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Numero do processo: 13899.001314/2006-16
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 06 00:00:00 UTC 2010
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ
Ano-calendário: 2000, 2001
REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES EXCLUSIVAMENTE COM LUCROS, AQUISIÇÃO UNICAMENTE PELOS SÓCIOS. OPERAÇÃO NÃO USUAL E ANORMAL.
A remuneração de debêntures efetuadas exclusivamente com os lucros da empresa e oferecidas unicamente aos seus sócios, foge dos critérios de usualidade e normalidade a esse tipo de operação. Somente são admitidas corno dedutiveis para apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, as despesas operacionais usuais ou normais ao tipo de transações, operações ou atividades da empresa.
IRRFONTE. COMPENSAÇÃO COM O IRRJ,
Inexiste direito a compensação do IRRF retido e recolhido pela fonte pagadora com o seu próprio IRPJ.
Numero da decisão: 1202-000.335
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso de oficio quanto à matéria compensação do IR Fonte, vencidos os conselheiros Valéria Cabral Géo Verçoza, Nereida de Miranda Finamore Horta e Orlando José Gonçalves Bueno, que negavam provimento ao recurso de oficio. Em relação ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares suscitadas, de decadência e de cerceamento ao direito de defesa e, quanto ao mérito, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Valéria Cabral Géo Verçoza, Nereida de Miranda Finamore Horta e Orlando José Gonçalves Bueno (relator), que davam provimento, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Carlos Alberto Donassolo.
Nome do relator: Orlando José Gonçalves Bueno
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OPERAÇÃO NÃO USUAL E ANORMAL. A remuneração de debêntures efetuadas exclusivamente com os lucros da empresa e oferecidas unicamente aos seus sócios, foge dos critérios de usualidade e normalidade a esse tipo de operação. Somente são admitidas corno dedutiveis para apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, as despesas operacionais usuais ou normais ao tipo de transações, operações ou atividades da empresa. IRRFONTE. COMPENSAÇÃO COM O IRRT, Inexiste direito a compensação do IRRF retido e recolhido pela fonte pagadora com o seu próprio IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso de oficio quanto à matéria compensação do IR Fonte, vencidos os conselheiros Valéria Cabral Géo Verçoza, Nereida de Miranda Finamore Horta e Orlando José Gonçalves Bueno, que negavam provimento ao recurso de oficio. Em relação ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares suscitadas, de decadência e de cerceamento ao direito de defesa e, quanto ao mérito, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Valéria Cabral Géo Verçoza, Nereida de Miranda Finamore Horta e Orlando José Gonçalves Bueno (relator), que davam provimento, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Carlos Alberto Donassolo, , 71'Nélson Ló o H ' o — Presidente .., 4 !,120Yi - - Orl uO Jose onçalves Bueno — Relator s,. " Carlos Al e o De assolo — Redator Designado, n 2 Sr i 2010 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Nelson Lósso Filho, Carlos Alberto Donassolo, Valeria Cabral Géo Verçoza, Darei Mendes de Carvalho Filho, Nereida de Miranda Finamore Horta, Orlando Jose Gonçalves Buena, Áll Or 2 Processo n° 13899,001314/2006-16 SI-C2T2 Acórdão n.° 1202-00.335 Fl. 2 Relatório Trata-se de lançamento de oficio para exigência de IRPJ em face das acusações relativas a: (i) utilização, no ano-base de 2000, de incentivos fiscais (FINAM- FINOR-FUNRES) em valores que teriam excedido o que a legislação permite, e (ii) despesas não necessárias, em razão de glosa de despesas com remuneração de debêntures no ano de 2001. Lavrou-se também, no mesmo trabalho fiscal, o lançamento de CSLL acerca do item (ii) acima. No Termo de Verificação Fiscal, foram dedicados 2 parágrafos para a acusação de que a empresa se utilizou de incentivos em valores superiores conforme apurado em revisão interna e demonstrado em anexo. Com relação às debêntures, após pequena introdução teórica acerca de debêntures e de dedutibilidade de despesas, o AGENTE FISCAL narrou que a empresa emitiu debêntures em 1998 com remuneração de até 70% do lucro e que foram adquiridas pelos próprios acionistas mediante aproveitamento de conta-corrente da qual eles eram credores junto à empresa. Ademais, para sustentar sua acusação, afirmou: A emissão das debêntures da empresa infringe a legislação e conceito puro de debênture; As características das debêntures da autuada comprovam sua anormalidade e desnecessidade, o que tornam a despesa indedutivel; Não houve captação de recursos externos (o AGENTE FISCAL adverte que este é o "motivo primordial"); Os adquirentes das debêntures foram os acionistas da empresa, mediante transferência de crédito existente em suas contas correntes mantidas junto à empresa, cujos saldos eram oriundos de dividendos de anos anteriores não pagos; Não houve circulação monetária para a aquisição das debêntures (o AGENTE FISCAL indica como "fator fundamental"). Por conta de tais motivos, o AGENTE FISCAL desconsiderou a operação, tendo sido tais despesas reconhecidas como não necessárias às operações ou transações normais à atividade da empresa. Informou ainda no TVF que a empresa já havia sido autuada anteriormente pelo mesmo motivo (processo 19515.002923/2003-85), sendo que esse lançamento relativo ao ano de 1999 foi mantido pelo 1° Conselho de Contribuintes (Acórdão 101-94,986/2005), Em 18/04/2007, a 5' Turma de Julgamento da DRJ em Campinas cancelou em parte o lançamento por reconhecer a decadência do lançamento no que concerne à utilização excessiva de incentivo fiscal, e o IRFonte pago nas remunerações das debêntures para o fim de diminuir o valor do lançamento do IRPJ, 59!IP / 3 Como fundamento de sua decisão na parte que manteve o lançamento em relação à descaracterização das debêntures, a Turma Julgadora a qua utilizou argumentos apresentados tanto em 1" instância quanto em 2 8 instância de julgamento do referido processo decorrente da exigência do ano de 1999 em face da glosa das debêntures, mediante transcrição praticamente integral das decisões, dentre os quais se podem destacar os seguintes: Argumentos da 1" decisão no processo 19515.002923/2003-85: - com o aproveitamento dos valores em conta-corrente, não houve riqueza nova (recursos novos) para financiar o projeto; - ao reembolso do valor das debêntures acrescem-se, pelo menos, juros; a participação nos lucros deve ser vista como algo a mais além dos juros; - a lógica do instituto de debêntures é o financiamento de projetos de longo prazo, sendo que no caso foi deliberado um prazo exíguo para o início da remuneração; - a propriedade deve atender a sua função social, e nesse sentido está o fisco protegendo o bem da coletividade, ao cumprir seu dever de fiscalizar e arrecadar; - o intérprete da legislação tributária pode abstrair-se da validade jurídica dos atos e fatos efetivamente praticados, pata considerar os verdadeiros efeitos econômicos subjacentes deles. Argumentos da 2" decisão (CC) no processo 19515.002923/2003-85: - é inegável que a lei faculta a remuneração das debêntures mediante participação nos lucros; - todavia, não se pode dizer que é ela normal e usual; pode-se pelo menos dizer tratar-se de um aspecto controvertido; - o direito do contribuinte auto-organizar sua vida não é ilimitado; - o conceito de legalidade a ser observado não tem sentido estrito de corresponder à conduta que esteja de acordo com os preceitos específicos da lei, mas sim um sentido amplo, de conduta que esteja de acordo com o Direito; - se o negócio lícito, embora inusual, se apoiar em causas reais, em legítimos propósitos negociais, contra ele o Fisco nada pode objetar; todavia, se adotada forma de negócio jurídico inusual, sem um real propósito negociai, mas visando apenas reduzir artificialmente a carga tributária, o Fisco pode se opor; - é pouco crível que a empresa abrisse mão de 70% de seus lucros para remunerar terceiros debenturistas, de modo que isso não é usual; - no caso, a remuneração das debêntures com até 70% dos lucros caracterizou ato de liberalidade, ainda que seja próprio da companhia captar recursos para fazer frente às suas necessidades; - não houve ingresso de novos recursos financeiros na empresa, apenas foi alterado o título da sua obrigação frente aos acionistas (o que era crédito de acionista foi transformado em crédito de debenturista); 3e) 4 Processo rf 13899 001314/2006-16 S1-C212 Acórdão n° 1202-00.335 Fl. 3 - não pode ser oponível ao Fisco uma operação que objetivou exclusivamente reduzir a carga tributária, mediante operação formalizada "em papel" que transformou lucros distribuídos em despesa dedutível. Acrescentaram-se ainda argumentos de que o questionarnento acerca do enquadramento legal em dispositivos da dedutibilidade de despesa operacional, sob argumento de existência de disposição específica sobre a matéria (RIR, art. 462), foi apreciado e afastado pelos acórdãos mencionados no voto e que o PN CST 99/78 fez constar o entendimento de que apenas as debêntures com natureza de juros são dedutíveis. Quanto ao custo financeiro do crédito dos acionistas, a DRJ sustentou que a tentativa da Recorrente não pode ser acatada, pois não restou comprovado que a empresa teria a obrigatoriedade de promover pagamentos aos acionistas, e que, portanto, necessitaria fazer empréstimo. Ademais, a contribuinte adotou como parâmetro taxas pré-fixadas do Banco Central, ao passo que o órgão divulga também taxas consolidadas de aplicação e captação, todas inferiores àquelas utilizadas. Por fim, acatou parcialmente o pedido de aproveitamento do IRFonte retido quando do pagamento das remunerações das debêntures aos acionistas para reduzir o valor do IRPJ, A Turma Julgadora recorreu de oficio em razão do reconhecimento da decadência e da redução do IRPJ por conta do aproveitamento do IRFonte. Inconformada com a decisão, a empresa Recorrente apresentou seu Recurso Voluntário no qual traz as seguintes alegações: Em 02/05/98 a Recorrente emitiu 140,000 debêntures, no valor nominal de R$ 1.000,00 cada, sendo que cada debênture assegurava uma remuneração com base exclusivamente em participação de 0,0005% nos lucros trimestrais da Recorrente, e que o máximo de 70% jamais foi alcançado. Até janeiro/2001 foi integralizado um total de 130.659 debêntures, sendo a integralização inicial (66.801 debêntures) efetuada com referidos créditos em contas correntes e as demais mediante os rendimentos das próprias debêntures. No ano- calendário de 2001 o percentual de participação nos lucros pelas debêntures chegou a 65,32% em média. Os subscritores das debêntures foram acionistas da Recorrente, que efetivaram as integralizações das debêntures mediante compensação de créditos seus mantidos em contas correntes contra a empresa, oriundos de dividendos distribuídos e não pagos, mas há muito já creditados aos acionistas. Houve cerceamento ao direito de defesa, pois a autoridade fiscal limitou-se a afirmar que a emissão das debêntures teria infringido a legislação e o "conceito puro" às debêntures, bem como que não teria se revestido das formalidades legais, sem, contudo, apontar qual o dispositivo de lei que teria sido infringido e em quais circunstâncias isto teria ocorrido. Não se pode aplicar os requisitos de dedutibilidade das despesas operacionais (art. 299 do RIR199) à remuneração assegurada a debêntures de participação nos lucros. t 1111 5 Mesmo que a remuneração das debêntures, correspondente a participações no lucro, pudesse ser subsumida ao art. 299 do RIR/99, ainda assim a dedutibilidade das mesmas estaria assegurada, pois houve relação objetiva entre a despesa e as atividades da Recorrente. A autoridade fiscal também capitulou a exigência no artigo 300 do RIR/99, segundo o qual: "Aplicam-se aos custos e despesas operacionais as disposições sobre dedutibilidade de rendimentos pagos a terceiros". Assim, considerando-se que a remuneração das debêntures corresponde a rendimento pago a terceiros, a única norma específica aplicável ao caso concreto é a do art. 462 do RIR199, a qual expressamente determina a dedutibilidade das participações no lucro da pessoa jurídica "asseguradas a debêntures de sua emissão". O negócio jurídico atinente às debêntures foi motivado por razões empresariais legítimas e facilmente aferíveis com base nos indicadores econômico-financeiros da Requerente. Houve efetivo ingresso de recursos novos ria empresa. A ausência de circulação monetária, no sentido exclusivamente fisico desta circulação, não implica na inexistência de ingresso de novos recursos financeiros para a empresa. A situação acionistas/debenturistas, sendo as debêntures remuneradas com base em participação nos lucros, foi plenamente justificável no caso concreto da Recorrente, em função da sua realidade empresarial vivida à época. O empréstimo instrumentalizado pelas debêntures foi vantajoso para a Recorrente, pois seu custo ficou abaixo das taxas médias praticadas para empréstimos bancários à pessoa jurídica (34,88% para as debêntures e 40,99% para os empréstimos bancários). A estrutura de endividamento da Recorrente era absolutamente compatível e adequada às características de seu negócio, conforme se observa do resultado da pesquisa sobre endividamento de empresas, realizada por empresa especializada. A redução do lucro da Recorrente pela remuneração das debêntures não importou na eliminação total ou abusiva de tributação. Adicionalmente, caso o valor total da remuneração das debêntures fosse reconhecido pela Recorrente sob a forma de contas correntes remunerados com os seus acionistas a taxas de juros de mercado ou pudesse ser pago sob a forma de juros sobre o capital próprio (JCP), nenhuma dessas outras opções seria mais onerosa do ponto de vista tributário do que acabou sendo a opção das debêntures (apresentou quadros comparativos). Ainda que fosse mantido o lançamento do IRPJ, a dedutibilidade das participações no lucro asseguradas às debêntures não pode ser questionada quanto à base de cálculo da CSLL, na medida em que não há qualquer diploma legal determinando que as despesas não dedutíveis para fins de apuração do lucro real, em fimção do requisito de necessidade regulado no art. 299 do RIR/99, devam ser adicionadas à base de cálculo da CSLL. Caso fosse mantido o lançamento em sua integralidade, os valores recolhidos pela Recorrente a título de IRRF devem ser deduzidos do crédito tributário de IRRI, na medida em que a modificação dos efeitos fiscais de um negócio jurídico não pode limitar-se a apenas um de seus efeitos (a dedução das bases do IRPJ e CSLL), mas sim a todos eles, inclusive os pagamentos feitos em decorrência deste mesmo negócio a título de IRRF no período-base autuado. Encontram-se nos autos pareceres de Marco Aurélio Greco e de Ricardo Matiz de Oliveira que concluem pela regularidade da operação objeto deste processo e pela eficácia para fins fiscais, - 6 (.7(f Y-11) Nik Processo n° 13899 001314/2006-16 51-C2T2 Acórdão n 1202-00335 A 4 Cuida-se de retomo de diligência, nos termos da Resolução no. 1202-00.008, de 17 de junho de 2009, que teve a finalidade de esgotar a análise probatória sobre a documentação constante nestes autos, relativamente aos recolhimentos do IRRF referentes a abril, maio e dezembro de 2001, cotejadas às justificativas e demonstrativos elaborados pela Recorrente. Pois bem, a diligência foi executada e veio aos autos seu termo conclusivo, a fls. 1733 e 1734, que leio em sessão para elucidar o quanto diligenciado. Foi dada ciência a Recorrente que se manifestou no prazo concedido, aduzindo o seguinte: - que a diligência validou que os valores recolhidos, nos períodos de abril, maio e dezembro de 2001 do IRRF sobre emissões de debêntures e que devem ser deduzidos do IRPJ lançado originalmente neste auto de infração, alcançando os juros de mora e a multa de oficio, alegando igual tratamento conferido no julgado pela l n Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, nos autos do processo administrativo no. 19515,00292.3/2003-85, em que é parte a própria Recorrente; - que, por autorizado pelo art. 3°, inciso III da Lei no, 9,784/99 requer que seja apreciado o argumento da não incidência dos juros "selic" sobre a multa de oficio, perante a exoneração pretendida em parte sobre a autuação, citando ementas deste órgão fazendário de julgamento, inclusive o acórdão CSRF/02-03.133 (processo no, 18471,001680/2004-30); - suscita, ademais a impossibilidade de o fisco exigir crédito tributário oriundo de negócio jurídico ou ato praticado há mais de cinco anos contados da data do lançamento de oficio, ainda que esses negócios ou atos tenham gerado repercussão em períodos-base subseqüentes, ou seja, suscita a decadência como questão de ordem pública, que deve ser conhecida a qualquer tempo e instância de oficio pelo órgão julgador, que implica no próprio controle de legalidade do lançamento. Reporto-me a manifestação da Recorrente a fls. 1748 a 1753, que leio em sessão para o fiel relato da ocorrência processual. Eis o relatório, , 11" 7 Voto Conselheiro Relator, Orlando José Gonçalves Bueno Quanto ao Recurso de Oficio, a decisão de primeira instância acolheu a decadência, considerando o ano-base 2000 e a ciência do auto de infração na data de 11122006, portanto, transcorrido 05 (cinco) anos da ocorrência do fato gerador, eis que deve ser mantida posto ter cumprido corretamente o quanto prescrito no § 4" do art, 150 do Código Tributário Nacional, mormente em se tratando de lançamento por homologação, na esteira da pacífica jurisprudência do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, e em não se imputando à contribuinte qualquer fraude, simulação ou vício social que tenha contaminado a operação tributária auditada. Assim como, a decisão da DRJ também acolheu que deveria ser deduzido da exigência o valor recolhido a título de 1RRFonte cuja vinculação aos rendimentos de debêntures pôde ser identificada mediante confronto dos DARF apresentados e das DIRF enviadas pela contribuinte, parcialmente pois não acolheu os valores supostamente recolhidos nos meses de abril, maio e dezembro de 2001, objeto da relatada diligência, uma vez considerados não provados. Nesse sentido, a diligência mencionada traz aos autos, conforme relatório conclusivo, a validação dos mesmos, com que confirma o entendimento exarado pela autoridade julgadora de primeira instância, para manutenção de sua decisão, não havendo motivo pata qualquer modificação perante esta instância recursal, uma vez comprovados os recolhimentos do IRRF onte, fazendo a contribuinte jus as deduções do IRPJ como decidido. Nego, por esses fundamentos, provimento ao recurso de oficio. Quanto ao Recurso Voluntário, presentes os pressupostos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Da preliminar de decadência. Suscita, ainda que em momento superveniente ao prazo de interposição do recurso voluntário, a decadência do lançamento, entendendo não ser possível a autoridade fiscalizadora emitir juízo de valor sobre negócio jurídico causal ou de origem, que produziu efeitos em períodos subseqüentes, ultrapassados os cinco anos da revisão fiscal nos termos do art. 150, parágrafo 4' do CTN. Por tratar-se de matéria de ordem pública - o instituto da decadência - entendo necessário o pronunciamento de oficio sobre tal preliminar, perante esta instância recursal administrativa, o que não seria possível se outra fosse a argüição do sujeito passivo nesta fase processual. Portanto, em face aos argumentos apresentados pela Recorrente, sobre tal preliminar cabe serena análise. Fato comprovado e incontestável é que o negócio jurídico, qual seja, a emissão das debêntures, em competente forma legalmente exigida, mediante escritura pública, foi lavrada em 02 de maio de 1998 (fls. 113/117), momento em que, perante terceiros, e aí se , (.1 t* 8 , I N Processo n 13899 001314/2006-16 Sl-C2T2 Acórdão n 1202-00.335 Fl 5 inclui a Fazenda Pública, constituiu-se seus regulares e legais efeitos, geradores de sua validade, ou invalidade perante fatos jurídicos constitutivos, naodificativos ou extintivos desses mesmos efeitos, objeto inicial e principal da auditoria fiscal cometida pela autoridade administrativa lançadora. Desta feita, sendo termo inicial de auditoria e base documental originária das conclusões finais do trabalho fiscal, é de se indagar se teria a autoridade fiscal competência e poder para examinar, no que se refere a regular produção de efeitos tributários constitutivos, o negócio originário que causou a glosa, na base de cálculo do IRRI e CSLL, da remuneração assegurada a debêntures emitidas por aquele instrumento jurídico formal inicial. Indiscutível, também, que a lei tributária- o CTN — estabelece um limite para a auditoria/ revisão fiscal, qual seja, o prazo de cinco anos a contar do fato gerador. Diga-se, para conferir, analisar, perquirir, apreciar documentos e negócios que tenham efeitos fiscais/tributários, Veja-se o Termo de Verificação Fiscal para conferir a análise do aludido documento, no que diz respeito a seu juízo sobre considerar a operação de emissão de debêntures válida, ou inválida e o tratamento concedido para seus efeitos tributários futuros. Como já relatado, a autoridade fiscal verificou e concluiu o seguinte: a emissão das debêntures da empresa infringe a legislação e conceito puro de debênture; as características das debêntures da autuada comprovam sua anormalidade e desnecessidade, o que tornam a despesa indedutível; não houve captação de recursos externos (o AGENTE FISCAL adverte que este é o "motivo primordial"); os adquirentes das debêntures foram os acionistas da empresa, mediante transferência de crédito existente em suas contas correntes mantidas junto à empresa, cujos saldos eram oriundos de dividendos de anos anteriores não pagos; não houve circulação monetária para a aquisição das debêntures (o AGENTE FISCAL indica como "fator fundamental"). Dessas considerações se infere que a autoridade fiscal se debruçou para emitir juízo de valor relativamente ao mérito da própria e original emissão das debêntures, vale dizer, para desqualificar como inválidos os seus efeitos fiscais constitutivos relativos a dedutibilidade como despesa necessária à atividade operacional da Recorrente, nos períodos subseqüentes, dentro dos prazos das respectivas integralizações das mesmas, ou seja, dentro do período em que, tributariamente, competia sua auditoria. Ou seja, a autoridade fiscal interpretou o efeito — despesas operacionais — decorrentes do negócio jurídico causal como insustentáveis juridicamente, atribuindo-lhe efeitos extintivos em face aos critérios legais de dedutibilidade das despesas dele decorrentes, em períodos subseqüentes, vale dizer, dentro do período de cinco anos como permitido pela lei, quando atribui poder revisional à autoridade administrativa fiscalizadora, no regular exercício de suas funções. /IP 9 Portanto, uma vez colocada a premissa fática inicial de que a autoridade fiscal utilizou-se de documento legalmente válido para sua auditoria a partir de 02 de maio de 1998, qual seja, o negócio jurídico de onde se originou todo o tratamento fiscal/tributário conferido ao mesmo nos períodos subseqüentes, cabe examinar se tal negócio, sob o mesmo ângulo da discussão interpretativa da legitimidade, ou não, de auditoria retroativa sobre a composição cumulativa do prejuízo fiscal para o IRPI, ou da base negativa para a CSLL, pode ser considerado como base original para a auditoria fiscal como levada a efeito. Assim, sendo prescrito pelo art, 150, parágrafo 4° do Código Tributário Nacional o prazo de cinco anos para a homologação do lançamento de tributos sujeito a esse regime, a contar do fato gerador, e, com a segunda premissa neste autos, qual seja, glosa das despesas consideradas indedutíveis do ano de 2001, por força da desconsideração dos efeitos do negócio jurídico de emissão de debêntures e respectivas integralizações, sobre as bases do IRPJ e CSLL, que são tributos já reconhecidos pela pacífica jurisprudência administrativa como submetidos ao regime de homologação, pode-se concluir que mediante a auditoria fiscal inicial sobre o negócio jurídico celebrado em 1998, porém para justificar a desconsideração dos efeitos de dedutibilidade nos anos subseqüentes, dentro desse período legal, podia a autoridade fiscal analisar a base negociai, a fim de configurar os efeitos apropriados em exercícios fiscais sem qualquer óbice pela decadência. Em outras palavras, o que a autoridade fiscal considerou foi a desnecessidade das despesas operacionais, dentro do período de cinco anos, ainda que decorrentes do negócio original de emissão de debêntures, ou seja, se ateve ao efeito fiscal da substância jurídica formal adotada pelo sujeito passivo na solução de seus investimentos empresarias, que não se confunde, de maneira nenhuma, com as operações de composição de prejuízo fiscal ou base negativa do IRPJ ou CSLL, posto que a autoridade fiscal pode avaliar e interpretar a natureza das despesas como ineficazes em face as circunstâncias subjetivas e objetivas elencadas pela mesma, sem qualquer desconsideração do negócio jurídico original, qual seja, a escritura pública de emissão de debêntures, que restou incólume e válida como de direito. A auditoria se deteve em glosar as despesas tidas como operacionais por entendê-las desnecessárias, inusuais e anormais para a atividade econômica do sujeito passivo e este foi o objeto desta autuação fiscal, dentro do período temporal que lhe competia tal verificação, o que não quer dizer que estaria impedida de avaliar, como o fez, a própria matriz de onde derivaram tais despesas tidas como operacionais, para justificar seu entendimento da desnecessidade. Cuida-se, impende reiterar, o presente processo de glosa de despesas consideradas desnecessárias, e não desconsideração do negócio jurídico por qualquer vício ou patologia jurídica, que repercute no efeito fiscal, em legítimo exercício do poder fiscalizatório da autoridade administrativa. Se, no mérito, a sua operação interpretativa pode ser passível de revisão ou reexame, em virtude de razões de outras naturezas, não há se falar em óbice por decadência quando se realiza a apreciação dos fundamentos originais para a caracterização da natureza das despesas, que é o objeto do lançamento de oficio, portanto, com efeitos dentro do período temporal legalmente válido. Outra coisa, bem distinta, como vem entendendo a jurisprudência citada pela Recorrente, é o poder revisional limitado ao cinco anos da composição do prejuízo fiscal e base negativa tributárias, posto que parte integrante da própria base de nascimento da obrigação tributária verificável, intrínseca para constituição do crédito tributário, o que, por sua natureza, encontra a barreira legal do limite decadencial. Não se trata do caso dos autos, pois examinam-se operações diferentes, aqui se analisa um efeito próprio,no âmbito fiscal, como adotado pela Recorrente — despesas operacionais — cujo entendimento fiscal foi no sentido negativo de sua validade, enquanto lá se verifica o cômputo ou cálculo de valores a formarem o prejuízo fiscal diretamente no IRPJ ou na base da CSLL, para se validar os seus efeitos fiscais em face o cumprimento de obrigações tributárias, limitadas tais auditorias de bases no tempo decadencial de cinco anos, \)çi lo Processo n't 13899001314/2006-16 SI-C2T2 Acórdão n ° 1202-00335 Fl 6 Pois bem, feita a distinção na interpretação dos julgados do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, citados pela Recorrente, para ajustes no passado e repercussão futura, compreendendo-se passado aquele que ultrapassa o limite temporal dos cinco anos do poder revisional tributário, sou do entendimento que a digna autoridade fiscal lançadora poderia emitir juízo de valor quanto ao negócio jurídico pretérito e original dos efeitos objetivos como despesas operacionais, para interpretá-los inválidos, como o fez nestes autos. Portanto, sou por rejeitar a decadência, conforme suscitada. A Recorrente alega também preliminar de cerceamento do direito de defesa, pois ela baseou-se apenas na suposição de que a autoridade fiscal teria entendido que as participações no lucro atribuídas às debêntures deveriam ser subsumidas ao art. 299 do RIR199, porém sem saber quais as razões que a levaram a tal conclusão, frente à existência de norma expressa do art. 462 do RIR/99. Não obstante a autoridade autora do lançamento de oficio não ter se esmerado na formação de uma linha de raciocínio na elaboração do Termo de Verificação Fiscal e ainda ter promovido glosa integral, é possível organizar sua acusação da seguinte maneira: para receberem o tratamento fiscal previsto em lei, as debêntures devem observar a emissão e a remuneração que se encontram no mercado com critério de razoabilidade, tendo em vista que os debenturistas são os próprios acionistas e não se admite o tratamento mais benéfico para eles em relação ao mercado; ademais, seria necessário aporte financeiro com trânsito fisico do recurso. Com efeito, parece-me equivocado o embasamento legal adotado pelo agente fiscal (tema tratado no próximo item), pois, se a leitura que se deve fazer da acusação é a do parágrafo acima, evidentemente que não se trata de despesa desnecessária. O dispositivo no artigo 299 poderia, no máximo, servir de subsídio em acusação de distribuição disfarçada de lucros ou mesmo de simulação na estruturação de debêntures para o fim de criar despesas inexistentes, o que viciaria a própria estrutura do negócio jurídico causal. Entretanto, não é o caso de cerceamento do direito de defesa, uma vez que tanto os fatos quanto a acusação — ainda que passível de aprimoramento (mas não por autoridade julgadora) — foram devidamente apresentados pelo Termo de Verificação Fiscal. Prova disso é que a Recorrente discorreu longamente em suas peças sobre o direito de emitir debêntures com participação no lucro da companhia, o direito de apropriar o valor alocado como remuneração de tais debêntures como redutor do lucro líquido, e a impropriedade da aplicação do art. 299 do RIR199 in casu. Assim, especificamente no tocante à preliminar de cerceamento do direito de defesa, não há como acolher a pretensão da Recorrente. Destarte, passo ao exame do mérito, Quanto ao Recurso Voluntário, presentes os pressupostos de admissibilidade , dele tomo conhecimento. A acusação fiscal de despesa indedutível da remuneração das debêntures — por desnecessária — baseia-se no "motivo primordial" e no "fator fundamental" indicados no TVF, quais sejam: (i) não houve captação externa de recursos, e (ii) não houve circulação monetária para aquisição de debêntures pelos acionistas. c)ya Ou seja, duas causas econômicas. O lançamento foi motivado também com a acusação de que a empresa infiingiu a legislação e conceito puro de debênture, e o enquadramento legal foi o art. 299 do RIR199, vale aduzir, questionada a estrutura jurídica da operação: o negócio estruturado mediante escritura pública de emissão de debêntures, com efeitos que se produziram no decorrer de mais de um ano-calendário fiscal. Pois bem, a análise do Recurso Voluntário seguirá adiante com os seguintes pontos principais do embate: (1) a base legal adotada, (2) a legitimidade das debêntures, (3) os recursos financeiros, (4) a remuneração das debêntures. Elementos esses extraídos do exame da operação, desde a motivação para emissão de debêntures, até a apropriação como despesas necessárias à atividade produtiva, ou mantenedora da fonte produtiva da empresa fiscalizada. A BASE LEGAL ADOTADA Como já adiantado acima, o embasamento legal — e, por consequência, a correspondente acusação — de despesa desnecessária, por não usual ou normal, não pode ser aplicada em especial no presente caso. É que, quando há um dispositivo normativo específico sobre a dedutibilidade de um determinado instituto, não pode a autoridade administrativa livremente lançar mão do dispositivo genérico, criado para situações que não tenham tratamento legal individual, posto que sua atividade, como é sabido, é vinculada a lei, não permitindo interpretação contrária ao disposto no preceito específico. O parecer de Ricardo Matiz de Oliveira, trazido aos autos pela Recorrente, é oportuno para elucidar a questão da utilização do art. 47 da Lei 4.506/64 — matriz legal do art, 299 do RIR199 — somente quando não houver regra específica, ao afirmar que "O art, 47 constitui-se em regra que se aplica a todas as despesas para as quais não haja uma norma especifica sobre a sua dedutibilidade, pois visa explicitar quando uma despesa, que não seja tratada expressamente na lei, pode ou não ser deduzida perante o lucro real tributável pelo IRPJ." (pág., 16). E, quanto ao art. 58 do Decreto-lei 1.598/77 (matriz legal do art. 462 do RIR199), arremata: "Vê-se claramente que tal disposição se integra naquela categoria de normas que não proíbem, limitam ou condicionam a dedução de uma despesa contábil, ou a transferem para outro período de apuração, mas, sim, pertence ela ao grupo de normas que admitem a dedução de algum valor por exclusão do lucro líquido após a sua apuração, e não como custo ou despesa," (pág. 18). Esse foi o entendimento unânime da E 7" Câmara do 1 0 Conselho de Contribuintes sobre esse mesmo tema particular, no Acórdão 107-08.029, onde no voto condutor do relator Luiz Valem constou: "O artigo transcrito [arL 242 do RIR/94, atual 299 do RIR/991 não serve como suporte à discutida exigência, posto que o caso em exame não tem a configuração de despesas desnecessárias, que é o substrato tático do referido dispositivo. No caso vertente, trata-se da dedutibilidade da participação conferida aos debenturistas que tem regra própria, assim definida no art. 430 do RIR194, atual art. 462 do RIR/99: 'Art. 430 . Podem ser deduzidas na apuração do lucro líquido do período-base as participações nos lucros da pessoa jurídica (Decreto-lei n " 1.598/77, art. 58).- 1— asseguradas a debêntures de sua emissão; 12 Processo ri° 13899 001314/2006-16 Sl-C2T2 Acórdão a° 1202-00335 Fl 7 (—,), Portanto, o fato tributado deveria estar enquadrado no campo de exclusão indevida das bases de cálculo do imposto de renda e da contribuição social e não no âmbito de despesas desnecessárias. (.,.)" Ou seja, devem ser diferenciadas as despesas — que se vinculam à manutenção da fonte produtora da riqueza — e a participação nos lucros — correspondente ao risco do negócio, mais especificamente do resultado do negócio. Convém fazer breve comentário no tocante ao voto da eminente conselheira Sandra Faroni, relatora do Acórdão 101-94.986/2005 (relativo à exigência do ano de 1999 contra a mesma contribuinte), em que discorre sobre a falta de demonstração da usualidade e normalidade de debêntures com participação nos lucros da ordem de 70% (Decisão a quo, 1041 dos autos). Aquela decisão se vale de lições de Ricardo Mariz de Oliveira (autor de um dos pareceres juntados a estes autos) para fundamentar seu entendimento de que as despesas de remuneração de debêntures com participação nos lucros em favor de acionistas são desnecessárias; mas, para o caso dos autos, a opinião desse jurista é contrária à conclusão da ln Câmara (vide o parecer às páginas 19 a 40). Com efeito, discorre o parecer no sentido de que é absolutamente pacífico que o IRP.1. incide sobre o acréscimo patrimonial, que é identificado com a situação em que os novos bens e direitos do patrimônio superarem os gastos incorridos para a sua produção. E é por isso que o comando do art. 47 orienta no sentido de que "todas as despesas relacionadas às atividades da empresa ou à sua fonte produtora têm a predestinação de serem deduzidas da base de cálculo do IRRI, somente se cuidando de acrescer a esta base as despesas para as quais algum dispositivo legal imponha uma exceção à regra da dedutibilidade" (pág. 21). Ou seja, existe uma relação objetiva entre a despesa e a atividade da empresa que gera receita, com intuito de formar o lucro tributável. Assim, uma despesa é dedutível quando for inerente à atividade da empresa, vista como um sociedade que, para o pleno exercício de seu objeto social, reúne todos os elementos produtivos, sejam diretamente para a produção de mercadorias, sejam os gerenciais/administrativos e financeiros, compreendendo desde a atividade operacional central produtiva — "chão de fábrica "- até a governança corporativa, regida pelos princípios científicos e técnicos das ciências da administração e da economia. Esta é premissa real importante, pois se trata de uma empresa industrial complexa, com modelo administrativo mais avançado que uma comum empresa industrial ou comercial, o que faz com que todos seus recursos disponíveis, sejam fisicos ou materiais produtivos, sejam financeiros e administrativos, devam ser manejados a fim de buscar a excelência e otimização nas respectivas rentabilidades. Impende ressaltar, no caso do negócio jurídico causal, a emissão de debêntures com remuneração nos lucros, em que pese todo o esforço justificativo e interpretativo da autoridade administrativa para descaracterizar o efeito fiscal de sua origem, por julgar desnecessária a despesa em comento, a mesma não reconheceu, nem revelou ou sustentou qualquer vício por simulação do negócio jurídico, corroborando, por via reflexa, que o mesmo é válido e apto a produzir os efeitos dele decorrentes. 13 A questão, de fundo, também importa trazer à análise, é a vetusta polêmica das causas dos planejamentos tributários, ou seja, causas econômicas e estrutura jurídica, forma e substância, para entendimento do efeito sob a ótica do intérprete, em se tratando de objeto lícito e não expressamente vedado por lei, Em suma, a discussão sobre o que deve ser considerado: o efeito econômico, ou o negócio jurídico causal, ou ambos em concurso de fatores produtivos, como aludido, tendo em vista o cerne do planejamento que é o tratamento do recurso financeiro sob a regência da legislação tributária. No caso em tela, os recursos correspondentes à emissão das debêntures impulsionaram a atividade empresarial da Recorrente (conforme argumentação da Recorrente), o que permite concluir com segurança que se relacionam objetivamente à captação dos recursos (que geraram a dedução da respectiva remuneração na apuração do lucro) e a atividade da companhia, ora Recorrente. Assim, ainda que a fiscalização se detenha na acepção comum do termo "necessidade" da despesa, resta evidente in casu que o critério da necessidade deve ser entendido pragmaticamente, ou seja, no contexto negociai da Recorrente, haja vista que em razão dos valores mantidos na empresa em contrapartida das debêntures, houve desenvolvimento das operações da mesma, portanto, incremento circulatório econômico/financeiro de manutenção da fonte produtora, como foi previsto pelo legislador do comando legal aludido, ao impor a condição da despesa necessária para tal desiderato. A LEGITIMIDADE DAS DEBÊNTURES No TVF, o agente afirmou que se infringiu a legislação e conceito puro de debênture sem, entretanto, apontar efetivamente qual dispositivo legal ofendido, Portanto, examina o mérito jurídico do instituto, formalizado em estrutura jurídica já considerada válida, porque não contaminada por qualquer patologia juridica,0 que, a meu ver, demonstra uma inconsistência lógica com a incompatibilidade patenteada, posto que se o negócio jurídico está conforme a lei, com objeto lícito, e validamente considerado, não tendo sido produzido com vício de consentimento ou vício social (simulação), a autoridade administrativa sustenta violação do instituto de debênture, sem descrever, no entanto, qual transgressão expressa da regra positiva do Direito que restou cometida pela Recorrente, na adoção da estrutura jurídica negociai sob exame. Em síntese, se vale o negócio jurídico causal, legítimo, porque seu efeito fiscal foi desconsiderado sem validade jurídica, apenas fundado em apreciação isolada sem conexão ao próprio contexto negociai celebrado eficazmente ? Na Decisão recorrida que se apóia no Acórdão da E. P Câmara (que apreciou lançamento contra a ora Recorrente e decorrente dos mesmos fatos, porém relativamente ao ano de 1999), foi sustentado que as debêntures devem ser remuneradas por juros e, eventualmente, com vantagem adicional de participação nos lucros da companhia, ainda que se tenha reconhecido que: "É inegável que a lei faculta a remuneração das debêntures mediante forma de participação nos lucros. Tal consta de disposição literal da lei. Também não há vedação expressa na lei a que essa forma de remuneração seja a única atribuída. (..,)" (fls. 1.036). E adiante concluiu-se naquele Acórdão 101-94.98612005 que "Não pode ser oponível ao Fisco uma operação que objetivou exclusivamente reduzir a carga tributária. Mediante operações formalizadas apenas 'em papel', a empresa transformou artificialmente lucros distribuídos em despesa dedutível," (fls. 1.042) Data vênia, refletindo melhor sobre o tema e com a oportunidade de analisar as circunstâncias que cercaram a operação da Recorrente, concluo que não há como manter o acompanhamento do raciocínio daquela eminente conselheira. tti , 14 Processo n° 13899.001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão n ° 1202-00335 Fi 8 Em primeiro lugar porque, se a lei prevê a possibilidade de a remuneração das debêntures ser apenas mediante participação nos lucros, então não se pode admitir a imposição de prática de ilegalidade o negócio jurídico que adota o previsto em lei. Caso contrário, estar-se-ia afrontando o comando do art. 5 0, II, da Constituição Federal, segundo o qual as pessoas somente estão obrigadas ou proibidas de praticar algum ato, se houver lei para tanto. Em segundo lugar, reitere-se, porque não se demonstrou (ainda que por indícios convergentes) tratar-se de simulação, já que a afirmação final transcrita acima indica que teria havido simulação na emissão das debêntures com intuito de esconder-se a realidade. E a justificativa para tal — exposta no referido acórdão — foi a de que não seria crível uma remuneração de 70% para quem não fosse acionista da companhia (mas debenturista) levando em conta que o principal objetivo da companhia é obter lucros para os detentores do capital; e, portanto, essa remuneração somente teria sido fixada porque favorecia exatamente os mesmos indivíduos que compõem o quadro de acionistas. Como conclusão, o reflexo de diminuição da base de cálculo do IRPJ e da CSL não seria oponível ao Fisco, com base na doutrina de Marco Aurélio Greco encontrada na sua obra "Planejamento Tributário" (Editora Dialética, 2004, pp. 179 e 180). A jurisprudência que vem se consolidando neste tribunal é que a simulação corresponde a atos jurídicos ou operações permeadas de artificialidade, e que deve ser reconhecida quando se identificarem indícios da desmontagem da operação apresentada a terceiros, em especial ao Fisco. Ou seja, a verdade é outra do que se apresenta em termos formais, e para efeitos fiscais deve ser considerado o que se escondeu que nada mais é do que o "fato jurídico tributário verdadeiro". Tais indícios geralmente correspondem a: (a) elaboração de inúmeras operações em curtíssimo espaço de tempo que terminam em situação favorável, do ponto de vista fiscal, (b) documentos que desdizem os documentos apresentados, (c) documentos ante ou pós-datados, (d) não submissão das partes às consequências do negócio aparente, e (e) não produção dos efeitos do ato jurídico. Ocorre que não se demonstrou nem no Termo de Verificação Fiscal nem em qualquer outra fase processual que teria havido tal desmontagem da operação, o que leva a não se compartilhar do entendimento de que a operação questionada é artificial e inoponível ao Fisco. Por tais motivos, foi reconhecida como válida a emissão das debêntures na forma da Assembléia Geral Extraordinária de 15/04/1998 e da Escritura de 02/05/1998. Vale comentar ainda a alegação contida no Acórdão da ia Câmara de que a remuneração foi deliberada a até 70% por conta da coincidência de acionistas e debenturistas nas mesmas pessoas. Essa alegação está mais no sentido de que a remuneração está acima do que praticado pelo mercado (o que será tratado no item específico adiante — "4 A Remuneração das Debêntures"). Isso, na verdade, reitera a legitimidade da estrutura jurídica de captação adotada, já que a patologia lá apontada é o guantum da remuneração e não a estrutura em si, ainda que o percentual da remuneração seja considerada como fundamento da patologia da estrutura. No TVF, aponta-se como "motivo primordial" o fato de que não houve captação externa de recursos. Ora, tratando-se de companhia de capital fechado, é razoável que os próprios acionistas — ou então pessoas de seu relacionamento — optem pela aqu'jsição das 15 debêntures. Além de não existir proibição na Lei 6.404/76, essa razoabilidade é confirmada pelo disposto no parágrafo 1' do artigo 57 do mesmo diploma que estabelece o direito de preferência dos acionistas para subscrição de debêntures conversíveis em ações da companhia. Ao contrário da afirmação do outro acórdão, estranho seria que os debenturistas de companhia fechada fossem apenas terceiros. Não há que se falar, pois, em planejamento tributário abusivo ou artificial por parte da Recorrente com estrutura jurídica apenas formal da operação, pois foi e está inteiramente a denotar que o propósito do planejamento foi econômico/financeiro/tributado, com o aproveitamento, ao máximo, de todas as possibilidades legítimas constantes da legislação para a adoção da estrutura jurídica conforme descrita. Como é cediço, a linha doutrinária que rompeu o entendimento que vinha tendo o Conselho de Contribuintes no sentido de respeitar as formalidades adotadas para fim de aplicação de normas tributárias, a partir da Lei Complementar 104/2001, é capitaneada por Marco Aurélio Greco, como expressamente constou de referência do voto da conselheira da 1" Câmara. Por isso, parece recomendável mencionar sua linha de raciocínio acerca da legitimidade das debêntures da Recorrente, contida no parecer dos autos, Para responder se os efeitos tributários gerados pelas debêntures são oponíveis ao Fisco, submete o jurista a operação a 4 crivos: (a) não haver ilegalidade ou ilicitude, (b) não haver patologia no negócio jurídico, (c) haver justificação por existência de motivo, finalidade e congruência, e (d) haver justificação por inserção no planejamento estratégico do empreendimento econômico (págs. 12 e 13). Após tratar detalhadamente sobre cada um deles, resume sua opinião na resposta ao quesito 4: "A análise das circunstâncias mostra a existência de um único motivo (real e aparente) que afasta a simulação; o exercício regular do direito de emitir debêntures participativas em sintonia com a finalidade do instituto (sem distorção do seu perfil objetivo, nem reiteração abusiva); e o fato de o resultado prático visado com a operação ter sido viabilizar a aceleração dos investimentos e não a menor carga tributária (esta é efeito lateral e não predominante da operação) afastam o abuso de direito e a fraude à lei tributária. Além de não padecer de patologias, a operação examinada encontra justificação suficiente, pois possui perfil compatível com o motivo em que se apóia e a finalidade a que visa, bem como está em sintonia com o planejamento estratégico do empreendimento e correspondeu à busca do interesse da companhia à luz, inclusive, da responsabilidade social que lhe cabe." (págs. 58 e 59). Ademais, a justificativa econômica da deliberação pela emissão das debêntures deve ser analisada diante das possibilidades que se apresentavam à época, levando em conta que o valor do saldo das contas correntes dos acionistas eram indispensáveis para o crescimento da Recorrente. As possibilidades eram: (a) manter em forma de empréstimo devidamente remunerado, (b) contrair empréstimo junto a alguma instituição financeira, (c) converter o passivo em capital social, ou (d) emitir as debêntures. Quanto ao item (a), manutenção de empréstimos dos acionistas devidamente remunerado, importa dizer inicialmente que tal remuneração poderia ser a de juros que a companhia estaria obrigada se obtivesse empréstimo no mercado, respeitando assim o disposto no att. 299 do RIR199. Não se pode supor que a companhia se beneficiasse de recursos de terceiros em qualquer contrapartida, pois haveria enriquecimento indevido, levando em conta (\30 16 Processo n° 1.3899.001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão n° 1202-00335 Fl. 9 que, enquanto não aplicado o artigo 50 do Código Civil (desconsideração da personalidade da pessoa jurídica), não se deve confundir as pessoas dos acionistas e da companhia. A remuneração do empréstimo representaria uma despesa financeira imediata, independentemente do resultado verificado em função dos valores tomados, o que poderia marcar as demonstrações financeiras com reduções de resultado e/ou prejuízos antes de encerrado o ciclo do projeto desenvolvido com aqueles recursos. O item (b), empréstimo junto a alguma instituição financeira, se equipara ao item (a) acima com o agravante de que a remuneração seria provavelmente superior por conta do spread dos bancos nas taxas de juros (a taxa cobrada pelos bancos é superior à taxa paga pelas aplicações financeiras). No tocante ao item (c), conversão do passivo em capital social, o ato possui caráter definitivo ou de prazo indeterminado, mas sempre de longo prazo, que representa perspectiva oposta às debêntures que possuem prazo de vencimento. A liberdade de escolha, que paralelamente traga algum beneficio fiscal ao contribuinte, não pode ser tolhida pelo Fisco com a justificativa de que se deve pagar mais tributo quanto possível. Além do respeito à liberdade de contratar (desde que não seja artificial), seria de se esperar que o aumento do capital social servisse também de maior base para cálculo de Juros sobre Capital Próprio, reduzindo-se da mesma forma a base de cálculo do 1RPJ e CSL e sofrendo retenção de Imposto de Renda na Fonte menor (15%) se comparado ao mútuo (20%). E o item (d), opção escolhida de emissão das debêntures, forneceu à Recorrente os recursos por um determinado período de tempo com a remuneração do principal condicionada à existência de lucros, afastando o risco de incorrer em despesa financeira enquanto não verificados os resultados esperados. Portanto, resta claro que a acusação de que a estrutura jurídica teve por único fim a redução da carga tributária e que, por isso, não seria oponível ao Fisco, não se sustenta diante das possibilidades que se apresentavam à Recorrente, nem mesmo na visão daquele que clama pela justificativa econômica e social das escolhas adotadas pela empresa na gestão de seus negócios. Ademais, em todas as hipóteses, haveria custo financeiro dos recursos em favor da Recorrente. (3) OS RECURSOS FINANCEIROS A não circulação monetária para aquisição de debêntures pelos acionistas corresponde ao "fator fundamental" do lançamento, indicado no TVF. O próprio agente fiscal aponta para o histórico (página 4 do TVF): "- Os adquirentes das debêntures, foram única e exclusivamente os sócios da empresa, Srs. os quais adquiriram as debêntures mediante transferência de crédito existente em suas contas correntes mantidas junto a empresa. - Os referidos saldos existentes em contas correntes, são oriundos de lucros não distribuídos de exercícios anteriores, 410 17 Por tais afirmações, verifica-se que os acionistas eram credores da Recorrente uma vez que mantinham contas correntes originadas de dividendos de anos anteriores, não pagos. E que os valores dos créditos dos quais eram titulares foram disponibilizados para a companhia para pagamento da subscrição das debêntures. Inicialmente, deve-se observar em qual relação jurídica encontravam-se de um lado os acionistas e de outro lado a companhia. A relação jurídica, que se denomina "conta corrente", é de dívida de curto prazo onde a companhia comparece como titular da obrigação e os acionistas como titulares do direito de exigir o pagamento de determinado valor. Essa relação jurídica tem como característica a movimentação e/ou liquidação em breve espaço de tempo. Assim, se os valores que se encontravam em poder da empresa (circulante ou pemianente) devessem — por questão de orientação de investimentos adotada pelos administradores e controladores da companhia — permanecer por prazo médio ou longo, era comportamento esperado que se formasse uma outra relação jurídica, com objetivo de que a companhia não se visse, de uma hora para outra, impelida a pagar a sua dívida de curto prazo. Como se viu acima, diante das possibilidades, a escolha dos dirigentes foi a de emissão de debênture que alterou basicamente dois aspectos se comparada à situação anterior: alongamento da dívida e remuneração condicionada ao lucro da empresa (isto é, sem remuneração caso a companhia operasse com resultado negativo). E a subscrição das debêntures gerou para os acionistas uma dívida; isto é, antes do pagamento da obrigação pela subscrição das debêntures, os acionistas encontravam-se no pólo devedor da relação jurídica e a companhia no pólo credor. Havia, nesse instante, duas relações jurídicas: uma, a da dívida de curto prazo em que a devedora era a companhia e credores eram os acionistas; e outra, a também de curto prazo pela subscrição das debêntures, em que os devedores eram os acionistas e a credora, a companhia. Poderiam ter ocorrido as seguintes movimentações financeiras, o que talvez satisfizesse o agente fiscal: a Recorrente pagaria a dívida aos acionistas, e, em seguida, os acionistas pagariam a subscrição das debêntures à Recorrente. Desnecessárias tais providências, pois, além de estarem sujeitas a duas incidências de CPMF e, eventualmente, a tomar recursos no mercado para tal movimentação, a legislação pátria prevê uma solução jurídica e prática. Nesse tipo de situação, aplica-se o disposto no artigo 368 do atual Código Civil (artigo 1009 do Código vigente à época): "Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra, as duas obrigações extinguem-se, até onde compensarem." Com base nisso, a relação jurídica da dívida de curto prazo (conta corrente) foi extinta e criou-se uma nova relação jurídica de dívida de longo prazo, suportada pelas debêntures, É correto afirmar ainda que houve ingresso de recursos novos na companhia, ou numa linguagem mais precisa, houve ingresso de recursos sob outro título jurídico na companhia Visto por outro ângulo, poder-se-ia dizer que os acionistas entregaram o seu crédito em dação de pagamento da sua dívida representada pela subscrição das debêntures,Não N:. co 18 Cjf Processo n° 1.3899,001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão n.