do CTN); RONALDO MEGIOLARO, CPF 029.276.498-71 (art. 124, I, do CTN); e THOR GREGORI MEGIOLARO, CPF 410.133.278-96 (art. 124, I, do CTN); 127.3 Executores – ocupavam a posição hierárquica mais inferior, todavia tinham ligação direta com as irregularidades fiscais cometidas pela BRASCOPPER, uma vez que apareciam nos quadros societários de algumas das empresas de fachada, embora não possuíssem poder de comando, caracterizando-se como ‘boi de piranha” para a Sefaz-SP e RFB. Apesar disso, tiveram participação ativa na fraude fiscal, e algumas delas receberam valores relevantes das empresas de fachada. São eles, com os respectivos fundamentos legais: ROOSIVELT JARA PINTO, CPF 001.947.531- 40 (art. 124, I, do CTN); ROBSON BATISTA DE SOUZA E SILVA, CPF 822.224.101-00 (art. 124, I, do CTN); e FRANCISCO ÁTILA COSTA PALOSQUI, CPF 896.773.741-68 (art. 124, I, do CTN). 128 Foram também arroladas como responsáveis tributários solidários por interesse comum no fato gerador objeto dos lançamentos sob apreciação, em respeito ao disposto no art. 124, I, do CTN, as seguintes pessoas jurídicas: FUNDI LIGAS INDUSTRIA METAIS LTDA, CNPJ nº 07.342.672/0001-24; e TFF CONSULTORIA E PARTICIPACOES LTDA, CNPJ nº 18.025.621/0001-95. 129 Indignados, os seguintes responsáveis tributários contestaram as responsabilizações à epígrafe tempestivamente: Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiss, CPF nº 005.441.868-26, conjuntamente com a Autuada; Ronaldo Megiolaro, CPF 029.276.498-71; Thor Gregori Megiolaro, CPF 410.133.278-96; Fábio Czerkes Santana, CPF nº 294.032.458-16; Renato Meggiolaro Junior, CPF nº 035.656.818-02; Maria Teresa Nogueira, CPF nº 037.657.648- 09; e TFF Consultoria E Participações Ltda, CNPJ nº 18.025.621/0001-95. Os demais, malgrado devidamente cientificados do lançamento e da atribuição do vínculo de responsabilidade, não apresentaram Defesa, portanto, conforme já nos posicionamos, encontram-se preclusos os respectivos direitos de instauração da fase litigiosa do procedimento, sendo assim considerados revéis quanto a imputação de responsabilidade. 130 Para apreciação deste tema, adotaremos a seguinte sistemática. Inicialmente, traremos à tona as concepções doutrinárias pacíficas relacionadas. Em seguida, apreciaremos as refutações, analisando em conjunto, aquelas cujos argumentos forem idênticos, em favor de evitar a repetição, e separadamente os pontos guerreados específicos, relacionando-os ao respectivo querelante. Das Interpretações Doutrinárias Consolidadas 131 Nessa linha cognitiva, com relação à atribuição de responsabilidade com fundamento no art. 124, I, do CTN, cabe destacar que a autoridade fiscal constitui o crédito tributário identificando uma relação obrigacional tributária que vincula o sujeito ativo (ente tributante) a dois ou mais sujeitos passivos (contribuinte e responsável). O sujeito passivo solidário é integrante da própria relação jurídico-tributária ab inicio, de maneira que sua sujeição passiva é congênita ao acontecimento do fato gerador, ou seja, a obrigação tributária já nasce apresentando dois ou mais sujeitos passivos igualmente responsáveis pelo adimplemento da obrigação, em solidariedade. Fl. 22645DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 143 132 Na solidariedade passiva existe uma única obrigação e mais de um devedor obrigado por ela como um todo. Não há um devedor “principal” e um responsável “solidário”. Há dois ou mais devedores, que são obrigados por uma única, idêntica e indivisível obrigação. Conforme disposto no parágrafo único do referido art. 124, a solidariedade não admite o chamado “benefício de ordem”, que seria a exigência de o credor primeiro dirigir seu protesto para um devedor e, apenas se insolvente este, impossibilitado de adimplir a obrigação, sucessivamente, direcionar-se ao outro devedor, “solidário”. 133 Pode então traduzir que a solidariedade não é, stricto sensu, um instituto voltado à garantia do adimplemento da obrigação pelo devedor, posto que diz respeito à própria constituição do crédito tributário sobre uma pluralidade de devedores, todos responsáveis pela obrigação como um todo. Os sujeitos passivos tributários estão visceralmente ligados por um vínculo de origem, congênito ao surgimento da obrigação tributária. 134 Paulo de Barros Carvalho (CARVALHO, Paulo de Barros, Curso de Direito Tributário, 17ª ed., São Paulo: Saraiva, 2005, p. 317) ensina que existe solidariedade sempre que houver mais de um devedor na mesma relação jurídica, cada um obrigado ao pagamento da dívida integral: No direito tributário, o instituto da solidariedade é um expediente jurídico eficaz para atender à comodidade administrativa do Estado, na procura da satisfação dos seus direitos. Sempre que haja mais de um devedor, na mesma relação jurídica, cada um obrigado ao pagamento da dívida integral, dizemos existir solidariedade, na traça do que preceitua o art. 264 do Código Civil brasileiro. (g.n) 135 Nas palavras de Mizabel Abreu Machado Derzi, atualizadora da obra de Aliomar Baleeiro (BALEEIRO, Aliomar, Direito Tributário Brasileiro, 11ª ed., atualizada por Mizabel Abreu Machado Derzi, Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 729), a solidariedade não é forma de inclusão de um terceiro no polo passivo da obrigação tributária, mas apenas forma de graduar a responsabilidade daqueles sujeitos que já compõem o polo passivo: A solidariedade não é espécie de sujeição passiva por responsabilidade indireta, como querem alguns. O Código Tributário Nacional, corretamente, disciplina a matéria em seção própria, estranha ao Capítulo V, referente à responsabilidade. (...) Quando houver mais de um obrigado no pólo passivo da obrigação tributária (mais de um contribuinte, um contribuinte e um responsável, ou apenas uma pluralidade de responsáveis), o legislador terá de definir as relações entre os coobrigados. Se são eles solidariamente obrigados, ou subsidiariamente, com benefício de ordem ou não, etc. A solidariedade não é, assim, forma de inclusão de um terceiro no pólo passivo da obrigação tributária, apenas forma de graduar a responsabilidade daqueles sujeitos que já compõem o pólo passivo. (g.n) 136 Assim, no momento em que a autoridade fiscal detecta que está diante de uma das situações previstas no art. 124, do CTN, é seu dever efetuar o lançamento sobre a pluralidade de sujeitos passivos solidários, constituindo o crédito tributário de maneira a identificar corretamente as pessoas ligadas ao polo ativo solidariamente. 137 No que concerne a responsabilidade pessoal prevista no art. 135, inciso III, do CTN, é plenamente possível os sócios administradores responderem pessoalmente, perante a sociedade e terceiros prejudicados (Fazenda Pública, inclusive), por culpa no desempenho de suas funções, ou seja, pelos fatos decorrentes de sua má gestão, consoante disposto no artigo 1.016 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil)22. 138 Todavia é imperioso que a Autoridade Fazendária comprove que os atos envolvidos na autuação foram praticados, no caso, com excesso de poderes ou infração de lei ou constato social. 139 O ato ilícito ensejador da responsabilidade tributária do administrador pode ser tanto culposo quanto doloso, mas tanto um quanto o outro satisfaz a hipótese do artigo 135 do CTN. Sobre o assunto, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, no Parecer PGFN/CRJ/CAT nº 55/2009 assim se manifestou: Fl. 22646DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 144 59. A respeito da necessidade de presença de ato doloso por parte do administrador ou da suficiência da presença de culpa, deve-se observar que, ao contrário do que defende parte da doutrina, a jurisprudência maciça do STJ exige tão-só a presença de ‘infração de lei’ (= ato ilícito), a qual, pela teoria geral do Direito, pode ser tanto decorrente de ato culposo como de ato doloso (não obstante alguns poucos acórdãos referirem expressamente à necessidade de prova do dolo, em contraposição à imensa maioria que exige somente a culpa). Logo, se a lei e a jurisprudência não separaram as hipóteses de culpa em sentido estrito e dolo, tanto um quanto outro elemento subjetivo satisfaz a hipótese do art. 135 do CTN. Em verdade, o Direito Tributário preocupa-se com a externalização de atos e fatos, não possuindo espaço para a persecução do dolo; basta a culpa. 60. Podemos enumerar aqui as conclusões gerais decorrentes da doutrina da responsabilidade subjetiva dos administradores, na forma da jurisprudência hoje pacificada do Superior Tribunal de Justiça: a) O sócio que não possui poderes de gerência não responde pelas obrigações tributárias da sociedade; b) O administrador não responde pelas obrigações tributárias surgidas em período em que não detinha os poderes de gerência; c) A mera ausência de recolhimento de tributos devidos pela pessoa jurídica não pode ser atribuída ao administrador, não respondendo este em razão desse mero inadimplemento da sociedade; d) O administrador só é responsável por atos seus que denotem infração à lei ou excesso de poderes, como, por exemplo, a sonegação fiscal (que é ilícito punível inclusive penalmente) ou a dissolução irregular da sociedade; e) O ato ilícito ensejador de responsabilidade tributária pode ser tanto culposo quanto doloso; f) A prova da prática de ato ilícito por parte do administrador compete à Fazenda Pública (salvo normas especiais probatórias, como a relativa à CDA). 61. De tudo isso, é importante guardar que o ‘sócio-gerente’, de acordo com a jurisprudência hoje aceita pelo STJ, torna-se responsável não por ser ‘sócio’, mas por ter cometido ato ilícito enquanto ‘gerente’. Em verdade, a condição de sócio é irrelevante. Dois são os elementos verdadeiramente relevantes para sua responsabilização: (a) ser administrador e (b) ter cometido ato ilícito nessa posição. Por ser administrador e ter cometido infração à lei, pode o terceiro ser responsabilizado; não por ser sócio. Destarte, podemos afirmar com segurança que, segundo o entendimento firmado no STJ, o administrador é chamado a pagar o crédito tributário da pessoa jurídica administrada em forma de responsabilidade por ato ilícito. (g.n) 140 Destarte, é relevante ressaltar ilações relativas à responsabilidade solidária prevista no art. 135, inciso III, do CTN, que contribuem para sua caracterização, corroboradas pelo Parecer supra. 141 A primeira refere-se a natureza da pessoa jurídica. Trata-se de uma ficção da lei, não sendo capaz, portanto, de implementar suas ações por si própria, mas sim por meio da atuação dos seus diretores, gerentes e representantes ou dos seus mandatários, prepostos e empregados, quem demonstra capacidade de expressar vontade, elemento subjetivo necessário para caracterizar o ato ilícito, do qual resulta a responsabilidade. 142 A segunda diz respeito a interpretação do capitulado no inciso III, do art. 135, do CTN, uma vez que o malefício que decorre da norma não se corporifica com uma simples participação como sócio-gerente, administrador, diretor ou equivalente nos atos da empresa que determina a responsabilização tributária pessoal. Há que se reconhecer a existência do excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, ou seja, só se configura com a junção dos dois fatores. Da Impugnação do Responsável Tributário Pessoal Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis Fl. 22647DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 145 143 Feitas as sobreditas considerações, citando jurisprudência administrativa, o responsabilizado pessoalmente Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiss apresentou, em conjunto com a Autuada, sua peça impugnatória, e requereu afastamento da atribuição de responsabilidade, posto que, sob sua ótica, a Fiscalização não foi capaz de apresentar qualquer conduta dolosa especificamente imputável de sua autoria, tampouco, prática de atos irregulares, fraudulentos ou com afronta aos estatutos da BRASCOPPER, ou indício de que tinha conhecimento, que participou intencionalmente, ou mesmo que foi conivente com a fraude multicitada. 144 Diante da robustez fática-probatória carreada aos autos e diligentemente revelada pelas Autoridades Autuante, aliada a tudo que foi profundamente deslindado neste voto, não há como aceitar que os sócios administradores da BRASCOPPER – dentre eles o refutador – não tiveram participação essencial no esquema fraudulento de emissão de notas fiscais frias exteriorizado. 145 Muito pelo contrário, as milhares de laudas só nos levam a corroborar que os responsáveis pela Fiscalizada capitanearam o ilícito fiscal, com intuito de beneficiá-la e ocultá-los, pois, conquanto o gerenciamento e coordenação da fraude tenham sido executados em conluio com pessoas relacionadas às famílias Martins e Megiolaro, seria impossível a concretização sem conhecimento ou consentimento dos sócios da BRASCOPPER, uma vez que se comprovou: 145.1 O pagamento, mesmo se encontrando em processo de recuperação judicial, de R$ 130.606.336,90 - correspondendo a quantidade total de 6.222.840,54 kg de vergalhão de cobre – sem causa efetiva ou legal, em razão de ter sido efetivado em favor de empresas que não detinham capacidade operacional para fabricação desses produtos e com quadros sociais alaranjados, quer dizer se tratava de empresas de fachada, popularmente conhecidas como NOTEIRAS, e muitas delas com estreitas ligações com a Autuada; 145.2 Que apesar dos valores e do volume envolvidos, não foram carreados aos autos pela Defesa, apesar das oportunidades, quaisquer contratos ou documentos com mesmo valor probante, quiçá simples e-mails ou talvez comprovantes de pesagem das mercadorias recebidas dos fornecedores, aptos a comprovar as negociações realizadas. Por outro lado, ao serem rastreados, observou-se que parte dos recursos serviram de pagamentos a sucateiros que trabalham na informalidade em prol da compra de sucatas; 145.3 Permissão para que METALOX – neste caso admitida pela Defesa - e GLOBAL utilizassem o endereço da BRASCOPPER em São Luis/MA para cadastro de filiais; 145.4 A formação de vínculo aparente entre as empresas de fachada GLOBAL, METALOX, R3, COPPER GREEN, COPAR, PROCOBRE, SUPER ZINCO, GCP e a beneficiária BRASCOPPER, demonstrando a existência de um GRUPO ECONÔMICO DE FATO, engendrado para a prática reiterada da fraude fiscal, dado que essas relações apontaram: unidade de controle e direção, confusão patrimonial e ajustes de vontades entre as partes para cometimento de ilícito; e 145.5 O pleno conhecimento e concordância no que se refere a atuação do Sr. Marcus Vinicius Passos Martins – dono da METALOX, principal fornecedor de vergalhão de cobre da BRASCOPPER -, que, ao longo do ano-calendário de 2016, apesar de estranho ao quadro social, atuou como gerente financeiro da fraude, posto que solicitava pagamentos de boletos e de transferência bancárias da conta corrente da Auditada na instituição financeira SICREDI; e a do Sr. Renato Megiolaro Junior, tido como mentor intelectual da fraude, dado que, segundo o citado banco, foi designado pelos proprietários da BRASCOPPER como responsável pela parte financeira da empresa e definido como “investidor” sem contudo constar no contrato social. Ademais, restou constatado que as movimentações financeiras de alto valor eram autorizadas pelo Sr. Renato nas contas correntes da BRASCOPPER, COPAR, PROCOBRE, R3, COPPER GREEN e METALOX, mantidas, coincidentemente, na mencionada instituição bancária. Fl. 22648DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 146 146 Ora, considerando que para se subsumir ao tipo em questão há necessidade do associado deter poder de decisão, à época da ocorrência do fato gerador e, concomitante, estar caracterizado que praticou atos com excesso de poderes ou infração ao estatuto, não assiste razão ao Impugnante em asseverar que a sua inclusão no polo passivo da referida demanda tributária é indevida, pois vimos que os dois requisitos foram preenchidos, seja em razão de ser administrador da Autuada, seja pela prática ou assentimento de tais atos configurar infração ao contrato social da BRASCOPPER e às normas tributárias que disciplinavam a tributação da contribuição para o PIS, da COFINS e do ICMS, à época dos fatos geradores envolvidos no caso sob julgo. Das Impugnações dos Responsáveis Solidários: Ronaldo Megiolaro e Thor Gregori Megiolaro 147 Os Impugnantes RONALDO MEGIOLARO, CPF 029.276.498-71, e THOR GREGORI MEGIOLARO, CPF 410.133.278-96, foram considerados pelos Agentes Fiscais como operadores do Grupo Econômico BRASCOPPER, porque detinham funções definidas e ligadas à fraude de emissão e escrituração de notas frias. Nessa toada, foram arrolados como responsáveis tributários solidários, com base no preceituado no art. 124, I, do CTN. 148 Cientes da autuação e inclusão no polo passivo como responsáveis solidários, apresentaram, em peças separadas, as respectivas Defesas. Considerando que os conteúdos são semelhantes, em favor de evitar a repetição, resumiremos, de forma conjunta, os pontos guerreados, destacando quando se referir especificamente a um dos responsáveis solidários. 