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Numero do processo: 13840.000265/2007-42
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1997 a 28/02/2007
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.934
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 84 0. 00 02 65 /2 00 7- 42 Fl. 369DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 370DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 371DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 372DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 373DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 374DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 375DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 376DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 377DF CARF MF Processo nº 13840.000265/200742 Acórdão n.º 9202004.934 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 378DF CARF MF
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Numero do processo: 15374.917724/2009-60
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Feb 13 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005
CANCELAMENTO DE DÉBITO.
Constada a inexistência do débito, cabe à própria DRF de origem, conforme disposto no inciso XXII do artigo 224 e inciso XI do artigo 302 do Regimento Interno da RFB (anexo da Portaria MF nº. 203, de 14 /05 /2012), proceder o cancelamento do débito em decorrência de erro no preenchimento de PER/DCOMP.
Numero da decisão: 1201-001.547
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recurso voluntário, para cancelar os débitos, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(documento assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Ester Marques Lins de Sousa, Luis Fabiano Alves Penteado, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli e Luiz Paulo Jorge Gomes. Ausente justificadamente, o conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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Constada a inexistência do débito, cabe à própria DRF de origem, conforme disposto no inciso XXII do artigo 224 e inciso XI do artigo 302 do Regimento Interno da RFB (anexo da Portaria MF nº. 203, de 14 /05 /2012), proceder o cancelamento do débito em decorrência de erro no preenchimento de PER/DCOMP. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recurso voluntário, para cancelar os débitos, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente (documento assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Ester Marques Lins de Sousa, Luis Fabiano Alves Penteado, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli e Luiz Paulo Jorge Gomes. Ausente justificadamente, o conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 4. 91 77 24 /2 00 9- 60 Fl. 539DF CARF MF 2 Trata o presente processo do PER/DCOMP n° 13761.43439.311005.1.3.045130 (fls. 02/06) transmitida em 31/10/2005, cujo crédito informado referese a pagamento a maior de IRPJ código 2362, estimativa, no valor de R$ 136.617,83 relativo ao DARF arrecadado em 29/07/2005, código: 2362, período de apuração: 30/06/2005, no valor de R$ 971.679,31, para compensar débitos de estimativa de IRPJ de setembro de 2005, no valor de R$ 98.112,52, e de estimativa de CSLL de setembro de 2005, no valor de R$ 44.188,61. A despeito do Despacho Decisório Nº de Rastreamento: 831254245, fl.09, expedido pela Delegacia da Receita Federal – DERAT Rio de Janeiro, que não homologara a compensação pleiteada, a interessada apresentou, em 29/05/2009, sua manifestação de inconformidade de fl. 12, não se insurgindo contra o não reconhecimento do direito creditório e a não homologação da compensação, apenas alegando que: ... o PER/DCOMP n° 13761.43439.311005.1.3.045130 apreciado no despacho decisório acima referido (doc. 2), na realidade carece de objeto, devendo ser cancelado, uma vez que os débitos nele apontados como compensados, relativos ao IRPJ e a CSLL do período de apuração de setembro de 2005 (cod. Rec. 2362 e 2484), foram extintos: a) parte por pagamento (DARF nos valores de R$ 239.135,88, R$ 937.453,23, R$ 74.186,17, e R$ 360.508,83); e b) parte por compensação declarada na PER/DCOMP n° 28482.91054.300807.1.7.047655, como atestam as cópias desse documento (doc.3) e da DCTF retificadora em anexo (doc. 4). Na DIPJ informou o valor correto da CSLL a pagar, contudo, cometeu equívoco no preenchimento da DCTF, declarando valor a maior que o devido. Entretanto, em 23/11/2009, entregou DCTF retificadora que evidencia e comprova o valor correto informado na DIPJ; De acordo com a jurisprudência administrativa, o erro de fato no preenchimento da DCTF não invalida o direito creditório; Por todo o exposto, requer seja homologada a compensação efetuada e suspensa a exigibilidade do crédito tributário. A 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ/Rio de Janeiro/RJ1) indeferiu o pleito da pessoa jurídica, mantendo como não reconhecido o direito creditório e não homologando a compensação declarada, bem como mantendo a cobrança dos débitos constantes no PER/DCOMP nº 13761.43439.311005.1.3.045130, conforme decisão proferida no Acórdão nº 1247.437, de 14 de junho de 2012, cientificado ao interessado em 06/05/2013. A decisão recorrida possui a seguinte ementa: DÉBITOS CONFESSADOS EM DCOMP. ÔNUS DA PROVA DE INEXIGIBILIDADE NO CASO DE NÃO HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. As DComp constituem confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos nelas indevidamente compensados, que gozam de certeza e correção, cabendo à contribuinte declarante a comprovação de erro ou de não Fl. 540DF CARF MF Processo nº 15374.917724/200960 Acórdão n.º 1201001.547 S1C2T1 Fl. 3 3 exigibilidade dos mesmos, quando assim alegar em suas manifestações de inconformidade que devem vir acompanhadas de toda a documentação necessária à comprovação das alegações nelas contidas. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A contribuinte interpôs recurso ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais– CARF em 06/05/2013, conforme o despacho de encaminhamento, efl.195. Na peça recursal a Recorrente alega, no essencial, os mesmos argumentos expendidos na manifestação de inconformidade. A Recorrente não se insurge contra o não reconhecimento do direito creditório e a não homologação da compensação, apenas insiste que os débitos do IRPJ e CSLL objeto do PERDCOMP, tratado nos presentes autos, não mais subsistem, pelos seguintes motivos: a) em relação à CSLL: apurou que o valor inicialmente declarado e recolhido a título de CSLL devida por estimativa em setembro de 2005 estava incorreto, devendo ser retificado de R$ 498.691,48, para R$ 439.815,33; diante desse fato, considerando os recolhimentos realizados para aquele período de apuração, o suposto saldo do débito no valor de R$ 44.188,61, objeto da PER/DCOMP nº 13761.43439.311005.1.3.045130, mostrouse excessivo, motivo pelo qual, a Recorrente apresentou nova PER/DCOMP de n° 28482.91054.300807.1.7.047655 (retificadora do Per/DCOMP n° 06991.50820.170306.1.3.047574), para compensar o débito em questão, desta feita reduzido para R$ 5.120,33 (que acrescidos de multa e juros de mora totalizou R$ 6.473,64) e, olvidouse, contudo, de cancelar a PER/DCOMP n° 13761.43439.311005.1.3.045130, originariamente transmitida erroneamente. b) em relação ao IRPJ: apurou que o valor inicialmente declarado e recolhido a título de IRPJ devido por estimativa em setembro de 2005 estava incorreto, devendo ser retificado de R$ 1.274.701,63, para R$ 1.176.589,10; diante desse fato, considerando os recolhimentos realizados para aquele período de apuração, o suposto saldo do débito no valor de R$ 98.112,59, objeto do PER/DCOMP n ° 13761.43439.311005.1.3.045130, mostrouse indevido, pois os valores previamente recolhidos via DARF (R$239.135,88 e R$ 937.453,23 doc.02) já eram suficientes para quitar o débito de estimativa do IRPJ de setembro de 2005, e, olvidouse, contudo, de cancelar a PER/DCOMP n°13761.43439.311005.1.3.045130, originariamente transmitida erroneamente. Conclui afinal que, os valores devidos de CSLL e IRPJ de setembro de 2005 são de R$ 439.815,33 (CSLL) e R$ 1.176.589,10 (IRPJ) conforme DCTF e DIPJ Retificadoras e Fls. do Livro Razão. Fl. 541DF CARF MF 4 A Recorrente alega que não há qualquer óbice, em relação ao fato de ter apresentado o PER/DCOMP n° 06991.50820.170306.1.3.047574 (retificado pelo PER/DCOMP 28482.91054.300807.1.7.047655), para compensar o débito no valor de R$ 5.120,33 que se mostrou devido após a revisão da base de cálculo da CSLL do ano calendário de 2005, pois, apresentou o PER/DCOMP n° 06991.50820.170306.1.3.047574, em 17.03.2006, e o despacho decisório que analisou o PER/DCOMP n° 13761.43439.311005.1.3.045130 só foi proferido em 29.04.2009. Diz que, não há plausibilidade na decisão da DRJ ao alegar que essa conduta da Recorrente era vedada pelo inciso V, do § 3o, do art. 34 da Instrução Normativa RFB n° 900/2008, pois, não se podia falar em "... débito que já tenha sido objeto de compensação não homologada". Argúi que, não obstante, essa incorreção contida no acórdão recorrido em nada afeta o caso em tela, uma vez que, ao ser cientificada da não homologação do PER/DCOMP n° 06991.50820.170306.1.3.047574, a RECORRENTE optou por recolher o débito de R$ 5.120,33, com os benefícios para pagamento à vista previstos no inciso I do §3° do artigo 1o da Lei n° 11.941/2009, como evidencia o DARF em anexo (doc. 06). Conclui que, foi para refletir essa extinção do débito pelo pagamento que a RECORRENTE apresentou a DCTF retificadora datada de 14.07.2010. Finalmente requer o provimento do recurso voluntário. A extinta 2ª Turma Especial da 1ª Seção de Julgamento,com o intuito de esclarecer os fatos, mediante a Resolução nº 1802000.571, de 22/10/2014, decidiu pela conversão do julgamento em diligência. A Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Maiores Contribuintes DEMAC/RJO/DIORT, após intimar o interessado para a apresentação dos documentos/esclarecimentos necessários, elaborou o Despacho de Diligência efls. 446/450, conclusivo para a análise, do qual foi cientificado o contribuinte, em 16/04/2015, (e fls.452/453) que se manifestou contrariamente ao Despacho (efl.537). É o relatório. Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72. Dele conheço. Para facilitar o entendimento da lide transcrevo excerto do voto condutor da Resolução nº 1802000.571, de 22/10/2014, mencionada no relatório acima: ... Como se vê, não há litígio quanto a inexistência do alegado direito creditório mas o contribuinte se insurge contra os débitos por ele declarados no PERDCOMP nº 13761.43439.311005.1.3.045130 que não fora cancelada por esquecimento seu. Fl. 542DF CARF MF Processo nº 15374.917724/200960 Acórdão n.º 1201001.547 S1C2T1 Fl. 4 5 A Recorrente sustenta que os débitos foram (i) originariamente confessados pela RECORRENTE na apresentação da primeira DCTF retificadora em 26.09.2006 (as demais DCTFs mantiveram tal valor e serviram apenas para modificar sua forma de extinção, (ii)declarados na DIPJ retificadora transmitida em 22.10.2010 (doc. 03), todas devidamente acatadas pela Administração Tributária. A DRJ em decisão de primeira instância alega que de conformidade com o § 6º do art. 73 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com a redação dada pela Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003 , as DComp constituem confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos nelas indevidamente compensados. Assim sendo, no caso de não homologação da compensação, os débitos transcritos em DComp gozam de certeza e correção, cabendo à contribuinte declarante a comprovação de erro ou de não exigibilidade dos mesmos, quando assim alegar. Não divirjo da decisão recorrida, por entender que as declarações de compensação constituemse em confissão de dívida (§ 6º,art.74, Lei nº 9.430/96) mas devese ponderar no entanto que tal premissa não pode ser considerada incondicionada, pois, havendo a confissão de dívida e por outro lado o pagamento do débito devido não se pode sem exame dos documentos necessários manter a exigência dos débitos apenas porque confessados no PERDCOMP. Do Despacho Decisório da autoridade administrativa da Delegacia da Receita Federal do Brasil – DERAT/Rio de Janeiro (fl.09) não consta qualquer análise acerca das informações prestadas nas DCTFs e DIPJ relativa ao ano calendário de 2005, acatadas pela Administração Tributária, para que se verifique o real IRPJ e CSLL devidos por estimativa relativos ao ano calendário de 2005. O processo consubstanciase no método de compor a lide, de sorte que não se pode, no presente caso, simplesmente negar o pleito do contribuinte, no âmbito do contraditório, sem que a autoridade administrativa Delegacia da Receita Federal do Brasil –DERAT/Rio de Janeiro informe quais os valores do IRPJ e CSLL devidos por estimativa, relativos ao mês de setembro de 2005 e se os mesmos foram quitados por pagamento (DARFs). E ainda, demonstrar a composição do saldo negativo ou a pagar em 31/12/2005. A diligência se faz necessária para que não haja exigência tributária em duplicidade ou dispensa de crédito tributário não pago. Diante do exposto, voto no sentido de que sejam os autos encaminhados à Delegacia da Receita Federal do Brasil – DERATRio de Janeiro/RJ , para confrontar a DIPJ/2006 com a escrituração contábil/fiscal, documentação que lhe deu lastro e informar qual o valor da CSLL – estimativa e IRPJ estimativa Fl. 543DF CARF MF 6 relativos ao mês de setembro/2005, se foram quitados por pagamento e sua utilização na composição do IRPJ e CSLL apurados em 31/12/2005. Elaborado o relatório fiscal de praxe, dar ciência ao recorrente para sua manifestação, se interessar. Da Informação Fiscal apresentada pela Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Maiores Contribuintes DEMAC/RJO/DIORT, efls.446/450, consta, no essencial, o seguinte: (...) 7.Logo, após a Intimação n° 200/2015 (fls. 252/253), e resposta do contribuinte (fls. 336/337) com anexos, onde não explicou a não retificação da contabilidade, vamonos à análise: a) Conforme DIPJ (fls. 254/268) O IR estimativa de 09/2005 é de 1.176.589,10 e a CSLL estimativa de 09/2005 é de 439.815,33. Já o SN do IRPJ é de 762.792,52 e da CSLL é de 169.821,45. No doc. 05, Registro Doc. Lucro Real, o lucro em 09/2005 é de 37.945.035,33 (fl. 400) que é a BC do Imposto Renda apresentado na DIPJ (fl. 359 ou 258) constantes do processo. A empresa também apresenta outro Reg. Apuração Lucro Real (fl. 429) do mês 09/2005 no valor de 37.815.388,14. Não apresentou o Reg. Apuração da CSLL conforme o pedido na Intimação. O Razão Contábil da CSLL a pagar de 09/2005 (fls. 180) é de 498.691,48 ou seja, apresenta o valor original. A diferença de 58.876,15 para o retificado não consta no Razão de 2006 (fls. 182/183). O Razão Contabil do IRPJ a recolher de 09/2005 (fl. 186) é de 1.385.399,40 que é o original. A diferença para o retificado, em 208.810,30 não consta no Razão de 2006 (fls. 188/189). Conforme o Balancete apresentado também não se encontra retificado, pois na fl. 375, ct. 201015030 – IR a recolher é de 1.385.399,40 que é o mesmo valor da fl. 378 ct. 3500130019000 IR. O mesmo sucede para a CSLL nas cts. 201015020 e 3500130019010 CS. b) Conforme a DIPJ (fls. 254/268) e a DCTF (fls.269/273) em 09/2005 a CSLL a pagar é de 439.815,33 (fl.272). Foi paga em 03 DARF's (fl. 274) conforme tela do sistema SiefWeb. c) Já o IRPJ é de 1.176.589,11 (fl. 273). Foi pago em 02 DARF's conforme tela do SiefWeb à fl. 275. d) Como nessa competência de 09/2005 não apresenta sobra de valores entre os DARF's e os tributos, esses DARF compõem o SN desses tributos em sua totalidade. Assim sendo, a empresa apresenta conforme suas DCTF e DIPJ para AC 2005 os valores da CSLL – 2484 conforme a tabela abaixo: Fl. 544DF CARF MF Processo nº 15374.917724/200960 Acórdão n.º 1201001.547 S1C2T1 Fl. 5 7 Já para o IRPJ – 2362: Apresenta vários DARF's para os PA 04,05 e 09: Fl. 545DF CARF MF 8 Apresenta sobras de valores em alguns DARF's, que compõem ao mesmo tempo compensações de PGIM e o SN da CSLL e do IRPJ, conforme fls.440/445 e como veremos mais a frente: Apresenta mensalmente retenção do IRRF para as estimativas do IRPJ na DIPJ: Fl. 546DF CARF MF Processo nº 15374.917724/200960 Acórdão n.º 1201001.547 S1C2T1 Fl. 6 9 Verificamos que a empresa utiliza em duplicidade os valores de sobra nos DARF's fazendo compensações de PGIM, conforme fls. 440/445, e utilizando essas sobras na formação do SN tanto do IRPJ quanto da CSLL. Ou seja, o SN da CSLL e do IRPJ em 169.821,45 e 762.792,52 estão errados, pois a empresa utiliza os DARF no total de pagamentos para chegar nestes valores e ao mesmo tempo utiliza parte desses DARF's para fazer várias compensações em PGIM. O SN correto é 600.460,40 para o IRPJ e de 29.635,50 para a CSLL, conforme demonstra o quadro abaixo em comparação com as sobras dos DARF's no quadro anterior que foram usadas para formar o IR mensal pago por estimativa (L.17 Ficha 12A) e a CSLL paga estimativa (L.52Ficha 17): A diferença encontrada de 162.332,12 corresponde as sobras nos DARF's, conforme quadro anterior. E, para a CSLL teremos: 8.À Execução, conforme conclusão da diligência determinada pelo CARF e de acordo com a fl. 246, cientificar o contribuinte, abrindo prazo de 30 dias para manifestação desse, devolvendo os autos em seguida para prosseguimento do julgamento. Em sua manifestação (efls.527/529) contra a Informação Fiscal, e fls.446/450, o Recorrente insiste que o PER/DCOMP n°13761.43439.311005.1.3.045130 objeto do presente processo carece de objeto, "pois os débitos que nela se pretendia compensar (no valor de R$ 44.188,61, relativo à parte da CSLL devida por estimativa apurada em setembro de 2005 e no valor R$ 98.112,52, relativo à parte do IRPJ devido por estimativa Fl. 547DF CARF MF 10 apurada em setembro de 2005), foram reduzidos, face à revisão da base de cálculo desses tributos, tendo os novos valores apurados de R$ 439.815,33 (CSLL) e R$ 1.176.589,10 (IRPJ), sido extintos por pagamentos via DARFs. Diz que, ao se compulsar as fls. 440/445, mencionadas pela autoridade fiscal, verificase que os processos nos quais a Diligenciante alega ter a Recorrente utilizado as "sobras nos Darfs" como Pagamento Indevido ou a Maior (PGIM), são: 15374.922.829/2009 31, 15374.965.388/200961 e 15374.965.386/200972, e que, tais processos objetivavam a compensação de diversos débitos com valores recolhidos maior a título de estimativas do IRPJ e CSLL do anocalendário de 2005, contudo, como a época o entendimento da RFB era que esses valores não poderiam receber o tratamento de pagamento indevido ou a maior (PGIM), e, sim compor os saldos negativos do período, a Recorrente optou por desistir expressamente e de forma irrevogável das defesas apresentadas naqueles processos, renunciando, ademais, a quaisquer alegações de direito sobre as quais eles se fundavam e pagou os débitos objetos de compensação com os benefícios previstos na Lei n° 11.941/2009, conforme comprovam as petições em anexo (docs. 02, 03, 04) e, retificou sua DIPJ do anocalendário de 2005 para que tais valores recolhidos a maior a título de estimativas do IRPJ e CSLL compusessem os saldos negativos do IRPJ e da CSLL do período. Conclui que, diversamente do afirmado pela autoridade fiscal, não há como se falar de utilização em duplicidade dos valores recolhidos em excesso, e, finalmente reitera que seja reconhecida a extinção pelo pagamento dos créditos tributários de CSLL e IRPJ (estimativas de setembro de 2005). Tratase pois, de cancelamento de débito de CSLL e IRPJ (estimativas de setembro de 2005) declarados em PER/DCOMP n° 13761.43439.311005.1.3.045130 haja vista que os débitos que nela se pretendia compensar (no valor de R$ 44.188,61, relativo à parte da CSLL devida por estimativa apurada em setembro de 2005 e no valor R$ 98.112,52, relativo à parte do IRPJ devido por estimativa apurada em setembro de 2005), foram reduzidos, face à revisão da base de cálculo desses tributos, tendo os novos valores apurados de R$ 439.815,33 (CSLL) e R$ 1.176.589,10 (IRPJ), sido extintos por pagamentos via DARFs. Depreendese da Informação Fiscal (item 7 acima transcrito), que o IR estimativa de 09/2005 é de 1.176.589,10 e a CSLL estimativa de 09/2005 é de 439.815,33, conforme DIPJ (fls. 254/268), e que, tais valores foram quitados por DARFs, conforme tela do sistema SiefWeb (fls.274 e 275), e que, nessa competência de 09/2005 não apresenta sobra de valores entre os DARF's e os tributos declarados na DIPJ/2006 e DCTFs. Sendo que os DARF (1.176.589,10 e 439.815,33) compõem o SN do IRPJ e CSLL em sua totalidade. Nesse diapasão, deve ser levada em consideração a Informação Fiscal da DEMAC (efls.446/450) sobre os valores das estimativas de IR e CSLL no mês de setembro de 2005, com pagamentos comprovados (DARF) que compõem os saldos negativos declarados na DIPJ/2006 e que em nada repercutem na constatação pela autoridade fiscal de que: o SN da CSLL e do IRPJ em 169.821,45 e 762.792,52 estão errados, porque a empresa utiliza as sobras dos DARF no total de pagamentos para chegar nestes valores e ao mesmo tempo utiliza parte desses DARF's para fazer várias compensações em PGIM. O SN correto é 600.460,40 para o IRPJ e de 29.635,50 para a CSLL Isto porque, conforme explicitado na Informação Fiscal, alínea "d" do item 7 acima transcrito, na competência de 09/2005, não apresenta sobra de valores entre os DARF's e os tributos, de sorte que a alteração nos saldos negativos " 600.460,40 para o IRPJ e de 29.635,50 para a CSLL" não decorre dos DARF relativos às estimativas do mês de Fl. 548DF CARF MF Processo nº 15374.917724/200960 Acórdão n.º 1201001.547 S1C2T1 Fl. 7 11 setembro/2005, e nos presentes autos não se está discutindo os saldos negativos do ano calendário de 2005. Desse modo, concluindose que o IR estimativa de 09/2005 é de 1.176.589,10 e a CSLL estimativa de 09/2005 é de 439.815,33, conforme DIPJ (fls. 254/268), e que, tais valores foram quitados por DARFs, conforme tela do sistema SiefWeb (fls.274 e 275), e que, somente tais valores, nessa competência de 09/2005, compõem o saldo negativo do IRPJ e CSLL em 31/12/2005, não se pode exigir os débitos declarados no PER/DCOMP n° 13761.43439.311005.1.3.045130 para compensação (no valor de R$ 44.188,61, relativo à parte da CSLL devida por estimativa apurada em setembro de 2005 e no valor R$ 98.112,52, relativo à parte do IRPJ devido por estimativa apurada em setembro de 2005) Diante do exposto, voto no sentido de DAR provimento ao Recurso Voluntário para que os mencionados débitos relativos ao mês de setembro/2005, constantes no PER/DCOMP nº 13761.43439.311005.1.3.045130 tratado nos presentes autos, sejam cancelados pela Delegacia da Receita Federal – DERAT Rio de Janeiro, no exercício de sua competência regimental em consonância com o inciso XXII do artigo 224 e inciso XI do artigo 302 do Regimento Interno da RFB (anexo da Portaria MF nº. 203, de 14 /05 /2012). (documento assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa. Fl. 549DF CARF MF
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Numero do processo: 10380.002299/2007-48
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002
PASSIVO FICTÍCIO
Uma vez caracterizado que o passivo apontado pela autoridade fiscal não foi comprovado pelo contribuinte, a autuação deve ser mantida na sua integralidade.
Numero da decisão: 1401-001.778
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, REJEITAR preliminar de nulidade e, no mérito, NEGAR provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
ANTONIO BEZERRA NETO - Presidente.
(assinado digitalmente)
GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: ANTONIO BEZERRA NETO (Presidente), LUCIANA YOSHIHARA ARCANGELO ZANIN, GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES, JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA, LIVIA DE CARLI GERMANO, ABEL NUNES DE OLIVEIRA NETO, LUIZ RODRIGO DE OLIVEIRA BARBOSA.
Nome do relator: GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, REJEITAR preliminar de nulidade e, no mérito, NEGAR provimento ao recurso. (assinado digitalmente) ANTONIO BEZERRA NETO - Presidente. (assinado digitalmente) GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: ANTONIO BEZERRA NETO (Presidente), LUCIANA YOSHIHARA ARCANGELO ZANIN, GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES, JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA, LIVIA DE CARLI GERMANO, ABEL NUNES DE OLIVEIRA NETO, LUIZ RODRIGO DE OLIVEIRA BARBOSA.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, REJEITAR preliminar de nulidade e, no mérito, NEGAR provimento ao recurso. (assinado digitalmente) ANTONIO BEZERRA NETO Presidente. (assinado digitalmente) GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: ANTONIO BEZERRA NETO (Presidente), LUCIANA YOSHIHARA ARCANGELO ZANIN, GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES, JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA, LIVIA DE CARLI GERMANO, ABEL NUNES DE OLIVEIRA NETO, LUIZ RODRIGO DE OLIVEIRA BARBOSA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 00 22 99 /2 00 7- 48 Fl. 372DF CARF MF 2 Relatório O presente feito tem por objeto auto de infração de IRPJ e tributação reflexa de CSLL, PIS e Cofins em face de duas acusações: (i) omissão presumida de receita por passivo fictício e (ii) diferenças entre os valores registrados a título de tributos a recolher em cotejo com os montantes declarados em DCTF. A peça a ser enfrentada corresponde a recurso voluntário (fls. 294297) em face do acórdão nº 0823.175 3ª Turma da DRJ/FOR, de 04/04/2012, cuja ementa reproduzimos abaixo: PRELIMINAR. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. As garantias constitucionais ao contraditório e à ampla defesa somente se manifestam com a configuração do processo administrativo fiscal, mais especificadamente a partir da ciência do lançamento, que instaura a fase litigiosa do procedimento. Nesses termos, por se tratar de procedimento inquisitório, incompatível com os preceitos do contraditório e da ampla defesa, não há que se cogitar de cerceamento do direito de defesa durante a fiscalização, direito com aptidão de ser exercido em sua plenitude quando da impugnação do lançamento. PASSIVO FICTÍCIO. OMISSÃO DE RECEITAS. PRESUNÇÃO LEGAL. Caracterizase como omissão no registro de receitas, ressalvada ao contribuinte a prova da improcedência da presunção, a manutenção no passivo de obrigações já pagas ou cuja exigibilidade não seja comprovada. PASSIVO FICTÍCIO. LUCRO PRESUMIDO. A adoção do chamado passivo fictício, como método de quantificação do crédito tributário, coadunase com a legislação de regência quando o contribuinte, submetido à sistemática do lucro presumido, mantém escrituração regular. Assim, é possível que a contabilidade seja utilizada pela Administração Tributária, para fins de mensuração da omissão de receita. CSLL. PIS/PASEP. COFINS. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Tratandose da mesma matéria fática, e não havendo aspectos específicos a serem apreciados, aos lançamentos decorrentes aplicase a mesma decisão adotada quanto ao IRPJ. No referido recurso, a defesa aduz o que se segue. Preliminarmente, requer a nulidade do auto de infração por cerceamento ao seu direito de defesa. No caso, ao receber a última intimação, teria disponibilizado à autoridade fiscal toda a documentação de que dispunha. Registra que, na época, estava sob fiscalização da autoridade fazendária estadual, estando a documentação na posse daquela autoridade, o que Fl. 373DF CARF MF Processo nº 10380.002299/200748 Acórdão n.º 1401001.778 S1C4T1 Fl. 373 3 estaria comprovado no presente feito (documento de fl. 131). Ademais, não poderia ser penalizado, porque a autoridade fiscal, de posse das notas fiscais avulsas, só conseguiu comprovar parte do seu passivo. No caso, a autoridade fiscal só considerou os valores que se equivaliam, desconsiderando os demais, o que exigiria uma nova intimação para dar oportunidade à defesa para fazer a comprovação das diferenças. Também registra que a autoridade fiscal deixou de juntar cópia das notas fiscais que, segundo seu próprio relato, não foram capazes de comprovar o passivo. Ou seja, em nenhum momento foram acostados aos autos os documentos que fundamentam a autuação. Seria absolutamente necessário que, uma vez recebida toda a documentação, a autoridade fiscal intimasse o contribuinte dos saldos remanescentes para o seu pleno exercício do direito de defesa. Quanto ao mérito, a defesa aduz que a presunção somente poderia se caracterizar se a autoridade fiscal tivesse empregado todos os meios para comprovar os valores, procedimento que não realizou, pois deixou, por exemplo, de circularizar os fornecedores. Da diligência O presente já foi levado a julgamento neste colegiado, o qual deliberou a sua conversão em diligência nos seguintes termos da Resolução 1401000.284, de 06/11/2013: O recurso preenche as condições de admissibilidade e dele tomo conhecimento. Preliminarmente, a Recorrente alega o cerceamento do direito de defesa pelo fato de ter apresentado as notas fiscais que confirmariam o saldo da conta passiva. Entretanto, a Autoridade Fiscal apenas teria considerado os valores que se equivaliam, desconsiderando algumas notas apresentadas. Alega, ainda, ser estranho o fato do Fiscal não juntar ao auto de infração a cópia de mencionadas notas. Já que, segundo o fiscal, se existiam notas fiscais que não serviram para comprovar o saldo, necessário seria que houvessem sido colacionadas aos autos, possibilitando, assim, a análise em sede de impugnação administrativa (fl. 296). O Termo de Verificação Fiscal faz a referência às notas fiscais apresentadas para comprovar o saldo da conta passiva no montante de R$3.339.976,23, sendo que, em função das notas apresentadas, a Autoridade Fiscal reduziu o saldo não comprovado para R$2.830.659,30. Entretanto, as notas fiscais apresentadas não foram anexadas aos autos. Em função de ser necessária a análise das notas fiscais, no intuito de refutar ou corroborar a alegação da Recorrente, proponho a conversão do presente julgamento em diligência para que sejam anexadas aos autos as notas fiscais apresentadas pelo Recorrente durante o procedimento de fiscalização. Em sequência, proponho seja elaborado relatório conclusivo, por meio do qual se promova a vinculação das notas Fl. 374DF CARF MF 4 apresentadas com os saldos passivos autuados, dandose ciência à contribuinte, que terá 30 dias para se manifestar acerca do mesmo. Após, retornem os autos a este colegiado, para julgamento. Do resultado da diligência Realizada a diligência, a autoridade fiscal ofereceu o relatório de fls. 312 315, mediante o qual teceu as seguintes considerações. As notas fiscais foram, no encerramento da fiscalização, devolvidas ao sujeito passivo, conforme registro nos próprios autos. Destaca parte da lavra do termo de verificação fiscal em que a autoridade lançadora registra que, somente após cinco intimações, o sujeito passivo apresentou notas/fiscais e faturas, mesmo assim avulsas e sem qualquer vinculação dos valores registrados em sua escrituração. Em razão disso, o sujeito passivo foi intimado, no curso da diligência, para apresentar a referida documentação. Essa primeira intimação não foi atendida, razão pela qual nova foi realizada. O sujeito passivo respondeu após quatro meses da primeira intimação, mas sem apresentar qualquer documento, sob o fundamento de não mais deles dispor em face do art. 195, parágrafo único, do CTN. A autoridade fiscal conclui, com base no mesmo dispositivo legal citado pelo recorrente, que ele tinha o dever de conservar a documentação, enquanto não prescritos os créditos tributários relativos às operações a que a documentação se referira. Intimado a se manifestar sobre o resultado da diligência, o contribuinte reiterou que não dispõe mais dos documentos e que não teria mais o dever de os conservar. É o relatório. Voto Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes De início, cabe registrar que a defesa, apesar de pedir genericamente a nulidade da autuação, diferentemente do que fez na impugnação, deixou de apresentar qualquer argumento específico relativamente à infração atinente às diferenças entre valores apurados e aqueles registrados em DCTF. Em toda a sua peça recursal, não encontramos, nem colateralmente, qualquer menção a essa infração. Assim, consideramos que o crédito tributário a ela relativo deve ser considerado definitivamente constituído. Também cumprenos mencionar que o recurso relativamente a outra infração (omissão de receita por passivo fictício) não é tão abrangente como a impugnação. A defesa deixou de questionar, a incompatibilidade da omissão presumida em face do regime de tributação do lucro presumido. Fl. 375DF CARF MF Processo nº 10380.002299/200748 Acórdão n.º 1401001.778 S1C4T1 Fl. 374 5 Assim, o presente voto, em razão de não identificarmos qualquer matéria de ordem pública, será limitado à lide como posta no recurso voluntário. No que toca à alegação de cerceamento ao seu direito de defesa, como bem explanado pela autoridade julgadora de primeiro grau. Não há que se falar de direito de defesa na fase fiscalizatória. Esta se caracteriza como inquisitiva. O direito de defesa é exercido com a impugnação. É bem verdade que o auto de infração deve trazer os elementos capazes de possibilitar ao sujeito passivo se defender. Nada obstante, se não tais elementos não estiverem presentes, não há que se falar de violação, por parte da autoridade fiscal do direito de defesa do contribuinte, mas sim da própria improcedência da autuação. Afinal, deve a autoridade caracterizar o fato ensejador da autuação. Se o contribuinte não é capaz de identificar esse fato para se defender, o fato não está positivado e, desse modo, a autuação deve perecer no mérito, o que iremos enfrentar a seguir. Rejeito, pois, a preliminar suscitada. Quanto ao mérito, a autoridade requereu a comprovação dos lançamentos numa específica conta de passivo, qual seja, "fornecedores". Depois de uma derradeira intimação para que o contribuinte apresentasse a comprovação e após de outras tantas anteriores, o contribuinte apresentou cópias avulsas de notas fiscais e faturas, mas sem realizar qualquer vinculação com os lançamentos que desejava comprovar. Já, nesse ponto, considero que a autoridade poderia ter considerado que nenhum valor estava comprovado. Afinal, provar não é só apresentar documentos aleatoriamente para transferir seu ônus probante à outra parte. Assim tenho consignado em diversas oportunidades, como já no longevo acórdão nº 103.23.534, de 13/08/2008, numa situação similar: CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Alegar genericamente e juntar papéis não é prova. Dessarte, não é dever da autoridade julgadora, diante de um sem par de documentos apresentados na impugnação, demonstrar que cada um deles não possibilita comprovar o que a defesa alega. Cabe à impugnante constituir a prova pela precisa articulação dos elementos documentais carreados aos autos, o que legitima afirmar que a decisão de primeiro grau, cujo fundamento denegatório é a ausência de prova, não maculou o direito de defesa do interessado. Nada obstante, a autoridade ainda se esforçou para fazer as vinculações, ônus que era do contribuinte e obteve a comprovação de parte do saldo da conta. No termo de verificação fiscal, a autoridade registra o total não comprovado e indica onde está a sua discriminação, no caso, no intitulado "Demonstrativo de saldos não comprovados". Este demonstrativo consta das fls. 83 a 84. Nele, estão consignadas subcontas identificadoras individuais de cada um dos fornecedores e os saldos não comprovados dessas contas. Fl. 376DF CARF MF 6 Ora, diante dessa discriminação, a comprovação perante a autoridade julgadora se torna bem simples. Podese, por exemplo, apresentar as páginas do Razão de cada uma dessas subcontas e os documentos que embasariam cada um dos seus registros com a devida vinculação entre os documentos e os registros. No entanto, o sujeito passivo preferiu o caminho mais cômodo. Atacar com argumentos genéricos a autuação. Não buscou, nem sequer por amostragem, comprovar o seu item de passivo. Diante disso, eu não teria sequer baixado o feito em diligência. Já teria decidido em desfavor do contribuinte de plano. No entanto, o resultado da diligência só veio a corroborar o meu entendimento. O contribuinte, como afirmado por ele mesmo, nem sequer dispõe mais dos documentos em violação ao dever de conservação estampado pelo próprio dispositivo que pretende lançar mão a seu favor, isto é, o art. 195, p.u., do CTN. Ante o exposto, uma vez caracterizado que o passivo apontado pela autoridade fiscal não foi comprovado pelo contribuinte, a autuação deve ser mantida na sua integralidade. Voto, pois, para rejeitar a preliminar suscitada para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator Fl. 377DF CARF MF
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Numero do processo: 14094.000013/2007-76
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/06/2001 a 30/09/2004
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.951
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 09 4. 00 00 13 /2 00 7- 76 Fl. 355DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 356DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 357DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 358DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 359DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 360DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 361DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 362DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 363DF CARF MF Processo nº 14094.000013/200776 Acórdão n.º 9202004.951 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 364DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16095.000603/2007-14
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005
DESPESAS COM REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES. NORMALIDADE. USUALIDADE. NECESSIDADE. INOCORRÊNCIA.
As despesas decorrentes de operações com debêntures, oferecidas e subscritas exclusivamente pelos sócios da empresa, mediante simples conversão de valores a eles devidos pela própria pessoa jurídica, e sem previsão de remuneração fixa por meio de juros, mas tão somente com remuneração atrelada aos lucros da empresa, em percentual substancial, não se enquadram nos conceitos de usualidade, normalidade e necessidade, sendo, portanto, indedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
ABATIMENTO DO IRRF. DECORRÊNCIA.
Afastando-se os efeitos jurídicos da operação, com consequente glosa da dedutibilidade fiscal das debêntures, deixa também de ser pertinente o IRRF que incidiria sobre ela. Necessário abatimento dos IRRF apurado.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005
DEDUTIBILIDADE DE DESPESAS DESNECESSÁRIAS. PREVISÃO LEGAL ESPECÍFICA.
A partir de 1º de janeiro de 1996, devem ser adicionadas ao lucro líquido do período, para fins de determinação da base de cálculo da contribuição social, as despesas incorridas pela pessoa jurídica que não possuam os atributos de necessidade, anormalidade e usualidade, em virtude da previsão legal contida no art. 13 da Lei nº 9.249/1995.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído e não pago no vencimento, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 9101-002.538
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. A declaração por escrito, dos conselheiros fazendários, manifestando-se pelo não impedimento e suas razões, será anexada aos autos. Por maioria de votos, acordam em rejeitar as preliminares de conversão do julgamento em diligência e de devolução dos autos à câmara de origem para complementação da análise de admissibilidade do recurso especial, suscitadas pelo relator, o qual restou vencido e, por maioria de votos, em conhecer integralmente do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Rafael Vidal de Araújo (relator), que conheceu parcialmente do recurso. No mérito, (1) em relação às despesas de remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da recorrente, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; (2) quanto à glosa de despesas na apuração da CSLL, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. A conselheira Adriana Gomes Rego votou pelas conclusões; (3) quanto à necessidade de compensação do IR/Fonte recolhido, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao recurso, vencidos Rafael Vidal de Araújo (relator), Adriana Gomes Rego e Marcos Aurélio Pereira Valadão, que lhe negaram provimento; (4) já quanto à cobrança de juros sobre a multa, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Luís Flávio Neto. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio.
(Assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente em exercício.
(Assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Relator.