° 1202-00335 Fl. 10 há qualquer óbice legal ou motivo oculto negociai para que assim não se fizesse, como ocorreu de fato e de direito, Com efeito, a Recorrente deixou de ter uma dívida de curto prazo e passou a ter uma dívida suportada em escritura e com remuneração condicionada a seu resultado, o que significa, neste sentido, claramente um tratamento jurídico próprio como um recurso novo: "A mudança de título jurídico pelo qual o dinheiro em si se encontrava com a Consulente é que tornou aquele recurso um recurso novo, posto que não mais sujeito a uma exigência instantânea. Desapareceu uma dívida que implicaria num desembolso presente e surgiu uma divida que enseja desembolsos futuros. Ter recursos atrelados a um desembolso futuro (definido pela própria Consulente ao emitir as debêntures) é fazer com que este recurso seja "novo" no sentido jurídico (título) e econômico (tipo de endividamento)," (parecer Marco Aurélio Greco, pág. 20). Em face das circunstâncias acima apontadas, a falta de circulação fisica dos valores do pagamento pela subscrição das debêntures não é justificativa juridicamente plausível para acusar como ilícita a operação sob exame. A alegação de ausência de substrato fisico financeiro em circulação remete a citada polêmica do entendimento do que deve ser considerado relevante para análise de um planejamento tributário, ou seja, se não se visualiza a movimentação da moeda legal, seria porque se abusou da forma jurídica para a realização do negócio jurídico, vale dizer, que se faz necessário fisicamente circular dinheiro para se demonstrar a validade da estrutura jurídica e seus efeitos, em relação ao que, não se constatando isso, por conseqüência, o negócio jurídico deve ser tratado limitadamente dentro da concepção do que interessa à Fazenda Nacional e não na plenitude de urna estrutura válida perante o Direito. Quer me parecer mais adequada e razoável a visão alinhada e de conformidade ao Direito, isto é, o negócio jurídico em comento para sua validade plena e eficaz, não precisa ter, como elemento essencial, a confirmação da movimentação do dinheiro, mas tem que contemplar e demonstrar toda as suas relações e implicações, seja no plano da estrutura de sua natureza e regime legal, seja no plano dos seus efeitos, econômicos, financeiros, societários, contábeis, patrimoniais, fiscais, enfim, todos os elementos que receberam influência direta, ou indireta do negócio jurídico adotado no planejamento examinado, de maneira a convalidar a licitude e eficácia jurídica do negócio modelado e praticado, como se observa nos presentes autos pela análise completa do negócio jurídico causal, seus efeitos jurídicos desejados e o contexto econômico interno da empresa e social/econômico da mesma, para a opção societária de investimentos da companhia, como formalizado na sua contabilidade. E mais, qualquer outra opção relacionada aos acionistas (formalização de empréstimo a longo prazo ou conversão do passivo em capital social da companhia) também teria essa mesma característica da aplicação da compensação prevista no artigo .368 do Código Civil, de modo que não se pode vincular a falta de circulação física de dinheiro à inexistência das debêntures, (4) A REMUNERAÇÃO DAS DEBÊNTURES cr 19 Aspecto que merece atenção é o percentual do lucro adotado como remuneração das debêntures, Como consta dos autos, o valor de cada uma das 140,000 debêntures emitidas era de R$ 1.000,00, cuja remuneração era a participação de 0,0005% nos lucros trimestrais da Recorrente. Portanto, o percentual máximo de participação nos lucros pelos debenturistas poderia chegar a 70% em contrapartida da captação de R$ 140.000,000,00, Não obstante esse máximo não ter sido alcançado (conforme infounação da Recorrente e também do cálculo contido no TVF, item 11), adotam-se aqui o valor de captação e o respectivo percentual de participação no lucro para as ponderações que se seguem. O que se deve concluir diz respeito à razoabilidade dessa remuneração frente ao capital (valor captado), Evidentemente que a conclusão não pode ser obtida apenas com esses dois fatores: capital (R$ 140 milhões) e participação no lucro (70%). Porque se a emitente das debêntures for de pequeno porte, cujo lucro é da ordem de R$ 1 milhão, a resposta será oposta ao caso de emitente com lucro da ordem de R$ 1 bilhão. Assim, devem ser trazidos outros fatores, tais como a relação da dívida da Recorrente em face de seu Patrimônio Líquido ou de sua receita, o custo que a Recorrente teria se tomasse os recursos em bancos e a remuneração resultante da aplicação do percentual sobre o lucro da Recorrente. A Recorrente trouxe em sua impugnação estudo da PriceWaterhouseCoopers em que indica comparações da situação da Recorrente em face de outras empresas, ou grupo de empresas, tendo como parâmetros: - Dívida Total / (PL + Dívida Total) - Receita / (PL + Dívida) - Dívida Total / EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) - Despesa Financeira / EBITDA - Despesa Financeira / Dívida Total E a conclusão foi no sentido de que a Recorrente não esteve, nas comparações, fora do parâmetro de mercado para favorecer os debenturistas em detrimento da companhia. O outro elemento fundamental para afastar a acusação fiscal é a comparação entre a remuneração praticada pela Recorrente e a que seria devida em caso de empréstimo tomado junto a bancos. A Recorrente apresentou percentuais, praticados no ano 2001, da remuneração das debêntures em relação ao capital aplicado (34,88%) e as taxas de juros do mercado financeiro em geral (40,99%). A decisão da turma julgadora da DRI não aceitou a taxa indicada, pois "adota como parâmetro 'taxas pré-fixadas de aplicação pessoa jurídica' divulgadas pelo Banco Central, sem justificar sua adoção, ao passo que se verifica que aquele k c7j) $20 Processo na 13899.001314/2006-16 51-C2T2 Acórdão n ° 1202-00.335 F1 11 órgão também divulga 'taxas consolidadas' de aplicação e de captação pessoa jurídica — todas inferiores àquelas utilizadas." Se é aceita como verdade a taxa apresentada pela Recorrente, resta evidente que não houve prejuízo da companhia por não ter se valido de empréstimo bancário, mas sim de financiamento via debêntures. Se, entretanto, os índices que seriam praticados para o financiamento da Recorrente fossem menores (como por exemplo, CDI ou Selic), poderia ficar evidenciado tratamento prejudicial à empresa. Todavia, nesse caso, não poderia a autoridade julgadora confirmar o lançamento de oficio, ainda que parcialmente. Mas, ainda assim, deveria ser considerado algum custo financeiro para a Recorrente, pois, como se disse acima, não é razoável supor 'financiamento de R$ 140,000.000,00 a custo zero. Se fosse comprovada pelo agente fiscal que a remuneração praticada teria sido em montante superior às taxas de juros de empréstimo encontradas no mercado, poder-se- ia enquadrá-la como distribuição disfarçada de lucros nos termos do artigo 60 do Decreto-Lei n° 1.598/77. Mas, para tanto, a iniciativa de tal enquadramento somente pode ser da autoridade lançadora e, além disso, com prova de qual seria o parâmetro de mercado, para o fim de identificar o quantum da disparidade e submeter apenas o excesso à tributação. A função do julgador administrativo é de verificar o trabalho do agente fiscal, para confirmá-lo ou cancelá-lo, total ou parcialmente. Desse modo, alterar, ajustar, reformular o lançamento de ofício está fora do âmbito da competência do julgador administrativo; ademais, a inovação do lançamento na fase final do processo cerceia evidentemente o direito da Recorrente à ampla defesa e contraditório. Outra razão para não admitir a confirmação do lançamento diz respeito ao critério. Com efeito, a remuneração com taxas de juros para empréstimo ocorre independentemente da tomadora apresentar lucro ou prejuízo, ao passo que a remuneração das debêntures em exame ocorre somente quando há lucro, o que justificaria uma taxa maior para contrabalancear o risco de não haver nenhuma remuneração em determinado período (prova disso é que no 3 0 trimestre/2001 não houve remuneração alguma às debêntures). Ou seja, são perfis de dívida absolutamente distintos cuja comparação direta de taxas seria, no mínimo, desaconselhável„ A Primeira Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, em recente julgado, no processo ri° 13820.000860/2002-10 — R.V. 163.754, em sessão de novembro„.2008, decidiu, por maioria, dar provimento ao Recurso Voluntário, acolhendo a tese do Relator, Conselheiro Valmir Sandri, pelo que, a fim de elucidar o tratamento similar no caso do critério adotado pela remuneração de debêntures participativas a sócios acionistas, reproduzo trecho final do voto, a seguir: "De acordo com a lei societária - art. 56 da Lei n, 6404/76 -, as debêntures podem garantir ao investidor participação nos lucros da companhia emissora, não havendo em tal dispositivo qualquer limitação a determinado percentual do lucro líquido -r / apurado, Por sua vez, a lei tributária — art 58 do Decreto-Lei n. - 1,598/77 -, autoriza a dedução do lucro líquido do período de 21 c7Y apuração, os valores pagos a titulo de remuneração de debêntures efetuadas com base no lucro da companhia emissora, também, sem qualquer limitação a determinado percentual do lucro. Logo, a questão cinge-se em determinar até que ponto o percentual do lucro pago é usual, normal e necessário à atividade da empresa ou à manutenção da ,fonte produtora dos rendimentos. Isto porque, a questão acerca de remuneração de debêntures com base no lucro da empresa emissora é tormentosa, podendo, em alguns casos, mesmo considerando um percentual bem inferior ao que foi pago pela ora Recorrente ser considerado extremamente oneroso, e, portanto, desnecessário, inusual e anormal, ao passo que para outros casos, como o aqui discutido, serem perfeitamente admitidos e necessários à atividade da empresa. O fato é que, ao analisarmos questão acerca da remuneração de debêntures com base no lucro, deve-se levar em consideração cada caso especifico, pois não há parâmetro definido acerca de percentual "aceitável" para efeito de dedutibilidade." Também no caso julgado foi compreendida a necessidade sim de que a Recorrente tenha considerado todas as circunstâncias e motivos negociais que justificaram a opção de investimento adotado pela emissão de debêntures com remuneração vinculada aos lucros da companhia e não pode ser considerado, por carência de prescrição legal, portanto, apenas ernbasado na conclusão subjetiva de fundo econômico/financeiro da autoridade administrativa para deduzir inaceitável um critério quantitativo mercadológico, a fim de invalidar a caracterização da despesa como necessária para os fins colimados na atividade operacional da Recorrente. Não cabe ao intérprete criar algo que não esteja expressamente previsto em lei, como já se disse, a atividade administrativa é plenamente vinculada aos preceitos legais e, as causas externas ao direito positivo, como fundamento de decidir não podem desconsiderar, simplesmente por motivação econômica, a estrutura jurídica negociai válida e eficaz à luz do Direito. Alfredo Augusto Becker em sua clássica obra "Teoria Geral do Direito Tributário" criticando a interpretação do Direito Tributário segundo a realidade econômica, ou seja, aquela que oferece primazia aos fins econômicos da regra tributária em detrimento da estrutura jurídica, mesmo que válida, se aplica exatamente ao presente planejamento tributário, quando asseverou contundentemente: "Quem age (ilicitamente) é o intérprete que abstrai a estrutura jurídica para se fixar na realidade econômica..." (obra citada, 1998, p. 130). Nesse sentido cite-se o recente acórdão da Segunda Turma do ST.I (março de 2010), que, em decisão colegiada unânime, firmou, ao apreciar questão tributária relativa ao ISSQN, a preponderância do respeito a forma jurídica em relação ao fundamento econômico, cujo voto foi de lavra da eminente Ministra Eliana Calmon, com ementa a seguir: "Recurso Especial n"1.119405-RS (2009/0013663-3) Relatora, Ministra Eliana Calmon Recorrente: Município de Porto Alegre Procurador: Cristiano Silvestrin de Souza e Outro(s) E ; 22 ,/ Processo rf 13899.001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão o.' 1202-00335 Fl. 12 Recorrido,. Associação dos Médicos do Hospital Conceição Amehc Advogado: . Paulo Macedônia Pereira e Outro(s) Ementa Tributário — ISSQN — Contrato de Estipulação em Favor de Terceiro x Corretagem — Impossibilidade de Interpretação Meramente Econômica — Repercussão Jurídica do Tributo — Ausência de Norma Expressa — Legitimidade — Art,333 do CPC Prequestionamento — Ausência — Súmula 282/STF. É inadmissível o recurso especial quanto a questão não decidida pelo Tribunal de origem, por falta de prequestionamento.. O ISSQN é tributo de imposição direta ou indireta, a depender do tratamento normativo que recebe da legislação local. Em regra, assume o encargo do tributo o prestador do serviço, competindo-lhe a legitimidade para pleitear a restituição. Inexiste o fato jurídico tributário de corretagem ou agenciamento na intermediação por associação médica em defesa dos interesses de seus associados, ainda que cobrada sobretaxa dos associados para reembolso dos custos da representação. O elemento econômico, ainda que importante para aferição da capacidade contributiva, não prevalece frente à forma .jurídica empregada, salvo se evidenciada pelo Fisco a fraude, o dolo ou a simulação das partes no negócio jurídico. Recurso especial conhecido e, nessa parte, não provido, Acórdão Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça 'A Turma, por unanimidade, conheceu em parte o recurso e, nessa parte, negou-lhe provimento, nos temias do voto do(a) Sr(a) Ministro(a) Relator(a),' Os Srs.. Ministros Castro Meira, Humberto Martins, Herman Benjanzin e Mauro Campbell Marques votaram com a Sra. Ministra Relatara, Brasília-DF, 18 de março de 2010 (Data do Julgamento). (Dje de 26.3,2010)" (Revista Dialética e 177, Junho/2010, p 228 —grifo acima neste ato). Ora, no presente caso, se confirma e a Recorrente demonstra, conforme exposto, que não realizou a operação indigitada fora dos parâmetros do mercado, assim como incumbiria a autoridade fazendária produzir a prova cabal e inequívoca de que a operação foi desnecessária às atividades operacionais da Recorrente, na manutenção de sua fonte produtora / 23 o que, como corroborado pela citada decisão da Primeira Câmara, também não se efetivou no caso presente. Por derradeiro, sobre a dedução do IRRFonte, da remunerações pagas nas emissões da debêntures, como decidido pela decisão de primeira instância, pela legitimidade das respectivas deduções, uma vez comprovadas e sendo objeto da diligência a efetividade de tais recolhimentos referentes aos meses de abril, maio e dezembro de 2001, as quais, pelo resultado conclusivo da diligência da autoridade administrativa de origem, restaram comprovadas, ratifico e acolho, estendendo os efeitos sobre a legitimidade de dedução dos valores recolhidos, a titulo do IRRFonte, pertinentes aos meses de abril, maio e dezembro de 2001, posto que comprovados, como asseverado pela decisão "a que)", fls. 1047 e 1048: "34. Acrescente-se que a consideração do 1RRFonte no valor da exigência, nos termos em que admitido no Acórdão 101-94.986, de 2005, revela-se possível no presente processo uma vez que, com a exclusão da despesa indevida, resultou imposto de renda a pagar superior à retenção comprovada e, além disso, a autuação refere-se ao ano-calendário 2001 para o qual ainda não vigia a legislação que instituiu a Declaração de Compensação." Por todas as razões acima aduzidas, rejeito as preliminares argüidas e, no mérito, sou por dar provimento ao recurso voluntário, inclusive referente ao IRRFonte recolhido em 2001, para dedução do HM lançado. Sala das Sessões, em 06 de julho de 2010 !lb P. Q-----f Orlanl o se onça ,vs Bueno 1 0 24 Processo n° 13899001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão n 1202-00.335 F 1 13 Voto Vencedor Conselheiro Carlos Alberto Donassolo — Redator Designado. Em que pese os valiosos argumentos apresentados pelo ilustre relator, peço vênia para discordar do seu entendimento em relação ao mérito do litígio. De acordo com o resultado da votação, em relação ao recurso de oficio, pelo voto de qualidade, foi dado provimento quanto à matéria compensação do IRR Fonte e, por unanimidade, foi negado provimento em relação à decadência do ano-calendário de 2000. Já em relação ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, foram rejeitadas as preliminares suscitadas, de decadência do ano-calendário de 2001, e de cerceamento ao direito de defesa e, quanto ao mérito, pelo voto de qualidade, foi negado provimento ao recurso. Assim, restaram duas matérias, vencidas pelo voto de qualidade, a serem enfrentadas por este redator designado: i) compensação do IRR Fonte retido dos beneficiários dos rendimentos de debêntures com o IRPJ lançado na autuação; e ii) dedutibilidade das despesas com remuneração de debêntures. Primeiramente, passemos à análise da dedutibilidade das despesas com a remuneração de debêntures. Como explicado no relatório do voto vencido, a empresa autuada era, à época da negociação, uma sociedade por ações de capital fechado e as debêntures por ela emitidas foram adquiridas exclusivamente pelos seus acionistas. A forma da remuneração dessas debêntures deveria se dar com até 70% do lucro da companhia. O litígio se formou em virtude da constatação pela fiscalização de que essa emissão não se deu de forma usual e normalmente praticada para esse tipo de transação. Quanto à forma usual de remuneração das debêntures, transcrevo trecho dos fundamentos utilizados no acórdão recorrido, em especial a menção feita pelo consagrado mestre Modesto Carvalhosa, em sua obra Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, a qual adoto também como minha fundamentação: "Modesto Carvalhosa (in Comentários à Lei das Sociedades Anônimas,Saraiva, SPaulo, pp. 532 e seguintes) leciona: "Lei n. 6.404, de 1976 A lei faculta a adoção de juros 'variáveis, além da participação nos lucros e prêmio de reembolso como forma de remuneração do capital debenturistico, Ao assim facultar, a lei não exige a cumulatividade de vantagens ou a alternatividade O caráter facultativo permite a atribuição de outras vantagens remuneratórias complementares, que façam as debêntures atrativas e com melhor colocação no mercado, Fica então reafirmado o principio da onerosidade e comercialidade da debênture, que não poderá deixar de oferecer u7a AI 25 vantagem pecuniária, compativelmente remuneratória do capital mutuado. .„.., os juros fixos constituem a remuneração básica e indeclinável das debêntures, sendo as demais modalidades acessórias daqueles, como a participação nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso.. Juros como remuneração necessária Os juros constituem, como referido, a forma necessária de remuneração dos recursos emprestados pelos debenturistas à companhia. Sendo a remuneração própria do capital. Os iuros serão sempre devidos. Participação nos lucros não é substitutiva dos juros, mas adicional A remuneração adicional de participação nos lucros da companhia emissora já estava prevista no Decreto-lei n° 718, de 1938, que admitia a emissão de debêntures com renda variável, ajustada à lucratividade da empresa A menção a essa faculdade na lei vigente prende-se mais à diversidade de remuneração das debêntures adotada no direito norte-americano, cujos usos, no entanto, pouco têm que ver com o nosso sistema As idéias fora de lugar ainda ai prevaleceram, como se percebe na canhestra redação do artigo, que dá a impressão de que a participação nos lucros poderia constituir remuneração substitutiva dos juros. Tal prática no direito norte-americano, ou seja, de substituição de juros por participação nos resultados das empresas, dá-se na reorganização de empresas insolventes (reorganization). Nesse caso, propõe a administração aos credores debenturísticos a substituição dos juros por uma remuneração advinda de lucros líquidos (net projits) ou de lucros líquidos do exercício (earned ofits).Criam-se assim, para esses casos de empresas insolventes sujeitas à reorganization, planos substitutivos de falência pura e simples, os famosos incorr bonus (cunudative e nom cunzulative incorr bonu_s). Pela razão mesma de surgirem no bônus de uma repactuação sempre dramática entre os credores debenturísticos e a empresa pré-falida, são também chamados Adjustment bonus. Entre nós, o instituto norte-americano assimilável é o participating bonus, que concede, além dos juros, a participação dos debenturistas nos lucros. A causa dessa dupla remuneração é óbvia, tanto aqui como lá, ou seja: visa atrair para a emissão dos títulos uma vantagem adicional, consistente na participação nos lucros sociais. Os participating bonus, com efeito, são a única modalidade que se pode admitir em nosso direito, em face do caráter oneroso e mercantil do empréstimo debenturístico, que não poderia sujeit ar pb , 26 Processo n° 13899.001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão n° 1202-00_335 Fl 14 o tornador ao não-recebimento de remuneração nos exercícios em que não houvesse lucros. A periodicidade da remuneração do capital integra a própria natureza do mútuo debenturístico, não se podendo admitir que a pretensão de recebê-los ficasse suspensa nos exercícios vários era que não houvesse ou fossem insuficientes os lucros apurados. Trata-se, pois, a participação nos lucros de remuneração adicional ou complementar àquela de juros periódicos. Criticas à participação nos lucros A inclusão na lei de emissão de debêntures com participação nos lucros da companhia, embora admitida no direito comparado, tem sido alvo de críticas. Argumentam tratar-se de empréstimo, sendo, portanto, a remuneração originada de lucros descaracterizadora do mútuo. Isto porque retiraria o requisito de certeza da dívida. Comenta-se, outrossim, que tal cláusula remuneratória afastaria a liquidez do título, requisito essencial à sua cobrança por via de execução, prevista no art. 596 do Código de Processo Civil. Haveria a descaracterização absoluta do título que, de certeza, passaria a tornar-se de risco, à semelhança das ações representativas do capital da companhia, Vantagens da remuneração adicional em participação nos lucros Não há, mesmo, como admitir substitutivamente a remuneração via lucros por aquela dos juros. Se assim fosse, estaria, com efeito, desfigurada a debêntures como título de dívida comercial, líquida e certa. Ocorre que a lei ao facultar a participação no lucro da companhia o faz como prêmio, adicional, portanto, aos juros fixos estabelecidos. E o faz como substitutivo do prêmio representado pela concessão de juros variáveis.....,.. .„,....,..,.„.._.„.„„ A causa desse prêmio é a mesma dos juros variáveis, ou seja,sustentar as debêntures de determinada classe no mercado, promovendo assim sua valorização e a sua liquidez. Isto posto, fica evidente que a participação no lucro da companhia constitui vantagem adicional, não podendo substituir a remuneração pecuniária certa, representada pelos juros fixos." (destaquei) Como se vê, não obstante prevista em lei, não parece ser tão pacifico que a remuneração das debêntures sob ,forma exclusiva de participação no lucro seja normal. Embora, talvez, legal, não há evidências de que essa forma de remuneração seja usual." De acordo com o texto acima transcrito, ficou claro que a operação executada pela autuada na emissão de suas debêntures, não pode ser considerado usual nem normal. Cf eit ___,/ iffW , 27 Por primeiro, porque a sua remuneração ficou atrelada unicamente nos lucros da empresa, em percentual elevado, de até 70%, quando o normal e usual para esse tipo de operação é que sejam p agos juros fixos, podendo ser oferecido, como atrativo para colocação do título de crédito, apenas uma vantagem adicional, um algo a mais, baseada no lucro daempresa, cujo percentual, em regra, jamais chegaria a 70% do lucro.. Em segundo lugar, porque foi oferecida e subscrita por um número limitado de pessoas, exclusivamente aos sócios da empresa, num típico ato de liberalidade, quando o normal e usual é que esse tipo de operação, é que as debêntures sejam oferecidas ao público em geral. A emissão de debêntures prevendo a remuneração de terceiros debenturistas exclusivamente com participação no percentual de até 70% não é usual. A produção de tamanhos lucros para terceiros é estranha aos objetivos sociais da empresa — a não ser que esses terceiros sejam os detentores do capital da empresa, quando não estariam abrindo mão de coisa alguma, já que tudo lhes pertence, Isso significa que a sociedade empresarial e os debenturistas optaram por uma recompensa ao capital emprestado diferente da forma usual de remuneraçãoda espécie de operação. Ora, para ser considerada uma despesa operacional e admitida como dedutivel da base de cálculo do IRPJ a despesa deverá ser usual ou normal para o tipo de operação. Não há como respaldar a dedutibilidade de uma despesa caracterizada pela liberalidade da empresa ao remunerar debêntures, subscritas exclusivamente por seus acionistas, com até 70% dos lucros, Portanto, não atendidos os critérios de usualidade e normalidade ao tipo de transação previstos no art. 299 do RIR/99, não resta outra alternativa senão glosar referida despesa. Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei 11" 4,506, de 1964, art. 47). § 1 São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei n° 4 506, de 1964, art. 47, § 19, § 2" As des esas operacionais admitidas são as usuais ou normais no ti s o de transa ões operações ou atividades da empresa (Lei n" 4..506, de 1964, art. 47, § (grifei) Em relação ao aproveitamento do IRRFonte, retido por ocasião do pagamento da remuneração das debêntures aos seus beneficiários (acionistas), para fins de comp ensação/dedução do IRPJ exigido na autuação, entendo por discordar da posição adotadapelo acórdão recorrido. Em primeiro lugar, porque essa compensação/dedução carece de qualquer fundamento legal. E veja-se, que nesse ponto, o acórdão recorrido não apresentou qualquer base legal que justificasse a dedução do MEU lançado. E o fundamento legal para essa compensação não existe, porque se estaria deduzindo do imposto de renda da pessoa jurídica-IRPJ devido pela autuada, um imposto de renda na fonte-IRRFon que incidiu sobre rendimentos de terceiros, no caso os beneficiários da remuneração das debêntures, que são os sócios, o que, como já dito, carece de qualquer .fundamento legal. 28 Processo n" 13899.001314/2006-16 S1-C2T2 Acórdão n° 1202-00-335 F1, 15 No caso em tela, em que ocorreu a indedutibilidade da despesa com a remuneração das debêntures emitidas, o imposto de renda é exigido da autuada na condição de "contribuinte" do IRPJ. Já no caso da retenção do imposto de renda na fonte-IRRFonte, a autuada atua como "responsável" por essa retenção, uma vez que os contribuintes são os sócios beneficiários dos rendimentos das debêntures, Assim, não há corno efetuar a dedução do IRPJ de um contribuinte (autuado) utilizando-se do IRRFon pertencente à outro contribuinte (sócios). Além disso, o próprio Acórdão n" 101-94,986, sessão de 19/05/2005, do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, que foi utilizado para fundamentar parte da decisão de primeira instância, também não possui fundamento legal amparando a pretendida compensação do IRR Fonte com o IRPJ do autuado, o que só vem a reforçar a impossibilidade dessa pretensão, Por fim, ainda no que se refere à compensação do IRRFonte com o imposto a pagar, o artigo 231 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto n° 3.000, de 19990), exige que a receita, correspondente ao IRRFonte que venha a ser deduzido, tenha sido computada no cálculo do lucro real, fato que obviamente não ocorreu no caso ora analisado: "Art.231.Para efeito de determinação do saldo de imposto a a . ar ou a ser CO??? ensado a ressoa "uridica roderá deduzir do imposto devido o valor (Lei n2 9.430, de 1996, art. 2.2, §42). dos incentivos fiscais de dedução do imposto, observados os respectivos limites, bem assim o disposto no art. 543; II- dos incentivos fiscais de redução e isenção do imposto, calculados com base no lucro da exploração; III- do imposto pago ou retido na fonte. incidente sobre receitas computadas na cleterminacão do lucro real. IV- do imposto pago na forma dos mis. 222 a 230, (grifei). A respeito do reflexo na tributação da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido-CSLL da glosa da despesa com remuneração de debêntures, entendo que a matéria foi muito bem decidida pelo acórdão recorrido, de acordo com a seguinte transcrição, da qual também adoto: "38. Referido resultado - ponto de partida para se chegar à base de cálculo tanto do IRPJ como da CSLL -, é apurado mediante a escrituração contábil, que deve observar postulados e princípios contábeis, Dispêndios efetuados por liberalidade não podem ser contabilizados como despesas, sob pena de ser apurado resultado incompatível com a realidade dos .fatos. Ademais, pelo Princípio da Entidade, uma despesa que não é necessária à empresa não deveria sequer estar na sua contabilidade, 39. como as despesas glosadas no Auto de Infração afetam o próprio resultado do exercício, conseqüentemente também alteram a base de cálculo da Contribuição Social, como definida no art, 2" da Lei 7489, de 1988, com as alterações do art, 2" da Lei 8,034, de 1990. /17 29 40, Assim, não se tratando, no presente processo, de mera indedutibilidade material oriunda da legislação do IRPJ, cabível é a repercussão da glosa das despesas também para a CSLL, Em face do exposto, é de se manter integralmente a exigência do IRP1 e da CSLL formalizados no auto de infração, relativamente ao ano-calendário de 2001, „ Carlos Alberto nassolo • 30 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA CÂMARA - PRIMEIRA SEÇÃO PROCESSO: 13899.0013142006-16 TERMO DE INTIMAÇÃO Intime-se um dos Procuradores da Fazenda Nacional, credenciado junto a este Conselho, da decisão consubstanciada nos despachos supra, nos termos do art. 81, § 3°, do anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria Ministerial n'' 256, de 22 de junho de 2009. Brasília, 03 de setembro de 2010. Maria Cone cao de Sousa Rodrigues Secretária da Câmara Ciência Data: Nome: Procurador(a) da Fazenda Nacional Encaminhamento da PFN: [] apenas com ciência; []com Recurso Especial; [ ] com Embargos de Declaração..
score : 1.0
Numero do processo: 10930.903592/2012-18
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 13 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Jan 12 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do Fato Gerador: 27/12/2005
COFINS. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA.
Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazê-lo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas.
COFINS - IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO.
Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-003.562
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento.
(Assinado com certificado digital)
Antônio Carlos Atulim - Presidente e Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazêlo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas. COFINS IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO. Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negarlhe provimento. (Assinado com certificado digital) Antônio Carlos Atulim Presidente e Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 0. 90 35 92 /2 01 2- 18 Fl. 56DF CARF MF Processo nº 10930.903592/201218 Acórdão n.º 3402003.562 S3C4T2 Fl. 3 2 Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Trata os presentes autos de Pedido de Restituição (PER), por meio do qual a Recorrente solicita a restituição do crédito decorrente do pagamento de COFINS IMPORTAÇÃO. No Despacho Decisório, a autoridade competente da DRF em Londrina/PR, indeferiu o pleito da interessada, uma vez que o DARF informado como origem do crédito estava integralmente utilizado para quitação de débitos da própria contribuinte, "não restando crédito disponível para restituição". Inconformada com a decisão proferida, a empresa apresentou manifestação de inconformidade na qual esclarece tratarse de pessoa jurídica de direito privado que tem como atividade principal a indústria, comércio e exportação de couros de boi. Consigna que a Lei nº 10.865/2004 instituiu as contribuições do PIS e da COFINS sobre a importação de bens e serviços, mas não foi clara em relação à incidência sobre as quantias remetidas ao exterior a representantes comerciais a título de comissões sobre vendas, o que fez com que a Recorrente optasse por recolher as contribuições sobre essas operações. Entretanto, a Receita Federal do Brasil, em resposta a diversas consultas (cita duas), passou a vazar o entendimento de que as comissões de vendas pagas e/ou creditadas a representantes comerciais residentes ou domiciliados no exterior, não estão sujeitas à incidência do PIS e da COFINS Importação. Isso porque, anota a Recorrente, essas operações não configuram hipótese de serviços prestado no Brasil ou cujo resultado aqui se verifique. Assim, uma vez ter efetuado o pagamento de tributo indevido, tem o direito à restituição na forma prevista no art. 165 do Código Tributário Nacional CTN, devidamente corrigido pela taxa SELIC, conforme prescreve a Lei nº 9.250, de 1995, "ainda que informado o débito em DCTF". Sobreveio, então, o Acórdão nº 06045.934, da DRJ em Curitiba (PR), negando provimento à Manifestação de Inconformidade. Irresignada com a referida decisão, foi interposto o presente recurso voluntário, cujas razões, em suma, são as seguintes: (i) diferente do que entendeu a autoridade julgadora, a empresa recorrente comprovou ser pessoa jurídica de direito privado que tem como atividade principal a indústria, comércio e exportação de couros de boi; (ii) que demonstrou que a Lei n° 10.865, de 2004, que instituiu as contribuições ao PIS/Pasep e COFINS sobre a importação de bens e serviços, não foi clara ao determinar a incidência sobre as quantias pagas, ou remetidas ao exterior, a representantes comerciais domiciliados no exterior a título de comissões sobre vendas; Fl. 57DF CARF MF Processo nº 10930.903592/201218 Acórdão n.º 3402003.562 S3C4T2 Fl. 4 3 (iii) para não sofrer sanções, optou por recolher as contribuições sobre as quantias remetidas ao exterior (para representantes domiciliados no exterior) incidentes sobre comissões sobre vendas, conforme (DARF's) apresentados; (iv) ocorre que, posteriormente, a própria RFB, através de inúmeras respostas a Soluções de Consultas, passou a definir que as "comissões de vendas pagas e/ou creditadas a representantes comerciais residentes ou domiciliados no exterior não estão sujeitas à incidência da COFINS/PISImportação", por não configurarem hipótese de serviço prestado no Brasil ou cujo resultado aqui se verifique. Reproduz algumas dessas Solução de Consulta. (v) que o processo administrativo sempre deve buscar a verdade real ou material relativa aos fatos tributários, em decorrência da estrita legalidade tributária, que devem nortear todos os atos da administração fiscal. Com isto, não basta simplesmente argumentar que "prova alguma foi trazida aos autos que comprovassem de que teria havido pagamento a maior ou indevido", para negar a existência do direito creditório; (vi) frisa que os erros contidos em declaração podem e devem ser retificados de ofício, por força da estrita legalidade tributária e nos moldes do art. 147, § 2º do CTN. (vii) que seja reconhecido que os valores indevidamente recolhidos a este título são restituíveis em valores devidamente acrescidos de juros equivalentes à taxa SELIC, na forma da Lei n° 9.250/95; (viii) requer que seja determinada a conversão do julgamento em diligência, a fim de que seja oportunizada apresentação de elementos considerados necessários à complementação da prova ou esclarecimento de dúvidas relativas aos fatos trazidos neste processo. À vista do exposto, espera e requer seja julgado integralmente procedente o presente recurso, a fim de que seja reconhecido o direito creditório e assegurada a restituição das quantias recolhidas indevidamente. É o relatório. Voto Conselheiro Antonio Carlos Atulim, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402003.529, de 13 de dezembro de 2016, proferido no julgamento do processo 10930.903656/201281, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402003.529): Fl. 58DF CARF MF Processo nº 10930.903592/201218 Acórdão n.º 3402003.562 S3C4T2 Fl. 5 4 Emerge do relatado, que o objeto do pedido de ressarcimento tem como fundamento o indébito de PIS/Pasep sobre comissão de venda paga a representantes comerciais residentes/domiciliados no exterior. No referido Despacho Decisório restou consignado que, "(...) A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição". Consta dos autos que o Despacho Decisório questionado está respaldado em informações prestadas pela própria interessada em DCTF, que encontrase ativa até o momento no sistema informatizado da Receita Federal do Brasil. Ou seja, ao que tudo indica, o contribuinte não retificou a DCTF no que pertine ao pleito em questão, por isso a conclusão do despacho decisório vestibular que o valor sob pedido de ressarcimento foi "integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte". Por outro lado, a Recorrente tenta demonstrar em seu recurso, que não há incidência de contribuições para o PIS Importação sobre remessas realizadas para o exterior para pagamento de comissões à agentes no exterior a título de comissões ali realizadas, por não configurarem hipótese de serviço prestado no Brasil ou cujo resultado aqui se verifique, e que os valores indevidamente recolhidos a este título são restituíveis e em montantes devidamente acrescidos de juros equivalentes à taxa referencial SELIC, na forma da Lei n° 9.250/95. Tudo com base na Lei nº 10.865, de 2004 e Soluções de Consultas emitidas pela RFB que cita. Contudo, se de um lado a decisão recorrida tenha asseverado que "(...) como se vê uma das hipóteses de ocorrência do fato gerador das contribuições ao PIS e a COFINS, sobre importação de serviços, é a remessa de valores a residentes ou domiciliados no exterior como contraprestação pelo serviço prestado", como alega a peticionante, por outro giro, deixou patente que o ônus da prova quanto ao indébito seria da ora Recorrente, nos seguintes termos: "(...) Mas, para a verificação se os valores remetidos ao exterior atendem às condições estabelecidas em lei para a incidência das contribuições sobre a importação de serviços ou, não se caracterizando o fato gerador da obrigação tributária, há, de fato, o indébito reclamado pela interessada, é crucial que se tenha em mãos documentos que demonstrem a real situação aventada, como contratos firmados com os agentes externos, comprovantes de remessa de valores ao exterior, cópias de notas fiscais, recibos, dentre outros, além da própria escrituração contábil da empresa que reflita essas operações. Ocorre que, no presente caso, prova alguma foi trazida aos autos que comprovassem de que teria havido pagamento a maior ou indevido. Nesse sentido, é bom lembrar que não se permite, depois de iniciado qualquer procedimento fiscal, que seja retificada declaração quando vise a reduzir ou a excluir tributo, a não ser mediante a comprovação do erro em que se funde. É o que Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10930.903592/201218 Acórdão n.º 3402003.562 S3C4T2 Fl. 6 5 determina o art. 147, § 1º, da Lei nº 5.172, de 25/10/1966. E, como visto, o Despacho Decisório questionado está respaldado em informações prestadas pela própria interessada em DCTF, que encontrase ativa até o momento no sistema informatizado da Receita Federal do Brasil. (sublinhei) E conclui a decisão a quo: "(...) Assim, instaurado o contencioso administrativo, as alegações quanto ao suposto crédito decorrente de recolhimento indevido ou a maior, como no caso em análise, devem estar comprovadas pela demonstração inequívoca do quantum recolhido indevidamente, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, consistente na escrituração contábil/fiscal da contribuinte. Dessa forma, uma vez que a conclusão emitida pela autoridade administrativa teve como pressuposto as informações prestadas pela própria interessada em declarações fiscais válidas a produzir efeitos na data da emissão do Despacho Decisório e não havendo prova hábil que contrarie as informações prestadas espontaneamente, demonstrando o pagamento indevido do tributo, é de se manter o indeferimento da restituição pleiteada". Portanto, a lide se resume na questão de atendimento de condições estabelecidas em lei e provas documentais trazidos aos autos, pois para o deslinde do litígio é crucial que se tenha em mãos documentos que demonstrem a real situação aventada, mormente quando o pedido versa sobre suposto pagamento indevido. No caso em análise, por se tratar de pedido de restituição, devem estar comprovadas pela demonstração inequívoca do quantum recolhido indevidamente, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, consistente na escrituração contábil/fiscal da recorrente. Documentação essa, frisese, de posse da recorrente por determinação legal, como contratos firmados com os agentes externos, comprovantes de remessa de valores ao exterior, cópias de notas fiscais, recibos, dentre outros, além da própria escrituração contábil da empresa que reflita essas operações. É de conhecimento que a regra fundamental do sistema processual adotado pelo legislador nacional, quanto ao ônus da prova, encontrase cravada no art. 373 do novo Código de Processo Civil, in verbis: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Tal dispositivo é a tradução do princípio de que o ônus da prova cabe a quem dela se aproveita. E esta formulação também foi, com as devidas adaptações, trazida para o processo administrativo fiscal, posto que a obrigação de provar está expressamente atribuída para o Fisco quando realiza o lançamento tributário e para o sujeito passivo, quando formula pedido de repetição de indébito. Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10930.903592/201218 Acórdão n.º 3402003.562 S3C4T2 Fl. 7 6 E, no presente caso, é fato que prova alguma foi trazida aos autos pela Recorrente que comprovem que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora ela tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazêlo, quer na impugnação, quer agora na fase recursal. Demais disso, o fundamento da decisão recorrida foi justamente este, qual seja, a falta de prova. Mas, contrariando os ditames do ônus da distribuição da prova para provar fato constitutivo de seu direito, insiste que "seja determinada a conversão do julgamento em diligência, a fim de que seja oportunizada apresentação de elementos considerados necessários à complementação da prova". Ora, se toda a documentação para provar o direito que alega está em seu poder, deveria ter a Recorrente produzido tal prova quando da manifestação de inconformidade, ou mesmo em sede de recurso voluntário, o que não ocorreu. Diante desse quadro, entendo que a decisão da DRJ é merecedora de ser mantida pelos seus próprios fundamentos. Conclusão Assim, concluo que por falta de prova hábil acostadas nos autos, ônus seu de produzir, deve ser negado seu pleito. Ante o exposto, nego provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Fl. 61DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.000984/2007-31
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 03 00:00:00 UTC 2010
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF
Exercício: 2002, 2003, 2004
RECURSO DE OFICIO
OMISSÃO DE RENDIMENTOS PRATICADO PELO DE CUJUS - AUTO DE INFRAÇÃO LAVRADO EM NOME DO ESPÓLIO - MULTA QUE CONSTITUA SANÇÃO POR ATO ILÍCITO - INAPLICABILIDADE - A constituição de crédito tributário, através de auto de infração, em nome do
espólio, por irregularidades fiscais praticado pelo de cujus, sujeita o espólio à multa de mora, de dez por cento sobre o imposto apurado, estabelecida artigo 49 do Decreto-Lei 110 5.844, de 1943, sendo-lhe inaplicável as multas de oficio estabelecidas nos incisos I e 11 do artigo 44 da Lei n° 9430, de 1996, por constituir sanção por ato ilícito, não transferível para o espólio, em virtude do principio constitucional de que nenhuma pena passará da pessoa do infrator.
RECURSO VOLUNTÁRIO
OMISSÃO DE RENDIMENTOS - DEPÓSITOS BANCÁRIOS - CONTA
BANCÁRIA MOVIMENTADA PELO "DE CUJUS" - LANÇAMENTO
TRIBUTÁRIO REALIZADO CONTRA O ESPÓLIO - OBRIGAÇÃO
PERSONALÍSSIMA - A responsabilidade pela comprovação da origem dos recursos, para efeito do disposto no artigo 42 da Lei n° 9.430, de 1996, por ser uma obrigação personalíssima, deve ser imputada, exclusivamente, ao titular de direito c/ou de fato da conta-corrente. Portanto, não há como imputar ao espólio a obrigação de comprovar depósitos bancários feitos à época em que o contribuinte - titular de fato-'a conta-corrente - era vivo,
cabendo, se for o caso, a tributação segundo legislação específica.
ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO - FLUXO FINANCEIRO - INCLUSÃO DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS E REPASSES BANCÁRIOS - A inclusão, no fluxo financeiro para apuração de acréscimo patrimonial a descoberto, de depósitos bancários (como origens) e repasses
bancários (como dispêndios) descaracteriza a metodologia de apuração de acréscimo patrimonial a descoberto (presunção de omissão de rendimentos), tendo em vista, que para os casos da existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos, existe a
imposição de tributação especifica (art. 42 da Lei n° 9.430/96), e que deve prevalecer nestes casos.
Recurso de oficio negado.
Recurso voluntário provido.
Numero da decisão: 2202-000.385
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar
provimento ao recurso de oficio e dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Nome do relator: Nelson Mallmann
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ementa_s : IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Exercício: 2002, 2003, 2004 RECURSO DE OFICIO OMISSÃO DE RENDIMENTOS PRATICADO PELO DE CUJUS - AUTO DE INFRAÇÃO LAVRADO EM NOME DO ESPÓLIO - MULTA QUE CONSTITUA SANÇÃO POR ATO ILÍCITO - INAPLICABILIDADE - A constituição de crédito tributário, através de auto de infração, em nome do espólio, por irregularidades fiscais praticado pelo de cujus, sujeita o espólio à multa de mora, de dez por cento sobre o imposto apurado, estabelecida artigo 49 do Decreto-Lei 110 5.844, de 1943, sendo-lhe inaplicável as multas de oficio estabelecidas nos incisos I e 11 do artigo 44 da Lei n° 9430, de 1996, por constituir sanção por ato ilícito, não transferível para o espólio, em virtude do principio constitucional de que nenhuma pena passará da pessoa do infrator. RECURSO VOLUNTÁRIO OMISSÃO DE RENDIMENTOS - DEPÓSITOS BANCÁRIOS - CONTA BANCÁRIA MOVIMENTADA PELO "DE CUJUS" - LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO REALIZADO CONTRA O ESPÓLIO - OBRIGAÇÃO PERSONALÍSSIMA - A responsabilidade pela comprovação da origem dos recursos, para efeito do disposto no artigo 42 da Lei n° 9.430, de 1996, por ser uma obrigação personalíssima, deve ser imputada, exclusivamente, ao titular de direito c/ou de fato da conta-corrente. Portanto, não há como imputar ao espólio a obrigação de comprovar depósitos bancários feitos à época em que o contribuinte - titular de fato-'a conta-corrente - era vivo, cabendo, se for o caso, a tributação segundo legislação específica. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO - FLUXO FINANCEIRO - INCLUSÃO DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS E REPASSES BANCÁRIOS - A inclusão, no fluxo financeiro para apuração de acréscimo patrimonial a descoberto, de depósitos bancários (como origens) e repasses bancários (como dispêndios) descaracteriza a metodologia de apuração de acréscimo patrimonial a descoberto (presunção de omissão de rendimentos), tendo em vista, que para os casos da existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos, existe a imposição de tributação especifica (art. 42 da Lei n° 9.430/96), e que deve prevalecer nestes casos. Recurso de oficio negado. Recurso voluntário provido.