149 Nessa quadra, citando doutrina e jurisprudência administrativa e judicial, protestaram em favor de que seja afastada a atribuição de responsabilidade pessoal e solidária dos Impugnantes, nos termos dos arts. 124, I e 135, III, do CTN, em razão de: 149.1 Apesar de Thor G. Megiolaro ser sócio da BRITH IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO, COMÉRCIO DE METAIS E SUCATAS EM GERAL LTDA., CNPJ sob nº 06.223.789/0001-26, a administração desta sempre foi, de fato e de direito, exercida pelo seu pai Ronaldo Megiolaro, (...) o que se constata pela procuração pública ora anexada, e também pelo próprio relatório de fiscalização. (...) Portanto, Thor Megiolaro é parte totalmente ilegítima para figurar no polo passivo da autuação, como responsável solidário, pois, a administração da Brith foi exercida por Ronaldo Megiolaro; 149.2 Que não existe nos autos provas da relação da BRITH com o Grupo Econômico BRASCOPPER, tampouco que demonstrem a atuação dos querelantes na fraude fiscal; 149.3 A coincidência do domicílio tributário da BRITH com a COPPER GREEN, para quem prestava serviço, e o fato do imóvel pertencer a parente dos combatentes, não serem suficientes para que seja reconhecida como integrante de suposto grupo econômico, e, por conseguinte, imputar responsabilidade solidária aos Impugnantes. (...) Têm-se que a responsabilização do Impugnante, assim, foi declarada ilegalmente com base em presunções. (g.n.); 149.4 Não existir qualquer menção de conduta dos impugnantes que lhes renderia a condição de solidário no tocante a atos praticados com os excessos tipificados no art. 135, III, do CTN, tampouco nessa seara há espaço para presunção; 149.5 A responsabilidade solidária fundada no art. 124, I, do CTN, (...) exige a comprovação de práticas comuns e conjunta do fato gerador o que não se constata no presente caso. (...) A premissa da fiscalização é totalmente equivocada e não dá aso à conclusão de dolo ou fraude, sendo calcada apenas em presunções, o que não se admite; e 149.6 O (...) CARF já manifestou entendimento de que se houver qualquer dúvida em torno da materialidade ou da autoria da conduta apontada na Fiscalização, deve ser aplicado o disposto no art. 112, inciso III, do CTN23. Fl. 22649DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 147 150 Inicialmente, destaco que não nos posicionaremos quanto a argumentação de responsabilidade pessoal dos Opoentes, com base na exigência do art. 135, III, do CTN, devido aos Agentes Fiscais não lhes terem imputado essa espécie de responsabilização tributária. Ou seja, a presente contenda trata, exclusivamente, da atribuição de responsabilidade tributária de natureza solidária, alicerçada no que reza o disposto no art. 124, I, do CTN. 151 Prosseguindo, a princípio, merece relevo que, consoante ficha cadastral da BRITH, constante do TVF, às fls. 11156, THOR MEGIOLARO é o sócio administrador responsável e RONALDO MEGIOLARO apenas sócio. Ora, a princípio, não há como eximir THOR da atribuição da responsabilidade tributária em questão pelo fato de a Defesa asseverar que a administração da BRITH era exercida por Ronaldo Megiolaro, visto que, DE DIREITO, naturalmente quem responde juridicamente pela pessoa jurídica em questão é THOR, independentemente da existência de eventual concessão de procuração pública ao seu pai, cuja natureza jurídica é precária, dada possibilidade de revogação a qualquer tempo. 152 No mais, nos autos há elementos cabais que demonstram o intrínseco imo entre COPPER GREEN – inquestionavelmente empresa de fachada e destinatária de R$ 15.638.108,56 advindos da BRASCOPPER - e a BRITH, uma vez que restou resplandecente a sucessão das operações comerciais da segunda pela primeira, como também do envolvimento de ambos contraditores com as empresas do Grupo Econômico BRASCOPPER, demonstrando clarividente interesse de ambos nas situações que constituíram os fatos geradores das obrigações principais guerreadas. Corroboram com esta ilação, a saber: 152.1 Declaração da RECIFE FERROS fornecedora da BRITH, da qual se infere que a COPPER GREEN sucedeu às operações comerciais da BRITH; 152.2 O fato da COPPER GREEN e a GLOBAL – noteiras comprovadas -, terem o mesmo domicílio tributário da BRITH. Ademais, não podemos esquecer da extrema coincidência do imóvel onde se estabeleceram pertencer a NATALIA MEGGIOLARO, filha de RENATO MEGGIOLARO e irmão de RONALDO MEGGIOLARO, doado por MARIA ZOPPI GREGORI, mãe de BRUNA MEGIOLARO, esposa de RONALDO e mãe de THOR; 152.3 Durante diligência, in loco, da Sefaz-SP na COPPER GREEN, RONALDO ter recebido os fiscais estaduais e atendido em nome da BRITH!!!. Além do mais, somente foram encontrados no local funcionários, máquinas e equipamentos da BRITH; 152.4 Além do sobredito, a relação com RENATO MEGIOLARO também se revela pelo fato deste ter sido o representante financeiro da Autuada, COPPER GREEN e de outras empresas de fachada; 152.5 Em 2016, RONALDO recebeu da COPPER GREEN o montante de R$ 14.900,00. Já a BRITH recebeu da COPAR, PROCOBRE e COPPER GREEN – noteiras envolvidas na fraude fiscal em comento - o total de R$ 529.033,00; e 152.6 Em 2016, THOR recebeu da COPPER GREEN o montante de R$ 37.500,00. Entretanto, há fortes indícios que a BRITH, além do montante mencionado, tenha recebidos valores ainda maiores de outras empresas do grupo econômico apresentado, tendo-se em vista que THOR em sua DIRPF exercício 2017 informa ter recebido desta empresa o montante de R$ 2.868.212,10, decorrente da distribuição de lucros e dividendos!!!. Da Impugnação do Responsável Solidário Fabio Czerkes Santana 153 O Impugnante FABIO CZERKES SANTANA, CPF 294.032.458-16, foi reputado pelo Fisco como um dos operadores do Grupo Econômico BRASCOPPER, dada as funções definidas e ligadas à fraude de emissão e escrituração de notas frias que executava. Destarte, arrolaram-no como responsável tributário solidário, tendo como alicerce legal o art. 124, I, do CTN. Fl. 22650DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 148 154 Ciente da autuação e inclusão no polo passivo como responsável solidário, apresentou Defesa e, citando doutrina e jurisprudência administrativa e judicial, protestou em favor de que seja afastada a atribuição de responsabilidade pessoal e solidária dos Impugnantes, nos termos dos arts. 124, I e 135, III, do CTN, posto que: 154.1 Foi incluído indevidamente como sujeito passivo da obrigação tributária, como responsável solidário por infração de lei e Interesse Comum, na condição de responsável pela parte administrativa das empresas: IFE, COPAR e PROCOBRE, e o trabalho residia na emissão de notas fiscais inidôneas. Entretanto, o Fisco (...) informa como as empresas IFE, COPAR e PROCOBRE teriam, em tese, participado do esquema, mas não esclarecem, nem de forma sucinta, qual a conduta do Impugnante. (...) E nesse passo caber ser destacado que o Impugnante deixou o quadro societário da COPAR em julho de 2014, muito tempo antes do período fiscalizado e objeto do lançamento; 154.2 Considerando que a principal razão para imputar responsabilidade solidária ao impugnante, foi a constatação de que foi sócio das empresas COPAR, IFE e PROCOBRE, envolvidas num suposto esquema de fraude fiscal. (...) Constata-se, assim, que a responsabilização solidária do Impugnante é decorrente e não direta. Não existe no relatório fiscal qualquer menção quanto a um ato só praticado pelo Impugnante em excesso ou contrário à lei ou ao estatuto social das empresas. (...) Têm-se que a responsabilização do Impugnante, assim, foi feita com base em presunções; (g.n.) 154.3 Não existe qualquer menção de conduta do impugnante que lhe renderia a condição de solidário no tocante a atos praticados com os excessos tipificados no art. 135, III, do CTN, tampouco nessa seara há espaço para presunção; e 154.4 O (...) CARF já manifestou entendimento de que se houver qualquer dúvida em torno da materialidade ou da autoria da conduta apontada na Fiscalização, deve ser aplicado o disposto no art. 112, inciso III, do CTN 155 Similar ao ressalvado quando da apreciação das contestações de RONALDO e THOR, até porque concederam poderes de representação ao mesmo patrono, não nos posicionaremos quanto a argumentação de responsabilidade pessoal do combatente, fundada no art. 135, III, do CTN, devido aos Agentes Fiscais não lhe ter atribuído essa espécie de responsabilização tributária. Isto é, este litígio trata, exclusivamente, da atribuição de responsabilidade tributária de natureza solidária, baseada no que está determinado no art. 124, I, do CTN. 156 Nessa senda, do esmero das fiscalizações implementadas pelos Fiscos Federal e Paulista, resultou vigoroso acervo de provas e indícios da participação do impugnador na fraude fiscal em comento, resultando indubitável o seu interesse nas situações que constituíram os fatos geradores das obrigações principais atacadas. Tal inferência decorre de: 156.1 Ter sido o responsável pela parte administrativa das noteiras IFE, COPAR e PROCOBRE, e dentre seu trabalho estava a emissão de notas fiscais inidôneas. Notadamente, quanto a empresa IFE, resultou evidente a relação entre SYRIO – também responsabilizado solidariamente e participante ativo do ilícito fiscal –, procurador da IFE, e o impugnante; 156.2 Ter sido sócio administrador da empresa PROCOBRE – Renato Meggiolaro era o represente financeiro perante a SICREDI UNIÃO MS/TO, embora estranho ao quadro societário -, que sucedeu as operações da COPAR – Fábio foi sócio administrador da COPAR no período de 16/10/2012 a 14/07/2014. A COPAR recebeu valores expressivos da R3 e COPPER GREEN em 2016 (R$ 17.273.565,00 e R$ 35.169.200,00 respectivamente), contudo não emitiu documentos fiscais. Ao serem rastreadas, verificou-se que essas transferências foram realizadas com recursos originários da BRASCOPPER; Fl. 22651DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 149 156.3 Restar demonstrado nos autos conluios com Renato Meggiolaro, Syrio Martins Neto, Robson Batista de Souza Silva e Roosivelt Jara Pinto, relacionados às famílias MARTINS e MEGGIOLARO e essenciais à concretização da fraude; 156.4 Em 2016, ter recebido da COPAR o montante de R$ 137.777,28, da METALOX de R$ 2.800,00 e da PROCOBRE o total de R$ 1.060.483,66, todas noteiras e fortemente vinculadas e envolvidas no ilícito fiscal elucidado; 156.5 Depoimentos dos sócios da CONDEX - destinatária de notas fiscais da PROCOBRE e IFE – revelarem que estas empresas pertenciam a Renato Meggiolaro, considerado mentor intelectual da fraude; e 156.5 Por meio do seu empenho, a COPAR ter sido utilizada pelo GRUPO ECONÔMICO BRASCOPPER para obtenção de sucata de forma a operacionalizar a fraude tributária em comento, conforme esquema abaixo: Fechamento relacionado ao FABIO. (...) Da Conclusão 169 Por tudo exposto, conforme apontado neste voto, a modalidade de responsabilidade tributária estabelecida pelo art. 135, III, do CTN, é eminentemente subjetiva, por fundar-se na pessoalidade e na conduta dolosa ou culposa do agente, posto que brota a partir da constatação de um ato ilícito. Neste prisma, por tudo explanado, a Fiscalização logrou êxito em provar os vínculos dos Impugnantes: CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS, CPF 005.441.868-26; RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, CPF 035.656.818-02; e MARIA TEREZA NOGUEIRA, CPF 037.657.648-09, com os fatos geradores da obrigação tributária, igualmente que praticaram o ato ilícito assinalado ou que o tolerou quando deveriam evitar. 170 Outrossim, andou muito bem as Autoridades Fiscais ao imputarem as responsabilidades solidárias apreciadas, em respeito ao disposto no art. 124, I, do CTN, visto que resultou patente o interesse de ambos na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal guerreada, portanto incabível requerer, para o caso concreto, uma interpretação mais favorável aos responsabilizados, como pretenderam algumas Defesas. Rejeito as alegações dos Impugnantes neste tema. 171 Quanto aos Autos de Infração de CSLL, COFINS e PIS/Pasep decorrentes das mesmas matérias fáticas descritas no Auto de Infração do IRPJ, em se tratando de tributação reflexa, deve ser observado, mutatis mutandis, o que foi decidido para o Auto de Infração principal, salvo se houver razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. DA CONCLUSÃO 172 Diante de todo o exposto, voto no sentido de julgar improcedente a impugnação para rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, manter integralmente os créditos tributários de que trata os Autos de Infração relativos aos lançamentos: do IRPJ no Fl. 22652DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 150 montante de R$ 6.005.079,75 (seis milhões, cinco mil, setenta e nove reais e setenta e cinco centavos); da CSLL no montante de R$ 2.713.085,88 (dois milhões, setecentos e treze mil, oitenta e cinco reais e oitenta e oito centavos); do PIS no montante de R$ 1.632.875,71 (um milhão, seiscentos e trinta e dois mil, oitocentos e setenta e cinco reais e setenta e um centavos); da COFINS no montante de R$ 7.536.349,67 (sete milhões, quinhentos e trinta e seis mil, trezentos e quarenta e nove reais e sessenta e sete centavos); e do IRRF no montante de R$ 53.660.997,89 (cinquenta e três milhões, seiscentos e sessenta mil, novecentos e noventa e sete reais e oitenta e nove centavos); juntamente com os acréscimos legais correspondentes, inclusive a manutenção do percentual de aplicação da Multa de Ofício de 150% (cento e cinquenta por cento), bem como manter integralmente as responsabilidades solidárias das pessoas físicas e jurídicas relacionadas, com base no art. 124, I, do CTN; e manter integralmente as responsabilidades pessoais das pessoas físicas arroladas, fundamentadas no art. 135, III, do CTN. É como voto. Assinado digitalmente Raimundo Pires de Santana Filho Relator – Matrícula n° 76.314 Deste ponto, concordo com a DRJ de que (também) Ronaldo Megiolaro, Thor Gregori Megiolaro e Fábio Czerkes Santana