(Assinado digitalmente)
Luis Flávio Neto Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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NORMALIDADE. USUALIDADE. NECESSIDADE. INOCORRÊNCIA. As despesas decorrentes de operações com debêntures, oferecidas e subscritas exclusivamente pelos sócios da empresa, mediante simples conversão de valores a eles devidos pela própria pessoa jurídica, e sem previsão de remuneração fixa por meio de juros, mas tão somente com remuneração atrelada aos lucros da empresa, em percentual substancial, não se enquadram nos conceitos de usualidade, normalidade e necessidade, sendo, portanto, indedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. ABATIMENTO DO IRRF. DECORRÊNCIA. Afastandose os efeitos jurídicos da operação, com consequente glosa da dedutibilidade fiscal das debêntures, deixa também de ser pertinente o IRRF que incidiria sobre ela. Necessário abatimento dos IRRF apurado. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2002, 2003, 2004, 2005 DEDUTIBILIDADE DE DESPESAS DESNECESSÁRIAS. PREVISÃO LEGAL ESPECÍFICA. A partir de 1º de janeiro de 1996, devem ser adicionadas ao lucro líquido do período, para fins de determinação da base de cálculo da contribuição social, as despesas incorridas pela pessoa jurídica que não possuam os atributos de necessidade, anormalidade e usualidade, em virtude da previsão legal contida no art. 13 da Lei nº 9.249/1995. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2002, 2003, 2004, 2005 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 09 5. 00 06 03 /2 00 7- 14 Fl. 4283DF CARF MF Processo nº 16095.000603/200714 Acórdão n.º 9101002.538 CSRFT1 Fl. 3 2 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído e não pago no vencimento, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. A declaração por escrito, dos conselheiros fazendários, manifestandose pelo não impedimento e suas razões, será anexada aos autos. Por maioria de votos, acordam em rejeitar as preliminares de conversão do julgamento em diligência e de devolução dos autos à câmara de origem para complementação da análise de admissibilidade do recurso especial, suscitadas pelo relator, o qual restou vencido e, por maioria de votos, em conhecer integralmente do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Rafael Vidal de Araújo (relator), que conheceu parcialmente do recurso. No mérito, (1) em relação às despesas de remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da recorrente, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; (2) quanto à glosa de despesas na apuração da CSLL, por voto de qualidade, acordam em negar lhe provimento, vencidos Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. A conselheira Adriana Gomes Rego votou pelas conclusões; (3) quanto à necessidade de compensação do IR/Fonte recolhido, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao recurso, vencidos Rafael Vidal de Araújo (relator), Adriana Gomes Rego e Marcos Aurélio Pereira Valadão, que lhe negaram provimento; (4) já quanto à cobrança de juros sobre a multa, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Luís Flávio Neto. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio. (Assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão – Presidente em exercício. (Assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Relator. (Assinado digitalmente) Luis Flávio Neto – Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Fl. 4284DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 4 3 Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício). Relatório Trata-se de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte acima identificada, fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22/06/2009 (RICARF/2009), em que se alega a existência de divergência de interpretação da legislação tributária para as matérias abordadas nos seguintes tópicos: - Da Normalidade, Usualidade e Necessidade das Despesas de Remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da Recorrente; - Da Ilegalidade da Glosa de Despesas na Apuração da CSLL; - Da Necessidade de Compensação do IR/Fonte Recolhido pela Recorrente; e - Da Ilegalidade da Cobrança de Juros Sobre a Multa. A contribuinte suscitou ainda divergência sobre outras matérias que não foram admitidas no exame de admissibilidade do recurso. A recorrente insurge-se contra o Acórdão nº 1402-001.575, 12/02/2014, por meio do qual a 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF negou provimento a recurso voluntário anteriormente apresentado. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva descritas abaixo: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005 Ementa: DEBÊNTURES. DESPESAS COM REMUNERAÇÃO. DEDUÇÃO. Inaceitável a dedução dos valores pagos a título de remuneração de debêntures quando demonstrado o caráter de liberalidade dos pagamentos efetuados. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005 Ementa: LANÇAMENTO DECORRENTE Aplica-se ao lançamento tido como decorrente o resultado do julgamento do IRPJ, tendo em vista o liame fático que os une. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005 Fl. 4285DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 5 4 Ementa: JUROS DE MORA. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4) MULTA DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. Cabe a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício com base na taxa SELIC, nos termos do nos termos do art. 61, caput e § 3º, da Lei nº 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício. Por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Alexandre Alkmin Teixeira, Fernando Brasil de Oliveira Pinto e Moisés Giacomelli Nunes da Silva, que votaram por dar provimento parcial ao recurso para limitar a glosa ao valor da despesa que excedesse è remuneração do IGPM+6%. Por maioria de votos, manter a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Moisés Giacomelli Nunes da Silva e Paulo Roberto Cortez. Declarou-se impedido o Conselheiro Carlos Pelá. Participou do julgamento o Conselheiro Alexandre Alkmin Teixeira, que apresentará declaração de voto. No recurso especial, a contribuinte afirma que o acórdão recorrido deu à legislação tributária interpretação divergente da que foi dada em outros processos, procurando reverter o que restou decidido para as matérias acima indicadas. Nesse intento, ela desenvolve os argumentos descritos abaixo: 1) Da Normalidade, Usualidade e Necessidade das Despesas de Remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da Recorrente - como mencionado, o presente processo administrativo teve origem em autos de infração lavrados em razão da alteração do critério de remuneração das debêntures emitidas em 06/05/1999 que inicialmente utilizava a variação do IGPM acrescida de 6% ao ano de juros e passou a adotar o percentual de 97% do resultado positivo auferido no exercício social; - isso porque, de acordo com o entendimento equivocado da Autoridade Fiscal, tal alteração de critério não se revestiria de características normais e usuais, motivo pelo qual configuraria, supostamente, a "criação meramente liberal de despesas financeiras caracterizadas como não necessárias"; - entretanto, conforme demonstrado pela Recorrente nas folhas 40 a 50 do seu Recurso Voluntário, a alteração do critério de remuneração das debêntures (do IGPM + 6% a.a. para 97% do lucro ajustado) representava, na realidade, uma redução nos valores que seriam repassados aos debenturistas; Fl. 4286DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 6 5 - com efeito, verificou-se que a média ponderada da remuneração praticada por todas as debêntures nos 6 anos anteriores (1995 a 2000 - única base de comparação válida à época da alteração) representou o equivalente a 110% do lucro ajustado da Recorrente; - ademais, evidenciou-se a razoabilidade do novo critério de remuneração de debêntures adotado pela Recorrente (97% do lucro ajustado) comparando-o com as taxas praticadas pelo mercado com relação ao mesmo produto (emissão de debêntures por outras empresas privadas) e confrontando-se a remuneração acumulada dos anos seguintes (2002 a 2005) com outros indicadores de mercado; - frise-se que ambas as comparações provaram que o novo critério de remuneração de debêntures adotado pela Recorrente estava de acordo com o que vinha sendo praticado no mercado; - além disso, demonstrou-se ainda a estreita ligação entre a despesa com remuneração de debêntures com a atividade praticada pela Recorrente, holding que objetivava a captação de recursos para participação em outras empresas; - por fim, insta destacar que durante os debates realizados pelos I. Conselheiros deste E. CARF no julgamento da peça recursal da Recorrente, questionou-se acerca do ingresso de recursos referentes à emissão das debêntures; - assim, apesar de tal fato não ter sido objeto do Termo de Verificação Fiscal, a Recorrente, visando auxiliar a Autoridade Julgadora na sua busca pela verdade material, apresentou em sede de memoriais a documentação necessária para comprovar que houve o efetivo ingresso de recursos no seu ativo; - a despeito de todos os esforços da Recorrente para demonstrar a realidade dos fatos, concluiu o I. Conselheiro Relator da decisão ora combatida, sem analisar nem sequer um dos argumentos e/ou documentos supracitados, que as mencionadas despesas com remuneração de debêntures seriam uma mera liberalidade; - saliente-se que as omissões do acórdão recorrido mencionadas no parágrafo anterior foram objeto dos Embargos de Declaração da Recorrente. Contudo, tais Embargos restaram rejeitados pelo I. Conselheiro Relator, que nas suas razões se restringiu a transcrever novamente parágrafos genéricos da decisão recorrida; - ocorre que, em posição diametralmente oposta àquela adotada pelo acórdão recorrido, a antiga Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, ao julgar o processo administrativo n° 13820.000860/2002-10, do qual a Recorrente também ocupa o polo passivo, proferiu o acórdão paradigma n° 101-97.021; - deveras, por meio do mencionado acórdão, a Primeira Câmara analisou os mesmos fatos que aqui se debatem (referentes ao ano-base de 2001) e reconheceu a usualidade, a normalidade e a necessidade das despesas com a remuneração de debêntures, mesmo após a alteração do critério de pagamento (do IGPM + 6% a.a. para 97% do lucro ajustado); [...] - como se verifica do quadro acima, a decisão recorrida preferiu se respaldar na suposta "doutrina majoritária" e ignorar, na sua análise, (i) os normativos legais (art. 56 da Lei n° 6.404/1976 e art. 462 do RIR/99), (ii) os demonstrativos de que o critério utilizado Fl. 4287DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 7 6 anteriormente (IGPM + 6% a.a.) estava tendo um custo maior que o novo critério (97% do lucro ajustado) e (iii) a comparação com outros indicadores de mercado; [...] - em outras palavras, constata-se que foram afastados sem qualquer justificativa os critérios objetivos (lei, documentos, demonstrativos fundamentados na contabilidade da Recorrente e em números do mercado) para se privilegiar um exame subjetivo (interpretação pessoal sobre entendimentos doutrinários); - veja-se que, na decisão recorrida, chegou-se ao ponto de se asseverar que se buscava a usualidade e normalidade das referidas despesas com vistas à conclusão de sua necessidade e ao mesmo tempo considerou-se "circunstancial" o fato da remuneração questionada ser razoável perante o que era praticado no mercado; [...] - no entanto, constata-se que o acórdão paradigma adotou interpretação completamente diversa daquela adotada no acórdão ora recorrido. Isto porque, na decisão paradigma, entendeu-se que a alteração de critério de remuneração das debêntures analisadas não configurou uma mera liberalidade, na medida em que não favoreceu os debenturistas e foram feitas de acordo com os parâmetros que vinham sendo adotados no mercado; - desta forma, diversamente do entendimento exposto pelo acórdão recorrido, conclui-se, com base no acórdão paradigma n° 101-97.021, que a alteração do critério de remuneração das debêntures emitidas pela Recorrente (de IGPM + 6% de juros a.a. para 97% do lucro ajustado) não pode ser classificada como uma liberalidade, motivo pelo qual deve ser reconhecida a possibilidade da sua dedução pela Recorrente como despesa; - não obstante o paradigma acima apontado, referente à própria operação ora em análise, também é relevante mencionar o acórdão paradigma n° 1101-000.889, no qual também se reconhece expressamente a possibilidade de dedução das despesas de remuneração de debêntures com participação nos lucros; [...] - nota-se que a alteração do percentual de remuneração das debêntures em si, não é base para glosa de despesas e não pode servir de fundamento fiscal para manutenção do lançamento, como aconteceu no caso em apreço e foi levado a efeito no v. a cordão recorrido; - além de a alteração do critério não ser motivo para glosa, é preciso reiterar que, tal como foi demonstrado pela Recorrente e confirmado pelos acórdãos paradigmas, não se tratou de mera liberalidade dela, mas, sim, de remuneração de debêntures atreladas à atividade social e, por conseguinte, de despesa usual, normal e necessária; - portanto, é de rigor o reconhecimento da divergência e, conseqüentemente, do acatamento das posições contrárias ao do acórdão a quo, que, na mesma situação ora vivenciada, reconheceram como válida a remuneração das debêntures no percentual de 97% do lucro ajustado e, da mesma forma, a regularidade na apropriação das despesas dela decorrente; - e não é só. Na pior e na improvável hipótese de não se reconhecer o percentual de 97% do lucro ajustado como válido, o que se admite apenas para argumentar, deve ser reconhecida a divergência e acatada a possibilidade de dedução das despesas com base no critério anterior (IGPM + 6% de juros a.a); - é preciso assentar que, na origem de ambos os processos, relativos aos acórdãos paradigma e ora recorrido, a fiscalização, fundamentou a glosa das despesas na Fl. 4288DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 8 7 mudança de critério da remuneração das debêntures, isto é, considerou válida, pelo menos, a despesa reconhecida pela Recorrente, correspondente ao IGPM + 6% a.a.; - partindo-se dessa premissa, o acórdão paradigma, mesmo reconhecendo que a alteração da remuneração das debêntures (de IGPM + 6% de juros a.a. para 97% do lucro ajustado) não é motivo para manter a glosa das despesas, consignou que o critério anterior não foi contestado pela fiscalização e, por isso, é plenamente válido; - já o acórdão recorrido, acrescido e ratificado pelo despacho em embargos de declaração, negou essa realidade e afastou o pedido subsidiário da Recorrente, consistente, na pior das hipóteses, de provimento parcial para manutenção do critério anterior de remuneração das debêntures pelo IGPM + 6% de juros a.a., repita-se, aceito pela fiscalização; - o voto vencedor do acórdão recorrido, de forma geral e no mesmo bloco, manteve a glosa pela mudança do critério (97% do lucro ajustado ) e afastou o pedido subsidiário da Recorrente de manutenção da dedução pelo critério anterior (IGPM+ 6% a.a.); - já o acórdão paradigma, com acerto, grifou a validade inconteste de ambos os percentuais, destacando, inclusive, que o antigo nem sequer foi contestado pela fiscalização e, por isso, plenamente aceitável sob o ponto de vista da dualidade e subsidiariedade do pedido de reconhecimento da dedução parcial da despesa; - é bom grifar também, que o voto vencido do acórdão ora recorrido, da mesma forma do paradigma em destaque, salienta o fato de a fiscalização não ter criticado o percentual anterior das debêntures nem desconsiderá-las e, por tais razões, retrata ser imperativo o reconhecimento da dedução parcial das despesas; - se, de um lado a remuneração das debêntures em 97% do lucro ajustado foi considerada uma liberalidade, por não ser usual, de outro, face à sua inquestionável existência, é incontestável que à Recorrente, na pior das hipóteses, não pode ser negada a dedutibilidade da parcela dos encargos que não constituíram uma liberalidade (IGPM+ 6% a.a.); - quer dizer, se o trabalho fiscal e o acórdão recorrido entenderam que 97% do lucro constitui um exagero, negar toda e qualquer dedução para a Recorrente também é um excesso. Isso porque a glosa total nega a existência das debêntures, que, repita-se, não foi desconsiderada pela fiscalização, além de ter sido, ressalte-se, aceita, dado que a acusação funda-se apenas na mudança do critério, sem que tivesse qualquer lançamento em período anterior a ela; - a manutenção da glosa integral das despesas, mesmo diante do fato da existência das debêntures e da homologação fiscal de que o critério de remuneração anterior estava correto (IGPM+ 6% a.a), acarreta na tributação do patrimônio e não da renda, enquanto acréscimo patrimonial, da Recorrente; - portanto, diante da evidente divergência de interpretação da legislação entre a decisão recorrida e as decisões paradigmas, requer-se o recebimento e o conhecimento do presente Recurso Especial e, pelas razões aqui apresentadas, o seu integral (97% do lucro ajustado) ou, quando menos e na pior das hipóteses, parcial provimento (IGPM+ 6% a.a). 2) Da Inobservância do Princípio da Legalidade pela Decisão Recorrida Fl. 4289DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 9 8 Matéria não admitida. 3) Da Necessidade de Aplicação do Princípio da Especialidade Matéria não admitida. 4) Da Possibilidade de Inovação do Critério Jurídico pela Autoridade Julgadora Matéria não admitida. 5) Da Inobservância do Princípio da Verdade Material pela Decisão Recorrida Matéria não admitida. 6) Da Ilegalidade da Glosa de Despesas na Apuração da CSLL - a Fiscalização constituiu os créditos tributários da CSLL sob a alegação de que as despesas apropriadas pela Recorrente não seriam normais, usuais e necessárias, nos termos do artigo 299 do RIR/99; - contudo, para justificar a aplicação do referido dispositivo legal, que é uma regra específica do IRPJ, a Autoridade Fiscal se valeu da regra prevista no artigo 28 da Lei n° 9.430/1996 que prevê que na apuração da base de cálculo da CSLL aplicam-se nas normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71, desta Lei; - entretanto, como demonstrado nas folhas 8 a 13 da peça recursal da Recorrente, nenhum desses dispositivos legais ampara a glosa das despesas realizadas pela Fiscalização, razão pela qual se concluiu que não há, no ordenamento jurídico pátrio, permissivo legal especial dirigido à formação da base de cálculo da CSLL estabelecendo a qualificação da despesa como normal, usual e necessária; - o entendimento manifestado no acórdão recorrido está equivocado, na medida em que como demonstrado, não se pode utilizar a legislação do IRPJ, no tocante à glosa de despesa, para o lançamento da CSLL; - nesse sentido já decidiu a antiga Primeira Câmara do Conselho de Contribuintes por meio do acórdão paradigma n° 101-94.825 (doc. 13). Confira-se: IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA E OUTRO - AC. 1995 CSLL - DESPESAS DESNECESSÁRIAS - ADIÇÃO À BASE DE CÁLCULO - IMPROCEDÊNCIA - a base de cálculo da CSLL é o resultado do período, apurado na forma da legislação comercial, ajustado na forma da legislação específica (artigo 2° da lei n° 7.689/1988). As despesas desnecessárias são indedutíveis para o IRPJ, não o sendo para a CSLL por falta de expressa previsão legal, desde que comprovadas por documentos hábeis e idôneos. - este também foi o entendimento adotado no acórdão paradigma n° 107- 07.610 (doc. 14), in verbis: CSLL. BASE DE CÁLCULO. Somente a lei pode fixar a base de cálculo dos tributos, não se admitindo que valores indedutíveis para efeito do IRPJ Fl. 4290DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 10 9 sejam adicionados à base de cálculo da CSLL sem expressa determinação legal neste sentido. - portanto, demonstrado que os acórdãos paradigmas adotaram decisão diametralmente oposta àquela utilizada pelo acórdão recorrido, requer-se o recebimento e o conhecimento do presente Recurso Especial por esta E. CSRF, bem como o seu provimento para determinar o cancelamento do auto de infração de CSLL que também deu origem ao presente processo. 7) Da Necessidade de Compensação do IR/Fonte Recolhido pela Recorrente - ainda que nenhum dos argumentos apresentados anteriormente seja aceito, o que se admite a título argumentativo, ao menos deverá reconhecer esta E. CSRF que o montante recolhido pela Recorrente a título de IR/Fonte sobre a remuneração das debêntures deveria ser compensado com o valor exigido pelo Fisco nos autos de infração originários do presente processo; - com efeito, como demonstrado pela Recorrente nas folhas 53 e 54 da sua peça recursal, a despesa oriunda da remuneração das referidas debêntures foi integralmente glosada pela Autoridade Fiscal; - contudo, o Sr. Agente Fiscal não levou a efeito na recomposição do suposto saldo de IRPJ e CSLL a pagar o montante de IR/Fonte incidente na remuneração das debêntures; - ora, se, por um lado, o Sr. Auditor Fiscal desconsiderou a despesa reconhecida pela Recorrente, refez o cálculo do IRPJ e da CSLL e os lançou, deveria, de outro, ter levado em consideração o IR/Fonte acima mencionado e tê-lo compensado na apuração final; - a interpretação contida no acórdão recorrido não está de acordo com o posicionamento adotado por este E. Conselho sobre o tema. De fato, constata-se que no acórdão paradigma n° 101-94.986 (doc. 15) o voto vencedor da I. Conselheira Sandra Maria Faroni autoriza a compensação do IR/Fonte, sem condicioná-la à existência de simulação, verbis: "Entendo, todavia, que por uma questão de razoabilidade, deve ser deduzida da exigência o valor pago a título de impo sto de renda retido na fonte. É que, ao se considerar como indedutíveis as despesas correspondentes aos rendimentos de debentures, na realidade está-se tratando os valores contabilizados a título de remuneração de debentures como lucros distribuídos. Nesse caso, não cabe o imposto de renda retido na fonte, e uma vez que se trata de incidência exclusiva, não compensável na declaração dos beneficiários, deve o respectivo valor ser deduzido da presente exigência". (Fl. 17 do acórdão paradigma n° 101- 94.986 - g.n.) - pontue-se que o acórdão paradigma n° 101-94.986 foi utilizado pela própria decisão recorrida para justificar o seu entendimento quanto à glosa das despesas, uma vez que, de acordo com o I. Relator, o caso analisado naqueles autos seria "idêntico ao presente" (p. 9 Fl. 4291DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 11 10 da decisão recorrida). Contudo, de forma contraditória, não adota o mesmo entendimento quanto à possibilidade de compensação do IR/Fonte pago pela Recorrente; - ademais, saliente-se que também adotou esta interpretação a 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção deste E. CARF no acórdão paradigma n° 1102-00.659 (doc. 16), veja-se: "(...) desde a edição da Lei n° 9.249/95, estabeleceu o legislador a isenção do imposto de renda na distribuição de lucros já tributados na pessoa jurídica, como forma de evitar uma dupla incidência sobre os mesmos resultados. Entretanto, a recorrente deu aos valores pagos aos sócios o tratamento de participações atribuídas a debêntures, as quais, por não serem tributadas na pessoa jurídica, sofrem a incidência do imposto de renda na fonte por ocasião do pagamento. A I. Conselheira Sandra Faroni, no seu voto proferido no acórdão n° 101- 94.986, bem abordou a questão nos seguintes termos: (...). Assim, na esteira também dos precedentes citados pe la recorrente, entendendo que, ao restabelecer a verdade dos fatos , deve-se fazê-lo de modo integral, permitindo a compensação de tribu tos comprovadamente recolhidos (...)" (Fl. 35 do acórdão paradigma n° 1102- 00.659 - g.n.) - insta ressaltar que no acórdão paradigma n° 1102-00.659 tampouco a autorização da compensação do IR/Fonte pago se deu em função de ter sido constatada uma simulação, mas sim em razão da correção do raciocínio que se apresenta no presente tópico; - por conseguinte, evidenciada a divergência entre o posicionamento adotado pela decisão recorrida e os acórdãos paradigmas, imprescindível que esta E. CSRF receba e conheça o presente Recurso Especial no tocante a este tópico, para que ao menos seja reconhecido o direito de a Recorrente compensar os valores recolhidos de IR/Fonte sobre a remuneração das debêntures com o montante autuado. 8 - Da Ilegalidade da Cobrança de Juros Sobre a Multa - por fim, com relação à ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa, discussão suscitada pela Recorrente nas fls. 56 a 60 do seu Recurso Voluntário [...] ainda que se entenda pela manutenção da autuação em análise, o que se alega a título argumentativo, é certo que os juros calculados com base na taxa SELIC não poderão ser exigidos sobre a multa de ofício lançada, por absoluta ausência de previsão legal, merecendo reforma a decisão recorrida também com relação a esse ponto; - o entendimento exarado no acórdão recorrido, conflita frontalmente com posição adotada pelo Plenário desta Câmara Superior de Recursos Fiscais, que, em julgamento ocorrido nos autos do processo administrativo n° 10680.002472/2007-23 (acórdão paradigma n° 9101-00.722 - doc. 17), no dia 08/11/2010, negou provimento a recurso especial da PGFN, reconhecendo a impossibilidade de exigência de juros de mora sobre a multa de ofício lançada, em razão do disposto no artigo 161 do Código Tributário Nacional; - nesse diapasão, também se destaca o acórdão paradigma n° 1302-00.655 (doc. 18), que segue o mesmo entendimento acima mencionado; Fl. 4292DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 12 11 - assim, verificada e comprovada a divergência de interpretação entre os acórdãos paradigmas e o acórdão recorrido, com relação à manutenção da cobrança dos juros SELIC sobre a multa de ofício, cumprido está o requisito exigido pelo artigo 67 do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, motivo pelo qual se requer a reforma da decisão ora recorrida, também no que tange a esse item, para que a decisão siga o estabelecido nos acórdãos paradigmas anexos ao presente. 9) Síntese das razões expostas - diante de tudo o que foi exposto, imprescindível a admissão do presente Recurso e a análise por esta E. Câmara Superior de Recursos Fiscais dos pontos aduzidos pela Recorrente em seu Recurso Voluntário, os quais, frise-se, estão intrinsecamente ligados aos paradigmas abordado nesta peça recursal; - nesse sentido, traz-se abaixo um resumo dos pontos que, requer-se, sejam abordados por esta E. CSRF: • o caso da Recorrente, onde a emissora das debêntures é uma Holding e cujo objetivo principal é captar recursos para o Banco Safra S/A (empresa operacional), é diferente dos demais casos analisados pelo antigo Conselho de Contribuintes, nos quais as empresas operacionais emitiam debêntures para reduzir o seu lucro líquido; • a regularidade da debênture que é um meio legal para o financiamento das atividades da companhia, a possibilidade de dedução do custo do financiamento nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL (art. 462 do RIR/99), a faculdade de se atrelar a remuneração das debêntures à participação do lucro da companhia emitente (art. 56 da Lei n° 6.404/1976) e a ausência de qualquer limitação legal do percentual do lucro que poderá ser utilizado ou que esta relação seja estabelecida entre sócio e empresa emissora; • a necessidade de se aplicar o Princípio da Especialidade no presente caso, na medida em que a norma específica (art. 462 do RIR/99) deve prevalecer sobre a norma geral (art. 299 do RIR/99); • a impossibilidade de a Autoridade Julgadora inovar o critério jurídico questionando a produção de provas que não foram requeridas, como, por exemplo, o efetivo ingresso de recursos. Sendo que nesta hipótese o dever de provar é exclusivo do Fisco; • a comprovação pela Recorrente quanto à relação das despesas de remuneração das debêntures com a sua atividade que objetivava a captação de recursos para participação em outras empresas, levando-se em consideração que a remuneração das debêntures emitidas pela Recorrente com base em 97% do seu lucro ajustado, se comparada com os anos anteriores a sua instituição, seria inferior ao montante que seria pago com o IGPM + 6% a.a. e que tal remuneração estava de abaixo da taxa praticada no mercado em operações similares; • ainda que a remuneração de debêntures com base em 97% do lucro ajustado da Recorrente fosse uma "mera liberalidade" como alegou a Fiscalização, o que se admite a título de argumento, deveria ser aceita como dedutível ao menos as despesas que correspondem ao critério anteriormente adotado (IGPM + 6% a.a.), uma vez que isso nunca foi contestado pela Autoridade Fiscal; Fl. 4293DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 13 12 • ad argumentandum, mesmo que os pontos anteriormente trazidos não sejam admitidos, deve-se reconhecer que os valores recolhidos a título de IR/Fonte pela Recorrente sobre a remuneração de debêntures devem ser compensados com o montante de IRPJ apurado pela Fiscalização; • ilegalidade da glosa de despesas na apuração da CSLL, tendo em vista a ausência de previsão legal para adição de despesas consideradas indedutíveis para o IRPJ; • a ilegalidade da cobrança dos juros sobre a multa. Quando do exame de admissibilidade do recurso especial da contribuinte, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 05/06/2015, admitiu parcialmente o recurso especial, reconhecendo a existência de divergência para as matérias já mencionadas, nos seguintes termos: "1) Da Normalidade, Usualidade e Necessidade das Despesas de Remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da Recorrente Para fins de análise, tem cabimento transcrever excertos dos acórdãos apresentados como paradigmas: (...) Examinando os acórdãos paradigmas verifica-se que os mesmos trazem o entendimento de que mesmo reconhecendo que alteração da remuneração das debêntures (de IGPM + 6% de juros a.a. para 97% do lucro ajustado) não é motivo para manter a glosa das despesas, consignando que o critério anterior não foi contestado pela fiscalização e, por isso, é plenamente válido. Está registrado no Voto condutor do Acórdão recorrido: (...) Assim, o acórdão recorrido, por seu turno, vem esclarecer que de forma geral deve ser mantida a glosa pela mudança do critério (97% do lucro ajustado ) e afastado o pedido de manutenção da dedução pelo critério anterior (IGPM+ 6% a.a.). Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelam-se discordantes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial demonstrada pelo Sujeito Passivo. (...) 6) Da Ilegalidade da Glosa de Despesas na Apuração da CSLL Para fins de análise, tem cabimento transcrever excertos dos acórdãos apresentados como paradigmas: (...) Examinando os acórdãos paradigmas verifica-se que os mesmos trazem o entendimento de que as despesas desnecessárias são indedutíveis para o Fl. 4294DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 14 13 IRPJ, não o sendo para a CSLL por falta de expressa previsão legal, desde que comprovadas por documentos hábeis e idôneos. Está registrado no Voto condutor do Acórdão recorrido: (...) Assim, o acórdão recorrido, por seu turno, vem esclarecer que aplicam-se à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente. Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelam-se discordantes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial demonstrada pelo Sujeito Passivo. 7) Da Necessidade de Compensação do IR/Fonte Recolhido pela Recorrente Para fins de análise, tem cabimento transcrever excertos dos acórdãos apresentados como paradigmas: (...) Examinando os acórdãos paradigmas verifica-se que os mesmos trazem o entendimento de que não cabendo o imposto de renda retido na fonte, e uma vez que se trata de incidência exclusiva, não compensável na declaração dos beneficiários, deve o respectivo valor ser deduzido da presente exigência. Está registrado no Voto condutor do Acórdão recorrido: (...) Assim, o acórdão recorrido, por seu turno, vem esclarecer que descabe, portanto, a compensação suscitada. Em primeiro lugar, porque a incidência decorre de disposição expressa da norma e em segundo lugar, pelo fato do ônus do imposto ser do debenturista e não da fonte pagadora. Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelam-se discordantes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial demonstrada pelo Sujeito Passivo. 8) Da Ilegalidade da Cobrança de Juros Sobre a Multa Para fins de análise, tem cabimento transcrever excertos dos acórdãos apresentados como paradigmas: [...] Examinando os acórdãos paradigmas verifica-se que os mesmos trazem o entendimento de que os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada. Está registrado no Voto condutor do Acórdão recorrido: [...] Fl. 4295DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 15 14 Assim, o acórdão recorrido, por seu turno, vem esclarecer que tem cabimento a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional aplicada. Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelam-se discordantes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial demonstrada pelo Sujeito Passivo. Conclusão Do exame dos requisitos de admissibilidade estabelecidos nos arts. 67 e 68 do Anexo II do RICARF, verifica-se que o recurso especial deve ser admitido em parte, a saber: I) existem as divergências jurisprudenciais indicadas em relação aos seguintes itens: 1) Da Normalidade, Usualidade e Necessidade das Despesas de Remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da Recorrente; 6) Da Ilegalidade da Glosa de Despesas na Apuração da CSLL; 7) Da Necessidade de Compensação do IR/Fonte Recolhido pela Recorrente; e 8) Da Ilegalidade da Cobrança de Juros Sobre a Multa. II) não existem as divergências jurisprudenciais indicadas em relação aos seguintes itens: 2) Da Inobservância do Princípio da Legalidade pela Decisão Recorrida; 3) Da Necessidade de Aplicação do Princípio da Especialidade; 4) Da Possibilidade de Inovação do Critério Jurídico pela Autoridade Julgadora; e 5) Da Inobservância do Princípio da Verdade Material pela Decisão Recorrida." Vale registrar que a negativa de seguimento de parte do recurso especial, por inexistência de algumas das divergências suscitadas, foi confirmada por despacho de reexame de admissibilidade exarado pelo Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais, em caráter definitivo, nos termos do art. 71 do Anexo II do RICARF/2009. Em 25/06/2015, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que admitiu parcialmente o recurso especial da contribuinte, e em 26/06/2015 o referido órgão apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os seguintes argumentos: INDEDUTIBILIDADE DA REMUNERAÇÃO DAS DEBÊNTURES Inaplicabilidade, ao caso, do art. 462 do RIR/99: Fl. 4296DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 16 15 - a recorrente alega ser incabível a aplicação do artigo 299 do RIR/99 ao caso dos autos, já que os pagamentos efetuados não seriam referentes a despesas operacionais, mas sim à participação nos lucros, dedutível nos termos do artigo 462 do RIR/99; - nesse sentido, entende que ele (art. 462 do RIR/99) seria o único dispositivo legal apto a incidir no caso, conforme o princípio da especialidade, de tal modo que se sobreporia ao art. 299 do mesmo Regulamento. Em conseqüência, a Recorrente aduz que houve o erro de tipificação do lançamento; - no entanto, tais argumentos não merecem prosperar; - a glosa de despesa, por não atender ao requisito legal da necessidade, é forma direta de tributação, dependendo apenas da prova da sua desnecessidade à luz dos fatos concretos e da legislação que envolve o gasto ou dispêndio, tornando-o indedutível; - genericamente, o art. 462, I, do RIR/1999 prevê a dedutibilidade, do lucro líquido, das participações nos lucros asseguradas a debêntures emitidas pela empresa; - a finalidade do art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/1977, que alicerça o art. 462 acima, citada no Parecer Normativo CST nº 299, DOU de 7/12/78, foi assim disposta: "26. A lei da sociedade por ações conceitua as participações como deduções no lucro líquido do exercício, pois do ponto de vista dos acionistas são despesas, que reduzem o montante do lucro que lhes cabe. Para a lei fiscal, todavia, somente são dedutíveis as participações atribuídas a empregados... ou de debêntures de emissão da companhia (porque essa participação tem natureza de juros)" (g. n.). - portanto, a dedução do lucro líquido a título de participação nos lucros (mesmo que decorrente de debêntures) possui natureza contábil e jurídica de despesa. Assim, plenamente cabível verificar se essa despesa enquadra-se ou não nos critérios de dedutibilidade; - ademais, as participações nos lucros das pessoas jurídicas, asseguradas às debêntures de sua emissão, somente se caracterizam como deduções no lucro líquido quando reduzirem o montante do lucro a ser distribuído aos acionistas; - contudo, tornou-se incontroverso no processo que os próprios acionistas eram os titulares das debêntures. Ou seja, a redução dos lucros da empresa (despesa) se deu em benefício dos próprios acionistas, de tal modo que não se poderia admitir tal dedução, sob pena de completa subversão dos motivos que inspiraram a norma; - e mais, a própria Recorrente contribuiu decisivamente para a imputação fiscal com esteio no art. 299 do RIR/99, isto porque “a própria contribuinte, apesar de agora defender o erro na imputação fiscal, preferiu não dar abertamente o tratamento de dedução do lucro líquido às remunerações de debêntures, que deveriam estar informadas em campo específico da declaração” (fls. 868-v); - outrossim, a DRJ verificou que nas DIPJ apresentadas (2000 a 2006) “não consta qualquer informação no campo próprio da Ficha 6A – ‘Demonstração do Resultado’, Linha 47 – ‘Participações de Debêntures’”; Fl. 4297DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 17 16 - ora, se a própria documentação apresentada pela Recorrente registrou a despesa como despesa financeira, não poderia ela, sob pena de violar o princípio da boa-fé, invocar vício na imputação do qual ela contribuiu, mormente porque não trouxe qualquer fundamentação plausível para comprovar, em tese, o erro no preenchimento da declaração; - ressalte-se que, ao tratar tais pagamentos como despesas financeiras, não caberia, agora, considerá-las como dedução do lucro para embasar suposto erro na tipificação da autuação. A despesa com debêntures é indedutível, porque possui caráter de liberalidade: - é sabido que todo e qualquer tipo de dedução da base de cálculo deve guardar estrita conformidade com as exigências legais e regulamentares pertinentes, devendo ser glosada qualquer despesa que não ostente os requisitos indispensáveis para fins de dedutibilidade; - a qualificação dos dispêndios da pessoa jurídica como despesas dedutíveis na determinação do lucro real está subordinada a normas específicas da legislação tributária (art. 299 do RIR/99); - não é qualquer despesa com debêntures, contabilizada pela pessoa jurídica, que pode ser deduzida. Nos termos do dispositivo acima mencionado, a despesa somente é dedutível quando for necessária à atividade da empresa e à manutenção da fonte produtora de receitas, e desde que seja usual ou normal no tipo de operações ou atividades da entidade; - necessária é a despesa essencial às operações relacionadas com a exploração da atividade (inerente ao negócio), e que esteja vinculada com a fonte produtora de rendimentos. Despesa normal é despesa comum, vale dizer, aquela que, na realização do negócio, verifica-se de forma costumeira ou ordinária. A usualidade deve ser interpretada na acepção de habitualidade em relação à espécie do negócio; - basta examinar as circunstâncias que envolveram o negócio jurídico realizado para constatar, claramente, que os valores a título de participação em debêntures foram pagos pela contribuinte por mera liberalidade; - as debêntures são valores mobiliários emitidos pela pessoa jurídica para captação de recursos, a fim de custear a implementação de projetos ou a ampliação do empreendimento, e que representam uma alternativa de investimento para aquele que as adquire. Trata-se de um título que viabiliza o auto-financiamento da empresa; - porém, no caso em apreço, a captação de recursos inseriu-se apenas no plano hipotético, teórico, imaginário, haja vista que a decisão recorrida enfatizou que “não há prova efetiva nos autos de que o valor de R$1.348.780.000,00 tenha sido integralizado pelos sócios, únicos debenturistas, com recursos distintos daqueles já constantes do próprio patrimônio da empresa”; - ademais, sequer constou autenticação mecânica nos recibos vinculados aos Boletins de Subscrição de Debêntures, o que reforça o mote de que a operação foi realizada meramente “no papel”, isto é, sem qualquer ingresso de recursos para implementar ou incrementar as atividades da Recorrente, que, segundo diz, seria o aporte de capitais em outras empresas; Fl. 4298DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 18 17 - de acordo com o artigo 56 da Lei nº 6.404/1976, a debênture pode assegurar ao seu titular remuneração por meio de juros, participação nos lucros, ou prêmio de reembolso. No caso concreto, essa remuneração foi acordada por meio de participação nos lucros da contribuinte; - essa forma de remuneração, apesar de prevista em lei, não é a forma usual e normal. Sendo a debênture um título característico de empréstimo, os juros e a correção é que são, de fato, as formas comuns para sua remuneração; - com efeito, uma debênture, enquanto título de crédito, deve se basear na certeza. Logo, vincular tal título ao desempenho da empresa emitente, condicionando a sua remuneração inteiramente aos lucros daquela, descaracteriza a debênture como título de crédito. Nesse sentido, foi o entendimento da Conselheira Sandra Maria Faroni, no voto proferido no acórdão nº 101-94986 (transcrição contida nas contrarrazões); - além disso, verifica-se que a utilização de fração módica dos lucros como remuneração do título mobiliário até poderia ser tida como razoável. Todavia, o comprometimento do percentual de 97% dos lucros com essa finalidade assim não se apresenta; - essa mesma questão também foi tratada no mencionado Acórdão nº 101- 94.986. Naquele caso, o percentual ajustado era menor (70% dos lucros) do que o acordado pela Recorrente (repita-se, 97% dos lucros) e, ainda assim, este Conselho entendeu que a operação era incomum e que as despesas por ela geradas eram indedutíveis; - outrossim, no caso dos autos, a emissão de debêntures realizada pela empresa não proporcionou o ingresso de recursos financeiros e nem a captação de novos investimentos em busca de melhores resultados; - o que ocorreu foi, simplesmente, o uso de um artifício que teve como objetivo a criação de uma despesa para reduzir, artificialmente, o resultado operacional; - a remuneração dos 2 (dois) únicos sócios da empresa gerou uma despesa milionária, que praticamente suprimiu o lucro da companhia, mediante uma operação sem qualquer propósito negocial e com escopo de economia exclusivamente fiscal; - em momento algum os recursos negociados em razão da emissão das debêntures serviram para alcançar a melhoria de seus resultados. Por isso é que não foi possível reputar, às despesas, a característica de necessárias; - este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já teve a oportunidade de se manifestar pela indedutibilidade de despesas de debêntures em casos semelhantes (transcrição de ementa e voto do Acórdão nº 103-21543); - por tais motivos, conclui-se que a Fiscalização atuou de acordo com os parâmetros legais para glosar a despesa lançada pela Recorrente a título de remuneração com debêntures. Alteração da remuneração no percentual de 97% do lucro - operação atípica de mercado Fl. 4299DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 19 18 - a debênture é um título cambial que representa uma dívida de médio ou longo prazo que assegura ao respectivo titular (debenturista) o direito de crédito contra a sociedade emissora. Ela tem a finalidade precípua de obter empréstimos junto a terceiros, que são atraídos pelo título em face, principalmente, dos juros e outros direitos que podem remunerar o mútuo; - a remuneração das debêntures pode gerar, em tese, uma despesa pelo pagamento de tais benefícios, notadamente quando o título assegurar, ao debenturista, juros, participação no lucro da companhia e/ou prêmio de reembolso (Lei nº 6.404/1976, art. 56); - em uma operação típica de mercado, as debêntures são emitidas a médio ou longo prazo para que a sociedade capte recursos para fazer frente às suas necessidades, gerando, com isso, lucros; - ocorre que, no caso das debêntures emitidas pela recorrente, o propósito principal da companhia (lucro) nunca seria alcançado; - isto porque o lucro foi substancialmente comprometido pela alteração contratual que vinculou a remuneração das debêntures no percentual de 97%; - cabe indagar: seria comum, no mercado, que alguma companhia comprometesse quase a totalidade do seu lucro se o empréstimo viesse de terceiros, isto é, não pertencentes ao quadro societário? A resposta só pode ser negativa; - assim, além de não usual e atípica, essa prática é contrária à própria razão de ser das companhias mercantis, qual seja a finalidade lucrativa. Aliás, o art. 2º da Lei nº 6.404/1976 define que na sociedade por ações “Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim lucrativo”; - de fato, considerando que a participação nos lucros é inerente à condição de acionista da companhia, os sócios da Recorrente receberam, a título de remuneração das debêntures, valores que eles iriam obter ulteriormente na real distribuição de lucros. E, nessa trama, formalizaram uma operação que permitiria reduzir o lucro tributável em até 97% do lucro, como bem ressaltou a decisão da DRJ (fls. 868-v); - eis os elementos que demonstram que a operação da Recorrente foi atípica no mercado, sem qualquer propósito negocial, almejando apenas reduzir artificialmente a carga tributária: 1) remuneração das debêntures que beneficiava exclusivamente os sócios da companhia; 2) os 2 (dois) sócios foram os únicos subscritores das debêntures emitidas; 3) os referidos títulos foram emitidos na exata proporção da participação no capital social; 4) inexistiu qualquer entrada de capital externo na operação; Fl. 4300DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 20 19 5) inexistência de prova de que o valor de emissão das debêntures tenha sido integralizado pelos sócios com recursos distintos daqueles já constantes do patrimônio da companhia; 6) alteração contratual que comprometeu 97% do lucro de uma companhia; - se tais elementos não fossem suficientes para justificar a desnecessidade, anormalidade e não usualidade das despesas, o que se diz para fins de argumentação, convém ressaltar que o planejamento efetuado pela Recorrente extinguiria quase que a totalidade do seu lucro (e a incidência da respectiva tributação) até 2014, haja vista a data do seu vencimento (02/09/2014); - a manipulação para reduzir artificialmente o lucro da Recorrente fica evidente porque até o ano de 2014, ou seja, 15 (quinze) anos após a emissão das debêntures (em 1999), a quase totalidade do seu lucro (97%) seria destinada aos credores dos aludidos títulos, que são, evidentemente, os próprios sócios da empresa. E isso sem qualquer ingresso de recursos distintos do próprio patrimônio da companhia; - em síntese, não há recuo no tempo que justifique o comprometimento de 97% do lucro de uma companhia por 15 (quinze) anos como forma de remuneração de debêntures aos próprios sócios. GLOSA DE DESPESAS NA APURAÇÃO DA CSLL – PERMISSIVOS LEGAIS: ART. 28 DA LEI 9.430/96, ART. 13 DA LEI 9.249/95 e ART. 47 DA LEI 4.506/64 - o art. 13 da Lei nº 9.249/1995 previu, expressamente, que as despesas desnecessárias também são indedutíveis da base de cálculo da CSLL: Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964 - é importante destacar o referido caput, que faz remição expressa ao art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964. Esse dispositivo é o fundamento legal do art. 299 do RIR/99 e dispõe exatamente sobre a necessidade, usualidade e normalidade das despesas da empresa que poderão, em tese, ser deduzidas do lucro líquido do período; - o art. 28 da Lei nº 9.430/1996 manteve a aplicação da legislação concernente à apuração da base de cálculo da CSLL e inclui, certamente, a Lei nº 9.249/1995. Assim, a indedutibilidade das despesas com remuneração das debêntures emitidas pela Recorrente teve fundamento na legislação tributária vigente expressamente prevista no ordenamento jurídico pátrio, qual seja o art. 13 da Lei nº 9.249/1995 c/c o art. 47 da Lei nº 4.506/1964; - convém ressaltar que o auto de infração indicou a Lei nº 9.249/1995 dentro do enquadramento legal atribuído à apuração da base de cálculo da CSLL (fls. 437, 449, 461, 473 e 485); - embora a autuação tenha se referido ao art. 19 da Lei nº 9.249/1995, quando, na verdade, o ideal seria o seu art. 13, isso em nada prejudicou a Recorrente, já que ela Fl. 4301DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 21 20 exerceu plenamente o seu direito de defesa, ex vi as exaustivas explanações feitas na peça recursal diante das imputações que lhe foram feitas; - ademais, convém destacar a proximidade entre as hipóteses de incidência da CSLL e do IRPJ, que há muito vem sendo debatida e reconhecida pela doutrina e jurisprudência dos tribunais pátrios, tendo, inclusive, sido objeto de manifestação do Supremo Tribunal Federal ao apreciar a argüição de inconstitucionalidade da contribuição social em questão no RE 138.284, Relator Min. Carlos Veloso, julgamento em 01.07.1992, DJ. 28.08.1992; - no mesmo sentido, o Superior Tribunal de Justiça, ao apreciar a legalidade da indedutibilidade do valor da CSLL na apuração do lucro real, previsto na Lei nº 9.316/1996, afirmou o seguinte: “É consabido que o aspecto quantitativo do fato gerador da contribui ção social sobre o lucro se identifica com o do imposto de renda , pois a base de cálculo do imposto de renda é o montante real, arbitrado ou presumido da renda ou dos proventos tributáveis auferidos no ano-base (art. 44 do CTN).” (Destaque nosso) - nessa toada, isto é, considerando essa relação de proximidade entre a CSLL e o IRPJ no tocante ao fato gerador e base de cálculo, o legislador ordinário, por meio da Lei nº 8.891/1991 estabeleceu no art. 57, o seguinte: Art. 57. Aplicam-se à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagament o estabelecidas para o imposto de renda das pessoas j urídicas , inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) (Destaque nosso) - o legislador ordinário não disse no art. 57 que tão somente as regras de recolhimento do IRPJ devem ser observadas para a CSLL. Ao revés, foi bastante claro ao determinar que também as regras de apuração são aplicáveis a essa espécie de contribuição social; - ora, o que é apurar a não ser compor a base de cálculo tributável, efetuando- se as devidas adições, exclusões e compensações previstas em lei. Se a legislação do IRPJ preceitua que determinada parcela deva ser adicionada/excluída ou não considerada para efeito da apuração do lucro real, idêntico procedimento deve ser efetuado para cálculo do valor devido da CSLL, por força do que dispõe o art. 57 da Lei nº 8.891/1991; - ante o exposto, resta claro que as despesas desnecessárias não podem ser deduzidas da base de cálculo da CSLL. IRRF - AUSÊNCIA DA COMPROVAÇÃO DO SEU RECOLHIMENTO - a Recorrente pretende a compensação do IRRF supostamente recolhido sobre as remunerações das respectivas debêntures no período autuado com o IRPJ ora lançado; Fl. 4302DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 22 21 - além da fundamentação legal contemplada no acórdão vergastado (transcrita nas contrarrazões), ao qual a Fazenda Nacional reporta-se integralmente, cumpre ressaltar que não há provas nos autos acerca do recolhimento do IRRF pela Recorrente; - com efeito, depreende-se das fls. 661/671 que há apenas 1 (uma) DCOMP transmitida em 06/11/2006, referente ao período 2002, que não traz qualquer comprovação de que houve o recolhimento do imposto retido. Convém relembrar que o período autuado, no presente caso, abrange os anos-calendário 2002/2005; - por fim, cabe relembrar o alerta proferido pela DRF no sentido de que “o efeito fiscal decorrente da existência destes papeis é uma sistemática geração de despesas, sem que em contrapartida haja qualquer tributação dos beneficiários (Imposto de Renda Retido na Fonte), já que o vencimento dos títulos é em 2014, e a escritura não prevê pagamentos periódicos de rendimentos...” (fls. 295); - portanto, considerando que a Recorrente já se valeu do procedimento para o pedido de compensação/restituição do valor que ela ora postula seja compensado, assim como por inexistir nos presentes autos provas da retenção do tributo, o pedido deve ser denegado. DA COBRANÇA DE JUROS SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO - a utilização da taxa Selic para o cômputo dos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício é plenamente cabível e condizente com a legislação tributária vigente (artigos 44, I e 61, § 3º, da Lei nº 9.430/1996); - verifica-se que a divergência sobre a aplicabilidade da Selic sobre a multa de ofício a título de juros de mora se dá, primordialmente, acerca do que se entende por “débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal”; - é sabido que, com a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, surge o direito subjetivo público do sujeito ativo (União) de receber o crédito tributário e o respectivo dever do sujeito passivo (devedor) de pagá-lo no prazo previsto na legislação específica; - portanto, nota-se que, se não pago o tributo no prazo estipulado legalmente, o fisco efetuará o lançamento do crédito tributário, expressão que abrange o tributo e os acréscimos legais (multa e juros); - quer-se dizer com isso que os débitos a que se referem o art. 61, caput, e seu § 3º da Lei nº 9.430/1996 são os créditos tributários devidos à União e não somente o valor do tributo (principal). Os juros incidirão sobre o principal e a multa de ofício aplicada. É o que determina o citado § 3º; - portanto, a Lei nº 9.430/1996 dispôs de modo diverso do § 1º do art. 161 do CTN e expressamente mandou aplicar aos créditos tributários da União a “taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento”, que é a taxa SELIC; Fl. 4303DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 23 22 - assim, consoante as disposições acima mencionadas, nada há que afaste a incidência da taxa Selic sobre débitos de qualquer natureza devidos à União, o que inclui a multa de ofício; - nesse sentido, a jurisprudência do CARF (ementas transcritas); - logo, resta correta a aplicação dos juros de mora, com base na taxa Selic, sobre a multa de ofício; DO PEDIDO - em face do exposto, a União (Fazenda Nacional) requer seja negado provimento ao recurso especial interposto pelo recorrente. Os autos seguiram então para a CSRF para o julgamento do recurso especial. É o relatório. Fl. 4304DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 24 23 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. PRELIMINAR DE ARGUIÇÃO DE IMPEDIMENTO Em razão da argüição de impedimento aduzida pelo patrono da contribuinte por ocasião da sustentação oral ocorrida na sessão de julgamento, ao argumento de que nós, Conselheiros representantes da Fazenda Nacional, estaríamos impedidos de atuar no presente julgamento, faz-se necessário juntar-se aos autos a presente manifestação, nos termos do art. 44 do Anexo II do Regimento Interno do CARF - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, haja vista que não reconheço tal impedimento. A argüição foi motivada pela publicação da Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2015, cujo art. 5º prevê um Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira, com o objetivo de incrementar a produtividade nas áreas de atuação dos ocupantes dos cargos de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil e de Analista- Tributário da Receita Federal do Brasil, nos seguintes termos: Art. 5 o Ficam instituídos o Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil e o Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira, com o objetivo de incrementar a produtividade nas áreas de atuação dos ocupantes dos cargos de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil e de Analista- Tributário da Receita Federal do Brasil. § 1 o O Programa de que trata o caput será gerido pelo Comitê Gestor do Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil, composto por representantes do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão e da Casa Civil da Presidência da República, nos termos a serem definidos em ato do Poder Executivo federal. § 2 o O valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira será definido pelo Índice de Eficiência Institucional, mensurado por meio de indicadores de desempenho e metas estabelecidos nos objetivos ou no planejamento estratégico da Secretaria da Receita Federal do Brasil. § 3 o Ato do Comitê Gestor do Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil será editado até 1 o de março de 2017, o qual estabelecerá a forma de gestão do programa e a metodologia para a mensuração da produtividade global da Secretaria da Receita Federal do Brasil e fixará o Índice de Eficiência Institucional. Fl. 4305DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 25 24 § 4 o A base de cálculo do valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira será composta pelo valor total arrecadado pelas seguintes fontes integrantes do Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização - FUNDAF, instituído pelo Decreto-Lei n o 1.437, de 17 de dezembro de 1975: I - arrecadação de multas tributárias e aduaneiras incidentes sobre a receita de impostos, de taxas e de contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil a que se refere o art. 4 o da Lei n o 7.711, de 22 de dezembro de 1988, inclusive por descumprimento de obrigações acessórias; e II - recursos advindos da alienação de bens apreendidos a que se refere o inciso I do § 5 o do art. 29 do Decreto-Lei n o 1.455, de 7 de abril de 1976. § 5 o O valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira a ser distribuído aos beneficiários do Programa corresponde à multiplicação da base de cálculo do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira pelo Índice de Eficiência Institucional. § 6 o O valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira não poderá ultrapassar o valor da base de cálculo de que trata o § 4 o . Em apertada síntese, foi alegado que, em decorrência do §4º do supracitado artigo prever que o bônus possui como base de cálculo, além do produto da alienação de bens objeto de pena de perdimento, o valor da arrecadação das multas tributárias e aduaneiras incidentes sobre a receita de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil e aquelas exigidas em virtude do descumprimento de obrigações acessórias, e considerando que o CARF é o órgão competente para o julgamento de recursos versando sobre as multas que servirão como base de cálculo para o bônus, os resultados dos seus julgamentos deveriam repercutir no valor a ser pago aos Auditores-Fiscais e Analistas-Tributários, o que caracterizaria interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, fato que, por sua vez, impediria os Conselheiros representantes da Fazenda Nacional de atuarem no julgamento de recursos, nos termos do art. 42 do Anexo II do RICARF, ora colacionado: Art. 42. O conselheiro estará impedido de atuar no julgamento de recurso, em cujo processo tenha: I - atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II - interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; e III - como parte, cônjuge, companheiro, parente consanguíneo ou afim até o 3º (terceiro) grau. § 1º Para efeitos do disposto no inciso II do caput, considera-se existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos Fl. 4306DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 26 25 casos em que o conselheiro representante dos contribuintes preste ou tenha prestado consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ou perceba remuneração do interessado, ou empresa do mesmo grupo econômico, sob qualquer título, no período compreendido entre o primeiro dia do fato gerador objeto do processo administrativo fiscal até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso. § 2º As vedações de que trata o § 1º também são aplicáveis ao caso de conselheiro que faça ou tenha feito parte como empregado, sócio ou prestador de serviço, de escritório de advocacia que preste consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ao interessado, bem como tenha atuado como seu advogado, nos últimos cinco anos. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) § 3º O conselheiro estará impedido de atuar como relator em recurso de ofício, voluntário ou recurso especial em que tenha atuado, na decisão recorrida, como relator ou redator relativamente à matéria objeto do recurso. § 4º O impedimento previsto no inciso III do caput aplica-se também aos casos em que o conselheiro possua cônjuge, companheiro, parente consanguíneo ou afim até o 2º (segundo) grau que trabalhem ou sejam sócios do sujeito passivo ou que atuem no escritório do patrono do sujeito passivo, como sócio, empregado, colaborador ou associado. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Ocorre que tal dispositivo só tem aplicação para os Conselheiros representantes dos Contribuintes, consoante o disposto no seu §1º. E, consoante a doutrina processual civil, as hipóteses de impedimento são objetivas, definidas a partir da presunção absoluta de parcialidade do julgador, de modo que se a hipótese não está prevista no diploma regulador do processo, não é possível constituí-la a partir de uma interpretação extensiva da norma. De toda a sorte, há uma razão para a hipótese regimental não alcançar os Conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Essa diferença de tratamento reside nas conseqüências advindas da não observância ao próprio dispositivo. É que, para os Conselheiros representantes dos Contribuintes, nos termos do art. 45, inciso I, do Anexo II do RICARF, configurado o impedimento, se o Conselheiro argüido assim não se reconhecer, fica caracterizada hipótese de descumprimento ao Regimento Interno, configurando hipótese de perda de mandato. No entanto, para os Conselheiros representantes da Fazenda Nacional, o descumprimento acarreta ato de improbidade administrativa, nos termos dos incisos I e VIII do art. 9º da Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992, punível com a demissão, nos termos do art. 132 da Lei nº 8.112, de 1990. Fl. 4307DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 27 26 Nesse sentido, o Presidente do CARF, no âmbito da atribuições de exarar atos administrativos complementares ao Regimento Internos, nos termos do art. 3º, incisos IV, XI e §2º do Anexo I, bem como os incisos IV e XIII do art. 20 do Anexo II, todos do RICARF, editou a Portaria CARF nº 1, de 2017, ora transcrita: O PRESIDENTE DO CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS, no uso das atribuições que lhe conferem os incisos IV, XI e § 2º do art. 3º do Anexo I, bem como os incisos IV e XIII do art. 20 do Anexo II, todos do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, em face de questionamentos suscitados por Conselheiros representantes da Fazenda Nacional diante do disposto no art. 5º da Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2016, DECLARA: Art. 1º A hipótese de impedimento prevista no inciso II do art. 42 do Anexo II do RICARF aplica-se exclusivamente aos conselheiros da representação dos contribuintes dada a especificidade de que trata o § 1º do mesmo dispositivo. § 1º O interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, ocorre nos casos em que o conselheiro da representação dos contribuintes, em relação ao interessado ou empresa do mesmo grupo econômico: I - preste ou tenha prestado consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil; ou II - perceba remuneração, sob qualquer título, no período compreendido entre o primeiro dia do fato gerador objeto do processo administrativo fiscal até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso. § 2º Eventual enquadramento de conselheiro da representação da Fazenda Nacional nos casos de que trata este artigo tipificaria improbidade administrativa nos termos dos incisos I e VIII do art. 9º da Lei nº 8.429, de 02 de junho de 1992. Art. 2º Há impedimento do conselheiro da representação da Fazenda Nacional: I - na hipótese em que tenha atuado como autoridade lançadora, ou praticado ato decisório monocrático, nos termos do inciso I do art. 42 do Anexo II do RICARF; II - quando o interesse for presumido pelo vínculo de parentesco ou de afinidade, nos termos do inciso III do mesmo artigo; e III - na qualidade de relator, quando tiver atuado na condição de relator ou redator em decisão anterior. Art. 3º Esta Portaria será publicada no Boletim de Serviço do CARF. CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Fl. 4308DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 28 27 Com efeito, o Regimento anterior ao atual, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, vigente ao tempo em que advogados podiam atuar como Conselheiros representantes dos Contribuintes, concomitantemente com a prática da advocacia, já dispunha: Art. 42. O conselheiro estará impedido de atuar no julgamento de recurso, em cujo processo tenha: I - atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II - interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; III - como parte, cônjuge, companheiro, parentes consanguíneos ou afins até o terceiro grau; IV - participado do julgamento em primeira instância. Parágrafo único. Para os efeitos do inciso II, considera-se existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos casos em que o conselheiro representante dos contribuintes: I - preste consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ao interessado, ou dele perceba remuneração sob qualquer título, no período da instauração do processo administrativo fiscal e até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso; e II - atue como advogado, firmando petições, em ação judicial cujo objeto, matéria, ou pedido seja idêntico ao do recurso em julgamento Ou seja, mesmo quando o Regimento não obrigava os representantes dos Contribuintes a se licenciar da Ordem dos Advogados do Brasil, o dispositivo já era direcionado aos Conselheiros representantes dos Contribuintes. Situação diferente ocorria em Regimentos anteriores, em que a redação do dispositivo que tratava do impedimento trazia em seu bojo, a título de parágrafo, uma complementação ao caput, usando a expressão “considera-se também”. A título exemplificativo, transcreve-se o que constava da Portaria MF nº 147, de 25 de junho de 2007: Art. 15. O conselheiro estará impedido de participar do julgamento de recurso, em cujo processo tenha: I - atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II - interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; e III - cônjuge, companheiro ou parentes, consangüíneos ou afins, até o terceiro grau, como parte, , ou como advogado da parte. § 1º Para os efeitos deste artigo, considera-se também existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos casos em que o conselheiro: I - percebe ou percebeu remuneração do recorrente, de advogado, de sociedade de advogados, de consultoria ou assessoria que lhe preste assistência jurídica e/ou contábil, em caráter eventual ou permanente, qualquer que seja a razão ou o título da percepção, no período que medeia o início da ação fiscal e a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso; II - figure como representante ou mandatário, legal ou convencional, em ação judicial que tenha por fundamento ou pedido, no todo ou em parte, a mesma matéria que seja objeto do recurso em julgamento. § 2º O conselheiro representante da Fazenda Nacional estará impedido de atuar como relator em recurso no Conselho de Contribuintes quando tiver atuado como relator em instância inferior.(Negritamos) Fl. 4309DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 29 28 É importante destacar, ainda, que ao Processo Administrativo Fiscal aplica-se o Decreto nº 70.235, de 1972 e, somente em caráter subsidiário, a Lei nº 9.784, de 1999, cujo art. 69 traz disposição expressa nesse sentido: "Os processos administrativos específicos continuarão a reger-se por lei própria, aplicando-se-lhes apenas subsidiariamente os preceitos desta Lei." E o Decreto nº 70.235, de 1972, remete ao Regimento Interno do CARF, a disciplina do seu julgamento, nos termos do art. 37, verbis: Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais far-se-á conforme dispuser o regimento interno. Todavia, ainda que se entenda ser possível interpretação diversa aquela conferida por meio da Portaria CARF nº1, de 2017, é oportuno esclarecer que o bônus de eficiência, tal como regulamentado por meio da Portaria RFB nº 31, de 18 de janeiro de 2017, ainda que precariamente, posto que será submetido ao Comitê Gestor do Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil, composto por representantes do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão e da Casa Civil da Presidência da República, somente será devido se a Secretaria da Receita Federal do Brasil atingir as metas constantes do Anexo II. Para tanto, será necessário que os indicadores de 1 a 8, que não são atrelados à arrecadação, sejam positivos. Consoante a fórmula trazida no §2º do art. 2º, a arrecadação somente influenciará o fator de multiplicação F (Indicador 9), o qual, por sua vez, será multiplicado pela somatório de todos os demais indicadores, de onde se conclui que, se a soma não for positiva, ou, em outras palavras, se os demais indicadores de eficiência e produtividade não foram atingidos, o indicador representativo da arrecadação será multiplicado por “zero”, resultando, por conseguinte, em um bônus igual a zero. Entretanto, ainda que todos esses argumentos até então aduzidos estivessem superados, considera-se oportuno registrar que, na condição de julgador representante da Fazenda Nacional, entendo não estar impedido porque sempre me vi julgando de acordo com o melhor direito, pautado na imparcialidade que a própria condição de julgador me impõe. Nesse sentido, e com a devida vênia aos que aduziram o tal impedimento, entendo ser necessário colocar e analisar os cenários possíveis decorrentes da presente problemática: Pois bem, para levantamento desses cenários possíveis, devemos considerar que: (a) a multa lançada pode ser (i) indevida ou (ii ) devida e (b) no julgamento, essa multa pode ser (i) mantida ou (ii ) cancelada. Dessa forma, por análise combinatória, concluo que os cenários possíveis são: I. multa indevida mantida; II. multa indevida cancelada; III. multa devida mantida; e Fl. 4310DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 30 29 IV. multa devida cancelada. A seguir, analiso em separado cada um desses quatro possíveis cenários. O primeiro cenário, de multa indevida mantida, é justamente aquele que aparentemente tem apelo. Poder-se-ia pensar que o conselheiro julgaria como devida uma multa indevida para aumentar a base de cálculo do bônus e, assim, aumentar sua parcela no bônus futuramente devido. Entretanto, esse pensamento é equivocado porque não considera dois pontos essenciais: - a verdadeira natureza do julgamento administrativo, uma revisão de legalidade do lançamento, que é facultativa e sujeita à palavra final do Poder Judiciário; e - que a base de cálculo do bônus de eficiência não é a multa mantida administrativamente, mas sim a multa efetivamente devida, aceita, conformada e recolhida. Na verdade, todo crédito tributário mantido no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, antes de ser recolhido, pode ser questionado no Poder Judiciário, em ação própria ou em sede de embargos à execução. E o Poder Judiciário é que tem a palavra final, é ele quem diz se a multa era efetivamente devida ou indevida. A palavra do Poder Judiciário é superior ao julgamento administrativo, podendo reformá-lo e, inclusive, dentro das regras legais e regimentais, vincular todos os julgamentos administrativos futuros. Nesse caso, se o Poder Judiciário efetivamente decidir que uma multa mantida no âmbito do Processo Administrativo Fiscal era indevida, não haverá qualquer possibilidade de seu valor influenciar a base de cálculo do bônus de eficiência. Ao contrário, essa situação ensejaria ônus da sucumbência. E o mais importante, esse diálogo com o Poder Judiciário sinaliza o critério a ser utilizado administrativamente em situações equivalentes. Portanto, como a multa administrativamente mantida e considerada indevida pelo Poder Judiciário não é a multa efetivamente recolhida, fica aqui afastada para esse primeiro cenário, a alegação de interesse indireto e, consequentemente, de impedimento do conselheiro fazendário. Passamos agora à análise do segundo cenário, de multa indevida cancelada. Ora, uma multa indevida e cancelada no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, por óbvio não aumentaria a base de cálculo do Bônus de Produtividade, o que afasta também nesse cenário qualquer possibilidade de impedimento. O terceiro cenário, de multa devida mantida, é o que a sociedade espera da atuação do Estado, das autoridades tributárias e de todos os julgadores administrativos, sejam eles representantes da Fazenda Nacional, sejam eles representantes dos contribuintes: a aplicação correta da legislação. Todavia, nessa situação, para o caso de o sujeito passivo entender que a multa seria por acaso indevida, caberia a discussão junto ao Poder Judiciário, o que torna aqui aplicáveis todas as explicações já apresentadas para o primeiro cenário. Portanto, também não se pode alegar que, nesse cenário, falar-se-ia de parcialidade e consequentemente de impedimento. Fl. 4311DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 31 30 Por fim, o quarto cenário, de multa devida cancelada, é o cenário que toda a sociedade quer evitar. Uma multa que pudesse ser considerada devida pelo Poder Judiciário, em face da legislação, e que fosse, entretanto, cancelada no âmbito administrativo caracteriza crédito tributário teoricamente devido, porém definitivamente perdido, porque, nesse caso, a decisão administrativa (ainda que equivocada) é definitiva, por não ter a União legitimidade para recorrer ao Poder Judiciário contra decisão administrativa, salvo que seja provada má-fé, por corrupção. Esse cenário, sim, é desencorajado pelo bônus de eficiência. Mas esse cenário é ilegal, além de não interessar à sociedade e, conseqüentemente, ao Estado, aos bons contribuintes ou até mesmo aos conselheiros. Na verdade, esse cenário somente interessaria ao sonegador e àqueles que viessem a lucrar com a sonegação perpetrada. Aliás, situações relacionadas a esse cenário foram apontadas - pelo que se depreende do que foi publicado na imprensa ao longo dos anos de 2015 e 2016 - na chamada operação "Zelotes". Ora, não se pode dizer que um mecanismo que inibe o erro e a corrupção venha a ser motivo de impedimento de atuação do conselheiro. Portanto, afasta-se aqui, para esse cenário, também, a possibilidade de impedimento. Enfim, para todos os cenários possíveis: - a multa é devida ou indevida em face da legislação e não da vontade do conselheiro; e - independentemente de sua vontade, nenhuma multa que o interessado considere indevida será recolhida sem que a ele seja assegurada a possibilidade de discussão junto ao Poder Judiciário. Pelo que se encontra exposto acima, resta claro que não há interesse do conselheiro, seja direto ou indireto, na multa por ele julgada. Confirmando a conclusão acima, cabe olhar mais uma vez para o passado e perquirir como aqueles que nos antecederam analisaram a situação sobre a qual agora nos debruçamos. Isso porque a presente situação é ontologicamente idêntica àquela que vigiu por mais de uma década nos Conselhos de Contribuintes, entre o início de 1989 e meados de 1999, quando a remuneração dos então Auditores-Fiscais do Tesouro Nacional era composta pela RAV - Remuneração Adicional Variável. A RAV, instituída pela Lei n° 7.711, de 1988, era calculada sobre o produto da arrecadação de multas em função da eficiência individual e plural da atividade fiscal. O valor dessa RAV foi limitado, inicialmente, ao valor do soldo do Almirante de Esquadra e, posteriormente, a 8 (oito) vezes o valor máximo do vencimento do Auditor-Fiscal e o valor da RAV devida aos conselheiros era o valor médio devido aos demais Auditores-Fiscais. Ora, em tudo a RAV se assemelhava ao atual Bônus de Eficiência: - a base era a mesma (produto de multas arrecadadas); Fl. 4312DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 32 31 - o critério era o mesmo (eficiência da atividade fiscal); - os limites eram equivalentes, valores máximos de soldos ou vencimentos (atualmente o limite é o vencimento de Ministro do Supremo Tribunal Federal); e - o Regimento Interno vigente à época tinha dispositivo de impedimento equivalente. Entretanto, durante todo o período da RAV, nunca foi sequer apontado um caso concreto de parcialidade por interesse direto ou indireto, nem discutido o impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional, em função dessa remuneração. No entendimento deste conselheiro, a inexistência desse questionamento se deve ao fato de os que nos antecederam terem feito a análise de cenários aqui apresentados e visualizado a inocorrência de interesse direto ou indireto dos conselheiros na multa em julgamento. Mais do que isso, não há registro, durante esse período, de aumento de multas indevidas mantidas administrativamente. Portanto, a história confirma a análise aqui realizada e corrobora a inexistência de qualquer interesse direto ou indireto do conselheiro fazendário na multa em julgamento. Aliás, se fosse possível inferir tal interesse, caberia arguir impedimento em qualquer julgamento acerca de exigências de crédito tributário promovido por funcionários públicos, quer em sede de processo administrativo ou judicial, vez que os tributos arrecadados são a principal fonte de recursos a assegurar a remuneração dos servidores públicos. Ainda, a título de reforço, cumpre fazer referência a outros tribunais administrativos que, em 22 Estados Membros da Federação, também remuneram seus agentes com base na eficiência da fiscalização e arrecadação tributárias, sem que isso implique impedimento para o julgamento administrativo dos lançamentos de ofício. Nesse sentido, convém trazer à tona o modelo do Estado de Pernambuco, onde se tem um Tribunal Administrativo autônomo, composto por julgadores concursados especificamente para tal fim, ou seja, sequer há paridade nos termos do CARF e, a despeito disso, não há diferença entre Auditor-Fiscal e Julgador, pois ambos os cargos recebem, entre outros valores, um bônus de 30% da arrecadação de multas (dividido por todos os auditores e julgadores, incluindo aposentadorias e pensões). Por esses motivos não me declaro impedido. Fl. 4313DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 33 32 Voto vencido no conhecimento parcial Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Inicialmente, faz-se necessária a apreciação de um aspecto do recurso especial, interposto pela contribuinte, a respeito do qual se calou o despacho que examinou a admissibilidade da peça recursal. Conforme já foi exposto no relatório, a primeira matéria questionada no recurso especial diz respeito à "normalidade, usualidade e necessidade das despesas de remuneração das debêntures" e à "efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da recorrente". Discorrendo sobre o assunto, a recorrente defende que o acórdão recorrido teria dado à legislação aplicável à matéria uma interpretação diferente da que foi adotada nos Acórdãos nº 101-97.021 e nº 1101-000.889. Basicamente, os acórdãos apontados como paradigma não consideram, ao contrário do acórdão recorrido, que a remuneração de debêntures com base apenas em um elevado percentual dos lucros da empresa emitente e a subscrição somente por pessoas relacionadas à pessoa jurídica representem impedimento à dedutibilidade das despesas decorrentes dos pagamentos feitos aos debenturistas. Assim, pede a recorrente que tal entendimento seja aplicado ao seu caso concreto, já que as debêntures de sua emissão, subscritas apenas por seus sócios, passaram a ser remuneradas, a partir de julho de 2001, com base em 97% do resultado positivo, ajustado pela exclusão dos rendimentos de participações societárias de caráter permanente. Entre 02/12/1999 (data de emissão das debêntures) e 30/07/2001 (data da alteração do critério de remuneração), os papéis eram remunerados pelo IGPM + 6% a.a.. Exposta tal tese, a recorrente passa a defender, na hipótese da impossibilidade de seu acatamento, a aplicação de uma metodologia alternativa, segundo a qual pelo menos o critério adotado até julho de 2001 deveria ser aceito pelo Fisco e limitar a glosa imposta pela Fiscalização. Aduz o recurso especial: "E não é só. Na pior e na improvável hipótese de não se reconhecer o percentual de 97% do lucro ajustado como válido, o que se admite apenas para argumentar, deve ser reconhecida a divergência e acatada a possibilidade de dedução das despesas com base no critério anterior (IGPM + 6% de juros a.a). É preciso assentar que, na origem de ambos os processos, relativos aos acórdãos paradigma e ora recorrido, a fiscalização, fundamentou a glosa das despesas na mudança de critério da remuneração das debêntures, isto é, considerou válida, pelo menos, a despesa reconhecida pela Recorrente, correspondente ao IGPM + 6% a.a.." Observa-se, portanto, que dentro do item III.1 de seu recurso especial ("Da normalidade, usualidade e necessidade das despesas de remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da recorrente"), a contribuinte na verdade alega a existência de duas divergências jurisprudenciais diferentes. Fl. 4314DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 34 33 A primeira delas diz respeito à dedutibilidade das despesas com pagamento da remuneração de debêntures nos moldes adotados pela contribuinte (subscrição somente pelos acionistas da pessoa jurídica e remuneração baseada em um alto percentual dos resultados). Quanto a este tema, o despacho de exame de admissibilidade do recurso concluiu pela comprovação da existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os paradigmas nº 101-97.021 e nº 1101-000.889, dando seguimento ao recurso relativamente à matéria. Já a segunda divergência jurisprudencial arguida pela recorrente diz respeito à tese subsidiária de que, se o entendimento da Câmara Superior de Recursos Fiscais não for pela total dedutibilidade das despesas oriundas da remuneração das debêntures e consequente reversão total das glosas operadas pela Fiscalização, que pelo menos só seja mantida a glosa daquilo que ultrapassar o critério adotado até julho de 2001, qual seja o IGPM + 6% a.a.. Tal matéria não foi objeto de apreciação pelo despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial, razão pela qual o conhecimento do tema deve ser analisado neste voto. A recorrente alega que o acórdão recorrido, ao concluir pela manutenção total da glosa determinada pela Fiscalização, teria entrado em divergência com o Acórdão nº 101- 97.021. Registre-se que este acórdão apreciou exatamente a mesma infração que provocou a autuação objeto dos presentes autos, mas em relação aos efeitos tributários observados no ano- calendário de 2001. Ocorre que tal julgado só se presta à comprovação de divergência jurisprudencial à luz da tese inicialmente defendida pela recorrente: pedido de reversão total das glosas constantes dos autos de infração em virtude do reconhecimento da dedutibilidade das despesas de pagamento de remuneração das debêntures. Tanto é assim que o mesmo acórdão paradigma foi indicado em relação à primeira tese e efetivamente se prestou a demonstrar a existência de divergência jurisprudencial. No que diz respeito à tese subsidiária defendida pela contribuinte, qual seja a possibilidade de glosa parcial das despesas registradas, somente no que ultrapassar um limite dito aceitável (critério de remuneração adotado até 30/07/2001, de IGPM + 6% a.a.), o acórdão apontado como paradigma não se pronuncia. No intuito de comprovar a alegada divergência jurisprudencial, a recorrente transcreve os seguintes trechos do voto condutor do acórdão paradigma: "Da análise dos autos, retroagindo aos últimos 6 (seis) anos-calendário 1995 a 2000 - a média ponderada da remuneração das debêntures (IGPM + 6%a.a.) - diga-se de passagem, não questionada pela fiscaliza ção (...)" "Se levarmos em consideração a remuneração das debêntures praticada no mercado (IGPM + 6%, NTN-C e 100 do CDI), para os anos-calendário poseriores - 2002 a 2005 - (fl. 654 dos autos), verifica-se que a Recorrente teve uma despesa com remuneração muito menor se com para com a remuneração atrelada aos títulos do governo (NTN-C)." (negritos no recurso especial) Fl. 4315DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 35 34 Da análise dos excertos reproduzidos, constata-se a ausência de qualquer menção ao cabimento de algum procedimento de glosa parcial de despesas tidas como não dedutíveis, respeitando-se um patamar que se entendesse como razoável. Conforme já foi mencionado, a conclusão do Acórdão n º 101-97.021 foi pela dedutibilidade das despesas decorrentes do pagamento de remuneração das debêntures emitidas pela recorrente em fevereiro de 1999, após a alteração do critério de remuneração operacionalizado em julho de 2001. Tanto é assim que o acórdão foi utilizado com êxito na comprovação da existência de divergência no que concerne à primeira matéria contestada pela contribuinte em seu recurso especial. O trecho do voto condutor daquela decisão, reproduzido pela recorrente, somente afirma, de maneira acessória, que o critério adotado até 30/07/2001 não foi questionado pela Fiscalização. Tal afirmação configura simples obter dictum, instrumento de retórica manejado pelo I. Relator sem a produção de efeitos decisórios. O fato de o critério utilizado até meados de 2001 não ter sido questionado pela Fiscalização obviamente não conduz à conclusão de que o critério adotado após este período não tinha o condão de provocar a indedutibilidade das despesas relacionadas ao pagamento da remuneração das debêntures. Assim sendo, em relação à matéria questionada pela recorrente de forma subsidiária dentro do tópico "III.1 - "Da normalidade, usualidade e necessidade das despesas de remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da recorrente", ou seja, a possibilidade de reconhecimento parcial da dedutibilidade das despesas de pagamento de remuneração de debêntures, até um limite considerado aceitável, considero que não foi comprovada a divergência jurisprudencial arguida, não tendo sido cumprido o requisito previsto no art. 67, caput e § 6º, do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF/2015 (art. 67, caput e § 4º, do Anexo II do RICARF/2009). NÃO CONHEÇO, portanto, do recurso especial da contribuinte no que atine a tal matéria. Registre-se que a PGFN, provavelmente influenciada pelo fato de a admissibilidade da matéria referente à glosa parcial das despesas de pagamentos de remuneração de debêntures não ter sido mencionada no despacho de exame de admissibilidade do recurso especial, também não abordou o assunto em suas contrarrazões. Todavia, como a conclusão alcançada neste voto é pelo não conhecimento da matéria, reputo dispensável a devolução dos autos para que seja oferecida à PGFN a oportunidade de contrarrazoar o tema específico. Como o oferecimento de tais contrarrazões não alteraria a conclusão aqui exposta, deixo de devolver o processo à Câmara a quo em homenagem aos princípios da economia e da celeridade processuais. De toda forma, se eu restar vencido no que diz respeito ao não conhecimento da matéria que deixou de ser apreciada em sede de despacho de admissibilidade, sugiro o encaminhamento dos autos, por meio de Resolução, para o oferecimento de contrarrazões pela PGFN, como forma de garantir a inocorrência de cerceamento de sua defesa. No que toca às demais matérias, o despacho que examinou a admissibilidade do recurso interposto pela contribuinte concluiu que, de um total de oito temas contestados, em relação a quatro foram cumpridos os requisitos de admissibilidade do recurso especial, fixados pelo art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. As matérias que provocaram o seguimento do recurso foram: "Da normalidade, usualidade e necessidade das despesas de remuneração das Fl. 4316DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 36 35 debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da recorrente", "Da ilegalidade da glosa de despesas na apuração da CSLL", "Da necessidade de compensação do IR/Fonte recolhido pela recorrente" e "Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa". Não tendo sido apresentadas pela PGFN, por ocasião da exposição de suas contrarrazões, alegações preliminares de não conhecimento da peça recursal interposta pela contribuinte, adoto as razões expostas no aludido despacho para CONHECER do recurso especial em relação às quatro matérias admitidas (e somente elas), passando à análise de seu mérito. Fl. 4317DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 37 36 Voto vencedor no mérito, exceto quanto ao IR/Fonte (item 3) Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. As matérias serão analisadas em uma ordem que respeite a relação de dependência existente entre elas. Por tratar-se do tema principal do debate travado nos autos, a questão da necessidade das despesas de remuneração das debêntures emitidas pela recorrente será abordada primeiro. Em seguida serão analisados, sucessivamente, os temas concernentes à ilegalidade da glosa de despesas desnecessárias da base de cálculo da CSLL, à necessidade de compensação do IR/Fonte recolhido pela recorrente e à ilegalidade da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. 1) Da normalidade, usualidade e necessidade das despesas de remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da Recorrente A contribuinte JS ADMINISTRAÇÃO DE RECURSOS S/A foi autuada porque a autoridade tributária que a fiscalizou entendeu que foram indevidamente deduzidas, na apuração do IRPJ e da CSLL referentes aos anos-calendário de 2002, 2003, 2004 e 2005, despesas decorrentes de remuneração de debêntures de sua emissão. A emissão das debêntures em questão se deu em 02/12/1999, por meio da lavratura de escritura particular. Foram emitidas 10.000 debêntures, cada uma com o valor nominal de R$170.000,00. A forma de remuneração inicialmente prevista para os papéis era de atualização monetária com base na variação do IGP-M mais juros de 6% a.a.. e sua data de vencimento foi definida como 02/12/2014. A possibilidade de subscrição das debêntures emitidas não foi aberta ao público em geral, ficando restrita às pessoas físicas dos dois únicos acionistas da contribuinte. Cada um dos acionistas subscreveu e integralizou 3.987 títulos, permanecendo os demais na carteira da contribuinte até seu cancelamento, ocorrido em 28/08/2001. A integralização das debêntures foi realizada por meio de compensação de créditos que os sócios possuíam junto à recorrente, decorrentes de debêntures anteriormente emitidas (em 1991) por empresas das quais a recorrente era sucessora. Em 30/07/2001, a recorrente alterou o critério de remuneração de suas debêntures, de IGP-M + 6% a.a. para 97% do resultado positivo de cada exercício social, ajustado pela exclusão dos rendimentos de participações societárias de caráter permanente. As remunerações pagas ao longo dos anos de 2002 a 2005 foram deduzidas pela contribuinte na apuração do seu lucro real e da sua base de cálculo da CSLL, relativos àqueles períodos. A Fiscalização discordou do procedimento adotado pela contribuinte, argumentando que a empresa não se sujeitaria a entregar 97% do seu resultado aos debenturistas caso estes não fossem seus próprios acionistas. Assim, argumentando que a operação teria visado exclusivamente a redução da carga tributária e que as despesas decorrentes do pagamento de remuneração das debêntures eram desnecessárias e, portanto, indedutíveis (art. 299 do Decreto nº 3.000/1999 - Regulamento do Imposto de Renda - RIR), a Fiscalização efetuou os lançamentos tributários sob discussão nos presentes autos. Fl. 4318DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 38 37 O lançamento relativo às glosas das deduções consideradas indevidas foi mantido pelas decisões de primeira e segunda instâncias administrativas. Pois bem. Embora a matéria que a recorrente denominou de "Da necessidade de aplicação do princípio da especialidade" não tenha seguido para julgamento por esta Câmara Superior de Recursos Fiscais, em razão da não comprovação da existência de divergência jurisprudencial acerca do assunto, julgo relevante apreciar inicialmente um argumento que a recorrente ali apresenta, para fins de delimitação da análise que será empreendida acerca da principal matéria discutida nos autos. A recorrente alega que a dedutibilidade de despesas oriundas do pagamento de remuneração de debêntures é expressa e incondicionalmente prevista no inciso I do art. 462 do RIR/1999, cuja matriz legal encontra-se no art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/1977: Art. 462. Podem ser deduzidas do lucro líquido do período de apuração as participações nos lucros da pessoa jurídica (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 58): I - asseguradas a debêntures de sua emissão; II - atribuídas a seus empregados segundo normas gerais aplicáveis, sem discriminações, a todos que se encontrem na mesma situação, por dispositivo do estatuto ou contrato social, ou por deliberação da assembléia de acionistas ou sócios quotistas; III - atribuídas aos trabalhadores da empresa, nos termos da Medida Provisória nº 1.769-55, de 1999 (art. 359). Segundo a recorrente, a dedutibilidade das despesas de remuneração de debêntures não se submete a quaisquer verificações adicionais, já que o dispositivo que a prevê o faz de forma incondicional. Com base em tal tese, alega a recorrente que está equivocado o entendimento exposto pela autoridade tributária, que defende que tais despesas só seriam dedutíveis do lucro líquido se fossem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. Ainda segundo a tese da recorrente, as despesas oriundas do pagamento de remuneração de debêntures submeter-se-iam exclusivamente à regra do art. 462 do RIR/1999, afastando-se, nestes casos, a aplicação do art. 299 do mesmo Regulamento (que tem sua matriz no art. 47 da Lei nº 4.506/1964): Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). §1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §1º). §2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §2º). §3º O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Fl. 4319DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 39 38 No meu entender, entretanto, tal interpretação não é a mais adequada para o caso sob análise. Acredito que a regra insculpida no art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e reproduzida no art. 462 do RIR/1999 não se aplica a casos como o esquadrinhado nos presentes autos. E minha conclusão se baseia em motivos semelhantes aos expostos pelo i. ex- Conselheiro Marcus Vinicius Neder de Lima em declaração de voto constante do Acórdão nº 107-08.029, de 13/04/2005: "Na verdade, o Decreto-lei nº 1.598, de 1977, permitiu que, na determinação do lucro real da pessoa jurídica, fossem deduzidas (art. 58) as participações nos lucros atribuídas a debêntures de sua emissão. Na exposição de motivos desse Decreto-lei (citada no Parecer Normativo CST nº 99, DOU de 7/12/78), a justificativa do artigo 58 trazida pelo proponente do projeto é que: "26. A lei da sociedade por ações conceitua as participa ções como deduções no lucro líquido do exercício, pois do pon to de vista dos acionistas são despesas, que reduzem o montante do lucro que lhes cabe. Para a lei fiscal, todavia, somente são dedutíveis as participações atribuídas a empregados ... ou de debêntures de emissão da companhia (porque essa participação tem natureza de juros) ". A razão da autorização da dedução do lucro tributáv el das participações de debêntures é sua natureza de juros , tanto que sua tributação na fonte segue as regras aplicáveis as demais aplicações financeiras de renda fixa. Portanto, a possibilidade de dedução dessas participações, que se assemelham a juros, deve ser confrontada com o critério de sua necessidade em face dos objetivos sociais da empresa" (grifou-se) O eminente ex-Conselheiro lança mão da Exposição de Motivos do legislador para alcançar as razões que justificaram a edição do art. 58 da Decreto-Lei nº 1.598/1977. Dessa forma, verifica que o legislador foi motivado pela necessidade de se estabelecer, em relação às participações, um tratamento fiscal distinto daquele adotado pela legislação societária. Enquanto a lei societária encarava todas as participações como despesas, a norma tributária somente deveria considerar como dedutíveis as participações atribuídas a empregados e as asseguradas às debêntures de emissão da empresa. E o legislador expressamente indicou a razão da dedutibilidade fiscal das participações relativas às debêntures: sua natureza de juros. Prova de que a legislação fiscal encara as participações de debêntures como indissociáveis da remuneração sob a forma de juros é o fato de sua tributação na fonte seguir a mesma regra aplicável às demais aplicações de renda fixa, como muito bem apontou o ex-Conselheiro signatário da declaração de voto. Assim, em situações como a analisada nos presentes autos, em que as debêntures emitidas pela empresa não são remuneradas sob a forma de juros, mas apenas de participação nos resultados da emitente, não se justifica a dedutibilidade automática das remunerações de debêntures prevista no art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e no art. 462 do RIR/1999. Além disso, outra característica presente no caso concreto da recorrente, se analisada sob a luz da Exposição de Motivos do Decreto-Lei nº 1.598/1977, também leva à conclusão pela inaplicabilidade do art. 462 do RIR/1999. Fl. 4320DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 40 39 Na citada Exposição de Motivos, o legislador explica que a lei societária encara as participações como deduções do lucro líquido porque elas são, do ponto de vista dos acionistas, despesas que reduzem o montante do lucro que lhes cabe. Esta lógica, no entanto, não se aplica à situação concreta dos autos, uma vez que os sócios e os debenturistas da empresa são exatamente as mesmas pessoas. Os valores pagos pela empresa aos debenturistas não diminuem, na realidade, o montante final que será repassado aos sócios. O que os sócios veriam como redução de seu lucro, em uma situação em que os debenturistas fossem terceiros estranhos ao quadro societário da empresa, no caso examinado neste processo caberá aos próprios sócios, que apenas o receberão sob título diverso dos dividendos. Portanto, concluo que não procede a tese de que somente seria aplicável às participações de debêntures de emissão da recorrente a regra do art. 462 do RIR/1999. Quer seja pelo fato de que a remuneração de suas debêntures não se deu sob a forma de juros, quer seja pela perfeita identidade entre seus sócios e debenturistas, entendo que a dedutibilidade tributária dos valores pagos a título de remuneração de debêntures durante os anos-calendário de 2002 a 2005 deve ser realizada sob a luz dos critérios gerais de necessidade à atividade da empresa e à manutenção de sua fonte produtiva, nos termos previstos no art. 299 do RIR/1999. Definido o escopo da análise que será empreendida, importante se faz revisitar o que dispõe o art. 299 do RIR/1999, reproduzindo regra oriunda da Lei nº 4.506/1964. Segundo os mencionados diplomas legais, as despesas são consideradas operacionais (e, consequentemente, dedutíveis do lucro real), se forem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. Despesas necessárias, por sua vez, são aquelas relacionadas à realização de transações ou operações exigidas pela atividade a que a empresa se dedica. Por fim, fixa-se que as despesas operacionais admitidas para fins de dedutibilidade são aquelas que atendam os requisitos de usualidade e normalidade em relação ao tipo de transações, operações ou atividades praticadas pela empresa. O Parecer Normativo CST nº 32/1981 fez, a partir da legislação mencionada, a seguinte análise acerca dos conceitos de despesas necessárias, usuais e normais: 4. Segundo o conceito legal transcrito, o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos. 5. Por outro lado, despesa normal é aquela que se verifica comumente no tipo de operação ou transação efetuadas e que, na realização do negócio, se apresenta de forma usual, costumeira ou ordinária. O requisito de usualidade deve ser interpretado na acepção de habitual na espécie de negócio. A recorrente argumenta que as despesas decorrentes do pagamento de remuneração das debêntures de sua emissão seriam dedutíveis por satisfazerem os critérios de necessidade, usualidade e normalidade estabelecidos no art. 299 daquele mesmo Regulamento. Antes de adentrarmos no exame acerca da procedência de tal alegação, registre-se que, como as debêntures de emissão da recorrente tiveram seu critério de remuneração alterado em 2001 e os autos de infração objeto deste processo administrativo Fl. 4321DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 41 40 dizem respeito aos anos-calendário de 2002 a 2005, somente será considerado na análise o critério adotado após a alteração promovida pela recorrente: 97% do resultado positivo de cada exercício social, ajustado pela exclusão dos rendimentos de participações societárias de caráter permanente. O critério de remuneração que a recorrente adotou entre dezembro de 1999 e julho de 2001 (IGP-M + 6% a.a.) é irrelevante para a análise que será desenvolvida. O único cenário em que se poderia atribuir relevância ao critério anterior seria na investigação acerca da eventual possibilidade de promoção de uma glosa parcial das despesas de remuneração de debêntures, em que fosse respeitado um "limite aceitável" para a dedutibilidade de tais despesas, conforme defendeu a contribuinte em seu recurso especial. Voltando à análise das características das despesas que a recorrente pretende dedutíveis, antecipo que não vislumbro sua necessidade, usualidade ou normalidade, pelas razões que passo a expor. Esclareço inicialmente que concordo com a recorrente quando ela defende a legalidade da sua operação de emissão de debêntures. Mas não é disso que trata a presente discussão. Como muito bem expôs a i. Conselheira Sandra Maria Faroni, ao relatar o Acórdão nº 101-94.986, de 19/05/2005, é o conjunto das características da operação, todas elas legais, que deve ser analisado para fins de verificação dos efeitos tributários cabíveis: "Não se trata, como aventado pela Recorrente, de restringir a dedutibilidade em razão de critérios como "ausência de pagamento de juros", "percentual de participação", "pagamento mediante créditos detidos pelos sócios em conta corrente", mas sim, de confrontar a operação praticada com os cânones de usualidade e normalidade, condições para apreciação da qualidade de "necessárias" das despesas. (...) Inegavelmente, a operação praticada não encontra vedação expressa na lei. Mas isso não significa que se trate de operação usual e normal, a respaldar a dedutibilidade da remuneração das debêntures emitidas. Não se discute que o empresário pode gerir seus negócios com inteira liberdade, inclusive sendo lícito e até desejável fazê-lo de forma a obter maior economia de tributos possível. Há, todavia, uma diferença entre atuações que objetivam os negócios empresariais e atuações que objetivam exclusivamente reduzir artificialmente a carga tributária. O direito do contribuinte de auto-organizar sua vida não é ilimitado. Os direitos de alguns sofrem limitações impostas pelos direitos de outrem. Atuando dentro da lei, o empresário é livre para gerir os seus negócios, mas não para gerir os negócios do Estado. A mais moderna corrente doutrinária entende que a ótica da análise não deve ser sob o ângulo da licitude ou ilicitude (a licitude é requisito prévio), mas sim, da oponibilidade ou inoponibilidade dos seus efeitos ao fisco. O conceito de legalidade a ser observado não tem sentido estrito de corresponder à conduta que esteja de acordo com os preceitos específicos da lei, mas sim um sentido amplo, de conduta que esteja de acordo com o Direito, que abrange, além da lei, os princípios jurídicos Assim, cada caso Fl. 4322DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 42 41 deve ser analisado com cuidado, para decidir sobre a oponibilidade ao fisco dos negócios formalizados. Dentro dessa ótica, se o negócio lícito, embora inusual, se apoiar em causas reais, em legítimos propósitos negociais, contra ele o Fisco nada pode objetar. Todavia se adotada uma forma de negócio jurídico inusual, sem um real propósito negocial, mas visando apenas reduzir artificialmente a carga tributária, o Fisco a ele pode se opor." O voto delineia muito bem a discussão travada também nos presentes autos. O fato de uma despesa decorrer de uma operação legal, expressamente prevista na legislação, não autoriza automaticamente sua dedutibilidade tributária. A legalidade da operação é aferida à luz das legislações societária, civil e outras. A dedutibilidade submete-se às regras estabelecidas nas leis tributárias. Assim, para que determinada despesa seja dedutível do lucro real e da base de cálculo da CSLL, não basta que seja oriunda de uma operação legal. Como fixado pelo art. 299 do RIR/1999, a despesa é dedutível se for necessária às atividades e à produção da empresa. E o requisito da necessidade da despesa é verificada por meio de sua usualidade e normalidade. Em outras palavras, a licitude da operação não implica em automática oponibilidade de seus efeitos ao Fisco. Para operar efeitos tributários, mais do que a conformidade com a lei, a operação deve estar conforme o Direito. No caso examinado no presente processo, as seguintes características, analisadas em conjunto e confrontadas com as demais variáveis observadas, levam-me à conclusão pela desnecessidade das despesas decorrentes da operação praticada pela recorrente e, consequentemente, pela sua indedutibilidade: a) a remuneração das debêntures emitidas pela recorrente se deu exclusivamente com base em participação nos lucros da empresa, em um percentual elevadíssimo de 97% do resultado apurado; b) a possibilidade de subscrição e integralização das debêntures só foi aberta aos dois sócios da empresa; c) a integralização das debêntures subscritas foi realizada por meio de compensação com créditos que os sócios detinham contra a empresa (relativos a debêntures emitidas em 1991 e vencidas em 02/12/1999), não se verificando efetiva captação de recursos, que seria o objetivo primordial da emissão dos papéis. Ressalto novamente que nenhuma destas características é ilícita ou necessariamente implicaria, por si só, na indedutibilidade das despesas verificadas com a remuneração das debêntures. A conclusão pela indedutibilidade das despesas advém do "conjunto da obra", como se passa a demonstrar. A meu juízo, a cumulatividade das letras “a” e “b” já cria impeditivo, para fins fiscais. Tratando inicialmente da forma de remuneração das debêntures emitidas pela recorrente, registre-se que o art. 56 da Lei nº 6.404/1976 prevê a possibilidade de que este tipo Fl. 4323DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 43 42 de título de crédito seja remunerado com base em juros (fixos ou variáveis), participação no lucro da empresa emitente ou ainda prêmio de reembolso: Art. 56. A debênture poderá assegurar ao seu titular juros, fixos ou variáveis, participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. A lei efetivamente não prevê precedência entre as formas de remuneração ou obrigatoriedade de adoção de alguma delas em específico. A escolha é facultativa e pode ser ou não cumulativa. Ocorre que o fato de a remuneração de debêntures baseada exclusivamente na participação nos lucros da empresa ser legalmente prevista não implica necessariamente que ela seja usual e normal e, portanto, necessária às atividades da empresa emitente. Neste sentido, peço vênia para novamente colacionar trecho do voto lavrado pela i. Conselheira Sandra Maria Faroni no Acórdão nº 101-94.986, em que consta rica análise a respeito do posicionamento doutrinário acerca do tema: "É inegável que a lei faculta a remuneração das debê ntures mediante forma de participação nos lucros. Tal consta de dis posição literal da lei. Também não há vedação expressa na lei a que es sa forma de remuneração seja a única atribuída. Comentando a Lei das Sociedades por Ações, Roberto Barcellos de Magalhães, ao mencionar que as debêntures podem ter remuneração sob a forma de juros, participação nos lucros, prêmios de reembolso ou até correção monetária, registra que "são vantagens que poderão ser deferidas ao debenturista isolada ou cumulativamente, conforme estipulação constante da escritura de emissão e do certificado...". Não se pode, todavia, dizer que essa forma de remun eração seja "usual" e "normal". Pelo menos, pode-se afirmar tratar-se de aspecto controvertido. Falando sobre a Lei 6.404/76 (Nova Lei das S.A.), Amador Paes de Almeida registra: "Ponto altamente controvertido na nova Lei, e que, por isso mesmo, vem se constituindo em objeto de controvérsias, é a regra estabelecida no art. 56, que faculta participação nos lucros da companhia ao debenturista. Manifestando-se a respeito, assim se expressou a Federação do Comércio do Estado de São Paulo: 'A debênture é título característico de empréstimo, se ndo os juros e a correção monetária a remuneração a ela peculiar , não se justificando a concessão de vantagens adicionais, dada a natureza do negócio jurídico que origina seu lançamento. Lucro é remuneração de capital de risco e, salvo o caso especial das 'p artes beneficiárias', não deve ser estendido a outros tít ulos que não as ações. " José Edwaldo Tavares Borba, (in Direito Societário, 9ª edição, Renovar, Rio de Janeiro, p. 270) comenta: "A debênture, como título de renda fixa, deveria ofe recer sempre uma taxa determinada de juros. A atual lei, entretanto, alterando o sistema anterior, estabelece que 'a debênture poderá assegurar juros Fl. 4324DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 44 43 fixos ou variáveis, participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso'. Criam-se, desse modo, alternativas várias para a empresa emitente, que poderá optar entre uma taxa certa de juros e uma taxa variável, ou, até mesmo, fazer depender o rendimento do título do lucro da empresa, dando-lhe caráter de mera participação. Essa flexibilidade não se afigura conveniente, uma vez que atenta contra a tradição brasileira, a qual, em matéria de títulos de crédito, sempre se fundou na certeza. Uma debênture cujo rendimento depende do desempenho da emitente não é uma verdade ira debênture e sua existência, sob o aspecto psicológi co, apresenta a desvantagem de esgarçar a consistência do título, descaracterizando-o ," Em nota de pé de página, o mesmo autor registra que Fernando Mendonça (in "Debêntures", Saraiva, São Paulo, 1988, p. 14) não aceita uma debênture sem juros, e assim desenvolve seu entendimento: "Há quem admita, em virtude dos termos da lei atual, que o rendimento da debênture possa consistir, tão somente, em participação no lucro. Não nos parece ser o melhor entendimento" (...) "Interpretação diversa, no sentido de se poder deixar de atribuir juros à debênture, levaria à descaracterização do título. Com efeito, debênture sem juro, com participação no lucro apena s, não teria a natureza de debênture, mas a de parte beneficiári a". Modesto Carvalhosa (in Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, Saraiva, S.Paulo, pp. 532 e seguintes) leciona: "Lei n. 6.404, de 1976 A lei faculta a adoção de juros variáveis, além da participação nos lucros e prêmio de reembolso como forma de remuneração do capital debenturístico. Ao assim facultar, a lei não exige a cumulatividade de vantagens ou a alternatividade. O caráter facultativo permite a atribuição de outras vantagens remuneratórias complementares, que façam as debêntures atrativas e com melhor colocação no mercado. Fica então reafirmado o princípio da onerosidade e comercialidade da debênture, que não poderá deixar de oferecer vantagem pecuniária, compativelmente remuneratória do capital mutuado. ...................... ....., os juros fixos constituem a remuneração básica e indeclinável das debêntures, sendo as demais modali dades acessórias daqueles, como a participação nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso. ...................... Juros como remuneração necessária Fl. 4325DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 45 44 Os juros constituem, como referido, a forma necessá ria de remuneração dos recursos emprestados pelos debentur istas à companhia. Sendo a remuneração própria do capital. Os juros serão sempre devidos. Participação nos lucros não é substitutiva dos juro s, mas adicional A remuneração adicional de participação nos lucros da companhia emissora já estava prevista no Decreto-lei n° 718, de 1938, que admitia a emissão de debêntures com renda variável, ajustada à lucratividade da empresa. A menção a essa faculdade na lei vigente prende-se mais à diversidade de remuneração das debêntures adotada no direito norte- americano, cujos usos, no entanto, pouco têm que ver com o nosso sistema. As idéias fora de lugar ainda aí prevaleceram, como se percebe na canhestra redação do artigo, que dá a impressão de que a participação nos lucros poderia constituir remuneração substitutiva dos juros. Tal prática no direito norte-americano, ou seja, de substituição de juros por participação nos resultados das empresas, dá-se na reorganização de empresas insolventes (reorganization). Nesse caso, propõe a administração aos credores debenturísticos a substituição dos juros por uma remuneração advinda de lucros líquidos (net profits) ou de lucros líquidos do exercício (earned profits). Criam-se assim, para esses casos de empresas insolventes sujeitas à reorganization, planos substitutivos de falência pura e simples, os famosos incorr bonus (cumulative e nom cumulative incorr bonus). Pela razão mesma de surgirem no bônus de uma repactuação sempre dramática entre os credores debentirísticos e a empresa pré-falida, são também chamados Adjustment bonus. Entre nós, o instituto norte-americano assimilável é o participating bonus, que concede, além dos juros, a participação dos debenturistas nos lucros. A causa dessa dupla remuneração é óbvia, tanto aqui como lá, ou seja: visa atrair para a emissão dos títulos uma vantagem adicional, consistente na participação nos lucros sociais. Os participating bonus, com efeito, são a única modalidade que se pode admitir em nosso direito, em face do caráter oneroso e mercantil do empréstimo debenturístico, que não poderia sujeitar o tomador ao não recebimento de remuneração nos exercícios em que não houvesse lucros. A periodicidade da remuneração do capital integra a própria natureza do mútuo debenturístico, não se podendo admitir que a pretensão de recebê-los ficasse suspensa nos exercícios vários em que não houvesse ou fossem insuficientes os lucros apurados. Trata-se, pois, a participação nos lucros de remuneração adicional ou complementar àquela de juros periódicos. Críticas à participação nos lucros Fl. 4326DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 46 45 A inclusão na lei de emissão de debêntures com participação nos lucros da companhia, embora admitida no direito comparado, tem sido alvo de críticas. Argumentam tratar-se de empréstimo, sendo, portanto, a remuneração originada de lucros descara cterizadora do mútuo. Isto porque retiraria o requisito de cert eza da dívida. Comenta-se, outrossim, que tal cláusula remuneratór ia afastaria a liquidez do título, requisito essencial à sua cobra nça por via de execução, prevista no art. 596 do Código de Processo Civil. Haveria a descaracterização absoluta do título que, de cert eza, passaria a tornar-se de risco, à semelhança das ações represen tativas do capital da companhia. Vantagens da remuneração adicional em participação nos lucros Não há, mesmo, como admitir substitutivamente a rem uneração via lucros por aquela dos juros. Se assim fosse, es taria, com efeito, desfigurada a debêntures como título de dív ida comercial, líquida e certa. Ocorre que a lei ao facultar a participação no lucro da companhia o faz como prêmio, adicional, portanto, aos juros fixos estabelecidos. E o faz como substitutivo do prêmio representado pela concessão de juros variáveis ... ....................... A causa desse prêmio é a mesma dos juros variáveis, ou seja, sustentar as debêntures de determinada classe no mercado, promovendo assim sua valorização e a sua liquidez. Isto posto, fica evidente que a participação no lucro da companhia constitui vantagem adicional, não podendo substituir a remuneração pecuniária certa, representada pelos juros fixos." Como se vê, não obstante prevista em lei, não parece ser tão pacífico que a remuneração das debêntures sob forma exclusiva de participação no lucro seja normal. Embora, talvez, legal, não há evidências de que essa forma de remuneração seja usual. Inegavelmente, a operação praticada não encontra ve dação expressa na lei. Mas isso não significa que se trate de oper ação usual e normal, a respaldar a dedutibilidade da remuneração das deb êntures emitidas. " (grifou-se) Os doutrinadores citados são unânimes ao considerar que as debêntures, como títulos de renda fixa que são, sempre deveriam oferecer alguma remuneração baseada em juros fixos. A remuneração fundada apenas na participação nos lucros descaracteriza o mútuo que define a debênture, afastando suas certeza e liquidez. Assim, o título passa a ostentar características muito mais assemelhadas às de partes beneficiárias do que de debêntures propriamente ditas, fugindo da sua configuração normal. Ainda em relação à forma de remuneração eleita pela recorrente, há de se destacar a anormalidade e a inusualidade verificadas em uma situação em que a empresa abdica do absurdo percentual de 97% de seu lucro em favor de seus debenturistas. Fl. 4327DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 47 46 A recorrente defende que não há regra legal que preveja um percentual máximo de participação nos lucros que pudesse ser estipulado como remuneração de debêntures. Segundo sua tese, a adequação e a razoabilidade de determinado percentual de participação nos resultados de uma empresa só podem ser aferidas mediante sua comparação com os índices e taxas praticados no mercado, tanto para obtenção de crédito quanto para remuneração de investimentos financeiros. A despeito dos argumentos elencados pela recorrente, é evidente que causa perplexidade o fato de qualquer pessoa jurídica com fins lucrativos concordar em comprometer praticamente a totalidade de seu lucro (97%), ainda mais por um prazo tão longo quanto o de quinze anos (previsto na escritura de emissão das debêntures). Confrontado com tal aspecto, torna-se irrelevante o fato de a remuneração das debêntures ter ou não correspondido a índices de mercado. A prevalecerem as razões da recorrente, uma pessoa jurídica poderia abdicar mesmo de 100% de seu lucro, desde que comprovasse que os valores pagos a título de remuneração de debêntures ficara abaixo de outras formas de remuneração de capital encontradas no mercado. A emissão de debêntures nestes moldes levaria a uma absurda situação em que simplesmente deixaria de existir lucro tributável na pessoa jurídica. Tudo em nome da alegada liberdade negocial de que dispõem as pessoas jurídicas de direito privado. Analisando situação semelhante, o i. Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé, designado como Redator do voto vencedor do Acórdão nº 1102-00.659, de 31/01/2012, assim se pronunciou a respeito do tema sob discussão: "Deste modo, conquanto também não tenha a lei tributária expressamente estabelecido limite ou condição à dedutibilidade das participações pagas a debenturistas, evidentemente não é o intuito da lei permitir, ou mesmo incentivar, por exemplo (e ainda que não seja o caso presente) que 100% dos lucros da empresa possam ser a eles destinados, posto que isto significaria simplesmente a extinção da tributação na pessoa jurídica, sendo desnecessário, neste sentido, que a lei expressamente faça tal ressalva. Do exposto, tenho como certo que as participações pagas a debêntures também tem de atender aos critérios de necessidade, usualidade, e normalidade, assim como todos os demais custos e despesas operacionais também têm de fazê-lo. Neste contexto, a emissão de debêntures sem previsão de juros, com remuneração atrelada unicamente aos lucros da empresa, em percentual de até 70% destes, oferecidas e subscritas exclusivamente pelos sócios da empresa, mediante a simples conversão de valores a eles devidos pela empresa, não é operação que se enquadre nos conceitos de usualidade, normalidade e necessidade." Foge à razoabilidade, portanto, a remuneração de debêntures baseada em participação nos lucros estabelecida em um percentual de tal magnitude que possibilite o esvaziamento da tributação na pessoa jurídica emitente dos papéis e desvirtue a vontade do legislador. Tal operação obviamente foge aos parâmetros de normalidade da atuação de qualquer empresa. Fl. 4328DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 48 47 Outras características anormais e inusuais do caso sob análise, já identificadas alhures, dizem respeito ao fato de os sócios da empresa serem os únicos debenturistas e à inexistência de efetivo ingresso de recursos na pessoa jurídica por ocasião da integralização dos papéis subscritos. A razão de existir das debêntures é a necessidade que empresas eventualmente possam ter de se capitalizar, de captar recursos financeiros, por qualquer que seja o motivo. No caso sob análise, pode-se concluir que tal captação de recursos não ocorreu. Na Ata da Assembleia Geral Extraordinária da recorrente, realizada em 30/11/1999, consta a seguinte passagem, localizada à e-fl. 687: "Os acionistas, Joseph Yacoub Safra e Moise Yacoub Safra, assumem a obrigação de subscrever e integralizar as novas debêntures no montante equivalente ao crédito do valor líquido correspondente às debêntures de emissão anterior que vencerão em 02 de dezembro de 1999, a tanto destinando o referido crédito." Apesar de a mesma ata prever, no item "j" da 2ª Deliberação, que a integralização das debêntures que seriam emitidas poderia se dar em moeda nacional ou em créditos, o próprio documento já determinou em seguida que a integralização da carga inicial dos títulos se daria exclusivamente pela compensação com créditos que os dois acionistas detinham contra a empresa, relativos a debêntures emitidas em 1991 e que venceriam em 02/12/1999. Não houve, assim, captação de novos recursos que justificassem a emissão das debêntures. Todas as 7.974 debêntures então emitidas e subscritas (3.987 por cada um dos dois acionistas) foram integralizadas com a utilização de créditos oriundos de remuneração/resgate relativos às primeiras debêntures. O que ocorreu de fato foi uma simples alteração da obrigação que a recorrente tinha com seus sócios: das debêntures emitidas em 1991 para as debêntures emitidas em 1999. Tratou-se de fato contábil comutativo, que altera a composição de elementos patrimoniais sem provocar alterações no Patrimônio Líquido da entidade. Portanto, quando se afirma que não houve efetivo ingresso de recursos por ocasião da subscrição e integralização das debêntures emitidas pela recorrente, não se trata de exigência de efetiva circulação monetária, em seu sentido físico, para o interior dos cofres da empresa. O que se verificou no caso foi a ausência de efetiva alteração quantitativa do patrimônio da pessoa jurídica. Tal fato comprova a desnecessidade da operação de emissão de debêntures pela recorrente. A simples existência de uma dívida relativa ao vencimento das debêntures emitidas em 1991 não obrigaria a sociedade ao seu imediato pagamento. Como restou demonstrado na Ata da Assembleia Geral Extraordinária de 30/11/1999, os mesmos dois sócios que eram os credores dos valores relativos às debêntures de 1991 deliberaram pela nova emissão das debêntures. Nada os impedia de deixar os recursos financeiros correspondentes aos seus créditos à disposição da empresa por um período maior. Os efeitos, para fins de captação de recursos, seriam exatamente os mesmos verificados no processo de emissão de debêntures levado a cabo pela recorrente em 1999. Fl. 4329DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 49 48 A transformação da dívida decorrente das debêntures emitidas em 1991 em nova dívida, relacionada aos títulos emitidos em 1999, somente seria mandatória se os beneficiários dos primeiros papéis fossem debenturistas distintos dos dois acionistas da recorrente. Nesta hipótese, diante da exigência dos primeiros debenturistas pelo efetivo pagamento de seus créditos e de uma eventual necessidade de não descapitalização da empresa, poder-se-ia justificar a efetiva necessidade de imediata captação de recursos por meio da emissão de debêntures. Mas não foi isso que se verificou no processo sob exame. Os sócios da recorrente optaram por converter a dívida referente aos primeiros títulos em novas debêntures e passar a receber a remuneração de 97% dos lucros apurados a partir de então (critério adotado a partir de julho de 2001). Poderiam ter simplesmente deixado em aberto por mais tempo o saldo dos créditos a que tinham direito e seguir recebendo os dividendos apurados a partir de então em seu patamar normal, sem a influência de uma dedução que reduzisse o lucro tributável e o total dos dividendos auferidos. Os efeitos financeiros para a empresa, no que atine aos recursos sobre os quais tinha disponibilidade, seriam praticamente os mesmos. É improcedente, portanto, o argumento de que a emissão das debêntures em 1999 foi necessária. Toda a operação foi desnecessária, assim como o foram as despesas dela decorrentes. Dentro dos parâmetros de usualidade e normalidade do mercado, uma pessoa jurídica jamais concordaria em abrir mão, pelo extenso prazo de quinze anos, da quase totalidade de seu lucro em favor de debenturistas. A forma de remuneração das debêntures só foi fixada, a partir de 30/07/2001, em 97% dos lucros da recorrente porque já se sabia que os únicos debenturistas eram (e continuariam a ser) os sócios da empresa. Aliás, toda a operação só foi realizada nos moldes verificados porque os papéis de investidor e de investida estavam nas mãos das mesmas duas pessoas físicas, sócios acionistas da recorrente. As pessoas que deliberaram pela alteração da forma de remuneração das debêntures são as mesmas que já figuravam como debenturistas. Está aí uma das principais provas da anormalidade e da inusualidade da operação. Na forma atípica em que foi concebido o negócio jurídico, verifica-se a criação de uma certa confusão patrimonial, uma vez que o lucro da empresa, mediante a dedução da despesa relativa à remuneração das debêntures, é quase integralmente transferido para as pessoas físicas dos próprios sócios, que deveriam receber dividendos pela detenção do capital social (rubrica não dedutível do lucro líquido). Assim, a empresa tem personalidade jurídica, possui patrimônio próprio, responde por seus atos, exerce a atividade prevista no objeto social, mas a maior parte do lucro não é dela, mas dos sócios pessoas físicas no papel de debenturistas. Tal configuração, obviamente, não gera prejuízos para a empresa ou para seus sócios/debenturistas, mas somente para o Fisco e para a sociedade. A forma eleita pelos sócios da recorrente para a emissão/remuneração das debêntures não lhes acarretava nenhuma perda, qualquer que fosse o resultado auferido no período de apuração. Caso houvesse prejuízo, a empresa ficaria dispensada de remunerar os sócios-debenturistas e estes não veriam seu empreendimento ser descapitalizado. Já na hipótese de lucro, a empresa deveria remunerar os sócios-debenturistas, mas reduziria seu lucro tributável a 3%, enquanto os sócios-debenturistas seriam remunerados com 97% do lucro Fl. 4330DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 50 49 auferido, devendo pagar o imposto de renda retido da fonte à alíquota de 20%, bem mais vantajosa do que a tributação que ocorreria sobre o lucro na pessoa jurídica (IRPJ de 15% mais 10% de adicional, além dos 9% de CSLL). Reitere-se que não se pretende aqui contestar a liberdade de que dispõem os empresários para administrar seus empreendimentos da forma que melhor lhes aprouver, direito garantido pelo ordenamento jurídico brasileiro. O que está em discussão são os efeitos tributários do negócio jurídico praticado pela recorrente e seus sócios. Nem todos os atos negociais, ainda que conformes à legislação, podem ser opostos ao Fisco para fins de redução da carga tributária. A este respeito, irretocáveis as colocações da i. Conselheira Sandra Maria Faroni constantes de trecho já reproduzido do voto condutor do Acórdão nº 101-94.986. Concordo integralmente com a nobre Conselheira quando diz que o direito do empresário de gerir seus negócios com inteira liberdade não é ilimitado, devendo respeitar os direitos de outrem. Mais do que estar de acordo com a lei, a conduta deve guardar conformidade com o Direito, em que se inserem os princípios jurídicos. Assim, um negócio lícito que se apóie em causas reais, em legítimos propósitos negociais, pode ser oposto ao Fisco. Já o negócio lícito desnecessário, sem real propósito negocial, que vise simplesmente a redução artificial da carga tributária, não obriga o Fisco a acatar os efeitos desejados pelo empresário. É justamente o que se verificou na operação esquadrinhada nos presentes autos. A emissão de debêntures pela recorrente, subscritas somente por seus sócios, integralizadas mediante compensação entre contas referentes a obrigações que a empresa tinha com estes e remuneradas exclusivamente com participação de 97% dos lucros auferidos, não pode ser considerada uma operação normal, usual ou necessária às atividades da empresa. A operação claramente foi projetada como uma forma de instrumentalizar a distribuição de dividendos da empresa por meio da criação artificial de despesas dedutíveis. O objetivo era trocar a tributação dos resultados na pessoa jurídica (34%, entre IRPJ e CSLL) pela incidência de 20% de imposto de renda retido em fonte sobre as remunerações pagas às pessoas físicas beneficiárias das debêntures, não por acaso os sócios da recorrente. A recorrente, sem incorrer realmente em despesa alguma, criou uma operação que lhe permitiu reduzir artificialmente seu lucro tributável em absurdos 97%. E a razão de não ter havido nenhuma despesa efetiva é que a participação nos lucros já estava assegurada às duas pessoas físicas que subscreveram as debêntures, por ser inerente à sua condição de sócios da empresa. Diante de tal análise, outra conclusão não se alcança senão a de que as despesas decorrentes do pagamento das debêntures emitidas pela contribuinte não podem ser consideradas normais, usuais ou necessárias às suas atividades. Não podem também, portanto, ser consideradas dedutíveis do lucro tributável. Também não houve inovação nos fundamentos do lançamento e nem desrespeito ao princípio da verdade material. Vale transcrever as seguintes conclusões manifestadas pela fiscalização no Termo de Verificação e Constatação, que é parte integrante do auto de infração: Fl. 4331DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 51 50 [...] o objetivo principal de uma companhia é auferir lucros aos seus acionistas, mas quando este lucro passa servir de remuneração a debêntures cujos próprios acionistas são os únicos beneficiários, fica evidenciado que tal operação serviu exclusivamente para reduzir a carga tributária, através da criação meramente liberal de despesas financeiras caracterizadas como não necessárias; Quanto ao pedido subsidiário, a situação não muda. Inicialmente, não se pode aplicar um índice referente a uma cláusula revogada, que já não mais existe no mundo jurídico. Também à época as características das debêntures já eram as mesmas, exceto pelo índice. E, quanto ao índice, a própria contribuinte informa que o critério do IGPM + 6% a.a. chegou a resultar num valor de 110% do lucro da PJ. Assim, qualquer dos dois critérios de participação de debenturistas por ela adotado levaria ao mesmo resultado, qual seja, a abusiva redução a "zero" (ou quase "zero") do lucro tributável da PJ por meio da dedução de elevados valores a título de participação de debenturistas, debenturistas esses que são também os únicos sócios da PJ. Dito de outro modo, se é certo que o critério de participação de debenturistas com base no IGPM + 6% a.a. não é, em si mesmo, abusivo, também é certo que esse critério, tomado e conjunto com outros fatos que aqui se verificaram, revelou-se abusivo. Realmente, como confessa a própria recorrente, tal critério reduziria a "zero" (ou quase "zero") o lucro tributável, tal como o critério de 97% do lucro. E isso ocorreria porque o IGPM + 6% a.a. remuneraria debêntures que somam a enorme quantia de R$ 1.348.780.000,00, títulos esses que têm como credores os próprios sócios da PJ, os quais tem interesse na redução da tributação do lucro da empresa. De toda forma, como a auditoria fiscal retratada nos presentes autos foi realizada no curso do ano-calendário de 2007, não haveria como fiscalizar aspectos relativos às despesas apropriadas durante os anos de 2001 e anteriores. Por isso os autos de infração não se aprofundaram na análise da repercussão do critério de remuneração adotado até 2001, embora fosse, também ele, caracterizador de distorção. Depois, não se pode dizer que a RFB, nos autos daquele processo, tenha convalidado este índice, e, ainda que o tivesse feito, isso não vincula este Conselho. Toda essa distorção, frisando mais uma vez, decorre do fato de o sócio financiar a pessoa jurídica não pela integralização de capital, mas como um terceiro debenturista. Os sócios/empreendedores criam a pessoa jurídica, mas a financiam como terceiros. Têm-se a apartação patrimonial que muitas vezes convêm, ao mesmo tempo em que há uma confusão patrimonial, porque o lucro da PJ passa a ser lucro dos sócios. Por isso, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte no que se refere ao pedido de cancelamento das glosas de despesas relativas à remuneração de suas debêntures, indevidamente deduzidas do lucro real nos anos-calendário de 2002, 2003, 2004 e 2005. 2) Da ilegalidade da glosa de despesas na apuração da CSLL Fl. 4332DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 52 51 Quanto a essa divergência, a contribuinte alega que não há no ordenamento jurídico pátrio permissivo legal dirigido à formação da base de cálculo da CSLL estabelecendo a qualificação da despesa como normal, usual e necessária; e que não se pode aplicar uma regra específica do IRPJ (art. 299 do RIR/1999), no tocante à glosa de despesa, para realizar lançamento de CSLL. No tópico anterior ficou registrado que a possibilidade de remuneração de debêntures mediante participação nos lucros da empresa emitente desses títulos não poderia servir para um completo desvirtuamento dos princípios contábeis e das demais normas jurídicas (societárias e tributárias), fazendo com que os sócios sejam credores da PJ não pela conta do capital social (PL) mas pelo passivo exigível, como se fossem terceiros estranhos à sociedade, numa proporção em que praticamente todo o lucro tributável da pessoa jurídica é consumido pela dedução de uma despesa financeira que, na verdade, seria lucro a ser distribuído na forma de dividendos (não dedutível). É nesse contexto que deve ser colocada a questão da necessidade, usualidade e normalidade da despesa, como requisitos para a sua dedutibilidade. Não entendo que a regra do art. 57 da Lei nº 8.981/1995, ao estipular que "aplicam-se à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas", tenha produzido uma coincidência plena na base de cálculo desses dois tributos, porque esse próprio dispositivo, na seqüência do texto, mantém "a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor": Art. 57. Aplicam-se à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor , com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) (g.n.) Não há dúvidas de que a lei prevê ajustes específicos (adições e exclusões) que não abrangem os dois tributos; de que nem todos os ajustes de um tributo serve ao outro. Pois se aquela norma houvesse de fato produzido uma coincidência plena entre as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, seria inteiramente descabido que normas posteriores a ela viessem estabelecer pontualmente, em determinadas situações, a equiparação. Por exemplo, o art. 60 do Decreto-lei nº 1.598/77 (base legal do art. 464 do RIR/99), estabeleceu que na determinação do lucro real devem ser adicionados os valores caracterizados como distribuição disfarçada de lucros. Então, se o art. 57 da Lei 8.981/95 houvesse equiparado as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, a partir de então a DDL também deveria ser adicionada à base de cálculo da CSLL, certo? Mas se isso fosse correto, porque então o art. 60 da Lei nº 9.532/97, abaixo transcrito, expressamente estabeleceria essa adição? Qual seria o sentido dessa nova norma legal promulgada em 1997 se, supostamente, desde 1995 já havia equiparação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL determinada pelo art. 57? Fl. 4333DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 53 52 Art. 60. O valor dos lucros distribuídos disfarçadamente, de que tratam os arts. 60 a 62 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, com as alterações do art. 20 do Decreto-Lei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983, serão, também, adicionados ao lucro líquido para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido. Ora, se há normas posteriores ao art. 57 da Lei 8.981/95 que vêm pontualmente determinando a adição de certos valores à base de cálculo da CSLL, valores esses que antes só eram adicionadas ao lucro real, é de se concluir inexoravelmente que o referido art. 57 não equiparou as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Aliás, como dito acima, essa conclusão encontra amparo literal no próprio texto do art. 57 que expressamente dispõe que devem ser "mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor (...)". Por outro lado, deve-se ter em conta que o art. 13 da Lei nº 9.249/95, abaixo transcrito, determinou a adição das "despesas desnecessárias" à base de cálculo da CSLL. Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: [...] Veja que o art. 47 da Lei nº 4.506/1964 é o fundamento legal do art. 299 do RIR/1999. Ele dispõe exatamente sobre os requisitos da necessidade, usualidade e normalidade para a dedutibilidade das despesas. Assim, o texto legal acima transcrito evidencia claramente o vínculo entre a apuração da base cálculo da CSLL e os referidos requisitos para a dedutibilidade de despesas, do contrário não faria nenhum sentido a ressalva contida no texto legal. Concluo, desse modo, que as "despesas" em pauta também não são dedutíveis da base de cálculo da CSLL. Por fim, necessário tecer-se alguns comentários sobre o argumento segundo o qual a manutenção da exigência da CSLL com base no art. 13, caput, da Lei nº 9.249/95 não pode ser levada a cabo no julgamento do presente recurso especial uma vez que tal fundamento legal somente agora está sendo levantado, o que representa cerceamento do direito de defesa da recorrente. Bem, em primeiro lugar não é verdade que o art. 13, caput, da Lei nº 9.249/95 somente agora esteja sendo levantado como fundamento para a manutenção da exigência da CSLL. De fato, a Turma recorrida já havia expressamente feito alusão à norma em comento, conforme trecho a seguir transcrito do voto condutor do acórdão (e-fls. 3369/3370): O questionamento em relação à inexistência de base legal para a glosa das despesas em relação à CSLL não resiste a uma análise básica. Isso porque o art. 28, da Lei nº 9.430/96 deve ser analisado em conjunto com toda a legislação que trata da CSLL. Atente-se para o texto desse dispositivo, na redação à época dos períodos sob exame (destaque acrescido): Fl. 4334DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 54 53 Art. 28. Aplicam-se à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71, desta Lei. Verifica-se que o dispositivo remete às normas da legislação vigente e não apenas aos dispositivos expressamente mencionados. O alcance do texto vai muito além do que deseja crer a recorrente. Sob esse prisma, veja-se o art. 13, da Lei nº 9.249/95 (destaques acrescidos): Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: [.......] (...) Ademais, a própria recorrente transcreveu em sua peça recursal parte do trecho do voto condutor acima reproduzido, inclusive com a citação ao art. 13 da Lei nº 9.249/95 (vide e-fls. 3737/3738). Isso posto, não é verídica a afirmação de que só agora, no presente voto, o art. 13 da Lei nº 9.249/95 esteja sendo suscitado como fundamento legal para a exigência da CSLL. Em segundo lugar deve-se ressaltar que não há aqui "argumento novo", mas apenas a indicação do art. 13 da Lei nº 9.249/95 como "enquadramento legal" do ilícito apurado pela autoridade fiscal, enquadramento esse que deixou de ser arrolado no TVF e no auto de infração. Importante esclarecer neste momento que a doutrina e a jurisprudência processualista civil fazem distinção entre o "fundamento jurídico" do pedido (o que no PAF chamamos de "descrição dos fatos") e o "fundamento legal" do pedido (o que no PAF chamamos de "enquadramento legal" da infração). E, ademais, de modo pacífico entendem que a indicação do "fundamento legal" do pedido na petição inicial é inteiramente dispensável, sendo que sua ausência ou incorreção de modo algum implica o indeferimento da petição. O que importa, portanto, é a indicação clara e precisa "fundamento jurídico" do pedido (a descrição dos fatos). Tal entendimento encontra-se lastreado na lei processual civil brasileira, em especial no art. 330, § 1º do novo CPC (arts. 282 e 284 do Código anterior), a qual acolheu a chamada teoria da substanciação, ou seja, exige que o autor indique "fundamento jurídico" do pedido (os fatos), mas não exige que indique o "fundamento legal" do pedido (a norma legal violada). Daí porque no Brasil cabem os brocardos "o juiz conhece o direito" e "mostre-se os fatos e eu te darei o direito". No processo administrativo fiscal de exigência de crédito tributário o auto e infração faz as vezes de petição inicial nos casos em que o sujeito passivo impugna (art. 14 do Decreto nº 70.235/72) o crédito tributário que dele é exigido (art. 10, V, do mesmo Decreto). De fato, é por meio do auto de infração que a Fazenda pede (ou exige) a satisfação do seu Fl. 4335DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 55 54 direito (o pagamento do crédito tributário), e é por meio da impugnação que o sujeito passivo contesta a existência daquele direito (daí porque não efetua o pagamento). Mas diferentemente do que ocorre na lei processual civil, no âmbito do processo administrativo fiscal exige-se que o auto de infração indique não somente "fundamento jurídico" do pedido (a descrição dos fatos), mas também que indique o "fundamento legal" do pedido (o "enquadramento legal" da infração), conforme respectivamente se vê nos incisos III e IV do art. 10 do Decreto nº 70.235/72, in verbis: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: (...) III - a descrição do fato; IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; (...) Isso posto, "em princípio", no âmbito do processo administrativo fiscal, a falta de indicação do "fundamento legal" do pedido ("enquadramento legal") implica a nulidade do auto de infração. Digo "em princípio" porque de acordo com jurisprudência há muito sedimentada neste Conselho, a falta, a imprecisão ou a incompletude no "enquadramento legal" do ilícito fiscal não enseja a declaração de nulidade do auto de infração, se a autoridade tributária houver descrito com precisão e clareza a infração por ela apurada (o "fundamento jurídico" do pedido ou "descrição dos fatos"), e o sujeito passivo houver demonstrado ter compreendido a acusação que lhe foi imputada. No caso dos presentes autos foi exatamente isso o que ocorreu. Realmente, no parte "A" do TVF, intitulada "Dos Fatos" (vide e-fls. 885/891) a autoridade tributária descreveu clara e pormenorizadamente a infração fiscal por ele apurada, qual seja, a dedução de despesas desnecessárias, fruto da distribuição de dividendos aos acionistas travestida de pagamento de juros a debenturistas, conforme se observa no breve trecho do TVF a seguir transcrito: - Não fosse o caso dos próprios acionistas da empresa serem os únicos subscritores das debêntures emitidas, e na exata proporção da participação acionaria de cada um, sujeitar-se-ia a empresa a entregar 97% do seu resultado aos debenturistas? Não pode ser considerado razoável a aceitação da troca pela empresa de uma posição consolidada de remuneração às debêntures já subscritas (IGPM + juros de 6% aa), por outra que a obriga entregar quase que a totalidade de seu resultado positivo aos debenturistas. Tal forma de remuneração não se reveste de características normais e usuais, quando comparadas às emissões de debêntures em geral. Afinal, o objetivo principal de uma companhia é auferir lucros aos seus acionistas, mas quando este lucro passa servir de remuneração a debêntures cujos próprios acionistas são os únicos beneficiários, fica evidenciado que tal operação serviu exclusivamente para reduzir a carga tributária, através da criação meramente liberal de despesas financeiras caracterizadas como não necessárias; (...) Fl. 4336DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 56 55 Ademais, o sujeito passivou demonstrou bem haver compreendido essa acusação, tanto é que dela se defendeu na impugnação ao lançamento, no recurso voluntário e no recurso especial, como exemplificativamente se verifica no seguinte trecho do especial (vide e-fl. 3715): III.1 - Da Normalidade, Usualidade e Necessidade da s Despesas de Remuneração das debêntures e da efetiva comprovação quanto à relação com a atividade da Recorrente Como mencionado, o presente processo administrativo teve origem em autos de infração lavrados em razão da alteração do critério de remuneração das debêntures emitidas em 06/05/1999 que inicialmente utilizava a variação do IGPM acrescida de 6% ao ano de juros e passou a adotar o percentual de 97% do resultado positivo auferido no exercício social. Isso porque, de acordo com o entendimento equivocado da Autoridade Fiscal, tal alteração de critério não se revestiria de características normais e usuais, motivo pelo qual configuraria, supostamente, a "criação meramente liberal de despesas financeiras caracterizas como não necessárias". Entretanto, conforme demonstrado pela Recorrente nas folhas 40 a 50 do seu Recurso Voluntário, a alteração do critério de remuneração das debêntures (do IGPM + 6% a.a. para 97% do lucro ajustado) representava, na realidade, uma redução nos valores que seriam repassados aos debenturistas. (...) Isso posto, o fato de o art. 13 da Lei nº 9.249/95 não haver sido indicado pela autoridade fiscal no "enquadramento legal" da infração (vide parte "C" do TVF, à e-fl. 893) de forma alguma macula de nulidade o lançamento, já que em nosso direito processual civil e administrativo vigora o princípio do "pas de nullité sans grief", isto é, não se declara a nulidade do ato processual se o vício não causou prejuízo à parte que, em tese, por ele seria prejudicada (princípio da instrumentalidade das formas). Tal princípio foi acolhido no art. 60 do Decreto 70.235/72, in verbis: Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. (g.n.) (...) E é por isso que também não há que se falar aqui em inovação ao lançamento por parte da Turma recorrida ou mesmo desta 1ª Turma. Pois nem houve lá, e nem aqui haverá, manutenção da exigência da CSLL com base em "argumento novo", ou seja, com base em fatos distintos daqueles apontados pela autoridade lançadora (distribuição de dividendos travestida de pagamento de juros a debenturistas), nem por qualificação jurídica distinta daquela atribuída pela autoridade lançadora àqueles mesmos fatos (despesas não necessárias). Fl. 4337DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 57 56 Ora, se a Turma julgadora, ao manter a exigência, não alude a fatos distintos daqueles indicados no TVF, nem qualifica juridicamente aqueles fatos de forma distinta da qualificação adotada no TVF, onde está a inovação? Certamente não na alusão ao art. 13 da Lei nº 9.249/95, já que, como dito anteriormente, a ausência da indicação dessa norma no TFV e no auto de infração caracterizou, no caso, mera imprecisão ou incompletude no "enquadramento legal" do ilícito tributário, fato que, como visto acima, não implicou a nulidade do lançamento. Diante do exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte também no que se refere ao pedido de cancelamento das glosas de despesas relativas à remuneração de debêntures, indevidamente deduzidas da base de cálculo da CSLL nos anos-calendário de 2002, 2003, 2004 e 2005. 3) Da necessidade de compensação do IR/Fonte recolhido pela recorrente A recorrente apresentou também o seguinte pedido subsidiário: caso não se reconheça a dedutibilidade das despesas advindas da remuneração das debêntures de sua emissão, que lhe seja permitido deduzir do crédito tributário mantido os valores de IRRF recolhidos sobre as parcelas recebidas pelos debenturistas. Fundamentou tal pedido na afirmação de que os efeitos da glosa, em homenagem ao critério da razoabilidade, devem ser reconhecidos como um todo: lançamento dos tributos, por um lado, e direito à compensação do IRRF recolhido em razão do negócio das debêntures, por outro. Apreciando o mesmo pedido, formulado em outros autos, o voto condutor do multicitado Acórdão nº 101-94.986 expôs o seguinte entendimento: "(...) ao se considerar como indedutíveis as despesas correspondentes aos rendimentos de debêntures, na realidade está-se tratando os valores contabilizados a título de remuneração de debêntures como lucros distribuídos. Nesse caso, não cabe o imposto de renda retido na fonte, (...)" Neste aspecto particular, divirjo daquela decisão. No que se refere à possibilidade de se deduzir do IRPJ lançado o IRRF recolhido sobre os rendimentos pagos aos debenturistas, entendo que não há fundamento legal para a compensação pretendida. Isto porque não houve a desconsideração da despesa, como se inexistente fosse, mas simplesmente a negação dos efeitos tributários pretendidos pela contribuinte (dedutibilidade da despesas associadas aos pagamentos). No caso sob exame, os valores pagos como remuneração de debêntures não foram considerados como lucros distribuídos, mas apenas como despesas indedutíveis. Aliás, mesmo que se chegasse à conclusão de que não era cabível a cobrança de imposto de renda sobre os valores pagos (o que se admite apenas como hipótese argumentativa), seriam as pessoas físicas debenturistas as únicas possíveis beneficiárias de eventual restituição. As retenções incidiram sobre rendimentos das pessoas físicas investidoras, e não da pessoa jurídica investida. Logo, não podem beneficiar a pessoa jurídica. Fl. 4338DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 58 57 O voto condutor do acórdão recorrido fundamentou assim a negativa de provimento dirigida ao recurso voluntário em relação ao tema: "No que se refere ao IRRF sobre os rendimentos pagos aos debenturistas, o pedido de compensação suscitado pela requerente parte de uma premissa equivocada. Afirma na peça recursal que (destaque acrescido): [....] Ora, se, por um lado, a Fiscalização desconsiderou a despesa reconhecida pela Recorrente , refez o cálculo do IRPJ e o lançou, deveria, de outro, ter levado em consideração o IRRF acima referido e tê-lo compensado na apuração final. [.....] Na verdade não houve a desconsideração pura e simples da despesa, como se inexistente, mas sim a não aceitação da dedutibilidade. De fato, se a operação fosse considerada simulada o rendimento pago se convolaria em dividendos e não se justificaria a incidência na fonte. Não foi o que ocorreu, no presente caso. Descabe, portanto, a compensação suscitada. Em primeiro lugar, porque a incidência decorre de disposição expressa da norma e em segundo lugar, pelo fato do ônus do imposto ser do debenturista e não da fonte pagadora." Entendo que o posicionamento exposto não merece reparo algum. A Fiscalização fundamentou a glosa objeto dos presentes autos de infração no art. 299 do RIR/1999, por entender que os pagamentos efetuados pela recorrente, relativos à remuneração de debêntures de sua emissão, são despesas desnecessárias e, portanto, indedutíveis. Já a retenção do imposto de renda na fonte deve-se ao disposto no art. 729 do RIR/1999, que obriga a retenção sobre rendimentos produzidos por aplicações financeiras auferidos por qualquer beneficiário, que no caso dos autos foram as pessoas físicas dos sócios. Em resumo: o IRPJ devido pela pessoa jurídica não tem qualquer relação com o IRRF, de tributação exclusiva na fonte, retido e incidente sobre os rendimentos pagos às pessoas físicas. Nos termos do disposto no art. 733 do RIR/1999, a recorrente figurou somente como responsável pela retenção do imposto por ter efetuado o pagamento dos rendimentos. Logo, totalmente incabível cogitar-se de uma compensação entre o IRPJ lançado contra a recorrente na condição de contribuinte e o imposto de renda que ela reteve em fonte e recolheu aos cofres públicos no papel de responsável pelo pagamento das remunerações aos debenturistas. Corrobora esta tese o art. 166 do Código Tributário Nacional, que trata especificamente de restituição mas que se baseia em ratio legis perfeitamente aplicável ao caso em questão: Art. 166. A restituição de tributos que comportem, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente será feita a quem Fl. 4339DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 59 58 prove haver assumido o referido encargo, ou, no caso de tê-lo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebê-la. Também vai no mesmo sentido o art. 74 da Lei nº 9.430/1996, que considera como não declarada a compensação que tenha por escopo a utilização de créditos pertencentes a terceiros: art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo o contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (...) § 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses: (...) II - em que o crédito: a) seja de terceiros; (...) Por fim, reproduzo as lúcidas considerações do ex-Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior perfiladas na declaração de voto do Acórdão nº 101-94.986, que pesaram na formação da minha convicção na parte relativa ao IRRF: "Daí nossa primeira objeção com a decisão alcançada no brilhante voto da douta Relatora, pois se de pura desnecessidade se tratasse, não se poderia prover parcialmente o recurso com a dedução do imposto retido na fonte quando do pagamento das participações de lucros (encargos) relativas às debêntures. A desnecessidade da despesa não poderia descaracter izar sua natureza, permanecendo como encargos pagos e tribut áveis. No momento em que se provém parcialmente o recurso para descontar o valor retido na fonte estar-se-ia a considerar os pagamentos não mais como encargos tributáveis, mas como lucros não tributáveis, fato que é bastante diverso da imputada infração de desnecessidade da despesa." Como de pura desnecessidade das despesas se trata no presente julgamento, não se pode prover o pedido de dedução do imposto retido na fonte. Assim, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte também em relação a este pedido. 4) Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa Por fim, a recorrente contesta a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, por absoluta falta de previsão legal que ampare tal cobrança. Se equivoca o recorrente ao alegar que tal cobrança estaria desamparada pela legislação tributária. Fl. 4340DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 60 59 A cobrança de juros de mora sobre os créditos não pagos até a data de vencimento é prevista no art. 161 do CTN, nos seguintes termos: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito. A expressão "crédito", constante do caput do artigo reproduzido, obviamente se refere ao crédito tributário, pela própria natureza do diploma legal que habita. Para se definir o alcance de tal expressão, recorre-se a outro dispositivo do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Já a definição de obrigação principal, mencionada no art. 139 do CTN, é trazida pelo §1º do art. 113 do mesmo Código. Tal obrigação tem por objeto o pagamento de tributo ou de penalidade pecuniária. In verbis: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extingue-se juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, converte-se em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. O critério utilizado pelo CTN para enquadrar determinada obrigação tributária como principal é, portanto, seu conteúdo pecuniário. Uma vez que a multa de ofício tem a característica de penalidade pecuniária, resta incontroverso que ela integra a obrigação principal, ao lado dos tributos. Interpretando em conjunto os dispositivos reproduzidos, conclui-se que incidem juros de mora sobre os créditos tributários não integralmente pagos no vencimento (art. 161) e que tais créditos decorrem da obrigação principal (art. 139), englobando o tributo e a multa de ofício (art. 113, §1º). Assim, a conclusão construída é a de que o CTN prevê a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional. Os defensores da ilegalidade da cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício argumentam que a interpretação literal do caput do art. 161 do CTN impossibilitaria tal incidência em razão da presença da expressão "sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis". Se a penalidade referente à multa de ofício já estiver contemplada na expressão Fl. 4341DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 61 60 "crédito não integralmente pago no vencimento", a que outras penalidades cabíveis estaria se referindo o legislador? - indagam. Ocorre que, frequentemente, a interpretação de uma norma tributária demanda a consideração da realidade jurídica e fática a que se aplica. Mais do que isso, a norma deve ser interpretada sistematicamente, levando-se em conta todo o sistema tributário pátrio. A este respeito, examine-se a interessante colocação da Ilustre Conselheira Viviane Vidal Wagner, designada para redigir o voto vencedor do Acórdão nº 9101-00.539, de 11/03/2010: "Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito." Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. E a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendê-los sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema." Sendo assim, a melhor interpretação a ser dada ao art. 161 do CTN é, sem dúvida, aquela que guarda harmonia com os demais dispositivos daquele Código que tratam do tema sob análise, qual sejam, os arts. 113 e 139. Além do CTN, a Lei nº 9.430/1997, em seu art. 61, caput e §3º, também dispõe sobre o cabimento de juros de mora sobre multa de ofício: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) (...) §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o §3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do Fl. 4342DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 62 61 pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) Depreende-se do artigo reproduzido que incidem juros de mora sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, não pagos nos prazos previstos pela legislação específica. A multa de ofício se amolda perfeitamente a tal definição, já que sua cobrança decorre, entre outras hipóteses, da falta de pagamento de imposto ou contribuição, nos termos do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/1997. Sendo assim, a exemplo do que ocorre com o art. 161 do CTN, também o art. 61 da Lei nº 9.430/1997 fundamenta a possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Corrobora ainda tal entendimento o art. 43 da Lei nº 9.430/1997 que, em seu parágrafo único, prevê expressamente a incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. Assim, vê-se que a legislação não enxerga incompatibilidade entre os juros de mora e uma multa pecuniária de caráter punitivo: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O Egrégio Superior Tribunal de Justiça já se pronunciou a respeito da legalidade da cobrança de juros de mora nos moldes praticados no presente processo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: ‘É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.’ (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. (STJ, 1ª T., AgRg no REsp 1335688/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, dez/2012) Por fim, tanto §3º do art. 61 quanto o parágrafo único do art. 43, ambos da Lei nº 9.430/1997, fazem alusão à taxa aplicável a título de juros de mora: taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, para títulos federais. Fl. 4343DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 63 62 Quanto a este ponto, a matéria já foi inclusive pacificada por meio da edição da Súmula CARF nº 4: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Na esteira desses argumentos, decido manter a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício, votando por NEGAR SEGUIMENTO ao recurso especial da contribuinte no que diz respeito ao pleito de exoneração dos aludidos juros. Desse modo, voto no sentido de conhecer parcialmente do recurso especial interposto pela contribuinte e, no mérito: - negar-lhe provimento quanto ao pedido de cancelamento das glosas das despesas decorrentes do pagamento de remuneração de debêntures de sua emissão, mantendo- se o lançamentos tributários relativos ao IRPJ e à CSLL dos anos-calendário de 2002, 2003, 2004 e 2005; - negar-lhe provimento quanto ao pedido de compensação dos valores de IRRF recolhidos sobre as remunerações pagas aos debenturistas ao longo dos anos-calendário de 2002, 2003, 2004 e 2005; - negar-lhe provimento quanto ao pedido de afastamento da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. (Assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 4344DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 64 63 Voto Voto vencedor no conhecimento integral Conselheiro Luis Flávio Neto Não obstante o fundamentado voto do i. Conselheiro Relator quanto ao conhecimento apenas parcial do recurso especial interposto pelo contribuinte, assim como a maioria do Colegiado, peço vênia para divergir. Ao analisar os acórdãos nº 101-97.021 e nº 1101-000.889, indicados para paradigmas de divergência pela recorrente, o despacho de admissibilidade do recurso de especial, proferido pelo i. Presidente da Turma a quo, decidiu conheceu a matéria pertinente à dedutibilidade da remuneração das debêntures. Outros acórdãos paradigmas de divergências supostamente autônomas não foram reconhecidos como hábeis pelo referido despacho (e-fls. 4222 e seg.). Vale transcrever o seguinte trecho do aludido despacho de admissibilidade, pertinente à análise dos acórdãos paradigmas nº 101-97.021 e nº 1101-000.889, in verbis: “Examinando os acórdãos paradigmas verifica-se que os mesmos trazem o entendimento de que mesmo reconhecendo que alteração da remuneração das debêntures (de IGPM + 6% de juros a.a. para 97% do lucro ajustado) não é motivo para manter a glosa das despesas, consignando que o critério anterior não foi contestado pela fiscalização e, por isso, é plenamente válido. Está registrado no Voto condutor do Acórdão recorrido: Pode-se concluir que sem embargo da ausência de vedação legal, está longe de ser usual ou normal o estabelecimento da remuneração do título nos moldes efetuados pela interessada. O comprometimento de 97% do resultado com a remuneração do título é incompatível com as necessidades da empresa de, como alegado, gerar recursos para o Banco. [...] A autuação tem origem no entendimento fiscal de que o sujeito passivo apropriou indevidamente, nos períodos sob exame, despesas financeiras oriundas da remuneração de debêntures. Foi constatada alteração na cláusula de remuneração contida na escritura de emissão das debêntures, originalmente prevista com base da variação do IGPM mais juros de 6% a.a., que passou a ser vinculada ao percentual de 97% do resultado ajustado. Assim, o acórdão recorrido, por seu turno, vem esclarecer que de forma geral deve ser mantida a glosa pela mudança do critério (97% do lucro ajustado) e afastado o pedido de manutenção da dedução pelo critério anterior (IGPM+ 6% a.a.). Fl. 4345DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 65 64 Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelam-se discordantes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial demonstrada pelo Sujeito Passivo.” Por sua vez, o i. Conselheiro Relator também compreendeu que os acórdãos nº 101-97.021 e nº 1101-000.889 seriam paradigmas hábeis para demonstrar a divergência de interpretação quanto à dedutibilidade da sacrifícios incorridos com a remuneração de debêntures emitidas aos sócios da companhia e calculados com base nos lucros desta. No entanto, o i. Conselheiro Relator compreendeu que não deveria ser admitido o argumento do contribuinte quanto à “possibilidade de reconhecimento parcial da dedutibilidade das despesas de pagamento de remuneração de debêntures, até um limite considerado aceitável”, por considerar “que não foi comprovada a divergência jurisprudencial arguida”. Com a devida vênia, assim como a maioria do Colegiado, compreendo que não se trata de matéria autônoma, mas de pedido subsidiário apresentado pelo contribuinte em sua defesa quanto à matéria da dedutibilidade da remuneração das debêntures. A subsidiariedade do argumento exclui o caráter autônomo, prescindindo de paradigma específico. Sem adentrar ao mérito do recurso, se os Conselheiros poderiam julgar que toda a remuneração com debênture dedutível, também poderiam o menos, ou seja, decidir que apenas uma parte seria passível de dedutibilidade. O i. Conselheiro Relator também explicitou seu entendimento quanto à necessidade de concessão de nova oportunidade para apresentação de contrarrazões pela PFN, especialmente quanto a este pedido subsidiário do contribuinte em seu recurso especial. Permissa vênia, acompanho a maioria do Colegiado para divergir do i. Conselheiro Relator também em relação a esse ponto. É necessário considerar que a questão já se encontrava no recurso especial apreciado pela PFN para a produção de suas contrarrazões, sendo digno de nota que o i. Procurador da Fazenda Nacional dedicou parte de sua sustentação oral justamente a esse pedido subsidiário do contribuinte, não arguindo ou manifestando o prejuízo ao contraditório aferido pelo i. Conselheiro Relator. Assim, quanto às matérias conhecidas pelo despacho de admissibilidade, compreendo que, em seu recurso especial, o contribuinte apresentou analiticamente argumentos para a demonstração da divergência jurisprudencial arguida, cumprindo com o que requer o art. 67 do RICARF. Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade do recurso especial quanto às matérias conhecidas, razão pela qual voto pela sua manutenção. Fl. 4346DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 66 65 Voto vencedor no mérito quanto ao IRRF ("item 3" do voto do i. Conselheiro Relator) Conselheiro Luis Flávio Neto Por restar vencido quanto ao mérito principal deste recurso, a decisão deste Colegiado foi desconsiderar os efeitos jurídicos das operações realizadas pelo contribuinte, de tal forma que os sacrifícios incorridos pela contribuinte não ostentariam a natureza jurídica de debêntures e, assim, não seria aplicável a regra de dedutibilidade fiscal que lhes seria inerente. Por coerência, em face da decisão deste Colegiado de recusar a natureza jurídica de debêntures, também deixa de ser aplicável aos pagamentos em questão a regra que determina a retenção de IRRF sobre a remuneração de debêntures. Dessa forma, os recolhimentos realizados a tal título pela recorrente também deixaram de assumir essa roupagem. Dessa forma, assim como a maioria do Colegiado, compreendo que deve ser acolhido o pedido do recorrente, no sentido de que, com a glosa de despesas de debêntures (IRPJ), que o IRRF decorrente da remuneração das debêntures perde a sua causa. Vale observar que, ao assim decidir-se, a CSRF mantém também coerência com outros julgados, como aquele proferido nos autos do processo n. 13899.001314/2006-16. Trata-se da necessidade de se considerar (ou compensar, ou deduzir) o IRRF do IRPJ lançamento de ofício dos presentes autos. É relevante, contudo, considerar que o IRRF em questão foi extinto por meio de declaração de compensação. Ocorre que, em face da dedução da remuneração com debêntures e o seu impacto no cômputo anual, houve a apuração de saldo negativo (IRPJ) no final do período. Por outro lado, a remuneração das debêntures implicou na incidência de IRRF. A contribuinte aproveitou-se, então, do saldo negativo para encaminhar DCOMP (com efeito de confissão de dívida), pleiteando a compensação do IRRF. Na medida em que a presente decisão entendeu que a despesa com debêntures não atendeu aos requisitos de dedutibilidade, na realidade descaracterizou toda a operação. Se a emissão das debêntures foi descaracterizada, restou afastado o seu desdobramento, a remuneração das debêntures aos debenturistas. Nesse contexto, eventual declaração de compensação, que tenha se utilizado como crédito o saldo negativo, e confessado como débito o IRRF decorrente da remuneração das debêntures, deve ser revista, para se verificar se o débito de IRRF refere-se, efetivamente, à remuneração de debêntures objeto do presente processo. Em sustentação oral, informou a contribuinte ao Colegiado que a declaração de compensação, que relaciona o IRRF como débito e o saldo negativo como crédito, encontra- se em outro processo (16098.000327/2007-64), apenso aos presentes autos, mas cuja cópia do PER/DCOMP encontra-se disponível às e-fls. 1369/1386 (PER/DCOMP nº 14356.63602.061106.1.3.02-7808). Fl. 4347DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 67 66 De fato, consta débito de IRRF no valor principal de R$270.358.366,21, cujo crédito é saldo negativo de IRPJ do ano-calendário de 2003. Há que se verificar, contudo, quais as receitas que foram objeto de tributação do IRRF. Verifica-se quadro demonstrativo (e-fl. 1367), no qual se demonstra a composição do IRRF de R$270.358.366,21: Item Rendimento Bruto IRRF 1 Resgate 368 Debêntures emissão 1997 327.991.025,66 60.851.719,22 2 Resgate 3744 Debêntures emissão 1999 983.894.945,23 183.184.184,73 3 Resgate 223 Debêntures emissão 1999 58.602.715,39 10.910.809,87 4 Remuneração sobre saldo JCP/Dividendos 77.058.259,28 15.411.652,38 TOTAL 1.447.546.945,56 270.358.366,20 Os presentes autos tratam da remuneração das debêntures emitidas no ano- calendário de 1999. Nesse sentido, os débitos de IRRF a serem afastados correspondem aos itens 2 e 3 do quadro, de R$183.184.184,73 e R$10.910.809,87, que inclusive se encontram em destaque (negrito) à e-fl. 1367. Perfazem o total de R$194.094.994,60. Assim, na medida em que a presente decisão afasta a dedutibilidade, e por consequência reduz ou anula o saldo negativo, o direito creditório sofre uma diminuição no seu valor, e o IRRF, confessado como débito, no valor de R$194.094.994,60, na declaração de compensação, poderá cobrado em sede de execução, de maneira indevida. Ou seja, poderia haver uma dupla cobrança. Nesse cenário, há que se encontrar uma solução para que o IRRF não seja cobrado, ou, nas palavras da contribuinte, a “necessidade de compensação do IR/Fonte recolhido”. Surgem ao menos duas formas para se operacionalize referida compensação. A primeira seria promover uma espécie de compensação do IRRF nos presentes autos, abatendo-se o valor do lançamento fiscal de IRPJ. Contudo, tal possibilidade resta prejudicada, pois o IRRF não foi realmente pago, mas sim compensado. E, apesar de poder ser objeto de execução fiscal, vez que foi objeto de confissão de dívida em DCOMP, poderia se consumar situação no qual a execução fiscal não fosse consumada. Na realidade, o que existe, atualmente, é uma expectativa de que o débito de IRRF em DCOMP seja objeto de execução fiscal. E, mesmo em execução fiscal, uma expectativa de que não houvesse um litígio que pudesse resultar no afastamento da cobrança. Nessa perspectiva, não se mostra prudente efetuar a compensação do IRRF nos presentes autos. Por sua vez, tem-se uma segunda opção, de se corrigir o débito de IRRF na declaração de compensação. Ou seja, efetua-se a exclusão do débito de IRRF objeto de remuneração das debêntures emitidas dos presentes autos. Essa parece ser a solução mais adequada. Não se altera o lançamento de IRPJ dos presentes autos e evita-se a cobrança de IRRF nos autos que tratam da declaração de compensação. Fl. 4348DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 68 67 Dessa maneira, após debates no Colegiado, prevaleceu o entendimento da segunda opção. Assim, para se operacionalizar a compensação do IRRF em questão, cabe a exclusão, no PER/DCOMP nº 14356.63602.061106.1.3.02-7808, do valor de R$194.094.994,60, do débito anteriormente confessado de IRRF no valor de R$270.358.366,21. Assim, salvo incorreções de cálculo, remanesceria o valor de IRRF de R$76.263.371,60. Diante do exposto, por restar vencido quanto ao provimento integral do recurso do contribuinte, voto no sentido CONHECER INTEGRALMENTE a matéria admitida pelo r. despacho, bem como para o acolhimento do pedido de abatimento do IRRF apurado na operação, da forma decidida pelo Colegiado, com o PROVIMENTO PARCIAL do recurso. (assinatura digital) Luís Flávio Neto Fl. 4349DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 69 68 Declaração de voto Conselheiro Luís Flávio Neto Embora nenhum caso seja idêntico a outro, o tema ora sob julgamento apresenta semelhanças com a matéria analisada por esta Câmara Superior de Recursos Fiscais (“CSRF”) no processo n. 13899.001314/2006-16, em que fui relator. Faço remissão aos fundamentos do voto que proferi naquele caso e que, por coerência, me fizeram compreender pela legitimidade das operações aqui realizadas, apresentando, nesta declaração de voto, algumas observações relevantes ao presente caso. A dedutibilidade da remuneração de debêntures é tutelada pelo art. 462 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99): Art. 462. Podem ser deduzidas do lucro líquido do período de apuração as participações nos lucros da pessoa jurídica (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 58): I - asseguradas a debêntures de sua emissão; II - atribuídas a seus empregados segundo normas gerais aplicáveis, sem discriminações, a todos que se encontrem na mesma situação, por dispositivo do estatuto ou contrato social, ou por deliberação da assembleia de acionistas ou sócios quotistas; III - atribuídas aos trabalhadores da empresa, nos termos da Medida Provisória nº 1.769-55, de 1999 (art. 359). Preenchida a hipótese de incidência do art. 462 do RIR/99, deve ser garantida a dedutibilidade das despesas incorridas pela companhia com a remuneração de seus debenturistas. Para tanto, exige-se que uma companhia adote o típico instituto da debênture para a capitação de recursos, incorrendo em sacrifícios para a remuneração desse capital. Como se verifica dos autos, a recorrente emitiu debentures que não são questionadas neste processo administrativo, com vencimento em 1999. Com o vencimento consumado, a companhia passou, então, a ter uma obrigação perante os seus debenturistas. Contudo, referidos debenturistas concordaram em investir os referidos créditos em novas debêntures emitidas pela companhia. Em 02.12.1999, então, foram então emitidas 10.000 debêntures, cada uma com o valor nominal de R$170.000,00, cuja remuneração originalmente se daria pelo IGP-M mais juros de 6% ao ano. Em 30.07.2001, por sua vez, a recorrente alterou o critério de remuneração dessas debêntures para 97% do resultado positivo de cada exercício social, ajustado pela exclusão dos rendimentos de participações societárias de caráter permanente. Conforme a tese sustentada pela PFN, aos sacrifícios incorridos pela recorrente não se poderia atribuir o título jurídico de remuneração de debêntures de sua emissão, pois: (i) a remuneração teria sido estipulada com base em participação nos lucros da pessoa jurídica emissora; (ii) os debenturistas também assumiriam a condição de acionistas da pessoa jurídica emissora e; (iii) não teria ocorrido o ingresso de novos recursos no ato de subscrição das debêntures. Fl. 4350DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 70 69 De início, é necessário reconhecer que essa objeção (iii), suscitada pela recorrida, não se confirma nestes autos. É correto afirmar que houve efetivo ingresso de novos recursos com a emissão das debêntures. Para haver efetivo ingresso de novos recursos na companhia, não é, por óbvio, necessário o trânsito físico de moeda, mas sim de direitos positivos que, antes da subscrição, inexistiam. No caso, a compensação de créditos assegurou que recursos com natureza jurídica e perfil econômico novos passassem a estar disponíveis à companhia. Com o vencimento das debêntures anteriormente emitidas, a empresa possuía dívidas exigíveis de imediato, deixando de tê-las e passando a deter novo título jurídico (novas debêntures emitidas), com vencimento de longo prazo. Não se trata de questão irrelevante, mas fator que notoriamente pode ser fundamental à gestão e solvência das empresas. Em relação às objeções (i) e (ii) , opostas pela PFN, não há oposição do contribuinte quanto aos fatos. Resta saber, então, se elas afastariam a incidência do art. 462 do RIR/99. Não há qualquer impedimento legal para a remuneração de debêntures exclusivamente com base em participação nos lucros da companhia emitente. A referida objeção (i) não possui base legal. Mais do que isso, há regra expressa que garante a remuneração de debêntures exclusivamente com base em participação nos lucros da emitente, veiculada por lei ordinária. A remuneração exclusiva com base em participação nos lucros é expressamente tutelada pela Lei das SA, em seu art. 56: Art. 56. A debênture poderá assegurar ao seu titular juros, fixos ou variáveis, participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. A lei societária, portanto, atribui faculdade à companhia, sem que lhe seja imposta preferência ou cumulação das alternativas em questão, entre as quais figura expressamente a “participação no lucro da companhia”. Nesse sentido, impossível ignorar a doutrina de MODESTO CARVALHOSA 1 , que inclusive superou entendimento em obras anteriores, in verbis: “A doutrina mais consentânea é a que afirma que a remuneração por meio de participação nos lucros não retira a natureza pura dos títulos de crédito. (...) Então, dentro da teoria do direito subjetivo, a debênture com participação nos lucros da companhia emissora outorga ao tomador um direito decorrente da obrigação assumida, pela companhia emissora, de pagar determinado percentual do lucro anualmente apurado. Não há, portanto, nenhum direito eventual, na espécie, pois o direito à participação nos lucros constitui direito certo a que corresponde uma obrigação cuja exigibilidade (pretensão) pode não se configurar em determinados exercícios sociais” 1 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, v. 1. São Paulo : Saraiva, 2014, p. 793 e seg. Fl. 4351DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 71 70 Também é importante destacar o magistério de NELSON EIZIRIK 2 , in verbis: “Os rendimentos que a companhia pode atribuir às debêntures de sua emissão – juros, participação no lucro e prêmio de reembolso – são facultativos; não são, portanto, cumulativos ou obrigatórios. Poderão ser atribuídas às debêntures todas as vantagens previstas neste artigo ou apenas uma delas”. O mesmo ocorre em relação à oposição (ii), acima referida. Não há proibição legal para a subscrição de debêntures por acionistas da pessoa jurídica. A figura típica da debênture não é desnaturada caso tal circunstância se verifique. Há, portanto, permissão para a que o acionista de uma companhia seja, também, debenturista desta. Mais do que a ausência de proibição, a referida permissão resta confirmada em face de enunciados como o art. 57, § 10, da Lei das SA, que assegura a preferência dos acionistas a certas debêntures. Portanto, nenhuma das objeções suscitadas é capaz de descaracterizar a operação realizada pela recorrente como emissão de debêntures, devendo ser reconhecidos os efeitos tributários dos sacrifícios incorridos para a correspondente remuneração dos debenturistas. Concordo com o i. Conselheiro Relator quando afirma que “O fato de uma despesa decorrer de uma operação legal, expressamente prevista na legislação, não autoriza automaticamente sua dedutibilidade tributária. (...) A dedutibilidade submete-se às regras estabelecidas nas leis tributárias”. Discordo, contudo, de suas conclusões. Como se sabe, embora o legislador possua competência para descrever integralmente as características de cada um dos fatos geradores de tributos, é comum a remissão a institutos e conceitos do Direito Privado, capazes de exprimir substrato econômico passível de tributação. A “recepção” de conceitos do Direito Privado por normas tributárias pode ocorrer de forma “expressa” ou “implícita”. No primeiro caso, o legislador tributário faz explícita referência a dispositivos específicos do Direito Privado, enquanto que, no segundo, a lei tributária adota termos que remetem a conceitos e institutos consagrados pelo Direito Privado. 3 Do art. 109 do CTN, pode ser construída a norma de que o legislador tributário, por não se submeter ao Direito Privado, está livre para criar seus próprios institutos ou mesmo atribuir sentidos diversos a expressões oriundas deste, mas se optar “por um instituto, conceito e forma do Direito Privado e não o define com tintas próprias, então deve o intérprete/aplicador compreender que tais institutos não podem ser desprendidos do contexto (de Direito Privado) onde foram desenvolvidos” 4 . Daí decorre que, se determinado instituto do Direito privado compõe algum enunciado prescritivo de matéria tributária, ao menos duas hipóteses seriam possíveis: (i) pode o legislador tributário atribuir definição, conteúdo e alcance diversos do que se verifica no Direito Privado (apenas o nome de batismo seria igual 2 EIZIRIK, Nelson. A Lei das SA Comentada, v. 1. São Paulo : Quartier Latin, 2015, p. 385 e seg. 3 Cf. COSTA, Alcides Jorge. Direito Tributário e Direito Privado. In: MACHADO, Brandão (coord.). Direito Tributário: estudos em homenagem ao Prof. Ruy Barbosa Nogueira. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 222. 4 SCHOUERI, LUÍS EDUARDO. Direito Tributário. Saraiva : São Paulo, 2012, p. 683; 762-763. Fl. 4352DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 72 71 nas diferentes searas jurídicas), ou; (ii ) caso o legislador tributário silencie quanto à questão, deve ser compreendido conforme o seu perfil no Direito Privado 5 . Para o presente julgamento, interessa compreender como tais questões se manifestam no enunciado do art. 58, II, do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, refletido pelo art. 462 do RIR/99. No caso, o legislador realizou remissão ao instituto típico da debênture, tutelando expressamente as suas consequências tributárias. O art. 58, II, do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, refletido pelo art. 462 do RIR/99, prescreve que “podem ser excluídas do lucro líquido do exercício, para efeito de determinar o lucro real, as participações nos lucros da pessoa jurídica (...) asseguradas a debêntures de sua emissão”. O legislador tributário valeu-se, sem ajustes ou ressalvas, ao instituto típico da debênture edificado pelo Direito privado, atribuindo-lhe uma consequência tributária clara: a dedutibilidade de participações nos lucros companhia asseguradas por debêntures de sua emissão. É com fundamento no princípio da legalidade em matéria tributária que a dedutibilidade da remuneração de debêntures deve ser acatada nos termos do art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, refletido pelo art. 462 do RIR/99. Não se pode negar eficácia à Lei, por considerar-se, a partir de critérios subjetivos, que a operação realizada pelo contribuinte não está conforme a uma pessoal concepção de “Direito” de um agente administrativo. Diante da decisão expressa do legislador competente, cabe à administração fiscal apenas verificar se a operação realizada pode ser qualificada como debênture conforme as normas do Direito Privado (o que se confirma no presente caso) e, então, aplicar as consequências jurídicas estabelecidas nas leis tributárias. Os agentes, que agem em nome do Poder Executivo, detêm a competência primária de aplicar o produto legislado. Como bem suscita BIANOR ARRUDA BEZERRA NETO 6 , enquanto o Poder Legislativo assume a função de “criador das normas jurídicas, as quais seriam autoaplicáveis por todos os integrantes da sociedade”, o Poder Executivo seria “o promotor, provedor e fiscalizador da sua aplicação, no que diz respeito aos temas de sua responsabilidade”. Em matéria tributária, em que vige o princípio da estrita legalidade, a atividade da administração fiscal dependente da decisão do Poder Legislativo, como elemento fundamental da estrutura de separação dos poderes que rege o sistema jurídico brasileiro, o que, tamanha a sua importância, foi erigida à modalidade de cláusula pétrea da Constituição. Deve ser respeitada a competência do legislador, seja para decidir quais normas gerais de reação ao planejamento tributário devem viger (Lei Complementar), ou para eleger quais serão as hipóteses de incidência (Lei Ordinária). No caso dos autos: (i) há norma com status de lei ordinária que, de forma expressa, realiza remissão ao instituto da debênture no Direito Privado e prescreve a dedutibilidade de participações nos lucros companhia asseguradas por debêntures de sua emissão; (ii) o contribuinte realizou operações qualificadas como típicas emissões de 5 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, LUÍS EDUARDO. Direito Tributário. Saraiva : São Paulo, 2012, p. 762-763. 6 BEZERRA NETO, Bianor Arruda. Teoria da decisão judicial e segurança jurídica: hermeneutica e argumentação no novo CPC, in Direito Tributário e os novos horizentes do processo. XII Congresso Nacional de Estados Tributários. São Paulo : Noeses, 2015, p. 198 e seg. Fl. 4353DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 73 72 debêntures; (iii) não se verifica a caracterização das hipóteses previstas pelo CTN para a desconsideração dos negócios jurídicos realizados pelo contribuinte. O Tribunal Regional Federal da 3 a Região, nos autos da apelação e reexame necessário n. 2010.61.00.007888-3/SP, enunciou decisão à qual me alinho neste voto, como se observa de sua ementa: TRIBUTÁRIO. DIFERENÇA DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS IRPJ/CSLL. GLOSA NAS BASES DE CÁLCULOS. REMUNERAÇÃO DEBÊNTURES EMITIDAS PELA APELADA E SUBSCRITAS PELOS SEUS ACIONISTAS. PRELIMINAR CONTRARRAZÕES. REJEITADA. REMESSA OFICIAL E APELAÇAO UNIÃO FEDERAL. IMPROVIDAS. -Afastada a preliminar arguida em contrarrazões, de não conhecimento do apelo por ausência de ataque às razões da sentença, porquanto nos termos do citado artigo 514, inciso II, do Código de Processo Civil de 1973, a apelação deve apresentar os fundamentos de fato e de direito. Trata-se, pois, da positivação do denominado "princípio da dialeticidade", o qual cumpre ao apelante apresentar as razões de sua inconformidade, impugnando os argumentos da decisão proferida na origem. No caso em apreço, as razões de apelação apresentadas pela ré enfrentam os argumentos contidos no julgado singular. -No tocante à possibilidade da remuneração das debêntures exclusivamente com base na participação nos lucros, há que se observar o disposto no art. 56 da Lei 6.404/76. Da leitura de tal dispositivo, depreende-se que a debênture pode atribuir ao seu titular juros e/ou participação no lucro e/ou prêmio de reembolso, de onde se conclui que o pagamento de juros é, portanto, uma faculdade prevista na referida legislação. -A ausência de circulação monetária, no sentido exclusivamente físico, não implica na inexistência de circulação econômica e jurídica de recursos financeiros. -As debêntures diferenciam-se de despesas operacionais, na medida em que as despesas operacionais alcançam insumos ou custos diversos do contribuinte e não deduções financeiras como as debêntures. -In casu, não há como ser acolhida a pretensão da apelante, visto que o disposto no art. 47 e parágrafos da Lei nº 4.506/64 (e art. 299 do RIR), não se aplica à questão suscitada nos autos, porquanto não refletem os fatos ora narrados, bem como anterior à vigência da legislação que dispõe sobre dedutibilidade de despesas. -O disposto no art. 462 do RIR/99 não impõe qualquer restrição quanto à dedutibilidade da remuneração das debêntures - salvo as regras gerais próprios dos atos jurídicos gerais, a sua efetiva existência, validade, como a forma e os seus requisitos gerais. -O art. 187 da Lei das S/A obedece ao critério de divisão de resultados. A operação efetivada pela apelada, portanto, atende aos requisitos de validade dos atos jurídicos em geral, então prevista no art. 82 do CC/1916, quais sejam objeto lícito, agentes capazes e forma prescrita em lei. Fl. 4354DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 74 73 - No caso concreto, a emissão das debêntures obedeceu às disposições da Lei da S/A como a preferência de sua emissão aos acionistas. O fato de os acionistas terem sido os subscritores das debêntures não descaracterizou o negócio ou o tornou ilegal, eis que é expressamente previsto em lei a possibilidade dos acionistas da companhia passarem a ser seus debenturistas, aspecto que não pode ser utilizado para caracterizar a operação como anormal e, portanto, desnecessária. -Constada a legalidade e eficácia da emissão de debêntures e sua subscrição, devendo ser afastada a glosa da base de cálculo efetuada efetivada pela autoridade fiscal no IRPJ da autora no processo administrativo nº. 19.515.002923/2003-85. -Não havendo previsão legal à adição de despesas operacionais não dedutíveis para o IRPJ (art. 47 da Lei 4.506/64), não se pode exigir da apelada qualquer quantia a título de CLS, visto que ausente previsão legal que determinasse a adição dessas despesas em sua base de cálculo. -Na hipótese dos autos, considerando o valor da causa (R$ 22.633.213,49 em 07/04/2010 - fls. 76), bem como a matéria discutida nos autos, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido ao seu serviço, mantidos os honorários advocatícios nos termos em que fixado pelo r. juízo a quo (1%). De acordo com os enunciados aprovados pelo Plenário do C. STJ, na sessão de 09/03/2016, a data do protocolo do recurso é parâmetro para aplicação da honorária de acordo com as regras do então vigente Código de Processo Civil/1973. -Negado provimento à remessa oficial e à apelação da União Federal. Embora seja aplicável ao caso concreto o art. 462 do RIR/99, compreendo que o art. 299 também poderia conferir legitimidade à dedutibilidade em questão. Discordo do i. Conselheiro Relator, quando assume, em seu voto, que “o fato de a remuneração de debêntures baseada exclusivamente na participação nos lucros da empresa ser legalmente prevista não implica necessariamente que ela seja usual e normal e, portanto, necessária às atividades da empresa emitente”. Compreendo que a expressa tutela legal da operação empreendida pela contribuinte, como uma figura típica e tradicional no Direito Privado justamente por encontrar corriqueira adoção na sociedade, é suficiente, como poucas evidências o são, para demonstrar a usualidade e normalidade requeridas pelo art. 299 do RIR/99. Também é evidência da normalidade e usualidade o fato de a CVM, há décadas, admitir a remuneração de debêntures com base na participação dos lucros da companhia, como se observa do Parecer CVM/SJU n. 15/88: "É possível, diante da Lei n. 6.404/76, a existência de debênture perpétua, a que seja atribuída remuneração apenas a título participativo nos lucros sociais". Quanto ao percentual na participação dos lucros estipulado como remuneração das debêntures, compreendo que também não se pode considera-lo a priori excessivo, inclusive por não haver parâmetros legais para essa discriminação. Chama a atenção o parecer da auditoria independente PricewaterhouseCoopers apresentado pela recorrente, assinado pelo Sr. Lindomar Schmoller, Fl. 4355DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 75 74 em que comparou-se a remuneração atribuída pelas debêntures (97% dos lucros da emitente) e as taxas de CDI do período. Aponta-se, nesse parecer, que, se o capital em questão houvesse sido investido em um fundo de renda fixa remunerado pelo CDI, o retorno obtido seria superior àquele proporcionado pelas debêntures em questão. Essa comparação de rentabilidades aferida por auditoria independente pode conduzir ao menos a duas perspectivas compatíveis com o sistema jurídico vigente. Por uma primeira, exigir que remuneração mais desvantajosa que essa fosse obtida pelo debenturista, como requisito para a sua dedutibilidade fiscal, redundaria em ingerência indevida na esfera de direitos do particular, inclusive pela ausência de decisão do legislador competente nesse sentido. Ademais, também é possível concluir que essa comparação de rentabilidade não legitima, por si, as debêntures em questão, mas apenas demonstra não ser imediata a anormalidade ou não usualidade alegada pela recorrida, ainda que “97%” possa impressionar à primeira vista. Determinante para essa dedutibilidade é a efetiva emissão de debêntures, tal como o instituto típico do Direito privado, com a incidência do art. 462 do RIR/99, o que se verifica no presente caso. Mesmo que fosse aplicável o art. 299 do RIR, a ausência de normalidade ou usualidade da operação deve ser demonstrado e não presumida de forma apriorística. O mesmo se dá em relação ao requisito da “necessidade”. Não identifico evidências que demonstrem o seu não cumprimento. Pelo contrário, a substituição de obrigações de curto prazo ou mesmo de exigência imediata, por obrigações de longo prazo, é geralmente reconhecida como necessária à boa gestão da companhia. A necessidade dessa despesa financeira, salvo hipóteses de dolo, fraude ou simulação, parece ser pressuposta da própria emissão de debêntures. Assim, a “desnecessidade” dessa despesa, longe de ser imediata, deveria ser demonstrada, o que não se verifica. É, assim, por todo o exposto, que votei no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso especial do contribuinte. (assinatura digital) Luís Flávio Neto Fl. 4356DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 76 75 Declaração de voto Com a devida vênia, divirjo do voto do ilustre Relator. Primeiramente, divirjo relativamente às debêntures, especialmente considerando a legalidade da operação à luz da Lei das S.As. e normas da CVM e Banco Central. Com efeito, a Lei das S.As. (Lei nº 6.404/1976) autoriza a emissão de debêntures para sócios, como se observa do artigo 57, §1º, a seguir colacionado: Art. 57. A debênture poderá ser conversível em ações nas condições constantes da escritura de emissão, que especificará: (...) § 1º Os acionistas terão direito de preferência para subscrever a emissão de debêntures com cláusula de conversibilidade em ações, observado o disposto nos artigos 171 e 172. Ademais, a Lei das S.As. (Lei nº 6.404/1976) legitima remuneração exclusiva por meio de participação nos lucros, nos termos do artigo 56, verbis: Art. 56. A debênture poderá assegurar ao seu titular juros, fixos ou variáveis, participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. O renomado professor Modesto Carvalhosa apresentou parecer, acostado aos autos pela contribuinte, que menciona normas da CVM e Banco Central atestando a legitimidade da remuneração fixada para debêntures pela contribuinte. Destaco trecho do parecer: Portanto, a remuneração exclusivamente pela participação nos lucros é expressamente prevista e autorizada pela Lei, a qual não impõe qualquer ressalva ou condição especial para a emissão de debêntures nesses termos. A Lei equipara, assim, todas as formas de remuneração de debêntures, de modo que o intérprete não pode, substituindo-se ao legislador, impor qualquer condição ou restrição, não prevista em Lei, que limite indevidamente a autonomia das partes. Nesse ponto, a Lei Societária foi reiterada por uma série de atos administrativos que reafirmam a possibilidade de remuneração das debêntures exclusivamente em porcentagem dos lucros. O parecer CVM/SJU nº 15/88 admite, expressamente, que a remuneração da debênture pode se dar exclusivamente pela participação nos lucros sociais: "É possível, diante da Lei nº 6.404/76, a existência de debênture perpétua, a que seja atribuída remuneração apenas a título participativo nos lucros sociais" No mesmo sentido, a Decisão Conjunta nº 13/203, do Banco Central e da CVM, em seu art. 5º, se refere especificamente às debêntures remuneradas apenas com participação nos lucros: "As disposições desta decisão-conjunta não se aplicam às debêntures que assegurem, exclusivamente, participação nos lucros da companhia emissora" No mesmo sentido, a Decisão Conjunta nº 13/203, do BAnco Central e da CVM, em seu art. 5º, se refere especificamente às debêntures remuneradas apenas com participação nos lucros: Fl. 4357DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 77 76 A evolução legislativa foi verificada também na doutrina, embora de forma mais lenta. Atualmente, encontra-se superada a posição inicial de alguns autores, inclusive a nossa, no sentido de preservar a visão tradicional das debêntures inserida no Decreto-Lei 781, de 1938, o qual autorizava apenas uma remuneração adicional aos juros fixos, correspondente a juros variáveis de acordo com a lucratividade da sociedade emissora. O percentual de participação nos lucros - pagos como remuneração das debêntures - não pode ser desconsiderado sem parâmetro legal ou comparação com qualquer remuneração de mercado. Afinal, ao aplicador do direito (auditor fiscal autuante e julgador administrativo) é defeso definir limites não especificados em lei. Pois bem. Inexistindo qualquer limitação LEGAL delimitadora do percentual de lucros para remuneração de debêntures, seja do ponto de vista societário (Lei das S.As.), seja do ponto de vista da lei tributária, não cabe ao agente administrativo criar este limite. De toda forma, há o limite - razoável - decorrente da comparação entre a operação analisada e a negociação de mercado. Eventual remuneração de debêntures em valores comparativamente maiores que aqueles negociados em mercado, poderia ocasionar a glosa parcial de valores de remuneração de debêntures. Sobreleva considerar que consta dos autos parecer elaborado pela PricewaterhouseCoopers no qual consta quadro comparativo entre despesas de debêntures da contribuinte e índices praticados no mercado, destacando-se trecho do citado parecer: Período (2002 a 2005) Despesa de remuneração das debêntures (1) IGPM+6% limitado ao lucro (2) IGPM + 10,39%ao ano (3) 100% CDI (4) Total 1.369.252.189 1.125.529.857 2.540.255.843 1.914.022.006 (1) Valor total da despesa de remuneração das debêntures, de acordo com a demonstração do resultado de 2002 a 2005. (2) Valor total da remuneração calculada com base na variação do IGPM + 6% a.a., de acordo com a memória de cálculo preparada pela administração da empresa. A citada planilha serve à demonstração da inexistência de substancial diferença entre o valor de remuneração das debêntures em análise no presente processo e o valor de IGPM+6%. Assim, o lançamento tributário poderia impor a tributação da diferença entre remuneração de mercado (IGPM + 6%) e aquela definida pela contribuinte, pois assim estaria demonstrado - em lançamento tributário - o excesso na remuneração de debêntures. Mas a mera desconsideração da totalidade da remuneração de debêntures apenas por conta do percentual de lucro por esta definido, não se sustenta. O Parecer Normativo nº 138/1975, legitima despesas com mútuo firmado com sócio, acionista, etc. Tanto assim que explicita: "4. Igualmente os juros relativos a mútuo contratado nos termos da legislação comercial, serão também dedutíveis como despesa operacional." Fl. 4358DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 78 77 A limitação imposta pelo Parecer Normativo à dedutibilidade de juros com mútuo, nessa hipótese, é com relação ao valor usualmente utilizado no mercado. Nesse sentido, é o item 5 daquele Parecer: 5. Entretanto, os juros e demais encargos pagos a sócio, acionista, dirigente, administrador, ou participante nos lucros da pessoa jurídica, e seus respectivos cônjuges, parentes ou dependentes, não poderão ser calculados a taxas de que decorram custos superiores aos comumente incorridos no mercado financeiro, e nem àqueles relativos aos empréstimos menos onerosos obteníveis, na data, pela empresa, sob pena de o excesso ser considerado como distribuição disfarçada de lucros, nos termos do art. 72, b, da Lei nº 4.506/64 (art. 233, alínea b, do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto nº 76.186, de 02/09/75), por se tratar de aquisição de direito por valor notoriamente superior ao de mercado. Esses parâmetros não poderão ser ultrapassados com a inclusão de outra eventual modalidade de remuneração ou valorização do capital mutuado, sob qualquer título ajustado entre as partes, inclusive correção monetária, pois esta, quando convencionada entre particulares, equipara-se aos juros para efeito fiscal, conforme já se pronunciou esta Coordenação através do Parecer Normativo nº 164/71, publicado no Diário Oficial da União em 18/03/71. (grifamos) Entendo que o racional do PN 138/75 (legitimidade de juros com mútuo firmado com sócio, desde que observado o valor usualmente utilizado no mercado), reforça a necessidade de provimento ao recurso especial da contribuinte. Se a própria Receita Federal admite a dedutibilidade de juros com mútuo contratado com sócio, desde que observado o parâmetro de mercado, há que se reconhecer a possibilidade de dedução de remuneração de debêntures emitidas para sócio no caso destes autos, observando-se os limites acima referidos. Ademais, divirjo do D. Relator no que concerne aos débitos de IRFonte tratados em processo apenso, acompanhando o voto vencedor pelas suas razões, e quanto aos juros de mora sobre multa de ofício, neste ponto restando vencida. Por tais razões, voto por dar provimento ao recurso especial reconhecendo a legitimidade da dedução de remuneração de debêntures até o limite de IGPM+6%. Sucessivamente, voto por dar parcial provimento para extinção dos débitos de IRFonte tratados em processo administrativo anexo e para afastar os juros sobre a multa. (Assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 4359DF CARF MF Processo nº 16095.000603/2007-14 Acórdão n.º 9101-002.538 CSRF-T1 Fl. 79 78 Fl. 4360DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.000053/2008-71
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Mar 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2003
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. DESQUALIFICAÇÃO DO MÉTODO ELEITO PELO SUJEITO PASSIVO. EMPREGO DE QUALQUER OUTRO MÉTODO PELA FISCALIZAÇÃO.
Havendo o sujeito passivo deixado de apresentar à fiscalização os documentos que amparariam a demonstração do preço-parâmetro, poderá a autoridade tributária desqualificar o método eleito pelo sujeito passivo e calcular o preço-parâmetro de acordo com qualquer outro método em relação ao qual disponha das informações necessárias para tanto. Incabível, na hipótese, exigir-se que a fiscalização calcule o preço-parâmetro pelos três métodos para, só então, realizar o lançamento empregando o método mais benéfico ao sujeito passivo.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. PREÇO PARÂMETRO. IN 243/2002. LEGALIDADE TRIBUTÁRIA.
Legalidade tributária, de acordo com o disposto no art. 150, I, da Constituição da República, significa que nenhum tributo poderá ser instituído ou aumentado senão por intermédio de lei. Portanto, não afronta a idéia de legalidade tributária a instrução normativa expedida pela SRF que porventura exija tributo em montante inferior àquele previsto em lei. Restou provado que o preço-parâmetro PRL60 calculado segundo o disposto na Instrução Normativa SRF nº 243/2002 sempre resultará em exigência de IRPJ e CSLL em valores iguais ou inferiores àqueles que seriam devidos segundo o art. 18, II, da Lei nº 9.430/96, daí porque não há que se falar, aqui, em violação ao princípio da legalidade tributária.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. PREÇO PRATICADO. INCLUSÃO DE FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES SOBRE A IMPORTAÇÃO.
Segundo o disposto no art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96, o preço praticado é o preço de aquisição da mercadoria (FOB), acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. A inclusão desses valores no cálculo do preço praticado em nada prejudica o direito do sujeito passivo em deduzi-los como despesa no levantamento do lucro líquido do exercício. Por outro lado, a não inclusão daqueles valores no cálculo do preço praticado prejudicaria a sua comparabilidade com o preço-parâmetro levantado segundo o método PRL, uma vez que neste estão necessariamente incluídos os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação.
Numero da decisão: 9101-002.524
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, acordam, (1) quanto à adoção do método mais favorável ao contribuinte para o controle dos preços de transferência, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator) e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento, (2) quanto à ilegalidade da IN 243/2002 para o cálculo do método do PRL-60, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Lívia De Carli Germano (suplente convocada em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio) e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento e (3) quanto à inclusão ou não das despesas de frete, seguro e tributos incidentes na importação no preço praticado, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Lívia De Carli Germano (suplente convocada em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio) e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Cristiane Silva Costa.
(assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Luís Flávio Neto - Relator
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício), Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Lívia De Carli Germano (suplente convocada em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado).
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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DESQUALIFICAÇÃO DO MÉTODO ELEITO PELO SUJEITO PASSIVO. EMPREGO DE QUALQUER OUTRO MÉTODO PELA FISCALIZAÇÃO. Havendo o sujeito passivo deixado de apresentar à fiscalização os documentos que amparariam a demonstração do preçoparâmetro, poderá a autoridade tributária desqualificar o método eleito pelo sujeito passivo e calcular o preçoparâmetro de acordo com qualquer outro método em relação ao qual disponha das informações necessárias para tanto. Incabível, na hipótese, exigirse que a fiscalização calcule o preçoparâmetro pelos três métodos para, só então, realizar o lançamento empregando o método mais benéfico ao sujeito passivo. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. PREÇO PARÂMETRO. IN 243/2002. LEGALIDADE TRIBUTÁRIA. Legalidade tributária, de acordo com o disposto no art. 150, I, da Constituição da República, significa que nenhum tributo poderá ser instituído ou aumentado senão por intermédio de lei. Portanto, não afronta a idéia de legalidade tributária a instrução normativa expedida pela SRF que porventura exija tributo em montante inferior àquele previsto em lei. Restou provado que o preçoparâmetro PRL60 calculado segundo o disposto na Instrução Normativa SRF nº 243/2002 sempre resultará em exigência de IRPJ e CSLL em valores iguais ou inferiores àqueles que seriam devidos segundo o art. 18, II, da Lei nº 9.430/96, daí porque não há que se falar, aqui, em violação ao princípio da legalidade tributária. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. PREÇO PRATICADO. INCLUSÃO DE FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES SOBRE A IMPORTAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 00 00 53 /2 00 8- 71 Fl. 8532DF CARF MF 2 Segundo o disposto no art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96, o preço praticado é o preço de aquisição da mercadoria (FOB), acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. A inclusão desses valores no cálculo do preço praticado em nada prejudica o direito do sujeito passivo em deduzilos como despesa no levantamento do lucro líquido do exercício. Por outro lado, a não inclusão daqueles valores no cálculo do preço praticado prejudicaria a sua comparabilidade com o preçoparâmetro levantado segundo o método PRL, uma vez que neste estão necessariamente incluídos os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, acordam, (1) quanto à adoção do método mais favorável ao contribuinte para o controle dos preços de transferência, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator) e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento, (2) quanto à ilegalidade da IN 243/2002 para o cálculo do método do PRL60, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Lívia De Carli Germano (suplente convocada em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio) e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento e (3) quanto à inclusão ou não das despesas de frete, seguro e tributos incidentes na importação no preço praticado, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Lívia De Carli Germano (suplente convocada em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio) e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Cristiane Silva Costa. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Relator (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício), Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Lívia De Carli Germano (suplente convocada em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado). Fl. 8533DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 3 3 Relatório Conselheiro Luís Flávio Neto, relator. Tratase, em brevíssima síntese, de recurso especial interposto pela empresa VALEO SISTEMAS AUTOMOTIVOS LTDA. (doravante chamada de “VALEO”, “Contribuinte” ou “Recorrente”), contra o acórdão nº 1402001.508 (doravante chamado de “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara (doravante “Turma a quo”), o qual julgou improcedente o recurso voluntário. O processo administrativo envolve a cobrança de IRPJ e CSLL, com acréscimo de multa e juros, decorrentes de ajustes supostamente determinados pela legislação de preços de transferência. No caso, “a autoridade fiscalizadora utilizou os métodos PRL20 e PRL60, que também haviam sido utilizados pelo sujeito passivo, e desprezou o ajuste feito pelo método CPL, pela ausência de elementos comprobatórios os quais, reiteradamente solicitados, não foram apresentados” (efls. 7.894). A fiscalização, contudo, não considerou a possibilidade da adoção de outros métodos que, em tese, poderiam resultar em tributação menos onerosa ao contribuinte, especialmente o método PIC. Ao julgar a impugnação apresentada pelo contribuinte, a 5ª Turma da DRJ/SPOI proferiu acórdão assim ementado (efls. 7741 e seg.): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PREÇOPARÂMETRO. DESCONSIDERAÇÃO DO MÉTODO ADOTADO PELA CONTRIBUINTE (CPL). APURAÇÃO PELA FISCALIZAÇÃO (PRL). Constatando a fiscalização que a contribuinte elaborou incorretamente os cálculos do preçoparâmetro segundo o método CPL, corretas a desqualificação desses cálculos e a opção da fiscalização em escolher um outro método e apurar os ajustes correspondentes (no caso, o método PRL). A escolha do método mais favorável ao contribuinte é uma prerrogativa do contribuinte, mas não uma imposição à fiscalização. MÉTODO PRL. PREÇOS PRATICADOS. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS. Na apuração dos preços praticados segundo o método PRL, devese incluir o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador, e os tributos incidentes na importação. MÉTODO PRL60. CÁLCULOS SEGUNDO INSTRUÇÃO NORMATIVA. ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. À esfera administrativa não cabe apreciar questões relativas à legalidade ou inconstitucionalidade de normas jurídicas, competência esta exclusiva do Poder Judiciário. Por força de sua vinculação ao texto da norma legal e ao entendimento que a ele dá o Poder Executivo, deve limitarse a aplicala, sem emitir qualquer juízo de valor acerca da sua legalidade, constitucional idade ou outros aspectos de sua validade. ARQUIVOS MAGNÉTICOS. INCONSISTÊNCIAS. MULTA ISOLADA. Fl. 8534DF CARF MF 4 As pessoas jurídicas que utilizarem sistemas de processamento eletrônico de dados para registrar negócios e atividades econômicas ou financeiras, escriturar livros ou elaborar documentos de natureza contábil ou fiscal, ficam obrigadas a manter, à disposição da Secretaria da Receita Federal, os respectivos arquivos digitais e sistemas, pelo prazo decadencial previsto na legislação tributária. A inobservância dessa norma acarretará a imposição de multa de cinco por cento sobre o valor da operação correspondente, aos que omitirem ou prestarem incorretamente as informações solicitadas. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Tratandose de aspecto concernente à cobrança do crédito tributário, a autoridade julgadora não se manifesta a respeito de juros sobre multa de ofício. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplicase à tributação dele decorrente. O contribuiu interpôs recurso voluntário, o que ensejou o acórdão n. 1402 001.544, ora recorrido (efls. 7.916 e seg.). Por voto de qualidade, a Turma a quo negou provimento ao recurso voluntário, em decisão assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PROCEDIMENTO FISCAL. ALTERAÇÃO DO MÉTODO. IMPOSSIBILIDADE. Na apuração do preço de transferência o sujeito passivo pode escolher o método que lhe seja mais favorável dentre os aplicáveis à natureza das operações realizadas. À faculdade conferida pela Lei ao contribuinte se contrapõe apenas o dever da fiscalização de aceitar a opção por ele regularmente exercida. Não há como extrair do texto legal o corolário de que a fiscalização, ao desqualificar um método adotado pelo sujeito passivo pelo descumprimento de parâmetros legais ou normativos, teria o dever de buscar o método que lhe fosse mais favorável. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. AJUSTE, IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. Descabe a arguição (sic) de ilegalidade na IN/SRF n.º 243/2002 cuja metodologia busca proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência. PREÇO PARÂMETRO. EXCLUSÃO DO VALOR CORRESPONDENTE A FRETES, SEGUROS E IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. Como decorrência de disposição legal e da necessidade de se comparar grandezas semelhantes, na apuração do preço parâmetro devem ser incluídos os valores correspondentes a frete, seguro e imposto sobre importação, cujo ônus tenha sido do importador. MULTA DE OFÍCIO JUROS DE MORA. Sobre a multa de oficio lançada juntamente com o tributo ou contribuição, não paga no vencimento, incidem juros de mora à taxa SELIC, nos termos do art. 61, caput e § 3º, da Lei nº 9.430/96. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2004 CSLL. LANÇAMENTO DECORRENTE. Fl. 8535DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 4 5 Por se tratar de lançamento tido como decorrente, aplicase a ele o resultado do julgamento do processo tido como principal. Foram opostos embargos de declaração pelo i. Conselheiro Relator do acórdão recorrido, por não ter sido analisada a incidência de multa pela apresentação incorreta de informações em meio magnético (efls. 7.915). Os referidos embargos foram acolhidos, para manter a cobrança da multa em questão (efls. 7916 e seg.). Indignada com a decisão, o contribuinte interpôs recurso especial (efls. 8113 e seg.), o qual foi admitido integralmente por despacho (efls. 8492 e seg.), quanto às seguintes matérias: “1) Necessidade de Aplicação do Método de Apuração do Preço de Transferência mais Benéfico ao Contribuinte”; “2) Inaplicabilidade da IN no 243/2002 em favor da Manutenção dos Critérios Previstos na Lei no 9.430/96”; e “3) Da Composição do Preço Parâmetro Dedutibilidade dos Valores de Frete, Seguro e Imposto de Importação”. Sobre os referidos temas, alega o recorrente, em apertada síntese, que: seria dever da fiscalização verificar quais dos métodos previstos pela legislação conduziria à menor carga tributária e adotálo, o que não se verifica no caso concreto; a fórmula estabelecida pela IN 243/02 conduziria a resultados diversos daqueles obtidos pela metodologia da Lei 9.430/96, conduzindo a resultados incoerentes; A MP n. 478/09 buscou incluir a sistemática de cálculo da IN 243/02 na Lei, o que evidenciaria que a sua sistemática não estaria contida no regramento legal original; o custo com frente, seguros e tributos devidos na importação cumprem todos os requisitos legais não comporiam o preço parâmetro. Tais valores, na verdade, seriam dedutíveis sem os ajustes típicos da legislação de preços de transferência, especialmente em face do art. 18, § 6º, da Lei 9.430/96; A PFN apresentou contrarrazões ao recurso especial (efls. 8.505), suscitanto, em breve síntese, que: a prerrogativa do contribuinte adotar o método mais favorável para a apuração dos preços de transferência não corresponderia a qualquer dever fiscalização; a IN 243/02 apenas regularia o art. 18, II, da Lei 9.430/02, em conformidade com a vontade do legislador; A PFN nada suscitou quanto à necessidade de inclusão do custo frente, seguro e tributos de importação na composição do preço parâmetro, bem como não se opôs ao conhecimento do recurso especial. Concluise, com isso, o relatório Fl. 8536DF CARF MF 6 . Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto, relator. Em seu recurso especial, o contribuinte apresentou analiticamente argumentos para a demonstração da divergência jurisprudencial arguida, cumprindo com o que requer o art. 67 do RICARF. Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade, não merecendo reparos. Fazse necessário, portanto, enfrentar as seguintes questões de mérito: adoção do método mais favorável ao contribuinte para o controle dos preços de transferência (tópico “2”, abaixo). a ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 quanto à fórmula para o cálculo do preço parâmetro do método PLR60. (tópico “3”, abaixo) a inclusão ou não das despesas de frete, seguro e tributos incidentes na importação no preço praticado. (tópico “4”, abaixo) Para a adequada fundamentação deste voto, o tópico “1”, a seguir, expõe premissas essenciais para a solução dessas três questões controvertidas nos presentes autos. 1. Premissas fundamentais para o julgamento do caso concreto. O caso sob julgamento envolve a cobrança de IRPJ e CSL, pela glosa de custos ou despesas considerados indedutíveis pela fiscalização, com suposto fundamento na legislação de preços de transferência. O art. 47 da Lei n. 4.506/64 estabelece, como regra geral, que serão dedutíveis as despesas operacionais pagas ou incorridas necessárias, assim compreendidas aquelas normais, usuais e necessárias às suas atividades geradoras do lucro que será tributado. Além dessa regra geral de dedutibilidade, o legislador prescreveu ainda uma série de normas específicas que devem ser observadas para a apuração do IRPJ e da CSL, com destaque às regras de preços de transferência. A legislação brasileira dos preços de transferência deve ser observada por pessoas jurídicas nacionais que realizem operações com pessoas jurídicas vinculadas residentes no exterior. Tais normas se voltam exclusivamente às operações realizadas com empresas vinculadas e que, por meio de ajuste de preços de venda de bens, serviços ou direitos, apresentassem a potencialidade de transferir resultados ao exterior sem a correspondente tributação. O legislador estabeleceu como premissa que as regras brasileiras de preços de transferência apenas serão aplicáveis quando estiver presente um binômio essencial: (i) vinculação entre as partes contratantes e; (ii) negócio jurídico internacional, com destaque, no presente caso, às importações. Fl. 8537DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 5 7 As referidas normas encontram fundamento especialmente nos princípios da igualdade e da capacidade contributiva, de forma a estabelecer, por meio de fórmulas pré determinadas pelo legislador ordinário, um preço que seria praticado por partes independentes (“preço parâmetro” ou “preço arm’s length”), de tal forma que operações realizadas entre partes vinculadas que destoem desse padrão, sejam tributadas como se houvessem praticado o preço parâmetro. Nesse ponto, é relevante fazer referência à seguinte passagem do estudo de LUÍS EDUARDO SCHOUERI1, in verbis “1.3.9. É, pois, sob pena de caracterizar o arbítrio, que o legislador se vê obrigado a eleger princípios e, uma vez escolhidos, aplicálos conscientemente. 1.3.10. Especialmente em matéria tributária, surge como princípio parâmetro, escolhido pelo próprio constituinte, a capacidade contributiva. Nesse sentido, deve a tributação partir de uma comparação das capacidades econômicas dos potenciais contribuintes, exigindose tributo igual de contribuinte em equivalente situação. Por óbvio, tal princípio somente se concretiza quando é possível compararemse os contribuintes. 1.3.11. No caso de transações entre pessoas vinculadas, entretanto, as realidades econômicas comparadas são diversas, frustrandose qualquer comparação. 1.3.12. A diversidade acima apontada resulta da circunstância de as transações entre partes vinculadas não terem passado pelo mercado, como o fizeram as empresas independentes. 1.3.13. Assim, podese dizer que enquanto a moeda constante nas contas das empresas com transações controladas está expressa em unidades ‘reais de grupo’, empresas independentes têm seus resultados expressos em ‘reais de mercado’. 1.3.14. Nesta perspectiva, o papel da legislação de preços de transferência é apenas ‘converter’ valores expressos em ‘reais de grupo’ para ‘reais de mercado’, possibilitando, daí, uma efetiva comparação entre contribuintes com igual capacidade econômica. 1.3.15. Nesse sentido, verificase que a legislação de preços de transferência não distorce resultados da empresa. Apenas ‘converte’ para uma mesma unidade de referência (‘reais de mercado’) a mesma realidade expressa noutra unidade. 1.3.16. Nesse contexto, as disposições de controle de preços de transferência da Lei n. 9.430/96 somente se justificam caso corroborem essa conversão acima referida, o que se dá mediante a aplicação do princípio arm’s length, que será verificado mais profundamente nos capítulos posteriores. Vale dizer, caso a aplicação da lei ou de sua regulamentação em um caso concreto extrapole os limites dessa conversão, isso deverá ser considerado uma desobediência ao princípio constitucional da igualdade e da capacidade contributiva e, portanto, a aplicação nesse caso deverá ser corrigida ou até mesmo desconsiderada.” É fundamental para a matéria em análise compreender que a legislação brasileira dos preços de transferência busca precisamente neutralizar a desigualdade nas operações entre partes vinculadas. Assim, por exemplo, se em uma operação de importação entre partes vinculadas o importador brasileiro realizar o pagamento de $25,00 por um bem cujo preço parâmetro seja de $10,00, a legislação dos preços transferência determinará um ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL, de forma a se adicionar a parcela excedente ($15,00) e, assim, acrescer a base tributável e consequentemente aumentar o montante dos 1 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo : Dialética, 2006, p. 1415. Fl. 8538DF CARF MF 8 tributos devidos. O preço parâmetro, nesse exemplo, corresponde ao limite da dedutibilidade do custo do bem, serviço ou direito importado de parte vinculada. Por meio do controle dos preços de transferência, o sistema jurídico não procura majorar o percentual de tributos cobrados da sociedade, mas simplesmente garantir, nas operações internacionais, tratamento tributário isonômico, de forma que, independente de relações societárias ou negociais mantidas entre as partes, todos que se encontrem em situação semelhante tenham a sua capacidade contributiva tributada de forma equivalente. Dessa forma, embora a legislação de preços de transferência possam aparentar exceções à norma geral de dedutibilidade do art. 47 da Lei n. 4.506/64, representam a sua confirmação. As regras de preços de transferência procuram garantir que tal norma geral seja aplicada conforme os princípios da igualdade e da capacidade contributiva. Não obstante, seja sob uma perspectiva (exceção à regra geral) ou outra (confirmação à regra geral), a legislação dos preços de transferência, detalhada no tópico subsequente, está intimamente relacionada com a norma do art. 47 da Lei n. 4.506/64. 2. Adoção do método menos gravoso: concretização do princípio da igualdade tributária. Conforme tem sido destacado neste voto, por meio do controle dos preços de transferência, o legislador não procura tributar em um nível mais elevado as empresas brasileiras que realizem operações de importação ou exportação com partes relacionadas. Longe de tributar de forma excepcionalmente mais gravosa tal situação, tais normas apenas procuram garantir que todos os contribuintes sejam tributados de forma isonômica, conforme o princípio arm’s length: independente de relações societárias ou negociais mantidas entre as partes, todos que se encontrem em situação semelhante tenham a sua capacidade contributiva tributada de forma equivalente. Um dos pilares dessa diretriz da legislação brasileira dos métodos de preços de transferência consiste justamente na regra do método menos oneroso ao contribuinte. O art. 18, § 4, da Lei n. 9.430/96, aplicável ao caso concreto, possui a seguinte redação: § 4º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente. Notese que, ao utilizar o termo “será” (e não “poderá ser”, por exemplo), o legislador não prescreveu uma alternativa, mas uma norma mandatória que vincula a administração fiscal. O legislador determina que “será considerado dedutível o maior valor apurado”, evidenciando que a adoção, pela fiscalização, de método que em comparação com outro se mostre mais oneroso ao contribuinte, incorrerá em arbitrariedade e ilegalidade. Naturalmente, tratase de norma de cumprimento espontâneo e natural pelo contribuinte. A experiência demonstra, contudo, que ao menos três diferentes indagações podem surgir desse enunciado prescritivo: se, durante o procedimento de fiscalização, o contribuinte demonstrar à fiscalização qual método lhe seria mais favorável, o agente fiscal está Fl. 8539DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 6 9 vinculado à adoção deste, tornando viciada a atuação em termos diversos? se nenhuma demonstração vier a ser apresentada pelo contribuinte durante o procedimento fiscalizatório, o agente fiscal assume o ônus de averiguar quais dos métodos previstos em lei conduzem à menor autuação, incidindo vício formal sobre a AIIM que não explicitar essa aferição? se nenhuma demonstração vier a ser apresentada pelo contribuinte durante o procedimento fiscalizatório, mas a impugnação administrativa evidenciar a existência de método mais benéfico e diverso daquele utilizado na lavratura do AIIM, tornase mandatório o cancelamento da autuação? O presente caso exige a análise dessa segunda indagação para a construção da norma prescrita pelo art. 18, § 4, da Lei n. 9.430/96. Há uma sequencias de negativas: não foi demonstrado pelo contribuinte, durante o procedimento fiscalizatório, que o método PIC lhe seria mais favorável; não foi verificado pela fiscalização se o método PIC conduziria a autuação fiscal menos gravosa; não foi demonstrado pelo contribuinte, no âmbito do contencioso administrativo, que o método PIC resultaria em tributação menos gravosa em comparação com o método PRL utilizado para a lavratura do AIIM. É preciso, nesse cenário, decidir se, como alega a PFN, a discricionariedade atribuída à fiscalização lhe desincumbiria de justificativas quanto à escolha do método mais benéfico ao contribuinte ou se, como alega o recorrente, à administração fiscal incumbiria o ônus de demonstrar a adoção do método mais benéfico ao contribuinte. Como consequência da inexistência de discricionariedade, é igualmente necessário reconhecer o ônus primário atribuído à fiscalização: fundamentar o método adotado para a apuração dos preços de transferência, com a demonstração da adoção do método mais favorável ao contribuinte entre aqueles cuja adoção seria possível. Os elementos presentes no caso sob julgamento evidenciam vicio, que fulmina a autuação sob julgamento. Ocorre que agente fiscal assume o ônus de averiguar quais dos métodos previstos em lei conduzem à menor autuação, não lhe sendo assegurada discricionariedade para adotar aquele que lhe gere menor esforços, maior ônus fiscal ou quaisquer outros critérios subjetivos de escolha. O subjetivismo em questão foi repelido pelo legislador, que prescreveu critério objetivo de escolha, cuja objetivação reside precisamente na demonstração da aferição empreendida em face de todos os métodos passíveis de aplicação: deve ser adotado o método de imponha menores ajustes e que, portanto, seja o menos gravoso ao contribuinte. Fl. 8540DF CARF MF 10 O legislador, portanto, gravou como ilegítima a dúvida quanto à existência de outros método previstos em lei para a apuração dos preços de transferência, concretizando o princípio da igualdade e não agravando excessivamente a situação de partes relacionadas, e que sequer foram verificadas pela fiscalização. À escuridão da dúvida socorreu o legislador a luz dos testes vinculantes impostos à administração fiscal. No acórdão n. 10709.411, considerouse no âmbito deste Tribunal administrativo que “jamais pode o fisco, mesmo no ausência de escolha do método por parte do contribuinte ou no desqualificação do método por ele utilizado, por incompatível ou por ausência e elementos probantes, lançar mão de método mais gravoso, existindo outro também passível de teste.” Voto, portanto, para DAR PROVIMENTO ao recurso especial do contribuinte quanto a este item. 3. A ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 quanto à fórmula para o cálculo do preço parâmetro do método PLR60. Adotado o método PRL, fazse necessário analisar a legalidade da adoção da fórmula veiculada pela IN SRF nº 243/2002, suscitada pelo contribuinte em seu recurso especial. 