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RECURSO VOLUNTÁRIO OMISSÃO DE RENDIMENTOS - DEPÓSITOS BANCÁRIOS - CONTA BANCÁRIA MOVIMENTADA PELO "DE CLIJUS" - LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO REALIZADO CONTRA O ESPÓLIO - OBRIGAÇÃO PERSONALÍSSIMA - A responsabilidade pela comprovação da origem dos recursos, para efeito do disposto no artigo 42 da Lei n° 9.430, de 1996, por ser uma obrigação personalíssima, deve ser imputada, exclusivamente, ao titular de direito c/ou de fato da conta-corrente. Portanto, não há corno imputar ao espólio a obrigação de comprovar depósitos bancários feitos à época em que o contribuinte - titular de fato-'a conta-corrente - era vivo, cabendo, se for o caso, a tributação segundo legislação especifiea. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO - FLUXO FINANCEIRO - INCLUSÃO DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS E REPASSES BANCÁRIOS - A inclusão, no fluxo financeiro para apuração de acréscimo ,- - 1 patrimonial a descoberto, de depósitos bancários (como origens) e repasses bancários (como dispêndios) descaracteriza a metodologia de apuração de acréscimo patrimonial a descoberto (presunção de omissão de rendimentos), tendo em vista, que para os casos da existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento, em relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos, existe a imposição de tributação especifica (art. 42 da Lei n° 9.430/96), e que deve prevalecer nestes casos. Recurso de oficio negado. Recurso voluntário provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de oficio e dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. . , • I ______--------7( • / ‘ 'residenteMall/ yn residente e Relator/9 . -(.. .. ..... . .i: -.... . , . EDITADO EM: 1 2. MAR MU - Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Antonio Lopo Martinez, Pedro Anan /.t Júnior, Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga, Helenilson Cunha Pontes, Gustavo f Lian Haddad e Nelson Mallmann (Presidente). Lf(liT : , • Relatório . O Presidente da Sexta Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo — SP II recorre de oficio, nos Mimos do artigo 34, inciso I, do Decreto n° 70.235, de 1972, a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, da decisão prolatada de fls. 518/542, que (leu provimento parcial à impugnação, interposta pelo contribuinte, declarando insubsistente parte do crédito tributário constituído pelo Auto de Infração de lis, 416/423. Da mesma forma o ESPÓLIO DE FRANCISCO FERNANDES BERNARDEZ, representada pela viúva ELV1RA SANCHEZ PLUCHINO, contribuinte inscrita no CPF/MF sob o n° 022.824.828-57, com domicilio fiscal na cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, a Rua Bahia, n° 720 — Apto 51, Bairro Fligienopolis, jurisdicionaclo a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Fiscalização em Sio Paulo - SP, inconfonnada com ..------------ '‘--11 2 Processo n" 19515.000984/2007-3 S2-C2T2 Acórdão s.° 2202-00.385 Fl. 2 a decisão de Primeira Instancia de fls. 518/542, prolatada pela Sexta Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo — SP II, recorre, a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, pleiteando a sua reforma, nos termos da petição de fls. 561/587. Contra o espólio acima mencionado foi lavrado, em 23/04/2007, o Auto de Infração de Imposto de Renda Pessoa Física (fis. 416/423), com ciência pessoal da representante legal do espólio Sra Elvira Sanchez Pluchino, em 24/07/2007 (fls. 425), exigindo-se o recolhimento do crédito tributário no valor total de R$ 19.858.169,26 (Padrão monetário da época do lançamento do crédito tributário), a titulo de imposto de renda pessoa física, acrescidos da multa de lançamento de oficio normal de 75% e dos juros de mora de, no mínimo, 1% ao mês, calculado sobre o valor do imposto de renda relativo aos exercícios de 2002 a 2004, correspondente aos anos-calendário de 2001 a 2003, respectivamente. A exigência fiscal em exame teve origem cm procedimentos de fiscalização dc Imposto de Renda, onde a autoridade lançadora entendeu haver as seguintes irregularidades: 1 — ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO: omissão de rendimentos tendo em vista a: variação patrimonial a descoberto, onde se verificou excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados! comprovados, conforme demonstrado no Termo de Verificação Fiscal que é parte integrante do auto de infração. Infração capitulada nos artigos 1", 2', 3°c §¢, da Lei 110 7 .713 , de 988; artigos I" e 2°, da lei n° 8.134, de 1990 c artigo I° da Lei n°10.451, de 2002. 2 -- DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA: omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em contas de deposito ou de investimentos, mentidas em instituições financeiras, em relação aos quais ti contribuinte, regulannente intimado, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, confol ine descrito no Termo de Verificação Fiscal, que é parte integrante do auto de infração. Infração capitulada no artigo 42 da Lei n° 9.430, de 1996; artigo 4" da Lei n°9.481, de 1997 e artigo 1° da Lei n°9.887, de 1999. O Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, responsável pela constituição do crédito tributário, esclarece, ainda, através do Termo de Verificação Fiscal de fls. 402/415, entre outros, os seguintes aspectos: - que da leitura dos documentos analisados pelos membros da Equipe Especial de fiscalização verifica-se que: 1 — No documento HUB 0059019, intitulado "CERTIFICAT1ON OF BENEFICIAL OWNERSHIP", (FLS. 85), ALÉM DOS CONTRIBUINTES Elvira Sanches Pluchino, CPF 022.824.828-57 e Enrique Javier Rivas Blanco, CPF 033.320.178-70 consta, também como proprietário da Raintree Ltd. O contribuinte Francisco Fernandez Bemardez, CPIT 033.320.198-13, com domicilio em São Paulo — SP; 2 — Conforme o documento HUB 0057511 (fls. 103), o contribuinte Francisco Fcmandez Bernardez, CPF 033.320.198-13 consta, também, como diretor, sócio, etc; 3 — No documento HB 007515 (fls. 107), cópia do cartão de assinaturas, consta à assinatura de Francisco Fernandez Bemardez, CPF 033.320.198-13; 3 4 - O documento de n" IIIJB 0057518 (fls. 110), continuação do documento denominado "ACCOUT AGREEMEN1"' contém o nome e a assinatura de Francisco Fernandez Bemardez; 5 - O documento HUB 0057526 (fls. 118), é cópia do cartão de assinaturas dos titulares e contém o nome e assinatura de Francisco Femandez Bemardez. - que pelos fatos acima descritos e com base nos documentos que foram objeto de análise pelos membros da Equipe Especial de Fiscalização, que concluíram que Elvira Sanchez Pluehino, CPF 022.824.428-57 e Enrique Javier Rivas Blanco, CPF 033.320.178-70, sçao de fato titulares da conta n°30172829, denominada Raintrec Ltd. Pode- se afirmar, que Francisco Femandez Bemardez, CP17 033.320.198-13 era de fato um dos titulares da conta n" 30172829, denominada Raintree Ltd., mantida no MT13-CBC-1-TUDSON BANK de Nova Iorque; - que, diante do exposto, o contribuinte Francisco Femandez Bemardez, CPF 033.320.198-13 foi regularmente intimado, por via postal, através do Termo de Inicio de Fiscalização lavrado em 15/12/2006, com ciência em 22/12/2006 (fls. 350), a comprovar com documentos hábeis e idôneos, coincidentes em data e valor, a origem dos recursos movimentados no exterior no MTB-CBC-HUDSON UNITED BANK - HUB, a crédito da conta n" 030172829, cujos valores estão descritos nos Anexos ao Termo de Intimação (fls. 351); i• . - que em atendimento ao Termo de inicio de Fiscaiização, lavrado em 15/12/2006, foi apresentado, por Elvira Sanches Pluchino, espanhola, viúva, aposentada, inscrita no CPF/MF sob n° 022.824.428-57, na pessoa representante legalmente autorizado (fls. 374), o documento datado de 18/01/2007 (fls. $73), onde a mesma esclarece que o Sr. • Francisco Femanclez Bernardez, foi seu esposo e faleceu na data de 21 de março do ano de . 2005, conforme faz prova com o incluso documento (fls. 375), Atestado de Óbito expedido pelo Registro Civil - Repáblica Argentina; - que além dos esclarecimentos prestados pela viúva de Francisco Fernandez Bemardez, acima descritos, não foram apresentados outros esclarecimentos e documentos para a comprovação dos recursos movimentados no exterior, no período de janeiro de 2001 a dezembro de 2003, no MTB-CBC-HUDSON UN1DET BANK - HUB, a crédito da conta ti' 030172829 por Francisco Femandez Bemardez, conforme solicitado no Termo de Início de Fiscalização; - que lendo em vista orfairos acima descritos, como crarrprovavarrido óbito-do fiscalizado Francisco Femandez I3emardez em março de 2005, e considerando os termos ao art. 131, inciso lido Código Tributário Nacional, que trata da responsabilidade dos sucessores e a Declaração Inicial de Espolio do Exercício de 2006, apresentada em 18/04/2006 onde consta como inventariante a Sra. Elvira Sanchez Pluchino, CPF 022.824.428-57, o espólio de Francisco Fernandez Bemardez, foi regularmente intimado, por via postal, na pessoa da inventariante, Sra Elvira Sanchez Pluchino, 022.824.428-57, com ciência em 01/03/2007, a comprovar, mediante a apresentação de documentos hábeis e idôneos coincidentes em data e valor, a origem dos recursos movimentados no exterior, no MTB-CBC-1-111DSON I.ENTITED BANK - HUB, a crédito da conta Raintree Ltd, n o 030172329, cujos valores constam dos Anexos ao Termo de Inicio de Fiscalização lavrado em 15/12/2006 com ciência em 22/12/2006 (fls. 351), tendo sido cientificado de que a não comprovação da origem dos recursos movimentados no exterior, no prazo e forma estabelecidos implicaria no lançamento de oficio do Imposto de Renda por Omissão de Rendimentos, conf io= previsto no art. 42, da Lei n° 9.430, de 1996; 4 Processo n° 19515.000984/2007-31 82-012 Acórdão n." 2202-00385 Fl. 3 - que a análise da Variação Patrimonial — Fluxo Financeiro Mensal dos Exercícios de 2003 c 2004 levou em conta como Origem dos Recursos os Rendimentos Omitidos provenientes de transferências a crédito da conta n" 030172829 no MTB-CDC- IIUDSON UNITED BANK — HUB cuja origem dos recursos não foi com provada e corno Aplicação de Recursos às transferências realizadas no exterior a Débito da conta n°030172829 no MTB-CBC-HUDSON UNITED BANK — HUB. Efetuados os lançamentos que se fizeram necessários foi apurado Acréscimo Patrimonial a Descoberto nos valores de R$ 77.491,95; R$ 299.848,92 e R$ 7.806,63, correspondentes aos meses de fevereiro e março do ano de 2002 e abril do ano de 2003, respectivamente. • Em sua peça impugnatoria de fls. 427/454, apresentada, tempestivamente, em 22/05/2007, instruído pelos documentos de fls. 455/516 o espólio, através de sua representante legal, se indispõe contra a exigência fiscal, solicitando que seja acolhida à impugnação para declarar a insubsistência do Auto de Infração, com base, em síntese, nos seguintes argumentos: - que conforme ficou demonstrado a impugnante 'filvira é uma senhora com 75 anos de idade, de naturalidade espanhola, que mal conhece a língua portuguesa e, muito menos, a língua inglesa c, por tudo isso não conseguiu das as informações pedidas pelo fisco, esclarecendo que em suas respostas que desconhecia totalmente as acusações que o fisco fez; - que a impossibilidade tática e jurídica da impugnante Elvira se defender caracteriza cerceamento de defesa e, segundo o inciso II do artigo 59 do Decreto n" 70.235, de 1972, "São Nulos os despachos e decisões proferidos com preterição do direito de defesa."; - que , quanto à ilegitimidade da parte, e de se dizer que o Auto de Infração não foi lavrado contra a pessoa jurídica Raintrec Ltd., mas sim contra a pessoa fisica do seu procurador falecido Francisco F. Bernardez, o qual somente possuía procuração da referida empresa e, aos olhos do fisco, movimentou valores sem prestar contas a este. A fazer tal escolha, ou seja, ao autuar a pessoa física do procurador e não a empresa, o fiscal autuante enquadrou a "responsabilidade tributária" do procurador no artigo 135 do CM; - que, neste processo administrativo, nenhuma importância tem o fato de tais documentos terem passado nas mãos de autoridades da policia, da justiça ou da administração. O simples fato de "passar pelas mãos de algumas autoridades" não dá a determinado documento estrangeiro o apanágio de "validade", porque, todo e qualquer documento lavrado em língua estrangeira deve, sempre, obedecer á legislação pátria, para, só assim, ser juntado ao processo. A tradução por tradutor público juramentado e a autenticação de cópias pela autoridade competente são requisitos mínimos e fundamentais para que o documento possa ser juntado ao processo e servir de indício ou prova; - que em relação ao mérito, verifica-se que o Auto de Infração exige Imposto de Renda Pessoa Física referente aos anos-base de 2001 a 2004, por omissão de rendimentos, tendo eu, vista a existência de acréscimo patrimonial a descoberto c depósitos bancários de origem não comprovada. A impugnante demonstrará, a seguir, que o fiscal formulou a exigência constante no Auto de Infração com base em mera presunção; que, irregularmente, transferiram, totalmente, o ônus da prova à impugnante Elvira, representante do espólio, c, além disso, fundamentaram o Auto de Infração em simples cópias de documentos estrangeiros não traduzidos ao vernáculo. Demonstrará, ainda, que não ocorreu o fato gerador e parte do crédito tributário exigido, referente ao periodo de 2001 e 2002, foi extinta pela decadência; s • - que analisando-se o Auto de infração e os Termos que os complementam, nota-se, nitidamente, que o fiscal autuante simplesmente relacionou, em demonstrativo de sua lavra, dólares que a seu ver, foram movimentados pelo Sr. Francisco Bernardez, já falecido, para suas contas bancárias, localizadas no exterior. Tais valores foram considerados "omissão de receitas", por não ter a viúva do Sr. Francisco, ora impugnante, apresentado explicações convincentes acerca de tais operações de movimentação de valores. Não podendo a viúva explicar os atos do marido falecido, o fisco efetuou uma soma de todos os dólares depositados na conta da empresa Raintree, e, pronto, lavrou o Auto de Infração, exigindo imposto de renda pessoa fisica do falecido Francisco (Espólio); - que não se provou o depósito e, muito menos, não se provou a titularidade, aliás, por não conseguir produzir tais provas, o fisco tentou transferir esse encargo à impugnante Elvira. Mas não teve sucesso e, por isso, deixou 'o presente procedimento sem qualquer fundamento fálico e, sobretudo, legal, pois não há qualquer documento idôneo demonstrando a existência de depósito bancário e a prova da titularidade; - que em relação a fatos geradores que o fisco alega terem ocorrido há mais de cinco anos antes da ciência do presente Auto de Infração (24/04/2007), já decorreu o prazo qüinqüenal de decadência, nos termos do Código Tributário Nacional. Após resumir os fatos constantes da autuação e as principais razões apresentadas pelo contribuinte a Sexta Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo - SP H conclui pela procedência parcial da ação fiscal e pela manutenção de parte do crédito tributário, com base nas seguintes considerações: - que, quanto à decadência, é de se dizer que não ocorrendo à homologação, o único prazo decadencial possivel de se aplicar a tais casos, é aquele estabelecido no inciso 1 do art. 173, uma vez que algum prazo deve haver de forma a garantir a segurança jurídica; - que no caso em análise, em se tratando, assim, de lançamento de oficio, o direito de a Fazenda Pública proceder ao lançamento do Imposto de Renda da Pessoa Física expiraria, no caso em tela, em 01/01/200S, para o exercício de 2002 e em 01/01/2009 para o exercício de 2003. Tendo o fisco efetuado o lançamento em 24/04/2007, ainda não terminara o prazo decadencial; - que uma vez positivada a norma legal, é dever da autoridade tributaria aplicá-la sem perquirir acerca da justiça ou injustiça dos efeitos que gerou, ou promover quaisquer outra análises ou considerações sobre o terna. Dessa forma, o tratamento tributário dispensado ao coWibuinte segue estritamente os premeitusiegais-portiarealtesma-especiL, os quais devem ser fielmente observados pela autoridade lançadora, cuja "atividade administrativa de lançamento e vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional", conforme preceitua o artigo 142, parágrafo único, do Código Tributário Nacional; - que, quanto aos exame das alegadas ofensas praticadas à Constituição Federal, falece competência a esta autoridade administrativa para análise. Sobre o assunto resta claro a esta autoridade julgadora o posicionamento de que não cabe aos órgãos administrativos do Poder Executivo, mesmo aqueles responsáveis pelo julgamento de processos de cunho administrativo, a apreciação da argüição de inconstitucionalidade, por lhes falecer competência para tanto, que constitui, sim, atribuição do Poder Judiciário; - que a presente tributação da omissão de rendimentos provenientes de - depósitos bancários pautou-se no art. 42 e parágrafos, da Lei n" 9.430, de 1996, que estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos; • Processo n° 19515.00098412007-31 S2-C2T2 Acórdão nP 2202-00.385 Fl. 4 - que não comprovada a origem dos recursos, tem a autoridade fiscal o poder/dever de autuar a omissão do valor dos depósitos bancários recebidos. Nem poderia ser de outro modo, ante a vinculação legal decorrente do principio da Legalidade que rege a administração Pública, cabendo ao agente, tão somente, a inquestionável observância do diploma legal aplicável ao caso em espécie; - que, quanto ao acréscimo patrimonial a descoberto, é de se dizer que não houve impugnação quanto a essa infração, motivo pelo qual mantém-se o lançamento, nos exatos termos efetuados, por se tratar de matéria não impugnada, nos termos do art. 17, do Decreto n°70.235, de 1972, com a redação dada pela Lei n°9.532, de 1997; - que, quanto à multa de oficio, é de se dizer que, no caso em tela, tal multa não é exigível, por força do disposto no art. 23 da 118 SRF n° 81, de 2001 (com fundamento legal no art. 49 do Decreto-Lei n° 5.844, de 1943), que estabeleceu que deve haver o lançamento de multa de mora a ser aplicada no caso da apuração de-omissão de rendimentos do de cujus e que tal multa deve ser arcada pelo espólio. As ementas que consubstanciam a presente decisão são as seguintes: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FISICA - IRPF Ano-calendário:2001, 2002, 2003 PRELIMINAR. DECADÊNCIA. O prazo para efetuar o lançamento, no c‘rsos em que não ocorre a homologação, tendo em vista a construaçao de dolo, é aquele do art. 173, [do C711 isto é, cinco anos a contar do primeiro dia do exercício .seguMle àquele em que o lançamento podaria ser efetuado. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. ILEGITIMIDADE DE PARTE. Existindo nos autos elementos que identificam o beneficiado de depósitos bancários, 12ãO há como prosperar a alegação de erro - na identBicação do sujeito passivo. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR: APLICAÇÃO DO PRINCIPIO DA INTRANSCEDENCIA E A EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE. Há expressa previsão legal para a responsabilidade do espólio pelos tributos devidos pelo de cujos ate a data da abertura da sucessão. Preliminar rejeitada. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. A presunção legal de omissão de rendimentos autoriza o lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular da conta bancária, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idónea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. 7 ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO O Acréscimo Patrimonial a descoberto apurado não foi objeto de impugnação, devendo ter o tratamento de matéria incontroversa. MULTA DE OFICIO. IMPOSSIBILIDADE DA APLICAÇÃO • APÓS A CONSTATAÇÃO DE FALECIVIENTO DA PESSOA FISICA. Afasta-se a multa de oficio, por falta de previsão legal, uma vez constatado o falecimento do contribuinte e referindo-se a apuração da omissão de rendimentos ao período anterior à abertura da sucessão. •Lançamento Procedente em Parte. Deste ato, a Presidência da Sexta Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo — SP II, recorre de oficio ao então Primeiro Conselho de Contribuintes, atualmente Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em conformidade com o art. 3° inciso 11, da Lei n° 8.748, de 1993, com nova redação dada pelo art. 67, da Lei n° •9.532, de 1997 e da Portaria ME n°375, de 2001. Da mesma forma, após ser cientificada da decisão de Primeira Instância, em 24/06/2008, conforme Termos constantes às fls. 545/550, c, com ela não se conformando, a representante legal do espólio interpôs, em tempo hábil (23/07/2008), o recurso voluntário de fls. 561/587, no qual demonstra irresignação contra parte da decisão acima, baseado, em síntese, nas mesmas razões expendidas na fase impugnatória. É o relatório. • Processo n" 19515.000984;2007-31 S2-C212 Acórdão nY 2202-00385 Fl. 5 • Voto Conselheiro Nelson Mallmann, relatos — QUANTO AO RECURSO DE OFÍCIO = O presente recurso de oficio reúne os pressupostos de admissibilidade previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal e deve, portanto, ser conhecido por esta Turma de Julgamento. Da análise dos autos se constata que a decisão de Primeira Instância decidiu tomar conhecimento da impugnação por apresentação tempestiva para, no mérito, deferi-la em parte determinando o cancelamento da multa de lançamento de oficio, sob o argumento de que constatado o falecimento não cabe multa punitiva, por falta de previsão legal. Ora, vivemos em um Estado de Direito, onde deve imperar a lei, de tal sorte que o indivíduo só se sentirá forçado a fazer ou não fazer alguma coisa compelido pela lei. Dai porque o lançamento ser previsto no art. 142 do Código Tributário Nacional como atividade plenamente vinculada, isto é, sem possibilidade dc a cobrança se firmar em ato discricionário, e, por outro lado, obrigatória, isto é o órgão da administração não pode deixar de cobrar o tributo previsto em lei. É de se ressaltar, que na sucessão da pessoa fisica o Código Tributário Nacional se ocupa dos itens 11 e 111 do art. 131. O Código define dois momentos nos quais a responsabilidade por sucessão da pessoa física se põe: até a partilha ou adjudicação, a responsabilidade é do espólio (relativamente aos tributos gerados até a data da abertura da sucessão, ou seja, a data do falecimento); após a partilha ou adjudicação, a responsabilidade, tanto por tributos gerados antes do falecimento como pelos gerados após, até a partilha iou adjudicação, é do cônjuge meeiro, dos herdeiros e dos legatários. Assim, quando alguém falece, teoricamente seu patrimônio é imediatamente repassado para seus sucessores Contudo, a formalização da transferência depende da instauração e conclusão do processo de inventario (ou arrolamento) que conduzirá a sentença de partilha (ou adjudicação). No lapso de tempo compreendido entre a abertura da sucessão (morte) e a prolação da sentença de partilha ou adjudicação, o espólio (conjunto de bens, direitos e obrigações deixados pelo falecido, conhecido na expressão jurídica de cujus), responde pessoalmente pelos tributos devidos pelo de cidus. É óbvio, que somente após a sentença de partilha á que se pode aplicar a regra prevista no art. 131, H, do Código Tributário Nacional, unia vez que antes deste moinento à responsabilidade recai sobre o espólio. Como visto, a responsabilidade pelos tributos não recolhidos, verificados no lapso de tempo compreendido entre a abertura da sucessão (morte) e a proteção da sentença de partilha ou adjudicação, o espólio (conjunto de bens, direitos e obrigações deixados pelo 9 _ É falecido, conhecido na expressão jurídica de cujas), responde pessoalmente pelos tributos devidos pelo de atilas. Entretanto, verifica-se que, no presente caso, a autoridade lançadora entendeu ser procedente a aplicação da multa de lançamento de oficio normal de 75%. Multa esta que a autoridade julgadora de Primeira Instância cancelou. Fico com a decisão da autoridade julgadora, pois não posso acompanhar a - autoridade lançadora, pelas razões abaixo expostas. Como se vê nos autos, o processo refere-se a lançamento contra o espólio de Francisco Femandez Bernarclez, falecido em 21 de março de 2005, muito antes do inicio desta fiscalização que ocorreu em 15 de dezembro de 2006. Nota-se ás fls. 475/482, que sobre o imposto apurado foi aplicada à multa de lançamento de oficio normal de 75%. Multa que tem caráter punitivo, conforme previsão contida no artigo 44 da Lei n o 9.430, de 1996. • Ora, não há previsão legal, para que se efetue o lançamento de multa de oficio nos casos de lançamento contra o espólio ou quando há repasse de responsabilidade, por morte do contribuinte, sendo os herdeiros responsáveis apenas pelo imposto apurado, com a devida correção monetária, quando for o caso, e dos juros de mora, ou seja, descabida a aplicação de penalidade. É neste sentido, que se temi manifestado a jurisprudência deste Tribunal Administrativo, conforme pode ser observado nos julgados abaixo: MULTA DE OFICIO - A responsabilidade do sucessor cinge-se aos tributos não pagos pelo antecessor, não abrangendo as multas punitivas a teor do art. 133 do OW (Ac. CSRF/01.2.207/97 a 1111/97-DO 15/10/97) MULTA FISCAL - RESPONSABILIDADE POR SUCESSÃO - Não responde o sucessor pela multa de natureza fiscal que deva • ser aplicada em razão de infração cometida pelo de cujas. Inteligência do art. 133 da Lei 5172/66 (Ac. CSRF/01-1.328/92 -DO 10/01/95). MULTA DE OFICIO - DESCABIMENTO - Descabe a aplicação a espólio, após a abertura de sucessão, da multa de oficio de 75% (Lei n 9.430/96, art. 44, I), sendo cabível a multa tle 10% ~sia no RIR/99 art. 23& 1 c/c art. 964 L b." (Ac. 102- 45291). OMISSÃO DE RENDIMENTOS - Apurando-se, pela abertura da sucessão, que o de cujus apresentou declaração de rendimentos com omissão de rendimentos, a multa aplicável é a cio artigo 11 do RIR/80, o qual não contraria o disposto no artigo 129 do CIN. O crédito não inteiramente pago no vencimento é acrescido da juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, inclusive quando o lançamento é feito contra o espólio (Ac 1° CC 104-5.678/86 - DO 16/05/88). (obs: o art. 11 do RIR/80 equivale ao § I', do art. 23, do R1R/99). MULTA DE OFICIO - ESPÓLIO - Tendo em vista a previsão da Lei n.° 5.844, de 1943, o imposto apurado após a abertura da sucessão, mesmo quando relativo ao ganho de capital, somente está sujeito à multa de mora. Inteligência do art. 9 0, dc uris. 24 e 999,1 "c" do RIR, de 1994". (4c. 104-17300 e 104-18810). 10 Processo n° 1 95 15.000984/200 .7-3 E S2-C2T2 Acateio n.r 2202-00385 Fl. 6 MULTA DE OFÍCIO — Não cabe multa de oficio, quando há repasse de responsabilidade, por morte do contribuinte, sendo os herdeiros responsáveis apenas pelo imposto apurado, com a devida correção monetária e juros de mora, descabida a aplicação de penalidade (Ac. I' CC 106-4.182/92 — DO 15/06/924 • MULTA DE OFICIO (Ex. 85/6) -- Nos termos do op. 133 do CIA, o sucessor só responde pelo tributo devido pelo sucedido, descabendo a cobrança de multa de oficio, pois a penalidade não se transmite (Ac. 1 O CC 106-8581). MULTA - Não se nega que o espólio responde pelos tributos do de cuias, mas tão-só por tributos. Na exigência não se acresce a multa. imposta ao falecido, porque sua natureza jurídica não é a de tributo, e, sim, de penalidade imposta pelo descumprimento da obrigação principal. Sob uma interpretação restritiva da lei, a acepção de tributo, como figura o termo no inciso III do art. 131 do CdN não alcança as multas impostas ao de cupis, mas exclusivamente os tributos por ele devidos. Não é admissível sanção aos descendentes uma vez que responderiam por • comportamento ilícito alheio. O apenamento representaria, no caso, violação do principio da pessoalidade da pena, sendo descabida, pois, a cobrança da multa. Recurso parcialmente provido. (Ac 203-07611, 203-072994 ESPÓLIO - RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA - MULTA DE LANCI3MENTO DE OFÍCIO - O sucessor a qualquer liado e o cônjuge meeiro são responsáveis pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da partilha, 'limitada a responsabilidade ao MOO tante do quinhão ou da meação, entretanto, nestes casos, não cabe o lançamento de multa de oficio, sendo os herdeiros responsáveis apenas pelo imposto apurado, com a devida correção monetária, quando fim- o caso, e dos juros de mora, descabida a aplicação de penalidade." (Ac 104-188834 A legislação de regência a época dos fatos sintetizada no Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26/03/1999, se manifesta da seguinte forma: Art. 23 - São pessoalmente responsáveis (Decreto-Lei n°5.844, de 1943. art. 50, e Lei n°5.172, de 1966, art. 131, incisos 11 e III): I — o sucessor a qualquer titulo e o cônjuge meeiro, pelo tributo devido pelo de cupis até a data da partilha ou adjudicação, limitada esta responsabilidade ao montante do quinhão, do legado, da herança ou da meação; II —o espólio, pelo tributo de nAdo pelo de aqus até a data da abertura da sucessão. § I" Quando se apurar, pela abertura da sucessão, que o de aipis não apresentou declaração para os exercícios anteriores, ou o fez com omissão de rendimentos, cobrar-se-á do espólio o imposto respectivo, acrescido da correção TOO fICO-2ria e da multa II de mora prevista no art. 964, 1, "b", observado, quando for o caso, o disposto no art. 874 (Decreto-Lei n°5.844, de 1943, art. 49). § 2° - Apurada a falta de recolhimento do imposto devido pelo de cuias até a data da abertura da sucessão, será ele exigido do espólio, acrescido de juros moratórias e da multa prevista no art. 950, observado, quando for o caso, o disposto no art. 874 § 3" Os créditos tributários, notificados ao de atito antes da abertura da sucessão, ainda que neles incluídos encargos e penalidades, serão exigidos do espólio ou dos sucessores, observado o disposto no inciso!. f•-)- - Art. 964 — Serão aplicadas as seguintes penalidades: 1—multa de mora b) de dez por cento sobre o imposto apurado pelo espólio, nos casos do § do art. 23 ( (Decreto-lei n" 5.844, 1943, art. 49). Portanto, a responsabilidade tributária dos herdeiros e cônjuge meeiro alcança o tributo cujo fato gerador tenha ocorrido até a data da partilha ou adjudicação, evidentemente excluída a penalidade (multa de lançamento de oficio) e na proporção do que lhes coube na partilha e no limite do montante herdado. Na ocorrência de evento da espécie, o art. 1384 do Código Civil Novo (Lei 10.406, de 2002) estabelece que, "aberta à sucessão, o domínio c a posse da herança transmitem-se, desde logo, aos herdeiros legítimos e testamentários". Sobre a matéria, Maria Helena Diniz, in Código Civil Anotado, 5 1 edição atualizada, 1999, Editora Saraiva, pág. 1001, leciona que "no instante da morte do de cujus abre-se à sucessão, transmitindo-se, sem solução de continuidade, a propriedade e a posse dos bens do falecido aos seus herdeiros sucessiveis, legítimos ou testamentários, que estejam vivos naquele momento, independentemente de qualquer ato". Em face do exposto, verifica-se que a multa aplicável ao espólio, a época da ocorrência dos fatos, é a de mora de 10% dez por cento), prevista na letra "b", do inc. 1, do art. 964, do RIR/99, sendo descabida a penalidade estabelecida no inc. I ou II, do art. 44, da Lei te) 9.430, de 1996. Assim sendo e considerando que todos os elementos de prova que compõe a presente lide foram objeto de cuidadoso exame por parte da autoridade julgadora de Primeira Instância e que a mesma, na sua linha de raciocínio, deu correta solução à demanda, nesta parte, aplicando a legislação de regência à época da ocorrência do fato gerador, fazendo prevalecer à justiça tributária, VOTO pelo conhecimento do presente recurso de oficio, e, no mérito, NEGO provimento. • QUANTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO = 12 Processo n" 19515.000984/2007-31 • S2-C2T2 Acórdão 11. 0 2202-00.385 • El. 7 O presente recurso voluntário reúne os pressupostos de admissibilidade previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal e deve, portanto, ser conhecido por esta Turma de Julgamento. A matéria em discussão neste colegiado administrativo, após os ajustes realizados pela decisão de Primeira Instância, se restringe as preliminares de decadência e nulidade do lançamento e, no mérito, à irregularidade de omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em contas correntes, mantidas nas instituições financeiras, em relação aos quais a representante legal do espólio, regularmente intimada, não comprovou, mediante documentação hábil e idónea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, bem como sobre acréscimo patrimonial a descoberto. Inconformada, em virtude de não ter logrando êxito total na instância inicial, a representante legal do espólio, apresenta a sua peça recursal a este E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais pleiteando a reforma da decisão prolatada na Primeira Instância argüindo, em síntese, as mesmas razões da peça impugnatõria. Assim, a pedra angular da questão fiscal de mérito trazida à apreciação desta Turma de Julgamento, se resume, corno ficou consignado, anteriormente, à omissão de rendimentos em razão de depósitos bancários cuja origem não foi justificada (art. 42 da Lei . 9.430, de 1996) e acréscimo patrimonial a descoberto. Por outro lado, existe, ainda, as questões preliminares de decadência e de nulidades do lançamento por cerceamento do direito de defesa e ilegalidade na faltado observância à Lei Complementar 105, de 2001. Em razão da decisão de mérito favorável ao provimento do recurso voluntário, deixo de analisar as preliminares argüidas. Quanto à matéria de mérito, no que diz respeito à omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários cuja origem não foi justificada, não tenho dúvidas, que somente o titular de direito ou de . fato estaria, em principio, apto a comprovar estas origens, recorrendo a seus assentamentos e respectivos documentos, poderia colher e fornecer os comprovantes relativos às operações ou negócios particulares de que participou c que deram Origem aos recursos utilizados nos depósitos bancários efetuados e questionados pelo fisco. Essa é a prática que a jurisprudência administrativa testemunha. Pois como se sabe, desde remotíssima data tem-se entendido que a intimação deve ser feita ao próprio titular da conta . bancária, seja quanto à apresentação de documentação hábil e idônea seja quanto à origem dos recursos questionados. • • Com efeito, qualquer procedimento fiscal digno do nome há de estar • suficientemente instruido para possibilitar ampla defesa do contribuinte contra quem for instaurado. No caso, os elementos de prova, informações, etc., necessários e suficientes para embasar o lançamento contra o titular, de fato ou de direito, da conta bancária questionada está nos autos. Não tenho dúvidas de que a comprovação de origem, nos termos do disposto no artigo 42 da Lei n" 9.430, de 1996, deve ser intupretada como a apresentação pelo contribuinte de documentação hábil e idônea que possa identificar a fonte do crédito, o valor, a data c, principalmente, que demonstre de forma inequívoca a que titulo os créditos foram efetuados na conta corrente. Há necessidade de se estabelecer uma relação harmoniosa entre cada crédito nu conta e a origem que se deseja comprovar, com coincidências de data e valor, 13 não sendo possível à comprovação de forma genética com indicação de uma receita ou rendimento em um determinado documento a comprovar vários créditos em conta. Em outras palavras, esta comprovação deverá ser feita pelo titular de direito ou de fato com documentação hábil e idônea, devendo ser indicada à origem de cada depósito individualmente, não servindo, a princípio, corno comprovação de origun de depósito os rendimentos anteriormente auferidos ou já tributados, se não for comprovado a vinculação percepção dos rendimentos com os depósitos realizados. • É fato, como já foi dito no voto do recurso de oficio, que o espólio não só responde pelos tributos relativamente aos bens deixados e pelos que se vencerem até a partilha, mas também pelos do de cajus antes da abertura da sucessão. Contudo, muito embora utilize o mesmo CPF, o espólio não se confunde com o de cujus. São entidades diferentes, valendo • lembrar que a Instrução Normativa SRF 110 81 , de 11 de outubro de 2001, assim conceitua o termo espólio:considera-se espólio o conjunto de bens, direitos e obrigaç5es da pessoa . falecida. Todavia, o dever do oficio nos arrasta, no sentido de que se restabeleça a justiça fiscal de que, nestes autos, está carente, não só por culpa da autoridade lançadora e sim pela situação peculiar estabelecida nestes autos. Ora, é fato inquestionável que na data do inicio da fiscalização o Sr. Fransciso F Bemardez era falecido, tanto é que a lavratura do Auto de Infração se deu contra o espólio. Da leitura do texto legal (art. 42 da Lei n°9.430, de 1996), depreende-se que quem se encontra obrigado a comprovar a origem dos depósitos bancários efetuados é o titular da conta-corrente. Assim, a responsabilidade pela comprovação da origem dos recursos, para efeito do disposto no legislação de regência, por ser urna obrigação personalíssima, deve ser imputada, exclusivamente, ao titular de direito e/ou de fato da conta-corrente. Portanto, não há corno imputar ao espólio a obrigação de comprovar depósitos bancários feitos à época em que o contribuinte - titular de fato da conta-corrente - era vivo, cabendo, se for o caso, a tributação segundo legislação especifica. É evidente, que não sendo o espólio o titular da conta-corrente não há como lhe exigir que comprove os valores depositados nas contas-correntes do de cajus, a não ser que os depósitos se referissem a período posterior à data da abertura da sucessão. Ou seja, após o óbito. Ai sim, haveria que se averiguar quem era o responsável pela movimentação: se o espólio, se o inventariante ou qualquer outro sujeito passivo. Entendo, que não cabe autuação de omissão de rendimentos caracterizada por depósitos de origem não comprovada, quando em procedimento fiscal for verificado que o titular das contas-correntes cm exame veio a óbito em data posterior a movimentação dos recursos c anterior ao procedimento fiscal, por encontrar-se, neste caso, a autoridade fiscal impossibilitada de cumprir o rito estabelecido no art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996 para que se caracterize a presunção legal. É inquestionável, que a melhor interpretação para a aplicação do estabelecido na norma legal (art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996), é no sentido de que se faz necessária à intimação do titular (se a conta for individual) ou dos titulares das contas de depósito ou do investimento (se a conta for conjunta) para que comprovem a origem dos depósitos bancários identificados. 14 Processo n° 19515.000984/2007-31 R-CM Acórdão o.* 2202-00.385 Fl. 8 Ora, uma vez que o espólio não é titular das contas bancárias, nem tampouco o responsável pela movimentação no período fiscalizado, não poderia o agente fiscal ter-lhe autuado pela infração em questão, pois não tem o poder discricionário para agir em desacordo com a lei, sob pena de macular o lançamento. Não restam dúvidas, que a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários não comprovados é uma presunção legal. No entanto, para que se valide a presunção de omissão de rendimentos, o lançamento deve-se conformar aos moldes da lei. Reza o caput do art. 42, da Lei n°9.430, de 1996, que a omissão de rendimentos se caracteriza quando o titular da conta, regularmente intimado, não comprova a origem dos recursos depositados. Logo, é obvio, que no caso de conta-corrente cujo titular já faleceu não possível se completar a previsão na norma lega de regência. Quanto ao acréscimo patrimonial a descoberto apurado através do "Fluxo Financeiro" de entradas e saldas de recursos, apurado através do Demonstrativo da Variação Patrimonial de Es. 512/514, é de se dizer que da análise dos autos do processo se verifica que a autoridade lançadora constatou, no seu entendimento, através do levantamento de entradas e saídas de recursos - fluxo financeiro, que o contribuinte apresentou, durante alguns meses dos anos-calendário de 2002 e 2003, saldos negativos, representando, no seu entender, presunção de omissão de rendimentos, já que, a principio, consumia/aplicava mais do que possuía de recursos com origem justificada. Não há dúvidas nos autos, que o suplicante foi tributado diante da constatação de omissão de rendimentos, pelo fato do fisco ter entendido, através do levantamento mensal de origens e aplicações de recursos, que o mesmo apresentava "um acréscimo patrimonial a descoberto", "saldo negativo mensal", ou seja, aplicava c/ou consumia mais do que possuía de recursos com origem justificada. Sobre o "acréscimo patrimonial a descoberto", "saldo negativo" cabe tecer algumas considerações. Sem dúvida, sempre que se apura cle forma inequívoca um acréscimo patrimonial a descoberto, na acepção do termo, é licito à presunção de que tal acréscimo foi construído com recursos não indicados na declaração de rendimentos do contribuinte. A situação patrimonial do contribuinte é medida em dois 'Momentos distintos. No inicio do período considerado e no seu final, pela apropriação dos valores constantes de sua declaração de bens. O eventual acréscimo na situação patrimonial constatado na posição do final do período CIll comparação da mesma situação no seu inicio é considerado como acréscimo patrimonial. Para haver equilíbrio fiscal deve corresponder, tal acréscimo (que leva em consideração os bens, direitos e obrigações do contribuinte) deve estar respaldado em receitas auferidas (tributadas, irão tributadas ou tributadas exclusivamente na fonte). No caso em questão, a tributação não decorreu do comparativo entre as situações patrimoniais do contribuinte ao final e inicio do período, ou seja, na acepção do termo "acréscimo patrimonial". Portanto, não pode ser tratada cromo simples acréscimo patrimonial. Desta forma, não há que se falar de acréscimo patrimonial a derscoberto apurado na declaração anual de ajuste. 15 - Vistos esses fatos, cabe mencionar a definição do fato gerador da obrigação tributária principal que é a situação definida em lei como necessária e suficiente à sua ocorrência (art. 114 do CTN). Esta situação é definida no art. 43 do CTN, como sendo a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza, que no ••caso em pauta e a omissão de rendimentos. Ocorrendo o fato gerador, compete à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo o caso, propor a aplicação da penalidade cabível (CTN, art. 142). • Ainda, segundo o parágrafo único, deste artigo, a atividade administrativa do lançamento é vinculada, ou seja, constitui procedimento vinculado à norma legal. Os princípios da legalidade estrita c da tipi cidade são fundamentais para delinear que a exigência tributária se dê exclusivamente de acordo com a lei e os preceitos constitucionais. Assim, o imposto de renda somente pode ser exigido se efetivamente ocorrer o fato gerador, ou, o lançamento será constituído quando se constatar que concretamente houve a disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza. Desta forma, podemos concluir que o lançamento somente poderá ser constituído a partir de fatos comprovadamente existentes, ou quando Os esclarecimentos prestados forem impugnados pelos lançadores com elemento se guro de prova ou indicio veemente de falsidade ou inexatidão. Diz a norma legal que rege o assunto: Lei iz 7.713, de 1988: Artigo I° - Os rendimentos e ganhos de capital percebidos a partir de J0 de janeiro de 1989, por pessoas fisicas residentes ou domiciliadas no Brasil serão tributados pelo Imposto de renda na forma da legislação vigente, com as modificações introduzidas por esta Lei. Artigo 2" - O Imposto de Renda das pessoas físicas será devido, mensanrieme, a medida que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. Artigo 3" - O Imposto incidira sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvando o disposto nos artigos 9" a 14 desta Lei_ 52 18 Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho, ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, as.sim também entendidos os acréscimos patrimoniais correspondentes aos rendimentos declarados. Lei n."8.134, de 1990: Art. 1"- A partir do exercício-financeiro cie 1991, os rendimentos e ganhos de capital percebidos por pessoas físicas residentes ou domiciliadas no Brasil serão tributados pelo Imposto de Renda • 16 , • Processo n" 19515.000984/2007-31 S2-C2T2 Aos:edil() n.° 2202-00.385 EI. 9 na forma da legislação vigente, com as modificações introduzidas por esta Lei. Art. 2' - O Imposto de Renda das pessoas físicas será devido à medida que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sem prejuízo do ajuste estabelecido no artigo 11. Art. 4°- Em relação aos rendimentos percebidos a partir de de janeiro de 1991, o imposto de que trata o artigo 8" da Lei n." 7.713, de 1988: 1 - será calculado sobre os rendimentos efetivamente recebidos no mês. Lei n°8.021, de 1990: Art. 6"- O lançamento de oficio, além dos casos já especificados em lei, for-se-á arbitrando os rendimentos com base na renda presumida, mediante utilização dos sinais exteriores de riqueza. § I" - Considera-se sinal exterior de riqueza a realização de gastos incompatíveis com a renda dIsponivel do contribuinte. § 2" - Constitui renda disponível a receita aidérida pelo COR tiibtdrile, diminuida dos abatimentos e deduções admitidos . pela legislação do Imposto de Renda em vigor e do Imposto de Renda pago pelo contribuinte. Como se depreende da legislação, anteriormente citada, o imposto de renda das pessoas fisicas será apurado mensalmente, à medida que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, já que com a edição da Lei n." 8.134, de 1990, que introduziu a declaração anual de ajuste para efeito de apuração do imposto devido pelas pessoas físicas, tanto o imposto devido corno o saldo do imposto a pagar ou a restituir, passaram a ser determinados anualmente, donde se conclui que o recolhimento mensal passou a ser considerado como antecipação do devido e não como pagamento definitivo. Nesta altura deve ser esclarecido, que os fatos geradores das obrigações tributárias são classificados como instantâneos ou eomplexivos. O fato gerador instantâneo, como o próprio nome revela, dá nascimento á obrigação tributaria pela ocorrência de um acontecimento, sendo este suficiente por si só (imposto de tenda na fonte). Em contraposição, os fatos geradores complexivos são aqueles que se completam após o transcurso de um determinado período de tempo e abrangem um conjunto de fatos e circunstâncias que, isoladamente considerados, são destituídos de capacidade para gerar a obrigação tributária exigível. Este conjunto de fatos se corpori fica, depois de determinado lapso temporal, em um fato imponivel. Exemplo clássico de tributo que se enquadra nesta classificação de fato gerador complexivo e o imposto de renda da pessoa fisica, apurado no ajuste anual. Aliás, a despeito da inovação introduzida pelo artigo 2° da Lei n° 7.713, de 1988, pelo qual estipulou-se que "o imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, a medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem recebidos", há que se ressaltar a relevância dos arts. 24 e 29 deste mesmo diploma legal e dos arts. 12 e 13 da Lei n° 17 - i 8.383, de 1991 mantiveram o regime de tributação anual (fato gerador complexivo) para as pessoas físicas. É dose observar, que para as infrações relativas à omissão de rendimentos, I tem-se que, embora as quantias sejam recebidas mensalmente, o valor apurado será acrescido aos rendimentos tributáveis na Declaração de Ajuste Anual, submetendo-se à aplicação das alíquotas constantes da tabela progressiva anual. Portanto, no presente caso, não há que se falar de fato gerador mensal, haja vista que somente no dia 31/12 de cada ano se completa o fato gerador complexivo objeto da autuação em questão. • Em relação ao cômputo mensal do fato gerador, é de se observar que a Lei n" 7.713, de 1988, instituiu, com relação ao imposto de renda das pessoas físicas, a tributação mensal à medida que os rendimentos forem auferidos. Contudo, embora devido mensalmente, quando o sujeito passivo deve apurar e recolher o imposto de renda, o seu fato gerador continuou sendo anual. Durante o decorrer do ano-calendário o contribuinte antecipa, mediante a retenção na fonte ou por meio de pagamentos espontâneos e obrigatórios, o imposto que será apurado em definitivo quando da apresentação da Declaração de Ajuste Anual, nos termos, especialmente, dos artigos 9' e 11 da Lei n°8.134, de 1990. É nessa oportunidade que o fato gerador do imposto de renda estará concluído. Por ser do tipo complexivo, segundo a classificação doutrinária, o fato gerador do imposto de renda surge completo no último dia do exercício social. Só então o contribuinte pode realizar os devidos ajustes de sua situação de sujeito passivo, considerando os rendimentos auferidos, as despesas realizadas, as deduções legais por dependentes e outras, as antecipações feitas e, assim, realizar a Declaração de Imposto de Renda a ser submetida à homologação do Fisco. Ora, a base de cálculo da declaração de rendimentos abrange todos os rendimentos tributáveis recebidos durante o ano-calendário. Desta forma, o fato gerador do imposto apurado relativamente aos rendimentos sujeitos ao ajuste anual se perfaz em 31 de dezembro de cada ano. É evidente que o arbitramento da renda presumida cabe quando existe o sinal - exterior de riqueza caracterizado pelos gastos excedentes da renda disponível, e deve ser quantificada em função destes. No presente caso, a tributação levada a efeito baseou-se em levantamentos mensais de origem e aplicações de recursos (fluxo financeiro ou de caixa), onde, a princípio, constata-se que houve a disponibilidade económica de renda maior do que a declarada pelo supli cá nte, cá racterizandommissão_clecrendimentos-passíveis_cle_tributação. Por outro lado, é entendimento pacífico, nesta Câmara, que quando a fiscalização promove o fluxo financeiro ("fluxo de caixa") do contribuinte, através de demonstrativos de origens e aplicações de recursos devem ser considerados todos os ingressos (entradas) c todos os dispêndios (saídas), ou seja, devem ser considerados todos os rendimentos, retornos de investimentos e empréstimos, (já tributados, tributados de oficio, não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte) declarados ou não, bem como todos os dispêndios/aplicações/investimentos/aquisições possíveis de se apurar, a exemplo de: despesas bancárias, aplicações financeiras, água, luz, telefone, empregada doméstica, cartões de crédito, juros pagos, pagamentos diversos, aquisições de bens e direitos (móveis e imóveis), etc., apurados mensalmente. • • Porém, no presente lançamento, não é isso que se constata. A autoridade lançadora simplesmente se baseou nas entradas c saídas registradas em conta bancária. A mistura de depósitos bancários na apuração de acréscimo patrimonial desvirtua totalmente o 18 • Processo ti' I 9515.000984/2007-31 S2-C2T2 Acórdão n.° 2202-00.385 Fl. 10 objetivo do "fluxo financeiro", que é para verificar se o contribuinte está aplicando ou consumindo mais do que tem de origem em recursos já tributados, não tributáveis ou isentos. Ora, nota-se, no levantamento de acréscimo patrimonial a descoberto, que a autoridade lançadora considerou, tão somente, como origens os depósitos bancários e como dispêndios os repasses bancários. Este procedimento é incorreto, já que para os depósitos bancários existe urna legislação específica demonstrando a sua forma de tributar (art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996), não é razoável misturar depósitos bancários como sendo origem (entradas) no demonstrativo de acréscimo patrimonial e como dispêndios (saídas) os repasses bancários. O que é possível de se fazer . é tributar de oficio os depósitos bancários cuja origem não foi justificada c considerar os valores tributados de oficio no demonstrativo de apuração de acréscimo patrimonial como sendo origens de recursos passíveis de justificar acréscimo patrimonial a descoberto. A outra forma possível de apuração é considerar os débitos (gastos - saídas das contas bancárias) como sendo dispêndios, desde que fique comprovado a efetiva aplicação ou gasto do contribuinte, já que para efetuar estes gastos o contribuinte deverá demonstrar que tem lastro suficiente oriundos em rendimentos, retornos de investimentos, empréstimos ou doações (já tributados, tributados de oficio, não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte) declarados ou não. Ora, quando a autoridade lançadora promove o Fluxo financeiro de origens e aplicações de recursos (apuração de acréscimo patrimonial a descoberto) deve considerar, em seu levantamento, todos os ingressos de recursos (entradas) e todos os dispêndios (saídas). A lei somente autoriza a presunção de omissão de rendimentos nos casos em que a autoridítcte lançadora comprove gastos dou aplicações incompatíveis com a renda disponível (tributada, não tributável ou tributada exclusivamentena fonte). Assim, quando for o caso, devem ser considerados, na apuração do acréscimo patrimonial a descoberto, todos os rendimentos auferidos pelo contribuinte (tributados, isentos e não tributáveis e os tributados exclusivamente na Conte), abrangendo os declarados e os lançados de oficio pela autoridade lançadora. Ademais, a inclusão, no fluxo financeiro para apuração de acréscimo patrimonial a descoberto, tão somente, de depósitos bancários (como origens) e repasses bancários (corno dispêndios) descaracteriza a metodologia de apuração de acréscimo patrimonial a descoberto (presunção de omissão de rendimentos), tendo em vista, que para os casos da existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento, idli relação aos quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos, existe a imposição de tributação especifica (art. 42 da Lei n° 9.430/96), e que deve prevalecer nestes casos. Neste linha de pensamento, concluo que o lançamento, neste item, não foi realizado dentro dos parâmetros legais, portanto, da mesma forma, deve ser excluído da exigência tributária. . Diante do conteúdo dos autos e pela associação de entendimento sobre todas as considerações expostas no exame da matéria e por ser de justiça, voto no sentido de negar provimento ao Recurso de Oficio c dar provimento ao recurso voluntário. . • /..._ .u. ,,,,,, 7_ T 19 41519 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS Processo n°: 19515.000984/2007-31 Recurso n5: 174.377 • TERMO DE INTIMAÇÃO Em cumprimento ao disposto no § 3' do att. 81 do Regimentb Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria Ministerial a' 256, de 22 de junho de 2009, intime-se o (a) Senhor (a) Procurador (a) Representante da Fazenda Nacional, credenciado junto à Segunda Câmara da Segunda Seção, a tomar ciência do Acórdão ri' 2202-00.385. Brasília/DF, 1 AR 29B. (P(21)• EVELINE COELHO DE 'WEL° \ DOMAR Chefe da Secretaria Segunda Câmara da Segunda Seção Ciente, com a observação abaixo: - ( ) Apenas com Ciência ( ) Com Recurso Especial ( ) Com Embargos de Declaração Data da ciência: Procurador(a) da Fazenda Nacional
score : 1.0
Numero do processo: 18336.001125/2004-62
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 12 00:00:00 UTC 2012
Data da publicação: Fri Sep 23 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 25/05/1999
PREFERÊNCIA TARIFÁRIA CONCEDIDA EM RAZÃO DA ORIGEM. ALADI. TRIANGULAÇÃO. CUMPRIMENTO DAS EXIGÊNCIAS DOCUMENTAIS.
A apresentação de todas as faturas comerciais atreladas a operação triangular, permitindo seu cotejamento com o certificado de origem que comprova o cumprimento do regime de origem da Aladi, associada à expedição direta da mercadoria de país signatário daquele acordo para o Brasil impõe a manutenção da preferência tarifária, ainda que o faturamento se dê a partir de país não signatário.
Recurso Especial do Procurador Negado
Numero da decisão: 9303-001.990
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Júlio César Alves Ramos (Relator), Henrique Pinheiro Torres e Marcos Aurélio Pereira Valadão, que davam provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Redator Designado
(Assinado digitalmente)
Júlio César Alves Ramos - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Luciano Lopes de Almeida Moraes, Júlio César Alves Ramos, Rodrigo da Costa Pôssas, Francisco Maurício Rabelo de Albuquerque Silva, Antônio Lisboa Cardoso, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Maria Teresa Martínez López, Susy Gomes Hoffmann e Otacílio Dantas Cartaxo.
Nome do relator: JULIO CESAR ALVES RAMOS
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ALADI. TRIANGULAÇÃO COMERCIAL Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado PETROBRÁS SA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 25/05/1999 PREFERÊNCIA TARIFÁRIA CONCEDIDA EM RAZÃO DA ORIGEM. ALADI. TRIANGULAÇÃO. CUMPRIMENTO DAS EXIGÊNCIAS DOCUMENTAIS. A apresentação de todas as faturas comerciais atreladas a operação triangular, permitindo seu cotejamento com o certificado de origem que comprova o cumprimento do regime de origem da Aladi, associada à expedição direta da mercadoria de país signatário daquele acordo para o Brasil impõe a manutenção da preferência tarifária, ainda que o faturamento se dê a partir de país não signatário. Recurso Especial do Procurador Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Júlio César Alves Ramos (Relator), Henrique Pinheiro Torres e Marcos Aurélio Pereira Valadão, que davam provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Redator Designado (Assinado digitalmente) Júlio César Alves Ramos Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Luciano Lopes de Almeida Moraes, Júlio César Alves Ramos, Rodrigo da Costa Pôssas, Francisco Maurício Rabelo de Albuquerque Silva, Antônio Lisboa Cardoso, Marcos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 33 6. 00 11 25 /2 00 4- 62 Fl. 346DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 347 2 Aurélio Pereira Valadão, Maria Teresa Martínez López, Susy Gomes Hoffmann e Otacílio Dantas Cartaxo. Relatório Tratase de recurso especial, tempestivo, interposto em 26/08/2008, contra o Acórdão n° 30134.250, cuja ementa abaixo se transcreve: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 24/11/1999 PREFERÊNCIA TARIFÁRIA. ALADI TRIANGULAÇÃO. A preferência tarifária fundamentada em Acordo de Complementação Econômica ACE depende do transporte direto do país de origem até o Brasil, podendo ser faturada por operador de terceiro país, associado ou não à ALADI RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO O referido acórdão foi proferido no recurso original n° 132.073 (3CC) na sessão plenária de 29/1/2008, e teve o seguinte resultado: Por unanimidade de votos, deuse provimento ao recurso. Ausentes os conselheiros Irene Souza da Trindade Torres e João Luiz Fregonazz. O conselheiro Rodrigo Cardozo declarouse impedido. A Fazenda Nacional aponta divergência com o decidido pela Segunda Câmara do mesmo Terceiro Conselho de Contribuintes, acórdão nº 30236.741, nos seguintes termos IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO — II PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. Data do Fato Gerador: 21/08/1998 CERTIFICADO DE ORIGEM PREFERÊNCIA TARIFÁRIA PREVISTA EM ACORDO INTERNACIONAL. É incabível a aplicação de beneficio de redução de aliquota do Imposto de Importação, decorrente de Acordos Internacionais firmados no âmbito da ALADI e MERCOSUL, quando as operações registradas nas Declarações de Importação não estão amparadas pelos Certificados de Origem pertinentes. NEGADO PROVIMENTO POR MAIORIA. A matéria nele versada, de amplo conhecimento deste colegiado, consiste em apontado descumprimento das condições para redução do imposto de importação prevista em acordos internacionais no âmbito da ALADI. Tal descumprimento decorreria do fato de a fatura comercial que instruiu o despacho de importação não ser a mesma referida no certificado de origem que atestaria o cumprimento dos requisitos. Nesta última, porém, constam o número do certificado e o número da fatura mencionada nele. Fl. 347DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 348 3 Consiste a defesa, essencialmente, na alegação de que a Petrobrás adquire o petróleo da empresa PDVSA, conforme consta no certificado de origem (fl. 22 dos autos). Posteriormente, mas antes que ele deixe o território venezuelano, realiza uma venda e recompra, no mesmo dia, a uma subsidiária sua nas Ilhas Cayman, o que, aduz, lhe proporciona melhores condições de financiamento da compra. Por isso, é emitida uma fatura pela subsidiária para acompanhar a mercadoria, sendo esta que instrui o despacho. No presente processo, a empresa efetuou o recolhimento integral do II vindo a requerer a restituição da diferença correspondente à redução não fruída. Instruiu o seu pedido com cópias das faturas e do certificado de origem, entre outros documentos, mostrando que não há divergência entre eles, isto é, a fatura mencionada no certificado de origem é a mesma mencionada na segunda fatura, que também menciona, corretamente, o número do certificado de origem correspondente. O não deferimento do pedido de restituição decorreu de que, para este procedimento – conhecido como triangulação comercial –, os atos regulamentares dos acordos assinados pelo Brasil prevêem forma específica, que não foi seguida pela empresa. Concretamente, a necessidade de que, já no certificado de origem, seja citado que o produto será faturado por um terceiro operador, ou, em caso de impossibilidade, a elaboração de uma “declaração juramentada” apontando as causas e os procedimentos seguidos. Diferentemente, a empresa limitase a fazer constar na segunda fatura – aquela que instrui o despacho – os números do certificado de origem e da fatura original (fl. 20). Admitido o recurso consoante despacho de fls. 263/264, a empresa, intimada, apresentou contrarrazões em que repetiu as alegações presentes em todos os recursos versando esta matéria, quais sejam, em suma, a necessidade de realizar a operação de triangulação por razões financeiras, a ausência de qualquer prejuízo na forma como foi comprovado o cumprimento das condições previstas nos acordos internacionais ainda que não tenha sido seguido, à risca, o procedimento neles previsto para o caso de triangulação comercial. É o Relatório. Voto Vencido Conselheiro Júlio César Alves Ramos, Relator O recurso fazendário é tempestivo e apresenta a decisão contrária prolatada por outra Câmara. Dele conheço, pois. Examina este colegiado, mais uma vez, a possibilidade de a origem de mercadoria para efeito de redução de alíquota do II prevista nos acordos internacionais no âmbito da ALADI ser realizada por um meio diferente daquele previsto nos atos que a disciplinam. Especificamente, pretende a recorrida substituir a declaração juramentada prevista no art. 2º do ACE 91 pela mera referência cruzada nos documentos comerciais e no certificado de origem. Mais especificamente ainda, pretende que o certificado de origem possa mencionar uma dada fatura expedida por empresa sediada na Venezuela mas que outra fatura, agora já originada em empresa sediada em paraíso fiscal fora da ALADI, seja a que instrua o Fl. 348DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 349 4 despacho de importação, desde que nesta última haja menção à anterior, a qual, por sua vez, fora mencionada no Certificado. O que se tem nos presentes autos, e em outros tantos, é que uma dada quantidade de determinada mercadoria foi desembaraçada pela Petrobrás com base em uma fatura que não corresponde àquela mencionada no certificado de origem, mas que coincide completamente (a mercadoria) com a que lhe foi faturada pela empresa mencionada no certificado. E, ademais, na fatura que instruiu o despacho de importação há expressa menção tanto ao certificado de origem quanto ao número e data da fatura nele mencionada. Também incontroverso que a fatura que instruiu o despacho somente foi emitida após a data de emissão do certificado de origem, podendose depreender que seu número ainda não era conhecido quando da emissão deste último. Destarte, para que se obste o aproveitamento da redução tarifária o que está faltando é a declaração juramentada prevista no art. 2º da Resolução ALADI 232 e o que se decidiu foi que, à vista dos documentos exibidos, ela seria dispensável. Assim não penso, porém. Com efeito, embora não tenha mesmo sido cumprida a providência prevista nos atos regulamentares dos acordos, não vejo como não se possa, à vista dos documentos exibidos garantir que: 1) houve uma aquisição na Venezuela de uma mesma quantidade da mercadoria objeto do certificado de origem; 2) essa quantidade, nem mais, nem menos, está sendo desembaraçada no País. Nesses termos, e até onde consegui visualizar, a resistência fiscal parece escorada na possibilidade de que o mesmo certificado venha a ser utilizado em mais de uma operação de importação, especialmente em casos em que a “exportadora” pertence ao mesmo grupo empresarial importador. Naturalmente, isso requer que o mesmo certificado seja mencionado em mais de uma fatura, o que, por si só, já constituiria fraude. E ela ficaria ainda mais evidente se constasse de uma “declaração juramentada”. Seja por esse ou por qualquer outro motivo, o fato é que a Resolução ALADI a previu e sendo ela internalizada por meio de um decreto presidencial entendo que não pode ser por nós simplesmente considerada “letra morta”. Essas, em suma, as considerações expendidas no acórdão paradigma, que entendo mais bem embasadas do que a mera referência em alguns julgados favoráveis à empresa ao princípio do formalismo moderado que impera no âmbito do processo administrativo e que permitiria a “substituição” da forma de comprovação expressamente prevista no ato regulador. Ora, o princípio mencionado apenas autoriza a aceitação de forma não solene quando outra, mais específica e rigorosa, não esteja expressamente estabelecida. Fl. 349DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 350 5 No caso em tela, ocorre exatamente a impossibilidade referida, pois a norma que regula o benefício tributário concedido no âmbito da ALADI traz expressa a providência a ser seguida, descabendo aos julgadores administrativos simplesmente ignorála, mormente porque, sabemos todos, são elas incorporadas ao ordenamento jurídico pátrio por meio de decreto presidencial que a todos nós vincula. Por fim, quero deixar claro que não estou aqui a dizer que a empresa recorrida, uma estatal e das mais importantes do Mundo, tenha praticado fraude, seja nesta, ou em qualquer outra operação comercial. Mas a Lei tem de valer igualmente para todos, e o reconhecimento de que ela pode descumprir a Resolução obriganos a aceitar esse descumprimento para qualquer outra, em que tais pretensões de lisura já não sejam tão fortes. Com essas considerações, voto pelo provimento do recurso fazendário de modo a restaurar a exigência afastada pela decisão recorrida. É como voto. (Assinado digitalmente) Júlio César Alves Ramos Voto Vencedor Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Redator Designado O recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, bem como dos demais requisitos de admissibilidade. Sendo assim, dele tomo conhecimento e passo a apreciar. Do Cabimento da Preferência Tarifária O parágrafo único do art. 434 do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 91.030, de 1985, vigente à época dos fatos controvertidos: Art. 434. No caso de mercadoria que goze de tratamento tributário favorecido em razão de sua origem, a comprovação desta será feita por qualquer meio julgado idôneo. Parágrafo único. Tratandose de mercadoria importada de país membro da Associação LatinoAmericana de Integração (ALADI), quando solicitada a aplicação de reduções tarifárias negociadas pelo Brasil, a comprovação constará de certificado de origem emitido por entidade competente, de acordo com modelo aprovado pela citada Associação. Nessa esteira, entendo aplicáveis, na espécie, as considerações formuladas por ocasião do voto vencido, prolatado quando do julgamento do Recurso nº 137.831 (Processo nº 18336.000413/200581), onde atuou como relator o conselheiro Luis Marcelo Guerra de Castro, onde foram enfrentadas as alegações trazidas na jurisprudência da CSRF que apoiaria as considerações do sujeito passivo. Transcrevo: Por sintetizar o raciocínio que orienta esse entendimento, transcrevo ementa de acórdão da CSRF prolatado nos autos do Fl. 350DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 351 6 Recurso Especial nº 302124323, que teve como relatora a i. Conselheira Anelise Daudt Prieto, no qual, por maioria de votos, decidiuse: CERTIFICADO DE ORIGEM PREFERÊNCIA TARIFÁRIA RESOLUÇÃO ALADI 232 Produto exportado pela Venezuela e comercializado através de país não integrante da ALADI. A apresentação para despacho do Certificado de Origem emitido pelo país produtor da mercadoria, acompanhado da fatura do país interveniente e do conhecimento de embarque que deixam clara a origem da mercadoria, supre as informações que deveriam constar de declaração juramentada a ser apresentada à autoridade aduaneira, como previsto no art. 9°, do Regime Geral de Origem da Aladi (Res. 78). Recurso especial provido. Apesar de entender que tal decisão está em harmonia com a regra geral de origem estampada no art. 9º do Decretolei nº 37, de 19661, peço licença para discordar das conclusões consignadas no aresto. Penso que, na espécie, o dispositivo nacional deve ceder espaço ao regime da Aladi, onde não foram produzidos os documentos corretos para a concessão da preferência tarifária objeto do presente litígio, nem suprida a sua ausência pelos meios definidos no mesmo acordo. Por uma questão de sistematização, analiso separadamente os fatores que me levaram a adotar essa conclusão. 1 Tipicidade e Relação Jurídica Tributária Interessa à solução do litígio, a meu ver, avaliar se os fatos carreados aos autos se subsumem perfeitamente à hipótese abstratamente prevista na norma negocial que estabeleceu a preferência tarifária objeto do presente litígio. Caso isso não se verifique, afastado estaria o fundamento para sua concessão. Ou seja, independentemente de ser conceituada como uma isenção parcial ou alíquota diferenciada, a aplicação da preferência tarifária negociada é necessariamente orientada pelo princípio da tipicidade cerrada, dogmatizado pelos arts. 97, VI e 111, II do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 1966) 2 1 Art. 9º Respeitados os critérios decorrentes do ato internacional de que o Brasil participe, entenderseá por país de origem da mercadoria aquele onde houver sido produzida ou, no caso de mercadoria resultante de material ou mãodeobra de mais de um país, aquele onde houver recebido transformação substancial. 2 Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: (...) VI as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: (...) II outorga de isenção; Fl. 351DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 352 7 Vejamos o que diz Alberto Xavier3 Como já mais de uma vez se sublinhou, o lançamento é o ato administrativo pelo qual a Administração aplica a norma tributária material a um caso concreto. Nuns casos, essa aplicação tem por conteúdo reconhecer a tributabilidade do fato e, portanto, declarar a existência de uma relação jurídica tributária e definir o montante da prestação devida. Noutras hipóteses, porém, da aplicação da norma ao caso concreto resulta o reconhecimento da não tributabilidade do fato e, portanto, da não existência no caso concreto de uma obrigação de imposto. Nos primeiros, a Administração pratica um ato de conteúdo positivo; nas segundas, um ato de conteúdo negativo. (destaquei) José Souto Maior Borges4, a seu turno, pontifica: É o fato gerador, consoante se demonstrou, uma entidade jurídica (supra, III). Por força do princípio da legalidade da tributação, o fato gerador existe si et ia quantum estabelecido previamente em texto de lei: os contornos essenciais da hipótese de incidência (núcleo e elementos adjetivos) integram todos a lei tributária material. Sem a previsão legal hipotética dos fatos ou conjunto de fatos que legitimam a tributação inexiste portanto fato gerador de obrigação tributária. Por isso, afirmase corretamente que o fato gerador é fato jurídico. Sob outro ângulo, a análise jurídica revela ser a extensão do preceito que tributa delimitada pelo preceito que isenta. A norma que isenta é assim uma norma limitadora ou modificadora: restringe o alcance das normas jurídicas de tributação; delimita o âmbito material ou pessoal a que deverá estenderse o tributo ou altera a estrutura do próprio pressuposto da sua incidência. A norma de isenção, obstando o nascimento da obrigação tributária para o seu beneficiário, produz o que já se denominou fato gerador isento, essencialmente distinto do fato gerador do tributo. (destaquei) Possivelmente, a principal conseqüência da préfalada tipicidade cerrada, pelo menos para a solução do vertente processo, é a impossibilidade se pode recorrer à analogia a pretexto de colmatar supostas lacunas da norma. Nesse caso, há que se aplicar a doutrina do Silêncio Eloqüente do legislador, com as restrições brilhantemente defendidas pelo Min. Moreira Alves, nos autos do RE Nº 130.5525 DF (DJ de 28/06/1991): “... só se aplica a analogia quando, na lei, haja lacuna, e não o que os alemães denominam ‘silêncio eloqüente’ (Beredtes Schweigen) que é o silêncio que traduz que a hipótese 3 Do lançamento: teoria geral do ato, do procedimento e do processo tributário. Rio de Janeiro: Forense, 1998, 2.ed. p. 100. 4 Teoria Geral da Isenção Tributária. São Paulo. Malheiros, 2001, 3ªed. p.p. 190/191 Fl. 352DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 353 8 contemplada é a única a que se aplica o preceito legal, não se admitindo, portanto, aí o emprego da analogia.” Tal ressalva é importante para a solução do presente litígio porque, como se verá a seguir, o regime de origem do ACE 39, que isola a aplicação do regime do DL 37, de 1966, definiu as formas de suprir eventual falha documental perpetrada na demonstração do cumprimento dos requisitos de origem. É defeso ao intérprete, portanto, considerar suprida eventual falha documental por meios diversos dos previstos no Acordo, invocando, por exemplo, analogicamente, o comando do art. 9º, que trata do Regime Geral de Origem. 2Regime de Origem do ACE 39 Conforme se observa na leitura do já transcrito art. 9º do Decretolei nº 37, de 1966, delimitou com razoável precisão o conceito jurídico de “origem”, que, aliás, muito se aproxima do significado coloquial da expressão (local onde a mercadoria foi produzida ou sofreu transformação substancial). Assim, para efeito de aplicação da legislação, sempre que a delimitação da origem da mercadoria for relevante, caberia ao intérprete investigar o local onde a mercadoria foi produzida ou sofreu transformação substancial. Tratarseia então do emprego do que Alfredo Augusto Becker5, apoiado na doutrina de Emilio Betti, denominou Cânone Hermenêutico da Totalidade do Sistema Jurídico, que a unicidade dos conceitos jurídicos, independentemente do contexto em que o mesmo esteja sendo empregado. Diz o autor: “...uma definição, qualquer que seja a lei que a tenha enunciado, deve valer para todo o direito; salvo se o legislador expressamente limitou, estendeu ou alterou aquela definição ou excluiu sua aplicação num determinado setor do direito; mas para que tal alteração ou limitação ou exclusão aconteça é indispensável a existência de regra jurídica que tenha disciplinado tal limitação, extensão, alteração ou exclusão.” Ocorre que, segundo o próprio art. 9º, o conceito de origem ali consignado cede espaço aos critérios fixados em ato internacional de que o Brasil participe, hipótese que se verifica no presente julgamento, onde se encontra em discussão a aplicação de preferência tarifária outorgada nos termos do Acordo de Complementação Econômica nº 39, promulgado pelo Decreto nº 3.138, de 16/08/1999. Vendo por outro ângulo, para efeito de reconhecimento de preferência tarifária, se o acordo que a concede possuir regime próprio, mercadoria originária de país signatário é aquela que preenche as condições daquele ato, ainda que tais condições não 5 Teoria Geral do Direito Tributário. São Paulo, Lejus, 3ª ed. p. 123 Fl. 353DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 354 9 guardem relação com conceitos consagrados no plano da linguagem corriqueira ou no regime nacional de origem. Ou seja, assim como, para efeito de lei, determinados bens evidentemente móveis podem ser tratados como imóveis, para efeito da aplicação de preferência, mercadorias evidentemente extraídas de determinado país podem deixar de ser reconhecidas como originárias ou, em sentido inverso, ainda que não tenham sofrido qualquer transformação substancial, fazem jus ao regime diferenciado. O acordo que concede a preferência é soberano. Tanto em um quanto em outro exemplo, configurarseia uma ficção jurídica, onde o mundo fático, por disposição legal, é distorcido pelo jurídico. Preciso, a meu ver o conceito de ficção jurídica apresentado por Maria Rita Ferragut (Presunções no Direito Tributário. São Paulo, Dialética, 2001 p. 85), citando a obra de Perez de Ayala: De acordo com José Perez de Ayala a ficção jurídica constituise na valoração contida num preceito legal, em virtude do qual se atribuem, a determinados supostos de fatos, certos efeitos jurídicos, violentando ou ignorando a natureza real das coisas. E uma técnica que permite ao legislador atribuir efeitos jurídicos que, na ausência da ficção, não seriam possíveis a certos fatos ou realidades sociais. (grifei) No caso da preferência tarifária em debate, o regime de origem a ser considerado, por determinação expressa do artigo 86 do ACE nº 39, é o estabelecido na Resolução 78 da Aladi e pelas demais regras que a complementam, dentre as quais destacase a Resolução 252 do Comitê de Representantes da Aladi, promulgada pelo Decreto nº 3.325, de 1999. Cabe registrar, desde já, que. diferentemente do entendimento consignado no acórdão hostilizado, não vejo a “triangulação” comercial represente uma violação à regra do artigo Quarto da Resolução Aladi nº 78, atualmente consolidado na Resolução nº 252, que condiciona o reconhecimento da origem à expedição direta da mercadoria. Com efeito, o Conhecimento de Transporte juntado por cópia à fl. 17 não faz menção ao fato de que a mercadoria tenha transitado, sido transbordada ou armazenada em um país estranho ao ACE 39: a mercadoria, segundo aquele documento, foi embarcada em Punta Cardon, Venezuela, com destino ao Território Brasileiro. Ou seja, a meu ver, assim como consignado no citado acórdão da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a regra em questão impõe restrições ao trânsito físico da mercadoria por um 6 Para a qualificação da origem das mercadorias que se beneficiem do presente Acordo as Partes Signatárias aplicarão o Regime Geral de Origem previsto na Resolução 78 e nas disposições complementares e modificativas do Comitê de Representantes da ALADI, salvo se as Partes Signatárias convierem diferentemente. Fl. 354DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 355 10 terceiro país, não à sua comercialização por um operador nele estabelecido. Tanto é assim que a Resolução nº 252 estabeleceu regra específica para a importação de mercadoria onde figure como exportador operador sediado em país nãoparticipante do ACE. Vejase o que diz o artigo nono da Resolução 252, incorporado ao Regime de Origem da Aladi por essa mesma resolução: NONO Quando a mercadoria objeto de intercâmbio for faturada por um operador de um terceiro país, membro ou não da Associação, o produtor ou exportador do país de origem deverá indicar no formulário respectivo, no campo relativo a "observações", que a mercadoria objeto de sua Declaração será faturada de um terceiro país, identificando o nome, denominação ou razão social e domicílio do operador que, em definitivo, será o que fature a operação a destino. (destaquei) Na situação a que se refere o parágrafo anterior e, excepcionalmente, se no momento de expedir o certificado de origem não se conhecer o número da fatura comercial emitida por um operador de um terceiro país, o campo correspondente do certificado não deverá ser preenchido. Nesse caso, o importador apresentará à administração aduaneira correspondente uma declaração juramentada que justifique o fato, onde deverá indicar, pelo menos, os números e datas da fatura comercial e do certificado de origem que amparam a operação de importação. (os grifos não constam do original) Notese que, a mesma resolução 252 estabelece, por via oblíqua, as conseqüências do descumprimento das regras inerentes ao certificado de origem, literalmente: SÉTIMO Para que as mercadorias objeto de intercâmbio possam beneficiarse dos tratamentos preferenciais pactuados pelos países participantes de um acordo celebrado de conformidade com o Tratado de Montevidéu 1980, esses países deverão acompanhar os documentos de exportação, no formuláriopadrão adotado pela Associação, de uma declaração que acredite o cumprimento dos requisitos de origem que correspondam, de conformidade com o disposto no Capítulo anterior. Essa declaração poderá ser expedida pelo produtor final ou pelo exportador da mercadoria de que se tratar. (destaquei) Com efeito, se a norma condiciona o reconhecimento da preferência à apresentação da declaração própria do Certificado de Origem, segundo os ditames do acordo, por óbvio, afasta o tratamento diferenciado se descumpridas as condições préestabelecidas. De se observar, ademais que, analisando o parágrafo único do artigo nono da mesma resolução, podese inferir que a norma definiu com clareza quais são as providências a adotar nas hipóteses em que a triangulação comercial impede o Fl. 355DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 356 11 preenchimento na forma préestabelecida, rito que, conforme apontado pelas autoridades autuantes, não foi seguido. Nessa esteira, a meu ver, a tipicidade cerrada que norteia a avaliação do cumprimento dos pressupostos inerentes ao Acordo proíbe que se busquem outros meios para, supostamente demonstrar a observância do regime de origem. Ora, o regime de origem fixado pela Resolução 252 é aquele cuja prova é feita nos termos das regras procedimentais nele previstas, saber o último porto de embarque da mercadoria, neste caso, não supre o descumprimento daquelas regras. Ou seja, não é suficiente, para aplicação do tratamento diferenciado, a demonstração, por outros meios documentais, que a mercadoria, aparentemente foi produzida e embarcada na Venezuela. Isso seria suficiente se o reconhecimento estivesse sujeito à regra geral gizada no artigo 9º do Decretolei nº 37, de 1966. Repisese que, em obediência ao princípio da tipicidade, não se pode partir do pressuposto que a sistemática definida na Resolução 252 contém lacunas. Ela simplesmente optou por não admitir, por exemplo, que a falha na adoção das providências elencadas no art. nono sejam supridas pela apresentação de uma fatura comercial estranha àquela que constou do Certificado de Origem. Finalmente, a meu ver, razão assiste às autoridades autuantes quando apontaram a impossibilidade de se cotejar a quantidade da mercadoria amparada pelo certificado de origem coligido aos autos, que não contém essa informação. Sem que tal informação conste do certificado ou não for possível vincular certificado e fatura comercial, como saber se a totalidade das mercadorias desembarcadas no Brasil foi embarcada na Venezuela? Resta prejudicado portanto o cumprimento do requisito estabelecido no artigo oitavo da Resolução 252, literis: OITAVO A descrição das mercadorias incluídas na declaração que acredita o cumprimento dos requisitos de origem estabelecidos pelas disposições vigentes deverá coincidir com a que corresponde à mercadoria negociada, classificada de conformidade com a NALADI/SH e com a que se registra na fatura comercial que acompanha os documentos apresentados para o despacho aduaneiro.(grifei) Logo, a certificação da origem é feita com base também em função da fatura comercial que acoberta a saída de mercadorias. Pelas normas internacionais vigentes (art. 4º do Acordo 91 do Comitê de representantes da Aladi), é necessário que haja a vinculação do certificado de origem da mercadoria à fatura comercial correspondente, o que foi deito no presente caso. Fl. 356DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 357 12 Com efeito, é o vínculo entre certificado de origem e fatura comercial que garante o cumprimento dos requisitos fixados entre os Estados signatários do Acordo e legitima a fruição do benefício tarifário quanto á mercadoria importada. Não se pode olvidar, por outro lado, que a avaliação do cumprimento das condições fixadas pela legislação específica do regime reclama a observância das normas que disciplinam a fruição da isenção condicionada, especialmente o pelo art. 179, caput e § 2º, do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 1966), que dizem: Art. 179. A isenção, quando não concedida em caráter geral, é efetivada, em cada caso, por despacho da autoridade administrativa, em requerimento com o qual o interessado faça prova do preenchimento das condições e do cumprimento dos requisitos previstos em lei ou contrato para concessão. (...) § 2º O despacho referido neste artigo não gera direito adquirido, aplicandose, quando cabível, o disposto no artigo 155. Art. 155. A concessão da moratória em caráter individual não gera direito adquirido e será revogado de ofício, sempre que se apure que o beneficiado não satisfazia ou deixou de satisfazer as condições ou não cumprira ou deixou de cumprir os requisitos para a concessão do favor, cobrandose o crédito acrescido de juros de mora: Aplicar o art. 179 e, se for o caso, o art. 155, significa, a meu ver, avaliar, conforme o caso, o cumprimento das condições fixadas no Acordo, inclusive no que se refere ao cumprimento das exigências de ordem instrumental. Sobre a imperiosidade da coexistência dos aspectos instrumental e material, bem assim da obrigatoriedade do sujeito passivo trazer ao processo, pelos meios adequados, os elementos que permitam a avaliação do cabimento da isenção, vale a pena relembrar trecho da obra de Alberto Xavier7: “... Na verdade, enquanto a Administração fiscal tem o dever de investigar oficiosamente os fatos arvorados por lei em elementos do tipo tributário, nem sempre esse dever lhe cabe quanto aos fatos impeditivos da obrigação de imposto. Não pode afirmarse que a Administração não tenha o dever de investigar a verdade material quanto ao fato isento, nos casos a que nos referimos: o que sucede é que a lei faz depender o início da investigação de um pressuposto processual, que é um requerimento ou solicitação expressa do particular, sem o qual a Fazenda não pode reconhecer a isenção, nem portanto operar a sua eficácia impeditiva. É o que resulta do artigo 179 do Código Tributário Nacional, segundo o qual “a isenção, quando não concedida em caráter geral, é efetivada, em cada caso, por despacho da autoridade administrativa, em requerimento no qual o interessado faça prova do preenchimento das condições e do 7 Do lançamento: teoria geral do ato, do procedimento e do processo tributário. Rio de Janeiro. Forense, 1998, 2ª ed., p. 103/104. Fl. 357DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 18336.001125/200462 Acórdão n.º 9303001.990 CSRFT3 Fl. 358 13 cumprimento dos requisitos previstos em lei ou contrato para sua concessão”. (destaquei) De se reafirmar, portanto, que, como frisou o mestre lusitano, a regra isencional de caráter especial não gera efeitos ope iuris. É necessário que se cumpra o rito procedimental próprio, consubstanciado no pleito do benefício e na apresentação de prova do preenchimento das condições definidas na norma de caráter substancial. De maneira semelhante, pondera Souto Maior Borges8: “Toda isenção deve ser concedida mediante prova documental da sua causa que remova as contestações e incertezas. (...) Devese distinguir assim, consoante o ensinamento de Amílcar de Araújo Falcão, no estudo das isenções, dois momentos ou aspectos distintos: I) o aspecto substancial ou material, ou seja, os requisitos ou elementos de perfeição ou integração dos pressupostos da isenção; regime que estabelece os pressupostos para o surgimento do direito à isenção (Tatbestandsstücke), os destinatários da norma (Normadressaten) e o âmbito, o alcance ou extensão do preceito isentivo; II) o aspecto formal, um processus, um requisito de eficácia para que o efeito desagravatório da isenção se produza (Wirksamkeitserfordernis). Distinguese, deste modo, entre pressupostos integrativos da relação jurídica de isenção e pressupostos de eficácia do resultado legalmente estabelecido. Estes últimos relacionamse pois com as circunstâncias que condicionam a produção dos efeitos jurídicos. (destaquei) Ora, se foi indicado o país de destino da mercadoria, a intervenção do operador estabelecido em terceiro país e, a partir da apresentação da fatura comercial atrelada ao referido certificado, identificamse claramente todos os elos da cadeia comercial, não há como afirmar que o certificado esteja em desacordo com as regras do acordo, máxime em razão de que as informações relativas ao domicílio da Pifco estão perfeitamente identificadas na fatura acreditada por tal certificado. Com essas considerações, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas 8 Teoria Geral da Isenção Tributária. São Paulo. Malheiros, 2001, 3ª ed. p. 336 Fl. 358DF CARF MF Impresso em 23/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/09/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 17/09/2016 por JULIO CESAR ALVES RAMOS, Assinado digitalmente em 22/09/2016 por RODRIGO DA COSTA POSSAS
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Numero do processo: 15504.725977/2011-09
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 20 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Nov 28 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008
PROVA PERICIAL. INDEFERIMENTO. AVALIAÇÃO DO JULGADOR. NECESSIDADE E VIABILIDADE.