participaram efetivamente não só da administração quanto da elaboração da fraude, estando à frente de sociedades sem autonomia, caracterizadas como parte do estratagema consubstanciada pelo Grupo Brascopper, podendo ser responsabilizados pelo interesse comum no fato gerador dos tributos lançados. Confirmo também a tributação de IRF por pagamentos sem causa e a qualificação da multa de ofício. Pelo exposto, voto por dar parcial provimento aos Recursos Voluntários, para confirmar a tributação de IRPJ/CSLL/Cofins/PIS e IRRF, confirmar as responsabilidades solidárias recorridas e reduzir a multa qualificada para o percentual de 100%, aplicando retroativamente lei posterior mais benéfica. Assinado Digitalmente Lizandro Rodrigues de Sousa DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheira Cristiane Pires McNaughton Em que pese o brilhantismo do voto nobre Conselheiro Relator, gostaria de apontar porque tenho interpretação distinta das provas dos autos. E inicio com uma frase do Termo de Verificação Fiscal que diz (fl. 11.318): Fl. 22653DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 151 Uma vez que o fato se situe no passado, é impossível reconstituí-lo por completo e apurar com precisão todas as suas circunstâncias. O que é possível aferir são versões factíveis e convincentes do ilícito. Essa conclusão, com a devida vênia, faz transparecer que a acusação fiscal, confessadamente, lida com uma “versão factível”. Ocorre que a mera “versão factível”, segundo penso, não basta para que sejam cobrados milhões de reais de tributos com multa qualificada de contribuintes. Assim, é preciso separar o que nos autos encontra-se incontroverso e o que representa, apenas, uma “versão factível” e, quando procedo dessa maneira, não consigo, com a devida vênia, concluir acima de qualquer dúvida razoável que o sujeito passivo tenha perpetuado a fraude do qual é acusado. A acusação do Fisco é que a Recorrente utilizaria de empresas de “fachada”, pertencentes a seu grupo econômico, para simular a aquisição de “vergalhões de cobre” quando, na realidade, adquiria sucata. Dito isso, o primeiro ponto é que é incontroverso, nos autos, é que a Recorrente era uma empresa que, em 2016, detinha operação real de venda de fios de cobre para condutores elétricos. À fl. 11.333, o Fisco atesta que a Recorrente teve uma receita bruta de R$ 251.211.657,76 em 2016; à fl. 11.318, o TVF aponta que a Recorrente “é empresa existente de fato, com capacidade operacional e atuante no ramo de cabos e fios elétricos.” Já às fls. 14234/15147), há laudos que atestam tais vendas e que, em momento algum, foram contestados pela douta fiscalização. O segundo ponto incontroverso nos autos é que se a Recorrente, de fato, adquiriu sucata, para suas vendas, esse insumo não foi por ela utilizado para fabricação própria de “vergalhões de cobre”. O Termo de Verificação Fiscal corrobora com tal conclusão à fl. 11.317, apontando que “Entretanto, não era a BRASCOPPER quem industrializava a sucata em vergalhão de cobre”. É incontroverso, portanto, que, em algum momento, portanto, os “vergalhões de cobre” ingressaram no estoque da Recorrente. A Recorrente alega que a aquisição se deu pelas empresas que o Fisco designa de “noteiras” e o Fisco aponta que a aquisição se deu, na verdade, pelo envio de sucata a laminadoras que, por industrialização por conta ordem, devolveram “vergalhão” à Recorrente, de modo que a Recorrente pudesse se apropriar de créditos e PIS e COFINS. Embora o suposto “esquema”, acima, pudesse, a priori, ter repercussões para o PIS e COFINS – esse ponto será abordado oportunamente – não restou comprovado pelo Fisco de que tenha alterado a base de cálculo do IRPJ e CSLL. Tanto que o TVF assim coloca à fl. 11.326: O que está escriturado na contabilidade da BRASCOPPER são pagamentos para as empresas de fachada pela compra de vergalhão de cobre. O que de fato ocorreu foi a compra de sucata pela BRASCOPPER. O real fornecedor é a sucateira. O real pagador da sucata é a BRASCOPPER. As empresas de fachada eram intermediárias Fl. 22654DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 152 para emissão de documentos fiscais inidôneos e repasse dos recursos financeiros oriundos da BRASCOPPER. Ora, se as “noteiras”, na narrativa do Fisco, eram intermediárias, então, não há que se falar que os gastos não ocorreram. O Fisco atesta: “Portanto, a contabilização das notas frias pela BRASCOPPER reduziu a base de cálculo do IRPJ em quase R$ 130,08 milhões em 2016.”. Ora, se as “noteiras” eram intermediárias, o pagamento às reais pessoas jurídicas teriam importado o mesmo quantum econômico, não sendo justificada a redução da base de cálculo de IRPJ e CSLL. A fl. 11.328, o Fisco aponta: É perceptível, até para olhos leigos, que a maquiagem realizada pela BRASCOPPER em sua escrituração contábil não torna possível a verificação de forma correta do lucro contábil. A título exemplificativo, a aquisição de vergalhão de cobre não impõe custos de produção, diferentemente da aquisição de sucata, fato que trará divergência direta na apuração de seu custo total. Mais ainda, a aquisição de vergalhão de cobre escriturada na contabilidade é mentirosa, e isso é perceptível pela leitura deste TVF. A título exemplificativo, a empresa de fachada poderia ter emitido notas fiscais em valores e quantidades duplicados. O primeiro aspecto que chama atenção é que se a aquisição de sucata impõe custos que a aquisição de cobre não impõe, o eventual indício é de redução ainda maior da base de cálculo de IRPJ e CSLL e não aumento. Além disso, o Fisco diz que “a empresa de fachada poderia ter emitido notas fiscais em valores e quantidades duplicado”. Todavia, o “poderia” é mera suposição e há o pagamento para as empresas tidas como “noteiras”. Veja-se, se há (a) pagamentos às noteiras compatíveis com o valor das notas, (b) se as “noteiras” eram usadas como intermediárias para aquisição de sucata, o que é um fato admitido pelo Fisco, então, a desqualificação que o Fisco empreende não fornece indícios de que o “quantum” contabilizado estava inferior às despesas incorridas, salvo, com a devida vênia, em um frágil “poderia”. Ademais, quanto ao IRRF, a fiscalização apontou que (a) as empresas noteiras receberam efetivamente os recursos financeiras (tanto que foram espécie de intermediárias para a aquisição de sucata; (b) além disso, o fato de que foram intermediárias na aquisição de sucata indicaria uma “causa”, mesmo na narrativa fiscal. Portanto, entendo que os beneficiários e as causas estão devidamente demonstradas. Mesmo com relação à desqualificação das notas para fins de PIS e COFINS, também me parece que há certa presunção e até mesmo um quê de insegurança revelado no Termo de Verificação Fiscal. À fl. 11.139 é dito o seguinte: No curso desta fiscalização foram obtidos diversos indícios e provas que, se isoladamente levantam suspeitas sobre um esquema de fraude tributária envolvendo empresas de fachada, em conjunto têm a capacidade de estabelecer elevada certeza de que BRASCOPPER, na figura de seus administradores e Fl. 22655DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 153 integrantes, agiu com dolo no intuito de iludir o Fisco utilizando-se destas empresas NOTEIRAS para esquivar-se de suas obrigações tributárias. Com a devida vênia, o termo “elevada certeza” é uma contradição em termos, pois a “certeza” importa um grau absoluto e, portanto, não pode ser mais “elevada ou menos elevada”. Com a devida vênia, não há certeza, há, no máximo uma convicção pessoal da fiscalização, a partir de uma interpretação de um contexto. Tanto assim que se as provas isoladamente “levantam suspeitas”, não há prova cabal que demonstre a “versão factível” apontada pelo fiscal. O artigo 112, inciso II, do Código Tributário Nacional revela que a lei tributária que define infrações interpreta-se mais favorável ao acusado em caso de dúvida quanto “ II - à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos;”. Ainda que se diga que tal artigo se aplica às penalidades, o antecedente da sanção nada mais é do que o descumprimento do consequente da norma primária e não há, em termos lógicos jurídicos, como sem se afastar o pressuposto da sanção (penalidade) sem se afastar o descumprimento da norma primária (não pagamento do tributo). Assim, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado digitalmente Cristiane Pires McNaughton Declaração de voto Conselheiro Roney Sandro Freire Correa Em face do substancioso e muito bem fundamentado voto do d. conselheiro relator, peço vênia, para expressar o meu posicionamento: O processo administrativo trata, originalmente, de autos de infração visando à cobrança de valores supostamente devidos a título de IRPJ e CSLL, segundo o regime de arbitramento; PIS e COFINS, pelo regime cumulativo dessas contribuições; e IRRF, por alegado pagamento sem causa. Foi imputada a multa qualificada no patamar de 150%, sob alegação de fraude nas operações auditadas, e atribuiu-se, ainda, responsabilidade solidária a diversas noteiras e ao Sr. Carlos Eduardo Ferraz de Laurentiis, sócio administrador da BRASCOPPER CBC BRASILEIRA DE CONDUTORES LTDA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, doravante denominada BRASCOPPER, no período fiscalizado (2016). Segundo a acusação fiscal, a alegada infração decorre de suposto planejamento tributário abusivo, com a utilização de empresas criadas com o fito de emitir notas fiscais inidôneas, que permitiria à BRASCOPPER aumentar artificialmente seus custos e levantar créditos de PIS/COFINS e ICMS e, por conseguinte, reduzir indevidamente sua carga tributária. Fl. 22656DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 154 Segundo depreende-se do caderno processual, a acusação, no decorrer do ano calendário 2016, apurou que a recorrente adquiriu notas fiscais fraudulentas das empresas COPPER GREEN METAIS – EIRELI, CNPJ 22.911.596/0001-14, doravante denominada COPPER GREEN , GLOBAL METAIS LTDA, CNPJ 23.300.517/0001-00, denominada GLOBAL, MASSA FALIDA DE METALOX METAIS LTDA, CNPJ 01.455.616/0001-10, doravante denominada METALOX e R3 METAIS EIRELI, CNPJ 08.482.709/0001-82, denominada R3, que totalizaram um volume de R$ 130.606.336,90. Empresas essas, segundo a autoridade fiscal, criadas com o objetivo de emitir notas fiscais frias para geração de crédito tributário de tributos não cumulativos e, consequentemente, diminuir o lucro tributável das reais beneficiárias. No entender da Fiscalização, não estaria demonstrada a efetiva compra dos materiais pela BRASCOPPER – mais especificamente, de vergalhões de cobre, o que teria resultado numa redução indevida de tributos e contribuições federais e repercussão também na esfera estadual, incorrendo em prejuízos milionários aos cofres públicos. Irresignada, em sede de recurso voluntário, a recorrente alude que adquiriu os vergalhões de cobre, reafirmando que tanto é assim, que os revendeu e os transformou em condutores elétricos, conforme atesta o Laudo Técnico, produzido pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), juntado às fls. 21.935/21.985. Ademais, para demonstrar a ocorrência das operações de compras de vergalhão de cobre, reporta a juntada dos seguintes documentos: Livro razão da Brascopper; notas fiscais de compras de materiais; consultas cadastrais dos fornecedores da Brascopper no SINTEGRA/ICMS da época dos fatos; respectivos pagamentos (fls. 320 e seguintes; fls. 3217 e seguintes; fls. 4758 e seguintes); Livro Razão da Brascopper; notas fiscais dos serviços de industrialização por encomenda prestados pela CBL (empresa que não foi considerada em nenhum momento como parte do suposto esquema fraudulento); consulta cadastral no SINTEGRA/ICMS da CBL da época dos fatos (fls. 2108 e seguintes); DCTF (fls. 6286 e seguintes) Laudo Técnico produzido pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) (fls. 21.935/21.985); Laudo técnico sobre o processo industrial da BRASCOPPER com cobre (fls. 11.679 e seguintes); Fl. 22657DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 155 Documentação relativa às antigas transações com METALOX (fls. 11.723 e seguintes); Contrato de conta Escrow com o Grupo Athena (fls. 11.749 e seguintes); Livro razão com pagamento das empresas de consultoria financeira que gerenciaram a BRASCOPPER desde o pedido de recuperação judicial (fls. 11.772 e seguintes); Documentação relativa às antigas transações com a CBL (fls. 11.776 e seguintes); Demonstrativo do lucro da Brascopper com a intermediação da industrialização por encomenda (fls. 11.824); Demonstrativo das remessas de industrialização de sucata de "cobre"; notas ficais das operações; consulta à inscrição estadual da R3 Metais (habilitada à época dos fatos; (fls. 11.892 e seguintes); Comprovantes de pagamento das operações entre R3 e Brascopper pela intermediação industrialização por encomenda (Razão, notas fiscais e extratos bancários) (fls. 13.815 e seguintes); Relatório de faturamento (saída) - matéria prima cobre (fls. 14.098); Relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima (fls. 14.102); Demonstrativo de “receita bruta” e “custo bruto” – produtos acabados e para revenda (fls. 14.108); Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre (fls. 14.230); Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre - detalhado por nota fiscal eletrônica (fls. 12234 e seguintes); Razão Analítico da CBL – histórico BRASCOPPER, referente ao período de 01/01/2016 a 31/12/2016 (fls. 19.738 e seguintes); Extratos bancários com os registros dos pagamentos feitos pela BRASCOPPER a seus fornecedores (fls. 19.758 e seguintes). Ao compulsar tais documentos, não paira qualquer dúvida, que a BRASCOPPER é uma empresa existente de fato, possuindo estabelecimento comercial, apresentando atividade Fl. 22658DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 156 econômica, com adequado processo produtivo, possuindo funcionários, colaboradores, adotando o lucro real/trimestral, como forma de tributação e unidades comerciais, conforme versa na própria plataforma Youtube.1 Em sede de memorial, conforme mencionado alhures, a recorrente cita diversos documentos, que, ao analisá-los, faço algumas constatações prévias, sem qualquer viés conclusivo. Ao se verificar às DCTF (fls. 6286 e seguintes), não foi identificado, em nenhuma situação, a juntada das declarações de débitos e créditos tributários federais no tocante aos tributos IRPJ e CSLL – ano-calendário 2016. Concernente ao Livro razão; notas fiscais de compras de materiais; consultas cadastrais dos fornecedores da Brascopper no SINTEGRA/ICMS da época dos fatos; respectivos pagamentos (fls. 320 e seguintes; fls. 3217 e seguintes; fls. 4758 e seguintes), constam, somente, registros do Razão da conta fornecedores – pagamentos de títulos e bancos, dissociados dos números das notas fiscais. Observação, às únicas notas fiscais juntadas se referem às seguintes empresas: CONDUMAX ELETRO METALURGICA CIAFUNDI LTDA e CBL LAMINAÇÃO BRASILEIRA DE COBRE LTDA. Em relação Relatório de faturamento (saída) - matéria prima cobre (fls. 14.098); relatório de faturamento detalhado por tipo de matéria prima (fls. 14.102); Demonstrativo de “receita bruta” e “custo bruto” – produtos acabados e para revenda (fls. 14.108) e Demonstrativo de compra e venda - matéria prima cobre (fls. 14.230); todos foram confeccionados e, na sequência, disponibilizados pelo próprio recorrente. Relativo às antigas transações com a CBL (fls. 11.776 e seguintes), constam, apenas, notas fiscais relativas ao período de 2012 e não referentes ao ano fiscalizado, ou seja, em 2016. Por fim, ao contrário do que havia sido mencionado pela própria recorrente, constam diversas operações financeiras, no ano de 2016, realizadas junto à Alcoa Alumínios, Latasa Reciclagem S.A, Gerdau Aços Longos S/A (e-fls. 19758 a 20838), desacompanhadas de notas fiscais, o que demonstra, eventualmente, um ingresso de outras matérias primas no estoque da recorrente, que não apenas cobre. Dito isso, passo a análise do presente caso, recorrendo, de início, aos ensinamentos do douto Professor Humberto Ávila, ao lecionar a Teoria da Prova, aludindo o seu desdobramento em três fatores: (i) a hipótese que se pretende provar; (ii) o meio utilizado para provar a hipótese; e (iii) o critério inferencial, isto é, “aquilo que relaciona o meio de prova à hipótese”. 