3.1. A evolução legislativa do método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL). A legislação brasileira dos preços de transferência deve ser observada por pessoas jurídicas nacionais que realizem operações com pessoas jurídicas vinculadas residentes no exterior. Suas normas encontram fundamento especialmente nos princípios da igualdade e da capacidade contributiva, de forma a estabelecer, por meio de fórmulas prédeterminadas pelo legislador ordinário, um preço que seria praticado por partes independentes (“preço parâmetro” ou “preço arm’s length”), de tal forma que operações realizadas entre partes vinculadas que destoem desse padrão, sejam tributadas como se houvessem praticado o preço parâmetro. Assim, por exemplo, se em uma operação de importação entre partes vinculadas o importador brasileiro realizar o pagamento de $25,00 por um bem cujo preço parâmetro seja de $10,00, a legislação dos preços transferência determinará um ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL, de forma a se adicionar a parcela excedente ($15,00) e, assim, acrescer a base tributável e consequentemente aumentar o montante dos tributos devidos. O preço parâmetro, nesse exemplo, corresponde ao limite da dedutibilidade do custo do bem, serviço ou direito importado de parte vinculada. Por meio do controle dos preços de transferência, o sistema jurídico não procura majorar o percentual de tributos cobrados da sociedade, mas simplesmente garantir, nas operações internacionais, tratamento tributário isonômico, de forma que, independente de relações societárias mantidas entre as partes, todos que se encontrem em situação semelhante tenham a sua capacidade contributiva tributada de forma equivalente. Fl. 8541DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 7 11 A matriz legal da legislação brasileira dos preços de transferência é a Lei n. 9.430/96, com as sucessivas alterações que lhe foram realizadas. Nela estão contemplados os diferentes métodos de controle dos preços de transferência, que consistem em fórmulas e regras para a determinação se deve ou não ser realizado ajustes na base de cálculo do IRPJ e da CSL e, ainda, de quanto seria o referido ajuste. Entre os referidos métodos, interessa ao recurso especial em julgamento o Preço de Revenda menos Lucro (PRL). Em sua redação original, o art. 18. II, da Lei n. 9.430/96, previa apenas a margem de lucro de 20% para o cálculo do preço parâmetro conforme o método PRL (doravante “PRL20”): Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda; Em 1999, por meio da Medida Provisória nº 2.0134, convertida na Lei n. 9.959/2000, foi introduzida alteração na alínea “d” desse dispositivo, que passou a dispor quanto à possibilidade da adoção da margem de lucro de 60% para o cálculo do método PRL dos preços de transferência (PRL60), com especial destaque à parte em negrito: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. Na sequência, foi editada pela Secretaria da Receita Federal (doravante “SRF”) a IN 113/2000, que dispunha “sobre as hipóteses de utilização do Método do Preço de Revenda menos Lucro”. Em 2001, foi editada a IN 32, que incorporou os enunciados da IN Fl. 8542DF CARF MF 12 113/2000 ao indicar a adoção da seguinte fórmula para o cálculo do PRL 60, com especial destaque à parte em negrito: Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens; b) sessenta por cento, na hipótese de bens importados aplicados na produção. § 1º Os preços de revenda, a serem considerados, serão os praticados pela própria empresa importadora, em operações de venda a varejo e no atacado, com compradores, pessoas físicas ou jurídicas, que não sejam a ela vinculados. § 2º Os preços médios de aquisição e revenda serão ponderados em função das quantidades negociadas. § 3º Na determinação da média ponderada dos preços, serão computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. § 4º Para efeito desse método, a média aritmética ponderada do preço será determinada computandose as operações de revenda praticadas desde a data da aquisição até a data do encerramento do período de apuração. § 5º Se as operações consideradas para determinação do preço médio contiverem vendas à vista e a prazo, os preços relativos a estas últimas deverão ser escoimados dos juros neles incluídos, calculados à taxa praticada pela própria empresa, quando comprovada a sua aplicação em todas as vendas a prazo, durante o prazo concedido para o pagamento. § 6º Na hipótese do parágrafo anterior, não sendo comprovada a aplicação consistente de uma taxa, o ajuste será efetuado com base na taxa: I referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), para títulos federais, proporcionalizada para o intervalo, quando comprador e vendedor forem domiciliados no Brasil; II Libor, para depósitos em dólares americanos pelo prazo de seis meses, acrescida de três por cento anuais a título de spread, proporcionalizada para o intervalo, quando uma das partes for domiciliada no exterior. § 7º Para efeito deste artigo, serão considerados como: I incondicionais, os descontos concedidos que não dependam de eventos futuros, ou seja, os que forem concedidos no ato de cada revenda e constar da respectiva nota fiscal; II impostos, contribuições e outros encargos cobrados pelo Poder Público, incidentes sobre vendas, aqueles integrantes do preço, tais como ICMS, ISS, Pis/Pasep e Cofins; III comissões e corretagens, os valores pagos e os que constituírem obrigação de pagar, a esse título, relativamente às vendas dos bens, serviços ou direitos objeto de análise. § 8º A margem de lucro a que se refere o inciso IV, alínea "a" do caput será aplicada sobre o preço de revenda, constante da nota fiscal, excluídos, exclusivamente, os descontos incondicionais concedidos. § 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que não haja agregação de valor no País ao custo dos bens , serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados. § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens aplicados à produção. Fl. 8543DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 8 13 § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerandose, para este fim: I preço líquido de venda, a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II margem de lucro, o resultado da aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas, das comissões e corretagens pagas e do valor agregado ao bem produzido no País. Em 2002, embora não tenha sido realizada nenhuma reforma por meio de Lei, a IN 243 tornou público que a SRF conduziria uma ampla mudança na metodologia de cálculo do PRL60, com o abandono das fórmulas anteriormente adotadas na IN 113/2000 e na IN 32/2001. Esse é o cerne do recurso especial em análise. Os enunciados da IN 243/2002 relativos à matéria seguem transcritos, com destaque à parte em negrito: MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO (PRL) Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. § 1º Os preços de revenda, a serem considerados, serão os praticados pela própria empresa importadora, em operações de venda a varejo e no atacado, com compradores, pessoas físicas ou jurídicas, que não sejam a ela vinculados. § 2º Os preços médios de aquisição e revenda serão ponderados em função das quantidades negociadas. § 3º Na determinação da média ponderada dos preços, serão computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. § 4º Para efeito desse método, a média aritmética ponderada do preço será determinada computandose as operações de revenda praticadas desde a data da aquisição até a data do encerramento do período de apuração. § 5º Se as operações consideradas para determinação do preço médio contiverem vendas à vista e a prazo, os preços relativos a estas últimas deverão ser escoimados dos juros neles incluídos, calculados à taxa praticada pela própria empresa, quando comprovada a sua aplicação em todas as vendas a prazo, durante o prazo concedido para o pagamento. § 6º Na hipótese do § 5º, não sendo comprovada a aplicação consistente de uma taxa, o ajuste será efetuado com base na taxa: I referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), para títulos federais, proporcionalizada para o intervalo, quando comprador e vendedor forem domiciliados no Brasil; Fl. 8544DF CARF MF 14 II Libor, para depósitos em dólares americanos pelo prazo de seis meses, acrescida de três por cento anuais a título de spread, proporcionalizada para o intervalo, quando uma das partes for domiciliada no exterior. § 7º Para efeito deste artigo, serão considerados como: I incondicionais, os descontos concedidos que não dependam de eventos futuros, ou seja, os que forem concedidos no ato de cada revenda e constar da respectiva nota fiscal; II impostos, contribuições e outros encargos cobrados pelo Poder Público, incidentes sobre vendas, aqueles integrantes do preço, tais como ICMS, ISS, PIS/Pasep e Cofins; III comissões e corretagens, os valores pagos e os que constituírem obrigação a pagar, a esse título, relativamente às vendas dos bens, serviços ou direitos objeto de análise. § 8º A margem de lucro a que se refere a alínea "a" do inciso IV do caput será aplicada sobre o preço de revenda, constante da nota fiscal, excluídos, exclusivamente, os descontos incondicionais concedidos. § 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que, no País, não haja agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados. § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. Em 2012, por sua vez, por meio da Medida Provisória nº 563, convertida na Lei n. 12.715/2012, foram introduzidas amplas alterações na Lei n. 9.430/96, contemplando todo o inciso II desse dispositivo e tornandoo mais apto a fundar a fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo do PRL60. Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do Fl. 8545DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 9 15 lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética ponderada dos preços de venda, no País, dos bens, direitos ou serviços importados, em condições de pagamento semelhantes e calculados conforme a metodologia a seguir: a) preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem, direito ou serviço produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; b) percentual de participação dos bens, direitos ou serviços importados no custo total do bem, direito ou serviço vendido: a relação percentual entre o custo médio ponderado do bem, direito ou serviço importado e o custo total médio ponderado do bem, direito ou serviço vendido, calculado em conformidade com a planilha de custos da empresa; c) participação dos bens, direitos ou serviços importados no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido: aplicação do percentual de participação do bem, direito ou serviço importado no custo total, apurada conforme a alínea b, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com a alínea a; d) margem de lucro: a aplicação dos percentuais previstos no § 12, conforme setor econômico da pessoa jurídica sujeita ao controle de preços de transferência, sobre a participação do bem, direito ou serviço importado no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido, calculado de acordo com a alínea c; e 1. (revogado); 2. (revogado); e) preço parâmetro: a diferença entre o valor da participação do bem, direito ou serviço importado no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido, calculado conforme a alínea c; e a "margem de lucro", calculada de acordo com a alínea d; e (…) É evidente a distinção dos textos adotados, de um lado, pela IN 243/2002, e de outro lado, pela IN 32/2001 e especialmente pela Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000. O quadro a seguir compara os dispositivos mais dessas três fontes do Direito mais relevantes à solução do presente caso concreto: FONTE PRIMÁRIA: Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000 FONTE SECUNDÁRIA: IN 32/2001 FONTE SECUNDÁRIA: IN 243/2002 II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: (...) d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerandose, para este fim: § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: (...) V preço parâmetro: a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito Fl. 8546DF CARF MF 16 agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. As diferenças textuais em questão são relevantes para a solução do recurso especial em análise, conforme tópicos abaixo. 3.2. As fórmulas adotadas em cada etapa dessa evolução legislativa para o cálculo do PRL60. O inciso II do art. 18 da Lei n. 9.430/96, conforme a sua redação mantida entre 2000 e 2012 por força da Lei n. 9.959/2000, prescrevia de forma imediata a adoção da seguinte fórmula para o cálculo do preço parâmetro, para fins de possíveis ajustes no cálculo do IRPJ e da CSL: PP = PR – L L = 60% (PR − VA) Em que: PP à preço parâmetro, preço arm’s lenght. PR à preço de revenda líquido. VAà valor agregado na produção nacional L à lucro Considerando o conhecido valor líquido da operação de revenda (PR) e a margem de lucro (L) apurada conforme a fórmula legal, determinase o preço parâmetro (PP), que será o valor limite para que o correspondente bem, serviço ou direito importado de parte vinculada seja dedutível da base de cálculo do IRPJ ou da CSL. Notese que cada um desses fatores possui uma função determinante na fórmula prescrita no art. 18. II, da Lei n. 9.430/96, o que evidencia a decisão consciente do legislador ordinário ao enunciar a Lei n. 9.959/2000, sendo relevante destacar que: quanto maior o valor agregado no Brasil (“VA”), menor será “L” (lucro). Como o lucro deverá ser subtraído do preço de revenda (“PR”) para a composição preço parâmetro (“PP”), quanto menor “L”, maior será “PP”. E , quanto maior “L” e, portanto, o lucro tributável, menor será o “PP”. para a composição de “L”, o percentual de 60%, adotado pelo legislador ordinário para o cálculo do PLR, deveria ser aplicado sobre a totalidade do preço de venda do bem ao qual tenha sido agregado o insumo importado e sujeito ao controle dos preços de transferência. Nesse seguir, quanto maior for o preço parâmetro (“PP”), mais liberdade terá o contribuinte para negociar com a empresa fornecedora (relacionada) sem o controle da administração tributária dos preços de transferência. Quanto maior for “PP”, menor serão as chances do contribuinte necessitar realizar ajustes nas bases de cálculo do IRPJ e da CSL para adicionar parcelas dos custos de bens, serviços e direitos que, por ultrapassar o preço parâmetro, passam a ser indedutíveis. Fl. 8547DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 10 17 Essa fórmula foi acatada pela administração fiscal tanto na IN 113/2000 quanto na IN 32/2001, (vide tópico “1”, acima) e encontrou justificativas por diferentes perspectivas, a saber: Equilíbrio. A adoção de uma margem de lucro de elevada, de 60%, seria balanceada pela subtração do valor agregado no Brasil dessa base; Indução positiva. O legislador ordinário teria aliado o controle de preços de transferência com medidas indutoras de comportamento e de incentivo à produção nacional, de forma que: quanto maior for a agregação de valor no Brasil, maior será o preçoparâmetro e, consequentemente, menor será o ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL. A referida fórmula estabelecida pela Lei n. 9.959/2000 foi submetida a críticas, em especial por não considerar a proporção do insumo importado de parte vinculada aplicada ao bem produzido no Brasil. Como se evidenciou no tópico “1”, acima, o legislador ordinário apenas realizou uma reforma legal para incorporar essa “melhoria” em 2012, com a edição da Lei n. 12.715. Por sua vez, em 2002, a IN 243 indicou a necessidade da adoção de uma outra fórmula para o cálculo do PRL60, diferente daquela que até então se compreendia a correta decorrência da Lei n. 9.959/2000. Tornouse notório o “Estudo comparativo dos normativos da legislação brasileira para o cálculo do preço parâmetro de bem importado usado em produção”, elaborado por VLADIMIR BELITSKY, “Ph.D em Matemática Aplicada pelo Instituto Tecnológico de Israel, Professor Associado do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, USP”. O referido estudo abstrai a seguinte fórmula da IN 243/2002: PP =VDBI * 100% * PR – L60% * VDBI * 100% * PR) VDBI + VA VDBI + VA Em que: VDBI à valor declarado do bem importado PP à preço parâmetro, preço arm’s lenght. PR à preço de revenda líquido. VAà valor agregado na produção nacional L à lucro Como se pode observar, a fórmula indicada pela IN 243/2002 alterou fatores na fórmula abstraída dos enunciados prescritivos do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 e pela IN 32/2001. Supõese que a intenção da SRF seria possibilitar a verificação da proporcionalidade do insumo importado agregado à produção nacional, pois isso não teria sido contemplado pelo legislador. A partir da publicação da IN 243/2002, sem que nenhuma alteração legal tenha sido realizada, a PFN também passou a sustentar que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, possibilitaria a construção de uma segunda fórmula, diversa daquela que até então seria de aceitação geral: Fl. 8548DF CARF MF 18 PP = PR − L − VA L = 60% PR A fórmula da IN 243/2002, conforme alegado, expressaria com maior clareza e, ainda, imprimiria melhorias a essa segunda fórmula que supostamente seria possível abstrair do texto do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. Conforme a fórmula que se abstrai imediatamente da Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000, na linha do que indicava a IN n. 32/2001, o percentual de 60% deve ser aplicado sobre a totalidade do preço de venda do bem ao qual o insumo importado tenha sido agregado. Já a “segunda fórmula”, que supostamente fundamentaria a IN 243/2002, estabeleceria que a margem de lucro de 60% deveria incidir apenas sobre a parte do preço líquido de venda do produto referente à participação do bem, serviço ou direito importados: o percentual legal em questão seria aplicável tão somente sobre a parcela do preço líquido de venda proporcional ao custo do bem importado. Conforme o citado estudo elaborado pelo Prof. Dr. VLADIMIR BELITSKY, in verbis: “Constatação 4. O cálculo de PP segundo a fórmula da IN 243 pode ser visto como um procedimento de duas etapas consecutivas, sendo que: (i) a primeira etapa baseiase, plena e exclusivamente, no princípio da proporcionalidade em participação ao lucro; e (ii) a segunda baseiase, plena e exclusivamente, no postulado de que a margem de lucro em cima de bem importado é de 60%”. O quadro a seguir procura sistematizar algumas características das normas, a fim de evidenciar a diferença entre elas: Primeira interpretação da Lei 9.430/96 e IN 32/01 Segunda interpretação da Lei 9.430/96 (IN 243/2002) Fórmula de cálculo do PRL60 ü PP = PR – L ü L = 60% (PR − VA) ü PP = PR − L − VA ü L = 60% * PR Analítico da fórmula para o cálculo da “margem de lucro” 60% sobre o valor integral do preço líquido de venda diminuído do valor agregado no Brasil. 60% apenas da parcela do preço líquido de venda do produto proporcional à participação dos bens, serviços ou direitos importados. Analítico da fórmula para o cálculo do “preço parâmetro” Totalidade do valor líquido de venda diminuído da margem de lucro de 60%. Percentual da parcela dos insumos importados no preço líquido de venda diminuído da margem de lucro de 60%. Um exemplo poderá tornar mais clara a distinção entre essas duas fórmulas. Para tanto, considerese que um determinado produto, produzido no Brasil a partir de insumos nacionais e outros importados de partes vinculadas, seja vendido por R$ 100,00 (ou seja, PR = 100,00) e que o valor agregado no Brasil seja de R$ 50,00 (ou seja, VA = 50,00). Aplicandose as duas fórmulas, chegaremos a resultados muito distintos: Primeira interpretação da Lei Segunda interpretação da Lei Fl. 8549DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 11 19 9.430/96 e IN 32/01 9.430/96 (IN 243/2002) Fórmula de cálculo do PRL 60: ü PP = PR – L ü L = 60% (PR − VA) ü PP = PR − L − VA ü L = 60% * PR Aplicação das fórmulas ao exemplo proposto: L = 60% (100,00 – 50,00) PP = 100,00 – 30,00 L = 60% * 100,00 PP = 100,00 – 60,00 – 50,00 RESULTADO 70,00 10,00 A função de tais fórmulas é determinar se deverá ser realizado ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL. Se o custo do bem, serviço ou direito importado de parte vinculada for superior aos valores em questão, a parcela excedente deverá ser adicionada à base de cálculo do IRPJ e da CSL, pois não seria considerada dedutível. O exemplo demonstra que as referidas fórmulas conduzem a preços parâmetro muito distintos, de forma as operações consideradas arm’s length, conforme a primeira fórmula, seriam aquelas praticadas até o limite de “R$ 70,00”, enquanto que, para a segunda fórmula, possivelmente todas as importações estariam sujeitas a ajustes, pois o valor resultante como “PP” seria negativo, qual seja, “ R$ 10,00”, como se o importador pudesse, em condições de mercado, deixar de pagar pelos bens, serviços ou direitos e, ainda, receber troco. A doutrina há tempos denuncia essa divergência entre a IN 243/2002 e a Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, como se observa da análise de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2, em obra de referência sobre o tema dos preços de transferência: “7.8.2.2. A diferença pode ser explicada pelos seguintes motivos: Cálculo da ‘margem de lucro’: a divergência dos resultados da Lei n. 9.959/00 e da IN n. 243/02 decorre, em parte, porque a Lei, ao prescrever a fórmula de cálculo da ‘margem de lucro’, determina que o percentual de 60% incida sobre o valor integral do preço líquido de venda do produto diminuído do valor agregado no país. Já a Instrução Normativa, para o cálculo da mesma ‘margem de lucro’, determina que o percentual de 60% seja calculado apenas sobre a parcela do preço líquido de venda do produto referente à participação dos bens, serviços ou direitos importados, atingindo um resultado invariavelmente menor. Atua assim a IN n. 243/02 de forma inovadora e em flagrante excesso à Lei. Cálculo do ‘preçoparâmetro’: a expressão ‘preçoparâmetro’ é utilizada na legislação dos preços de transferência para denominar o preço obtido através do cálculo de um dos métodos prescritos e com o qual se deverá comparar o preço efetivamente praticado entre as partes relacionadas, na transação denominada ‘controlada’. O ‘preçoparâmetro’ é obtido de forma diversa na Lei n. 9.959/00 e na IN n. 243/02. Enquanto na Lei o limite do preço é estabelecido tomandose por base a totalidade do preço líquido de venda, a Instrução Normativa pretende que o limite seja estabelecido a partir, apenas, do percentual da parcela dos insumos importados no preço líquido de venda, o que claramente acaba por restringir o resultado almejado pelo legislador.” Do mesmo modo, as evidentes distinções em relação a essas fórmulas foram bem sintetizadas por LUCIANA ROSANOVA GALHARDO e ANA CAROLINA MONGUILOD3, in verbis: 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo : Dialética, 2006, p. 169. Fl. 8550DF CARF MF 20 “(i) enquanto a Lei n. 9.959/00 estabelece o cálculo da margem de lucro de 60% sobre o valor do preço líquido de venda, diminuindose o valor agregado, a IN 243/02 determinou a incidência da margem de 60% sobre a parcela do preço líquido de venda do produto referente à participação do bem importado; e (ii) enquanto a Lei determina que o preçoparâmetro corresponde à diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de 60%, a IN 243/02 estabeleceu que corresponde à diferença entre o valor da participação do bem importado no preço de venda do bem produzido e a margem de lucro de 60%. Assim, o preço parâmetro calculado sob a sistemática da IN 243/02 será menor, resultando em maior risco de ajustes nos lucros tributáveis da empresa brasileira, tendo em vista o provável excesso de preço pago no exterior”. Restando evidenciado que a IN 243/02 veicula fórmula diversa, supostamente vocacionada a “melhor” tratar do problema da proporcionalidade do insumo utilizado na produção do produto nacional, surge a questão crucial do presente recurso especial: a referida Instrução Normativa possui legitimidade para tanto e agiu nos lindes de sua competência regulamentar? É o que será analisado no tópico seguinte do deste voto. 3.3. As fontes formais do Direito tributário e o extravasamento das funções da IN 243/2002. O tema das fontes é fundamental ao Direito tributário pátrio. Nosso ordenamento apresenta peculiar complexidade estabelecida pela Constituição Federal, com elevado número de espécies normativas, cada qual com uma função própria, vocacionadas à impressão juridicidade, eficiência, segurança jurídica, inteligibilidade, coesão, coerência e completude ao sistema jurídico. Sob uma perspectiva formalística4, as referidas espécies normativas podem ser organizadas em fontes primárias5 e fontes secundárias6 do Direito tributário. A Lei n. 9.430/96 é fonte primária do Direito tributário. Em face do princípio da reserva legal, o legislador ordinário possui competência privativa para estabelecer o método de cálculo do preço parâmetro para possíveis ajustes à base de cálculo do IRPJ e da CSL, adotando como diretriz fundamental a tributação da renda conforme o acréscimo patrimonial. Como a fórmula de cálculo do PRL60 irá influenciar na composição da base de cálculo desses tributos, com potencial de redução dos custos dedutíveis na apuração do acréscimo patrimonial tributável, tratase de matéria sob a competência privativa do legislador ordinário. É o que se depreende da Constituição Federal, art. 150, I, e do Código Tributário Nacional, art. 97. A IN 243/2002, por sua vez, é fonte secundária do Direito Tributário, cuja função subalterna é de aclarar ou atribuir maior operacionalidade à norma prescrita pela Lei n. 9.430/96, que é a fonte primária. Notese que nenhuma das partes discorda da função limitada e secundária das Instruções Normativas: essa é uma questão de direito incontroversa nesse processo administrativo. 3 GALHARDO, Luciana Rosanova; MONGUILOD, Ana Carolina. A ilegalidade do mecanismo de aplicação do método PRL sob a IN 243/02, in Manual dos Preços de Transferência – celebração dos 10 anos de vigência da lei. São Paulo : MP, 2007, p. 241. 4 As fontes do Direito tributário podem também ser observada por uma perspectiva material, a qual não contribui imediatamente para o tema em análise. 5 Em especial: Constituição Federal, Lei Complementar, Lei Ordinária, Medida Provisória, Tratados Internacionais, Decreto legislativo, Decreto (casos especiais), Convênio, Resolução. 6 Em especial: Decreto regulamentar; Instruções Normativas; Portarias; Normas complementares. Fl. 8551DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 12 21 A questão que realmente desafia antagônicas posições neste processo administrativo é saber se a IN 243/02 extravasou os limites da Lei n. 9.430/96, descumprindo a sua função e restando despida de validade. De um lado, a administração fiscal atualmente argumenta que do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, seria possível abstrair ao mesmo tempo duas diferentes fórmulas, ainda que estas possam conduzir a resultados muito diferentes: a primeira fórmula seria aquela admitida pela IN 32/2001 e, a segunda, que supostamente daria fundamento à IN 243/2002. De outro lado, o contribuinte argumenta que apenas a fórmula indicada pela IN 32/2001 seria compatível com o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00. Assim, nenhuma das partes discorda que as normas prescritas pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com as alterações da Lei n. 9.959/2000, comportam a fórmula indicada pela IN 32/2001 para o cálculo do preço parâmetro apurado pelo método PRL60. A discordância se dá apenas em relação à fórmula prevista pela IN 243/2002, que é diferente. A discordância em questão exige o enfrentamento das seguintes questões: O legislador ordinário poderia outorgar à administração fiscal a escolha de uma entre diversas fórmulas para o cumprimento do método PRL60 de controle de preços de transferência? Se a resposta à questão precedente for positiva, o legislador ordinário efetivamente conferiu à administração fiscal tal outorga na vigência da Lei n. 9.430/96 com as alterações que lhe foram introduzidas com a Lei n. 9.959/2000? Se a resposta à questão precedente for positiva, a IN 243/2001 teria ou não adotado uma das possíveis fórmulas matemáticas comportadas pelos enunciados prescritivos do 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00? 3.3.1. A (im)possibilidade da outorga de discricionariedade à administração para o preenchimento de regras legais e a Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00. O princípio da legalidade em matéria tributária não requer que todos e quaisquer elementos necessários à operacionalização de uma norma tributária estejam expressa e exaustivamente previstos em lei ordinária. A adoção de cláusulas gerais ou conceitos indeterminados não representa uma ofensa a priori a esse princípio, pois não se pode exigir do legislador ordinário o fechamento da totalidade dos conceitos7. Também não se pode afastar, a priori, a possibilidade de o legislador ordinário outorgar à administração fiscal dispor sobre elementos que favoreçam a aplicação da norma tributária, com procedimentos que lhe tornem mais operacionais, palatáveis e socialmente mais eficazes. 7 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo : Saraiva, 2012, p. 290 e seg. Fl. 8552DF CARF MF 22 No entanto, não pode o Poder Legislativo delegar ao Poder Executivo a competência para a seleção dos elementos componentes da hipótese de incidência ou do consequente normativo (obrigação tributária). A indelegabilidade da competência tributária, norma constitucional tão bem delineada na obra de ROQUE ANTONIO CARRAZZA8, impede que o legislador ordinário transfira à administração fiscal a eleição dos critérios componentes da base de cálculo do tributo ou de outros elementos atinentes à ocorrência do fato gerador do tributo, à sua quantificação ou à identificação do sujeito passivo. Como a fórmula de cálculo do PRL60 irá tutelar o controle dos preços de transferência e influenciar na composição do lucro real (IRPJ) e da base de cálculo da CSL, apenas a lei ordinária é competente para prescrever os seus termos. Aceita essa premissa, qualquer divergência de uma instrução normativa em relação à lei deverá ser resolvida com a vitória da lei, pois o legislador ordinário possui a competência privativa e indelegável de decidir sobre a matéria. Logo, diante de uma divergência entre a IN 243/2002 e a Lei n. 9.430/96, esta última deveria ser aplicada sem questionamentos. Uma observação é necessária por dever de ofício: ainda que a assertiva do parágrafo anterior possa ser inconteste, caso o legislador ordinário descumpra o seu dever e delegue a sua competência à administração fiscal para a eleição dos elementos da base de cálculo do IRPJ e da CSL, em tese, os julgadores do CARF, por força regimental, poderiam vir a ser constrangidos ao acatamento dessa lei ordinária e ao cumprimento da norma infralegal, editada diretamente pelo fisco. Ocorre que o RICARF9 reserva ao Poder Judiciário reconhecer inconstitucionalidades. Ao aceitarse tal situação em tese, tornase imediatamente relevante ao julgador administrativo a análise do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, para verificar se, no caso concreto, há em seus enunciados a decisão clara do legislador ordinário de outorgar à administração fiscal a escolha da fórmula inerente ao método PRL60. No entanto, não há outorga expressa do legislador ordinário no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, para que a administração fiscal compusesse uma fórmula que “melhor” se prestasse ao controle dos preços de transferência. Pelo contrário, a referida fórmula foi expressamente prescrita pelo legislador ordinário no aludido dispositivo. Conforme evidenciado no tópico “2”, acima, o legislador ordinário conscientemente elegeu a função de cada um dos fatores componente da fórmula para o cálculo do PRL60, não deixando espaço de discricionariedade para a administração fiscal. As normas da Lei n. 9.430/96 que prescrevem a fórmula para o cálculo do PRL60 são autoaplicáveis, não tendo a sua eficácia condicionada a instruções normativas ou outros atos infralegais. Por consequência, a administração fiscal tem o dever observar a fórmula compreendida imediatamente da Lei n. 9.430/96 para o cálculo do PRL60. 3.3.1.1. A tese da pluralidade semântica da Lei 9.430/96 e do papel integrativo da IN 243/2002. 8 CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de direito constitucional. São Paulo : Ed. Malheiros, 2003, p. 425. “As competências tributárias são indelegáveis. Cada pessoa política recebeu da Constituição a sua, mas não a pode renunciar, nem delegar a terceiros. É livre, até, para deixar de exercitala; não lhe é dado, porém, permitir, mesmo que por meio de lei, que terceira pessoa a encampe.” 9 RICARF, art. 62: “Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade” Fl. 8553DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 13 23 Se não houve outorga expressa do legislador ordinário à SRF, o intérprete persistente poderia cogitar da adoção, pelo legislador ordinário, de termos dotados de indeterminação semântica que implicitamente conferiria à administração fiscal a prerrogativa de arquitetar uma nova forma de cálculo do PLR60. Naturalmente tal expediente poderia ser questionado mesmo no âmbito do CARF, pois coerentes argumentos poderiam colocar em dúvida uma delegação implícita de tal nível. Ainda assim, não me furto de expor essa investigação, pois o seu resultado corrobora com a conclusão do presente voto: os enunciados prescritivos da Lei n. 9.430/96 seriam eivados de dubiedade suficiente para comportar pluralidade de fórmulas matemáticas capazes de conduzir a resultados muito diferentes o método PRL60? Um único elemento de dúvida parece surgir dos enunciados prescritivos do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com as alterações que lhe foram introduzidas pela Lei n. 9.959/2000. Ocorre que o legislador ordinário acresceu ao artigo “o” a preposição “de”, no seguinte trecho abaixo sublinhado: “d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção;” Ao que tudo indica, tal fator não altera a conclusão de que a fórmula que decorre imediatamente do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com as alterações da Lei n. 9.959/2000, é aquela indicada pela IN 32/01. Tratase de mero erro de grafia do legislador, que não enseja pluralidade de sentidos quanto aos enunciados em questão. No entanto, a administração fiscal passou a suscitar que a preposição “de” teria o mérito de assegurar que a parcela do valor agregado fosse deduzida do próprio preço de venda e não da base de cálculo da margem de lucro. O passo seguinte a essa assunção seria a reestruturação do enunciado prescritivo, para “melhorálo” e tornálo compatível com a fórmula adotada pela IN 243/2002. Notese que o acatamento desse argumento, para a legitimação da IN 243/2001, demanda que o intérprete reordene a forma como as alíneas foram dispostas pelo legislador ordinário no art. 18, II, da Lei n. 9430/96, de modo a excluir a participação de parte do texto do item 1 da alínea “d” e, assim, “criar” uma nova alínea “e”, inexistente no texto aprovado pelo Congresso Nacional. Ou seja, para que a fórmula proposta pela IN 243/2001 pudesse ser suportada pela Lei n. 9.430/96 vigente à época dos fatos, o seu art. 18, II, deveria ser visualizado como se possuísse a seguinte redação: Fl. 8554DF CARF MF 24 (…) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (…) e) do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; A referida tese não esconde a sua complexidade. Concluída essa reestruturação do texto da art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, ainda não se chegaria à fórmula da IN 243/2002, pois novas concessões ainda deveriam ser feitas para acomodar as inovações na fórmula indicada pela SRF. Nesse seguir, a IN 243/2002 não assumiria apenas a função que originalmente lhe seria rotineira, de imprimir maior operacionalidade, tornar palatável a sua compreensão aos agentes fiscais. Essa instrução normativa teria função mais sofisticada, de traduzir uma linguagem do legislador ordinário que a todos se apresenta como inteligível, de forma a expressar, de forma escorreita, a verdadeira mensagem que, embora de dificílima compreensão para a sociedade em geral, não teria passado desapercebida aos olhos da SRF. Tal como um oráculo, a IN 243/2002, então, conduz a um rearranjo do art. 18, II, da Lei n. 9430/96, com a reconstrução estrutural do texto legal e a adoção de novos fatores nas fórmulas “traduzidas” pela IN 243/2002. Em uma espiada muito brusca, o referido exercício pode aparentar tratarse de “interpretação” ou mesmo assumir o propósito de “integração”. Contudo, uma análise mais acurada evidencia que a IN 243/02 NÃO leva a cabo qualquer expediente de integração, mas realmente inova em matéria inserida no âmbito de competência privativa do legislador ordinário. O expediente da integração, tutelado pelo art. 108 do CTN, “pressupõe uma lacuna a ser preenchida, i.e., a falta de decisão do legislador acerca de determinada situação”10. No caso, não há verdadeira lacuna no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. O legislador ordinário efetivamente manifestou decisão consciente quanto à formula a ser adotada para o cálculo do PRL60. A IN 243/02, em verdade, veicula uma segunda fórmula, capaz de alcançar resultados diversos da primeira e, com isso, desviase do plano normativo. Notese que um mero fator textual (acréscimo da preposição “de” ao objeto “o”), não é suficiente para se cogitar que esteja presente uma atribuição do legislador à SRF para que arquitetasse uma fórmula “melhor” ou de qualquer outra forma “diversa” daquela que se pode construir imediatamente do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. 10 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 675 e seg. Fl. 8555DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 14 25 É relevante repetir que a referida construção argumentativa, que supostamente daria suporte à IN 243/2002, conduz a uma fórmula muito distinta, com resultados extremamente dispares. E apenas por essa disparidade em relação à lei já deve o ato infralegal em questão ser desconsiderado. Merece destaque o seguinte trecho, do acima referido estudo elaborado por VLADIMIR BELITSKY, in verbis: “3. Quesito. A Procuradoria da Fazenda Nacional argumenta que a fórmula da Lei 9.430 é plurívoca e sugere que a IN 243 apenas decorre de uma das interpretações possíveis da Lei 9.430. Do ponto de vista da matemática, é possível afirmar que a IN 243 apenas interpreta a Lei 9.430? É possível deduzir a fórmula da IN 243 dos comandos contidos na Lei 9.430? Conforme já afirmamos na Constatação 3, não é verdade que a IN 243 é uma interpretação possível da Lei 9.430. Em sua defesa, a Fazenda Nacional emprega a fórmula em situações hipotéticas e dessas situações extrai conclusões genéricas. Essas conclusões são incorretas do ponto de vista matemático.” Na doutrina nacional, uma série de autores se opõe a essa (re)construção normativa. Nesse sentido, LUÍS EDUARDO SCHOUERI11 leciona, in verbis: “7.8.3.5.1. De imediato, devese notar que tal entendimento contrariaria a própria literalidade do método. Afinal, o legislador da Lei n. 9.430/96, com a redação da Lei n. 9.959/00, não acrescentou um quarto método àqueles aceitos para a apuração dos preços de transferência. Ou seja: o artigo 18 da referida Lei continuou contemplando, em seus três incisos, apenas três métodos. Nesse sentido, o que se teve foi, apenas, um desdobramento de um mesmo método: o método denominado, pelo próprio legislador, ‘Preço de Revenda menos Lucro’. Assim, pressupõese, pela literalidade do método, que se apure o preço parâmetro pela fórmula ‘preço de revenda (líquido de tributos, descontos e comissões) menos margem de lucro’. Tivesse o legislador a intenção de modificar a fórmula, para passar a ser fórmula ‘preço de revenda (líquido de tributos, descontos e comissões) menos margem de lucro menos valor agregado’, então no mínimo deveria ele, por coerência, deixar de chamar o método de ‘Preço de Revenda menos Lucro’.” Ainda que se considere possível abstrair mais do que uma fórmula do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, as seguintes constatações são suficientes para a desconsideração da fórmula indicada pela IN 243/2002: não há decisão expressa ou mesmo implícita do legislador ordinário para que a SRF procurasse arquitetar uma fórmula “melhor” do aquela que se compreende imediatamente do texto legal; 11 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo: Dialética, 2006, p. 169. Fl. 8556DF CARF MF 26 a interpretação sustentada, que daria suporte à IN 243/2002, parte de uma construção argumentativa complexa, que por si só coloca em dúvida a sua correção; os limites da IN 243/2002 estão adstritos à regulamentação administrativa da aplicação do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, para tornálo mais operacional, possibilitar uma mais palatável intelecção pelos agentes fiscais, esclarecer à sociedade interpretações específicas e, assim, dotar a norma legal de maior eficácia social. Qualquer previsão presente na IN 243/2002 que conduza ao incremento de ônus tributário, que não decorra da precedente decisão do legislador ordinário, devem ser desconsideradas. No subtópico seguinte, será analisada sob uma série de perspectivas a (in)compatibilidade da fórmula indicada pela IN 243/2002 com a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. 3.3.2. A (in)compatibilidade da fórmula indicada pela IN 243/2002 com a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação da Lei n. 9.959/2000. A fórmula indicada pela IN 243/2002, para o cálculo do método PRL60, é considerada por alguns como uma “melhoria” ao texto veiculado pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96: supostamente, terseia uma fórmula “melhor” para regular a aplicação da legislação de preços de transferência. Tais “melhorias”, no caso, converteriam os “preços de revenda menos lucro” (“PRL”) em “PRLVA” (preço de revenda menos lucro menos valor agregado). Ainda que se considere, por hipótese, que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, comporta mais do que uma fórmula matemática, seria preciso verificar se a IN 243/2002 teria adotado alguma destas (como sustenta a PFN) ou se teria extravasado os limites a que estaria adstrita (como sustenta o contribuinte). Os subtópicos seguintes apresentam fundamentos que conduzem à conclusão de que a fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo dos preços de transferência é incompatível com a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação da Lei n. 9.959/2000. 3.3.2.1. Incompatibilidades formais e a ofensa ao princípio da legalidade aferida por critérios objetivos. Não vem ao caso, nesse subtópico, saber se o comparativo de superioridade que adjetiva a fórmula indicada pela IN 243/02 seria “melhor” ou “pior”. Interessa, aqui, constatar que ambos os adjetivos comparativos pressupõem que a fórmula indicada pela IN 243/02 seja de algum modo ou grau diferente daquela estabelecida no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000. É por si só relevante ou mesmo decisivo ao julgador aferir que a fórmula indicada pela IN 243/2002 é “diferente” daquela veiculada no art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. Ocorre que a Instrução Normativa deveria assumir tão somente a função de tornar mais operacional a norma do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, possibilitar uma mais Fl. 8557DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 15 27 palatável intelecção pelos agentes fiscais e dotar a norma legal de maior eficácia social. Diante do monopólio reservado ao legislador ordinário para a decisão quanto à fórmula que deve ser adotada para o método PLR60, os pontos de distinção da IN 243/02 em relação à Lei 9.430/96 têm a validade fulminada de plano, reclamando desconsideração pelos aplicadores do Direito. Como se pôde observar no tópico “1”, acima, a Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000, NÃO autoriza uma série de elementos constantes na IN 243/2001, em especial: a exclusão do valor agregado no Brasil no cálculo do preço parâmetro. Conforme decisão do legislador ordinário, o valor agregado no País deveria ser subtraído do preço líquido de venda apenas para o cálculo da margem de lucro; atribuirse relevância ao percentual de participação dos bens importados no custo total do bem produzido e participação dos bens importados no preço de venda do produzido como fatores determinantes da margem de lucro e do preço parâmetro. Não obstante, por meio da IN 243/2002, a SRF não só tomou a decisão de eleger como fator determinante o percentual de participação dos bens importados no custo total do bem produzido na composição da fórmula de cálculo do PRL60, como também estipulou qual seria esse percentual de participação. Merece destaque o seguinte trecho, do já referido estudo elaborado por VLADIMIR BELITSKY, in verbis: “Constatação 3. A IN não pode seguir como uma direta interpretação da Lei 9.430/96; é inevitável o acréscimo de alguns postulados, pressupostos ou comandos à lei para que desta possa ser derivada a IN 243. Do ponto de vista da lógica matemática, esta constatação é a consequência da combinação de dois fatos já provados acima: de um lado, sabemos (cf. Constatação 2) que a fórmula da IN 243 é diferente da da Lei 9.430/96; de outro lado, sabemos (cf. Constatação 1 e sua demonstração) que cada fórmula é expressão algébrica, única e fiel, do respectivo normativo. Logo, nenhum dos normativos pode ser derivado do outro”. Como o tema em análise envolve fórmulas matemáticas, é contundente o parecer do referido Ph.D em Matemática Aplicada pelo Instituto Tecnológico de Israel e Professor Associado do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Se os matemáticos derivam uma determinada fórmula do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, mas uma outra fórmula da IN 243/2002, bem como afirmam que, sob o ponto de vista matemático, “nenhum dos normativos pode ser derivado do outro”, há evidência eloquente de que a Instrução Normativa divergiu da Lei, extravasando o seu âmbito de competência e infringindo a reserva legal. A IN 243/2001, como fonte secundária, teria a função de apenas atribuir maior operacionalidade, clareza e, assim, executar com fidelidade a fonte primária, que é a Lei 9.430/96. No entanto, a IN 243/2002 claramente nega eficácia à decisão do legislador ordinário, que supostamente não teria sido técnico o suficiente e dado ensejo a desequilíbrios. Correta ou não, cabe ao Poder Legislativo o monopólio da decisão sobre como será o controle dos preços de transferência no Direito tributário brasileiro. Antes de 1996, precisamente por decisão do legislador ordinário, sequer havia, no Brasil, qualquer Fl. 8558DF CARF MF 28 controle sobre os preços de transferência. A ele, legislador ordinário, cabe tratar privativamente sobre a tema em discussão. Dessa forma, por obstaculizar que os agentes fiscais executem adequadamente a decisão do legislador ordinário, veiculada pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000, a IN 243/2001 merece imediata repulsa. Como julgador administrativo, não afastar a aplicação da IN 243/2001 redundaria igualmente em negar eficácia à decisão enunciada pelo único agente competente para prescrever a fórmula de cálculo do PRL60, que é o legislador ordinário. Recusome a isso. Não se trata de saber qual das fórmulas é “melhor”: tratase de respeitar o monopólio da decisão detido pelo legislador ordinário. Esse entendimento encontra fundamento na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, como se observa desse trecho do conhecido voto do Min. ALIOMAR BALEEIRO, no RE 69784, in verbis: “A justiça é uma idéiaforça, no sentido de FOUILLÉ, mas varia no tempo e no espaço, senão de indivíduo. Fixao o legislador e o juiz há de aceitála como um autômato. Inúmeros Acórdãos do Supremo Tribunal Federal, declaram que lhe não é lícito corrigir a justiça intrínseca na lei, substituindose as escolhas do legislador.” A IN 243/2002 realmente violou o princípio da legalidade. Ao adotar fórmula diversa daquela prevista pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 e extravasar a sua função secundária e meramente regulamentar, a IN 243/2002 majorou tributos com o cerceamento da dedutibilidade do custo de bens, direitos e serviços importados de partes relacionadas e aplicados à produção em território brasileiro. Como a função precípua da CSRF é uniformizar entendimentos divergentes adotados pelas Turmas Ordinárias do CARF, insta observar que há uma série de decisões deste Tribunal que também concluíram ser ilegal a fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo do método PLR60, como se observa das seguintes ementas: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2004 Ementa: AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. NÃO CONHECIMENTO DA MATÉRIA. A propositura de ação judicial, com o mesmo objeto do processo administrativo, implica na desistência de discutir essa matéria na esfera administrativa. Aplicação da Súmula CARF nº 1. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. DEFINITIVIDADE. Considerase definitiva, na esfera administrativa, matéria não expressamente contestada. CÁLCULO DO PREÇO PARÂMETRO. MÉTODO PRL60 PREVISTO EM INSTRUÇÃO NORMATIVA. INAPLICABILIDADE. A função da instrução normativa é de interpretar o dispositivo legal, encontrandose diretamente subordinada ao texto nele contido, não podendo inovar para exigir tributos não previstos em lei. Somente a lei pode estabelecer a incidência ou majoração de tributos. A IN SRF nº 243, de 2002, trouxe inovações na forma do cálculo do preço parâmetro segundo o método PRL60%, ao criar variáveis na composição da fórmula que a lei não previu, concorrendo para a apuração de valores que excederam ao valor do preço parâmetro estabelecido pelo texto legal, o que se conclui pela ilegalidade da respectiva forma de cálculo. (CARF, Acórdão 1202000.835, sessão de 07.08.2012) Fl. 8559DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 16 29 NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. LEI. NORMAS COMPLEMENTARES. As normas postas pelo executivo para operacionalizar ou interpretar lei devem estar dentro do que a lei propõe e ser com ela compatível. FÓRMULAS PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PRL 60%. LEI N° 9.430. IN SRF N°32. IN SRF N°243. A IN SRF n° 32, de 2001, propõe fórmula idêntica a posta pela lei no 9.430, de 1996. A IN SRF n° 243, de 2002, desborda da lei, pois utiliza fórmula diferente da prevista na lei, inclusive mencionando variáveis não cogitadas pela lei. LANÇAMENTO. IN SRF N° 243. Os ajustes feitos com base na fórmula estabelecida na IN SRF n° 243, de 2002, que sejam maiores do que o determinado pela fórmula prevista na lei, não têm base legal e devem ser cancelados. (CARF, Acórdão 1101000.864, sessão de 07.03.2013) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2006 PESSOAS JURÍDICAS. EXTINÇÃO. RESULTADOS NEGATIVOS ACUMULADOS. COMPENSAÇÃO. LIMITE DE 30%. Os arts. 15 e 16 da Lei n° 9.065/95 autorizam a compensação de prejuízos fiscais e de bases de cálculo negativas da CSLL acumulados em períodos anteriores, desde que o lucro líquido do período, ajustado pelas adições e exclusões previstas nas legislações daqueles tributos, não seja reduzido em mais de 30%. O limite à compensação aplicase, inclusive, ao período em que ocorrer a extinção da pessoa jurídica, haja vista a inexistência de norma, ainda que implícita, que o excepcione. Assunto: Normas de Administração Tributária Anocalendário: 2006 SUCESSÃO. MULTA DE OFÍCIO. IMPOSIÇÃO. Devese afastar a multa de ofício imposta por infração cometida pela sucedida, mas lançada somente após ocorrida a sucessão, quando o Fisco não demonstra que sucedida e sucessora estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. (CARF, Acórdão 1201000.803, sessão de 07.05.2013) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2007 RECURSO DE OFÍCIO. EXONERAÇÕES PROCEDENTES. Não é digna de reparo a decisão que, amparada por diligência fiscal efetuada pela própria autoridade autuante, acolhe argumento da contribuinte acerca da ocorrência de erro de fato no fornecimento de dados utilizados na determinação da matéria tributável, e, por meio de controles internos, apura que parte das exigências formalizadas já são objeto de outro feito administrativo, caracterizando, assim, duplicidade de lançamento. RECURSO VOLUNTÁRIO. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PRL60. ILEGALIDADE DA IN SRF 243/2002. Restando reconhecida a ilegalidade das disposições da IN SRF 243/2002, especificamente no que se refere aos critérios por ela indicados para a quantificação do preçoparâmetro e os conseqüentes ajustes na aplicação do método PRL60 (sobretudo antes da publicação da Lei 12.715/2012), é de reconhecer, portanto, a completa invalidade do lançamento. (CARF, Acórdão 1301001.235, sessão de 13.06.2013) Fl. 8560DF CARF MF 30 Nesse mesmo sentido, há substancial consenso doutrinário quanto ao extravasamento da IN 243/2001 na regulamentação do PLR6012. Citese, por exemplo, GILBERTO DE CASTRO MOREIRA JR.13, in verbis: “Se compararmos as fórmulas acima, é possível verificar que a Instrução Normativa SRF 243/2002 reduziu consideravelmente o preço parâmetro que configura o limite de dedutibilidade para fins de IRPJ e CSLL, o que aumenta a base de cálculo das exações, sem qualquer fundamentação legal, ocasionando uma total incongruência com as disposições contidas na Lei n. 9.430/1996”. Por todos esses fundamentos já expostos, parece certo que a fórmula de cálculo do PRL60 indicada pela IN 243/2002 deve ser desconsiderada. 3.3.2.2. Incompatibilidades formais e o princípio da anterioridade em matéria tributária. Com o reforma de 2012, empreendida pela Lei n. 12.715 (dez anos após a edição da IN 243/2002), o legislador ordinário finalmente adotou enunciados que claramente prescrevem a adoção de uma fórmula diversa daquela adotada com a Lei n. 9.959/2000, mais apta a lidar com a proporção do insumo importado aplicado na produção nacional. Desse modo, somente após 10 anos da publicação da IN 243/2002 é possível identificar maior respaldo à fórmula então indicada pela SRF. Conforme dispõe a Constituição Federal e o Código Tributário Nacional, alterações legislativas: Como regra, devem respeitar o princípio da irretroatividade sempre que houver agravamento de ônus fiscal (CF, art. 150, III, “a”); Como regra, devem respeitar o princípio da anterioridade sempre que houver agravamento de ônus fiscal (CF, art. 150, III, “b”); Excepcionalmente, podem ter eficácia retroativa “quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados” ou, ainda, quando forem benéficas ao contribuinte (CTN, art. 106). A Lei n. 12.715/2012 inaugurou uma nova sistemática de cálculo do método PLR, com a decisão consciente do legislador de inovar o regime até então vigente e com o assumido potencial de aumento da carga tributária. Diante desse cenário, a fórmula para o cálculo do PRL que se obtém da norma enunciada pelo legislador ordinário na Lei n. 12.715/2012 deverá se submeter a dois corolários básicos do princípio da segurança jurídica: os princípios da anterioridade e da irretroatividade. O art. 78, da Lei n. 12.715/2012, expressamente resguardou a vigência da novel fórmula de cálculo do PLR para o dia 01.01.2013, fazendo referência específica à 12 Vide: GALHARDO, Luciana Rosanova; MONGUILOD, Ana Carolina. A ilegalidade do mecanismo de aplicação do método PRL sob a IN 243/02, in Manual dos Preços de Transferência – celebração dos 10 anos de vigência da lei. São Paulo: MP, 2007. 13 MOREIRA JR., Gilberto de Castro. Método do preço de revenda menos lucro no caso de agregação de valor no país. Confronto entre a Lei n. 9.430/1996 e a Instrução Normativa n. 243/2002, in Tributos e Preços de Transferência – 3o Volume. São Paulo: Dialética, 2009, p. 105. Fl. 8561DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 17 31 alteração que introduzira por meio seu art. 48 ao art. 18 da Lei n. 9.430/1996. É o que se observa textualmente na Lei n. 12.715/2012: Art. 48. Os arts. 12, 18, 19 e 22 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passam a vigorar com a seguinte redação: (…) Art. 78. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos: (…) § 1. Os arts. 48 e 50 entram em vigor em 1 de janeiro de 2013. Caso a Lei n. 12.715/2012 apenas confirmasse a norma introduzida pela Lei n. 9.959/2000, ratificando os método PLR60 até então vigente sem qualquer incrementar a obrigação tributária, então não seria necessário observar o princípio da anterioridade. Além disso, referida norma poderia ser considerada interpretativa, com efeitos retroativos. Mas não é o caso: por tratarse de decisão consciente do legislador ordinário em alterar a metodologia do PLR com potencial de aumentar o ônus tributário imposto à sociedade, a referida deve respeitar a anterioridade e não pode ser aplicada retroatividade. A exposição de motivos da MP n. 563/2012, que foi convertida na aludida Lei n. 12.715/12, demonstra com nitidez a decisão do legislador em alterar a norma até então vigente para o cálculo do PLR e adotar vacatio legis em respeito ao princípio da anterioridade, de aplicação obrigatória na hipótese de majoração do ônus de IRPJ e CSL: “56. A medida proposta também visa a aperfeiçoar a legislação aplicável ao Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas IRPJ e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL no tocante a negócios transnacionais entre pessoas ligadas, visando a reduzir litígios tributários e a contemplar hipóteses e mecanismos não previstos quando da edição da norma, atualizandoa para o ambiente jurídico e de negócios atual. Destarte, a legislação relativa aos controles de preços de transferência aplicáveis a operações de importação, exportação ou de mútuo, empreendidas entre entidades vinculadas, ou entre entidades brasileiras e residentes ou domiciliadas em países ou dependências de tributação favorecida, ou ainda, que gozem de regimes fiscais privilegiados, restará atualizada e aperfeiçoada com as alterações propostas. (...) 