Desde que fundamentado pelo julgador, o indeferimento da perícia é motivo insuficiente para a declaração de nulidade da decisão de primeira instância. Como destinatário final da perícia, compete ao julgador avaliar a prescindibilidade e viabilidade da produção da prova técnica, não constituindo a realização do exame pericial um direito subjetivo do interessado. Tampouco a perícia é via que se destine a produzir provas de responsabilidade das partes, suprindo o encargo que lhes compete.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. PAGAMENTO EM VALORES FIXOS. ASSINATURA DO ACORDO APÓS O PERÍODO DE AFERIÇÃO DOS RESULTADOS. AUSÊNCIA DE NEGOCIAÇÃO ENTRE EMPRESA E SEUS EMPREGADOS COM PARTICIPAÇÃO DO SINDICATO. NÃO ATENDIMENTO DA LEI Nº 10.101, DE 2000. TRIBUTAÇÃO.
O valor pago ao segurado empregado a título de participação nos lucros ou resultados em desacordo com a Lei nº 10.101, de 2000, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias.
O pagamento em valores fixos desvinculados de qualquer meta ou resultado previamente pactuado configura parcela com nítida natureza salarial submetida à incidência das contribuições previdenciárias.
A participação nos lucros ou resultados que não foi objeto de negociação prévia entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos previstos nos incisos I e II do art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, com a participação obrigatória do sindicato da respectiva categoria, sujeita-se à incidência das contribuições previdenciárias.
O instrumento de negociação deve estar assinado antes do término do período de apuração dos lucros ou resultados. Não atende aos requisitos legais a assinatura apenas no último mês do período de apuração, pois tal situação revela-se similar à assinatura em data posterior ao término do período de apuração.
DIRETORES NÃO EMPREGADOS. PARTICIPAÇÃO ESTATUTÁRIA. REMUNERAÇÃO PELO TRABALHO. INCIDÊNCIA.
A Lei nº 10.101, de 2000, é aplicável apenas no caso de pagamentos a título de participação nos lucros ou resultados pactuados entre empresa e seus empregados.
A parcela paga a título de participação estatutária a diretores não empregados, nos termos do art. 152 da Lei nº 6.404, de 1976, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias.
EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS. RUÍDO. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL. INEFICÁCIA.
O Plenário do Supremo Tribunal Federal, no Recurso Extraordinário com Agravo nº 664.335/SC, com repercussão geral reconhecida, assentou o entendimento de que o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) não afasta a contagem de tempo de serviço especial para aposentadoria na hipótese de exposição do trabalhador ao agente nocivo ruído acima dos limites legais de tolerância. Tal posição jurisprudencial deve ser aplicada em relação à exigência do adicional para financiamento do benefício da aposentadoria especial.
EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS. CALOR. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL.
O adicional destinado ao financiamento do benefício de aposentadoria especial incide sobre a remuneração dos segurados empregados expostos ao agente nocivo calor, quando constatada a medição acima do limite de tolerância avaliado segundo o Anexo 3 da NR-15.
GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE.
Afasta-se a sujeição passiva solidária quando não caracterizada pela autoridade lançadora a existência de grupo econômico entre as empresas.
REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. ENUNCIADO DA SÚMULA CARF Nº 28.
Este Conselho Administrativo é incompetente para se pronunciar sobre controvérsias referentes à representação fiscal para fins penais elaborada pela fiscalização. (Súmula Carf nº 28)
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 2401-004.509
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o recurso voluntário. Quanto às preliminares: (i) Por maioria, rejeitar o pedido de perícia, vencido o Relator; (ii) Pelo voto de qualidade, excluir a sujeição passiva solidária, nos termos do voto do Redator designado, vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato (Relator), Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Andréa Viana Arrais Egypto que afastavam a responsabilidade tributária solidária por fundamento mais amplo. Quanto ao mérito: (i) Por unanimidade, dar provimento parcial para adequar a alíquota GIILRAT por competência e estabelecimento da empresa, observando o percentual declarado em GFIP; (ii) Por maioria, negar provimento quanto aos levantamentos relacionados aos pagamentos de PLR a segurados empregados e diretores não empregados (contribuintes individuais), vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato (Relator), Rayd Santana Ferreira e Andréa Viana Arrais Egypto. No tocante aos pagamentos de PLR a diretores não empregados, a conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa votou pelas conclusões do voto vencedor; (iii) Por maioria, dar provimento parcial para excluir do lançamento relativo aos "Riscos Ocupacionais" os valores incidentes sobre as remunerações dos segurados não expostos aos agentes nocivos ruído e/ou calor acima dos limites de tolerância, nos termos do voto do Redator designado, vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato (Relator) e Rayd Santana Ferreira; (iv) Por unanimidade, dar provimento parcial para excluir a incidência do adicional para financiamento do benefício de aposentadoria especial sobre os valores pagos a título de PLR aos segurados não expostos aos agentes ruído e/ou calor acima do limite de tolerância, nos termos do voto do Redator designado. Quanto às demais matérias, por unanimidade, negar provimento ao recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Carlos Alexandre Tortato - Relator
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Marcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto, Maria Cleci Coti Martins e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: CARLOS ALEXANDRE TORTATO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008 PROVA PERICIAL. INDEFERIMENTO. AVALIAÇÃO DO JULGADOR. NECESSIDADE E VIABILIDADE. Desde que fundamentado pelo julgador, o indeferimento da perícia é motivo insuficiente para a declaração de nulidade da decisão de primeira instância. Como destinatário final da perícia, compete ao julgador avaliar a prescindibilidade e viabilidade da produção da prova técnica, não constituindo a realização do exame pericial um direito subjetivo do interessado. Tampouco a perícia é via que se destine a produzir provas de responsabilidade das partes, suprindo o encargo que lhes compete. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. PAGAMENTO EM VALORES FIXOS. ASSINATURA DO ACORDO APÓS O PERÍODO DE AFERIÇÃO DOS RESULTADOS. AUSÊNCIA DE NEGOCIAÇÃO ENTRE EMPRESA E SEUS EMPREGADOS COM PARTICIPAÇÃO DO SINDICATO. NÃO ATENDIMENTO DA LEI Nº 10.101, DE 2000. TRIBUTAÇÃO. O valor pago ao segurado empregado a título de participação nos lucros ou resultados em desacordo com a Lei nº 10.101, de 2000, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias. O pagamento em valores fixos desvinculados de qualquer meta ou resultado previamente pactuado configura parcela com nítida natureza salarial submetida à incidência das contribuições previdenciárias. A participação nos lucros ou resultados que não foi objeto de negociação prévia entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos previstos nos incisos I e II do art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, com a participação obrigatória do sindicato da respectiva categoria, sujeita-se à incidência das contribuições previdenciárias. O instrumento de negociação deve estar assinado antes do término do período de apuração dos lucros ou resultados. Não atende aos requisitos legais a assinatura apenas no último mês do período de apuração, pois tal situação revela-se similar à assinatura em data posterior ao término do período de apuração. DIRETORES NÃO EMPREGADOS. PARTICIPAÇÃO ESTATUTÁRIA. REMUNERAÇÃO PELO TRABALHO. INCIDÊNCIA. A Lei nº 10.101, de 2000, é aplicável apenas no caso de pagamentos a título de participação nos lucros ou resultados pactuados entre empresa e seus empregados. A parcela paga a título de participação estatutária a diretores não empregados, nos termos do art. 152 da Lei nº 6.404, de 1976, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias. EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS. RUÍDO. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL. INEFICÁCIA. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, no Recurso Extraordinário com Agravo nº 664.335/SC, com repercussão geral reconhecida, assentou o entendimento de que o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) não afasta a contagem de tempo de serviço especial para aposentadoria na hipótese de exposição do trabalhador ao agente nocivo ruído acima dos limites legais de tolerância. Tal posição jurisprudencial deve ser aplicada em relação à exigência do adicional para financiamento do benefício da aposentadoria especial. EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS. CALOR. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. O adicional destinado ao financiamento do benefício de aposentadoria especial incide sobre a remuneração dos segurados empregados expostos ao agente nocivo calor, quando constatada a medição acima do limite de tolerância avaliado segundo o Anexo 3 da NR-15. GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE. Afasta-se a sujeição passiva solidária quando não caracterizada pela autoridade lançadora a existência de grupo econômico entre as empresas. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. ENUNCIADO DA SÚMULA CARF Nº 28. Este Conselho Administrativo é incompetente para se pronunciar sobre controvérsias referentes à representação fiscal para fins penais elaborada pela fiscalização. (Súmula Carf nº 28) Recurso Voluntário Provido em Parte
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E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008 PROVA PERICIAL. INDEFERIMENTO. AVALIAÇÃO DO JULGADOR. NECESSIDADE E VIABILIDADE. Desde que fundamentado pelo julgador, o indeferimento da perícia é motivo insuficiente para a declaração de nulidade da decisão de primeira instância. Como destinatário final da perícia, compete ao julgador avaliar a prescindibilidade e viabilidade da produção da prova técnica, não constituindo a realização do exame pericial um direito subjetivo do interessado. Tampouco a perícia é via que se destine a produzir provas de responsabilidade das partes, suprindo o encargo que lhes compete. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. PAGAMENTO EM VALORES FIXOS. ASSINATURA DO ACORDO APÓS O PERÍODO DE AFERIÇÃO DOS RESULTADOS. AUSÊNCIA DE NEGOCIAÇÃO ENTRE EMPRESA E SEUS EMPREGADOS COM PARTICIPAÇÃO DO SINDICATO. NÃO ATENDIMENTO DA LEI Nº 10.101, DE 2000. TRIBUTAÇÃO. O valor pago ao segurado empregado a título de participação nos lucros ou resultados em desacordo com a Lei nº 10.101, de 2000, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias. O pagamento em valores fixos desvinculados de qualquer meta ou resultado previamente pactuado configura parcela com nítida natureza salarial submetida à incidência das contribuições previdenciárias. A participação nos lucros ou resultados que não foi objeto de negociação prévia entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos previstos nos incisos I e II do art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, com a participação obrigatória do sindicato da respectiva categoria, sujeitase à incidência das contribuições previdenciárias. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 59 77 /2 01 1- 09 Fl. 9333DF CARF MF 2 O instrumento de negociação deve estar assinado antes do término do período de apuração dos lucros ou resultados. Não atende aos requisitos legais a assinatura apenas no último mês do período de apuração, pois tal situação revelase similar à assinatura em data posterior ao término do período de apuração. DIRETORES NÃO EMPREGADOS. PARTICIPAÇÃO ESTATUTÁRIA. REMUNERAÇÃO PELO TRABALHO. INCIDÊNCIA. A Lei nº 10.101, de 2000, é aplicável apenas no caso de pagamentos a título de participação nos lucros ou resultados pactuados entre empresa e seus empregados. A parcela paga a título de participação estatutária a diretores não empregados, nos termos do art. 152 da Lei nº 6.404, de 1976, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias. EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS. RUÍDO. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL. INEFICÁCIA. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, no Recurso Extraordinário com Agravo nº 664.335/SC, com repercussão geral reconhecida, assentou o entendimento de que o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) não afasta a contagem de tempo de serviço especial para aposentadoria na hipótese de exposição do trabalhador ao agente nocivo ruído acima dos limites legais de tolerância. Tal posição jurisprudencial deve ser aplicada em relação à exigência do adicional para financiamento do benefício da aposentadoria especial. EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS. CALOR. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. O adicional destinado ao financiamento do benefício de aposentadoria especial incide sobre a remuneração dos segurados empregados expostos ao agente nocivo calor, quando constatada a medição acima do limite de tolerância avaliado segundo o Anexo 3 da NR15. GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE. Afastase a sujeição passiva solidária quando não caracterizada pela autoridade lançadora a existência de grupo econômico entre as empresas. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. ENUNCIADO DA SÚMULA CARF Nº 28. Este Conselho Administrativo é incompetente para se pronunciar sobre controvérsias referentes à representação fiscal para fins penais elaborada pela fiscalização. (Súmula Carf nº 28) Recurso Voluntário Provido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 9334DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.334 3 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o recurso voluntário. Quanto às preliminares: (i) Por maioria, rejeitar o pedido de perícia, vencido o Relator; (ii) Pelo voto de qualidade, excluir a sujeição passiva solidária, nos termos do voto do Redator designado, vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato (Relator), Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Andréa Viana Arrais Egypto que afastavam a responsabilidade tributária solidária por fundamento mais amplo. Quanto ao mérito: (i) Por unanimidade, dar provimento parcial para adequar a alíquota GIILRAT por competência e estabelecimento da empresa, observando o percentual declarado em GFIP; (ii) Por maioria, negar provimento quanto aos levantamentos relacionados aos pagamentos de PLR a segurados empregados e diretores não empregados (contribuintes individuais), vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato (Relator), Rayd Santana Ferreira e Andréa Viana Arrais Egypto. No tocante aos pagamentos de PLR a diretores não empregados, a conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa votou pelas conclusões do voto vencedor; (iii) Por maioria, dar provimento parcial para excluir do lançamento relativo aos "Riscos Ocupacionais" os valores incidentes sobre as remunerações dos segurados não expostos aos agentes nocivos ruído e/ou calor acima dos limites de tolerância, nos termos do voto do Redator designado, vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato (Relator) e Rayd Santana Ferreira; (iv) Por unanimidade, dar provimento parcial para excluir a incidência do adicional para financiamento do benefício de aposentadoria especial sobre os valores pagos a título de PLR aos segurados não expostos aos agentes ruído e/ou calor acima do limite de tolerância, nos termos do voto do Redator designado. Quanto às demais matérias, por unanimidade, negar provimento ao recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Carlos Alexandre Tortato Relator (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Marcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto, Maria Cleci Coti Martins e Rayd Santana Ferreira. Fl. 9335DF CARF MF 4 Relatório Tratase de lançamento de crédito tributário a favor da Seguridade Social no valor de R$ 43.214.549,57, consolidado em 09/12/2011, relativo a contribuições sociais previdenciárias a cargo da empresa incidentes sobre diferenças apuradas com despesas realizadas com custo de seus empregados e diretores, constantes das filhas de pagamento, especificamente com as rubricas 894 PLR PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS, 866 PME PLANO DE METAS POR EQUIPE, creditadas a seus funcionários e 1578 BÔNUS PLR, creditadas a funcionários e diretores, em desacordo com a legislação. São exigidas, também, contribuições a cargo da empresa, destinadas para financiamento do benefício previsto nos art.s 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título pela empresa aos segurados empregados, no período de janeiro de 2007 a dezembro de 2008 e sobre os valores recebidos pelos segurados empregados a título de PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS – rubrica 894, PME – PLANO DE METAS POR EQUIPE – rubrica 886 e BONUS PLR – rubrica 1578 (para empregados), cujos ambientes de trabalho os sujeitaram à exposição a agentes nocivos. Foi também lavrado Termos de Sujeição Passiva Solidária em nome das empresas APERAM INOX SERVIÇOS BRASIL LTDA – CNPJ 60.500.121/000124, ARCELOMITTAL INOX BRASIL TUBOS LTDA – CNPJ 04.335.855/000124 e ARCELORMITTAL BIOENERGIA LTDA – CNPJ 18.238.980/0001 20, sob o fundamento de se tratarem de empresas do mesmo Grupo Econômico. Nos termos do relatório fiscal (fls. 36/63), eis as razões que ensejaram a lavratura dos referidos autos de infração: Item 5) Pagamentos de Lucros e Resultados aos Empregados No presente caso, a empresa fez os pagamentos ou créditos a seus empregados baseados nos ACORDOS COLETIVOS DE TRABALHO assinados entre a empresa autuada e o SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS SIDERÚRGICAS, METALÚRGICAS, MECÂNICAS, DE MATERIAL ELÉTRIO, MATERIAL ELETRÔNICO, DESENHOS/PROJETOS E DE INFORMÁTICA DE TIMÓTEO E CORONEL FABRICIANO METASITA, sendo assim discriminados: · ACORDO COLETIVO DE TRABALHO vigência 01/11/2006 a 31/10/2007, não datado, mas registrado no Ministério do Trabalho e Emprego Delegacia Regional em Minas Gerais em 29/01/2007 para pagamento da PLR em janeiro de 2007 e do PME referente ao primeiro semestre de 2006, pagos no mês de julho de 2006 e os valores do segundo semestre de 2006 pagos em janeiro/2007 (Cláusula 14); · ACORDO COLETIVO DE TRABALHO vigência 01/11/2007 a 31/10/2008, assinado em 06/03/2008 para pagamento da PLR em “até 7 dias úteis após a assinatura do Acordo” e do PME Fl. 9336DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.335 5 referente ao primeiro semestre de 2007, pagos no mês de julho de 2007 e os valores do segundo semestre de 2007 pagos no mês de janeiro de 2008 (cláusula 13); · ACORDO COLETIVO DE TRABALHO vigência 01/11/2008 a 31/10/2009, assinado em 05/12/2008 para pagamento do PME referente ao primeiro semestre de 2008, pagos no mês de julho de 2008 (cláusula 13). · Observação 1) Além dos meses de pagamento mencionados acima a empresa fez outros pagamentos nas competências 200702, 200705, 200708, 200804, 200805 e 200806 para a rubrica 894 PLR e nas competências 200702, 200703, 200705, 200708, 200710, 200802 a 200805 e 200808 para a rubrica 886 PME. · Observação 2) Além dos Acordos Coletivos acima a empresa não apresentou quaisquer outros acordos que justificasse o pagamento das rubricas, principalmente da rubrica 1578 – BÔNUS PLR, uma vez que foi intimada a apresentar o “documento de regulamentação do pagamento da Participação nos Lucros e/ou Resultados além do Acordo Coletivo assinado com a METASITA” através do TIF 06 datado de 19/10/2011 e assinado em 20/10/2011 e a empresa apresentou os mesmos acordos acima mencionados em mídia gravada, conforme recibo de entrega de arquivos digitais emitidos pelo Sistema de Validação e Autenticação de Arquivos Digitais – SVA datado de 27/10/2011, recebido por esta fiscalização em 07/11/2011. 5.4 Conforme descrito no item 5.3 acima, a forma de como foram feitos os pagamentos a título de PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS rubrica 894, PLANO DE METAS POR EQUIPE rubrica 886 PME e BÔNUS PLR – rubrica 1578 (para empregados) contraria fortemente os artigos 1º e 2º da LEI Nº 10.101 de 19/12/2000, pois os pagamentos foram realizados no próprio mês da assinatura dos acordos ou pagos em “até 7 dias úteis após a assinatura do Acordo”. Mais agravado ainda para os pagamentos da rubrica 886 PME, pois, os pagamentos foram feitos antes mesmo da assinatura dos acordos (em média seis meses antes). Da forma como foram pagas ou creditadas estas rubricas comprovase que a empresa definitivamente não estabeleceu previamente o “programa de metas, resultados e prazos” a serem atingidas pelos empregados. Não foram atendidas as exigências dos artigos 1º e 2º da Lei nº 10.101, desvirtuando, assim, do objetivo primeiro mencionado no artigo inicial da mencionada Lei, qual seja, de “integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7º, inciso XI, da Constituição”. Portanto, os referidos acordos, com relação aos pagamentos das rubricas acima mencionadas, foram estabelecidos apenas para estipular valores e critérios para pagamento das mesmas, ficando claro, pelos acordos coletivos, que estes pagamentos ou Fl. 9337DF CARF MF 6 créditos não tinham qualquer pretensão ou objetivo de incentivar os trabalhadores a alcançar ganhos de produtividade no ano a que se referiam, visto que o mesmo já havia transcorrido. No presente caso, as rubricas acima mencionadas poderiam ser caracterizadas como qualquer outra rubrica componente da remuneração dos segurados empregados, integrando o salário decontribuição para todos os fins e efeitos. Item 6) Alíquota Adicional Sobre Remunerações de Empregados Expostos a Riscos no Ambiente de Trabalho Foram reconhecidos nos documentos apresentados pela empresa os seguintes agentes de risco ambiental acima do limite de tolerância LT: Ruído, Calor, Ácido Fluorídrico, Ácido Clorídrico, Poeira de Manganês, Poeira total, Poeira/Fumos metálicos de Telúrio, Poeiras Metálicas de Cromo, Tolueno e Xileno e Óleos minerais Graxas Solventes. Analisando as GFIP informadas pelo contribuinte e extraídas do banco de dados da Receita Federal do Brasil RFB constatouse em todas as competências e para todos os segurados os registros no campo ocorrência 00, 01 ou 04. Portanto, a autuada considera que nem todos os seus trabalhadores encontramse expostos em seu ambiente de trabalho a riscos ambientais que possam lhes causar danos à saúde ou integridade física. Em que pese o fato da autuada reconhecer a existência de agentes nocivos em seu ambiente de trabalho, quando apresentou, entre outros documentos do gerenciamento ambiental, relação de segurados empregados sujeitos à exposição aos agentes de riscos ambiental existentes na empresa, através da planilha “PLANILHA RECEITA FEDERAL VERSÃO FINAL” (Anexo ANXLEVAMB – Levantamento Ambiental) atendendo ao Termo de Intimação Fiscal nº 02 de 30/08/2011 (certificada pelo SVA conforme recibo datado de 07/10/2011), o mesmo omitiu esta informação em Folhas de Pagamento e GFIP, para os trabalhadores relacionados nos Anexos ANFOPAGRO e ARORUBPLR, deixando de informar e recolher a alíquota adicional acima referida. Esta omissão não ocorreu sobre a totalidade dos trabalhadores, pois a empresa informa uma média, no período fiscalizado, de 285 segurados na ocorrência 04. Estes segurados foram excluídos do presente lançamento. A empresa apresentou as fichas de controle de entrega dos EPIs, denominadas pela empresa de “CONTROLE DE EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUALEPI”, onde constam o nome do funcionário, registro, cargo, os EPIs fornecidos (sem a anotação dos certificados de aprovação do Ministério do Trabalho e Emprego) e as assinaturas do empregado apostas em campos representativos dos meses do calendário anual. Cada ficha completa, representam 5 anos e meio de recebimento de EPI. Este controle trouxe dúvidas quando ao fornecimento dos EPIs pela empresa e respectivo recebimento pelos empregados, pois não consta a data efetiva do recebimento e qual o EPI recebido Fl. 9338DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.336 7 (o empregado afirma o recebimento de todos os EPIs relacionados na ficha, todos ao mesmo tempo). Inexiste controle efetivo com a data de troca e quais os EPIs foram entregues aos empregados. Um empregado pode estar usando um EPI que não lhe garanta as condições de proteção originalmente estabelecidas, uma vez que sem o controle com datas e tipo de EPI retirado, podese ocorrer o uso prolongado de EPIs além dos limites, comprometendo a proteção originalmente estabelecida pelos fabricantes de EPI. Sequer há a comprovação de quais certificados de aprovação CA do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE dos EPIs utilizados na empresa. Em documento ambiental algum apresentado pela empresa consta os números dos CAs dos EPIs adotados na empresa. Além desta deficiência a empresa confirma a exposição de trabalhadores ao agente de risco CALOR acima do limite de tolerância. Este agente não possui EPI autorizado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, implicando no reconhecimento imediato da agressividade do agente e a inclusão em GFIP na ocorrência 04 para os empregados nesta situação. Em vista do exposto, podese afirmar que o contribuinte, ao não comprovar o fornecimento/reposição de EPI a seus segurados empregados e expor seus empregados ao agente CALOR, no período fiscalizado, não os protege dos riscos a que se encontram expostos e, por conseguinte, não gerencia adequadamente o seu ambiente de trabalho. Mais um reflexo do gerenciamento inadequado é que a empresa apresenta um número excessivo de exames alterados no relatório anual do PCMSO – período 01/01/2007 a 01/01/2008, sendo 583 (quinhentos e oitenta e três) Audiometrias, 21 (vinte e hum) Hemogramas completos, 11 (onze) Teleradiografia do Tórax, 1 (hum) Espirometria e 1 (hum) Elementos Anormais e Sedimentos, totalizando 617 (seiscentos e dezessete) exames alterados. Em vista destas irregularidades, aplicamos, no presente AI, o percentual da alíquota adicional de 6% (seis por cento) incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título pela empresa aos segurados empregados, no período de Janeiro de 2007 a Dezembro de 2008 e sobre os valores recebidos a título de PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS – rubrica 894, PME – PLANO DE METAS POR EQUIPE – rubrica 886 e BÔNUS PLR – rubrica 1578 (para empregados), pelos segurados empregados expostos ao agentes de risco ambiental acima do limite de tolerância, para financiamento do benefício da aposentadoria especial. Item 11) Do Arrolamento de Sujeitos Passivos Solidários Fl. 9339DF CARF MF 8 Estão sendo arroladas as empresas APERAM INOX SERVIÇOS BRASIL LTDA – CNPJ 60.500.121/000124, ARCELOMITTAL INOX BRASIL TUBOS LTDA – CNPJ 04.335.855/000124 e ARCELORMITTAL BIOENERGIA LTDA – CNPJ 18.238.980/0001 20, componentes do grupo econômico, na forma da legislação a seguir: Lei 8.212 Art. 30. A arrecadação e o recolhimento das contribuições ou de outras importâncias devidas à Seguridade Social obedecem às seguintes normas: (Redação dada pela Lei nº. 8.620, de 05/01/1993). (...) IX – as empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações decorrentes desta lei; RPS Art. 222. As empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza, bem como os produtores rurais integrantes do consórcio simplificado de que trata o art. 200A, respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações decorrentes do disposto neste Regulamento. (Redação dada pelo Decreto nº. 4.032, de 26/11/2001) Código Tributário Nacional Lei nº 5.172, de 1966 Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; Às fls. 1708/6442 as empresas autuadas apresentam conjuntamente a peça impugnatória. Encaminhada à DRJ, é proferido Despacho pela DRJ/BHE (fls. 6445/6446) encaminhando os autos para a realização de diligência, para que a Autoridade Fiscal se manifeste sobre as alegações das impugnantes e, se necessário for, proceda a retificação do débito. Apresentado o resultado da referida diligência (fls. 7.219/7234) sem qualquer alteração no crédito tributário lançado, com manifestação do AFRFB no sentido de ratificar todas as suas razões expostas no Relatório Fiscal (fls. 36/63), são as contribuintes autuadas intimadas e apresentam a sua manifestação acerca da conclusão fiscal (fls. 7.250/7.296). Retornando os autos à DRJ/BHE, é proferido o Acórdão nº. 0255453, de fls. 8.980/9.036, que restou assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008 EMPRESAS DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Fl. 9340DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.337 9 Em razão de expressa disposição legal e do interesse comum na situação que constitui o fato gerador da contribuição previdenciária, as empresas do mesmo grupo econômico respondem solidariamente pelas referidas contribuições. RELATÓRIO DE VÍNCULOS. SÓCIOS E ADMINISTRADORES. O anexo Relatório de Vínculos tem finalidade meramente informativa, não atribui responsabilidade tributária às pessoas nele indicadas e nem comporta discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal. IMPUGNAÇÃO DE REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS FEITA EM PROCESSO DE DÉBITO. NÃO CABIMENTO. É obrigação legal do Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil a formalização de Representação Fiscal para Fins Penais sempre que, no exercício de suas funções, constatar a ocorrência, em tese, de crime contra a Seguridade Social O processo de exigência de crédito fiscal não é o fórum adequado para apresentação de impugnação à processo de Representação Fiscal para Fins Penais. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. PREVISÃO CONSTITUCIONAL. O dispositivo constitucional que estende aos trabalhadores o direito a participação nos lucros e resultados desvinculada da remuneração é de eficácia limitada, eis que expressamente prevê regulamentação por meio de lei ordinária, em conseqüência, a citada verba só deixou de integrar a base de contribuição a partir da edição da norma infraconstitucional e desde que em cumprimento da mesma. NATUREZA SALARIAL DE PARCELA. INCIDÊNCIA. Verificandose que, embora denominada "participação nos lucros", a parcela paga ao trabalhador tem natureza remuneratória, não se enquadrando nas hipóteses legalmente excluídas da tributação, deve ser reconhecida como integrante do salário de contribuição, base de incidência da contribuição exigida, não sendo admissível a prevalência do rótulo sobre o conteúdo. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. DIRETORES NÃO EMPREGADOS. Fl. 9341DF CARF MF 10 O pagamento ou crédito de participação nos lucros a diretores não empregados, regida pela Lei nº. 6.404/76, integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por falta de previsão legal de não incidência. RISCOS OCUPACIONAIS. ADICIONAL PARA O CUSTEIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL. O gerenciamento adequado do ambiente de trabalho, eliminando e controlando os agentes nocivos à saúde e à integridade física dos trabalhadores, é condição para afastar a cobrança do adicional de contribuição destinada à aposentadoria especial prevista no artigo 57 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. REQUERIMENTO DE INSPEÇÃO IN LOCO. DECURSO DO TEMPO. INUTILIDADE. No âmbito do gerenciamento de riscos ocupacionais no ambiente de trabalho, o decurso de tempo torna imprestável e inútil o pedido de inspeção in loco, uma vez que impossível restaurar as condições ambientais vigorantes ao tempo da elaboração dos laudos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Intimados o devedor principal e os devedores solidários, respectivamente, em 16/05/2014 (A.R. fl. 9.045), 16/05/2014 (A.R. fl. 9047), 21/05/2014 (A.R. fl. 9049) e 30/06/2014 (fl. 9188), foi apresentado o Recurso Voluntário de fls. 9051/9119 para todos os sujeitos passivo, tempestivamente, em 16/06/2014. No mencionado recurso voluntário, apresentamse os seguintes argumentos (utilizase a seguir a mesma numeração dos tópicos do recurso voluntário, para melhor didática): PRELIMINARMENTE 3.1. Nulidade da Intimação por ausência de notificação da empresa APERAM INOX SERVIÇOS BRASIL LTDA. Ante o fato da mencionada empresa não ter sido notificada da decisão da DRJ/BHE requer a decretação de nulidade processual. Requer, subsidiariamente, acaso assim não se entenda, que seja suprida a nulidade apontada com o reconhecimento da referida empresa no escopo do recurso voluntário apresentado. 3.2. Da inexistência de sujeição passiva solidária no caso em tela Diz ser inaplicável ao caso a sujeição passiva solidária pretendida, tendo em vista que a interpretação adotada pelos Tribunais Superiores sobre a questão é no sentido de que as pessoas solidariamente obrigadas devem constituirse em sujeitos da relação jurídica Fl. 9342DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.338 11 que deu causa à ocorrência do fato imponível, sob pena de ferirse a lógica jurídicotributária, integrando no pólo passivo da relação jurídica alguém que não tenha tido qualquer participação na ocorrência do fato gerador da obrigação. Alega que apenas sob uma interpretação sistemática do CTN pode a lei ordinária, autorizada pelo inciso II do art. 124 do CTN, dispor sobre hipóteses de solidariedade passiva, pelo que toda e qualquer previsão legal sobre o tema deve resultar em expressa vinculação do responsável solidário ao fato gerador da obrigação tributária, conforme preconiza o art. 128 do CTN. Diz que a empresa autuada possui plena capacidade econômica de arcar integralmente com os valores exigidos no presente AI. 3.3. Da exclusão dos coresponsáveis Requer a exclusão dos diretores, presidentes, administradores e conselheiros de administração do rol de coresponsáveis constantes do Relatório de Vínculos, porque conforme pacificado pelo STJ, os diretores somente respondem por substituição em razão da prática de ato ou fato eivado com excesso de poder ou infração a lei, contrato social ou estatuto, não se caracterizando como tal o simples inadimplemento da obrigação, nos termos do art. 135, III do CTN. Acrescenta que não consta dos autos qualquer fundamentação legal, menção ou justificativa fática para tal inclusão. 3.4. Da nulidade da representação fiscal para fins penais Alega que não há em todo o auto de infração qualquer informação adicional a respeito da representação fiscal, não sendo sequer apresentada a fundamentação legal para o seu encaminhamento ao Ministério Público. Diz que da forma como está sendo realizado este procedimento, o contribuinte não tem ciência nem acerca do tipo penal que é objeto da suposta representação. Diz que o julgador administrativo tem o dever funcional de se pronunciar se as parcelas são devidas e o lançamento está correto e, ainda que correto o lançamento, se houve no caso algum tipo de dolo, máfé, burla à fiscalização, fraude, ou algo que caracterizasse o absurdo de instauração de qualquer procedimento criminal em parcelas que são de alta indagação jurídica e assolam os contribuintes no mar de insegurança jurídica. Conclui que deve o julgador administrativo determinar que os autos da representação não sejam remetidos pelo Delegado ou Inspetor da Receita Federal ao órgão do Ministério Público Federal competente, pelo menos enquanto não findo o processo administrativo. 3.5. Do indeferimento do pedido de realização de prova pericial Alega que ficou claro nos autos a imprescindibilidade da realização da prova pericial, sobretudo porque a DRJ demonstra a existência de dúvidas objetivas quanto a questões fáticas discutidas que, caso houvesse sido analisadas por profissional especializado, demonstrariam a total insubsistência da autuação. Fl. 9343DF CARF MF 12 A prova pericial mostrase salutar, não obstante os inúmeros documentos juntados e que advogam em favor da defesa apresentada, na medida em que demonstrará o completo enquadramento das parcelas pagas aos termos da legislação. Assim, requer o deferimento da prova pericial requerida, bem como de outras provas documentais que se façam necessárias ao deslinde da questão, em homenagem ao princípio da verdade material. NO MÉRITO 4.1. Da glosa da verba paga a título de participação nos lucros e resultados. Cumprimento dos ditames constitucionais e legais. Os valores distribuídos a título de PLR possuem imunidade, portanto a disposição constitucional deve ser interpretada de maneira ampla, impedindose restrições na sua aplicação pelos regramentos impostos pela Lei nº. 10.101/00; A regulamentação da Lei nº. 10.101/00 não pode restringir o alcance do Texto Constitucional, nem tampouco ser regulamentadora dos limites ao poder de tributar, pois não se trata de Lei Complementar. Os ditames da referida lei não podem ser considerados obrigatórios, mas simplesmente indutivos, não podendo obstar a vontade constitucional de que tais parcelas sejam excluídas da base de cálculo das contribuições previdenciárias. A estrutura do programa espontâneo, e posteriormente convalidado pela negociação coletiva, resta inabalável e cumpre os requisitos legais e, de fato, remunera os empregados pelo plus além das obrigações contratuais, visando a melhoria dos resultados e /ou lucros da empresa. O referido programa possui indubitavelmente a natureza jurídica de PLR, pois (i) funciona como instrumento de integração entre capital e trabalho, mediante negociação; (ii) serve de incentivo à produtividade e está vinculado á existência de resultados positivos; (iii) são fixadas regras claras e objetivas, com ampla divulgação aos funcionários atingidos e (iv) existem claros mecanismos de aferição de resultados. Especificamente quanto às características do PLR, apresenta as razões acerca de cada um dos seus aspectos. 4.1.1. A estrutura do modelo de gestão APERAM. Os modelos denominados "PME" e "GEDP" Especificamente para o pagamento da PLR, este sistema de avaliação denominado "SISTEMA GPS", o qual é desdobrado em dois modelos denominados "PME" e "GEDP". Tais programas espontâneos se desdobram em dois (PME e GEDP) por razões também de gestão. O primeiro é aplicável aos empregados operacionais, onde não vale uma meta individual, mas a atuação da empresa como um todo (metas gerais) e a atuação da equipe de trabalho (metas por equipe); já o segundo avalia a performance individual, mas sem abrir mão das metas gerais, pois como dito a origem de ambos os programas se alinha com a direção que a empresa pretende ter no mercado. Para além de tais planos espontâneos, como bem alerta o próprio relatório fiscal, os valores de PLR são negociados anualmente entre a empresa e o Sindicato, levando em consideração os resultados financeiros da Companhia e a rentabilidade do negócio. Fl. 9344DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.339 13 Os planos espontâneos acabam sendo ratificados pela negociação coletiva que estabelece, ainda, um plus em decorrência dos resultados acima mencionados. Faz menção às cláusulas dos Acordos Coletivos firmados com o Sindicato para os anos de 2009 e 2010. Conforme previsto nos próprios acordos coletivos, o pagamento da participação nos lucros e resultados foi feito observandose um valor mínimo, proporcional ao salário dos empregados, complementado com os valores percebidos em razão do alcance das metas estipuladas nos Programas Espontâneos. Inclusive, para maior didática ao empregado, o pagamento é segregado em rubricas, mas em momento algum ferem a periodicidade ainda que segregadas são pagas na mesma data, conforme admitido pela própria fiscalização. Os planos buscam adequarse à realidade de cada uma das áreas e unidades da empresa: para os empregados lotados nas unidades operacionais, o Plano de Metas por Equipe revelase mais adequado às necessidades de estímulo da produtividade e lucratividade da empresa, considerada a abrangência do processo produtivo ali desenvolvido; nas unidades administrativas e para algumas funções específicas desempenhadas nas unidades operacionais, o Plano de Metas por Equipe não seria tão eficaz, haja vista a maior especificidade e pessoalidade das tarefas. O documentopiloto que embasou o PME no período autuado dispunha a forma de pagamento da PLR tendo por base a necessidade de alavancar o desempenho das equipes através da remuneração variável, focada no estabelecimento de resultados operacionais (metas) e organização por equipe (cada um tendo seu próprio conjunto de metas). Esta plano espontâneo (PME) vem sendo aplicado na empres ahá muito anos, assim, a forma de operacionalização já é do conhecimento de todos os empregados, o que dispensa a empresa de fornecer aos novos funcionários cartilhas explicativas sobre a forma de apuração da PLR com base no PME. Há um "Comitê do PME" formado pelos gerentes das equipes e/ou superior imediato que tem como objetivos principais, assegurar o nivelamento das metas das várias equipes e verificar a ligação das metas de cada equipe com seus clientes e fornecedores internos. Caso as metas sejam aprovadas pelo Comitê do PME, elas são apresentadas paras as equipes, quando são efetivamente aprovadas pelos empregados envolvidos no programa, havendo a assinatura do contrato das metas. As metas são estabelecidas por, no máximo, 06 meses (período válido de cada ciclo do PME), sendo desdobradas mês a mês. Os resultados obtidos mensalmente pelas metas são transformados em pontos que em seguida são somados para verificação e indicação do desempenho da equipe. Os pontos transformados darão o resultado em percentual do salário a ser recebido pela equipe, conforme tabela apresentada. O PME não é apenas um programa de participação nos resultados, mas o envolvimento efetivo do empregado com a melhoria contínua da empresa frente aos desafios do mercado, bem como uma forma de valorizar o bem que a recorrente considera seu maior patrimônio: o empregado. Fl. 9345DF CARF MF 14 Com relação ao GEDP, tratase de Programa de Remuneração da PLR para empregados da empresa não participantes do PME (técnicos especializados, gerentes e diretores). O GEDP é composto por metas individuais e metas corporativas. O peso de cada uma das metas varia conforme o nível hierárquico. Apresenta, a título exemplificativo, a apuração do valor a ser pago a título de PLR para o empregado Eduardo Mesquita no ano de 2006, com o detalhamento do cálculo. Assim como ocorre no PME, todas as metas são previamente negociadas, e a forma de cálculo tem a sua devida publicidade, sendo ao final divulgado os resultados para as pessoas avaliadas. Por ser um programa também voltado para cargos mais elevados, suas metas apesar de atreladas a resultados, são formadoras do lucro e dele dependem intrinsecamente. Neste sentido, os programas da empresa e, conseqüentemente, os valores pagos a título de PLR cumprem essas funções, pois não podem ser conceituados como remuneração habitual, e buscam a ampliação da renda do trabalhador e o aumento da produtividade da impugnante assim como possibilitam que os segurados empregados, mediante negociação com participação do sindicato, tenham ciência, previamente ao esforço e seu conseqüente resultado, do quanto será destinado ao pagamento de PLR, qual seu ganho individual (direitos substantivos) e as regras, objetivos, formas, meios para se atingir esse ganho. Entende que se a essência do programa está satisfeita, se demonstrado de forma cabal que a natureza é de PLR, não há sentido querer a tributação, pois esta fere a segurança jurídica e macula o sistema tributário, nele não podendo efetivamente confiar. Diz, ainda, que além de tais programas, quando da negociação coletiva (que se inicia bem antes do que a fiscalização imagina), o Sindicato e a Empresa negociam, diante do resultado auferido pela empresa, valores adicionais e que passam a compor o conjunto dos valores de PLR pagos no período. 4.1.2. Os equívocos cometidos nas premissas da fiscalização e reiterados pelo acórdão da DRJ a) alega a fiscalização que a empresa não apresentou qualquer instrumento de negociação coletiva que justificasse o pagamento das rubricas "PLR PME Rubrica 886" e "BONUS PLR Rubrica 1578" Aduz que a fiscalização incorre em grave equívoco quando alega que a empresa não apresentou qualquer instrumento de negociação coletiva que justificasse o pagamento das rubricas “PLR – PME – Rubrica 886” e “Bônus – PLR – Rubrica 1578”: primeiro, pela vontade constitucional, se demonstrado que na essência o pagamento é eventual, desindexado das funções laborais, mas buscam outros resultados ou mesmo o lucro, não há que se falar em incidência das contribuições previdenciárias; segundo, o programa espontâneo feito pela empresa é compensado quando da negociação coletiva, cumprindo, assim, todos os requisitos também impostos pela Lei 10.101/00. Diz que durante a fiscalização foram apresentados todos os acordos referentes ao período autuado e, em todos estes acordos podese verificar a efetiva participação Fl. 9346DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.340 15 do sindicato, que por intermédio de seu representante, assinou os mencionados acordos, concordando com todos os termos lá expostos. Argumenta que em que pese os ACT’s não apresentarem de forma detalhada e exaustiva a definição das metas de resultados e as formas de avaliação de atendimento das metas, isto não significa que todos os programas existentes na companhia não são previamente negociados e estabelecidos com todos os empregados, o que já restou inclusive demonstrado e comprovado no tópico anterior, ao serem anexados à impugnação alguns PME’s com a aquiescência dos empregados que são a ele submetidos. Alega que o exame dos instrumentos de acordo coletivo firmados pela impugnante e a METASITA (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Siderúrgicas, Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Belo Horizonte e Contagem) de 2006 a 2008, revelam que se trata de exteriorização das importâncias a serem pagas aos empregados a título de PLR, apurada de conformidade com os Programas de Gestão detalhados no tópico antecedente. Diz que a Lei 10.101/00 visa que os segurados empregados, mediante negociação com participação do sindicato, tenham ciência, previamente ao esforço e seu conseqüente resultado, do quanto será destinado ao pagamento de PLR, qual seu ganho individual (direitos subjetivos) e as regras, objetivos, formas, meios para se atingir este ganho. Os instrumentos de acordo não podem ser interpretados isoladamente, mas em confronto com os demais dados que conduziram à apuração do quantum da PLR paga a cada empregado. Além disto, para a fiscalização do programa, a impugnante obrigase a reunir a comissão dos empregados para acompanhar os resultados que afetam a participação e publica relatórios periódicos para distribuição a todos os segurados a seu serviço, com os percentuais de atingimento de metas, apurados para cada área de atuação. Conclui que não há razão no argumento da fiscalização para desconstituir a natureza de PLR dos pagamentos realizados. Embora entenda que os ditames da Lei 10.101/00 são meramente indutivos de comportamento, mas não mandatórios, fica evidente, pela análise feita, que tais programas estavam de conformidade com o que determina o art. 2º, § 1º da referida lei: Diz ser evidente que todos os pagamentos de PLR constam do ACT, seja por homologação ao que se manteve espontaneamente, seja pelo que se negociou com o Sindicato quando da negociação coletiva. Conclui que a forma de condução do Plano de PLR da empresa não encontra nenhum óbice legal, sendo totalmente lícita, possível e estimulada, consoante previsão contida no art. 3º, parágrafo 3º, da Lei 10.101/00. b) Pagamentos realizados no próprio mês da assinatura dos acordos ou pagos em até 7 dias úteis após a assinatura, segundo a fiscalização No que toca ao argumento da fiscalização de que “os pagamentos foram realizados no próprio mês da assinatura dos acordos ou pagos em até 7 dias úteis após a assinatura do acordo”, diz que no item anterior ficou demonstrado que os programas PME e GEDP são previamente ajustados e com o acompanhamento constante pelos empregados e quando da negociação coletiva eles são apenas incluídos na negociação e homologados, nos exatos termos do art. 3º, § 3º, da Lei 10.101/00. Fl. 9347DF CARF MF 16 Quanto ao plus fixo negociado nos Acordos Coletivos de Trabalho, conforme se comprova pelos informativos juntados, a negociação entre a empresa e os sindicatos começa muito antes da sua assinatura, não havendo sentido na afirmação fiscal. Destaca que os documentos em anexo, comprovam de forma irrefutável as metas estabelecidas e a forma de avaliação, inclusive as fichas administrativas estão postas com a assinatura dos avaliados, o que demonstra que o sistema implantado para a mensuração de desempenho e tratamento dos resultados era de pleno conhecimento dos empregados. A confecção de um manual tanto para o PME/PEGD também confirma que a empresa se preocupou efetivamente com a adoção de um método justo e público para todos os funcionários. c) Quanto ao argumento da fiscalização do suposto ferimento da periodicidade Diz que os pagamentos residuais ocorreram nas hipóteses de rescisão do contrato de trabalho, conforme demonstrado na planilha que anexa, devendo ser anulada a autuação, pois, a fiscalização descaracterizou tais pagamentos como PLR, desincumbindose do seu mister, qual seja, a busca da verdade material. Conforme levantamento realizado pelo próprio fiscal, não há nenhum segurado que tenha recebido mais de duas parcelas ao ano, ainda que pelo referido motivo, a periodicidade tenha sido inferior a um semestre civil. Diz que da análise da legislação, não há motivo para a descaracterização da verba quando o pagamento realizado em períodos inferiores a seis meses, desde que ocorram no máximo duas vezes ao ano (art. 3º, § 2º da Lei 10101/00). Este também é o entendimento oficial do INSS conforme a Consulta Técnica 507, publicada em 21/07/2004. Conclui que não houve ferimento à periodicidade posta em lei, apenas pagamentos a empregados distintos ou resíduos por conta de afastamento, aumentos, etc. d) Da acusação fiscal quanto a pagamentos fixos e sem metas a serem alcançadas Quanto ao argumento do fisco de que nos acordos há a previsão do pagamento de valores, independente do atingimento de metas ou resultados, como mera liberalidade da empresa, diz que conforme demonstrado estes valores são bônus, previstos nos acordos coletivos após uma ampla negociação entre o sindicato, empregados e a empresa. Alega que tais valores estão atrelados ao PME e são pagos levando em consideração os resultados da empresa no período. Havendo um bom resultado, além da PLR, os trabalhadores, em geral, recebem um bônus, o qual é objeto de negociação com o sindicato, conforme demonstrado. 4.1.3) Da distribuição da verba "Bônus PLR administradores" aos diretores da APERAM INOX AMÉRICA DO SUL S/A Diz que não assiste razão à fiscalização na glosa procedida quanto à parcela paga aos diretores elencados no relatório fiscal em razão dos resultados obtidos pela empresa nos exercícios sociais de 2006 e 2007, uma vez que o procedimento encontra pleno respaldo na Lei nº 6.404/76, aplicável ao caso. Fl. 9348DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.341 17 Argumenta que a lei de custeio da Previdência Social deixa evidente que, no contexto atual, não há distinção da forma de tributação: quer seja empregado, quer seja segurado contribuinte individual, a tributação incidirá sobre o valor da remuneração, e a mesma legislação, por força do Texto Constitucional, retira da incidência das contribuições previdenciárias a participação nos lucros ou resultados da empresa, quando pagas ou creditadas de acordo com a lei específica. Entende que se a Lei 10.101/00 tratou apenas dos empregados ou segurados com vínculo empregatício, devese buscar a lei específica que regula a relação jurídica entre diretores e conselheiros com as empresas de sociedade anônima. No caso, é a Lei 6.404/76, que em seu artigo 152, §§ 1º e 2º, e no artigo 162, § 3º, vem estabelecer a forma como se dá a relação jurídica dos diretores e conselheiros com tais sociedades anônimas. Conclui que a autuação é inepta, pois não declina os motivos pelos quais considerou a parcela integrante da base de cálculo das contribuições previdenciárias e que a parcela em questão estava ligada à participação nos lucros dos administradores, tendo a empresa seguido fielmente o que determinava a lei específica, ou seja, a Lei 6.404/76. 4.1.4) Alternativamente ao pedido 4.1.3. Enquadramento do pagamento na Lei nº. 10.101/00 Alternativamente, requer a aplicação da Lei nº. 10.101/00 ao pagamento da verba aos administradores. Cita jurisprudência do CARF a respeito do reconhecimento desta possibilidade. 4.1.5) A quantificação equivocada do crédito tributário Diz que o laudo do Escritório de Contabilidade do Sr. Rodrigo Assunção de Oliveira, contratado para verificar a base de cálculo considerada pela fiscalização, e acostado aos autos, aponta equívocos da apuração fiscal na base de cálculo do lançamento, conforme mencionado laudo. Assim, reitera o pedido de necessidade de realização de perícia. Quanto à aplicação da alíquota SAT, alega que o fiscal adotou equivocadamente o percentual de 3% (risco máximo) para todas as unidades da empresa devedora principal autuada, sem ponderar o risco da atividade preponderante de cada estabelecimento quando há mais de um CNPJ envolvido, inclusive em respeito à coisa julgada obtida nos autos do Mandado de Segurança nº 1997.38.000432120. 4.2) Dos riscos ocupacionais. Da cobrança do adicional previsto no art. 57 da Lei nº. 8.213/91 Alega que a cobrança do referido adicional somente pode ser realizada quando há efetiva exposição ao agente, mas esta efetiva exposição somente pode ser comprovada por laudo da empresa e quando o trabalhador não está acobertado pelas medidas de proteção (EPIs, EPCs ou MPCs), além do que a exposição deve ser permanente, não ocacional ou não intermitente. Diz que o crédito é totalmente indevido, pois a fiscalização parte de premissas equivocadas e inconsistentes (a a empresa reconhece e declara em GFIP dezenas de empregados sujeitos ao calor, de maneira permanente, não ocasional e intermitente; b a Fl. 9349DF CARF MF 18 empresa possui vários exames alterados) para se chegar a conclusão de que a empresa coloca todos os seus empregados expostos ao risco. 4.2.1) Nulidade da autuação por ausência de inspeção in loco pelo perito do INSS Argumenta que a constatação da efetiva exposição do segurado aos agentes nocivos à sua saúde, ou seja, da ocorrência do fato gerador do adicional de RAT é complexa, demandando vistorias, perícias, exames clínicos e complementares, com participação indispensável de um MédicoPerito, pois, os agentes fiscais não têm habilitação profissional em medicina e segurança do trabalho. Diz que, ainda que eventualmente tivessem essa habilitação, à medida que investidos no cargo de agentes fiscais, não poderiam fazer as vezes do peritomédico, pois não podem ser juízes e acusadores ao mesmo tempo. Aduz que o CARF, determina diligências complementares (invertendo o papel da fiscalização) para tentar sanar as nulidades. Conclui que, uma vez que a autuação se baseou somente em documentos, não tendo havido nenhuma averiguação técnica nos locais de trabalho onde supostamente estão presentes os agentes de risco, padece de insanável nulidade. Argui como pode o fiscal dizer, na análise de documentos, que a impugnante tem uma gestão ambiental deficitária, se ele desconhece a empresa que fiscalizou. 