2 1 Vide https://www.youtube.com/watch?v=lDzytLZu-YM – e https://www.youtube.com/watch?v=uur91iqV3yE. 2 ÁVILA, Humberto Bergmann. Teoria da prova: standards de prova e os critérios de solidez da interferência probatória. Revista de Processo, v. 282, ano 43, ago. 2018, p. 114. Fl. 22659DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 157 Neste diapasão, a hipótese que se pretende provar diz respeito à demonstração de que as compras de insumos realizados pela recorrente, (vergalhão de cobre), ocorreram de acordo com seus assentamentos contábeis, ante às notas fiscais de compras de matérias primas, efetivos pagamentos aos seus fornecedores e saída de mercadorias, suscitando a boa-fé como seu alicerce principiológico. Diante deste contexto, à luz da defesa, a autoridade fiscal interpretou, equivocadamente, diversas operações, ao atribuir o tratamento de aquisição de sucatas e não vergalhões de cobre, o que refutou à própria recorrente, em sede de memorial, ao descrever e desdobrar o processo produtivo, circunscrito em três etapas: Primeira etapa – alega que houve compra e venda de vergalhão de cobre, onde os fornecedores são 4 empresas e a adquirente é a Brascopper (Recorrente), operação essa espelhada nos registros contábeis, nas notas fiscais e nos pagamentos constantes nos autos (fls. 320 e seguintes; fls. 3217 e seguintes; fls. 4758 e seguintes); Segunda etapa, em processo industrial de trefilação que ocorre no estabelecimento da Recorrente (cf. laudos técnicos produzido de fls. 21.935/21.985 e fls. 11.679 e seguintes), a Brascopper industrializa os vergalhões de cobre, produzindo a partir deles os condutores elétricos; Terceira etapa, a Brascopper atua tanto como revendedora, quanto como vendedora, sendo que nessa operação as vendas são feitas para empresas privadas e ainda mais para concessionárias de energia elétrica, cuja contratação da Recorrente ocorre inclusive por meio de homologação dos produtos diante de cada uma das prestadoras de serviço público e posterior processo de licitação (cf. relatórios de faturamento/saída de matéria prima cobre – fls. 14.098; e fls. 14.102 –; demonstrativo de receita bruta de produtos acabados e para revenda – fls. 14.108-; e receita bruta da Recorrente, tomada como verdadeira inclusive para fins de apuração dos tributos pela autoridade fiscal – fls. 11.332). Diga-se de passagem, elaborado pela própria recorrente. Fl. 22660DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 158 Desta forma, por uma questão meramente didática e metodológica, fragmentei o meu voto condutor, a partir da estruturação e segmentação, circunscrevendo-o consoante os critérios contábil, fiscal, financeiro e operacional, na hipótese de entender como a boa-fé, a luz da súmula do Superior Tribunal de Justiça nº 509, articulando com as provas acostadas, deve ou não ser reconhecida, sobretudo no tocante aos atos omissivos e comissivos, em conluio ou não, exercido ou não pela própria recorrente. Fl. 22661DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 159 Diante deste espectro, entendo que, tanto a boa-fé subjetiva, quanto objetiva devam ser consideradas, me adiantando às lições da Professora Karem Jureidini Dias3, ao analisar a boa-fé subjetiva, parte de uma conduta do administrado (leia-se contribuinte), indicando a ideia de ignorância, de erro escusável, acerca da existência de uma situação, tornando-se por regular quando essa é irregular, não se tratando de ignorância legis, mas de ausência de consciência, da ilicitude de uma determinada conduta, num momento específico, num contexto socio temporal. E, também, a objetiva, que merece, no mínimo, agregar a legalidade, a lealdade e a absoluta falta de consciência dos fatos empreendidos por aqueles que exerceram a má-fé, não podendo conjugar ou flertar, nem de longe, com a fraude, o conluio e a simulação. Dito isso, empreendo minha análise a partir do julgamento do Superior Tribunal de Justiça, que culminou com a edição da Súmula STJ 509, advindo do REsp nº 1.148.444/MG, ao tratar especificamente naquele julgado da tributação do ICMS destacado em nota fiscal, condicionou a boa-fé do adquirente à comprovação da regular aquisição das mercadorias e do pagamento: Sumula nº 509 - STJ É lícito ao comerciante de boa-fé aproveitar os créditos de ICMS decorrentes de nota fiscal posteriormente declarada inidônea, quando demonstrada a veracidade da compra e venda. (grifo nosso) No caso do mencionado REsp, o enunciado foi expressamente dirigido ao crédito do ICMS, hipótese distinta do presente auto, que não socorre o recorrente, quanto à veracidade e origem das operações de aquisição de vergalhões de cobre. Com efeito, ao analisar a ementa deste julgado, nota-se que o real embate normativo consistiu na aplicação, ex tunc, dos efeitos de idoneidade dos fornecedores, em contrapartida a uma legítima operação de mercadorias, o que não se perfaz, in totum, ao caso em tela. Destaco para o módus operandi naquele caso, também presente em diversos outros julgados deste Tribunal, que, ao verificar a situação de regularidade do fornecedor no SINTEGRA, o contribuinte segue para demonstrar a validade da nota, a efetiva comprovação do pagamento, a possibilidade de escrituração e comprovação da saída da mercadoria, apto a justificar a operação, à luz de algumas doutrinas, denominado de forma jocosa, como “kit da boa-fé”. O intuito de validar tais operações, portanto, se estabelece, ao sair em retirada de todas as operações contaminadas previamente, como se fosse necessário e suficiente o álibi para encapsular a boa-fé. Certamente, os pontos contemplados no supramencionado kit da boa-fé, quando muito, poderiam ser considerados indícios, carecendo, todavia, de demonstração e evidenciação, o que se denota além de uma mera formalidade. 3 DIAS, Karem Jureidini. Fato Tributário: Revisão e Efeitos Jurídicos. São Paulo: Ed. Noeses, 2013. P. 310. Fl. 22662DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 160 Destaco novamente, o parágrafo único do citado artigo, não se aplica, necessariamente ao presente caso, pois, o “adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços deve comprovar a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços”, restando a compreensão de se trata de uma conjunção aditiva, em nenhum momento, pode ser compreendida como adversativa. Ademais, a metodologia aqui é biunívoca: da mesma forma que é empregada uma análise descritiva, relatando como cada uma das significações axiológicas da boa-fé ocorre; é necessário se cercar de modos mais adequados para se vislumbrar a relação entre a boa-fé e os consectários da tributação, que se demonstra pelo inteiro conjunto da obra. Ou seja, é necessário investigarmos se a adquirente agiu, em última análise, com transparência, diligência normal de um bom administrador ou de um homem probo, se de fato adotou condutas éticas e compatíveis com o próprio mercado, e se, a conduta praticada foi imantada pelo requerido zelo, somente externando confiança a quem age pautado pela estrita legalidade ou vê-se afetado por modificação inopinada ou incoerente com a funcionalidade sistêmica do ordenamento jurídico. Se a boa-fé institui uma regra de conduta fundada na lealdade e na preocupação com os interesses do alter, a partir de standards de conduta concebidos e em constante adaptação, me parece um tanto descabido e desarrazoado, decotarmos o conteúdo fático, em situações que simplesmente enviesam a boa-fé, desprestigiando-a; muitas vezes, a assemelhar-se a fotos de fatos e não de fatos conjugados, que perfazem, ao final, um completo filme; às vezes, de terror. Portanto, o ponto nodal aqui é conjugar o fato ocorrido com o exercício da boa-fé, valendo- se de todo conjunto probatório colacionado, a fim de compreendermos, ao final, de que modo os fatos integrados possam ser analisados, socorrendo-o ou não da boa-fé. Conforme se depreende dos autos, existem diversos fatos incontroversos e incontestáveis; a empresa recorrente existe, de fato e de direito, possui funcionários e colaboradores, tem diversas contas bancárias, apresenta movimentação operacional e, em alguns casos, também possui notas fiscais. No entanto, existem também, situações incomuns. Como compreender, por exemplo, uma empresa que esteve passando por um momento delicado, inserida em um contexto de recuperação judicial, ter transacionado centena de milhões de reais com empresas inidôneas, noteiras, ou habitando no mesmo local dessas, sem qualquer conhecimento do que estava ocorrendo, ademais, desprovida de contrato ou pior, em alguns casos, conferindo procurações à sócios de empresas noteiras? Com a devida vênia ao setor que flerta com a informalidade, mas não é nada usual, comercializar centena de milhões de reais, a partir de uma situação próxima à bancarrota, não se valer de qualquer elemento de proteção jurídica, nenhum avalista, seguro bancário ou mesmo de um contrato sem registro, sabendo dos riscos e das condições com quem estava comercializando. Fl. 22663DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 161 Como dito alhures, ainda que tal fato beira o improvável, soando até como uma anomalia, o fato não pode ser analisado de forma autônoma, devendo ser integrado, a meu ver, aos demais critérios (contábil, financeiro, operacional etc.), sobretudo para que a boa-fé alcance, necessariamente, o seu devido status. Destaco, a confiança legítima é um pressuposto fático-normativo para que se conclua pela presença ou ausência da boa-fé, valendo-me da lição do Ex Ministro do Supremo Tribunal Federal, Eros Roberto Grau, ao consignar que o “direito não se interpreta em tiras”4 e, portanto, a boa-fé não pode ser reduzida a único argumento, patente no presente caso. Assim, passo à análise, portanto, iniciando pelo critério contábil. Dentre vários exemplos presentes nos autos, ao compulsar a Escrituração Contábil Fiscal da recorrente, verificou-se como CUSTO DE MATERIA PRIMA – lançamentos a débito, o montante de R$ 149.694.046,38. Desta monta, R$ 130.082.268,38 teve como contrapartida lançamentos a crédito das contas contábeis 2110104760 – COPPER GREEN METAIS EIRELI, 2110101742 – METALOX METAIS DERIVADOS LTDA, 2110301875 – R3 METAIS EIRELI EPP, 2110104839 – GLOBAL METAIS LTDA EPP, perfazendo, aproximadamente, 87% do custo informado: Considerando os pressupostos adotados pela defesa, ao expurgar as sucatas, aproximadamente, R$ 128 milhões de reais referem-se a vergalhão de cobre, item, no entanto, impossível de ser produzido pelas empresas noteiras, pela absoluta inexistência de recursos produtivos (máquinas e equipamentos). Dito isso, ante a premissa de que a contabilidade faz prova a favor da recorrente, é cediço que os elementos probatórios sejam hábeis e idôneos, aqui, não me parece, que tanto as empresas fornecedoras, quanto suas notas fiscais, algumas emitidas por empresas inidôneas, salvaguardam a recorrente no tocante à elaboração e apropriação do seu custo. 4 GRAU, Eros Roberto. Ensaio e discurso sobre a interpretação/aplicação do direito. São Paulo: Malheiros, 2002, p.34. Fl. 22664DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 162 No âmbito deste Tribunal, existem diversos julgados neste idêntico sentido: CUSTOS APROPRIADOS COM BASE EM NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. IMPOSSIBILIDADE. GLOSA. As notas fiscais emitidas por firmas inidôneas são inválidas e, portanto, não podem ser reconhecidas como provas para fins de apropriação como custo. (Ac. 1201-005.640 – Rel. Thais de Laurentiis Galkowicz). GLOSA DE CUSTOS. NOTAS FISCAIS IDEOLOGICAMENTE FALSAS. Comprovado que as aquisições são fictícias, a partir da evidenciação que os valores remetidos a título de pagamento retornavam ao adquirente ou eram redirecionados a terceiras pessoas vinculadas ao sujeito passivo, conjugado ao fato da ausência de comprovação da efetiva entrega das mercadorias, devem ser glosados os referidos custos. (Ac. 1301-006.909 – Rel. Iágaro Jung Martins). CUSTO DOS BENS VENDIDOS - GLOSA - FALTA DE COMPROVAÇÃO Compete ao contribuinte o ônus de comprovar a efetiva e real aquisição de mercadorias cujos valores foram deduzidos como custos na determinação do lucro real, não bastando a prova de sua ocorrência apenas no plano formal, mormente se o fisco demonstra que os emitentes dos documentos fiscais respectivos não possuíam existência de fato e eram absolutamente destituídos de capacidade operacional para realizar tal atividade. (Ac. 1402-004.516 – Rel. Paula Santos de Abreu). NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. Tendo sido constatada a inidoneidade de diversas notas fiscais de entrada está correta a glosa de créditos efetuada pela fiscalização. (Ac. 1302-005.719, Rel. Luiz Tadeu Matosinho Machado). Dito isso, os fatos não se curvam somente à imprestabilidade de seus aspectos contábeis, o que levou a acusação fiscal a se convergir para o arbitramento. No tocante aos aspectos financeiros, os fatos evidenciam maior participação e integração da recorrente com os demais, senão vejamos: Constam nas fichas cadastrais das contas correntes 54499-0 e 54502-3, agência 0911, mantidas pela recorrente junto a SICREDI UNIÃO MS/TO, duas pessoas de contato estranhas à própria empresa, o Sr. RENATO MEGGIOLARO JUNIOR, (constante na ficha cadastral da noteira COPPER GREEN, junto à SICREDI UNIÃO MS/TO) e a Sra. AYLA DE ALMEIDA SANTOS. Fl. 22665DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 163 Em diligência realizada pela fiscalização junto à SICREDI, constatou-se que o Sr. RENATO MEGIOLARO JUNIOR, também figurava como o contato da BRASCOPPER junto à instituição financeira. Não só isso, atendendo a circularização, a empresa SICREDI confirmou que RENATO era o responsável pelo setor financeiro da BRASCOPPER, e, também, representavam às noteiras COPAR, R3, COPPER GREEN, PROCOBRE, METALOX, conforme informado pela própria Instituição Financeira SICREDI: Na sequência, atendendo o seu dever de comunicação, conforme estabelecido na Resolução nº 36, a instituição financeira reportou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), um arrazoado mencionando a participação da empresa BRASCOPPER neste estratagema, in verbis: Em síntese, o Sr. RENATO MEGGIOLARO JUNIOR se valia das contas correntes da BRASCOPPER, COPAR, R3, COPPER GREEN e METALOX, todas mantidas na SICREDI, mas com a anuência, participação e procurações outorgadas por estas. Em outra frente, algumas das transferências bancárias e pagamentos de boletos bancários realizados por meio de internet bank, apresentavam como solicitante CARLOS EDUARDO FERRAZ DE LAURENTIIS e MARCOS VINÍCIUS PASSOS MARTINS (procurador da METALOX). Compreensivo Fl. 22666DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 164 que o sócio da BRASCOPPER