61. Como fruto de toda a experiência até então angariada no que concerne à aplicação de referidos controles, com o intuito de minimizar a litigiosidade FiscoContribuinte até então observada, e objetivando alcançar maior efetividade dos controles em questão, propõese alterações na legislação de regência. (...) 63. Como algumas das alterações introduzidas pelos arts. 38 e 40 da Medida Provisória podem implicar em aumento do tributo, em atenção ao princípio da anterioridade, foi estabelecido que a produção de efeitos ocorreria em 2013. O art. 42 do Projeto Medida Provisória possibilita que a pessoa jurídica opte pela aplicação das disposições contidas nos arts. 38 e 40 na apuração das regras de preços de transferência relativas ao anocalendário de 2012. A opção implicará na obrigatoriedade de observância de todas as alterações introduzidas pelos arts. 38 e 40.” Fl. 8562DF CARF MF 32 Assim, se a Lei n. 12.715/2012 apresenta alguma eficácia interpretativa, seria a de esclarecer que a fórmula adotada pela IN 243/2002 par o cálculo do PLR60 não encontrava fundamento de validade na vigência do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000, devendo ser mantida a incontroversa fórmula indicada pela IN 32/2001. No caso concreto sob julgamento, o período de apuração relevante é 2003, não sendo de forma alguma aplicáveis as normas da Lei n. 12.715/2012, o que atentaria contra o princípio da irretroatividade da lei tributária. Para o período relevante, é preciso reconhecer que a IN 243/2002 extravasou os limites a que estaria adstrita. É necessário aplicar diretamente a norma prescrita pelo art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/2000, tal como interpretada pela IN 32/2001, que restou incontroversa. 3.2.3. Incompatibilidades materiais e a ofensa ao princípio da igualdade e da capacidade contributiva. Embora evidências matemáticas e demais constatações expostas nos subtópicos anteriores sejam suficientes para o afastamento da fórmula indicada pela IN 243/02 para o cálculo do PRL60, há ainda outras evidências jurídicas que justificam a desconsideração do ato infralegal. Há incompatibilidades materiais da IN 243/02 em face da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000. A administração fiscal deve agir nos estritos limites normativos atinentes à matéria dos preços de transferência, respeitando os princípios e regras consagrados pelo legislador ordinário. E há, no caso da legislação dos preços de transferência, princípios e regras que não podem ser ignorados, especialmente pertinente à igualdade tributária e à capacidade contributiva. Nesse ponto, é importante fazer referência à seguinte passagem do estudo de LUÍS EDUARDO SCHOUERI14, que toca alguns dos elementos essenciais para a solução do recurso especial em análise, in verbis “1.3.9. É, pois, sob pena de caracterizar o arbítrio, que o legislador se vê obrigado a eleger princípios e, uma vez escolhidos, aplicálos conscientemente. 1.3.10. Especialmente em matéria tributária, surge como princípio parâmetro, escolhido pelo próprio constituinte, a capacidade contributiva. Nesse sentido, deve a tributação partir de uma comparação das capacidades econômicas dos potenciais contribuintes, exigindose tributo igual de contribuinte em equivalente situação. Por óbvio, tal princípio somente se concretiza quando é possível compararemse os contribuintes. 1.3.11. No caso de transações entre pessoas vinculadas, entretanto, as realidades econômicas comparadas são diversas, frustrandose qualquer comparação. 1.3.12. A diversidade acima apontada resulta da circunstância de as transações entre partes vinculadas não terem passado pelo mercado, como o fizeram as empresas independentes. 1.3.13. Assim, podese dizer que enquanto a moeda constante nas contas das empresas com transações controladas está expressa em unidades ‘reais de grupo’, empresas independentes têm seus resultados expressos em ‘reais de mercado’. 14 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no Direito tributário brasileiro. São Paulo : Dialética, 2006, p. 1415. Fl. 8563DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 18 33 1.3.14. Nesta perspectiva, o papel da legislação de preços de transferência é apenas ‘converter’ valores expressos em ‘reais de grupo’ para ‘reais de mercado’, possibilitando, daí, uma efetiva comparação entre contribuintes com igual capacidade econômica. 1.3.15. Nesse sentido, verificase que a legislação de preços de transferência não distorce resultados da empresa. Apenas ‘converte’ para uma mesma unidade de referência (‘reais de mercado’) a mesma realidade expressa noutra unidade. 1.3.16. Nesse contexto, as disposições de controle de preços de transferência da Lei n. 9.430/96 somente se justificam caso corroborem essa conversão acima referida, o que se dá mediante a aplicação do princípio arm’s length, que será verificado mais profundamente nos capítulos posteriores. Vale dizer, caso a aplicação da lei ou de sua regulamentação em um caso concreto extrapole os limites dessa conversão, isso deverá ser considerado uma desobediência ao princípio constitucional da igualdade e da capacidade contributiva e, portanto, a aplicação nesse caso deverá ser corrigida ou até mesmo desconsiderada.” (negrito acrescido ao original) É fundamental para a matéria em análise, então, compreender que a legislação brasileira dos preços de transferência busca precisamente neutralizar a desigualdade nas operações entre partes vinculadas. Nos casos em que o método PLR60 seriam aplicáveis, a aludida norma se voltaria exclusivamente às operações de importação realizadas por empresas vinculadas e que, por meio de ajuste de preços de venda de bens, serviços ou direitos, apresentassem a potencialidade de transferir resultados ao exterior sem a correspondente tributação. Se era esse o objetivo do legislador ordinário, é de difícil aceitação que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 teria prescrito critérios de eliminação de desigualdades tão voláteis e indeterminados que possibilitassem à administração fiscal exigir ajustes a partir preços parâmetros compreendidos em um intervalo de “ R$10,00” a “R$ 70,00”. Ocorre que o princípio da igualdade vivificado pelo padrão arm’s length, pressupõe a eleição consciente, pelo legislador ordinário, de critérios de distinção aptos a tratar semelhantes de forma equivalente, com os ajustes que se façam necessários na base de cálculo do IRPJ e CSL para a corrigir diferenciações injustificadas. A tese de que, dos enunciados do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, seria possível abstrair duas fórmulas capazes de conduzir a preços parâmetros tão dispares (“10,00” ou “70,00”, por exemplo), conflita por si só com o princípio da igualdade, pois torna insustentável a sua concretização. Na verdade, o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, efetivamente elegeu expressamente os critérios de distinção que, conforme a sua decisão, seriam aptos para vivificar o princípio da igualdade e da capacidade contributiva. A “segunda fórmula” indicada pela IN 243/2002, então, enfraquece arbitrariamente o princípio da igualdade, pois nega eficácia jurídica aos critérios de distinção eleitos pelo legislador ordinário (art. 18, II, da Lei n. 9.430/96), a quem compete o monopólio da decisão quanto à fórmula que deve ser adotada para o método PLR60. Nesse seguir, ao advogar que a Lei n. 9.430/96 teria concedido tamanha discricionariedade à administração, a PFN pode estar suscitando a ocorrência de delegação de competência tributária, o que é vedado pela Constituição Federal (art. 150) e pelo CTN (art. Fl. 8564DF CARF MF 34 97). Se a lei tivesse permitido a adoção de fórmulas que tão dispares, possivelmente a constitucionalidade de tal lei poderia inclusive vir a ser questionada perante o Poder Judiciário. 3.3.2.4. Incompatibilidades materiais e a falácia dos “fins” que justificariam os “meios”. O julgamento do presente recurso especial pode dar ensejo a um deslize no processo de concretização do Estado de Direito: relativizar o princípio da legalidade (meio), para que o Brasil conte com uma norma de preço de transferência supostamente “melhor” e vocacionada a aferir adequadamente os preços de mercado, inclusive com a consideração proporcional dos insumos importados de partes vinculadas (fins). Como já se constatou acima, esse argumento de que “os fins justificam os meios” esbarra no princípio da estrita legalidade em matéria tributária. No entanto, tendo em vista a importância do tema, não se pode deixar de investigar se os referidos “fins” apregoados para a legitimação da IN 243/2002 realmente teriam potencial de concretização. Sob a perspectiva matemática, o estudo desenvolvido pelo Prof. Dr. VLADIMIR BELITSKY, acima citado, apresentou as seguintes conclusões: “2. Quesito. A Fazenda Nacional alega que a fórmula da IN 243 corrige defeitos da Lei 9.430. Essa afirmação é correta do ponto de vista da matemática? Não. Essa manobra é parecida com os argumentos desvendados no quesito anterior, mas ela precisa ser tratada separadamente pois a derivação de sua conclusão é mais complexa. Na essência do método, mostrase que a fórmula da Lei 9.430 apresenta falhas as quais são corrigidas na fórmula da IN 243. A inadequação deste método como argumento em prol da eficácia da IN 243 está na omissão do fato de que a fórmula definida por esse normativo possui falhas semelhantes às da fórmula da Lei 9.430.” Também merece destaque o seguinte trecho, colhido da citada “Constatação 5” do mesmo estudo, in verbis: “(i) a fórmula da IN 243 resulta no valor de PP menor que o valor declarado do bem importado se e somente se a margem de lucro em cima de todos os insumos em conjunto for de 60%; (ii) a fórmula da IN 243 resulta no valor de PP igual ao valor declarado do bem importado se e somente se a margem de lucro em cima de todos os insumos em conjunto for menor que 60%; (iii) a fórmula da IN 243 resulta no valor de PP maior que o valor declarado do bem importado se e somente se a margem de lucro em cima de todos os insumos em conjunto for maior que 60%;” Notese, ainda, a conclusão do mesmo matemático em relação a esse outro quesito que lhe foi apresentado, in verbis: “1. Quesito. A Fazenda Nacional alega que a aplicação da IN 243 pode ser benéfica aos contribuintes. Essa afirmação tem sustentação matemática? A alegação da Fazenda Nacional de que ‘... a metodologia prevista na IN SRF n. 243/2002 pode ser considerada benéfica ao importador’ (...) está errada pois sabemos, conforme provado em minha Constatação 5, que a fórmula da IN 243 acarreta ajuste tributário e, consequentemente, tributação, toda vez que a lucratividade da produção for inferior a 60%. (...)” Fl. 8565DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 19 35 Conclui o matemático que “a fórmula da IN 243 falha em apurar o valor justo do Preço Parâmetro a partir de valores de produtos corretamente declarados pelo contribuinte quando a margem de lucro efetiva sobre o PLV for menor que 60%”. A evidência matemática, então, aclara que a fórmula indicada pela IN 243/2002 não soluciona problemas presentes na fórmula legal, imediatamente construída a partir do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 9.959/2000. Além disso, como evidenciou o matemático, a fórmula da IN 243/2002 tem o potencial de agravar o ônus fiscal sobre o contribuinte. Assim, se a IN 243/02 apresenta outros vícios, inclusive formais, que justificam a sua desconsideração para a apuração do PRL60, também é possível observar vícios materiais que a tornam imprópria para o controle dos preços de transferência. Voto, portanto, para DAR PROVIMENTO ao recurso especial do contribuinte quanto a este item. 4. A inclusão ou não das despesas de frete, seguro e tributos incidentes na importação no preço praticado O teceiro tema suscitado pela recorrente em seu recurso especial diz respeito à inclusão ou não das despesas de frete, seguro e tributos incidentes na importação no preço praticado 4.1. A legislação aplicável ao caso concreto. A matriz legal da legislação brasileira dos preços de transferência é a Lei n. 9.430/96, com as sucessivas alterações que lhe foram realizadas. Nela estão contemplados os diferentes métodos de controle dos preços de transferência, que consistem em fórmulas e regras para a determinação se deve ou não ser realizado ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL e, ainda, de quanto seria o referido ajuste. O art. 18 da Lei n. 9.430/96 prevê regras aplicáveis em geral a todos os métodos de preços de transferência: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (…) § 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. O caput do dispositivo estabelece que dois fatores devem conjugarse para a incidência das normas de preços de transferência: (i) operações realizadas com pessoas vinculadas; Fl. 8566DF CARF MF 36 e (ii) operações de importação. Como apenas quando esses dois fatores estiverem simultaneamente presentes deverão ser aplicada as normas de controle e ajuste prescritas pela Lei n. 9.430/96, tratase de um binômio essencial para a aplicação da legislação dos preços de transferência. O conceito de “pessoa vinculada” foi estabelecido pelo art. 23 da Lei n. 9.430/96: Art. 23. Para efeito dos arts. 18 a 22, será considerada vinculada à pessoa jurídica domiciliada no Brasil: I a matriz desta, quando domiciliada no exterior; II a sua filial ou sucursal, domiciliada no exterior; III a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, cuja participação societária no seu capital social a caracterize como sua controladora ou coligada, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; IV a pessoa jurídica domiciliada no exterior que seja caracterizada como sua controlada ou coligada, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; V a pessoa jurídica domiciliada no exterior, quando esta e a empresa domiciliada no Brasil estiverem sob controle societário ou administrativo comum ou quando pelo menos dez por cento do capital social de cada uma pertencer a uma mesma pessoa física ou jurídica; VI a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que, em conjunto com a pessoa jurídica domiciliada no Brasil, tiver participação societária no capital social de uma terceira pessoa jurídica, cuja soma as caracterizem como controladoras ou coligadas desta, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; VII a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que seja sua associada, na forma de consórcio ou condomínio, conforme definido na legislação brasileira, em qualquer empreendimento; VIII a pessoa física residente no exterior que for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge ou companheiro de qualquer de seus diretores ou de seu sócio ou acionista controlador em participação direta ou indireta; IX a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que goze de exclusividade, como seu agente, distribuidor ou concessionário, para a compra e venda de bens, serviços ou direitos; X a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, em relação à qual a pessoa jurídica domiciliada no Brasil goze de exclusividade, como agente, distribuidora ou concessionária, para a compra e venda de bens, serviços ou direitos. A Instrução Normativa SRF n. 38, de 30.04.97, estabeleceu a seguinte orientação em seu art. 4o, § 4o: Art. 4º Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, nas importações de empresa vinculada, não residente, de bens, serviços ou direitos, a pessoa jurídica importadora poderá optar por qualquer dos métodos referidos nesta Seção exceto na hipótese do § 1º, independentemente de prévia comunicação à Secretaria da Receita Federal. § 1º A determinação do preço a ser utilizado como parâmetro, para comparação com o constante dos documentos de importação, quando o bem, serviço ou direito houver sido adquirido para emprego, utilização ou aplicação, pelo Fl. 8567DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 20 37 própria empresa importadora, na produção de outro bem, serviço ou direito, somente será efetuada com base nos métodos de que tratam os arts. 6° e 13. § 1o A determinação do preço a ser utilizado como parâmetro, para comparação com o constante dos documentos de importação, quando o bem, serviço ou direito houver sido adquirido para emprego, utilização ou aplicação, pela própria empresa importadora, na produção de outro bem, serviço ou direito, será efetuada com base nos métodos de que tratam o art. 6o , o § 10 do art. 12 e o art. 13." (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 113, de 19 de dezembro de 2000) § 2º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, devendo o método adotado pela empresa ser aplicado, consistentemente, por bem, serviço ou direito, durante todo o período de apuração. § 3º A dedutibilidade dos encargos de depreciação ou amortização dos bens e direitos fica limitada, em cada período de apuração, ao montante calculado com base no preço determinado por um dos métodos de que tratam os arts. 6º e 13. § 4º Na determinação do custo de bens adquiridos no exterior, poderão, também, ser computados os valores do transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação. Ocorre, no entanto, que a Instrução Normativa SRF n. 243, de 11.11.2002 (doravante “IN 243”), estabeleceu a seguinte orientação em seu art. 4o, § 4o: Art. 4º Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, nas importações de empresa vinculada, nãoresidente, de bens, serviços ou direitos, a pessoa jurídica importadora poderá optar por qualquer dos métodos de que tratam os arts. 8º a 13, exceto na hipótese do § 1º, independentemente de prévia comunicação à Secretaria da Receita Federal. § 1º A determinação do preço a ser utilizado como parâmetro, para comparação com o constante dos documentos de importação, quando o bem, serviço ou direito houver sido adquirido para emprego, utilização ou aplicação, pela própria empresa importadora, na produção de outro bem, serviço ou direito, somente será efetuada com base nos métodos de que tratam o art. 8º, a alínea "b" do inciso IV do art. 12 e o art.13. § 2º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, devendo o método adotado pela empresa ser aplicado, consistentemente, por bem, serviço ou direito, durante todo o período de apuração. § 3º A dedutibilidade dos encargos de depreciação, exaustão ou amortização dos bens e direitos fica limitada, em cada período de apuração, ao montante calculado com base no preço determinado por um dos métodos de que tratam os arts. 8º a 13, vedada a utilização do método de que trata o art. 12, se não houver revenda. § 4º Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, calculado com base no método de que trata o art. 12, serão integrados ao preço praticado na importação os valores de transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e os de tributos não recuperáveis, devidos na importação. § 5º Nos preços apurados com base nos métodos dos arts. 8º e 13, os valores referidos no § 4º poderão ser adicionados ao custo dos bens adquiridos no exterior desde que sejam, da mesma forma, considerados no preço praticado, para efeito de comparação. Fl. 8568DF CARF MF 38 A aludida orientação da IN 243, em seu art. 4o, § 4o, corresponde justamente ao núcleo da discussão do recurso especial ora em julgamento. Prosseguindo com a revisão da legislação aplicável ao caso, notese que a Medida Provisória n. 478, de 29.12.2009, atribuiu a seguinte redação ao referido § 6o: § 6o Integram o custo de aquisição, para efeito de cálculo do preço médio ponderado a que se refere o inciso III do caput, o valor do transporte e do seguro até o estabelecimento do contribuinte, cujo ônus tenha sido do importador, e os impostos não recuperáveis incidentes nessas operações e demais gastos com o desembaraço aduaneiro. No entanto, a MP 478/2009 não foi convertida em Lei e, conforme o Ato Declaratório do Presidente da Mesa do Congresso Nacional nº 18/2010, vigorou apenas até 01.06.2010. Em 2012, finalmente, foram introduzidas alterações no dispositivo pela Lei n. 12.715: § 6. Não integram o custo, para efeito do cálculo disposto na alínea b do inciso II do caput, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador, desde que tenham sido contratados com pessoas: I não vinculadas; e II que não sejam residentes ou domiciliadas em países ou dependências de tributação favorecida, ou que não estejam amparados por regimes fiscais privilegiados. § 6oA. Não integram o custo, para efeito do cálculo disposto na alínea b do inciso II do caput, os tributos incidentes na importação e os gastos no desembaraço aduaneiro. 4.2. A dedutibilidade do frete, seguro e tributos incidentes na importação. Com olhos exclusivamente à regra geral de dedutibilidade prevista art. 47 da Lei n. 4.506/64, o frete, o seguro e os tributos incidentes sobre a importação devem ser dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSL, pois se tratam indubitavelmente de dispêndios necessários, normais e usuários à respectiva atividade operacional do contribuinte. Quanto aos tributos incidentes sobre a importação, devese destacar a regra do artigo 41 da Lei nº 8.981/95, que prescreve expressamente a sua dedutibilidade. É preciso, contudo, verificar se o legislador de algum modo interferiu na dedutibilidade de tais dispêndios necessários, normais e usuais da pessoa jurídica. O art. 18, § 6º, da Lei n. 9.430/96, estabelece norma expressa quanto à dedutibilidade dos custos do importador com frete, seguro e tributos incidentes na importação: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: Fl. 8569DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 21 39 (…) § 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. O legislador prescreveu expressamente que frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação e suportados pelo importador brasileiro, ainda que os produtos importados tenham sido adquiridos de partes dependentes, devem ser consideradas custos dedutíveis pelo importador. Significa dizer que os dispêndios com frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação, pagos a pessoas não vinculadas, não integram o preço parâmetro para fins de preços de transferência, devendo ser considerados dedutíveis independentemente de ajustes. De forma analítica, em situações como a do caso concreto, na qual há uma operação de importação realizada entre partes vinculadas (aquisição do produto importado) e um conjunto de deveres e obrigações decorrentes e periféricos relacionados a partes não vinculadas (frete, seguro e tributos), é possível identificar dois estágios distintos: (i) controle dos preços de transferência, com a aplicação sobre as operações controladas de um dos métodos previstos na legislação para a composição do preço parâmetro e, se for o caso, a realização de ajustes, com adição do montante excedente ao aludido preço parâmetro; (ii) efetiva dedução dos custos com a importação, que corresponderá ao preço dos produtos importados ajustado (ou não) conforme os métodos de preços de transferência, acrescido dos efetivos custos com frete, seguro e tributos incidentes na importação. A não incidência da legislação de preços de transferência para a limitação das despesas dedutíveis a título de frete, seguro e tributos pode ser justificada, ainda, pelas razões expostas nos subtópicos seguintes. 4.2.1. O escopo de aplicação da legislação fiscal de preços de transferência. O binômio essencial prescrito pelo art. 18, caput, da Lei n. 9.430/96, é determinante ao escopo das normas de preços de transferência, pois corresponde às condições essenciais para a sua incidência: tais normas alcançam operações realizadas por pessoas jurídicas brasileiras com (i) partes vinculadas (ii) residentes em outros países. Conforme se verifica dos autos, o contribuinte contratou a aquisição de determinados bens, fornecidos por uma empresa vinculada residente no exterior. Não há dúvida, portanto, que a aquisição dos aludidos bens está sujeita ao controle da legislação dos preços de transferência. O contrato de aquisição celebrado pelo contribuinte previa a sua responsabilidade pela contratação do frete e seguro necessários para a entrega dos produtos, bem como pelo recolhimento dos tributos incidentes na importação. Cumprindo com a sua obrigação contratual, a Recorrente contratou de terceiros, sem nenhum vínculo evidenciado nestes autos, o frete e o seguro, bem como arcou com os impostos de importação. Fl. 8570DF CARF MF 40 No caso dos autos, a autoridade fiscal compreendeu que o frete, o seguro e os impostos pagos deveriam submeterse ao controle dos preços de transferência. Coerentemente, insta verificar se tais situações encontramse sob o escopo do binômio essencial prescrito pela Lei n. 9.430/96. Quanto ao frete, foi firmado contrato com empresa estrangeira, o que preenche um dos dois critérios de incidência da norma de preços de transferência. No entanto, a empresa contratada para a realização do frete internacional não possui vínculo com o contribuinte, o que inviabiliza o preenchimento do binômio essencial de incidência da Lei n. 9.430/96. O seguro, por sua vez, foi contratado de empresa nacional, o que por si só já faz sucumbir o preenchimento do binômio essencial de incidência da Lei n. 9.430/96. Ainda que assim não fosse, a seguradora contratada não possui vínculo com o contribuinte, o que reforça ainda mais a sua não aderência à legislação de preços de transferência. Por fim, os tributos sobre a importação, conforme é notório, são devidos à União e aos Estados, que obviamente não são estrangeiros e nem são vinculados ao contribuinte. É o princípio da legalidade, em sua acepção mais explícita, que impede que se estenda a sanção normativa da Lei n. 9.430/96 ao frete, seguro e tributos incorridos pelo Recorrente, pois nenhuma dessas situações preenche o binômio que seria essencial, qual seja, (i) operação com partes vinculadas (ii) residentes em outros países. Essa mesma conclusão vêm sendo explicitada pela doutrina15. Citese GERD WILLI ROTHMANN16, para quem os valores de frete e seguro “não entram no cálculo do preço de transferência, nas duas modalidades (CIF e FOB), nem o imposto de importação. Se os custos efetivos de frete e seguro forem suportados pelo importador/revendedor (FOB), os mesmos poderão ser integralmente deduzidos para os efeitos do imposto de renda, da mesma forma que o imposto de importação”. Conforme esse professor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), in verbis: “Assim, as deduções do preço médio de venda, para se chegar ao preço líquido de venda, são, exclusivamente, as previstas em lei: a) descontos incondicionais; b) impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) comissões e corretagens pagas; d) ‘margem de lucro’ (20% ou 60%). Esta margem de revenda, impropriamente chamada de ‘margem de lucro’, compreende somente os custos decorrentes da função do próprio revendedor, tais 15 Vide, por exemplo: SCHOUERI, Luis Eduardo. Preços de transferência no direito tributário brasileiro. 3ed. rev. e atual. São Paulo: Dialética, 2013, p. 287 e seg.; ROTHMANN, Gerd Willi. Preços de transferência – método do preço de revenda menos lucro: base CIF (+II) ou FOB. A margem de lucro (20% ou 60%) em processos de embalagem e beneficiamento. In: Revista Dialética de Direito Tributário, n. 165, jun/2009. São Paulo: Dialética; KRAKOWIAK, Ricardo. Preços de transferência: o método PRL e as despesas com frete, seguro e imposto de importação. In: Tributos e preço de transferência, 3º vol. SCHOUERI, Luis Eduardo (coord.) São Paulo: Dialética, 2009; BORGES, Alexandre Siciliano; ANDRADE JR., Luiz Carlos. Preços de transferência: o método PRL e os valores referentes a frete, seguro e tributos. In: Revista Eletrônica de Direito Tributário da ABDF. vol. 01, nº 5, ano 2011. 16 ROTHMANN, Gerd Willi. Preços de transferência – método do preço de revenda menos lucro: base CIF (+II) ou FOB. A margem de lucro (20% ou 60%) em processos de embalagem e beneficiamento. In: Revista Dialética de Direito Tributário, n. 165, jun/2009. São Paulo: Dialética, p. 5456. Fl. 8571DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 22 41 como armazenamento, publicidade e, eventualmente, o ‘valor agregado’ em produção no País. Daí podemos concluir: a) Nem as despesas com frete, nem com seguro e, muito menos, o imposto de importação (que é receita da Administração Fiscal!) constam da lista taxativa das deduções para efeito de apuração do preço líquido de venda que, deduzida a ‘margem de lucro’, resulta no ‘preçoparâmetro’, ou seja, no preço hipotético de transferência. b) As despesas com frete e seguro e o imposto de importação não constituem custos decorrentes das funções desempenhadas pelo revendedor, mas são custos da importação, que não entram na apuração da margem de revenda. Como não entram no cálculo do hipotético ‘preçoparâmetro’, mas representam custos efetivos, os valores relativos a frete, seguro e ao imposto de importação, desde que seu ônus tenha sido do importador/revendedor (ou seja, na modalidade ‘FOB’), podem ser integralmente deduzidos para os efeitos de imposto de renda. Na modalidade CIF, o valor de frete e seguro já está embutido no ‘preço parâmetro’, de modo que não pode ser considerado, novamente, como despesa dedutível. Neste contexto, cabe apenas uma observação: se, na modalidade FOB, o transporte e o seguro são contratados com empresa coligada da matriz fornecedora da mercadoria, os respectivos valores pagos estão sujeitos à observância da legislação de preços de transferência.” No caso dos autos, o frete, o seguro e os tributos pagos ou incorridos na importação realizada pelo contribuinte não preenchem, como se explicitou, os requisitos essenciais para que sejam tutelados regras de controle de preços de transferência. 4.2.2. A incompatibilidade da inclusão de fretes, seguro e tributos no cálculo do preço parâmetro para fins de preços de transferência. É conhecida a máxima jurídica de que os textos jurídicos não devem ser interpretados de tal forma que conduzam ao absurdo. Compreendo que ser ela aplicável ao caso ora sob julgamento. O art. 18 inaugura a “Seção V” da Lei n. 9.430/96, que tem como Título “Preços de Transferência” e subtítulo “Bens, Serviços e Direitos Adquiridos no Exterior”. O referido dispositivo tutela de forma geral todos os métodos para a apuração do preço parâmetro, os quais, como já exposto, determinam se ajustes devem ou não ser realizados na base de cálculo do IRPJ e da CSL. Por conseguinte, a conclusão alcançada no julgamento do presente caso – no se discute se frete, seguro e tributos devem ser incluídos na composição do preçoparâmetro do método PRL – devem ser igualmente coerente com os métodos PIC e CPL, igualmente tutelados pela regra geral do art. 18 da Lei n. 9.430/96. A máxima de que os textos jurídicos não devem ser interpretados de tal forma que conduzam ao absurdo emerge quando se analisa os efeitos da inclusão de frete, seguro e tributos incidentes na importação na composição do preço parâmetro do método CPL, que apura o preçoparâmetro a partir do custo do exportador, acrescido de uma margem de 20%. Fl. 8572DF CARF MF 42 Como se ressaltou acima (tópico “1”), o objetivo da legislação de preços de transferência é “converter” os valores expressos em “reais de grupo” para valores “reais de mercado”, de tal forma que haja uma efetiva comparação entre contribuintes com capacidade contributiva equivalente. Nesse seguir, a legislação prevê que, para a composição do preço parâmetro pelo método CPL, deverá ser considerado o custo do exportador, acrescido da margem de 20%. Em outras palavras, a margem de lucro bruta adotada no método CPL, limitada ao máximo de 20%, deveria incluir, além do lucro líquido e de todas as despesas do exportador que não estejam incluídas em seu custo, também o frete, o seguro e os tributos incidentes na importação. Permissa vênia, a incongruência dessa interpretação salta aos olhos diante do fato de que os tributos brasileiros incidentes na importação facilmente podem, sozinhos, ultrapassar a margem de lucro bruto de 20% estabelecida pelo método CPL. 4.3. O extravasamento das funções da IN 243/2002, em cotejo às fontes formais do Direito tributário O tema das fontes é fundamental ao Direito tributário pátrio. Nosso ordenamento apresenta peculiar complexidade estabelecida pela Constituição Federal, com elevado número de espécies normativas, cada qual com uma função própria, vocacionadas à impressão juridicidade, eficiência, segurança jurídica, inteligibilidade, coesão, coerência e completude ao sistema jurídico. Sob uma perspectiva formalística17, as referidas espécies normativas podem ser organizadas em fontes primárias18 e fontes secundárias19 do Direito tributário. A Lei n. 9.430/96 é fonte primária do Direito tributário. Em face do princípio da reserva legal, o legislador ordinário possui competência privativa para estabelecer o método de cálculo do preço parâmetro para possíveis ajustes à base de cálculo do IRPJ e da CSL, adotando como diretriz fundamental a tributação da renda conforme o acréscimo patrimonial. Como a fórmula de cálculo preço parâmetro irá influenciar na composição da base de cálculo desses tributos, com potencial de redução dos custos dedutíveis na apuração do acréscimo patrimonial tributável, tratase de matéria sob a competência privativa do legislador ordinário. É o que se depreende da Constituição Federal, art. 150, I, e do Código Tributário Nacional, art. 97. A IN 243/2002, por sua vez, é fonte secundária do Direito Tributário, cuja função subalterna é de aclarar ou atribuir maior operacionalidade à norma prescrita pela Lei n. 9.430/96, que é a fonte primária. A aludida instrução normativa, contudo, extravasou as suas funções ao prever, em seu art. 4o, § 4o, a inclusão do frete, seguro e tributos atinentes à importação na composição do preço parâmetro do método PRL. 17 As fontes do Direito tributário podem também ser observada por uma perspectiva material, a qual não contribui imediatamente para o tema em análise. 18 Em especial: Constituição Federal, Lei Complementar, Lei Ordinária, Medida Provisória, Tratados Internacionais, Decreto legislativo, Decreto (casos especiais), Convênio, Resolução. 19 Em especial: Decreto regulamentar; Instruções Normativas; Portarias; Normas complementares. Fl. 8573DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 23 43 Permissa vênia, a instrução normativa não expressou uma possível interpretação que se pudesse abstrair do texto legal. E ainda que se pudesse argumentar alguma mensagem implícita do legislador descortinada pela IN 243/2002, é preciso ter claro que exceções ou limitações à regra geral de dedutibilidade – prescrita pelo art. 47 da Lei n. 4.506/64 e pelo art. 41 da Lei nº 8.981/95 – devem ser expressas. E o que há, de forma expressa (Lei n. 9.430/96, art. 18, § 6º) é a dedutibilidade dos dispêndios do importador com frete, seguro e tributos incidentes na importação. Dessa forma, não resta outra alternativa senão desconsiderar a recomendação veiculada pelo art. 4o, § 4o, da IN 243/2002. 4.4. A jurisprudência administrativa sobre a inclusão ou não das despesas de frete, seguro e tributos incidentes na importação no preço praticado O entendimento ora exposto encontra respaldo em uma série de julgados administrativos deste Tribunal, como por exemplo: Acórdão nº 10809763, de 13/11/2008. ‘Embora as despesas de fretes e seguros tenham sido incluídos nos documentos de importação, em se tratando de despesas necessárias, usuais e normais para o tipo de atividade desenvolvida pelo sujeito passivo, cuja dedutibilidade está prevista na legislação, estas despesas devem ser neutras para a apuração do preço de transferência no Método PRL’ Acórdão nº 110200.302, de 01/09/2010. IRPJ CSLL PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO (PRL) FRETES, SEGUROS E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO Os valores de frete, seguro e imposto de importação são custos efetivos do contribuinte que não foram pagos diretamente a pessoas vinculadas e, deste modo, não podem fazer parte do preço parâmetro. Acórdão nº 110200.302, de 16/05/2011 IRPJ – CSLL – PREÇO DE TRANSFERÊNCIAS – MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO (PRL) – FRETES, SEGUROS E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO – Os valores de frete, seguro e imposto de importação são custos efetivos do contribuinte que não foram pagos diretamente a pessoas vinculadas e, deste modo, não podem fazer parte do preço parâmetro. Notese que os aludidos exemplos se alinham aos fundamentos do acórdão n. 910101.166, prolatado por esta CSRF em 12.09.2011: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. INSTRUÇÃO NORMATIVA. VINCULAÇÃO. INOBSERVÂNCIA. NULIDADE. A autoridade administrativa, ao efetuar o lançamento, está vinculada à Instrução Normativa, bem como ao direito por ela conferido ao contribuinte. Fl. 8574DF CARF MF 44 PREÇO DE TRANSFERÊNCIA PRL INCLUSÃO DE CUSTOS COM FRETE, SEGURO E IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO NA APURAÇÃO DO CUSTO — A IN SRF n° 38/97, em seu artigo 4°, § 4°, estabelece que a inclusão dos valores de frete, seguro e imposto de importação na composição do custo é uma faculdade do contribuinte importador. Pela vinculação da autoridade administrativa ao referido ato normativo, deve tal faculdade ser respeitada, sob pena de nulidade do lançamento. No aludido julgado desta CSRF, embora tenha sido considerado o quanto disposto na IN SRF nº 38/97, a i. Conselheira Relatora KAREM JUREIDINI DIAS, inclusive por não ter havido alterações na Lei 9.430/96 sobre a matéria, explicitou coerentes fundamentos para a análise de casos abrangidos também pela IN 243/2002, in verbis: “A despeito dos posicionamentos acima referidos, pareceme que o cerne da questão gira em torno de erro semântico na adoção dos termos "preço praticado" e "preço parâmetro". Pareceme, data maxima venia, que há equivoco na transposição da disposição acerca do preço praticado para parâmetro e viceversa. Ora, preço parâmetro é aquele apurado segundo um dos métodos estipulados por presunção legal. Em se tratando de presunção legal, ao menos a princípio (a depender de prova contundente em contrário), e por princípio, vale o quanto estipulado para cada um dos métodos. Já o preço praticado é aquele submetido à revisão por um dos métodos de apuração do preço de transferência. Logicamente, quanto maior o preço parâmetro menor o ajuste, porque menor a diferença entre o valor do preço parâmetro e do preço praticado no caso da importação. Não há, portanto, que se falar em inclusão de frete e seguro no preço praticado a depender da inclusão no prego parâmetro, já que o prego parâmetro é presunção legal. Nessa toada, a despeito do moralmente irreparável entendimento que caminha no sentido de aproximar o método de apuração do preço parâmetro da realidade, fato é que a conclusão diverge do que determina o ordenamento jurídico. (...) Poderseia entender que a lei não tratou da inclusão do montante pago à titulo de frete e seguro não efetuados com pessoa vinculada, seja em face da redação do caput do seu artigo 18, seja porque o método do prego de transferência só se aplica nas operações efetuadas com pessoa vinculada.” Tanto sob a égide da IN 38/96 quanto da IN 243/2002, não restam dúvidas quanto ao acerto dos citados julgados, que reconheceram a legitimidade de o contribuinte não incluir, no cálculo do seu preço parâmetro, os valores que tenha suportado a título de frete, seguro e tributos incidentes na importação. 5. Dispositivo do voto. Por todo o exposto, voto no sentido de dar PROVIMENTO INTEGRAL ao recurso especial interposto pelo contribuinte, a fim de reformar o acórdão a quo. (assinatura digital) Conselheiro Luís Flávio Neto, relator Fl. 8575DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 24 45 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Redator designado. Em que pesem as razões expostas pelo Relator em seu voto, peço licença para delas divergir. 1) Da Alegada Obrigatoriedade de Adoção do Método Mais Benéfico ao Sujeito Passivo Alega a recorrente que o auditorfiscal, ao desconsiderar o método CPL, deveria obrigatoriamente adotar o método a ela mais benéfico, nos termos do art. 18, §4º, da Lei nº 9.430/96, ao invés de empregar diretamente o método PRL, que lhe era mais conveniente. Sobre o assunto o referido art. 18, §§ 4º e 5º, da Lei nº 9.430/96 assim estabelece: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) §4º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente. §5º Se os valores apurados segundo os métodos mencionados neste artigo forem superiores ao de aquisição, constante dos respectivos documentos, a dedutibilidade fica limitada ao montante deste último. (...) Não há dúvida de que a norma sob exame (§4º) é destinada aos contribuintes, atribuindolhes a faculdade de empregar, dentre os três métodos de cálculo do preçoparâmetro (PIC, PRL e CPL), aquele que resulte em maior dedução (menor tributação). Mas não há nada nessa norma que autorize a interpretação defendida pela recorrente segundo à qual a fiscalização tem o dever de realizar o lançamento mediante o emprego do método mais benéfico ao sujeito passivo. Tal interpretação, definitivamente, não encontra amparo no texto legal. No caso, o sujeito passivo, apesar de intimado e por diversas vezes reintimado pela fiscalização a apresentar as memórias de cálculo que demonstrassem o rateio dos custos indiretos relativamente aos produtos submetidos ao método CPL, deixou de fazêlo, razão pela qual não restou outra alternativa à autoridade fiscal senão apurar o preço parâmetro Fl. 8576DF CARF MF 46 utilizando as informações de que dispunha, quais sejam, o preço de revenda dos produtos, daí porque empregou o método PRL. Seria portanto absurdo imaginar que, nessa hipótese em que o sujeito passivo deixa de cumprir o seu dever de demonstrar o preçopraticado pelo método por ele próprio eleito, o art. 18, §4º, da Lei nº 9.430/96 viesse atribuir à autoridade fiscal o dever de calcular o preçoparâmetro por todos os três métodos para, só então, verificando dentre eles qual é o mais benéfico ao sujeito passivo, realizar, se for o caso, o lançamento. Não é preciso dizer que, se assim fosse, a auditoria fiscal dos preços de transferência encontraria severas dificuldades, ou mesmo seria impossível em certos casos. Ocorre que o procedimento adotado pela autoridade tributária encontra previsão no a seguir transcrito art. 40, parágrafo único, da Instrução Normativa nº 243/2002, que nada mais faz do que reproduzir o que já haviam estabelecido as Instruções Normativas nos 32/2001 e 38/1997: PROCEDIMENTOS DE FISCALIZAÇÃO Art. 40. A empresa submetida a procedimentos de fiscalização deverá fornecer aos AuditoresFiscais da Receita Federal (AFRF), encarregados da verificação: I a indicação do método por ela adotado; II a documentação por ela utilizada como suporte para determinação do preço praticado e as respectivas memórias de cálculo para apuração do preço parâmetro e, inclusive, para as dispensas de comprovação, de que tratam os arts. 35 e 36. Parágrafo único. Não sendo indicado o método, nem apresentados os documentos a que se refere o inciso II, ou, se apresentados, forem insuficientes ou imprestáveis para formar a convicção quanto ao preço, os AFRF encarregados da verificação poderão determinálo com base em outros documentos de que dispuserem, aplicando um dos métodos referidos nesta Instrução Normativa. (g.n.) Em assim sendo, correto o procedimento adotado pela fiscalização no caso sob exame, ao promover o lançamento com base nas informações de que dispunha. 2) Da Instrução Normativa SRF nº 243/2002 Legalidade do Método PRL60 Alega a recorrente ser ilegal o método PRL previsto na Instrução Normativa SRF nº 243/2002, no que concerne aos produtos importados destinados exclusivamente à aplicação na industrialização de outros bens (PRL60). Diz que referida ilegalidade devese ao fato de o mencionado ato normativo ter modificado, em prejuízo para os sujeitos passivos, a forma de cálculo do preçoparâmetro PRL60 estabelecida no art. 18 da Lei nº 9.430/96. A questão da dita ilegalidade da IN SRF 243/2002 quanto à regulamentação do PRL60 é complexa, daí porque vamos examinála por partes. 2.1) O Método PRL60 e a Lei nº 9.430/96 Antes mesmo de examinarmos a suscitada ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 frente à Lei nº 9.430/96, questão essa que será objeto do item seguinte, é imprescindível Fl. 8577DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 25 47 identificarmos o que realmente estabelece a própria Lei nº 9.430/96 acerca do PRL60. Isso porque é impossível identificarmos a existência, ou não, de violação de uma lei por um ato normativo se sequer sabemos exatamente o que a lei prescreve. Partamos, então, do texto legal: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) No caso, duas interpretações bem distintas acerca do art. 18 da Lei nº 9.430/96 vêm sendo defendidas no presente processo. A seguir, a representação matemática dessas duas interpretações, conforme equações (3A) e (3B) demonstradas, respectivamente, nos anexos 1 e 2 deste voto: (3A) PParamImpB = 40%*PLVenBP + 60%*VA (3B) PParamImpB = 40%*PLVenBP VA No anexo 3 deste voto demonstrase matematicamente que a interpretação proposta pela recorrente (3A) resulta em adições ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real, sempre iguais ou inferiores àquelas derivadas da interpretação defendida pelo Fisco (3B). No anexo 4 encontrase uma tabela exemplificativa dessas diferenças. A interpretação (3A), advogada pela recorrente, também vinha sendo adotada pelo próprio Fisco, inicialmente por meio da Instrução Normativa SRF nº 38/1997, com a redação dada pela Instrução Normativa SRF nº 113/2000, depois revogada pela Instrução Normativa SRF nº 32/2001, a qual manteve o mesmo entendimento sobre o assunto. Com o advento da Instrução Normativa SRF nº 243/2002, o Fisco passou a refutar essa interpretação. Fl. 8578DF CARF MF 48 A interpretação (3B) é aquela que, a meu juízo, corretamente reproduz as exigências contidas no art. 18 da Lei nº 9.430/96. São ao menos dois os argumentos que sustentam essa afirmação, a saber: Argumento Linguístico Para melhor compreendermos, sob o ponto de vista meramente linguístico, o art. 18 da Lei nº 9.430/96, é necessário recordarmos que, em sua redação original, essa norma não albergava o PRL60, mas tãosomente os métodos de cálculo do preçoparâmetro PIC (inciso I), PRL com margem de 20% (inciso II) e CPL (inciso III), senão vejamos: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda; III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescido dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. (...) O cálculo do preçoparâmetro PRL com margem de 60% só passou a ter existência jurídica a partir do advento da Lei nº 9.959/2000, que deu nova redação ao art. 18 da Lei nº 9.430/96. O texto legal em sua nova redação, reconheçase, acaso lido apressadamente, conduz à interpretação ora defendida pela recorrente, segundo a qual o valor agregado no país compõe a margem de lucro (vide equação (2A) no anexo 1). Ocorre que uma leitura atenta do texto legal revela que o valor agregado no país não compõe a margem de lucro (vide equações (2B) e (3B) no anexo 2). Os trechos da norma abaixo negritados deixam clara essa afirmação: Fl. 8579DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 26 49 II Método do Preço de Revenda menos LucroPRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) De fato, se o valor agregado compusesse a margem de lucro, a expressão “valor agregado no País” contida no texto legal deveria estar precedida do artigo “o”, como abaixo simulado, e não da preposição “do”, como visto acima. II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e o valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) Argumento LógicoEconômico Se sob a ótica linguística o equívoco da interpretação defendida pela recorrente só pode ser constatado através de uma leitura mais atenta do texto legal, sob o ponto de vista lógico essa mesma interpretação revelase manifestamente equivocada. Veja que o art. 18 da Lei nº 9.430/96 estabelece as regras para apuração do preçoparâmetro, o qual é conceituado como o preço que seria praticado na importação de um determinado bem, acaso essa operação fosse realizada entre pessoas não vinculadas. No caso do PRL60, o preçoparâmetro do bem importado é apurado a partir do preço de venda de um determinado bem produzido no Brasil, bem esse em cujo processo Fl. 8580DF CARF MF 50 produtivo foi empregado o referido bem importado, adquirido de uma pessoa vinculada no exterior. Em outras palavras, no preço de venda do bem produzido no país logicamente está incluído o custo de aquisição do bem importado (CIF + Trib. s/imp.), o valor agregado no país e a margem de lucro do empresário (Preço de Venda = Custo do Prod. Imp. + Valor Agreg. + Margem de Lucro). É uma lógicaeconômica do modelo capitalista que, na formação do preço de venda de um produto qualquer, o empresário embuta ali todos os custos incorridos, mais uma margem de lucro. Isso posto, é lógico que, para apurarse o preçoparâmetro do bem importado pelo PRL60, é necessário que, do preço de venda do bem produzido sejam subtraídas as parcelas referentes ao valor agregado no país e à margem de lucro, tal como demonstrado nas equações (1B) a (3B) do anexo 2. Ocorre que, pela interpretação defendida pela recorrente, para fins do cálculo do preçoparâmentro PRL60, o valor agregado no país, ao invés de ser subtraído do preço de venda do bem produzido, é a ele adicionado, conforme comprovam as equações (1A) a (3A) do anexo 1. Tal interpretação, evidentemente, subverte a lógicaeconômica, daí porque não pode ser admitida. Isso posto, seja com base no argumento linguístico, seja com fundamento no argumento lógicoeconômico, a correta interpretação do cálculo preçoparâmetro PRL60 previsto na Lei nº 9.430/96 é aquela aqui sustentada, e representada matematicamente pelas equações (1B) a (3B) do anexo 2, e não aquela defendida pela recorrente e representada matematicamente pelas equações (1A) a (3A) do anexo 1. 2.2) Da Alegação de Ilegalidade da IN SRF 243/2002 Como dito anteriormente, a partir do advento da Instrução Normativa SRF nº 243/2002 o Fisco abandonou a interpretação que até então vinha emprestando ao art. 18 da Lei nº 9.430/96, no que toca ao cálculo do preçoparâmetro PRL60, passando a adotar uma nova interpretação. Alega a recorrente que essa nova interpretação é incompatível com os ditames art. 18 da Lei nº 9.430/96, devendo, portanto, ser afastada por este Conselho. Vejamos, então, o que prescreve o art. 12 da IN SRF 243/2002. Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; Fl. 8581DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 27 51 b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. (...) § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. A representação matemática do cálculo do preçoparâmetro PRL60, segundo a Instrução Normativa SRF nº 243/2002, encontrase no anexo 5 a este voto. Pois bem, conforme visto no item 2.2.2 deste voto, considerada incorreta a interpretação da ora recorrente sobre o art. 18 da Lei nº 9.430/96, a questão da legalidade ou ilegalidade da IN SRF 243/2002 deve ser examinada frente à correta interpretação daquela norma, conforme representação matemática presente no anexo 2. Isso posto, em primeiro lugar cabe destacar que o cálculo do preçoparâmetro PRL60, conforme estabelecido na IN SRF 243/2002, resulta em adições ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real, sempre iguais ou inferiores àquelas exigidas pelo art. 18 da Lei nº 9.430/96, conforme matematicamente demonstrado no anexo 6. No anexo 7 apresentase uma tabela com as diferenças encontradas em um exemplo hipotético. Fl. 8582DF CARF MF 52 Em segundo lugar é necessário recordar que o princípio da legalidade tributária contido no art. 150, I, da Constituição, abaixo transcrito, veda a exigência ou o aumento de tributo sem lei que o estabeleça, mas não veda a redução de tributo já instituído por lei. Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; (...) E esse é exatamente o caso em questão, pois, como a aplicação do PRL60, conforme estabelecido pela IN SRF 243/2002, resulta em exigência de IRPJ e CSLL sempre igual ou inferior àquela decorrente da correta interpretação do art. 18 da Lei nº 9.430/96, não há que se falar em aumento de tributo, daí porque também não há violação ao princípio da legalidade tributária. 3) Da Inclusão dos Valores de Frete, Seguro e Tributos sobre a Importação Ao auditar os cálculos dos preços de transferência segundo o método PRL, a autoridade verificou que a ora recorrente deixara de agregar ao preço de aquisição (FOB) de cada produto importado os valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Por entender que tal conduta violava o disposto no art. 4º, § 4º, da Instrução Normativa SRF nº 243/2002, promoveu a inclusão daqueles valores no cálculo do preço praticado. Em sua defesa a recorrente alega, primeiramente, que a inclusão dos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação no cálculo do preço praticado macula o disposto no art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96. Pois bem, sobre o assunto o art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96 assim prescreve: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor Fl. 8583DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 28 53 agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (...) § 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. (...) O art. 18, caput, estabelece que o custo sujeito a ajuste em razão da regra de preços de transferência é o preço de aquisição do produto importado junto à pessoa vinculada residente no exterior. Por sua vez, o §6º da norma estabelece que o preço praticado é o preço de aquisição do produto acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Isso posto, ao contrário do alegado pela recorrente, o art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96 expressamente estabelece que no preço praticado incluemse os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Argumenta a recorrente, também, ser incorreta a interpretação de que o art. 18 da Lei nº 9.430/96 estabeleça a inclusão dos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação no cálculo do preço praticado. Afirma que, como os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação não decorrem de operações com pessoas ligadas, não podem ser eles afetados por ajustes relativos a preços de transferência. Quanto a essa alegação há que se dizer, em primeiro lugar, que a recorrente não logrou êxito em demonstrar adequadamente o papel que, em sua interpretação, desempenha o parágrafo 6º da norma o qual, como dito antes, expressamente estabelece que no preço praticado incluemse os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Dito de outro modo, a “interpretação” do art. 18 defendida pela recorrente, a meu ver, não se sustenta como interpretação propriamente dita, nos exatos termos em que esse vocábulo é compreendido no âmbito da Ciência do Direito20. Mas digamos que, de fato, também seja possível interpretarse o art. 18 da Lei nº 9.430/96 do modo sustentado pela recorrente, ou seja, no sentido de que os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação não integram o preço praticado. Nesse hipótese teríamos, então, duas interpretações possíveis da mesma norma e, em sendo assim, haveríamos de verificar qual das duas é a interpretação “correta”. E será considerada “correta” aquela que melhor atender aos métodos de hermenêutica jurídica acolhidas pelo Direito. Passemos então a examinar as duas interpretações quanto à sua correção. 