4.2.2.) Das falsas premissas estabelecidas pela Fiscalização. O controle efetivo dos agentes nocivos no ambiente de trabalho da empresa Diz que os agentes insalubres apontados pela fiscalização são totalmente controlados por medidas administrativas praticadas pela empresa que sempre adotou, mesmo nos casos onde o índice de exposição esteve abaixo do limite de tolerância, medidas eficazes de proteção e neutralização destes agentes (EPI’s, EPC’s, controle na fonte, etc), fazendo medições constantes dos índices de exposição de seus empregados aos agentes insalubres. Alega que a empresa possui todos os documentos de gestão do ambiente de trabalho, desenvolve sério programa de controle da segurança, investe pesado em equipamentos de proteção coletiva e individual, bem como medidas administrativas, além de todas as medições. Diz que juntará as medições realizadas nos últimos 5 anos, contudo, como se trata de um volume expressivo de documentos, pede prazo de 60 dias para tal juntada. Passa a demonstrar item a item o que entende ser as inverdades das premissas consideradas pela Fiscalização, colocando suas instalações à disposição destes julgadores. a) A fiscalização afirma que, em que pese o fato da autuada reconhecer a existência de agentes nocivos em seu ambiente de trabalho, com base na planilha enviada aos controles da fiscalização, a mesma omitiu esta informação em folhas de pagamento e GFIP, para os trabalhadores relacionados nos Anexos ANFOPAGRO e ARORUBPLR, deixando de informar e recolher a alíquota adicional acima referida. Diz ser tal afirmação inaceitável, que a fiscalização utiliza a planilha enviada pela empresa pela metade, que nela relaciona empregados operacionais e não operacionais, não coloca as atenuações dos EPI e dos EPC, que relaciona empregados de funções administrativas, comerciais, contábeis e jurídicas. Diz que elaborou nova planilha (doc. 18 da Impugnação) especificando o período de exposição do empregado naquela determinada função durante o período autuado, Fl. 9350DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.342 19 identificando os empregados, suas áreas de atuação, os agentes ambientais aos quais estariam expostos e os valores de exposição encontrados após medições, demonstrando as hipóteses em que o contribuinte reconheceu a exposição acima dos limites de tolerância mas não recolheu o adicional de RAT quer porque o uso de EPIs atenuaria a exposição, quer porque a exposição seria apenas intermitente. Argumenta que tal documento, aliado à farta documentação da empresa sobre o gerenciamento do ambiente laboral, servirá como base para desconstituição da autuação lavrada, pois demonstra as inúmeras inconsistências dos argumentos por ela tecidos. b) A fiscalização afirma ter sido reconhecida a exposição dos empregados aos seguintes agentes nocivos: ruído, calor, ácido fluorídrico, ácido clorídrico, poeira de manganês, poeira total, poeira/fumos metálicos de telúrio, poeiras metálicas de cromo, tolueno e xileno e óleos minerais – graxas solventes. Assim cobrou o adicional de SAT em relação a todos os agentes acima relacionados Contesta cada um dos agentes nocivos que alega terem sido considerados pela fiscalização, justificando o não reconhecimento pela empresa de nenhum empregado efetivamente exposto aos referidos agentes e conseqüentemente, a não incidência do adicional para o RAT. c) A fiscalização esclarece ainda que, intimada a autuada a apresentar as fichas de controle de fornecimento de EPI de alguns dos empegados, este controle teria trazido dúvidas Inicialmente destaca que à época dos fatos descritos na autuação, a metodologia aplicada às fichas de controle e entrega dos equipamentos de proteção individual entregues à fiscalização, atendiam plenamente aos controles da empresa e da própria fiscalização, haja vista não existir até aquele momento a obrigatoriedade do controle de EPIs mediante fichas. Discorre sobre as práticas da empresa para prevenir os acidentes no ambiente de trabalho, tais como, o “Manual de Uso Correto do EPI”, onde a empresa estabelece um procedimento para indicação, testes, aprovação, requisição, controle, uso, guarda, higienização e manutenção dos EPIs; o compromisso da empresa com o treinamento de seus empregados, conforme a planilha de treinamentos (doc 27 da impugnação); a auditagem periódica dos seus empregados para avaliar a efetividade dos treinamentos fornecidos sobre o adequado uso e manutenção dos equipamentos por meio do Sistema SAIA; as campanhas de conscientização promovidas; a elaboração e constante atualização do documento denominado “Norma Técnica”, o qual define e estabelece critérios, responsabilidades para o controle, especificação, distribuição e utilização dos equipamentos de proteção individual; e ainda, os documentos denominados “PráticaPadrão”, nos quais são indicados os riscos existentes na execução das tarefas desempenhadas em cada atividade, os cuidados que devem ser tomados durante sua execução, bem como os EPIs que devem ser utilizados pelos empregados alocados naquela atividade. Junta documentos para comprovar todas estas práticas. Conclui que sempre forneceu todos os EPIs e treinamentos necessários para a segurança dos trabalhadores e prevenção de acidentes e que ela controla e gerencia o uso dos EPIs e jamais permitiu que os empregados executassem suas atividades desprovidos dos equipamentos de proteção necessários à sua saúde e segurança. Fl. 9351DF CARF MF 20 Alega, ainda, que ao contrário do que afirma a fiscalização os números dos CAs dos EPIs adotados na empresa constam do item 15.8 de cada Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP) entregue aos empregados e conseqüentemente ao INSS. Junta para demonstrar, algumas amostras de PPPs onde estão inscritos os certificados de aprovação dos EPIs fornecidos e cópia de alguns dos Certificados de Aprovação relativos aos equipamentos de proteção adotados pela empresa autuada, e diz que a documentação completa está à disposição na sede industrial da empresa. Menciona processos judiciais movidos contra a empresa onde o uso de equipamentos de proteção individual e, de forma geral, toda a gestão ambiental da empresa foram aprovados sob o crivo de peritos devidamente habilitados engenheiros de segurança do trabalho. d) Segundo a fiscalização, a empresa ainda teria deixado de apresentar as fichas de controle de entrega dos EPIs em relação a 21 empregados, conforme lista elaborada no relatório fiscal Justifica a não entrega das 21 fichas de EPIs à fiscalização e diz que junta aos autos cópia de 20 das 21 fichas discriminadas no relatório fiscal. A ficha faltante do sr. José Geraldo de Vasconcelos não foi confeccionada no período autuado já que este se encontrava afastado pelo INSS conforme consta em sua ficha de registro. Ressalta que a empresa possui fichas de EPIs de todos os seus empregados, obedecida a periodicidade e a relação de equipamentos constantes da própria ficha, conforme atestam os próprios empregados da empresa e se infere das declarações prestadas aos peritos judiciais nos documentos que anexa (docs 35 a 37 da impugnação). e) A fiscalização aponta que seria mais um reflexo do gerenciamento inadequado do ambiente de trabalho da empresa o fato desta apresentar um número excessivo de exames alterados no relatório anual do PCMSO (total de 617 exames alterados) Neste item, invocando o art. 337 do Decreto 3.048/99 diz ser de questionável validade a premissa tecida pela fiscalização, sendo extremamente injusto que a análise superficial do PCMSO por um funcionário que sequer detém conhecimentos técnicos para dar parecer conclusivo sobre o tema em discussão, possa ilidir todo o investimento em saúde e segurança feito pela empresa nos últimos anos. Diz que foi ignorado pela fiscalização que, no período de 01/01/2007 a 01/01/2008, foram realizados 15.378 exames para um número de aproximadamente 3000 empregados. Conclui que não reconhece a exposição danosa de nenhum de seus empregados ao agente ruído à época dos fatos glosados, uma vez existente em seu ambiente de trabalho medidas de proteção individual e coletiva que neutralizam a exposição muito abaixo dos limites de tolerância. Diz que conforme extraído do site da Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, o diagnóstico de PAIR só pode ser conclusivo após uma série de exames, assim, a existência de resultados de audiometria anormais não significa que o empregado tem o diagnóstico de PAIR e nem mesmo que os EPIs são ineficientes para neutralizar o ruído. Conclui que, as ilações do fiscal quanto ao PCMSO e os exames alterados não ocupacionais nada provam ou sustentam a absurda cobrança, pois resta demonstrado que a Fl. 9352DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.343 21 alteração nos exames não implica em se reconhecer o inadequado gerenciamento do ambiente laboral da empresa autuada. Discorre sobre os investimentos da empresa no campo específico da segurança do trabalho e diz que é preciso considerar que os programas e métodos estabelecidos na gestão de segurança da empresa, além de respeitar os parâmetros legais, buscam refletir a própria política da empresa e que, se a fiscalização desconhece tal política, não pode fazer suposições (equivocadas) e colocar o investimento de anos e anos a perder, sem qualquer fundamentação fática ou legal. 4.2.3) Os equívocos do relatório complementar da fiscalização. Alega que o relatório fiscal complementar de fls. 7219/7234 simplesmente reafirmar que os empregados estariam efetivamente expostos aos agentes de risco ambiental, afastando a necessidade de inspeção in loco, alegando ser faticamente impossível retornar à época dos acontecimentos para rever a autuação. Inconformada com as conclusões trazidas pelo relatório fiscal complementar, a equipe de segurança da empresa apresentou respostas técnicas quanto aos pontos levantados pelo Ilmo. Fiscal (fls. 7430/7438), rebatendo as premissas fiscais com bases fáticas da gestão ambiental adotada pela empresa, expressa nos milhares de documentos colacionados à impugnação e seu aditamento. 4.2.4) Dos investimentos da empresa em saúde e segurança. Apresenta argumentos acerca dos investimentos da empresa, desde a década de 60, relacionados a segurança do trabalho. Assim resume: · A empresa faz adequadamente o PPRA Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, com análises globais anuais, que visam atualizar o documento base (doc. 47 da impugnação); · A empresa faz adequadamente o PCMSO Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional e o PCA, gerenciando sua área de saúde nos estritos ditames legais e regulamentares; · A empresa possui um programa de Gestão da Saúde do Trabalhador, responsável pela implementação de diversas medidas que afastam riscos ambientais em seu ambiente de trabalho; · A empresa realiza levantamentos ambientais e medições periódicas, mantendo sob controle os agentes nocivos; · A empresa investe em Medidas de Proteção Coletiva e medidas administrativas de controle; · A empresa promove a divulgação dos riscos ambientais e o treinamento dos empregados, nas mais diversas funções, quanto a formas de controle e neutralização dos riscos; Fl. 9353DF CARF MF 22 · Como último recurso, a empresa fornece, exige, monitora o uso e repõe os EPI´s, eliminando e reduzindo aos níveis adequados de tolerância os agentes novicos. Alega que demandou nos autos nº. 2007.38.00.0154959, que tramitou perante a 6ª Vara Federal da Seção Judiciária de Minas Gerais, ação anulatória de débitos fiscal para a desconstituição do crédito tributáro consubstanciado no AI nº. 35.762.1921, no qual exigia a União multa pelo descumprimento do art. 33, § 2º, da Lei nº. 8.212/91, que prescreve ser a empresa obrigada a exibir todos os livros e documentos relacionados com as contribuições previdenciárias, incluindo o PPRA. Informa que no curso do processo demandou por prova pericial para que restasse comprovado o cumprimento de todas as normas de gestão do ambiente laboral pela empresa. Tal prova foi produzida (doc. 48 da impugnação fls. 5973 e ss.) e atestou a seriedade com que a empresa lida com as normas referentes à saúde e segurança de seus empregados, servindo de base para a sentença proferida nos autos confirmar a tutela concedida e dar provimento ao pedido da empresa (doc. 49 da impugnação fls. 6153 e ss.), onde informou o perito que: Faz menção, ainda, a prova pericial produzida em processo administrativo (doc. 50 da impugnação fls. 6160 e ss.) onde, em mais de 200 páginas, reafirma tudo o que vem alegando a Recorrente no presente processo administrativo, onde foram respondidos quesitos elencados pelo INSS e pela empresa. 4.3) Da cobrança do adicional de RAT sobre as parcelas pagas a título de PLR Alega que, no que concerne ao levantamento RISCOS OCUPACIONAIS SOBRE PLR PAGA A SEGURADOS EXPOSTOS, é insubsistente a cobrança do adicional de RAT sobre tais parcelas, tendo em vista que, conforme sustentando no tópico anterior, é indevido o adicional cobrado, uma vez inexistentes os riscos ocupacionais apontados pela Fiscalização. É o relatório. Fl. 9354DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.344 23 Voto Vencido Conselheiro Carlos Alexandre Tortato Relator Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Preliminarmente a) Do Pedido de Realização de Perícia Conforme relatado, a peça recursal reitera o pedido de perícia realizado em sede de impugnação, que elencou uma série de quesitos, que a seguir reproduzo: Fl. 9355DF CARF MF 24 Fl. 9356DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.345 25 Fl. 9357DF CARF MF 26 Ainda, para o fim de atender a todos os requisitos do inciso V do art. 16 do Decreto 70.235/72, indica assistentestécnicos para a realização das perícias. Pois bem. Conforme verificado no relatório acima, a controvérsia instaurase em torno dos pagamentos realizados pela Recorrente a título de PLR e, mais especificamente, na existência ou não dos planos, bem como, da eventual existência de metas, modo de aferição e publicidade destas, para os planos existentes. Também, discorre a presente discussão fiscal acerca da exposição ou não dos empregados da recorrente a agentes nocivos e que deem ensejo a cobrança do adicional do RAT. Especialmente quanto às questões relativas à exposição dos empregados aos agentes nocivos, destacase a existência de um Laudo Pericial (fls. 6160 e ss.) elaborado no bojo do Processo Administrativo 36378.004044/200671, onde são respondidos quesitos do INSS acerca do processo de gestão de saúde e segurança do trabalho da empresa. Nesse referido laudo, é mencionado pelo perito técnico que o único agente insalubre seria o "agente calor". A priori, já se verifica uma diferença aos agentes apontados no presente processo administrativo fiscal, que aponta além do agente "calor", ainda os agentes "ruído", "ácido fluorídrico", "ácido clorídrico", "poeira de manganês", "poeira total", "poeira/fumos metálicos", "poeiras metálicas de cromo", "tolueno e xileno", e "óleos minerais, graxas/óleos e solventes". Nos termos do art. 16, IV, e 18 do Decreto 70.235/72, a perícia deveria ser determinada pela autoridade julgadora de primeira instância que, no caso em tela, a entendeu desnecessária. Todavia, no presente caso, discordo do entendimento do acórdão recorrido, especialmente ante a existência do Laudo Pericial (fls. 6160 e ss.) elaborado no bojo do Processo Administrativo 36378.004044/200671 que, conforme mencionado anteriormente, apresenta conclusões bastante distintas das apresentadas no Relatório Fiscal do presente Fl. 9358DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.346 27 processo que, como mencionado pela recorrente e pela decisão recorrida, não realizou qualquer verificação in loco no(s) estabelecimento(s) da Recorrente. Por esta razão, entendo que deve ser determinada a realização de perícia, nos termos em que requerida pela Recorrente (quesitos acima reproduzidos), para dar amplo e irrestrito acesso à ampla defesa e contraditório, bem como para que o presente julgamento possa ser realizado provido de maiores e melhores informações de cunho técnico. b) Da sujeição passiva solidária Pleiteiam os recorrentes a exclusão do polo passivo do presente processo administrativo, das pessoas jurídicas apontadas como sujeitos passivos solidários (ARCELORMITAL BIONERGIA LTDA., APERAM INOX SERVIÇOS BRASIL LTDA. e APERAM INOX TUBOS BRASIL LTDA.), que no entender o AFRFB pertenceriam ao mesmo grupo econômico da devedora principal (APERAM INOX AMÉRICA DO SUL S.A.). A solidariedade apontada pela fiscalização sustentase no art. 30, inciso IX, da Lei nº. 8.212/91: Art. 30. A arrecadação e o recolhimento das contribuições ou de outras importâncias devidas à Seguridade Social obedecem às seguintes normas [...] IX as empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações decorrentes desta Lei; Alega a Recorrente que, nos termos das disposições do Código Tributário Nacional, em especial os artigos 124 e 128 , é incabível a imputação da responsabilidade solidária, ante a total desvinculação das empresas solidárias com o fato gerador das contribuições previdenciárias lançadas no presente processo administrativo fiscal. Entendo que o art. 30 acima reproduzido deve ser aplicado aos casos em que lançadas as contribuições previdenciárias e, naquelas situações específicas, verificase a existência de uma ou mais empresas que, ante a constatação fática, formem grupo econômico e, primordialmente, se beneficiem da situação ensejadora do lançamento. No presente lançamento, vêse que o AFRFB não faz qualquer prova, tampouco apresenta argumentos que atestem a existência do grupo econômico e a correlação das empresas com os fatos geradores objeto de lançamento. Neste sentido, inclusive, é a jurisprudência já sedimentada do Superior Tribunal de Justiça, a qual, acertadamente, exige que para a configuração da responsabilidade tributária solidária deva se verificar, além da existência do grupo econômico, a mencionada vinculação com o fato gerador (STJ: EREsp 834.044/RS; AgRg no Ag 116.381/RS). Fl. 9359DF CARF MF 28 No mesmo sentido, o Supremo Tribunal Federal já se manifestou e, cravou, a limitação da responsabilidade tributária solidária, deve se ater às disposições do art. 124, II, combinado com os artigos 128, 134 e 135 do CTN, nos termos da ementa a seguir reproduzida: DIREITO TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. ART 146, III, DA CF. ART. 135, III, DO CTN. SÓCIOS DE SOCIEDADE LIMITADA. ART. 13 DA LEI 8.620/93. INCONSTITUCIONALIDADES FORMAL E MATERIAL. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO DA DECISÃO PELOS DEMAIS TRIBUNAIS. 1. Todas as espécies tributárias, entre as quais as contribuições de seguridade social, estão sujeitas às normas gerais de direito tributário. 2. O Código Tributário Nacional estabelece algumas regras matrizes de responsabilidade tributária, como a do art. 135, III, bem como diretrizes para que o legislador de cada ente político estabeleça outras regras específicas de responsabilidade tributária relativamente aos tributos da sua competência, conforme seu art. 128. 3. O preceito do art. 124, II, no sentido de que são solidariamente obrigadas “as pessoas expressamente designadas por lei”, não autoriza o legislador a criar novos casos de responsabilidade tributária sem a observância dos requisitos exigidos pelo art. 128 do CTN, tampouco a desconsiderar as regras matrizes de responsabilidade de terceiros estabelecidas em caráter geral pelos arts. 134 e 135 do mesmo diploma. A previsão legal de solidariedade entre devedores – de modo que o pagamento efetuado por um aproveite aos demais, que a interrupção da prescrição, em favor ou contra um dos obrigados, também lhes tenha efeitos comuns e que a isenção ou remissão de crédito exonere a todos os obrigados quando não seja pessoal (art. 125 do CTN) – pressupõe que a própria condição de devedor tenha sido estabelecida validamente. 4. A responsabilidade tributária pressupõe duas normas autônomas: a regra matriz de incidência tributária e a regra matriz de responsabilidade tributária, cada uma com seu pressuposto de fato e seus sujeitos próprios. A referência ao responsável enquanto terceiro (dritter Persone, terzo ou tercero) evidencia que não participa da relação contributiva, mas de uma relação específica de responsabilidade tributária, inconfundível com aquela. O “terceiro” só pode ser chamado responsabilizado na hipótese de descumprimento de deveres próprios de colaboração para com a Administração Tributária, estabelecidos, ainda que a contrario sensu, na regra matriz de responsabilidade tributária, e desde que tenha contribuído para a situação de inadimplemento pelo contribuinte. 5. O art. 135, III, do CTN responsabiliza apenas aqueles que estejam na direção, gerência ou representação da pessoa jurídica e tãosomente quando pratiquem atos com excesso de poder ou infração à lei, contrato social ou estatutos. Desse modo, apenas o sócio com poderes de gestão ou representação da sociedade é que pode ser responsabilizado, o que resguarda a pessoalidade entre o ilícito (mal gestão ou representação) e a conseqüência de ter de responder pelo tributo devido pela sociedade. 6. O art. 13 da Lei 8.620/93 não se limitou a repetir ou detalhar a regra de responsabilidade constante do art. 135 do CTN, tampouco cuidou de uma nova hipótese específica e distinta. Ao vincular à simples condição de sócio a obrigação de responder Fl. 9360DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.347 29 solidariamente pelos débitos da sociedade limitada perante a Seguridade Social, tratou a mesma situação genérica regulada pelo art. 135, III, do CTN, mas de modo diverso, incorrendo em inconstitucionalidade por violação ao art. 146, III, da CF. 7. O art. 13 da Lei 8.620/93 também se reveste de inconstitucionalidade material, porquanto não é dado ao legislador estabelecer confusão entre os patrimônios das pessoas física e jurídica, o que, além de impor desconsideração ex lege e objetiva da personalidade jurídica, descaracterizando as sociedades limitadas, implica irrazoabilidade e inibe a iniciativa privada, afrontando os arts. 5º, XIII, e 170, parágrafo único, da Constituição. 8. Reconhecida a inconstitucionalidade do art. 13 da Lei 8.620/93 na parte em que determinou que os sócios das empresas por cotas de responsabilidade limitada responderiam solidariamente, com seus bens pessoais, pelos débitos junto à Seguridade Social. 9. Recurso extraordinário da União desprovido. 10. Aos recursos sobrestados, que aguardavam a análise da matéria por este STF, aplicase o art. 543B, § 3º, do CPC. (RE 562276, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Tribunal Pleno, julgado em 03/11/2010, REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe027 DIVULG 09022011 PUBLIC 10022011 EMENT VOL0246102 PP00419 RTJ VOL0022301 PP 00527 RDDT n. 187, 2011, p. 186193 RT v. 100, n. 907, 2011, p. 428442) Assim, ante a total ausência de razões, tampouco quaisquer fundamentos no Relatório Fiscal, a indicação de qualquer fato ou prova que demonstrem, ou simplesmente suspeitem, da participação das demais pessoas jurídicas e/ou seu interesse comum nos fatos geradores que ensejariam a sua responsabilidade tributária solidária, razão pela qual dou provimento ao recurso voluntário para o fim de afastar do polo passivo do presente processo administrativo fiscal as pessoas jurídicas arroladas no item 11 do Relatório Fiscal (fl. 61): APERAM INOX SERVIÇOS BRASIL LTDA. (CNPJ 60.500.121/000124; ARCELORMITAL INOX BRASIL TUBOS LTDA. (CNPJ 04.335.855/000124) e ARCELOR MITTAL BIOENERGIA LTDA. (CNPJ 18.238.980/000120). c) Da Nulidade da Representação Fiscal para Fins Penais A Recorrente pleiteia que este colegiado se manifeste acerca da verificação ou não da existência de dolo, fraude, máfé, burla à fiscalização ou qualquer conduta que ensejasse a instauração de qualquer procedimento criminal. O acórdão recorrido assim se manifestou: 26.6. Nesse panorama, resta evidente que esta instância julgadora não é o fórum apropriado para decidir sobre o andamento/suspensão de Representações Fiscais para Fins Penais. No âmbito deste E. Conselho, ainda, destaquese o enunciado da Súmula CARF nº. 28: Fl. 9361DF CARF MF 30 O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais. Assim, este relator e os demais conselheiros estão vedados a adentrar em eventuais discussões e/ou controvérsias referentes ao Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais. Todavia, não estamos impedidos de adentrar nas discussões acerca dos fatos e alegações presentes nos autos de infração, em especial, no Relatório Fiscal de fls. 36/63. E, no referido relatório, é possível afirmar que não há a imputação, tampouco a menção, de qualquer conduta criminosa ou fraudulenta da recorrente, bem como de quaisquer dos seus responsáveis. Como bem colocado pela decisão de 1ª instância, tem o ARFB responsável pelo lançamento, o dever funcional, plenamente vinculado, de proceder a formalização sempre que indicar atos ou fatos que, em tese, configurem crime contra a ordem tributária ou contra a Previdência Social. O crime mencionado pelo AFRFB (art. 337A, inciso III, do DecretoLei nº. 2.848/40 Código Penal) seria "omitir, total ou parcialmente, receitas ou lucros auferidos, remunerações pagas ou creditadas e demais fatos geradores de contribuições sociais previdenciárias". De fato, as razões intrínsecas à Representação Fiscal para Fins Penais serão discutidas em âmbito próprio e, por força do entendimento deste Conselho, não podem aqui ser discutidas. Porém, necessário se faz destacar que nos Autos de Infração objetos do presente recurso voluntário, em especial no Relatório Fiscal de fls. 36/63, não estão especificadas condutas de agentes da empresa recorrente que, minimamente, denotem a prática de delitos penais que não sejam, única e exclusivamente, a ausência de recolhimento de tributos por divergência de interpretação da lei tributária entre o AFRFB e a própria recorrente, especialmente quanto ao pagamento de valores relativos à Participação nos Lucros e Resultados da recorrente. Mérito d) Das contribuições previdenciárias incidentes sobre a PLR e os requisitos da Lei nº. 10.101/2000 A discussão central do mérito do presente processo administrativo é o pagamento pela empresa recorrente de participação nos lucros a seus empregados e diretores. Enquanto a contribuinte alega que realizou tais pagamentos dentro dos ditames legais, respeitando as regras e requisitos constitucionais e infralegais, no entender da autoridade fiscal tais regras não foram respeitadas e, por isso, referidos pagamentos deveriam se sujeitar à incidência das contribuições previdenciárias. O pagamento de PLR e suas repercussões tributárias estão previstos na Constituição Federal, art. 7º, inciso XI, Lei nº. 8.212/91, art. 28, § 9º, alínea “j” e Lei nº. 10.101/00: Constituição Federal: Fl. 9362DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.348 31 Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XI participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; Lei nº. 8.212/91: Art. 28. (...) (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) (...) j) a participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; Lei nº. 10.101/00: Art. 1o Esta Lei regula a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa como instrumento de integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7o, inciso XI, da Constituição. Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; (Redação dada pela Lei nº 12.832, de 2013) (Produção de efeito) II convenção ou acordo coletivo. § 1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; Fl. 9363DF CARF MF 32 II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. § 2o O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores. (...) Art. 3o A participação de que trata o art. 2o não substitui ou complementa a remuneração devida a qualquer empregado, nem constitui base de incidência de qualquer encargo trabalhista, não se lhe aplicando o princípio da habitualidade. § 1o Para efeito de apuração do lucro real, a pessoa jurídica poderá deduzir como despesa operacional as participações atribuídas aos empregados nos lucros ou resultados, nos termos da presente Lei, dentro do próprio exercício de sua constituição. § 2o É vedado o pagamento de qualquer antecipação ou distribuição de valores a título de participação nos lucros ou resultados da empresa em mais de 2 (duas) vezes no mesmo ano civil e em periodicidade inferior a 1 (um) trimestre civil. (Redação dada pela Lei nº 12.832, de 2013) (Produção de efeito) § 3o Todos os pagamentos efetuados em decorrência de planos de participação nos lucros ou resultados, mantidos espontaneamente pela empresa, poderão ser compensados com as obrigações decorrentes de acordos ou convenções coletivas de trabalho atinentes à participação nos lucros ou resultados. Primeiramente, entendo que deve ser afastada a alegação da recorrente de que a previsão constitucional do art. 7º, XI, por si só, configura imunidade à participação nos lucros e resultados percebidos pelos trabalhadores e, consequentemente, seria ilegal as estipulações impostas para fins de evitar a incidência tributária (entendase Lei nº. 10.101/00). Como se vê do próprio texto constitucional, este atribuiu à legislação infraconstitucional a regulação sobre a definição do pagamento sobre lucros ou resultados. Esta é, inclusive, a própria conclusão de acórdão mencionado pela recorrente em sede de recurso voluntário (Acórdão nº. 2401003.112): A Participação nos Lucros e Resultados PLR concedida pela empresa aos seus funcionários como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7º, inciso XI, da CF, mormente por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho, conquanto que observados os requisitos legais inscritos na Lei nº 10.101/2000. (grifo nosso) Assim, entendo que a interpretação a ser empregada deve conjugar os dispositivos acima elencados, entendendose o comando constitucional que, é, sim, imunidade, como pacificamente reconhecido pela doutrina, o que todavia não significa deixar de reconhecer e atender aos requisitos da legislação infraconstitucional, que o regulam, interpretandoos em conjunto com a disposição e a intenção do constituinte. Pois bem. Fl. 9364DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.349 33 Assim, passamos a analisar os pagamentos realizados pela recorrente a título de PLR que, de acordo com a fiscalização, deixaram de cumprir determinados requisitos legais e, assim, sofreram a incidência das contribuições previdenciárias. Utilizaremos a mesma didática apresentada no Relatório Fiscal de fls. 36/63. d.1) PME PLANO DE METAS POR EQUIPE RUBRICA 894 LEVANTAMENTO PL PART LUCRO/RESUL; PME PLANO DE METAS POR EQUIPE RUBRICA 886 PERÍODO 200701 A 200808; BÔNUS PLR RUBRICA 1578 PERÍODO 200703 A 200812 LEVANTAMENTO: BP E BP2 BONUS PLR EMPREGADOS E BA BONUS PLR ADMINISTRADORES Nos termos do relatório fiscal, o lançamento se dá pela seguinte didática: E pelos seguintes fundamentos: Fl. 9365DF CARF MF 34 Assim, analiso os fundamentos da acusação fiscal. d.1.1.) Da ausência de estipulação de metas nos acordos coletivos Todas as cláusulas fazem menção ao PME – Plano de Metas por Equipe. E vejamos o que dispõe a Lei nº. 10.101/00 que, segundo o AFRFB, teria sido violada: Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria: II convenção ou acordo coletivo. § 1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. § 2o O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores. (grifos nossos) Não há dúvidas que, no corpo dos instrumentos de Acordo de Convenção Coletiva não constam todas as regras de medição, aferição e pagamento de PLR. Mas a primeira pergunta que deve ser respondida é a seguinte: a lei exige que tais regras constem, expressa e detalhadamente, no Acordo Coletivo? A resposta que nos parece óbvia é a de que não. Vejase que a redação do parágrafo primeiro é bastante clara, inclusive: “dos instrumentos decorrentes da Fl. 9366DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.350 35 negociação...” e, como percebido pelo próprio AFRFB, as cláusulas acima mencionadas fazem expressa menção ao “PME – PLANO DE METAS POR EQUIPES”. A necessidade (ou não) de estipulação no próprio acordo ou convenção coletiva de todas as regras e cláusulas para aferição e pagamento de PLR não é matéria nova neste e. Conselho e, é a mesma ora oferecida. Vejamos conclusão exarada pela então Relatora Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira (Acórdão nº. 2401003.487): As metas ou critérios tem que ser negociados quando da realização dos acordos, conforme descrito expressamente na lei, não interessando se feitos no próprio documento, ou em documento apartado, mas desde q ue cumprase o mesmo rito para sua formalização, que é a participação dos trabalhadores na composição desses critérios. Ora, resta inconteste que os programas de metas (PME e PLRGDP) foram disponibilizados pela recorrente à fiscalização. Assim, não nos parece crível, tampouco razoável exigir que as metas dos planos de metas da recorrente, e de qualquer outro contribuinte, constem expressa e detalhadamente no Acordo Coletivo de Trabalho. Ora, no presente caso, tratase de pessoa jurídica com centenas (ou milhares) de funcionários, com dezenas (ou centenas) de setores operacionais e administrativos, sendo absolutamente ilógico se exigir que tais metas estejam expressas no acordo do Acordo Coletivo de Trabalho. Ademais, destacase, este também não é o comando da Lei nº. 10.101/00, que exige que as metas sejam de conhecimento prévio dos trabalhadores e posteriormente divulgadas a estes, que incentivem a sua produtividade e existam mecanismos de aferição de resultados. Ora, para que tais objetivos sejam atingidos, tem que estar expressamente contidos no ACT? O fato de constarem em programas próprio, mantidos pela empresa e que sejam exteriorizados aos funcionários, posto que com eles discutidos e a eles divulgados, desnatura a verba paga a título de PLR? Dar aos dispositivos da Lei nº. 10.101/00 a interpretação absolutamente restritiva, bem como descolada da realidade dos fatos e do mercado de trabalho, é simplesmente querer criar mecanismos de inviabilizar o pagamento de participação nos lucros para o fim de se exigir a contribuição previdenciária incidente sobre tais, como se salários fossem. Porém, não foi esta a intenção do constituinte e do legislador infraconstitucional. Este E. Conselho em outras oportunidades já enfrentou a questão e assim decidiu, em casos julgados e decididos por voto da maioria, e não de qualidade, de onde deve ser extraída a essência da jurisprudência desta casa, qual seja, pelas razões de decidir e não pelos seus simples resultados: Mais a mais, a maioria dos Acordos e/ou Convenções Coletivas são elaboradas por Sindicados das respectivas categorias de maneira ampla, o que não impede as empresas participantes de melhor aclarar o regramento geral prestabelecido levando em consideração suas especificidades, conquanto que não contrarie os termos do Acordo. Fl. 9367DF CARF MF 36 Em outras palavras, a partir de um Acordo e/ou COnvenção Coletiva contemplando o Programa de PLR de modo geral para determinada categoria, poderão as empresas interessadas se aprofundar nas condições a serem cumpridas por seus funcionários para o recebimento de tal verba, admitindo com mais especificidades as peculiaridades de cada uma, conquanto que tais diretrizes, igualmente, sejam de conhecimento de todos os funcionários, com o fito de lhes conferir a devida segurança de que receberão sua participação nas hipóteses de atingimento das metas/objetivos estabelecidos. (CARF, Acórdão nº. 9202 003.105 2ª Turma CSRF, 25/03/2014) No mesmo sentido, quanto à interpretação da Lei nº. 10.101/00, em acórdão unânime: A desdúvida, temos que a participação nos lucros é um direito do trabalhador, e com esse viés constitucional a norma deve ser interpretada, pois não se pode dar sentido à norma protetora de modo a lhe conferir caráter penalizador, pois esta não é a previsão Constitucional, pelo contrário. Caso assim fosse, perderia seu sentido. (CARF, Acórdão nº. 2803002.552, 3ª Turma Especial da 2ª Seção, 18/07/2013) A questão que precisa ser respondida é: O FATO DAS REGRAS NÃO CONSTAREM EXPRESSA E DETALHADAMENTE NO ACORDO COLETIVO DE TRABALHO IMPLICA EM DESCUMPRIMENTO DE REQUISITOS DA LEI Nº. 10.101/00? No caso presente, haja vista a existência de programas de aferição de metas e resultados (como reconhecido pelo AFRFB), a resposta é NÃO, devendo este fundamento (ausência de menção expressa das regras no ACT) ser afastado para o fim de descaracterização do pagamento a título de PLR nas rubricas ora em análise. Assim, no tocante as rubricas ora em análise, o argumento de ausência de estipulação de metas nos Acordos Coletivos deve ser afastado, ante as razões acima expostas. d.1.2.) Da assinatura dos acordos coletivos em períodos próximos ou posteriores aos pagamentos O fundamento para desconsideração dos pagamentos a título de PLR se deu (somado aos demais) pelo fato de os acordos coletivos assinados se referirem ao pagamento de lucros ou resultados a períodos anteriores a assinatura ou muito próximos as datas desta. Todavia, em complementação a fundamentação apresentada no tópico acima, entendo que tal fato não deve implicar, por si só, a descaracterização do pagamento dos lucros ou resultados. Explico. Se as metas, regras, mecanismos de aferição e demais características dos planos para pagamento da PLR não necessitam estar expressamente contidos no Acordo Coletivo de Trabalho, por qual razão exigir que o referido acordo seja pactuado previamente? Importante destacar que, o que deve ser buscado é se, e somente se, as pessoas sujeitas aos pagamentos de PLR tinham o conhecimento das regras dos referidos programas. Eis o que dispõe a própria Lei nº. 10.101/00: Fl. 9368DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.351 37 Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: [...] § 1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. (grifamos) Ora, a própria lei estabelece que os programas de metas, resultados e seus prazos podem ser "pactuados previamente". Mais uma vez, precisase interpretar os fatos buscandose a sua realidade e a real intenção do legislador, constitucional e infraconstitucional. Portanto, o que deve ser analisado nos pagamentos das referidas rubricas é o seguinte: OS PAGAMENTOS REALIZADOS FORAM FEITOS À MARGEM DO CONHECIMENTO DOS SEUS BENEFICIÁRIOS ACERCA DA EXISTÊNCIA DE MECANISMOS E/OU AFERIÇÃO DE METAS, SEM A EXISTÊNCIAS DE REGRAS E A SUA DIVULGAÇÃO? Ao que nos parece, não. Tampouco o AFRFB aprofundouse nessa verificação. Como se viu dos fatos acima, o fato para a desconsideração foi a análise objetiva da data dos pagamentos e a data da assinatura dos acordos coletivos. Assim já decidiu a 2ª Turma da 4ª Câmara da 2ª Seção deste Conselho, por maioria de votos (4x2) acerca deste ponto específico: PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS (PLR). Uma vez comprovado que os segurados tinham prévio conhecimento das metas e demais requisitos para o benefício, ainda que a assinatura do acordo seja posterior ao exercício de apuração, entendese cumprida e superada a exigência legal. Assim, sendo o fundamento do auto de infração a assinatura dos acordos coletivos em períodos posteriores aos a que se refiriam os pagamentos, o fato de toda a documentação costada ao processo administrativo fiscal (fls. 1967 e seguintes) demonstrarem, inequivocamente, que desde o início do ano de 2007 estavam firmados os planos de metas, métodos d avaliação, divulgação de resultados etc, atestam que este requisito (conhecimento e negociação pelos empregados) estava atendido para este período. Fl. 9369DF CARF MF 38 Portanto, afastando o referido fundamento (data da assinatura do Acordo Coletivo) para os lançamentos referentes às competências dos anoscalendários 2007 e 2008, que são os que tiveram provas apresentadas no presente processo (fls. 1967 e ss.). d.1.3.) Do lançamento sobre as verbas pagas a título de PLR aos diretores A fiscalização apresenta, para o lançamento sobre o PLR ofertados aos diretores não empregados da empresa, os mesmos fatos e argumentos das demais rubricas, sem adentrar no mérito de que os diretores, por disposições da Lei nº. 10.101/00 não se aplicariam aos diretores, por não revestirem a natureza de "empregados". Vejase: Contudo, os recorrentes apresentam os seus argumentos adentrando especificamente ao mérito da matéria, razão pela qual passo a tecer as razões a seguir. A recorrente defende que inúmeras decisões administrativas corroboram com a possibilidade de pagamento da PLR aos diretores não empregados na forma da Lei nº. 10.101/00, assim, apurava os valores pelo Plano de Gestão e detinha como limitador e autorizados para pagamento os limites da Lei nº. 6.404/76, sempre com anuência dos seus acionistas. Tratase de matéria deveras já apreciada no presente Conselho, com jurisprudência em ambos os sentidos. Nesse caso, tendo em vista o rigor técnico e a clareza da fundamentação utilizada pela Conselheira Ana Paula Fernandes, em declaração de voto proferida no acórdão nº. 9202004.261, de 23 de junho de 2016, na 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, cujo entendimento restou vencido por voto de qualidade, reproduzo e utilizo como razões de decidir: "A base normativa das contribuições previdenciárias, além do art. 195, I, “a” da Constituição, é a Lei nº 8212/91. Esta, até pela delimitação expressa da Lei Maior, limita a tributação previdenciária a rendimentos do trabalho, somente1. Tanto histórica como normativamente, a contribuição previdenciária é delimitada a rendimentos do trabalho, tendo em vista o objetivo das prestações previdenciárias em substituir rendimentos habituais do trabalhador, os quais, por regra, são derivados da atividade laboral. Ou seja, a legislação vigente, de forma muito clara, delimita a incidência previdenciária, em qualquer hipótese, a rendimentos do trabalho. A dicotomia entre rendimentos do trabalho e capital, de forma alguma, é tema inédito. Desde Adam Smith, é consensual que o salário decorre do trabalho, enquanto o lucro retrata o rendimento do capital investido pelo empresário. Mesmo na atualidade os economistas contemporâneos, ainda que Fl. 9370DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.352 39 eventualmente críticos às premissas e conseqüências do sistema capitalista, não argúem qualquer contrariedade a esta clássica concepção3. É também intuitivo, mesmo para o público leigo, que um conceito não se confunde com o outro. É natural e facilmente perceptível que o trabalho, de modo algum, possui liame imediato com o lucro. Não são incomuns as situações de empresários que, mesmo após longa dedicação ao seu mister, não alcançam qualquer proveito econômico e, não raramente, ainda observam relevante perda patrimonial. Já para trabalhadores, com ou sem vínculo empregatício, o rendimento do trabalho é assegurado pela lei, pois não cabe a eles o risco da atividade econômica, o qual, por natural, é assumido pelo empresário. Seus rendimentos traduzem mera contraprestação pela atividade profissional desempenhada. Por fim, a distinção encontra espaço, também, no direito positivo brasileiro, por meio do art. 43 do Código Tributário Nacional, o qual dispõe: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção” (grifei) Como se nota do art. 43, I do CTN, renda tributável, para fins do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza, é aquela decorrente do produto do capital e/ou trabalho. Ou seja, se há incremento patrimonial – e este é o aspecto nuclear do imposto sobre a renda – proveniente de lucros da atividade econômica pelo empresário ou, cumulativamente, das retribuições pecuniárias pelos seus serviços, há, em qualquer hipótese, renda tributável. A base de incidência do imposto de renda é mais ampla que os rendimentos do trabalho. Incluemse proventos de capital e trabalho. Ambos configuram renda. A dicção legal é clara e não deixa qualquer dúvida sobre a separação necessária entre os conceitos. Igualmente transparente que a Constituição de 1988, mesmo após a EC nº 20/98, optou por tributar, para fins previdenciários, somente os rendimentos do trabalho. Aqui, enfim, são extraíveis duas conclusões importantes. Primeiro, existe uma distinção relevante, reconhecida ontológica e normativamente, entre rendimentos do trabalho e do capital. Fl. 9371DF CARF MF 40 Segundo, tal distinção, ainda que irrelevante para o imposto de renda, tendo em vista seu foco na majoração do patrimônio do contribuinte (renda líquida), é fundamental para a contribuição previdenciária patronal, restrita, por mandamento constitucional e legal expresso, a rendimentos do trabalho, somente. Ignorar tal previsão traz como conseqüência o grave equivoco da tributação previdenciária sobre lucros e resultados a administradores não empregados. Ao contrário do imposto sobre a renda, a incidência previdenciária é circunscrita aos rendimentos do trabalho, unicamente. A disposição é categórica e cristalina. Ainda que permita a inclusão de trabalhadores sem vínculo empregatício, somente valores derivados do trabalho podem sofrer a respectiva tributação. Como não poderia ser diferente, caminha no mesmo sentido a regulamentação infraconstitucional da matéria, em estrita observância do mandamento constitucional. III. A IMPOSSIBILIDADE DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PATRONAL DE ACORDO COM A LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA E A LEI Nº 6.404/76 Após o advento da Emenda Constitucional nº 20/98, ao ampliar as possibilidades de incidência da cota patronal previdenciária, a correspondente adequação legal veio com a Lei nº 9.876/99, ao dar nova redação ao art. 22, I da Lei nº 8.212/91, responsável pela previsão da cota patronal previdenciária: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa. (grifei). Como se nota – e não poderia ser diferente – o legislador ordinário, em perfeita adequação ao novo mandamento constitucional, alargou a incidência da cota patronal previdenciária, como era desejado desde a Lei nº 7.787/89, mas desta vez, com a competência tributária prévia devidamente estabelecida. No entanto, como se percebe do preceito reproduzido, a incidência é, ainda, restrita aos rendimentos do trabalho. Dito de outra forma, ampliase a base de incidência da cota patronal não por incluir valores outros além dos rendimentos do trabalho, mas, unicamente, pela inserção de remunerações Fl. 9372DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.353 41 pagas ou devidas a outros segurados, além de empregados. Este sempre foi o real objetivo da alteração constitucional, aqui devidamente conquistado. Novamente, não há qualquer previsão na Lei nº 8.212/91 que albergue a incidência de contribuições previdenciárias sobre os lucros e resultados de diretores não empregados. Não é de imposto de renda que se trata, mas sim de contribuição previdenciária. Neste ponto, merece referência a Lei nº 8.212⁄ 91, no art. 28, III, a qual prevê, como saláriodecontribuição de contribuintes individuais, a remuneração auferida em uma ou mais empresas ou pelo exercício de sua atividade por conta própria. O pagamento de lucros e resultados, como visto, não reflete remuneração, pois não se trata de rendimento do trabalho. Aqui, não há inclusão de tais valores na base previdenciária, seja do segurado ou da empresa. Como reconhece o próprio Regulamento da Previdência Social RPS, no art. 201, § 5º, somente na hipótese de ausência de discriminação entre a remuneração do capital e do trabalho, na precisa dicção do RPS, é que haverá a potencial incidência sobre o total pago ou creditado ao contribuinte individual, haja vista a comprovada fraude. O Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, em sintonia com a Constituição e a Lei nº 8.212/91, no art. 201, § 5º, expressamente reconhece a dualidade entre rendimentos do capital e trabalho, especialmente quando voltados a segurados contribuintes individuais: Art. 201. A contribuição a cargo da empresa, destinada à seguridade social, é de: (...) § 5º No caso de sociedade civil de prestação de serviços profissionais relativos ao exercício de profissões legalmente regulamentadas, a contribuição da empresa referente aos segurados a que se referem as alíneas "g" a "i" do inciso V do art. 9º, observado o disposto no art. 225 e legislação específica, será de vinte por cento sobre: I a remuneração paga ou creditada aos sócios em decorrência de seu trabalho, de acordo com a escrituração contábil da empresa; ou II os valores totais pagos ou creditados aos sócios, ainda que a título de antecipação de lucro da pessoa jurídica, quando não houver discriminação entre a remuneração decorrente do trabalho e a proveniente do capital social ou tratarse de adiantamento de resultado ainda não apurado por meio de demonstração de resultado do exercício. (grifei) Apesar de tratarse, em regulamento, de tema específico da tributação de sócios administradores de sociedades civis, os Fl. 9373DF CARF MF 42 quais, não raramente, camuflam suas remunerações por meio de lucros arbitrados e desprovidos de suporte contábil, há importante reconhecimento, ainda que implícito, da ausência de tributação dos rendimentos derivados do capital. Também incabível arguir que o tratamento dado a sócios administradores de sociedades prestadoras de serviço não possam, como exposto no art. 201, § 5º do RPS, aplicarse a administradores não empregados de sociedades anônimas. Esta distinção não existe na legislação previdenciária4. Desde o advento da Lei nº 9.876/99, ao criar o segurado contribuinte individual, mediante a unificação das categorias autônomo, equiparado a autônomo e empresário, notase a rígida adequação de tais segurados ao mesmo regramento. Este aspecto consta, expressamente, da exposição de motivos do Projeto de Lei nº 1.527/99, que resultou na Lei nº 9.876/995. A previsão é, em certa medida, desnecessária, tendo em vista a falta de suporte constitucional para sua tributação. De toda forma, sua inclusão em regulamento, externando a interpretação da própria Administração, reflete relevante fundamento para o adequado tratamento previdenciário aos valores de lucros e resultados pagos a administradores. A ideia geral é no sentido de que contribuintes individuais somente terão a respectiva incidência previdenciária sobre os valores que visarem retribuir o trabalho, e nunca o capital. Em resumo, estamos diante de uma não incidência. 