aparecesse como solicitante nas ordens de pagamento de transferência bancárias, porém, nada comum, foi o aparecimento de um terceiro, estranho ao quadro societário e funcional da empresa, mas pertencente a uma noteira, que também estava funcionando no mesmo endereço da recorrente. Quanto à procuração outorgada ao Sr. Marcos Vinícius Martins, trata-se de comprovada ingerência no dia a dia da BRASCOPPER (e-fl. 11.142), demonstrando sua importância na condução dos negócios, sobretudo autorizando pagamentos sem qualquer contrapartida. Ademais, aparece também como gestor ou sócio das noteiras COPAR (e-fl. 11.149), FUNDI LIGAS (e-fl. 11.361) e METALOX (e-fl. 11.143). No caso da METALOX, que não possuía qualquer funcionário registrado em GFIP (e-fl. 11.122), emitiu diversas notas fiscais de venda à BRASCOPPPER, totalizando R$ 65 milhões (e-fl. 11.295). É incontroverso, portanto, após todas as constatações, ou seja, utilizar o mesmo estabelecimento bancário, o mesmo endereço, idêntico lócus “produtivo” de empresas noteiras; ter repassado valores recebidos/enviados às empresas de fachada, suscitar algum desconhecimento. Deveras, não há como sustentar o não sabia de nada e era mera adquirente de boa-fé, penso que, no caso, é de se aplicar solenemente o clássico brocardo “a essência se sobrepõe à forma” (Wilson Alberto Zappa – Perícia Contábil – Normas Brasileiras – Juruá, 2004 – pg. 42), isto é, não bastava a forma de estar perimetricamente bem delineada e seus contornos simetricamente alinhavados com a súmula STJ nº 509; antes, era preciso separar aquilo que aparentemente se exibiu, se mostrou, se escancarou e enxergar, adentrar o âmago do cenário, buscando a verdadeira essência dos fatos, ou seja, aquilo que a fotografia não mostra aos olhos menos avisados, que havia uma participação direta e integrada de todos os envolvidos, sobretudo com a participação conjugada das empresas noteiras e a recorrente. Fl. 22667DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 165 Em outra frente, também espelhada nos extratos bancários, aparece, novamente a BRASCOPPER, destinando R$ 80.355.562,06 à METALOX, R$ 15.638.108,56 à COPPER GREEN e R$ 3.200.666,95 à GLOBAL, todas empresas sucateiras e, não produtora de vergalhão de cobre. Como exemplo, destaco uma dessas hipotéticas operações envolvendo a COPPER GREEN, quando adquiriu 2.445.279,00 kg de vergalhão de cobre de uma pseudo estrutura denominada JJE, tendo revendido 1.318.643,40 kg. Neste caso, a empresa deveria manter um estoque final de vergalhão de cobre de 1.126.635,60 kg (diferença entre quantidades). A surpresa aqui, é que a empresa JJE não aparece como destinatária de nenhuma nota fiscal em 2016, isto é, não há notas fiscais de vendas emitidas pela JJE e também não há movimentação financeira, assim como não entregou nenhuma GFIP, DCTF, arquivo EFD Contribuições, EFD ICMS IPI, ECD ou ECF. O único rastro de sua existência, encontrava-se nas emissões de notas fiscais. Em paralelo, a COPPER GREEN, apresentou uma movimentação financeira de R$ 119.106.833,59 (cento e dezenove milhões e cento e seis mil e oitocentos e trinta e três reais e cinquenta e nove centavos), e, em seu quadro societário constava um sócio administrador, que atuou no passado, como porteiro, motociclista e, de forma meteórica, se transformou em um grande empresário do setor. Pois bem, essas duas noteiras, tanto de primeiro, quanto de segundo nível, serviram a diversas estruturas que se beneficiaram de uma estrutura maior, de geração de crédito tributário de tributos não cumulativos e, consequentemente, diminuía o lucro tributável das reais beneficiárias. O que padece de boa-fé não é, unicamente, as noteiras, mas sim, também, os recursos que foram transferidos destas estruturas para a própria recorrente. Vejam, em janeiro de 2016, mais de R$ 250.000,00 circularam da conta da COOPER GREEN para a BRASCOOPER, de forma incompreensível, se aceitarmos a tese encampada pela própria defesa, que a operação transacionada era vergalhão de cobre e não sucata. No entanto, o fluxo de recursos remetidos da BRASCOOPER para a COOPER GREEN foi ainda maior, atingindo mais de sete milhões de reais, conforme consta no livro razão da própria recorrente, bem como em diversos documentos financeiros: Fl. 22668DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 166 Assim, se a COOPER GREEN não possuía nenhum maquinário, portanto, não produzia vergalhão de cobre e, a BRASCOOPER não adquiriu sucatas para essa finalidade, há um completo descompasso entre a transação financeira mencionada e a contraprestação inexiste da prestação comercial. Ou seja, ou a transação financeira ocorrida entre a COOPER GREEN e a BRASCOOPER era, de fato, para adquirir sucatas, ou, apenas poderia ser considerado uma rota que atendia o fluxo financeiro com evidente intuito de gerar créditos tributários. Desta forma, é patente que: Fl. 22669DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 167 i. As operações entre COPPER GREEN e JJE (movimentação financeira zerada) não ocorreram efetivamente. ii. A COPPER GREEN adquiriu sucata para o real beneficiário BRASCOPPER, conforme análise das transferências realizadas em suas contas bancárias e diligências fiscais. iii. A SEFAZ/SP em procedimento fiscal apontou a simulação do estabelecimento ou da empresa, e tornou nula a inscrição estadual da COPPER GREEN. iv. O quadro societário da COPPER GREEN é formado por interposta pessoa, como forma de afastar uma possível responsabilidade tributária e/ou penal. v. A COPPER GREEN não apresentou GFIPs no período de 2015 a 2016, indicação da falta de mão de obra para transformar sucata em vergalhão, ou outra atividade comercial, devendo ter atuado apenas como repassadora da sucata adquirida para terceiros. vi. Pagamentos realizados pela BRASCOPPER e a simultânea saída desses recursos, da conta corrente da COPPER GREEN, para sucateiros, bem como as diligências realizadas e apresentadas confirmam esta hipótese. Ao examinar às provas, vislumbra-se a combinação ou o fino ajuste entre as partes, fragilizando a alegada boa-fé. Voltemos ao caso dos vergalhões de cobre. A recorrente mencionou que recebeu mercadorias de seu uso, tais como lingotes, sucatas de metais, vergalhões etc., fornecidos por diversas empresas, mas não conseguiu demonstrar, com documentação hábil e idônea, sua origem. Muito embora havia operações financeiras entre a recorrente e às demais empresas que compõem o estratagema, a origem da matéria-prima era desconhecida, ou seja, podia ter sido adquirida de qualquer um, inclusive poderia ser proveniente de furto, receptação ou descaminho. Destaco, o ônus probatório de demonstrar a origem de suas compras, fato esse ignorado ou, propositalmente, não disponibilizado pela própria recorrente. Aqui, cito o primoroso voto da lavra do Conselheiro Fernando Beltcher, Acórdão nº 1102- 001.697, que afirma: “casos como o presente, há que se agir com cautela na avaliação dos partícipes, sobretudo quanto ao “nada sei”, de que “sou terceiro de boa-fé”, de que “posso provar que necessitava do vergalhão de cobre para produzir fios condutores e vende-los às concessionárias de energia”. De fato, a boa-fé, em sua acepção do princípio geral do direito, valoriza de forma pungente uma série de valores importantes e caros ao próprio direito, como já elencado alhures, abominável e ignorado no presente caso. Por fim, conforme a metodologia estabelecida, o último elo, o operacional dispõe sobre as empresas transportadoras. Neste caso, cabia à RG ALVES TRANSPORTE ME e RBS SILVA E CIA EPP Fl. 22670DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 168 (também denominada METAIS TRANSPORTES RODOVIÁRIO LTDA – EPP), ambas transportado 98% das entregas remetidas pelas noteiras e destinadas à empresa BRASCOPPER. Quanto a esse ponto, não vejo nenhum problema, uma empresa contratar duas, três, dez ou apenas uma transportadora. No entanto, ao compulsar os autos, sobretudo o anexo 07B, há diversos conhecimentos de transportes de estabelecimentos recebedores da matéria prima da BRASCOPPER, sediada nos Estados do Mato Grosso do Sul e Maranhão, transportando até o estado de São Paulo. Não me parece muito comum, um modal rodoviário trafegar por distâncias superiores a 2000 km, com valores de carga ou quantidades de mercadorias transportadas com pesos homogêneos, sobretudo se referirmos à vergalhões de cobre ou mesmo sucata. Ao final, articulando todos os pontos mencionados, o processo, em síntese, obedeceu a uma lógica negocial com claros fins tributários, em absoluta consonância com o que havia fundamentado a autoridade fiscal: 1. ao receber o insumo da noteira, a BRASCOPPER emitia a nota fiscal para uma terceira empresa, com capacidade operacional e técnica para industrializar vergalhão de cobre a partir da sucata. 2. No dia seguinte, emitia-se uma NF-e com a mesma mercadoria, mesma quantidade e mesmo valor para uma laminadora, no CFOP de remessa para industrialização. Esse fato ocorre por todo o período, em que há industrialização por encomenda envolvendo laminadoras, noteiras e BRASCOPPER. 3. Após a industrialização, há a emissão de uma nota fiscal no CFOP 6124 (industrialização por encomenda – com o valor do serviço de industrialização) e outra nota no CFOP 6902 (retorno de mercadoria utilizada na industrialização por encomenda – com o valor do retorno simbólico da sucata de cobre), para empresa BRASCOPPER. 4. Ao receber a NF-e, a BRASCOPPER aguardava alguns dias e emitia uma nota fiscal no CFOP 5124 e outra nota no CFOP 5902 para a noteira, com a mesma quantidade de vergalhão de cobre estampada na NF-e. 5. Como a principal laminadora foi responsável por 93% da quantidade de vergalhão industrializada, ou seja, 5.869.167,00 kg, e as transportadoras SFERA TRANSP.E LOGISTICA EIRELI – ME, CNPJ nº 18.303.960/0001-96, e ANDRE LUIZ GIZOLDI EIRELI – EPP, CNPJ nº 09.572.222/0001-53, ficaram encarregadas pelo transporte de 2.822.934,00 kg, 48% do volume industrializado pela laminadora, os supostos fretes da laminadora para os estabelecimentos da BRASCOPPER de São Luís/MA e Três Lagoas/MS também possuíam inconsistências, pois a distância entre estas cidades e São João da Boa Vista/SP, cidade do parque fabril da laminadora, era insustentável do ponto de vista comercial. 6. Assim, não era coerente, do ponto de vista comercial, que a noteira encaminhasse sucatas de cobre para a BRASCOPPER em São Luís - Maranhão, que depois enviasse Fl. 22671DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 169 para a laminadora em São João da Boa Vista/SP e transformasse em vergalhão, fazendo todo o caminho de retorno. Pasmem, foi isso que ocorreu! 7. As notas fiscais da laminadora com destino à BRASCOPPER, contendo a informação de industrialização por encomenda e vergalhão de cobre, com as notas fiscais emitidas pelas noteiras do grupo econômico, “coincidentemente”, em que pese as distâncias mencionadas foram iguais. 8. Ora, admitindo que a fiscalização desconsiderou todas as industrializações por encomenda e alienações que a BRASCOPPER realizou para as empresas noteiras, a receita bruta conhecida totalizou R$ 251.211.657,76. Nesta lógica, para poder levar os créditos para apuração das contribuições, a BRASCOPPER teve, necessariamente, que se utilizar das empresas de fachada e dos documentos fiscais inidôneos. 9. Assim, as noteiras de primeiro nível davam lastro fiscal para as noteiras de segundo nível, indicando a aquisição de vergalhão de cobre (operação 1). As noteiras de segundo nível emitiam notas fiscais, cujo produto nelas estampado era o vergalhão de cobre, para a BRASCOPPER, assim gerando créditos da contribuição para o PIS e da Cofins (operação 2). 10. Na sequência, ocorria a industrialização por encomenda, cujo primeiro encomendante era a noteira. Dessa forma, ela enviava a sucata de cobre à BRASCOPPER (operação 3). A BRASCOPPER encaminhava a sucata de cobre à industrializadora laminadora (operação 4). A laminadora “devolvia” o produto industrializado vergalhão de cobre à BRASCOPPER (operação 5). 11. Por fim, a BRASCOPPER “devolvia” o vergalhão de cobre à noteira (operação 6). “Devolvia”, pois parte deste vergalhão era desviado para terceiros (operações 7 e 8). 12. No retorno da mercadoria da laminadora para a BRASCOPPER, havia o destaque na nota fiscal eletrônica da contribuição para o PIS e da Cofins, apenas sobre o serviço de industrialização por encomenda (CFOP 6124), continuando, assim, sem a tributação das contribuições (CFOP 6902 e 6903). Assim, se a BRASCOPPER operacionalizasse a industrialização por encomenda sem a utilização das NOTEIRAS, continuaria sem direito ao crédito do ICMS, contribuição para o PIS e Cofins sobre a sucata de cobre adquirida. Ao adquirir sucata de cobre por meio das noteiras e recebendo notas fiscais destas, informando vergalhão de cobre, a BRASCOPPER conseguia utilizar-se de créditos fictícios da contribuição para o PIS e da Cofins e do ICMS. Havia ainda o fato de parte do vergalhão de cobre que deveria retornar da laminadora após a industrialização por encomenda, ser desviada para terceiros. Desta forma, a aquisição de produtos, sem origem comprovada, supostas entradas de mercadorias amparadas por notas fiscais inidôneas emitidas por empresas de fachada e com quadro societário alaranjado, eram elementos necessários para a perpetuação do negócio, que se Fl. 22672DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.726 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.727613/2021-23 170 aperfeiçoava com a entrega do produto final às concessionárias públicas de energia, único elo com algum vestígio de descontaminação. Ao final, se alguma peça desse quebra cabeça tivesse que ser removida do tabuleiro, toda a estrutura não faria o menor sentido, o que, consequentemente, implodiria a estrutura negocial envolvida, afastando, por consequência, o claro objetivo de “economia tributária”. Assim sendo, ao presumir a legalidade destas operações, bem como se conformar com a alegada boa-fé, estaríamos, no mínimo, legitimando o próprio creditamento indevido de tributos e o abrandamento da fraude. Não me parece oportuno e nem mesmo convincente, qualquer justificativa de atos infracionais, sobretudo de natureza tributária e criminal, sob o álibi de que o setor funciona com baixa densidade regulatória, sob pena de abrir as portas para o cometimento do crime de lavagem de dinheiro. Novamente, ao se consagrar a boa-fé no presente caso, entendo que a lealdade, a confiança mútua e a probidade ficam à míngua e se estabelecerão em segundo plano. Encerro o meu voto, recorrendo a um trecho da obra “História de um Crime”, do escritor francês Victor Hugo, recentemente parafraseada pela Eminente Ministra do Supremo Tribunal Federal, Min. Carmem Lúcia: “o mal feito pelo bem continua sendo mau. Mesmo quando ele tem sucesso? Principalmente quando ele tem sucesso. Porque então se torna um exemplo e vai se repetir.” (grifo nosso) Neste caso, o eventual sucesso da boa-fé além de deturpar a sua própria essência, certamente desidratará o seu caráter axiológico, evidenciando e alinhando, no mesmo plano, a convivência do conluio e a boa-fé. Assinado Digitalmente Roney Sandro Freire Corrêa Fl. 22673DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto
score : 1.0
Numero do processo: 14098.720081/2019-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2017
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIOS DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO E OBSCURIDADE. CONFIGURAÇÃO. INTEGRAÇÃO SEM EFEITOS MODIFICATIVOS.
Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e seus fundamentos, ou quando omitir ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a Turma (art. 116 do RICARF).
O afastamento da responsabilidade solidária dos recorrentes Comercial HDB de Petróleo Ltda., Magnet Combustíveis e Serviços Ltda., Mônaco Comércio Derivados de Petróleo Ltda. e Maria Augusta Fonseca Dias Ribeiro demandava fundamentação específica. O vício de omissão é sanado com a explicitação de que a ausência de individualização de conduta e de vínculo objetivo com o fato gerador autuado inviabilizou a responsabilização solidária.
Caracterizada contradição interna entre a fundamentação e o dispositivo, integra-se o acórdão para esclarecer que a adoção por remissão aos fundamentos da decisão recorrida não alcançou o capítulo “responsáveis solidários”, mas apenas os demais pontos não embargados (ICMS destacado, retroatividade benigna da multa e créditos de álcool).
A obscuridade é afastada com a declaração expressa da ratio decidendi aplicada ao afastamento da solidariedade.
Numero da decisão: 3302-015.200
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e rejeitar os embargos de declaração, por entender inexistentes os vícios apontados.
(assinado digitalmente)
José Renato Pereira de Deus, Relator.
(assinado digitalmente)
Lázaro Antonio Souza Soares, Presidente.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa(substituto[a] integral), Francisca das Chagas Lemos, Jose Renato Pereira de Deus, Lazaro Antonio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: JOSE RENATO PEREIRA DE DEUS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2017 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIOS DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO E OBSCURIDADE. CONFIGURAÇÃO. INTEGRAÇÃO SEM EFEITOS MODIFICATIVOS. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e seus fundamentos, ou quando omitir ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a Turma (art. 116 do RICARF). O afastamento da responsabilidade solidária dos recorrentes Comercial HDB de Petróleo Ltda., Magnet Combustíveis e Serviços Ltda., Mônaco Comércio Derivados de Petróleo Ltda. e Maria Augusta Fonseca Dias Ribeiro demandava fundamentação específica. O vício de omissão é sanado com a explicitação de que a ausência de individualização de conduta e de vínculo objetivo com o fato gerador autuado inviabilizou a responsabilização solidária. Caracterizada contradição interna entre a fundamentação e o dispositivo, integra-se o acórdão para esclarecer que a adoção por remissão aos fundamentos da decisão recorrida não alcançou o capítulo “responsáveis solidários”, mas apenas os demais pontos não embargados (ICMS destacado, retroatividade benigna da multa e créditos de álcool). A obscuridade é afastada com a declaração expressa da ratio decidendi aplicada ao afastamento da solidariedade.
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VÍCIOS DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO E OBSCURIDADE. CONFIGURAÇÃO. INTEGRAÇÃO SEM EFEITOS MODIFICATIVOS. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e seus fundamentos, ou quando omitir ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a Turma (art. 116 do RICARF). O afastamento da responsabilidade solidária dos recorrentes Comercial HDB de Petróleo Ltda., Magnet Combustíveis e Serviços Ltda., Mônaco Comércio Derivados de Petróleo Ltda. e Maria Augusta Fonseca Dias Ribeiro demandava fundamentação específica. O vício de omissão é sanado com a explicitação de que a ausência de individualização de conduta e de vínculo objetivo com o fato gerador autuado inviabilizou a responsabilização solidária. Caracterizada contradição interna entre a fundamentação e o dispositivo, integra-se o acórdão para esclarecer que a adoção por remissão aos fundamentos da decisão recorrida não alcançou o capítulo “responsáveis solidários”, mas apenas os demais pontos não embargados (ICMS destacado, retroatividade benigna da multa e créditos de álcool). A obscuridade é afastada com a declaração expressa da ratio decidendi aplicada ao afastamento da solidariedade. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 1672DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.200 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 14098.720081/2019-59 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e rejeitar os embargos de declaração, por entender inexistentes os vícios apontados. (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus, Relator. (assinado digitalmente) Lázaro Antonio Souza Soares, Presidente. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa(substituto[a] integral), Francisca das Chagas Lemos, Jose Renato Pereira de Deus, Lazaro Antonio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração opostos pela União (Fazenda Nacional) em face do Acórdão nº 3302-014.678, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, em sessão realizada em 20/06/2024, no âmbito do processo administrativo fiscal nº 14098.720081/2019-59 . O acórdão embargado examinou recursos voluntários interpostos por Mar Azul Distribuidora de Combustíveis Ltda. e outros contra Auto de Infração relativo à apuração da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, regime não cumulativo, no período de 01/01/2017 a 31/12/2017, em razão do desconto indevido de créditos sobre aquisição de álcool para revenda e serviços de transporte, bem como pela exclusão de ICMS das bases de cálculo, com a imputação de responsabilidade solidária a empresas coligadas e sócios/administradores. No julgamento, o colegiado deliberou, por unanimidade, em: i) negar provimento ao Recurso Voluntário de José Haroldo Ribeiro Filho; ii) dar provimento parcial ao Recurso Voluntário da Mar Azul Distribuidora de Combustíveis Ltda., para determinar a dedução do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS pelo valor destacado na nota fiscal e para reduzir a multa qualificada de 150% para o percentual de 100%, em razão da retroatividade benigna (art. 106, II, “c”, CTN); iii) dar provimento aos Recursos Voluntários da Comercial HDB de Petróleo Ltda., Magnet Combustíveis e Serviços Ltda., Mônaco Comércio Derivados de Petróleo Ltda. e Maria Augusta Fonseca Dias Ribeiro, em razão da ausência de individualização de conduta no fato gerador que originou a autuação. Fl. 1673DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.200 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 14098.720081/2019-59 3 Irresignada, a Fazenda Nacional interpôs Embargos de Declaração, ao amparo do art. 116 do Regimento Interno do CARF – Portaria MF nº 1.634/2023, alegando a ocorrência de vícios de omissão, contradição e obscuridade no acórdão embargado. Em síntese, sustenta a Embargante que: o voto condutor limitou-se a afirmar genericamente a “ausência de individualização de conduta” para afastar a responsabilidade solidária das empresas e da pessoa física mencionadas, sem indicar as razões fáticas e jurídicas que embasaram tal conclusão; o acórdão incorreu em contradição, pois, ao mesmo tempo em que afastou a solidariedade, reproduziu fundamentos da decisão de piso que a mantinham; resultou, assim, em obscuridade, por ausência de clareza entre as razões de decidir e o dispositivo, o que compromete a coerência da decisão. Requer, ao final, o acolhimento dos Embargos para sanar os vícios apontados, com a devida integração do julgado. É o relatório. VOTO Conselheiro José Renato Pereira de Deus, Relator. I – Da Admissibilidade Os Embargos de Declaração foram apresentados tempestivamente pela Fazenda Nacional, parte legítima e devidamente representada nos autos. Assim, devem ser conhecidos, nos termos do art. 65 do Decreto nº 70.235/1972 e do art. 115 do RICARF. Passa-se à análise de mérito. II – Da inexistência de omissão A Embargante sustenta que o acórdão teria sido omisso ao afastar a responsabilidade solidária das empresas Comercial HDB de Petróleo Ltda., Magnet Combustíveis e Serviços Ltda., Mônaco Comércio Derivados de Petróleo Ltda. e Maria Augusta Fonseca Dias Ribeiro, sem apresentar fundamentação específica para tanto. Entretanto, não procede a alegação. O voto condutor do Acórdão nº 3302-014.678 examinou expressamente o tema ao reconhecer que, embora houvesse vínculos societários e relações negociais entre os recorrentes, não se comprovou a atuação conjunta nem o interesse comum no fato gerador autuado, requisito indispensável à solidariedade tributária prevista no art. 124, I, do CTN. Fl. 1674DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.200 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 14098.720081/2019-59 4 A decisão também destacou a ausência de individualização de conduta das pessoas jurídicas e da sócia Maria Augusta, inexistindo elementos que configurassem infração pessoal a justificar a responsabilização nos termos do art. 135, III, do CTN. Portanto, a matéria foi devidamente enfrentada, não havendo ponto omisso a ser suprido. III – Da inexistência de contradição A Fazenda Nacional sustenta que o acórdão teria incorrido em contradição por adotar, em parte, fundamentos da decisão de piso, a qual mantinha a solidariedade, e, ao mesmo tempo, afastá-la no dispositivo. Não há, contudo, qualquer contradição. O voto foi claro ao consignar que a adoção por remissão aos fundamentos da decisão recorrida limitou-se aos capítulos não embargados (ICMS destacado, retroatividade benigna da multa e crédito de álcool para revenda), não abrangendo o tema da responsabilidade solidária. A decisão colegiada é harmônica: reconheceu a ausência de elementos fáticos e jurídicos suficientes à manutenção da solidariedade e, por consequência, deu provimento aos recursos voluntários desses quatro recorrentes. Assim, o acórdão é internamente coerente, sem oposição entre seus fundamentos e dispositivo. IV – Da inexistência de obscuridade Também não se identifica obscuridade. O acórdão embargado expôs, de forma clara e lógica, a ratio decidendi que embasou o afastamento da solidariedade: inexistência de nexo entre os recorrentes e o fato gerador apurado, insuficiência dos indícios de confusão patrimonial e ausência de benefício direto ou de participação nas condutas autuadas. As razões da decisão encontram-se detalhadas no corpo do voto relator, o que assegura plena compreensão de seus fundamentos e alcance. Não se trata, portanto, de decisão obscura, mas de inconformismo com a conclusão adotada — o que não se confunde com vício sanável por meio de embargos de declaração. V – Conclusão Os embargos de declaração não se prestam a reabrir a discussão de mérito nem a revisar o convencimento do colegiado, sendo cabíveis apenas para sanar omissão, contradição, obscuridade ou erro material. No caso, nenhum desses vícios foi constatado. O acórdão embargado apreciou devidamente todos os pontos suscitados pelas partes, com fundamentação suficiente e coerente. Fl. 1675DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.200 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 14098.720081/2019-59 5 Dessa forma, os embargos devem ser rejeitados, mantendo-se integralmente o teor e os efeitos da decisão proferida. DISPOSITIVO (mantido o estilo padrão): Diante do exposto, voto em conhecer e rejeitar os embargos de declaração, por entender inexistentes os vícios apontados. Eis o meu voto. Assinado Digitalmente José Renato Pereira de Deus Fl. 1676DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10855.722322/2013-39
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Dec 08 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. ERRO MATERIAL NÃO COMPROVADO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. CABIMENTO.
Constatada divergência entre os valores de IRPJ declarados na DIPJ e na DCTF sem comprovação documental do alegado erro de fato, é legítima a constituição do crédito tributário por meio de lançamento de ofício, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional.
A responsabilidade por infrações à legislação tributária é objetiva, independe da intenção do agente e decorre da simples prática de conduta culposa, conforme dispõe o artigo 136 do Código Tributário Nacional.
Não havendo comprovação do erro alegado e sendo irrelevante a ausência de dolo ou má-fé, mantém-se o lançamento de ofício e a respectiva multa de 75%, prevista no artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2010
MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE CONFISCO. INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO ADMINISTRATIVO PARA APRECIAR INCONSTITUCIONALIDADE.
Alegação de caráter confiscatório da multa de ofício de 75% prevista no artigo 44, I, da Lei nº 9.430/96. Impossibilidade de apreciação de inconstitucionalidade ou violação a princípios constitucionais pela esfera administrativa (art. 26-A do Decreto nº 70.235/72). Aplicação da penalidade em seu patamar mínimo, observada a legislação de regência. Inaplicabilidade do artigo 112 do Código Tributário Nacional diante da inexistência de dúvida quanto à capitulação legal dos fatos. Lançamento de ofício regularmente constituído em virtude de débito não declarado em DCTF.
Numero da decisão: 1302-007.618
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto da relatora.
Assinado Digitalmente
Miriam Costa Faccin – Relatora
Assinado Digitalmente
Sérgio Magalhães Lima – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nímer Chamas, Alberto Pinto Souza Júnior, Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão e Sérgio Magalhães Lima (Presidente).
Nome do relator: MIRIAM COSTA FACCIN
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010 DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. ERRO MATERIAL NÃO COMPROVADO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. CABIMENTO. Constatada divergência entre os valores de IRPJ declarados na DIPJ e na DCTF sem comprovação documental do alegado erro de fato, é legítima a constituição do crédito tributário por meio de lançamento de ofício, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional. A responsabilidade por infrações à legislação tributária é objetiva, independe da intenção do agente e decorre da simples prática de conduta culposa, conforme dispõe o artigo 136 do Código Tributário Nacional. Não havendo comprovação do erro alegado e sendo irrelevante a ausência de dolo ou má-fé, mantém-se o lançamento de ofício e a respectiva multa de 75%, prevista no artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2010 MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE CONFISCO. INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO ADMINISTRATIVO PARA APRECIAR INCONSTITUCIONALIDADE. Alegação de caráter confiscatório da multa de ofício de 75% prevista no artigo 44, I, da Lei nº 9.430/96. Impossibilidade de apreciação de inconstitucionalidade ou violação a princípios constitucionais pela esfera administrativa (art. 26-A do Decreto nº 70.235/72). Aplicação da penalidade em seu patamar mínimo, observada a legislação de regência. Inaplicabilidade do artigo 112 do Código Tributário Nacional diante da inexistência de dúvida quanto à capitulação legal dos fatos. Lançamento de ofício regularmente constituído em virtude de débito não declarado em DCTF.