20 Sobre o conceito de interpretação jurídica e seus limites vide, por todos, Karl Larenz in Metodologia da Ciência do Direito, 3ª ed., pg. 439 e ss. Fl. 8584DF CARF MF 54 No que concerne à interpretação proposta pela recorrente, percebese ser ela fruto de um componente finalístico, qual seja, que as normas de preço de transferência têm como finalidade regular operações realizadas entre pessoas residentes no país e pessoas a ela ligadas, residentes no exterior. Em assim sendo, não seria finalidade da norma regular operações de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação pois, via de regra, não são elas realizadas entre pessoas vinculadas. Ocorre que, ao contrário do afirmado pela defesa, a inclusão dos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação no cálculo do preço praticado não significa que tais operações estejam sendo submetidas às regras de preços de transferência. Mais especificamente, apesar de tais valores integrarem o preço praticado, não são eles objeto de adição ao lucro real. Não é demais lembrar que tanto o preço de aquisição do produto importado, quanto valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação, são custos integralmente dedutíveis na apuração do lucro líquido do período. A adição ao lucro real, a título de preços de transferência, limitarseá à diferença positiva verificada entre o preço praticado e o preço parâmetro. Como se verá adiante, os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação entram no cálculo do preço praticado apenas para fins de possibilitar sua comparação com o preçoparâmetro calculado segundo o método PRL, pois neste também estão incluídos os mesmos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Isso posto, a interpretação proposta pela contribuinte não se sustenta pois a inclusão dos valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação no cálculo do preço praticado de modo algum significa que tais operações estejam sendo submetidas a controle por preços de transferência. Por outro lado, a interpretação do art. 18 da Lei nº 9.430/96, albergada pelo art. 4º, § 4º, da Instrução Normativa SRF nº 243/2002, e empregada pela autoridade fiscal no caso sob exame, também é fundada em um componente finalístico, qual seja, possibilitar a comparação entre preço praticado e preçoparâmetro, conforme já adiantado acima. A questão da comparabilidade entre o preço praticado na importação de produtos junto a pessoas vinculadas, e aquele que seria praticado em operações entre pessoas não vinculadas, está no cerne do princípio do arm’s lenght. Tanto é assim que o OECD Transfer Pricing Guidelines dedica todo o seu capítulo III ao exame desta matéria. De fato, o objetivo da comparação entre o valor de uma transação realizada entre pessoas vinculadas, e o valor da mesma transação realizada entre pessoas não vinculadas, é a identificação do quanto a vinculação afetou o valor da transação sob exame. Tendo sido inspirado no princípio do arm’s lenght, o art. 18 da Lei nº 9.430/96 não poderia ser corretamente interpretado acaso não fosse dada a devida importância à questão da comparabilidade entre o preço praticado e o preçoparâmetro. No caso do método PRL o preçoparâmetro inclui os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Tomemos, por exemplo, o método PRL aplicado à simples revenda de produtos importados junto a pessoas vinculadas (PRL20). As conclusões a seguir, entretanto, valem igualmente para o caso de o bem importado ser empregado na industrialização de outro produto (PRL60). Fl. 8585DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 29 55 Pois bem, o pressuposto para o emprego do PRL20 é que o produto seja revendido a uma pessoa não vinculada, em condições de livre mercado. Em transações entre pessoas não vinculadas e em condições de livre mercado, é lícito pressupor que o revendedor (no caso, a contribuinte) procurará obter uma remuneração por sua atividade, ou seja, procurará obter lucro. O PRL20 estipula que a margem bruta de lucro em tais condições é de 20% o que, em verdade, é uma taxa bastante baixa pois implica uma margem de lucro líquido para o empresário bem inferior a 20%, haja vista a necessidade de dedução de despesas administrativas, despesas com vendas etc. A partir, então, do preço de revenda do produto, deduzido da margem bruta de lucro de 20% prevista em lei, chegase ao custo estimado de aquisição produto numa operação entre pessoas não vinculadas, ou simplesmente preçoparâmetro PRL20. Notese que, assim calculado, esse custo (o preçoparâmetro PRL20) inclui não só o preço estimado de aquisição do produto (FOB), como também os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação deste produto. Resumindo, preçoparâmetro PRL20 é um preço CIF + Trib. s/imp. Isso posto, a comparação direta entre o preço de aquisição do produto junto à pessoa vinculada (preço da declaração de importação FOB) e o preçoparâmetro PRL20 (CIF + Trib. s/imp), como quer a recorrente, seria de todo inútil ao fim a que se destina a lei de preços de transferência, qual seja, verificar, mediante comparação entre aqueles preços, se o sujeito passivo está, ou não, reduzindo artificialmente o lucro apurado no Brasil por meio de aquisições de produtos junto a sua vinculada no exterior a preços superiores aos de mercado. Nesse sentido, para corretamente compararse o preço de aquisição com o preçoparâmetro PRL20, é necessário que ambos estejam em pé de igualdade. Para tanto, apenas para efeito dessa comparação, é necessário, adicionarse ao preço de aquisição (preço da declaração de importação FOB), os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Fazendo isso obteremos o preço praticado de que cuida o parágrafo 6º do art. 18 da Lei nº 9.430/96. O importante é ter em conta que, como dito antes, os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação não foram glosados pela autoridade. O que o auditor fez foi adicionar ao lucro líquido, para apuração do lucro real, a parcela do preço de aquisição do produto excedente ao preço que o produto seria adquirido em condições de mercado. Os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação integraram tanto o preço praticado como o preçoparâmetro, com vistas a possibilitar a comparação entre ambos. Poderiam, ainda, não compor nem o preço praticado nem o preço parâmetro, tal como recomendado pelo OECD Transfer Pricing Guidelines, que o resultado da adição ao lucro real seria o mesmo. O que não se admite, nem sob o ponto de vista jurídico, nem sob o ponto de vista lógico, é realizarse uma comparação entre preço praticado e preçoparâmetro em que os valores de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação estejam incluídos neste, mas não naquele, ou viceversa. Ou bem são incluídos em ambos (como prevê o art. 18, § 6º, da Lei nº 9.430/96), ou bem não são incluídos em nenhum dos dois (como sugerido no OECD Transfer Pricing Guidelines). 4) Conclusão Fl. 8586DF CARF MF 56 Tendo em vista todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso especial do sujeito passivo. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 8587DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 30 57 Anexo 1 Art. 18 da Lei nº 9.430/96 PRL60 Representação Matemática da Interpretação Defendida pela Recorrente (1A) PParamImpB = PLVenBP – ML, onde: PParamImpB é o preço parâmetro, definido como sendo o preço que seria praticado na importação do bem B, se a importadora no Brasil e a exportadora no exterior fossem pessoas não vinculadas. PLVenBP é o preço líquido de venda do bem BP produzido pela pessoa jurídica no Brasil, e em cujo processo produtivo foi empregado o bem B, importado de pessoa vinculada no exterior. A venda de BP é realizada a pessoas não vinculadas. Ademais, PLVenBP é igual ao preço bruto de venda de BP deduzidos os descontos incondicionais concedidos, os impostos e contribuições incidentes sobre a vends, as comissões e corretagens pagas. ML é a margem de lucro do empresário com a venda do bem BP. (2A) ML = 60%*(PLVenBP VA), onde: VA é o “valor agregado no País” Substituindose ML contido na equação (1A) por ML conforme descrito na equação (2A) temse o seguinte: PParamImpB = PLVenBP – 60%*(PLVenBP VA) PParamImpB = PLVenBP – 60%*PLVenBP + 60%*VA (3A) PParamImpB = 40%*PLVenBP + 60%*VA A adição ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real será: (4A) Adição = PPratImpB – PParamImpB, onde: Adição, quando positiva, é o valor que deverá ser adicionado ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real. Quando negativa, não haverá adição na determinação do lucro real. PPratImpB é o preço de aquisição do bem importado B, acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes na importação. Por fim, substituindose PParamImpB contido na equação (3A) por PParamImpB conforme descrito na equação (4A), temse: Adição = PPratImpB – (40%*PLVenBP + 60%*VA) (5A) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP 60%*VA Fl. 8588DF CARF MF 58 Anexo 2 Art. 18 da Lei nº 9.430/96 PRL60 Representação Matemática da Interpretação Correta (1B) PParamImpB = PLVenBP – ML VA PParamImpB é o preço parâmetro, definido como sendo o preço que seria praticado na importação do bem B, se a importadora no Brasil e a exportadora no exterior fossem pessoas não vinculadas. PLVenBP é o preço líquido de venda do bem BP produzido pela pessoa jurídica no Brasil, e em cujo processo produtivo foi empregado o bem B, importado de pessoa vinculada no exterior. A venda de BP é realizada a pessoas não vinculadas. Ademais, PLVenBP é igual ao preço bruto de venda de BP deduzidos os descontos incondicionais concedidos, os impostos e contribuições incidentes sobre as vendas, as comissões e corretagens pagas. ML é a margem de lucro do empresário com a venda do bem BP. VA é o “valor agregado no País” (2B) ML = 60%*PLVenBP Substituindose ML contido na equação (1B) por ML conforme descrito na equação (2B) temse o seguinte: PParamImpB = PLVenBP – 60%*PLVenBP – VA (3B) PParamImpB = 40%*PLVenBP VA A adição ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real será: (4B) Adição = PPratImpB – PParamImpB Adição, quando positiva, é o valor que deverá ser adicionado ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real. Quando negativa, não haverá adição ou exclusão na determinação do lucro real. PPratImpB é o preço de aquisição do bem importado B, acrescido dos valores incorridos a título de frete, seguro e tributos incidentes na importação. Por fim, substituindose PParamImpB contido na equação (3B) por PParamImpB conforme descrito na equação (4B), temse: Adição = PPratImpB – (40%*PLVenBP – VA) (5B) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP + VA Fl. 8589DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 31 59 Anexo 3 Art. 18 da Lei nº 9.430/96 PRL60 Adição ao Lucro Real Representação Matemática Interpretação da Recorrente vs. Interpretação Correta O objetivo do presente anexo é demonstrar matematicamente que o PRL60 previsto no art. 18 da Lei nº 9.430/96, segundo a interpretação defendida pela recorrente (anexo 1), resulta em adições ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real, sempre iguais ou inferiores àquelas decorrentes da correta interpretação da mesma norma. Para tanto, partiremos das equações (5A) e (5B) presentes nos anexos 1 e 2, respectivamente. O símbolo <>, abaixo empregado, representa a relação entre a equação (5A), no lado esquerdo, e a equação (5B), no lado direito. (5A) <> (5B) (5A) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP 60%*VA (5B) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP + VA PPratImpB – 40%*PLVenBP 60%*VA <> PPratImpB – 40%*PLVenBP + VA Ora, como a parcela (PPratImpB – 40%*PLVenB) é igual em ambos os lados da relação, fica claro que, para todos os valores positivos de VA (e seria absurdo admitirse valor agregado negativo), a adição em (5A) será sempre inferior à adição em (5B). Ademais, a adição em (5A) será igual à adição em (5B) em apenas duas hipóteses. A primeira quando tanto (5A) como (5B) resultarem em valores negativos, caso em que a adição será igual a zero, conforme art. 18, § 5º, da Lei nº 9.430/96. A segunda quando VA for igual a zero, caso em que tanto (5A) como (5B) resultarão em adição de (PPratImpB – 40%*PLVenB), desde que esse valor não seja negativo, caso em que nem (5A) nem (5B) resultarão em adição. Comprovado, então, que o PRL60 segundo a interpretação do art. 18 da Lei nº 9.430/96 defendida pela recorrente (5A), resultará em adições sempre iguais ou inferiores àquelas decorrentes da interpretação do Fisco sobre mesma norma (5B). No anexo 4, a seguir, é apresentado um exemplo numérico para ilustrar as diferenças de adição aqui demonstradas. Fl. 8590DF CARF MF 60 Anexo 4 Art. 18 da Lei nº 9.430/96 PRL60 Adição ao Lucro Real Tabela Exemplificativa Interpretação da Recorrente vs. Interpretação do Fisco O presente anexo tem como objetivo ilustrar, por meio de um exemplo numérico, as diferenças de adição ao lucro real entre a interpretação da recorrente acerca do art. 18 da Lei nº 9.430/96, e a interpretação do Fisco sobre a mesma norma. Foram simulados cinco cenários (A, B, C, D e E) de operações de venda do bem BP, produzido no país, a pessoa não vinculada, e em cujo processo produtivo foi empregado: (i) o bem importado B, adquirido junto a pessoa vinculada no exterior, e; (ii) outros bens e serviços adquiridos no país junto a pessoas não vinculadas – valor agregado. Como o bem produzido BP é o mesmo, e a venda é feita a pessoa não vinculada, seu preço foi mantido constante em todos os cenários (PLVenBP = R$ 1.000,00). O mesmo se diga em relação ao valor agregado no país (VA = R$ 50,00). A única variável é o preço praticado na aquisição do bem B, importado junto à pessoa vinculada no exterior (PPratImpB). Isso porque, apesar de ser o mesmo bem B, seu preço pode ser livremente ajustado pelas pessoas vinculadas, independentemente de seu real valor econômico. A margem de lucro (ML), o preço parâmetro na importação do bem B (PParamImpB) e a adição ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real (Adição), decorrem das fórmulas presentes nos anexos 1 e 2, aplicadas aos valores acima referidos. Recordese também que Adição será igual a zero quando PPratImpB for menor do que PParamImpB, já que a lei proíbe adições negativas. Por fim, registrese que nos cenários D e E a soma do preço praticado na importação do bem B e do valor agregado no país se aproxima ou supera o preço líquido de venda do bem produzido BP. São cenários impensáveis em situações de mercado, mas possíveis quando a intenção da empresa no Brasil é transferir lucro à sua vinculada no exterior. Lei 9.430/96 – Interp. do Contrib. – Anexo 1 A B C D E PPratImpB 100,00 300,00 600,00 900,00 1.200,00 VA 50,00 50,00 50,00 50,00 50,00 PLVenBP 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 ML = 60%*(PLVenBP VA) 570,00 570,00 570,00 570,00 570,00 PParamImpB = PLVenBP ML 430,00 430,00 430,00 430,00 430,00 Adição = PPratImpB PParamImpB 0,00 0,00 170,00 470,00 770,00 Lei 9.430/96 – Interp. Correta – Anexo 2 A B C D E PPratImpB 100,00 300,00 600,00 900,00 1.200,00 VA 50,00 50,00 50,00 50,00 50,00 PLVenBP 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 ML = 60%*PLVenBP 600,00 600,00 600,00 600,00 600,00 PParamImpB = PLVenBP ML VA 350,00 350,00 350,00 350,00 350,00 Adição = PPratImpB PParamImpB 0,00 0,00 250,00 550,00 850,00 Fl. 8591DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 32 61 Anexo 5 Representação Matemática do PRL60 – IN SRF 243/2002 (1C) PParamImpB = PartB®BP – ML, conforme art. 12, § 10, V, da IN SRF 243/2002. (2C) ML = 60%*PartB®BP, conforme art. 12, § 10, IV, da IN SRF 243/2002. Substituindose ML contido na equação (1C) por ML conforme descrito na equação (2C), temse: PParamImpB = PartB®BP 60%*PartB®BP (3C) PParamImpB = 40%*PartB®BP, onde: PartB®BP é a participação do bem importado B no preço de venda do bem produzido BP, conforme art. 12, § 10, III, da IN SRF 243/2002, ou seja: (4C) PartB®BP = %PartB>BP*PLVenBP, onde: %PartB>BP é o percentual de participação do custo do bem importado B no custo do bem produzido BP, conforme art. 12, § 10, II, da IN SRF 243/2002, ou seja: (5C) %PartB>BP = PPratImpB/(PPratImpB + VA) Substituindo (5C) e (4C) em (3C), teremos: (6C) PParamImpB = 40%*PLVenBP*PPratImpB/(PPratImpB + VA) A adição ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real será: Adição = PPratImpB – PParamImpB, onde: Adição, quando positivo, é o valor que deverá ser adicionado ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real. Quando negativo, não haverá adição na determinação do lucro real. (7C) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP*PPratImpB/(PPratImpB + VA) Fl. 8592DF CARF MF 62 Anexo 6 PRL60 Adição ao Lucro Real Representação Matemática – IN SRF 243/2002 vs. Art. 18 da Lei nº 9.430/96 O objetivo do presente anexo é demonstrar matematicamente que o PRL60 previsto na Instrução Normativa SRF nº 243/2002 resulta em adições ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real, sempre iguais ou inferiores àquelas decorrentes da correta interpretação do 18 da Lei nº 9.430/96. Para tanto, partiremos das equações (5B) e (7C) presentes nos anexos 2 e 5, respectivamente. O símbolo <>, abaixo empregado, representa a relação entre a equação (5B), no lado esquerdo, e a equação (7C), no lado direito. (5B) <> (7C) (5B) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP + VA (7C) Adição = PPratImpB – 40%*PLVenBP*PPratImpB/(PPratImpB + VA) PPratImpB – 40%*PLVenBP + VA <> PPratImpB – 40%*PLVenBP*PPratImpB/(PPratImpB + VA) O exame da relação acima requer um pouco mais de atenção. Repare que na equação (5B), se multiplicarmos o termo (40%*PLVenBP) por 1 não a alteraremos em nada (40%*PLVenBP = 40%*PLVenBP*1). Veja também que na equação (7C) o mesmo termo (40%*PLVenBP) está multiplicado pelo termo (PPratImpB/(PPratImpB + VA)). É fácil ver que o termo (PPratImpB/(PPratImpB + VA)) será sempre um número maior que zero e menor ou igual a 1. Assim, para todos os valores positivos de VA (e seria absurdo admitir valor agregado no país negativo), a adição em (7C) será sempre inferior à adição em (5B). Ademais, a adição em (7C) será igual à adição em (5B) em apenas duas hipóteses. A primeira quando tanto (7C) como (5B) resultarem em valores negativos, caso em que a adição será igual a zero, conforme art. 18, § 5º, da Lei nº 9.430/96. A segunda quando VA for igual a zero, caso em que tanto (7C) como (5B) resultarão em adição de (PPratImpB – 40%*PLVenB), desde que esse valor não seja negativo, caso em que não haverá adição nem em (7C) nem em (5B). Comprovado, então, que o PRL60 segundo a IN SRF243/2002 (7C) resultará em adições sempre iguais ou inferiores àquelas decorrentes da aplicação correta da Lei nº 9.430/96 (5B). No anexo 7, a seguir, é apresentado um exemplo numérico para ilustrar as diferenças de adição aqui demonstradas. Fl. 8593DF CARF MF Processo nº 16561.000053/200871 Acórdão n.º 9101002.524 CSRFT1 Fl. 33 63 Anexo 7 PRL60 Adição ao Lucro Real Tabela Exemplificativa IN SRF 243/2002 vs. Art. 18 da Lei nº 9.430/96 O presente anexo tem como objetivo ilustrar, por meio de um exemplo numérico, as diferenças de adição ao lucro real entre a aplicação do PRL60 segundo a IN SRF 243/2002, e a aplicação do mesmo método segundo a correta interpretação do art. 18 da Lei nº 9.430/96. Foram simulados cinco cenários (A, B, C, D e E) de operações de venda do bem BP, produzido no país, a pessoa não vinculada, e em cujo processo produtivo foi empregado: (i) o bem importado B, adquirido junto a pessoa vinculada no exterior, e; (ii) outros bens e serviços adquiridos no país junto a pessoas não vinculadas – valor agregado. Como o bem produzido BP é o mesmo, e a venda é feita a pessoa não vinculada, seu preço foi mantido constante em todos os cenários (PLVenBP = R$ 1.000,00). O mesmo se diga em relação ao valor agregado no país (VA = R$ 50,00). A única variável é o preço praticado na aquisição do bem B, importado junto à pessoa vinculada no exterior (PPratImpB). Isso porque, apesar de ser o mesmo bem B, seu preço pode ser livremente ajustado pelas pessoas vinculadas, independentemente de seu real valor econômico. A margem de lucro (ML), o preço parâmetro na importação do bem B (PParamImpB) e a adição ao lucro líquido, para fins de determinação do lucro real (Adição), decorrem das fórmulas presentes nos anexos 2 e 5, aplicadas aos valores acima referidos. Recordese também que Adição será igual a zero quando PPratImpB for menor do que PParamImpB, já que a lei proíbe adições negativas. Por fim, registrese que nos cenários D e E a soma do preço praticado na importação do bem B e do valor agregado no país se aproxima ou supera o preço líquido de venda do bem produzido BP. São cenários impensáveis em situações de mercado, mas possíveis quando a intenção da empresa no Brasil é transferir lucro à sua vinculada no exterior. IN SRF 243/2002 – Anexo 5 A B C D E PPratImpB 100,00 300,00 600,00 900,00 1.200,00 VA 50,00 50,00 50,00 50,00 50,00 %PartB>BP = PPratImpB/(PPratImpB + VA) 66,67% 85,71% 92,31% 94,74% 96,00% PLVenBP 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 PartB>BP = %PartB>BP*PLVenBP 666,67 857,14 923,08 947,37 960,00 ML = 60%*PartB>BP 400,00 514,29 553,85 568,42 576,00 PParamImpB = PartB>BP ML 266,67 342,86 369,23 378,95 384,00 Adição = PPratImpB PParamImpB 0,00 0,00 230,77 521,05 816,00 Lei 9.430/96 – Interp. Correta – Anexo 2 A B C D E PPratImpB 100,00 300,00 600,00 900,00 1.200,00 VA 50,00 50,00 50,00 50,00 50,00 PLVenBP 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 1.000,00 ML = 60%*PLVenBP 600,00 600,00 600,00 600,00 600,00 PParamImpB = PLVenBP ML VA 350,00 350,00 350,00 350,00 350,00 Adição = PPratImpB PParamImpB 0,00 0,00 250,00 550,00 850,00 Fl. 8594DF CARF MF 64 Fl. 8595DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10711.728594/2012-04
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 06/05/2009
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INOBSERVÂNCIA AO PRAZO ESTABELECIDO PREVISTO EM NORMA. AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO.
É obrigação do contribuinte prestar informações sobre a desconsolidação de carga dentro dos prazos previstos no artigo 22 c/c o artigo 50 da IN SRF nº 800/2007, sob pena de sujeitar-se à aplicação da multa prevista no artigo 107, inciso I, IV, alínea "e", do Decreto Lei nº 37/66.
MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE A CARGA. APLICAÇÃO POR MANIFESTO DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE.
A multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem. Contudo, se não estiverem presentes nos autos informações suficientes que comprovem a penalização por cada manifesto de carga, não há como cancelar o lançamento.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3201-002.565
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Jose Luiz Feistauer de Oliveira, Mercia Helena Trajano Damorim, Cassio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi De Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Data do fato gerador: 06/05/2009 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INOBSERVÂNCIA AO PRAZO ESTABELECIDO PREVISTO EM NORMA. AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO. É obrigação do contribuinte prestar informações sobre a desconsolidação de carga dentro dos prazos previstos no artigo 22 c/c o artigo 50 da IN SRF nº 800/2007, sob pena de sujeitar-se à aplicação da multa prevista no artigo 107, inciso I, IV, alínea "e", do Decreto Lei nº 37/66. MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE A CARGA. APLICAÇÃO POR MANIFESTO DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. A multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem. Contudo, se não estiverem presentes nos autos informações suficientes que comprovem a penalização por cada manifesto de carga, não há como cancelar o lançamento. Recurso Voluntário Negado.
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MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE CARGA Recorrente CEVA FREIGHT MANAGEMENT DO BRASIL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 06/05/2009 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INOBSERVÂNCIA AO PRAZO ESTABELECIDO PREVISTO EM NORMA. AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO. É obrigação do contribuinte prestar informações sobre a desconsolidação de carga dentro dos prazos previstos no artigo 22 c/c o artigo 50 da IN SRF nº 800/2007, sob pena de sujeitarse à aplicação da multa prevista no artigo 107, inciso I, IV, alínea "e", do Decreto Lei nº 37/66. MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE A CARGA. APLICAÇÃO POR MANIFESTO DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. A multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem. Contudo, se não estiverem presentes nos autos informações suficientes que comprovem a penalização por cada manifesto de carga, não há como cancelar o lançamento. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 1. 72 85 94 /2 01 2- 04 Fl. 106DF CARF MF Processo nº 10711.728594/201204 Acórdão n.º 3201002.565 S3C2T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Jose Luiz Feistauer de Oliveira, Mercia Helena Trajano Damorim, Cassio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi De Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario. Relatório Tratase de processo referente à exigência de multa pelo descumprimento da obrigação de prestar informação sobre veículo, operação realizada ou carga transportada, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. A irregularidade identificada consta do tópico "Dos Fatos", parte da Descrição dos Fatos do Auto de Infração. Segundo o relatado, consistiu na prestação intempestiva de informação referente ao conhecimento eletrônico (CE) ali indicado, o que acarretou no bloqueio automático do conhecimento no sistema Carga, conforme extrato anexado aos autos. Diante dos fatos apurados, a fiscalização entendeu configurada a infração tipificada no art. 107, IV, “e”, do DecretoLei nº 37/1966, com redação dada pela Lei nº 10.833/2003, e aplicou a multa ali cominada. Não conformada com a exigência, a contribuinte apresentou Impugnação, cujos argumentos de defesa foram assim sintetizados pela DRJ: a) Princípio da razoabilidade. O atraso incorrido pela impugnante não causou embaraço ao controle aduaneiro, eis que as informações foram prestadas com suficiente antecedência da chegada do navio ao porto, o que comprova, também, o fato de a autuada não ter agido com intuito de cometer qualquer infração. Dessa forma, a aplicação de multa no presente caso ofende ao princípio da razoabilidade, que impõe à Administração Pública o dever de agir com bom senso, prudência e moderação, levando em conta a relação de proporcionalidade entre os meios empregados e a finalidade a ser alcançada, bem como as circunstâncias que envolvem a prática do ato. b) Bis in Idem. A impugnante foi penalizada mais de uma vez pela mesma conduta, uma vez que foram cobradas multas pelo atraso na entrega de informações referentes a cargas transportadas no mesmo navio/viagem, conforme processos administrativos indicados, não podendo subsistir mais de uma penalidade para o mesmo fato, conforme estabelece a legislação de regência. Assim, se infração houve, nesses casos só poderia ser aplicada multa uma única vez, consoante já decidiu a própria Receita Federal na Solução de Consulta Interna (SCI) nº 8, de 14/2/2008. Ao final a impugnante requer que seja cancelado o lançamento ou, subsidiariamente, que seja aplicado o entendimento de que só é cabível uma multa em relação a cada navio/viagem, excluindose as penalidades excedentes. A DRJ/Fortaleza julgou improcedente a impugnação apresentada, mantendo a exigência da penalidade nos termos do Acórdão 08033.168. No recurso voluntário foram repisadas as alegações trazidas na impugnação. É o relatório. Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10711.728594/201204 Acórdão n.º 3201002.565 S3C2T1 Fl. 4 3 Voto Winderley Morais Pereira, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.523, de 21 de fevereiro de 2017, proferido no julgamento do processo 10711.724209/201241, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão, (Acórdão 3201002.523): "Conforme o Direito Tributário, a legislação, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme portaria de condução e Regimento Interno deste Conselho, apresento e relato o seguinte voto. Por conter matéria preventa desta 3.ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e considerando o tempestivo Recurso Voluntário, dele conheço. A alegação da fiscalização de 'Não Prestação de Informação sobre Carga Transportada' e a consequente aplicação de multa de R$ 5.000,00 prevista no Art. 107 do DL 37/66, em razão do descumprimento do prazo previsto na IN RFB 800/2007, Art. 22, ocorreu em razão da fiscalização ter constatado que o contribuinte era consignatário e deveria ter cumprido o prazo em no máximo até 29/07/09 às 07:58, sendo que desconsolidou o mercante agregado HBL de fls. 23 e 24 às 18:00 do mesmo dia 29. Conforme alegação de bis in idem do contribuinte em seu Recurso Voluntário, a autuação seria atrelada a dois outros autos de infração, Processos Administrativos de n°. 10711.724.250/201218 e 10711.724.251/201262, com os mesmos fatos e penalidade. Vencido no voto de diligência, para que fossem juntadas aos autos cópias dos mencionados processos e fosse verificada a possibilidade da duplicidade da pena, conforme Resolução por mim proposta na sessão de Janeiro deste ano, é certo que devo proceder à análise do mérito desta lide. Em que pese existir precedente favorável à situação do contribuinte, como o encontrado no Acórdão 3102001.988 deste Conselho, que determinou que a multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem, como fora consignado na autuação, não houve comprovação da existência de duplicidade ou do bis in idem, tampouco argumentos capazes de prejudicar o lançamento fiscal ou contradizer os argumentos utilizados pela turma de origem que afirmou 'que as multas aplicadas foram decorrentes de condutas similares, porém, relativas a fatos distintos'. Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10711.728594/201204 Acórdão n.º 3201002.565 S3C2T1 Fl. 5 4 Mas cópias dos Autos de Infração, um demonstrativo analítico, com os registros relativos às operações tratadas em cada processo apontado no recurso, não foram juntados pelo contribuinte. Esta situação (não juntada de documentos ou provas) diverge do previsto no Art. 16, inciso III e §4º, do inciso V , do Decreto nº 70.235/72, bem como do artigo 373, inciso II, do Código de Processo Civil. Nestes termos, considerando que a Recorrente deixou de comprovar suas alegações, não há como acolher o pedido de nulidade do lançamento suscitado pela contribuinte. Restam prejudicados os demais argumentos do contribuinte, pois todos são decorrentes da alegação de bis in idem, exceto pela alegação de aplicação do princípio da razoabilidade, o que certamente teria valia porque é um princípio constitucional, contudo, está correta a fundamentação legal do lançamento, vigente e aplicável aos fatos narrados. O lançamento capitulou corretamente a multa regulamentar pela não prestação de informação sobre veículo ou carga transportada, ou sobre operações que executar, prevista no artigo 107, inciso IV, alínea "e", do Decreto Lei º 37/66, com a redação dada pelo artigo 77 da Lei nº 10.833/2003, pelo fato da Recorrente ter prestado informações sobre a desconsolidação da carga fora do preceitos e prazos previstos nos artigo 22 e 50, da Instrução Normativa SRF nº 800/2007. Assim, deve ser aplicada a multa prevista pela letra “e” do inciso IV, art. 107 do Decreto nº 37, isso é, no montante de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Diante do exposto, votase por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário para manter o lançamento em uma só multa no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais)." Quanto à questão do bis in idem, da mesma forma que no caso do paradigma a contribuinte não juntou ao presente processo "cópias dos Autos de Infração, um demonstrativo analítico, com os registros relativos às operações tratadas em cada processo apontado no recurso". Não comprovada a ocorrência de duplicidade da exigência, não há como acolher o pleito de nulidade do presente lançamento. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário. assinado digitalmente Winderley Morais Pereira Fl. 109DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10675.900297/2009-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2005
COMPENSAÇÃO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA.
Confirmada a existência do direito creditório utilizado para compensação reputada não homologada por despacho decisório eletrônico, mediante diligência específica, e não havendo outros questionamentos a respeito da sua procedência, mostra-se insubsistente o argumento apresentado na lavratura do ato administrativo denegatório.
Recurso voluntário provido.
Numero da decisão: 3401-003.297
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Relator Robson José Bayerl Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge DOliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL
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COMPENSAÇÃO. Recorrente AGROCAFE COMERCIO E REPRESENTACAO LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 COMPENSAÇÃO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. Confirmada a existência do direito creditório utilizado para compensação reputada não homologada por despacho decisório eletrônico, mediante diligência específica, e não havendo outros questionamentos a respeito da sua procedência, mostrase insubsistente o argumento apresentado na lavratura do ato administrativo denegatório. Recurso voluntário provido. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Relator Robson José Bayerl – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge D’Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório Tratase, na espécie, de despacho decisório eletrônico de não homologação de compensação declarada pelo contribuinte (PER/DCOMP), cujo fundamento indicado seria a integral vinculação do crédito informado em outro débito de titularidade do contribuinte. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 67 5. 90 02 97 /2 00 9- 72 Fl. 1203DF CARF MF Processo nº 10675.900297/200972 Acórdão n.º 3401003.297 S3C4T1 Fl. 3 2 Em manifestação de inconformidade o contribuinte informou que o crédito estaria em consonância com declarações retificadoras (DIPJ e DCTF) apresentadas. A DRJ Juiz de Fora/MG julgou a manifestação de inconformidade improcedente ao argumento que a compensação pressuporia a certeza e liquidez do direito creditório, tal como evidenciado nas informações prestadas em DCTF anterior ou contemporânea à transmissão da DCOMP respectiva. Em recurso voluntário o contribuinte pugnou, preliminarmente, pelo julgamento em conjunto com o PA 10675.901421/200917. No mérito, salientou que o crédito originarase de tributação indevida das contribuições (Cofins e PIS) sobre produtos cujas alíquotas foram reduzidas a zero pelo art. 1º da Lei nº 10.925/04; demonstrou a forma de apuração do indébito; juntou os documentos comprobatórios do crédito pleiteado; questionou o excesso de formalismo, citando jurisprudência administrativa; e, por fim, asseverou a procedência do direito de crédito e, por conseqüência, a regularidade da compensação aviada. Na sessão de 24/04/2013, mediante Resolução nº 3802000.102, o julgamento foi convertido em diligência para aferição da procedência do direito creditório invocado. Em 05/08/2014, a SAORT/DRF/UBL/MG confeccionou despacho relatando a diligência realizada e as conclusões extraídas. O contribuinte, devidamente cientificado, não se manifestou. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Robson José Bayerl, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401003.296, de 25 de janeiro de 2017, proferido no julgamento do processo 10675.901420/200972, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401003.296): "Os requisitos de admissibilidade do recurso já foram verificados por ocasião da conversão do julgamento em diligência. Por oportuno, trago à colação as razões de decidir que nortearam a extinta 2ª Turma Especial/3ª SEJUL a converter o julgamento em diligência: 'Compulsando os autos, constatase que a Recorrente busca reformar a decisão de 1ª instância com base na redução da alíquota da COFINS promovida pela Lei nº 10.925/04, bem como através da juntada de diversos documentos comprobatórios. Fl. 1204DF CARF MF Processo nº 10675.900297/200972 Acórdão n.º 3401003.297 S3C4T1 Fl. 4 3 Afirma a Recorrente, no capítulo pertinente de suas razões (fls. 68 e seguintes), que no ano de 2004, era optante pelo regime de tributação do IRPJ segundo o lucro presumido, de modo que 'procedia à apuração dos tributos e contribuições federais, considerando a incidência da COFINS, em todos os produtos que vendia, (...)’. Prossegue a Recorrente explicando que a lei 10.925/2004 alterou a forma de recolhimento do PIS e da COFINS, reduzindo a zero a alíquota de alguns produtos, dentre os quais aqueles objeto de sua atividadefim (defensivos, adubos, sementes, etc.)”. (...) Ora, o art. 1º da lei 10925/2004, ao reduzir a zero as alíquotas do PIS e da COFINS para diversos produtos, não distingue a redução das alíquotas do PIS e da COFINS para os regimes cumulativo ou não cumulativo, nem mesmo para contribuintes de lucro real ou presumido. Indo mais além, como tal distinção só é feita pela lei no que tange à suspensão de PIS e COFINS para casos distintos (arts. 9º, § 1º, e 15, § 3º), somente fica mais realçada a amplitude da abrangência das disposições do art. 1º. Assim sendo, o fato de a Recorrente ter aplicado a alíquota zero somente a partir do momento em que optou pelo lucro real, não significa que a lei tenha condicionado a redução das alíquotas para tal regime o que comprometeria a utilização de créditos originados de recolhimentos tidos como a maior, por terem sido feitos em 2004. A única questão prejudicial à análise do crédito fica, portanto, superada. A lide restringese, destarte, à análise da materialidade do crédito. No que tange esse aspecto, temse que a Recorrente teve seu crédito negado em razão de ter retificado a DCTF somente após o despacho decisório, além de não ter juntado, à sua manifestação de inconformidade, toda a documentação necessária para a materialidade do crédito. Ocorre que, em sede recursal, a Recorrente apresenta toda sorte de documentos hábeis a demonstrar a veracidade das suas alegações, que são muito simples: para todos os casos em que houve recolhimento de PIS e COFINS sobre vendas de produtos indicados nos incisos I a IV da lei 10.925/2004, desde o início de sua produção de efeitos (26 de julho de 2004), é necessário o reconhecimento de recolhimento indevido – o que permite seu oferecimento à compensação. Ao analisar os documentos juntados, entendo que a contribuin te é bem sucedida em sua tarefa de comprovar o alegado. E, em prestígio à verdade material e consonante com diversos precedentes do CARF (inclusive desta Eg. Turma Especial), excepcionalmente é de se aceitar a retificação da DCTF, ainda que a destempo.' Fl. 1205DF CARF MF Processo nº 10675.900297/200972 Acórdão n.º 3401003.297 S3C4T1 Fl. 5 4 Prestigiando a fundamentação do voto condutor, com a qual concordo, entendo que a questão de direito mostrase adequadamente enfrentada e superada, de modo que, sem maiores delongas, passase ao resultado da diligência determinada. Nesta senda, a informação fiscal coligida aos autos atesta quantia disponível de crédito no período de apuração informado na DCOMP respectiva, oriunda de recolhimento indevido, em montante suficiente para quitação do débito compensado. Por conseguinte, mostrase insubsistente o motivo apresentado como fundamento para não homologação da compensação, consoante despacho decisório eletrônico expedido. Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso interposto." Retornando ao caso deste processo, importante ressaltar que a informação fiscal coligida nestes autos (fls. 1192/1193), da mesma forma que no caso do paradigma, também atesta quantia disponível de crédito no período de apuração informado na DCOMP respectiva, oriunda de recolhimento indevido, em montante suficiente para quitação do débito compensado. Também vale ressaltar que a decisão do paradigma, que tratou da Cofins, aplica se igualmente aos processos do PIS. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl Fl. 1206DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.722158/2012-56
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
DIRPF. DEDUÇÕES. COMPROVAÇÃO. REGULAMENTO DO IMPOSTO DE RENDA/RIR 1999.
Todas as deduções na base de cálculo do imposto previstas pela legislação estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto-Lei n° 5.844, de 1943, art. 11, § 3°).
DESPESAS MÉDICAS.
Poderão ser deduzidos os pagamentos referentes a despesas médicas efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes, desde que comprovados mediante documentação hábil e idônea.
O recibo emitido por profissional da área de saúde, com observação das características regradas no artigo 80 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/ 1999, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, via de regra faz prova da despesa pleiteada como dedução na declaração de ajuste anual do imposto sobre a renda.
ÔNUS DA PROVA. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. PROCEDÊNCIA.
Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Tendo o contribuinte apresentado documentação comprobatória de seu direito, deve ser afastada a glosa.
Numero da decisão: 2202-003.664
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso, vencida a Conselheira Cecília Dutra Pillar (Relatora), que deu provimento parcial para afastar apenas a glosa de dedução de despesas médicas no valor de 11.850,00. Foi designado o Conselheiro Martin da Silva Gesto para redigir o voto vencedor.
Assinado digitalmente
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente
Assinado digitalmente
Cecilia Dutra Pillar - Relatora
Assinado digitalmente
Martin da Silva Gesto - Redator Designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar e Márcio Henrique Sales Parada.
Nome do relator: CECILIA DUTRA PILLAR
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010 DIRPF. DEDUÇÕES. COMPROVAÇÃO. REGULAMENTO DO IMPOSTO DE RENDA/RIR 1999. Todas as deduções na base de cálculo do imposto previstas pela legislação estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto-Lei n° 5.844, de 1943, art. 11, § 3°). DESPESAS MÉDICAS. Poderão ser deduzidos os pagamentos referentes a despesas médicas efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes, desde que comprovados mediante documentação hábil e idônea. O recibo emitido por profissional da área de saúde, com observação das características regradas no artigo 80 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/ 1999, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, via de regra faz prova da despesa pleiteada como dedução na declaração de ajuste anual do imposto sobre a renda. ÔNUS DA PROVA. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. PROCEDÊNCIA. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Tendo o contribuinte apresentado documentação comprobatória de seu direito, deve ser afastada a glosa.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso, vencida a Conselheira Cecília Dutra Pillar (Relatora), que deu provimento parcial para afastar apenas a glosa de dedução de despesas médicas no valor de 11.850,00. Foi designado o Conselheiro Martin da Silva Gesto para redigir o voto vencedor. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente Assinado digitalmente Cecilia Dutra Pillar - Relatora Assinado digitalmente Martin da Silva Gesto - Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar e Márcio Henrique Sales Parada.
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DEDUÇÕES. COMPROVAÇÃO. REGULAMENTO DO IMPOSTO DE RENDA/RIR 1999. Todas as deduções na base de cálculo do imposto previstas pela legislação estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei n° 5.844, de 1943, art. 11, § 3°). DESPESAS MÉDICAS. Poderão ser deduzidos os pagamentos referentes a despesas médicas efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes, desde que comprovados mediante documentação hábil e idônea. O recibo emitido por profissional da área de saúde, com observação das características regradas no artigo 80 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/ 1999, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, via de regra faz prova da despesa pleiteada como dedução na declaração de ajuste anual do imposto sobre a renda. ÔNUS DA PROVA. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. PROCEDÊNCIA. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Tendo o contribuinte apresentado documentação comprobatória de seu direito, deve ser afastada a glosa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso, vencida a Conselheira Cecília Dutra Pillar (Relatora), que deu provimento parcial para AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 21 58 /2 01 2- 56 Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10580.722158/201256 Acórdão n.º 2202003.664 S2C2T2 Fl. 63 2 afastar apenas a glosa de dedução de despesas médicas no valor de 11.850,00. Foi designado o Conselheiro Martin da Silva Gesto para redigir o voto vencedor. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente Assinado digitalmente Cecilia Dutra Pillar Relatora Assinado digitalmente Martin da Silva Gesto Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar e Márcio Henrique Sales Parada. Relatório Trata o presente processo de Notificação de Lançamento relativa ao Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas, decorrente de revisão da Declaração de Ajuste Anual do IRPF do exercício de 2011, ano calendário de 2010 em que foi glosado o valor de R$ 30.428,06, indevidamente deduzido a título de despesas com instrução (R$ 5.661,68) e despesas médicas (R$ 24.766,38), culminando na alteração de ofício do resultado do ajuste anual, passando o imposto a restituir declarado de R$ 7.770,91 para imposto a pagar de R$ 596,80, mais multa de ofício de 75% e juros de mora calculados com base na taxa Selic, conforme demonstrado às fls. 19/26. Inconformado o contribuinte impugnou a Notificação de Lançamento (fls. 02/03) alegando ser indevida a glosa de despesas com instrução pois deduziu o limite de despesas com instrução previsto na legislação (R$ 2.830,40) para o declarante e para seu dependente. Que tais gastos se referem a curso de pós graduaçãoespecialização do declarante (total de R$ 3.693,12), somados à instrução de seu dependente no Ensino Fundamental (total de R$ 8.473,48). Reconhece que houve erro no preenchimento dos recibos relacionados às despesas odontológicas, correspondentes aos CPFs 905.887.20500 e 219.659.41800, nos valores de R$ 12.000,00 e 11.850,00, pois no campo "Recebi(emos) de" dos recibos constava o nome do emitente e não o do declarante. Afirma ter anexado declaração dos emitentes informando a incorreção, recibos retificados e os recibos originais. A 19ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (SP), julgou procedente em parte a impugnação, conforme acórdão de fls. 39/45, Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10580.722158/201256 Acórdão n.º 2202003.664 S2C2T2 Fl. 64 3 aceitando as provas relativas às despesas com instrução do declarante e de seu dependente, declarando incontroversa a glosa da despesa com a GEAP, posto que não impugnada e rejeitando as despesas referentes a despesas médicas (odontológicas) nos seguintes termos: Da dedução indevida de despesas médicas Como se depreende do excerto supra, o art. 80 do Regulamento do Imposto de Renda autoriza os contribuintes a deduzirem da base de cálculo do imposto as despesas odontológicas efetivamente realizadas em decorrência de tratamento próprio e de seus dependentes, sendo que cabe ao beneficiário dos recibos e/ou das deduções provar o efetivo pagamento do valor constante do comprovante e/ou do valor pleiteado como despesa, bem assim a época em que o serviço foi prestado, para que fique caracterizada a efetividade da despesa passível de dedução, no período assinalado. Em princípio, admitese como prova idônea de pagamentos os recibos/ comprovantes fornecidos por profissional competente, legalmente habilitado, referente aos serviços passíveis de dedução, desde que contenha os requisitos essenciais previstos na legislação de regência. Essa é a regra. Exigese que a documentação traga informações que permitam a perfeita identificação: i) do responsável pelo pagamento efetuado, pois sem essa informação não há como se vincular a dedução ao possível interessado; ii) do valor do pagamento realizado; iii) da data da emissão do documento (dia, mês e ano); iv) do tipo de serviço realizado; v) do beneficiário do serviço (paciente); vi) do emitente do documento: nome, endereço, CPF/CNPJ e, no caso de pessoa física, o registro de habilitação profissional no Conselho Regional de Classe (inciso III do parágrafo 1º do art. 80 do RIR/1999). Esses são os requisitos mínimos que devem constar do documento comprobatório da despesa pleiteada como dedução da base de cálculo do IRPF. A legislação de regência da matéria assim exige e, por conseguinte, deve ser fielmente observada pela autoridade fiscal (lançadora e julgadora), cuja atividade administrativa é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional, a teor do disposto no art. 142, parágrafo único, do Código Tributário Nacional. Junto com sua impugnação, o contribuinte apresentou os recibos de fl. 7 e 10, emitidos, respectivamente, por SAULO PIRES TEIXEIRA, NI/CPF 905.887.20500, no valor de R$12.000,00; e por ANA BEATRIZ GANDARA ZARATINE, NI/CPF 219.659.41800, no valor de R$11.850,00. Esses recibos, entretanto, contemplam apenas parcialmente os requisitos do inciso III do parágrafo 1º do art. 80 do RIR/1999. Não constam desses documentos a pessoa beneficiária dos serviços odontológicos contratados, e o endereço informado (“Itaigara Memorial”), igual em ambos os casos, é insuficiente e Fl. 64DF CARF MF Processo nº 10580.722158/201256 Acórdão n.º 2202003.664 S2C2T2 Fl. 65 4 não permite sua localização, motivo pelo qual os pagamentos neles informados não podem ser deduzidos da base de cálculo do imposto. Salientamos que a identificação do paciente é imprescindível nos recibos, uma vez que, conforme legislação transcrita acima, só é permitida a dedução de despesas médicas comprovadas referentes a contribuinte e/ou seus dependentes declarados. Portanto, a informação não é dispensável tampouco inócua. É conveniente ressaltar que não se trata de presunção de falsidade dos recibos apresentados, mas da constatação da inaptidão dos mesmos para o fim almejado, em face do que estipula a legislação tributária em vigor. Não obstante, não deixa de chamar a atenção o fato de os recibos apresentados à fiscalização (fl. 8 e 11) – apesar de se referirem a profissionais diferentes (SAULO PIRES TEIXEIRA e ANA BEATRIZ GANDARA ZARATINE) – terem sido emitidos em favor dos próprios emitentes, com a utilização de formulários idênticos e o mesmo endereço, que não permite a sua localização. Isso em ambos os casos. Na declaração de fl. 6 e 9, os emitentes dos recibos confirmam que houve o erro de identificação do favorecido e que teriam retificado o recibo, mas essas declarações, de conteúdo ideológico idêntico (à exceção do valor e da data do pagamento) também não identificam o paciente dos serviços nem o endereço dos profissionais. Desta forma, deverá ser mantida a glosa da dedução das despesas médicas pleiteadas pelo contribuinte, no montante de R$23.850,00. Cientificado dessa decisão por via postal em 15/04/2014, (A.R. de fls. 47), o interessado apresentou Recurso Voluntário em 12/05/2014 (fls. 49/50), onde se contrapõe à manutenção da glosa de despesas médicas por falta de comprovação, o que busca sanar com a apresentação de declaração da Dra. Ana Beatriz G Zaratine onde consta o endereço de sua clínica odontológica à época da realização do tratamento e informações acerca da natureza do trabalho do Dr. Saulo Pires Teixeira, cujos serviços odontológicos especializados foram efetuados na mesma clínica. Apresenta, também, Relatório Completo, subscrito pela mesma Dra. Ana Beatriz G Zaratine, com o diagnóstico e procedimentos médicos dentários adotados, além de informações acerca dos recibos emitidos e valor dos mesmos. Afirma que estes documentos fornecem todos os subsídios necessários e requeridos pela Receita e solicita sejam reconsiderados em sua totalidade os valores destas despesas (R$ 23.850,00). É o Relatório. Voto Vencido Conselheira Cecilia Dutra Pillar, relatora. Fl. 65DF CARF MF Processo nº 10580.722158/201256 Acórdão n.º 2202003.664 S2C2T2 Fl. 66 5 O recurso é tempestivo e atende às demais formalidades legais, portanto dele conheço. O Decreto nº 70.235/1972, que regulamenta o processo administrativo fiscal, limita a apresentação de provas em momento posterior a impugnação, restringindoa aos casos previstos no § 4º do seu art. 16, porém a jurisprudência deste Conselho vem se consolidando no sentido de que essa regra geral não impede que o julgador conheça e analise novos documentos anexados aos autos após a defesa, em observância aos princípios da verdade material e da instrumentalidade dos atos administrativos, sobretudo quando são capazes de rechaçar em parte ou integralmente a pretensão fiscal. Nesse caso, entendo que os documentos apresentados em sede de recurso voluntário devem ser recepcionados e analisados, uma vez que comprovam os argumentos expostos pelo Contribuinte desde a impugnação e podem servir para rebater a decisão de primeira instância. O presente recurso resumese à controvérsia acerca da não aceitação pela Autoridade Fiscal, de recibos e declarações de despesas médicas por não identificarem a pessoa beneficiária dos serviços prestados nem o endereço dos profissionais, em desacordo com as exigências do inciso III do §1º do art. 80 do RIR/1999. Às fls. 53 dos autos foi anexada Declaração de lavra da Dra. Ana Beatriz G Zaratine, CROBa 8.835, onde declara, a pedido do Sr. José Guimarães Filho, que quando o mesmo se submeteu ao tratamento odontológico por sua equipe, a clínica funcionava à rua Altino Serbeto de Barros nº 241, sala 801, no Ed. Memorial Itaigara, SalvadorBA e afirma ter ela realizado o tratamento protético do paciente e que o Dr. Saulo Pires Teixeira, CROBa 5.899, prestador de serviços odontológicos especializados em Cirurgia Bucomaxilofacial e Implantes para a sua clínica, realizou o tratamento cirúrgico e os implantes. Às fls. 54 dos autos está o relatório da Dra. Ana Beatriz G Zaratine a respeito do tratamento odontológico executado, narrando que o Sr. José Guimaráes Filho procurou a clínica em 06/09/2009, que nos exames clínico e radiológico foi constatada necessidade de remoção das unidades ainda presentes em seu arco superior, pois estavam condenadas e que o arco inferior apresentava ausência das unidades posteriores em ambos os lados. Que após entregue o plano de tratamento, o paciente optou pelo colocação de implantes e próteses fixas sobre implantes, sendo total na região superior e parciais na inferior. Que o paciente foi submetido a cirurgia para colocação dos implantes, pelo Dr. Saulo Pires Teixeira, na mesma clínica, no dia 13/01/2010, onde lhe foi dado o recibo pelo pagamento de R$ 12.000,00. Que seguindo o tratamento foram confeccionadas pela Dra. Ana Beatriz as próteses sobre implantes, iniciado em 08/06/2010, onde teve o recibo do pagamento do valor de R$ 11.950,00 (sic). Dos documentos anexados em sede de recurso entendo que restou comprovado, pela Dra. Ana Beatriz G Zaratine, que o beneficiário dos serviços foi o declarante e que a clínica odontológica funcionava à rua Altino Serbeto de Barros nº 241, sala 801, no Ed. Memorial Itaigara, SalvadorBA. Portando sanada a falta com relação ao recibo de R$ 11.850,00. Já, com relação ao pagamento realizado ao Dr. Saulo Pires Teixeira, não houve qualquer manifestação deste, apenas informações prestadas pela Dra. Ana Beatriz não Fl. 66DF CARF MF Processo nº 10580.722158/201256 Acórdão n.º 2202003.664 S2C2T2 Fl. 67 6 corroboradas pelo próprio beneficiário dos pagamentos. Assim, entendo que não foi sanada a falta relativamente ao recibo de R$ 12.000,00, devendo ser mantida esta glosa. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário, para manter a glosa de despesas médicas no valor de R$ 12.000,00. Assinado digitalmente Cecilia Dutra Pillar Relatora Voto Vencedor Conselheiro Martin da Silva Gesto, Redator designado. Data venia, venho divergir quanto ao entendimento da ilustre Relatora quanto a impossibilidade de dedução do pagamento realizado ao Dr. Saulo Pires Teixeira, no valor de R$ 12.000,00. Entendeu a Relatora que não houve qualquer manifestação deste, apenas informações prestadas pela Dra. Ana Beatriz que não teriam corroboradas pelo próprio beneficiário dos pagamentos. Primeiramente, cabe referir que os documentos apresentados em sede de recurso voluntário devem ser recepcionados e analisados, uma vez que comprovam os argumentos expostos pelo Contribuinte desde a impugnação e podem servir para rebater a decisão de primeira instância, como bem entendeu a Conselheira Relatora. No entanto, deve se registrar também a aplicação do princípio da verdade material e do formalismo moderado. Deste modo, entendo que devem ser recebidos os documentos apresentados em sede recursal, servindo os mesmos de prova do alegado pelo contribuinte. Ao que se verifica às fls. 54 dos autos, conforme inclusive consta no voto da ilustre Relatora, está o relatório da Dra. Ana Beatriz G Zaratine a respeito do tratamento odontológico executado, narrando que o Sr. José Guimarães Filho procurou a clínica em 06/09/2009, que nos exames clínico e radiológico foi constatada necessidade de remoção das unidades ainda presentes em seu arco superior, pois estavam condenadas e que o arco inferior apresentava ausência das unidades posteriores em ambos os lados. Que após entregue o plano de tratamento, o paciente optou pelo colocação de implantes e próteses fixas sobre implantes, sendo total na região superior e parciais na inferior. Que o paciente foi submetido a cirurgia para colocação dos implantes, pelo Dr. Saulo Pires Teixeira, na mesma clínica, no dia 13/01/2010, onde lhe foi dado o recibo pelo pagamento de R$ 12.000,00. Pelo demonstrado nos autos, Saulo Pires Teixeira pertencia a equipe de Ana Beatriz G Zarantine, logo, não parece fazer sentido que seja possível deduzir a despesa médica com um profissional e não com outro, sendo, inclusive, ambos realizados no mesmo tratamento odontológico. Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10580.722158/201256 Acórdão n.º 2202003.664 S2C2T2 Fl. 68 7 Ressaltase que o motivo da glosa foi pelos recibos não preencherem os requisitos legais para sua admissibilidade, pois estes não identificariam o contribuinte como beneficiário dos serviços, vejamos: Pela documentação apresentada, respaldada em declaração da Dra. Ana Beatriz G Zarantine, com firma da profissional reconhecida, temse que o contribuinte foi o beneficiário dos serviços. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Assim, tendo o contribuinte apresentado documentação comprobatória de seu direito, deve ser afastada a glosa. Ante o exposto, voto no sentido dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Redator Designado Fl. 68DF CARF MF
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Numero do processo: 10665.003511/2008-89
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/11/2003 a 01/01/2008
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.829
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 66 5. 00 35 11 /2 00 8- 89 Fl. 1051DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 1052DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 1053DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 1054DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 1055DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 1056DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 1057DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 1058DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 1059DF CARF MF Processo nº 10665.003511/200889 Acórdão n.º 9202004.829 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 1060DF CARF MF
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