4 Também importa notar o art. 152 da Lei nº 6.404/76, ao estabelecer que eventual distribuição de valores derivados do trabalho ou capital é atribuição da Assembléia Geral, nas regras internamente estabelecidas. A inaplicabilidade da Lei nº 10.101/00 ao caso, tendo em vista também a existência regramento mais específico, não implica a admissão, na base previdenciária, de valores completamente desvinculados do rendimento do trabalho. Como se disse, adota o fisco federal uma premissa correta para alcançar uma conclusão errada. Os rendimentos pagos a administradores não empregados, nos termos da Lei nº 6.404/76, em posição oposta aos valores pagos a empregados, não possuem correlação necessária com o trabalho, não possuindo, portanto a mesma natureza contraprestacional que o salário. Em razão disto, para empregados, seria necessária a lei qualificando e delimitando os valores desprovidos de natureza salarial, dentro de um quadro normativo rigoroso. Para administradores, como a regra é diversa, a necessidade de legislação especifica perde o sentido. Neste sentido, merece referência a Instrução CVM nº 480, de 7 de dezembro de 2009. A mesma, ao dispor sobre a retribuição pecuniária a administradores, expressamente prevê, em extensa regulamentação, a necessária apresentação de indicadores de desempenho, composição com eventos societários diversos, como alienação de controle acionário, apólices de seguros, e até mesmo o pagamento em ações (item 13). Enfim, o art. 152 da Lei nº 6.404/76, ao pretender acabar com a tradição até então existente de pagamentos meramente simbólicos a administradores, em momento algum pretendeu convertêlos em verbas salariais. A própria suspensão do contrato de emprego, Fl. 9374DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.354 43 nas hipóteses de promoção de empregado à diretoria, já denota a natureza diversa da relação jurídica estabelecida e, por conseqüência, dos valores recebidos. Pouco referido, mas igualmente importante, como forma de evidenciar a ausência de natureza salarial de valores pagos a administradores não empregados, é a regulamentação da matéria na Lei de Falências (Lei nº 11.101/05). A citada lei, no art. 83, prevê a prioridade dos créditos trabalhistas no processo de falência, limitados a 150 salários mínimos (inciso I). Já os créditos devidos de sócios e administradores, no extremo oposto da lista, são qualificados como créditos subordinados (inciso VIII). Ora, se os valores devidos a administradores são dotados de natureza salarial, como deseja a fiscalização federal, como poderiam não possuir o mesmo privilégio que os valores devidos a empregados, nos limites previstos na Lei nº 11.101/05? Não poderia a lei prever uma igualdade de natureza jurídica para fins tributários e outra para fins trabalhistas e falimentares. Sob qualquer perspectiva, a premissa fiscal não se sustenta. Nesse sentido, inclusive o professor Fábio Zambitte se manifestou recentemente em artigo publicado no Portal Jurídico Migalhas: "Não obstante o cenário negativo nas jurisprudências judicial e administrativa, tenho convicção que a cobrança da cota patronal previdenciária sobre os valores pagos a diretores não empregados não encontra suporte tanto na Constituição como na legislação vigente, externando incongruências irreconciliáveis com a própria regulamentação administrativa da matéria. O tema ainda sofre com as compreensões equivocadas sobre base tributável previdenciária, não raramente tentando igualar as dinâmicas impositivas do imposto de renda e da cota patronal previdenciária. Tal premissa, além de contrária a todos os preceitos normativos vigentes, ainda ignora o papel do sistema protetivo como substituidor de rendimentos habituais, responsáveis pela manutenção do segurado e sua família. A tentativa de alargamento forçado da base previdenciária, mais do que uma preocupação abstrata com a correta aplicação das regras legais e constitucionais de competência tributária, traduz uma arbitrariedade fiscal com foco exclusivo no aumento de receitas para um sistema atuarialmente desequilibrado. Sem embargo, insisto que, como reconhece a própria regulamentação administrativa, se um contribuinte individual, sócio administrador de sociedade limitada, pode receber valores derivados do capital – lucro – sem a consequente tributação e independente da submissão aos ditames da Lei nº 10.101/00, o mesmo valerá para qualquer contribuinte individual, o que inclui diretores não empregados de sociedades anônimas". Fl. 9375DF CARF MF 44 Por todo o exposto, dou provimento ao recurso do contribuinte para fins de reformar o acórdão recorrido, devendo ser cancelados os autos de infração, pois não há juridicamente como se falar em contribuição previdenciária dos valores pagos pela recorrente a título de PLR aos diretores estatutários, nos termos do artigo 152, § 1 da Lei 6404/76, tendo em vista expressa norma de isenção instituída pela alinea "j", §9, do artigo 28 da Lei 8212/91." Assim, com base nas razões acima reproduzidas, por entender cabível a incidência da contribuição previdenciária incidente sobre o pagamento de PLR a diretores não empregados, afasto o lançamento sobre a rubrica objeto de análise no presente subtópico. e) Da alegação de nulidade por quantificação equivocada do crédito tributário Os recorrentes alegam que trouxeram ao presente processo administrativo fiscal laudo pericial que demonstraria divergências na base de cálculo das contribuições previdenciárias e as contribuições de terceiros levantadas pela autoridade fiscal. Assim, ainda que apontadas divergências nas bases de cálculo das competências albergadas pelo lançamento, não se faz necessária a realização de nova diligência, como requerido pelas recorrentes. Ainda que o referido perito tenha apontado tais divergência, não vislumbro a incorreção inequívoca do lançamento comprovada mediante o laudo pericial, tampouco que não tenha sido apreciada pela fiscalização quando da primeira diligência realizada. Isto posto, afasto a referida alegação de mérito acerca de eventual nulidade do crédito tributário lançado e necessidade de nova diligência. f) Do equívoco da fiscalização na correta utilização da alíquota SAT Alega que possui decisão judicial, transitada em julgada, nos autos de Mandado de Segurança nº. 1997.38.00043120 (fls. 2248 e ss.), onde lhe foi concedido o direito de apurar a alíquota RAT/SAT de acordo com o grau de risco avaliado em cada estabelecimento da empresa. De fato, a recorrente traz ao presente processo administrativo fiscal (docs. 167 e 17 da impugnação fls. 2248 e ss.) a cópia da petição inicial e do acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça que lhe conferem o direito ao recolhimento na sistemática pleiteada. No presente caso, tal método não foi observado pelo AFRFB na realização do lançamento ora em análise, haja vista, é verdade, o fato de que, pelo que se observa dos autos, tal informação não foi repassada pela então fiscalizada ao AFRFB. Por esse motivo, entendo incabível a nulidade do lançamento, todavia, entendo que, independente da conclusão deste colegiado quanto aos demais tópicos do lançamento, além da majoração ou não da cobrança adicional em virtude dos riscos ocupacionais do trabalho, deverá a autoridade preparadora observar o decisum dos autos de Mandado de Segurança nº. 1997.38.00043120 e aplicar a alíquota RAT/SAT nos termos que lá estabelecido. Fl. 9376DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.355 45 Isto posto, no presente tópico, dou parcial provimento ao recurso voluntário para o fim de que seja aplicada a alíquota SAT/RAT a cada um dos estabelecimentos da recorrente (principal) e suas filiais, nos termos da decisão judicial transitada em julgado que lhe acoberta, sendo a alíquota a ser aplicada aquela já indicada pela própria contribuinte nas suas GFIPs transmitidas nos períodos compreendidos nas competências do presente lançamento. e) Dos riscos ocupacionais. Cobrança do adicional previsto no art. 57 da Lei nº. 8.213/91 São exigidos no presente lançamento contribuições a cargo da empresa, destinadas à Seguridade Social para financiamento do benefício previsto nos artigos 57 e 58 da Lei nº. 8.213/91, sobre os pagamentos aos segurados empregados cujos ambientes de trabalho os sujeitam à exposição a agentes nocivos. Em que pese ter restado vencido na preliminar apresentada de necessidade de realização de perícia para a verificação do lançamento quanto à verificação ou não de agentes nocivos nos estabelecimentos da recorrente, passo a analisar o mérito do referido ponto do lançamento. Destaco que, em virtude da ausência de realização in loco, que considero imprescindível, teremos aqui simplesmente a seguinte análise: documentos apresentados pela contribuinte que ensejaram o lançamento versus documentos apresentados pela contribuinte que combatem o lançamento. Nos termos do AFRFB, eis os fundamentos para o lançamento: Fl. 9377DF CARF MF 46 Ainda, afirma que o controle trouxe dúvidas quanto ao fornecimento dos EPIs pela empresa e respectivo recebimento pelos empregados, pois não consta a data efetiva do recebimento e qual o EPI recebido. Alega inexistir controle com a data de troca e quais os EPIs foram entregues aos empregados. e que não há comprovação de quais os certificados de aprovação CA do Ministério do Trabalho dos EPIs utilizados na empresa. Especificamente quanto ao agente de risco calor, alega que a empresa confirma a existência deste acima do limite de tolerância e este agente não possui EPI autorizado pelo MTE. Também, o fato de existir número excessivo de exames alterados no relatório anual do PCMSO indica a exposição dos seus empregados aos agentes nocivos. Como se vê, embora pareça uma discussão fática, de análise pormenorizada do ambiente de trabalho da empresa recorrente (principal), na verdade tratase de questão conceitual, ante a simples análise de documentos acostados pela própria empresa. Importante destacar o fundamento legal que enseja a autuação: Art. 57. A aposentadoria especial será devida, uma vez cumprida a carência exigida nesta Lei, ao segurado que tiver trabalhado sujeito a condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física, durante 15 (quinze), 20 (vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos, conforme dispuser a lei. Fl. 9378DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.356 47 § 3º A concessão da aposentadoria especial dependerá de comprovação pelo segurado, perante o Instituto Nacional do Seguro Social–INSS, do tempo de trabalho permanente, não ocasional nem intermitente, em condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física, durante o período mínimo fixado. § 4º O segurado deverá comprovar, além do tempo de trabalho, exposição aos agentes nocivos químicos, físicos, biológicos ou associação de agentes prejudiciais à saúde ou à integridade física, pelo período equivalente ao exigido para a concessão do benefício. Art. 58. A relação dos agentes nocivos químicos, físicos e biológicos ou associação de agentes prejudiciais à saúde ou à integridade física considerados para fins de concessão da aposentadoria especial de que trata o artigo anterior será definida pelo Poder Executivo. Ora, a questão que precisa ser atestada é a seguinte: há a comprovação de que empregados da recorrente se sujeitam à tempo de trabalho permanente, em condições especiais que prejudiquem a sua saúde ou integridade física? Há, ainda, comprovação de exposição a agentes nocivos químicos, físicos, biológicos ou associação ed agentes prejudiciais à saúde ou á integridade física? Da análise do Relatório Fiscal, em confronto com a documentação apresentada pelo contribuinte (fls. 22908977), não é possível atestar, inequivocamente, de que os empregados da contribuinte recorrente se sujeitam a esses agentes, nos termos acima expostos, sem que recebam por parte do seu empregador as medidas protetivas e atenuantes dessas exposição sofridas. O conjunto probatório da Recorrente é robusto, contra o único documento utilizado pela fiscalização ("PLANILHA RECEITA FEDERAL VERSÃO FINAL") fornecido pela então fiscalizada, vejase (exemplificativamente): a) Nova planilha com retificação das informações contidas na planilha utilizada pelo AFRFB (Doc. 18 da impugnação fls. 2290 e ss.); b) fornecimento dos EPIs; c) Medições de ácido fluorídrico, que atestam estar dentro da tolerância; d) Medições quanto ao agente ácido cluorídrico; e) Medições quanto ao agente "poeira de manganês" e "poeira total" (doc. 19 da impugnação fls. 22908977); f) Programa PPR Programa de Proteção Respiratória (doc. 20 da impugnação); g) Amostragens quanto aos agentes "poeira/fumos metálicos" e "poeiras metálicas de cromo", Fl. 9379DF CARF MF 48 f) amostragens quantos aos agentes tolueno e xileno (doc. 18 da impugnação); g) EPIs específicos aos agentes óleos minerais, graxas/óleos e solventes, nos docs. 21 e 22 da impugnação); h) relação dos funcionários expostos ao agente calor de forma meramente intermitente (doc. 23 da impugnação), além de melhorias para amenização do referido agente (doc. 24 da impugnação proteção e melhorias nos postos de trabalho sujeitos a sobrecarga térmica); i) treinamento de empregados para o uso de EPIs e relatórios do Sistema SAIA (docs. 27, 28 e 29 da impugnação), que trata de auditoria acerca do adequado uso e manutenção dos EPIs. Ora, nos parece que a questão precisa ser julgada, invariavelmente, albergada pelos princípios da razoabilidade e da verdade material. Como confrontar um lançamento, baseado em meras informações contidas numa planilha apresentada pelo contribuinte, com o robusto conjunto probatório apresentado pelo contribuinte? Destaco o art. 142 do Código Tributário Nacional: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. No presente caso, das duas uma: a) ou a fiscalização confronta a planilha apresentada pela recorrente (retificada) com toda a documentação apresentada que vise a atenuação da exposição dos agentes aos riscos; b) ou se realiza uma pesquisa in loco (deveria ter feito à época) a fim de atestar se eventuais informações contidas em planilhas são, de fato, verificadas, ou são meramente exposições eventuais e atenuadas por medidas de proteção. Ressaltese que a alegar que o relatório de entrega de EPIs solicitados, contém meras imprecisões ou, mesmo, não atendem a requisitos exigidos em normas técnicas de períodos posteriores ao abrangido pela autuação fiscal (Norma Regulamentadora nº. 6). Destacase ainda depoimentos de empregados em acções trabalhistas acerca da existência de medidas protetivas (EPIs) e fornecimento e controle destes pela empresa (docs. 35 e 36 da impugnação) Portanto, o conjunto probatório apresentado na peça fiscal acusatória no presente processo administrativo fiscal, não se faz suficiente para atestar, em vista do princípio da verdade material, a inequívoca exposição de todos os empregados da recorrente que se sujeitaram a conclusão fiscal de exposição a agentes nocivos de risco. Fl. 9380DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.357 49 Razão pela qual, ante o conteúdo probatório apresentado pelo contribuinte, entendo que merece provimento o recurso voluntário para os fins de afastar o lançamento do adicional previsto nos artigos 57 e 58 da Lei nº. 8.213/91. CONCLUSÃO Pelo exposto, conheço do recurso voluntário e, no mérito, voto por DAR PROVIMENTO. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Alexandre Tortato Fl. 9381DF CARF MF 50 Voto Vencedor Conselheiro Cleberson Alex Friess Redator Designado Peço licença ao nobre Relator para discordar do voto proferido, exclusivamente nas matérias a seguir expostas. a) Pedido de perícia Na fase recursal a recorrente reiterou o pedido de perícia, o qual havia sido indeferido em primeira instância. O Relator conclui pela necessidade da realização da perícia requerida pela autuada, a fim de que fossem analisados e respondidos os diversos quesitos formulados relacionados à exposição dos empregados a agentes nocivos e ao pagamento de participação nos lucros ou resultados. O exame pericial é um meio de prova, necessário apenas quando a elucidação de fato ou o exame de matéria demanda o auxílio de um especialista em determinado ramo específico do conhecimento. É dizer que a realização da perícia não constitui direito subjetivo do interessado. Desde que fundamentado pelo julgador, o indeferimento da perícia não é motivo suficiente para declaração de nulidade da decisão, tampouco para caracterizar o cerceamento do direito de defesa. Como destinatário final da perícia, compete ao julgador avaliar a prescindibilidade e viabilidade da produção da prova técnica para a elucidação dos fatos e/ou como instrumento de convicção para a solução da lide. Pois bem. Os esclarecimentos solicitados pela recorrente prescindem de análise pericial. Com relação aos planos de participação nos lucros ou resultados, a demonstração da inocorrência de fatos alegados pela autoridade lançadora se dá por meio de provas documentais, mediante juntada pela interessada dos acordos coletivos, programas de participação nos lucros ou resultados, planos de metas e mecanismos de aferição, das planilhas de avaliação e controle de desempenho dos trabalhadores, atas de participação formal do sindicato da categoria ou da comissão paritária nas negociações, entre outras. À primeira vista, o julgador administrativo está habilitado a apreciar a documentação relacionada às matérias controvertidas que deve ser juntada aos autos pela parte interessada, ficando dispensado o pronunciamento alheio para a apreensão de fatos, bem como para o convencimento do julgador a respeito do conjunto probatório como um todo carreado ao processo administrativo. Dessa feita, não enxergo o motivo pelo qual a comprovação das alegações da recorrente não possa ser realizada no corpo dos autos, necessitando da colaboração de um perito para elucidar as questões propostas. Fl. 9382DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.358 51 Como cediço, a perícia não é via que se destine a produzir provas de responsabilidade das partes, suprindo o encargo que lhes compete. No tocante à perícia destinada à averiguação dos riscos ambientais e das medidas protetivas adotadas pela empresa, acrescento que é incerta a própria viabilidade da prova pericial. O pedido do sujeito passivo tem por objetivo essencialmente conhecer a realidade fática no ambiente de trabalho, que abrangeu os anos de 2007 a 2008 (Anexo ANFOPAGRO FOLHA DE PAGAMENTO SEGURADOS COM RISCO OCUPACIONAL, às fls. 1.175/1.706). Quando da decisão de primeira instância, no ano de 2014, a utilidade da prova pericial já era bastante questionável, dada a probabilidade concreta de haver desaparecido, ou se modificado, as fontes de prova. Ainda mais agora em 2016, transcorridos que são quase 10 (dez) anos dos fatos contestados, não me parecendo estar presente o requisito da praticabilidade exigido para a realização do exame pericial. Ressalto, por oportuno, que a constituição do crédito tributário apoiouse em dados retirados de demonstrações ambientais fornecidas pela empresa, as quais foram elaboradas com base em trabalho "in loco", contemporâneo aos fatos geradores, realizado por profissionais habilitados em medicina e segurança do trabalho contratados pelo sujeito passivo para esse fim (item 1.5.1 do Relatório Complementar, às fls. 7.226/7.227). Por sua vez, o Laudo Pericial trazido pela empresa, acostado às fls. 6.160/6.442, embora apresente conclusões parcialmente distintas das apresentadas no Relatório Fiscal, não é contemporâneo aos fatos geradores discutidos neste processo, dado que a avaliação foi realizada no ano de 2010, o que lhe atribui menor força axiológica como elemento de prova. Cabe ainda dizer que a legislação tributária não impõe a verificação "in loco" das condições ambientais dos segurados empregados, ou mesmo a manifestação de um profissional da área de segurança ou medicina do trabalho, como requisito necessário, indispensável e prévio à constituição do crédito tributário relativo ao adicional destinado ao financiamento do benefício de aposentadoria especial. Logo, deve ser mantido o indeferimento do pedido de perícia, conforme decisão de piso, prosseguindose no exame das demais matérias de defesa contidas na peça recursal. b) Sujeição passiva solidária Concordo com o I. Relator quando afirma que a autoridade lançadora não "fez qualquer prova, tampouco apresenta argumentos que atestem a existência do grupo econômico". Por isso, escorreita a sua conclusão de afastar do polo passivo as pessoas jurídicas arroladas como responsáveis solidários, Aperam Inox Serviços Brasil Ltda, Arcelormittal Inox Brasil Tubos Ltda e Arcelormittal Bioenergia Ltda (item 11 do Relatório Fiscal, às fls. 61). Fl. 9383DF CARF MF 52 Minha objeção diz respeito tão somente ao fato de o Relator excluir a responsabilidade tributária solidária por fundamento mais amplo, inclusive exigindo a vinculação das empresas com os fatos geradores objeto de lançamento para o fim de impor a solidariedade. A responsabilidade solidária apontada pela fiscalização sustentase no inciso II do art. 124 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, que veicula o Código Tributário Nacional (CTN), c/c inciso IX do art. 30 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991: CTN Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. (...) Lei nº 8.212, de 1991 Art. 30. A arrecadação e o recolhimento das contribuições ou de outras importâncias devidas à Seguridade Social obedecem às seguintes normas (...) IX as empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações decorrentes desta Lei; (...) Em meu ponto de vista, seria suficiente a caracterização do grupo econômico formado pelas empresas, nos moldes do art. 494 da Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009. É certo, contudo, que a autoridade lançadora não fez o mínimo esforço no Relatório Fiscal para demonstrar a ocorrência da hipótese prevista em lei. c) Participação nos Lucros ou Resultados (PLR) Como bem pontuado pelo I. Relator, uma das discussões centrais de mérito no processo administrativo envolve o pagamento pela empresa de participação nos lucros ou resultados a seus segurados empregados e contribuintes individuais (diretores não empregados). Segundo a fiscalização, ao deixar de respeitar as regras e os requisitos legais estabelecidos na legislação tributária, a empresa atraiu a incidência sobre tais pagamentos das contribuições previdenciárias, assim como das contribuições reflexas devidas a terceiros. Com contraposição, a recorrente defende que a política de pagamento de remuneração variável operacionalizada pela empresa atende aos ditames constitucionais e legais e, portanto, escapa à tributação. Os documentos que instruem os autos bem demonstram a estrutura dos programas de participação nos lucros ou resultados implementados pelo sujeito passivo ao Fl. 9384DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.359 53 longo do período fiscalizado. De uma forma transparente, o recurso voluntário reforça os modelos adotados pela empresa e defende a desvinculação dos pagamentos com relação à parcela salarial devida aos trabalhadores (fls. 9.051/9.119). No que tange aos segurados empregados, o pagamento da participação nos lucros ou resultados é composto de dois modelos denominados "PME" e "GEDP": (i) O Plano de Metas por Equipe (PME) é aplicável aos empregados chamados "operacionais/administrativos", a partir da fixação e avaliação do cumprimento de metas por equipe e metas gerais (fls. 1.967/1.981). (ii) Já o Programa de Gestão de Desempenho (GEDP) está baseado em metas individuais dos empregados e metas corporativas, com aplicação aos gerentes, consultores, analistas e técnicos de nível superior especializado (fls. 2.129/2.145). (iii) Além disso, a negociação coletiva estabelece um "plus" fixo, de forma adicional aos resultados acima mencionados. Quando aos diretores não empregados, a participação nos lucros ou resultados é paga na forma de remuneração variável aferida considerando o atingimento de metas individuais e corporativas, utilizandose da mesma sistemática do Programa GEDP, a eles também voltado (fls. 2.129/2.145). No curso do procedimento fiscal, a autoridade lançadora identificou que os pagamentos realizados pela empresa em função dos programas de participação nos lucros ou resultados estavam segregados por rubricas, discriminadas nas folhas de pagamento e escrituração contábil. Por uma questão metodológica, a fiscalização optou em expor a situação concreta existente quanto às participações pagas aos segurados empregados e diretores estatutários igualmente tomando como referência as rubricas utilizadas pela empresa na sua documentação. Não significa, porém, compreender que as razões da autoridade fiscal para a constituição do crédito tributário devem ser analisadas isoladamente, deixando de lado, para fins de confronto com a disciplina da Lei nº 10.101, de 19 de dezembro de 2000, o exame integrado dos programas de participação nos lucros ou resultados. Ao detalhar a legislação tributável aplicável aos fatos jurídicos, o agente fiscal destacou que a participação nos lucros ou resultados tem por finalidade a integração entre o capital e trabalho, como incentivo à produtividade, devendo atender a vários requisitos para ficar de fora do alcance da tributação, em conformidade com o art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000 (item 5.2 do Relatório Fiscal, às fls. 41): 5.2 Para que a participação dos empregados nos lucros ou resultados da empresa não se constitua base de incidência de contribuições previdenciária, urge que os pagamentos ou créditos a este título atendam à normatização trazida pela MP 794/94 (reedições posteriores), transformada na Lei nº 10.101 de 19/12/2000, que regula a referida participação como instrumento de integração entre o capital e o trabalho e Fl. 9385DF CARF MF 54 como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7º, inciso XI, da Constituição. Notadamente o artigo 2º da Lei nº 10.101 traz a obrigatoriedade de que os pagamentos ou créditos a título de participação nos lucros e resultados seja objeto de negociação entre a empresa e seus empregados através de uma comissão escolhida pelas partes ou através de acordo/convenção coletiva, sendo que dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, critérios e condições de índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa e programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. Passase, na sequência, à análise dos pagamentos realizados pela recorrente a título de participação nos lucros ou resultados. c.1) PLR aos segurados empregados De acordo com o art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, a participação nos lucros ou resultados deverá decorrer de negociação coletiva entre o empregador e os seus empregados, nesses termos: Art. 2º A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II convenção ou acordo coletivo. (...) § 2º O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores. (...) Independentemente da via de negociação adotada, é obrigatória a participação do sindicato representativo da categoria. Há uma expressa, literal e inequívoca determinação do legislador ordinário nesse sentido. Mesmo a comissão paritária escolhida pela empresa e trabalhadores para tratar do programa de pagamento adicional como incentivo à produtividade, deverá contar com a participação de um representante do sindicato. A previsão de intervenção do sindicato na negociação tem por finalidade assegurar os interesses dos trabalhadores e contribuir para um melhor equilíbrio de forças com vistas à elaboração do documento que conterá os direitos substantivos e regras adjetivas da Fl. 9386DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.360 55 participação. Com o arquivamento do instrumento de acordo na entidade sindical, além de comprovar os termos celebrados, possibilita exigir da empresa o cumprimento das regras estipuladas. A empresa se refere à existência de programas espontâneos, posteriormente convalidados pela negociação coletiva anual entre empregador e sindicato, por intermédio da assinatura de acordos coletivos. A fiscalização trouxe aos autos os correspondentes Acordos Coletivos de Trabalho (fls. 1.115/1.152). No Relatório Fiscal, há um breve resumo com as cláusulas associadas à participação dos empregados nos lucros ou resultados (item 5.3, às fls. 41/42). Para melhor análise do conteúdo daa cláusulas, reproduzo as disposições contidas nos acordos coletivos de trabalho. Acordo Coletivo de Trabalho de 2006/2007 (fls. 1.115/1.127) Vigência: 1º/11/2006 a 31/10/2007 Registro: 29/1/2007 CLÁUSULA 14ª PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS 2006: As partes estabelecem o pagamento de uma parcela fixa, no valor de R$ 3.100,00 (três mil e cem reais), mais o valor correspondente a 80% (oitenta por cento) do salário nominal de cada empregado, garantindose um valor mínimo de R$ 4.370,00 (quatro mil e trezentos e setenta reais) a ser pago no mês de janeiro de 2007. Deste total será deduzido o valor de R$ 1.100,00 (mil e cem reais) adiantados em julho de 2006. § 1º Fazem parte desta cláusula os valores do PME Plano de Metas por Equipe, referentes ao primeiro semestre de 2006, pagos no mês de julho de 2006 e os valores do segundo semestre de 2006, que serão pagos no mês de janeiro de 2007. § 2º Não se incluem nesta cláusula os Aprendizes de Ofício. § 3º O valor pago a título de participação nos lucros não integrará o salário para qualquer efeito, não sendo incorporado pra efeito de cálculo de parcelas rescisórias, benefícios e/ou demais consectários. Acordo Coletivo de Trabalho de 2007/2008 (fls. 1.128/1.140) Vigência: 1º/11/2007 a 31/10/2008 Assinatura: 6/3/2008 CLÁUSULA 13ª PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS 2007: As partes estabelecem o pagamento de uma parcela fixa, no valor de R$ 3.600,00 (três mil e seiscentos reais), mais o valor correspondente a 80% (oitenta por cento) do Fl. 9387DF CARF MF 56 salário nominal de cada empregado, garantindose um valor mínimo de R$ 4.800,00 (quatro mil e oitocentos reais) a serem pagos até 7 (sete) dias úteis após a assinatura do Acordo. Deste total será deduzido o valor de R$ 1.300,00 (mil e trezentos reais) adiantados em julho de 2007. § 1º Fazem parte desta cláusula os valores do PME Plano de Metas por Equipe, referentes ao primeiro semestre de 2007, pagos no mês de julho de 2007 e os valores do segundo semestre de 2007, pagos no mês de janeiro de 2008. § 2º Não se incluem nesta cláusula os Aprendizes de Ofício. § 3º O valor pago a título de participação nos lucros não integrará o salário para qualquer efeito, não sendo incorporado pra efeito de cálculo de parcelas rescisórias, benefícios e/ou demais consectários. Acordo Coletivo de Trabalho de 2008/2009 (fls.1.141/1.152) Vigência: 1º/11/2008 a 31/10/2009 Assinatura: 5/12/2008 CLÁUSULA 13ª PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS 2008: As partes estabelecem o pagamento de uma parcela fixa, no valor de R$ 3.600,00 (três mil e seiscentos reais), mais o valor correspondente a 80% (oitenta por cento) do salário nominal de cada empregado, garantindose um valor mínimo de R$ 4.800,00 (quatro mil e oitocentos reais) a serem pagos até a segunda semana de janeiro. Deste total será deduzido o valor de R$ 1.400,00 (mil e quatrocentos reais) adiantados em julho de 2008. § 1º Fazem parte desta cláusula os valores do PME Plano de Metas por Equipe, referentes ao primeiro semestre de 2008, pagos no mês de julho de 2008 e os valores do segundo semestre de 2008, a serem pagos no mês de janeiro de 2009. § 2º Não se incluem nesta cláusula os Aprendizes de Ofício. § 3º O valor pago a título de participação nos lucros não integrará o salário para qualquer efeito, não sendo incorporado pra efeito de cálculo de parcelas rescisórias, benefícios e/ou demais consectários. Observase que a participação nos lucros ou resultados, segundo os documentos pactuados, consiste em uma parcela fixa e outra variável. A parcela variável é resultado da apuração do PME, de cada equipe, ao passo que a parcela fixa garante um pagamento mínimo a título de participação, proporcional ao salário dos empregados, quando o somatório das partes variável e fixa resultar em montante inferior ao valor de referência estabelecido. Fl. 9388DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.361 57 De início, antes de examinar o que está ostensivo nos acordos coletivos, cabe destacar a inexistência de qualquer menção ao Programa GEDP, o que lhe retira, de imediato, o respaldo na negociação coletiva. Argumenta a empresa que, tal como o PME, o GEDP é um programa de gestão de resultados mantido de forma espontânea, encontrando apoio no § 3º do art. 3º da Lei nº 10.101, de 2000, que permite expressamente a existência de planos espontâneos para pagamento da participação nos lucros ou resultados. Reproduzo o preceptivo legal mencionado da Lei nº 10.101, de 2000: Art. 3º (...) § 3º Todos os pagamentos efetuados em decorrência de planos de participação nos lucros ou resultados, mantidos espontaneamente pela empresa, poderão ser compensados com as obrigações decorrentes de acordos ou convenções coletivas de trabalho atinentes à participação nos lucros ou resultados. (...) Ocorre que, como visto, os incisos I e II do art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, autorizam apenas duas hipóteses de procedimento para elaboração de planos de participação nos lucros ou resultados. Ao reportar a programas mantidos espontaneamente pela empresa, é de se convir que a lei pretendeu fazer alusão à participação oriunda da comissão paritária escolhida pela empresa e empregados, integrada, também por um representante indicado pelo sindicato da categoria (inciso I), em contraposição às obrigações surgidas dos acordos ou convenções coletivas de trabalho firmados pelas partes (inciso II). Tal interpretação sistemática possibilita a coexistência, para o mesmo período de aferição, de dois distintos planos de participação nos lucros ou resultados livres de tributação, desde que no âmbito do regramento da Lei nº 10.101, de 2000. Evidentemente, não há óbice para que a empresa implemente facultativamente uma participação dos empregados nos lucros, mediante uma iniciativa unilateral, como previsto, por exemplo, no art. 58 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: Art 58 Podem ser excluídas do lucro líquido do exercício, para efeito de determinar o lucro real, as participações nos lucros da pessoa jurídica: I atribuídas a seus empregados segundo normas gerais aplicáveis, sem discriminações, a todos que se encontrem na mesma situação, por dispositivo do estatuto ou contrato social, ou por deliberação da assembléia de acionistas ou sócios quotistas; ...) Fl. 9389DF CARF MF 58 Porém, nessa última hipótese, será um participação alheia aos benefícios da Lei nº 10.101, de 2000. Em relação ao GEDP, portanto, estão ausentes elementos de convicção que possam atestar com segurança que a fixação dos critérios e das condições do plano ocorreu mediante negociação entre a empresa e os empregados, na forma prevista na Lei nº 10.101, de 2000. A falta de negociação com participação do sindicato da respectiva categoria implica considerar a parcela GEDP como integrante da remuneração e do saláriode contribuição do trabalhador. Na sequência, aprofundo a análise dos termos expressos nos Acordos Coletivos de Trabalho. No que toca aos pagamentos vinculados à parcela fixa, a sua estipulação, na forma realizada nos acordos coletivos, desvirtua a essência do instituto da participação nos lucros ou resultados previsto em lei, visto que desconsidera qualquer esforço individual, da equipe ou mesmo do grupo de empregados para o alcance de índices de produtividade, metas ou resultados, os quais deveriam ser aferidos para fins de cumprimento do pactuado previamente entre as partes. Nesse sentido, dispõem os arts. 1º e 2º da Lei nº 10.101, de 2000, a seguir reproduzidos: Art. 1º Esta Lei regula a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa como instrumento de integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7º, inciso XI, da Constituição. Art. 2º (...) § 1º Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. (...) Cuidase, assim, de uma parcela com evidente natureza de complemento salarial, inclusive estando atrelada parcialmente ao salário nominal de cada empregado. Por derradeiro, aprecio o que dispõe os acordos coletivos a respeito da parcela variável correspondente ao PME. Consoante os textos reproduzidos, o único aspecto Fl. 9390DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.362 59 que vem especificado nos acordos coletivos é a previsão de seu pagamento aos trabalhadores no anocalendário. Nada mais. Se de um lado é impraticável, em princípio, o acordo coletivo conter o detalhamento integral de metas, critérios e condições acordados entre as partes, de outro é inaceitável a inexistência de qualquer disciplinamento no instrumento decorrente da negociação quanto à explicitação da regras a que estarão submetidos a empresa e os seus empregados para fins da participação nos lucros ou resultados. A Lei nº 10.101, de 2000, é clara quando afirma que do resultado da negociação, que deve ser formalizado mediante documento, deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos e quanto à fixação das regras adjetivas, com previsão de mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado (art. 2º, § 1º). Nos acordos coletivos nem mesmo houve preocupação em se estabelecer as condições e os critérios genéricos do PME, em que se faz a opção de transferir a descrição pormenorizada das regras para atos internos que são elaborados em separado, sem prejuízo do aval do sindicato. A recorrente sustenta que os planos de participação nos lucros ou resultados, tal como o PME, são objeto de prévias discussões e que o acordo coletivo tão somente homologa e ratifica os termos negociados antecipadamente entre as partes. Vale dizer, há participação direta dos sindicatos dos trabalhadores na negociação muito antes do fechamento do acordo. Ainda que se admita, em regime de exceção, e não como regra, a possibilidade de o sindicato delegar ou consentir, explícita ou implicitamente, que alguns critérios e condições do PME possam ser acordados entre empresa e empregados sem a sua participação, não há como validar a elaboração integral do plano de participação nos lucros ou resultados, como aparenta ocorrer, restrita apenas às tratativas diretas entre patrão e empregados, sem a intermediação do sindicato. Há, no caso, uma visível e indesejável afronta explícita ao previsto na Lei nº 10.101, de 2000, em desprezo à finalidade das suas normas de garantia, cuja manifestação posterior do sindicato, com o agravante do seu caráter superficial, não tem o condão de legitimar a assinatura do acordo. Acresço ainda mais um motivo para a não aceitação dos acordos coletivos em face do regramento previsto na Lei nº 10.101, de 2000. Segundo a fiscalização, os pagamentos foram realizados no próprio mês da assinatura dos acordos ou pagos em até 7 dias úteis após a assinatura do acordo (item 5.4 do Relatório Fiscal, às fls. 43). De fato, o acordo registrado em 29/1/2007 aprovou o pagamento de participação no PME do anocalendário 2006 (1º e 2º semestres), enquanto o acordo firmado em 6/3/2008 confirmou o pagamento no anocalendário 2007 (1º e 2º semestres). Destaco que o acordo coletivo datado de 6/3/2008 assumiu contornos inusitados, pois no momento em que foi assinado já haviam sido pagos todos os valores relacionados ao PME do ano de 2007, ali previstos (fls. 1.131). Fl. 9391DF CARF MF 60 A rigor, esse acordo assinado em 5/12/2008 validou o pagamento de participação nos lucros ou resultados do PME ainda em curso, relativamente ao anocalendário 2008 (1º e 2º semestres). Todavia, os efeitos práticos acabam sendo idênticos a uma aprovação em janeiro de 2009, como adiante explico. A assinatura do termo de ajuste antes do início do período a que se refiram os lucros ou resultados é a situação ideal para a garantia dos direitos dos trabalhadores e o incentivo ao aumento de produtividade. Nada obstante, possui reduzida aplicação no mundo real, dadas as dificuldades práticas de negociação e conclusão a tempo da sua formalização por escrito. Por outro lado, no extremo oposto, não me alinho àqueles que defendem como suficiente tão somente a formalização do acordo não suceder ao pagamento da parcela final da participação nos lucros ou resultados. Apenas quando da assinatura do termo de acordo, com a participação do respectivo sindicato, concretizase a negociação entre as partes e o ato consensual está apto a produzir efeitos jurídicos. Em que pese o silêncio da lei em relação ao momento da assinatura do instrumento de negociação, a interpretação sistemática do inciso XI do art. 7º da Constituição da República de 1988 c/c Lei nº 10.101, de 2000, revela a obrigatoriedade de prévia pactuação dos termos do acordo para autorizar a fruição do benefício fiscal, com antecedência razoável aos fatos que pretende regular, para que se possa incentivar a produtividade do empregado e este adotar medidas para atingir as metas ou os resultados préestabelecidos. Via de regra, portanto, é possível aceitar que a assinatura do acordo possa ser efetivada durante o exercício de avaliação, desde que o instrumento esteja assinado antes do término do período de apuração. Entretanto, penso que não atende aos requisitos legais a assinatura apenas no último mês do período de apuração dos resultados, pois tal situação revelase similar à assinatura posterior ao término do período de apuração. O lapso de tempo é insuficiente para que o empregado possa direcionar seus esforços para alcançar o que foi juridicamente pactuado. Exposta a questão nesses termos, entendo que a autoridade fiscal procedeu de modo correto ao considerar os valores pagos a título de participação nos lucros ou resultados como submetidos à tributação, por estarem em desconformidade com o que prescreve a Lei nº 10.101, de 2000: (i) Parcela fixa: por desvinculada de qualquer meta ou resultado previamente acordado, revelador de nítida natureza salarial; (ii) Parcela variável (Programa GEDP): não foi objeto de negociação prévia entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos estabelecidos nos incisos I e II do art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, com participação do sindicato; e (iii) Parcela variável (Plano PME): não foi objeto de negociação prévia entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos previstos nos incisos I e II do art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, com participação do sindicato. Fl. 9392DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.363 61 Além disso, os acordos coletivos foram assinados em data posterior ao período de aferição (anos 2006 e 2007) ou no último mês de aferição (ano 2008), cujo efeito prático, nesta última hipótese, mostrase similar à assinatura após o término do período de apuração. Deixo de efetuar análise adicional a respeito de outros argumentos de defesa contra a pretensão fiscal, por desnecessário e/ou irrelevante para o deslinde desta parte do julgamento. Os fundamentos acima delineados são mais que suficientes para explicitar as minhas razões pelas quais deve ser mantido, na íntegra, o crédito tributário exigido relativamente aos planos de participação nos lucros ou resultados destinados aos segurados empregados. c.2) PLR aos diretores não empregados (contribuintes individuais) A empresa pagou participação nos lucros ou resultados a seus diretores não empregados, na condição de segurados contribuintes individuais, na forma estabelecida no Plano GEDP. Pois bem. Ao excluir da incidência tributária a participação nos lucros ou resultados da empresa paga ou creditada de acordo com lei específica, a alínea "j" do § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, referese à Lei nº 10.101, de 2000, destinada tão somente aos segurados empregados. Art. 28 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) j) a participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; (...) Ao explicitar a norma de não incidência, o inciso X do § 9º do art. 214 do Regulamento da Previdência Social (RPS), aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, toma o cuidado de acrescentar a expressão "empregado": Art. 214 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição, exclusivamente: (...) X a participação do empregado nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; (...) (GRIFOUSE) Fl. 9393DF CARF MF 62 Isso porque a Lei nº 10.101, de 2000, não trata de pagamentos a trabalhadores não empregados, constando expressamente em seu corpo o regramento destinado à negociação entre empresa e seus empregados: Art. 2º A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II convenção ou acordo coletivo. (...) (GRIFOUSE) Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) analisou a disciplina jurídica relativa à participação nos lucros ou resultados prevista no inciso XI do art. 7º da Carta Política de 1988. Concluiu a Corte Suprema que sendo o preceito constitucional de eficácia limitada, a regulamentação somente se operou com a edição da Medida Provisória nº 794, de 29 de dezembro de 1994, reeditada inúmeras vezes até a conversão na Lei nº 10.101, de 2000, incidindo contribuição previdenciária relativamente aos fatos geradores concretizados antes da vigência daquele ato normativo. Eis a ementa do Recurso Extraordinário (RE) nº 569.441/RS, submetido a sistemática de repercussão geral, Relator Ministro Dias Toffoli e Redator do Acórdão Ministro Teori Zavascki, julgado na sessão de 30/10/2014: EMENTA: CONSTITUCIONAL E PREVIDENCIÁRIO. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS. NATUREZA JURÍDICA PARA FINS TRIBUTÁRIOS. EFICÁCIA LIMITADA DO ART. 7º, XI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SOBRE ESSA ESPÉCIE DE GANHO ATÉ A REGULAMENTAÇÃO DA NORMA CONSTITUCIONAL. 1. Segundo afirmado por precedentes de ambas as Turmas desse Supremo Tribunal Federal, a eficácia do preceito veiculado pelo art. 7º, XI, da CF – inclusive no que se refere à natureza jurídica dos valores pagos a trabalhadores sob a forma de participação nos lucros para fins tributários – depende de regulamentação. 2. Na medida em que a disciplina do direito à participação nos lucros somente se operou com a edição da Medida Provisória 794/94 e que o fato gerador em causa concretizouse antes da vigência desse ato normativo, deve incidir, sobre os valores em questão, a respectiva contribuição previdenciária. 3. Recurso extraordinário a que se dá provimento. De modo que não há como acolher o entendimento de que a expressão "lei específica" contida na alínea "j" do § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212, de 1991, referese a mais de Fl. 9394DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.364 63 uma lei ordinária, além da Lei nº 10.101, de 2000, abarcando a distribuição de valores também com base na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, a qual disciplina as sociedades anônimas. Adiciona a recorrente que as parcelas não podem compor o saláriode contribuição do trabalhador em razão do cumprimento de todos os requisitos para a distribuição da participação nos lucros aos administradores elencados no art. 152 da Lei nº 6.404, de 1976. Para melhor compreensão da previsão contida na Lei das sociedades anônimas, transcrevo o art. 152 da Lei nº 6.404, de 1976: Remuneração Art. 152. A assembléiageral fixará o montante global ou individual da remuneração dos administradores, inclusive benefícios de qualquer natureza e verbas de representação, tendo em conta suas responsabilidades, o tempo dedicado às suas funções, sua competência e reputação profissional e o valor dos seus serviços no mercado. § 1º O estatuto da companhia que fixar o dividendo obrigatório em 25% (vinte e cinco por cento) ou mais do lucro líquido, pode atribuir aos administradores participação no lucro da companhia, desde que o seu total não ultrapasse a remuneração anual dos administradores nem 0,1 (um décimo) dos lucros (artigo 190), prevalecendo o limite que for menor. § 2º Os administradores somente farão jus à participação nos lucros do exercício social em relação ao qual for atribuído aos acionistas o dividendo obrigatório, de que trata o artigo 202. Os pagamentos realizados a título de "atribuição estatutária", também conhecidos como "participação estatutária", como ora se cuida, não se equiparam a valores decorrentes da remuneração de capital. A remuneração do administrador pode ser composta por duas parcelas, uma fixa, conhecida como prólabore (art. 150, "caput") e outra variável, consistente na participação nos lucros da companhia por ações, conforme definido pelos acionistas (art. 150, § 1º). Em um e outro caso, não há como liberar a empresa da tributação, porquanto as verbas possuem natureza remuneratória. É verdade que a participação estatutária dos administradores, assim como o pagamento de dividendos aos acionistas, são contabilizadas em contas de patrimônio líquido, mediante redução do lucro acumulado, e não mediante débito em contas de resultado do exercício social. Porém, tal característica contábil comum é insuficiente para agregar a natureza de remuneração do capital à participação estatutária. O dividendo pago a acionista Fl. 9395DF CARF MF 64 decorre da participação acionária na sociedade, ao passo que a participação estatutária ao diretor não empregado é paga em razão da prestação do trabalho. De mais a mais, para fins da incidência da tributação previdenciária, a exigência de habitualidade das parcelas recebidas pelo segurado restringese somente aos ganhos sob a forma de utilidades, denominados "in natura". A legislação tributária não faz menção ao requisito da habitualidade para os ganhos em pecúnia, de tal modo que estão incluídos no campo de incidência das contribuições previdenciárias, nos termos da Lei nº 8.212, de 1991, todos os pagamentos em dinheiro destinados a retribuir o trabalho, quer sejam habituais ou não. Mantenho assim, divergindo o I. Relator, o crédito tributário exigido pela fiscalização relativamente ao plano de participação nos lucros ou resultados destinado aos diretores não empregados (contribuintes individuais). d) Riscos Ocupacionais Minha divergência com o nobre Relator diz respeito apenas aos agentes nocivos ruído e calor. Argumenta a recorrente que os agentes insalubres apontados pela fiscalização são integralmente controlados por medidas administrativas praticadas pela empresa, por meio da adoção de equipamentos de proteção individual e/ou coletiva, entre outras providências no ambiente de trabalho. No caso do ruído, todos os casos de exposição acima do limite de tolerância são passíveis de atenuação através de uso de equipamentos de proteção individual. Quanto ao agente físico calor, a exposição dos empregados é meramente intermitente, tendo em vista o investimento da empresa em tecnologias que melhoram o ambiente de trabalho, tais como a criação de salas de descanso climatizadas, revezamentos e controles das fontes emissoras e dos sistemas de ventilação, o que afasta a cobrança do adicional, nos termos do § 3º do art. 57 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Penso diferente, conforme justifico a seguir. d.1) Agente Ruído O Plenário do STF, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) nº 664.335/SC, com repercussão geral reconhecida, de Relatoria do Ministro Luiz Fux, julgado na sessão de 4/12/2014, assentou entendimento no sentido de que a prova da neutralização da nocividade pelo uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) afasta a contagem de tempo de serviço especial para aposentadoria, com exceção do tempo em que o trabalhador esteve exposto de modo permanente ao agente físico ruído. Para melhor compreensão do decidido pelo Tribunal Constitucional, transcrevo ementa do julgado na parte que interessa diretamente à matéria sob análise: EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO CONSTITUCIONAL PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA ESPECIAL. ART. 201, § 1º, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. Fl. 9396DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.365 65 REQUISITOS DE CARACTERIZAÇÃO. TEMPO DE SERVIÇO PRESTADO SOB CONDIÇÕES NOCIVAS. FORNECIMENTO DE EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL EPI. TEMA COM REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA PELO PLENÁRIO VIRTUAL. EFETIVA EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS À SAÚDE. NEUTRALIZAÇÃO DA RELAÇÃO NOCIVA ENTRE O AGENTE INSALUBRE E O TRABALHADOR. COMPROVAÇÃO NO PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO PPP OU SIMILAR. NÃO CARACTERIZAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS HÁBEIS À CONCESSÃO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. CASO CONCRETO. AGENTE NOCIVO RUÍDO. UTILIZAÇÃO DE EPI. EFICÁCIA. REDUÇÃO DA NOCIVIDADE. CENÁRIO ATUAL. IMPOSSIBILIDADE DE NEUTRALIZAÇÃO. NÃO DESCARACTERIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES PREJUDICIAIS. BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO DEVIDO. AGRAVO CONHECIDO PARA NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. (...) 12. In casu, tratandose especificamente do agente nocivo ruído, desde que em limites acima do limite legal, constatase que, apesar do uso de Equipamento de Proteção Individual (protetor auricular) reduzir a agressividade do ruído a um nível tolerável, até no mesmo patamar da normalidade, a potência do som em tais ambientes causa danos ao organismo que vão muito além daqueles relacionados à perda das funções auditivas. O benefício previsto neste artigo será financiado com os recursos provenientes da contribuição de que trata o inciso II do art. 22 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991, cujas alíquotas serão acrescidas de doze, nove ou seis pontos percentuais, conforme a atividade exercida pelo segurado a serviço da empresa permita a concessão de aposentadoria especial após quinze, vinte ou vinte e cinco anos de contribuição, respectivamente. 13. Ainda que se pudesse aceitar que o problema causado pela exposição ao ruído relacionasse apenas à perda das funções auditivas, o que indubitavelmente não é o caso, é certo que não se pode garantir uma eficácia real na eliminação dos efeitos do agente nocivo ruído com a simples utilização de EPI, pois são inúmeros os fatores que influenciam na sua efetividade, dentro dos quais muitos são impassíveis de um controle efetivo, tanto pelas empresas, quanto pelos trabalhadores. 14. Desse modo, a segunda tese fixada neste Recurso Extraordinário é a seguinte: na hipótese de exposição do trabalhador a ruído acima dos limites legais de tolerância, a declaração do empregador, no âmbito do Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP), no sentido da Fl. 9397DF CARF MF 66 eficácia do Equipamento de Proteção Individual EPI, não descaracteriza o tempo de serviço especial para aposentadoria. (...) (GRIFOUSE) Como se vê, embora a matéria decidida pela Corte se refira ao direito à aposentadoria especial, garantindo a contagem de tempo especial durante o período em que o trabalhador esteja exposto a ruído, mesmo que faça uso de EPI, é inegável seu reflexo na hipótese de incidência do adicional para financiamento do benefício da aposentadoria especial de que trata o inciso II do art. 22 da Lei nº 8.212, de 1991, exigido com fundamento nos §§ 6º e 7º do art. 57 da Lei nº 8.213, de 1991. Tal conclusão decorre de que nenhum benefício previdenciário poderá ser criado, majorado ou estendido sem a correspondente fonte de custeio total e do princípio constitucional da preservação do equilíbrio financeiro e atuarial da Previdência Social (arts. 195, § 5º, e 201 da Constituição da República de 1988). O uso efetivo de protetores auriculares pelos trabalhadores expostos a ruído, como defendido pela recorrente, ainda que reduza o agente agressivo a um nível tolerável, não é capaz de neutralizar a ação danosa que ele provoca na saúde do trabalhador, e, por consequência, não afasta a hipótese de incidência do adicional para custeio da aposentadoria especial sobre a remuneração dos trabalhadores expostos ao agente nocivo ruído acima dos limites de tolerância. A respeito do nível de exposição ao ruído, o critério de avaliação quantitativa está previsto na Norma Regulamentadora (NR) nº 15, do Ministério do Trabalho e Emprego. Os fatos determinantes do limite de tolerância são o tempo de exposição e a intensidade do ruído. De acordo com o Quadro do Anexo nº 1 da NR15, o nível de ruído permitido de 85 decibéis diz respeito a uma exposição diária máxima de 8 horas. Caso a jornada de trabalho for de 7 horas, o nível de ruído não deverá exceder 86 decibéis. E assim por diante. Em outras palavras, segundo a legislação de regência, quanto menor o tempo de exposição ao ruído é admitida uma maior intensidade, chegando a 115 decibéis para uma exposição diária máxima de 7 minutos. Admitindose uma jornada de trabalho de 8 horas, sem cogitar o cumprimento de horas extras, o que extrapolaria o tempo de exposição diário normal, com reflexos na diminuição do limite de tolerância, o lançamento de ofício deve ser mantido na hipótese de exposição do segurado empregado a ruído superior a 85 decibéis (> 85 db). Para fins de identificação dos trabalhadores expostos ao ruído acima dos limites legais de tolerância, assim como da respectiva remuneração, deve ser utilizada a Planilha do Anexo ANFOPAGRO, às fls. 1.175/1.706, a partir da informação contida na coluna "RUÍDO", somente e tão somente quando o valor for maior que 85 db. Fl. 9398DF CARF MF Processo nº 15504.725977/201109 Acórdão n.º 2401004.509 S2C4T1 Fl. 9.366 67 d.2) Agente Calor Como a própria empresa reconhece na peça recursal, não há equipamentos de proteção capazes de reduzir os níveis de exposição considerados insalubres relativamente ao agente físico calor. O Anexo nº 3 da NR15 estabelece limites de tolerância para exposição ao calor, acima do qual haverá probabilidade de dano à saúde do trabalhador, durante a sua vida laboral. A exposição ao calor é avaliada através do Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG). Mesmo uma política de descanso e revezamento, não tem o condão de descaracterizar a exposição desses empregados ao risco no ambiente de trabalho. O Quadro nº 1 do Anexo nº 3 da NR15 prevê o período de descanso necessário frente ao período efetivamente trabalhado, levando em conta o índice de calor do ambiente, aliado ao tipo de atividade desenvolvida pelo trabalhador. A previsão de períodos de repouso em ambiente de exposição ao calor mais ameno, devido ao regime de descanso no próprio local, não significa intermitência, não descaracteriza a exposição do trabalhador ao agente nocivo e nem lhe retira o direito à aposentadoria especial. Para fins de identificação dos trabalhadores expostos ao agente calor acima dos limites legais de tolerância, assim como da respectiva remuneração, deve ser utilizada a Planilha do Anexo ANFOPAGRO, às fls. 1.175/1.706, a partir das informações contidas nas colunas "CALOR" e "LT CALOR", somente e tão somente quando o valor de "CALOR" maior que "LT CALOR". Em síntese, cabe decotar do lançamento relativo aos "Riscos Ocupacionais", apenas os valores incidentes sobre as remunerações dos segurados empregados não expostos aos agentes nocivos ruído e/ou calor acima dos limites de tolerância, nos termos antes explicados. e) Adicional para financiamento da aposentadoria especial sobre as parcelas de PLR Esclarece a fiscalização que realizou o lançamento de ofício correspondente ao adicional para financiamento da aposentadoria especial, na alíquota de 6%, incidente sobre os valores pagos a título de participação nos lucros ou resultados para os segurados empregados expostos a riscos ocupacionais (item 6 do Relatório Fiscal, às fls. 46/48). A relação de segurados e da respectiva remuneração consta do Anexo denominado de ARORUBPLR FOPAG PLR SEGURADOS COM RISCO OCUPACIONAL (fls. 338/573). No levantamento fiscal foram utilizados os códigos RP e RP2. Uma vez tributável a parcela da participação nos lucros ou resultados distribuída nos exercícios de 2007 e 2008, de acordo com a fundamentação constante deste voto, é devida a cobrança do adicional para financiamento da aposentadoria especial sobre tais Fl. 9399DF CARF MF 68 parcelas pagas aos segurados empregados expostos aos agentes nocivos ruído e calor acima dos limites de tolerância. Nada obstante, a fim de manter a congruência decisória, é insubsistente a cobrança do adicional relativamente aos segurados empregados não expostos aos agentes nocivos ruído e/ou calor acima dos limites de tolerância ("tópico anterior"). A exclusão do lançamento fiscal deve ser realizada a partir dos dados da planilha do Anexo ARORUBPLR, às fls. 338/573. Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER do recurso voluntário e DARLHE PROVIMENTO PARCIAL para: (a) afastar a sujeição passiva solidária em nome das empresas Aperam Inox Serviços Brasil Ltda, Arcelormittal Inox Brasil Tubos Ltda e Arcelormittal Bioenergia Ltda, pela ausência de prova do grupo econômico; (b) decotar do lançamento relativo aos "Riscos Ocupacionais" apenas os valores incidentes sobre as remunerações dos segurados empregados que não estejam expostos aos agentes nocivos ruído e/ou calor acima dos limites de tolerância; e (c) excluir a incidência do adicional para financiamento do benefício de aposentadoria especial sobre os valores pagos a título de participação nos lucros ou resultados exclusivamente em relação aos segurados empregados não expostos aos agentes ruído e/ou calor acima dos limites de tolerância. Acompanho o Relator nas demais matérias em que não há divergência com o voto vencedor. É como voto. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 9400DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10166.729141/2011-30
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Sep 22 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Oct 05 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. DECLARAÇÃO FINAL. LIMITAÇÃO DE 30%.