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ERRO MATERIAL NÃO COMPROVADO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. CABIMENTO. Constatada divergência entre os valores de IRPJ declarados na DIPJ e na DCTF sem comprovação documental do alegado erro de fato, é legítima a constituição do crédito tributário por meio de lançamento de ofício, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional. A responsabilidade por infrações à legislação tributária é objetiva, independe da intenção do agente e decorre da simples prática de conduta culposa, conforme dispõe o artigo 136 do Código Tributário Nacional. Não havendo comprovação do erro alegado e sendo irrelevante a ausência de dolo ou má-fé, mantém-se o lançamento de ofício e a respectiva multa de 75%, prevista no artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2010 MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE CONFISCO. INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO ADMINISTRATIVO PARA APRECIAR INCONSTITUCIONALIDADE. 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Assinado Digitalmente Miriam Costa Faccin – Relatora Assinado Digitalmente Sérgio Magalhães Lima – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nímer Chamas, Alberto Pinto Souza Júnior, Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão e Sérgio Magalhães Lima (Presidente). RELATÓRIO 1. Trata-se, na origem, de Auto de Infração por meio do qual foi constituído crédito tributário de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ (e-fls. 26/34), relativo ao ano- calendário de 2010 e cujo débito correlato restou formalizado no montante total de R$ 582.465,39, o qual, a rigor, abrange a cobrança do respectivo tributo (principal), a incidência de juros de mora e, ainda, a aplicação da multa (75%), a seguir discriminado: TRIBUTO (principal) JUROS DE MORA MULTA TOTAL IRPJ 289.991,82 74.979,71 217.493,86 582.465,39 TOTAL 582.465,39 Fl. 115DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 3 2. Conforme se verifica da “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal” que compõe o respectivo Auto de Infração, a Autoridade Fiscal apurou as infrações descritas abaixo: Em procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo sujeito passivo supracitado, efetuamos o presente lançamento de ofício, nos termos dos arts. 904 e 926 do Decreto nº 3.000/99 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR/99), em face da apuração da(s) infração(ões) abaixo descrita(s) aos dispositivos legais mencionados. 0001 APURAÇÃO INCORRETA DO IMPOSTO RECOLHIMENTO DE IMPOSTO A MENOR Falta ou insuficiência de pagamento do imposto devido, conforme relatório fiscal em anexo. Fato Gerador Imposto (R$) Multa (%) 30/06/2010 96.797,64 75,00 30/09/2010 147.980,75 75,00 31/12/2010 45.213,43 75,00 Enquadramento Legal Fatos geradores ocorridos entre 01/04/2010 e 31/12/2010: Arts. 518 e 841 inciso IV, do RIR/99 Fazem parte do presente auto de infração todos os termos, demonstrativos, anexos e documentos nele mencionados. 3. Conforme consignado no Relatório Fiscal (e-fls. 24/25), a presente ação fiscal teve por finalidade proceder à revisão da Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), referente ao ano-calendário de 2010. 4. De acordo com os sistemas da Receita Federal do Brasil, o valor total do IRPJ a pagar informado na DIPJ foi de R$ 504.824,72. Todavia, as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) apresentadas pela empresa para o mesmo período indicam IRPJ a pagar de R$ 214.832,90, resultando em diferença de R$ 289.991,82 entre os valores declarados nas duas obrigações acessórias. 5. Diante dessa divergência, foi lavrado, em 19.02.2013, o Termo de Início de Ação Fiscal (e-fls. 18/20), por meio do qual a empresa foi intimada a apresentar justificativas para a diferença apurada. 6. Em 15.04.2013, por meio de sua representante, Sra. Regina Marins Alves Lima Affonso, apresentou resposta à intimação (e-fl. 23), informando que a divergência entre a DIPJ/2011 (ano-calendário 2010) e as DCTF’s ocorreu em razão de erro material cometido pelo escritório de contabilidade responsável à época. Fl. 116DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 4 7. Diante da justificativa apresentada, e considerando a inconsistência apurada, foi efetuado o lançamento de ofício da diferença verificada, conforme abaixo: 8. A Contribuinte foi cientificada do lançamento e apresentou Impugnação (e-fls. 42/79), cujas alegações podem ser assim resumidas: Ausência de Dolo ou Má-Fé: A Impugnante afirma que não agiu com dolo nem má-fé. As divergências constatadas nas DCTF’s decorreram de erro involuntário do escritório de contabilidade, sem ciência da empresa, que só tomou conhecimento do equívoco durante a ação fiscal. Ressalta, ainda, que colaborou integralmente com a Fiscalização, reconhecendo a diferença de imposto e jamais ocultando informações. Natureza Confiscatória da Multa: A multa aplicada, de 75% sobre o valor do imposto, é considerada excessiva e com efeito confiscatório, contrariando o artigo 150, IV, da Constituição Federal, que veda tributos com efeito de confisco e o artigo 3º do CTN, segundo o qual o tributo não pode ter caráter punitivo. Assim, a sanção ultrapassa sua função corretiva e passa a representar instrumento de arrecadação indevido. Violação aos Princípios da Razoabilidade e Proporcionalidade: Sustenta-se que a multa imposta fere os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, previstos no artigo 2º, parágrafo único, VI, e artigo 20 da Lei nº 9.784/1999. A Administração deve aplicar penalidades compatíveis com a gravidade da infração e evitar sanções desnecessárias ou desproporcionais. Além disso, conforme o artigo 112 do CTN, em caso de dúvida, a interpretação deve favorecer o contribuinte. Conclui que a penalidade aplicada é excessiva, desarrazoada e injusta, impondo à empresa ônus desproporcional e configurando um verdadeiro desserviço social. Fl. 117DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 5 9. Os autos foram encaminhados à Autoridade Julgadora de 1ª instância para que a Impugnação apresentada fosse apreciada. E, em 18 de dezembro de 2019, a 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (“DRJ/RPO”), em Acórdão de nº 14-103.820 (e-fls. 85/89), entendeu por bem julgá-la improcedente, ao fundamento de que: (i) A própria Contribuinte reconheceu a divergência nas DCTF’s, atribuída a erro do escritório de contabilidade, sem alegação de fraude ou ocultação de informações. Assim, o valor dos tributos lançados é incontroverso. (ii) O julgador destacou que, conforme o artigo 136 do CTN, a responsabilidade por infrações tributárias independe de dolo ou má-fé. Portanto, a alegação de ausência de intenção não afasta a infração. (iii) A multa foi aplicada em seu percentual mínimo (75%), conforme o artigo 44, I, da Lei nº 9.430/1996. (iv) Quanto às alegações de caráter confiscatório e violação de princípios constitucionais, o julgador ressaltou que a Autoridade Administrativa é vinculada à legislação vigente, sendo vedado afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade (art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972). Questões constitucionais devem ser tratadas no Poder Judiciário. (v) Também afastou a aplicação do artigo 112 do CTN, esclarecendo que não há dúvida quanto aos fatos ou à capitulação legal: a própria empresa reconheceu o erro que originou o lançamento. (vi) Diante disso, concluiu que o lançamento fiscal está em conformidade com a lei, razão pela qual votou pela improcedência da Impugnação e pela manutenção integral do crédito tributário autuado. 10. Confira-se, a propósito, a ementa da decisão: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2010 DIVERGÊNCIA DE VALORES. DIPJ E DCTF. DIFERENÇA NÃO DECLARADA/CONFESSADA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. CABIMENTO. O lançamento será efetuado de ofício quando o sujeito passivo não efetuar ou efetuar com inexatidão o pagamento ou recolhimento do imposto devido. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2010 MULTA DE OFÍCIO DE 75%. DOLO OU MÁ-FÉ. CARACTERIZAÇÃO DESNECESSÁRIA. No caso dos autos, não há qualquer imputação que dependa da aferição da existência de dolo ou má-fé por parte da autuada. A multa foi aplicada em seu patamar mínimo, a teor do disposto no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Fl. 118DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 6 INCONSTITUCIONALIDADE. CONFISCO. ANÁLISE VEDADA. Em relação ao argumento da natureza confiscatória da multa e ofensa a princípios constitucionais, a autoridade administrativa encontra-se vinculada ao estrito cumprimento da legislação tributária, não dispondo de competência para apreciar inconstitucionalidade e/ou invalidade de norma, considerando princípios constitucionais, quando o diploma está legitimamente inserido no ordenamento jurídico nacional. O foro apropriado para discussões dessa natureza é o Poder Judiciário. ART. 112 DO CTN. INTERPRETAÇÃO BENÉFICA. NÃO CABIMENTO. O artigo 112 do CTN é aplicável quando o julgador, na análise do caso concreto e diante das provas dos autos, resta em dúvida quanto à capitulação legal do fato ou quanto à sua natureza, suas circunstâncias materiais, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos. No caso, todavia, tal dúvida inexiste. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido 11. Em 17 de janeiro de 2020, a Contribuinte foi cientificada do Acórdão nº 14-103.820, através de Carta com Aviso de Recebimento – AR (e-fl. 95), e na sequência entendeu por apresentar Recurso Voluntário (e-fls. 98/109), por meio do qual, ratificou as alegações que já haviam sido suscitadas na Impugnação. 12. Conforme consta do respectivo Despacho de Encaminhamento (e-fl.112), os autos foram remetidos a este Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), para prosseguimento do julgamento do Recurso Voluntário. 13. É o relatório. VOTO Conselheira Miriam Costa Faccin, Relatora. I – Juízo de Admissibilidade do Recurso Voluntário 14. Inicialmente, reconheço a plena competência deste Colegiado para apreciação do Recurso Voluntário, na forma do artigo 43 da Portaria MF nº 1.634/20231 - Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“RICARF”). Dele, portanto, tomo conhecimento. 1 Art. 43. À Primeira Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª instância que versem sobre aplicação da legislação relativa a: I - Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ); II - Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); III - Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF), exceto nas hipóteses previstas no inciso II do art. 44; Fl. 119DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 7 15. Como se denota dos autos, a Recorrente tomou ciência do Acórdão recorrido em 17.01.2020 (e-fl. 95), apresentando o Recurso Voluntário, ora analisado, no dia 14.02.2020 (e-fl. 97), ou seja, dentro do prazo de 30 (trinta) dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/19722. 16. Portanto, é tempestivo o recurso apresentado e, por isso, deve ser analisado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“CARF”). II – Delimitação da Lide 17. A controvérsia posta em exame restringe-se à verificação da legalidade do lançamento de ofício lavrado em decorrência da divergência apurada entre os valores de IRPJ declarados na DIPJ e na DCTF, referentes ao ano-calendário de 2010, cuja diferença resultou na constituição de crédito tributário no montante total de R$ 582.465,39, compreendendo principal, multa de ofício (75%) e juros de mora. 18. Em síntese, a Recorrente não contesta a existência da diferença de valores declarados, mas alega que essa decorreu de erro material do escritório de contabilidade responsável pelas declarações, sem dolo ou má-fé, razão pela qual pleiteia: o afastamento da multa de ofício, por ausência de dolo ou fraude e o reconhecimento da improcedência do lançamento, por considerar que a autuação decorreu de equívoco formal, sem prejuízo ao erário. 19. A decisão recorrida, por sua vez, manteve integralmente o lançamento, entendendo que: (i) a diferença entre DIPJ e DCTF configura inexatidão de declaração, justificando o lançamento de ofício, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional e; b) a aplicação da multa de 75% encontra respaldo no artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996, sendo dispensável a comprovação de dolo ou má-fé. IV - CSLL, IRRF, Contribuição para o PIS/Pasep ou Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta (CPRB), quando reflexos do IRPJ, formalizados com base nos mesmos elementos de prova, sem prejuízo do disposto no § 2º do art. 45; V - exclusão, inclusão e exigência de tributos decorrentes da aplicação da legislação referente ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (Simples) e ao tratamento diferenciado e favorecido a ser dispensado às microempresas e empresas de pequeno porte no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, na apuração e recolhimento dos impostos e contribuições da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, mediante regime único de arrecadação (Simples- Nacional), bem como exigência de crédito tributário decorrente da exclusão desses regimes, independentemente da natureza do tributo exigido; VI - penalidades pelo descumprimento de obrigações acessórias pelas pessoas jurídicas, relativamente aos tributos de que trata este artigo; e VII - tributos, penalidades, empréstimos compulsórios, anistia e matéria correlata não incluídos na competência julgadora das demais Seções. 2 Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. Fl. 120DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 8 20. Dessa forma, a lide se limita à verificação da legitimidade do lançamento de ofício e da multa de 75% aplicada, bem como à possibilidade de afastamento da penalidade com base nos princípios constitucionais invocados pela Contribuinte. III – Análise das Alegações Meritórias III.1 – Análise da Alegação de Não Cabimento da Autuação Por Erro no Preenchimento da Declaração 21. A Recorrente sustenta que as divergências identificadas nas DCTF’s decorreram de mero erro material, do qual somente tomou conhecimento após o início da ação fiscal. Afirma, ainda, que este Conselho possui entendimento consolidado no sentido de que não cabe autuação fiscal quando comprovado tratar-se de erro formal ou material no preenchimento de declarações, desde que ausente dolo, fraude ou má-fé. 22. Alega também que, em observância ao princípio da verdade material, caberia à Autoridade Fiscal corrigir o equívoco de ofício, afastando o lançamento e reconhecendo a boa-fé do contribuinte. 23. Todavia, não assiste razão à Recorrente. 24. Como bem destacado na decisão recorrida, a própria Recorrente reconhece as divergências apontadas pela Fiscalização, conforme trecho extraído de sua manifestação: “Reconhece a autuada que “as divergências verificadas nas informações apresentadas nas DCTFs ocorreram por um lapso, em razão de um equívoco por parte do escritório de contabilidade responsável na época, divergências essas que eram do total desconhecimento da Impugnante e que somente agora, em virtude da ação fiscal, vieram ao seu conhecimento”. 25. Além disso, a Recorrente não contesta as divergências apuradas pela Autoridade Fiscal — diferença de R$ 289.991,82 — limitando-se a afirmar que tal discrepância entre a DIPJ/2011 (ano-calendário de 2010) e as DCTF’s resultou de erro material cometido pelo escritório de contabilidade responsável. 26. Observa-se, contudo, que os julgados citados pela Recorrente não lhe são favoráveis. Ao contrário, demonstram que, nos casos mencionados, o contribuinte conseguiu comprovar a inexistência de débito, hipótese em que o erro de preenchimento afastaria o lançamento — o que não se verifica no presente caso. 27. Apesar do inconformismo da Recorrente, o procedimento adotado pela Autoridade Fiscal encontra respaldo na legislação vigente3 e na jurisprudência deste Conselho, conforme ilustram as ementas abaixo: 3 Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação Fl. 121DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 9 “Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2012 DIVERGÊNCIA ENTRE DCTF E DIPJ. RECONHECIMENTO DO EQUÍVOCO PELO SUJEITO PASSIVO. Havendo divergência entre a DCTF e a DIPJ, deve o contribuinte ser intimado para justificar as diferenças existentes entre as declarações. Reconhecimento do equívoco na entrega das DCTFs zeradas. Improcedência da alegação”. (Processo n° 10120.728638/2016-71. Acórdão n° 1301-007.769 – 1ª Seção/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária. Sessão de 22.05.2025. Relator Eduardo Monteiro Cardoso, g.n.) ******************************************************************* “Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2010 DCTF. DIVERGÊNCIA COM A DIPJ. DECLARAÇÃO INSUFICIENTE. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE NULIDADE. A constatação de divergência entre os valores declarados em DCTF e DIPJ autoriza a instauração de procedimento fiscal e, sendo infrutífera a colaboração do contribuinte quanto à apuração da inconsistência, legitima o lançamento de ofício. A resposta evasiva prestada em sede de intimação configura reconhecimento tácito dos valores informados em DIPJ, servindo como indício para constituição do crédito. A DIPJ, embora não constitua confissão de dívida, pode fundamentar o lançamento quando corroborada por outros elementos probatórios. Inexistente vício formal ou preterição de defesa, afasta-se a nulidade do lançamento”. (Processo n° 10480.727380/2012-73. Acórdão n° 1001-004.015 – 1ª Seção/1ª Turma Extraordinária Sessão de 08.08.2025. Relatora Ana Cecília Lustosa da Cruz, g.n.) ******************************************************************* “Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 NULIDADE DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. O lançamento tributário não é nulo quando, além de cruzar as informações entre DIPJ e DCTF, ocorre após regular intimação do contribuinte para prestar esclarecimentos e documentos no livre exercício da ampla defesa e do contraditório. [...]”. (Processo n° 10665.721295/2011-52. Acórdão n° 3001- correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Fl. 122DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 10 003.781 – 3ª Seção/1ª Turma Extraordinária. Sessão de 24.10.2025. Relator Daniel Moreno Castillo, g.n.) 28. Diante disso, conclui-se que a constituição do crédito tributário observou todas as formalidades legais, não havendo fundamento para declarar a nulidade do lançamento. III.2 – Análise das Alegações Relativas à Ausência de Dolo ou Má-Fé 29. No ponto, verifico, que a Recorrente continua por sustentar as mesmas alegações tais quais formuladas na Impugnação: (i) Aduz que não houve dolo ou má-fé em sua conduta, uma vez que as divergências entre a DIPJ e as DCTF’s decorreram de mero erro material, do qual só tomou conhecimento após o início da ação fiscal. (ii) Afirma que sempre colaborou com a Fiscalização, reconhecendo as diferenças apuradas, e que sua postura de regularidade no cumprimento das obrigações tributárias demonstra boa-fé. (iii) Assim, requer que tal circunstância seja considerada para fins de ponderação na aplicação da multa. 30. Registre-se que, tais alegações foram devidamente analisadas e afastadas no Acórdão recorrido: “Alega ausência de dolo ou má-fé, mas cumpre ressaltar que o Código Tributário Nacional dispõe: Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. No caso dos autos, não há qualquer imputação que dependa da aferição da existência de dolo ou má-fé por parte da autuada”. 31. O Código Tributário Nacional ao afirmar que a responsabilidade independe da intenção do agente, acabou por permitir sua punição independentemente da perquirição da presença de elementos subjetivos (dolo ou culpa) na conduta. Assim, não há relevância na alegação de que as divergências entre a DIPJ e a DCTF resultou de erro material cometido pelo escritório de contabilidade, pois infringida a legislação, a punição se impõe. 32. Quanto ao ponto, acrescento, a lição de Luciano Amaro4 a respeito do artigo 136, para quem: “o art. 136 pretende, em regra geral, evitar que o acusado alegue que ignorava a lei, ou desconhecia a exata qualificação jurídica dos fatos e, portanto, teria praticado a infração de boa-fé, sem intenção de lesar o interesse do Fisco”. De forma mais direta, Sacha Calmon Navarro 4 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 1998, p. 471. Fl. 123DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 11 Coelho5 sintetiza: “a infração fiscal configura-se pelo simples descumprimento dos deveres tributários de dar, fazer e não fazer previstos na legislação”. 33. Porquanto caberia à Recorrente agir com diligência no cumprimento de suas obrigações fiscais. Ainda que não tenha havido intenção deliberada de infringir a legislação tributária, é certo que competia à Contribuinte o dever de observá-la e cumpri-la integralmente, dispondo, para tanto, dos meios e da possibilidade de fazê-lo. Assim, responde pelos efeitos da infração, uma vez que agiu com falta de cautela, descuido ou deficiência técnica, condutas que se enquadram na clássica tríade da imprudência, negligência ou imperícia, suficientes para caracterizar a infração tributária nos termos da legislação vigente. 34. É certo que a Recorrente poderia ter apresentado DCTF retificadora antes do início do procedimento fiscal, indicando de forma correta, a diferença de R$ 289.991,82, correspondente ao tributo não confessado. 35. Todavia, a Recorrente limitou-se em reiterar a alegação de que a inconsistência teria decorrido de erro material do escritório de contabilidade responsável pela entrega das declarações, sem, contudo, apresentar documentação contábil comprobatória que evidenciasse o equívoco alegado ou a retificação tempestiva das obrigações acessórias. 36. A rigor, cumpre observar que a jurisprudência consolidada deste Conselho tem entendido que a mera alegação de erro de fato no preenchimento da DCTF não é suficiente para afastar o lançamento fiscal. É indispensável que o contribuinte comprove de forma inequívoca e documental o equívoco alegado, mediante a apresentação de elementos contábeis e fiscais idôneos que demonstrem a ocorrência do erro e a exata apuração do tributo devido. Somente diante dessa comprovação é possível reconhecer a retificação como legítima e, eventualmente, revisar o lançamento de ofício. Confira-se: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF Período de apuração: 01/01//1997 a 31/12/1997 IRRF. ALEGAÇÃO DE ERRO DE FATO NO PREENCHIMENTO DA DCTF. FALTA DE COMPROVAÇÃO. Não comprovado o suposto erro de fato no preenchimento da DCTF, mantém-se o lançamento em face da insuficiência de prova documental. DCTF. ERRO DE PREENCHIMENTO. ÔNUS DA PROVA. Eventuais erros de preenchimento na DCTF devem ser comprovados pelo contribuinte, que detém todos os elementos necessários, ou seja, a escrituração contábil e os documentos que lhe dão sustentação. (Processo n° 11831.000671/2002-84. Acórdão n° 2402-007.140 – 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária. Sessão de 15 de março de 2019. Relatora Renata Toratti Cassini) ******************************************************************* 5 COELHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de Direito Tributário Brasileiro. 14 ed., Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 638. Fl. 124DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 12 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006, 2007 LANÇAMENTO DE OFÍCIO. DIVERGÊNCIA APURADA ENTRE DIPJ E DCTF.ALEGAÇÃO DE ERRO NO PREENCHIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO. É do contribuinte o ônus de comprovar que as divergências apuradas pela Fiscalização entre as informações constantes entre a DIPJ e a DCTF referem-se a mero erro de preenchimento. (Processo n° 13888.721575/2011-34. Acórdão n° 1001-004.007 – 1ª Seção/1ª Turma Extraordinária. Sessão de 06 de agosto de 2025. Relatora Ana Claudia Borges de Oliveira) 37. Diante do exposto, considerando que a Recorrente não apresentou qualquer elemento probatório capaz de comprovar a existência de erro de fato no preenchimento da declaração, conclui-se que suas alegações carecem de respaldo documental. 38. Ressalte-se que a invocação da ausência de dolo ou má-fé é irrelevante para o deslinde da controvérsia, uma vez que, conforme dispõe o artigo 136 do Código Tributário Nacional, a responsabilidade por infrações tributárias é objetiva, independe da intenção do agente e se caracteriza pela simples ocorrência de culpa, em qualquer de suas modalidades — negligência, imprudência ou imperícia. 39. Assim, não tendo a Recorrente demonstrado erro material apto a afastar o lançamento, e sendo objetiva a responsabilidade pela infração constatada, não há fundamento jurídico para acolher as razões recursais, devendo ser mantida a decisão recorrida em todos os seus termos. III.3 – Análise das Alegações sobre a Natureza Confiscatória da Multa e da Ofensa aos Princípios da Razoabilidade e Proporcionalidade 40. Em relação às alegações de mérito acerca da aplicação da multa, a Recorrente reitera, em resumo, as seguintes questões: (i) Sustenta que a multa de ofício de 75% aplicada é confiscatória, desarrazoada e desproporcional, devendo ser cancelada. (ii) Alega que, embora a Autoridade Administrativa não possa declarar a inconstitucionalidade de norma, é possível, no âmbito do processo administrativo, reconhecer a natureza confiscatória da penalidade com base nos princípios da razoabilidade, proporcionalidade e vedação ao confisco (art. 150, IV, da CF e art. 3º do CTN). (iii) Argumenta que o erro cometido decorreu de fato meramente material, sem dolo ou má-fé, e que a penalidade aplicada excede a gravidade da conduta, Fl. 125DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 13 visto que o valor da multa praticamente equivale ao montante do tributo exigido. (iv) Defende que a multa, embora de caráter punitivo, não pode ter finalidade arrecadatória, devendo observar os limites da moderação administrativa e o princípio da equidade, a fim de evitar efeitos confiscatórios e injustos. (v) Com base no artigo 2º, parágrafo único, VI, da Lei nº 9.784/1999 e no artigo 112 do CTN, sustenta que a Administração deve adotar interpretação mais favorável ao contribuinte em caso de dúvida sobre a infração. (vi) Conclui que, diante das circunstâncias específicas do caso — ausência de dolo, boa-fé comprovada e erro formal —, a aplicação da multa mostra-se desproporcional, convertendo-se em ônus excessivo e injusto, razão pela qual requer seu cancelamento integral. 41. Quanto ao ponto, o Acórdão recorrido expressamente consignou: “A multa foi aplicada em seu patamar mínimo, a teor do disposto no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Em relação ao argumento da natureza confiscatória da multa e ofensa a princípios constitucionais, a autoridade administrativa encontra-se vinculada ao estrito cumprimento da legislação tributária, não dispondo de competência para apreciar inconstitucionalidade e/ou invalidade de norma, considerando princípios constitucionais, quando o diploma está legitimamente inserido no ordenamento jurídico nacional. O foro apropriado para discussões dessa natureza é o Poder Judiciário. Nesses termos dispõe o art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972, incluído pelo art. 25 da Lei 11.941/2009: Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.” Com efeito, no âmbito do procedimento administrativo tributário, cabe exclusivamente verificar se o ato praticado pelo agente fiscal está ou não conforme a lei, sem emitir juízo de legalidade ou constitucionalidade das normas jurídicas que embasam aquele ato, visto terem sido inseridas no ordenamento jurídico após legítimo processo legislativo, cabendo então apenas ao Judiciário a aferição desta natureza. A aplicabilidade das disposições da Lei n° 9.784/99 são meramente subsidiárias ao processo administrativo fiscal. Como este se encontra regido pelo Decreto nº 70.235, acima citado, o entendimento a ser seguido é que acima se expôs. Fl. 126DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 14 Por fim, quanto a aplicabilidade do artigo 112 do CTN, equivoca-se a impugnante, pois ele é aplicável quando o julgador, na análise do caso concreto e diante das provas dos autos, resta em dúvida quanto à capitulação legal do fato ou quanto à sua natureza, suas circunstâncias materiais, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos. No caso, todavia, tal dúvida inexiste, eis que os fatos que levaram à autuação estão claramente delineados no Relatório Fiscal e respectivo auto de infração, com reconhecimento do “lapso” por parte do próprio contribuinte”. 42. Ressalte-se que, a decisão recorrida abordou todos as alegações reiteradas pela Recorrente em suas razões recursais e encontra-se em perfeita consonância com a jurisprudência deste Conselho, conforme se verifica pelas ementas abaixo transcritas: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2005 MULTA DE OFÍCIO. DÉBITO NÃO CONFESSADO. PROCEDÊNCIA. Somente a declaração do contribuinte com efeito de confissão de dívida elide a necessidade da constituição formal do crédito, por permitir a imediata inscrição em dívida ativa, independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte. A DIPJ, desde a sua instituição, não constitui confissão de dívida, nem instrumento hábil e suficiente para a exigência de crédito tributário nela informado (Súmula CARF nº 92). A falta de declaração de débito sujeito a lançamento por homologação impõe à Administração Tributária o dever de agir para constituir o respectivo crédito tributário, à luz do art. 142 do CTN, sobre o qual incide multa de ofício de 75%. (Processo n° 10120.009149/2010-21. Acórdão n° 9101004.249 – 1ª Turma/CSRF. Sessão de 06 de junho de 2019. Relatora Viviane Vidal Wagner) ******************************************************************* ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA(IRPJ) Exercício: 2011 INSUFICIÊNCIA DE DECLARAÇÃO/RECOLHIMENTO DE IRPJ Mantém-se a exigência decorrente das divergências resultantes dos valores confessados em DCOMP e os informados em DIPJ/DCTF, em face da insuficiência de declaração/recolhimento do IRPJ a Pagar. AUTO DE INFRAÇÃO. LANÇAMENTO. ATIVIDADE ADMINISTRATIVA VINCULADA. No que se refere ao Auto de Infração não cabe avaliação quanto à conveniência e à oportunidade da prática do ato, pois, identificado o ilícito, é obrigatória a autuação, que deve seguir os estritos limites das normas que disciplinam as etapas do procedimento fiscal. Fl. 127DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 15 FATO GERADOR. OCORRÊNCIA. SUBSUNÇÃO ÀS NORMAS. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Observado que na ação fiscal ocorreu a correta subsunção dos fatos concretos às normas legais tributárias, gerais e abstratas, em face da ausência de explicações hábeis e concretas do contribuinte no curso da ação fiscal, perfeito o procedimento da autoridade tributária em constituir o crédito tributário pelo lançamento de ofício. MULTA DE OFÍCIO Apurado que o débito constante em compensação considerada como não declarada não foi incluído na DCTF respectiva, este deve ser objeto de auto de infração e sobre ele recai a multa de ofício de 75%. INCONSTITUCIONALIDADE. VIOLAÇÃO DE PRINCÍPIOS. SÚMULA CARF N. 2. Falece a este tribunal administrativo competência para apreciar questões relativas à constitucionalidade ou à violação a princípios constitucionais. (Processo n° 10882.723749/2014-16. Acórdão n° 1201-004.589 – 1ª Seção de Julgamento/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária. Sessão de 19 de janeiro de 2021. Relator Jeferson Teodorovicz) ******************************************************************* ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2005 a 31/03/2005 DÉBITOS NÃO DECLARADOS EM DCTF. COMPENSAÇÃO CONSIDERADA NÃO DECLARADA. NECESSIDADE DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA DA MULTA DE OFÍCIO DE 75%. É cabível a multa de ofício de 75% prevista no art. 44, I, da Lei nº 9.430/96, nos casos de lançamento de ofício realizado em virtude de débito declarado a menor em DCTF. A compensação considerada não declarada não constitui o crédito tributário, devendo ser realizado o lançamento de ofício da diferença das contribuições. (Processo n° 11516.000454/2007-71. Acórdão n° 3402-008.501 – 3ª Seção de Julgamento /4ª Câmara/2ª Turma Ordinária. Sessão de 27 de maio de 2021. Relator Sílvio Rennan do Nascimento Almeida) 43. Por essas razões e, em complemento ao quanto consignado na decisão recorrida, que bem tratou das alegações aqui reiteradas, entendo acertada a conclusão da Fiscalização pela realização do lançamento de ofício da diferença não declarada em DCTF, fazendo incidir a multa de ofício de 75% prevista na norma vigente. IV – Dispositivo 44. Ante o exposto, conheço do Recurso Voluntário, para nessa extensão, negar-lhe provimento. Fl. 128DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.618 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.722322/2013-39 16 45. É como voto. Assinado Digitalmente Miriam Costa Faccin Fl. 129DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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