O prejuízo fiscal poderá ser compensado com o lucro real posteriormente apurado, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro real. Não há previsão legal que permita a compensação de prejuízos fiscais acima deste limite, ainda que seja no encerramento das atividades da empresa.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2008
COMPENSAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DE CSLL. DECLARAÇÃO FINAL. LIMITAÇÃO DE 30%.
A base de cálculo negativa de CSLL poderá ser compensada com as bases de cálculo posteriormente apuradas, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do lucro líquido ajustado (base positiva). Não há previsão legal que permita a compensação de base negativa acima deste limite, ainda que seja no encerramento das atividades da empresa.
Numero da decisão: 9101-002.452
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Demetrius Nichele Macei, que lhe negaram provimento.
(documento assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente em exercício.
(documento assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício), André Mendes de Moura, Adriana Gomes Rego, Rafael Vidal de Araújo, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Demetrius Nichele Macei, Luis Flavio Neto, Cristiane Silva Costa.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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Limite legal. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado BANCO DO BRASIL S/A ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. DECLARAÇÃO FINAL. LIMITAÇÃO DE 30%. O prejuízo fiscal poderá ser compensado com o lucro real posteriormente apurado, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro real. Não há previsão legal que permita a compensação de prejuízos fiscais acima deste limite, ainda que seja no encerramento das atividades da empresa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008 COMPENSAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DE CSLL. DECLARAÇÃO FINAL. LIMITAÇÃO DE 30%. A base de cálculo negativa de CSLL poderá ser compensada com as bases de cálculo posteriormente apuradas, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do lucro líquido ajustado (base positiva). Não há previsão legal que permita a compensação de base negativa acima deste limite, ainda que seja no encerramento das atividades da empresa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Demetrius Nichele Macei, que lhe negaram provimento. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 91 41 /2 01 1- 30 Fl. 853DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 854 2 (documento assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão – Presidente em exercício. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício), André Mendes de Moura, Adriana Gomes Rego, Rafael Vidal de Araújo, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Demetrius Nichele Macei, Luis Flavio Neto, Cristiane Silva Costa. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela FAZENDA NACIONAL em 15/09/2014, com fundamento no art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22/06/2009 (RICARF/2009), em que se alega a existência de divergência jurisprudencial acerca de matéria relacionada à lide. A recorrente insurgese contra o Acórdão nº 1103001.058, por meio do qual os membros da 3ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF decidiram, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. A decisão recorrida determinou o cancelamento dos créditos tributários constituídos pela Fiscalização. As autuações se fundamentaram no entendimento de que as instituições financeiras BESC S/A e BESCRI S/A, incorporadas pelo contribuinte BANCO DO BRASIL S/A em 30/09/2008, não respeitaram o limite legal de 30% ao compensar a totalidade de seu lucro real, apurado nos balanços especiais de incorporação levantados em setembro de 2008, com prejuízos fiscais acumulados. O mesmo foi observado em relação à CSLL, que teve sua base de cálculo positiva apurada em setembro de 2008 compensada integralmente com saldos negativos de exercícios anteriores. Em ambos os casos, entendeu a Fiscalização que o procedimento adotado pelas instituições financeiras sucedidas estava em desacordo com os arts. 42 e 58 da Lei nº 8.981/1995 e arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/1995. Assim foram lavrados autos de infração relativos ao IRPJ e à CSLL apurados em 2008, mediante a aplicação do limite legal de 30% de redução das bases de cálculo dos tributos. Os créditos tributários lançados contra a empresa BESCRI S/A, sucedida do BANCO DO BRASIL S/A, constituem o objeto dos presentes autos. Já os autos de infração lavrados contra a outra sucedida, BESC S/A, são tratados no processo administrativo fiscal nº 10166.728996/201143. A autuação fora mantida em sede de julgamento administrativo de primeira instância e, posteriormente, cancelada pela 3ª Turma Ordinária da 1ª Câmara, em julgamento que culminou na prolação do acórdão contra o qual ora se insurge a recorrente. O acórdão recorrido foi assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 854DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 855 3 Anocalendário: 2008 PESSOA JURÍDICA EXTINTA POR INCORPORAÇÃO. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS SEM A TRAVA DE 30%. A pessoa jurídica incorporada pode compensar no balanço de encerramento de atividades o prejuízo fiscal acumulado sem observância da "trava" de 30%. Os autos foram encaminhados eletronicamente à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) em 03/09/2014. A intimação pessoal presumida do Procurador se daria apenas em 03/10/2014, nos termos do §3º do art. 7º da Portaria MF nº 527/2010. Antes disso, em 15/09/2014, tempestivamente portanto, foi interposto recurso especial que se insurgiu contra o Acórdão nº 1103001.058, sob a alegação de que ele teria dado à lei tributária interpretação diversa da que tem sido adotada em outros processos julgados no âmbito do CARF. O recurso especial apresentado pela Fazenda Nacional contesta a interpretação dada pelo acórdão recorrido à questão da aplicabilidade da trava legal de 30% à compensação de prejuízos fiscais (e de bases de cálculo negativas de CSLL) no exercício de encerramento das atividades de empresa, em razão de sua incorporação. Em atendimento aos requisitos de admissibilidade do recurso especial, então previstos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2009 (requisitos que basicamente foram mantidos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II da versão atualmente vigente do Regimento, aprovada pela MF nº 343, de 09/06/2015 RICARF/2015), a recorrente apontou acórdãos administrativos que teriam dado ao tema combatido interpretação diversa daquela esposada pelo acórdão recorrido. A PGFN afirma que o acórdão guerreado, ao possibilitar à pessoa jurídica incorporada a compensação, no balanço de encerramento, de todo o prejuízo fiscal acumulado, sem a observância da limitação de 30% imposta pela legislação, teria divergido frontalmente do Acórdãos nº 9101001.337 e nº 910100.401, ambos proferidos pela 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF). Além de defender a existência de divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorrido e paradigmas em relação à matéria indicada, a recorrente apresenta ainda alegações que deveriam, sob seu ponto de vista, provocar a reforma da decisão recorrida. Em suma, argumentase que: Da análise dos arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/1995, verificase que não há previsão de exceção quanto à limitação da compensação de prejuízos fiscais e, assim sendo, por absoluta falta de previsão legal, não é permitida a compensação de prejuízos fiscais acima do limite máximo de 30% do lucro real, mesmo se tratando do anocalendário de extinção da pessoa jurídica; A interpretação adotada pelo recurso recorrido, no sentido de que, com o encerramento da empresa sucedida e diante da impossibilidade de aproveitamento dos prejuízos fiscais pela sucessora, a trava de 30% não deve ser aplicada, cria hipótese de exceção não prevista em lei; Fl. 855DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 856 4 A compensação de prejuízos não pode ser considerada um direito subjetivo da empresa, mas sim um benefício fiscal que tem como objetivo permitir que ela não arque sozinha com todo o ocasional déficit que venha a ter. Assim, a observância da trava de 30% para a compensação não limita direitos dos contribuintes, mas apenas regula a forma como a compensação permitida pela lei será exercida; O julgador, ao estabelecer exceção à regra de compensação de 30%, sem a existência de previsão legal, está, na prática, limitando a plenitude da norma e entendendoa parcialmente inconstitucional, embora sem redução de texto. A PGFN encerra seu recurso especial com o pedido de que este seja conhecido e provido para reformar o acórdão contestado. A irresignação da recorrente foi submetida a juízo de admissibilidade, a fim de se verificar o atendimento dos requisitos regimentalmente exigidos dos recursos especiais. As conclusões foram expostas em despacho de 27/02/2015. Considerouse, mediante o cotejo entre as decisões, devidamente comprovado o dissenso proclamado pela recorrente: os acórdãos apontados como paradigmas entendem, de forma contrária à defendida pelo acórdão recorrido, que deve haver a manutenção do limite de 30% para a compensação de prejuízos fiscais, mesmo nos casos de incorporação. Diante da caracterização da existência de divergência jurisprudencial e do cumprimento dos demais requisitos regimentais aplicáveis à espécie recursal, o Presidente da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento deu seguimento ao recurso especial apresentado pela Fazenda Nacional. Em 14/04/2015, o contribuinte foi intimado para tomar ciência do Acórdão nº 1103001.058, do recurso especial apresentado pela PGFN e do despacho que o admitiu. Em resposta à intimação, o contribuinte recorrido protocolou, em 17/04/2015, contrarrazões ao recurso especial da Fazenda Nacional. Assim podem ser resumidas as alegações perfiladas pelo recorrido BANCO DO BRASIL: Não se aplica a "trava" de compensação aos casos de incorporação, por ausência de previsão legal que trate do tema em a empresas que estão encerrando suas atividades. A limitação de 30% trazida pelos arts. 42 e 58 da Lei nº 8.981/1995 c/c os arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/1995, a toda evidência, não se aplica às hipóteses de empresas/sociedades incorporadas; O precedente do Supremo Tribunal Federal (STF) que norteou o julgamento dos acórdãos trazidos como paradigmas (nº 9101001.337 e nº 910100.401) em nenhum momento tratou do tema específico discutido nos presentes autos, ou seja, da compensação dos prejuízos fiscais para o caso exclusivo de encerramento da pessoa jurídica por incorporação, fusão e/ou extinção; O Prof. Edmar Oliveira Andrade Filho defende o entendimento de que, não sendo tratada pela lei a aplicação do limite de 30% às compensações nos casos de Fl. 856DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 857 5 desaparecimento de pessoa jurídica, por incorporação, fusão, cisão ou extinção, estaria autorizada a compensação integral ("onde não há proibição, está implícita a permissão"). Além disso, como a lei não teve a intenção de restringir o direito à compensação, mas apenas de imporlhe um marco temporal, na situaçãolimite de encerramento das atividades da pessoa jurídica, o direito à compensação poderia ser exercido integralmente; Estudo elaborado por Eurico Marcos Diniz de Santi demonstra a total incorreção do acórdão paradigma nº 910100.401, contraditando as razões de decidir que justificaram, naquela ocasião, o não provimento do recurso especial da contribuinte. Tal estudo comprovaria que este julgado, que marcou a mudança de orientação jurisprudencial da CSRF acerca do tema, não refutou adequadamente as teses e convicções firmadas ao longo dos dez anos em que a jurisprudência do Conselho de Contribuintes (atual CARF) foi pacífica pela possibilidade de afastamento da limitação de 30% nos casos de extinção da pessoa jurídica por incorporação; O mesmo estudo defende que o julgamento do Recurso Extraordinário (RE) nº 344.994 pelo STF não deveria ter interferido na jurisprudência do CARF em relação à não aplicabilidade da trava de 30% para os casos de extinção da pessoa jurídica, uma vez que esta hipótese específica não foi considerada no caso analisado por aquela Corte; O estudo afirma ainda que nunca houve restrição à plena compensação de prejuízos no caso de extinção de pessoa jurídica, desde a vigência da Lei nº 154/1947 até os dias atuais, em que vigora a Lei nº 9.065/1995. Quando uma pessoa jurídica é incorporada por outra, há necessariamente a sucessão de direitos e obrigações. Os prejuízos fiscais da incorporada, no entanto, não podem ser aproveitados, para fins de compensação nos anos posteriores, pela incorporadora, em razão de vedação expressa encontrada no art. 514 do Decreto nº 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda RIR/1999). Assim, nada impede que, em caso de descontinuidade da empresa, e na declaração de encerramento, seja efetuada a compensação integral dos prejuízos fiscais e bases negativas acumulados, sendo inaplicável a trava de 30%. Por conta de tudo que expôs, o recorrido pede, ao final, que o recurso especial da PGFN não seja conhecido, "por total ausência de preenchimento dos requisitos intrínsecos recursais". Caso seja conhecido o recurso, requer o contribuinte que seu provimento seja negado, com base nas razões expostas, mantendose incólume o acórdão recorrido. Os autos seguiram então para a CSRF para o julgamento do recurso especial. É o relatório. Fl. 857DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 858 6 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Inicialmente, analiso o fato de o recorrido BANCO DO BRASIL ter pedido em suas contrarrazões, "que o recurso aviado não seja conhecido por total ausência de preenchimento dos requisitos intrínsecos recursais". Antes do pedido propriamente dito, mas já nas conclusões de suas contrarrazões, o recorrido afirma que o recurso manejado pela PGFN "não reúne as condições necessárias ao seu regular prosseguimento" e não mereceria agasalho "por inexistir a alegada divergência jurisprudencial". Pois bem. Apesar de as afirmações do recorrido serem características de alegações preliminares de não conhecimento do recurso especial interposto pela parte oposta, não são explicitados em suas contrarrazões quais seriam os requisitos implícitos recursais que restaram inobservados. Tampouco trouxe o recorrido análise das características dos acórdãos indicados como paradigmas que acarretariam na inexistência de divergência jurisprudencial frente à decisão recorrida. O trecho das contrarrazões que mais se assemelha a uma arguição de não conhecimento por ausência de divergência jurisprudencial é o seguinte parágrafo, encontrado na efl. 761: "Convém ressaltar, por pertinente, que o precedente do STF que norteou o julgamento do acórdão nº 910100.401 (caso BUNGE) trazido como paradigma pela Recorrente, e na mesma esteira, em relação ao outro acórdão nº 9101001.337 trazido no Especial visando comprovar a suposta divergência jurisprudencial em nenhum momento tratou do tema específico discutido nos presentes processos, ou seja, a compensação dos prejuízos fiscais para o caso exclusivo de encerramento da pessoa jurídica por incorporação, fusão e/ou extinção." (grifouse) Observese que, na realidade, o recorrido defende a ausência de similitude entre o acórdão recorrido e o julgado do Supremo Tribunal Federal mencionado na fundamentação dos acórdãos paradigmas. Por óbvio, tal fato não ofende o requisito de admissibilidade dos recursos especiais exigido pelo art. 67, anexo II, do RICARF/2009 (vigente à época da interposição do recurso) ou do RICARF/2015 (que vige atualmente). O que se exige, para fins de conhecimento de recursos especiais, é que os acórdãos recorrido e paradigma tragam interpretações divergentes acerca de legislação tributária em face de situações fáticas e jurídicas semelhantes. Não há cabimento em se procurar similitude entre o acórdão recorrido e uma decisão judicial utilizada na fundamentação do entendimento que prevaleceu nos acórdãos paradigmas. Fl. 858DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 859 7 Sendo assim, adoto integralmente as razões expostas no despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial interposto pela PGFN, dele CONHECENDO em relação à matéria contestada. Passo à análise do mérito. A controvérsia existente no presente processo diz respeito à autuação de IRPJ e CSLL relativamente ao anocalendário de 2008, por inobservância da chamada trava de 30% na compensação de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa de CSLL. Os autos de infração foram lavrados em face do sujeito passivo BANCO DO BRASIL S/A devido ao fato de ele ter incorporado, em 30/09/2008, as instituições financeiras BESC S/A e BESCRI S/A. A esta última instituição sucedida dizem respeito os créditos tributários tratados nos presentes autos. De acordo com a peça fiscal, a documentação fornecida pelo contribuinte, concernente ao anocalendário de 2008, demonstra que o BESCRI S/A não observou o limite de 30% do lucro líquido ajustado para fins de compensação de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas dos períodos anteriores. Ainda segundo a peça fiscal: com relação ao IRPJ referente ao anocalendário de 2008, o BESCRI S/A realizou a compensação acima do limite legal (30%), pois, apesar de o lucro apurado por essa empresa ter sido de R$16.353.892,26, ela compensou o montante correspondente a R$16.353.892,26, havendo, dessa forma, o excesso de compensação no valor de R$11.447.724,58; com relação à CSLL referente ao anocalendário de 2008, o BESCRI S/A realizou a compensação acima do limite legal (30%), pois, apesar de a base de cálculo desse período ter sido de R$16.353.892,26, ela compensou o montante correspondente a R$16.353.892,26, havendo, dessa forma, o excesso de compensação no valor de R$11.447.724,58. O lançamento foi integralmente mantido pela decisão de primeira instância administrativa. A decisão de segunda instância administrativa (ora recorrida), por sua vez, deu provimento ao recurso voluntário do contribuinte, para fins de cancelar o lançamento, encampando o entendimento de que "a pessoa jurídica incorporada pode compensar no balanço de encerramento de atividades o prejuízo fiscal acumulado sem observância da "trava" de 30%". O recurso especial da PGFN objetiva restabelecer os lançamentos de IRPJ e CSLL. De acordo com o acórdão recorrido, a empresa incorporada poderia compensar integralmente o prejuízo fiscal e a base de cálculo negativa de CSLL, acumulados em períodos anteriores, com os lucros apurados até a data de sua extinção, sem a observância da "trava" de 30%, prevista nos arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/1995. Trazem os mencionados dispositivos legais: Fl. 859DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 860 8 Art. 15. O prejuízo fiscal apurado a partir do encerramento do ano calendário de 1995, poderá ser compensado, cumulativamente com os prejuízos fiscais apurados até 31 de dezembro de 1994, com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação do imposto de renda, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado. Parágrafo único. O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios do montante do prejuízo fiscal utilizado para a compensação. Art. 16. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, quando negativa, apurada a partir do encerramento do anocalendário de 1995, poderá ser compensada, cumulativamente com a base de cálculo negativa apurada até 31 de dezembro de 1994, com o resultado do período de apuração ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação da referida contribuição social, determinado em anoscalendário subseqüentes, observado o limite máximo de redução de trinta por cento, previsto no art. 58 da Lei nº 8.981, de 1995. Parágrafo único. O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios da base de cálculo negativa utilizada para a compensação. (grifouse) O acórdão recorrido sustenta suas razões em aspectos que abordam a implicação legal de o direito à compensação de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa de CSLL estar assegurado para os anos seguintes e as nuances desse direito diante do quadro de continuidade ou não das atividades da pessoa jurídica. A matéria em pauta ainda é objeto de controvérsias no CARF, mas eu me filio à interpretação que já há algum tempo vem prevalecendo na Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), no sentido de que a compensação de prejuízos fiscais e de bases negativas deve observar o limite legal de 30% do lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação, mesmo no caso de encerramento das atividades da pessoa jurídica, seja por incorporação, ou por qualquer outro evento. Como razões de decidir, adoto inicialmente o brilhante voto do Conselheiro Marcelo Cuba Netto no Acórdão nº 1201000.888, de 09/10/2013, que fez um perspicaz estudo do tema: "Feitas essas considerações iniciais, passemos a examinar os fundamentos da tese proposta pela interessada. Afirma a recorrente que o significado de uma norma jurídica não é aquele que advém diretamente da literalidade do texto normativo, devendo, ao contrário, ser extraído mediante o emprego dos métodos de interpretação aceitos tanto pela doutrina quanto pela jurisprudência, em especial o histórico, o sistemático e o teleológico. Nesse sentido, explica que a nova sistemática de compensação de prejuízos fiscais introduzida pela Lei nº 9.065/95 há que ser compreendida Fl. 860DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 861 9 mediante comparação com o sistema vigente até então. Diz que, na sistemática anterior (Lei nº 8.541/92), era possível a compensação integral de prejuízos, porém com limitação temporal de quatro períodosbase. Alega que a nova sistemática extinguiu o limite temporal, mas manteve o direito à compensação integral, observado o limite de 30% em cada períodobase futuro. Conclui, assim, que no período em que ocorrer incorporação, fusão ou cisão, ainda que parcial, da pessoa jurídica, não sendo mais possível a compensação dos prejuízos em períodosbase futuros, a única solução jurídica possível, consentânea com o preceito contido na Lei nº 9.065/95 de que o sujeito passivo não perde o direito à compensação, é que o limite de 30% não se aplica. Pois bem, relativamente a essa argumentação é preciso, inicialmente, concordar com a recorrente quando afirma que o significado da norma jurídica deve ser compreendido mediante o emprego dos métodos de hermenêutica jurídica. No entanto, a interpretação histórica empreendida pela recorrente parte de uma premissa equivocada, qual seja, a de que tanto na sistemática de compensação vigente antes do advento da Lei nº 9.065/95, quanto na atual, o sujeito passivo tem direito à compensação integral de prejuízos fiscais. Vejamos. Na sistemática anterior o sujeito passivo tinha o direito à compensação de prejuízos, desde que observado o limite temporal de quatro anos. Exemplifiquemos com duas situações distintas: a) o sujeito passivo apura no ano “X” prejuízo fiscal de R$ 1.000,00. Nos quatro anos subsequentes apura lucro líquido ajustado, respectivamente, nos valores de R$ 200,00, R$ 300,00, R$ 400,00 e R$ 400,00; b) o sujeito passivo apura no ano “X” prejuízo fiscal de R$ 1.000,00. Nos quatro anos subsequentes apura lucro líquido ajustado, respectivamente, nos valores de R$ 100,00, R$ 200,00, R$ 200,00 e R$ 300,00; Na hipótese descrita na situação “a” o sujeito passivo poderá compensar integralmente o prejuízo. Já na hipótese descrita na situação “b” o sujeito passivo não poderá, e, ainda que se diga que isso se deva à imposição do limite temporal, o fato iniludível é que restará uma parcela que não mais será passível de compensação. Em outras palavras, na situação “b” não haverá compensação integral do prejuízo apurado no ano “X”. Portanto, resta claro que a previsão, por lei, de um limite temporal é incompatível com a premissa afirmada pela recorrente de existência de um direito do sujeito passivo em compensar integralmente seus prejuízos fiscais. O que existia na sistemática anterior era algo distinto, qual seja, um direito do sujeito passivo em compensar até integralmente seus prejuízos fiscais, a depender do caso concreto, como ilustrado nas situações “a” e “b” retro. E dizer que a compensação poderá ser realizada até integralmente é algo distinto de dizer que poderá ser realizada integralmente. É que ao Fl. 861DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 862 10 estabelecer que a compensação poderá ser realizada até integralmente a lei, desde logo, admite que poderá haver hipóteses em que a compensação não se dará integralmente, conforme visto na situação “b”. Seguindo a trilha da interpretação histórica proposta pela interessada, é de se dizer que a nova sistemática introduzida pela Lei nº 9.065/95, na linha da sistemática anterior, manteve o direito do sujeito passivo em compensar até integralmente seus prejuízos fiscais. Afastado o limite temporal de quatro anos, e introduzido o limite máximo de redução do lucro líquido ajustado em 30%, o direito à compensação (até integral) passou a poder ser exercido ao longo da existência da pessoa jurídica. A própria exposição de motivos à Medida Provisória nº 998/95, posteriormente convertida na Lei nº 9.065/95, e apontada pela interessada para sustentar a sua tese, expressamente prevê que o sujeito passivo poderá compensar até integralmente seus prejuízos fiscais. Confira sua redação: "Arts. 15 e 16 do Projeto: decorrem de Emenda do Relator, para restabelecer o direito à compensação de prejuízos, embora com as limitações impostas pela Mediada Provisória n. 812/94 (Lei n. 8981/95). Ocorre hoje vacatio legis em relação à matéria. A limitação de 30% garante uma parcela expressiva da arrecadação, sem retirar do contribuinte o direito de compensar, até integralmente, num mesmo ano, se essa compensação não ultrapassar o valor do resultado positivo." (Grifamos) Assim, a compensação poderá se dar até integralmente, seja em um mesmo ano, seja em diversos anos ao longo da existência da pessoa jurídica, desde que observado, em cada um desses anos, o limite máximo de redução do lucro líquido ajustado em 30%. Se no ano da extinção da pessoa jurídica, ou da sua cisão parcial, o valor dos prejuízos acumulados for superior a 30% do lucro líquido ajustado, ainda assim o limite deverá ser observado. É que tal como na situação “b” referente à sistemática antiga, também na sistemática atual poderá haver casos, como o retratado nos presentes autos, em que o sujeito passivo não poderá compensar integralmente seus prejuízos acumulados, haja vista a imposição do limite de 30%. E não há nada de ilegal nisso, pois a lei não garante o direito à compensação integral. Na sequência de sua peça recursal a interessada enfatiza o emprego da interpretação sistemática. Argumenta que, ao contrário do que disse a fiscalização, o caso dos autos não é de lacuna no ordenamento jurídico (inexistência de norma), e sim de uma norma jurídica existente, porém implícita. Diz, primeiramente, que o exame conjunto do aludido art. 15 da Lei nº 9.065/95 com o abaixo transcrito art. 33 do Decretolei nº 2.341/87 conduziria à conclusão da existência de uma norma implícita cujo conteúdo seria a inaplicabilidade do limite de 30% quando da extinção da pessoa jurídica ou de sua cisão parcial. Art. 33. A pessoa jurídica sucessora por incorporação, fusão ou cisão não poderá compensar prejuízos fiscais da sucedida. Fl. 862DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 863 11 Parágrafo único. No caso de cisão parcial, a pessoa jurídica cindida poderá compensar os seus próprios prejuízos, proporcionalmente à parcela remanescente do patrimônio líquido. Também aqui não me parece estar correta a interpretação proposta pela defesa. Vejamos. O art. 15 da Lei nº 9.065/95 veda a compensação de prejuízos em montante que reduza em mais do que 30% o lucro líquido ajustado do período. Não há menção, nesta norma, aos eventos de extinção da pessoa jurídica ou sua cisão parcial. Por sua vez, o art. 33 do Decretolei nº 2.341/87 veda que a sucessora compense prejuízos da sucedida, e, em caso de cisão parcial, limita a compensação, pela própria pessoa jurídica, ao valor de seu prejuízo proporcional à parcela do patrimônio não objeto da cisão. A incidência isolada de cada uma dessas duas normas à hipótese de extinção de pessoa jurídica que possua prejuízos fiscais acumulados em montante superior a 30% do lucro líquido ajustado conduzirá às seguintes conclusões: a) art. 15 da Lei nº 9.065/95 impossibilidade de compensação, pela pessoa jurídica extinta, do valor do prejuízo fiscal acumulado não compensado por força do limite de 30%; b) art. 33 do Decretolei nº 2.341/87 impossibilidade de compensação, pela sucessora, do valor do prejuízo fiscal acumulado não compensado pela sucedida. Já a interpretação conjunta dessas duas normas sobre a mesma situação hipotética acima descrita conduziria, de acordo com a recorrente, à conclusão da existência de uma norma implícita cujo conteúdo afastaria a aplicação do limite de 30% à pessoa jurídica extinta. Ocorre que o simples fato de o prejuízo não compensado pela sucedida também não ser passível de compensação pela sucessora não conduz, necessariamente, à conclusão de que o limite de 30% deva ser afastado na hipótese aventada. Dito de outro modo, se as premissas (o art. 15 da Lei nº 9.065/95 e o art. 33 do Decretolei nº 2.341/87) do silogismo lógicodedutivo proposto pela recorrente não conduzem necessariamente à conclusão de que o limite de 30% deva ser afastado no caso de extinção da pessoa jurídica, então a recorrente deve reconhecer que não logrou êxito em demonstrar a existência da aludida norma implícita. (...) Prossegue a recorrente em sua defesa afirmando, com fundamento nas lições de Karl Larenz, que a já citada norma implícita também pode ser deduzida a partir do silêncio eloquente da lei. No Capítulo V.2 de sua famosa obra (Metodologia da Ciência do Direito, 3a. ed., pg. 524 e ss.), o prestigiado filósofo do direito citado pela recorrente discorre sobre o conceito e espécies de lacunas. Nesse sentido, explica que nem todo silêncio da lei deve ser tido como uma lacuna, conforme trecho a seguir transcrito: Fl. 863DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 864 12 "Poderia pensarse que existe uma lacuna só quando e sempre que a lei (...) não contenha regra alguma para uma determinada configuração no caso, quando, portanto, “se mantém em silêncio”. Mas existe também um “silêncio eloquente” da lei." Assim é que, pelas lições de Larenz, nem todo silêncio da lei deve ser compreendido como uma lacuna a ser preenchida pelo aplicador do direito. Casos há em que, embora o legislador haja silenciado sobre determinado assunto, não significa que haja ali uma lacuna, daí porque não pode o aplicador pretender regulála por meio de analogia, princípios gerais do direito ou qualquer outro método de integração do direito. É o que o autor chama de silêncio eloquente. Pois bem, a idéia de lacuna corresponde à antítese da idéia de existência de norma, seja explicita seja implícita. Em outras palavras, se há norma regulando o caso, ainda que implícita, então não haverá ali uma lacuna. Inversamente, se há lacuna, não há norma regulando o caso, ainda que implícita. A questão do silêncio eloquente da lei, segundo leciona Larenz, está afeto ao campo das lacunas, e não ao campo da existência de normas, sejam estas explícitas ou implícitas. Portanto, ao procurar conectar o problema das normas implícitas à questão do silêncio eloquente da lei a recorrente mistura alhos e bugalhos. Na sequência, a interessada faz uso do princípio da eventualidade alegando que, se for entendido haver lacuna, e não norma implícita, deve ela ser preenchida segundo o espírito da lei. Argumenta que, como o espírito do art. 15 da Lei nº 9.065/95 não foi vedar a compensação integral, qualquer integração só poderá ser produzida no sentido de assegurar a compensação sem a observância do limite de 30%, nas situações em que em virtude de outra norma (art. 33 do Decretolei nº 2.341/87) a limitação nessas situações frustraria qualquer possibilidade de compensação futura do excedente. Novamente a recorrente traz à balha a questão da compensação integral do prejuízo. Sua argumentação, agora, é que há uma lacuna na Lei nº 9.065/95, a qual deixou de excepcionar o limite de 30% previsto no art. 15 às hipóteses de extinção ou cisão parcial da pessoa jurídica. No entanto, conforme Larenz, nem todo silêncio da lei pode ser tido como uma lacuna. Nesse sentido, o simples fato de a Lei nº 9.065/95 não excepcionar a incidência de seu art. 15 a casos como o dos presentes autos, não nos autoriza concluir que exista uma lacuna naquela lei. Mas, então, quando é que poderseá dizer que existe uma lacuna na lei? A resposta pode ser encontrada também em Larenz (sobre o assunto vide, também, Aleksander Peczenik, in On Law and Reason, pg. 24 e ss.). Haverá uma lacuna na lei quando, com base nos valores albergados pelo sistema jurídico, for possível afirmar que a norma deveria existir. E se o legislador não produziu uma norma que, em razão dos valores presentes no ordenamento jurídico, deveria existir, então o próprio direito autoriza ao aplicador promover a integração da lacuna, por meio de analogia, princípios gerais do direito, equidade, etc. Fl. 864DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 865 13 Já vimos anteriormente que não existe norma jurídica, sequer implícita, estabelecendo o direito do sujeito passivo em compensar integralmente seus prejuízos fiscais. Investiguemos agora se essa propalada compensação integral, apesar de não ser um direito formalmente estabelecido, constituise em um valor resguardado pelo ordenamento jurídico. Se a resposta for positiva, então, conforme afirmado pela recorrente, há que se reconhecer a existência de uma lacuna na Lei nº 9.065/95 ao não excepcionar a incidência de seu art. 15 aos casos de extinção ou cisão parcial. A defesa não aponta qual a norma ou conjunto de normas do ordenamento que albergaria esse suposto valor. Certamente não está ele contido no art. 33 do Decretolei nº 2.341/87, pois, como dito outrora, o simples fato de o prejuízo não compensado pela sucedida também não ser passível de compensação pela sucessora não conduz, necessariamente, à conclusão de que o limite de 30% deva ser afastado nas hipóteses de extinção ou cisão parcial. Talvez a única norma do ordenamento jurídico em que seria possível vislumbrar a existência do afirmado valor (compensação integral de prejuízos) é a contida no art. 153, III, da Constituição da República, o qual estabelece competir à União instituir imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. Ocorre que o próprio STF, ao examinar por diversas vezes a questão, já afirmou e reafirmou que a limitação de 30% à compensação de prejuízos não ofende o conceito constitucional de renda, daí porque é de se concluir não ser possível dele se inferir a existência do alegado valor concernente à compensação integral de prejuízos." Entendo completamente aplicáveis à discussão desenvolvida nos presentes autos as considerações expostas no voto reproduzido. A tese abraçada pelo acórdão recorrido, no sentido de que existiria, no ordenamento atinente ao IRPJ, norma implícita que determina a possibilidade de afastamento da trava de 30% no ano de encerramento das atividades da pessoa jurídica, é devidamente refutada. Demonstrase que a interpretação conjunta dos arts. 15 da Lei nº 9.065/1995 e do art. 33 do DecretoLei nº 2.341/1987 (reproduzido no art. 514 do RIR/1999) não conduz necessariamente à conclusão de que o limite de 30% deva ser afastado. Assim, improcede a defesa da existência da aventada norma implícita. O voto ainda aborda a questão do pretenso direito adquirido das pessoas jurídicas à compensação integral dos prejuízos fiscais e das bases de cálculo negativas de CSLL acumulados ao longo dos exercícios anteriores. A este respeito, concluise que inexiste tal direito adquirido no sistema atualmente adotado para as compensações (limitação quantitativa em cada exercício, sem limite temporal), assim como não existia na regra anterior (limitação temporal de quatro anos para a compensação, sem limite quantitativo para cada exercício). O Acórdão CSRF nº 910100.401, de 02/10/2009, expressamente mencionado na decisão recorrida e indicado como paradigma pela recorrente, também discute se existe ou não direito adquirido dos contribuintes à compensação de resultados negativos anteriores. Fl. 865DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 866 14 Tal decisão representou uma mudança de posicionamento da CSRF a respeito do tema, motivada, entre outras razões, por decisões do próprio Poder Judiciário: "Voto Conselheira IVETE MALAQUIAS PESSOA MONTEIRO (...) Os Tribunais Superiores já definiram que na compensação de prejuízos não se trata de direito adquirido, mas sim de uma expectativa de direito, como demonstram decisões do Superior Tribunal de Justiça, como exemplo o Recurso Especial nº. 307.389 RS, que ao enfrentar semelhante questão pronunciase da forma seguinte: (...) Também o STF se pronunciou acerca do tema, em 25/03/2009, no RE 344.9940 do Paraná, cujo Relator inicial, o Ministro Marco Aurélio restou vencido. Redige o voto vencedor o Ministro Eros Grau, acórdão assim ementado: EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. DEDUÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS LIMITAÇÕES ARTIGOS 42 E 58 DA LEI Nº 8.981/95. CONSTITUCIONALIDADE. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO DO DISPOSTO NOS ARTIGOS 150, INCISO III, ALÍNEAS "A" E 'B", E 5°, XXXVI, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. O direito ao abatimento dos prejuízos fiscais acumulados em exercícios anteriores é expressivo de beneficio fiscal em favor do contribuinte. Instrumento de política tributária que pode ser revista pelo Estado. Ausência de direito adquirido. A Lei n. 8.981/95 não incide sobre fatos geradores ocorridos antes do início de sua vigência. Prejuízos ocorridos em exercícios anteriores não afetam fato gerador nenhum. Recurso extraordinário a que se nega provimento. Neste recurso pretendia o autor que a trava não incidisse sobre os saldos de prejuízos ocorridos até dezembro de 1994, sob argumento de que se estava diante de um direito adquirido à compensação de todo prejuízo e a nova lei não poderia restringir tal direito. Aliás, quanto à interpretação teleológica pretendida no paradigma trazido à colação, no que toca aos prejuízos fiscais, o Supremo Tribunal Federal decidiu, em sua composição Plenária, que a compensação de prejuízos fiscais tem natureza de beneficio fiscal e pode, como instrumento de política tributária, ser revisto pelo legislador sem implicar, sequer, no direito adquirido. Destaque é de ser dado ao voto da Ministra Ellen Gracie, que bem traduz a lógica do que aqui defendemos e neutraliza os argumentos da Recorrente nos seguintes termos: (...) Fl. 866DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 867 15 5. (...) Entendo, com vênia ao eminente Relator, que os impetrantes tiveram modificada pela Lei 8981/95 mera expectativa de direito donde o não cabimento da impetração. 6. Isto porque, o conceito de lucro é aquele que a lei define, não necessariamente, o que corresponde às perspectivas societárias ou econômicas. Ora, o Regulamento do Imposto de Renda RIR, que antes autorizava o desconto de 100% dos prejuízos fiscais, para efeito de apuração do lucro real, foi alterado pela Lei 8981/95, que limitou tais compensações a 30% do lucro real apurado no exercício correspondente. 7. A rigor, as empresas deficitárias não têm "crédito" oponível à Fazenda Pública. Lucro e prejuízo são contingências do mundo dos negócios. Inexiste direito liquido e certo à "socialização" dos prejuízos, como a garantir a sobrevivência de empresas ineficientes. E apenas por benesse da política fiscal atenta a valores mais amplos como o da estimulação da economia e o da necessidade da criação e manutenção de empregos que se estabelecem mecanismos como o que ora examinamos, mediante o qual é autorizado o abatimento dos prejuízos verificados, mais além do exercício social em que constatados. Como todo favor fiscal, ele se restringe às condições fixadas em lei. É a lei vigorante para o exercício fiscal que definirá se o beneficio será calculado sobre 10, 20 ou 30%, ou mesmo sobre a totalidade do lucro líquido. Mas, até que encerrado o exercício fiscal, ao longo do qual se forma e se conforma o fato gerador do Imposto de Renda, o contribuinte tem mera expectativa de direito quanto à manutenção dos patamares fixados pela legislação que regia os exercícios anteriores. Não se cuida, como parece claro, de qualquer alteração de base de cálculo do tributo, para que se invoque a exigibilidade de lei complementar. Menos ainda, de empréstimo compulsório. Não há, por isso, quebra dos princípios da irretroatividade (CR, art. 150, III, a e b ) ou do direito adquirido (CF, art 5°, XXXVI). (...) 8. Por tais razões, peço licença para seguir a linha da divergência inaugurada pelo Ministro Eros Grau. Em sendo a compensação de prejuízos fiscais espécie de incentivo fiscal outorgado por lei e não um patrimônio do contribuinte a ser socializado, não se pode ampliar o sentido da lei nem ampliar o seu significado, eis que as normas que cuidam de benefícios fiscais devem ser interpretadas de forma restritiva nos termos do artigo 111 do Código Tributário Nacional. (...) Dessa forma, em homenagem ao comando legal do art. 111 do CTN, que impõe restrição de interpretação das normas que concedem benefícios Fl. 867DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 868 16 fiscais, como é o caso, descabe o elastério interpretativo pretendido pela Recorrente." Em que pese o RE nº 344.9940 efetivamente não tratar de hipótese idêntica à discutida nos presentes autos (ou no processo em que foi prolatado o Acórdão CSRF nº 910100.401), a mencionada decisão judicial joga luz sobre aspectos extremamente úteis à discussão acerca da aplicabilidade da trava de 30% na compensação realizada por empresas prestes a serem incorporadas. De início, estabelecese que a possibilidade de compensação de resultados negativos passados é um benefício fiscal, concedido pelo Estado, mediante lei perfeitamente constitucional, como instrumento de política tributária e econômica. Assim sendo, leis que limitem a possibilidade de compensação (até totalmente) são igualmente constitucionais. Por fim, entendeu a Suprema Corte que a compensação de eventuais prejuízos fiscais já acumulados revestese da condição de mera expectativa de direito, inexistindo direito adquirido à sua utilização tributária posterior. Trazendose tais conclusões para a discussão travada nos presentes autos, podese construir o entendimento de que não é inquestionável, como entende o acórdão combatido e defende o contribuinte recorrido, a premissa de que existe um direito sagrado à compensação integral dos prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas de CSLL já registrados. Somente tomandose por intocável tal premissa é que se pode defender que a única solução possível para a situação em que uma pessoa jurídica terá suas atividades encerradas, por conta de sua incorporação, é pela dispensa da limitação da compensação a 30% do resultado positivo apurado. Após a prolação do Acórdão nº 910100.401, a CSRF proferiu uma série de outras decisões em que prevaleceu a tese de que a trava de 30% na compensação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, prevista nos arts. 42 e 58 da Lei nº 8.981/1995 e arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/1995, é obrigatória mesmo no caso de encerramento das atividades da pessoa jurídica. Uma destas decisões é o Acórdão CSRF nº 9101001.337, de 26/04/2012, também apontado pela recorrente como paradigma, que faz uma pertinente observação acerca da evolução da legislação que trata da compensação de prejuízos fiscais, ao mesmo tempo em que aborda os aspectos materiais e temporais para a incidência do IRPJ. Com isso, visouse a afastar o argumento de que a negativa da compensação integral de prejuízos fiscais representaria tributação de outra grandeza que não a renda: "Voto Vencedor Conselheiro Alberto Pinto S. Jr.. Com a devida vênia do ilustre Relator, ouso discordar do seu tão elaborado voto, por enxergar, nele, um caráter muito mais propositivo do que analítico do Direito posto. Sustenta o ilustre relator que: “o direito à compensação existe sempre, até porque, se negado, estarseá a tributar um não acréscimo patrimonial, uma não renda, mas sim o patrimônio do contribuinte que já suportou tal tributação”. Fl. 868DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 869 17 Ora, se isso fosse realmente verdade, a legislação do IRPJ que vigorou até a entrada em vigor da Lei 154/47 teria ofendido o conceito de renda e chegaríamos à absurda conclusão de que, até essa data, tributouse, no Brasil, outra base que não a renda. Da mesma forma, mesmo após a autorização da compensação de prejuízos fiscais (Lei 154/47), também não se estaria tributando a renda, pois sempre foi imposto um limite temporal para que se compensasse o prejuízo fiscal, de tal sorte que, em não havendo lucros suficientes em tal período, caducava o direito a compensar o saldo de prejuízo fiscal remanescente. Pelo entendimento esposado pelo ilustre Relator, a perda definitiva do saldo de prejuízos fiscais, nesses casos, também contaminaria os lucros reais posteriores, já que não mais estariam a refletir “renda”. Não é razoável imaginar que toda a legislação do IRPJ que vigorou até a entrada em vigor da Lei 9.065/95 (ou do art. 42 da Lei 8.981/95) tenha ofendido o conceito de renda, nem também é possível sustentar que a Lei 9065/95 tenha instituído um novo conceito de renda. Notese que o art. 43 do CTN trata do aspecto material do imposto de renda, seja de pessoa jurídica ou física, e não há que se dizer que a legislação do IRPF ofende o conceito de renda ali previsto, pelo fato, por exemplo, de não permitir que a pessoa física que tenha mais despesas médicas do que rendimento em um ano leve o seu descréscimo patrimonial para ser compensado no ano seguinte. Na verdade, o CTN não tratou do aspecto temporal do IRPJ, deixando para o legislador ordinário fazêlo. Ora, se o legislador ordinário define como período de apuração um ano ou três meses, é nesse período que deve ser verificado o acréscimo patrimonial e não ao longo da vida da empresa como quer o Relator. Sobre isso, vale trazer à colação trecho colhido do voto do Min. Garcia Vieira no Recurso Especial nº 188.855GO, in verbis: “Há que compreenderse que o art. 42 da Lei 8.981/1995 e o art. 15 da Lei 9.065/1995 não efetuaram qualquer alteração no fato gerador ou na base de cálculo do imposto de renda. O fato gerador, no seu aspecto temporal, como se explicará adiante, abrange o período mensal. Forçoso concluir que a base de cálculo é a renda (lucro) obtida neste período. Assim, a cada período corresponde um fato gerador e uma base de cálculo próprios e independentes. Se houve renda (lucro), tributase. Se não, nada se opera no plano da obrigação tributária. Daí que a empresa tendo prejuízo não vem a possuir qualquer "crédito" contra a Fazenda Nacional. Os prejuízos remanescentes de outros períodos, que dizem respeito a outros fatos geradores e respectivas bases de cálculo, não são elementos inerentes da base de cálculo do imposto de renda do período em apuração, constituindo, ao contrário, benesse tributária visando minorar a má atuação da empresa em anos anteriores..” Data máxima venia, confundese o Relator quando cita o art. 189 da Lei 6.404/76, para sustentar que “o lucro societário somente é verificado após a compensação dos prejuízos dos exercícios anteriores”. Primeiramente, por força do disposto nos arts. 6 e 67, XI, do DL 1598/77, o lucro real parte do lucro líquido do exercício, ou seja, antes de qualquer destinação, inclusive daquela prevista no art. 189 em tela (absorver prejuízos acumulados). Em segundo, os arts. 6 e 67, XI, do DL 1598/77 já demonstram, à saciedade, Fl. 869DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 870 18 que o acréscimo patrimonial que se busca tributar é de determinado período lucro líquido do exercício. Sustenta também o Relator que “a compensação de prejuízos fiscais não deve ser entendida como um beneficio fiscal” e traz jurisprudência do STJ nesse sentido. Todavia, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é em sentido contrário, ou seja, que “somente por benesse da política fiscal que se estabelecem mecanismos como o ora analisado, por meio dos quais se autoriza o abatimento de prejuízos verificados, mais além do exercício social em que constatados”, conforme dicção da Min. Ellen Gracie ao julgar o RE 344994. Evidencia ainda o caráter de mera liberalidade do legislador ordinário, quando se verifica que, para o IRPF, decidiuse que apenas os resultados da atividade rural podem ser compensados com prejuízos de períodos anteriores. Ou seja, o benefício de poder compensar prejuízos fiscais foi concedido apenas a uma parte do universo de contribuinte de IRPF. Duas verdades óbvias se deduz de tal entendimento: primeiro, renda é o acréscimo patrimonial dentro do período de apuração definido em lei; segundo, a compensação de prejuízo poderia ser totalmente desautorizada pelo legislador ordinário, pois não haveria ofensa ao conceito de renda (art. 43 do CTN). (...) Vale ainda ressaltar que, quando o legislador ordinário quis, ele expressamente afastou a trava de 30%. Refirome ao art. 95 da Lei 8.981/95. Assim, nem mesmo o Poder Judiciário poderia chegar tão longe a ponto de criar, por jurisprudência, uma nova exceção à regra da trava de 30%, sob pena de se estar legislando positivamente." O voto vencedor redigido pelo Conselheiro Alberto Pinto S. Jr. faz um interessante apanhado das normas concernentes ao imposto de renda, tanto de pessoas jurídicas quanto de físicas, que não permitem(iam) o aproveitamento tributário de resultados negativos anteriores e nem por isso desnaturaram o conceito constitucional de renda. Para corroborar sua tese, traz trecho de julgado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que declara expressamente que tais resultados negativos anteriores não são elementos inerentes da base de cálculo do imposto de renda. Seu aproveitamento tributário seria, isso sim, benesse tributária instituída pelo Estado para "minorar a má atuação da empresa em anos anteriores". Após diferenciar o tratamento dado ao tema pelas Ciências Contábeis daquele que interessa à seara tributária ("renda é o acréscimo patrimonial dentro do período de apuração definido em lei"), o Redator faz observação relevante para o deslinde da controvérsia aqui examinada: existem exceções, legalmente previstas, à submissão da compensação ao limite de 30% do resultado positivo do período de apuração. E, entre elas, não está a pretendida pelo contribuinte. Em outras palavras: quando o legislador quis estabelecer exceções à regra geral, o fez expressamente. A controvérsia também é abordada no voto vencedor do Acórdão CSRF nº 9101001.760, de 16/10/2013, que trata com profundidade de vários aspectos relevantes para a discussão proposta: "Voto Vencedor Mérito Fl. 870DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 871 19 Marcos Aurélio Pereira Valadão Redator Designado (...) Sopesando os argumentos da Fazenda e do Contribuinte, a I. Relatora inicialmente traça um histórico da legislação que rege a matéria da compensação de prejuízos. Peço vênia para reproduzir entre aspas trechos do voto da I. Relatora, porque desta forma se torna mais clara a contraposição de argumentos. A I. Relatora parte da constatação de que "nunca subsistiram limitações temporais e quantitativas concomitantemente" e conclui que isto se deve à razão de ser a compensação de prejuízos um direito do contribuinte, "inerente aos princípios que regem a apuração do IRPJ/CSLL e à lógica contábil que determina os efeitos intertemporais dos atos das pessoas jurídicas, a qual atribui os critérios de apuração do lucro líquido, ponto de partida para a apuração do IRPJ e da CSLL". Primeiramente, embora nunca tenham subsistido limitações temporais e quantitativas concomitantemente, até 1945, no Direito brasileiro, não existia possibilidade de compensação de prejuízos, ou seja, a limitação era total, assim os prejuízos de um período de apuração não eram transportados para o período seguinte, que eram considerados estanques. Ora, isto era muito pior para o contribuinte, pois não havia limites porque simplesmente não era possível compensar o prejuízo, e a norma não foi considerada inconstitucional. No que diz respeito ao segundo argumento, embora a lógica contábil seja usada para o cálculo da base tributável do IRPJ e da CSLL, a base de cálculo do imposto está sob o império da lei que pode, inclusive, ser diferente, ou mesmo contrária à lógica contábil, que é lastreada em princípios geralmente aceitos, resoluções e pronunciamentos de instituições de Direito Privado, etc... Ocorre que em matéria de direito público, sempre prevalece a lei. Assim, em que pesem argumentos que possam ser procedentes dentro da lógica contábil na qual todo prejuízo deve ser confrontado com os resultados dos períodos seguintes (e imediatamente), esta não é a lógica legal. Na verdade, a lógica da lei tem a ver com dois aspectos essenciais ao caso, a periodização e o fato gerador do imposto de renda. A periodização é importante pois há que se confrontar situações em tempos diferentes para que se identifique se a empresa tem ou não prejuízo, se a empresa tem ou não lucro. Esta lógica contábil existe para se informar ao dono do "equity" acionista ou sócio, como está evoluindo seu patrimônio, o que só tem lógica se forem confrontados períodos distintos. E daí se faz a escolha temporal, que pode ser cinquenta anos, dez anos, um ano, seis meses, três meses, um mês, etc, aquilo que a lógica contábil entender conveniente em termos de mercado, pois como foi dito informar ao dono do capital a situação do seu patrimônio é a função da contabilidade. No caso brasileiro, este prazo está na própria lei comercial (art. 175 da Lei. 6.404/1977, prevê o exercício social de um ano, e em seu Par. Único permite períodos distintos). Daí que em função da continuidade, ou princípio da continuidade, os prejuízos têm que ser levados em conta, pois o acionista ou sócio não olha o seu investimento por períodos equivalentes ao exercício social, mas por todo o período do investimento que planejou, embora tenha que “tomar o pulso” de tempos em tempos (e.g., balanços mensais, semestrais ou anuais, com os prejuízos passando para o período seguinte). Assim, um acionista que tem em perspectiva ações de uma empresa por um determinado período, olha o quanto o investimento vale no Fl. 871DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 872 20 início e no final do período; assim, vinculado a uma lógica contábil, todos os ganhos e todas as perdas do período devem ser computados continuamente, é o princípio da continuidade operando, o que lhe dá o resultado final ao longo do período. Vejase que a função da contabilidade, ou pelo menos uma das funções principais, é informar ao dono do capital a situação do seu investimento. Na verdade, está se assumindo o princípio da continuidade e seus efeitos nos lucros, mais no seu sentido econômico, porque no seu sentido contábil mais exato o princípio da continuidade não trata disto, mas sim na forma com que os ativos são avaliados, a depender da continuidade da empresa. Diz a resolução CFC 750/1993 (com redação dada pela Resolução CFC nº. 1.282/10), quando trata dos princípios da contabilidade: “Art. 5º O Princípio da Continuidade pressupõe que a Entidade continuará em operação no futuro e, portanto, a mensuração e a apresentação dos componentes do patrimônio levam em conta esta circunstância.” Ou seja, este princípio diz respeito à precificação dos componentes do patrimônio, nada indicando que decorre dele a imposição principiológica do aproveitamento de prejuízos de um período em relação a outro. Mas, ad argumentandum tantum e seguindo a lógica econômica da compensação de prejuízos como decorrência da continuação da empresa, que se presume indefinidamente, os prejuízos e lucros se compensariam contínua e indefinidamente. Mas esta não é a lógica da legislação tributária. Para efeitos tributários, a periodização tem como função firmar o aspecto temporal para efeito de se verificar se entre o momento inicial e momento final houve variação patrimonial positiva (atualmente a lei prevê este lapso em três meses, e opcionalmente de um ano, para o lucro real). Vejase que o fato de a legislação tributária permitir que se transponha o prejuízo de um período para o período seguinte é uma decisão de política tributária. Digase de passagem, uma política correta, mas que obedece aos princípios legais e não aos princípios contábeis. Assim, o aproveitamento de prejuízos é uma decisão de política tributária (em linha com a política econômica), mas não entendo que seja um benefício fiscal, pois não se enquadra neste conceito, mesmo porque é geral. Neste aspecto específico concordo com a posição da I. Relatora. Benefício fiscal ocorre quando a lei tributária concede o aproveitamento integral (sem a trava dos 30%) para algumas atividades, isto porque difere da regra geral da sujeição à limitação dos 30 %. Ou seja, o aproveitamento de prejuízos não pode ser considerado um benefício fiscal, mas tão somente nas situações que se dirijam a atividades específicas em que se permite um tratamento mais benéfico, com o aproveitamento integral (enquanto os outros contribuintes têm a “trava”). Posto de outra forma, decorre de decisão em sede política tributária e econômica que a legislação tributária permita a dedução de prejuízos, mas isto por uma lógica econômica de formação de capital, e não simplesmente por uma lógica contábil. A lógica econômica é que a dedução de prejuízo na verdade implica em um alongamento do período de apuração, permitindo que a empresa se recupere de períodos sem lucro (como é típico do início das atividades, em face de perspectivas futuras). Em suma, a dedutibilidade do prejuízo, embora impacte a base de cálculo do imposto de renda, é matéria legal, não se contrapondo a princípios constitucionais que informam a matéria tributária, como entende a I. Relatora. A lei pode tanto impedir totalmente o aproveitamento do prejuízo, Fl. 872DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 873 21 como, de fato, fazia por volta de 68 anos atrás para pessoas jurídicas em geral e assim o faz até hoje, tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas optantes pelo lucro presumido ou pelo Simples. Por outro lado, a lei pode permitir o aproveitamento integral, como faz para algumas atividades, como pode impor limites temporais (como fazia até pouco tempo) ou quantitativos (como o faz atualmente), sem que possa ser considerada violadora de qualquer princípio ou regra constitucional. (...) (...) Outro argumento expedido pela I. Relatora, muito semelhante ao primeiro, diz respeito à obediência da norma tributária aos princípios e normas contábeis, no que se refere à apuração da base do IRPJ e da CSLL. Ocorre que, neste caso, o tratamento dado pela legislação tributária diverge da norma comercial, mas é consentâneo com a própria Lei n. 6.404/1977, a lei comercial e contábil, que prevê em seu art. 177, §7º (redação atual dada pela Lei nº 11.941/ 2009) que tratamento tributário diferente pode ser dado pela legislação tributária, conforme seu art.177, in verbis: (...) Ou seja, a própria lei que dispõe sobre o tratamento tributário da apuração contábil ressalva que a aplicação das normas tributárias com critérios diferentes deve ser observada. Assim, não há contradição entre norma tributária e norma contábil, mesmo porque o tratamento dado à apuração do lucro real direciona justamente à apuração do lucro com base na legislação comercial sucedido pelos ajustes previstos da norma tributária (adições e exclusões), conforme preconiza o art. 6º do Decretolei nº 1.598/1977, e também o art. 17 da Lei nº 11.941/2009 (Lei que tratou das novas normas contábeis) e tributação, introduzindo o denominado regime tributário de transição RTT). Ou seja, a vedação de aproveitamento de prejuízos persiste mesmo no caso de encerramento da empresa, à míngua de previsão legal tributária. Não se pode impor normas e princípios contábeis para alterar a legislação tributária, criando uma situação excepcional onde a norma tributária não prevê exceção. (...) Outra linha argumentativa da I. Relatora se fia na história legislativa do dispositivo que implementou a trava dos 30% (MP n. 998/1995). Todos os argumentos normogenéticos são pertinentes e admissíveis, e é justamente o que se debate aqui, mas a lei não criou exceções. O que a exposição de motivos (EM) noticia é justamente que o aproveitamento não é limitado no tempo, mas não cogita e nem especifica o que ocorreria caso a empresa encerrasse as atividades, assim como não o faz a lei. Tratase de interpretação da exposição de motivos, pois ela, a EM, literalmente não diz que não há trava no enceramento das atividades. Por outro lado, a história legislativa de determinado dispositivo não permite um embargo interpretativo com efeitos legislativos infringentes, mas tão somente teleológicos. (...) Nesta linha de argumentos, durante os debates da sessão foi também foi suscitada a tese de que o prejuízo teria a mesma natureza de patrimônio, isto seria um "ativo". Disto decorreria que haveria tributação sobre o Fl. 873DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 874 22 patrimônio (prejuízo), se não fosse permitida sua dedutibilidade. Ocorre que prejuízo (perda), no meu entender não é ativo. A legislação tributária, norma de sopreposição, consentânea com a economia e as bases econômicas da atividade empresarial, concede o aproveitamento dos prejuízos dentro da lógica da continuidade empresarial, mas daí a entender que prejuízo acumulado pode representar patrimônio, é o mesmo que dizer que tanto faz lucro ou prejuízo, o que contrasta com a própria lógica econômica. A empresa distribui lucro ou ativa lucro, não distribui prejuízo, nem ativa prejuízo. Ninguém persegue o prejuízo, a atividade empresarial persegue o lucro. Norma que permite transmutar perda em lucro com base na rationale de que a perda tem valor patrimonial é uma contradição em si mesma. Contudo, é verdade que dada a perspectiva (expectativa) de que o prejuízo fiscal em um dado exercício diminua o tributo devido em um exercicio posterior, no futuro, há a possibilidade se ativar esta expectativa de direito, a título de ativo fiscal diferido (conforme, e.g., Resolução CFC n. 1189/09). Tratase de perspectiva de impacto patrimonial positivo, como é qualquer redução de custo, ainda que tributário. Assim, o prejuízo fiscal, que difere do prejuízo contábil (podendo haver caso de lucro contábil com prejuízo fiscal, o que não é infrequente) pode ser considerado uma espécie de expectativa de direito com perspectivas de consequências patrimoniais positivas. Contudo, é um argumento puramente contábil e se aplica, na perspectiva puramente contábil. Ou seja, isto tudo é uma questão contábil e que, neste aspecto, nada tem a ver com a limitação legal de aproveitamento de prejuízo fiscal, que só comporta exceções legais. O fato dos prejuízos fiscais acumulados constarem da parte B do Lalur e de reduzirem tributo a pagar no futuro, não lhes dá o condão de patrimônio. (...) Quanto ao argumento relacionado à jurisprudência judicial, o único ponto relevante é que entendo que a decisão do STF de que a trava é constitucional impacta o presente processo ainda que indiretamente. Uma coisa o STF reconhece de pronto, qual seja: o tema é matéria de lei e esta lei não é inconstitucional. Embora o STF não tenha discutido a questão da trava na extinção da empresa especificamente, a decisão é um indicativo claro de que a vedação total no encerramento da empresa é também matéria de lei infensa à questionamento constitucional. De outro lado, se não for assim entendido estaríamos a discutir a inconstitucionalidade de lei, o que regimentalmente não podemos fazer, ou então, haveria uma omissão legal, o que não há. O que corrobora a conclusão de que para se aceitar o afastamento da trava na hipótese em debate teria que haver previsão expressa da lei tributária, o que também não há. (...) Assim, o entendimento que adoto é também consentâneo com a direção que está seguindo a jurisprudência contemporânea do CARF, embora reconheça que haja divergências, as quais respeito, embora divirja. Desta forma, entendo não deve ser admitida exceção não prevista em lei tributária, quando a lei tributária fixa limites para o aproveitamento de prejuízos, devendo ser negada o aproveitamento integral dos prejuízos no enceramento das atividades da empresa, que está limitado a 30%, na forma da legislação tributária." Fl. 874DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 875 23 O I. Redator expõe brilhantemente, com notável grau de detalhamento, as razões que prevaleceram naquele julgamento a respeito de vários aspectos relevantes para o debate acerca do afastamento da trava de 30% no caso de empresa incorporada: inexistência de direito adquirido à compensação de prejuízos fiscais já registrados; independência da lei tributária em relação às normas contábeis; constitucionalidade das restrições legais à possibilidade de compensação pelos contribuintes. Além disso, aborda também outra discussão suscitada nos presentes autos. O acórdão recorrido elencou, entre suas razões de decidir, o argumento de que a aplicação da trava de 30% à compensação promovida por pessoa jurídica prestes a ser incorporada "resultaria no abandono forçado de um ativo seu, de origem tributária, assegurado em lei". Com muita propriedade, o voto transcrito há pouco admite que tal tese pode ser dotada de algum sentido se analisada sob o ponto de vista puramente contábil. Mas não se pode admitir a tentativa de se atribuir ao prejuízo fiscal acumulado a natureza de patrimônio. Tal configuração afrontaria à própria lógica econômica das empresas, uma vez que, de certa forma, estarseia pretendendo transmutar a perda em lucro. Considero que os argumentos que fundamentaram a decisão recorrida foram satisfatoriamente refutados pelas decisões administrativas acima referidas, cujas razões de decidir transcritas adoto como minhas. Acrescento ainda, a título de ilustração, que esta CSRF, em seus julgamentos mais recentes, tem se mantido fiel ao entendimento aqui adotado, pela impossibilidade de dispensa do limite legal, para a compensação, de 30% do lucro real (ou da base de cálculo positiva de CSLL), mesmo no encerramento das atividades da pessoa jurídica. Neste sentido os Acórdãos nº 9101002.153, nº 9101002.191, nº 9101002.192, nº 9101002.207, nº 9101002.208, nº 9101002.209, nº 9101002.210, nº 9101002.211 e nº 9101002.225. A meu ver, o principal aspecto da polêmica em pauta reside no equivocado entendimento de que necessariamente deve haver uma completa comunicação entre os períodos de apuração do IRPJ e da CSLL. É precisamente esse entendimento que dá azo à idéia de que todo o prejuízo ao longo da história da empresa deve ser confrontado com todo o lucro auferido ao longo do tempo. Entretanto, a tributação do IRPJ e da CSLL não se dá dessa forma. Com efeito, o que se tributa é a renda/lucro (acréscimo patrimonial) auferida em um determinado período de apuração, e não a renda/lucro resultante de toda a existência da empresa. No julgamento do já referido RE nº 344994, o STF, apesar de não ter examinado a questão do limite de 30% para compensação de prejuízo fiscal em caso de extinção de empresa, deixou bem claro que a lei aplicável em relação à compensação de prejuízo fiscal é a lei vigente na data do encerramento do exercício fiscal. Tal pronunciamento veio no sentido preciso de afirmar a independência entre os exercícios, o que também ficou bem evidenciado pelas situações apontadas nas decisões da Fl. 875DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O Processo nº 10166.729141/201130 Acórdão n.º 9101002.452 CSRFT1 Fl. 876 24 Câmara Superior de Recursos Fiscais transcritas neste voto (em especial, a evolução histórica do instituto e o paralelo com a tributação da renda das pessoas físicas). Nesse mesmo passo, vale ainda observar que não há doutrinadores defendendo a possibilidade de compensação de prejuízos futuros com lucros anteriores, dando margem a repetição de indébitos. Caso isso fosse possível, pagamentos realizados no passado poderiam vir a ser considerados indevidos em razão de prejuízos futuros. Contudo, tal hipótese é prontamente repelida pelo senso comum da prática tributária, e a ilustração permite visualizar claramente que os exercícios devem mesmo ser independentes. De todo o exposto, podese concluir que a continuidade da empresa não implica em um direito adquirido à compensação de prejuízo fiscal e de base negativa de CSLL, independentemente do aspecto temporal para a incidência do imposto/contribuição; que o referido limite de 30% não desnatura a materialidade do imposto/contribuição (renda/lucro em determinado período de apuração); e que a compensação de prejuízos fiscais e de bases negativas deve observar o limite legal de 30% do lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação, mesmo no caso de encerramento das atividades da pessoa jurídica, seja por cisão/incorporação, ou por qualquer outro evento. Nesse passo, devem ser restabelecidas as autuações fiscais a título de IRPJ e CSLL. Registrese que a aplicação de multa e a incidência de juros de mora não foram objeto de contestação pelo contribuinte em sede de recurso voluntário. Desse modo, voto no sentido de: CONHECER do recurso especial interposto pela PGFN; DAR provimento ao recurso especial, restabelecendo os lançamentos relativos ao IRPJ e à CSLL. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 876DF CARF MF Impresso em 05/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/10/2016 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 03/10/20 16 por RAFAEL VIDAL DE ARAUJO, Assinado digitalmente em 04/10/2016 por MARCOS AURELIO PEREIRA VALADA O
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Numero do processo: 13819.004290/2002-68
Turma: Segunda Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 26 00:00:00 UTC 2010
Ementa: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1998, 1999, 2001
Ementa: DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO — NOVA
FORMALIZAÇÃO DO PEDIDO - Desnecessária a formalização de novo
pedido de compensação quando o formulário apresentado evidencia os dados da incorporada independente do preenchimento do campo "Outras
Informações".
Numero da decisão: 1802-000.355
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar
provimento parcial ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Matéria: IRPJ - restituição e compensação
Nome do relator: Ester Marques Lins de Sousa
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I MINISTÉRIO DA FAZENDA• ••. . •••• CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS • . PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo n° 13819.004290/2002-68 Recurso n° 168.538 Voluntário 1 Acórdão n° 1802-00355 — r Turma Especial Sessão de 26 de janeiro de 2010 Matéria IRPJ ; Recorrente MORGANITE BRASIL LTDA Recorrida 4a.Turtna/DRI/Campinas/SP Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 1998, 1999, 2001 Ementa: DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO — NOVA FORMALIZAÇÃO DO PEDIDO - Desnecessária a formalização de novo pedido de compensação quando o formulário apresentado evidencia os dados da incorporada independente do preenchimento do campo "Outras Informações". Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. ESTERtIiRQUES LINS D -44 I A — Presid- - e Relatora. EDITADO EM: MiÀ R 201, Participaram da sessão de gatnento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (Presidente da Turma), José 1 Oliveira Ferraz Corrêa, Natanael Vieira dos Santos (Suplente Convocado), Nelso Ki • - (Suplente Convocado), Edwal Casoni De Paula Fernandes Junior e João Francisco Bianco (Vice Presidente da Turma). Ausente justificadarnente o conselheiro Leonardo Lobo De Almeida. Processo n°13819.004290/2002-68 51-TE02 Acórdão n.° 1802-00.355 Fl. 2 Relatório Em 14/11/2002, a interessada protocolizou Declaração de Compensação (fl. 01/02), objetivando compensar crédito de saldo negativo de IRPJ dos anos calendário de 1998, 1999 e 2001 no valor de RS 105.041,18, com vistas à quitação de débitos de sua responsabilidade. Em 22/08/2007, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de São Bernardo do Campo exarou o Despacho Decisório de fls. 89/91, indeferindo o pedido da interessada e não homologando a compensação declarada, sob as alegações seguintes: 1) para o ano calendário de 1998 não há saldo negativo declarado de IRPJ (17s.47/54); 2) para o ano calendário de 1999 também não havia saldo negativo de IRRI quando da protocolização deste pedido (/ls.55/62), já em declaração reuficadora transmitida em 27/01/2004 (11s.63/70), o interessado apurou um saldo negativo de IRPJ de R$ 249.466,89, porém este valor foi inteiramente utilizado em compensações no processo administrativo n° 13819.003213/2002-91, o qual foi indeferido pelo SEORT desta DRF através do despacho decisório n° 099, de 15 de março de 2007 (fls.77/88) e cuja manifestação de inconformidade encontra-se em análise na DRJ de Campinas, ficando assim, impossível a análise do pleito deste período em dois processos administrativos. 3) para o ano calendário de 2001 temos a mesma situação do item 1, não há saldo negativo declarado de IRPJ (lis. 71/76). Cientificada do Despacho Decisório, a contribuinte ingressou com a manifestação de inconformidade explicando que referidos saldos negativos provêm da incorporada, Morganite Cadinhos e Refratários Ltda. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DAI/Campinas/SP) proferiu decisão negando a solicitação do pleito, pelos seguintes motivos: 1) Da análise dos documentos em sede de primeira instância constatou a autoridade julgadora à fl.363-v, que da Declaração de Compensação apresentada (fl6.01/02), não observou o preenchimento correto, equivocando-se, na defesa, ao dizer da não existência de campo próprio, no formulário aprovado, para indicação dos créditos advindos de eventual incorporação. Que devem ser informados os dados da pessoa jurídica titular do crédito apontado, existindo campo específico para a indicação do CNPJ referente ao débito a ser compensado, nos casos de incorporação. 2) Consta da decisão recorrida que, o preenchimento da Declaração de Compensação, como implementado, permite concluir que o saldo negativo apontado como origem do crédito a ser utilizado em compensação é da própria contribuinte, e não da incorporada como alega a defesa. Concluiu afinal que o erro cometido não é mais passível de reparação, após a decisão da autoridade preparadora, no caso, DRF/São Bernardo do Campo, consistindo por ora da defesa ? apresentada novo pedido, sujeito a apresentação de nova declaração de compensação, para nova análise pelo Delegado da Receita Federal de jurisdição da interessada, haja vista a competência originária para sua apreciação, conforme previsto na legislação vigente. 2 Processo.? 13819.004290/200248 81-TE02 Acórdão n.° 1802-00.355 Fl. 3 A empresa foi cientificada da decisão prolatada mediante o Acórdão n° 05-23.064 de 01/09/2008, fls. 362/364, conforme o Aviso de Recebimento (AR), fl.367, em 24/09/2008, e, interpôs recurso ao Conselho de Contribuintes em 06/10/2008 (fls.361/382). Preliminarmente, fls.370/372, a recorrente insurge-se contra a cobrança dos débitos não compensados, por entender ser obrigatória a formalização do crédito por meio de Auto de Infração ou Notificação de Lançamento, a teor do art.142 do CTN, nos casos em que não homologada a compensação. Em seguida ratifica serem os créditos (saldos negativos dos anos calendário de 1998, 1999 e 2001) originados da empresa Morganite Cadinhos incorporada pela Recorrente em 23/08/2001, que, em razão do art.132 do CTN passaram a ser de sua propriedade. Impõe-se contra as conclusões do despacho decisório que se limitou a analisar as DIPJ da Recorrente, desconsiderando as DIPJ da Morganite Cadinhos (incorporada). Discorda das posições firmadas na decisão recorrida, afirmando seu direito na qualidade de sucessora e, ainda que se admita equivoco no preenchimento do formulário de compensação, alega que a realidade dos fatos deve prevalecer sobre meros equívocos, já que os créditos da Morganite Cadinhos passaram a ser de titularidade da recorrente. Sobre os procedimentos para a elaboração da Declaração de Compensação, alega a Recorrente que, a despeito de o CNPJ e a razão social da Morganite Cadinhos não terem sido indicados no item 4, coluna "outras informações" da declaração, tais informações foram indicadas em campo diverso (item 1 do anexo "Saldo Negativo de IRPJ e CSLL"), o que permite a conclusão de que os créditos compensados tiveram origem na Morganite Cadinhos. E ainda, que, se considere um erro formal a não indicação do CNPJ, conforme acima mencionado, os documentos nós 6 a 13, discriminados à fl.379, "afastam qualquer dúvida sobre a realidade dos fatos. Por último, diz que os registros contábeis da recorrente e da incorporada (Morganie Cadinhos), fazem prova em seu favor e, finalmente requer seja o recurso voluntário integramente provido, para também cancelar a cobrança inclusive os juros e a multa aplicados. É o relatório. 3 Processo n°13819004290/2002-68 81-TE02 Acórdão n.° 1802-00355 Fl. 4 3/43203 Conselheira ESTER MARQUES UNS DE SOUSA, Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade constantes no Decreto n°70.235/1972. Dele conheço. O litígio decorre da decisão administrativa que indeferiu o direito creditório a que alude o interessado, e, por conseqüência a não homologação da compensação pleiteada à f1.01. Quanto a preliminar suscitada pela recorrente ao se insurgir contra a cobrança dos débitos não compensados, por entender ser obrigatória a formalização do crédito por meio de Auto de Infração ou Notificação de Lançamento, a questão se resolve sob o manto do § do art.74 da Lei n°9430/96, que assim dispõe: "Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimá-lo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados.(1ncluido pela Lei n°10.833, de 2003)". Assim, no caso de débitos confessados, em instrumentos próprios (DCTF), desnecessário se faz o lançamento de oficio desses mesmos débitos, e, a cobrança será efetuada de acordo com a legislação tributária que determina os acréscimos legais, salvo se houver manifestação de inconformidade que suspende a exigibilidade dos créditos tributários. Portanto não merece acolhida aos argumentos da recorrente. Sobre a Declaração de Compensação em comento, o artigo 74 da Lei n° 9.430/96 que dispõe sobre a restituição e compensação de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal, prescreve no § 14 que compete à Secretaria da Receita Federal disciplinar o disposto neste artigo, de modo que ao dispor sobre os formulários mediante os quais o interessado formulará o seu pleito cabe ao mesmo utilizá-los como estabelecido nos atos normativos expedidos pela Receita Federal. Considerado que não tendo o interessado preenchido corretamente a Declaração de Compensação (fi.01/02), a Delegacia da Receita Federal de São Bernardo do Campo, órgão competente para se manifestar sobre o pleito, analisou tal documento à luz das informações efetuadas pelo interessado, ou seja verificou a situação da empresa requerente sem a analise dos saldos negativos da incorporada, fato somente conhecido por ocasião da manifestação de inconformidade. Não se discutiu nos autos, ser ou não ser a recorrente sucessora dos créditos pleiteados. No que tange ao aspecto formal, entendo desnecessário o novo pedido tendo em vista que o formulário (f1.02) evidencia na quadrícula n° 1, os dados da incorporadora e incorporada para que assim, a Delegacia da Receita Federal de São Bernardo do Campo pudesse efetivamente analisar a Declaração de Compensação independente do preenchimento do campo "Outras Informações". 4 Processo n° 13819.004290/2002-68 51-1t02 Acórdão n.° 1802-00355 Fl. 5 Assim, verifica-se que aliado aos esclarecimentos prestados, a autoridade preparadora deverá analisar a Declaração de Compensação (f1.01/02) à luz da documentação juntada aos autos, podendo se for o caso intimar a interessada a apresentar os documentos contábeis que entender necessários. Diante do exposto, voto no sentido de DAR provimento PARCIAL ao recurso voluntário, para que o Pedido de Compensação seja apreciado pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de São Bernardo do Campo/SP, em respeito à competência originária, conforme disposto no § r do art.74 da Lei n°9430/96. 26 de janeiro de 2010 - - LRefatora ESTER MARQUES UNS DE SO)kA ,/ , a MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS Processo : 13819.004290/2002-68 Recurso : 168538 Acórdão : 1802-00.355 TERMO DE INTIMAÇÃO Em cumprimento ao disposto no § 3° do artigo 81 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Portaria MF n° 259/2009), intime-se o(a) Senhor(a) Procurador(a) Representante da Fazenda Nacional, credenciado junto à Segunda Câmara da Primeira Seção do CARF, a tomar ciência do inteiro ter do Acórdão n° 1802-00.355. Brasilia - DF, em 10 de março de 2010 ,/ o; e; aa-tó Ft aiier.." Secretári da Câmara da Primeira Seção 7 r CARF Ciente, com a observação abaixo: [ ] Apenas com Ciência [ ] Com Recurso Especial [ ] Com Embargos de Declaração Data da ciência: / / Procurador(a) da Fazenda Nacional , 1 1
score : 1.0
Numero do processo: 10930.903625/2012-20
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 13 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Jan 12 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do Fato Gerador: 19/08/2005
PIS. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA.
Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazê-lo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas.
PIS - IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO.
Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-003.595
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento.
(Assinado com certificado digital)
Antônio Carlos Atulim - Presidente e Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do Fato Gerador: 19/08/2005 PIS. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazê-lo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas. PIS - IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO. Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado. Recurso Voluntário Negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento. (Assinado com certificado digital) Antônio Carlos Atulim - Presidente e Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
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REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazêlo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas. PIS IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO. Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negarlhe provimento. (Assinado com certificado digital) Antônio Carlos Atulim Presidente e Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 0. 90 36 25 /2 01 2- 20 Fl. 56DF CARF MF Processo nº 10930.903625/201220 Acórdão n.º 3402003.595 S3C4T2 Fl. 3 2 Relatório Trata os presentes autos de Pedido de Restituição (PER), por meio do qual a Recorrente solicita a restituição do crédito decorrente do pagamento de PIS/PASEP IMPORTAÇÃO. No Despacho Decisório, a autoridade competente da DRF em Londrina/PR, indeferiu o pleito da interessada, uma vez que o DARF informado como origem do crédito estava integralmente utilizado para quitação de débitos da própria contribuinte, "não restando crédito disponível para restituição". Inconformada com a decisão proferida, a empresa apresentou manifestação de inconformidade na qual esclarece tratarse de pessoa jurídica de direito privado que tem como atividade principal a indústria, comércio e exportação de couros de boi. Consigna que a Lei nº 10.865/2004 instituiu as contribuições do PIS e da COFINS sobre a importação de bens e serviços, mas não foi clara em relação à incidência sobre as quantias remetidas ao exterior a representantes comerciais a título de comissões sobre vendas, o que fez com que a Recorrente optasse por recolher as contribuições sobre essas operações. Entretanto, a Receita Federal do Brasil, em resposta a diversas consultas (cita duas), passou a vazar o entendimento de que as comissões de vendas pagas e/ou creditadas a representantes comerciais residentes ou domiciliados no exterior, não estão sujeitas à incidência do PIS e da COFINS Importação. Isso porque, anota a Recorrente, essas operações não configuram hipótese de serviços prestado no Brasil ou cujo resultado aqui se verifique. Assim, uma vez ter efetuado o pagamento de tributo indevido, tem o direito à restituição na forma prevista no art. 165 do Código Tributário Nacional CTN, devidamente corrigido pela taxa SELIC, conforme prescreve a Lei nº 9.250, de 1995, "ainda que informado o débito em DCTF". Sobreveio, então, o Acórdão nº 06045.967, da DRJ em Curitiba (PR), negando provimento à Manifestação de Inconformidade. Irresignada com a referida decisão, foi interposto o presente recurso voluntário, cujas razões, em suma, são as seguintes: (i) diferente do que entendeu a autoridade julgadora, a empresa recorrente comprovou ser pessoa jurídica de direito privado que tem como atividade principal a indústria, comércio e exportação de couros de boi; (ii) que demonstrou que a Lei n° 10.865, de 2004, que instituiu as contribuições ao PIS/Pasep e COFINS sobre a importação de bens e serviços, não foi clara ao determinar a incidência sobre as quantias pagas, ou remetidas ao exterior, a representantes comerciais domiciliados no exterior a título de comissões sobre vendas; Fl. 57DF CARF MF Processo nº 10930.903625/201220 Acórdão n.º 3402003.595 S3C4T2 Fl. 4 3 (iii) para não sofrer sanções, optou por recolher as contribuições sobre as quantias remetidas ao exterior (para representantes domiciliados no exterior) incidentes sobre comissões sobre vendas, conforme (DARF's) apresentados; (iv) ocorre que, posteriormente, a própria RFB, através de inúmeras respostas a Soluções de Consultas, passou a definir que as "comissões de vendas pagas e/ou creditadas a representantes comerciais residentes ou domiciliados no exterior não estão sujeitas à incidência da COFINS/PISImportação", por não configurarem hipótese de serviço prestado no Brasil ou cujo resultado aqui se verifique. Reproduz algumas dessas Solução de Consulta. (v) que o processo administrativo sempre deve buscar a verdade real ou material relativa aos fatos tributários, em decorrência da estrita legalidade tributária, que devem nortear todos os atos da administração fiscal. Com isto, não basta simplesmente argumentar que "prova alguma foi trazida aos autos que comprovassem de que teria havido pagamento a maior ou indevido", para negar a existência do direito creditório; (vi) frisa que os erros contidos em declaração podem e devem ser retificados de ofício, por força da estrita legalidade tributária e nos moldes do art. 147, § 2º do CTN. (vii) que seja reconhecido que os valores indevidamente recolhidos a este título são restituíveis em valores devidamente acrescidos de juros equivalentes à taxa SELIC, na forma da Lei n° 9.250/95; (viii) requer que seja determinada a conversão do julgamento em diligência, a fim de que seja oportunizada apresentação de elementos considerados necessários à complementação da prova ou esclarecimento de dúvidas relativas aos fatos trazidos neste processo. À vista do exposto, espera e requer seja julgado integralmente procedente o presente recurso, a fim de que seja reconhecido o direito creditório e assegurada a restituição das quantias recolhidas indevidamente. É o relatório. Voto Conselheiro Antonio Carlos Atulim, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402003.529, de 13 de dezembro de 2016, proferido no julgamento do processo 10930.903656/201281, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402003.529): Fl. 58DF CARF MF Processo nº 10930.903625/201220 Acórdão n.º 3402003.595 S3C4T2 Fl. 5 4 Emerge do relatado, que o objeto do pedido de ressarcimento tem como fundamento o indébito de PIS/Pasep sobre comissão de venda paga a representantes comerciais residentes/domiciliados no exterior. No referido Despacho Decisório restou consignado que, "(...) A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição". Consta dos autos que o Despacho Decisório questionado está respaldado em informações prestadas pela própria interessada em DCTF, que encontrase ativa até o momento no sistema informatizado da Receita Federal do Brasil. Ou seja, ao que tudo indica, o contribuinte não retificou a DCTF no que pertine ao pleito em questão, por isso a conclusão do despacho decisório vestibular que o valor sob pedido de ressarcimento foi "integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte". Por outro lado, a Recorrente tenta demonstrar em seu recurso, que não há incidência de contribuições para o PIS Importação sobre remessas realizadas para o exterior para pagamento de comissões à agentes no exterior a título de comissões ali realizadas, por não configurarem hipótese de serviço prestado no Brasil ou cujo resultado aqui se verifique, e que os valores indevidamente recolhidos a este título são restituíveis e em montantes devidamente acrescidos de juros equivalentes à taxa referencial SELIC, na forma da Lei n° 9.250/95. Tudo com base na Lei nº 10.865, de 2004 e Soluções de Consultas emitidas pela RFB que cita. Contudo, se de um lado a decisão recorrida tenha asseverado que "(...) como se vê uma das hipóteses de ocorrência do fato gerador das contribuições ao PIS e a COFINS, sobre importação de serviços, é a remessa de valores a residentes ou domiciliados no exterior como contraprestação pelo serviço prestado", como alega a peticionante, por outro giro, deixou patente que o ônus da prova quanto ao indébito seria da ora Recorrente, nos seguintes termos: "(...) Mas, para a verificação se os valores remetidos ao exterior atendem às condições estabelecidas em lei para a incidência das contribuições sobre a importação de serviços ou, não se caracterizando o fato gerador da obrigação tributária, há, de fato, o indébito reclamado pela interessada, é crucial que se tenha em mãos documentos que demonstrem a real situação aventada, como contratos firmados com os agentes externos, comprovantes de remessa de valores ao exterior, cópias de notas fiscais, recibos, dentre outros, além da própria escrituração contábil da empresa que reflita essas operações. Ocorre que, no presente caso, prova alguma foi trazida aos autos que comprovassem de que teria havido pagamento a maior ou indevido. Nesse sentido, é bom lembrar que não se permite, depois de iniciado qualquer procedimento fiscal, que seja retificada declaração quando vise a reduzir ou a excluir tributo, a não ser mediante a comprovação do erro em que se funde. É o que Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10930.903625/201220 Acórdão n.º 3402003.595 S3C4T2 Fl. 6 5 determina o art. 147, § 1º, da Lei nº 5.172, de 25/10/1966. E, como visto, o Despacho Decisório questionado está respaldado em informações prestadas pela própria interessada em DCTF, que encontrase ativa até o momento no sistema informatizado da Receita Federal do Brasil. (sublinhei) E conclui a decisão a quo: "(...) Assim, instaurado o contencioso administrativo, as alegações quanto ao suposto crédito decorrente de recolhimento indevido ou a maior, como no caso em análise, devem estar comprovadas pela demonstração inequívoca do quantum recolhido indevidamente, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, consistente na escrituração contábil/fiscal da contribuinte. Dessa forma, uma vez que a conclusão emitida pela autoridade administrativa teve como pressuposto as informações prestadas pela própria interessada em declarações fiscais válidas a produzir efeitos na data da emissão do Despacho Decisório e não havendo prova hábil que contrarie as informações prestadas espontaneamente, demonstrando o pagamento indevido do tributo, é de se manter o indeferimento da restituição pleiteada". Portanto, a lide se resume na questão de atendimento de condições estabelecidas em lei e provas documentais trazidos aos autos, pois para o deslinde do litígio é crucial que se tenha em mãos documentos que demonstrem a real situação aventada, mormente quando o pedido versa sobre suposto pagamento indevido. No caso em análise, por se tratar de pedido de restituição, devem estar comprovadas pela demonstração inequívoca do quantum recolhido indevidamente, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, consistente na escrituração contábil/fiscal da recorrente. Documentação essa, frisese, de posse da recorrente por determinação legal, como contratos firmados com os agentes externos, comprovantes de remessa de valores ao exterior, cópias de notas fiscais, recibos, dentre outros, além da própria escrituração contábil da empresa que reflita essas operações. É de conhecimento que a regra fundamental do sistema processual adotado pelo legislador nacional, quanto ao ônus da prova, encontrase cravada no art. 373 do novo Código de Processo Civil, in verbis: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Tal dispositivo é a tradução do princípio de que o ônus da prova cabe a quem dela se aproveita. E esta formulação também foi, com as devidas adaptações, trazida para o processo administrativo fiscal, posto que a obrigação de provar está expressamente atribuída para o Fisco quando realiza o lançamento tributário e para o sujeito passivo, quando formula pedido de repetição de indébito. Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10930.903625/201220 Acórdão n.º 3402003.595 S3C4T2 Fl. 7 6 E, no presente caso, é fato que prova alguma foi trazida aos autos pela Recorrente que comprovem que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora ela tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazêlo, quer na impugnação, quer agora na fase recursal. Demais disso, o fundamento da decisão recorrida foi justamente este, qual seja, a falta de prova. Mas, contrariando os ditames do ônus da distribuição da prova para provar fato constitutivo de seu direito, insiste que "seja determinada a conversão do julgamento em diligência, a fim de que seja oportunizada apresentação de elementos considerados necessários à complementação da prova". Ora, se toda a documentação para provar o direito que alega está em seu poder, deveria ter a Recorrente produzido tal prova quando da manifestação de inconformidade, ou mesmo em sede de recurso voluntário, o que não ocorreu. Diante desse quadro, entendo que a decisão da DRJ é merecedora de ser mantida pelos seus próprios fundamentos. Conclusão Assim, concluo que por falta de prova hábil acostadas nos autos, ônus seu de produzir, deve ser negado seu pleito. Ante o exposto, nego provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Fl. 61DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.004264/2007-45
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 14 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 11 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002
DECADÊNCIA. AFASTADA.
Independentemente da regra decadencial aplicável ao caso - art. 150, § 4º, ou art. 173, ambas do CTN, não há que se falar que, em 20/12/2007, já tivesse ocorrido a decadência do direito de o Fisco efetuar lançamento relativo ao lucro real anual de 2002.
IRPJ SOBRE BASES ESTIMADAS. LANÇAMENTO APÓS O ENCERRAMENTO DO ANO-CALENDÁRIO.
Após o encerramento do ano-calendário, é incabível lançamento de ofício de IRPJ ou CSLL para exigir estimativas não recolhidas.
Numero da decisão: 1302-001.981
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos recursos de ofício e voluntário, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR Relator.
LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Marcelo Calheiros Soriano, Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
.
Nome do relator: ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR
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camara_s : Terceira Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2002 DECADÊNCIA. AFASTADA. Independentemente da regra decadencial aplicável ao caso - art. 150, § 4º, ou art. 173, ambas do CTN, não há que se falar que, em 20/12/2007, já tivesse ocorrido a decadência do direito de o Fisco efetuar lançamento relativo ao lucro real anual de 2002. IRPJ SOBRE BASES ESTIMADAS. LANÇAMENTO APÓS O ENCERRAMENTO DO ANO-CALENDÁRIO. Após o encerramento do ano-calendário, é incabível lançamento de ofício de IRPJ ou CSLL para exigir estimativas não recolhidas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos recursos de ofício e voluntário, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR Relator. LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Marcelo Calheiros Soriano, Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). .
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AFASTADA. Independentemente da regra decadencial aplicável ao caso art. 150, § 4º, ou art. 173, ambas do CTN, não há que se falar que, em 20/12/2007, já tivesse ocorrido a decadência do direito de o Fisco efetuar lançamento relativo ao lucro real anual de 2002. IRPJ SOBRE BASES ESTIMADAS. LANÇAMENTO APÓS O ENCERRAMENTO DO ANOCALENDÁRIO. Após o encerramento do anocalendário, é incabível lançamento de ofício de IRPJ ou CSLL para exigir estimativas não recolhidas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos recursos de ofício e voluntário, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR – Relator. LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Presidente. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Marcelo Calheiros Soriano, Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 42 64 /2 00 7- 45 Fl. 659DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO 2 . Relatório Versa o presente processo sobre recurso voluntário, interposto pelo contribuinte em face do Acórdão nº 1617.876 da 4ª Turma da DRJ/SP1, o qual foi assim ementado: “ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2002 INCENTIVO FISCAL. IRPJ SOBRE O LUCRO INFLACIONÁRIO. INEXISTÊNCIA DE DUPLO LANÇAMENTO. FUNDAMENTO DIFERENTE. Não há duplicidade de lançamento sobre o mesmo fato e o mesmo período se o fundamento da autuação e outro. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2002 DECADÊNCIA. IRPJ SOBRE O LUCRO INFLACIONÁRIO. Sendo o lançamento datado de 20/12/2007, decaiu o direito de lançar o IRPJ sobre o lucro inflacionário em relação aos meses anteriores a dezembro de 2002. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 INCENTIVO FISCAL. OPÇÃO POR MEIO DE DARF ESPECÍFICO. DÉBITOS DE TRIBUTOS E CONTRIBUIÇÕES FEDERAIS. SUBSCRIÇÃO VOLUNTÁRIA. EXCESSO DE APLICAÇÃO EM DETRIMENTO DO IMPOSTO. PERC NÃO APRESENTADO A falta da certidão negativa da PGFN permite atribuir plena validade as pendências fiscais apontadas pelos sistemas da RFB, que impedem a concessão do incentivo. TAXA SELIC. MULTA. Não compete a instância administrativa a discussão sobre a ilegalidade e/ou inconstitucionalidade da legislação tributária, inclusive no tocante a juros de mora e multa de ofício. Não foram lançados juros sobre a multa de ofício. Lançamento Procedente em Parte”. Quanto ao recurso de ofício, vale a transcrição dos seguintes trechos do relatório e voto do acórdão recorrido: O interessado foi autuado no IRPJ, em 20/12/2007, em conformidade com o Decreto n.° 70.235/72 e suas alterações, tendo sido exigido o crédito tributário total de R$ 13.420.183,10, incluindo imposto, multa de 75% e juros de mora calculados até 30/11/2007, com base no art. 601, § 7° do RIR/99, art. 27 alinea "c", da Lei n.° 8.036/90, art. 13, § 7°, da MP n.° 2.058/2000 e reedições, art. 60 da Lei n.° 9.069/95, art. 44 da Lei n.° 9.430/96 e art. 4°, §§ 6° e 7° da Lei n.° 9.532/97, por excesso de aplicação em fundo de investimento incentivado em detrimento do imposto, em vista de ter sido considerada subscrição voluntária a diferença de R$ 5.337.542,50 entre o total de R$ Fl. 660DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 19515.004264/200745 Acórdão n.º 1302001.981 S1C3T2 Fl. 660 3 11.325.734,40 recolhido por meio DARF's específicos (codigo 9032) e o valor do saldo negativo, de RS 5.988.191,90 (fls. l a 63). O Termo de Constatação da conta de que o procedimento fiscal decorre de auditoria de revisão da declaração do anocalendário 2002, conforme processo em apenso de n.° 16143.000335/200718, de fls. 1 a 71, na qual foram apuradas pendências fiscais, de forma que o incentivo pleiteado não foi reconhecido com base no art. 60 da Lei n. 9.069/95 e no art. 27, alinea "c" da Lei n.° 8.036/1990 (fls. 2 e 3). O processo em apenso de n.° 16143.000335/200718 detalha pendências a fl. 25. O auto de infração consta a fls. 57 a 63. (...) O lançamento foi efetuado em 20/12/2007, de forma que a Fazenda decaiu do direito de lancar em relação ao período de 11/2002 e anteriores, devendo ser exonerada essa parte do lançamento. Preliminar deferida. (...) Portanto, VOTO pela manutencao do lancamento referente ao mes de dezembro, conforme o demonstrative a seguir. EXIGIDO EXONERADO MANTIDO PRINCIPAL MULTA PRINCIPAL MULTA PRINCIPAL MULTA 5.337.542,50 4.003.156,87 4.393.731,30 3.295.298,47 943.811.20 707.858,40 A recorrente, cientificada do Acórdão nº 1617.876, conforme AR a fls. 553, no qual não consta a data de recebimento, interpôs, em 27/03/2009 (vide carimbo da Derat/SP a fls. 554), recurso voluntário (doc. a fls. 554 e segs.), no qual aduz, em apertada síntese, as seguintes razões de defesa: “4. O Termo de Constatação anexo ao Auto de Infração demonstra que a D. Fiscalização Federal entendeu indevida a destinação ao FINAM do imposto de renda sobre o lucro inflacionário no período de Janeiro a dezembro do ano calendário de 2002 (no valor de R$ 11.325.734,40) e excluiu daquele montante o valor alocado no item 18 da Ficha 12 A (Cálculo do IR sobre o Lucro Real Imposto de Renda a Pagar) da DIPJ 2003 R$ 5.988.191,90, que fora considerado como um crédito de antecipação de IRPJ da Recorrente. Nesse sentido, e cobrado o montante de R$ 5.337.542,20, a título de IRPJ a pagar, acrescentado de imposição de multa de ofício de 75% e juros de mora. Referido Termo de Constatação alega que o incentivo fiscal não foi reconhecido com base na alegada existência de pendências fiscais e na falta de apresentação de Pedido de Revisão de Ordem de Emissão de Incentivos Fiscais ("PERC") pela Recorrente. Fl. 661DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO 4 5. Não podendo concordar com a lavratura do referido Auto de Infração, a Recorrente apresentou Impugnação para demonstrar a improcedência da exigência fiscal formulada. Tal Impugnação argumenta que a exigência fiscal formalizada pela D. Fiscalização Federal não encontra qualquer respaldo jurídico na medida em que, além de restringir um direito expressamente assegurado ao contribuinte pela legislação que rege os incentivos fiscais, o Auto de Infração pecou também por constituir créditos tributários já extintos pela ocorrência da decadência, e que já são objeto de discussão no Processo Administrativo n° 19515002934/200616. (...) 9. O presente Auto de Infração constitui créditos tributários, relativos às parcelas equivalentes a 18% do imposto de renda sobre o lucro inflacionário que foram destinados ao FINAM, no anocalendario de 2002, que já são objeto de discussão no Processo Administrativo n° 19515.002934/200616!!! 10. O Processo Administrativo n° 19515.002934/200616 formalizou exigência de crédito tributário no montante de R$ 97.930.699,42 (noventa e sete milhões novecentos e trinta mil seiscentos e noventa e nove reais e quarenta e dois centavos) com imposição de multa de ofício de 75% e juros de mora, relativo as parcelas equivalentes a 18% do imposto de renda sobre o lucro inflacionário que foram aplicados no FINAM, nos meses de Janeiro do anocalendário de 2001 até novembro do anocalendário de 2004. Note que referido Auto de Infração compreende o mesmo período ora em discussão (dezembro do ano calendário de 2002). Referido Auto de Infração e objeto de discussão no Processo Administrativo n° 19515.002934/200616 e atualmente pende julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. 11. Contrariamente ao alegado no Acordão recorrido, independentemente de o fundamento da autuação ser outro, a duplicidade no lançamento e verificada quando o lançamento busca o mesmo crédito tributário! Isso porque a dupla cobrança de um mesmo crédito tributário, mesmo que sob argumentos diferentes, e o que leva a cobrança indevida, caracterizando o confisco. Ou seja, em ambos os processos administrativos estão sendo exigidas parcelas equivalentes a 18% do imposto de renda sobre o lucro inflacionário que foram destinados ao FINAM no anocalendario de 2002. (...) 15. Ademais, o Auto de Infração em questão é claramente ilegal, pois contraria, frontalmente, o disposto na legislação. O artigo 906 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26.3.1999 ("RIR/99"), prevê, expressamente, que: (...) 16. Assim sendo, conforme o dispositivo transcrito anteriormente, um segundo exame e, consequentemente, um segundo Auto de Infração, só seria possível, se houvesse uma ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal, o que, no caso em tela, não ocorreu. Fl. 662DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 19515.004264/200745 Acórdão n.º 1302001.981 S1C3T2 Fl. 661 5 (...) 17. Ademais, o artigo 149 do Código Tributário Nacional ("CTN") prevê os casos em que o lançamento e efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa. No caso específico, não se trata de revisão de lançamento e, "ad argumentandum", ainda que fosse, o caso em tela não estaria enquadrado em nenhuma das hipóteses previstas no artigo 149 do CTN. (...) 19. Fato é que não se pode admitir de forma alguma, a exigência de tributo em duplicidade, sob pena de incorrer em ilegalidade e confisco, o que é vedado pela Constituição Federal, além de incorrer no bis in idem. Portanto, resta claro que o Auto de Infração em tela deve ser cancelado, pelas razões acima e a seguir aduzidas. (...) 22. Ad argumentandum, mesmo admitindo que o lançamento em duplicidade fosse possível, e ainda mais, que fosse possível o absurdo deste encontrar a sua fundamentação na existência do lançamento anterior, o próprio Acordão recorrido corretamente atesta que "os valores do imposto de renda sobre o lucro inflacionário dos arts. 454 e 455 podem ser, sim, adicionados a base de cálculo do incentivo". Posicionamento que está em linha com a recente jurisprudência do Egrégio Conselho de Contribuintes. (...) 24. O Acórdão ora recorrido afirma que ‘a falta de certidão negativa da PGFN permite atribuir plena validade as pendências fiscais apontadas pelos sistemas da RFB, que impedem a concessão do incentivo’. Ora, a Recorrente tem como requisito para exercer regularmente suas atividades a comprovação da quitação de tributos e contribuições federais, uma vez que para participar de licitações e necessária a certidão de regularidade fiscal. Nesse sentido, a alegação de existência de pendências fiscais e inverídica e não pode prosperar. 25. O meio hábil para comprovar a regularidade fiscal e a apresentação de Certidão Negativa de Débito ou de Certidão Conjunta Positiva com Efeitos de Negativa: (...) 27. Nesse sentido, a Recorrente demonstrou por meio das certidões negativas da Secretaria da Receita Federal e da Procuradoria Geral da Fazenda Naeional, anexas aos autos (doc. n° 3) sua regularidade fiscal no momento em que optou pela destinação dos recursos! A existência de débitos surgidos após a referida destinação apenas poderiam influenciar a concessão de benefícios em anos subsequentes. 28. Ad argumentandum, mesmo que se admitisse que a existência de pendências fiscais surgidas após o momento da opção, não seria possível alegar a existência destas em nome da Recorrente. Nesse sentido, segue anexa Certidão Conjunta Positiva com Efeitos de Fl. 663DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO 6 Negativa (doc. n° 4) que comprova a regularidade fiscal atual da Recorrente. (...) 29. Como já demonstrado acima, a falta de apresentação de PERC pela Recorrente não poderia sustentar um lançamento em duplicidade, fundamentado na própria existência de um Auto de Infração anterior sobre o mesmo período e baseado em fato inverídico (no caso, a falta de regularidade fiscal da Recorrente). Entretanto, admitindo, apenas para fins de argumentação, que a lavratura do presente Auto de Infração fosse possível, a ora Recorrente vem demonstrar a impossibilidade de se alegar a falta de apresentação de PERC. 30. Após analisar as cópias do Processo Administrativo n° 16143.000335/200718 mencionado no Termo de Constatação do presente Auto de Infração, a Recorrente verificou que a de intimação com o Extrato de Destinação nunca foi recebida por preposto e/ou representante legal! Portanto, sem o recebimento do Extrato de Destinação apontando irregularidade na sua destinação, a Recorrente não teria qualquer motivo para apresentação de PERC. 31. O Egrégio Conselho de Contribuintes e os Tribunais Regionais Federais reconhecem a nulidade de intimações entregues a pessoas que não são representantes legais do contribuinte. Confirase: (...) 32. O fato de a suposta intimação ter sido entregue a terceiro desconhecido pela Recorrente viola inclusive o artigo 37 da Constituição Federal, que exige a publicidade dos atos praticados pela Administração Pública. 33. Portanto, os precedentes citados demonstram que a alegação de nulidade de intimação formulada pela Recorrente tem respaldo em entendimentos adotados tanto pelo Conselho de Contribuintes, quanto pelos tribunals Regionais Federais. (...) 34. Ademais, cumpre notar que, conforme já decidido pelo Egrégio Conselho de Contribuintes, inexiste norma expressa que fixe qualquer prazo para o exercício do direito do contribuinte para pleitear a revisão dos valores de incentivos fiscais pretendidos. (...) 38. Ora, resta claro que o prazo para contestar ou requerer o Certificado de Incentivos Fiscais, que não foi recebido pela ora Recorrente é de cinco anos a contar da data da entrega da declaração de rendimentos. 39. O presente Auto de Infração trata de informações constantes da declaração de rendimentos do ano de 2003, anocalendário 2002. A DIPJ/2003, referente ao anocalendário de 2002 foi entregue pela Recorrente no dia 30.6.2003 (doc. n° 5). Nesse sentido, a Recorrente poderia requerer a emissão do Certificado de Incentivos Fiscais até 30.6.2008 o que lhe foi negado com a lavratura do presente Auto de Infração. Fl. 664DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 19515.004264/200745 Acórdão n.º 1302001.981 S1C3T2 Fl. 662 7 40. Diante do exposto, restou suficientemente demonstrada a necessidade de reformar o Acórdao ora recorrido e CANCELADO o Auto de Infracao ora em comento, uma vez que: (i) tratase de lançamento em duplicidade, já que o Processo Administrativo n° 19515.002934/200616 constitui o mesmo crédito tributário no mesmo período (anocalendario de 2002, exercício de 2003). Diferentemente do alegado no Acórdão em discussão, a duplicidade no lançamento é verificada quando o lançamento busca o mesmo crédito tributário, como e no caso em tela. Nesse sentido, não se pode admitir de forma alguma, a exigência de tributo em duplicidade, sob pena de incorrer em ilegalidade e confisco, o que é vedado pela Constituição Federal, além de incorrer no bis in idem; (ii) a Recorrente demonstrou sua regularidade fiscal atual e no momento em que optou pela destinação dos recursos; (in) a intimação referida no processo administrativo n° 16143.000335/200718 nunca foi recebida por preposto e/ou representante legal da Recorrente e a falta de contestação pela Recorrente não pode ser utilizado como base para o Auto de Infração em referenda; e (iv) o prazo para contestar ou requerer o Certificado de Incentivos Fiscais, que não foi recebido pela ora Recorrente é de cinco anos a contar da data da entrega da declaração de rendimentos e a Recorrente poderia requerer a emissão do Certificado de Incentivos Fiscais ate 30.6.2008, o que ficou superado diante da lavratura do presente Auto de Infração. 41. Dessa forma, a Recorrente requer seja conhecido e integralmente provido o presente Recurso Voluntario, para o fim de que seja reformado o Acórdão recorrido no que lhe foi desfavorável, sendo reeonhecida a total improcedência da exigência fiscal formulada por meio do Auto de Infração e Imposição de Multa objeto deste processo administrativo.”. É o relatório. Voto O recurso de ofício atende ao disposto no art. 34, I, do Decreto nº 70.235/72 c/c a Portaria MF nº 03/2008, razão pela qual dele conheço. A decisão de primeira instância é bastante lacônica, pois não desenvolve as razão pelas quais considerou decaído, restringindose a afirmar que “lançamento foi efetuado em 20/12/2007, de forma que a Fazenda decaiu do direito de lançar em relação ao período de 11/2002”. Ora, a recorrente optou pelo lucro real anual no AC 2002, conforme DIPJ/2003 a fls. 9, logo, independentemente da regra decadencial aplicável ao caso – art. 150, § 4º, ou art. 173, ambas do CTN, não há que se falar que, em 20/12/2007, já tivesse ocorrido a decadência do direito de o Fisco efetuar lançamento relativo ao lucro real anual de 2002. O equívoco do julgador de primeira instância, ao que parece, derivou da Fl. 665DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO 8 absurda tese esposada na impugnação, segundo a qual o fato gerador do IRPJ seria mensal, com base na Lei 8.541/95. Olvidouse o patrono e o julgador que, em 2002, já vigorava a Lei 9.430/96, pela qual, o lucro real é, em regra, trimestral e, por opção, como no presente caso, anual. Por essas razões, voto por dar provimento ao recurso de ofício. O recurso voluntário é tempestivo e foi subscrito por mandatários com poderes para tal, conforme procuração a fls. 569, razão pela qual voto pelo seu conhecimento. Em preliminar, alega a recorrente que a Fiscalização não observou o art. 906 do RIR, o qual assim versa: “Art. 906. Em relação ao mesmo exercício, só é possível um segundo exame, mediante ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal (Lei nº 2.354, de 1954, art. 7º, § 2º, e Lei nº 3.470, de 1958, art. 34).”. A nãoobservância do art. 906 do RIR/99, em caso de revisitação pela Fiscalização de fato gerador já auditado, pode gerar duas posições diametralmente opostas, uma pela nulidade do auto de infração e outra que entenda que tal inobservância não macula o lançamento feito pelo AuditorFiscal, autoridade competente para o lançamento. Não obstante, tenho suportado que a inobservância do art. 906 em caso de revisitação de período já auditado gera a nulidade do lançamento, porém, como a norma não prevê uma forma para este ato, esta autorização pode se dar inclusive por meio de MPF. Ora, o procedimento teve início com o MPF 08.1.90.00207031113, o qual não se encontra nos autos, razão pela qual se faria necessário a conversão do julgamento em diligência, para que fosse juntado o referido MPF a estes autos, pelo menos, para aqueles que compartilham do mesmo entendimento por mim suportado. Não obstante, deixo de propor o aprofundamento da investigação com relação a essa preliminar de nulidade, em observância ao princípio da primazia da decisão de mérito, uma vez que, ao meu juízo, o mérito da questão posta em julgamento é favorável justamente à parte que alega e que se beneficiaria com o acolhimento da preliminar de nulidade, se não vejamos o que se segue. A recorrente alega, também, que há lançamento em duplicidade, pois o Processo Administrativo n° 19515.002934/200616 teria constituído o mesmo crédito tributário no mesmo período (anocalendário de 2002, exercício de 2003). As únicas peças do referido processo que constam destes autos é o Acórdão 0322.280 da DRJ/BSA e o Acórdão nº 130100.221 da 3ª Câm./1ªTO/1ª Sejul (a fls. 646), dos quais se conclui que a autuação ali em tela versa sobre a interpretação do art. 593 do RIR/99, pois a recorrente teria destinado parte do valor do IR sobre o lucro inflacionário do AC 2002 (e de outros AC também) para incentivos fiscais e recolhido sobre o código de receita 6692. Vale ressaltar que o CARF deu provimento ao recurso voluntário e cancelou o auto de infração. Por sua vez, o objeto deste processo é apenas o auto de infração a fls. 127 e segs, no qual a infração está assim descrita: “Valor do imposto de renda recolhido a menor em decorrência de excesso na destinação feita ao FINOR, FINAM ou FUNRES, conforme apurado no Termo de Constatação lavrado nesta data, que passa a fazer parte integrante deste como se nele transcrito fosse.” Os recolhimento a menor de que a descrição dos fatos tratam, são na verdade IRPJ sobre estimativas mensais, pois, no AC 2002, a recorrente apurou Prejuízo Fiscal no montante de R$ 106.060.048,39, conforme DIPJ a fls, 15. Ademais, no Termo de Constatação a fls. 4, consta a relação dos recolhimentos feitos através de DARF específicos com o código 9032 Finam – Estimativa – Pessoa Jurídica que atenda às condições. Assim, não há que se falar em lançamento em duplicidade, já que temos Fl. 666DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 19515.004264/200745 Acórdão n.º 1302001.981 S1C3T2 Fl. 663 9 infrações diferentes, pois uma versava sobre a destinação a incentivos fiscais do IR sobre lucro inflacionário e a outra sobre o IR sobre bases estimadas. Por outro lado, aplicase na espécie a Súmula CARF nº 82, cujo verbete assim dispõe: “Após o encerramento do anocalendário, é incabível lançamento de ofício de IRPJ ou CSLL para exigir estimativas não recolhidas.” Por essas razões, voto por dar provimento ao recurso voluntário, para cancelar integralmente o auto de infração e, consequentemente, considerar prejudicado o julgamento do recurso de ofício. Alberto Pinto Souza Junior Relator Fl. 667DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 23/0 9/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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Numero do processo: 19515.003708/2008-14
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9202-004.786
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ME Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Contribuinte Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negarlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 37 08 /2 00 8- 14 Fl. 259DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 435 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10552.000439/200724. Tratase de recurso especial interposto pelo sujeito passivo diante da divergência de entendimento entre turmas julgadoras do CARF acerca da aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009. Cientificada, a Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, pugnando pela negativa de provimento ao recurso e requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É o relatório. Voto Conselheiro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.777, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10552.000439/200724, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.777): O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 260DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 436 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime, pacificou o entendimento de que, na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 261DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 437 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Fl. 262DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 438 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 263DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 439 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 264DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 440 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 265DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 441 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações promovidas pela MP 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 266DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 442 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 267DF CARF MF Processo nº 19515.003708/200814 Acórdão n.º 9202004.786 CSRFT2 Fl. 443 10 Em face ao exposto, nego provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, mantendose incólume o Acórdão recorrido. É como voto. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, negarlhe provimento, mantendose incólume o Acórdão recorrido (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 268DF CARF MF
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